Ir para conteúdo
  • Cadastre-se

Vgn Vagner

Colaboradores
  • Total de itens

    268
  • Registro em

  • Última visita

Reputação

11 Boa

Sobre Vgn Vagner

  • Data de Nascimento 16-02-1983

Outras informações

Últimos Visitantes

O bloco dos últimos visitantes está desativado e não está sendo visualizado por outros usuários.

  1. Sinceramente, Eu não acreditava que iríamos realizar esta travessia na data combinada: 08, 09 e 10 de Setembro de 2017. Era feriado prolongado da independência do Brasil - iniciado na quinta feira - e como não tínhamos a chance de nos estendermos à uma folga trabalhista de 4 dias para palmilhar pelas mais clássicas travessias que o nosso sudeste guarda nos contentamos a procurar aventura pelo quintal de casa, abrindo as portas da "temporada de expedições pela Serra do Mar" do mesmo ano. A estiagem que se prolongava em São Paulo favorecia qualquer aventura selvagem, pois a previsão do tempo prometia que os termometros chegariam aos 30°C e possibilidade de chuva em 0%. Não haveria clima melhor para alegrar "a macacada". Mas, como as conversas a respeito de atravessarmos o vale do Rio Cubatão de Cima seguiam tímidas fiquei incrédulo se iríamos mesmo, tanto que cheguei a anunciar ir para outra travessia local caso essa não rolasse. Mas os meninos continuaram firmes no propósito, e na manhã daquele sábado, às 5h35 da madruga, quase que instantaneamente, nos juntamos em um quarteto formado por: Daniel Trovo, Paulo Potenza, Rafael S Lima e Eu. O próximo ônibus com direção ao litoral partiria às 06h00, e com menos de 40 minutos nos largaria na Rod. dos Imigrantes sob uma ponte que antecede a rodovia de interligação com a Rodovia Anchieta. Lá só tivemos o trabalho de atravessar a pista para o sentido norte, onde fomos pegos de surpresa por um carro vindo de marcha à ré em nossa direção com o pisca alerta ligado NA CONTRAMÃO (coisa de louco). Pensamos que iriam pedir informações, coisa e tal, mas o passageiro, pensando que estavamos indo para São Paulo, simplesmente nos ofereceu uma carona - detalhe: o carro já era ocupado por 4 meliantes aparentando estarem sob efeito de substâncias químicas, rs. Só pudemos agradecer pela boa vontade dos "parças " e prosseguirmos caminhando pelo acostamento levando o ocorrido como um presságio de boa sorte e um questionamento em pauta - onde aqueles caras iram nos colocar dentro do carro que já estava cheio???? Foi uma caminhada que chegou perto de 1h, e com a chegada do quilômetro almejado paramos para colocar energia goela abaixo e fazer os ajustes finais antes de encarar a luta daquele dia. Descemos por dentro de uma das centenas de canaletas que jogam as águas da chuva, e todo o lixo produzido pelos porcalhões que utilizam a rodovia, dentro dos rios. Em menos de 20 metros já estávamos de cara com dois túneis que não passam dos 2,2 mts de altura, mas que se estendem por uns 70 metros, ou mais, para desaguar no Ribeirão das Antas. Passamos pelas beirando as laterais mais altas da galeria para evitar molhar os pés naquela manhã que ainda era fria, mas não adiantou muita coisa. Saindo da escuridão do túnel pegamos uma trilha que nasce à esquerda e nos levou por um trecho de caminho bem aberto e prazeroso para andar. Há momentos que a mesma desaparece sob a Mata muito fechada e árvores caídas nos obrigando a enfiarmos os pés no leito raso e largo do afluente e sentir o gelado tomar conta do corpo. Esse prossesso é repetido diversas vezes até o Ribeirão das Antas se encontrar com o Rio Cubatão de Cima, e quanto mais adentro da floresta íamos, mais vestígios de que um mundo selvagem se aproximava. Pegadas enormes marcavam o solo em que andávamos - eram pegadas de Anta, sucessivamente surgiram as pegadas de felinos, em sua maioria pequenas, aparentando ser de Jaguatiricas, outras maiores acusavam que onças parda também andam pela região. Quando entramos pelo Cubatão de Cima vimos beleza e calma nas águas que cruzam o planalto de São Bernardo do Campo ainda em trecho de Serra, largo e de profundidade mediana atingindo, no máximo, a altura da cintura. Isso por que estávamos no inverno, vindos de uma estiagem de mais de 30 dias sem chuvas. Caso contrário teríamos sérios problemas para atravessar de uma margem à outra do rio. Pois o lixo trazido pela corretenza das chuvas de verão ultrapassava os 2,5 mts da altura que vimos. Mas como não era o caso, fomos caminhando pelo leito do Rio que faz um ziguezague danado e deixa praias de areia em suas margens. Ideal para um pernoite ao ar livre, sem rede e sem barraca, como fizeram os integrantes do primeiro grupo que quesbravou aquele vale 3 anos antes de nós. Grupo esse que contou com a participação de Daniel Trovo, que tinha como sonho ultrapassar os limites da TERCEIRA QUEDA DO CDC e expor ao mundo das caminhadas um paraíso desconhecido. Tal experiência só viria agregar forças para termos êxito em nossa batalha, tão almejada e inédita aos nossos olhos. Depois de caminhar 9 km conversando e dando muitas risadas, às 10h30, chegamos nas primeiras grandes piscinas que o rio forma antes de se estreitar e ganhar força bruta vale abaixo. A PRIMEIRA QUEDA é um paraíso natural pra quem quiser tirar um fim de semana de lazer acampando por ali e desfrutando o lugar. Passar daquele ponto não exige abilidades especiais ou super poderes de x-men, mas, logo o Rio afunila a não mais de 2 mts e despenca livre por uns 20 mts formando a SEGUNDA QUEDA. Uma cachoeira linda em tamanho e forma, com um grande e profundo poço para banho. Mas como estávamos focados em não perder tempo, por termos iniciado a travessia na manhã de sábado, diferente do primeiro grupo que iniciou numa sexta feira à noite, tínhamos a sensação de os ponteiros estarem correndo mais rápido para nós. Então nos contentamos com alguns minutos de contemplação e fotos antes de partimos para o nosso próximo desafio: VENCER O MONSTRO daquele Vale - A TERCEIRA QUEDA, que despenca feroz de uma altura aproximada de 80 mts em um cânion que se abre à sua volta de maneira impressionantemente belo e assustador. Descemos uns trinta metros de penhasco, e quando nos vimos à beira do abismo, perdemos um tempo procurando o portal que nos joga pra dentro da Mata novamente. O Trovo não recordava exatamente onde era o ponto em que o mato forma uma cortina que esconde uma árvore, e a única passagem que nos tiraria daquele pedaço de rocha exposta. Mas bastou farejar com mais atenção que em poucos minutos já estávamos nos enfiando floresta à dentro ganhando altitude e nos afastando daquele enorme buraco esculpido pela natureza há milhares de anos. Foram necessários 15 ou 20 minutinhos de vara-mato para chegarmos ao rio novamente, uns 50 mts abaixo dos pés da cachoeira, onde largamos as mochilas encostadas nas rochas e fomos de encontro ao maior atrativo de nossa aventura. De fronte com a cachoeira a vista é sensacional, e dá uma dimensão do porquê "ninguém" do mundo do trekking se propôs a descer aquele vale antes de Dezembro de 2014. O quanto há de belo, há de perigoso naquele lugar, mas ainda haveria de vir à tona muitas situações de risco. A brincadeira estava apenas começando, e com ela a tensão se fez presente (pelo menos pra mim). Iríamos pegar uma carona no teto do trem de cargas para podermos finalizar a jornada - algo de praxe para os demais, porém, novidade pra mim. Mas como era coisa a ser feita na segunda metade do próximo dia deixei outras preocupações invadirem minha mente, rs. Por exemplo: cobras pelo caminho, despenhadeiros para vencer, paredões para escalar e/ou desescalar, pedras que rolam barranco abaixo, aliás, o primeiro vara-mato com descida acentuada foi marcado por uma pedra que rolou rápido e quase atingiu o Trovo, que ia na linha de frente, isso depois de o Potenza empurrar a pedra com os pés (sempre Ele, rs). Claro que foi um susto, e depois disso, sempre que iríamos descer alguma piramba seguia um de cada vez até sair da linha de tiro do sniper, rsrs. Essa medida preventiva foi adotada até o término do vale. Logo veio a quarta cachoeira - a parada também foi breve, tiramos algumas fotos e prosseguimos varando mato pela direita da encosta. Hora o Trovo tocava o ritmo, hora eu assumia a dianteira, o Potenza vinha como terceiro (um perigo, rs), e na retaguarda - com a função de fotografar os melhores ângulos do avanço da equipe, Rafael. Eles diziam que enquanto a dianteira da tropa era minha eu só conseguia vislumbrar caminhos suicidas, mas aceitavam tais caminhos, pois o ganho de tempo e de terreno era favorável ao quarteto. Mas foi num desses trechos de piramba kamikaze, onde o solo é argiloso e de vegetação solta, que levei um escorregão e meti o beiço num galho pontiagudo que nascia do chão. Pronto! foi só o tempo do gosto de sangue se misturar à saliva pra que meu bom humor ficasse por ali mesmo, largado no chão, sem esboçar nenhuma reação para prosseguir viagem comigo. A partir daquele momento eu já não era mais o mesmo, seguia disperso no vara-mato, compenetrado na distração, sem percepção aos detalhes me sentia estranho, mas tinha que prosseguir. Ruim era beirar abismos que esperavam por apenas um escorregão para tragar a vida de quem tivesse a má sorte de dar margem ao erro - detalhe que não deixava meu nervosismo dar fuga. As gargantas vinham se mostrando cada vez maiores, com paredões que davam medo só de olhar, imagine passar por eles. Tal imponência nos obrigava a buscar uma solução rápida e eficaz cada vez que cada uma das gargantas aparecesse. Pular na água era por fim na própria vida, não havia poções com correnteza para irmos boiando ou nadando, só declives e só escarpas. O caminho era pro mato. Com uma ou outra exceção descemos vencendo essas fendas sempre contornando pela direita do fluxo, nos agarrando em raízes, nos segurando em árvores e olhando para baixo imaginando que bastava um vacilo, e, GAME OVER. O dia já vinha com as ultimas horas de luz do sol, olhando no GPS ainda nos restavam cerca de 700 mts para percorrer, era só mais uma curva no rio e logo estaríamos na suposta área de acampamento. Mas já havia um tempinho que o Trovo enfatizava uma tal de ESCALADA que viria pela frente, onde teríamos que colocar na prática todas as abilidades de péssimos escaladores que somos. O Rafa já deixou claro que essa ascensão o preocupava, Potenza não fez diferente, e mesmo calado eu senti aquele tradicional gelo na barriga de quando se tem a noção de que a ação pode dar merda. O Trovo se referia ao obstáculo como quem se refere àqueles que atravessam continentes para enfrentar o sofrimento no Everest, cientes da possibilidade de não voltar mais, e quando ele disse: é aqui, chegamos. Só tivemos o trabalho de atravessar para o outro lado do rio, sob a elevação do cagaço, pois não era possível ver o aclive em que iríamos nos pendurar, apenas um morro apontado para o céu. Não tínhamos escapatória, firmamos os pés no chão, metemos as mãos nas rochas e começamos a subir pelo paredão. Pensei: vamos subir um absurdo, vai falta ar, o peso nas costas vai aumentar a exposição ao precipício, onde há poucas opções para se segurar, se alguém cair não sairá vivo. Como eu ia na frente, girava o pescoço à 360 graus na busca de vislumbrar alguma fenda que nos levasse ao leito do rio novamente (e quem procura acha). Em meio a galhos caídos e sua vegetação vi nossa salvação em 5 metros de altura abrindo caminho à direita, bastava descer. Tive um pouco de dificuldade, mas desci. Já na parte baixa tive uma visão melhor de como os meninos desceriam com menos risco de se esborracharem morro abaixo. A própria árvore que encobriu a passagem serviu como escada para eles descerem, pois havia nela uma sucessão de galhos imitando degraus. Só o Trovo quem quis se prover de sofrimento e seguiu pela mesma via por onde eu desci. Potenza e Rafa não tiveram problemas, e quando nos vimos em terra firme o Rafa olhou para trás e disse, com tom irônico, isso aí que é "A ESCALADA?" rs. Sorte a nossa por conseguir cortar caminho - dias depois o Trovo mostrou a foto do lugar quando passou por ali pela primeira vez. É tenebroso. Bastou vencer o obstáculo que o rio veio dar uma trégua, passou a correr largo e plano. Viramos a última curva de rio para esquerda, passamos a única Ilha situada no mesmo, onde haveria de estar a CÁPSULA DO TEMPO instalada na primeira expedição, mas não a vimos, e em menos de 100 metros já caçavamos um local apropriado para armar nossas redes e passar a noite. Trovo ainda se propôs a voltar e procurar pela cápsula do tempo. Além da vontade de assinar novamente o livro de registros, havia a vontade saudosista de recordar as escritas do antigo e desaparecido amigo Kamal. Mas ao retornar trazia consigo apenas a certeza de ter tentado. Dormitório arrumado, banho tomado (menos Eu, rs), bóia fria devorada em segundos, e logo estávamos desmaiando, cada qual em sua rede. O sono não tardou a vir, os únicos barulhos que ouvíamos eram barulhos rotineiros que iam pela escuridão da floresta. Todos estavam bem acomodados e "protegidos" - assim se presumia. Ao acordar, meu rosto escancarava evidências de que sofri um ataque brutal dos "DEMÔNIOS ALADOS," também conhecidos como borrachudos. Minhas orelhas pareciam com as dos lutadores de jiu jutsu, inchadas e deformadas, o maçã do rosto espremia meu olho direito contra o super cílio, meus lábios fariam jus ao apelido de beiçola caso alguém me chamasse assim. Todo meu rosto latejava, queimava numa espécie de febre interna que mal permitia que eu engolisse a própria saliva sem sentir dor. Com isso meu mau humor foi colocado definitivamente na linha de frente das minhas próximas ações. Quando chegamos na primeira cachoeira do dia - 20 min depois de sairmos do acampamento - o lugar era convidativo para uns tibuns para recompensar todo esforço despejado naquele vale. Quem mais se animou foi o Potenza, que ao tentar me persuadir ao salto ficou desorientado com tamanha ignorância que o tratei. Tempos depois até pedi desculpas por isso. Mas o mal trato não foi motivo para acabar com a vontade dele se jogar de uma altura estimada em 8 ou 9 mts de altura direto no poço da Cach da Barragem. Trovo também embarcou na brincadeira. O momento de recreação deles foi ali, na confluência do Cubatao de Cima com o com que tem o nome da cidade. O sol já estava brilhando forte quando demos as primeiras pisadas no Rio Cubatão, e foi pouco tempo em que nele ficamos. Tempo suficiente para um banho num poço de águas claras, depois mais uns 10 minutos a contra fluxo e pegarmos um afluente que descia pela esquerda, onde tivemos alguns trepa pedra, um vara mato difícil pra cacete, e em 25 minutinhos de subida chegamos ao "POÇO DA SOJA," onde vimos um pequeno poço de água cristalina, porém, com um fedor de soja podre de arder as narinas. Mas o cheirinho desagradável não impediu que a gente entrasse com roupa e tudo a fim de nos encharcar e ficar beeem molhados, pois a hora de encarar o trem chegaria em menos de 15 min, e seríamos fritos caso a gente não se molhasse. O TREM Quando o barulho da buzina anunciou que o minhocão de ferro estava mais perto do que se imaginava a adrenalina já deu sinal pelo corpo. Iniciamos um vara mato às pressas morro a cima na intenção de não deixar que ele passasse sem nos dar a tão desejada carona. Eu ia na frente da tropa puxando em direção à linha férrea, lá pelo terceiro homem vinha o Potenza - Vg, não sai pra fora não. Não sai não. Quando meus olhos avistaram os trilhos logo em seguida apareceu a cabine locomotiva que puxava dezenas e dezenas de vagões cheios de açúcar em direção ao litoral. Assim que se passaram cerca de três composições metemos as caras pra fora do mato. Estávamos posicionados em uma curva fechada e sem espaço para corrermos paralelo ao trem, pois havia uma elevação inclinada nas britas que sustentam os dormentes e os trilhos. Enquanto o Rafa falava que não dava pra subir naquele trem por conta da velocidade que estava muito rápida, o Trovo expressava em seu semblante a mesma serenidade de sempre. Já o Potenza, com uma cara de louco, se balançava feito um lutador pronto pra entrar no ringue, e encarava os vagões passando a todo gás. Eu, sem saber o que fazer, só observava como meus amigos iriam reagir à tudo aquilo que era novo pra mim, e sentia a carga de adrenalina aumentar. De repente, O Potenza mirou uma escadinha de um vagão e deu o pulo do gato. Agarrado na barra de ferro não deu mais do que três passos ao lado do trem e foi lançado ao chão com força bruta. A Primeira coisa que meu cérebro assimilou foi a desgraça alheia, pois faltou pouco para ele ser tragado pra debaixo dos vagões e ser picotado por toneladas e mais toneladas de açúcar e aço. Por sorte não passou de um susto, mas foi o suficiente para aumentar o cagaço. Aquele breve acidente foi a deixa que precisávamos para abrirmos mão da carona e deixar aquele demônio enfurecido seguir seu caminho até a baixada, logo passaria outro trem, e independente do sentido (litoral ou planalto), iríamos arriscar novamente. SEGUNDA TENTATIVA Quando o próximo trem deu sinal de proximidade estávamos prontos para agarrá-lo e montar em suas costas, mas o bicho, mesmo na subida da Serra, veio mais veloz que o primeiro, e quando tentei me segurar em uma escada lateral para ascender ao teto do vagão senti o tranco que me jogaria longe caso não soltasse o degrau a tempo. Mais uma vez Estavam os vendo a oportunidade de uma carona indo embora. A moral do grupo estava sendo nocauteada, e algo deveria ser feito, ou então passaríamos o resto do dia a tentar nos pendurar em vagões. Os meninos decidiram descer no rumo da Estação Pai Matias, onde sempre há um aglomerado de trabalhadores na via férrea executando seus serviços, e, obrigatoriamente, o trem reduz a velocidade por questão de segurança. Antes de chegar até esse local vinhamos conversando sobre a possibilidade de encrencarem com a gente por estarmos andando na ferrovia (crime federal), e qual desculpa iríamos dar caso alguém nos abordasse. O Potenza, junto com o Rafael, e seus poderes de seduzir rapazes (rsrs) disseram que já haviam conseguido carona naquele pontos outras vezes, e se fosse necessário eles conversaram com "os donos da casa." Para nossa surpresa, ao invés de dezenas, havia apenas um trabalhador descansando. Quantidade suficiente para uma persuasão hehehe. Após alguns minutos de conversa e aquela jogada de charme pra cima do cabra, a dupla dinâmica veio nos contar que estava seguro pegar a carona, porém, se fossemos descer para baixada santista teríamos que desembarcar antes do túnel 2, onde há uma fiscalização rigorosa e armada que costuma dar um coça em quem chega até lá desavisado. TERCEIRA E ÚLTIMA TENTATIVA Não demorou muito e logo veio outro minhocão de ferro em alta velocidade (segundo o Rafa). Mas, mesmo que passando na velocidade da Luz, era aquele trem o escolhido para o Time CDC embarcar. Não iríamos deixar passar mais um. Nos posicionamos separadamente, e quando ele reduziu a velocidade o Rafa subiu primeiro, em seguida o Potenza, Trovo foi o terceiro, e por último ME FODI!!! Subi na escadinha sem analisar seu tamanho. Escalando seu degraus me dei conta de que ela não chegava até o teto do trem, terminava na metade do vagão. Daí me bateu um desespero relâmpago. Pensei... "Agora tô fudido! Não vou aguentar ficar pendurado nessa escada por 2h ou mais, tenho que descer e subir em outra escada, mas se eu não conseguir ? os caras vão embora em cima do trem e Eu não vou saber onde descer caso consiga pegar outro..." Carregado de adrenalina, como nunca estive antes, deixei de lado as tormentas da mente, pulei do vagão e continuei correndo paralelo ao trem, e quase no último vagão é que fui conseguir me pendurar em outra escada que fosse ter fim sobre o teto. Já lá em cima, ajoelhei e agradeci por não ter ficado pra trás naquela missão de louco que eu aceitara participar. Pulei de vagão em vagão e fui ao encontro dos meus camaradas. Não deu dez minutos que estávamos sobre o trem, e o maldito inventa de fazer uma parada que durou mais de duas horas. Escolhemos uma sombra de árvore e nos esticamos, ficamos mexendo num celular que achamos, inacreditavelmente, sobre a chapa de ferro do teto do trem. Alguns até dormiram de tão boa que estava a sombra, também pela demora daquela parada. Quando a composição começou a se mover subindo a Serra era como se estivessem nos apresentando um lindo espetáculo recheado de paisagens da Mata Atlântica em câmera lenta. Quando eu conseguia me concentrar em mim mesmo percebia que sempre estava com um leve sorriso no rosto, maravilhado com tudo aquilo que vinha sendo assistido em cima de um trem de cargas, também por ter a coragem de estar fazendo algo tão arriscado e me divertindo com meus amigos. Eu me senti como uma criança que ganha o presente que mais ama, era uma felicidade sem fim que invadia minha alma e me deixava em paz. Houveram outras longas paradas, mas tivemos a paciênciade esperar até certo tempo. Quando chegávamos perto da Estação Evangelista de Souza os meninos mencionaram que valeria a pena caminhar pelos 4 km restantes sobre os trilhos, e quando Ele parou saltamos e demos a continuação à pé, mesmo o Potenza se queixando de uma forte dor no tornozelo. Mas quando o trem retomou sua jornada, Trovo e Eu não resistimos, nos penduramos novamente nas escadas dos vagões e seguimos até a tal estação desativada. Lá esperamos pelos nossos amigos e tomamos o rumo da longa estrada de terra (6 km) que nos levaria ao ponto final do ônibus do bairro Barragem. Depois faríamos uma infinidade de baldeações entre as linhas metropolitanas de ônibus até cada um chegar em suas casas e se deleitar com as memórias daquela aventura. Fim.
  2. "O Vale do Rio Guaratuba é uma sucessão de abismo que parece querer tragar a superfície para o centro da terra. Um rio que é sinônimo de mar bravo detentor de maremotos aterrorizantes onde marujos não navegam, pois se navegam morrem. E esse era nosso medo: morrer, ou passar por apuros nas profundezas de um cânion onde o socorro não chega. Tivemos medo porque ali eramos um grupo de marujos teimosos que vivem inventando de peitar tempestades em alto mar sem saber dar uma braçada se quer sem o uso de coletes salva vidas, correndo o risco de sermos tragados pela fúria indomável das águas." OS BASTIDORES Muitos pensam que nossas jornadas se dão como tiros no escuro, mas não. Tudo se antecede por meses de buscas e estudos para criar uma rota fiel e, mo mínimo, segura próxima ao rio que pretendemos desbravar. Com o Rio Guaratuba não foi diferente! Já se passava de um ano que o nome Dele havia sido mencionado, como há uma infinidade de roteiros selvagens para discutirmos, esse acabou por ser arquivado. Mas, como tudo tem sua hora certa, a vontade de viver novas emoções despertou voltada para o extremo do planalto Leste de São Paulo. Pra ser mais Exato, Bairro Rural de Casa Grande -Biritiba Mirim/SP. Entre várias conversas com os amigos que demonstravam vontade de encarar o Guaratuba sempre ficamos de ver uma data para fazer uma investigação local para achar o acesso inicial para realizarmos a travessia, mas já estávamos de muita conversa e pouca ação. Deveríamos colocar o plano como meta, e para isso chamei o Tony, que no início de Outubro foi comigo fazer a PRIMEIRA INVESTIGAÇÃO no local, apenas com à cara e a coragem sob a luz do dia. Chegamos lá por volta das 05h40, carregados de adrenalina e medo, aquele medo que chega a dar dor de barriga. A intenção era de irmos até primeira casinha que é possível ver nas imagens de satélite. Tínhamos que descobrir se era uma espécie de guarita, ou alguma casa de bombeamento para captar água do Rio Claro. Varamos mato para não ter que sair tão próximos da entrada principal da EMPRESA que iríamos invadir território, acessamos a pista principal dentro de suas dependências e fomos somente até esse ponto (4km percorridos), a ponte sobre o Rio Claro. Ao voltarmos, um carro dobrou a esquina silenciosamente e quase nos pega com a boca na botija. Nem deu tempo de avisar o Tony, me joguei no mato e disparei na corrida até enfiar os pés num pântano, onde paramos e esperamos abaixados o carro passar e sumir de vista. O bom foi que meu comparsa entendeu o recado e me acompanhou uns 10 mts mais atrás, caso contrário seríamos pegos pelos funcionários que faziam ronda. O susto passou, mas a adrenalina só aumentou. Ainda tínhamos 2 km para andar completamente expostos na via. Aceleramos os passos e quase não conversávamos para ouvir melhor qualquer barulho que se aproximasse ao longe. Conseguimos percorrer a distância restante sem apuros, mas quando entramos na mata outro carro da empresa passou no mesmo sentido. Só tomamos o cuidado de nos abaixar para não sermos vistos. Quando Voltei para casa, animado com as infos que conseguimos, joguei as cartas na mesa de reuniões dos mais retardados/malucos Exploradores da Serra do Mar que conheço. Ainda assim a info coletada não foi suficiente para animar o bando, era apenas 1/3 do caminho até as bordas do Rio Guaratuba, onde há uma enorme "casa" vista por satélite, e ali morava a grande dúvida de podermos partir ou não rumo ao vale . Então me propus a voltar lá na semana seguinte. Na SEGUNDA INVESTIGAÇÃO estávamos em quarto: Daniel Trovo, Paulo Potenza, Rafael S Lima e Eu. O plano era chegar até essa "possível casa" para saber do que se tratava. Para termos êxito na busca por infos completas partimos na surdina. Começamos o vara mato inicial às 21h30, e junto veio a chuva acompanhada de frio. Logo pisamos na pista principal, onde nos restava uma caminhada de +ou- 2h30. A chuva se fez ininterrupta, castigava o psicólogo enquanto o frio judiava a parte física. Foi eu quem menos resistiu à tal pressão. Com duas horas de caminhada eu já tremia o corpo, batia os dentes, e logo comecei a gemer de tanto frio que sentia. Era o início de uma hipotermia. Eu andava com a sensação de estar me rastejando com uma tonelada nas costas, vi que a metade da noite estava próxima, a suposta casa também, mas eu não conseguia assimilar nosso avanço. E quando vimos os fachos de luz iluminando a neblina tive um certo alívio em saber que meu sofrimento estava perto do fim. Chegamos com cuidado, olhamos o entorno para ver se não havia algum vigilante nas dependências e tratamos de procurar abrigo. Aliás, cuidamos, não! Cuidaram. Eu não tinha condições de pronunciar meu próprio nome, tremia mais que vara verde. Farejando os cantos da construção que desejamos alcançar, os meninos conseguiram vislumbrar uma possibilidade de entrarmos e passarmos a noite, secos e abrigados do frio que estava pouco acima dos 10°C. Leve como uma pena e liso feito uma lesma, Potenza conseguiu escorregar entre a única fresta aberta que possui aquela parede, e logo abriu as portas para um mundo novo. Com dez minutos, após trocar as roupas molhadas por roupas secas, eu ja estava renovado com quem acordar para enfrentar o dia. Lá dentro descobrimos que teríamos um horário certo pra sairmos de lá, também um horário certo para transitar pela estrada sem sermos vistos pela fiscalização no dia seguinte. Mas, como era coisa pra ser colocada em prática só após a alvorada, esticamos uma lona no chão, também os sacos de dormir, e apagamos no sono. Na manhã seguinte tivemos alguns conflitos ideológicos, teve amigo que deu um chilique danado por que fazia questão de irmos até o POÇÃO DO GUARATUBA. Quando tudo se resolveu partimos em direção ao Poção, e pouco além dele montamos acampamento para passar a parte da manhã chuvosa esticados nas redes curtindo uma preguiça. A TRAVESSIA PRIMEIRA NOITE - 17/Nov/2017 O estado de São Paulo estava sendo castigado por uma forte tempestade, e isso acontecia ainda quando a luz do dia se fazia presente. Era um aviso de que as coisas se tornariam mais difíceis naquele lugar escondido nos confins de Biritiba Mirim. A tormenta ainda era bruta quando caiu a luz do Sol, antes mesmo de nosso grupo se reunir e decidir se teríamos a coragem de partir rumo ao novo desafio, selvagem e desconhecido, que tanto nos assustava com seu desnível, o maior de que se tem notícias na Serra do Mar. Muitos acontecimentos vieram à tona para testar nossa resistência psicológica, a lei de Murphy nunca tinha se aplicado tão fiel em minha vida... "Falecimento de três parentes às vésperas do evento, filha que adoeceu gravemente na mesma semana, metade dos envolvidos desistiram de embarcar nessa aventura, alterações em escalas no trabalho, etc e tal..." Mas quando as forças conspiram à favor para que tudo aconteça não há nada e nem ninguém que possa impedir aqueles que sonham. Nem mesmo nosso amigo, Paulo Potenza, que carregava toneladas e mais toneladas de argumentos catastróficos para que nosso clã cancelasse a missão. Desde cedo ele me mandava mensagens que previam as mais hediondas tragédias. Quando se encontrou com Divanei, em Itaquera, buzinou o fim dos tempos na orelha do pobre velhinho até a Estação de Suzano (CPTM), onde formamos o quinteto que encararia a Besta de frente. A chuva fez com que nosso transporte viesse a atrasar mais de duas horas, e com isso tivemos tempo suficiente para discutir se realmente valeria a pena prosseguir com tamanha loucura sob aquelas condições climáticas, que previam 3 dias de chuvas, sendo que só em um desses dias estava previsto para ser despejado sobre nossas cabeças 50 mm de água. É água pra cacete. Durante a espera nosso amigo continuava com seus argumentos carregados de maus espíritos, mas como ele mesmo disse: - estando Divanei, Trovo e Vgn juntos, dificilmente ele conseguiria fazer com que a gente fosse desistir. E quando se convenceu de que seu poder de persuasão era falho, às 22h18m, decidiu embarcar na Van com a gente. Partimos (Daniel Trovo, Divanei Góes, Paulo Potenza, Tony Eduardo e Eu Vgn Vagner) sob a condução de um motorista chamado Aro, animado e descontraído, que ficou encarregado de levar até os quilômetros finais da Rodovia SP-092. Entre as conversas de assuntos corriqueiros, muita tiração de sarro e risadas, ele também fez o favor de nos avisar sobre o dilúvio que caía em Biritiba Mirim, nos alertando se realmente valeria a pena arriscar nossas vidas na descida até o litoral, ou era melhor escolhermos outra data, e ele nem cobraria pelo valor q foi combinado. Tudo para que não fôssemos. Mas todo aquele bom humor que a gente ja vinha se acostumando se transformou em ira quando viu que quanto mais avançávamos, mais distante parecia estar o local onde deveríamos desembarcar. Por várias vezes vi aquele senhor bufar pelas ventas e coçar a cabeça, impaciente, já nos respondia somente o necessário e com rispidez. A cada 5 min perguntava de estava chegando. E quando passamos pela gigantesca ETA da SABESP (Estação de Tratamento de Água) o veículo foi adentrando pela estrada que se resumiu pela metade do que percorremos nos 20 km anteriores. Com isso a paciência do motorista chegava cada vez mais perto do esgotamento. Falamos para ele nos deixar na próxima bifurcação que aparecesse logo à frente (uns 300 mts), e ele respondeu que "esse logo ali" da gente daria mais uns 10 km. Foi quando ele embicou o carro na mata e iniciou uma manobra para retornar. Como faltava apenas 1 km para o início de nossa jornada não questionamos a ação daquele homem. Até por que não queríamos ver ninguém surtando ou sofrendo um ataque cardíaco na nossa frente. rsrs Quando acabamos de pagar o serviço, um de nossos integrantes nos pergunta: - vocês não vão achar ruim se eu disser que vou voltar daqui?? (adivinha quem, rs, Potenza).O silêncio se fez presente. Me recordo apenas de ter baixado a cabeça, e quando levantei os olhos mirando nosso amigo, lhe disse: - isso é algo que só você pode decidir. E se for pra desistir o momento é agora. Depois que a Van for embora não tem mais jeito. Ele justificava sua desistência quando Tony o interrompeu imitando um frango... Pó, Pó, Pó, Pó... As gargalhadas ecoaram por toda escuridão daquele lugar. E como quem ameaça, ou roga praga, Potenza retrucou: - É... quero ver você chorar lá no meio do Vale por que não tá aguentando o rolê. Depois de muita zoação, com um forte abraço ele se despediu de nós, deixando algum lanche e uma corda de 15 mts para usarmos a favor de nossa segurança. À meia noite começamos nossa caminhada no último quilômetro antecedente ao trecho de vara mato noturno que iríamos enfrentar. Depois usaríamos como via uma estrada que corta a Mata Atlântica por 12 quilômetros. Um caminho longo, porém, agradável. Da mesma forma q da vez anterior adentramos sorrateiramente ao "acampamento base" por frestas que há nas janelas do alojamento. Às 03h00 a.m, depois de comer alguns pedaços de torta que a sogra do Trovo fez, cada qual já pegava no sono como podia, largados ao chão, usando saco de dormir ou não, porém, bem abrigados. Mesmo que ilegalmente. rs PRIMEIRO DIA DE CAMINHADA - 18/Nov/2017 Todos os dias, independente se é sábado, domingo ou feriado, há uma patrulha que se repete três vezes ao dia para manutenção do lugar que passamos a noite, começando às 08h00. Por isso tratamos de acordar cedo e picar a mula dali o quanto antes. Ser pego com as calças nas mãos nunca foi coisa legal. Às 07h00 já estávamos guiando nossos pés e levando a tropa de encontro ao monstro que tanta nos assustava. No descampado mais próximo da Estação de Bombeamento parte uma trilha, e por ela seguimos, passamos pelo POÇÃO GUARATUBA, chegamos até a área que usamos como acampamento de preguiçoso na segunda investigação, e seguimos. A partir daquele momento estávamos entrando num mundo totalmente novo aos nossos olhos, um mundo completamente agressivo e selvagem. A cachoeira que fazia estrondo da vez anterior já não era tão voraz desta vez. Passar por ela sem medo foi algo fácil de se fazer. Na margem direita do rio, ainda plana, há rochas de tamanhos parecidos e a vegetação é baixa. Terreno ideal para caminhar sem grandes riscos. Com 40 min após a saída de nosso abrigo chegávamos ao ombro da Serra do Mar. Divanei seguia puxando em um ritmo tranquilo, mas estava a uns 30 metros à minha frente enquanto o Trovo e o Tony vinham numa distância parecida depois de mim. Me lembro que o rio fez uma leve curva para direita, foi quando vi nosso amigo parado em cima de uma grande pedra analisando o que teríamos de vencer. Rapidamente desviei meus olhos dele e fixei minha atenção na cabeceira da cachoeira. Me arrepiei da cabeça aos pés com o cenário se abriu à nossa frente, lindo e fantasmagórico ao mesmo tempo. Era a beira de um abismo que ruge ferozmente enquanto traga aquele terreno acidentado, e chega a assustar por parecer não ter fim. Ali estava certo o início de nossa odisseia, e se fosse para batermos em retirada aquele era o melhor lugar, mas como a equipe "só tinha carne de pescoço" estufamos o peito, respiramos fundo e nos jogamos pra dentro da mata borrando as calças com medo do que estava por vir. O desafio inicial já era de patente alta, de respeito, certo de que seria um sofrimento galgar cada curva de nível que se aprofundava cânion adentro. Iniciamos tudo na cota dos 820 mts de altitude, e com menos de 4 km toda a elevação já vai se acabando. Ou seja, uma pirambeira descomunal. Antes da cabeceira não foi possível atravessar o rio, já em declive fortíssimo não devíamos nem pensar em tal hipótese. Fomos tocando nosso bando e e beirando as encostas para manter proximidade com o rio, por que na menor das possibilidades nós iríamos arriscar um acesso à base da cachoeira. Escutávamos o barulho de um turbilhão vindo do fundo do Vale, mas não conseguíamos ver nada além de paredões de rochas expostas guardando as águas. Estávamos ansiosos e curiosos para ver qualquer filete que fosse, pois era certo de que seria formidável, já que o satélite mostra um cacheira incrivelmente grande naquele altimetria, avistar uma queda partindo daquela altura seria maravilhoso. Perambulávamos sobre a crista, e de vez enquanto metíamos o cabeção fora da mata, beirando o penhasco, na esperança de ver algo, mas a altura era tanta e o vale tão profundo que não víamos nada, além da possibilidade de morrer. O jeito foi permanecemos firmes no vara mato até a chegada do platô principal. A cada cinco passos descíamos três metros de altitude, a cada metro de desnível vencido muita vegetação mediana e árvores de grande porte que serviram de apoio eram deixadas para trás. Dessa maneira seguimos avançando rápido, mas carregando o receio de perder de vista a principal cachoeira que corria ao nosso lado, tão perto e tão distante. Mas o receio se dissolveu quando o enorme platô rochoso pode ser visto entre as árvore vale abaixo. Nós o miramos como objetivo e saímos gastando faro em busca de alguma via que nos levasse até lá. O sentimento que nos dominava já dava lugar à ansiedade mista com a alegria de poder ver algo tão lindo, tão grandioso e tão selvagem, pois já tínhamos achado a artéria certa q nos levaria ao coração do Rio Guaratuba. Ao pisarmos nas primeiras rochas nuas do platô a alegria transbordou euforicamente diante do espetáculo que se abriu aos nossos. Era como se estivéssemos vendo tudo sobre as nuvens, utilizando as janelas do céu. O mirante natural nos permitiu ver uma boa parte da Praia de Boraceia - extremo norte de Bertioga. Ver o Rio Guaratuba, largo e sinuoso, se juntando ao mar enquanto uma revoada de Andorinhas bailava ao nosso redor foi um momento raro e precioso, imensurável. Recompensas que faziam valer cada minuto em que arriscávamos nossas vidas em busca de aventura. Às nossas costas estava uma Queda d'água bruta, gigante, que a batizamos como SALTO DO CACAREJO. Já estávamos felizes por recebermos aquele presente logo nas primeiras horas do dia, às 09h10m a.m. O mirante serviu como palco contemplativo, área de descanso e piquenique, e depois da sessão de registros voltamos pra mata. Montão de Trigo e Alcatrazes (ilhas em alto mar), formosas e imponentes, foram vistas de longe em meio ao vara mato parecendo flutuarem sobre o azul marinho que se estende pelo horizonte e se mescla com o azul cerúleo. Penhascos e desfiladeiros eram nossos obstáculos e companhias inseparáveis por qualquer lugar que fossemos, direta ou esquerda. E mesmo com tamanha adversidade nos cercando, Trovo parecia uma criança em um parque de diversões, transbordando felicidade através de gritos e gargalhadas somadas aos bordões de alto teor cômico. Coisas que se aprende no gueto, rs. Mas não era pecado nenhum sentir-se feliz dentro daquele inferno verde e deixar tal sentimento extravasar. Até por que o pacote estava saindo melhor do que a encomenda. Vez ou outra a gente parava para aferir o GPS, analisar o quando a gente perdia em altimetria e o quanto avançávamos em quilometragem. Era satisfatório pregar os olhos na telinha e ver que estávamos despencando como a água do rio, e deixando para trás várias curvas de nível que não arrefeceram por horas. O plano de seguir o mais próximo possível das fendas deveria de ser mantido, mas, presos no ombro de uma rocha lisa, sem agarras, nem vegetação firme para servir de apoio, Divanei chegou a lançar a corda mas não foi o suficiente para deixar nossos pés em segurança no patamar abaixo. Recolhemos a corda e fomos caçar um caminho melhor pra dentro da floresta, que estava muito quente e abafada devido aos 30°C previstos para o dia. Quando retomávamos a direção das águas o pensamento coletivo não era outro, senão, TOMAR BANHO DE CACHOEIRA. Mas para isso, Divanei e Eu tivemos que vencer um jardim de bromélias e grudar nossos esqueletos numa árvore e executar as técnicas mais apuradas de "Poli Dance Selvagem," para ter acesso ao rio. Tony e Trovo escolheram uma via melhor para chegar na ducha gelada da CACHOEIRA GRUTA DA BELA VISTA. Eu já fui largando a mochila nas rochas, tirando a camiseta e me enfiando debaixo da queda. Tony e Trovo também foram. Precisávamos daquilo. Depois das de longas costumeiras tratamos de deixar o leito à nossa esquerda e tirar mais algumas horas de vara mato até o ponto crucial da Travessia, onde o principal afluente deságua no Guaratuba, e essa confluência faz um forte vinco em forma de V, e essa junção aponta tarefa árdua, carrasqueira. Conversamos à respeito de tal ponto, e deduzimos que passando dessa parte estaríamos com passe livre para concluir a descida até o litoral. Mas, se tudo aquilo se transformasse em um pesadelo de barreiras intransponíveis iríamos engolir nosso orgulho, enfiar o rabinho entre as pernas, voltar tudo o que deixamos para trás e afogar nossas mágoas no aconchego de casa. Seria frustrante, mas não haveria outra opção. Às 11h40, quando o sol estava de rachar o coco, colocamos as pontas dos pés em mais um precipício, olhamos para baixo para ver a enorme cachoeira caindo e voltamos pro mato. Começamos por um vara mato horrível, espesso, sobre um afluente seco onde tentei descer e voltar pro rio o quanto antes. Mas a via acabava numa altura nada convidativa, e prosseguir por ela também não era nada fácil. Tudo muito escorregadio e cheio de galhos tombados atravessando o caminho. Então voltamos e subimos mais um pouco para darmos a volta, o Trovo assumiu a dianteira e começou a rasgar um emaranhado de samambaias que parecia não ter fim. Uma mata densa e entrelaçada que não dava espaço para abrirmos espaços. O Tony xingou os diabos por conta daquele pedaço horrendo e tortuoso. Mas como nenhum sofrimento é eterno, às 11h50, saímos em um afluente de águas claras, um lugar simples, de encher os olhos. Era "o nosso afluente." Verificando seu curso vimos ele se transformar em uma cachoeira ímpar, linda (CACHOEIRA DA PROA), que despenca com pouco volume há pouco mais de 12 mts de altura. Sua cabeceira também é um mirante especular, permite avistar o restante do Vale, a imensidão do mar sustentando as duas ilhas, e o condomínio que tínhamos como alvo final. O lugar se apresentou tão agradável que gastamos um bom tempo por lá. E como não poderia faltar recreação, descemos até sua base para revigorar as energias de nossos corpos cansados. Não poderíamos contar vitória antes da hora, mas acabávamos de deixar para trás o Cão Cérbero que nossa mente havia criado. A cota 470 foi ficando cada vez mais acima de nossas cabeças, e já dentro do leito do rio paramos de fronte ao Poção que recebe a força de uma enorme cachoeira que corre na diagonal - CACHOEIRA DA JUNÇÃO - sendo abastecida pelo "nosso afluente." Beliscamos alguns pedaços da iguaria trazida pelo Trovo (+ torta), admirando mais um espetáculo que aquele lugar apresentava. Até então tínhamos andado apenas pelo lado direito do rio, coisa que causava estranheza, pois achávamos que seríamos obrigados a ficar saltando de lado à lado por conta das dificuldades do caminho, mas o rendimento vinha sendo satisfatório em meio a tudo aquilo. Às 13h50, dentre a cota que arrefece por alguns minutos, forçados por uma garganta que nos barrava prosseguir por onde estávamos, fizemos a primeira travessia de margem à margem saltando sobre as rochas e sendo desequilibrados pela força da água. A margem esquerda "estava uma uva" de tão prazerosa que estava, já estava mais do que na hora de todo aquele declive acentuado dar um trégua e nos deixar um pouco mais seguros sem ter que ficarmos pendurados em paredes. Seguimos um longo trecho pelo próprio leito, pulando de pedra em pedra e contornando poções. E como ja diz o velho ditado: em time que está ganhando não se mexe, fomos fiéis à mesma tática que vinha sendo aplicada até então: hora eu puxava o ritmo da tropa, hora Divanei assumia a frente, enquanto Trovo vinha sempre como o terceiro homem dando sugestões de caminho, e o Tony era o mudinho do grupo, vinha aguentando a pressão quietinho como um líbero de time da várzea - o último zagueiro. Assim seguiríamos até o fim daquela batalha de sobrevivência do homem vs a força da natureza. Não muito diferente do lado oposto na esquerda também tivemos penhascos para andar sobre suas beiradas correndo riscos de cair pra nunca mais voltar. Mas as árvores continuavam sendo nossas melhores aliadas naquela luta pela sobrevivência, e quando não as tínhamos éramos obrigados a subir morro acima, ganhar altitude novamente, contornar algum obstáculo e voltar sem demora. Assim fomos vencendo mais curvas de nível, tudo tão agressivo quanto antes, e às 14h40, já na cota 470 encontramos uma sequência de 3 cachoeiras lindas (CACHOEIRA DOS TRÊS POUSOS). Entre cada uma delas há um poção, ideal para banho, e as rochas que cercam o lugar serviram como ponto descanso para o Tony - que já demonstrava muito cansaço em seu semblante, e o mesmo lugar serviu como área de TOP LESS para o Divanei, que arrancou a camiseta e se estirou no chão queimando a barriguinha e as peitcholas rsrsrs, enquanto Isso Trovo e EU fomos explorar as quedas mais acima e dar aquele merecido tibum. Às 15h20 partimos de lá devido a ameaça que São Pedro enviou. Em menos de 10 minutos o céu que estava dava lugar ao sol de rachar pedra tomou todo espaço azul e nos cobriu com nuvens carregadas. Corremos pra mata querendo acha algum lugar decente para nos abrigar do temporal que "Pedrão" prometia. Enquanto a gente seguia varando mato os trovões estalavam no céu acusando que logo cairia chuva forte sobre nossas cabeças, e justo naquela hora topamos com uma cabeceira que parecia ser de uma cachoeira com mais de 120 mts de altura. Contornar tal obstáculo iria tomar muito tempo, mas, como não tínhamos outra opção, e estávamos à beira de um precipício guardado por fortes inclinações nas escarpas laterais, com o pensamento de: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come, tentamos não parar enquanto a chuva Não caía, pois não sabíamos quanto ainda faltava para aparecer algum canto para jogarmos as tralhas e descansar sossegados e distante das enxurradas do rio. Às 16h20, quando gritei: AFLUEEENTE, começou a cair chuva. Colocamos os pés no pequeno tributário e já falávamos que seria por ali mesmo que iríamos montar acampamento para passarmos a noite. Meio que desesperado, com medo de a chuva trazer água barrenta para o afluente, algo comum em dias de chuva, comecei a pedir para os meninos encherem suas garrafas e armazenarem água limpa para prepararem a janta e consumir até o dia seguinte. Olhamos com atenção, analisamos onde poderíamos nos acomodar, e vimos que o lugar era o pior local para acampamento no momento, cheio de pedras, galhos e buracos, numa pirambeira chata de andar, mas seria ali mesmo a parada final daquele dia, pois, além de estarmos extremamente cansados havia uma barreira surreal à nossa frente que preferimos deixar para confrontá-la na manhã seguinte, quando já estaríamos revigorados e prontos para uma nova batalha. O ACAMPAMENTO Limpamos o espaço que ocuparíamos esticando nossas redes, escolhemos a árvores que pareciam as certas e colocamos a mão na massa ainda sob a chuva. Tony nunca havia feito um acampamento selvagem utilizando redes, não sabia nem por onde começar suas arrumações, e para ajudar, o lugar que lhe restou foi o pior lugar que um corpo cansado poderia merecer em todo o planeta. Divanei armou seu abrigo rápido demais e desfaleceu sem querer saber de jantar, Trovo deu um jeito de erguer sua "casa amarela" na encosta superior do local, estiquei minha cobertura de lona sobre minha rede, depois fui ajudar o pobre coitado do Tony a conseguir algo que lhe permitisse ao menos esticar o esqueleto. Foram apenas dois passos para que ele tivesse um abrigo, primeiro a lona, segundo a rede, mas a dificuldade que tivemos para concluir a tarefa foi duradoura. Ele acabava puxando mais um lado da lona deixando o outro lado quase todo descoberto, tinha que desamarrar e arrumar novamente. Como a rede seria usada pela primeira vez ele teve medo de deitar e cair, ou ela não aguentar o peso do mamute e rasgar rs. Pediu pra que eu a deixasse baixa e depois testá-la. Quando ele deitou a rede encostou no chão, tivemos que subi-la, e isso se repetiu algumas vezes. Foram tantos empecilhos que se fosse relatar com detalhes esse arquivo/texto ocuparia 1 TB do meu HD Externo, rs. Dava pra ver no rosto do garoto o quanto ele estava nervoso com aquela situação que perdurou por duas horas de luta sofrida, mas acabamos. Depois fui preparar meu jantar, Tony fez o mesmo, enquanto Divanei roncava, e Trovo não dava as caras - deveria estar comendo torta, rs. Antes das 20h todos já estavam recolhidos, Tony ainda me chamou mais duas vezes para ajeitar a rede dele, que, de quando em quando tocava no chão. Não se ouvia nossas vozes, apenas flashes, muitos flashes de luz que piscavam naquela noite extremamente quente. Imaginei q fossem relâmpagos antecedendo a tempestade, mas era o Tony, inquieto com as intempéries que o torturavam no momento. Devido ao calor calor da noite e a proximidade com a água nosso alojamento estava dominado pelos pequenos "demônios alados." De repente, no breu da escuridão, escutei o Divanei me chamar perguntando se eu estava com a lanterna, de imediato iluminei em direção àquele senhor de idade avançada e vi uma infinidade de borrachudos rodeando seu corpo franzino. Era uma quantidade que eu nunca tinha visto antes nas vezes que fiz pernoite na Serra do Mar. Ainda mais perto das 22h, horário que eles não costumam aparecer. Divanei pegou algo em sua mochila e retornou para rede. Os flashes continuavam frenéticos às 23h, toda hora em que colocava a cara para fora da rede eu via o Tony se estapeando ou rasgando a cara de tanto coçar por conta de uma luta desleal com centenas de mosquitos. Teve um momento em que ele viu que eu o observava, não se conteve e veio em minha direção desabafar... ... ele se dizia agoniado demaaais sem saber o motivo, e não conseguia dormir desde quando deitamos. Tinha vontade de gritar, sumir dali. Tentei acalmá-lo dizendo q também não havia pregado os olhos até então. Depois de alguns minutos de conversa ele voltou a deitar. Não demorou muito para os flashes voltarem, mas voltaram com barulhos estrondosos que davam medo. Quando a chuva caiu fez jus à barulheira que veio antes. Foi um temporal impactante que rasgou horas madrugada à dentro, me deixando receoso, mesmo estando todos bem instalados, eu estava muito próximo ao afluente e temia que viesse alguma enxurrada e levasse meus pertences que estavam no chão. A todo momento eu conferia o nível da água. Mas tive um certo alívio quando se passava de uma hora de chuva forte e nada mudara perto do nosso acampamento. Mas, como "todo sofrimento pra corno é pouco" toda água que escorria pela árvore era absorvida pela corda que prendia a rede do Tony, e como ele não havia levado mosquetões ou argolas de metal para mudar o curso da água, ela fez seu caminho pela rede do amigo, ou seja, ele estava deitado tentando dormir e a água da chuva escorrendo pela suas costas. Que Maravilha, não? Enquanto eu estava acordado meu pensamento estava fixo no volume da chuva, e eu só rezava pra que todo aquele dilúvio da madrugada fosse toda a chuva (50mm) prometida para o domingo. A noite deu lugar a luz do dia, e o rosto do Divanei demonstrava que a luta contra os pequenos demônios havia sido de desvantagem para nós, meros mortais. O senhorzinho que costuma se apresentar com seu rosto fino e chupado de tão magro que é, desta vez amanheceu com uma cara que parecia com a cara de um obeso mórbido em fase avançada. Estava todo inchado, desconfigurado. Ele ainda se queixou de algum infeliz ter mudado a posição de sua lona ao esticar um cordinha sob seu teto. Isso fez um acúmulo de água sobre seu teto que mais tarde veio a molhar sua rede. Retirando as remelas dos olhos deu pra perceber melhor o que aquela manhã cinzenta tentava nos dizer. Estávamos na cota 350, na média altura da terceira queda da CACHOEIRA NEBLINA DO GUARATUBA - uma formação brutal de três grandes quedas d'água de por medo em qualquer marmanjo barbado. O bom era que já havíamos vencido a grande parte de seu desnível, mas ainda tínhamos resquícios de sua dificuldade a transpor. Então recolhemos acampamento depois de tomar um "cafézin da manha" e voltamos para mais um dia de batalha. Estávamos emparedados por uma muralha que segue paralela ao lado oposto do afluente até sumir de vista mata à dentro, escalar era impossível, além de ser completamente vertical não se via nada de tão seguro onde nos agarrar. A solução foi encarar o contra fluxo do afluente até acharmos um escape. Subimos bastante, pulando de rocha em rocha, até esbarrarmos em uma cachoeira de uns 10 mts, onde tivemos que encontrar alguma via pela esquerda, já que na direita ainda se estendia a "muralha da China". Aparentemente seria algo tranquilo a ser feito, mas ao tentar ascender às primeiras rochas vimos q se tratava de encostas tomadas por pedras escorregadias, cheias de limo e vegetação rasteira solta, onde o avanço era de 2 mts com um retrocesso de 3 mts, ou seja, sobe três passos, volta cinco ainda tendo de enfrentar um vara mato dos infernos, quase impossível de prosseguir. Mas ao chegarmos no topo da cachoeira vimos que o paredão estava se igualando com a altitude do afluente, e que teríamos um pouco a mais pra subir em uma piramba que nos levaria à crista. Ganhamos uma altitude considerável, mas fomos de passo após passo caminhando sobre a crista que nos barrava a passagem, e essa mesma crista foi embicando em direção às profundezas do Vale (aos pés da Cach Neblina do Guaratuba), mas seria algo para nos liquidar, então paramos na borda do precipício para registrar com fotos e vídeos a potência devastadora daquelas três quedas gigantes. Toda inclinação era forte e pendente à graves acidente se houvesse qualquer descuido, mas éramos obrigados dar os passos na perpendicular até sairmos da linha dos desfiladeiros entre as cotas 350 e 280, onde o rio começava a ficar menos caudaloso e tendo sua perda de altitude mais branda. A fera começava a recolher garras, e isso nos motivava a querer andar no leito. O pula pedra começou a ser frequente, pra variar um pouco tentamos atravessar para a outra margem do rio mas sem resultado duradouro. Em menos de 10 min os paredões da direita nos forçaram a manter nossa caminhada pela margem esquerda, onde tudo fluía bem. Exceto vez ou outra que surgia pelo caminho alguma rocha enorme, as quais tínhamos que contornar entrando na mata. E foi nesse entre e sai pelas árvores que tivemos o privilégio de encontrar "duas cavernas" que serviriam de abrigos naturais para qualquer situação emergencial, ou não. Na cota 200 encontramos o único lugar decente para montar acampamento em todo aquele Vale, era um terreno incrivelmente plano, repleto de árvores fortes e com um belo espaço para fazer as amarrações necessárias. Uma pena não termos chegado até ali no dia anterior, há 2 hrs de onde repousamos, seria o cenário prefeito para ver ao acordar pela manhã. Divanei não pensou duas vezes, logo se encarregou de instalar A CÁPSULA DO TEMPO, mesmo sob a leve chuva que começava a cair, não poderia deixar em outro lugar. Eu mencionei estar aliviado quanto aos grandes desafios, mas o Trovo refrescou minha memória ao lembrar que em outro rios há obstáculos de respeito já na cota 200. Mesmo assim seguimos em paz saltando de pedra em pedra sobre aquele rio manso que até pouco tempo o tínhamos visto furioso. Ele ganhara uma cor caramelo e seu leito a partir dali era raso e largo, o que o tornou mais bonito. Ainda teríamos muito por caminhar naquelas condições e isso demoraria muito, mas, vez ou outra, quando a gente contornava alguma rocha e entrava na Mata encontrávamos algum leito de rio seco, plano, largo e sem intempéries pelo caminho. Era o vento soprando à nosso favor, toda vez que isso acontecia nos rendia uma jornada, um longo tempo sem ter que voltar pra água. Assim seguimos até o ponto em que o Guaratuba faz um curva brusca para esquerda e se volta para direção contrária (subindo), para o planalto, mas logo volta a correr na direção do mar. Ali encontramos uma trilha descendo, deduzimos que seria para cortar aquele ziguezague - fomos por ela, e quando surgiu uma bifurcação tocamos para o sentido óbvio. Logo a trilha encontra o rio, parecendo outro, raso e arenoso sem qualquer vestígio de pedras que tanto haviam dentro dele. A trilha continuava no lado oposto, atravessamos e andamos um pouco pelas belas prainhas formadas por grandes bancos de areia, mas seguir por elas, ou chapinhar pela água iria demorar demais. Decidimos continuar pela trilha, que nos levaria por quilômetros sem parar. Lembro de o Divanei mencionar que não adiantaria a gente "correr" pois não teríamos ônibus para voltar para São Paulo se chegássemos em Bertioga tarde da noite. Fazia sentido toda aquela preocupação, então seguimos preparados para fixar abrigo assim que encontrássemos alguma clareira apropriada para descansarmos por mais uma noite e irmos embora no primeiro horário com luz na manhã seguinte. O que causou estranheza foi o fato de não haver nenhum descampado em uma trilha tão aberta e próxima da civilização, cota 20. Como não haveria mais nada de tão grandioso até o final da trilha trarei de guardar meu celular na mochila estanque por a chuva havia voltara a cair, por isso imprimimos um ritmo forte e constante, sem pausas. A gente via o rio correr ao nosso lado esquerdo, horas por entre as árvores, hora bastante exposto, e quando o cenário de abriu em um enorme descampado pude imaginar que já teríamos avançado além do poderíamos estar pensando. Pena que era um descampado impróprio para nosso repouso, era apenas um ponto de referência marcado no tracklog. Ao completarmos pouco mais de duas horas ininterruptas de pernada pisei o pé no freio do bonde e pedi a parada de cinco minutos. Já estava ficando cansado física e psicologicamente. Larguei a mochila no chão enquanto dois dos amigos jogaram seus próprios corpos ao chão, estávamos destruídos. Ao conferir nossa localização no GPS fiquei pasmo, apenas pedi que meus amigos olhassem onde estávamos. Questionaram com ansiedade, mas pedi-lhes que vissem com os próprios olhos. Inacreditavelmente, estávamos à 200 mts da picada final que nos levaria ao Condomínio Morada da Praia - nossa porta de saída do submundo selvagem, bastava encontrá-la na outra margem. Quando pulamos novamente pra dentro do rio tivemos um pouquinho de dificuldade para seguir no caminho correto, já que a trilha se manter à vista por um curto trecho, depois nos vimos obrigados a voltar ao rio. Mas algo parecia errado, obviamente a trilha deveria continuar visível naquele ponto. Voltamos e, vasculhando o caminho, achamos a continuação da danada, porém no sentido contrário, subindo o rio. Seguimos em frente, mesmo com dúvidas, na pior das hipóteses teríamos que varar mato até encontrar alguma rota viável. Por um longo momento o Rio se fez visível à nossa esquerda, o que nos deixava mais duvidosos sobre aquele caminho, mas ao observar direito estávamos acompanhando o fluxo da água, e isso nos aliviou um tanto. Voltei a andar com o aparelho na mão para poder conferir nossa localização. Depois de quase 2 km caminhando de mãos dadas com a ansiedade começamos a ouvir vozes. Na mente já vinha a cena de quatro pais de família farejando um muro alto procurando a melhor maneira de pular sobre os arames fardados e/ou cercas elétricas, mas, pela graça daquele que nos protege não há muro algum, a muralha que rodeia o condomínio é natural, composto apenas pela mata atlântica. Respiramos fundo e enfiamos nossas caras, sujas e inchadas, para dentro de um mundo onde meia dúzia de pessoas nos viam com olhares carregados de expressões que não dá para descrever. A nossa sorte foi que se tratava de um domingo "frio" e chuvoso, o que deixou o conjunto habitacional luxuoso com poucas pessoas pelas ruas, e mesmo assim tivemos medo de sermos pegos por algum guardinha que faz ronda local. Um deles passou por nós de moto e nos cumprimentou, moradores e seus convidados talvez se assustaram com o que viam: quatro homens usando perneiras, mochilas sujas e molhadas, um deles usando capacete e colete salva vidas. Meu Deus, o quê aqueles almofadinhas deveriam estar pensando da gente? Talvez se sentissem ameaçados, mas não sabiam que mesmo sendo invasores nós éramos a caça, vigiados a cada quarteirão por câmeras instaladas no alto de cada poste. Parecia um Big Brother. Essa tensão seria eterna por 5 km, mas ao vermos outro ônibus na lista oposta tínhamos a certeza de que ele voltaria passando onde estávamos. Decidimos para e esperar, ajeitar as roupas e mastigar alguma coisa que não fosse torta, rs. Quando veio o coletivo fiz sinal de parada para perguntar ao motorista se o destino era Bertioga, ele disse que não, pois o ônibus é de circulação interna nas dependências do condomínio. Abriu a porta de trás de nos deu aquela carona que todo aventureiro sonha em conseguir ao término de sua aventura. Passamos pela portaria principal ainda com receio de termos daquela dor de cabeça que tem os INVASORES DE PROPRIEDADES quando são pegos, mas saímos lisos, sãos e salvos, vitoriosos e felizes por poder olhar para trás e ver que enfrentamos um monstro feroz, e que o vencemos sem precisar matar, ou o ferir aquela fera. Apenas dominá-lo. Fim.
  3. Val, irmão... Essa foi a aventura que marcou a vida de cada um dos envolvidos. Principalmente a minha vida rsrsrs. Nem gado de pasto fica tão marcado o quanto eu fiquei com a queimadura hahahah
  4. Marins Noturno, sem conhecer o caminho, não dá para esquecer, Edu. Hahahaha. Amém! Que Deus nos proteja nesse "outro nível" >>> Nível de retardado kakakakak
  5. Namorar grandes Morros, Pedras, Picos e seus cumes é algo normal para quem se identifica com esportes ao ar livre. Cada qual em sua modalidade acredita saber o quanto lhe faz bem a prática frequente da atividade que gosta. Onde a paz de espírito é alcançada quando lhes vem aos olhos novidades que os fazem se sentir bem consigo mesmo. E, particularmente, é em cima desses pensamentos que venho mantendo minhas raízes fixas e fortes no mundo do trekking (creio que com meus companheiros não é diferente). Não para me adequar aos padrões de federações, grupos e blogs de renome, ou coisas do tipo. Buscar pela novidade é algo que venho executando há algum tempo com o único e exclusivo intuito: SUPERAR EU MESMO. Já fazia algum tempo que eu vinha almejando o cume do Pico São Sebastião - ponto mais alto de Ilhabela, com seus 1.375 metros de altitude. Junto a vontade de alcançar tal objetivo estava a intenção de ascender o Pico Baepi (1.048 mts), o famosinho que guarda as portas de entrada da cadeia montanhosa do arquipélago. Quem chega na ilha, mesmo sem saber quem é ele, logo o identifica quando sai do continente. Mas, nesta ocasião, o anfitrião ficou em segundo plano. A gana era Um pouquinho maior rumo ao "teto." Chegamos em Ilhabela (Adilson Silva, Rafael S. Lima, Silvester Natan e Eu) às 8h30 da manhã do sábado, 11 de Junho de 2017, e fomos caçar algo para acalmar as lombrigas que já estavam alvoroçadas. Paramos no supermercado mais próximo da balsa, escolhemos alguns comes e bebes para acrescentar nosso menu, tomamos o café da manhã e partimos rumo ao início de nosso martírio. Tocamos para o sul da Ilha, e um pouco perto da praia da feiticeira saímos da via principal para adentrar um condomínio residencial onde tive que "jogar um verde" no porteiro que abre a cancela, dizendo que estaríamos indo visitar as cachoeiras. Não sei como não houve suspeitas. Pois eramos quatro marmanjos vestindo as mais espessas roupas de frio, usando toucas, e querendo visitar quedas d'água àquela hora da manhã. rs. Estacionei o carro no final da estrada/início da trilha, arrumamos nossas cargueiras e começamos a pernada. Com menos de 250 metros de caminhada já estávamos fotografando a primeira e única cachoeira que oferece uma piscina natural para banho, sendo a mais bela dentre as três pequenas quedas do conjunto que iríamos encontrar pelo caminho. No quesito beleza, a segunda cachoeira não agrada em hipótese alguma, não chega a medir 2 metros de altura, não possui poço nem para enfiar as mãos e coletar um gole d'água. Sendo assim, acaba deixando tal consideração para a próxima pancada d'água, que não oferece piscina para banho mas permite o desfrute de uma ducha de aproximadamente 6 metros direto na cachola. Até alí não foram nem 400 metros percorridos e tudo era passeio no parque - pique Turistão mesmo. Já estive ali outras vezes, e estava ciente de que até uma pessoa da terceira idade chega ali sem dificuldades, bastava meus amigos conhecerem. Quando viramos para esquerda após o terceiro tombo para ver o que nos aguardava..., nooossa... dava medo só de olhar a inclinação da trilha. Um forte aclive em meio a vegetação, característica de Mata Atlântica, repleta de raízes, troncos e árvores que iam servindo de agarras e/ou degraus conforme íamos subindo. Era como se estivéssemos rastejando em pé sob um esforço demasiado que fez um amiguinho do grupo colocar seu dejejum goela a fora. O que facilitou o nosso avanço nesse trecho foi ver que a trilha passou por uma recente manutenção e estava completamente roçada pelos moradores locais que captam água para abastecer o condomínio. Claro que não teríamos aquela "avenida" aberta por muito tempo! Uma hora iria se estreitar feito um corredor, e a mamata iria acabar. Os moradores não sairiam abrindo caminho até o topo para deixar tudo bonitinho para os caminhantes que por ali se aventuram. "Cada qual que lasque para melhorar aquilo que escolheu para ter como lazer." rs Após passarmos por um lindo mirante na cabeceira de uma cachoeira, ainda seguindo os canos de captação, um pouco desatentos, olhamos sem dar atenção para uma picada bem aberta que segue subindo para a esquerda e acabamos saindo fora do caminho que deveríamos seguir, mas acabamos encontrando um quinto e último ponto de água com fácil acesso para abastecer nossas garrafas. Voltamos ao caminho correto para enfrentarmos mais um lance de forte aclive, a partir dalí fomos obrigados a ligar o radar, limpar as narébas e farejar a trilha que sumia com frequência diante nossos pés. Mesmo com essa e outras adversidades pelo caminho fomos tocando em um ritmo de poucas pausas, na verdade quase nenhuma. A lentidão só começou dar as caras quando apareceu o primeiro obstáculo de respeito: um emaranhado de bambus que barrava nossa passagem e impossibilita qualquer tipo de contorno por ambos os lados. A única solução foi arrancar as mochilas das costas, tacar o peito no chão e rastejar feito lagarto sob o baixo túnel que os bambus ofereciam. Nessa hora a tensão despertou nossa atenção, pois seria fácil encontrar alguma cobra camuflada entre as folhagens no solo já que a região é cheia delas, e se isso acontecesse nosso final não seria dos melhores. O céu estava aberto com o sol à pino, ideal para esquentar o sangue dos répteis. A inclinação não dava trégua por um segundo se quer, e aliada com a Mata, que ora vinha fechada, ora se mostrava aberta, deixava a via dispersa complicando a navegação. Por conta de tanta luta entre a caminhada com pouco ganho de altitude, vendo o suor gotejar das barbas do Rafa, com duas horas de pernada em 2,5 km decidimos parar por uns minutos e descansar. Pois acreditávamos que alí seria a metade do caminho, e na parte restante teríamos dificuldades semelhantes com as que passamos até alí e gostaríamos o mesmo gasto de tempo para concluir a subida. Coitadinhos de nós, puro engano. rs Depois de mordiscar algumas frutas e tomar breves goles de água, sem deixar o sangue esfriar, já retomamos a peleja em um terreno que ficava cada vez mais íngreme, mais acidentado e com a Mata mais confusa. Só nos restava impor um ritmo favorável à situação para que não houvesse desgaste em demasia, tampouco paradas sucessivas. Com 1h20 após o descanso já chegamos na primeira área de acampamento sob uma grande rocha de corte diagonal onde é possível, com jeitinho, armar de 3 a 4 barracas para um pernoite. E olhando no GPS, sabendo o quanto faltava até o cume, nos precipitamos com duas observações: 1 - alí seria um ótimo lugar para passar a noite. Mas não compensaria por saber que existe outra área de acampamento mais a frente (mesmo sem saber sobre o espaço). 2 - com um curto trecho restante (+ou- 1,7 km), levaríamos pouco tempo para concluir a trilha. Estimamos 1 hora, mas não foi bem assim. O que aparentava ser breve de concluir, na verdade, foi nosso maior calvário. Tudo aquilo que deixamos para trás achando que era forte aclive se tornou quase um planalto se comparado ao que vinha surgindo aos nossos olhos, e para intensificar a brincadeira o obstáculo/bambuzal que tinha dado as caras apenas uma vez, decidiu marcar presença e mostrar que aquele era seu território. Era hora de comer bambu. Novos emaranhados de bambus entrelaçados escondiam o caminho e pelas laterais, onde fica mais espesso, não foi possível contornar. O que restou? - cair de cabeça mais uma vez nas grandes gaiolas para ver o quão complicado seria vencer tudo aquilo. Arrancamos as mochilas das costas mais uma vez e partimos para mais uma batalha com sessões de agachamento e rala peito. O mais alto que conseguimos avançar foi engatinhando feito vira-latas, e rolar para os lados se fez necessário para esquivar de bambus que tinham espinhos ferozes feito unhas de gato. O desgaste muscular era ferrenho, e uma nova pausa se fez necessária quando a cãibra começou a contorcer as pernas do Rafa enquanto estávamos engaiolados. E assim fomos conquistando nosso objetivo: ganhando arranhões pelo rosto, testa e pescoço, e sentindo o sangue e o suor escorrer pela pele. Quanto mais próximo do fim pensávamos estar, maior parecia o caminho, e quando pensávamos não existir mais inclinação, mais escalaminhadas eram expostas às nossas caras. Estava sendo UM VERDADEIRO TESTE DE RESISTÊNCIA física e psicológica que transformava o sofrimento em uma súplica que almejava o término de tudo aquilo. O único pensamento que ainda nos confortava um pouco era o de estarmos fazendo a subida sob a "baixa temperatura" de inverno, por que fazer uma subida dessa com as altas temperaturas que faz no verão seria como perambular pelo inferno. Graças à Deus por nenhum castigo dura para sempre, e entre magros e feridos conseguimos vencer aquela maldita vegetação. Ou melhor, achávamos que sim. Chegando no segundo acampamento, lugar que nos disseram restar 15 minutinhos de subida até o topo para aqueles que passam a noite alí, vimos que na realidade a subida perdura por mais 40 minutinhos (pelo menos para nós) numa vegetação mais dura e trabalhosa que as anteriores. Estávamos prestes a tirar a dúvida: o ponto mais alto de Ilhabela possui ou não possui amplo visual? A única referência que tínhamos quanto a isso era uma foto, tirada dois anos antes, na qual Vivi Mar (que muito nos ajudou com infos e tracklog) está sentada à beira de uma pedra de frente para o canal de São Sebastião. Ao chegarmos na parte alta do Pico, às 15h30, deixamos nossas mochilas na área de acampamento e fomos às pressas subir a rocha que detém o ponto culminante de todas as ilhas do Brasil, onde foi revelado aos nossos olhos um mirante ESPETACULAR com 360 graus de puro visual sobre a Ilha e toda a extensão da Serra do Mar Paulista, desde a Jureia - extremo sul do litoral, até os limites de Ubatuba com Parati, e se prolongando até a Ilha Grande/RJ. A euforia foi instantânea, pois, graças ao tempo de céu aberto conseguimos visualizar grande parte da Serra da Mantiqueira e, também, a Serra da Cantareira. Ao leste fazíamos reverências às ilhas em alto mar que nossos olhos alcançavam: Montão de Trigo, Búzios, Alcatrazes... Faltou ver a África rs. Aquele cenário estava fazendo valer todo e qualquer sofrimento que tivemos com o desnível acumulado e o bambuzal que cruzamos pelo caminho. Cada corte na pele, cada dor pelo corpo, o sangue e o suor derramado já não eram mais lembrados, apenas satisfação e alegria estavam estampados no rosto de cada um do grupo. E a sessão de privilégios estava apenas começando. Encantados com o lugar, ficamos presos ao cume até o pôr do sol chegar. E observa-lo fazendo seu espetáculo diário, se deitando por trás da Pedra da Boraceia e colorindo o céu de um tom alaranjado que puxa o crepúsculo e a escuridão da noite, foi gratificante demais. Antes de escurecer por completo descemos para armar nossas barracas e fazer o jantar. No decorrer desses afazeres, entre as copas das árvores, conseguimos ver a lua cheia numa coloração avermelhada surreal emergir do horizonte, e quando voltamos ao cume para observar o teto estrelado novamente fomos surpreendidos pela beleza das cidades locais iluminadas por uma infinidade de lâmpadas enquanto a lua dava seu show refletindo sua imagem no oceano. Passamos algumas horas lá em cima vivenciando cada minuto e tremendo de frio. Nosso gran finale ficou por conta de um bom vinho tinto suave e muitas risada entre amigos. No amanhecer fomos presenteados por um nascer do sol incrível, que banhou de luz os picos locais e os que tanto já palmilhamos no continente. Aquela manhã estava favorável para mais uma longa sessão de fotos. O que não deixou aflorar nenhuma vontade de desmontar acampamento e descer montanha abaixo. Nos prolongamos o quanto quisemos mas tínhamos que voltar à realidade, e, por pura coincidência ao dia anterior, às 9h30 batemos em retirada. Era certo que não iríamos gastar 6 horas para vencer o mesmo caminho (na descida todo santo ajuda). Tiramos o pé do freio e descemos em ritmo forte, e se não fosse pelos VÁRIOS PERDIDOS que a trilha nos dava quando sumia diante nossos narizes, teríamos gasto menos do que as 4 horas para finalizar a descida. E como estava cedo, ainda nos restou tempo para uns tibuns na Praia Grande de Ilhabela. Particularmente, sai de lá extasiado por ter vivido um episódio ímpar e tão completo num único lugar, onde eu só estava acostumado apenas com praias e cachoeiras. Sem sombra de dúvidas o Pico São Sebastião ofereceu o mais incrível mirante que meus olhos já viram! E tudo que foi me apresentando fez despertar minhas atenções aos demais picos da ilha. Os quais estão isolados, sabe-se lá quanto tempo, esperando que alguém lhes deem a honra, ou o desprazer de uma visita. Espero que nosso retorno não demore, pois preciso buscar meus pensamentos que ficaram aprisionados em cada cume da Ilha mais bela de SP. FIM.
  6. Alto da Serra, no terminal Riacho Grande. Vale lembra que está tendo FISCALIZAÇÃO FREQUENTE da PM junta aos seguranças da empresa DETENTORA do terreno pelo qual se passa o início da trilha. Há pouco tempo fui abordado por lá, e em outra ocasião recentemente um amigo tbm foi. Estão fechando o cerco.
  7. Faltava uma semana para o feriado de Carnaval de 2017 quando decidi aceitar o convite de encarar um dos maiores desafios já proposto em minha vidinha de explorador: descer o vale do Rio São Lourencinho, localizado entre os limites de Juquitiba e a planície litorânea de Peruíbe/SP, em um corte longitudinal no meio da Serra do Mar, e colocá-lo no ranking das grandes e audaciosas travessias que cruzam o mundo selvagem da "Grande Muralha." Sem entender o "porquê", nem o "pra quê," me contentei com a honra de ser um dos escolhidos para tal feito. Pois éramos um time forte em questão de experiência, bravura e determinação. O grupo estava formado por: Daniel Trovo, Divanei Goes, Eduardo Loures, Marcos Prince, Rafael S Lima, Silvester Natan e Eu (Vgn Vagner), era um "DREAM TEAM" pronto para encarar qualquer pauleira que viesse pela frente, era um time que entrava em campo de combate com a confiança em alta. E essa confiança demasiada era o grande erro da trupe. Pois a Serra do Mar preparava uma grande surpresa para testar suas habilidades, sua resistência física e o controle emocional/psicológico de cada integrante. "Ela" iria nos castigar de uma forma em que iríamos sair de lá aos farrapos, com mais ferimentos na alma do que as lesões que marcaram a carne. E sem poder prever o destino, lá ia um bando de marmanjos com suas mochilas cheias de vocação para se lascarem da cabeça aos pés. rs Outros enviados do mesmo clã, duas vezes, já haviam feito suas tentativas em atravessar aquele vale de fora à fora em um expedição pelo "Inferno Verde". A segunda equipe foi a que mais rendeu resultados positivos voltados ao objetivo. Pois conseguiram chegar ao leito do Rio sob uma chuva descomunal. Mas a força bruta das águas que corria violentamente por aquele vale fez com que o grupo abortasse a missão e reduzissem a jornada apenas pelas nascentes do Rio. Com o nível, no mínimo, 1 metro acima do normal e potência máxima, seria suicídio prosseguir. Restou como alternativa o grupo engolir seus anseios e se contentar com o viram, voltar para sua casa e aguardar uma nova data para uma nova tentativa. E a data escolhida foi: 24/02/2017 - feriado de Carnaval. Confesso que aquele rio nunca me despertou interesse. Das vezes que tentaram cruzá-lo, mesmo sendo convidado, não me interessei. Mesmo na vez em que pude ir não tive aqueeeela empolgação. Os afazeres no trabalho também não me davam uma folguinha para que eu pudesse vasculhar o mapa junto aos envolvidos, estudar com veemência os desníveis mais acentuados, a quilometragem do leito a ser percorrida, curvas de nível, ponto de fuga e etc... Apenas confiei no faro, experiência e competência dos envolvidos, e confirmei minha presença naquilo que seria, mesmo sendo desconhecido por todos, a mais bela e tortuosa travessia que cada integrante do grupo já enfrentou pela Serra do Mar. São Paulo, 24 de Fevereiro, de 2017 - sexta feira, 18h. As trombetas do Armagedom já anunciavam o início do fim. Uma chuva, uma tempestade absurdamente forte veio a despencar e alagar toda São Paulo/Capital em plena data de início de nossa aventura, pouco antes do horário de encontro. Ruas viraram rios, carros eram levados pela correnteza, avenidas e marginais ficaram totalmente intransitáveis. Com essa situação caótica, o atraso era inevitável. Principalmente para o Divanei, que vinha do interior paulista em ônibus rodoviário. Quando cheguei ao local de encontro, já estavam por lá Natan e Prince. Natan ao celular confabulava com o cara responsável por nos levar até o bairro rural de Pedra Lisa, início de nossa odisseia. Mas, como as coisas estavam apenas começando, a notícia não poderia ser das melhores. O Rapaz disse que o câmbio da Kombi havia quebrado. É entre uma mensagem e outra, ele disse que iria nos levar, bem que fosse em um carro pequeno e em duas viagens. Mas o maldito ficou apenas nas mensagens, e nunca mais deu sinal de vida. Preocupado com o nosso pontapé inicial não chegar a existir, Natan ainda tentou outros contatos de Vans que, talvez, pudessem nos levar há tempo de colocar o plano em prática ainda naquela noite de sexta feira. Mas as tentativas foram em vão. A solução foi aguardar os demais integrantes do grupo chegarem para poder tramar alguma rota com os ônibus locais entre a Capital e Juquitiba. No Largo da Batata/Pinheiros embarcamos num ônibus, pra depois de 50 minutos aproximadamente desembarcarmos em frente ao batalhão da PM para tomar outro ônibus. Estávamos com sorte! Pois o coletivo tem um intervalo de cerca de 1h, e não deu nem 5 minutos para vir o próximo. Com as mochilas largadas no piso do ônibus tomamos de conta o corredor de circulação, e entre muita conversas e risadas seguimos até o nosso último desembarque às beiradas da rodovia Régis Bittencourt. Onde enfrentaríamos mais um dilema: como percorrer cerca de 20km de estrada de terra até o início da trilha? Era exatamente 00h00 quando pisamos nossos pés no acostamento da via. A partir daquele momento já não tinha como retornar. Então a solução foi caçar algum boteco que estivesse aberto e barganhar algum transporte até o local desejado. Em cima da passarela os mais visionários, feitos sentinelas das muralhas do antigo Carandiru, observavam o amontoado de casebres que pudessem ter algum veículo com porte para carregar 7 marmanjos + 7 cargueiras pesadíssimas. Uma delas era de 90 litros rsrs. Trovo, Divanei e Prince, com cara de mocinhos e boa oratória, foram bater palmas nas casas que tinham Kombi escolar, eram 3 Kombosas, na tentativa de persuadir alguém com a alma caridosa, mas ninguém queria saber de abrir a porta pra um bando de homens com vestimentas estranhas, quando os ponteiros já estavam passando de meia noite e tralalá, rs. Na esquina da estradinha com a rodovia, num breu danado, Natan, Rafael, Loures e EU começamos a abordar qualquer e todo veículo que dava seta e embicava na estradinha. Primeiro foi um Escort, beem véinho, se desmanchando aos pedaços que entrou na estrada, e quando ele voltou, não deu outra, fiz sinal e abordei o meliante que ia ao volante, dominado por substâncias ilícitas, junto à um comparsa no banco de passageiro, e uma mulher deita no banco de trás. Imagine a cena. - então guerreiro, vc conhece e é morador da região? - sou! Respondeu. - tem como você dar um carona pra gente? - até aonde vocês vai? - até o bairro Pedra Lisa. - longe pra caráleo, Mano. - a gente faz um rateio e chega junto com uma moeda pra você. - acrescentei. - mas depende. Quanto vocês podem dar? Quando eu falei: ah, uns R $70 o olho do bichinho brilhou. Os dois comparsas incentivaram ele a fazer essa corrida, e ele, nada besta, concordou. Nem que fosse feito em duas viagens. Disse que só iria deixar o camarada e a namorada em casa, e já voltava. Nesse intervalo continuamos com as buscas. O que aparecesse primeiro a gente encarava. Fiz um assobio para um motoqueiro que entrou na estradinha. O louco fez o retorno à milhão e veio nos dar atenção. Foi inocente demais, o coitado. Perguntamos se ele era da região, e se conhecia alguém que pudesse fazer o traslado. Mas ele não conhecia nenhum louco. Antes que o jovem motoqueiro desse partida para ir embora, da escuridão da estradinha de terra, surgiu a nossa última esperança. Nossa salvação. Uma caminhonete HR ocupada apenas pelo motorista e um passageiro, e carroceria vazia. A euforia foi tanta que só faltou alguém se jogar debaixo da caminhonete para que ele parasse. E quando parou, lógico, cercamos a cabine como se fossemos virá-la com os próprios braços. Dei início a uma negociação mequetrefe que não motivou nem um pouco o motorista a voltar de onde tinha vindo, pois, acabavam de fazer uma entrega justamente no bairro em que íamos. Eles não estavam querendo voltar lá. Falavam que estava tarde demais, que teriam que voltar pra São Paulo, e que se chegassem tarde demais teriam que se explicar com suas mulheres, etc e tal. Estavam irredutíveis, até que, Divanei, malaco de longas datas, tomou a frente das negociações e soltou o que realmente eles queriam ouvir... - leva a gente, cara. Põe um preço que a gente negocia. Ainda com certo resistência, querendo ceder, insistindo em não ir. Mas o Divanei deu um xeque-mate nos caras. - bom, a gente dá 200 contos pra vocês levarem a gente lá. Bora? Não deu outra. Em menos de um minuto a frente da caminhonete já estava voltada para o nosso destino, mergulhando de vez na escuridão do lugar. Quase 1h da madrugada, e lá estávamos nós, em cima de uma carroceria de caminhonete, contentes feito crianças, dando risada de tudo aquilo que vinha acontecendo pelo acaso do destino. Detalhe: se o cara do Scort voltou, deve ter ficado muito puto com a gente, e nos rogado praga para todo o sempre. rsrs Apenas o barulho do motor, e nossas risadas, rasgavam o silêncio daquele lugar tão isolado e pacato na calada da noite. Quase sem iluminação elétrica nos postes. A luz da lua estava mais atraente. Era o cenário que tivemos que acompanhar por mais de 1h, porque, além de perdermos o caminho correto e gastar mais de meia hora para perceber isso, o terreno tinha muitos pedregulhos, ladeiras que quase tocavam o céu, outras que desciam em direção ao centro da terra. Isso tornou a viagem muito lenta e longa. Exigindo muita frenagem, ou muita força do motor. Passado tanto chão de terra, eis que o fim da estrada chega, é hora de descer da carroçaria e por as pernas pra trabalhar. Nos despedimos de nossos anjos salvadores que, incrédulos, diziam que nós não éramos desse mundo, que não acreditavam que iríamos descer até o litoral rasgando a Serra sem haver trilha. - vocês são doidos! - finalizaram. As primeiras pisadas rumo ao desconhecido foram a dando continuidade por onde os carros já não passam mais. Onde luzes já não existem mais. Apenas as lanternas sobre 7 cabeças de animais não tão racionais que carregavam um mundo de coisas nas costas farejando o rastro de aventura que se encontrava naquele lugar, entre os matos mais rasteiros, charcos e atoleiros. A ótima audição dos cães captou nosso avanço a uma longa distância, o ótimo olfato também farejou o nosso avanço exalando adrenalina (e fedor, rs). Os latidos quebraram o silêncio, denunciando que aquele seria o último obstáculo de nossa noite. Contornar um rancho ainda habitado por um senhor que às 3h da madruga veio segurar os pulguentos pra gente poder passar. Mais um pouquinho de caminhada, e logo, a gente entrou numa picada à esquerda para iniciar nosso descanso, que, sem regalias, foi apenas um plástico estirado no chão, sob uma única tenda para todos, sem redes e sem isolantes térmicos. Apenas uma bivak coletivo onde vi alguns dormirem de conchinha rs. Juquitiba, 25 de Fevereiro, de 2017 - sábado, 7h00 Na manhã seguinte, por conta de tanto pernilongo zunindo em nossos ouvidos, parecia que tínhamos passado a noite inteira assistindo um campeonato de Moto GP no autódromo de Interlagos. Vários tapas na "zoreia." rs Depois de fazer fogo e fumaça pra espantar aquelas pragas, tomamos um cafezinho no capricho, recolhemos acampamento e perto das 10h começamos nossa marcha em direção ao afluente que deságua no largo leito do São Lourencinho. A caminhada, sempre na via que seria uma estrada, em barro duro e muito escorregadio foi feita em campo aberto. A partir dalí entraríamos num meio que iria nos manter por quatro dias sem fazer contato com familiares ou amigos, sem sinal de Smartphone. Sem socorro. Às beiradas de uma piramba escarpada, sem outra alternativa, a não ser nos lançar no fundo de um vale, começamos uma descida forte, abrindo caminho com as mãos, se agarrando em troncos e raízes, sendo espetados por espinhos, se arranhando em farpas e pedras, escorregando em terreno orgânico e rolando morro abaixo. E a surpresa que aquele vale guardava (pra quem não tinha ido até ali), era um cenário agradável de se ver. Um leito seco e amplo, com vegetação menos espessa dando ornamento espaçado entre as árvores. Diferente de outros lugares que já pisei na Serra do Mar. Com avanço de 200 metros, aproximadamente, a vida brotava do chão, límpida e cristalina, em forma de água abundante indo na direção que tínhamos que tomar. O cenário foi ganhando leve inclinação e ficando mais bonito do que já estava. Passamos por uma "cama" feita de material nativo, construída pelo Divanei em outrora, quando esteve por ali praticando técnicas de Bushcraft com Luciano Lourenço. Pequenas quedas e mini lagos rochosos iam preenchendo os meandros até o surgimento de sua fóz alimentando um dos rios mais limpos que já vi. A partir daquele momento tudo seria novidade ao grupo. Cada pedra, cada curva, cada poço, cada cachoeira, da menor até mais volumosa, tudo era inédito ao bando. A partir daquele momento estar com os pés submersos no São Lourencinho era nossa força motriz. Pois sabíamos que aquela seria uma jornada sem retrocessos. Apenas um frio na barriga por ter de enfrentar esse gigante rio, com mais de 30km de extensão em água cristalina. Uma água tão limpa que, ao entrar no rio com a minha máquina fotográfica no bolso, pude vê-la cair e ir direto ao fundo do poço, que tinha o nível na altura do peito. Pensei... lá se vai mais uma máquina engolida pelas águas da Serra do Mar. Já era, fotos, vídeos e qualquer registro pessoal que eu pudesse fazer sobre nossa aventura. Mas não foi bem assim! Só me dei o trabalho de esperar a agitação na água acalmar, e pedir pro Rafa pegá-la enquanto eu apontava sua direção. Claro que depois disso eu a amarrei em um barbante e fixei na mochila. Hehehe Sem nenhum líder, sem o conhecimento de qual caminho tomar, sem trilha, fomos avançando por onde era mais óbvio, sempre tentando permanecer dentro d'água, onde era fácil andar, boiar e fazer o plano ter mais fluidez. Pulando em poços e nadando quando preciso. Mas os primeiros obstáculos que vieram dar as boas vindas eram cachoeiras de pequeno porte, com +ou- 7 ou 9 metros de altura, com o instinto, eram contornadas e vencidas na unha. Desescaladas na raça. Em uma delas pude ver o início de um acidente se formando (e se formou). Estávamos indo pela margem direita, seguindo o fluxo do rio, descendo entre as rochas escorregadias, porém, cheias de agarras de apoio. O Natan achou melhor ir pela esquerda. Era uma cachoeira de aproximadamente 7 metros, que não imprimia medo, mas, poderia por tudo por água abaixo se não tomadas as devidas precauções. Havia uma leve saliência na rocha que formava um patamar. Foi esse patamar que brecou a queda do Natan quando ele tentou descer se segurando em um tronco pendurado, e tronco não aguentou. Do outro lado do rio tentei avisar, só foi o tempo de terminar de falar - créck - o tronco quebrou, e o nosso amigo despencou. Ainda bem que só foi um susto. Aliás, apenas um aquecimento para preparar o coração. Depois desse primeiro susto foi só recreação, diversão de gente grande. Cada obstáculo que vinha pela frente era vencido com saltos partindo das cabeceiras das cachoeiras, pedras que serviam de trampolim para pularmos nos grandes/gigantescos poções que, com profundidade absurda e transparência na água, permitiam nossos pulos da altura que fosse sem medo de ser feliz. Depois era sobre deixar levar pela correnteza e procurar um ponto de saída pelas margens. O progresso do primeiro dia de expedição foi assim: desescalando dentre as águas de cachoeiras e corredeiras, contornando uma ou duas quedas varando mato, mas a dádiva do dia foi poder vencer as maiores cachoeiras lançando as mochilas na água e saltando de suas cabeceiras deixando que apenas a correnteza nos levasse pra frente. Passar um dia inteiro assim, sob um sol de rachar o coco, se divertindo feito criança e esbanjando alegria por estar vendo e vivendo algo surreal num ciclo de amizade e companheirismo, realmente, era mágico. Era tanta energia positiva pairando no ar, fazendo tudo fluir tão bem, além do que esperávamos, que jamais imaginaríamos que fosse acontecer algo de diferente de tudo isso. Mas aconteceu! Vez ou outra, acompanhando o trajeto pelo mapa, sabíamos que teríamos um grande obstáculo pela frente. Um cânion gigantesco, abrigando uma sequência de cachoeiras de até 50 metros de altura, recebendo um afluente monstruoso pela direita, tinha de ser vencido. Só não sabíamos se seria no primeiro dia que chegaríamos de fronte a esse desafio, mas chegamos. Ali começaria uma sucessão de acontecimentos que transformaria o êxtase coletivo em inferno astral. Quando avistamos uma janela se abrindo no céu, a lâmina d'água desaparecer despencando em uma cratera que se abriu em meio àquele emaranhado verde, o pensamento foi unânime: tem coisa grande pela frente. Chegamos! E a surpresa foi satisfatória. Já que pensávamos que haveria a possibilidade de não conseguirmos chegar ali no primeiro dia de caminhada. E a decisão foi vencer essa etapa já naquele mesmo dia, Já que os ponteiros ainda estavam chegando às 17h, teríamos tempo para isso. Tomamos o rumo da encosta esquerda, e fomos desescalando com cuidado e técnica a 'Cachoeira Vários Caminhos', imponente por seu tamanho e beleza singular de ter filetes escoando água por varias vias. Ao chegar em seu poção a missão nadar pela borda esquerda até um ponto onde tivemos que subir uma rocha escorregadia e sair da água antes de sermos tragados pelo funil que formava a próxima de cachoeira uns 50 metros. Cair ali seria fatal. Fizemos uma pausa para contemplar aquele cenário incrivelmente belo e perigoso, tirar umas fotos e decidir por qual rumo iríamos prosseguir. À nossa frente, em ambos os lados, precipícios nos obrigaram a entrar na Mata pela esquerda e subir na base da escalaminhada um morro feroz que ia bem acima do topo da cachoeira, e depois tentar achar um caminho menos perigoso para descer até a base da grande queda. Começamos um puxa-puxa de raízes e troncos, fazendo um esforço danado para continuar subindo aos trancos e barrancos. Estávamos mais ou menos nesta sequência: Trovo, Prince, Natan, EU, Rafael, Loures e Divanei. Em certa altura, olhando para trás, tivemos uma vista exclusiva e privilegiada do grande afluente que abastece o São Lourencinho pela direita despencando há mais de 100 metros em uma robusta e volumosa queda d'água que a batizamos de Cachoeira Mãe da Serra. Ficamos boquiabertos, perplexos, com o tamanho da queda, mas o tempo de admiração foi curto. Pois o alto preço a ser pago por estarmos ali acabava de começar chegar dando inicio ao nosso momento de terror. Trovo, que ia entre os primeiros, sofreu os primeiros golpes. - ai. Algum bicho me picou. Pensando que fosse uma aranha, ficou parado, procurando pelo bicho, porém, nada achou. Em seguida, de novo... - ai, me picou de novo - enfatizou. Depois foi a vez do Natan... - ai, me picou também. De repente... Alguém gritou, COOORRE! VESPAS. E começou uma correria desesperadora. Estávamos sendo atacados por um enxame de Vespas no meio da mata fechada, com o peso das mochilas nas costas, numa inclinação de terreno nada favorável que não deixava a gente correr. Ficamos presos por alguns instantes sofrendo com as picadas de várias vespas. Tentamos sair o mais rápido daquele lugar, mas estava difícil. À nossa direita havia um precipício de uns 60 metros, e cair a uma altura dessas nao seria nada legal. Saímos quebrando galhos, tropeçando em raízes, completamente desesperados por conta da intensa dor provocadas pelas picadas. Loures e Divanei, que eram os últimos, conseguiram recuar. O Rafael que acabou ficando por último foi quem levou mais picadas. Era um show de horrores a gritaria que se formou na floresta. Todos gritando e gemendo enquanto tentavam correr. A dor causada pelo ferrão e pelo veneno se compara a cigarros densos apagados na pele. Uma ardência aguda e infernal. Fomos perseguidos por um bom tempo. Quando achávamos que estávamos livres, sempre aparecia alguma vespa. Tivemos que nos afastar bastante do Loures e do Divanei, pois era certo que não viriam pelo mesmo caminho. Eles saíram varando mato pra esquerda, tentando fugir do enxame. E conseguiram. Quando nos vimos a salvos, distantes daquele bando de "Satanás alados," esperamos pelos dois, que gritavam na tentativa de localizar onde estávamos. Quando nos encontramos, falamos o que tinha acontecido, e por sorte os dois não foram pegos pelas vespas. Apenas perceberam que algo não ia bem quando começou a gritaria e o corre corre, a reação foi recuara o mais rápido que puderam. Juntos novamente, vimos que todos estavam bem e tudo estava (aparentemente) normal, então decidimos seguir. Tomei a frente como batedor do grupo, procurando vias menos perigosas para contornar o despenhadeiro que tinha à nossa frente e chegar o quanto antes no leito do rio. O Trovo vinha dando suporte na direção a ser tomada. Fomos abrindo cada vez mais para a esquerda em diagonal (obrigados a Isso), e quando tomamos uma reta em direção ao fundo do vale, paramos para esperar o restante do grupo e permanecer todos juntos. Pois seria bom estarem todos por perto se acontecesse algo (e aconteceu). Estávamos mais ou menos na metade da descida, crentes de que chegaríamos no rio sem maiores problemas, quando de repente, ouvi o Rafa gritando: - abelha. Corre, corre. E um novo desespero tomando conta do grupo. A galera, inclusive eu, começou a descer sem freio, um pulando por cima do outro, fazendo pedras rolarem, derrubando o que tinha pela frente. Parecia uma corrida maluca que daria 200 milhões de reais pra quem chegasse primeiro. O Trovo ainda tentar disse: - calma, gente. Calma! - abelha, Mano. Corre, abelha - respondeu o Rafa. - vai lá. Só não morre. E o alvoroço continuou até o leito do rio. Onde a grande maioria conseguiu chegar sem levar ferroadas de abelhas. Já o Rafa, coitado, tinha levado um monte de picada de vespa, e com as abelhas não foi diferente. A primeira reação dele foi entrar na água para acalmar os ânimos, mas eram um choque muito forte, ter levado tantas picadas, num lugar tão ermo, sem socorro e, ainda, tentar manter a mente fria. Não teve jeito, o psicólogo dele foi abalado, e com isso vieram as lágrimas que não vieram da dor. Os fatos acabaram causando um abalo sísmico de 9 graus na estrutura do grupo. Nossa moral foi jogada no chão e pisoteada por uma manada. A gente não tinha forças para andar nem mais dez metros à frente. Era hora de encerrar as atividades do dia, montar acampamento ali mesmo e tentar se recompor para o dia seguinte. Foi isso que fizemos! Mas a tormenta estava apenas no início. Procuramos os lugares menos horríveis para acampar, mas o terreno era totalmente acidentado, sem ter 1 metro quadrado de área plana para, pelo menos, cozinhar. Nos ajeitando do jeito que deu, na encosta à beira rio, armando as redes não tão longe umas das outras. Fui um dos primeiros a fazer a janta para poder ceder o fogareiro ao Rafa, que estava sem, e assim que terminei de comer fui de encontro aos companheiros, jogar conversa fora e dar um apoio moral enquanto eles cozinhavam. Mas eu não imaginava que ali começaria um dos maiores sofrimentos da minha vida. Sentei em uma pedra que, pela altura, serviu certinho como um banco. À minha esquerda o Rafael esperava sua gororóba ficar pronta, um pouco acima Divanei, com suas perninhas de grilo cruzadas, estava aberto à prosas, à minha direita Natan também tagarelava pós janta. Entre ele e eu (o perigo), o fogareiro fervia água para o macarrão do Rafa, e quando começou a borbulhar, começou a balançar. Só foi a Natan avisar pro Rafa tomar cuidado com a panela, que ela estava fervendo e balançando. Ele terminou a frase, e a panela virou toda a água fervendo em cima do meu pé, que estava calçado apenas de meias. Os mais altos gritos de dor que já dei na vida ecoaram na floresta assustando qualquer bicho de hábito noturno. - água, água, água... Foi a única coisa que me veio à mente no momento. E enquanto eu gritava, berrava de dor, conseguiram um restinho de água no cantil e jogaram no meu pé. Tirei a meia e tentei ser mais forte que a dor. O Natan ficou perplexo com que estava acontecendo, estava estampado em seu rosto a preocupação com o que seria de nós dali pra frente. Ele ficou tão abalado que seu semblante expressava culpa. Cheguei a pensar que foi ele quem chutou o fogareiro sem querer. Pedi pra que ele ficasse tranquilo, pois acidentes acontecem. O Rafa, instantaneamente disse que perdeu a fome, em seguida começou a vomitar. Disse que foi por estar estressado. Uma reação emocional comum de seu organismo. Não tinha muito o que fazer, as bolhas começavam a brotar assustadoramente no meu pé. Ainda abalado psicologicamente o Rafa enfatizou que na manhã seguinte, assim que chegássemos numa área plana, teríamos que chamar o resgate, pois não iria dar pra continuar com o meu pé daquele jeito. Mas naquele momento o que nos restava era repousar e tentar acordar o mais forte possível (moralmente falando) no domingo. Tomei 1 analgésico e anti térmico para me precaver da febre que poderia vir após a formação das bolhas, e fui deitar com muita dor. Aliás, todos foram deitar. O Natan e o Rafa tinham amarrado suas redes nas mesmas árvores, formando uma "beliche." Quando o Natan subiu na rede para deitar (créck) a árvore estalou e começou a ceder, obrigando ele a procurar outro local para armar a rede e poder descansar. O Rafa voltou a ficar nervoso, gritou de revoltado, puto da vida, e vomitou novamente. Era muito azar para uma única noite, mas não parou por aí. Todos já estavam em suas redes, com as lanternas apagadas, e o Rafa vomitando mais do que bêbado em final de festa open bar. Quando parou, ficou deitando na rede, agonizando de dor. Enquanto isso acontecia eu começava me contorcer de dor, meus gemidos clamavam por qualquer alívio que fosse. A carne queimada do meu pé começava a sofrer algum tipo de deformação para dar espaço para as bolhas crescerem. Elas ganharam volume rapidamente, eu tentei aguentar a dor, mas, os calafrios que me faziam tremer também balançavam minha rede. Tentei orar, pedir pela misericórdia de Deus para aliviar meu sofrimento, mas não conseguia me concentrar. Meu pé parecia estar em uma fornalha repleta de brasas. Os calafrios só aumentavam, eu já estava gemendo por conta de uma dor insuportável. Fui acometido por um medo de adormecer e acabar sendo surpreendido por uma hipotermia durante a madrugada fria da Serra do Mar e não acordar mais. Não aguentei... Na esperança de conseguir algum remédio para amenizar a dor, comecei a chamar pelos amigos que estavam em melhores condições. Trovo não tinha remédios, Natan também não, Loures e Prince, idem. Apenas Divanei estava munido de uma variedade de medicamentos, desde A.S à antibióticos e analgésicos. Tinha droga para dopar um Mamute em minutos. rsrs. Ministraram 35 gotas de Dipirona para eu tomar, enquanto me davam atenção avaliando a queimadura que chegou a ser de 2° grau. Tentavam conversar sobre o que seria feito na manhã seguinte, já que eu cheguei a um estágio de não conseguir mexer o pé. Trovo optou por ficar por ali, perto dos enfermos, já que teve azar de rasgar sua rede quando se deitou e ela, totalmente esticada, encostou em uma pedra e se abriu. Como haviam descartado a possibilidade de chamar o Águia na manhã seguinte, apenas tentavam solucionar a questão por meios próprios, já que chamar o resgate iria demandar mais uns 5 dias. Pois não havia sinal de celular na região. Teriam que terminar a travessia, procurar por sinal, chamar e aguardar socorro, para depois voltarem ao encontro do "acampamento Cruz vermelha." Duas hipóteses eram vistas com maior atenção: • fazer uma maca para me transportarem por terra, e adicionar as mochilas estanque quando fosse preciso boiar pelo rio; ou • cortar a frente do peitoral da minha bota (novinha), mantendo restante do pé protegido de galhos, pedras e animais. Me permitindo andar, mesmo que devagar. Nenhuma das alternativas estavam me empolgando para serem executadas. Eu achei melhor a gente descansar durante a noite, para no dia seguinte saber como iríamos proceder. De repente as náuseas apareceram sem me dar a chance de controlá-las. Deitado ali mesmo, só coloquei a cabeça de lado, e comecei a vomitar. E vomitei muito. Isso trouxe a certeza de que o Rafa não estava vomitando por estar passando nervoso, era o veneno das Vespas agindo em nossos organismos. Pelo tanto que o Rafa estava vomitando, o medo era de que ele pudesse ter convulsões durante a noite. Já que todo o castigo que estávamos recebendo parecia pouco, não seria uma surpresa se isso viesse a acontecer. Pois todos que foram picados tiveram reações ao veneno. Mais tarde o Trovo também vomitou e ficou com o intestino solto, o Natan delirava em febre somada à enjoos. Vomitei por três vezes e acabei jogando fora todo o remédio que tinha tomado. O Divanei não queria perder a chance de me matar (rs), ministrou mais "doses cavalares" de medicamentos para acabar com a minha dor e à minha raça. Quando a sessão de vômitos teve maiores intervalos, cada um foi dormir da maneira que pode, e, eu desmaiei na rede de tão fudido que estava: pé queimado, morrendo de dor, vomitando, intestino solto e dopado. Não vi nada! Foi um "Boa noite Cinderela." Eu só acordava no meio da madrugada pra cagar ou vomitar. O Rafa também. Inclusive, teve um momento em que eu me levantei para vomitar, e fiz um barulho tão forte antes do "jato," que mais parecia um bicho rugindo. O Loures levantou assustado e acendeu a lanterna... - o quê que é isso aí, Mano? O que tá acontecendo? Responde! E eu agachado, sem poder responder, só olhava para trás. Logo ele viu de onde vinham o barulho, e pode deitar mais tranquilo. Não adiantava muita coisa ficarmos em alerta esperando algo de pior acontecer, o cenário do caos estava formado, para morrer só faltava a Dona Morte terminar de amolar sua foice e terminar o trabalho (que não era difícil de fazer). Enfermos, feridos e moribundos jogados nas redes, necessitando de cuidados médicos sem haver nenhum há quilômetros. Vômitos e fezes espalhadas por todo canto representavam o real sentido da palavra podridão. Pela altura dos acontecimentos já não existia mais força moral entre o grupo, a resistência física e psicológica já tinham ido rio baixo. Abalados conta tanta desgraça despejada sobre nós, o desejo de todos era que aquele pesadelo todo acabasse o quanto antes, e que todos pudessem sair dali com vida. E com esse desejo alojado no peito se encerrava nossa noite de terror em meio a Serra do mar. Serra do mar, 26 de Fevereiro, de 2017 - Domingo, 7h30 A luz do sol anunciava que teríamos um dia lindo pela frente. Só não sabíamos como seriam as primeiras horas desse dia, pois estávamos em recuperação estrutural depois de sair do olho do furacão, em uma noite em que fomos surrados, espancados pela força da mãe natureza. Poucos já estavam de pé, recolhendo seus pertences, agilizando seu desjejum, mas sem pressa. Todos estavam cientes que bater em retirada seria algo tardio. Trovo estava bem adiantado, com quase tudo recolhido, aguardava ansioso pela reação dos moribundos, ou temia ter de contar alguns corpos dentre os que foram atacados pela chuva de dardos envenenados. Quando levantei e me sentei na rede consegui ter uma noção do quão estava horrível o nosso acampamento. Tinha vômito e fezes por todos os lados, e um fedor de embrulhar estômago. Até cocô de alguns bichos estavam pelo chão. Algum animal de médio porte comeu os dejetos e passou mal também rsrs. Havia cocô de Jaguatirica ao lado do vômito e da rede do Rafa. Nosso garoto estava, realmente, estragado kkk. Fiquei feliz por todos os combatentes terem resistido àquele situação truculenta. Aos poucos estavam se erguendo para mais um dia de batalha. Rafa, um dos que mais preocupavam, também levantou e demonstrou que passava bem. À margem do rio avistei o Loures lavando seus itens. Me espantei com o tamanho do inchaço que ele tinha no olho esquerdo. Ele levou apenas uma picada de abelha, mas, foi o suficiente para deixá-lo cego de um olho por quase dois dias. Ileso mesmo só o Divanei, que não levou nenhuma picada de inseto em nenhum dos dois ataques. Eu já não sentia tanta dor se comparado com a noite anterior, as bolhas estavam enormes e necessitando de cuidados, era evidente que eu precisava de um médico, mas não seria preciso chamar pelos serviços do comandante Hamilton (chamar o resgate) rs. Como seria demorado um curativo de proteção ao meu pé, a rapaziada (Divanei, Loures, Natan e Prince) decidiu voltar um pouco mais rio acima, não iriam deixar passar batida a oportunidade de ver uma das maiores cachoeiras do trecho (Cachoeira das Vespas), sendo que ela estava tão perto de nós. Trovo se encarregou de ser meu enfermeiro/escravo, passou vaselina pastosa na queimadura, adicionou um adesivo de silicone cedido pelo Loures, enfaixou com atadura e em seguida calcei a meia. Sempre compro meus calçados um número maior do que realmente deveria usar, isso evitou o atrito entre o couro da bota e o ferimento. Afrouxei os cadarços e consegui calçar a bota tranquilamente, sem pressionar a área do ferimento. Tomei minha dose homeopática de Dipirona para evitar a febre e deitamos no chão para relaxar enquanto a galera não chegava com as novidades. Chegaram uns 40 minutos depois, renovados e inspirando a continuação da jornada. Já era certo que seria um fardo pesado a ser carregado, eu iria sofrer! Ter que terminar aquela expedição que foi programada para findar em 4 dias, agora tinha expectativa de pelo menos 5, ou ate 6 dias se fosse necessário usar uma rota de fuga em direção a Fazenda que estava mais próxima de nós. Há 3 quilômetros de distância, em linha reta, varando mato entre uma sequência de vales entre as montanhas. "Mas o bom filho só carrega aquilo que o bom Deus sabe que suportarás." Começamos a andar por volta das 11h, varando mato logo de cara, pra depois voltar de vez a sermos parte do rio. Eu estava muito debilitado (o Rafa também), fraco por estar sem uma alimentação decente, tudo que tinha sido ingerido no dia anterior já tinha virado adubo, nada nutria nosso corpo, a fraqueza era notável e a lentidão inevitável. O grupo teria que ser paciente, pois, aquele seria nosso ritmo até os últimos minutos da travessia. Foi bom ver que não haviam mais grandes desníveis acumulados para vencer. Tudo que vinha pela frente era encarado com saltos, desescaladas breves e flutuação no fluxo do rio. Foi isso que me ajudou, e muito. As vezes apareciam alguns paredões espremendo/estreitando o rio formando gargantas perigosas para pular às cegas já que o borbulhar das águas encobria a profundidade e visibilidade. Algumas nem preocupavam tanto. E aí onde mora o perigo. Teve uma cachoeira em específico que fazia uma curva forte pra esquerda (um "L" na verdade), que não era tão alta, mas imprimia muita força em seu enorme poço formando uma correnteza contra sua parede frontal, que consequentemente formou um grande redemoinho no cantão direito. E a única alternativa que achamos para vencer essa cachoeira foi: usar a corda para descer as mochilas na água, pular no olho do redemoinho e sair dali à nado. Meio sem sentido, mas era o que estava dando resultados. A não ser para Divanei e EU, que fomos pegos por uma força absurda da correnteza que formava o redemoinho e ficamos presos, sem conseguir sair do lugar. Por mais força a gente fazia, por mais braçadas que a gente dava na água, não saímos do lugar. Era como se ele e eu estivéssemos disputando corrida numa esteira ergométrica. E mesmo com colete salva vidas foi tenso! Mas teve um momento que vimos que nossa luta não seria em vão, nos agarramos em pequenas fendas no paredão, nos impulsionamos e conseguimos sair. Foi necessário jogar a corda para fazer o resgate das mochilas, e para piorar, a corda ficou presa em alguma fenda nas pedras submersas e teve de ser resgatada também. Cortá-la não era uma boa opção! Cada centímetro poderia nos tirar de qualquer sufoco que aparecesse rio abaixo. Em outra situação, após atravessar uma forte correnteza usando corda às beiras de uma cachoeira, Trovo deu o primeiro salto como sempre vinha fazendo, para verificar cono era o poço, foi encurralado por um redemoinho que o prendeu por um tempo que foi o suficiente para deixar todos em alerta e com os coletes em mãos prontos para jogar ao nosso amigo. Outra coisa que nos preocupava eram os barulhos de trovão que vinham se aproximando com nuvens carregadas e trazendo chuva forte. Só foi o breve tempo de escurecer o vale, deixar o clima mais sinistro e selvagem do que já estava, e começou a chover. Pronto! Voltamos a ficar em estado de alerta. Pois a chuva veio forte, a partir daquele momento o risco de "cabeça dagua" era eminente, tudo ficaria escorregadio e o equilibro sobre as rochas e pedras estaria fora de nosso controle, a ponto de causar novos acidentes. Loures escorregou numa pedra pela beira do rio e abriu um corte no lábio superior, mas não foi algo tão grave. Pode ser estancado com adesivo de silicone. Do mesmo que ia no meu pé. Como eu estava sempre por último, toda vez, antes de entrarmos em algum poço ou garganta, eu olhava para trás por alguns segundos observando se haviam alguma alteração repentina no nível do rio. O medo era de sermos surpreendidos por uma tromba d'água, como aconteceu na tentativa de atravessarmos o rio Itariru, um ano antes, e não ter tempo hábil para escapar. Mas a mãe natureza teve piedade de nossas almas. Não iria nos colocar em tamanho perigo, sendo que já havia nos castigado em excesso no dia anterior. Seguimos atravessando poções com mais de 50 metros de extensão, debaixo de chuva forte, dentro de um cenário incrivelmente belo e intimidador. Da mata vinha um silêncio angelical, no corte do rio uma névoa pairava baixa sobre vale, e nossa tropa avançando devagar, boiando pelo sobre a água proporcionou um espetáculo a parte, que ficará guardado em nossas memórias. Tanta ação já estava me levando a exaustão. Os braços e pernas já estavam começando a "pifar" dando sinais de fadiga muscular. Como eu, Rafa e Trovo não possuíamos uma mochila estanque, cada, tivemos que nos dar o lixo do sofrimento em erguer o peso da mochila encharcada toda vez que saia de algum poço (escorria uma cachoeira de cada mochila), e isso era uma tarefa cansativa. Houve um momento em que tive cãibras em ambos os membros bem na hora em que estava no meio de um poção, me esforçando para vencer a água sem correnteza. Ainda bem que o Divanei vinha logo em seguida, pois precisei de ajuda! A mochila presa nas costas estava pressionando meu rosto contra a água, eu não conseguia me virar por conta das cãibras. Estava engolindo água e quase me afogando usando colete. Pode isso, produção? rsrs Quanto mais a gente avançava, mais pessimista eu ficava em relação ao próprio desempenho. A rapidez do grupo era notória, e a infinidade de poções que apareciam estavam me ajudando e ao mesmo tempo acabando comigo! Eu estava muito fraco/debilitado, cansado física e psicologicamente. Pensando e me perguntando se eu realmente iria aguentar concluir a travessia. Estava difícil! Bateu um certo alívio com o cessar da chuva, e todos os poços voltaram a transparência de antes, permitindo a visibilidade total do fundo do rio. Quando ele se tornou pedregoso e largo recebeu um afluente de grandes proporções vindo da esquerda e um lago imenso com água à baixo fluxo. Atravessando esse lago à nado, algum dos nossos avistou na margem esquerda algum sinal de que havia passado alguém por lá (pescadores). Fomos averiguar, e acabamos por ter um oásis para o próximo pernoite. Passava pouco das 16h, mas não teve discussões quanto o local. Era um terreno extremamente plano, com árvores de todas as qualidades para todos amarem suas redes, e à beira do rio. Seria perfeito se não fosse pela quantidade de pernilongos que vieram de se alimentar de sangue novo. Oh praga. 27 de Fevereiro, de 2017 - segunda feira pela manhã. Não recordo do horário que levantamos. Mas me lembro muito bem de estarem todos mais tranquilos por terem passado uma noite menos pavorosa que a anterior. Os únicos incômodos mesmo foram os pernilongos, o calor excessivo que fez durante a noite, e o Rafael tenso pesadelos durante a madrugada, gritando: sai, sai. rsrs Não demoramos muito, e logo nos jogamos dentro d'água para continuar a árdua tarefa de vencer aquele rio. A "Boa notícia" era saber que não iriam aparecer mais cachoeira pela frente, e que o terreno seria mais plano. É a má notícia era derivada da boa. Ao mesmo tempo que o terreno iria se estender plano, ele seria longo, mas muito longo mesmo, até o de Itariri, onde estava planejado o término da travessia, há mais de 25 km de onde estávamos. Outro fator não tão agradável, era que o rio seria, a partir dali, largo, entre fundo e raso, e pedregoso demaaais. O que tornaria tudo muito repetitivo. Maçante. Com o pé não tão cheio de dor quanto no dia anterior pude acompanhar mais de perto a rapaziada, que também se demonstrava mais sadia. Integra. Logo nas primeiras curvas encontramos um rancho de pescadores, fresquinho, recém abandonado em bom estado. Em meio aos apetrechos que deixaram para trás encontrei um cupom eletrônico de uma farmácia, onde os indivíduos compraram algum remédio, e umas guloseimas. O cupom também denunciava de onde e em qual data vieram, Praia Grande, 13/02/2017. Dez dias antes de nós. Como no acampamento em que pernoitamos, procuramos vestígios de trilhas que pudessem nos levar à algum lugar mas não encontramos nada. Tínhamos que ficar em alerta, pois já era hora de encontrarmos algum caminho/ trilha para deixar aquele para trás. Continuamos nossa difícil tarefa de andar em solo pedregoso e atravessar a nado grandes poções de águas cristalinas refletindo o verde verde da mata e refrescava nossas cacholas que ardiam sob o sol escaldante daquela segunda feira. Óh céus, que vida. rs Depois de horas nadando e andando, passamos pela Ilha São Matheus, em pleno sol do meio dia, numa curva acentuada de rio, dentro de um poço gigante, ouça uma voz diferente invadir nossa conversa. To delirando? Alucinação? Talvez!?? É quando paramos para ouvir melhor, vieram latidos de dentro da mata. Pronto! Estávamos certo de que haviam caçadores por perto. Iniciamos uma balbúrdia para que viesse ver o que acontecia em meio a tanto silêncio destinada à caça. Apareceram três cachorros e dois caras, de um total de 4 jovens, mal encarados, a riscos com nossa presença e despejando aquela atenção de quem não quer ser incomodado. Isso ficou claro quando começamos a fazer perguntas de como sair dali, por qual caminho seria melhor, o mais curto e o mais fácil, etc e tal. Mas as respostas só vinham acompanhadas de mentiras, pois o que eles queriam mesmo era nos ver longe dali o mais rápido possível. A única "meia verdade" que responderam foi que ali partiria uma trilha, de aproximadamente três de caminhada, e que nos levaria à Peruíbe. Mas que se arriscássemos ir por ela a gente iria se perder por que a trilha era muito fechada. O restante do que ele disse era tudo balela. Tínhamos a noção (e o mapa) de onde estávamos e o quanto iria demorar se continuássemos pelo rio. Saímos da água pela margem esquerda, oposta à deles, para continuar um tanto pelo mato, e acabamos achando o acampamento deles. Tudo bem ajeitado, com comida no fogo a lenha e tudo mais. Averiguamos o entorno, encontramos uma trilha, e sem pensar duas vezes, nos enfiamos nela à todo vapor. Andando rápido pela ânsia de acabar aquela jornada, e pelo receio de não saber qual tipo de maldade e armamentos aqueles caras possuíam. A trilha começou bem aberta sem muitos obstáculos, apenas cruzava alguns riachos e tinha leve elevação. Hora começava a fechar de vez, e tínhamos que nos dividir e farejar o rastro dela. A dificuldade veio quando a trilha se lançou morro acima para vencer uma serra e nos jogar no fundo de outro vale. Meeeeu Deus, que subida cruel. Pior que a do Capim Amarelo na Travessia da Serra Fina. Nessa hora o sofrimento foi coletivo! Do mais preparado ao mais fudido o sofrimento era o mesmo. A língua se arrastava no chão, o fôlego não vinha aos pulmões, andávamos 5 metros e parávamos 10 minutos para descanso. O Divanei, que já entrou nessa expedição com o joelho lesionado de aventuras anteriores, sofreu com uma pitada a mais de "SIFUDEX." Ele que não costuma, nem gosta, de ficar entre os últimos do grupo, liderou a lanterninha por toda a subida e sua continuação. Três horas vocês chegam em Peruíbe- disse o caçador. O cú dele. Levamos quase uma hora sonora vencer essa primeira piramba morro acima, e ainda estávamos no começo da caminhada. Quando a trilha começou a descer, desceu bastante, mas não foi algo tão absurdo quanto na subida. Passamos por ranchos bem estruturados, abandonados há tempos, deteriorados e dominados pela mata que cresceu ao redor, cruzamos novos riachos, subimos e descemos novos morros e por mais que se possa imaginar, encontramos mais um rancho, em bom estado, habitado por dois caçadores figuraças, Ricardo/Índio e Barba/Hippão, que deram a maior atenção, mas também nos queriam distantes. Contando brevemente o que passamos pelos dias anteriores, o Barba perguntou: - posso chamar vocês de malucos? Porque é isso que vocês são!! - e soltou uma gargalhada hilária pra nos confortar. Não contente em explicar o caminho, Ricardo/Índio fez questão de nos levar à picada de acesso ao último sobe e desce antes da planície litorânea de Peruíbe. A gente já tinha passado de frente à picada, mas, como estava bem fechada, passamos sem perceber. E se não fosse por eles, nunca iríamos encontrar aquele caminho. Ainda tínhamos 2h para caminhar antes do anoitecer, e como o Índio tinha dito que em 1h30 a gente conseguiria chegar no final da trilha. Nooosssa, o olho do Trovo brilhou, e seu entusiasmo se elevou à 1000. E crente que nosso sofrimento terminaria naquele mesmo dia, tomou a frente do grupo e ditou um ritmo forte para tentar fazer isso acontecer. Mas não deu. Perdemos a trilha por diversas vezes por conta que árvores caídas que cobriam o caminho, ou porque a trilha realmente sumia do nada. A situação já voltava a ficar embaraçosa, enroscamos em um trecho, que, mesmo nos separando para procurando a continuação da trilha, não havia havia progresso. Era uma área com muitas árvores caídas, e em baixo delas um ninho de cobra às escondidas. Uma delas foi em direção ao Natan, que, de costas, não viu o suposto bote que levaria. Só foi o tempo de avisá-lo: cobra, Natan. E a danada passou direto depois que ele pulou e saiu rolando pela esquerda. Logo depois, em cima de uma rocha, Loures também levou sofreu um bote de cobra na perna (estava de perneira), de um salto mortal sobre a serpente e saiu rolando piramba abaixo. Com isso, bateu a cabeça e abriu um corte acima da sobrancelha. Ainda bem que não foi nada grave. Á noite já havia caído, estávamos numa encosta feroz, onde a inclinação era dominante, sem ponto de água por perto, e nos encrencando cada vez mais. E mesmo com a gana de prosseguir pulsando no peito, o coletivo decidiu por sensatez armar acampamento na única área plana que achamos onde só havia inclinação. Era notável que não iríamos concluir tudo naquela noite. Aconchegamos nossos medos em uma fogueira feito pelo Prince, a qual ajudei a abastecer com madeira morta que alguns de nós coletaram pelo entorno. Os últimos acontecimentos tinham elevado a adrenalina novamente, e a hipótese de ter que passar toda a noite sem comer, ou se hidratar, por não ter água por perto já trazia na mente a visão de mais uma noite de sofrimento. Mas dupla dinâmica: Louco & Teimosinho (Loures e Trovo), mostraram seus peitos de aço e saíram em busca da água sagrada. Às 20h00 se equiparam com perneiras, lanternas, apitos e saco estanque e partiram varando mato noite à fora, para retornar perto das 23h00 munidos de água suficiente para saciar a sede de todos e preparar o rango. A medida desses caras foi uma medida salvadora. No intervalo dessa busca pelo líquido precioso eu tomei minha última dose de "SIFODEX" ao meter o calcanhar na ponta da unha do dedão do pé que estava queimado. A unha levantou e quase saiu por completa do dedão. Que dor, que dooor...!! Mas dessa vez fui mais macho e não soltei nenhum grito. Só gemidos baixinhos que poucos perceberam. Só depois disso tudo pudemos iniciar aquilo que seria nossa última noite de descanso em meio ao mundo paralelo que é a Serra do Mar. Serra do mar, 28 de Fevereiro, de 2017 - manhã de terça-feira Sem muito a ser feito, desmontamos nosso alojamento, comemos o que restava de alimento entre as mochilas, e tocamos pra baixo, seguindo a trilha que nos fugiu no crepúsculo anterior. Mas não passou muito, ela voltou a fugir e sumiu de vez, nos obrigando a varar mato até cairmos numa vala de afluente seco. Perdendo bastante altitude chegamos a encontrar água descendo em abundância, e seguimos pelo mesmo caminho. Quando paramos para descansar um pouco, lavar o rosto e dar um gole na água, um bela de uma jararaca veio dar o ar de sua graça ao grupo. O fez a gente sair dali o mais rápido possível. Não demorou muito, e no mesmo caminho que a água fazia, vimos uma mangueira captando água do rio, e isso provava que alguma moradia teria de existir no final dessa canalização. Decidimos seguir o "ladrão." Creio que em menos de 100 metros a Mata se abriu escancarando um céu lindamente azul aos nossos olhos e pondo fim a uma caminhada árdua com mais de 10 km desde que abandonamos o rio. O terreno era terra firme, um sítio com casas abandonadas, um lago nos fundos e um trator "Transformers" sendo desmanchado pela ferrugem. Ali foi o ponto final da travessia, onde, sentados no chão, comemos goiabas pegas direto do pé e chupamos canas retiradas pelas próprias mãos. Dalí partimos em um caminho de mato alto, desembocamos na Estrada do Ouro, que leva à Cachoeira de mesmo nome e seguimos no sentido contrário, rumo ao ponto de ônibus, que fica sobre uma ponte onde corre um rio por baixo e que serviu de parque de diversão para a galera. Tinha uma família fazendo churrasco á beira rio, da qual o líder teve a péssima ideia de oferecer carne aos trogloditas que estavam na floresta há quatro dias. Coitado. Ele soltou dois bifes enormes espetados em um garfo de churrasco, e a "briga" foi geral. Pior do que cachorro que rosna e mostra os dentes quando outro da própria raça se aproxima do osso, a galera nem se importava se a carne estava quente. Queimavam os dedos e os beiços, enfiavam as pontas do garfo no nariz sem perceber, mas não largavam a carne. Foi muito engraçado ver aquela cena. Principalmente quando gritei: - olha o ônibus. - era mentira kkk A galera se distraiu, e eu pude dar umas dentadas bem vigorosas naquele bife suculento. Hahahaha Quando o ônibus realmente chegou, embarcamos e fomos deixando para trás a maior aventura que cada um daquele grupo já viveu em suas vidas. A maior, a mais difícil e a mais assustadora travessia expedicionária pela Serra do Mar Paulista. Foi uma surra violenta que levamos da mãe natureza, mas saímos de lá com a alegria residindo em nossas almas, sem ter data e nem hora para partir para o esquecimento. O latão motorizado gastou mais de uma hora para nos tirar daquele bairro rural, e nos colocar de volta ao contato com seres "humanos normais." Chegamos ao centro de Peruíbe, almoçamos em um restaurante com PF à preços populares e pegamos um ônibus rodoviário para São Paulo, onde nos despedimos com um alívio na alma por terminar tudo bem, a pesar dos ferimentos no corpo e na mente, ESTÁVAMOS INTEIROS. Agradeço: Daniel Trovo, Divanei Goes, Eduardo Loures, Marcos Prince, Silvester Natan e Rafael S Lima por estarem junto nessa odisseia, e por terem todo o espírito de união e companheirismo enquanto estávamos dentro daquele Vale. Agradeço também todos os amigos que se propuseram a tentar atravessar aquele rio em outrora. Deus abençoe à todos!
  8. Fala, meu bom... tranquilo? então... não tenho o Tracklog. Mas vc consegue baixá-lo no site do WIKILOC
  9. Foram duas tentativas frustrada. - na primeira, éramos um trio, que sabia apenas a direção em que se encontrava a parte das grandiosas cachoeiras que aquele vale possui. Essa investida resultou na descoberta de um caminho que possivelmente nos levaria ao objetivo, mas devido ao curto tempo que tínhamos para explorar, tivemos que retornar. E foi nesse retorno, num emaranhado de bambus, que perdemos os resquícios da trilha, e nos perdemos por quase 4 hrs, rodando aleatoriamente sem paradeiro nenhum. Foi um sufoco e tanto, sair dali por conta própria. - na segunda tentativa éramos apenas uma dupla (Adilson Silva e Eu), mais precavidos, seguindo pelo mesmo trajeto das vez anterior. Íamos amarrando pedaços de fita zebrada nas árvores, no trecho mais fechado onde nos perdemos noutrora. Pois se tivéssemos que voltar pelo mesmo lugar, não faríamos confusão em meio ao bambuzal, por onde nos perdemos noutra vez. Pois uma chuva forte no final daquela tarde nos obrigou a abortar a missão e adiar os planos para uma possível terceira chance. ____________________________________________________________________________________________________________ Relato Sou do tipo que não tem medo de muitas coisas, mas quando se trata de raios e trovões... ...sexta feira, 20h do dia 4/3/2016, e eu já me adiantava com a janta para não ter que sair de casa em meio a uma tempestade anunciada pelos barulhos aterrorizantes que vinham do céu (mas não teve jeito). Com lágrimas nos olhos, minha esposa perguntava se eu realmente iria sair debaixo do toro que estava por vir. E eu, lógico, como o teimoso que sou, respondi que sim! Mas, se fosse necessário, iríamos abandonar os planos antes de executá- los se o dilúvio viesse a oferecer perigo extremo. Pisei os pés fora de casa, andei cerca de 200 mts, e os raios começaram a cair, cada vez mais próximo da região onde moro. Com pouco mais de 300 mts da caminhada e os raios pareciam explodir do meu lado, e a cada clarão que se abria no céu, em fração de segundos, transformava a noite em dia. Comecei a correr em direção ao ponto de ônibus, como um rato foge de um gato, com um medo danado, Ali fiquei sozinho por 15 min esperando o busão. Fiz posição preventiva contra raios (agachado, com as mãos na cabeça). Pouco me importava o vexame rsrs, eu queria é estar o mais seguro, e distante dali, se possível. E para o meu alívio, quando a chuva começou a desabar repentinamente e com força total, não deu nem 3 min, o tão desejado busão chegou. Só a partir daí que eu me senti mais avontê rs. Embarquei no trem, sentido Estação Estudantes, encontrei o Rafa, e fui contando a ele como já começava minha sessão de adrenalina e medo, referente a jornada que iniciávamos. rs. Chegamos na estação, Vinícius já estava lá. No trem seguinte chegou o Adilson, e para dar mais tempo de entrosamento do grupo, o Paulo chegou uns 6 ou 7 trens depois do nosso. rsrs Pegamos o ônibus que segue até o bairro de Manoel Ferreira, onde desembarcamos uma hora depois, e na sequência, meia noite e dez, iniciamos a trilha que nos levaria em direção ao primeiro pernoite dessa aventura. Se tudo corresse nos conformes, estaríamos na área de acampamento, no máximo 1h30 depois. Mas como sempre há imprevistos, chegamos lá às 2h2O da madruga. A trilha segue em fácil navegação, apenas uma bifurcação a se atentar, mas houve um desmoronamento de terra que encobria a via no meio do caminho. Isso gerou uma certa confusão na cachola, cheguei a citar que estávamos no caminho errado, que não havia aquela curva em todo o trajeto, coisa e tal. Com isso, só perdemos tempo procurando pela continuação da mesma nos arredores. Mas de acordo com o risco que desenhei no mapa, olhando pelo GPS do Vinícius, era nítido que estávamos no rumo certo. E juntando a crença do Adilson, que jurava estarmos na trilha das caminhadas anteriores, seguimos até chegar na primeira "ponte," que na verdade é um tronco fino de árvore, estirado de uma margem à outra do riacho que cruza com a trilha. Como não há possibilidades de ir por cima, descemos até o fluxo de água, saltitando sobre as pedras, e atravessamos. * o que não daria para imaginar, era que essa travessia seria um teste de sobrevivência na volta. Leia mais adiante. Agora eu estava mais tranquilo em relação a nossa localização. Tinha a certeza de que em 15 minutos estaríamos arrastando o "fiofó" em um grosso tronco de árvore, que serve como ponte de nível alto, entre as margens do rio que é mais fundo do que o anterior, e mais trabalhoso a ser atravessado a nado, andando e/ou com cargueiras. Acabado o esfrega esfrega, 10 metros a direita já estava a boa área de acampamento (morada dos borrachudos), que nos aguardava para o tão merecido descanso. rsrs No dia seguinte, depois do desjejum, entre a longa caminhada que margeia o ombro da Serra, resumidamente após cruzar com outras pontes (pinguelas), entrar numa bifurcação a esquerda, e uma picada a direita, a gente chegou no largo e íngreme afluente do Jacuaru, que abastece o Rio Itatinga, uma hora e meia depois do acampamento. Ali, sim, começaria a brincadeira pra queles que gostam de aventura regada a obstáculos. Depois de uma pausa demorada, por conta da mochila do Rafa ter estourado as alças da mochila, e necessitar de costuras, começamos a descer pelo inclinado trepa pedras do primeiro afluente da encosta esquerda. Por hora, o desnível não eram tão forte. Porém, quanto mais avançamos, mais e mais o fluxo de água se colocava na verticalidade nos obrigando a seguir a passos lentos e cautelosos, correndo o risco de sofrer uma queda fatal se a escolha fosse prosseguir pela água. Com 1h encosta abaixo, chegamos no primeiro ponto que nos obrigou a adentrar na mata, seguir por um vara mato relativamente fácil de transpor, mas com uma certa dificuldade de retorno ao leito. Onde se estimava ver o fluxo, só penhasco se via. Só foi possível sair da mata quando chegamos a uma canaleta seca que despenca rumo ao afluente. A decida teve de ser minuciosa. A cada metro uma pedra solta rolava morro abaixo, fazendo a lentidão ser questão de segurança. Descemos um de cada vez. Como era dia de calor, nada melhor do que conseguir se manter num caminho refrescante. E após o tempo perdido para vencer aquela piramba, tocamos revezando entre o leito e a mata da margem esquerda. Logo chegamos ao ponto de parada da investida anterior, onde eu e o Adilson acampamos. Eu julgava que a partir daquele ponto, no "olhômetro"mais 150 mts de avanço seriam o suficiente para dar com os pés nas águas do Itatinga. Mas, vendo o aparelho GPS do Mzk, os números eram bem maiores: 300 mts de forte desnível até lá. Minha inocência me fez acreditar que seria uma descida relativamente tranquila como tinha sido até ali. Mas, na verdade, toda dificuldade do trajeto estaria por dar as caras nas próximas horas. Cachoeiras iam surgindo pelo caminho, e essas mesmas cachoeiras se fizeram nossos caminhos. Nelas, a habilidade de contorcionistas amadores foi indispensável, a aderência de Petter Parker presente em nas mãos cada um teve que vir a tona, e ser posta em prática. Até por que, era nas extremidades das mãos e na aderência das solas dos pisantes que dependiam a segurança de cada membro. Um queda, um acidente mais grave, naquelas bandas seria um caso sério a se resolver. Apesar da confiança coletiva do grupo, a situação não era tão positiva em relação a conclusão do circuito. Quando paramos para ver de que forma o nosso objetivo vinha despencando Serra abaixo, ao olhar no GPS, os paredões gigantescos que se mostravam nas curvas de nível. A empolgação murchou de imediato. O Miyazaki deixou claro sua vontade de dar meia volta se fosse algo absurdo que tivéssemos que subir até alcançar o planalto novamente. Estava disposto a deixar o aparelho de navegação conosco, para podermos prosseguir com o plano, e voltaria pelo mesmo caminho. Mas não era essa a intenção: desmembrar o bando e correr novos riscos estava fora de cogitação. Depois de uma merecida pausa para descansar, comer e por as ideias em comunhão, continuamos a descida em maior parte pela mata esquerda, onde cada vez mais se notável o perigo que era andar por ali, beirando o penhasco que se estendia por dezenas de metros. Isso nos forçava a adentrar mais e mais na selva, subir cristas que não nos permitia descer em direção ao rio, só nos dava vias para subir outra crista, depois mais uma, e assim por diante, até que encontramos uma via (aparentemente) com menos obstáculos. E foi por ali que nos jogamos para ter algum sucesso. Quando a gentileza da floresta se fez favorável, novamente, com a gente, voltamos ao caminho das águas. E assim o Vale se abriu aos nossos olhos, com um buraco enorme, rodeado de paredões rochosos e de vegetação rasteira dependurada sendo pulverizada por um grande spray d'água que vinha por trás de uma rocha. Foi ali que tivemos a certeza que a nossa trupe alcançaria o tão desejado Vale do Rio Itatinga. Como eu ia sempre na frente, escolhendo os caminhos que pareciam mais fáceis para passar, quando olhava para trás, via meus companheiros, pequeninos, se retorcendo entre os vãos encachoeirados de cada aglomerado rochoso que era deixado para trás. O último deles era um buracão enorme, que quando acabei de descer, vi os meninos seguindo em um distância segura, e não me contive. A euforia de querer ver a enorme cachoeira que estava por trás daquele paredão verde, que nos permitia ver apenas o spray se lançar no cenário, foi a força motriz que me impulsionou com maior rapidez ao fundo do vale, que talvez, não recebia uma visita humana há décadas. E lá estava eu, surpreso com a beleza e imponência da Cachoeiras dos Meteoros descendo levemente sinuosa, imensamente furiosa, e causando temor com sua força. Quase 16 horas do dia estavam completas, e já que a decisão conjunta era de não prosseguir rio adentro, travando uma fatídica luta a elevação do vale, procuramos nos atentar a voltar pelo mesmo afluente, atingir o nível do topo da Cach dos Meteoros, e armar acampamento seguro, perto da água, para passarmos a noite. Na manhã seguinte, com o desjejum feito, acampamento recolhido e energia de sobra, ficou a meta de que iríamos varar mato até o Rio principal e explorar até onde o nosso tempo restante permitisse. Foram cerca de oitenta metros em meio a mata fechada, até encontrarmos a cabeceira que queríamos. Ali, no topo de da cachoeira que serve como um mirante esplêndido ao rio cortando o o enorme vale, deixamos nossas mochilas e partimos de encontro à próxima, e não distante, gigantesca cachoeira. Não tinha muito rio a ser vencido, só obstáculos impossibilitando o nosso avanço. Haviam apenas dois pontos de passagem, e esses dois pontos exigiam confronto a contra fluxo da água. Em um deles, onde fiz a primeira tentativa, o refluxo borbulhante não deixava ter uma visão prévia da profundidade. Mesmo assim, me arrisquei, sem sucesso. Não dava pé em alguns pontos, e com o peso dos tênis molhado, não consegui nadar. Quase afundei. Na sequência, não sei se por determinação, teimosia, ou seja lá o que for, analisei o outro ponto de passagem e cruzei o rio com menor dificuldade enquanto meus companheiros assistiam a tudo. Já na outra margem, percebendo que eles não teriam dificuldade para atravessar, fui me adiante trepando em grandes rochas, rastejando entre pequenos vãos, onde só cabia meu corpo, até dar de frente com outra cachoeira ES-PE-TA-CU-LAR (Cachoeira da Pedra Branca). Tão única, que a minha ingenuidade jamais me deixaria imaginar tal formação, com um piscinão enorme, naquela altitude da Serra do mar. SEN-SA-CIO-NAL. Enquanto meus amigos não chegavam, estudando o labirinto rochoso, aproveitei para tomar um banho nas pequenas quedas, refletir e agradecer, em particular, por tudo que eu estava vivendo naquele dia lindo e ensolarado. Claro que rolou um 'nudes' . Quando estávamos todos juntos, compartilhando da mesma alegria, tiramos fotos, contemplamos a majestosa queda, e pouco tempo depois já estávamos palmilhando em direção aos nossos pertences, e em seguida adentrar a mata e chegar novamente no Afluente do Jacuaru. Nosso caminho de volta. Mas, antes desse retorno acontecer, toda a dificuldade que tivemos para subir e alcançar o grande poço da cachoeira, veio com maior complicação na descida. Me lembro de tentar observar alguma forma de descer em segurança, mas abusei da sorte. Os meninos me avisaram de que nada dava para seguir por onde eu mirava nossa passagem. E eu disse: Não, sou vou dar uma olhadinha. Foi nessa hora que eu me agarrei numa rocha, completamente na vertical, apenas com as pontas dos dedos dos pés e das mãos como sustentação do meu corpo. Eu fui, mas não conseguia voltar. As fissuras na rocha estavam em outro ângulo, no sentido contrário e eu não conseguia alcançá-las. Travei! Fiquei paralisado, com medo, só me mexia para respirar e piscar os olhos, grudado feito uma lagartixa naquela parede de uns 4 metros de altura. Altura o suficiente para me arrebentar todo, caso eu caísse. E para piorar o meu estado medroso, o Paulo começa com suas previsões catastróficas. - mano, se você cair daí, vai cair de cabeça nas rochas. Vai se arrebentar todo. Você pode morrer... - tá, Paulo, eu sei disso! Mas você falando essas coisas não está me ajudando em nada. Só me deixando mais tenso. Depois desse momento “encorajador” do Paulo, os meninos conseguiram uma maneira de me estenderem as mãos, e me tirar daquela furada em que me meti. Foi osso! A partir dali a descida pelo rio decorreu de forma lenta, cautelosa, visando a segurança de todos. Já a ascensão, pelo Afluente do Jacuaru, oferta agarras por todo lugar que se passa, agiliza, e muito, o retorno ao Planalto Paulista. Na maioria das vezes estávamos ascendendo pelo leito, escalando rochas e cachoeiras. Mesmo nas vezes em que algum dos nossos quisesse varar mato, eu, que ia na dianteira do grupo, conseguia visualizar alguma via em meio as cachoeiras, que chegavam em seus 10, 15 e até 30 metros, nos mantendo no caminho mais rápido. Isso nos rendeu um ganho de tempo valiosíssimo, e foi uma das partes mais prazerosas dessa aventura. Claro que teve momentos em que a ajuda, de um para o outro, se fazia indispensável. Quando as mãos não alcançavam, para subir algum patamar, um círculo de fita de tecido, cerca de 1 metro, era enrolado nos punhos, servindo como alça de apoio, tanto para quem fosse subir, ou para quem fosse suspender a amigo. Assim, em poucas horas, chegamos no vão de saída do afluente. Onde escolhemos alguns minutinhos para descansar e beliscar alguma coisa e repor as energias. Repentinamente começou uma chuva inesperada, que nos fez sair dali o quanto antes, pois a subida até o bambuzal se tem através de uma piramba dos diabos, sem muitos lugares onde se segurar, com muito barro, que molhado, escorrega feito baba de quiabo, ou óleo sobre azulejo. Pegar aquele trecho já não é a sétima maravilha do mundo, com chuva então... aff. Conseguimos alcançar a trilha na melhor hora. Se ainda estivéssemos no afluente a gente tinha se lascado de cabo à rabo. Iria dar trabalho sair de lá. Foi uma chuva tão forte, mas tão forte, que mais parecia um dilúvio enviado para acabar com a raça humana. Num piscar de olhos a trilha estava coberta de água corrente cobrindo nossos tornozelos, formando mini cachoeiras onde houvesse degraus. Lógico, os tombos eram inevitáveis, o medo contido em cada um se mostrava algumas vezes no silêncio coletivo, ou num raio que caia perto da gente, fazendo um estardalhaço a ecoar pela selva. Nessas horas, creio que quem mais sentia medo era eu. Os pedidos de proteção divina foram inundando minha mente, pois a chuva não cessava, só ganhava força, e tinha resistência para durar mais de uma hora. Quando chegamos na área de acampamento, ela já estava fraca, quase parando, onde fizemos uma pausa para descansar e registrar um depoimento audiovisual. O rio que circunda o acampamento estava cheio, e em questão de minutos o nível aumentou consideravelmente. Tratamos de bater em retirada rapidinho, pois teríamos que cruzá-lo passando por cima de um tronco de árvore, como no dia anterior. Fora esse, há 10 min dali teríamos que atravessar um riacho que não nos permitia ir por cima do fino tronco. A travessia teria de ser feita à pé. E esse era o problema: não saber o quanto ele se elevou. Passados dez minutos de caminhada em ritmo forte, ao longe já dava para ouvir o escândalo que as águas faziam enquanto percorriam seu caminho. Se exagero nenhum, creio que há cinquenta metros já se ouvia o monstro rugir feito leão, estourando como trovão, e provocando medo em qualquer ser vivo que por ali estivesse. Se fosse um grupo menos preparado, com certeza, o pânico seria menor! rs Tínhamos pressa, vencer aquele desafio exigia, ao mesmo tempo, rapidez e coerência, pois já estávamos com os últimos raios de luz do dia, diante de um problema que poderia nos custar a vida de um dos nossos ao tentar resolvê-lo, ou então, a opção menos interessante seria passar mais uma noite na mata. Como não estávamos com essa intenção, passamos a tentar meios que nos tirasse dali o quanto antes, mas a cada minuto corrido a fúria do rio aumentava, e o nervosismo também. Em um lampejo de raciocínio falei: vamos derrubar uma árvore. A gente joga ela até a outra margem e passar por cima. A ideia parecia boa, o Rafa dispunha de um facão, já a execução não seria tão boa assim. Começamos o corte da primeira árvore, não muito grossa, que julgamos ser fácil lançá-la até o outro lado, mas a espessura, fina, não nos ajudaria com a travessia sobre a correnteza. Abandonamos o primeiro tronco e demos mais atenção a um tronco, bem mais grosso, que já estava no chão, cortado por caçadores ou palmiteiros, talvez. Começamos a ergue-lo com muito esforço, mas antes de elevar sua metade, já era notável que não conseguiríamos colocá-lo ereto e soltá-lo na margem oposta. E feito frangotes, que mal suportam o peso de suas calças, largamos o danado no chão. O peso era insuportável, mesmo estando em um grupo de cinco membros (frangotes rs). Enquanto isso, o rio esbravejava, o tempo passava, e a noite se aproximava cada vez mais. Nós, ainda nos encontrávamos na mesma situação: ilhados, sem ter caminhos para prosseguir e correndo o risco de passar a noite na mata. Não que fosse problema, mas não estava na "programação," e não seria vantajoso pra ninguém. A persistência seria a chave que abriria a porta certa. Começamos o corte de outra árvore, mesmo que não fosse tão grossa, suportando nosso peso já era o bastante. Em seguida, já com a pressa trabalhando a todo vapor, após alguns minutos de revezamento... MADEIRAAAAA. rsrs. Conseguimos erguer e lançar aquilo que seria nosso portal para voltarmos a civilização. Ainda estava muito perigoso atravessar sobre dois finos troncos que estavam a 30 cm separados um do outro. Mas teria que ser isso, ou estagnar o retorno. Às pressas, tivemos que analisar os meios e tomar nova iniciativa contra o tempo. Fui o "peão" na linha de frente, respirei fundo, soltei as cordas e disse: eu vou primeiro. O Vinicius, na tentativa de fazer nós que mantivessem preso à corda, estava sendo bombardeado por um ataque de vorazes "Mutucas," e não conseguia se concentrar. Passou o posto ao Potenza, que mesmo sendo vesgo, com baixa luminosidade, e o mais frangote de todos, passou confiança ao se mostrar um exímio fazedor de nós. Tranquei meu fiofó com muito medo, tive que começar a rastejar minhas pregas naquela ponte (se é que pode ser chamada assim), enquanto aquele Tsunami corria debaixo dos meus pés. Isso fazia parte do processo para encorajar o coletivo, que logo na sequência repetia o mesmo processo de esfregar o rabo no tronco (rs). Foi cerca de 1h no olho do furacão. Já com os pés em terra firma, novamente, o nosso ritmo forte foi retomado instintivamente. A ansiedade pelo fim da jornada era tanta, que a cansativa elevação do percurso na volta foi encarada como se estivéssemos numa reta plana interminável. O trecho final, que geralmente demora 1h30 para ser vencido, nos tomou apenas 1h de caminhada ininterrupta. E quando colocamos nossas caras para fora da mata, às 20h30, num engarrafamento a perder de vista, as pessoas olhavam perplexas com o que acabavam de ver: cinco marmanjos, com mochilas enormes e lanternas na cabeça, saindo da mata, às escuras, como se nada estivesse acontecido. Na verdade, muita coisa aconteceu! Mas essas pessoas que se surpreenderam com a aparição de um quinteto maltrapilho, em um lugar e horário inimaginável, jamais sabem o que realmente aconteceu!!! rsrs Ao chegar ponto de ônibus, onde há um boteco de beira de estrada, onde sempre trocamos nossas roupas esfarrapadas "pós trilha," comemoramos e bebemoramos as andanças pela região, conversando com um morador local, tivemos a informação de aquela foi a maior chuva dentre 20 anos. "Ele" afirmou nunca ter vista tanta chuva por aquelas bandas. Até o Rio Biritiba transbordou e invadiu a pista , causando todo aquele engarrafamento na rodovia. Confesso que foi uma surpresa! Pois entre as várias caminhadas e conversas com moradores da região, nunca ouvi falar de rio transbordar por ali. No ombro da Serra. Depois de tudo isso, só nos restou sentar e esperar os busão que nos colocaria no rumo de nossas casas. Onde começamos a chegar a partir das 00h30. Exceto o Vinicius, morador de Campinas, interior de SP, que teve que pernoitar, brevemente, na minha humilde residência e bater em retirada só na manhã seguinte.
  10. Estatísticas: 16 km percorrido Navegação muito difícil Há poucos pontos de água pelo caminho
  11. Dia 09 de Junho, de 2016... Uma data póstuma. Data que escolhemos para fazer uma breve travessia no extremo sul de Biritiba Mirim/SP. Data em que o litoral norte paulista amanhecia em prantos. Pois na noite anterior, um acidente histórico, mais grave já ocorrido na Rodovia Mogi/Bertioga, acabava de colocar em luto os moradores daquela região. Um ônibus, da empresa União do Litoral, que levava estudantes da faculdade de Mogi das Cruzes até as cidades litorâneas, por motivos ainda desconhecidos, após fazer uma curva acentuada no quilômetro 84 da rodovia, perdeu o controle, invadiu a pista contrária e tombou indo de encontro com os paredões de rocha da Serra do Mar. Esse acidente foi de tamanho impacto que causou 15 mortes instantâneas, mais 3 foram à óbito já no hospital, e 28 ficaram feridos. Algumas especulações de que o motorista trafegava em alta velocidade todas as vezes que fazia suas viagens. Inclusive, gerou um bate boca com os alunos/passageiros, que reclamavam sobre isso, antes de saírem para nunca mais volta. Isso se espalhou pela mídia televisiva sensacionalista com facilidade. Com isso, as repercussões tomaram rumos além da nação. #LUTO ___________________________________________________________________________ RELATO Marcamos de nos encontrar às 07h30, na estação Estudantes da CPTM, e na sequência, às 7h40, pegarmos o ônibus - 392-Manoel Ferreira, mas, devido aos contratempos de sempre, perdemos esse horário. Quando cheguei de encontro com Diógenes e Cláudia, nos trailers que vendem tudo que é tipo de lanches em frente da faculdade, eles já assistiam o noticiário sobre o acidente, e as expectativas não eram das melhores, pois afirmavam que a rodovia estava interditada. Isso gerou a dúvida: será que vamos conseguir ir até lá e fazer a travessia? Depois de termos voltados até as catracas da estação para encontra com a Ana e o Paulo, embarcamos no ônibus que saiu às 08h05, e em quase 1h de sacolejo dentro daquele latão coletivo, tivemos tempo suficiente para enturmar os que não se conheciam. Quando saltamos o ponto final, às 9h15, no bairro de Manoel Ferreira, começamos nossa longa caminhada pela estradinha de terra que acompanha a extensa tubulação que capta água das represas do entorno. Em menos de 50 minutos já abandonávamos as vias de tráfego rural para adentrarmos numa propriedade particular, sem residentes, onde começa a trilha que sobe com destino a Pedra do Sapo. Ainda na estrada, claro, quando vimos que a enorme plantação de pimentões estava carregada deles, não perdemos tempo. Sacamos as sacolinhas e as enchemos com esse leguminoso verde. Uma pena ver que os vermelhos estavam todos danificados e murchos. Um pouquinho depois, duas cachorras, uma alegre, outra arisca, decidiram nos acompanhar. O que surpreendeu com o resultado final. A trilha já começa com uma subidinha forte, tirando o fôlego de quem escolhe esse caminho como acesso à “Pedra do Anfíbio,” serpenteando até terminar numa transversal que sempre confundi quem chega até ali, pois o caminho mais batido, o da direita, segue para outro lugar totalmente diferente daquele que se deseja chegar. Tomamos a direção certa, descendo o morro até o fundo de um pequeno vale, e quando começamos a subir novamente, da nossa esquerda, se ouve o barulho do único ponto de água que há nesse caminho. Aliás, há uma picada que leva ao encontro com o riacho. Aliás, levamos cachorras para beber água, mas não beberam, e acabaram sendo “renomeadas” (coisas de Ana). A trilha, pós pequeno vale, vai subindo, subindo e subindo, sempre bem aberta e de facílima navegação, sem muitos obstáculos. O único obstáculo é a inclinação da subida que, mesmo com o frio mínimo de 8°C que tem feito nos últimos dias, fez o suor minar pela testa de cada um e ensopar as costas abafadas pelas mochilas. Despontamos sobre a Pedra da Forquilhas, às 11h00, à oeste da incrível formação rochosa que lembra um sapo. O tempo que estava aberto enquanto caminhávamos pela mata, rapidinho veio a se fechar com a neblina que subia do litoral. Isso fez com que não perdêssemos tanto tempo por lá, apenas o suficiente para comer alguma coisa e descansar um pouquinho. Nem subimos na cabeça do Sapo (topo), como é de praxe. Acreditávamos que o vínculo de companheirismo com as cachorras se encerraria ali, pois há um lance de corda na face leste da Pedra, que coloca qualquer ser humano em situação de risco e inviabiliza a descida de qualquer animal daquele porte. Ainda assim, uma delas desceu com a ajuda da Ana. Que insistia em cuidar das cadelinhas como se fossem suas. A partir daquele momento começaria a brincadeira de gente grande. Pois estávamos cientes de que, há pelo menos 5 anos, o rumo tomado não recebia pegadas humanas, e que apenas uma equipe havia feita tal travessia. Então, era lógico que teríamos muita mata fechada pela frente. Mas não imaginávamos que seria tanto. rs Quando acabamos de descer a piramba que antecede os 5 lances de cordas que auxiliam a subida e a descida da trilha, em terreno plano, onde há uma grande árvore abraçada por uma fita zebrada de cores preto e amarelo, era hora de concentrar as forças e o psicológico. Pois uma piramba de forte aclive (forte mesmo) estava a nossa frente, prontinha para ser encarada, sem saber se seria vencida. Um vara mato infernal vai tomando o morro, e junto com ele, nós, íamos nos agarrando onde dava, usando a força extrema das pernas e ganhando altitude rapidamente. Ao olhar para trás dava para ter noção da escalada que estávamos fazendo, pois o vale era visto bem abaixo da gente, e a Pedra do Sapo já era emoldurado pelas copas de árvores mais próximas da gente. Uma cenário bonito de ser visto. O vara mato continua firme e forte, até alcançarmos o topo da crista. Ali, inicialmente, pensamos em tocar para esquerda, mas o precipício há menos de 15 passos deixava claro que esse não seria o sentido a ser seguido. Farejando feito cachorro, fuçando mais ao sul, encontramos, em meio a mata fechada, os resquícios de trilha que queríamos e deveríamos acompanhar há todo tempo sobre a crista do morros. Em menos de 10 minutos, 1 pequeno pilar apareceu, e em seguida, outros também apareceram pelo caminho. Isso só reforçava que estávamos no caminho certo. Pois esses pilares também são mencionados no relato de Jorge Soto, o qual usamos como referência para fazer essa travessia. A trilha, nesse trecho, segue óbvia e objetiva, mas quando decide fechar o caminho, fecha de vez e coloca à prova a nossa habilidade em imitar serpentes. Pois um enorme bambuzal de Taquarinhas (pequenos e finos bambus) bloqueiam o caminho, deixando como opção de passagem pequenos túneis que beiram o solo. A úncia solução para vencer esse trecho é: meter as mãos e o peito no chão, e rastejar feito calango velho, igual ao que é feito nos treinamentos de tropas de elites, como o exército. Mas, não é apena 1 túnel desses que aparece. Aparecem 3 ou 4 túneis com extensão diferentes, e o últimos deles é o que te põe nas posição menos confortável possível e ainda força a abrir caminho com as mãos, tendo que rastejar e desprender a mochila que enrosca há todo momento nos bambus. É uma prova de fogo, difícil pra cacete, rs. Foram vários arranhões pelo rosto, mãos e pescoço. Claro, o resultado não poderia ser outro. Até o par de óculos do Diógenes foi lançado no meio do mato, depois que ele bateu a testa numa árvores. rsrs Adeus, óculos. Depois do trecho de Taquarinhas a trilha volta a ganhar vegetação rasteira, mas, por pouco tempo, entra em um novo bambuzal e se perde facilmente. O jeito é farejar seu rastro novamente, já que o caminho continua sobre a crista. Encontramos mais à esquerda o que restava de uma via, contornando o morro para depois subir, em solo rochoso, num caminho aberto e de vegetação seca até o alto de outra rocha, onde há uma das últimas marcações de topografia em todo o trajeto. Aquele ponto já era tido como um grande avanço, já que o Pico do Gavião não está tão longe dali. A trilha que seguia para o leste passa a se apontar na direção da estrela mais distantes dentre a constelação Cruzeiro, entra novamente por outro denso bambuzal, não dá pistas de qual lado podemos encontrá-la, e nos obriga a usar o faro, aguçado e treinado em tantos outros vara mato Estado a fora. Ainda bem que as cadelas, com a fidelidade de vira lata de rua, escolheram nos acompanhar, pois iam na dianteira, farejando todo o caminho por onde iríamos passar, e sem errar, sempre se enfiavam na direção certa. Como se soubessem onde estávamos querendo chegar. As Taquarinhas do mal, por fim, ficaram para trás. E todo o espaço a ser palmilhado a partir daquele ponto era em meio a uma espessa floresta de incertezas. Todos os lados em que se olhava, apenas se podia ver mata, árvores. E poucas clareias acima das copas se deixavam ver, para servirem como pontos de referência, indicando que ainda caminhávamos sobre uma crista e, que, na direção onde não houvessem clareiras, havia um morro para subir. A encrenca em nos enfiamos estava evidente a cada passo dado. Muitas árvores, árvores enormes, tombadas pelo caminho impediam um progresso animador. Já estávamos há um bom tempo varando mato, suspeitando de que não seria uma investida á esmo, e com o reservatório dos ânimos em volume morto. Nessa hora, algo inusitado nos chamou a atenção. Pouco depois de nos separar por poucos metros para farejar os rastros da trilha, encontramos uma porção generosa de fezes de algum animal. Semelhante ao cocô de um cavalo. Daí veio a questão: Que diabos um cavalo estaria fazendo ali, há 1000 metros de altitude, quando não se sabe de sítios, chácaras ou fazendas que fazem a criação desse animal? muito menos há notícias de alguma propriedade próxima que tenha a posse de algum(s) dele(s). Muito estranho, pois os dejetos haviam sido depositados, ali, recentemente e em grande quantidade, em um único lugar, e sem pegadas por perto. No mínimo, pelo tamanho e a quantidade de bosta, o animal deixar marcas pelo solo úmido e de barro preto. Muito estranho, isso. Mas era certo de que se tratava de cocô de Anta. O céu já estava todo cinza, e ainda estávamos a procura do Peito de Moça, andando sem retroceder, mas trafegando em direções aleatórias. Por hora pulando árvores caídas, por vez atravessando jardins de bromélias, enfiando os pés em raízes embaralhadas sob a mata. Emfim, miramos um alvo e “atiramos no escuro.” O resultado foi, ter passado despercebidos por um enorme vespeiro, que se sentisse ameaçado por nós, fariam a gente correr feito loucos pela mata. Mas a desatenção custou apenas uma única ferroada no crânio do Paulo, que reclamou a dor por um longo tempo. Se bem como é isto! rsrs Bom, estávamos cientes de que a missão poderia falhar, mas, também, sabíamos que algo nos prendia ali, numa obsessão insana de querer alcançar o último dos 5 cumes que nos restava subir naquela região. Seria até uma injustiça da nossa parte deixá-lo de escanteio devido ao seu difícil acesso, comprovado na prática. Por força de vontade, determinação, e 16 toneladas de sorte, claro. Encontramos uma trilha que segue rumo ao nosso destino. Não estávamos perdidos, mas ter encontrado uma via de fácil navegação naquela altura do campeonato, foi uma mão na roda. E mesmo que ela tenha se fechado algumas vezes, chegamos ao sopé da face norte do Pico do Gavião. E o que tínhamos pela frente era uma via ferrada para ser escalaminhada, pois a inclinação rochosa só tinha pequenas ramificações superficiais, não enraizadas, que não serviam como apoio e sustentação, e alguns lírios vermelhos enfeitando a parte exposta da rocha. O que nos ajudou a subir até o topo, foram as pequenas fendas que subiam tangenciando até a parte mais alta, onde já dava para se agarrar as pequenas árvores que dominam o cume. Todo o cuidado foi necessário. Um descuido qualquer poderia resultar num acidente gravíssimo. Não sei se fatal, mas que iria causar estragos, isso iria! Felizes por alcançar o cume do Pico do Gavião? Sim! Claro que estávamos. Nossas cadelinhas também! Mas o tempo de permanência não foi longo. O pouco visual que se pode ver por uma fresta entre as árvores, mais a oeste do pico, estava dominado pela neblina. Até no cume é preciso varar mato para tentar alguma coisa. No nosso caso, averiguar se há alguma marcação topográfica. Mas não encontramos. Na hora de descer o trecho escalaminhado, com o cuidado triplicado, fomos avançando devagar até o ponto mais seguro para sentarmos e comer alguma coisa. Ainda sentados, de costas para o ponto de escalaminhada, estávamos para decidir por qual caminho voltaríamos, já que o caminho da ida já estava descartado. Eu sugeri que seria vantajoso contornar o “mamilo do peito" pela esquerda, pegar o vale que desce em direção à Estrada do Senhor Geraldo e sair na rodovia. Simples assim. Só que não. O trecho que desce pela esquerda é super navegável, solo em leve declive coberto por folhagem caída das copas. Mas, quando temos que tomar a direção mais à esquerda, para poder contornar a rocha, surge um paredão. A lógica é seguir beirando esse paredão, contorná-lo até seu fim, sair em sua base e seguir com o plano. Só que surge um outro paredão, que nos obriga a se lançar cada vez mais no fundo do vale e em direção contrário do que deveríamos estarmos indo. Ok!, fomos tocando o barco conforme mandava o script. E quando visualizamos a parte que não havia mais paredões a serem contornados, fomos ver por onde poderíamos descer, e o que vem aos nossos pés é uma baita de um precipício com algumas dezenas de metros. Uma queda livre, e totalmente na vertical, que nos obriga a ir cada vez mais no rumo contrário do que deveríamos. Talvez, por conta do cansaço, mais físico do que psicológico, o grupo começa a perder o ritmo. E mesmo com pouco menos de 3 horas para caminhar, antes de começar a escurecer na mata, em particular, Paulo diz: - você sabe que não vai dar tempo. Né? Tá ligado que a gente vai ter que varar mato no escuro. Né? - Relaxa, mano. Vai dar sim! - respondi com calma. Foi a única coisa que pude dizer para que esse início de pane não se agravasse e se espalhasse aos demais. Principalmente às meninas. Quando, finalmente, conseguimos contornar e descer os obstáculos que nos colocava fora do itinerário, fomos varando mato sempre em declive e em mata cada vez mais fechada, que nos obrigado a sair novamente da rota desejada. Como se não bastassem os paredões. Do nada surge uma trilha, e mesmo que nos jogasse fora da direção que deveríamos tomar (o fundo do vale), seria um caminho que daria fluidez no andar da carruagem. Conforme fomo s descendo, ao longe se ouvia o barulho da água correndo entre as pedras. E não tardou para pisarmos os pés na margem esquerda daquele riacho cor de chá. Ele corria quase sem desnível, ganhando largura e pequenas profundidades com água transparente que permitia ver alguns bancos de areia e o fundo arenoso. Diógenes sugeriu que prosseguíssemos caminhando por dentro desse riacho, enquanto minha preferência era permanecer em solo seco afim de não molhar por completo as botas que eu usaria em uma grande travessia, 4 dias depois. E assim foi. Continuamos por terra, mas fomos obrigados a cruzar esse riacho, quando algumas rochas bloqueavam nossa passagem. Eu e o Paulo estávamos fazendo de tudo para manobrar sobre pedras e galhos que apontavam sobre a água, saltando de um para o outro e pulando até o lado oposto. Já a Ana, afobada do jeito que é, ia na frente, inventou de colocar a perna direita sobre um galho encurvado, que fazia uma alça pendurada vinda de uma árvore, tentou atravessar a parte mais funda dessa forma. Não deu outra. Quando ela fez força para se lançar até a outra margem, a alça cedeu, ela foi descendo em câmera lenta, pediu ajudo do Paulo que estava mais próximo dela, mas não teve jeito. Acabou caindo dentro dágua, e segurando a mão do Paulo, queria puxá-lo para um banho gelado também, rsrs. Foi cômico. Já era notável que não haveria mais nenhuma piramba pra descer. Estávamos em terreno plano/encharcado, pantanoso. Um brejo na verdade. As clareiras que apontavam no céu mostrava que a estrada que queríamos alcançar estava a nossa esquerda, e quanto mais avançávamos, olhando o GPS do Diógenes e o Tracklog que estava sendo gravado pela Ana, era evidente que estávamos acompanhando a estrada do Sr. Geraldo em paralelo. E sem continuássemos assim não iríamos sair daquele brejo nunca. Pois ainda tinham quase 5 quilômetros de vara mato até o asfalto. Nessa hora o facão teve que comer solto. Mas era uma área tão fechada que não dava espaço para dar os golpes de facão. O que só fazia o Paulo gastar energia e não sair do lugar. Até o momento em que avistei um jardim de bromélias e apontei que deveríamos sair rasgando naquela direção. Direção essa que, não tardou a ser vencida, nos levou à tão sonhada liberdade fora daquele inferno verde. Para alívio da galera. Deu pra notar a satisfação no rosto do Diógenes em sairmos de lá. Satisfação maior ainda em ter conquistado esse pico que há tempo vinha sendo almejado por nós. Depois de uma pausa para fotos, prosseguimos pela estrada que um dia serviu como passagem de carros que vinham dos bairros mais ao norte, e hoje, nada mais é do que um rasgo em meio a mata, que logo será retomado por sua dona legítima. Quando pisamos os pés no asfalto da no quilômetro 79 da Rodovia Dom Paulo (vulgo: Mogi/Bertioga), estávamos certos de que havíamos deixado para trás uma travessia que, tão cedo, não será feita novamente, por nós ou qualquer outro grupo que decida atravessar essa rota. Pois é uma encrenca das grandes tentar fazê-la. Recomendada só para experientes. De volta para realidade, os barulhos de carros, ônibus e caminhões quebravam o silêncio enquanto a noite começava a marcar presença. Tínhamos, em média, 2,5 kms a percorrer até o último ponto de ônibus coletivo da pista sul. As cachorras nos acompanhavam, e pelo andar de tudo que possou, estávamos crentes de que elas iriam embora quando nos separássemos. Só que não. Ali começava um episódio extra após finalizarmos a travessia. O DRAMA DAS CADELAS Ao atravessar a rodovia, uma das cachorras veio acompanhando o Paulo e Eu, no momento em que um carro vinha em alta velocidade. A cadela de assustou e paralisou na mira do automóvel. Ana soltou um grito estridente que ecoou pela Serra do Mar, agachou de junto com a cadela, enquanto o carro já vinha reduzindo a velocidade, com o pisca alerta ligado, com a pretensão de não atropelar as duas. Ainda bem que um outro acidente não aconteceu, na mesma rodovia, em menos de 24h. Eu e o Paulo continuamos a andar, enquanto Ana ficou ficando para trás, junto com a cadela, fazendo sei lá o quê. A parar para amarrar o cadarço, olhei para trás e vi que um caminhão havia parada justamente onde as vi pela última vez. O caminhão demorou a sair, e enquanto ele não saiu não era possível ver o que acontecia. A escuridão já dominava as pistas. Deduzimos que ela havia pedido uma carona para levar a cachorra até o próximo ponto de apoio, no km 77. E foi isso que aconteceu. A outra cadela seguia na frente, caminhando junto com o Diógenes e com a Cláudia, correndo atrás dos carros que passavam, tentando morder os pneus dos mesmos. Mas parecia que ela queria morrer, isso sim! A rodovia não tem iluminação própria, e com a chegada da noite não dava para ver o quão distantes à nossa frente estavam o Diógenes e a Cláudia e uma das cadelas, muito menos para trás, onde deveriam estar a Ana e a a outra cadela. Decidimos continuar pois todos se encontrariam no mesmo ponto. Há menos de 100 metros do ponto de ônibus, vimos uma das cadelas farejando o acostamento da pista, entrando na mata e sumir de vista. Coisa que aconteceu durante todo o dia. Logo depois que encostamos na mesa de sinuca do boteco, veio a Ana, ofegante feito um Búfalo, acompanhada pela cachorra que tinha pego carona na boleia do caminhão junto com ela. Explicou que a cachorra tinha ficado assustada quando desceu do caminhão, que não sabia qual rumo tomar para ir embora, e que a seguia por onde fosse. Sendo assim, ela jogou a cadela nos ombros e veio ao nosso encontro. Por isso tanto cansaço. Quando ela perguntou da outra cachorra... ai, ai, ai. Que cena. Não sei se por brincadeira, ou falando sério, o Diógenes disse que um carro havia batida de raspão nessa cachorra, e que ela gritava de dor até não querer mais. Pra quê que ele disse isso? Essa Ana perguntou onde estava a cachorra, disse que tínhamos abandonado a cadelinha, que ela já estava morta, que isso, que aquilo, coisa e tal. Fez um estardalhaço general. Só faltou chorar (faltou pouco). Só depois de uma conversa com os moradores locais, dizendo que reconheciam a cadela, e sabiam que era seu dono, um deles se propôs a “prende-la” até o dia seguinte, “prenderia” a outra cachorra quando a encontrasse, e entraria em contato com dono das Totó. Mesmo assim, continuou a se lamentar com aqueles que perguntavam o estava acontecendo. Mas se deu um pouco satisfeita com a maneira que tudo estava terminando. Só a partir daí que pudemos seguir em paz até nossas casas. Amém! Vgn Vagner.
  12. Estatísticas Altitude: Pedra do Sapo: 990 metros Pico Itapanhaú: 1080 Pedra da Esplanada: 1020 Pico do Garrafão: 1030 Distância percorrida: 36 km Área de acampamento: em todos os cumes Pontos de água: entre Sapo+Itapanhaú (bastante), Itapanhaú+Esplanada (só em época de chuva), Pico do Garrafão (bastante na base).
  13. A Pedra do Sapo, com seus 990 metros de altitude, é a “queridinha” de Biritiba Mirim, e mesmo não sendo um atrativo de grande porte, acaba atraindo visitantes de várias áreas esportivas: caminhantes, ciclistas, escaladores. Uma vasta variação de atletas amadores. E como a visitação é livre, de acesso fácil e baixo custo, até a “turistaiada” frequenta o local. Seu formato rochoso, surpreendente, realmente lembra um sapo, e a melhor forma de se ver isto é estando sobre a Pedra da Forquilha, à oeste do Sapo. Facilmente, conversando com os trilheiros, e praticantes de rapel, que se encontram com frequência no local, se ouve alguém comentando sobre outro pontos mais altos nas proximidades, que tem muita coisa a ser explorada na região, e blá, blá, blá. Os mais mencionados são: Pico Itapanhaú e Pico do Garrafão. Mas o povo nem faz ideia da localização, ou qual a direção tomar para chegar à esses picos. Pensando nisso, e lembrando que poucas pessoas do “mundo do trekking” dão atenção àquele cafundó, decidi fazer algo diferente por aquelas bandas, e interligar todos esses picos numa pernada só. Concluindo assim, o Circuito dos 4 cumes de Biritiba Mirim. Algo parecido foi feito no ano de 2015, quando, junto a mais 4 amigos, fizemos um circuito tríplice, excluindo da lista o Pico do Garrafão. E hoje, ano de 2016, com ambições um pouquinho maiores, a ideia foi ligar todos o pontos mais altos em uma caminhada só. Vamos ver no que deu... Relato Ferraz de Vasconcelos/SP, 25 de Maio, de 2016 - 12h20 (véspera de feriado). Recebo uma ligação, e com ela a boa notícia de que eu teria os primeiros 2 dias do feriado prolongado, livres. Mas vem cá... Ficar sabendo (ao meio dia e vinte, de uma véspera de feriadão) que você vai ficar em liberdade provisória, é uma boa notícia?? Pra mim é a mais pura sacanagem! Pois não dá tempo de se preparar para nada, definir um destino, organizar logística, carregar a cargueira, convidar amigos, coisa e tal. Mas, mesmo assim, eu achei bom! rs Itinerários são milhares, mas com tempo pra lá de corrido entre as tarefas do dia a dia, me contive a me encaixar em alguma coisa que não fosse tão longe, nem tão caro. O início da temporada do “montanhismo” brasileiro já vinha dando as caras, mas o meu fascínio em explorar os grandes rios da Serra do Mar não me deixavam ver isso. Acredito que essas folgas surpresas vieram para abrir meus olhos para esse lado que não exige logísticas tão elaboradas. Sendo assim, sabendo das possibilidades de não conseguir companhias, convidei geral. Criei um evento na principal rede social mais usada no momento, onde temos uma infinidade de aventureiros ávidos por um contato com a mãe natureza. Mesmo com tal infinidade, obtive uma esmagadora avalanche de NÃO. Por que? Alguns estavam doentes, outros trabalhando, e outros com viagem marcados para grandes travessias, e outros dando desculpas esfarrapadas, rs. A única pessoa que se manteve firme e forte, até o fim do propósito, foi a Ana Caroline, que, desde que leu o relato do CIRCUITO DOS 3 CUMES, demonstrava interesse em percorrer tal caminho. Caso ela não fosse, eu já estava conformado com tanto não, e me preparava para ir sozinho se fosse o caso. Pois já não aguentava mais ficar, incríveis 15 dias, sem percorrer os caminhos que tanto me atraem na Mata Atlântica. Como eu já conhecia a região e o tempo estimado de caminhada até os primeiros pontos de interesse, programei o encontro às 09h20, na Estação Estudantes da CPTM. Pois o próximo ônibus com destino a Manoel Ferreira sairia do terminal rodoviário às 09h35. Quando bateu esse horário, a Ana desembarcava do trem, e eu, na plataforma, esperando há pouco mais de vinte minutos, já estava crente que perderíamos busão e teríamos que aguardar mais 1h30 até a saída de outro ônibus com destino a Manoel Ferreira. Ao atravessar a rua, depois de sairmos da estação, vi o ônibus recebendo o embarque de um último passageiro e se preparando para partir. Corre que dá tempo, Ana - disse à ela. Corremos mais que o Claudinei Quirino, assobiei feito um louco, e fiz sinal para que nos esperasse. E pouco depois de partir, fez um retorno fora de seu itinerário, só para não perdermos aquele Bus. Eeeita, Motorista gente fina da moléstia. rs Depois de 50 minuots dentro daquele latão que chacoalhava mais do que cintura de rainha de bateria, saltamos no ponto final. E enquanto ajustámos os últimos detalhes, uma prosa amistosa com o Motô, só para retribuindo a gentileza. Demos início a caminhada, às 10h40, pela Estrada de terra que acompanha a tubulação de água que a SABESP usa para interligar o reservatório Rio Claro, que fica entre Biritiba Mirim, Salesópolis e Casa Grande, à outra extremidade, à oeste, em Taiaçupeba. Essa estrada segue por cerca de 3 quilômetros sem oferece qualquer dificuldade ou risco com carros passando em alto velocidade, assaltos ou qualquer anormalidade que encontramos na capital. Sem sobe e desce, por enquanto, serve como um preparatório aos “cambitos,” e um ótimo palco para reforçar os vínculos de amizade de quem a percorre. Sítios e fazendas em ambos os lados são os adornos típicos de área rural. Inclusive, uma plantação de pimentão nos chamou a atenção, pois estava à beira da estrada e sem nenhuma proteção, cerca, ou cuidador por perto. Não resistindo à tentação, peguei dois que estavam caídos no chão, um vermelho e outro verde, para incrementar nossa janta. hehehe Depois disso ignoramos as vias que seguiam a esquerda, chegamos na porteira grande de madeira, que barra o caminho de quem chega de carro, e assusta os mais medrosos com uma placa que avisa sobre a presença de CÃO BRAVO. Ainda bem que é alarme falso. A porteira barra os carros, mas deixa suas laterais abertas para quem passa à pé. Assim, se chega na propriedade por um corredor cerca de mata e marcas de pneus no solo. A chácara está sempre vazia, pois a dona deixa o lugar aos cuidados do caseiro (Sr. Raimundo), que quando está presente até permite a passagem, mas se flagrar alguém entrando sem aviso prévio, e estando de mau humor, vai falar até não querer mais. Por isso, passamos a falar baixo, na intenção de não chamar a atenção. Pois havia um carro parado na porteira, e isso trouxe o receio de que os donos estivessem por lá. Mas pude sanar a dúvida quando olhei a placa do carro, que registrava ser de Suzano. A trilha começa logo ao lado da casa principal, subindo entre um caminho estreito, e pouco notável, na mata fechada. O bom de ir até a Pedra do Sapo por essa trilha, é isso: estar sempre sob a sombra da mata fechada, enquanto por outras trilhas e estradas nos arredores levam ao cume da pedra sob céu aberto. Estando sol, amigo, vai fritar. O peso que a Ana carregava era bem maior do que o meu. Ela carregava uma mochila cargueira de 60 litros, enquanto a minha era de apenas 35 litros. Ela levava 3,7 litros de água, enquanto eu levava 500 ml, fora a quantidade exagerada de comida que ela costuma carregar, enquanto eu prefiro racionar um pouquinho para ganhar leveza na mochila. Claro, como cavalo que sou (ops, cavalheiro), me propus a levar sua mochila inúmeras vezes, mas a bicha é carne de pescoço. Não se sentiria digna de estar levando um peso, e deixar para outro carregar. Ela encarava todo esse sofrimento como um treino para travessias de maior porte. Que bom. rs Não deu nem 10 minutos de subida leve, e ela já parava para descansar e beber água. Logo que continuamos, ainda subindo, passamos por um bambuzal à nossa direita, e em seguida, viramos em uma bifurcação no mesmo sentido. Até ali, tudo bem, eu estava reconhecendo o caminho no qual passei há 2 anos atrás, quando estive na Pedra do Sapo pela primeira vez. Depois de continuar, a partir dali em terreno plano, pouco depois passamos por uma picada à canhota, observei, mas só olhei e decidi seguir a caminhada em linha reta. Comecei a suspeitar que estivesse num caminho diferente do desejado, e logo que começou a descer muito e a mata fechar bastante, tive a certeza de que não era para ignorar aquela entrada minutos antes. Chegamos em um ponto onde um pequeno riacho, tímido e sem barulhos, correndo lentamente aos pés do morro. Uma pequena barragem foi improvisada, com sacos plásticos empilhados e recheados com terra, para que algum frequentador da região fizesse proveito. Isso fez com que a gente desse meia volta, e retornasse até a parte plana novamente, pois em todo o trajeto de ida da vez anterior não haviam pontos de água. Retornamos e entramos pela picada que ignorei. O caminho também faz uma leve descida, nivela e toma a direção oposta da desejada, vai se afastando cada vez mais, só pra aumentar o pontinho de dúvida que surgiu na cabeça. Depois de termos andado um bom pedaço de trilha, um novo barulho de água aparece mais forte, e a dúvida triplica. Cheguei ao ponto de pensar: nossa, Vagner, que lixo. Se enfia nos ambientes mais hostis da Serra do Mar desbravando rios caudalosos, pra se perder aqui!? Francamente, que vergonha, viu!? O caminho continua sempre bem batido, sempre bem pisado e sombreado pela densa mata, segue em direção suspeita, Mas quando aponta novamente no rumo certo começa a subida. “anda, para e descansa; sobe, para e mija. anda, para e descansa; sobe, para e bebe água.” Assim foi nosso passo a passo durante a insistência de permanecer no mesmo caminho, e não voltar atrás. Pouco depois de passar por uma grande rocha que escorria água, paramos em uma “encruzilhada” que me refrescou a memória e me fez voltar o ânimo. Dei uma olhada na via da esquerda, mas o que vi foram apenas rochas paralelas formando um pequeno vale seco. Depois disso descemos uma leve inclinação, para depois subir de vez e chegar até o topo da Pedra da Forquilha, que dá a visão perfeita da Pedra do Sapo. Isso, duas horas depois de termos iniciado a caminhada lá no ponto final do ônibus. Havia um pequeno grupo praticando rapel, e com eles, um cachorro preto, grandão e bonito. Se tratava do Buddy, um cachorro de um dono que mora ao lado do início da trilha, e vez ou outra acaba subindo até a Pedra do Sapo junto com os trilheiros. Lá, ficamos por um bom tempo admirando a vista sob tempo aberto, descansando, conversando com a galera da equipe Sentido Obrigatório e tentando comer alguma coisa, mas o Buddy não deixava, rs. Em qualquer vacilo, ele já dava um bote, e lá se vai um lanche, iogurte, bolacha. Tudo ele devora. Até banana com casca. Quando fomos subir no sapo, Buddy foi com a gente. Outro grupo comia às escondidas, mas o canino esfomeado tratou de achá-los rapidinho, e deu um trabalho para eles conseguirem comer sossegados. Nossa permanência ali não foi tão longa, e quando bateu 14h10, já estávamos nos pirulitando no primeiro lance de corda da face leste do Sapo. Um trechinho que requer atenção, pois é úmido e escorregadio demais. Já com os pés em solo firme, passamos a andar na trilha que segue aberta e sem dificuldades. com 5 minutos caminhados, entramos na discreta picada à esquerda, fomos ao mirante ver as duas pedras por um ângulo diferente, tiramos algumas fotos e logo voltamos à trilha principal. Mais 5 minutinhos de trilha, e começa um grande lance de cordas que auxiliam a grande demanda de pessoas que usam aquela via para acessar o cume. São mais de 50 metros de corda, de 6mm, que servem como corrimão de apoio. Quando esse lance de cordas acaba, ainda temos uma bom trecho de ladeira pra descer, com o peso das mochilas e o impulso que se toma, fica até difícil para em alguns pontos. Terminado o episódio das corridinhas ladeira abaixo, a trilha encontra com uma tangente, onde pegamos a esquerda sobre um curto trecho de terreno plano, para depois voltar a descer e correr sobre a piramba, rs. Não tem como se perder por esse caminho, está tudo, visivelmente, bem pisado, e não é necessário sair entrando nas bifurcações que estão quase apagadas pelo caminho. Levamos meia hora para descer até o fim da trilha, que acaba numa estradinha de terra, onde pegamos a direita e seguimos até a próxima bifurcação à direita. Nesse trecho há três riacho que passam por baixo da estrada, sendo possível abastecer as garrafas, ou cantis. Tudo que se vive até esse ponto é um passeio no parque. Mas, quando chega a bifurcação das estradas onde devemos começar a subir, dá até medo de encarar. A segunda maior parte de esforço físico do circuito está, entre o início dessa subida e o cume do Pico Itapanhaú. O próximo objetivo. Por cerca de 300 metros ainda é possível captar água no riacho que desce pela marginal direita da estrada. Deve-se pegar o suficiente para beber e cozinhar, já que é ali sua última fonte de água até o dia seguinte. Quando não ouvir mais a água por perto, prepare-se, o bicho vai pegar. A estrada começa a ganhar uma inclinação absurda, que se esconde a cada curva que serpenteia o trajeto sinuoso. A energia começa a esvaecer a cada “fungada” buscando o ar para aguentar o tranco. A Ana sofreu nesse trecho! teve que parar por várias vezes, pois a bronquite, o peso, a subida, e o calor faziam com que andássemos 3 minutos e parássemos 10. rs. Eu seguia um pouquinho à frente para conseguir registrar a perspectiva da piramba em fotos. Parece um ascensão interminável, que apontar na direção do céu e toma seu rumo, tem uma breve pausa em terreno nivelado, e volta a subir, subir e subir. Logo que se faz uma curva bem fechada para direita a estrada volta a ganhar terreno plano novamente, e antes de voltar a subir, do lado esquerdo tem a entrada da trilha que leva até a Pedra da Esplanada. Quando fiz uma pausa para mostrar a picada que entraríamos à Ana, vi que 3 homens desciam no sentido contrário. só deu tempo de dizer: - poucas ideias. A gente só cumprimenta e continua. Quando foram chegando mais perto, deu para reconhecer o J. Augusto, um dos maiores caminhantes desse Brasil. E o que era para ser apenas um cumprimento cordial, se tornou uma longa prosa com trocas de informações sobre trekking. Foi muito gratificante! E como não poderíamos retardar nossa caminhada, seguimos.Pouco depois batalha contra aquela subida vai chegando ao final. O terceiro, e último, lance nivelado dá lugar a uma descida e volata a subir de maneira menos agressiva, ziguezagueando o entorno do pico. De frente para a Torre de Telecomunicações deu para ver que o reforço com a segurança havia aumentado referente a visita que fiz anteriormente. Cercaram todo o lugar com cercas elétricas e arames ouriço (altamente cortante), mas não adiantou muita coisa. Deixaram o portão aberto. kkk Ainda era 16h50, e ao subir em um pilar de concreto já deu para ver um imenso tapete de nuvens vindo do leste e cobrindo a parte mais baixa da região montanhosa. E com o sol em alto clarão, ainda. Foi energizante sermos recepcionados por uma cena como aquela. Só deu mais gás ao meu plano: escalar a torre de 60 metros para poder ver o pôr do sol lá do alto. A Ana topou de primeira. Largamos as mochilas no chão, espalhamos as tralhas e montamos acampamento. Já era hora de subir, mas a esfomeada queria comer alguma coisa, e resolveu fazer um macarrão instantâneo. Até que eu esperei um pouco, mas percebi que não sobraria tempo suficiente para escalar toda aquela estrutura de metal e ver o sol se pôr. Iniciei a subida, degrau pós degrau, segurando apenas nas finas barras e sendo amparado por arcos de ferro que fazem a segurança de quem sobe.A cada lance de escada (são 12 lances), o cenário se mostra surpreendente, a massa de nuvens já toma quase por completo o que se vê de lá de cima. Quando cheguei no topo, cansado e ofegante pelo desgaste, rapidez e esforço (idade mesmo, rs), ainda consegui ver meia bola de cor alaranjada se escondendo no horizonte branco. Um patamar abaixo já estava Ana, assistindo o espetáculo do sol. Assim que se pôs por completo, se juntou a mim, e ali pudemos ver uma das coisas mais incríveis que já vi estando em “montanhas.” O céu ainda estava claro, as nuvens haviam coberto tudo que despontar acima de suas camadas. Apenas o pico que estávamos, e um raio de 2 quilômetros, estava visível. Ao olhar para o leste, a única coisa que se via eram nuvens a perder de vista. A sensação de encanto era de estranheza ao mesmo tempo. Pois aquela imensidão nos fazia crer que estávamos em um cenário de contos infantis, onde não tinha chão, não tinha teto, ou qualquer matéria. Tudo parecia tão palpável, tão próximo e seguro, que dava vontade de se jogar, deitar sobre as nuvens. Foi algo inexplicável. Mas nada é tão bom que não dure para sempre! Logo chegaria a noite, e com ela o perigo de descermos aqueles degraus no escuro. Esse pensamento acelerou nossa retirada. Mas antes disso, uma massa mais espessa de nuvens chegou rápido até o ponto em que estávamos e complicou um pouco a situação. Aquela infinidade de micro gotículas que vagam com o nevoeiro abraçaram a torre, fazendo com que cada degraus ficasse ensopado de água, escorregadio e gelado feito gelo. Perigo total. Não demorou muito, e enquanto descíamos, chegamos na metade da torre e fomos pego pela névoa que foi capaz de nos fazer sentir o choque térmico com a queda brusca de temperatura. Era difícil ver o quanto nos restava descer. Quando pisamos em solo firme, uma luz estava acesa. Tensão total. Várias indagações invadiram a mente... Será que havia chegado alguém? Um guarda noturno? Algum bando de arruaceiros que usam o lugar para uso de drogas, crimes ou coisas do tipo? Quando se tem uma mulher como sua única companhia, várias preocupações atormentam a mente. Até porque, se aparecem 3 homens, em um lugar onde ninguém ouve um grito de socorro, já se imagina uma futura cena de barbárie. Não demorou muito, a luz se apagou. Nessa hora o coração parecia uma bateria de escola de samba em ritmo acelerado, pois o cenário era sombrio, feito Sailent Hill, com uma neblina densa que nos permitia ver, no máximo, 5 metros à nossa frente. A luz se acendeu novamente, fiquei mais apreensivo do que já estava, peguei meu punhal e fomos dar um giro ao redor da casa de máquinas para ver se tinha alguém querendo nos assustar (e estavam conseguindo). Fomos “pisando em casca de ovos" e sem dar nenhum piu. E pra nossa sorte, não tinha ninguém. Mesmo assim eu fiquei arisco, olhando para todos os lados a todo instante, e isso fez com que a Ana ficasse assustada. Voltamos ao ponto de acampamento, retiramos a barraca da reta do facho de luz, mudando para debaixo da torre, comemos alguma coisinha e entramos para não sair mais. A janta ficou para ser feita no café da manhã. rs Mesmo com todo aquele susto, tivemos uma noite tranquila. A não ser pelas goteiras que caiam da torre bem em cima da barraca. Levantei às 05h40 para subir novamente ao topo da torre, com a intenção de ver o sol nascer, mas não tive sucesso. Estava tudo encoberto, não deu para ver quase nada. Sorte a da Ana que preferiu ficar dormindo. Quando voltei, me propus a fazer o almoço/café da manhã, enquanto ela tentava acordar. Ainda arisco com a situação da noite passada, fiquei com os ouvidos em alerta, pois havia uma enorme antena de telefonia largada no chão, ainda embalada na caixa, e algo me dizia que funcionários viram para montá-la. Dito e feito. Ao longe escutei algum barulho e parei para prestar atenção... - o que foi, Vgn? - perguntou, Ana. - pensei ter ouvido algum barulho de carro. - respondi. o barulho sumiu, mas em poucos segundos ressurgiu. Mas só eu quem escutava ele indo e voltando em curto intervalo de tempo. Quando reapareceu mais próximo, a Ana escutou e concordou com a minha suspeita: era um veículo subindo em nossa direção. Já fiquei imaginado o quanto iriam pegar no nosso pé por estarmos acampando em área privada, e um monte de ladainha que não dá em nada. Homens quando estão em grupos, e se sentem superiores a um grupo menor e menos ofensivo, gostam de se aparecer. Já tínhamos começado a guardar nossas coisas, mas não daria tempo de sair dali antes da chegada deles (eu estava pensando nisso). Mas quando olhei pra Ana, vi que ela estava a milhão, toda acelerada jogando as coisas na mochila. Enquanto isso o barulho se aproximava. Quando pegamos as mochilas e saímos correndo em direção ao portão, o veículo já estava virando a última curva, há uns 50 metros perto de nós. Eu saí primeiro, a Ana tentando sair, enganchou a mochila no portão, e a adrenalina à mil. Conseguindo desprender a alça enroscada, nos escondemos no mato e o trator passou rebocando uma carroceria com 4 homens dentro. Ufaaa... foi por pouco! coisa de 40 segundos. srsrs Voltamos à estrada sem eles perceberem, começamos nosso retorno ladeira abaixo, e logo em seguida o trator fazia barulho de que estava retornando. Como não estávamos mais em propriedade privada, continuamos a andar calmamente, como se nada estivesse acontecido, rs. A Ana ainda queria que eu pedisse uma caroninha até a nossa próxima entrada na trilha. Apenas cumprimentei o motorista e continuamos a caminhada. rs Pisado os primeiros passos na trilha que leva até a Pedra da Esplanada, não teve erro. O chão ainda tinha rastros de pneus da galera do MOTOCROSS que passam rasgando mata a dentro. O caminho segue óbvio e objetivo, e acaba terminando na estrada principal. Mas, como nosso rumo não era o da estrada ainda, abandonamos a principal logo que ela fez uma curva para esquerda. Uma picada nascer bem discreta, quase imperceptível em meio ao mato alto, mas não passam 5 metros que ela se abre feito mala véia. Essa trilha ganha uma descida acentuada até alcançar uma área bem aberta, onde pegamos para direita, e sobe, sobe, sobe... Em meia hora chegamos na parte mais alta da Esplanada. Uma pena que estava tudo tomado por neblina, e não dava para ver quase nada. Por isso, não demoramos ali, e tocamos morro abaixo para chegar até a estrada. Quando chegamos novamente na área que citei acima, pegamos a direta, e começamos a descer forte mais uma vez. A trilha segue aberta, e de repente sai da mata densa e desaparece no meio de uma imensa área de “calipal.” Mas dá para farejar o que restou do caminho que desce bastante, volta a ser trilha e tem seu fim na estrada. Fui pedir um pouco de água e buscar algumas infos de qual seria o caminho certo para se chegar ao Garrafão. O senhor que me deu água, de início foi “pé atrás,” explicou o que eu pude entender, e somando suas infos como o pouco que eu sabia sobre o caminho deu para quase se perder. rs A pernada é cansativa a partir desse ponto, pois, a estrada faz um contorno que parece querer fazer um circulo, e sempre segue com o mesmo cenário hipnótico: reflorestamento de pinos. Uma vastidão sem fim. Com os pés rumo a uma eternidade de chão batido e pedras, serpenteando aquela fazenda passamos por algumas bifurcações, mas mantivemos sempre a direita, passamos por baixo de uma ponte, sobre/entre os aquedutos, e quando topamos com a trifurcação que confunde por onde se deve seguir, em frente a porteira amarela, escolhemos o caminho do meio. Mas, o chão mal pisado denunciava que não era por ali que iríamos conseguir alguma coisa. Só se lascar, rs. Com a certeza de estar na direção correta, e nas terras de alguém, seguimos devagar e desprovidos de gana. Eramos apenas duas almas que vagavam por instinto, ouvindo nada mais do que os próprios passos. Não tardou muito, ao nosso lado esquerdo, passamos por uma pontezinha às margens do “desejado.” Onde um riacho que rodeia o maciço foi o nosso companheiro. Descia borbulhando à contra fluxo, enquanto nos esforçávamos para vencer o cansaço. A cara da Ana era de quem já queria entregar os pontos, mas, a determinação de alcançar o 4° Cume e concluir o objetivo era uma questão de honra. Como o tanto que andamos poderíamos ter chegado no litoral. Mas o fim de sua base não chegava nunca. Eu ouvi conversas de que a trilha que sobe para o topo do Garrafão tem início em um descampado na face sul. Ignorei esse descampado, que estava quase todo coberto por mato alto, preferi contornar e subir a estradinha que vinha da esquerda. Quando vencemos a subidinha, e da direita veio outra estradinha oblíqua, encontramos a marcação que aponta onde deveríamos entrar. Pronto, era hora de saber o quão de inclinação tem aquele pico. Logo de cara se tem uma trilha super inclinada, que segue nítida e estreita. E ao pensar que não encontraríamos uma alma viva pelo caminho, decidimos esconder as mochilas na mata e subir com menor sacrifício. Foi uma ótima escolha! Pois tivemos que encarar, 200 metros de desnível em uma subida que não dá trégua para descanso. Sobe, sobe, sobe e, no intervalo de 40 minutos de subida, parece que nunca vai acabar. O suor cai, mesmo em temperaturas mais amenas, falta o ar, as pernas estremecem, e só a determinação é capaz de fazer um ser humano chegar ao topo da grande rocha, que tem em seu ponto culminante uma pequena área para acampamento (se necessário), 1 pilar de concreto com as marcações topográficas, e não oferece vista para qualquer lado que se olhe. Foi ali, naquele momento, que dei o golpe de misericórdia nos ânimos de Ana. Eu havia comentado de subirmos um 5° cume na região, e que eu havia deixado de fora da lista por não haver tempo suficiente para 5 cumes em 2 dias). E como um tiro no coração, sepultei tal ideia. Realmente, estava fora de alcance subir o Peito de Moça (Pico do Gavião), que não tem uma trilha óbvia e segura para ser acessada pela face sul. Teríamos que escalaminhar outra piamba infernal, e sem saber se chegaríamos no topo ainda com a luz do dia. O melhor seria adiar a ideia para uma outra data. E assim foi feito. Deu apenas meia hora de descida, e já com as mochilas nas costas, nos jogamos, largados, no meia da estradinha para comer o que tivesse e tomar o caminho de volta, que, em 10 quilômetros de pura lentidão, deveria ser finalizada ao cair da noite. Além dos incômodos com o peso da mochila, Ana passou a reclamar com mais fervor por conta das dores que o Coturno causa depois de 2 dias andando feito camelo, subindo e descendo os morros feito Sherpas Andinos. E passou a andar com um cajado (galho de árvore) que encontrou jogado pelo chão. Estávamos mais do que cientes de que não encontraríamos qualquer veículo circulando por aquelas bandas! Mas o clamor interno, e individual de cada um, implorava por uma carona que nos levasse até o ponto de ônibus. Mas o cansaço era extremo, e com ele, Ana se arrastava pela estrada, quase rastejava na tentativa de dar um passo após o outro. E se tivéssemos a oportunidade de uma carona naquele fim de mundo, ela foi-se embora. Chegamos a ouvir, por duas vezes, barulho de carro e caminhonete, saindo de dentro de alguma propriedade para acessar a rua. Mas o nosso avanço não era o suficiente para pegá-los antes de saírem. Faltavam pouco mais de 2 quilômetros para chegarmos no ponto de ônibus, quando, na grande reta que acompanha o aqueduto, vimos uma pickup, prata, cabine dupla, vindo vagarosamente oscilando sobre as depressões da via. Quando chegou perto, fiz sinal de carona, o carro parou, e o motorista disse: só vou ajudar por que são dois velhinhos andando de bengala. Entrem aí. Com a abordagem descontraída do motorista, Senhor Mariano (Bira), que estava acompanhado por dois vizinhos adolescentes, começamos um conversê danado, aliás, ele começou a falar ininterruptamente por toda a viagem. Mas a conversa era agradável, respeitosa e com boas histórias para se ouvir. Quando chegamos perto do ponto de ônibus, Sr Mariano já sabia onde morávamos, e com todo bom coração que aquele homem tem, se propôs a nos levar por mais alguns quilômetros, até a estação de trem de Mogi das Cruzes, deixou o casal de irmãos em Biritiba-Ussu, e seguimos. Era notável que se tratava de um senhor carismático, simples e de coração aberto. Que confia demais na humanidade. Expôs tantas particularidades, que a chegada até Mogi foi pouco tempo. E como seu destino era o centro da cidade de Suzano (passaríamos por lá), ele quis nos levar junto. A conversa era incessante, mas por um momento teria um fim. E esse fim se deu após de mais de 30 quilômetros de carona, com aquela pessoa que apareceu para nós como um anjo salvador. Finalizamos nossa aventura extasiados com tamanha sorte, e dando graças por tudo que aconteceu. Viva ao Sr. Mariano. \o/\o/\o/\o/\o/ Vgn Vagner.
×
×
  • Criar Novo...