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Diego Minatel

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  1. Valeu @Jorge.luiz! Espero que consiga prosseguir com seu projeto de viagens. Quando terminar suas mochiladas deixa seu relato também por aqui, vou querer ler. Abração.
  2. Fala @Jorge.luiz vale muito a pena fazer, todas as cachoeiras são muito bonitas e a entrada da trilha é pertinho do Camping do Paiol. Preciso voltar pra lá também e fazer de novo a trilha. Abração
  3. Muito obrigado, @casal100! Fico feliz em ler suas palavras, muito obrigado de verdade! Espero conseguir fazer metade das suas andanças, que por sinal são demais. Quem sabe um dia desses não nos encontramos em alguma travessia. Muita luz para vocês e um forte abraço.
  4. Parte 16 - Reflexões "Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara." Livro dos Abraços, Eduardo Galeano Nessa última parte do relato quero deixar algumas reflexões, pensamentos, partes desconexas desta viagem e os últimos agradecimentos. Bora terminar este relato. * * * Quando iniciei este relato comentei sobre as coisas que haviam acontecido comigo antes desta viagem iniciar-se. Não quis de forma alguma me vitimizar, poderia ter ocultado essa parte, mas quase todos os acontecimentos desta viagem, de certa forma, foram influenciados por estes acontecimentos. Então, quis ser o mais honesto possível e mostrar, de maneira natural, como desenrola uma viagem deste tipo. Enfim, nem tudo são flores. Para mim foi uma novidade viajar com meu estado de espírito debilitado. Em todos meus outros mochilões, sempre iniciei-os com um tesão imenso por tudo o que haveria de vir. No início foi complicado, mas a estrada é sempre uma boa companheira. Na verdade a vida na estrada é tão maluca, que ela nem te deixa pensar direito, se você não se jogar por completo ela te engole. Por isso, ter escolhido um ponto de chegada tão longe, como Ushuaia, foi mais do que um acerto. Deu tempo de começar em um ritmo mais lento e depois ir acelerando, conforme as coisas iam se desenrolando. No fim, deu tudo certo. A única coisa a mais que vale comentar sobre esse assunto, é que você viaja e deixa os problemas para depois, quando voltar eles continuarão no mesmo lugar. Comigo não foi diferente, ao voltar pra casa parecia que eu estava vivendo o dia depois da minha partida, parecia que nada tinha mudado. * * * Sempre fui muito orgulhoso, pois sempre achei que não precisava de ajuda para nada. Por um lado eu odiava ser ajudado, do outro lado a coisa que eu mais adorava fazer era ajudar o próximo. Como poderia existir tal contradição? Não sei ao certo. Agora você deve estar se perguntando: Mas que porra isso tem haver com as viagens? No meu caso tem tudo haver. Quando sai em meu primeiro mochilão, eu só pensava em explorar e conhecer novos lugares, e me divertir. Tudo foi planejado nos mínimos detalhes: o dinheiro, cada lugar a visitar, os dias em cada lugar, os equipamentos necessários. Confesso que foi um bom plano e quase tudo saiu conforme o planejado. Porém, os melhores acontecimentos foram frutos do que não estava idealizado previamente. Portanto, no meu segundo mochilão decidi não ter planos, queria viajar como um barco a deriva e ir aonde o vento me levasse, isso com pouco dinheiro. A ideia era caminhar por todo o Brasil e conhecê-lo de forma mais autêntica e verdadeira, tinha em mente alguns lugares que tinha vontade de conhecer, mas como conectaria esse lugares, quantos dias ficaria ou até mesmo o que faria em cada lugar, não tinha ideia de como seria. Apenas fui, mas sabia que desse jeito eu me colocaria em diversas situações de desconforto, onde, invariavelmente, eu necessitaria de todo o tipo de ajuda possível. Era eu contra o meu orgulho. Foram meses e meses caminhando pelo nosso país, e quanto mais eu caminhava mais eu me aproximava do que eu queria ser. Nesse momento, eu me fiz uma pergunta que mudou para sempre minha forma de pensar, a pergunta foi a seguinte: Se ajudar o próximo me faz bem, então se uma pessoa se dispõe a me ajudar, tal pessoa estará fazendo um bem pra si também, consequentemente, ao aceitar essa ajuda eu também estarei ajudando-a? (Só para deixar claro, quando falo de ajuda me refiro aquela ajuda espontânea.) A princípio pode soar egoísta fazer essa pergunta, mas não vejo dessa forma, e falando pelas minhas experiências a resposta para essa pergunta: é sim, você estará ajudando essa pessoa de certa forma. Esse é o ponto principal para mim, o ponto de inflexão nas minhas viagens. A partir daí, ficou mais natural para mim viajar dessa forma. Não mais me sentia um estorvo quando estava hospedado pelo couchsurfing ou quando acampava no quintal de alguém ou mesmo quando recebia caronas, apenas aceitava que tudo aquilo era recíproco, como eu queria estar ali a pessoa também queria que eu estivesse por ali também. Assim, fui acumulando as melhores experiências possíveis. Consegui aliar o meu interesse social, o de vivenciar realmente o lugar através dos nativos, de sua cultura, de aprender com aquela experiência e de alguma forma somar, com o prazer de viajar. * * * Viajar sem muita grana envolve a abdicação de muitas coisas. No nosso caso, deixamos de experimentar os principais pratos de cada lugar, cozinhamos a maior parte do tempo e sempre comprando o que havia de mais barato no mercado. Assim, comemos bastante carne processada e afins, tive que interromper uma dieta vegetariana que há algum tempo tentava manter. Outra coisa, é que deixamos de fazer alguns dos principais rolês por causa dos custos, então, numa viagem dessas não se pode pensar muito no que se deixou para trás, mas sim agradecer o que foi possível conhecer. * * * Sobre a Patagônia, tenho duas palavras para dizer: só vai. * * * Hoje, depois de dois meses do meu retorno, ainda não consegui processar tudo o que me aconteceu nesses quase dois meses de viagem. Nem tenho pressa disso acontecer, pra falar a verdade ainda não digeri tudo que me ocorreu no mochilão que fiz pelo Brasil a três anos atrás. Acho que esse tipo de coisa vai ocorrendo com calma, te transformando aos pouquinhos. A única coisa que eu tenho certeza é da gratidão que eu sinto por cada pessoa que cruzou o meu caminho nesses dias. Nesse sentido, reescrever a viagem, através de palavras, me fez reviver cada momento, lembrar de todas essas pessoas e verificar por outro ângulo os acontecimentos. É trabalhoso fazer o relato, mas é prazeroso ao mesmo tempo. Quando iniciava a escrita de uma nova parte do relato, todas as pessoas que fizeram parte daqueles momentos me faziam companhia, dava para matar um tiquinho da saudade, e quando eu terminava era como se fosse uma segunda despedida. Enfim, foi animal poder ter tido essa oportunidade de conhecer um pouco mais do nosso Brasil e de nossa América do Sul, me sinto honrado em poder vivenciar e compartilhar esses dias nas estrada com meu irmão Matheus. Aos ventos agradeço por ter colocado em meu caminho somente as melhores pessoas de cada lugar. Não sei se merecia tanto, mas valeu por mais essa. * * * Por fim, queria agradecer uma última vez a todas as pessoas que cruzaram o meu caminho e do Matheus nessa viagem, sem vocês nada disso teria acontecido. Também quero agradecer a você que teve paciência de ler este longo relato, espero que eu tenha contribuído contigo de alguma forma. Caso tiver alguma dúvida sobre qualquer coisa deste relato ou quiser conversar sobre viagens e afins, é só entrar em contato comigo. A todos vocês agradeço de coração, muito obrigado! Espero que tenham muita vida nessa vida. Forte abraço e nos vemos pela estrada! Com carinho, Diego Minatel
  5. Parte 15 - O caminho de volta: Buenos Aires, São Miguel das Missões, Curitiba e Prainha Branca ""Isto eu já sei de cor e salteado”, gritava Úrsula. “É como se o tempo desse voltas sobre si mesmo e tivéssemos voltado ao princípio."" Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquez Da rodoviária do Retiro pegamos o metrô e depois o trem até Merlo, uma cidade da região metropolitana de Buenos Aires. Dessa vez, iriamos ficar na casa do Federico, o mesmo que arrumou nossa estadia em El Calafate. Chegamos no meio da tarde, fomos recebido pela Valeria, cunhada do Fede. Federico chegou no final da tarde trazendo faturas pra nós comermos. O dia estava ensolarado, aproveitamos pra ficar na piscina até o pôr do sol. Federico é um cara muito gente boa e alto astral, ele é formado em educação física e trabalha, atualmente, com atividades físicas na educação especial. Ele é nascido em Rio Gallegos e fez a graduação em Cuba. Depois de morar em Cuba, ele nunca mais se acostumou com a gélida Rio Gallegos, e sempre que tinha tempo e dinheiro viajava para o nordeste brasileiro para encontrar calor e praia. Numa dessas viagens ele foi para Jericoacoara e ficou no hostel que o Matheus trabalhava. Ainda nessa viagem, ele conheceu a também argentina e gente boa Yanine, que estava hospedada no mesmo hostel, com quem ele começou a se relacionar. De volta na Argentina, eles ficaram fazendo a ponte área Rio Gallegos/Buenos Aires por muito tempo até o Fede decidir ir mora de vez com a Yanine em Buenos Aires, ou mais precisamente em Merlo. Passamos dois dias na casa do Federico e da Yanine. Dessa vez tivemos a oportunidade de conhecer uma Buenos Aires longe dos pontos turísticos e de toda a muvuca, da qual gostei igualmente. Ficamos boa parte do nosso tempo apenas conversando com o casal e alguns de seus amigos, sempre em volta da piscina. Tomamos cerveja e pela primeira vez comi um asado argentino feito em casa. Federico manda muito bem no asado, me arrisco dizer que foi o melhor churrasco que já comi na vida. Foto 15.1 - Federico, Yanine, Eu e o Matheus "Hacen lo que tiene que hacer!" essa era a resposta do Fede para quase tudo, a resposta sempre era acompanhada de uma ironia. Se fosse sobre política ele dizia "Los gobernantes hacen lo que tiene que hacer" e complementava "Que es golpear la cara de los trabajadores". Quando o assunto era educação ele emendava "Los gobernantes hacen lo que tiene que hacer, que es jugar mierda en los professores". Numa de nossas andanças pelas redondezas, eu entendi o porquê da ironia, li num outdoor a propaganda do governo Macri que dizia mais ou menos assim: "Haciendo lo que tiene que hacer". Fomos embora numa madrugada, os pais de Yanine passaram buscar ela e o Federico e aproveitaram para nos dar uma carona. Federico e Yanine tinham voo para a Colômbia naquele dia, eles iam passar o próximo mês nas aguas calientes do caribe colombiano. Primeiro fomos para o aeroporto, nos despedimos do Fede e da Yani, em seguida, fomos até a rodoviária do Retiro, onde nos despedimos dos pais da Yanine. Ficamos metade da madrugada aguardando o ônibus que nos levaria até Paso de Los Libres, fronteira com o Brasil. Pouco lembro da viagem de Buenos Aires até Paso de Los Libres, dormi quase que a viagem inteira. Cruzar a fronteira foi interessante, sentia saudades de ouvir a todo momento nossa língua materna. Tentamos carona para atravessar a ponte que separa Argentina e Brasil para chegar em solo tupiniquim, mas sem sucesso. É proibido atravessar a ponte caminhando, mas estávamos tão perto, por que não caminhar mais dois quilômetros e chegar no Brasil? Já era fim de tarde, seguimos caminhando sobre o rio Uruguai, por um momento parei no parapeito da ponte e observei o pôr do sol no rio, lindo demais. Já em Uruguaiana continuamos a caminhada até a rodoviária. Dormimos na rodoviária, no nascer do sol pegamos um ônibus com destino a Santo Ângelo. Descemos do busão no trevo que conecta São Miguel das Missões, fomos caminhando, parte dos 15 km que separa o trevo e a cidade, até o Mário e a Karine virem ao nosso encontro. Que saudades que eu estava dos dois. Ficamos três dias em São Miguel das Missões dessa vez, um tempo maior que da primeira vez. Passamos o dia 31 de dezembro com a família do Mário, conhecemos sua mãe, irmãos, sobrinhos e agregados, a casa estava lotada. Pela primeira vez, eu passava o último dia do ano com outra família sem ser a minha, isso foi muito legal e diferente pra mim. Nos enturmamos rapidamente com todos, passamos o dia bebendo, e observando a engenhosidade da família para assar um porco gigante. Eles usaram uma carcaça de uma geladeira como churrasqueira, a família toda junta para ver como era a melhor forma de prender o porco na churrasqueira improvisada. No fim da noite fomos até as Ruínas de São Miguel para ver a queima de fogos do ano novo que se anunciava. Nunca tinha presenciado uma queima de fogos como aquela, foi bem bonita de ser ver, ainda mais com a ruína de fundo e as estrelas brilhando no céu, cena linda. Foto 15.2 - Na casa da mãe do Mário Foto 15.3 - Queima de fogos nas ruínas Foto 15.4 - Queima de fogos nas ruínas Foto 15.5 - Queima de fogos nas ruínas Mudamos alguns de nossos planos para poder passar o ano novo com o Mário, Karine e o João. A memória do mês anterior em que fomos acolhidos de coração aberto por eles, ainda era muito viva em nossas mentes e também em nossas conversas. Assim, receber deles os primeiros abraços do ano foi muito especial para mim, tinha que ser assim. Além, de podermos ficar mais um pouco em suas companhias e conhecê-los ainda mais e mais. No início da manhã, do dia 2 de janeiro, pegamos o ônibus até Santo Ângelo e depois para Chapecó. Em uma das paradas do ônibus, paramos para almoçar num posto a beira pista. Fui cortar um sachê de mostarda com a boca, sei lá o que aconteceu, mas deu um tranco no meu maxilar e quando me dei conta vi que uma lasca do meu dente tinha se partido. Porra, fiquei triste demais, quebrar o dente com um sachê, burrice além da conta. Agora de dente quebrado continuamos viagem até Chapecó. Chapecó é uma cidade muito especial para mim. Anos atrás, participei do Projeto Rondon pelo interior do Maranhão e metade da equipe era da UnoChapecó, Universidade Comunitária de Chapecó. Fiquei muito amigo do pessoal e, vira e mexe, vou pra Chapecó rever a galera que ainda mora por lá. Para o Matheus seria a primeira vez na cidade. Chegamos em Chapecó e o Mauricy foi ao nosso encontro. Iríamos ficar na casa dele, onde ele mora com sua namorada Ângela. Sou meio suspeito para falar do Mauri, pois é meu amigo e uma pessoa de quem eu gosto muito, mas, resumidamente, ele é um cara firmeza demais, assim como a Ângela. Chegamos na casa deles, encontramos a Ângela e fomos para um bar. No bar fomos ao encontro da Samara, minha amiga e que também foi integrante do Projeto Rondon. Ficamos boa parte da noite relembrando os causos do projeto, isso foi muito bom, ao menos pra mim que tenho muitas saudades daqueles dias. Em alguma parte da noite, o assunto descambou para pratos típicos de cada região, e assim, conheci o porco pizza. Porco pizza é um porco que é assado todo aberto e por cima recheia-se como se fosse massa de pizza, enfim, deve ficar uma "patchotcheira", mas eles disseram que é muito bom. O resto da noite o assunto foi o porco pizza, que por sinal é um bom nome. Foto 15.6 - Eu, Samara, Matheus, Ângela e Mauricy No outro dia, eu, Mauricy e o Matheus partimos para fazer a trilha do Pitoco logo de manhã. A trilha tem esse nome porque o cachorro Pitoco acompanhava as pessoas que percorriam essa trilha. A trilha é bem bacana, cheia de verde e tem cinco cachoeiras ao todo. Até a segunda cachoeira o caminho é bem tranquilo, depois fica um pouco mais complicado, mas nada muito difícil. Pegamos chuva em boa parte da caminhada, o que dificultou um pouco, cheguei até tomar um capote. Embora estivesse chovendo, o calor era intenso, então mergulhar naquelas águas era uma obrigação. Foto 15.7 - Trilha do Pitoco Foto 15.8 - Mauri na cachoeira Foto 15.9 - Trilha do Pitoco Foto 15.10 - Matheus, Mauri e Eu em uma das cachoeiras da trilha do Pitoco Voltamos para o centro da cidade já era fim de tarde, mas aproveitamos para visitar o estádio da Chapecoense. Eu não voltei para Chapecó depois da tragédia que ocorreu com a equipe de futebol, mas sabia que uma das vítimas deste acidente era o Giba, primo do Mauricy e ex-assessor de imprensa da Chapecoense. Na hora, eu não sabia se eu devia entrar nesse assunto com o Mauri ou não, pois ele era muito próximo desse primo, mas o assunto surgiu naturalmente. Foi muito legal ouvir a versão do Mauricy sobre o pós acidente, e sobre a marca deixada na cidade e, principalmente, em sua família. Foto 15.11 - Muro com as vítimas do voo da Chapecoense (o primo do Mauri, o Giba, é o segundo da esquerda para a direita) Foto 15.11 - Estádio da Chapecoense Foto 15.12 - Estádio da Chapecoense Pela noite, juntou-se a nós a Samara e a Ângela. Mais uma vez, ficamos conversando, mas dessa vez já em tom de despedida. Comemos umas pizzas, e no fim da noite o Mauricy nos levou até a rodoviária, iríamos pegar um ônibus noturno para Curitiba. Foi bem rápida a passagem por Chapecó, mas muito boa, afinal foi bem bom rever o Mauri e a Samara, e conhecer um pouco mais da Ângela. Eu fiquei dois dias em Curitiba, ficamos hospedados na casa do casal rondoniense André e Priscila. Eles trabalharam junto com o Matheus na época que o mesmo vivia em Curitiba. Os dois são simpatia pura, gostei demais de conhecê-los. No primeiro dia, fomos até a Ópera de Arame e no Parque Tanguá, dois dos lugares que eu não conhecia na cidade. O mais legal ficou para o outro dia, fomos sentido Morretes e fizemos churrasco numa área perto de uma cachoeira, isso debaixo de chuva. O churrasco contou com a presença de mais uma rondoniense, a Samara. Foi bem bom o churrasco, André, Priscila e Samara são divertidos demais. No fim da noite, André e Priscila nos levaram para rodoviária. A Samara seguiria para uma viagem de dois dias até Vilhena em Rondônia, e eu iria até São Paulo rever alguns amigos. O Matheus ficou por Curitiba, iria aproveitar mais a cidade e rever outros amigos, além de passar mais tempo na companhia do André e Priscila. Eu estava sonolento, mal consegui me despedir do Matheus, André, Priscila e da Samara. Entrei no ônibus e desmaiei. Foto 15.13 - Ópera de Arame Foto 15.14 - Ópera de Arame Foto 15.15 - Palco barco na Ópera de Arame Foto 15.16 - Parque Tanguá Foto 15.17 - Parque Tanguá Foto 15.18 - André, Matheus e a Priscila Voltando ao primeiro dia em Curitiba. Na Ópera de Arame, fiquei por muito tempo observando e ouvindo o cara que tava se apresentando no palco barco. Ele tocava MPB em geral, era somente violão, nada mais. Quando ele começou a tocar a música Carinhoso do Pixinguinha, ai as lembranças me assolaram. Conforme, a viagem foi se desenrolando em seu ritmo frenético, pouco tempo eu tinha para pensar nas coisas que ocorreram antes da viagem, e me esforçava para não pensar nisso nos momentos de introspecção. Mas com aquela música de fundo, era impossível se auto sabotar e não pensar em nada, não tinha como, as lembranças vieram com força. Minha vó adorava cantar, sempre que eu ia na casa dela ficávamos a tarde toda cantando. A música que ela mais gostava de cantar era Carinhoso. Lembro que no aniversário de 80 anos dela, ela cantou essa música na frente de todos e toda a família acompanhou-a como um coral, foi bem bacana esse momento. E agora ali, na Ópera de Arame, ouvindo esse som depois de muito tempo, as recordações vieram a tona junto com um sentimento de tristeza. Enfim, neste momento percebi que a viagem estava acabando e que apesar de toda essa viagem foda, o passado ainda estava mal resolvido na minha cabeça. Em Sampa, como em todos os meus finais de viagens, sai tomar umas cervejas com a Fernanda, amiga de todas as horas. Passamos o dia caminhando pela Avenida Paulista até estacionarmos num bar para tomarmos umas brejas e colocar a conversa em dia. Depois segui para a casa de outra amiga, a Isa, quando morei em São Paulo moramos na mesma república, na qual eu teria um canto pra dormir nesse dia. No dia seguinte, eu e a Isa pegamos um trem até Mogi das Cruzes, depois entramos numa van com destino a Bertioga. Chegamos em Bertioga e atravessamos de balsa para o Guarujá, entramos na trilha para a Prainha Branca. Creio que caminhamos por um pouco mais de meia hora até, enfim, chegar na praia. Prainha Branca foi um lugar que me surpreendeu positivamente. A praia é bem limpa, bonita, rodeada por uma natureza ímpar, preço justo e sem muita muvuca, ao menos pela manhã e de noite. Ficamos pouco tempo, dois dias e uma noite, mas foi o suficiente para matar a vontade que eu estava de estar numa praia em que eu pudesse mergulhar em suas águas sem morrer de hipotermia. Demos sorte, pois pegamos muito sol. A noite por lá é bem legal, só fica a galera que está acampando na praia, então é bem tranquilo. Foto 15.19 - Prainha Branca Foto 15.20 - Prainha Branca Foto 15.21 - Prainha Branca Voltamos para Sampa, peguei minhas coisas, me despedi da Isa e segui rumo a rodoviária. Com a passagem na mão, destino Rio Claro, deitei junto ao portão de embarque para aguardar o ônibus. Nessa hora, a ficha do fim da viagem caiu de vez. Acho que esse momento, foi o de maior frio na barriga de toda a viagem. Agora, as perguntas eram muitas dentro da minha cabeça, e eu não tinha nenhuma resposta. Enfim, era a hora de voltar pra casa.
  6. Parte 14 - A janela do ônibus "Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa Agora dentro do ônibus, seriam dois dias de viagem até Buenos Aires. A viagem começou cedo naquela dia. Saindo de El Chaltén um misto de sentimentos tomava conta de mim. Cada minuto que se passava, eu ficava mais distante daquele lugar que para mim passou a ser o meu preferido no mundo. Já estava com saudades de ter sempre a companhia do Fitz Roy, mas tava feliz por começar a empreitada de volta para casa. Tentei dormir, mas eu só conseguia olhar pela janela do ônibus. Com os olhos eu ia me despedindo de todos aqueles lugares. O ônibus acelerava na pista vazia, primeiro pela Ruta 23 e depois pela Ruta 40. A chuva começou a cair, a janela não mostrava mais nada. Assim, o sono me venceu. Acordei em El Calafate, ficamos pouco tempo na cidade. Só deu tempo de comprar algumas empanadas, comer e subir no ônibus para Rio Gallegos. Agora pela janela do ônibus via o caminho que percorremos pela noite dias antes. Ao passar pelo posto policial, veio a recordação dos momentos de tensão. Chegamos em Rio Gallegos no meio da tarde. Era Natal, a cidade estava vazia, aguardamos algumas horas e entramos no ônibus que nos levaria até Buenos Aires. Rio Gallegos ficou para trás. O ônibus ia avançando pela Ruta 3 no sentido norte. Um filme de trás para frente ia passando pela janela do ônibus. Parecia que estávamos rebobinando a viagem. A conquista dos quilômetros sem suor e espera não tinha a mesma graça. Porém, o exercício de recordar todos momentos vividos e lembrar aquela obsessão por chegar, era bom demais. Pela janela do ônibus eu voltava no tempo, sentia aquele arrepio do desconhecido e de não saber onde estaria nos próximos cinco minutos. Agora, as incertezas da viagem faziam falta e as perguntas que sempre fazíamos um para o outro retornavam na memória: "Será que vamos nos dar bem com a pessoa que vai nos hospedar?", "Será que alguém vai nos dar carona hoje?", "Como vai ser a próxima pessoa que vai abrir a porta do carro?", "Onde vamos dormir hoje?", "Será que vamos conseguir?", "Vamos continuar aqui ou mais pra frente os motoristas nos veem melhor?", "Qual o plano B?", "Qual a próxima cidade que vamos parar?", "Conseguiu contato no couchsurfing?", "E se tentássemos outra abordagem de carona?", "Insistir ou desistir?". O ônibus saiu da Ruta 3 e seguiu pela Ruta 288 para pegar os passageiros em Puerto Santa Cruz. Na volta para a Ruta 3, ainda na Ruta 288, a noite batia na porta. Era umas dez da noite, o sol estava tocando o horizonte. A luz na planície patagônica alternava de cores, ora alaranjada, ora rosada. Lentamente, a luz ia desaparecendo e a vegetação brilhava num dourado chamuscante. Coisa linda de ver. Esse foi o último presente que a Patagônia nos ofereceu, nosso presente de Natal. Quando a luz desapareceu de vez, a chuva veio para ficar. Por toda a madrugada a chuva não parou. Amanhecemos em Comodoro Rivadavia. Quanto mais subíamos no mapa, mais intensa a chuva ficava. Era assustador estar naquela tempestade dentro do ônibus. Passamos por Trelew, avistei o ponto em que ficamos o dia todo na espera. Das coisas que eu mais tinha medo nessa viagem, acho que a maior era pegar uma tempestade patagônica no meio da pista pedindo carona, longe de tudo. Se era assustadora a tempestade dentro do ônibus, imagine na beira da pista. Muita coisa veio na cabeça nessa hora, fiquei pensando em como demos sorte em pegar tempo bom na maior parte do tempo, pensei também que era mesmo pra estarmos voltando de ônibus. A chuva não deu trégua em nenhum momento mais. Passamos por Puerto Madryn, Las Grutas, Viedma, Bahia Blanca e Tres Arroyos debaixo de muita água e ventos fortes. Pela janela do ônibus nada mais se via, apenas pingos de água escorrendo pelo vidro. Na madrugada, seguimos pela último trecho da Ruta 3 até Buenos Aires. Depois de dois dias de viagem, enfim, chegamos em Buenos Aires. Mais uma vez a Ruta 3 estava completa. Dessa vez sem esforço, de forma rápida e sem paradas. Nos fodemos pra caralho na ida, mas jamais trocaria as experiências vividas na ida pela comodidade da volta.
  7. Hahahahaha cê eh loko, imagina só dar de cara com um puma? Aquelas vacas selvagens pareceram deboas, mas a placa falando delas dá uma assustada até 😂😂😂😂
  8. Parte 13 - O paraíso tem nome, El Chaltén "O escafandro já não oprime tanto, e o espírito pode vaguear como borboleta. Há tanta coisa pra fazer. Pode-se voar pelo espaço ou pelo tempo, partir para a Terra do Fogo ou corte do rei Midas. Pode-se visitar a mulher amada, resvalar junto dela e acariciar-lhe o rosto ainda adormecido. Construir castelos de vento, conquistar o Velocino de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar sonhos de infância e as fantasias da idade adulta." O escafandro e a borboleta, Jean-Dominique Bauby O ônibus corria sozinho pela Ruta 40, o Lago Argentino estava a minha a esquerda. Não cansava de olhar por diferentes ângulos aquele lago azul que mais se parecia com um mar. Dentro do ônibus o som era uma mistura de idiomas. Quando o ônibus deixou a Ruta 40 e seguiu pela Ruta 23, a surpresa foi expressa em variadas interjeições: "Uau!", "Wow!", "Oh!", "Eita!". Agora todos os olhos miravam o Monte Fitz Roy que se anunciava ao fundo. Na minha esquerda, o Lago Argentino deu lugar para o Lago Viedma. A cada quilômetro conquistado, maior ficava o Monte Fitz Roy e seus companheiros Agulha Ponceinot e Agulha Saint-Exupéry. Os três lado a lado formam uma espécie de degrau. O sol descia em direção dos cumes, já era possível avistar o Cerro Torre, mais a esquerda, com seu diferente pico. As nuvens tocavam o topo do Monte Fitz Roy e os glaciares em volta já podiam ser visto com mais clareza. O ônibus adentrou na cidade de El Chaltén, e nesse momento Fitz Roy, Poincenot, Saint-Exupéry ficam escondidos atrás dos diversos morros que cercam a cidade. Foto 13.1 - Parada entre El Calafate e El Chaltén Foto 13.2 - Na janela do ônibus avistando o Monte Fitz Roy Foto 13.3 - Fitz Roy é o maior El Chaltén é uma cidadela que fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares e tem pouco mais de mil habitantes. A cidade é rodeada de montanhas, lagos, glaciares e trilhas, e é considerada a capital argentina do trekking. Chaltén é uma palavra da língua tehuelche que significa a montanha que toca as nuvens, em nítida referência ao Monte Fitz Roy. El Chaltén abriga dois dos picos mais difíceis de escalar deste planeta: Cerro Torre e Cerro Fitz Roy, isso faz com que a cidade seja objeto de desejo dos principais escaladores do mundo. Saímos caminhar pela charmosa El Chaltén com os mochilões nas costas. O dia estava quente e com algumas nuvens no céu. A cidade é fascinante, toda calma, organizada e bonita. Existem diversos monumentos em referência a mochileiros e montanhistas. Em resumo vê-se pelas ruas da cidade restaurantes e hotéis/hostels, tudo é relativo ao turismo ali. Falando da beleza natural do lugar, a cidadela fica dentro de um vale cercada por morros que lembram uma paisagem de deserto, mas existem inúmeros rios e lagos que rodeiam a cidade. Foto 13.4 - Bienvenidos a El Chaltén Foto 13.5 - A entrada de El Chaltén Foto 13.6 - A cidade do trekking Foto 13.7 - A pacata El Chaltén Foto 13.8 - As casas no vale Foto 13.9 - El Chaltén Foto 13.10 - El Chaltén [2] O que mais me chamou a atenção nessas primeiras horas por El Chaltén foi caminhar pela rua José Antonio Rojo. No fim dessa rua tem um morro que impede a visão do horizonte, mas o curioso que bem na direção do Fitz Roy tem tipo uma janela, ou um degrau, no morro que permite ver somente o Fitz Roy e as pontinhas do Saint-Exupéry e do Poincenot. Coisa linda! 13.11 - A janela para o Fitz Roy Fomos até o Camping La Torcida, o mais barato de El Chaltén, a diária estava cerca de vinte e cinco reais. La Torcida é um camping bem pequeno, mas tem uma boa estrutura para cozinhar, um bom banheiro, além de uma área de convivência. Montamos acampamento, comemos os cachorros quentes que sobraram de El Calafate e decidimos fazer a trilha Laguna De Los Tres naquela madrugada, pois a previsão do tempo indicava que era o melhor dia. A trilha Laguna De Los Tres é a principal trilha de El Chaltén, é a que leva você na base do Monte Fitz Roy. Vale lembrar que no parque existem diversas áreas de acampamento gratuito, mas estes estão distantes da cidade e servem de apoio para as pessoas que irão fazer caminhadas de vários dias, não há nenhuma estrutura nestes acampamentos. A princípio, iríamos utilizar um dos acampamentos gratuitos ao menos uma vez, assim emendaríamos diversas trilhas. Porém, era final de ano, a cidade estava cheia, o camping La Torcida estava num preço bom e eles não reservavam lugar caso tirássemos nossas barracas. Então, para não correr riscos depois, de não ter lugar no La Torcida e ter que pagar caro em outro lugar, resolvemos ficar por ali e fazer todas as trilhas saindo da cidade. O despertador gritou, era pouco menos de uma da manhã. Peguei a mochila que servia de travesseiro e coloquei-a nas costas. Sai da barraca, escovei meus dentes e aguardei o Matheus na frente do acampamento. Saímos caminhando pela cidade rumo a entrada da trilha. O céu estava estrelado. As primeiras subidas do caminho ajudava aquecer o corpo naquela noite fria. Só escutava o som dos nossos passos e o barulho do vento. Na minha frente o escuro era cortado pelas luzes de nossas lanternas. Os passos seguiam, caminhávamos num bom ritmo. Conforme íamos avançando encontrávamos outras pessoas pelo caminho. Eu pouco enxergava, além de escuro e feixes de luz. Quando chegamos no Mirante do Fitz Roy, toda a mata alta que impedia de visualizar o horizonte não existia mais. Nessa hora, a mirar os olhos à frente, vi das coisas mais assustadoras e incríveis da minha vida. Naquela escuridão, surgiu o contorno do Fitz Roy. Não parecia real, até me belisquei para verificar se era verdade a sombra daquele monstrão de granito. O frio na barriga surgiu junto com a vontade de me aproximar mais e mais. Continuamos a caminhada, agora a trilha segue plana e numa vegetação rasteira. Caminhávamos de frente para o Fitz Roy, as estrelas iluminavam o caminho. Não conseguia pensar em nada, não tirava os olhos do maciço de granito e com isso ia acumulando tropicões. Em determinadas partes, desligava a lanterna, caminhava por instinto. Ao nos aproximarmos do acampamento Ponceinot o som do vento ganhava a companhia de vozes humanas. Chegando no acampamento, toda a galera que estava acampando por ali acordava para começar a caminhada até a base do Fitz Roy. Aproveitamos para descansar uns cinco minutos e comer umas bolachas. Depois do acampamento, segue a última parte da trilha. O Fitz Roy fica escondido atrás do morro de acesso. Agora é subir e subir. A subida não chega ser das mais difíceis, mas a madrugada facilita a empreitada. Nessa parte, a trilha estava entupida de gente. Cada grupo que ultrapassávamos um idioma diferente era escutado. O mundo todo estava representado naquela subida. Eu só conseguia pensar em chegar, parar pra descansar nem pensar. A cada passo dado, mais visível o cume do Fitz Roy ficava. Afinal, só o cume era visível, o resto do Fitz Roy, o Poincenot e o Saint-Exupéry ficam escondidos até a subida final. Ao chegar no fim da trilha, surge de uma vez só o Saint-Exupéry, Poincenot, o lindão do Fitz Roy e a Laguna De Los Tres. Sem exageros, meu coração disparou naquele momento. Aquela cena foi mais que demais, era a beleza em seu esplendor. O relógio marcava quatro e meia da madrugada, o frio ali em cima era intenso. O sol não esboçava se levantar. Nos protegemos do vento atrás de uma pedra. As pessoas iam chegando e se ajeitando no entorno daquele cenário. Todos tinham o mesmo objetivo, o de acompanhar o nascer do sol na companhia do Fitz Roy. Tremendo, acompanhei os primeiros raios de sol que surgiam na direção da cidade. Uma linha laranja ia aumentando no horizonte. Depois de alguns minutos, o sol surgiu para amenizar o frio e iluminar os gigantes de granito. Cada posição do sol, uma nova iluminação e uma coloração diferente para o Fitz Roy e para a Laguna De Los Tres. Acompanhar esses nuances é do caralho. Foto 13.12 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, na escuridão Foto 13.13 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, nos primeiros brilhos de sol Foto 13.14 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, o sol continua subindo Foto 13.15 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, em tons de azul Foto 13.16 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy com o sol de frente Foto 13.17 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy com o sol acima (A ordem das fotos seguem a sequência temporal em que foram tiradas, essas fotos foram tiradas num intervalo menor que duas horas. Isso da pra dar uma noção de como é mágico acompanhar o nascer do sol a beira da Laguna De Los Tres, pois têm-se diferentes cenários em um mesmo cenário. ) Vou me atentar a falar dos caras que dão os nomes aos três principais picos desta paisagem: Saint-Exupéry, Poincenot e Fitz Roy. Antoine de Saint-Exupéry é aquele mesmo que escreveu O Pequeno Princípe, mas você me pergunta: - Por que esse francês dá nome a esse pico na Argentina? Bom, saber eu sei, mas não estou de acordo. O motivo é porquê Saint-Exupéry foi aviador, além de escritor, e pioneiro em voos postais na região patagônica. Jacques Poincenot foi um alpinista francês e morreu numa expedição francesa que tinha como objetivo alcançar o topo do Fitz Roy pela primeira vez, isso ocorreu no ano de 1952 e depois disso o segundo pico mais alto do Maciço Fitz Roy recebeu seu nome. Robert FitzRoy foi o capitão do navio da famosa viagem de Beagle, na qual Charles Darwin participou e coletou as evidências de sua Teoria da Evolução. A viagem de Beagle tinha como objetivo mapear o sul da América do Sul, portanto, a viagem tinha uma ligação direta com a Patagônia. O verdadeiro nome do Monte Fitz Roy é Chaltén que era a maneira que os ameríndios Tehuelches chamavam o monte. O Monte Fitz Roy tem 3375 metros de altitude e é a montanha mais alta do Parque Nacional Los Glaciares. O monte é considerado um dos picos mais difíceis de se escalar, a soma de aproximação por glaciar, escalada em rocha, escalada em gelo, seus paredões verticais de dificuldade extrema, além do clima maluco da região, fazem do Fitz Roy a menina dos olhos de todo escalador de elite. O sol já queimava em cima de nós. As muitas pessoas que estavam no nascer do sol se reduziram a poucas. Agora o silêncio dava as caras. Preparei um café amargo para o café da manhã. Eu já tinha certeza que aquele lugar era o meu lugar preferido no mundo. Ficar ali contemplando o Fitz Roy e seus amigos é das coisas mais fáceis que existe, você sai de si e quando se dá conta, ficou minutos alheio do mundo. Era muito bom não pensar em nada, esquecer quem eu era. O granito dos maciços estava numa cor alaranjada, pareciam incandescentes, e a lagoa tinha uma coloração escura. Nesse momento paramos nossa contemplação e registramos nossa estadia junto ao Fitz Roy. Aproveitamos para caminhar em todo seu entorno. Foto 13.18 - Matheus e o Fitz Roy Foto 13.19 - Eu no meu lugar favorito do mundo Foto 13.20 - Matheus fingindo meditar (risos) Foto 13.21 - A mesma pose da outra foto Descemos até a Laguna De Los Tres para ver o Fitz Roy por outro ângulo. Aproveitei para tocar naquelas águas geladas, mas não tive coragem de mergulhar. Depois seguimos pela trilha que margeia a lagoa que dá acesso a Laguna Sucia. A caminhada é curta, pouco menos de dez minutos. De cima, avista-se a Laguna Sucia e suas águas de cor azul turquesa. Outro presente aos olhos a Laguna Sucia, o mais curioso que quase ninguém vai até ela por não saberem de sua existência. Uma vez feita a trilha até a Laguna De Los Tres é obrigatório seguir para conhecer a Laguna Sucia. Foto 13.22 - Na beira da Laguna De Los Tres Foto 13.23 - Matheus na Laguna Sucia Foto 13.24 - Laguna De Los Tres Despedir-se daquele lugar não é algo fácil, dar as costas ao Fitz Roy é complicado. Não sei explicar o que é estar ao lado daquela montanha tão mística. Existe uma força que te chama para ela, e ao lado dela tudo parece fazer sentido. Mesmo sabendo que é suicídio, dá vontade demais de tentar chegar em seu topo. Estou tão perto, por que não seguir? Não tem quem não se apaixone ao estar de cara com aquela montanha toda cheia de curvas. Agora entendo um pouco do porquê de toda mística envolta daquela montanha, ela simplesmente te chama e em troca te oferece paz. Ir embora querendo ficar, em todos os sentidos, é das coisas que mais me deixa puto, queria ficar ali por dias e até mesmo chegar em seu topo, mesmo não manjando quase nada de escalada. Enfim, seguir a razão é foda, mas tinha que continuar a caminhada. Segui meu caminho, mas com certeza deixei uma parte de mim naquele lugar e com mais certeza sei que levei muito daquele lugar dentro de mim. Começamos a descida. Depois de uns dez minutos de caminhada, um cara passou por mim correndo. Caralho! O cara tava fazendo a trilha correndo. Mais tarde cheguei ver mais dois caras que fizeram a trilha correndo desde de El Chaltén. São 10 km de trilha (só ida) e muitas subidas, tem que estar na vontade de fazer isso correndo. A caminhada continuou, a vista é toda bonitona e aproveitamos para observar toda a paisagem que tínhamos percorrido no escuro. Chegamos no acampamento Poincenot, comemos e demos uma descansada. Foto 13.25 - A vista contrária próximo a Laguna De Los Tres Foto 13.26 - Indo embora Foto 13.27 - Matheus cruzando o rio Logo na saída/chegada do acampamento Poincenot tem a bifurcação para a trilha do Glaciar Piedras Blancas. Seguimos o caminho para conhecer o glaciar. A trilha é tranquila, quase toda plana e com paisagens lindíssimas. Ao chegar de frente ao glaciar, a visão não é das melhores, é necessário se dependurar em uma árvore para ter uma boa visão do glaciar e a lagoa formada no seu entorno. Outra paisagem incrível. Foto 13.28 - Glaciar Piedras Blancas Voltamos pelo mesmo caminho até a bifurcação entre a trilha da Laguna de Los Tres e a trilha Piedras Blancas. Depois seguimos o caminho de volta até El Chaltén pela mesma trilha que tínhamos percorrido pela madrugada. No meio do caminho há outra bifurcação, voltar pelo Mirante do Fitz Roy ou pela Laguna Capri. Resolvemos seguir pelo Mirante e conservar nosso caminho da madrugada. Aquela visão que me assustou (pela sua imensidão) horas antes, agora estava magnifica. A sombra deu lugar a diversas cores. Que visão é aquela, meu amigo. O Fitz Roy não se cansa de ser bonitão, nunca. Continuamos a caminhada. No fim da trilha estávamos esgotados, mais por causa de não ter quase dormido e por não ter almoçado, mas mesmo assim resolvemos seguir para a trilha do Chorrillo del Salto. Foto 13.29 - Matheus para a volta para olhar pro Fitz Roy Foto 13.30 - O caminho de volta Foto 13.31 - Mais uma foto do Fitz Roy Foto 13.32 - Mirador del Fitz Roy Foto 13.33 - Mirador del Fitz Roy A caminhada é tranquila até o Chorrillo, mas o cansaço dificultou nosso caminho. Quando chegamos de frente com a cachoeira, só queria deitar e tirar as botinas. Fazia mais de 14 horas que estávamos em trilhas e agora a conta havia chegado. A cachoeira é toda bonitinha, mas nada que surpreenda, ainda mais depois de conhecer o Fitz Roy. Por ser de fácil acesso, a cachoeira é cheia de gente, e isso me incomodou um pouco, mas tava tão cansado que só pensava em massagear meus pés. Ficamos um bom tempo ali na companhia da cachoeira. Depois seguimos o sacrilégio de caminhar varados de fome. Só conseguia pensar em comida quente. Não tinha sido uma boa ideia só levar lanches para a caminhada. O sono tava pegando também. Foto 13.34 - O caminho para o Chorrillo del Salto Foto 13.35 - O caminho para o Chorrillo del Salto Foto 13.36 - O caminho para o Chorrillo del Salto Foto 13.37 - Chorrillo del Salto Chegamos no camping esfomeados, depois de quase 40 km de trilhas no dia. Preparamos um macarrão com todos os ingredientes que tínhamos. Ficou bom demais. Comi e dormi. Acordei de manhãzinha do outro dia. Fui logo pra cozinha fazer um café da manhã. Eu e o Matheus havíamos decidido fazer a trilha até a Laguna Torre neste dia. Sem pressa, comemos e aprontamos nossas coisas para a caminhada. Era quase nove horas da manhã quando adentramos na trilha que leva até as proximidades do Cerro Torre, a entrada da trilha fica pertinho do camping. O bom de se estar em El Chaltén, pelo menos para mochileiros, é que não é preciso de carro para quase nada. A maioria das entradas das trilhas do parque estão nas proximidades da cidade, o que te dá uma boa autonomia. Tudo se faz caminhando, mesmo que leve um dia inteiro. Não precisa levar muita água para as caminhadas, tem água potável por todos os cantos. Outra coisa legal, é que todas as trilhas e lugares a se visitar em El Chaltén são gratuitos. Então, acampando e cozinhando sua própria comida o rolê por lá fica bem barato. A trilha até a Laguna Torre é bem tranquila se comparada com a do Fitz Roy, são 9 km até a Laguna Torre e mais 2 km se quiser chegar de frente ao Glaciar Grande e do Cerro Torre. O dia estava bonito, mas com uma incidência grande de nuvens, principalmente perto das montanhas. Quando chegamos no primeiro mirante não foi possível avistar o Cerro Torre e seus dois picos vizinhos, todos estavam cobertos por nuvens. Foto 13.38 - No início da trilha Foto 13.39 - Ainda pelo início Foto 13.40 - Trilha Laguna Torre Foto 13.41 - Mirante Torre Foto 13.42 - Glaciar Grande e a direita o Cerro Torre coberto por nuvens, ainda mais a direita o Fitz Roy A caminhada continuou com aquela sensação de que a natureza não ia nos permitir ver nitidamente o Cerro Torre. Porém, foi bem tranquilo o caminhar até a Laguna Torre, fomos conversando e andando lentamente. Pelo caminho fomos encontrando pessoas que havíamos conhecido em Ushuaia e El Calafate. Chegamos na Laguna Torre, no fundo da lagoa dava para ver o imponente Cerro Torre ao lado do Glaciar Grande. As nuvens tinham sumido em sua maioria, mas o famoso topo do Cerro Torre ainda estava encoberto. O legal que havia pedaços de gelo por toda a lagoa. Ficamos alguns minutos por ali e seguimos para o Mirador Maestri. Foto 13.43 - A caminhada continua Foto 13.44 - Matheus caminhando Foto 13.45 - Laguna Torre e o topo do Cerro Torre encoberto O caminho para o mirador é só subida e margeia a Laguna Torre, nada muito difícil também. A maior dificuldade são os trechos a beira do desfiladeiro com o típico vento forte patagônico. Enquanto caminhávamos, as nuvens no Cerro Torre se moveram para longe e pela primeira vez consegui ver o topo do Cerro Torre, que mais se parece com um cogumelo. Parei pra observar. Coisa linda. Depois de ter feito o Fitz Roy primeiro, tinha uma certa preocupação em não conseguir mais me surpreender com as paisagens de El Chaltén, ledo engano. No Mirador Maestri me sentei numa pedra e fiquei esperando o Matheus terminar sua caminhada. Havia nós dois e mais três pessoas naquele lugar tão mágico. O silêncio só não era absoluto por causa do vento. Eu só ficava pensando em como alguém consegue escalar aquele peculiar topo. Foto 13.46 - Enfim, o Cerro Torre apareceu Foto 13.47 - Glaciar Grande, Eu e o Cerro Torre Foto 13.48 - Glaciar Grande Foto 13.49 - Eu observando o Cerro Torre Foto 13.50 - Matheus e o Glaciar Grande O Cerro Torre tem 3102 metros e por muito tempo foi considerada uma montanha impossível de escalar. A história da primeira ascensão ao topo é cheia de controvérsia. O italiano Césare Maestri, o mesmo que dá o nome ao mirante, diz ter chegado ao topo em 1959 junto com o austríaco Toni Egger. Na descida eles foram pegos por uma avalanche, e só o Maestri saiu vivo. Porém, as fotografias e as evidências da conquista do topo foram perdidas para sempre. Nisso, com o passar dos anos a ascensão de Maestri foi sendo contestada. Assim, nos registros a primeira ascensão ao topo do Cerro Torre é datada em 1974 pelos alpinistas Daniele Chiappa, Mario Conti, Casimiro Ferrari e Pino Negri. Voltamos a trilha do Mirador Maestri e margeamos o outro lado da lagoa. Depois seguimos o caminho de volta até o acampamento Agostini e preparamos nosso almoço. Dessa vez cozinhamos uma sopa que deu uma boa energizada. Descansamos um pouco e na sequência continuamos o caminho de volta da trilha da Laguna Torre até a bifurcação com a trilha das Lagunas Madre y Hija. Continuamos pela Madre y Hija, essa trilha conecta as trilhas da Laguna De Los Tres (Fitz Roy) com a Laguna Torre e tem 8 km de extensão. A trilha tem um pouco de subida no início, depois segue plana até o encontro com a trilha do Fitz Roy. Novamente, pegamos o caminho de volta por esta a trilha, a única diferença que dessa vez na bifurcação optamos por seguir pela Laguna Capri. Foto 13.51 - Laguna Hija Foto 13.52 - Laguna Hija Foto 13.53 - Laguna Hija Foto 13.54 - Laguna Madre Foto 13.55 - Vista do Fitz Roy da trilha Madre y Hija Encerramos o dia caminhando mais de 30 km. Chegamos no camping, cozinhamos, calmamente, a nossa salvadora lentilha e nos demos direito de comprar um refrigerante para acompanhar o jantar. Antes de ir para El Chaltén fizemos uma compra no supermercado de El Calafate, pois havíamos lido que os mercados de El Chaltén eram caríssimos. Ao comprar o refrigerante neste dia, ficamos analisando os preços de El Chaltén, realmente, são mais caros, mas não tão mais caros que El Calafate ou Ushuaia (que já são caras). Hoje o dia seria mais tranquilo, pois resolvemos fazer trilhas mais curtas e mais próximas da cidade. Acordamos um pouco mais tarde. Tomamos café com calma. O dia estava nublado. No meio da manhã, partimos para entrada da cidade e entramos na trilhas dos Mirador de Los Condores e do Mirador de Las Águilas. Primeiro fomos na dos Condores, lá no topo o vento tava muito forte, tive que sentar e me segurar para não sair voando. Foi uma boa experiência estar a ponto de voar (risos). Tem-se uma bela visão área de El Chaltén do Mirador de Los Condores. Já no Mirador de Las Águilas o plano de fundo é o lago Viedma e a Ruta 23. Depois seguimos caminhando pela Ruta 23 até cansar. Foto 13.56 - Mirador de Los Condores Foto 13.57 - Mirador de Las Águilas Foto 13.58 - Mirador de Las Águilas Foto 13.59 - Ruta 23 Foto 13.60 - Ruta 23 Foto 13.61 - Eu na Ruta 23 De volta ao camping, encontramos o Bruno, o motoqueiro que havíamos conhecido em Ushuaia. Ele estava acompanhado da chilena Cláudia e do israelense Gal, eles haviam se conhecido em Torres Del Paine. Foi bom encontrar uma cara conhecida por ali. Até então, o camping estava dominado por franceses que não socializam muito e dominavam a cozinha como uma extensão de suas barracas. Mais tarde, a Cláudia trouxe para visitar o camping o Hugo, o ciclista que conhecemos em Rio Gallegos. Nessas horas vemos como o mundo é pequeno. A Cláudia conhecia o Hugo de Ushuaia. Em Ushuaia conhecemos um casal de brasileiros, que viajavam de carro, que havia dado carona para o Hugo e sua bicicleta no trecho do Estreito de Magalhães até Rio Grande. A Cláudia sabendo da chegada do Hugo, trouxe ele para conhecer os brasileiros que estavam no mesmo camping que ela. Nos reconhecemos na hora. Sempre soube que reencontraria o Hugão nesta viagem, mas imaginava que seria na estrada. Foi bem bom rever aquele maluco. No outro dia acordamos bem cedo, era o dia de fazer a trilha Loma Del Pliegue Tombado. São quase 25km contando ida e volta saindo de El Chaltén. A trilha começa na entrada/saída de El Chaltén pela Ruta 23, o início da trilha é o mesmo das trilhas para os mirantes dos Condores e das Águias. A trilha na ida é basicamente só subida, são três horas de subidas e mais subidas. No meio do caminho encontramos uma placa no mínimo esquisita, falando para tomar cuidado que ali era área de vacas selvagens. Eu na minha ignorância nem sabia que ainda existiam vacas selvagens. O caminho é todo bonitão, passa-se por campos abertos, por zonas de mata fechada, muito verde pelo caminho. O tempo tava meio esquisito neste dia, quanto mais subia mais esquisito ficava. A chuva estava intermitente. Quando saímos da mata fechada e pegamos o trecho de montanha que dá acesso ao mirador do Pliegue Tombado a chuva veio de vez. O vento passou a ser forte também. Caminhar esses últimos dois quilômetros foi difícil. A subida é bem puxada, e cada pingo no rosto parecia uma pedrada. Quase no topo a chuva passou a ser de granizo. Granizo junto com o vento patagônico não é uma mistura legal, a sorte que as pedras eram pequenas. Agora, realmente tomando pedradas na cara percorremos os últimos metros até o Pliegue Tombado. Chegamos e nos escondemos atrás de uma pedra. Depois, mais três pessoas chegaram ali e ficamos os cinco encolhidos atrás da pedra. Não deu pra aproveitar muito o visual, pois estava frio, ventando forte e chovendo granizo. Ficamos lá um bom tempo na espera de melhores condições. Quando já não era mais uma boa ideia ficar ali, resolvemos começar a volta. Foto 13.62 - Matheus no início da trilha Foto 13.63 - Matheus e El Chaltén no fundo Foto 13.64 - Eu perto da placa de vacas selvagens Foto 13.65 - Eu "quase" chegando no Pliegue Tombado Foto 13.66 - Loma Del Pliegue Tombado Foto 13.67 - Pouco vento, pouco frio Quanto mais descíamos, mais suportável ia ficando o clima. Acho que essa trilha fica ainda melhor no sentido contrário, a paisagem consegue ser mais bonita. No trecho da montanha, tem-se uma visão lindíssima do Lago Viedma no fundo. Chegamos na mata fechada e já não chovia mais, aproveitamos para aprontar um café amargo e o almoço. Ficamos um bom tempo de bobeira ali depois de comer, descansando um pouco e aquecendo o corpo com o café quente. Seguimos a descida, a trilha na volta é muito tranquila, descida toda vida. Chegamos até correr em alguns trechos. O tempo ajudou na descida, tava aberto, mas só foi chegar em El Chaltén que a chuva chegou com tudo. A cena engraçada da descida foi quando passamos pela placa de vacas selvagens, novamente. Na placa tem umas dicas de como agir caso elas ataquem, o Matheus ficou meio assustado com aqueles avisos. Assim, quando terminamos uma curva e demos de frente com uma vaca selvagem, o Matheus entrou em choque e saiu correndo (risos). A vaca era deboas, não esboçou nenhuma reação quando nos viu, eu passei por ela caminhando. Eu caguei de dar risada, o Matheus voltou para a trilha todo encabulado se justificando que a cena foi respeito a natureza (risos). Foto 13.68 - Lago Viedma Foto 13.69 - Matheus encapuzado na descida Foto 13.70 - O caminho de volta Foto 13.71 - Quase em El Chaltén Foto 13.72 - A pedra que não cai Chegamos no camping ainda era meio da tarde. Bruno, Cláudia e o Gal estavam por lá também. Compramos umas cervejas e ficamos jogando Jenga. O Gal não parava de cantar Bum Bum Tam Tam, eu chorava de rir quando ele ficava em modo infinito cantando o refrão. Ele até alternava para outras músicas de funk que conhecia, mas sempre voltava para Bum Bum Tam Tam. Gal foi o primeiro israelense funkeiro que eu conheci, e o pior que ele leva mesmo jeito pra coisa (risos). Depois mostrei para ele a música que leva o nome dele, Meu nome é Gal. O mais legal era a amizade do Gal e do Bruno. Os dois não se comunicavam por uma língua comum, era tudo por gestos ou por músicas que um mostrava para o outro no youtube. Os dois se entendiam muito bem assim, onde um tava o outro também estava. Pela noite chegou a Renata no camping. Ela tinha chegado neste dia em El Chaltén e estava hospedada num hostel. Ela é amiga do Matheus de longa data e foi passar a noite junto conosco. Entre cervejas, ficamos conversando a noite toda. Foi legal juntar quatro brasileiros e ficar falando somente em português, assim, deu para falar sobre tudo o que era assunto. Foi uma boa noite. No nosso último dia em El Chaltén, que coincidentemente era véspera de Natal, resolvemos ficar de bobeira. No fim da manhã, a Renata nos chamou para acompanhá-la até os Miradores de Los Condores e de Las Águilas. Foi bem bacana caminhar com ela e conhecê-la um pouco mais. Renata é uma mulher de boa conversa e sorriso fácil, impossível não gostar dela. O dia estava bem bonito e o vento mais sossegado. Calmamente visitamos os dois mirantes. Depois caminhamos um pouco pela Ruta 23. Era uma reprise do nosso quarto dia na cidade, mas com a mais que boa companhia da Renata e com os condores no céu. Foto 13.73 - Fitz Roy visto do Mirador de Los Condores Foto 13.74 - O trio: Eu, Renata e Matheus Foto 13.75 - Renata no Mirador de Las Águlas Foto 13.76 - Renata e Matheus Foto 13.77 - Ruta 23 Na volta passamos pelo mercado e compramos os ingredientes para nossa ceia de Natal. Depois passamos no Che Empanadas e comemos as melhores empanadas da viagem. O lugar é bem legal, todo decorado com a história do Che Guevara. A temporada de caminhadas havia se encerrado. A Renata seguiu para seu hostel e nós seguimos para o camping. Não havia mais ninguém acampado no La Torcida, além de nós e do Bruno. O pessoal que trabalha no camping já estavam arrumados para ir comemorar o Natal, me despedi deles e fui tomar banho. Foto 13.78 - Mensagem no muro de El Chaltén A Renata e o Matheus começaram a preparar as carnes de hambúrguer, enquanto eu fui atrás das cervejas pra noite. O Bruno chegou no camping depois de fazer a trilha da Laguna De Los Tres. Ele se juntou a nossa ceia. A receita de hambúrguer da Renata tava boa demais, mas fizemos muita comida, acho que ao todo deu mais de vinte hambúrgueres. Ficamos toda a noite por ali, comendo, conversando, dando risadas e ouvindo música. O Gal surgiu no meio da noite e ficou um pouco conosco, ele não esqueceu de cantar Bum Bum Tam Tam. O Bruno seguiria de moto pela Ruta 40 no dia seguinte. A Renata ficaria mais alguns dias por El Chaltén. Eu e o Matheus no início da manhã seguiríamos para El Calafate e começaríamos nosso caminho de volta pela Ruta 3. Foto 13.79 - Bruno, Matheus, Renata e Eu na ceia de Natal (foto feia demais, mas é o único registro da nossa noite) Os dias em El Chaltén foram diferentes do restante dos dias de nossa viagem. Pela primeira vez, não éramos hóspedes e nem dependíamos de caronas, também não precisamos ficar pensando no próximo destino. Nos permitimos a aproveitar aquela incrível natureza com calma e sem preocupações. Com toda certeza, El Chaltén foi a cereja do bolo desta viagem. Ficar horas e horas caminhando naquelas trilhas, respirando aquele ar puro e bebendo água de degelo, acalma e infla qualquer coração. Isso tudo com o espetacular Fitz Roy de fundo. Afinal, tudo por lá é lindo. Não é nenhum exagero dizer que El Chaltén tem algo de mágico. Espero um dia ter a oportunidade de voltar para El Chaltén. Refazer o mesmo caminho que percorri para chegar aos pés do Fitz Roy. Eita! Vou usar o nome original, é melhor. Refazer o mesmo caminho que percorri para chegar aos pés do Cerro Chaltén. Quero sentir tudo que senti ao estar ali e perceber, novamente, que passado e futuro não existem.
  9. Eita, é recente também, que massa, pode ser que dividimos as mesmas trilhas. Aquele lugar é fascinante, todo mundo está lá pra caminhar até dizer chega. To escrevendo sobre El Chaltén agora e tá batendo uma saudade monstra daqueles dias.
  10. Parte 12 - El Calafate, Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino "O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia." O paradoxo andante, Eduardo Galeano Eu estava dormindo, mas o Matheus disse que no caminho entre Ushuaia/Rio Grande nevou bastante. Queria ter visto, mas o sono me venceu. Acordei para dar entrada em território chileno e voltei a dormir. Fui acordar em definitivo próximo ao Estreito de Magalhães, o céu tava todo aberto e não havia sinal de chuva, muito menos de neve. A travessia pelo estreito não teve a mesma magia que da primeira vez. Entretanto, o céu estava mais bonito nesse dia. Foto 12.1 - Novamente, o Estreito de Magalhães Foto 12.2 - O caminhão adentrando a Terra do Fogo A viagem seguiu. Passamos pela aduana e voltamos para a Argentina. No fim de tarde, chegamos em Rio Gallegos. Descemos na rodoviária, saímos pra comer alguma coisa. Logo voltamos e entramos no ônibus com destino El Calafate. Agora cortávamos a Ruta 40. A viagem estava tranquila até sermos parados pela fiscalização policial. Os policiais entraram no ônibus, pediam os documentos e com isso: eu, Matheus, e mais três pessoas fomos "convidados" a descer do ônibus para revistarem nossas mochilas. Levaram-nos para uma salinha com mais uns seis policiais. As outras pessoas foram levadas para salas diferentes. Primeiro revistaram nossas mochilas. Eu só pedia para os céus para não serem policiais corruptos. Puta trampo que é ajeitar a mochila e agora tava todas nossas coisas jogadas na mesa. A inspeção continuava. O policial chamou a atenção para a quantidade de condimentos que levávamos conosco, perguntou por que de tudo aquilo, eu disse "Cozinhamos mal, ai usamos pimenta pra disfarçar o sabor" (risos). Pela primeira vez, os policias esboçaram uma amistosidade, até disseram que uma de nossas panelas era muito ruim. Chegou a hora da revista pessoal. Descobriram o dinheiro que carregava comigo espalhado pelo corpo. Tudo o que eu tinha estava na mão do policial. Era a hora de saber se eu iria me foder ou não. Congelei. O policial juntou todo o dinheiro e me devolveu. Ufa! Depois foi a vez do Matheus, quando tiraram o dinheiro dele (para a revista) pediram para ele ficar olhando para depois não achar que pegaram algo, achei legal isso. Ainda sim, depois de toda a revista, ficamos mais um tempo esperando, enquanto eles decidiam sobre nós. Creio que tudo durou mais ou menos uma hora. Foi muito tempo. Quando o policial me devolveu o passaporte, um alívio tomou conta de mim. A viagem seguiu tranquila até El Calafate. Chegamos era mais de uma hora da manhã. Estávamos sem internet, o Matheus pediu o celular emprestado para uma pessoa e conseguimos avisar a Cláudia que havíamos chegado. Ela veio nos buscar na rodoviária. Seguimos para a casa dela. Ela aprontou um mate. Conversamos muito pouco com ela nessa madrugada, ela tinha que trabalhar cedinho no mesmo dia. Depois de terminar o mate, eu capotei. El Calafate é uma pequena cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, situada no extremo sul da parte continental da América do Sul. Seu nome é devido ao fruto típico de sua região, o Calafate, que é utilizado na confecção de doces. A cidade abriga dois dos principais pontos turísticos da Argentina: O Lago Argentino e o Glaciar Perito Moreno. Acordamos para o café da manhã. Agora com mais calma conversamos com a Cláudia. O Matheus havia conseguido o contato dela através do seu amigo Federico, que é um argentino que passou um tempo em Jericoacoara no hostel que ele trabalhava. Então, a conversa seguia entorno do Federico. Eu não conhecia-o, pouco falei. Pouco depois, ela seguiu para o trabalho. Cláudia é uma doçura de mulher, trabalha como pedagoga e gosta muita de música. Veio para El Calafate junto com o ex marido logo após o casamento, para fugir da falta de emprego que o norte do país enfrentava e tentar a vida no rico sul. Depois de todos os dias de abstinência musical, onde apenas ouvia música se tivesse tocando no ambiente em que eu estava. Resolvi usar o rádio da casa e, com o volume no máximo, ouvi as músicas que tinha vontade de ouvir. Devo ter colocado umas cem vezes pra tocar a música S.O.S. do Raul Seixas e outras cem vezes Entretanto com a Martnália e o Moska. Fiquei bastante pensativo nesse momento. Pela memória refiz toda a viagem e senti o quanto havíamos tido sorte até então. Uma decisão nasceu dentro de mim nesse momento. Saímos rumo a rodoviária. O entorno da casa da Cláudia é todo bonito com alguns morros em volta, destacando-se como o mais alto o Morro El Calafate. Porém, o que mais chama atenção é o Lago Argentino na parte baixa da cidade. Que lindeza de cor daquele lago. Seguimos caminhando lentamente. Chegamos na rodoviária e compramos nossas passagens para o ônibus de acesso ao Parque Nacional Los Glaciares. Foto 12.3 - Arredores da casa da Cláudia Foto 12.4 - Matheus nos arredores da casa da Cláudia e no fundo o belíssimo Lago Argentino Foto 12.5 - El Calafate Entramos no ônibus lotado de turistas de todos os cantos do mundo. Quase todo o caminho até o parque, margeia-se o Lago Argentino. Fiquei encantado por aquele lago e aquela cor. A viagem já valeria a pena, apenas por percorrer parte do lago. O dia estava muito bonito, mas quanto mais nos aproximávamos do parque, mais nuvens surgiam no céu. Na entrada é necessário pagar setecentos pesos argentinos para adentrar ao parque. Foto 12.6 - Lago Argentino O Parque Nacional Los Glaciares é um dos patrimônios naturais nomeados pela UNESCO, e é um imenso parque lotado de glaciares e montanhas por todos os lados. O parque é dividido entre norte e sul. Na parte norte do parque encontra-se El Chaltén e suas montanhas. Já na parte sul, que fica em El Calafate, é onde fica o famoso Glaciar Perito Moreno. No Parque Nacional Los Glaciares encontra-se os maiores glaciares do mundo fora das zonas polares. Poucos passos dentro do parque e já avistamos o Glaciar Perito Moreno. O que é aquilo? Lindo demais. Sempre achei que quando eu estivesse de frente com o Glaciar Perito Moreno eu me decepcionaria. Errei completamente, aquilo é um espetáculo para os olhos, era algo completamente diferente de tudo que eu havia visto na vida. Fiquei atônito nos primeiros minutos, ou melhor, fiquei atordoado. Nunca tinha visto o Matheus tão admirado com um lugar como com o Glaciar Perito Moreno. O Glaciar Perito Moreno foi batizado com esse nome em homenagem ao naturalista e explorador argentino conhecido como Perito Moreno. Ele realizou diversas viagens para Patagônia na segunda metade do século XIX, e em uma dessas viagens "descobriu" (ou seja, o primeiro a registrar a existência do glaciar) o glaciar que hoje leva seu nome. Foto 12.7 - A primeira visão do Glaciar Perito Moreno Foto 12.8 - Lindo, não? Foto 12.9 - Parque Nacional Los Glaciares Foto 12.10 - Eu me aproximando do glaciar Foto 12.11 - Glaciar Perito Moreno Foto 12.12 - Gigantesco Foto 12.13 - O morro e o glaciar Foto 12.14 - Matheus e o Perito Moreno A beleza do lugar é divina, mas o melhor de se estar de frente com o Glaciar Perito Moreno está no que se ouve. Geralmente, não se ouve nada. Silêncio absoluto. Pois, todos respeitam aquela divindade em forma de gelo e, apenas, contemplam sua beleza. Dificilmente, você vai ouvir pessoas conversando. O silêncio predomina. O êxtase surge no momento em que o silêncio é quebrado, os gelos se rompem do glaciar fazendo um som parecido com um trovão. Esse som te põe em outra dimensão. É demais. Faz te arrepiar todo. Depois de presenciar isso pela primeira vez, você só quer ficar parado e mudo, na esperança que isso aconteça de novo e de novo, para sentir toda aquela emoção outra vez. Apesar dos rompimentos de gelo constantes que ocorrem no Glaciar Perito Moreno, este é o único glaciar que ainda cresce na Patagônia. Enquanto que com o passar dos anos o glaciares diminuem e vão desaparecendo, o Perito Moreno continua a ser um glaciar estável, ou seja, com pouca alteração no seu tamanho, e até registrando um pequeno aumento em suas dimensões. Vale a ressalva, para falar sobre a estrutura do parque que é muito boa. Existem quilômetros e quilômetros de plataformas em volta do glaciar para poder apreciar de diferentes ângulos aquela beleza de lugar. Além de o parque oferecer outros tipos de passeios como a viagem de barco até bem próximo a parede do glaciar e um mini trekking em cima do glaciar. Esses passeios extras são bem caros, mas confesso que, principalmente o trekking, fiquei com muita vontade de fazer. Foto 12.15 - Glaciar Perito Moreno e o Lago Argentino Foto 12.16 - O mar de gelo Foto 12.17 - Onde o lago vira gelo Foto 12.18 - Eu e o glaciar Depois de muito tempo de frente com o Perito Moreno, andamos pelas plataformas em direção contrária ao glaciar. O Lago Argentino, por aqui, não tem aquela mesma coloração que me encantou nas proximidades de El Calafate. Isso deve-se ao desprendimento das geleiras que agitam o fundo do lago e modifica sua coloração. Ainda assim, é belo, mas de um jeito menos estonteante. Creio que isso acontece para o personagem principal daquele canto de mundo ser, apenas, o Glaciar Perito Moreno. Ficamos sentados o mais distante possível do glaciar. Sentamos numa pedra, ainda calados. Comemos. Os escandalosos trovões quebravam o silêncio de tempos em tempos. As únicas palavras que saiam de nossas bocas eram coisas do tipo "Caralho! Isso aqui é dahora demais". Foto 12.19 - Lago Argentino Foto 12.20 - Lago Argentino Foto 12.21 - Lago Argentino Foto 12.22 - Perito Moreno visto de longe Caminhamos de volta rumo a entrada para esperar o ônibus. O sol estava mais baixo e as cores do glaciar estavam mais bonitas. Agora, a iluminação era melhor e o que era belo se tornou belíssimo. Os passos eram lentos, o fascínio por aquele lugar não terminava. De certa forma, não queria que esse momento terminasse. Na espera pelo ônibus fiquei grudado no parapeito do primeiro mirante. Devo ter ficado mais de meia hora por ali, olhando fixamente para o glaciar e acompanhando o sol descendo ao fundo. Não conseguia parar de olhar. O olhar fixo, nesses últimos minutos no parque, era a minha maneira de me despedir daquela divindade em forma de paisagem. Não tem como não se sentir um cisco na Terra diante daquilo. A natureza tem esse dom, o de fazer você se sentir tão pequeno, mas ao mesmo tempo te fazer sentir tão privilegiado de presenciar sua própria pequenez. Acho que o respeito a mãe natureza nasce disso, de se sentir pequeno diante de sua imensidão e de enxergar que tudo está conectado nesse mundo. O ônibus chegou, dei uma última olhada no mar de gelo na minha frente. Sem olhar pra trás e sem pensar em nada, subi no ônibus. Foto 12.23 - Pouco lindo, né? Foto 12.24 - Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino Foto 12.25 - A última visão do glaciar Perito Moreno Voltamos para a El Calafate. Tínhamos prometido para a Cláudia que faríamos a comida pela noite, passamos no mercado para comprar os ingredientes do jantar. Caminhamos de volta para a casa. O vizinho da Cláudia, o José Luis e seu filho também jantariam conosco. Antes de chegarmos na casa da Cláudia, o José Luis se apresentou para nós, muito simpático ele. Começamos a preparar a nossa já "famosa" lentilha (receita do Matheus). Colocamos música alta para ajudar no preparo, enquanto que a Cláudia e o José foram atrás de cervejas. Preparamos a mesa. O filho do José Luis não quis comer nossa comida, ele trouxe um miojo. Enfim, comemos. A comida tava bem boa, desta vez preparamos uma salada também. Experimentei a cerveja Imperial, da qual gostei bastante. A música de fundo era boa, as conversas iam aumentando conforme as garrafas de cervejas iam esvaziando. José Luis é professor de geografia do ensino médio. Ele nos explicou muitas coisas sobre as questões políticas e sociais da Argentina. Passar a noite ali, tendo uma aula gratuita regada a cerveja foi bem bom. Ele nos explicou sobre a divisão da Patagônia entre Chile e Argentina. Falou sobre a Guerra das Malvinas. Questionou o governo Macri e sobre seu governo ser péssimo para o sul do país. José falou sobre os parques nacionais e nos informou que o Parque Nacional Los Glaciares era o segundo mais visitado da Argentina, só perdendo para o Parque Nacional Iguazú. Foto 12.26 - O jantar (Matheus, Eu, Ale, José Luis e Cláudia) Das coisas que mais me chamou a atenção nos ensinamentos de José Luis, foi a questão do presidente Roca e o povoamento da Patagônia. Eu já havia lido algumas coisas sobre o assunto, mas saber de detalhes e da forma fria que isso foi feito, me marcou bastante. O presidente Roca e a Patagônia estão diretamente ligados, é muito fácil ver o nome do Roca em tudo o que é lugar, só de lagos conheci dois lagos chamados Roca, avenidas são incontáveis. O fato é que o ministro da guerra/presidente Roca no final do século XIX estimulou a matança dos indígenas patagônicos, para assim dominar as terras do sul da América do Sul. Sua desculpa para tal fato é que se os argentinos não fizessem, os chilenos fariam e dominariam tais terras. Quem ia para guerra contra os desavisados índios ganhava uma porção de terra, e assim, a Argentina foi povoando a Patagônia com os de sangue de seu próprio sangue, leia-se o sangue de estrangeiros europeus. Matava um índio e colocava um "argentino" no lugar para cuidar das terras. Para resumir, o que aconteceu foi um genocídio dos índios mapuches na Patagônia Argentina, com a sempre eficaz desculpa do desenvolvimento e de um inimigo imaginário. Ainda falamos sobre futebol e a precoce eliminação do River Plate no mundial de clubes. A discussão Messi x Maradona surgiu e acabou de forma rápida. Pois, José Luis e a Cláudia diziam: "Maradona jogava sozinho, o Messi precisa de um time". Assim, a questão estava resolvida. Ficamos também um bom tempo comparando Brasil e Argentina na questão social, histórica, política e no futebol. Já era madrugada, quando o José Luis foi embora. Logo em seguida, fomos dormir. Agora quero voltar aquela decisão tomada no início deste dia. Primeiro, eu pensei na possibilidade e fui falar com o Matheus. Juntos transformamos a possibilidade em decisão, mas antes de falar sobre a decisão tomada quero falar um pouco dos nossos planos de início de viagem. Nossa viagem desde o início foi dividida em três etapas. A primeira era chegar em Ushuaia percorrendo a Ruta 3. A segunda etapa era conhecer El Calafate e El Chaltén. A terceira seria o caminho de volta. No caminho de volta, queríamos percorrer toda a Patagônia Andina pela Ruta 40, de El Calafate até Mendoza. O Matheus sonhava mais alto, queria chegar até Purmamarca, no norte da Argentina, que tem como acesso a própria Ruta 40. Quando saímos de Rio Claro, mal sabíamos se iríamos conseguir chegar em Ushuaia, e agora já estávamos em El Calafate. Dias antes, já estávamos fazendo planos e arrumando contatos de hospedagem para cidades que queríamos conhecer pela Patagônia Andina, tipo: Bariloche, San Martin de los Andes e El Bolsón. Voltar pela Ruta 40 era possível. No entanto, havia feito algumas contas na cabeça. O restante do nosso dinheiro dava para fazer o caminho de volta de ônibus até a fronteira com o Brasil e sobrava algum dinheiro que dava para conhecer El Chaltén. Outra opção seria apertar esse dinheiro, como havíamos feito até aqui, e seguir pela Ruta 40, o problema é que se precisássemos pegar ônibus pela Ruta 40 (que é muito mais caro que pela Ruta 3) quando caronas não rolassem, o dinheiro acabaria rapidamente e ficaríamos sem grana para comer (comida é caro na Patagônia). Enfim, escolhemos a opção conservadora. Novamente, acompanhamos a Cláudia no café da manhã. Ela sairia de férias daqui a dois dias e viajaria para rever a família em Formosa no norte argentino, estava bem animada por isso. Nessa manhã, ela contou a sua história, contou sobre seu casamento, os motivos dela ter viajado para o sul, sobre o término do casamento, sobre seu novo namoro, sobre a vida difícil que se tem no norte do país. Foi muito legal a conversa e a confiança que ela já depositava em nós. A Cláudia nos aconselhou em ir tomar mate nos arredores do Morro El Calafate naquela manhã. Esquentamos a água, colocamos na térmica e fomos. Estranho aquele cenário desértico no qual estávamos ser tão próximo do exuberante Glaciar Perito Moreno. Adentramos em diversas trilhas, nos perdemos bastante, mas conseguimos achar uma boa sombra para ficar de bobeira tomando mate. O arredor do Morro El Calafate é muito bonito, com um grande cânion e um rio embaixo para dar um charme ao lugar. Foto 12.27 - Trilha Foto 12.28 - O caminho para a sombra Foto 12.29 - O rio Foto 12.30 - O Lago Argentino anuncia-se ao fundo Foto 12.31 - Admirando o Lago Argentino Fomos para a rodoviária e compramos nossas passagens de ida e volta para El Chaltén, além de comprar nossa passagem de El Calafate até Buenos Aires. Depois, seguimos em direção ao Lago Argentino. Caminhando pelo centro da cidade encontramos o Bruno, o motoqueiro que havíamos conhecido em Ushuaia. Conversamos um pouco, ele passaria mais uns dias em El Calafate e depois rumaria para El Chaltén, combinamos de nos encontrar em El Chaltén. Seguimos a caminhada rumo ao Lago Argentino. Foto 12.32 - El Calafate Foto 12.33 - El Calafate Tem uma definição do Fernando Birri sobre utopia que é a seguinte: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”. A busca pelo Lago Argentino neste dia tinha um pouco desta utopia, pois víamos o lago e ele parecia estar muito próximo. Caminhávamos, caminhávamos, e parecia que o lago ficava mais distante. Caralho! Teve uma hora que parecia que o lago estava a alguns passos, mas nada, andava, andava e a cada passo parecia que se distanciava mais. Uma hora, não aguentei e sai correndo. Cheguei a beira do lago, olhei para trás e uns pássaros esboçavam atacar o Matheus. Sentei e fiquei em silêncio por um tempo só observando o meu redor. O melhor de tudo foi ver uma infinidade de pássaros sobrevoando aquele azul vibrante. Não tenho muito o que falar, a não ser dizer que aquele lugar é lindo demais. Foto 12.34 - Esse lago que não chega Foto 12.35 - Lago Argentino Foto 12.36 - Lago Argentino Foto 12.37 - Matheus e o Lago Argentino Foto 12.38 - A paz A família Kirchner tem uma casa em El Calafate. O falecido ex-presidente Nestor Kirchner é natural de Rio Gallegos e já governou a província de Santa Cruz também (El Calafate é uma cidade da província de Santa Cruz, cuja a capital é Rio Gallegos.). Neste dia, tinha um rebuliço na cidade, pois existia um boato que a ex-presidenta Christina Kirchner estava na cidade. Voltamos para a casa da Cláudia. Fizemos cachorro quente a la brasileira. Comemos bastante. Conversamos e ouvimos muita música. A noite foi leve e muita boa. No dia seguinte arrumamos nossas coisas e ficamos de bobeira o resto da manhã. Esperamos a Cláudia para almoçar, comemos o restante do cachorro quente. Ela nos levou até a rodoviária, com um abraço apertado me despedi da Cláudia. Corremos para o ônibus que já estava partindo. El Calafate é um dos lugares mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer. As fotos não traduzem em nada o que é o lugar, pois o melhor é a experiência sensorial que a cidade proporciona. Falando na cidade, ela tem uma ótima estrutura para receber turistas, cheia de hotéis, hostels e restaurantes. O clima no verão é muito agradável e como quase todos os lugares na Patagônia, é um lugar seguro de caminhar e de se estar. Os dias na cidade foram muito bons para mim e conviver com a Cláudia fez tudo ficar mais leve. Só tenho a agradecer a Cláudia por abrir a porta de sua casa e nos receber com sua alegria. Muito obrigado Cláudia, um beijo e toda paz em seu caminho.
  11. Parte 11 - Algumas das belezas de Ushuaia "Antônio Pigafetta, um navegante florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, ao passar pela nossa América meridional escreveu uma crônica rigorosa, que, no entanto, parece uma aventura da imaginação. Contou que havia visto porcos com o umbigo no lombo, e uns pássaros sem patas cujas fêmeas usavam as costas dos machos para chocar, e outros como alcatrazes sem língua cujos bicos pareciam uma colher. Contou que havia visto um engendro animal com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de cervo, relincho de cavalo. Que puseram um espelho na frente do primeiro nativo que encontraram na Patagônia, e que aquele gigante ensandecido perdeu o uso da razão pelo pavor de sua própria imagem. Este livro breve e fascinante, no qual já se vislumbram os germes de nossos romances de hoje, está longe de ser o testemunho mais assombroso da nossa realidade daqueles tempos." A solidão da América Latina, Gabriel Garcia Marquez Ushuaia tem pouco mais de cem anos, seu desenvolvimento está intimamente ligado com o extinto presídio da cidade. A princípio, o presídio só recebia presos militares, mas com o tempo presos perigosos e presos políticos também começaram desembarcar em Ushuaia. Afinal, não havia lugar melhor para um presídio que uma ilha inóspita. A implantação do presídio atraiu outros serviços para a cidade, como produção de alimentos e eletricidade. Assim, Ushuaia foi crescendo. Chegamos ao fim do mundo e agora? Fomos comemorar. Momentos antes tinha entrado numa agência de turismo, na conversa com a dona ganhei uns vales de cervejas grátis, que somente é dado pras pessoas que fazem o passeio de barco com eles, mas a mulher resolveu me presentear com as cevas. Fomos até a cervejaria, ali ficamos boa parte da noite, bebendo e usando internet. Não tínhamos lugar pra ficar até então. O que tínhamos era um contato que o Matheus havia conseguido com uns amigos, e que ele já havia conversado algumas vezes. Estava meio certo que ficaríamos na casa dele. Enfim, não tivemos resposta naquela noite. Resolvemos seguir para um hostel. Ajeitamos nossas coisas. A fome era grande, cozinhamos e comemos. Tomei banho, logo depois, desmaiei na cama. Acordamos cedo e cambiamos o restante do dinheiro que carregávamos conosco. A cotação desse dia foi a melhor que conseguímos na viagem: 1 real/9 pesos argentinos. Fomos comprar nossas passagens com destino a El Calafate. Tínhamos um lugar para ficar em El Calafate, mas a pessoa iria viajar dentro de uns dias. Então, resolvemos não ir de carona neste trecho e, consequentemente, chegar numa data que teríamos estadia na nossa próxima parada. Depois, conforme as dicas do César, partimos caminhando para o Glaciar Martial. O tempo estava esquisito e estava caindo um chuva de leve. Cruzamos boa parte da cidade até o inicio da trilha que leva até a entrada do glaciar. A trilha alterna entre caminhos dentro da mata e da avenida que os carros utilizam como acesso. A trilha é muito bonita, ainda mais tendo o Martial ao fundo. Não lembro de ver ninguém fazendo a trilha na ida, todos que chegavam no glaciar, chegavam de carro. Foto 11.1 - Bora começar a temporada de caça as trilhas Foto 11.2 - Sobe, sobe Foto 11.3 - A ponte do rio que cai Foto 11.4 - Matheus e esse cenário maluco Foto 11.5 - Eu seguindo rumo ao Glaciar Martial Foto 11.6 - A casa e as nuvens Foto 11.7 - Matheus e a caminhada A caminhada da cidade até a entrada do glaciar deve ter durado uma hora e meia, mais ou menos. Chegamos na entrada e uma legião de taxistas ficam por ali. A entrada é gratuita. Seguimos andando pela trilha de acesso ao glaciar. Agora víamos muitas pessoas pelo trajeto, indo e voltando. A caminhada continuava. Como sentia falta disso, de somente caminhar e caminhar sem pensar em nada mais. Pensar, apenas, no próximo passo. Foto 11.8 - A caminhada continua Foto 11.9 - Outra ponte do rio que cai Foto 11.10 - Martial, um glaciar ou um jogador de futebol? Foto 11.11 - Eu e a terra inóspita Foto 11.12 - Quase lá Foto 11.13 - Prazer, Glaciar Martial Chegamos ao pé do Glaciar Martial, um pouquinho antes atravessamos um caminho com neve no solo, havia tanto tempo que não tinha contato com a neve. Achamos um lugar para sentar, comemos nosso lanche. Depois, seguimos pela trilha sobre o glaciar. Nesse momento a paisagem é composta de poucas cores, vê-se um cinza que é a mistura do solo com pedras e brancos de neve surgem para não deixar a visão monocromática. A subida não é das mais puxadas, na verdade é bem tranquila. O Matheus foi devagarinho, estava cheio de bolhas no pé. Do topo tem-se uma bela visão de Ushuaia com o mar ao fundo. A temperatura lá em cima era bem baixa e o vento forte, mas estava agradável. A montanha tem esse poder, pelo menos em mim, de fazer qualquer situação adversa algo memorável. Foto 11.14 - A bela paisagem Foto 11.15 - A bela visão [2] Foto 11.16 - Matheus vendo todo o caminho que percorremos para chegarmos ali O caminho de volta foi bem tranquilo. Descer e descer. De volta a entrada, os taxistas ofereceram seus serviços, recusamos. Fizemos a trilha de volta até a cidade. Agora, vimos algumas pessoas fazendo a trilha no sentido inverso. Depois de tantos dias pelos desertos patagônicos, caminhar no meio daquelas árvores em meio ao ar puro e úmido, era revitalizador. A cidade reapareceu na paisagem, a caminhada continuava. Num momento, me deparei com um muro com a seguinte frase: "El amor al dinero es la raiz de todo mal". Uma vez ouvi o seguinte: se você quer conhecer um lugar não leia livros, leia os muros. Lendo aquele muro, mesmo estando milhas e milhas distantes eu soube que estava em casa. Foto 11.17 - O muro da verdade Tivemos que mudar de hostel, pois tínhamos conseguido vaga no dia anterior por causa de desistências. Mudamos para umas duas quadras donde estávamos. Saímos caminhar e conhecer um pouco mais a cidade. A orla é toda bonita. Fiquei observando as gaivotas voando, é muito curioso fazer isso. Antes, achava que só o beijo-flor conseguia ficar parado no ar. As gaivotas no fim do mundo sofrem para vencer o vento, tem horas que elas parecem estar paradas no ar. Vencer o vento naquela canto de mundo não é tarefa fácil. Foto 11.18 - Ushuaia Foto 11.19 - A cidade mais austral do mundo Foto 11.20 - Os navios Foto 11.21 - Os containers Ushuaia no verão escurece depois das onze da noite. É tão fugaz a noite por lá nessa época, que é preciso insistir bastante pra conseguir ver as luzes da cidade ou mesmo a iluminação de Natal. Pra nós que moramos entre os trópicos é tão diferente e esquisito essa diferença de tempo entre dia e noite. Porém, ter dezenove horas de luz natural para explorar aquela região é algo muito bom. Foto 11.22 - As luzes começam a aparecer Foto 11.23 - Quase a escuridão O Martin havia chegado na cidade, estava num jantar de negócios. Combinamos de encontrar ele no final da noite. Voltamos para o novo hostel e arrumamos nossas coisas. A fome, pra variar, era grande. Fomos até a cozinha preparar nossa janta. Conhecemos o Bruno no refeitório. Ele é gaúcho e tinha saído de moto dias antes de Porto Alegre. Viajava num ritmo alucinante, não parava pra aproveitar os lugares. Depois de mais de 5000 km rodados, Ushuaia foi o primeiro lugar que realmente parou pra conhecer um pouco da cidade. Ele partiria no dia seguinte. Depois saímos para caminhar pela cidade de novo. Caminhamos um pouco e demos de cara com o Martin. Não foi preciso combinar um lugar, os ventos patagônicos resolveram nos unir novamente. Fomos para uma lanchonete, conversamos bastante. Ele estava bem feliz que as vendas em Rio Grande e Ushuaia tinham sido muito boas. Ele já iria embora na manhã seguinte, iria começar o caminho de volta para casa e preparar-se para suas férias. Martin nos fez prometer se acontecesse algo conosco no restante da nossa viagem patagônica que entraríamos em contato com ele, pois ele dizia que tinha contatos em todas as cidades da Patagônia Argentina, devido suas relações comerciais. Prometemos. Ele ainda deixou as portas da sua casa aberta caso quiséssemos passar, novamente, em Puerto Madryn. Provavelmente, ele estaria viajando, mas o pai dele nos receberia. Não tínhamos essa intenção, mas vai saber o que o futuro nos reservaria. Depois de umas horas, chegou o momento da despedida definitiva do Martin. Nós três estávamos meio sonolentos. Dei um abraço no Martin, desejei boa viagem e boas férias para ele. Agradeci por tudo o que ele havia feito por nós naqueles dias. Mais uma vez, ele disse que viria pro Brasil na Copa América. Assim, caminhamos no sentido contrário ao dele e prosseguimos para o hostel na noite fria de Ushuaia. Na manhã seguinte, arrumamos nossas mochilas, pois iríamos acampar no Parque Nacional Terra do Fogo. Ajeitamos apenas uma mochila cargueira e uma mochila de ataque com as coisas de cozinha e de camping, o restante deixamos no hostel. Partimos rumo ao parque caminhando. Cruzamos toda a cidade até a parte da Ruta 3 que conecta a cidade com a Bahia de Lapataia, que é o trecho final da Ruta 3. Nesse momento, começamos a erguer o dedão para os carros que passavam, pois eram mais de 10 km de distância. Até que enfim, conseguimos uma carona de caminhão na Argentina. Entramos no caminhão que lentamente avançava pela rodovia. O motorista compartilhou seu mate conosco. A viagem foi rápida, pois logo o motorista entrou numa empresa para carregar o caminhão e assim, voltamos a caminhar. Pouco tempo depois um carro parou para nós. Era um casal, um argentino e uma italiana, bem gente boa os dois. Entramos no parque, eles seguiriam de carro até a Bahia de Lapataia e ficamos na entrada da primeira trilha. Foto 11.24 - O caminho até o parque Foto 11.25 - Matheus querendo caronas Enfim, agora estávamos a sós com a natureza e só dependia do nosso caminhar para percorrer todo o parque. Esse era nosso objetivo, fazer todas as trilhas do parque em dois dias. Começamos a caminhada. Seguimos pela trilha que leva até o Saltos del Rio Pipo. O início é lindo demais e o tempo estava limpo nesse momento. A trilha margeia os trilhos do trem do fim do mundo. Vimos o trem passando. O caminho é todo bonitão. O final da trilha é meio desanimador, é uma queda minúscula de água no Rio Pipo, mas vale muito a pena fazer a trilha pelo caminho que leva até ali. Trilhas para mim é o meio mais democrático que existe. De nada importa quem você é, de onde veio e como chegou até ali, se quiser chegar no final do caminho vai ter que suar muito, vai ter que querer demais ver o fim, vai ter que superar a exaustão pra continuar. É você e você, não tem outro jeito. E acredite, os melhores lugares são os mais difíceis de se chegar. Então, um passo de cada vez, inspire, expire, sinta o lugar e continue. Foto 11.26 - O que falar dessa beleza? Foto 11.27 - A montanha Foto 11.28 - Eu no caminho Foto 11.29 - O trilho Foto 11.30 - A mochila foguete Foto 11.31 - Tanto verde Depois entramos no Caminho da Pampa Alta, que tem cinco quilômetros. Diferente do Saltos Del Rio onde caminha-se em vegetação aberta, na trilha da Pampa Alta o caminho é dentro de uma vegetação fechada. Na metade da trilha atingi-se o ponto mais alto, onde tem-se alguns bons mirantes. Em um trecho da trilha cruza-se a Ruta 3. A caminhada é tranquila mesmo carregando as mochilas. No fim da trilha anuncia-se o belíssimo Canal de Beagle. Foto 11.32 - Matheus na caminhada Foto 11.33 - To chegando Foto 11.34 - A Ruta 3 Foto 11.35 - Deboas na Ruta 3 Foto 11.36 - Matheus e a Ruta 3 Foto 11.37 - O fim do Caminho da Pampa Alta Também é possível chegar de carro na enseada. Então, tinha muitas pessoas por ali. O bom que naquela parte tem alguma infraestrutura, aproveitamos para comer o nosso lanche. Alguns metros dali fica o Correio do Fim do Mundo, que fica dentro de um container as margens do Canal de Beagle. Muita gente vai no correio para carimbar seus passaportes e enviar postais do correio mais austral do mundo. O melhor de se estar por ali é a belíssima paisagem que tem-se de fundo. O Canal de Beagle é lindo demais. O Canal de Beagle tem esse nome por causa da Viagem de Beagle. Essa viagem foi a responsável por mudar o rumo da humanidade para sempre. A bordo do navio Beagle estavam o comandante Robert FitzRoy e o naturalista Charles Darwin. Essa expedição tinha como objetivo principal o levantamento cartográfico da parte sul da América do Sul. A viagem durou quase cinco anos e foi através dela que Charles Darwin coletou evidências que lhe possibilitaram a elaboração da Teoria da Evolução. Foto 11.38 - O Canal de Beagle Foto 11.39 - O Correio do Fim do Mundo Foto 11.40 - Argentina Foto 11.41 - Matheus e o Canal de Beagle Continuamos a caminhada. Seguimos pelo Caminho Costera, que margeia o Canal de Beagle. A trilha tem oito quilômetros. O caminho alterna entre trechos na mata e na orla. Essa caminhada também é tranquila, até tem algumas subidas, mas nada muito difícil. O melhor é a paisagem que se tem ao longo do percurso. Tudo é muito bonito e ter a companhia do Canal de Beagle é demais. O clima estava agradável, não estava nem quente e nem frio. Lembro de me desconectar nessa caminhada, somente pensava no quão era bonito aquilo tudo que eu presenciava. Foto 11.42 - Matheus no Caminho Costera Foto 11.43 - Caminho Costera Foto 11.44 - Eu Foto 11.45 - Caminho Costera Foto 11.46 - Caminho Costera Foto 11.47 - Caminho Costera Foto 11.48 - Uma pausa na caminhada pra apreciar a paisagem No final do Caminho Costera volta-se a Ruta 3. Caminhamos mais uns quatro quilômetros pela ruta até chegar em uma das áreas de camping do parque. Montamos a barraca, esperamos pelo guarda florestal, pois é necessário a verificação do guarda para poder acampar no parque, ele não apareceu. Ainda faltava algumas horas até escurecer, partimos para conhecer a Bahia de Lapataia e chegar no fim da Ruta 3. Neste caminho tem bastante coisa para se ver. Passa-se pelo Paseo de la Isla, Laguna Verde, Laguna Negra, Castorera, Mirante de Lapataia até chegar na Bahia de Lapataia. Essa parte tem cinco quilômetros, mas como é realizado na Ruta 3 a maior parte dos visitantes vão de carro, van ou moto para esses lugares, só havia nós fazendo o trecho caminhando. No final tem a placa do fim da Ruta 3, a placa é disputada por motoqueiros que querem registrar o feito de percorrer todos os 3079 km da rodovia. A Bahia de Lapataia é o extremo sul da Ilha do Fogo. Foto 11.49 - Quase no fim da Ruta 3 Foto 11.50 - Laguna Negra Foto 11.51 - Laguna Foto 11.52 - Sempre Foto 11.53 - Quase o fim da Ruta 3 Foto 11.54 - Enfim, o fim da Ruta 3 Foto 11.55 - No sul do sul Foto 11.56 - Bahia de Lapataia Agora quero falar de uma das coisas mais bizarras que já vi. Há 70 anos atrás foram introduzidos em Ushuaia vinte e cinco casais de castores. Os gênios miravam a criação dos castores para posteriormente vender suas valiosas peles. No entanto, o castor como espécie invasora modificou para sempre a flora dos arredores de Ushuaia. Sem predadores, os castores se procriaram até virarem praga. Porém, o estilo de vida destes castores coloca em risco a frágil flora do lugar. Os castores derrubam as árvores, modificam cursos de água, isso para melhorar os diques em que vivem. Assim, sem predadores, os castores estão por todas as partes destruindo grandes porções das florestas da Ilha do Fogo, causando um grande desastre ambiental para a região. Foto 11.57 - Errar é humano, mas quem perde é a natureza Foto 11.58 - Os castores Foto 11.59 - A explicação Foto 11.60 - O resultado da genialidade humana Foto 11.61 - O resultado dos castores na ilha Foto 11.62 - Fueda, né? Voltamos para o nosso acampamento. Um pessoal chegou para acampar por ali também. Preparamos nossa janta, fizemos uma macarronada com seleta de legumes, atum e pimenta. Ficou boa demais, afinal, a fome era grande. Depois preparamos os lanches para a caminhada do dia seguinte, fizemos um bom patê de azeitona para passar nos pães. O guarda florestal chegou, tomou um mate conosco. Ao ver o guarda eu só conseguia pensar no desenho do Zé Colmeia, o guarda florestal se vestia igualzinho ao guarda do desenho. O guarda autorizou nosso acampamento. Depois disso, escureceu. Tentei ver as estrelas, mas o céu só tinha nuvens. Foto 11.63 - Minha barraca Acordamos cedo e desfizemos acampamento. Voltamos pela Ruta 3 até a entrada das trilhas Hito XXIV e Cerro Guanaco. Para fazer o Cerro Guanaco é necessário se cadastrar na administração. Fomos até lá, tivemos que esperar uma meia hora até o local abrir. Demos nossos nomes e deixamos a mochila cargueira no guarda volumes. Assim, começamos mais um dia de caminhada. Caminhamos lentamente no início. Tinha umas dez pessoas que começaram a caminhada junto conosco. Depois de uma meia hora o lago Roca que se escondia ao lado mostra sua imensidão na frente do caminho. As montanhas ao fundo são um espetáculo a parte. No horizonte, no fim do lago tudo pertence ao Chile. Foto 11.64 - No aguardo pela autorização Foto 11.65 - O belo lago roca Pouco tempo depois entramos na trilha que dá acesso ao Cerro Guanaco, a trilha tem um pouco mais de quatro quilômetros. No início entra-se numa mata fechada. Subida e mais subida. A umidade era grande e a pesada subida fez eu tirar minha roupagem de frio na fria manhã daquele dia. Mais subida. Esse trecho não é fácil. Depois de pouco mais de uma hora, chegamos no primeiro mirante, que por sinal é belíssimo com o Lago Roca ao Fundo. Foto 11.66 - Que belezura Foto 11.67 - O mirante Foto 11.68 - Outra visão Foto 11.69 - Eu, Lago Roca e as montanhas Continuamos na trilha. O quilômetro sequente é tranquilo, com alguns trechos planos e algumas subidas não tão ingrimes como as do primeiro quilômetro. Continua-se dentro de uma vegetação densa. No final da vegetação, no ponto de ataque ao topo do Cerro Guanaco, o trecho é um brejo, horrível aquilo. Apesar de muito cuidado, eu atolei um dos meus pés. Legal demais seguir com um pé molhado. Depois do brejo, é subir. Subir e subir. Muita subida. O último quilômetro é tenso demais, pois é muito ingrime e quanto mais sobe-se maior a velocidade do vento. Então, se manter de pé já é um desafio, subir é um desafio em dobro. Porém, a visão da subida é a coisa mais bonita que vi por Ushuaia. Cada passo, uma visão diferente daquela belezura. De verdade, é muito lindo aquele conjunto de paisagens. Olhando de norte, sul, leste e oeste é tudo belo. Foto 11. 70 - Quase no brejo Foto 11.71 - Trilha Cerro Guanaco Foto 11.72 - Quantas cores em um mesmo cenário Foto 11.73 - Que beleza! Foto 11.74 - Muitas fotos pra por legendas =/ Foto 11.75 - Matheus sofrendo na subida Foto 11.76 - Eu todo curvado subindo Foto 11.77 - Eu camuflado Foto 11.78 - Quase no topo, mas pausa pra apreciar isso ai Foto 11.79 - Lago Roca Foto 11.80 - A chuva chegando Foto 11.81 - Bahia de Lapataia Foto 11.82 - Tá foda legendar, acho que exagerei na quantidade de fotos Avancei ao topo num ritmo alucinante, queria me testar. Logo depois um francês chegou também. Ficamos no topo de uma pedra apreciando aquela belezura de lugar. Com o tempo o topo foi se enchendo. Um tempo depois o Matheus chegou. Ele estava sem luva e sentia muito frio ali, tava todo tremendo. Comemos nossos lanches. Começou a chover. Ficamos ali na esperança que fosse uma chuva passageira. Quase todos os caminhantes rumaram de volta. Insistimos mais um pouco, mas não resistimos ficar naquele frio somado com vento forte e chuva. Resolvemos descer também. O clima em Ushuaia é um espetáculo a parte. Pensa em algo instável, é o clima lá. Em um momento, está um sol de rachar mamona, dez segundos depois o céu está fechado num cenário totalmente melancólico. E assim, vai se alternando diversas vezes por dia. Me lembrei do topo do Monte Roraima, onde o clima é igualmente instável. Foto 11.83 - O topo Foto 11.84 - A visão do topo Foto 11.85 - Que lindo Foto 11.86 - Ushuaia ali embaixo Foto 11.87 - Registro do Matheus chegando ao topo Foto 11.88 - Enfim, o topo do Cerro Guanaco O caminho de volta foi tranquilo no início. Agora caminhávamos de frente ao Lago Roca, beleza de visão. A cada metro que descíamos, menos o frio incomodava. Quase escorreguei algumas vezes. No trecho do brejo, dessa vez atolei os dois pés. Que merda foi aquilo. Os dois pés molhados, chovendo e muito frio. Depois disso, caminhar foi um sofrimento. Já sentia as bolhas nascendo. Paramos mais uma vez no primeiro mirante. E a descida final foi o trecho mais difícil para mim por causa dos pés. Não tomei o devido cuidado com os pés e me fodi. Regra número um de qualquer trilheiro: deixe os pés sempre secos. Foto 11.89 - Matheus retornando Foto 11.90 - A felicidade de subir mais uma montanha Foto 11. 91 - Encarar os brejos novamente Foto 11.92 - Curto demais essa foto Foto 11.93 - Passamos pelo brejo Voltamos ao início da trilha. Sentei e tirei as botinas. Aproveitamos para comer também. Ainda faltava a trilha do Hito XXIV, mais oito quilômetros ida e volta. O certo seria abortar esta trilha, mas vai saber se voltarei um dia. Descansamos quase uma hora e seguimos para nossa última trilha no parque. A trilha margeia a todo tempo o lago Roca. A dificuldade do caminho quase não existe, pois em todo momento o caminho é plano. O legal que tem umas prainhas no meio do caminho, bem bonitas. O fim da trilha é a divisa entre Argentina e Chile. Foto 11.94 - Lago Roca Foto 11.95 - Limite entre Argentina e Chile Foto 11.96 - Matheus em dois países ao mesmo tempo rsrs A volta foi bem tranquila, os pés estavam melhores. O cansaço dos dois dias de caminhadas intensas já era visível. Afinal, caminhamos mais de trinta quilômetros por dia. Pegamos a cargueira de volta e seguimos pela Ruta 3. Menos de um minuto de caminhada, erguemos o dedão para um carro que parou. Hector, o motorista, é guarda florestal do parque. Fomos conversando até a entrada do parque. Lembro que ele tava preocupado porque iriam asfaltar a Ruta 3 dentro do parque, isso na visão dele era muito ruim, eu concordei. Depois, seguimos caminhando um pequeno trecho. Minutos depois um casal israelense parou o carro para nós. Os dois tinham acabado de deixar o serviço militar em Israel e agora estavam explorando a América do Sul. Ficamos no centro de Ushuaia. Fomos até o letreiro de Ushuaia. Numa praça próxima, começamos a comer nossos últimos lanches. Um mundaréu de gaivotas se aproximou (risos). A todo momento o número de gaivotas aumentava. Quando percebemos que o conflito entre nós e as gaivotas seria inevitável por causa dos nossos pães, escondemos a comida e partimos com todo o cuidado do mundo. Seguimos até o centro de informações para usar internet e decidir onde dormiríamos naquele dia. Foto 11.97 - Ushuaia Foto 11.98 - Ushuaia Foto 11.99 - Ushuaia Foto 11.100 - Ushuaia Com o "sumiço" do nosso contato em Ushuaia, eu tinha tentado estadia na cidade através do couchsurfing. Quando acessamos a internet no centro de informações, vi que eu tinha um aceite de hospedagem na casa da Anahi. Seria só por aquela noite, pois no outro dia cedo já partiríamos para El Calafate. Voltamos para o hostel, pegamos o restante das nossas coisas e partimos para a casa da Anahi. Chegamos na casa, sua amiga nos recebeu, pois ela só chegaria mais tarde. Tinha um cara bem curioso na casa delas, ele havia de acabar o serviço de cortar a grama do quintal e aproveitava para tomar um mate. Deixamos nossas coisas de lado e começamos a conversar com os dois. O cara fazia todo o tipo de serviço e sonhava em ter diversos negócios para se mudar e viver deboas em alguma praia de clima quente. Assim, o assunto girava em torno de dinheiro. Ele tinha uma teoria sobre o dinheiro que me chamou a atenção, ele disse mais ou menos assim: "Você tem que ver o dinheiro como se fosse uma pessoa. Melhor, ver como se fosse uma relação entre pessoas. Tipo, se você está desesperado para estar junto com uma pessoa, essa pessoa se afasta de você. A mesma coisa com o dinheiro, se você está desesperado para ter dinheiro, ele não vem. Porém, se você não está nem ai pra pessoa, ela também se afasta de ti. A mesma coisa com o dinheiro, se você não quer ele, ele também não vai te querer. Portanto, a relação tem que ser a de querer, mas sem querer.". Fiquei pensando muito sobre isso depois, mas não pela parte do dinheiro e sim na parte que ele dizia porque as pessoas se afastavam uma da outra. Tomei banho, depois comemos os miojos que carregávamos desde o início da viagem. Anahi chegou e conversamos um pouco, ela é dançarina e muito simpática. Logo, ela saiu de novo, pois tinha um aniversário para ir. Assim, ficamos conversando mais um pouco com um pessoal que chegou na casa. Uma coisa que reparei que todos os ushuaianos (risos) não gostam de morar lá, e sempre perguntam o porquê de nós querermos viajar até a cidade. Nas conversas desta noite isso ficou muito claro. Por fim, dormimos. Era quatro da manhã o horário que acordamos. Ajeitamos nossa mochila e seguímos para o lugar que o ônibus sairia, pois não tem rodoviária em Ushuaia. O frio era intenso e para melhorar começou a chover forte. Depois de uns vinte minutos de caminhada chegamos. Colocamos nossas mochilas no bagageiro do ônibus e subimos na parte de cima do busão em busca das nossas poltronas. A falta de lugar pra ficar somado com a restrição de dias do nosso contato em El Calafate, apressou nossos dias em Ushuaia. Nada que eu possa reclamar, pois aqueles quatros dias foram demais. Deixamos de conhecer muita coisa na cidade, mas curti muito o que tivemos a oportunidade de conhecer. O Parque Nacional da Tierra del Fuego é o ponto alto do tempo em Ushuaia. Estar ali, cercado de montanhas e no meio de uma natureza ímpar faz tudo valer a pena. Overdose de beleza a todo momento. Os diversos lagos junto com o Canal de Beagle e as montanhas nevadas estampa sorriso no rosto de qualquer um.
  12. Hahahaha pior que é verdade mesmo. A foto 10.21 dá a impressão que eu sou mó fortão, mas é só efeito das roupas largas somada ao vento forte 😂😂.
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