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edmilson vieira

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Tudo que edmilson vieira postou

  1. Oi Vladimir, pois é, os bancos e suas senhas. abraço Edmilson Vieira
  2. Mas me prontifico a não passar mais tanto tempo longe dos mochileiros.com abraço amigo Augusto.
  3. Depois de um bom tempo sem viajar, de repente, Polônia. Invadir o país pela cidade de Gdansk, como fez o inimigo dando início à Segunda Guerra Mundial. A volta à estrada promete. Quando desço no aeroporto Leck Walessa, dá a impressão de estar na Rússia devido às roupas que cada mercadoria loira polonesa usa para enfrentar até 25 graus negativos. Olá, venho oferecer-lhes o sol, trazido de um povoado pernambucano. Na frente do aeroporto uma observada nos montes de neve e está na hora de guardar o filtro solar porque o calor do Brasil se encontra a uns milhares de quilômetros de distância. O frio vem para transformar qualquer brasileiro em estátua, monumento para a posteridade. É possível um pouco de abrigo no ônibus que vai chegar com calefação e transportar o grupo de poloneses e desembarcados ao centro de Gdansk, Danzig, para os alemães que na época da Prússia eram donos da cidade. O ônibus para na frente da estação ferroviária. O prédio é de mexer na respiração dos turistas. Realmente, a Polônia é bonita, Gdansk se distingue pela arquitetura. Começa a caminhada num dos países que de todos os ângulos que se tirar uma foto, é história. O centro nem passa ônibus. Chegou, é pra caminhar. Roupa para o frio não adianta, é um paliativo. O rosto aparece muito pouco e todos sem exceção usam cachecol (medo de pneumonia?). O rio que corta o centro está congelado há meses e as pessoas traçam pegadas em cima do gelo na maior tranqüilidade. Depois sentam num banquinho desmontável e furam a crosta para promover a tarefa da pescaria. De fato, cada povo com seu costume e sua coragem com a certeza de que não vai afundar. Cinco passos que dei e nada mais. Se tiver de fazer turismo em cima do gelo ou comer um quilo de peixe, pescado dessa maneira, minha família vai passar fome. Falta a coragem que os gdanskianos esbanjam. Foi aqui que nasceu Schopenhauer e Fahrenheit. Nicolau Copérnico é de uma cidade vizinha, ao sul. Depois de sair do centro de compras chamado Galeria Madison, vejo duas crianças tentando alcançar uns cristais de gelo na janela de uma casa. Pula, pula cavalinho. Identifico o problema à medida que meus braços são altíssimos e desde muito tempo sirvo para trocar lâmpadas em casa de vizinhos sem uso de escada ou cadeiras. Declaro guerra aos cristais de gelo. Quebro um pedaço e as crianças saem com a obra da natureza na mão. O que chama a atenção delas é o meu sotaque quando respondi “de nada” em polonês depois que elas disseram genkuiê, obrigado. O importante é o gelo não derreter, o idioma a gente cambaleia mesmo. Em Gdansk o que mais tem é igreja. Os poloneses são um mundo à parte na religião católica, contudo, não vou entrar em nenhum templo, nenhum museu, nada. São apenas cinco dias, um deles para ir a um campo de concentração e os outros para fotografar a paisagem com neve que muda a cada dia conforme as intempéries. Criou um buraco no meu estômago por não saber pedir os pratos nos restaurantes. Quem inventou o mundo esqueceu de dizer aos poloneses que a língua deles nem os escribas no Antigo Egito decifrariam. De fato, um cardápio em inglês nem que fosse numa folha de papel de pão, ajudaria às pessoas de fora. Enquanto eles não incorporam esse hábito, observo o que o povo pede nos restaurantes e se me agrada peço igual e ainda ofereço lápis e papel para que escrevam aquele nome em grego. Depois disso tudo tem a questão do aeroporto: retorno à Alemanha. Além da alimentação pouca, dos nomes estranhos, das inflamações nas vias respiratórias, a Polônia afeta também a pressão arterial. É susto com tanta beleza, e a cada esquina os sintomas se agravam! Edmilson Vieira é estudante de Design na UFPE e escreve crônicas. [picturethis=http://www.mochileiros.com/upload/galeria/fotos/20100715233030.jpg 500 281.25 ]Edmilson em Gdansk[/picturethis] . [picturethis=http://www.mochileiros.com/upload/galeria/fotos/20100715234435.jpg 500 281.25 ] o centro de Gdansk [/picturethis] [picturethis=http://www.mochileiros.com/upload/galeria/fotos/20100715234648.jpg 500 281.[] [b:2v9jzpno]caminhar no rio congelado[/b][/picturethis]
  4. E este carnaval de 2009 eu me envolvi com o inverso, sai de Recife e fui passar no Rio de Janeiro. Pensei em levar um colete à prova de bala, mas desisti. Totalmente tranquila a cidade, não vi nada além de bloco, carro alegórico e samba no pé. Foi maravilhoso.
  5. Em se falando de costumes, o alvo festivo do pernambucano não é só o carnaval. Tem uma tradição que consegue arregimentar verdadeiro exército com ramificações por outros estados do Nordeste: a vaquejada. Esse evento que deixa dois seres humanos felizes por derrubarem um boi pelo rabo acontece em qualquer época do ano e geralmente longe dos centros urbanos. Quando a porteira é aberta, o animal sai correndo numa verdadeira rebelião estudantil e atrás dele, vêm os dois cavaleiros como se fizessem parte de uma tropa de choque. A queda do boi tem de ser num determinado lugar da pista e o ruminante mergulha na areia parecendo o atleta Gustavo Borges nas piscinas olímpicas. A vaquejada transcorre numa pista comparada ao tamanho de um campo de futebol. O local é plano, mas o turista que não conhece pode pensar que é lugar para lançamento de foguete. Além da perseguição ao animal, a vaquejada congrega atrações diversas como feira de artesanato e shows. Quem está curioso pra conhecer e pensa que vai encontrar o vaqueiro nordestino, está enganado. Hoje em dia é um desfile de chapéus e cintos "made in Barretos", que por sua vez os paulistas vêm copiando da Casa Branca há anos-luz. O povo embarca nas arquibancadas que ficam dos lados e como se estivesse em Bagdá, palavra árabe não falta, como por exemplo, “mourão”. No intervalo, a festa é embalada pelos aboiadores: dois homens cantando uma música arrastada, penosa, que deve ser de origem árabe e a civilização portuguesa trouxe até o Nordeste brasileiro. Os guerreiros passam três dias no evento de "derrubação de boi", dando valor à história, promovendo o que era dos antepassados. Infelizmente, a festa em um instante chega ao fim. Que pena!" Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas.
  6. Natal em Recife Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas. [email protected]
  7. A Ponte da Boa Vista Recife, área central, água doce poluída, passado e consumidores que vão e vêm. Por que tanto contorno, quando já poderia ter baixado o arquivo das pontes que é esse o assunto a ser tratado? Ôpa, encontrei-o! Andando no centro da cidade, pensamento positivo de que não vai ser assaltado, encontramos um entrelaçado de ferros sobre as águas do Rio Capibaribe. Sem dúvida que é a ponte da Boa Vista, produto made in Inglaterra. Sua beleza pode não ter concorrência com outras pontes do Brasil. As pessoas cruzam suas cabeceiras em ritmo frenético. Mão e contra mão de gente. Uns trabalham, outros estudam, milhões de pés cruzam e encontram momentos de calma enquanto caminham por ela. Este ano resolvi admirá-la de longe. Mas hoje fiz diferente, fui passageiro. Enquanto atravessava, o passado veio à mente. Na década de 1930, o Zepelim trafegava no céu e a ponte era trafegada por homens de paletó. Os dois, dirigível e homem, acreditavam que eram modernos. Não tem turista para fotografar, a violência e os tubarões afastaram boa parte dos visitantes da cidade. A ponte é um cartão postal pintado sem harmonia, com lâmpadas mal colocadas. E olha que gastaram dinheiro... “É o fim da aventura humana na terra!” Segundo a inscrição nas pilastras, foi inaugurada no ano de 1890. Através de textos em alto relevo, ela aponta momentos da história de Pernambuco e do Brasil. São escritos parcelados nas quatro colunas. Quem sai da Rua da Imperatriz chega rápido à Rua Nova através dessa plataforma de 145 metros. A ação da prefeitura impede que os camelôs... Uma comparação: transformem a ponte numa Bagdá, num mercado persa... Ou feira da Sulanca de Caruaru. A ponte da Boa Vista tem as vísceras de ferro expostas ao vento. É por isso que me causa impacto. Vigi Maria! Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas. [email protected] http://www.soutomaior.eti.br/fergon/paginas/pontes.htm
  8. Amigo É Coisa Pra Se Reencontrar Edmilson Vieira Buenos Aires. Indiscutivelmente as pessoas que eu conheci na primeira vez que estive aqui, sumiram. Faz sentido telefonar depois de 16 anos? Peste! Telefonar na Argentina é neurose de passar meia hora colocando números e ouvindo gravações. Mas preciso fazer as pazes com a telefônica. Desta vez os números obedecem e consigo falar com o primeiro amigo que conheci na região do Rio da Prata, Fabian Mulis. Cinco dias depois vamos nos reencontrar. Ele marcou na esquina da 9 de Julho com Avenida de Mayo, no centro da cidade, às 6 da tarde. Dizem que até as pedras se reencontram e constroem catedrais. Vamos a um jantar, verdadeira confraternização. Ele convidou dois amigos, Gabriel e Fernando, talvez para ajudá-lo a me explicar a decadência da economia argentina. Fomos a um restaurante chinês no subúrbio, para fugir da agitação do centro de Buenos Aires e degustar as marcas do nosso passado. Fabian, como se fosse um diplomata assumiu o papel de miscigenar em um só continente (mesa), três civilizações: Brasil, Argentina e China. Ele se casou com a cultura erudito-chinesa há dois anos. Estuda num curso de mandarim e agora espera o certificado. Depois da meia-noite, acaba jantar, fecha restaurante... Vamos à rua para resumir o encontro com um abraço de despedida e selar a paz entre as três potências, quer dizer, nações. Sigo com Gabriel até o centro de Buenos Aires num táxi, carro preto com uma parte amarela e aparência de abutre. O clima nunca é propício para abrir a porta e sentar ao lado do motorista. Nada de intimidade. No dia-a-dia as pessoas reservam um quilômetro entre elas. A noite em Buenos Aires é consumida pela badalação e mesmo com a crise, difere de qualquer lugar. Como o mundo já sabe disso, não é necessário dar esse recado. Enfim, saímos do bairro de Belgrano e dentro do táxi interpretamos a estética da cidade e do povo. Parecemos o prefeito e o governador. Avenida e vida são os trajetos percorridos. Conhecemo-nos no jantar e pintamos um quadro mais parecido com o reencontro de dois amigos de infância. Só faltaram os ressentimentos de família. Chegamos à 9 de Julho e pela primeira vez passo de carro por essa avenida. O néon das multinacionais dança no topo dos prédios apagando e acendendo e quem não tem dinheiro pra consumir, evite caminhar por essa artéria. O mundo é mau, e as propagandas luminosas são um liquidificador aéreo que trituram a sociedade capitalista. O carro pára em seguida. A mão abre o trinco da porta, palavras de despedida. A rota de Gabriel segue confortavelmente até em casa. Desde então, chego virtualmente na porta deles oferecendo e-mails. Gabriel respondeu uma vez, e quanto a Fabian, já virou tradição analisar tudo o que escrevo. Os três amigos são um tesouro. Pressupõe-se que o tempo deve permitir pelo menos a comunicação, pra não ser necessário passar mais 16 anos até surgir outra história dessas. Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas. [email protected] .
  9. La Plata, Ônibus Errado Edmilson Vieira Os aventureiros que desculpem, mas hoje, nada de ser turista acidental neste país Argentina. Na véspera de voltar ao Brasil, a idéia é de se desfazer do centro de Buenos Aires tomando um ônibus que segue por um viaduto de mais de dez quilômetros e dali de cima, tirar fotos das cúpulas dos prédios. Primeiramente fazer perguntas, se encher de informações, depois tomar o devido ônibus e... Surpresa! Hum, hum, cheiro de ônibus errado. Como administrar um fim de tarde que começa masoquista? A primeira coisa é se entrosar com os passageiros e depois se for o caso, dizer ao motorista que é sócio da empresa e procurar desviar a rota do veículo para encontrar o caminho certo. A condução segue acelerada para a cidade de La Plata e a noite se apressa em chegar para tornar mais dramática a ocasião. Paisagem verde, asfalto exemplar, floresta. De uma hora para outra, muda de rural para urbano e aparece a cidade de La Plata. O motorista não entra na rodoviária, algumas quadras depois chega à estação de trem e ainda ensina como voltar pra Buenos Aires. A estação de ferro carril dessa pequena cidade é um colosso, porém desprezada. Ela mostra o passado rico da Argentina. A volta pra casa vai ser mais tarde, antes disso dá tempo de explorar a vizinhança. Uma casa de frutas ainda está aberta e na hora de pagar não existe impasse porque o preço é permitido. Maçãs, ameixas e as ganhadoras da simpatia de qualquer pessoa, as deliciosas cerejas de Mendoza! Três restaurantes peculiares, naturalmente que um não escapa e o garçom coloca na mesa um exagero de bife com batatas fritas. A carne e o trigo argentinos são dignos do respeito de qualquer estrangeiro. Mais na frente, na esquina da estação, uma banca apinhada de revistas e um funcionário que recepciona bem. Ele tem o filme “La Noche de Los Lápices”. Que capacidade o mundo tem pra dar voltas! Tantos dias a procura dessa fita e, justamente ela está em oferta na cidade onde aconteceu a história aterradora. Esta foi a resposta exata por ter pegado o ônibus errado. Ainda falta uma hora para o trem transmitir o seu apito de partida. Sem dúvida que é enfadonho esperar até as 11 da noite! Para combater o cansaço, uma boa conversa. Um pedreiro com um livro de Jorge Luis Borges fala sobre filosofia. Ele esclarece coisas sobre a vida e, por espantar, é melhor escrever as suas frases num papel qualquer. Um trabalhador que é uma universidade aberta. Neste momento as pessoas já têm a liberdade de entrar no trem. A maior beleza é na hora de pagar a passagem, um peso e cinqüenta centavos que equivale a um real. Dessa maneira, todos têm o direito de ir e vir, mesmo que seja para longe. O trem pega o beco. Sentado ao lado do pedreiro que é psicólogo, etnólogo, filósofo, antropólogo, sociólogo e mais uns cem títulos dentro do bolso, menos o de político. Alguns vagões estão escuros, o trem pára justamente na floresta. Acontecimento sem importância para os argentinos. Dá pra lembrar algo de pessoas fazendo arrastão vindo dos vagões ou da floresta. Alguns minutos passam e a conversa dos passageiros segue normalmente. Por ter conhecido o país antes, já sabia dessa segurança e amadurecimento da sociedade. O pedreiro desce na quinta estação e uma hora depois, o entusiasmo de voltar pra Buenos Aires. Estação Constituição, quase uma da madrugada. Passos sincronizados pelas ruas até a parada do ônibus. Mesmo nas horas tardias, os argentinos são carentes por fila e pode ter apenas um na calçada, quem chega não vê outra possibilidade que não seja a de ficar em fila indiana. Finalmente o hotel, e nunca mais dizer que o dia será como se imagina, pois os ônibus errados transformam a viagem num espetáculo à parte e está aí o resultado. Edmilson Vieira é artista plástico e cronista [email protected]
  10. Julio Cortázar Edmilson Vieira O verão em Buenos Aires é desfavorável pra qualquer pessoa. Tem gente que chega a preferir uma explosão nuclear da Coréia do Norte. Aliás, a do Irã sim, poderia ser mais fria do que o ar do Rio da Prata. Pra fugir do calor, a regra é sair correndo e procurar abrigo num local com ventilação ou ar condicionado. Mas também não precisa romper com a cidade e se mandar pra Mar del Plata ou Santa Catarina. Dançar tango, nem pensar e muito menos, se conformar com o suor! Quantos obstáculos, quanta mão-de-obra, quantos delírios por conta de um clima abafado! Reclamar ou ter idéia superficial não adianta, mas existe uma saída honrosa: agendar um tempo qualquer na Confeitaria London, na esquina da famosa Avenida de Mayo e Rua Peru. O interesse em visitar o lugar, não é só por causa da relação pessoa x sensação térmica, é também compartilhar a confeitaria com o escritor Julio Cortázar (1914-1984), que chegou, sentou e escreveu partes da obra-prima, Os Prêmios. A confeitaria não esconde essa façanha e anuncia nas vitrines através de fotos e cartazes, esperando que ao ocupar suas mesas, o sentimento do livro aconteça em cada um dos leitores. Paulatinamente, a alma do filho ilustre belga/argentino poderia chegar, mas o público sentado conversa, e, a rede que vai tecendo atrapalha qualquer processo de integração do ser humano com Cortázar. Lá vem novamente o garçom, gentil com estrangeiros e peça fundamental para o sucesso da confeitaria. Ele atende e, ao mesmo tempo, atrapalha a possibilidade de contato com o escritor. Se pelo menos a mesa fosse redonda, já ajudaria, mas quadrada... Manhã perdida. Chega o meio-dia e nada, nem rumores do autor argentino. O negócio é voltar à noite com um bandoñon e esperar aquele que abandonou o seu lugar preferido. E assim, a visita aconteceu com excesso de tentativas de diálogo. Da mesa da Confeitaria London, fomos especialmente às nuvens, sonhar com o gênio que repousa em Paris, e nós, sem sucesso na investida, voltamos ao calor da rua e da vida real, decepcionados com o método fraco da abordagem. Questiona-se agora, se caso Cortázar tivesse aparecido para passar o recado (a técnica usada ninguém teria como descobrir), o calor da emoção que iria provocar seria bem maior do que a gravidez atômica da Coréia e do Irã juntos. Edmilson Vieira é artista plástico e cronista [email protected]
  11. ARGENTINA: NÃO SE ESQUEÇAM DE... Edmilson Vieira Em Buenos Aires no ano de 2004 aconteceu uma tragédia com repercussão mundial. Deixaram entrar num recinto fechado, 4 mil pessoas para o show de uma banda de rock. Um fã teve a idéia de soltar fogos de artifício. Fez ligação com o fósforo e começou a girar e democratizar a chuva de fogo com a multidão. As faíscas se juntaram ao teto altamente inflamável e ensinaram pela segunda vez à sociedade argentina, que ali não era a Europa imaginada. A primeira decepção foi na Guerra das Malvinas, aquele conflito inventado por um militar em fim de carreira e de regime. O ingrediente do horror foi o mesmo que destruiu Tróia. O cavalo de pau, neste caso, o artefato pirotécnico entrou pela porta sem ser proibido pelos seguranças. As saídas de emergência estavam trancadas e foi um salve-se quem puder. Querer viver e não ter condições. Imagine o sofrimento do público para fugir do fogo e da fumaça. Formou-se competição para chegar à calçada, passando por uma única porta estreita. Morreu gente pisada, sufocada. 194 corpos espalhados na rua e imensa quantidade de feridos nos hospitais, entre a vida e a morte. A população tomada de dor e revolta. A vida na sua essência deixou de ter valor naquela noite de 30 de dezembro... O tempo passou em Cromañon e todo mês têm passeata até a casa do governo. Carregam uma reivindicação concreta: justiça. Desde a época do acontecimento os familiares se revezam e ficam em vigília 24 horas por dia nesse local. Esticaram arames com dois metros de altura e coloriram o lugar pendurando os tênis dos mortos. Querem lembrar os passos desesperados daquelas vítimas que procuravam vida a todo custo. Acreditam que para sempre estarão caminhando por cima de todos. Recentemente fizeram uma geometria de fotos na parede. O que era guerra, agora tem plantas para lembrar que eles estavam na flor da idade, com uma média de 18 anos. A nossa chegada nesse espaço foi às 11 horas da noite. Estava com dois brasileiros hospedados no mesmo hotel. Sentir o clima e a dimensão do ocorrido foi um golpe interior. Os familiares e sobreviventes dizem que a fatia de culpa está coberta pela impunidade. Falam que a justiça fingiu que puniu e só prendeu uma pessoa, prejudicando a democracia argentina. Descobrir Cromañon é mostrar a si mesmo o resultado do que foi um país onde os militares truculentos operaram na surdina para entregar a riqueza ao capital estrangeiro; para sucatear o serviço público que em outras épocas poderia ter fiscalizado esse local, e para completar a façanha no país, os verde-oliva, na calada da noite mataram 25 mil cérebros com intenção de tornar o povo escravo e alienado feito boa parte dos brasileiros. E por aí vai... Parece que assumir Cromañon é lutar contra a injustiça e desvincular a Argentina do sonho europeu de viver, ou pelo menos que fiquem com a aparência por lá, mas com um pé ou 194 tênis na América Latina. Edmilson Vieira é artista plástico e cronista. [email protected]
  12. Ôi Gabriel. É, espero que não aconteça mais, nunca mais. Se acontecer vou vender churrasquinho de gato.
  13. Rio de Janeiro Sem Dinheiro Edmilson Vieira Amigos. O sonho europeu acabou. Sai da Argentina e quem aproveitou, aproveitou, quem não aproveitou, deixou pra trás. Cheguei num Rio de Janeiro num calor daqueles. Quando fui ao caixa eletrônico do aeroporto, a memória não deu ordem pra sacar. Fiz duas tentativas e o resultado bárbaro da máquina se resumia à palavra, "inválida". O que vocês queriam? Com guerra no Iraque, Big Brother na TV, e um mês fora do Brasil sem usar o cartão, esqueci das três letras que precisava colocar depois da senha. Gostaram da insensatez? Contava apenas com o dinheiro do hotel e do microônibus, para o centro da cidade maravilhosa, exatamente isso! Como a credibilidade dos bancos para os seus clientes só vai até a segunda tentativa, parei. Já pensaram nas conseqüências de estar numa cidade grande e desconhecida, sem dinheiro? Só tinha uma saída: procurar um médico pra receitar um estimulante cerebral. O bicho vai pegar! Mesmo nessa situação devastadora, tomei o micro e fui ao hotel. No caminho, passando pela Avenida Presidente Vargas, não encontrei o médico, e sim, medicamentos sambísticos. Era ensaio de duas escolas de samba no sambódromo. Fui com a bagagem ao hotel na Praça Tiradentes e armou-se conflito com o funcionário pra que ele recebesse somente no outro dia. Calma, calma, mantenha a calma, ele não vai aceitar. Pegou o dinheiro com o maior prazer. Só me restavam dois reais. Falei com o motorista de um ônibus ali na praça e consegui carona até o sambódromo (domingo à noite, 28 de janeiro de 2007). Naquele ensaio tinha a fome como samba-enredo e drama pessoal. Não que seja pró- samba, mas queria experimentar um pouco do que a Globo mostra como extraordinário. Sobre a cerimônia de ensaio das escolas posso dizer que também tem música de ambulância e de bombeiro pra socorrer as vítimas que não agüentam o calor. Numa determinada hora, os seguranças abrem os portões e parte do público que está na rua tem autonomia pra se sentir dono da festa. Do lado que a bateria da escola fica estacionada, tem placas indicando o lugar da comissão julgadora. Ao terminar o primeiro desfile, passaram quatro ônibus com cartazes na frente informando o nome da ala e do responsável. Os camarotes ficam fechados e só existe uma categoria, a geral. A multidão eufórica flutuando na arquibancada e as pessoas do meu lado conversando sobre escolas rivais. Cada integrante é uma estrela e sua alegria colabora pra levantar o ânimo da torcida. Fiquei tentando entender o que significava aquele evento, próprio do hemisfério sul. Se a festa é feita na maioria pelo povo pobre, como diz a TV, porque naquele momento, todos tinham dinheiro pra voltar pra casa, pra comer um cachorro quente, e eu não? Só dois reais pra sonhar. Arrastei do bolso o valor e comprei um refrigerante, minha porção de veneno pra enganar a fome e matar a sede. Lá pela uma da madrugada, defini a estratégia de volta ao hotel: seguir a multidão que ia a pé. Na solidão do quarto estava proibido de pensar em comida pra não destruir os últimos hemisférios do cérebro. Também não podia ficar maluco tentando lembrar letra de conta de banco. De manhã ao acordar, abriu-se uma trilha e veio nesta ligação, cada uma das três letras esperadas. Na própria praça tem uma agência da Caixa Econômica Federal. Os dedos digitaram sem precisar de luta. Foi a proporção exata que estava faltando. Vou te levar prum restaurante! A mais importante volta ao mundo da alimentação: suco, café, almoço e sobremesa. "Avisa lá, avisa lá, avisa lá êô, avisa lá que eu vou" comparar com as comidas argentinas. E esse foi o início de uma nova era do sobrevivente da senha digital. Edmilson Vieira é artista plástico e cronista. [email protected]
  14. Argentina versus China Edmilson Vieira Observe o bairro de Belgrano em Buenos Aires e faça uma caminhada por ele. Na verdade não é só isso. É preciso parar para tomar um sorvete, ir até o supermercado chinês, onde decidiram que iam colocar lá dentro, tudo o que fosse capturado na China. Disseram que os produtos chineses baratos são feitos pelos presidiários? É história escabrosa, então os trabalhadores dos países pobres são presidiários universais? Problema! Mas o panorama é o bairro de Belgrano e não, o conflito capitalista. Ainda falta contar histórias, personagens; falar de heróis, celebridades... E não, articular greve na China por melhores salários, como você está querendo. O retrato do bairro é também uma praça, Barrancas de Belgrano, integrada com a população através de um casal, Melba e Santos. Faz cinco anos que eles desconfiaram que na comunidade poderia ter bailarinos de tango. Chegaram no coreto da praça, examinaram piso, teto, deram uma coletiva à imprensa, e disseram que a partir daquele instante estava depositada a suavidade do tango; os passos ousados e a maneira de ir e vir para um lado e outro. Beleza, mas nesta crônica fica pendente a questão dos chineses. Foi apenas um assunto eventual e não dá pra ser seduzido por essa causa. Parte do bairro, sim, tem chineses, mas não interessa saber se ganham em dólar, real, ou pesos. Nada de drama! Poderia até adaptar algumas palavras pra ver se combinam com a China, mas desviar toda a crônica e esquecer do bairro de "los hermanos", não! Calaram-se as vozes na Praça Celestial em Pequim e o conflito agora está dentro deste texto. Você exige a presença de uma chinesa, vestida de dançarina de tango, que chega no coreto da praça e espera que um argentino a convide pra dançar (Maradona?). Opa! Parando! A sua festa acabou! Esta comédia está virando drama. Espere, a chinesa está sendo convidada para dançar. Suspenda o que se falou antes. Fantástico! Ele, o cavalheiro perguntou se ela aceitaria. Ummmmmm... Ela começou a dançar o meu passo predileto, parou um pouco e virou metade do corpo para o lado. Ei Xin Xin Chang, isso é reduto dos portenhos, saia daí. É, está ótimo. Força, força... Ah! Que tempos difíceis em que a pessoa se encontra... Essa chinesa propõe e você apóia. Aproveito enquanto ela dança, para dizer que os moradores vão à esse baile, todas às terças, quartas e quintas-feiras, apenas no verão, das 19 às 22 horas. A senhora Melba fica na entrada recebendo os dançarinos enquanto o marido opera o som. Terminou a música, todos param ao mesmo tempo. O amigo Fabian Mulis explica que eles reconhecem o final porque escutam desde pequenos. Estamos aguardando o fracasso da sua convidada chinesa. O quê? As pessoas estão chamando ela de duquesa? Isso é obra sua que está atuando nesta crônica sem açúcar e sem afeto! Buaaaaaaa... Pentágono por favor, me ajude, esse(a) leitor(a) tem armas químicas. Solidariedade comigo, acerte-o(a)! Já sei, a partir de agora, a escrita vai ser em "lunfardo", para que você não compreenda. ¿Si se pueden comprenderme? Ueé, a técnica não funcionou!!! Esqueci que o lunfardo, gíria portenha, também é formado com palavras em português. Nasceu no bairro da Boca. Os moradores achavam simpáticas algumas palavras faladas pelos marinheiros estrangeiros e aí foram incorporando ao solo argentino. Enquanto isso, a chinesa faz milhões de passos que refletem a ligação dos chineses com a cidade. Se neste diálogo aconteceu algum conflito, vamos reconciliar. Agora você recebe habilitação oficial pra continuar participando do relato, com a riqueza do http://www.mochileiros.com é fácil. Então? Dispare na frente e escreva um final pra esta história. Mas por favor, não complique a vida do autor com a personagem chinesa criada por você. Avante! Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas. [email protected]
  15. Valeu o contato. Buenos Aires é mais bonita do que PARIS! Veja o que escrevi sobre ela nestes outros relatos do mochileiros. abraço. http://www.mochileiros.com/viewtopic.php?t=14374 http://www.mochileiros.com/viewtopic.php?t=20129
  16. oi, obrigado pelo contato. gosto de escrever com metàforas. o dono do hostel me falou que a cada dez anos, eles mudam os ônibus e recém mudaram.
  17. Edmilson Vieira Aqui começa a busca por Buenos Aires. A primeira atitude é dizer que você pode imaginar essa cidade portenha como um lugar bonito, cinematográfico e que foi construído com ternura e glamour. Um pouco do mundo numa populaçäo de 14 milhöes de habitantes. Se alguém no Brasil lhe encarregar de procurar alguma coisa na Argentina, o que seja, você encontra, menos a esperança de que dias melhores viräo. Isso näo é por causa da crise que foi impecável enquanto durou, mas devido ao barulho dos ônibus urbanos. O motor desses veículos parece que é feito com a turbina dos antigos aviöes da Aerolíneas Argentinas. Como iam ser usados nas ruas, regularam para o barulho ser ainda mais alto. A música remasterizada que eles produzem é uma ópera do inferno e os decibéis repercutem até na Cordilheira dos Andes, menos nos ouvidos do povo. Uma semana de férias na cidade e a única vítima ainda näo se acostumou com a cançäo, que faz parte do show imperdível pra quem caminha nas ruas centrais. A rotina é andar para ver a riqueza dos prédios que oferecem um museu a céu aberto. Como já está fazendo 16 anos da última visita, o passado pode ser comparado às muitas lojas e restaurantes fechados. As circunstâncias que levaram à quebradeira geral, estäo na época da ditadura militar, no fracasso do capitalismo mundial, no carater dúbio de quem escreve e na atençäo de quem lê. Esse primeiro ensaio sobre Buenos Aires e seu barulho, protagonizado pelos próprios ônibus argentinos, e vivido por quem está passando pela experiência de uma guerra, chega ao fim, pois está na hora de ir às ruas e se defrontar com os turbo-ônibus. Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas [email protected]
  18. Edmilson Vieira A chegada ao Rio de Janeiro, deixa confiante de que esta cidade tem coisas boas para oferecer ao turista, apesar do lema do tráfico e de parte da polícia de que “com violência venceremos”. Se a pessoa for persistente na busca, esquecendo do que dizem alguns de que o Iraque é aqui, e com alguns endereços na cabeca, descobrirá seu lugar ao sol. O ingrediente para encontrar o que equivale ao lado bom, é ser afoito, bater perna o dia todo, e se alimentar de um isotônico ou biotônico fontoura. O centro do Rio tem várias atraçoes. Sáo indústrias de museus, galeiras e monumentos resultando num complexo da mais alta categoría cultural. Para iniciar a mini-olimpíada do Pan, é só ir até o IPHAN, eles têm uma galeria. Protesto! Galeria só náo, tem livraria e fachada do prédio com uma porta que já começa a contar pontos para o nível cultural da cidade. Bom, recuperado o fôlego, a conquista agora é no Centro Cultural Banco do Brasil. Um semestre é pouco para controlar todas as áreas, mas pode dar a volta por cima frqüentando as galerias, e, num salto, usando o elevador, claro, avançar até a biblioteca. Movimentando-se para fora, já no prédio vizinho, está o Centro Cultural dos Correios, sáo três pisos de exposiçóes de artes plásticas. Nesse passeio ninguém pode alegar que gastou dinheiro, os diretores impuseram que a entrada é grátis e fim de papo! Mas a cada caminhada, a estimativa é de que logo venham aqueles ataques de fome. Náo há motivo para pânico. No centro da cidade do Rio de Janeiro de Sáo Sebastiáo tem, e isso você já sabia, uma confeitaria chamada Colombo. Por favor, evite o pior, temos que ir com moderaçao nos doces e salgados que desfilam aos nossos olhos. Este é um passeio especial para o primeiro dia, sem tiroteios e granadas. Estaria entáo a imprensa exagerando? Náo, ela está certa, o Estado foi baleado na perna direita e só consegue andar até o centro da cidade onde estáo os bancos e até a zona sul, onde moram alguns banqueiros, mas os turistas podem conquistar os monumentos e nem precisa de bandeira branca, só é preciso gritar: paz, paz e paz! Edmilson Vieira é artista plástico e escreve cronicas. [email protected] Obs: cheguei há pouco em Bs. As. e o teclado em espanhol náo ajuda, tive que colocar os acentos, um por um, e outros nem consegui descobrir ainda. Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas [email protected]
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