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rafael_santiago

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  1. Informações adicionais: . para saber os preços de hospedagem e refeições nos refúgios da DNT consulte os valores atualizados em english.dnt.no/routes-and-cabins. Para se tornar membro da DNT e ter descontos o valor da anuidade é NOK 695 (US$ 84), valor de 2019 para adultos entre 27 e 66 anos. . Odda Camping: NOK 160 (US$ 19,34) para uma barraca com uma pessoa, NOK 200 (US$ 24,17) para uma barraca com duas pessoas. A ducha quente custa NOK 20 (US$ 2,42) a cada 5 minutos (funciona com moeda). . mapa do parque com as trilhas e refúgios: ut.no/kart . a temperatura mínima durante a noite fora da barraca ficou entre 10ºC e 13,9ºC . para planejar qualquer viagem de ônibus, trem ou barco na Noruega: en-tur.no (clique em Meny e selecione English) . ônibus Oslo-Odda: www.nor-way.no/en . ônibus Odda Camping(Toppen)-centro de Odda: www.skyss.no/en . a única cidade desse percurso que tem supermercado é Odda (Rema 1000, Spar e Extra). Os refúgios self service vendem comida pelo dobro ou triplo do preço da cidade. . ônibus Fossli-Bergen: www.skyss.no/en . trens na Noruega: www.vy.no/en . roteiro adaptado a partir das informações do guia Walking in Norway, de Connie Roos, Editora Cicerone Rafael Santiago julho/2019 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  2. Fiorde Simadalsfjorden ao fundo 6º DIA - 28/07/19 - de Fossli/Liseth a Rembesdalsseter Duração: 7h30 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1198m Menor altitude: 843m Resumo: dia difícil, com muitos desníveis. Subi dos 852m aos 1198m para em seguida baixar aos 843m de novo, subir aos 1154m, descer aos 907m e subir aos 1023m Iniciei a caminhada do dia às 9h04, tomei a esquerda na bifurcação com placa de Liseth à direita e continuei subindo. Às 9h21 parei num riacho à esquerda e segui às 9h46. Às 10h13 passei à esquerda de uma casa e subi muito ainda. Parei para descansar por 25 minutos na altitude de 1104m. Às 11h23 alcancei um bonito lago e logo a subida teve fim, aos 1198m de altitude (a maior do dia). Comecei a descer à esquerda de um canal de água e passei por uma placa apontando a montanha Store Ishaug, de 1485m, à esquerda. Às 11h37 avisto o Lago Rembesdalsvatnet, onde está o Refúgio Rembesdalsseter, mas o caminho até ele seria tão difícil que só conseguiria chegar no final do dia. A trilha desce suavemente por lajes e trechos de pedras e às 11h56 parei próximo a um riacho. Às 12h34 já avisto o primeiro obstáculo que tenho pela frente: descer a um platô bem abaixo e depois subir de novo por uma crista para me aproximar do Lago Rembesdalsvatnet. A descida exigiu atenção por ser bastante inclinada e no meio dela encontrei um norueguês que estava subindo desde uma estrada lá no fundo do vale, muito abaixo do platô. Ele estava fazendo uma caminhada de um dia e não tinha nem mochila. Às 13h23 a descida teve fim nas placas apontando Rembesdalsseter à direita e Tveit à esquerda, de onde veio o norueguês. Fui para a direita (leste) e às 13h50 cruzei uma ponte estreita de tábuas sobre o escoadouro de um lago à direita (ali a menor altitude do dia, 843m). Fiz uma pausa para descansar e às 14h17 encarei a subida pela crista, mas parei muitas vezes para admirar e fotografar a beleza impressionante desse lugar. Os paredões a oeste despencam para um vale verdejante com a ponta de um fiorde (Simadalsfjorden) bem distante. Atinjo o topo às 15h13 e tenho visão para o outro lado, um imenso vale a leste. E volto a ter vista para oeste de novo, onde visualizo melhor o fiorde ao fundo. Numa bifurcação fui à direita me afastando da beirada do precipício. Lago Rembesdalsvatnet bem distante ainda Às 15h58 vejo novamente o Lago Rembesdalsvatnet, mas a casa que está ao lado da barragem não é o refúgio ainda. Ele fica no lado oposto do lago. Numa bifurcação lanchei por 37 minutos e desci às 16h50 à esquerda seguindo a placa de Rembesdalsseter (à direita se vai ao Refúgio Kjeldebu). Depois de um pequeno desce-e-sobe pela encosta (onde cruzei um riacho) avistei finalmente o refúgio às 17h25, ainda muito distante, com o enorme lago no meio. Comecei a descer em direção à barragem e era uma piramba difícil, muito íngreme. Encontrei com dois noruegueses subindo e estavam reclamando daquela trilha ruim em lugar de um caminho melhor que há, porém impossibilitado pela queda de uma ponte. Às 17h53 alcancei a barragem e a cruzei. Dali tive uma bonita visão do grande Lago Rembesdalsvatnet com uma geleira no alto da montanha ao fundo. Esse é um braço da imensa Geleira Hardangerjøkulen, a sexta maior da Noruega. Ventava muito. No outro lado tomei um caminho duplo para a esquerda que logo virou um caminho simples e fez algumas curvas. Mais acima tenho visão de frente para a barragem com o lago e a geleira no alto. Às 18h44 cruzei a extremidade de um lago por uma pequena barragem (ruim para quem tem fobia de altura). Às 18h51 cruzei um riacho pelas pedras e às 19h22 fui à direita numa bifurcação com placas em que à esquerda se vai a Hallingskeid (refúgio e estação ferroviária). Às 19h36 cruzo uma porteira (!?) e em seguida uma ponte de tábuas. Às 19h43 vou à direita numa bifurcação com placas em que a esquerda leva a Finse (meu destino no dia seguinte). Às 19h56 chego enfim ao Refúgio Rembesdalsseter, a 965m de altitude. É um refúgio self service guardado. A guarda me recebeu com um certo mau humor e quando falei do problema do pagamento por transferência internacional ela foi um pouco grossa na resposta. Quando eu entrei sem querer no refúgio com as botas ela me mandou tirá-las imediatamente. Não sei como colocam uma pessoa tão estúpida num lugar onde se atende tanta gente todos os dias. E vi ela ser impaciente com os outros também. Como ventava muito na encosta onde estava o refúgio procurei um lugar do outro lado da colina, por onde havia chegado. Acabei montando a barraca numa parte mais baixa, perto de um outro lago, onde ventava menos. À noite começou uma chuva muito forte, com trovões, mas felizmente os raios estavam caindo bem longe dali. Porém esse foi o prenúncio da mudança de tempo que viria no dia seguinte. Altitude de 985m. Lago próximo ao Refúgio Rembesdalsseter 7º DIA - 29/07/19 - de Rembesdalsseter a Finse Duração: 8h (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1508m Menor altitude: 981m Resumo: dia fácil com pouco desnível, apenas uma subida mais forte na primeira hora e uma longa descida no final do dia O dia amanheceu bonito depois da tempestade da noite anterior e felizmente não tive de desmontar a barraca na chuva. Comecei a caminhar às 10h56 voltando à última bifurcação com placas do dia anterior e seguindo para a direita, direção de Finse. Subi por uma trilha íngreme e alcancei um pequeno platô rochoso com lagos. Cruzei um riacho às 12h11, outro daí a 20 minutos e depois deles a vegetação praticamente desapareceu. Às 13h36 tive de cruzar um rio com um certo risco. No primeiro lance havia uma tábua, mas no segundo o salto tinha que ser certeiro, sem escorregar para não cair na correnteza. Na sequência havia uma grande ponte pois era um escoadouro bem largo de um lago à direita. Continuo caminhando passando por diversos lagos, alguns muito bonitos, de cor esverdeada. Num deles despenca uma bonita cachoeira que vem diretamente da geleira acima. Às 15h28 avisto um outro ângulo da enorme Geleira Hardangerjøkulen. O céu começa a acumular nuvens bem carregadas. A visão da geleira é magnífica, aquela vastidão de gelo se desprendendo em blocos e despencando num grande lago. Porém admirei essa beleza toda já embaixo de chuva, junto com o vento frio que vinha da geleira. Choveu mais de uma hora. Às 16h51 começam a aparecer as manchas de neve para atravessar, das mais curtas de cerca de 30m à mais extensa, por volta de 100m. Às 17h43 cruzo um riacho pelas pedras, mas às 18h03 tive de tirar as botas e pegar duas varas deixadas ali para atravessar um rio mais largo. Em seguida já tenho visão mais ampla e consigo enxergar a estrada de ferro Oslo-Bergen, da qual Finse é uma estação. Mas ainda tinha mais neve para cruzar, a última desse trekking, e era inclinada, então desci quase esquiando (sem esquis!). A descida continua na pura pedra, bem cansativa. Às 18h28 já visualizo o enorme Lago Finsevatnet com casas espalhadas entre ele e a linha férrea. Lago a caminho de Finse Cruzei uma ponte suspensa às 19h10 e outra 9 minutos depois. Uns 5 minutos depois cruzo um riacho largo pelas pedras. Às 19h36 passo ao lado das primeiras casas, por isso já havia visto gente acampada antes, para manter a exigida distância das casas (mínimo de 150m, mas quanto mais fora da visão melhor). Subi até a linha do trem e a cruzei às 19h54. Subi mais 20m e tomei a estradinha de cascalho para a direita. Às 20h08 parei por 8 minutos no túnel sob a linha férrea para me abrigar da chuva fraca. Às 20h34 cruzei uma porteira de ferro, uma ponte e cheguei a Finse às 20h43. Finse é a estação mais alta da estrada de ferro Oslo-Bergen, com altitude de 1228m. Com a mudança de tempo e chegada da chuva, eu precisava verificar a previsão para os próximos três dias de caminhada no Parque Nacional Hallingskarvet e Cânion Aurlandsdalen. Aproveitei o wifi aberto do Hotel Finse 1222 e consultei o yr.no. Esse hotel fica exatamente ao lado da estação de trem, onde também havia wifi aberto. Não era nada animadora a previsão. Além disso eu precisava comprar mais comida e Finse não tem nenhum mercadinho sequer. Mas, mesmo postergando a caminhada, tinha de achar um lugar para acampar essa noite. Fui até o Refúgio Finsehytta da DNT, que parece mais um hotel, porém no acesso a ele uma plaquinha já alerta para a proibição de acampar em Finse, sendo permitido apenas na margem sul do Lago Finsevatnet (cerca de 1km dali) ou no caminho para Geiteryggen. O uso do banheiro no refúgio é gratuito (banho é pago). Resolvi acampar no caminho para Geiteryggen, que seria o início do trekking do dia seguinte. Voltei à estação do trem, cruzei a estrada de ferro às 21h53 e segui a placa de Geiteryggen após o portão de madeira. Subi pela rua principal de cascalho e segui a sinalização do T vermelho entrando numa trilha à direita, cerca de 300m depois da linha férrea. Subi até me distanciar de todas as casas, praticamente no final da ladeira, onde encontrei um lugar plano para a barraca. Água fui buscar num riacho 370m à frente. Altitude de 1338m. O dia seguinte (30/07) amanheceu apenas cinzento e até pensei que daria para continuar se tivesse comida para mais três dias, mas logo veio uma forte neblina que não permitia enxergar mais que 30m. Desci de volta à estação e peguei o próximo trem para a cidade de Geilo, onde me hospedei no hostel HI à espera de tempo melhor para continuar a caminhada no Parque Nacional Hallingskarvet e Cânion Aurlandsdalen, que descreverei em outro relato.
  3. Mancha de neve que cruzei 4º DIA - 26/07/19 - de algum lugar entre Tyssevassbu e Torehytten ao vale do Rio Veig Duração: 8h15 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1473m Menor altitude: 995m Resumo: dia fácil pois, após uma subida inicial, o restante do dia foi quase todo de descida (com uma subida bem no final para o local de acampamento). A caminhada se tornou bem mais agradável e rápida pois em lugar dos campos de pedra agora há uma trilha bem marcada no capim. Deixei o local de acampamento às 9h56 já tendo de cruzar uma mancha de neve de mais de 40m. Subi no sentido nordeste. Cruzei um riacho às 10h29 e 10 minutos depois foi a vez de encarar a travessia de dois rios consecutivos. No primeiro foi possível atravessar pelas pedras mas no segundo tive de tirar as botas (água na altura da canela). Volto a subir. No alto parei por 34 minutos para conferir os caminhos no gps. Atinjo o ponto máximo do dia (1473m) às 12h31 e 4 minutos depois avisto ainda bem longe o Refúgio Torehytten à beira de um lago. Às 12h57 surge à direita o imponente pico Hårteigen, que eu avistara na tarde do dia anterior. Em 3 minutos encontro uma cachoeira que deságua num lago abaixo à esquerda. Desvio da mancha de neve acima do lago e tento continuar por uma trilha na encosta, mas ela vai sumindo e eu resolvo voltar à cachoeira e descer pela piramba de pedras soltas para tomar a trilha que segue abaixo, ao lado do lago. Às 13h22 cruzo um riacho pelas pedras com a espetacular vista do Pico Hårteigen refletido em suas águas. Uns 9 minutos depois atravesso uma mancha de neve de uns 30m com a dificuldade de ser inclinada para baixo, com maior risco de escorregar. Às 13h43 alcanço uma bifurcação e sigo para a esquerda após pegar água no riacho ao lado. À direita se vai ao Pico Hårteigen (e depois ao Refúgio Litlos), mas não planejei subi-lo durante essa travessia, quem sabe na próxima vez. Quando pensei que já estava chegando ao Refúgio Torehytten ainda tive de fazer um desvio à direita para contornar um canal que saía do lago. Desci ao canal, cruzei pelos blocos de pedra e subi a trilha íngreme do outro lado. Cheguei finalmente ao refúgio às 14h23. Fui recebido pela guarda e seu ajudante, ambos muito simpáticos, que me informaram que em Fossli/Liseth, vilarejo que é meu destino no dia seguinte, não havia lugar para comprar comida. Isso me obrigava a comprar comida-reserva ali mesmo e a guarda permitiu que eu pagasse em dinheiro (ao contrário da mal humorada do Refúgio Tyssevassbu). Anotamos tudo no formulário da DNT. Nesse local havia um trilheiro com queimaduras de sol pelo corpo todo, parece que eles não têm noção de como o sol pode ser perigoso. Nem boné eles usam. Esse refúgio é grande, ocupa duas casas, e tem uma despensa muito variada. Paisagens grandiosas A partir do Refúgio Torehytten há dois caminhos importantes: a noroeste se vai a Kinsarvik, voltando à rodovia 13 que passa em Odda, e a nordeste se vai a Fossli/Liseth e à rodovia 7. Como eu ia para Fossli e depois continuar para o norte tomei a direção nordeste, subindo, às 15h18. Às 15h56 avisto um grande lago azulado e passo a caminhar pelo alto de sua encosta oeste. Após o lago, o rio que se origina dele faz algumas curvas e desaparece num cânion. Mais abaixo ele despenca numa grande cachoeira ocultada pelos paredões e depois se espalha por um extenso e verdejante vale cortado pela trilha. Todo esse conjunto de paisagem chama muito a atenção pela beleza e grandiosidade. Considero que foi um lugares mais bonitos de todo esse trekking. A trilha segue pelo campo bem verdinho e me aproximo da margem esquerda do rio. Às 17h43 a sinalização continua na outra margem e sou obrigado a tirar as botas novamente para atravessar (água abaixo das canelas). Às 18h14 sigo a placa de Hadlaskard (refúgio), indo para a frente (esquerda) pois à direita se vai também ao Refúgio Litlos. Me aproximo de algumas casas isoladas, mas nenhuma é refúgio da DNT. Cruzo o rio raso pelas pedras bem em frente às casas e desperto a atenção de um cachorro, que começa a latir. Continuo caminhando pelos campos de vegetação baixa e às 19h36 cruzo um riacho pelas pedras. Às 20h06 aparece um rio à direita (Rio Veig) e começam a aparecer árvores também, algo que eu não via desde o início do segundo dia. Logo surge o Refúgio Hadlaskard na outra margem do Rio Veig. Às 20h22 vou à direita na bifurcação em que a esquerda leva ao Refúgio Stavali. Cruzo a ponte sobre o largo rio e entro no refúgio para conhecer. Ali também foi possível comprar comida sem burocracia. Coloquei o dinheiro num envelope e depositei numa caixa metálica de acordo com as instruções da guarda do refúgio, que não conferiu nada. Mas não acampei ali, achei que tinha gente demais e eu queria sossego. Também queria adiantar o percurso a Fossli/Liseth e tinha bastante tempo para isso nesse dia. Deixei o Refúgio Hadlaskard às 20h45 e tomei um caminho largo diretamente para o norte, seguindo o Rio Veig pela margem direita. Às 21h10 cruzei uma ponte de tábuas (peguei água para a noite) e em 5 minutos atravessei um conjunto de casas de pedra com vegetação no telhado (devem ser casas de pastores). Dali em diante a trilha subiu bastante e retomou a direção norte. A visão para o vale do Rio Veig se alarga. Às 21h58 parei numa clareira que surgiu à direita e montei a barraca com vista para o Pico Hårteigen (3,5km após o Refúgio Hadlaskard). Altitude de 1153m. Cachoeira Vøringsfossen 5º DIA - 27/07/19 - do vale do Rio Veig a Fossli/Liseth Duração: 8h25 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1188m Menor altitude: 670m na rodovia 7 em Fossli/Liseth Resumo: nesse dia desci ao Refúgio Hedlo e logo subi ao ponto mais alto do dia. Em seguida desci ao vale onde fica Hjølmo e subi a colina seguinte para descer ao ponto mais baixo do dia em Fossli/Liseth. Deixei o acampamento às 9h49 e continuei no caminho para o norte, inicialmente por extensas lajes de pedra, depois voltando a caminhar pelo campo bem verde. Às 10h19, numa bifurcação, a placa aponta para o Refúgio Dyranut à direita, mas sigo para o Refúgio Hedlo, em frente. Cruzei duas pontes consecutivas e em seguida passei por casas de pedra vazias. Me aproximo novamente do Rio Veig e ele forma um bonito lago com a água escorrendo sobre lajes. Continuo seguindo o rio e às 11h18 avisto o Refúgio Hedlo às suas margens. Numa bifurcação perto do rio uma placa aponta para o Refúgio Stavali à esquerda. Cheguei ao Refúgio Hedlo às 11h35 e ele é particular (não é da DNT) e staffed (com funcionário). É uma casa grande de dois andares ao lado de altas árvores. Numa demonstração da confiança que existe entre as pessoas na Noruega havia na sala uma mesa com guloseimas e refrigerantes e ao lado uma tigelinha onde se deixa o pagamento do que for consumido. Vi um grupo de noruegueses cinquentões (como eu) parar ali para descansar e, aproveitando a habitual simpatia norueguesa, fui conversar com eles e perguntar se eles sabiam de lugar para comprar comida na vila de Fossli. Também não conheciam. Eles estavam fazendo um circuito de trilhas a partir do Refúgio Vivelid. Deixei o Refúgio Hedlo às 12h41 continuando o caminho para o norte, seguindo as placas de Liseth (vila), Hjølmo (estacionamento) e Vivelid (refúgio). A trilha atravessa um pequeno bosque e tem muitas pedras. Às 13h16 avistei mais casas num vale mas a trilha não se aproxima delas, em vez disso as contorna pela esquerda e depois sobe a colina ao fundo, onde despenca uma bonita cachoeira. Nesse contorno pela esquerda cruzo uma ponte de tábuas às 13h40 e na bifurcação vou à direita (à esquerda se vai ao Refúgio Vivelid). Em seguida subo a colina e a visão do vale para trás vai ficando cada vez mais bonita. No alto (desnível de 169m) vou à direita na bifurcação às 14h20 seguindo a placa de Liseth (à esquerda se desce a Hjølmo). Uns 100m depois da placa parei por 18 minutos e escutei sinos de ovelhas por perto, portanto cuidado com a água! Subo mais e encontro sobre uma pedra um crânio de rena com uma grande galhada. Infelizmente essa foi a única rena que eu vi em todo esse trekking. Não há nenhuma sinalização indicando, mas consultando os mapas eu vi que estava saindo dos limites do Parque Nacional Hardangervidda. Rio Veig e Refúgio Hedlo Atinjo o ponto mais alto do dia (1188m) às 15h03 e para trás (sul) ainda vejo o Pico Hårteigen no horizonte. À esquerda (norte) enxergo bem longe também a ponta de um lago (Eidfjordvatnet) e de um fiorde (Eidfjorden). Começo a descer desse platô às 15h14 em direção a um vale (com algumas casas) e avisto montanhas nevadas ao fundo e Hjølmo à esquerda. Quase no final da descida passo por uma fonte de água e depois cruzo um riacho pelas pedras. Às 16h13 vou em frente na bifurcação com placa apontando Vivelid à esquerda e cruzo o rio principal do vale por uma ponte. Do outro lado não há placa e a trilha não é tão marcada, mas fui para a direita (leste), passei próximo das casas e a trilha vai fazendo uma curva para nordeste, subindo bastante pela encosta da margem direita verdadeira de um rio. Às 18h46 avisto a vila de Fossli/Liseth e pego uma trilha à esquerda bem marcada e até com estacas, mas não foi um bom caminho. Quando percebi que estava fora do trajeto gravado no gps já tinha descido bastante e achei que os dois fossem convergir, mas não aconteceu. Esse caminho tinha solo fofo (turfeira?) e foi ficando ruim de andar, mas continuei nele para ver onde ia parar. Desci bastante. Nas bifurcações que apareceram fui à esquerda (19h33), direita (180m depois) seguindo a placa Vøringsfossen e direita (15m depois). Me aproximei das primeiras casas e às 19h46 cheguei a uma estrada de cascalho, onde desci para a direita. Às 19h57 alcancei o asfalto da rodovia 7, chegando enfim a Fossli/Liseth. Fui para a direita por 800m, entrando na estrada de asfalto à esquerda. Subi e tomei a esquerda na bifurcação, chegando ao Fossli Hotel às 20h34. À esquerda (norte) do hotel começa uma trilha secundária para o Refúgio Rembesdalsseter, meu destino no dia seguinte. Mas antes de entrar na trilha fui visitar a maior atração do lugar, a linda cachoeira Vøringsfossen, que despenca 182m do platô Hardangervidda para dentro do Cânion Måbødalen, que corre em direção ao Eidfjorden (passando pelo Lago Eidfjordvatnet). O lugar é bem turístico, com passarelas e mirantes. Fica bem em frente ao hotel e o acesso é gratuito. No hotel fui informado de que os mercados mais próximos são: Coop em Eidfjord (18km a oeste pela rodovia 7) e no Garen Camping (2km a leste também pela rodovia 7). Como não quis fazer nenhum desvio da rota, teria que comprar comida no próximo refúgio. Entrei na trilha às 21h03 e subi. Coletei água num riacho onde havia mangueira de captação e subi mais. Procurei um lugar plano para montar a barraca e encontrei um bom local uns 160m antes de uma bifurcação que vem diretamente da Hospedaria Liseth. Essa é a trilha oficial da DNT, a que eu fiz nem sinalização tem. Altitude de 852m.
  4. Lago Mosdalsvatnet 1º DIA - 23/07/19 - de Odda ao Refúgio Mosdalsbu Duração: 6h20 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1445m Menor altitude: 0m em Odda Resumo: esse foi o dia de maior desnível (subida) já que saí da margem do fiorde (0m) e alcancei o platô Hardangervidda, que tem altitudes por volta de 1200m a 1500m. Nesse dia já percebi a dificuldade do terreno, muito pedregoso. No dia 20/07 viajei de Oslo a Odda. Tomei às 9h40 na rodoviária Bussterminal de Oslo o ônibus da empresa Nor-Way. Saltei dele 1,8km antes do centro de Odda, às 16h45, para ir ao Odda Camping, único camping da cidade. Cheguei com chuva e choveu nos dois dias seguintes. A promessa de tempo melhor, apontada pelo site yr.no, me fez esperar todo esse tempo para começar a travessia. No dia 23/07 saí do camping e me dirigi ao centro de Odda. Pretendia descer a pé até o centro mas o ônibus estava parado no ponto e o motorista gentilmente abriu a porta ao me ver, então não resisti (a mochila estava pesada por causa da comida para muitos dias). Passei ainda no supermercado e dei início à caminhada às 12h43 no posto de informação turística da cidade. Altitude de 0m já que estava de frente para o fiorde. Dali caminhei para leste, cruzei a ponte sobre o Rio Opo, passei pelo posto Esso e continuei pela estrada à esquerda. Uns 360m depois da ponte, onde há um ponto de ônibus, entrei na rua à direita, que bifurca. Fui para a esquerda seguindo a placa de Freimsvegen. Não entro na primeira rua à direita, continuo subindo e faço o zigue-zague mais longo. Após três curvas a rua toma o rumo sudeste. Nessa subida observo os curiosos telhados de pedra das casas e os quintais com pés de maçã e cereja. Na trifurcação no alto vou à esquerda. Às 13h15 chego a um estacionamento com cerca de 10 carros e descubro que há um ônibus que chega até ali (linha 994 Ragde-Freim). Altitude de 92m. Dali em diante o caminho é uma estradinha estreita de terra, há mais um estacionamento, a estradinha vira trilha e às 13h25 alcanço uma bifurcação num local chamado Freim. Há um painel informativo com mapa topográfico e as trilhas desenhadas. Ali encontro o primeiro T vermelho pintado numa pedra, sinalização usada pela DNT e que seguirei durante todas as caminhadas na Noruega. Subo à esquerda e a vista para Odda e o fiorde Sørfjorden vai se ampliando. Às 13h52 uma seta vermelha indica um desvio do caminho para a esquerda. Às 14h05, na altitude de 299m, entro na mata de pinheiros e encontro uma casal lanchando. Ele eram dinamarqueses e estavam terminando uma travessia ainda mais longa que a minha. Contaram que pegaram tempo muito ruim no alto da serra nos últimos dois dias. Geleira Folgefonna ao fundo Aos poucos a floresta de pinheiros vai dando lugar à mata nativa, mas às 15h41, na altitude de 882m, saio do limite das árvores. Na bifurcação vou à esquerda seguindo a placa de Møyfallsnuten. Uns 80m depois há uma trilha discreta subindo à esquerda com placa de Møyfallsnuten de novo e é para lá que devo seguir, mas antes paro no riacho próximo (primeira água do dia), onde outros trilheiros descansam e fazem um lanche. Esse local se chama Freimsstølen e há algumas casas vazias. Altitude de 916m. Retomo a caminhada às 16h33 subindo para nordeste por campo aberto e com visão do Pico Rossnos à direita e da Geleira Folgefonna (a terceira maior da Noruega) à esquerda, entre nuvens. Às 17h03 cruzo um riacho pelas pedras. Surgem ovelhas pastando, então é melhor tomar cuidado com a água (tive algumas emergências intestinais nessa caminhada, talvez por isso). Na altitude de 1394m, às 18h24, já estou caminhando num terreno só de pedras e desvio de uma grande mancha de neve e depois de um lago. A neblina já engoliu toda a paisagem, não enxergo mais que 100m. Às 19h03 atingi o ponto máximo do dia, aos 1445m, e estava a poucos metros do Pico Møyfallsnuten, de 1466m, mas não vi seu enorme totem. À medida que a neblina vai se tornando mais densa surgem pequenas geleiras que, apesar de próximas, eu mal consigo enxergar, tudo cinzento (das pedras e da neblina) e branco (da neve). É uma paisagem fantasmagórica. Tive de cruzar uma das manchas de neve mas ela era fofa e não escorreguei. A bota impermeável é necessária para não molhar os pés nessas situações. Cruzei alguns riachos que brotavam das pequenas geleiras ao redor. Às 20h05 cheguei à beirada desse platô e consegui visualizar a paisagem abaixo. A neblina foi se dissipando e pude ver quão bonita era a paisagem para noroeste, com o profundo fiorde Sørfjorden e a grande geleira além. Imensas cachoeiras despencam dos paredões. Na direção que eu deveria caminhar (nordeste) também havia um vale profundo que era do Lago Ringedalsvatnet, no qual está o superfotografado Trolltunga. A descida por caminho só de pedras teve a sua dificuldade também. Mas felizmente abaixo encontrei uma trilha bem definida e sem pedras. Às 20h52 avistei um lago, mas ainda não era o local do meu acampamento. Às 21h05 encontro a primeira placa apontando o Refúgio Mosdalsbu. Uns 3 minutos depois já avisto bem abaixo o enorme lago encaixado entre as montanhas com o refúgio na outra margem. É o Lago Mosdalsvatnet. Desço até ele e o contorno pela esquerda. Chego ao refúgio da DNT às 21h40. Altitude de 1011m. Esse refúgio me surpreendeu por ser não-guardado, ou seja, não tem guarda cuidando. E tinha muita comida disponível. Tudo funciona na base da confiança e honestidade. Você preenche o formulário calculando todas as despesas de comida utilizada e hospedagem e deixa na caixa metálica para receber a conta depois por e-mail. O telhado do refúgio é coberto de vegetação, como é comum na Noruega, para manter o isolamento térmico e a estabilidade da casa. Eu acampei perto do lago e havia mais três barracas nas partes mais altas. Nesses dias o sol estava se pondo por volta de 22h, mas às 23h ainda estava bem claro. A noite chega bem lentamente. Trolltunga 2º DIA - 24/07/19 - do Refúgio Mosdalsbu a Trolltunga Duração: 9h20 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1355m Menor altitude: 1011m no Refúgio Mosdalsbu Resumo: nesse dia subi dos 1011m aos 1355m e daí foi uma sucessão de sobe-e-desce por um terreno repleto de pedras bem ruim de caminhar Finalmente amanheceu um dia lindo de sol e céu azul depois de muitos dias cinzentos e de chuva. Assim o Lago Mosdalsvatnet se mostrou muito mais bonito, pena que as torres de alta tensão estraguem um pouco a paisagem. Deixei o local de acampamento às 9h51 na direção leste e cruzei uma ponte suspensa sobre o escoadouro do lago. Na subida seguinte pude avistar a oeste o topo nevado das montanhas num cenário bem mais bonito do que no dia anterior, sem nuvens. As poucas árvores vão ficando para trás, restritas ao entorno do lago. Às 10h43 cruzei um riacho pelas pedras e subi mais. Lá do alto às 11h24 tenho a última visão para trás do Refúgio Mosdalsbu. Às 11h39 fui à direita numa bifurcação com placa que apontava a montanha Einseten à esquerda. O caminho, que já vinha se tornando mais pedregoso, agora é um verdadeiro campo de pedras, lugar bem ruim de andar. Subi mais por entre diversos lagos e às 12h24 atinjo o topo (1346m), podendo vislumbrar o outro lado, o que não anima muito pois, apesar de muito bonito, é um mar de pedras, uma pedreira só. Sigo descendo por esse terreno difícil sempre seguindo o T vermelho pintado nas pedras. Às 13h08 avisto à esquerda (norte) os paredões do Lago Ringedalsvatnet. Às 13h31 cruzo um riacho pelas pedras e paro para conversar com um casal norueguês fazendo o trajeto ao contrário. Continuando, passo por lindos lagos azuis, sorte que o dia está ensolarado para ver toda essa beleza. Descendo ainda pelas lajes e pedras, às 15h15 surge um grande desmoronamento e a descida está sinalizada por ali mesmo. Tive de descer com cuidado saltando de bloco em bloco. Abaixo, continuando por uma trilha mais plana, surge um imenso lago à direita, o Langavatnet. Numa bifurcação o caminho segue para a esquerda, mas vou à direita para me aproximar de um abrigo de emergência, uma casinha minúscula de pedras com cama, mesa e lareira. Telhado coberto de vegetação. Dali a vista para o lago bem abaixo é privilegiada porém o vento estava quase me derrubando lá de cima. Lagos de montanha e muitas pedras pelo caminho Voltando à bifurcação, tomo a trilha da esquerda às 15h36 e logo avisto uma grande barragem e algumas casas do outro lado do lago. A descida até ela foi um pouco complicada, por uma parede quase vertical. Às 15h57 já estava cruzando a barragem por uma passarela. Me aproximo de uma das casas e vejo que há um T vermelho na parede: é um refúgio da DNT chamado Langavassbu. E é não-guardado também! Tinha uma quantidade maior de comida que o anterior e ninguém tomando conta. A regra é a mesma: pegou ou usou, pagou. É bem parecido com o Refúgio Mosdalsbu por dentro, porém mais espaçoso. O banheiro tinha papel higiênico. Há água corrente bem próximo. Deixei o refúgio às 16h44. Às 17h05 começo a avistar o magnífico Lago Ringedalsvatnet. E logo avisto também, no meio das grandes lajes e morros de pedra, uma outra barragem. A trilha aponta para lá. Às 17h37 me aproximei da barragem e vi por uma placa com mapinha que deveria desviar dela, não era permitido caminhar pela passarela como na anterior. Tive de descer por uma ladeira de pedra meio complicada a poucos metros do paredão da barragem, caminhar alguns metros por um canal e subir de novo pela encosta do outro lado. Parei para descansar nas lajes de pedra por 13 minutos. Depois subi mais por uma trilha não muito bem sinalizada, passei pelos postes de energia, desci um pouco, subi de novo e passei a caminhar por um platô onde o avanço ficou muito mais fácil e rápido por não haver tantas pedras. Às 19h41 tive de cruzar duas línguas de neve mas nada complicado. Como estou contornando o enorme Lago Ringedalsvatnet avisto à esquerda (sul) o Lago Langavatnet, o da primeira barragem. Às 21h05 segui a placa de Preikestolen à esquerda e me surpreendi com uma visão estonteante do Lago Ringedalsvatnet bem abaixo, espremido entre os paredões colossais, lindo como um fiorde. Em sua extremidade oriental despenca a imensa cachoeira Ringedalsfossen. Um cenário inacreditável! Voltei à trilha principal e dessa vez fui à direita (norte) na bifurcação para encontrar às 21h40 o Refúgio Reinaskorsbu, infelizmente em más condições, depredado e pichado, com parte do assoalho arrancado. O banheiro não tinha mais porta. Uma cena muito rara na Noruega (felizmente não vi mais nenhum refúgio nesse estado). O famoso e badalado Trolltunga estava a apenas 370m dali mas não fui até lá. Estava bem cansado e deixei essa visita para a manhã do dia seguinte. Por causa desse grande atrativo, que as pessoas adoram postar em Facebooks, Instagrams e outras redes, o local estava repleto de gente acampada. Contei cerca de 35 barracas mas devia haver mais escondidas entre as lajes de pedra. Montei a minha abrigada um pouco do vento e assisti a um belo pôr-do-sol às 21h45. Há pelo menos duas fontes de água corrente por perto. Altitude de 1191m. Lago Ringedalsvatnet 3º DIA - 25/07/19 - de Trolltunga a algum lugar entre Tyssevassbu e Torehytten Duração: 7h20 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1431m Menor altitude: 1174m Resumo: nesse dia não houve grandes desníveis, porém a dificuldade veio das travessias na neve e por caminhar a maior parte do dia ainda por pedras Tratei de ir logo cedo ver o Trolltunga pois sabia que as multidões iam começar a chegar. A maioria das pessoas faz um bate-e-volta de um dia até esse atrativo vindo por um caminho bem mais curto e com desnível menor do que o que enfrentei (por volta de 800m). Caminham cerca de 14km a partir da vila de Skjeggedal, onde chega um ônibus que sai de Odda (e do Odda Camping). Depois das fotos voltei ao mirante Preikestolen para fotografar o lugar com a luz da manhã. Desmontei acampamento e quando voltei ao Trolltunga, às 11h16, a fila para tirar fotos já era bem grande. Deixei esse frenesi para trás e às 12h05 segui a placa de Tyssevassbu (refúgio), indo para leste. Com 17 minutos cruzei um riacho pelas pedras e 8 minutos depois um canal de água. Caminho para nordeste e leste passando por vários bonitos lagos à minha esquerda. Às 13h12 cruzei uma mancha de neve, curta, de cerca de 20m, mas nesse dia ainda teria muita neve para atravessar. Às 13h26 alcanço um conjunto de lagos com uma bonita cachoeira. Desço e cruzo um riacho num salto para chegar mais perto dela. Parei para lanchar por 16 minutos. A trilha continua à direita da cachoeira. Subo, sigo o rio e às 14h09 tenho uma visão panorâmica de todo aquele lugar, como se tivesse atingido finalmente o grande platô Hardangervidda. Cruzo mais uma mancha de neve e tenho um enorme e recortado lago à esquerda. O que estraga novamente são as torres de alta tensão. Cruzo um riacho pelas pedras às 14h27 e 11 minutos depois chego a um canal de água um pouco complicado de ultrapassar já que corre entre paredes de pedra. Tentei onde o canal era mais estreito mas depois não consegui subir a parede do outro lado. Tive de percorrer o canal para a direita por 200m até encontrar um lugar onde fosse fácil cruzar a água e depois subir do outro lado. Quando voltei à trilha principal dois caras estavam tentando cruzar onde eu tentei inicialmente e conseguiram, um ajudando o outro. Platô Hardangervidda e grandes manchas de neve Às 15h25 cruzei outro canal de água mas esse tinha uma tábua que servia como ponte precária. Às 15h48 cheguei ao Refúgio Tyssevassbu, no topo de uma colina de pedra. Esse foi o refúgio mais bem equipado e bem arrumado até agora, com fogão de 4 bocas com forno (os dois primeiros tinham fogão portátil de 3 bocas), armários de cozinha, estante com livros e despensa lotada de comida. Mas nesse havia uma pessoa cuidando, uma guarda. Questionei sobre a forma de pagamento das despesas nos refúgios, que ela afirmou ser apenas através de transferência bancária internacional e não cartão de crédito. Expliquei sobre as as taxas que seriam cobradas por uma transação como essa, se não seria possível pagar em dinheiro ali para o(a) guarda do refúgio. Ela disse que as regras eram essas e ficou mal humorada. Paciência... Aproveitei o sol gostoso que havia e fiz meu lanche do lado de fora do refúgio. Se fizesse o lanche dentro do refúgio teria de pagar um day visit de NOK 90 (US$ 10,88). Às 16h42 segui meu caminho para leste pela margem esquerda do lago seguindo a placa do Refúgio Litlos e começa uma sucessão de campos de neve para cruzar, de trechos curtos de 20m a longas travessias de mais de 200m. Numa travessia longa assim na neve fica até difícil saber para que direção caminhar já que os T vermelhos ficam muito distantes entre si. E quando não estava caminhando sobre a neve estava andando sobre pedras, ambos bastante cansativos. Desviar dos campos de neve dava muito trabalho também, era mais fácil caminhar pisando onde outros já haviam feito um caminho. Às 19h36 passei por uma singela plaquinha onde está escrito em norueguês: Parque Nacional - área protegida pela Lei de Conservação da Natureza, indicando timidamente que estou entrando nos limites do Parque Nacional Hardangervidda. Cruzei um riacho e às 19h37 observo no horizonte a nordeste um grande rochoso de formato quase retangular, lembrando a Pedra do Baú de São Bento do Sapucaí, porém de ângulos mais arredondados. Era o Pico Hårteigen, ao largo do qual eu passaria no dia seguinte. Cruzo mais neve, outro riacho e continuam os bonitos lagos à esquerda. Às 20h22 surge um rio que deu mais trabalho. Procurei um lugar mais abaixo onde pudesse saltar para a outra margem mas não achei lugar seguro para isso, então o jeito foi tirar as botas e entrar na água gelada onde a correnteza fosse mais fraca. Água pelos joelhos. Uns 230m depois fui à esquerda na bifurcação seguindo a placa Torehytten (refúgio), à direita se vai ao Refúgio Litlos. A trilha deixa a direção leste e aos poucos toma o rumo norte, agora bem mais fácil, uma trilha bem marcada pelo campo, não mais um caminho mal definido no mar de pedras. Cruzei mais uma mancha de neve, um riacho e parei para acampar num vale à esquerda do caminho às 22h (com plena luz do dia). Altitude de 1327m.
  5. Pico Hårteigen Início: Odda Final: Finse Duração: 7 dias Maior altitude: 1508m Menor altitude: 0m em Odda Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Alguns dias apresentam subidas e descidas mais longas. O único grande desnível é o do 1º dia (1445m). Hardangervidda é o maior platô de montanha do norte da Europa (vidde = platô). Nesse lugar tão singular foi criado em 1981 o Parque Nacional Hardangervidda, que é o maior da Noruega e refúgio de um dos maiores rebanhos de rena selvagem do mundo. O parque se situa ao sul da famosa estrada de ferro Oslo-Bergen, numa distância aproximada (em linha reta) de 180km de Oslo e 120km de Bergen. Essa caminhada foi planejada para durar 10 dias, cobrindo, além do Hardangervidda, também o Parque Nacional Hallingsskarvet e o Cânion Aurlandsdalen, porém a chegada da chuva me fez interromper o percurso no 7º dia. A previsão do yr.no acertou e choveu ainda mais dois dias. Retomei a caminhada no dia 01/08 (relato em elaboração). O problema do trekking na Noruega (e na Suécia) é justamente o alto índice de chuva. Pelo menos para nós brasileiros, que não estamos acostumados a caminhar vários dias embaixo de chuva, porém para os noruegueses isso não tem a menor importância. Eles vão para a trilha com chuva ou sem chuva. Eu tive cinco dias seguidos de sol nesse trekking e isso foi uma tremenda sorte. A melhor época para o trekking nos parques da Noruega é o verão, com temperaturas mais agradáveis (não tão frio) e menos neve pelo caminho. Justamente nessa época os refúgios do tipo staffed permanecem abertos. No início de junho deve ainda haver neve do último inverno dificultando a caminhada. O guia Walking in Norway, de Connie Roos, sugere fazer a travessia do Parque Nacional Hardangervidda depois de 10 de julho. Outro fator que dificulta o trekking por lá é a quantidade de pedras pelo caminho, às vezes são áreas extensas só de pedras, o que é bastante cansativo e obriga a caminhar com mais atenção para evitar uma queda ou torção. Lago a 1194m de altitude no 6º dia de caminhada Em toda a Noruega, a DNT (Den Norske Turistforening = Associação Norueguesa de Trekking) (english.dnt.no) é a associação responsável pela manutenção das trilhas, pontes e refúgios de montanha. Os refúgios da DNT são de três tipos: self service, staffed ou no-service. Além dos refúgios da DNT há refúgios particulares. 1. Nos refúgios self service você pode utilizar a cozinha para preparar as refeições, comprar a comida disponível se não tiver a sua própria e dormir nos beliches em espaços compartilhados. Antes de sair deve deixar tudo em ordem (lavar, secar, arrumar tudo, varrer o chão) e preencher o formulário de despesas. A conta será enviado para o seu e-mail tempos depois. Visitas diurnas (day visit) para descansar, comer ou apenas se aquecer devem ser pagas. A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 390 (US$ 47,14) e o day visit até 18h custa NOK 90 (US$ 10,88). Após 18h a visita deve ser paga como uma hospedagem. Sim, tudo na Noruega é muito caro! Os refúgios self service podem ter guarda ou não na alta temporada. Eu conheci nove refúgios nesse trekking, apenas dois deles eram não-guardados. Nesses vale ainda mais a confiança de que o hóspede está pagando por tudo o que utilizou. A DNT tem uma chave (fornecida somente aos membros) que abre a porta dos refúgios não-guardados, mas nesse trekking eu não encontrei nenhum refúgio trancado. 2. Os refúgios staffed (com funcionários) são hotéis de montanha. Neles você tem café da manhã e jantar disponíveis e não é permitido usar a cozinha. De comida para vender costumam ter apenas lanches de trilha básicos, como chocolates. A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 286 (US$ 34,57) em dormitório. Consulte english.dnt.no/routes-and-cabins para outros preços. 3. Os refúgios no-service são do mesmo estilo dos self service porém não têm comida. Não cheguei a conhecer nenhum refúgio desse tipo nos trekkings que fiz na Noruega. Os refúgios particulares são também hotéis de montanha e têm tabelas próprias de preços. Para quem está com barraca, nos parques da Noruega vale mais ou menos a regra do "allemannsretten" ou direito de andar (ou direito de acesso), que diz que é permitido acampar em qualquer lugar a mais de 150m de uma casa, desde que não seja uma área cultivada ou haja uma placa de proibição. Digo 'mais ou menos' porque vi isso valer apenas nos refúgios self service; nos refúgios da DNT do tipo staffed eles pediam para acampar (gratuitamente) bem longe, fora da visão do refúgio. Acampar perto do refúgio DNT staffed custa NOK 100 (US$ 12,09) e dá direito de usar o banheiro e a sala de estar. Para mais informações sobre o "allemannsretten": www.visitnorway.com/plan-your-trip/travel-tips-a-z/right-of-access O uso do banheiro para quem está acampando (ou apenas de passagem) é livre nos refúgios self service e costuma ser cobrado nos refúgios DNT staffed e particulares (ou gratuito se consumir alguma coisa). Nos self service o banheiro é do tipo seco, uma casinha separada, com uma bancada e o assento sobre ela. Muitas vezes o assento e a tampa são de isopor e há uma outra tampa de madeira para colocar por cima. Costumam ter papel higiênico. Nos staffed é um banheiro normal e interno. Não há problema de escassez de água nesse percurso e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos.
  6. Poço na Garganta del Yedrón 10º DIA - 04/07/19 - de Jarandilla de la Vera à Garganta de los 3 Cerros (ou quase) Duração: 6h15 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1476m em Collado de las Yeguas Menor altitude: 611m em Jarandilla de la Vera Resumo: primeiro dia da Ruta de Carlos V com início em Jarandilla de la Vera, subida de 865m e descida de 435m até o local de acampamento Jarandilla de la Vera é a primeira cidade desse trekking que tem supermercado (Carrefour Express, Dia e Coviran). Saí do Camping Jaranda às 10h45 e fui ao centro para duas coisas: comprar mais comida e pegar informações sobre a Ruta de Carlos V (PR-1 ou PR CC 1), que liga Jarandilla de la Vera a Tornavacas. Porém no posto de informação turística o sujeito não quis nem me dizer onde iniciava essa trilha, alegando que ela não estava em boas condições e que eu iria me perder. Aquela conversa mole de sempre. Saindo do posto de informação às 11h52 tomei a direção do Camping Jaranda (norte) e logo após o Hotel Rural Robles entrei à direita na rua com marco de madeira com plaquinha PR-CC 1 (e faixas branca e amarela de PR). Depois novamente na primeira rua à direita, com placa "GR 111 - A Guijo de Santa Bárbara 1 hora" e as faixas branca e vermelha de GR. Após uma curva para a esquerda uma bifurcação: tomei a esquerda e o calçamento dá lugar a uma rua de terra (a direita sobe a Guijo de Santa Bárbara em 2,5km). Uma placa informa que estou na Ruta de los Puentes, sinalizada com faixas branca e verde de trilha local. A rua termina no portão de uma cerca à esquerda e ali nasce a trilha, às 12h13. Tomo o rumo norte por dentro da mata e 120m depois vejo o Camping Jaranda entre as árvores à esquerda. Às 12h30 cruzo a Puente de Palo (de madeira e pilares de pedras) sobre a Garganta de Jaranda e encontro a primeira placa da Ruta de Carlos V para confirmar que estou no caminho certo. Cerca de 110m depois chego a uma estrada de terra e vou para a esquerda por 160m, onde tomo a estradinha à direita numa curva bem fechada. Cruzo um pomar com cerejas maduras e aproveito para me deliciar. Subindo ainda por estradinha chego a uma rodovia (que vem de Guijo de Santa Bárbara, à direita). Vou para a esquerda por 110m e entro na trilha à direita para dentro da mata com sinalização de PR-CC 1. Às 13h04 chego a uma bifurcação em T e vou à direita, mas por apenas 20m, entrando numa trilha que sobe à esquerda com sinalização PR. Às 13h14 vou à esquerda em nova bifurcação e 4 minutos depois, antes de sair da sombra da mata, paro por causa do calor. Continuo às 13h35. Na subida avisto a cidade de Jarandilla ficando para trás, bem como Guijo de Santa Bárbara e a Capela-Refúgio de Nuestra Señora de las Nieves. Vista do Collado de las Yeguas Às 13h54 encontro uma estrada de terra onde devo ir para a esquerda (oeste), mas antes vou conferir a tal Fuente de los Pilones que a placa indica. O que encontro é um cocho de concreto com água parada e cheio de abelhas. Mesmo sem pegar água paro na sombra de um carvalho centenário para um lanche. Voltando à estrada de terra às 14h31 vou à esquerda (oeste) e em 250m ela termina numa bifurcação de trilhas - vou para a direita reentrando na mata. Segui a sinalização PR e ao sair da mata há uma casa de pedra no alto à direita. Mais 160m e alcanço às 15h uma casa de pedras abandonada com placa de Senda de las Culatas, o início de uma trilha que desce à cidade de Aldeanueva de la Vera, que avistaria daí a alguns minutos. Numa bifurcação 60m depois da casa abandonada vou à direita e cruzo uma cerca aberta. A partir daí já visualizo a crista de serra que terei de transpor em meu caminho para Tornavacas e logo entro no grande vale da Garganta (rio) del Yedrón. Cruzo uma ponte de madeira sobre esse rio às 16h10, após um lanche junto a um lindo poço de águas transparentes e fundo de pedras (essa foi a primeira água do dia). Agora pela margem direita verdadeira do rio a subida se dá em zigue-zague. Às 17h08 alcanço uma bifurcação em T e subo para a direita; à esquerda desce a Senda de los Arrieros, outro caminho para Aldeanueva de la Vera. Com mais 140m, às 17h12, chego ao Collado de las Yeguas, ponto mais alto da Ruta de Carlos V (1476m). Aqui entro na Reserva Natural Garganta de los Infiernos, aquela que apenas "toquei" nas proximidades de Cuerda Mala no dia anterior. Uma placa me informa que tenho mais 4h30 até Tornavacas. A quantidade de lixo na trilha foi a maior até agora em toda essa travessia. Isso ajuda a explicar a proibição do camping selvagem nos parques da Espanha. Parei para descansar e retomei a caminhada apenas às 18h24, descendo no sentido norte-noroeste com todo visual da reserva natural à minha frente. Logo estou caminhando na encosta da margem esquerda da Garganta del Hornillo, rio ao qual desço para cruzar por uma ponte. Ali descanso por 24 minutos. Na clareira 110m depois da ponte vou à esquerda às 19h19 seguindo as placas. Dez minutos depois vou à esquerda na bifurcação e aparece um calçamento de pedras na trilha. Às 19h38 cruzo a ponte sobre o Arroyo de Colmenillas, que se junta à Garganta del Hornillo formando a Garganta del Collado de las Yeguas, a qual mais abaixo se afunila num profundo cânion. Às 19h56 entro na floresta de carvalhos e logo passo pelos Escalerones, uma clareira à esquerda com degraus de pedra que dão vista para o cânion. Às 20h22 passo por uma fonte de água (Fuente Peñalozana, a última do dia). A partir do Collado (selado) de la Encinilla, às 20h52, inicia uma descida em zigue-zague pela mata. Comecei a procurar algum lugar onde pudesse montar a barraca pois já avistava casas à frente e ouvia latidos ao longe. Na descida estava difícil encontrar um lugar plano, então tratei de parar num que achei às 21h13 mesmo sendo um pouco cedo ainda. Altitude de 1041m. Garganta de los 3 Cerros e a Ponte Nova 11º DIA - 05/07/19 - da Garganta de los 3 Cerros a Tornavacas Duração: 3h45 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1041m no local de acampamento Menor altitude: 716m Resumo: segundo dia da Ruta de Carlos V com descida de 325m e chegada a Tornavacas. Nesse dia pretendia ainda subir o Pico Calvitero para encerrar a caminhada na cidade de Candelário, porém o calor terrível que fazia diariamente alterou os meus planos. Deixei o local de acampamento às 9h33 e continuei descendo. Em 5 minutos cheguei a uma bifurcação em T com a trilha mais marcada e placas informando as distâncias a Jarandilla (17,5km) e Tornavacas (9,5km). Desci à direita e uns 80m depois vi que a fonte de Robledo Hermoso secou completamente. Aos poucos a visão vai se ampliando para os vales dos rios Garganta de los 3 Cerros e Garganta de los Infiernos. Depois avisto a Ponte Nova, para onde devo descer. Às 10h18 nova bifurcação com placas. Uma delas aponta Pilones 1 hora para a esquerda, este um dos mais bonitos atrativos da Reserva Natural Garganta de los Infiernos, porém não estava no meu roteiro. Continuei para a direita e em 4 minutos cheguei à Ponte Nova (ou Ponte de Carlos V), que de nova não tem nada pois tem origem medieval. Ela cruza a Garganta de los 3 Cerros, que mais abaixo se junta à Garganta del Collado de las Yeguas para formar a Garganta de los Infiernos. Essa foi a única água da trilha desse dia (a próxima só em Tornavacas). Subindo, às 11h02 entrei na floresta de carvalhos e 240m depois cheguei a uma estradinha de terra, onde aproveitei a sombra para descansar. Fui para a esquerda. Às 11h37 entroncou uma outra estradinha vindo da esquerda e eu saio da mata para a direita. Às 11h45 chego ao Collado de las Losas, um cruzamento de muitos caminhos (com placas): primeiro vou à direita numa estrada de terra, mas 25m depois entro à esquerda numa trilha com placa de Ruta de Carlos V. Desço pela sombra da mata de novo e assim passo para a outra vertente dessa pequena serra, entrando no vale de Jerte. Uns 130m abaixo vou em frente num cruzamento em que à esquerda se desce à cidade de Jerte, visível lá embaixo no vale. Às 12h16 aparece a primeira plantação de cerejas e eu não resisto a roubar algumas. Às 12h24 a trilha termina numa estrada de terra e vou para a direita. À esquerda da estrada outra plantação enorme de cerejas. Dali já visualizo a Serra de Candelário, meu suposto destino nesse dia. Nas duas bifurcações seguintes vou à esquerda e na trifurcação às 12h40 sigo pelo caminho do meio. Às 12h52 vou à direita numa bifurcação em T e 4 minutos depois vou à esquerda, descendo e quase voltando. Às 13h01 chego a uma estrada e vou para a esquerda. Quatro minutos depois vou à direita e saio da Reserva Natural Garganta de los Infiernos. A partir daqui a Ruta de Carlos V coincide com uma etapa da famosa e longa trilha GR 10, que vai de Valência a Lisboa. Garganta de los 3 Cerros e Garganta de los Infiernos Os pés de cereja são milhares, o Vale de Jerte é um dos maiores produtores dessa fruta na Espanha, e eu não resisto a comer punhados delas, mesmo quentes do sol (as consequências disso viriam rapidinho...). A estradinha se torna concretada e às 13h58 tomo o caminho à esquerda, de terra, entrando na trilha à direita 30m depois. Ela parece terminar num portão de ferro mas continua à direita dele. Às 14h17 a Ruta de Carlos V continua pelo asfalto. Uns 190m depois vou à esquerda na bifurcação e cruzo a ponte sobre o Rio Jerte. A GR 10 continua à direita em direção a Puerto de Tornavacas. Subo 200m e tomo à direita a rua principal da cidade de Tornavacas. A caminho do centro parei para descansar junto a uma fonte de água potável com banco às 14h33. Ali decidi abortar a continuação da travessia em direção à cidade de Candelário porque o calor estava realmente insuportável (além do ar seco) e eu teria um desnível de 1498m a enfrentar até o Pico Calvitero ainda nesse dia. A escassez de fontes de água era um grande problema nesse calor todo. Dei por encerrada a caminhada e esperei o próximo ônibus para Salamanca, que só passou às 19h16 (ônibus para Plasencia para no dia seguinte tomar outro para Salamanca). Em Salamanca vi um termômetro de rua marcar 37ºC. Altitude em Tornavacas: 902m (no ponto de ônibus da rodovia) Informações adicionais: . Refúgio Elola: pernoite 10 euros, almoço/jantar menu do dia 12,50 euros, café da manhã 5 euros, meia pensão 25,50 euros, pensão completa 31 euros. Reserva obrigatória pelo site www.refugiolagunagrandegredos.es. . Camping Jaranda: barraca 10 euros (para 1 pessoa), jantar a la carte com preços em torno de 10 euros. Wifi grátis. Site: campingjaranda.es . ônibus Madri-Cuevas del Valle: samar.es . ônibus Madri-Bohoyo: www.cevesa.es . ônibus Madri-Jarandilla de la Vera: samar.es . ônibus Madri-Tornavacas: www.cevesa.es . roteiro adaptado a partir das informações do guia Lonely Planet Walking in Spain, 3ª edição, 2003 Rafael Santiago junho-julho/2019 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  7. Garganta de Bohoyo 7º DIA - 01/07/19 - do Refugio El Lanchón à serra entre Bohoyo e Navalonguilla Duração: 7h20 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1966m no alto da serra entre Bohoyo e Navalonguilla Menor altitude: 1132m no restaurante El Vergel de Gredos, em Bohoyo Resumo: o trajeto desse dia é uma ferradura que vai para o norte e volta para o sul, um grande arco, mas o único caminho viável entre a Garganta de Bohoyo e Navalonguilla. Desnível de 818m entre a cidade de Bohoyo e a serra entre Bohoyo e Navalonguilla Comecei a caminhar às 8h19 ainda pela margem direita da Garganta de Bohoyo. Às 9h31 fui à direita na bifurcação para conhecer o Refugio La Longuilla. Uma plaquinha com as faixas branca e amarela indica ser esta trilha a PR-AV 16. O refúgio é todo de pedras com telhas, tem bancos-camas e lareira. Estava cheio de vacas ao redor. Continuei para oeste por trilhas de vaca e cheguei a uma ladeira calçada, que desci e tomei a direita na bifurcação (com um X branco e amarelo à esquerda, sinalização PR). Às 10h32 cheguei ao Refugio La Redonda, também todo de pedras com telhas, bancos-camas e lareira. Uns 90m depois cruzei um portão de ferro. Às 10h56 outro refúgio nos mesmos moldes dos dois últimos: Refugio La Secá. As árvores vão reaparecendo e a trilha quebra de noroeste para norte. Às 11h37 entro na sombra rala da mata. O que incomoda mesmo são as moscas na cara. Às 11h51 a trilha é dupla e a floresta é de carvalhos (robles). Às 12h33 chego a um pasto com vacas e uma estrada de terra para a direita. Uma placa indica uma fonte 100m para a esquerda mas não fui até lá. Seguindo pela estrada cruzei uma porteira de ferro, segui em frente num cruzamento de caminhos e cheguei a um estacionamento às 13h05. Havia um painel informativo sobre a Senda de la Garganta de Bohoyo com mapa. Continuando pela estrada de cascalho para o norte passei pela entrada do Camping Los Chozos de Gredos e atingi às 13h22 o asfalto da rodovia AV-P-539. Fui para a esquerda e em 7 minutos cruzava a ponte sobre a Garganta de Bohoyo. Ao lado do rio está o restaurante El Vergel de Gredos. Era hora do almoço e o sol estava fritando, para variar. Parei para descansar, beber água gelada e comer. Menu do dia a 10 euros. Continuei às 14h27 pelo asfalto e uma placa me diz que estou na etapa 20 da GR 293 (a mesma da Calzada Romana e que é chamada de "A Vueltas con Gredos" por dar uma volta quase completa ao redor da serra). Cheguei às 14h37 à pequena cidade de Bohoyo e um painel agora me informa que a caminhada dali até a cidade de Navalonguilla será a etapa 21 da GR 293. Há uma fonte de água ao lado. Altitude de 1148m. Garganta de Bohoyo Um outro painel, no outro lado da praça, mostra um mapa do Parque Regional de la Sierra de Gredos com todo o trajeto que fiz desde Cuevas del Valle. Dentro do meu percurso planejado, o limite do parque será no Pico Covacha, por onde passarei no 9º dia. O caminho para Navalonguilla estava diretamente para o sul a partir dali mas quis dar um giro pela cidade para conhecer, apesar do calor terrível. Essas pequenas cidades da Espanha são sempre uma linda surpresa, cheias de detalhes arquitetônicos e muita história. Há várias casas de pedra com sacadas de ferro fundido e algumas fontes de pedra também. Cegonhas sem nenhum pudor fazem enormes ninhos nas cumeeiras e até na torre do sino da igreja. Um bar parecia estar aberto, embora fosse hora da siesta. Feito o reconhecimento, tomei a direção sul pela Calle de las Escuelas e saí da cidade às 15h14. Um outro painel informa que a Ruta Bohoyo-Navalonguilla é também a PR-AV 57 - Senda Camino del Piesnillo (além de ser a GR 293). Subi por um caminho concretado, passei por uma quadra de esporte e às 15h28 subi à esquerda pois a direita levava a um galpão, mas 35m depois fui à esquerda de novo pois à direita havia um sinal de X (caminho errado). Bohoyo vai ficando lá embaixo à esquerda. Mas tive de parar numa sombra por 37 minutos pois não aguentava mais o calor. Às 16h27 cruzei uma porteira de ferro e a estradinha de terra vira trilha. Em 4 minutos já avisto a Garganta de Bohoyo, onde passei esta noite. Às 17h02 cruzo um muro de pedras e paro numa grande sombra, mas a trilha quase desaparece e gastei um tempo procurando-a (após o muro de pedras deve-se subir um pouco à direita, mesmo sem trilha no início, e tomar a direção sul). Às 17h51 alcanço uma estradinha de terra que tomo para a esquerda (X à direita). À frente (sul) já avisto a colina que devo subir, com a trilha bem marcada. Em 7 minutos tomo a direita na bifurcação (X à esquerda) e subo a um portão com pasto e vacas logo depois. Ali há uma fonte de água mas com pouca vazão. Melhor caminhar mais 150m para encontrar uma boa fonte acima do pasto e do muro de pedras (mesmo assim filtrei com o filtro Sawyer Squeeze). Essa é a última água do dia. Voltei a caminhar às 18h48 e aí o bicho pega. Só subida. Às 18h58 fui à direita numa bifurcação. E dá-lhe ladeira em zigue-zague! A vista para a Garganta de Bohoyo é cada vez mais ampla. Às 20h26 avisto o chapadão no alto e com mais 12 minutos vou à esquerda numa bifurcação em T. Às 20h53, antes de um refúgio no meio do campo de piornos, cruzo o longo muro de pedras que aparece à direita (com placa apontando Navalonguilla). A partir dali a trilha começa a descer, então procurei um lugar plano perto do muro (abrigo do vento) para montar a barraca. Esse é o ponto mais alto do dia, 1966m, com desnível de 818m desde a cidade de Bohoyo. Garganta de los Caballeros 8º DIA - 02/07/19 - da serra entre Bohoyo e Navalonguilla à Laguna de los Caballeros Duração: 9h (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2021m em Laguna de los Caballeros Menor altitude: 1134m em Camping Restaurante La Guilera Resumo: nesse dia passei pela cidade de Navalonguilla e a vila de Navalguijo para em seguida me distanciar de tudo novamente ao percorrer a Garganta de los Caballeros e subir à laguna de mesmo nome, num desnível de 887m desde o Camping Restaurante La Guilera Comecei a caminhar às 8h52 descendo na direção oeste. Às 9h14 passei por uma fonte quase seca na descida. Às 9h33 chego a um amplo espaço bom para acampar e bivacar protegido pelas grandes pedras. Dali já é possível avistar a cidade de Navalonguilla. Encontrei um portão de ferro todo amarrado, foi mais fácil pular o muro de pedras. A descida continua em zigue-zagues por uma crista. Às 10h27 cheguei a um cocho com água corrente e parei para me refrescar por 30 minutos. Às 11h04 cruzo uma porteira de ferro e a trilha vai virando uma estrada precária. Passo por mais um cocho, porém este está seco. Cruzo outra porteira de ferro e a estrada passa a ser concretada. Onde entronca um outro caminho vindo da esquerda há um painel informativo sobre a Ruta Navalonguilla-Bohoyo semelhante ao da saída de Bohoyo. Às 11h41 alcanço a Ermita de Nuestra Señora de los Leones com uma fonte de pedra com água corrente em frente. Com mais 15 minutos pelo asfalto chego à igreja de pedra de Navalonguilla. Altitude de 1199m. Passeei pelas ruas estreitas da pequena cidade e vi pela primeira vez a fachada das casas recobertas por telhas. Fui até o Museo de la Transhumancia, mas funciona só de sábado, domingo e feriado. Transumância é o deslocamento de rebanhos para locais que oferecem melhores condições de clima durante certa época do ano. Como sempre, era hora da siesta e até o Bar Pedro estava fechado. A única fonte de água que encontrei na cidade (em frente à igreja) estava seca. Segui a placa de Navalguijo, meu próximo destino, e às 12h16 deixei Navalonguilla tomando a rodovia AV-P-537. Uma placa me informa que o percurso dali até a cidade de Nava del Barco é a etapa 22 da GR 293, mas na ponte da Garganta de los Caballeros irei à esquerda, deixando essa GR. Às 12h36 passei em frente ao Camping Restaurante La Guilera, que espantosamente estava aberto e funcionando, mas não parei. Menu do dia por 9 euros. Ali também fica o Hostal Rural Los Alisos. Às 12h48 cruzei a ponte sobre o verdíssimo e transparente rio Garganta de los Caballeros e parei para descansar e me refugiar do sol forte. Algumas pessoas nadavam no rio. Fiz meu almoço nas mesinhas de piquenique sob as árvores. Às 13h13 encarei a subida de asfalto onde dava pra fazer ovos mexidos de tão quente. Compensava a bonita vista à esquerda para o selado onde acampei esta noite. Passei pela Ermita de San Miguel e às 13h31 alcancei a minúscula Navalguijo, completamente deserta, uma vila-fantasma. Numa bifurcação com casa de pedras e fonte de água não havia placa - fui à esquerda. Há fachadas recobertas por telhas aqui também, além de lindas casas de pedras. Às 13h39, numa outra bifurcação com fonte, a placa indica Laguna de los Caballeros a 5h de caminhada pela PR-AV 40, à esquerda. A civilização fica para trás de novo. Poço na Garganta de los Caballeros Às 13h47 vou à direita numa bifurcação sem placa e cruzo a Puente de Arguijo. Mais 4 minutos e paro para ler o painel informativo sobre a Laguna de los Caballeros. Fim da estrada concretada, agora estradinha de terra. Vou à esquerda na bifurcação e às 14h09 cruzo um riacho e uma porteira de ferro verde. A estradinha vira trilha. Às 14h22 a visão se abre à esquerda para o amplo vale da Garganta de los Caballeros e montanhas ao fundo. Cruzo um riacho pelas pedras e aparece um calçamento na trilha. Olhando para trás identifico ainda o selado onde dormi esta noite. Às 15h13 chego à cachoeira Chorrera del Lanchón, um dos principais atrativos dessa trilha. Ela despenca numa fenda do paredão rochoso e estava com bem pouca água. Tentei me aproximar mas não cheguei à queda pois a vegetação dificultava bastante. Me escondi do sol forte por um bom tempo e só saí às 16h43. Subindo, cruzei uma tronqueira, um riacho e caminhei por uma ladeira com calçamento e lindas lagoas verdes transparentes ao longo do rio à esquerda. Às 17h50 passei pelo Refugio de las LLanaíllas, mas ficava fora da trilha principal e não procurei caminho até ele. Parei 8 minutos depois num pequeno abrigo de pedra coberto de palha e com banco-cama. Continuei às 18h14 e às 18h42 cheguei à Antigua Mina de Blenda, que se resume hoje a ruínas de casas de pedra e peças de ferro espalhadas pelo chão. Às 18h54 cruzei pelas pedras a Garganta (rio) de los Caballeros para a margem direita verdadeira e encontrei a Fuente de Majá Baera com água corrente. Às 19h20 cheguei ao Refugio de Malacantones, de pedras e telhas com bancos-camas e lareira. Às 19h58 cruzo novamente a Garganta de los Caballeros. O lugar é bastante distante e isolado e começo a ter a impressão de que poderia encontrar ou avistar algum animal selvagem, mas em vez disso me deparo com vacas pastando (por enquanto...). Depois de cruzar moitas de piornos, às 21h06 chego enfim à Laguna de los Caballeros e seu circo glacial. Procuro um lugar abrigado do vento e monto a barraca num espaço pequeno entre moitas de piorno. Altitude de 2021m. Pego as garrafas para coletar água da laguna e quando olho para a encosta da montanha ao norte vejo um animal grande passando. Era um javali! E tinha um filhote o seguindo. Como não sei sobre a reação desses animais, e por ela (devia ser uma fêmea) ter uma cria, tratei rapidamente de me enfiar na barraca e fazer o mínimo de sinal de vida. Fiquei de ouvidos alertas e num momento ouvi o ronco do bicho próximo da barraca. Mas depois não ouvi mais nada e pude relaxar e dormir. Pico Las Azagayas 9º DIA - 03/07/19 - de Laguna de los Caballeros a Jarandilla de la Vera Duração: 9h10 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2394m em Pico La Covacha Menor altitude: 611m em Jarandilla de la Vera Resumo: um dia longo e difícil percorrendo inicialmente alguns dos cumes mais altos da Serra de Gredos para em seguida descer 1783m até a cidade de Jarandilla de la Vera Quando comecei a caminhar nesse dia não tinha idéia de quão extenuante ele seria. A travessia da crista rochosa dos picos La Covacha e Las Azagayas foi o trecho mais exigente de todo esse trekking. Deixei o acampamento da Laguna de los Caballeros às 9h44 felizmente sem sinal do javali e seu filhote. Em vez disso eram as vacas que visitavam a laguna nessa hora. Contornei a lagoa pela margem esquerda (sul) e tomei a trilha de subida da encosta. É uma subida por canchal (ladeira de pedras desmoronadas) também mas a trilha está definida e sinalizada por totens. Às 10h20 atingi a crista e pude visualizar o outro lado (sul) mas estava mesmo é num selado, ou seja, tinha de subir bastante ainda. Às 10h38 fui para a direita (noroeste) na crista e subi por caminho praticamente só de pedras. Escalaminhei uma parede, subi por lajes e segui os totens. Às 11h31 atinjo o cume do Pico La Covacha (2394m), ponto mais alto de todo esse trekking, com coluna de concreto e vértice geodésico. A visão é de 360º. A longa crista que se estende para oeste é o limite entre as comunidades autônomas de Castela e Leão (ao norte, província de Ávila) e Extremadura (ao sul, província de Cáceres). Dali observo que a face esquerda (sul) dessa crista é recoberta de piornos, enquanto a cumeeira e a face direita (norte) são de pura pedra. Continuando às 11h56, avisto dois lagos bem distantes ao norte e um deles tem uma barragem (a maior com barragem é a Laguna del Barco ou Laguna de Galin Gómez e a menor é a Laguna Cuadrada). O caminho pela crista é um sobe-e-desce por pedras e a dificuldade vai aumentando. Às 12h17, junto ao marco de granito do Pico El Poyo, fui alcançado por um casal (que surpresa!) que subiu de uma cidade próxima só para percorrer essa crista. Dali já avisto uma outra crista para o sul que descerei após terminar essa de cumes em que estou. Porém dali em diante a dificuldade foi ainda maior, as ladeiras de pedras se tornaram bastante íngremes. O trecho próximo ao Pico Las Azagayas (2367m), aonde cheguei às 12h47, foi o mais difícil. Continuo mais 240m para oeste de Azagayas e finalmente termina essa crista rochosa. Ufa! Alcanço assim às 13h24 a outra crista que avistei e ali há caminhos para a direita (noroeste) e esquerda (sul), dependendo do roteiro que se quer fazer. O meu destino era para o sul. Uma placa ali aponta para os picos Covacha e Azagayas e diz "Ruta Travesía de la Alta Extremadura". Nesse local estou saindo do Parque Regional de la Sierra de Gredos e estou nos limites da Reserva Natural Garganta de los Infiernos, mas não entro nela nesse dia (só no dia seguinte). Também estou deixando a comunidade autônoma de Castela e Leão e entrando na de Extremadura. Isso corresponde (mais ou menos) a sair de um estado e entrar em outro no Brasil. Laguna de los Caballeros Às 13h58 inicio a descida da crista entre piornos floridos, porém na parte mais baixa dela (selado) um impasse: à minha frente (sudoeste) ela sobe para uma sucessão de cumes rochosos (Cerro Estecillo) que eu temia que fossem tão difíceis quanto os anteriores. O próprio nome não é animador: Cuerda Mala. E eu precisava descer e não subir mais. Que alternativas tenho? À minha direita (oeste) se abriu um amplo vale e tento descer a ele, mas a trilha e os totens vão sumindo e resolvo voltar à crista para tentar o outro lado (leste) às 14h43. Inicialmente há uma trilha descendo mas ela desaparece e continuo na direção de totens, porém num caminho complicado entre pedras e moitas duras de piorno. Às 15h55 cruzo uma riacho pelas pedras (primeira água desde a Laguna de los Caballeros) e o acompanho na sua descida pela encosta pois avisto trilha abaixo na direção que eu preciso (sul). Uma vez na trilha bem marcada às 16h24, passo por campos de piorno, mais pontos de água e por vacas pastando. Às 17h44 cruzo um muro de pedras por um portão de ferro caído e encontro caminhos para o norte, sul e oeste, com muitos totens. O caminho que chega do norte vem do Cerro Estecillo e é a alternativa que rejeitei lá no alto 3 horas antes, mas deve ser a trilha mais usada. Se é pior ou melhor do que a opção que fiz só saberei quando um dia repetir essa travessia. Avisto dali uma grande clareira na crista a sudoeste com a Capela-Refúgio de Nuestra Señora de las Nieves e é para lá que devo seguir. Às 18h05 desço para oeste mas a trilha vai girando para o sul. Passo por uma choupana redonda de pedras, coberta de palha e quase desabando. Bem abaixo cruzo às 18h48 um riacho pelas pedras e paro por 17 minutos. Na encosta oposta passo a seguir um canal de água e depois uma trilha. Às 19h34 chego à Capela-Refúgio de Nuestra Señora de las Nieves e de lá avisto a pequena cidade de Guijo de Santa Bárbara. Na descida para a cidade há um trecho inclinado com pedras soltas meio complicado. Tomo a direita numa bifurcação, cruzo uma pequena ponte de madeira e atravesso uma mata de carvalhos (robles). No cruzamento de caminhos com painel sobre a fauna sigo em frente. Saio numa estrada às 20h29 e vou para a esquerda. Após uma longa curva para a esquerda essa estrada desemboca em outra e vou para a direita. Na bifurcação seguinte desço à esquerda na direção da cidade, mas estava errado, a rua termina numa casa. Voltei e tomei a direita. Algumas curvas depois já estou entrando na cidade de Guijo de Santa Bárbara, às 21h06. Numa bifurcação em que há um painel da Reserva Natural Garganta de los Infiernos vou para a esquerda seguindo a placa de Jarandilla (se tivesse tomado a direita teria conhecido o centro e suas casas mais antigas). Às 21h20 saio da cidade e a placa na estrada indica Jarandilla de la Vera a 3,5km (o gps mediu 4,5km). Mesmo tarde resolvi ir para Jarandilla porque lá há um camping e porque esse trecho de asfalto seria melhor fazer nesse horário mais fresco, sem o forte calor que começa logo cedo. Há um caminho mais curto entre as duas cidades, mas naquele momento não tinha essa informação como certa. Cheguei ao centro de Jarandilla de la Vera às 22h18, já de noite, e me surpreendi com a agitação da pequena cidade. A rua principal tem bares e restaurantes com mesas na calçada e o movimento era grande. Procurei pelo Hostal Marbella mas ele fechou já há alguns anos. A partir do centro caminhei mais 1,3km para o norte (parte pela rodovia, no escuro) até o Camping Jaranda, aonde cheguei às 22h42, a tempo ainda de jantar. Altitude de 616m.
  8. Laguna Bajera, uma das 5 Lagunas 4º DIA - 28/06/19 - do Refúgio Elola às imediações de 5 Lagunas Duração: 5h10 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2367m em Portilla del Rey Menor altitude: 1896m Resumo: caminhada de Laguna Grande a 5 Lagunas através do passo Portilla del Rey. Quis evitar a subida direta de 5 Lagunas a Portilla de las 5 Lagunas para chegar à Garganta de Bohoyo, então tive de procurar um caminho alternativo (o que me tomou mais dois dias - sim, exagerei nas paradas por causa do calor) Saí do refúgio às 9h58 na direção norte pela margem oeste da Laguna Grande. Na sua extremidade norte fui à esquerda na bifurcação e comecei a subir a encosta pedregosa da montanha em zigue-zagues. Subi até os 2066m e logo iniciei a descida, às 11h07. A descida dessa encosta terminou às 11h28, cruzei um riacho pelas pedras no meio de um campo chamado Pradera del Gargantón e voltei a subir em zigue-zagues. Às 13h31 cheguei a Portilla del Rey, um passo de montanha que foi o ponto mais alto do dia (2367m), e o lance final foi uma escalaminhada por um canchal (em espanhol) ou scree (em inglês), uma ladeira de pedras desmoronadas. Mas não gostei do que vi lá do alto. Gostei sim da visão espetacular do Circo de 5 Lagunas e da verdíssima Laguna Cimera bem abaixo, porém a continuação do meu caminho em direção à Garganta de Bohoyo seria por uma ladeira de pedras enorme e bem íngreme a sudoeste da Laguna Cimera. Ladeira que atinge a chamada Portilla de las 5 Lagunas, de altitude semelhante à de Portilla del Rey, onde eu estava. Aquele caminho me pareceu arriscado. Havia alcançado um grupo que avistara pela primeira vez na Laguna Grande e conversei com o líder para confirmar se seria aquele mesmo o meu caminho. Ele disse que seria um pouco arriscado ir por ali e que deveria haver um outro caminho mais abaixo nas 5 Lagunas. Deixei o grupo todo sair primeiro pois aquela descida inclinada à Laguna Cimera, por pedras soltas e sem um caminho marcado, eu preferi fazer devagar e com cuidado. Saí de Portilla del Rey às 14h13 e cheguei próximo da Laguna Cimera às 14h56. Não desci até a margem, girei à direita (norte) e me dirigi à segunda lagoa, a Laguna Galana. O grupo parou nessa lagoa e eu continuei descendo, passando pelas lagunas Mediana, Brincalobitos e Bajera. Uma plaquinha me diz que estou na PR-AV 35. O caminho de pedras que desce dessas lagunas não é fácil, levei 1h30 para chegar ao final da ladeira desde a Laguna Cimera. Continuei descendo para o norte, mas parei depois de 300m para explorar alguns caminhos que eu tinha gravado no gps e que poderiam ser alternativas àquela ladeira que eu evitei. Porém não encontrei nenhum deles e resolvi acampar no lugar mais discreto que havia (embora fosse um campo aberto) para resolver o que fazer no dia seguinte. Altitude de 1907m. Laguna de Majalaescoba 5º DIA - 29/06/19 - das imediações de 5 Lagunas a Las Lagunillas Duração: 4h40 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1950m em Las Lagunillas Menor altitude: 1525m na Garganta del Pinar Resumo: continuação da procura por um caminho para chegar à Garganta de Bohoyo, uma alternativa à subida direta de 5 Lagunas a Portilla de las 5 Lagunas Comecei a caminhar às 9h17 ainda com a idéia de que encontraria uma trilha alternativa. Continuei descendo para o norte (como se fosse para a cidade de Navalperal de Tormes) pela margem direita da Garganta (rio) del Pinar, que se origina das 5 Lagunas, e passei pela Laguna de Majalaescoba. Por ser um sábado comecei a encontrar gente subindo para as 5 Lagunas e resolvi perguntar. As respostas contradiziam o que o líder do grupo havia me falado no dia anterior: o caminho era mesmo por aquela ladeira enorme de pedras, não era tão ruim quanto parecia e não havia outro caminho conhecido. Essas informações me deixaram numa sinuca pois eu já havia descido muito desde a Laguna Cimera e o caminho a partir dela também foi bastante difícil. Para completar, o calor estava de rachar. Continuei descendo. Às 12h14, 2,3km depois do abrigo Chozo de la Barranca, parei numa sombra à margem do rio (Garganta del Pinar) pois não estava aguentando o calor. Resolvi explorar uma trilha que aparecia no gps e estava do outro lado do rio. Realmente ela existia e poderia ser a alternativa que eu procurava. Porém só consegui ter coragem para voltar a caminhar depois das 16h, quando o calor já não era tão forte. Continuei então para o norte, agora pela margem esquerda da Garganta del Pinar por 1,1km e comecei a subir a colina. Encontrei uma fonte de água na subida. Às 16h40 cruzei uma porteira de arame num muro de pedras. Alcancei uma clareira onde deveria haver uma trilha voltando para o sul, mas apesar dos totens não a encontrava. Depois de muita procura (e outra pausa na sombra) finalmente a achei às 18h34. Segui por ela para o sul e sudoeste e encontrei às 19h54 o Refugio de Los Barquillos, refúgio livre (não guardado) com banco-cama e lareira, construído em pedra e coberto com telhas. Nele chegava uma outra trilha vindo do norte. A vista para o Circo de 5 Lagunas era privilegiada. Às 20h13, continuei para sudoeste e na bifurcação 220m depois do refúgio fui à direita pois a esquerda desce a encosta. Às 20h44 alcancei uma grande clareira forrada de capim que cruzei para a direita para tomar a trilha que subia para oeste entre moitas de piorno. Mas na primeira bifurcação, 110m depois, fui à esquerda (sul). Ao chegar a uma amplo circo glacial (com uma lagoa) às 21h08 a trilha pareceu sumir, mas mantendo a direção sudoeste ela reapareceu. Desci até um riacho seco, cruzei-o e encontrei um bom lugar para acampar às 21h35. Esse local é referenciado nos mapas com o nome genérico de Las Lagunillas. Altitude de 1940m. Água corrente havia a 300m dali, além da lagoa, mas era pouca. Estava num caminho muito promissor, mas ainda pairava a dúvida se conseguiria chegar por ele à Garganta de Bohoyo. Las Lagunillas 6º DIA - 30/06/19 - de Las Lagunillas ao Refugio El Lanchón Duração: 5h15 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2390m próximo ao Pico Meapoco Menor altitude: 1726m em Refugio El Lanchón Resumo: nesse dia encontrei finalmente um caminho alternativo para chegar à Garganta de Bohoyo. Subi 450m e desci 664m. Desmontado o acampamento, saí às 9h47 para explorar a trilha marcada no gps que subiria as encostas rochosas do circo glacial e quem sabe me levaria à Garganta de Bohoyo. Porém ela não existia - mais um balde de água fria... Fui pegar água perto da lagoa e já estava tomando o caminho de volta à Garganta del Pinar às 11h33 quando olhei para o fundo do vale e vi um totem. Uma esperança! Segui-o e encontrei finalmente uma trilha para o fundo que, após cruzar grandes blocos de pedra, continuou e subiu a encosta de pedras até o alto! Agora estava bem mais fácil atingir o meu objetivo. No alto às 13h32 encontrei vários caminhos para o sul e para oeste. Cruzei um muro de pedras que corria de norte a sul e parei para estudar qual seria o melhor caminho. Avistei uma casa 280m a noroeste, no meio das moitas de piorno, e fui até lá para ver. Era o Refúgio de Regajo Largo, livre também (como todos os seguintes), com bancos-camas e lareira, construído em pedra e coberto com telhas. Mas estava cheio de vespas. E o percurso de ida e volta até ele foi meio varação de mato pois não havia um caminho aberto no meio do piorno. Cruzei às 15h22 o muro de pedras de volta e 60m a leste dele entrei numa trilha que apontava para o sul com totens. A trilha foi girando para sudeste e logo sumiu entre as moitas floridas de piorno. Continuei para sudeste, mas logo quebrei para a direita (sul) seguindo os totens nas lajes de pedra e depois na subida de pedras soltas. Às 16h19 alcancei outro muro de pedras que corria na direção noroeste-sudeste, cruzei-o e fui para a esquerda (sudeste). Esse muro terminou numa encosta rochosa íngreme que subi às 17h por indicação de um grande totem no alto. Cruzei um chapadão (maior altitude do dia, 2390m) nas proximidades do Pico Meapoco e desci na direção sul até outra encosta rochosa, mas desta vez quebrei para a direita (sudoeste) e comecei a descer às 17h37 em direção à tão esperada Garganta de Bohoyo. Objetivo alcançado! Às 19h29 passei pelo Refúgio El Belesar mas não fui até ele pois vi um sujeito entrar nele assim que me viu. Às 20h25 o Rio Bohoyo se estreita num cânion e logo abaixo cruzo o rio para a margem esquerda. Parte do caminho é por grandes lajes de pedra. Às 20h58 cruzei novamente o Rio Bohoyo exatamente onde há um poço à direita chamado Baños de las Sirenas (sereias). Às 21h43 cheguei ao meu objetivo do dia, o Refúgio El Lanchón, todo de pedras também. Poderia ter dormido dentro dele, na plataforma que serve como cama, mas estava muito sujo lá dentro, então dormi na barraca mesmo. Aliás foi um dos refúgios mais precários que conheci, melhor evitá-lo. O Rio Bohoyo corre a poucos metros e é fácil coletar água. Altitude de 1726m.
  9. Laguna de los Caballeros Início: Cuevas del Valle Final: Tornavacas Duração: 11 dias Maior altitude: 2394m em Pico La Covacha Menor altitude: 611m em Jarandilla de la Vera Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Há grandes subidas e descidas quase todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 995m. A Serra de Gredos se estende no sentido leste-oeste cerca de 130km a oeste de Madri e está inserida nas comunidades autônomas de Castela e Leão e Extremadura (comunidades autônomas na Espanha são mais ou menos como estados no Brasil). Ela está dividida em Maciço Oriental, Maciço Central e Maciço Ocidental. Nesse trekking eu percorri de ponta a ponta o Maciço Central, que vai de Puerto del Pico a Tornavacas. Do 1º ao 9º dia eu caminhei dentro dos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. O único problema dessa caminhada foi a época escolhida. Em final de junho e início de julho o calor chega próximo dos 40ºC, o que é bastante desgastante e inapropriado para o trekking. No início de junho há o risco de ainda haver bastante neve nos picos mais altos. Creio que a melhor época seja o outono (set, out), antes das neves do final do ano. É bom lembrar que o acampamento selvagem nos parques da Espanha é proibido, mas em todo o percurso eu montei a barraca no cair da noite (ou quase), desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local. Serra de Gredos 1º DIA - 25/06/19 - de Cuevas del Valle à crista da Serra de Gredos Duração: 4h (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 1839m na crista da Serra de Gredos Menor altitude: 844m em Cuevas del Valle Resumo: nesse dia encarei a subida inicial da Serra de Gredos a partir da cidade de Cuevas del Valle, com desnível de 995m desde essa cidade à crista da serra Na Estacion Sur em Madri tomei o ônibus da empresa Samar às 11h para a cidade de Cuevas Del Valle. Desci do ônibus às 13h52 e aproveitei que havia um restaurante a poucos metros para uma última refeição decente antes de entrar na trilha. Altitude de 844m. Iniciei a caminhada às 15h05 cruzando o asfalto da N-502 e depois a cidadezinha de Cuevas del Valle no sentido norte. Como era hora da siesta, o lugar estava completamente deserto. O calor ajudava a manter as pessoas dentro de casa, longe daquele sol forte. Há uma bica de água fresca num largo logo à entrada da cidade para abastecer os cantis já que não haverá muitas fontes nesse dia. Passei à direita da Capela de Nossa Senhora das Angústias e na bifurcação seguinte tomei a direita, subindo e seguindo a sinalização da GR 293 em direção a Puerto del Pico (para mais informações sobre as trilhas GR: es.wikipedia.org/wiki/Sendero_de_Gran_Recorrido). Esse caminho é chamado de Calzada Romana. Mas logo tive de fazer a primeira parada na sombra, por 30 minutos, pois o sol estava fritando. Continuando a subida, fui à direita na bifurcação e encontrei um cocho com água corrente, mas cheio de lama ao redor. Às 16h08 cruzei a N-502 e continuei subindo pelo calçamento de pedras da Calzada Romana. Parei mais três vezes na sombra. Às 17h34 cruzei mais uma vez a N-502 e 17 minutos depois parei na última água do dia para completar todos os cantis. O caminho faz um zigue-zague e já se avista Cuevas del Valle bem abaixo. Passo pelas ruínas do Portazgo (posto de pedágio do século 13) às 18h07 e 10 minutos depois termina a Calzada Romana junto à rodovia (altitude de 1371m). Esse lugar se chama Puerto del Pico (puerto em espanhol significa passo entre montanhas) e aqui entro nos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. Puerto del Pico é o limite natural entre os maciços central e oriental da Serra de Gredos. Continuo por caminho paralelo à N-502 com a extremidade oriental do Maciço Central da Serra de Gredos à minha esquerda esperando para ser "escalada". Entrei no primeiro asfalto à esquerda e caminhei apenas 70m até um portão de ferro com mata-burro ao lado. Não cruzei o portão, entrei na trilha à esquerda antes dele às 18h25. Uns 170m depois entroncou uma outra trilha vindo da esquerda e a segui até encontrar uma cerca. Acompanhei a cerca subindo para a esquerda e ao final dela a trilha desapareceu por alguns metros. Segui os totens e a reencontrei. Já estava subindo a encosta da Serra de Gredos. Do outro lado de Puerto del Pico, a leste, avisto bem marcada a trilha de ascensão ao Pico Torozo, este já pertencente ao Maciço Oriental da Serra de Gredos. A subida pareceu ter fim aos 1622m, às 19h28, mas continuou. Procurei me manter à direita para chegar logo à crista. Novamente a subida pareceu ter fim aos 1749m, às 20h19, porém só atingi mesmo a crista da Serra de Gredos às 20h43, aos 1839m. Logo surgiu um aceiro vindo da direita e o tomei para a esquerda. Em 200m cheguei a uma estrada de terra bem no alto da serra (!?) e resolvi parar às 21h17 num lugar plano, abrigado do vento e sem tantas pedrinhas para montar a barraca. A primeira impressão da Serra de Gredos foi empolgante, com ampla visão em 360º. Há muitas formações rochosas de formatos curiosos, com grandes pedras equilibradas umas sobre as outras. Dali do alto também pude contemplar um belo pôr-do-sol às 21h45. Altitude de 1814m. Serra de Gredos 2º DIA - 26/06/19 - pela crista da Serra de Gredos até o Pico Peña del Mediodía Duração: 6h35 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2221m em Peña del Mediodía Menor altitude: 1810m Resumo: caminhada para oeste pela crista da Serra de Gredos, porém quase não há trilha definida. Procurar o caminho (ou abrir caminho) entre as moitas de piorno foi cansativo. Do local onde acampei na crista podia avistar toda a paisagem dos vales ao norte da Serra de Gredos e a continuação da serra para oeste, meu destino nos próximos dias. Deixei o acampamento às 10h42 e voltei a caminhar pela estrada no sentido oeste, mas quando ela fez uma curva para a direita (norte) subi à esquerda sem trilha seguindo totens para me manter na crista da serra. Às 11h39 um amontoado de rochas com uma coluna no topo me chamou a atenção e subi para conferir o que havia ali. Trata-se do cume La Fría, onde foi instalado um vértice geodésico. A visão para oeste se amplia bastante. Na continuação, me deparei com um grupo de cabras montesas que imediatamente fugiu, porém um filhote ficou para trás, no alto de uma pedra, apavorado com a minha presença. Ele saiu bem na foto, rs. A encosta norte da serra nesse ponto tem várias estradas de terra e há mais em construção, o que tira todo o "clima" de montanha do lugar. Às 12h25 cruzei uma fileira de mourões sem cerca (ainda) e 32 minutos depois encontrei uma bica de água quase seca, apenas um fio escorria, mas consegui coletar mais abaixo e bebi o máximo que pude pois as fontes são muito raras nessa serra (essa foi a única água desse dia). Um marco de madeira fincado tem uma plaquinha "Senda Puerto del Arenal". Continuei às 13h55 e 190m depois cheguei a uma placa em que se lê: Puerto del Arenal - Ruta Navarredonda-Puerto del Arenal PR-AV 45 (mais informações sobre as trilhas PR em es.wikipedia.org/wiki/Peque%C3%B1o_Recorrido). Nesse ponto chega uma trilha que vem da localidade de El Arenal pela vertente sul da Serra de Gredos e que serve como rota de fuga ou início alternativo a esse trekking. Já vinha avistando El Arenal lá embaixo no vale desde o Pico La Fría. Às 16h11 outra placa: Puerto de La Cabrilla - PR-AV 44, que é outro caminho de El Arenal a Navarredonda de Gredos. A partir daqui a serra começa a se mostrar mais florida pois surgem os grandes campos de piorno, que dá flores amarelas em abundância. A dificuldade era abrir caminho entre os piornos já que não encontrava trilha definida e contínua. Às 20h05 alcanço a maior altitude do dia no Pico Peña del Mediodía, de 2221m, também com uma coluna e um vértice geodésico. A partir desse pico aparece uma trilha ininterrupta, antes só pedaços de trilhas. Continuando para oeste, 400m depois do pico desvio alguns metros à direita até um marco de granito para fotos. A partir do marco a trilha inicia uma longa descida a um outro "puerto". Desconfiei que seria difícil encontrar um lugar plano para a barraca, então procurei nas imediações do marco, onde o terreno era plano e as moitas de piorno me davam alguma proteção contra o vento. Altitude de 2211m. Cabra montesa e ao fundo os picos Almanzor e La Galana 3º DIA - 27/06/19 - do Pico Peña del Mediodía ao Refúgio Elola Duração: 8h30 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2262m Menor altitude: 1948m na Laguna Grande Resumo: continuação pela crista da Serra de Gredos passando por dois refúgios em ruínas e descida ao Circo de Gredos, com a Laguna Grande e o Refúgio Elola Iniciei a caminhada do dia às 9h10, passei pelo marco de granito e comecei a descer ao Puerto del Peón. A decisão de acampar lá no alto se mostrou muito acertada pois encontrei um grupo enorme de jovens bivacando cerca de 300m antes do puerto. Como é proibido montar barraca eu teria no dia anterior que caminhar bem mais e me afastar deles para poder acampar. Às 9h42 passei pela placa que indica o Puerto del Peón, local que marca uma travessia no sentido sudeste-noroeste da Serra de Gredos e que provavelmente era o roteiro daquele grupo pois não os vi mais. Na continuação para sudoeste, a trilha cai por algum tempo para a vertente norte da serra e depois obriga a subir à crista outra vez. Cruzo mais campos de piornos floridos mas em seguida chego a uma região mais árida da serra, um local praticamente só de pedras, e ali, às 11h14, me deparo com as ruínas do Refúgio Los Pelaos, todo de pedras. Há bons espaços para pernoitar protegido do vento desde que você não se impressione com as paredes prestes a desabar. O local também é rota de uma travessia no sentido norte-sul da Serra de Gredos. Uma caminhada alternativa seria subir ao Pico La Mira, de 2343m (desnível de apenas 91m desde as ruínas), mas não encarei. O mais importante: tem água. Às 12h33 prossegui na trilha para oeste e 190m após as ruínas atinjo a maior altitude do dia, 2262m (alcançarei outra altitude igual ainda nesse dia). No horizonte a oeste já avisto uma cordilheira com os picos Almanzor, La Galana e o passo Portilla del Rey, pelo qual passarei entre a Laguna Grande e as 5 Lagunas. A trilha volta a cruzar o tapete amarelo de flores e a crista continua o seu sobe-e-desce. Caminho por alguns trechos com calçamento de pedras. Às 15h05 fui à esquerda (sudoeste) numa bifurcação seguindo os totens, sem trilha definida (à direita teria descido a um estacionamento chamado La Plataforma). Campos de piorno Às 15h21 avistei a oeste o Refúgio del Rey, ainda bem distante. Desci e ao subir ao topo da colina seguinte visualizei a trilha à frente e abaixo. Desci novamente e a encontrei às 16h29. Com mais 8 minutos cheguei ao Puerto de Candeleda (com placas indicando ser a PR-AV 46), outra rota que cruza a serra de norte a sul. Parei para descansar e comer, e para meu espanto apareceu um outro louco solitário fazendo a travessia da serra com um enorme mochilão com não-sei-quantos litros de água. Conversamos um pouco e ele seguiu na frente. Às 17h22 continuei na direção oeste numa longa subida, percorrendo depois uma crista para o norte. Às 18h06 fui à direita numa bifurcação para ver de perto as ruínas do Refúgio del Rey. Ao lado fizeram um cercado com as pedras desabadas que serve como abrigo do vento para um bivaque. Perto do refúgio encontrei água quase parada mas 80m à frente (norte) havia uma ótima bica. Continuei para o norte por uma trilha larga às 18h55. Às 19h17 cheguei a uma cabeceira de vale com capim bem verde e bastante água, ao contrário da secura que vinha enfrentando até aqui. Seguindo os totens cruzei o riacho e subi por um caminho construído com pedras, passando por pequenas lagoas. Às 19h52 uma bonita visão para a esquerda (oeste) das montanhas pontiagudas próximas à Laguna Grande, meu destino nesse dia. Porém a laguna estava bem longe ainda e a descida direta para oeste não se mostrou animadora pela inclinação e ausência de trilha. O jeito foi continuar para o norte, dando uma volta bem grande, mas por trilha bem marcada e segura. Aqui atinjo também a maior altitude do dia, 2262m. Fui à esquerda na bifurcação e comecei a descer. Às 20h33 cheguei a uma bifurcação em T e continuei descendo para a esquerda. À direita se vai à Plataforma e esse é um caminho bastante usado para chegar ao Refúgio Elola. Passei por uma fonte de água e continuei no rumo sudoeste até as margens da Laguna Grande. Contornei toda sua margem leste e sul para enfim chegar ao Refúgio Elola às 21h36, quase no pôr do sol. Esse local é conhecido como Circo de Gredos. Este refúgio foi o único que encontrei guardado, ou seja, com guardas, que aliás estavam jantando e por sorte sobrou alguma janta para mim também. Dentro do refúgio deve-se usar apenas chinelos ou crocs, disponíveis em prateleiras na entrada. Há armários com chave. Os quartos são coletivos e têm beliches bem largas onde dormem muitas pessoas uma ao lado da outra, por sorte havia pouca gente e não precisei dormir espremido. A reserva costuma ser obrigatória mas pelo número pequeno de hóspedes não houve problema em não tê-la feito. O banheiro não tem vaso sanitário e sim uma peça de metal com buraco no chão, como no Nepal. Altitude de 1958m. Talvez o principal destino dos montanhistas que procuram esse refúgio seja o Pico Almanzor, o mais alto da Serra de Gredos, com 2591m.
  10. Siete Picos Início: Cercedilla Final: Cercedilla Duração: 5 dias Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares Dificuldade: média para quem está acostumado a trilhar com mochila cargueira. Há muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 1227m (4º dia) e 1435m (1º dia). A Serra de Guadarrama se localiza a cerca de 70km a norte-noroeste de Madri e é avistada tanto dessa cidade quanto da cidade de Segóvia. Há vários roteiros possíveis de caminhada pela serra, com durações que vão de um a vários dias, porém o acampamento selvagem é proibido no parque (bem como em toda a Espanha), sendo permitido apenas o bivaque acima dos 2100m e somente por uma noite. Eu escolhi fazer um trajeto de forma circular a partir da cidade de Cercedilla que percorresse seis dos cumes mais altos dessa serra: Peñalara (2427m), Cabeza de Hierro Mayor (2376m), Bola del Mundo ou Alto de las Guarramillas (2254m), La Maliciosa (2219m), Siete Picos (2117m) e Peña Águila (2011m). Essas altitudes parecem bastante modestas, inclusive se comparadas às montanhas mais altas do Brasil, porém todas ficam cobertas de neve no inverno, o que obriga ao uso de equipamentos apropriados. Vista do Pico Peña Águila 1º DIA - 17/06/19 - de Cercedilla a Puerto de Cotos com subida do Pico Peña Águila Duração: 8h05 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2011m no Pico Peña Águila Menor altitude: 1140m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla Resumo: nesse dia encarei as primeiras subidas da caminhada com desníveis de 871m desde Cercedilla ao Pico Peña Águila, depois 149m até Puerto de la Fuenfría e 415m da rodovia CL-601 até Puerto de Cotos Na estação Chamartín, em Madri, tomei às 8h10 o trem Renfe com destino à pequena cidade de Cercedilla, aonde cheguei às 9h20. Demorei algum tempo para encontrar o início da trilha para o Pico Peña Águila pois não havia indicação e a trilha não era nada óbvia. O trajeto é o seguinte: saindo da estação do trem deve-se descer a rua à esquerda por 100m até sua guinada para a esquerda, onde passa num túnel por baixo da linha férrea - exatamente na guinada deve-se cruzar a ponte (Rio de la Venta) e o estacionamento em frente para encontrar sob as árvores a trilha com placas de Sendero Ródenas (toda pichada) e Camino Puricelli (com mapa). Outra alternativa é caminhar a partir da plataforma da estação ao longo da linha férrea para oeste e encontrar a mesma trilha num ponto acima das citadas placas. A partir das placas a trilha sobe em zigue-zague até uma rua de terra que deve ser tomada para a direita, subindo (a trilha que sai à direita antes da rua não serve). O casarão bem em frente à trilha funcionava como Albergue El Colladito, mas agora é uma escola infantil. Dali já avistei os Siete Picos, o Pico Bola del Mundo (Alto de las Guarramillas é o nome verdadeiro) e Pico La Maliciosa, meus objetivos para os próximos dias nesse trekking, todos a nordeste. Eram 10h20. Caminhei 640m por essa rua de terra (ignorando um caminho que sai para a direita logo no início dela) e às 10h32 entrei numa trilha à direita onde há uma placa de Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares. É um atalho que me levou a caminhar entre muros de pedra e subir a uma clareira alta com a primeira visão ampla para as serras, com destaque para os Siete Picos. Caminhando na direção de uma casa vazia à esquerda reencontrei a estrada de terra e segui nela para a direita, mas por apenas 200m pois entrei na trilha à esquerda, subindo entre pinheiros. Ali há um cocho de pedra com água corrente. Nas árvores há marcações de PR (Pequeño Recorrido = Percurso Pequeno), que são duas faixas horizontais, uma branca acima e outra amarela abaixo. Para mais informações: es.wikipedia.org/wiki/Pequeño_Recorrido. Às 11h55 cruzei uma estrada de terra (com círculos vermelhos pintados nas árvores) e continuei subindo pela trilha. Alcancei enfim às 12h09 a crista da serra e nela uma bifurcação em T, onde fui para a direita (norte). Nesse ponto estou entrando na famosa e longa trilha GR 10, que vai de Valência a Lisboa (as marcações em tinta branca e vermelha vão aparecer mais acima). Não cruzo o muro de pedra da crista por enquanto. Deixo para trás a floresta de pinheiros e continuo paralelamente ao extenso muro de pedras. Já avisto o cume do Pico Peña Águila, com as encostadas tomadas pelo tapete amarelo das flores piorno. A trilha cruza finalmente o muro de pedras apenas 140m antes do cume, aonde cheguei às 13h17. Visão espetacular num dia de céu limpíssimo: La Pinareja e Montón de Trigo ao norte (cumes da Serra Mujer Muerta); Peñalara a nordeste; Siete Picos, Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, Bola del Mundo (esses três em Cuerda Larga) e La Maliciosa a leste. Altitude de 2011m e desnível de 871m desde Cercedilla. O vento estava forte e bem frio e usei o muro de pedra como proteção para tomar meu lanche. Pico Peña Águila com piornos floridos Às 14h iniciei a descida no sentido oposto ao que cheguei (nordeste) e em 12 minutos caí numa estradinha de terra muito chata. Caminhei por ela até um portão de ferro que cruzei às 14h42 e fechei com atenção seguindo a recomendação da placa (para o gado não fugir). Ali passava uma estrada tediosa de terra, mas procurei por trilha e encontrei uma no sentido nordeste, não muito óbvia no começo. A ela entroncou uma outra vindo da direita chamada Camino Viejo de Segovia. Atravessei uma ponte de madeira (água boa), outra ponte (quase sem água) e à direita surgiu a trilha conhecida como Calzada Romana. A Calzada Romana faz uma curva para a direita e eu preferi me manter no Camino Viejo de Segovia por ser mais direto, por isso segui à esquerda. Porém 190m depois fui à direita e passei a caminhar pela larga Calzada Romana, mas por menos de 100m pois alcancei uma estrada de terra às 16h06. Esse é um importante cruzamento de caminhos, inclusive de uma das rotas do Caminho de Santiago: Puerto de la Fuenfría. Observação: se tivesse caminhado à esquerda na estrada tediosa teria continuado na GR 10 e chegado a esse mesmo lugar. A partir dali a GR 10 toma a direção sul. Um dos significados da palavra puerto em espanhol é "paso entre montañas" ou "collado de montaña", portanto os puertos costumam ser lugares altos que dão passagem de uma vertente a outra da serra/montanha. Após a subida até esse puerto iniciaria uma suave descida. Há diversas placas nesse local indicando e explicando os muitos caminhos que por ali passam. Tantas placas que levei algum tempo para encontrar qual seria a continuação do meu caminho em direção a Puerto de Cotos. Mas era só continuar no meu sentido nordeste por uma estradinha de terra entre pinheiros. Um cocho de pedra tinha água corrente. Na primeira bifurcação fui à direita e na segunda, à esquerda. Às 16h44 a estradinha vira trilha e passo a caminhar pelo Carril del Gallo (sem placa mostrando essa informação). Às 17h41 cheguei a uma grande clareira usada como pasto e parei para descansar por 17 minutos com uma vista bastante ampla e bonita. Continuei no sentido sul (e depois leste) e reentrei na mata de pinheiros. Cruzei uma ponte de troncos e 130m depois alcancei uma estrada de terra, que tomei para a esquerda (norte) (aqui fui explorar uma alternativa à estrada mas não deu em nada, a trilha fechou; gastei 40min nisso). Desprezando as trilhas que nasciam dessa estradinha, às 19h11 cheguei ao asfalto da CL-601, exatamente num local chamado Las 7 Revueltas. Cruzei a cancela e desci à esquerda até uma cancela igual (à direita), onde tomei a estradinha de asfalto entre pinheiros. Altitude de 1409m. Parei para descansar por 22 minutos. Nas bifurcações continuei no asfalto até encontrar às 20h35 uma estradinha de terra à direita com placa de Puerto de Cotos a 3,2km. Passei por quatro riachos e alcancei as casas de Puerto de Cotos às 21h33, ainda com luz do dia (o sol estava se pondo às 21h45). Altitude de 1824m (desnível de 415m desde o asfalto da CL-601). Puerto de Cotos não chega nem a ser uma vila, o lugar se resume a uma estação de trem onde funciona um refúgio de montanha (El Refugio de Cotos), o Centro de Visitantes do Parque Nacional Sierra de Guadarrama e um bar-restaurante (Venta Marcelino). Como é proibido acampar de forma livre e não há camping pago busquei hospedagem no refúgio, onde fui o único hóspede da noite já que era uma segunda-feira (no final de semana estava lotado). Lá fui atendido pelo Carlos, que me preparou um saboroso jantar. O único problema ali foi o banho pois a água não esquentava de jeito nenhum. Além do trem há ônibus ligando Puerto de Cotos a Madri (veja nas informações adicionais). Laguna de los Pájaros 2º DIA - 18/06/19 - Pico Peñalara Duração: 5h20 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara Menor altitude: 1816m na estação de trem de Puerto de Cotos Resumo: circuito passando pelo cume do Pico Peñalara a partir de Puerto de Cotos num desnível de 611m Após o café da manhã no Refugio de Cotos e uma boa enrolação saí às 11h36 para subir o Pico Peñalara com mochila de ataque apenas. Meu plano era subir pela crista do lado sul-sudoeste e descer pelo lado norte-nordeste, retornando pela face leste do pico. Passei pelo Centro de Visitantes Peñalara do Parque Nacional Sierra de Guadarrama para pegar informações e continuei no sentido nordeste por 370m. Logo após a curva do Mirador de la Gitana continuei pela trilha principal, a RV2, à esquerda (voltaria pela trilha da direita, a RV8). Após vencer um desnível de 611m desde o refúgio, com trechos em zigue-zague e grandes manchas de neve próximas ao caminho, alcancei o cume do Pico Peñalara às 13h34. Ele é o ponto mais alto da Serra de Guadarrama e das províncias de Madri e Segóvia. Dali se avistam Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, La Maliciosa e Bola del Mundo ao sul; Siete Picos, Peña Águila, Montón de Trigo e La Pinareja a sudoeste; Segóvia a noroeste. Iniciei o retorno às 14h46 seguindo a crista no sentido norte-nordeste. Cerca de 540m depois, num trecho com grandes blocos de pedra, desci pela face direita da crista, mas estava errado, o caminho foi sumindo e a descida se complicando. Voltei e desci pelo lado oposto, à esquerda da crista, onde havia uma trilha mais fácil. Observei depois que algumas pessoas continuavam pelo alto da crista, mas pelo que vi é preciso saltar grandes blocos de pedra bastante expostos. Desci por trilha bem marcada e alcancei às 16h45 a Laguna de los Pájaros, onde uma placa alerta para a proibição de banho e a permanência a menos de 3m da margem para evitar a mortalidade de anfíbios, entre outros motivos (porém poucos minutos depois encontrei vacas pastando livremente às margens de outras lagoas). Ali tomei a trilha da direita (sul) e efetivamente iniciei o retorno a Cotos. Cruzei com um grupo grande com mochilas cargueiras que pretendia bivacar no Peñalara sem nenhum medo do vento frio da noite. Às 18h13 parei para fotos no Mirador de Javier e tomei o atalho que sai à direita dele para alcançar em 12 minutos a Laguna Grande de Peñalara, que é cercada com um cabo de aço para evitar a aproximação. Saindo da Laguna Grande às 18h54 desci por uma passarela de madeira e depois trilha até a casinha de vigilância e continuei na trilha em frente (ignorando as trilhas da direita e da esquerda). Reentrei na mata, passei por uma bica e reencontrei a trilha da ida (RV2) às 19h38. Passei pelo Centro de Visitantes, pela Venta Marcelino (fechada) e estava de volta ao refúgio às 20h10. La Pedriza 3º DIA - 19/06/19 - de Puerto de Cotos a La Pedriza Duração: 7h50 (descontadas as paradas e erros) Maior altitude: 2376m no Pico Cabeza de Hierro Mayor Menor altitude: 1478m no acampamento em La Pedriza Resumo: subida de Puerto de Cotos ao cordão montanhoso Cuerda Larga num desnível de 560m e descida ao "parque" rochoso de La Pedriza num desnível de 898m Há dois caminhos possíveis para subir à crista de Cuerda Larga a partir de Puerto de Cotos. Um deles sai diretamente para o sul e passa próximo ao Albergue El Pingarron, o outro sai para leste e é 1,3km mais longo, porém foi o que escolhi (talvez tenha menos sobe-e-desce). Saí do refúgio às 10h53 no sentido leste e atravessei todo o estacionamento que fica ao longo da rodovia M-604. No final do estacionamento desci uma escada de madeira e encontrei na mata a trilha que me levaria a Cuerda Larga. Porém ao sair da mata, apenas 170m depois, a trilha sumiu. Cruzando o campo na direção sudeste, entrei em outra mata e reencontrei a trilha junto a uma pequena ponte de tábuas. Uma outra trilha entroncou nessa vindo da rodovia também. Um círculo amarelo pintado nas árvores confirma o caminho. Tomo o rumo sul e depois sudeste, direções que manterei por algum tempo. Cruzo um riacho pelas pedras e desemboco numa estrada, na qual vou para a esquerda, descendo. Atravesso a ponte sobre o Arroyo de las Cerradillas. Encontro outra estrada às 12h01 e desta vez vou para a direita, subindo por um vale com o Arroyo de las Cerradillas à direita. Surgem caminhos à esquerda que exploro tentando evitar a monotonia da estrada, mas foi só perda de tempo (apesar dos sinais vermelhos pintados nas árvores). Felizmente logo a estrada vira trilha (na bifurcação vou à direita), cruzo três pontes, a trilha dá uma guinada para o norte e chego a uma bifurcação com placas às 14h34. Da direita vem a trilha do Albergue El Pingarron, o outro caminho de Cotos. Eu sigo para a esquerda retomando o rumo sul. Cruzo quatro riachos em sequência, formadores do Arroyo de las Cerradillas. Alcanço o limite das árvores (1825m) e passo a subir por entre moitas de piornos floridos. Depois vem a parte mais inclinada da encosta da serra com a dificuldade de caminhar por um terreno chamado de canchal (em espanhol) ou scree (em inglês), uma ladeira de pedras desmoronadas. Cruzo um riacho para a direita às 15h26 e essa será a última água até descer para a outra vertente no final do dia. La Pedriza Às 16h40 alcanço enfim a crista de serra conhecida como Cuerda Larga. Desnível de 505m desde as placas. Dali avisto as formações rochosas de La Pedriza, a cidade de Manzanares El Real, meu objetivo deste dia, e bem distante no horizonte a capital Madri. Sigo para a esquerda (nordeste) na bifurcação em T às 17h02. O Pico Cabeza de Hierro Menor (2374m segundo a Wikipedia), segundo mais alto de Cuerda Larga, fica apenas 300m à direita dessa bifurcação, mas não fui até ele. Seguindo pela crista (PR-M 11), um desvio de apenas 40m à esquerda me leva ao cume mais alto de Cuerda Larga, o Pico Cabeza de Hierro Mayor, com 2376m de altitude pelo meu gps. Ele é o segundo em altitude da Serra de Guadarrama, perdendo apenas para o Peñalara. Avisto lá do alto o estacionamento de Puerto de Cotos onde iniciei a caminhada desse dia e também as montanhas: Peñalara ao norte; La Pinareja, Montón de Trigo, Siete Picos, Peña Águila e Bola del Mundo a oeste; La Maliciosa a sudoeste; La Pedriza e Manzanares El Real a sudeste; e ao sul-sudeste os prédios de Madri. Desnível de 560m desde o refúgio em Puerto de Cotos. Continuando pelo sobe-e-desce da crista no sentido leste passo pelos outros cumes de Cuerda Larga: às 18h08 pela Loma de Pandasco (2247m, segundo a Wikipedia, não fui medir cada um), às 19h06 por Navahondilla (2234m) e às 19h15 por Asómate de Hoyos (2242m). Nesse trajeto tive o primeiro contato com as cabras montesas e estavam em grande número, mas são mansas e ariscas. Cerca de 310m após o último cume sigo os totens e faixas pintadas à direita e abandono a crista de Cuerda Larga, que segue para nordeste, em favor de uma crista secundária a sudeste que me leva ao "parque" rochoso de La Pedriza. O lugar é incrível, com formações fantásticas de granito, algumas lembrando o nosso Parque Nacional de Itatiaia. Há inúmeros caminhos em La Pedriza, muitos deles usados por escaladores para acesso às pedras e suas vias. Vários outros levam ao vale do Rio Manzanares, o qual eu deveria percorrer para alcançar o Camping El Ortigal, a caminho da cidade de Manzanares El Real. Dos muitos caminhos ao Rio Manzanares optei pelo mais direto, passando pelo Refugio Giner de los Rios (PR-M 2). Após descer 330m (de altura) desde a crista de Cuerda Larga pela PR-M 2, às 21h02 chego a uma bifurcação em T em Collado del Miradero e vou para a esquerda (ainda PR-M 2), reentrando no bosque de pinheiros cerca de 100m depois. Voltam a aparecer as fontes de água e com elas os locais propícios para o bivaque para quem se aventura escalando as muitas pedras do entorno. Já estava começando a anoitecer (quase 22h) e o camping ainda estava muito longe, então parei no primeiro local plano que encontrei, na altitude de 1478m, para pernoitar. Sierra de los Porrones 4º DIA - 20/06/19 - de La Pedriza a Puerto de Navacerrada Duração: 8h10 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2254m no Pico Bola del Mundo Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares Resumo: descida de La Pedriza ao Rio Manzanares, em seguida subida aos picos La Maliciosa e Bola del Mundo e descida a Puerto de Navacerrada. Diferença de 1227m entre os pontos mais alto e mais baixo do dia. Esse dia e o dia seguinte são de escassez de água. É preciso reabastecer os cantis nas poucas fontes encontradas no começo desse dia para durarem até a tarde do dia seguinte (a menos que se consiga água em Puerto de Navacerrada, que não foi o meu caso). De manhã fui explorar o entorno do local onde acampei e encontrei um lajedo com pedras de diversos formatos e tamanhos, uma miniatura do Lajedo do Pai Mateus de Cabaceiras(PB). É bom lembrar que o acampamento selvagem nos parques da Espanha é proibido, mas eu montei a barraca já à noite, desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local. Comecei a caminhar às 8h18 ainda descendo. Apenas 340m depois do local de pernoite, aos 1433m de altitude, encontrei um cruzamento de trilhas mas fui em frente pois era o caminho mais rápido ao Refugio Giner de los Rios e depois ao Rio Manzanares. Continuo na PR-M 2. Aos 1256m encontrei a primeira água do dia. Às 9h28, na altitude de 1179m, uma placa aponta para o refúgio à esquerda, num desvio de 150m da trilha principal. Cruzei uma pequena ponte e depois uma clareira para subir ao refúgio, que encontrei em bom estado porém trancado. A bica ao lado estava quase seca. A clareira tem espaço de sobra para acampar porém logo cedo já começam a passar os trilheiros e escaladores uma vez que há um estacionamento a 2km dali. Voltei à trilha principal às 10h08. Às 10h39 cheguei ao Punto de Información Canto Cochino, mas estava fechado (só abre de sábado, domingo e feriado das 9h às 17h). Esse é o ponto de convergência de pelo menos quatro trilhas que descem de La Pedriza e as placas indicam esses caminhos. Foi também o local onde vi mais gente. Dali tomei a direção sul por um calçamento e cruzei às 10h58 a ponte sobre o Rio Manzanares, encontrando do outro lado uma estrada e um pequeno estacionamento. Essa ponte é o ponto de menor altitude do dia e de todo o trekking (1027m) e a última água do dia. A estrada quebra para a direita e ao fazer uma curva para a esquerda encontro dois grandes estacionamentos e um ou dois bares (se fosse ao Camping El Ortigal teria que tomar a direção sul aqui). Ao final dos estacionamentos cruzo o asfalto e entro na trilha em frente (oeste). Na bifurcação uns 35m depois vou à esquerda (pois a direita morre no asfalto mais à frente). Cerca de 1,1km depois da bifurcação chego às 11h31 a um cruzamento de trilhas, onde vou para a esquerda, quase voltando. Meu objetivo é subir à crista da Sierra de los Porrones e descer à cidade de Puerto de Navacerrada para pernoite. Sierra de los Porrones Não percebi uma trilha saindo para a direita e subi até um muro de pedras que fui contornando para a direita até reencontrar a trilha no sentido oeste novamente. Às 12h21 cruzei uma estrada de terra e parei para descansar e me refrescar do forte calor. Os insetos também estavam incomodando um bocado. Nesse ponto há algumas placas e uma delas apontava para o Pico La Maliciosa, meu destino. Faixas amarelas e brancas pintadas indicam ser uma rota de Pequeño Recorrido, nesse caso a PR-M 16. Havia um cocho de pedras mas as bicas estavam secas. Às 13h05 retomei a caminhada agora subindo bastante. Nessa subida pela encosta norte da Sierra de los Porrones tive de fazer mais algumas paradas longas porque o calor estava me tirando a energia. Às 15h53 atingi a crista da serra e fui à direita na bifurcação, subindo, pois a trilha da esquerda desce pela vertente sul da serra. Às 17h22 avistei uma grande formação rochosa à frente e uma nítida trilha subindo ao seu cume: era o Pico La Maliciosa, uma dura subida ainda a enfrentar. As árvores desaparecem. Alcancei o cume de La Maliciosa às 18h57 e havia mais duas ou três pessoas. Conversei com um rapaz de Madri que veio fazer um bate-e-volta desde a capital até esse pico e já ia retornar! La Maliciosa é o pico mais alto da Sierra de los Porrones, com 2219m, e dali se avistam: Bola del Mundo e Pico Peñalara ao norte; Cabeza de Hierro Mayor e Cabeza de Hierro Menor a nordeste; La Pedriza a leste; Manzanares El Real e o reservatório Embalse de Santillana a sudeste; Madri ao sul-sudeste; Navacerrada a sudoeste (não é Puerto de Navacerrada, que fica mais acima e não se vê dali); Peña Águila e Siete Picos a oeste. Retomei a caminhada às 19h18 em direção a Bola del Mundo e suas horríveis antenas parecendo três foguetes prestes a ser lançados. Continuei pela crista da serra por mais 520m no sentido noroeste e tomei a direita (norte) na bifurcação onde a esquerda desce a vertente sul em direção à cidade de Navacerrada. Desci por um caminho de pedras com bifurcações mantendo a direita e cruzei na parte mais baixa uma outra trilha que corria no sentido leste-oeste. Subi a encosta oposta por caminho largo e cheguei a Bola del Mundo, ou Alto de las Guarramillas, às 20h32. Aqui retorno ao cordão montanhoso Cuerda Larga já que esse pico é o mais ocidental dele, com altitude de 2254m. Mas aquelas antenas causam tanto incômodo que não parei, segui para oeste, agora por estradinha concretada (350m a leste de Bola del Mundo se situa o Ventisquero de la Condesa, local onde nasce o Rio Manzanares, mas não fui até lá para conferir se seria fácil coletar água abaixo do nevado). Desci 850m pela estradinha e cheguei a um bar-restaurante que deve funcionar somente no inverno, quando a pista de esqui da face oeste da montanha entra em atividade. Ao lado do bar-restaurante fica a chegada do teleférico que parte de Puerto de Navacerrada, mas a inclinação e o terreno de pedras soltas dificultam a descida direta por ali. Tive de descer pela estradinha de concreto mesmo, com todas as suas curvas e zigue-zagues. Às 21h35 cruzei a cancela ao lado do ponto de partida do teleférico e com mais 5 minutos cheguei a Puerto de Navacerrada, cortada pela rodovia M-601. Altitude de 1862m. Procurei hospedagem no Albergue Peñalara, mas estava fechado. O único lugar aberto e funcionando era o Hotel Residência Navacerrada, porém a mulher fez uma cara de assustada quando me viu entrar de mochila cargueira nas costas e foi logo dizendo que o hotel estava lotado. Já era noite. A única saída era acampar. Procurei o início da trilha do dia seguinte, desviei para dentro da mata com lanterna e encontrei um lugar plano, espaçoso e muito discreto para montar a barraca a menos de 300m da rodovia. Há trem e ônibus ligando Puerto de Navacerrada a Madri (veja nas informações adicionais). Siete Picos 5º DIA - 21/06/19 - de Puerto de Navacerrada a Cercedilla Duração: 6h05 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2117m no Pico Somontano, em Siete Picos Menor altitude: 1149m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla Resumo: subida de Puerto de Navacerrada aos Siete Picos num desnível de 255m e descida a Cercedilla num desnível de 968m Desmontei acampamento e voltei à rodovia para ver se havia algum lugar aberto para tomar um café da manhã, mas continuava tudo fechado. Iniciei a caminhada do dia às 8h45 entrando na trilha sinalizada como "Sendero Arias" e "Estacion Ferrocarril" localizada entre o Hotel Residência Navacerrada e o estacionamento dos restaurantes/cafeterias mais acima. Após uma plataforma de teleférico à esquerda o caminho trifurca e fui para a direita. Cruzei uma cancela de ferro e subi à direita e depois esquerda na bifurcação. Cheguei a uma cerca de troncos finos que delimita uma pista de esqui pequena (talvez para iniciantes) e parei para tomar meu desjejum. Às 9h41 continuei subindo pela floresta de pinheiros e alcancei uma grande clareira com outro teleférico. À frente (oeste) já avisto toda a extensão dos Siete Picos. Percorro no sentido sudoeste por 230m um caminho largo que vem do teleférico mas o abandono para tomar um outro um pouco mais estreito à esquerda que me leva à formação rochosa com a pequena estátua da Virgen de las Nieves. Dali se avistam o Pico Peñalara, Bola del Mundo, Puerto de Navacerrada e La Maliciosa. A trilha continua a partir dali e corre paralela ao caminho largo que abandonei. Às 10h48 chego a uma grande clareira gramada onde caberiam muitas barracas, ainda com um lindo mirante uns 100m depois (porém não há água). Retomo às 11h07 o caminho largo que havia abandonado e ele começa a se estreitar ao cruzar uma outra trilha - continuo em frente (noroeste) e tomo a esquerda na bifurcação 45m depois. Começo a subir em direção aos cumes de Siete Picos. Nos 2109m de altitude vou à esquerda numa bifurcação em T e 165m depois já estou no ponto mais alto, o pico conhecido como Somontano, de 2117m, às 11h44. Desnível de 255m desde Puerto de Navacerrada. Porém uma forte neblina havia tomado conta do lugar, mal me deixando ver a formação rochosa do pico, o mais oriental do conjunto. Piornos floridos Às 12h12 continuo pela trilha da crista, que se divide em várias, mas tento sempre me manter na mais alta. Passo por mais um dos cumes, ainda com muita neblina, e às 12h38 surge uma bifurcação em que se deve continuar à esquerda pois a direita desce a vertente norte da montanha. Na bifurcação seguinte vou para a esquerda e passo por mais um dos cumes. A neblina começa a se dissipar e o dia volta a ficar perfeito para fotos. Paro por 46 minutos para almoçar e curtir o visual. Antes de descer a encosta sul da montanha faço um desvio de uns 50m para alcançar mais um dos cumes às 14h37. A partir desse ponto inicio a descida e aos poucos reentro na mata de pinheiros. Na altitude de 1906m saio da trilha principal para subir (escalaminhar) o Pico de Majalasna (1935m), o mais ocidental dos cumes de Siete Picos e um tanto afastado dos outros que se encontram na crista. Do seu alto, às 15h36, avisto La Maliciosa e Peña Águila (as nuvens não me deixam ver mais que isso). Só retomo a caminhada às 16h33. Continuando a descida passo por duas fontes de água mas com muito pouca vazão. Essas fontes são a primeira água que encontro desde o Rio Manzanares, na manhã do dia anterior. Às 17h46 cruzei uma estrada de terra com diversas placas e seguindo 120m para oeste encontrei uma bica com mais água sob um abrigo de pedras (Refúgio del Aurrulaque). Parei para descansar e beber bastante água. Ao cruzar essa estrada de terra estou cruzando novamente a GR 10. A partir do abrigo tomei às 18h35 a Vereda Alta: desci no rumo noroeste, cruzei outra estrada de terra e na bifurcação abaixo fui à direita (à esquerda um X pintado numa árvore). Às 18h59 parei em mais uma fonte de água. Surgem trilhas vindo da direita e sigo por 115m um muro de pedras, mas ele continua à direita numa bifurcação em que vou para a esquerda. Às 19h41 chego a uma clareira com muitos caminhos para todos os lados. Fica até difícil descrever em detalhe o que fiz, para resumir tomei a direção sudoeste e alcancei o Caminho del Agua, uma trilha bem larga em que há um cano semi-enterrado. Às 20h13 vou à direita numa bifurcação e já começo a marcar algum lugar discreto para acampar em caso de necessidade, porém logo encontro um portão de ferro e depois algumas casas. Às 20h30 chego à periferia de Cercedilla. Primeiro cruzo uma rua e continuo na trilha em frente. Mais abaixo a trilha termina no asfalto da M-966, onde vou para a esquerda. Com mais 290m, às 20h47, estou na estação ferroviária de Cercedilla, onde tudo começou cinco dias atrás. Ainda havia trens e ônibus para Madri mas eu não tinha reservado nenhum hostel lá e ia chegar muito tarde (o trem sairia 21h33 e deveria chegar a Madri às 22h37). Procurei hospedagem em Cercedilla mas só encontrei lugar caro. O jeito foi me meter na floresta de novo e encontrar um lugar afastado para montar a barraca. No dia seguinte peguei o trem das 8h30 e cheguei às 9h35 à estação de Chamartín, em Madri. Há opções de ônibus também (veja nas informações adicionais). Siete Picos Informações adicionais: . trens na Espanha: www.renfe.com . ônibus 680 - Madri-Cercedilla-Madri: www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__680___.aspx . ônibus 684 - Madri-Cercedilla-Madri: www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__684___.aspx?origen=2 . ônibus 691 - Madri a Puerto de Navacerrada e Puerto de Cotos www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__691___.aspx . Refúgio em Puerto de Cotos: 32 euros o quarto coletivo com café da manhã e jantar, banheiro no corredor. Mais preços no site elrefugiodecotos.com. . roteiro adaptado a partir das informações do guia Lonely Planet Walking in Spain, 3ª edição, 2003 Rafael Santiago junho/2019 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  11. Oi, Marcelo Desculpe a grande demora na resposta. A sua viagem está chegando, hein! Você consegue sim encontrar cartuchos em Lukla, Namche e até em vilas menores como Thame. Mas melhor garantir e comprar nas vilas principais mesmo. Espere pagar sempre um preço muito mais alto do que pagaria em Kathmandu, como qualquer outro produto, mas se você vai de avião a Lukla não tem outro jeito. Quanto ao seguro não sei te dizer. Viajei apenas com o seguro do cartão de crédito. Se você começar a se sentir mal por causa da altitude, desça imediatamente pois você deve melhorar (a pé mesmo). Não espere piorarem os sintomas. Hoje em dia existe uma "indústria do resgate de helicóptero" no Nepal. Qualquer problema se resolve com helicóptero. E não precisa chegar a esse ponto. Os guias forçam a barra na subida, não respeitam a aclimatação individual e depois se livram do "turista-problema" chamando o resgate. Não caia nessa! Ótima viagem pra você!
  12. Olá, Marcelo! Legal que você está curtindo os meus posts. Procuro recolher o máximo de informação pra deixar tudo bem fácil no planejamento dos outros trilheiros e também pra tentar estimular as pessoas a fazerem de forma independente pois, na minha opinião, é uma experiência muito mais enriquecedora. Vamos às suas dúvidas. Algumas respostas você encontra nos três relatos do Campo Base do Everest que eu publiquei aqui no Mochileiros (e no meu blog), então vou responder e colocar o link pra você buscar mais informações lá, blz? Perg: Vc saberia dizer se consigo retirar minhas permissões para trekking em Lukla? Resp: Quem fazia o trekking do Campo Base do Everest até outubro de 2017 tinha que pagar a permissão chamada TIMS Card em Kathmandu. Após essa data o TIMS foi substituído por uma "permissão local" que você paga em Lukla ou Monjo, e não mais em Kathmandu (eu paguei em Monjo já que não passei por Lukla na ida). A outra permissão é a entrada do Parque Nacional Sagarmatha que você paga em Monjo, um vilarejo no caminho. Para mais informações: www.mochileiros.com/topic/81821-pequeno-guia-de-trekking-independente-no-nepal Perg: Por ser o auge da temporada...mês de outubro, corro alguns risco de não encontrar lugar para passar a noite sem efetuar algum tipo de reserva ? Resp: Pela experiência que eu tive em Kathmandu em outubro/18 você encontra hospedagem sim, mesmo sem reserva. Pode não ser na primeira ou segunda tentativa, mas encontra. Há dezenas, centenas de hostels e hotéis, principalmente no Thamel. Mas uma reserva pela internet não vai sair mais caro e vai te dar a tranquilidade de sair do aeroporto e já ter um destino certo, sem precisar camelar com a mochila nas costas pelas ruas caóticas da cidade. Perg: Ao longo do trekking ...nas vilas ...todos os pagamentos foram efetuados em moeda local/em dólares ? Resp: pague sempre na moeda local (rupia nepalesa). Percorra as casas de câmbio do Thamel, encontre a melhor cotação e faça os seus dólares renderem. Nunca pensei em pagar nada durante o trekking com dólar pois mesmo que aceitassem o câmbio seria desfavorável. Pelo horário que você vai chegar a Kathmandu ainda dá tempo de encontrar as casas de câmbio do Thamel abertas. Dica quente: eu encontrava as melhores cotações numa "portinha" na Rua Thamel Marg quase esquina com a JP Marg (veja no Google Maps). Numa emergência você pode fazer câmbio em Lukla ou Namche Bazar, porém com taxas mais baixas em relação a Kathmandu. Perg: Existe algum diferencial ao comprar as passagens ida + volta (Kathmandu x Lukla X Kathmandu), tipo ...caso termine o trekking antes do planejado poderia trocar a data do retorno sem custo ? Saberia dizer algo ? Geralmente as pessoas compram o retorno pra Kathmandu qdo terminam o trekking diretamente no aeroporto de Lukla ? Resp: Todos compram o retorno Lukla-Kathmandu em Kathmandu mesmo para se garantir pois na alta temporada esses voos lotam com vários dias de antecedência. Se precisar alterar a data do voo, entre em contato com a agência que te vendeu a passagem (pegue o whatsapp deles) e peça a alteração durante o trekking com a maior antecedência possível para que eles consigam te encaixar em outro voo. Se você comprar a passagem diretamente no site das cias aéreas deve pagar alguns dólares mais barato porém a alteração talvez seja mais complicada pela dificuldade de se comunicar com a cia. Eu comprei a minha passagem na agência Info Nepal Treks & Expedition, que pertence ao Hotel Lily (www.infonepaltrekking.com), e fiquei muito satisfeito com o serviço. Quando eu pedi por whatsapp a alteração de data o Raju foi muito atencioso e me fez a alteração em questão de minutos, sem nenhum custo. Paguei US$175 pela passagem Lukla-Kathmandu (paguei em dólar porque era mais barato do que em rupia pela cotação que eles fizeram). Mas você pode (e deve) pesquisar os preços, há muitas agências no Thamel. Os sites das companhias aéreas que fazem o trajeto Kathmandu-Lukla eu atualizei no Pequeno guia (www.mochileiros.com/topic/81821-pequeno-guia-de-trekking-independente-no-nepal) e no relato www.mochileiros.com/topic/83278-trekking-pheriche-lukla-nepal-nov18. Se tiver mais dúvidas é só mandar. Um abraço e ótima viagem pra você! Vai ser a viagem mais marcante da sua vida, como foi pra mim! Rafael
  13. Pico Moditse visto do Campo Base do Annapurna ao amanhecer Início: Kande Final: Nayapul Duração: 12 dias Maior altitude: 4121m no Campo Base do Annapurna Menor altitude: 1004m entre Birethanti e Nayapul junto ao Rio Modi Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis de 340m a 1680m diários, ultrapassando os 3000m, o que exige cuidado com a aclimatação Permissões: permissão ACAP (Rs 3000 = US$ 26,04) e TIMS card (Rs 2000 = US$17,36), ambos obtidos no Tourist Service Center em Kathmandu Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. Este trekking foi uma combinação de dois roteiros a partir da cidade de Pokhara, a noroeste de Kathmandu: Campo Base do Annapurna e Poon Hill. Os dois roteiros são extremamente populares e lotam completamente na alta temporada de outubro e novembro, por isso deixei para fazê-los na virada de novembro para dezembro. O trekking do Campo Base do Annapurna (ABC, na sigla em inglês), ou Santuário Annapurna, sai de uma altitude de 1710m em Kande e percorre florestas de rododendros e muitos vilarejos antigos com suas plantações em terraços para somente no 5º dia entrar numa paisagem de alta montanha onde se encontram os campos base das montanhas Machapuchare e Annapurna, numa altitude máxima de 4121m. Este trekking percorre altitudes bem mais modestas que o trekking do Campo Base do Everest e por isso é uma boa opção para o início de dezembro, quando as temperaturas já caíram bastante em relação a outubro e novembro. Outro fator que me levou a fazer esse trekking em dezembro, como disse, foi fugir da lotação da alta temporada. Algumas vilas do caminho têm uma oferta bem pequena de hospedagem e mesmo em dezembro tive que dividir o quarto com outras pessoas pois alguns lodges estavam lotados. O trekking Poon Hill sai de uma altitude de 1022m em Nayapul e percorre também muitos vilarejos e infinitas escadarias de pedras para alcançar a vila de Ghorepani (2874m) e sua famosa atração, a colina Poon Hill, de onde se tem uma das vistas mais espetaculares de toda a região do Annapurna e do Himalaia. Há uma conexão por trilhas entre esses dois bonitos trekkings, Campo Base do Annapurna (ABC) e Poon Hill, e nessa conexão eu fiz o trekking Poon Hill ao contrário do descrito acima (de Ghorepani a Nayapul). Para quem dispõe de tempo para combinar os dois roteiros e não quer se arriscar caminhando muitos dias numa altitude acima dos 4000m no Everest essa é uma excelente opção. Toda a região abrangida por esses dois trekkings é uma área de proteção e está sob a administração do ACAP (Annapurna Conservation Area Project). Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são: . Australian Camp: NCell . New Bridge: NCell . Chomrong: NCell só na parte alta da vila . Sinuwa: NCell . Bamboo: NCell . Dovan: Sky Cdma . Himalaya: Sky Cdma . Deurali: Sky Cdma . Campo Base do Machapuchare: Sky Cdma . Campo Base do Annapurna: Sky Cdma . Ghandruk: NCell (internet muito lenta) . Tikhedhunga: NCell Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Cânion do Rio Modi 23/11/18 - ônibus de Kathmandu a Pokhara No dia anterior (22/11) eu havia comprado a passagem de ônibus para Pokhara numa agência da IME Travels, na Avenida Kantipath, bem perto do bairro do Thamel onde eu estava hospedado, com a doce ilusão de que o ônibus sairia dali mesmo (saíam até julho de 2018). Mas depois a atendente me falou que ali agora era só um escritório, os ônibus saem mesmo de um lugar chamado Sorhakhutte. Felizmente não é longe do Thamel também, dá para ir a pé em cerca de 15 minutos (a partir do Hotel Discovery Inn onde eu estava). Ela me vendeu uma passagem da empresa Reed Travels & Tours. Esse é um ônibus "turístico", não é um ônibus local. O ônibus local não me foi recomendado pois trafega em alta velocidade pelas estradas e os motoristas são muito imprudentes. Ele é mais barato, mas a diferença de preço é pequena e não compensa o risco. Nesse dia 23/11 cheguei ao Sorhakhutte e me deparei com uma fila enorme de ônibus estacionados na calçada da Rua Swayambhu Marg. São muitas empresas diferentes fazendo esse trajeto a Pokhara. Tive que perguntar para várias pessoas e o ônibus da empresa Reed era um dos últimos. Foi o primeiro ônibus grande em que viajei no Nepal (por ser um ônibus "turístico"). Todos partiram às 7h. Felizmente o percurso é todo em asfalto, sem aquele terror de ficar pulando e chacoalhando dentro de um ônibus minúsculo, como foi no Langtang e em Shivalaya. A passagem que comprei de Rs700 (US$6,08) era num ônibus sem banheiro, mas há ônibus com banheiro também. São feitas duas paradas no caminho, com banheiros e fartura de comida para quem quiser almoçar. Esse que peguei oferecia uma garrafa de água mineral aos passageiros. Chegamos a Pokhara às 15h, no terminal Tourist Bus Park. Como Pokhara é uma cidade grande (a segunda maior do Nepal), pesquisei antes pela internet alguma hospedagem para ir direto e não ficar procurando hotel com a cargueira nas costas. Optei pelo Harry Guest House. O quarto com banheiro privativo saía por apenas Rs700 (US$6,08). Seguindo o gps caminhei do terminal até o Harry em 27 minutos (1,9km). A localização é muito boa, numa avenida central do bairro Nareshwor com várias opções de restaurante e bastante comércio. O centro de Lakeside Norte, o bairro mais turístico, com restaurantes, cafés, livrarias e mercadinhos fica a 550m do hotel. O Harry dá toda a informação necessária sobre trilhas na região do Annapurna e passeios na cidade. Ele me sugeriu que iniciasse o trekking do Campo Base do Annapurna por Kande e não por Phedi pois teria um visual muito bonito das montanhas em Australian Camp. Pokhara, mesmo sendo a segunda mais populosa do Nepal, é uma cidade bem mais simpática e tranquila que a caótica e poluída Kathmandu. O Lago Phewa dá um clima mais gostoso à cidade, que é frequentada por muitas "tribos" diferentes. Algumas das montanhas vistas a partir de Australian Camp: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II e Asapurna 1º DIA - 24/11/18 - de Kande a Australian Camp Duração: 1h10 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2046m Menor altitude: 1706m Resumo: nesse dia encarei a primeira subida da caminhada, mas num desnível de apenas 340m pois parei na vila Australian Camp para ter pela manhã a bonita vista das montanhas Annapurna e Machapuchare. À tarde as nuvens já não deixavam ver nada. Saí do Harry Guest House às 8h10 na direção leste pela Avenida Phewa Marg. Caminhei 21 minutos até um local chamado Zero Kilometer. Ali esperei o ônibus para Kande (eles pronunciam káre) na calçada da esquerda (lembrando que no Nepal a mão é inglesa) da Avenida Pokhara-Baglung. Como os ônibus têm as placas escritas somente em nepalês pedi ajuda a alguns homens que estavam ali conversando. Esperei 24 minutos e às 8h55 eles pararam o ônibus certo para mim, que já veio lotado, mas depois foi esvaziando e pude sentar. O ônibus, após deixar a cidade, sobe bastante por estradas ruins de asfalto. Saltei em Kande às 10h33 e era o ponto final desse ônibus (há outros que continuam para outros vilarejos à frente). Logo fui abordado por algumas mulheres dizendo serem refugiadas tibetanas, contando histórias, para depois oferecerem (e insistirem para comprar) o artesanato que faziam. Aproveitei para comer alguma coisa ali mesmo pois há alguns restaurantes e a comida dali para a frente na trilha só iria aumentar de preço. De Kande já é possível avistar no alto de uma serra ao norte-nordeste um dos lodges e algumas barracas de Australian Camp. Coloquei o pé na trilha às 11h10. O início, no meio dos casebres da estrada, está sinalizado com uma placa do ACAP. Altitude de 1710m. Segui na direção norte e noroeste por trilha que aos poucos foi se transformando numa estradinha de terra. Na primeira bifurcação havia placa apontando para a esquerda, mas na segunda não havia placa apontando para a trilha à direita da estrada, que é um atalho. Na subida pela trilha quem eu encontro? O casal húngaro Zita e Daniel, que conheci em Bhandar e reencontrei várias vezes no trekking do Everest. Eles não haviam pago as permissões para o trekking do Annapurna pois não tinham intenção de fazê-lo completo, foram apenas até Pothana, onde está o primeiro check post do ACAP. Ao final dessa trilha-atalho entronca à esquerda a estrada que abandonei alguns minutos antes. Uns 150m acima a estrada vira trilha. Esse trekking será repleto de escadarias de pedra e elas começaram a aparecer já nesse primeiro dia. Apareceu também pintada nas árvores uma sinalização de duas faixas horizontais em branco e vermelho, como nas trilhas GR da França, mas ela seria bastante esporádica nesse trekking. Às 12h31 fui à esquerda numa bifurcação com placa e cheguei a Australian Camp às 12h47. Apesar de muito cedo, resolvi parar para dormir ali pois diziam que o visual das montanhas era incrível e naquele horário as nuvens já não deixavam ver nada. Percorri os quatro lodges do vilarejo e só o Machapuchare Lodge tinha vaga. Era um sábado e dezenas de adolescentes nepaleses lotavam os lodges. Algumas pessoas estavam acampadas também. Como estava tudo cheio não tive muita margem de negociação no preço do quarto, que saiu por Rs250 (US$2,17). O banheiro ficava numa varanda nos fundos, exposto ao frio à noite. Tinha ducha a gás, vaso sanitário com descarga acoplada e lavatório sem torneira. Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte. Altitude em Australian Camp: 2046m Preço do dal bhat: Rs 500 (o dobro do preço de Pokhara já no primeiro vilarejo) Preço do veg chowmein: Rs 350 Pico Machapuchare (Fish Tail) visto de Australian Camp 2º DIA - 25/11/18 - de Australian Camp a New Bridge Duração: 5h40 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2150m Menor altitude: 1378m Resumo: nesse dia subi por bosques até a vila de Pitam Deurali (desnível de 104m) e desci por trilhas e estradas de terra toda a encosta da margem esquerda do Rio Modi até cruzá-lo (desnível de 772m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,1ºC. Às 7h50 da manhã estava 11,8ºC. De manhã vi que valeu a pena ter parado em Australian Camp. O visual dos grandes picos do Himalaia é realmente fantástico. De norte para nordeste: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II, Asapurna, Gangapurna, Machapuchare (Fish Tail), Annapurna IV, Annapurna II (16º mais alto do mundo) e Lamjung Himal. Saí do lodge às 9h27 na direção norte e às 9h40 fui à esquerda na bifurcação, subindo. Apenas 4 minutos depois entroncou à direita a trilha que vem de Dhampus e Phedi, rota que eu originalmente ia fazer. Ali apareceu a sinalização do ACAP em forma de um poste metálico com placas dando as boas-vindas ao vilarejo e apontando os seguintes com o tempo de percurso. Às 9h54 cheguei à vila de Pothana, com lodges também, e fui parado no check post do ACAP para mostrar as permissões obtidas em Kathmandu (permissão ACAP e TIMS card). Um cartaz ali informa todos os tempos de caminhada entre os vilarejos e isso foi bastante útil para eu planejar a caminhada de cada dia. Há painéis sobre a trilha da montanha Mardi Himal também. Na saída de Pothana uma linda vista das montanhas, muito parecida com a de Australian Camp mas agora um pouco obstruída pela vegetação. Às 10h21 fui à direita numa bifurcação com placa apontando Pitam Deurali e desci, cruzando uma estrada de terra. Subi um pouco por uma mata e uma segunda placa causou alguma dúvida pois apontava Landruk tanto em frente quanto à esquerda. Fui em frente (parece que à esquerda se chega a Landruk por estrada). Tangenciei uma estrada duas vezes, passei pelo ponto mais alto do dia (2150m) e cheguei a Pitam Deurali às 11h05, parando para muitas fotos pois o vilarejo fica numa crista com linda vista para Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Asapurna II, Asapurna, Gangapurna e Machapuchare (de norte para nordeste). Avistei pela primeira vez também o pico Dhaulagiri, 7º mais alto do mundo, que só voltaria a ver em Poon Hill, nos últimos dias desse trekking. E tive a primeira visão do vale do Rio Modi, bastante profundo, com o rio correndo cerca de 900m abaixo desse vilarejo. De Pitam Deurali sai a trilha para o campo base da montanha Mardi Himal, mas é preciso aclimatar ou já estar aclimatado pois ele está a 4500m de altitude. Num dos lodges vi pela primeira vez um dos painéis pintados a mão com um croqui da região e o tempo de percurso entre um vilarejo e outro. Esse tipo de painel de orientação aos trilheiros se tornaria muito comum dali em diante. A verdade é que não são muito precisos e os tempos variam de um para o outro. Seguiu-se uma longa e íngreme descida por escadarias de pedra que terminou às 12h05 numa estrada de terra, onde fui para a direita seguindo a placa de Tolka e Landruk. Passei pela minúscula Bherikharka, desci até uma ponte suspensa com piso de tábuas e subi à vila de Tolka, onde parei num dos primeiros lodges às 12h28 para almoçar um veg egg fried noodles no Popular Tourist Guest House com uma bonita vista do vale do Rio Modi. Retomei a caminhada às 13h10 pela estrada ainda (logo passou um jipe) e passei por mais casas e lodges do vilarejo. Às 13h24 fui à direita na bifurcação da estrada e 5 minutos depois subi numa trilha à direita com placa apontando Landruk. Passei pelo Ram Lodge e desemboquei na estrada de novo, indo para a direita e passando por mais um núcleo de casas da vila de Tolka. Cerca de 160m após essas casas desci uma escadaria à esquerda na direção do Lodge Sanctuary, abandonando por ora a estrada e tomando um atalho. Na descida em direção a um rio passei por uma sequência de lodges e fui à esquerda na bifurcação em T para evitar caminhar pela estrada. Cruzei a ponte suspensa com piso de tábuas às 14h06 e subi à esquerda até a estrada, onde fui para a esquerda. Passei por uma cachoeira à direita e depois por várias casas espalhadas pela estrada, com muitas plantações em terraços na encosta da margem esquerda (verdadeira) do Rio Modi. Às 14h41 desprezei uma placa apontando Chomrong e ABC à esquerda e continuei na estrada, mas 8 minutos depois subi uma escadaria de pedra à direita com placa "way to Landruk ABC", que me levou a uma ponte de concreto e uma trilha acima da estrada. Cheguei a Landruk às 14h55. Há muitos lodges ali e todos os donos/donas oferecem hospedagem, mas eu passei direto pois queria caminhar até o fim do dia. Cruzei o final da estrada por onde vinha caminhando e vi ali alguns jipes estacionados que devem ser jipes compartilhados com destino a Pokhara. A vila se espalha pela encosta da montanha e desci bastante por escadarias de pedra entre lodges. Às 15h10 fui à direita numa bifurcação com placa onde à esquerda se vai a Ghandruk (Ghandrung). Em 6 minutos desci a uma ponte suspensa de tábuas, mas ali tive uma emergência intestinal. Não sei se pela água estranha desse lugar, pelo óleo usado para cozinhar ou se comi algo estragado, mas a diarréia veio com tudo e tive que correr para o mato - felizmente havia mato... A água nesse trekking tem uma camada de óleo quando colocada na caneca para ferver, algo bem suspeito. Refeito da correria parei no riacho para comer alguma coisa. Continuei descendo às 15h39 e fui à direita numa bifurcação sem placa, passando por baixo de uma tubulação e entrando na mata ciliar do Rio Modi. Às 16h07 cruzei uma ponte suspensa mas antes desviei alguns metros à direita para fotografar uma bonita cachoeira no meio da mata. Descendo mais me aproximei da margem esquerda do Rio Modi, cujo vale era tão profundo quando o avistei pela primeira vez em Pitam Deurali. Ele é um importante rio da região e o seguirei até próximo de suas nascentes nos glaciares do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). Ali a menor altitude do dia, 1378m. Atravessei sua mata ciliar, cada vez mais exuberante. Às 16h36 passei pela pequena vila de Himal Pani (com uma cachoeira) e cruzei a grande ponte suspensa sobre o Rio Modi, passando definitivamente para sua margem direita. Fui à direita ao final da ponte e à direita na bifurcação seguinte onde à esquerda se vai a Sewai, segundo a placa caída. Passei rapidamente por um deslizamento na encosta íngreme e cheguei à vila de New Bridge às 16h58. Perguntei nos três lodges que há ali e o melhor preço que consegui foi Rs100 (US$0,87) pelo quarto, no New Bridge Guest House. O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene dos nepaleses já que eles não usam papel higiênico. A ducha a gás custava Rs100 (US$0,87). Para escovar os dentes havia torneiras na frente e nos fundos do lodge. Havia tomada no quarto, algo que eu só iria encontrar de novo em Ghandruk, no 8º dia da caminhada. Altitude em New Bridge: 1465m Preço do dal bhat: Rs 480 Preço do veg chowmein: Rs 350 A mais longa ponte suspensa que cruzei numa trilha no Nepal (em Samrung, entre New Bridge e Jhinu) 3º DIA - 26/11/18 - de New Bridge a Sinuwa Alta Duração: 4h45 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2328m Menor altitude: 1465m Resumo: nesse dia comecei a percorrer a encosta da margem direita do Rio Modi, como faria nos quatro dias seguintes. Subi até a vila de Chomrong (desnível de 763m), desci ao Rio Chomrong (desnível de 346m) e subi de novo a Sinuwa Alta (desnível de 446m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,3ºC. Às 7h50 da manhã estava 12,9ºC. De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse e Hiunchuli ao norte. Saí do lodge às 8h56 subindo na direção noroeste. Aos poucos fui passando temporariamente do vale do Rio Modi para o do Rio Kimrong, afluente da margem direita do Rio Modi. Às 9h23 avistei uma ponte suspensa enorme, a mais longa de todas que já tinha visto no Nepal. Era tão alta que torci para não ter que cruzá-la. Em 3 minutos cheguei à minúscula vila de Samrung, com poucas casas, nenhum lodge e muitas plantações em terraço. Ao passar por baixo da longa ponte vi uma placa apontando Jhinu, meu próximo destino, na direção da cabeceira do vale do Rio Kimrong e fiquei aliviado. Mas quis confirmar o trajeto com um rapaz carregador que estava ali perto e ele disse que Jhinu estava logo após a ponte, a placa apontava um caminho antigo. Não teve jeito, tive que enfrentar o medo de altura e cruzar a tal ponte, que devia ter mais de 250m de comprimento, com o Rio Kimrong láááá embaixo. Do outro lado subi à vila de Jhinu, aonde cheguei às 10h12. Há seis lodges. Não me interessei em descer até as águas termais porque seria uma penosa subida de volta. Na saída da vila passei por uma placa de "safe drinking water", que é um programa do ACAP de disponibilizar água tratada para os trilheiros e diminuir assim a poluição ambiental com garrafas plásticas, porém o preço do litro não é um grande incentivo (entre Rs100 e Rs130 = US$0,87 e US$1,13). De Jhinu a Chomrong as escadarias de pedra vieram com tudo e para quebrar os joelhos mesmo. De tantos relatos que eu li antes dessa viagem nenhum enfatizava isso: as escadarias de pedra são de matar! Um ou dois bastões são imprescindíveis para distribuir o peso e não arrebentar os joelhos. Cheguei às primeiras casas de Chomrong às 11h26 e parei para descansar por meia hora. Dali se avistava a nordeste o Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Mardi Himal. Nesse local há uma bifurcação, onde fui para a direita nesse dia (para Sinuwa); na volta eu tomaria a direção de Ghandruk, que é a trilha da esquerda nesse momento. Retomando a caminhada, subi mais escadarias e a visão se abriu também para o pico Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) ao norte. Atravessei mais um grupo de lodges, depois uma pequena mata e cheguei à parte mais alta de Chomrong. A partir daí é uma descida beeem longa passando por muitos lodges e com uma paisagem estonteante do vale e das montanhas mencionadas. Chomrong tem um total de 14 lodges! Parei às 12h33 para almoçar no Lucky Guest House e o veg egg fried noodles estava salgado demais. Voltei à caminhada às 13h13 e continuei descendo. Passei direto pelo check post do ACAP porque não estava com paciência de tirar as permissões de dentro da mochila. Às 13h37 passei por uma vendinha que se autointitula trekkers wholesale store e existe desde 1981, mas com preços caros como qualquer outra da região. Por ali deu para notar a grande extensão dos campos cultivados em terraços desse vilarejo. Às 13h44 fui à direita numa bifurcação e 2 minutos depois à esquerda em outra bifurcação, ambas com placa "ABC". As últimas casas de Chomrong foram ficando para trás e às 14h02 a descida terminou na ponte suspensa sobre o Rio Chomrong, outro afluente da margem direita do Rio Modi. A má notícia é que agora começava uma outra escadaria sem fim, desta vez para cima. Subi feito um pagador de promessa, passei pela minúscula Tilche com suas plantações em terraços e parei às 14h40 na frente de um lodge em Sinuwa Baixa (Bhanuwa) para descansar por 12 minutos. Continuei a subida e a escadaria só terminou em Sinuwa Alta às 15h38. A vila de Bamboo ainda estava 1h30 à frente e resolvi parar ali mesmo. Há apenas três lodges em Sinuwa Alta. Perguntei no Sinuwa Lodge e a dona me fez o quarto de graça desde que eu fizesse as refeições ali. O banheiro era no estilo oriental e fora da casa, exposto ao frio. Havia uma torneira na frente do banheiro para escovar os dentes e se lavar. A ducha a gás custava Rs200 (US$1,74) e a carga de baterias Rs100 (US$0,87). Para meu espanto havia ao lado do banheiro uma lavadora de roupa LG - como aquilo foi carregado até aquela lonjura? Num dos outros lodges de Sinuwa Alta vi pela primeira vez um dos purificadores de água de osmose reversa doados por uma empresa do Texas, também na tentativa de diminuir o lixo plástico nas trilhas e povoados. O litro custava Rs100 (US$0,87). Na hora do jantar conheci dois holandeses que estavam caminhando com uma espanhola e também um casal chinês. Todos eu iria reencontrar nos lodges dali em diante. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a quantidade de coreanos na trilha. Muitos lodges têm inclusive pratos coreanos no cardápio, ou seja, eles devem ser habitués mesmo nesse trekking. Altitude em Sinuwa Alta: 2328m Preço do dal bhat: Rs 540 Preço do veg chowmein: Rs 450 Macaco langur na trilha 4º DIA - 27/11/18 - de Sinuwa Alta a Deurali Duração: 5h40 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3195m Menor altitude: 2281m Resumo: nesse dia continuei a subir pela encosta da margem direita do Rio Modi, porém agora por agradáveis bosques. Na vila de Deurali, acima dos 3000m de altitude, começou a aparecer a neve. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,4ºC. Às 6h45 da manhã estava 13,5ºC. De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste. Saí do lodge às 8h35 na direção nordeste ainda pela encosta da margem direita (verdadeira) do Rio Modi. As plantações em terraço de agora em diante dão lugar à mata nativa e a caminhada se torna bastante prazerosa, com algumas fontes de água pelo caminho (que deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia"). Despontam no meio do bosque os rododendros, porém sua bonita floração só acontece em março e abril. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Mas para desespero geral as longuíssimas escadarias de pedra voltam à cena, neste momento descendo (e já penso como será a volta...). Pouco antes da vila de Bamboo há um pequeno templo de pedra com bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais. Um fato curioso: ali duas grandes placas advertem para que os caminhantes não carreguem carne nessa área de Sinuwa a ABC por ser um lugar sagrado, chamado por isso de Santuário Annapurna (mais curioso é que carne de bode e de carneiro pode...). Caso contrário calamidades naturais e acidentes pessoais podem ocorrer! Nessas placas a menor altitude do dia, 2281m. Passei por Bamboo às 10h, com cinco lodges. A trilha percorre a sombra da mata novamente. Cruzei uma ponte de troncos e na segunda ponte de troncos, às 10h27, parei por meia hora para descansar e comer alguma coisa. O trecho seguinte tem mais fontes de água. Cheguei a Dovan às 11h35 e a primeira vista da vila com o cume nevado do Machapuchare ao fundo lembrava uma bela paisagem dos Alpes. Passei pelos três lodges de Dovan e após cruzar mais alguns riachos parei em Dovan Alto às 11h58 para almoçar um egg veg fried noodles. Continuei pela mata às 12h41. Vários riachos depois parei para fotografar um grupo de macacos langur que estava bem à vontade mesmo com a presença de um grande grupo de trilheiros que parou para observá-los. Exatamente no local onde eles estavam ficava outro pequeno templo de pedra repleto de lenços cerimoniais bem no meio da floresta. A placa na entrada da vila de Dovan alertava para não cuspir ou deixar lixo próximo a esse templo. Cerca de 170m após o templo a trilha bifurca e tanto faz o lado que se tome pois se encontram mais à frente, porém o lado da esquerda é uma escadaria que se pode evitar. Aliás a última das intermináveis escadarias! Ao sair da mata se tem uma bonita vista do Rio Modi com a vila de Himalaya pendurada na encosta à sua esquerda. Cheguei a Himalaya às 13h54 e há apenas dois lodges ali. Descansei por 15 minutos e continuei, agora por uma mata menos densa que permite ver enormes cachoeiras despencando do paredão na outra margem do Rio Modi. Numa bifurcação às 14h27 subi à esquerda pois a direita leva a uma casa logo abaixo. A mata vai ficando cada vez mais rala nesta altitude já passando dos 2900m e a vegetação passa a ser predominantemente de bambus. Às 15h15 cheguei à Gruta Hinku, na verdade apenas um abrigo rochoso, de onde se avista a vila de Deurali. No caminho adiante duas grandes cachoeiras despencam do paredão à esquerda. A primeira enche de lama um deslizamento de pedras, a segunda forma um rio que se cruza através de alguns bambus que servem como ponte, mas com muito cuidado pois logo à direita há uma queda-d'água. Após uma bonita cachoeira em degraus à esquerda da trilha, cheguei a Deurali às 16h, porém continuei até a parte mais alta da vila, onde está o Deurali Guest House, o último dos quatro lodges. Busco sempre os últimos lodges do vilarejo pois costumam ser mais vazios, a maioria dos trilheiros chegam cansados e param no primeiro lodge onde encontram vaga. No Deurali Guest House negociei o quarto de graça, mas o dono me avisou que eu talvez tivesse que dividir com alguém que chegasse mais tarde. O banheiro ficava fora e era no estilo oriental. Para escovar os dentes havia uma mangueira na frente do lodge, onde todo mundo passa. A ducha quente custava Rs250 (US$2,17) e a carga de baterias Rs200 (US$1,74). Um rolo de papel higiênico custava "só" Rs300 (US$2,60). Estavam hospedados ali também o casal holandês e a espanhola que conheci na noite anterior. Quando já caía a noite apareceu o chinês, mas estava sem a namorada. O dono do lodge mandou-o para o quarto onde eu estava. Ele se chamava Fei. Sua namorada voltou de Sinuwa para Bamboo pois as intermináveis escadarias fizeram estrago em seu joelho e ela não quis ir adiante. Foi a primeira vez que dividi o quarto com um total desconhecido durante as caminhadas no Nepal, mas isso iria se repetir nas noites seguintes. Imagino que durante a alta temporada (outubro) muita gente deve dormir no refeitório por falta de quarto. Nesse dia fiquei na expectativa de que o dono do lodge me procurasse no quarto a qualquer momento e não fervi o meu 1,5 litro de água para o dia seguinte (eles proíbem o uso de fogareiro no quarto porque tudo é de madeira, inclusive paredes e teto). Tive de usar o Micropur, que deixa gosto muito ruim na água. Nesse trekking do Annapurna e Poon Hill não me hospedei em nenhum lodge que tivesse o aquecedor a lenha ou esterco de iaque no centro do refeitório como nos trekkings do Everest e Langtang. O uso de lenha é proibido acima de Chomrong e iaques não há (eu não vi, pelo menos). O que se usa é um aquecedor a querosene embaixo da mesa comprida do refeitório, mas que só é aceso no inverno (a um custo de Rs200 = US$1,74 este de Deurali), ou seja, muito frio na hora do nosso jantar. Em Deurali havia bastante neve acumulada em alguns pontos, e até um pouco antes na trilha já havia manchas de neve também. Era possível ver também uma enorme área de neve na encosta deste lado do rio na direção do ABC e já fiquei pensando como seria atravessá-la no dia seguinte. Altitude em Deurali: 3195m Preço do dal bhat: Rs 620 Preço do veg chowmein: Rs 480 Campo Base do Annapurna e as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli 5º DIA - 28/11/18 - de Deurali ao Campo Base do Annapurna (ABC) Duração: 4h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4121m Menor altitude: 3179m Resumo: nesse dia o vale do Rio Modi afunila bastante e com isso passo a caminhar mais próximo dele, subindo (um desnível de 942m) entre altos paredões com risco de avalanche. No Campo Base do Machapuchare a trilha dá uma guinada de norte para oeste e já se entra numa paisagem de alta montanha, acima dos 4000m de altitude. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,2ºC. Às 6h55 da manhã estava 8,7ºC. Fei saiu bem cedo pois pretendia ir ao ABC e voltar a Bamboo, onde estava sua namorada, no mesmo dia. Calculou mal as distâncias e não conseguiu fazer tudo isso num dia só. Encontrei-o no meio do caminho para o Campo Base do Machapuchare (MBC, na sigla em inglês) já voltando, não chegou até o ABC. Saí do lodge às 8h40 na direção nordeste e desci até próximo da margem direita do Rio Modi. Aqui a trilha se aproxima do rio pois os altos paredões estão cada vez mais próximos e mais verticais, formando quase um cânion. Uma placa logo no início alerta para o risco de avalanches. O perigo é real, alguns trilheiros e guias já morreram vitimados pela neve que desceu da montanha Hiunchuli, invisível deste ponto profundo do vale. O risco é maior após nevascas e fortes chuvas. Ali a menor altitude do dia, 3179m. Havia várias manchas de neve ao lado da trilha e logo cheguei àquela grande área de neve que avistava do lodge (talvez restos de alguma avalanche). Apesar de haver um caminho bem marcado na neve algumas pessoas estavam passando com dificuldade, mas não achei tão complicado. O bastão ajuda a manter o equilíbrio pois pode-se escorregar na neve ou nas pedras molhadas embaixo dela. A primeira grande faixa de neve tinha cerca de 55m de comprimento, logo em seguida vinha outra de 30m, depois uma curtinha de 10m e mais à frente mais uma de 30m. Nesse trecho se avista o cume do Machapuchare à direita, numa fresta dos paredões, e é o ponto onde o trekking mais se aproxima dele. Na cabeceira do vale se destaca o Pico Asapurna. Às 9h53 cruzei mais uma faixa de neve, mas logo depois alcancei uma área ensolarada e tive de tirar todas as roupas quentes que vestia. Seguiu-se uma longa ladeira onde as poucas árvores que ainda havia desaparecem de vez pela altitude acima dos 3600m. No alto avistei o primeiro lodge do Campo Base do Machapuchare (MBC) com os picos Asapurna e Gangapurna à direita. Às 10h57 passei pela escadaria que dá acesso a esse lodge, Gangapurna Guest House, mas em vez de subi-la continuei pela trilha à esquerda. Esse lodge fica separado dos outros quatro desse vilarejo, que se encontram mais acima, numa altitude de 3697m. Passei por eles 12 minutos depois a caminho do ABC. A quantidade de neve acumulada aqui já é bem grande e na horta nem os repolhos resistiram ao frio. Nas montanhas ao fundo (nordeste) dos lodges do MBC ainda se avista o Gangapurna e agora já se vê à sua direita o Pico Annapurna III (42º mais alto do mundo). A sudeste começa a se destacar o Machapuchare. À frente já se veem Hiunchuli (sudoeste), Moditse (oeste) e Annapurna Fang (Bharha Chuli)(noroeste). Todo o ambiente ao redor agora é de alta montanha, com vegetação rasteira e nenhuma árvore. A altitude de 3697m do MBC e a elevação de mais 424m até o ABC levam muita gente a optar por passar a noite no MBC e ir ao ABC na manhã seguinte bem cedo, evitando assim eventuais problemas com a altitude. Eu já vinha de outros trekkings de maior altitude por isso não me preocupei tanto com a aclimatação neste. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia". O nome Campo Base do Machapuchare faz crer que há expedições de ascensão a essa montanha, porém ela foi escalada apenas uma vez em 1957 e os escaladores não chegaram a pisar no cume. Depois disso ela foi fechada pois é considerada sagrada para os hindus, associada com o deus Shiva. A subida em direção ao ABC continuou pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul, um dos formadores do Rio Modi. Entre o Annapurna III e o Machapuchare foi aparecendo o Pico Gandharwa Chuli a leste-nordeste. O Annapurna I começou a ficar visível a noroeste à medida que eu subia mas com o cume um pouco encoberto pelas nuvens. Ele é o 10º mais alto do mundo e estatisticamente a montanha mais perigosa que existe, mas continua sendo escalado. Às 12h39 alcancei finalmente as três placas que saúdam e parabenizam pela chegada ao Campo Base do Annapurna! Dali foi subir mais 5 minutos para chegar aos 4 lodges do ABC. Altitude de 4121m. Havia muita neve já endurecida acumulada aos redor dos lodges. Iacof, um dos holandeses, já estava hospedado no Snow Land Lodge e dividi o quarto com ele. O quarto saiu a Rs100 (US$0,87) para cada um. Os banheiros ficavam no fim da varanda aberta ao frio, estilo oriental os dois. Não havia uma torneira fora para escovar os dentes. Ducha a gás ou banho quente de balde por Rs350 (US$3,04). Embaixo da mesa comprida do refeitório também havia um aquecedor a querosene, mas usado só no inverno (taxa de Rs250=US$2,17). Almocei um dal bhat e à tarde fui ao mirante a 130m do lodge de onde se avista bem abaixo o enorme Glaciar Annapurna Sul, todo coberto de pedras, e onde há diversos memoriais a escaladores mortos naquelas montanhas, sendo talvez o mais famoso o do russo Anatoli Boukreev, falecido em 1997. Iacof não se importou que eu usasse o fogareiro dentro do quarto para ferver a minha água do dia seguinte. Pelo contrário, ele aceitou a minha oferta e encheu suas garrafinhas também. Afinal água quente naquele frio todo não era algo para se recusar. Às 17h30 estava 1,9ºC fora do lodge. Altitude no Campo Base do Annapurna: 4121m Preço do dal bhat: Rs 670 Preço do veg chowmein: Rs 580 Picos Gandharwa Chuli e Machapuchare com o pequeno Campo Base do Machapuchare abaixo 6º DIA - 29/11/18 - do Campo Base do Annapurna a Himalaya Duração: 4h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4121m Menor altitude: 2847m Resumo: nesse dia iniciei a descida de volta a Chomrong para dali seguir para Ghandruk. De ABC a Himalaya o desnível foi de 1274m. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 1,9ºC. Às 7h da manhã estava 3,7ºC. Às 7h15 fora do quarto estava 1,1ºC. O meu problema de insônia acima dos 4000m de altitude voltou e passei horas acordado esta noite. Esse é o único sintoma que tenho do Mal de Altitude (AMS, em inglês). Todos que estavam hospedados no Campo Base do Annapurna esperavam por esse momento. Todo mundo saiu no frio de quase 0ºC às 6h30 da manhã para fotografar e admirar os primeiros raios do sol iluminando os picos do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). O dia amanheceu com céu limpo e o espetáculo foi incrível, a recompensa depois de 5 dias de caminhada subindo e descendo escadarias sem fim. Mesmo com o céu quase todo limpo o cume do Annapurna I (10º mais alto do mundo) não deu as caras essa manhã, escondido atrás de nuvens que não dissipavam. O panorama a partir do ABC era: Hiunchuli a sudoeste, Moditse a oeste, Annapurna Fang (Bharha Chuli) e Annapurna I a noroeste, Kangshar Kang (Roc Noir), Singu Chuli (Fluted Peak), Tarke Kang (Glacier Dome) e Tharpu Chuli (Tent Peak) ao norte, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli a nordeste e Machapuchare (Fish Tail) a sudeste. O profundo Glaciar Annapurna Sul parecia uma grande cicatriz interligando essas imensas montanhas. Além dos memoriais visitados no dia anterior, nesse dia encontrei um outro em homenagem a três coreanos mortos numa expedição em 2011. Depois me disseram que esse era o motivo de haver tantos coreanos percorrendo essa trilha. Talvez... Por volta de 10h começou o festival de helicópteros pousando na vila para os passageiros endinheirados fotografarem aquelas montanhas sem ter que dar nem um passo. E adivinha de onde era a maioria? Às 12h26 peguei minha mochila no lodge e iniciei a caminhada de volta a Chomrong e de lá rumo a Ghandruk, aonde chegaria dois dias depois. Desci pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul parando muitas vezes para fotos, passei por MBC às 14h02, voltei ao cânion do Rio Modi, passei novamente por aquelas cinco línguas de neve e alcancei Deurali às 15h53. A neblina chegou. Passei pela Gruta Hinku às 16h25, reentrei na mata de bambus e cheguei à vila de Himalaya às 17h. Dovan Alto ainda estava a 1h dali e tive de parar pois não daria tempo de chegar com luz do dia. O problema é que Himalaya tem apenas dois lodges e estavam quase lotados. Consegui um quarto sozinho por Rs200 (US$1,74) no Himalaya Guest House mas logo chegou um casal (ela francesa e ele italiano) e tive que dividir pela terceira noite seguida. Mas eles não se importaram de eu acender o fogareiro no quarto para ferver a água do dia seguinte. O banheiro ficava fora do lodge, no estilo oriental e com ducha a gás por Rs200 (US$1,74). Não havia torneira no quintal para escovar os dentes. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs300 (US$2,60), mas o italiano disse que não funcionou nem à noite nem de manhã. O outro lodge se chama Himalaya Hotel, nomes bem criativos. Ali se dorme ouvindo o barulho forte do Rio Modi logo abaixo. Altitude em Himalaya: 2847m Preço do dal bhat: Rs 620 Preço do veg chowmein: Rs 480 Vila de Dovan com o Pico Machapuchare ao fundo 7º DIA - 30/11/18 - de Himalaya a Chomrong Duração: 5h40 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2847m Menor altitude: 1888m Resumo: nesse dia continuei o retorno descendo pela margem direita do Rio Modi até o Rio Chomrong e subindo até a vila homônima Às 7h45 da manhã estava 10,5ºC dentro do quarto. Apesar de já ter baixado 1274m desde o ABC, não dormi bem de novo. Passei horas acordado esta noite também. Saí do lodge às 9h16 na direção sudoeste ainda refazendo meus passos pela margem direita do Rio Modi. Reentrei na mata e reencontrei as escadarias. Passei por Dovan Alto às 10h23, por Dovan às 10h55 (com bonita vista do Machapuchare para trás) e parei às 11h56 nos primeiros lodges de Bamboo pois ali há sinal da NCell e eu precisava mandar mensagens para a família de que estava vivo. Por 44 minutos descansei e comi as bolachas que tinha na mochila (meu intestino ainda não estava bom). Continuei às 12h40. Após Bamboo vêm as piores escadarias. Na primeira, logo depois da vila, se sobe tanto que o Rio Modi acaba ficando bem distante, muito abaixo. Saí definitivamente da mata ao chegar a Sinuwa Alta às 14h28. Descansei por 8 minutos para enfrentar a interminável escadaria até o Rio Chomrong. Passei por Sinuwa Baixa (Bhanuwa) às 15h05 e às 15h31 a longa escadaria terminou na ponte suspensa do Rio Chomrong. Ali a menor altitude do dia, 1888m. Agora vinha a enorme subida para a vila de Chomrong, minha parada nesse dia. A vantagem de dormir ali é a farta quantidade de lodges, são 14. Cruzei com uma tropa de mulas pela primeira vez nesse trekking (no trekking Shivalaya-Namche elas eram um terror na trilha), mas iaque não vi nenhum. Subi bastante e ia passar direto pelo check post do ACAP às 16h14, mas um guia me chamou insistentemente para fazer o checkout. O guardinha não conferiu no livro se eu havia me registrado na ida. De tantos lodges quase vazios em Chomrong escolhi o Chhomrong Cottage, 3 minutos após o check post, e quem eu encontro hospedado lá? Fei, o chinês, agora com a namorada. Porém estava bem mal, com febre e diarréia líquida. Dei-lhe um Imosec e sais de reidratação oral que tinha na minha farmacinha, ele ficou muito agradecido. Negociei com a simpática dona do lodge o quarto por Rs100 (US$0,87) e ela ofereceu de graça a ducha quente, da qual eu necessitava muito. O banheiro era no estilo oriental no térreo e com vaso sanitário no primeiro andar, onde eu fiquei. Porém ambos no corredor aberto ao frio. Junto a eles um lavatório para escovar os dentes, coisa rara. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs200 (US$1,74). Altitude em Chomrong: 2159m Preço do dal bhat: Rs 520 Preço do veg chowmein: Rs 400 Picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli ao amanhecer em Chomrong 8º DIA - 01/12/18 - de Chomrong a Ghandruk Duração: 4h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2261m Menor altitude: 1791m Resumo: nesse dia abandonei o trekking ABC e iniciei uma conexão por trilhas para o trekking Poon Hill. Essa conexão durou três dias e nesse primeiro dia fiz um desvio para o sul para conhecer a vila de Ghandruk. De Chomrong desci ao Rio Kimrong (desnível de 470m), subi até a vila de Komrong Danda (desnível de 430m) e desci novamente até Ghandruk (desnível de 224m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,9ºC. Às 7h10 da manhã estava 11ºC. Às 6h50 os primeiros raios de sol iluminavam os picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli, num lindo espetáculo. Me despedi do Fei e sua namorada pois iam até a vila de Matkyu tomar o ônibus para Pokhara. Saí do lodge às 9h28 na direção sul, subindo o restante das escadarias até a parte mais alta de Chomrong, onde consegui sinal da NCell para poder trocar mensagens. Desci em seguida passando pelos outros lodges da vila e cheguei às 9h50 à bifurcação para Ghurjung, Kimrong Khola (Kimrung Khola), Tadapani e Ghandruk à direita, com Jhinu à esquerda (de onde vim no 3º dia). Parei para tirar a roupa mais quente e segui à direita nessa bifurcação (rumo noroeste) cruzando muitos campos cultivados em forma de terraço. Uma outra alternativa para ir a Ghandruk seria tomar a esquerda na bifurcação, descer àquela ponte enorme do 3º dia, cruzá-la e tomar a trilha que sobe em frente e à esquerda, mas desconfio que esse caminho tem estradas (e eu odeio andar em estrada!) Num suave sobe-e-desce para oeste passei por duas fontes de água e às 10h54 subi uma escadaria (de novo não...) que terminou na frente de um lodge, iniciando logo a longa descida ao Rio Kimrong. Ali a maior altitude do dia, 2261m. Às 11h04 me deparei com uma bifurcação sem placa e fui para a direita, evitando a escadaria de pedras que descia à esquerda. Uns 50m depois outra trilha descendo à esquerda. Pensei em continuar à direita mas esperei um grupo que vinha na direção contrária chegar para perguntar. Me disseram que aquele caminho à direita ia para Ghurjung e depois Tadapani. Mas eu queria ir para Ghandruk primeiro, então deveria descer a escadaria da primeira bifurcação ou a trilha da segunda. Optei pela escadaria e voltei até ela, tomando-a para a direita. Mas logo os degraus acabaram e a trilha a seguir era de terra fina solta, uma poeira só! E claro que nessa hora surgiu do nada uma tropa de mulas para me atazanar. Não podia deixá-las passar pois iam me fazer comer muita poeira, então tive de acelerar a descida. Numa bifurcação mais abaixo fui à esquerda mas tanto faz pois logo se fundem os dois caminhos de novo. Avistei lá embaixo no Rio Kimrong a ponte suspensa que teria de cruzar para subir a Komrong Danda e depois descer a Ghandruk. A descida continuou por escadarias e as mulas atrás. Às 11h43 apareceu uma outra escadaria à esquerda, mas era estreita e não estava sinalizada, então continuei descendo pela trilha principal mesmo. Mas depois de 200m vi que estava me distanciando da ponte e a trilha não dava sinais de que ia quebrar para a esquerda na sua direção. Resolvi voltar. Deixei as mulas passarem e subi um pouco de volta, tomei a estreita e íngreme escadaria (à direita agora) e desci rapidamente à vila de Kimrung Khola, com suas plantações em terraços. Parei ali às 12h04 para almoçar um veg egg fried noodles na Kimrung Guest House. O cozinheiro era muito atencioso e conversamos sobre a bonita horta que ele tinha nos fundos do lodge. Saí às 12h50 e terminei de descer até a ponte suspensa com piso de tábuas sobre o Rio Kimrong. Ali a menor altitude do dia, 1791m. Ao final dela fui para a esquerda e logo começou uma longuíssima subida até a vila de Komrong Danda, inicialmente por uma escadaria mas depois felizmente por trilha mesmo. Às 13h13 cruzei uma porteira de varas (coisa muito rara hoje no Brasil) com uma placa "way to Ghandruk" torta, depois atravessei um riacho por troncos. Na bifurcação às 13h38 uma placa apontava Ghandruk para a direita. E dá-lhe subida! Alcancei Komrong Danda às 14h24 e avistei Ghandruk pela primeira vez. Há 4 lodges nessa vila e a altitude é de 2221m. Logo iniciei a longa descida em direção a Ghandruk, em parte por escadarias de pedras até com corrimão. Às 15h06 entrei numa mata e 5 minutos depois cruzei uma ponte suspensa (com a antiga ponte de troncos ao lado). A trilha dá uma guinada para a esquerda (leste) e às 15h23 notei uma longuíssima escadaria subindo à direita ao lado de uma pequena stupa. A trilha dali em diante estava interrompida por uma obra então subi pelo desvio à direita. Logo apareceu uma escadaria à direita e subi por ela, chegando aos primeiros lodges de Ghandruk às 15h29. Parei no Bishow Guest House pois achei um lugar bem tranquilo e não me arrependi. Depois descobri que a grande maioria dos lodges se concentrava no centro da vila, que fica mais ao sul, mas talvez por ser um sábado havia muitos grupos de adolescentes fazendo festas por ali, e eu queria sossego. Alguém me disse que havia cerca de 40 lodges em Ghandruk. O Bishow Guest House fica perto da parte mais antiga do vilarejo, onde as casas têm uma linda arquitetura muito característica, com varandas na frente, janelas trabalhadas e telhados de pedra. A visão desse conjunto de casas de cima lembra uma cidade medieval, muito bonito, uma das melhores surpresas dessa caminhada. Valeu muito a pena o grande desvio que fiz para conhecer Ghandruk. Pena que a neblina não me deixava ver as montanhas, mas dali se avistam (de norte para nordeste) Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Gangapurna, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Machapuchare. Esse lodge já era praticamente um hotel, dispondo de quartos com banheiro privativo. Eu negociei o preço do quarto de graça fazendo as refeições ali e o rapaz me ofereceu um quarto com banheiro compartilhado. Eu era o único hóspede. O banheiro tinha vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava), lavatório com espelho e ducha a gás grátis. Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87). Dei um giro pelo centrinho do lugar e visitei o Museu Old Gurung (Rs75 = US$0,65), bem pequeno mas interessante, com utensílios, instrumentos musicais e roupas do grupo étnico que habita essas montanhas, os gurungs. Ghandruk é o segundo maior povoado gurung no Nepal. Ao ferver a água que peguei da torneira do banheiro apareceu uma sujeira estranha, pedacinhos brancos esquisitos por cima da água. Não quis filtrar aquilo. Pedi a água da cozinha, fervi e estava um pouco melhor, mas continuava turva e tive de filtrar depois. Altitude em Ghandruk: 1997m Preço do dal bhat: Rs 450 Preço do veg chowmein: Rs 400 A incrível vila de Ghandruk 9º DIA - 02/12/18 - de Ghandruk a Tadapani Duração: 3h (descontadas as paradas) Maior altitude: 2684m Menor altitude: 1967m Resumo: nesse dia continuei a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill encarando uma subida longa e constante por florestas de rododendros até Tadapani, num desnível de 717m Às 7h25 da manhã estava 11,9ºC. De manhã a neblina continuava e nada de montanhas. Dei mais uma passeada pelo centro de Ghandruk antes de iniciar a caminhada do dia. Fui conhecer o Centro de Artesanato, onde uma simpática moça me mostrou seus bonitos trabalhos no tear - roupas e tecidos confeccionados na mais pura tradição gurung. No caminho passei por uma bifurcação com placa em que à direita se vai a Tadapani, meu destino nesse dia. Depois fui ao German Bakery tomar um café e beliscar alguma coisa, mas tudo o que eu pedi estava ruim: café aguado, rolinho de canela seco e torta de maçã com gosto esquisito. Depois pensei em ir ao Templo Meshram Barah, mas quando vi a enorme escadaria que teria de subir questionei se valia a pena (mais tarde descobri que há três templos com esse nome no vilarejo). Em vez disso fui ao Museu Gurung and Old Gurung Culture (Rs75 = US$0,65 de entrada também), menos interessante que o Museu Old Gurung que havia visitado no dia anterior. Já estava voltando ao lodge quando vi alguns ônibus estacionados num descampado logo abaixo da vila e enfim descobri onde era o ponto final deles. Havia perguntado a duas pessoas onde era, mas eles são extremamente confusos para explicar e me disseram que eu teria que andar muito... Fui até lá perguntar os horários (só por curiosidade) e vi que no caminho eles passam por Birethanti e Nayapul, onde eu vou terminar esse trekking. Depois saí procurando o Centro de Visitantes do ACAP e acabei descobrindo onde era. O mais interessante ali é o filme que eles projetam três vezes ao dia (11h, 13h e 15h) de domingo a sexta-feira, mas eu não pude esperar porque tive receio de não dar tempo de chegar a Tadapani (teria dado). Em frente há um posto de saúde, informação importante para quem possa estar com algum problema de saúde, embora Pokhara esteja há poucas horas de ônibus dali e tem bons hospitais e clínicas. Na volta ao lodge ainda caminhei pelas ruelas da parte antiga da cidade, aquela que parece medieval, e realmente é um lugar muito especial. Voltei ao lodge para pegar a mochila e o rapaz me disse que eu poderia tomar outro caminho a Tadapani, voltando por onde cheguei no dia anterior e subindo a longuíssima escadaria ao lado da pequena stupa, e foi o que fiz. Saí do lodge às 12h13 na direção noroeste. Passei pelo desvio da trilha interrompida e cheguei à escadaria. Ali a menor altitude do dia, 1967m. Respirei fundo porque seriam centenas de degraus morro acima. Cruzei uma bonita plantação de chá e às 12h50 cheguei ao topo, onde está um dos três templos Meshram Barah e uma torneira com água. O caminho continuava à esquerda e voltava a sinalização de duas faixas horizontais branca e vermelha. A escadaria termina ali e a subida continua por uma trilha. Às 13h09 cheguei a uma bifurcação em frente ao Jungle Paradise Guest House, um lodge isolado: à esquerda se volta à vila de Ghandruk, exatamente naquela bifurcação com placa que vi de manhã, à direita se vai a Tadapani, minha meta desse dia. A trilha nivela. Cruzei uma ponte de madeira, passei pelo lodge Lonely Planet (também isolado) e a vegetação vai ficando mais densa. Às 14h14 cruzei uma ponte de concreto e subi uma escadaria de pedra com corrimão. Passei por uma cachoeira à esquerda da trilha e subi uma longa escadaria com outra cachoeira à direita. Às 14h56 passei pelo minúsculo vilarejo de Bhaisi Kharka, com dois lodges. A subida continua e entro numa extensa floresta de rododendros, a primeira mata só de rododendros desse trekking. Esse lugar deve ficar incrivelmente bonito na floração dessa árvore em março e abril. Avisto alguns macacos no alto. Às 15h34 entronca uma trilha que sobe da direita vindo de Komrong Danda, segundo a plaquinha amassada com um croqui. Ela tem uma sinalização pintada nos troncos de duas faixas também, porém branca e azul. Subi mais um pouco e às 15h51 alcancei o vilarejo de Tadapani, com 10 lodges. Ia passando direto pelo primeiro lodge, Himalaya Tourist Guest House, mas a garota me chamou. Perguntei-lhe se faria o quarto de graça se eu fizesse as refeições ali e ela aceitou (mas depois sua mãe veio me pedir para não comentar isso com ninguém, como eles sempre fazem). Os banheiros ficavam no corredor aberto ao frio: um com vaso sanitário com descarga acoplada e outro no estilo oriental. Lavatório no corredor. Ducha quente por Rs200 (US$1,74), wifi por Rs200 (US$1,74) e carga de baterias por Rs100 (US$0,87) (mas deixaram de graça). Dei uma passeio pela vila para ver os outros lodges. Há uma estação de água potável e muito artesanato à venda, mas quase ninguém para comprar... Altitude em Tadapani: 2684m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 400 Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo) e Tukuche 10º DIA - 03/12/18 - de Tadapani a Ghorepani Duração: 4h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3201m Menor altitude: 2504m Resumo: nesse dia alcancei a vila de Ghorepani e concluí a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill. Saindo de Tadapani desci a um rio e encarei mais uma longa subida até Deurali (desnível de 697m) pela mata junto a outro rio. Após Deurali percorri uma crista com neblina (perdi o visual) e desci a Ghorepani (desnível de 397m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 5,5ºC. Às 8h da manhã estava 7ºC. De manhã, com muitas nuvens, da frente do lodge se avistava com dificuldade o Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste. Saí do lodge às 9h23 na direção oeste, seguindo a placa de Ghorepani e descendo por uma trilha calçada. Parei para colocar mais roupas porque dentro da floresta de rododendros estava muito frio. A descida se transformou numa escadaria e às 9h50 cruzei uma ponte de concreto. Logo depois dela a menor altitude do dia, 2504m, e em seguida a escadaria de pedras que inicia a exaustiva subida para Deurali. Às 10h16 alcancei o primeiro lodge da vila de Banthanti, que é dividida em três núcleos. Parei por 9 minutos para descansar da subida. Cerca de 280m adiante passei pelo segundo núcleo, cruzei uma ponte de concreto sobre um riacho e depois uma de madeira no terceiro núcleo de Banthanti. No total são 6 lodges nessa vila. A trilha sobe pela margem esquerda (verdadeira) desse riacho, mas após outra ponte de concreto às 11h06 volto à sua margem direita. Nesse trecho começou a aparecer muita gente no sentido contrário e resolvi parar por 13 minutos para um lanche. Às 11h54 subi uma longa escadaria com corrimão, desci um pouco, cruzei uma ponte de madeira e subi por outra longa escadaria. Passei pelo primeiro lodge de Deurali às 12h20 (essa é a terceira vila com esse nome nesse trekking) e resolvi parar no próximo, 10 minutos depois, para almoçar um veg fried noodle no Deurali Yak Hotel. Enquanto esperava tive uma surpresa. Vi um casal chegando no lodge ao lado e, conversando com a dona, disseram que eram do Brasil! O terceiro casal brasileiro que encontrei no Nepal em dois meses! Moravam no Acre e estavam indo de Ghorepani para Ghandruk nesse dia. A pequena Deurali tem também várias bancas de artesanato e da frente do Yak Hotel sai a trilha que sobe para Gurung Hill, mas naquele horário as nuvens já não permitiam apreciar o visual desse mirante. Voltei à trilha às 13h30. Em 20 minutos caminhando pela mata de rododendros atinjo uma crista. Mais 10 minutos e passei pelo ponto de maior altitude do dia, 3201m. Às 14h15 alcancei o mirante Thapla (Thabala), que dizem ter uma vista similar à de Poon Hill, mas sem as multidões e de graça, porém a neblina já havia chegado e não pude fazer essa comparação. Há ali um bar rústico e uma chautara (descanso dos carregadores) com bandeirinhas de oração budistas. Comecei a descer e logo cruzei outra mata de rododendros. Às 14h44 cheguei a uma bifurcação com outra chautara. Havia uma sinalização branca e vermelha apontando para a escadaria que desce à direita, mas eu decidi seguir pela trilha calçada em frente que desceu muito. Ao chegar a Ghorepani às 15h18 é que entendi que havia a vila baixa (onde chegam os trilheiros que vêm de Nayapul e onde eu cheguei) e a vila alta com muito mais opções de hospedagem. Decidi ir à vila alta e percebi que naquela bifurcação da sinalização branca e vermelha devia ter ido para a direita pois é um caminho mais direto à vila alta. Dali onde eu cheguei virei à direita e subi pela escadaria principal. Apenas 100m acima, numa bifurcação em que segui à direita, fui parado num checkpoint da polícia turística para mostrar as permissões. Nessa bifurcação, à esquerda se vai ao mirante Poon Hill. Continuei subindo à direita e cheguei a Ghorepani Alta (também chamada de Ghorepani Deurali... mais uma Deurali!) às 15h34, com muitos lodges mais. Apesar da baixa temporada havia muita gente ali, muitos nepaleses inclusive. Queria ficar num lodge bem tranquilo e fiz a escolha certa: Poon Hill Guest House. Negociei o quarto de graça e fui o único hóspede nessa noite. Atendimento muito simpático e comida deliciosa, fiz questão de elogiar o cozinheiro. O banheiro era dentro do lodge e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Lavatório no corredor e ducha quente por Rs100 (US$0,87). Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87). Altitude em Ghorepani Alta: 2874m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 450 Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo) e Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) 11º DIA - 04/12/18 - de Ghorepani a Tikhedhunga Duração: 30 minutos (subida de Ghorepani a Poon Hill) e 4h (de Ghorepani a Tikhedhunga, descontadas as paradas) Maior altitude: 3185m em Poon Hill Menor altitude: 1503m Resumo: nesse dia desci de Ghorepani a Banthanti (desnível de 607m) pelo vale de um rio por dentro de bosques, depois baixei até Tikhedhunga pela encosta da margem direita do Rio Bhurungdi (desnível de 764m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 3,0ºC. Às 5h da manhã estava 3,6ºC. O melhor espetáculo no mirante Poon Hill seria o nascer do sol, então enfrentei o frio de quase 0ºC e saí às 6h06 do lodge com lanterna para não perder o show. Subi até o Hotel Hill Top e de lá tomei a trilha dentro da mata. Cheguei à portaria do mirante e paguei a taxa de Rs100 (US$0,87) no guichê. Continuei subindo por longuíssimas escadarias de pedras entre rododendros e alcancei o mirante às 6h35, a tempo de assistir ao nascer do sol junto com a multidão que já estava lá e o povo que ainda estava subindo. Os primeiros raios de sol vieram às 6h43. Dos 3185m de altitude de Poon Hill a visão do Himalaia realmente é de tirar o fôlego, a melhor de todo esse trekking. A lista de montanhas é extensa e pode ser dividida em dois grandes blocos. De noroeste para norte: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo), Tukuche e Dhampus. De norte para nordeste: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo), Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Annapurna II (16º mais alto do mundo). Há uma torre para tirar fotos ainda melhores de uma posição mais alta, banheiros e uma casinha onde se vendem café e chá a preços ainda mais caros que em Ghorepani. Poon Hill tem esse nome porque foi criada e divulgada como ponto turístico pelo major Tek Bahadur Pun, um apaixonado pelo lugar e pela vista que se tem dali. Iniciei a descida às 8h50, quando o mirante já estava praticamente vazio, e parei muitas vezes para tirar mais fotos. Ao passar pelo guichê (já fechado) notei à direita o caminho que desce para Ghorepani Baixa, mas eu tinha de passar pelo lodge primeiro. Cheguei ao Poon Hill Guest House às 10h21, tomei o café da manhã, arrumei a mochila e saí às 12h na direção sul. Desci até Ghorepani Baixa, passei pelo portal do vilarejo e tomei a trilha larga pela floresta descendo para a reta final desse trekking. Queria saber quanto de estrada eu teria de andar dali até Nayapul e se haveria algum caminho alternativo por trilha, mas novamente as informações do pessoal local foram muito confusas e até erradas. Me disseram que em Ulleri eu cairia numa estrada e não haveria alternativa por trilha, mas não foi nada disso. Passei pelos primeiros lodges de Nangethanti às 12h56, cruzei uma ponte de concreto e depois mais alguns lodges dessa vila. Reentrei na mata e às 13h22 cruzei para a direita outra ponte de concreto sobre um pequeno cânion e um rio de água transparente muito bonito. Esse rio forma logo abaixo uma bela cachoeira. Depois de mais duas pontes de concreto parei 16 minutos para comer alguma coisa que trazia na mochila. Logo a floresta daria lugar à vegetação mais baixa. Passei às 14h23 pela vila de Banthanti Alta (o mesmo nome de uma vila do dia anterior) e 7 minutos depois por Banthanti Baixa, com lodges. Reaparecem os campos cultivados em forma de terraço. Continuei descendo e às 15h05 cheguei à vila de Ulleri, onde há jipes para Pokhara pela bagatela de Rs6000 (US$52) para 5 pessoas. O ônibus de Nayapul estava bem longe ainda porém custava só Rs200 (US$1,74). Nessa vila inicia uma famosa escadaria que dizem ter mais de 3300 degraus (segundo o guia Lonely Planet) e lá fui eu, dando graças por ser descida e por não ter que caminhar na estrada de terra, como haviam me informado em Ghorepani. Odeio andar em estrada! Cruzei toda a vila de Ulleri descendo pela escadaria. Cruzei também com muita gente subindo e vários perguntavam se faltava muito para Ghorepani - muito! E eu lhes perguntava se teria que andar por estradas mais à frente pois já avistava muitas estradas de terra abaixo. Às 16h11 teve fim essa escadaria terrível e cruzei uma ponte suspensa com o Rio Bhurungdi (Baraudi) formando duas lindas cachoeiras, uma acima e outra abaixo da ponte. Ali a menor altitude do dia: 1503m. Ao final da ponte fui à direita e na bifurcação a seguir à esquerda seguindo as setas apontando Pokhara. Já estava chegando à vila de Tikhedhunga e seus primeiros lodges. Subi e cruzei outra ponte suspensa com outra bela cachoeira acima. Fui à direita e parei às 16h31 num dos primeiros lodges, Laxmi Guest House. A dona me fez o quarto de graça, só pagando as refeições. O banheiro ficava no fim do corredor aberto ao frio, com vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava). Para escovar os dentes havia uma pia na frente do lodge. O atendimento não foi dos melhores mas a localização era muito bonita, com muita vegetação ao redor. Só os primeiros lodges da vila têm essa vista para a mata e barulho do rio próximo. Altitude em Tikhedhunga: 1519m Preço do dal bhat: Rs 450 Preço do veg chowmein: Rs 350 Cachoeira no Rio Bhurungdi em Tikhedhunga 12º DIA - 05/12/18 - de Tikhedhunga a Nayapul Duração: 2h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 1519m Menor altitude: 1004m Resumo: nesse dia percorri o vale do Rio Bhurungdi (Baraudi) por sua margem esquerda por trilhas e estradas até o ponto do ônibus em Nayapul A mínima durante a noite dentro do quarto foi 9,9ºC. Às 6h35 da manhã estava 10,8ºC. Saí do lodge às 8h06 na direção sudoeste ainda pela margem esquerda do Rio Bhurungdi (Baraudi). Passei pelos outros lodges do vilarejo e continuei descendo. Às 8h20 cheguei aos primeiros lodges de Hille, atravessei todo o povoado e 10 minutos depois lá estava ela, a estrada de terra. Fui para a direita descendo e por enquanto não havia alternativa por trilha. Às 8h50 passei pela vila de Sudame. Ali, numa curva fechada para a direita peguei um curto atalho à esquerda e continuei descendo pela estrada. Às 9h15 passei por Ramghai (Lamdawali). Às 9h38 entrei num atalho à direita com placa "way to Birethati" e a sinalização de faixas branca e vermelha de novo. Cruzei a vila de Matathanti com casas bem antigas, atravessei uma ponte suspensa e voltei à estrada de terra às 9h50, seguindo para a direita. Numa bifurcação 4 minutos depois continuei à direita pela estrada. Às 10h07 entrei em outro atalho à direita com placa e logo comecei a cruzar o casario da extensa vila de Birethanti, onde o Rio Bhurungdi (Baraudi) deságua no Rio Modi. Às 10h16 cheguei a uma estrada e uma ponte de ferro sobre o Rio Modi. Ao lado há um check post do ACAP, mas passei direto. Me recomendaram caminhar até Nayapul pois lá os ônibus são mais frequentes, então cruzei a ponte de ferro e continuei pela estrada na margem esquerda do Rio Modi. Passei por um check post do TIMS card 80m após a ponte mas não parei e nem fui parado para fazer checkout. Nesse trecho registrei a menor altitude de todo o trekking: 1004m. Subi um pouco e nas primeiras casas de Nayapul entrei num caminho à direita da estrada, às 10h32. Não há nenhuma sinalização mas para chegar à parada dos ônibus para Pokhara tem que entrar mesmo nesse caminho. Na bifurcação 300m depois desci à direita, cruzei a ponte suspensa e na subida seguinte cheguei às 10h42 à estrada e ao centro de Nayapul, com bastante comércio. Altitude de 1022m. Consegui alcançar um ônibus que seguia bem devagar, confirmei se ia para Pokhara e entrei. Ele foi até o fim da rua e tomou a estrada de terra para a esquerda, perto de onde fica a parada de todos os ônibus. A estrada é parte asfalto e parte terra batida, mas não pula muito. Essa estrada é a mesma que me levou a Kande, no início do trekking, e passamos por essa vila às 11h40. Desci do ônibus em Pokhara às 12h48, porém em frente a um terminal chamado Baglung Bus Park, muito distante de Nareshwor ou Lakeside. Perguntei para algumas pessoas se havia ônibus para esses bairros mas não souberam dizer, então resolvi ir a pé mesmo. Levei 1 hora até o Harry Guest House, mas poderia ter tomado um ônibus para Zero Kilometer, o que teria me poupado 2,2km de caminhada. Informações adicionais: Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva. . ônibus turístico Kathmandu-Pokhara: 7h (8h de viagem) Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Sorhakhutte, 500m ao norte do Kathmandu Guest House, no Thamel Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro . ônibus turístico Pokhara-Kathmandu: de manhã entre 7h e 8h e mais 3 horários à noite (8h de viagem) Em Pokhara os ônibus saem do terminal Tourist Bus Park, a 2,5km do centro de Lakeside Norte, mas pode-se comprar a passagem no hotel e tomar o ônibus em Lakeside Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro . ônibus Pokhara-Kande: a cada 20 minutos segundo me disseram (esperei 24 minutos) (1h40 de viagem) Em Pokhara pode-se tomar o ônibus em Zero Kilometer ou no Baglung Bus Park Preço: Rs100 (US$0,87) . ônibus Ghandruk-Pokhara: de 8h30 a 14h, de hora em hora Preço: Rs500 (US$4,34) . ônibus Nayapul-Pokhara: a cada 15 minutos até 18h30 (2h de viagem) Preço: Rs200 (US$1,74) . Melhor mapa: Around Annapurna 70k, 1:70.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NA524, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs550 = US$4,77). Site: himalayan-maphouse.com. Rafael Santiago dezembro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  14. Gokyo e o o terceiro lago, Gokyo Tso Início: Pheriche Final: Lukla Duração: 7 dias Maior altitude: 5409m no Passo Renjo La Menor altitude: 2545m em Thadokoshi Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis de 380m a 1030m diários, sempre acima dos 3300m, o que exige aclimatação. O Passo Renjo La, de 5409m, impõe uma dificuldade a mais. Permissões: entrada do Parque Nacional Sagarmatha (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$ 17,36). Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. O trekking Pheriche-Lukla é a terceira parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A primeira parte está descrita aqui e a segunda parte aqui. Como esta etapa do trekking ocorre acima dos 3000m de altitude, foi preciso fazer previamente um processo de aclimatação. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia". Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são: . Pheriche: só Everest Link . Pangboche: NCell (somente em alguns lugares da vila) . Phortse: NCell . Gokyo: só Everest Link . Namche Bazar: NCell . Lukla: NCell O cartão pré-pago de wifi Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não o testei porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Pangboche com o Ama Dablam ao fundo 17º DIA - 09/11/18 - de Pheriche a Phortse Duração: 4h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 4293m Menor altitude: 3795m Resumo: nesse dia percorri os vales dos rios Khumbu (ou Lobuche) e depois Imja até a confluência deste com o Rio Dudh Koshi e a vila de Phortse A mínima durante a noite dentro do quarto em Pheriche foi -3,4ºC. Às 7h30 da manhã estava -1,4ºC. Por causa da insônia que me deixou quatro noites seguidas sem dormir (efeito do Mal da Montanha, AMS em inglês), em Gorak Shep tomei a decisão de abortar o Passo Cho La e baixar de altitude para poder dormir e me recuperar. Por outro lado, não poderia deixar de conhecer os belos lagos sagrados de Gokyo, então faria um contorno bem grande descendo para o sul para em seguida subir até Gokyo, aonde chegaria no 19º dia de caminhada. De manhã com o céu limpo, da frente do lodge Thamserku podia avistar as montanhas na cabeceira do vale do Rio Khumbu (ou Lobuche) e também o Taboche e o Cholatse a noroeste. A sudeste o Ama Dablam e ao sul estavam Kangtega e Thamserku. Saí do lodge às 10h08 na direção sul ainda pela margem esquerda do Rio Khumbu (ou Rio Lobuche). Cerca de 600m após as últimas casas de Pheriche passei para a outra margem desse rio atravessando uma ponte de ferro e seguindo para a esquerda. Subi até um memorial a escaladores às 10h55 (4293m, maior altitude do dia) e logo desci até aquela bifurcação sem placa do 10º dia. Naquele dia fui para a direita (que agora é esquerda) na direção de Dingboche, hoje vou para a direita, voltando a percorrer o vale do Rio Imja. Desse ponto até Pangboche refaço o caminho da ida ao contrário, na direção sul, e volto a caminhar abaixo do limite das árvores. Passei por Somare às 11h51 e parei em Pangboche às 12h42 para almoçar no Himalayan Lodge, onde me hospedei no 9º dia. Ali conheci um polonês que estava bem perdido, dei umas informações pra ele e ele me deu boas dicas sobre as montanhas Tatras, na fronteira do seu país com a República Tcheca. Voltei a caminhar às 14h13 e subi à direita na bifurcação bem ao lado do lodge, na direção do monastério (gomba). Duas coisas me detiveram por algum tempo para fotos nessa subida: a linda vista de Pangboche com o Ama Dablam ao fundo e o longo muro de pedras mani na trilha. Cheguei ao monastério às 14h40 e o visitei só por fora (entrada de Rs250 = US$2,17). Ele é do século 17 e é o mais antigo monastério do Khumbu. Continuei pela trilha na direção sudoeste, fui à direita na primeira bifurcação (com placa indicando um posto de saúde à esquerda) e à esquerda na trifurcação (sem placa) logo a seguir. Nesse ponto um cachorro estressado não parava de me perseguir e ameaçava me morder, mesmo atirando pedras na sua direção. Por fim me livrei dele. Passei por mais um longo muro de pedras mani na saída da vila. Deixei para trás o vilarejo de Pangboche Alto e continuei pela trilha na encosta da margem direita do Rio Imja. Passei por três bicas de água e subi até os 4084m, onde, às 15h48, avistei a vila de Tengboche e seu grande monastério. Depois de várias subidas e descidas, até com escadarias de pedra, cheguei a Phortse às 16h58 com neblina. Nessa vila não há o esquema de cobrança de preço único do quarto, como já vigora de Tengboche a Gorak Shep, então volta o método anterior de negociar o quarto desde que se façam as refeições ali mesmo. Perguntei em alguns lodges e fiquei no Namaste Lodge, onde o dono me fez o quarto de graça. O banheiro foi o mais esquisito de todos: uma casinha com um buraco no piso de madeira (sem a peça de louça) e uma montanha de folhas ao lado para jogar um pouco no buraco depois de fazer o número dois. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor dentro da casa. Havia tomada no quarto mas a recarga de baterias era paga. Barganhei o máximo que pude e chegamos a Rs500 (US$4,34) para recarregar todas as baterias durante a noite inteira. Pedi um cobertor pois não havia no quarto (não foi cobrado), mas não era tão grosso e achei melhor usar o meu saco de dormir (Marmot Helium, temperatura limite -9ºC). Nesta noite nesse lodge havia apenas um grupo de alemães, mas era um grupo tão grande que lotava o refeitório. Continuo na minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte. Altitude em Phortse: 3795m Preço do dal bhat: Rs 500 Preço do veg chowmein: Rs 450 Vila de Machermo 18º DIA - 10/11/18 - de Phortse a Machermo Duração: 4h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4446m Menor altitude: 3603m Resumo: nesse dia saio do vale do Rio Imja e volto ao vale do Rio Dudh Koshi iniciando a longa subida (de dois dias) a Gokyo pela margem direita verdadeira deste rio A mínima durante a noite dentro do quarto foi 5,2ºC, não tão frio quanto eu esperava. Como na noite anterior, meu sono foi bom, conseguindo me refazer do cansaço dos dias anteriores quando fiquei quatro noites seguidas sem dormir por causa da altitude. A partir de Phortse os mapas indicam dois caminhos a Gokyo, um pela margem direita do Rio Dudh Koshi e outro pela margem esquerda. O guia Lonely Planet sugere ir a Gokyo pela margem direita e voltar pela margem esquerda. Porém conversei com várias pessoas nos últimos dias e todos desaconselhavam tomar o caminho da margem esquerda pois nele há deslizamentos e pedras que caem. O caminho da margem direita é mais seguro e muito mais usado pelos trilheiros. O Rio Dudh Koshi é um dos principais rios da região. Acompanhei seu curso do 5º dia de caminhada, em Chhirdi, até o 9º dia em Phunki Thenga e agora vou segui-lo até Gokyo, onde estão suas nascentes. Saí do lodge às 9h22 descendo as escadarias da vila na direção sudoeste e quebrando à direita na direção do Everest Lodge. Ao lado desse lodge uma grande stupa com placa indica o caminho para Dole descendo a trilha para o norte, na direção do Rio Dudh Koshi. Cruzei uma matinha e desci bastante, atravessando a ponte metálica sobre o azulado Rio Dudh Koshi às 9h56 (3603m, menor altitude do dia). Seguiu-se uma subida por um bosque com a trilha bem mais estreita até que alcancei a principal mais acima, onde fui para a direita (noroeste). Daqui até próximo de Gokyo vou caminhar pelas encostas da margem direita verdadeira do Rio Dudh Koshi. Às 10h21 fui parado num checkpoint para mostrar as permissões pagas em Monjo no 7º dia (permissão local e entrada do Parque Nacional Sagarmatha) e a surpresa foi encontrar o casal húngaro Zita e Daniel, ele visivelmente mais magro. Eles já estavam descendo de volta a Namche, não tiveram problema com a altitude, passaram pelos passos Kongma La e Cho La mas não quiseram encarar o terceiro passo, o Renjo La. Continuei subindo e às 10h29 cruzei uma ponte de ferro com uma cachoeira congelada à esquerda. Mas essa foi só a primeira delas pois em seguida cruzei mais três pontes com cachoeiras congeladas ao lado. Esse foi o primeiro dia cinzento do trekking desde Shivalaya, sem nenhum sinal de sol, o que fazia o dia ficar muito frio. Essas águas congeladas só aumentavam a sensação de frio. As nuvens estavam bem baixas e caíram cristais de neve quase o dia todo. Às 11h51, depois de subir 445m desde a ponte do Rio Dudh Koshi, alcancei a vila de Dole e parei para almoçar um dal bhat no Namaste Lodge. Dole está a 4049m e as árvores já começam a desaparecer acima dessa altitude. Às 12h56 continuei na direção oeste e logo desci para cruzar o Rio Phule por uma ponte de troncos precária. Subi novamente e passei por um lodge em Lhafarma às 13h44. As nuvens baixaram de vez e a neblina tirava a visão do caminho. Às 14h27 cruzei um riacho e passei por um lodge no vilarejo de Luza. Na bifurcação 90m depois do lodge fui à direita, cruzei outro riacho e atravessei alguns cercados de pedra. Subi até os 4446m (maior altitude do dia) e desci à vila de Machermo, aonde cheguei às 15h com neblina. Me hospedei no Himalayan Lodge, um lodge menor e mais modesto que os outros. O primeiro em que perguntei, o Tashi Dele, estava lotado, apesar de bem grande, ao passo que o Himalayan Lodge só tinha carregadores, apenas eu de estrangeiro. Pude novamente negociar o preço do quarto e o dono fez de graça, só cobrando as refeições. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Para escovar os dentes tinha que ser no quintal com uma caneca. A energia era solar e não havia luz nos quartos, banheiro e corredores, necessitando usar a lanterna. Altitude em Machermo: 4393m Preço do dal bhat: Rs 500 Preço do veg chowmein: Rs 400 Longpunga Tso, primeiro lago de Gokyo 19º DIA - 11/11/18 - de Machermo a Gokyo Duração: 3h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4754m Menor altitude: 4377m Resumo: nesse dia continuei a subida pela margem direita do Rio Dudh Koshi até a vila de Gokyo e seus incríveis lagos sagrados A mínima durante a noite dentro do quarto foi -4,1ºC. Às 6h30 da manhã estava -3ºC. A minha água amanheceu congelada dentro da garrafa. Como não costumam acender o aquecedor do refeitório de manhã para economizar esterco de iaque, o dono do lodge foi muito gentil e serviu o meu café numa mesa do lado de fora, onde já batia o sol da manhã (mas ainda fazia muito frio). A vila de Machermo se espalha ao longo do vale do Rio Machermo, afluente da margem direita do Rio Dudh Koshi. Saí do lodge às 9h na direção noroeste e logo cruzei uma ponte de ferro sobre o Rio Machermo (4377m, menor altitude do dia). A partir dela há duas trilhas mais ou menos paralelas em direção a Gokyo: a da direita sobe menos, a da esquerda sobe mais e depois desce para encontrar a primeira. A da esquerda deve até ter uma vista mais panorâmica mas eu optei pela da direita. Ela sobe pela encosta, faz uma curva de mais de 90º para a esquerda e toma a direção noroeste, junto ao Rio Dudh Koshi, até se fundir com a outra trilha, que percorre até ali um nível mais alto na encosta. O Cho Oyu, 6ª montanha mais alta do mundo, já fica visível na cabeceira do vale. Ao me aproximar do povoado de Phanga tomei as trilhas da esquerda mas pode-se ir pela direita também. Cruzei essa vila às 9h53 e é muito bonita a visão das casas e muros de pedra com os picos Cholatse e Taboche ao fundo (leste). Após Phanga me aproximei um pouco mais do Rio Dudh Koshi e parei para fotos. Já podia avistar dali a longa subida que teria de encarar em seguida. Às 10h57 venci essa subida (cheia de gente) e cruzei a ponte de ferro sobre o rio que verte do primeiro dos lagos sagrados de Gokyo. Ufa, parece que estava quase no fim essa subida interminável desde o dia anterior, com desnível de mais de 1000m desde a ponte do Rio Dudh Koshi até aqui. Daqui até Gokyo à minha direita tenho a moraina lateral do Glaciar Ngozumba, que vem das montanhas Cho Oyu, Ngozumba Kang e Gyachung Kang. Parei no primeiro lago, Longpunga Tso, às 11h03 para fotos com o Cho Oyu ao fundo e segui com o riacho que faz a ligação entre os lagos à minha esquerda. Cerca de 970m depois parei no segundo lago, Taujung Tso, muito maior que o primeiro, para descansar e comer o lanche que tinha na mochila. Continuei às 12h e em 45 minutos (com paradas) alcancei o terceiro lago, Gokyo Tso, ainda maior e mais bonito. Tirei algumas fotos e segui, chegando a Gokyo às 13h10. O lugar é tão bonito que parece uma pintura! O vilarejo ao lado do lago de águas esverdeadas brilhantes e cercado de montanhas e picos nevados - nem parece real! Ao fundo, ao norte, está o Pico Cho Oyu, 6º mais alto do mundo. Os lagos de Gokyo são sagrados para budistas e hindus. Durante o festival Janai Purnima, em agosto, centenas de nepaleses vão em peregrinação a Gokyo para banhar-se em suas águas geladas. Os lagos também contribuem na formação do importante Rio Dudh Koshi, que conheci no 5º dia de caminhada, em Chhirdi. Percorri alguns lodges e optei pelo Ngawang Friendship. Negociei o quarto e ficou de graça novamente, mas se o lodge lotasse eu teria que dividir o quarto com outra pessoa pois me deram (na primeira noite apenas) um quarto com duas camas. Os banheiros ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário, descarga com caneca. Como em Machermo, a energia era solar e não havia luz nos quartos, banheiros e corredores. Perguntei por curiosidade o preço da água mineral de 1 litro e custava a bagatela de Rs450 (US$3,90)! Almocei no lodge e o passeio da tarde foi abortado pois as nuvens tomaram conta do lugar. A visão das nuvens sobre o lago era bonita também, mas a minha intenção de subir até os lagos mais acima (4º e 5º) foi adiada. Altitude em Gokyo: 4754m Preço do dal bhat: Rs 700 Preço do veg chowmein: Rs 700 Everest visto da montanha Gokyo Ri 20º DIA - 12/11/18 - de Gokyo a Gokyo Ri Duração (descontadas as paradas): 1h25 (subida ao Gokyo Ri), 1h05 (descida do Gokyo Ri), 48 min (de Gokyo ao 4º lago) Maior altitude: 5356m Menor altitude: 4754m Resumo: nesse dia subi a montanha Gokyo Ri num desnível de 600m desde a vila de Gokyo e visitei o Thonak Tso, o 4º lago A mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,9ºC. Às 6h30 da manhã estava 0,3ºC. Meu sono foi bem ruim de novo. Por causa da altitude passei a maior parte da noite acordado. Saí do lodge às 7h42 na direção noroeste, cruzei pela "ponte" de pedras o riacho que se abre antes de desaguar no Lago Gokyo Tso e comecei a subir o Gokyo Ri por trilha bem marcada e muito pisada. Alcancei o cume de 5356m às 9h12 e a paisagem é espetacular. Dali se avistam Cho Oyu (6º mais alto do mundo), Ngozumba Kang e Gyachung Kang ao norte; Chumbu, Pumori e Changtse a nordeste; Everest, Nuptse (20º mais alto), Lhotse (4º mais alto) e Makalu (5º mais alto) a leste; Cholatse e Taboche a sudeste; Kangtega, Kyashar, Thamserku e Kusumkangaru (Kusum Kanguru) a sul-sudeste; Khumbila ao sul; Passo Renjo La a sudoeste. A visão de Gokyo com os lagos sagrados é uma das paisagens mais bonitas de todo esse trekking - realmente vale todo o esforço para chegar a esse lugar! Às 11h18 iniciei a descida e estava de volta à vila às 12h32. Saí 20 minutos depois para conhecer os lagos mais acima antes que as nuvens tomassem conta de tudo novamente. Caminhei pela trilha bem marcada até o 4º lago, Thonak Tso, aonde cheguei em 48 minutos, mas parei por ali pois o 5º lago estava 3,7km à frente por um caminho de pedras e se fosse "comum" como o 4º lago eu ia me arrepender de ter caminhado tanto. Se o 5º lago era bonito? Até hoje não sei. Talvez dependa da posição do sol para eles ficarem mais bonitos. Ali a altitude era de 4876m e eu tinha uma visão incrível do Cho Oyu, Ngozumba Kang e Gyachung Kang ao norte, na cabeceira do vale. Continuando ainda além do 5º lago estariam o 6º lago e o campo base do Cho Oyu. Voltei tomando uma trilha na crista da moraina do Glaciar Ngozumba, que passa bem ao lado da vila de Gokyo e é o último obstáculo para quem vem de Lobuche pelo Passo Cho La. O "mar" de pedras do glaciar é impressionante e quem já passou por um sabe a dificuldade que é. Descobri onde ficava o posto de saúde e fui lá pegar alguma informação mais confiável sobre como resolver o problema da minha insônia na altitude. Conversei com a médica sem ter que pagar a consulta e ela me disse que o Diamox é indicado para quem acorda no meio da noite com falta de ar. Não sei bem se era o meu caso, acordava espontaneamente, não necessariamente com falta de ar. Continua a dúvida se o Diamox me teria feito dormir. Passo Renjo La (5409m de altitude) 21º DIA - 13/11/18 - de Gokyo a Lungden Duração: 6h (descontadas as paradas) Maior altitude: 5409m Menor altitude: 4378m Resumo: nesse dia encarei o terceiro passo (para mim foi o segundo), o Renjo La, com 5409m de altitude e desnível de 655m desde a vila de Gokyo, para descer em seguida ao vilarejo de Lungden A mínima durante a noite dentro do quarto foi -0,5ºC. Às 6h10 da manhã estava 3,6ºC. Tive uma noite razoável de sono, não fiquei tantas horas acordado e consegui descansar para enfrentar esse dia bem puxado. Saí do lodge às 7h56 e tomei o mesmo caminho do dia anterior (noroeste), porém aos pés do Gokyo Ri peguei a trilha da esquerda (com placa apontando Renjo Pass), subindo suavemente a encosta e percorrendo a margem norte do Lago Gokyo Tso. Às 8h16 fui à direita numa bifurcação (a trilha da esquerda aparentemente vai até o final do lago). Às 9h cruzei um riacho e a subida se tornou bastante íngreme, em zigue-zague, com muitas pedras. Nessa ladeira havia pequenas quedas-d'água congeladas. Às 9h48 atingi um grande platô e olhando para trás vi que a neblina estava chegando bem mais cedo nesse dia. Numa bifurcação a 5261m fui à direita. Subi mais e alcancei o Passo Renjo La às 10h56, com muitas bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais. A altitude ali é 5409m e pode-se avistar as montanhas: Gyachung Kang a norte-nordeste; Chumbu, Pumori e Changtse a nordeste; vila de Gokyo, Everest, Nuptse, Lhotse e Makalu a leste; Cholatse e Taboche a sudeste. A neblina não foi tão forte quanto eu imaginava. Aos poucos foram chegando mais e mais trilheiros e reencontrei o russo que conheci em Pangboche. É muito legal reencontrar as pessoas depois de vários dias de caminhada e ver que continuamos "juntos", no mesmo ritmo. Comi alguma coisa (importante levar lanche e água por causa da distância entre as vilas - há uma pequena padaria em Gokyo) e às 13h38, quando quase todos já haviam saído, iniciei a descida para a vertente oeste do passo, em direção a Lungden. A trilha de descida do passo tem muitas pedras soltas e até escadas de pedra. Às 14h21 passei pelo Lago Angladumba Tso que já avistava desde o passo. A partir daí a neblina veio forte e começou a tirar a visão do caminho. Continuei descendo e às 14h57 passei à direita do Lago Relama Tso. Às 15h13 cometi um erro. Numa bifurcação sem placa e em meio à neblina olhei no gps e ele indicou o caminho da direita. A trilha era bem marcada e eu, acreditando que estava no caminho certo, não olhei mais o gps. Atrás de mim vinha um casal russo (Marina e Andrei). Eles confiaram na minha burrada e tomaram a direita também. Depois de descer muito por trilha marcada, começamos a ver que havia alguma coisa errada pois ela estava ficando indefinida, embora houvesse muitos totens (só para nos confundir). Vimos que o erro estava lá atrás e não quisemos subir tudo de novo. A neblina não deixava visualizar se aquele caminho também levaria a Lungden, talvez sim mas por um trajeto muito mais longo e difícil. Eles decidiram sair dessa trilha para a esquerda e caminhar pelas encostas sem trilha até reencontrar o trajeto correto. Dessa vez eu é que fui atrás deles para ver no que ia dar. O caminho foi bem ruim por deslizamentos cheios de pedras soltas e descidas muito íngremes. Conseguimos voltar à rota certa cerca de 800m antes da vila de Lungden, aonde chegamos às 16h51. Marina era quem espiava os lodges e conversava com os donos para decidir em qual ficar. Eles resolveram ficar no Lungden View Lodge e eu também pois o quarto não seria cobrado. Os banheiros desse lodge ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário. Descarga em ambos com caneca. Havia um grupo de franceses sem guia também e conversamos bastante no refeitório esperando pela janta. Perguntei a eles e ao dono do lodge sobre uma trilha alternativa a Lukla que sai de Thame e não passa em Namche Bazar, mas não recomendaram fazê-la porque há bem pouca hospedagem pelo caminho e um dos lodges é muito caro, sem outra opção próxima, segundo disseram. Marina também tinha pego a maldita tosse do Khumbu, como eu. Nós dois fazíamos uma sinfonia de tosses, principalmente à noite com o frio apertando. Altitude em Lungden: 4378m Preço do dal bhat: Rs 550 Preço do veg chowmein: Rs 450 Às 18h15 a temperatura fora do lodge era -3ºC. Stupa e roda mani na entrada da vila de Thameteng 22º DIA - 14/11/18 - de Lungden a Namche Bazar Duração: 6h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 4378m Menor altitude: 3415m Resumo: nesse dia percorri o vale do Rio Bhote Koshi baixando 948m de altitude de Lungden a Namche Bazar A mínima durante a noite dentro do quarto foi -0,3ºC. Às 7h50 da manhã estava 0,4ºC. Em Lungden tive meu primeiro contato maior com o Rio Bhote Koshi já que a vila fica em seu vale, na margem esquerda. Saí do lodge às 8h28 na direção sul percorrendo o restante do vilarejo. Cruzei um riacho congelado pelas pedras e às 9h11 passei pela vila de Maralung. Às 9h22 cruzei uma ponte metálica sobre o Rio Bhote Koshi, passando para sua margem direita. Fui à esquerda na bifurcação ao final da ponte. Ali fui alcançado por Marina e Andrei, que saíram depois de mim. A vila de Maralung continua depois da ponte e a trilha passa a percorrer a encosta da margem direita do Rio Bhote Koshi. Às 10h02 passei pelo povoado de Tarnga e seus inúmeros cercados de pedra. Cruzei às 10h29 a ponte de ferro sobre o Rio Langmuche. Às 10h53 fui à esquerda na bifurcação e logo cruzei um riacho pelas pedras. Cruzei mais dois riachos pelas pedras e no quarto riacho saía uma trilha à esquerda para o povoado de Yila Jung (essa bifurcação, apesar da placa, pode causar dúvida a quem está fazendo o percurso ao contrário). Às 11h20 passei por uma stupa com uma roda mani na entrada da vila de Thameteng. Ao final dessa vila há uma grande stupa à direita e uma infinidade de pedras mani à esquerda. Às 11h45 eu, Marina e Andrei chegamos a um mirante no alto da vila de Thame e resolvemos parar para almoçar. Descemos para procurar um lugar mas o vilarejo parecia fantasma, quase tudo fechado e deserto. Conseguimos almoço num lodge às 12h05. O banheiro desse lodge era diferente, era no estilo oriental mas com descarga. Nesse povoado de Thame, a 3792m, começam a reaparecer timidamente as árvores, mas elas voltam a ser mais frequentes mesmo só abaixo dos 3500m. Ao final do almoço o sol já havia sumido, encoberto pelas nuvens baixas. Saímos às 12h59 na direção sudeste pela encosta da margem esquerda do Rio Thame e descemos até uma ponte de ferro sobre um cânion formado pelo estreitamento do Rio Bhote Koshi. Após a ponte, no paredão rochoso há imagens pintadas de Tara Verde, Guru Rinpoche e Thangtong Gyalpo. Após essa ponte voltamos a caminhar pela encosta da margem esquerda do Rio Bhote Koshi e às 13h46 passamos pela vila de Samde. Na bifurcação ao final da vila fomos à direita, descendo. Às 14h11 alcançamos o monastério de Thamo, com o vilarejo logo abaixo. Bancas de artesanato demonstram que estamos voltando à zona mais "turística" do trekking. Passamos pelo povoado de Theso às 14h43 e cruzamos uma ponte de ferro sobre o Rio Thesebu (3415m, menor altitude do dia). Às 15h passamos pelo vilarejo de Samsing onde há uma imagem do Guru Rinpoche pintada numa grande rocha. A seguir cruzamos um bosque. Às 15h10 passamos pela vila de Phurte e paramos para descanso na stupa logo acima. Entramos na mata de pinheiros e às 15h36 fomos à direita numa bifurcação com placa indicando Khumjung e Khunde à esquerda. Cruzamos a mata e na descida já avistamos Namche Bazar e seu formato de anfiteatro mais abaixo. Passamos pelo monastério e chegamos a Namche às 16h10. Segui o casal russo de novo e fomos para o Family Lodge, que eles já conheciam. Na negociação, o quarto saiu por Rs100 (US$0,87). O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada e lavatório com espelho - muito luxo! O russo de Pangboche estava hospedado ali também com seus amigos. Eu precisava trocar mensagens com o dono da agência que me vendeu a passagem aérea Lukla-Kathmandu para adiantar a data do voo, mas a NCell não estava funcionando. Tive de ir a uma padaria consumir alguma coisa e usar o wifi gratuito. Consegui trocar a data para dia 16, às 9h, um pouco tarde (por causa das nuvens que costumam fechar o aeroporto) mas não havia horário vago mais cedo. Altitude em Namche Bazar: 3430m Preço do dal bhat: Rs 500 Preço do veg chowmein: Rs 500 Ponte Larja, a mais fotografada 23º DIA - 15/11/18 - de Namche Bazar a Lukla Duração: 6h25 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3430m Menor altitude: 2545m Resumo: nesse dia refiz ao contrário o percurso do 7º dia, percorrendo no sentido sul o vale do Rio Dudh Koshi e baixando 586m de altitude de Namche Bazar a Lukla, encerrando assim essa caminhada de 23 dias A mínima durante a noite dentro do quarto foi 2,2ºC. Às 7h30 da manhã estava 2,7ºC. Marina e Andrei resolveram ficar mais um dia em Namche. Saí do lodge às 8h50 na direção sul e parei na entrada de Namche para fotos da bonita stupa. Passei (sem parar) pelo checkpoint às 9h18 e 100m adiante entrei numa trilha à esquerda da principal. Essa trilha corre paralela à principal mas é bem mais estreita e mais vazia. Às 9h34 as duas se fundiram de novo e 240m depois passei pelos banheiros que há ao lado desse caminho. Às 9h58 cheguei à Ponte Larja, sobre o Rio Dudh Koshi. Parei um bom tempo para fotos. Continuei às 10h23 e tomei a direita na primeira bifurcação, descendo por uma trilha mais estreita com escadarias (o caminho em frente também serve mas aparentemente sobe para depois descer tudo de novo). Descendo na trilha à direita cheguei à margem do Rio Dudh Koshi e parei para mais fotos da Ponte Larja. Continuei descendo pela margem esquerda do Rio Dudh Koshi, cruzei a ponte suspensa Tawa sobre ele e passei por Jorsale às 11h19. Já era bem visível como a trilha estava mais vazia em relação ao dia em que passei na ida. Cruzei outra ponte suspensa voltando para a margem esquerda do Rio Dudh Koshi. Subi bastante e às 11h38 passei pela entrada do Parque Nacional Sagarmatha, onde tive de mostrar as permissões para registro da minha saída. Cruzando a vila de Monjo resolvi parar às 11h51 para almoçar no Mountain View Lodge. Atendimento muito simpático. Retomei a caminhada às 12h18 e parei no checkpoint da permissão local para carimbar a saída. Esses dois checkpoints estavam completamente vazios, ao contrário do dia em que passei na ida. Descendo cruzei a ponte de ferro sobre o transparente Rio Monjo e passei às 12h30 pela vila de Chumoa. Às 12h43 cruzei outra ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi e passei pela vila de Benkar. Cruzei a ponte de concreto com a cachoeira dupla à direita. Às 13h22 passei pela cachoeira tripla e 230m à frente cruzei a vila de Toktok. Atravessei uma ponte de concreto sobre o Rio Ghatte (ou Rio Nagbuwa) e passei por Zamphute às 13h37. Cheguei à vila de Phakding e aqui é fácil errar se não estiver atento: deve-se tomar o caminho que sai em 90º à esquerda passando no meio dos lodges, e não seguir em frente (como fizeram Marina e Andrei). Indo à esquerda se cruza mais uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi para em seguida passar pelo "centro" de Phakding. Uns 3 minutos após as últimas casas, deve-se desprezar uma nova ponte suspensa que vai para a direita e seguir em frente. Às 14h24 passei pela vila de Chhuthawa e 290m depois pelo povoado de Ghat (Yulning) com um bonito monastério de paredes vermelhas. Às 14h51 passei por Thadokoshi e cruzei a ponte metálica sobre o Rio Thado Koshi (2545m, menor altitude do dia). Estava difícil ultrapassar um grupo de iaques e aproveitei para parar e descansar um pouco. Às 15h15 passei por uma ponte suspensa sobre um deslizamento enorme. Às 15h46 cruzei uma ponte de concreto e passei pela vila de Cheplung, onde dormi na 6ª noite. Em seguida veio a longa e dura subida até Lukla, aonde cheguei às 16h36 com chuva fina. Cruzei toda a vila e fui diretamente ao aeroporto tentar adiantar o horário do voo do dia seguinte, mas os balcões estavam todos fechados (pura ingenuidade minha, mal sabia eu o caos que enfrentaria no dia seguinte). Voltei ao centro de Lukla e comecei a procurar hospedagem - todos os lodges estavam lotados por causa do mau tempo que obrigava muita gente a esperar o dia seguinte para embarcar. Finalmente consegui um quarto no Monte K2 Lodge por Rs200 (US$1,74). O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental, e não era um primor de limpeza. Altitude em Lukla: 2844m Preço do dal bhat: Rs 650 Preço do veg chowmein: Rs 400 A mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,5ºC. Às 7h15 da manhã estava 7,8ºC. Pista curtinha do aeroporto de Lukla 16/11/18 - tentativa de embarque no voo Lukla-Kathmandu Meu voo estava marcado para 9h. Tomei o café da manhã e cheguei ao aeroporto às 7h50. O saguão do check in parecia o fim do mundo. A multidão se acumulava na frente dos pequenos guichês das companhias aéreas, que são Nepal Airlines, Tara Air (a minha), Sita Air e Summit Air. Porém os guichês não têm funcionário o tempo todo como nos outros aeroportos, eles só vêm quando vai ser aberto o check in do próximo voo, e nessa hora a confusão é total, com a multidão estendendo papéis e celulares mostrando a reserva, na esperança de embarcar no próximo voo pois todos já estão atrasados. O funcionário pega só algumas das reservas dos passageiros desesperados, confere numa listagem (não há computador), manda pesar a bagagem e em seguida desaparece. Mais meia hora ou uma hora ele reaparece e começa toda a balbúrdia de novo. Um espanhol com quem conversei no meio desse caos tinha passagem com a Tara Air também às 9h, como eu. Ele foi chamado, embarcou e eu fiquei. No entanto, duas garotas estavam nesse sufoco de não conseguir embarcar desde o dia anterior às 7h da manhã. Eles não seguem a ordem cronológica das reservas, é tudo aleatório. A cada vinda do funcionário para o guichê o tumulto e a correria se instalavam, isso em todos os guichês pois nas outras companhias era a mesma coisa. Conclusão: não fui chamado para os voos seguintes e por volta de 13h os funcionários não voltaram mais ao guichê, nem para avisar se haveria outros voos ou não naquele dia. Total falta de respeito! A essa altura já tinha feito amizade com algumas outras pessoas na mesma situação que eu. Concluímos que os voos haviam sido cancelados por causa da mudança do tempo. Descobrimos onde era o escritório da Tara Air (dentro do aeroporto mesmo, no corredor à esquerda de quem entra) e fomos confirmar isso e remarcar o voo para o dia seguinte. Voltei ao mesmo lodge, almocei um dal bhat e enrolei a tarde toda. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 6,9ºC. Às 7h20 da manhã estava 7,4ºC. Himalaia visto do avião entre Lukla e Kathmandu 17/11/18 - finalmente sucesso no embarque no voo Lukla-Kathmandu Meu voo estava marcado para 9h. Cheguei ao aeroporto às 8h30. Mas nesse dia foi diferente pois na confusão do dia anterior eu e os parceiros na mesma situação aprendemos algumas coisas que vão como dica importante aqui para não passar por tanto sufoco. Pelo menos para a Tara Air isso é válido. Ao chegar ao aeroporto é importante ir ao escritório da companhia e pedir (ou mesmo exigir) que eles informem o número do voo em que está previsto o seu embarque. Não é o número do voo dado na hora da reserva, é um número sequencial que eles criam no dia do embarque. Sim, a coisa é pra lá de confusa! Com esse número na mão não é preciso correr para o guichê e se matar junto com os outros passageiros toda vez que o funcionário aparecer para fazer um check in. Basta perguntar a ele: qual é o número desse voo? Se for o seu, basta entregar a reserva e o passaporte, se não for espere a próxima aparição dele. Isso aprendemos a duras penas! E sempre torcer para as nuvens não chegarem e os voos serem todos cancelados. Nesse dia fiz o check in às 10h e consegui decolar de Lukla às 13h, chegando ao aeroporto de Kathmandu às 13h29. Algumas pessoas no avião estavam passando mal de tão nervosas mas o voo foi ótimo, sem nenhuma turbulência. O que assusta é o tamanho da aeronave, um Dornier 228 de apenas 12 lugares, e a pista curta e inclinada de Lukla que termina num precipício. Um alerta a quem pensa em comprar a passagem Lukla-Kathmandu com a empresa Summit Air: muitos voos dessa empresa não chegam a Kathmandu, embora os passageiros paguem o mesmo valor (ou mais) que os outros que desembarcam em Kathmandu. O avião pousa em algum aeroporto menor no caminho e o restante da viagem é feito de ônibus. Como as estradas no Nepal são péssimas soube de viagens que estavam levando de 4h a 7h!!! Quer dizer, você paga US$179 por uma passagem aérea para viajar 15 minutos num avião e depois 7h num ônibus! Informações adicionais: . Somente essas quatro companhias aéreas fazem o trajeto entre Kathmandu e Lukla: .. Nepal Airlines: www.nepalairlines.com.np (clique em Domestic Flight) .. Tara Air: www.yetiairlines.com .. Sita Air: sitaair.com.np .. Summit Air: www.summitair.com.np . O posto de saúde de Gokyo tem palestras diárias e gratuitas sobre aclimatação e Mal da Montanha às 15h . Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com. Rafael Santiago novembro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  15. Everest e Nuptse vistos do Kala Pattar Início: Namche Bazar Final: Pheriche Duração: 9 dias Maior altitude: 5643m no cume do Kala Pattar Menor altitude: 3313m na vila de Phunki Thenga Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de 600m a 800m diários, sempre acima dos 3300m, o que exige aclimatação. O Passo Kongma La, de 5530m, impõe uma dificuldade a mais. Permissões: entrada do Parque Nacional Sagarmatha (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$17,36). Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. O trekking Namche Bazar-Campo Base do Everest é a segunda parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A primeira parte está descrita aqui e a terceira parte está descrita aqui . Como esta etapa do trekking ocorre acima dos 3000m de altitude, foi preciso dedicar alguns dias às caminhadas de aclimatação. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia". Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são: . Namche Bazar: NCell . Pangboche: NCell (somente em alguns lugares da vila) . Dingboche: só Everest Link . Chukhung: só Everest Link . Pheriche: só Everest Link . Lobuche: só Everest Link . Gorak Shep: Everest Link, NCell muito instável O cartão pré-pago de wifi Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não o testei porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Mirante próximo ao Hotel Everest View (da esq para a dir): Cholatse, Taboche, Nuptse (20º mais alto do mundo), Everest, Lhotse (4º mais alto do mundo), Lhotse Shar e o magnífico Ama Dablam 8º DIA - 31/10/18 - de Namche Bazar a Khumjung e Khunde (aclimatação) Duração: 5h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 4050m Menor altitude: 3430m Resumo: como havia ultrapassado os 3000m de altitude, segui a recomendação de fazer caminhadas de aclimatação a partir de Namche Bazar. Nesse dia subi até o Hotel Everest View para fotos do Everest e outras montanhas em 360º, depois percorri as vilas de Khumjung e Khunde, e ainda subi ao mirante Gong Ri View Point (ou Hillary Memorial View Point). Voltei para dormir novamente em Namche. Saí do lodge às 7h03 e subi pela escadaria central da vila, passando à direita do Khumbu Resort. Mais acima a escada de pedra termina, o caminho quebra para a direita e se transforma numa ladeira com degraus espaçados. Na bifurcação sem placa fui à esquerda subindo. Mais acima fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Tyangbuche à esquerda e hotéis (e um museu) à direita. Cerca de 90m acima fui à esquerda na placa apontando Khumjung Khunde à esquerda e Tengboche Gokyo à direita (meu destino no dia seguinte). A subida continua por trilha estreita e em zigue-zague. Segui pela trilha principal até um hotel no alto, o Everest Sherpa Resort. Contornei-o pela direita e subi a um morrote às 7h59. Ali está a primeira visão do Everest para quem inicia a caminhada em Lukla (para mim a primeira visão do Everest foi em Phurtyang, no 4º dia de caminhada). Desse mirante se avistam muitas outras montanhas. Na sequência da esquerda para a direita a nordeste estão: Cholatse, Taboche, Nuptse (20º mais alto do mundo), Everest, Lhotse (4º mais alto do mundo), Lhotse Shar e o magnífico Ama Dablam. A leste estão o Kangtega e o Thamserku, a sudeste o Kusumkangaru (Kusum Kanguru) e ao norte o Khumbila. Dali poderia seguir pela trilha mais batida mas o Christopher (o austríaco) me sugeriu subir um pouco mais e caminhar por uma crista que dava visão para o outro lado, para a vila de Khumjung aos pés do Pico Khumbila. E foi o que fiz, saindo às 8h27. A trilha é estreita e pouco usada, mas se funde à principal ao descer da crista. Com mais 300m já estava no Hotel Everest View, às 9h05. Não se deve entrar no hotel pela escadaria (como eu fiz) para tentar acessar a frente dele e ter a melhor visão das montanhas, mas sim subir à sua direita até algumas antenas, onde a panorâmica de 360º é bastante parecida com a do mirante anterior. Porém a vista na direção do Everest é mais desimpedida e pode-se enxergar a vila de Phortse, por onde eu passaria no 17º dia, e a vila de Tengboche na crista de uma serrinha a 4,5km dali, com o caminho subindo até ela (passaria por ela no dia seguinte). Desse mirante das antenas, a 3886m de altitude, se avista também a Ponte Larja, a ponte dupla por onde havia passado no dia anterior. Parei para contemplar a paisagem mas quando começou a encher muito e ficar muito ruidoso o lugar, saí em direção a Khumjung, às 10h33. Os pousos e decolagens de helicópteros de voos panorâmicos ali são constantes (ou serão hóspedes vip chegando e saindo do hotel?). Caminhei de volta ao hotel, desci a escadaria por onde cheguei e entrei na trilha sinalizada com "way to Khumjung" à direita. A trilha atravessa uma pequena mata e na descida para Khumjung desviei à direita até uma stupa para mais fotos. Essa stupa tem uma placa de dedicatória a sir Edmund Hillary, primeiro homem (junto com Tenzing Norgay) a atingir o cume do Everest, em 1953, e que dedicou sua vida a ajudar o povo sherpa através da organização Himalayan Trust, que ele fundou em 1960. Retomei a trilha principal mais abaixo e desci à vila de Khumjung. Atravessei-a toda e ao chegar a uma praça central com mais stupas entrei à direita seguindo a placa "Khumjung Gomba". Segui pelos caminhos cercados por muros de pedras e alcancei a gomba (monastério) Samten Choling às 11h46. Tirei fotos externas apenas pois havia uma taxa para entrar e eu já havia entrado em vários monastérios budistas. Havia duas rodas mani enormes ao lado. Sentei por ali para comer alguma coisa que trazia de lanche e às 12h02 me encaminhei à vila de Khunde. Voltei apenas 70m pelo mesmo caminho e na primeira bifurcação entrei à direita seguindo a placa. Esse é um caminho secundário de ligação entre as duas vilas, o caminho principal sai da praça central das stupas. Alcancei a vila de Khunde às 12h23 e passei perto do Hospital Hillary, o único hospital do Khumbu (não espere um grande hospital, por fora parece mais um posto de saúde). Avistei o monastério de Khunde no alto, entre as árvores de uma colina, e fui na sua direção. Ao chegar ao pé da colina havia uma placa: Khunde Gomba (monastério) à direita e Gong Ri View Point à esquerda. Fui primeiro ao monastério e é linda a vista das duas vilas com seus telhados verdes e extensos muros de pedras contra as montanhas nevadas ao fundo. Desci de volta à placa e às 12h47 segui à direita para conhecer o Gong Ri View Point (ou Hillary Memorial View Point). Subi dos 3886m dessa placa até os 4050m do mirante em 24 minutos. Ao atingir a crista fui para a esquerda na bifurcação e cheguei a um mirante murado com vista para Namche Bazar bem abaixo, as vilas de Khunde e Khumjung a nordeste e o vale do Rio Bhote Koshi a oeste. As nuvens da tarde já estavam atrapalhando um pouco a visão das montanhas mais distantes, mas ainda estavam visíveis o Khumbila ao norte, o Ama Dablam a nordeste, o Kangtega e o Thamserku a leste, o Kusumkangaru (Kusum Kanguru) a sudeste. O Everest seria visível desse mirante também, não fossem as nuvens. Depois voltei à bifurcação e fui para o lado oposto, onde estão as três stupas brancas de pedra em homenagem a Sir Edmund Hillary, sua primeira esposa Louise e a filha do casal Belinda, ambas falecidas num acidente aéreo em Kathmandu em 1975. Ele faleceu em 2008 em Auckland, Nova Zelândia, sua cidade natal. O local para prestar essa homenagem a Edmund Hillary e família não poderia ser mais espetacular. Iniciei a descida de volta pelo mesmo caminho às 14h06 e em 17 minutos estava na placa próxima ao monastério. Dali voltei mais 130m pelo caminho da chegada e fui à direita na primeira bifurcação, depois caminhei na direção do portal da vila, ao sul. Na saída passei por uma grande stupa em reforma, atravessei o portal budista às 14h41, subi uma escadaria de pedras e iniciei a descida de volta a Namche Bazar. Às 15h06 entroncou à esquerda o caminho largo que vem da praça central de Khumjung. Passei pelo vilarejo de Syangboche (com uma pista de pouso de terra) e às 15h13 fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Thame e Thamo à direita. Às 15h28 tive uma bonita visão de Namche Bazar do alto, em forma de anfiteatro. Desci mais, passei pelo monastério (gompa) de Namche e às 15h49 estava de volta à vila. Tratei logo de encontrar outro lodge para ficar já que fui "expulso" do Shangri La esta manhã. Procurei algum outro em que o quarto saísse de graça também, mas não encontrei. Resolvi ficar no Valley View Lodge por Rs100 (US$0,87) o quarto. O banheiro ficava dentro do lodge e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Para escovar os dentes havia um lavatório no corredor. Saí para conhecer mais de Namche e comprar algumas coisas. Comprei por Rs1000 (US$8,68) um par de microspikes (pequenos crampons) para ter mais segurança na passagem pela geleira do Passo Cho La, no caminho entre o EBC (Campo Base do Everest) e Gokyo. Numa padaria tomei um chá de gengibre (Rs 150 = US$1,30) enquanto esperava recarregar o celular (de graça para quem consome alguma coisa). De volta ao lodge tomei um delicioso banho quente na ducha aquecida a gás por Rs300 (US$2,60). No refeitório fiz amizade com um francês e uma americana que falava um pouco de português por ter amigos no Brasil. Ambos muito simpáticos. Ao contrário do Lodge Shangri La, este tem mais trilheiros independentes e é mais fácil fazer amizade. A comida e o banho são mais baratos também. Continuo na minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte. Altitude em Namche Bazar: 3430m Preço do dal bhat: Rs 490 Preço do veg chowmein: Rs 450 Monastério de Tengboche 9º DIA - 01/11/18 - de Namche Bazar a Pangboche Duração: 5h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3943m Menor altitude: 3313m Resumo: nesse dia percorri a vertente da margem oeste do Rio Dudh Koshi, cruzei esse rio para subir a Tengboche e em seguida passei a caminhar pelo vale do Rio Imja até a vila de Pangboche. Saí do lodge às 7h25 pelo mesmo caminho do dia anterior subindo a escadaria central e indo à esquerda na placa Tyangbuche, porém logo acima fui à direita na placa Tengboche Gokyo. Logo encontrei com grupos e mais grupos indo na mesma direção. O caminho pela encosta da margem oeste do Rio Dudh Koshi é bem largo para comportar tanta gente. O Rio Dudh Koshi é um dos principais rios da região. Venho acompanhando seu curso desde o 5º dia de caminhada, vou segui-lo nesse dia até o povoado de Phunki Thenga e depois no trajeto de Phortse a Gokyo, onde estão suas nascentes. Já era possível avistar a vila de Tengboche 4km à frente (em linha reta). Às 8h53 passei pelos lodges de Kyangjuma. Às 9h duas trilhas saem para a esquerda, mas em direções opostas. A da frente (nordeste) vai para Gokyo, subindo. A de trás (sudoeste) vai para Khumjung, também subindo. Eu fui em frente à direita, seguindo a placa de Tengboche. Às 9h04 passei pela vila de Sanasa e às 9h25 pelo povoado de Tashinga (Lawishasa, Laushasa). Às 9h50, ao cruzar a ponte suspensa após a vila de Phunki Thenga (Fungithang, Phungitanga), encontrei quem voltando? o Christopher, o austríaco ligeirinho. Porém não estava bem, seu joelho inchou e ele não podia seguir mais. Contratou um carregador para a sua mochila e ia voltar para casa. Uma pena... um amigo a menos para encontrar e reencontrar no caminho para o Everest. Atravessei a ponte (sobre o Rio Dudh Koshi) e tive uma surpresa não muito agradável: uma guarita ao lado da trilha onde se devia pagar a hospedagem nas próximas vilas (Tyangboche, Debuche e Pangboche) e no valor padrão de Rs500 (US$4,34). Ou seja, foi por água abaixo a negociação do quarto de graça se as refeições fossem feitas no próprio lodge, como tinha sido de Shivalaya até aqui (e foi no Langtang também). Após a ponte há mais lodges e restaurantes da vila de Phunki Thenga (Fungithang, Phungitanga). A altitude é a mais baixa do dia: 3313m. Parei ali na chautara (descanso dos carregadores) às 10h03 para comer alguma coisa que trazia na mochila. Ao sair sou logo parado no checkpoint na saída da vila para mostrar as permissões pagas em Monjo (permissão local e entrada do Parque Nacional Sagarmatha). Ali começa uma longa subida em direção a Tengboche, em parte à sombra da mata de rododendros e pinheiros. Às 10h23 desprezei uma trilha subindo à esquerda e continuei em frente, mas parece que as duas trilhas se encontram mais acima. Nos trechos fora da mata era possível ter uma bonita visão dos picos Kangtega e Thamserku a sudeste. Alcancei Tengboche às 11h35 depois de um desnível de 533m desde a ponte do Rio Dudh Koshi. Ali visitei o maior monastério do Khumbu, caprichosamente decorado desde seu belo portal. Da grande praça central de Tengboche se avistam Ama Dablam, Khumbila, Taboche, entre muitos outros picos nevados. Também seria possível ver o Everest se as nuvens já não o tivessem encoberto. Parei para almoçar um veg fried rice e às 12h51 prossegui descendo pela mata de pinheiros e rododendros. Passei pela vila de Debuche às 13h05 (não visitei o convento) e Milinggo às 13h25. Às 13h37 cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Imja e continuei acompanhando esse rio subindo pela margem direita verdadeira. O Rio Imja será meu companheiro pelos próximos dias. Após um portal budista (kani), fui à direita na bifurcação descendo (a esquerda leva à parte alta de Pangboche, onde está o monastério). Alcancei Pangboche às 14h18 e me instalei no Himalayan Lodge. Entreguei uma via do recibo de pagamento do quarto. O banheiro ficava dentro da casa, tinha vaso sanitário mas a descarga era com balde. Havia uma pia no corredor para escovar os dentes e se lavar. Tentei sinal da NCell e consegui apenas um sinal fraco perto da Hermann Bakery. Mais tarde no refeitório conheci um casal muito simpático que seria minha companhia por muitos dias ainda: Lando e Rosanne, holandeses. Na chegada a Pangboche à tarde havia conhecido três amigos russos muito legais também (e com um deles eu cruzaria várias vezes ainda). Altitude em Pangboche: 3943m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 450 Campo Base do Ama Dablam 10º DIA - 02/11/18 - de Pangboche a Dingboche Duração (descontadas as paradas): 2h (subida ao Campo Base do Ama Dablam), 1h20 (descida do Campo Base do Ama Dablam), 2h (de Pangboche a Dingboche) Maior altitude: 4596m no Campo Base do Ama Dablam Menor altitude: 3910m na ponte do Rio Imja Resumo: de manhã fiz uma espetacular caminhada de aclimatação até o Campo Base do Ama Dablam com um desnível de 680m de altitude e à tarde segui pelo vale do Rio Imja até Dingboche A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,2ºC. Saí do lodge às 6h52 na direção nordeste, cruzei uma ponte metálica, subi as escadarias e na trifurcação seguinte desci em frente junto ao muro de pedra de um lodge. Cruzei a ponte de ferro sobre o Rio Imja às 7h16 e comecei a longa subida em direção ao Campo Base do Ama Dablam. O caminho é bem marcado e fácil de navegar, sempre subindo em direção às duas incríveis montanhas que formam o Ama Dablam. Parei muitas vezes para fotos e para curtir o incrível visual das montanhas ao redor (antes que as nuvens chegassem): Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche a noroeste; Khangri Shar e Pumori ao norte; Nuptse, Everest, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste. A nordeste também se viam a vila de Dingboche e a subida para o mirante Nangkartshang. Cheguei ao campo base às 9h33. Altitude de 4596m. No caminho o casal holandês (Lando e Rosanne) havia me alcançado e ficamos um bom tempo ali curtindo o lugar. Foi a primeira vez que pisei num campo base com as barracas das expedições ali montadas, é muito bonito de se ver. Escaladores esperando o melhor tempo para subir e outros já se preparando para ir embora. Uns brincando de boulder, outros simplesmente tomando sol. Entre tantos escaladores encontrei dois brasileiros, ele de Campinas e ela de São Paulo. Conversando com eles e com outros por ali me contaram que apesar do dia lindo e sem nuvens os ventos no alto da montanha estavam muito fortes para tentar uma escalada. Dali se destacam na paisagem, além do próprio Ama Dablam a leste, o Kangtega ao sul, o Khumbila a oeste e o Taboche a noroeste. Às 11h22 iniciei o retorno pelo mesmo caminho porém ao cruzar a ponte sobre o Rio Imja tomei a trilha à esquerda que subiu e terminou na escadaria de pedra próxima à ponte metálica. Na ida não percebi que havia uma trilha ali saindo à direita no meio da escadaria. Às 12h43 estava de volta ao lodge para almoçar e pegar minha mochila. As nuvens chegaram por volta de 13h e até o fim do dia a neblina tomaria conta de tudo. Nessa altitude é bastante comum isso, sol e céu limpo de manhã, muitas nuvens e até neblina à tarde. Por isso é bom sair para caminhar e fotografar as montanhas bem cedo. Às 13h19 saí do lodge em direção a Dingboche. O caminho é o mesmo pela ponte metálica e a escadaria na direção nordeste porém na trifurcação toma-se a esquerda para percorrer a trilha na encosta da margem oeste do Rio Imja. Subindo passei pela vila de Somare às 14h e ali já fui parado numa guarita para pagar a hospedagem da próxima vila. De novo foram Rs500 (US$4,34) e a impossibilidade de negociar o valor do quarto diretamente com o dono/dona do lodge. Acredito que em breve toda a região do Khumbu (de Namche Bazar para o norte) deverá estar usando esse sistema de pagamento. A partir desse povoado, a 4056m de altitude, as árvores desaparecem e fica só a vegetação rasteira. Com a ausência de lenha os moradores passam a recolher, secar e estocar esterco de iaque para usar nos aquecedores. Às 14h34 cheguei a uma bifurcação bastante importante porém sem nenhuma placa. É pra isso que a gente paga Rs 3000 (US$ 26,04) de ingresso... para caminhar num parque sem sinalização. À direita é o caminho que leva a Dingboche e Chukhung, mais utilizado pelos trilheiros que vão fazer o trekking dos 3 Passos; à esquerda o início da subida para Pheriche e Lobuche para quem vai diretamente ao EBC. Meu caminho seria para a direita. Ali eu estava a 4172m de altitude e havia já um trilheiro vomitando muito e outro andando feito um zumbi apesar da mochila pequena. Consequências da falta de aclimatação! Desci até a ponte de ferro sobre o Rio Khumbu (ou Rio Lobuche), afluente do Rio Imja, e a cruzei às 14h45. Dali encarei a subida final pela encosta da margem oeste do Rio Imja até Dingboche, aonde cheguei às 15h17 com neblina. Como já havia pago a hospedagem podia escolher o lodge que quisesse, somente prestando atenção aos preços do menu. Escolhi o Moon Light Lodge e o atendimento era razoável (podia ser bem melhor). Um aviso no quarto alertava para fazer as refeições ali mesmo, caso contrário o quarto custaria Rs1000 (US$8,68). O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental, uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor e sobre ela um tambor com torneira (e uma água bastante suspeita). Altitude em Dingboche: 4294m Preço do dal bhat: Rs 550 Preço do veg chowmein: Rs 500 Pico Taboche (dir) visto da montanha Nangkartshang 11º DIA - 03/11/18 - de Dingboche a Chukhung Duração (descontadas as paradas): 2h (subida ao Nangkartshang), 1h25 (descida do Nangkartshang), 2h (de Dingboche a Chukhung) Maior altitude: 5076m no Nangkartshang Menor altitude: 4294m Resumo: de manhã fiz uma bonita caminhada de aclimatação subindo a montanha Nangkartshang com um desnível de 780m de altitude e à tarde subi à vila de Chukhung pelo vale do Rio Imja A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,2ºC. Às 5h50 da manhã estava 5,3ºC. De manhã com o céu limpo é que pude ver as montanhas ao redor de Dingboche: Lhotse, Lhotse Shar e Island Peak (Imja Tse) a nordeste, Ama Dablam a sudeste, Kangtega e Thamserku ao sul, Taboche e Cholatse a oeste. Depois de tomar o café servido com o maior mau humor por causa do horário (6h) saí do lodge às 6h42. Voltei 120m na direção da entrada da vila e peguei a trilha à direita que leva a uma stupa, logo iniciando a subida à montanha Nangkartshang. Inicialmente aparecem várias trilhas pois é possível começar essa subida pela outra extremidade da vila (ao norte), mas é só subir e subir que não há erro. Alcancei o cume, de 5076m, às 9h09 e só havia mais uma pessoa, um australiano. Logo começaram a chegar mais montanhistas e bem depois apareceram Lando e Rosanne, que haviam dormido esta noite em Pangboche. Do cume se avistam: Taboche e Cholatse e o Lago Chola Tsho (Cholatse Tsho) a oeste; Cho Oyu (6º mais alto do mundo) a noroeste; Island Peak e Makalu (5º mais alto) a leste; Ama Dablam a sudeste; Kyashar, Kangtega e Thamserku ao sul; Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste. Logo abaixo a sudoeste estão as vilas de Pheriche e Dingboche. Iniciei a descida às 11h09 e às 12h38 já estava de volta ao lodge para almoçar e pegar a mochila. Parti às 13h19 em direção a Chukhung ainda pela margem direita verdadeira do Rio Imja. Passei por 4 pontos de água limpa, mas que ainda assim deve ser tratada (mais detalhes no "Pequeno guia"). Parei nesse trecho por 19 minutos para um lanche. Por volta de 15h o Rio Imja se afasta para leste e eu passo a acompanhar um afluente seu que tem origem no Glaciar Lhotse. Após cruzar duas pontes, uma de troncos e outra de madeira com gelo nas laterais do rio, cheguei às 15h39 a Chukhung. Na entrada da vila passei por uma barraca de camping montada onde seria feito o pagamento do quarto, como nas duas vilas anteriores, mas estava com o zíper fechado e não havia ninguém. Percorri todos os 5 ou 6 lodges da vila e resolvi ficar num grande desta vez para ver como é. Escolhi o Chukhung Resort, o maior de todos. Os banheiros ficavam dentro do lodge, todos no estilo oriental. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada, mas eu preferia escovar os dentes com a água que eu pedia na cozinha. A cobrança das Rs500 (US$4,34) do quarto foi feita na hora da janta por uma pessoa da comunidade, não do lodge. Altitude em Chukhung: 4720m Preço do dal bhat: Rs 595 Preço do veg chowmein: Rs 595 Campo Base do Island Peak 12º DIA - 04/11/18 - de Chukhung ao Campo Base do Island Peak (aclimatação) Duração: 2h40 na ida e 2h25 na volta (descontadas as paradas) Maior altitude: 5105m Menor altitude: 4720m Resumo: nesse dia fiz uma caminhada de aclimatação subindo ao Campo Base do Island Peak (Imja Tse) com um desnível de 385m de altitude. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,1ºC. Às 6h25 da manhã estava -0,4ºC. As montanhas que se vê da vila de Chukhung: Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche a oeste; Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste; Ama Dablam ao sul. Saí do lodge às 6h57 tomando uma trilha na direção sudeste que em 4 minutos me levou a cruzar um riacho por uma ponte de madeira. Subi e passei a caminhar pela crista da moraina lateral sul do Glaciar Lhotse, mas não uma geleira branquinha de gelo puro e sim um vale cinzento coberto de pedras. Mais à frente, já na direção leste, desço pela vertente da moraina e reencontro o vale do Rio Imja, que acompanho de perto até uma bifurcação com placa, às 9h13. À direita o Passo Amphu Laptsa e à esquerda o Island Peak, para onde segui. O Lhotse, 4ª montanha mais alta do mundo, me acompanha o tempo todo, à minha esquerda. Numa curva para a direita já avisto as barracas do campo base, 1,6km distante ainda. Agora à minha esquerda deixo de ter o Glaciar Lhotse e passo a ter a encosta do Island Peak (Imja Tse). Alcancei o primeiro acampamento às 10h30. Demorei assim porque parei muitas vezes para fotos. O segundo acampamento estava 340m à frente, com altitude de 5105m. Ainda caminhei mais 300m para fotos do incrível Lago Imja Tsho, formado pela fusão de vários glaciares e que dá origem ao Rio Imja. A água não é tão bonita por ser leitosa e não cristalina, mas o lugar todo é impressionante pela grandiosidade. A montanha que se ergue ao norte é o próprio Island Peak (Imja Tse), os campos base estão exatamente aos seus pés. Parei para comer alguma coisa e ver o movimento de escaladores e carregadores chegando e saindo. Iniciei o retorno às 13h18 pelo mesmo caminho. Como sempre as nuvens vieram à tarde e nesse dia se formou de novo uma forte neblina. Cheguei ao lodge às 16h07. Cume do Chukhung Ri com o Cho Oyu (6º mais alto do mundo) à esquerda e Nuptse à direita 13º DIA - 05/11/18 - de Chukhung ao Pico Chukhung Ri (aclimatação) Duração: 2h20 para subir e 1h25 para descer (descontadas as paradas) Maior altitude: 5558m Menor altitude: 4720m Resumo: nesse dia fiz uma caminhada de aclimatação subindo a montanha Chukhung Ri com um desnível de 840m de altitude. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -3,4ºC. Às 7h10 da manhã estava -1,9ºC. Havia gelo no vidro da janela, coloquei o termômetro lá fora e estava -6,4ºC às 7h25, pouco antes de eu sair para a caminhada do dia. Não dormi quase nada essa noite... insônia é um dos sintomas do Mal da Montanha (AMS, em inglês). Saí do lodge às 7h44, atravessei toda a vila e continuei pela trilha na direção nordeste. Cruzei uma ponte de madeira e comecei a subir a vertente leste da montanha Chukhung Ri. O caminho é bem batido. Ao atingir um primeiro platô é magnífica a vista para o conjunto Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste. Às 9h48 atingi um falso cume com dezenas de totens a 5375m de altitude. Continuei subindo, agora pela crista, e aos 5433m a trilha virou um trepa-pedras um pouco chato. Cruzei com o russo que conheci em Pangboche e ele me recomendou caminhar pela crista dessa montanha de pedras e não cair para a direita pois o caminho iria piorar mais à frente. Assim cheguei às 10h42 ao cume de 5558m de altitude do Chukhung Ri e a panorâmica era de cair o queixo: Nuptse ao norte; Lhotse e Lhotse Shar a nordeste; Island Peak e Makalu a leste; Ama Dablam ao sul; Thamserku a sul-sudoeste; Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche, Cholatse e o Passo Kongma La a oeste; Kongma Tse (Mehra Peak), Cho Oyu, Chumbu, Khangri Shar e Pumori a noroeste. Havia só mais um trilheiro solitário quando cheguei mas logo apareceram outros. Novamente chegaram mais tarde Lando e Rosanne, acompanhados de um americano. Todos desceram e eu fiquei um pouco mais ainda. Estava difícil aguentar o vento gelado lá em cima mesmo com roupas impermeáveis (que servem como ótimo corta-vento), luvas, gorro, capuz e pescoceira de fleece cobrindo o nariz e a boca. Todo esse ar gelado teve consequências: à noite comecei a sentir a garganta estranha, depois veio a famosa Tosse do Khumbu (que durou até o final de dezembro!) e para piorar tive uma infecção na garganta que teve de ser tratada com antibiótico em Kathmandu. Iniciei a descida às 13h12 e parei por 20 minutos no falso cume para mais fotos. Às 15h04 estava de volta à vila de Chukhung. Mais tarde fui ao lodge Yak Land conversar com o casal holandês e combinamos de cruzar juntos o Passo Kongma La no dia seguinte. Lago visto do Passo Kongma La com o pico Makalu (5º mais alto do mundo) à esquerda 14º DIA - 06/11/18 - de Chukhung a Lobuche pelo Passo Kongma La Duração: 6h50 (descontadas as paradas) Maior altitude: 5530m Menor altitude: 4720m Resumo: nesse dia encarei o primeiro dos 3 Passos, o Kongma La, com 5530m de altitude, para descer em seguida à vila de Lobuche cruzando o Glaciar Khumbu, uma geleira coberta de pedras um pouco complicada. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,3ºC. Às 7h da manhã estava 0ºC dentro do quarto e -4ºC fora, pouco antes de sair do lodge. De novo não dormi quase nada essa noite... apesar das muitas caminhadas de aclimatação meu organismo ainda não se adaptou completamente à altitude. Logo cedo fui ao lodge Yak Land para encontrar Lando, Rosanne e o americano para irmos juntos para o Passo Kongma La. Saímos às 7h24 na direção norte e logo cruzamos uma ponte de madeira, tomando aos poucos a direção oeste. Havia sinalização. Deu logo para perceber que nossos ritmos eram bem diferentes, eu caminho mais devagar e paro muitas vezes para fotos e registros no gps. Eles andavam mais rápido e tinham que parar para me esperar. Tentei acompanhar o ritmo deles durante a subida e consegui por bastante tempo, mas isso me desgastou muito (principalmente por estar já há duas noites sem dormir) e às 10h50, aos 5429m, tive de parar para descansar por meia hora. Não adianta, cada um tem seu ritmo e não dá para acompanhar o ritmo do outro, seja para mais ou para menos. Retomei a caminhada e em apenas 60m me deparei com um maravilhoso lago de águas verdes... se soubesse teria parado um pouquinho mais acima. Contornei-o pela direita e veio a subida final até o Passo Kongma La, de 5530m, aonde cheguei às 12h04. Os três ainda estavam me esperando lá, mas desceram logo. O passo é uma crista bem extensa e repleta de pedras soltas, onde não faltam totens, bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais, como nas outras montanhas que subi. Dali se avistam Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste, Island Peak e Makalu a leste, Ama Dablam ao sul-sudeste, Taboche e Cholatse a oeste, Cho Oyu e Chumbu a noroeste. Comi alguma coisa (importante levar lanche e água por causa da distância entre as vilas), tirei ainda muitas fotos e iniciei a descida às 12h55 primeiro por um caminho de pedras soltas, mais abaixo é que volta a ser trilha. Passei por uma cachoeira congelada à direita e logo o gelo estava tomando conta da trilha também, mas havia lugares seguros para pisar fora dele. Já desde o passo podia avistar a vila de Lobuche e o Glaciar Khumbu, um mar de pedras que teria que cruzar para chegar lá, e isso parece que me causava mais cansaço ainda. Parei para descansar e comer alguma coisa. Terminei a descida do passo e subi em seguida a moraina lateral da geleira. Ao chegar ao topo da moraina às 15h22 e ver de perto o que teria de enfrentar sentei para descansar um pouco mais. Dali em diante segui pegadas, parei para estudar o caminho em alguns pontos e segui na direção de outros trilheiros que já estavam mais à frente para vencer o enorme glaciar. Foi um sobe-e-desce terrível por pedras soltas e sem um caminho marcado, com pegadas para vários lados. Lembrando que esse tipo de formação tem a aparência de um "mar" de pedras soltas mas embaixo de tudo aquilo é puro gelo, então é preciso ter cuidado onde pisa e para que lado ir. Pelo movimento e derretimento do gelo não é possível existir um caminho fixo e bem definido. O local é impressionante mas ao mesmo tempo aterrador. Às 15h58 tive de cruzar o rio principal que corre no meio da geleira e fiz isso exatamente onde duas pessoas já estavam fazendo. O lago formado abaixo do rio estava com a superfície congelada e era uma camada tão grossa que resistia a pedradas. Depois de mais sobe-e-desce consegui chegar a Lobuche às 16h44 mais morto que vivo. Felizmente meus três amigos estavam me esperando e não precisei procurar hospedagem, eles já haviam feito isso e estavam instalados no Sherpa Lodge. Dividi o quarto com o americano. Não havia cobertor no quarto, tive de pedir mas não foi cobrado. O valor do quarto, que aqui é de Rs700 (US$6,08), o mais caro de todo o trekking, novamente foi cobrado mais tarde por uma pessoa da comunidade e não do lodge. Os banheiros ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada. Altitude em Lobuche: 4916m Preço do dal bhat: Rs 850 Preço do veg chowmein: Rs 700 Everest e Nuptse vistos do Kala Pattar 15º DIA - 07/11/18 - de Lobuche a Gorak Shep e Kala Pattar Duração (descontadas as paradas): 2h (de Lobuche a Gorak Shep), 1h10 (subida ao Kala Pattar), 1h05 (descida do Kala Pattar) Maior altitude: 5643m Menor altitude: 4916m Resumo: esse foi o grande e esperado dia de ver o Everest o mais próximo possível e em seu melhor ângulo, que é a partir da montanha Kala Pattar. De Lobuche a Gorak Shep o desnível foi de 245m e de Gorak Shep ao Kala Pattar de 480m. Dormi em Gorak Shep para ir ao Campo Base do Everest no dia seguinte. Às 7h da manhã a temperatura dentro do quarto era 3ºC. Não dormi quase nada pela terceira noite seguida, mas como não tinha nenhum outro sintoma de Mal da Montanha segui meu roteiro. Saí do lodge às 7h31 na direção nordeste e segui por trilha paralela ao Glaciar Khumbu. A visão dos picos Pumori, Lingtren, Khumbutse e Nuptse à frente é muito inspiradora e nos prepara para o grande momento que está chegando. Às 8h48 tive que cruzar o Glaciar Changri repleto de pedras também mas sem as dificuldades da geleira do dia anterior pois nessa pelo menos há um caminho bem marcado. Depois de algum sobe e desce por essa geleira alcancei Gorak Shep às 9h42 e de cara encontrei a guarita de cobrança do valor do quarto de Rs500 (US$4,34). Pago o quarto, fui percorrer os lodges da vila para escolher em qual ficar. Optei pelo Buddha Lodge. Fiz uma mochila de ataque rapidamente com roupa de frio e de chuva (nunca se sabe...) e saí para subir o Kala Pattar e ver o Everest de seu melhor mirante. Na saída encontrei Lando, Rosanne e o americano chegando. Eles continuavam hospedados em Lobuche e vieram somente para subir o Kala Pattar, não iam ao Campo Base. Precisavam abastecer as garrafas de água mas os lodges da vila não fornecem água da torneira por causa da escassez, é preciso coletar a água na base do Kala Pattar, que é o que eles fazem para abastecer o lodge. E foi o que nós fizemos, porém a água fica em poças, então tratá-la é primordial. Iniciei a subida na direção norte às 10h54 e não fiz nenhuma parada até o topo pois queria tirar fotos do Everest e seus vizinhos sem nenhuma nuvem, céu completamente azul. Alcancei o cume do Kala Pattar às 12h02 e tratei de tirar todas as fotos possíveis antes de as nuvens chegarem. A altitude é de 5643m, que passou a ser o meu recorde de altitude já atingida. O mirante Kala Pattar está numa crista que culmina no Pico Pumori. Dali se avista, entre outras montanhas: Ama Dablam, Kongma Tse (Mehra Peak), Kyashar, Kangtega e Thamserku ao sul; Taboche e Cholatse a sudoeste; Chumbu a noroeste; Khangri Shar e Pumori ao norte; Lingtren, Khumbutse, Changtse a nordeste; Everest e Nuptse a leste. Meus três amigos desceram primeiro pois não estavam aguentando o vento gelado mesmo se abrigando atrás das pedras. Eu ainda fiquei um tempo para ter uma boa conversa com as montanhas. Esse era o momento mais esperado da viagem de dois meses no Nepal e um dos momentos mais esperados de toda a minha vida. A emoção foi bastante grande. Iniciei a descida às 14h06 e via no rosto das pessoas que subiam o mesmo esforço e a mesma expectativa que eu tive minutos antes. Todos querem coroar sua longa jornada ao Himalaia com esse instante sublime de estar diante da maior montanha de todas. Às 15h14 estava de volta a Gorak Shep. No Buddha Lodge os banheiros ficavam dentro da casa e havia um no estilo oriental e outro com vaso sanitário, mas a descarga sempre com balde (com a água congelada de manhã). Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada. Nesse lodge havia quartos de solteiro, com apenas uma cama, porém claustrofóbicos de tão pequenos. Havia um só cobertor para cada hóspede e o extra custava Rs300 (US$2,60). Tive de usar o meu saco de dormir (Marmot Helium, temperatura limite -9ºC). Às 20h15 a temperatura dentro do quarto era 1,6ºC e fora era -8,6ºC. Altitude em Gorak Shep: 5160m Preço do dal bhat: Rs 850 Preço do veg chowmein: Rs 700 Picos Changtse, Nuptse e no meio só a pontinha do Everest 16º DIA - 08/11/18 - de Gorak Shep ao Campo Base do Everest e descida a Pheriche Duração (descontadas as paradas): 1h10 (ida ao EBC), 1h15 (volta do EBC), 4h15 (de Gorak Shep a Pheriche) Maior altitude: 5264m a caminho do EBC Menor altitude: 4265m Resumo: de manhã subi até o Campo Base do Everest e à tarde desci o máximo que pude (até Pheriche) para poder dormir novamente e descansar, abortando com muita dor no coração o Passo Cho La. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -8,6ºC, a mais baixa que registrei. Às 6h da manhã estava 0ºC. Não dormi quase nada pela quarta noite seguida e decidi baixar de altitude para poder dormir e me recuperar. Com isso estava tomando a difícil decisão de abortar o Passo Cho La, o segundo dos 3 Passos, pois seguir para ele significava ficar mais algumas noites sem dormir. Mas não poderia deixar de conhecer Gokyo e seus incríveis lagos sagrados, por isso iria fazer um contorno enorme pelo sul, descendo muito para depois subir tudo de novo até Gokyo. Pelo menos nas duas noites em altitude mais baixa durante esse contorno eu poderia dormir e descansar para enfrentar possíveis novas noites de insônia. Se eu tivesse Diamox teria tomado para ver se me ajudaria na aclimatação e eu voltaria a dormir. Eu tinha Dramin mas não é nada recomendável tomar remédio que induz ao sono nessa situação de insônia por altitude. Saí do lodge às 7h48 na direção nordeste e a caminhada foi com pouco desnível até o Campo Base do Everest, de 5257m de altitude, aonde cheguei às 9h. Esse lugar eu só visitei por seu valor simbólico mas é um "ponto turístico" meio fake. O verdadeiro campo base se estende por uma área bem maior e não é fixo, muda de lugar a cada ano em consequência da movimentação da geleira que vem da Cascata do Khumbu. Outra: dali praticamente não se vê o Everest, apenas uma pontinha dele, o que frustra muita gente. Não havia nenhuma barraca pois a temporada de escalada da maior montanha do mundo ocorre em abril/maio. Iniciei o retorno às 9h47 pelo mesmo caminho e às 11h estava de volta ao lodge. Às 11h41 comecei a descer na direção de Lobuche e além. Cruzei todo o Glaciar Changri, parei no final dele por 22 minutos para comer e tentar sinal da NCell - consegui mandar algumas mensagens. Passei por Lobuche às 13h56 e às 14h16, logo antes de uma ponte, fui à esquerda na bifurcação em que à direita se vai ao Passo Cho La. Subi e passei por um conjunto de stupas que são memoriais aos que morreram nas montanhas da região. Dali seguiu-se uma longa descida pela moraina terminal que limita ao sul o Glaciar Khumbu. Alcancei a minúscula vila de Thukla às 15h15 e tive de perguntar pelo caminho para Pheriche pois não era evidente. Desci uma rampa à esquerda e 35m adiante entrei numa trilha à direita, descendo. Ao chegar à margem do rio formado pelo Glaciar Khumbu tive de subir pelas pedras até uma ponte precária de madeira uns 140m rio acima. Cruzei-a às 15h27 e segui primeiro pela margem esquerda pedregosa, depois por uma trilha batida na encosta. Às 15h34 fui à direita numa bifurcação com placa em que a trilha da esquerda vai para Dingboche. Desci bastante em direção ao vale do Rio Khumbu (ou Rio Lobuche) e passei por três pontos de água. Às 16h35 alcancei a vila de Pheriche e arrisquei dar uma olhada no primeiro lodge, de nome Thamserku. Negociei o preço de Rs300 (US$2,60) com as refeições ali mesmo. Estava cansado (quatro noites sem dormir...) e com muito frio para ir a outros lodges procurar por melhor preço. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Nesta noite os hóspedes desse lodge eram apenas eu e um grupo de alemães com guias e carregadores, dois dos carregadores com 15 e 16 anos. Altitude em Pheriche: 4265m Preço do dal bhat: Rs 700 Preço do veg chowmein: Rs 450 Às 20h35 a temperatura dentro do quarto era 2,2ºC. A mínima durante a noite dentro do quarto foi -3,4ºC. Às 7h30 da manhã estava -1,4ºC. Informações adicionais: Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com. Rafael Santiago novembro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
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