Ir para conteúdo

rafael.gomes.3975

Membros
  • Total de itens

    1
  • Registro em

  • Última visita

Reputação

5 Neutra

Outras informações

  1. Recentemente estive em Alter do Chão. Localizado no município de Santarém e às margens do Rio Tapajós, no Pará, o verde da Amazônia se encontra com praias de areia branca e água azul, dando a Alter o título de o “Caribe Amazônico”. De frente com a vila de Alter do Chão você encontra a Ilha do Amor, um banco de areia exposto apenas na baixa do rio e onde, durante a estação seca, são instaladas barracas para venda de comes e bebes. Lá, há uma trilha de uns 30 minutos que morre no Morro da Pira Óca, um mirante com vista para a vila e para o Rio Tapajós. Pra quem procura um pouco mais de tranquilidade, seguindo à direita pela orla de Alter é possível repousar sob a sombra de cajueiros em uma das praias tranquilas do Lago Azul. Cansou de praia? Te recomendo visitar a Floresta Nacional do Tapajós (FLONA). Distante coisa de uma hora de Alter, lá é possível realizar uma trilha de 10 km pelo meio da floresta amazônica. No percurso da trilha, passando por uma samaúma centenária e um mirante com vista para o Rio Tapajós, os guias vão contando um pouco da cultura indígena e ribeirinha e mostrando, por exemplo, como as folhas de palmeiras são traçadas para fazer a cobertura de casas e como é feita a extração de látex das seringueiras. Os mais corajosos têm a possibilidade de colocar a mão sobre formigueiros de formigas que borrifam ácido fórmico (!!!), um repelente natural. Ao final da trilha, te esperam um almoço servido com tambaqui ou pirarucu e um passeio de canoa por um igarapé de águas transparentes. Voltando pra Alter, dê um tempo na praça central da vila e reponha a energia perdida na trilha tomando um tacacá, enquanto ouve e assiste o carimbó, uma das mais tradicionais expressões culturais do Estado do Pará e patrimônio cultural brasileiro. Ah, e guarde folego porque ainda falta conhecer a Floresta Encantada, a Praia do Pindobal, a Ponta do Cururú, a Ponta de Pedras, o Rio Arapiuns...Ufa! Bom, dá pra ver que Alter do Chão tem um baita potencial turístico. E conversando com o pessoal local, eles me disseram que o fluxo de turistas em Alter teve um boom após a praia ter sido escolhida pelo periódico inglês The Guardian como a mais bela do Brasil. Isso colocou a vila no mapa mundial e atraiu turistas de todo canto do país e do mundo. Passei a virada de ano lá e a vila estava lotada! Com tudo isso, é normal aquela sensação de “turismo de massa”. Era muita gente em quase todo canto. Na FLONA, por exemplo, havia pontos da trilha em que nosso grupo tinha que parar para esperar o grupo que ia na frente se deslocar até a próxima estação. De forma nenhuma estou falando que essa grande quantidade de turistas é prejudicial. Na verdade, é ela que sustenta uma comunidade inteira e prova que com o ecoturismo não é preciso desmatar a Amazônia para que ocorra geração de renda para as pessoas que ali residem. No entanto, pra mim isso tira um pouco o encanto e deixa a sensação de “chegou, fez self, vamo embora”. Na FLONA, eu tive que me distanciar do grupo por alguns minutos para conseguir apreciar e registrar o canto do capitão-do-mato. Quando viajo, gosto de sentir o local, conversar com moradores, experimentar a realidade de lá: realizar o chamado “turismo de experiência”. Em Alter, quem me proporcionou isso foram Seu Deco e Dona Juci. Durante minha estadia em Alter do Chão, fiquei hospedado no redário Surara. De propriedade de Dona Juci e Seu Deco, com telhado de palha e vista para a praia o redário foi dica da Catarina, uma colega que estava em viagem pelo Pará: “Tô num redário bem legal. Os donos são incríveis!”. Numa manhã, estávamos eu, Dona Juci, Tomaz e Gi, um casal que conheci no redário, conversando no café da manhã. Contava para eles que havia visto nos dias anteriores grupos de botos cor-de-rosa pescando muito próximo à praia, coisa de um metro e meio distante da margem. Das três ocasiões em que vi o animal, em duas fiquei coisa de meia hora sentado na praia, besta, observando o grupo caçar cardumes de peixes, com o por-do-sol do Tapajós ao fundo, diga-se de passagem um dos mais bonitos que já vi. Desde guri sou apaixonado por vida selvagem. Medindo até dois metros e meio e pesando quase 200 kg, o maior golfinho de água doce do mundo, inspira o folclore amazônico, sendo figura frequente nas praias ao redor de Alter. Após meu relato sobre os avistamentos dos grupos de botos, Dona Juci nos disse: “Você quer ver boto, é só ir pescar de malhadeira na praia. Eles vem tudo pra roubar peixe. Vou ligar pro Deco pra gente combinar de ir pescar no final da tarde.” Quinze minutos depois, Seu Deco estava de volta ao redário para combinar a hora que sairíamos para a pescaria: quatro e meia da tarde. Na hora marcada lá fomos eu, Tomaz e Gi, de canoa movida à rabeta, sob o comando de Dona Juci e Seu Deco. Atracamos uns vinte minutos depois, numa praia tranquila, na mesma enseada onde fica a Ilha do Amor. Lá, Seu Deco armou a malhadeira, uma rede de uns 50 metros de comprimento e um metro e meio de largura. De canoa e remando, o casal de ribeirinhos esticou a rede no rio, perpendicularmente à praia. Na margem, ela é amarrada à uma vara e, na outra ponta, a uma boia e a uma pedra. A primeira garantindo que a malhadeira não afundasse e a segunda permitindo que a rede permanecesse esticada. A pesca de malhadeira, como em quase toda pescaria, é a arte da espera. Na margem, Seu Deco, com a mão na rede, estava atento à pequenas vibrações e movimentos provocados pelos peixes presos na rede. Vocês se lembram que a ideia da pescaria surgiu depois da conversa sobre os botos cor de rosa? Pois bem, é justamente por conta do boto que o pescador tem que ficar atento se os peixes estão presos na rede e recolhe-los o quanto antes. Se os peixes ficarem muito tempo na malhadeira, segundo Dona Juci nos explicou, a agitação deles acaba denunciando a pescaria aos botos, que vêm para saquear a rede, e ao roubar os peixes, o boto também danifica a malhadeira. Isso havia acontecido com um dos filhos do casal alguns dias atrás. Assim, para evitar o saque dos botos, a cada dez minutos mais ou menos, ao sentir que alguns peixes já estavam presos na armadilha, o casal saia a retirar o pescado da rede, com Dona Juci remando na popa da canoa e Seu Deco recolhendo os peixes na proa. Era poético ver o casal trabalhando juntos. A pescaria se estendeu durante o final de tarde, ao mesmo tempo que o Sol aos poucos se escondia no horizonte da Amazônia. Seu Deco e Dona Juci seguiam nos explicando sobre a vida ribeirinha, sobre a fauna e a flora local, a diferença entre os peixes do rio, o jeito de pescar e cozinhar cada um deles. Esporadicamente um ou outro peixe saltava pra fora do rio, fugindo dos tucunarés, mas nada do boto aparecer. Já com o sol escondido atrás do horizonte, Dona Juci e Seu Deco recolheram a rede. O saldo da pescaria foi de 47 peixes e, infelizmente pra mim, nenhum boto. Sem dúvida essa foi o melhor passeio que realizei em Alter do Chão. Poder participar da pescaria e passar a tarde proseando na beira da praia com dois moradores da vila foi uma experiência única. Nossa pescaria ainda rendeu um jantar preparado pelo casal, com direito a uma noite inteira de conversa ao redor da mesa, um almoço de despedida, no domingo em que eu, Tomaz e Gi deixamos Alter, e uma vontade tremenda de voltar e explorar mais o Tapajós.
×
×
  • Criar Novo...