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Vinícius Mzk

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  1. Oi, Rubens! Primeiramente, recomendo que leia meu relato: travessia-do-vale-da-morte-t108366.html Segundo, pelas indagações que fizeste, recomendo que não vá. Se vc pretende enfrentar o vale, esse tipo de indagação não pode existir. Vc tem que estar muito preparado e acostumado a se deslocar em ambiente extremamente acidentado, com fortes correntezas e com alto risco de acidente envolvendo queda, deslizamento e animais peçonhentos. O que eu recomendo é começar pelo Rio Mogi ou a trilha da Ferradura. Essas possuem trilha demarcada e bastante fluxo de trilheiros, fazendo delas um pouco mais seguras. Abraço!
  2. Assistam ao registro em vídeo em: MIRANTE DA PEDRA DA MACELA E CONQUISTA DOS DOIS FRADES Era última semana do inverno de 2015, um calor absurdo, uma previsão de tempo perfeita e surge um convite de um amigo virtual, o Rodrigo, para uma exploração da Pedra da Macela e os Três Frades que se avistam a partir daquela. Estes picos - os Três frades - não possuem acesso por trilha, o que frustou muito o Rodrigo em sua visita ao local a 2 meses atrás, motivando essa nova investida para, de alguma forma, conquistarmos estes belos morros rochosos que se alinham em direção a Parati. Sexta de noite saí de Campinas para encontrar o time que faria parte desta aventura - Loures, Piccoli e o idealizador Rodrigo - no sempre movimentado Habib’s do Jabaquara. Por conta do atraso do ônibus e do congestionamento na linha de metrô, acabei chegando um pouco atrasado, mas acabamos saindo do ponto de encontro bem mais tarde do horário combinado por conta da fome de todos que não resistiram a umas boas esfirras, mesmo as comendo fora do estabelecimento e sendo pressionados por um tiozinho nervoso a sair logo dali e dar a vaga do estacionamento pra outros clientes. Deixamos o tiozinho um pouco mais irritado e meio cheios de esfirra (esse pessoal é tudo saco sem fundo) partimos em direção a cidade de Cunha, entre São Luiz do Paraitinga e Parati, bem na divisa dos estados de SP e RJ, já passadas as 23h daquela sexta-feira. Depois de muita conversa e uns perrengues iniciais envolvendo necessidades fisiológicas urgentes na fila do pedágio resolvidas com a evacuação dos resíduos urinários atrás de um caminhão em movimento, chegamos, depois das 4h do sábado, ao início da estrada de manutenção que da acesso ao mirante da Pedra da Macela, que fica ao lado das torres de transmissão que dividem o espaço a 1.840 metros de altitude (meu GPS marcou altitude máxima de 1.792 metros). Como estávamos muito cansados e não tínhamos um plano definido de como seria a exploração proposta - se iríamos de cargueira para acampar entre os Frades e a Pedra da Macela ou se seguiríamos com mochilas menores com o suficiente para irmos e voltar no mesmo dia - cada um se mocozou de alguma forma e dormimos até que, às 6h30, depois de pouco mais de 2 horas de sono, todos acordamos com os gritos eufóricos do Rodrigo que parecia ainda estar sob o efeito das cervejas que havia ingerido no dia anterior. Como eu havia acabado de conhecer o cara, deixei os xingamentos o mais amenos possíveis para não frustrar nossa aventura já no início e comecei a preparar o café e a mochila com o equipamento que levaria para registrar a aventura mais um pouco de alimento e pouco mais de 2L de água para passar o dia, pois sabia que não haveriam mais pontos de água pela frente. Às 7h40 estávamos prontos, mas não avistávamos mais o Rodrigo. Não vi ele arrumar mochila nem tomar café. Como ele estava pilhado para subir até o mirante o mais rápido possível, iniciamos a caminhada supondo que ele já estaria pelo caminho. Ignoramos todas as bifurcações e seguimos direto para o mirante e, depois de 2,2 Km de subida em pouco menos de uma hora, com nenhuma dificuldade de navegação, chegamos no cume da Pedra da Macela, onde encontramos o Rodrigo deitado numa sombra curtindo um som no seu celular. Como eu havia previsto, o chefe da expedição não havia trazido nada de água nem alimento. Pensei “ele deve ser tão fodão que vai conquistar os Três Frades, voltar e não vai dar nem tempo de ficar com sede ou fome”. Não poderia estar mais errado… Um casal passou por nós e a moça fez questão de demonstrar sua consciência ambiental e pediu para que nós não deixássemos lixo. Para nós, foi só encheção de saco, pois seguimos a ideologia do “leave no trace” há muito tempo, mas dando uma volta pelo cume, é fácil perceber quanto porcalhão retardado sem noção passa por lá e deixa um monte de lixo, principalmente papel higiênico e latas de cerveja. Lamentável. Espero que a “chatisse” dela ajude a educar um ou outro que está iniciando no mundo das trilhas. Com o tempo completamente limpo, pudemos contemplar toda a baia de Angra dos Reis, Parati e a Ilha Grande. Ficamos por 15 minutos nos maravilhando com uma vista de tirar o fôlego e aguçando a curiosidade para um futuro passeio por todo aquele marzão que avistávamos. Já eram 9 horas e não podíamos passar mais tempo por ali, sob pena de ser pegos pela escuridão no meio do mato desconhecido, então começamos a analisar o terreno e procurar por alguma trilha que fosse em direção aos Frades, mas nada encontramos. Se fossemos seguir direto para sudeste, onde víamos o nosso objetivo, nosso destino era um monte de mato após o qual um penhasco que colocaria todos nós em risco, então, analisando o mapa topográfico e aproveitando uma pequena abertura na mata a oeste do mirante, descemos o morro da Pedra da Macela por esse lado que tinha uma inclinação menos arriscada e fomos virando, aos poucos, para sudoeste até atingir a altitude do vale que separa o mirante da subida que antecede o “Primeiro Frade”, o que demorou 40 minutos, após o qual fomos seguindo pela curva de nível até iniciarmos a subida para o primeiro cume. Havia muito mato e seguir a curva de nível não é tão simples quanto parece, pois na verdade continuamos num sobe e desce bastante cansativo para desviar das partes com mato mais denso. Paramos para um breve lanche no caminho e às 11 horas alcançamos uma clareira de onde podíamos avistar os dois primeiros Frades e a Pedra da Macela de onde viemos. Não pareciam estar distantes e deu uma boa animada, dando a impressão de que concluiríamos com sucesso a nossa exploração. Às 11:15 chegamos ao que acreditávamos ser o cume do “Primeiro Frade”, onde o Piccoli, especialista em piruetas e cambalhotas, tratou de executar uma manobra arriscadíssima e escalou uma rocha que batizamos de Dedo do Frade. Trata-se de uma ponta de 4 metros de altura ao lado da pedra do cume do Primeiro Frade, mas com muita pouca área para se apoiar, tornando seu acesso muito arriscado. Após o nosso amigo fazer suas tradicionais poses para as fotos e desescalar com um pouco mais de dificuldade que teve para escalar a rocha, nos juntamos no topo da pedra e comemoramos com muita gritaria, o que deve ter chamado bastante atenção daqueles que estavam no mirante da Macela, provavelmente se questionando como aqueles malucos chegaram até onde estávamos. Após 20 minutos de descanso e mais lanche, voltamos a caminhar por cima das rochas, na crista da serra. Para evitar varar mato, tivemos que utilizar a corda duas vezes para dar segurança em trechos onde entre uma rocha e outra havia um abismo e não poderíamos arriscar nenhum escorregão. O Piccoli sempre ia na frente nestes trechos, pois suas habilidades permitiam que ele grudasse em qualquer lugar, possibilitando um deslocamento muito mais ágil que os outros. A vista continuava incrível. Podíamos avistar até a Pedra da Gávea e o litoral sendo invadido por nuvens que vinham do Atlântico Sul. Em pouco menos de uma hora de nos rasgarmos no mato chegamos a mais um lajeado de rochas, onde achávamos ter chegado ao “Segundo Frade”. Embora o deslocamento muito prejudicado pela densidade da mata, a aventura estava parecendo mais fácil do que pensávamos, pois segundo nosso pensamento faltava apenas mais um Frade e depois era só voltarmos. Então voltamos a caminhar e após transpor mais um vale, às 13:30 estávamos no topo do último Frade…..só que não!! O Loures saiu para dar uma explorada na área e logo nos chamou para ver o que ele tinha descoberto e, após passarmos por alguns tuchos de capim elefante, pois até aqui esse mato nos persegue, avistamos mais um morro em formato de pão de açúcar. Sim, esse seria o verdadeiro “Terceiro Frade”, sendo que o lugar que achávamos que era o Primeiro Frade, na verdade, era apenas um ombro da montanha e o Segundo Frade era o Primeiro. Depois das fotos e do lanche, o relógio já marcava 14:00, horário que havíamos combinado em voltar, mas voltar sem conquistar o último Frade era certeza de amargar o retorno até sabe-se lá quando, então propus que fossemos até lá desta vez para não termos que retornar apenas para concretizarmos o plano inicial. O desgaste já era grande, a água já estava acabando e não tínhamos muito alimento. Não levamos nada para um eventual bivaque caso não conseguíssemos sair de lá e o risco era grande. Não havíamos nem decidido se retornaríamos pelo mesmo caminho ou se desceríamos para o sul onde sabíamos que existia uma fazenda com uma estrada de terra que retornava onde o carro estava estacionado. Depois de discutirmos, ficou decidido que não iríamos até o último Frade, mas voltaríamos por outro caminho, descendo o vale no sentido sul com a intenção de interceptar uma estrada de terra que cortava um pasto e retornar ao “estacionamento”. Lá de cima do Segundo Frade parecia apenas uma grande descida até a estradinha, porém a coisa foi tomando uma outra dimensão. Batemos mato por mais de 3 horas e nada de avistarmos a tal da estrada. O Sol já começava a se por e nós estávamos exaustos no meio de um monte de mato. Por sorte, encontramos alguns veios de água pelo caminho, porém de qualidade duvidosa. Já não tínhamos mais clorin para tratar a água e a comida já estava acabando. Às 17:20 chegamos num ponto onde uma rocha se erguia no meio do mato possibilitando uma visão melhor de onde estávamos e podíamos confirmar que estávamos no caminho certo, pois a estrada de terra estava a nossa frente. Continuamos a rasgar o mato com o resto de facão que o Piccoli havia levado, porém o cansaço já era tão grande que não conseguíamos nos manter focado e seguir o plano que havíamos estabelecido e acabamos desviando algumas vezes do caminho correto. Pra piorar, fiz um rasgo na minha mão direita ao me apoiar em alguma coisa pontuda e, ao retirar a ponta, começou a escorrer tanto sangue que meus zóio começaram a virar pra cima, então sentei logo antes que eu começasse a passar mal. Eu odeio ver sangue de gente, mas respirei fundo, pedi ajuda pra pegar um curativo no kit de primeiros socorros, limpei a ferida e estanquei o sangue. A mão doía um pouco, mas não dava pra ficar parado por mais tempo. Já estava escuro e não podíamos perder mais tempo, pois o risco aumentava a cada minuto que passava. Exaustos de tanto bater mato, depois das 18:20, decidimos seguir o curso de um rio na espectativa de que ele, em algum momento, cruzasse com o pasto da fazenda que era nosso objetivo. Depois de tanto nos deslocarmos para o sul, era hora de virar para a direita e começar a seguir em direção a oeste, porém o rio seguia o curso para sudeste, em direção a Parati, no sentido contrário ao que deveríamos estar seguindo. Não dava mais pra seguirmos o curso do rio. Tínhamos que insistir no sentido correto, por mais difícil que fosse, para sair daquele inferno verde. Foi aí que decidimos seguir no sentido sudoeste e o Piccoli tomou a frente em uma piramba super inclinada, onde os únicos apoios eram uns bambus meio soltos e podres que não passavam muita confiança quando, às 19:20, finalmente ele sinalizava, a gritos de vitória e alguns palavrões em bom a alto som, a chegada ao pasto da fazenda e a saída do matagal que quase nos triturou por completo. De tão surreal que foi ver aquela graminha baixa e fácil de andar por cima, ficamos uns 10 minutos deitados e contemplando o céu estrelado que fechava a aventura daquele dia com chave de ouro. Logo encontramos a estrada de terra que, na verdade, era um caminho de vaca que seguia até a porteira da fazenda e às 20:25 já estávamos no carro iniciando os preparativos da merecida janta. Comemos até não aguentar mais e às 22:00 capotamos, cada um em seu canto - o Loures dentro do carro, o Rodrigo em sua barraca e o Piccoli e eu no chão, pois o tempo estava excelente e sempre que está assim não perco a chance de bivacar. Tivemos uma ótima noite de sono, salvo por um momento em que um grupo de bêbados passou por nós gritando feito retardados. No dia seguinte teríamos o domingo inteiro pra fazer o que quiséssemos e decidimos explorar a cidade de Cunha. Passamos pelo centro e, depois de comermos umas “porcarias” numa padaria, fomos visitar a Cachoeira do Pimenta. São uns 12Km de estrada de terra a partir da área central de Cunha e chega-se ao local onde existe alguma estrutura para recepcionar os turistas, com placas de “não deixe lixo” e “proibido som alto” distribuídas pelo estacionamento, que comprovavam que, ou o povo que frequenta essa cachoeira é analfabeto, ou simplesmente não tem educação nenhuma e deixam suas latinhas de cerveja jogadas pelo chão com o carro ao lado com aquelas músicas super agradáveis tocando bem alto. Logo ao lado do estacionamento é onde fica a muvuca. Os poços são incríveis, mas não vale a pena ficar no meio desse monte de gente. Não demorou para nós arrumarmos nossas pequenas mochilas, sem esquecer de ítens de emergência como curativos, alimento extra, clorin e lanterna. Vai que agente acaba se metendo em outra enrascada. Nunca se sabe haha… Depois de escalarmos as rochas ao lado direito das quedas d’água, chegamos até o topo da cachoeira que na verdade é uma sequência de cachoeiras com 5 a 10 metros de altitude que somadas ganham altitude de 90 metros, e descobrimos que tem uma trilha bem fácil que tem até corrimão que da acesso a toda a cachoeira, finalizando numa barragem que abastece toda a cidade de Cunha, mas todo o povo que estava lá se acumulou lnos primeiros poços ao lado do estacionamento, deixando o restante das quedas todas para nós. Escolhemos um lugar onde havia a um poço bem fundo e possibilidade de alguns saltos. Tiramos muitas fotos e filmamos todos pulando no poço e depois comemos o lanche que havíamos levado e ficamos deitados na pedra tomando Sol, até que a roupa estivesse seca para irmos embora, o que não demorou muito. Retornamos ao carro às 13:10 e, já que ainda estava cedo, o Piccoli e eu fomos explorar a parte de baixo do rio. O Prince saiu saltando de pedra em pedra enquanto eu me arrastava de bunda com medo de tomar um tombo, mas devagar chegamos até uns pequenos cânions, em 10 minutos de exploração, e depois resolvemos voltar para arrumar as coisas e ir embora. Paramos mais três vezes para comer pelo caminho, contemplar a Mantiqueira de um mirante e tomar café e às 19:50, depois de um pouco de trânsito na região de Taubaté e próximo a São Paulo, eu já estava na rodoviária providenciando minha passagem de volta a Campinas. Fica o relato, então, aos que foram até o mirante da Macela e se perguntaram se não seria possível chegar até os Três Frades. Não chegamos até o último, mas não tenho dúvidas de que é possível e, depois de todo o perrengue que passamos, se for fazer esse passeio, recomendo que volte pelo mesmo caminho e não faça como fizemos, descendo para o sul a fim de interceptar o pasto para retornar ao estacionamento por caminhos de vaca. Por não ter trilha consolidada, é um passeio de dificuldade mais elevada, é recomendável que se leve pelo menos 10 metros de corda, um ou mais facões bem afiados, água e alimento para o dia inteiro e, claro, kit de primeiros socorros. Um mapa topográfico com a posição dos picos marcadas e uma bússola também não podem faltar. Assim foi mais uma aventura, provando que essa turma consegue transformar qualquer passeio no parque em um perrengue monstro de estrupiar o corpo, mas que vive intensamente as coisas simples que o mundo oferece.
  3. Cara, que bom que encontrei o seu relato! Já havia lido alguns, mas a dica das cachoeiras foi ótima. Se não fosse pelo seu relato eu não pensaria em incluí-las no roteiro. Também tive um problema parecido com os bovinos esses dias, mas no final da Serra Fina, depois do sítio do Pierre (que não é do Pierre mais). Estava atrasado pro resgate e tive que fazer uns desvios pelo mato por causa de dois bois chifrudos que me fitavam parados como se estivessem planejando o ataque haha. Depois até perguntei pro povo dali se boi atacava, mas me falaram que não, então da próxima vez só vou passar de mansinho pra não assustar os bichos. Abraço!
  4. Fala, Marcus! Tudo bem? Já ouvi de pessoas que deixaram o carro na estrada de terra que tem próximo ao início da trilha e não tiveram problemas. Tentei achar o relato onde li isso, mas não encontrei. Se você consultar os moradores, pode ser que eles ajudem. Abraço!
  5. Respondendo à questão do Rodrigo, se conhecer bem a trilha, especialmente as ramificações de outras trilhas que existem no início do percurso de subida, perto da aldeia indígena, é perfeitamente possível fazer a subida sem usar GPS. Depois dos 250m de altitude a trilha principal fica bem definida e é fácil notar as saídas "erradas". Abraços! Oi, Getúlio! muito obrigado pela leitura. Realmente, a subida é puxada pra quem não tem muita experiência. Na caso, acabei levando a maioria das coisas e deixei com elas só as mais leves (sacos de dormir e as roupas dela). Os trilheiros que gentilmente nos concederam um pouco de suas águas nos informaram da possibilidade de chegar ao cume a parti do Parque Estadual da Serra do Mar e agora quero planejar uma travessia subindo o Pico e depois terminar em Natividade da Serra. Preciso ver uma data só. Abraço!
  6. Oi, Rodrigo! Valeu pela leitura. É como nosso amigo GVogetta mencionou, não é necessário GPS se você se informar bem como é o início da trilha. Há diversas ramificações que podem confundir um pouco, mas depois dos 250m de altitude não há mais erro. Facilmente se nota os pontos de água e no final, já nas proximidade do Cume, pode-se confundir um pouco se a neblina estiver muito espessa, como foi no nosso caso. Abraço e obrigado pela leitura!
  7. Oi, Otávio! Não estava frio, não. Levamos esse casaco por ele ser leve e super compacto e só usamos de manhã quando acordamos. Recomendo muito ir, pois é belíssimo e o acesso muito fácil. Basta se informar qual coletivo leva até o início da trilha e na volta há um ponto de ônibus bem próximo ao final da trilha. Obrigado pela leitura e qualquer coisa é só dar um toque! Abraço!
  8. TRAVESSIA DO VALE DA MORTE JANEIRO DE 2015 Vídeo da travessia: Ao final, algumas dicas do que levar e comentários do que levei. A minha primeira visita ao Vale do Rio da Onça, popularmente conhecido como Vale da Morte, foi no final de outubro de 2014. Naquela época, por falta de companhia e excesso de ansiedade depois de ver o vale a partir do ponto de confluência dos rios Vermelho, Pedra e Solvay numa outra ocasião, acabei indo sozinho e a experiência foi, digamos, estranha. Sempre que voltava a pensar nos dias que passei sozinho naquele vale me vinha um misto de sentimentos que me deixavam muito confuso. O Sol radiante, as águas cristalinas e os contornos dos morros verdes da Serra do Mar - era tudo incrivelmente belo e convidativo, salvo se você decidisse se deslocar por meio de toda essa beleza. É como o Diabo que te tenta a cometer um pecado pra depois te jogar nas profundezas do Inferno. Ali me deparei com um tipo de terreno hostil, com correntezas que com um passo errado te levaria pra uma queda d’água de 4 a 5 metros, vegetação agressiva que destruiu minhas mãos sem a proteção de um par de luvas e muita piramba com o solo macio, forrado de matéria orgânica que cedia a qualquer toque. Os preparativos para essa mais recente travessia começaram há mais de 2 meses, quando conheci o Eduardo Loures, Bruno Dias Conde e o Luciano Lourenço. Eu falava em retornar ao Vale, porém com mais pessoas, e o Eduardo comentava que o retorno já estava programado para janeiro de 2015. Depois disso, conversa vai, conversa vem, o assunto começou a ficar muito esparso pela internet (Facebook) e começavam a surgir muitos trilheiros interessados na descida do Rio da Onça. Com o intuito de organizar melhor as conversas, criei o evento na rede social e deixei que a organização se desse de forma democrática - sugeria roteiros, horários e outras coisas e pedia a opinião dos que pretendiam participar, mas parece que esse povo tem uma dificuldade em se expressar. A maioria nem sequer digitou uma palavra para sinalizar qualquer coisa. Alguns, de última hora, anunciaram suas desistências e outros não se deram o trabalho de dar satisfação nenhuma. No final, de 22 confirmados, compareceram com o intuito de encarar o desafio apenas 6 pessoas: Loures, Bruno, Luciano, Masgrau, Thunder e eu. Além desses, o Kamal, que estava apenas de passagem, mas foi convencido pelo Luciano a nos acompanhar apenas com a roupa do corpo e uma sacola de loja de shopping, se juntou ao grupo, somando 7 pessoas que rumaram juntas da Estação Brás até o início da trilha. Bom, como se nota, vou aproveitar a oportunidade pra fazer um relato misto, visto que não escrevi um para a travessia que fiz sozinho ano passado. O plano inicial era acampar no topo da Cachoeira da Fumaça e, no dia seguinte, descer as sete quedas para posteriormente adentrar no Vale. Infelizmente um grupo de muitas pessoas que estavam a nossa frente também estavam se dirigindo para a referida cachoeira, então, a fim de evitar muvuca e desentendimentos desnecessários, mudamos o plano e decidimos acampar nas proximidades do Lago Cristal, do qual também é possível ter acesso ao Vale por um caminho igualmente agradável. Acordado o novo plano, iniciamos a caminhada já em meio a uma leve garoa, suficiente para em poucos minutos nos deixar quase todos encharcados. Alguns tentaram tomar providências para se protegerem da umidade, mas não sei se ajudou muito. O Eduardo costuma andar todo à prova d’água, sempre, com calça e jaqueta impermeável. O Bruno se enfiou dentro de uma saco de lixo e o Kamal deu sorte: ele que não havia trazido praticamente nada, ganhou uma capa de chuva descartável de uns caras que estavam ali colocando placas de sinalização para uma corrida que seria promovida no dia seguinte. Caminhamos por cerca de 45 minutos até cruzarmos com uma clareira. Não haviam árvores boas para pendurar as redes, então, apesar de passar da meia noite, continuamos em direção ao Lago Cristal, onde possivelmente encontraríamos um lugar melhor para montarmos acampamento. Aqui o rio faz uma curva bastante acentuada, de forma que temos que cruzá-lo duas vezes para continuar a trilha, indo para a margem esquerda, atravessando uma ponta de terra e depois para a margem direita novamente. Logo nas primeiras vezes em que nos deparamos com o rio nessa trilha já havíamos percebido que o nível estava mais alto. Estivemos ali há pouco tempo e a altura da água tinha pelo menos o dobro da outra vez. Ocorre que, ao iniciarmos a primeira travessia para a margem esquerda, enquanto ajudávamos um ao outro a se equilibrar por conta da forte correnteza, repentinamente o rio começou a subir muito mais rápido. Era uma CABEÇA D’ÁGUA! Rapidamente nos deslocamos para a ponta de terra e analisamos a possibilidade em continuar em frente, visto que onde estávamos seria impossível ter qualquer noite de descanso digno. Mal havia espaço para nos acomodarmos no chão, quem dirá armar redes. Entramos na água, miramos as lanternas que sobraram para o outro lado do rio e nada da continuação da trilha. Minha headlamp já estava fraca, a lanterna do Bruno só era melhor que nada e o Eduardo havia perdido a lanterna mais potente dele alguns minutos atrás. O rio continuou ganhando força. Pedras grandes da altura do peito estavam sendo cobertas pela água e o Thunder continuava dentro do rio buscando a continuação da trilha. Mesmo se encontrássemos a vereda, seria complicado atravessar o rio como ele estava. Resolvemos aguardar na ponta de terra até que o nível da água diminuísse um pouco. Ficamos jogando conversa fora, alimentando a esperança, a última que morre, na expectativa de que o as águas se acalmassem ainda naquela noite. Não demorou para percebemos que isso demoraria muito tempo. O Eduardo é sempre inquieto, fica andando de um lado pro outro o tempo todo e se não tem espaço pra andar ele escala, cava um buraco ou abre uma picada com seu facão, mas não fica parado. O Bruno deu a ideia de subirmos uma piramba ao lado para ganharmos altura e não correr o risco de sermos levados pelo rio mais tarde. Juntou o útil ao agradável e terminamos a noite lá em cima, a uns 3 metros de altura de onde o rio estava levando tudo que encontrava pela frente. O Bruno, que pelo visto já está dominando as técnicas de sobrevivência avançadas com maestria, dormiu bem, sem passar frio ou sofrer com os insetos que rasgaram minha pele a noite toda. O Luciano e o Kamal se enfiaram dentro de um mosquiteiro e se cobriram com um plástico. O Rafael Masgrau e eu nos cobrimos como pudemos. Ele pegou até o saco de dormir e eu me cobri com um saco plástico e depois com a capa de chuva da mochila. No meio da noite acordei com uma tremedeira danada. Não enxergava nada e estava com muito frio. Acho que era princípio de hipotermia. Imediatamente peguei meu kit de primeiros socorros com a ajuda da lanterna do Bruno, um daqueles que todo site de atividades outdoors dão extrema importância, mas que ninguém leva pro mato. Tinha um adesivo que poderia ser dividido em dois e que, em contato com o ar, esquentava de forma a auxiliar na recuperação da temperatura do corpo. Colei-os de baixo dos braços e comecei a fazer uns exercícios toscos pra aquecer o corpo. Troquei a roupa que estava encharcada por uma seca e prometi nunca mais dormir de roupa molhada. Felizmente me recuperei e voltei a me enfiar na capa de chuva da minha mochila que estava usando para me proteger do vento e da chuva. Foi uma noite horrível, mas que sirva de lição para as próximas. A luz começa a ofuscar os olhos, mas o sentido que alerta a hora de acordar é a audição. As cigarras não perdoam e nos primeiros raios do Sol elas tratam de acordar qualquer um do mais pesado sono. Bom, na verdade foi só eu que acordei e comecei a falar sozinho até que os outros foram acordando, um a um. Tive uma noite miserável e espero nunca mais passar por isso. Subestimei o frio e acabei sofrendo um bocado, mas o dia se mostrava promissor e logo fui me arrumando para sair daquele barranco onde nos enfiamos para fugir das correntezas furiosas que a chuva trouxe no dia passado. Logo percebemos que haviam pessoas acampadas lá embaixo, na clareira que ignoramos na noite passada. Era uma lona azul já conhecida. Era o Eduardo que havia voltado para lá e havia montado sua rede e dormido como um rei em plena guerra (falei que ele não aguenta ficar parado por muito tempo). Notei que o Thunder também não estava entre nós, então deduzi que ele deve ter se deslocado pra outro lugar a fim de se acomodar melhor e foi isso mesmo. “Desmontamos o acampamento”, tomamos um café rápido, comemoramos o aniversário do Bruno que ficou mais velho nessa semana e ficamos uma hora discutindo o rumo dessa aventura - iríamos voltar para nossas casas e ficaríamos contemplando os temporais previstos para aquele final de semana ou continuaríamos arriscando nossas vidas nesse vale que é um dos mais difíceis da região para se transpor, depois de sermos quase engolidos por uma tromba d’água e dormidos na pior condição que eu já estive em toda a minha vida e em meio à previsão de tempo totalmente desfavorável. O caminho de volta era tão fácil e a insegurança de alguns, inclusive a minha, tornava o retorno tão atrativo. A luz permeava as folhas úmidas da floresta enquanto uma rala neblina bloqueava a visão do outro lado. O céu estava aberto em uma parte e algumas nuvens prometiam mais chuva a qualquer momento e eu não duvidava nem um pouco que se chegássemos no fundo do vale um dragão de águas violentas iria nos devorar e triturar nossos ossos em poucos minutos de chuva. Depois de muito debater o bom senso reinou - tinha um pouco de Sol, então continuaríamos a travessia! Voltando a caminhada, em poucas passadas chegamos ao Lago Cristal que não fazia juz ao nome naquele dia. Estava barrento, com a água completamente turva. Sem mais delongas, continuamos. Nesse trecho ainda há uma trilha batida de fácil navegação. As cachoeiras começam a surgir pelo caminho, indicando uma inclinação maior do terreno e junto a trilha batida vai desaparecendo, dando lugar a caminhos de pedras, rastros de deslizamento dos dias anteriores e pequenos afluentes que em dias mais secos desaparecem. O terreno se torna bastante acidentado, mas ainda de fácil deslocamento. Passamos pela Queda das Andorinhas onde apenas notamos sua presença e continuamos em frente - a pausa estava prevista apenas para depois da Garganta. Até o “Portal do Vale” passamos por diversos poços que em épocas de tempo ameno são cristalinos e ótimos para um banho, mas estavam turvos e com águas ligeiramente mais volumosas em razão da precipitação do dia anterior. Algo em torno de 50cm a mais que da última vez que estive ali. A título de comparação, postarei duas fotos do mesmo local, mas em dias diferentes para que possam verificar que não estou exagerando. Vamos vencendo as correntezas e os obstáculos ajudando um ao outro e às 09h12 chegamos ao “Portal do Vale da Morte”, um monólito do qual é possível ter uma boa visão do início do Vale até os primeiros e maiores cânios do Rio da Onça. A partir desse ponto o nível de dificuldade sobe por tratar-se de um local onde três rios se juntam para formar um maior, que corta a Serra do Mar até o Rio Mogi, próximo a cidade de Cubatão, cavando diversos buracos nos enormes blocos de rocha pelo caminho em forma de cachoeiras e cânions. Continuamos pela margem aparentemente menos exposta e vamos cruzando o rio conforme a necessidade, sempre ajudando um ao outro para que ninguém seja levado pela correnteza ou sofra um acidente. Mais uma hora de pulação de pedras e chegamos à “Garganta do Diabo”, um cânion gigantesco que em época de tempo bom é possível pular de uma altura de uns 10 metros para seu interior e depois subir de volta pela encosta ou continuar descendo pela água se você for muito maluco. Após atingir o início do cânion, é necessário escalar uma rocha do lado direito, após a qual surge uma vereda que da acesso a uma clareira boa para acampamento e ao topo da encosta do vale de onde é possível mergulhar em seu interior. Como a chuva do dia anterior foi muito forte e havia grande possibilidade de a água ter levado troncos e galhos de árvore para o interior do vale, colocando em risco a integridade daqueles que pulassem para lá, resolvemos que não era uma boa ideia saltar dali naquele dia e ficamos apenas contemplando sua beleza e imponência. Depois de tirar umas fotos e fazer umas filmagens, lamentamos a quantidade de lixo abandonada ali e continuamos a caminhar sempre pra baixo, perdendo altura, sempre acompanhando o fluxo do rio. Alcançamos uma grande queda d’água após a Garganta do Tinhoso onde nos deparamos, mais uma vez, com um cânion cabuloso que começa com os paredões laterais com inclinação de uns 30˚ e ficam mais inclinados até que depois de nada mais que uns 10 metros seguindo as correntezas, que viram para a esquerda, ficam super inclinados e impossíveis de serem transpostos beirando o rio. Aqui nos separamos em dois grupos e nos deslocamos cada um de um jeito diferente. Uns foram até onde era possível pela rocha que beirava o rio, agarrando-se nas agarras disponíveis até que a inclinação não permitisse mais seguir em frente, apenas subir para cima para depois entrar no mato. Outros, incluindo eu, voltaram um pouco até o mato e se embrenharam novamente para continuar por cima, sem perder os outros de vista. A trilha segue até uma pequena cachoeira a qual acessamos utilizando corda. Ancorei numa árvore aparentemente firme, coisa difícil por estas bandas, e desci uma rocha de uns 4 metros de altura e cheia de limo, tornando-a super escorregadia. Anda-se mais poucos metros, após o rapel de pobre, e chegamos ao “Panelão”, famosa Cachoeira do Anubis. Trata-se de um buraco com uns 15 metros de diâmetro esculpido na rocha onde desaguam duas cachoeiras lindíssimas e imponentes. Parada obrigatória para apreciar essa obra da natureza. Há relatos de pessoas que descem desescalando as paredes pelo lado direito, mas sem cargueiras. Então fomos pela caminho “tradicional”, jogamos nossas cargueiras para o lado esquerdo do rio, atravessamos a correnteza com cuidado e ajuda pra não ser levado pro Panelão e virar sopa de gente moída e iniciamos a subida de uma piramba - a primeira de muitas - para contornar aquele enorme poço. A subida foi mais tranquila que da outra vez que ali estive. A vegetação estava mais firme, porém a umidade deixada pela chuva da noite anterior tornou o solo muito escorregadio, tornando árdua a subida para alguns. Na medida em que se ganha altura, aumentam a quantidade de cipós que se enrolam em qualquer ponta sobrando nas mochilas e dificultam ainda mais a subida. Alcançado o cume do morro a visão recompensa. Nesse dia a neblima já ameaçava bloquear qualquer tentativa de contemplar o litoral, mas ainda pudemos dar uma bisbilhotada no mar e no emaranhado de rios que iam em sua direção. Como a subida foi longa, nos acomodamos em meio ao mato denso daquele lugar e retomamos o fôlego para a descida. A partir daqui começam a surgir os malditos vegetais cheios de espinhos que destriuiram minhas mãos da outra vez. Cheguei em casa com as mãos parecendo dois pãezinhos de tão inchadas, pois não havia levado luva. Desta vez me equipei com uma luva de couro e fui agarrando em qualquer coisa que servisse de apoio para não sair rolando o barranco abaixo e terminar, possivelmente, jogado de um penhasco para o além. Na descida, interceptamos um afluente e o seguimos até alcançar o rio novamente. Esse trecho pode ser um pouco complicado de ser vencido se a água estiver muito forte. Pode-se varar mato por mais um tempo até contorná-lo ou ir pulando de pedra em pedra, com muito cuidado, pelo lado esquerdo, como fizemos. O progresso pela água não dura muito mais que 30 metros de deslocamento e temos que alcançar o lado direito do rio para voltar a varar mato pelas encostas super inclinadas e com o solo traiçoeiro que cede com muita facilidade, por isso qualquer coisa ao alcance das mãos são bem vindas para não deslizarmos piramba abaixo e causar um acidente. Galhos, troncos caídos, bromélias - era tudo agarra naquela hora. Na medida do possível, sempre tentávamos retornar ao rio e varar menos mato, mas não tardava a termos que nos embrenhar novamente na mata. A essas horas o Bruno aponta para o céu e me lembra da previsão de tempo. Sim, ainda não havia chovido naquele dia, mas tudo indicava que não faltava muito. Tivemos o dia inteiro de Sol com algumas nuvens nos agraciando com uma boa sombra, mas as nuvens começaram a adquirir aquela tonalidade cinzenta que os trilheiros adoram. Além disso, já era quase 15:00 e ainda não tínhamos arrumado um bom local para acampar. O plano era chegarmos a Cachoeira do Pé de Limão e nas proximidades dessa queda montar o acampamento, porém acabamos desviando o caminho e passamos batido por esta pequena e bela cachoeira. Da outra vez lembro de ter tomado um café na sua base que lembra uma prainha, com areia fina e poucas pedras, diferente de qualquer outro lugar naquele vale. Infelizmente não vou saber dar as coordenadas para acessá-la. Como a situação não estava muito boa em termos de tempo, apesar de ainda termos algumas horas de luz, o Eduardo, o Bruno e eu entramos no “modo emergência” e aceleramos o passo, rasgando o mato das encostas, subindo e descendo barrancos até perder de vista os outros participantes. Em meia hora cruzamos com mais um afluente e logo ao seu lado uma área plana, grande o suficiente para acomodar muitas barracas e redes, mas que estava com o solo barrento, dificultando um pouco a vida dos que iriam dormir no chão. Perfeito! Tínhamos água próximo e um local plano para acampar, com árvores com copas generosas para nos proteger da chuva. Gritamos um tanto para sinalizar onde estávamos e esperamos mais alguns minutos até que o restante nos alcançasse e iniciamos a montagem dos nossos lares daquela noite. Eu ainda tenho uma dificuldade danada em armar a minha rede. Apesar de ter aprendido uns nós muito bons, ela ficou horrível e depois de uma ajuda do Bruno fiquei extremamente confortável. Montei o toldo de forma que um dos lados ficasse mais alto, possibilitando que eu cozinhasse debaixo com mais conforto. Segui a dica de um amigo e levei linha de pesca para algumas coisas e é uma boa ideia. Só não ficou bom pra suportar o toldo, mas pra amarrar suas pontas ficou ótimo. Não absorve água e é mais leve. Acampamento armado, tratei de tomar um banho no afluente ao lado que contava com uma pequena cachoeira e iniciei o preparo da janta. Como não sou desses de fazer miojo, todo o processo demora uns 30 minutos ,ao invés de 3, e acabo carregando uns 2Kg a mais, mas eu não fico sem uma boa alimentação no final do dia de jeito nenhum. Até levo dois pacotes de miojo em todas as trilhas que faço, mas para uma situação emergencial. Cozinhei uma batata com arroz e fritei duas calabresas com muita cebola e alho. Nada muito original, mas era comida e deu pra encher o bucho. Logo após a janta cai pra dentro da rede, me enfiei dentro do saco de dormir pra me esconder dos mosquitos e tirar o sono que não pude na noite passada. Na manhã seguinte, acordei muito cedo ao som das cigarras, novamente, mas todos os outros já estavam de pé fazendo seus cafés da manhã ou desmontando suas redes. Eram 6:00, mas pra quem foi dormir antes das 20:00 era um bom horário. Passei frio novamente. A parte que deixei mais alta do toldo permitia que todo o vento gelado passasse por mim levando o calor do meu corpo. Mais um aprendizado aqui. Tirando isso a noite foi boa. Fiz um suco de limão com a água gelada da cachoeira do tributário ao lado e adocei com mel. Me alimentei, escovei os dentes e às 08:10, depois de muita enrolação, voltamos a caminhar rumo ao Rio Mogi. Parece que está virando costume nosso enrolar muito após acordarmos. O Eduardo e eu sabíamos que não faltava muito e que esse dia seria mais “light”, mas deixamos que o restante descobrisse por conta própria. O terreno fica visivelmente mais plano e ganhamos metros com muito mais facilidade. Se no dia anterior tínhamos que transpor uma cachoeira de 5 a 10 metros a cada 10 metros de deslocamento, nesse dia conseguíamos caminhar uns 30 a 50 metros sem que um penhasco nos interrompesse, apenas algumas pequenas quedas de até 3 a 4 metros de altura. Não foram mais que 30 minutos de caminhada e, ao escalarmos uma pedra para transpor um cânion e entrar na mata, de repente o Eduardo volta gritando “RECUA! RECUA!”. Na hora me lembrei da vez em que nos deparamos com uma jararaca na Trilha do Sistema Funicular e o Luciano ameaçou mexer com o bixo e eu, cabaço que sou, tratei de me distanciar o máximo que pude com medo da peçonhenta vir nos atacar. Não deu outra - era uma jararaca e das mais grandes. O Thunder tirou ótimas fotos da criatura e poderão notar que essa era das grandes. Passado o susto, resolvemos nos desviar do caminho, pois ela insistiu em permanecer no lugar. Acho que até ela estava convencida de que era grande demais pra míseros sete mateiros ameaçarem seu território. Às 08:45 cruzamos com uma sequência de duas cachus de um tributário do Rio da Onça bem gostosas e fizemos a primeira pausa pra nos refrescarmos. Com um poço raso e cristalino alguns molharam o corpo, já que o Sol prometia nos condenar com muitos cânceres naquele dia que a mídia burra e manipuladora anunciou tempestades. Ainda bem que somos todos revoltados e não acreditamos nesse tipo de bobagem. A partir daqui começamos a nos deparar com vários poços, todos com a água ainda turva, mas que me pouparam de fazer tanto esforço quanto os outros - aproveitei minha mais recente aquisição, uma mochila estanque, e fui me jogando de poço em poço a deixava que a correnteza me levasse. Foi ótimo, além do frescor da água, podia assistir aos meus amigos pularem sobre as pedras e transporem os obstáculos da forma mais desgastante. O Luciano, que não estava com uma mochila impermeável, mas que era pequena suficiente para ele não se importar em molhá-la, me acompanhou e também veio com a ajuda das correntezas que naquele trecho se tornam mais brandas. Enfim, às 09:15 chegamos em um dos poços mais legais. Uma super piscina natural com direito a hidromassagem e um pequeno escorregador. Ao avistar suas águas, os mais acelerados Bruno e Eduardo jogaram suas cargueiras e saltaram nas águas marrons daquele lugar que é um marco desta travessia. Um daqueles lugares em que todos concordam que valeu a pena todo o esforço, os machucados, as picadas e o risco que assumimos ao entrarmos na trilha a dois dias atrás. Os mais sossegados logo repararam na presença de uma pequena cobra que, assustada com nossa presença, também saltou no poço e fugiu dali sem causar muito alvoroço. Ficamos uns 40 minutos nesse poço nos deliciando com suas águas. Tiramos muitas fotos e filmei muito. Subimos em pedras pra pular na água. O Luciano sempre com mais destreza que nós pra saltar na água. e retomamos a caminhada, pois eu sabia muito bem que ainda haviam três cânions um pouco mais complicados pela frente e depois uma longa caminhada pelo Rio Mogi até Cubatão. Em dois ou três minutos de caminhada chegamos ao próximo cânion. Aqui, se o rio estiver baixo, é possível atravessar tranquilamente de pé, erguendo a mochila no alto e caminhando pelo lado direito. Desta vez, porém, a água estava bem alta e, tirando o Luciano e eu que estávamos à vontade dentro da água, o restante teve que erguer bem alto suas cargueiras para se pouparem de carregar uma mochila encharcada pelo resto da travessia até Cubatão, com as águas até o pescoço dos mais baixinhos. Sem muitas dificuldade e depois de todos emergidos daquele poço com uns 1,60m de profundidade em sua parte mais funda, mais cinco minutos de caminhada e nos deparamos com mais um vale de rochas com águas caudalosas, o qual tentamos subir pela inclinação da direita, mas fomos interrompidos por um pequeno penhasco que terminava no meio de uma correnteza furiosa, então nos alinhamos novamente cruzando o rio e jogamos nossas mochilas de um em um até o outro lado do rio para depois atravessarmos e continuar a caminhada pelo outro lado. Vamos seguindo, o Luciano e eu boiando sempre que possível para economizar energia e o restante pelo caminho das pedras, passamos por mais algumas rochas verticais que emparedam o rio, mas sem muita dificuldade em transpô-las, até que às 10:40 chegamos a um lugar muito bonito. Trata-se de uma rocha plana que forma um bico e divide o rio em duas cachoeiras, novamente cercado por dois pendores inclinados e escorregadios. Abaixo dessa rocha plana há outra rocha plana que forma um pico para a direita, dando acesso, se você não tiver medo de pular de uma pedra pra outra com um liquidificador logo abaixo, a um pequeno platô, após o qual é possível descer com o uso de uma corda que até a data em que estivemos lá estava amarrada, estratégicamente, em uma pequena árvore, em péssimas condições. Aqui nos dividimos novamente. Eu fiquei olhando para aquele lugar tentando me lembrar de como eu havia vencido esse trecho da outra vez, e quando vi a ponta virando para a direita me lembrei que eu havia jogado minha mochila pra baixo e depois pulado para a pedra de baixo e depois pulado o vão acima do liquidificador que dava acesso à corda e, consequentemente, ao restante do caminho para a casa. Relatei minha experiência para o Eduardo e então ele topou seguir o mesmo caminho, enquanto o Thunder e o Bruno já estavam se pendurando no declive do lado direito para chegar a algum lugar plano depois daquele cânion. O Luciano e o Rafael vieram conosco, mas aquele desistiu pra poupar os joelhos. O Rafael até pulou pra baixo sem dificuldades. Era o mais alto da turma e foi moleza pra ele, mas depois que ele viu as correntezas cavarem as pedras debaixo do vão entre a ponta de uma rocha para a continuação da trilha do outro lado, acabou retornando e optando pelo caminho da “escalada horizontal”. Aqui, realmente, a correnteza não estava fraca. Até agora eu não entendi direito como o Eduardo consegui entrar no meio daquele monte de água pra ajudar os outros a descerem suas mochilas, sem ser levado rio abaixo. Vencidas as dificuldades dessa parte, com a ajuda da corda descemos uma altura de 3 metros e continuamos...e paramos novamente. Logo em seguida temos mais uma fenda erodida pelas correntezas que não dava acesso a qualquer barranco que pudéssemos subir para desvia-la. Essa é a mais funda. Há três pedras que formam uma escadinha e depois um poço estreito que, no seu início tem cerca de 2 metros de profundidade. Não é muito fundo, mas pra quem está de bota e uma cargueira pesada, acaba tornando uma tarefa um pouco mais complicada. Quando estive sozinho, coloquei a capa de chuva na minha mochila e a cobri com um saco de lixo de 100L e a joguei na esperança de que ela fosse flutuar. Na verdade eu sabia que ela flutuaria, pois é uma questão de física básica. Se o saco tem 100L e 100L de água pesa 100Kg e minha mochila não passava dos 16Kg, é claro que a força de empuxo não permitiria que a dita cuja afundasse. Então orientei o restante a fazer o mesmo. Emprestei a capa de chuva que havia levado para o Eduardo que estava sem e assim fomos. Joguei a minha na água e fui nadando atrás. Depois desse grande cânion, o restante é tudo plano. Quando digo plano, entende-se que o terreno não tem inclinação maior que 15˚, não quer dizer que o terreno seja liso, sem pedras. Muito pelo contrário. É pedra o caminho todo e aqui elas se tornam menores e mais chatas. Às 11:00 chegamos a última cachoeira onde o Luciano tratou de se banhar novamente e o Kamal deve ter tomado uns 28 banhos seguidos, enquanto o restante preparava algo pra comer, pois já era hora do almoço, coisa que dificilmente temos quando estamos trilhando por aí. Geralmente só preparamos algo na janta. O resto do dia é na base de barra de cereal, amendoim, biscoitos e frutas. Como ainda tinhamos tempo, resolvemos juntar tudo que havia sobrado e o Eduardo preparou um miojo e depois um pouco de arroz. Eu fiz um café e comi com umas bolachas que sobraram. Depois de uma longa pausa de uma hora e meia, retornamos ao caminho até o Rio Mogi que se encontrava logo a frente, não mais que 15 minutos de caminhada. Chegando ao Rio Mogi, algumas pequenas celebrações e já vou acelerando o povo porque, embora tivéssemos bastante tempo, depois de uma hora e meia parados fazendo nada, acabou ficando um pouco tarde e o caminho era longo. Joguei minha mochila na água, providenciei um bastão para me auxiliar na caminhada dentro daquele rio cheio de pedras redondas, pequenas e lisas e fui seguindo em frente. Reparamos que nas margens do rio havia muito mato derrubado. Nos dias anteriores, o rio estava a pelo menos 1,50 metro a mais de altura. Havia arrastado muita coisa e mais uma vez percebemos o perigo de se embrenhar nesses lugares em dias de chuva. Aqui o caminho, na minha opinão, é chato. O Rio Mogi, nessa altura, se torna um rio monótono, sem nenhum atrativo em especial. Sem falar do visual apocaliptico dos contêineres abandonados na sua margem direita somado ao som crescente das estações do pátio de manobras da ferrovia MRS que sinalizam que estamos nos aproximando da civilização, embora não na forma como gostaríamos. Vamos caminhando e o Eduardo insistia em encontrar uma suposta trilha que dava acesso a um sítio, mas da outra vez que fizemos isso tivemos que varar muito mato e não houve economia de tempo, então insisti que continuássemos pelo rio, pois sabia que em pouco tempo estaríamos bem ao lado de uma estação de manutenção de trens, dando acesso a uma estrada de terra que nos levaria a onde queríamos. Depois de uma hora e meia de caminhada por esse rio, já com o som dos trens ao nosso lado, viramos para a esquerda e cruzamos com um tributáirio do Mogi que da acesso à antiga estação Raiz da Serra, onde pude me trocar para roupas limpas e secas, já que eu ainda teria que retornar para Campinas, e o restante se deliciou com um pé de jacas logo ao lado. Aqui é possível seguir a estrada de terra e ir de ônibus para Cubatão, conforme narro a seguir, ou subir o trilho da ferrovia cremalheira até Paranapiacaba, percurso que não sei quanto tempo deve gastar, mas não deve ser mais que 3 horas. Às 14:55 retomamos a caminhada em direção ao ponto de ônibus que ainda estava bastante longe, mas eu há um atalho que descobri da outra vez e nos aproveitamos dele para cortar um longo caminho por aquela estrada de terra sem graça. Logo após o pátio de manobras, a uns 10 minutos de caminhada, há uma bica d’agua muito boa em frente a um quilombo. Da outra vez que estive ali eu me esqueci de pegar água no rio e passei uma sede danada, então me sentei do lado da bica para me recuperar do calor que fazia naquele dia, quando um senhor veio ao meu encontro e começou todo aquele interrogatório que todo trilheiro pós trilha está acostumado. Expliquei a ele a situação e ele se admirou com o fato de eu ter descido a Serra sozinho. Então o sr. Francisco, nome do sujeito, começou a contar suas histórias de mateiro e eu fui só escutando e comparando com minha experiência, pois desconfiado que sou, queria cruzar as informações pra ver se aquilo tudo não passava de conversa de pescador. Até que os relatos não eram tão surreais, mas como o tempo tava curto e eu queria zarpar dali logo, peguei minha mochila e me despedi do simpático senhor que no dia seguinte pretendia passear pelo Rio Mogi. Foi aí que ele me convidou para passar por dentro da propriedade e me orientou que eu cortaria um bom caminho, segundo ele mais de 2Km de caminhada. Eu não pensei duas vezes. Apontei para o portão e perguntei “é por aqui mesmo?” e já fui adentrando com medo de que ele mudasse de ideia. Dessa vez, como eu estava acompanhado de mais pessoas, foi mais fácil chamar a atenção do sr. Francisco que, mais uma vez, veio “trocar ideias” com agente. Ele se lembrou de mim da outra vez, mas isso não foi suficiente para ele não repetir todos os relatos novamente para os demais que não estavam comigo na minha primeira travessia do Vale. Conversamos, conversamos, deixei ele conversar só mais um pouco, pois o plano era cortar caminho por sua propriedade novamente. Então depois de 15 minutos de muita conversa, peço permissão para cortar caminho e é claro que ele não ia negar tamanha gentileza para um bando de trilheiro com cara de acabado. Atravessamos o quilombo, interceptamos um trilho abandonado e, em meia hora, chegamos ao ponto de ônibus que nos levaria ao centro de Cubatão. Queríamos a linha 2 que vai direto à rodoviária, porém um outro coletivo passou antes e, como não queríamos esperar, pegamos esse mesmo e paramos a umas 5 ou 6 quadras da rodoviária. Às 17:10 pegamos o ônibus para São Paulo/Jabaquara e damos por concluída a nossa aventura. Há, certamente, uma infinidade de vales na Serra do Mar tão belos e desafiadores quanto o Vale do Rio da Onça, contudo, por ter o acesso facilitado pela disponibilidade de coletivos que transitam pelas diversas trilhas que dão acesso ao mesmo, embora este aspecto se torne um contra em algumas situações, este vale se torna uma excelente opção aos que buscam alguns dias selvagens cercado de muitas cachoeiras e com dificuldade elevada. A menos que a pessoa tenha muita experiência com trilhas e orientação em mata fechada, é altamente desaconselhado se embrenhar nessas pirambas sozinho, pois a qualquer momento pode-se perceber o risco de algum acidente - deslizamentos, terreno extremamente acidentado, travessia de rio com correntezas fortes, animais peçonhentos etc. No mais, qualquer informação que tenha faltado é só me deixar uma mensagem que procuro ajudar. Abaixo, deixo dicas de equipamento a serem levados e comento o que levei: - Cargueira - tratando-se de uma trilha que acompanha o curso de um Rio e, muitas vezes, requer seja atravessado por dentro do mesmo, a mochila deve ser preferencialmente à prova d’água. Isso irá facilitar muito no deslocamento e protegerá todo o equipamento que extará exposto às intempéries da Serra do Mar. Se não tiver uma mochila estanque, leve ao menos um saco de lixo grande suficiente para colocar a mochila dentro para fazê-la boiar nos trechos com água. Caso o planejamento seja completar a travessia em um dia, o que é possível, é claro que deverá se optar por uma mochila menor condizente com a logística de uma trilha de um dia; - Alimentação - algo muito pessoal. No meu caso, lelo frutas (maçã, pera e laranja), cenoura, barras de cereal e nozes ou amendoim sem sal para comer de 2 em duas horas e na janta preparo arroz, frito calabresa com alho e cebola e, conheço o local e sei que da pra levar mais peso, complemento com batata, cenoura, pimentão ou brócolis. Sempre levo dois pacotes de miojo para um situação emergencial na qual eu precise de algo rápido e prático; - Sistema de abrigo - altamente desaconselhado acampar com barraca. Há pouquíssimos locais planos e os que existem são cheios de pedras. Para o Vale da Morte deve-se considerar uma rede e um plástico/lona de uns 3mX3m. É leve, possibilita dormir num local mais alto e protegerá de possíveis elevações do nível do rio. Não é necessário o uso de mosquiteiros. No meu caso, coloquei calça, meia por cima desta, camisa de manga longa e me cobri com um saco de dormir e não tive problemas com inseto na noite em que dormi na rede. Recomendo levar duas cordas de 4 a 5 metros com 5 a 6mm de espessura para amarrar a rede e linha de pesca para amarrar as pontas do toldo; - Calçado - depois de alguns “river trekkings”, percebi que botas com cano mais alto e impermeáveis mais atrapalham que ajudam. Seguram muita água e tornam-se pesadas, dificultando o deslocamento. Desta vez optei por um tênis de trilha com pouco acolchoado e solado voltado pra terrenos acidentados. Como foi importado da China e seu acabamento não ajuda, ficou bem destruído ao final da travessia, mas deu pra notar que optar por tênis é uma boa em trilhas com muita água; - Hidratação - ao longo de todo o percurso pode-se encontrar água de boa qualidade para beber, mas se chover ela pode tornar-se um pouco sedimentada. No meu caso apenas um cantil de 700mL bastou para a travessia inteira, embora eu sempre leve uma garrafa maior para colher água e utilizar no acampamento de noite; - Outros: - 10 metros de corda é o suficiente para transpor os trechos em que passamos, mas sempre levo 20 metros por precaução; - Saco de lixo de 100L a 200L é sempre bem vindo, pois pode virar um poncho improvisado e também proteger a mochila em trechos com muita água, além de não pesar quase nada.
  9. Valeu, Bruno! Agora que vi sua mensagem. Preciso me acostumar a entrar mais nesse site. Abraço!
  10. Vídeo: http://youtu.be/LLiFSM1lCwE O planejamento desta trip foi precário, além de que em todas as hipóteses que imaginávamos alguma coisa poderia dar errado. Minha intenção inicial era de ir ao Mirante de Paranapiacaba para ali acampar e conhecer esse ponto de fácil acesso e já muito conhecido pelos trilheiros da região para, no dia seguinte, retornar a Paranapiacaba e caminhar em direção a Quatinga. No meio da estrada em direção a este distrito, à sua direita, adentraríamos numa trilha conhecida como Trilha do Rio Anhangabaú ou Trilha dos Carvoeiros de forma que em algum lugar, depois de uns 4,5Km de sobe e desce em meio a mata, interceptaríamos o Rio Quilombo para, só então, iniciarmos sua descida seguindo seu curso. Já na Estação Rio Grande da Serra ficamos preocupados se nosso plano daria certo, tendo em vista a grande quantidade de jovens educados e que se comportavam de forma extremamente agradável que nos acompanhava desde SP até Paranapiacaba. Combinamos que se o outro grupo de cerca de 15 pessoas fosse em direção ao Mirante, nó iríamos em direção a Quatinga e vice-versa. Pra minha tristeza, esses seres iluminados por algum tipo de erva mágica com folha de cinco pontas caminharam em direção a Quatinga, então teríamos que ir na outra direção. A trilha até o Mirante de Paranapiacaba é super fácil, mas seu início não é diferente das demais da região. Deve-se contratar um guia credenciado ou driblar a fiscalização que barra a entrada dos desavisados. No nosso caso, como chegamos em Paranapiacaba por volta das 23h da sexta-feira, não foi um problema. A essa hora os fiscais já estão em suas casas dormindo ou fazendo qualquer outra coisa porque ficaram dormindo o dia inteiro na viatura da empresa. Após atravessar a ponte localizada no centro do vilarejo, vire para a direita e mantenha-se nessa direção até chegar a uma rua cheia de botecos, na qual deverá subir para a esquerda e, se for cauteloso como nós fomos, ao chegar no posto da PM, passe por sua frente e continue sempre caminhando para cima. Depois de não mais que 5 minutos passará em frente a uma casa com uma clareira, a qual eu deduzir ser um dos postos onde os fiscais ficam de dia e, como as luzes do interior estavam acesas, tentamos não fazer barulho e logo a frente pegamos a "trilha" sentido suleste. Coloquei em aspas porque, na verdade, é uma rua, se não me engano conhecida pelo nome de Rua Bela Vista, que dava acesso aos veículos que levava o pessoal que trabalhava nas instalações em cima do morro. Em 40 minutos de caminhada a partir da chegada em Paranapiacaba, chegamos a uma bica d’água e coletamos um pouco do líquido para usarmos durante a noite e no café da manhã do dia seguinte. É bom pegar uma quantidade boa, pois o próximo ponto d’água fica a uma hora de caminhada depois do Mirante. Mais 15 minutos e passamos pela Pedra do Índio. Não entendi o porquê deste nome e nem ficamos muito tempo pensando nisso. Estava muito escuro e queríamos chegar ao mirante logo para achar um lugar bom pra acomodarmos nossos corpos não muito cansados. Aos 10 minutos da meia noite, chegamos ao mirante. Demos uma bisbilhotada no lugar, nenhuma onça ou animal peçonhento. O visual é interessante, com as luzes de Cubatão dando graça ao lugar, mas nada de surreal. Logo percebi uma laje de concreto um pouco mais elevada e não pensei duas vezes: aqui será minha cama! Bivacar está virando um hábito nas trilhas e isso me agrada bastante, até porque não preciso esquentar a cabeça com armação de barraca ou amarração de rede e depois desmontar tudo. É só deitar e dormir e, se tiver risco de chuva, é só amarrar um plástico por cima e está tudo certo. Tentei conversar com os demais integrantes da trip, o Bruno, sua esposa Jaque e o Luciano, para no dia seguinte voltarmos e fazermos a travessia do Rio Quilombo, mas estes dois últimos opinaram que ir a um lugar pra depois voltar não era legal, então ficou acertado que seguiríamos em frente em direção ao Poço das Moças no dia seguinte, já que eu não queria arriscar minha vida debatendo com uma mulher e um cara maior que eu no alto de um morro inóspito. Minha noite foi ótima. Antes de cair no sono, mesmo, fiquei apreciando o céu estrelado daquela noite e tentei analisar o comportamento de uma nuvem ao leste que ameaçava pairar sob nós e possivelmente nos molhar de noite, mas nada disso aconteceu. Dormi muito bem e acordei apenas umas 2 vezes por causa de algum barulho, provavemente o chupa-cabras, e pra cobrir minha cara que estava sendo ameaçada por mosquitos. Os outros trilheiros não sei se tiveram um sono tão bom, principalmente a Jaque que dormiu em cima da mochila de um jeito totalmente inovador. Não foi possível ver um nascer do Sol tão espetacular pelo fato de haver muitas árvores que encobriam a visão ao leste, mas o por do Sol deve ser bem legal de se contemplar ali. Comemos algumas frutas e partimos sem muita demora, pois não havia um acampamento para desmontar. Embora eu não tenha percebido um lugar bom para montar barraca, principalmente as que não são auto-portáteis, existem vigas de ferro encravadas no chão onde é possível pendurar redes e andando um pouco sentido sudeste do mirante, logo se depara com algumas clareiras ótimas para camping. A descida até o Poço das Moças é muito tranquila, também. Há muitas bifurcações, mas ou vai dar em alguma clareira boa pra acampar, ou vai continuar descendo até o Poço. Alguns caminhos podem desviar da Pedra Lisa, o que não é legal, pois é um lugar bem gostoso e um bom local pra colher água pro resto da caminhada. Não vou saber dizer exatamente quais caminhos pegar, mas é sempre pelo lado esquerdo. A Pedra Lisa é um grande bloco rochoso, a uma hora de caminhada do Mirante, no qual o curso d’água passa por cima e que abre uma janela para o Vale do Rio Quilombo, dando uma visão legal lá de baixo, além de ter uma queda d’água muito boa para um banho. Aqui fizemos um lanche e descansamos bastante, cerca de uma hora até as 10h da manhã. Comemos o abacaxi que a Jaque trouxe - acho que virou um costume do casal trazer frutas exóticas para a trilha, da outra vez foi um melão - e depois de algumas filmagens e fotos, seguimos pelo lado esquerdo do curso das águas que escorriam pela Pedra Lisa. Depois de mais uma hora e meia de caminhada, às 11h30, chego no Poço das Moças. Não havia ninguém e tratei logo de abandonar minha mochila e perneiras para dar um mergulho. Fiquei surpreso com a profundidade rasa do Poço. Mesmo pessoas que não sabem nadar podem se divertir sem problema nenhum. Apenas no meio do Poço que as águas ficam um pouco mais profundas, algo não mais que uns 2,5m no dia em que estivemos lá - deu pra notar que em outras épocas o Poço atingia níveis mais elevados, em torno de 1,5 a mais. O lugar conta com uma pedra lisa que forma um tipo de escorregador e é muito legal, perdi a conta de quantas vezes escorreguei nessa pedra e os outros trilheiros gostaram muito, também. Há algum tempo atrás havia uma árvore com uma corda pendurada da qual era possível executar saltos para o Poço, mas esta árvore cedeu e esta tombada na água atualmente - uma pena. Esse local é tão incrível que botou em cheque nossos planos de uma grande travessia. Começamos a cogitar ficar ali mesmo e voltar no dia seguinte para Paranapiacaba de tão bom que estava o lugar. Depois de algum tempo chegaram mais algumas pessoas, mas nada que comprometesse a tranquilidade do lugar. Nadamos muito, tomamos um lanche mais reforçado e curtimos o Poço até às 13:37 resolvemos que dessa vez iríamos prosseguir em frente até o Rio Mogi para, no dia seguinte, subí-lo e retornar a Paranapiacaba onde terminaríamos nossa grande travessia circular, mas já ficou combinado de voltarmos ao Poço das Moças em outra ocasião para ficarmos de boa lá, fazendo nada, jogando conversa fora. Logo após o Poço, atravessamos o rio para sua margem esquerda de onde parte uma vereda e caminhando mais uns 500m dali por uma trilha bem plana e bem batida chegamos a uma represa onde é possível chegar de carro e é uma verdadeira farofada. Muito lixo e barulho. Por isso alguns que ali chegam se arriscam nos 500m de trilha para chegar ao Poço das Moças, mas são poucos pelo que notamos. Se ficar na praia do lado de um isopor cheio de cerveja e guloseimas industrializadas só observando o movimento já é uma chatice sem fim, imagine fazer isso numa pequena represa suja e barulhenta. Vai entender esse povo. Eu até fiquei com vontade de pular no poço usando uma corda pendurada estrategicamente em uma árvore, mas deixei essa tarefa para o Luciano e só registrei seu salto ornamental para não perdermos muito tempo ali e continuarmos a caminhada rumo ao Rio Mogi, visto que ainda tinhamos mais de 10Km de chão num Sol de queimar os neurônios e depois teríamos que decidir entre varar 3 a 4Km de mato até o rio ou caminhar mais do que isso, só que no asfalto. O calor estava de matar e era inversamente proporcional ao prazer em ficar nadando naquelas águas geladas do Poço das Moças, mas precisávamos caminhar - e rápido! Então fomos. Não deu nem 30 minutos a partir da represa e já tinhamos que providenciar uma parada. Sombra que é bom, nada! Tentei motivar o pessoal a continuar sob a justificativa de que caminhar de noite no mato seria muito pior, mas não deu muito certo. O Bruno e eu entramos no mato à esquerda da estrada de terra e estudamos a possibilidade em acessar um riacho que corria a uns 15 metros da estrada. Chamamos os outros dois e combinamos de ficar ali até que o Sol abaixasse um pouco, mesmo sabendo das incertezas que nos aguardavam pela frente. Ficamos deitados na água abaixando a temperatura do corpo. O Bruno e eu ficamos especulando novas hipóteses e lamentando em como as coisas não estavam indo muito bem naquele trecho, até que chegou a hora de levantarmos e partirmos, uma hora depois. O Luciano não queria de jeito nenhum voltar a caminhar pela estrada e bateu o pé que o deslocamento não seria prejudicado significativamente se fossemos pelo rio, mas logo percebemos que se seguíssemos pela água, não chegaríamos no final daquela estrada nunca. Saímos do rio e então continuamos a caminhada. Eu fui na frente na expectativa de encontrar algo que me animasse, uma cachoeira, um trilha em direção ao Rio Mogi, qualquer coisa, e depois de 35 minutos caminhando sem sinal dos outros integrantes, me deparei com uma barraquinha onde uma simpática moça vendia bebidas enlatadas e algumas guloseimas. Comecei a conversar com a moça com o intuito de colher mais informações do lugar, mas ela me explicou que não morava ali a muito tempo e que não tinha noção das trilhas que eu estava mencionando. Ela ficou curiosa com toda essa coisa de andar por dias no mato e ficou me perguntando se eu não tinha medo, se eu andava armado e toda aquela coisa de gente que não tem noção nenhuma de como é essa vida. Depois de um tempo chega seu irmão de moto e estaciona ao nosso lado e começa o mesmo interrogatório que sua irmã fizera. Expliquei de novo e eles se animaram com o fato da região ser rica em trilhas e disseram que ficaram com vontade de fazer algumas. Mais de 20 minutos esperando e visualizo o resto do pessoal chegando ao meu encontro, mas param para conversar com um cara de uma caminhonete. Logo pensei "carona!" e não deu outra. Subiram pra cima da caçamba da caminhonete e vieram em minha direção. Eu, coitado, fiquei igual um tonto balançando os braços com medo de eles não me verem e passarem reto sem me resgatarem, mas felizmente pararam e eu também pude aproveitar essa carona mais que bem vinda a essas horas. Me despedi rapidamente da moça e de seu irmão que não me lembro os nomes e fui embora daquele lugar. Logo após subir no veículo, a notícia ruim: o casal Dias Conde decidiu que iriam embora. É isso que da não planejar direito as coisas. Acabei colocando eles nessa caminhada cheia de incertezas e acabaram esgotando suas energias, fazendo com que tivéssemos duas baixas no segundo dia. Espero que eu não tenha traumatizado a Jaque, já que ela está começando a fazer trilhas e tem muita aptidão, só que pegamos um dia muito quente e ninguém conhecia aquela região, nem eu que os convidei. A única coisa que tínhamos era um mapa e um GPS com algumas trilhas da região. Suficientes para não nos perdermos e nos planejarmos melhor conforme as distâncias que teríamos que percorrer, mas isso não adiantou muita coisa. Chegamos na rodovia às 17h15 e confirmada as baixas, nos despedimos da Jaque e do Bruno e o Luciano e eu fomos em direção ao início da trilha do Sistema Funicular, a qual eu sabia que se iniciava em baixo de um viaduto. O plano era subir pelo Rio Mogi, mas era certo que não conseguiríamos tal façanha com o tempo que nos restava, ainda mais tendo o relato de amigos muito mais experientes em mãos contando que fizeram em dois dias a subida e com a campainha do Luciano que, embora seja um corajoso trilheiro, não estava fisicamente bem pra me acompanhar numa caminhada mais rápida, o que acabou se confirmando no dia seguinte. Caminhamos por cerca de 5 minutos e aproveitamos que um daqueles caminhão de guincho que parou no acostamento para pedir uma carona. Tendo dois assentos vagos no caminhão e dois caminhantes estragados pedindo ajuda, só um cara muito ruim pra negar, então, mais uma vez, subimos pra cabine do caminhão e ganhamos mais uns 3Km de rodovia e, logo quando avistei o viaduto onde se iniciaria a trilha do Sistema Funicular, pedi para que nos deixasse lá. Foi tudo tão rápido que nem conversamos muito ou dei qualquer explicação do que estávamos fazendo. Ele deve estar se perguntando até agora o que dois caras acabados e fedidos foram fazer debaixo de um viaduto. Mas tudo bem, às vezes é bom um pouco de mistério na vida das pessoas. Apesar de já ter feito a trilha do Sistema Funicular, essa parte inicial era nova pra mim. Estava preocupado com o tempo e queria chegar na casinha onde dormimos da outra vez enquanto ainda estava claro, então acelerei o passo e toda vez que perdia o Luciano de vista o esperava um pouco. O início da trilha é horrível. Não há nada de visualmente agradável e a quantidade de mosquitos devido a proximidade com algumas casas e cachorros é enorme. Num certo momento, o Luciano quis parar para fazer uma gambiarra em seus sapatos que já deveriam ter sido aposentados e tivemos que fazer uma pausa. Se andando os mosquitos já me atacavam furiosamente, parado a coisa começou a ficar insuportável. Acelerei o Luciano para que terminasse logo enquanto eu andava em círculos para evitar ficar totalmente parado, mas não ajudou muito. Quando ele terminou eu andei o mais rápido que pude pra sair dali logo. Às 18:37 cheguei até uma cachoeira - um curso d’água que corre sobre um grande bloco rochoso - e tratei logo de tomar um banho antes que escurecesse. Enquanto eu estava lá, estirado naquela rocha com a água escorrendo e levando todo o calor daquele Sol maldito que me torrou o dia todo, o Luciano chega e interrompe minha meditação. Terminei o banho antes do Luciano e me troquei e peguei 2,5L de água para cozinhar e tomar durante o resto do dia e parti na frente para já começar a limpar a casinha, já que meu plano era dormir no chão novamente, e iniciar a janta. O local estava relativamente limpo, mas o chão estava um pouco úmido. Nem liguei, tirei um pouco da sujeira que se acumulou no chão e fiz a janta sem muita inspiração. O Luciano já havia se deitado de tão cansado e tive que acordá-lo para jantar. Devidamente alimentados, montei um varal pra pendurar a roupa suja e me deitei naquele chão de cimento queimado, esperando que ele sugasse todo o calor que eu estava sentindo. MUITO CALOR! Não adiantou muita coisa. Mesmo dormindo sem isolante térmico em contato direto com o chão de cimento, minha noite foi horrível por conta do calor, mosquitos e os roncos do Luciano que eu achei que haviam melhorado porque na noite anterior eu não os ouvi, mas nessa noite eles voltaram com tudo! Acordei às 07:00 estragado devido a noite mal dormida, nem tomei café da manhã e já estava determinado a terminar aquela trilha logo, sem muita enrolação. Da outra vez saímos para a caminhada às 10h, mas o calor estava mais brando e o tempo levemente nublado. Desta vez, como eu já conseguia visualizar por entre as folhas da mata o céu azul, deduzi que o Sol acabaria com nossas vidas nos incinerando em cima de alguma das pontes se demorássemos muito ali, então acelerei o Luciano para que fossemos logo e evitar a pior parte do dia. Eram 8 da manhã e já adentramos a mata para retornar a Paranapiacaba. A partir daquele ponto a trilha se torna mais interessante. Começam a surgir os túneis, as pontes e a vista de cima das pontes é incrível. É uma trilha que realmente vale a pena repetí-la. O nível de dificuldade já é mais complicado aqui. Numa escala de 0 a dez, eu diria que é um 6. Apesar de mais fechada que outras trilhas por aí, tem um caminho certo a se seguir. Se tiver medo de passar pelas pontes, a maioria é possível desviar pela direita e andar por cima das pontes não é a coisa mais perigosa do Universo, mas é preciso atenção e paciêcnia. Desta vez, como não havia a presença de ninguém que realmente conhecesse essa trilha, tinhamos que decidir no início de cada ponte por qual lado iríamos, agregando um toque de aventura a mais. Eu dava preferência pelo lado direito, visto que o lado esquerdo fica mais exposto à brisa que vem do litoral, corroendo mais as estruturas da ponte, mas em uma ou outra ponte era evidente que deveríamos ir pelo lado esquerdo devido à presença de grandes arbustos no caminho da direita. Como da outra vez nos deparamos com duas cobras nessa trilha - uma caninana e a outra jararaca - fiquei atento ao chão e aos troncos pelo caminho para não pisar em uma, apesar de estar com minhas perneiras tabajara. Vai que essas perneiras não servem pra nada. É um daqueles equipos que você não sabe se funciona e não quer nem saber, mas usa por pura superstição. Achei que a trilha estava muito fechada desta vez, talvez em razão das fortes chuvas das últimas semanas que derrubaram muitos cipós e galhos no meio do caminho. Muitas vezes eu perdia o caminho e me enfiava no mato no sentido que era único. Notei que dessa vez haviam muitos moranguinhos silvestres, o que foi ótimo, pois me poupou de ficar parando o tempo todo pra comer minha coisas. Da outra vez eu comi só um punhado porque o Eduardo ia na frente comendo tudo e eu quase não senti o gosto dessa delícia. No início da caminhada eu sempre perdia o Luciano de vista, então começava a gritar seu nome para ver mais ou menos onde ele estava e o esperava. Depois de caminhados ⅔ da trilha, acelerei o passo e fui na frente para, novamente, adiantar o banho e a troca de roupas pra ir embora. Quando estava quase chegando no fim, notei uma movimentação na casinha de vidro que fica mais elevada que as demais. Eram três fiscais. Voltei um pouco, olhei para os lados. De um lado uma subida absurdamente íngrime e com certeza os fiscais notariam minha presença se eu subisse ali. Do outro lado era uma piramba que provavelmente ia dar no Rio Mogi depois de muita descida e meu cronograma ficaria totalmente prejudicado. Foi aí que um dos fiscais saiu pra fora e acenou em minha direção, me chamando para se aproximar. Puts, agora ferrou. Já comecei a imaginar um monte de desculpas furadas - será que falo que um helicóptero me abandonou lá e eu estava procurando uma saída ou que sou um alienígena e estou em uma missão secreta para registrar a história deste planeta para arquivar na biblioteca dos Lanternas Verdes. Quando cheguei próximo da casinha de vidro, um dos fiscais, sorridente, me perguntou: "tava difícil a trilha?" e então eu o respondi com uma cara de coitado completamente esgotado: "sim, muito!". O cara se mostrou super gente boa e ainda me perguntou se eu sabia como sair dali. Apesar de saber, respondi que não sabia, pois pensei que se ele soubesse que eu já estivera ali antes, a multa poderia dobrar. Então ele me indicou o lado, perguntou se eu estava sozinho e eu respondi positivamente - vai que ele está fingindo, mas na verdade só quer que eu confesse o crime e entregue os comparsas - e se despediu. Então eu fui na direção de um córrego onde nos limpamos da outra vez, tomei um banho e esperei o Luciano por uns 40 minutos, no meio do mato e bem quieto, pois bem do lado estava tendo um churrasco cheio de gente e eu não queria ser pego pelos moradores naquele lugar. O Luciano tomou um banho bem rápido e fomos em direção ao ponto de ônibus que nos levaria até a Estação Rio Grande da Serra. Já eram 16:50 e meu plano era pegar o ônibus para voltar às 16:00. Se eu estivesse sozinho teria conseguido com folga, mas esse pequeno atraso não incomodou em nada. Ao chegarmos no ponto de ônibus, começa aqueles estresses da vida urbana. Havia uma fila gigante. Parece que estava tendo algum evento em Paranapiacaba, como todos os outros finais de semana que ali estive, e muitas pessoas estavam aguardando o transporte público para retornarem a suas casas. Esperamos por 25 minutos até surgir um ônibus que, por ser mais caro que o outro, espantou alguns passageiros, dando oportunidade para nós que estávamos atrás na fila. Em 20 minutos chegamos em RGS e corremos para pegar o trem que nos levaria de volta à São Paulo. Assim termina mais um final de semana de muitas incertezas, mas que no final deu tudo certo pelo menos pro Luciano e para mim, e fica a lição de que devemos planejar melhor essas coisas pra não estragar o final de semana dos outros convidados. As trilhas até o Mirante e depois para o Rio Quilombo são super fáceis e acessíveis, devendo-se tomar cuidado apenas com os joelhos nas descidas, flexionando os bem e se possível com o auxílio de um bastão. A caminhada foi longa, mas as caronas nos ajudaram muito. O retorno a Paranapiacaba pelo Rio Mogi ficará para uma próxima oportunidade. Qualque dúvida é só dar um toque que tento ajudar. Obrigado pela leitura e até a próxima! Link para minha página no Facebook: http://www.facebook.com/PerieratPerierat
  11. Valeu pelo relato, Antonio! Vou tentar essa travessia no final de julho de 2015 e queria uma informação sua: Vc precisou fazer a reserva para entrar no Parque mesmo iniciando a trilha depois de Ibatiba? Abraço!
  12. Muito legal. Vi o vídeo e achei sensacional o local. Uma pergunta: quantas horas vcs demoraram de BH até Morro do Pilar? Abraço!
  13. Vídeo da trilha: Minha mocinha e eu aproveitamos as férias de dezembro e a semana que passamos em Ubatuba para fazermos essa trilha clássica que é considerada uma das mais exigentes devido a sua inclinação rigorosa, porém localizada em uma região com natureza exuberante e convidativa, pois as trilhas são bem demarcadas e o terreno não impõe riscos à integridade física dos trilheiros (queda de penhasco, deslizamento, rios caudalosos com correntezas violentas ou plantas espinhosas furadoras de mãos). A trilha começa aos 15 metros de altitude no bairro Corcovado, próximo à uma aldeia indígena, ao lado de um sítio com uma casa amarela e uma placa curiosa com os dizeres "Cuidado - Antena Elétrica". Não entendi o que isso significa, mas fica o aviso. Vai que trata-se de uma antena que atira raios nos invasores. É possível chegar até bem próximo do início da trilha de ônibus e, após terminar a trilha, voltar com o coletivo, também. Iniciamos a trilhas às 8h, porém, por um descuido meu que subestimei a trilha e não prestei atenção ao GPS, desviamos da trilha, que deveria seguir para o nordeste, e pegamos um caminho para o norte e depois fizemos um pequeno desvio para noroeste, passando por alguns riachos e depois de perdermos a trilha voltamos tudo até o começo, já perdendo uma hora de caminhada. Minha namorada já começou a desconfiar das minha habilidades de navegação (que não são boas - já me perdi até em ciclovia), mas usei de toda a minha lábia pra que ela ficasse segura de que pegaríamos o caminho certo e não seríamos comidos por onças. Após pegarmos a trilha certa, ainda é possível errar devido as inúmeras picadas abertas no início, que devem servir para facilitar o deslocamento dos moradores locais ou levar para outros pontos turísticos do bairro como cachoeiras e piscinas naturais que ouvi falar são atrativos daquele lugar. Depois de meia hora de pernada no caminho certo não há mais erro. É só seguir a trilha e se houver algum desvio é pra algum mirante que não fica mais que 15 metros distante da trilha ou é algum ponto de água. Andamos uma hora e vinte minutos até chegarmos no 4º ponto de água, aos 200 metros de altitude. Os três primeiros pontos de água são muito próximos um do outro e são logo no início da trilha. Como estávamos com os cantis cheios no início da caminhada (700ml cada) não pegamos água em nenhuma dessas fontes, porém fica o aviso: se você bebe muita água, é melhor encher o cantil novamente nesse ponto de água, pois o 5º e último ponto de água fica a três horas de caminhada deste, a 730 metros de altura. Nós racionamos bem o precioso líquido, mas trombamos com um grupo de 3 pessoas que se apresentaram como guardas florestais e um turista italiano que, gentilmente, depois de muita insistência deles, nos forneceram um pouco de suas águas. Às 11h e pouco passamos pelo trecho que considerei o mais "difícil". Não há nada de difícil nessa trilha, tirando a forte inclinação da maioria do percurso, mas nesse trecho, onde é notável uma fenda inclinada entre duas pedras num trecho bastante íngrime, tive que subir primeiro, pegar a mochila da minha amada, ajudar ela a subir e depois subir o restante com as duas cargueiras, pois minha namorada não está acostumada com esse tipo de atividade e ficou bastante desgastada nesse ponto. Ela está só começando e já coloquei ela pra subir esse Pico. Que ótimo namorado que eu sou... Ao meio dia chegamos à IGREJINHA, um aglomerado de rochas que não sabemos por quê recebe esse nome, mas quando se chega lá não há dúvidas de que se trata do lugar. Fizemos uma parada para um lanche mais reforçado nessa hora. Sentamos na trilha esperando que não passasse outros trilheiros, pois era o único ponto com sombra, brinquei um pouco sobre as rochas sob o alerta da minha namorada de que eu morreria se caísse de lá (ela não tem muita noção do perigo nesses lugares) e voltamos a caminhar, pois ainda estávamos longe e teríamos que ganhar mais uns 700 metros de altitude até o Pico. Andamos mais um bocado, sempre comigo na frente e quando eu perdia minha companheira de vista parava para esperá-la. Ela vinha seguindo e quando me alcançava sentava, também, para um descanso. Nesse trecho é só subida. O bom é que não há o que se inventar. As raízes das árvores formam uma escadinha bem firme e não resta dúvidas de onde colocar o pé. É só seguir adiante na subida. Depois de mais duas horas e 15 minutos de caminhada e algumas paradas, chegamos ao 5º e último ponto d’água. Jogamos nossas mochilas no chão e tratamos de fazer outro lanche reforçado para depois subirmos com tudo até o cume (hummm, doce ilusão). A água desse ponto é impressionante. Voltei pra minha casa e uma das coisas que mais sinto falta de lá é daquela água. Simplesmente deliciosa. Abriria a mão de toda a cerveja do mundo para só tomar essa água (mentira). Peguei o galão de 2,5L que sempre carrego nas trilhas e o enchi para tomarmos durante a noite e para cozinhar. Enchemos nossos cantis com aquela deliciosa água e voltamos a andar por aquelas encostas que começavam a se cobrir de neblina. Continuamos a pernada e eu sempre tentando motivar minha namorada, lhe informando quantos metros já caminhamos, quanto ainda falta pra os próximos pontos e sugerindo a ela que contemple a paisagem do lugar que é belíssima (mentira, a essa hora não enxergávamos mais nada devido a densa neblina que nos rodeava) e, depois de muito esforço, chegamos a crista do morro, onde é possível montar acampamento para um ataque ao cume no dia seguinte. Mas não era esse o plano. Até minha mocinha que estava exausta queria chegar ao cume naquele mesmo dia. Já eram 16h e o tempo era incerto devido a visão precária que tínhamos. Estava tudo muito bonito com aquela neblina toda, mas não sabíamos se poderia chover ou não. Aqui registramos 1077 de altitude e o terreno se torna mais plano. Aceleramos o passo aproveitando o menor desnível e vamos ganhando metros com muito mais facilidade. Passamos por uma rocha que em horários sem neblina deve servir de mirante, e em uma hora chegamos à base do Pico, onde fazemos uma curva para a direita e voltamos a escalaminhar para chegarmos ao cume. Passa-se por algumas árvores relativamente grandes e inclinadas que achei muito bonitas e dali em diante eu acelerei o passo, pois senti que estava chegando e minha empolgação chegou no nível máximo. Até esqueci minha namorada pra trás. A neblina estava intensa, nem liguei mais para o GPS e simplesmente fui correndo em direção ao caminho que me levasse para cima. Virei para a esquerda numa bifurcação (meu erro) e cheguei em uma clareira com uma pedra que acreditei ser o cume, subi nele, fiz pose, filmei e tirei umas fotos. Fiquei feliz pra caramba e me lembrei da minha companheira e comecei a gritar para que ela acompanhasse minha voz. Comuniquei a ela que havia chegado ao cume e ela começou a gritar de alegria de longe. Coitada, sofreu tanto que quando chegou ao meu encontro só queria montar acampamento para descansar. Embora feliz, fiquei desapontado por conta da baixa visibilidade. Queria ver o por do Sol e achei que não seria possível, mas, para minha surpresa, a Natureza nos reserva um espetáculo. A neblina começa a esvanecer e revela o Sol prestes a se despedir. O movimento da neblina, a luz do Sol, o lugar que estávamos - era tudo incrível. Tiramos algumas fotos, tentei filmar algo e, para nossa surpresa, terminamos de jantar às 21h (eu demoro pra fazer comida, pelo menos não faço miojo) e ainda estava claro. Fizemos tudo até irmos pra "cama" sem o uso de lanternas. A visão do céu noturno não é muito boa devido a proximidade com as luzes da cidade, mas isso em nada prejudica a experiência incrível de estar ali. Não fez frio de noite, tampouco choveu ou apareceram felinos gigantes em busca de comida. No dia seguinte, percebi claramente que onde estávamos não era o ponto mais alto do morro. Já não havia mais neblina e o céu estava claro e belíssimo. Chamei a Taísa para ir comigo e tratei logo de chegar ao cume enquanto aquele espetáculo de luzes do Sol durasse. Chegamos ao cume, subimos em pedras para tirar fotos e, de praxe, minha namorada sempre me alertando do risco de vida se eu caísse de uma daquelas rochas altíssimas (1 metro de altura). Depois de satisfeito com as imagens que captei, desmontamos acampamento e tomamos um café bem básico para iniciarmos a descida. Combinamos que faríamos um café mais reforçado no 5º ponto de água. Aqui vai uma dica: como conhecedor de descidas, tratei logo de arranjar um bastão para nós dois para poupar os joelhos nos dias seguintes. É uma técnica simples e fácil que agiliza a descida e diminui o impacto nas juntas das pernas, evitando dores nessas partes nos dias seguintes. A descida foi mais tranquila, sem grandes emoções. Trombamos uma família de 3 índios subindo o morro de chinelos, sem nenhuma tecnologia avançada que proporcionasse maior tração ou amortecimento, muito menos proteção aos pés. Levavam seus mantimentos em sacolas de mercado, porque mochilas da Deuter foram feitos pra pessoas frescas e falsos montanhistas. No 5º ponto de água encontramos um tiozinho que subia o pico com uma mochilinha de corrida e uma garrafinha de água. Ele parou para nos cumprimentar, mas não quis pegar mais água. Falou que o que tinha era suficiente e que pretendia descer no mesmo dia. Fazer o que. Alguns tiozinhos são muito mais jovens que nós. Tomamos um banho no 4º ponto de água e trocamos nossas roupas. Tirei mais algumas fotos na vila na base do morro e ficamos esperando o ônibus para voltarmos pra pousada onde estávamos hospedados. É uma trilha que recomendo para todas as pessoas minimamente preparadas (minha namorada não pratica atividade física nenhuma e aguentou a subida bravamente). Para não se perder no início é bom pedir ajuda pra algum morador local e o resto é só seguir a única trilha até o Pico. A trilha é limpa, salvo um pouco de lixo que se nota nas áreas de acampamento. É importante saber os pontos de água e levar de sobra para o cume para depois ter o que beber na volta. Dando atenção a esses aspectos, não há segredo algum, mas a recompensa é grande. A visão de todo o litoral norte paulista, a Serra do Mar que se estende ao oeste, a neblina, a mata, os sons e as luzes - é tudo incrível pra quem gosta de atividade outdoor e super acessível. Obrigado pelo acesso e até a próxima aventura!
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