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dji_pedro

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Sobre dji_pedro

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  1. PATI SELVAGEM: uma travessia de tirar o chapéu e deixar marcas Como toda banda de Rock a vida nos bastidores nem sempre é um mar de rosas. É que a convivência em grupo por vezes desponta em desentendimentos que destoam do objetivo principal. É nesse contexto que o Projeto Rota das Travessias iniciado em 2016 com cinco integrantes perde alguns de seus talentos que, por hora, seguem “carreira solo” (rsrsr). Mas como o “show tem que continuar” aqui teremos uma aventura com participação de três integrantes da antiga “banda”: Eu (Djair), João e Wilson. Assim como na experiência anterior em 2017, escalamos o experiente Marquinhos Soledade (@expedicao_chapada) para ser nosso guia. Dessa vez, iremos realizar a Travessia do Vale do Pati, lá no coração da Chapada Diamantina, na Bahia. Entretanto fugindo um pouco do convencional optamos por deixar esse trekking mais radical fazendo um trajeto mais selvagem. A ideia é começá-lo em Andaraí subindo o curso do Rio Paraguaçu e seu Cânion. É uma opção que cobra maiores cuidados tanto pelo terreno como pelo isolamento. É percurso pouco testado. Muitos evitam. É um trecho do Pati esquecido, uma rota praticada por garimpeiro. A trilha exige subir muitas pedras e paredões, bem como experimentar cruzar dezenas de vezes o lado do rio de modo a encontrar melhor caminho. Sem falar da possibilidade de ocorrência de fenômenos naturais como as temíveis cabeças d’água dentro do cânion. Os primeiros dois dias se passa numa região onde possivelmente não cruzaremos com outros caminhantes. Partimos de Recife numa sexta-feira (28 de junho) num voo da Azul Linhas Aéreas com destino a Salvador. Às 23h30 já estávamos na rodoviária para pegar o confortável ônibus da empresa Rápido Federal com destino à belíssima Lençóis. Rodamos a madrugada inteira. Às 6h da manhã desembarcamos e seguimos para a Pousada Bons Lençóis, ali mesmo na parte central da cidade. À tarde tomamos umas cervejas para celebrar aquele reencontro e também meu aniversario: 29 de junho, dia do santo São Pedro, estou ficando mais velho, presenteie-me com essa travessia: vamos brindar!!! À noite entre outras coisas e fizemos a feira coletiva que irá nos alimentar durante os cinco dias do trekking. Compramos, pesamos e separamos os pacotes dos alimentos em quatro partes. Agora cada um pode enfim fechar suas cargueiras para a pesagem final: 23 Kg (Djair), 20 kg (Wilson) e 17 kg (João). Guardamos a fração de alimento que cabia a Marquinhos para entregá-lo em Andaraí (distante 100 quilômetros da cidade de Lençóis) na manhã seguinte onde começaremos nossa travessia. 30 de Junho – 1º DIA (domingo) O domingo chega. Fretamos um taxi para nos levar à Andaraí. Encontramos nosso guia no pátio da igreja católica naquela cidade e de lá seguimos no veículo até a estrada onde tem início nossa jornada. Donana é como os moradores conhecem aquela área, uma referência a uma antiga moradora da localidade: Dona Ana. Vamos seguir a velha trilha usada por garimpeiros. Uma vegetação arbustiva é o que encontramos nos primeiros metros. Seguindo um pouco e ela vai mudando. Agora temos uma área mais preservada. Árvores maiores vão ocupando os espaços. Uma ponte de madeira marca o inicio dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Daqui pra frente à aventura começa pra valer. A trilha segue paralela ao Rio Paraguaçu. O terreno é de subida, sentimos o peso nas costas. Enfileirados seguimos pela trilha dentro da mata. O lado esquerdo fica o leito pedregoso do rio Paraguaçu de onde se ouve o som forte de suas águas. A certeza de que estamos optando por um trecho selvagem nos obriga a muitos cuidados. Aliás, pela primeira vez iremos realizar uma expedição utilizando equipamentos de GPS: Eu com um relógio Garmin Fênix 3 HR, enquanto Wilson carregava o indispensável SPOT G3. Esse é o instrumento mais importante, pois é capaz de acionar socorro e enviar nossa localização precisa em caso de acidentes. Era apenas o início de nossa travessia. Mal tínhamos completados 2 km e tivemos um susto: Wilson acabou batendo a cabeça contra uma ponta de um galho ao passar por baixo dele e o resultado foi um corte na parte superior do couro cabeludo que causou um sangramento. O kit de primeiros socorros levado por Marquinhos foi logo usado e minutos depois pudemos continuar. Ufa! Descemos. Seguimos agora pela margem pedregosa do Rio Paraguaçu. Esse é o tipo de terreno que iríamos enfrentar nas próximas 48 horas. A visão das pedras que formam todo o conjunto é muito bonita. Nossa caminhada exige muito equilíbrio porque temos que pular pedras imensas e andar sobre elas e descer outras tantas. Executar um pulo entre pedras com 20 kg nas costas é algo que exige bastante. É preciso jeito e sorte! No quarto quilômetro fizemos uma pequena pausa para um descanso. Nosso guia buscou se refrescar nas águas geladas do rio eu a fazer as primeiras filmagens pra não perder nada da aventura que estava apenas começando. 30 minutinhos nessa parada e já tomamos uma subida forte à direita pelo paredão do Cânion do Paraguaçu: uma trilha dura pela encosta recoberta de arbustos. Agora já estávamos a quase 400 metros de altura em relação ao ponto inicial do trekking. Já era quase 2h horas da tarde. Estávamos outra vez dentro do leito do Rio Paraguaçu. Havíamos cruzado apenas de 6,5 km e fizemos a parada para o almoço. Visual deslumbrante. Comentava com o João de como tudo aquilo era admirável e do privilegio de se estar ali. A imagem das paredes do Cânion recoberta de vegetação verde em contraste com a água avermelhada, com as pedras no leito, as nuvens e o céu azulado trazia mais beleza ao cenário. Marquinhos assumiu a cozinha e sobre um enorme pedra fez uma mistura que seria nosso almoço: grão de bico e atum sólido. Foi bem breve nossa parada. Seguimos a caminhada e agora já estávamos diante de uma bifurcação de cânions. Majestoso recorte de rochas que marca o encontro de dois rios: do lado esquerdo as águas do Rio Paraguaçu e do direito as do Rio Pati. É um marco geológico de dois grandes cânions. Pela primeira vez avistamos a boca do Cânion Pati. Às três da tarde havíamos percorridos 7,7 quilômetros quando chegamos à prainha formada do lado das águas do rio Pati onde levantamos o acampamento. Aproveitamos a área de terra, sem vegetação, para fazer uma fogueira distante uns 3 metros das portas das barracas. Depois disso foi momento de aproveitando os raios do sol cair e naquelas águas de dupla identidade. O tempo passou rápido e a noite se aproximava. Marquinhos como de costume assumiu a cozinha preparando macarrão, linguiça defumada, tomates, cebola: o cheiro e o sabor estavam perfeitos! Depois da janta seguimos com nossas lanternas para o meio do rio. Aproveitamos uma das imensas pedras para sentar e experimentar a imagem contemplativa do céu estrelado e o som das águas naquele lugar inóspito. Às nove da noite estávamos em nossas barracas. Marquinhos “homem bruto” resolveu lançar seu saco de dormir próximo à fogueira para passar a noite. Cabra de coragem (rsrsrs). A temperatura estava agradável. O termômetro marcava 21 graus. Foi fácil pegar no sono dessa vez. 01 de Julho – 2º DIA (segunda-feira) Acordei por volta das seis e meia da manhã imaginando como seria nossa caminhada. Vamos preparar o café e começar mais um capítulo de nossa história. O dia era bonito, eu estava tranquilo e até mesmo meio lerdo (rsrsrs), por isso me atrasei um pouco retardando a partida. Somente às 9h30 iniciamos a trilha. Há uma estimativa de que o percurso possua 9 km e que os mesmos serão bem pesados. O Cânion do Paraguaçu ficou ali. Nosso movimento agora é à direita, dentro do Cânion do Rio Pati. Por ele iriamos saber a razão pelo qual muitos aventureiros evitam aquela rota. O nível de dificuldade do trekking aumentou bastante já nos primeiros metros. O pula-pedra passou a ser uma constante e tirar a bota para não encharcá-la logo se mostrou ilusão e perda de tempo. Avançar sobre rochas escorregadias é uma maluquice, mas não ha outra maneira de seguir. Os joelhos sofrem demais com o peso nas costas somados ao impacto dos saltos entre as pedras que tem que ser precisos. É força, equilíbrio e principalmente sorte: levamos 1h42 minutos para percorrer 2 km tamanha dificuldade que o terreno apresentava. Ora estávamos de um lado do leito, ora do outro. E quando nos aproximávamos do terceiro quilômetro executando umas dessas passagens entre pedras escorregadias o companheiro João tomou uma queda. Ele escorregou batendo com a canela em numa pedra dentro do rio. Um hematoma imenso se formou no centro de sua canela. E isso nos deixou assustados uma vez que ele poderia ter fraturado a perna. Tirá-lo dali aquela altura seria impossível salvo por helicóptero. Levamos alguns minutos cuidando do amigo e graças a Deus tudo ficou bem: uma atadura foi colocada em volta da lesão, e seguimos ainda mais cautelosos com a certeza de que não podemos errar! O terreno continuou duro. Percorremos mais 2,5 km e de trilha. Dessa vez fizemos uma subida violenta a direita, uma trilha dentro da mata que margeia a parede do cânion Pati. Às 12h30 curta parada, dessa vez para recobrar o fôlego. O trajeto em ziguezague pelo rio, atravessando, pulando pedras é um exercício para o corpo e mente. A beleza do cânion em sua forma esbranquiçada emoldura o cenário. Outros 20 minutos de descanso. Passamos à margem esquerda desafiando pedras e vegetação da encosta. Agora temos um “tronco” fixado junto o paredão que serve como ponte evitando o caminho por uma parte escorregadia sob nossos pés. É preciso segurar na parede. Saindo da parede do cânion entramos na mata outra vez. Aqui é necessário muito empenho, forca, determinação. Tivemos que transpor um emaranhado de pedras e arvores: uma combinação que exige do corpo. O esforço ofusca a beleza daquele trecho. A única coisa que queremos é sair daquilo para um lugar amplo e sem obstáculo. Às 13h30 paramos dentro do Cânion para almoçar: grão de bico, atum cebola e tomate foi nosso almoço. Até ali tínhamos percorridos 7 km em 5 horas de muito esforço. Não temos a certeza da distancia exata do ponto de acampamento. Os 9 km que mencionei é uma mera especulação! Retomamos a trilha e ela continuou da mesma forma: dura e técnica. Quando completamos os 10 km já estávamos bem cansados e frustrados: percebemos que nossa ideia de quilometragem tinha ido por agua a baixo. 1 km depois se fez outra parada, estava bem claro que nosso moral estava baixo: expectativa e realidade se conflitavam. Somente após percorrer mais 3 km chegamos ao nosso destino: a Toca do Guariba. Já passava das 17h30 minutos. Foi preciso correr para montar as barracas sob a luz da tarde, afinal dentro do Cânion escurece mais rápido. Foram exatos 14 km percorridos naquele dia. A Toca do Guariba é nossa morada! Aliás, esse nome é dado pelo fato de que há um corte no Cânion que forma uma cavidade onde em geral os aventureiros buscam abrigo. É uma área protegida. O nome Toca do Guariba deriva pelo fato de que é comum avistar o macaco Bugio naquela área, eles também são conhecidos pelos nomes de Macaco Barbado ou Macaco Guariba. Não avistamos nenhum, tampouco os seus sons. Aliás, nesses quase dois dias ainda não cruzamos com ninguém na trilha. De fato estamos em local isolado. A noite chegou muito depressa. Não deu pra estar no rio e tomar banho. Dessa vez a higiene foi com lenços umedecidos. Estávamos exaustos, quebrados! Jantamos às 19h: frango, macarrão, linguiça defumada e bolo de rolo! Depois disso alguns instantes de conversa e música e às 21h já estava recolhido. O dia foi pesado! 02 de Julho – 3º DIA (terça-feira) Não consegui uma boa noite de sono. Só com o amanhecer do dia foi possível apreciar a beleza do lugar. O Rio Guariba é afluente do Rio Pati. Estamos exatamente no encontro dos Cânions. Tomamos nosso café e levantamos acabamento. Às 8h30 Deixamos as cargueiras em um ponto e fomos fazer uma breve visita dentro ao Cânion do Guariba. É um cânion estreito e belo. Passamos não mais que 1 hora. E infelizmente não tivemos a sorte de ver nem ouvir nenhum Bugio na local. Voltamos, pegamos as mochilas e fizemos uma subida pela mata. Uma acentuada inclinação nos lançava mata acima. As pernas sofridas pelos 14 km do dia anterior reclamavam a todo instante. A ideia é chegar à casa de seu Eduardo onde vamos dormir. Agora nosso caminho é por uma linda mata. Ela reveste a encosta do cânion dando beleza única a nossa caminhada. Estamos no alto do cânion encoberto onde é possível ouvir o som das águas do Pati. Seguimos firmes e confiantes por 1 hora onde fizemos breve parada para um rápido lanche. A nossa direita estava a majestosamente Serra do Império. Continuamos. Ainda estamos na mata. No quilômetro 3,5 nos desviamos erroneamente numa bifurcação à esquerda que nos levou a um curral, ops! Logo achamos a trilha certa e seguimos. Após 5 km de trilha, às 11h da manhã estávamos diante da primeira residência nesses três dias de trekking: a casa de seu Joia e dona Leu. E pra celebrar aquele encontro nada mais épico do que uma cerveja gelada. Sim, é possível tomar cervejas geladas no Vale do Pati. Comemos pão caseiro feito por Dona Leu e tomamos cerveja. Pagamos 12 reais por uma long neck (eu pagaria ate 50 reais rsrsrs). Passamos alguns minutos naquela casa humilde e acolhedora. Lavamos os rostos, enchemos nossos depósitos de água e seguimos. O terreno de seu Joia tem um visual incrível. Curiosidade daquele lugar são os avistamentos de felinos como as onças que causam receios a nativos e aventureiros que cruzam a região. Graças a Deus não tivemos nenhum susto. Mas há muita gente que já viu, ouviu seus sons ou seus rastros. Percorremos 8.20 e às 12h40 estávamos na residência de Seu Eduardo atualmente sob os cuidados do Domingos, seu neto. A casa fica aos pés do Morro do Sobradinho, a beira da Boca do Cânion Cachoeirão. Ela fica exatos três quilômetros daquela de seu Joia. Compramos refrigerantes e cervejas geladas. Isso e resultado das geladeiras alimentadas a gás butano e da energia solar que abastece a casa. O cansaço dos dois dias nos fez desistir do planejamento inicial que era visitar o Cachoeirão por Baixo. Resolvemos conter o dia conversando, tomando refringentes e cervejas e uns petiscos vendidos naquela casa. A decisão se deu pela perspectiva que tínhamos daquele trekking. Queríamos devolver o prazer da caminhada, buscar prazer efetivo. Na nossa visão acumular a visita ao Cachoeirão fazendo o bate-volta iria nos desgastar e o que precisávamos mesmo era de um tempo pra ficar à toa entre amigos. Acertamos também em comprar a janta ali oferecida e manter o acampamento com as barracas nas dependências da propriedade. Tivemos a oportunidade de conhecer um bom sujeito Catalão: Joan, ele estava de passagem em visita ao amigo Domingos. Ali contou sua vida e sua relação com o Pati. Joan mora no Capão junto com sua esposa, de nacionalidade brasileira. Ele relatou suas experiências com a natureza e de suas habilidades como especialista em agricultura sustentável e de sua colaboração em algumas comunidades na Chapada Diamantina. No meio da tarde fomos tomar banho no rio Cachoeirão, ele passa nos limites da casa. Uma pequena descida te leva às margens, grande poço e corredeiras te convidam a cair na água. Ao fundo temos uma visão incrível das paredes dos morros que formam o vale. A noite chegou e o jantar oferecido foi sensacional: carne de sol, estrogonofe de frango, arroz, feijão, macarrão, farofa de cenouras, abóbora, e suco. Perfeito! Comemos divinamente e continuamos até umas 21h conversando em grupo. A noite estava estrelada. Eu, Wilson e João fizemos uma pequena fogueira próxima à barraca e às 21h30 já estávamos recolhidos. 03 de Julho – 4º DIA (quarta-feira) Às 6h despertamos. Dessa vez procurei me apressar pra não atrasar o grupo. O café da manha foi preparado ali bem próximo às barracas: cuscuz e ovos. 8h15 já estávamos de saída. Tomamos o caminho a esquerda no sentido da casa de Seu Tonho. Atravessamos o leito do rio Pati sobre as pedras para seguir à margem esquerda do rio. Do lado direito margeando todo o leito uma belíssima mata acompanha o curso do rio. Essa caminhada ainda cedo ganhava muita beleza. A quantidade de sons dos pássaros trazia um encantamento fenomenal. O lado esquerdo nos acompanha o Morro Sobradinho, tocado pelos raios do sol. Tudo é maravilhoso! Agora temos forte subida. Logo estamos a 178 metros de altitude em relação à casa de Domingo. O visual belíssimo já nos revela ao longe o Morro do Castelo. 2 horas depois e 5.6 quilômetros fizemos a parada de descanso naquela área conhecida como “prefeitura” que na verdade é um antigo entreposto dos antigos comerciantes e produtores de café do Vale do Pati. A imagem que temos é perfeita, uma pintura que cabe em qualquer quadro.   Nossa próxima parada será na casa de seu Aguinaldo. Deixamos a prefeitura, atravessamos o Rio Lapinha e seguimos a trilha tendo a nossa direita o imponente Morro do Castelo. Seguimos a trilha dentro da mata. No caminho Marquinhos à dianteira nos indica com cuidado a presença de uma cobra Jararaca ali bem no meio da trilha... Imóvel e bem camuflada ela parecia buscar os raios do sol que atravessava os altos dos galhos e folhas daquele lugar. Olhar para o chão sempre, essa e a dica! Um pouco adiante tivemos a oportunidade de cruzar na trilha com Seu Antônio, Seu Tonho. Havíamos passado em frente a sua casinha, logo que saímos da casa de Seu Eduardo, lembra? Seu Tonho surgiu vindo atrás da gente, dentro da mata, na trilha estreita. Montava um burro e puxava outro que levava uma cela de carga (cangalha), seguia vocalizando comandos ao animal. Uma imagem bonita. Retrato de uma historia vida. É um som bonito que ecoava por entre a mata. De perto assistimos como são transportados todos os suprimentos dos nativos dali. O burro é o motor, o transporte. Enfim, depois de três horas de relógio, 8.4 km de distância e 426 metros de ganho de elevação chegamos à casa verde onde mora o casal. Estamos agora no Pati de Cima a 932metros acima do nível do mar. Ali fomos recebidos por dona Patrícia que nos ofereceu seus deliciosos pães caseiros e latinhas de Coca-Cola geladíssimas. Podemos apreciar os sabores ofertados diante de um visual belíssimo: estamos aos pés do Morro do Castelo. Alguns minutos de descanso e seguimos às 13h com nossas mochilas de ataque rumo ao alto. São 400 metros de subidas em meia a mata atlântica preservada, uma trilha íngreme que exige muito mesmo dos joelhos e muita atenção para evitar quedas. Levamos 1h20 minutos para completar os mais de 3 km de trilhas subindo até chegar ate o Morro do Castelo no alto dos seus mais de 1.400 metros. Numa subida tão vertical, não adiantar negar: vai doer. O Morro do Castelo é colossalmente bonito. O fato de existir uma gruta que atravessa todo maciço de quartzito no local faz o morro ganhar ares ainda mais mágicos. É espetacular o conjunto da obra. Adentrar na gruta mexe com a imaginação. Ela possui aproximadamente 800 metros de extensão e para cruza-la se faz necessário o uso de lanternas: a escuridão é total. Não esqueçam as lanternas e muito, muito cuidado ao caminhar, pois há Pedras soltas e pontiagudas por todo percurso. Ao cruzar a extensão da gruta temos do outro lado um visual incrível do Vale do Calixto, ele está no lado oposto ao Vale do Pati. É magico, é incrível! Estamos a mais de 1.400 metros do nível do mar e para onde se olha é um mar de beleza que agrada aos olhos e ouvidos. É o som dos ventos soprando forte que impressiona. Diante de tanta beleza muitos e muitos clicks, mas já é hora de retornar para Casa de Seu Aguinaldo que está 400 metros abaixo. É hora de descer aproveitando a luz do sol. Temos uma trilha dentro da mata e é bom não vacilar. Levamos 1h pra refazer o caminho de volta. Ao chegar corri, junto com o João, para armar nossas barracas na área de frente à residência. Wilson preferiu contratar um pernoite num dos quartos da casa. Nesse momento a temperatura começava baixar um pouco. O sol estava refletindo sem força nas bordas das paredes do Vale. Já estava imaginando a temperatura da água que iriamos tomar banho. Apelei por um aperitivo. Eu e João provamos umas doses de cachaça para ver se a coragem aparecia. Nem sei se isso ajuda. Fomos ao banho: água gelada da mísera! Contratamos o jantar e não nos arrependemos. Dona Patrícia caprichou: carne de sol, macarrão, arroz, salada crua e suco de maracujá. João que não come carne foi contemplado com uma omelete preparada com exclusividade. Todos felizes e de barriga cheia. Ao termino do jantar, enfim seu Aguinaldo apareceu e conversamos bastante. Ele falou de sua vida, da rotina naquele lugar e os desafios de se viver ali. O clima era úmido e a temperatura na casa dos 18 graus. Não tardamos buscar o aconchego de nossas barracas, Wilson se recolheu ao conforto do quarto. É nossa ultima noite dentro do Vale do Pati. 04 de Julho – 5º DIA (quinta-feira) Último dia. Acordei às 6h30. O termômetro marcava 14 graus. O som das águas do Rio Lapinha correndo, dos pássaros cantando e voando pertinho da barraca e a imagem do Morro do Castelo diante de nós marcavam o inicio daquele nosso derradeiro dia no Vale do Pati. Eu já sentia saudades de cada momento. Por outro lado, nosso amigo e guia estava com dores estomacais e apresentava também quadro de diarreia. Ficamos preocupados com a condição física dele. Ninguém merece ficar doente na trilha. Retardamos um pouco a saída. Marquinhos sinalizava que já estava tudo ok, então tínhamos que partir.   Às 9h010 saímos da casa de seu Aguinaldo. Subimos a trilha e seguimos pulando pedras no curso do Rio Lapinha e após caminhar 1.7 km a gente chegava à Cachoeira das Bananeiras. Seguindo o curso daquele rio e 1h 15 depois de nossa partida (2,5 km) estávamos na Cachoeira do Funil que se apresenta belíssima. Cruzamos o leito para pegar a trilha que fica na parte de cima da encosta, próxima a queda d´água. Minutos depois chegamos a Cachoeira da Altina. Ali havia um pequeno grupo de turistas. É uma cachoeira um pouco menor que a do Funil. Deixamos a Cachoeira da Altinha (nome que faz referencia a uma antiga moradora que ali lavava as roupas da família) e tomamos o caminho novamente à esquerda, atravessando o rio e subimos uma trilha íngreme pela mata. Chegamos à igrejinha. Percorremos 4 km contados a partir da casa de Seu Aguinaldo. Ali é a Casa de Seu João. Ela está próxima da Ladeira da Rampa que dá acesso ao Mirante do Pati e os Gerais do Rio Preto. Ali é uma casa que também oferece serviços de recepção aos aventureiros com comida e hospedagem. Lavamos os rostos e tomamos nossas ultimas latinhas de refrigerante dentro do Vale. O sol do meio dia castigava forte. São os testes finais de resistência depois de cinco dias de trekking. Doente, Marquinhos sentia bastante cada passo. Tive pena do nosso Leão da Montanha. Ao meio dia e meio estávamos no Mirante da Rampa. 6 km separam a casa de seu Aguinaldo do Mirante do Pati. E o visual a 1.337 metros é de tirar o fôlego. Ali enxergamos toda extensão do Vale do Pat: é o lugar perfeito para fazer aquelas fotos clássicas. Mas não podemos demorar. Temos horário marcado para nosso resgate lá no Beco, em Guine. O motorista Ari nos aguarda! As 13h10 seguimos nossa jornada pelo magnifica planície que forma as Gerais do Rio Preto. O terreno é um platô de campo rupestre, não há arvores naquele trecho, o lugar é belíssimo. A partir do Mirante, depois de 1,3 km cruzamos o riozinho que dá nome aquele local, o Rio Preto. Seguindo por mais 3.27 km estávamos enfim diante da descida de Aleixo. Eu diria que A Rampa e a Descida do Aleixo são tecnicamente iguais. A diferença e a ordem das coisas. Assim iniciamos nossa descida sob o calor das às 14h em direção ao ponto de encontro. Percorridos mais 2.1 km de trilhas chegamos ao final de um dos trekking mais bonitos desse pais. Foi sensacional! Agora vamos voltar pra Lençóis! Pati_Selvagem_-_Uma_Aventura__-_31_-08.docx
  2. Dez meses se passaram da última vez que trilhamos juntos. Somos cinco: Eu (Djair), Daniel, João, Luciano e Wilson unidos pelo mesmo prazer: a natureza. Nossa missão é ir ao encontro dela com nossas cargueiras nas costas percorrendo trilhas, subindo e descendo os mais variados terrenos na busca de belas paisagens. Nosso gosto é pela imensidão dos grandes vales, pelo frio e silêncio das montanhas, pelo nascer e pôr do sol, o brilho das estrelas, é de se sentir pequeno diante de algo maior. Nosso derradeiro encontro ocorreu na Serra da Mantiqueira, na famosa trilha da Serra Fina, considerado por muitos um dos trekking mais duros, um dos mais difíceis do Brasil. Sei que há controvérsias, mas a verdade é que concluí-la exige muito do corpo e da cabeça; em especial quando a natureza resolve mostrar força mandando a chuva que molha e alaga tudo, e também o frio soprando com toda vontade dos deuses. É pauleira! Decidimos que nossa próxima história deveria ocorrer na Chapada Diamantina. Planejamos tudo com antecedência. Contratamos um guia especializado no roteiro, compramos as passagens aéreas, reservamos a pousada, o resgate etc. Nossa programação incluía 5 dias para essa travessia num circuito de cachoeiras mais “escondidas”, um conjunto que envolve maior esforço e cuidado: FUNDÃO , VINTE E UM, FUMAÇA DE FRENTE, CAPIVARA, FUMAÇA POR BAIXO, CAPIVARI. POÇÃO E MIXILA. A trilha deveria começar na segunda-feira (27) e ser concluída sexta-feira (31) de março de 2017. Mas nem tudo aconteceu exatamente como esperávamos. Na semana do embarque tomamos conhecimento nosso companheiro, o João, não poderia realizar a trilha. Não quis o destino que ele nos acompanhasse. Seguimos sabendo que o time dessa vez estava desfalcado. Ele sofreu um corte no pé dias antes e sem a cicatrização necessária se viu impedido. Contudo, mesmo com o ferimento, ele quis ir a até Lençóis e lá ficar até nossa volta na sexta-feira (31). Fiel escudeiro seu JOÃO! No sábado (25), à noite, eu ainda estava fazendo os ajustes na mochila. Confesso que é sempre um “sofrimento” fazer as escolhas certas do que devo ou não levar. Mais coisas significa mais peso, menos mobilidade, maior desgaste físico. Como estava levando equipamento de filmagem, tive que deixar minha câmera fotográfica de fora, sofri com isso porque sou um apaixonado por fotografia de natureza. Nossa opção de chegar até a cidade de Lençóis foi por via aérea. Todas as quintas e domingos a companhia Azul oferece a opção Recife-Lençóis com escala em Salvador. Às 09h15 do domingo (26) partimos com destino a capital baiana. Lá fizemos conexão em um turboélice para a cidade de Lençóis, que é uma das principais cidades da Chapada Diamantina. O vôo dura apenas 50 minutos e, por volta das 15h, eu, Luciano, João e Wilson já estávamos deixando nossos trecos dentro da Pousada Raio de Sol, que fica bem no centro da bela cidadezinha. Corremos pra almoçar e encontrar com o parceiro Daniel, que já se estava na cidade desde a quinta-feira (23). Paramos no restaurante da Zilda. Entre uma conversa e outra, na hora do rango, Daniel adiantou ter feito umas trilhas na sexta e sábado e que a Chapada estava passando por um período de seca. Todas as cachoeiras estariam praticamente secas. Algumas, totalmente. Ficamos abismados: Chapada sem água? No final da tarde, fomos juntos com o nosso guia Marquinhos Soledade (@expediçao_chapada) fazer uma “feira” coletiva. A idéia era comprar tudo que iríamos consumir nos 5 dias de trilhas e ratear os custos e os pesos nas cargueiras de cada um. Compras feitas, voltamos para a pousada. Utilizando uma balança portátil fizemos a pesagem de cada “kit” de modo que cada um recebesse pesos iguais ou aproximados para levarmos à expedição. Com a idéia de evitar o sol forte, levantamos às 5h30 na segunda-feira. Não pudemos esperar o café da manhã oferecido pela pousada que só sairia às 7h30. Então coube ao parceiro Daniel agilizar nosso rango matinal. Comemos. O guia chegou, o brother João nos levou até o portão, nos saudou e ficou para trás. Às 7h15 saímos pelas ruas de ladeiras do centro de Lençóis com destino ao início da trilha Os primeiros passos são de adaptação, o corpo precisa se acostumar com os 18 kg, 20 kg nas costas. É sempre assim, e como os músculos estão frios, as articulações também, tudo precisa entrar em sincronia. Aliás, é preciso muito considerar a qualidade da mochila que você escolhe para fazer trekking longos. Ela tem que ser confortável, leve e prática. 
PRIMEIRO DIA (27/03) Sair da cidade para pegar a trilha é literalmente um bom treino de aquecimento. Há uma acentuada subida pelo bairro que te faz lembrar que a brincadeira começou. Entramos na trilha. A cidade vai ficando para trás. O cheiro da mata vai tomando conta do ar. Seguimos nos adaptando aquele terreno. Coração e pulmão são exigidos. A mochila vai se encaixando ao corpo e nesse momento cabe fazer os ajustes das fitas e alças. Seguimos firme. Alguns degraus de pedras, árvores verdes, matos. Chegamos ao Mirante de Lençóis uns 30 minutos depois. Pequena parada, algumas fotos. Continuamos e as 9h paramos na Cachoeira do Grisante. O suor já se fazia presente. O calor tomava conta. Sabíamos que não ia ser fácil. Ali paramos e nos refrescamos na pouca água que descia na rocha. Fizemos algumas fotos. Jogamos água sobre nossas cabeças, lavamos braços e sentamos. Acontece que esse momento trouxe um episódio inimaginável para o grupo. Luciano Rocha aproveitando aqueles instantes de descanso e contemplação se aproximou do grupo e falou que não iria continuar a trilha. Todo, sem exceção, considerou que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Mas a repetição da frase nos fez prestar mais atenção – Galera, não irei fazer a trilha! Todos estavam incrédulos. Repetiu: - Não estou na “vibe”, estou com um mau pressentimento… não sinto uma energia boa... Relutamos, argumentamos. Ele continuou firme. Lembrou que quando sente isso não costuma desacreditar nos instintos. Disse que não se sentia bem. Ficamos parados, boquiabertos. Ele abriu a mochila, tirou o “kit” com parte da “feira coletiva” entregou ao grupo. E, como quisesse se livrar de tudo aquilo, se virou, desejou sorte e retornou pela trilha sozinho até perdermos ele de vista. Não foi fácil entender. Agora éramos 3 na missão: Eu, Daniel e Wilson. Seguimos calados, mas esse episódio abriu nossos olhos para algo misterioso que ocorreu nesse trekking. Nossa meta era a Cachoeira do Fundão. Depois de quase 2 horas de caminhada paramos às 10h50 às margens do Rio Ribeirão (Vale do Ribeirão). O volume não era dos grandes. Algumas piscinas. A água gelada nos convidou para um bom banho. Escutamos algumas histórias de Marquinhos. Tomamos conhecimento que há um espanhol desaparecido naquelas trilhas desde dezembro de 2015 e que até hoje ninguém tem notícias, apesar da inúmeras buscas empreendidas por voluntários e Corpo de Bombeiros com utilização de cães farejadores. O que terá ocorrido? Estaria ainda vivo? Será que fora ele arrastado por um tromba d’água? Será que caiu em um abismo? No Vale do Ribeirão fizemos um bom lanche: pão com pasta de atum com cenoura. Recarregamos os reservatórios de água. Energias renovadas continuamos. A entrada no Cânion do Fundão me deixou maravilhado.Repeti inúmeras vezes em alta voz e no pensamento como era bonito tudo aquilo. Muito verde, muitas pedras. Dá pra ver a força das águas nos cortes entalhados naquelas paredes colossais de milhares de anos. É um caminho por entre pedras. Aliás é um desafio porque há sempre o risco de lesão. O esforço e atenção são grandes em especial com o peso que carregamos. O resultado do esforço físico trouxe, minutos depois, câimbras para o companheiro Wilson e assim às 13h25, paramos um pouco pra ele se recuperar. Nossa pausa revelou os mosquitos que atacam sem cerimônia, até mesmo por cima das camisas. Dessa forma até as câimbras do companheiro sumiram. Depois de percorrer um longo caminho dentro do Cânion do Fundão, por entre muitas e muitas pedras alcançamos a Cachoeira do Fundão. Pra ser sincero, não estávamos diante exatamente da cachoeira, mas sim da queda por onde deveria descer a água. Era então apenas um cânion retalhado.. A beleza é indiscutível. Mas não havia o barulho de águas caindo, não havia. Deve ser lindo vê-la transbordar. Agora só restava a imaginação. Diante dela fiquei tenso em saber que o local de acampamento é no topo e que teríamos que escalar. Acredito que deve ter uns 90 metros. Senti muito medo mas seguimos. Eu com maior tensão que os outros. Embora enfrente a altura confesso ser um desafio pessoal. Daniel seguia acompanhando de perto o guia, eu em terceiro recebia suas orientações e ajuda quando "travava". Wilson, logo atrás, registrava tudo com uma GoPro colada ao peito. Adrenalina a mil. As imagens não nos deixam mentir. Foi muito dura aquela escalaminhada. Eu diria que imprudente também. Deveríamos ter tomado o caminho mais seguro e não o mais rápido. Mas deu tudo certo e dentro do programado descansamos no chão as mochilas e montamos as barracas. O local fica uns quatro metros acima do leito do rio numa áreas com vegetação batida. O guia não levou barraca e como bom baiano esticou um rede entre duas árvores. Havia mosquitos. Muitos. Marquinhos tentou afastá-los com uma fumaça produzida com muito cuidado sobre uma pedra e algumas folhas verdes. Deu certo. Montamos as barracas. Marquinhos passou a cozinhar usando 2 fogareiros. Às 17h20, a comida estava pronta. O menu: macarronada e lingüiça defumada. Comemos maravilhosamente. Chega noite e ela se apresenta deslumbrante com o céu repleto de estrelas. Dentro da barraca um calor grande. Deduzi que o guia Marquinhos iria dormir melhor ao ar livre. Aproveitando a beleza da noite, abandonou a ideia da rede e colocou o isolante térmico diretamente no chão perto da fogueira, deitou olhando para o alto e passou a identificar o que via no céu. Daniel fez o mesmo e falava da beleza de tudo aquilo. Eu, dentro da barraca, escrevia esse diário, mas queria mesmo era dormir. Sai em seguida para contemplar aquele momento raro de total escuridão e beleza estrelar. Passei não mais que 10 minutos. Voltei para a barraca, torci para que o cansaço me tomasse e eu apagasse. Mas não foi bem assim. SEGUNDO DIA (28/03) A noite não foi das melhores. Acho dormi no máximo três horas. Acordamos às 5h30, tomamos o café da manhã e logo desmontamos o acampamento para seguir até a Cachoeira Vinte e Um, que fica bem próxima a do Fundão. Belo paredão forma a Cachoeira 21, mas esta também se apresentou sem o esplendor da água caindo. Olhamos para ela e Marquinhos nos apresentou o caminho para chegar ao topo. Seguimos e nos deparamos com uma passagem bem exposta. É preciso cautela. Há uma chance das coisas darem errado e terminar muito mal. A visão do topo que temos do cânion é deslumbrante. Conversamos um pouco lá no alto sentindo toda aquela energia e brincamos com o eco de nossas vozes em meio aos paredões. Deixando a Cachoeira 21 pra trás, tomamos o terreno do Córrego Verde . É um lugar bonito que parece cenário desses filmes de gnomos. Há muitas pedras, muitas árvores atravessadas no caminho, resultado de trombas d'águas e do incêndio que ocorrera meses atrás que fragilizou as árvores das encostas. Às 10h50 paramos para descansar um pouco no final do Córrego Verde. Cabe dizer que transpor todo terreno é muito duro. Agora já está claro que essa trilha exige muito do condicionamento e da atenção. Andar sobre pedras aumenta o risco de dobrar o pé, de ter lesões sérias que podem comprometer a expedição. Interessante é que nesse percurso deveríamos abastecer nossos reservatórios em um local apropriado, com água potável, mas pra nossa surpresa esse ponto estava seco. Tivemos então que racionar água. A essa altura, saindo do córrego verde, nos deparamos com o sol forte e a necessitar ainda mais do precioso líquido que começava a acabar. Seguimos a trilha e depois de longa jornada estávamos diante da imensidão, da grandeza e da beleza do cânion onde fica a Cachoeira da Fumaça. Profundo cânion, majestoso cânion. São 400 metros de abismo. Paramos. Olhamos em direção de onde deveria ser a Cachoeira da Fumaça, com seus 380 metros de queda, mas só havia o paredão. Nada de água. Do Mirante da Fumaça de Frente descobrimos que seca roubou parte beleza da cênica que eu esperava encontrar. Foi frustrante. Pela primeira vez colocamos em pauta a idéia de não descer e fazer a Fumaça por Baixo, haja vista não existir queda d´água. Seria uma esforço sem grande recompensa. Ainda assim contemplamos brevemente tudo aquilo e seguimos para alcançar a Serra do Palmital. A essa hora já estávamos muito desidratados. Passamos um longo período não ingerindo a quantidade de líquido que o corpo perdia durante a caminhada sob o sol. Não podíamos ficar muito tempo ali. Seguimos em frente. O sol de rachar. Calor infernal. Nossa chegada ao Rio Palmital, mais uma vez, evidenciou a grande seca que assola a chapada nesses dias. Mortos de calor e sede, corremos para se refrescar em alguns pontos de água parada. Já passava das 13h quando decidimos ficar uns instantes na área verde e com sombra chamada de “acampamento da Cachoeira do Palmital”. Tudo seco. Nessa altura do campeonato Marquinhos, o guia, confessou que aquele calor o fazia mal. Demos mais um pouco de nossa água a ele. Cheios de determinação seguimos em direção a Cachoeira da Capivara. No caminho, saímos da trilha para abastecer os reservatórios. Marquinhos nos levou até um oásis, que fica à esquerda da trilha. num paredão de onde a água fria e límpida descia encosta abaixo. Com auxílio de uma folha imitando um funil tentávamos facilitar o enchimento das garrafas e camelbak. Depois seguimos e já às 14h estávamos na cachoeira. Com pouca água caindo, tiramos as roupas e fomos tomar banho e fazer fotos. O lugar é deslumbrante. O local onde cai a água forma um lago profundo de água escura. Aliás, sinto falta do movimento das águas. Tomamos muito banho. Estávamos esturricados. A sede parecia não acabar. Marquinhos preparou arroz com lentilha, farofa, e lingüiça defumada. Espetáculo. Enquanto preparava a comida, notamos que uma cobra estava bem próximo. Ela bebia água a uns 3 metros do grupo. Era uma Cobra Cipó, que num silêncio sinuoso partiu pra dentro das rochas e sumiu. Comemos e subimos pelo lado direito com nossas coisas para área onde iríamos montar acampamento para passar a noite. Deixamos as mochilas numa grande pedra que parece uma mesa. E fomos procurar madeira seca no leito do rio pra fazer uma fogueira sobre as pedras para afugentar bichos e mosquitos. O fogo foi aceso e jantamos a sobra do almoço com algumas adaptações feitas por Daniel. Show de bola garooooto!. Eu, Daniel e Wilson resolvemos “copiar” Marquinhos e dormir sob o manto das estrelas. Não iríamos armar nossas barracas. Sobre a grande pedra, lado a lado colocamos nossos isolantes e sacos de dormir. Aproveitamos e numa conversa reiteramos que não era interessante fazer a Fumaça por Baixo, já que ela se apresentava sem água como havíamos testemunhado no mirante de frente. Deitamos. Passei a ficar cismado com a imagem da cobras. Liguei a lanterna. Desliguei. Liguei outra vez, deixei ligada. Via Marquinhos de tempo em tempo levantar para alimentar o fogo. Wilson se revirava. Apaguei depois de nem sei quanto tempo. Contudo, exatamente às 3h da madrugada gotas de chuva tocavam nossos rostos e de sobressalto nos pomos a agilizar a fuga e buscar abrigo no corte dos cânion . Mudamo-nos com tudo e fomos dormir embaixo de uma parede curvada da rocha do cânion. A chuva chegou de vez e não parou até amanhecer. Noite terrível. TERCEIRO DIA (29/03) Às 8h10, o guia Marquinhos ainda preparava o café da manhã. Comemos ali embaixo no paredão, abrigados. Estávamos no topo da Cachoeira da Capivara, que apesar da chuva constante durante a madrugada não teve o volume aumentado de modo considerável. Mastigamos cachorro quente com café e leite em pó e, às 10h, descemos pelo leito do Rio Capivara: pedras, pedras, pedras gigantes, molhadas, escorregadias. Há riscos claros de torção e queda. Natural redobrar as atenções. Seguimos o rio por dentro do cânion até o encontro do Rio Capivari e seu belíssimo cânion. A chuva fina nos acompanhava. Medo de escorregar trás tensão. A caminhada, ora por dentro do leito ora pelas margens onde temos que subir e descer encosta, pular troncos, se agachar, subir outras pedras marginais, afastar galhos, isso tudo consome muita energia e a sede é grande. Depois de longa e exaustiva jornada, passamos pelo Córrego da Muriçoca, onde lavamos o rosto. Todos, apesar da chuva, suavam incessantemente devido ao caminho árduo. Nuvens pesadas, criavam sobre nós um cenário tenebroso e também bonito sobre nossas cabeças. Subimos a interminável Serra do Capivari. Uma subida íngreme com areia preta e vegetação típica. A inclinação é das grandes e seu corpo vai sentir, e pra ser redundante digo que é bem dura em especial devido ao peso das cargueiras. No topo da serra paramos, fizemos outros registros aproveitando as cenas das nuvens pairando sobre o grande cânion, depois seguimos. Tomamos a trilha e decidimos ir direto para Cachoeira do Capivari. Deixamos as cargueiras na parte de cima da cachoeira e descemos sem nada. Só pra tomar um banho e vê-la. Deve ter uns 70 metros o paredão. Apesar do volume da queda acho que até o momento é a que mais me chamou atenção. Belíssima Capivari. Eu e Daniel entramos na água. Wilson ficou filmando. Mergulhei . Tomei um tombo que fez uma ferida na canela. Passamos apenas uns 40 minutos lá e subimos. Agora deveríamos seguir para a Cachoeira do Poção. Não chovia. O tempo permanecia nublado, pesado ameaçando mandar chuva a qualquer momento.. Seguimos o leito do Rio Capivari. Confesso que todo aquele terreno já estava me irritando. Leito de rio, pedras. Pula, sobe, desce. Depois de algumas horas chegamos à Cachoeira do Poção que também se apresentava com pouco tímida queda d água. Pela margem direita alcançamos o topo. Deixamos o material pra fazer o almoço com Marquinhos do lado direito e fomos pra o lado esquerdo onde há um espaço em terra batida bom para acampar. É um lugar seguro. Difícil ser surpreendido por uma tromba d’água . Ali o terreno estava molhado. Tudo molhado. Armamos as barracas e separamos material pra fazer uma fogueira. Era um lugar absolutamente seguro para produzir fogo, em cima de uma Rocha sem contato com a vegetação de modo a evitar um incêndio. Não tivemos êxito. Por mais de 1 hora tentamos. Suamos e desistimos. Descemos pra almoçar. O melhor almoço do mundo. Arroz, farofa e charque com tomate. Minha nossa!!! Comida de verdade. Na trilha também comemos bem. Tomamos banho no rio e já à noite por volta da 20h, descemos pra ficar conversando com o companheiro Marquinhos, que iria bivacar na margem direita do rio que alimenta a Cachoeira do Poção. Saí da barraca com uma lanterna de mão pra emprestar para ele e com a minha de cabeça presa à testa. Daniel e Wilson também foram e lá tomamos um chá de hortelã . Sugeri que apagássemos as luzes pra sentir a noite e ter o som da água que corria. Daniel tava confortavelmente deitado. Eu , Wilson e Marquinhos, sentados. Conversamos sobre várias coisas. Soubemos que ali mesmo onde estávamos quase ocorrera uma tragédia com um grupo de amigos de nosso guia. Contou ele que, certa vez, percebendo o volume da água aumentar pediu para que todos buscassem abrigo, mas alguns duvidaram e foram surpreendidos instantes depois por uma enorme tromba d’água que por pouco não acabou com a vida dos mesmos, mas que resultou em ferimentos sérios em um deles. Bateu sono. Disse que iria me recolher. Wilson falou em me acompanhar. Daniel titubeou , mas decidiu vir conosco. O guia ficou lá e atravessamos o leito em direção às barracas. Cada um entrou na sua e uns 8 minutos depois escutamos um grito, um alerta distante. Era Marquinhos!! Ele gritava: - Tromba d'água (embora o barulho e a distância não nos deixasse saber queo exatamente ele bradava). Abrimos o zíper de nossas barracas , corremos com lanternas pra beira ao mesmo tempo e notamos o que era. O rio estava recebendo uma grande quantidade de água repentinamente. O guia do outro lado da margem iluminava uma rota de fuga pra ele. Do nosso lado, estávamos mais seguro. Ainda não era necessariamente uma tromba d’água, mas seu prenúncio. Era certo que ela estava vindo. Filmamos esperando o momento exato de registrar a água arrastando tudo. O volume agora era outro e constante. Buscamos uma comunicação verbal com o guia, mas o barulho da água impedia total compreensão. Depois de alguns minutos ali vimos Marquinhos se alojar na parte mais alta sob um corte do cânion de modo a evitar ser levado pela água caso, de fato, um enorme volume chegasse de modo rápido. Com todos em segurança voltamos pra tentar dormir. Logo após entrar na barraca, a chuva castigou insistentemente. Apaguei e posso dizer que foi a melhor noite que tive. Feliz com essa proeza. QUARTO DIA (30/03) Despertei às 5h com o barulho da chuva sobre a barraca. O som da chuva faz você ficar preocupado com a resistência do equipamento. Por incrível que pareça nenhuma gota de água adentrava. A essa altura o “piso” da barraca estava inflado pela água que se acumulava no piso. Parecia um colchão de água. Destaco o modelo pela relação custo/benefício (Barraca Nord – 2 lugares) e que por sinal é também a mesma que Daniel usava. Wilson utilizava um diferente e não teve a mesma sorte já que teve o interior invadido pela água da chuva. Às 7h30 da manhã, a chuva ainda persistia. Não tínhamos ideia de como seria nosso dia. Já era chuva demais. Será que iríamos manter o cronograma? O plano era ir até a Cachoeira do Mixila naquele dia. Wilson aproveitava os intervalos da chuva para organizar as coisas. Daniel e eu não saíamos. Parecia que teríamos que rever os planos do dia. O tempo continuou fechado. Cinza. Tomamos café já bem tarde num ponto mais elevado do cânion onde Marquinhos dormiu. Um café da manhã fraco: só pão e queijo. Depois seguimos para desmontar o acampamento que estava emporcalhado, sujo com tanta água que caiu. O tempo era ruim. Parecia que o mundo estava prestes a se acabar em água. Nosso guia e amigo Marquinhos Soledade narrou que havia chances enormes de deparar com tromba d´água. Ir até a Mixila parecia arriscada. Ele, com experiência e segurança, apontava na direção de onde a chuva parecia cair com maior força no horizonte e é lógico que ela deveria chegar no leito dos rios e, certamente, de forma repentina O prelúdio que já havíamos presenciado na noite anterior, era uma evidência dos riscos. Nesse contexto coube um conversa franca. Eu coloquei que pra fazer a Mixila sob riscos era melhor não prosseguir. Daniel e Wilson assinalaram que para eles o prejuízo era menor uma vez que ambos já conheciam a cachoeira, eu não. Mas sem vaidade assinalei que não fazia questão sob aquelas condições. No fundo gostaria de seguir, mas não era mesmo razoável. Dessa forma consideramos que nossa Expedição estava encerrada. Restava o caminhos de volta. Era a despedida de uma aventura programada para ser vivida em cinco dias pelos 5 amigos do grupo, mas que estava sendo concluída apenas por três e com 1 dia a menos. Foi como Deus quis. Interessante é que desistimos de duas cachoeira (Fumaça por Baixo e Mixila) por motivos antagônicos: falta e excesso de água, respectivamente. Já era mais de nove da manhã quando tomamos à trilhas de volta. Deveríamos conseguir uma área com sinal de celular pra ver se o resgate que contratamos para nos apanhar na sexta (31) poderia nos pegar no local marcado só que 1 dias antes. Seguimos a trilha para sair da Cachoeira do Poção. O terreno não é tão duro quanto andar pelos leitos dos rios. Não há pedras pra ficar pulando e há um bom trecho reto com terra batida. A descida complicada ocorre pela Serra do Bode, que o declive cria condições para grandes escorregões e acidentes se não estiver atento. Depois de algumas horas alcançamos área com sinal de celular. Wilson conseguiu fazer contato com Carlos, dono da Toyota, que sinalizou ser possível seguir e nos apanha lá embaixo. Ufa! Boa notícia. Isso nos pouparia de ter que andar 8 km até Lençóis. Aproveitando o sinal de internet, eu e Daniel sacamos nossos smartphones e vimos as mensagens de nossas redes sociais “carregar” velozmente na tela, afinal, foram quatro dias desconectados. Eram mensagens do trabalho e familiares. Eu não recebia tantas, mas Daniel falou rindo ter mais de mil. Não era o momento e nem havia tempo de ler nada. Eram a centenas que Daniel recebeu no whatsapp havia um recado deixado por sua mãe que iria aumentar o aspecto místico dessa trilha. Guardamos os aparelhos. Tínhamos alguns minutos de caminhada ainda até cruzar o sítio de Gyodai e chegar no ponto de encontro com Carlos. Apressadamente continuamos a descida. Finalizada a Serra do Bode, entramos por entre sítios de nativos. Latidos de cães mostravam que estávamos em área privada e dessa forma encontramos com o tal Gyodai na sua propriedade e seus 5 cachorros. No caminho mais fácil e plano Daniel tomou um tombo e quase torceu o pé, mas ele se levantou e seguimos. Chegamos no local de encontro e mal dando tempo de colocar as cargueiras no chão escutamos o barulho do motor do veículo 4x4 que se aproximava. Carlos agora nos levava de volta para Lençóis. Chega de peso, precisamos agora de um banho, um bom almoço caseiro e descansar da longa jornada. O CONTEÚDO DA MENSAGEM Na tarde da sexta-feira (31) estávamos Daniel e eu na casa de Marquinhos quando a mãe de Daniel, do Recife, liga para ele e emocionada diz ter enviado uma mensagem via whatsapp na quarta (29), às 4h49, e que até o momento não parecia visualizada. Pelo telefone, agora, ela pedia pra que ele lesse a mensagem depois, mas adiantou que o seu conteúdo foi redigido após um pesadelo aterrador em que todos éramos varridos por uma “onda branca” e lançados contra grandes pedras. No sonho, seu filho era o primeiro a sofrer naquela tragédia. A conversa toda pôde ser ouvida por mim e pelo guia Marquinhos, já que Daniel, atônito, quis compartilhar tudo pelo viva-voz do aparelho. Todos ficamos abismados e as lágrimas, nenhum dos três, conseguiu evitar. Foi muito tenso ouvir aquilo, coisa de filme. Existe premonição? Daniel pôde, depois, entrar no whatsapp e verificar que a mensagem existia. Ela estava lá: “... CUIDADO DANIEL, VOCÊ ENFRENTA PERIGO, NÃO PROSSIGA… NÃO SEI O QUE É MAS VOCÊS CORREM PERIGO…” (quarta-feira, 29 de Março às 4h49). Agora não restava mais dúvidas que algo místico tinha nos acompanhado durante a trilha. Interessante é que foi exatamente da quarta-feira às 3h da madrugada que tivemos os primeiros sinais de chuva na Chapada Diamantina. Estávamos na Cachoeira da Capivara quando saímos às pressas, fugindo das chuva, indo buscar abrigo sob a parede do cânion. Talvez esse horário tenha sido o mesmo em que a mãe de Daniel tenha despertada apavorada. Tudo que relatei, acho que tá bem claro, indica que a questão meteorológica definiu os rumos de nossa expedição. Afinal, foi o risco de ser surpreendido por uma tromba d'água que motivou nossa desistência da Cachoeira da Mixila. Como se explica isso? E o sentimento de Luciano? Que afirmou pra todos ouvir que não continuaria a trilha, pois estava sentindo uma energia ruim, um “mau pressentimento” que o fez literalmente abandonar o grupo e voltar sozinho? E sem falar no caso de João que com um corte inusitado no pé se viu inacreditavelmente impedido de colocar as botas para fazer a trilha com o grupo? Tudo isso pra cada um de cinco membros faz muito sentido agora. Essa trilha foi diferente. Até breve amigos!!! PS1.: No dia 14 de abril, doze dias depois que saímos da trilha, um guia local encontrou uma mochila impermeável com pertences do espanhol HUGO FERRARA TORMO de 27 anos. Nela além de alguns equipamentos eletrônicos havia um passaporte bem como uma espécie de diário da trilha. A partir dos manuscritos deixados foi possível ter conhecimento que ele sofrera um acidente grave ao cair de uma cachoeira que comprometeu sua capacidade de andar. No dia 11 de maio, de posse dos relatos, bombeiros e guias refizeram os passos do rapaz e num ponto entre Cachoeira da Fumaça e a trilha para a cachoeira 21, se depararam com uma ossada que, ao que tudo indica, seja os restos mortais de Hugo Ferrara Tormo de 27 anos. Exames de DNA devem encerrar as duvidas acerca da identidade daquele material. PS2: ESSA TRILHA NÃO É BRINCADEIRA
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