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Sky Nomad

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Reputação

8 Neutra

1 Seguidor

Sobre Sky Nomad

  • Data de Nascimento 03-09-1990

Outras informações

  • Lugares que já visitei
    Planalto do Itatiaia, Serra da Canastra, Funicular de Paranapiacaba, Barra do Una (Peruíbe), Ilha Bela, Pico do Papagaio (Ilha Grande), Cádis, Barcelona, Arrecife, Teguise, Las Palmas, Marseille, Savona, Maceió, Salvador, Rio de Janeiro, Ilhéus.
  • Próximo Destino
    Parque Nacional da Chapada Diamantina
  • Meus Relatos de viagem
    https://www.mochileiros.com/topic/48682-de-s%C3%A3o-paulo-sp-a-itamonte-mg-280-km-oito-dias-de-ciclismo-e-aventura-no-parque-nacional-do-itatiaia/
    https://www.mochileiros.com/topic/60105-travessia-funicular-de-paranapiacaba-sozinho-sem-experi%C3%AAncia-pr%C3%A9via-e-com-mais-de-uma-hora-de-v%C3%ADdeo/
  • Ocupação
    Desempregado (outra vez. Por escolha própria, como sempre)

Últimos Visitantes

276 visualizações
  1. Sky Nomad

    Sobre a Coragem...

    Acho que nunca me identifiquei tanto com um relato. Tenho a mesma motivação (liberdade), a mesma frustração com o consumismo e as "regras" da vida moderna, a mesma necessidade de solitude (no meu caso, esta necessidade já existia desde a minha infância, pois nunca consegui dominar a incrível habilidade de lidar com outras pessoas) e também saí pela primeira vez em 2015 (no meu caso, em dezembro, aos 25 anos, quando eu estava de férias do trabalho e passando por uma fase ruim que melhorou muito depois de eu sentir o gostinho da vida na estrada). Tive a chance de constatar que as pessoas realmente se admiram ao ver um viajante solitário de bicicleta e fazem várias perguntas (muita gente inclusive chegou a perguntar se eu não tinha medo, o que indica que o Datena está fazendo escola ). Muitos me ofereceram ajuda com dinheiro e comida (já até ganhei um marmitex de um motorista), embora eu nunca tenha tido a sorte de conseguir ofertas de hospedagem gratuita. Já pedalei durante horas à noite em busca de algum lugar para montar a barraca, peguei "atalhos" que acabaram atrasando a viagem em dias, pedalei sob a chuva (o que costuma ser um alívio, já que o sol nas estradas é impiedoso)... E também já perdi a conta do número de vezes em que pensei em desistir da bicicleta e viajar a pé. Por mais libertadora que ela seja, a bicicleta exige manutenção, o que costuma exigir tempo ou dinheiro. Já pedalei dois dias com um aro empenado por não conseguir encontrar uma bicicletaria aberta. E trocar uma câmara furada é um saco, convenhamos. Sem contar que já deixei de ir a alguns lugares por causa da bicicleta. Minha última viagem, por exemplo, terminou mais cedo do que eu gostaria, pois não consegui atravessar um rio a nado com a bicicleta na mão (OK, confesso que a ideia foi meio idiota, mas eu precisava ver com meus próprios olhos). No momento, a única coisa que me impede de virar nômade é minha mãe. Eu moro com ela e nós nos ajudamos com o aluguel e as outras despesas da casa. Mas tudo indica que este ano será o ano em que eu conseguirei colocar o pé (ou melhor, as rodas) na estrada.
  2. Mudei a hospedagem das imagens para o IMGUR. O Photobucket, que eu usava antes, decidiu começar a cobrar para exibir imagens em sites de terceiros. E ainda reduziram a resolução de todas as imagens que eu já tinha. Desgraçados. Levei um ano para fazer isto (procrastinação de novo), mas finalmente baixei os backups que eu tinha no Facebook e fiz o upload para o IMGUR. Eu também fiz uma viagem semelhante quase um ano depois, em outubro de 2016. De São Paulo ao Parque Nacional da Serra da Canastra, em São Roque de Minas. Foram 13 dias percorrendo uns 1100 km de estradas (inclusive estradas de terra, cercadas de mato e sons de animais desconhecidos, na calada da noite. Exatamente o meu tipo de diversão). Eu tinha a intenção de escrever outro relato, mas eu havia parado de fazer anotações por volta do terceiro dia, quando decidi que a viagem estava boa demais para eu me distrair com textões. O relato da tal viagem nunca será publicado, até porque eu já nem me lembro dos detalhes (nem sei quanto eu gastei na viagem, mas acho que cheguei a mil reais. E estourei pelo menos 10 câmaras da bicicleta. E rasguei um pneu. E empenei o aro da roda traseira. E pedalei dois dias com o tal aro empenado). As fotos da viagem podem ser vistas no link abaixo:
  3. O título do tópico já diz tudo o que vocês precisam saber. É um vídeo antigo, pois eu fiz a viagem em 01/01/2017, mas só fui descobrir hoje que há um subfórum para vídeos no Mochileiros.com. Eu ouvi falar da Funicular de Paranapiacaba pela primeira vez em 2013, mas nunca tive a chance de ir com amigos. Na virada deste ano, peguei quatro dias seguidos de folga (uma bênção para quem trabalha numa loja) e percebi que, embora não fosse tempo o bastante para uma viagem longa de bicicleta (meu tipo favorito de viagem), seria a oportunidade ideal para conhecer a famosa e, supostamente, perigosa Funicular de Paranapiacaba. Decidi ir sozinho porque, de uns anos para cá, eu adquiri um gosto muito forte por viajar em paz. Eis o vídeo (recomendo que ativem as legendas para ler meus comentários cheios de sabedoria... SQN): Infelizmente, tanto o celular quanto a câmera estavam cheios/sem bateria na reta final da trilha, portanto, há um timeskip para o dia seguinte no final do vídeo, quando eu já havia caminhado todo o trajeto de Cubatão até Diadema através da Rodovia dos Imigrantes. A caminhada de 18 horas seguidas no 1º dia de subida foi uma das melhores experiências que eu tive (eu gosto muito de andar e a Serra do Mar tem algumas das paisagens mais fantásticas que tive o prazer de ver), mas as bolhas nos meus pés me atrasaram um pouco e eu manquei mais do que um cachorro perneta.
  4. Continuo sendo um leigo neste assunto (é, não aprendi tanto assim a lição que a viagem tentou me ensinar), mas sei que os raios da Caloi Andes são de aço. Talvez seja por isso que os aros estão aguentando até hoje? Seja como for, eu a usei recentemente para subir a Serra da Cantareira (uns 45 km, somando ida e volta) e uma semana depois fui ao Parque do Ibirapuera (19 km de minha casa). Os aros continuam aguentando, mas perdi minha quinta câmara traseira enquanto eu ia do Ibirapuera até a represa de Guarapiranga. Era domingo, mas como não tenho saco para transporte público a não que seja absolutamente necessário, percorri os cerca de 35 km até minha casa andando.
  5. Olá a todos! Conforme diz o título do tópico, eu resolvi ir de bicicleta até a Parte Alta do Parque Nacional de Itatiaia, cuja entrada fica em Itamonte - MG. Escrevi um relato durante a viagem para compartilhar a experiência com vocês e quem sabe incentivar ou esclarecer dúvidas de outros que tenham interesse em fazer a mesma viagem. Infelizmente, sou muito prolixo, o que resultou em um relato de proporções bíblicas (tão grande que comecei a escrevê-lo em 30 de dezembro e só fui terminá-lo hoje; talvez eu tenha exagerado na procrastinação). Quem conseguir ler isso está de parabéns, mas se não conseguir, pelo menos há algumas fotos bonitas perdidas no meio de todo o texto. Planejamento (ou falta dele) Na empresa onde trabalho, temos férias coletivas no final do ano. Normalmente, eu passo as férias descansando em casa, talvez indo acampar em Paranapiacaba (na região cujo nome oficial é Serra do Mogi) em um fim de semana só para variar. Mas desta vez resolvi colocar em prática uma ideia que eu tinha na cabeça há algum tempo: viajar de bicicleta. Até então, eu não tinha um lugar em mente, mas há alguns meses eu havia descoberto por meio de uma amiga a existência do Parque Nacional de Itatiaia. Após passar algum tempo lendo o site oficial do parque e alguns blogs sobre aventuras, decidi que queria conhecer a Parte Alta dele, conhecida como Planalto do Itatiaia. Dia 18 de dezembro foi meu último dia de trabalho: eu só retornaria no dia 4 de janeiro. Tempo mais que suficiente para a viagem, segundo o roteiro de 17 h 49 min proposto pelo Google Maps. Só o que me faltava era a bicicleta. Após pesquisar na internet e em bicicletarias, descobri que uma bicicleta ideal para este tipo de viagem não me sairia por menos de R$ 2.000,00. Eu não tinha todo esse dinheiro e não estava disposto a passar os próximos 10-12 meses parcelando a bicicleta (até porque 10 vezes de 200 reais ainda é dinheiro demais para mim), então acabei comprando uma bicicleta mais básica: a Caloi Andes. Ainda no dia 19, no Carrefour perto de casa, eu a encontrei por R$ 619,90, parcelados em três vezes. Naturalmente, a bicicleta não inclui chaves para manutenção, cadeados, bagageiro, caramanhola ou alforjes, então eu tive que procurar pelas bicicletarias da região. Minha intenção era ter tudo pronto para partir segunda-feira, dia 21, mas algumas partes (especificamente, a bolsa de bagageiro) foram mais difíceis de encontrar. O lado bom é que eu aproveitei a busca para estrear minha bicicleta, já que eu não pedalava há cerca de onze anos. No fim das contas, consegui sair de casa na terça-feira, dia 22. Levei uma mochila cargueiro com roupas (apenas três mudas de roupa: para a ida, para a trilha e para a volta), lanterna, papel higiênico, escova de dentes, creme dental, sacolas e faca, um saco de dormir e uma barraca. Eu decidi comprar provisões em alguma cidade no caminho, para não sair com muito peso. Água, só da caramanhola, que eu reabasteceria em postos de gasolina. Com base no Google Maps, eu esperava chegar lá em dois dias, parando apenas uma vez para dormir na estrada. Custo da Bicicleta: Bicicleta _________________ R$ 619,90 Acessórios e ferramentas____ R$ 409,79 Capacete__________________ R$ 69,00 TOTAL__________________ R$ 1.098,69 Primeiro Dia: 22/12/2015 Ao invés de sair durante a madrugada, concluí que o melhor era sair descansado de casa e, portanto, não usei o despertador. O roteiro sugerido pelo Onisciente Google manter-me-ia circulando pelas ruas de várias cidades, exigindo que eu seguisse pela rodovia Presidente Dutra somente a partir do município de São José dos Campos.Eu gostei da ideia, já que seguir pelas ruas da cidade é muito mais seguro do que por uma rodovia cheia de caminhões a 90 km/h. Saí por volta das 9 h da manhã com a expectativa de chegar a Guaratinguetá ou Lorena ao anoitecer. Ygritte e Compadre Washington precisam ter uma palavrinha comigo. O início da viagem foi tranquilo. Eu moro na Penha, na zona leste de São Paulo, e meu primeiro passo era percorrer a ciclovia do Parque Ecológico do Tietê, que segue paralela à rodovia Ayrton Senna. Embora o Parque Ecológico esteja localizado a menos de uma hora de caminhada de minha casa, eu não o visitava há uns quinze anos ou mais. É um lugar bastante agradável, um pedaço de Mata Atlântica tão bem conservado que até faz você esquecer que o imundo rio Tietê corre ao longo do lado norte da ciclovia. A ciclovia, apesar de rachada e com um ou dois pontos parcialmente alagados (além de um carro sem rodas abandonado num ponto isolado, o que havia chamado a atenção de um grupo de ciclistas que eu suponho que estavam esperando pela polícia para remover o veículo), é surpreendentemente fácil de se percorrer. A ciclovia do Parque Ecológico do Tietê. As árvores ao redor abafam o barulho da rodovia Ayrton Senna, tornando o lugar agradavelmente pacífico. Só se ouvia o som dos pássaros. O rio Tietê e a rodovia Ayrton Senna estão além desta muralha de vegetação. Saindo da ciclovia, cheguei aos bairros mais orientais da cidade, como São Miguel Paulista e Itaim Paulista. São regiões as quais eu não conheço muito bem, então eu fui obrigado a consultar o roteiro do Google Maps frequentemente. Felizmente, havia uma ciclovia percorrendo um bom pedaço das ruas e calçadas (algumas sem guias rebaixadas, o que me levou a um solavanco que até inclinou meu selim para trás) do bairro de São Miguel Paulista e meu trajeto levava através dela durante algum tempo. Saindo da ciclovia, eu pedalei até chegar no município de Itaquaquecetuba onde as coisas desandaram. Cavalos em uma área rural em Itaquaquecetuba. O problema em Itaquaquecetuba é que muitas ruas não possuem identificação, ou possuem identificação em locais ilógicos (por exemplo, qualquer lugar que não seja a esquina). A princípio, o caminho foi fácil, já que passava por vias principais da cidade. Mas depois eu tive que entrar nas vias arteriais dos bairros suburbanos, onde eu era forçado a sair perguntando aos habitantes o nome da rua em que eu estava. E nem todo mundo dá informações certas. Eu aproveitei que estava na cidade para comprar provisões: biscoitos doces e salgados e amendoins. Quando já passava das 13 horas, alguns moradores garantiram que o caminho pelo qual eu estava seguindo era uma rua sem saída e eu decidi seguir pela rodovia Presidente Dutra a partir daí. Morrendo de sede e cansaço e com a pele ardendo por causa do sol (eu usei protetor solar, mas minha pele não aguenta muito sol), eu segui pela rodovia Mogi-Dutra (onde tive a sorte de encontrar um posto Ipiranga com bebedouro) até chegar à Presidente Dutra. Eu estava em Arujá, mas a partir daí a viagem transcorreu sem grandes dificuldades (eu ainda vou usar muito esta expressão em meu relato. Aproveitem para começar seu prórpio jogo de beber). Uma chuva apanhou-me em Guararema no fim da tarde, mas eu encontrei um pedágio desativado e aproveitei o abrigo para comer algo e pegar o agasalho que estava dentro de minha mochila cargueira. Quando já passava das 19 horas, eu estava em Jacareí, no km 165 da Dutra. Ali encontrei um posto de serviços grande, com restaurante e segurança 24 horas. A primeira coisa que fiz foi procurar um lugar para deixar a bicicleta. Eu a prendi a uma estaca de metal usando um cadeado de 1,5 m (com o qual travei a roda traseira e o bagageiro) e ainda travei a roda dianteira com outro cadeado. Depois, removi todos os alforges e partes não parafusadas e os prendi à minha mochila enquanto eu comia algo no restaurante. "Ninguém vai roubar essa coisa," pensei eu. "Ninguém." Felizmente, eu estava certo. Depois de comer um pouco (um sanduíche de frango e um litro de suco de laranja), comprar duas garrafas de 1,5 l de água (a R$ 5,80 cada, um verdadeiro assalto) e tentar sem sucesso encontrar um local para recarregar os créditos de meu celular (eu realmente sou o tipo que prefere remediar a prevenir), eu pedi permissão ao segurança para armar minha tenda no terreno do posto. Muito gentil, ele me disse que não haveria problemas e sugeriu um gramado atrás de uma sebe que costumava ser utilizado por viajantes em minha situação que passavam pelo local. E foi assim que terminou meu dia: com menos progresso do que eu esperava, mas ainda assim muito bem. A grama mais macia sobre a qual eu já dormi. Não estou exagerando quando digo que dormi melhor neste gramado do que durmo em minha cama. E a câmera que usei é uma porcaria para fotos noturnas, caso não tenha ficado claro. Custo do Primeiro Dia: Provisões para a trilha ________ R$ 30,30 Jantar e água________________ R$ 44,00 Bebidas durante o dia__________ R$ 8,00 TOTAL___________________ R$ 82,30 Distância percorrida: aprox. 90 km (cerca de 10 km desperdiçados procurando por ruas perdidas) Tempo de viagem: aprox. 10 horas Velocidade média: aprox. 9 km/h Segundo Dia: 23/12/2015 Após um café da manhã muito simples retirado de minhas próprias provisões, eu retomei a viagem às 8 h 30 min. Minha intenção no segundo dia era chegar à cidade de Cruzeiro, alguns quilômetros além de meu objetivo não concluído no dia anterior, Guaratinguetá. Eu estava me sentindo descansado e não cairia novamente na armadilha de seguir por dentro de cidades desconhecidas, então meu objetivo parecia fácil de cumprir. O sol foi tão impiedoso quanto no dia anterior, mas a paisagem compensava o sacrifício. Não aconteceu nada de realmente interessante na viagem, exceto pelas paisagens da estrada e um arco-íris que avistei em Guaratinguetá. A Serra da Mantiqueira, onde o Parque Nacional do Itatiaia está localizado, podia ser vista ao norte durante a maior parte de minha viagem. E meu maior erro foi não ter fotografado a linha do horizonte de Aparecida, com suas belas igrejas e torres. O arco-íris em Guaratinguetá. Já era possível vê-lo do município de Aparecida, mas não com tanta nitidez. Por volta das 18 horas, avistei o que seria a última parada pelas próximas três horas. E eu nem tive o bom senso de parar lá, já que não tinha ideia do que me aguardava: um longo trecho da Dutra (de Cachoeira Paulista a Lavrinhas, se não me engano) onde o acostamento dá lugar a uma faixa adicional exclusiva para caminhões. Para piorar, já estava escurecendo e eu estava cansado demais para pedalar nos trechos de subida. Eu passei boa parte daquele trecho andando o mais próximo da grama que podia enquanto caminhões passavam ao meu lado e ocasionalmente buzinavam em minhas orelhas. Confesso que considerei parar ali mesmo e armar minha barraca na grama, mas decidi que era mais sensato encontrar um lugar mais seguro para passar a noite. Acabei encontrando um posto de serviços em Lavrinhas, quando já era cerca de 21 horas. Eu estava tão cansado que quase não tive energia para jantar, mas acabei empurrando para dentro um prato de comida antes de dormir. Meu dormitório no segundo dia. Custo do Segundo Dia: Jantar___________________ R$ 40,88 Bebidas durante o dia______ R$ 55,00 TOTAL________________ R$ 95,88 Distância percorrida: aprox. 140 km Tempo de viagem: aprox. 13 horas Velocidade média: aprox. 10,8 km/h Terceiro Dia: 24/12/2015 Restando cerca de 50 km até a Garganta do Registro, que eu pensava ser a entrada da Parte Alta do Parque Nacional do Itatiaia, eu esperava concluir minha viagem de ida antes do fim da tarde, mesmo sabendo que metade do caminho seria subindo uns 1.600 metros de serra. Como o parque não permite a entrada de visitantes após certo horário (14 horas, se não me engano), eu sabia que não entraria no mesmo dia, mas eu esperava acampar do lado de fora enquanto esperava pelo dia seguinte. Lamentavelmente, a realidade mostrou-se mais complicada do que meu "planejamento" levou-me a crer. Eu estava pronto para continuar minha jornada às 8 h 10 min. Antes de partir, eu descobri que o posto onde eu estava possuía chuveiros que poderiam ser usados pelo preço de R$ 8,00. Sem banho há dois dias e pedalando debaixo de um sol escaldante, eu precisava desesperadamente de um banho, já que minha aparência estava nojenta e meu fedor, pior ainda (nem mesmo eu estava me aguentando). Mas eu não tinha shampoo, toalha ou sabonete e tinha esperanças de tomar um banho de cachoeira no dia seguinte, o que me levou a reconsiderar o uso dos chuveiros. Além disso, o custo daquela viagem, com as práticas criminosas de comércio dos postos de rodovia, estava me preocupando. Eu parti sem banho, decidido a tolerar minha imundície por mais um dia. E não, eu não costumo ser nojento assim em meu dia-a-dia. É incrível o que se pode descobrir a respeito de si próprio em um mochilão. O trecho da rodovia Presidente Dutra entre Lavrinhas e Queluz possui algumas das paisagens mais belas de toda a estrada. Ao sul da Dutra, eu podia ver o rio Paraíba do Sul, que cruza a região do Vale do Paraíba e é considerado o mais importante do estado de Rio de Janeiro. Assim como a maioria dos rios que passa por regiões habitadas por pessoas, o Paraíba do Sul é altamente poluído, mas é difícil acreditar quando você vê a vegetação e as aves ao redor dele. A placa o identifica como rio Claro, mas isto aí é o rio Paraíba do Sul, mesmo. Os mapas não mentem. Agora que eu estava chegando perto de meu destino, eu precisava sacar dinheiro para pagar pela entrada e pela área de camping. O Parque Nacional do Itatiaia aceita apenas dinheiro, o que significava que eu teria que achar algum banco 24 horas num dos poucos postos de serviços pelos quais eu ainda passaria ou perder tempo procurando por uma agência da Caixa na cidade de Queluz (em inglês: Whattalight City). Felizmente, acabei encontrando um terminal de auto-atendimento da Caixa no Graal Estrela, localizado num trecho da Dutra no município de Queluz. Um automóvel em exposição no posto onde saquei o dinheiro. Com isso fora do caminho, eu logo havia cruzado a fronteira para o estado de Rio de Janeiro e deixei a Dutra assim que surgiu a oportunidade, seguindo para o norte através da rodovia Sebastião Alves do Nascimento (BR-354). A BR-354 possui a distinção de ser a rodovia federal mais alta do Brasil, chegando a 1.670 m na Garganta do Registro, meu destino. Eu só fui descobrir este fato depois que cheguei em casa, mas o considero uma ótima notícia: significa que, não importa para onde eu vá em minha próxima viagem de bicicleta, nunca será tão cansativo quanto este trecho do trajeto foi. O cenário em toda a rodovia Sebastião Alves do Nascimento é incrível, além de o clima ser muito mais ameno do que na Dutra, graças à altitude e às árvores. Logo no início da BR-354, antes de a subida começar, encontrei uma área residencial com diversos estabelecimentos comerciais. Era cerca de 11 horas da manhã, então eu resolvi parar em um restaurante (Tempero da Roça, em Resende - RJ) para almoçar. Com apenas R$ 24,00, almocei mais do que meu estômago poderia suportar (mas ainda assim empurrei tudo para dentro: eu havia aprendido minha lição depois do que acontecera no dia anterior), bebi meio litro de suco de limão e ainda levei uma garrafa de meio litro de água. Foi o melhor negócio que fiz em toda a minha viagem. No decorrer da subida pela serra, eu quase não pedalei: embora não fosse uma rodovia íngreme, a BR-354 parecia não ter fim e minha bicicleta com a bagagem não é o que se pode chamar de leve. Havia longos trechos desertos, com apenas árvores à vista, mas sempre surgiam trechos com alguns sítios agrupados onde eu podia encontrar bares e mercearias. Eu sempre pedia água ou comprava sucos nestes trechos, pois meu organismo estava sendo desidratado em tempo recorde com aquela subida. Não era íngreme, mas parecia interminável. Lá pela metade superior da rodovia, comecei a encontrar canos de água de nascente pelo caminho, que foram minha salvação quando não havia mais estabelecimentos comerciais por perto. Os canos eram velhos e sujos, mas a água era fria e limpa, apesar de um ou outro grão de terra que vinha junto. Enchi minhas garrafas e minha caramanhola e bebi tanta água quanto pude. Ainda assim, eu estava cansado e minhas pernas estavam cobertas de arranhões causados pelos pedais da bicicleta. Andar ao lado da bicicleta quando se está cansado demais para seguir em linha reta não é recomendado quando se está usando bermuda. Parece nojento, mas quem garante que o encanamento da sua casa não está assim, também? Por volta das 17 horas, eu finalmente cheguei à Garganta do Registro, em Itamonte - MG. Fica a poucos metros da fronteira entre MG e RJ, com um pequeno povoado cheio de lojas e bares naquele ponto. Minha pressa em encontrar um lugar para armar minha barraca era tanta que eu nem parei para reabastecer suprimentos, até porque eu já tinha água o suficiente comigo. Mas eu não esperava pela péssima notícia que me aguardava: em uma placa na entrada do território do Parque Nacional do Itatiaia, havia um mapa indicando que o acesso à Parte Alta dava-se através do Posto Marcão, a verdadeira entrada para visitantes do parque. O problema é que o Posto Marcão fica no km 13 da BR-485, a Rodovia das Flores, cuja altitude é ainda maior do que a da BR-345 que eu havia acabado de subir. E isso não era o pior: assim que comecei a subir a Rodovia das Flores, percebi que a maior parte dela era de terra coberta de pedras soltas irregulares. Os poucos trechos asfaltados tinham rachaduras e pedaços faltando em toda a parte. Eu nunca tive a chance de viajar muito, mas posso dizer com certeza que nunca vi uma estrada pior em toda a minha vida, seja nas regiões mais carentes de São Paulo, seja nas mais afastadas do interior. A estrada parece ter saído de um filme de Sergio Leone. Como sempre nesta minha viagem, o cenário compensou quaisquer dificuldades que tive. Quando já passava das 21 horas, eu atingi o meu verdadeiro (e até poucas horas desconhecido) destino. No Posto Marcão, fui saudado por um guarda, que me indicou o banheiro e uma fonte de água potável. Ele também me deu algumas notícias piores do que todas as que eu havia recebido até então: em primeiro lugar, a área de camping do parque estava interditada. A notícia podia ser vista no site oficial do parque, mas eu não a havia percebido por alguma razão. Em segundo lugar, eu não poderia acampar nas proximidades do Posto Marcão ou no território do parque, o significava que eu teria que descer até o km 0 da Rodovia das Flores para dormir. E não, eu não poderia deixar minha bicicleta estacionada no posto, tampouco, embora o guarda tenha sugerido que eu tentasse falar com o pessoal do Instituto Chico Mendes (ICMBio - responsável por manter o parque) no dia seguinte, quando eu tivesse feito meu registro de visitante. Como já estava escuro e percorrer a Rodovia das Flores é um pesadelo, o guarda sugeriu que eu acampasse em uma pousada desativada uns três quilômetros abaixo. Apesar de proibido, eu estaria fora do caminho dos carros que viessem pela manhã. Eu parti, determinado a seguir a sugestão, mas meu cansaço era muito e o trecho final da estrada era o pior de todos, de tal maneira que eu perdi um pedaço do pedal de minha bicicleta ao tentar descê-lo. Derrotado, eu armei minha barraca em um gramado à beira da estrada, a menos de um quilômetro do Posto Marcão. Na pior das hipóteses, eu seria forçado a desmontar a barraca às 6 h 30 min, quando o pessoal do ICMBio subisse a estrada para abrir o parque. Meu acampamento à beira da Rodovia das Flores. Observe as maravilhosas condições da estrada na parte inferior da imagem. Até mesmo os motoristas que passavam precisavam ter cuidado com as pedras e buracos. Custo do Terceiro Dia: Almoço___________________ R$ 24,00 Bebidas durante o dia________ R$ 9,00 TOTAL_________________ R$ 33,00 Distância percorrida: aprox. 57 km Tempo de viagem: aprox. 13 horas Velocidade média: aprox. 4,4 km/h Quarto Dia: 25/12/2015 O dia pelo qual eu esperara o mês inteiro: eu estava prestes a entrar no Parque Nacional do Itatiaia. Por volta das 7 h 45 min, eu estava de volta ao Posto Marcão. Um dos funcionários do posto lembrou-me de que eu havia acampado em local proibido, mas foi apenas um aviso: no fim das contas, o pessoal do ICMBio foi bastante compreensivo e ninguém tentou me acordar para eu desmontar minha barraca. Eu registrei meu nome para visitar o parque por 3 dias consecutivos e paguei a taxa de R$ 30,00 (R$ 15,00 pelo primeiro dia e R$ 7,50 para cada dia adicional). Sem saber exatamente qual trilha seguir no meu primeiro dia, acabei aceitando a sugestão de um dos guardas para seguir pelo Circuito dos Cinco Lagos até a Cachoeira das Flores. Além de ser uma trilha longa, eu encontraria alguns rios pelo caminho, os quais eu aproveitaria para tomar um banho. O Posto Marcão ainda podia ser visto durante os primeiros minutos de caminhada pelo Circuito dos Cinco Lagos. Logo no início da trilha, é necessário subir por um caminho bastante sinuoso. Apesar de não ser íngreme, a altitude da região é superior a 2 km, ou seja, o ar é rarefeito demais para alguém acostumado a viver 25 anos na cidade de São Paulo. Embora eu estivesse me sentindo descansado, tive de fazer várias pausas até me acostumar ao ar (e mesmo assim não cheguei a me acostumar completamente no decorrer de meus três dias). Mas o cenário era tão diferente de tudo o que eu conhecia (11% da flora local é endêmica, ou seja, não pode ser encontrada naturalmente em nenhum outro lugar do mundo), o aroma era tão agradável e os sons dos pássaros e insetos eram tão relaxantes que eu tinha a impressão de que estava sendo recompensado por minha falta de aptidão física. A foto não faz justiça à beleza da vegetação. E eu nem mostrei as flores mais interessantes do local. Minha favorita é a eryngium glaziovianum, embora não seja endêmica, até onde sei. Um detalhe curioso é que o som propaga-se por uma boa distância no Planalto do Itatiaia. Mesmo após vários minutos de caminhada (talvez até mais de uma hora), eu ainda podia ouvir vozes vindo do Posto Marcão e da Rodovia das Flores (a qual eu podia ver à distância. É uma rodovia inacreditavelmente sinuosa, a propósito). Foi assim que descobri que outros visitantes visitaram o local depois de mim. Aparentemente, passar o natal escondido no meio do mato não faz de mim o Diferentão dos Mochilões. Sabe o que é diferentão? Este rochedo. Eu não tentei subir nele por causa da grama alta no caminho, mas eu compensaria minha falha no dia seguinte, numa trilha mais rochosa (alerta de spoiler, desculpem-me). Não demorou muito para que tanto o Posto Marcão quanto a Rodovia das Flores saíssem de meu campo de visão. Um detalhe que não mencionei: na portaria do parque, há um guia de bolso disponível (cujo conteúdo pode ser visto aqui) contendo informações sobre a fauna, a flora, a história e o clima do parque, bem como mapas da região e de suas trilhas. Por razões desconhecidas (as quais eu não me preocupei em esclarecer: não seria uma aventura de verdade sem um elemento desconhecido, afinal de contas), o Circuito dos Cinco Lagos não aparece no mapa. De fato, nem mesmo a Cachoeira dos Cinco Lagos foi marcada. Até então, eu estava triangulando minha posição com base no Posto Marcão e na Rodovia das Flores, mas quando eu não pude mais avistá-los, só o que restava era usar as muitas formações rochosas como pontos de referência. Foi um fracasso, infelizmente: para um leigo como eu, era muito difícil saber qual delas era a Asa de Hermes, quais eram as Prateleiras, qual era o Morro do Couto, qual era o Pico das Agulhas Negras... Tudo o que eu sabia (com base na posição do sol, que esteve visível durante a maior parte do tempo) é que eu estava seguindo a nordeste, embora não fosse exatamente um caminho em linha reta. Uma espécie de brejo pelo qual a trilha passou. À distância, pensei que era um lago onde eu poderia tomar banho, mas a ideia acabou se mostrando equivocada. Uma foto que eu tirei com o auxílio de uma pedra e do temporizador da câmera. Acho que conta como selfie. Depois de umas duas ou três horas de caminhada, por volta das 11 h, eu comecei a ouvir o som de água corrente. Logo avistei uma nascente que se tornaria a Cachoeira dos Cinco Lagos. Eu comecei a me animar: finalmente, depois de três dias pedalando, eu teria a chance de tomar um banho (sim, é nojento, mas se eu quisesse conforto, estaria em casa ou viajaria pela CVC). Mas o ânimo não durou muito: a água era gelada. Alguém aqui já foi ao Lago de Cristal em Paranapiacaba/Serra do Mogi? A temperatura da Cachoeira dos Cinco Lagos estava mais ou menos no mesmo nível. Eu sou uma porcaria para lidar com temperaturas extremas, então só consegui me sentar dentro da água e molhar os braços durante alguns segundos. Não foi um banho de verdade, mas foi o bastante para que eu me sentisse melhor do que me sentira desde o início da jornada. Eu não sei que lugar é este. Se ao menos houvesse algum tipo de sinalização bastante óbvia... A propósito, este filete de água no canto inferior direito da foto é a "Cachoeira" dos Cinco Lagos. Engraçado, não é? Tentem entrar na água e vejam se é possível rir com os pulmões congelados, então. Depois de me secar ao sol (que estava agradavelmente quente naquele dia), continuei seguindo a trilha até chegar à uma região rochosa (em cujo início havia uma placa alertando sobre as pedras inclinadas e escorregadias) onde, ao invés da trilha, havia moledros e estacas vermelhas indicando o caminho. Se não fosse um dia sem neblina, eu poderia facilmente me perder ali, já que algumas estacas e moledros estavam muito distantes uns dos outros. Mas eu tive sorte com o clima, o que acabou me ajudando muito dois dias depois, quando eu voltaria a atravessar o Circuito dos Cinco Lagos sob uma neblina espessa (novamente, alerta de spoiler. Sou um péssimo contador de histórias). O que mais me chamou a atenção neste trecho, além do Pico das Agulhas Negras que estava cada vez mais próximo, foram os vários rochedos altamente escaláveis ao longo do caminho. Eu passei algum tempo andando em zigue-zagues para escalar todos eles, mas então percebi que já era quase meio-dia (pelas regras do parque, eu tinha que estar na portaria às 17 h) e comecei a me preocupar. Apertei o passo e parei de fazer desvios do caminho. Isto é um moledro. Se olharem atentamente, é possível ver uma estaca vermelha no horizonte, no canto direito da foto. logo ao lado da grama alta. Algum tempo depois, cheguei a outra placa indicando o piso inclinado e escorregadio, o que significava que eu estava saindo do rochedo. A propósito, a propaganda era enganosa: o caminho era inclinado, mas não havia nada de escorregadio, nem mesmo nos raros trechos onde a rocha estava molhada. Embora minhas botas certamente tenham ajudado no quesito "não escorregar." Talvez o caminho seja mais difícil quando as solas de seus sapatos não se ajustam tão perfeitamente às rochas ásperas do Planalto do Itatiaia. Poucos metros adiante, já na trilha e com vegetação por todos os lados, eu encontrei uma placa apontando o caminho para o Abrigo Rebouças, onde os visitantes podem passar a noite quando decidem pernoitar no parque e a fossa não está quebrada. Foi uma ótima notícia, na verdade: enfim eu tive a chance de confirmar minha posição no mapa e fiquei mais tranquilo com relação ao tempo restante para voltar ao Posto Marcão. A viagem transcorreu sem nada digno de nota (bebam um copo) durante algum tempo. Exceto pela paisagem (sim, este é o Pico das Agulhas Negras — e também é possível ver a Asa de Hermes no canto esquerdo da foto)... A todo o momento ela se mostrava digna de nota... Por vezes, digna até demais. Depois de cruzar a ponte de madeira da imagem acima, eu logo cheguei a um ponto no qual a estrada dividia-se em três. Não havia placa alguma indicando por onde ir, o que me obrigou a confiar nas minhas tentativas de triangulação e na orientação com base na posição do sol. Eu escolhi o caminho da direita, que acabou se mostrando o caminho certo. Pode parecer idiota, mas é uma sensação muito boa saber que você é capaz de se virar no meio do mato usando apenas seus conhecimentos, mesmo que para algo tão insignificante. Não levou muito tempo para eu chegar ao Abrigo Rebouças. Trata-se de uma casa de pedra muito bonita num local coberto de grama e ao lado de uma pequena represa. A área de camping também fica a apenas alguns metros de distância, com uma mesa de madeira e um banheiro externo. Em pleno natal e com a fossa quebrada, o lugar estava completamente deserto, então eu decidi fazer uma pausa para o almoço. Foi então que percebi que eu estava prestes a consumir os últimos doces em minha mochila. Nunca me senti tão desesperado: para que eu me sinta satisfeito, meu sangue deve conter açúcar o suficiente para que uma gota seja capaz de matar uma família de diabéticos. Mas não havia nada a fazer. A represa. O abrigo. A área de camping (normalmente, há espaços reservados para quinze barracas). Uma amizade que fiz na trilha. Era a ave mais corajosa da jornada: nem mesmo os carcarás que eu encontraria dias depois na rodovia Dutra aproximaram-se tanto de mim. Com as nuvens já começando a cobrir o sol, eu prossegui rumo à Cachoeira das Flores. O dia ainda estava claro e o sol ainda estava quente, então eu esperava tomar um banho de verdade desta vez. Do Abrigo Rebouças, eu só precisava retornar à Rodovia das Flores, no trecho que leva do Posto Marcão à Travessia Ruy Braga, e seguir em direção à Travessia Ruy Braga durante uns 20 minutos. Não levou muito tempo para que eu pudesse ver o rio Campo Belo ao norte, acompanhando a estrada. A Cachoeira das Flores podia ser alcançada através de uma trilha semi-oculta, sinuosa e íngreme no lado norte da rodovia. O rio Campo Belo e a Cachoeira das Flores vistos da Rodovia das Flores. Já na Cachoeira das Flores, descobri que a água era tão gelada quanto a da Cachoeira dos Cinco Lagos. Felizmente, as rochas no meio do rio estavam quentes e secas e as nuvens saíram da frente do sol durante alguns minutos. Eu consegui lavar a cabeça e entrar na água até a cintura e ainda tive tempo de me secar ao sol. Sem mais nada a fazer, eu retornei ao Posto Marcão. Ainda encontrei algumas paisagens interessantes no caminho, como dois rochedos que formavam duas pontes paralelas uma à outra sobre o rio Campo Belo (eu fiz questão subir em um deles) e a nascente do rio em questão. Também passei por uma área alagada da Rodovia das Flores, cujas poças são utilizadas pelos sapos-flamenguinho para reprodução. Por esta razão, o trecho final da rodovia é bloqueado aos veículos durante os meses de chuva no fim do ano. Quando eu cheguei ao Posto Marcão para registrar minha saída, o relógio marcava 16 h, o que significa que minha trilha durou 7 h 59 min. A nascente. Sim, o lugar inteiro está acima de 2.000 m de altitude. Seria a Machu Picchu brasileira se os incas tivessem passado pela região. As pontes naturais. Assim como a Ponte Octávio Frias de Oliveira, em São Paulo, estas pontes são grandes demais para o rio que cruzam. A natureza deve ter desviado verbas públicas durante sua construção. Um sapo-flamenguinho. Os maiores chegam a impressionantes (SQN) 3 cm. Eu tentei conseguir permissão para deixar minha bicicleta no Posto Marcão durante os três dias, para facilitar a jornada pela Rodovia das Flores, mas não consegui. Consequentemente, segui para o plano B (nunca houve plano A, a propósito): encontrar um lugar escondido ao lado da rodovia para passar a noite. Proibido, mas eu não acendo fogueiras em meus acampamentos e tenho o cuidado de guardar meu lixo numa sacola, então não foi tão ruim. Melhor do que subir e descer diariamente 13 km de estrada destroçada. Acabei encontrando uma trilha estreita cercada de grama muito alta onde eu poderia ficar longe do campo de visão tanto do posto quanto da estrada, embora ainda houvesse um trecho dela de onde eu poderia ser avistado por quem estivesse subindo para o Posto Marcão. A chance de detecção era muito baixa, então decidi arriscar: às 17 h 30 min eu já estava com a barraca armada, mais cedo do que eu jamais havia acampado durante toda a viagem até agora. Apesar de algumas pedras sob a barraca, eu consegui dormir bem. O "estacionamento." Dias depois, a ferrugem no selim e nas ferramentas dentro do alforje me fez perceber que talvez não tenha sido uma boa ideia. Meu dormitório. Por volta das 2 h, eu acordei com o som de alguma coisa se movendo do lado de fora da barraca. Soava como se fosse quadrúpede e pequeno, então eu imagino que tenha sido um gato-do-mato. Ou até um lagarto, embora seja improvável: eu não ouvi a barriga do réptil hipotético se arrastando pela grama. Custo do Quarto Dia: Entrada do parque_______________ R$ 15,00 Dois dias consecutivos adicionais___ R$ 15,00 TOTAL_______________________ R$ 30,00 Quinto Dia: 26/12/2015 Embora o chão não fosse dos mais confortáveis e o saco de dormir não fosse suficiente para manter meus pés aquecidos à noite (que aliás é muito fria no Planalto do Itatiaia), eu dormi bem e acordei com minha energia habitual (ou seja, hiperativo). Houve uma chuva forte à noite, então eu esperei um pouco para deixar o sol secar a minha barraca. Quando voltei ao parque, já passava das 9 horas. Conforme eu esperava, ninguém havia percebido que eu armei uma barraca no território do parque. Após usar o banheiro e reabastecer minhas garrafas de água, eu segui o conselho de um dos funcionários do parque e resolvi fazer a trilha até a base das Prateleiras, passando pelo Morro do Couto. Não só era um caminho que seguia por um lado do planalto que eu ainda não conhecia, como também já havia outros visitantes seguindo naquela direção, o que facilitaria a vida do pessoal do ICMBio caso houvesse necessidade de resgatar alguém. O lado ruim é que não havia rios naquele lado do planalto, mas isto não reduziu em nada a beleza da paisagem. No caminho eu devo ter passado por uns três grupos diferentes de visitantes, o maior deles com umas cinco pessoas. Havia também pelo menos um guia entre os visitantes, o que me fez pensar em como seria fantástico trabalhar assim. Já tentei pesquisar a respeito, mas só o que encontrei foi uma empresa em Paranapiacaba que afirma contratar apenas moradores da região. Mais um motivo para eu perceber que estou vivendo na cidade errada. Como eu havia mencionado anteriormente, o caminho pelo qual segui em meu segundo dia no parque era rochoso e oferecia várias oportunidades para escaladas. Muitos rochedos bons para se ter uma vista tanto do Planalto do Itatiaia quanto do Vale do Paraíba. O melhor destes rochedos foi uma formação de várias rochas empilhadas na beira de um penhasco. Era bem fácil de subir, mas o topo era uma rocha isolada das demais e "pendurada" acima de um abismo. Não havia como não sentir um frio na barriga na primeira escalada. Como sempre, não consegui tirar uma foto cuja perspectiva mostrasse o local como deveria ser mostrado. A ponta do penhasco, à esquerda, é a rocha isolada da qual estou falando. Entre ela e o restante da formação havia várias rochas menores. Depois de subir uma vez (um pouco mais devagar do que eu gostaria, devido ao supracitado frio na barriga), eu descansei um pouco (em outras palavras, comi alguma coisa, bebi água e atualizei meu relato de viagem, que aliás é muito mais completo em sua versão manuscrita), criei coragem e decidi tirar uma foto. Apoiei a câmera numa pedra, liguei o temporizador e subi feito um macaco para conseguir superar os dez segundos da câmera. Para minha alegria, o medo havia me abandonado. O resultado foi esta foto: A intenção era que o Vale do Paraíba aparecesse no fundo, mas a câmera estava num lugar muito baixo (só uns 2200 metros de altitude, eu acho). Esta era a vista que eu teria se olhasse para trás: Novamente, a perspectiva da foto não ajuda. Parecia muito mais alto ao vivo. E também parece uma imagem de Cyrodiil, a terra fictícia onde é ambientado o jogo de computador The Elder Scrolls IV: Oblivion. Depois de seguir em frente durante alguns minutos, eu ouvi vozes distantes e avistei um grupo de viajantes nos arredores do rochedo que eu acabara de escalar. Pelo que vi, eu fui o único a me empoleirar no penhasco, então estou esperando receber uma medalha do ICMBio pelo correio. Mas chega de falar da pedra na beira do abismo. A melhor parte da viagem (e a melhor foto, embora minha cara de neandertal a tenha arruinado um pouco) estava poucos metros adiante: o cume do Morro do Couto! Segundo a Wikipédia, "a nona maior elevação rochosa brasileira, com 2.680 metros de altitude." E também é ridiculamente fácil de escalar, o que não reduz em nada a diversão. Na base do morro há uma antena numa pequena área cercada. A cerca está cortada em alguns pontos, o que indica que alguns visitantes tenham tentado escalar a estrutura, mas para ser sincero a ideia nem me ocorreu na hora. Eu não viajei 300 km para ver uma estrutura feita por pessoas. Não quando posso ver várias do tipo em minha cidade. As pedras menores na área central do morro formam uma trilha para "escalaminhar" até o topo. Não parece grande coisa na foto, mas ao vivo as menores rochas tinham mais ou menos o meu tamanho. Há vídeos no YouTube de pessoas escalando o Morro do Couto. Recomendo que os assistam. O interessante é que a escalaminhada do Morro do Couto é parte da trilha: se vocês pretendem ir às Prateleiras por este caminho, precisam chegar quase ao topo do morro para depois descer por uma trilha de verdade: À direita da placa, havia algumas rochas que permitiam escalaminhar para o cume propriamente dito (e é coisa leve: não deve ser mais do que cinco metros acima da trilha). Naturalmente, eu não fotografei as tais rochas: estou começando a perceber que eu tenho uma péssima noção de prioridades na hora de fotografar. No cume do Morro do Couto, eu fui recompensado com uma vista espetacular não só do Vale do Paraíba, como também de boa parte do Planalto do Itatiaia. Eu poderia jurar que o céu ali é mais azul do que o céu daqui de São Paulo. De fato, todas as cores pareciam mais vivas no parque, coisa que minha câmera não foi capaz de mostrar com clareza. Ou talvez o fotógrafo seja o culpado. Ainda assim, eu acho que consegui acertar em pelo menos uma foto. Havia uma pequena rocha próxima à beira do abismo que era perfeita para apoiar a câmera. Eu usei novamente o método Peter Parker de fotografia para conseguir o que julgo ser a melhor foto de toda a viagem: Dá para ver o Vale do Paraíba nesta foto. E a vegetação do Planalto do Itatiaia. E eu. Mas acima de tudo (trocadilho digno de uma participação em A Praça É Nossa, eu sei), olhem para as nuvens. O contraste delas com o céu. Existe coisa mais bela do que o céu? Entretanto, por mais belo, atlético e viril que eu (não) seja, acho que vocês preferem ver fotos do cenário no cume do Morro do Couto. Aqui estão algumas: Eu pretendia mostrar o Planalto do Itatiaia, mas as nuvens não saíam do caminho. E, pensando bem, eu gosto de nuvens, então acho que a foto saiu perfeita. A base do Morro do Couto. Dá para ver a antena quase no meio da imagem. O trecho final da Rodovia das Flores, que percorre o parque durante uns 3 km até terminar no início da Travessia Ruy Braga. O Vale do Paraíba. É possível ver pelo menos uma cidade e algumas estradas espalhadas pela foto. Depois da sessão de fotos improvisada, resolvi descer pelo caminho que me levaria às Prateleiras. Novamente, havia muitos rochedos ao redor da trilha e eu estava me divertindo escalando todos aqueles que eram acessíveis o bastante, sem grama alta no caminho. Eu procurei evitar a grama alta durante toda a viagem porque o site do parque afirma que existem cascavéis e jararacas na Serra da Mantiqueira. Minha técnica favorita era saltar de rocha em rocha como um bode para chegar aos rochedos maiores, o que significa que eu treinei mais parkour nesta viagem do que em todo o ano de 2015 (eu meio que abandonei o parkour há tempos, mas estou tentando voltar a praticar). Um dos rochedos que encontrei estava ocupado por um abutre muito grande. Quando eu o vi, ele estava de frente para mim e de cabeça erguida, mas longe demais para eu tirar uma boa foto. Então eu comecei a andar devagar na direção dele, com a intenção de escalar o rochedo alto que aparece em primeiro plano na foto, à direita. Infelizmente, a ave virou as costas para mim e ameaçou levantar voo antes que eu pudesse dar cinco passos, o que me obrigou a usar o zoom da câmera para tirar a foto insatisfatória que vocês estão vendo agora. Olhando pelo lado bom, é possível ver ao fundo o Pico das Agulhas semioculto pela neblina e a Asa de Hermes alguns centímetros (na verdade, centenas de metros) à esquerda do Pico. Foi então que eu percebi que já passava das 14 horas. Menos de três horas para eu voltar até o Posto Marcão, pouquíssimo tempo, pelas minhas estimativas. Eu acelerei e parei de tentar subir em todos os rochedos que eu via, até porque eu havia chegado a uma área aberta e quase desprovida de rochedos e uma garoa começou repentinamente. Foi uma das poucas vezes em que precisei vestir a jaqueta que eu levava na mochila. Uma curiosidade que eu havia esquecido de mencionar: no dia anterior, meu primeiro dia no parque, um dos funcionários do ICMBio havia me alertado sobre a incidência de raios na região. Agora que eu estava andando por uma área descampada enquanto chovia, eu me lembrei do conselho e, admito, não fiquei muito contente com a possibilidade de ser atingido por um raio. Para piorar, embora a garoa não tivesse durado mais do que alguns minutos (o clima da Serra da Mantiqueira é bem variável, segundo dizem), os raios persistiram durante o resto do dia. Depois de um bom tempo descendo as encostas rochosas ao redor do Morro do Couto, eu cheguei a esta planície coberta de grama. No lado esquerdo, é possível ver uma trilha de grama em direção às Prateleiras (que também podem ser vistas no fundo, à esquerda). Mas não faço ideia do nome do rochedo no centro da imagem. Ao sair das planícies verdejantes, eu estava novamente caminhando entre formações rochosas. Foi então que tive a maior surpresa da viagem: uma espécie de túnel chamado Toca do Índio. É apenas um trecho curto da trilha que passa por baixo de algumas rochas imensas sustentadas por outras rochas tão gigantes quanto, mas é diferente de tudo o que eu havia visto até então no Planalto do Itatiaia. Mas imagens valem mais do que palavras, então vejam vocês mesmos: A Toca do Índio vista do lado de fora. O interior da Toca. Após horas ouvindo os ventos fortes do planalto, o silêncio da toca foi uma das melhores experiências de toda a viagem. Saindo da Toca do Índio. Eu deveria ter feito como a Liga da Justiça e acionado o Flash (eis aí outra sugestão de jogo de beber: um copo para cada piada infame que eu contar. Não há no mundo um fígado capaz de suportar algo tão extremo). A partir daí, eu tive que me apressar, pois já passava das 15 horas. Logo na saída da Toca do Índio, eu fui recompensado com uma vista incrível das Prateleiras, mas não havia tempo para eu me aproximar delas. Na verdade, eu acho que a Toca do Índio é a formação rochosa à esquerda. Não tenho certeza: estou escrevendo este trecho do relato em julho de 2016 (mais de seis meses depois da viagem) e já me esqueci dos detalhes da aventura. Preciso parar de procrastinar e terminar logo esta coisa. Apesar do horário, eu ainda não resisti à oportunidade de fazer uma última parada. Fora da trilha, havia um grande penhasco rochoso de onde eu podia ver boa parte do Planalto do Itatiaia. Eu tive que sair do trajeto e ver se não havia um caminho alternativo por ali. Não havia caminho algum, mas valeu a pena. OK, sem mais delongas, eu segui meu caminho de volta à Rodovia das Flores. O relógio já marcava mais de 16 horas quando eu cheguei ao final da estrada, o que significava que eu não conseguiria chegar ao Posto Marcão dentro do limite de tempo estabelecido. Eu acelerei meu passo (embora eu já caminhe bem rápido por natureza), mas já fui me preparando psicologicamente para ouvir umas reclamações merecidas dos guardas. Eu passei por vários pontos de referência no caminho, como a entrada da Travessia Ruy Braga, a Cachoeira das Flores, a trilha para o Abrigo Rebouças, as poças onde os sapos-flamenguinho procriavam e a nascente do rio Campo Belo. Aliás, eu já mencionei várias vezes a Travessia Ruy Braga, mas não expliquei até agora do que se trata. Trata-se de uma trilha com mais de 20 km que leva da Parte Alta à Parte Baixa do parque (e vice-versa). Do planalto para a mata. Deve ser uma aventura e tanto, mas eu não tinha tempo e nem provisões para isto, então decidi deixar para a próxima. Dependendo do seu ritmo, a travessia pode levar dois dias, motivo pelo qual há dois abrigos (Massena e Água Branca) em pontos diferentes do trajeto para que os viajantes passem a noite. Às 17 h 10 min, eu cheguei ao Posto Marcão. Felizmente, ao invés de uma bronca, acabei recebendo um elogio: aparentemente, eu estava indo muito bem em minha exploração do planalto, especialmente considerando que eu estava sozinho e nunca havia visitado o Parque Nacional do Itatiaia antes . Meus 10 minutos de atraso foram aceitáveis. Pronto para encerrar o dia, eu voltei ao meu "covil secreto do mal" da noite anterior e comecei a montar minha barraca. Uma charada para vocês: qual é a pior coisa que poderia acontecer quando se é um viajante dormindo em uma barraca? Se vocês responderam "chuva durante a armação da tenda," parabéns! Eu precisei montar a barraca às pressas, usando o sobreteto para protegê-la enquanto eu me atrapalhava com as estacas, as varetas e o frio. Quando eu terminei, eu estava encharcado e havia umas duas poças de água dentro da barraca. A solução? Peguei minhas roupas sujas de três dias pedalando pela Dutra e usei-as para puxar toda a água para um canto da barraca (sorte minha que o chão era desnivelado). Depois cobri a poça com as mesmas roupas para que a água fosse absorvida durante a noite. Também tive que tirar as roupas que usei durante o dia para que secassem. Pois é, para não passar frio, tive de dormir sem roupas. Esta é sua reação após ler as quatro últimas frases do parágrafo acima. ... — Tem uma barraca ali! — gritou alguém de algum ponto acima na rodovia. Vocês acharam que a chuva era a pior coisa que poderia ter acontecido? Eu vesti minha calça imediatamente e passei os próximos dez minutos paralisado, esperando para ver se eu seria obrigado a desmontar minha barraca e descer pela estrada até Itamonte. Felizmente, ninguém veio. Tenho quatro explicações prováveis: 1 - Eu me escondi tão bem que ninguém conseguiu achar a entrada de meu esconderijo. Improvável, mas talvez a escuridão tivesse atrapalhado a busca. 2 - Quem me viu à distância era um visitante que estava saindo mais tarde. Ou tentando entrar na hora errada. Ou tentando fazer o mesmo que eu estava fazendo (camping ilegal — caramba, a que ponto a humanidade chegou para que haja a necessidade de proibir acampamentos em áreas naturais? É tão difícil assim não emporcalhar todos os lugares por onde passamos?). Seja como for, foi alguém que não me denunciou e por isso eu sou grato. 3 - Eu fui avistado durante a troca de turnos. A pessoa que me viu estava voltando para casa e não estava interessada em fazer hora extra, portanto, decidiu não tentar me encontrar. 4 - Assim como dois dias antes, quando eu estava cansado demais e dormi às margens da rodovia, a pessoa que localizou minha barraca foi simplesmente piedosa. Eu não estava prejudicando o meio ambiente e nem fazendo barulho, então alguém decidiu me deixar pernoitar em paz. Custo do Quinto Dia: ZERO! HAHAHAHA! Suelo, Heidemarie Schwermer, Mark Boyle, Peace Pilgrim, eu ainda me juntarei a vocês na busca pela vida sem dinheiro! Sexto Dia: 27/12/2015 "E no sexto dia eu conversei com um viajante. E vi que era bom." Há dias eu não dormia tanto. Acordei às 6 h 30 min, mas eu havia dormido por volta das 19 horas do dia anterior. Verdade seja dita, eu acordei algumas vezes durante a noite graças às pedras embaixo de minha barraca (e também porque eu costumo acordar durante a noite quando acampo. Deve ser a empolgação). Mas eu estava me sentindo perfeitamente descansado. Antes de tudo, eu precisava secar minha barraca. O lado de dentro estava em bom estado: meu macgyverismo da noite anterior com as roupas sujas havia funcionado melhor do que eu esperava e o saco de dormir havia secado o que restou de água no chão enquanto eu me remexia durante o sono (já disse que sou hiperativo, fazer o quê?). Mas o lado de fora estava ensopado (aliás, percebi nesta aventura que minha barraca é muito boa contra a chuva: nenhuma gota de água entrou depois que ela estava armada e fechada), o que me obrigou a esperar algum tempo para que o sol a secasse. Felizmente, a manhã do dia 27/12/2016 foi ensolarada no Planalto do Itatiaia, embora o vento estivesse mais forte do que nos dias anteriores. Desmontar a barraca foi bem mais complicado com a ventania, até porque eu sou desajeitado a ponto de parecer um personagem de desenho animado, às vezes. Quando terminei (pouco depois das 8 horas), o volume era grande demais para a bolsa da barraca, o que me forçou a guardar as estacas no alforje da bicicleta. Chegando ao Posto Marcão, eu fui tão bem recebido quanto nos dias anteriores e ninguém comentou nada a respeito da barraca avistada na noite anterior. O que me leva a uma quinta possível explicação: 5 - Havia outra pessoa ou grupo de pessoas acampando na região! É tão óbvio que nem consigo entender por que não foi a primeira ideia que veio à minha mente. Infelizmente, a pessoa/grupo ou não pensou em se esconder, ou não se escondeu bem o bastante. De volta ao relato, desta vez eu iria até a Cachoeira Aiuruoca (é, eu precisei dos meus três dias no parque para decorar este nome. É fácil de falar e escrever, assim como o nome Jarlyelson, mas é tão bizarro que você acaba se esquecendo, assim como o nome Jarlyelson). Registrei minha saída às 9 h 10 min. Por ser a trilha mais longa da Parte Alta (sem contar as travessias), eu esperava novamente voltar no horário limite. O início da trilha é também o caminho para o Pico das Agulhas Negras, ou seja, é o mesmo percurso que fiz enquanto voltava da Cachoeira dos Cinco Lagos para o Posto Marcão dois dias antes. Ainda assim, sempre há alguma coisa nova para se ver: um beija-flor azul-esverdeado espetacular que eu não consegui fotografar, borboletas de cores diversas que eu também não consegui fotografar, rochas anteriormente ocultadas pela neblina, as quais eu consegui fotografar, pois permaneceram imóveis o tempo inteiro (também aproveitei para subir em algumas que eu havia ignorado em minha corrida contra o tempo da última vez)... Esta árvore gentilmente segurou esta rocha para que eu pudesse fotografá-la sem dificuldades. Eu continuei andando por mais alguns quilômetros (passei novamente pela ponte de madeira de dois dias atrás, aliás. Eu gostei daquela ponte) até chegar à bifurcação Asa de Hermes/Pedra do Altar. Segundo o mapa que eu tinha em meu bolso, o caminho para a Cachoeira Aiuruoca saía de uma bifurcação pouco antes da Pedra do Altar. Portanto, foi para a Pedra que eu segui. Ao lado da Pedra do Altar, a trilha seguia pela encosta de um monte. Naquela encosta, descansando entre as rochas, eu conheci Elias, um morador de Resende que estava mostrando o parque a dois amigos da capital do Rio de Janeiro. Após dias apreciando a solidão, sem falar com ninguém que não fosse do ICMBio, eu fiquei surpreso ao perceber que eu estava gostando de conversar com outro viajante. Talvez Thoreau estivesse certo: a sociedade transforma os homens em monstros. Alguns dias longe dela e eu me tornei uma pessoa sociável (ou tão sociável quanto sou capaz de ser)! Elias estava descansando por causa do ar rarefeito (ao qual eu ainda não havia me acostumado completamente, devo ressaltar), então ficamos conversando sobre a Parte Baixa do Parque Nacional do Itatiaia, que ele conhecia bem. Mata Atlântica, vários lagos, rios e cachoeiras e fauna em abundância (especialmente macacos) são alguns dos diferenciais da região, que eu ainda pretendo visitar no futuro. Ele me recomendou principalmente a Cachoeira do Escorrega, que é exatamente o que diz o nome: um toboágua natural. Quando eu falei sobre minha viagem, Elias disse que esse tipo de coragem só se tem quando se é jovem e recomendou que eu pedalasse até Angra dos Reis quando tivesse a chance, pois também há uma serra a subir no caminho. Eu continuei meu caminho e, alguns metros adiante, encontrei os amigos de Elias retornando da Pedra do Altar. Conforme este havia dito, ambos haviam ido ao parque sem bagagem alguma, apenas com as roupas no corpo. O mais legal é que a intenção deles era subir o Pico das Agulhas Negras: eles só mudaram de ideia ao descobrirem que era necessário levar equipamentos de escalada para ter permissão de visitar a atração. Os dois me cumprimentaram, perguntaram se eu havia visto Elias e me alertaram sobre a neblina à frente, que realmente estava muito mais espessa do que o que eu havia visto até então. Eu gosto de neblina: o fenômeno é muito frequente na Serra do Mogi e dá um ar de mistério a qualquer lugar. Mas senti falta do céu azul e do sol radiante dos dias anteriores. Depois de alguns metros, encontrei a placa apontando para a Cachoeira Aiuruoca. A partir daí, eu estava num trecho ainda desconhecido por mim. Até a vegetação era diferente, com arbustos altos e algumas flores que eu ainda não via visto. Parecia um jardim. Vários tons diferentes de verde, mas dá para ver flores amarelas e até mesmo algumas avermelhadas perto do solo. Algumas partes da trilha também estavam alagadas. Na verdade, nem havia água o bastante para entrar nas minhas botas, mas o chão estava mole e eu aproveitei a oportunidade para ficar pulando feito um bode, a fim de não ter de reduzir meu passo. Foi neste novo trecho que encontrei a primeira e, até agora, única cobra silvestre que vi na vida (sou da cidade grande. Não me julguem). Na verdade, ela me encontrou: eu apenas ouvi a vegetação se mexendo à minha esquerda e olhei a tempo de ver a cauda dela. Era um animal não muito grande, talvez uns 50-70 cm, e com escamas de um verde meio acinzentado que lembrava muito a cor de algumas espécies de grama do local. Segundo a foto do guia de bolso do parque, não era uma jararaca (jararacas têm um padrão bem distinto em suas escamas e acho que a única subespécie na cor verde é a arbórea, que tem uma cor muito mais viva do que a cobra que eu vi) e nem tampouco uma cascavel (também têm um padrão distinto e não são verdes, além de eu não ter ouvido o som dos guizos que são marca registrada da espécie). Provavelmente não era venenosa, mas decidi continuar a evitar entrar na grama alta só por precaução. Saindo dos "Jardins Alagados do Itatiaia®," deparei-me com o bioma mais incrível até então. Uma região diferente de tudo o que eu havia visto em toda a minha vida. A trilha continuava alagada pelo mesmo curso de água, mas o solo era alaranjado (não parecia areia, entretanto. Era uma terra vermelha desbotada) e a trilha passava entre pequenos "planaltos" de terra escura com cerca de 1,7 m (minha altura. Sim, sou um mochileiro de bolso, sintam-se à vontade para me levarem em suas mochilas ou porta-malas) e cobertos de vegetação no topo. Eu tive a impressão de que a trilha havia sido um rio outrora, antes de a água baixar e transformar-se naquele filete de água que esteve acompanhando a trilha desde os Jardins Alagados do Itatiaia®. Sei lá, não sou geólogo. Imagens valem por mil palavras. Parece até uma versão HD de Final Fantasy IX. Infelizmente, o valor das imagens não me impede de escrever um relato que já passa das 11 mil palavras. Saindo do Rio Seco®, eu cheguei a uma área pantanosa que indicava que eu estava perto da cachoeira. A vegetação era alta (pensando bem, a vegetação é alta em todo o Planalto do Itatiaia. Acho que já passou da hora de eu me habituar a isto) e havia um rio (estava mais para uma nascente) passando entre as muralhas de grama alta e a trilha. Em alguns pontos, o rio cruzava ou até mesmo era a trilha (o que soa como alguma frase de mestre sábio de filmes de kung fu. "Não cluze a tlilha, seja a tlilha!"). Como vocês já devem ter deduzido, eu percorri a maior parte do trajeto pulando de uma margem do rio à outra. Infelizmente, houve um momento em que molhei minhas meias, o que deixou meus pés ensopados e enrugados, o que levou a mais bolhas. Baixa estatura, uma pele delicada demais para o sol e pés que se enchem de bolhas: este relato está fazendo maravilhas por minha imagem de homem viril. Mas poderia ser pior: pelo menos só está faltando eu ser forte e formal. O trecho pantanoso antes de ser dominado pelo rio. O momento em que vocês vão molhar seus pés, independentemente do que façam. E não, não há placas indicando o caminho. Sem sol nem pontos de referência visíveis, eu acabei seguindo pelo caminho errado aqui. Enfim, após vagar um pouco pelo pântano, a trilha saiu do curso do riacho e passou a acompanhar a margem de um rio. E era um rio de verdade, como aquele que eu havia visto na Cachoeira das Flores, com uma correnteza razoavelmente forte e muito mais água do que as nascentes que predominam no Planalto do Itatiaia. Eu não precisava de placas ou mapas para saber que a Cachoeira Aiuruoca estava mais à frente no curso daquele rio. Mesmo com a neblina, a vista era magnífica, com um vale bem largo em cujas paredes várias árvores cresciam. Havia também uma trilha ao lado da cachoeira, mas ela parecia não levar a lugar nenhum. Acho que o mato cresceu e escondeu o caminho para o fundo do vale. Como eu disse antes, a neblina dá um ar misterioso ao lugar. Mas imaginem como deve ser este rio com o céu azul de um dia ensolarado! A Cachoeira Aiuruoca. O abismo tem cerca de 20 metros de altura, mas as pedras são firmes o bastante para uma pessoa parar no meio do rio e tirar fotos. Eu nem pensei em entrar na água desta vez: estava frio demais e o vento estava muito forte. Pelo visto, o curso do rio segue até a Parte Baixa do parque. Pena que eu não tinha um barril. Ou a vontade de me molhar no frio. A trilha ao lado da cachoeira. A vegetação era a mesma do Circuito dos Cinco Lagos, a área mais florida do Planalto do Itatiaia. Sem mais nada a fazer ali, eu decidi fazer o caminho de volta. Como ainda era cedo, eu voltei pelo Circuito dos Cinco Lagos, mas não aconteceu nada interessante no caminho. Se eu não tivesse seguido por este caminho antes, teria vagado para fora da trilha em alguns lugares. Com toda a neblina daquele dia, alguns moledros e estacas de sinalização não eram nem de longe tão visíveis quanto os da foto acima. Como podem ver nesta foto, àquela altitude, a neblina era na verdade uma nuvem. Eu estava literalmente andando nas nuvens. Precisei descer para sair de dentro delas. Parece bobagem, mas é uma coisa muito legal quando você começa a pensar a respeito. Quando eu cheguei ao Posto Marcão, ainda era bem cedo. Registrei minha saída às 15 h 40 min e saí do posto às 15 h 57 min. Chegara o momento de enfrentar aquilo que eu temia desde a noite em que adentrei o território do Parque Nacional do Itatiaia: a descida pela Rodovia das Flores. Felizmente para mim, a Rodovia das Flores era muito mais fácil de se percorrer à luz do dia e sem o cansaço causado pela subida de quatro horas que eu havia feito três dias antes. Os primeiros 3 quilômetros realmente são um saco, mas a estrada fica bem melhor a partir do Km 10, desde que se mantenham os freios acionados. E eu pude ver a paisagem daquele trecho superior da estrada, que era muito bonita. Em alguns pontos, a vegetação tinha um cheiro muito bom que me fazia lembrar daquela barraca de ervas que acho que existe em todas as feiras livres de São Paulo. E eu ainda vi uma formação rochosa na qual eu nunca havia reparado antes: a Pedra do Camelo. Meu terapeuta me disse que eu devo manter distância de uma coisa chamada Teste de Rorschach, mas nunca entendi o porquê. Deve ser porque eu sou fã do Dr. Manhattan. E vejam só, eu acabei de demonstrar que uma imagem pode valer 305 palavras, ao invés das mil que o dito popular nos leva a crer que são necessárias. Saindo da Garganta do Registro e voltando à BR-354, fui recompensado com a melhor parte da cicloviagem: descer os 1670 m de altitude da estrada. Eu não precisei pedalar, mas mesmo assim consegui ultrapassar alguns carros. Acredito que eu tenha chegado a 50 km/h, mas nunca saberei ao certo. Um velocímetro faz falta. Seja como for, eu decidi manter a velocidade dentro dos limites de 40 km/h da rodovia. Para isto, usei como referência um caminhão que descia a estrada lentamente: eu o segui de perto durante um bom tempo, usando os freios para impedir minha aceleração. Mas eu me cansei daquilo depois de uns quinze minutos e continuei a descer como um maníaco normal. Na metade inferior da estrada, num trecho totalmente deserto, encontrei um carcará parado no acostamento. Descansando, talvez? Era um animal magnífico, com o corpo castanho-escuro, a cabeça branca e uma crista preta (ou talvez apenas castanho-escuro). Mas alçou voo antes que eu pudesse sacar meu celular. Na rodovia Presidente Dutra, logo depois de entrar no território do estado de São Paulo, conheci um ciclista chamado Vinícius. Ao saber de minha viagem, ele pediu para tirar uma selfie comigo (na qual eu tive a chance de ver o quão cansado, sujo e, acima de tudo, feliz eu estava) e pedalou comigo em direção ao Graal Estrela, onde eu pretendia passar a noite. Vinícius mora (ou morava; estou demorando tanto para escrever este relato que é possível que o Pico das Agulhas Negras seja nivelado pela ação do tempo antes de eu conseguir publicar esta coisa) em Queluz e tem o hábito de andar de bicicleta pela Dutra, o que explica sua bicicleta speed. Nem preciso dizer que minha mountain bike (ou seria monster bike? Hahaha, adoro piadas infames e trocadilhos prassistas) não atingia a velocidade necessária para acompanhá-lo e eu só consegui ficar perto dele porque ele estava indo devagar para me ajudar. No Graal Estrela, um guarda recomendou que eu jantasse no restaurante Retiro dos Caminhoneiros, que oferecia comida por quilo a preços razoáveis. Segundo ele, os outros restaurantes do posto eram armadilhas para turistas, com preços abusivos pela quantidade oferecida. Eu deveria ter seguido o conselho dele, mas havia um NYC Burger ali e eu estava desesperado por um hambúrguer e um milk-shake. Eu não comia nada doce há dois dias, afinal de contas. Depois do "jantar," eu pedi permissão para acampar no local. Demorou um pouco mais do que nos postos anteriores, mas deu certo no fim. Armei minha barraca num gramado afastado e deixei a bicicleta travada do lado de fora da barraca. Já passava das 20 horas, mas a noite estava muito quente: toda a umidade que eu não consegui tirar da barraca no planalto secou em poucos minutos em Queluz. Depois veio outra chuva e molhou tudo de novo, mas desta vez a barraca estava armada e só precisei estender o sobreteto para impedir que entrasse água. Eu me senti dentro de um forno, mas pelo menos não precisei secar a parte de dentro da barraca no dia seguinte. Custo do Sexto Dia: Jantar___________________ R$ 26,00 TOTAL_________________ R$ 26,00 Distância percorrida: aprox. 44,5 km Tempo de viagem: aprox. 3 horas Velocidade média: aprox. 14,8 km/h Sétimo Dia: 28/12/2015 Fui acordado à 5 h 50 min por um dos guardas, que me perguntou a que horas eu pretendia sair. Embora eu estivesse cansado e apesar do tom amigável do guarda, eu entendi a mensagem e disse que já estava me levantando. [sarcasmo]Espero ansiosamente pela oportunidade de me hospedar novamente no terreno do Graal Estrela.[/sarcasmo] Olhando pelo lado bom, o guarda disse que, se eu precisasse, ele e seus colegas poderiam tentar me ajudar a conseguir o café da manhã. Acho que eles pensaram que eu era um mendigo (com a aparência e o cheiro que eu tinha, não posso culpá-los) e eu pensei seriamente em me aproveitar da situação, mas concluí que não seria nada ético e fui pagar pelo meu café da manhã como um turista normal, mesmo não sendo um (se vocês soubessem a significância desta última frase para mim...). Após um café da manhã reforçado (sanduíche de bauru — embora Bauru estivesse a 550 km de distância (piada nível "é pavê ou pacumê?") — , suco de goiaba e um pedaço razoável de bolo de chocolate), eu saí às 7 h 20 min com a intenção de chegar a São José dos Campos. Não sei se foi pelo clima mais ameno daquela manhã (o sol não estava impiedoso como da última vez em que eu passara pela Dutra), ou se foi pela minha alimentação reforçada nas duas últimas refeições, ou se foi por eu ter me habituado ao ar rarefeito das montanhas, mas eu nunca havia tido tanta energia até então. Eu consegui subir pedalando todas as ladeiras no caminho, atravessei aquele trecho perigoso de meu segundo dia de viagem (sem acostamento, sinuoso e com faixa exclusiva para caminhões à direita) em menos de uma hora e, mesmo com as pausas para pegar água, eu percorri cerca de 160 km no total. Eu até consegui parar num posto por volta da 12 h 30 min para tomar um banho, o que se mostrou um de meus maiores arrependimentos na viagem (R$ 10,00 para usar o chuveiro durante seis minutos e R$ 25,00 pelo shampoo e pelo sabonete? Eu deveria ter aguentado minha imundície um pouco mais). A viagem transcorreu sem dificuldades (bebam outro gole!) até umas 17 h 30 min, quando eu passava por São José dos Campos (sim, eu havia alcançado meu objetivo e agora pretendia ultrapassá-lo). A rodovia passa por dentro da cidade, o que significa que eu teria de entrar nas ruas do município se eu quisesse parar (e eu não queria parar). Ademais, começou a chover justamente enquanto eu passava por um trecho sem acostamento. Havia saídas por toda a parte, com carros entrando a todo o momento. E meus freios já estavam quase completamente gastos, embora na hora eu tivesse pensado que fosse apenas a chuva interferindo na aderência dos v-brakes. A chuva estava forte o bastante para me obrigar a parar debaixo de um viaduto durante uns 20 minutos. Um motociclista morador de São José dos Campos puxou assunto comigo e alertou-me da criminalidade alta na região. Honestamente, se eu desse ouvidos a todo mundo que me alertou sobre o risco de ser assaltado na estrada, eu nunca teria saído de minha casa. Existe perigo em toda a parte, pessoal: não adianta viver a vida com medo. Seja como for, eu me conformei com a chuva e resolvi seguir viagem daquele jeito, mesmo. Infelizmente, a cidade não acabava nunca, o que significava que eu não encontraria um lugar para acampar naquela noite. Eu comecei a ficar de olho nos preços das pousadas, mas dentro da cidade elas eram muito caras (R$ 70,00 ou mais por noite). Depois de algum tempo, cheguei a um posto da Polícia Rodoviária Federal. Eu tinha esperanças de conseguir permissão para montar minha barraca no terreno deles, mas não precisei perguntar para perceber que não daria certo: os Federais eram tão indiferentes quanto funcionários de hospitais públicos. Ao invés disso, perguntei a que distância estava a próxima pousada (eu já estava saindo da área mais urbanizada da cidade). A resposta: três quilômetros, em frente a uma passarela. Apesar da chuva, dos freios e do selim frouxo que se inclinava para trás sempre que eu passava por um buraco ou lombada, eu ainda estava com energia. Os três quilômetros foram percorridos sem dificuldade (outro gole!). Eu atravessei a passarela e cheguei à Pousada da Dutra, no sentido Rio de Janeiro da rodovia. A pousada era agradável. Fui bem atendido e o preço não era ruim (R$ 60,00 por um quarto sem banheiro e com direito a café da manhã, sabonete e toalha). Deixei minha bicicleta num canto não muito longe do quarto e fui tomar banho. Se eu soubesse, nunca teria gasto aquela fortuna pelo banho de seis minutos naquele posto de serviços por onde passei na hora do almoço. Sério, até hoje me arrependo daquilo. Nunca superarei a decepção. O jantar, infelizmente, não estava incluso. Mas valeu a pena: R$ 21,00 por um prato de pedreiro lotado de arroz, feijão, mandioca, cebola e filé de frango, acompanhados de um suco de laranja (um copo de 500 ml, pelo que me lembro). E era uma comida saborosa. Por volta das 22 horas eu fui dormir. Eu tinha o direito de permanecer até o meio-dia, mas pretendia ir embora antes. A Pousada da Dutra fica em Jacareí, o que significava que no dia seguinte eu já estaria em casa. Custo do Sétimo Dia: Café da manhã______________________ R$ 26,59 Banho _____________________________ R$ 10,00 Shampoo e sabonete ________________ R$ 25,00 Doces e sucos no decorrer do dia___ R$ 37,80 Pousada da Dutra + Jantar _________ R$ 81,00 TOTAL_____________________________ R$ 180,39 (e assim, em um único dia, eu desfiz toda a evolução espiritual pela qual eu passara no dia anterior. Mesmo não acreditando em espiritualidade, eu fiquei decepcionado comigo mesmo) Distância percorrida: aprox. 160 km Tempo de viagem: aprox. 12 horas Velocidade média: aprox. 13,3 km/h Oitavo Dia: 29/12/2015 Desta vez, eu acordei às 6 h 30 min. Aproveitei para atualizar o relato de viagem. Depois, fui tomar o café da manhã, que valeu todo o dinheiro gasto até então. A mesa era tão farta que até parecia núcleo rico de novela das oito. Havia uns quatro sabores de sucos, além de café (que eu detesto) e achocolatado (que eu amo mais do que amo minha própria mãe). Também havia bolos, pães, mortadela, presunto, queijos, requeijão, margarina, frutas... Eu comi tudo o que consegui forçar goela abaixo, embora o foco tenha sido nos sucos, mesmo. A maioria dos camelos desidratados bebem menos água do que eu. Às nove da manhã, eu segui viagem. Infelizmente, minha energia do dia anterior havia sido esgotada: eu estava descansado, mas nem de longe tão elétrico quanto antes. Além disso, uma garoa muito chata cobria toda a região de Jacareí e da Grande São Paulo. Como eu nunca passo por uma desgraça sem um fator multiplicador (eu precisaria de um relato de mais de 20 mil palavras só para descrever o quão cagado eu sou), foi então que eu percebi que meus freios estavam gastos, ao invés de apenas afetados pela chuva, como eu pensara no dia anterior. Imagino que as sapatas dos freios não aguentaram a descida da Rodovia das Flores e da BR-354. Assim que a sinalização da Dutra indicou, eu segui por uma saída que levava à rodovia Ayrton Senna, sentido Mogi das Cruzes. Minha intenção era passar por Mogi, Suzano e Itaquaquecetuba para chegar ao bairro paulistano de Itaim Paulista, de onde eu pegaria a ciclovia do Parque Ecológico do Tietê novamente. Fechar a viagem como ela começou, por assim dizer. Muito poético, mas como eu disse anteriormente, sou um sujeito completamente cagado. Em um trecho isolado (sem carros nem construções. Diabos, nem mesmo animais podiam ser vistos ali) da rodovia Ayrton Senna, minha sorte começou a mudar: os freios começaram a funcionar! Entretanto, eu estava me sentindo estranhamente cansado: mesmo para descer ladeiras, eu precisava pedalar com força. E havia um barulho estranho vindo de algum lugar atrás de mim, mas eu não conseguia ver nenhum veículo que pudesse estar emitindo algum som. Foi então que somei dois mais dois e descobri o motivo das três ocorrências: a câmara do pneu traseiro estava murcha. Em minha defesa, eu aceitei o contra-tempo com estoicidade. Normalmente, eu rio histericamente quando algo muito ruim acontece a mim, mas naquela hora eu só estava interessado em seguir viagem, até porque eu já estava morrendo de sede. Eu desmontei da bicicleta e andei pelo acostamento em busca de um posto de serviços. Eu não tinha ideia de quanto faltava para chegar ao próximo posto, então resolvi pedir informações num telefone de emergência que encontrei à frente. O atendente mencionou duas alternativas para mim: um posto de serviços na rodovia, a 25 quilômetros, ou um na cidade, pegando uma saída a 12 quilômetros. Eu agradeci e comecei a andar, tentando desesperadamente me convencer de que 12 quilômetros não era uma distância muito longa. Após caminhar uns dois quilômetros (o que não deve ter levado mais do que 20 minutos, mas eu me sentia como se tivessem sido duas horas), a salvação surgiu. Em um deus ex machina digno das primeiras histórias do personagem Tintin (leiam Tintin na América se quiserem entender a referência), dois ciclistas voltando de Aparecida passaram por mim e me cumprimentaram. Eu perguntei se alguém poderia me emprestar uma bomba e eles pararam para me ajudar. Para minha tristeza, eles descobriram que minha câmara estava furada. Um corte bem na base do pino de entrada de ar, impossível de remendar. Mas um dos dois ciclistas (eu nunca peguei o nome deles; eu realmente preciso desenvolver minhas habilidades sociais) tinha uma câmara reserva e simplesmente a deu a mim, sem exigir absolutamente nada em troca. Eu até tentei pegar o telefone dele para poder pagá-lo quando eu chegasse em casa, mas ele não queria nem falar em pagamento. Eu mal consegui acreditar em minha sorte. Além disso, os dois ensinaram-me a trocar a câmara (eu tinha as ferramentas, mas nunca havia feito aquilo antes. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, mas é muito melhor aprender com quem já sabe como se faz) e, nesse meio tempo, um terceiro ciclista passou por nós (um que eu havia cumprimentado horas antes, ainda na rodovia Presidente Dutra) e também nos ajudou. Terminada a manutenção, nós nos despedimos e seguimos viagem (na mesma direção, mas minha bicicleta é uma mountain bike, lembram? Parece que o Brasil inteiro prefere os modelos speed, então eu sempre fico para trás), mas não sem antes eu ganhar dois adesivos de reparo de câmara daquele terceiro ciclista que havia nos ajudado. A partir daí, eu continuei meu caminho sem problemas (mais um gole!) até chegar em Itaquaquecetuba. A não ser que as estradas de Suzano e Itaquá possam ser consideradas problemas (podem, sim). Ou a chuva repentina que caiu enquanto eu passava por ambos os municípios, atrapalhando minha visão enquanto eu tentava pedalar sem freios pelas ruas sinuosas e cheias de ladeiras e lombadas. Pensando melhor, acho que não foi totalmente sem problemas. Mas tudo bem: as adversidades foram algumas das melhores partes da aventura. Infelizmente, minha jornada teve um final triste. A meros 33 quilômetros de minha casa, ainda no território de Itaquaquecetuba, eu parei em um posto para pedir informações. Um dos frentistas percebeu que o pneu traseiro de minha bicicleta estava murcho. Eu pensei que seria algo simples de resolver, já que havia um calibrador de pneus naquele mesmo posto. Mas descobri que o pino da câmara que eu ganhara era diferente do padrão usado por automóveis e pelas câmaras que vieram com minha bicicleta: a tampa que era um tipo de parafuso que não saía completamente e não se encaixava no calibrador do posto. Para piorar, quando tentei abrí-la, o ar que restava na câmara escapou, o que me fez pensar que talvez eu não a tivesse tampado direito desde o início e foi isto que fez com que ela murchasse. Mas nunca saberei ao certo. Eu tentei ir a uma borracharia ao lado do posto, mas eles só trabalhavam com pneus de carros. Numa última tentativa, um frentista encontrou uma bomba na garagem de troca de óleo cuja mangueira se encaixava perfeitamente no pino da minha nova câmara. No entanto, descobrimos tarde demais que aquela bomba liberava ar em grandes quantidades: assim que a encostamos no pino da câmara, esta arrebentou-se como um balão. Desta vez eu ri, embora não de maneira histérica. Minha bicicleta ao final da aventura. Até hoje me sinto culpado por ter estragado a câmara que ganhei. Isto é que é cuspir no prato em que se come. Já dizia o alegre Caetano Veloso com seu ritmo contagiante (é claro que estou sendo sarcástico): Terra... Terraaa... Minha primeira ideia para terminar a viagem foi voltar até Suzano (que não estava muito longe) e pegar o trem da Linha 11 da CPTM, mas eu estava sem Bilhete Único e não queria sacar dinheiro. Além disso, era uma terça-feira, o que significava que eu só poderia entrar no trem com a bicicleta após as 20 horas. Os frentistas sugeriram que eu seguisse até a estação mesmo assim, pois havia uma bicicletaria na região. Mas eu já estava cansado de carregar a bicicleta e já havia gasto muito mais dinheiro do que queria, então apelei para um último deus ex machina: meu pai. Meu pai mora em Rio Grande da Serra, um município que muitos mochileiros paulistanos devem conhecer (de fato, ele mora numa rua quase no limite da região urbanizada da cidade, ou seja, a cerca de meia hora de caminhada da entrada da famosa — e ilegal — Trilha da Cachoeira da Fumaça de Paranapiacaba). Fica ao lado de Suzano, o que significa que ele estava relativamente perto do Posto Itaquano, onde eu estava esperando. Como ele possui um carro e estava de férias naquele dia, eu resolvi usar o que restava da bateria de meu celular para telefonar para ele. E foi assim que eu terminei minha viagem: um derrotado. Mas um derrotado feliz, mais feliz do que muitos vencedores. Meu maior arrependimento foi ter que voltar para casa e para a velha rotina capitalista à qual estou preso até hoje. Pois é, minha história tem um final triste. O que vocês esperavam de um relato cuja primeira imagem é uma captura de tela da série Game of Thrones? Custo do Oitavo Dia: Bebidas (uma parada em Suzano)_______ R$ 15,50 Sundae (enquanto esperava por meu pai)____ R$ 3,50 TOTAL____________________________ R$ 19,00 Distância percorrida: aprox. 75 km Tempo de viagem: aprox. 5,5 horas Velocidade média: aprox. 13,6 km/h Custo Total da Viagem: Bicicleta e acessórios_______ R$ 1.107,06 Dia 1______________________ R$ 82,30 Dia 2______________________ R$ 95,88 Dia 3______________________ R$ 33,00 Dia 4______________________ R$ 30,00 Dia 6______________________ R$ 26,00 Dia 7_____________________ R$ 180,39 Dia 8______________________ R$ 19,00 TOTAL_________________ R$ 1.573,63 Considerações Finais - Levem shampoo, chinelos e sabonete de casa. - Comprem o máximo de barras de cereais e amendoins (energia é essencial numa viagem dessas) que puderem e evitem gastar dinheiro com comida na estrada. Sugestão: estabeleçam um limite diário de gasto que seja suficiente apenas para uma refeição reforçada por dia. É o que pretendo fazer da próxima vez. - Mesmo que não estejam com sede, SEMPRE parem nos postos de gasolina para beber o máximo de água que conseguirem. Sério, às vezes a próxima parada está a horas de distância e a sede vem no meio do caminho. - Eu não encontrei um lugar para encaixar esta informação no relato, mas antes de eu pegar a rodovia Ayrton Senna, quando eu passava por Guararema, um segundo carcará voou sobre minha cabeça a uma altitude de uns 3 metros. - Apesar de eu ter incentivado um jogo de beber com base em meu relato, eu não bebo. Nunca consegui apreciar o sabor repulsivo do álcool. - Levem câmaras reserva, bomba, adesivos para câmaras, enfim, tudo o que é necessário para consertar/trocar pneus furados. FATO CURIOSO: uns dois meses depois, enquanto eu chegava ao trabalho de bicicleta, a câmara traseira estourou novamente. Eu estava a uns 2,5 quilômetros de distância de meu local de trabalho, mas à noite tive de voltar para casa a pé o caminho inteiro. A distância entre meu trabalho e minha casa? Exatos 20 quilômetros, segundo o Google Maps. Façam as contas: parece que era meu destino percorrer aqueles 25 quilômetros carregando minha bicicleta com a câmara furada. Nem preciso dizer que, desde então, eu comprei uma bomba e uma câmara reserva e eu sempre as carrego em meu alforje. Acima de tudo, se vocês estiverem pensando em fazer uma viagem do tipo, parem de pensar e apenas façam. - É arriscado? Sem dúvidas, mas tudo na vida é arriscado: não faz sentido viver com medo, até porque isso não é viver. Como podem ler no relato acima, eu não tive problemas com criminosos (exceto pelas práticas criminosas de comércio dos restaurantes de estrada), não caí da bicicleta uma única vez, mesmo estando há uns dez ou onze anos sem praticar (eu me distraí e fui parar no gramado além do acostamento umas três ou quatro vezes, mas consegui frear e me recuperar em todas as ocasiões) e não tive problemas para achar um lugar para dormir em nenhum momento (a pousada foi um capricho estúpido do qual eu me também arrependo até hoje. Eu deveria ter pedalado um pouco mais e enfrentado a chuva). - Nenhum de seus amigos quer ir? Problema deles. Admito que sou antissocial e realmente estava precisando de um pouco de paz nas férias, mas sempre havia a oportunidade de trocar histórias com os ciclistas que passavam pela Dutra e os turistas e trabalhadores dos postos de serviços. Há mais de 7 bilhões de pessoas no mundo: a não ser que vocês se enfiem no mato por três dias, nunca estarão completamente sozinhos. - É cansativo? Honestamente, quem estiver preocupado com isso nem deveria pensar em viajar. Fiquem em casa assistindo séries: eu considero isso uma forma perfeitamente válida de passar as férias. As duas melhores coisas no mundo são descansar e ficar cansado, afinal de contas. Eu ainda estou pensando a respeito de minha próxima viagem. Minha ideia original era conhecer o PETAR, mas descobri que é proibido entrar nas cavernas sem o acompanhamento de um guia, o que acaba totalmente com a aventura para mim (o desconhecido, lembram? É importante para mim). Depois pensei em ir ao Pico dos Marins. Agora estou pensando em ir à Serra do Cipó, que possui trilhas onde se pode andar de bicicleta. O único porém é a distância: é possível que, devido ao tempo curto de férias que eu recebo em meu emprego atual, eu tenha de voltar antes de chegar ao destino. Mas a própria viagem pode valer a pena, mesmo que eu não consiga sair da estrada. Sei lá, até dezembro eu pensarei em uma aventura interessante o bastante. Talvez eu siga o conselho de Elias e vá a Angra dos Reis. Ou não. Aceito sugestões. Para ver todas as fotos que eu consegui tirar antes de a bateria de minha câmera acabar, sigam o link abaixo para visualizar meu álbum no Facebook. As fotos estão com as cores originais, bem menos interessantes do que as versões publicadas neste relato. https://www.facebook.com/lucas.leite.1000/media_set?set=a.1033838183324396.1073741832.100000946730155&type=3
  6. Sky Nomad

    É possível viver mochileiro?

    A última vez que eu postei aqui foi em setembro, mas minha mentalidade não mudou (embora, para ser sincero, 6-7 meses não são tanto tempo assim para eu mudar drasticamente de ideia). Nesse meio tempo, aconteceram algumas coisas para ajudar a formar melhor minha opinião sobre o assunto. Para começar, eu tive a chance de fazer duas trilhas na Serra do Mar, próximo a Paranapiacaba. A primeira foi um bate-e-volta num dia chuvoso que começou às 10 da manhã e só terminou à meia-noite. Apesar das complicações, foi uma das melhores experiências que eu tive na minha vida. A segunda foi um acampamento na mesma região, mas num dia ensolarado. Foi mais relaxante do que qualquer feriado aqui na caótica cidade de São Paulo. Outra coisa que ajuda muito é minha introversão. Eu sou daqueles que prefere ficar sozinho a ter visitas em casa e raramente visito parentes (até eu visitá-lo no último domingo, por exemplo, fazia mais de um ano que eu não via o meu pai). Vagar por áreas selvagens do país, em constante contato com a natureza e visitando cidades apenas para comprar suprimentos e ocasionalmente passar numa LAN House ou biblioteca seria a vida ideal para mim. Por outro lado, embora eu realmente estava disposto a largar tudo para ser um "aventureiro", há alguns empecilhos que não podem simplesmente ser contornados. Para começar, minha mãe mora comigo e nós não temos casa própria. Eu não posso ir embora e deixá-la para se virar com os menos de 2 salários mínimos que ela recebe mensalmente. Além disso, eu abandonei a faculdade de Ciências Contábeis em outubro, após 9 meses de aula (mochileiro ou não, quero sair da contabilidade o quanto antes). Mas o período utilizado foi pago através do Financiamento FIES do MEC. Agora, eu estou amortizando a dívida, coisa que não posso deixar de fazer porque há um fiador (meu pai) envolvido no caso. Com esses dois problemas, duvido muito que eu consiga realizar meu sonho em menos de 10 anos. Até lá, terei que aguentar viver como um "cidadão de bem", o que ultimamente tem me deixado extremamente infeliz. Coragem e vontade eu tenho, mas minhas obrigações me impedem de realizar meu sonho.
  7. Sky Nomad

    Sugestões de lugares para acampar no estado de SP?

    Nilton, obrigado pelas sugestões. Eu já havia ouvido falar sobre as trilhas de Paranapiacaba e já estava pensando na região. Eu dei uma olhada na internet e gostei muito das imagens (principalmente os trilhos e túneis abandonados da ferrovia). Acho que vou tentar o lago Poço das Moças: a trilha de mata fechada no caminho me chamou a atenção. Por coincidência, um amigo meu havia me dito que amanhã ele se reunirá com um pessoal para fazer uma trilha pela região. Eu vou participar e aproveito para conhecer a região e planejar melhor minhas férias.
  8. Sky Nomad

    Sugestões de lugares para acampar no estado de SP?

    Eu nunca mochilei ou acampei antes, mas estou interessado em começar agora, nas férias de dezembro. Alguém aí tem sugestões de lugares no estado de São Paulo para acampar? Algumas informações: - Eu provavelmente só acamparei durante uma semana. - Eu prefiro o interior ao litoral. - Eu não pretendo ir acompanhado: a mochilada será uma maneira de relaxar, tendo apenas a natureza ao meu redor. - Quanto menos dinheiro eu precisar gastar, melhor. Não quero me hospedar em nenhuma cidade e seria ideal se a região tivesse fontes de água potável e comida (ou seja, quero uma mochilada estilo Bear Grylls, só que não ). Se alguém com experiência em viajar pelo estado tiver sugestões, eu agradeço.
  9. Sky Nomad

    É possível viver mochileiro?

    A intenção é essa: tirar o máximo de sustento possível da natureza, de tal forma que meus únicos gastos sejam com suprimentos como creme dental, escovas de dentes, pastilhas purificadoras de água, garrafas de água, kits de primeiros socorros, uma ocasional visita a uma LAN House só para me manter informado a respeito da civilização, etc. São coisas que geralmente durariam mais de um mês, o que provavelmente me permitirá manter os gastos a um nível muito baixo. Ainda assim, eu reconheço que é uma coisa difícil de se fazer, mesmo que eu me mantenha próximo a rios e lagos. Talvez R$ 60,00 sejam uma estimativa baixa (a não ser que eu abandone completamente a civilização, mas não quero chegar a tanto), mas eu espero que as despesas não cheguem a R$ 300,00, tampouco, pois isso exigiria uma poupança de pelo menos R$ 75.000,00, coisa que eu levaria anos para conseguir. Ler este tópico me dá esperança, no entanto: é bom saber que existem outras pessoas com ambições semelhantes à minha.
  10. Sky Nomad

    É possível viver mochileiro?

    Este tópico é exatamente o que eu estava procurando! Tenho 23 anos, sou técnico em contabilidade, tenho um emprego estável na área e, até esta segunda-feira, estava cursando Ciências Contábeis. No entanto, desde que eu tinha uns 15 anos (muito antes de eu começar a trabalhar e realmente desenvolver responsabilidade/independência/etc), percebi que a vida em civilização não passa de uma forma moderna de escravidão. Você trabalha 8 horas por dia (e gasta mais de uma hora só para chegar ao trabalho), estuda mais umas 4 horas por dia, dorme apenas umas 5 horas por noite e, no fim de semana, está cansado demais para se divertir (pratico parkour, mas há anos eu não estou em minha melhor forma e os treinos rendem muito menos do que deveriam) e ainda tem os trabalhos da faculdade para resolver. O objetivo, supostamente, é "ser alguém na vida", mas no fim das contas, esse alguém não passa de um escravo um pouco mais bem-remunerado. Apesar disso, decidi tentar essa vida do mesmo jeito para ver se dava certo. Não deu: não vejo sentido em viver pelo trabalho/capitalismo/qualquer que seja o motivo pelo qual aceitamos uma existência tão restritiva. Versão "TL;DR" (e um tanto metafórica, ainda por cima): Nós vivemos como animais de carga. Não me conformo e pretendo me livrar das rédeas. Desde aquela época (15 anos, lembram?) minha vontade era atingir um nível de independência financeira que me permitisse viver em liberdade, fazendo apenas o que eu gosto. Incidentalmente, o que eu gosto é de caminhadas, atividades físicas, livros, viagens e passar a maior parte do tempo em isolamento (me ajuda a pensar). Eventualmente, percebi que não é necessário muito dinheiro para isso, desde que eu saiba sobreviver na natureza e não me preocupe em ter uma moradia fixa. Em outras palavras, ser um "mochileiro eremita". Um aventureiro nômade. Tanta liberdade quanto uma pessoa poderia ter. O PLANO: Minha ideia é a seguinte: - Fazer algumas "mochiladas" para adquirir experiência. - Aprender o máximo que puder sobre técnicas de sobrevivência (onde e como conseguir água, comida, fogo, abrigo, técnicas de localização etc). - Adquirir todos os equipamentos necessários para facilitar a tarefa acima (uma mochila, tenda, canivete, bússola, mapas, GPS, pederneira, equipamentos de proteção, para o caso de a comida tentar comê-lo ). - Acumular uma reserva decente (pelo menos uns R$ 15.000,00) em uma conta poupança (se você estiver disposto, pode tentar investimentos melhores, mas o ideal é algo que tenha liquidez alta e não exija muita administração, como poupança e fundos de renda fixa). A partir daí, o objetivo é tentar dormir em acampamentos, tirando o máximo de sustento que puder da natureza. Quando você quiser interagir com outras pessoas, basta dirigir-se a qualquer rodovia ou cidade mais próxima e enturmar-se com os turistas e habitantes. Se precisar reabastecer seus suprimentos, aproveite a ocasião. Se você fizer tudo conforme planejado, gastará menos do que sua conta poupança rende por mês (cerca de R$ 60,00), o que permitirá que você viva assim por tempo indeterminado. Prós: - Liberdade. - Potencial para desenvolvimento físico e psicológico (e espiritual, se você acredita nessas coisas). - Nunca mais você estará preso a uma rotina. Se enjoar da aparência de seu "quintal", basta partir em busca de outro cenário. - A oportunidade de conhecer regiões novas. Contras: - Possibilidade de passar grande parte do tempo isolado (honestamente, eu vejo isso como uma vantagem, mas eu sempre fui antissocial). - Diga adeus aos video games, iPads e automóveis: seu único contato com a tecnologia se dará em Lan Houses e ocasionais hospedarias. Aproveite para recarregar as baterias do GPS e do celular. - Exige muita força de vontade. Obviamente, eu não sou um sujeito muito normal e a maior parte das pessoas odiaria viver assim. Ainda assim, vocês acham que é possível fazer algo assim?
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