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divanei

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Sobre divanei

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  1. EXPEDIÇÃO BRACINHO (Anderson, Dema , Trovo , Divanei , Decio e Régis ) ......................“Aquilo parecia mesmo ser uma estupidez. Não que eu já não tenha feito uma infinidade de coisas estupidas nesses quase 25 anos de aventuras, mas com a idade a gente começa a tentar ficar longe dessas ações que possam nos levar a um acidente do qual talvez não tenhamos mais como nos recuperar. O Daniel Trovo, mestre das insanidades aquáticas, já havia inaugurado o salto, despencando no poço gigante sem jamais ter estado lá, o Dema também confiou nele e se jogou sem nem pensar e até o tio Décio, olha só, já se encontrava no fundo do poço. Nem me pareceu tão alto em um primeiro momento, mas olhando bem da beirada da cachoeira, me deu uma embrulhada no estômago, mesmo assim os meus medos não advêm da altura, mas da possibilidade do que poderia se esconder no fundo do poço. Jogo minha mochila que explode na água e ao longe vejo o sorriso dos outros dois companheiros de expedição (Rosa e Régis) que optaram pela sensatez e desescalaram as paredes da queda d’água e foram fazer as fotos bem longe daquela loucura. Tomo distância, dou uma corrida e paro imediatamente. Melhor não, melhor deixar pra lá, mas lá de longe a plateia grita freneticamente para eu não desistir, então resolvo que tentarei saltar usando o patamar 1 metro mais abaixo, não muda nada, mas as condições psicológicas me diz que poderá ser menos pior, mas ao me aproximar ainda mais a fim de baixar para esse patamar é que observo uma língua de pedra que se estende da parede em direção ao poço. DEUS ME LIVRE! Se eu escorregar o pé de apoio vou me esborrachar naquelas pedras lá embaixo. Um misto de ansiedade toma conta de mim, eu quero ir, mas o medo me puxa para trás, faço menção de desistir de vez, mas a plateia grita pula, pula e eu já perdi o rumo, com o corpo tomado pela adrenalina que já invadiu cada centímetro do meu corpo. Quer saber de uma coisa: FODA-SE, LÁ VOU EU!”.................. ( rio Bracinho e sua água incrivelmente transparente) Poucos lugares são tão incríveis nesse país quanto a Serra do Mar de São Paulo, não só por conter uma das florestas mais exuberantes do mundo, mas pelo fato de estar muito perto de uma das maiores cidades do planeta e ainda esconder no seu interior selvagem uma infinidade de biodiversidade que talvez não se encontre em nenhum outro lugar do Brasil. Por incrível que pareça, são lugares desconhecidos até mesmo de pesquisadores, moradores locais e exploradores modernos, lugares que passaram despercebidos justamente pelo seu isolamento e pela dificuldade para serem penetrados. Já há mais de meia década que a gente vem se dedicando a revelar esses paraísos perdidos, principalmente rios intocados, onde o ser humano ainda não espezinhou e até mesmo os famigerados caçadores e palmiteiros, mal conseguiram aranhar, justamente pela dificuldade técnica de acesso, mas ultimamente até parte do nosso grupo vinha tendo uma certa resistência porque as expedições acabaram por ter que se distanciar cada vez mais, se enfiar cada vez mais num mundo desconhecido e sem a certeza de que poderia nos revelar algo que realmente interessasse para parte do grupo , que sempre ia em buscas das grandes cachoeiras perdidas nos rio selvagens. Depois de 2 expedições que revelaram o interior de grandes rios de uma certa região, meus olhos acabaram por se voltar para alguns rios menores, rios com desníveis bem inferiores aos anteriores como o Lourencinho, o Itariru , mas a descida do Pedreado ,ocorrida esse ano, me disse e me ensinou que se valer de desnível de rio para saber se vale a pena ou não empreender uma expedição era uma grande bobagem, mesmo porque o PEDREADO( Braço Grande) nos surpreendeu positivamente, mas mesmo assim, uma grande parte do grupo, que obviamente se recusou a encarar o rio citado acima, ainda não havia se convencido que tanto esforço e perigo poderia mesmo valer a pena. ( Rio Pedreado) O Vale do Rio Bracinho levou alguns anos até para ser localizado no mapa devido ao seu isolamento por baixo da grande floresta e das grandes montanhas que o cercava e o espremia, era quase impossível saber aonde realmente começava a sua nascente e só depois de eu recorrer a diversos mapas e cartas antigas foi que aos poucos ele foi se revelando e juntamente com o Décio Marques, fomos juntando um quebra-cabeças até que conseguimos chegar a um consenso e nos pôr a planejar a expedição para valer. O rio apresenta duas nascentes distintas em forma de “Y”, sendo a nascente da direita (de quem desce o rio) a menor e a esquerda a maior, as duas se convergindo para formar o “Grande Bracinho”. Pois bem, saber por onde corre essas duas nascentes era o “x” da questão, porque era um emaranhado no meio de uma floresta gigante e longe, muito longe de qualquer lugar habitado e com acesso motorizado. Os estudos nos levaram a escolher 2 pontos de acesso, uma em cada ponta dessas nascentes, sendo a nascente mais curta distante uns 20 km de Juquitiba e a mais longa uns 30 km. No final chegamos à conclusão que pelas condições da estrada, a vertente mais curta poderia ser a mais interessante porque nos daria a possibilidade de fazer esse caminho usando um transporte que nos deixaria a pelo menos umas 4 horas de caminhada do rio varando mato, não era nada animador, mas era o que tínhamos , era ao que poderíamos nos apegar se quiséssemos realmente tentar colocar aquele rio no mapa. ( inicio Bracinho em amarelo) A única maneira de termos uma chance da expedição dar certo, era irmos antes lá e tentarmos primeiro achar o rio e só depois montarmos uma equipe e para isso tracei uma linha no mapa me valendo das curvas do terreno para podermos chegar ao rio com um esforço o menor possível. Traçada a estratégia inicial, coube ao Décio e aos meninos Régis, Potenza e Rafael, a missão de inaugurar os trabalhos e num sábado qualquer, se dirigiram para a região e depois de rodarem por mais de 10 km, abandonaram o carro num sítio à beira do caminho e seguiram a pé, desvendando tudo que podiam e cinco ou seis horas depois de se lascarem num mato sem cachorro, conseguiram avançar muito, chegando quase nas bordas da serra, a menos de 2 km de atingirem a calha do rio. Fizeram um excelente trabalho, mesmo não conseguindo descobrir o rio, porque marcaram todo o caminho no gps e agora era chegado a hora de montar o time, encostar alguns caras na parede e força-los a sair de cima do muro definitivamente. Feito o convite às pessoas que sempre confiávamos que dariam conta da empreitada, não tardou para aparecer os desdenhamentos em relação a qualidade técnica do Rio e quando citei que o Décio Marques era presença garantida na expedição, foi aí que o grupo se desmanchou feito uma torre de cartas. O Décio sempre foi uma pessoa querida de todos, mas era considerado um pé frio, onde ele pisava era certeza de fracasso, ou chovia demasiadamente, ou perdíamos a trilha, ou aconteciam trombas d’água que beiravam tragédias, enfim, absolutamente todas as empreitadas que ele se fazia presente haviam dado errado, mas claro, essa era mais uma entre várias outras desculpas que fizeram com que parte do grupo pulasse fora, mas como eu sempre digo, mais vale um grupo com pouca experiência motivado do que gente sem tesão pela exploração e foi assim que o grupo foi se formando, por gente engajada no projeto e verdadeiramente comprometida em ir lá naquele vale desconhecido fazer história . Partindo de Sumaré, no interior Paulista, eu e o meu velho amigo Prof. Dema, que há muito tempo não nos acompanhava nessas expedições, desembarcamos na capital do Estado a fim de nos encontrarmos com o grupo na estação Faria Lima do Metrô e assim que todo mundo chegou, começamos a via sacra interminável para chegar à Juquitiba, onde uma kombi já nos esperava para nos levar por uns 15 km , lugar que a estrada acaba ou fica quase que intransitável e só as pernas é que servem de meio de transporte. Depois de deixar Juquitiba, nosso veículo retorna e volta pela Br, sentido norte (SP) e uns2 km depois deixa a rodovia e entra a direita na Estrada Amélia Correia F. Guimarães e vai seguir sem pegar nenhuma bifurcação até que essa estrada passa a se chamar Estradas das Senhorinhas e quase 4 km depois passa por cima da ponte do Rio Juquiá, segue sentido sul sempre pela principal e quase 9 km depois o caminho acaba, hora de saltar do veículo e nos pormos a caminhar. A madrugada já ia alta e o feriado da República já se fazia presente e não deu nem 15 minutos de caminhada para abandonarmos a então estradinha e nos enfiarmos à direita num caminho estreito que outrora fora também uma estrada e que hoje não passava de uma trilha que ligava uma estrada à outra e que se metia dentro de uma floresta de reflorestamento e ia subindo até 20 minutos depois cruzar por cima de um riacho e desembocar numa outra estrada com ares de abandono e virarmos para esquerda para aí então caminhar por mais meia hora e adentrarmos à direita numa casa abandonada à beira do caminho, casa que foi apelidada pela primeira incursão de reconhecimento como CASA DAS BOSTAS por causa dos excrementos de animais que ali encontraram. Da Casa das Bostas fizemos nosso lar pelo resto daquela madrugada, uns amarraram suas redes nas velhas pilastras e outros resolveram se espalhar pelo chão da varanda com seus sacos de dormir já que o interior da casa, em ruinas, não gerava confiança, parecendo que o forro desabaria há qualquer momento. Foram meras 4 ou 5 horas de sono, tempo insuficiente para um descanso merecido, mas como a jornada era longa, tivemos que pular logo cedo e dar início àquela expedição. Oito da manhã as pernas já foram postas em movimento e menos de meia hora depois já nos vimos diante do Braço Grande (Rio Pedreado), justamente o rio que havíamos descido por 4 dias na última expedição, mas ali ele era mansinho e inofensivo e sem demora nos convidou para um gole d’água e como ninguém estava a fim de molhar as botas logo pela manhã, tratamos de passar nos equilibrando sobre uma árvore que havia caído, formando uma ponte de um lado à outro do lindo rio. Rio Braço Grande ( Pedreado) Atravessado o rio, o que seria uma estradinha, se transforma em trilha, mesmo que o corte aparente no barranco ainda não tenha desparecido por completo. Agora vamos seguindo mais ou menos paralelo às suas margens, aproveitando a curvas suaves do terreno em meio a floresta fechada e vez por outra vão surgindo alguns vestígios de antigas construções que a mata não tarda em tragar por completo. Essa é uma área praticamente desabitada e somente uma única habitação junto ao rio é que parece ser frequentada vez enquando, mesmo assim alguns rabos de trilha ainda sobrevivem na região, fruto deveras de caçadores e palmiteiros que infelizmente ainda deitam e rolam na periferia dessa selva fascinante. A caminhada vai se seguindo, sempre tentando acompanhar o traklog feito pela primeira investida, que por sorte conseguiram localizar essa antiga trilha que nos levaria praticamente bem perto das bordas da descida da calha do Rio Bracinho. Algumas bifurcações vão sendo descartadas porque não seguia na direção desejada e cada vez mais nos víamos afundados dentro da floresta e quando a trilha acabou definitivamente, foi hora de começarmos a nos preparar para varar mato no peito, acabou a moleza. Nas discussões fervorosas antes da expedição, havíamos chega à conclusão de que ao nos posicionarmos no ponto onde estávamos, conseguir descer até o Vale do Bracinho seria tranquilo, era só ganhar uns 500 metros de montanha varando mato e já começar a descer, mas de repente começamos a rodar em círculos e quanto mais andávamos mais nos víamos perdidos no meio da floresta, mesmo com dois gps em operação. Acontece que quando ganhávamos um terreno favorável nos empolgávamos e esquecíamos de ir acompanhado a progressão no gps e quando víamos já havíamos andado muito para o lado errado. Corrigíamos a direção e voltámos a nos empolgar, tanto que em um certo momento caímos na calha de um afluente e demos como certo ser um tributário do Bracinho e fomos descendo feitos umas bestas cegas até que alguém gritava que novamente estávamos indo para o lado errado e tínhamos que corrigir o rumo novamente, ás vezes tendo que voltar a escalar os barrancos e enfrentar bambus no peito para desespero do Décio que já arrastava 100 m de língua no chão. O tempo foi passando e a previsão de alcançar o rio principal antes do meio dia já havia se esgotado faz tempo. Mais um morro foi subido e a tal da bandeirinha(plotada no mapa) que assinalava a descida para o rio nunca que era encontrada O Décio continuava como cu de tropa e de longe xingava a mãe de todo mundo, “Pitoco véio”( apelido que eu chamava carinhosamente um dos integrante) só fazia dar risada, ainda que ele fosse o desgraçado também responsável pela navegação, eu e Trovo que seguíamos de perto o outro navegador, tentávamos ajudar, mas teve uma hora que tivemos que dar uma basta porque já havíamos rodado mais que pião da casa própria , então nos juntamos com o Anderson Rosa e decidimos não desgrudar o olho do gps até que a bandeirinha dos infernos fosse localizada e quando a encontramos foi hora de dar uma parada para respirar um pouco e esperar que todo o grupo se juntasse novamente, comesse alguma coisa para a cartada final. Menos de 2 km nos separava do nosso grande objetivo e agora com os nervos no lugar e os olhos grudados no gps, ganhei a dianteira e fui arrastando mato no peito, procurando com os olhos o melhor caminho e sempre atento aos rumos dado pelo nosso navegador e quando ganhamos uma grande calha de onde um córrego nascia e ia se enfiando nas pirambeiras, foi aí que tivemos certeza que o caminho não teria mais volta. Fomos desescalando o riachinho que aos poucos foi crescendo e se avolumando, tanto que foi necessário passar por grandes desníveis e tomar cuidado para não escorregar e pontualmente às 14 horasnossos olhos se maravilharam com o RIO BRAÇINHO, a lenda , o mito, estava finalmente descoberto, hora da comemoração e do alivio pela primeira conquista da expedição. Durante todo o estudo do projeto eu havia cantado a bola de que aquele rio selvagem seria formado por águas incrivelmente cristalinas por nascer totalmente isolado dentro da floresta e por receber outros tantos de afluentes igualmente isolados, mas ver a materialização de todos os estudos se transformar em realidade é realmente gratificante. Logo de cara somos apresentados a um rio que mais parecia um espelho, não muito grande por ser apenas um dos grandes braços formadores, mas o sorriso no rosto de cada integrante daquela equipe traduzia o quão feliz estávamos e cada um demonstrava sua satisfação de um jeito, mas uma coisa não foi diferente, todos largaram suas mochilas quando o Trovo que, havia subido por 20 metros até uma curva, gritou que havia uma cachoeira linda um pouco mais acima. Era a primeira surpresa que o rio iria nos proporcionar durante os próximos 4 dias de expedição e aquela queda d’água foi o estopim para que a gente se unisse de vez, lavasse a alma, esquecesse os perrengues passado no acesso ao rio e tivéssemos a certeza de que a aventura agora estava pronta para começar. Alguns não se aguentaram e já se jogaram nos poços junto as duas cachoeiras, outros acharam que ainda não era hora de ficar com a roupa encharcada e logo que todos estavam satisfeitos, juntamos o grupo para uma repassada final no seguimento da expedição. Tirando o Décio que estava visivelmente com uma mochila muito acima do que deveria, os outros pareciam estar nos conformes e então combinamos de tentar interceptar o grande afluente ainda naquele dia e tentar acampar na sua junção quando os dois rios dão vida ao GRANDE BRACINHO. No início é um riacho raso e até meio bucólico, correndo dentro da floresta sombreada com pequenas cascatas decaindo em singelos degraus e vez por outra algum poço mais fundo era cruzado pela cintura, mas logo ele voltava a ficar com pedras expostas. A medida que avançávamos o rio ia ganhando mais alguns pequenos afluente pelo caminho. É um caminhar gostoso, descompromissado, onde a gente vai conversando descontraidamente e não tarda para descobrirmos as pegadas enormes de antas nas prainhas de areia que se formam às margens e também as marcas deixadas por grandes felinos, onças que devem desfilar sossegadas por esses vales encantadores. A caminhada vai seguindo sem maiores problemas, as primeiras quedinhas vão aparecendo e logo à frente um pequeno cânion estreito nos dá as boas-vindas, nada que pudesse nos custar grandes esforços para ser transposto , mas como eu ainda não estava a fim de me molhar, optei logo por testar minhas habilidade de “grande escalador” de paredes lisas na serra do Mar e me agarrei no barranco do lado esquerdo e fui cravando minhas unha nas agarras que me saltavam às vistas e logo o que eu temia aconteceu, uma agarra podre não aguentou o meu peso e despenquei feito jaca podre , indo parar no fundo do poço, mas antes quiquei numa pedra exposta e bati violentamente com o tornozelo nela. Na hora, meio assustado com a queda inesperada, não senti nenhuma dor, mas passado um certo tempo depois, mal estava conseguindo caminhar e tive que arrastar perna a base de anti-inflamatório até o fim daquela expedição. Depois desse mergulho sem querer, estava também inaugurada definitivamente o molhaceiro nessa travessia, porque a partir daí todos já foram logo se jogando em tudo que é poço e a farra aquática se faria presente até o final do dia, onde outras infinidades de pequenos poços foram nadados e pequenas cachoeiras transpostas, mas acontece que nesse primeiro dia , sem dormir quase nada na noite anterior, pouco depois das 16 horas da tarde já tratamos logo de caçar um lugar decente para acampar, já que vimos que seria mesmo impossível cumprir o plano de tentar acampar na confluência dos rios. Nessas expedições devido às incertezas, sempre optamos em usar redes com toldos para os acampamentos e discutimos isso durante vários meses, mas o Décio ainda achou melhor carregar uma barraca trambolhuda, então tivemos que ficar à mercê de arrumar um lugar que pudesse comportar também uma barraquinha e por sorte nessa travessia, foi possível sempre conseguir lindas áreas de camping e foi numa dessas áreas, plana e com várias árvores grossas à disposição, que jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado àquele dia de atividades intensas , hora de tirar a roupa molhada e ir cuidar da janta e da montagem das nossas camas de mato. Quase 12 horas de sono tem o poder de revigorar uma equipe que no dia anterior estava meio destroçada e por incrível que pareça, a noite foi tranquila e sem chuvas, aliás, a previsão do tempo era de chuvas intensas para os 4 dias de expedição e até o momento nenhuma gota de água havia caído do céu e se o sol não foi intenso, pelo menos as temperaturas se mantiveram altas durante o dia anterior. Levantar da rede depois de uma noite bem dormida não é problema, mas ter que logo pela manhã vestir roupa molhada é algo que dá uma chacoalhada na gente, mas também pouco importa porque a primeira coisa, nos primeiros metros de caminhada, já somos obrigados a nos jogar na água fria do rio e sentir o poder da nossa audácia de querer desbravar rios selvagens, faz parte do ofício e o sofrimento inicial já transforma o dia logo pela manhã numa resiliência a ser suportada. Nesse segundo dia os poços vão se sucedendo de uma tal maneira que vão faltando adjetivos para usar. Logo de cara o rio estreita e uma nova garganta tem que ser cruzada, descida até um ponto em que a gente consiga se jogar de cima dela para dentro de mais um poço profundo em meio as suas corredeiras e sair nadando rapidamente para escapar das águas ainda geladas, por sorte, praticamente todo mundo está servido de coletes e isso ajuda muito na flutuabilidade e numa segurança maior, mas algumas vezes o capacete acaba por ser empurrado pela mochila, colocando alguns em dificuldades, melhor mesmo soltar a mochila ou tirar o próprio acessório da cabeça depois que já se posicionou em segurança dentro do poço. O rio vai alternando entre ser mais raso e mais profundo quando afunila um pouco e quando chegamos a outro grande poço de águas incríveis, cruzamos nos valendo de troncos, onde alguns passaram arrastando a bunda até que, sem poder se equilibrar, acabam indo parar no fundo do rio e nem dá para ficar chateado por ter sido incompetente para passar sem cair porque logo a seguir não há como fugir e é chegar no próximo poço profundo e já se pinchar de novo e para não perder o costume, a sequência é mais do mesmo quando chegamos a uma cachoeirinha. Os mergulhos são divertidíssimos e sair nadando numa água daquelas vai dando uma sensação de prazer gigantesco, é um salto e um orgasmo prolongado. Depois dessa sequência de diversão aquática o rio arrefece um pouco e volta a ser mais raso e se estabiliza e já vai dando indício de que estamos bem perto do seu grande afluente, a outra perna que vai dar corpo e alma ao Bracinho e numa curva do caminho, um grande poço, um poço sensacional nos dá as boas-vindas e marca nosso encontro definitivo e os ponteiros do relógio já marcavam quase onze horas da manhã. Aquele era mesmo um lugar incrivelmente belo, mas nos chama atenção uma clareira com um vestígio de acampamento de caçador ou de palmiteiros. É claro que não vieram pelo rio, muito provavelmente alguma trilha antiga poderia ter dado acesso até ali, mas também estava claro que há muitos anos ninguém pisava naquele barraco de lona devido ao seu abandono. A dúvida é saber de onde partiria a trilha, mas uma coisa era certa, o abandono já indicava que seria uma caminhada muito dura até chegar ali e talvez essa trilha nem mais existisse, o certo é que a partir dali a expedição iria entrar numa região selvagem, mais selvagem ainda , estávamos prestes a ficar cercado por montanhas altíssimas dentro de um vale do qual não haveria a menor possibilidade de escapar caso algum acidente acontecesse , estávamos por nossa conta, ninguém do mundo externo saberia do nosso paradeiro, entravámos num portal sem volta, rumo ao desconhecido mundo selvagem da Serra do Mar Paulista. Abandonamos o encontro do rio a sua própria sorte e seguimos nossa labuta, que para variar já nos levava para mais grandes poços profundos e de águas esverdeadas. Mais à frente outra queda d’água é vencida tendo que usarmos nossos freios traseiros para conseguir passar sem se esborrachar ou cairmos dentro das marmitas que se formavam na queda da cachoeira. A sequência é formada por uma infinidade de outros poços e aí a gente vira criança e deixa que o rio nos carregue como bem entender, somos passageiros sem controle, vamos vendo a vida passar nas belezas daquela floresta exuberante e quando o rio cansa de nos dar carona, somos lançados imediatamente dentro de um grande lago e lá ficamos por um bom tempo para reabastecer o estômago e tomarmos folego. Nesse segundo dia o terreno começa a ficar com um desnível maior e as pequenas gargantas não tardam em aparecer e deixar o rio novamente afunilado e quando as águas resolvem saltar de cima das pedras, lá vamos nós nos precipitando para dentro do rio e essa brincadeira de jogar a mochila e saltar atrás faz a festa da “molecada” e deixa o clima da expedição divertido, fazendo com que o tempo passe sem nem percebermos. Essa Cachoeira da qual saltamos não era muito alta, mas aos seus pés um poço dourado nos deixa de queixo caído. Aquilo era impressionante, era algo de uma beleza estonteante, mesmo depois de anos e anos de exploração selvagem, poucas vezes havíamos visto um poço com tamanha formosura, então nos sentamos à sua beira e apreciamos seu espetáculo, para nunca mais esquecer aquelas imagens. O dia vai passando numa velocidade impressionante e quando todos já estavam inchados de tanto nadar, grandes quedas apareceram e aí tivemos que parar e analisar qual seriam nossos próximos passos. Aquela era uma bela cachoeira, mais belo ainda era o poço que se formava na sua base de águas escuras e provavelmente muito profundo e tínhamos duas escolhas à fazer: tentar desescalar pelo lado direito, mesmo com um gasto de energia grande ou simplesmente dar um salto alucinante. Eu já havia passado a mão nas minhas tralhas e já estava me dirigindo para acompanhar o Rosa e o Régis que mal olharam para a possibilidade de saltar, já que notaram logo que aquilo era meio insano, mas quando o Trovo chegou tive que recuar para ver que sandice ele iria aprontar dessa vez. Não era muito alto, mas pular de quase 10 metros em um lugar que jamais havia visto na vida, sem saber o que se encontrava no fundo do poço, já beirava a irresponsabilidade. É, mas ele saltou! Jogou a mochila lá de cima e pulou e foi vendo ele não chegar nunca na água que nos deixou mais agoniados e quando ele explodiu lá embaixo e sumiu por um tempo, aí só ficamos aliviados quando ele submergiu dando aquela gargalhada de sempre. Depois disso não teve jeito, o Dema também se lançou atrás e não demorou muito, o Décio também já estava despencando para o fundo do poço, mas eu não, eu não estava a fim de participar daquilo, ia mesmo apanhar minha mochila e varar mato, mas o grito da platéia que já havia se posicionado nas pedras do outro lado do poço, acabou por mexer com meu brio. Não que eu já não tenha pulado de lugares muito mais alto, mas quando a gente chega a uma certa maturidade começamos a analisar melhor nossos atos e a perceber que se um acidente acontecer naquele vale, longe, muito longe de qualquer lugar habitado e sem a possibilidade de algum socorro, faz com que a gente sempre opte pelo bom senso. Mesmo assim resolvi que iria saltar. Fui até a borda da cachoeira e aí vi que era mais alto do que imaginava, mas atirei minha mochila e dei aquela corrida para pegar impulso, mas refuguei, me senti o próprio Baloubet du Rouet. Analisando melhor, vi uma língua de pedra que se estendia da parede em direção ao poço e pensei: se meu pé de apoio escorregar nessa merda, vou me esborrachar lá embaixo e não vai ser bonito de ver, melhor enfiar o rabo entre as pernas e deixar isso para lá. Mas foi aí que a multidão (na verdade dois desgraçados que arregaram, rsrsrs) ficaram me instigando a pular e no impulso dei aquela corrida e deixei que a força “g” fizesse seu papel e quando meu corpo explodiu para dentro do poço, me senti um míssil adentrando na escuridão aquosa até que outra força me jogasse de volta para a superfície. Estou vivo, agora é nadar para longe da cachoeira até atingir as margens do lago e com um sorriso enorme no rosto, apanhei minha mochila e dei várias braçadas até me sentir em segurança, feliz da vida com o andamento daquela aventura. Depois de descermos por mais uma garganta estreita e escorregadia, num estudo rápido, já percebemos que descer pela esquerda poderia ser o caminho mais ideal, mas foi uma descida um tanto exposta e quando chegamos aos pés delas alguns não aguentaram e tiveram que ir se banhar perto da sua queda, uma cachoeira com salto bonito que depois corria por uns 80 metros até cair em mais um poço esverdeado e profundo e para não perder o costume, sr. Trovo , um espécie de Aquaman tupiniquim já inaugurou mais um salto de cima da queda e foi parar de novo no fundo do rio e como ninguém queria ficar fora da diversão, um a um fomos nos livrando das nossas mochilas e pulando também: Meu Deus, a vida poderia ser feita só de saltos ! O dia já ia escapando pelos dedos e a gente não conseguia ficar seco, quando pensávamos que o rio daria um tempo sem termos que pular em algum poço, logo aparecia outro e mais outro e cada um mais bonito que o outro, mas as 16 horas, talvez um pouco mais, a gente já começou a procura um lugar para acampar e numa margem plana, junto a uma prainha de areia, vislumbramos a possibilidade de montarmos ali nossas redes e depois que todos deram o aval, cada qual foi cuidar de preparar sua casa. Agora éramos um grupo muito diferente daquele do primeiro acampamento na noite anterior, estávamos muito mais descansados e muito mais alegres pelo dia altamente produtivo que tivemos, porque foram cerca de 8 km dentro do rio, um recorde, jamais havíamos feito um percurso tão grande em nenhum outro rio. No acampamento acabamos meio que nos juntando para compartilhar coisas, Eu o Dema e o Anderson dividimos o fogareiro e cozinhamos juntos, isso serviu para que otimizássemos o peso, inclusive eu e o Dema também dividimos o toldo que cobriu nossas redes, montando-as em estilo de beliche, usando apenas duas árvores para as duas redes. O Décio como já é sabido, trouxe barraca e teve que se contentar em montá-la na beirada do rio sobre uma prainha de areia, ainda bem que foi mais uma noite sem chuvas senão o nosso amigo teria corrido o risco de navegar rio abaixo dentro dela. Jantamos e fomo dormir muito cedo, bem antes das sete da noite e foi realmente uma noite incrível, mas quando me dei conta ao amanhecer, meu corpo estava coberto por umas 300 picadas de carrapatos e enquanto escrevo esse relato, ainda me coço todo, lembranças de um paraíso guardado por todos os bichos inimagináveis, inclusive esses indesejáveis. Todos prontos para mais um dia de aventuras, deixei uma capsula de registro pendurara numa árvore com o nome de todos os expedicionários e já fomos obrigados a nos enfiarmos dentro do rio para mudarmos de margem e sem muita demora, nos enfiamos em mais uma garganta estreita e sem ter como escapar pela margem pulamos na correnteza e fomos arrastados por um bom pedaço, chacoalhando como se dentro de lavadora de roupa estivéssemos. Às vezes eu não sei porque fazemos isso, principalmente quando não controlamos mais nosso destino, mas quando tudo dá certo e somos devolvidos são e salvos, damos muita risada e queremos repetir, mas num certo momento a adrenalina deu lugar para o medo logo quando caímos numa sequência violenta onde as quedas eram um pouco mais altas e o refluxo teimava em levar a gente para o fundo do rio para depois cuspir a gente para fora feito fumo vencido. Essas sequências de corredeiras foram realmente incríveis e por isso mesmo, por estarmos sempre envolvidos com algo que nos fazia perder a noção do tempo, começamos a perceber que o dia ia passando numa velocidade inimaginável. Quando aquela sequência de corredeiras deram um tempo e o rio voltou a se estabilizar por um tempo, foi a vez de mais poços esverdeados aparecerem e mesmo com o rio um pouco mais lento, parte da galera resolveu poupar energia e seguiram boiando nas aguas claras porque mesmo sem aquele sol exuberante, a temperatura se mantinha muito agradável e as chuvas previstas pareceriam cada vez mais distantes. Os cenários eram os mais belos possíveis e quando parecia que a paisagem não mudaria, logo éramos surpreendidos com tonalidades de águas diferentes, ás veze tão transparentes que o fundo dos poços parecia conter pouco centímetros quando na verdade eram metros de profundidade e numa curva demos de cara com uma rampa e a descemos pela esquerda e essa rampa nos jogou diretamente para mais um poço, dessa vez com quase uns 100 metros de tamanho , um gigante profundo que fez com que tivéssemos que nadar por um bom tempo. A gente apostava que os desníveis do rio haviam acabado e até o final enfrentaríamos apenas leves corredeiras e a caminhada seguia tranquila e serena, hora parávamos para beliscar alguns petiscos, hora apenas nos sentávamos à beira dos grandes poços para apreciar suas belezas e quando não esperávamos ela cruzou o nosso caminho : O rio começou a ficar rápido novamente e várias pequenas cascatas iam dando as caras e de repente o rio deu em salto no vazio e nos revelou uma grande queda que ia de um lado ao outro, quase como um pequena Catarata se jogando num lago profundo. Ficamos boquiabertos, era realmente uma grande surpresa encontrar uma cachoeira daquela. O Trovo e o Dema já lançaram suas mochilas de cima das cataratas e saltaram em meio as turbulências e se perderam no fundo das águas, os outros desceram pela esquerda aproveitando uma canaleta escorregadia mais fácil de descer e vendo que o pulo era seguro, parte do grupo deixou sua mochila sobre as pedras e também foi brincar de pular de cima da queda d’água. Depois dessa cachoeira nada mais pareciam nos surpreender, o rio se transformou novamente em uma grande garganta e entre descidas memoráveis, escalávamos as paredes laterais e nos pendurávamos nas bordas escorregadias e se algo desse errado, era mais um corpo a despencar dentro dos poços profundos e aí o expedicionário virava vítima de piadas e tiração de sarro. Às vezes cansados de tanto nadar, recorríamos para alguma margem mais plana, mas quando isso nos aborrecia por causa dos bambuzinhos, voltávamos para o rio e nos lançávamos novamente na água porque já éramos praticamente anfíbios. Mas quando as corredeiras violentas voltavam, aí a gente se divertia como se estivéssemos a brincar num parque de diversões aquático e foi em um tobogã natural que o Trovo quase se lascou todo. Eu e o Regis iamos à frente nessa parte do rio, mas quando vimos que o negócio ficou perigoso, resolvemos sair da água e tentar analisar melhor antes de nos jogarmos num paradeiro incerto, mas o Trovo vindo em seguida, logo pergunta se dá para descer e o Régis sem pensar direito disse:” Manda bala “. E lá veio o Trovo desembestado feito um tronco sem rumo e quando o Regis resolveu recuar e tentar avisá-lo que a descida era insana, não deu mais tempo e só vimos o Trovo dar tchauzinho para câmera e despencar feito pica-pau sem barril. O Trovo escapou ileso, mas foi por pura sorte mesmo. A fúria da correnteza o jogou violentamente contra a parede lateral e antes que sua cabeça rachasse ao meio nas rochas, a mochila o salvou colidindo primeiro. Foi um grande susto para todo o grupo e mais uma vez ficou provado que usar capacete nunca sairá de moda e infelizmente o Trovo é o único do grupo que ainda não aderiu ao equipamento de segurança, confiança que poderia ter lhe custado a vida ou ao menos um acidente grave. Aliás, capacete, colete e perneira, eram itens que já há muito tempo vinham fazendo parte das nossas vestimentas, justamente por causa de outros acidentes ou quase acidentes que havíamos enfrentado em todos esses anos de expedições selvagens. O rio arrefece um pouco e as quedas vão dando lugar a pequenas cascatas precedidas por poços gigantes e corredeirinhas mais suaves e aí vamos aproveitando para poupar energia, nos deixando ser carregado pelas águas que nos servem de transporte. Aquele cenário é de uma beleza fora do comum, as praias infestadas de pegadas de onças, antas, pacas e uma infinidade de pássaros e nas matas, pés de palmeiras Jussara indicam que aquele é um lugar realmente ainda intocado pelo homem e a gente se sente uns privilegiados de podermos estar num lugar daqueles. A caminhada segue num ritmo tranquilo e a boiação parece nunca terminar e aproveitamos para conversar, mas a cada curva era de praxe voltar a elogiar a qualidade das águas do rio e a capacidade que ele tinha de nos surpreender e ficamos pensando nos companheiros que fizeram corpo mole para não vir porque achavam que o rio não valeria a pena, tanto que vez ou outra, alguém mandava um recadinho maroto para dar uma alfinetada em quem havia desdenhado. O final do dia já se aproximava, mas ainda achamos que 16 horas era um tanto cedo para acampar e para nossa surpresa, o terreno que até então havia se estabilizado, acabou dando lugar para uma garganta enorme, aliás, a maior garganta de todo o percurso. Uma grande cachoeira despencando no vazio e arrastando um turbilhão de água para dentro de um cânion. Não havia como descer por dentro do rio desescalando pedras, então a única maneira foi nos embrenharmos no mato por um breve momento, ganhar altura e voltarmos a descer na diagonal até interceptarmos o fundo do vale onde a cachoeira finalizava seu curso se jogando em mais um poço fenomenal, onde mais uma vez nos jogamos de cima das pedras e fomos nos deleitando sobre suas águas, nadando e vendo a pedras passarem no seu fundo transparente. O rio resolve ficar raivoso novamente e a gente já começa a pensar seriamente em achar um lugar para acampar, mas não demora nadinha para as águas resolverem se rebelar de vez e saltarem de cima de uma grande laje para dentro de mais um impressionante poço. Anderson Rosa, Régis e Décio já não aguentam mais tanta água, mas o incansável Daniel Trovo nem pensa muito, atira a mochila de cima do barranco e se joga e atrás vamos eu e o Dema para mais um salto memorável, aproveitando o ingresso do parque aquático para brincar em todos os brinquedos. Seguimos agora por um rio mais afunilado, saltando sobre grandes pedras e quando dava, tentávamos caminhar pela margem na expectativa de localizarmos uma área mais favorável para montarmos nossas redes e numa dessas saídas do rio, caímos em um patamar com árvores frondosas espalhadas num terreno plano e aí não tivemos duvidas, atiramos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado aquele dia intenso de aventuras, aliás, foram 11 km de descida de rio em um único dia, um recorde absoluto até então, algo que já jamais havíamos feito em nenhum outro rio. Realmente foi um dia daqueles e a gente estava muito feliz por tudo estar dando certo até aquele momento, as chuvas passaram muito longe da previsão e o grupo se manteve unido o tempo todo. A montagem das redes é uma coisa que mesmo trabalhosa, acaba por ser divertida por fazer parte do processo da expedição, um aprendizado que vai se construindo pouco à pouco. A confraternização é um daqueles momentos únicos nessas expedições, serve para afinar o grupo, rever alguns erros cometidos e repassar os momentos incríveis passados durante o dia. Mas pela atividade intensa, mal terminamos de jantar e todo mundo já foi se esticar na sua rede, alguns desmaiam rapidamente, outros ainda ficam jogando conversa fora durante algum tempo. Enquanto eu também não apago, fico pensando como vales como aquele ainda conseguem se manter longe dos olhos humanos durante tanto tempo, mesmo estando nas barbas da maior cidade do Brasil, lugares onde naquele exato momento poderia estar sendo vigiado por onças incríveis e outros animais sensacionais e aí transbordo de felicidade de poder fazer parte de algo único na vida, ter a honra de poder fazer parte de uma expedição como aquela. O dia amanhece lindo e parece que logo pela manhã o sol já vai dar as caras e esse seria o nosso último dia de expedição e esperávamos não nos demorar muito para interceptarmos vestígio de civilização. Levantar da rede muito cedo não foi difícil, mas colocar roupa molhada é sempre algo que me aborrece, mesmo sabendo que os primeiros passos já serão por dentro do rio e de suas águas frias. Cada um tenta atravessar molhando o menos possível, mais tem logo uns tontos que desequilibram e vão para no fundo do rio e como dessa vez não fui um deles, me alegro de chegar apenas com a água perto da cintura, mas essa alegria não dura nem uma curva e logo o pelotão da frente já acha que deve se atirar no rio de cima de uma cachoeirinha para evitar a fadiga de ter que escalar paredes lisas para se manter ainda um pouco seco. Alguns de nós insiste em testar seus dotes de subidores de paredes e se equilibrando na ponta da unha, vão fugindo da água gelada e eu fui um deles, mas quando o caminho acabou e foi preciso trepar no barranco para rasgar mato no peito, toquei o foda-se e mergulhei nas profundidades do grande poço e já que estava no inferno, abraçar o capeta era o que estava tendo para hoje, nadei o mais rápido que pude, alternando entre longas braçadas e cachorrinho até me ver novamente as margens secas, são e salvo das baixas temperaturas matinais. Aquele era mais um poço impressionante, como todos outros que passamos nessa expedição e logo um tronco chama atenção por parecer muito com a estátua O PENSADOR, famosa de Alguste Rodim e aí não teve como não batizar aquele queda d’água como CACHOEIRA DO RODIM , nome dado , aliás, pelo Daniel Trovo. E essa cachoeira marca definitivamente a entrada da expedição na área já menos selvagem, mas nem por isso habitada. Ao Lado do grande lago, uma clareira abandonada há vários anos nos mostra que estamos mais perto da civilização e se tivéssemos nos apressado mais um pouco no dia anterior, talvez umas 2 horas, poderíamos ter acampado nessa clareira com um abrigo ainda em condições de ser usado. Dessa clareira saia uma trilha e foi por ela que seguimos por um bom tempo até localizarmos outro vestígio, um barraco destruído e sem uso também há vários anos pelo seu aspecto de abandono. A trilha se foi e o rio voltou a se tornar novamente nosso caminho e quando chegamos perto do que outrora fora uma ponte de troncos e que hoje também se encontra destruída, demos de cara com outra habitação, o BARRACO DO ESPANTALHO, esse sim parecendo ser ocupado de vez enquanto e por um golpe do destino, logo mais saberíamos quem seria o seu dono, de antemão não passam mesmo de rústicos casebres de madeira usados por caçadores locais. Até tentamos seguir por uma trilha que partia dessa choupana, mas logo ela se perdeu no mato e voltamos novamente para o rio por onde andamos por um bom tempo, arrastando nossas botas no areião e quando tentamos interceptar um casebre que eu havia marca no mapa de satélite, demos com os burros n’água e tivemos que bater em retirada, varando uns bambus e uns cipós quase que intransitáveis. Um olhar atento nos levou para outro rabo de trilha e a seguimos até que ela se transformou numa estradinha abandonada em meio a uma plantação de bananas igualmente esquecidas na floresta. Essa estrada nos devolveu novamente ao rio e o cruzamos novamente para interceptar a continuação do caminho e nos agarramos a ele por mais de uma hora até que finalmente perto das 13 horas demos de cara com a sede da FAZENDA BRACINHO, na verdade um amontoado de algumas casas simples, mas em um lugar muito bonito. Dessa casa surgiu o caseiro, que sem querer muita conversa, nos indicou o caminho para fora da fazenda e essa foi a primeira pessoa com quem conversamos em 4 dias de expedição selvagem. Agora tínhamos uma missão ingrata de caminhar por uma estradinha de terra por mais de 7 km, debaixo de um sol para cada um e antes mesmo que essa penitência começasse, ” tio Décio”, aquele das tralhas inúteis, sacou do fundo da mochila uma peça de salame e foi imediatamente ovacionado pela “multidão” ali presente que já sem comida há muito tempo, deram muitas vivas e juraram amor eterno ao nobre expedicionário. Pouco mais de 1 km nos leva até um amontoado de casas e ao passar por um laguinho, ouvimos o chamado de um casal que do alto de sua habitação queriam saber que diabos aquele monte de gente estranha, com roupa esquisita estava fazendo por aquelas bandas e enquanto contávamos nossa história, uma travessa de torresmo, pão, café e refrigerantes nos foram servidos e por causa disso resolvemos transformar o então breve conto em um romance Homérico até que cada buraco do estômago fosse preenchido. Para pôr fim àquela travessia um pouco mais cedo, já sabendo que a volta para casa seria uma via crucies, voltamos para a estradinha enfadonha a fim de alcançar logo a Rodovia Régis Bitencourt no meio da Serra do Cafezal para tentar algum transporte até Juquitiba ou o para qualquer lugar que nos deixasse o mais próximo possível de São Paulo e foi aí que, logo depois da ponte que atravessa por cima do próprio Rio Bracinho, uma esticada de dedo totalmente descompromissada fez uma caminhonete parar imediatamente. Dela desceu um homem meio desconfiado, mas a sua curiosidade não o deixou seguir em frente e quando contamos rapidamente de onde vínhamos, seu Flávio arregalou os olhos sem acreditar no que acabara de ouvir. Rapidamente deu um jeito de acomodar todo mundo no veículo, alguns dentro e outras na carroceria. Seu Flávio é um fazendeiro plantador de bananas ali da região e costuma caçar ali nas cercanias do Bracinho e quando soube que havíamos descido o rio das nascentes até quase sua foz, seus olhos brilhavam e seu espanto foi ainda maior quando soube que passamos pelo vale selvagem sem portarmos nenhuma arma para nos defendermos das onças e porcos selvagens. Ao chegarmos perto da Rodovia, fez questão de passar num boteco empoeirado para nos mostrar à outros amigos ali da região e ao sabermos que ele estava indo para capital, não nos furtamos em angariar uma carona pelo menos para os que moravam muito mais longe, no caso meu e do Dema que residimos no interior e para outros que teriam que trabalhar na segunda- feira. Infelizmente acabou sobrando para o Décio e para o Rosa a tarefa ingrata de voltar para São Paulo pegando uma infinidade de ônibus, mas para nós que conseguimos a carona, acabou por ser uma viagem tranquila e divertida e às cinco da tarde já estávamos embarcando na rodoviária do Tietê para Sumaré, enquanto isso, Daniel Trovo e Régis já foram se perder para outros fins de mundo ali mesmo naquela cidade gigantesca. O Rio BRACINHO ganhou um nome ingrato por acharem ser ele um mero afluente, tributário menor do Rio São Lourencinho, que por sua vez era um importante afluente do Rio Juquiá, um grande rio da bacia do Ribeira do Iguape. O Bracinho se mostrou gigante, não só no seu comprimento, mas na sua importância dentro de uma região ainda inexplorada e selvagem, um vale até então totalmente desconhecido, no máximo arranhado em sua porção mais próximo à civilização. Quando resolvemos nos jogar na tal aventura, esperávamos encontrar um lugar selvagem, mas jamais poderíamos prever que esse rio se transformaria em um dos maiores achados de todos os tempos da Serra do Mar e o grupo que atravessou aquele vale, na sua maioria formado por senhores já de meia idade, saíram do outro lado com pelo menos uns 10 anos de idade a menos porque se entregaram ao deleite de voltarem a ser crianças para aproveitar esse grande parque de diversões natural. Para a geografia do Estado é mais um rio que foi acrescentado ao mapa e mesmo que passe muitos e muitos anos para que outro grupo resolva atravessá-lo, ele ainda figurará muito tempo longe das vistas destruidoras da raça humana, simplesmente pela sua dificuldade de acesso, como todos os outros rios que compõem o LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA. Divanei Goes de Paula- novembro/2018
  2. TABULEIRO X LAPINHA “Grande, enorme, gigante! É como um minúsculo nada que me jogo na grandiosidade daquele poço de onde despenca nada mais nada menos que a maior Cachoeira de Minas Gerais. O mergulho é meio estabanado devido a presença de rochas submersas, mas ao submergir das águas geladas, me lembro de outrora quando estivera naquele lugar há mais de 15 anos e sem muito titubear, boto forças no braço e tento alcançar o lugar donde as águas despencam dos 273 m de queda livre, mas o vento e as ondas criadas pelo deslocamento de ar me fazem tomar um rumo diferente e então nado na diagonal até me ver a salvo numa ilha rochosa. Tomo novamente a direção da cachoeira e meu olhar se perde nas alturas colossais e pulando de pedra em pedra, atravesso um arco-íris para me projetar atrás do grande véu aquático e lá me perco na euforia do momento. Nem me lembro mais quem sou eu, não sei se sou criança ou um homem de meia idade e por alguns minutos me entrego ao deleite que me assombra a alma, agora tomada por uma felicidade imensa, perdido na magia de uma das maiores atrações naturais do Brasil. “ A travessia Lapinha x Tabuleiro é um dos maiores clássicos em se tratando de caminhadas no país, mas por incrível que pareça, ainda se trata de uma ilustre desconhecida entre os grandes centros, ficando renegada apenas ao mineiros e alguns montanhistas mais safos. Claro que todo mundo que é ligado ao esporte pelo menos uma vez na vida já ouviu falar dessa travessia, mas a distância e a logística péssima, fez com que muita gente experiente acabasse por deixar essa travessia tradicional em segundo plano e eu não escapei de ser um deles, tendo ensaiado por várias vezes me enfiar naquelas paragens. Não posso dizer que desconhecia totalmente a Serra do Espinhaço porque já havia estado por lá tempos atrás, mas nunca para uma grande caminhada, sempre como turista, para visitar os parques nacionais e alguns vilarejos perdidos, como o próprio vilarejo do Tabuleiro. Tendo pelo menos 10 dias de férias, resolvi que era chegado a hora de riscar essa caminhada da minha lista e como o Anderson Rosa também estava com tempo sobrando, combinamos de emendar uma grande travessia no Espinhaço, nos perdendo por mais de uma centena de quilômetros entre o vilarejo do Tabuleiro, passando pelo Vilarejo de Lapinha da Serra e depois esticando até o vilarejo de Fechados e o que a gente achava que seria uma bela caminhada pelo serrado mineiro, acabou por se tornar uma grande aventura duríssima, porque onde a gente põe a mão ou no caso os pés , a gente tem o poder de transformar o passeio numa ida ao inferno, desnecessário, mas um dia a gente aprende.( rsrsrsrsr) (Conceição do Mato Dentro) Aproveitando a vinda de uns mineiros para capital paulista, que vieram assistir a final da Copa do Brasil de onde o time de Belo Horizonte levou a taça ganhando de um timinho de Itaquera, pegamos uma carona combinada no aplicativo e picamos a mula para a capital mundial do pão do queijo e às nove da manhã já havíamos sidos cooptados por uma lotação que iria nos levar de Belo Horizonte até o município de Conceição do Mato Dentro, que por sinal, havia mudado pouco desde que lá entive no início dos anos 2.000, continuava o mesmo fim de mundo de sempre. Conceição é daquelas cidades minúscula, onde certamente o Judas teria perdido as botas, mas nosso destino seria ainda mais distante, talvez lá para onde o Judas passa férias. Convencemos um taxista a nos dar um desconto e nos levar para o vilarejo de Tabuleiro distante quase 30 km, mesmo com as nuvens enegrecidas que ameaçavam desabar e transformar as estradas de terra num atoleiro. Numa viagem quase que interminável, tendo que fazer desvio por caminhos pouco dantes navegados, chegamos ao Tabuleiro na parte da tarde e fomos desovados num lugar vazio e em meio as chuvas que acabaram vindo, como o prometido. (vilarejo do Tabuleiro) O vilarejo conta com um amontoado de casa distribuídas em formas aleatórias, espalhadas pelo terreno montanhoso e seu centrinho fica num lugar estranho, uma subida abaulada e do ponto mais alto desponta uma igrejinha magnífica que foi reformada há pouco tempo e faz o charme do lugarejo. Deixei o Anderson cuidando das mochilas e fui ver uma vaga no camping na entrada da vila, aliás, o mesmo que havia ficado gratuitamente 15 anos atrás e que hoje era administrado por um senhor que cobra um preço camarada para se instalar com barraca( 15 reais), mas como ainda era cedo, resolvemos dar uma voltar e tirar umas fotos da singela igrejinha e foi lá que conhecemos o Dinei, morador local que nos emprestou um sinal de internet e por fim nos ofereceu a construção de uma lanchonete para que pudéssemos passar a noite. Na manhã seguinte sem muita pressa e depois de um bom café, jogamos as mochilas nas costas e partimos para o início da trilha que está a quase 4 km do vilarejo, mas não demorou muito e ao passar por nós uma perua escolar que se dirigia para a portaria do Parque do Tabuleiro, não nos furtamos em esticar o dedo e angariar uma carona salvadora. O Parque Municipal e Natural do Tabuleiro engloba boa parte dessa travessia e é o guardião da cachoeira de mesmo nome. Esse parque nem existia quando por aqui estive em 2003 e hoje conta com uma portaria que cobra 10 reais para se acessar a queda d’água, mas fornece coletes salva-vidas para todo mundo, além de ter estruturado quase toda a trilha, instalando tablados e passarela para dar acesso para todo mundo, um exemplo a ser seguido por qualquer parque. Quem vai fazer a travessia para Lapinha da Serra e não vai até a cachoeira nem precisa pagar, mas esse não era o nosso caso porque fazer a travessia sem ir ao grande poço da queda é de uma burrice gigante porque talvez essa seja uma das grandes atrações naturais do Brasil. Explicando melhor, existem dois caminhos: o tradicional que vai passar pela direita da Cachoeira e vê-la apenas do mirante e o alternativo que vai contornar pela esquerda, subindo em paredão íngreme e já saindo no topo da cachoeira, claro que existe a opção de ir até onde a queda despenca, voltar e escolher qualquer caminho, mas como veríamos no decorrer dessa travessia, são poucos os que escolhem fazer essa travessia partindo do Tabuleiro, a grande maioria prefere partir de Lapinha da Serra. Sempre pensei que esse caminho escolhido pela maioria seria para deixar a grande atração do roteiro para o final, a grande cereja do bolo, finalizar com um grande banho na Cachoeira do Tabuleiro, mas depois descobriríamos que o grande motivo seria outro. Nos despedimos dos guarda parques e viramos à esquerda e já pegamos a trilha que nos levaria até embaixo da queda do Tabuleiro. Como relatei, um caminho todo demarcado e com infraestrutura para que pessoas de idade e crianças possam seguir com segurança, mesmo que seja uma trilha puxada para esse seguimento, não se gasta pouco mais de uma hora até cachoeira. O Caminho é lindo demais e aos poucos a queda d’água vai se mostrando imponente e vai devastando a nossa capacidade de medir tamanhos. Vamos perdendo altitudes , passando por alguns mirantes incríveis e quando menos esperamos já estamos com os pés do Ribeirão do Campo de águas avermelhadas e escuras, um colorido único que vai rasgando a vegetação rupestre e aí vamos pulando de pedra em pedra, atravessando o rio em ziguezague, ás vezes somos jogamos para às margem e somos obrigados e transitar por dentro da vegetação, mas sempre seguindo setas pintadas caprichosamente para facilitar a passagem sem que tenhamos que molhar as nossas botas, pelo menos na época da primavera quando o rio está menos cheio . A cada passo dado em direção aos pés da grande queda, mais fascinante vai ficando o passeio, a vontade é largar mochila e tudo mais para trás e sair correndo e se jogar aos pés desse deus em forma líquida e se banhar no seu glorioso manto molhado, porque mais que um prazer é mesmo uma grande honra poder estar num lugar único como aquele. Quando estacionamos nossos corpos extasiados junto ao grande poço de águas escuras, apenas 4 ou 5 testemunhas se refrescavam naquela sexta feira de outubro. O sol incidia direto no poço e o véu da maior cachoeira de Minas Gerais e a terceira mais do país, se espalhava numa dança frenética, num vai e vem belíssimo e para nossa sorte, a Grande CACHOEIRA DO TABULEIRO havia sido encorpada pelas chuvas do dia anterior. Ela estava tão bela quanto 15 anos atrás, quando também pegamos ela com um volume alto e não demora nada para eu me despir da minha pele fabricada e me atirar nas águas frias e tentar nadar em direção ao véu, mas por mais que eu me esforçasse, foi impossível prosseguir por causa das ondas e da correnteza que insistia em me jogar de volta para as margens, então apenas nadei bravamente até uma pedra submersa e com um dorso de baleia aparente e lá ganhei fôlego, preferindo agora seguir pela margem esquerda até me posicionar embaixo dos 273 metros de queda livre e lá sentir toda energia daquele monstro caindo sobre minhas costas. Os minutos que lá passei foram uma eternidade, gritei palavras desconexas, frases sem sentido, invoquei a minha infância com todo o vigor da minha alma, eu estava feliz como poucas vezes estivera antes. Deixamos a grande cachoeira para trás e voltamos a descer o rio, agora na intenção de encontrar a trilha que nos levaria para o topo dela. Sabíamos que o nosso caminho seguiria para a direita de quem desce e logo depois de uma pequena grutinha localizamos um totem de pedra que nos indicou por onde deveríamos subir, mas basicamente essa trilha sobe o barranco do outro lado do rio pra quem vem lá da sede do parque, no nosso caso que estávamos voltando da cachoeira , tivermos que fazer uma escalaminhada inicial até que a trilha se consolida de vez e fica bem visível , toda forrada com pedrinhas brancas e quando se chega ao alto, pegamos para a direita numa placa do parque , junto a um amontoado de telhas . Vamos caminhado, agora mais em nível, meio que paralelo ao grande morro de onde a cachoeira desaba, mas logo se percebe que deveremos subi-la contornando o morrão pela sua esquerda. Quando nos aproximamos de vez da montanha continuamos subindo até um grande patamar para descobrir que havia mais um grande morro para ser cruzado, mas como acabei desgrudando os olhos do traklog passado por uns amigos mineiros, acabamos nos enfiando nesse patamar e seguindo reto, varando uns arbustos até darmos com os burros n’água. Verdade mesmo que o nosso burro não chegou nem perto da água, acabamos saindo no alto do penhasco com a visão do rio lá embaixo, sem conseguirmos descer sem que fosse preciso sacar de uma corda. (Ribeirão do Campo) Bom, o Anderson já estava pistola comigo porque havíamos caminhado numa subida do cão e não fomos dar em lugar nenhum. Eu até tentei achar um caminho para tentarmos descer para ver a cachoeira despencando no vazio, mas acabei por desistir e como ele já estava aporrinhando para voltarmos para trilha correta e com toda razão, interceptamos um rabo de trilha e navegamos beirando o Ribeirão do Campo pelo alto até conseguirmos perder altitude e nos acabarmos de tanto beber água. Enquanto o Andersom se acabava numa cachoeirinha, desci o rio para bater umas fotos de umas cachoeiras maiores e até pensei em seguir o rio pela margem até para ver a Tabuleiro despencando no vazio, mas achei que gastaria muito tempo para ir e voltar e como a tarde já ia pela metade, voltei para onde estava o Rosa, comemos um lanche e partimos. A sequência do caminho é do outro lado do rio, passamos por uma bifurcação para a direta que provavelmente levará para vistas do salto da cachoeira e continuamos subindo. Não é um grande desnível, mas é uma trilha longa para quem já teve que vencer o desnível desde o pé da cachoeira com a mochila carregada. Vamos caminhando devagar, desprezando algumas bifurcações que provavelmente servirá de atalho para a trilha principal que vem lá da sede do parque e quando o terreno nivela, vamos nos perdendo naquela vastidão sem fim, tentando adivinhar para onde seguirá nosso caminho, mas logo ao cruzar uma porteira, nos damos conta que devemos manter os olhos bem presos ao chão, ainda mais depois de quase pisarmos numa jararacuçu. Nosso traklog indicava que estávamos perto do camping e apoio do seu Zé, mas somente quando a noite caiu foi que conseguimos enxergar as luzes ao longe que nos serviu de guia. Debruçado na janela, seu Zé nos recebe com um boa noite e uma galera de Belo Horizonte se espanta com nossa chegada tão tardia. Seu José nos autoriza a montarmos nossa barraquinha na varanda, muito porque as nuvens negras que nos acompanhou a tarde toda ainda ameaçavam desabar, mas não choveu e logo após um banho gelado e uma janta quente, nos jogamos na nossa casa de mato e só acordamos quando o sol veio nos avisar que era hora de retomarmos mais um dia de caminhada. Nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos pela trilha que agora se parece com uma estradinha e que se inicia atrás da casa, logo depois da porteira. As vistas se alargam muito e a caminhada vai seguindo com pouco desnível por caminho muito obvies e de fácil navegação, tão fácil que a gente bobeou e ao invés de pegarmos a trilha para a esquerda 1 km depois do camping, passamos reto e seguimos enfrente pelo caminho aberto por mais 1600 m e só percebemos o erro porque nos vimos diante de uma bifurcação. Diante da burrada e da pernada desnecessária, resolvemos não voltar e sim varar mato pelo cerrado, mas agora sem tirar o olho do gps do celular que apontava que o nosso caminho deveria seguir para o sul, totalmente oposto do caminho que estávamos seguindo. Cortar caminho sem trilha em campos de altitude não é problema e é até prazeroso poder deslumbrar um tanto de novas plantas rasteiras do qual não estamos acostumados a ver e menos de meia hora depois reencontramos a nossa trilha bem onde uma ponte natural feita de raiz cruza um riacho. Mais 1 km de caminhada em campos abertos e vamos passando por uma espécie de brejo, que vai cortar dois capões de mato a distância, com uma formação rochosa muito bonita a direita e uns 15 minutos depois desembocamos num rio lindo com água abundante, cor de coca-cola e depois de um gole d’água, cruzamo-lo para o outro lado e vamos subindo levemente por mais vinte minutos até cruzarmos a porteira e a placa que delimita o início do Parque natural do Tabuleiro e ganharmos a rua de terra. Nosso caminho segue na estradinha para a esquerda, mas não dá nem 200 metros já interceptamos um rabo de trilha saindo para a direita e vamos descendo em direção a CASCALHEIRA , uma passagem muito bonita , quase uma fenda que vai despencando montanha abaixo, contornado o abismo até ganhar o fundo do vale, num plano muito bonito, todo florido e com caminho estreito já com vista para os picos que compõe toda essa paisagem lindíssima. O caminho é bem gostoso de ser trilhado e o esforço é mínimo por não haver nenhum desnível considerável e meia hora depois cruzamos mais um riachoem meio a uma matinha, no qual paramos para matar nossa sede e refrescar nossa moleira já que o sol não estava para brincadeira. Seguimos até que a trilha se enfia dentro de um capão de mato e sobe beirando uma cerca de arame até desembocar numa porteira, onde é possível avista ao longe uma casa do lado direito. A partir de agora o Pico do Breu já nos acena com um convite para subi-lo e vamos descendo em direção a ele e ao Rio Parauninha e logo quando passamos em frente do lugar marcado para pegar à esquerda e seguir para a área de acampamento da Dona Ana,resolvemos mandar o traklog as favas e cortar caminho direto para o Pico, como se ele próprio tivesse nos enfeitiçado. Abandonamos, portanto, a trilha batida e fomos traçando um caminho com o GPS até reencontrarmos no fundo do vale o RIO PARAUNINHA, com suas águas vermelhas e convidativas. Depois de um breve descanso e de termos localizado a trilha que vai galgar a encosta do Breu, recolhemos um litro e meio de água por pessoa, já que não sabíamos se teríamos fontes no topo ou a caminho do dele. A subida é meio confusa, as vezes os totens dão o caminho, outras vezes a trilha aparece em meio às pedrinhas brancas, mas a única coisa que não deixa de ser óbvia é que tem que tocar para cima e foi aí que a gente descobriu porque absolutamente ninguém costuma fazer esse roteiro vindo de Tabuleiro e somente de Lapinha da Serra. É uma subida dos infernos, principalmente para quem como nós está com uma mochila carregada para 10 dias de travessias. Vamos ganhando terreno metro à metro, centímetro à centímetro e quanto mais se sobe mais difícil vai se tornando o caminho. Eu já não vinha passando muito bem por causa do clorim que usamos para tratar a água, coisa que eu sabia que sempre me fazia mal. Estava com cólicas terríveis por causa de uma dor de barriga e aquele diabo daquela trilha não arrefecia de jeito nenhum. Para piorar o tempo fechou no cume e as nuvens desceram violentamente e nos pegou nas encostas. Quando a gente pensava que estava chegando, sempre aparecia outro ombro para ser galgado e eu já estava quase mandando aquele cume a merda e acampando em qualquer lugar, mas como o Rosa acabou se adiantando, me vi na obrigação de tentar acompanha-lo, muito porque, o abrigo estava com ele. Claro, poderíamos ter evitado tudo aquilo, poderíamos apenas ter seguido pelo caminho tradicional e não subir o Pico, apenas contorna-lo, mas não, a gente tem que inventar moda e escolher a porra do pior caminho. O Andersom sumiu das minhas vistas, fiquei para trás me contorcendo e me arrastando em meio a vegetação de altitude, sem saber se estava indo para o lado certo ou não e quando o terreno se estabilizou e galguei uma parte plana, avistei um grande totem de pedra que marcava os 1.687 metros do cume do PICO DO BREU, joguei minha mochila ao chão e dei por encerrado aquele dia de caminhada, hora de procurar um lugar para acampar e fazer uma janta quente. O Pico do Breu é o ponto mais alto do caminho e a vista lá de cima é realmente deslumbrante, mas por causa do mau tempo no cume, conseguimos ver muito pouco e por um breve espaço de tempo, toda a crista que vai levar ao Pico da Lapinha. Assim que escureceu, o tempo fechou de vez e uma garoa fina tomou conta do lugar. Não havia nenhum sinal de acampamento no topo, muito porque deve até ser proibido e além do mais, quem parte de Lapinha da Serra deve chegar aqui super sedo, sendo desnecessário acampar aqui, mas não é o nosso caso e então, depois de tirarmos algumas pedrinhas de um lugar mais plano, montamos nossa barraquinha e fomos tratar do jantar. Enquanto o Anderson cozinhava, perguntei para ele se não seria bom tentar esticar a lona superior da barraca com algumas pedras e como ele achou meio desnecessário, não dei muita liga, afinal de contas eu ainda estava envolto com minhas cólicas abdominais e estava querendo era ficar quietinho, mas essa atitude preguiçosa iria nos cobrar um preço. A neblina que durante o dia havia varrido o topo do Breu, à noite se transformou em uma garoa fina e os ventos açoitaram nossa barraquinha fazendo com que a lona de fora grudasse na de dentro e tudo o que era seco se encharcou. Estávamos tão cansados que ninguém se animou a sair lá fora com o mal tempo para tentar esticar a lona e de manhã ainda tivemos a cara de pau de praguejar contra as forças da natureza ao invés de aceitar nossa incompetência. Mesmo molhados, ficamos deitados até tarde, meio que em estado letárgico, sem coragem de levantar e encarar o tempo ruim que ainda persistia e só quando não houve mais jeito foi que tomamos coragem e resolvemos enfrentar o nosso destino. Rapidamente desmontamos tudo e jogamos para dentro das mochilas e saímos voados do cume, mas não fomos muito longe porque logo nos vimos perdidos na encosta depois que o cume acabou. Acontece que a descida é pela esquerda, numa fenda que despenca logo para baixo, mas o mal tempo nos fez rodarmos um pouco mesmo seguindo pelo traklog do gps. A descida é rápida e o caminho curva-se para a esquerda e ao atingir a crista se nivela e vamos galgá-la em direção ao Pico da Lapinha. O caminho com tempo ruim é meio confuso, mas ao longe avistamos umas estacas pintadas de azul, passamos por algumas nascentes que nos ajuda a repor a nossa água que nos faltou no cume do Pico do Breu e uma meia hora depois, talvez um pouco mais, chegamos à uma bifurcação. Para a esquerda é a descida que poderia nos levar para o Rio Parauninha e interceptar a trilha tradicional, e para a direita é a continuação para o Pico da Lapinha e a sequência da trilha que também poderá nos levar para o próprio vilarejo de Lapinha da Serra. Mesmo com mal tempo resolvemos seguir pela crista da serra e pouco mais de 3 km depois interceptamos a própria trilha final que vai subir ao cume do PICO DA LAPINHA. A vista lá de cima deve ser soberba, mas com o tempo fechado como estava, achamos perda de tempo e esforço inútil, então passamos direto, agora nos guiando por estacas vermelhas, o que nos deixou curioso para saber quem havia sinalizado tão bem essa crista de montanhas, jamais havíamos visto isso em lugar nenhum, mas não tardaríamos em saber que isso tinha seu preço. Da entrada para o pico da Lapinha, a trilha vai perdendo altitude e uns 15 ou 20 minutos depois demos de cara com um surpreendente abrigo de montanha, todo bem conservado e até com fogão à lenha e banheiros limpos. Imaginamos que poderia ser a sede do parque, mas logo saberíamos do que se tratava. O lugar aonde foi construído o abrigo é lindíssimo, mas um pouco exposto e o vento que vinha encanado pelo vale estava de congelar, ainda mais porque estávamos molhados, então tiramos algumas fotos da paisagem e do Pico da Lapinha e descemos rapidamente, tentando sair de dentro das nuvens para alcançarmos o sol que iluminava o vilarejo que já estava à vista. A trilha vai descendo para valer e o horizonte vai se alargando até podermos ver o grande lago que deixa tudo mais encantador. De degrau à degrau, vamos cada vez mais nos aproximando do vilarejo, passamos por um rio de onde placas indicam haver cachoeiras, mas já não nos alegramos mais em ir conhecer, queremos mesmo é poder finalizar essa travessia o quanto antes a fim de nos aquecer e poder comer algo porque o estomago já está nas costas. Uma última curva nos leva até uma casa e uma porteira nos fecha o caminho de onde duas pessoas nos aguardam babando para nos interpelar sobre o caminho que fizemos. Foi ali que descobrimos que todos aquelas cristas e montanhas ficavam em área particular e que a tal construção se tratava de uma portaria para cobrança do acesso. Tivemos que responder um monte de perguntas, mas a nossa astúcia de montanhistas antigos já nos fez optarmos pelos famosos “migués”, demos uma de “João sem braço”, dizendo que não sabíamos de nada e que havíamos acampados em um lugar distantes, tão distante que nem nós sabíamos explicar onde ficava. Enfim, nos deixaram passar sem cobrar os 25 reais pela passagem por suas terras, mas nos avisaram que da próxima vez teríamos que pagar. Balançamos a cabeça, ainda nos fazendo de bobos, nos despedimos dos cobradores de impostos e seguimos nosso caminho passando pelo campinho de futebol até finalmente desembocarmos num camping junto ao minúsculo vilarejo, num fim de mundo sem sinal de celular ou quaisquer outras modernidades. O dia mal havia chegado a sua metade, poderíamos nos pôr a caminhar por mais uns 10 km e ganhar o povoado de Santana do riacho de onde poderíamos tentar um ônibus para Belo Horizonte, mas apesar de termos chegado ao final dessa clássica travessia, nossas pretensões era seguir caminho para outro vilarejo perdido na Serra do Espinhaço, mas a travessia para FECHADOS é outra história, uma outra aventura surpreendente que será contado em um momento oportuno. A travessia Tabuleiro x Lapinha ou vice-versa é sem dúvida uma das mais clássicas travessias de todo o Brasil e conta a seu favor o fato de estar afastada dos grandes centros como Rio e São Paulo, o que faz dela ainda uma caminhada deslumbrante devido ao pequeno fluxo de pessoas, mas muito mais do que isso, é poder caminhar em um ambiente onde a farofa ainda não chegou e ainda é possível andar sem ver um único vestígio de lixo e muito menos tropeçar em banheiro humano largado em qualquer lugar e só isso já valeria qualquer sacrifício, mas não é só isso, esse roteiro tem a honra de poder lhe apresentar nada a menos que grandiosa Cachoeira do Tabuleiro que com certeza constará em qualquer lista das grandes atrações naturais do país e como bônus esse roteiro nos apresenta também o fantástico Pico do Breu e sua serra pontilhada por outras montanhas incríveis , incluindo o Pico da Lapinha. Nosso primeiro contato com o Espinhaço fez com que a gente ficasse completamente deslumbrados com essa serra, porque descobrimos caminhos e possibilidades ainda quase que inexplorados ou ao menos conhecidos apenas pelos nativos do Estado e uma vez picado pela mosca do Serrado é impossível deixar de se apaixonar por essas veredas. Divanei Goes de Paula - outubro/2018 AGRADECIMENTOS: Aos mineiros Francisco Cardoso ( CHICO TREKKING) e ao Robson Oliveira ( TRILHANDO TREKING) , foram os nossos contatos em Minas Gerais e se há alguém capaz de guiar ou passar informações, esses são os caras e a eles todo o meu respeito e admiração.
  3. Yuri , Esse relato , como todos outros que escrevi, foram escritos com a intenção de mostrar um esporte verdadeiro . O texto simples e as vezes simplório descreve a realidade dos fatos , você nunca vai ver heróis, mas gente comum , com seus erros, seus acertos e suas manias . Obrigados pelas palavras carinhosas . Valeu mesmo . Abraços.
  4. Elaine e Tadeu , Esse relato escrevi com a intenção de humanizar a escalada , num mundo onde todo mundo quer ser " picas das galáxias" , parece ser proibido sentir medo , parece ser proibido fraquejar e a gente sabe que isso é uma bobagem porque a grande maioria é seres humanos normais .Grande abraço aos dois. Valeu mesmo.
  5. Mais fotos: https://aventurebox.com/divanei/agulha-do-diabo-a-conquista-do-penhasco-fantasma/report
  6. AGULHA DO DIABO “Agora não adianta chamar por santo nenhum, quem mandou se meter no Caldeirão do Inferno. Pendurados no meio da Unha da Agulha do Diabo, a gente só pensa em não cair e tenta grudar as costas naquela chaminé diabólica, tentando evoluir centímetro a centímetro, mas a gente sabe que o próprio dono da montanha está lá, sentado logo acima com seu rabo a balançar, como a nos atrair para uma armadilha. Não quero olhar para baixo, mas a curiosidade é maior que o meu bom senso e quando faço isso, o mundo parece dar uma rodopiada e é nessa hora que penso em gritar um “valei-me Nossa Senhora”, mas me contenho a minha insignificância diante daquele colosso de pedra, porque cada um é responsável por exorcizar seus demônios interiores e sigo determinado, sabendo que eu mesmo terei que chutar o traseiro do cão se quiser conquistar aquela montanha. ” Não por acaso que a AGULHA DO DIABO foi escolhida mundialmente entre as 15 montanhas mais bonitas e mais desejadas para se escalar em todo o planeta. Um gigante rochoso tocando o céu no meio selvagem do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro, a meio caminho entre Teresópolis e Petrópolis, mas por incrível que pareça, mesmo estando no parque por meia dúzia de vezes para a travessia famosa e para escalar o Dedo de Deus, eu jamais consegui por meus olhos nessa formação rochosa e quando os meninos levantaram a possibilidade de escala-la , aceitei o convite sem nem pensar se teria ou não condições de ir ao cume com os meus toscos e rudes conhecimentos do esporte. Havíamos combinado então que, quando o inverno desse as caras, a gente partiria para o Rio, mas a ansiedade de alguns do grupo fez com que antecipassem a tentativa da escalada para maio, data em que eu estava às voltas com uma Expedição Selvagem previamente programada na Serra do Mar Paulista, então fui deixado para trás. Nessa ocasião o grupo que tentou escalar a Agulha cometeu alguns erros de logística, extrapolaram o tempo e dos 7 integrantes, 5 ficaram pelo caminho e somente 2 foram ao cume e assim mesmo tiveram que subir quase ao anoitecer. Diante desse meio fracasso, o Alexandre Alves retomou o projeto antigo que havíamos traçado e para aproveitar um feriado Paulista, resolvemos montar uma equipe 100 % caipira, a mesma equipe que havia conquistado o Dedo de Deus (1.692 m), os mesmo que haviam se juntado um dia para aprender a escalar por conta própria. A equipe inicial seria formada por mim, pelo Alexandre e pelo Vinícius e de última hora surgiu o Dema, mas o Alexandre estava meio com um pé atrás com ele porque fazia muito tempo que o professor não aparecia para treinar e poderia pôr em risco nossa segurança por estar desatualizado quanto aos procedimentos, mas no final, a amizade acabou por falar mais alto que a nossa segurança e essa tomada de decisão seria fundamental para o sucesso daquela “expedição” rumo ao cume daquela diabólica agulha. Foram acaloradas as discussões sobre qual estratégia usar, alguns achavam que fazer um bate e volta apenas com mochila de ataque seria o ideal, já outros discordavam veementemente e insistiam que deveríamos subir com cargueira para estarmos seguros, se desse alguma merda, já que a pedra ficava num fim de mundo escondida no meio de um vale sinistro e potencialmente perigoso, além do mais , se houvesse um fracasso no primeiro dia, poderíamos acampar e tentar num segundo dia, coisa que seria impossível se estivéssemos apenas com mochilinha de ataque, sem os equipos para acamparmos. No fim, nos convencemos de que subir com as cargueiras seria a melhor estratégia e essa tomada de decisão foi a responsável por um dos integrantes, além de nós quatro, picar a mula da escalada, alegando que a gente era doido de enfrentar aquela subida do satanás com mochilas nas costas. Paciência, perdemos um experiente escalador, mas a equipe puro-sangue se manteve e se era para “se lascar” todo naquela montanha, que fosse então com um grupo acostumado a se meter em encrencas e a fazer isso com alegria. Foi então que numa tarde ensolarada de um sábado, que o Vinícius apanhou o Alexandre na rodoviária de Sumaré-SP e passou na minha casa para que eu e o Dema nos juntássemos a eles e partíssemos para Teresópolis-RJ, onde lá chegamos umas sete horas depois, já no início da madrugada de domingo, onde nos refugiámos num posto de gasolina aos pés do Escalavrado(1.410 m) e passamos a noite lá até esperar pela abertura do Parque nacional às seis da manhã. Com o ingresso do parque já comprado antecipadamente e impressos e as devidadas autorizações assinadas, não tivemos dificuldade de acesso e antes das sete da manhã, já havíamos estacionados o veículo o mais próximo possível da barragem e adentramos na trilha histórica que faz parte da Travessia Petrópolis x Teresópolis ou usada para quem quer ir apenas até o cume do parque, na Pedra do Sino (2.275) ou mesmo visitar trocentas outras montanhas de belezas ímpar. No início a subida parece ser bem suave, muito porque estamos todos animados e cheios de energia. O caminho vai se enfiando por dentro da floresta, cruzando algumas pontinhas e menos de uma hora depois chega a uma grande gruta ou toca, onde é possível bivacar com um certo conforto. Não demora muito e damos de cara com a Cachoeira Véu de Noivas, completamente seca, mas já não é grande coisa com água, pelo menos não, se compararmos com as maravilhas que estamos acostumados na Serra do Mar de São Paulo, mas também não viemos aqui atrás de quedas d’água e tocamos para cima, um passo de cada vez, numa subida enfadonha. Eu já havia subido e descido aquela trilha nas duas vezes que estive nas travessias de Petrópolis para Teresópolis e ao contrário e as duas vezes havia odiado aquela parte do caminho, mas pensando bem, acho que odiei pouco, não sei se era pela minha tenra idade com muita mais energia que agora ou porque naquela época tudo me parecia novidade em matéria de trilha, o certo é que aquele zig-zag infernal vai dando nos nervos e só faz aumentar nossa ansiedade de chegar logo na tal Cota 2.000, de onde parte a trilha mais em nível para acessar o tal Caminho das Orquídeas. Quando as curvas acabam, damos de cara com o grande descampado, chegamos ao ABRIGO 3, mas não passa mesmo de um gramado convidando-nos para um descanso, porque abrigo nem existe mais mesmo. Aqui a trilha vai dar uma guinada para a esquerda e vai dar uma nivelada, passar por um mirante também à esquerda. É preciso ficar esperto porque quando o altímetro bater uns 2.000 de altitude e mais ou menos 7,2 km desde a barragem, no início da trilha, precisamos nos atentar para uma saída à esquerda, quase imperceptível. É mesmo uma trilha meio sem vergonha e não há nenhuma placa, nenhuma identificação dizendo ser esse o caminho que vai nos levar para o Mirante do Inferno, ou por negligência do Parque Nacional (grande novidade!) ou por sacanagem de guias e agências que retiram as placas para que ninguém chegue sem seus serviços. Pegando essa bifurcação mencionada, adentramos na direção do tal Caminho das Orquídeas ou talvez seja um atalha para ele. Vamos descendo, agora numa trilha bem mais fechada, quase uma picada e logo que tropeçamos numa bifurcação, pegamos para direita e seguiremos reto até que o mundo se abre à nossa frente num MIRANTE espetacular, com um vale profundo e mais à frente já podemos deslumbrar uma minúscula parte da ponta da Agulha a nos convidar para uma aventura inesquecível. Desse mirante é possível ver também parte do Dedo de Deus e o que é mais interessante é que não é possível ver a Agulha do topo do Dedo e nem ver o Dedo do topo da Agulha, como se Deus e o Diabo nunca pudesse se confrontar. (Dedo de Deus visto do mirante) De cima do mirante às vistas para outras montanhas do parque são deslumbrantes, mas não é hora de perder tempo, o relógio anda e precisamos nos apressar. Nossa jornada é descendo pela laje de pedra e se enfiando nas canaletas floresta à dentro, desescalando até atingirmos o fundo do vale onde um brejo tem que ser pulado para não empapar os nossos tênis. Logo temos água boa vinda de um pequeno córrego e então chegando a mais uma bifurcação e seguimos para a direita contornando uma pedra e não demora muito, às 10:30 desembocamos no ACAMPAMENTO PAQUEQUER, que não passa de um lugar mais aberto no meio da trilha, às margens da nascente do riachinho de mesmo nome, hora de parar para um breve descanso, mais um gole de água e traçar uma estratégia. (Paquequer) Numa breve reunião, decidimos esconder nossas cargueiras ali nos arredores do acampamento e seguir apenas com os equipos de escalada e com uma mochilinha de ataque. Portanto, pulando o riacho, interceptamos o estirão final que vai subir sem dó em direção ao mirante e logo que chegamos mais ao alto, beirando uma grande pedra do lado esquerdo, interceptamos a tal saída que vai nos levar para a Agulha, mas antes de para lá partirmos, seguimos em frente e menos de dez minutos depois chegamos à beira do GRANDE ABISMO DO MIRANTE DO INFERNO. (Mirante do Inferno) Aquilo era inacreditável! Eu já havia dito que achava o Dedo de Deus a montanha mais espetacular do Brasil, mas diante daquela visão eu estava confuso, perdi a referência, meio que perdi o chão. O Dema e o Vinícius também pareciam encantados com aquele gigante de pedra. Dali era possível contemplar outras montanhas : São João, São Pedro(2.160), Verruga do Frade(1.920), Pedra da Cruz(1.980), Capuchinho do Frade, Santo Antonio e tudo beirava à santidade, mas era ela a grande atração do lugar, enfiada no meio do Caldeirão do Inferno, a AGULHA DO DIABO parecia nos convidar para uma grande aventura e a gente estava em êxtase e não havia mais como fugir, a gente poderia ficar por ali mesmo e nos entregarmos as coisas do céu, mas o desafio é que nos move, porque o montanhista de aventura nunca vai se contentar com o calmo e o sereno, ele quer é ver a desgraça de perto, ele quer o caos, quer a tormenta e foi com esse pensamento que a gente largou tudo para trás , voltamos a descer por uns cinco minutos e adentramos de vez à direita na trilha rumo ao nosso desafio. Esse caminho em forma de picada vai seguindo quase que em nível, mas logo faz uma curva para direita e se enfia numa garganta montanha à baixo, numa sequência de gretas e fendas potencialmente perigosas. Vez por outra surge à nossa frente assombrando a nossa alma a silhueta da AGULHA e numa dessas aparições acabei ficando para trás para tentar sacar uma foto e perdendo o equilíbrio, escorreguei de um patamar e enfiei meu pé numa laca de pedra e virei o tornozelo que veio a inchar instantaneamente. Nessa hora pensei que minha jornada naquela montanha havia acabado, mas mesmo assim gritei para que o grupo me esperasse e aguardasse uns minutinhos até que a dor diminuísse um pouco. Tentei ser forte e demostrar calma, não queria de jeito nenhum dar chance para que alguém pudesse me mandar voltar para o acampamento para eu não atrapalhar a escalada, muito porque eu mesmo já teria feito isso se sentisse que daria problema. (Agulha vista de dentro do Cadeirão do Inferno) Continuamos seguindo até nos vermos quase no fundo do vale, onde um pequeno riacho seco descia da direita e é justamente nesse amontoado de pedras que nosso caminho segue e segue subindo para valer, nos fazendo escalar rochas escorregadia e íngremes. Vou me arrastando como posso, mesmo com muita dor, me agarro na minha vontade de não desistir, pelo menos até chegarmos ao início da via. Logo à frente somos barrados por uma gruta, uns amontoados de matacões gigantes. Estamos na GRUTA DA GELADEIRA e não há outro caminho possível se não o de passar por dentro dela e sair pelo teto, por um buraco tão estreito que mais parece que você está saindo do útero da sua mãe. Escalado esse trecho apertado e úmido logo damos de cara com um pequeno platô que poderia servir até para um bivac numa emergência e mais acima, quase ao meio dia, nos deparamos com a linha de escalada propriamente dita, hora de calçar as sapatilhas, fazer o sinal da cruz e enfrentar de vez essas forças do além. (Gruta da Geladeira) Acima das nossas cabeças o gigante rochoso se elevava num espigão assombroso, rodeados por paredes escuras e colossais. Havia chegado a hora de desafiar o guardião do Caldeirão do Inferno e todas as discussões acaloradas vividas meses antes de estarmos ali, agora teriam que nos mostrar que serviu para alguma coisa. É bom lembrar que dos 4 integrantes daquela empreitada, apenas o Alexandre e o Vinícius poderiam ser considerados como escaladores de verdade, porque eu e o Dema não passávamos de meros bons montanhistas trepadores de paredes, mesmo assim, aquele grupo heterogêneo não deixava de ser formado por escaladores ainda com muito à aprender. Em um primeiro momento havia se decidido que formaríamos duas duplas para a escalada, sendo a primeira composta pelo Alexandre e o Dema e a outra pelo Vinícius e por mim, sendo que o Alexandre e o Vinícius subiriam guiando a corda e eu e o Dema faríamos o "segue"(manobras realizadas com a corda para dar segurança ao companheiro), mas num ato de desapego, de última hora, o Vinícius abriu mão de guiar e foi decidido que apenas o Alexandre seria o responsável por levar a nossa corda e essa atitude foi mesmo muito sensata, porque nos faria ganhar tempo precioso e isso também faria toda a diferença na conclusão daquela escalada. (acima croqui da escalada) Traçado a estratégia, a primeira enfiada (lance) já começa encrencada. Parece fácil, mas é uma rampa lisa e sem agarras e já no começo o Alexandre dá uma sambada até que resolve colocar um camalot (pequeno equipamento que ao ser enfiado numa fenda, por exemplo, trava e se pode pendurar a corda para dar segurança ao escalador, numa explicação bem tosca, rsrsrsr ) numa fenda para dar uma estabilizada no psico. Depois é preciso se entalar numa fenda e se espremer até ganhar o alto e subir por outra rampa até uma paredinha que dá acesso a parada junto a um platô. O Dema zueiro que é, já inventa de nem colocar as sapatilhas nesse trecho, apanha sua mochilinha e também a do Alexandre e se agarra à corda e depois se lascou todo para conseguir passar pela fenda lateral e não deu outra, ficou entalado, o tonto, rsrsrsrsr. O Vinícius foi outro que deu uma sapateada nessa rampa e eu, sem molejo para dança nenhum, não fiz mais bonito que ninguém, também rebolei pra subir ali, mas me agarrei no que deu até me juntar aos amigos do platô. (Primeiro lance) O segundo lance nada mais é que uma passagem seguindo em frente, praticamente caminhando ao lado de uma parede com vegetação. É um lance fácil, mas para mim que era o último, achei um pouco exposto e passei com cuidado, mas ao tentar descer no final do corredor de pedra, fiquei sem saída e com medo de pular até atingir a parte mais abaixo, antes de ganhar uma parede final. O problema é que você não pode seguir o seu instinto e querer perder altura logo, é preciso ir até o final da parede caminhando, onde tem várias agarras de pé e de mão para se descer em segurança e uma vez no chão é só fazer a travessia para direita quase numa escalaminhada tranquila e ir subindo até a parada em nível. (segundo Lance) A enfiada seguinte, a terceira, é um pouco mais técnica por ser mais inclinada. Começa com uma fenda em forma de diedro, do qual é necessário subir em oposição. A gente enfia as mãos dentro da fenda e começa a puxá-la até ganhar altura, mas alguns não estavam nem aí e subiram com os pés na fenda e as costas na parede abaulada da direita porque na escalada clássica a única regra é não ficar lá embaixo moscando e atrapalhando o andamento da empreitada. Depois dessa fenda, desse diedro, a parede empina de vez e é preciso ir achando as agarraras certas até poder se pendurar numa fenda horizontal, uma verdadeira salvação para quem já está despencando parede à baixo. Uma vez travado nessa fenda, onde você já está rindo à toa, aí você percebe que não há mão para ficar em pé e colocar os pés dentro da fenda para ir caminhando para esquerda e tem que colar o corpo na parede e ir levantando de vagar, raspando seu nariz na pedra até se estabilizar, pelo menos foi isso que aconteceu comigo, e logo em seguida subir e ganhar a parada. (terceiro Lance) Quando me estabilizei na parada, clipando minha solteira (pedaço de fita preso ao corpo com um gancho na ponta, afff Maria, que explicação furreca !), o Alexandre e o Dema já haviam partido para a quarta enfiada. Esse lance é muito esquisito porque se faz todo praticamente caminhando ao lado de um abismo, junto à uma parede que se estende por uns 15 metros. Dali de onde estávamos eu e o Vinícius, já era possível avistar a imponência da CHAMINÉ DA UNHA, uma laca de pedra descolada da Agulha do Diabo, uma visão assombrosa e é melhor nem ficar pensando muito e apenas nos concentrar nos problemas presentes, deixemos o futuro para depois. Essa próxima enfiada é fácil, mas com uma grande exposição para quem guia e para quem vem por último na cordada e eu passo por ali com todo cuidado, primeiro me agarrando como posso para descer um pouco mais à baixo, depois seguindo lentamente, caminhando quase numa trilha de pedra até me grudar de vez ao chegar na parada com 2 “P” e é bom marcar bem esse lugar porque será aqui o penúltimo rapel para quando voltar. (quarto Lance) Até ali, a escalada estava fluindo numa perfeição espantosa, tudo afinado e alinhado. A subida seguia sempre a mesma linha, com o Alexandre guiando a corda, precedido pelo Dema e o Vinícius, tendo eu como o último homem a fechar a corda. Ganhávamos terreno rapidamente e cada vez mais íamos subindo, nos elevando metro a metro e foi nesse quinto lance que a gente começou a tomar ciência de que estávamos chegando perto dos enfrentamentos maiores. Aliás, esse lance não passa de mera caminhada, que vai se enfiando numa trilhazinha e subindo numa escalaminhada fácil, vira totalmente para a direita e sobe até uma espécie de gruta, que também não passa de um amontoado de pedras. Passa ao lado do Pico do Diabinhoque é uma formação rochosa belíssima e já te joga de frente para as “Chaminés em L “, hora de juntar a equipe novamente, tomar fôlego, beber um gole d’água e se preparar para ganhar altura de vez. Essa tal “Chaminé L”, que marca a sexta enfiada, é muito parecida com a chaminé do Dedo de Deus, com paredes largas e com boa aderência, a subida é bem no final dela, onde a parede se fecha, e sobre o teto despenca uma rocha entalada em formato de estalactites, aquelas formações que pendem dos tetos das cavernas. É preciso subir até essa formação, que não fica a mais de uns 4 metros de altura e alcançando-a, saindo para a direita, mas isso é tão óbvio porque não existe mesmo outro caminho. O Alexandre se pendura nessa parede, se agarra na estalactite, passa pelo buraco apertado e some das nossas vistas. Lá de baixo, eu o Vinícius e o Dema não conseguimos ver nada do que se passa depois disso e mal escutamos a voz do Alexandre que parte sozinho para essa passagem para a direita. O tempo vai passando e o “nosso guia” pouco dá sinal de vida, vez ou outra ouvimos sua voz sussurrando alguma coisa e acaba demorando para descobrirmos que a corda havia enroscado. Diante daquele imbróglio todo, resolvemos mandar o Dema atrás dele e para isso foi preciso que ele escalasse em livre, ou seja, sem nenhuma segurança, foi um risco, mas era o que tinha para o momento, mesmo porque era uma subida muito tranquila e não achamos que seria um risco tão grande. Uma vez que o Dema se juntou ao Alexandre, depois de algum tempo, a corda foi liberada e logo foi o Vinícius que se esgueirou parede acima e ganhou o alto, sumindo das minhas vistas e para o nosso azar, a corda voltou a enroscar novamente. O Vinícius teve que mudar novamente a instalação da corda para liberar a minha subida. Encostei as costas na parede esquerda da chaminé e finquei os dois pés na outra parede, mas logo notei que poderia fazer diferente: Meti o pé esquerdo no fundo da chaminé onde ela se eleva até o buraco de saída, junto à pedra entalada, e fui alternando os movimentos, como se subisse num batente de porta, mas agora com o pé esquerdo na parede do fundo e o direto na parede lateral. Não sei se esse estilo foi o melhor, só sei que rapidinho eu me agarrei na estalactite e me elevei para dentro do buraco e ressurgi para um outro mundo. Depois virei para a direita, que é o único caminho onde fica plano e é necessário encostar as mãos do lado direito e dar um pulinho maroto de menos de um metro, um pulo tranquilo, mas a prova de qualquer erro ou então é cair no vazio e virar carne moída de tanto que vai ralar nas paredes da chaminé. O Vinícius foi fazendo meu "segue" até que eu me juntei a ele onde uma paredinha final de uns três metros precisa ser escalada usando uma fita em um grande “P” para poder se elevar, agarrar em um arbusto e se jogar definitivamente para cima de um grande platô, cheio de árvores, onde de tão grande, poderia servir até para se montar um abrigo provisório. Nesse GRANDE PLATÕ foi instalada uma placa para homenagear os conquistadores de 1941, mas a importância daquele lugar vai muito mais além, ali naquele marco geográfico da escalada é o lugar onde vai se separar os homens dos meninos, é ali que se define quem vai ao cume ou quem definitivamente vai abraçar o fracasso , botar o rabo entre as pernas e bater em retirada, seja por incompetência técnica ou por incompetência na hora de montar a logística, fazendo com que ao se chegar aqui, já tenha extrapolado o tempo hábil para se ir ao topo. Essa pode ser considerada a anti-sala do inferno, é aqui que o diabo faz a sua triagem, separando os caras que tem ou não as condições de enfrentar o seu desafio derradeiro, uma vez tomada a decisão de seguir em frente, você acabou de colocar seu nome na roleta russa, ou é tudo ou é nada. O Alexandre fracassou aqui da outra vez, portanto agora para ele é tudo novidade e havia chegado a hora de enfrentar o tal CAVALINHO, uma passagem alardeada por muitos como sendo a parte mais complicada da escalada, é o sétimo lance, uma passagem por fora da montanha, uma fenda lateral que vai dar acesso a entrada da Unha do Diabo. A partir de agora todos as mochilas devem ficar ali no platô, todos devem esvaziar as suas mentes, sua bexiga e tudo mais que faça o sujeito entrar leve porque uma vez dentro da chaminé, até respirar será difícil. O Alexandre procura não perder tempo e quando vejo , ele já havia sumido das minhas vistas e quando chego à beira do abismo, só consigo ver parte do Dema já dentro da fenda , gemendo para conseguir se jogar para dentro da chaminé. (Cavalinho) Quando chega a vez do Vinícius, auxilio fazendo uma espécie de segundo "segue". Ele se apoia na costura na entrada da fenda fixada logo acima, enfia a perna esquerda e parte do corpo na grande rachadura e se pendura no vazio até se arrastar para a entrada da chaminé e com muita dificuldade consegue se jogar para dentro. Assim que o Vinícius se acomoda entre as paredes da Unha, dá o start para que eu comece a escalar. O problema de fechar a corda é ter que fazer alguns lances tão expostos quanto quem faz a guiada e aqui no Cavalinho é pior ainda, porque se houver uma queda, além do escalador despencar no vazio fazendo um pendulo monstro, ainda vai arrastar o cara que está dando "segui" de dentro da unha, porque mal é possível se mexer lá dentro. Me aproximo do abismo com muito cuidado e já me agarro à costura para manter o equilíbrio. Muitos escaladores dão a dica para se entrar nessa fenda deitado com a barriga para cima, ou seja, enfiando a perna direita e ir se arrastando de costas até chegar na entrada da chaminé e já entrar virado para o lado certo, mas para mim é uma grande bobagem, coisa de gente barriguda mesmo. Portanto, seguro firme na costura e enfio a perna esquerda dentro da fenda que num primeiro momento me deixa com metade do corpo pendendo no vazio e para contraria as dicas dos velhos escaladores, já me ponho a olhar para o abismo de uns 200 metros, mas para quem já esteve pendurado no lance da Maria Cebola no Dedo de Deus, aquilo nem causa vertigem. Colo o corpo à pedra e vou avançando fenda acima porque na realidade não é uma reta e sim uma diagonal e é necessário fazer força para se avançar. Ganho meio metro de terreno e o meu corpo já escorre para dentro da fenda e me entalo dentro do buraco. Que beleza! Aquilo foi mole, uma vez dentro do fundo da fenda só faço avançar lentamente e já caio direto no interior da GRANDE CHAMINÉ DA UNHA DO DIABO, para mim aquele cavalo não passou de um pônei. Claro, caí do lado errado, com as costas viradas para a Unha, quando o certo é estar com as costas na parede da Agulha, mas basta um contorcionismo indiano e já me junto aos meus companheiros, tentando buscar um melhor posicionamento num lugar tão estreito que mal se consegue virar o pescoço e quem sofre de claustrofobia, deve pensar muito antes de encarar esse desafio. Continuando com a analogia, uma vez dentro da Unha, você agora está no terreno do tinhoso, agora não tem mais volta. Naquele lugar frio e úmido, espremido feito uma mortadela no pão de forma, é preciso ter sangue frio para seguir em frente, no caso, seguir definitivamente para cima. Aquele colosso de pedra que marca o oitavo lance dessa escalada incrível, vai com certeza marcar a vida de qualquer homem metido a escalador e eu acho que não há ninguém que não saia dali transformado, pelo menos não se o cara for alguém chegado recentemente ao esporte ou até mesmo velhos escaladores, o certo é que ninguém sai indiferente. O Alexandre foi quem veio tocando toda nossa escalada até então, coube a ele a responsabilidade de abrir caminho guiando a nossa corda, fazendo desenrolar as encrencas que iam surgindo pela frente, e sem que ninguém se apresentasse para enfrentar o demônio de frente, coube também a ele arrombar as portas do inferno e dar início aos trabalhos de escalada da temida chaminé da Unha. O primeiro grande problema é conseguir sair do chão nessa chaminé, já é difícil até respirar lá dentro de tão apertada, imagina conseguir espaço para se elevar e se grudar às paredes, ainda mais para o Alexandre com estatura alta. A ralação inicial é de dar dó do coitado, mas ninguém disse que seria fácil. Aos poucos ele foi progredindo e quanto mais se sobe, melhor fica, porque a parede vai abrindo aos poucos. Logo ele chegou à primeira proteção da chaminé e estacionou numa grande fenda que serve como um patamar de descanso, o primeiro demônio havia sido vencido, mas uma legião de outros demônios estava à espreita, só esperando para o contragolpe final. (chaminé da Unha ) Lá embaixo, estacionados no fundo da Chaminé da Unha, Eu, o Dema e o Vinícius, não conseguíamos ver nada do que estava acontecendo com o Alexandre, porque como eu disse, o lugar é estreito e sobe em curva. O Alexandre fez de tudo, mas parecia mesmo que esse era um demônio que ele não estava a fim de encarar guiando. Também pudera, sua condição psicológica já deveria estar em frangalhos somada ao excesso de gasto energético ao qual tinha passado para trazer nossa corda guiando até o momento. Ele resmungava ao longe, como se tentasse levar os capetas guardadores de chaminé na conversa, mas não teve jeito e não houve reza e nem oração que fizesse com que deixassem o nosso amigo passar, seria preciso chamar alguém tão ruim quanto aqueles filhotes de satanás. Ainda lá embaixo, passando frio e apreensivos quanto ao rumo daquela “expedição”, três escaladores quase que brigavam para não ir, ou ao menos, não ser o primeiro a tentar salvar aquela escalada, já que o nosso principal guerreiro já estava meio fora de combate grudado na parede mais acima. Nessa luta do bem contra o mal, cada um se defende como pode e eu já usei minha arma principal, que é a de persuasão e logo tentei convencer que o DEMA era o cara perfeito para aquele enfrentamento, olha só que ironia, o mesmo cara que saiu desacreditado porque estava há muito tempo afastado da escalada. Mas o Dema foi o cara que se apresentou primeiro mesmo, parecia ser o cara mais confiante naquele momento e eu e o Vinícius torcíamos muito para que desse certo, senão teríamos que sair da nossa zona de conforto, que nem era tão confortável assim, e nós mesmo tentarmos fazer aquilo que a gente sabia que teríamos que fazer. Assim foi feito, com as nossas bênçãos, o Dema grudou naquela parede e subiu até onde estava o Alexandre e daí para a frente mal ouvíamos a conversa entre os dois, somente quando o Dema gritava para que os demônios que o atormentava fosse saindo do seu caminho é que ouvíamos a sua voz. O Alexandre auxiliava ele, mas ali não é a técnica que prevalece, é a força interior é a vontade de não cair e de permanecer grudado à parede, a vontade de chegar ao final da chaminé, e só o Dema poderia narrar esse sentimento, o certo é que quando ele gritou:" cheguei", o ecoo da sua voz chegou ao nossos ouvidos lá embaixo e houve um misto de felicidade e satisfação, era a certeza de que havíamos dado um grande passo para que aquela escalada terminasse com sucesso. Chegando na Ponta da Chaminé da Unha, o Dema puxou o Alexandre, fazendo o "segue" dele e quando esperávamos que seria a nossa vez de nos juntarmos aos dois, o próprio Alexandre pediu que esperássemos porque não havia mais lugar lá encima e que primeiro faria a proteção para que o Dema fosse ao cume e nos esperasse lá, era mais do que justo. Quando o Vinícius partiu de vez, foi que me vi só naquele mundo hostil, encravado no meio de um vale selvagem, quase no cume de uma das formações rochosas mais espetaculares do todo o planeta. O Vinícius chegou ao topo da unha, não sei como, não sei de que maneira, não sei que tipo de enfrentamentos teve nesse seu martírio, só sei que quando ele gritou que o "segue" já estava pronto e que eu poderia subir, não deu nem tempo de fazer o sinal da cruz porque a ansiedade era tanta que eu já estava a uns dois metros do chão, totalmente inebriado pelo aquele momento mágico. No começo a subida parece impossível, mas pensando bem, mesmo apertado e quase que usando os dentes para conseguir ganhar altura no início, é muito melhor do que o que estava por vir. Logo chego à primeira proteção, onde consigo encaixar os pés e tomar fôlego, tiro a corda da costura e ao olhar para cima ainda me dou conta que faltam uns 15 ou 20 metros de chaminé, Jesus! Naquela Chaminé dos infernos pouco importa se você está guiando ou se está indo de "segue", ali os seus demônios interiores vão te colocar à prova. Quando meus pés deixaram aquele ultimo patamar e virei com as costas agora para pedra da unha, foi como se todos os demônios pulassem para cima dos meus ombros. Milímetro a milímetro fui vendo aquela parede passar diante dos meus olhos e o demônio da dor foi o primeiro a tentar me derrubar pelo tornozelo, já bastante inchado pela torção na trilha de acesso. Me concentrei o máximo que pude, as pernas tremiam e a cada metro ganho, mais infeliz eu ficava porque via o chão cada vez mais distante. “Não quero cair, não vou cair, sai pra lá cão dos infernos, cadê o fim disso meu Deus do céu? ‘ Minha cabeça parece girar, não quero olhar pra baixo, mas é o instinto ou é a tentação do além que me força a fazer isso. A cada metro subido, a chaminé vai ficando mais larga e mais difícil de se sustentar, já perdi a concentração, mas continuo mirando somente a costura que está acima da minha cabeça, não quero nem saber, vou me agarrar nela quando lá chegar, mas quando lá chego, ela já ficou para baixo dos meus olhos e nem serve mais para nada mesmo, só faço seguir adiante confiando que o Vinícius ainda vai estar lá para me receber e não o chifrudo guardião do lugar. Na hora que minhas duas mãos tocam a aresta afiada do topo da CHAMINÉ DA AGULHA DO DIABO e prendo minha solteira nos cabos de aços que vão levar ao estirão final, mentalmente dou uma banana para aquele diabólico abismo em forma de chaminé. “ Não foi dessa vez que vocês nos venceram, seus desgraçados! Sentei-me ali na ponta da Agulha na companhia do Vinícius, já que o Alexandre também havia partido para o cume. Aliás, a visão do estirão final até o cume é algo impressionante, uma ponta de pedra lisa e que se não fosse a instalação de um potente cabo de aço, seria impossível ir ao cume dessa montanha. O tempo está perfeito, mal ventava nesse dia, lá encima muito mais quente que dentro daquela chaminé. Tomei folego, apreciei a paisagem ao redor e quando a “segui” vindo dos meninos do cume ficou pronta, me grudei aos cabos de aço e clipei minha solteira para o derradeiro lance antes da conquista final. (subida final) Esse é o nono lance, o que antecede o cume, e olhando para ele você acha que vai ser uma moleza e que vai passar com os pés nas costas. Eu também achei e me lasquei bonito, porque entrei nele todo displicente, somente pensando no topo e por isso mesmo fui com tanta sede ao pote que levei um escorregão e dei um tranco nos braços. Aquela pedra é extremamente lisa, é preciso procurar as aderências certas e botar uma força descomunal, além de ter que ir passando a sua solteira de um lado para o outro até que finalmente consigo avistar o Dema e o Alexandre junto à caixa do livro de cume. Estava definitivamente vencido os 2050 metros da AGULHA DO DIABO e quando lá cheguei, já não havia mais nenhum diabo para chutar a bunda, os meninos já haviam feito o serviço sujo e quando o Vinícius se juntou a nós, foram calorosos os abraços de comemoração, havíamos conquistado o PENHASCO FANTASMA, como era conhecida essa montanha nos seus primórdios. O topo é minúsculo, mas muito maior do que havia sido alardeado por outros escaladores, tanto que depois ouvimos uma história de que alguém havia acampado no cume com uma barraquinha e se o topo não é lá grande coisa, a paisagem ao redor é grandiosa. Para muitos estar no cume daquela montanha lendária poderia ser somente mais uma escalada, mas para nós era mesmo uma grande honra, como eu havia dito, não somos pertencentes as comunidades de escaladores tradicionais, somos mais um grupo de amigos do interior Paulista que um dia ousou se juntar para aprender os rudimentos da escalada e olha só aonde fomos parar. Aquilo era incrível, quanta montanha linda ao nosso redor, quantos abismos colossais, que paisagem fenomenal ! ( Cume) Já passava das cinco da tarde e era preciso parar de sonhar e voltar ao mundo dos homens, muito porque, subir é só a metade do caminho e já é sabido que a maioria dos acidentes acontecem nas descidas. Assinamos o livro de cume e já demos início ao primeiro rapel que num primeiro momento vai nos devolver até o topo da unha. A descida do cume da Agulha do Diabo até topo da chaminé da unha é um dos piores rapeis que eu já enfrente na vida. É necessário descer a pedra lisa, atrelando a solteira ao cabo de aço porque é muito grande a chance de se escorregar e fazer um pendulo que vai rodopiar no vazio. A gente vai descendo e a força da gravidade vai te jogando para fora da pedra, te empurrando, como se quisesse te chutar para fora da montanha. Uma vez no topo da unha da chaminé, o segundo rapel não é por dentro dela e sim por fora, uma descida não muito melhor que anterior e só não é pior porque alguém serve como anjo lá embaixo, guiando a corda para fora dos abismos até que se chegue em segurança no platô da unha, juntamente enfrente de onde está a placa homenageando os conquistadores. Quando desclipo a corda e me achego ao próximo rapel, o terceiro em questão, nem encontro mais o Alexandre e o Dema, que já desceram com a outra corda e já vão se encaminhado e adiantando o caminho. Nesse terceiro rapel vamos descer direto do platô da unha até a entrada inicial das chaminés em “L”, bem de frente para o pico do Diabinho, o que vai nos fazer cortar todo o caminho. Quando o Vinícius fecha a descida, ajudo ele enrolar a corda e juntos já pegamos a trilha, passamos novamente por dentro da caverninha e descemos até onde termina a quarta enfiada, aquele lance que você caminha beirando a parede rochosa. Nesse ponto encontramos dois “P” e nele já vemos a corda instalada que vai se enfiar por dentro de um mato e esse será o quarto e penúltimo rapel. Ao chegarmos ao patamar mais abaixo, agora sob a luz das nossas lanternas, finalizamos o último rapel, o quinto e descemos todos em segurança aos pés da Agulha do Diabo, perfazendo assim quase sete horas de escalada entre subir e descer. ( Pico do Diabinho) Conquistada aquela montanha, agora era preciso sair vivo daquele buraco. Sem muitas delongas já estávamos de volta à Gruta da Geladeira, mas ao invés de nos enfiarmos no buraco no teto e voltarmos para útero da nossa mãe, aproveitamos um “P” instalado encima da gruta e improvisamos um rapel até o chão e sem perder tempo fomos descendo aquele vale de pedra no escuro, escorregando nos patamares rochosos até chegar na curva que vai nos levar de volta para cima. É uma subida de matar mula, coisa que nem nos demos conta quando estávamos descendo, talvez pela ansiedade da escalada, mas agora é um tormento. Aquilo é praticamente outra escalada e a canseira e o sono vão tomando conta da gente e quando saímos desse racho da montanha e nos vimos na parte plana, foi como se tirássemos uma tonelada das nossas costas. O Alexandre ia à frente porque conhecia mais a trilha e sem que nos descemos conta, pegamos uma bifurcação errada. Gritei para o Alexandre que estávamos confusos e ele murmurou algo sem sentido e eu acabei indo parar numa falsa trilha, descendo em um mato alto e me perdendo e aí tive que varar um capim no peito e subir trepando um barranco íngreme e enquanto fazia isso, ia fazendo elogios à mãe do Alexandre por não ter nos esperado naquele trecho. Interceptamos a trilha da descida final e logo caímos morto novamente no Acampamento Paquequer. Ao chegarmos ao Paquequer, o Alexandre já foi dizendo que não ia acampar ali de jeito nenhum, que ali era muito úmido e que ia passar um frio do cão. Eu por mim teria desmaiado por ali mesmo, mas como o Vinícius e o Dema também não quiseram enfrentar a “tirania” do Alexandre, pouco me importei e quando eles levantaram a bola de fazer uma janta quente antes de partirmos para talvez acamparmos no gramado do Abrigo 3, eu já estava com o fogareiro ligado tostando o bacon. Já era bem tarde quando partimos e deixamos aquele vale para trás. Escalamos as rampas de pedra até o mirante, nos embrenhamos na mata morro acima até saírmos de vez na trilha principal que desce da Pedra do Sino e nos pomos a caminhar mais rapidamente, agora com a visão deslumbrante das luzes de Teresópolis no vale. Ao chegarmos no Abrigo 3, um infeliz dos infernos teve a ideia de querer continuar a caminha a fim de bivacarmos na grande toca que fica há mais ou menos uma hora do final da caminhada. Nessa hora eu já não tinha mais vontade de dar opinião nenhuma, eu era só um zumbi tomado pela vontade de ver o fim daquela aventura terminar em algum lugar que pudesse esticar o esqueleto. Caímos de vez novamente naquele zig-zag irritante e uma hora depois, ao pararmos para tomar um folego, já havíamos tocado o foda-se e decidido não dormir em mais nenhuma toca, iríamos sair do parque seja lá que hora fosse. A madrugada já ia alta e a gente ainda estava presos naquela trilha e pior, até os caras novinhos não faziam outra coisa senão a de amaldiçoar aquele caminho. Teve uma hora que o grupo se dispersou. Minha lanterna já não clareava mais nada e eu mal enxerguei quando a tal gruta passou ao meu lado. Eu já nem caminhava mais, meu pé já parecendo uma bola, apenas fazia com que eu me arrastasse em transe e não demorou muito para o Alexandre me ultrapassar e me por na condição de fiofó de tropa. Pensei em parar, sentar, deitar um pouco para aliviar os pés e as dores nas costas por causa da mochila, mas não estava querendo passar atestado de molenga, tinha uma reputação a zelar e quando ouvi o barulho de água me animei um pouco e tirei forças para desembocar de vez no asfalto da barragem, já dentro da sede do Parque Nacional da Serra dos Orgãos e sem perder tempo já descemos pelo asfalto até onde havíamos deixado o carro estacionado. Passamos pela portaria do Parque, demos baixa na nossa saída e ganhamos a estrada e voltamos novamente ao posto de gasolina aos pés do Escalavrado, chegando depois das 2 da manhã, 20 horas depois de termos partido daquele mesmo ponto. Ninguém queria saber de nada e eu muito menos, tanto que quando me deitei em um lugar qualquer naquele posto de gasolina, já ameacei de morte o primeiro cara que inventasse de me acordar antes das oito da manhã. Quando o dia amanheceu e o sol ameaçou nos despejar, pegamos nosso caminho e voltamos para a nossa aldeia , perdido num canto esquecido do interior Paulista. Na semana que antecedeu a escalada, a maioria teve insônia e a ansiedade tomou conta de praticamente todo mundo. Naquele momento cada qual travava uma batalha ferrenha, era uma guerra silenciosa contra os seus próprios demônios interiores. Parece ter ficado claro que todos os tais demônios narrados nesse relato, nada tem a ver com personagens malignos, tirados de qualquer religião, é tão somente a materialização dos nossos medos, das nossas angustias, das nossas frustrações. Temos medo do fracasso, medo de não dar conta da empreitada que nos propusemos a realizar, medo de falhar e por consequência, nos quebrar, mas quando esses medos são domados, esses demônios exorcizados, aí a gente cerra os punhos e comemora a vitória, aí a gente volta para casa feliz, porque a luta valeu a pena, descobre que não vencemos só uma montanha, mas vencemos a nós mesmos. E aquela AGULHA nem era tão do Diabo assim, haja vista que nos fez voltar para casa com um belo sorriso no rosto, nos fez voltar para casa muito mais satisfeitos, porque juntamos um grupo de velhos amigos num só objetivo: Escalar uma das mais incríveis montanhas do mundo e celebrar a vida. Divanei Goes de Paula - julho/2018 NOTA IMPORTANTE: Esse relato foi escrito de uma forma simples para que as pessoas que não são ligadas a escalada possam enterder, muito porque, eu mesmo sou apenas um montanhista que aprendeu os rudimentos da escalada para poder ir ao cume de montanhas como a Agulha do Diabo e o Dedo de Deus, portanto, se você é escalador profissional ou graduado, leve isso em consideração antes de tecer elogios a minha mãezinha (rsrsrrsr) . Abraços a todos.
  7. Valeu Leandro, essas expedições são sempre muito animadas, as vezes meio sem noção, mas sempre um grande prazer. Abraços !
  8. Gostaria de saber se tem alguma restrição à essa travessia ultimamente, autorizações e tal.
  9. EXPEDIÇÃO PEDREADO “Qual é o propósito de um monte de homens adultos se jogarem numa jornada incerta, num roteiro desconhecido, chafurdando numa floresta quase que inacessível, num fim de mundo que quase ninguém sabe que existe? Enquanto tento achar resposta para essas perguntas, vou me arrastando pela margem deste incrível rio de águas quase que intocadas, tentando levar minha carcaça destruída até o acampamento, nesse final de tarde de outono. Ter um tornozelo torcido minutos antes de chegarmos as grandes gargantas foi um pouco de azar, por isso não fiz nem objeção quando alguém cantou a bola para pararmos ainda antes das 4 da tarde, mesmo porque, ser pego pela noite emparedados naqueles cânions poderia nos render um sofrimento desnecessário, melhor mesmo é ir cuidar das feridas, fazer uma janta quente e se preparar para o dia seguinte que promete ser de grandes aventuras. ” Não havíamos nem nos recuperado da Expedição ao VALE DO RIO SÃO LOURENCINHO, que quase culminou em uma tragédia e meus olhos já se voltaram para outro grande rio isolado ali da região de Juquitiba. O grande rio PEDREADO, conhecido e chamado pelos sitiantes locais pelo nome de RIO DO BRAÇO GRANDE, nasce no meio da Serra do Mar Paulista e se enfia em um vale quase inacessível, terra de ninguém, visitados eventualmente eu suas partes mais planas, apenas por alguns corajosos palmiteiros e caçadores mais audaciosos. Quando os estudos começaram, já ficou claro que esse rio apesar de selvagem, não teria um desnível tão abrupto quanto outros já explorados por nós, mas o fato de ser uma travessia extremamente longa da sua nascente até a sua foz, no encontro com o próprio São Lourencinho, esse afluente do Rio Juquiá, já me fez olhar essa expedição como uma missão de respeito. O rio era longo, mas a parte que nos interessava, aquela onde quase ninguém já teve coragem de meter a cara, contava com um 20 km de travessias, grande demais para apenas 4 dias, que era o tempo que dispúnhamos. Mesmo assim tínhamos que ariscar, precisávamos que alguém fosse lá e encontrasse um caminho até o rio, que alguém investigasse a qualidade da água. Para essa missão prévia se apresentou como voluntários Décio Marques e Regis Ferreira, que para lá se dirigirão, entraram pelo Bairro do Engano e se embrenharam nuns sítios abandonados até darem nas barrancas do Pedreado. Fizeram um excelente trabalho, e voltaram com o caminho mapeado no GPS, estava estabelecido a rota até o rio, agora era hora de montar uma equipe e botar mais um rio selvagem no mapa das grandes travessias da Serra do Mar Paulista. Ao apresentar o projeto para a equipe, a grande maioria já deu uma desdenhada, achando que por não haver grandes desníveis, talvez não valesse a pena tanto sacrifício e seria correr um risco desnecessário. Na minha opinião, depois de passar meses debruçado sobre os mapas de satélite e cartas topográficas eu não tinha a menor dúvida que a expedição era totalmente viável, muito porque se tratava de um rio selvagem, em estado quase bruto e que ao longo do caminho receberia mais de 50 afluentes de águas intocáveis, atravessando uma das mais exuberantes florestas do mundo. Resumindo: Parte do grupo caiu fora e foi se divertir em outras paragens. Paciência, como a gente fala, não existe carteirinha e nem obrigação com ninguém e cada um tem a liberdade de ir quando quiser e quando bem entender e isso é muito legal porque sempre deixamos bem claro. Os feriados foram passando e nada da expedição sair do papel até que no feriado de maio encostei uma meia dúzia de sem noção à parede, montamos um grupo e mesmo com alguns desconfiados quanto ao roteiro, resolvemos que já estava na hora de desvendar os mistérios escondidos naquele fim de mundo. Às nove da noite já estava eu plantado na Estação Faria Lima do Metrô, na capital Paulista, quando me aparece Paulo Potenza, arrastando atrás de si Thiago Dias (Rasta) com seus cabelos de corda, mal deu tempo de cumprimenta-los e já surgiu sei lá de onde, Guilherme rocha, que veio me cumprimentar dizendo que acompanhava meus relatos na internet e quando pediu para tirar uma foto comigo, tive que aguentar a zueira geral, muita coisa para um caipira do interior de São Paulo, rsrsrsrsrs . Não demorou muito e os outros chegaram e o grupo se completou com Anderson Rosa, Régis Ferreira, Rafael Araújo e Daniel Trovo. Nos dirigimos para o tal Largo da Batata e lá pegamos um ônibus para Itapecerica da Serra e de lá outro para Juquitiba, aonde uma van escolar já esperava para nos levar até o mais próximo do rio. O motorista rodou por 14 km pela BR 116 no sentido sul e depois entrou no tal bairro do Engano, tocou direto pela estrada principal para o sul e seguiu sempre por ela que foi se dirigindo para leste/sudeste e se bifurcou 5 km depois que saímos da BR e ali paramos porque não havia mais condições de seguirmos motorizados. Num primeiro momento eu pensava em adentrar no sítio em que a vam havia nos deixado e cortar caminho por um vale, andando uns 2 km até atingirmos o rio Pedreado, mas logo vimos que seria impossível forçar passagem por uma área habitada de madrugada e aí resolvemos seguir o plano original, o roteiro conseguido na primeira incursão. Portanto, naquela madrugada de sexta para sábado, jogamos as mochilas às costas e partimos pela estrada da esquerda que logo adentra pela mata e sem pegar nenhuma bifurcação, vamos seguindo por ela que vai ficando cada vez mais intransitável, passa por um sítio à esquerda e uns 300 m depois o terreno se abre e aparece um grande lago também à esquerda, denunciando ser ali o último ponto com sinal de gente porque a partir daí a estradinha vira quase um trilha e numa bifurcação pegamos para a direita até desembocarmos num sítio abandonado de gente aonde uma placa nos dá as boas-vindas: Caiam fora, proibido entrar, caçar, pescar, colher palmito, MEXEU MORREU ! A gente sabia que ali é terra sem lei, mas naquela hora da madrugada era o nosso único porto seguro para tentar descansar um pouco, então adentramos assim mesmo, já que era nítido que não havia ninguém no sítio. O lugar até que estava bem cuidado, sinal que não estava de todo abandonado. Em uma das casas, uma grande varanda já nos chama a atenção e nos indica um possível lugar para nos abrigarmos. Na outra casa encontramos a porta sem trancas, mas o lugar estava deplorável, com cheiro de rato morto e não havia a menor possibilidade de dormimos nas camas, mesmo assim arrastei um colchão mais apresentável e o levei para a varanda da outra casa, fiz o mesmo com um cobertor que continha apenas bostas de ratos, nada que uma boa espancada não o deixasse em condições de uso, mesmo sobre protesto e cara de nojo dos participantes daquela expedição. Então nos alojamos ali naquele casebre mequetrefe e cada um se ajeitou como pode, espalhando seus sacos dormir sobre lonas ali no chão de barro e eu tive uma noite de rei, sem friagem, sem umidade e dormi como um anjo, mesmo que alguns dissessem que nem o satanás ousaria usar aquele cobertor e aquele colchão, bobagem, exagero da galera, (rsrsrsrsrsrs). Pouco depois das 6 da manhã já estávamos de pé, tomamos café, arrumamos as mochilas e partimos. Passamos entre os dois casebres e demos a volta no lago e interceptamos uma trilha atrás dele, mas não andamos nem cinco minutos e o Régis já notou que havíamos entrado pelo lado errado, então varamos mato para a direita por uns 100 metros e achamos a trilha de acesso ao rio. Sabendo que o rio iria fazer várias voltas, resolvemos cortar caminho e seguir rente ao morro do nosso lado direito e fomos varando mato acompanhando a direção correta dado pelo nosso GPS. Aliás, havíamos marcado todo o percurso do rio Pedreado com GPS e escolhemos como nosso navegador Anderson Rosa, que iria conduzir aquela expedição com extrema competência no uso do Wikloc, que foi o aplicativo usados. A chegada ao rio alegra todo mundo. Ele está lindo, a água ainda um pouco amarelada, típica de rio ainda de planalto, que carrega um pouco de sedimento, mas logo saberíamos que ele a cada curva iria ganhar novos afluentes de águas cristalinas e irá aos poucos se transformando em um rio translúcido. Como sempre acontece, no início da caminhada a gente vai tentando manter as botas secas, tentando ganhar terreno pela margem ainda plana e transitável, mas não demora muito para as botas começarem a empapar e quando o mato fecha de vez é hora de largar de frescura e se jogar de vez na água fria da manhã, a AVENTURA ESTÁ POSTA À MESA. Nesse início o rio se mantém raso, com a água mal passando do nível da cintura, mas numa grande curva, quando somos obrigados e passar com água na altura do peito e vez por outra tendo que nadar nos lugares mais fundos, foi aí que demos conta de que esse rio seria uma grata surpresa, e alguns, que antes se mantinham céticos a respeitos do sucesso daquela expedição selvagem, já se renderam completamente e seus olhos brilharam de felicidade. O rio serpenteia, vira para um lado, vira para o outro e quando dava, usávamos suas margens para nos locomover com maior rapidez, nos utilizando também de algumas raras trilhas de palmiteiros e caçadores, aliás, em poucos lugares na Serra do Mar vimos tantas Palmeiras Juçara. Logo o rio se encaminha para dentro da floresta densa e até os raros caminhos de palmiteiros já não são mais vistos. O dia já ia pela metade quando a primeira garganta se apresentou à nossa frente, local que chamaríamos de PORTAL DO PEDREADO. Nesse ponto o rio começa a se encachoeirar e as grandes rochas faz valer o nome dado ao rio. Paramos ali para um breve lanche e para traçar a estratégia de descida, que é sempre a mesma : ganhar um pouco de altura pela direita para depois começar a descer na diagonal, que vai nos devolver de novo ao rio aonde uma Grande Cascata se apresenta e como alguns caras estavam meio que apressados para passarem por esses obstáculos, coube a mim e ao Régis nos enfiarmos numa descida para registrarmos umas fotos do salto, que aliás, era muito bonito, quase que se espalhando de um lado ao outro do rio Pedreado. Logo nos encontramos entre algumas paredes com corredeiras um pouco mais rápidas e foi ali que o Rafael tentou se jogar e ir boiando e se fudeu todo, sendo arrastado pela água e quase triturado pela máquina de lavar natural. A caminhada consiste em avançar pelo rio, hora por dentro da sua correnteza, hora pela sua margem às vezes planas e com mata mais aberta. Quase sempre era preciso cruzar de um lado a outro e numa dessas travessias vindo do interior da floresta, eu mais um pisamos a um palmo de uma jararaca velha, mas foi o Rafael que quase foi picado ao se apoiar na pedra e cair com a mão encima da serpente, que por sorte só fez pular fora da rocha. Notamos logo que teríamos problemas com as cobras e não demorou muito já me deparei com outra jararaquinha tomando sol encima de uma outra pedra no meio do rio e também tive sorte de vê-la antes de saltar sobre a pedra, ainda bem-estarmos todos com perneiras e isso faz uma grande diferença, principalmente psicológica. A galera estava motivada e tudo era motivo para alegrar mais ainda o grupo, até uma ossada de queixada servia para distrair e virava assunto, mas um tal Potenza começou a aloprar todo mundo porque queria parar para nadar, mas eu e o Trovo queríamos ganhar terreno, ainda mais porque estávamos agora numa parte plana do rio e esperávamos encontrar grandes poços mais abaixo, mas como ele encheu muito nosso saco, tivemos que esperar quando ele resolveu se jogar num poço parado , cheio de tranqueiras. Depois dessa parada não muito estratégica, cruzamos o rio para sua margem direita e os olhos treinados de lince do Rosa localizou um girau de caça e o Rasta investigando o terreno encontrou um vestígio de trilha. Nos enfiamos nesse caminho e qual não foi a nossa surpresa ao encontrarmos um vestígio de antiga estrada tomando o caminho para o norte. Era praticamente uma trilha, tomada de árvores de grande porte e só olhos bem treinados seria capaz de saber que outrora aquilo fora uma passagem maior. Mas com o objetivo daquela estrada, para que teria servido, porque estaria ali? Estudando a carta topográfica de 1973 era possível verificar que nela constava a construção de uma pequena usina hidrelétrica, coisa comum nessa época, mas esta usina, se existisse, estaria muito mais abaixo e só a encontraríamos no segundo dia de travessia. Bom, o certo é que seguir aquele caminho mais desimpedido era uma boa pedida, mas depois de uma meia hora, talvez menos ,esse vestígio de estrada foi se afastando cada vez mais do rio e eu a todo momento insistia para direcionarmos nosso nariz de volta para as barrancas do rio. Sem me dar ouvidos, parte do grupo continuou caminhando, mesmo que a estrada fosse cada vez mais se afastando do rio e ganhando altura. Teve uma hora que eu já estava implorando para a gente tomar outro rumo, tanto que cheguei a apostar até a minha dignidade, contando com o Rafael como fiador da aposta e tendo o Potenza como assinante de algumas promissórias. Mas os caras não queriam nem saber e quando a caminho se bifurcou, pulamos um afluente e seguimos meio que para oeste, infelizmente ainda subindo. Eu já estava nos cascos quando finalmente a tal estradinha que nem trilha mais parecia de tão fechada, se enveredou para o sul, indo em direção ao rio e logo à frente ela acabou de vez e aí descemos escorregando em um barranco até desembocarmos umas 4 da tarde, olha só, bem na barragem da tal usina hidrelétrica. Ninguém entendeu nada, na marcação da nossa carta topográfica essa tal usina seria muito mais abaixo do rio, tanto que só esperávamos encontra-la apenas no outro dia. Achar essa Usina hidrelétrica foi mesmo gratificante porque pensávamos até que ela nem existisse e chegamos à conclusão de que o IBGE havia cometido um pequeno engano ao coloca-la um pouco mais abaixo, um erro plenamente justificável, haja vista que a carta datava de 1973, mas a construção dessa usina é muito antes disso, talvez da década de 30 ou 40. Então estava explicado aquele vestígio de estrada que havíamos encontrado, ela serviu para a construção da usina, que por sua vez foi construída para alimentar uma madeireira as margens da local aonde hoje é a BR 101. Claro, é uma usina minúscula, tanto que só no outro dia conseguimos localizar no meio do mato e carcomida pelo tempo o maquinário e a turbina que gerava a energia, mas hoje só resta mesmo a barragem de pedra que fecha o rio de um lado ao outro, mas ainda deixando passar toda sua água, formando uma bucólica cachoeira aos seus pés e diante desse engano e aproveitando a própria deixa com o nome do bairro, vou chamar essa queda d’água de CACHOEIRA DA USINA DO ENGANO, para marcas essa localização. Ainda era muito cedo para acamparmos, mas os caras bateram o pé para que passássemos a noite ali e quanto a isso não fiz objeção, mesmo achando ser muito cedo para arriar as mochilas. Então nos pés da cachoeira armamos nossas redes e enquanto alguns cozinhavam, outros aproveitaram para se esbaldar no poço da queda d’água. Alguns se viraram como puderam, fazendo o velho e tradicional miojo, mas eu, em parceria com o Régis, cozinhei uma boa de uma janta reforçada. Aliás, o Régis e o Rasta eram os novatos do grupo, mas logo se enturmaram e não escaparam em nenhum momento das piadas e chacotas destinadas aos debutantes, muito porque eles mesmos, já “não valiam nada”(rsrsrsrsr) Foi uma noite bem dormida, de temperatura agradável e só não foi melhor porque demora um pouco para a gente se acostumar com o barulho da queda d’água explodindo no poço da usina, mas o dia que amanhece é um dia sem nuvens e promete ser sem chuvas. Antes das sete da manhã já estávamos de pé, mas só depois das oito foi que nos animamos a partir. Ficamos divididos entre voltarmos para a estrada/trilha ou continuar seguindo por dentro do rio, mesmo ainda sendo muito cedo para nos atirarmos na água. Num primeiro momento tentamos descer pela margem e não andamos nem 100 metros já nos deparamos com a tal casa de maquinas em completa ruina, aonde o caminho acabou de vez. Querendo ganhar um pouco de terreno resolvemos retornar e novamente interceptar a tal estradinha, mas logo descobrimos que ela na verdade acabava mesmo ali na usina e quebramos a cara porque perdemos muito tempo rodando para ver se achávamos ela na direção que pretendíamos. O jeito foi retornar novamente até a antiga casa de maquinas e varar mato pela direita, até que o barranco fechou nossa passagem e fomos obrigados a nos jogarmos novamente dentro do rio e uma vez com as partes baixas molhadas, não havia mais motivos para fugirmos da água gelada. A caminhada seguiu alternando as margens do rio e sempre procurávamos facilitar nossa passagem, as vezes varando mato por algum barranco, outras vezes abrindo passagem pela vegetação mais tranquila, quando o rio se estabilizava, até que chegamos às gargantas e aí foi hora de nos esgueiramos por dentro de grandes rochas, subindo e descendo, escalando fendas e vencendo paredes lisas. Não que o rio nessa parte tenha grandes correntezas, mas sempre é um tormento para atravessá-lo, principalmente para mim que sou muito leve e qualquer bobeada aumenta a chance se ser arrastado é um perigo real, mas quando se pode ver o que se esconde atrás de alguma curva é sempre um barato se jogar nessa correnteza e deixar com que a força do rio o conduza bem mais à frente , sem nenhum esforço, nos poupando energias .Quando o rio resolve se enfiar de vez numas paredes que o espreme, é hora de pular fora dele e voltar a escalar pedras novamente. Chega uma hora que a margem que se caminha não serve mais ao nosso propósito, então é preciso montar uma operação para conseguir voltar ao outro lado. Caminhar pela Serra do Mar é algo incrível não só pela paisagem deslumbrante e selvagem, mas também pela forma com que se faz isso. Aqui não seguimos nenhuma regra cagada aos quatro ventos por grupinhos constituídos, as regras nós mesmos criamos dependendo do momento e da ocasião e para atravessar uma torrente de água basta uma cordinha qualquer, um nó de emergência criado na hora por quem se sente mais seguro com ele. Basta um pedaço de pau qualquer, uma mão amiga para não deixar que o indivíduo despenque na queda mais abaixo e tudo está resolvido. Mais à frente o rio se afunila mais ainda e aí é preciso tomar cuidado para não escorregar e cair na máquina de lavar e se lascar todo. Logo sem ter como prosseguir voltamos a nos enfiar no mato e subimos barranco abrindo passagem pela vegetação mais densa até novamente podermos voltar ao rio, desta vez sobre uma imensa laje de pedra, hora de parar para um breve descanso e umas mordidas em uns lanches. A cada passo dado, a cada metro que ganhamos vamos vendo a transformação desse rio. Suas águas vão ganhando novos afluentes e vão ficando cada vez mais cristalinas e logo quando as gargantas acabam, nos vimos caminhando numa mata bonita, onde o rio vai se enlarguescendo e fazendo várias curvas. O dia já vai bem adiantado quando começamos a sentir um cheiro característico de comida no fogão a lenha, sinal de que algum grupo de caçador poderia estar por perto, mesmo porque, vimos no mapa que estávamos nos aproximando de um local aonde era possível que se pudesse chegar ao rio pela existência de uma estradinha no passado. Passamos em silêncio, não queríamos ser confundidos com algum animal de caça e corrermos o risco de tomarmos um tiro de cartucheira. Resolvemos mudar de margem para uma maior segurança e de repente, sem prévio aviso, tropeçamos numa ponte pênsil que atravessava o rio de um lado a outro, que ligava nada a lugar nenhum. Estava bem claro que havia um caminho vindo de algum lugar da civilização, mas era claro que nenhum turista chegava por ele, haja visto que não havia nenhum sinal de lixo. Logo acima da ponte de cabos abria-se uma grande clareira e a partir dela saia uma larga trilha que denunciava que realmente no passado uma estradinha poderia ter chegado até ali. Parte do grupo que estava à frente resolveu seguir a larga trilha que se distanciava do rio na perpendicular e era claro que não serviria a nosso propósito, mas os caras teimosos foram seguindo, feito cabras segas, enquanto eu o Rasta já putos da vida, seguíamos atrás reclamando porque víamos que aquele caminho não daria em lugar nenhum, a não ser para nos tirar da nossa rota. Dez minutos de caminhada, depois de uma curva, surge a nossa frente um telhado de um rancho e isso fez com que a gente ficasse apreensivo por não saber o que encontraríamos naquele fim de mundo e poderíamos dar de cara com os bandoleiros da serra que provavelmente nos receberia com um trabuco na cara. Se nós já estávamos apreensivos, imagina a cara dos sete homens que foram surpreendidos por outros sete saído do meio da floresta, vindos sabe-se lá de onde. O rancho não passava de uma construção rústica, com uma cobertura de telhas, mas sem paredes e rodeado de algumas lonas velhas. Mesmo sendo um barraco qualquer, no meio daquela selva parecia mesmo um castelo, onde um fogão a lenha jogava fumaça pelos ares denunciando que havia comida cozinhando e algumas camas rusticas espalhadas pelo outro ambiente completava o senário do palácio perdido. Logo nos apresentamos como aventureiros e exploradores, eliminando assim qualquer mal-estar que a nossa presença pudesse causar. Aqueles homens que ali estavam não eram caçadores e nem palmiteiros e sim convidados do cuidador daquela propriedade que segundo nos disseram, pertencia a um grande banco que a comprou para fazer lastro financeiro, mas eles estavam ali apenas para praticar um ócio: beber, comer e jogar conversa fora. Ao lado do rancho, uma willis velha deixava claro que realmente havia uma estrada ligando a civilização ao rio, mas por ser propriedade particular, ninguém passava, deixando o lugar no mais total isolamento. Todos apresentados. Fomos logo convidados a nos sentar à mesa para compartilhar a refeição, coisa que o Daniel Trovo já recusou de cara por educação, mas como educação passou longe da barriga lombriguinha do Potenza, o “zoiudo” já se atirou no fogão à lenha e saiu de lá com um prato caindo comida pelas beiradas. O Trovo mandou logo sua educação para os quintos e abocanhou seu quinhão e assim, um a um foram se achegando naquele fogão à lenha e revirando o “zóio” de tanto comer. Eu mesmo, um pouco mais contido, talvez pela minha educação europeia, ao olhar para o tamanho daquela panela, aonde poderia comer umas 20 pessoas e me dando conta que sobre aquele rústico fogão havia dobradinha com carne de porco, arroz, torresmo, carne de panela cozida com palmito selvagem, enchi meu prato como se fosse um refugiado de guerra, muito porque aqueles homens não estavam mesmo a fim de comer mais nada, já estavam com o rabo cheio de cachaça. Fazendo justiça a um do nosso grupo, que se recusou a comer todo aquele banquete, não posso deixar de citar o único cara que se mostrou civilizado naquele dia e se manteve firme nas suas convicções, o Rasta não tocou na comida, mesmo estando varado de fome, não por ser um lorde inglês, mas simplesmente por ser vegetariano e esse foi o único que se lascou bonito e teve que fazer sua própria janta. Bom, a comida estava boa, o papo estava melhora ainda, mas já passava das 4 da tarde e a gente tinha que decidir o nosso rumo. Numa rápida reunião decidimos que mesmo ainda sendo muito cedo, acamparíamos na clareira à beira do rio, mas aí o inesperado veio alegrar a alma já que a barriga estava para a lá de cheia. Seu Joaquim nos ofereceu o rancho para passarmos a noite já que eles estavam de partida em no máximo meia hora. Não havia o que pensar, aceitamos e ficamos agradecidos pela oferta, aquilo iria além do que a gente sonhava. Enquanto os donos do rancho se organizavam para ir embora, aproveitamos para tomar um bom banho no rio e colocar roupas limpas e secas e quando retornamos eles haviam partido e aí nos apossamos do abrigo e cada qual foi escolher sua cama e seu colchão. Os mais espertos se empoleiraram nas camas rusticas e os outros tiveram que se deitar no chão mesmo. Ali naquele casebre improvisado e quentinho rolou papo furado até quase de madrugada, sempre regado a café e chá. Alguns ainda se deram ao luxo de comer o resto da comida que havia sobrado, outros foram ainda preparar mais comida. Na hora de deitar os homens se separaram dos meninos logo que elas surgiram: Eram aranhas de tudo quanto é tamanho e tipo, saíram dos lugares mais estranhos e foram tomando tudo de conta. Alguns logo se revelaram com a masculinidade abalada e outros nem disfarçaram, já largaram os colchões no chão e trataram de montar suas redes, até aqueles que vive de defender a sociedade acabou por nos decepcionar e ameaçou dar chilique e só depois de uma operação de guerra com muitas chineladas é que conseguimos vencê-las e os mais medrosos conseguiram pegar no sono no RANCHO DAS ARANHAS. Quando o dia raiou foi difícil abandonar aquele cafofo confortável e só lá pelas nove da manhã foi que resolvemos partir, ainda bem porque eu andava preocupado com o zunzum da noite anterior aonde alguns ameaçavam largar a expedição no meio e voltar para casa ou no mínimo ficar no rancho por mais um dia. De volta ao rio, a caminhada segue pela sua margem e não demora muito achamos um grande afluente do lado direito, justamente o riacho que rasgava a montanha e abri caminho para a estradinha que vinha da civilização. As andanças se alternam entre varar mato e andar dentro do próprio rio que nesse trecho é raso e plano, com uma água incrivelmente limpa e menos de duas horas depois achamos o que nos pareceu ser uma trilha e resolvemos segui-la, até que ela começou a se afastar muito da água e quando pensamos em abandoná-la, demos de cara com mais um abrigo abandonado. Apreensivo fomos nos achegando aos poucos e logo notamos que esse também estava vazio a um bom tempo e desse rancho partiu uma trilha que nos devolveu novamente ao rio. Nesse trecho a correnteza deu uma aumentada e o leito rochoso dificultava o caminhar, mas se por um lado é preciso empreender mais energia, por outro lado aquele era um cenário lindíssimo com poços sempre nos convidando para um mergulho e em um deles uma caverna escavada no barranco foi o parque de diversão de alguns mais afoitos. Logo em seguida, numa curva para esquerda, o rio desembestou de vez e para não ser arrastado pela correnteza foi preciso que passássemos nadando até uma grande espécie de ilha de pedra e por haver um super poço, foi a grande desculpa para ariarmos as mochilas para uma parada mais demorada e um bom mergulho e alguns se ariscaram a se jogar na correnteza e viraram passageiros do rio, num divertimento sem compromisso. Estávamos ansiosos para encontrarmos as cachoeiras que aquele dia nos prometia e quando as pedras do rio começaram a ficar cada vez maiores, já nos preparamos para desce-las e a primeira que apareceu foi logo uma que tomou conta de todo o rio, uma cascata não muito alta, mas que parecia com uma catarata que jogava gotículas de água para todos os lados. Para descer ao pé dela, parte do grupo varou mato pela esquerda, enquanto outros já se jogaram de cima dela e passaram à nado, aproveitando a força da sua queda para ir parar já na prainha de pedras. Já passava das duas da tarde, talvez um pouco mais e aproveitando a parada providencial, aproveitamos para instalar ali nossa capsula de registro de travessias selvagens,aonde deixamos nosso recado para os futuros aventureiros que por lá passarem algum dia e depois disso deixamos aquela bela cachoeira entregue a sua própria sorte e agora as CATARATAS DO PEDREADO ganhou o registro da nossa ilustre passagem. Para nossa surpresa, mal havíamos começado a caminhar e já demos de cara com mais uma gigante cachoeira, justamente a queda d’água que eu havia estudado tanto e imaginava que poderia ser uma das mais altas da travessia. Só que dessa vez não era uma cachoeira no Rio Pedreado, mas sim num afluente do lado esquerdo e a meinha suspeita se confirmou. Uma queda d’água larga de um grande rio vindo do interior da serra, mais um rio perdido nesse mundo selvagem aonde ninguém põe a cara e que transforma esse ecossistema em um dos mais espetaculares da Terra. Fico feliz em ver se materializar à minha frente aquilo que eu só imaginava nos mapas de satélite e na carta topográfica. Enquanto eu e o Rasta ficamos ali apreciando aquele espetáculo, os meninos se adiantaram e fomos obrigados a apertar o passo para nos juntarmos novamente à eles. O Daniel Trovo o tempo todo vinha com uma conversa de que poderíamos acabar ainda hoje aquela travessia, mas eu já sabia que isso não passava de delírio, muito porque eu não estava nem um pouco a fim de abandonar aquele rio extraordinário antes do combinado, mas o dia foi passando, a gente varando mato, atravessando rio a nado, nos jogando nas corredeiras, subindo barranco e escalando paredes na unha e numa curva qualquer, talvez por já estar cansado e um pouco desatento, num pulo mal dado, vi meu pé virar e foi inevitável que meu tornozelo torcesse junto. Na mesma hora eu já ví que o estrago havia sido feito, mal conseguia colocar o pé no chão e perdido naquela vastidão de floresta temi pela continuidade daquela travessia. Uma parada de uns 15 minutos para que a dor inicial desse uma estabilizada e me valendo da água fria para um analgésico momentâneo consegui prosseguir. A dor ainda era intensa, mas não havia tempo para ficar choramingando pelos cantos, o jeito era tentar me arrastar até o fim do dia e tentar um curativo a noite, no acampamento. A tarde já ameaçava acabar e como já pensávamos em acampar, fomos andando e já de olho em alguma área plana, mas por infelicidade estávamos presos entre duas paredes sem nenhum lugar descente para montamos nossas redes e como nada é tão ruim que não possa piorar, surgiu à nossa frente uma sequência de gargantas profundas, hora de parar e montar uma estratégia. Já eram quase 4 horas da tarde e nos veio à cabeça a possibilidade de iniciarmos aquela descida e acabarmos mais presos ainda e agora por paredões de pedra. Ser pego à noite sem nenhum lugar para montar acampamento não estava nos nossos planos, já havíamos passado por isso em outras expedições e sabíamos muito bem o quanto é desagradável e sofrível, então numa reunião rápida, o grupo decidiu que deveríamos montar acampamento e deixar aquela aventura para o outro dia. O grande problema era aonde conseguir um lugar descente, mas aí o Trovo se lembrou de que algum tempo atrás ele havia visto uma área de caçadores abandonada e que seria prudente retornarmos e tentar passar a noite por lá. Sem ter outra alternativa fizemos o caminho de volta e por sorte encontramos essa área do lado direito do rio e não poderia ser melhor. Um local plano e com boas árvores para esticarmos nossas redes, abrigado do vento e com um pequeno afluente para nos abastecer. Quando montamos essa expedição e decidimos que mesmo o rio não tendo um desnível descomunal como estávamos acostumados a explorar, iríamos ir nos divertir, acampar num lugar selvagem e jogar conversa fora e felizmente tudo que havíamos planejado estava saindo ainda melhor. Os quatro acampamentos que fizemos foram realmente incríveis e como é gratificante poder nos sentar às margens desse rio fantástico, numa noite de lua clara e temperatura agradável e poder se dar ao luxo de viver uma vida de desapego. Lá nós não somos ninguém, nem ricos nem pobres, ninguém é Cristão ou Budista ou Espírita. A profissão de cada um não vale absolutamente de nada e muito menos a sua posição política ou filosófica. Somos apenas nós mesmo, apenas homens crescidos brincando ao som da simplicidade da vida. E nesses acampamentos é muito zueira, muito porque o politicamente correto não existe e quem puder mais chora menos. Mesmo já estando a 3 dias nessa labuta incessante, todos estão muito dispostos e animados e a conversa acaba por se estender até tarde, ou ao menos até mais tarde do que estamos acostumados e quando o sono chega é só se jogar para dentro das nossas redes e dormir como nunca dormimos antes até que o sol venha nos acordar para mais um dia de jornadas gratificantes. Pouco depois das 6 da manhã já estamos de pé e enquanto a água do café não ferve, desmontamos tudo e nos aprontamos para partir. E a partida já começa em grande estilo porque logo cedo já somos obrigados a cruzar o rio com a água pela cintura e ganharmos o mato do lado direito, interceptando um vestígio de trilha que vai ganhando altitude e quando vimos já estávamos paralelos à garganta. Poderíamos tentar seguir varando mato pela crista mas aí nos afastaríamos do objetivo principal que eram as cachoeiras e por isso embicamos nosso nariz numa diagonal e avançamos escorregando pelo barranco até nos posicionarmos novamente às margens do Pedreado, bem aos pés de uma queda incrível, que abria o início das grande cachoeiras antes do rio fazer sua curva para esquerda e começar a acompanhar a Rodovia Regis Bittencourt (BR 116). Não demora muito e entre escaladas e desescaladas, ganhando terreno dentro do rio, conseguimos perder altura até nos posicionarmos em mais uma Cachoeira larga, com um véu abaulado, mais um cenário lindíssimo, mais uma descoberta surpreendente aonde alguns ficaram brincando no meio do seu véu. Por incrível que pareça, nós estávamos enfiando dentro de um vale bem no meio da SERRA DO CAFEZAL , aonde milhares de pessoas passam todo dia indo ou voltando do sul do país e que nem imaginam o que se esconde por dentro dessas montanhas. Em épocas de feriados, congestionamentos monstros se formam na BR 116 , são horas e horas parados , pessoas perdem seus tempos, dinheiro e saúde, parados no meio do nada, enquanto aqui em baixo nos vales a vida pulsa numa beleza poética, com rios de águas cristalinas, cachoeiras lindas ,plantas exóticas e animais extraordinários e naquele momento tudo nos pertencia e somente a nós, donos absolutos do lugar. Agora à nossa frente o vale se abriu de vez e acima das nossas cabeças já era possível notar que estávamos bem perto da rodovia, talvez em uma hora varando mato e escalando a montanha conseguíssemos chegar ao asfalto, mas ainda não havíamos chegado ao meio dia e seria uma pena abandonar tudo aquilo e quando o Rio Pedreado curvou-se de vez para o sul, junto a um grande afluente do lado direto, no próprio rio uma outra cachoeira se fez presente, num cenário de tirar o fôlego e um mundo paisagens fascinantes se abriu para nós e ficamos encantados de estar tão perto de uma das rodovias mais movimentadas do país e ao mesmo tempo tão isolados num mundo selvagem. Aquilo era realmente incrivelmente belo e para nossa surpresa uma antiga ponte pênsil caindo aos pedaços havia sido construída ali, mas com sinal de estar abandonada há muito tempo, parecendo mesmo ter sido esquecida ali para todo o sempre. A Cachoeira da Ponte Pênsil marcava definitivamente nossa vitória e nossa conquista daquele vale e daquele rio desafiador porque sabíamos que poderíamos cair fora a qualquer momento, mas a aventura ainda não havia terminado, então decidimos nos enfiar na próxima garganta e avançar um pouco mais e não nos arrependeríamos por isso. O Pedreado dá uma afunilada e é pelo lado esquerdo que vamos seguindo, nos enfiando no meio de pedras e descendo uma a uma até nos posicionarmos acima de uma grande e longa rampa que nos trava a passagem. Descer por ali seria realmente perigoso e o jeito foi retornar um pouco e tentar uma passagem para o outro lado do rio, mesmo assim seria necessário se jogar à beira da queda potencialmente perigosa. O Rasta acabou sendo o boi de piranha que se ariscou e já puxou o Daniel Trovo para o mundo dele, mas o resto do grupo não achou prudente passar por ali sem nenhuma segurança e só se animou a cruzar o rio quando o próprio Rasta sacou um cordim para nossa segurança e um a um foi se agarrando àquela corda medíocre e se atirando na correnteza até alcançar a outra margem. Uma vez cruzado o rio, até tentamos varar mato para descer até a próxima cachoeira, mas a inclinação do terreno e sabendo que aqueles eram os últimos momentos nossos naquela expedição, preferimos não gastar mais nenhuma energia e o melhor caminho se mostrou mesmo pelas bordas do rio, passando e se esgueirando pelas pedras lisas, mas ainda assim perfeitamente passáveis e nem quinze minutos depois a gente largou nossas mochilas e agradecemos por estarmos diante de mais uma maravilha despencando de cima das pedras formando mais uma grande cachoeira para coroar de vez a nossa passagem por aquele vale. Não Era mais uma cachoeira qualquer, era outro espetáculo que se espalhava de um lado a outro do rio e foi bonito ver parte da galera se esbaldando embaixo da sua queda e no seu grande poço de águas claras. Eu da minha parte não queria mais saber de água, quase 4 dias socado dentro do rio para mim já era suficiente. Sentei sobre uma grande rocha e me pus a contemplar pela última vez aquele cenário que me encantou nesse feriado do dia do trabalho. Foram 4 dias intensos, de grandes descobertas, de novas amizades, de desafios e deslumbramentos e quando a galera cansou de desfrutar daquela Cachoeira com uma espécie de chafarizdo lado direito, demos por encerrada aquela expedição por dentro do rio, mas ainda estava longe de nossa aventura terminar por completo. Estávamos a uns 200 metros de desnível abaixo da BR 116 e para lá chegarmos seria necessário escalar a montanha e varar mato até o asfalto. Não havia muito o que fazer, apenas pedimos proteção a nossa senhora do barranco e nos pomos a puxar mato e subir sem nem olhar para trás e logo demos adeus a Cachoeira do Chafariz e ao vale do Rio Pedreado. O Rasta e Trovo foram à frente puxando a fila, mas logo o Potenza nos ultrapassa e ele e o Rasta tiveram o privilégio de avistar os primeiros sinais de civilização e um pequeno cervo selvagem correndo apressado ao perceber nossa presença. Finalmente antes das 2 da tarde comemoramos com um abraço coletivo mais uma expedição bem-sucedida na Serra do Mar Paulista, chegamos todos em segurança, cansados, mas felizes de mais uma vez podermos ir ao lado escuro dessa fascinante serra, numa das mais incríveis florestas do mundo, aonde ainda reina a paz que todos desejam. Chegar a rodovia foi uma conquista, mas fomos sair num lugar inóspito, praticamente desabitado e somente depois de quase uma hora de pernadas foi que conseguimos achar uma alma viva que morava num sítio e ele nos informou que deveríamos descer por mais um km até uma borracharia abandonada, aonde seria possível pegar um ônibus subindo a serra que possivelmente viria do bairro de Santa Rita. Esperamos, esperamos até que a bunda ficasse quadrada e nada de conseguirmos um transporte, muito menos uma carona. Com muito custo nos veio a informação que somente as 18 horas poderia haver um ônibus e nós ficamos lá abandonado a própria sorte até que um ônibus vazio e que não nos servia parou e nos avisou que ali não conseguiríamos voltar para casa nunca e nos ofereceu uma carona até mais acima na rodovia, aonde havia um ponto de ônibus que fazia a linha Juquitiba x Barnabés ou sei lá que fim de mundo dos infernos era aquele. O ônibus quando apareceu, a noite já havia caído faz tempo e em mais de hora de viagem, nos deixou na pequena rodoviária de Juquitiba e de lá conseguimos outro ônibus para a região metropolitana de são Paulo aonde cada qual se dispersou para um lado e eu voltei para minha aldeia em Sumaré, no interior Paulista. Essa Travessia expedicionária surgiu da vontade de poder explorar um mundo quase selvagens, ir à lugares ainda desconhecido pela maioria dos Paulistas. Poder botar nossos pés e arrastar nossa alma ávida de conhecimentos até lugares praticamente intocados, poder lutar e vencer a nós mesmo, poder cerrar os punhos e enfrentar uma natureza quase que desconhecida e entrar de um lado e sair do outro transformados, satisfeitos, inebriados e agradecidos por mais uma vez ir aonde poucos foram e principalmente por ter conseguido juntar uns amigos e conhecidos e ao final da jornada quase poder chamá-los de irmãos. Divanei Goes de Paula / maio - 2018
  10. Alguém saberia me dizer se essa travessia ainda é possível , ouvi dizer que a Fazenda Hare está interditando a passagem. Vendo o mapa do google Earth, notei uns traklog subindo por dentro do Vale do Bonfim, será que a passagem é livre pelo vale ou tem que enfrentar alguma propriedade particular ?
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