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Diego Minatel

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Tudo que Diego Minatel postou

  1. Parte 12 - El Calafate, Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino "O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia." O paradoxo andante, Eduardo Galeano Eu estava dormindo, mas o Matheus disse que no caminho entre Ushuaia/Rio Grande nevou bastante. Queria ter visto, mas o sono me venceu. Acordei para dar entrada em território chileno e voltei a dormir. Fui acordar em definitivo próximo ao Estreito de Magalhães, o céu tava todo aberto e não havia sinal de chuva, muito menos de neve. A travessia pelo estreito não teve a mesma magia que da primeira vez. Entretanto, o céu estava mais bonito nesse dia. Foto 12.1 - Novamente, o Estreito de Magalhães Foto 12.2 - O caminhão adentrando a Terra do Fogo A viagem seguiu. Passamos pela aduana e voltamos para a Argentina. No fim de tarde, chegamos em Rio Gallegos. Descemos na rodoviária, saímos pra comer alguma coisa. Logo voltamos e entramos no ônibus com destino El Calafate. Agora cortávamos a Ruta 40. A viagem estava tranquila até sermos parados pela fiscalização policial. Os policiais entraram no ônibus, pediam os documentos e com isso: eu, Matheus, e mais três pessoas fomos "convidados" a descer do ônibus para revistarem nossas mochilas. Levaram-nos para uma salinha com mais uns seis policiais. As outras pessoas foram levadas para salas diferentes. Primeiro revistaram nossas mochilas. Eu só pedia para os céus para não serem policiais corruptos. Puta trampo que é ajeitar a mochila e agora tava todas nossas coisas jogadas na mesa. A inspeção continuava. O policial chamou a atenção para a quantidade de condimentos que levávamos conosco, perguntou por que de tudo aquilo, eu disse "Cozinhamos mal, ai usamos pimenta pra disfarçar o sabor" (risos). Pela primeira vez, os policias esboçaram uma amistosidade, até disseram que uma de nossas panelas era muito ruim. Chegou a hora da revista pessoal. Descobriram o dinheiro que carregava comigo espalhado pelo corpo. Tudo o que eu tinha estava na mão do policial. Era a hora de saber se eu iria me foder ou não. Congelei. O policial juntou todo o dinheiro e me devolveu. Ufa! Depois foi a vez do Matheus, quando tiraram o dinheiro dele (para a revista) pediram para ele ficar olhando para depois não achar que pegaram algo, achei legal isso. Ainda sim, depois de toda a revista, ficamos mais um tempo esperando, enquanto eles decidiam sobre nós. Creio que tudo durou mais ou menos uma hora. Foi muito tempo. Quando o policial me devolveu o passaporte, um alívio tomou conta de mim. A viagem seguiu tranquila até El Calafate. Chegamos era mais de uma hora da manhã. Estávamos sem internet, o Matheus pediu o celular emprestado para uma pessoa e conseguimos avisar a Cláudia que havíamos chegado. Ela veio nos buscar na rodoviária. Seguimos para a casa dela. Ela aprontou um mate. Conversamos muito pouco com ela nessa madrugada, ela tinha que trabalhar cedinho no mesmo dia. Depois de terminar o mate, eu capotei. El Calafate é uma pequena cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, situada no extremo sul da parte continental da América do Sul. Seu nome é devido ao fruto típico de sua região, o Calafate, que é utilizado na confecção de doces. A cidade abriga dois dos principais pontos turísticos da Argentina: O Lago Argentino e o Glaciar Perito Moreno. Acordamos para o café da manhã. Agora com mais calma conversamos com a Cláudia. O Matheus havia conseguido o contato dela através do seu amigo Federico, que é um argentino que passou um tempo em Jericoacoara no hostel que ele trabalhava. Então, a conversa seguia entorno do Federico. Eu não conhecia-o, pouco falei. Pouco depois, ela seguiu para o trabalho. Cláudia é uma doçura de mulher, trabalha como pedagoga e gosta muita de música. Veio para El Calafate junto com o ex marido logo após o casamento, para fugir da falta de emprego que o norte do país enfrentava e tentar a vida no rico sul. Depois de todos os dias de abstinência musical, onde apenas ouvia música se tivesse tocando no ambiente em que eu estava. Resolvi usar o rádio da casa e, com o volume no máximo, ouvi as músicas que tinha vontade de ouvir. Devo ter colocado umas cem vezes pra tocar a música S.O.S. do Raul Seixas e outras cem vezes Entretanto com a Martnália e o Moska. Fiquei bastante pensativo nesse momento. Pela memória refiz toda a viagem e senti o quanto havíamos tido sorte até então. Uma decisão nasceu dentro de mim nesse momento. Saímos rumo a rodoviária. O entorno da casa da Cláudia é todo bonito com alguns morros em volta, destacando-se como o mais alto o Morro El Calafate. Porém, o que mais chama atenção é o Lago Argentino na parte baixa da cidade. Que lindeza de cor daquele lago. Seguimos caminhando lentamente. Chegamos na rodoviária e compramos nossas passagens para o ônibus de acesso ao Parque Nacional Los Glaciares. Foto 12.3 - Arredores da casa da Cláudia Foto 12.4 - Matheus nos arredores da casa da Cláudia e no fundo o belíssimo Lago Argentino Foto 12.5 - El Calafate Entramos no ônibus lotado de turistas de todos os cantos do mundo. Quase todo o caminho até o parque, margeia-se o Lago Argentino. Fiquei encantado por aquele lago e aquela cor. A viagem já valeria a pena, apenas por percorrer parte do lago. O dia estava muito bonito, mas quanto mais nos aproximávamos do parque, mais nuvens surgiam no céu. Na entrada é necessário pagar setecentos pesos argentinos para adentrar ao parque. Foto 12.6 - Lago Argentino O Parque Nacional Los Glaciares é um dos patrimônios naturais nomeados pela UNESCO, e é um imenso parque lotado de glaciares e montanhas por todos os lados. O parque é dividido entre norte e sul. Na parte norte do parque encontra-se El Chaltén e suas montanhas. Já na parte sul, que fica em El Calafate, é onde fica o famoso Glaciar Perito Moreno. No Parque Nacional Los Glaciares encontra-se os maiores glaciares do mundo fora das zonas polares. Poucos passos dentro do parque e já avistamos o Glaciar Perito Moreno. O que é aquilo? Lindo demais. Sempre achei que quando eu estivesse de frente com o Glaciar Perito Moreno eu me decepcionaria. Errei completamente, aquilo é um espetáculo para os olhos, era algo completamente diferente de tudo que eu havia visto na vida. Fiquei atônito nos primeiros minutos, ou melhor, fiquei atordoado. Nunca tinha visto o Matheus tão admirado com um lugar como com o Glaciar Perito Moreno. O Glaciar Perito Moreno foi batizado com esse nome em homenagem ao naturalista e explorador argentino conhecido como Perito Moreno. Ele realizou diversas viagens para Patagônia na segunda metade do século XIX, e em uma dessas viagens "descobriu" (ou seja, o primeiro a registrar a existência do glaciar) o glaciar que hoje leva seu nome. Foto 12.7 - A primeira visão do Glaciar Perito Moreno Foto 12.8 - Lindo, não? Foto 12.9 - Parque Nacional Los Glaciares Foto 12.10 - Eu me aproximando do glaciar Foto 12.11 - Glaciar Perito Moreno Foto 12.12 - Gigantesco Foto 12.13 - O morro e o glaciar Foto 12.14 - Matheus e o Perito Moreno A beleza do lugar é divina, mas o melhor de se estar de frente com o Glaciar Perito Moreno está no que se ouve. Geralmente, não se ouve nada. Silêncio absoluto. Pois, todos respeitam aquela divindade em forma de gelo e, apenas, contemplam sua beleza. Dificilmente, você vai ouvir pessoas conversando. O silêncio predomina. O êxtase surge no momento em que o silêncio é quebrado, os gelos se rompem do glaciar fazendo um som parecido com um trovão. Esse som te põe em outra dimensão. É demais. Faz te arrepiar todo. Depois de presenciar isso pela primeira vez, você só quer ficar parado e mudo, na esperança que isso aconteça de novo e de novo, para sentir toda aquela emoção outra vez. Apesar dos rompimentos de gelo constantes que ocorrem no Glaciar Perito Moreno, este é o único glaciar que ainda cresce na Patagônia. Enquanto que com o passar dos anos o glaciares diminuem e vão desaparecendo, o Perito Moreno continua a ser um glaciar estável, ou seja, com pouca alteração no seu tamanho, e até registrando um pequeno aumento em suas dimensões. Vale a ressalva, para falar sobre a estrutura do parque que é muito boa. Existem quilômetros e quilômetros de plataformas em volta do glaciar para poder apreciar de diferentes ângulos aquela beleza de lugar. Além de o parque oferecer outros tipos de passeios como a viagem de barco até bem próximo a parede do glaciar e um mini trekking em cima do glaciar. Esses passeios extras são bem caros, mas confesso que, principalmente o trekking, fiquei com muita vontade de fazer. Foto 12.15 - Glaciar Perito Moreno e o Lago Argentino Foto 12.16 - O mar de gelo Foto 12.17 - Onde o lago vira gelo Foto 12.18 - Eu e o glaciar Depois de muito tempo de frente com o Perito Moreno, andamos pelas plataformas em direção contrária ao glaciar. O Lago Argentino, por aqui, não tem aquela mesma coloração que me encantou nas proximidades de El Calafate. Isso deve-se ao desprendimento das geleiras que agitam o fundo do lago e modifica sua coloração. Ainda assim, é belo, mas de um jeito menos estonteante. Creio que isso acontece para o personagem principal daquele canto de mundo ser, apenas, o Glaciar Perito Moreno. Ficamos sentados o mais distante possível do glaciar. Sentamos numa pedra, ainda calados. Comemos. Os escandalosos trovões quebravam o silêncio de tempos em tempos. As únicas palavras que saiam de nossas bocas eram coisas do tipo "Caralho! Isso aqui é dahora demais". Foto 12.19 - Lago Argentino Foto 12.20 - Lago Argentino Foto 12.21 - Lago Argentino Foto 12.22 - Perito Moreno visto de longe Caminhamos de volta rumo a entrada para esperar o ônibus. O sol estava mais baixo e as cores do glaciar estavam mais bonitas. Agora, a iluminação era melhor e o que era belo se tornou belíssimo. Os passos eram lentos, o fascínio por aquele lugar não terminava. De certa forma, não queria que esse momento terminasse. Na espera pelo ônibus fiquei grudado no parapeito do primeiro mirante. Devo ter ficado mais de meia hora por ali, olhando fixamente para o glaciar e acompanhando o sol descendo ao fundo. Não conseguia parar de olhar. O olhar fixo, nesses últimos minutos no parque, era a minha maneira de me despedir daquela divindade em forma de paisagem. Não tem como não se sentir um cisco na Terra diante daquilo. A natureza tem esse dom, o de fazer você se sentir tão pequeno, mas ao mesmo tempo te fazer sentir tão privilegiado de presenciar sua própria pequenez. Acho que o respeito a mãe natureza nasce disso, de se sentir pequeno diante de sua imensidão e de enxergar que tudo está conectado nesse mundo. O ônibus chegou, dei uma última olhada no mar de gelo na minha frente. Sem olhar pra trás e sem pensar em nada, subi no ônibus. Foto 12.23 - Pouco lindo, né? Foto 12.24 - Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino Foto 12.25 - A última visão do glaciar Perito Moreno Voltamos para a El Calafate. Tínhamos prometido para a Cláudia que faríamos a comida pela noite, passamos no mercado para comprar os ingredientes do jantar. Caminhamos de volta para a casa. O vizinho da Cláudia, o José Luis e seu filho também jantariam conosco. Antes de chegarmos na casa da Cláudia, o José Luis se apresentou para nós, muito simpático ele. Começamos a preparar a nossa já "famosa" lentilha (receita do Matheus). Colocamos música alta para ajudar no preparo, enquanto que a Cláudia e o José foram atrás de cervejas. Preparamos a mesa. O filho do José Luis não quis comer nossa comida, ele trouxe um miojo. Enfim, comemos. A comida tava bem boa, desta vez preparamos uma salada também. Experimentei a cerveja Imperial, da qual gostei bastante. A música de fundo era boa, as conversas iam aumentando conforme as garrafas de cervejas iam esvaziando. José Luis é professor de geografia do ensino médio. Ele nos explicou muitas coisas sobre as questões políticas e sociais da Argentina. Passar a noite ali, tendo uma aula gratuita regada a cerveja foi bem bom. Ele nos explicou sobre a divisão da Patagônia entre Chile e Argentina. Falou sobre a Guerra das Malvinas. Questionou o governo Macri e sobre seu governo ser péssimo para o sul do país. José falou sobre os parques nacionais e nos informou que o Parque Nacional Los Glaciares era o segundo mais visitado da Argentina, só perdendo para o Parque Nacional Iguazú. Foto 12.26 - O jantar (Matheus, Eu, Ale, José Luis e Cláudia) Das coisas que mais me chamou a atenção nos ensinamentos de José Luis, foi a questão do presidente Roca e o povoamento da Patagônia. Eu já havia lido algumas coisas sobre o assunto, mas saber de detalhes e da forma fria que isso foi feito, me marcou bastante. O presidente Roca e a Patagônia estão diretamente ligados, é muito fácil ver o nome do Roca em tudo o que é lugar, só de lagos conheci dois lagos chamados Roca, avenidas são incontáveis. O fato é que o ministro da guerra/presidente Roca no final do século XIX estimulou a matança dos indígenas patagônicos, para assim dominar as terras do sul da América do Sul. Sua desculpa para tal fato é que se os argentinos não fizessem, os chilenos fariam e dominariam tais terras. Quem ia para guerra contra os desavisados índios ganhava uma porção de terra, e assim, a Argentina foi povoando a Patagônia com os de sangue de seu próprio sangue, leia-se o sangue de estrangeiros europeus. Matava um índio e colocava um "argentino" no lugar para cuidar das terras. Para resumir, o que aconteceu foi um genocídio dos índios mapuches na Patagônia Argentina, com a sempre eficaz desculpa do desenvolvimento e de um inimigo imaginário. Ainda falamos sobre futebol e a precoce eliminação do River Plate no mundial de clubes. A discussão Messi x Maradona surgiu e acabou de forma rápida. Pois, José Luis e a Cláudia diziam: "Maradona jogava sozinho, o Messi precisa de um time". Assim, a questão estava resolvida. Ficamos também um bom tempo comparando Brasil e Argentina na questão social, histórica, política e no futebol. Já era madrugada, quando o José Luis foi embora. Logo em seguida, fomos dormir. Agora quero voltar aquela decisão tomada no início deste dia. Primeiro, eu pensei na possibilidade e fui falar com o Matheus. Juntos transformamos a possibilidade em decisão, mas antes de falar sobre a decisão tomada quero falar um pouco dos nossos planos de início de viagem. Nossa viagem desde o início foi dividida em três etapas. A primeira era chegar em Ushuaia percorrendo a Ruta 3. A segunda etapa era conhecer El Calafate e El Chaltén. A terceira seria o caminho de volta. No caminho de volta, queríamos percorrer toda a Patagônia Andina pela Ruta 40, de El Calafate até Mendoza. O Matheus sonhava mais alto, queria chegar até Purmamarca, no norte da Argentina, que tem como acesso a própria Ruta 40. Quando saímos de Rio Claro, mal sabíamos se iríamos conseguir chegar em Ushuaia, e agora já estávamos em El Calafate. Dias antes, já estávamos fazendo planos e arrumando contatos de hospedagem para cidades que queríamos conhecer pela Patagônia Andina, tipo: Bariloche, San Martin de los Andes e El Bolsón. Voltar pela Ruta 40 era possível. No entanto, havia feito algumas contas na cabeça. O restante do nosso dinheiro dava para fazer o caminho de volta de ônibus até a fronteira com o Brasil e sobrava algum dinheiro que dava para conhecer El Chaltén. Outra opção seria apertar esse dinheiro, como havíamos feito até aqui, e seguir pela Ruta 40, o problema é que se precisássemos pegar ônibus pela Ruta 40 (que é muito mais caro que pela Ruta 3) quando caronas não rolassem, o dinheiro acabaria rapidamente e ficaríamos sem grana para comer (comida é caro na Patagônia). Enfim, escolhemos a opção conservadora. Novamente, acompanhamos a Cláudia no café da manhã. Ela sairia de férias daqui a dois dias e viajaria para rever a família em Formosa no norte argentino, estava bem animada por isso. Nessa manhã, ela contou a sua história, contou sobre seu casamento, os motivos dela ter viajado para o sul, sobre o término do casamento, sobre seu novo namoro, sobre a vida difícil que se tem no norte do país. Foi muito legal a conversa e a confiança que ela já depositava em nós. A Cláudia nos aconselhou em ir tomar mate nos arredores do Morro El Calafate naquela manhã. Esquentamos a água, colocamos na térmica e fomos. Estranho aquele cenário desértico no qual estávamos ser tão próximo do exuberante Glaciar Perito Moreno. Adentramos em diversas trilhas, nos perdemos bastante, mas conseguimos achar uma boa sombra para ficar de bobeira tomando mate. O arredor do Morro El Calafate é muito bonito, com um grande cânion e um rio embaixo para dar um charme ao lugar. Foto 12.27 - Trilha Foto 12.28 - O caminho para a sombra Foto 12.29 - O rio Foto 12.30 - O Lago Argentino anuncia-se ao fundo Foto 12.31 - Admirando o Lago Argentino Fomos para a rodoviária e compramos nossas passagens de ida e volta para El Chaltén, além de comprar nossa passagem de El Calafate até Buenos Aires. Depois, seguimos em direção ao Lago Argentino. Caminhando pelo centro da cidade encontramos o Bruno, o motoqueiro que havíamos conhecido em Ushuaia. Conversamos um pouco, ele passaria mais uns dias em El Calafate e depois rumaria para El Chaltén, combinamos de nos encontrar em El Chaltén. Seguimos a caminhada rumo ao Lago Argentino. Foto 12.32 - El Calafate Foto 12.33 - El Calafate Tem uma definição do Fernando Birri sobre utopia que é a seguinte: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”. A busca pelo Lago Argentino neste dia tinha um pouco desta utopia, pois víamos o lago e ele parecia estar muito próximo. Caminhávamos, caminhávamos, e parecia que o lago ficava mais distante. Caralho! Teve uma hora que parecia que o lago estava a alguns passos, mas nada, andava, andava e a cada passo parecia que se distanciava mais. Uma hora, não aguentei e sai correndo. Cheguei a beira do lago, olhei para trás e uns pássaros esboçavam atacar o Matheus. Sentei e fiquei em silêncio por um tempo só observando o meu redor. O melhor de tudo foi ver uma infinidade de pássaros sobrevoando aquele azul vibrante. Não tenho muito o que falar, a não ser dizer que aquele lugar é lindo demais. Foto 12.34 - Esse lago que não chega Foto 12.35 - Lago Argentino Foto 12.36 - Lago Argentino Foto 12.37 - Matheus e o Lago Argentino Foto 12.38 - A paz A família Kirchner tem uma casa em El Calafate. O falecido ex-presidente Nestor Kirchner é natural de Rio Gallegos e já governou a província de Santa Cruz também (El Calafate é uma cidade da província de Santa Cruz, cuja a capital é Rio Gallegos.). Neste dia, tinha um rebuliço na cidade, pois existia um boato que a ex-presidenta Christina Kirchner estava na cidade. Voltamos para a casa da Cláudia. Fizemos cachorro quente a la brasileira. Comemos bastante. Conversamos e ouvimos muita música. A noite foi leve e muita boa. No dia seguinte arrumamos nossas coisas e ficamos de bobeira o resto da manhã. Esperamos a Cláudia para almoçar, comemos o restante do cachorro quente. Ela nos levou até a rodoviária, com um abraço apertado me despedi da Cláudia. Corremos para o ônibus que já estava partindo. El Calafate é um dos lugares mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer. As fotos não traduzem em nada o que é o lugar, pois o melhor é a experiência sensorial que a cidade proporciona. Falando na cidade, ela tem uma ótima estrutura para receber turistas, cheia de hotéis, hostels e restaurantes. O clima no verão é muito agradável e como quase todos os lugares na Patagônia, é um lugar seguro de caminhar e de se estar. Os dias na cidade foram muito bons para mim e conviver com a Cláudia fez tudo ficar mais leve. Só tenho a agradecer a Cláudia por abrir a porta de sua casa e nos receber com sua alegria. Muito obrigado Cláudia, um beijo e toda paz em seu caminho.
  2. "No século XII, o geógrafo oficial do reino da Sicília, Al-Idrisi, traçou o mapa do mundo, o mundo que a Europa conhecia, com o sul na parte de cima e o norte na parte de baixo. Isso era habitual na cartografia daquele tempo. E assim, com o sul acima, desenhou o mapa sul-americano, oito séculos depois, o pintor uruguaio Joaquín Torres-García. “Nosso norte é o sul”, disse. “Para ir ao norte, nossos navios não sobem, descem.” Se o mundo está, como agora está, de pernas pro ar, não seria bom invertê-lo para que pudesse equilibrar-se em seus pés?" De pernas pro ar, Eduardo Galeano O nosso norte é o sul, Joaquín Torres-García Cheguei ontem pela madrugada em casa. Agora sentado na frente do computador sinto uma necessidade, quase insuportável, de contar sobre meu caminhar até o fim do mundo. Foram 50 dias de viagem e mais de 14.000km percorridos por terra. Entre ônibus e caronas percorremos o sul do Brasil e a Patagônia Argentina até Ushuaia, parando em muitos lugares nos dois países. O dinheiro era pouco, mas a vontade era muita. A necessidade que tenho de escrever deve-se as pessoas que de alguma forma nos ajudaram a realizar esta viagem ao extremo sul da América do Sul. Tanta gente boa pelo caminho. Tanta solidariedade. Tanta gratidão. Pela primeira vez, antes de uma mochilada, eu não estava completamente bem e seguro. Nos meses que antecederam a viagem estava escrevendo a dissertação do meu mestrado (isso, por si só, já era muita tensão) e nesse intervalo de tempo perdi meu pai, a mulher que aprendi a amar resolveu seguir sem minha companhia e quase antes de embarcar perdi minha vó. Como é de se imaginar, meu estado de espírito não era nada bom, na verdade era o pior possível. Com isso tinha muito medo de atrair coisas ruins pelo caminho, como por exemplo ser vítima de violência. Assim, resolvi mudar a ideia de mochilar sozinho e decidi ter uma companhia nessa viagem. Meu amigo/irmão Matheus embarcou comigo nessa jornada. Enfim, tenho como intuito neste relato contar a história dos lugares por onde passei, minha histórias nesses mesmos lugares e, principalmente, falar sobre as muitas pessoas (leia-se anjos) que nos ajudaram nesta viagem. Quero contar de maneira honesta os acontecimentos e os sentimentos que me permearam nesses dias, e de alguma forma quero deixar esse texto como agradecimento a cada pessoa que tornou essa viagem algo possível. Agora vamos ao que interessa, bora comigo reconstruir essa viagem por meio de fotos e palavras! Parte 1 - De Rio Claro até Timbó: o mesmo início de outra vez Parte 2 - A Serra Catarinense vista por Urubici Parte 3 - O casal das ruínas de São Miguel das Missões Parte 4 - Do Brasil para a Argentina Parte 5 - Buenos Aires, la capital Parte 6 - O começo da Ruta 3 e o mar de Claromecó Parte 7 - Frustrações na estrada e a beleza de Puerto Madryn Parte 8 - O anjo do carro vermelho Parte 9 - Cruzando o Estreito de Magalhães com San Martin Parte 10 - Enfim, o fim do mundo Parte 11 - Algumas das belezas de Ushuaia Parte 12 - El Calafate, Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino Parte 13 - O paraíso tem nome, El Chaltén Parte 14 - A janela do ônibus Parte 15 - O caminho de volta e os reencontros Parte 16 - Reflexões
  3. Parte 11 - Algumas das belezas de Ushuaia "Antônio Pigafetta, um navegante florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, ao passar pela nossa América meridional escreveu uma crônica rigorosa, que, no entanto, parece uma aventura da imaginação. Contou que havia visto porcos com o umbigo no lombo, e uns pássaros sem patas cujas fêmeas usavam as costas dos machos para chocar, e outros como alcatrazes sem língua cujos bicos pareciam uma colher. Contou que havia visto um engendro animal com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de cervo, relincho de cavalo. Que puseram um espelho na frente do primeiro nativo que encontraram na Patagônia, e que aquele gigante ensandecido perdeu o uso da razão pelo pavor de sua própria imagem. Este livro breve e fascinante, no qual já se vislumbram os germes de nossos romances de hoje, está longe de ser o testemunho mais assombroso da nossa realidade daqueles tempos." A solidão da América Latina, Gabriel Garcia Marquez Ushuaia tem pouco mais de cem anos, seu desenvolvimento está intimamente ligado com o extinto presídio da cidade. A princípio, o presídio só recebia presos militares, mas com o tempo presos perigosos e presos políticos também começaram desembarcar em Ushuaia. Afinal, não havia lugar melhor para um presídio que uma ilha inóspita. A implantação do presídio atraiu outros serviços para a cidade, como produção de alimentos e eletricidade. Assim, Ushuaia foi crescendo. Chegamos ao fim do mundo e agora? Fomos comemorar. Momentos antes tinha entrado numa agência de turismo, na conversa com a dona ganhei uns vales de cervejas grátis, que somente é dado pras pessoas que fazem o passeio de barco com eles, mas a mulher resolveu me presentear com as cevas. Fomos até a cervejaria, ali ficamos boa parte da noite, bebendo e usando internet. Não tínhamos lugar pra ficar até então. O que tínhamos era um contato que o Matheus havia conseguido com uns amigos, e que ele já havia conversado algumas vezes. Estava meio certo que ficaríamos na casa dele. Enfim, não tivemos resposta naquela noite. Resolvemos seguir para um hostel. Ajeitamos nossas coisas. A fome era grande, cozinhamos e comemos. Tomei banho, logo depois, desmaiei na cama. Acordamos cedo e cambiamos o restante do dinheiro que carregávamos conosco. A cotação desse dia foi a melhor que conseguímos na viagem: 1 real/9 pesos argentinos. Fomos comprar nossas passagens com destino a El Calafate. Tínhamos um lugar para ficar em El Calafate, mas a pessoa iria viajar dentro de uns dias. Então, resolvemos não ir de carona neste trecho e, consequentemente, chegar numa data que teríamos estadia na nossa próxima parada. Depois, conforme as dicas do César, partimos caminhando para o Glaciar Martial. O tempo estava esquisito e estava caindo um chuva de leve. Cruzamos boa parte da cidade até o inicio da trilha que leva até a entrada do glaciar. A trilha alterna entre caminhos dentro da mata e da avenida que os carros utilizam como acesso. A trilha é muito bonita, ainda mais tendo o Martial ao fundo. Não lembro de ver ninguém fazendo a trilha na ida, todos que chegavam no glaciar, chegavam de carro. Foto 11.1 - Bora começar a temporada de caça as trilhas Foto 11.2 - Sobe, sobe Foto 11.3 - A ponte do rio que cai Foto 11.4 - Matheus e esse cenário maluco Foto 11.5 - Eu seguindo rumo ao Glaciar Martial Foto 11.6 - A casa e as nuvens Foto 11.7 - Matheus e a caminhada A caminhada da cidade até a entrada do glaciar deve ter durado uma hora e meia, mais ou menos. Chegamos na entrada e uma legião de taxistas ficam por ali. A entrada é gratuita. Seguimos andando pela trilha de acesso ao glaciar. Agora víamos muitas pessoas pelo trajeto, indo e voltando. A caminhada continuava. Como sentia falta disso, de somente caminhar e caminhar sem pensar em nada mais. Pensar, apenas, no próximo passo. Foto 11.8 - A caminhada continua Foto 11.9 - Outra ponte do rio que cai Foto 11.10 - Martial, um glaciar ou um jogador de futebol? Foto 11.11 - Eu e a terra inóspita Foto 11.12 - Quase lá Foto 11.13 - Prazer, Glaciar Martial Chegamos ao pé do Glaciar Martial, um pouquinho antes atravessamos um caminho com neve no solo, havia tanto tempo que não tinha contato com a neve. Achamos um lugar para sentar, comemos nosso lanche. Depois, seguimos pela trilha sobre o glaciar. Nesse momento a paisagem é composta de poucas cores, vê-se um cinza que é a mistura do solo com pedras e brancos de neve surgem para não deixar a visão monocromática. A subida não é das mais puxadas, na verdade é bem tranquila. O Matheus foi devagarinho, estava cheio de bolhas no pé. Do topo tem-se uma bela visão de Ushuaia com o mar ao fundo. A temperatura lá em cima era bem baixa e o vento forte, mas estava agradável. A montanha tem esse poder, pelo menos em mim, de fazer qualquer situação adversa algo memorável. Foto 11.14 - A bela paisagem Foto 11.15 - A bela visão [2] Foto 11.16 - Matheus vendo todo o caminho que percorremos para chegarmos ali O caminho de volta foi bem tranquilo. Descer e descer. De volta a entrada, os taxistas ofereceram seus serviços, recusamos. Fizemos a trilha de volta até a cidade. Agora, vimos algumas pessoas fazendo a trilha no sentido inverso. Depois de tantos dias pelos desertos patagônicos, caminhar no meio daquelas árvores em meio ao ar puro e úmido, era revitalizador. A cidade reapareceu na paisagem, a caminhada continuava. Num momento, me deparei com um muro com a seguinte frase: "El amor al dinero es la raiz de todo mal". Uma vez ouvi o seguinte: se você quer conhecer um lugar não leia livros, leia os muros. Lendo aquele muro, mesmo estando milhas e milhas distantes eu soube que estava em casa. Foto 11.17 - O muro da verdade Tivemos que mudar de hostel, pois tínhamos conseguido vaga no dia anterior por causa de desistências. Mudamos para umas duas quadras donde estávamos. Saímos caminhar e conhecer um pouco mais a cidade. A orla é toda bonita. Fiquei observando as gaivotas voando, é muito curioso fazer isso. Antes, achava que só o beijo-flor conseguia ficar parado no ar. As gaivotas no fim do mundo sofrem para vencer o vento, tem horas que elas parecem estar paradas no ar. Vencer o vento naquela canto de mundo não é tarefa fácil. Foto 11.18 - Ushuaia Foto 11.19 - A cidade mais austral do mundo Foto 11.20 - Os navios Foto 11.21 - Os containers Ushuaia no verão escurece depois das onze da noite. É tão fugaz a noite por lá nessa época, que é preciso insistir bastante pra conseguir ver as luzes da cidade ou mesmo a iluminação de Natal. Pra nós que moramos entre os trópicos é tão diferente e esquisito essa diferença de tempo entre dia e noite. Porém, ter dezenove horas de luz natural para explorar aquela região é algo muito bom. Foto 11.22 - As luzes começam a aparecer Foto 11.23 - Quase a escuridão O Martin havia chegado na cidade, estava num jantar de negócios. Combinamos de encontrar ele no final da noite. Voltamos para o novo hostel e arrumamos nossas coisas. A fome, pra variar, era grande. Fomos até a cozinha preparar nossa janta. Conhecemos o Bruno no refeitório. Ele é gaúcho e tinha saído de moto dias antes de Porto Alegre. Viajava num ritmo alucinante, não parava pra aproveitar os lugares. Depois de mais de 5000 km rodados, Ushuaia foi o primeiro lugar que realmente parou pra conhecer um pouco da cidade. Ele partiria no dia seguinte. Depois saímos para caminhar pela cidade de novo. Caminhamos um pouco e demos de cara com o Martin. Não foi preciso combinar um lugar, os ventos patagônicos resolveram nos unir novamente. Fomos para uma lanchonete, conversamos bastante. Ele estava bem feliz que as vendas em Rio Grande e Ushuaia tinham sido muito boas. Ele já iria embora na manhã seguinte, iria começar o caminho de volta para casa e preparar-se para suas férias. Martin nos fez prometer se acontecesse algo conosco no restante da nossa viagem patagônica que entraríamos em contato com ele, pois ele dizia que tinha contatos em todas as cidades da Patagônia Argentina, devido suas relações comerciais. Prometemos. Ele ainda deixou as portas da sua casa aberta caso quiséssemos passar, novamente, em Puerto Madryn. Provavelmente, ele estaria viajando, mas o pai dele nos receberia. Não tínhamos essa intenção, mas vai saber o que o futuro nos reservaria. Depois de umas horas, chegou o momento da despedida definitiva do Martin. Nós três estávamos meio sonolentos. Dei um abraço no Martin, desejei boa viagem e boas férias para ele. Agradeci por tudo o que ele havia feito por nós naqueles dias. Mais uma vez, ele disse que viria pro Brasil na Copa América. Assim, caminhamos no sentido contrário ao dele e prosseguimos para o hostel na noite fria de Ushuaia. Na manhã seguinte, arrumamos nossas mochilas, pois iríamos acampar no Parque Nacional Terra do Fogo. Ajeitamos apenas uma mochila cargueira e uma mochila de ataque com as coisas de cozinha e de camping, o restante deixamos no hostel. Partimos rumo ao parque caminhando. Cruzamos toda a cidade até a parte da Ruta 3 que conecta a cidade com a Bahia de Lapataia, que é o trecho final da Ruta 3. Nesse momento, começamos a erguer o dedão para os carros que passavam, pois eram mais de 10 km de distância. Até que enfim, conseguimos uma carona de caminhão na Argentina. Entramos no caminhão que lentamente avançava pela rodovia. O motorista compartilhou seu mate conosco. A viagem foi rápida, pois logo o motorista entrou numa empresa para carregar o caminhão e assim, voltamos a caminhar. Pouco tempo depois um carro parou para nós. Era um casal, um argentino e uma italiana, bem gente boa os dois. Entramos no parque, eles seguiriam de carro até a Bahia de Lapataia e ficamos na entrada da primeira trilha. Foto 11.24 - O caminho até o parque Foto 11.25 - Matheus querendo caronas Enfim, agora estávamos a sós com a natureza e só dependia do nosso caminhar para percorrer todo o parque. Esse era nosso objetivo, fazer todas as trilhas do parque em dois dias. Começamos a caminhada. Seguimos pela trilha que leva até o Saltos del Rio Pipo. O início é lindo demais e o tempo estava limpo nesse momento. A trilha margeia os trilhos do trem do fim do mundo. Vimos o trem passando. O caminho é todo bonitão. O final da trilha é meio desanimador, é uma queda minúscula de água no Rio Pipo, mas vale muito a pena fazer a trilha pelo caminho que leva até ali. Trilhas para mim é o meio mais democrático que existe. De nada importa quem você é, de onde veio e como chegou até ali, se quiser chegar no final do caminho vai ter que suar muito, vai ter que querer demais ver o fim, vai ter que superar a exaustão pra continuar. É você e você, não tem outro jeito. E acredite, os melhores lugares são os mais difíceis de se chegar. Então, um passo de cada vez, inspire, expire, sinta o lugar e continue. Foto 11.26 - O que falar dessa beleza? Foto 11.27 - A montanha Foto 11.28 - Eu no caminho Foto 11.29 - O trilho Foto 11.30 - A mochila foguete Foto 11.31 - Tanto verde Depois entramos no Caminho da Pampa Alta, que tem cinco quilômetros. Diferente do Saltos Del Rio onde caminha-se em vegetação aberta, na trilha da Pampa Alta o caminho é dentro de uma vegetação fechada. Na metade da trilha atingi-se o ponto mais alto, onde tem-se alguns bons mirantes. Em um trecho da trilha cruza-se a Ruta 3. A caminhada é tranquila mesmo carregando as mochilas. No fim da trilha anuncia-se o belíssimo Canal de Beagle. Foto 11.32 - Matheus na caminhada Foto 11.33 - To chegando Foto 11.34 - A Ruta 3 Foto 11.35 - Deboas na Ruta 3 Foto 11.36 - Matheus e a Ruta 3 Foto 11.37 - O fim do Caminho da Pampa Alta Também é possível chegar de carro na enseada. Então, tinha muitas pessoas por ali. O bom que naquela parte tem alguma infraestrutura, aproveitamos para comer o nosso lanche. Alguns metros dali fica o Correio do Fim do Mundo, que fica dentro de um container as margens do Canal de Beagle. Muita gente vai no correio para carimbar seus passaportes e enviar postais do correio mais austral do mundo. O melhor de se estar por ali é a belíssima paisagem que tem-se de fundo. O Canal de Beagle é lindo demais. O Canal de Beagle tem esse nome por causa da Viagem de Beagle. Essa viagem foi a responsável por mudar o rumo da humanidade para sempre. A bordo do navio Beagle estavam o comandante Robert FitzRoy e o naturalista Charles Darwin. Essa expedição tinha como objetivo principal o levantamento cartográfico da parte sul da América do Sul. A viagem durou quase cinco anos e foi através dela que Charles Darwin coletou evidências que lhe possibilitaram a elaboração da Teoria da Evolução. Foto 11.38 - O Canal de Beagle Foto 11.39 - O Correio do Fim do Mundo Foto 11.40 - Argentina Foto 11.41 - Matheus e o Canal de Beagle Continuamos a caminhada. Seguimos pelo Caminho Costera, que margeia o Canal de Beagle. A trilha tem oito quilômetros. O caminho alterna entre trechos na mata e na orla. Essa caminhada também é tranquila, até tem algumas subidas, mas nada muito difícil. O melhor é a paisagem que se tem ao longo do percurso. Tudo é muito bonito e ter a companhia do Canal de Beagle é demais. O clima estava agradável, não estava nem quente e nem frio. Lembro de me desconectar nessa caminhada, somente pensava no quão era bonito aquilo tudo que eu presenciava. Foto 11.42 - Matheus no Caminho Costera Foto 11.43 - Caminho Costera Foto 11.44 - Eu Foto 11.45 - Caminho Costera Foto 11.46 - Caminho Costera Foto 11.47 - Caminho Costera Foto 11.48 - Uma pausa na caminhada pra apreciar a paisagem No final do Caminho Costera volta-se a Ruta 3. Caminhamos mais uns quatro quilômetros pela ruta até chegar em uma das áreas de camping do parque. Montamos a barraca, esperamos pelo guarda florestal, pois é necessário a verificação do guarda para poder acampar no parque, ele não apareceu. Ainda faltava algumas horas até escurecer, partimos para conhecer a Bahia de Lapataia e chegar no fim da Ruta 3. Neste caminho tem bastante coisa para se ver. Passa-se pelo Paseo de la Isla, Laguna Verde, Laguna Negra, Castorera, Mirante de Lapataia até chegar na Bahia de Lapataia. Essa parte tem cinco quilômetros, mas como é realizado na Ruta 3 a maior parte dos visitantes vão de carro, van ou moto para esses lugares, só havia nós fazendo o trecho caminhando. No final tem a placa do fim da Ruta 3, a placa é disputada por motoqueiros que querem registrar o feito de percorrer todos os 3079 km da rodovia. A Bahia de Lapataia é o extremo sul da Ilha do Fogo. Foto 11.49 - Quase no fim da Ruta 3 Foto 11.50 - Laguna Negra Foto 11.51 - Laguna Foto 11.52 - Sempre Foto 11.53 - Quase o fim da Ruta 3 Foto 11.54 - Enfim, o fim da Ruta 3 Foto 11.55 - No sul do sul Foto 11.56 - Bahia de Lapataia Agora quero falar de uma das coisas mais bizarras que já vi. Há 70 anos atrás foram introduzidos em Ushuaia vinte e cinco casais de castores. Os gênios miravam a criação dos castores para posteriormente vender suas valiosas peles. No entanto, o castor como espécie invasora modificou para sempre a flora dos arredores de Ushuaia. Sem predadores, os castores se procriaram até virarem praga. Porém, o estilo de vida destes castores coloca em risco a frágil flora do lugar. Os castores derrubam as árvores, modificam cursos de água, isso para melhorar os diques em que vivem. Assim, sem predadores, os castores estão por todas as partes destruindo grandes porções das florestas da Ilha do Fogo, causando um grande desastre ambiental para a região. Foto 11.57 - Errar é humano, mas quem perde é a natureza Foto 11.58 - Os castores Foto 11.59 - A explicação Foto 11.60 - O resultado da genialidade humana Foto 11.61 - O resultado dos castores na ilha Foto 11.62 - Fueda, né? Voltamos para o nosso acampamento. Um pessoal chegou para acampar por ali também. Preparamos nossa janta, fizemos uma macarronada com seleta de legumes, atum e pimenta. Ficou boa demais, afinal, a fome era grande. Depois preparamos os lanches para a caminhada do dia seguinte, fizemos um bom patê de azeitona para passar nos pães. O guarda florestal chegou, tomou um mate conosco. Ao ver o guarda eu só conseguia pensar no desenho do Zé Colmeia, o guarda florestal se vestia igualzinho ao guarda do desenho. O guarda autorizou nosso acampamento. Depois disso, escureceu. Tentei ver as estrelas, mas o céu só tinha nuvens. Foto 11.63 - Minha barraca Acordamos cedo e desfizemos acampamento. Voltamos pela Ruta 3 até a entrada das trilhas Hito XXIV e Cerro Guanaco. Para fazer o Cerro Guanaco é necessário se cadastrar na administração. Fomos até lá, tivemos que esperar uma meia hora até o local abrir. Demos nossos nomes e deixamos a mochila cargueira no guarda volumes. Assim, começamos mais um dia de caminhada. Caminhamos lentamente no início. Tinha umas dez pessoas que começaram a caminhada junto conosco. Depois de uma meia hora o lago Roca que se escondia ao lado mostra sua imensidão na frente do caminho. As montanhas ao fundo são um espetáculo a parte. No horizonte, no fim do lago tudo pertence ao Chile. Foto 11.64 - No aguardo pela autorização Foto 11.65 - O belo lago roca Pouco tempo depois entramos na trilha que dá acesso ao Cerro Guanaco, a trilha tem um pouco mais de quatro quilômetros. No início entra-se numa mata fechada. Subida e mais subida. A umidade era grande e a pesada subida fez eu tirar minha roupagem de frio na fria manhã daquele dia. Mais subida. Esse trecho não é fácil. Depois de pouco mais de uma hora, chegamos no primeiro mirante, que por sinal é belíssimo com o Lago Roca ao Fundo. Foto 11.66 - Que belezura Foto 11.67 - O mirante Foto 11.68 - Outra visão Foto 11.69 - Eu, Lago Roca e as montanhas Continuamos na trilha. O quilômetro sequente é tranquilo, com alguns trechos planos e algumas subidas não tão ingrimes como as do primeiro quilômetro. Continua-se dentro de uma vegetação densa. No final da vegetação, no ponto de ataque ao topo do Cerro Guanaco, o trecho é um brejo, horrível aquilo. Apesar de muito cuidado, eu atolei um dos meus pés. Legal demais seguir com um pé molhado. Depois do brejo, é subir. Subir e subir. Muita subida. O último quilômetro é tenso demais, pois é muito ingrime e quanto mais sobe-se maior a velocidade do vento. Então, se manter de pé já é um desafio, subir é um desafio em dobro. Porém, a visão da subida é a coisa mais bonita que vi por Ushuaia. Cada passo, uma visão diferente daquela belezura. De verdade, é muito lindo aquele conjunto de paisagens. Olhando de norte, sul, leste e oeste é tudo belo. Foto 11. 70 - Quase no brejo Foto 11.71 - Trilha Cerro Guanaco Foto 11.72 - Quantas cores em um mesmo cenário Foto 11.73 - Que beleza! Foto 11.74 - Muitas fotos pra por legendas =/ Foto 11.75 - Matheus sofrendo na subida Foto 11.76 - Eu todo curvado subindo Foto 11.77 - Eu camuflado Foto 11.78 - Quase no topo, mas pausa pra apreciar isso ai Foto 11.79 - Lago Roca Foto 11.80 - A chuva chegando Foto 11.81 - Bahia de Lapataia Foto 11.82 - Tá foda legendar, acho que exagerei na quantidade de fotos Avancei ao topo num ritmo alucinante, queria me testar. Logo depois um francês chegou também. Ficamos no topo de uma pedra apreciando aquela belezura de lugar. Com o tempo o topo foi se enchendo. Um tempo depois o Matheus chegou. Ele estava sem luva e sentia muito frio ali, tava todo tremendo. Comemos nossos lanches. Começou a chover. Ficamos ali na esperança que fosse uma chuva passageira. Quase todos os caminhantes rumaram de volta. Insistimos mais um pouco, mas não resistimos ficar naquele frio somado com vento forte e chuva. Resolvemos descer também. O clima em Ushuaia é um espetáculo a parte. Pensa em algo instável, é o clima lá. Em um momento, está um sol de rachar mamona, dez segundos depois o céu está fechado num cenário totalmente melancólico. E assim, vai se alternando diversas vezes por dia. Me lembrei do topo do Monte Roraima, onde o clima é igualmente instável. Foto 11.83 - O topo Foto 11.84 - A visão do topo Foto 11.85 - Que lindo Foto 11.86 - Ushuaia ali embaixo Foto 11.87 - Registro do Matheus chegando ao topo Foto 11.88 - Enfim, o topo do Cerro Guanaco O caminho de volta foi tranquilo no início. Agora caminhávamos de frente ao Lago Roca, beleza de visão. A cada metro que descíamos, menos o frio incomodava. Quase escorreguei algumas vezes. No trecho do brejo, dessa vez atolei os dois pés. Que merda foi aquilo. Os dois pés molhados, chovendo e muito frio. Depois disso, caminhar foi um sofrimento. Já sentia as bolhas nascendo. Paramos mais uma vez no primeiro mirante. E a descida final foi o trecho mais difícil para mim por causa dos pés. Não tomei o devido cuidado com os pés e me fodi. Regra número um de qualquer trilheiro: deixe os pés sempre secos. Foto 11.89 - Matheus retornando Foto 11.90 - A felicidade de subir mais uma montanha Foto 11. 91 - Encarar os brejos novamente Foto 11.92 - Curto demais essa foto Foto 11.93 - Passamos pelo brejo Voltamos ao início da trilha. Sentei e tirei as botinas. Aproveitamos para comer também. Ainda faltava a trilha do Hito XXIV, mais oito quilômetros ida e volta. O certo seria abortar esta trilha, mas vai saber se voltarei um dia. Descansamos quase uma hora e seguimos para nossa última trilha no parque. A trilha margeia a todo tempo o lago Roca. A dificuldade do caminho quase não existe, pois em todo momento o caminho é plano. O legal que tem umas prainhas no meio do caminho, bem bonitas. O fim da trilha é a divisa entre Argentina e Chile. Foto 11.94 - Lago Roca Foto 11.95 - Limite entre Argentina e Chile Foto 11.96 - Matheus em dois países ao mesmo tempo rsrs A volta foi bem tranquila, os pés estavam melhores. O cansaço dos dois dias de caminhadas intensas já era visível. Afinal, caminhamos mais de trinta quilômetros por dia. Pegamos a cargueira de volta e seguimos pela Ruta 3. Menos de um minuto de caminhada, erguemos o dedão para um carro que parou. Hector, o motorista, é guarda florestal do parque. Fomos conversando até a entrada do parque. Lembro que ele tava preocupado porque iriam asfaltar a Ruta 3 dentro do parque, isso na visão dele era muito ruim, eu concordei. Depois, seguimos caminhando um pequeno trecho. Minutos depois um casal israelense parou o carro para nós. Os dois tinham acabado de deixar o serviço militar em Israel e agora estavam explorando a América do Sul. Ficamos no centro de Ushuaia. Fomos até o letreiro de Ushuaia. Numa praça próxima, começamos a comer nossos últimos lanches. Um mundaréu de gaivotas se aproximou (risos). A todo momento o número de gaivotas aumentava. Quando percebemos que o conflito entre nós e as gaivotas seria inevitável por causa dos nossos pães, escondemos a comida e partimos com todo o cuidado do mundo. Seguimos até o centro de informações para usar internet e decidir onde dormiríamos naquele dia. Foto 11.97 - Ushuaia Foto 11.98 - Ushuaia Foto 11.99 - Ushuaia Foto 11.100 - Ushuaia Com o "sumiço" do nosso contato em Ushuaia, eu tinha tentado estadia na cidade através do couchsurfing. Quando acessamos a internet no centro de informações, vi que eu tinha um aceite de hospedagem na casa da Anahi. Seria só por aquela noite, pois no outro dia cedo já partiríamos para El Calafate. Voltamos para o hostel, pegamos o restante das nossas coisas e partimos para a casa da Anahi. Chegamos na casa, sua amiga nos recebeu, pois ela só chegaria mais tarde. Tinha um cara bem curioso na casa delas, ele havia de acabar o serviço de cortar a grama do quintal e aproveitava para tomar um mate. Deixamos nossas coisas de lado e começamos a conversar com os dois. O cara fazia todo o tipo de serviço e sonhava em ter diversos negócios para se mudar e viver deboas em alguma praia de clima quente. Assim, o assunto girava em torno de dinheiro. Ele tinha uma teoria sobre o dinheiro que me chamou a atenção, ele disse mais ou menos assim: "Você tem que ver o dinheiro como se fosse uma pessoa. Melhor, ver como se fosse uma relação entre pessoas. Tipo, se você está desesperado para estar junto com uma pessoa, essa pessoa se afasta de você. A mesma coisa com o dinheiro, se você está desesperado para ter dinheiro, ele não vem. Porém, se você não está nem ai pra pessoa, ela também se afasta de ti. A mesma coisa com o dinheiro, se você não quer ele, ele também não vai te querer. Portanto, a relação tem que ser a de querer, mas sem querer.". Fiquei pensando muito sobre isso depois, mas não pela parte do dinheiro e sim na parte que ele dizia porque as pessoas se afastavam uma da outra. Tomei banho, depois comemos os miojos que carregávamos desde o início da viagem. Anahi chegou e conversamos um pouco, ela é dançarina e muito simpática. Logo, ela saiu de novo, pois tinha um aniversário para ir. Assim, ficamos conversando mais um pouco com um pessoal que chegou na casa. Uma coisa que reparei que todos os ushuaianos (risos) não gostam de morar lá, e sempre perguntam o porquê de nós querermos viajar até a cidade. Nas conversas desta noite isso ficou muito claro. Por fim, dormimos. Era quatro da manhã o horário que acordamos. Ajeitamos nossa mochila e seguímos para o lugar que o ônibus sairia, pois não tem rodoviária em Ushuaia. O frio era intenso e para melhorar começou a chover forte. Depois de uns vinte minutos de caminhada chegamos. Colocamos nossas mochilas no bagageiro do ônibus e subimos na parte de cima do busão em busca das nossas poltronas. A falta de lugar pra ficar somado com a restrição de dias do nosso contato em El Calafate, apressou nossos dias em Ushuaia. Nada que eu possa reclamar, pois aqueles quatros dias foram demais. Deixamos de conhecer muita coisa na cidade, mas curti muito o que tivemos a oportunidade de conhecer. O Parque Nacional da Tierra del Fuego é o ponto alto do tempo em Ushuaia. Estar ali, cercado de montanhas e no meio de uma natureza ímpar faz tudo valer a pena. Overdose de beleza a todo momento. Os diversos lagos junto com o Canal de Beagle e as montanhas nevadas estampa sorriso no rosto de qualquer um.
  4. Hahahaha pior que é verdade mesmo. A foto 10.21 dá a impressão que eu sou mó fortão, mas é só efeito das roupas largas somada ao vento forte .
  5. Diego Minatel

    O Contorno da Ilha Grande

    Esse é um relato de uma volta quase completa por Ilha Grande. Primeiramente, queria agradecer o @Augusto por fazer o guia definitivo das trilhas de Ilha Grande (https://www.mochileiros.com/topic/1171-volta-completa-de-ilha-granderj-uma-caminhada-inesquec%C3%ADvel/). Salvei o relato e não tivemos problemas em realizar as trilhas. Então, esse relato não tem nenhuma pretensão em ser mais preciso ou descrever minuciosamente as trilhas, isso já foi muito bem feito pelo @Augusto . A ideia aqui é tentar transmitir as sensações que tive ao realizar a minha volta por Ilha Grande e tentar acrescentar algumas informações. Na minha visão, é possível realizar a volta (isso falando apenas da orientação no percurso) pela Ilha Grande tendo em mente apenas três coisas. A primeira é levar o relato do @Augusto , ele descreve muito bem as passadas das trilhas, os lugares e tudo mais. No meu caso, salvei o relato no celular e foi muito útil, principalmente nos dois primeiros dias, quando ainda não estávamos familiarizados com as trilhas. A segunda dica: no caso de dúvida siga à rede elétrica. A terceira, a mais importante, é interaja com as pessoas locais, em todas as comunidades da ilha haverá pessoas e todas elas conhecem as trilhas de acesso a comunidade em questão. Todas as pessoas que tivemos contato ajudaram-nos com informações e detalhes valiosos sobre as trilhas. Agora vamos ao relato! Desde a minha última viagem vinha pensando em qual seria o meu próximo destino, pois a data da viagem iria ser pelo final de ano. Queria algo não muito longe. Pensei na Serra da Canastra, Serra da Bocaina, Parque do Itatiaia e Paraty. Confesso que estava pendendo pelo Itatiaia, mas algumas lembranças vieram a tona e fizeram-me mudar de decisão. Agora estava decidido, seria Ilha Grande o destino e iria dar a volta na ilha. Das lembranças que alteraram o rumo da viagem, foram apenas vozes de uma amiga que sempre dizia-me para fazer a volta na ilha e naquele momento essas vozes me soavam como um chamado. Fazia alguns anos que eu viajava sozinho e mal planejava minhas viagens, apenas me deixava ir. Porém, final de ano é complicado, todos os destinos são invadidos por centenas/ milhares de pessoas, tudo fica mais escasso e os preços são todos mais altos. Ano passado já tinha me frustrado por não me organizar nessa data do ano e tive que mudar de última hora o meu destino. Dessa vez não cometeria o mesmo erro e teria que voltar a fazer algum planejamento antes de sair de casa. Como teria que me planejar porque não ter companhia? Fiz-me essa pergunta. A primeira pessoa que conversei sobre a viagem foi com o Vinicius, amigo que conheci no mestrado, e logo percebi que ele estava afim de fazer esse rolê por Ilha Grande. Depois entrei em contato com duas amigas que no primeiro momento tiveram interesse, mas com o tempo e outros planos não iriam conseguir embarcar nessa. Matheus é um velho amigo e está fazendo um mochilão de longa data pelo Brasil, falei com ele sobre a viagem e ele também animou de fazer parte da trupe. Assim, estava fechado o grupo: Eu, Vinicius e o Matheus. Dias antes de embarcar, pesquisei (no mochileiros.com) se haveria mais alguém fazendo a volta na mesma data e meio sem querer encontrei a Jordana. Ela estaria na ilha nas mesmas datas e estava procurando companhia para dar a volta na ilha. Entrei em contato com ela e consequentemente o grupo tinha mais uma nova integrante. Agora, éramos quatro. Confesso que não houve um super planejamento. O plano resumiu-se a levar comida para os primeiros dias, comprar as passagens para Angra com antecedência e ler alguns relatos. No entanto, é importante comentar que a decisão de fazer a volta na semana do Natal foi a mais acertada de todas, pois na semana entre o Natal e Ano Novo a maioria dos campings estavam trabalhando com pacotes e os preços aumentavam substancialmente devido a grande procura. Em questão de economia acho que o maior acerto da volta foi ser realizada entre os dias 20-27 de dezembro e não dos dias 27-02 como pensado inicialmente. Era uma terça-feira. Acordei cedo. Organizei minhas coisas, aprontei minha mochila e o relógio ainda marcava 09:00. A passagem para São Paulo era só para as 16:00. A ansiedade para mais um trekking era grande. Ouvi música, vi televisão e o tempo passava devagar. Às 13:30 decidi que era hora de partir, caminhei até a rodoviária. Lá fiquei esperando o tempo que restava. Sentei no ônibus que estava praticamente vazio. Li um pedaço do livro que eu levava comigo. Cochilei. Quando a marginal Tietê se tornou a paisagem na janela do ônibus percebi que, enfim, a viagem tinha começado. Na rodoviária de Sampa, logo encontrei o Vinicius. Vinícius é um amigo que conheci no meu mestrado. Ele faz parte do mesmo laboratório no qual eu trabalho e já está no final do seu mestrado. Essa viagem seria a primeira dele nesse estilo. Ficamos esperando e conversando até o Matheus chegar. O Vinícius e o Matheus não se conheciam até então. Foi feita as formalidades e saímos para achar algum lugar para jantar. Matheus é um amigo de longa data. Fizemos graduação, estágio e nossos primeiros mochilões juntos. Hoje em dia ele está em um período sabático viajando pelo Brasil e relata suas aventuras em seu blog (http://fazeraquelasuaviagem.com.br/). Às 22:00 embarcamos no ônibus. Eu, como sempre, levei um livro que eu sabia que não iria ler durante o percurso na ilha. Comecei a lê-lo e dez minutos depois desisti. Estava ansioso. Tentei dormir e não consegui. Depois me senti em viagem escolar, por causa que quase todos os outros passageiros do ônibus se conheciam e a viagem foi seguindo com música e violão. Isso até despertar a ira dos passageiros restantes. Enfim, mal dormi naquela noite. Quando consegui cochilar o ônibus tinha adentrado Angra dos Reis. Ficamos um tempo na rodoviária. Depois seguimos para TurisAngra e assim conseguimos a autorização para acampar na praia de Aventureiro. Logo em seguida pegamos um barco e navegamos até a ilha de codinome grande. Informação 1 - A TurisAngra fica no caminho para o porto. Saindo da rodoviária é só virar a esquerda e seguir caminhando na calçada até chegar na TurisAngra e depois no porto. Angra dos Reis Indo para Ilha Grande Já no barco ficamos fascinados pela cor da água, um verde bem escuro. Logo depois fomos margeando o trajeto de Saco do Céu até Abraão, que seria o percurso inverso do nosso primeiro dia. Atracamos no cais. A nossa espera estava a Jordana que havia chegado um dia antes. Antes da nossa chegada ela havia tentado a autorização no Inea para cruzarmos as praias do Sul e Leste para conseguirmos sair de Aventureiro e chegar em Parnaioca caminhando. Ela não havia conseguido a autorização e isso deu uma desanimada na hora. Jordana é uma guria tocantinense, estudante de medicina em Brasília e seria o seu primeiro trekking. Até aqui era tudo que eu sabia sobre ela. Conhecemos a Jordana e jogamos algumas conversas fora. Tomamos um café coado e logo seguimos para iniciar as trilhas (T01 e T02) até o Saco do Céu, onde iriamos dormir naquela primeira noite. O sentido do percurso foi determinado pelos relatos que consultamos antes de ir, pois todos falavam que o sentido anti-horário era mais tranquilo. Na minha opinião não existe muita diferença não, o principal ponto é entre Aventureiro e Provetá, onde no sentido horário a subida é numa tacada só, mas em compensação a maior parte do trajeto é descida. Enfim, acho que o sentido da volta não faz muita diferença na dificuldade do percurso. Informação 2 - Site com as informações oficiais das trilhas e suas nomenclaturas (http://www.ilhagrande.com.br/atrativos/atividades/trilhas-da-ilha-grande/) Bem-vindo a Abraão Nos primeiros metros vimos que seria difícil completar o dia. Levamos muita comida, o suficiente para uns quatro/cinco dias e assim, economizar o máximo com alimentação. Pra piorar fui na frente e segui a passos largos, sem perceber que estava forçando a passada do restante do pessoal que faziam algo do tipo pela primeira vez. Até o Aqueduto tudo estava tranquilo. Depois no caminho para a Cachoeira da Feiticeira o pessoal foi desanimando, até que o Matheus passou mal. Descansamos e depois fomos devagarinho. O clima entre nós era pesado, creio eu que ninguém além de mim estava curtindo caminhar naquele momento. A umidade também maltratava-nos. Quando chegamos na cachoeira da Feiticeira tudo mudou. Banhar naquelas águas renovou a energia de toda a trupe. Foi bom demais. À partir daí, começamos interagir como um grupo. Seguimos para a Praia da Feiticeira. A praia é bem bonita e muito movimentada. Tirei minha camiseta, torci ela e jorrou suor, parecia que havia acabado de lavar a camiseta. Ficamos por ali por um tempo, tomamos o primeiro banho de mar da viagem e depois seguimos caminhada. Aqui é importante ressaltar, voltando na trilha até uma bifurcação siga para onde continua a rede elétrica. Enfim, sempre siga a rede elétrica. A primeira foto do grupo - Matheus, Eu, Jordana e Vinicius Abraão Abraão Aqueduto Trilha T2 Mirante antes de chegar na Cachoeira da Feiticeira Cachoeira da Feiticeira Praia da Feiticeira Continuamos a caminhada. No meio do caminho tinha a indicação da Praia do Iguaçu, não fomos e seguimos adiante. A trilha desembocou na primeira praia da Enseada das Estrelas, a Praia da Camiranga. Já era final de tarde e a maré estava alta. Descansamos um pouco. Ao passar num trecho que a areia era toda coberta pelo mar, achei que conseguiria passar ileso (sem molhar o tênis) no momento em que a onda do mar recuasse, ledo engano, o trecho era grande demais para passar dessa forma. O resultado foi todos os tênis encharcados. Caminhamos descalços pelas praias de Fora e Perequê. A ansiedade de chegar logo no Saco do Céu era grande, caminhávamos lentamente e todas previsões de tempo que os nativos indicavam nunca confirmava-se em nossa passada. Chegar na Pousada Gata Russa foi um alívio. Próximo de Saco do Céu Eu tinha feito um pré contato com a Rilma, dona do lugar. O valor do camping é R$60 com café da manhã e R$40 sem café da manhã, logicamente ficamos sem o café e ainda demos aquela chorada básica e reduzimos o valor para R$35. Destruídos armamos as barracas e tomamos o merecido banho. Depois, como seria de praxe, cozinhamos bastante comida. Convidamos a Rilma para o jantar. Deitamos por um tempo nas redes. Fomos no cais tentar ver o céu, mas o tempo nublado não deixou as estrelas aparecerem. Logo depois fui para a barraca e desmaiei de sono. Gata Russa Gata Russa Na trilha até o Saco do Céu encontramos um bugio preto morto no meio da trilha. Foi meio chocante, nunca tinha visto um bugio e na primeira vez que vejo, vejo um morto. O Vinícius achou que era uma cobra que havia matado ele, mais especificamente uma jararaca. Eu fiquei preocupado com febre amarela. No entanto, comentei sobre isso com a Rilma e ela disse que o pessoal da comunidade havia falado que o bugio havia morrido eletrocutado. Isso deu um certo alívio. Não sou perito em coisa nenhuma, mas o bugio estava muito perfeitinho para ter morrido eletrocutado. Enfim, o que eu sei que foi triste ver aquela cena. Saco do Céu Na manhã seguinte, tomamos um café da manhã reforçado e assim aliviamos nossas costas com menos peso pra caminhada. Alongamos. Um pouco atrasado partimos, pois já tinha passado metade da manhã. Seguimos pela trilha T03 rumo a Freguesia de Santana. No início da trilha, do lado do campo de futebol, avistamos a diferente Praia do Funil. Particularmente, eu gostei bastante dessa praia, pois nunca tinha visto nada do tipo até então. O restante do pessoal não se encantou muito por ela. Acho que com a maré mais alta e o sol de fundo essa mini praia iria ficar demais. Praia do Funil Matheus e a Praia do Funil Depois seguimos para a Praia do Japariz e logo em seguida para a Praia de Freguesia de Santana. E assim, acabamos a trilha T03 que foi das mais tranquilas do percurso. Ficamos um tempo na praia. Mergulhamos. Tomamos uma coca gelada e descansamos. Praia de Japariz Praia de Japariz Trilha T03 Beleza de vista Trilha T03 Trilha T03 Trilha T03 Praia de Freguesia de Santana Preparando-se para partir de Freguesia Seguimos por detrás da igrejinha. Caminhamos um pouco e logo avistamos a placa indicando a trilha T04 sentido Bananal. A trilha começa com uma subida forte, porém nessa subida encontrei com a Dona Maria, ela mora na subida, e pedi algumas informações que ela prontamente respondeu e depois ela me disse que vendia sucos. Compramos os sucos. Escolhemos o de acerola. Cada um era R$5 e veio estupidamente gelado. Naquele momento senti que era o melhor suco que havia tomado na vida, era incrivelmente bom. Eu com minha mania de supor coisas, supus que haveria diversas Dona Maria pela volta da Ilha Grande, grande inocência a minha. Não surgiu em nenhum momento mais uma Dona Maria com seus sucos milagrosos. Não teve um dia que em nossas conversas não lembrássemos daquele suco de acerola gelado. Continuamos a caminhar. A trilha é cansativa. Quando avistamos o mar a nossa frente achamos que havíamos chegado em Bananal, mas era Bananal Pequeno. Paramos e descansamos um pouco. A praia de Bananal Pequeno é muito bonita e deserta. Voltamos a caminhar e depois de uns cinco minutos chegamos em Bananal, final da trilha T04. A igrejinha A Trilha T04 Bananal Pequeno Bananal Pequeno Chegando em Bananal Chegamos em Bananal - Na vendinha Bananal era um ponto de interrogação. Não sabíamos se passaríamos a noite aqui ou se seguiríamos para Matariz ou até mesmo para Maguariqueçaba. Resolvemos olhar o camping da Cristina, o espaço que ela tem no quintal da casa é bem bacana, mas o senhor que nos atendeu parecia meio confuso, dava informações contraditórias e resolvemos não ficar ali. Paramos numa casa para pedir informações e o dono da casa disse que poderíamos acampar no quintal da sua casa por R$30 (mesmo preço do camping da Cristina), ele com sua filha pareciam bem receptivos e então ficamos ali na casa do Juca Bala, na companhia do próprio e de sua filha Josi. Nos livramos das mochilas e fomos logo cozinhar o almoço. Pela primeira vez comi macarrão, molho de tomate e bacon. A fome é um bom tempero, mas estava muito bom esse rango. Depois fomos a beira mar. O Vinicius ficou no mar sozinho, como se fosse a primeira vez dele e o mar. Juntamos-se a ele e ficamos até a chuva nos expulsar do mar. Ficamos abrigado na vendinha. A chuva não cessava. A Jordana foi até a casa do Juca Bala e fez pipoca. Ficamos assistindo a chuva, que não tinha fim, debaixo da vendinha, de frente pro mar, comendo pipoca e bebendo as primeiras cervejas da viagem. Bananal Bananal Bananal A noite foi boa. Conversamos sobre tudo. Rimos demais. A Josi fez companhia por toda noite. Ela jantou conosco e a janta foi arroz com seleta de legumes, farofa e calabresa frita. A chuva não parou. Pedimos ao Juca se podíamos estender os sacos de dormir na área e dormir por ali mesmo, no relento. O Vinicius que estava sem saco de dormir montou a barraca na área e nós outros estendemos o sacos de dormir e dormimos com aquele ventinho frio que fazia na noite. Diferentemente do primeiro dia, nesse dia conseguimos desfrutar de todo o percurso, das praias, da comunidade, da nossa amizade e tudo mais. Esse dia foi um ótimo dia. A varanda Levantamos às 06:00. Tomamos o café e partimos para a trilha T05 rumo a Sítio Forte. A primeira parada seria a Praia de Matariz. Não sei ao certo o que aconteceu nesse percurso, foi o único no qual nos perdemos por um instante maior, apesar de ser pouco tempo. Seguíamos pela trilha e depois o caminho começou margear um mangue. O chão cada vez mais tinha buracos com ninhos de cobra. Quando os ninhos eram muitos decidimos voltar. Fomos voltando pela trilha e depois de uns cinco minutos avistamos uma ponte e a orla de Matariz. Creio que foi uma cegueira de olhar apenas pro chão que não nos deixou ver aquela ponte que estava logo ao nosso lado. Aliviados paramos um pouco em Matariz que estava deserta naquela hora do dia. Saindo de Bananal Rumo a trilha T05 Rumo a trilha T05 Trilha T05 Praia de Matariz Seguimos rumo a Praia de Passaterra. Cruzamos com uma gangue de cachorros. Quando chegou na bifurcação não fomos para a Praia de Jaconema e seguimos pela trilha principal. Chegamos em Passaterra e descansamos um pouco. O dia hoje seria o de maior quilometragem até então. Não perdemos tempo e seguimos a caminhada até Sítio Forte. Passamos pela Praia de Maguariqueçaba que estava vazia. Para mim Passaterra e Maguariqueçaba são praias bem parecidas. No final da praia seguimos pela trilha. Caminhamos por mais algum bom tempo e chegamos no final da trilha T05. Enfim, Sítio Forte. O lugar me agradou bastante, com um gramado amplo, alguns poucos moradores, um mar tranquilo, mas o melhor é o contorno da serra o fundo a quilômetros de distância. Ficamos abrigados em um sombra. Comemos, descansamos e enchemos as garrafas de água. O tempo parado ali foi grande. Trilha T05 Trilha T05 Praia de Passaterra Trilha T05 Trilha T05 Sítio Forte Sítio Forte Com as energias renovadas partimos para a trilha T06 com destino Araçatiba. Logo no início cruza-se a Praia da Tapera. Seguimos em frente. Caminhamos por mais uns trinta minutos e chegamos na Praia de Ubatubinha. Paramos só um pouco para descansar as costas e continuamos a caminhada que estava muito agradável. O dia estava nublado, em alguns momentos saiu algumas chuvas finas, mas sempre por pouco tempo. O clima facilitava a caminhada. O trecho entre as praias de Ubatubinha e do Longa é bem mais extenso e mais chato de caminhar. Porém, nada muito complicado. A trilha desemboca numa vendinha. Sentamos na vendinha e tomamos uma Coca 2 litros (R$10) bem gelada. Uma fato na Ilha Grande é que todas as bebidas, em qualquer lugar, vem muito gelada e isso me agradou muito. Ficamos descansando e vendo a bela Praia do Longa. Tínhamos combinado que de acordo com o horário e o clima seguiríamos ou não para a Lagoa Verde. Creio que era umas 13:00, portanto, tínhamos tempo de sobra e as nuvens de chuva tinham dado uma trégua. Resolvemos ir para a Lagoa Verde antes de ir para Araçatiba. Vendinha na Praia do Longa A trilha para a Lagoa Verde é tranquila. Acho que levamos uns quarenta minutos saindo da Praia do Longa. Chegar na Lagoa Verde é chegar em um paraíso. Desde do início do trekking já havíamos passados por muitos lugares de belezas ímpares, lugares muitos bonitos, mas agora a percepção de beleza estava num nível mais elevado, enfim, a Lagoa Verde é um paraíso. O verde da lagoa, principalmente pelo alto é encantador. Dentro de suas águas límpidas é possível ver cardumes e cardumes de peixes tão nitidamente como se estivessem em nossa palma da mão. Os peixes por lá são tão coloridos. Uma belezura de momento. Apesar de haver algumas pessoas no local somente nós estávamos nadando, portanto, por alguns minutos a lagoa foi nossa. Em certo momento fui queimado por uma água viva e o Vinicius pisou em um espinho. Assim, eu, ele e o Matheus resolvemos sair um pouco da lagoa enquanto a Jordana mergulhava com seu snorkel. Na saída, caminhando distraído eu pisei numa pedra. No ínicio achei que não havia cortado, mas depois de ver a poça de sangue que se formava debaixo de mim fiquei preocupado. Nesse momento surge o anjo, um anjo de dreadlocks, de nome Mari. Antes de eu esboçar qualquer reação ela já estava com o algodão na mão pressionando o machucado. Foi um corte bem grande na sola do pé. Com toda a paciência do mundo ela ficou ali esperando o sangue estancar. Ela me contou que é de São Paulo e sempre vem com seu pai e seu simpático irmãozinho para a Ilha Grande, mais especificamente a Praia do Longa. A Ilha Grande é sua segunda casa. Limpou o ferimento com álcool, aplicou os remédios que o Vinicius havia levado, fez o curativo e ainda ficou um tempo conversando conosco. Quanta gratidão. Fiquei tão feliz com aquela situação que nem mesmo lembrava do ferimento. Nunca irei esquecer a prontidão, a solidariedade e a doçura da Mari. Nunca é demais agradecer: Mari, muito obrigado! Lagoa Verde Lagoa Verde Lagoa Verde Lagoa Verde Depois de todo o ocorrido e a presença de nuvens carregadas decidimos partir. Ao colocar o tênis vi que seria difícil caminhar daquele jeito, mas seria suportável. Nos despedimos da Mari e fomos embora. Voltamos a trilha e na bifurcação subimos rumo a Araçatiba. Esse trecho de trilha é tranquila, porém pra mim foi difícil. A cada pisada do meu pé direito uma pontada de dor subia no corpo. O andar era complicado. Chegamos em Araçatiba. Iriamos ficar no camping Bem Natural. A praia de Araçatiba é bem grande e o camping fica no final da praia. Assim, caminhamos por mais uns vinte minutos debaixo de uma chuva forte até chegar no camping. O preço do camping é R$45 (caro!) sem café da manhã, mas é a melhor estrutura que encontramos em toda viagem. Ótima cozinha, muitos banheiros, alguns chuveiros quentes, locais cobertos para armar a barraca e tudo muito limpo. Conseguimos reduzir o valor para R$40. Montamos nossas barracas. Tomei o melhor banho da viagem. Chuveiro a gás com uma boa regulagem de temperatura, consegui massagear bem as costas. A Jordana refez o curativo do meu pé. Preparamos macarrão com molho de tomate, atum, bacon, milho e ervilha, fizemos suco e ainda ganhamos queijo parmesão ralado do Alexandre, um cara gente boa demais que estava acampado por lá também. Foi uma boa janta. Conversamos bastante com o Alexandre. Depois o Vinicius foi dormir. Eu, Matheus e a Jordana fomos beber umas cervejas num bar suspenso no mar. Antes das onze da noite estávamos de volta ao camping. Acordamos bem cedo porque queríamos chegar em Aventureiro o mais cedo possível. Fizemos café da manhã. Conversamos mais um pouco com o Alexandre e partimos para a trilha T08 rumo a Provetá. A trilha é bem agradável e as mochilas nesse momento já estavam bem leves em relação ao primeiro dia. Fomos em um bom ritmo. Chegamos em Provetá. Aqui é uma autêntica vila de pescadores. Não lembro de nenhum turista por lá. Paramos numa vendinha perto da igreja e compramos muitas frutas, destaque para a melancia que devoramos em instantes. Depois de uma dieta sem frutas era hora de comer frutas por todos os outros dias. Descansamos em uma sombra e por lá ficamos por quase uma hora. Finalzinho da trilha T08 Foto do grupo Provetá Provetá Provetá Provetá De Abraão até Araçatiba, caminhamos pela parte oeste da ilha que está voltada para o continente. O mar nesse trecho é caracterizado por suas águas plácidas e de coloração verde escura. Ao chegar em Provetá esse cenário muda drasticamente, pois agora inicia-se a caminhada pelo lado leste da ilha que está voltada diretamente ao mar aberto. O mar de Provetá até Lopes Mendes é mais bravo, com muitas ondas e sua coloração pende mais para o azul clarinho. Esse é um dos encantos de dar a volta na Ilha Grande conhecer dois tipos distintos de mar em um trecho tão pequeno de terra. Provetá Vinicius em Provetá Das muitas histórias que já ouvi nessa vida, talvez a melhor seja do João, morador de Provetá. João, um pescador com brilho no olhar e de fala mansa salvou um pinguim-de-magalhães, na qual deu o nome de Din Din, que encontrava-se machucado na orla de Provetá. Depois de meses juntos, Din Din partiu rumo a Patagônia. Depois disso, todo ano Din Din volta a Provetá para visitar o João pela gratidão e amizade, isso já ocorre por seis anos. Não tive o prazer de conhecer o João, mas teria sido imensamente gratificante dar um abraço nesse grande homem. Vou deixar o vídeo com ele contando a história que é muito melhor que minhas palavras: Gostamos bastante da Praia de Provetá, o clima menos turístico favorecia isso. Queria ter ficado mais tempo, talvez pernoitado, mas naquele dia queríamos chegar em Aventureiro. Pegamos a trilha T09 e seguimos a caminhada. No início da trilha é uma subida bem chata e sem vegetação, então há outro castigo aqui, além da subida, que é o sol. Difícil aquele trecho, e justo nesse dia o sol apareceu com toda a sua cara. Depois a trilha volta para a mata mais fechada, mas a subida nunca cessa. Sempre subindo. Com toda certeza, essa trilha é a mais pesada de todas. No final da subida, tem uns quatros bancos de madeira que de longe parecem troféus. Ficamos ali deitados por algum tempo. Resolvemos acabar logo com aquela caminhada e partimos para a descida. Nesse momento se desce em zigue-zague. Alguns escorregões e tombos. Descida até o fim. Víamos o mar, a descida estava no final e no fim estavam nossas energias. Depois de Abraãozinho, Bananal Pequeno e Araçatibinha, só faltava haver a praia de Aventureirinho antes de Aventureiro, falava o Vinicius enquanto dávamos risada, mas aquela risada com responsabilidade pois tínhamos um certo medo de haver mesmo uma praia de Aventureirinho. Pra nossa sorte não havia e pra melhorar o camping do Luís ficava bem do lado do final da trilha. Jogamos as mochilas no chão e pela primeira vez nos permitimos não cozinhar. Pedimos um PF (R$30) no camping. Início da T09 - Vista para Provetá Início da T09 - Vista para Provetá O fim da subida e a cara da derrota O início da descida Camping do Luís Camping do Luís Camping do Luís Camping do Luís Caminhei em direção ao coqueiro deitado que é o cartão postal da Ilha Grande. Não sei, coqueiro deitado não me parece um bom nome, o coqueiro está mais para sentado do que para deitado. Prefiro chamá-lo de coqueiro degrau. Entretanto, uma coisa que não tem como discordar que ele é lindo demais, merece o título de cartão postal. Aquele pequeno trecho de praia onde ele se esconde é de uma beleza ímpar. O coqueiro deitado O coqueiro deitado O coqueiro deitado Eu eu o coqueiro Jordana e o coqueiro Depois do almoço o Vinicius se sentiu mal. Ele ficou pelo resto do dia amoitado tentado recuperar-se. Fomos pro mar, ficamos nos divertindo com as ondas do mar que até então era novidade nessa viagem. O Matheus desfilou seu estilo de nado que mais parecia com um afogamento. A tarde naquele mar foi gostosa. Eu estava com certo receio de pisar em algo e abrir o pé novamente. Com isso sai do mar mais cedo que gostaria. Tomei banho. No resto do dia me encostei numa rede. Que delicia. Ficar de bobeira deitado numa rede me lembrava os dias viajando de barco pela amazônia. A noite veio e o lual em Aventureiro não aconteceu. O vento chegou e deixou a noite na rede mais delicia ainda. Só o Vinicius montou a barraca. De resto ficamos todos pelas redes do camping. Dormir na rede naquele cenário foi bom demais. No fim, até o Vinicius desistiu da barraca e se arranjou numa rede para dormir. Aventureiro Aventureiro Aventureiro Matheus e Aventureiro Matheus e Aventureiro Acordei, ainda tudo tava escuro. Caminhei a beira mar e fiquei ali a espera do nascer do sol. A Jordana juntou-se a mim. Pouco a pouco o sol ia erguendo-se e dando brilho aquela praia tão especial e de um mar de cor tão peculiar. Eu e o nascer do sol O nascer do sol em Aventureiro Jordana e o sol Senti muita vontade de passar o resto da viagem em Aventureiro. Desistir da volta e ficar ali em paz. Se algum dia eu voltar para Ilha Grande, será para ir direto rumo Aventureiro e ficar uma semana inteira ali, acampado à beira mar. Entre o céu, o mar, a areia da praia e uma sombra pra descansar. Que saudades de Aventureiro. Que saudades. Aventureiro O resumo de Aventureiro O Vinicius tinha acordado renovado. Tomamos um café da manhã reforçado com direito a pão e queijo deixado por um família que conhecemos no dia anterior. Tentamos uma conexão de internet (no camping tem wifi) para antecipar os votos natalinos com nossas famílias. Tentativa bem sucedida. Saímos era tarde da manhã. Fomos querendo ficar. Não tínhamos a permissão do Inea para atravessar as praias do Sul e Leste, mas fomos mesmo assim. Afinal, não tinha barcos para Parnaioca naquele dia. Logo no inicio da caminhada, no trecho em que caminha-se entre rochas até a Praia do Sul o momento de maior tensão da viagem. O Matheus distraído pisou na parte da pedra que tinha tipo uma cachoerinha, portanto estava molhado. E assim, foi descendo em direção do mar, escorregando pelo pedra que parecia um tobogã. Na hora que olhei bateu um desespero grande. Já estava tirando a mochila pra pular no mar quando o Matheus milagrosamente conseguiu travar-se num trecho inclinado da rocha. Fomos em sua direção, pegamos sua mochila. Ele saiu tranquilo, na visão dele ele nem tinha passado por nenhum perigo. Porém, eu e o restante do grupo ficamos em choque. Foi um grande susto. A caminhada infinita pelas também infinitas praias do Sul e do Leste foi de tensão inicialmente, mas a beleza do lugar logo nos fez esquecer do ocorrido. O Matheus ganhou o apelido de Quase Morte e a sobrevida que ele ganhou nesse dia fez ele disparar no percurso. Ele caminhou na nossa frente pela primeira vez e assim foi até não ser mais visível aos nossos olhos. Esse trecho judia, pois só se caminha pela areia e o sol estava forte demais. Eu me encantei pela travessia entre a praia do Sul e do Leste, na parte que atravessa-se pelo mangue. É de uma lindeza indescritível. Depois foi caminhar e caminhar debaixo de um sol escaldante, mas a beleza do lugar tornava tudo mais fácil. O trecho de pedra Praia do Sul Praia do Sul Belezura O Mangue O Mangue Praia do Leste Praia do Leste Fim de caminhada Praia do Leste Beleza é relativo. Direto eu digo que esse ou aquele lugar é o mais bonito que já vi em minha vida, para mudar de opinião cinco minutos depois. Sobre as praias de Ilha Grande isso também era uma verdade. Toda hora falava que essa ou aquela era a praia mais bonita da ilha. Porém, a verdade que para mim as praias do Sul e do Leste são as mais bonitas. Areia branquinha e mar límpido. Enquanto caminhávamos molhando os pés consegui ver uma raia que nos acompanhou por instantes nadando no rasinho. Lindeza. Naquela situação fiquei feliz demais em ver uma raia. A parte final da Praia do Leste em contraste com a vegetação é lindo demais e é a imagem que eu lembro quando recordo da ilha. Matheus no paraíso A imagem que grudou na retina - Praia do Leste Todas as trilhas que fizemos em nenhuma tivemos problemas com água, exceto essa. O trecho que caminha-se pelas praias do Sul e Leste era de se esperar que não haveria água. São quase duas horas exposto ao sol, então o consumo de água é alto. Ao chegar no trecho que liga a Praia do Leste a Parnaioca volta-se a caminhar em vegetação fechada. Entretanto, nesse trecho não há rios para encher as garrafas. No ínicio da trilha já estávamos sem água. Completar esse percurso foi um martírio, perdíamos muito água pelo suor e a boca estava seca. Quando avistamos o fim da trilha foi um alívio. Chegamos em Parnaioca não era nem uma hora da tarde, tínhamos todo o resto do dia para nós. Nesse dia era véspera de Natal. Seguimos para o camping do Silvio. Não tivemos o prazer de conhecer o Silvio que estava no hospital se recuperando de alguma enfermidade. Fomos recepcionados por seu filho Célio e sua família. Almoçamos. Organizamos nossas coisas e levantamos acampamento. Descansamos nos colchonetes do camping. Depois ficamos na praia. O dia estava ensolarado e Parnaioca estava linda demais. Pena que quase não registramos Parnaioca em fotos. No descer do sol voltamos ao camping. Tomamos banho e pedimos um PF para nossa ceia de Natal. Depois fomos convidados para uma fogueira à beira mar. Aceitamos. Ficamos pouco tempo, não entramos em sintonia com o outro grupo que estava em outra vibe. Voltamos para o camping e ficamos o resto da noite conversando e rindo. Foi boa demais aquela noite. Antes de irmos dormir, como um presente de Natal, o céu se abriu pela primeira vez durante a noite nessa viagem. Curto demais ver o céu estrelado e naquela noite o céu estava bonito de se ver. Fiquei admirando as estrelas até o cansaço me dominar. Parnaioca Parnaioca Acordamos cedo. Alongamos. Tomamos um café da manhã fraquinho, pois já não havia muitas coisas nas mochilas. Seguimos para a trilha T16 rumo a Dois Rios. No caminho para a trilha tirei as únicas fotos de Parnaioca que naquela hora do dia não estava nada bonita em comparação com a tarde anterior, na qual aproveitamos a Praia de Parnaioca. Essa trilha é chatinha apenas nos primeiros vinte minutos, mas depois é quase toda plana. Delicia de caminhar assim. A T16 é a trilha mais longa de Ilha Grande. Porém, nem de longe é a mais difícil. A trilha é cheia de bugios e ao atravessar algumas áreas de posse deles, eles gritam para espantar os invasores e os gritos de um bando de bugios é assustador, principalmente a primeira vez. Não consigo nem fazer um paralelo ou comparação. Acredite é assustador. Na terceira ou quarta invasão no territórios deles você acostuma com o barulho e começa até aproveitar aquele som peculiar. Quando avista-se a Toca das Cinzas a trilha está no final. Essa toca diz a lenda que era usada para deixar os presos mal vistos do presídio de Dois Rios apodrecendo até a morte. O final da trilha é em uma vegetação rasteira diferente de toda vegetação vista na ilha, não consegui identificar qual era essa vegetação, mas era bem bonita. O fim da T16 anuncia-se no mesmo momento que avista-se o presídio de Dois Rios. A trilha T16 A trilha T16 A Trilha T16 A Trilha T16 A Trilha T16 Comunidade de Dois Rios Dois Rios O presídio de Dois Rios é uma tentativa de isolamento e de dificultar a fuga dos detentos, como feito na ilha de Alcatraz nos Estados Unidos. Esse presídio abrigou alguns célebres prisioneiros. O caso mais famoso foi do traficante Escadinha que fugiu de helicóptero do presídio no seu banho de sol. O presídio era de segurança máxima e tal fuga vive até hoje no imaginário da sociedade, inspirando contos, livros e filmes. Porém, o preso mais famoso com toda certeza foi, o fora de série, Graciliano Ramos. Graciliano foi preso por subversão acusado de ser comunista no ano de 1936 no governo Vargas, que na época namorava com os regimes fascistas da europa. Como admitiu posteriormente, Graciliano na época não tinha afinidade com o comunismo, algo que foi só acontecer no pós guerra em 1945. Em Dois Rios, Graciliano terminou de revisar, que para muitos é seu melhor livro, o livro Angústia. Quinze anos depois (e pouco tempo antes de falecer) da sua prisão ele publicou Memórias do Cárcere em que conta seus dias na prisão em Dois Rios. Eu curto demais literatura e antes de embarcar nessa viagem li atentamente o livro Angústia do qual ainda não sei se gosto. Graciliano entrou na minha vida na época que eu prestava vestibular. Tive que ler pela primeira vez Vidas Secas nessa época. Esse foi dos melhores livros que já li. O livro foi muito importante na formação do meu caráter e na minha forma de ver e conceber o mundo em que vivemos. Portanto, estar de frente aquele presídio era estar de frente com uma parte da história de alguém que é importante em minha vida. Não foi especial estar ali, mas tinha que estar naquele lugar e ver um pouco da história. Hoje, resta apenas o paredão da entrada principal do presídio que foi implodido em 1994. O presídio O presídio Desde da caminhada até Aventureiro tomar uma água de coco gelada virou nossa obsessão. Não encontramos em Aventureiro e nem em Parnaioca. Chegamos em Dois Rios e tínhamos a certeza que naquele lugar conseguiríamos, por fim, tomar o coco gelado. Não rolou, nos lugares em que procuramos nada de coco. A comunidade estava meio deserta, afinal era dia de Natal. Tomamos outra Coca de dois litros estupidamente gelada e estupidamente cara, R$14. A comunidade de Dois Rios é bem estilo vilinha de cidade de interior. Eu gostei bastante, porque as casas ficam bem distante das praias. A comunidade é cheia de gramados, isolando a overdose de areia de todas as outras praias, areia que fica apenas na orla. Fomos pra praia e encontramos uma boa sombra. Ficamos na sombra. Dormimos. Almoçamos por ali. Passamos toda a tarde naquele lugar. Surgiu a ideia de montar acampamento, afinal aquela paisagem era demais. Mais uma vez o mar surpreendia por sua cor. Dois Rios não deve em nada em questão de beleza para nenhuma outra praia da ilha. No fim da tarde, o tempo já anunciava chuva. Já havíamos desanimado da ideia de seguir a volta da ilha por Caxadaço, Santo Antônio e Lopes Mendes e com aquele tempo decidimos cortar a pontinha norte da ilha e seguimos para a trilha T14 rumo a Abraão. Praia de Dois Rios Praia de Dois Rios Praia de Dois Rios Descanso na Praia de Dois Rios O almoço Cozinhando O contorno da Ilha Grande seria completo se seguíssemos pela T15 rumo a Caxadaço e terminasse a volta pela ponta norte da ilha. Para fazer isso teríamos que fazer um camping selvagem em Caxadaço. Não tínhamos informação de como era o reabastecimento de água por lá, a chuva viria muito forte naquela noite, tinha a questão da trilha entre Caxadaço e Santo Antônio que parece ser confusa e nossos corpos já começavam dar sinais de esgotamento. Decidimos assim, seguir a trilha T14 e ir direto para Abraão, e no dia seguinte faríamos esse trecho sem mochilas. E assim, partimos para nosso último trecho com nossos mochilões. A T14 na verdade é uma pista, a única que transita carros autorizados na ilha. A primeira metade é de subida e a outra metade é só descida. Já na descida tem um mirante bem bonito. A alegria do sucesso já dominava-nos e o cansaço parecia secundário. Demos bastante risada nesse trecho de caminhada. A maior parte dos assuntos eram recordações da volta. Quando chegamos em Abraão o alívio era o sentimento da vez. Agora era hora de comemorarmos. Fomos até o camping Cachoeira. Eu tinha feito contato, antecipadamente, com a Noé e conseguimos a diária de R$25 no camping, um achado por ser a semana dos preços caros. Arrumamos nossas coisas no camping e logo começou a chover. Chuva forte. Chuva que impediu de sairmos das barracas. Chuva que impediu nossa comemoração do final da volta. A chuva ficou até a manhã do dia seguinte, de maneira intensa. O que fez que a nossa decisão de cortar a ponta norte da ilha fosse acertada. O Vinicius nessa noite resolveu antecipar sua partida. Logo ao amanhecer ele partiu. A trilha T14 O mirante O grupo no mirante Abraão Abraão Volta completada O dia amanheceu chuvoso. Agora éramos três. Demoramos mais que o normal para sairmos das barracas, afinal, a volta estava dada e o descanso era merecido. Tomamos o café da manhã reforçado preparado pela Jordana e saímos caminhar por Abraão. O sonhado coco gelado surgiu nessa manhã, mas de forma melancólica veio em um copo plástico e não diretamente da fruta. Enfim, estava bom demais. Ficamos a olhar o finito mar com Angra ao fundo. De chinelos nos pés resolvemos ir até Lopes Mendes. Vinte minutos depois de entrar na trilha T10 bateu o arrependimento de ir, pois começou a chover e toda hora meu chinelo se desfazia, e ainda tinha a preocupação em machucar o machucado novamente (ou seria remachucar o ferimento existente?). Caminhamos em frente. Depois de uma hora de caminhada estávamos na praia de Palmas. A chuva cessou com a nossa chegada, avistamos umas espreguiçadeiras e ficamos por lá. As espreguiçadeiras em Palmas Almoçamos. Decidimos não mais avançar até Lopes Mendes, o tempo estava fechado e o sol já estava baixo. Ficamos por ali o resto da tarde. Quando a chuva iniciou-se, novamente, partimos rumo a Abraão. Apesar da chuva, essa trilha foi a mais tranquila, sem peso nas costas e por ser o último trecho de trilha que eu iria fazer naquele ano que se encerrava. Tive prazer em cada passo que dei nos últimos sessenta minutos de caminhada. A trilha escorregadia e a chuva incessante não atrapalhava em nada. E assim que avistei os primeiros telhados na enseada de Abraão a sensação de missão cumprida me dominou juntamente com a felicidade. Praia de Palmas Praia de Palmas O Pico do Papagaio é o segundo ponto mais alto da Ilha Grande com 982 metros. O ponto mais alto é o Pico da Pedra D’Água com 1035 metros. Porém, o Pico do Papagaio é acessível por trilha (T13) e sua vista é incrível. A trilha é considerada a mais difícil da ilha em questão de preparo físico. Queria fazer a trilha de madrugada para ver o nascer do sol de cima do pico. Não sei explicar a minha relação com as montanhas. Quando digo montanha, excluo a definição literal e jogo no mesmo significado morros, serras, pedras ou qualquer elevação territorial que se destaca no horizonte. Nasci numa cidade plana e por isso, que até onde eu saiba, tinha dos maiores índices de bicicleta per capita do país. Fui conhecer montanhas tardiamente, talvez isso fez eu ter essa fascinação. Só sei que do alto de algum pico, de onde a imensidão domina a paisagem, d'onde faça eu ver o quão pequeno sou é onde sinto-me melhor. Ali do alto é que eu acho o meu equilíbrio de tempos em tempos. Entre o mar e a montanha sempre irei ficar com a montanha. Por isso, o Pico do Papagaio para mim era o ponto alto dessa viagem. No início do dia quando tive a certeza que não daria para subir o pico naquele dia e nem no próximo (por causa das chuvas e da falta de visibilidade), achei que iria ficar frustado. A frustração não veio. Os dias a beira mar haviam compensado e de certa forma o mar me trouxe esse equilíbrio. Inicialmente iria partir no próximo dia no final da noite, mas com o tempo ruim decidi partir no início do próximo dia. Com ressalvas tinha conquistado o objetivo de dar a volta na Ilha Grande, estava satisfeito com tudo que eu havia vivido. Agora sobrava uma noite e era hora de comemorar. Saímos prum bar, comemos bem e bebemos até o inicio da madrugada. As recordações e as risadas deram o tom da despedida. A comemoração No outro dia acordei cedo. No escuro caminhei por Abraão rumo ao cais. O relógio marcava 06:00, sentei no cais e esperei. Na outra ponta havia um grupo - que imagino eu - que havia pernoitado lá e tocava alguma música. Me aproximei. Não reconheci a música. No momento que o sol se levantava acabei dormindo. Dois caras me acordaram e um deles me perguntou se eu estava procurando hospedagem, eu disse que estava partindo. Corri e consegui alcançar o barco que já estava saindo. Sentei no barco e dormi de novo. Acordei no porto. Novamente com pressa fui até a rodoviária. Subi no ônibus e mais uma vez dormi. Assim, me despedi de Angra e sua Ilha Grande, que facilmente poderia ser chamada de Ilha Bela ou, para evitar o plágio, melhor seria Ilha Linda. A última foto da ilha Para mim essa viagem foi muito especial. Reencontrar o Matheus foi muito bom, amigo que dividiu comigo tantas experiências, desde das aulas da época da universidade, passando pelo companheirismo nos projetos sociais nos quais nos envolvemos, nos dias de estágio no qual também dividimos o mesmo teto até chegar na nossa iniciação em mochilões, no mochilão pela América do Sul. Passar dias com o Vinícius fora do ambiente, por muitas vezes carregado, do laboratório e conhecê-lo de uma forma mais real também foi legal demais. Conhecer a Jordana de uma forma tão casual também foi muito bom, ela deu o toque feminino que faltava no grupo. Acho que formamos um belo grupo. Contornar cada canto da ilha foi surpreendente. Cada nova praia era uma beleza diferente. As trilhas são todas cheias de charme. Beleza não falta nesse trekking. Claro que existem os pontos altos como Lagoa Verde, Aventureiro e Parnaioca em que as belezas são mais gritantes e a paz prepondera nesses lugares tornando-os mais especiais ainda. Porém, caminhar esses dias sem a companhia da Jordana, Matheus e Vinicius fariam com que esses lugares não fossem tão belos. A soma dos lugares, do nosso grupo e das pessoas que cruzaram nosso caminho nessa jornada fizeram dessa viagem, uma grande viagem. Só tenho agradecer aos céus por mais essa oportunidade. Jordana, Matheus e Vinicius obrigado pela companhia e, principalmente, pelas boas memórias que teremos desses cansativos, porém incríveis dias. Muito Obrigado! E agradeço também os pacientes leitores que conseguiram chegar ao fim desse longo relato. Obrigado! Nos vemos pela estrada. Abraços, Diego Minatel
  6. Parte 10 - Enfim, o fim do mundo "É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós." O conto da ilha desconhecida, José Saramago A Terra do Fogo é uma ilha localizada no extremo sul da América do Sul. A população total da ilha é menor que 300 mil habitantes (contando tanto a parte chilena quanto argentina). O clima na ilha é bastante instável e por estar localizada muito próxima da Antártida é de se imaginar que o frio é dominante na ilha. Então, por que um lugar que é tão frio se chama Terra do Fogo? Voltamos ao passado novamente. Antes do contato com os europeus, a América era inteiramente populada de norte ao sul. Isso não era diferente na Terra do Fogo. Existiram alguns povos que viveram por lá e todos eles faziam fogueiras permanentes para sobreviver ao frio intenso da região. Assim, navegadores europeus que margeavam a ilha avistavam uma infinidade de fogueiras. Consequentemente, a ilha foi batizada de Terra do Fogo. A principal atividade econômica da Terra do Fogo (parte argentina) é a extração de gás natural e petróleo, mas há também diversas empresas de eletrônicos, principalmente em Rio Grande, que conseguem competir no mercado nacional graças a incentivos fiscais. Hoje o turismo é parte importante da economia local, principalmente para as cidades de Ushuaia (Argentina) e Puerto Williams (Chile). A ansiedade de chegar em Ushuaia era muito grande. Nem consideramos o convite do Desiz de passar mais tempo em Rio Grande. Queríamos estar em Ushuaia. Acordamos cedo e nos despedimos do Desiz. Saímos caminhando rumo a saída da cidade. Desiz tinha nos informado para pegar um ônibus circular que nos deixaria a uns 15 km de Rio Grande num posto da YPF, bem na união das duas pistas que leva-se a Ushuaia. Então, era o melhor lugar a se pedir carona. Fomos até um ponto de ônibus e esperamos. Quando parou o ônibus, o Matheus conversou com o motorista e explicou aonde queríamos chegar. Enfim, a conversa foi desencontrada, pois o motorista nos deixou na entrada da cidade. O dia tinha começado mal. Voltamos a caminhar. Caminhamos e caminhamos. A ideia de começar a caronar cedo tinha ido pro espaço. Nisso um carro parou, o motorista veio conversar conosco. Ele já viveu uma vida de mochileiro também e se solidarizou com a nossa caminhada. Falou para entrarmos no carro e disse que nos levaria até o posto da YPF. O nome dele é Javier e trabalha como engenheiro de petróleo na cidade. O tempo com o Javier foi bem curto, mas muito agradável. Chegamos no posto da YPF, nos despedimos do Javier e ele já acelerando o carro disse sua última palavra para nós: "Suerte". Ficamos na saída do posto da YPF (pra variar!). O fluxo de carros estava bem baixo. A aposta dessa vez era que um caminhão seria o nosso salvador, pois na Argentina não havíamos conseguido até então uma carona de caminhão. Quando chegamos na pista eu tinha a certeza que essa carona seria a mais fácil de todas, pois agora todos veículos que passavam por ali, certamente, iriam para Ushuaia. Então, era só esperar. Foto 10.1 - Matheus se esforçando em segurar a plaquinha no vento de Rio Grande Na teoria não tinha como dar errado pedir carona ali. Porém, a prática sempre vem colocar à prova a teoria. Os carros e caminhões que passavam nem esboçavam uma carona para nós. E assim foi, erguíamos o dedão da esperança a todo carro que passava, mas sem nenhum sucesso. O pior que dessa vez estava tão frio e ventava tanto que nossa abordagem se resumia em segurar a plaquinha e erguer o dedão. Rio Grande é conhecida como a cidade dos ventos. Nos meus dias de Patagônia a única coisa que não faltou foram ventos fortes a todo momento. Entretanto, nada se compara aos ventos de Comodoro Rivadavia, Rio Gallegos e Rio Grande. Ficar no relento nesses lugares é uma prova de resistência. O vento chega a machucar. Neste dia em Rio Grande era tão forte o vento, que você tinha que fazer força para ficar parado. Não estava nada gostoso ficar ali esperando. Para melhorar começou a chover depois de algum tempo. O mais difícil nos ventos patagônicos é mijar ao ar livre. É preciso conhecer um pouco de física para realizar um simples ato (risos). Se você não analisar a direção do vento, a chance de tomar um banho nada higiênico é grande. O problema fica mais difícil porque o líquido viaja por muitos metros antes de espatifar-se pelo chão. Então, é importante analisar todo o entorno antes de realizar o ato, senão você pode fazer cosplay de São Pedro e criar uma chuva passageira. Ficamos umas quatro horas pedindo caronas. Não estávamos mais aguentando ficar no relento. Estava muito frio e o vento era insuportável. A chuva fina que caía mais parecia uma tempestade somada ao vento. Um pingo de chuva que acertava o rosto era como uma pedrada. Decidimos que não valia a pena ficar mais tempo naquela situação. Assim, começamos a caminhar no sentido contrário, ou seja, de volta para Rio Grande. Continuávamos a pedir caronas para os carros que passavam por nós, mas sempre caminhando. Como de costume para todo carro que refugava a parada, nós cumprimentávamos e desejávamos boa viagem. Em um desses casos, minutos depois o carro retornou e o motorista veio falar comigo. Ele disse que podia nos levar até Tolhuin. Eu nem sabia da existência dessa cidade, mas o motorista disse que ficava no meio do caminho entre Rio Grande e Ushuaia. Então, entramos no carro. Conhecer o Beto foi o último grande presente da busca pelo fim do mundo. No começo da carona ele falava um espanhol incompreensível para mim e com o passar do tempo, a confiança dele em nós foi aumentando e o seu falar foi se transformando. Creio que ele estava nervoso com nossa presença, era a primeira vez que dava carona e não sabia o que iria encontrar. Beto é um nativo da Terra do Fogo, nasceu e mora em Toulhin. Ele trampa para a prefeitura da cidade, atendendo as ocorrências que acontecem na Ruta 3. O início da viagem foi tranquila e sem muitas conversas. O Beto parou no posto da YPF, comprou água quente e mate. Ainda parados no posto, ele preparou o mate. Agora em movimento compartilhávamos o mate e as conversas, timidamente, começaram a surgir. Fomos parados por uma fiscalização policial, tinha alguma coisa errada com o carro do Beto. O policial estava dando o maior sermão nele, ele se explicava dizendo que era o primeiro carro dele e que não sabia dessas coisas. Enfim, o policial nos deixou prosseguir viagem. Eu perguntei pro Beto quantas vezes ele tinha usado aquela desculpa, ele caiu na risada. Depois disso, tudo ficou mais fácil entre nós três. Foto 10.2 - Beto no volante e eu com a garrafa térmica Foto 10.3 - La ruta Foto 10.4 - Quase o fim da Ruta 3 Foto 10.5 - Não chove não! Foto 10.6 - O trajeto A chuva estava intermitente, aparecia e desaparecia. A música dentro do carro era boa demais, mas eu não conhecia nenhuma. De repente, o Beto parou o carro no meio da pista e desligou o som. Fiquei sem entender. Ele saiu do carro e foi até uma cruz que estava na beira da pista. Ajoelhou-se e começou a rezar. Depois de alguns minutos, voltou para o carro e sem falar nada acelerou o carro. Percorremos alguns quilômetros em silêncio. Beto quebrou o silêncio e nos explicou o porquê daquilo. Anos antes, seu tio estava dirigindo sentido Rio Grande quando teve uma parada cardíaca. Assim, o carro capotou e seu tio não resistiu aos ferimentos. Ele tinha muito apreço pelo tio, disse que era como um pai. Agora, toda vez que passa por ali, ele reza em memória do tio. Confesso, que foi uma cena bem bonita de presenciar. Foto 10.7 - A chuva que cai Foto 10.8 - As montanhas começam a aparecer Já viajei bastante por ai e das coisas que mais gosto de ver é a transição de vegetação pelo caminho. Nesse sentido essa viagem é bizarra, pois não há uma transição do deserto patagônico para a região verde. O que acontece é que num segundo você está no deserto e no outro está numa região completamente verde e cheia de montanhas em volta. Isso me chamou muita atenção. É como se houvesse um corte, de um lado é deserto e do outro floresta. Foto 10.9 - Chegando perto de Tolhuin Foto 10.10 - O entorno Foto 10.11 - O verde que surge após o deserto Chegamos em Tolhuin, a viagem tinha sido bem boa. Muita conversa e mate. Devia ser umas duas da tarde, o horário que o Beto entra no serviço é as cinco. Ele resolveu não parar em Tolhuin, perguntou se queríamos conhecer um mirante da cidade. Como de praxe, dissemos "Buera". Entramos num parque com estrada de terra. O entorno é lindo demais, demais mesmo. A boa música no carro do Beto continuava. Acho que a música alternava entre Reggaeton e Cumbia. Chegamos. Depois, fomos caminhando até o mirante. O céu estava carregado de nuvens, o que deixou o cenário meio melancólico, mas belo do mesmo jeito. Foto 10.12 - Sobe, sobe Foto 10.13 - O verde de Tolhuin e o lago Fagnano ao fundo Foto 10.14 - Lago Fagnano Foto 10.15 - Beto e Matheus Foto 10.16 - O verde Foto 10.17 - Matheus no mirante Foto 10.18 - Beto tirou uma foto do Matheus, mas também flagrou eu tirando uma foto Foto 10.19 - O registro oficial, Matheus, Beto e Diego Depois retornamos a Tolhuin. Beto nos levou as margens do encantador Lago Fagnano. Estava frio, mas o vento ali já era mais agradável e, consequentemente, suportável. Ficamos um bom tempo naquele canto, conversando e dando risadas. A timidez inicial do Beto, não existia mais, ele nos contava histórias e mais histórias. Dessas histórias a que eu mais me lembro é em relação aos cachorros da ilha. Ele disse que existem muitos cachorros na região de Tolhuin, a população não comportou todos eles e muitos viraram de rua. Na busca por comida esses cachorros foram afastando-se da cidade e nas florestas, como no livro do Jack London o Chamado Selvagem, foram tornando-se selvagens. Hoje eles são um "problema" para a cidade, pois invadem criação de ovelhas e matam boa parte do rebanho para se alimentarem, além de ter registros de ataque a humanos também. Foto 10.20 - As margens do Lago Fagnano Foto 10.21 - As ondas do lago Foto 10.22 - Beto e o celular Foto 10.23 - Matheus e o lago Foto 10.24 - O entorno Foto 10.25 - Matheus e o Beto Foto 10.26 - Das fotos que eu mais gostei Fomos até a padaria de Tolhuin, que é considerada, pelo próprio dono, a padaria mais famoso do mundo. Na entrada vê-se o tamanho da fama da padaria, fotos de diversas celebridades que passaram por ali. A padoca é bem bonita e cheia de doces. Cada um comeu um churros, que estava mais do que bom. Já era quase cinco horas, o Beto tinha que trabalhar. Assim, ele nos deixou na Ruta 3, aonde tentaríamos a sorte novamente. Agradecemos muito ao Beto por ter nos dado a oportunidade de conhecermos sua cidade. Matheus presenteou-o com a sua última fitinha do Senhor do Bonfim. O Beto é outro cara que chamo de irmão. Não tenho palavras (como sempre!) para agradecer o que ele fez por nós nesta viagem. Ele nos salvou quando já tínhamos desistido de pedir caronas, íamos seguir de ônibus. Depois, em pouco mais de uma hora de viagem ele se sentiu confortável em mostrar toda a gentileza de sua pessoa. Nos levou a lugares que nunca conheceríamos se ele não tivesse surgido em nosso caminho. Nos contou histórias que eu nunca haveria de ouvir. Ele foi o primeiro nativo da Terra do Fogo que conheci. O que fica é a lembrança da sua generosidade fora do comum. Por isso, o que me resta é dizer muito obrigado ao Beto. Espero que ele esteja agora do jeito que mais gosta, em cima de um cavalo cavalgando pelas pradarias patagônicas. Menos de cinco minutos na estrada e conseguimos uma carona até Ushuaia. Era a carona mais rápida da nossa história. Uma caminhonete do hospital de Tolhuin passou por nós e erguemos o dedo. A caminhonete avançou mais uns cem metros e parou. Corri para falar com o motorista, antes de eu chegar ele já fez sinal que era para irmos juntos. Voltei e peguei minha mochila, junto com o Matheus segui correndo. A única coisa que me lembro de falar foi "Caralho, man! Conseguimos.". A felicidade em nós era visível. A busca pelo fim do mundo estava prestes a terminar. Foto 10.27 - Lugar que pedimos carona em Tolhuin (Ushuaia tava tão perto) Entramos na caminhonete. Conhecemos os dois funcionários do hospital: José e Rodrigo. Eles estavam a trabalho e não saiam do rádio amador, por isso quase não conversamos com eles. Aproveitei para dar uma cochilada e ver o belíssimo caminho até Ushuaia. Foto 10.28 - O caminho para Ushuaia [1] Foto 10.29 - O caminho para Ushuaia [2] Dentro da caminhonete pensei muito sobre caronar e elaborei minha teoria final sobre o assunto. Pensemos naquelas experiências científicas (leia-se experiências toscas) com ratos, choques e queijos. Onde o rato na busca pelo queijo passa por um caminho onde ele toma diversos choques. O caminho é sofrido para o rato. Porém, a experiência final, a de comer o queijo, é tão boa que ele esquece o caminho árduo pelo qual passou e com isso, faz ele começar tudo de novo, sempre. Acho que caronar é exatamente isso. Sem querer romantizar nada, ficar na beira de estrada não é nada legal, ainda mais em condições naturais extremas. Porém, quando você consegue uma carona, parece que todo o processo de espera é esquecido pela vitória da ocasião. Assim, horas ou dias depois de dizer que nunca mais faria aquilo, está você se contradizendo e voltando na margem da pista somente com a memória das caronas bem sucedidas. Foto 10.30 - O caminho para Ushuaia [3] Foto 10.31 - O caminho para Ushuaia [4] Foto 10.32 - O caminho para Ushuaia [5] Foto 10.33 - O caminho para Ushuaia [6] Foto 10.34 - O caminho para Ushuaia [7] Chegamos em Ushuaia era um pouco mais de seis da tarde. Paramos bem na entrada da cidade. Nos despedimos do Jose e do Rodrigo. Seguimos caminhando em direção ao centro. O tempo estava meio esquisito, parecia que a qualquer momento começaria um temporal. Fomos em direção a orla. Só queria chegar logo naquela placa que diz "Ushuaia fin del mundo". Não estávamos mais pedindo caronas, mas um carro parou. O motorista era o gente boa do César que disse que nos levaria até o local. Entramos no carro, ele todo orgulhoso de sua cidade nos deu várias dicas do que fazer sem gastar dinheiro. Anotei tudo. Falamos de futebol e do seu time, o Rosário Central, que havia acabado de ser campeão da Copa da Argentina. Chegamos próximo ao nosso destino, com um aperto de mão nos despedimos do César. Foto 10.35 - Eu caminhando em busca da placa de fim do mundo Foto 10.36 - Caminhando se chega Creio que caminhamos mais uns duzentos metros até avistar a placa que é o simbolo de que havíamos concluído o nosso objetivo de chegar até o fim do mundo. Os passos foram lentos. O cansaço dos dias era evidente nas nossas caras. Quando eu avistei a borda da placa, fui tomado por uma sensação de dever cumprido. Apesar, de não haver obrigação nenhuma de estar ali. Depois de distribuir centenas de abraços ao longo da viagem, pela primeira vez abracei o Matheus e agradeci por ele ter topado estar ali comigo nessa viagem maluca. Foto 10.37 - O fim do mundo Foto 10.38 - Matheus, no fim do mundo Foto 10.39 - Eu, e o fim do mundo Quando decidi que o objetivo principal da viagem seria chegar no "fim do mundo", não tinha um motivo específico de querer chegar lá. Na Patagônia tinha dezenas de lugares que eu tinha mais vontade de conhecer primeiro que Ushuaia. Acho o que me levou a decidir pelo lugar foi o sex appeal de ser a cidade mais austral do mundo. Assim, seria o lugar mais longe que chegaríamos rumando ao sul. No meu inconsciente essa deve ter sido a motivação. Enfim, eu sei que é clichê, mas o que vale num destino é o caminho que se percorre. Então utilizando a seguinte frase do Saramago "Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver." parafraseio-a para "Quero encontrar o fim do mundo, quero saber que sou eu quando nele estiver.". Esse foi o espírito da viagem que nos propomos a fazer. O Diego que chegou no fim do mundo, foi um cara bastante diferente do que saiu de casa um mês antes. Um cara, novamente, esperançoso com as pessoas, cheio de gratidão, com novas histórias pra contar, sorridente e mais dono do seu próprio destino. Por fim, agora me permito a falar do Matheus. Quando a insegurança bateu e decidi que precisava de uma companhia para percorrer este caminho, sabia que a única pessoa que toparia algo do tipo era o Matheus. Ele estava numa vida diferente e nova em Piracanga. Porém, estável. Só o fato dele dar uma pausa nessa nova vida para seguir comigo, significou muito para mim. Depois, veio os dias na estrada. No início eu era uma bomba relógio, não sabia como eu iria digerir tudo o que havia acontecido comigo nos dias que antecederam a viagem. Assim, respeitando as nossas diferenças fomos indo. Tudo foi fluindo da melhor maneira possível. Ele sempre com sua positividade, nunca desanimou ou me deixou desanimar nas horas e horas de espera na estrada, até mesmo com as incertezas da viagem. Com certeza, a minha melhor decisão foi chamar meu irmão Matheus para que juntos chegássemos ao fim do mundo. Poder compartilhar com ele tudo o que aconteceu e assim, ter a chance de conhecer outra visão e percepção dos acontecimentos, também foi incrível. Bom, falei e falei, mas o que eu quero dizer é mais simples e honesto. Quero agradecer ao Matheus por ter encarado essa viagem comigo, muito obrigado por estar presente quando mais precisei. Muito obrigado de verdade e de coração. Tamo junto. Foto 10.40 - Enfim, o fim do mundo O abrir de uma porta é o simbolismo desta etapa da viagem. Portas se abriram a todo momento. Algumas portas eram de casas, que se abriam para que pudéssemos dormir seguramente e ainda tivemos a chance de conhecer novas famílias e, de algum modo, fazer parte destas famílias por alguns dias. Outras portas eram de carros/caminhões, que surgiam para nos salvar de horas e horas de espera para que assim, chegássemos mais perto do nosso destino. Quantas histórias surgiram destas portas abertas. Como o destino foi bom conosco, colocou em nosso caminho as melhores pessoas de cada lugar. Como não ficar feliz com tudo isso? Queria que naquele momento da chegada ao fim do mundo, surgisse um portal ali, e desse portal saísse todas essas pessoas que nos ajudaram pelo caminho. Assim, poderíamos compartilhar com todos aquele momento, pois sem essas pessoas nada disso seria possível. Depois, sairíamos para tomar umas cervejas. Leandro, Capitão, José, Brunê, Mel, Rose, Pini, Leandra, Ailton, Karine, Mário, Wagner, Guilherme, Jadir, Mathias, Silvina, Carlota, Carlos, Ana, German, Micaela, Carlos, Luciana, Facu, Cynthia, José, Juan Carlos, Rosio, Martin, Desiz, Javier, Beto, José, Rodrigo e César, obrigado por confiar em nós e fazer do nosso destino algo palpável. Muito obrigado a cada um de vocês. Espero reencontrá-los. Um beijo na alma e muita vida em suas vidas. Bom, chegamos ao fim do mundo. Agora é hora de explorar o sul da Patagônia Argentina com mais calma..
  7. Hahahahaha acho que talvez seja a pior parte mesmo. Também dá uma vergonha de ser o fedidão dentro do carro/caminhão, mas foi só nesse trecho que acumulamos dias sem banho .
  8. Diego Minatel

    O Contorno da Ilha Grande

    @trauco que massa, man! Quando você foi, você fez a volta completa? Obrigado pelas palavras. Abraços
  9. Muito obrigado, @Leila Borges! Fico muito feliz que esteja gostando do relato e acompanhado desde o início. Vou tentar acelerar as postagens para tentar terminar essa história o mais rápido possível. Mais uma vez, obrigado. Um beijo e fica com a paz.
  10. Para mim é algo realmente complicado traduzir em palavras os momentos vividos nos dias da minha viagem. Viagem esta que não se traduz num simples mochilão ou turismo de longa duração. Foi o encontro de uma pessoa comum com seu sonho de andar por terras que tanto o inspiraram, terras mãe da esperança, terras de homens e mulheres feitos de histórias e de coração, corações gigantescos. O sentimento que fica depois de quase seis meses na estrada é o de gratidão, do agradecimento as infinitas pessoas que ajudaram esse pobre viajante das mil e uma maneiras possíveis, para vocês meu muito obrigado. Foto 1 - A companheira de viagem Tinha uma vida igual a tantas outras, era bem razoável por sinal, mas a vontade de caminhar e estar frente a frente com o novo me atormentava todos os dias. Queria conhecer com meus olhos as diferenças, os sotaques, as comidas, as belezas. Desejava não ter pressa, fazer tudo no seu tempo necessário, não estar preso a rotina dos dias e principalmente aprender. Sim, aprender, não com fórmulas prontas e nem sentado dentro de uma sala de aula. Queria aprender com experiências. Queria conhecer pessoas. De alguma forma queria fugir da minha vida cotidiana, não por ela ser ruim, mas pelo desejo de se conhecer e assim, quem sabe, voltar uma pessoa melhor. Quando esse sentimento passou a ser insuportável decidi que tinha que partir. Por um ano ajuntei algum dinheiro, queria ficar seis meses na estrada. A grana não era o suficiente, mas suficiente era a minha vontade. Dei um ponto final no trabalho. Abri o mapa e não tinha ideia por onde começar. Decidi não ter um roteiro, apesar de ter muitos lugares em que eu queria estar. Assim começa a minha história (poderia ser de qualquer um). O relato está dividido da seguinte forma: Parte 1: de Rio Claro ao Vale do Itajaí Parte 2: Cânions do Sul Parte 3: de Torres a Chuí Parte 4: Uruguai Parte 5: da região das Missões a Chapecó Parte 6: Chapada dos Veadeiros e Brasília Parte 7: Chapada dos Guimarães Parte 8: Rondônia Parte 9: Pelas terras de Chico Mendes, Acre Parte 10: Viajando pelo rio Madeira Parte 11: de Manaus a Roraima Parte 12: Monte Roraima y un poquito de Venezuela Parte 13: Viajando pelo rio Amazonas Parte 14: Ilha de Marajó e Belém Parte 15: São Luis, Lençóis Maranhenses e o delta do Parnaíba Parte 16: Serra da Capivara Parte 17: Sertão Nordestino Parte 18: Jampa, Olinda e São Miguel dos Milagres Parte 19: Piranhas, Cânion do Xingó e uma viagem de carro Parte 20: Pelourinho Parte 21: Chapada Diamantina Parte 22: Ouro Preto e São Thomé das Letras Parte 23: O retorno e os aprendizados O período da viagem é de 01/10/2015 a 20/03/2016. De resto não ficarei apegado nas datas exatas em que ocorreram os relatos que irão vir a seguir, tampouco preocupado em valorar tudo. Espero contribuir com a comunidade que tanto me ajudou e sanar algumas dúvidas dos novos/velhos mochileiros.
  11. Diego Minatel

    O Contorno da Ilha Grande

    Oi @Jennifer Bernardo, me desculpe só vi agora seu post, resposta de relato não aparece como notificação pra mim, foi malz de verdade. Então, vou responder como se não tivesse ido ainda. Eu não tenho os contatos dos lugares, apenas os nomes que estão no relato mesmo, mas tirando as praias mais badaladas, o resto não precisa de reserva. O problema da semana entre natal e ano novo é que eles vendem só pacotes fechados, então fica difícil fazer a volta na ilha, mas nada impossível. Sobre a segurança do local, eu me senti seguro quando eu fiz a trilha, mas o melhor é tentar ir em um grupo. Pois, tem muitos lugares que é completamente desertos durante o percurso. Qualquer outra dúvida, me avisa, mas espero que já tinha ido e que tenha dado tudo certo com sua viagem. Beijão.
  12. Fala @Paulo Pittarello, belezera? Sim, o massa de viajar desta forma é nunca saber o que vai acontecer no momento seguinte. O negócio é se deixar levar e aceitar/aproveitar o que a estrada está te proporcionando naquele momento. Cara, fico muito feliz que esteja acompanhando e curtindo o relato, acho que vou tentar dar uma acelerada para terminar o quanto antes a escrita. Grande abraço, Paulo. Fica com a paz.
  13. Parte 9 - Cruzando o Estreito de Magalhães com San Martin "Sim, às vezes o pensamento mais louco, o mais impossível na aparência, implanta-se com tal força em nossa mente que acabamos acreditando em sua realidade… Mais ainda: se essa idéia está ligada a um desejo forte, apaixonado, acabamos acolhendo-a como algo fatal, necessário, predestinado, como algo que não pode deixar de ser nem de acontecer! Talvez ainda haja mais: uma combinação de pressentimentos, um extraordinário esforço de vontade, uma autodireção da própria fantasia, ou lá o que seja – não sei." O Jogador, Fiódor Dostoiévski A viagem até Rio Gallegos foi tranquila, dormi na maior parte do trajeto. Quase não vi o caminho que percorremos. Chegamos na rodoviária e fomos ver os horários de ônibus para Ushuaia. Não havia mais ônibus com destino a Ushuaia naquele dia. Na verdade só tem um ônibus que faz o trajeto Rio Gallegos/Ushuaia, esse ônibus sai as 9 horas da manhã diariamente. Era quase dez horas manhã. Saímos caminhando pela cidade. Todas as pessoas para quais pedíamos informações davam respostas desencontradas que nos faziam caminhar pra lugar nenhum. Lembro de uma cena engraçada. Fui pedir informação para uma garota. Queria saber por qual caminho teríamos que seguir pra chegar na Ruta 3 sentido fronteira com o Chile. Abordei ela na rua, educadamente. Ela olhou para mim e eu disse que precisava de uma informação. Nesse momento ela saiu correndo, literalmente. Fiquei sem entender a principio o porquê daquilo. Depois me veio a ideia que eu devia estar num estado visual de calamidade (risos). No entanto, Rio Gallegos é mesmo um lugar difícil de se conseguir informações, e quando se consegue geralmente são informações desencontradas ou erradas. Foto 9.1 - Rio Gallegos Encontramos uma senhora que enfim nos deu a direção correta. Caminhamos e caminhamos. Passamos pelo exército. Paramos em frente de um memorial de Gauchito Gil e começamos as pidanças por caronas. Ficamos um bom tempo ali. O fluxo de carros era bem pequeno. O vento era insano, muito insano na verdade. Queríamos cruzar o Estreito de Magalhães naquele dia. Então, o negócio era suportar o vento, ficar na estrada e esperar. Foto 9.2 - Treinamento em Rio Gallegos Foto 9.3 - Gauchito Gil Foto 9.4 - Gauchito Gil Foto 9.5 - O pedinte Foto 9.6 - Uma carona, por favor! Avistamos um cara vindo de bicicleta cheio de alforjes. Pedimos carona para o ciclista. Ele parou e falou para subirmos. Para nossa surpresa era um brasileiro. Seu nome é Hugo, natural de Santos, e estava viajando desde Curitiba até Ushuaia de bike. Hugo é um cara muito gente boa e malucão. Conversamos um pouco. Hugo também queria chegar na fronteira com o Chile naquele dia , mas estava sofrendo com o vento contra, mal saia do lugar quando pedalava. Depois de alguns minutos conosco, Hugo subiu em sua bike e seguiu com sua viagem. Foto 9.7 - Matheus, eu e o maluco do Hugo Mais um tempo se passou, até que um carro passou por nós e depois voltou de ré ao nosso encontro. A mulher do carro disse que aquele lugar não era um bom lugar para pedir carona, que o ideal seria a uns dez quilômetros a frente, em um ponto de encontro entre a Ruta 3 e o desvio que os caminhoneiros fazem para não entrar em Rio Gallegos. Ela se ofereceu a nos levar até esse ponto. Entramos no carro da moça. Ela se chama Rosio e é do norte do país, veio a alguns anos tentar a vida no sul. No carro também estava seu filho, um gurizinho de uns 5 anos que ficou todo curioso com nossa presença. Rosio é uma gentileza de pessoa, ela falou da dificuldade de deixar o norte onde é fácil ter amigos, mas quase não há empregos, para morar no sul onde se ganha muito, mas amigos e contato humano é coisa rara. Uns vinte minutos de viagem e chegamos no nosso ponto. Demos um toque de mão no garotinho, um forte abraço na Rosio e seguimos caminhando. Rosio seguiu de volta para Rio Gallegos. Caminhamos alguns metros e avistamos um casal pedindo carona de uma forma bem tímida. Eles estavam atrás de uma placa de trânsito enorme (para se proteger do vento) e quem passava por eles nem conseguia vê-los direito. Fomos ao encontro do casal. Eles são de Rio Gallegos mesmo, o cara é tatuador e tinha que estar naquele dia em Punta Arenas no Chile para um festival de tatuagem, mas não havia mais ônibus saindo nesse dia. Assim, eles vieram para a rodovia tentar a sorte e seguir de carona. Os dois são bem gente boa. Demos as dicas para eles da melhor maneira de se pegar carona. Assim, como eles estavam primeiro ali, demos a preferência e o melhor lugar para eles pedirem carona. Eles ficaram num ponto bem visível, onde os veículos passam numa velocidade baixa. Eu e o Matheus ficamos uns vinte metros atrás deles. Foto 9.8 - 2616km percorridos dos 3079km da Ruta 3 O calor que nos acompanhou pela Patagônia até aqui, não existia em Rio Gallegos. Estava frio, muito frio e o vento era igual de Comodoro Rivadavia. Tive que vestir luva e touca. Um ambiente completamente diferente. Ficar na pista esperando foi bem difícil. Depois de umas três horas de espera, um caminhão parou para o casal, achei que eles haviam conseguido, mas o caminhão continuou sem levar eles. O caminhão parou na nossa frente, disse que podia levar apenas um de nós até a fronteira com o Chile. Fiquei numa dúvida cruel, queria que o Matheus fosse, depois eu tentaria sozinho e nos reencontraríamos na fronteira. Por fim, resolvemos não entrar. Confesso que na hora me arrependi, mas o futuro iria dizer que aquele teria sido a melhor decisão a se fazer. Minutos depois surgiu uma mini van em velocidade bem baixa. Parou e falou com o casal que estava logo na nossa frente. A mini van seguiu viagem. Erguemos o dedo no momento que ela passou por nós. A mini van parou. Logo pensei que seria igual ao caminhão, que ele falaria que só poderia levar um, imaginei que esse teria sido o motivo do casal não ter entrado. Nisso já bateu o arrependimento de ter refugado a carona solo com o caminhoneiro. Enfim, fui derrotado falar com o motorista. Ele perguntou onde iriamos e respondi que o objetivo era chegar em Ushuaia, mas se ele nos deixasse na fronteira já estaria bom. Ele disse que iria até Rio Grande, que é uma cidade na Terra do Fogo e fica a 200km de Ushuaia. Quando ele disse isso, perguntei se podíamos seguir com ele, com seu jeito característico ele sorriu e disse para entrarmos. Um detalhe importante que vale a pena destacar neste ponto do relato é a conversa que o casal teve com o Martin, o motorista da mini van. Logo que entramos no carro o Martin perguntou se éramos amigos do casal que estava ali na rodovia. Dissemos que tínhamos conhecido eles algumas horas antes ali mesmo na Ruta 3. Explicamos que era a primeira vez que eles estavam pedindo carona e que tentamos ajudá-los de alguma forma. Com isso o Martin falou que iria dar carona para o casal, mas que só não deu porque o casal sabendo do destino final, do Martin, pediu para que ele levasse eu e o Matheus. (Punta Arenas fica no continente, então a carona para eles seria até a fronteira, que ficava uns 70km do ponto que estávamos, pois o Martin atravessaria o Estreito de Magalhães e seguiria pela Terra do Fogo). Cara, isso é do caralho. É do tipo de coisa que me deixa muito feliz. Aquele casal, que mal nos conhecia, abriu mão de algo que ajudaria-os para nos ajudar. Seguimos com o Martin. Nos primeiros minutos de viagem avistamos o ciclista Hugo parado na rodovia se protegendo do vento, atrás de uma placa de trânsito. Tentei gritar, mas não consegui abrir o vidro do carro. Ficamos sentados os três no banco da frente do carro, na parte de trás tinha uma infinidade de bolsas e as nossas mochilas. Martin é o único representante de vendas na região da Patagônia de marcas esportivas como: The North Face, Caterpillar, Patagônia e muitas outras. Então, ele está sempre viajando pela Patagônia para vender os produtos. Como ele dizia: é um trabalho fácil, pois as marcas já se vendem sozinhas. Martin nasceu na cidade de Viedma e, atualmente, mora em Puerto Madryn. Aqui está outra carona que é muito difícil escrever sobre ela. Dessa vez pelo motivo contrário do Juan Carlos. Martin é um cara que eu gosto demais, demais mesmo. A viagem com ele teve uma sinergia fora do comum. Como nos divertimos dentro daquele carro. Ele é um cara interessado por tudo, acho que as intermináveis horas que ele passa dirigindo fez ele ter essa sensibilidade. Ele se diverte com qualquer coisa que ele vê pelo caminho. Enfim, Martin é um cara gente boníssima e de coração enorme. A viagem seguiu bem leve. Martin nos serviu Sprite. Contamos um pouco das nossas vidas, Martin também contou bastante sobre a sua vida. Nos contou que conhecia o Brasil, já tinha visitado o Rio de Janeiro e Porto de Galinhas, e agora estava prestes a viajar com a namorada para passar o final de ano em Nova York. Essa seria sua última viagem a trabalho do ano, depois férias nos Estados Unidos. Ele viaja quatro vezes por ano para a Terra do Fogo, e ele faz isso a mais de dez anos. Então, ele conhece bem aquela região e nos deu diversas dicas sobre toda a Patagônia. Foto 9.9 - A viagem que segue Chegamos na aduana chilena. Martin pediu para declararmos se tivéssemos algum tipo de alimento que a entrada é proibida no Chile, assim evitaríamos transtornos para ele. Ele fez todos os trâmites necessários para entrar de carro em outro país e ainda nos orientou com a nossa papelada. O Chile é um pouco mais burocrático que os outros países da América do Sul. Declaramos as lentilhas, que levávamos em nossas mochilas, que prontamente proibiram. Deixamos as lentilhas na aduana e seguímos por solo chileno com destino ao Estreito de Magalhães. Martin sempre observava que o asfalto em solo chileno era bem melhor que em solo argentino. Foto 9.10 - Em terras chilenas Foto 9.11 - A ótima pista Você deve estar se perguntando: "Por que diabos ele foi para o Chile, se ele quer chegar em Ushuaia que fica na própria Argentina?". Senta que lá vem história. Primeiro vou falar um pouco da divisão da Patagônia. Após a independência das colônias espanholas, liderada por San Martin na parte sul do continente, a Patagônia virou terra de ninguém. Chile e Argentina aos poucos foram avançando em direção ao sul e se auto denominando donos das terras patagônicas. Isso gerou um impasse, pois não era possível determinar qual território era chileno e qual era argentino. No decorrer da história vários tratados foram acordados entre os dois países, mas nenhum dos países saía satisfeito dos acordos. Argentina e Chile compartilham mais de 5 mil quilômetros de fronteira (a terceira maior fronteira terrestre do mundo) e é meio que óbvio que o Chile reclame parte do território argentino e vice-versa. Esse é o principal ponto da rivalidade histórica entre Chile e Argentina. O último episódio dessas disputas foi no ano de 1978, onde a briga em questão estava nos territórios próximos do canal de Beagle (extremo sul da ilha da Terra do Fogo). A guerra foi evitada por intervenção do Papa João Paulo II que mediou um acordo entre os dois países. Porém, na Guerra das Malvinas o Chile se declarou neutro, mas permitiu que os ingleses instalasse uma estação de radares, em terras chilenas, para monitorar a movimentação argentina na guerra. Os argentinos até hoje não perdoaram esse episódio, que na palavras deles foram uma traição por parte chilena. Em um destes acordos a Terra do Fogo foi a questão. No acordo dividiram a Terra do Fogo ao meio por meio de um meridiano, o lado oeste ficou para o Chile e o leste para Argentina. Até ai tudo bem. O problema é que quase todo o território que margeia o Estreito de Magalhães é chileno. (O Estreito de Magalhães é uma porção de mar que separa fisicamente a América do Sul da Terra do Fogo). A Argentina tem uma pontinha deste território e que fica em alto mar, bem distante da Terra do Fogo. Tendo que navegar em alto mar em latitudes altas é bem perigoso e que em um determinado trecho o estreito mede quatro quilômetros. O mais conveniente quando se está com veículo terrestre pela Argentina e queira-se avançar até a Terra do Fogo, é adentrar em território chileno, atravessar com a balsa até a Terra do Fogo, dirigir por solo chileno e depois deixar o país na divisa entre os dois países na Terra do Fogo. É um baita rolê e o que mais cansa é a burocracia de entrar e sair dos países diversas vezes em um trecho minúsculo. Chegamos no Estreito de Magalhães e havia uma fila de carros. O Martin estacionou no último lugar da fila e saímos do carro para conhecer o entorno daquele lugar tão místico e importante para a história da humanidade. Ficamos um tempo admirando a orla. Nisso os carros começaram a entrar na balsa para cruzar o estreito. Depois de alguns segundos que fomos entender que também deviríamos estar entrando na balsa. Saímos os três correndo em direção ao carro, fazia tempo que não corria daquele jeito. Entramos no carro e caímos na risada. Martin acelerou o carro e entramos na balsa. Foto 9.12 - A chegada no Estrecho de Magallanes Foto 9.13 - Que belezura Foto 9.14 - A chegada da balsa Foto 9.15 - A chegada da balsa Foto 9.16 - Um pouco mais do estreito Martin estacionou o carro, saímos do carro para conhecer a balsa e a visão do estreito que ela proporciona. Ficamos na parte de cima, meio que sem acreditar que estávamos ali. A cor do mar é mais que demais, o céu também colaborava. Martin contou que em dias de tempo ruim, forma-se ondas que passam por cima da balsa. Avisou para termos cuidado ali na beira. Também falou que quando o mar está muito brabo, pode ser que as balsas fiquem paradas, então é tipo uma roleta russa a travessia, como pode ser muito rápida, mas também você pode ficar parado ali por horas ou até dias. Estava de bobeira no parapeito da balsa, até que uma onda gigante veio molhando eu e o Matheus, o Martin correu antes de se molhar. Outra coisa interessante e meio que óbvio também, é que quando a balsa transporta caminhões-tanque (que carregam gasolina) de um lado para outro do Estreito, só pode haver dentro da balsa caminhões-tanque e nada mais. Depois de mais de meia hora de viagem de balsa atracamos na Terra do Fogo. Foto 9.17 - Adeus, continente Foto 9.18 - A balsa vizinha Foto 9.19 - Os carros na balsa Foto 9.20 - Cada vez mais longe do continente Foto 9.21 - A felicidade dos caras que não acreditam que estavam ali Foto 9.22 - Rumo a Terra do Fogo Foto 9.23 - Outra foto dos carros Foto 9.24 - A frente da balsa A importância histórica do Estreito de Magalhães é notável. Pois, por mais de quatrocentos anos foi a principal passagem entre Oceano Atlântico e Oceano Pacífico. Apesar do Estreito de Magalhães ter uma largura pequena para navegação e suas águas serem ameaçadoras, o Estreito era a principal rota comercial que conectava países de Europa, América e Ásia. Existiam outras opções de navegação, por exemplo: Cabo da Boa Esperança e a Passagem de Drake. Entretanto, são dois dos piores lugares de navegação existentes. O Estreito de Magalhães perdeu sua importância comercial com a inauguração do Canal do Panamá. Particularmente, atravessar o Estreito de Magalhães era um sonho. Fernão de Magalhães e sua inaugural circum-navegação por anos estiveram no meu imaginário. Quase quinhentos anos atrás Magalhães navegou entre o continente americano e a Terra do Fogo, essa passagem que hoje leva seu nome provou que navegando tanto para leste quanto para oeste era possível chegar as Índias. Enfim, a prova prática que a Terra é redonda. Estar ali em um lugar tão importante para história me encheu de alegria, pois uma coisa é você ler e imaginar um lugar, outra coisa é você viver e sentir esse mesmo lugar. Seguimos a viagem em solo chileno. Martin se divertia em buzinar para as ovelhas que víamos pelo caminho. Ele buzinava e elas saíam todas correndo. Mesmo quando estávamos entretidos numa conversa, ele não esquecia de azucrinar as ovelhas. Ele dava risada com isso. Para os guanacos e as vacas ele não buzinava, dizia que de nada adiantava, que esses animais só o encaravam. Foto 9.25 - Eu, Matheus e o Martin Uma história que o Martin contou que me chamou muita atenção e resume muito bem o quanto esse cara é gente boa. Em uma de suas viagens de mini van pela Patagônia, ele estava saindo de Bariloche e avistou um caroneiro e deu carona. Logo depois, avistou um casal de caroneiros e deu carona também. E assim, foi indo. Quando ele foi ver já tinha sete caroneiros dentro do carro. Pelo que eu lembro o tempo tava ruim nesse dia, estava chovendo. No meio da viagem ele viu um ciclista e colocou o ciclista e a bike dentro do carro. O carro foi lotado para Ésquel. Ele disse que foi uma farra só essa viagem. Todos viraram amigos. Quando chegaram em Ésquel todos os caroneiros compartilharam o mesmo quarto de hostel. Foto 9.26 - Viajando pela Terra do Fogo Foto 9.27 - Chile Futebol, como é de praxe na Argentina, foi um dos assuntos na viagem. Martin é fanático por futebol, torce para o Independiente. Discutimos o eterno dilema: Quem é melhor Cristiano Ronaldo ou Messi. Obviamente, Messi ganhou. Discutimos sobre a Copa do Mundo e a final da Libertadores. Martin disse que tem certeza que a final da Copa América 2019 vai ser entre Brasil e Argentina. Falou que vai vir pro Brasil para assistir os jogos da Copa América. Foto 9.28 - O caminho para o fim do mundo Foto 9.29 - O deserto patagônico Passamos pela aduana. Estávamos, novamente, na Argentina. A vegetação na Terra do Fogo pelo caminho que estávamos percorrendo é parecido com a vegetação patagônica que vimos no continente. A diferença está na arquitetura das casas, do lado chileno da ilha as construções são todas do mesmo estilo trazendo uma harmonia bem bacana no ambiente, quando cruza-se para o lado argentino é notável a diferença e a desarmonia arquitetônica das construções. Foto 9.30 - Beleza de lugar Foto 9.31 - A viagem tem que continuar Matheus havia conversado com o Desiz pelo couchsurfing, que aceitou nos receber em Rio Grande. Porém, fazia dias que não tínhamos internet. Martin sabendo disso, quando o sinal do telefone voltou, ligou para o Desiz para avisar que estávamos a caminho de Rio Grande, mas o Desiz não atendeu. Eu não estava preocupado se teríamos teto ou não naquele dia, estava feliz demais em estar avançando num ponto tão próximo de Ushuaia. Qualquer coisa acamparíamos em algum posto da cidade. Foto 9.32 - Os guanacos Foto 9.33 - De vola a Argentina Depois de quase oito horas de viagem, chegamos em Rio Grande. Fomos direto para o hotel que o Martin tinha reservado para si. Enquanto o Martin subiu no seu quarto para arrumar suas coisas, aproveitamos para usar a internet no saguão e avisar as nossas famílias que estávamos vivos. Nada do Desiz responder. Martin desceu animado, nos convidou para tomarmos umas brejas. Dissemos "Buera". Fazia quatro dias que eu não tomava banho, e ainda estava vestido com uma camiseta segunda pele na cor verde marca texto, que chamava pouca atenção. Matheus estava sujo igual. Martin era o contrário de nós. Fomos para o único bar aberto da cidade. Entramos. Todos no bar estavam bem apresentáveis, éramos a exceção. Foda-se, queríamos comemorar. Pedimos as cervejas e brindamos pelo bom dia maluco que tivemos. Foto 9.34 - Os sujismundos e o Martin Já era quase onze horas da noite, mas olhava para fora e ainda estava claro. Não tínhamos comido quase nada durante o dia, só algumas bolachas no caminho. A fome era muita. Pedimos uma pizza. Martin, sempre carismático, fez amizade com boa parte do pessoal que estava a nossa volta. A pizza chegou e segundos depois não havia mais nenhum pedaço para contar história. Depois ficamos conversando e dando risadas. Nessa noite batizamos o Martin de San Martin, o salvador de caroneiros. Foto 9.35 - A mesa do bar O bar fabrica sua própria cerveja, são quinze tipos diferentes de cervejas produzidas neste lugar. Existe no cardápio a opção de degustação de todos estes tipos. O lógico a se fazer é pedir o combo de degustação no início para decidir as cervejas que se irá tomar no resto da noite. Mas como nada faz sentido nesse mundo maluco, pegamos a degustação no fim da noite quando já tínhamos tomado nossas cervejas. O garçom ficou sem entender. No fim, vale muito a pena, pois na degustação ao todo tem 1,5 litros de cerveja num preço honesto, sendo muito mais barato que pedir três copos de 500 ml. Foto 9.36 - A degustação do fim da noite Ficamos mais um pouco no bar dando muita risada. Finalmente, o Desiz respondeu, disse que estava dormindo e falou que não havia problemas em ficarmos na casa dele nessa noite. Já era tarde, resolvemos partir. Na hora de pagar a conta, o Martin resolveu pagar tudo e disse que era presente. Não achamos justo aquilo, queríamos ratear o valor. Assim, o Martin pegou uma nota de baixo valor minha e outra do Matheus, e disse sorrindo "Agora nós três dividimos a conta, fim da discussão.". Martin nos deixou na frente do apartamento do Desiz. Ficamos mais um tempo conversando. Sabíamos que aquela despedida não seria a final. Afinal, ele tinha negócios por Ushuaia. Combinamos de nos encontrarmos por lá. Com um abraço forte e um "Até Breve!" nos despedimos do Martin. Depois subimos as escadas do condomínio. Conhecemos o Desiz na porta do apartamento. Eu estava sonolento, pouco conversei com ele. O Matheus ficou tempo falando com o Desiz. Eu fui tomar banho. Caraca! Como era bom tomar banho depois de tanto tempo e de tanta sujeira acumulada/alojada. Abrir o chuveiro e sentir as primeiras gotas de água no corpo é libertador. Estava muito cansado. Lembro de dizer "buenas noches" para o Matheus e o Desiz, que continuavam conversando. Depois disso, fui para a cama e capotei. Esse dia foi muito bom e maluco ao mesmo tempo. Viajamos mais de 700km de Comodoro Rivadavia até Rio Gallegos pela madrugada. Depois conhecemos a doçura da Rosio e o doido do Hugo. Ajudamos e fomos ajudados por aquele casal (queria recordar seus nomes) de bom coração. Passamos muito frio nas rodovias, muito mesmo. Reconheci meu irmão, Martin. Viajamos mais de 400km em sua ótima companhia. Depois fomos comemorar, sem saber o que comemorávamos. Me diverti como a tempos não me divertia. E no fim, ainda teve a camaradagem do Desiz. Mesmo que eu tentasse inventar algo para reclamar desse dia, eu não conseguiria. Agora quero terminar esta parte do relato falando do meu irmão Martin. Qualquer palavra que eu usasse para descrever o quão bom ele foi para nossa viagem, não seria suficiente. Ele nos proporcionou um dia incrível, cheio de boas conversas, paisagens lindas, risadas e companheirismo. Acho que a palavra companheirismo é a que chega mais perto da veracidade sobre o Martin. Ele mergulhou na nossa viagem como se fosse mais um integrante. As nossas diferenças sociais e culturais só serviram para nos aproximar mais. Já cansei de agradecer ele pessoalmente, mas quero mais uma vez fazer isso, agora por aqui. Martin, meu irmão, muito obrigado por ser esse cara do bem, cheio de alto astral, gentil e dono de um coração do tamanho da Patagônia. Espero te reencontrar mais vezes nessa vida maluca. Mais uma vez, muito obrigado de coração Martin, e que sua vida seja cheia de vida. Forte abraço, irmão.
  14. Parte 8 - O anjo do carro vermelho "Qual é a sua estrada, homem? - a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?" On the Road, Jack Kerouac Conversamos com os caminhoneiros parados, nenhum sucesso. Fomos para a saída do posto da YPF, por ali erguemos o dedão e ficamos. Era um domingo bem cedo em Puerto Madryn, quase não havia fluxo de carros e caminhões. Estávamos animados e nos divertíamos ali na estrada. Os minutos passavam e o que eu mais via eram motoqueiros viajando no sentido contrário. Possivelmente, eles estavam voltando de Ushuaia. Caminhamos um pouco mais avante, quem sabe não daria sorte um novo lugar. Depois de mais alguns minutos um ônibus vazio passou por nós, ergui o dedão com um sorriso no rosto. O ônibus parou e o motorista nos convidou a subir. Foto 8.1 - Tentando carona na Ruta 3 na saída de Puerto Madryn José, o motorista, nos avisou que iria até Trelew, uma cidade vizinha a quase 70km ao sul de Puerto Madryn. Sentamos no ônibus vazio. José logo passou seu tereré com suco de laranja. Caralho, como estava bom aquele tereré. Logo ele nos explicou que estava indo buscar os engenheiros da Aluar que vivem em Trelew para um dia mais de trabalho. A Aluar é uma empresa de alumínio argentina, sua filial em Puerto Madryn é a principal geradora de empregos da cidade. Ele falou que é prestador de serviço da Aluar e os seus dois ônibus trabalham diariamente na rota Puerto Madryn/Trelew transportando os funcionários da empresa. Foto 8.2 - A visão do Matheus no ônibus O José é um cara bacana demais. Como eu gostei dele, sei lá, ele transmite uma buena onda. Ele já foi caminhoneiro por muitos anos, morou no Paraguai e Itália, e conhecia a Argentina toda. O tereré era herança dos seus dias de Paraguai. Ele gostava de falar sobre o vento patagônico, dizia "Aqui venta forte 330 dias por ano". O vento de Puerto Madryn era forte até, mas me abstenho de falar dos ventos por enquanto. Toda vez que José falava, ele falava sorrindo. Ele começou a nos contar sobre os dinossauros da Patagônia. Disse que os maiores dinossauros que existiram viveram pelas terras patagônicas. Enfim, a Patagônia é a terra dos gigantes, primeiro os dinossauros gigantes e depois os homens gigantes que assustaram Fernão de Magalhães. Falava com orgulho dos dinossauros, disse para visitarmos o Museu Paleontológico de Trelew. Quase na chegada de Trelew tem uma estátua de tamanho real de um Titanossauro, o maior dinossauro de que se tem notícia, com mais de 20 metros de altura e 40 metros de largura. José parou o ônibus para que pudéssemos conhecer o maior dinossauro já descoberto. Foto 8.3 - Titanossauro Foto 8.4 - Titanossauro por outro ângulo (Não ter ninguém ao lado do Titanossauro não dá a noção exata do seu tamanho gigantesco) Depois seguimos viagem até chegarmos em Trelew. Já era quase a hora dele recolher os funcionários e voltar para Puerto Madryn. Mesmo assim, o José cortou toda a cidade e nos deixou no posto da Axion na saída para Comodoro Rivadavia. A porta do busão se abriu, nos despedimos do José com um abraço. Pulamos para a fora do ônibus, com uma buzinada o José se despediu pela última vez. Foto 8.5 - Eu, Matheus e o José O tempo com o José foi curto, não mais que uma hora e meia, mas foi daqueles momentos que depois que passam você diz "Mano, que cara gente boa da porra!". Não bastou ele dar uma carona pra gente, ele desviou o caminho para conhecermos o Titanossauro, depois foi até a saída da cidade para facilitar a nossa vida. Tenho quase certeza que ele chegou atrasado para buscar os funcionários da Aluar. Sabendo disso as atitudes dele se tornam muito mais especiais para mim. O objetivo agora era conseguir uma carona para a próxima cidade que era Comodoro Rivadavia, distante a 400km de Trelew. Começamos pelo começo e fomos conversar com os caminhoneiros que estavam estacionados no posto. Algumas boas conversas surgiram disso, mas nenhum êxito em relação a carona. Fomos para a saída do posto e ali começamos o revezamento de dedões erguidos. Meia hora cada um a beira pista. Só tinha nós pedindo carona. A rodovia estava meio deserta. Os poucos carros que passavam, paravam logo adiante num campeonato de futebol infantil que estava tendo naquela tarde. Eu tinha certeza que um carro vermelho nos daria carona naquele dia e repetia isso toda hora. Foto 8.6 - As mochilas na saída do posto da Axion em Trelew Nessa tarde começamos elaborar algumas teorias sobre as caronas para passar o tempo na beira da estrada. A primeira delas é que toda pessoa que não pode mesmo dar carona faz questão de expor isso de alguma forma, acho que isso alivia um pouco a consciência. Tipo uma pessoa com carro cheio faz o gesto com a mão que está cheio ou uma pessoa que vai parar logo adiante indica com o dedo que vai parar logo ali. Ninguém tem obrigação de parar o carro, mas ver pessoas precisando de ajuda e saber que não pode mesmo ajudar deve fazer bem para o ego, mesmo não tendo a intenção de ajudar se pudesse. Já as pessoas que realmente poderiam dar carona e não tem a intenção de dar evitam olhar para os pedintes de beira de pista. A segunda teoria boba que elaboramos é que caminhonetes nunca param para caroneiros. Depois fizemos uma lista de tipo de carros que eram mais propícios a parar, mas para mim, desde a Península Valdés, que eu tinha certeza que algum carro vermelho nos salvaria. Elaborar essas bobeiras e conversar sobre elas faziam a longa espera ser mais leve na quente Trelew. As horas passavam. O dia era muito quente, quem não estava pedindo carona ficava dentro do posto se escondendo do sol e tentando a abordagem direta. Esse dia era o dia da final entre River x Boca em Madrid. O posto começou a se encher de torcedores dos dois times. Pensei por um momento abortar a tentativa de carona, por um tempinho, para ver o jogo, mas decidimos melhor continuar. De vez em quando eu ia espiar o placar. Na hora do jogo a deserta pista ficou mais deserta ainda. Raramente, passava alguém pela Ruta 3. No máximo algumas pessoas correndo ou pedalando. Aliás, toda pessoa que passava por nós dizia "Suerte", era bem bom ouvir isso. Todo carro que erguíamos o dedão, ao saber que o carro não pararia, cumprimentávamos o motorista com um sinal de mão. Essa era outra forma de deixar mais leve as horas pedindo carona. Já estávamos torrados de sol. Nesse dia não desanimamos por nenhum momento, mesmo com fome. Já era quase sete horas da noite, resolvemos sair dali, mas não sabíamos se iriamos armar acampamento no posto ou caminhar pela cidade ou tentar seguir de ônibus. Decidimos colocar nossas mochilas e fazer qualquer coisa diferente, pois ali já nenhum carro passava mais. Estávamos tranquilos, tínhamos tentado por todo o dia seguir de carona. Apenas não tinha rolado. Coloquei a mochila nas costas. Quando comecei andar, surgiu um carro vermelho na minha frente. Por que não tentar? Ergui o dedo pela última vez naquele dia. O carro parou. Corri até o motorista, ele perguntou "Vas a Comodoro Rivadavia?" e eu sem acreditar disse "Si, si, si". Incrédulos e meio estabanados tentávamos colocar nossas coisas no carro, o senhor achando graça da situação disse "Calma, calma, no me voy sin los dos". E assim, o carro vermelho (leia-se anjo vermelho) da minha premonição veio nos salvar naquele dia. Não consigo traduzir a alegria daquele momento. Como aconteceu na Península Valdés, novamente éramos salvos no último instante possível. Parecia até uma pegadinha do além ou uma provação qualquer. Nos últimos dias tinha enchido tanto o saco do Matheus com a história do carro vermelho e agora ver nós dois em movimento dentro de um carro vermelho era no mínimo curioso. Não tinha sonhado e nem tido visão nenhuma, comecei a falar do carro vermelho sem pretensão alguma. Acho que era uma forma de manter a esperança da carona viva. Assim, ficava sempre a espera do carro vermelho. A espera tinha acabado e fiquei meio abobado com a força do pensamento. Sentei no banco da frente, o Matheus ficou na parte de trás. O motorista logo se apresentou como Juan Carlos, e começou perguntando se estávamos a muito tempo ali esperando, eu disse que fazia quase oito horas que estávamos ali na beira da pista. Ele disse que escolhemos um dia ruim, que domingo era difícil mesmo. Ele estava voltando de uma visita a um amigo. A conversa seguiu ou melhor a partir dali começou o monólogo do Juan. Foto 8.7 - Juan e Eu Falar deste trecho é meio complicado para mim, pois é complexo demais falar dessa carona, em especifico do Juan Carlos. Toda vez que me recordo desses momentos junto do Juan vivo um dilema. Sou muito grato a tudo o que ele fez por mim e pro Matheus, mas ao mesmo tempo não consigo gostar dele. Me sinto mal por falar isso, pois dá a impressão de ingratidão da minha parte. Pelo contrário, como disse sou grato demais ao Juan, mas ficar na sua companhia por quase cinco horas foi das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Juan é soldador subaquático, dono de uma vinícola em Mendoza, ex militar que lutou na Guerra das Malvinas e se dizia um caçador de mão cheia, sempre repetia "Não morro de fome em lugar nenhum, aqui mesmo se eu for caminhado por qualquer canto, horas depois te trago comida". As falas do Juan se estendiam por muitos minutos, no início ele nem percebeu que eramos estrangeiros, assim falava num espanhol rápido e de difícil compreensão. Ele não pausava entre um raciocínio e outro, emendava tudo e não dava espaço para nós falarmos. Creio que ele tinha uma necessidade de mostrar quem era o Juan e qual era sua visão de mundo antes de tudo. No início era interessante isso, mas passado uma hora minha cabeça estava para explodir. O Matheus estava tranquilo atrás, mas eu tinha estar ali atento nas frases que eram ditas rapidamente e a todo momento. Manter a atenção exigiu muito mentalmente de minha pessoa. O pior foi quando eu comecei a compreender com mais clareza seu espanhol atropelado e consegui entender sua visão turva de mundo. Bom, vou me abster de tentar reproduzir suas falas intermináveis que eram carregadas de muito preconceito e tentar resumir mais ou menos o Juan. Pra começar digo que ele é um cara com uma visão simplista de tudo e um tanto contraditório. O maniqueísmo é forte em seu pensar, então tudo é dividido entre bem e mal, não existe meio termo pra ele. Assim, ele divide as pessoas em úteis e inúteis. Repetia quase sempre que o problema da Argentina era que a maioria da população era composta de inúteis. Ele enchia o peito para se dizer nacionalista, mas ao mesmo tempo só denegria a imagem de seu país para nós, o famoso complexo de vira-lata. Ele contou a sua versão da higienização social que ocorreu na Coréia do Sul, onde fizeram uma limpa nos corruptos e bandidos antes de reconstruir o país. Emendou com a seguinte frase "Agora no Brasil vai acontecer o mesmo, vocês escolherem um bom presidente.". Era a primeira vez que topávamos com algum argentino que era favorável a decisão tomada no Brasil. Falava com saudosismo da ditadura militar argentina e da Guerra das Malvinas. Porém, pediu baixa do exército, assim que acabou a guerra. Perdeu muitos amigos ali no campo de batalha. Pelo que eu entendi, ele foi totalmente contrário de a maior parte do soldados argentinos que foram para a guerra serem do norte do país e em sua maioria garotos. Na Guerra das Malvinas, a maior parte dos soldados não estava acostumado com o frio patagônico. Assim, frio, vento e fome mataram mais soldados argentinos que as armas inglesas, importante frisar que o exército nem cedia roupas adequadas a esses soldados. Enfim, os fazedores da guerra (os engravatados) não estavam nas trincheiras e quem morria era a população pobre do norte do país. Esse tipo de pensamento do Juan que me deixava confuso. Ele era favorável do extermínio de parte da população para "reconstruir" um "país melhor", mas logo depois se solidarizava com os pobres coitados que foram jogados em uma guerra para defender um país que nunca deu bola para eles. Se solidarizou a ponto de largar o exército. Eu me considero um sujeito meio contraditório, mas ao conhecer o Juan passei parar de achar isso de mim mesmo. Lembro que, em algum momento, tentei desviar o assunto para algo mais leve, disse uma frase do tipo "A mulherada aqui na Argentina é show de bola né?". Antes mesmo de eu terminar a frase ele já emendou "Algumas até que são bonitas, mas são tudo burra. Não dá pra conversar com mulher na Argentina.". Logo ele fez uma mea culpa e disse "No Brasil é diferente né? As mulheres são mais inteligentes, não são umas portas como aqui.". Dei um sorriso amarelo nesse momento. Ele continuou com sua linha de raciocínio, dizendo: "Só dei caronas para vocês porque são homens, se fossem mulheres não daria não. Com homem da pra ir conversando a viagem toda, assim como nós estamos conversando. Se fosse mulher não dava pra conversar não". Imaginei comigo, devo ter dito umas dez palavras ao todo até agora (risos). A misoginia era evidente nele. Pensei em abrir a porta do carro e me jogar diversas vezes. Na verdade eu só pensava nisso em determinado momento. Eu ficava olhando a velocidade do carro e tentava calcular o quão machucado sairia daquela queda. Depois de mais de duas horas e meia de viagem, paramos em um posto. Aproveitei para dar uma mijada. Depois fui na loja de conveniência para ver qual tinha sido o desfecho do jogo. River campeão. Eu e o Matheus fomos sentar numa mesa do lado de fora. Logo depois o Juan chegou com uns pacotes de bolacha e uns lanches para nós comermos. Juan estava feliz com o resultado do jogo. Pela primeira vez comemos a bolacha Macucas, que depois seria nossa companheira diária. Nessa hora a conversa foi bem mais agradável e menos unilateral. O Juan se propôs a ouvir um pouco. Até então ele não tinha tido a curiosidade em saber sobre nossas vidas, de onde viemos ou mesmo o que fazíamos. Nessa hora ele perguntou sobre tudo, falamos quem era Diego e Matheus. Depois quis chutar quantos anos tínhamos. Ele me deu 19 anos (risos). Falou da sua cirurgia que tinha feito pouco tempo antes e que os médicos desacreditavam que ele sobreviveria. Mostrou a cicatriz gigantesca nas costas que é a marca que ele carrega da operação. Falou da sua filha com bastante orgulho, ela faz mestrado em Mendoza. Disse que estava feliz que sua mulher pela primeira vez, depois de mais de trinta anos de casados, foi acompanha-lo numa pescaria. Parecia que o cara que estava ali não era o mesmo que estava dirigindo o carro minutos antes. Ele ainda foi comprar água quente para preparar um mate. Fizemos uma roda de mate e conversamos um pouco mais. Eu fiquei preocupado que ele nos associa-se na sua divisão de mundo com os inúteis e nos deixasse ali. Pelo contrário, agora ele parecia mais um pai cheio de conselhos e entendia a nossa necessidade de viajar mesmo que com pouco dinheiro. Confesso que essa parada no posto foi muito agradável. Voltamos a pista e o Juan voltou a ser o que era. Voltou com suas filosofias erradas de vida (isso no meu entender). Não consegui não associar ele com aquele episódio do Pateta que se transforma ao entrar no carro. Pateta é todo tranquilão e respeitoso, mas quando entra no carro vira um nervosão, briguento e mal educado. Sei que pode ser inocência minha, mas pode até ser que o Juan queria passar uma imagem de machão incorrigível, apesar de não acreditar muito nisso. A viagem prosseguiu. O legal do trecho Trelew/Comodoro Rivadavia é que ele é um pouco diferente de todo o resto da Ruta 3. Por este trecho tem algumas curvas sinuosas, no caminho é possível se avistar cânions e tem muitas elevações na rodovia. A natureza é muito bonita em volta também, é possível avistar um montão de guanacos e alguns zorros pelo caminho. O Juan era bom em avistar zorros, mesmo os bichinhos estando longe ele conseguia identifica-los. Já os guanacos ficam em bandos a beira da pista, e com isso tem muitas acidentes, creio que vi uns três guanacos atropelados neste trecho. Foto 8.8 - O caminho até Comodoro Rivadavia Foto 8.9 - Mais um pouco do caminho Cada vez que descíamos mais pela Argentina o sol se punha mais tarde. Em Claromecó o sol se escondia um pouco depois das nove da noite. Em Puerto Madryn e Trelew isso acontecia quase as dez da noite. Agora indo para Comodoro Rivadavia já tinha passado das dez da noite e ainda o céu estava claro. A viagem continuava. Eu tinha muito sono, não conseguia mais dar muita atenção ao Juan. Ouvimos rádio por um tempo. Escureceu. A viagem prosseguia. Juan continuava com suas afirmações erradas sobre tudo. Eu só queria chegar, a cabeça estava a ponto de explodir. Quando chegamos em Comodoro Rivadavia o Juan disse que era de uma cidade chamada Caleta Olivia, uns 70 km mais ao sul. Deixou a opção de nos deixar ali em Comodoro ou em Caleta Olivia. Preferimos ficar em Comodoro. Ele foi bastante bacana em nos deixar em um posto mais seguro possível para acamparmos. Paramos num posto da Petrobras, já era madrugada. Entramos na loja de conveniência e o Juan pegou um café pra ele. O Juan voltou a ser aquele cara bacana da outra parada. Conversou sem pretensão de impor seus pensamentos. Foi gentil ao passar seu telefone caso tivéssemos problemas no decorrer da viagem. Ainda quis pagar uma janta para nós, mas recusamos, pois ele já havia feito muito por nós. Deu a impressão que ele não queria ir embora, queria ficar ali conversando conosco. Não sei ao certo, mas acho que ele estava bastante carente de conversas e de amigos. Nos despedimos do Juan com alguns abraços. Antes de partir ele ainda tomou outro café. Depois fomos montar a barraca para dormir atrás do posto. O vento que estava naquela noite, naquela cidade era surreal de tão forte. Comecei a montar a barraca, mas não tinha como, a chance dela voar para longe era muito maior de eu ter sucesso na montagem. Depois de algum tempo conseguimos montar a barraca. Eu estava capotado, só queria dormir. Usei o banheiro da loja de conveniência e em seguida capotei na barraca. Foto 8.10 - Eu, Juan e o Matheus Agora aqui em casa, relembro toda a trajetória com o Juan e não sei o que achar dele. A sua visão de mundo é totalmente contrária da minha. Me chateou bastante ficar ao lado dele ouvindo um monte de baboseiras e não poder falar nada, uma porque ele não dava espaço pra eu falar e outra porque tinha receio de falar algo que ele não gostasse e perder aquela carona que tanto precisávamos. Me senti um merda por isso. Por outro lado, me senti injusto em certos momentos em não aceitá-lo e ver nele um cara carente que queria falar, conversar e ter contato com outras pessoas. Ele sentia muita necessidade em falar. Também tem que ele conosco foi muito bom mesmo. Foi a única pessoa que confiou na gente e parou seu carro. Percebeu que não tínhamos comido, não hesitou em compartilhar sua comida. Também se preocupou com nossa segurança passando por diversos postos, analisando qual seria o mais seguro para nós pernoitarmos. Sei lá, é tudo muito confuso para mim. Me pego muitas vezes pensando nesse trecho da viagem. O anjo do carro vermelho não tinha nada de anjo, na verdade esse carro vermelho tornou-se uma pegadinha ou qualquer coisa do tipo, pois foi a parte de maior complexidade da viagem. Mas e ai? O que pensar quando uma pessoa com ideias esquisitíssimas te ajuda a ponto de você questionar a si próprio? De qualquer forma, sou muito grato ao Juan e a sua carona salvadora. Acordamos assim que o sol nasceu. Desfiz a barraca, mas foi muito difícil dobra-la, o vento era intenso. Usei o banheiro do posto para me limpar um pouco e escovar os dentes. Fomos pedir água para fazer o mate e percebemos que tínhamos perdido nossa bomba. A atendente nos deu água quente, ainda nos presenteou com uma bomba novinha. Foi bem legal isso. Tomamos o mate e comemos um último pacote de bolacha que tínhamos. Seguimos caminhando para a saída da cidade. A caminhada durou mais ou menos uma hora até um bom ponto para pedir carona na Ruta 3. Paramos e começamos a pedir carona. Enquanto, um pedia carona o outro tentava se proteger das rajadas de areia que o vento não cansava de criar. Passamos horas e horas ali. Nada de caronas. Ficar ali era uma prova de resistência, ainda mais com fome. Tentamos e tentamos. No meio da tarde eu já não estava mais aguentado aquele misto de calor insuportável, ventos fortíssimos junto com terra e areia. Minha cara estava áspera de tanta terra que tinha grudada nela. Matheus estava só o pó também. O dia anterior tinha sido pesado fisicamente e mentalmente. Então, resolvemos ir para rodoviária e seguir aquele trecho de ônibus. Foto 8.11 - Caminhando até um ponto bom para pedir carona em Comodoro Rivadavia Foto 8.12 - Ruta 3 Foto 8.13 - Enfim, um ponto que todos os carros seguiriam para o sul e passavam devagarinho Foto 8.14 - Revezamento, vez do Matheus pedir carona Foto 8.15 - Revezamento, minha vez Chegamos na rodoviária, compramos passagens para Rio Gallegos, o ônibus só sairia pela madrugada. Fomos caminhar pela cidade. Comemos um choripan na rua. Nesse dia quase morri de lombriga. No lugar em que comemos o choripan, tinha um lanche que eles chamam de lomito que tava bonito demais, mas era muito caro. Olhei as pessoas comendo o lomito e fiquei com muita lombriga de comer aquilo, mas me segurei e comi o choripan que era infinitamente mais barato. Depois achamos uma sombra na orla de uma praia, ficamos o resto do dia por ali. Foi bem gostosa essa tarde, fazia tempo que não ficávamos debaixo de uma sombra só descansando, pois os últimos dias tínhamos sido torrados pelo sol nas rodovias. Depois fomos no mercado, vimos a bolacha Macucas que o Juan havia dado para nós. Um pacote de bolacha na Argentina gira em torno de 3 e 4 reais, mas a Macucas era menos de um real e mais gostosa. Compramos um monte de pacotes de Macucas para o restante da viagem. Foto 8.16 - Centro de Comodoro Rivadavia Foto 8.17 - A avenida Foto 8.18 - A orla da cidade Foto 8.19 - O outro lado da orla Voltamos para rodoviária e conhecemos o caroneiro Sergio. Ele é argentino da cidade de Corrientes e estava trabalhando de garçom por todas as cidades que passava. Agora iria pra Puerto Madryn de ônibus, depois seguiria de carona até Corrientes, tinha esperança de chegar antes do Natal para passar com a família. O que me chamou atenção do Sergio foi que ele tava viajando de carona com mais dois brasileiros. Eram três. Eu já achava difícil viajar de carona em dois. Imagine eles em três. Os dois brasileiros tinham acabado de seguir pro Brasil. Sergio tava sem comida, demos uns pacotes de bolacha Macucas para ele e subimos no ônibus. Comodoro Rivadavia foi a única cidade da qual eu não gostei nessa viagem. O vento é muito forte, do tipo que quando eu estava andando e ao erguer o pé de apoio para caminhar, senti como se fosse um chute na perna, virei xingando o Matheus "Porra, por que tá me chutando?", vi que ele estava a uns vinte metros de distância. O vento havia me "chutado". A cidade é toda envolta de areia e terra. A mistura de terra e vento é terrível, a cada cinco minutos tirava uma bolota de areia da minha orelha. O ambiente na cidade é bem esquisito também, não sei se é por causa de ser uma cidade petroleira. Entretanto, das cidades da Patagônia, Comodoro Rivadavia é o único lugar que eu não me senti cem por cento seguro. José e Juan Carlos, duas caronas e duas pessoas completamente diferentes. O José me identifiquei com ele mesmo antes dele começar a falar, o Juan até hoje não sei o que sentir por ele. Uma viagem foi rápida, tranquila e leve, a outra foi longa, demorada e pesada. Enquanto um era só sorrisos, o outro não sorria nunca. Duas caronas distintas, mas as duas tiveram a mesma importância e nos deixaram mais próximos do final do mundo. Enfim, o resumo da estrada é isso: você nunca vai saber quem irá abrir a próxima porta. Assim, algumas experiências vão ser bem legais, outras nem tanto. No fim, tudo é aprendizado.
  15. @Juliana Champi valeu pelas palavras, fico muito feliz em saber que está gostando do relato. Também prefiro escrever sobre as sensações e pessoas, acho que no fundo é o que fica das viagens. O Wagner é figuraça hahaha Quando quiser aprender a fazer os links me manda uma mensagem que te explico direitinho como faz, é bem facinho.
  16. Parte 7 - Frustrações na estrada e a beleza de Puerto Madryn "A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa." O Outro Pé da Sereia, Mia Couto Fomos para a saída do posto da YPF em Tres Arroyos na Ruta 3. Ficamos com o dedão erguido por pouco mais de uma hora. Até que escutamos alguém gritando, olhamos para trás e tinha um carro parado, uma moça quase saindo pela janela fazia sinal para irmos com eles. Pegamos nossas coisas e saímos correndo rapidamente com medo que o carro partisse sem nós. Entramos no carro e conhecemos o German e a Micaela, pai e filha. O Matheus logo se ofereceu para preparar o mate. Olhei do lado e ele tinha derrubado um monte de erva no carro, era a primeira vez que preparava mate numa carona. Depois que a cuia passeou por todos nós e recebemos a aprovação do mate, a conversa começou. Foto 7.1 - Mochilas em Tres Arroyos Os dois estavam indo pra Bahia Blanca, a Micaela tinha acabado de se formar em bioquímica e estava indo buscar seu diploma. Mal começou a conversa e a pergunta já veio "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?". Demos risada, afinal todo mundo perguntava isso. A conversa prosseguiu e descobrimos que o German é educador físico. Ele faz todo tipo de esportes e é torcedor do River Plate. O assunto girou em torno de futebol por um tempo. A Mica é torcedora do San Lorenzo. Depois falamos o que fazíamos da vida e explicamos a nossa viagem, German ficou bastante curioso com a inteligência artificial. A Micaela nos contou sobre a sua viagem caronando pela Patagônia antes de entrar na faculdade. Falaram dos planos de conhecer o Brasil, em especifico Balneário Camboriú (Balneário faz muito sucesso na Argentina). German gosta de subir montanhas e no final de ano ia subir um vulcão perto da divisa com o Chile. Foto 7.2 - German, Matheus, Micaela e Eu O German sempre buzinava quando passava na frente de uma mini estátua cercada de aparatos e bandeiras vermelhas na estrada. Como a curiosidade é grande perguntei o porquê daquilo. Ele contou que a estátua se referia ao Gauchito Gil, esse gaúcho é tipo um santo protetor (ou companheiro) de quem está dirigindo na estrada. A adoração é visível, em todos os lugares a beira pista tem esses santuários e todos os motoristas buzinam ao ver a imagem de Gauchito Gil na estrada. Foto 7.3 - Gauchito Gil (Foto tirada em Rio Gallegos, coloquei aqui só pra ilustrar) Depois de quase três horas de viagem e de boas conversas, chegamos em Bahia Blanca. A Micaela desceu do carro para ir em busca do seu diploma. Só deu tempo de falar tchau. Nós seguimos com o German que foi mais avante na cidade para facilitar nossa vida. Demos um abraço bem forte no German e o Matheus presenteou-o com duas fitinhas do Senhor do Bonfim. Nos despedimos do German e seguimos caminhando até a Ruta 3 novamente. Caminhamos por mais de uma hora para chegar numa bifurcação que diziam que era o melhor caminho para pedir carona. Era um ótimo lugar, pois tem um posto da Axion gigante e tinha centenas de caminhões parados ali. Tinha certeza que seria fácil prosseguir dali. A ideia era seguir adiante, não importava qual cidade iríamos ser deixados, desde que fosse caminho para o sul. Assim, fomos primeiro conversar com os caminhoneiros parados. Recebemos um monte de não. Uns diziam que o caminhão era rastreado. Outros diziam que iam no sentido contrário, mas minutos depois seguiam rumo ao sul. As conversas só renderam com os caminhoneiros que realmente seguiriam sentido Buenos Aires. Fizemos amizade com um caminhoneiro que a mulher dele é brasileira. Depois fomos para a pista, havia umas três pessoas que também tentavam seguir pro sul. Ficamos um pouco ali, mas como fizemos fila a nossa chance era pequena. Voltamos para o posto e tentamos a abordagem direta novamente. O curioso que tinha um caminhoneiro maratonista no posto, ele saiu do caminhão de shortinho e tênis de corrida e ficava correndo em círculos no posto. Não entendi bem porque ele andava em círculos, ele poderia seguir pela pista e depois voltar, mas ele rodava como dentro de um autorama. Era engraçada essa cena. Continuamos com as abordagens e não obtivemos sucesso. Logo começou uma chuva bem forte, o que nos forçou a continuar por ali dentro do posto. A chuva prosseguiu por toda a tarde. Já era quase noite e resolvemos desistir das caronas e prosseguir de ônibus. Nesse ponto é importante fazer algumas reflexões. Eu acredito muito em energia, dessas que você sente ao estar do lado de uma pessoa. Quando fomos para a pista pedir carona, tinha um cara lá pedindo carona também. Conversei um pouco com ele e senti que ele transmitia uma energia muito ruim. Não quis ficar perto dele e por isso abortamos pedir carona na pista, pois ele meio que seguia a gente. Quando a chuva veio com força ele se abrigou dentro do posto também, mais uma vez conversei com ele e dessa vez me senti pior ainda ao lado dele. O Matheus disse que sentiu o mesmo. Não gosto de fazer diferença com ninguém, mas aquele cara me passava algo muito ruim. Eu e o Matheus tínhamos combinado que dormiríamos ali mesmo no posto naquele dia. Tinha um monte de caroneiro ali, ninguém conseguiu sucesso naquela tarde e já estava pra escurecer. Assim, as chances de prosseguir com carona eram mínimas. Não quis dormir no mesmo lugar que aquele cara e decidimos ir para rodoviária e seguir de ônibus noturno para Puerto Madryn. O pouco de dinheiro que tínhamos nos tornou conservadores naquele momento. Esse nosso conservadorismo fez ficarmos frustados no caminho até a rodoviária. Talvez tenha sido a maior frustração da viagem, pois sabíamos que dali uma hora a carona ia surgir. Era questão de tempo apenas. Mas nessa hora resolvemos deixar a racionalidade de lado e ouvir o coração. Coração que dizia pra sairmos correndo dali. Chegamos na rodoviária e tivemos sorte, pois compramos a passagem para Puerto Madryn com outro super desconto. Depois fui no mercado comprar uns pães para comermos de janta. Voltei e sentamos para comer num lugar isolado da rodoviária. Uns cachorros gigantes vieram conosco. Dava uma dó comer em volta dos pidões. Cada mordida que eu dava eles avançavam um pouco mais em minha direção. Pareciam esfomeados. Então, joguei pão para eles, mas se mostraram frescos por não ter quase recheio e não comeram (risos). Foto 7.4 - Dois dos famintos Foto 7.5 - Moço dá um pedaço O ônibus chegou já era quase uma hora da manhã. Subimos no ônibus e segundos depois de me sentar na poltrona já estava dormindo. Acordei era noite ainda. Olhei o céu pela janela e o céu estava estrelado demais. Que maravilha. Paramos em Viedma para mais passageiros entrar. Agora oficialmente estávamos na Patagônia. A viagem prosseguiu. Depois de passarmos por Las Grutas o dia já se anunciava. O busão acelerava e agora só ia no sentido sul. Pela janela via guanacos correndo pela paisagem. Eram muitos guanacos. No meio da manhã o ônibus estacionou na rodoviária de Puerto Madryn. Enfim, pisei com meus próprios pés na tão esperada Patagônia. Foto 7.6 - A Ruta 3 pela janela frontal do ônibus A Argentina é um país dividido em vinte e três províncias (semelhante aos estados brasileiros) e mais a cidade autônoma de Buenos Aires. Cinco dessas províncias estão localizadas na Patagônia e são elas: Rio Negro, Néuquen, Chubut, Santa Cruz, Tierra del Fuego. O território patagônico corresponde a metade do território argentino. Quando passamos por Viedma e Las Grutas cortávamos a província de Rio Negro, ao cruzar para Puerto Madryn ingressamos na província de Chubut. A Patagônia tem esse nome por causa do Fernão de Magalhães. Como se sabe Fernão de Magalhães foi o homem que planejou circum-navegar o globo terrestre. Essa viagem foi a primeira circum-navegação da história da humanidade. Porém, Fernão morreu antes de terminar essa façanha, faleceu nas Filipinas. Entretanto, foi o primeiro homem a navegar pela Patagônia e posteriormente pelo Estreito de Magalhães. Quando atracou na Patagônia (ainda não tinha esse nome a região) pela primeira vez, avistou os ameríndios da região e pensou que fossem gigantes (pois a média européia naquela época era de 155 cm e os ameríndios da patagônia mediam mais de 180 cm). Ao escrever essa experiência para a coroa espanhola, descreveu aqueles seres como patagão, ou seja, aqueles que tem pés grandes. E assim, foi que a região foi batizada como Patagônia, a terra dos gigantes ou a terra do pé grande. A rodoviária de Puerto Madryn é muito bonita e organizada. Estava um calor do cão. Ficamos sentados um pouco nos bancos, planejando os próximos passos. Precisávamos de internet e o wifi da rodoviária estava fora do ar. Caminhamos até o shopping. Antes caminhamos pela orla da cidade. Que mar maravilhoso, uma das colorações mais bonitas que já vi. Chegamos no shopping e conseguimos acessar a internet e mandar mensagem para o Carlos avisando que havíamos chegado. O Carlos estava pelo centro e falou que já passava pra nos buscar. Cinco minutos depois ele parou com o carro na frente do shopping. Entramos no carro e logo começamos a conversar. Ele nos levou para o mirante da cidade, bem bonito por sinal. Depois nos levou para a casa dele. Ele teria que trabalhar pela tarde. Foto 7.7 - O mirante Foto 7.8 - As bandeiras Encontramos o Carlos pelo couchsurfing, fazia alguns dias que estávamos em contato com ele. Não sabíamos o dia exato que iriamos chegar, mas por sermos brasileiros ele sempre foi muito solicito. Não tínhamos 3g no celular, então depois que saímos de Claromecó não conseguimos mais falar com o Carlos. Ele sabia que podíamos chegar a qualquer momento. Nisso ele hospedou uma francesa sob a condição se nós chegássemos ela teria que procurar outro lugar pra ficar. Só fui saber disso depois. A francesa partiu para um hostel e nós chegamos. Ao menos ela ficou na casa do Carlos por alguns dias. Carlos é professor de inglês do ensino público. Ele é um cara que já morou em tudo que é lugar da Argentina, desde do extremo sul da argentina (Ushuaia) até o norte, na realidade ele é do norte argentino. Ele é o cara mais apaixonado pelo Brasil que já conheci. Os programas televisivos que assiste são brasileiros, as músicas que ouve são brasileiras, as comidas que mais gosta são do Brasil. Ele fala muito bem português e o motivo principal de ter nos aceitado em sua casa era pra treinar o seu português. Pela tarde fomos caminhar pela orla. Levamos nossa térmica e ficamos boa parte da tarde mateando a beira mar. Depois fomos até o cais, onde os cruzeiros atracam. Tava rolando um protesto com algum desses navios, mas eu não entendi o porquê do protesto, queria ter compreendido aquela situação. Depois fomos até o Museu Oceanográfico. O museu é todo organizadinho e cheio de boas informações da rica fauna marítima de Puerto Madryn. A cidade é o principal ponto de estudo da baleia franca no mundo, pois nessa região é onde ocorre o acasalamento desses mamíferos, em consequência disso a baleia franca é o grande símbolo da região. Uma coisa que me chamou atenção nesse museu é que dizia que o aumento de lixo, aumentou o número de gaivotas cocineras por ali e com o aumento dessas gaivotas começou a diminuir o número de baleias francas. Fiquei uns minutos tentando adivinhar o porquê disso. Não achava uma relação entre gaivotas e baleias. Desisti de encontrar as resposta por mim mesmo e li a explicação. O motivo era que as gaivotas atacavam as baleias causando ferimentos que infeccionam e levam essas baleias ao óbito. Nunca iria imaginar isso. Diziam que quando era poucas as gaivotas elas bicavam as baleias mortas somente, para retirar algum nutriente, mas com o excesso da população de gaivotas elas começaram a atacar as vivas também. Achei bizarra essa situação, nem na minha imaginação fértil iria supor que uma população de gaivotas colocaria em risco a sobrevivência das baleais franca na Terra. Foto 7.9 - O lado B de Puerto Madryn Foto 7.10 - A orla de Puerto Madryn Foto 7.11 - Eu e o mar Foto 7.12 - A visão do cais Depois fomos olhar os preços dos rolês mais famosos de Puerto Madryn. Tudo caro demais. Acho que o lugar mais caro da Patagônia. Os dois passeios mais famosos são Península Valdés e Punta Tombo. Peninsula Valdés é uma reserva ambiental onde a fauna é riquíssima e concentra todo os tipos de animais da região, além de ser o principal ponto de observação das baleias francas. Punta Tombo é um local que abriga uma gigantesca colônia de Pinguins de Magalhães, onde vivem mais de um milhão de pinguins em determinada época. Por agências não havia chance de nós conhecermos nenhum dos dois lugares. O interessante de Puerto Madryn é que tem bandeiras do País de Gales por todo o canto da cidade. A cidade foi colonizada e fundada por galeses, assim como as cidades vizinhas Trelew e Rawson. Voltamos para a casa do Carlos já era noite. Carlos apresentou sua playlist de música só com músicas brasileiras. Tocou desde É o Tchan até IZA. Ele prefere as músicas mais animadas. Ivete Sangalo quase sempre aparecia na lista. Enquanto a música rolava, eu e o Matheus começamos a preparar a lentilha para a janta. Carlos ficava meio tímido em falar português, mesmo sabendo a palavra que usar ele nos perguntava antes para ver se tava certo. Sempre tava certo. Ele conhece gírias que nem eu conheço. A lentilha ficou pronta. Carlos comeu conosco e elogiou bastante a comida. E tava muito boa mesmo. Comemos muito nessa noite. Depois falamos com o Carlos sobre os altos preços das agências. Ele nos aconselhou a tentar a sorte por carona. Decidimos ir até a entrada da Península Valdés no dia seguinte e ficar ali esperando uma carona. A península é gigantesca e só tem como fazer de carro, pois de um ponto para outro tem mais de cem quilômetros. Para chegar na Península Valdés é necessário ir até Puerto Pyramides uma cidadela distante cem quilômetros de Puerto Madryn. Ainda era noite quando caminhamos rumo a rodoviária. Seis horas da manhã e já estávamos partindo para Puerto Pyramides. Dormi boa parte do trajeto. Uma hora o guarda me acordou para eu pagar o valor da entrada, por estar adentrando numa reserva ambiental. Seguimos até o ponto final em Puerto Pyramides. Caminhamos até a orla e água tinha uma cor lindíssima. Conseguia ser mais bonita que de Puerto Madryn. Depois ficamos sabendo que teríamos que voltar muitos quilômetros para a bifurcação que leva na Península Valdés. Caminhamos de volta. O sol estava muito quente. Não havia nuvens no céu. Continuamos a caminhada. Erguíamos o dedão da esperança pra quem passava de carro. Depois de caminhar por mais de meia hora a Luciana parou seu carro. Ela achava que estávamos indo para Puerto Madryn, explicamos que queria irmos pra entrada da península. Ela é muito simpática. Depois de alguns minutos nos deixou na bifurcação. Despedimos-nos da Luciana e fomos tentar a sorte ali, na esperança que alguém se solidarizasse conosco e assim, teríamos a oportunidade de conhecer a Península Valdés. Foto 7.13 - O início do dia em Puerto Pyramides Foto 7.14 - Caminhando no sentido contrário de Puerto Pyramides Ficamos postados na frente da placa que indica o início da península. O calor estava insuportável, mas o vento estava muito forte. Assim, não dava para tirar o corta vento. Os carros que passavam por ali eram poucos. Alguns carros até paravam para conversar, mas nada de sucesso. O misto de calor e vento tava infernal. Para amenizar a espera, ficávamos imaginando qual seria o carro que pararia para nós. Eu tinha certeza que seria um carro vermelho. Todo carro vermelho que passava eu ia com mais gana pedir carona, mas nada. Com o tempo aquela famosa frase "O não você já tem, só falta a humilhação" fez valer. Tentávamos de todas as formas (nem todas, risos) chamar a atenção dos motoristas para conseguir uma carona. Foto 7.15 - A cara da derrota O passeio na península é demorado, precisa de no mínimo umas seis horas. Já era quase meio dia e o fluxo de carros ali já não existia mais. Decidimos ir pra orla Puerto Pyramides e aproveitar o resto do dia na praia. Quando estávamos saindo avistamos um motorhome vindo em nossa direção. Tentamos uma última vez. Para nossa surpresa eles pararam. Antes de falarmos algo, o motorista perguntou se queríamos seguir com eles. Não me contive de felicidade naquele momento. Agora pela primeira vez viajaria em um motorhome. Foto 7.16 - A serenidade no olhar de quem viajaria de motorhome pela primeira vez O casal dono do motorhome é o Facu e a Cynthia. Facu é argentino e a Cynthia alemã, se conheceram em Santigado do Chile enquanto a Cynthia tirava seu tempo sabático e viajava o mundo, e Facu trabalhava por lá. Depois disso ela voltou algumas vezes para Argentina para rever o Facu. Quando o dinheiro acabou foi a vez do Facu ir pra Alemanha ver a Cynthia. Depois disso nunca mais se separaram. Eles já viveram em diversos países por quase todos os continentes. A forma deles viajar é trabalhar por um tempo, ajuntar dinheiro e depois viver outro tempo viajando. Agora estavam iniciando uma viagem de motorhome (recém comprado) que sairiam da Patagônia e terminaria na Península de Yucatán, no México. Tem um terceiro integrante nessa casa ambulante, é o Chihuahua Seymour. Eu e o Matheus estávamos animados de estar ali. Facu e Cynthia são gente boa demais. O Facu estava dirigindo bem devagarinho, pois era a primeira vez que o motorhome era posto num terreno daquele. Assim, fomos devagarinho e conversando. O cenário em volta pouco mudava. Vegetação rasteira por todos os lados. De vez em quando avistávamos alguns guanacos no caminho. Quando isso acontecia a Cynthia ficava toda animada. Depois paramos, pois o Facu queria testar seu drone. Acho que não pode drone ali, mas mesmo assim o Facu ergueu voo. Foto 7.17 - Facu e Cynthia Foto 7.18 - O caminho Foto 7.19 - O olhar, do gente boa, do Seymour Foto 7.20 - Eu fazendo amizade com o Seymour e a Cynthia Foto 7.21 - Facu levantando voo Foto 7.22 - A foto aérea Foto 7.23 - Matheus e o motorhome Foto 7.24 - Hahahaha Foto 7.25 - Viagem que segue A viagem continuou. Lembro de uma cena bacana demais. Estávamos todos quietos e a Cynthia começou gritar para o Facu parar. No primeiro momento achei que tinha acontecido algo, mas logo que saímos a Cyhthia apontou para um montão de aves (parecido com avestruz) correndo. Subimos em cima do motorhome para ver melhor. Aquele momento me lembrou aquele cena de Jurassic Park que os dinossauros correm pelo parque. Foi demais aquilo. Foto 7.26 - Facu, Eu, Matheus e Cynthia (Eu e o Matheus parecemos dois cachorrinhos, horrível a foto) Depois de mais de uma hora de viagem chegamos a Punta Delgada. A entrada fica do lado de um restaurante. Quando começamos caminhar com o Seymour, veio uns guardas falar que não era permitido cachorros. Foi uma choradeira até permitirem a entrada do Seymour na condição que ele sempre estaria no colo de alguém. Fomos até o mirante. Aquele mar é magnífico. Hoje olho para as fotos daquele lugar e de forma alguma as imagens conseguem descrever a beleza que tenho guardada nos olhos. Colocando o óculos de sol do Facu o cenário ficava mais encantador ainda, tudo ficava fluorescente. Foto 7.27 - O caminho Foto 7.28 - Punta Delgada Depois seguimos viagem. No interior do motorhome não tinha ventilação e toda areia que entrava no carro ficava alojada por ali, então viajávamos num poeirão. Vimos mais um monte de guanacos pelo caminho. Pouco tempo depois chegamos na Punta Cantor. Saímos para conhecer o lugar. Fiquei junto com o Seymour e ficamos bem amigos, algo que surpreendeu a Cynthia, pois ele era bem grudado com ela. Não tivemos sorte em relação as baleias, não conseguimos ver nenhuma. Por dezembro elas seguem para a Antártida e começam a voltar para Puerto Madryn entre junho e julho. Foto 7.29 - Punta Cantor Continuamos a viagem e uns cinco minutos depois chegamos em uma Pinguinera. A Cynthia estava maluca para ver pela primeira vez os pinguins, na verdade acho que todos nós estávamos. Conseguimos chegar bem pertinho deles, era possível ver eles dentro das tocas. O jeito de caminhar do Pinguim de Magalhães é bem engraçado e ver aquilo ao vivo é demais. Lembro que um pinguim chegou pertinho de um grupo de turistas e todos os turistas ficaram se derretendo por ele, o pinguim se agachou, virou a bunda pra cima e deu um cagão que mais parecia um tiro. Dei muita risada. A sensação de estar ali naquela natureza intocada, vendo a vida selvagem em seu esplendor é de encher os olhos. Eu era só risos e sorrisos ali. Foto 7.30 - A Pinguinera Foto 7.31 - Pinguins ao fundo e a natureza do lugar Foto 7.32 - Outra visão do lugar Foto 7.33 - O pinguim Foto 7.34 - A chegada do pinguim Foto 7.35 - Matheus na Pinguinera Foto 7.36 - A pose do pinguim Ficamos por ali perto e comemos. Tava quente demais, a sorte que eles tinham muita água gelada, pois a nossa água já tinha acabado fazia um tempo. Esse dia estava lindo, não havia nem sinal de nuvens no céu. Eu procurava nuvens e não encontrava, dos céus mais bonitos que já vi na vida. Descansamos um pouco e antes de partimos de volta para Puerto Pyramides tiramos a foto oficial do grupo. Foto 7.37 - Seymour, o motorista Foto 7.38 - Eu, Seymour, Facu, Cynthia e Matheus A volta foi tranquila. Facu nos disse que só costuma dar carona para pessoas que não têm cara de maluco, mas que no nosso caso abriu uma exceção (risos). Chegamos em Puerto Pyramides e era hora de se despedir desse trio que nos proporcionou um dia fora de série. Já nos referíamos um ao outro como irmão ou hermano. E foi com um "Gracias, hermano!" que abri os braços para dar um forte abraço no Facu. Ele ainda disse "Viajero ayuda viajero, siempre!". Depois fui dar o forte abraço na Cynthia. Por fim, fui me despedir do meu parceirinho Seymour. Facu e Cynthia iriam ajeitar suas coisas, pois partiriam no outro dia cedo para Esquel e depois Bariloche. Nós seguimos para aproveitar um pouco da praia de Puerto Pyramides. Foto 7.39 - Puerto Pyramides Foto 7.40 - A praia Foto 7.41 - O mar Foto 7.42 - Puerto Pyramides de frente Foto 7.43 - Belezura de lugar Voltamos para Puerto Madryn e os efeitos do sol já era visível em nossas peles. Não havíamos passado protetor solar. O Matheus estava rosa. Descobri que a exposição solar na Patagônia é muito mais danosa do que em outros lugares. A Patagônia está localizada sob um grande buraco na camada de ozônio. Assim, quase não existe proteção natural contra raios ultra violetas. Os índices de pessoas com câncer de pele na Patagônia Argentina é muito maior do que nas outras partes do país. Nesse dia nunca vou me esquecer do presente que o Carlos me deu. Pela noite queria sair até a orla para fugir da iluminação e assim conseguir ver as estrelas na Patagônia. Carlos olhou meio cético dessa minha ideia. Ele tinha planejado sair com uns amigos nessa noite. Por diversas vezes ele disse que levaria nós de carro até a praia, não queria que ele mudasse seus planos pra seguir uma ideia boba minha. Enfim, acabamos cedendo e entramos no carro do Carlos. Visitamos toda a orla de Puerto Madryn e para minha surpresa a orla é mais iluminada que o interior da cidade, ai entendi o ceticismo do Carlos. Foi bem legal ver a orla e observar que toda a cidade vai para lá nas noites de calor. Já era onze horas da noite e tinha centenas de rodas de mate por toda praia, famílias inteiras reunidas, crianças brincando, muita conversa e risadas por todos os cantos. Foi bonito de se ver aquilo. A população aproveitando a cidade. No carro o som que nos acompanhava era do Queen. Depois o Carlos seguiu pela rodovia, cada vez mais o escuro ficava mais escuro. Tocava Radio Ga Ga e aumentamos o som no máximo. Não fazia ideia para onde estávamos indo, mas a energia do momento estava boa demais. Mais alguns minutos cortando o escuro de carro e o Carlos parou o carro no meio do nada. Não entendi direito o porquê daquilo. Ai ele me disse para sair. Quando sai nada entendi, não via nada. Até que eu olhei pro céu. Tinha até me esquecido das estrelas. Que belezura de cena. O céu tava tão tão povoado. O Carlos ainda teve a sensibilidade de desligar o som do carro. Fiquei por alguns minutos ali de cabeça pra cima olhando o céu estrelado. Tão bonito tudo aquilo. Dei um abraço no Carlos como forma de agradecimento e voltamos pro carro. O Queen voltou a tocar no rádio e o volume foi no máximo. Agora enquanto avançávamos na pista as luzes de Puerto Madryn ficavam mais intensas. Voltamos pra casa. Carlos se arrumou e ainda deu tempo de encontrar seus amigos. Fui dormir felizão. Na manhã seguinte o Carlos comprou faturas para comermos de café da amanhã. Faturas são como os nossos pães doces, mas com uma variedade maior e vem tudo misturado os sabores. Fizemos café que havíamos trazido do Brasil para complementar o desayuno. Ele nos contou que quando morava num apartamento a beira mar ali em Puerto Madryn, na estação das baleias era possível escutar o esguichar das baleias por toda a noite. Deve ser demais vivenciar aquilo. O dia estava muito quente e decidimos passar a tarde na praia. Fomos pro mercado comprar umas cervejas, gelo e uns salgadinhos. Seguimos para uma praia fora da cidade, a preferida do Carlos. Chegamos e tive uma surpresa em ver que a praia toda era de pedras e pra completar tinha um navio naufragado na nossa frente. Primeira vez que estava num lugar como aquele. Foto 7.44 - Eu, Matheus e o Carlos (nunca imaginei que tiraria uma foto no supermercado rsrs) Foto 7.45 - O caminho da praia Foto 7.46 - O caminho da praia [2] Colocamos nossas cadeiras de praia no lugar. Havia muita gente. O legal é que cada pessoa se protegia de um jeito. Muitas pessoas levavam barracas pra se proteger do sol e do vento. Outros ficavam dentro das cabines das caminhonetes. O sol castigava, devia estar uns quarenta graus. Nunca imaginei que estaria sentado numa cadeira de praia num sol tipico brasileiro no meio da Patagônia. Ai fui pro mar, molhei os pés e congelei. Desisti da ideia do mar e voltei a sentar. Pouco tempo depois o Matheus foi pra água, com mais coragem ele mergulhou naquele mar glacial. Meio segundo depois ele se levantou e saiu correndo do mar. Não parava de tremer. Dizia que doía até os ossos. Eu só dava risada com aquela cena e me senti o espertão em abortar o mergulho. Foto 7.47 - A chegada na praia Foto 7.48 - A praia e o náufrago Foto 7.49 - Nós e a praia Horas depois chegou uma família amiga do Carlos. Um casal com três crianças. Eles trouxeram uma bebida bem boa, era tipo uma ice de limão e vodka muito comum na Argentina, mas não me recordo o nome. Com gelo ficava melhor ainda. Ficamos ali trocando ideia por muito tempo e a temperatura cada vez ficava mais quente. De repente o tempo mudou completamente. Uma tempestade de areia começou. O vento era forte demais. Juntamos nossas coisas e nos protegemos no carro. A tempestade durou uma hora mais ou menos. Naquela hora fiquei feliz que aquela praia era de pedras, pois nas praias de areia no centro de Puerto Madryn aquela tempestade deve ter sido terrível. Seguimos de volta. Paramos no topo de um morro onde avistamos toda a praia por ângulo diferente. Chegamos na casa do Carlos e ficamos de bobeira pelo resto da noite. Foto 7.50 - Matheus e a praia de pedras Foto 7.51 - A praia Conversamos com o Facu uns dias depois e descobrimos que eles estavam na estrada no momento daquela tempestade. O motorhome saiu da pista. Eles ficaram bem assustados com a situação e decidiram que aquele carro não estava preparado para os ventos da patagônia. Abortaram a ida para Esquel e Bariloche, estavam retornando para Buenos Aires. De lá começariam a subida para o México. Fiquei triste em saber disso. Facu e a Cynthia estavam animados com a Patagônia e deve ter sido difícil para eles tomarem essa decisão. Porém, a viagem tem que continuar. Era uma segunda-feira, acordamos e comemos o resto das faturas. Fizemos as plaquinhas de papelão para os nossos próximos destinos. Tomamos mate e café. Terminamos de arrumar as mochilas. Carlos nos deu uma carona até o posto YPF na saída de Puerto Madryn. Demos um abraço forte no Carlos e mais uma vez eramos nós e a estrada. Recordar este trecho da viagem é muito bom para mim. Tanta coisa aconteceu nesse intervalo de poucos dias. Primeiro tivemos a oportunidade de conhecer e viajar com o German e a Mica. Quanta gratidão por isso. Em seguida, assumimos os riscos (mesmo que imaginários) e não bancamos os cabeçudos, deixamos a viagem flexível e mais uma vez mudamos os planos. Adentrar a Patagônia para mim era pagar uma dívida com o passado. Muitas vezes tinha planejado e me imaginado ali, mas agora realmente pude colocar os meus pés na terra dos ventos. E que bom que foi nesse momento. Conhecer o Carlos e seu coração gigantesco foi demais. Não tenho palavras para agradecer tudo o que ele fez por nós e por ter sido nossa companhia em nossos dias em Puerto Madryn. Depois no 45 minutos do segundo tempo na Península Valdés apareceu o trio Cynthia, Facu e Seymour. Tento não ser repetitivo, mas quanta gratidão por tudo isso. Pela primeira vez (sei que digo isso toda hora!) me desconectei de todo o passado recente e fui só presente. Presente no presente. Esses dias foi um presente do presente. Na pista novamente eu compreendi o que estava escancarado desde o início, as pessoas que estavam surgindo no caminho eram as melhores de cada lugar. E tinha que ser assim, quebrando a cara num momento para ser presenteado com o melhor depois. German, Mica, Carlos, Cynthia e Facu muito obrigado por tudo, um beijo na alma de cada um de vocês. Para o pequeno Seymour desejo uma vida cheia de carinho em forma de cafunés.
  17. Parte 6 - O começo da Ruta 3 e o mar de Claromecó "Exageramos sempre as coisas que não conhecemos." O Estrangeiro, Albert Camus Quando convidei o Matheus a encarar essa viagem comigo, ele ainda estava na ecovila em Piracanga. Nessa ecovila moram alguns argentinos e já passaram outros diversos hermanos por lá. Assim, os argentinos da ecovila sabendo da viagem, que o Matheus logo iniciaria, resolveram ajudar com contatos pela Argentina. A Silvina conversou com sua mãe e tivemos hospedagem em Buenos Aires. Depois o pessoal passou contato de um casal, Carlos e Ana, que haviam morado na ecovila e que hoje moram em Tres Arroyos. Pegamos o ônibus com destino a Tres Arroyos, pagamos bem baratinho pela passagem. Tres Arroyos fica a quase 500 km de distância de Buenos Aires, seria uma longa viagem. Entramos no ônibus e agora sim a nossa busca pelo fim do mundo tinha começado. Quando pela janela do bus eu avistei pela primeira vez a quilometragem da Ruta 3 o coração disparou. Até então a viagem estava sendo boa demais, demais mesmo, mas eu sentia que estávamos adiando o nosso principal objetivo e agora o adiamento tinha terminado. A Ruta 3 nos levaria para Ushuaia e agora viajávamos sobre ela. A Ruta 3 é uma rodovia que tem 3079 km de extensão. A rodovia se inicia nos arredores de Buenos e termina na Bahia de Lapataia em Ushuaia. Ela corta toda a Patagônia Argentina margeando o Oceano Atlântico. A Ruta 3 é uma (a outra é a Ruta 40) das duas mais importantes rodovias da argentina. A Ruta 3 se caracteriza por ser reta e plana em quase todo o trajeto. A viagem foi tranquila, ganhamos uma caixinha com alguns doces de café da tarde. Tinha um alfajor de morango sensacional. Uma guria que estava sentada do nosso lado ao ver nossas caras de esfomeados deu sua caixinha para nós. Depois fiquei a olhar pela janela do ônibus. O sol estava descendo na direção da minha janela. Peguei o sol de frente toda viagem, mas mesmo assim não parava de ver aquela belezura dos pampas. Eu vejo muita beleza na imensidão, e o pampas é isso, uma imensidão de mesmos cenários por milhares de quilômetros. Mas que lindeza é o descer do sol nesse lugar. Sol que se pôs apenas as nove horas da noite. Quando a noite tomou conta, já não sentia mais meu rosto que estava todo queimado de sol. Pouco depois de escurecer totalmente chegamos em Tres Arroyos. Foto 6.1 - Os Pampas pela janela do ônibus Foto 6.2 - A Ruta 3 Foto 6.3 - Um pouco mais da vista do ônibus Foto 6.4 - Mais um pouco Foto 6.5 - O descer do sol nos pampas argentinos No dia anterior o Carlos por mensagem tinha nos perguntado se queríamos conhecer Claromecó, uma cidade praiana perto de Tres Arroyos. Respondemos "Bora" ou melhor, como estávamos na argentina tivemos que adaptar e respondemos "Buera". Assim, chegamos em Tres Arroyos e conhecemos o Carlos, já em seguida entramos na sua caminhonete e partimos para Claromecó. O Matheus e o Carlos conversavam na frente. Eu me desconectei do mundo ao avistar pela janela da caminhonete o mar de estrelas no céu. Que lindo estava aquele céu. Fazia algum tempo que não via um céu tão bonito. Das coisas que mais gosto de fazer é ficar paralisado olhando o céu. A paixão surgiu na adolescência quando eu queria ser astronauta, ficava imaginando eu sendo o explorador daquele montão de desconhecido. Depois o céu foi a forma que encontrei de matar a saudade das pessoas que não estão mais entre nós. Assumi aquela história que é contada na infância como verdade e passei a acreditar que quando uma pessoa amada se vai ela vira uma estrelinha. Quantas boas lembranças me veio naquele momento. Os olhos marejaram e fiquei com vontade de ter um corda de tamanho infinito pra puxar de volta aquelas estrelinhas que tanta falta faziam para mim. Depois de quase uma hora de viagem chegamos na casa do Carlos e da Ana em Claromecó. Com um sorriso gigante e um abraço apertado a Ana nos recebeu. Não tinha como não sorrir com aquela alegria que ela estava ao nos receber. Ela tinha preparado uma jantar de recepção. Não tínhamos comido o dia todo, além daqueles doces no ônibus. Então, comemos como dois cães famintos. Só depois as conversas se reiniciaram. Carlos e Ana são terapeutas holísticos e vivem entre Tres Arroyos e Claromecó. Eles atendem nas duas cidades, mas preferem a calmaria de Claromecó. São seguidores do Prem Baba e apaixonados pelo Brasil, já estiveram diversas vezes pelo país e moraram em Piracanga por uma temporada. Até então estávamos alheio as notícias do mundo, de propósito por sinal. Nesse dia perguntei aonde seria a final da Libertadores da América e fiquei surpreso em saber que foi Madrid a cidade escolhida para o épico River x Boca. O campeonato de futebol do nosso continente, que em seu nome homenageia nossos libertadores do colonialismo europeu, teria seu maior capítulo na capital espanhola ou seja a capital dos colonizadores. San Martin e Simon Bolívar devem ter se revirado em seus túmulos. Parecia uma piada de mal gosto essa escolha. Carlos era pontual em dizer: "Não tem mais graça essa final". Ficamos até altas horas conversando e tomando mate. Fiquei surpreso em saber que os dois eram fãs do Porta dos Fundos. Conversamos sobre o vídeo do Porta, que tinha saído a pouco tempo, que satiriza o então candidato a presidência (que naquele dia já era presidente eleito) que acredita que os africanos foram os únicos responsáveis pela época da escravidão. O vídeo fez a conversa seguir para o tema do racismo no Brasil e a Argentina. Concluímos que a propagação dessas teorias absurdas sobre a escravidão brasileira mostram o quanto vivemos num país com um racismo enraizado e ao mesmo tempo velado. Sempre acreditei que a escravidão na Argentina foi feita em sua grande maioria com indígenas, mas o Carlos explicou o passado do seu país. A Argentina chegou a ter 50% de população negra, mas com a abolição da escravatura os negros foram usados como "bucha de canhão" na Guerra do Paraguai, depois foram largados a margem da sociedade e hoje são apenas 3% da população argentina. Diferente do racismo velado do Brasil, na Argentina o racismo é mais explícito. A ironia de toda essa história é que o símbolo da cultura argentina, o Tango, foi inventado pelos negros. No outro dia já no café da manhã começamos as conversas. Ficamos um bom tempo na mesa batendo papo sobre tudo. O assunto desse momento que me vem a memória é sobre a paixão incondicional dos argentinos pelos seus ídolos. Na verdade essa paixão exacerbada sempre me encantou, não existe meio amor lá. Carlos não gosta muito desse amor todo, dizia que tira um pouco da racionalidade. Evita, Che, Mafalda, Maradona e agora o Papa Francisco são os ídolos master desse país chamado Argentina. Mas me diz, como o Maradona não seria "Dios" aqui? Em 1982 a Argentina declarou guerra contra a Inglaterra, nesse momento o país era uma ditadura e o nacionalismo tomava conta da população. Assim, o governo achou que era hora de recuperar a posse das ilhas Malvinas, que estavam sob o domínio inglês. A guerra não durou 2 meses e a Argentina saiu derrotada. Em 1986, quartas de final da Copa do Mundo, Argentina e Inglaterra estão frente a frente novamente. Agora no campo de batalha do futebol. Talvez esse é o único campo de batalha que os sulamericanos lutam de igual pra igual com os europeus. Nesse jogo épico Maradona se transforma em Deus. Primeiro faz um gol de mão e logo em seguida dribla o time todo inglês pra fazer o gol mais emblemático de todos os tempos. No final do jogo ao ser perguntado sobre o gol de mão, resumiu em "Foi a mão de Deus" (risos). Dando a entender que aquele fato era um reparação histórica, só não da pra entender se quando ele se referia a Deus era sobre ele mesmo ou sobre o divino. Foto 6.6 - Nosso novo lar Saímos para caminhar pela orla. Primeiro passamos em frente do Castillo de Claromecó. Essa é uma construção que lembra um castelo medieval, mas por falta de recursos o dono não terminou a construção. O Carlos contou que o Castillo foi uma prova de amor do dono com a mulher, ele queria que a mulher vivesse como uma rainha. Porém, o dinheiro acabou antes da esposa virar uma nobre. O Castillo é todo bonitão e quebra a paisagem da orla de Claromecó composta de uma infinidade de areia. Foto 6.7 - A lateral do Castillo de Claromecó Foto 6.8 - O Castillo de Claromecó Foto 6.9 - O Castillo na paisagem Depois caminhamos horas e horas pela orla. As conversas seguiam. A Ana precisava fazer um atendimento e nos deixou no meio da caminhada. Continuamos o caminhar. Era a minha primeira vez em uma praia argentina. Molhei os pés e água estava congelante. A praia é toda charmosa e não tinha quase ninguém. Claromecó é como uma cidade fantasma, fica vazia quase todo o ano, e somente no verão a galera vai para lá, mas em dias ensolarados a Ana disse que a cidade de Tres Arroyos se muda inteira para Claromecó. Foto 6.10 - O mar Foto 6.11 - Ana e Carlos Foto 6.12 - O farol Foto 6.13 - Matheus, Ana e Carlos Foto 6.14 - A orla Enquanto caminhávamos pela areia da praia de Claromecó surgiu um cachorro todo engraçadinho. Ele não tirava os olhos dos nossos pés. O Carlos já o conhecia e disse que ele gostava de comer areia (risos). Ai o Carlos foi lá e chutou um pouco de areia pra cima, o dog ficou maluquinho e pulou em direção da areia voadora com a boca aberta. Eu chorei de dar risada. E assim ele nos acompanhava na esperança que chutássemos areia pro alto. Chutei várias vezes e o bichinho não cansava. A melhor parte foi quando sai correndo chutando areia e ele veio atrás como louco, só fomos parar com a correria na água gelada do mar, e põe gelada nisso. Foto 6.15 - O cachorro maluquinho Foto 6.16 - A praia Uma coisa que Carlos nos contou que me chamou a atenção foi que a maior paixão do argentino é o automobilismo e não o futebol. Não sei o quanto isso é verdade, mas nunca tinha prestado a atenção nisso. Nos contou sobre os diversos eventos de automobilismo que ocorrem no país. Disse também que em determinada época o país se dividia entre GM versus Ford, tamanha era a rivalidade dos amantes de automobilismo. E toda vez que saímos para caminhar mostrava os Claromachines, que são carros adaptados que não podem circulam nas cidades, mas circulam em lugares como Claromecó. Os Claromachines são como as gaiolas aqui no Brasil, mas tem uma diversidade muito maior, principalmente esteticamente falando. Tinha uns bem engraçados. Foto 6.17 - Claromachine Foto 6.18 - Outro Claromachine No fim da orla a Ana estava nos esperando de carro. Entramos no carro e fomos conhecer a reserva florestal de Claromecó. O lugar é bem bonito, mas dois anos antes teve um incêndio que quase exterminou a floresta. As marcas são bem visíveis ainda hoje. Depois do incêndio a prefeitura liberou a população a cortar madeira na região morta da floresta. Essa madeira é utilizada pela população para abastecer o sistema de calefação das casas. Foto 6.19 - A floresta de Claromecó Foto 6.20 - Mais um pouco da floresta Foto 6.21 - Un pouquito más Voltamos para casa. O Carlos e a Ana prepararam um almoço vegano sensacional. Foi demais aquela comida. Logo depois eles foram tirar a famosa "siesta". Eu e o Matheus voltamos pra praia e ficamos por lá o resto da tarde. Ficamos trocando ideia a beira mar. Depois subimos até o farol da cidade, lugar que se tem a melhor vista da cidade. Foto 6.22 - De frente ao farol Foto 6.23 - O farol e eu Foto 6.24 - Claromecó Foto 6.25 - O pôr do sol Foto 6.26 - Matheus e o mate No caminho de volta estávamos conversando distraídos. Passamos por um ônibus e depois de uns 10 segundos olhei de novo para o busão e me recordei do filme Na Natureza Selvagem. O ônibus lembrava muito o "Magic Bus" do filme. Só pensei naquela hora em tirar a foto característica do Chris McCandless vulgo Alex Supertramp. Foto 6.27 - O Magic Bus Foto 6.28 - Foto referência Na Natureza Selvagem Voltamos e as boas conversas continuaram. A noite chegou e estava frio. As madeiras queimando na lareira iluminavam o ambiente. A essa altura já estávamos viciados em mate argentino e o Matheus já dominava a arte de preparar o mate. Ficamos o resto da noite assim, tomando mate e conversando sobre tudo. Desde de temas complexos até bobeirinhas do cotidiano. Ana e Carlos falaram sobre a volta de Piracanga até Tres Arroyos de carro. Carlos tem descendência holandesa e nessa viagem quis passar por Holambra para conhecer um pouco mais de suas raízes. Holambra fica cerca de cem quilômetros da minha cidade, é tão pertinho, mas eu não conheço. Eles gostaram bastante de Holambra. Depois seguiram para região de Blumenau para a Ana conhecer um pouco mais de sus raízes alemã. Ela ficou feliz em saber que as tiaras floridas que ela usa por achar bonito, era algo tradicional da cultura alemã. Depois tiramos uma foto todo mundo junto e fomos dormir. Foto 6.29 - Carlos, Ana, Matheus e Eu Acordamos cedo e a Ana preparou um bom café da manhã. Tomamos mate. Arrumamos as mochilas e colocamo-as na caminhonete. Entramos no carro e seguimos para Tres Arroyos. Dentro do carro o silêncio tomava conta. Agora conseguia ver o caminho que dias antes tinha percorrido no escuro. Tudo muito bonito por sinal. O Carlos chamou a atenção pelo fato que na Argentina os terrenos a beira pista não são colados na pista como no Brasil. As cercas se iniciam mais ou menos a uma distância de quinze metros da rodovia. Depois notei que por toda a Argentina é assim. Ele não soube explicar o porque daquilo. Talvez seja pensando numa futura ampliação das rodovias. Chegamos em Tres Arroyos e o Carlos nos deixou num posto da YPF na saída da cidade sentido Bahia Blanca. Ana e Carlos iriam trabalhar pela cidade em seguida. Despedimos dos dois com abraços apertados. Ana não parava de sorrir. Assim, eles se foram e ficamos mais uma vez em companhia da estrada. Claromecó é um lugar que nunca imaginei conhecer, na realidade nem sabia de sua existência. Estar ali em suas ruas vazias me fez pensar o quão bom é não ter planos. A falta de planos tinha me levado ali, e estava muito feliz em poder conhecer aquele lugar mágico na companhia da Ana, Carlos e do Matheus. Como eu gostei de estar ali. Tenho muitas saudades daqueles momentos. O Carlos sempre pontual em suas observações, me fez refletir sobre muita coisa. Ele é um cara inteligente demais e com uma visão aberta de mundo. Ana se destaca por sua alegria e por sempre estar sorrindo, me fez sentir em casa. Conhecer um pouco mais da história argentina pelo olhar da Ana e do Carlos me enriqueceu bastante. Buenos Aires, Tres Arroyos e Claromecó são três cidades que tive a oportunidade de conhecer por causa da distante Piracanga. Nesses primeiros dias de Argentina, ouvi quase sempre o nome de Piracanga. Fiquei com muita vontade de conhecer o lugar que de alguma forma estava conectando nossa viagem em terras argentinas.
  18. Parte 5 - Buenos Aires, la capital "Há algumas coisas que não se pode aprender rapidamente, e o tempo, que é só o de que dispomos, cobra um preço alto pela aquisição delas. São as coisas mais simples do mundo, e porque leva a vida inteira de um homem para conhecê-las, a pequena novidade que cada homem extrai da vida custa muito caro e é a única herança que ele poderá deixar." Morte ao Entardecer, Ernest Hemingway Chegamos em Buenos Aires. A cidade estava sitiada, pois era dia do início do G20 e tinha sido declarado feriado. (O G20 é um grupo formado pelas dezenove maiores economias do mundo (África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia e Turquia) mais a União Européia. Esse grupo representa 90% do PIB mundial e tem como intuito facilitar o comércio mundial.). A rodoviária do Retiro estava fechada e descemos na rodoviária Liniers. Caminhamos na direção da estação de trem. Ao chegar descobrimos que as estações de trens e os metrôs estavam fechados, além da diminuição de frequência dos ônibus circulares. Precisávamos chegar no bairro da Recoleta, lugar que é bem próximo de onde estava sendo a reunião do G20. Entramos no ônibus e descobrimos que não se aceita dinheiro vivo como pagamento, tem que ter o cartão SUBE para utilizar os transportes públicos. O motorista nos deixou subir mesmo assim. Depois de um bom tempo de bus descemos em algum lugar do centro. O Matheus já havia estado em Buenos Aires e sabia se locomover um pouco pela cidade, no meu caso era a primeira vez na capital argentina. Fomos caminhando em direção da nossa hospedagem com o auxílio do Maps.me. Precisávamos de wifi para avisar a pessoa que ia nos receber que havíamos chegado. Avistamos uma cafeteria aberta e o Matheus entrou para pedir se podíamos usar por um momento a internet. Mathias, o garçom, com uma amabilidade fora do comum passou a senha do wifi para nós. Logo depois, ele trouxe quatro medialunas e dois cafés. Nesse momento pensei comigo "Nos ferramos vamos ter que pagar esse café da manhã nesse lugar caro.". Comemos e usamos a internet. O Mathias ainda trouxe água para nós. Na hora que perguntamos quanto tinha ficado o Mathias deu risada e disse que era por conta da casa. Ele ainda perguntou se queríamos levar umas medialunas para comer depois. Não levamos as medialunas para viagem, mas ficamos conversando um pouco com o Mathias enquanto a cafeteria continuava vazia. Depois de uns minutos nos despedimos do Mathias e seguimos nosso caminho. Foto 5.1 - Os cafés e as medialunas Foto 5.2 - Mathias, o gente boa Esse episódio do Mathias é muito importante para mim. Parece algo simplório, mas não é. Minha primeira reação ao ver ele trazendo o café e as medialunas foi duvidar da sua índole e pensar que ele havia dado a senha do wifi em troca de consumirmos aquilo. Como esse pensamento me torturou depois, me senti um hipócrita. Mathias foi coração puro e eu no meu pré conceito criei uma falsa imagem desse cara gente boa demais. Chegamos no nosso destino. Silvina com seu sorrisão veio nos receber. Ela mora há quatro anos em Piracanga, na mesma ecovila que o Matheus morava antes da viagem. Estava de férias e veio rever a família, tinha chegado no dia anterior em Buenos Aires. Nos próximos dias ela faria um curso de ioga em uma cidade vizinha, então esse seria nosso primeiro e único contato com ela na nossa estadia em Buenos Aires. Silvina apresentou sua mãe, Carlota, e sua casa. Tomamos mate. Minutos depois a Carlota inaugurou a pergunta que iria nos acompanhar por todos os nosso dias na Argentina. A pergunta foi "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?" (risos). Tomamos banho e logo fomos caminhar. A Silvina nos acompanhou por um tempo, depois quando já era hora dela seguir pro curso nos despedimos da Silvina e seguimos. Foto 4.3 - Silvina e o mate argentino Foto 4.4 - Matheus, Silvina e Eu (A despedida) Caminhamos em direção ao Obelisco. Não era possível caminhar próximo do Obelisco, tinha muita polícia em todo o lugar. Assim, resolvemos sair daquela muvuca e fomos na direção do cemitério da Recoleta. Nunca tinha entrado num cemitério como atração turística. Ouvi dizer que esse cemitério é o segundo mais visitado do mundo. As lápides são gigantes e cheias de luxo, é um lugar diferente e bonito. Muitas celebridades e presidentes argentinos estão enterrados nesse cemitério, mas a principal atração é o túmulo de Evita, a mãe dos pobres. Foto 4.5 - A entrada do cemitério Foto 4.6 - O caminho para as lápides Foto 4.7 - A lápide de Eva Perón, a Evita Depois passamos o resto do dia caminhando pelos arredores de Palermo e seus muitos parques. Conhecemos a incrível Florales Generica. Passamos pelo lindíssimo Planetário. No Planetário vi uma cena inédita na minha vida, sentei e parei para ver diversos youtubers brasileiros gravando vídeo naquela belezura de lugar. Eles davam diversas dicas de como ganhar dinheiro, ser rico, de viver viajando. Enfim, tinham fórmulas prontas pra tudo. Achei meio bizarro tudo aquilo. No resto do dia ficamos caminhando pelos parques de Palermo, e confesso é um mais bonito que o outro. Foto 4.8 - Florales Generica Foto 4.9 - O planetário Foto 4.10 - Arredores de Palermo Foto 4.11 - Em um dos parques de Palermo Foto 4.12 - Arredores de Palermo No dia seguinte, acordamos e partimos para o bairro de La Boca para conhecer o Caminito. Caminito é um lugar bacana demais, cheio de música, dança e comida. As cores fortes dão um charme a mais ao lugar. Depois seguimos pela linha do trem e fomos conhecer a frente do estádio do Boca, a La Bombonera. Na verdade queria mesmo era ter assistido um jogo naquele caldeirão. Na volta pro Caminito avistei um grafite do Riquelme. Talvez o Riquelme seja o jogador que mais gostei de assistir. Ver o Riquelme em tintas na mesma pose em que comemorava seus gols, não teve como não lembrar das Libertadores de 2000, 2001 e 2013 (risos). Antes de irmos embora comemos um choripan (pão e linguiça). Foto 4.13 - O Caminito Foto 4.14 - O Papa Francisco Foto 4.15 - As cores de La Boca Foto 4.16 - A espera do Tango Foto 4.17 - Mais cores Foto 4.19 - As lojas Foto 4.19 - La Bombonera Foto 4.20 - Riquelme Na sequência seguimos de ônibus para Puerto Madero. Descemos em um lugar esquisito, depois de caminhar uns dois quarteirões percebi que estávamos numa região de prostituição. Cheio de gente mal encarada. Andamos por algum tempo meio sem saber pra onde íamos. Chegamos numa rua movimentada e nos localizamos. Caminhamos bastante. Chegamos em Puerto Madero. Em Puerto Madero tem diversas estátuas de símbolos do esporte argentino como: Juan Manuel Fangio, Ginóbili, Lucha Aimar, entre outros, mas o que chamou a atenção foi que estátua do Messi estava inteiramente depredada, não sei se isso foi depois da Copa. Outra coisa que chamou a atenção em Puerto Madero foi os carrinhos de choripan e as muitas pombas. Vimos uma cena que as pombas comiam as linguiças de um desses carrinhos enquanto a dona do carrinho fazia outras coisas. Deve ter dado um bom tempero para os próximos choripans (risos). Foto 4.21 - Ônibus em Buenos Aires No outro dia, um domingo, partimos para conhecer a feira de San Telmo. A feira é incrível. Tem muita coisa legal pra ver. Tem boa música por todas as partes. Tem tango também. Muito doce de leite. Acho que nesse dia comemos meio quilo de doce de leite só de experimentarmos as amostrinhas das lojas. E ainda tem a Mafalda sentada num banquinho. Eu sou fã da Mafalda, para mim foi legal tietar ela ali. Não tem como descrever as sensações de estar ali na feira de San Telmo, com toda certeza foi a melhor parte de estar em Buenos Aires. Foto 4.22 - A feira de San Telmo Foto 4.23 - Miguelito, Mafalda, Eu e o Manoelito Foto 4.24 - A feira de San Telmo Foto 4.25 - Melhor maneira de se locomover com os filhos Foto 4.26 - O tango não tem idade Foto 4.27 - Matheus modelando, novamente Foto 4.28 - O teto de guarda-chuva Pela tarde conhecemos a Casa Rosada e seus arredores. Caminhamos solitários por caminhos que normalmente estariam entupidos de gente e carros. Avançamos até perto do Obelisco. Seguimos caminhando pela Avenida 9 de Julio. Encontramos um grupo de pessoas dando abraço grátis. Abraçamos o grupo todo. Foto 4.29 - A Casa Rosada Foto 4.30 - O vazio que o G20 trouxe Foto 4.31 - Um prédio Foto 4.32 - Ao lado da Casa Rosada Foto 4.33 - Outra vista da Casa Rosada Foto 4.34 - A praça Foto 4.35 - A cidade vazia Foto 4.36 - Obelisco Foto 4.37 - Eu e a Buenos Aires vazia Na Recoleta tem uns bancos distribuídos pelo bairro que parecem sofás. Fiquei diversos dias imaginando como aqueles sofás nas ruas eram chiques, mas ao mesmo tempo fiquei pensando como aquilo deveria ser fedido e um caos quando chovia. Em nenhum momento, tive a curiosidade de sentar nesses sofás. Nesse dia a curiosidade falou mais alto e sentei no banco. E a surpresa e uma sensação de burrice me contaminou. O banco é de pedra, uma pedra toda esculpida para parecer um sofá, mas é de pedra (risos). Ai fiquei dando risada sozinho de como tinha sido juvenil em achar que aquilo era um sofá de verdade. Outra coisa que me chamou a atenção em Buenos Aires foi os sinaleiros. O sinal amarelo acende antes do verde, o que dá uma impressão da largada de uma corrida. E o sinal de pedestres fica verde junto com o de carro, explicaram que a preferência é do pedestre, mas sempre me embananava ao atravessar a rua. Depois encontramos a Brown, uma amiga do Matheus que estava morando em Buenos Aires. As conversas sempre voltavam para a política. Ela nos contou que sempre que conhecia um argentino ouvia a mesma pergunta "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?". Conosco era o mesmo. A Brown falou uma coisa que me chamou a atenção. Ela disse mais ou menos assim: "Brasil e Argentina são dois países parecidos, onde politica é tratada como futebol. Os dois países estão divididos. A única diferença que eu vejo é que aqui ninguém discute Direitos Humanos, todos entendem como conquistas inalienáveis. Já no Brasil ainda discutimos Direitos Humanos.". Foto 4.38 - Matheus, Eu e a Brown Acordamos um pouco mais tarde hoje, era o dia da partida. Conhecemos o Dani, que tinha pernoitado na casa da Silvina também, ele estava viajando por poucos dias e estava no Uruguai, atravessou o Rio da Prata para rever a Silvina, eles moraram juntos em Piracanga anos atrás. Ele já seguiria de volta pro Uruguai no mesmo dia. Tomamos café da manhã com a Carlota nesse dia. Conversamos bastante. Pela primeira vez tivemos a oportunidade de ter uma conversa de longo prazo com a Carlota. Descobrimos que ela é psicóloga e socióloga. Uma mulher cheia de opiniões e uma boa visão de mundo. Foi muito boa essa conversa e ficou aquele gostinho que devíamos ter feito isto antes. A Carlota ainda ensinou o Matheus a preparar mate. Já era mais de meio dia, demos um abraço apertado na Carlota e seguimos para a rodoviária do Retiro. Foto 4.39 - Dani, Matheus, Carlota e Eu. Os dias, na capital argentina, foram tranquilos. Apesar de não querer passar por cidades grandes, me surpreendi com a beleza da cidade. Sua arquitetura toda harmônica é uma beleza pra vista. O G20 esvaziou o centro da cidade, e isso se mostrou bom para nós que pudemos caminhar tranquilamente por todos os pontos turísticos da cidade. Caminhamos muito, muito mesmo, mas sempre devagarinho. Saíamos cedinho da casa da Carlota e voltávamos no meio da noite. A calmaria, desses dias, foi muito boa e ainda tive a sorte de conhecer a tão badalada capital argentina. E muito obrigado para Silvina e Carlota por nos acolherem. Muchas gracias y besos!
  19. Parte 4 - Do Brasil para a Argentina "Oh! Oh! Seu Moço! Do Disco Voador Me leve com você Pra onde você for Oh! Oh! Seu moço! Mas não me deixe aqui Enquanto eu sei que tem Tanta estrela por aí" S.O.S, Raul Seixas Logo que chegamos no posto já fomos sondar os caminhoneiros que haviam pernoitado por ali. Vinte minutos depois fui conversar com um caminhoneiro que estava escovando os dentes em frente ao seu caminhão. Me apresentei e expliquei rapidamente a viagem. Quando ele começou a falar só vi um monte de pasta de dente voando na minha direção. Tentei desviar. Porém, fui derrotado e como prêmio recebi uma enxurrada de saliva misturada com creme dental no rosto. O sangue subiu, mas quando eu ouvi o caminhoneiro dizer "Estou partindo agora, se quiser ir tem que ser já" engoli o orgulho e abri um sorriso, e respondi "Bora". Corri chamar o Matheus. Ajeitamos nossas coisas na cabine e partimos rumo a Itaqui. Foto 4.1 - Os arredores do posto Foto 4.2 - O caminhão vermelho no fundo foi o que viajamos O início da viagem foi esquisito demais. Wagner, o caminhoneiro, fazia diversas perguntas que mais se parecia com uma entrevista de um sequestro. "Vocês tem dinheiro ai?", "Alguém de suas famílias sabem que vocês estão aqui agora?", "Precisa ter muito dinheiro pra viajar assim!", "Vocês sabem que tem muito louco pela estrada!", "Já sofreram algum tipo de violência com um caminhoneiro?". Essas foram algumas das frases que me lembro, mas foram meia hora desse tipo de conversa. O Matheus ficou mudo, não dizia nada. Por alguns segundos pensei em pular do caminhão (risos). Aos poucos fui tentando levar a conversa pra outro rumo. Até que começou a tocar Raul Seixas. Caralho! Tinha até esquecido do quanto eu gostava de ouvir aquelas músicas. Comecei a cantar. O Wagner também começou a cantar. O som da música foi para as alturas. A cara carrancuda do Wagner começou a esboçar os primeiros sorrisos. Quando começou tocar S.O.S. e troquei o trecho "Oh! Oh! Seu Moço! Do disco voador me leve com você pra onde você for" por "Oh! Oh! Seu Moço! Do caminhão me leve com você pra onde você for" ele deu risada e nesse momento as conversas tomaram um rumo diferente. E assim, começamos a conhecer as teorias de Wagner. Foto 4.3 - O caminho A primeira teoria ele nos explicou quando tocava Cowboy Fora da Lei, no trecho que diz "Oh, coitado, foi tão cedo. Deus me livre, eu tenho medo. Morrer dependurado numa cruz" o Wagner logo emendou "Foi brincar com o Homem e logo morreu, claro que tem ligação!". Depois começamos falar de política (assunto perigoso quando se é caroneiro!) e ele começou a introduzir sua frase típica, pra qualquer político ele sempre dava mesma resposta: "O Lula aquele Zé Buceta! Nem sabe que eu existo, vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito.", "O Bolsonaro aquele Zé Buceta! Nem sabe que eu existo, vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito.". Depois foi a vez do futebol, e ele era assertivo na sua frase: "Jogadores de futebol são tudo Zé Buceta! Nem sabem que eu existo, pra que vou torcer se vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito." (risos). A sua opinião de mundo se resumia nisso "Zé Buceta! Nem sabe que existo, vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito", confesso que é uma boa visão de mundo, mas tornava o Wagner previsível até então. Foto 4.4 - Mais um pouco do caminho Quando começou tocar Quando Acabar o Maluco Sou Eu, o Wagner começou se autodenominar como maluco, mas logo fez uma mea culpa falando que era o único da família assim. E assim, começamos a conhecer o Wagner de verdade. Disse que tinha muitos irmãos e que a maioria era estudado e falava com orgulho de um irmão que morava e trabalhava na Alemanha. Depois, contou a história de sua mãe e como ele sentia ter perdido ela tão cedo. Falou da sua esposa e da sua filhinha. Disse que jogou futebol e foi da base do Santos junto com o Robinho. Seu pai era da aeronáutica e por agora ele estava tirando brevê de voo, mas logo emendou com a seguinte frase "Aqueles Zé Buceta cobram caro demais por aula! Ai tenho que trabalhar muito mais". Disse também que quase não parava na sua casa e que estava trabalhando muito, emendando uma carga na outra. E nos contou de quando era caminhoneiro em outra empresa e viajava pela Argentina rumo a Terra do Fogo. Ele não gostava de argentinos de jeito nenhum, não entendi o porque, mas toda vez que ele falava de argentinos ele se referia como aqueles Zé Buceta (risos). Quando acabou as músicas do Raulzito, começou a tocar Astronauta de Mármore do Nenhum de Nós e nesse momento ele disse "Vocês não tem fome não, sobe ali e pega um pacote de bolacha pra nós comermos.". Foto 4.5 - O carro vermelho no caminho Comemos. A distração do Wagner é buzinar pra pessoas distraídas na pista. Ele dava risada com isso e eu também. Nos cagamos de dar risada quando o Wagner disse "Olha que vaca rica!" ao vermos uma vaca sozinha num pasto imenso. Agora nós três eramos bons amigos e as conversas rolavam naturalmente. A partir daqui o tom das conversas foi mais para as brincadeiras e risadas, e a música acompanhou, nesse momento começou tocar só música de balada. Wagner deixou o volume no máximo. Tocou até Harlem Shake e seu "Con los terroristas". Foi engraçada e perplexa toda aquela situação. Confesso, que estava curtindo aquela balada ambulante pela qual viajávamos. Ai o caminhão parou, ele nos disse que ali deixaria nós. Era a entrada de Itaqui (cidade distante 100km de Uruguaiana). Ele seguiria para a Camil carregar o caminhão com arroz. E assim, nos despedimos dessa figura que é o Wagner e voltamos para a rodovia. Wagner foi um cara que lembraríamos por toda a viagem. Seu jeito esquisito no início deu lugar a um cara gente boa demais. A sua maneira ele é um cara de coração grande. Tanto que para mim a música tema dessa viagem é S.O.S. do Raul Seixas, toda vez que eu tinha uma chance eu colocava essa música durante a viagem. Creio que seu jeito esquisito de início foi uma defesa natural por dar carona para dois caras, ele estava em desvantagem naquela situação. Se nos sentimos em perigo por um momento, ele também deve ter se sentido em perigo também, apesar de nossas caras de bobos (risos). Gosto de gente como o Wagner, de fala fácil, sem papas na língua e que sai do comum e fala o que pensa (mesmo que isso resuma o resto do mundo em Zé Buceta). Depois seguimos caminhando pela rodovia. Toda vez que um veículo passava por nós erguíamos o dedão da esperança. E assim fomos até chegar num posto rodoviário. O movimento de caminhões e carros era baixo. Sondamos os caminhoneiros parados, mas a maioria iria carregar o caminhão de arroz ali perto. Tava quente demais. O Matheus deu uma olhada no BlaBlaCar e tinha um carro saindo por aquela hora para Uruguaiana. Era baratinho, acho que estava dez reais e resolvemos seguir de BlaBlaCar. Uns minutos depois do meio dia o Guilherme parou no posto rodoviário e seguimos viagem com ele. Foto 4.6 - A saída do posto Fiquei na parte de trás esmagado pelos mochilões. Matheus dessa vez tomou a dianteira das conversas. Eu pouco conversei e só ouvia a conversa dos dois. Guilherme é um ex militar que agora é vendedor da Convex. Estava se acostumando com essa nova vida. Tinha descoberto o BlaBlaCar no dia anterior, que sorte a nossa. E seguia para Uruguaiana para tentar fazer algumas vendas e fechar melhor o mês de novembro. Geralmente, eu não falava sobre o meu mestrado, mas nesse dia com o Guilherme eu descobri que falar o que eu fazia criava uma confiança entre a pessoa que nos dava carona, além de criar uma curiosidade e deixar a pessoa meio sem entender porque viajava daquele jeito. Enfim, fiz mestrado em inteligência artificial. Guilherme ficou bastante curioso conosco e sua conversa com o Matheus fluía bem. O caminho ao redor não muda nada de São Miguel das Missões até Uruguaiana. Muitos silos e plantações de arroz pelo caminho. Guilherme falou bastante sobre sua vida no exército. Ele é um cara articulado e fala muito bem, acho que a profissão de vendedor tem tudo haver com ele. Falou das suas muitas viagens e missões como militar. O curioso que ele se autodenominava ex milico, sempre achei que milico era um termo pejorativo pra militar. Ele é viajante também e está preparando uma viagem de moto até Ushuaia. Estava com saudades da mulher e da filha e depois de Uruguaiana seguiria direto pra sua cidade rever as duas. Atravessamos uma ponte com sinaleiro, onde só da pra passar carros por apenas um sentido por vez. Depois disso nos aproximamos de Uruguaiana. A viagem foi bem legal, o Guilherme é um cara gente boa demais. Ele nos deixou próximo a casa de câmbio e nos explicou por onde teríamos que seguir para atravessar a fronteira. Demos um abraço de despedida no Guilherme e seguimos nosso caminho. Foto 4.7 - A tal ponte Cambiamos parte do nosso dinheiro. A ideia era levar todo o dinheiro em espécie para melhor controlar ele e saber o momento de voltar. Assim, com uma parte em pesos argentinos e outra em reais, para cambiar no futuro, seguimos para a fronteira. Estávamos com fome e no meio do caminho paramos pra comer um lanche. Aproveitamos e compramos um adaptador universal para carregar os celulares na Argentina. Ficamos sabendo que não se pode cruzar a pé a ponte que une Brasil e Argentina. Quando eu conversava com o tiozinho do lanche para pegar mais informações das maneiras possíveis de atravessar a fronteira, um senhor veio falar comigo. Seu nome é Jadir e se ofereceu para nos levar até a aduana argentina. Colocamos as mochilas na caçamba e entramos na sua caminhonete. O trecho não durou dez minutos, mas deu pra conversar bastante com o Jadir. Ele é representante de produtos hospitalares e ficou bastante preocupado com a nossa viagem, dizia que a Argentina era um país muito perigoso atualmente. A conversa foi boa e ele no final parecia nosso pai, cheio de conselhos sobre segurança e ainda deixou seu cartão comigo caso precisássemos de algo por aquele dia ou no futuro. Que satisfação conhecer o Jadir, que ao ver nós com uma necessidade não hesitou em nos ajudar. Demos um tempo na aduana antes de cruzar a fronteira, pois ainda tínhamos internet no celular. Cruzar a fronteira foi bem tranquilo. Enfim, estávamos na Argentina. Agora caminhavamos por Paso de los Libres e assim, seguimos para a rodoviária da cidade. A cidade parece mais um bairro. Ouvimos dizer que a cidade é violenta, não sei ao certo, mas a cidade é bem pobre. Chegamos na rodoviária e todos guichês estavam fechados. Esperamos mais um pouco e logo os guichês começaram a abrir. Pesquisamos os preços dos ônibus para Buenos Aires. Na Argentina tem-se desconto pagando em dinheiro e somado que naquele final de semana começaria o G20 na capital (e ninguém queria estar na sitiada Buenos Aires), conseguimos um desconto de quase 50% no valor da passagem. Ficamos horas e horas na rodoviária da diferente Paso de los Libres. Com o passar das horas já estava acostumado com o espanhol. No meio da noite chegou o nosso ônibus. Agora a viagem seguiria para Buenos Aires. Esse dia foi um bom dia. Conseguimos duas caronas e uma carona por BlaBlaCar, além de pagar bem baratinho para chegar até Buenos Aires. Percorremos muitos quilômetros em companhia de diferentes pessoas e de muita conversa. Estar na Argentina era simbólico para nós, pois parecia que só agora a busca pelo fim do mundo tinha começado. Nesse momento o frio na barriga começou a me dominar. Agradeço de coração ao Wagner, Guilherme e Jadir pelas caronas. E como falei muito do Raulzito nessa parte, queria terminar com um pedaço de sua música Por Quem os Sinos Dobram (nome tirado do livro de mesmo nome do Ernest Hemingway): "Nunca se vence uma guerra lutando sozinho Cê sabe que a gente precisa entrar em contato Com toda essa força contida e que vive guardada O eco de suas palavras não repercutem em nada É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro Evita o aperto de mão de um possível aliado, é Convence as paredes do quarto, e dorme tranqüilo Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem, eu sei que você pode mais" Por quem os sinos sobram, Raul Seixas
  20. Parte 3 - O casal das ruínas de São Miguel das Missões “Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda a possibilidade de vida.” Guerra e Paz, Leon Tolstoi Quando ainda estávamos em Urubici decidimos cruzar a fronteira entre Brasil/Argentina por Uruguaiana. Com isso quis passar por São Miguel das Missões. Eu já conhecia a cidade (e curto demais esse lugar), mas o Matheus não conhecia ainda. Assim, quis colocar uma cidade histórica no roteiro e de alguma forma presentear o meu amigo que parou sua vida na Bahia para me acompanhar nessa aventura aleatória até o fim do mundo. O problema que eu não tinha nenhum contato em São Miguel, somente em cidades vizinhas das quais não queria parar por agora. Tentei couchsurfing e nada. Resolvi entrar em contato com uma das pessoas cadastradas pelo facebook. Mandei uma mensagem explicando nossa viagem e pedindo um quintal no qual poderíamos acampar. Recebi uma resposta com o nome de um casal que poderiam nos receber. Entrei em contato com o casal e o inesperado aconteceu, eles iriam nos abrigar na nossa estadia por São Miguel. Confesso que fiquei com receio de usar essa tática do facebook e a pessoa me entender errado. Em contrapartida, fiquei mais feliz da conta com essa inesperada hospedagem. Chegamos em Lages pelo meio da tarde. A rodoviária é bem organizada e espaçosa. Um bom lugar para se dormir. Iriamos pegar um ônibus de madrugada para Vacaria. Então, passaria meu aniversário dentro da rodoviária de Lages. Sai caminhar pela cidade, enquanto o Matheus cuidava das mochilas. Lages impressionou pela quantidade de pessoas bonitas. Quando eu voltei o Matheus estava sendo interrogado pelo chefe de segurança da rodoviária. Queriam saber quem eram nós e o que era aqueles isolantes térmicos que carregávamos, depois que viram que tínhamos passagens deram uma sossegada. Logo, eu fiquei cuidando das mochilas, enquanto era a vez do Matheus caminhar pela cidade. Fiquei deitado num canto da rodoviária e por todo aquele tempo um segurança não tirava os olhos de mim. Achei engraçada essa higienização dentro da rodoviária e assim tirar baderneiros, indigentes ou pessoas que perturbem a "paz" da rodoviária, só deixar quem for embarcar. Não vou entrar no mérito se é certo ou errado. O que chamou a atenção foi um acampamento indígena Kaingang (acho que eram Kaingang, mas podem ser Xokleng) na parte de fora da rodoviária. A cidade faz um grande esforço para manter a ordem num espaço público como a rodoviária, mas fecha os olhos para um problema real como a dos indígenas que vivem no relento na fria Lages. Assim, preferem sitiar a rodoviária para que os índios não perambulem ou durmam por lá do que realmente resolver o problema. Já vi esse tipo de situação em diversas cidades do oeste de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Não sou muito fã de fazer aniversário. Pra mim estar ali aguardando na rodoviária e esquecer que fazia aniversário era o ideal. Quando a noite chegou o frio veio junto. As duas da madrugada seguimos para Vacaria. Chegamos era quatro horas da manhã. Na hora que sai do ônibus senti o maior frio da minha vida. Chegava a doer. A rodoviária de Vacaria estava fechada e não estava com a vestimenta mais adequada. Que frio da porra. Já não conseguia mais raciocinar. Até que achamos um hotel/bar que estava aberto e fomos até lá para nos abrigar. Pedimos um café e ficamos sentados tremendo. Permanecemos no local até quase oito horas da manhã. Depois fomos para a rodoviária e pegamos o ônibus para Santo Ângelo. A viagem foi tranquila. Pela janela ou eu via pastos ou eu via plantações de arroz. No fim da tarde chegamos em Santo Ângelo e seguimos para São Miguel das Missões. São Miguel das Missões é uma cidadela de quase dez mil habitantes. A cidade teve origem nas reduções jesuíticas presentes na região pelo século XVII conhecidas como os sete povos das missões. Os setes povos das missões são São Borja, São Nicolau, São Miguel, São Lourenço, São João, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo. Esses setes povos são o berço da colonização do Rio Grande do Sul. São Miguel das Missões abriga o sítio arqueológico de São Miguel do Arcanjo, que é um patrimônio mundial declarado pela UNESCO, que acomoda as ruínas das reduções jesuíticas daquela época. Chegamos em São Miguel já era mais de sete horas da noite. Caminhamos rumo a casa da Karine e do Mário. Passamos pelas ruínas. A casa deles ficam muito perto da entrada das ruínas. Batemos na casa e o quarteto de cachorros veio nos recepcionar. Todos latiam. Logo a Karine chegou com seu sorriso característico. Sentamos pra conversar e nos conhecer. O quarteto peludo foi apresentado, são três shitzus (Marley, Maia e Zeca) e a poodle Laica. Gostei de todos, mas o Zeca é um cachorrinho especial, ele é amoroso, companheiro, farrista, engraçadinho e quando você está sentado ao bater palmas ele pula no seu colo e fica só no chamego. A conversa com a Karine foi bem boa. Ela contou sobre a sua história e explicamos melhor nossa viagem. O tempo estava meio chuvoso e a previsão era que para o dia seguinte seria chuva o dia todo. A Karine disse para aproveitarmos e já ir assistir o espetáculo Som e Luz nesse mesmo dia. Então, fomos. O espetáculo Som e Luz é algo realmente diferente, é uma belezura de espetáculo. Todos os dias pela noite é contada a história das missões jesuíticas na região com apenas luzes apontadas nas ruínas e com narração da Fernanda Montenegro. Tudo isso ao ar livre. Saber um pouco mais sobre a relação de dominação dos jesuítas com o povo guarani e depois a resistência guarani com os colonizadores é de encher os olhos. É a verdadeira história do nosso país contada de uma forma magistral e bela. Gosto demais da forma que é contada, alçando verdadeiros heróis da nossa história como o índio Sepe Tiaraju, o líder da resistência guarani. Vou copiar aqui o trecho que explico melhor o motivo da guerra, esse texto fiz no outro mochilão que passei por São Miguel. "A ruína na verdade é o sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo (patrimônio mundial da UNESCO), na época das missões jesuítas foram instauradas várias "comunidades" onde viviam os evangelizadores (jesuítas) com os ameríndios, que nesse caso foram os Guaranis, com propósito de impor a crença cristã e os costumes de vida do europeu. Vale a pena dizer que nessa época esse território era espanhol, e depois de dezenas de anos vivendo em "harmonia" (jesuítas e guaranis), os espanhóis queriam restaurar o domínio de Colônia do Sacramento e assim "trocaram" a região das missões por Colônia com os portugueses, assim as comunidades teriam que ser esvaziadas. Os guaranis não aceitaram sair de onde, agora, eram suas terras. Guerra-pós-guerra os portugueses dizimaram os guaranis da região e reassumiram a "ordem", mas não sem antes criar um herói entre os guaranis, Sepé Tiaraju, líder da resistência guarani. As guerras também foram às responsáveis por deixar em ruína o lugar." Caminhando por quase todo o Brasil, Uruguai e um pouco de Venezuela em seis meses de estrada, Diego Minatel Foto 3.1 - O espetáculo Som e Luz no sítio arqueológico São Miguel de Arcanjo Voltamos já era quase onze horas da noite. Conhecemos o Mário, marido da Karine, e o filho do casal, o João que tinham acabado de voltar do futebol. Nessa noite a pacata São Miguel teve um capítulo que tirou a tranquilidade da cidade. Enquanto eu, Matheus, Karine e Mário conversávamos pela noite, os vizinhos do lado bebiam mais além da conta e ficaram badernando a noite toda. O problema que um deles saiu de carro bêbado e atropelou uma senhora e saiu sem prestar socorros. No outro dia só se ouviu falar sobre esse acontecimento pela cidade. Acordamos cedo (já virou redundante escrever isso). Dormimos no ateliê do Mário. Mário e Karine são artesões e boa parte dos artesanatos vendidos nas lojinhas que ficam em frente da entrada do sítio arqueológico são feitos por eles. O Mário ainda trabalha como segurança nas ruínas pelas noites. Ou seja, eles tem uma relação direta com as ruínas, mas isso é história pra depois. Nesse dia, ao acordar o Marião já veio com sua térmica do Internacional e com a cuia de chimarrão. Fizemos uma roda de mate ao som de música gaúcha. Gosto de música gaúcha. Ficamos ali conversando mais um pouco e se conhecendo melhor. Acho interessante a função social do chimarrão. As pessoas se reúnem em volta dele e aproveitam para colocar a conversa em dia. Enquanto tem água na térmica a conversa continua. E a roda de chimarrão é feita várias vezes ao dia. Gosto de chimarrão, mas gosto mais de estar numa roda de chimarrão jogando conversa fora. E foi numa dessas rodas de chimarrão com o Mário que ele se mostrou um cara todo participativo na vida da cidade. Ele é treinador de futebol de salão da garotada da cidade e também na comunidade indígena. Ainda é presidente de associação de turismo de São Miguel. Acompanha o grupo de dança do centro de tradições. Eu e o Matheus brincávamos com ele dizendo que ele seria o próximo prefeito da cidade, mas de verdade, seria uma boa. Depois fomos para as ruínas. A entrada custa quatorze reais. Não vou falar muito sobre as ruínas, vou deixar as imagens falarem por si. É uma belezura de lugar. A energia que o lugar transmite é demais. Apesar do passado relacionado as missões jesuíticas, as ruínas de São Miguel das Missões também é um símbolo da resistência guarani contra os colonizadores. E isso que me encanta. Afinal, máximo respeito aos guaranis. Foto 3.2 - As Ruínas de São Miguel das Missões ou Sítio Arqueológico de São Miguel de Arcanjo Foto 3.3 - Que belezura Foto 3.4 - Tentando o enquadramento perfeito Foto 3.5 - Sou a resistência, todo respeito ao povo guarani Foto 3.6 - A vista do interior Foto 3.7 - A minha foto favorita Foto 3.8 - Matheus e as ruínas Foto 3.9 - A porta Foto 3.10 - O fundo Foto 3.11 - O topo Foto 3.12 - Outro ângulo Foto 3.13 - Minha cara amassada e a beleza das ruínas Não fomos os primeiros viajantes que a Karine e o Mário hospedaram. Por incrível que pareça eles hospedaram por duas oportunidades pessoas que também estavam viajando para Ushuaia. Nessas duas ocasiões eram casais que viajavam de Kombi. Porém, foram situações diferentes de hospedagem. No nosso caso fomos cara de pau ao extremo entrando em contato no facebook. Com esse pessoal de Kombi a Karine conheceu pela cidade enquanto os mesmos turistavam e assim, trouxe-os para casa. Karine tem um coração gigantesco. O curioso é que essas duas viagens de Kombi tiveram problemas mecânicos no meio da viagem, com isso os viajantes tiveram que desistir de Ushuaia e voltar pra casa ou mudar o rumo da viagem. Confesso que fiquei com um pouco de medo desse histórico da Karine (risos). Brincávamos que tiraríamos essa zica dela. Depois de voltar das ruínas almoçamos com a Karine. Conversamos mais um pouco com ela. Sempre bom conversar com a Karine. Um tempo depois caminhamos para conhecer a fonte missioneira. Fomos caminhando devagarzinho. Chegamos na fonte e ficamos trocando ideia por bastante tempo. Quando estávamos voltando veio um temporal. Tomamos muita chuva. Encontrávamos abrigo, secávamos e quando achávamos que dava pra seguir, chuva novamente. E foi assim, tomamos chuva umas quatro vezes. Nesse dia a Karine nos contou a história dela e do Mário. Quando ela era estudante do ensino médio em Constantina/RS veio numa excursão escolar conhecer as ruínas em São Miguel das Missões. Nessa viagem ela conheceu alguns meninos da cidade de São Miguel e um deles, chamado Lucas, se encantou por ela e ficou todo o dia pentelhando ela. Eles acabaram se beijando e trocando telefones. Por meses trocaram cartas, mas depois veio um hiato de mais de um ano. Num dia o Lucas ligou para Karine convicto que queria voltar a vê-la. Ele viajou até Constantina e conheceu toda sua família. Assim, os dois foram estreitando as relações. Em um dia foi a vez da Karine ir visitar o Lucas em São Miguel. Nesse dia ela descobriu que ele não se chamava Lucas, e sim Mário (risos). Mário quando era moleque aproveitava o fluxo de turistas nas ruínas para paquerar as gurias de outras cidades, e sua tática em conjunto com os amigos era trocar de nome ao se apresentar pras gurias, e Lucas foi o usado com a Karine. Ele só não imaginou que se apaixonaria naquele dia. E depois continuou com a mentira para não se passar por mentiroso (risos). No fim, ele se explicou para a Karine e se acertaram de vez. E estão juntos a quase vinte anos e são o casal símbolo das ruínas de São Miguel. Foto 3.14 - Karine e Mário, o casal das Missões (foto que peguei no facebook da Karine) E o mais curioso de tudo é que naquele dia faziam exatos vinte anos que os dois se conheceram. Eles iam sair numa noite romântica, mas no inicio da noite o Mário nos chamou pra tomar umas cervejas. Fiquei meio encabulado a principio. No fim, eles decidiram passar essa noite conosco. Que honra a nossa. Na frente da casa tomamos umas brejas, e eu não parava de rir com o Mário contando a sua versão da história do Lucas. O Mário é um cara gente boa demais. Depois saímos de carro, ao som de Raça Negra e do desafinado coral dentro do carro conhecemos um pouco mais do interior da cidade. Raça Negra une os povos (risos). Foi bom demais esse momento. Depois voltamos e comemos umas pizzas pra comemorar. No final do jantar, eu e o Matheus agradecemos a Karine e ao Mário por aqueles dias mais que especiais. Na verdade, não há palavras para agradecer tudo que eles fizeram por nós, mas tentamos. Terminamos o dia assistindo o final do jogo do Atlético Parananense contra o Fluminense pela semifinal da sulamericana. Antes de dormir eu e o Matheus conversamos sobre como tudo aquilo tinha sido bom demais. Estávamos atraindo coisas melhores que imaginávamos e tínhamos certeza que no dia seguinte as caronas aconteceriam. Foto 3.15 - João, Mário, Laica (no chão), Karine, Zeca (escondido entre a Karine e o Matheus), Matheus, Marley, Maia e eu. Antes das sete da manhã saímos de São Miguel das Missões. O Mário nos deixou no posto que fica no trevo que dá acesso a cidade (mais ou menos 15km). Nos despedimos pela última vez do Marião e agora outra vez iriamos tentar seguir nosso caminho por meio de caronas. Nunca imaginaria que voltaria para São Miguel tão cedo. Três anos depois estava eu lá, novamente. Da outra vez foi só uma visita, já dessa vez vivi um pouquinho a cidade e tive o prazer de conhecer o casal que as ruínas uniu. Karine e Mário, não consigo traduzir em palavras o que vocês significaram para mim nessa viagem ou o quanto gosto de cada um de vocês. Nada do que eu falar vai equiparar o quão bom vocês foram, o que eu tenho que fazer é aprender com o exemplo de vocês e tentar ser um cara melhor daqui pra frente. Muito obrigado por tudo, de coração.
  21. @LF Brasilia fico feliz em saber que esteja curtindo esse relato também. Ainda tenho muita coisa pra escrever
  22. Parte 2 - A Serra Catarinense vista por Urubici “Nunca temamos com os ladrões nem os assassinos. Estes são perigos externos, pequenos perigos. Temamos a nós mesmos. Os preconceitos, esses são os ladrões; os vícios, esses são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importa o que ameaça nossa vida ou nossas bolsas?! Preocupemo-nos apenas com o que ameaça nossa alma.” Os Miseráveis, Victor Hugo Ficamos a manhã toda na rodovia em Indaial na tentativa de pegar uma primeira carona pra Ibirama. Caminhamos pela rodovia a procura de um bom lugar pra pedir carona, esse lugar não surgiu. A estrada estava entupida de caminhões. A primeira vista parecia que seria fácil conseguir, mas era só impressão. No fim da manhã começou a chover e vimos que não seria fácil chegar em Urubici nesse mesmo dia. Não queria perder o couchsurfing, tinha muita vontade de conhecer Urubici. As palavras do Luis estavam frescas na memória e parecia mais uma premonição, então decidimos desistir das caronas e ir de ônibus. Figura 2.1 - O insucesso das caronas em Indaial Uma coisa que me irrita um pouco tanto em Santa Catarina como no Rio Grande do Sul é a falta de informação de linhas e horários de busões pelo estado, além dos atendentes também não saberem informar nada mais do que os horários de saída na própria cidade. Assim, as únicas informações que tínhamos pra chegar em Urubici era por Floripa. Eu sabia que se seguíssimos para Ibirama a chance de termos sucesso e pegar algum ônibus que chegasse próximo de Urubici era grande, mas a falta de informação nos tornou conservadores e optamos de ir por Floripa, isso faria a gente dar uma volta bem maior. Voltamos pra Blumenau e de lá conseguimos um BlaBlaCar até Floripa. O interessante nesse ponto da viagem é que a guria que nos levou até Floripa faz um tipo de Uber nesse trajeto Blumenau/Floripa pelo BlaBlaCar. Ela coloca dois horários fixos todos os dias neste trajeto e se dá um número mínimo de pessoas ela segue viagem. Não sei bem o que acho sobre isso, porque a chance dela desmarcar a viagem é grande demais. A viagem foi engraçada, a moça só falava de tragédias que havia acontecido naquela rodovia, só estava eu e o Matheus como passageiros. Rezei para a lei da atração não se fazer valer (risos). As rodovias por Santa Catarina nunca decepcionam e este trecho é lindo demais. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a guria da direção. O valor que ela cobra por pessoa neste trecho é de trinta reais, sendo que por trecho ela pode receber um valor bruto de cento e vinte reais. Em um dia ela faz duas viagens Blumenau/Floripa, o que equivale a quatro trechos, o que dá um valor bruto de 480 reais por dia. Isso parece uma boa grana, mas quase nunca o carro vai cheio e o maior agravante é que o carro não é dela. Ela aluga o carro por um valor de 120 reais o dia, fora o seguro, pedágio e a gasolina. Sai do carro naquele dia com a impressão que aquele negócio dela não era uma boa ideia. Anos antes quando eu fiz meu mochilão pelo Brasil não consegui couchsurfing e refuguei conhecer a serra catarinense, e acabei indo para a região dos cânions na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com isso, a serra virou um assunto mal resolvido. Queria muito estar lá. Por isso, deu um certo alívio chegar na rodoviária de Floripa e ter a certeza que manteríamos o combinado com a Leandra e chegaríamos naquele mesmo dia em Urubici. Urubici é uma pequenina cidade de pouco mais de dez mil habitantes situada na serra catarinense. As principais atividades da cidade são o turismo e a produção de frutas. A cidade se destaca por ter registrado a temperatura mais fria da história de nosso país (-17,8 graus registrado no Morro da Igreja no ano de 1996). Chegamos em Urubici já era quase meia noite, saímos caminhando pela cidade a procura da casa da Leandra. Mesmo com o horário, a Leandra nos recebeu com o sorriso no rosto, já a Kalyssa nos recebeu com suas lambidas e mordidas intermináveis. Conversamos bastante antes de dormir e a Leandra se mostrou muito alegre e alto astral. Faz pouco tempo que a Leandra está no couchsurfing, mas o que me chamou a atenção foi que ela estava meio desacreditada com a plataforma até então, porque vinha diversos pedidos de hospedagem para ela onde a galera (geralmente casais) fazia exigências pensando que a casa dela era um hotel. Não sei bem ao certo o que as pessoas acham o que é o couchsurfing, mas me entristece ver isso, porque uma má experiência para quem hospeda pode ser motivo da pessoa sair da plataforma e assim, tirar a oportunidade de muitas pessoas de conhecer um lugar por uma ótica diferente. A casa da Leandra é uma belezura de lugar. Hoje em dia ela ganha a vida alugando dois quartos de sua casa no Airbnb. Recentemente ela reservou um quartinho para disponibilizar no couchsurfing. A casa é toda aconchegante. A ideia da Leandra com o Airbnb é de se dar a oportunidade de viver viajando no futuro. Ela sente muita necessidade de sair de Urubici para conhecer novos lugares e novas pessoas. Acredito que ela esteja naquela fase de amarras e insegurança, e que falta apenas um impulso para sair viajando. Ela virou mãe muito cedo e teve que ralar muito pra criar os filhos. Hoje seus dois filhos já vivem suas próprias vidas. Creio que as amarras se foram, mas ainda é preciso superar a insegurança pra partir. Vou falar um pouco da minha experiência de partida. Só fiz meu primeiro mochilão com 27 anos, mas desde os 16 ou 17 anos sentia vontade de mochilar, principalmente para Machu Picchu. Os anos foram passando e sempre colocava outra coisa na frente da mochilada. Primeiro foi uma olimpíada do conhecimento, depois o trabalho, mais tarde o vestibular, graduação e trabalho novamente. Na graduação tive um descolamento entre pensamentos. Eu era muito convicto do que queria pra mim, pois sou de família humilde e ouvi a minha vida inteira que só estudando seria alguém na vida. Então, o que eu fiz foi estudar. Estudei muito. Tive muitas oportunidades com o estudo, mas ao mesmo tempo conforme ia ampliando o conhecimento técnico eu sentia um vazio dentro de mim. Estava ganhando muita coisa de um lado e de outro estava perdendo muitas outras coisas. A balança da vida é algo complicado. E esse vazio começou a desaparecer quando comecei a participar dos projetos sociais, como o Projeto Rondon e a TETO. A causa social que sempre esteve junto a mim ganhou prioridade e aquilo me fazia bem. Comecei a me contextualizar dentro da sociedade e queria de alguma forma ajudar. Estar no interior do Brasil ou dentro de favelas, me fez ser uma pessoa melhor, pois me fez perder diversos preconceitos. Ahh, como esses projetos me faziam bem. Quando a graduação terminou e me distanciei destes projetos, sentia a necessidade de viver o diferente novamente, de injetar vida em minha vida e a forma que encontrei foi mochilando. Por isso para mim, mais importante que viajar é como se viaja. Demorei dez anos para conseguir partir, agora pra mim a partida é fácil, pois quando vejo que endureço com a vida é hora de lembrar a quantidade de coisas boas que existem no mundo e o quanto que tenho a aprender com essa legião de boas pessoas que te ajudam sem mesmo saber quem é você. Não sou hipócrita de achar que essa é a única forma, para mim é a que funciona hoje, mas certamente num futuro próximo terei que buscar outras formas de não deixar a vida se escapar de mim. Acredito que cada pessoa que anseia mochilar, ao menos uma vez, terá que enfrentar seus próprios medos e encontrar a sua maneira de vivenciar esse mundo louco, mas cheio de belezas humanas e naturais. Acordamos cedo, como de costume. Pegamos umas dicas de lugares pra conhecer com a Leandra e decidimos seguir a pé para a cachoeira do Avencal. A cachoeira fica distante uns 8km da casa da Leandra. O acesso se dá na rodovia que liga Urubici com São Joaquim. Caminhamos na esperança de conseguir uma carona até a entrada do parque onde fica a cachoeira. O dia estava quente demais. Caminhamos e caminhamos. Para todo veículo que passava nós esticávamos o dedão na esperança de conseguir uma carona. Que saudades das Chapadas nessa hora, que mesmo sem pedir as pessoas ofereciam carona. A frase do Luis estava na cabeça e decidimos seguir caminhando sem pedir carona, e foi muito bom apesar do sol. Existem dois parques para avistar a Cachoeira do Avencal, fomos direto pro segundo, conforme conselho da Leandra. No primeiro mirante se paga cinco reais para entrar e se tem uma visão bem ruim da cachoeira. Sorte que a Leandra nos preveniu. No segundo mirante, que é o mais antigo, se paga sete reais na entrada e se tem uma bela vista da cachoeira. Ficamos um bom tempo ali, comemos nosso lanche e voltamos caminhando. Na volta o caminho é só descida e a visão da serra é lindíssima. Foto 2.2 - O início da caminhada Foto 2.3 - Na esperança de uma carona Foto 2.4 - Subindo Foto 2.5 - Não entre nessa Foto 2.6 - Quase lá Foto 2.7 - A cachoeira do Avencal Foto 2.8 - A cachoeira do Avencal Foto 2.9 - A cachoeira do Avencal Foto 2.10 - Para além da cachoeira Voltamos para a casa da Leandra, ainda era meio da tarde. Ela nos emprestou duas bicicletas e partimos para o Morro do Campestre. A pedalada foi boa. Tivemos que acelerar algumas vezes por causa de cachorros que estavam louquinhos para morder nossos pés. É possível avistar o morro de longe e quanto mais se aproxima mais lindo ele vai ficando. Depois de pouco mais de uma hora de pedalada chegamos ao pé do morro. Pagamos acho que dez reais de entrada e deixamos as bikes na entrada para subir a pé. Mais vinte minutos de caminhada e chegamos. Exploramos todo o morro. Pela tarde o tempo começou a fechar e as nuvens pintaram o céu. Por muito tempo foi somente eu e o Matheus no Morro do Campestre. Que belezura de lugar Foto 2.11 - .A subida de a pé até o Morro do Campestre Foto 2.12 - O bonitão do Campestre se anunciando Foto 2.13 - Matheus fazendo seu desejo após atravessar o portal Foto 2.14 - O cenário visto do topo do Morro do Campestre Foto 2.15 - Eu e o portal Foto 2.16 - E o céu se fechou Foto 2.17 - Explorando um pouco mais Foto 2.18 - Eu e a pose de sempre Na volta pedalamos mais tranquilamente. Caraca, como é bom pedalar. Cheguei a pensar em fazer essa viagem de bicicleta, foi a ideia que mais ficou em minha mente, mas não foi dessa vez, entretanto só de estar ali pedalando aquele trechinho a sensação de liberdade e autonomia era grande demais. Chegamos e cozinhamos um macarrão com atum, ficou meio bosta, mas a Leandra mentiu dizendo que estava bem bom. O dia foi bem corrido, bem cedinho já estávamos dormindo. Foto 2.19 - Matheus e a volta de bike Acordamos e vimos que chovia muito e a previsão era que choveria o dia todo. Assim, tiramos o dia pra tentar ajeitar alguma carona no futuro. Neste dia conversamos com muitos frentistas, donos de restaurante, etc. Todos diziam que seria muito fácil se fosse pelo meio de dezembro, na época de colheita das frutas, mas que por agora seria difícil. Fizemos o nosso dever de casa, tentamos. Era um sábado, dia de final de libertadores e eu e o Matheus estávamos muito afim de assistir o épico River x Boca. Foi difícil demais achar um boteco para ver o jogo. Sentamos e ficamos acompanhando a história do apedrejamento do ônibus do Boca. Fiquei bem chateado com tudo aquilo, queria demais que rolasse aquele jogo. Voltamos para casa da Leandra e o Matheus cozinhou uma lentilha bem encorpada. Ficou boa demais. Dessa vez a Leandra elogiou com razão. O Aílton irmão da Leandra jantou conosco nesse dia também. Foto 2.20 - A Catedral de Urubici A Leandra sabia que nossa principal intenção na cidade era conhecer o Cânion Espraiado. O Cânion fica mais de 40km do centro da cidade, então não daria pra ir caminhando. Caronas seria quase impossível, a cidade estava vazia naquele final de semana e os poucos que trafegavam por lá não se mostraram muito receptivos em oferecer carona. Neste sábado a Leandra conseguiu um carro emprestado para o dia seguinte nos levar até a entrada do Espraiado. O Aílton se prontificou de ir dirigindo, pois nem eu, nem Leandra e Matheus dirigem. Cara, nesse dia fui dormir mais que feliz, ver a Leandra e o Aílton se mobilizando para que nos dois tivéssemos a oportunidade de conhecer o Espraiado é das coisas mais bonitas que aconteceu nessa viagem. Acordamos cedo e partimos para o Espraiado. O dia se anunciou todo ensolarado, com pouquíssimas nuvens no céu. O caminho até a entrada é bem bonito, primeiro pega-se um rodovia asfaltada e depois um pista toda de terra. A Kalyssa foi junto e fez a festa dentro do carro. Chegamos cedo na entrada da trilha, nesta parte seguiu somente eu e o Matheus. A Leandra e o Aílton voltaram pra Urubici e combinamos um horário pra nos encontrarmos no mesmo lugar. Deste ponto até o Espraiado são 8km, e seguimos caminhando. O caminho é uma belezura, todo envolto de montanhas, árvores, flores e um rio para embelezar ainda mais o cenário. A caminhada foi tranquila. Quando chegamos no ponto mais alto era possível avistar o Cânion Espraiado. Quando eu o avistei sai correndo. A neblina estava subindo e começando a esconder o Espraiado. Pela minha experiência com cânions, sabia que era questão de minutos para que a neblina tomasse conta de todo o cânion. Enfim, corri. Chegamos na borda do cânion e ainda era possível ver o seu contorno. Seguimos caminhando pela borda. Como tinha chovido no dia anterior, o terreno parecia um brejo e atolamos umas duas vezes pelo caminho. A neblina dominava. Sentamos para comer. Quando terminamos tudo estava encoberto por neblina, não era possível enxergar mais que um metro na frente. Nessa hora o respeito a natureza tem que existir, e assim cuidadosamente seguimos o caminho para longe da fenda do cânion. Ainda ficamos um tempo no topo de uma cachoeira. No inicio da tarde iniciamos a trilha de volta ao ponto de encontro. A volta foi tranquila. Quando avistamos o ponto de encontro a Kalyssa estava junto da Leandra caminhando. Foto 2.21 - O ponto inicial Foto 2.22 - Que belezura! Foto 2.23 - Matheus caminhando Foto 2.24 - Eu e essa beleza de lugar Foto 2.25 - Matheus e essa foto show Foto 2.26 - O caminho pro Espraiado Foto 2.27 - O momento que decido correr Foto 2.28 - O Espraiado e a invasão de nuvens Foto 2.29 - A chegada na fenda Foto 2.30 - Eu e o Espraiado Foto 2.31 - Uma pose desnecessária Foto 2.32 - A nuvem Foto 2.33 - Matheus desaparecendo na neblina Foto 2.34 - O único lugar que não estava tomado por neblina Foto 2.35 - Que agora estava começando a ser tomado pela neblina Foto 2.36 - O topo da cachoeira Foto 2.37 - A cachoeira vista de cima Foto 2.38 - O caminho de volta Foto 2.39 - O caminho de volta [2] Foto 2.40 - Leandra e Kalyssa No caminho de volta pra casa da Leandra paramos na Gruta Nossa Senhora de Lourdes. A gruta abriga uma mini igreja ao ar livre com direito a uma cascatinha que deságua do lado do altar. Coisa linda de se ver. Nunca tinha visto nada parecido. Depois eu e o Matheus fomos para o mercado e compramos os ingredientes para fazer cachorro quente e também umas cervejas, afinal meu aniversário era no dia seguinte. Pela noite comemos e bebemos. Demos risadas e a despedida já marcava o tom da conversa. Foto 2.41 - Gruta Nossa Senhora de Lourdes Foto 2.42 - Gruta Nossa Senhora de Lourdes Foto 2.43 - Eu, Matheus, Kalyssa, Leandra e Thayran (filho da Leandra) Acordamos cedo, fizemos uns lanches para levar na viagem. Resolvemos seguir de ônibus até o nosso próximo destino. Nos despedimos da Leandra e seguimos para Bom Retiro e depois Lages. Essa etapa da viagem foi das mais importantes. Eu e o Matheus conversamos bastante sobre como estava dando certo a viagem até aqui e que só faltava encaixar algumas caronas para tudo ficar perfeito. Nos dias em Urubici também conversamos muito sobre a necessidade de ter raiz em algum lugar e tentar fazer algo por esse lugar, e de alguma forma retribuir as oportunidades que tivemos nessa vida. Outra coisa da qual filosofamos um pouco foi que era fácil encontrar beleza em qualquer lugar enquanto se é viajante, mas que o principal desafio é ter essa mesma perspectiva no lugar em que estamos no dia a dia. Leandra, como eu te disse pessoalmente, muito obrigado por ter me dado a oportunidade de conhecer sua cidade e essa beleza que é a serra catarinense. Espero, de coração, que você consiga realizar esse seu sonho de conhecer novos lugares, de conhecer a visão de mundo de novas pessoas e de caminhar pelo desconhecido. Espero também que nunca perca sua alegria e que deixe as coisas acontecerem no seu devido tempo, mas quando partir for uma necessidade insuportável, apenas vá. Afinal, haverá diversas Leandras por ai de coração aberto para te ajudar em seu caminho. Novamente, obrigado e um beijo na alma.
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