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Raisa Karigyo

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5 Neutra

Sobre Raisa Karigyo

  • Data de Nascimento 07-04-1988

Bio

  • Ocupação
    Arquiteta

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  1. @Diogenez M Hahahahahaha Dá-lhe perrengue! Eu subi com um coturno simplão, não era impermeável, era só um courinho safado, mas com solado grosso. Aguentou o tranco, só tive umas bolhas nos dois pés.
  2. @Diogenez M Não tem experiência melhor pra crescimento do que perrengue, né? Hahahaha
  3. @Diogenez M Realmente, o estado psicológico de uma pessoa acaba afetando negativamente o grupo. Por isso é bom sempre ter o máximo de informações antes de fazer qualquer tipo de atividade do tipo.
  4. @Mateus Griszewski Obrigada, Mateus! Boa parte dos equipamentos que usei são do meu namorado, hehehe. Devagar a gente vai terminando de comprar tudo.
  5. Trekking no Pico Paraná – 28 e 29 de Dezembro de 2017 "Pode ser difícil admitir que passar o tempo em remotas paisagens preservadas em seu estado natural signifique, o mais das vezes, passar o tempo confinado nas paredes de uma cela de náilon molhado, sem poder sair da barraca." Jon Krakauer, em 1990, Sobre Homens e Montanhas Com a citação do escritor e montanhista Jon Krakauer, inicio o relato da viagem feita em 28 de dezembro de 2017, para o trekking e acampamento no Pico Paraná. A serra Ibitiraquire é o local onde está inserido o P.P. (Pico Paraná), que é a maior montanha da região Sul do Brasil, contabilizando 1.877 metros de altura. A trilha para alcançar o cume demanda entre seis e oito horas em ritmo de caminhada. A ideia aqui era ir de Maringá a Curitiba (427 Km) dividindo o carro em quatro ocupantes: Leila, João Milton, João Paulo (meu namorado) e eu, subir a montanha, pernoitar em acampamento, fazer o ataque ao cume e descer rumo ao litoral. Vale dizer que todos os meus companheiros possuem grande afinidade com atividades físicas ao ar livre e nesse caso eu era a exceção. Quem sou eu? Arquiteta, quase balzaquiana, mais sedentária do que ativa, cuja experiência em aventura se resume, ou no caso resumia, a inúmeros episódios de ‘Man vs. Wild’ e ‘Largados e Pelados’. Para minha preparação, li relatos de outros viajantes e assisti a vídeos de outras pessoas que se aventuraram a subir o P.P., na esperança de antever o tipo de dificuldades que iria encontrar, além de visualizar partes do trajeto e tornar toda a aventura mais palpável. Resolvi correr, mas com a frequência de atleta de final de semana. Fora isso, havia iniciado a leitura de “Sobre Homens e Montanhas”, o que se fez bastante útil, principalmente o capítulo “Sem poder sair da barraca”. Em várias conversas com o João Paulo, fui alertada que além de ter condicionamento físico eu teria que prestar atenção ao estado psicológico, uma vez que uma eventual mudança de humor poderia afetar negativamente o restante do grupo e tornar a jornada - que já é cansativa – uma experiência de exaustão. Entretanto, minha principal preocupação continuou a ser o meu condicionamento físico, pois em minha primeira experiência em montanha, feita um mês antes no Pico Agudo – Sapopema, Paraná, trilha considerada de dificuldade fácil, eu havia sentido um esforço físico significativo. Com essa lembrança em mente e sabendo que enfrentaria uma longa “escalaminhada” (uma mistura de trajetos em terreno plano, mas também subida e descida por meio de pedras e troncos caídos, muitas vezes com auxílio de cordas ou grampos de metal fixados permanentemente em pedras), preparei a mochila e topei a viagem, mais por impulso e desejo de variar os ares do que por consciência. O objetivo principal da trilha no P.P. era servir como treinamento para o longo trekking (longo mesmo, com duração de sete a nove dias) percorrendo o circuito “O” em Torres del Paine, na Patagônia Chilena, do qual os meus companheiros participarão em Março de 2018. Por esse motivo, ficou decidido que faríamos a trilha e acamparíamos no chamado "falso cume" da montanha, pois seria uma ótima oportunidade de testar os equipamentos que eles pretendem levar para o Chile. Não tínhamos muitas opções de datas para a subida da montanha, por isso acompanhamos diariamente a previsão do tempo especificamente no Pico Paraná e na noite anterior à nossa partida, a previsão constava de tempo aberto com pancadas de chuvas de 1 mm durante a tarde do dia 28, o que parecia bastante bom. Partimos de Maringá a bordo de um Fiesta Sedan, após constatar que o porta-malas de um Gol não daria conta de transportar quatro mochilas cargueiras. Chegamos a Curitiba e nosso primeiro destino foi a Decathlon Barigui, aproveitamos para comprar equipamentos que faltavam, não era o meu objetivo, mas foi o conjunto de calça e jaqueta impermeável que me salvou de um grande perrengue! Descansados da viagem, deixamos Curitiba às 6h00 da manhã do dia 28 rumo à Fazenda Pico Paraná (58 Km), paramos pra tomar café em um posto e chegamos um pouco depois das 8h00. Todos que vão subir as montanhas a partir da Fazenda Pico Paraná devem deixar seus dados na sede, incluindo a data de retorno e telefone de emergência, bem como pagar uma taxa para o acesso (R$10,00) que dá direito a estacionar o carro e utilizar o banheiro da sede. Mochilas nas costas! Seguem os itens: Barraca Azteq Nepal; Saco de dormir; Isolante térmico; Quatro litros de água; Alimentos (salame, chocolate, miojo carboidrato em gel); Fogareiro e talheres; Roupas impermeáveis; Toalha; Lanternas de mão e de cabeça; Canivete; Apito; Fleece (precaução para baixas temperaturas); Roupas secas; Kit primeiros socorros; Kit higiene; Travesseiro inflável; Capa de chuva (poncho e capa para a mochila) Estávamos prontos! Em meio a uma garoa fininha e temperatura quente iniciamos a trilha às 8h50. A primeira parte, um trajeto de terra batida e pedras cercado por um tipo de vegetação que lembrava samambaias, durou cerca de uma hora e teve um ganho de altitude significativo, fizemos uma pequena pausa para hidratação e continuamos. Como sabia que a subida inicial era a pior parte, fiquei animada com o que estava por vir! Passamos pela bifurcação das trilhas que seguem para o Pico Paraná, sinalizado por fitas brancas e Caratuva, sinalizado por fitas amarelas, seguimos em direção às fitas brancas! Seguimos nosso destino, a trilha varia entre trechos de mata fechada e caminhos ao ar livre, chão de lama, troncos e galhos retorcidos, pedras grandes e cheias de limo que demandavam o uso das mãos para subir e descer. Permanecemos secos durante umas duas horas de trilha, quando começou a garoar, então colocamos as capas de proteção nas mochilas. Nas primeiras poças de lama, encharquei os dois pés! Caminhamos mais um pouco entre pedras, paramos na bica d’água para abastecer as garrafas, sempre por subidas e descidas. Em uma dessas descidas, escorreguei e caí de lado em uma pedra, o que me rendeu um roxo maior que a palma da minha mão aberta e que até hoje (08/01) permanece na minha perna. Mesmo após a queda eu estava realmente me divertindo e me sentindo muito bem, curtindo a paisagem que é espetacular! Em uma pequena clareira, quando terminávamos uma subida, vimos um montinho gordinho e branquinho. Era um cachorro deitado. Chegamos perto e chamamos o cachorro que parecia não querer sair do lugar. No primeiro momento pensamos que poderia ser de alguém e que essa pessoa havia deixado o cachorro ali para poder fazer o restante da caminhada e encontrar com o bichinho na volta. Voltamos para a trilha e o cachorro levantou, era uma fêmea e parecia bem alimentada. A cadelinha decidiu ir conosco e foi avançando sem a menor dificuldade por entre galhos e pedras, fazendo caminhos alternativos. Em certo ponto, penso que ela se cansou do nosso ritmo devagar e se mandou na nossa frente. Atingimos outra clareira no topo de uma montanha menor e decidimos parar para comer e beber água, eram cerca de 13h00, foi o primeiro momento em que tiramos as mochilas das costas para relaxar um pouco. O tempo continuava ruim, além de garoa havia muita neblina e não conseguimos ter uma visão ao certo do que estava ao nosso redor. Assim que tirei a mochila, resolvi bater o grosso da sujeira que estava em mim após os tombos (que foram uns dois na ida), senti que havia alguma coisa errada com a traseira da minha calça... Um buraco enorme! Para a minha salvação, a calça impermeável, aquela da Decathlon, estava dentro da mochila. Troquei de roupa atrás de uma moitinha e resgatei a dignidade. Alimentados e hidratados voltamos ao caminho, mais mata fechada e a chuva começou a ficar mais forte. Em certo ponto da trilha, chegamos a uma montanha que dá visão ao P.P. e toda a sua imponência. Nesse momento paramos para admirar, apesar de toda a neblina, é uma paisagem de tirar o fôlego! Você se sente muito pequeno diante de uma porção de terra tão desafiadora. Estava tudo certo até aí, sentia cansaço, mas nada que me impedisse de continuar, os chocolates e o gel de carboidrato cumpriam seus papéis. Foi quando o João Paulo apontou para um lado da parede de pedra e observando com calma ele disse: “É por ali que nós vamos ter que subir” e foi aí que comecei a ficar realmente apreensiva. Entramos por mais uma porção de trilha com mata fechada e saímos diante do paredão de escalada. A chuva engrossou e confesso que nesse momento todo o meu bem estar psicológico escorreu parede abaixo. Eu e J.P. estávamos na frente e fomos os primeiros a começar a escalada. O J.P. subiu com facilidade (mesmo com uma mochila de mais de 15 Kg nas costas) e com tranquilidade me chamou pra começar a subida. Coloquei o pé e me apoiei no primeiro grampo, minhas pernas tremiam visivelmente, meu rosto era puro desespero. A Leila que estava logo atrás de mim percebeu que eu não estava bem e avisou todo mundo. Tenho medo de altura, aquele medo que faz a planta do pé doer só de me aproximar de uma varanda no terceiro andar de um edifício. Sentei na pedra mais próxima a pedidos do grupo, nesse momento, um pouco de melodrama: ”Não tem vista que compense isso que a gente está fazendo! O que a gente está fazendo é burrice!”. Então, com toda a paciência do mundo, o J.P. subiu, deixou sua mochila no final da parede de grampos, desceu, colocou minha mochila nas costas e subiu junto comigo, sempre me animando e me dando incentivo! Nessa hora eu não sabia mais o que eu sentia, era uma angústia muito grande misturada com a vergonha de ter tido um surto enquanto meus companheiros pareciam bastante tranquilos. Nem preciso dizer que subi cada um desses grampos pensando realmente que a minha vida dependia apenas das minhas mãos, tremendo da cabeça aos pés e amaldiçoando mentalmente a minha decisão de ter encarado esse trekking. Coloquei o título desse relato com uma frase de In Bloom do Nirvana porque o tempo de fato muda o humor das pessoas, ainda mais em situações de stress. Acredito que se tivéssemos pego um tempo estável, sem chuva, a dificuldade de subir ainda existiria, mas eu talvez não surtasse. Após a subida dos grampos, mais trilha por caminhos de pedra e argila que agora pareciam pequenas cachoeiras. Estávamos em meio a uma chuva torrencial que com certeza passou muito além do 1 mm previsto! Levamos sete horas pra chegar ao chamado “falso cume” e a partir dali fomos procurar um local para montarmos acampamento. Os melhores locais, planos e protegidos estavam ocupados por outras barracas de forma que tivemos que acampar em terreno inclinado. Depois percebemos ter sido uma boa escolha, visto que onde era plano ficou completamente alagado. Encontramos nesse momento, 16h00, dois caras que estavam voltando do cume, eles passaram pelo nosso grupo durante a trilha e chegaram muito tempo antes de nós ao acampamento. Eles acharam um pedaço de lona preta gigante e se ofereceram para estendê-la e nos deixar montar as barracas protegidos da chuva. Acampamos em uma descida, exposta ao vento e a dez passos do limite da montanha. Tudo pronto! Eu e o J.P. em uma barraca e João Milton e Leila ao nosso lado. Apesar de termos abrigo senti que estava apavorada, nunca havia acampado e logo na primeira experiência peguei chuva sem parar... Por dezoito horas seguidas! Eu entendo que para a maioria das pessoas a experiência que estou relatando não é o perrengue todo que eu descrevo, mas venho aqui humildemente explicar que eu sou o tipo de pessoa que raramente sai de sua zona de conforto. Estava tentando colocar a cabeça no lugar, mas a única coisa que conseguia pensar era em como descer a parede de grampos na pedra inclinada com chuva forte. Mesmo que novamente o J.P. descesse com a minha mochila, eu ainda considerava perigoso demais para qualquer pessoa que fosse, encarar esse trecho com o mau tempo. Eu tinha medo por ele, por mim, pelo J.M. e pela Leila. Passaram-se horas, comemos nosso macarrão instantâneo com sopa em pó e salame, tiramos as roupas e os coturnos encharcados de água e lama, abrimos os sacos de dormir e tentamos descansar. Eu deitei, mas demorou muito tempo até que eu conseguisse desligar minha cabeça da preocupação com o retorno. Nesse ponto eu nem pensava em subir até o cume, pensava apenas na sensação maravilhosa que seria estar na base da fazenda. Dia 29 de dezembro, acordamos perto das 8h00, a chuva continuava sem dar trégua, entre gritos de barraca a barraca, estabelecemos um horário para desarmar o acampamento e começar a descida. Abrimos um pouquinho da lona da barraca e quem estava ali? Nossa dog trekkera! Toda molhada de chuva, porém plácida, sentada ao lado da barraca de nossos amigos (descobrimos mais tarde que a cadela vive na fazenda e faz o percurso várias vezes ao dia). Não tentamos subir ao cume, muita chuva, vento e neblina (nenhuma visibilidade do entorno da montanha), somados ao meu maravilhoso estado de espírito, nos levaram a decidir que a melhor coisa a se fazer seria voltar para a base. Os rapazes que nos ajudaram também estavam se preparando para descer, aproveitamos para irmos juntos (fica aqui registrada a minha distração de não ter ao menos perguntado o nome deles, que mancada!). Segui na frente do grupo, pois a minha mochila era a mais leve de todas e fui seguindo os rapazes, o cara de chapéu de duende e seu amigo. Eles me esperaram nas partes de escalada nos grampos para descer com a minha mochila e foram muito pacientes. Fica aqui meu agradecimento pela ajuda muito importante de vocês ao nosso grupo! A descida foi mais tranquila, ainda que com muita chuva, fui me acalmando, mas ainda me sentia responsável pela frustração de todos em não ter subido até o cume. Encontramos um grupo que subiu até o cume em um bate e volta de cinco horas, enfrentando chuva grossa e neblina e mesmo assim encararam até o final! Nessa momento eu senti o ‘L’ de loser se desenhando na minha testa. Levamos cerca de cinco horas para fazer a volta, a lama estava por todos os lados, desistimos de desviar das poças. Cansados e escorregando o trajeto final inteiro, chegamos à base. Lá, sentamos, pedimos três cervejas (mantendo o motorista sóbrio, sempre!) e pastel de carne (R$5,00 a latinha de Budweiser e R$7,00 por pastel, feito na hora por sinal), mochilas para o lado e finalmente a alegria de termos chegado ao fim. Banho tomado, arrumamos nossas mochilas no porta-malas, limpamos o que pudemos da sujeira dos coturnos e seguimos rumo ao litoral para passar o Réveillon. Não chegamos ao cume, mas a sensação de ter encarado esse desafio (ainda que pequeno aos olhos dos mais treinados) foi de orgulho, algo completamente fora da minha rotina, que eu jamais planejaria por conta própria e que deu uma sensação de superação que eu ainda não tinha sentido. Não vou recomendar a qualquer um que encare esse trekking só porque eu saí inteira, seria muita irresponsabilidade. Fui acompanhada de pessoas que sabiam o que estavam fazendo e que se prepararam com antecedência, cuidadosamente e só por esse motivo consegui acompanhar. Em vários relatos, as pessoas começam alertando que: “O Pico Paraná não é passeio!” e essa frase nunca esteve tão certa! Passado o frenesi e esse misto de sensações, agradeço de coração ao João Milton e a Leila por toda a compreensão e paciência e em especial ao J.P. por todo carinho, incentivo e dedicação para me ajudar em todos os momentos! Depois que as dores nas pernas e ombros foram embora, começamos a pensar no retorno, com tempo estável, outra estratégia de ataque à montanha, preparo físico melhorado, fotos do entorno, assinatura no livro e comemoração no cume!
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