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Micael Salton

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Sobre Micael Salton

  • Data de Nascimento 28-07-1988

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    Viajero
  1. Abro este tópico em função de um já ativo aqui no fórum, como um complemento e para fim de melhor organização. Aqui o enfoque estará mais voltado para a "ciclovida" (nossa vida em cima da bike), enquanto o outro tópico trata dos aspectos mais amplos da viagem e do projeto de nomadismo que tentamos apresentar com essa experiência. Você pode acompanhá-lo aqui: nomadismo-pedalando-sem-destino-final-t98512.html Para melhor compreender nossa visão e mais sobre nomadismo e viagens de custo mínimo acesse nossa página: http://projetoalternativa.com/ e http://www.facebook.com/projetoalternativa Partida: Saímos de Brasília-DF em 10/06 e até agora percorremos aprox 1000km até Palmas-TO. Pedalamos em dupla, Karine e eu não tínhamos nenhuma experiencia técnica no cicloturismo apesar de estarmos familiarizados com a estrada devido a uma temporada caronando pela América do Sul em 2013 (confira essa viagem nesse tópico: caronando-america-do-sul-sem-destino-final-t82031.html). As bikes: Os quadros são MTB de alumínio, freio a disco xingling, câmbio rapidfire Shimano, aro 26 e pneus balão liso com antifuro. Karine tem 1,86m e optou pelo quadro 21, eu com 1,81 tenho um quadro 19. Toda adesivagem foi retirada seguida por uma pintura de spray preto fosco para não chamar atenção indesejada principalmente enquanto acampamos. Nosso primeiro teste com a bike totalmente carregada foi na rodoviária de Brasília após tirá-las do ônibus que nos trouxe de Porto Alegre-RS (sim, fugimos do frio e da chuva lá do sul) e montá-las ali mesmo na plataforma. Bagageiros: O dianteiro de alumínio fixado com abraçadeiras de borracha na suspensão sem suporte para v-brake: http://mlb-s2-p.mlstatic.com/bagageiro-dianteiro-ostand-cd-220-12451-MLB5960222758_032014-O.jpg Seguindo este método de fixação: http://pneunaestrada.blogspot.com.br/2013/08/bagageiro-dianteiro-cd-220-da-tranz-x.html com a diferença de uma abraçadeira também no centro de fixação central devido a susp ser de alumínio. Para o bagageiro traseiro optamos pelo tubão de ferro sem alforjes, comportando a mochila cargueira presa com elástico aranha (esses com ganchos nas ponta ). De cara ficou evidente que era necessário algo para alongar o bagageiro, para isso usamos uma moldura retangular feita de canos pvc, disposta de forma que a própria estrutura do bagageiro as segure e mantida estável com arames enrolados. Equipamento: Como enfrentamos climas muito diversos levamos roupas de calor e de frio moderado, isolante térmico, sacos de dormir, um poncho de lã de lhama adquirido na Bolívia, um cobertor leve; Ferramentas (facão, alicate, chave de fenda, marreta de borracha, arame, chaves das bikes), câmaras reserva e kit de reparo, barraca camuflada, panela, frigideira, pano de louça, talheres para 2, espiriterira a álcool http://www.azteq.com.br/artefatos-a-combustao/espiriteira/espiriteira-a_g.jpg , material de costura e tecidos para artesanatos, máquina digital, notebook velho e outros penduricalhos. Por que a bicicleta? Nossa proposta de viagem é sempre o baixo custo e a autonomia em todos os sentidos, a simples existência da bike atesta uma outra percepção de mundo, onde sua própria força o leva autonomamente para qualquer lugar, este conceito prosaico na verdade é de uma profundide enorme, dentre todos os objetos, a bicicleta é a mais capaz de um impacto social real em função da mensagem invariavelmente positiva que ela transmite e da alternativa concreta que apresenta sua forma de utilização, inserida no tipo de cultura independente que ela estimula. Primeiras impressões: Nos dias de pedalada cresceu gradualmente a confiança na bike, aprendemos aos poucos a aproveitar a descida sem medo de correr a 74km/h, pois ao contrário de ficar mais bambo o bagageiro traseiro parece se estabilizar conforme a velocidade aumenta. Aprendemos muito que não há vergonha em empurrar a bike lomba a cima, pois dizer que 1/3 dos caminhos no Goiás foram feitos na verdade desmontados não é exagero, depois de uma longa descida terá uma longa subida, isso é sempre válido no quadro geral mas também foi válido para cada caso individual nessas estradas de sobe e desce. Já tendo descido a chapada em território do Tocantins com estradas mais planas nosso maior desafio passou a ser o sol, o superamos até agora com muito suor e ajuda sempre bem vinda de caronas que nos levaram o mesmo número de km que pedalamos desde que partimos. Por fim tivemos duas quebras, um bagageiro traseiro soltou todas as soldas da estrutura central, soldado e reforçado no outro dia e um bagageiro dianteiro com o mesmo problema, arrumado com durepox por ser de alumínio. Rota: Parte de nosso proposta é não ter prazo nem destino final, essa ausência de uma estrutura rígida de um plano nos torna livres para alterar, mudar e evoluir nossas intenções conforme a própria viagem evolui por si só. Costumamos pensar com menos exatidão sobre nosso destino, sabemos que de Palmas seguiremos para o Norte, com a intenção seguinte de alcançar Manaus e deixar o Brasil pela Venezuela. Isso incluí vários possíveis destinos no Pará e no Maranhão e em seguida no Amazonas. Estamos buscando informações sobre as estradas que atravessam sentido sul-norte os estados PA e MA e de pessoas que tenham feito algum trecho nessas rodovias. Aceitamos qualquer informação e ajuda dos amigos de estrada e ficamos sempre a disposição para contato e troca de experiências.
  2. Micael Salton

    relato Nomadismo: Pedalando sem destino final

    Saímos de Alto Paraíso dia 09/07 pela GO-118, subindo ainda mais até a Serra do Pouso Alto a 1676 metros de altura. A estrada é fantástica, com morros e formações típicas de chapadas em todo o caminho, muitas subidas e muitas descidas, descemos algumas cortando o asfalto a mais de 70km/h. A noite foi chegando e ainda faltavam aguns km para Teresina de Goiás, abastecemos as garrafas de água numa fazenda de criação de peixes e achamos um canto escondido no mato, plano, relativamente livre de montinhos de vegetação e atrás do capim alto. Passamos uma noite tranquila, com poucos carros passando na estrada. No outro dia seguimos para pegar o almoço em Teresina, compramos o tradicional marmitex do Goiás que dá pra duas pessoas e seguimos para os 80km até Monte Alegre. No caminho, várias pontes cruzando rios secos com o leito rachado, o calor ía aumentando até chegarmos na ponte que atravessa o corrego Sucurí, águas correntes e transparentes, uma dádiva, descemos o barranco e nos banhamos. No final do dia, quando já pensávamos em achar um lugar pra acampar, um caminhãozinho buzina e para no acostamento, nos leva na caçamba forrada de palha até a cidade. Os dois estavam indo carregar abacaxis perto de Palmas e nos prometeram carona no dia seguinte, porém no fim saíram para comer e nunca voltaram para o posto em que nos deixaram. Passamos a noite ali e na manhã seguinte nem sinal deles, essa volatilidade das coisas é uma realidade da estrada e dos personagens da estrada, nenhum compromisso é sagrado, o incerto é a regra. Dia 11 percorremos os 35km até Campos Belos, trecho igualmente lindo com serras e formações rochosas sempre beirando a rodovia quase deserta. Na cidade, por acaso ganhamos a informação de um balneário municipal no Rio Bezerra onde poderíamos passar a noite embaixo dos quiosques de churrasco, seguimos rápido pelos 5km até o local. Além de ser na beira do rio, tinha banheiro, bar e piscina, aproveitamos para descansar e passamos duas noites ali, no segundo dia ainda fomos incluídos num churrasco com muita carne e cerveja a vontade. Dia 13 saímos depois do meio dia, pedalando até Arraias, já no Tocantins, 24km. Paramos no posto na saída da cidade, jantamos marmitex e dormimos uma noite, que foi interrompida pelo espetáculo sonoro de um asno que parecia estar solto no asfalto. Os cachorros residentes do posto estranharam nossa presença e incomodaram uma boa parte da noite com sua movimentação em volta da barraca. De Arraias teríamos 104km de absolutamente nada até Conceição do Tocantins, nos munimos com miojos, uma perna de mortadela, goiabada e bolachas, o alforje que Karine costurou em Alto Paraíso caiu como uma luva para transportar as ferramentas e as comidas. Além disso incluímos mais 2l de água além dos 4l que sempre levamos preso no cano superior do quadro, todos nos falavam sobre como era isolada essa região do TO e o dia ainda pela manhã prometia muito sol e cada vez mais calor. O frescor de altitude das chapadas tinha ficado para trás, afinal, estávamos a caminho da capital mais quente do país, não tinha do que reclamar senão apenas nos prepararmos. Os primeiros 10km foram de descidas, até o meio dia deixamos mais 50km para trás, quando o calor começou a cobrar o preço nosso progresso passou a ser pontuado por rápidas pedaladas de uma sombra até a outra, buscamos proteção espremidos em sombras incertas de árvores esquálidas, ficar no sol principalmente em baixa velocidade nas subidas era como estar em um forno, sentia a pele queimando apesar de constantemente passar o protetor, os joelhos não protegidos queimaram, ficou claro que devíamos parar e esperar, mas a promessa de um grande rio adiante nos impulsionava mais um pouco. Desde o início da manhã passou por nós apenas 1 caminhãozinho com possibilidade de nos dar carona, de resto apenas poucos carros pequenos e carretas em alta velocidade, mas mantivemos a esperança de uma carona o tempo todo, até que no momento de maior necessidade a 13:30 da tarde, com o asfalto que mais parecia uma chapa quente, um caminhão pequeno apareceu no horizonte. Quando ele se aproximou vi que tinha um alto faltante em cima da cabine, típico de fruteiros itinerantes, na hora soube que eles iriam parar. Quando chegaram perto fizemos sinal, apontei para o sol na cabeça, Karine fez cara de sofrimento e eles pararam, seguimos acomodados na palha, protegidos do sol pela lona, 350km até Porto Nacional, tempo em que deu até para uma soneca. Em Porto Nacional tivemos a primeira visão do rio Tocantins. Fomos para o posto na saída da cidade, muito grande, repleto de caminhões e de pessoas, tomamos banho para tirar o calor do dia, esperamos anoitecer sentados no restaurante do posto, conhecemos pessoas sempre curiosas sobre nossa viagem e surpresas quando ouvem que estamos vindo de Brasília, para mim ainda tão perto mas uma distância enorme para muita gente. Sempre perguntam até quando viajaremos e como faremos para voltar, é engraçado ver que o foco da preocupação não é o processo em si mas sim quanto este irá durar e como voltaremos. O conceito do nomadismo é ainda muito obscuro para muitos, tentamos sempre explicar mas poucas vezes somos compreendidos de verdade, contudo todos sempre incentivam e ficam animados com nossa história. Achei um canto atrás de uma borracharia que poderia nos acomodar pela noite, seria um camping mais estilo industrial com chão sujo de óleo, pneus e entulho por perto, não era do nosso agrado mas era o que tinha. Comemos um marmitex e depois ainda ganhamos um picadinho de churrasco de graça do garçom do restaurante. As horas foram passando e ficou claro que estávamos apenas deixando o tempo correr, sentados nas cadeiras. Pouco depois das 21h foi respondido o motivo dessa espera: sem aviso uma menina se aproximou e perguntou se não gostaríamos de passar a noite na casa dela. Ali pertinho nos acomodamos na casa de Brenda que estuda Biologia na UFT, natural de Belém ela pode ainda nos contar algumas coisas sobre essa cidade que está no nosso horizonte próximo. Parecia tudo uma enorme combinação, relaxamos na noite morna do Tocantins sentindo mais forte do que nunca a estranheza do tempo e de como as coisas acontecem, como tudo acaba se encaixando, quando precisamos de uma carona ela apareceu, quando precisamos de uma casa ela apareceu e tem sido sempre assim, isso faz todo esforço valer a pena. Dia 15 teríamos os últimos 60km até Palmas, saímos cedo da manhã. Às 11:00 o calor já baixava minha pressão me deixando com pernas de gelatina, uma sensação de não conseguir vencer a inércia mesmo em terreno plano, até mesmo pedalar em descida leve requeria um esforço maior do que o normal. Retomamos o processo de pedalar de sombra em sombra tentando com muito esforço vencer 3 a 4km entre cada parada. Paramos numa tendinha para tomar um coco gelado e ficamos na sombra evitando o momento de prosseguir, chegou outro desses clássicos caminhãozinhos com carroceria de madeira, pedimos carona e o rapaz nos levou mais 15km para frente até Taquaralto, ainda faltavam 18km até Palmas. Descemos as bikes na frente de um bar fechado e vi que meu bagageiro da frente tinha se desmanchado, todas as soldas do corpo de dentro haviam soltado. Ficamos na sombra da cobertura do bar um bom tempo amarrando o bagageiro com corda de varal, até a dona sair e nos convidar para almoçar. Comemos com ela e sua mãe, antes de sairmos ainda ganhamos uma garrafa de 2l congelada para termos água geladinha no caminho. Como de costume enormes subidas antecedem a chegada na cidade e havia pouca sombra disponível, a água gelada foi um alívio grande pelo caminho após empurrar as bikes lomba a cima. Já perto de alcançar o centro um carro parou no acostamento, o motorista saiu, chegou perto e nos ofereceu 10 reais e um pote de saponáceo para limparmos as bikes, bastante aleatório mas sempre bem vindo, nos deu boa vindas à cidade, dei para ele o adesivo do projeto que ele colou imediatamente no para-brisa do carro e partiu. Por fim entramos em Palmas e encontramos nosso contato no couchsurfing que nos recebeu muito bem e nos hospeda nesse momento. Nos próximos dias descansar, resolver algumas coisas nas bikes e explorar Palmas até o momento de seguir mais uma vez, sempre para o norte. A dúvida persiste: Manharão ou Pará? Acho que a estrada vai escolher, ainda temos muitos km de TO para cima e muita coisa pode acontecer no caminho, quando se aceita o imprevisível a surpresa é constante e não há nada melhor que isso. Para mais informações sobre nossa viagem e nomadismo acesse http://projetoalternativa.com/ Para se manter atualizado curta a página no facebook https://www.facebook.com/projetoalternativa
  3. Micael Salton

    relato Nomadismo: Pedalando sem destino final

    Valeu pela força Biba! Estamos agora perto de continuar nossa jornada, vai acompanhando aqui pelo fórum e pelo face. Abração
  4. Micael Salton

    relato Nomadismo: Pedalando sem destino final

    Tentam nos convencer que o agora é o fim da história e que o inferno de tédio ou de esforço diário por que passamos é a maneira natural das coisas serem, como se ser escravo fosse algo inerente a ser humano. Se você já parou, olhou em sua volta e pensou que há algo muito errado acontecendo com o mundo e com sua própria vida, se você espera os finais de semana ou as férias para “poder viver um pouco”, se você passa a maior parte do dia em um pântano de tédio efetuando uma atividade alienante em proveito de pessoas das quais você nunca viu o rosto, talvez seja a hora de despertar desse sono e agarrar sua vida de volta. Aprender e mostrar a mudança, apresentar possibilidades, uma maneira diferente de viver e de encarar a vida, bem vindo(a) ao Projeto Alternativa Propomos assim abraçar o nomadismo como forma de vida. Nosso meio de locomoção são as bicicletas, não deixaremos nunca de pegar caronas, atividade a que nos acostumamos tanto no último ano, mas uma capacidade maior de autonomia é necessária. Começaremos nossa jornada incerta no interior de Goiás, não temos planos ou roteiros estritamente definidos, sendo o primeiro plano chegar a Amazônia e de lá provavelmente cruzar a fronteira para Venezuela, mas nossa mente está sempre aberta para mudanças drásticas de e tudo é possível. Por hora eis o relato de nossa primeira de 200km, destinada a ser apenas uma teste acabou sendo incrivelmente rica e prazerosa. Saímos de Brasília dia 10 para percorrer os 200km até Alto Paraíso, a primeira vez realmente na estrada com bicicletas carregadas. Logo na saída subidas intermináveis e muito trafego, foi como poderia se esperar, o pior trecho para testarmos nosso equilíbrio com tudo montado. Em uma das subidas o bagageiro de Karine quebrou, paramos em um posto onde um caminhoneiro conseguiu uns pedaços de arame que usamos para remendar o estrago. Partimos desanimados, o pensamento de ter de voltar para Brasília era muito desgostoso. Dizia para mim mesmo que logo a estrada que queríamos chegaria e tudo melhoraria com menos carros e ambientes menos urbanos, aquela loucura de cidade grande simplesmente parece não combinar com o que significa de bicicleta. No fim a entrada para a DF-345/GO-118 chegou, mas apenas às 20:00h, após um longo trecho de uma subida pouco íngreme mas muito extensa em que empurramos as bicicletas praticamente o tempo todo, usando as lanternas de cabeça e as luzes sinalizadoras atrás. Logo que entramos na DF-345 já avistamos o nosso destino, secundárias que beiram a rodovia, usadas por tratores e maquinas agrícolas para mover-se entre as fazendas, lugares perfeitos para passar a noite, atrás do cerrado, escondido o bastante do asfalto e dos poucos carros que passavam. O começo da noite de stealth camping trouxe um pouco de ansiedade com vozes longínquas alcançando nosso ouvidos aguçados pelo silencio, mas logo o sono chegou e a noite passou tranquila. No outro dia nosso estoque de barras de cereal e frutas já acabava e comida de verdade era necessária, uma placa de self-service (buffet livre) a R$10,99 atiçou o estomago e seguimos pelos 15km até o destino. Chegamos e além do almoço tomamos um banho de graça no posto. As 14:00hs pedalamos sol a dentro para um dia inteiro até São Gabriel – Goias, onde o bagageiro emendado quebrou de vez derrubando tudo de cima da bicicleta, não havia mais conserto com arame, teríamos que amanhecer ali e tentar soldar a coisa toda. Ganhei um saco de amendoim e a informação que o posto permitia acampar para passar a noite, além de ser perfeitamente seguro. No posto ganhamos uma salinha VIP para montar a barraca, tomamos o segundo banho grátis do dia, ultra quente para relaxar. Cozinhamos um miojo no fogão de um caminhoneiro que nos prometeu carona no dia seguinte, o sono não demorou para chegar Acordamos e assim que a serralheria abriu levei o bagageiro para arrumar. Conseguimos sair pouco antes das 9:00hs mas antes de chegar na estrada vimos o caminhoneiro da noite anterior passando, a carona tinha sido perdida. Pedalamos 20km de grandes descidas chegando aos 50km/h e ao parar para curtir a sombra de uma placa na estrada um caminhão buzinou e encostou, deu ré e quando vi já cortávamos o cerrado acomodados na caçamba aberta, sempre a melhor forma de caronar. Levou-nos até São João da Aliança, seu Esmeraldo disse que sempre ajuda quem viaja e nos pagou um almoço. Deixamos São João esperando passar a noite na estrada e chegar em Alto no dia seguinte, mas tudo mudou quando um carro encostou. Em 10min estávamos na fazenda do Mário do Balanço, na beira de um rio com um balanço incrível onde me diverti muito. Mário planta quase de tudo, tem vaca, galinha, porcos e abelhas, ajudei-o com as abelhas realizando um sonho antigo. Mário cuida de tudo junto de sua companheira, é uma quantidade de trabalho enorme que ele realiza diariamente acordando cedo e dormindo já tarde, provamos de seu queijo caseiro, do leite da vaca, do mel direto das abelhas que trabalham com pólen nativo da reserva de cerrado que ele mantém, um mel surpreendentemente cheiroso, de sabor pungente e muito característico, uma delícia acompanhando o bolo de milho plantado na fazenda, colhido e feito na hora. No dia seguinte ajudamos Mário a colher mexiricas para vender em Alto e ganhamos a carona até nosso destino, além de tudo Mário ainda tinha generosidade o bastante para pagar-nos o marmitex no restaurante do posto. Nos despedimos com promessas de voltarmos para ajudá-lo um pouco com sua terra. Os 200km de teste acabaram, aprendemos algumas coisas e ficou claro que nossa disposição de bagagem sem uso de bagageiros laterais é problemática. Será preciso reforçar os bagageiros traseiros, os dianteiros apesar de fixados com gambiarra trabalharam perfeitamente. Um arame fincado no pneu provou que o anti furo realmente funciona e vale seu investimento. No fim o sentimento de estar em uma correnteza que apenas o leva de um lado ao outro está de volta, seja de carona ou de bicicleta, as mesmas coisas boas acontecem e cada vez que um elo se fecha é como uma explosão de satisfação. Acordar em um posto, aceitar o dia de pedalada e no fim ganhar uma carona, aceitar que ficará na estrada e acabar num lugar incrível com pessoas incríveis, o que mais pode acontecer? Tudo pode acontecer e essa é a melhor parte, abraçar a mudança como forma de vida e esquecer tudo que o aprisiona. Mais informações sobre nomadismo e viver viajando > https://www.facebook.com/projetoalternativa Em breve outro capítulo, próximo destino grande é o Palmas - TO até lá.
  5. Opa valeu! Da estrada nunca sai, em breve uma nova aventura. abs
  6. Após o inesquecível almoço e uma longa caminhada por Oruro conseguimos um carro que nos levasse para La Paz. O caminho inteiro foi um jogo de sorte, haviam bloqueios por toda a estrada e nosso motorista seguia por caminhos alternativos pelo meio de campos empoeirados. O carro, é claro, estava cheio, 4 pessoas no banco de trás e mais 2 no porta malas da perua, nossas mochilas iam presas no teto junto com a bagagem das outras pessoas. Por horas e horas seguimos desviando, errando e procurando outros caminhos. No fim da tarde chegamos em El Alto, que é a cidade construída no alto da montanha que circunda La Paz. De todos os lugares da Bolívia foi o único que me incomodou, a cidade é um caos de transito, esgoto, pessoas e tudo que se possa pensar, para piorar tudo, havia um bloqueio para descer em La Paz, tivemos que sair no meio do pandemônio, algumas tentativas de pegar uma condução urbana falharam, pessoas nos empurravam e nossas enormes mochilas nos tornavam elefantes desajeitados no meio do mar humano que corria para todos os lados em busca das vans, ninguém queria comportar nossa bagagem e parecia que iriamos ficar preso naquele inferno, eu realmente não queria anoitecer naquele lugar e assim concordamos com o preço inflacionado de um táxi que nos levasse para La Paz por um caminho alternativo. Hoje arrependo-me de não ter fotografado o caos de El Alto mas a vontade era apenas sair de lá o mais rápido possível. Chegamos já de noite lá embaixo e entramos num alojamento barato, a exaustão do dia cobrava seu preço e tudo que precisávamos era de um banho quente, pegamos um quarto com banheiro e aproveitamos para descansar, preparei um miojo com a espiriteira no chão do banheiro e após comer dormimos na hora. Em Potosí tinha enviado alguns emails para hostels oferecendo trabalho por estadia e dois haviam me respondido, de manhã partimos até um deles e caímos no meio de um protesto. Conseguimos trabalho no http://www.theadventurebrewhostel.com/ ficamos lá por algumas semanas, trabalhando no bar ganhando acomodação, uma refeição e o que dava pra manguear de cerveja e bebidas do bar. Conhecemos a noite de La Paz e fizemos muitas amizades, no final ainda ganhamos de graça do hostel o passeio downhill de bicicleta na estrada da morte https://www.facebook.com/barracudabiking inesquecível. Nosso tempo na Bolivia chegava perto do fim, o cansaço de estar a meses na estrada começava a cobrar o preço mas ainda havia um último destino. A 500km de La Paz no norte da Bolívia, Apolo, um vilarejo escondido a beira do Parque nacional Madidi. Iriamos ficar alguns dias numa fazenda de permacultura no interior do parque Madidi onde aconteceria o ritual do cactus San Pedro na lua cheia. Compramos passagens em La Paz e partimos na jornada para o norte. Foi a estrada mais espetacular da Bolívia e a camera tinha desistido de vez. Ainda no altiplano o onibus quebrou a primeira vez, passamos a tarde próximo ao lago Titicaca até o onbius ser arrumado. Seguimos viagem descendo até chegar na floresta, a noite chegou e com ela muita chuva, a estrada virou uma lamaçal e o coletivo escorregava no barro no meio da escuridão, na estrada estreita o precipício nunca abandonava nosso lado, seguimos até uma curva em subida que o antigo ônibus não conseguiu vencer, acabou atolado até os eixos, todos descemos e cavamos com as mãos, colocando pedras embaixo das rodas mas nada teve efeito e além de tudo chovia mais forte, o jeuito era passar a noite ali. Amanheceu e um caminhão nos puxou para fora do atoleiro. Seguimos e de dia conseguimos apreciar o caminho, sempre pelos vales, com rios lá embaixo e cachoeiras por todos os lados algumas caindo no meio da estrada, tive as vistas mais incríveis de toda a viagem, uma pena que a câmera tenha estragado. Um vídeo que mostra a beleza e a dificuldade da estrada ( hoje em dia já há pontes mas as estrada na chuva é como mostra o vídeo ) Após Apolo era hora de retornar, levamos mais uma semana para conseguir chegar no Brasil, passando por Santa Cruz e Corumbá. Ao todo foram 4 meses mas a viagem de certa forma não acabou, mais andanças pelo Brasil nos levaram a conhecer lugares incríveis como a chapada dos veadeiros onde vivemos por mais alguns meses. Passado um ano uma nova viagem começa a se concretizar, dessa vez com algumas opções diferentes, mas isso é assunto para outro tópico daqui a algumas semanas, obrigado pela leitura e espero que com esse relato possa encorajar outras pessoas a fazerem o mesmo, em nenhum momento passamos qualquer risco, nunca fomos assaltados ou ameaçados de qualquer forma. Viajar é pura satisfação e para mim a única opção possível para se viver.
  7. Após algum tempo em Potosí partimos para La Paz, a situação nas estradas da Bolívia estava bem complicada e bloqueios aconteciam todos os dias, resolvemos então pegar um onibus e ir direto para a capital, mas é claro que não seria tão simples, nada é simples na Bolívia e entrar em um coletivo não significa de nenhuma forma a garantia de chegar onde se quer no tempo que se quer, o país inteiro funciona de sua forma peculiar e de nada adianta a frustração, viajar é viver em festa e qualquer contratempo é antes de tudo uma nova oportunidade. Assim quando no meio da noite o onibus parou há alguns km de Oruro não ficamos surpresos, os mineiros fechavam a estrada e ninguem passaria pelo menos naquela noite, seguimos madrugada a dentro sendo acordados por estouros de dinamites, no meio da noite congelante sai um pouco do ônibus para presenciar o céu estrelado mais limpo que já tinha visto, noite gelada, sem nuvens, sem lua no meio do deserto do altiplano a 4.000m, haviam estrelas em cada mm do espaço negro e a via lactea era uma mancha brilhante. O dia amanheceu e não havia sinal de sermos liberados, a fila ja se prolongava até onde os olhos alcançavam. Muitas pessoas já abandonavam seus ônibus e seguiam a pé, um mercado informal de comida já havia se formado. A manhã avançou e o jeito foi abandonar o barco, seguimos caminhando por 3km de bloqueio. Do outro lado vários carros já esperavam para ganhar em cima dos desafortunados, pegamos um que nos levou até Oruro para pegarmos outro transporte para La Paz. Como era hora do almoço o motorista nos indicou um restaurante que servia o prato tradicional de Oruro e a melhor comida da Bolívia, o Charkekan http://cocinadelmundo.com/receta-CHARKEKAN-ORURE%D1O charque de lhama, milho crioulo, batatas, queijo charqueno e um ovo. A melhor combinação de simplicidade e sabor exótico, a tradição é comer com as mãos o que fizemos com muito gosto. Tivemos muita sorte com essa indicação pois o restaurante de forma alguma era para turistas, era um restaurante boliviano para bolivianos, barato e delicioso, nessa altura estávamos com 3 ingleses que dividiram a condução com a gente, apenas um deles comeu, os outros "não queriam arriscar". Isso me deixou muito triste e incomodado com os gringos, não irei citar tudo de errado contido nessa declaração mas devo ressaltar que apesar de toda a orgia culinária que seguiu-se em La Paz nunca ficamos doentes, uma dor de barriga de vez em quando é normal mas nada patológico. Sim a limpeza Boliviana não é compulsiva, as pessoas pegam as coisas com as mãos, mexem no dinheiro e tocam em sua comida, mas quem está errado, uma sociedade asséptica que cria seres humanos débeis suscetíveis a qualquer infecção menor ou um povo que acostuma-se desde sempre a um exposição moderada a agentes patogênicos inevitáveis, para mim ao menos nenhum deles fez mal e das comidinhas só tirei prazer.
  8. Saímos de Tarija rumo a Potosí, fomos caminhando pela estrada pedindo carona até que uma camionete parou, nesse dia eu vestia uma camiseta do Rammstein e uma alemã gritava da janela Rammstein Rammstein, no fim eles iriam apenas até um pequeno vilarejo pois estavam em processo de comprar uma propriedade no local, fomos com eles o que nos rendeu uma visista inesperada a uma cachoeira que infelizmentetinha pouca água devido a época do ano. Os alemães nos deixaram na estrada novamente, esperamos um pouco e um caminhão parou, iriamos na parte de trás, era tudo que eu queria, caronar na traseira de um caminhão na bolivia enquanto subíamos até 4.000m em Potosí. A camera entrou em uma de suas crises e não conseguimos tirar nenhuma foto da estrada, contudo nenhuma foto poderia evocar a grandeza daquilo que presenciei por debaixo de lona que cobria a carroceria, subimos por uma estrada sinuosa até o topo de um monte, nublado, com nuvens carregadas e ventos úmidos e frios, no alto entramos em um túnel que passando pelo coração da montanha nos levou ao outro lado, de frente para um vale, ensolarado, o céu azul, era como ter trocado de mundo, cada lado da montanha ostentava diferentes universos. O caminhão subiu e subiu e subiu por diversas horas, chegamos em Potosi já de madrugada e o o frio era insuportável, um teste para os casacos que compramos barato num mercado em Tarija, corremos para o alojamento mais próximo, só podia pensar em uma cama quente me esperando. Vale dizer que nessa altura estava lendo este livro http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Veias_Abertas_da_Am%C3%A9rica_Latina e lia justamente a parte que mais fala sobre Potosí a cidade da prata, do Cerro Rico saiu as condições para a industrialização europeia. Potosí é uma cidade curiosa, do esplendor a decadência, sobram as ruínas materiais e humanas, num lugar onde não é difícil mesmo hoje ver homens bebendo alcool 96 http://www.veoelmundo.com/sites/default/files/styles/960wide/public/images/P9072712-2.jpg?itok=dQSPmIed muitos ainda vivem e morrem nas minas e os constantes estouros do dinamite são uma prova real de que não é apenas nas antigas paredes sujas que o passado investe sobre o presente.
  9. *Passado 1 ano retomo o relato desta viagem, para em fim concluí-lo. Tarija foi antes de tudo um mergulho na gastronomia de rua Boliviana, comemos em barraquinhas: saltenas, empanadas e umas sementes fritas vendidas como salgadinhos. Pratos de comida, em especial o delicioso e apimentado Saice boliviano, preparados e servidos nas calçadas em feiras e em mercados populares. Bebemos inúmeros refrescos exóticos coletados com um concha de dentro de baldes de limpeza. Apreciámos petiscos de mandioca, salgados e doces, fritos ou assados em carvão em espetos de madeira. A comida, e o ato de comer na rua faz parte do cotidiano boliviano e fizemos desse nosso próprio hábito, do café da manhã até a janta comemos sempre nas ruas, pratos e lanches gordurosos de carrinhos meio sujos em frente a rodoviária, sempre pagando preços irrisórios R$1,30 um prato de saice http://recetasbolivianas.blogspot.com.br/2011/04/saice.html Provei a deliciosa tuna http://calphotos.berkeley.edu/imgs/512x768/0000_0000/0405/1630.jpeg vendida por toda a cidade. Existem diversas cachoeiras ou Chorros, no entorno da cidade, visitamos um desses lugares. Na Bolívia normalmente hostels não são a opção mais barata, restando os alojamentos no entorno dos terminais, em Tarija ficamos em um deles, R$12,00 por dia, por um quarto com banheiro compartido por andar, tinha água quente e era razoavelmente limpo, a exceção dos bedbugs http://pt.wikipedia.org/wiki/Percevejo_de_cama não demorou até percebemos que toda noite servíamos de comida para esses seres infernais, bastava ligar as luzes para vê-los escalando as paredes por todos os lados, certa madrugada levamos 30 min explodindo ( basta apertar que ele estoura ) centenas de bixos nas dobras do colchão, chão, paredes, armários, etc, bastante nojento mas até que foi divertido. Essas criaturas estão por tudo, habitam muitos hostels pelo mundo e sempre pegam carona em mochilas, cuidado. Em Tarija aprendi mais sobre mascar a folha, minhas tentativas anteriores renderam uma sensação muito sutil e eu sabia que aquilo não podia ser tudo. Eis que lembrei que o motorista que nos tirou de Villa Montes consumia juntamente com as folhas pequenos pedacinhos de um naco carbonizado de alguma planta ( ou talvez fosse apenas bicarbonato com glicose ) o fato é que comprei o tal naco do qual o nome não me recordo e isso fez toda a diferença, a salivação aumenta muito e o efeito é muito mais intenso, em minutos tinha a boca totalmente dormente, fiquei sem fome, concentrado e cheio de energia, quem diria... Por fim, a cidade ainda nos celebrou com uma enorme festa de rua, em que ganhamos bebidas de incontáveis pessoas diferentes, fomos muito bem recebidos e provamos um pouco da noite Tarijena sem valores de entrada e com bebidas baratas.
  10. No início da tarde seguíamos a bordo de um caminhão pequeno carregando botijões de gás. Ouvíamos música boliviana, havia um saco de coca entre os bancos e as montanhas nos cercando, era uma experiencia genuína, como estar em outro mundo. Seguimos ouvindo, admirando e mascando a folha amarga. Cada km trazia um trecho mais espetacular que o anterior e conforme ganhávamos altura a dimensão do vale e das montanhas ficava mais clara, era tudo diferente de qualquer coisa que já tivesse visto. A enormidade de tudo a minha volta me remetia a pensamentos profundos de contemplação, ambos com os olhos cheios de lágrimas olhávamos hipnotizados para o desfiladeiro que se desdobrava a centímetros das rodas, o caudaloso rio Pilcomayo fatiando o vale e a montanha do outro lado com suas florestas e formações rochosas pitorescas. Paramos para comer em um vilarejo, milanesa, arroz e papas. É a noite que as estradas ficam mais movimentadas, a luz dos faróis alertam com antecedência a aproximação de carros nas inúmeras curvas em cotovelo para fora, de forma que teoricamente seria mais seguro, na prática, contudo, eu só podia ver escuridão, abismos e confusão de faróis enquanto nosso motorista consumia compulsivamente a coca enchendo suas bochechas até parecer um esquilo. Para percorrer os 250km levamos 10 h, chegamos já tarde da noite em Tarija.
  11. Ser deixado a noite em uma cidade do sul da Bolívia pode ser algo aterrorizante. Algumas menonitas também desceram em Villa Montes, tentamos falar com elas, recebemos em troca olhares assustados. Seguimos informações até o terminal ainda cheio de pessoas, comida em todas as esquinas ao redor, o cheiro de frango tomava tudo, a boca salivou e o estomago roncou, achamos um barato ( 10 bol ) pollo, arroz, salada e papas. Na saída nos disseram que poderíamos dormir no terminal. Entramos na pequena rodoviária ainda cheia de gente e a sensação foi de que iríamos acampar no meio de uma feira. Saímos ainda descrentes da possibilidade de ficar por ali, Karine foi falar com um policial que garantiu que era um bom lugar para ficar e que ele iria dar uma espiada de tanto em tanto para ver se estávamos bem. Era o sinal verde, com a insegurança emocional combatida apenas esperamos as horas passarem e a rodo esvaziar. Não era meia noite quando ficamos nós e mais 2 bolivianos ( esses dormindo improvisados nos bancos ). Armamos a barraca e a noite passou sem nenhum problema. Ao amanhecer quando abri a porta a primeira coisa que vi por entre as construções foram as montanhas ao longe, era a primeira visão delas na Bolívia. Banho a 1 bol na rodo, descobri outra carrapata importada do chaco ( o primeiro tinha pegado ainda no PY ) Arrumamos os trapos e partimos rumo a rodovia, no caminho refrescos de cereais e empanadas, passamos por um mercadão, frutas bonitas, frescas e baratas, ainda ganhei de brinde ameixas e 1 tangerina da simpática tiazinha. Como sempre, alcançamos a estrada muito depois do horário pretendido, ali era possível ver as montanhas, ainda modestas, cobertas de verde. Um micro levou-nos à saída da cidade, já na estreita estrada de terra chamada ruta 11.
  12. Eliezer deixou-nos próximo a Loma Plata. Desci do reboque mochilas sepultadas pela poeira, nos despedimos e atravessamos a rodovia. Antes de tirarmos as mochilas das costas já parava uma carona, uma pick-up, na caçamba seguimos até a oficina mecânica do dono do carro, ofereceu os fundos para passarmos a noite. Montamos a barraca e tomamos um banho providencial para lavar a poeira que nos cobria por completo. Numa viagem assim manter-se limpo é uma preocupação constante, porém é com satisfação que lembro nunca ter passado mais de 3 dias sem banho, seja em chuveiros, rios, cachoeiras, tanque, mangueira ou pia, há sempre uma possibilidade. No outro dia pela manhã uma carona nos levou até Mariscal Jose Felix Estigarribia, a última cidade antes da Bolívia, 350 Km de distância. É ali que fica a aduana paraguaia e ao contrário do Brasil, mesmo os nativos devem registrar sua saída do país, assim todos os carros em direção ao chaco devem parar nesse posto. A princípio parece uma carona fácil, todavia poucos carros saem do país, em muitos dias nenhum. Duas horas de espera e um carro chega, o motorista é japonês, pergunto em ingles se ele poderia nos levar, faz sinal para que eu olhe dentro do carro, o banco traseiro tem coisas amontoadas até o teto, nada feito. O dia quente vai passando e nós já estamos esparramados na entrada da aduana, o funcionário sai muito pouco de dentro da casa com A/C, quando sai dá uma rápida olhada para fora nos lança um sorriso e volta para dentro. A noite chega, 1 carro foi o saldo do dia. Com a noite surgem os mosquitos, não podíamos montar a barraca pois uma improvável carona poderia chegar de madrugada, repelente não fazia nenhum efeito, qualquer cm de pele exposta era atacada. Durante a madrugada passa um ônibus que sai de Assunción e vai a Santa Cruz na Bolívia, só pretendíamos chegar na fronteira, resolvemos tentar barganhar uma passagem barata com o bus para nos tirar daquele inferno de sugadores de sangue, um grande erro. As 4 da madrugada partimos chaco a dentro a bordo do expresso desconforto, nas primeiras 3 horas segui sentado no corredor esperando alguém que ia desembarcar. No ônibus conhecemos os menonitas, colonos alemães que moram nessa parte do Paraguay, todos usam a mesma roupa e o modelo feminino é algo de 60 anos atrás. Perto do meio dia com o sol calcinando o terreno desolado o expresso desconforto quebrou. Entrou em ação o motorista/mecânico, as horas foram passando e diversas tentativas de conserto resultaram apenas no motorista completamente coberto de óleo, graxa, terra e poeira. Sem nada para fazer fiz uma pequena incursão de poucos metros para dentro dos arbustos, o que depois descobri me rendeu 2 carrapatos no corpo. Posso imaginar a situação dos soldados bolivianos e paraguaios na hedionda guerra do chaco. El monte [chaqueño] es el absurdo materializado en árboles. Es el terrible mundo de la desorientación. En todas partes es el mismo, bajo, sucio, verde terroso. […] Sus árboles, no son árboles, son espantajos de formas torturadas, en cuya corteza rumian su miseria fisiológica espinas y parásitos [que] crecen prendidos a una tierra estéril e infecunda, por eso viven y mueren sin adornar sus ramas con la verde caricia de la hoja ni el milagro luminoso del fruto. Carlos Arce Salinas, excombatiente y político boliviano Eventualmente o colectivo foi arrumado e partimos, o motorista, oficialmente a pessoa mais suja que já vi na vida, ainda tinha uma longa viagem até Santa Cruz. Chegamos na fronteira ao anoitecer, fizemos os papéis de entrada e a máquina fotográfica recusou-se a tirar uma foto da bandeira boliviana. A enorme quantidade de poeira dos dias anteriores cobravam o preço no aparelho de 8 anos, o zoom óptico já havia desistido há alguns anos e a partir desse dia no chaco o maldito eletrônico adquiriu vontade própria recusando-se a funcionar nos momentos mais inoportunos. O ônibus ainda foi parado diversas vezes pelo exército boliviano, mas todos tinham muita preguiça de fazer alguma busca minuciosa contentando-se em cutucar as malas com a ponta dos fuzis. A noite chegamos em nosso destino, Villa Montes.
  13. No meio da manhã os gáuchos paraguaios apareceram reunindo o gado. A essa altura conhecemos a senhora que cozinha e sua filha que sabe português, a proximidade com a fronteira brasileira permite que o sinal de tv atravesse para o lado paraguaio e isso foi o bastante para a mocinha aprender nosso idioma. Sim, os paraguaios tem muita facilidade em aprender novas línguas, especulo que sua alfabetização dupla no espanhol e no guarani contribua para isso. Descobriram que o caminhão de Eliezer tinha um feixe de molas deslocado do berço. Iniciou-se a comoção de todos os companheiros de estrada para arrumar o estrago, tarefa que prosseguiu pelo início da tarde. No almoço comemos carreteiro de charque preparado no caminhão de um dos brasileiros. O gado foi carregado e partimos para a longa viagem de volta ao asfalto. O dia estava seco e quente e a abundante poeira da estrada entrava pela janela grudando em tudo. Nossas mochilas estavam amarradas em cima do reboque e sofreram a viagem. Para mim estava ótimo, começava a parecer uma mochila de verdade.
  14. Deixamos Assunción num ônibus urbano que nos levou até Benjamin Acerval, a última cidade antes de Filadelfia já no meio do chaco. O ponto é excelente para caronar, há um pedágio e um quebra molas enorme, ali levantamos o dedo e logo ficou claro que nossa carona não tardaria a chegar, muitos motoristas que passavam pediam desculpas e justificavam com " não vou longe ", "não há espaço", etc. Em pouco tempo um bitruck ganadeiro encostou. No mundo da estrada são conhecidos como difíceis de dar carona os caminhões tanque e os bitrucks e como impossível os cegonhas e os SUV's de velhos pretensiosos. A prova da exceção estava ali parada esperando nosso embarque. Seguimos rodando e bebendo tererê, substituído por cerveja com o passar do dia. Assim começou nossa jornada com Eliezer, sujeito muito simpático e bem humorado, fala espanhol, guarani, inglês, alemão e entende português; nasceu em colonia alemã, morou em colonia inglesa e tem muitos amigos brasileiros. Eliezer rumava para uma estância 250km para fora da estrada, encravada no meio do pantanal paraguaio perto da fronteira com o Mato Grosso do Sul. Perguntou-nos se gostaríamos de ir junto... Nessas horas que surge o prazer indescritível de não possuir prazos, reservas, passagens, cronogramas, limites, barreiras, impedimentos ou todas essas infinitas paredes com as quais nos aprisionamos sem perceber. Anoiteceu e uma caixa de cerveja havia sido consumida, paramos para jantar em um mercado de um pueblito na beira da estrada, o cardápio: Espetinho de carne, chorizo e cerdo com aipim feito na chapa, arroz e farofa, tudo pago por nosso anfitrião. A noite era abafada e estrelada, os insetos faziam coro na escuridão, apenas um ponto de luz, contento uma churrasqueira fumegante no interior esquecido de um país esquecido, na cia de caminhoneiros e moradores locais, apreciando uma inusitada comida de beira de estrada, uma das melhores jantas da minha vida. Eliezer adquiriu mais 2 caixas de cerveja e seguimos. A esta altura eu já estava borracho, e o motorista designado havia bebido o dobro, nos tranquilizou dizendo que normalmente naquela hora estaria bebendo whisky, mantinha-se na cerveja pois estávamos com ele. Chegamos na entrada da estrada de terra perto da meia noite. Na noite escura apenas a luz do caminhão iluminava a estreita estrada de terra. As 4 da manhã eu já estava a 2 horas pescando no banco do passageiro e Karine já dormia profundamente, por sorte a borracheira ou o sono fizeram Eliezer parar até o amanhecer. O processo de dormir por si não foi o ponto forte do passeio, fazia calor dentro da cabine e abrir os vidros estava fora de questão devido aos mosquitos pré-históricos. Duas horas depois acordamos e seguimos até a fazenda. Naquele dia vi o sol nascer no pantanal. Chegando na estância fomos recebidos com um café da manhã feito no fogão a lenha. O cardápio, pão, café e carreteiro. Sentamos a mesa com outros caminhoneiros que estavam ali para carregar, dois são brasileiros, viajam com suas companheiras.
  15. A cidade surpreendeu num primeiro momento, esperava encontrar algo similar a famigerada Ciudad del Este, pelo contrário, de cara ficou claro que havia muito a ser explorado. Resolvemos achar um hostel em conta para descansar alguns dias. Paramos no Black Cat, um lugar aconchegante com clima caseiro e muito bem organizado pela dona e sua filha que ali trabalham todos os dias, totalmente recomendado, no mundo mercadológico dos hostales é raro encontrar um lugar ainda tratado com amor. O custo de vida do PY é baixo em relação ao brasileiro, o povo é amigável e as empanadas são deliciosas. Um clima interiorano ronda as praças e é sempre ótimo ouvir pessoas falando em guarani, idioma que a maioria aprende junto com o espanhol. A noite é repleta de bares, boliches e karaokes, nunca fomos à rua das baladas para gringolandia na parte mais rica da cidade, em contrapartida descobrimos a uma quadra do hostel um lugar que mistura casa de arte alternativa, bar, jazz ao vivo e um amplo terraço legalize com almofadas e vista para o Rio paraguay. Em Assunción decidimos caronar através do chaco paraguaio até a Bolívia, algo que a hitchwiki não aconselha; péssimas estradas, tráfego quase inexistente, um ambiente inóspito habitado por mosquitos colossais, mutucas sedentas, carrapatos e muita poeira. Mal sabia que essa era a decisão que levaria a um lugar fantástico e inusitado numa das melhores caronas da viagem. Antes de partir, contudo, passamos pelas eleições presidenciais sendo vencedor o partido colorado, o que governa o país a décadas e agora volta ao poder. Uma enorme festa invadiu as ruas e é claro que fomos participar. Era visível qual a índole ideológica dominante dos vencedores, com seus eleitores comemorando de dentro de carros importados com sistemas de som potente, de qualquer forma a festa estava boa, e os coxinhas estavam felizes em fornecer a bebida. Em Assunción a trágica história de uma nação destroçada repousa em suas praças e museus, fragmentos de um passado exuberante. Marcos de guerras perdidas exaltam figuras militares assassinadas. Da grandeza ao declínio com a investida brasileira e argentina a mando de interesses ingleses que não podiam permitir um país livre, culturalmente autônomo e independente do mercado externo e de seus banqueiros ambiciosos, já que antes da guerra o Paraguay não possuía um centavo de dívida com a máquina bancária estrangeira. O primeiro empréstimo com bancos ingleses ocorreu dias após o fim da batalha.
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