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divanei

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3 Neutra

Sobre divanei

  • Data de Nascimento 12-02-1970
  1. Pelo Itupava cheguei a montanha azul.

    Almeidass, Muito obrigado, essa foi sempre a intenção , fazer com que as pessoas saiam por aí sozinhas , sem a necessidade de contratarem nenhum guias se não quiserem. Valeu meu amigo !
  2. O RELATO da Conquista está nesse link abaixo, com isso temos duas descrições que vai ajudar qualquer um com um mínimo de experiência em escalada a se dar bem no maior ícone do montanhismo nacional.
  3. O DEDO DE DEUS foi conquistado depois desse relato e aí vai o link para o vídeo :
  4. Abaixo o link para o vídeo completo :
  5. DEDO DE DEUS-RJ: A conquista que atravessou o tempo. 1997: Dois amigos de infância tentam alcançar a montanha mais lendária do Brasil, sem experiência nenhuma em escalada, tentando laçar pinos com uma corda de sisal, fracassam e fazem um juramento de um dia botar os pés no topo daquela montanha. Juntos, ganham parte do Brasil subindo outras montanhas, atravessando vales selvagens, desbravando lugares praticamente intocados e um deles também se aventura por outros caminhos do Continente Sul-americano. A vida vai passando, os filhos vão chegando e entre uma montanha e outra, sempre ficam remoendo o fato de ainda não terem cumprido a promessa que haviam feito. 2017: (junho) Por um golpe do destino, apenas um desses dois amigos consegue se agrupar com outros amigos em comum e numa tentativa de chegar ao cume da montanha, perdem a trilha, cometem alguns erros e são obrigados a enfiar o rabo entre as pernas e voltarem para casa sem chegar ao topo: mais um fracasso! Tendo já feito praticamente tudo em matéria de montanhismo clássico, subido todo tipo de montanha no Brasil e algumas fora dele, tendo me dedicado vários anos a exploração selvagem de vales e rios, tendo tido a honra e a oportunidade de, junto com alguns amigos, poder botar meus pés em montanhas onde outros jamais puseram, vi que havia chegado a hora de aprender os rudimentos da escalada. Quase que inconscientemente eu sabia que aquela promessa feito 20 anos atrás, jamais sairia do papel se uma atitude não fosse tomada. Mas há um porem: A escalada é um mundo fechado e diferentemente do montanhismo clássico, poucos são os praticantes que estão dispostos a perderem seu precioso tempo para ajudar novatos, muito porque esse é um esporte caro e por isso mesmo, o tipo de gente que o pratica costuma ser um pouco mais elitizada. Como, ainda bem, tudo na vida tem suas exceções, um convite de um casal de amigos para conhecer o esporte, fez com que eu tivesse esse primeiro contato com o mundo das paredes. Aprendi meia dúzia de procedimentos, mas foi o suficiente para eu voltar a sonhar com a promessa de 20 anos atrás. Num dia qualquer, sem nada para fazer em casa, tive uma “ideia brilhante”: Peguei minha velha corda de rapel, minha cadeirinha antiga e um freio da década de 90 e uns mosquetões de aço de construção civil e convidei meu grande amigo de infância e mais outros novos amigos de algumas roubadas memoráveis. e foi assim que 4 paspalhões se encaminharam para uma pedreira abandonada em Campinas, que virou palco de escalada com mais de 80 vias, no interior de São Paulo. A nossa chegada à Pedreira do Garcia acabou por se tornar um evento de bizarrices, os escaladores locais nos olhavam com cara de reprovação, alguns com cara de nojo, mas a gente estava feliz. Subíamos três ou quatro metros de paredes e nos divertíamos para valer com aquilo e pouco nos importávamos se tinha gente gostando ou não, a gente nunca esteve nem aí pra coisa alguma porque ao contrário do que os outros imaginavam, tínhamos plena consciência do que estávamos fazendo, porque não éramos garotinhos brincando pela primeira vez no balanço da mangueira e naquela mesma pedreira, mais de uma década atrás, a gente já tinha feito muito rapel e ficar pendurado numa corda não era nem de longe nenhuma novidade pra gente. Voltamos um outro dia na Pedreira, agora com uma corda de escalada conseguida pelo Alexandre e algumas costuras, estávamos evoluindo, no nosso conceito, porque no conceito de outros, continuávamos os mesmos merdas de sempre, rsrsrsrsrsr. Mas, como ainda é possível continuar acreditando em parte da humanidade, alguns escaladores se sensibilizaram com a gente e vieram oferecer ajuda, gente que hoje somos eternamente gratos, do qual acabamos nos tornando amigos também. Naquele dia, com uma corda de escalada, mesmo com o fiofó na mão, alguns de nós conseguiu guiar algumas vias fáceis, no caso, eu, o Vinícius e o Dema, porque o Alexandre mal conseguia se segurar a três metros, inclusive eu e o Dema comentamos que o Alexandre era um dos que não iria a lugar nenhum, não havia nascido para o esporte. Entre idas e vindas à pedreira, somente o “molenga” do Alexandre foi quem efetivamente começou a se dedicar verdadeiramente ao esporte, porque eu e o Dema aparecíamos esporadicamente, às vezes passávamos meses sem nem aparecer por lá. O Vinícius foi outro que procurou correr atrás, fazendo alguns cursos de técnicas verticais com a galera da espeleologia e começou a subir alguns degraus na escalada. Mas foi mesmo o safado do Alexandre que se entregou de cabeça, foi ele quem correu atrás de se especializar, fez cursos rápidos no Rio de Janeiro e adquiriu equipamentos mais modernos. Continuamos a nos encontrar para algumas vias de escalada, inclusive em algumas paredes de escalada clássicas, mas nada que exigisse muito da gente e sempre que estávamos juntos, lembrávamos que um dia havíamos combinado que escalaríamos o Dedo de Deus e que quando isso fosse acontecer, iríamos pegar firmes e treinar pelo menos uns três meses antes. Pois é, mas um dia o Alexandre me manda uma mensagem no meio da semana e me diz : -“ Se prepara Divanei, domingo vamos subir “sua montanha”. O Alexandre estava de brincadeira, não havia o menor cabimentos de nos metermos naquela enrascada de uma hora para outra sem uma preparação específica, mas ele não queria nem saber, era agora ou nunca e pior, o Dema não poderia ir nessa data, logo ele que havia jurado estar comigo no topo daquela montanha antes de morrer. Não era o que eu queria, mas era o que me restava e se eu não fosse, não aproveitasse aquela oportunidade, talvez jamais teria outra. Eu não estava pronto, mesmo assim aceitei o desafio. Chegamos em Teresópolis de madrugada e mesmo praticamente sem dormir, nos lançamos na trilha que nos levaria às paredes do Dedo de Deus, nos agarramos aos cabos e cordas e quando vimos, estávamos perdidos lá no começo da via Teixeira. Havíamos perdido a trilha de acesso à VIA LESTE e quando a reencontramos, tínhamos perdido várias horas, além de já encontrarmos outros escaladores congestionando a parede de escalada. Cometemos alguns erros, demoramos demais e quando a noite nos pegou, estávamos ainda a mais ou menos uma hora do cume e para piorar, perdemos a sequência da via e sem saber para onde ir, demos meia volta e descemos no escuro fazendo rapel e desescalando até depois da meia noite, FRACASSAMOS BONITO ! Voltei para casa arrasado, decepcionado, havia decidido que não queria nem escalar mais. Mas a raiva passou uma semana depois e caí na besteira de contar em relato como havia sido aquela aventura fracassada. Resolvi contar como se sentia um novato no mundo da escalada, os sofrimentos, as dificuldades, as agruras, os erros cometidos e os medos passados. Foi a deixa para parte da comunidade escaladora me bombardear sem dó nem piedade, destilaram ódio, não aguentaram ver novatos como a gente se meter sem um guia no solo sagrado do montanhismo nacional. Disseram que a gente havia subido nos cabos de forma totalmente errada e que agora havíamos comprometido a estrutura dos mesmos, colocando em risco a vida de todo mundo. Apontaram erros que eu nem havia mencionado nem em relato e nem em fotos, ou seja, aproveitaram a oportunidade para deixar bem claro que aquilo ali era feudo de meia dúzia de grupinhos constituídos. Não posso negar, fiquei puto com parte daqueles caras, mas também me serviu para correr atrás de aprender os tais procedimentos alardeados por eles, mesmo que outros escaladores tivessem me dito que isso não passava de um monte de mimimi, mas se havia algum procedimento específico, não custava nada aprender. Algumas semanas se passaram depois disso, ninguém mais tocava no assunto Dedo de Deus. O Alexandre até falava que poderia ir escalar a Agulha do Diabo com um escalador experiente qualquer dia desses, mas esse menino não se tornou amigo nosso de graça, só sendo um grande porra louca mesmo e num ataque de porra-louquisse desvairada, jogou logo no ar que voltaria na Serra dos Órgãos porque não aguentava mais ficar com aquela montanha entalada na goela. Aquilo assombrou todo mundo, porque ninguém nem sonhava em voltar lá tão sedo, inclusive o Natan e o Gersinho que estiveram lá na primeira investida, já sinalizaram que não poderiam ir na data estipulada. Para ser sincero, nem eu mesmo estava em condições de novamente fazer uma loucura daquela, de viajar em um bate e volta de 1200 km para o Rio de Janeiro, mas foi aí que o Dema me encostou contra a parede: “- Divanei, meu amigo, você esqueceu do nosso juramento? É chegado a hora, vamos lá amigão, a gente merece aquela montanha por tudo que já fizemos juntos em mais de duas décadas de montanhismo. ” 2017- (Agosto) Ali estávamos nós, depois de viajarmos por mais de sete horas, estacionamos novamente atrás do Restaurante Paraíso das Plantas, a pouco mais de 1 km da trilha de acesso ao Dedo de Deus. Alias, de onde estávamos era possível avistar o grande gigante de pedra tocando o céu, numa imagem assustadora. Já passava das duas da madrugada e combinamos em dormir até pouco depois das quatro da manhã ali mesmo, deitados no duro concreto de uma calcada fria e úmida, que faria qualquer mendigo ter náuseas. Quando o celular despertou-nos, eu que já havia dormido de bota e tudo, dei um salto, estava muito ansioso, mas não menos que o Dema , o Alexandre e o Vinícius. Arrumamos tudo nas pequenas mochilas e partimos. Uns 15 minutos de caminhada descendo o asfalto nos leva para a curva da Santinha, junto a uma pequena cachoeira e aí é só continuar descendo e ir se atentando para quando passar os dois próximos bueiros e depois do segundo, uns 30 metros à frente, entramos numa trilha, subindo o barranco à direita, que em mais alguns metros vai tropeçar numa cerca onde está a placa do Parque Nacional. Para não termos que ficar ouvindo bobagens de outrem e para não correr o risco de uma possível encheção de saco na volta, desta vez enviamos as autorizações com os nossos nomes para a sede do Parque, coisa que nem os próprios escaladores locais costumam fazer, como ficamos sabendo dos grupos que encontraríamos na montanha. Na cerca, adentramos para a esquerda e acessamos a trilha que sem nenhuma bifurcação vai nos levar em uma hora, direto para a grande parede rochosa da Toca da Cuíca, onde começam os cabos de aço. Diante da grande parede dos cabos de aço, que ainda não é a via de escalada obviamente, é preciso parar para uma breve reflexão: São quase 100 metros de cabos de aço, mas no início não existe cabo algum. São uns 10 metros de parede lisa, com uma sequência de chapeletas a cada uns dois metros. Tudo isso foi planejado para que nenhum montanhista desprovido de equipamentos de escalada pudesse acessar a montanha e segundo a comunidade escaladora, ir fazer alguma merda lá encima. Claro, isso é uma posição que eu como montanhista, apesar de entender os porquês, não concordo, mas é uma opinião exclusivamente minha, não sendo compactuada com o resto do grupo. Mas a questão nem é essa, segundo as “normas”, os cabos de aço devem ser subidos com uma corda paralela, como se a pessoa estivesse escalando de fato e usando os cabos apenas para ganhar terreno. Essa são as normas e foi por causa de contar que nós subimos apenas nos apoiando aos cabos com as mãos é que fomos “ameaçados” de morte e de linchamento pelos escaladores, mas não me contentando com essa cagação de regra toda, fui ler relatos e ver vídeos na internet e foi aí que me caiu a ficha. Praticamente todos os vídeos que eu vi e relatos que eu li, todo mundo subia o cabo de aço feito chimpanzé de circo e para minha surpresa, eram escaladores renomados, gente experiente, dono de agencia de escalada, que fazia esse procedimento inclusive guiando seus clientes. Diante do exposto acima, conclui que havíamos sido apenas vítimas de preconceito por nos colocarmos como iniciantes no esporte e querermos fazer algo que apenas os mais graduados se achavam no direito de fazer. Claro, não posso deixar de citar as dezenas de pessoas que entraram em contato comigo depois do primeiro relato, oferecendo nos guiar de graça e também agradecendo por eu ter tido a coragem de contar algo que parece ser um tabu na escalada, porque esse não seria um esporte para pessoas fracas e todo mundo que escala estaria acima desses “sentimentos mesquinhos “, o que obviamente não passa de uma grande bobagem. Bom, o certo é que a gente tinha combinado que da próxima vez que voltássemos lá, procuraríamos seguir todas as regras da ABCR (associação brasileira dos cagadores de regras), mas diante de tudo que havíamos visto, resolvemos somente subir pensando mesmo só na nossa segurança e para subirmos os primeiros 10 metros sem cabos, usamos 2 solteiras cada um. Escalávamos um misero metro, colocávamos uma solteira longa e quando alcançávamos a próxima chapeleta, instalávamos mais uma solteira e retirávamos a anterior e assim sucessivamente até ganharmos os cabos de aço. Nos cabos de aço apenas nos preocupamos em clipar as duas solteiras e ir subindo nos apoiando levemente. Claro, há a possibilidade de por qualquer descuido escorregar e despencar por uns 4 metros e a gente sabe que solteira não foi feita para receber impacto, mas como não se trata de uma queda livre, é quase impossível haver um rompimento. Mas também, se o sujeito não tem competência para se segurar num cabo tão grosso que é capaz de aguentar o peso de ônibus, então não há nenhum motivo para que esteja ali, que vá procurar outra coisa para fazer e além do mais, nós estamos acostumados a nos pendurarmos em paredões escorregadios de 200 metros na Serra do Mar apenas nos segurando em cipós, bromélias e cordinhas de varal e aqueles cabos são brincadeirinha de criança no jardim da infância. Não levamos nem quinze minutos e já nos livramos daquela parede, depois os cabos se alternam com algumas cordas e como dessa vez já conhecíamos a trilha, mais uns 15 minutos nos deparamos com a bifurcação à direita que vai nos levar direto para a via de escalada propriamente dita ( via Leste), seguindo a esquerda ou reto é a continuação da trilha para a via Teixeira, a via da conquista de 1912. Essa trilha para a direita vai beirar um grande paredão e também vamos ganhando altura e terreno nos valendo de alguns pedaços de cabos de aço e cordas velhas e não leva nem 15 minutos, já estamos no selado de conexão entre o Dedo de Deus e o Polegar. O caminho para a via de escalada segue para a esquerda, mas antes fomos até o Polegar para admirar o gigante de pedra. De cima do Polegar é possível vislumbrar toda a parede que iremos escalar a partir de agora e é a hora de sentir a grandiosidade daquela montanha lendária. Eu e o Dema estamos ansiosos porque é chegado a hora de nos lançarmos para aquilo que esperamos por vinte anos e agora é caminho sem volta, estamos prontos e resolutos a não cometermos nenhum erro dessa vez. Descemos ao selado entre o Polegar e o Dedo de Deus e adentramos logo na última escalaminhada até o início da escalada e ao chegarmos na primeira enfiada (lance) decidimos que não escalaríamos encordados, muito porque essa primeira enfiada tem somente um lance de escalada e o resto não passa de uma escalaminhada. Da outra vez, essa foi a única parte que cai porque entrei com o pé errado. Aqui muitos se enfiam dentro de uma pequena fenda a esquerda e vão ganhando altura até conseguir uma mão na pedra abaulada. O Vinícius subiu com a ajuda do Alexandre e amarrou a corda em um arbusto apenas para que a gente tivesse uma segurança psicológica. Logo em seguida o próprio Alexandre se pendurou e ganho o patamar mais acima. Eu e o Dema analisamos melhor a subida e concluímos que o melhor mesmo era subir pela direita, que é muito mais exposto, mas muito mais fácil e para não corrermos risco de despencar no vazio, providenciei um prussik de segurança e o amarrei à corda e subimos de Batmam mesmo e já nos encaminhamos para a segunda enfiada, onde os outros dois já nos esperavam, fim da brincadeira, hora de checar todos os procedimentos e começar a escalar de verdade. Dessa vez estávamos em quatro e não mais em cinco, mas não sei porque, acho que é pura perseguição, o Alexandre mais uma vez me colocou novamente como cú de tropa, ou seja, o ultimo de novo. A configuração se deu então com o Alexandre guiando e como ele é esperto, colocou logo o Dema para fazer a segurança dele, acho que no intuito de filar uns torresmos e umas mandiocas fritas de vez enquando, já que o Dema sempre carregava esses petiscos a tira colo. O Vinícius desta vez insistiu em ficar em terceiro para poder operar a câmera e a máquina fotográfica. Ancorados numa árvore e em um “P” sobre um platô de pedra, ficamos ali a acompanhar o Alexandre levar nossa corda para cima. Nessa segunda enfiada é preciso se enfiar numa chaminé de meio corpo, ganhar altitude e já sair dela. É um lance fácil para qualquer escalador, mas obviamente para alguns de nós que não tem lá tanta experiência assim, qualquer lance no Dedo de Deus vai ter que ser vencido na raça e nada vai vir de graça. A parada dessa segunda enfiada é lá encima já perto de uma rampa exposta que leva à gruta onde está a árvore e onde as vias se separam em duas. Quando o Alexandre chegou nela, já nos avisou pelo rádio (sim, a gente levou rádio) que poderíamos subir. O Dema foi o próximo e como ele era o único que ainda não havia subida aquele trecho, teve uma certa dificuldade no início e pagou o preço de ser o “debutante “da turma, mas como ele é um cara safo, não demorou muito, já se juntou ao Alexandre. O Vinícius nem perdeu tempo também, trepou na rocha e subiu feito um lagarto assustado e quando percebi, ele já havia sumido da minha vista. Quando chegou minha vez, desclipei minha solteira do pino e já me agarrei à rocha e me enfiei na fenda e fui subindo por dentro dela e logo a subi como se estivesse numa chaminé e assim consegui ganhar a parede do lado direito, que é meio arredondada, mas com várias agarras boas. Ao chegar ao fim dessa paredinha é preciso fazer uma espécie de travessia mais para a direita, se segurar numa raiz e ganhar um arbusto. Daí para frente é uma subida gostosa, cheio de grandes agarrar até finalmente dar de cara com a rampa que leva até a gruta. Essa rampa é meio exposta, mas a rocha é muito áspera e subir por ela desencordado é bem seguro e foi o que fizemos. Agora reunidos dentro da gruta, aos pés de uma grande árvore que teimosamente sobrevive ali naquele mundo hostil, havia chegado a hora de enfrentar mais uma vez a temida enfiada conhecida por MARIA CEBOLA. Na gruta, junto à arvore, a sequência da escalada se divide em duas: Temos a já citada Maria Cebola, que é uma curva tenebrosa na quina da montanha, bem na beira do abismo de centenas de metros e a outra variante é uma sequência de chaminés escuras conhecida como Blackout . A gente já tinha se fodido na Maria Cebola da outra vez e agora decidimos que iríamos “se foder” novamente (rsrsrsr). Mais uma vez coube ao Alexandre levar nossa corda, mas antes ligamos os rádios porque depois da curva do abismo, a comunicação fica bem prejudicada. Ver o Alexandre guiar ali é um motivo de orgulho para a gente, um cara que até esses dias mesmo tinha dificuldade para subir até pé de goiaba e agora estava escalando naquele nível, com aquela eficiência, é um avanço muito acima da média. E ele fez mesmo bonito, nem chegou a sofrer na curva e quando pisquei o olho, ele já estava no arbusto montando a parada e pedindo para o Dema subir, hora de comer uns torresmos e nos preparáramos para o show, de horrores. ( rsrsrsrsr) Eu e o Vinícius também já havíamos passado por isso na primeira vez e agora a gente ia se divertir vendo o inexperiente Dema passar pela Maria Cebola. Como todo mundo, ele já se pendurou na primeira costura e se jogou, pulando de cima da árvore direto para a parede e antes mesmo de se estabilizar, já tremeu as pernas buscando alcançar a nova costura à frente, onde já tratou de passar a outra corda que prendia ele a mim e ao Vinícius. Aos trancos e barrancos chegou à curva, aonde um escalador local contou que havia visto a sua vó e ali naquela curva de gente morta, o coitado pagou todos os seus pecados, desta e das vidas passadas. Esqueceu de retirar a corda que o prendia à costura e ficou preso na curva com o corpo pendendo para o precipício. Ficou gritando para liberar a corda e quando ela afrouxou um pouco, desesperado gritou para retesar. Fazendo a segurança dele, o Alexandre se cagava de tanto rir e compartilhava a sua zoeira com a gente falando pelo rádio. O Vinícius então, era outro que até caiu no chão de tanto rir de ver o Dema se lascando na curva. Eu fui o único que “se manteve firme|”, sério, como a situação exigia, afinal de contas era meu amigo de infância que estava ali se fodendo e eu tinha a obrigação de ir passando os betas, as dicas e não era conveniente ficar fazendo galhofa numa situação daquelas. (Só que não, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk). O Dema chegou lá encima, junto ao Alexandre, sem saber nem onde estava, mas sobreviveu a passagem lendária. O próximo foi o Vinícius, que da primeira vez foi quem mais sofreu nessa terceira enfiada, mas vejam só, dessa vez passeou na via e enquanto eu conversava com um grupo de escaladores que acabara de chegar onde estávamos, ele já virou a curva e eu não o vi mais. Falando nisso, nos preocupou muito a chegada desse grupo e ficamos com medo de eles começarem a botar pressão encima da gente, o que poderia colocar todo o nosso planejamento em risco, mas felizmente os caras foram de boa e ficaram na deles, mesmo porque eu já tinha comentado que dessa vez não iria ter choro nem vela, não iríamos dar uma de Rubinho Barrichello e deixar nenhum Schumaker nos passar na curva final. Ainda em casa, o Alexandre havia me dito que eu guiaria a Maria Cebola dessa vez e eu mesmo cheguei a pensar nessa possibilidade e psicologicamente já fui preparado para isso, caso ele insistisse muito, mas como na hora ele já tomou à frente e nem disse nada, nem fiz questão em relembrar essa promessa que ele havia feito, as coisas estavam dando tão certo que preferi não ariscar em acabar levando uma queda e correr o risco de me machucar. Mas quando chegou a minha vez de enfrentar novamente a lendária Maria Cebola, decidi que o faria com a maior dignidade possível, provando para mim mesmo que eu seria capaz de guiar aquele lance e quando o Alexandre gritou pelo rádio que eu poderia ir, me posicionei rapidamente encima do tronco de árvore, junto a parede e liguei minha câmera instalada no capacete. Um dos grandes problemas é justamente o de ter que se jogar de cima da árvore direto para essa parede exposta. Ao lado da primeira costura até tem uma boa agarra do lado esquerdo, mas o fato de não haver um pé que lhe de segurança é uma situação difícil, porque se você der o bote e não se sustentar, vai despencar de cima da árvore e vai se ralar bonito. Então fiz igual a todo mundo, inclusive os escaladores graduados, me segurei na costura acima da minha cabeça e me grudei à parede. Uma vez equilibrado, retirei essa primeira costura e rapidamente encontrei uma ótima agarra para as mãos e outra para os pés e sem muitas delongas já consegui retirar a segunda costura. Minha intenção era passar todo esse lance sem “roubar” nenhuma vez, ou seja, sem tocar na corda, nas chapeletas ou nas costuras instaladas pelo Alexandre. Logo em seguida chego bem perto da curva maldita, onde até os escaladores experientes fazem uma prece. Estou diante de um diedro em curva, onde os mais medrosos tendem a se enfiar em baixo de uma grande quina de pedra para fugir do abismo e quando fazem isso, ficam entalados e começam a amaldiçoar o filho da puta que resolveu estabelecer uma via naquele inferno. Já tendo passado por isso na outra vez, não quis nem saber, peguei por baixo da rocha, me equilibrei na beira do abismo, me posicionei na curva, dei um bom dia para minha avó e fui ganhando centímetro por centímetro e vez ou outra, olhava para baixo somente para me sentir um coitado pendurado a uns 500 metros de altura. Claro, minha vontade era a de agarrar logo em tudo que é costura e sair vazado dali rapidinho, mas pela minha honra resisti bravamente e quando passei a curva já me joguei com a mão esquerda dentro do diedro e fui me arrastando pela rampa acima até que sem nem perceber, já me dei conta que estava na grande fenda que nos levaria para a sequência de chaminés, passei limpo, estava feliz, uma satisfação pessoal indescritível, adeus minha vó, adeus Maria Cebola, até nunca mais. ( rsrsrssrrs) Dentro daquela fenda monstruosa, fria e úmida, onde da outra vez o Alexandre não quis nem guiar, desta vez não nos pareceu tudo isso e o próprio Alexandre não perdeu tempo, se esgueirou parede acima e já montou a parada. O Dema se assustou no começo, mas bastou subir uns dois metros para ele se adaptar e rapidinho já estava apoiado a uma pedra entalada no meio da chaminé e estando lá, puxou nossas mochilas e já passou para o Alexandre. O Vinícius dessa vez, se disfarçou de calango, juntou as pernas curtas nas duas rochas e subiu cantando. Para falar a verdade, apesar desta ser apenas a segunda vez que a gente encara uma chaminé, vimos que se fosse preciso solaríamos de boa, mas como a corda já estava instalada, me apoiei na parede e fui subindo alternando os pés até alcançar a tal pedra entalada uns quatro ou cinco metros acima, aí é preciso ficar em pé encima dela e ganhar um grande facão diagonal do lado esquerdo e finalizar essa grande chaminé invertendo o corpo, passando a subir com as costas do lado direito até poder montar na rocha e passar novamente para o lado direito, onde está instalado o pino onde se coloca a parada e aí poder se deslumbrar com uma vista estonteante de todos os abismos dessa montanha, onde você se torna um nada diante da grandiosidade da pedra. Depois de subir essa chaminé gigante, a sequência da via vai prosseguir entrando- se em outra fenda horizontal obvia de uns 10 metros, porque não há mesmo para onde ir e adentrando até quase o seu final já é preciso subir mais uma chaminé de não mais de uns 4 ou 5 metros para conseguir sair da própria fenda. Dessa vez não teve conversa, subimos sem corda nenhuma, todo mundo solou. É uma subida fácil, uma chaminé estreita onde é pouco provável que alguém caia de lá, basta subir e ganhar uma rocha com ótima mão e se lançar para cima onde existe um amontoado de grandes rochas. Olha, foi justamente nesse ponto que dá outra vez a noite nos apanhou e tivemos que enfiar o rabo entre as pernas e sair correndo para casa, descendo tudo de rapel naquela madrugada fria e agora nem ao meio dia ainda havíamos chegado. Até agora havíamos feito um trabalho excelente, nenhum erro, tudo como havíamos planejado. Quando chegamos ao alto daquele amontoado de pedras gigantes, onde uma fenda monstro separa onde estávamos do estirão final para o cume do Dedo de Deus, não teve como não sentir um frio na barriga, e agora José, acharíamos a sequência da via? Não posso negar, a partir dali eu estava ansioso, com uma descarga de adrenalina que ia transbordando, sim, eu estava extremamente nervoso. Ali era o lugar que nos disseram que teria que fazer um pulo exposto para passar de onde estávamos para a outra sequência da montanha e veja bem, não demorou nada para eu bater o olho num pino “P” na altura do umbigo para me ligar que era ali o tal pulo, coisa que nem me passou pela cabeça na outra vez, não sabia se ficava feliz ou muito puto com aquela descoberta. O lance é o seguinte: É preciso passar uma costura no “P”, apoiar levemente a mão encima dele, colocar o pé direito na parede entre a fenda e dar um pulo e agarrar um patamar uns 2 metros e meio acima da cabeça com a mão esquerda. É um lance fácil, principalmente para quem é alto, mas para quem tem tamanho de toco de amarrar jegue, tem que ser um pulo com vontade e certeiro porque se não corre o risco de despencar dentro da fenda e cair no vazio. O Alexandre nem precisou instalar corda alguma, se apoiou na parede e já se jogou lá para cima, agarrou com vontade o bloco de rocha e montou nele como se tivesse subindo em um cavalo e antes mesmo de ir investigar, já puxou o Dema lá para cima, entraram em um arbusto do lado esquerdo e não deram mais sinal de vida por um bom tempo, deixando eu e o Vinícius mais agoniados ainda. Logo os caras do “outro lado do mundo” chamaram o Vinícius para fazer parte do clubinho deles e eu fiquei ali, largado para as cobras, criando uma úlcera no estomago de tanta ansiedade. Por mais de meia hora o tempo parou para mim, sentado naquela rocha exposta, meus pensamentos voavam longe e quanto mais demorava para saber o que se passava do outro lado da fenda, mas ansioso eu ficava, pensei em passar sem depender deles, mas achei melhor não, ali não era lugar para cometer nenhum erro. Quando o Vinícius me chamou, levantei-me rapidamente e me posicionei conforme o procedimento correto e avisei o meu amigo que pularia. Apoiei a mão direita no referido “P”, olhei para cima com vontade e determinação, coloquei meu pé direito em um regletinho (pequena ranhura) na base da parede e saltei feito um campeão olímpico disputando a medalha de ouro: -“Segura essa porra aí caralho, ai meu Deus do céu! Não alcancei o patamar e minha mão esquerda passou no vazio, despenquei no meio da fenda e fiquei pendurado na corda, feito siri no pau. O Vinícius fez um ótimo trabalho, foi tão bom que nem consegui esticar a perna para voltar a minha posição anterior, tendo que implorar para que ele afrouxasse um pouco a corda para eu me recompor. Na segunda tentativa só fiz elevar mais a minha perna direita um palmo mais acima e aí pulei tão forte que mais um pouco eu alcançava a Pedra do Sino, lá na Travessia Petrópolis x Teresópolis. Agarrei a patamar rochoso como se fosse um prato de comida, passeia aperna por cima dele e de me segurei no arbusto, longe do abismo. A esquerda desse arbusto existe uma fenda horizontal de uns 4 metros e a diferença dessa fenda para as outras, era que essa não tinha chão. Quando cheguei nela os meninos já não estavam mais, já haviam passado, mas como estavam perto de mim, eu podia ouvi-los muito bem e logo perguntei as dicas para onde seguir. O Alexandre já gritou: -“ Facin, facin, Divanei, é só entrar na fenda e pisar nesse patamar do lado direito e atravessa até o final e aí tu sobe a chaminé de uns 3 metros e pronto” Eu até encontrei o patamar que se referiu, mas como diabos esses caras passaram nessa fenda sendo que não havia chão pra pisar e em baixo dos nossos pés, um abismo monstro ficava rindo pra gente. Eu já estava nos cascos, meu coração já estava tamborilando faz tempo, respiração ofegante e eu mal estava conseguindo raciocinar direito. Olhei uma pedra entalada no meio da fenda sem chão, mas ela estava uns 3 metros de mim e já pensei logo; mas nem fodendo que eu vou conseguir pular lá naquela rocha e fiquei vendido naquele lance. Tentei me acalmar e prestar bastante atenção na dica que vinha do outro lado da fenda: Entendi qual era o lance: Na parede do lado direito existia uma rachadura que corria na horizontal bem embaixo dos pés e por incrível que parece o próprio pé cabia dentro da rachadura e aí o lance é colocar as costas na parede do lado esquerdo e os pés dentro da rachadura e simplesmente caminhar, um procedimento ridículo de fácil, mas extremamente exposto e ao chegar ao final, subir uma chaminé de uns 3 metros e se agarrar numa rocha pontuda que se não tomar cuidado , acaba furando seu olho. Subindo essa pequena chaminé, emergi dentro de uma grande gruta e já me dei conta de que o Alexandre já estava bem adiantado nos procedimentos para a última enfiada, porque reconheci a grande estalagmite de rocha que eu havia visto numa foto, onde é preciso amarrar uma grande fita em volta para poder colocar uma costura, estávamos sem sombra de dúvida no PASSO DO GIGANTE. O Alexandre levou a nossa corda , ancorou-se e logo pediu para que o Dema subisse. Nesse lance é preciso retirar as mochilas e coloca-las na solteira e subir com elas no meio das pernas, coisa que vai te jogando para baixo, mas ninguém reclamou e o Dema macaqueou para cima, se agarrou onde deu e sumiu na última rampa de acesso. Ajudei o Vinícius a ganhar a primeira rocha e esse foi outro que que se livrou rapidinho desse lance e foi se juntar ao Dema e ao Alexandre. Não sei porque, mas aos meus olhos, levou uma eternidade até que o Vinicius autorizasse a minha subida. Segurei em oposição na rocha que dava acesso ao início da subida e ganhei terreno em direção a estalagmite. Pouco consigo descrever como foi essa última enfiada, só sei que uma hora você tem que encostar as costas no teto e ir se elevando e aí passar para o outro lado para ganhar a rampa. Juro que não me lembro de nenhum passo de gigante, minha cabeça e meus pensamentos voavam no tempo, voltei para 1997. Eu já não enxergava mais nada, só me lembrava que não podia mais cair e aquela luz que vinha lá de fora era minha única direção. Minhas pernas já foram bambeando e quando meus olhos se acostumaram com a claridade e alguém lá de cima gritou: “ Olha Divanei, que maravilha, a escadinha do cume “. Lentamente levantei meus olhos e quando o metal brilhou, minha cabeça rodou e deixei aflorar toda minha fraqueza humana. Os caras estavam irradiantes, o Dema transbordava de alegria, mas eu desgraçadamente desabei a chorar. No meu caso e do Dema não se tratava somente da conquista de uma montanha, era muito mais do que é isso, era a promessa cumprida de nos mantermos vivos e ativos na vida desde a nossa juventude, era a consolidação de uma amizade que atravessou uma geração e que começou no nosso tempo de escola, 35 anos atrás. A gente sobreviveu ao tempo, ultrapassamos as agruras da vida para estarmos juntos ali naquele momento magico na vida de cada um. Nem estávamos no cume ainda e já nos abraçamos ali mesmo e chorando, fiz um discurso de agradecimento e muito provavelmente não disse coisa com coisa. Ainda faltava subir uns 4 metros de escadinha para chegarmos ao topo e fizemos questão que o Alexandre tivesse a honra de ser o primeiro do grupo, mas ele se recusou e pediu para que eu e o Dema subíssemos. A escadinha é um tanto exposta e eventualmente perigosa, tanto que a maioria sobe nela encordado, mas eu e o Dema estávamos pilhados demais para qualquer outro procedimento se não o de subir correndo e nos jogarmos no estirão final. Quando ganhamos o cume, tocamos juntos a pedra que marca o seu ponto mais alto, onde fica a caixa com o livro e mais uma vez deixamos as emoções aflorar. Éramos duas crianças a se esbaldar de felicidade no cume do DEDO DE DEUS (1692 m) e quando o Vinícius e o Alexandre chegaram, a felicidade se completou. De cima daquele Dedo Divino, que quase tocava o céu, era possível se maravilhar com as montanhas ao redor, além de uma vista linda da Baia da Guanabara, é um mundo de beleza e encantamento, que faz do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, um dos mais bonitos do mundo. Logo o outro grupo chegou e como não é possível ser feliz para sempre, vimos que era hora de descermos, porque o cume é apenas metade da conquista. Decidimos que faríamos o descenso pelo rapel vertiginoso e para achar os dois pinos é necessário caminhar como quem vai em direção ao Pico do Garrafão, já que o topo do dedo de Deus é surpreendentemente do tramando de uma quadra de futebol de salão, o que mostra a grandiosidade dessa montanha. Estávamos com duas cordas de 60 metros e amarramos uma a outra para descermos com ela dupla. O Alexandre desceu, montou a parada e deu o gritou para que o Dema fosse, já que o nosso rádio havia acabado a bateria. Depois do Dema, eu fui o próximo a me clipar à corda. Rapel é uma coisa que nunca me assustou, mesmo sabendo que é nesse procedimento que a maioria dos acidentes acontecem. A saída à beira do abismo é complicada, mas rapidamente montei o meu prussik e me lancei no vazio, mas infelizmente com o peso da corda é preciso fazer uma força tremenda para que se possa pegar alguma velocidade. Esse rapel de fato não tem mais que uns 50 metros, mas não leva o nome de vertiginoso atoa, porque mesmo que a parada seja em um patamar mais abaixo, a gente fica uns 500 metros pendurado no vazio, só vendo as árvores no fundo do vale e quem sofre de medo de altura vai cagar nas calças. Para desgraçar tudo, o Vinicius preocupado demais com a segurança, me fez dar umas 3 voltar no nó blocante e o resultado foi que ele acabou travando no meio da descida e como eu não estava com mais nenhuma cordinha, fiquei pendurado sem ter o que fazer. Só depois de várias lutas é que consegui derrotar o prussik e consegui chegar em segurança ao patamar, mas já é necessário ficar esperto para tocar o rapel sempre para esquerda, para não correr o risco de passar direto e ficar pendurado sem ter como subir, principalmente para o primeiro que vai descer. O patamar à beira do abismo até que comporta bem uma meia dúzia de pessoas. Nele temos um arbusto que serve muito bem para uma ancoragem, além de mais um pino instalado junto a ele e mais três pinos para a segurança do próximo rapel. Logo que o Vinícius desceu e juntou-se a gente, o Alexandre já se posicionou e despencou no próximo rapel. São mais uns 20 metros de descida, mas é necessário descer bem para a esquerda, junto à parede e instalar uma costura para evitar que a corda acabe pendendo para o lado do abismo. Esse procedimento é necessário apenas para o primeiro e uma vez no chão, é só ficar atento para direcionar a corda para os outros, tratando de não deixar que eles pendam para o vazio e cheguem ao chão em segurança, já que o segundo ao descer, já fez o procedimento de retirar e recolher a costura. O último e derradeiro rapel não tem mais que uns 10 metros e nenhum segredo aparente, finalizando esse, mais uns 20 metros de caminhada nos leva até a gruta onde há uma pequena placa que homenageia os escaladores brasileiros mortos no Aconcágua. E assim se finaliza a descida que vai beirando a lendária rota da via Teixeira, usada pelos pioneiros de 1912 para a grande conquista. Agora com os pés firmes no chão, mas nem tanto assim, vamos desescalaminhando um pequeno trecho de rocha, onde um cabo de aço todo enferrujado e nenhum um pouco confiável, ainda sobrevive. O tempo está incrível e a vista do Escalavrado e dos Dedinhos é arrebatadora. Descemos por mais um pedaço de cabo de aço até não ter mais jeito e termos que instalar a corda para descer de rapel. Todo mundo se encordou e deslizou rapidamente, menos eu que, só me agarrei a corda e desci esse pequeno trecho no braço mesmo. Daí para frente ganhamos a trilha e fomos descendo lentamente, hora usando alguns cabos, hora nos valendo de algumas cordas, até que antes do sol se pôr, tropeçamos no grande e derradeiro paredão dos cabos de aço. Eu e o Dema pensamos logo em nos agarrarmos nos cabos e deslizarmos até lá embaixo, no braço mesmo, mas como havia alguns guias descendo com uns clientes, o Alexandre montou logo um rapel com as duas cordas e assim evitamos de alguém nos torrar a paciência e agente ser obrigado a mandar a merda e rapidinho já nos vimos de volta à Toca da Cuíca, já na boca da trilha. Menos de uma hora, esse foi o tempo que levamos para novamente nos vermos de volta à civilização, agora totalmente em segurança. Desta vez não houve espaços para comemorações e cada um seguiu caminhando no seu ritmo naquela noite escura e agradável de primavera. Eu mesmo me pus a caminhar por último, minha cabeça ainda rodopiava e eu quase que levitava naquele último trecho de asfalto. Vez por outra eu me virava para trás e me punha a contemplar a silhueta do grande DEDO DE DEUS e eu poderia passar os restos dos meus dias olhando para aquela montanha e mesmo assim não me cansaria de contempla-la, parecia mesmo que o grande DEDO havia se curvado, como a me dar um joinha e a dizer: ” Valeu meninos, obrigado pela visita, nos vemos novamente daqui uns 20 anos”. Chegamos de volta ao carro antes das sete da noite e sem pensar muito, já pegamos a estrada para casa e oito horas de viagem depois, estávamos novamente de volta ao nosso mundo no interior de São Paulo. E esse não foi nem de longe um relato de grandes conquistas, de feitos memoráveis, realizados por grandes escaladores. Esse é um relato que fala de amizade, de perseverança, de aprender a não desistir, de saber esperar o momento certo. No meu caso e do Dema a espera foi de 20 anos e foi uma grande honra poder dividir esse sonho com esses outros dois grandes amigos, que calhamos de encontrar na curva do tempo. Estar no topo do Dedo de Deus foi ter a oportunidade de relembrar dos velhos tempos de juventude, tempos de espirito livre, onde o mundo parecia menos complicado e subir montanhas era apenas um ato de se libertar das mediocridades da vida, um tempo de montanhas sem donos, onde todo mundo tinha acesso livre e precisa apenas se preocupar em cumprir com as promessas feitas e no nosso caso: PROMESSA MAIS DO QUE CUMPRIDA! Divanei Goes de Paula – Agosto/2017
  6. Infelizmente não gravei em gps, na época não sabia nem da existência do wikloc.
  7. Obrigado Jeferson, já fazia anos que eu perseguia essa conquista, mas foi a conquista de outra montanha inédita na mesma serra que nos impulsionou para o DESMORONADO. Aqui mesmo no mochileiros.com vc poderá ler a conquista do PICO MOTCHAKA, cume do Morro das Três Pontas. Abraços.
  8. DEDO DE DEUS-RJ :Montanhismo, escalada e aventura na mais clássica montanha do país. Quando o último homem se despediu, cortou literalmente a única raiz que nos unia e ao fazer a curva à beira do precipício, foi aí que me dei conta que realmente me encontrava só, encravado numa fenda gigantesca, pendurado a algumas centenas de metros na escuridão daquela noite fria. De onde eu estava, podia avistar as luzes dos carros subindo a estrada em direção a Teresópolis-RJ, serpenteando numa lombriga de asfalto, milhares de metros a baixo de mim. Aquilo que estava prestes a fazer era a mais insana das loucuras e o meu medo já havia transpassado todos os limites razoáveis. O vento soprava forte e já não havia mais como me comunicar com ninguém, se algo desse errado, se eu não conseguisse me sustentar na corda, despencaria no vazio e para piorar ainda mais, a corda reserva estaria comigo, amarrada à minha cintura, tirando qualquer possibilidade de eu ser resgatado sem que fosse preciso um esforço sobre humano dos meus companheiros de aventura. Minha cabeça ainda girava, eu ainda não havia compreendido muito bem como a gente conseguiu deixar que a nossa situação chegasse àquele nível, verdade mesmo que eu ainda não estava conformado com o que tinha acontecido, mas como as coisas estavam fora do meu controle, eu tinha mesmo era que tentar me manter calmo, manter a concentração nos procedimentos mínimos de segurança e tentar sair vivo daquela enrascada. Me amarei à corda instalando o freio, pedi proteção a “Nossa Senhora do Abismo” e fui.............................................. Foi numa quarta-feira que eu soube da notícia ao abrir as mensagens num grupo de WhatsApp. Sem mais nem menos o Alexandre Alves havia resolvido que no sábado à noite partiria para Teresópolis-RJ no intuito de escalar o lendário DEDO DE DEUS. Ao ler a mensagem tomei um susto, na verdade, foi mais uma indignação mesmo. Já era sabido por eles a muito tempo que, mesmo eu não sendo nenhum escalador que prestasse, cultivava um sonho antigo de escalar aquela montanha há mais de 20 anos. Inclusive tínhamos combinado que se um dia a galera resolvesse escalar aquele pico, eu iria me dedicar uns 2 ou 3 meses antes, pegando firme nos treinamentos, mas numa decisão meio atabalhoada, resolveram que havia chegado a hora. Aquilo era uma coisa insana, um bate e volta de 1200 km, saindo sábado à noite, escalando o pico e voltando para casa no domingo. Estava na cara que era uma organização feito nas coxas, que a chance de algo dar errado era muito grande, porque o nível daquela escalada estava muito acima da competência da maioria do grupo, a possibilidade de dar merda naquela empreitada era enorme e diante de tudo que me haviam exposto, a minha resposta ao convite não poderia ser outra: “- Foda-se, tô dentro! Vinte anos atrás eu havia subido a encosta que leva ao Dedo de Deus juntamente com dois amigos. Na ocasião não entendíamos nada de escalada e mesmo assim, numa atitude estúpida, quase que laçando pedra na via Teixeira, amarando corda de sisal nos velhos pinos, ficamos a não mais que uns 50 metros do cume. Foi naquela vez que juramos que um dia escalaríamos aquele pico. O tempo passou e eu ainda voltei lá na Serra dos Órgãos para realizar a Travessia Petrópolis x Teresópolis por duas vezes, mas o Dedo mesmo, foi ficando para trás, muito porque só se chega ao cume com escalada complexa, mediante ao uso de equipamentos caros. Nos dois últimos anos eu tinha aprendido os rudimentos do esporte, mas se eu falar que me dediquei a isso, estaria contando uma grande mentira. Cheguei até a subir algumas paredes de escalada clássica, mas nada que pudesse me dar alguma experiência para poder subir uma montanha com a envergadura do Dedo de Deus. Mesmo assim eu não estava a fim de perder aquela oportunidade e o meu pensamento era compartilhado por grande parte da equipe. O Vinícius se propôs a nos levar no carro dele, pegou o Alexandre, passou na minha casa em Sumaré-SP e partimos para Teresópolis, mas antes de chegarmos lá, se juntaram a nós na Via Dutra, nossos amigos paulistanos Natan e Gersinho, estava fechado o grupo insano que desafiou a montanha mais lendária do Brasil, berço do montanhismo no país. A viagem, apesar de demorar uma eternidade, acabou por ser muito prazerosa devido aos causos, histórias e outras lorotas de aventuras passadas e quando menos percebemos, já estávamos subindo a serrinha que leva à Teresópolis, aonde estacionamos atrás do restaurante PARAÍSO DAS ÁGUAS, do lado direito da rodovia, cerca de pouco mais de 1 km da entrada da trilha para o Dedo de Deus. Já era alta madruga e havíamos combinado de dormir umas 3 horas de sono e acordar antes da cinco da manhã. Como a noite estava limpa, deitamos no concreto do estacionamento improvisado, mas antes de pegarmos no sono, um maldito carro estacionado na frente do restaurante nos deu as boas-vindas tocando um fank pornográfico. Bem-vindos ao Rio de Janeiro! Conforme o combinado, cinco da manhã estávamos de pé. Tomamos café, jogamos os equipamentos na mochilinha de ataque e partimos. Descemos a rodovia, passamos por um estacionamento onde uma Santinha protege uma pequena cachoeira e logo depois de passarmos por dois bueiros, interceptamos a trilha do lado direito, que iria nos levar para cima da montanha. Portanto, na placa do parque, viramos para a esquerda e começamos a subir a íngreme trilha no meio da mata fechada. Uma coisa logo de cara assustou todo o grupo, começou a chover, mas logo notamos que era apenas uma precipitação de uma nuvem mais baixa e que logo quando o sol nascesse, aquela nuvem se dissiparia e foi o que aconteceu. Numa caminhada alucinante, uma hora depois estávamos de frente para o grande paredão da Toca da Cuíca que dá início à subida da encosta rochosa da montanha, mas essa ainda não é a via de escalada, inclusive era ali que começava os famosos cabos de aço. Engraçado que havia se passado 20 anos desde o dia que eu havia estado ali e não me lembrava que o paredão era tão íngreme daquele jeito, inclusive me lembro que a gente subiu uma parte dele apenas com a aderência das nossas botas de caminhada. Nessa parede, onde citei que começam os cabos de aço há de se fazer uma ressalva: Os cabos de aço foram instalados apenas depois de uns 10 metros e no início não existe a possibilidade de subir se não for colocando uma corda e ganhar essa altura toda escalando, se valendo das chapeletas instaladas. Claramente pode se notar que isso foi feito de propósito, com o intuito mesquinho de barrar qualquer tentativa de subida de quem não é do ramo da escalada, uma atitude medíocre dos que se acham donos das montanhas, inclusive com o possível aval do Parque nacional. Bom, o caso é que por estar molhado, foi impossível repetir o feito de 1997 e eu não consegui subir esse trecho e como não queríamos perder tempo sacando corda e equipamentos, nos ariscamos a subir pelo lado direito, onde uma trilha mais que escorregadia nos leva até um pouco acima e com a ajuda dos companheiros consegui escalar a rocha e aos poucos alcancei uma língua de mato mais acima, onde consegui acesso ao cabo de aço. Os cabos de aço estão bem preservados e dão muita segurança para se subir essa parede gigante, mas para não corrermos riscos desnecessários, fomos clipando nossas solteiras nos cabos. O esforço é grande, mas não leva nem 10 minutos e esse paredão já é deixado para trás. O caminho que se segue vai alternar outros cabos de aço, escalaminhada pesada onde cordas, algumas de segurança duvidosa, terão que ser vencidas. Às vezes o caminho se torna uma simples trilha no meio da mata com grande inclinação. A gente estava rápido, mas também sabíamos que tínhamos que ficar espertos com uma possível bifurcação para a direita, que seria o caminho que teríamos que pegar para acessarmos a via de escalada. Quando nos demos conta, estávamos no grande selado que separa um dos dedinhos do grande Dedo de Deus, uma das visões mais impressionantes do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. De cima era possível avistar além da própria extensão do Dedo, quase todas as fabulosas montanhas e formações rochosas que dão nome aquele parque. Ali estavam o Escalavrado, o Garrafão, Cabeça de Peixe, a Pedra do Sino, Nossa Senhora e uma infinidade de outros picos que fazem desse parque, um dos mais bonitos do mundo. Ficamos por ali por uns quinze minutos, inebriados pela aquela paisagem dos sonhos, mas logo nos demos conta de que nosso objetivo naquele Parque era outro e tratamos de seguir nosso caminho, sempre nos atentando pela localização da tal trilha à direita que nos levaria para a face leste da montanha. Galgamos mais um pequeno ombro e demos de cara com um grande paredão, onde paramos imediatamente. Aquele caminho não me era estranho, vi logo que era a parede que nos levaria para a Via Teixeira, a via da primeira conquista do Dedo em 1912. Ao lado dessa parede íngreme parecia que para a direita seguia uma trilha, coisa que eu até investiguei, mas que somente me levou para um abismo monstro. Diante disso, resolvemos subir também essa parede e ver se a tal trilha não estaria mais acima. Tivemos que instalar a corda e alcançar a parte mais acima escalando, coisa que em 1997 nós fizemos na raça. Alguns subiram com seus equipamentos clipados à corda, já eu e o Gersinho nos agarramos e subimos no braço, ganhando precioso tempo. Ao chegar ao cume, nenhuma trilha encontramos e ainda tivemos que subir outra parede, mas agora nos valendo de um cabo de aço, porcamente instalado. Enquanto eu procurava novamente pela trilha, o Gersinho e o Alexandre continuaram subindo até que tropeçaram na gruta onde uma placa homenageia um antigo pioneiro, era definitivamente o começo da via Teixeira, fim da linha para a gente. Mas onde diabos era essa tal trilha para a VIA LESTE DO DEDO DE DEUS? A gente se recusava a acreditar que a uma das vias de escalada mais clássica do país não era sinalizada dentro de um Parque Nacional, onde clubes e federações de montanhismo desfilam seus egos. Nenhuma placa, nenhuma fita, nada de nada. O Gersinho já de saco cheio de procurar a trilha queria escalar logo a Via Teixeira, coisa que a gente refutou logo de cara. Viajamos de tão longe para escalar a Via Leste e não era possível que por não encontrar uma mísera trilha de acesso, iríamos perder a viagem. Descemos novamente para o selado entre o estirão final e o Dedinho, bem no pé da parede onde tentei seguir uma trilha, mas só havia me levado a um abismo. Para ter certeza de que aquela não era mesmo a trilha dei outra investiga, só para constatar que não era por ali mesmo. Só poderia ser descendo, não tinha outra explicação. Então eu e o Alexandre começamos a descer novamente a trilha enquanto os outros enrolavam as cordas. Fomos descendo, mas nada encontramos, até que deixei o Alexandre esperando o resto da galera e continuei perdendo altura no meio da mata, atentando agora para o lado esquerdo, até que ao investigar um lugar que parecia com uma canaleta de água, percebi que se tratava da tal trilha. Pronto, estávamos de volta ao caminho, mas agora com mais de 2 horas perdidas. Quando toda a galera se juntou, nos enfiamos naquela trilha, que vai beirando uma grande parede e vai subindo sem dó e muitas cordas são puxadas, algumas imprestáveis e velhas, onde todo cuidado é pouco. Uns quinze minutos depois já estamos no colo que separa a via Teixeira do Polegar do dedo de Deus e para o nosso azar, encontramos já ali instalados, um grupo de 3 paulistas, guiados por um carioca, prontos para começar a escalar. Quando resolvemos sair de madrugada foi justamente para que pudéssemos escalar com mais tranquilidade, já que éramos um grupo com a maioria de inexperientes e por perdermos a trilha e nos atrasados por mais de 2 horas, agora tínhamos que nos contentar em aguardar os procedimentos do grupo à nossa frente. E foi mais um tremendo azar porque o guia deles demorou uma eternidade somente para escalar a primeira enfiada, o primeiro lance de corda e aí foi mais uma hora perdida e isso iria fazer toda a diferença no final do dia. Bom, o certo é que estávamos diante do nosso grande desafio. O Alexandre havia ficado encarregado de pegar todos os betas (dicas) sobre a via de escalada e também seria o cara encarregado de guiar a via, mas como esse primeiro lance era o mais fácil, deixou que o Vinícius tivesse a honra de inaugurar os trabalhos. A configuração do grupo montada pelo Alexandre seria o seguinte: Ele guiando, depois o Vinícius e no meio das duas cordas o Gersinho que seria precedido pelo Natan e eu fecharia na ponta da segunda corda, ou seja, me deixou como cú de tropa, o último. Narrar uma escalada não é fácil, principalmente para mim que não passo de um novato e que ainda não domino bem os termos técnicos direito, ainda mais tendo ficado como o último escalador e quase não pude presenciar o que acontecia mais acima nas subidas das paredes, então contarei o que se sucedeu mediante a minha percepção das coisas, até um pouco individualista, mas antes é preciso dizer que a subida em si, só foi possível por causa da união de todo mundo e mesmo no grande perrengue sucedido, não faltou empenho de ninguém para que essa escalada pudesse terminar bem e sem nenhum acidente. Quando todos estavam preparados e equipados, o Vinícius deu o start. Como falei, essa primeira enfiada (lance) é o mais fácil de todos, mas o início é um movimento chato, onde quem tem perna curta vai sofrer um pouco. É necessário jogar o pé esquerdo na parede e com o pé direito alcançar a outra parede e se puxar para cima, mas mão que é bom não tem onde segurar por ser uma pedra meio abaulada. Nessa hora uma força de quem está embaixo ajuda muito para que se consiga passar sem muito esforço. E assim foi, um ajudando o outro até que todos subiram, menos eu, é claro. Achei que estar com uma luva sem os dedos poderia ajudar a proteger as mãos, então me apoiei na rocha, cravei o pé esquerdo na pequena fenda e com o pé direito tentei alcançar a rocha, mas não achei lugar para colocar a mão direita e quando vi ,já não mais me sustentei e despenquei feito uma jaca madura. A escalada nem havia começado e eu já cai logo no primeiro lance, nessa hora me deu um medo de não dar conta da empreitada do qual eu havia me apresentado. Tirei as luvas, me posicionei melhor. Minha perna tremeu feito vara verde, pensei que cairia novamente, mas antes de escorregar, joguei minha mão direita o mais longe possível e finquei meus dedos numa saliência mais acima. Ufa, passei! O restante deste primeiro lance vai se alternando entre escalaminhada e escalada tranquila, as vezes nos valendo de arbustos e raízes para se ganhar terreno e logo me junto ao Natan e ao Gersinho, junto a uma parada de 2 “P”, onde um arbusto também serve para dar uma segurança. O Vinícius e o Alexandre haviam partidos para a segunda enfiada. A próxima enfiada (segunda) vai nos levar mais acima nos valendo de uma rachadura na rocha, onde é preciso tentar se enfiar por dentro dela e logo galgar a rocha do lado direito. Parece ser um lance fácil para quem olha, mas a falta de onde pôr as mãos causa um incomodo inicial, mas logo depois que se consegue se estabilizar, a subida vai fluindo até com certa facilidade e na metade já se transforma em mais uma subida fácil, onde mais arbustos são usados para ganhar altura e se elevar até a próxima parada dentro de uma toca. A subida final até essa pequena caverninha é uma boa oportunidade para tirar uma das fotos mais clássicas da subida, com uma visão privilegiada do polegar mais abaixo. Passado esse trecho cênico, todos nós nos juntamos na gruta, é hora de montar a estratégia para o lance mais temido da escalado do Dedo de Deus, chegou a hora de nos encontrarmos face a face com a lendária MARIA CEBOLA. Dentro da gruta, todo mundo está ancorado numa grande árvore que resiste em sobreviver naquele mundo hostil. Nesse ponto temos duas opções: Pegar uma chaminé escura que leva o nome de BLACKUOT ou enfrentar a enfiada mais aterrorizante, que vai fazer uma curva na face da montanha, onde o escalador vai ficar pendurado a mais de 500 metros em queda livre. Bom, como a gente tinha pouco experiência, mas nenhum juízo na cabeça, escolhemos a Maria Cebola, porque desgraça pouca é bobagem. Então nessa terceira enfiada já de cara é preciso se equilibrar encima da árvore e tentar alcançar um pino “P” logo acima da cabeça, coisa que parece fácil para quem é grande, mas mesmo o Alexandre que tem uma certa estatura, não conseguiu esticar o braço e alcança-lo e, tentar encontrar um pé ali não é fácil porque um passo errado nesse primeiro lance, é pedir para cair numa fenda potencialmente perigosa. Ainda bem que, espertamente, o Alexandre pediu para que o último membro da equipe que estava a nossa frente, colocasse a costura para a gente. Poderíamos ter feito isso tranquilamente, mas já que tínhamos essa opção, porque não a usar a nosso favor? O Alexandre se apoiou na rocha e se lançou de cima da árvore. Sua perna tremeu, mas conseguiu encontrar um agarra minúscula para poder se equilibrar. Os próximos 15 ou 20 minutos foi a gente assistindo ao Alexandre suar em bicas e se virar para conseguir fazer a curva do abismo, se ralando todo para conseguir passar por debaixo de uma rocha, onde a mochila vai moendo nas costas do escalador e o escalador vai moendo feito uma cana caiana entre as duas pedras ásperas. Passado a pedra que insiste em jogar o cara nas bordas do precipício, é hora de ganha um DIEDRO, que nada mais é que uma grande fenda entre as duas rochas. Daí para frente não tenho mais como narrar o que se sucedeu com o Alexandre porque, de onde estávamos, não víamos mais nada e mal ouvíamos o grito dele pedindo para retesar ou afrouxar a corda. Não sei como e nem de que maneira, mas o nosso “guia “ chegou ao fim daquele lance e agora era chegado a nossa vez. O tempo ia passando rapidamente e nós nem nos preocupamos em olhar no relógio. O próximo a subir para encarar o diedro da Maria cebola foi o Vinícius, que já de cara se apoiou na corda e se puxou para cima da parede e por lá ficou, escorregando para todos os lados até encontrar um apoio para aos pés. Ficou de pé, mas não progrediu, não rendeu, empacou feito uma mula teimosa. Tentou de tudo para ganhar terreno, mas não ia, nem puxando na corda de segurança. Foi aí que numa atitude desesperada, tentou usar de alguns artifícios ninja, tentando fazer algo que nem a gente conseguiu compreender o que seria, mas parecia algo como se fosse para jumar, uma técnica de subir em cordas ou sei lá que diabo era aquilo, o certo, é que não deu certo (rsrsrsr) e ele se agarrou como deu em cada lasquinha de pedra, fez a curva e desapareceu na subida do diedro e foi se juntar ao Alexandre. O Gersinho foi o outro a agarrar no rabo da corda e pular da árvore para parede, mas antes que ele desse mais um passo, já me ouviu pedir para instalar uma fita maior junto a primeira costura porque eu e o Natan, com pernas curtas, nem a costura iríamos alcançar. O Gersinho por incrível que pareça, encontrou os pés rapidinho e rapidamente se entalou na fenda, virou na curva e sumiu e sem demora deu o aval para que o Natan subisse. Auxiliei o Natan, meio que fazendo algumas leituras imaginárias lá de baixo. O Natan agarrou a fita com gosto e como o Robin, porque Batman é muito para ele, se pendurou e foi se segurando em tudo que pode, mas foi outro que conseguiu encontrar os regletes na rocha (pequenas ranhuras) e avançou rapidamente, mas só ele mesmo é quem poderia nos contar o tamanho do medo que passou na esquina do abismo e o que aconteceu no rastejo pelo diedro, a única coisa que eu sei, é que foi mais um a chegar vivo na parada mais acima. Quando o Natan gritou: ” - Pode vim Divanei “ , já me caguei todo de medo. Ficar por último é um teste de resiliência, você sabe que não vai poder contar com ninguém se algo der errado, pior ainda era ali onde eu estava, que mal conseguia me comunicar com os companheiros. Trepei naquela árvore, agarrei na ponta daquela fita colorida e me alcei com tanta força que fui parar muito mais acima do que deveria e tive que acabar descendo. Apoiei o pé numa verruga de pedra e com a mão direita retirei a fita e a costura. Cravei a unha numa pequena fissura e avancei de uma tacada só até a outra proteção, onde retirei mais outra costura. Pensei: “Meu, estou indo muito bem! ”. Passei com uma facilidade que nem eu acreditava e logo ganhei a maldita curva, por onde fui obrigado a montar na “quina da rocha arredondada” e quando olhei para o vazio, bambeie as pernas. Mais de 500 metros de abismo me espreitava de onde eu estava e se o olhar fosse mais adiante, essa altitude dobrava fácil, fácil. Claro que quando você escala de segundo a proteção é muito maior do que estar guiando, mas uma queda ali naquela curva significa levar uma vaca monstro, porque a corda vai fazer um pendulo no abismo e você vai ralar até os órgãos internos. Eu só pensava em não cair. Minhas mãos pareciam que tinham ventosas e eu sonhei ser uma lagartixa ou um calango. Enfiei minha mão embaixo da grande rocha e fui rastejando, me apoiando na fenda do diedro. Eu era quase um verme a me esgueirar pela pedra nua e gelada e nem me importava se meu nariz ia raspar naquela rocha áspera e muito menos me preocupava com a minha dignidade, essa eu já tinha perdido faz tempo. Quando consegui avançar um pouco mais sobre o diedro, percebi que ele foi se alargando e nessa hora minha vontade não era só de entalar as mãos, era de entalar minha cabeça. Como o Alexandre já havia retirado os camalot (equipamento móvel que se coloca nas fendas para dar uma maior segurança), só me preocupei em ir arrastando minha mão e retirando as costuras e quando vi, já estava de joelhos bem aos pés do Natan, que rapidinho me jogou para dentro da fenda, onde me encontrei em segurança e mesmo sem saber rezar agradeci por ter passado por aquele lance sem ter caído e fiquei aliviado por não ter que voltar mais por ali. (Só que não) Ali onde estávamos era a entranha da montanha, uma fenda gigantesca. O Natan enrolou a corda e desmontou o equipamento, aliás, fiquei impressionado de nossas vidas depender apenas de uma única ancoragem em um pino e isso me deixou muito espantado já que sempre ouvi dos mais experientes de que nunca se deve confiar em um só ponto e sempre é preciso ter pelo menos um outro como backup, mas depois descobri que deveríamos ter nos ancorado no arbusto mais alguns metros acima, mas acho que o Alexandre não quis nem saber, ao ver a grande fenda tratou logo de se jogar para dentro dela e acabar rapidamente com aquele sofrimento. Eu e o Natan fomos entrando para dentro da fenda que forma um corredor estreito e vai nos levar até o lance da grande chaminé. Por lá já estavam os outros três escaladores e surpreendentemente desta vez, o Alexandre se recusou a guiar e essa tarefa acabou sobrando para o Gersinho. Quando os três subiram, o Vinícius ficou com a incumbência de içar nossas mochilas e isso também nos fez perder outro bocado de tempo. Novamente fiquei por último e auxiliado pelo Natan, que era quem me dava a segurança, me apoiei nas duas paredes. Primeiro usei os pés para ganhar os primeiros metros e logo em seguida me entalei entre uma parede e outra. Eu jamais havia treinado subir uma chaminé com àquela altura e envergadura toda, mas fiquei pensando na infância quando a gente subia em batentes de porta e no corredor da casa da minha avó e aquilo não poderia ser diferente e com aquele pensamento, dei início a quarta enfiada. Mesmo com a corda de segurança vindo de cima, cair ali não seria nada bom, então me concentrei o máximo que pude e fui me elevando centímetro a centímetro, entalando todo o corpo entre as duas grandes paredes, alternado as pernas e quando parecia que eu poderia despencar, já apoiava os joelhos e travava tudo até pegar folego novamente. Mais uma vez, subi com muita facilidade nesse trecho de quase 20 metros, até finalmente poder ganhar uma rocha entalada no meio do vão e me posicionar em pé encima dela, aonde rapidamente retirei a costura que me dava segurança. O próximo passo é continuar subindo pela chaminé, mas agora como se fossemos sair fora da fenda e realmente é isso que vai acontecer. Logo de cara é preciso se elevar, subir um pouco e tentar alcançar um facão na parede esquerda, galgar esse facão numa diagonal e a partir de aí grudar as mãos no lado direito e os pés no lado esquerdo até sair da chaminé para descobrir que você está de volta ao grande abismo colossal novamente e saber que você não é ninguém diante da magnitude daquela montanha. A gente estava perdido naquele mundo de pedra, enfiados a milhares de metros do chão num pico lendário, na mais importante montanha do Brasil e aquilo era magico de mais. Perdemos a noção do tempo, praticamente quase não nos alimentamos, eu mesmo quase nem água bebi. A escalada estava correndo como imaginávamos até então, na verdade, tirando os medos de iniciantes, tudo corria numa normalidade que até me impressionava. Eu e o Natan recolhemos a corda e desmontamos os equipamentos e já nos enfiamos no próximo lance que nada mais é que mais uma fenda soberba, com mais uma chaminé de noventa graus, essa um pouco menor que a outra. Rapidamente o Vinícius pediu para que a gente se clipasse à corda e subíssemos. O Natan já encarou a chaminé com bravura e se juntou ao Vinícius. Sem perder tempo, dei logo início a mais essa enfiada, no caso a quinta. Aquela chaminé era das minhas, aquilo sim não diferenciava em nada dos batentes de portas da minha infância e eu poderia ter subido até de ponta cabeça, ainda mais por ser um lance curto de não mais que uns quatro ou cinco metros. Quando cheguei ao alto, já encontrei o Alexandre e o Gersinho procurando desesperadamente pela próxima linha de escalada. Fazia um frio do cão lá encima e estávamos sobre um amontoado de grandes pedras, com uma fenda gigante separando estas pedras das paredes principais que se estendiam em direção ao cume do Dedo de Deus. Já passava das cinco da tarde e o dia já ia se esvaindo por completo. O Alexandre e o Gersinho pareciam camundongos encima das pedras, correndo para lá e para cá à procura de saber para onde seguia o nosso caminho. Não foi uma cena bonita de se ver, não para mim que logo comecei a perceber que o Alexandre, ou não havia pego os betas desse lance, ou não estava conseguindo se lembrar das informações. Fiquei parado, imóvel, tentando processar o que estava acontecendo. Os caras tentaram ler o croqui da via, mas aquele era sem dúvida o croqui mais cretino que eu já tinha visto e pouco ajudava e quando o Alexandre gritou: “- Gente, vamos fazer o rapel, agora! ” Sem que a ficha caísse por completo, fiquei olhando para onde seria esse tal rapel, porque para mim só havia um caminho, que era em algum lugar tocando para cima. Nesse momento a conversa ficou quase “inaudível” e incompreensível para mim, principalmente quando o Vinícius já se posicionou para adiantar os procedimentos. Eu havia esperado por 20 anos para ter a chance de alcançar o cume daquela montanha lendária e na hora e dia que eu havia chegado a não mais que uns 20 ou 30 míseros metros do cume, os caras resolvem abandonar tudo e voltar. Quando compreendi o que estava acontecendo, minha voz mal conseguiu escapar da minha boca. Paralisado diante daquela decisão, quase que monocrática, não tive forças nem para responder quando o Alexandre pediu para eu ir procurar a continuação da via. Claro, ele notou a minha decepção porque estava mais que estampada na minha cara. Havíamos sentido praticamente o cheiro da escadinha de metal que nos levaria ao cume e der repente viraríamos as costas para a conquista e abraçaríamos o fracasso. O Natan e o Gersinho também pouco falaram e enquanto o Vinícius e o Alexandre papagaiavam palavras de consolo, seguimos atrás como a participar de um cortejo fúnebre. A minha decepção era tamanha que me deu vontade de descer aquela primeira chaminé sem cordas. Dei uma última olhada para cima e me senti como se tivesse chegado a poucos metros do cume do Everest e fosse obrigado a desistir. Desci a chaminé menor sem nem saber como, e logo me vi à beira do abismo, me amarrando à corda para fazer o rapel da chaminé maior. A noite já havia caído e agora nossos olhos eram auxiliados pelas nossas lanternas de cabeça, um ponto luminoso num mundo escuro e sombrio, encravados num dedo de rocha que por pouco não tocava o céu. A descida dessa chaminé foi aos trancos e barrancos, com mochila nas costas que foi enroscando em tudo que é pedra. Como estamos com duas cordas, o Alexandre e o Vinícius sempre iam à frente para adiantar o próximo rapel, mas tudo era lento e moroso, principalmente quando alguma das cordas enroscava em alguma fenda de rocha e aí era preciso um trabalho penoso para tentar liberá-las no escuro e depois enrolar. O vento e o frio haviam aumentado consideravelmente e a fome, o cansaço e o sono já faziam com que a nossa concentração fosse se desmilinguido aos poucos, por isso era preciso que cada procedimento antes da descida, fossem checados por todos os envolvidos na hora do rapel. Quando acabei de descer a chaminé, fiquei com a incumbência de enrolar a corda e leva-la comigo, mas eu já estava cambaleando de sono e aquele trabalho acabou se tornando um tormento, tanto que embolei tudo e dei um laço qualquer e sai puxando até atravessar o grande corredor que nos levou novamente na parada para o rapel da temida Maria Cebola. Ali estávamos nós novamente, bem no lugar aonde havia jurado horas antes nunca mais passar e para piorar as coisas, seria preciso enfrentar no escuro. Há uma recomendação pela maioria dos escaladores experientes de que uma vez escalado o lance da Maria Cebola, não tem mais volta, tem que subir e ir até o cume e agora seríamos obrigados a desconsiderar essa regra e mesmo com a maioria de principiantes, seria preciso encarar aquele mito de frente. Quando cheguei à borda do abismo, o Alexandre e o Vinícius já não mais estavam. O próximo a descer foi o Gersinho, mas infelizmente para piorar as coisas, que já andavam tensas faz tempo, a corda enroscou em alguma fenda na rocha e travou o coitado no meio da rampa. Como o vento soprava forte, a comunicação ficava quase impossível e por mais que se gritasse, nada se ouvia. Como o Natan era o cara que auxiliava ele na descida e eu ainda estava meio que socado no meio da fenda, coube a ele a incumbência de desenroscar a corda, seguindo os procedimentos que ele mesmo achou necessário. O Gersinho se foi. Agora sozinhos ali naquela parede sinistra, se encontravam dois arremedos de escaladores. Eu e o Natan nos vimos órfãos de ajuda e naquela escuridão de uma noite gelada de inverno, confabulamos algo, antes do próprio Natan se amarrar à corda e me abandonar à minha própria solidão. Na minha cabeça, o Natan levou uma eternidade para descer e me liberar a corda. Sentei-me na borda do desfiladeiro e fiquei olhando ao longe, vendo lá embaixo, milhares de metros aos meus pés, as luzinhas dos carros subindo e descendo pela rodovia. A solidão daquele lugar escuro me atormentava a alma, como nunca havia acontecido em nenhum outro lugar e olha que já passei dias e dias sozinho em outras travessias memoráveis. Eu tremia de frio, eu tremia de medo, de medo de não dar conta daquela descida, de medo de algo dar errado e não mais poder contar com ninguém. Estava extremamente cansado, tanto física como psicologicamente e quando senti que a corda havia afrouxado, percebi que havia chegado a hora de me desgrudar do meu porto seguro, que nem era tão seguro assim, porque nossa corda estava ancorada em apenas um único “P”, instalada do lado de fora da fenda, em um lugar à beira do abismo que dificulta até se ancorar nela. Me levantei de onde estava e alcancei a corda, tomando cuidado para não me desequilibrar. Me clipei, puxei a outra corda que eu havia enrolado porcamente e grudei-a com um mosquetão em uma das tiras da perna da minha cadeirinha, quis ficar com a cintura livre para melhor manusear a descida do rapel. Pronto, agora minha vida estava a se segurar por um único ponto e era somente eu e a pedra. Nunca fui nenhum escalador que prestasse, mas rapel nunca me preocupou, porque na década de 90 nos tornamos experts em descer cachoeira, pontes, paredes e abismos, mesmo que fosse com equipamentos toscos e com segurança sofrível. Mas ali era diferente, era uma espécie de rapel em curva, mais do que isso, era mais desescalada noturna, onde você tem que descer deitado na rocha, rastejando. E foi assim, como um verme, que eu iniciei a descida. Deitado de costas, mão esquerda na corda e mão direita cravada dentro do diedro. Me agarrei naquela rachadura e fui rastejando, minha mochila e minha calça quase que foram puindo na aspereza da rocha. Eu só pensava em não escorregar para o lado do abismo, eu só pensava eu jamais deixar minha mão direita se desgrudar daquela fenda e torcia para que as proteções deixadas pelos meninos pudessem fazer com que a corda não fizesse um pendulo no vazio. Quando cheguei à curvatura da montanha e levantei meus olhos em direção ao grande despenhadeiro, foi que me dei conta de que o pior já havia acontecido. Acabou-se a fenda e havia chegado a hora de me posicionar em pé nas bordas do vazio e foi aí que gritei o mais alto que eu pude: “- Segura essa porra dessa corda aí caralho, vou cair nessa merda! “ Nem liguei para as risadas que vieram lá de baixo, joguei-me na rocha e tentei grudar todo o meu corpo e se preciso fosse, teria me segurado com os dentes naquela curva maldita. Auxiliado pelo Alexandre, desescalei os metros finais porque nem rapel era possível fazer direito e quando apoiei os pés na grande árvore respirei aliviado. Se as desgraças eram vencidas em partes, uma desgraça a menos para nós vencermos. Faltavam ainda dois lances de rapel, dois longos lances entediantes e demoradas para descer, mas condicionei a minha mente para ir vencendo cada situação de cada vez e quando os rapéis acabaram no selado do Polegar, onde a trilha começa, tomei a frente e sem nem tomar fôlego, desembestei, descendo cabos e cordas como um chimpanzé de circo e 20 minutos depois reencontramos a trilha principal, pegamos para a esquerda e tocamos o pau para baixo. O Gersinho tomou à frente e eu fui no encalço dele, despencando pelos cabos de aço e desescalando onde era preciso até chegarmos novamente no grande paredão final, nos grandes cabos de aço, os últimos antes da trilha derradeira. Sem demora, eu e o Gersinho nos agarramos aos cabos e quase que deslizamos parede à baixo e foi muito melhor descer do que subir, mas o resto do grupo, capitaneados pelo Alexandre, inventaram de montar rapel para ir descendo pelos cabos, coisa que eu e o Gersinho não conseguimos entender qual era o propósito, porque a descida sem as cordas era tão rápida e tão fácil que acabamos achando excesso de preciosismo e desnecessária aquela manobra toda, mas, como cada um sabe das necessidades de sua segurança, nem nos pronunciamos, vai que os caras estavam tão cansados a ponto de realmente necessitarem desse procedimento. O certo é que eu e o Gersinho descemos toda a parede em menos de 15 minutos e como na parte final faltam uns 10 metros de cabos, que deixaram de instalar de propósito para que somente quem escala tem acesso à montanha, tivemos que nos prendermos no cabo e esperarmos os meninos, já que as duas cordas estavam com eles. Esperamos uma eternidade, esperamos tanto que nós dois chegamos a dormir por um momento e quando acordei, minha penha esquerda havia dormido de vez por estar presa a cadeirinha, dificultando a circulação do sangue. Somente uma hora e meia depois é que eles conseguiram se juntar a nós e todos juntos descemos de volta à Toca da Cuíca, finalmente no início da trilha que nos levaria de volta ao asfalto. Reunidos na toca, aproveitamos para um gole de água e para morder alguma coisa. Sentados ali, estavam 5 homens destruídos de sono e de cansaço, mas como a desgraça não tem hora para acabar, o Alexandre puxou a fila da trilha e cada qual foi seguindo em silêncio, na sua labuta e no seu martírio individual e vez ou outra se ouvia um grito e um gemido de indignação contra aquele maldito caminho que nunca chegava ao fim. Uma hora depois tropeçamos no alambrado e na placa que marcava o início da trilha e finalmente ganhamos o asfalto, estávamos de volta à civilização quase que pontualmente a meia noite, dezenove horas depois de termos iniciado aquela aventura, 19 horas de caminhada, escalada, perrengue, sono, frio, fome, cansaço e deslumbramentos. A comemoração foi tímida, eu mesmo ainda estava chateado por ter desistido tão perto do cume, mas a maioria estava mais para zumbi e poucas forças nos havia restado para abraços calorosos e comemorações exacerbadas. Cambaleando de sono, fomos subindo pelo asfalto a fim de vencermos esse km final até onde havíamos deixado o carro, mas uma coisa nos chama a atenção naquela noite gelada. Ao olhar para trás e ver a imponência do grande DEDO DE DEUS (1692 m), com sua torre atingindo o céu, não nos restou dúvidas de que aquele monstro rochoso é de longe a montanha mais fantástica e bonita do Brasil e foi muito justo ter ganhado o título de berço do montanhismo nacional. Meia hora de caminhada no asfalto nos levou de volta ao carro e depois de um breve cochilo, 2 da manhã nos enfiamos no veículo e fomos cumprir a parte final desta aventura maluca, que foi a de dirigir por mais 8 horas até São Paulo, onde chegamos às 10 horas da manhã da segunda-feira, prontos para enfrentar outra batalha cruel, voltar a rotina e ao trabalho. Quando estava praticamente com os pés no cume e recebi a notícia de que voltaríamos, pensei comigo: Lá se foi a minha única oportunidade de ascender ao topo daquela lendária montanha, talvez eu já estivesse velho demais para retornar, talvez eu nunca mais conseguisse me juntar a outra “expedição” como essa, com gente disposta a ter paciência com escaladores novatos e por isso mesmo, senti uma decepção maior que a imponência daquele dedo divino. Minha decepção foi tamanha que naquele momento pensei em nunca mais me aventurar na escalada, mas não se passou nem 2 dias para que meus pensamentos se voltassem novamente para aquela serra e com a cabeça fria, o corpo descasado e a mente em paz consegui enxergar o quão importante foi aquela aventura, o quão importante foi aquele aprendizado. O Alexandre foi um monstro tão grande quando aquela pedra por ter guiado aquilo tudo, sem nunca ter estado lá. Todos os outros companheiros de aventura se esforçaram bravamente para que a gente conseguisse subir e descer com segurança e só não chegamos ao cume por um pequeno detalhe. Hoje sabemos que o tal Passo do Gigante estava ali na nossa cara, mas o tempo nos barrou a conquista. Mais uma vez o Dedo de Deus não permitiu que eu o conquistasse por completo, mas não está longe o dia em que nós iremos desafiá-lo novamente e desta vez vamos pegá-lo desprevenido e quando ele menos perceber, já estaremos com os pés na sua goela. Divanei Goes de Paula –
  9. Carina Não sei, deixemos o tempo passar, por hora o que eu quero é distancia de lá. Um dos lugares mais incríveis do Brasil em se tratando de montanha, uma vista espetacular de um dos lugares mais bonitos deste país , mas é um preço muito alto que se paga para chegar lá, até hoje ainda não curei as feridas, rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrrs
  10. DEIXO O LINK PARA O VÍDEO DA EXPEDIÇÃO ; https://aventurebox.com/divanei/pico-desmoronado-a-conquista-inedita-do-cume-da-jureia/videos
  11. Deixo aqui o Link para o videozinho da Expedição que depois dessa chegou ao Cume da Serra dos Itatins, no topo do PICO DESMORONADO. https://aventurebox.com/divanei/pico-desmoronado-a-conquista-inedita-do-cume-da-jureia/videos
  12. As fotos estarão na minha pagina do facebook : Divanei Goes de Paula
  13. Aí mano, vocês são malucos por acaso ? Não seria mais fácil descer para a praia de "busão" , fizeram tudo isso pra economizar 30 conto ? rsrsrsrsrsrsr
  14. DESMORONADO : Conquista inédita do Cume da Serra dos Itatins-Juréia Foi na madrugada gelada de início de inverno que aquele titã rosnou. Acampados naquele selado úmido e congelante, três homens se espremem em suas redes e são testemunhas do grito do gigante que lhes assombra até a alma. Eles estão a poucas horas de alcançar, não só a maior montanha da Serra dos Itatins-Juréia, mas uma das maiores montanhas de toda a cadeia que compreende a parte litorânea da Serra do Mar Paulista. O vento uivava no cume do DESMORONADO, o barulho fazia estremecer a montanha e era como se o monstro tivesse a nos dizer que não se entregaria facilmente. Foi no início dos anos 2.000 que eu tive o privilégio de botar os olhos naquela cadeia de montanhas. Estava acompanhado de um primo, tentando realizar a travessia pelas praias selvagens da Juréia. Havíamos partidos de Peruíbe com destino a Iguape e já naquela época era preciso enfrentar a fiscalização ferrenha que fecha a passagem pelas praias e foi justamente da Praia do Una que vi meu queixo cair diante daquela cadeia rochosa que cercava todo aquele paraíso, em uma das áreas mais preservadas e fantásticas do planeta. Naquela época não existiam mapas de satélite, não como hoje e eu nunca fiquei sabendo como se chamavam aqueles monstros rochosos que se erguiam no meio da grande floresta paulista. Foi preciso que se passasse 15 anos para que meus olhos se voltassem novamente para aquele lugar, justamente quando sem querer me deparei com um tal Dedo de Deus Paulista e daí para frente me enterrei em estudos de cartas topográficas, imagens áreas e caminhos selvagens. Em 2015, juntamente com outros exploradores, tivemos a honra de reabrir a trilha que levava ao Dedo de Deus e no começo desse ano, outra expedição nossa, inédita, ascendeu ao cume do MORRO DAS TRÊS PONTAS, aonde alcançamos pela primeira vez o topo do Pico Motchaka. Mas uma coisa sempre me intrigou, o Dedo de Deus Paulista era uma montanha lendária, mas seus 1.333 metros estava muito longe de ser realmente o cume da Serra dos Itatins-Juréia, muito porque, as cartas mostravam que a nordeste dele, longe, mas muito longe de qualquer lugar habitado, existiam picos gigantes que poderiam passar de 1.400 metros de altitude. Comecei então a devassar toda a internet a procura de mais informações, mas como internet é uma coisa recente, também procurei me informar com outros exploradores das antigas, conhecedores da região. Debulhei materiais antigos e revistas do gênero, pesquisei em mapas de tudo que é lugar, me enfiei de cabeça em tudo que era artigo relacionado àquela serra e para minha surpresa, foi como se praticamente aqueles cumes nunca existissem. Já há vários meses eu vinha me dedicando àquele ofício, um trabalho paciente de pesquisas e observações de mapas de satélites e foi aí que senti minhas pernas tremerem ao perceber que aquele cume perdido naquela serra esquecida poderia também ser um dos maiores cumes de toda a faixa litorânea de toda a Serra do mar do Estado de são Paulo, já que algumas altitudes no litoral norte, se encaixavam somente no Parque Nacional da Serra da Bocaina. Vi que alguns picos se destacavam pela sua altitude, como o Cuscuzeiro 1280 m, o Corcovado de Ubatuba com 1180 m, a Pedra da Boracéia em Bertioga com 1250 m e o maior de todos eles, o Pico São Sebastião, em Ilha Bela, com impressionantes 1370 metros aproximadamente, mas nenhum deles passavam nem perto dos gigantes das Serra dos Itatins, na Juréia. Diante de toda essa informação, não havia mais nada o que fazer, era hora de montar uma expedição de gente grande e ir lá naquele fim de mundo e tirar a dúvida. Então comecei a me concentrar nas pesquisas específicas. Bom, primeiramente encontrei nas cartas, dois possíveis picos que poderiam se tornar o cume da Serra, sendo que um deles já de cara me dizia que estava acima de 1.400 metros e outro, um pouco mais bicudo e a sudeste deste, estava muito próximo disso. Só que existe um grande porem: naquela região vários picos contam com torres rochosas nos seus cumes e infelizmente a carta topográfica não consegue identificar esses espigões de pedra, inclusive o próprio Dedo de Deus Paulista não passa de 1.100 metros, tanto na carta, quanto no satélite e todo mundo sabe que ele é 200 metros mais alto que isso. Então não havia o que fazer, tínhamos que montar uma estratégia e estarmos preparados para escalarmos os dois picos, caso nos deparássemos com esse tipo de torre no pico mais à sudeste, a uns 2 km do primeiro. Outro fato que é necessário relatar é que esses dois picos em primeiro plano não pareciam oferecer uma coisa muito importante para atrair qualquer montanhista para o seu cume e talvez esse fosse um dos grandes motivos de ter se mantido virgem até aquele momento. Quem em sã consciência se meteria a enfrentar um vara-mato por dias para chegar ao seu cume e não enxergar coisa alguma? Pois é, esse também era o grande problema para atrair mais algum trouxa (opsss, montanhista) que pudesse acreditar naquele projeto. Ai que veio o pulo do gato! Nos estudos encima do mapa de satélite localizei um grande desmoronamento que rasgava a montanha por uns 200 metros bem ao lado do cume, sendo que no mapa, parte deste deslizamento gigante, se precipitava no vazio da parede por quase 100 metros e isso, na minha cabeça, era visual certo de todo a parte sul da serra, justamente a que nos daria vistas para todos os grandes picos e do litoral de toda a Juréia. Escolhido o grupo a dedo, geralmente os mesmos retardados de sempre, que se metem nessas enrascadas, havia agora chegado a hora de chegarmos num consenso de onde partiríamos. Já era nítido e notório que partir lá do litoral era coisa impensável, não só pela logística quase impossível, mas também porque jamais conseguiríamos uma autorização da administração da Juréia para podermos subir, então uma coisa era certa: a expedição deveria partir de Pedro de Toledo, a cidade mais perto do acesso norte da montanha, praticamente longe da reserva e sem as necessidades burocráticas.. Mesmo assim, ainda teríamos que conseguir uma autorização de alguma fazenda, onde seus administradores não são muito afeitos a forasteiros transitando por suas terras e plantações, geralmente de bananas. Por isso mesmo tratei logo de montar pelo menos três planos diferentes, todos perto um do outro, mas saindo de três fazendas diferentes, tudo para garantir uma boa chance de conseguirmos passagem livre. O plano principal era partir de uma fazenda de bananas exatamente a 10 km de Pedro de Toledo, bem às margens da Estrada do Despraiado. Sabíamos que o mais sensato erámos ter ido ao local e conseguir essas autorizações previamente, mas a distância e a falta de tempo nos fizeram abortar essa parte do plano e então decidimos que isso teria que ser resolvido tudo na hora mesmo. Montada a estratégia, escolhemos o feriado de junho onde poderíamos desfrutar de 4 dias para tentarmos lograr êxito, mas quando esse dia chegou, os possíveis integrantes começaram a debandar um a um, alguns por motivos de trabalho, outros por motivos ignorados e alguns talvez não tivessem convictos de que realmente essa expedição pudesse mesmo valer a pena diante do esforço fora do comum a qual ela se apresentava. No fim acabaram sobrando apenas eu e o Natan Sanches, número insuficiente para pôr em pratica tamanha grandeza expedicionária. Foi aí que de última hora arrumamos mais um sem noção para encarar o gigante de frente e foi assim que se juntou a nós, Paulo Potenza e o grupo se completou não com o que tinha de melhor, mas com o que tinha disponível, ( rsrsrsrsr). Parti de ônibus para capital Paulista, onde esperaria no terminal rodoviário do Tietê pelo carro do Natan. O local combinado era nada mais nada menos que a boca do lixo da rodoviária, onde transeuntes, prostitutas, pinguços, travestis, nóias, drogados, mendigos, ladrões e outros vagabundos em geral fazem do local, seus lares e eu, menino vindo do interior, fui apresentado à anti-sala do inferno e foi bom para eu ir me acostumando com o que estava por vir. Logo que o carro chegou, pedi licença ao capeta e me retirei daquele antro em direção à Pedro de Toledo. O Natan sentou a bota no acelerador, sempre contando com seu copiloto preferido, Potenza, que ia passando as marchas no tempo certo e, rapidinho, já nos vimos passando em frente à entrada da cidadezinha do Vale do Ribeira, onde logo à frente, numa pequena rotatória, viramos para a direita, andamos 5 km e viramos à esquerda na pracinha do vilarejo de Três Barras, caindo assim na famosa Estrada do Despraiado. Passamos encima da ponte sobre o Rio do Peixe e 5 km depois do povoado, estacionamos em um recuo da estrada, bem em frente da fazenda que havíamos marcado no mapa, com a ajuda do traklog previamente traçado. Já passa das 2 horas da manhã e é claro que nós não iríamos incomodar os moradores da fazenda àquela hora da noite, na tentativa de obtemos uma autorização para passar e o jeito foi nos acomodar dentro do carro mesmo até que o galo cantasse, nos avisando que mais um dia havia nascido. Estávamos ali, bem em frente da Fazenda Primavera e o que mais nos alegrava era que se tratava de um lugar extremamente simples, até pobre, se comparado a outras entradas que havíamos passado, tanto que nem porteira havia, apenas uma tosca ponte de tronco sobre um pequeno afluente do Rio do Peixe. Quando o sol se levantou, fizemos o mesmo e assim que o ponteiro marcou sete horas, atravessamos a ponte desmontados e fomos tentar mendigar uma autorização para passar. Atravessamos a pontinha de troncos e duzentos metros à frente nos deparamos com um galpão aberto e uma casa simples, onde um cão preguiçoso nos olhava com cara de poucos amigos. Vimos logo que seus moradores ainda dormiam, então nos adiantamos até outro casebre, onde um senhor negro e sem calças se apressou para se recompor diante da nossa inesperada aparição. Fomos recebidos pelo seu Osvaldo, caboclo local que residia naquele lugar a mais de 25 anos. Contamos-lhe nossas intenções, mas o nativo pouco entendeu o que pretendíamos fazer. Ele coçou a cabeça, pensou, pensou, quis perguntar algo, mas deixou quieto, apenas disse que a estrada de 3,5 km que pretendíamos usar para ganhar uns 500 metros de desnível, estava totalmente interditada para carros e hoje não passava de uma trilha um pouco mais aberta. Para nós não importava, claro que se pudéssemos economizar duas ou três horas de caminhada dura, seria muito melhor, mas o grande objetivo, um dos principais para o sucesso daquela expedição era conseguirmos a autorização para seguir e isso acabava de ser dada, primeira etapa do projeto: efetuada com sucesso. Guardamos o veículo junto ao galpão, jogamos as mochilas nas costas e partimos. E já partimos em grande estilo, sempre subindo e alguns minutos depois passamos por uma bica de água e como já estávamos com o cantil abastecidos, passamos batido. A estrada/trilha vai serpenteando montanha acima sempre cruzando no meio de enormes bananais e quanto mais subíamos, mais as vistas se alargavam. Depois de uns 2 km chegamos à uma bifurcação, onde um rancho de lona azul é encontrado. Nesse ponto já estamos a 500 metros de altitude e nessa bifurcação pegamos o caminho da direita que vai se enfiando no meio da floresta, onde a estrada embica para cima de vez e vamos percorre-la por mais 1,5 km até que finalmente tropeçamos num casebre abandonado e ali paramos para um breve descanso antes de darmos início a expedição selvagem. Estamos na cota dos 700 metros de altitude e o Natan e o Potenza, vendo que haviam exagerado com o peso nas mochilas, resolveram refazer suas estratégias, tocar o foda-se e deixar parte da comida e alguns agasalhos no casebre e eu, como não havia nada para tirar, tive que me conformar e amargar um peso de mula andina nas minhas costas. Às dez e meia da manhã abandonamos de vez aquela choupana velha e quando nossos pés tocaram de volta o caminho que nos levaria ao início do grande vara-mato, já tínhamos consciência que havíamos entrado num caminho sem volta. Mais 100 metros à frente outra bifurcação nos faz pegar o caminho da direita, agora nos enfiando no meio do bananal abandonado onde nossas botas já empapam num brejo dos diabos e isso vai durar por uns 10 minutos até chegarmos na entrada da floresta, onde o vale do Rio do Peixe se apresenta para ser cruzado, hora de parar novamente e rever o plano traçado, estudar os mapas, calibrar o GPS, pedir proteção para o Curupira e para que os deuses tenham piedade das nossas almas. Nessas expedições, sempre traçava o caminho me valendo do satélite, mas desta vez, já muito mais experientes nesse tipo de mapeamento, decidi juntar satélite com carta topográfica, traçando o caminho minunciosamente, metro a metro, curva a curva, estudando cada linha, cada desnível, cada possibilidade, cada caída do terreno, tudo isso para que a gente conseguisse nosso objetivo com menor esforço, sem ser jogado contra abismos ou paredões intransponíveis. Foi um trabalho longo e de paciência, mas aquela expedição ia nos mostrar que mapa é uma coisa e comer bambu espinhudo, é outra. ( rsrsrsrsrs) Primeiramente não havia o que fazer, se não despencar até o fundo do Vale do Rio do Peixe, encher os cantis e subir novamente a outra margem para dar de cara com uma rampa inclinada, que nos indicava que ali era o sopé da montanha, num emaranhado de bambu, cipó, taquaras e outras vegetações plantadas pelo cão, para impedir a passagem de bisbilhoteiros. Calibramos a direção a seguir, no caso para cima mesmo e dei início ao vara-mato, pouco antes dos nossos relógios marcarem onze horas da manhã. Já de cara foi preciso colocar o joelho na boca por causa da inclinação, mas não se passou nem dez minutos para eles aparecerem no nosso caminho. Os malditos bambus com espinhos parecidos com anzóis foram os primeiros que tentaram nos barrar e para piorar, eram bambus deitados, que nos faziam rastejar feito vermes. Eu estava à frente e para minha infelicidade, havia esquecido minhas luvas e portava apenas uma camiseta e até o final daquela sessão de tortura, pagaria o preço pela minha ousadia, ou burrice. Quando a gente pensou que poderia estar vencendo os bambus espinhudos, fomos golpeados pelos cipós navalha, aquele que passa no pescoço e você acha que vai cortar até a sua jugular. As taquarinhas agarravam na gente, os cipós enroscavam nas mochilas, as bromélias furavam nossas calças, os espinhos dos bambus enfiavam na pele até o sangue escorrer pela pele, era um passo para frente e dois para trás. A caminhada não avançava, a vegetação ia enervando a gente de uma tal maneira que as vezes parávamos e ficávamos inertes, meio que a contar até dez para não explodir de tanta raiva. Foi nessa hora que nos demos conta do tamanho da enrascada que tínhamos pela frente. Quando conseguimos finalmente passar pela porta do inferno, do outro lado saiu um homem todo retalhado e ensanguentado e foi aí que tive que abrir mão de um agasalho de mangas comprida, na tentativa de minimizar o estrago que já havia sido feito pela vegetação. Deixado o caminho espinhoso para trás, o terreno melhorou, mas a inclinação continuava a mesma e logo quando chegamos a que nos pareceu meio com um bosque, paramos para um descanso providencial e um gole d’água, foi aí que um barulho fez com que a gente tremesse as pernas: Estávamos bem próximos de um enxame de vespas e era nítido e claro o som dos seus zumbidos. O Natan e o Potenza ficaram ainda mais assustados com a presença dos insetos, mas quando um barulho de porco ressoou na floresta, nós três já nos viramos e sem pensar muito, nossos olhos já tentaram localizar uma arvore para subir, porque ali ninguém queria virar presa de queixada ou mesmo de algum javali, mas felizmente, do mesmo jeito que veio, o som sumiu sem deixar rastro. O enxame de vespas abreviou nosso descanso e achamos melhor sair dali o mais rápido possível e então voltamos para o ofício de varar mato no peito. Quando tracei aquele roteiro, procurei evitar de ir até o cume daquela primeira montanha, mesmo porque, teríamos que descê-la novamente até o grande selado que nos serviria de “ponte” para passar entre duas gargantas afim de alcançarmos outra montanha, mas infelizmente ter desviado a rota desse primeiro cume acabou por se tornar um grande erro, porque acabamos ficando nos equilibrando numa curva de nível a uns 1.150 metros bem na encosta da serra. Não que o declive fosse assim tão perigoso de se caminhas, bem longe disso, mas a vegetação que se apresentou à frente nesse trecho nos fez mais uma vez comer bambu e todo tipo de vegetação espinhuda novamente. A gente não avançava nada e toda hora a vegetação acabava nos afastando do trajeto planejado, nos fazendo ziguezaguear hora para cima, hora para baixo. O dia foi passando e a gente enroscado naquele terreno e nossa água foi acabando e sem perspectiva de molhar a garganta com abundância. Foi aí que começou a surgir nas nossas cabeças as dúvidas sobre que rumo aquela expedição poderia tomar se não encontrássemos água no tal selado que havíamos vislumbrados a possibilidade de encontrar o tal liquido. Se não houvesse água ali, estávamos perdidos. A cada pequeno vale que descíamos e víamos que estava seco, fazia com que nossa decepção aumentasse. Ficamos envolvidos naquele vara-mato sobre a mesma curva de nível por quase duas horas e quando o terreno começou a nos jogar para baixo, sem nem percebermos que havíamos nos afastados da rota do GPS, foi aí que nos deparamos com um primeiro filete de água e mais abaixo ela jorrou aos montes e as caras carrancudas até então, se abriram num sorriso de alegria e felicidade. Mas aquela pequena nascente não era somente mais uma das milhares de nascentes que se encaminham para os vales para formar os rios da serra, era simplesmente a principal nascente que forma o GRANDE RIO DESPRAIADO. Era ali, exatamente naquele lugar que ele nascia e nós erámos provavelmente as primeiras pessoas que se tem notícias a botar os olhos na sua nascente, mas isso pouco importava naquele momento. Diante naquele achado, estávamos de volta ao plano principal, que era o de botar os pés no cume da Serra dos Itatins-Juréia. Bebemos o tanto de água que aguentamos e cada um colheu uns três litros. Ainda era umas três da tarde, mas a luz da floresta já começava a sumir. A gente ainda estava tentando chegar ao tal selado, muito porque à nossa frente se apresentou um grande abismo sem fundo, por onde o Rio Despraiado daria seus primeiros passos e para a gente não havia outra alternativa senão a de encontrar esse caminho, que nos levaria para o outro lado, servindo de passagem natural. Logo notamos que estávamos bem abaixo do selado, já envoltos na garganta e então calibramos nossa rota e começamos a ganhar altura para valer, mas era impressionante como não avançávamos de jeito nenhum. A gente subiu, subiu, depois começou a descer até que encostamos em outra grande subida à nossa frente e como era o Natan que fazia o ofício de navegador, pensei que havíamos chegado ao selado e ele havia tocado em frente, já que eu ainda tinha uma leve esperança de chegarmos o mais perto possível do Pico Desmoronado. Mas quando vi que ele fez um desvio da parede e começou a descer de novo, fui obrigado a interpela-lo o porquê da mudança de rota. Para minha surpresa e do Potenza, ele logo nos disse que ainda nem tínhamos chegado ao selado e que também não aguentava mais aquela vegetação. Foi preciso mais quase meia hora para que finalmente desembocássemos no Grande Selado, a 1.200 metros de altitude, uma área linda, plana e com grandes árvores espaçadas. Nossos relógios já estavam prestes a marcar quatro horas da tarde e eu queria me apressar e conseguir uma área para acampar e para isso só nos restaria umas duas horas antes que a noite chegasse de vez, mas o Natan e o Potenza me encostaram à parede: Diante daquele belo selado, eles não queriam mais arredar os pés dali, indo adiante num caminho incerto, subindo a nova encosta da montanha sem nenhuma perspectiva de encontrar uma área descente para acampar. De certo modo eles tinham razão, mas me intrigava ter que deixar de aproveitar mais duas horas, que poderiam talvez comprometer o seguimento da expedição, além do mais, tinha a questão da água. Se acampássemos ali, gastaríamos parte da água para preparar a janta, mas se subíssemos por mais duas horas, poderíamos saber se teríamos mais água perto do cume e se não houvesse água alguma, ainda teríamos a chance de economizarmos o máximo possível, revendo nossas logística, o que nos daria uma chance maior de sucesso. Não houve conversa com os dois e os argumentos deles eram imbatíveis: Estávamos sem dormir, cansados, famintos, todos estropiados pelos espinhos e pela caminhada dura até ali. Diante disso, não houve o que fazer, joguei logo minha mochila ao chão e demos por encerrado aquele dia de caminhada, hora de montar acampamento, cozinhar a janta e descansar os esqueletos. Em cinco minutos minha rede estava montada e decidimos que enquanto eles montavam os toldos para proteger nossas camas de mato, eu sairia à procura de outra fonte de água, porque com água disponível também ali no selado, poderíamos usufruir de um conforto muito maior. Na carta estava claro que em cada lado do grande selado nascia um rio, que iam tomar direções opostas. Primeiro tomei a direção leste, me dirigindo para o vale da esquerda de quem almeja ir ao cume da serra. Desci por uns duzentos ou trezentos metros, mas nada encontrei. Voltei para o acampamento e tomei a direção oeste, meio que me dirigindo para outra possível nascente do rio Despraiado(Espraiado na carta). Também desci por quase uns duzentos metros e quando já estava por desistir, avistei o reflexo da luz numa pequena poça no fundo do vale. Bingo! Voltei e dei a notícia para a galera, que logo se alegraram com a possibilidade de termos uma janta descente. Eles ainda estavam no ofício de montagem de redes e tenda e como não precisavam da minha ajuda, aproveitei para esticar as costas na minha rede e acabei apagando, vindo a acordar somente uma hora depois para me deparar com os mesmos caras, tentando montar as mesmas tendas e as mesmas redes, isso que dá não ter lido o manual antes de sair de casa. ( rsrsrsrsr) Fazia um frio de rachar, e a noite prometia esfriar mais ainda. Estávamos todos exaustos e após prepararmos a janta, cada um pulou para sua rede e foi tentar se aquecer como deu. Mas foi de madrugada que ele começou. Uma rajada de vento varreu toda a montanha e era ensurdecedor o barulho do vendaval que açoitava o cume do Desmoronado. No vale onde estávamos, parecia que as árvores tombariam encima da gente. Os urros do vento no alto da serra eram assustadores, como um dos meninos disseram: “Parecia que a própria montanha sairia caminhando e arrastando tudo que havia pela frente”. O Urro do titã perdurou por algum tempo ainda e a temperatura despencou de vez, mas quando o dia nasceu, tudo se acalmou e a gente pulou cedo da cama, vestimos nossas armaduras e nos fizemos prontos para enfrentar o desafio final, havia chegado a hora da conquista e para isso tínhamos que pôr a faca nos dentes e como D. Quixote, encarar o gigante de frente. Desmontamos tudo, tomamos café, colhemos água e partimos. Logo de cara temos uma parede íngreme para subir, mas no início até que a vegetação ajudou, mas não demora muito já estávamos lá nós de novo a comer bambu e a brigar com cipós, taquaras e bromélias espinhudas. Logo na primeira hora de caminhada, o caminho nos leva direto para um grande deslizamento, aonde uma grande parede de rocha nua, nos presenteia com a primeira visão de todo o vale e as montanhas que se entendem em direção de Itariri. Até então a gente havia tomado a direção sudeste e a partir do selado, nosso caminho fez uma curva bruscamente para o sul, ande teríamos que galgar quase todo o cume arredondado da próxima montanhas para aí sim, nos virarmos de vez para o leste, até tentarmos atingir o cume da serra. A pernada então continua para o alto, avançando lentamente, um pé à frente do outro, eu sempre na dianteira, revezando com o Potenza a dura tarefa de abrir mato no peto e o Natan fazia a parte mais importante, que era a de fazer com que a gente nos mantivéssemos o mais próximo possível no caminho previamente traçado no mapa. É uma navegação praticamente às cegas, sempre tendo que confiar no GPS do celular, mas como a vegetação não estava nem aí para tecnologia, insistia em nos mandar para onde ela queria e logo nos víamos longe da linha traçada, tendo que recalcular nosso rumo e procurar um terreno e uma vegetação mais favorável para podermos passar. Finalmente umas três horas depois de partirmos da área de acampamento, interceptamos outro grande desmoronamento que havíamos traçado no mapa. Era uma rampa inclinada, uma parede de barro de uns 100 metros ou mais, um rasgo na montanha. A chegada à RAMPA DA SERPENTE nos anima muito porque realmente é duro ficar arrastando uma floresta no peito sem um pouco de sossego e isso tende a nos deixar com os nervos à flor da pele. Aproveitamos o caminho desimpedido para ganhar altura e distância, mesmo tendo que escalaminhar o barranco. Ao chegarmos ao seu topo foi preciso passar com cuidado porque uma jararaca velha e gigante nos olha com cara de reprovação e põe a língua de fora, como a zombar da nossa cara por estarmos ali naquele fim de mundo, naquela terra onde somente os bichos rastejantes se atrevem a ir. Saímos pelo lado direito da rampa da serpente, subindo o barranco e nos enfiando por baixo de mais bambus. A nossa rota indicada pela linha do navegador, nos dizia que deveríamos seguir em frente, mas para escapar de mais uma vegetação fechada, resolvemos subir um pouco para a esquerda, haja vista que logo interceptaríamos o caminho que teria que fazer a sua grande curva para a esquerda. Esse trajeto nos deu a oportunidade de, através de uma janela na mata, podermos botar nossos olhos na montanha que almejávamos, mas o pico nos pareceu tão alto que chegamos a duvidar que seria mesmo o pico que buscávamos. A gente já tinha quase certeza que o pico a Sudeste do Desmoronado era muito mais baixo, mas visto de um ângulo diferente, ele era meio bicudo, então isso nos fez crer que poderíamos estar olhando para ele, mas nos enganamos bonito. Voltamos a ganhar altitude e o terreno melhorou bastante e quando estávamos quase no topo de mais um morrote, atravessamos uma floresta de bromélias e passamos o mais rápido possível, já que são conhecidas como camas de jararaca. Daí para frente foi uma descida alucinante até o fundo do vale, tendo que fazer uma descida controlada para não nos tornarmos vítima da força da gravidade e irmos parar com a fuça no leito de um riacho que aliás, nos fez mais uma vez sorrir de felicidades pela água encontrada. Nosso caminho bordejou o rio por algum tempo até que do nada e sem percebermos, um grande descampado surgiu à nossa frente, mas até então não sabíamos do que se tratava, estávamos confusos. Era como se uma grande enchente tivesse passado por ali e arrastado todas as árvores. Nosso GPS dizia que o tal desmoronamento que buscávamos estava perto, mas não conseguíamos ver coisa alguma. Onde estava a borda da serra? Porque ainda não conseguíamos ver o litoral? Será que o GPS havia parado e nos deixado na mão justamente ali? Atravessamos o grande brejo que à nossa frente se apresentou, mesmo sem saber se aquele era mesmo o caminho. Pulamos grandes troncos até que surpreendentemente demos de cara com uma prainha de rio que se estendia para o leste, numa fenda em forma de vale, gigantesca e inesperada. Paramos ali para respirar um pouco, descansar e comer algo, mas não por muito tempo. Logo nos levantamos e ainda totalmente desorientados, saímos a navegar meio sem rumo e quando o nosso navegador percebeu, já estávamos quase a cair nos abismos profundos das encostas daquelas paredes. Havíamos saído completamente da rota e tínhamos andado perpendicularmente ao caminho traçado, foi aí que caiu a nossa ficha: Aquele grande vale era nada mais nada menos que os grandes desmoronamentos que havíamos encontrado no mapa de satélite e que , por incrível que pareça, não se estendia pela parede que deveria cair no abismo colossal da serra e não passava de uma vale formado por um riacho, com os tais desmoronamentos convergindo para o centro do vale, o GOOGLE EARTH , acabava de nos dar um tombo gigantesco, com um erro grotesco no mapa de satélite, uma distorção impensável. Percebendo o erro no mapa, agora sabíamos que nosso caminho deveria seguir por dentro do grande vale, subindo o riacho até a sua nascente por uns 200 metros. Até tentamos fazer isso, mas como em um primeiro momento o terreno se mostrou quase impassável, resolvemos bordejar pela direita, varando mato e quando vimos que o riacho começou a correr livre dos troncos e capim alto, pulamos para o seu leito e fomos subindo até que ele acabou na sua nascente principal, encravada entre dois desmoronamentos monstros, um a esquerda e outra à direita, justamente a última rampa que nos levaria para a conquista final. Aquela era sem dúvida a nascente mais alta de toda a Serra dos Itatins, um veio d’água a quase 1.400 metros de altitude. Nós paramos ali para tomar um último gole e enquanto a gente se fartava, ficamos meio em silêncio e aí me veio à cabeça que poderíamos ter enfrentado um dos piores terrenos de todo o Estado e chegando ao cume, não conseguir ver coisa alguma, só mato e mais mato. Valeria pela conquista inédita, claro, mas a gente sabe muito bem o que todo montanhista busca no cume de uma montanha. O dia já ia lá pelas três horas da tarde quando a gente acertou o azimute do nosso roteiro para ir em direção ao cume e o nosso caminho passaria mesmo por escalar a grande parede do desmoronamento, uns 100 metros de escalaminhada em um terreno solto, onde as pedras rolavam só de olhar para elas. A subida foi lenta, devagar, cada qual no seu ritmo, como se cada um fosse alcançar seu próprio Everest e quando todos chegaram no alto, já novamente na borda da floresta, nos juntamos para novamente varar mato e tentar encontrar, com a ajuda do gps e da elevação do terreno, onde seria o cume daquela serra. Subimos o barranco e para variar, como não poderia deixar de ser, enfrentamos um pouco mais de bambus e cipós. Tudo ao nosso redor era mato e era até difícil encontrar onde estaria o ponto mais alto, mas quando chegamos ao local indicado pelos nossos equipamentos de localização por satélite, ficou claro que uma grande árvore, que nasceu justamente em uma pequena elevação marcava o CUME DO DESMORONADO. Não, nessa hora não houve qualquer comemoração, na verdade, da minha parte houve foi um pouco de frustação por até então não conseguir as grandes vistas do qual fui buscar. Mas a gente havia se dado conta de que acabávamos de realizar um grande feito, naquele dia 16 junho de 2017, finalmente alguém havia jogado luz num enigma que perdurava por muito tempo, o ponto mais alto da SERRA DOS ITATINS-JURÉIA acabara de ser conquistado, agora o cume daquela serra esquecida já poderia constar nos mapas geográficos do Estado de São Paulo e o nome acho que não poderia ser mesmo outro, fazia menção ao acidente geográfico que marcava sua localização. Ainda teríamos que auferir sua altitude, pelo menos uma altitude aproximada e bem próxima do real, mas antes era hora de ir atrás do bônus da conquista. O cume da serra incrivelmente fica bem nas bordas de uma parede de quase mil metros de desnível, sendo uns 500 ou 600 metros de uma parede de noventa graus de inclinação, em um dos maiores abismos colossais da Serra do Mar Paulista. E tudo isso a não mais que míseros dez metros do cume. Hora bolas, se conseguíssemos nos aproximar dessa parede vertical seria claro que poderíamos ter as vistas que buscávamos, então no enfiamos em direção as bordas do vazio, seguindo para o sul e quando chegamos lá, ninguém acreditou no que estava diante dos nossos olhos. Entre cotoveladas e empurra e empurra, por pouco um de nós não foi conhecer as profundezas do abismo pela primeira vez na história. Cada qual lutava com as armas que tinha para poder se maravilhar com aquele espetáculo que se descortinou diante dos nossos olhos. Ainda era uma pequena janela miserável entre a paisagem, mas já foi o suficiente para cada um de nós se encantar diante de tamanha beleza. Aquilo nem parecia real e mesmo com o tempo apresentando uma bruma que cobria parte do horizonte, assim mesmo, a gente pode se dar conta que estávamos diante de um dos maiores espetáculos de montanhas do Brasil. Ali estava ela, toda a Reserva Ecológica da Jureia diante dos nos pés, com toda as suas matas, seus bichos, seus rios e suas praias selvagens, um dos maiores patrimônios da Humanidade. A sudoeste, ainda meio escondido entra as nuvens o gigante Dedo de Deus Paulista e toda a sua cadeia de montanha com espigões de pedras espetados acima da floresta. Do nosso lado esquerdo, quase já fora da nossa visão, o PICO SUDESTE 1.389 m, justamente aquele que poderia ser o cume da serra se por acaso viesse a ter alguma torre rochosa em seu cume, do qual a carta não podia nos mostrar, era visivelmente bem mais baixo, com seu topo coberto de floresta, quase sem nenhuma elevação proeminente e essa visão completa desse outro pico mudava todo o rumo daquela expedição. Nós três estávamos em êxtase, mas sabíamos que ainda faltava uma janela maior, que nos desse a condição de fazermos umas fotos e uns registros melhores e ainda sabíamos que as condições meteorológicas pela manhã são muito melhores que na parte da tarde, então decidimos que iríamos acampar no cume, no dia seguinte poderíamos procurar outras janelas, amassar os bambuzinhos, abaixar alguns galhos e brotos que nos fechava ainda parte da visão. O dia já ia findando, mas a gente ainda não havia localizado nenhuma área propícia para acamparmos. Pensamos em descer e tentar algo mais abaixo, mas depois decidimos que seria muito mais cômodo ficarmos no cume, onde pretendíamos, no dia seguinte, fazer a medição com os 3 equipamentos de gps e também abrir uma janela maior que nos desse uma tomada de 180 graus de toda a Juréia. Como estávamos com redes, a única coisa que precisávamos fazer era amassarmos os bambuzinhos e limpar os cipós para liberarmos uma área entre três árvores. Fizemos um ótimo trabalho e em mais cinco minutos pendurei a minha rede, enquanto os meninos, mais uma vez, ficaram umas duas horas brincando de montar tendinha (rsrsrrs). Nos reunimos para fazer a janta e para discutirmos o rumo da expedição. Estava bem claro que o tal Pico Sudeste não passava de uma colina perto do Pico Desmoronado, além de visivelmente muito mais baixo, não havia nada nele que justificasse mais pelo menos um dia de caminhada e vara-mato num inferno de bambus e cipós. Poderíamos apenas, no outro dia, nos dedicar as contemplações e a abrir uma nova e boa janela que nos desce o máximo de visão possível de toda aquela serra espetacular. Depois de uma janta de gala, todos nos recolhemos antes das nove da noite e quando o sol nasceu, trazendo um novo dia, o Potenza e o Natan se encarregaram de fazer uma foto legal e depois disso, eles mesmos voltaram para a ”cama” novamente e só acordamos muito tempo depois, quando o galo já estava roco de tanto cantar. Foi uma noite tranquila, muito diferente da noite anterior, passada no selado. Nosso primeiro passo logo pela manhã foi de instalar uma capsula que iria conter nosso Livro de Cume, onde se um dia alguém também ascender a esse cume novamente, poderá ler os registros da conquista e também deixar seu recado para as gerações futuras. Aproveitamos para fazer a medição da altitude, claro, é uma medição prévia, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas chegamos a um consenso de que por hora aquela seria uma medição bem próxima da realidade. Juntos, os nosso três GPS, nos deram em média uma altitude de 1.425 metros e aí estava a prova de que realmente tudo havia batido, tanto as cartas, quanto as medições por mapas de satélite e os nossos equipamentos só vieram para confirmar definitivamente, estava estabelecido o novo cume da SERRA DOS ITATINS-JURÉIA, o Pico DESMORONADO (1.425 metros) agora era oficialmente o topo de toda a serra e estava entre um dos pontos mais altos de toda a Serra do Mar Paulista. Enquanto o Natan e o Potenza seguiam para a direita do cume, tomei o caminho contrário, tentando achar uma nova janela, mas vi logo que a crista que desce para outro selado entre o Desmoronado e o Pico Sudeste, também não daria passagem nem para um mamute assustado por causa da vegetação entrelaçada e quando desisti de tentar essa rota e voltei para onde estavam os dois companheiros, já os encontrei com os serviços adiantados. Já haviam amassado toda uma grande moita de capim elefante, como também já tinham retirado todo os cipós e bambuzinhos que pudesse impedir a nossa vista. E dali para frente, a visão daquela serra com o tempo totalmente aberto, nos arrebatou a alma. Toda a comemoração que faltara no dia anterior, aconteceu ali, naquele espaço minúsculo e apertado. Os gritos de felicidade ecoaram e se espalharam por toda aquela serra, vazia de homens e cheia de encantos. Mais uma vez cada um queria lutar pelo seu espaço, cada um querendo tirar uma foto mais espetacular que o outro e os ângulos eram tantos e tão diversos que ninguém queria mais arredar os pés dali. O Dedo de Deus Paulista agora reinava soberano no horizonte e essa era a primeira vez que ele seria fotografado a partir do cume da serra. Também a sudoeste todo o espigão do Boa Vista com sua antena característica. A nossa frente os grandes abismos e os picos pontudos e rochosos transformavam aquela serra numa espécie de Serra dos Órgãos Paulista. A nossa esquerda e a nossa frente se estendiam uma floresta intocada com destaque para os Rios Una e Verde, bem como toda a extensão do Maciço da Jureia. Antecedendo a grande ponta da Juréia, as Praias do Una e logo após ela a Praia da Grajaúna, divididas pela ponta do mesmo nome e para finalizar a descrição dos principais atrativos bem ali aos nossos pés, o Pico Pogoçã, também conhecido como Nariz de Palhaço. Nós ficamos ali, até o meio dia, inebriados pelo cenário. Era muito provável que a linha que delimita toda a Reserva Ecológica Juréia – Itatins, passasse bem encima daquela cumeada toda, então sabíamos que aquela grande parede serviria de barreira natural para proteger uma das reservas ambientais mais importantes do mundo, tudo aquilo que estava à nossa frente, era área intangível, totalmente proibida para pés humanos e ficamos felizes de pelo menos podermos olhar tudo aquilo de cima, um privilégio até agora de três exploradores. Como eu disse, o dia já ia pela metade, então nos apressamos, desmontamos tudo rapidamente e partimos, deixando aquele pico selvagem novamente largado a sua solidão eterna. Ao chegarmos novamente ao fundo do vale, colhemos um pouco de água e usamos o próprio rio para ganharmos distancia, passamos pela prainha de areia, viramos à direita e fomos pulando de tronco em tronco para não empapar nossas botas no brejo. Sem desgrudar o olho do GPS, mais uma vez nossa vida se resumiu a varar mato sem fim, mas dessa vez, com as mochilas bem mais leve, imprimimos uma velocidade duas vezes maior que a da ida. Subimos a primeira montanha, descemos pela rampa da serpente e novamente nos enfiamos em direção ao selado, mas novamente sem percebermos a vegetação foi nos empurrando para fora da rota e quando vimos, já estávamos perdidos em um vale qualquer. O Natan corrigiu a rota, mas aí já havíamos perdido um tempo precioso e logo percebemos que havíamos saído bem do outro lado do deslizamento de rocha, então fomos obrigados a usar a descida da rocha como caminho, onde por uma bobeira, o Natan perdeu o equilíbrio e foi conhecer a dureza da rocha com sua fuça. Por sorte foi só um susto! Paramos imediatamente para um descanso, mas eu, na minha ingenuidade, ainda sonhava em conseguir pelo menos voltar até a noite para o rancho abandonado e fazer dele nosso lar por um dia, mas os meninos não estavam de acordo com essa correria toda não, já vieram com aquela conversinha de que seria melhor acampar novamente no selado e então fui facilmente persuadido por eles e a decisão foi essa. Já que estávamos bem perto do tal selado, ao invés de voltar a varar mato, decidimos desescalar aquela parede rochosa até atingirmos o fundo do vale e através dele subir até a área de acampamento. Feito isso, em meia hora estávamos de volta onde tínhamos passado a primeira noite, foi como retornar para casa novamente. Ainda era cedo, mas decidimos começar logo a nos dedicar às montagens das redes e do abrigo e a colher água para o jantar. Ali no selado a noite cai rápido e quando a escuridão chegou, nossos fogareiros já ronronavam fazia tempo. Arroz, atum, bacon, frango desidratado, queijo ralado e suco de laranja, foram nosso cardápio e uma boa comida quente tem sempre potencial para elevar o moral da equipe, mas diferentemente da primeira noite que passamos ali, agora estava uma temperatura agradável e nem se ouvia o barulho do vento. Como estávamos bem descansados, depois do jantar, iluminados pelas luzes das nossas lanternas, ficamos até tarde da noite nos dedicando a contar causos de aventuras passadas, de experiências vividas do mundo das montanhas e das trilhas, enfim, jogar conversa fora até que o sono viesse a nos carregar para dentro das nossas redes. Quando o dia nasceu, nos levantamos, desmontamos tudo e partirmos. Mas dessa vez iríamos mudar nossa rota e apontamos nossa bussola para o cume da montanha, queríamos evitar assim passar pelo mesmo lugar que enfrentamos na vinda, onde ficamos travados na vegetação encima da curva de nível lateral. Nos agarrando como deu, subimos o paredão que se apresentou à nossa frente. Duzentos metros de parede nos levaram direto para umas moitas monstro de bambus e taquaras, onde rastejar era o que tinha para aquele momento. Logo percebemos que infelizmente estávamos novamente caminhando por outra linha lateral, ziguezagueando novamente a uns 200 metros do cume e o pior é que a vegetação não nos deixava passar e nem ganhar altitude. O tempo vai passando e os nervos vão ficando a flor da pele novamente e chegou uma hora que apontamos o nariz para o topo da serra e fomos arregaçando tudo que tinha pela frente, nos grudando no barranco e escalando a parede de mato até atingirmos nosso objetivo e pararmos para um gole de água em meio a uma vegetação um pouco melhor. Na nossa carta topográfica, víamos claramente que o topo se estendia por uns 300 metros antes que a montanha começasse a despencar de vez em direção ao vale. A nossa progressão foi rápida e perdíamos altitude numa velocidade incrível, mas a gente sabia que teríamos que enfrentar novamente o inferno de vegetação espinhenta novamente, então decidimos fazer um desvio na nossa rota e começar a tocar rumo ao vale do rio que corria à nossa direita e não demorou muito, lá estávamos nós de volta ao leito das nascentes do Rio do Peixe, onde os mais corajosos, não eu, se pincharam para debaixo de uma cachoeirinha de águas congelantes. A princípio nos pareceu uma ótima ideia descermos um pouco pelo leito do rio, mas logo uma pequena garganta nos barrou o caminho e fomos obrigados a desviar pela esquerda, subindo à margem. Mas aí descobrimos que tínhamos no enfiado numa roubada dos infernos, dando de cara com moitas gigantes de bambus quase que intransponível. Não houve o que fazer, não conseguíamos progredir, então abandonamos aquela ideia estúpida e ganhamos altitude novamente para podermos passar longe da margem do rio e fora da linha dos bambus. A caminhada se tornou um pesadelo, mas avançávamos, e quando percebemos que as gargantas do rio tinham acabado, descemos novamente para o seu leito e fomos caminhando por dentro dele, pulando de pedra em pedra e fazendo pequenos desvios. Numa dessas subidas de barranco bobeei e quando percebi, lá estava eu agarrado na beira de um barraco com as mãos pregadas numa espécie de samambaia açu com espinhos negros. Não pude fazer nada, se soltasse cairia de cabeça nas pedras pontudas do rio, só fiz ficar gritando e amaldiçoando a minha má sorte até que o Potenza me auxiliou e me ajudou a voltar o corpo para trás. Aquilo tinha sido a gota d’ água. O nosso gps dizia que estávamos a não mais de 100 metros do encontro com a trilha, mas eu não queria mais saber daquele mato e ao avistar o primeiro pé de banana no barranco da direita, piquei a mula na direção dele e ganhamos a trilha mais à frente e por falar em banana, fiz questão de dar uma bem grande para aquela serra, prometendo nunca mais colocar os meus pés novamente lá, mas logo a raiva passou e meus pensamentos já se voltavam para aquele cume espetacular com uma visão arrebatadora da Juréia. Antes da uma da tarde, desembocamos novamente no casebre abandonado e ficamos lá o tempo suficiente para reavermos as coisas que havíamos deixado, comemos alguma coisa e descemos à passos largos pela estradinha que nos levaria de novo até a humilde sede da Fazenda Primavera, para reencontrar seu Osvaldo e vê-lo ficar perplexo ao assistir um pequeno vídeo mostrado pelo Natan, de onde se podia avistar o mar. Acho que aquele caboclo perdeu até o rumo pois nunca tinha ouvido falar que um caminho passando pela sua propriedade, poderia levar alguém as bordas do paraíso. Sem mais nada para fazer ali, nos despedimos do seu Osvaldo e fomos tomar banho sob a pontinha de troncos, onde um afluente do Rio do Peixe desfila com águas cristalinas e em seguida tocamos para Pedro de Toledo, e nos acabamos de tanto comer num restaurante, onde comemoramos o sucesso da expedição. O ano de 1953 já ia pela metade quando uma expedição militar, capitaneada pelo então Coronel Petená logrou êxito ao escalar pela primeira vez o Dedo de Deus Paulista. Terminava assim uma corrida insana para ver quem seria o primeiro a fincar os pés no então “cume de toda a Serra dos Itatins”. Mas aí é que estava o grande erro geográfico e o Coronel acabou morrendo sem se dar conta de que o Dedo (1.333), passava muito longe de ser o cume da grande cadeia de montanhas ou se soube, nunca se interessou em explorar, muito provavelmente pelos motivos já descrito no começo deste relato. O mais incrível ainda é que outros montanhistas experientes, até hoje repetem os mesmos erros geográficos aos 4 ventos, mas agora finalmente, quase 65 anos depois essa EXPEDIÇÃO totalmente independente, sem ajuda de ninguém e muito menos munidos de previas informações, teve a honra de colocar as coisas no seu devido lugar. A partir de agora o PICO DESMORONADO (1.425 m) passa a reinar soberano como o CUME de toda a Serra dos Itatins-Juréia. A conquista INÉDITA nasceu simplesmente da inquietação de alguns velhos montanhistas que nunca se conformaram em ver fatos narrados, dados como verdades absolutas e sem contestação. Pagaram para ver e voltaram depois de 4 dias, esfarrapados e triturados pela vegetação, comeram tanto bambu que quase se transformaram em pandas, mas com a certeza do dever cumprido de terem consertado um erro geográfico histórico, com a satisfação de poderem ter tido o privilégio de mais uma vez, desnudar mais uma parte do LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA. Divanei Goes de Paula – junho/2017
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