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divanei

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Tudo que divanei postou

  1. LAGUNA 69 Ir ao Peru pôde ser uma das experiências mais incríveis que um Brasileiro poderá ter na vida e se você desembarcar em Huaraz, capital da província de Ancash, cidade de 140 mil habitantes situada a quase 400 km da capital Lima e imersa no meio da Cordilheira Branca, uma extensão da Cordilheira dos Andes, não espere nada menos que o surpreendente, um mundo tão diferente do nosso que irá fazer com que você perca o chão , sua cabeça vai rodar e talvez sentirá até náuseas , tanto pela diferença cultural, tanto pela altitude acima dos 3.000 metros . Eu já havia passado pelo Peru muito rapidamente em 2007, numa viagem alucinante até as ruínas de Machu Picchu, mas foi uma passagem tão rápida e tão conturbada que mal tive tempo de me deixar entrar na cultura peruana, mas desta vez havia separado muito tempo para me perder no país e agora arrastando minha mulher atrás de mim, o que para ela seria ainda mais devastador, já que era sua primeira vez. ( LIMA - PERU ) A Cordilheira Branca é algo realmente surpreendente, uma espécie de Patagônia Peruana, com uma centena de picos acima de 6.000 metros, geleiras, lagunas coloridas, glaciares, templos Pré –Inca, ruínas históricas, animais exóticos e uma infinidade de diferenças culturais e comidas diversas, trilhas e travessias de montanhas geladas são em números incontáveis e o melhor de tudo isso é que os preços são tão baixos que um brasileiro em economia de guerra vai se sentir rico lá. Na praça central de Huaraz , a Praça de Armas, meu pensamento voa longe enquanto nos deslumbramos com a magnitude de duas lhamas e as suas donas trajadas de chollas, que por algumas moedas, emprestam seus bichinhos para uma foto típica, mas meus pensamentos se elevam às montanhas gigantes cobertas de gelo e me imagino no topo delas, mas logo sou trazido a realidade e me lembro que desta vez a única coisa que poderei fazer é me portar como mero turista e não como aventureiro atrás de encrencas geladas e ser turista em Huaraz já é algo magnífico e me sinto feliz de poder compartilhar esse momento incrível com minha companheira de 30 anos. Mesmo como turista é possível passar meses na cidade sem repetir passeio e todos são grandiosos e espetaculares, alguns sem exigência física nenhuma, outros serão apenas para poucos ou pelo menos para quem não é totalmente sedentário, porque além de ter que pôr o pé na trilha ainda vai ter que superar o fator altitude, alguns passeios vão chegar a 5.100 metros e alguns acabam por ficar pelo caminho, mas outros passeio deixarão o turista já no local sem que ele precise dar um passo se não quiser. Geralmente quem vem à Huaraz acaba por separar uma semana ou pouco mais que isso e já vem com os passeios tradicionais muito bem definidos, não é regra, mas conhecer as atrações principais acaba por se tornar quase uma obrigação, isso claro para quem não vai com o intuito de fazer caminhada de alta montanha ou escalar, aí essa regra não vale nada e nem vou expor isso aqui porque seria necessário escrever uma bíblia para falar de tudo que se pode fazer na Cordilheira Branca e mais ao sul dela. Dos passeios mais tradicionais, talvez a LAGUNA 69 seja a principal atração, não só por ter uma paisagem grandiosa, mas porque também é preciso de uma superação tão grandiosa quanto a beleza da paisagem, porque de todos os passeios tradicionais, esse é o que requer um esforço físico para ser alcançado. Não que a trilha seja assim algo quase que para super-homens, mas com certeza é o fator altitude que vai determinar quem pode ou não subir ou quem aguenta ou não se expor nos 15 km de caminhada com o pulmão querendo explodir procurando um pouco de ar para respirar e esse seria o desafio que eu havia programado para tentar arrastar minha mulher atrás de mim, mesmo porque eu já sabia que meu organismo se adapta muito bem a altitude e com um condicionamento físico mais ou menos em dia para minha idade, tiraria de letra, mas minha mulher , quase que uma sedentária contumaz , teria que se preparar muito bem para aquela aventura e o principal a fazer, era não fazer absolutamente quase nada, dar tempo ao tempo e esperar que o organismo se adaptasse a altitude, então programei um roteiro de passeios com esse fim, deixando a LAGUNA 69 com mais de 4.600 metros de altitude para o final da viagem, seria a cartada derradeira, uma tentativa de fazê-la conquistar essa atração, talvez uma das mais belas da AMÉRICA DO SUL. Huaraz não é uma cidade grande, mas mesmo assim é bem movimentada, com um trânsito intenso e barulhento, onde quem buzina mais tem prioridade, mas essa característica é do país inteiro. No centro, perto da sua praça principal ou mais precisamente na avenida que passa em frente dela e uma abaixo é onde tudo se concentra, desde bancos, órgãos oficiais, lojas de equipamentos, casa de câmbio e as agências de turismo que fazem todo tipo de passeio, que eles chamam de tours. Infelizmente quando desembarcamos em uma das inúmeras rodoviárias, porque cada empresa de ônibus tem a sua, acabamos por entrar meio numa furada de aceitar uma oferta de hostel ou alojamento e com isso acabamos sendo levados a fechar todos os passeios com eles. Acontece que a oferta era tão barata, mas tão barata que ficamos deslumbrados com a possibilidade de gastar uma merreca comparada a nossa realidade no Brasil. Os caras nos ofereceram no pacote uma diária que acabou saindo 25 reais por dia, claro, numa hospedagem meia boca, mas com um quarto de casal com uma cozinha disponível, mas um pouco longe do centro. Depois descobrimos que poderíamos ter pago o mesmo valor para ficar mais bem localizados e no fim acabamos pagando mais caro pelos passeios, mas era tão barato que a gente pouco se importou, fica então a dica de não fechar nenhum pacote com hotel nenhum e negociar os preços direto nas agências e conseguir aquele desconto maneiro. Organizei um roteiro que pudesse então fazer com que a gente fosse se aclimatando para enfrentar as altitudes da Laguna 69 e no primeiro dia que chegamos, embarcamos para CHAVIN DE HUASCARAN, uma viagem de um dia inteiro, ida e volta cruzando por cima da Cordilheira até as ruínas Pré-Inca , com uma paisagem deslumbrante no caminho, subindo a mais de 4.600 metros de altitude, passando pela Laguna Querococha, uma introdução as maravilhas da Cordilheira. A viagem é meio cansativa, principalmente para quem chegou de Lima numa viagem noturna de quase 8 horas, mas vai ajudar muito o organismo a ir se adaptando e na volta ainda tivemos a sorte de pegar uma nevasca que cobriu toda a rodovia de neve, mesmo no início do outono. No dia seguinte tiramos para descansar e para perambular pela cidade, nos enfiarmos nos guetos e bocadas e tentar compreender aquela cultura deslumbrante com um povo tão diferente do que estamos acostumados. Tudo nos faz cair o queixo, as mulheres com suas roupas coloridas e que vendem de tudo que se possa imaginar. Vemos uma pobreza gritante, mas também um povo trabalhador ao extremo e que gosta de comer muito bem. Aliás, a culinária peruana faz jus aos prêmios internacionais que vem ganhando ao longo dos tempos, uma diversidade gastronômica impressionante e o melhor de tudo, com preços baixíssimos, tanto que se podia comer até não aguentar mais por míseros 6 ou 7 reais nas dezenas de pequenos restaurantes espalhados ao redor do Mercado Central. Um dos pratos mais típicos do Peru é o CUY, uma espécie de porquinho da índia e o Ceviche Peruano, esse último eu comia quase todos os dias, mas o porquinho ficaria somente para outra oportunidade, já que minha mulher se recusava a dividir a mesa comigo para degustar essa iguaria local. No terceiro dia marcamos para ir a outra grande atração local, o GLACIAR PASTORURI, uma geleira que fica ao sul de Huaraz. A agência nos pegou no hotel às 8:30 com uma van coletiva com gente de toda parte do mundo. Subimos de novo a Cordilheira em pouco mais de 3 horas de viagem, com uma pequena pausa no caminho para um chá de folha de coca para ajudar na aclimatação. Esse é mais um passeio que leva o dia inteiro e vai custar pouco mais de 30 reais por pessoa e mais uns 30 pelo ingresso no Parque Nacional de Huascarán , pode sair bem mais barato se comprar já 3 ingressos , saindo pouco mais de 60 reais, já que iríamos usar para outros dias, fizemos isso. A van deixou a gente a 2 km da geleira. O tempo estava meio embaçado e ameaçava nevar, mas o grande problema ali é a altitude que beira os 5.100 metros e vai desafiar o organismo sem piedade. A caminhada tem pouco aclive, mesmo assim muita gente opta por alugar umas mulas por míseros 7 reais para subir por uns 15 ou 20 minutos, mesmo sendo algo para turista, quem é sedentário de carteirinha vai botar a língua de fora e minha mulher não fugiu à regra, dava um passo e já apoiava as mãos no joelho tentando procurar ar sabe-se lá de onde. Vendo o estado dela tentando vencer esses míseros 2 km, comecei a desconfiar da sua capacidade de conseguir fazer a trilha até a Laguna 69, mas enfim, era preciso deixar o tempo passar para ver como seu corpo reagiria nos próximos dias, se conseguiria se adaptar a altitude. No caminho para o glaciar o tempo virou de vez e a chuva que ameaçava cair desabou em forma de neve, o que foi muito bonito de se ver, mas também acabou por congelar nossas mãos antes de nos valermos de uma luva e um gorro quentinho. Devagarzinho e sendo quase que empurrada por mim, o Rose chegou, com a língua colando no chão, mas chegou e realmente valeu muito o esforço e a oportunidade de poder se postar de frente daquela montanha de gelo, num cenário sem igual. A volta sempre é mais tranquila, tanto a caminhada, quanto a viagem para a cidade, mas foi mais um dia desgastante, agora era hora de descansar e deixar o organismo trabalhar e ir se adaptando porque a regra é clara: Suba alto e durma baixo. No outro dia a gente queria descansar, mas como já havíamos comprado o pacote, tivemos que encarar o tour para a LAGUNA PÁRON. É uma viagem longa e interminável por mais de 3 horas, onde a van desafia a cordilheira e ascende a mais de 4.200 metros, numa paisagem espetacular, em meio à montanhas geladas. A Laguna tem uma cor azul escuro que chega a hipnotizar a gente e no fundo dela um pico em forma de pirâmide ( NEVADO PIRÂMIDE-5.885) faz a gente não se arrepender de ter ido, aliás, dizem que esse cenário magnifico com a composição laguna mais pico, serviu de palco para a empresa cinematográfica Paramount Picture gravar sua vinheta de abertura antes dos filmes. A van nos deixa as margens da laguna, mas quem quiser pode subir por mais uns 500 metros até um mirante do lado direito. Eu encarei essa subida, mas a Rose ficou lá embaixo contemplando a laguna, mas a subida não é tão puxada quanto pintavam, mas caminhar na altitude nunca é mole, mesmo assim subi correndo e desci também, tentando testar um pouco dos meus limites para a Laguna 69. Chegando lá embaixo fomos dar uma volta de canoa na laguna, uma água absurdamente limpa, tanto que bebemos dela. Voltamos para Huaraz e por causa de algumas obras acabamos por chegar bem tarde da noite, cansados, mas já tendo que nos organizar para o outro dia, quando iríamos enfrentar a caminhada turística mais temida da Cordilheira Branca. ( Laguna Parón) Os dias amanhecem sempre frios na Cordilheira dos Andes, mas por sorte naquele dia não havia uma nuvem no céu e isso por si só já me alegrou. Antes das 6 da manhã a van que nos levaria para a Laguna 69 nos apanhou na hospedagem. Ainda estávamos atordoados e cansados por causa do dia anterior, mas confesso que estava um pouco apreensivo, havia chegado a hora de saber se realmente o meu planejamento quanto a deixar minha mulher em condições de fazer a trilha iria dar certo. No transporte coletivo, mais uma vez se juntavam gente de diferentes países do mundo, a maioria não falava espanhol e como pouco aranhávamos no inglês, praticamente ficamos isolados e trocávamos algumas palavras com uns peruanos e com um belga que havia morado um tempo em Portugal e falava bem a nossa língua. Ao olhar o grupo já vi que o negócio iria mais complicado do que eu pensava, porque era composto na sua maioria quase que total de pessoas jovens, sendo eu e a minha esposa de longe os mais velhos, beirando quase os 50 anos e também o belga que parecia nos acompanhar na idade e esse foi um fato que fez logo a Rose ficar desconfiada dessa caminhada, mas eu desconversei, dei umas risadas e mudei de assunto antes que ela desistisse mesmo antes de começar. A Van segue sempre para nordeste, deslizando entre a Cordilheira Branca e a Cordilheira Negra, sendo do nosso lado direito as paisagens encantadoras das grandes geleiras e seus picos acima de seis mil metros e quando chegamos à Carhuaz, saltamos em frente a sua igreja principal para um café da manhã e experimentar os sabores exóticos de uma sorveteria local e para comprarmos água e algum lanche de trilha. Seguimos , mas agora tendo como companhia o monstruoso HUASCÁRAN , simplesmente a maior montanha do Peru e uma das mais altas do nosso continente com 6.789 metros de altitude e foi justamente a encosta desse pico que veio a baixo no terremoto de 1970 que devastou a região de Huaraz, fazendo que a cidade de YUNGAI quase fosse varrida do mapa, dizem que ao todo foram mais de 50 mil mortes, uma catástrofe quase sem precedente se levarmos em conta que isso se deu há quase 50 anos atrás quando a população era bem reduzida. Chegando em Yungai, viramos para nordeste e começamos a subir a Cordilheira Branca, uma viagem interminável, mas plasticamente encantadora, passando por pequenos amontoados de casas e construções rurais, gente que sobrevive a quase 4.000 metros em meio ao ar rarefeito e as agruras da altitude. Vamos subindo pra valer, mas ainda nos valendo de uma crista com um vale do nosso lado direito e quando chega a hora de deixar a crista e entrar de vez no vale que vai nos levar para o coração da Cordilheira, é hora de dar uma parada na ENTRADA DO PARQUE NACIONAL HUASCARÁN para nos identificarmos e comprarmos nosso ingressos (30 soles). Resolvidos os problemas burocráticos, nos lançamos para dentro dos paredões e fomos singrando de um lado para o outro sem tirar os olhos da janela e por vezes tendo que limpar a baba que escorria de nossas bocas do qual o queixo não conseguia se fechar, querendo cair diante da explosão de belezas sem igual. Seis ou sete quilômetros depois da entrada do Parque somos apresentados à LAGUNA LHANGANUCO a mais de 3.800 m de altitude, um azul hipnotizante, num cenário de sonhos. Nos detivemos ali por uma meia hora, o suficiente para prever que hoje nos faltariam adjetivos para narrar as belezas que estavam por vir. Mais à frente a LAGUNA ORCONCOCHA desmonta nossa capacidade de avaliar o que é mais belo e apenas ficamos a admirar àqueles cenários que vão surgindo no nosso caminho até que o nosso transporte motorizado para de vez, é chegado a hora de botar o pé na trilha, o coração já vai disparando e aquela ansiedade toma conta da gente, a aventura vai começar, voltar já não é mais possível e agora sou eu contra a altitude, minha missão : Levar minha mulher a uma das grandes paisagens da América do Sul, fazendo com que ela, mesmo um pessoa sedentária, consiga caminhar por 15 km no ar rarefeito montanha acima, numa altitude superior a 4.600 metros. O guia dá as explicações finais, mas todos nós sabemos que ali guia não serve para muita coisa, a não ser para encher o saco de quem não se mantiver no tempo estipulados por eles para retornar, inclusive para barrar os que não tiverem condições físicas de seguir, fazendo-os desistir. E o tempo estipulado é cruel para os que não tem experiência em longas caminhadas em altitude e muitos ficarão mesmo pelo caminho se não tiverem condições de fazer o percurso até a LAGUNA em no máximo 3 horas para ir e 2 horas para o retorno, então sempre acaba caindo sobre os ombros de todo mundo a responsabilidade de se manterem no tempo previsto. Rapidamente apanho as duas mochilinhas com alimentos, água, agasalho e outros equipamentos de segurança e somos os primeiros a nos lançarmos floresta a dentro, perdendo altitude até um riacho cor de leite. Mas não passa apenas de uma língua de mata que é cruzada em pouco mais de 5 minutos até atingirmos o vale plano, que iremos acompanhar por um bom tempo cercado por uma paisagem estonteante. A minha estratégia é fazer com que a Rose só se preocupe em caminhar e poupar energia, tanto que as 2 mochilas são carregadas por mim, deixando tranquila para que possa andar livre, respirando a maior quantidade de ar possível, mesmo numa altitude superior a 4.000 metros. O cenário inicial é algo que impressiona, vamos bordejando um rio que corre à nossa esquerda, aguas do degelo de picos gigantes que já podemos observar no horizonte. Vou pedindo para que a Rosa respire fundo e se concentre em colocar um pé à frente do outro, numa estratégia de ganhar terreno nessa parte plana e tomar bastante distância do pelotão principal que é composto pelo guia, porque enquanto tivermos à frente deles, é a garantia de podermos ter uma tranquilidade para irmos mais devagar quando a parte íngreme se apresentar e bicho pegar de vez. Me concentro em falar palavras de incentivo e em abastecer de água minha esposa e em dar-lhe algo para repor as energias, mas já vejo logo que ela começou a ferver o radiador e já me parece que começa a diminuir o ritmo e quando uma placa me indica que não andamos nem 2 km, trato logo de desviar sua atenção para que não veja que até agora não andou absolutamente nada. Um pouco mais à frente, umas construções parecendo umas casinhas de duendes nos chama a atenção, mas quando retornamos nossos olhares para o vale de onde viemos é que nos damos conta de onde estamos e do tamanho da paisagem que nos cerca: sobre nossas cabeças se eleva o monumental HUSCARÁN , na verdade com 2 cumes distintos com 6.786 metros a nos assombrar, mostrando que ali naquela cordilheira ele é quem manda , senhor soberano das altitudes, não só da Cordilheira Branca, mas o teto do próprio Peru e do seu lado esquerdo o Nevado Chopicalqui ( 6.354) fecha a parede e nos deixa boquiabertos , nos impedindo de prosseguir sem que desgrudemos os olhares destes monstros feito de rocha e de gelo, um cenário para guardar na memória por uma vida inteira. (Huascarán - o teto do Peru) Tudo era lindo, mas ainda na minha cabeça eu tinha a esperança de conseguir levar minha esposa até a laguna e a todo momento, mesmo sem tirar o olho das grandes paisagens, ia atrás dela dando uma de personal trainer, dando aquele incentivo, contando umas lorotas, inventando que faltava pouco e quando cruzamos uma pontinha sobre um afluente do rio principal, vi que começamos a nos aproximar de uma grande cachoeira de onde suas águas saltavam dos degelos das montanhas gigantes do nosso lado esquerdo, que ao fazermos a curva que iria nos fazer começar a ganhar altitude, seria a hora de botar a prova toda minha capacidade de convencimento, se ela vencesse aquele trecho crucial, pensei que poderíamos ter êxito. Havíamos vencidos cerca de um terço do caminho, mas até então foi uma caminhada apenas no plano, o que poderia parecer praticamente nada, mas estamos falando de altitude, onde você puxa o ar e não encontra nada, onde o pulmão parece que vai explodir a qualquer momento. Eu me sentia muito bem, mas já sabia que meu organismo de adapta bem e rápido na altitude, mas entendia muito bem o que minha esposa estava passando. Agora o caminhar é lento, um passo e logo as mãos vão para as pernas, tentando se segurar para não cair. O terreno, a trilha, vai ziguezagueando montanha acima e cada metro vencido é uma conquista. Ela sofre, é um sofrimento que acaba sendo compartilhado por mim, que tento mentalmente empurra-la para cima: “ Vamos só mais um pouco, outro passo, respira, bebe água, não está longe o próximo patamar, vamos “. O sofrimento nos olhos dela é visível, começa a diminuir o ritmo consideravelmente e vamos sendo ultrapassados por todo mundo e é nessa hora que tenho medo de que o guia comece a pegar no nosso pé e ela desista de vez. Por sorte o próprio guia se deteve por um instante para auxiliar uma jovem que parece ainda estar pior que a Rose e foi a deixa para eu arrasta-la até que atingíssemos o grande patamar, estava vencido mais uma etapa, pelo menos por enquanto teríamos um refresco e poderíamos caminhar por mais algum tempo no plano. Aliás, a entrada desse novo vale é marcada por uma pequena e bonita lagoa que alguém me sopra ser a LAGUNA 68, mas parece ter outro nome também. (Laguna 68) Fizemos uma breve parada ali na laguna de não mais de 5 minutos, só o tempo básico para uma respirada mais profunda e para engolir alguma coisa energética. Nosso caminho segue agora em nível, numa paisagem incrível de onde a nossa frente desponta o não menos incrível PICO CHACRARAJU ( 6.108) e é com essa companhia que nossos passos vão deslizando pelo vale florido e 600 metros depois da pequena lagoa, nos deparamos com uma placa que indica uma trilha para outra laguna à direita, mas infelizmente não será dessa vez que nossos pés tocaram a Laguna Brogui, é preciso nos concentrarmos no objetivo principal porque estamos no tempo limite e ao trombarmos com uma placa onde dizia que a Laguna 69 estava a míseros 1000 metros, comemorei pensando que daqui para frente seria moleza e o sucesso estava garantido, ledo engano. Nesse 1 km final é onde o nosso organismo vai ser testado de verdade. Para quem já vinha buscando ar para os pulmões, esse pequeno trecho de subidas intensas poderá marcar definitivamente o final da caminhada, porque é aqui que muita gente passa mal e em alguns casos tem de ser ajudada a voltar para baixo, esse é o trecho que separa quem vai vencer e quem vai fracassar, pelo menos para os turistas ou até para montanhistas que não conseguem se adaptar as altitudes e já vinha capengando nas etapas anteriores. A Rose agora se arrasta de vez e só não anda de quatro pé para não passar vergonha e mesmo com o vento gelado acima dos 4.500 metros, sua em bicas. Enquanto ela vive seu calvário pessoal, caminhando feito uma tartaruga paraplégica, me contento em incentivar e também em apreciar a grandiosidade da paisagem que vai se descortinando enquanto vamos ganhando altura naquele ziguezague derradeiro. A cada passo, a cada metro ganho, nossa ansiedade vai aumentando. Sobre nossas cabeças agora localizo o que imagino ser a ponta do Nevado Pisco, montanha que já foi eleita a mais bonita do mundo, mas é um ângulo diferente e me concentro em botar meus olhos mesmo é na laguna, na esperança de vê-la ao longe. Nessa hora eu nem sei mais para onde foi parar o tal guia e pouco me importo em saber, já tenho a certeza que vamos chegar, muito porque o terreno se estabiliza e o sofrimento da subida já ficou para trás e é hora de encher os pulmões de ar ou o que conseguir, obviamente, e bater continência para uma das maiores atrações da América do Sul. O paredão gelado já está no nosso raio de visão, a geleira derretendo e deixando cair uma cachoeira e logo o azul, ainda uma pequena pontinha da laguna, desponta à nossa frente e a magia vai crescendo num dos cenários mais surpreendentes do mundo. O cérebro demora a processar o que olhos vão captando e nessa hora nem mesmo sei para onde foi parar minha mulher, só me lembro de ter sido arrastado pelo deslumbramento, quase hipnotizado pelo azul celeste. Gastamos menos do que as 3 horas limites para chegar. A Rose quase desmaia de cansada e senta-se à beira da Laguna 69 (4.604 m) e por lá fica comemorando em silêncio essa vitória pessoal, mas eu ainda estou pilhado e enquanto todo mundo, umas 50 pessoas, ficam aos pés da laguna só na contemplação, tomo o rumo do morro a nossa direita e sozinho vou ganhando altitude, galgando esse ombro rochoso até que atinjo o topo de onde se descortina uma visão inteira e completa de toda a Laguna, a mais de 4.650 metros de altitude. A grandiosidade da paisagem ao redor é coisa que me emociona e talvez esse tenha sido o lugar mais longe de casa que já estive na vida. Fico ali entregue a minha própria solidão e me esqueço completamente do tempo e da vida, apenas inerte, parado, estático, captando aquela cena do qual guardarei para o resto da vida, mas logo descubro que não é possível ser feliz para sempre e começo a descer e no final da descida surpreendo-me com uma vaca querendo chifrar, vejam só, um grupo de brasileiros, na verdade a vaquinha queria apenas matar sua curiosidade, mas os brazucas não estavam a fim de pagar para ver , então correram bem para longe dela. Quando cheguei perto, todo mundo do nosso grupo já havia partido, inclusive minha esposa, então só me restou fazer um carinho na vaquinha e desembestar montanha à baixo na tentativa de acompanhar o grupo. Às bordas de completar 50 anos, ainda me surpreendo com a facilidade que tenho de adaptação às altitudes e como carrego apenas 2 mochilinhas leves, é correndo que desço esse km inclinado, tomando cuidado para não derrapar nas curvas e despencar morro à baixo e rapidamente alcanço minha esposa e o guia, que é um dos últimos e logo quando voltamos ao plano, vamos ultrapassando boa parte dos integrantes do nosso grupo e antes mesmo de voltar ao laguinho intermediário, nos encontramos novamente com o Belga que fala português e numa conversa informal, descobrimos que o cara tinha apenas 40 anos, muito menos do que os mais de 50 que pensávamos ter e ai nos demos conta de que eu e minha esposa éramos os anciões daquele grupo multe estrangeiro, verdade mesmo que não havia ninguém mais velhos do que nós naquela caminhada e naquela montanha. O próximo lance de descida é a rampa inclinada, de frente para a grande cachoeira, mas agora a descida é constante e sem maiores pausas, apenas para uma ou outra foto da paisagem ao nosso redor e não demora muito atingimos o vale final, o ultimo estirão, agora totalmente plano, ás margens do rio do degelo das montanhas e vamos aos poucos nos despedindo do próprio Huascarán e o teto do Peru vai ficando para trás e duas hora e meia depois de abandonarmos a Laguna, emergimos da matinha e finalizamos junto à estrada, onde nossa Van foi estacionada e ali nos atiramos ao chão para um demorado descanso até que todo o grupo se juntasse e partíssemos novamente para Huaraz, onde chegamos já tarde da noite. Ainda inebriados pela caminhada do dia anterior, acordamos tarde e fomos perambular por Huaraz, nos perdemos em tudo quanto é beco e já que havíamos decidido ficar por lá mais uns dois ou três dias, resolvemos nos mudar para um hotel no centro, o que não nos custou mais que 30 reais. O choque de cultura é tão grande que ás vezes nos faz até perdermos o rumo e já que era para perder o norte, decidi que aquele seria o dia de experimentar uma das maiores iguarias da cozinha Peruana. Entramos em um restaurante popular e enquanto minha esposa experimentava mais um Ceviche, pedi logo um PORQUINHO DA INDIA, havia chegado a hora de provar o tal do CUY, mas antes mesmo que a iguaria tocasse nossa mesa, fui expulso a pontapés pela minha esposa que aos gritos disse logo: “VAI COMER ESSA MERDA LONGE DE MIM” (rsrsrsrrsrsr). Lá estava ele, nosso mascote, bonitinho e peludo, mas agora ali jaz, duro e à pururuca. Num primeiro momento não foi agradável ver aquele cadáver parecendo um rato seco sobre a mesa, mas o ser aventureiro que habita o meu corpo me dizia que aquela era talvez a única chance de experimentar um prato típico inusitado. O estômago deu um embrulhada, principalmente quando os dentes saltaram aos olhos, mas o demônio na minha cabeça insistia: “ Come aí, num dá nada, vai lá, só um pedacinho miseraviiii” Fechei os olhos, peguei um pedacinho, enfiei na boca. Minhas papilas gustativas foram se abrindo e o sabor do coitado do porquinho foi adentrando no meu corpo, tomando conta do meu ser e o animal carnívoro veio à tona e me portei como o diabo das Tasmânia, não deixei sobrar nem os ossos, só os dentes permaneceram no prato, melhor o do porquinho do que os meus. Os dias passaram e foi preciso deixar aquele lugar de sonhos para trás e a nossa volta para Lima foi como a ida, tranquila e sem nenhum percalço porque a maioria das viagens são à noite. De volta à capital do Peru embarcamos imediatamente para o sul do país, era chegada a hora de respirar o ar em abundancia do litoral e como minha proposta era a de conhecer paisagens diferentes, fomos nos perder no grande Deserto de Ica, lá onde o vento faz a curva, lá para as bandas do oásis de HUACACHINA, onde as maiores dunas do continente reinam absolutas, mas isso é uma outra história, de um outro capítulo de um livro chamado : AS HISTÓRIAS QUE AINDA NÃO CONTEI SOBRE O PERU , mas que um dia vou contar, num momento oportuno. (Huacachima) (Paracas) Essa não foi só uma história de uma caminhada por uma das maiores paisagens do continente, essa foi a narrativa de uma superação, onde o principal objetivo foi mostrar que uma pessoa sedentáriapode vencer aquilo que num primeiro momento pode parecer impossível. Me lembro que anos atrás, na subida do Vulcão Vilarica no Chile, minha esposa me fez prometer que nunca mais a faria enfrentar tais desafios. Daquela vez ela fracassou, desistiu antes do cume, mas desta vez consegui trabalhar bem a parte psicológica dela, provando que as vezes um desafio é vencido com a cabeça e não só com as pernas. Voltamos do Peru simplesmente maravilhados, um tanto chocado com a cultura totalmente diferente da nossa, mas assim mesmo, trazendo na bagagem a certeza de ter vivido o bastante para conhecer um dos países mais espetaculares do mundo, um aprendizado para uma vida inteira. Divanei-Abril/2019
  2. PEDRA DO CARMO Anos atrás, procurando por montanhas selvagens, me deparei com essa Pedra. Era um domo abaulado se destacando na paisagem, com um cume pedregoso, um monólito perdido na área rural entre Joanópolis e Piracaia, na verdade, muito mais perdido em lugar nenhum do que pertencente a alguma dessas cidades. Minhas pesquisas me levaram a um sit onde diziam que há muito tempo não se podia colocar os pés no cume porque os fazendeiros da região haviam fechado a passagem e colocado restrições para acessar a pedra, não queriam forasteiros andando por suas terras. Essa fazenda ficaria a não mais de 2 km da Pedra do Carmo e seria mesmo uma ótima opção, um caminho rápido, sem muitas bifurcações e sem o perigo de nos perdermos nas florestas de eucaliptos que por lá existem. Bom, se as restrições existiam, então era preciso encontrar um outro caminho, um trajeto viável partindo de outra fazenda que não tivesse tais restrições, ou fazer o mais radical, traçar um caminho varando mato e fugir dessas burocracias cretinas. Quem olha pelo mapa de satélite logo vê que se trata de uma cadeia de montanha, quase uma parede que sobe abruptamente pelo lado sul da pedra, seria uma subida quase escalando, mas me pareceu a única maneira de subir essa montanha sem levantar muitas suspeitas, teoricamente poderia ser viável, mas não havia garantia que também não seríamos barrados pelo sul, então apenas tracei a rota no mapa e lá deixei, perdido no limbo do meu computador até que um dia meu equipamento deu pau e esse arquivo também se perdeu para sempre e nunca mais nem me lembrei dessa tal pedra. Estava de bobeira em casa, quando numa segunda feira, véspera do feriado da Revolução Paulista, o Alexandre me manda uma mensagem perguntando se eu conhecia a Pedra do Carmo, nas cercanias de Piracaia. Pensei, pensei e logo me veio à mente a figura daquela formação rochosa, mas imediatamente já respondi que até havia ouvido falar, mas por hora achava que ainda se mantinha a tal restrição. Foi quando o Alexandre me soprou que haveria um caminho vindo do Norte, 5 ou 6 km varando um reflorestamento de eucaliptos e alguma mata nativa e dizendo que se eu quisesse ir, passava na minha casa na manhã seguinte. Bom, não estava fazendo nada e como ele deu o aval para levar minha filha Julia e o Jairo, logo confirmei presença, ainda mais por ser inverno e sem nenhuma previsão de chuva. Antes das 8 da manhã o Alexandre já buzinou no portão nos chamando para a aventura e logo pegamos a estrada para Joanópolis, já que o caminho mais perto do início da trilha seria pela cidadezinha e antes da 11 da manhã já lá estávamos lá, tomando café numa padaria e tirando fotos com lobisomens, já que o município se intitula a capital deles e para onde você vai os encontra para todos os lados. Do centro de Joanópolis sabíamos que deveríamos nos dirigir para sua mais famosa atração depois dos lobisomens, deveríamos ir direto para a CACHOEIRA DOS PRETOS, uma queda d’água gigante com 154 metros de altura, mas longe de ser a maior do Estado, como alardeiam as agências de turismo, querendo angariar alguns desavisados e desinformados. Muito porque é fácil ver que não são 154 metros em queda livre e sim em alguns degraus, mas quem olha de longe mal percebe isso, o que acaba dando um efeito belíssimo. Rodamos pouco mais de 15 km até a cachoeira e seguimos enfrente, buscando o caminho de quem vai para São Francisco Xavier ou mesmo Monte Verde, mas agora em estrada de terra. Andamos cerca de uns 8 km , mas não conseguimos encontrar a tal entrada da fazenda onde pretendíamos partir. Ao passar por um nativo, perguntamos como faríamos para acessar a Pedra e ele nos disse que deveríamos andar mais uns 2 km. Por mais 2 km andamos e quando vimos que não iríamos dar em lugar nenhum que pudesse nos levar até o local pretendido, ligamos o gps para constatar que já havíamos passado da entrada e mais uma vez provamos que nativos não conhecem nem a bunda deles. Retornamos e agora nos guiando pelo gps, localizamos a entradinha, que para quem vem da Cachoeira fica à direita, uns 7 km de estrada de terra. Adentramos por essa estradinha e rodamos uns 400 metros até interceptar uma sede de fazenda do nosso lado direito, mas é 50 metros antes da sede, do lado esquerdo, e é entrando por uma porteira de arame, para dentro da floresta de eucalipto que está a nossa "trilha". Vendo que havia um rádio ligado na fazenda, batemos para tentar a autorização e quem sabe guardar o carro, mas eu mesmo queria era entrar sem dar satisfação, vai que o dono já diz logo um NÃO. Mas pôr sorte não apareceu ninguém, então resolvemos estacionar o carro na beira da estrada, num recuo 50 metros depois da sede da fazenda, pegamos nossas mochilinhas com água, lanche e equipamentos essenciais e de sobrevivência, passamos pela cerca de arame que já estava aberta mesmo e caímos na capoeira, longe das vistas de qualquer pessoa. Estamos agora andando por estradinhas estreitas no meio de eucaliptos e vamos subindo suavemente até que uma curva para a esquerda fica um pouco mais íngreme e ao final de meia hora de caminhada, pouco mais de 1300 metros dá uma arrefecida e desce por uns dois minutinhos, mas logo volta para a ascendência, não muita coisa, mas suficiente para que minha filha Julia e o Jairo fiquem um pouco para trás. Eu e o Alexandre, macacos velho que somos, vamos dosando a passada, de tal forma que possamos papear e contar histórias e botar a conversa em dia. Passamos ao lado de uma área aberta pela nossa direita, onde um sítio domina a paisagem, mas sem o perigo de sermos vistos porque a casa está um pouco longe do caminho, mas logo acima somos flagrados por um nativo encostado numa moto e aí pensei que a casa tinha caído para a gente muito antes do esperado. Cumprimentamos o nativo, que devolveu a gentiliza. Perguntamos sobre o caminho para a Pedra do Carmo: _” Oia moço, aqui ceis num chega em Pedra do Carmo não, o máximo ceis vai sair na Pedra do Medo “Fiquei com vontade de rir, mas me segurei. Há tá, pensei que era possível chegar por aqui, mas então como a gente faz para chegar nessa tal Pedra do Medo? –“Ceis vai reto e vira à esquerda, sai da fazenda e sobe na direção do Medo” Agradecemos como se tivéssemos compreendido o recado, seguimos enfrente e ao saímos da visão do “cai pa trás” da fazenda, viramos à direita rumo a Pedra do Carmo, caímos na quiçaça e fomos acompanhando o caminho no gps. Estava claro que o matuto não sabia nada de nada ou estava surpreso de alguém querer ir no Carmo por aquele caminho, sendo que nos disse que por ali não tinha trilha e poderíamos nos perder, mas ficamos felizes de termos dado um perdido no nativo, só assim poderíamos chegar no cume sem sermos incomodados. Seguimos enfrente, mas sempre tentando ignorar as bifurcações, tanto pela esquerda, quando pela direita. Verdade mesmo que aquilo é um grande labirinto e sem o gps até poderíamos chegar, mas não sem antes tomar uns perdidos. O caminho é sempre subindo, as vezes um pouco mais, outras vezes um pouco menos. Em alguns momentos o que era uma estradinha bem estreita acaba dando lugar para uma trilha e por vezes até é preciso ir varando algum mato e o caminho que até então segui na direção sul–sudoeste, vai se dirigindo para oeste e quase 4 km depois de iniciarmos na fazenda, tropeçamos numa cerca de arame, uma cerquinha mixuruca, mas que tivemos que pular por cima até que no fundo de um vale um grande tronco de araucária nos deteve por um instante. A tendência é pular o tronco e seguir em frente, buscando um rabo de trilha, mas esse não é o caminho. Exatamente no tronco é preciso virar a esquerda e vara uma linha de mata até interceptar o que parece uma estrada larga e desimpedida, mas que na verdade não passa de uma espécie de asseiro de uma antiga linha de transmissão, aliás, se subíssemos por ela, meio que voltando encontraríamos uma grande torre, mas aí estaríamos fora do nosso objetivo. Então ao encontrar esse asseiro, passe reto por ele e continue meio que descendo para sudoeste e logo a frente vai começar a descer sem dó, em um caminho até escorregadio por uns 400 metros até interceptar uma estradinha que cruza o caminho e que é preciso virar radicalmente para a esquerda e ir subindo, passando por uma grande rocha e uns 400 metros depois da bifurcação, curvamos para a direita no enfiando numa trilha mais fechada, começa aí a subida derradeira para a Pedra, estamos a 500 metros do cume. No início a trilhinha é meio confusa, mas é só prestar bem atenção, um olhar mais apurado e perceber que é só seguir em frente, quase reto até que ela se abre numa área que seria possível até acampar, mas mais à frente desembocamos numa área melhora ainda, onde uma parede rochosa nos alegra a alma, finalmente encostamos de vez na pedra e já começamos a nos arrepender de não termos trazido nossas barraquinhas para acampar. Estamos agora a 1.340 metros de altitude e já percorremos uns 5 km de caminhada e vamos começar a subida rochosa até o cume. A trilha entra novamente na matinha, mas ainda é meio apagada por isso é preciso ter em mente que devemos sempre estarmos colados a rocha do nosso lado esquerdo. Vamos na ascendência tentando saber qual o local exato de abandonar a trilha e subir a pedra, mas logo a frente uma rampa, localizada por uma pedra meio quadrada nos chama para o estirão final. Vamos escalaminhado, sentindo o maravilhoso gosto de estar com os pés grudados na rocha nua e crua e esse é o momento que tanto esperamos, foi para isso que viemos. Vamos nos curvando à direita até que o caminho é bem óbvio. Do nosso lado esquerdo, ao longe a grande cidade de São José dos Campos e todo o Vale do Paraíba e atrás de nós já despontam a cadeia de montanha de Monte Verde, com o Chapéu do Bispo e o selado dominando as grandes altitudes da região. Chegamos na parte em que a pedra é mais plana, mas o cume ainda está mais à frente, sendo necessário cruzar um pouco de mato rasteiro, subir um degrau a atingir de vez de vez seu topo, finalmente na PEDRA DO CARMO com seus 1.433 metros de altitude, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas foi o que marcou o GPS. Estamos à beira de um abismo gigante, mesmo que não seja possível perceber isso por ser um topo abaulado, mas as fotos tiradas com o drone do Alexandre não nos deixam dúvidas e ainda é possível comprovar isso olhando para a estradinha lá embaixo, na parte sul da pedra, é uma cadeia de montanha realmente impressionante. A oeste também temos uma vista bonita de outro cume proeminente e seus paredões abruptos. Gastamos cerca de 3 horas de caminhada, uma pernada gostosa e descompromissada, em uma montanha que parece não receber gente há muito tempo, não existe nenhum lixo e nem vestígio de que esteja sendo frequentada. Finalmente podemos estar em paz em uma montanha, já que ultimamente as altitudes veem sendo atacadas por arruaceiros sem nenhum compromisso com o montanhismo, aproveitamos o tempinho fresco para tomar um sol, fazer um lanche e jogar conversa fora. O Alexandre botou o drone para voar e lá ficamos por umas duas horas, apenas nos dedicando ao ofício de não fazer nada até que descobrimos que não é possível ser feliz para sempre, botamos as mochilas nas costas e retornamos para o mundo dos homens, porque o feriado acabou e era preciso voltar a ser escravos do sistema. A volta foi rápida, sem mais percalços. Quando chegamos de volta na sede da fazenda encontramos os donos por lá, mas não nos disseram nada, então apanhamos nosso veículo e saímos vazados e para nossa infelicidade, pegamos um caminho errado e fomos nos perder numa estrada sem saída e tivemos que retornar, mas depois de reencontrarmos a Cachoeira dos Pretos, pegamos o asfalto e uma 3 horas depois já estávamos estacionados em casa, num canto qualquer perdidos na periferia de Sumaré-SP e o Alexandre foi se perder para o lado de Americana, onde se esconde há um bom tempo. O mundo do montanhismo vem passando por uma mudança, estamos vivendo um tempo sombrio, que jamais pensávamos que poderíamos passar. O modismo, causado pelo acesso a informação, tem levado cada vez mais gente para as montanhas e o que poderia ser uma ótima notícia, democratizando o acesso de todos ao mundo selvagem e mais humano, acabou por se tornar um grande problema, levando também os indivíduos toscos que resolveram levar para os cumes os seus costumes cretinos e devastador. Mas também acho que isso não tem mais volta e é preciso que se distribua essa gente, que estão entulhando sempre os mesmos lugares, por sorte ainda podemos contar com lugares mais reservados como a PEDRA DO CARMO e outras montanhas mais selvagens, lugares que essa gente ainda vai demorar muito tempo para descobrir e pelo menos por enquanto, ainda serão nossos refúgios de paz e sossego. DIVANEI – JULHO/2019
  3. PEDRA DA BORACÉIA É na escuridão de uma noite fria de inverno que avançamos lentamente rumo a lugar nenhum. Nossa referência não passa de um ponto distante que miramos para fora da floresta, que nos faz esgueirar entre moitas e moitas de bambuzinhos espinhudos, onde provavelmente jararacuçus nos espreitam assustadas com tal ousadia. Não são nossas pernas que nos carregam, mas nossa vontade de escapar inteiros de uma das maiores aventuras dos últimos tempos e a maioria de nós apenas se arrasta, deixando que a resiliência comande nossos passos e que a luz das nossas lanternas e o céu qualhado de estrelas nos leve à civilização. ( Rafael, Júlio , Vagner , Luciano , Potenza , Régis , Trovo e Divanei . ) A PEDRA DA BORACÉIA talvez seja dentre as montanhas da Serra do Mar de São Paulo, uma das mais isoladas, não só por estar em uma área de acesso restrito, mas também por se situar em uma parte em que a serra acaba se distanciando do mar, sendo guardada por terras indígenas em meio a florestas quase que intransponíveis com paredões abruptos de centenas de metros. Na carta topográfica consta como PEDRA QUEIMADA e independente de qual seja o verdadeiro nome, alcançar seu cume é estar mais de 100 metros acima do Corcovado de Ubatuba, outro ícone do litoral paulista. Por mais de uma década sonhávamos em conquista-la, mas conseguir as tais autorizações junto à SABESP (Companhia de Águas Paulista) ficava cada vez mais impossível e seria mesmo uma mão na roda porque era a oportunidade de avançar até a pedra por barco, navegando pela Represa do Ribeirão do Campo até a tal Cachoeira da Escada e de lá partir varando mato por umas cinco horas até o cume. Até tentamos por intermédio do Luciano Carvalho, que por lá esteve, perguntando sobre essa tal autorização, mas recebeu um não na fuça e a alegação era que o grande reservatório estava agora infestado de jacarés do papo amarelo. Diante da situação apresentada, nos restava apenas tentar angariar informações de alguns raros aventureiros que conseguiram ascender a pedra por trilhas e picadas de mateiros, palmiteiros e caçadores, portanto, ao invés de ir por água, ir tudo por terra. Alguns desses antigos exploradores nem se deram ao trabalho de nos responder, outros responderam com desdenho, alguns até que foram prestativos, mas suas informações foram tão genéricas que era impossível absorver algo. Na verdade, o que queríamos mesmo era um traklog, já que sabíamos que alguns detinham o caminho marcado no GPS, mas esses caras nos enrolaram, como a nos dizer: “ Querem conquistar aquela montanha, se virem, deem seus pulos “. Cansamos de esperar pela boa vontade de alguém, mandamos todo mundo a merda e decidimos que se fosse para conquistar a Boracéia, faríamos isso com nossos proprios esforços, iríamos traçar um novo caminho, uma rota inédita até o cume, nem que essa rota gastasse o dobro do tempo. Eu e o Vagner nos debruçamos sobre mapas de satélite e cartas topográficas, buscando informações que nos levasse a um ponto de partida. Encontramos a pouco mais de 5 km em linha reta a leste da Barragem da SABESP, um atrativo turístico conhecido por POÇO BONITO, localizado no Rio Claro, sendo que uma trilha de uns 6 km poderia facilmente nos levar até ele no meio da densa floresta. Acima do Poço Bonito, uma cachoeira marcaria a nossa despedida do Rio Claro. Esmiuçando a carta topográfica vimos que um grande corredor plano, como se fosse um vale subindo levemente, poderia nos conduzir ao sul até uma grande linha de transmissão de energia e de lá faríamos a curva para oeste novamente, seguindo até perto da base da Boracéia, na teoria poderia dar certo, um plano estava traçado. Traçado o plano, o roteiro e a estratégia, faltava formar o grupo, alguém que comprasse o projeto, mesmo sabendo que poderia ser a maior furada dos infernos. No início praticamente todo mundo fez cara de paisagem, os convites foram sendo negado e alguns exploradores, parceiros nossos das antigas, apenas se mantiveram em silêncio, outros estavam as voltas com compromissos familiares, trabalho e até mudanças e acabamos ficando com 3 integrantes confirmados, além de mim e do Vagner, o Rafael era o outro que desde o começo garantiu seu rabo na expedição. O certo é que joguei uns 10 nomes no grupo de WhatsApp e quando jogamos as cartas sobre a mesa, a maioria da galera tomou ciência da ousadia da Expedição, sabiam eles que seria uma oportunidade única e um a um foram saindo do armário, aniversário de parente, mudança de casa, trabalho, mudança de sexo, tudo foi se perdendo pelo caminho e a Expedição à Pedra da Boracéia ganhou força e corpo. No mapa estava tudo pronto, faltava agora ir lá nos cafundós de Salesópolis investigar essa tal trilha até o poço Bonito. O Vagner, o Trovo e o Rafa se prontificaram e coube a eles esse trabalho importante de investigação, aliás, para uma expedição sair do papel é preciso que pessoas se comprometam, botem a mão na massa e o pé na trilha. E os caras fizeram um trabalho lindo, acharam uma trilha de conexão da área rural que nos levaria até o poço e a Cachoeira Bonita, a primeira parte estava pronta, agora era montar a logística e reunir os expedicionários em torno do projeto. Agora com todo mundo motivado, escolhemos um feriado de junho para a expedição e seria a primeira vez que a gente se jogaria na Serra do Mar em pleno inverno e só fizemos isso justamente porque o nosso motivo maior seria uma montanha e não a exploração de rios selvagens, mas o tempo nos mostraria que não era bem assim como pensávamos. No horário marcado, nos encontramos todos (menos o safado do Rafa que chegou com uma hora de atraso) na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes, onde uma van nos esperava para nos desovar lá na área rural de Salesópolis. O motorista sentou o cacete e quando chegou no município citado, passou batido até interceptar a Estrada da Petrobras e transitou por ela cerca de uns 8 km, entrou à direita e uns 5 km depois saltamos no escuro, sei lá onde, num tal de Bairro dos Pintos e por mais uma meia hora nos pusemos a caminhar até que o Vagner localizou a tal trilha que passa ao lado de um sítio e embrenha na mata, vai descendo em nível, passa pelo Rio Clarinho, onde o Trovo e o Potenza resolveram cair de uma pontinha de madeira, segue sempre no aberto e uma hora e meia depois de iniciarmos na estrada, desembocamos na bucólica prainha do Poço Bonito do Rio Claro. ( Prainha do Poço Bonito) A madrugada já ia alta, mas surpreendentemente não fazia frio e decidimos montar um grande bivac sobre a areia da prainha. Sacamos uma corda, enfincamos um grande galho na areia e amarramos a corda no galho e em uma árvore nas margens do rio, jogamos a lona por cima e outra por baixo e jogamo-nos para debaixo com nossos sacos de dormir. Foi uma noite de cão para alguns que quase congelaram de frio, mas eu dessa vez não economizei nos agasalhos e dormi feito pedra até pouco depois das 6 da manhã. O dia amanheceu ensolarado, o que ajudou a animar a galera, que a partir de agora sabia que o passeio havia terminado e pela frente havíamos de enfrentar 4 longos de dias de aventuras selvagens. O Poço Bonito é um lugar lindo, um espelho d’água ótimo para um banho demorado em suas piscinas naturais, mas não no inverno. Então abandonamos ele pela esquerda, interceptando uma trilha que em alguns minutos nos levou até a CACHOEIRA DO POÇO BONITO, uma queda d’água não muito alta, mas muito cênica, muito parecida com a Cachoeira do Diabo, mas em menores proporções, provando que esse Rio Claro é realmente impressionante, mas o melhor ainda estava para ser descoberto. Depois de alguns clics da cachu , já fomos nos encaminhado para abandoná-la pela direita, mas antes disso uma chuvinha fina despencou sobre nossas cabeças antes das nove da manhã , mas isso não foi o suficiente para nos tirar o bom humor, porque a previsão do tempo já havia nos dito que haveria uma possibilidade pequena de precipitação. (Cachoeira do poço Bonito) Um a um fomos nos enfiando na mata e rasgando a floresta no peito, agora tendo como referência o traklog desenhado por mim e pelo Vagner no mapa de satélite que iria de encontro a um possível vale, um corredor que pudesse nos conduzir direto para o sul até que alcançássemos a tal rede de Alta Tensão, nosso próximo objetivo. O Trovo seguiu à frente porque já havia avançado por aquele terreno na semana passada, mas logo resolveu mudar de rumo para se livrar de umas moitas de bambu. Fomos ziguezagueando meio que para sudeste, fazendo uma diagonal até que pudéssemos interceptar de vez o caminho traçado para o gps e não demora muito, coisa de 20 minutos, tropeçamos em um rancho de palmiteiros/caçadores, incrivelmente bem preservado e sendo usado constantemente, provando que fiscalização ali não existe ou é totalmente ineficiente, a ponto dessa gente deitar e rolar, devastando florestas e florestas de palmeira Jussara. Concertamos o rumo e logo nos apareceu um rabo de trilha e alguém cantou que poderia nos levar para o rumo desejado, mas sem que percebêssemos, acabou nos fazendo rodar em círculos, perdendo tempo precioso. Andar com gps, principalmente um instalado no celular, parece fácil, parece que é só ir seguindo a bolinha, a setinha, sempre corrigindo o rumo, mas só parece. Algumas vez acontece um pequeno deley, um atraso que acaba confundindo o navegador, muito porque não é possível e nem viável ficar o tempo todo com os olhos grudados no aparelho, então qualquer desvio acaba fazendo a gente tomar o rumo errado e tendo que gastar energia preciosa para voltar para o rumo certo. Entre acertos e erros, uma picada nos fez voltar para o sul e nos deixou bem perto da linha que havíamos marcado no mapa e quando encontramos um córrego, na verdade um rio até que caudaloso, pensamos ter encontrado o nosso caminho definitivo, mas uma burrada monstro nos fez descer o rio ao invés de subir e de uma hora para outra , perdemos a direção , o bom senso e a nossas faculdades mentais, estávamos perdidos em algum lugar que até então estava difícil sabermos qual foi o erro cometido, principalmente quando avistamos um outro rio muito maior do que o que havíamos descido e de onde despencava uma cachoeira gigante que nunca imaginávamos existir. Tudo estava confuso, de onde brotou aquele rio enorme? Que cachoeira seria aquela já que não constava em lugar nenhum, em mapa nenhum? Houve um momento de estresse, cada um dava um palpite diferente, cada um queria seguir por um caminho diferente para nos recolocar na rota, mas antes que a gente nos pegássemos na porrada para saber quem tinha razão, deixamos aquela discussão estéril de lado e fomos nos deslumbrar com aquela cachoeira perdida. A diversão e o encantamento fizeram com que colocássemos nossa cabeça para funcionar e a partir daí o Luciano sacou seu gps com bussola embutida, azimutou a direção e disse: “ Caralho, cometemos um erro tosco, ao invés de subirmos o rio, acabamos descendo “. Bingo! Isso mesmo, nossa rota para o sul era surpreendentemente subindo o rio, que depois descobri chamar-se RIO DO ALEGRE, um grande afluente do Rio Claro. Claro mesmo era que viramos tanto para sudeste que acabamos voltando de novo para o rio principal, só que muito mais acima dele. O erro foi dantesco, mas acabou nos dando de presente uma paisagem incrível, até então não relatada na literatura “internética”, conhecida somente por algum mateiro local e revelada ao mundo agora por nós, que sem conhecermos o nome, resolvemos chama-la de CACHOEIRA PADRE DÓRIA, até que alguém nos sopre o nome verdadeiro. (Cachoiera Padre Dória) Abandonamos, portanto, a grande queda d’água e voltamos a subir esse tributário do Rio Claro e quanto chegamos a um girau de caça o rio deu uma curvada e se abriu numa sequência de cachoeirinhas e degraus. Até então não sabíamos se esse rio realmente iria continuar seguindo para sul,mas enquanto ele nos favorecesse, seria o nosso guia, mesmo que fizesse muitas curvas porque ter um caminho livre de mato, bambu e cipó seria ouro no meio daquela floresta fechada. Os degraus foram aumentando e as cachoeiras se multiplicando até que o rio se estabilizou de vez e começou a subir suavemente, com a água hora pela canela, hora pela cintura, mas como a temperatura havia caído e o sol havia deixado de dar as caras desde as onze da manhã, a água gelada começava e incomodar e quando podíamos, fugíamos pela margem para evitar a friaca. Apesar de estarmos subindo o rio e a tendência era de que ele fosse ficando cada vez com menos água, porque iria perder afluentes ao longo do caminho, isso não se confirmou e ele acabou ganhando foi piscinas naturais conforme ia se aproximando do planalto e era inevitável que de vez enquanto molhássemos acima da cintura e isso começou a fazer estragos e não demorou para surgirem as primeiras vítimas: Rafael foi o primeiro a sucumbir e foi preciso que o Luciano intervisse já que o menino tem os dotes de massagista e logo deu um jeito , mas não demorou muito e lá estava o Vagner estirado no chão se contorcendo por causa das câimbras também . Engraçado que sempre a pessoa que mais sofre com as baixas temperaturas sou eu, mas dessa vez os novinhos começaram a cair um a um e para variar a outra perna do Vagner travou também e lá foi novamente o Luciano fazer um carinho no menino. O tempo foi passando, o rio curvando para todo lado, mas sempre se mantendo para o sul. A temperatura caindo vertiginosamente conforme a tarde foi se aproximando e a sensação de que nunca chegávamos a tal Linha de Transmissão foi aumentando. Eu mesmo com uma camisa de neopremo sofria e gastava energia preciosa para fugir dos poços mais fundo porque a margem do rio era feita de bambus entrelaçados que dificultava o avanço. As vezes fazíamos algumas paradas para mordiscar alguma coisa, mas a retomada da caminhada era lenta e sofrível por causa do esfriamento dos músculos. O moral do grupo estava baixo, ninguém conversava mais, era nítido o sofrimento estampado no rosto de cada um e finalmente quando o Rio do Alegre cruzou a tal LINHA DE ALTA-TENSÃO e o nosso gps marcou a hora de virar para OESTE, o que estava ruim se transformou em pesadelo. Ainda sem encontrar um lugar descente para acampar e passando das cinco da tarde a chuva que ameaçou desabar durante as últimas horas, caiu toda de uma vez e a gente que já vinha sofrendo com a temperatura da água, agora nos encontrávamos em semi- hipotermia. Subimos o barranco à direita e tentamos nos abrigar na floresta, agora com terreno um pouco mais plano. Cada qual corre para tentar achar duas árvores descentes para montar sua rede e seu toldo, mas por sermos em oito foi difícil conciliar espaço para todo mundo. Não é possível narrar o sentimento alheio por completo, mas eu estava verdadeiramente na lona. O frio era tanto que não conseguia parar de tremer e muito menos conseguia pensar em uma solução. Árvores que pudessem me atender, eu não encontrava e quanto mais eu ficava exposto as intemperes do tempo, mais eu ia definhando, murchando e aquele aguaceiro dos infernos que não cessava ia fazendo com que a temperatura do meu corpo caísse de uma forma preocupante. Precisa fazer algo por mim, sair da chuva. Estiquei a lona em duas árvores esparsas e me enfiei embaixo e por lá fiquei, parado, inerte, pensado se ainda tinha idade para passar tamanho perrengue, pensando se já não estava na hora de parar de me enfiar nessas furadas. Poderia estar em casa, comendo bem e dormindo lindamente numa cama quentinha e macia, mas não, estava ali todo molhado, enfiado a um dia de caminhada do lugar habitado mais próximo, dentro de uma floresta fechada com uma chuva de inverno castigando sem dó e nem piedade a meio caminho de lugar nenhum. Era preciso agir. Saí do estado de inércia em que me encontrava, larguei minha mochila ao chão e fui esticar as beiradas da lona plástica. Retirei minha rede seca da mochila e amarrei nas duas árvores que por sorte deram espaço suficiente entre uma e outra. Tirei a roupa molhada, vesti uma seca e me enfiei dentro do saco de dormir, muito bem agasalhado. Aos poucos fui me aquecendo, a tremedeira passando e quando me dei conta já estava no mundo de Nárnia, num sono profundo, em estado de hibernação. Uma hora depois, já recuperado, levantei-me e fui cuidar do jantar que fiz juntamente com o Régis e embaixo da lona dele, ficamos até mais tarde jogando conversa fora até que definitivamente apanhei minhas coisas e fui morrer na escuridão da noite num canto isolado do grupo, mas ainda assim a ponto de ouvir o Júlio fazer um discurso na alta madrugada, porque não basta ser maluco, tem que ser sonambulo e incorporar espíritos. O dia amanhece sem chuvas, mas ainda com muitas nuvens. Desarmar o acampamento é uma coisa lenta e vagarosa, ninguém parece querer sair da rede quentinha e só lá pelas nove da manhã é que nos animamos a partir. A primeira coisa a fazer é localizar uma grande torre de Alta Tensão que pelos nossos cálculos não estava muito longe, já que agora bem visível sobre nossas cabeças passavam os fios de eletricidade, bem altos, mas mesmo assim ainda visíveis por entre as grandes árvores. Bastou um vara-mato despretensioso e logo a tal torre nos saltou aos olhos, reinando sobre uma pequena colina verdejante e desprovida de árvores e foi para lá que seguimos, agora no aberto e enfim com um pouco de horizonte e sol para nos alegrar a alma. Chegar a TORRE foi um marco, uma virada no ânimo da equipe. Subimos alguns metros, mas nem era preciso, do chão mesmo agora era possível avistar toda a imponência da cadeia de montanhas de onde a Pedra da Boracéia reinava absoluta ainda com seu topo sendo varrido por nuvens de algodão. Outra coisa logo de cara nos chamou atenção: Toda a extensão do terreno onde as torres passavam e que no satélite parecia capim alto, na verdade tratava-se de um emaranhado de pequenos arbustos e uma vegetação de passagem complicada, onde uma quiçaça entrelaçada não parecia dar passagem tão facilmente como imaginávamos, mas a simples segurança de poder nos guiar quase pelo resto do dia pelos fios de energia, já nos deixava feliz e se fosse preciso iríamos arrastar aquela vegetação espinhuda no peito até o tão desejado cume. Agora nos valendo da direção oeste, vamos galgando o terreno ondulado até a próxima torre, uns 300 ou 500 metros à frente. Trovo vai abrindo caminho e a gente segue atrás, cada um ajudando o companheiro da frente a se livrar dos cipós que vão enroscando nas mochilas. As vezes o terreno acaba nos levado um pouco para fora da linha das torres, mas é só uma estratégia a fim de trilhar por melhores caminhos e uns 40 minutos depois atingimos a segunda torre e a cada torre conquistada é motivo para uma parada mais demorada a fim de comer algo, beber uma água e jogar conversa fora admirando a paisagem ao redor. Pelo resto do dia essa foi a toada, conquistar torres! Foram 2 km varando mato e vales entre uma e outra até que aportamos na quinta torre, a uns 300 metros da base rochosa da Boracéia. Eram umas três da tarde e poderíamos tentar alcançar mais uma torre e de lá virar novamente para o sul varando mato até o pé da Pedra, mas estamos ansiosos demais e entramos em consenso para traçarmos um caminho direto para a face pedregosa da montanha, nossos pés estavam ávidos por pisar naquelas rochas lendárias. Juntamos o grupo e traçamos o caminho mentalmente. Fizemos uma diagonal para sudoeste e despencamos no buraco, quase um abismo no mato, descendo um barranco, escorregando para o fundo do vale até interceptarmos um riacho, cruzá-lo para o outro lado e pegar a direção da Pedra, subindo. Mais no alto conseguimos achar uma picada e seguimos por ela sempre na ascendência até que uma meia hora acima do córrego ela acabou no capim, mas aí já estávamos sentindo o cheiro da rocha exposta, varamos uma língua de vegetação alta e ganhamos a face exposta da Pedra da Boracéia, agora não tinha erro, o caminho era escalaminhado a parede rochosa até o cume, mas antes uma parada para juntar a equipe, tomar um gole de água e mordiscar alguma coisa. Diante de nós uma rampa gigantesca se apresentava. Os mais ousados subiram pelo meio, se agarrando ao pouco de aderência que a pedra nos proporcionava, caminhando no limite da força da gravidade, um vacilo e o rola montanha abaixo seria certo. Os mais tímidos se encaminharam para as laterais onde alguma vegetação conseguia dar uma maior segurança, mesmo que apenas psicológica. O grupo acabou se dividindo em várias frentes, cada qual no seu ritmo, cada um tentando buscar sua própria força, física e mental. A caminhada é lenta, o avanço é moroso, a ansiedade vai servindo de combustível para a conquista. De repente o Luciano e o Rafael ficaram muito para trás se arrastando nos seus sofrimentos individuais, mas como o caminho é óbvio, os grupos vão seguindo, sempre para o alto, galgando cada lombada do terreno. Enquanto o cume não é conquistado nos restam as paisagens ao Norte, onde a Represa do Ribeirão do Campo nos alegra a alma, um mundo de água perdido em meio a uma das florestas mais exuberantes do mundo. Com o cume da montanha ainda sendo visitado esporadicamente por nuvens, que dançavam ao sabor do vento, resolvemos nos deter em uma área abrigada, junto a alguns pequenos arbustos para esperar que todo o grupo se unisse e quando os retardatários chegaram, nos juntamos em uma só equipe e partimos para a conquista final. Não há um caminho definido que nos leve direto para lá, então vamos abrindo a vegetação no peito mesmo até que, sem percebermos, o mundo acaba sob os nossos pés e outro mundo, o mundo dos abismos, o mundo das largas vistas, um mundo feito de águas oceânicas e areias prateadas se descortina, enfim no topo da PEDRA DA BORAÇEIA (1270 m), o gigante perdido, a lenda da Serra do Mar Paulista, onde poucos tiveram o prazer de colocar os pés, estava definitivamente conquistada. Como era finalzinho de tarde e o tempo ainda estava meia boca, com muitas plumas, resolvemos deixar o dia seguinte para maiores contemplações e nos voltamos para assistir ao pôr do sol que já ia se jogando para oeste e também para planejarmos a nossa estadia no cume. Em meio as caratuvas e pequenos arbustos que compõem o cume propriamente dito, não encontramos nada que nos servisse, talvez uma ou outra arvorezinha aguentasse uma rede, mas a exposição seria um preço muito alta a pagar, então decidimos que desceríamos uns 100 metros e tentaríamos um bivac coletivo junto a uma área mais abrigada do vento. Enquanto o grupo se unia para conseguir um lugar abrigado e descente para todos, eis que que surgem 2 desertores, traidores do movimento montanhista e travessias selvagens na serra do Mar Paulista. Daniel Trovo e Rafael Araújo, abandonaram o grupo e mancomunados um com o outro, resolveram que montariam suas redes individuais, se valendo de um ou outro arbusto perdido na vegetação rasteira. Enquanto o alto comando (que não existe) assistia perplexo a traição sorrateira e covarde, voltamos a nos concentrar no abrigo. Em meio a um canto quase que beirando o abismo voltado para a face leste, nos concentramos na limpeza de uma área, retirando pequenas raízes no intuito de deixar o chão com possibilidade de podermos ter uma noite de sono razoável. Feito o trabalho, jogamos as lonas por cima dos arbustos e as amarramos, formando assim uma grande tenda para abrigar 06 exploradores. Jogamos uma grande lona no chão para isolar do frio e cada um escolheu seu canto e ali montou sua cama se utilizando de sacos de dormir. Estávamos todos embaixo do nosso abrigo, nossa casa de montanha, felizes a contar causos de aventuras passadas, enquanto nossos fogareiros ronronavam exalando o puro perfume da boa comida, foi quando ouvimos um estrondo que ecoou em todo o cume daquela montanha isolada do mundo: Corremos a tempo de ver os traidores estatelados no chão, depois que o arbusto que haviam se pendurado com as redes veio a baixo e como usavam em parceria, lá ficaram as duas bestas, caídas na relva molhada de uma noite fria, no cume da Pedra da Boracéia. Imediatamente NÃO corremos para socorrê-los, apenas nos cagamos todos de tanto dar risada. ( kkkkkkk). Depois desse episódio, os desertores pediram clemência e se humilharam para se abrigarem junto com a gente, inclusive um deles teve que se deitar aos nossos pés e lá ficou, quase como um cão de guarda, rsrsrsrsrsrs. Oito almas viventes se espremeram naquele fim de mundo e na madrugada fria o vento varreu o cume e ameaçou jogar nosso abrigo lá para os abismos do litoral. Eu me encolhi o quanto pude, virei quase um tatu bola dentro do meu saco de dormir e não sei em que hora comecei a ouvir um zum zum, mas pensei ser novamente o Júlio recebendo o espírito do Dr. Fritz, então não ousei a colocar a cabeça para fora e depois fiquei sabendo que a nossa lona havia se rompido e a galera teve que se virar para deixar nosso abrigo novamente de pé, mas não foi só eu não. Daniel Trovo também se fingiu de morto e não levantou para ajudar. Eu era um safado, mas esse Trovo já estava passando dos limites, (rsrsrsrsrsrs). O dia que amanhe é lindo. Nenhuma nuvem no céu, nenhum vento, temperatura fria, mas agradável. Todo o grupo se levantou para ver o sol nascer e depois que a bola de fogo se estabilizou, corremos para o cume a fim de nos encantarmos definitivamente com a paisagem. Verdade mesmo que o melhor lugar para esses deslumbramentos não é no cume, mas alguns metros mais abaixo, onde uma pedra exposta é capaz de acomodar todo o grupo. Estar no cume da Boracéia ou PEDRA QUEIMADAcomo alguns preferem chamar e como consta em alguns mapas, é ter a honra de entrar para a galeria de meia dúzia de aventureiros e melhor ainda, é pensar que chegamos ali pelos nossos próprios méritos, uma rota nova criada por nós, uma verdadeira expedição até o cume. O espetáculo ao longe, numa visão de 360 graus ao nosso redor. Praias, ilhas, montanhas, abismos, florestas, um oceano incrivelmente belo. Do cume verdadeiro se abre ainda mais um horizonte extenso, onde é possível ver desde a baixada Santista até muito mais ao norte, passando pela famosa Ilha Bela e seus contornos gigantes. Bem aos nossos pés a praia da Boracéia e a Reserva Indígena da Tribo Silveiras, uma planície litorânea lindíssima forrada de florestas, onde rios quase que intocados desfilam como cobras a serpentear até o mar. Falando em reserva indígena, num primeiro momento pensávamos em estabelecer uma rota para o litoral, descendo em direção as terras dos índios, mas como o tempo se encurtou e alguns ainda estavam receosos de não conseguirmos finalizar essa expedição em 4 dias, resolvemos que não desceríamos até o mar, voltaríamos para o norte, voltando novamente por Salesópolis. Haviam dois ou três que ainda tentaram persuadir o grupo a seguir o plano original, mas como fomos vencidos, batemos o pé para voltar por outro caminho, quem sabe o caminho tradicional, voltando pela Represa do Ribeirão do Campo, mas havia um porém; não tínhamos informação de como fazer isso, apenas sabíamos que deveríamos chegar até a tal CACHOEIRA DA ESCADA, que nada mais era do que o local onde o próprio ribeirão do Campo se jogava para formar o grande reservatório, ou seja, seria mais uma expedição de volta pra casa e que Deus tenha piedade das nossas almas . Antes das onde horas da manhã abandonamos o cume, deixando aquela pedra selvagem entregue à sua própria solidão e partimos novamente para o norte, descendo aquela encosta íngreme e escorregadia, cada um tentando se manter em pé ou, como fizeram alguns, escorregando com a bunda, sem cerimônia. E é mesmo um grande barato tentar ludibriar a força da gravidade tentando fazer o equilíbrio perfeito com as mochilas às costas enquanto vamos testando os limites da aderência da rocha. A descida por isso mesmo é lenta e vamos perdendo altitude aos poucos até que desembocamos no início da floresta onde localizamos por dentro da mata um canal rochoso que acaba nos conduzindo sem que tenhamos que abrir mato no peito. Mas como ali, a inclinação ao invés de diminuir só fez aumentar e por causa do excesso de umidade não teve jeito, tivemos todos que descer sentados, escorregando no enorme tobogã natural até que ele nos levasse bem abaixo, para dentro de um riacho. Uma olhada no GPS e constatamos que aquele acanhado riacho poderia ser um dos afluentes do Ribeirão do Campo e como ele se dirigia para as coordenadas que nos interessava, não tivemos dúvidas, nos agarramos a ele e fomos descendo por dentro d’água até que ele se estabilizou e foi ganhando novos pequenos afluente, formando poços translúcidos em algumas curvas. A caminhada foi avançando e só saímos do rio quando queríamos escapar de alguma parte um pouco mais funda. Uma hora, em uma curva, ele ganhou um afluente bem mais encorpado e acabou crescendo de vez e umas 3 horas depois de partirmos da Boracéia, interceptamos o grande RIBEIRÃO DO CAMPO, que nem era tão maior do que seu afluente principal. Ali no encontro dos dois rios a paisagem começa a mudar e começa a aparecer o leito pedregoso e por vezes encachoeirados. Ao fundo é possível ver a magnitude da PEDRA DA BORACÉIA dominando o horizonte. Alguns corajosos, movidos pela novidade da paisagem, resolveram se jogar nos poços, mas outros queriam mesmo era distância da água fria. Seguimos, mas agora com o grupo dividido entre os que se aventuravam pela água e os que comiam capim, tentando escapar do rio emparedado até que todos se juntaram em um grande poço, um espetáculo formado de água represada que de tão bonito, os meninos o compararam aos rios da Serra da Canastra e por isso vou chamar aqui de POÇO CANASTRApara marcar território. Ficamos ali, diante daquele lugar incrível, batendo papo e nos aquecendo ao sol e aproveitando para dar uma forrada no estômago, enquanto assistíamos alguns se jogarem na água e quando resolvemos partir, dividimos novamente o grupo, mas sempre nos mantendo visíveis e quando o rio voltou a ficar raso , voltamos todos a nos encontrar onde finalmente o Ribeirão do Campo se joga de vez de cima de um cachoeira e vai morrer suavemente no GRANDE LAGO que domina aquelas paragens, com quilômetros de tamanho, um gigante no meio da selva. ( Poço Canastra) A tarde já ia pela metade quando resolvemos abandonar de vez a Cachoeira da Escada. Havíamos gasto 4 horas do cume da Boracéia até ali, mas foi uma caminhada até que tranquila e sem sobressaltos e ficamos até contentes em termos descobertos esse novo caminho sem ter que varar nenhum mato mais substancial ou ficarmos rodando feito barata tonta, então achamos que dali para frente conseguiríamos localizar uma trilha ou uma picada mais consolidada que pudesse nos levar ainda hoje para civilização, achamos errado. Logo perto da cachoeira, um largo e aberto caminho nos fez acreditar que sair dali seria mole, mas não deu 2 minutos de caminhada e a tal trilha se perdeu no nada. Rodamos para cima e para abaixo, um pente fino ao redor e para todas as direções até chegarmos à conclusão mais do que óbvia: Já fazia muito tempo que ninguém botava os pés naquele lugar vindo por terra e se alguém chegou ali, foi navegando pelo grande lago. Na verdade, mesmo dentro de mim já cresceu um sentimento, não tinha como esconder o que estava por vir e uma frase na minha cabeça resumia a situação naquele momento:PUTA QUE O PARIU, A GENTE SE FUDEU BONITO! Começamos então a varar mato e como primeiro objetivo elegemos tentar chegar no início de um braço grande do lago, onde tentaríamos acampar em alguma prainha, mas acontece que acabou ocorrendo um fato nesse trajeto: A partir daquele momento acabamos por deixar a navegação a cargo do Luciano, porque além de nos mostrar que tinha competência, ainda era o cara com um celular mais moderno contendo bussola, o que facilitaria muito aquele vara-mato dos infernos. Combinamos então que tentaríamos naquele dia no mínimo chegar até aquele braço, mas nós falávamos de um braço e o Luciano falava de outro. O tempo foi passando e a gente enfiado na floresta, as vezes achávamos algo que nos parecia ser uma picada, mas como todos os caminhos que encontrávamos, não dava em nada e ainda tínhamos que ouvir o Trovo dizer: “Também, isso não era trilha, era só o caminho de anta”. Claro que ouvir isso do Trovo não nos era novidade, já que para ele tudo que existe no mundo em matéria de caminho foi feito por elas (hehehehehe), mas ali parece que ele tinha razão. A noite chegou, caímos no fundo de um riacho e logo notamos que estávamos novamente perto do lago e quando o Luciano dizia que estávamos perto do nosso objetivo, ficávamos felizes, mas quando pedimos para ver o gps e descobrimos que ainda estávamos longe de onde pensávamos que poderíamos estar, ficamos extremante desapontados. Mesmo assim, não sendo o braço do rio que pretendíamos acampar, resolvemos ao menos tentar acampar nesse fundo de vale, que era nada mais nada menos que o próprio braço menor do lago, mas quando lá chegamos não existia um só palmo de areia, na verdade era uma margem alagada invadindo uma quiçaça, sem conter nenhuma árvore descente para tentar montar uma rede. Estava tão escuro que pouco enxergávamos, então foi preciso ligar as lanternas de cabeça e decidimos pegar água do lago e partir varando mato, ganhando altura até uma área mais espaçada, mais plana que pudesse comportar um acampamento, mesmo que improvisado, meio nas coxas. Então tocamos para cima, nos agarrando onde desse, na tentativa de vencer os grandes barrancos, meio que uma caminhada suicida, correndo o risco de enfiarmos as mãos em alguma cobra ou outro animal peçonhento. Essa é aquela hora que não queríamos estar ali, a noite já estava fria, a fome já consumia nosso estômago, as energias já eram tiradas de onde já não tínhamos. Foi quando alguém mais sensato resolveu dar um basta naquele sofrimento inútil e gritou lá atrás que poderíamos acampar por ali mesmo, um lugar mequetrefe, com poucas árvores descentes, cheio de bromélias espinhudas e cipós entrelaçados. Alguns protestaram, outros resmungaram, mas logo cada qual foi tratar de encontrar 2 árvores que comportasse sua rede e no fim , acabamos por ajeitar todo mundo e aquilo que seria mais um acampamento no inferno, acabou se tornando nosso lar doce lar por mais uma noite. A noite foi fria, alguns reclamaram, mas eu como estava bem agasalho, dormi muito bem, mas é sempre um drama levantar da “cama” quentinha e voltar a vestir a roupa úmida ou molhada, mas como tecnicamente seria o último dia, resolvi ficar com a roupa seca mesmo. A equipe pareceria estar bem-humorada, mas o Luciano acabou me preocupando. Ele era um dos “novatos” com a gente, não que fosse sem experiência, longe disso, mas era a primeira vez que se metera nessas expedições incertas e por isso mesmo apresentou um comportamento estranho, tremendo, mesmo bem agasalhado e com uma temperatura agradável. Entendi o que acontecia: o nervosismo não tinha nada a ver com medo, mas vinha da sensação de não dar conta de escapar ainda naquele dia e perder compromissos inadiáveis, é um sentimento estranho de não conseguir controlar o tempo e nem o destino do jeito que queremos, mas o cara frágil da manhã, se transformaria num monstro no final da tarde. Desmontamos tudo, tomamos café e partimos. Já que estávamos a meio caminho do topo do morrote, resolvemos ir até o cume e foi entre grandes árvores que acabamos por localizar um vestígio de trilha, um caminho mais aberto dentro de uma floresta de bambuzinhos, que acabou nos levando para nordeste por quase 1 km, mas surpreendentemente fez uma curva e começou a voltar para noroeste, justamente de volta para as margens do lago, onde localizamos um RANCHO. Aí fica aquela sensação de que seria melhor, abandonar essa trilha de vez e seguir varando mato reto até o destino que vislumbramos ou nos apegarmos àquele rasgo na floresta com caminho desimpedido? Optamos por continuar pela trilha na esperança de ganharmos tempo e escaparmos o mais rápido possível dali. Por mais uns 600 metros tivemos caminho fácil e quando desembocamos novamente no lago e começamos a margeá-lo, pensamos que estaríamos com a vida ganha e até paramos em uma grande clareira de acampamento e por lá ficamos descansando e comendo algo. Saindo dessa clareira, novamente localizamos a trilha, que suavemente foi contornando o grande braço do lago, passamos por cima de um grande tronco que nos serviu de ponte e sem nem percebermos, começamos a seguir para nordeste novamente, voltamos a virar para oeste e finalmente para norte, a direção que nos favorecia. Trilhas apareciam, trilhas sumiam, uma hora estávamos caminhando desimpedidamente, outra hora rasgando mato no peito até que na descida de mais um vale ouvimos barulho de gente. Nos apressamos para tentar angariar alguma informação, mas o “ morador provisório” do rancho clandestino picou a mula para o mato, caiu na capoeira, escafedeu-se no mundo, fugiu apressado pensando que fossemos algum tipo de fiscalização. Tentamos localizar alguma trilha clandestino por onde esse “ curupira” poderia ter chegado ao rancho, mas nada encontramos. O dia ia passando e a gente rodando entre picadas clandestina que sumiam do nada e varação de mato. Aquilo já estava dando nos nervos e houve uma hora que os espíritos da floresta se apossaram da gente e ninguém mais se entendia quanto a localização, opiniões diversas começaram a surgir, cada qual queria ir para um lado e foi preciso parar e repensar a estratégia e por fim elegemos o Luciano como navegador oficial da Expedição, caberia a ele nos levar de volta para casa, seria melhor mesmo que um só, com equipamento mais preciso assumisse a navegação. Entramos em acordo para onde seguiríamos, decidimos que nosso objetivo seria uma cachoeira perdida no Rio Claro, aquela seria nossa tábua de salvação e era para lá que o Luciano deveria nos conduzir a partir de agora. – DEIXA COM O PAI! (Carvalho, Luciano) Pai Luciano ficou encarregado de nos fazer chegar até o vale de um rio, um afluente do Rio Claro que nos levaria direto para o grande rio e realmente não demorou muito, o encontramos e começamos a descer, o que nos deixava bem tranquilos quanto a navegação, mas era um riozinho de planalto entupido de árvores caída, curvas que não acabavam mais, atoleiros e por vezes era melhor tentar varar mato pela margem do que andar por dentro desse riacho. A tarde já apontou sua cara e nós ainda estávamos ali sem avançar, perdidos dentro daquela floresta e correndo o risco de termos que acampar mais uma noite, sem comida. Mais uma vez não aguentamos, paramos para rever a estratégia e tentar bater no navegador, que sem ter culpa de nada, mandou a gente a merda e resolveu abandonar o rio, traçando uma vara-mato direto para a tal cachoeirinha do Rio Claro. Subimos e descemos morro, comemos mato de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é qualidade e nos alegramos quando ouvimos ao longe o barulho do rio e a felicidade foi geral ao interceptarmos o GRANDE RIO CLARO e suas cachoeirinhas bucólicas por onde passamos usando o leito raso das suas cabeceiras e ali nos prostramos para um descanso demorado e para comemorar mais essa vitória. Enquanto a galera papeava no alto do POÇO REDONDO, saí à procura de alguma trilha que pudesse nos tirar dali e nos levar para o norte. Encontrei uma trilha se dirigindo para oeste, mas não serviria para a gente, muito provavelmente iria voltar para a Barragem do lago, muitos quilômetros longe do nosso destino. Na entrada para o poço redondo encontrei uma picada discreta subindo para o norte e foi por ela que seguimos, mas o dia já estava nas últimas e não demoraria para a escuridão nos apanhar. Seguir para o norte era a certeza de encontrarmos alguma estrada, algum vestígio de civilização, ainda mais por termos observado plantações de eucalipto no mapa, então decidimos que seria para aquela direção que o Luciano deveria apontar a bussola do GPS. A distância não parecia ser muita, mas aí que está o engano, 3 km varando mato morro acima já é algo gigante, mas fazer essa mesma quilometragem a noite já é algo quase que inimaginável para quem já vem se arrastando a 4 dias. Vamos seguindo, em fila indiana, alguns se revezam na dianteira, mas logo o Júlio, que parece ter um pawer bank no rabo, assumi a ponta de vez e vai lutando bravamente com o mato, o bambu, o capim, o cipó e como a noite já é nossa companheira, é a luz de lanternas que seguimos e os vultos vão nos parecendo monstros a serem vencidos como se participássemos de uma aventura Quixotesca. Não há mais conversa, só sussurros e gemidos ecoando no silencio da noite. Somos agora um bando que se arrasta, quase sem perceber e sem sentir as pernas. Somos fantasmas que deslizam na escuridão de uma noite fria de inverno, com um céu qualhado de estrelas e já perdemos faz tempo a capacidade de reclamar, apenas somos oito almas que resiste e não se entrega, resilientes de que em algum momento todo aquele sofrimento vai chegar ao fim. Quando o mato acabou e já sentíamos o cheiro de eucaliptos, nos deparamos com um rancho abandonado e ali encontramos uma picada que foi crescendo e logo se transformou numa estradinha cheia de mato que mais à frente se consolidou, se abriu de vez e meia hora depois desembocamos definitivamente numa estrada de verdade e desabamos ali mesmo, cansados, exaustos, mas com a certeza que a nossa missão acabara de ser cumprida. A estrada segue para leste e mais à frente interceptamos uma casa e ali imploramos por algo para comer e quando apareceram 2 grandes pacotes de bolacha e uma penca de banana, alguns ficaram emocionados e para mostrar que tinha uma educação de lorde, o Júlio que não queria jogar as cascas de banana no mato, pergunta: - Aí, passa lixeiro por aqui? ( kkkkkkk) Eu e o Régis que estávamos num canto já fora da visão do morador, não nos aguentamos e caímos na risada, aquilo ali era um fim de mundo, uma espécie de fiofó de Salesópolis, estava na cara que não passava lixeiro ali e o simplório morador apenas pediu para que ele jogasse no mato mesmo, porque as galinhas se encarregariam de dar conta do lixo orgânico. Estávamos a salvo do mato, éramos agora seres pertencentes a civilização, mas ainda teríamos que arrumar um jeito de voltar para Salesópolis que distava uns 15 km dali e não tínhamos a menor ideia de como faríamos isso naquela hora da noite,mas eis que na escuridão surge um motoqueiro visivelmente mamado, com a cara cheia de pinga e quando fizemos sinal, ele parou imediatamente. Não falava nada com nada, dizia coisas sem nexo, palavras desencontradas, jogadas ao vento, mas disse para a gente não se preocupar que ele daria um jeito de nos tirar dali, iria fazer “um corre” com uns conhecidos e se perdeu na escuridão. Claro, não levamos fé no locutor do Silvio Santos e nem nos apegamos àquela possibilidade, mas quando nos aproximamos um tempo depois do centro do amontoado de casas do Bairro dos Pintos, lá veio o motoqueiro nos chamando para um abrigo e dizendo que em pouco tempo nossa carona chegaria para nos tirar dali e nos levar para cidade. Havíamos desacreditado do morador local e agora teríamos que engolir nosso “pré-conceito” e mais uma vez acabamos por nos deslumbrar com a generosidade humana. Não demora muito, um taxi encosta e leva metade do grupo até um ponto de ônibus e volta para buscar a outra metade e foi assim que cada qual foi se perdendo para uma direção, alguns na região metropolitana de São Paulo e outros como eu, em direção ao interior do Estado. Ir para o interior selvagem da Serra do Mar Paulista é se jogar de cabeça na mais autêntica aventura que se possa imaginar, é onde a palavra Expedição pode ser usada sem que se caia no ridículo, mas para isso é preciso aceitar os riscos, é preciso compreender que não há garantias de nada, vai estar sempre andando sobre o fio da navalha, vai ter que encarar desafios, saber que sua vida corre perigos constantemente, seja imaginário ou real. Mais uma vez conseguimos juntar um grupo, uma equipe em torno de um projeto que nem nós mesmos poderíamos saber se daria certo ou não e tão difícil quanto executar um projeto, é fazer ele sair do papel, dar vida e agregar pessoas disposta a colocá-lo em pratica. Foram oito homens dispostos a conquistar uma montanha selvagem estabelecendo uma nova rota, um novo caminho e hoje posso dizer que esse novo trajeto para o Cume da Pedra da Boracéia é sem dúvida o melhor de todos, pelo menos por terra. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nossas dos últimos tempos, agregamos novos amigos e fortalecemos velhas amizades, sofremos muito, é verdade, mas nos divertimos como nunca, vivemos a vida com uma intensidade poucas vezes vista e voltamos para casa satisfeitos com nós mesmos, sabendo que fizemos história mais uma vez, se não foi história para montanhismo nacional, foi a nossa história, para contar para os filhos, para os netos sobre o dia em que desafiamos uma montanha e vencemos, não a montanha, mas a inércia da vida. Divanei Goes de Paula Publicado em 12/07/2019 16:33 Realizada de 20/06/2013 até 25/06/2013 Visualizações 2
  4. Na verdade essa trilha, ou caminho, foi feita pela gente emendando um caminho em outro, nos valendo as vezes de estradinhas e caminhos estreitos até formar uma travessia gostosa de trilhar. Depois de uns anos voltamos lá pra ligar Morungaba a Pedreira descendo o Rio Jaguarí e acabamos encontrando a ligação com essa trilha com a estrada enfrente da Usina.
  5. kkkkkkkk, livro é coisa para letrados, eu sou apenas uns aventureiro tupiniquim que gosta de explorar caminhos selvagens, abraços meu amigo .
  6. Como eu sempre disse , já cruzei quase todo o Brasil e mais 06 países da América do Sul , mas aventura autêntica só encontrei na Serra do Mar Paulista. Abraços!
  7. De Biritiba-Mirim à Bertioga-SP “ Chafurdados no pântano até o pescoço, cinco criaturas se arrastam na lama, se esgueirando entre camas de jararacas e casas de jacarés do papo amarelo, tentando fugir das desgraças aquáticas proporcionada pela aquela EXPEDIÇÃO que havia partido do Planalto Paulista três dias atrás. A tarde já vai pela metade e já dão por certo ter que dormir dentro d’água e virar comida dos mais terríveis insetos asquerosos que habitam aquele inferno alagado. A resiliência parece já ter tomado a alma de cada um daqueles infelizes, isolados do mundo, sem comunicação nenhuma, largados à própria sorte e fadados a pagar seus pecados antes de se transformarem em criaturas do brejo, melhor seria se fossem logo comidos por uma sucuri gigante, seria um desfecho mais glorioso para aquele sofrimento. ” (Da esquerda para direita : Anderson , Potenza , Divanei , Vagner , Trovo . ) Alguns roteiros são planejados e quando se vê a impossibilidade momentânea de realiza-los, são jogados e esquecidos numa gaveta ou num arquivo qualquer do computador, indo parar numa espécie de limbo digital até que alguém te faça lembrar que ele exista. O Rafael Araújo me consultou sobre a possibilidade de botar essa expedição em pratica já que os planos iniciais para o feriado do Carnaval acabaram indo por água a baixo. Acontece que essa Travessia tinha um entrevero que até então eu não havia achado solução, aí foi preciso voltar às pesquisas nos mapas e cartas topográficas a fim de desvendar o mistério. O projeto inicial da travessia partiria de Biritiba-Mirim, mais precisamente nas dependências da SABESP, num lugarejo conhecido como CASA GRANDE, mais de 20 km do centro do citado município, um fim de mundo servido por uma estrada de terra toda zoada. Partindo de Casa Grande ainda seria preciso mais 5 ou 6 km de andanças até interceptar a trilha de acesso para a CACHOEIRA DO DIABO, uma queda d’água quase que desconhecida nas nascentes do rio Guacá, descer o próprio rio por mais de 1 km e a partir de aí abandoná-lo pela esquerda e se jogar num mundo desconhecido varando mato montanha acima até a crista da serra e despencar para fundo do vale, ganhando as nascentes do RIO GUAÇU, afluente do grande Rio ITAGUARÉ. Do topo da serra à quase 800 m, desceríamos o despenhadeiro até a planície litorânea de Bertioga e aí é que estava o enrosco: Como passar pela área alagada, um mundo feito de água, pântano, mangue e charco? A solução inicial pensada foi a de traçar uma linha reta quando o rio arrefecesse, direto para uma estrada a 3 ou 4 km a sudoeste (direita de quem desse o rio) e deixar que o destino nos guiasse no final da travessia, mas já prevendo que o capiroto poderia fazer sua morada naquele caminho. (laranha- trilha até cachoeira do Diabo) ( vermelho - caminho da expedição selvagem) Ultimamente o grupo de gente disposta a enfrentar essas Expedições incertas acabou por diminuir drasticamente, alguns simplesmente começaram a achar que algumas travessias vinham se enveredando por lugares extremamente perigosos, outros acabaram por buscar atividades com menos perrengues, indo aprender novos esportes ligados ao mundo da aventura e outra parte já haviam sinalizado com compromissos familiares. No final apenas cinco míseros corajosos se dispuseram a enfrentar esses caminhos nunca dantes navegados e então numa sexta-feira cinzenta o grupo se juntou depois das 10 horas da noite na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes de onde partiria nossa VAN com destino à Casa Grande, no município de Biritiba-Mirim. A viagem de Mogi até Casa Grande deve ter levado umas duas horas e meia, o certo é que estávamos tão envolvidos jogando conversa fora e revivendo expedições passadas que nem nos demos conta do tempo. Depois de chegar até as instalações da SABESP (Companhia de Águas Paulista) , ainda foi preciso que o nosso transporte se metesse por mais uns 5 km de estradas enlameadas até o PESQUEIRO DO LUCIANO, que na verdade nem pesqueiro era e muito menos pertencia ao Luciano , o caseiro do criador de carpas. Como o Vagner já conhecia o caseiro de outra passagem por ali, não se fez de rogado e já intimou o nativo a nos conseguir um lugar para passarmos a noite e, entre cachorro, gatos e galinhas, nos acomodamos no chão do casebre e apagamos até depois das seis da manhã. ( o cão BINGO : mergulha, pesca e caça) A previsão do tempo era péssima, marcando quase 40 milímetros de chuva para o sábado de Carnaval, mas surpreendentemente o dia amanheceu seco e quente e tão logo o café ficou pronto, nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos para a aventura. Ganhamos novamente a continuação da estrada que havíamos chegado na noite anterior e avançamos por mais uns 1500 metros, coisa de meia hora e quando a estrada se bifurcou, com uma perna indo para direita e outra para esquerda, não pegamos nenhuma das duas e a abandonamos em favor de uma trilha em frente, para sudeste, que no começo é meio apagada e confusa, passando por uma casinha em ruínas a nossa esquerda. Tão logo nos distanciamos do casebre abandonado, a trilha volta a ficar mais nítida porque na verdade, trata-se de uma antiga estrada que muito provavelmente serviu para extrair madeira para as carvoarias, mas hoje a mata voltou a se regenerar e o antigo caminho foi engolido pela floresta, restando apenas o antigo corte no barranco. A trilha vai seguir praticamente em nível, cruzando uma infinidade de riachinhos e quase 3 horas depois vai desembocar no leito do Rio Guacá, bem perto das suas nascentes. O RIO GUACÁ é um velho conhecido meu, foi nele que comecei minha vida mateira há 25 anos atrás, muitas são as lembranças de acampamento e explorações nas imediações da sua foz, junto ao Rio Itapanhaú, então ter a oportunidade de conhecer sua nascente é sempre um grande prazer. Chegar a esse rio já é um grande trampo, pela logística ruim e pelas horas de caminhada, mas ainda falta a cereja no bolo, uma cachoeira selvagem e praticamente desconhecida, visitada apenas pela galera mais casca-grossa e experiente. O grande problema é que não há trilha para se chegar a essa cachoeira e será preciso varar mato meio que pelo rumo ou ir seguindo a direção do GPS até sua base. Claro que ao chegar ao rio é possível tentar encontra-la descendo por dentro da água, mas aí seria caminhar por mais de 1 km, perdendo assim tempo precioso. Como o Vagner já havia estado nessa cachoeira tempos atrás, atravessamos o rio e menos de 100 m depois chegamos a uma clareira de acampamento, o único vestígio de vida humana por essas paragens. Não há nenhuma trilha que ligue essa clareira direto para a cachoeira, então descemos mais um pouco até tropeçarmos em um afluente e nos enfiamos nele na certeza que uma hora ele encontraria com o rio principal, mas como começou a fazer muitas curvas, também o abandonamos e seguimos nossos instintos , apontando o nariz para a direção do rio e menos de meia hora depois tivemos êxito , encontrando um grande poço e aí foi só varar mato subindo pela margem direita até avistarmos a deslumbrante e selvagem CACHOEIRA DO DIABO. Gastamos pouco mais de 3 horas do “pesqueiro” até a cachoeira e foi uma grande alegria poder chegar ali e se maravilhar com aquela queda d’água onde poucos já tiveram a sorte de botar os olhos e ainda poder desfrutar de tamanha beleza com sol, coisa que jamais esperávamos com uma previsão tão ruim para aquele dia. A Cachoeira do Diabo é daquelas quedas clássicas, que se espalham de um lado ao outro do rio. Com o rio normal forma dois véus d’água , mas com o rio mais cheio os véus se juntam formando uma só . É possível se banhar embaixo das quedas, mas para isso é preciso se equilibrar sobre umas pedras mais lisas e escorregadias, a sorte é que um tombo ali causará pouco estrago. Já passava do meio dia quando resolvemos partir de vez e retomar nossa travessia, ainda mais porque a chuva que deveria ter chegado cedo, acabou dando o ar da sua graça. Descemos o rio nos valendo novamente de sua margem até estarmos novamente de volta ao grande poço, contornamo-lo pela sua esquerda e continuamos seguindo , alternando caminhada pelo mato e pelo próprio leito do rio Guacá até que nos surpreendemos com uma outra grande queda que nem esperávamos que havia e aí fomos obrigados a varar mato pra valer, subindo um pouco a encosta da esquerda e depois traçando uma diagonal até a base da cachoeira, onde eu e o trovo nos metemos dentro da água para ter uma visão privilegiada do salto . Um pouco mais abaixo desse salto, outras pequenas cachoeirinhas são vencidas e logo nosso GPS nos avisa que é hora de abandonar o lendário Rio Guacá, havia chegado o momento de nos jogarmos de corpo e alma para a aventura que almejamos buscar. Nos despedimos do rio e começamos nossa jornada rumo ao desconhecido, primeiramente subindo um grande barranco à esquerda e nos enfiando de vez mato à dentro e montanha acima. Encontramos uma espécie de rampa que nos deu um caminho bem promissor e nos fez ganharmos altitude rapidamente, mas logo que nos vimos bem acima, tivemos que abandoná-la porque ela tomou um rumo que não serviria aos nossos propósitos. Estávamos navegando com um aplicativo do celular, que já há muito tempo tem nos servido muito bem, mesmo nessas expedições selvagens, mas é preciso aceitar que às vezes um pequeno delay (atraso) pode dar uma desorientada básica e é preciso corrigir o rumo sem muito estresse. Nosso objetivo era ao atingirmos a crista da serra a quase 800 m de altitude, ganharmos a descida até as nascentes do Rio Guaçu e a partir de aí, nos jogarmos por dentro do vale e foi exatamente o que fizemos, só que primeiro tivemos que fazer um desvio para nos livrarmos de um vale que seria inútil descer para ter que subir novamente, então ganhamos uma subida a esquerda e quando nos vimos no alto da serra, concertamos o caminho voltando mais para a direita e por incrível que possa parecer, encontramos uma trilha larga correndo por cima da serra. Essa trilha, por sinal, muito consolidada, correndo por cima da crista, poderia tomar vários rumos que até então não tínhamos conhecimento, mas com certeza não nos serviria para nada, então a usamos apenas como descanso breve, antes de nos despencarmos terreno abaixo. E despencar era o termo correto, uma vez encontrado a calha do vale foi só nos mantermos dentro dele, avançando cada vez mais para baixo, desescalando o leito seco de um córrego até que a própria chuva que ameaçava desabar, desabou de vez e o que era seco e sem vida se inundou rapidamente até que finalmente chegamos ao que nos parecia ser as nascentes ou uma das nascentes do Rio Guaçu. A chuva castigou legal e o desnível foi aumentando e se transformando em um verdadeiro cânion, onde tínhamos que nos livrar de grandes pedras, às vezes sobrepostas por grandes árvores tombadas. O dia vai se findando, mas a gente resolveu estabelecer como meta chegarmos aos pés da grande queda que supúnhamos haver em um afluente vindo do lado esquerdo do rio, mas conforme a chuva aumentava, as dificuldades iam se multiplicando e alguns do grupo já vislumbravam a possibilidade de acampar logo e nos livrarmos daquele molhaceiro todo. Acontece que não encontrávamos um palmo de área plana para acondicionar todo o grupo, então a única alternativa era continuar navegando. A chuva aumentou de vez, mas por sorte a temperatura não caiu. Matacões eram descidos e a carta topográfica nos avisava que o terreno se abriria à frente, com linhas espaçadas, o que significa área mais plana e a possibilidade de estarmos perto da grande queda d’água que buscávamos e não deu nem quinze minutos para que um clarão alvo viesse a ofuscar nossos olhos em meio a selva densa. Foi o momento de euforia, estávamos bem perto de nos encontrarmos com aquilo que havíamos visto apenas por imagens de satélite. Abandonamos o rio em favor de um vara-mato em direção ao clarão branco formado pela cachoeira, cruzamos um riachinho para o outro lado, subimos mais um barranco e ao tropeçarmos no próprio afluente do qual desabava a cachoeira, jogamos as mochilas ao chão e saímos correndo, feito adolescentes indo ao encontro de um amor ainda desconhecido. Por sorte, bem nessa hora a chuva havia dado uma trégua, o que nos ajudou a fazer uma escalada pelas grandes rochas com mais segurança. Ao nos posicionarmos diante da parede onde despencava a grande queda, foi que nos demos conta da grandiosidade da Cachoeira. Uma parede inclinada de uns 70 ou 80 metros com um véu branco turbinado pela chuva que acabara de cair. Tiramos algumas fotos e partimos de volta para onde deixamos as mochilas, sabíamos que era hora de conseguirmos um lugar para acampar, tínhamos que aproveitar a trégua da tempestade para tentarmos montar nossas redes, muito porque, o Anderson já estava em estado terminal, inclusive ele foi o único que não teve forças nem para ir ver a grande cachoeira e acampar ali por perto lhe daria mais uma chance de conhecer a cachoeira no dia seguinte. Retrocedemos um pouco antes do riachinho e ali conseguimos uma meia dúzia de árvores descente para montarmos nossas redes. O primeiro dia de caminhada é sempre o mais complicado e cansativo porque se dorme muito pouco na noite anterior, então depois de montarmos nossas camas de mato e prepararmos uma janta, cada qual foi morrer na sua rede. Ali naquele vale onde o mundo não sabe que existimos, a noite passa de vagar, os bichos fazem barulho ao longe e o som das águas correndo sobre as pedras reina absoluto , só sendo ofuscado quando alguma grande árvore tomba na escuridão da floresta, gigantes que despencam arrastando tudo que tem em volta e assombram a nossa alma porque sabemos que se uma dessa cai sobre nossas redes, não sobra um pra contar história. O dia que amanhece é sem chuvas, mas a previsão ainda não nos é favorável. Foi uma noite de reis, quase 12 horas de sono e descanso merecido. Lenta e vagarosamente vamos desmontando nosso acampamento e nos preparando para aquele segundo dia de expedição e quando todas as mochilas ficaram prontas, partimos novamente para uma visita mais prolongada da GRANDE CACHOEIRA. O reencontro com o monstro despencando da pedra chega a ser mais prazeroso que o do dia anterior porque agora o grupo está todo reunido e sem as chuvas, fica fácil escalar as grandes pedras lisas para uma foto panorâmica. Falando em fotos, ao posicionar minha câmera numa rocha para um registro fotográfico de todo mundo junto, um vento se encarregou de joga-la dentro do rio e essa foi mais uma que a Serra do Mar comeu para todo o sempre, amém! Ali onde estávamos o nosso GPS marcava uma altitude de uns 550 m e surpreendentemente encontramos uma “inscrição rupestre” muito antiga em uma árvore onde se podia ler “ ALEMÃO”. A única explicação plausível para que alguém antes de nós tivesse chegado até aquela cachoeira perdida do mundo é que aquela trilha que encontramos na crista da serra, poderia ter descido rapidamente pelas encostas do lado direito da nascente e vindo desembocar aqui, mas esse foi o último vestígio humano que encontramos naquele vale e para ser justo com o nobre “europeu” que veio de tão longe para visitar essa queda d’água antes de nós, vou marcá-la como CACHOEIRA DA LAGE DO ALEMÃO. Deixamos, portanto, aquela cachoeira perdida e entregue a própria sorte e partimos descendo pelo próprio afluente, que mais nos pareceu ser mesmo o rio principal formador do Rio Guaçu e logo quando se encontra com o rio que descemos até ele, se encorpa de vez e cresce, tomando forma e jeito de rio digno dessas serras fabulosas. A retomada pelo rio principal segue praticamente a mesma toada do dia anterior, nos fazendo escalar e pular muita pedra, são matacões gigantes, onde é preciso se esgueirar dentro de pequenas grutas, atravessar pequenos corredores alagados, dar salto de uma rocha para outra, se segurar em rampas escorregadias e vez por outra se jogar no rio em ziguezague, cruzando de uma margem para outra, sempre procurando o melhor caminho. Poucos são os esportes em que você é obrigado a usar todos os músculos do seu corpo, aprender todas as técnicas de escalada livre que existem, tendo que se manter ligado em 100 % do tempo, porque uma bobeada, mínima que seja, você vai pagar caro e correr o risco de ver sua cabeça explodir numa pedra rio abaixo, sem contar que os olhos tem que estar fixo também no mato, tem que ficar esperto para não enfiar uma mão numa jararaca e sofrer um acidente sem volta, num lugar onde o resgate é quase que impossível por não haver comunicação com o mundo externo. O dia vai passando rapidamente e a chuva que ameaçou cair a manhã toda, desaba de vez e o rio que era manso e cristalino se rebela contra nós, tornando a aventura ainda mais desafiadora. Nosso grande objetivo desse segundo dia era encontrar outra cachoeira que nos pareceu bem grande no mapa de satélite e quando estávamos chegando perto do ponto marcado no gps, ficamos esperto com todos os afluentes que vinham do nosso lado esquerdo, porque era desses cursos d’água que pretendíamos encontrá-la, em um paredão gigante. Quando o terreno aplainou de vez, intuitivamente já sabíamos que ela estava perto e não demorou muito para alguém do grupo gritar eufórico que havia visto ela despencando ao longe. Era mais um gigante a nos surpreender, a gente de queixo caído, ficamos ali, hipnotizados diante daquela parede que ao longe ainda, nos fazia querer largar a mochila e correr ao seu encontro já que ainda seria necessário tentar escalar seu afluente, com outras quedas d’água com transposição difícil. A chuva não parava de cair e diante das dificuldades que enfrentaríamos para chegar até a base da cachoeira, decidimos deixar nossas mochilas e subir apenas com as câmeras ou celulares para tentar um registro e como eu não queria ariscar em perder meu telefone, como acontecer com minha câmera, decidi subir com a mochila estanque apenas me livrando temporariamente de alguns pesos desnecessários. Ainda era cedo, mal havíamos passado da metade do dia, mas o Anderson Rosa não estava se sentindo muito bem e decidiu não ir até a queda d’água. O Daniel Trovo tomou a frente e seguindo seu instinto, descobriu uma rampa inclinada que cortava as duas vertentes de água, dois rios que se formavam e se dividiam vindo da cachoeira. A rampa apontava para o céu e foi sendo vencida palmo a palmo até que fomos obrigados a subir o riacho da esquerda, escalando por dentro da água com o turbilhão aquático querendo jogar a gente abismo abaixo. A massa de água sobre nossas cabeças era assombrosa, um turbilhão que mal deixava a gente progredir, um espetáculo impressionante, 40 ou 50 metros de altura de cachoeira reinando soberana no coração daquele vale selvagem sem vestígio de passagem humana e para marcar esse ponto no mapa, vou dar o nome de CACHOEIRA DO ITAGUARÉ, para homenagear o rio que domina essas paragens. Essa cachoeira estava assentada sobre um degrau numa parede lateral e dela era possível avistar o mar e toda a área alagada da Restinga de Bertioga, infelizmente não conseguimos uma boa foto dela por causa da chuva intensa e de volume avassalador, mas vamos deixar gravado na memória esse dia incrível, de descobertas e explorações, o dia em que acrescentamos mais uma joia nos mapas da Serra do Mar. Não nos demoramos muito, estávamos com frio por causa da água e do deslocamento de ar provado pela queda e se já foi complicado subir, descer então foi muito pior, tanto que tivemos que contar um com a ajuda um do outro para passar pela beira da garganta, até ganharmos a descida da rampa e voltarmos ao rio principal, onde o Anderson nos esperava, dormindo sobre uma rocha. Retomamos a caminhada pelo rio, sempre espertos com o volume intenso e com alguma possível cabeça d’água, já que o rio havia se tornado totalmente escuro. O ritmo, agora mais lento tanto por causa de alguns já cansados pelo desgaste, tanto pelo terreno extremamente acidentado, com pequenas quedas e rios correndo por baixo de grandes rochas, nos causando um esforço físico para serem transpostas. As vezes era preciso correr para o mato e desescalar barrancos para tentar fugir das rampas mais íngremes que não nos oferecia uma segurança razoável para descermos. Nossa meta estabelecida eram dois grandes poços que havíamos identificados no mapa, mas que pareciam cada vez mais longe com as chuvas a nos castigar o lombo, mesmo em se tratando de chuvas com temperaturas altas, e quando esses dois poços foram encontrados, nos decepcionamos um pouco porque esperávamos e pretendíamos nadar neles, mas estavam com a água muito turva e só fizemos olha-los e partir imediatamente já que havíamos decidido começar a procurar um lugar para acampar. Abaixo desses dois grandes poços tivemos que cruzar o rio para sua margem direita e para isso tivemos que saltar de uma pedra não muito alta e tomar impulso para não sermos arrastado pela corredeira e foi nesse momento que o Vagner se lascou todo ao explodir com o joelho numa pedra rasa do qual não nos demos conta. Na hora já paramos para tentar prestar os primeiros socorros e ver se ele teria condições de progredir ou se seria preciso parar imediatamente e tentar acampar. Passada a dor inicial, o Vagner deu sinal positivo para que continuássemos até localizarmos um lugar mais descente para montarmos nossas redes. O Trovo se adiantou, mas a ilha a nossa frente não nos convenceu a ficar, então resolvemos empreender uma vara-mato pela esquerda porque era quase impossível passar diante de um abismo do qual o rio se jogava numa laje perigosa. Retornamos ao rio quando foi possível, bem aos pés de uma CACHOEIRA INCLINADA que havíamos sinalizado no mapa, uma bonita QUEDA de uns 50 metros, que nos fez parar para respirar um pouco e nos alimentarmos. A situação ia ficando angustiante porque a noite se avizinhava e nada de encontrarmos um lugar descente para acampar e cada vez que o terreno dentro do rio piorava e tínhamos que cair no mato, pior ficava, porque era uma floresta com transposição difícil, muitas árvores caídas e quando uma grande parede nos barrou do lado esquerdo, fomos obrigados a escorregar de cima do barraco nos valendo de grandes árvores, como se fôssemos bombeiros escorregando pelos troncos. Estando de volta ao rio, o Anderson e o Trovo se recusaram a fazer um pequeno desvio para conhecer uma outra cachoeira deslumbrante, alegando que estavam preocupados com o Vagner e seu joelho estourado, mas o próprio moribundo do Vagner já tratou de arrastar o Potenza varando mato até a cachoeira e logo me cheguei a eles e ficamos nós três a nos maravilharmos com mais um espetáculo em forma de massa aquática , batendo continência para uma CACHOEIRA de uns 20 metros , muito parecida com a própria cachoeira do Diabo, no Rio Guacá. Retrocedemos até onde o Trovo e o Rosa nos esperavam e descemos por mais uns 100 metros até que finalmente resolvemos acampar. E foi realmente um lugar incrível que a primeira vista não parecia lá grande coisa, mas depois de um estudo mais profundo da área, conseguimos alocar todas as redes e toldos de uma forma excelente, com conforto e espaço e assim que as redes se esticaram, fomos cuidar do jantar, já que o dia havia sido de andanças intensas. As atividades no acampamento são sempre intensas porque é preciso deixar as redes e os toldos impecáveis ou corre-se o risco de acordar durante a noite, molhado, e isso é uma coisa que ninguém quer, além do mais, fazer tudo direitinho é a certeza de dormir muito confortável. Uma vez deitado na rede, o corpo relaxa e o "marulhar" do rio embala aquele sono que é impossível ter nas grandes cidades, ainda mais se estivermos protegidos com um bom mosquiteiro, um conforto essencial contra os inúmeros insetos da floresta. Mais uma vez tivemos sorte, não caiu uma gota durante a noite e com a trégua das chuvas, o rio amanheceu novamente cristalino, uma água bonita e encantadora. Dormimos não muito acima dos 100 metros de altitude e sabíamos que logo estaríamos na planície litorânea, mas no início da caminhada daquele terceiro dia já fomos obrigados a descer umas cachoeiras e cruzar rio o rio várias vezes, o que não é muito agradável pela manhã, mas como já saímos do acampamento com as roupas molhadas, não há nem o que pensar muito, é se jogar na água e esperar o corpo se adaptar com a temperatura. Por sorte o sol apareceu logo pela manhã, ainda tímido, mas já era um grande começo. Pouco mais de uma hora de caminhada e nos deparamos com um GRANDE LAJEDO, uma formação rochosa diferente das que estávamos acostumados na Serra do Mar, uma pedra mais lixada, mais nem por isso mais escorregadia. O rio foi ficando cada vez mais plano, algumas ilhas vão surgindo, a gente já caminha com uma certa facilidade, já relaxados porque nossa carta topográfica já nos diz que o final do rio ou a parte mais complicada, a parte escarpada, já havia terminado e ao nos posicionarmos em um afluente para um gole d’água, encontramos um vestígio de trilha, que infelizmente mais à frente terminou no nada, mas nos deu a certeza que o rio finalmente havia chegado na planície litorânea, estávamos na chamada Restinga de Bertioga , mas ainda muito, mas muito longe de algum lugar habitado e civilizado , mesmo assim comemoramos muito essa conquista. Uma comemoração inútil porque era na próxima curva que o diabo nos espreitava, ia começar uma das maiores sagas desde que começamos com essas travessias selvagens na Serra do Mar Paulista. (Final dos cânyons, inicio da Restinga de Bertioga) A descida pelo rio plano era um passeio, se comparado com a descida dos cânions, íamos de um lado ao outro, batendo papo e acompanhando o nosso deslocamento no mapa, onde pretendíamos abandoná-lo de vez e tentar um vara mato de uns 3 ou 4 km até uma possível estrada, mas foi aí que uma nova trilha surgiu de repente e mudou o nosso destino completamente, mudou os rumo daquela expedição e nos jogou em uma das maiores furadas das nossas vidas. A trilha que encontramos era aberta e logo pensamos que ela poderia nos conduzir diretamente para a civilização no litoral. Rio se dividiu em dois e nem percebemos, então quando chegamos em um lugar onde a trilha se perdeu, resolvemos atravessar para direita até que tropeçamos em um rancho de caçadores que parecia estar abandonado há muito tempo. (RIO GUAÇU) Surpreendentemente, não vimos palmitos cortados naquela região, demoramos muito tempo para fazer a leitura do lugar, estava na cara que aquele lugar era totalmente inóspito e quem por lá andava, só o fazia porque chegava de canoa devido a dificuldade de acesso, mas como perto desse barraco de caça abandonado havia uma trilha, imaginamos que ela poderia nos tirar daquele fim de mundo, e ela realmente foi enveredando para a direção que nos favorecia, mas do nada acabou bem no RIO ITAGUARÉ , um rio bonito ,mas sinistro, cheio de algas e de cor avermelhada , onde a qualquer momento parecia que um jacaré do papo amarelo saltaria para fora e arrastaria um de nos . (Rio ITAGUARÉ) Fizemos uma pausa para mastigar alguma coisa e para pensar qual o rumo que tomaria aquela expedição e então enquanto as coisas não se resolviam, decidi tomar um banho naquele rio sinistro e a galera vendo que o caminho realmente havia se fechado, resolveram tentar seguir subindo o Rio Itaguaré até uma ponte que aparecia no mapa, uns 2 ou 3 km acima e realmente ao atravessar o rio para o lado esquerdo de quem sobe, encontramos algo parecido com uma trilha e decidimos seguir por ela. l No início parecia mesmo ser uma trilha, mesmo que a gente tivesse que atravessar áreas alagadas até a cintura, mas o caminhar não progredia, não avançávamos e 15 minutos depois um pântano nos barrou de vez, fim da linha para a gente. Metade do dia já se fora e era preciso achar uma solução, alguns queriam abrir caminho rio acima por uns 2 km, mas outros insistiam que deveríamos voltar até a curva do rio e tomar um destino que pudesse nos deixar longe dele, tentando evitar a área pantanosa. Nesse momento era o Anderson que comandava o GPS, então como foi ele quem gritou mais alto, saiu como vencedor na contenda e puxou a fila de volta para o local onde havíamos atravessado o Itaguaré. O plano era descer um pouco o rio e para depois varar mato numa direção paralela a subida, porque isso nos deixaria longe dele e consequentemente longe também da sua área alagada, pelo menos foi o que pensávamos. Mas antes disso acontecer uma ideia estúpida quase acabou sendo posta em pratica: Parte do grupo vislumbrou descer boiando pelo rio e se isso tivesse acontecido, estaríamos lá até hoje, perdido naqueles pântanos dos infernos, já que o rio faz curva atrás de curva e se perda num mar de florestas antes de se jogar no mar. E foi realmente por pouco que a gente não tomou essa decisão, parte do grupo já estava boiando na correnteza, inclusive eu, quando alguém sensato foi obrigado a intervir e a colocar aquela expedição de volta aos seu rumo natural. (Mas pensando bem, o cara que convenceu a gente a não ir boiando é mesmo um filho da puta dos infernos, porque o que estava por vir não seria bonito de ser ver, rsrsrsrsrsrsrr) Descemos o rio por uns 100 metros e miramos uma diagonal para a possível estrada e então começamos a vara mato. No início, um brejo dos infernos, mas logo o brejo deu lugar para um PÂNTANO, área alagada em meio a uma floresta baixa e com algumas raras árvores espaçadas. O Trovo ia à frente e eu logo no seu encalço, mas a progressão era lenta, morosa e modorrenta, não avançávamos 200 metros por hora e quando pensávamos que o terreno poderia melhorar, a água subia na altura do peito, em meio a uma selva de bromélias, onde possivelmente jararacas lambiam os beiços com a nossa passagem, já que costumam fazer dessas plantas suas camas. Para nossa sorte a chuva prevista para depois do almoço não veio e na minha cabeça um pensamento macabro de não conseguirmos sair daquele lugar e termos que dormir dentro d’água, já que em certos lugares não existiam nem árvores descentes para montar uma rede. A gente andou, andou, andou e quando vimos, estávamos no mesmo lugar. Havíamos rodado em círculos, mesmo com o GPS do celular. Ninguém disse coisa alguma, mas estava estampado em cada rosto o sofrimento passado ali naquela área alagada e eu mesmo cheguei a me perguntar se já não estaria passando da idade para me meter em tamanha encrenca, mas quando vejo alguns com a metade da minha idade, compartilhando do mesmo sofrimento, me conformo e continuo abrindo caminho metro a metro, tentando afastar da minha mente qualquer preocupação com possíveis cobras gigante e jacarés alados que possam cruzar o nosso caminho. Não há felicidade no sofrimento, mas a todo momento eu tentava transformar aquela jornada ao inferno pelo menos em algo mais divertido, fazendo troça da desgraça, pelo menos não havia ninguém machucado e era um grupo extremamente forte e se fosse preciso resistir, resistiríamos o tempo que precisasse. Acabaram-se as camas de jararacas e apareceram os capins navalha que iam cortando a pele de quem se atreveu a entrar ali de mangas curtas, os cipós espinhudos mancomunados com as palmeiras de espinhos, se encarregavam de fazer os estragos que faltavam. Muitos ali gritariam por suas mães se pudesses, mas sabedores que elas não os ouviriam naquele fim de mundo alagado, apenas se mantinham de cabeça baixa, fazendo suas orações ou praguejando em voz baixa. Mas navegar é preciso e sair vivo também e como o GPS do Rosa começou a brincar de delay por causa da bateria já combalida, coube ao Potenza assumir os trabalhos de navegação. Mais para esquerda, mais para a direita, volta, segue, diagonal reta. Eram muitos os comando, mas o terreno não nos deixava ir para onde deveríamos e isso só fazia com que ficássemos mais angustiados. Estar ali , presos sem poder avançar nos causa um sofrimento indescritível, é uma sensação de impotência diante de uma natureza bruta e selvagem e se alguém fosse picado por um cobra naquele alagado, morreria sem socorro, porque mesmo os que poderiam se adiantar para buscar um resgate, estavam presos e isolados também . Éramos cinco criaturas perdidas num mundo alagado, cinco seres que sobreviviam como monstros do pântano, incorporados a paisagem hostil em meio a algas e plantas aquáticas, passageiros de uma agonia em comum que parecia não ter fim. Uma decisão foi tomada a fim de tentar salvar pelo menos o moral do grupo que já se encontrava em frangalhos. Resolvemos mirar nossos narizes de volta para o rio Itaguaré, talvez não resolvesse coisa alguma, mas era um plano, porque até então, nada que tentamos resolveu. A labuta de abrir caminho numa vegetação quase que intransponível se estendeu por muito mais tempo, atravessar aquele mundo alagado com uma infinidade de árvores caídas, onde era preciso pular por cima, foi minando as energias e a nossa paciência. O traçado no GPS parecia não sair do lugar e a cada passo dado parecia nos enfiarmos ainda mais num caminho sem volta até que conseguimos encontrar meio metro de terreno mais alto e ali demos uma parada. Engraçado é que cercado de água pôr todos os lados e a maioria com a garganta seca, sem coragem e nem forças para captar água das bromélias, já que ainda não achávamos que era hora de partir para o desespero e bebermos água do pântano. Mas chegou uma hora que era preciso parar de sofrer, pelo menos de cede e já que havíamos parado mesmo, enchi meu cantil de um litro com a água pantanosa e nele acrescentei um suco de jabuticaba para disfarçar o gosto, tomei uns dois goles e passei para o Anderson que já estava em estado lastimável, não muito pior que o resto do grupo e quando ele me retornou a garrafa, não continha mais nada além de baba ( rsrsrsrsr) , se água do pântano matasse, esse aí não tinha voltado vivo para contar história. Hidratados e procurando colocar os pensamentos em ordem, assumi a liderança momentaneamente, tentando chegar até as barrancas do Rio Itaguaré, mas me arrependi amargamente porque ali onde estávamos já era a própria vasão do rio e em certos momentos a água quase que alcançava o pescoço. Aquilo era algo totalmente insano, onde estávamos com a cabeça quando deixamos que a situação chegasse àquele ponto e o pior era não haver nenhuma perspectiva de sairmos daquela enrascada tão cedo. Puxei capim, abri floresta de espinhos, abri caminho em meio às algas gosmentas. Meu olhar se perdia no vazio procurando uma referência em que eu pudesse me apoiar, nem que fosse psicologicamente, mas nada nos era favorável, nem mesmo a tal margem do rio conseguíamos avistar, muito porque, ela nem existia e só descobrimos isso quando já estávamos no meio do leito do rio Itaguaré, cercados de vegetação aquática por todos os lados. Por sorte o Itaguaré ali era um rio raso e com correnteza pouca, que nos possibilitou subir por dentro dele caminhando e quando não dava mais pé, nadávamos correnteza acima ou nos puxando pelas algas aquáticas. Aquela era uma cena sul-real, cinco pontinhos humanos subindo um rio obscuro no meio de uma floresta perdida num pântano a meio caminho de lugar nenhum. Trovo vai à frente abrindo caminho dentro do rio, enquanto o resto do grupo ainda sem acreditar na situação em que havia se metido, segue atrás, com o Paulo Potenza ganhando uma certa vantagem até que o próprio Potenza da meia volta e desce o rio desembestado correndo de um jacaré do papo amarelo que emergiu das profundezas do rio e veio em nossa direção. Por sorte o tal jacaré que o Paulo havia visto, não passava da perneira do Trovo que havia se soltado e ficado boiando no rio em meio às algas. A situação não melhorou nada ao interceptarmos o rio porque vimos no mapa que ele se perderia em curvas, indo para uma direção totalmente oposta às nossas necessidades, que era a de encontrar uma possível estrada que poderia nos devolver as civilizações no litoral. A gente sabia que nossa situação não era nada confortável e tentávamos criar uma reserva psicológica para aguentar o que viria pela frente, mas foi literalmente numa curva do rio que o nosso destino mudaria. Numa entradinha despretensiosa, eu e o Trovo localizamos um barquinho de fibra afundado em meio as algas, tão pequeno que mais parecia uma caixa d’água com um bico e inventamos de tirá-lo do fundo e surpreendentemente ele boiou. Enquanto nos entretínhamos com a rustica embarcação, o Trovo adentrou no pequeno canal em direção a um terreno mais alto e bingo, achou uma canoa antiga no meio do mato, ainda com seu remo e a puxou para dentro do rio. Imediatamente um pensamento macabro tomou conta da minha mente: “ Vamos roubar essa porra. ” Sei que não era nada bonito de se fazer, mas são pensamentos que permeiam nossas mentes quando o desespero já tomou conta da gente. Achei que o único jeito de saímos daquele inferno alagado era nos apossarmos daquela canoa velha e remarmos rio acima até a tal ponte e desembarcarmos nela, ganhando assim essa possível estrada que nos tiraria dali. Subimos na canoa para fazer um teste e ver se aguentaria todo mundo e se iríamos nos adaptar com o remo. Subimos remando por um tempinho, mas eu me mantive no barco reserva, sendo puxado pela embarcação, mas logo retornamos ao local de onde partimos e ao investigarmos mais a fundo, descobrimos uma trilha que vinha de algum lugar até ali, talvez da própria estrada que buscávamos, e desembocava ali na beira do rio. O plano de roubar a canoa foi deixado de lado e o trocamos por essa trilha suspeita, mas que foi se abrindo e nos apontando uma saída e surpreendentemente, nos desovou bem na estrada, estávamos salvos, a civilização estava a não mais de uns míseros 2 ou 3 km e não levamos mais que uns 40 minutos para desembocarmos na Rio Santos, bem ao lado de uma subestação de energia, 300 metros de um posto de gasolina e a menos de 2 km do litoral. Abraços e comemorações marcaram o final daquela expedição e nos sentimos orgulhos de mais uma vez escaparmos inteiros de mais uma Travessia Selvagem e até então inédita. Conseguimos pegar um ônibus coletivo que nos levou de volta à Bertioga e de lá embarcamos imediatamente para Mogi das Cruzes e cada um foi se perder para um rumo, naquela selva de pedra, chamada São Paulo. E essa aventura pela Serra do Mar Paulista teve o poder de nos surpreender positivamente, porque até então desconfiávamos desse novo caminho proposto, mas nunca, nunca mesmo, podemos subestimar a grandiosidade dessas florestas e dessas montanhas , que despencam do Planalto Paulista para a Planície litorânea e conseguem desafiar o homem a ponto de quase poder vencê-lo, mesmo em tempos modernos onde ainda temos as tecnologias a nosso favor. Tomamos uma surra, por certo quase fomos humilhados, mas sobrevivemos com as reservas e a experiência adquirida em Expedições passadas, travamos uma luta ferrenha entre homem e natureza, resistimos até sermos cuspidos para fora e ao invés de prometermos nunca mais nos metermos em um terreno tão hostil como aquele, saímos do outro lado desse vale mais fortes do que nunca, prontos para enfrentar qualquer adversidade, seja em outras travessias como essa ou na busca por novas descobertas, porque em se tratando de AVENTURAS,essa serra Paulista é insuperável. Divanei Goes de Paula – março/2019
  8. TRAVESSIA: PICINGUABA x PURUBA .....................Olhos ao mar e uma esperança que parece nunca ter fim. Espectadores somos nós, numa noite agradável à beira da praia de PICINGUABA, simples ouvintes de uma tragédia soluçada por uma mãe e uma esposa que ainda aguarda a volta do filho e do marido que o mar tragou para sempre num longínquo dia de Páscoa. Aquela senhora que cambaleia de bêbada pelos dias que ali estivemos e que às vezes nos fez desdenharmos da sua condição, acabara por nos apunhalar o coração com sua história de vida. A sua narrativa vai nos desconcertando e aos poucos vamos nos tornando passageiros da sua história, sendo levados juntos à embarcação que ao colidir nos arredores da Ilha das Couves, naufragou e vitimou seu marido e seu filho de 7 anos de idade. E lá está ela, mesmo depois de mais de uma década, ainda a olhar para o mar na esperança de ver seu marido e seu filho voltar, e lá estamos nós, com um nó na garganta e eu já com um véu nos olhos capaz de inundar mais de um oceano. Quem nunca leu ou ouviu falar das histórias contadas de naufrágios e famílias destroçados pelas agruras trazidas pelo mar, mas quantos tiverem a oportunidade de poder escutar da boca daqueles que por isso passaram? Essa história ouvida numa noite escura à beira da praia, num acaso inesperado, vai compondo as memórias guardadas num canto das nossas cabeças, as memórias de viagens, as histórias guardadas numa vida de descobertas, aventuras e encantos................. ( A equipe ) Depois de quase dez dias desfrutando das praias e ilhas incríveis no norte de Ubatuba, na divisa com Parati-RJ e ser abastecido por uma infinidade de histórias, não aguentava mais escutar piadinhas da Aline e da minha filha Julia, sobre eu ainda não ter inventado uma trilha naquele recesso de fim de ano. A gente quer sossegar, ficar quieto no nosso canto, mas essas pessoas insistem em ficar nos cutucando, em ficar nos desafiando, então passei a mão no mapa e de última hora resolvi montar uma travessia pelas praias que nos cercavam. A caminhada que tracei começaria ali mesmo pela praia de Picinguaba e na minha cabeça poderia ser finalizada na Baia de Ubatumirim, um percurso longo, mas tranquilo, passando por praias selvagens e urbanas, um apanhado geral do que o Litoral Norte Paulista tem de mais sensacional. O dia estava lindo, sem nenhuma nuvem no céu e o sol reinava soberano e não havia motivos para carregarmos muita coisa, poderíamos comer pelas praias que passássemos e era certeza que no final da tarde já estaríamos de volta para o churrasco em família que nos propusemos a fazer. Mesmo assim, apanhei uma mochilinha e dentro dela joguei meu estojo de primeiros socorros, uma capa de chuva e 2 sacos grandes de lixo, agasalho e uma comida reserva, mas claro, era só um exagero sem fundamento de montanhista já meio cabreiro com grandes travessias e grandes expedições. A travessia ia ser um divertimento só, tanto que eu ia de sandália, mas aconselhei as meninas a colocarem um tênis na mochilinha delas porque a previsão era de atravessar uma meia hora de trilha entre duas praias. (PRAIA PICINGUABA) Além da minha filha Julia e da amiga Aline, o outro que comporia o grupo seria nada menos que meu amigo de infância, Rogério, esse sim, companheiro de uma infinidade de perrengues e roubadas memoráveis, mas que nos últimos anos estava afastado do mundo da aventura. Nos despedimos da família e descemos os degraus da casa onde estávamos abrigados e ganhamos logo o minúsculo centro da tradicional vila de pescadores da PRAIA DE PICINGUABA, um lugar pacato e tranquilo e que só agora parece ter ganhado mais notoriedade porque serve de partida para quem quer ir conhecer a Ilha das Couves. Tomamos, portanto, a rua principal, na verdade a única do vilarejo e vamos seguindo em direção à Rio-Santos, deixando as águas transparentes da praia para trás e ganhando a subida do asfalto carcomido e 15 minutos depois somos obrigados a parar no mirante de onde se descortina uma das mais incríveis vistas do litoral de São Paulo. Aos nossos pés a foz do Rio da Fazenda que ao se encontrar com o Rio Picinguaba, desagua no mar em tons de vermelho, num cenário impressionante e como bônus, nosso olhar pode se deleitar com os 3,7 km da selvagem praia da Fazenda. (MIRANTE FOZ DO RIO DA FAZENDA) Nossa caminhada pelo asfalto vai seguir por não mais que 15 minutos, talvez um pouco menos, porque aí deixaremos a estrada pavimentada em favor de um caminho de terra que pegamos para esquerda, acompanhando o próprio Rio Picinguaba por dentro da floresta sombreada até que o mundo se abre à nossa frente nos apresentando agora de perto o encontro com o Rio da Fazenda já devidamente abastecido pelo Picinguaba e ambos acabando seu ciclo no oceano Atlântico. Do outro lado do rio está a Grande Praia da Fazenda, eleita uma vez por um jornal inglês como uma das 10 praias mais bonitas do Brasil. ( TRAVESSIA DO RIO DA FAZENDA) O Rio da Fazenda ali na sua foz terá que ser atravessado com a água pelo peito, o que pode assustar alguns que não sabem nadar, mas com a maré mais baixa, passamos de boa, apenas cuidando para que as mochilas não molhassem. Aliás, dos 4 caminhantes, somente a Aline não sabe nadar e é com ela que tomamos mais cuidado, mas a travessia acabou por ser tranquila e logo adentramos definitivamente na PRAIA DA FAZENDA e fomos chapinhando em suas águas calmas e transparentes, batendo papo e vez por outra brincando de catar conchinhas, que logo iam sendo abandonadas porque ali é uma praia que pertence ao Parque Estadual da Serra do Mar e não se pode levar nada, nem uma mísera pedrinha. Uns 2 km de caminhada na areia da praia já nos levam perto da saída de acesso para a sede do Núcleo Picinguaba e é por ali que chegam os turistas de carro, mas felizmente, enquanto outras praias ficam entupidas de gente, essa praia não conta com mais de uma dúzia de gatos pingados porque aqui não existem bares, lanchonetes, quiosques e nem quaisquer outras comodidades, é ambiente bruto e selvagem a serviço da paz e do sossego. (PRAIA DA FAZENDA) Ainda na Fazenda, temos à nossa frente mais 1,5 km de pernadas até interceptarmos mais um rio, mas dessa vez bem menos que o anterior, que faz a alegria dos meninos pequenos por ser raso e inofensivo e logo que o cruzamos, paramos no final da praia para um breve descanso e gole de água numa bica providencial, antes de encararmos o nosso próximo desafio, agora mato à dentro. (PRAIA DA FAZENDA) A trilha vai subindo aos poucos, é um caminho aberto e desimpedido que muito provavelmente recebe manutenção por parte do Parque Estadual e é surpreendente que se possa seguir essa trilha sem ser molestado pelo excesso de burocracias e regras do próprio parque e isso é algo raro em se tratando desse tipo de unidade de conservação. É uma caminhada gostosa e eu apenas de sandálias, consigo evoluir tranquilamente mesmo tendo que cruzar por alguns pequenos atoleiros e não demora muito, talvez uns 20 minutos já damos de cara com uma saída a esquerda de onde já escutamos o barulho do mar e em 5 minutos estamos na beira da água. Não sei nem se podemos chamar aquilo de praia por conter apenas alguns metros quadrados de areia, mas não se engane, a PRAINHA DO CIRILO, nome me soprado pelos nativos, tem como principal atração uma grande piscina natural com fundo de areia e para aplacar o calor, corri para dentro dela enquanto os outros caminhantes faziam uma pausa para morder uns salgadinhos. O mar estava quente, como jamais havia visto nesse pedaço de litoral e foi difícil largar aquela água maravilhosa, mas quando achamos que era hora de partir, não tive problemas de correr para o riozinho de agua doce que ali desagua e tirar todo o sal do carpo naquele dia quente de verão. ( PRAINHA DO CIRILO) De volta à trilha, vamos subindo lentamente até que ela atingi seu cume, que nem é tão elevada assim e começa a descer suavemente em direção a nossa próxima praia, passa por uma construção em ruína e logo estamos com os pés na areia da deslumbrante e quase selvagem PRAIA BRAVA DA ALMADA. ( PRAIA BRAVA DA ALMADA) É incrível a belezura dessa praia, uma praia de uns 700 metros de comprimento com muita sombra e muitas amendoeiras e o melhor de tudo é ver que não mais de uma dúzia de pessoa por lá estavam, contando com o que estavam no mar. A Praia Brava da amada é mais uma que pertence a unidade de conservação e mesmo estando próxima à vila da Almada, ainda se mantém totalmente vazia e a vontade que dá é de sentar ali e nunca mais sair, mesmo porque, da última vez que aqui passei, vindo pelo outro lado, encontrei um mar revolto num dia chuvoso e agora o mar estava um espelho, um lago tranquilo e sereno, um convite para nadar ou simplesmente para se deleitar com a paisagem deslumbrante. Eu quero nadar novamente, mas as meninas e o Rogério querem caminhar, então atravessamos toda a areia da praia até o riozinho que desagua do seu lado direito e interceptamos a trilha. O caminho que liga uma praia à outra não é surpreendentemente largo, quase uma estrada e a surpresa é saber que meros 15 minutos separam a fascinante e deserta praia Brava da PRAIA DO ENGENHO (300 m) e até que essa outra praia ainda se mantinha tranquila se comparada a da Almada. A praia do Engenho também é uma praia bonita, aliás não veremos praias feias nessa parte do litoral, o que diferencia cada uma é o número de gente que vamos encontrar nelas. Encontramos muita gente no Engenho, mas a atração principal é uma tartaruga enorme que o pessoal do Projeto Tamar estava soltando naquele exato momento. (PRAIA DO ENGENHO) Assim que a Tartaruga se foi, picamos a mula para a outra praia que se separa do Engenho apenas por uma língua de rochas e não mais que 5 minutos somos apresentados à uma praia lotada, onde havia fila até para entrar no mar. As pessoas se entulham na PRAIA DA ALMADA (400 m ) simplesmente pela comodidade de poder chegar com o carro quase na areia e se esbaldar nos quiosques e nas facilidades oferecidas. Nosso objetivo naquela praia muvucada era descobrir um meio de cair fora dela, já que no canto direito não havia passagem para lugar nenhum, aí com uma conversa com os locais, descobrimos que teríamos que subir a estradinha de asfalto até um mirante e de lá interceptar a trilha que nos levaria para a próxima praia do nosso roteiro. Fugimos de lá por dentro do estacionamento totalmente lotado, de onde novos banhistas tentavam entrar quase se pegando no tapa com os flanelinhas, era mais gente querendo se juntar ao caos enquanto a gente estava livre, sem nenhuma preocupação, apenas curtindo nosso roteiro levado pela maior máquina de locomoção já inventada em todos os tempos, nossas pernas. (PRAIA DA ALMADA) Ganhamos, portanto, a estradinha de asfalto e vamos subindo para valer em meio ao sol escaldante do início de tarde. O caminho não tem erro, é a própria estrada que liga a praia da Almada à Rio-Santos e vamos subindo lentamente, tentando aproveitar a sombra que por vezes se precipita para dentro do asfalto quente. Nesse caminho, as meninas já dão sinal de cansaço e é nessa hora que a gente aproveita para dar uma zuada nas novinhas dizendo que quem não aguentar pode simplesmente esperar passar o ônibus e voltar para casa, mas as meninas são tinhosas e não querem entregar os pontos para velha guarda. Falando em velha guarda, e põe velha guarda nisso (rsrsrs), Rogério ligou o turbo e nos deixou para trás e quando pensei que a Julia iria sucumbir de vez, ela também acelerou o passo e 40 minutos depois da Almada, chegamos ao MIRANTE DE UBATUMIRIM, na verdade uma das vistas mais belas de todo o litoral Paulista. A baia de Ubatumirim composta pela praia de mesmo nome e da praia do Estaleiro do Padre é daqueles lugares para se sentar e apreciar a beleza, num mar que se abre em cores e tons de azul e verde, com a Serra do Mar protegendo o cenário num cartão postal impressionante. Junto ao Mirante, uma lanchonete com o nome de Chica serve de referência e foi construída mesmo em um lugar estratégico e ali paramos para um gole de água e um refrigerante gelado. (MIRANTE UBATUMIRIM) (MIRANTE BAHIA DE UBATUMIRIM) Com a cabeça mais fresca e já tendo perguntado para os caiçaras de onde partia a trilha que nos levaria à próxima praia, tiramos uma última foto do mirante e voltamos para nossa pernada e não andamos nem 100 metros, já interceptamos a trilha de acesso do lado esquerdo da estrada, logo após uma jaqueira. É um caminho largo que vai descendo para valer e é preciso tomar cuidado para não escorregar. Uns 200 metros abaixo damos de cara com uma construção que deverá se transformar em mais um quiosque com vistas excepcionais para praia do Estaleiro e toda a baia. A trilha contorna o terreno carpido, passa por uma cerca de arame e desce até um amontoado de casa até desembocarmos de vez no canto esquerdo da PRAIA DO ESTALEIRO DO PADRE. (PRAIA DO ESTALEIRO DO PADRE) A praia do Estaleiro tem 1800 m de comprimento, o mar calmo feito um lago e com uma característica diferente de quase todas as praias do litoral de São Paulo. Num primeiro momento é estranho ver os carros na areia, espalhados de qualquer jeito, sem uma organização distinta, mas prestando bem atenção, isso acaba nos remetendo às décadas passadas quando era comum esse tipo de atitude com as famílias acampando com suas enormes barracas na areia. Acampar hoje não é mais possível, mas ficou o estilo quase único, a diferença é que hoje os carros são de novas gerações e a música vinda dos seus potentes alto-falante, uma porcaria inaudível. Sem nenhum compromisso com o tempo, vamos chapinhando nas águas rasas da baia, olhando o movimento dos banhistas e como o estômago já anda roncando, procurando um lugar para comer algo mais consistente, mas as passadas vão rendendo e quando chegamos à beira o rio Ubatumirim, que divide a praia do Estaleiro com a própria PRAIA DE UBATUMIRIM, resolvemos deixar para forrar o estômago só no final. Minha grande preocupação quando rascunhei esse roteiro era a passagem pelo Rio Ubatumirim, já que na minha única passagem por aqui, num dia de chuvas torrenciais, peguei o rio com a maré alta e pensei não ser possível atravessá-lo sem que se conseguisse um barco, uma canoa, mas ao chegarmos na foz, encontramos um rio raso e o cruzamos com a água pela cintura e adentramos de vez na Praia de Ubatumirim. (TRAVESSIA RIO UBATUMIRIM) A praia de Ubatumirim não difere muita da praia do Estaleiro, só que os carros ficam confinados na parte superior da areia da praia devido a instalação de mourões de madeira. É uma praia evidentemente com muita gente, mas por conter mais de 2km de areia não é difícil encontrar sossego no canto direito é para lá que nos dirigimos com a brisa da tarde batendo no rosto. É uma caminhada gostosa, um ar de amplitude com aquele mar lindo, cheio de ilhas que se descortina à nossa frente e quando chegamos ao seu final, o Rogério e as meninas já colam em um carrinho de sorvete, enquanto eu vou escalar a encosta rochosa para tentar uma foto com as duas praias de quase 4 km a nos encher a vista. A minha intenção era só chegar até o final dessa praia , mas quando estávamos no mirante, ainda no alto da serrinha, nos chamou a atenção a possibilidade de acrescentar mais uma praia no nosso roteiro e como a maré estava baixa, a passagem para praia da Justa estava sendo possível ser feita por dentro do mar , beirando o costão. (PRAIA DE UBATUMIRIM) Existe um caminho que liga Ubatumirim à PRAIA DA JUSTA, mas nem chegamos a investigar, botamos as mochilinhas nas costas e nos enfiamos mar adentro, tendo ao nosso lado a Ilhota do Maracujá e menos de 10 minutos depois estávamos novamente pisando na areia. A Justa é uma praia pequena se comparada às anteriores ( 300 m) e nos chama a atenção o fato de ser um lugar vazio, onde duas ou três lanchas estavam estacionadas. Aqui temos um clássico exemplo da preguiça humana, que prefere se acotovelar em praias lotadas enquanto praias como essa, apenas por ser preciso míseros minutos de caminhada, ficam jogadas às traças. (ILHA DO MARACUJÁ) Mais de 20 km de andanças sob um sol de rachar coco, nos deixou exaustos e ao chegar ao final da nossa jornada, nos sentamos em um quiosque que serve comida para abastados e de frente para praia, ficamos a comtemplar aquele mar e seus barquinhos num vai e vem hipnotizante. Nossa missão estava cumprida, realizamos o trajeto do qual nos propusemos a fazer e como prêmio, sonhamos ser ricos apenas uma vez na vida e pedimos logo uma porção de camarão e de cação e enquanto a iguaria banhada a fios de ouro era preparada, corremos para o mar e fingimos ser donos de uma lancha chiquetosa que por ali boiava e a fizemos companhia, boiando ao seu lado até que a Aline nos chamou avisando que o chefe já iria trazer a comida. (PRAIA DA JUSTA) Comemos devagar, saboreando cada perna de camarão, até que resolvo perguntar à um nativo a direção do caminho que poderia nos levar de volta para Rio-Santos no intuito de pegarmos um ônibus de volta para Vila de Picinguaba. O caiçara se espanta quando descobre que estávamos vindo a pé da vila distante e sem nos dar chance de defesa já diz logo na cara: “ Seis veio andando de Picinguaba, porque não vão até Puruba”. Pronto, foi a deixa para o diabinho da comichão pular para o meu ombro e ficar infernizando minha cabeça: “ Vai lá Divanei, quem fez 9 praias faz 10, vai lá, o que são só mais uma hora de caminhada numa trilha subindo esse morrinho de nada? ” (PRAIA DA JUSTA) Dando ouvidos aos conselhos do diabinho, arrastei a Julia, a Aline e o Rogério comigo e com a barriga cheia, mas a alma transbordando de más intenções, caminhamos pelos quase 300 m da Praia da Justa, cruzamos um riacho pela canela e junto a uma casinha, perguntamos a um nativo pela trilha, que estava ali justamente no final da praia. Antes de subir a trilha, calçaram os tênis e eu não tinha outra opção a não ser a de seguir de sandálias mesmo. A trilha é larga, mas em certos momentos o mato acabou por tomar conta, mas nada que atrapalhasse nossa caminhada, que seguia firme e decidida com o objetivo de pôr fim aquela travessia definitivamente. Vamos cruzando por baixo de uma floresta exuberante às vezes vendo o mundo distante através de algumas janelas que iam surgindo para os vales e montanhas. Meia hora depois, talvez menos, cruzamos por um grande atoleiro e vários pequenos riachos são cruzados e em outros 15 minutos saímos no aberto, uma antiga plantação de mandioca, com uma placa indicando uma pequena trilha num aceiro ( corte no mato em forma de estradinha para proteger uma certa área contra fogo), então adentramos nesse caminho que logo voltou a ficar largo e de passagem desobstruída , mas 10 minutos depois esse caminho se perdeu no meio da floresta, nos deixando sem pai e sem mãe , sem saber para onde seguir. Procuramos a trilha, vasculhamos cada canto ao redor e nada. Voltamos para ver se não a havíamos perdido um pouco antes, mas nada encontramos, pode ser mesmo que não tenhamos procurado o suficiente, o certo é que agora teríamos que tomar uma decisão: Quando a gente é jovem, costumamos tocar o foda-se, fazer umas porra-louquisses inconsequente. A gente acaba por tomar decisões sem pensar muito nas consequências, vai meio que por impulso, é da nossa idade fazer estupidez, mas aí quando a idade chega e a maturidade já toma conta do nosso bom senso, a gente descobre que isso não tem nada a ver com nada e que quem viveu tomando decisões cretinas, nunca vai aprender mesmo, então, reuni o grupo todo e com o aval do Rogério, decidimos tocar o pau no mato, arrastar aquela floresta no peito e que os deuses tenham pena da nossa alma . (rsrrsrsrsrsrsrr) Liguei o gps do celular e fizemos um estudo prévio do terreno. Estávamos quase no alto do morro e nos pareceu que o melhor caminho seria passar pelo topo, então foi para lá que nos dirigimos, inicialmente tentando nos livrar dos cipós e arbustos parecidos com palmeiras. A cada metro avançado era um corte que ganhávamos, afinal de contas estávamos todos apenas com roupas próprias para banho. No começo até fui iludido pela vegetação e cheguei a pensar que passaríamos fácil, mas conforme fomos avançando os gritos de murmúrios e ranger de dente foram aumentando, era as meninas que gritavam a cada espinho e a cada corte que a vegetação lhes presenteava, a cada mosquito, a cada borrachudo, era um xingamento novo que eu recebia por tê-las colocado naquela enrascada. O avanço era lento e o Rogério já estava falando para apressarmos o passo para não termos que dormir no mato e aí foi que dei graças por ter pego alguns equipos de emergência. Já fazia mais de uma hora que a gente tentava nos livrar da vegetação e parecia que não saíamos do lugar, a não ser quando tentávamos descer um barranco liso e a força da gravidade nos dava uma forcinha, nos empurrando morro à baixo em escorregões memoráveis. Meus pés não tinham mais lugar para furar e para cortar e as pernas das meninas já estavam todas retalhadas, quando tomamos a decisão de descer por dentro de um rio seco, uma calha da montanha que logo brotou água e matou nossa sede. As meninas já estavam emputecidas de tanta raiva, mas era preciso seguir em frente. Contornamos um desnível com uma pequena cachoeirinha e perdemos altitude rapidamente e aí conseguimos nos deslocar um pouco mais rápido por dentro do riacho até darmos de cara com umas mangueiras pretas, bem na capitação de água do vilarejo de Puruba, onde ao lado interceptamos uma trilha mais carpida e descemos até o Rio Quiririm. Chegar às margens do Rio Quiririm poderia até ser um alívio se não fosse o fato do rio ser extremamente fundo e largo e como a Aline não sabe nadar, o jeito foi tentar margeá-lo até que ele se encontre com o Rio Puruba e ganhe o mar, onde fica largo e raso, dando passagem para a praia, mas como por infelicidade fomos sair numa área de mangue, estava quase impossível passar andando pela margem e aí não tivemos outra alternativa senão tentar chegar a sua foz andando por dentro do rio. Fui guiando o grupo, inicialmente com a água na cintura, nos segurando nos galhos da margem e tomando cuidado com as pedras infestadas de cracas e ostras que cortam feito navalha. O avanço era lento, as meninas o tempo todo resmungando porque diziam que a qualquer momento poderiam ser comidas por uma sucuri ou outra cobra comedora de gente e não adiantava nada falar que esse não era o perigo porque eu e o Rogério já não gozávamos mais de nenhuma credibilidade com elas. A margem foi ficando cada vez mais funda e quando chegou ao meu pescoço, me veio a cabeça que nosso avanço pelo rio tinha chegado ao seu final e que não haveria outro jeito senão eu tentar atravessar o rio a nado e ir procurar um pescador com alguma canoa para nos tirar da enrascada em havíamos nos metido. Aliás , já fazia tempo que as meninas imploravam pra gente gritar e chamar atenção de umas jangadas que já estavam nas nossas vistas, mas nós não queríamos dar o braço a torcer, só iríamos pedir arrego quando não tivesse mais jeito. Acontece que quando a água bateu no pescoço, a Aline já deu uma baqueada e o Rogério cortou a perna numa craca e o “sangue véio” desceu, aí a menina resolveu acabar com a brincadeira e ao ver uma canoa fazendo a curva vindo do rio Puruba, que se encontra com o Quiririm, levantou os braços e acenou para o pescador que vem em nosso auxilio. O pescador, sem entender nada, sem saber de onde havíamos surgido, já foi perguntando e quando soube que vínhamos da praia da Justa, já foi dizendo que essa trilha não é mais usada pelos caiçaras e que aquele lugar era infestado de cobras bravas. Paciência, as meninas eram mais, ( rsrsrrsrr) . Rapidamente nos jogou para dentro da canoa e nos deixou do outro lado do rio e não quis nem receber pelo trabalho, já lhe bastava a satisfação de contar para toda a comunidade que havia resgatado 4 sem noção que foram dar com os burros n’água depois de varar aquele mato dos infernos. (FOZ DO RIO PURUBA COM O QUIRIRIM) Estando em terra firme, já que ali estávamos, aproveitei para mostrar a PRAIA DO PURUBA para eles, já que eu a conhecia de outros carnavais. Primeiro para chegar à praia é preciso atravessar o rio Puruba com a água pela cintura que corre paralelo ao mar. Essa é uma das joias do litoral de Ubatuba, uma praia enorme onde é possível tomar banho de mar e de rio ao mesmo tempo e no seu canto direito é praticamente deserta e selvagem. O sal do mar serviu para lavar as feridas de um grupo esfarrapado e retalhado pela floresta e quando todo mundo já estava mais ou menos apresentável, viramos as costas para o oceano e botamos o pé na estrada novamente, mais 40 minutos de caminhada até a Rio-Santos e por lá ficamos por quase 3 horas até que um ônibus tivesse dó da gente e nos desovasse novamente no vilarejo caiçara de Picinguaba, já depois das 11 horas da noite. (PICINGUABA) Não é preciso nem dizer que os nossos familiares estavam arrancando os cabelos de preocupação e mesmo assim, debaixo de uma saraivada de críticas pela nossa irresponsabilidade, fomos cumprir o prometido que era o de fazer o churrasco, mesmo sendo depois da meia noite. A Julia coitada, a mesma que de manhã fazia coro nos chamando de velhos, tomou banho e foi morrer num canto qualquer, indo dormir sem forças nem para jantar. Em volta da churrasqueira, eu e o Rogério demos muitas risadas do acontecido porque fazia tempo que não nos metíamos juntos numas enrascadas dessas, relembrando os velhos tempos em que saíamos sem rumo mundo à fora a procura de aventuras memoráveis e mostramos que em se tratando de arrumar encrencas, ainda estamos em plena forma. Divanei Goes de Paula- dezembro/2018
  9. TRAVESSIA LAPINHA X FECHADOS Molhados e com um frio de lascar, essa é a nossa situação quando desembocamos no minúsculo vilarejo de Lapinha da Serra recém-chegados da travessia do não menos minúsculo, vilarejo do Tabuleiro. Poderíamos ter chegado até aqui simplesmente pegando um ônibus de Belo Horizonte até Santana do Riacho e depois nos pondo a caminhar por uns 10 km até esse povoado perdido num fim de mundo no meio da SERRA DO ESPINHAÇO, mas preferimos ir até Conceição do Mato Dentro e caminhar por 3 dias por aquela que é considerada a travessia mãe dessas incríveis montanhas, Travessia Tabuleiro x Lapinha, uma incrível jornada que nos apresenta logo de cara a sensacional CACHOEIRA DO TABULEIRO com seus 273 metros de queda, a maior do Estado de Minas Gerais. ( Cachoiera do Tabuleiro) A Travessia Tabuleiro x Lapinha é uma caminhada linda e há muito tempo figura entre as grandes travessias clássicas do Brasil, mas a Serra do Espinhaço é tão impressionante que outras grandes caminhadas são praticamente desconhecidas da grande maioria dos montanhistas e excursionistas do país, ficando renegada somente aos locais do Estado devido a dificuldade de logística, o que é uma pena porque ela tem o poder de nos apresentar um cerrado vibrante donde cachoeiras impressionantes saltam para grandes poços de águas cor de coca cola, em um dos cenários mais belos do país. Eu e o Anderson Rosa com tempo de sobra já havíamos resolvido que cruzaríamos parte da Serra do Espinhaço e havíamos nos preparado para isso e como a primeira parte da empreitada havia sido concluída com sucesso e mais sedo do que prevíamos, ao desembocarmos em lapinha da Serra ainda na metade do dia, resolvemos descansar no vilarejo e pôr nossas roupas e sacos de dormir para secar por causa da chuva que havíamos pego no topo do Pico do Breu na noite anterior. ( Lapinha da Serra) Passamos a noite em um camping e logo pela manhã empacotamos nossas coisas, passamos pelo centro do vilarejo aonde sua maior atração são duas igrejinhas no minúsculo centro e partimos pela estrada principal, a mesma que liga Lapinha à Santana do Riacho. O vilarejo é minúsculo e perdido no tempo, tanto que por hora não existe nem sinal de celular, mas se engana quem pensa que não há nada para fazer , na verdade é uma gama de atrações imensas entre subir montanhas como o Pico do Breu e da Lapinha e outras infinidades de cachoeiras ao redor e o grande lago que a cerca, mas por hora vamos nos contentar em usar esse bucólico povoado como ponto de partida para uma das caminhadas mais espetaculares do Espinhaço e botando a mochila nas costas , tratamos logo de apertar o passo traçando como principal meta do dia chegar primeiro até a grande Cachoeira do Bicame. Partindo, portanto da igrejinha do vilarejo, tomamos a rua principal que vai nos levar para o norte, sendo esse o mesmo caminho para Santana do riacho. Estamos passando ao lado de uma cadeia de montanhas ao nosso lado esquerdo e do lado direito teremos como companhia toda a cadeia principal da Serra do Espinhaço, com o Pico da Lapinha a nos espiar ao longe. É uma pernada em meio a fazendas e sítios e sempre sendo saudados pelos moradores locais, mas uma hora depois ou quase 4 km, a estrada de terra faz uma curva violenta para esquerda, abandonando o sentindo norte e quase que voltando para o sul e é nesse cotovelo, em meio a várias placas que abandonamos a estrada principal em favor de outra que sai a direita. Continuamos acompanhando o espigão mestre do Espinhaço, mas agora caminhando por uma estradinha mais modesta. O sol já estava de lascar logo pela manhã e por um golpe de sorte passo por nós uma caminhonete pequena e ao parar já nos interpela se aquele é o caminho para a famosa Cachoeira do Bicame. Anderson nem responde à pergunta e já vai para cima do motorista na tentativa de angariar uma carona. O casal que estava em férias e carregava metade da casa na traseira, logo arruma um lugarzinho para nos levar em meio as tranqueiras e mais 2 km à frente deixamos a estradinha e adentramos numa porteira junto à um pé de manga, onde o caminho se estreita e mal dá passagem ao veículo. Com muito custo conseguimos avançar por mais 1500 metros, mas numa subida mais forte o motorista arregou e decidiu parar o carro à beira do caminho e seguir o resto na caminhada. Bom, na caminhada iríamos eu e o Rosa, porque eles pretendiam seguir o resto do caminho de bicicleta, então nos despedimos da nossa carona e tratamos logo de pôr as pernas para trabalhar e não deu nem 10 minutos de caminhada para descobrimos que o carro não iria muito longe mesmo. Acontece que a sequência do caminho é dentro de uma grande fazenda particular (FAZENDA CACHOEIRA), meio que pertencente ao grupo Boticário que a transformou em uma RPPN e além de proibir a entrada com veículos motorizados, ainda limitou o número de visitantes a no máximo 30 pessoas por dia, o melhor é que não cobram nenhuma taxa de visitação. Abrimos a porteira e adentramos na fazenda onde uma placa explica as regras do lugar, mas como estávamos numa segunda-feira, sabíamos que éramos os únicos a se aventurar por aquelas bandas, então nem nos preocupamos com a possibilidade de não nos deixarem passar por excesso de visitantes. Sinceramente, acho difícil barrarem alguém pelo simples fato que a sede da fazenda está muito, mas muito longe da porteira, que é onde se faz a contagem e seria uma crueldade fazer alguém voltar para trás depois de andar tudo aquilo. Outros 3 km de andanças por um caminho extremamente lindíssimo em meio a afloramentos rochosos e temos que abrir outra porteira e mais 1 km de caminhada estamos na Sede do Parque, próximo a própria sede da fazenda. Ali é o lugar onde encontraremos água, banheiro e deveremos nos cadastrar para poder seguir a travessia, mas ao chegarmos encontramos tudo abandonado. Na verdade, 2 km antes de ali chegarmos, encontramos o guardinha que libera a autorização para seguir e ele estava cuidando de afazeres particular num dia sem nenhum movimento e sem muita burocracia nos fez assinar a entrada para o parque. Nossa maior preocupação era que ele nos barrasse por estarmos com uma cargueira nas costas, já que acampar é proibido, mas nem foi preciso contar alguma lorota, o rapazinho parecia estar meio cagando e andando para o que iriamos fazer e rapidamente se livrou da gente, mais rápido do que a gente querendo no livramos dele. Enquanto comíamos alguma coisa na sombra da sede do Parque, passou por nós uns cavaleiros da fazenda e essa seria as últimas pessoas que veríamos nos próximos 4 dias. A estradinha faz uma curva para direita e logo desce à um riacho com ponte de madeira, deixa a entrada do casarão a direita e pouco mais à frente uma placa indica que devemos entrar à esquerda numa bifurcação e abandonar de vez a estradinha. O caminho a seguir é na direção da grande montanha a nossa frente, atravessando pequenos tablados de madeira que foram colocados estrategicamente para escaparmos do charco e aí mergulhamos num jardim florido que vai encantando a alma numa beleza estonteante, porque nessa época do ano, em plena primavera, o cerrado explode em cores e belezas inenarráveis, onde a vida vai brotando a cada centímetro de solo pobre e nos fazendo parar a cada minuto para aplaudir tamanha formosura. A trilha vai perdendo altura rapidamente, logo vemos que estamos nos dirigindo para o vale o Rio das Pedras e 3 km depois, numa curva para direita somos apresentados sem muita cerimônia para o MIRANTE DA BICAME, uma visão esplendorosa da cachoeira de mesmo nome, despencando nas escarpas da serra. É uma visão de encher os olhos, algo que até emociona de tão bonito, num senário de tirar o fôlego. Nos sentamos ali naquela pedra e deixamos nossos pensamentos correr e nossa emoção aflorar, aproveitando para guardar na nossa mente cada centímetro daquela paisagem e o melhor de tudo era que estávamos sós, porque o casal que havia nos dado carona simplesmente desistiram de seguir o retiro. Aquele paraíso era só nosso e quando nosso coração se encheu e quase transbordou de alegria, escorregamos pela trilha e fomos abraçar de vez aquela cachoeira, e não deu nem mais 20 minutos de caminhada em meio às canelas de Emas, já estávamos lá, a nos jogarmos dentro daquele poço avermelhado para aplacar o calor, já que a tarde já se fazia presente, com o sol a pino a nos iluminar. ( Mirante do Bicame) A CACHOEIRA DO BICAME até que não é muito alta, mas a composição da paisagem com um poço enorme e profundo com águas avermelhadas a transforma numa visão quase que única no meio do cerrado e mesmo não muito cheia como estava agora, é algo que nos hipnotiza. Ficamos por lá um bom tempo, nadando no grande poço e deixando a vida passar sem nos preocuparmos com o tempo, mas quando nos lembramos que nosso objetivo era acampar no tal poço do soberbo, demos o ultimo mergulho e partimos. (Cachoeira do Bicame) Deve haver uma trilha que sobe até o topo da grande cachoeira, mas nós não nos preocupamos em ir investigar e já nos agarramos a uma canaleta bem ao lado da queda e foi por ela que mediante a uma escalada tranquila, conseguimos chegar ao topo, onde as águas despencavam no vazio, se jogando para dentro do poço. Esse é mais um cenário de tirar o fôlego, com pequenos poços, cascatinhas e pedras coloridas e a vontade que dá é ficar por ali mesmo, apreciando o mundo lá de cima. O caminho natural é atravessar para a outra margem e como o rio não estava muito cheio, mal molhamos nossas botas pulando de uma pedra a outro. Atravessando, a trilha vai seguir para a esquerda, descendo novamente para o pé da cachoeira e seguindo quase margeando o rio, descendo as vezes por trilha e outras vezes varando pela vegetação rasteira. Logo o rio começa a encachoeirar novamente e vai ficando cada vez mais lindo e é nessa hora que será preciso começar a se afastar do rio, subindo para depois pegar o sentido noroeste e caminhar por mais de 2 k e aí virar completamente para o sul e caminhar por mais de 1,5 km para voltar novamente ao rio e tudo isso simplesmente para dar a volta em uma montanha porque pelo rio é tarefa quase impossível, tendo que enfrentar abismos gigantes. Pois é, esse é o caminho oficial e tradicional para se voltar ao rio, mas quem quiser seguir pela trilha de cima (vou explicar isso depois) , não precisa seguir para o sul, pode simplesmente continuar sentido norte/nordeste, só não vai conhecer o Poço do Soberbo, mas nós não somos tradicionalistas, a gente tá longe de nos prendermos aos roteiros tradicionais , então para variar, resolvemos enfiar os pés pelas mãos e inventar moda, ao invés de contornarmos a tal montanha para escapar dos abismos, vamos ao encontro dele e que Deus tenha piedade das nossas almas .(rsrsrsrsrrsrsrrsrs) ( Parte alta do Bicame) Abandonando a trilha, agora vamos descendo margeando o Rio das Pedras, rasgando mato no peito, tentando nos desviar da vegetação espinhuda do cerrado mineiro e não demora muito já somos recompensados pela exuberante CACHOEIRA DO SMOKE, bela e solitária, nos convidando para um mergulho em seu poço igualmente deslumbrante. A tarde já se avizinhava de vez e não poderíamos nos dar ao luxo de ficar nos deleitando em poço e piscinas naturais ou noite poderia nos pegar no meio do cânon e não seria nada bonito para a gente. ( CACHOEIRA DO SMOKE) Fomos desescalando a escarpa, abrindo caminho a força em meio às canelas de emas esturricadas por causa de queimadas antigas e cada patamar que baixávamos, uma nova cachoeira surgia e era cada uma mais bonita que as outras e essa queda abaixo da Cachoeira do Smoke também era um convite para nos banharmos no seu poço, mas por causa do tempo vai ficar para próxima e para marcar território vou chamar de Segunda Queda. O terreno que até então era difícil, agora se transforma em quase impossível de passar, descemos mais um patamar com enorme dificuldade para apreciarmos de cima do barranco a Terceira Quedaabaixo do Bicame. Cada cachoeira era mais bonita que a outra e quem nos dera ter tempo suficiente para podermos nos perder em suas quedas, muito porque nossa realidade agora mudou de difícil para imprestável e nos vimos lascado, sem pai e sem mãe à beira de um abismo por onde o Rio das Pedras quase que se suicidava, saltando em meio a um cânion estreito, e agora José? (segunda queda abaixo do Bicame) ( terceira queda abaixpo do Bicame) Paramos para analisar os mapas e tentar traçar uma estratégia, mas nada parecia nos convencer que passaríamos por aquele abismo. Pensamos na possibilidade de cruzar o rio para outra margem, mas o mapa topográfico nos dizia que apenas trocaríamos 6 por meia dúzia, então só nos restou a ingrata missão de nos agarrarmos às grades paredes e tentarmos chegar ao cume da montanha para tentarmos uma diagonal até o fundo do vale. Em meio às pedras escorregadias lá foram dois tontos, agarrando as unhas aonde era possível até atingir um dos pico , e quando chegamos ao alto, descobrimos que ele era apenas um cume menos de outra montanha gigante. Aí, ao invés de subirmos essa nova montanhas, tivemos a ideia estúpida de tentar contorná-la pela parte de dentro do abismo, descendo escorregando e usando as velhas canelas de emas como apoio. Aquela manobra tinha tudo para dar errado, abaixo dos nossos pés umas duas centenas de metros nos chamavam para uma tragédia e eu não estava nada contente com rumo que aquela travessia estava tomando e uma hora fiquei mesmo sem saída, muito porque eu era o cara que ia atrás e quando chegava para fazer os movimentos, o Anderson já havia levado todos os apoios que eram possíveis, que no caso, não passavam de canelas de emas queimadas. A tarde já estava no fim, mas nosso pesadelo continuava e vendo que aquelas manobras já haviam ultrapassado qualquer bom senso que prestasse, tentamos tomar uma diagonal para direita e nos afastar do cânion, mesmo assim uma passagem estreita fez com que minha mochila se mancomunasse com a força da gravidade tentasse a qualquer custo me matar. Fiquei paralisado, tentando chamar a atenção do Anderson para ver se ele que já ia à frente conseguisse me ajudar a sair daquela situação em que eu havia me metido, mas só ouvi a voz dele dizendo que o caminho era aquele mesmo. Eu num primeiro momento pensei que teria que me livrar da minha mochila para não ser arrastado junto, mas consegui cravar as unhas na terra e alcancei um arbusto um pouco mais firme e me puxei para cima. ( Cachoeira do Abismo) De onde estávamos já conseguíamos avistar a trilha correndo lá embaixo e conseguimos achar uma linha que acabou nos levando com mais segurança até ela, aí viramos para a esquerda e começamos a descer novamente em direção ao rio, tendo agora como companhia a grande Cachoeira do Abismo, a mesma que nos queria, mas vai ficar querendo. ( rsrsrsrsr) Nosso próximo passo era atravessar o rio para sua margem esquerda e localizar alguma trilha que fosse descendo. Atravessar até que foi fácil porque usamos uma espécie de ponte natural que ia de um lado a outro do rio, mas ao chegarmos do outro lado, trilha nenhuma encontramos e o traklog que começamos a seguir não ia para lugar nenhum e mais atrapalhava que ajudava. O Rosa já estava nervoso porque se dizia esgotado fisicamente e queria acampar a qualquer custo e eu não arredava o pé de tentar acampar no tal poço do soberbo, mas a gente descia o rio, tentando seguir o traklog e passava cada vez mais raiva, então resolvemos abandonar de vez aquela merda de marcação e fazer nosso próprio caminho. Atravessamos novamente o rio e o seguimos pelo lado direito, atravessamos por dentro de um mato fechado até novamente sairmos no aberto, junto a uma clareira embaixo de uma grande árvore e aí o Rosa protestou veementemente para que acampássemos ali. Estávamos tão perto do soberbo que eu achei um desaforo ficar ali e admitir a derrota, mesmo sabendo que a noite já se avizinhava , então mesmo com o Anderson puto de raiva, forcei a barra para que atravessássemos o rio e andássemos mais um pouquinho até interceptarmos de vez a trilha de baixo e logo em seguida ganharmos uma estradinha à esquerda, que em menos de 10 minutos nos levou até o antigo GARIMPO DE DIAMANTES, onde meia dúzia de casas de pedra abandonadas nos convida para soltarmos nossas mochilas e darmos por encerrado aquele grande dia de aventuras, justamente nos domínios do incrível POÇO DO SOBERBO. Aquele cenário era sul-real, o pôr do sol iluminando as paredes que circundavam o poço do Soberbo, refletindo em todos os cantos, transformava o local em um lugar único. As casinhas construídas de pedra, feito uma vila medieval que mais parecia uma Machu Picchu sertaneja. As habitações infelizmente perderam seu telhado e apenas uma ainda se mantinha em pé e ao abrimos a porta fomos surpreendidos por encontrar um lugar perfeitamente habitável e nossos olhos brilhavam com a possibilidade de usá-la como abrigo naquele lugar magico, mas o Anderson não deu o braço a torcer, mesmo diante daquele achado extraordinário e apenas se calou , mas eu fiquei feliz de ter batido o pé para acamparmos ali, sem vento e sem nem precisar montar nossa barraca, mas por medo de algum camundongos, o Andersom resolveu mesmo assim se proteger dentro da tenda artificial. Foi uma noite bem dormida e acordamos só quando achamos que deveríamos já que tínhamos tempo de sobra. Enquanto o Rosa foi cuidar de lavar a louça fui dar umas voltas pelo lugar, que outrora fora usado como garimpo de diamantes. O poço é formado pelas águas do Rio das Pedras e do Rio Soberbo, que se encontram e depois vão se enfiar em um outro cânion gigante e até desci aonde as águas despencam no vazio, mas ao me aproximar, uma corrente de ar ameaçou me jogar vale abaixo, então recuei e voltei para o acampamento. O Poço do Soberbo deve ter dezenas e dezenas de metros de profundidade e suas águas escuras, mas limpíssimas, nos convidam para um banho, mas ainda é cedo para tanta molhaceira, então jogamos às mochilas nas costas e partimos para a continuidade daquela travessia. Retornamos pela mesma estradinha da tarde anterior e interceptamos novamente o Rio das Pedras no exato local aonde ele se encontra com o Rio Soberbo e encontramos a TRILHA DE BAIXO. É preciso explicar agora o que são essas trilhas: A trilha de baixo é o caminho tradicional que liga Lapinha da Serra até Fechados e deveria ser a nossa rota dessa caminhada, mas tem um porém, essa trilha corta a FAZENDA DO DANTE, um fazendeiro cabra macho que costuma enfiar o trabuco na cara de quem se atreve a invadir suas terras e para não bater de frente com ele ou seus jagunços, quem se atreve a fazer essa bela travessia tem como opção usar a TRILHA DE CIMA, ou seja, é obrigado a subir uma patamar e caminhar por outras montanhas, indo “paralelo” a trilha principal. Nós estávamos com os dois roteiros no GPS, mas ao invés de já nos metermos no caminho que nos levaria até a trilha superior, escapando das garras sanguinolentas do tal de Dante, preferíamos inventar outra coisa e por hora resolvemos usar a trilha de baixo mesmo, indo de encontro com o matador de montanhista. A trilha segue paralela ao rio Soberbo, subindo quase encostada às suas margens e logo somos surpreendidos por uma placa: “ Caiam Fora, Propriedade Particular”, mas como a gente não sabia ler, passamos batidos e nos enfiamos no meio do cerrado, meio que pressionados por duas paredes de cada lado. Nosso próximo objetivo era chegarmos até o tal POÇO DO RUBINHO e em meia hora, talvez um pouco mais, ao vermos que estávamos bem perto, preferimos varar mato e interceptar novamente o Rio Soberbo, exatamente um pouco abaixo do Rubinho. Acontece que a gente poderia chegar ao Rubinho continuando pela trilha e mais à frente fazer um desvio, mas ficamos com medo de encontramos alguma casa habitada que nos fechasse o caminho ou nos causasse algum problema. O POÇO DO RUBINHO é outro lugar incrivelmente belo, de onde uma cachoeira despenca vindo da grande fenda que parte a montanha ao meio e ao chegarmos lá não me restou outra coisa a fazer senão me jogar nas suas águas profundas e por lá ficar até que o Andersom dissesse que era hora de partir. Mas aí é que estava o pulo do gato, a gente sabia que a passagem pela tal fazenda do Dante poderia nos causar problemas, então teríamos que achar um meio de fazer a passagem da trilha de baixo para a trilha de cima e fazendo um estudo sobre a topografia, descobrimos que poderia ser possível interceptar o nosso caminho subindo todo o cânion do Rubinho escalando. Na teoria poderia funcionar, mas se fossemos barrados pelo terreno seria um tempo jogado fora e um esforço desnecessário. Eu queria já tentar escalar a própria cachoeira do Rubinho, mas o Anderson achou melhor subirmos escalando o paredão pela sua esquerda. Foi uma subida bem íngreme e cansativa e por fim tivemos que escorregarmos até cairmos de vez da parte de cima da cachoeira do Rubinho, onde outra cachoeira igualmente deslumbrante e com um poço profundo nos faz cair o queixo. Em um primeiro momento ficamos ali paralisados, tanto pela beleza, quanto pela dificuldade em escalar a queda d’água. Saímos pela esquerda, caminhando ao lado do poço até nos encostarmos junto ao véu. Escalar na unha era algo quase impossível, mas não havia outra saída, então ajudei o Rosa a tentar alcançar uma canela de ema até poder se elevar e ganhar outras agarras que o levou finalmente para o patamar definitivo e foi aí que agradecemos por portarmos um pedaço de corda porque sem ela eu teria ficado lá embaixo sem poder subir. (SEGUNDA QUEDA DO RUBINHO) É impressionante como esse lugar era bonito e o principal era saber que estávamos passando em um lugar onde pouca gente já havia chegado, umas cachoeiras isoladas do mundo, em um lugar perdido no meio do cerrado mineiro. Aquela TERCEIRA QUEDA não era muito alta, mas nem precisava ser com aquele poço incrivelmente belo e foi muito tranquilo subir escalando seus degraus ao lado das suas águas e a gente que já estava estarrecido diante de tanta beleza, quando chegamos ao próximo patamar tivemos que arriar nossas mochilas, respirar fundo e com calmar nos sentarmos para apreciar aquela paisagem estonteante. A QUARTA QUEDA e última queda daquele complexo de cachoeiras, onde a fenda já terminava, nos dá de presente um poço incrível e enquanto a Rosa resolve fazer uma boquinha, não me contento somente em olhar e já me jogo nas águas frescas de um dia ensolarado e calorento. Somos donos absoluto daquele paraíso e não há um só sinal de passagem humana por ali, muito porque quem vem pela própria trilha de cima se amedronta com a possível descida perigosa, mas quem se atrever a investigar vai encontrar uma língua de pedra que poderá leva-lo para dentro do cânion e consequentemente para essa cachoeira. O dia já ia pela metade quando finalmente emergimos na parte de cima desse degrau da Serra porque aqui no Espinhaço as montanhas parecem ser divididas em patamares e depois de ficarmos envolvidos com tanta água, era hora de enfrentar a dureza do serrado. Agora havíamos localizado a tal TRILHA DE CIMAe ela seria nossa companhia pelos próximos dois dias. Mas a verdade tem que ser dita, de trilha mesmo só o ameaço porque praticamente não se consegue andar por uma linha concreta e e aí não temos outra coisa a fazer se não seguir o traklog que foi nos passado ou ao menos nos mantermos bem perto dele, tendo-o sempre como referência , mesmo porque seria impossível seguir por essa rota sem nunca ter estado ali, mesmo com mapas e bussola, sem uma noção para onde seguir é pedir para ser um andarilho sem rumo. Mesmo sendo um terreno relativamente fácil de andar por se tratar de vegetação baixa e com boa visibilidade é preciso não dar bobeira com um acidente porque naquele fim de mundo celular é coisa imprestável para comunicação. Num primeiro momento ficamos meio desorientados tentando localizar o rabo da trilha, mas ao vermos que essa trilha mal existe, nos apegamos ao gps e fomos navegando tendo o traklog como referência e o terreno vai subindo, ziguezagueando montanha acima, meio que paralelo ao Rio Soberbo, mas não perto dele, coisa de talvez 1 km de distância. A subida foi dura, nos perdemos em vários momentos e acabamos ficando sem água e somente uns 2 km depois que deixamos o rio é que conseguimos encontrar um riacho com águas frias para largar as mochilas e nos acabarmos de tanto beber. É uma paisagem de largas vistas, com plantas incríveis, sempre com a visão esplendorosa do vale do Rio Soberbo a nossa direita. O terreno parece que vai arrefecer um pouco, mas logo volta a subir novamente e parece que vai nos levar para o início de um vale, mas logo o gps nos indica que temos que tomar um caminho por dentro de alguns arbustos e de supetão somos surpreendidos com um casebre junto a um curral relativamente novo. Ainda eram antes das cinco da tarde, mas não tivemos duvidas que deveríamos acampar por ali mesmo, junto a um gramadinho em frente do rancho, que parecia estar ali apenas para marcar território, servindo de abrigo temporário e de depósito de materiais ligados a cavalaria. Montamos nossa barraca e fomos dormir muito cedo, estávamos cansados da árdua jornada que havíamos empreendido, primeiro escalando os penhascos dos cânions do Rubinho, depois torrando os miolos até aqui chegar. Não existe água junto ao casebre e chegamos a investigar em uma matinha próxima, mas o riacho estava seco e só conseguimos fazer uma janta e um café na manhã seguinte porque ao encontrarmos a porta aberta, conseguimos pegar um pouco dentro do barraco, mas antes matamos a cede chupando umas canas que por lá encontramos. A partida na manhã seguinte foi lenta e preguiçosa. A trilha volta pelo mesmo lugar que chegamos e continua para o norte, vai se elevando lentamente por um caminho que à primeira vista parece mais um carreiro de vacas, mas ali não havia nem vaca e nem qualquer sinal de vida humana e continuamos naquela vastidão, sempre com os olhos abertos para admirarmos uma infinidade de plantas rasteiras e pequenos arbustos de todas as formas, além de inúmeras formações rochosas. Estamos num degrau do espinhaço e ao longe era possível avistar o Vilarejo de Inhames perdido no horizonte. Vamos perdendo altura bem devagar, passamos por um riacho para molharmos a goela e não demora para percebermos que estamos sendo levados pelo terreno para calha de outro rio e quando lá chegamos, jogamos a mochila ao chão logo depois de atravessarmos o próprio CÓRREGO DOS INHAMES e enquanto o Andersom descansa à sombra de uma árvore torta, aproveito para me jogar na água e por lá ficar feito um hipopótamo tentando escapar do calor nas savanas africanas. ( córrego dos Inhames) O próximo trecho de pernada vai em direção a um capão de floresta isolado e ao longe vamos nos guiando em direção a um pequeno telhado que pensamos ser uma casa, mas quando lá chegamos vimos que não passava de uma casinha de cocho, usada para alimentar os animais, que também não existiam por lá. O sol agora esquentou de vez e a gente aperta o passo tentando encontrar logo mais um riacho para refrescar a moringa e quando mais um córrego é encontrado, é hora de enfiar a cabeça dentro para baixar a temperatura. Esse rio é a própria nascente de um rio maior que vai descer em direção ao vale e entrar dentro de uma grande floresta. Vamos descendo paralelo a esse vale verdejante e ao darmos uma bobeira, perdemos o caminho do traklog. Tentamos varar mato subindo um pequeno morrote, mas logo ficamos travados numa vegetação entrelaçada e aí ao avistarmos um casebre lá de cima, que era alimentado por uma trilha do outro lado do vale, resolvemos retroceder e varar mato no peito, atravessar o riacho e interceptar essa trilha até o casebre, que por sinal estava abandonado. Voltamos para trilha, agora acompanhando o rio pela sua direita e 500 metros depois o atravessamos e subimos até a metade de uma colina e logo notamos que outra vez havíamos perdido o caminho, que na verdade continuava paralelo ao rio. A trilha se alarga de vez e vamos adentrando numa floresta refrescante até darmos de cara com uma porteira, onde uma placa anuncia que estamos entrando nos domínios da FAZENDA PINHÕES DA SERRA. Não demora muito e somos encurralados por alguns cães barulhentos e vislumbramos a possibilidade de podermos ver gente, mas quando chegamos na sede da fazenda, encontramos tudo vazio e não foi dessa vez que a gente conseguir encontrar outros seres humanos nessa travessia. ( sede da fazenda Pinhões da Serra) Uma estradinha partindo para a esquerda nos serve de caminho e quando ela vira à direita inventamos de cruzar o rio e interceptar outra estradinha gramada e a seguimos por um bom tempo até percebermos que novamente estávamos perdidos e longe do caminho. Nos recusamos a voltar pelo mesmo caminho, então inventamos de varar mato na diagonal para tentar interceptar novamente a trilha e nos vimos atolados dentro de um brejo por um bom tempo até conseguirmos voltar para direção correta e pegar o estirão final que vai descendo sem dó até que umas 4 da tarde, quando o sol já queimava tudo a sua volta, demos nas barrancas do lindo RIO PRETO, hora de dar um basta, descer as mochilas e dar por encerrado mais um dia de caminhada. O Rio Preto é um rio belíssimo, com águas escuras e avermelhadas e ali naquele local seve meio que de ponte natural para quem quer cruzá-lo. Cinquenta metros a baixo uma prainha nos convida para montarmos nossa barraquinha, mas antes de isso fazermos, largamos tudo o corremos para um banho renovador. O calor foi imenso durante todo o dia e nuvens pretas se apresentam para nos dizer que a noite poderemos ter um pouco de chuva, então armamos nossa barraca na areia e tratamos de cobri-la com um plástico. E o trabalho realizado foi muito providencial porque a noite a chuva veio com gosto, o que não foi de todo ruim porque serviu para aplacar o calor e pela manhã o sol retornou com força para ser nosso companheiro por mais um dia de travessia. A trilha tradicional parte do outro lado do Rio Preto e vai continuar seguindo na direção norte até que é preciso escolher entre virar a esquerda para Fechados ou a direita para Cemitério do Peixe, mas nós estamos longe de sermos tradicionalistas e estudando novamente o mapa, resolvemos que iríamos descer margeando o Rio Preto até interceptarmos a TRILHA DE BAIXO novamente. Em um primeiro momento tudo estava correndo bem, estávamos conseguindo encontrar um bom caminho pelo lado esquerdo, mas foi aí que dei uma bobeira monstro, não percebi no GPS que o rio havia dado uma guinada para direta e continuei navegando para esquerda pensando que o vale que eu estava seguindo fosse o vale do próprio Rio Preto. acabamos nos perdendo quase 1 km longe do nosso caminho e pior, tivemos que varar mato e escalar paredes ingrimes para tentar voltar. Não peciso nem dizer que o Andersom ficou pistola da vida com o meu erro de navegação e passou umas 3 horas resmungando. Pulei à frente e tracei um azimute direto para interceptar a trilha de baixo e fomos nos enfiando cada vez mais numas piramberas até que a tal trilha apareceu. Pegamos a trilha para a direita e não demora muito interceptamos mais um casebre, mais um barraco abandonado. Agora estávamos seguindo outro traklog, mais sinceramente era um caminho imprestável, que mais atrapalhava do que ajudava. Quando a cerca do casebre termina, entramos a esquerda e fomos meio que contornando a casa até que o traklog se mete no meio de uma quiçaça, sem trilha sem qualquer vestígio de caminho e aí a gente toca varar mato tentando conseguir nos aproximarmos novamente do Rio Preto. Depois de muito custo chegamos ao rio e o atravessamos para o outro lado, interceptando um afluente e subindo por uma meia hora até cruzá-lo também, mas antes disso paramos para fazer um almoço porque aquele dia não estava sendo fácil. Com a barriga cheia e o espírito renovado, retomamos nossas andanças, primeiro subindo o rio e depois descobrindo uma trilha que se enfiou dentro de uma fenda da montanha e começou a subir para valer. O caminho era realmente bonito, mas as dificuldades passadas ao longo desse dia junto com o calor infernal nos fizeram apressarmos o passo até que o terreno arrefeceu de vez e voltamos a caminhar com a imensidão do cerrado. Uma parede gigante nos fez companhia por um certo tempo, uma muralha do lado direito e foi um sobe e desce pequenas colinas intermináveis até que o caminho vira para esquerda e adentra no meio de vegetação mais densa, num labirinto de caminhos até pularmos uma porteira e voltarmos a subir e descer colinas. Numa olhada rápida no mapa observamos que a descida final para o vilarejo de FECHADOS faria uma curva para direita, contornando uma montanha e depois se enfiando numa ladeira interminável até o povoado. Acontece que o Anderson ainda continuava meio bolado e inventou de querer cortar aquela volta imensa, simplesmente varando mato em linha reta, mas havia um problema: O mapa nos mostrava um vale gigantesco com paredes escarpadas, resumindo, era uma furada dos infernos, mas como eu já havia dado uma mancada grande na saída do Rio Preto, fazendo a gente rodar em círculos, achei melhor nem dar muito palpite e deixar a navegação final por conta dele. E assim foi, nos enfiamos tentando descer aquela pirambeira, às vezes galgando alguns morrotes, mas sempre enfrentando uma vegetação entrelaçada por galhos retorcidos. Mas o pior ainda parecia estar por vir quando nuvens negras começaram a se formar, ameaçando desabar sobre nossas cabeças. A tarde já ia longe, sem água a boca secou rapidamente e cada vez parecíamos nos enfiar num caminho sem volta. Eu nem dava mais palpites, só ficava de olho no traklog do meu celular, tentando ver se pelo menos estávamos indo para o rumo certo, mas já temia que poderíamos ficar na mão porque a bateria já agonizava. O Anderson ia à frente e eu já me arrastava atrás, pensando na possibilidade de encontrar um pouco de água e vislumbrar algum lugar que pudéssemos esticar nossa barraquinha e finalmente depois de despencarmos barranco abaixo, um veio de água salvador foi encontrado e quando já estudávamos seguir descendo o vale, que seria sem dúvida uma estupidez, encontramos um rabo de trilha que seguia em direção a trilha principal. Fomos seguindo por esse caminho, mas ele próprio se perdeu no meio do nada e aí toca a gente varar mato no peito novamente até que por um golpe de sorte fomos interceptar uma trilha antiga no degrau da montanha e por ela seguimos quase que noite à dentro até finalmente encontramos sinal de civilização, numa casa em construção, mas bem ao lado da grande trilha que nos levaria de volta para o povoado. Estávamos realmente gastando as últimas forças, já utilizando as energias reservas e quando o Anderson deu a ideia de ao invés de acampar na casa em construção, seguirmos caminho até o povoado, não tive nem forças para dizer não, apenas me levantei e como um boi que segue caminho para o matadouro, me pus a caminhar e deixar que minhas pernas me carregassem trilha abaixo, perdendo altitude no meio da floresta escura e sombria. ( FECHADOS) Aquele final de caminhada, descendo aquela trilha tradicional, levou uma eternidade, mesmo que não tenha passado de míseros 50 minutos e logo que passamos por uma cachoeirinha que desaguava à beira do caminho, fizemos uma curva e desembocamos numa estradinha de terra e ganhamos o estirão final até que de supetão demos de cara com o povoado. Logo na primeira casa um cachorro barulhento anuncia a nossa chegada e dela saí um senhor que nos interpela, perguntando de onde surgimos. Ao saber que estávamos vagando há 4 dias pela Serra do Espinhaço e que ele era o primeiro rosto humano que víamos nesse tempo todo, imediatamente nos chamou para dentro e nos convidou para um banho, enquanto sua esposa preparava uma janta. Uma hora atrás estávamos perdidos no limbo da floresta e do Cerrado mineiro e agora aquela família nos recebera como filhos sem nunca ter nos vistos antes e até então, surpreendentemente, o cara que ao contrário de mim que já está acostumado a chorar diante da beleza ou das agruras da vida, desabou emocionalmente. Aquele ser de aparência forte e até meio turrão em alguns momentos, não segurou as lagrimas, era o jeito que o Anderson Rosa arrumou para agradecer por nós dois as boas vindas dos “nativos” de FECHADOS. A família que nos acolheu arrumou um lugar para que pudéssemos passar a noite e logo quando o sol nasceu corremos para o centrinho do vilarejo a fim de pegar o único ônibus que por ali passava, na verdade só existem 3 ônibus por semana que liga Fechados à Santana do Pirapama e ele vai recolhendo de tudo pelo caminho, desde gente até animais, sacos de farinha, mantimentos, vai cruzando uma infinidade de pequenas áreas agrícolas, lugares onde o progresso passou bem longe e mais de 3 horas depois desembarcamos no seu final, bem na hora de pegarmos um ônibus para Sete Lagoas e de lá para a capital mineira, onde conseguimos um carona por aplicativo até São Paulo. Nossa passagem pela Serra do Espinhaço, nesses 10 dias que lá estivemos, serviu para que tivéssemos uma noção clara das riquezas naturais que se escondem nesse rincão mineiro, uma natureza ainda em estado bruto que se mantém preservada e longe das farofas humanas que ultimamente vem entupindo as trilhas e montanhas desse país. Fomos lá com o intuito de fazer uma bela caminhada pelos campos floridos do cerrado mineiro e trouxemos na bagagem uma grande aventura, simplesmente porque num determinado momento resolvemos jogar no lixo roteiros pré-estabelecidos e deixamos nos levar pela curiosidade e pela vontade incontrolável de nos jogarmos atrás do novo e do desconhecido. Divanei Goes de Paula – outubro/2018
  10. EXPEDIÇÃO BRACINHO (Anderson, Dema , Trovo , Divanei , Decio e Régis ) ......................“Aquilo parecia mesmo ser uma estupidez. Não que eu já não tenha feito uma infinidade de coisas estupidas nesses quase 25 anos de aventuras, mas com a idade a gente começa a tentar ficar longe dessas ações que possam nos levar a um acidente do qual talvez não tenhamos mais como nos recuperar. O Daniel Trovo, mestre das insanidades aquáticas, já havia inaugurado o salto, despencando no poço gigante sem jamais ter estado lá, o Dema também confiou nele e se jogou sem nem pensar e até o tio Décio, olha só, já se encontrava no fundo do poço. Nem me pareceu tão alto em um primeiro momento, mas olhando bem da beirada da cachoeira, me deu uma embrulhada no estômago, mesmo assim os meus medos não advêm da altura, mas da possibilidade do que poderia se esconder no fundo do poço. Jogo minha mochila que explode na água e ao longe vejo o sorriso dos outros dois companheiros de expedição (Rosa e Régis) que optaram pela sensatez e desescalaram as paredes da queda d’água e foram fazer as fotos bem longe daquela loucura. Tomo distância, dou uma corrida e paro imediatamente. Melhor não, melhor deixar pra lá, mas lá de longe a plateia grita freneticamente para eu não desistir, então resolvo que tentarei saltar usando o patamar 1 metro mais abaixo, não muda nada, mas as condições psicológicas me diz que poderá ser menos pior, mas ao me aproximar ainda mais a fim de baixar para esse patamar é que observo uma língua de pedra que se estende da parede em direção ao poço. DEUS ME LIVRE! Se eu escorregar o pé de apoio vou me esborrachar naquelas pedras lá embaixo. Um misto de ansiedade toma conta de mim, eu quero ir, mas o medo me puxa para trás, faço menção de desistir de vez, mas a plateia grita pula, pula e eu já perdi o rumo, com o corpo tomado pela adrenalina que já invadiu cada centímetro do meu corpo. Quer saber de uma coisa: FODA-SE, LÁ VOU EU!”.................. ( rio Bracinho e sua água incrivelmente transparente) Poucos lugares são tão incríveis nesse país quanto a Serra do Mar de São Paulo, não só por conter uma das florestas mais exuberantes do mundo, mas pelo fato de estar muito perto de uma das maiores cidades do planeta e ainda esconder no seu interior selvagem uma infinidade de biodiversidade que talvez não se encontre em nenhum outro lugar do Brasil. Por incrível que pareça, são lugares desconhecidos até mesmo de pesquisadores, moradores locais e exploradores modernos, lugares que passaram despercebidos justamente pelo seu isolamento e pela dificuldade para serem penetrados. Já há mais de meia década que a gente vem se dedicando a revelar esses paraísos perdidos, principalmente rios intocados, onde o ser humano ainda não espezinhou e até mesmo os famigerados caçadores e palmiteiros, mal conseguiram aranhar, justamente pela dificuldade técnica de acesso, mas ultimamente até parte do nosso grupo vinha tendo uma certa resistência porque as expedições acabaram por ter que se distanciar cada vez mais, se enfiar cada vez mais num mundo desconhecido e sem a certeza de que poderia nos revelar algo que realmente interessasse para parte do grupo , que sempre ia em buscas das grandes cachoeiras perdidas nos rio selvagens. Depois de 2 expedições que revelaram o interior de grandes rios de uma certa região, meus olhos acabaram por se voltar para alguns rios menores, rios com desníveis bem inferiores aos anteriores como o Lourencinho, o Itariru , mas a descida do Pedreado ,ocorrida esse ano, me disse e me ensinou que se valer de desnível de rio para saber se vale a pena ou não empreender uma expedição era uma grande bobagem, mesmo porque o PEDREADO( Braço Grande) nos surpreendeu positivamente, mas mesmo assim, uma grande parte do grupo, que obviamente se recusou a encarar o rio citado acima, ainda não havia se convencido que tanto esforço e perigo poderia mesmo valer a pena. ( Rio Pedreado) O Vale do Rio Bracinho levou alguns anos até para ser localizado no mapa devido ao seu isolamento por baixo da grande floresta e das grandes montanhas que o cercava e o espremia, era quase impossível saber aonde realmente começava a sua nascente e só depois de eu recorrer a diversos mapas e cartas antigas foi que aos poucos ele foi se revelando e juntamente com o Décio Marques, fomos juntando um quebra-cabeças até que conseguimos chegar a um consenso e nos pôr a planejar a expedição para valer. O rio apresenta duas nascentes distintas em forma de “Y”, sendo a nascente da direita (de quem desce o rio) a menor e a esquerda a maior, as duas se convergindo para formar o “Grande Bracinho”. Pois bem, saber por onde corre essas duas nascentes era o “x” da questão, porque era um emaranhado no meio de uma floresta gigante e longe, muito longe de qualquer lugar habitado e com acesso motorizado. Os estudos nos levaram a escolher 2 pontos de acesso, uma em cada ponta dessas nascentes, sendo a nascente mais curta distante uns 20 km de Juquitiba e a mais longa uns 30 km. No final chegamos à conclusão que pelas condições da estrada, a vertente mais curta poderia ser a mais interessante porque nos daria a possibilidade de fazer esse caminho usando um transporte que nos deixaria a pelo menos umas 4 horas de caminhada do rio varando mato, não era nada animador, mas era o que tínhamos , era ao que poderíamos nos apegar se quiséssemos realmente tentar colocar aquele rio no mapa. ( inicio Bracinho em amarelo) A única maneira de termos uma chance da expedição dar certo, era irmos antes lá e tentarmos primeiro achar o rio e só depois montarmos uma equipe e para isso tracei uma linha no mapa me valendo das curvas do terreno para podermos chegar ao rio com um esforço o menor possível. Traçada a estratégia inicial, coube ao Décio e aos meninos Régis, Potenza e Rafael, a missão de inaugurar os trabalhos e num sábado qualquer, se dirigiram para a região e depois de rodarem por mais de 10 km, abandonaram o carro num sítio à beira do caminho e seguiram a pé, desvendando tudo que podiam e cinco ou seis horas depois de se lascarem num mato sem cachorro, conseguiram avançar muito, chegando quase nas bordas da serra, a menos de 2 km de atingirem a calha do rio. Fizeram um excelente trabalho, mesmo não conseguindo descobrir o rio, porque marcaram todo o caminho no gps e agora era chegado a hora de montar o time, encostar alguns caras na parede e força-los a sair de cima do muro definitivamente. Feito o convite às pessoas que sempre confiávamos que dariam conta da empreitada, não tardou para aparecer os desdenhamentos em relação a qualidade técnica do Rio e quando citei que o Décio Marques era presença garantida na expedição, foi aí que o grupo se desmanchou feito uma torre de cartas. O Décio sempre foi uma pessoa querida de todos, mas era considerado um pé frio, onde ele pisava era certeza de fracasso, ou chovia demasiadamente, ou perdíamos a trilha, ou aconteciam trombas d’água que beiravam tragédias, enfim, absolutamente todas as empreitadas que ele se fazia presente haviam dado errado, mas claro, essa era mais uma entre várias outras desculpas que fizeram com que parte do grupo pulasse fora, mas como eu sempre digo, mais vale um grupo com pouca experiência motivado do que gente sem tesão pela exploração e foi assim que o grupo foi se formando, por gente engajada no projeto e verdadeiramente comprometida em ir lá naquele vale desconhecido fazer história . Partindo de Sumaré, no interior Paulista, eu e o meu velho amigo Prof. Dema, que há muito tempo não nos acompanhava nessas expedições, desembarcamos na capital do Estado a fim de nos encontrarmos com o grupo na estação Faria Lima do Metrô e assim que todo mundo chegou, começamos a via sacra interminável para chegar à Juquitiba, onde uma kombi já nos esperava para nos levar por uns 15 km , lugar que a estrada acaba ou fica quase que intransitável e só as pernas é que servem de meio de transporte. Depois de deixar Juquitiba, nosso veículo retorna e volta pela Br, sentido norte (SP) e uns2 km depois deixa a rodovia e entra a direita na Estrada Amélia Correia F. Guimarães e vai seguir sem pegar nenhuma bifurcação até que essa estrada passa a se chamar Estradas das Senhorinhas e quase 4 km depois passa por cima da ponte do Rio Juquiá, segue sentido sul sempre pela principal e quase 9 km depois o caminho acaba, hora de saltar do veículo e nos pormos a caminhar. A madrugada já ia alta e o feriado da República já se fazia presente e não deu nem 15 minutos de caminhada para abandonarmos a então estradinha e nos enfiarmos à direita num caminho estreito que outrora fora também uma estrada e que hoje não passava de uma trilha que ligava uma estrada à outra e que se metia dentro de uma floresta de reflorestamento e ia subindo até 20 minutos depois cruzar por cima de um riacho e desembocar numa outra estrada com ares de abandono e virarmos para esquerda para aí então caminhar por mais meia hora e adentrarmos à direita numa casa abandonada à beira do caminho, casa que foi apelidada pela primeira incursão de reconhecimento como CASA DAS BOSTAS por causa dos excrementos de animais que ali encontraram. Da Casa das Bostas fizemos nosso lar pelo resto daquela madrugada, uns amarraram suas redes nas velhas pilastras e outros resolveram se espalhar pelo chão da varanda com seus sacos de dormir já que o interior da casa, em ruinas, não gerava confiança, parecendo que o forro desabaria há qualquer momento. Foram meras 4 ou 5 horas de sono, tempo insuficiente para um descanso merecido, mas como a jornada era longa, tivemos que pular logo cedo e dar início àquela expedição. Oito da manhã as pernas já foram postas em movimento e menos de meia hora depois já nos vimos diante do Braço Grande (Rio Pedreado), justamente o rio que havíamos descido por 4 dias na última expedição, mas ali ele era mansinho e inofensivo e sem demora nos convidou para um gole d’água e como ninguém estava a fim de molhar as botas logo pela manhã, tratamos de passar nos equilibrando sobre uma árvore que havia caído, formando uma ponte de um lado à outro do lindo rio. Rio Braço Grande ( Pedreado) Atravessado o rio, o que seria uma estradinha, se transforma em trilha, mesmo que o corte aparente no barranco ainda não tenha desparecido por completo. Agora vamos seguindo mais ou menos paralelo às suas margens, aproveitando a curvas suaves do terreno em meio a floresta fechada e vez por outra vão surgindo alguns vestígios de antigas construções que a mata não tarda em tragar por completo. Essa é uma área praticamente desabitada e somente uma única habitação junto ao rio é que parece ser frequentada vez enquando, mesmo assim alguns rabos de trilha ainda sobrevivem na região, fruto deveras de caçadores e palmiteiros que infelizmente ainda deitam e rolam na periferia dessa selva fascinante. A caminhada vai se seguindo, sempre tentando acompanhar o traklog feito pela primeira investida, que por sorte conseguiram localizar essa antiga trilha que nos levaria praticamente bem perto das bordas da descida da calha do Rio Bracinho. Algumas bifurcações vão sendo descartadas porque não seguia na direção desejada e cada vez mais nos víamos afundados dentro da floresta e quando a trilha acabou definitivamente, foi hora de começarmos a nos preparar para varar mato no peito, acabou a moleza. Nas discussões fervorosas antes da expedição, havíamos chega à conclusão de que ao nos posicionarmos no ponto onde estávamos, conseguir descer até o Vale do Bracinho seria tranquilo, era só ganhar uns 500 metros de montanha varando mato e já começar a descer, mas de repente começamos a rodar em círculos e quanto mais andávamos mais nos víamos perdidos no meio da floresta, mesmo com dois gps em operação. Acontece que quando ganhávamos um terreno favorável nos empolgávamos e esquecíamos de ir acompanhado a progressão no gps e quando víamos já havíamos andado muito para o lado errado. Corrigíamos a direção e voltámos a nos empolgar, tanto que em um certo momento caímos na calha de um afluente e demos como certo ser um tributário do Bracinho e fomos descendo feitos umas bestas cegas até que alguém gritava que novamente estávamos indo para o lado errado e tínhamos que corrigir o rumo novamente, ás vezes tendo que voltar a escalar os barrancos e enfrentar bambus no peito para desespero do Décio que já arrastava 100 m de língua no chão. O tempo foi passando e a previsão de alcançar o rio principal antes do meio dia já havia se esgotado faz tempo. Mais um morro foi subido e a tal da bandeirinha(plotada no mapa) que assinalava a descida para o rio nunca que era encontrada O Décio continuava como cu de tropa e de longe xingava a mãe de todo mundo, “Pitoco véio”( apelido que eu chamava carinhosamente um dos integrante) só fazia dar risada, ainda que ele fosse o desgraçado também responsável pela navegação, eu e Trovo que seguíamos de perto o outro navegador, tentávamos ajudar, mas teve uma hora que tivemos que dar uma basta porque já havíamos rodado mais que pião da casa própria , então nos juntamos com o Anderson Rosa e decidimos não desgrudar o olho do gps até que a bandeirinha dos infernos fosse localizada e quando a encontramos foi hora de dar uma parada para respirar um pouco e esperar que todo o grupo se juntasse novamente, comesse alguma coisa para a cartada final. Menos de 2 km nos separava do nosso grande objetivo e agora com os nervos no lugar e os olhos grudados no gps, ganhei a dianteira e fui arrastando mato no peito, procurando com os olhos o melhor caminho e sempre atento aos rumos dado pelo nosso navegador e quando ganhamos uma grande calha de onde um córrego nascia e ia se enfiando nas pirambeiras, foi aí que tivemos certeza que o caminho não teria mais volta. Fomos desescalando o riachinho que aos poucos foi crescendo e se avolumando, tanto que foi necessário passar por grandes desníveis e tomar cuidado para não escorregar e pontualmente às 14 horasnossos olhos se maravilharam com o RIO BRAÇINHO, a lenda , o mito, estava finalmente descoberto, hora da comemoração e do alivio pela primeira conquista da expedição. Durante todo o estudo do projeto eu havia cantado a bola de que aquele rio selvagem seria formado por águas incrivelmente cristalinas por nascer totalmente isolado dentro da floresta e por receber outros tantos de afluentes igualmente isolados, mas ver a materialização de todos os estudos se transformar em realidade é realmente gratificante. Logo de cara somos apresentados a um rio que mais parecia um espelho, não muito grande por ser apenas um dos grandes braços formadores, mas o sorriso no rosto de cada integrante daquela equipe traduzia o quão feliz estávamos e cada um demonstrava sua satisfação de um jeito, mas uma coisa não foi diferente, todos largaram suas mochilas quando o Trovo que, havia subido por 20 metros até uma curva, gritou que havia uma cachoeira linda um pouco mais acima. Era a primeira surpresa que o rio iria nos proporcionar durante os próximos 4 dias de expedição e aquela queda d’água foi o estopim para que a gente se unisse de vez, lavasse a alma, esquecesse os perrengues passado no acesso ao rio e tivéssemos a certeza de que a aventura agora estava pronta para começar. Alguns não se aguentaram e já se jogaram nos poços junto as duas cachoeiras, outros acharam que ainda não era hora de ficar com a roupa encharcada e logo que todos estavam satisfeitos, juntamos o grupo para uma repassada final no seguimento da expedição. Tirando o Décio que estava visivelmente com uma mochila muito acima do que deveria, os outros pareciam estar nos conformes e então combinamos de tentar interceptar o grande afluente ainda naquele dia e tentar acampar na sua junção quando os dois rios dão vida ao GRANDE BRACINHO. No início é um riacho raso e até meio bucólico, correndo dentro da floresta sombreada com pequenas cascatas decaindo em singelos degraus e vez por outra algum poço mais fundo era cruzado pela cintura, mas logo ele voltava a ficar com pedras expostas. A medida que avançávamos o rio ia ganhando mais alguns pequenos afluente pelo caminho. É um caminhar gostoso, descompromissado, onde a gente vai conversando descontraidamente e não tarda para descobrirmos as pegadas enormes de antas nas prainhas de areia que se formam às margens e também as marcas deixadas por grandes felinos, onças que devem desfilar sossegadas por esses vales encantadores. A caminhada vai seguindo sem maiores problemas, as primeiras quedinhas vão aparecendo e logo à frente um pequeno cânion estreito nos dá as boas-vindas, nada que pudesse nos custar grandes esforços para ser transposto , mas como eu ainda não estava a fim de me molhar, optei logo por testar minhas habilidade de “grande escalador” de paredes lisas na serra do Mar e me agarrei no barranco do lado esquerdo e fui cravando minhas unha nas agarras que me saltavam às vistas e logo o que eu temia aconteceu, uma agarra podre não aguentou o meu peso e despenquei feito jaca podre , indo parar no fundo do poço, mas antes quiquei numa pedra exposta e bati violentamente com o tornozelo nela. Na hora, meio assustado com a queda inesperada, não senti nenhuma dor, mas passado um certo tempo depois, mal estava conseguindo caminhar e tive que arrastar perna a base de anti-inflamatório até o fim daquela expedição. Depois desse mergulho sem querer, estava também inaugurada definitivamente o molhaceiro nessa travessia, porque a partir daí todos já foram logo se jogando em tudo que é poço e a farra aquática se faria presente até o final do dia, onde outras infinidades de pequenos poços foram nadados e pequenas cachoeiras transpostas, mas acontece que nesse primeiro dia , sem dormir quase nada na noite anterior, pouco depois das 16 horas da tarde já tratamos logo de caçar um lugar decente para acampar, já que vimos que seria mesmo impossível cumprir o plano de tentar acampar na confluência dos rios. Nessas expedições devido às incertezas, sempre optamos em usar redes com toldos para os acampamentos e discutimos isso durante vários meses, mas o Décio ainda achou melhor carregar uma barraca trambolhuda, então tivemos que ficar à mercê de arrumar um lugar que pudesse comportar também uma barraquinha e por sorte nessa travessia, foi possível sempre conseguir lindas áreas de camping e foi numa dessas áreas, plana e com várias árvores grossas à disposição, que jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado àquele dia de atividades intensas , hora de tirar a roupa molhada e ir cuidar da janta e da montagem das nossas camas de mato. Quase 12 horas de sono tem o poder de revigorar uma equipe que no dia anterior estava meio destroçada e por incrível que pareça, a noite foi tranquila e sem chuvas, aliás, a previsão do tempo era de chuvas intensas para os 4 dias de expedição e até o momento nenhuma gota de água havia caído do céu e se o sol não foi intenso, pelo menos as temperaturas se mantiveram altas durante o dia anterior. Levantar da rede depois de uma noite bem dormida não é problema, mas ter que logo pela manhã vestir roupa molhada é algo que dá uma chacoalhada na gente, mas também pouco importa porque a primeira coisa, nos primeiros metros de caminhada, já somos obrigados a nos jogar na água fria do rio e sentir o poder da nossa audácia de querer desbravar rios selvagens, faz parte do ofício e o sofrimento inicial já transforma o dia logo pela manhã numa resiliência a ser suportada. Nesse segundo dia os poços vão se sucedendo de uma tal maneira que vão faltando adjetivos para usar. Logo de cara o rio estreita e uma nova garganta tem que ser cruzada, descida até um ponto em que a gente consiga se jogar de cima dela para dentro de mais um poço profundo em meio as suas corredeiras e sair nadando rapidamente para escapar das águas ainda geladas, por sorte, praticamente todo mundo está servido de coletes e isso ajuda muito na flutuabilidade e numa segurança maior, mas algumas vezes o capacete acaba por ser empurrado pela mochila, colocando alguns em dificuldades, melhor mesmo soltar a mochila ou tirar o próprio acessório da cabeça depois que já se posicionou em segurança dentro do poço. O rio vai alternando entre ser mais raso e mais profundo quando afunila um pouco e quando chegamos a outro grande poço de águas incríveis, cruzamos nos valendo de troncos, onde alguns passaram arrastando a bunda até que, sem poder se equilibrar, acabam indo parar no fundo do rio e nem dá para ficar chateado por ter sido incompetente para passar sem cair porque logo a seguir não há como fugir e é chegar no próximo poço profundo e já se pinchar de novo e para não perder o costume, a sequência é mais do mesmo quando chegamos a uma cachoeirinha. Os mergulhos são divertidíssimos e sair nadando numa água daquelas vai dando uma sensação de prazer gigantesco, é um salto e um orgasmo prolongado. Depois dessa sequência de diversão aquática o rio arrefece um pouco e volta a ser mais raso e se estabiliza e já vai dando indício de que estamos bem perto do seu grande afluente, a outra perna que vai dar corpo e alma ao Bracinho e numa curva do caminho, um grande poço, um poço sensacional nos dá as boas-vindas e marca nosso encontro definitivo e os ponteiros do relógio já marcavam quase onze horas da manhã. Aquele era mesmo um lugar incrivelmente belo, mas nos chama atenção uma clareira com um vestígio de acampamento de caçador ou de palmiteiros. É claro que não vieram pelo rio, muito provavelmente alguma trilha antiga poderia ter dado acesso até ali, mas também estava claro que há muitos anos ninguém pisava naquele barraco de lona devido ao seu abandono. A dúvida é saber de onde partiria a trilha, mas uma coisa era certa, o abandono já indicava que seria uma caminhada muito dura até chegar ali e talvez essa trilha nem mais existisse, o certo é que a partir dali a expedição iria entrar numa região selvagem, mais selvagem ainda , estávamos prestes a ficar cercado por montanhas altíssimas dentro de um vale do qual não haveria a menor possibilidade de escapar caso algum acidente acontecesse , estávamos por nossa conta, ninguém do mundo externo saberia do nosso paradeiro, entravámos num portal sem volta, rumo ao desconhecido mundo selvagem da Serra do Mar Paulista. Abandonamos o encontro do rio a sua própria sorte e seguimos nossa labuta, que para variar já nos levava para mais grandes poços profundos e de águas esverdeadas. Mais à frente outra queda d’água é vencida tendo que usarmos nossos freios traseiros para conseguir passar sem se esborrachar ou cairmos dentro das marmitas que se formavam na queda da cachoeira. A sequência é formada por uma infinidade de outros poços e aí a gente vira criança e deixa que o rio nos carregue como bem entender, somos passageiros sem controle, vamos vendo a vida passar nas belezas daquela floresta exuberante e quando o rio cansa de nos dar carona, somos lançados imediatamente dentro de um grande lago e lá ficamos por um bom tempo para reabastecer o estômago e tomarmos folego. Nesse segundo dia o terreno começa a ficar com um desnível maior e as pequenas gargantas não tardam em aparecer e deixar o rio novamente afunilado e quando as águas resolvem saltar de cima das pedras, lá vamos nós nos precipitando para dentro do rio e essa brincadeira de jogar a mochila e saltar atrás faz a festa da “molecada” e deixa o clima da expedição divertido, fazendo com que o tempo passe sem nem percebermos. Essa Cachoeira da qual saltamos não era muito alta, mas aos seus pés um poço dourado nos deixa de queixo caído. Aquilo era impressionante, era algo de uma beleza estonteante, mesmo depois de anos e anos de exploração selvagem, poucas vezes havíamos visto um poço com tamanha formosura, então nos sentamos à sua beira e apreciamos seu espetáculo, para nunca mais esquecer aquelas imagens. O dia vai passando numa velocidade impressionante e quando todos já estavam inchados de tanto nadar, grandes quedas apareceram e aí tivemos que parar e analisar qual seriam nossos próximos passos. Aquela era uma bela cachoeira, mais belo ainda era o poço que se formava na sua base de águas escuras e provavelmente muito profundo e tínhamos duas escolhas à fazer: tentar desescalar pelo lado direito, mesmo com um gasto de energia grande ou simplesmente dar um salto alucinante. Eu já havia passado a mão nas minhas tralhas e já estava me dirigindo para acompanhar o Rosa e o Régis que mal olharam para a possibilidade de saltar, já que notaram logo que aquilo era meio insano, mas quando o Trovo chegou tive que recuar para ver que sandice ele iria aprontar dessa vez. Não era muito alto, mas pular de quase 10 metros em um lugar que jamais havia visto na vida, sem saber o que se encontrava no fundo do poço, já beirava a irresponsabilidade. É, mas ele saltou! Jogou a mochila lá de cima e pulou e foi vendo ele não chegar nunca na água que nos deixou mais agoniados e quando ele explodiu lá embaixo e sumiu por um tempo, aí só ficamos aliviados quando ele submergiu dando aquela gargalhada de sempre. Depois disso não teve jeito, o Dema também se lançou atrás e não demorou muito, o Décio também já estava despencando para o fundo do poço, mas eu não, eu não estava a fim de participar daquilo, ia mesmo apanhar minha mochila e varar mato, mas o grito da platéia que já havia se posicionado nas pedras do outro lado do poço, acabou por mexer com meu brio. Não que eu já não tenha pulado de lugares muito mais alto, mas quando a gente chega a uma certa maturidade começamos a analisar melhor nossos atos e a perceber que se um acidente acontecer naquele vale, longe, muito longe de qualquer lugar habitado e sem a possibilidade de algum socorro, faz com que a gente sempre opte pelo bom senso. Mesmo assim resolvi que iria saltar. Fui até a borda da cachoeira e aí vi que era mais alto do que imaginava, mas atirei minha mochila e dei aquela corrida para pegar impulso, mas refuguei, me senti o próprio Baloubet du Rouet. Analisando melhor, vi uma língua de pedra que se estendia da parede em direção ao poço e pensei: se meu pé de apoio escorregar nessa merda, vou me esborrachar lá embaixo e não vai ser bonito de ver, melhor enfiar o rabo entre as pernas e deixar isso para lá. Mas foi aí que a multidão (na verdade dois desgraçados que arregaram, rsrsrs) ficaram me instigando a pular e no impulso dei aquela corrida e deixei que a força “g” fizesse seu papel e quando meu corpo explodiu para dentro do poço, me senti um míssil adentrando na escuridão aquosa até que outra força me jogasse de volta para a superfície. Estou vivo, agora é nadar para longe da cachoeira até atingir as margens do lago e com um sorriso enorme no rosto, apanhei minha mochila e dei várias braçadas até me sentir em segurança, feliz da vida com o andamento daquela aventura. Depois de descermos por mais uma garganta estreita e escorregadia, num estudo rápido, já percebemos que descer pela esquerda poderia ser o caminho mais ideal, mas foi uma descida um tanto exposta e quando chegamos aos pés delas alguns não aguentaram e tiveram que ir se banhar perto da sua queda, uma cachoeira com salto bonito que depois corria por uns 80 metros até cair em mais um poço esverdeado e profundo e para não perder o costume, sr. Trovo , um espécie de Aquaman tupiniquim já inaugurou mais um salto de cima da queda e foi parar de novo no fundo do rio e como ninguém queria ficar fora da diversão, um a um fomos nos livrando das nossas mochilas e pulando também: Meu Deus, a vida poderia ser feita só de saltos ! O dia já ia escapando pelos dedos e a gente não conseguia ficar seco, quando pensávamos que o rio daria um tempo sem termos que pular em algum poço, logo aparecia outro e mais outro e cada um mais bonito que o outro, mas as 16 horas, talvez um pouco mais, a gente já começou a procura um lugar para acampar e numa margem plana, junto a uma prainha de areia, vislumbramos a possibilidade de montarmos ali nossas redes e depois que todos deram o aval, cada qual foi cuidar de preparar sua casa. Agora éramos um grupo muito diferente daquele do primeiro acampamento na noite anterior, estávamos muito mais descansados e muito mais alegres pelo dia altamente produtivo que tivemos, porque foram cerca de 8 km dentro do rio, um recorde, jamais havíamos feito um percurso tão grande em nenhum outro rio. No acampamento acabamos meio que nos juntando para compartilhar coisas, Eu o Dema e o Anderson dividimos o fogareiro e cozinhamos juntos, isso serviu para que otimizássemos o peso, inclusive eu e o Dema também dividimos o toldo que cobriu nossas redes, montando-as em estilo de beliche, usando apenas duas árvores para as duas redes. O Décio como já é sabido, trouxe barraca e teve que se contentar em montá-la na beirada do rio sobre uma prainha de areia, ainda bem que foi mais uma noite sem chuvas senão o nosso amigo teria corrido o risco de navegar rio abaixo dentro dela. Jantamos e fomo dormir muito cedo, bem antes das sete da noite e foi realmente uma noite incrível, mas quando me dei conta ao amanhecer, meu corpo estava coberto por umas 300 picadas de carrapatos e enquanto escrevo esse relato, ainda me coço todo, lembranças de um paraíso guardado por todos os bichos inimagináveis, inclusive esses indesejáveis. Todos prontos para mais um dia de aventuras, deixei uma capsula de registro pendurara numa árvore com o nome de todos os expedicionários e já fomos obrigados a nos enfiarmos dentro do rio para mudarmos de margem e sem muita demora, nos enfiamos em mais uma garganta estreita e sem ter como escapar pela margem pulamos na correnteza e fomos arrastados por um bom pedaço, chacoalhando como se dentro de lavadora de roupa estivéssemos. Às vezes eu não sei porque fazemos isso, principalmente quando não controlamos mais nosso destino, mas quando tudo dá certo e somos devolvidos são e salvos, damos muita risada e queremos repetir, mas num certo momento a adrenalina deu lugar para o medo logo quando caímos numa sequência violenta onde as quedas eram um pouco mais altas e o refluxo teimava em levar a gente para o fundo do rio para depois cuspir a gente para fora feito fumo vencido. Essas sequências de corredeiras foram realmente incríveis e por isso mesmo, por estarmos sempre envolvidos com algo que nos fazia perder a noção do tempo, começamos a perceber que o dia ia passando numa velocidade inimaginável. Quando aquela sequência de corredeiras deram um tempo e o rio voltou a se estabilizar por um tempo, foi a vez de mais poços esverdeados aparecerem e mesmo com o rio um pouco mais lento, parte da galera resolveu poupar energia e seguiram boiando nas aguas claras porque mesmo sem aquele sol exuberante, a temperatura se mantinha muito agradável e as chuvas previstas pareceriam cada vez mais distantes. Os cenários eram os mais belos possíveis e quando parecia que a paisagem não mudaria, logo éramos surpreendidos com tonalidades de águas diferentes, ás veze tão transparentes que o fundo dos poços parecia conter pouco centímetros quando na verdade eram metros de profundidade e numa curva demos de cara com uma rampa e a descemos pela esquerda e essa rampa nos jogou diretamente para mais um poço, dessa vez com quase uns 100 metros de tamanho , um gigante profundo que fez com que tivéssemos que nadar por um bom tempo. A gente apostava que os desníveis do rio haviam acabado e até o final enfrentaríamos apenas leves corredeiras e a caminhada seguia tranquila e serena, hora parávamos para beliscar alguns petiscos, hora apenas nos sentávamos à beira dos grandes poços para apreciar suas belezas e quando não esperávamos ela cruzou o nosso caminho : O rio começou a ficar rápido novamente e várias pequenas cascatas iam dando as caras e de repente o rio deu em salto no vazio e nos revelou uma grande queda que ia de um lado ao outro, quase como um pequena Catarata se jogando num lago profundo. Ficamos boquiabertos, era realmente uma grande surpresa encontrar uma cachoeira daquela. O Trovo e o Dema já lançaram suas mochilas de cima das cataratas e saltaram em meio as turbulências e se perderam no fundo das águas, os outros desceram pela esquerda aproveitando uma canaleta escorregadia mais fácil de descer e vendo que o pulo era seguro, parte do grupo deixou sua mochila sobre as pedras e também foi brincar de pular de cima da queda d’água. Depois dessa cachoeira nada mais pareciam nos surpreender, o rio se transformou novamente em uma grande garganta e entre descidas memoráveis, escalávamos as paredes laterais e nos pendurávamos nas bordas escorregadias e se algo desse errado, era mais um corpo a despencar dentro dos poços profundos e aí o expedicionário virava vítima de piadas e tiração de sarro. Às vezes cansados de tanto nadar, recorríamos para alguma margem mais plana, mas quando isso nos aborrecia por causa dos bambuzinhos, voltávamos para o rio e nos lançávamos novamente na água porque já éramos praticamente anfíbios. Mas quando as corredeiras violentas voltavam, aí a gente se divertia como se estivéssemos a brincar num parque de diversões aquático e foi em um tobogã natural que o Trovo quase se lascou todo. Eu e o Regis iamos à frente nessa parte do rio, mas quando vimos que o negócio ficou perigoso, resolvemos sair da água e tentar analisar melhor antes de nos jogarmos num paradeiro incerto, mas o Trovo vindo em seguida, logo pergunta se dá para descer e o Régis sem pensar direito disse:” Manda bala “. E lá veio o Trovo desembestado feito um tronco sem rumo e quando o Regis resolveu recuar e tentar avisá-lo que a descida era insana, não deu mais tempo e só vimos o Trovo dar tchauzinho para câmera e despencar feito pica-pau sem barril. O Trovo escapou ileso, mas foi por pura sorte mesmo. A fúria da correnteza o jogou violentamente contra a parede lateral e antes que sua cabeça rachasse ao meio nas rochas, a mochila o salvou colidindo primeiro. Foi um grande susto para todo o grupo e mais uma vez ficou provado que usar capacete nunca sairá de moda e infelizmente o Trovo é o único do grupo que ainda não aderiu ao equipamento de segurança, confiança que poderia ter lhe custado a vida ou ao menos um acidente grave. Aliás, capacete, colete e perneira, eram itens que já há muito tempo vinham fazendo parte das nossas vestimentas, justamente por causa de outros acidentes ou quase acidentes que havíamos enfrentado em todos esses anos de expedições selvagens. O rio arrefece um pouco e as quedas vão dando lugar a pequenas cascatas precedidas por poços gigantes e corredeirinhas mais suaves e aí vamos aproveitando para poupar energia, nos deixando ser carregado pelas águas que nos servem de transporte. Aquele cenário é de uma beleza fora do comum, as praias infestadas de pegadas de onças, antas, pacas e uma infinidade de pássaros e nas matas, pés de palmeiras Jussara indicam que aquele é um lugar realmente ainda intocado pelo homem e a gente se sente uns privilegiados de podermos estar num lugar daqueles. A caminhada segue num ritmo tranquilo e a boiação parece nunca terminar e aproveitamos para conversar, mas a cada curva era de praxe voltar a elogiar a qualidade das águas do rio e a capacidade que ele tinha de nos surpreender e ficamos pensando nos companheiros que fizeram corpo mole para não vir porque achavam que o rio não valeria a pena, tanto que vez ou outra, alguém mandava um recadinho maroto para dar uma alfinetada em quem havia desdenhado. O final do dia já se aproximava, mas ainda achamos que 16 horas era um tanto cedo para acampar e para nossa surpresa, o terreno que até então havia se estabilizado, acabou dando lugar para uma garganta enorme, aliás, a maior garganta de todo o percurso. Uma grande cachoeira despencando no vazio e arrastando um turbilhão de água para dentro de um cânion. Não havia como descer por dentro do rio desescalando pedras, então a única maneira foi nos embrenharmos no mato por um breve momento, ganhar altura e voltarmos a descer na diagonal até interceptarmos o fundo do vale onde a cachoeira finalizava seu curso se jogando em mais um poço fenomenal, onde mais uma vez nos jogamos de cima das pedras e fomos nos deleitando sobre suas águas, nadando e vendo a pedras passarem no seu fundo transparente. O rio resolve ficar raivoso novamente e a gente já começa a pensar seriamente em achar um lugar para acampar, mas não demora nadinha para as águas resolverem se rebelar de vez e saltarem de cima de uma grande laje para dentro de mais um impressionante poço. Anderson Rosa, Régis e Décio já não aguentam mais tanta água, mas o incansável Daniel Trovo nem pensa muito, atira a mochila de cima do barranco e se joga e atrás vamos eu e o Dema para mais um salto memorável, aproveitando o ingresso do parque aquático para brincar em todos os brinquedos. Seguimos agora por um rio mais afunilado, saltando sobre grandes pedras e quando dava, tentávamos caminhar pela margem na expectativa de localizarmos uma área mais favorável para montarmos nossas redes e numa dessas saídas do rio, caímos em um patamar com árvores frondosas espalhadas num terreno plano e aí não tivemos duvidas, atiramos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado aquele dia intenso de aventuras, aliás, foram 11 km de descida de rio em um único dia, um recorde absoluto até então, algo que já jamais havíamos feito em nenhum outro rio. Realmente foi um dia daqueles e a gente estava muito feliz por tudo estar dando certo até aquele momento, as chuvas passaram muito longe da previsão e o grupo se manteve unido o tempo todo. A montagem das redes é uma coisa que mesmo trabalhosa, acaba por ser divertida por fazer parte do processo da expedição, um aprendizado que vai se construindo pouco à pouco. A confraternização é um daqueles momentos únicos nessas expedições, serve para afinar o grupo, rever alguns erros cometidos e repassar os momentos incríveis passados durante o dia. Mas pela atividade intensa, mal terminamos de jantar e todo mundo já foi se esticar na sua rede, alguns desmaiam rapidamente, outros ainda ficam jogando conversa fora durante algum tempo. Enquanto eu também não apago, fico pensando como vales como aquele ainda conseguem se manter longe dos olhos humanos durante tanto tempo, mesmo estando nas barbas da maior cidade do Brasil, lugares onde naquele exato momento poderia estar sendo vigiado por onças incríveis e outros animais sensacionais e aí transbordo de felicidade de poder fazer parte de algo único na vida, ter a honra de poder fazer parte de uma expedição como aquela. O dia amanhece lindo e parece que logo pela manhã o sol já vai dar as caras e esse seria o nosso último dia de expedição e esperávamos não nos demorar muito para interceptarmos vestígio de civilização. Levantar da rede muito cedo não foi difícil, mas colocar roupa molhada é sempre algo que me aborrece, mesmo sabendo que os primeiros passos já serão por dentro do rio e de suas águas frias. Cada um tenta atravessar molhando o menos possível, mais tem logo uns tontos que desequilibram e vão para no fundo do rio e como dessa vez não fui um deles, me alegro de chegar apenas com a água perto da cintura, mas essa alegria não dura nem uma curva e logo o pelotão da frente já acha que deve se atirar no rio de cima de uma cachoeirinha para evitar a fadiga de ter que escalar paredes lisas para se manter ainda um pouco seco. Alguns de nós insiste em testar seus dotes de subidores de paredes e se equilibrando na ponta da unha, vão fugindo da água gelada e eu fui um deles, mas quando o caminho acabou e foi preciso trepar no barranco para rasgar mato no peito, toquei o foda-se e mergulhei nas profundidades do grande poço e já que estava no inferno, abraçar o capeta era o que estava tendo para hoje, nadei o mais rápido que pude, alternando entre longas braçadas e cachorrinho até me ver novamente as margens secas, são e salvo das baixas temperaturas matinais. Aquele era mais um poço impressionante, como todos outros que passamos nessa expedição e logo um tronco chama atenção por parecer muito com a estátua O PENSADOR, famosa de Alguste Rodim e aí não teve como não batizar aquele queda d’água como CACHOEIRA DO RODIM , nome dado , aliás, pelo Daniel Trovo. E essa cachoeira marca definitivamente a entrada da expedição na área já menos selvagem, mas nem por isso habitada. Ao Lado do grande lago, uma clareira abandonada há vários anos nos mostra que estamos mais perto da civilização e se tivéssemos nos apressado mais um pouco no dia anterior, talvez umas 2 horas, poderíamos ter acampado nessa clareira com um abrigo ainda em condições de ser usado. Dessa clareira saia uma trilha e foi por ela que seguimos por um bom tempo até localizarmos outro vestígio, um barraco destruído e sem uso também há vários anos pelo seu aspecto de abandono. A trilha se foi e o rio voltou a se tornar novamente nosso caminho e quando chegamos perto do que outrora fora uma ponte de troncos e que hoje também se encontra destruída, demos de cara com outra habitação, o BARRACO DO ESPANTALHO, esse sim parecendo ser ocupado de vez enquanto e por um golpe do destino, logo mais saberíamos quem seria o seu dono, de antemão não passam mesmo de rústicos casebres de madeira usados por caçadores locais. Até tentamos seguir por uma trilha que partia dessa choupana, mas logo ela se perdeu no mato e voltamos novamente para o rio por onde andamos por um bom tempo, arrastando nossas botas no areião e quando tentamos interceptar um casebre que eu havia marca no mapa de satélite, demos com os burros n’água e tivemos que bater em retirada, varando uns bambus e uns cipós quase que intransitáveis. Um olhar atento nos levou para outro rabo de trilha e a seguimos até que ela se transformou numa estradinha abandonada em meio a uma plantação de bananas igualmente esquecidas na floresta. Essa estrada nos devolveu novamente ao rio e o cruzamos novamente para interceptar a continuação do caminho e nos agarramos a ele por mais de uma hora até que finalmente perto das 13 horas demos de cara com a sede da FAZENDA BRACINHO, na verdade um amontoado de algumas casas simples, mas em um lugar muito bonito. Dessa casa surgiu o caseiro, que sem querer muita conversa, nos indicou o caminho para fora da fazenda e essa foi a primeira pessoa com quem conversamos em 4 dias de expedição selvagem. Agora tínhamos uma missão ingrata de caminhar por uma estradinha de terra por mais de 7 km, debaixo de um sol para cada um e antes mesmo que essa penitência começasse, ” tio Décio”, aquele das tralhas inúteis, sacou do fundo da mochila uma peça de salame e foi imediatamente ovacionado pela “multidão” ali presente que já sem comida há muito tempo, deram muitas vivas e juraram amor eterno ao nobre expedicionário. Pouco mais de 1 km nos leva até um amontoado de casas e ao passar por um laguinho, ouvimos o chamado de um casal que do alto de sua habitação queriam saber que diabos aquele monte de gente estranha, com roupa esquisita estava fazendo por aquelas bandas e enquanto contávamos nossa história, uma travessa de torresmo, pão, café e refrigerantes nos foram servidos e por causa disso resolvemos transformar o então breve conto em um romance Homérico até que cada buraco do estômago fosse preenchido. Para pôr fim àquela travessia um pouco mais cedo, já sabendo que a volta para casa seria uma via crucies, voltamos para a estradinha enfadonha a fim de alcançar logo a Rodovia Régis Bitencourt no meio da Serra do Cafezal para tentar algum transporte até Juquitiba ou o para qualquer lugar que nos deixasse o mais próximo possível de São Paulo e foi aí que, logo depois da ponte que atravessa por cima do próprio Rio Bracinho, uma esticada de dedo totalmente descompromissada fez uma caminhonete parar imediatamente. Dela desceu um homem meio desconfiado, mas a sua curiosidade não o deixou seguir em frente e quando contamos rapidamente de onde vínhamos, seu Flávio arregalou os olhos sem acreditar no que acabara de ouvir. Rapidamente deu um jeito de acomodar todo mundo no veículo, alguns dentro e outras na carroceria. Seu Flávio é um fazendeiro plantador de bananas ali da região e costuma caçar ali nas cercanias do Bracinho e quando soube que havíamos descido o rio das nascentes até quase sua foz, seus olhos brilhavam e seu espanto foi ainda maior quando soube que passamos pelo vale selvagem sem portarmos nenhuma arma para nos defendermos das onças e porcos selvagens. Ao chegarmos perto da Rodovia, fez questão de passar num boteco empoeirado para nos mostrar à outros amigos ali da região e ao sabermos que ele estava indo para capital, não nos furtamos em angariar uma carona pelo menos para os que moravam muito mais longe, no caso meu e do Dema que residimos no interior e para outros que teriam que trabalhar na segunda- feira. Infelizmente acabou sobrando para o Décio e para o Rosa a tarefa ingrata de voltar para São Paulo pegando uma infinidade de ônibus, mas para nós que conseguimos a carona, acabou por ser uma viagem tranquila e divertida e às cinco da tarde já estávamos embarcando na rodoviária do Tietê para Sumaré, enquanto isso, Daniel Trovo e Régis já foram se perder para outros fins de mundo ali mesmo naquela cidade gigantesca. O Rio BRACINHO ganhou um nome ingrato por acharem ser ele um mero afluente, tributário menor do Rio São Lourencinho, que por sua vez era um importante afluente do Rio Juquiá, um grande rio da bacia do Ribeira do Iguape. O Bracinho se mostrou gigante, não só no seu comprimento, mas na sua importância dentro de uma região ainda inexplorada e selvagem, um vale até então totalmente desconhecido, no máximo arranhado em sua porção mais próximo à civilização. Quando resolvemos nos jogar na tal aventura, esperávamos encontrar um lugar selvagem, mas jamais poderíamos prever que esse rio se transformaria em um dos maiores achados de todos os tempos da Serra do Mar e o grupo que atravessou aquele vale, na sua maioria formado por senhores já de meia idade, saíram do outro lado com pelo menos uns 10 anos de idade a menos porque se entregaram ao deleite de voltarem a ser crianças para aproveitar esse grande parque de diversões natural. Para a geografia do Estado é mais um rio que foi acrescentado ao mapa e mesmo que passe muitos e muitos anos para que outro grupo resolva atravessá-lo, ele ainda figurará muito tempo longe das vistas destruidoras da raça humana, simplesmente pela sua dificuldade de acesso, como todos os outros rios que compõem o LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA. Divanei Goes de Paula- novembro/2018
  11. TABULEIRO X LAPINHA “Grande, enorme, gigante! É como um minúsculo nada que me jogo na grandiosidade daquele poço de onde despenca nada mais nada menos que a maior Cachoeira de Minas Gerais. O mergulho é meio estabanado devido a presença de rochas submersas, mas ao submergir das águas geladas, me lembro de outrora quando estivera naquele lugar há mais de 15 anos e sem muito titubear, boto forças no braço e tento alcançar o lugar donde as águas despencam dos 273 m de queda livre, mas o vento e as ondas criadas pelo deslocamento de ar me fazem tomar um rumo diferente e então nado na diagonal até me ver a salvo numa ilha rochosa. Tomo novamente a direção da cachoeira e meu olhar se perde nas alturas colossais e pulando de pedra em pedra, atravesso um arco-íris para me projetar atrás do grande véu aquático e lá me perco na euforia do momento. Nem me lembro mais quem sou eu, não sei se sou criança ou um homem de meia idade e por alguns minutos me entrego ao deleite que me assombra a alma, agora tomada por uma felicidade imensa, perdido na magia de uma das maiores atrações naturais do Brasil. “ A travessia Lapinha x Tabuleiro é um dos maiores clássicos em se tratando de caminhadas no país, mas por incrível que pareça, ainda se trata de uma ilustre desconhecida entre os grandes centros, ficando renegada apenas ao mineiros e alguns montanhistas mais safos. Claro que todo mundo que é ligado ao esporte pelo menos uma vez na vida já ouviu falar dessa travessia, mas a distância e a logística péssima, fez com que muita gente experiente acabasse por deixar essa travessia tradicional em segundo plano e eu não escapei de ser um deles, tendo ensaiado por várias vezes me enfiar naquelas paragens. Não posso dizer que desconhecia totalmente a Serra do Espinhaço porque já havia estado por lá tempos atrás, mas nunca para uma grande caminhada, sempre como turista, para visitar os parques nacionais e alguns vilarejos perdidos, como o próprio vilarejo do Tabuleiro. Tendo pelo menos 10 dias de férias, resolvi que era chegado a hora de riscar essa caminhada da minha lista e como o Anderson Rosa também estava com tempo sobrando, combinamos de emendar uma grande travessia no Espinhaço, nos perdendo por mais de uma centena de quilômetros entre o vilarejo do Tabuleiro, passando pelo Vilarejo de Lapinha da Serra e depois esticando até o vilarejo de Fechados e o que a gente achava que seria uma bela caminhada pelo serrado mineiro, acabou por se tornar uma grande aventura duríssima, porque onde a gente põe a mão ou no caso os pés , a gente tem o poder de transformar o passeio numa ida ao inferno, desnecessário, mas um dia a gente aprende.( rsrsrsrsr) (Conceição do Mato Dentro) Aproveitando a vinda de uns mineiros para capital paulista, que vieram assistir a final da Copa do Brasil de onde o time de Belo Horizonte levou a taça ganhando de um timinho de Itaquera, pegamos uma carona combinada no aplicativo e picamos a mula para a capital mundial do pão do queijo e às nove da manhã já havíamos sidos cooptados por uma lotação que iria nos levar de Belo Horizonte até o município de Conceição do Mato Dentro, que por sinal, havia mudado pouco desde que lá entive no início dos anos 2.000, continuava o mesmo fim de mundo de sempre. Conceição é daquelas cidades minúscula, onde certamente o Judas teria perdido as botas, mas nosso destino seria ainda mais distante, talvez lá para onde o Judas passa férias. Convencemos um taxista a nos dar um desconto e nos levar para o vilarejo de Tabuleiro distante quase 30 km, mesmo com as nuvens enegrecidas que ameaçavam desabar e transformar as estradas de terra num atoleiro. Numa viagem quase que interminável, tendo que fazer desvio por caminhos pouco dantes navegados, chegamos ao Tabuleiro na parte da tarde e fomos desovados num lugar vazio e em meio as chuvas que acabaram vindo, como o prometido. (vilarejo do Tabuleiro) O vilarejo conta com um amontoado de casa distribuídas em formas aleatórias, espalhadas pelo terreno montanhoso e seu centrinho fica num lugar estranho, uma subida abaulada e do ponto mais alto desponta uma igrejinha magnífica que foi reformada há pouco tempo e faz o charme do lugarejo. Deixei o Anderson cuidando das mochilas e fui ver uma vaga no camping na entrada da vila, aliás, o mesmo que havia ficado gratuitamente 15 anos atrás e que hoje era administrado por um senhor que cobra um preço camarada para se instalar com barraca( 15 reais), mas como ainda era cedo, resolvemos dar uma voltar e tirar umas fotos da singela igrejinha e foi lá que conhecemos o Dinei, morador local que nos emprestou um sinal de internet e por fim nos ofereceu a construção de uma lanchonete para que pudéssemos passar a noite. Na manhã seguinte sem muita pressa e depois de um bom café, jogamos as mochilas nas costas e partimos para o início da trilha que está a quase 4 km do vilarejo, mas não demorou muito e ao passar por nós uma perua escolar que se dirigia para a portaria do Parque do Tabuleiro, não nos furtamos em esticar o dedo e angariar uma carona salvadora. O Parque Municipal e Natural do Tabuleiro engloba boa parte dessa travessia e é o guardião da cachoeira de mesmo nome. Esse parque nem existia quando por aqui estive em 2003 e hoje conta com uma portaria que cobra 10 reais para se acessar a queda d’água, mas fornece coletes salva-vidas para todo mundo, além de ter estruturado quase toda a trilha, instalando tablados e passarela para dar acesso para todo mundo, um exemplo a ser seguido por qualquer parque. Quem vai fazer a travessia para Lapinha da Serra e não vai até a cachoeira nem precisa pagar, mas esse não era o nosso caso porque fazer a travessia sem ir ao grande poço da queda é de uma burrice gigante porque talvez essa seja uma das grandes atrações naturais do Brasil. Explicando melhor, existem dois caminhos: o tradicional que vai passar pela direita da Cachoeira e vê-la apenas do mirante e o alternativo que vai contornar pela esquerda, subindo em paredão íngreme e já saindo no topo da cachoeira, claro que existe a opção de ir até onde a queda despenca, voltar e escolher qualquer caminho, mas como veríamos no decorrer dessa travessia, são poucos os que escolhem fazer essa travessia partindo do Tabuleiro, a grande maioria prefere partir de Lapinha da Serra. Sempre pensei que esse caminho escolhido pela maioria seria para deixar a grande atração do roteiro para o final, a grande cereja do bolo, finalizar com um grande banho na Cachoeira do Tabuleiro, mas depois descobriríamos que o grande motivo seria outro. Nos despedimos dos guarda parques e viramos à esquerda e já pegamos a trilha que nos levaria até embaixo da queda do Tabuleiro. Como relatei, um caminho todo demarcado e com infraestrutura para que pessoas de idade e crianças possam seguir com segurança, mesmo que seja uma trilha puxada para esse seguimento, não se gasta pouco mais de uma hora até cachoeira. O Caminho é lindo demais e aos poucos a queda d’água vai se mostrando imponente e vai devastando a nossa capacidade de medir tamanhos. Vamos perdendo altitudes , passando por alguns mirantes incríveis e quando menos esperamos já estamos com os pés do Ribeirão do Campo de águas avermelhadas e escuras, um colorido único que vai rasgando a vegetação rupestre e aí vamos pulando de pedra em pedra, atravessando o rio em ziguezague, ás vezes somos jogamos para às margem e somos obrigados e transitar por dentro da vegetação, mas sempre seguindo setas pintadas caprichosamente para facilitar a passagem sem que tenhamos que molhar as nossas botas, pelo menos na época da primavera quando o rio está menos cheio . A cada passo dado em direção aos pés da grande queda, mais fascinante vai ficando o passeio, a vontade é largar mochila e tudo mais para trás e sair correndo e se jogar aos pés desse deus em forma líquida e se banhar no seu glorioso manto molhado, porque mais que um prazer é mesmo uma grande honra poder estar num lugar único como aquele. Quando estacionamos nossos corpos extasiados junto ao grande poço de águas escuras, apenas 4 ou 5 testemunhas se refrescavam naquela sexta feira de outubro. O sol incidia direto no poço e o véu da maior cachoeira de Minas Gerais e a terceira mais do país, se espalhava numa dança frenética, num vai e vem belíssimo e para nossa sorte, a Grande CACHOEIRA DO TABULEIRO havia sido encorpada pelas chuvas do dia anterior. Ela estava tão bela quanto 15 anos atrás, quando também pegamos ela com um volume alto e não demora nada para eu me despir da minha pele fabricada e me atirar nas águas frias e tentar nadar em direção ao véu, mas por mais que eu me esforçasse, foi impossível prosseguir por causa das ondas e da correnteza que insistia em me jogar de volta para as margens, então apenas nadei bravamente até uma pedra submersa e com um dorso de baleia aparente e lá ganhei fôlego, preferindo agora seguir pela margem esquerda até me posicionar embaixo dos 273 metros de queda livre e lá sentir toda energia daquele monstro caindo sobre minhas costas. Os minutos que lá passei foram uma eternidade, gritei palavras desconexas, frases sem sentido, invoquei a minha infância com todo o vigor da minha alma, eu estava feliz como poucas vezes estivera antes. Deixamos a grande cachoeira para trás e voltamos a descer o rio, agora na intenção de encontrar a trilha que nos levaria para o topo dela. Sabíamos que o nosso caminho seguiria para a direita de quem desce e logo depois de uma pequena grutinha localizamos um totem de pedra que nos indicou por onde deveríamos subir, mas basicamente essa trilha sobe o barranco do outro lado do rio pra quem vem lá da sede do parque, no nosso caso que estávamos voltando da cachoeira , tivermos que fazer uma escalaminhada inicial até que a trilha se consolida de vez e fica bem visível , toda forrada com pedrinhas brancas e quando se chega ao alto, pegamos para a direita numa placa do parque , junto a um amontoado de telhas . Vamos caminhado, agora mais em nível, meio que paralelo ao grande morro de onde a cachoeira desaba, mas logo se percebe que deveremos subi-la contornando o morrão pela sua esquerda. Quando nos aproximamos de vez da montanha continuamos subindo até um grande patamar para descobrir que havia mais um grande morro para ser cruzado, mas como acabei desgrudando os olhos do traklog passado por uns amigos mineiros, acabamos nos enfiando nesse patamar e seguindo reto, varando uns arbustos até darmos com os burros n’água. Verdade mesmo que o nosso burro não chegou nem perto da água, acabamos saindo no alto do penhasco com a visão do rio lá embaixo, sem conseguirmos descer sem que fosse preciso sacar de uma corda. (Ribeirão do Campo) Bom, o Anderson já estava pistola comigo porque havíamos caminhado numa subida do cão e não fomos dar em lugar nenhum. Eu até tentei achar um caminho para tentarmos descer para ver a cachoeira despencando no vazio, mas acabei por desistir e como ele já estava aporrinhando para voltarmos para trilha correta e com toda razão, interceptamos um rabo de trilha e navegamos beirando o Ribeirão do Campo pelo alto até conseguirmos perder altitude e nos acabarmos de tanto beber água. Enquanto o Andersom se acabava numa cachoeirinha, desci o rio para bater umas fotos de umas cachoeiras maiores e até pensei em seguir o rio pela margem até para ver a Tabuleiro despencando no vazio, mas achei que gastaria muito tempo para ir e voltar e como a tarde já ia pela metade, voltei para onde estava o Rosa, comemos um lanche e partimos. A sequência do caminho é do outro lado do rio, passamos por uma bifurcação para a direta que provavelmente levará para vistas do salto da cachoeira e continuamos subindo. Não é um grande desnível, mas é uma trilha longa para quem já teve que vencer o desnível desde o pé da cachoeira com a mochila carregada. Vamos caminhando devagar, desprezando algumas bifurcações que provavelmente servirá de atalho para a trilha principal que vem lá da sede do parque e quando o terreno nivela, vamos nos perdendo naquela vastidão sem fim, tentando adivinhar para onde seguirá nosso caminho, mas logo ao cruzar uma porteira, nos damos conta que devemos manter os olhos bem presos ao chão, ainda mais depois de quase pisarmos numa jararacuçu. Nosso traklog indicava que estávamos perto do camping e apoio do seu Zé, mas somente quando a noite caiu foi que conseguimos enxergar as luzes ao longe que nos serviu de guia. Debruçado na janela, seu Zé nos recebe com um boa noite e uma galera de Belo Horizonte se espanta com nossa chegada tão tardia. Seu José nos autoriza a montarmos nossa barraquinha na varanda, muito porque as nuvens negras que nos acompanhou a tarde toda ainda ameaçavam desabar, mas não choveu e logo após um banho gelado e uma janta quente, nos jogamos na nossa casa de mato e só acordamos quando o sol veio nos avisar que era hora de retomarmos mais um dia de caminhada. Nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos pela trilha que agora se parece com uma estradinha e que se inicia atrás da casa, logo depois da porteira. As vistas se alargam muito e a caminhada vai seguindo com pouco desnível por caminho muito obvies e de fácil navegação, tão fácil que a gente bobeou e ao invés de pegarmos a trilha para a esquerda 1 km depois do camping, passamos reto e seguimos enfrente pelo caminho aberto por mais 1600 m e só percebemos o erro porque nos vimos diante de uma bifurcação. Diante da burrada e da pernada desnecessária, resolvemos não voltar e sim varar mato pelo cerrado, mas agora sem tirar o olho do gps do celular que apontava que o nosso caminho deveria seguir para o sul, totalmente oposto do caminho que estávamos seguindo. Cortar caminho sem trilha em campos de altitude não é problema e é até prazeroso poder deslumbrar um tanto de novas plantas rasteiras do qual não estamos acostumados a ver e menos de meia hora depois reencontramos a nossa trilha bem onde uma ponte natural feita de raiz cruza um riacho. Mais 1 km de caminhada em campos abertos e vamos passando por uma espécie de brejo, que vai cortar dois capões de mato a distância, com uma formação rochosa muito bonita a direita e uns 15 minutos depois desembocamos num rio lindo com água abundante, cor de coca-cola e depois de um gole d’água, cruzamo-lo para o outro lado e vamos subindo levemente por mais vinte minutos até cruzarmos a porteira e a placa que delimita o início do Parque natural do Tabuleiro e ganharmos a rua de terra. Nosso caminho segue na estradinha para a esquerda, mas não dá nem 200 metros já interceptamos um rabo de trilha saindo para a direita e vamos descendo em direção a CASCALHEIRA , uma passagem muito bonita , quase uma fenda que vai despencando montanha abaixo, contornado o abismo até ganhar o fundo do vale, num plano muito bonito, todo florido e com caminho estreito já com vista para os picos que compõe toda essa paisagem lindíssima. O caminho é bem gostoso de ser trilhado e o esforço é mínimo por não haver nenhum desnível considerável e meia hora depois cruzamos mais um riachoem meio a uma matinha, no qual paramos para matar nossa sede e refrescar nossa moleira já que o sol não estava para brincadeira. Seguimos até que a trilha se enfia dentro de um capão de mato e sobe beirando uma cerca de arame até desembocar numa porteira, onde é possível avista ao longe uma casa do lado direito. A partir de agora o Pico do Breu já nos acena com um convite para subi-lo e vamos descendo em direção a ele e ao Rio Parauninha e logo quando passamos em frente do lugar marcado para pegar à esquerda e seguir para a área de acampamento da Dona Ana,resolvemos mandar o traklog as favas e cortar caminho direto para o Pico, como se ele próprio tivesse nos enfeitiçado. Abandonamos, portanto, a trilha batida e fomos traçando um caminho com o GPS até reencontrarmos no fundo do vale o RIO PARAUNINHA, com suas águas vermelhas e convidativas. Depois de um breve descanso e de termos localizado a trilha que vai galgar a encosta do Breu, recolhemos um litro e meio de água por pessoa, já que não sabíamos se teríamos fontes no topo ou a caminho do dele. A subida é meio confusa, as vezes os totens dão o caminho, outras vezes a trilha aparece em meio às pedrinhas brancas, mas a única coisa que não deixa de ser óbvia é que tem que tocar para cima e foi aí que a gente descobriu porque absolutamente ninguém costuma fazer esse roteiro vindo de Tabuleiro e somente de Lapinha da Serra. É uma subida dos infernos, principalmente para quem como nós está com uma mochila carregada para 10 dias de travessias. Vamos ganhando terreno metro à metro, centímetro à centímetro e quanto mais se sobe mais difícil vai se tornando o caminho. Eu já não vinha passando muito bem por causa do clorim que usamos para tratar a água, coisa que eu sabia que sempre me fazia mal. Estava com cólicas terríveis por causa de uma dor de barriga e aquele diabo daquela trilha não arrefecia de jeito nenhum. Para piorar o tempo fechou no cume e as nuvens desceram violentamente e nos pegou nas encostas. Quando a gente pensava que estava chegando, sempre aparecia outro ombro para ser galgado e eu já estava quase mandando aquele cume a merda e acampando em qualquer lugar, mas como o Rosa acabou se adiantando, me vi na obrigação de tentar acompanha-lo, muito porque, o abrigo estava com ele. Claro, poderíamos ter evitado tudo aquilo, poderíamos apenas ter seguido pelo caminho tradicional e não subir o Pico, apenas contorna-lo, mas não, a gente tem que inventar moda e escolher a porra do pior caminho. O Andersom sumiu das minhas vistas, fiquei para trás me contorcendo e me arrastando em meio a vegetação de altitude, sem saber se estava indo para o lado certo ou não e quando o terreno se estabilizou e galguei uma parte plana, avistei um grande totem de pedra que marcava os 1.687 metros do cume do PICO DO BREU, joguei minha mochila ao chão e dei por encerrado aquele dia de caminhada, hora de procurar um lugar para acampar e fazer uma janta quente. O Pico do Breu é o ponto mais alto do caminho e a vista lá de cima é realmente deslumbrante, mas por causa do mau tempo no cume, conseguimos ver muito pouco e por um breve espaço de tempo, toda a crista que vai levar ao Pico da Lapinha. Assim que escureceu, o tempo fechou de vez e uma garoa fina tomou conta do lugar. Não havia nenhum sinal de acampamento no topo, muito porque deve até ser proibido e além do mais, quem parte de Lapinha da Serra deve chegar aqui super sedo, sendo desnecessário acampar aqui, mas não é o nosso caso e então, depois de tirarmos algumas pedrinhas de um lugar mais plano, montamos nossa barraquinha e fomos tratar do jantar. Enquanto o Anderson cozinhava, perguntei para ele se não seria bom tentar esticar a lona superior da barraca com algumas pedras e como ele achou meio desnecessário, não dei muita liga, afinal de contas eu ainda estava envolto com minhas cólicas abdominais e estava querendo era ficar quietinho, mas essa atitude preguiçosa iria nos cobrar um preço. A neblina que durante o dia havia varrido o topo do Breu, à noite se transformou em uma garoa fina e os ventos açoitaram nossa barraquinha fazendo com que a lona de fora grudasse na de dentro e tudo o que era seco se encharcou. Estávamos tão cansados que ninguém se animou a sair lá fora com o mal tempo para tentar esticar a lona e de manhã ainda tivemos a cara de pau de praguejar contra as forças da natureza ao invés de aceitar nossa incompetência. Mesmo molhados, ficamos deitados até tarde, meio que em estado letárgico, sem coragem de levantar e encarar o tempo ruim que ainda persistia e só quando não houve mais jeito foi que tomamos coragem e resolvemos enfrentar o nosso destino. Rapidamente desmontamos tudo e jogamos para dentro das mochilas e saímos voados do cume, mas não fomos muito longe porque logo nos vimos perdidos na encosta depois que o cume acabou. Acontece que a descida é pela esquerda, numa fenda que despenca logo para baixo, mas o mal tempo nos fez rodarmos um pouco mesmo seguindo pelo traklog do gps. A descida é rápida e o caminho curva-se para a esquerda e ao atingir a crista se nivela e vamos galgá-la em direção ao Pico da Lapinha. O caminho com tempo ruim é meio confuso, mas ao longe avistamos umas estacas pintadas de azul, passamos por algumas nascentes que nos ajuda a repor a nossa água que nos faltou no cume do Pico do Breu e uma meia hora depois, talvez um pouco mais, chegamos à uma bifurcação. Para a esquerda é a descida que poderia nos levar para o Rio Parauninha e interceptar a trilha tradicional, e para a direita é a continuação para o Pico da Lapinha e a sequência da trilha que também poderá nos levar para o próprio vilarejo de Lapinha da Serra. Mesmo com mal tempo resolvemos seguir pela crista da serra e pouco mais de 3 km depois interceptamos a própria trilha final que vai subir ao cume do PICO DA LAPINHA. A vista lá de cima deve ser soberba, mas com o tempo fechado como estava, achamos perda de tempo e esforço inútil, então passamos direto, agora nos guiando por estacas vermelhas, o que nos deixou curioso para saber quem havia sinalizado tão bem essa crista de montanhas, jamais havíamos visto isso em lugar nenhum, mas não tardaríamos em saber que isso tinha seu preço. Da entrada para o pico da Lapinha, a trilha vai perdendo altitude e uns 15 ou 20 minutos depois demos de cara com um surpreendente abrigo de montanha, todo bem conservado e até com fogão à lenha e banheiros limpos. Imaginamos que poderia ser a sede do parque, mas logo saberíamos do que se tratava. O lugar aonde foi construído o abrigo é lindíssimo, mas um pouco exposto e o vento que vinha encanado pelo vale estava de congelar, ainda mais porque estávamos molhados, então tiramos algumas fotos da paisagem e do Pico da Lapinha e descemos rapidamente, tentando sair de dentro das nuvens para alcançarmos o sol que iluminava o vilarejo que já estava à vista. A trilha vai descendo para valer e o horizonte vai se alargando até podermos ver o grande lago que deixa tudo mais encantador. De degrau à degrau, vamos cada vez mais nos aproximando do vilarejo, passamos por um rio de onde placas indicam haver cachoeiras, mas já não nos alegramos mais em ir conhecer, queremos mesmo é poder finalizar essa travessia o quanto antes a fim de nos aquecer e poder comer algo porque o estomago já está nas costas. Uma última curva nos leva até uma casa e uma porteira nos fecha o caminho de onde duas pessoas nos aguardam babando para nos interpelar sobre o caminho que fizemos. Foi ali que descobrimos que todos aquelas cristas e montanhas ficavam em área particular e que a tal construção se tratava de uma portaria para cobrança do acesso. Tivemos que responder um monte de perguntas, mas a nossa astúcia de montanhistas antigos já nos fez optarmos pelos famosos “migués”, demos uma de “João sem braço”, dizendo que não sabíamos de nada e que havíamos acampados em um lugar distantes, tão distante que nem nós sabíamos explicar onde ficava. Enfim, nos deixaram passar sem cobrar os 25 reais pela passagem por suas terras, mas nos avisaram que da próxima vez teríamos que pagar. Balançamos a cabeça, ainda nos fazendo de bobos, nos despedimos dos cobradores de impostos e seguimos nosso caminho passando pelo campinho de futebol até finalmente desembocarmos num camping junto ao minúsculo vilarejo, num fim de mundo sem sinal de celular ou quaisquer outras modernidades. O dia mal havia chegado a sua metade, poderíamos nos pôr a caminhar por mais uns 10 km e ganhar o povoado de Santana do riacho de onde poderíamos tentar um ônibus para Belo Horizonte, mas apesar de termos chegado ao final dessa clássica travessia, nossas pretensões era seguir caminho para outro vilarejo perdido na Serra do Espinhaço, mas a travessia para FECHADOS é outra história, uma outra aventura surpreendente que será contado em um momento oportuno. A travessia Tabuleiro x Lapinha ou vice-versa é sem dúvida uma das mais clássicas travessias de todo o Brasil e conta a seu favor o fato de estar afastada dos grandes centros como Rio e São Paulo, o que faz dela ainda uma caminhada deslumbrante devido ao pequeno fluxo de pessoas, mas muito mais do que isso, é poder caminhar em um ambiente onde a farofa ainda não chegou e ainda é possível andar sem ver um único vestígio de lixo e muito menos tropeçar em banheiro humano largado em qualquer lugar e só isso já valeria qualquer sacrifício, mas não é só isso, esse roteiro tem a honra de poder lhe apresentar nada a menos que grandiosa Cachoeira do Tabuleiro que com certeza constará em qualquer lista das grandes atrações naturais do país e como bônus esse roteiro nos apresenta também o fantástico Pico do Breu e sua serra pontilhada por outras montanhas incríveis , incluindo o Pico da Lapinha. Nosso primeiro contato com o Espinhaço fez com que a gente ficasse completamente deslumbrados com essa serra, porque descobrimos caminhos e possibilidades ainda quase que inexplorados ou ao menos conhecidos apenas pelos nativos do Estado e uma vez picado pela mosca do Serrado é impossível deixar de se apaixonar por essas veredas. Divanei Goes de Paula - outubro/2018 AGRADECIMENTOS: Aos mineiros Francisco Cardoso ( CHICO TREKKING) e ao Robson Oliveira ( TRILHANDO TREKING) , foram os nossos contatos em Minas Gerais e se há alguém capaz de guiar ou passar informações, esses são os caras e a eles todo o meu respeito e admiração.
  12. Yuri , Esse relato , como todos outros que escrevi, foram escritos com a intenção de mostrar um esporte verdadeiro . O texto simples e as vezes simplório descreve a realidade dos fatos , você nunca vai ver heróis, mas gente comum , com seus erros, seus acertos e suas manias . Obrigados pelas palavras carinhosas . Valeu mesmo . Abraços.
  13. Elaine e Tadeu , Esse relato escrevi com a intenção de humanizar a escalada , num mundo onde todo mundo quer ser " picas das galáxias" , parece ser proibido sentir medo , parece ser proibido fraquejar e a gente sabe que isso é uma bobagem porque a grande maioria é seres humanos normais .Grande abraço aos dois. Valeu mesmo.
  14. Mais fotos: https://aventurebox.com/divanei/agulha-do-diabo-a-conquista-do-penhasco-fantasma/report
  15. AGULHA DO DIABO “Agora não adianta chamar por santo nenhum, quem mandou se meter no Caldeirão do Inferno. Pendurados no meio da Unha da Agulha do Diabo, a gente só pensa em não cair e tenta grudar as costas naquela chaminé diabólica, tentando evoluir centímetro a centímetro, mas a gente sabe que o próprio dono da montanha está lá, sentado logo acima com seu rabo a balançar, como a nos atrair para uma armadilha. Não quero olhar para baixo, mas a curiosidade é maior que o meu bom senso e quando faço isso, o mundo parece dar uma rodopiada e é nessa hora que penso em gritar um “valei-me Nossa Senhora”, mas me contenho a minha insignificância diante daquele colosso de pedra, porque cada um é responsável por exorcizar seus demônios interiores e sigo determinado, sabendo que eu mesmo terei que chutar o traseiro do cão se quiser conquistar aquela montanha. ” Não por acaso que a AGULHA DO DIABO foi escolhida mundialmente entre as 15 montanhas mais bonitas e mais desejadas para se escalar em todo o planeta. Um gigante rochoso tocando o céu no meio selvagem do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro, a meio caminho entre Teresópolis e Petrópolis, mas por incrível que pareça, mesmo estando no parque por meia dúzia de vezes para a travessia famosa e para escalar o Dedo de Deus, eu jamais consegui por meus olhos nessa formação rochosa e quando os meninos levantaram a possibilidade de escala-la , aceitei o convite sem nem pensar se teria ou não condições de ir ao cume com os meus toscos e rudes conhecimentos do esporte. Havíamos combinado então que, quando o inverno desse as caras, a gente partiria para o Rio, mas a ansiedade de alguns do grupo fez com que antecipassem a tentativa da escalada para maio, data em que eu estava às voltas com uma Expedição Selvagem previamente programada na Serra do Mar Paulista, então fui deixado para trás. Nessa ocasião o grupo que tentou escalar a Agulha cometeu alguns erros de logística, extrapolaram o tempo e dos 7 integrantes, 5 ficaram pelo caminho e somente 2 foram ao cume e assim mesmo tiveram que subir quase ao anoitecer. Diante desse meio fracasso, o Alexandre Alves retomou o projeto antigo que havíamos traçado e para aproveitar um feriado Paulista, resolvemos montar uma equipe 100 % caipira, a mesma equipe que havia conquistado o Dedo de Deus (1.692 m), os mesmo que haviam se juntado um dia para aprender a escalar por conta própria. A equipe inicial seria formada por mim, pelo Alexandre e pelo Vinícius e de última hora surgiu o Dema, mas o Alexandre estava meio com um pé atrás com ele porque fazia muito tempo que o professor não aparecia para treinar e poderia pôr em risco nossa segurança por estar desatualizado quanto aos procedimentos, mas no final, a amizade acabou por falar mais alto que a nossa segurança e essa tomada de decisão seria fundamental para o sucesso daquela “expedição” rumo ao cume daquela diabólica agulha. Foram acaloradas as discussões sobre qual estratégia usar, alguns achavam que fazer um bate e volta apenas com mochila de ataque seria o ideal, já outros discordavam veementemente e insistiam que deveríamos subir com cargueira para estarmos seguros, se desse alguma merda, já que a pedra ficava num fim de mundo escondida no meio de um vale sinistro e potencialmente perigoso, além do mais , se houvesse um fracasso no primeiro dia, poderíamos acampar e tentar num segundo dia, coisa que seria impossível se estivéssemos apenas com mochilinha de ataque, sem os equipos para acamparmos. No fim, nos convencemos de que subir com as cargueiras seria a melhor estratégia e essa tomada de decisão foi a responsável por um dos integrantes, além de nós quatro, picar a mula da escalada, alegando que a gente era doido de enfrentar aquela subida do satanás com mochilas nas costas. Paciência, perdemos um experiente escalador, mas a equipe puro-sangue se manteve e se era para “se lascar” todo naquela montanha, que fosse então com um grupo acostumado a se meter em encrencas e a fazer isso com alegria. Foi então que numa tarde ensolarada de um sábado, que o Vinícius apanhou o Alexandre na rodoviária de Sumaré-SP e passou na minha casa para que eu e o Dema nos juntássemos a eles e partíssemos para Teresópolis-RJ, onde lá chegamos umas sete horas depois, já no início da madrugada de domingo, onde nos refugiámos num posto de gasolina aos pés do Escalavrado(1.410 m) e passamos a noite lá até esperar pela abertura do Parque nacional às seis da manhã. Com o ingresso do parque já comprado antecipadamente e impressos e as devidadas autorizações assinadas, não tivemos dificuldade de acesso e antes das sete da manhã, já havíamos estacionados o veículo o mais próximo possível da barragem e adentramos na trilha histórica que faz parte da Travessia Petrópolis x Teresópolis ou usada para quem quer ir apenas até o cume do parque, na Pedra do Sino (2.275) ou mesmo visitar trocentas outras montanhas de belezas ímpar. No início a subida parece ser bem suave, muito porque estamos todos animados e cheios de energia. O caminho vai se enfiando por dentro da floresta, cruzando algumas pontinhas e menos de uma hora depois chega a uma grande gruta ou toca, onde é possível bivacar com um certo conforto. Não demora muito e damos de cara com a Cachoeira Véu de Noivas, completamente seca, mas já não é grande coisa com água, pelo menos não, se compararmos com as maravilhas que estamos acostumados na Serra do Mar de São Paulo, mas também não viemos aqui atrás de quedas d’água e tocamos para cima, um passo de cada vez, numa subida enfadonha. Eu já havia subido e descido aquela trilha nas duas vezes que estive nas travessias de Petrópolis para Teresópolis e ao contrário e as duas vezes havia odiado aquela parte do caminho, mas pensando bem, acho que odiei pouco, não sei se era pela minha tenra idade com muita mais energia que agora ou porque naquela época tudo me parecia novidade em matéria de trilha, o certo é que aquele zig-zag infernal vai dando nos nervos e só faz aumentar nossa ansiedade de chegar logo na tal Cota 2.000, de onde parte a trilha mais em nível para acessar o tal Caminho das Orquídeas. Quando as curvas acabam, damos de cara com o grande descampado, chegamos ao ABRIGO 3, mas não passa mesmo de um gramado convidando-nos para um descanso, porque abrigo nem existe mais mesmo. Aqui a trilha vai dar uma guinada para a esquerda e vai dar uma nivelada, passar por um mirante também à esquerda. É preciso ficar esperto porque quando o altímetro bater uns 2.000 de altitude e mais ou menos 7,2 km desde a barragem, no início da trilha, precisamos nos atentar para uma saída à esquerda, quase imperceptível. É mesmo uma trilha meio sem vergonha e não há nenhuma placa, nenhuma identificação dizendo ser esse o caminho que vai nos levar para o Mirante do Inferno, ou por negligência do Parque Nacional (grande novidade!) ou por sacanagem de guias e agências que retiram as placas para que ninguém chegue sem seus serviços. Pegando essa bifurcação mencionada, adentramos na direção do tal Caminho das Orquídeas ou talvez seja um atalha para ele. Vamos descendo, agora numa trilha bem mais fechada, quase uma picada e logo que tropeçamos numa bifurcação, pegamos para direita e seguiremos reto até que o mundo se abre à nossa frente num MIRANTE espetacular, com um vale profundo e mais à frente já podemos deslumbrar uma minúscula parte da ponta da Agulha a nos convidar para uma aventura inesquecível. Desse mirante é possível ver também parte do Dedo de Deus e o que é mais interessante é que não é possível ver a Agulha do topo do Dedo e nem ver o Dedo do topo da Agulha, como se Deus e o Diabo nunca pudesse se confrontar. (Dedo de Deus visto do mirante) De cima do mirante às vistas para outras montanhas do parque são deslumbrantes, mas não é hora de perder tempo, o relógio anda e precisamos nos apressar. Nossa jornada é descendo pela laje de pedra e se enfiando nas canaletas floresta à dentro, desescalando até atingirmos o fundo do vale onde um brejo tem que ser pulado para não empapar os nossos tênis. Logo temos água boa vinda de um pequeno córrego e então chegando a mais uma bifurcação e seguimos para a direita contornando uma pedra e não demora muito, às 10:30 desembocamos no ACAMPAMENTO PAQUEQUER, que não passa de um lugar mais aberto no meio da trilha, às margens da nascente do riachinho de mesmo nome, hora de parar para um breve descanso, mais um gole de água e traçar uma estratégia. (Paquequer) Numa breve reunião, decidimos esconder nossas cargueiras ali nos arredores do acampamento e seguir apenas com os equipos de escalada e com uma mochilinha de ataque. Portanto, pulando o riacho, interceptamos o estirão final que vai subir sem dó em direção ao mirante e logo que chegamos mais ao alto, beirando uma grande pedra do lado esquerdo, interceptamos a tal saída que vai nos levar para a Agulha, mas antes de para lá partirmos, seguimos em frente e menos de dez minutos depois chegamos à beira do GRANDE ABISMO DO MIRANTE DO INFERNO. (Mirante do Inferno) Aquilo era inacreditável! Eu já havia dito que achava o Dedo de Deus a montanha mais espetacular do Brasil, mas diante daquela visão eu estava confuso, perdi a referência, meio que perdi o chão. O Dema e o Vinícius também pareciam encantados com aquele gigante de pedra. Dali era possível contemplar outras montanhas : São João, São Pedro(2.160), Verruga do Frade(1.920), Pedra da Cruz(1.980), Capuchinho do Frade, Santo Antonio e tudo beirava à santidade, mas era ela a grande atração do lugar, enfiada no meio do Caldeirão do Inferno, a AGULHA DO DIABO parecia nos convidar para uma grande aventura e a gente estava em êxtase e não havia mais como fugir, a gente poderia ficar por ali mesmo e nos entregarmos as coisas do céu, mas o desafio é que nos move, porque o montanhista de aventura nunca vai se contentar com o calmo e o sereno, ele quer é ver a desgraça de perto, ele quer o caos, quer a tormenta e foi com esse pensamento que a gente largou tudo para trás , voltamos a descer por uns cinco minutos e adentramos de vez à direita na trilha rumo ao nosso desafio. Esse caminho em forma de picada vai seguindo quase que em nível, mas logo faz uma curva para direita e se enfia numa garganta montanha à baixo, numa sequência de gretas e fendas potencialmente perigosas. Vez por outra surge à nossa frente assombrando a nossa alma a silhueta da AGULHA e numa dessas aparições acabei ficando para trás para tentar sacar uma foto e perdendo o equilíbrio, escorreguei de um patamar e enfiei meu pé numa laca de pedra e virei o tornozelo que veio a inchar instantaneamente. Nessa hora pensei que minha jornada naquela montanha havia acabado, mas mesmo assim gritei para que o grupo me esperasse e aguardasse uns minutinhos até que a dor diminuísse um pouco. Tentei ser forte e demostrar calma, não queria de jeito nenhum dar chance para que alguém pudesse me mandar voltar para o acampamento para eu não atrapalhar a escalada, muito porque eu mesmo já teria feito isso se sentisse que daria problema. (Agulha vista de dentro do Cadeirão do Inferno) Continuamos seguindo até nos vermos quase no fundo do vale, onde um pequeno riacho seco descia da direita e é justamente nesse amontoado de pedras que nosso caminho segue e segue subindo para valer, nos fazendo escalar rochas escorregadia e íngremes. Vou me arrastando como posso, mesmo com muita dor, me agarro na minha vontade de não desistir, pelo menos até chegarmos ao início da via. Logo à frente somos barrados por uma gruta, uns amontoados de matacões gigantes. Estamos na GRUTA DA GELADEIRA e não há outro caminho possível se não o de passar por dentro dela e sair pelo teto, por um buraco tão estreito que mais parece que você está saindo do útero da sua mãe. Escalado esse trecho apertado e úmido logo damos de cara com um pequeno platô que poderia servir até para um bivac numa emergência e mais acima, quase ao meio dia, nos deparamos com a linha de escalada propriamente dita, hora de calçar as sapatilhas, fazer o sinal da cruz e enfrentar de vez essas forças do além. (Gruta da Geladeira) Acima das nossas cabeças o gigante rochoso se elevava num espigão assombroso, rodeados por paredes escuras e colossais. Havia chegado a hora de desafiar o guardião do Caldeirão do Inferno e todas as discussões acaloradas vividas meses antes de estarmos ali, agora teriam que nos mostrar que serviu para alguma coisa. É bom lembrar que dos 4 integrantes daquela empreitada, apenas o Alexandre e o Vinícius poderiam ser considerados como escaladores de verdade, porque eu e o Dema não passávamos de meros bons montanhistas trepadores de paredes, mesmo assim, aquele grupo heterogêneo não deixava de ser formado por escaladores ainda com muito à aprender. Em um primeiro momento havia se decidido que formaríamos duas duplas para a escalada, sendo a primeira composta pelo Alexandre e o Dema e a outra pelo Vinícius e por mim, sendo que o Alexandre e o Vinícius subiriam guiando a corda e eu e o Dema faríamos o "segue"(manobras realizadas com a corda para dar segurança ao companheiro), mas num ato de desapego, de última hora, o Vinícius abriu mão de guiar e foi decidido que apenas o Alexandre seria o responsável por levar a nossa corda e essa atitude foi mesmo muito sensata, porque nos faria ganhar tempo precioso e isso também faria toda a diferença na conclusão daquela escalada. (acima croqui da escalada) Traçado a estratégia, a primeira enfiada (lance) já começa encrencada. Parece fácil, mas é uma rampa lisa e sem agarras e já no começo o Alexandre dá uma sambada até que resolve colocar um camalot (pequeno equipamento que ao ser enfiado numa fenda, por exemplo, trava e se pode pendurar a corda para dar segurança ao escalador, numa explicação bem tosca, rsrsrsr ) numa fenda para dar uma estabilizada no psico. Depois é preciso se entalar numa fenda e se espremer até ganhar o alto e subir por outra rampa até uma paredinha que dá acesso a parada junto a um platô. O Dema zueiro que é, já inventa de nem colocar as sapatilhas nesse trecho, apanha sua mochilinha e também a do Alexandre e se agarra à corda e depois se lascou todo para conseguir passar pela fenda lateral e não deu outra, ficou entalado, o tonto, rsrsrsrsr. O Vinícius foi outro que deu uma sapateada nessa rampa e eu, sem molejo para dança nenhum, não fiz mais bonito que ninguém, também rebolei pra subir ali, mas me agarrei no que deu até me juntar aos amigos do platô. (Primeiro lance) O segundo lance nada mais é que uma passagem seguindo em frente, praticamente caminhando ao lado de uma parede com vegetação. É um lance fácil, mas para mim que era o último, achei um pouco exposto e passei com cuidado, mas ao tentar descer no final do corredor de pedra, fiquei sem saída e com medo de pular até atingir a parte mais abaixo, antes de ganhar uma parede final. O problema é que você não pode seguir o seu instinto e querer perder altura logo, é preciso ir até o final da parede caminhando, onde tem várias agarras de pé e de mão para se descer em segurança e uma vez no chão é só fazer a travessia para direita quase numa escalaminhada tranquila e ir subindo até a parada em nível. (segundo Lance) A enfiada seguinte, a terceira, é um pouco mais técnica por ser mais inclinada. Começa com uma fenda em forma de diedro, do qual é necessário subir em oposição. A gente enfia as mãos dentro da fenda e começa a puxá-la até ganhar altura, mas alguns não estavam nem aí e subiram com os pés na fenda e as costas na parede abaulada da direita porque na escalada clássica a única regra é não ficar lá embaixo moscando e atrapalhando o andamento da empreitada. Depois dessa fenda, desse diedro, a parede empina de vez e é preciso ir achando as agarraras certas até poder se pendurar numa fenda horizontal, uma verdadeira salvação para quem já está despencando parede à baixo. Uma vez travado nessa fenda, onde você já está rindo à toa, aí você percebe que não há mão para ficar em pé e colocar os pés dentro da fenda para ir caminhando para esquerda e tem que colar o corpo na parede e ir levantando de vagar, raspando seu nariz na pedra até se estabilizar, pelo menos foi isso que aconteceu comigo, e logo em seguida subir e ganhar a parada. (terceiro Lance) Quando me estabilizei na parada, clipando minha solteira (pedaço de fita preso ao corpo com um gancho na ponta, afff Maria, que explicação furreca !), o Alexandre e o Dema já haviam partido para a quarta enfiada. Esse lance é muito esquisito porque se faz todo praticamente caminhando ao lado de um abismo, junto à uma parede que se estende por uns 15 metros. Dali de onde estávamos eu e o Vinícius, já era possível avistar a imponência da CHAMINÉ DA UNHA, uma laca de pedra descolada da Agulha do Diabo, uma visão assombrosa e é melhor nem ficar pensando muito e apenas nos concentrar nos problemas presentes, deixemos o futuro para depois. Essa próxima enfiada é fácil, mas com uma grande exposição para quem guia e para quem vem por último na cordada e eu passo por ali com todo cuidado, primeiro me agarrando como posso para descer um pouco mais à baixo, depois seguindo lentamente, caminhando quase numa trilha de pedra até me grudar de vez ao chegar na parada com 2 “P” e é bom marcar bem esse lugar porque será aqui o penúltimo rapel para quando voltar. (quarto Lance) Até ali, a escalada estava fluindo numa perfeição espantosa, tudo afinado e alinhado. A subida seguia sempre a mesma linha, com o Alexandre guiando a corda, precedido pelo Dema e o Vinícius, tendo eu como o último homem a fechar a corda. Ganhávamos terreno rapidamente e cada vez mais íamos subindo, nos elevando metro a metro e foi nesse quinto lance que a gente começou a tomar ciência de que estávamos chegando perto dos enfrentamentos maiores. Aliás, esse lance não passa de mera caminhada, que vai se enfiando numa trilhazinha e subindo numa escalaminhada fácil, vira totalmente para a direita e sobe até uma espécie de gruta, que também não passa de um amontoado de pedras. Passa ao lado do Pico do Diabinhoque é uma formação rochosa belíssima e já te joga de frente para as “Chaminés em L “, hora de juntar a equipe novamente, tomar fôlego, beber um gole d’água e se preparar para ganhar altura de vez. Essa tal “Chaminé L”, que marca a sexta enfiada, é muito parecida com a chaminé do Dedo de Deus, com paredes largas e com boa aderência, a subida é bem no final dela, onde a parede se fecha, e sobre o teto despenca uma rocha entalada em formato de estalactites, aquelas formações que pendem dos tetos das cavernas. É preciso subir até essa formação, que não fica a mais de uns 4 metros de altura e alcançando-a, saindo para a direita, mas isso é tão óbvio porque não existe mesmo outro caminho. O Alexandre se pendura nessa parede, se agarra na estalactite, passa pelo buraco apertado e some das nossas vistas. Lá de baixo, eu o Vinícius e o Dema não conseguimos ver nada do que se passa depois disso e mal escutamos a voz do Alexandre que parte sozinho para essa passagem para a direita. O tempo vai passando e o “nosso guia” pouco dá sinal de vida, vez ou outra ouvimos sua voz sussurrando alguma coisa e acaba demorando para descobrirmos que a corda havia enroscado. Diante daquele imbróglio todo, resolvemos mandar o Dema atrás dele e para isso foi preciso que ele escalasse em livre, ou seja, sem nenhuma segurança, foi um risco, mas era o que tinha para o momento, mesmo porque era uma subida muito tranquila e não achamos que seria um risco tão grande. Uma vez que o Dema se juntou ao Alexandre, depois de algum tempo, a corda foi liberada e logo foi o Vinícius que se esgueirou parede acima e ganhou o alto, sumindo das minhas vistas e para o nosso azar, a corda voltou a enroscar novamente. O Vinícius teve que mudar novamente a instalação da corda para liberar a minha subida. Encostei as costas na parede esquerda da chaminé e finquei os dois pés na outra parede, mas logo notei que poderia fazer diferente: Meti o pé esquerdo no fundo da chaminé onde ela se eleva até o buraco de saída, junto à pedra entalada, e fui alternando os movimentos, como se subisse num batente de porta, mas agora com o pé esquerdo na parede do fundo e o direto na parede lateral. Não sei se esse estilo foi o melhor, só sei que rapidinho eu me agarrei na estalactite e me elevei para dentro do buraco e ressurgi para um outro mundo. Depois virei para a direita, que é o único caminho onde fica plano e é necessário encostar as mãos do lado direito e dar um pulinho maroto de menos de um metro, um pulo tranquilo, mas a prova de qualquer erro ou então é cair no vazio e virar carne moída de tanto que vai ralar nas paredes da chaminé. O Vinícius foi fazendo meu "segue" até que eu me juntei a ele onde uma paredinha final de uns três metros precisa ser escalada usando uma fita em um grande “P” para poder se elevar, agarrar em um arbusto e se jogar definitivamente para cima de um grande platô, cheio de árvores, onde de tão grande, poderia servir até para se montar um abrigo provisório. Nesse GRANDE PLATÕ foi instalada uma placa para homenagear os conquistadores de 1941, mas a importância daquele lugar vai muito mais além, ali naquele marco geográfico da escalada é o lugar onde vai se separar os homens dos meninos, é ali que se define quem vai ao cume ou quem definitivamente vai abraçar o fracasso , botar o rabo entre as pernas e bater em retirada, seja por incompetência técnica ou por incompetência na hora de montar a logística, fazendo com que ao se chegar aqui, já tenha extrapolado o tempo hábil para se ir ao topo. Essa pode ser considerada a anti-sala do inferno, é aqui que o diabo faz a sua triagem, separando os caras que tem ou não as condições de enfrentar o seu desafio derradeiro, uma vez tomada a decisão de seguir em frente, você acabou de colocar seu nome na roleta russa, ou é tudo ou é nada. O Alexandre fracassou aqui da outra vez, portanto agora para ele é tudo novidade e havia chegado a hora de enfrentar o tal CAVALINHO, uma passagem alardeada por muitos como sendo a parte mais complicada da escalada, é o sétimo lance, uma passagem por fora da montanha, uma fenda lateral que vai dar acesso a entrada da Unha do Diabo. A partir de agora todos as mochilas devem ficar ali no platô, todos devem esvaziar as suas mentes, sua bexiga e tudo mais que faça o sujeito entrar leve porque uma vez dentro da chaminé, até respirar será difícil. O Alexandre procura não perder tempo e quando vejo , ele já havia sumido das minhas vistas e quando chego à beira do abismo, só consigo ver parte do Dema já dentro da fenda , gemendo para conseguir se jogar para dentro da chaminé. (Cavalinho) Quando chega a vez do Vinícius, auxilio fazendo uma espécie de segundo "segue". Ele se apoia na costura na entrada da fenda fixada logo acima, enfia a perna esquerda e parte do corpo na grande rachadura e se pendura no vazio até se arrastar para a entrada da chaminé e com muita dificuldade consegue se jogar para dentro. Assim que o Vinícius se acomoda entre as paredes da Unha, dá o start para que eu comece a escalar. O problema de fechar a corda é ter que fazer alguns lances tão expostos quanto quem faz a guiada e aqui no Cavalinho é pior ainda, porque se houver uma queda, além do escalador despencar no vazio fazendo um pendulo monstro, ainda vai arrastar o cara que está dando "segui" de dentro da unha, porque mal é possível se mexer lá dentro. Me aproximo do abismo com muito cuidado e já me agarro à costura para manter o equilíbrio. Muitos escaladores dão a dica para se entrar nessa fenda deitado com a barriga para cima, ou seja, enfiando a perna direita e ir se arrastando de costas até chegar na entrada da chaminé e já entrar virado para o lado certo, mas para mim é uma grande bobagem, coisa de gente barriguda mesmo. Portanto, seguro firme na costura e enfio a perna esquerda dentro da fenda que num primeiro momento me deixa com metade do corpo pendendo no vazio e para contraria as dicas dos velhos escaladores, já me ponho a olhar para o abismo de uns 200 metros, mas para quem já esteve pendurado no lance da Maria Cebola no Dedo de Deus, aquilo nem causa vertigem. Colo o corpo à pedra e vou avançando fenda acima porque na realidade não é uma reta e sim uma diagonal e é necessário fazer força para se avançar. Ganho meio metro de terreno e o meu corpo já escorre para dentro da fenda e me entalo dentro do buraco. Que beleza! Aquilo foi mole, uma vez dentro do fundo da fenda só faço avançar lentamente e já caio direto no interior da GRANDE CHAMINÉ DA UNHA DO DIABO, para mim aquele cavalo não passou de um pônei. Claro, caí do lado errado, com as costas viradas para a Unha, quando o certo é estar com as costas na parede da Agulha, mas basta um contorcionismo indiano e já me junto aos meus companheiros, tentando buscar um melhor posicionamento num lugar tão estreito que mal se consegue virar o pescoço e quem sofre de claustrofobia, deve pensar muito antes de encarar esse desafio. Continuando com a analogia, uma vez dentro da Unha, você agora está no terreno do tinhoso, agora não tem mais volta. Naquele lugar frio e úmido, espremido feito uma mortadela no pão de forma, é preciso ter sangue frio para seguir em frente, no caso, seguir definitivamente para cima. Aquele colosso de pedra que marca o oitavo lance dessa escalada incrível, vai com certeza marcar a vida de qualquer homem metido a escalador e eu acho que não há ninguém que não saia dali transformado, pelo menos não se o cara for alguém chegado recentemente ao esporte ou até mesmo velhos escaladores, o certo é que ninguém sai indiferente. O Alexandre foi quem veio tocando toda nossa escalada até então, coube a ele a responsabilidade de abrir caminho guiando a nossa corda, fazendo desenrolar as encrencas que iam surgindo pela frente, e sem que ninguém se apresentasse para enfrentar o demônio de frente, coube também a ele arrombar as portas do inferno e dar início aos trabalhos de escalada da temida chaminé da Unha. O primeiro grande problema é conseguir sair do chão nessa chaminé, já é difícil até respirar lá dentro de tão apertada, imagina conseguir espaço para se elevar e se grudar às paredes, ainda mais para o Alexandre com estatura alta. A ralação inicial é de dar dó do coitado, mas ninguém disse que seria fácil. Aos poucos ele foi progredindo e quanto mais se sobe, melhor fica, porque a parede vai abrindo aos poucos. Logo ele chegou à primeira proteção da chaminé e estacionou numa grande fenda que serve como um patamar de descanso, o primeiro demônio havia sido vencido, mas uma legião de outros demônios estava à espreita, só esperando para o contragolpe final. (chaminé da Unha ) Lá embaixo, estacionados no fundo da Chaminé da Unha, Eu, o Dema e o Vinícius, não conseguíamos ver nada do que estava acontecendo com o Alexandre, porque como eu disse, o lugar é estreito e sobe em curva. O Alexandre fez de tudo, mas parecia mesmo que esse era um demônio que ele não estava a fim de encarar guiando. Também pudera, sua condição psicológica já deveria estar em frangalhos somada ao excesso de gasto energético ao qual tinha passado para trazer nossa corda guiando até o momento. Ele resmungava ao longe, como se tentasse levar os capetas guardadores de chaminé na conversa, mas não teve jeito e não houve reza e nem oração que fizesse com que deixassem o nosso amigo passar, seria preciso chamar alguém tão ruim quanto aqueles filhotes de satanás. Ainda lá embaixo, passando frio e apreensivos quanto ao rumo daquela “expedição”, três escaladores quase que brigavam para não ir, ou ao menos, não ser o primeiro a tentar salvar aquela escalada, já que o nosso principal guerreiro já estava meio fora de combate grudado na parede mais acima. Nessa luta do bem contra o mal, cada um se defende como pode e eu já usei minha arma principal, que é a de persuasão e logo tentei convencer que o DEMA era o cara perfeito para aquele enfrentamento, olha só que ironia, o mesmo cara que saiu desacreditado porque estava há muito tempo afastado da escalada. Mas o Dema foi o cara que se apresentou primeiro mesmo, parecia ser o cara mais confiante naquele momento e eu e o Vinícius torcíamos muito para que desse certo, senão teríamos que sair da nossa zona de conforto, que nem era tão confortável assim, e nós mesmo tentarmos fazer aquilo que a gente sabia que teríamos que fazer. Assim foi feito, com as nossas bênçãos, o Dema grudou naquela parede e subiu até onde estava o Alexandre e daí para a frente mal ouvíamos a conversa entre os dois, somente quando o Dema gritava para que os demônios que o atormentava fosse saindo do seu caminho é que ouvíamos a sua voz. O Alexandre auxiliava ele, mas ali não é a técnica que prevalece, é a força interior é a vontade de não cair e de permanecer grudado à parede, a vontade de chegar ao final da chaminé, e só o Dema poderia narrar esse sentimento, o certo é que quando ele gritou:" cheguei", o ecoo da sua voz chegou ao nossos ouvidos lá embaixo e houve um misto de felicidade e satisfação, era a certeza de que havíamos dado um grande passo para que aquela escalada terminasse com sucesso. Chegando na Ponta da Chaminé da Unha, o Dema puxou o Alexandre, fazendo o "segue" dele e quando esperávamos que seria a nossa vez de nos juntarmos aos dois, o próprio Alexandre pediu que esperássemos porque não havia mais lugar lá encima e que primeiro faria a proteção para que o Dema fosse ao cume e nos esperasse lá, era mais do que justo. Quando o Vinícius partiu de vez, foi que me vi só naquele mundo hostil, encravado no meio de um vale selvagem, quase no cume de uma das formações rochosas mais espetaculares do todo o planeta. O Vinícius chegou ao topo da unha, não sei como, não sei de que maneira, não sei que tipo de enfrentamentos teve nesse seu martírio, só sei que quando ele gritou que o "segue" já estava pronto e que eu poderia subir, não deu nem tempo de fazer o sinal da cruz porque a ansiedade era tanta que eu já estava a uns dois metros do chão, totalmente inebriado pelo aquele momento mágico. No começo a subida parece impossível, mas pensando bem, mesmo apertado e quase que usando os dentes para conseguir ganhar altura no início, é muito melhor do que o que estava por vir. Logo chego à primeira proteção, onde consigo encaixar os pés e tomar fôlego, tiro a corda da costura e ao olhar para cima ainda me dou conta que faltam uns 15 ou 20 metros de chaminé, Jesus! Naquela Chaminé dos infernos pouco importa se você está guiando ou se está indo de "segue", ali os seus demônios interiores vão te colocar à prova. Quando meus pés deixaram aquele ultimo patamar e virei com as costas agora para pedra da unha, foi como se todos os demônios pulassem para cima dos meus ombros. Milímetro a milímetro fui vendo aquela parede passar diante dos meus olhos e o demônio da dor foi o primeiro a tentar me derrubar pelo tornozelo, já bastante inchado pela torção na trilha de acesso. Me concentrei o máximo que pude, as pernas tremiam e a cada metro ganho, mais infeliz eu ficava porque via o chão cada vez mais distante. “Não quero cair, não vou cair, sai pra lá cão dos infernos, cadê o fim disso meu Deus do céu? ‘ Minha cabeça parece girar, não quero olhar pra baixo, mas é o instinto ou é a tentação do além que me força a fazer isso. A cada metro subido, a chaminé vai ficando mais larga e mais difícil de se sustentar, já perdi a concentração, mas continuo mirando somente a costura que está acima da minha cabeça, não quero nem saber, vou me agarrar nela quando lá chegar, mas quando lá chego, ela já ficou para baixo dos meus olhos e nem serve mais para nada mesmo, só faço seguir adiante confiando que o Vinícius ainda vai estar lá para me receber e não o chifrudo guardião do lugar. Na hora que minhas duas mãos tocam a aresta afiada do topo da CHAMINÉ DA AGULHA DO DIABO e prendo minha solteira nos cabos de aços que vão levar ao estirão final, mentalmente dou uma banana para aquele diabólico abismo em forma de chaminé. “ Não foi dessa vez que vocês nos venceram, seus desgraçados! Sentei-me ali na ponta da Agulha na companhia do Vinícius, já que o Alexandre também havia partido para o cume. Aliás, a visão do estirão final até o cume é algo impressionante, uma ponta de pedra lisa e que se não fosse a instalação de um potente cabo de aço, seria impossível ir ao cume dessa montanha. O tempo está perfeito, mal ventava nesse dia, lá encima muito mais quente que dentro daquela chaminé. Tomei folego, apreciei a paisagem ao redor e quando a “segui” vindo dos meninos do cume ficou pronta, me grudei aos cabos de aço e clipei minha solteira para o derradeiro lance antes da conquista final. (subida final) Esse é o nono lance, o que antecede o cume, e olhando para ele você acha que vai ser uma moleza e que vai passar com os pés nas costas. Eu também achei e me lasquei bonito, porque entrei nele todo displicente, somente pensando no topo e por isso mesmo fui com tanta sede ao pote que levei um escorregão e dei um tranco nos braços. Aquela pedra é extremamente lisa, é preciso procurar as aderências certas e botar uma força descomunal, além de ter que ir passando a sua solteira de um lado para o outro até que finalmente consigo avistar o Dema e o Alexandre junto à caixa do livro de cume. Estava definitivamente vencido os 2050 metros da AGULHA DO DIABO e quando lá cheguei, já não havia mais nenhum diabo para chutar a bunda, os meninos já haviam feito o serviço sujo e quando o Vinícius se juntou a nós, foram calorosos os abraços de comemoração, havíamos conquistado o PENHASCO FANTASMA, como era conhecida essa montanha nos seus primórdios. O topo é minúsculo, mas muito maior do que havia sido alardeado por outros escaladores, tanto que depois ouvimos uma história de que alguém havia acampado no cume com uma barraquinha e se o topo não é lá grande coisa, a paisagem ao redor é grandiosa. Para muitos estar no cume daquela montanha lendária poderia ser somente mais uma escalada, mas para nós era mesmo uma grande honra, como eu havia dito, não somos pertencentes as comunidades de escaladores tradicionais, somos mais um grupo de amigos do interior Paulista que um dia ousou se juntar para aprender os rudimentos da escalada e olha só aonde fomos parar. Aquilo era incrível, quanta montanha linda ao nosso redor, quantos abismos colossais, que paisagem fenomenal ! ( Cume) Já passava das cinco da tarde e era preciso parar de sonhar e voltar ao mundo dos homens, muito porque, subir é só a metade do caminho e já é sabido que a maioria dos acidentes acontecem nas descidas. Assinamos o livro de cume e já demos início ao primeiro rapel que num primeiro momento vai nos devolver até o topo da unha. A descida do cume da Agulha do Diabo até topo da chaminé da unha é um dos piores rapeis que eu já enfrente na vida. É necessário descer a pedra lisa, atrelando a solteira ao cabo de aço porque é muito grande a chance de se escorregar e fazer um pendulo que vai rodopiar no vazio. A gente vai descendo e a força da gravidade vai te jogando para fora da pedra, te empurrando, como se quisesse te chutar para fora da montanha. Uma vez no topo da unha da chaminé, o segundo rapel não é por dentro dela e sim por fora, uma descida não muito melhor que anterior e só não é pior porque alguém serve como anjo lá embaixo, guiando a corda para fora dos abismos até que se chegue em segurança no platô da unha, juntamente enfrente de onde está a placa homenageando os conquistadores. Quando desclipo a corda e me achego ao próximo rapel, o terceiro em questão, nem encontro mais o Alexandre e o Dema, que já desceram com a outra corda e já vão se encaminhado e adiantando o caminho. Nesse terceiro rapel vamos descer direto do platô da unha até a entrada inicial das chaminés em “L”, bem de frente para o pico do Diabinho, o que vai nos fazer cortar todo o caminho. Quando o Vinícius fecha a descida, ajudo ele enrolar a corda e juntos já pegamos a trilha, passamos novamente por dentro da caverninha e descemos até onde termina a quarta enfiada, aquele lance que você caminha beirando a parede rochosa. Nesse ponto encontramos dois “P” e nele já vemos a corda instalada que vai se enfiar por dentro de um mato e esse será o quarto e penúltimo rapel. Ao chegarmos ao patamar mais abaixo, agora sob a luz das nossas lanternas, finalizamos o último rapel, o quinto e descemos todos em segurança aos pés da Agulha do Diabo, perfazendo assim quase sete horas de escalada entre subir e descer. ( Pico do Diabinho) Conquistada aquela montanha, agora era preciso sair vivo daquele buraco. Sem muitas delongas já estávamos de volta à Gruta da Geladeira, mas ao invés de nos enfiarmos no buraco no teto e voltarmos para útero da nossa mãe, aproveitamos um “P” instalado encima da gruta e improvisamos um rapel até o chão e sem perder tempo fomos descendo aquele vale de pedra no escuro, escorregando nos patamares rochosos até chegar na curva que vai nos levar de volta para cima. É uma subida de matar mula, coisa que nem nos demos conta quando estávamos descendo, talvez pela ansiedade da escalada, mas agora é um tormento. Aquilo é praticamente outra escalada e a canseira e o sono vão tomando conta da gente e quando saímos desse racho da montanha e nos vimos na parte plana, foi como se tirássemos uma tonelada das nossas costas. O Alexandre ia à frente porque conhecia mais a trilha e sem que nos descemos conta, pegamos uma bifurcação errada. Gritei para o Alexandre que estávamos confusos e ele murmurou algo sem sentido e eu acabei indo parar numa falsa trilha, descendo em um mato alto e me perdendo e aí tive que varar um capim no peito e subir trepando um barranco íngreme e enquanto fazia isso, ia fazendo elogios à mãe do Alexandre por não ter nos esperado naquele trecho. Interceptamos a trilha da descida final e logo caímos morto novamente no Acampamento Paquequer. Ao chegarmos ao Paquequer, o Alexandre já foi dizendo que não ia acampar ali de jeito nenhum, que ali era muito úmido e que ia passar um frio do cão. Eu por mim teria desmaiado por ali mesmo, mas como o Vinícius e o Dema também não quiseram enfrentar a “tirania” do Alexandre, pouco me importei e quando eles levantaram a bola de fazer uma janta quente antes de partirmos para talvez acamparmos no gramado do Abrigo 3, eu já estava com o fogareiro ligado tostando o bacon. Já era bem tarde quando partimos e deixamos aquele vale para trás. Escalamos as rampas de pedra até o mirante, nos embrenhamos na mata morro acima até saírmos de vez na trilha principal que desce da Pedra do Sino e nos pomos a caminhar mais rapidamente, agora com a visão deslumbrante das luzes de Teresópolis no vale. Ao chegarmos no Abrigo 3, um infeliz dos infernos teve a ideia de querer continuar a caminha a fim de bivacarmos na grande toca que fica há mais ou menos uma hora do final da caminhada. Nessa hora eu já não tinha mais vontade de dar opinião nenhuma, eu era só um zumbi tomado pela vontade de ver o fim daquela aventura terminar em algum lugar que pudesse esticar o esqueleto. Caímos de vez novamente naquele zig-zag irritante e uma hora depois, ao pararmos para tomar um folego, já havíamos tocado o foda-se e decidido não dormir em mais nenhuma toca, iríamos sair do parque seja lá que hora fosse. A madrugada já ia alta e a gente ainda estava presos naquela trilha e pior, até os caras novinhos não faziam outra coisa senão a de amaldiçoar aquele caminho. Teve uma hora que o grupo se dispersou. Minha lanterna já não clareava mais nada e eu mal enxerguei quando a tal gruta passou ao meu lado. Eu já nem caminhava mais, meu pé já parecendo uma bola, apenas fazia com que eu me arrastasse em transe e não demorou muito para o Alexandre me ultrapassar e me por na condição de fiofó de tropa. Pensei em parar, sentar, deitar um pouco para aliviar os pés e as dores nas costas por causa da mochila, mas não estava querendo passar atestado de molenga, tinha uma reputação a zelar e quando ouvi o barulho de água me animei um pouco e tirei forças para desembocar de vez no asfalto da barragem, já dentro da sede do Parque Nacional da Serra dos Orgãos e sem perder tempo já descemos pelo asfalto até onde havíamos deixado o carro estacionado. Passamos pela portaria do Parque, demos baixa na nossa saída e ganhamos a estrada e voltamos novamente ao posto de gasolina aos pés do Escalavrado, chegando depois das 2 da manhã, 20 horas depois de termos partido daquele mesmo ponto. Ninguém queria saber de nada e eu muito menos, tanto que quando me deitei em um lugar qualquer naquele posto de gasolina, já ameacei de morte o primeiro cara que inventasse de me acordar antes das oito da manhã. Quando o dia amanheceu e o sol ameaçou nos despejar, pegamos nosso caminho e voltamos para a nossa aldeia , perdido num canto esquecido do interior Paulista. Na semana que antecedeu a escalada, a maioria teve insônia e a ansiedade tomou conta de praticamente todo mundo. Naquele momento cada qual travava uma batalha ferrenha, era uma guerra silenciosa contra os seus próprios demônios interiores. Parece ter ficado claro que todos os tais demônios narrados nesse relato, nada tem a ver com personagens malignos, tirados de qualquer religião, é tão somente a materialização dos nossos medos, das nossas angustias, das nossas frustrações. Temos medo do fracasso, medo de não dar conta da empreitada que nos propusemos a realizar, medo de falhar e por consequência, nos quebrar, mas quando esses medos são domados, esses demônios exorcizados, aí a gente cerra os punhos e comemora a vitória, aí a gente volta para casa feliz, porque a luta valeu a pena, descobre que não vencemos só uma montanha, mas vencemos a nós mesmos. E aquela AGULHA nem era tão do Diabo assim, haja vista que nos fez voltar para casa com um belo sorriso no rosto, nos fez voltar para casa muito mais satisfeitos, porque juntamos um grupo de velhos amigos num só objetivo: Escalar uma das mais incríveis montanhas do mundo e celebrar a vida. Divanei Goes de Paula - julho/2018 NOTA IMPORTANTE: Esse relato foi escrito de uma forma simples para que as pessoas que não são ligadas a escalada possam enterder, muito porque, eu mesmo sou apenas um montanhista que aprendeu os rudimentos da escalada para poder ir ao cume de montanhas como a Agulha do Diabo e o Dedo de Deus, portanto, se você é escalador profissional ou graduado, leve isso em consideração antes de tecer elogios a minha mãezinha (rsrsrrsr) . Abraços a todos.
  16. Valeu Leandro, essas expedições são sempre muito animadas, as vezes meio sem noção, mas sempre um grande prazer. Abraços !
  17. EXPEDIÇÃO PEDREADO “Qual é o propósito de um monte de homens adultos se jogarem numa jornada incerta, num roteiro desconhecido, chafurdando numa floresta quase que inacessível, num fim de mundo que quase ninguém sabe que existe? Enquanto tento achar resposta para essas perguntas, vou me arrastando pela margem deste incrível rio de águas quase que intocadas, tentando levar minha carcaça destruída até o acampamento, nesse final de tarde de outono. Ter um tornozelo torcido minutos antes de chegarmos as grandes gargantas foi um pouco de azar, por isso não fiz nem objeção quando alguém cantou a bola para pararmos ainda antes das 4 da tarde, mesmo porque, ser pego pela noite emparedados naqueles cânions poderia nos render um sofrimento desnecessário, melhor mesmo é ir cuidar das feridas, fazer uma janta quente e se preparar para o dia seguinte que promete ser de grandes aventuras. ” Não havíamos nem nos recuperado da Expedição ao VALE DO RIO SÃO LOURENCINHO, que quase culminou em uma tragédia e meus olhos já se voltaram para outro grande rio isolado ali da região de Juquitiba. O grande rio PEDREADO, conhecido e chamado pelos sitiantes locais pelo nome de RIO DO BRAÇO GRANDE, nasce no meio da Serra do Mar Paulista e se enfia em um vale quase inacessível, terra de ninguém, visitados eventualmente eu suas partes mais planas, apenas por alguns corajosos palmiteiros e caçadores mais audaciosos. Quando os estudos começaram, já ficou claro que esse rio apesar de selvagem, não teria um desnível tão abrupto quanto outros já explorados por nós, mas o fato de ser uma travessia extremamente longa da sua nascente até a sua foz, no encontro com o próprio São Lourencinho, esse afluente do Rio Juquiá, já me fez olhar essa expedição como uma missão de respeito. O rio era longo, mas a parte que nos interessava, aquela onde quase ninguém já teve coragem de meter a cara, contava com um 20 km de travessias, grande demais para apenas 4 dias, que era o tempo que dispúnhamos. Mesmo assim tínhamos que ariscar, precisávamos que alguém fosse lá e encontrasse um caminho até o rio, que alguém investigasse a qualidade da água. Para essa missão prévia se apresentou como voluntários Décio Marques e Regis Ferreira, que para lá se dirigirão, entraram pelo Bairro do Engano e se embrenharam nuns sítios abandonados até darem nas barrancas do Pedreado. Fizeram um excelente trabalho, e voltaram com o caminho mapeado no GPS, estava estabelecido a rota até o rio, agora era hora de montar uma equipe e botar mais um rio selvagem no mapa das grandes travessias da Serra do Mar Paulista. Ao apresentar o projeto para a equipe, a grande maioria já deu uma desdenhada, achando que por não haver grandes desníveis, talvez não valesse a pena tanto sacrifício e seria correr um risco desnecessário. Na minha opinião, depois de passar meses debruçado sobre os mapas de satélite e cartas topográficas eu não tinha a menor dúvida que a expedição era totalmente viável, muito porque se tratava de um rio selvagem, em estado quase bruto e que ao longo do caminho receberia mais de 50 afluentes de águas intocáveis, atravessando uma das mais exuberantes florestas do mundo. Resumindo: Parte do grupo caiu fora e foi se divertir em outras paragens. Paciência, como a gente fala, não existe carteirinha e nem obrigação com ninguém e cada um tem a liberdade de ir quando quiser e quando bem entender e isso é muito legal porque sempre deixamos bem claro. Os feriados foram passando e nada da expedição sair do papel até que no feriado de maio encostei uma meia dúzia de sem noção à parede, montamos um grupo e mesmo com alguns desconfiados quanto ao roteiro, resolvemos que já estava na hora de desvendar os mistérios escondidos naquele fim de mundo. Às nove da noite já estava eu plantado na Estação Faria Lima do Metrô, na capital Paulista, quando me aparece Paulo Potenza, arrastando atrás de si Thiago Dias (Rasta) com seus cabelos de corda, mal deu tempo de cumprimenta-los e já surgiu sei lá de onde, Guilherme rocha, que veio me cumprimentar dizendo que acompanhava meus relatos na internet e quando pediu para tirar uma foto comigo, tive que aguentar a zueira geral, muita coisa para um caipira do interior de São Paulo, rsrsrsrsrs . Não demorou muito e os outros chegaram e o grupo se completou com Anderson Rosa, Régis Ferreira, Rafael Araújo e Daniel Trovo. Nos dirigimos para o tal Largo da Batata e lá pegamos um ônibus para Itapecerica da Serra e de lá outro para Juquitiba, aonde uma van escolar já esperava para nos levar até o mais próximo do rio. O motorista rodou por 14 km pela BR 116 no sentido sul e depois entrou no tal bairro do Engano, tocou direto pela estrada principal para o sul e seguiu sempre por ela que foi se dirigindo para leste/sudeste e se bifurcou 5 km depois que saímos da BR e ali paramos porque não havia mais condições de seguirmos motorizados. Num primeiro momento eu pensava em adentrar no sítio em que a vam havia nos deixado e cortar caminho por um vale, andando uns 2 km até atingirmos o rio Pedreado, mas logo vimos que seria impossível forçar passagem por uma área habitada de madrugada e aí resolvemos seguir o plano original, o roteiro conseguido na primeira incursão. Portanto, naquela madrugada de sexta para sábado, jogamos as mochilas às costas e partimos pela estrada da esquerda que logo adentra pela mata e sem pegar nenhuma bifurcação, vamos seguindo por ela que vai ficando cada vez mais intransitável, passa por um sítio à esquerda e uns 300 m depois o terreno se abre e aparece um grande lago também à esquerda, denunciando ser ali o último ponto com sinal de gente porque a partir daí a estradinha vira quase um trilha e numa bifurcação pegamos para a direita até desembocarmos num sítio abandonado de gente aonde uma placa nos dá as boas-vindas: Caiam fora, proibido entrar, caçar, pescar, colher palmito, MEXEU MORREU ! A gente sabia que ali é terra sem lei, mas naquela hora da madrugada era o nosso único porto seguro para tentar descansar um pouco, então adentramos assim mesmo, já que era nítido que não havia ninguém no sítio. O lugar até que estava bem cuidado, sinal que não estava de todo abandonado. Em uma das casas, uma grande varanda já nos chama a atenção e nos indica um possível lugar para nos abrigarmos. Na outra casa encontramos a porta sem trancas, mas o lugar estava deplorável, com cheiro de rato morto e não havia a menor possibilidade de dormimos nas camas, mesmo assim arrastei um colchão mais apresentável e o levei para a varanda da outra casa, fiz o mesmo com um cobertor que continha apenas bostas de ratos, nada que uma boa espancada não o deixasse em condições de uso, mesmo sobre protesto e cara de nojo dos participantes daquela expedição. Então nos alojamos ali naquele casebre mequetrefe e cada um se ajeitou como pode, espalhando seus sacos dormir sobre lonas ali no chão de barro e eu tive uma noite de rei, sem friagem, sem umidade e dormi como um anjo, mesmo que alguns dissessem que nem o satanás ousaria usar aquele cobertor e aquele colchão, bobagem, exagero da galera, (rsrsrsrsrsrs). Pouco depois das 6 da manhã já estávamos de pé, tomamos café, arrumamos as mochilas e partimos. Passamos entre os dois casebres e demos a volta no lago e interceptamos uma trilha atrás dele, mas não andamos nem cinco minutos e o Régis já notou que havíamos entrado pelo lado errado, então varamos mato para a direita por uns 100 metros e achamos a trilha de acesso ao rio. Sabendo que o rio iria fazer várias voltas, resolvemos cortar caminho e seguir rente ao morro do nosso lado direito e fomos varando mato acompanhando a direção correta dado pelo nosso GPS. Aliás, havíamos marcado todo o percurso do rio Pedreado com GPS e escolhemos como nosso navegador Anderson Rosa, que iria conduzir aquela expedição com extrema competência no uso do Wikloc, que foi o aplicativo usados. A chegada ao rio alegra todo mundo. Ele está lindo, a água ainda um pouco amarelada, típica de rio ainda de planalto, que carrega um pouco de sedimento, mas logo saberíamos que ele a cada curva iria ganhar novos afluentes de águas cristalinas e irá aos poucos se transformando em um rio translúcido. Como sempre acontece, no início da caminhada a gente vai tentando manter as botas secas, tentando ganhar terreno pela margem ainda plana e transitável, mas não demora muito para as botas começarem a empapar e quando o mato fecha de vez é hora de largar de frescura e se jogar de vez na água fria da manhã, a AVENTURA ESTÁ POSTA À MESA. Nesse início o rio se mantém raso, com a água mal passando do nível da cintura, mas numa grande curva, quando somos obrigados e passar com água na altura do peito e vez por outra tendo que nadar nos lugares mais fundos, foi aí que demos conta de que esse rio seria uma grata surpresa, e alguns, que antes se mantinham céticos a respeitos do sucesso daquela expedição selvagem, já se renderam completamente e seus olhos brilharam de felicidade. O rio serpenteia, vira para um lado, vira para o outro e quando dava, usávamos suas margens para nos locomover com maior rapidez, nos utilizando também de algumas raras trilhas de palmiteiros e caçadores, aliás, em poucos lugares na Serra do Mar vimos tantas Palmeiras Juçara. Logo o rio se encaminha para dentro da floresta densa e até os raros caminhos de palmiteiros já não são mais vistos. O dia já ia pela metade quando a primeira garganta se apresentou à nossa frente, local que chamaríamos de PORTAL DO PEDREADO. Nesse ponto o rio começa a se encachoeirar e as grandes rochas faz valer o nome dado ao rio. Paramos ali para um breve lanche e para traçar a estratégia de descida, que é sempre a mesma : ganhar um pouco de altura pela direita para depois começar a descer na diagonal, que vai nos devolver de novo ao rio aonde uma Grande Cascata se apresenta e como alguns caras estavam meio que apressados para passarem por esses obstáculos, coube a mim e ao Régis nos enfiarmos numa descida para registrarmos umas fotos do salto, que aliás, era muito bonito, quase que se espalhando de um lado ao outro do rio Pedreado. Logo nos encontramos entre algumas paredes com corredeiras um pouco mais rápidas e foi ali que o Rafael tentou se jogar e ir boiando e se fudeu todo, sendo arrastado pela água e quase triturado pela máquina de lavar natural. A caminhada consiste em avançar pelo rio, hora por dentro da sua correnteza, hora pela sua margem às vezes planas e com mata mais aberta. Quase sempre era preciso cruzar de um lado a outro e numa dessas travessias vindo do interior da floresta, eu mais um pisamos a um palmo de uma jararaca velha, mas foi o Rafael que quase foi picado ao se apoiar na pedra e cair com a mão encima da serpente, que por sorte só fez pular fora da rocha. Notamos logo que teríamos problemas com as cobras e não demorou muito já me deparei com outra jararaquinha tomando sol encima de uma outra pedra no meio do rio e também tive sorte de vê-la antes de saltar sobre a pedra, ainda bem-estarmos todos com perneiras e isso faz uma grande diferença, principalmente psicológica. A galera estava motivada e tudo era motivo para alegrar mais ainda o grupo, até uma ossada de queixada servia para distrair e virava assunto, mas um tal Potenza começou a aloprar todo mundo porque queria parar para nadar, mas eu e o Trovo queríamos ganhar terreno, ainda mais porque estávamos agora numa parte plana do rio e esperávamos encontrar grandes poços mais abaixo, mas como ele encheu muito nosso saco, tivemos que esperar quando ele resolveu se jogar num poço parado , cheio de tranqueiras. Depois dessa parada não muito estratégica, cruzamos o rio para sua margem direita e os olhos treinados de lince do Rosa localizou um girau de caça e o Rasta investigando o terreno encontrou um vestígio de trilha. Nos enfiamos nesse caminho e qual não foi a nossa surpresa ao encontrarmos um vestígio de antiga estrada tomando o caminho para o norte. Era praticamente uma trilha, tomada de árvores de grande porte e só olhos bem treinados seria capaz de saber que outrora aquilo fora uma passagem maior. Mas com o objetivo daquela estrada, para que teria servido, porque estaria ali? Estudando a carta topográfica de 1973 era possível verificar que nela constava a construção de uma pequena usina hidrelétrica, coisa comum nessa época, mas esta usina, se existisse, estaria muito mais abaixo e só a encontraríamos no segundo dia de travessia. Bom, o certo é que seguir aquele caminho mais desimpedido era uma boa pedida, mas depois de uma meia hora, talvez menos ,esse vestígio de estrada foi se afastando cada vez mais do rio e eu a todo momento insistia para direcionarmos nosso nariz de volta para as barrancas do rio. Sem me dar ouvidos, parte do grupo continuou caminhando, mesmo que a estrada fosse cada vez mais se afastando do rio e ganhando altura. Teve uma hora que eu já estava implorando para a gente tomar outro rumo, tanto que cheguei a apostar até a minha dignidade, contando com o Rafael como fiador da aposta e tendo o Potenza como assinante de algumas promissórias. Mas os caras não queriam nem saber e quando a caminho se bifurcou, pulamos um afluente e seguimos meio que para oeste, infelizmente ainda subindo. Eu já estava nos cascos quando finalmente a tal estradinha que nem trilha mais parecia de tão fechada, se enveredou para o sul, indo em direção ao rio e logo à frente ela acabou de vez e aí descemos escorregando em um barranco até desembocarmos umas 4 da tarde, olha só, bem na barragem da tal usina hidrelétrica. Ninguém entendeu nada, na marcação da nossa carta topográfica essa tal usina seria muito mais abaixo do rio, tanto que só esperávamos encontra-la apenas no outro dia. Achar essa Usina hidrelétrica foi mesmo gratificante porque pensávamos até que ela nem existisse e chegamos à conclusão de que o IBGE havia cometido um pequeno engano ao coloca-la um pouco mais abaixo, um erro plenamente justificável, haja vista que a carta datava de 1973, mas a construção dessa usina é muito antes disso, talvez da década de 30 ou 40. Então estava explicado aquele vestígio de estrada que havíamos encontrado, ela serviu para a construção da usina, que por sua vez foi construída para alimentar uma madeireira as margens da local aonde hoje é a BR 101. Claro, é uma usina minúscula, tanto que só no outro dia conseguimos localizar no meio do mato e carcomida pelo tempo o maquinário e a turbina que gerava a energia, mas hoje só resta mesmo a barragem de pedra que fecha o rio de um lado ao outro, mas ainda deixando passar toda sua água, formando uma bucólica cachoeira aos seus pés e diante desse engano e aproveitando a própria deixa com o nome do bairro, vou chamar essa queda d’água de CACHOEIRA DA USINA DO ENGANO, para marcas essa localização. Ainda era muito cedo para acamparmos, mas os caras bateram o pé para que passássemos a noite ali e quanto a isso não fiz objeção, mesmo achando ser muito cedo para arriar as mochilas. Então nos pés da cachoeira armamos nossas redes e enquanto alguns cozinhavam, outros aproveitaram para se esbaldar no poço da queda d’água. Alguns se viraram como puderam, fazendo o velho e tradicional miojo, mas eu, em parceria com o Régis, cozinhei uma boa de uma janta reforçada. Aliás, o Régis e o Rasta eram os novatos do grupo, mas logo se enturmaram e não escaparam em nenhum momento das piadas e chacotas destinadas aos debutantes, muito porque eles mesmos, já “não valiam nada”(rsrsrsrsr) Foi uma noite bem dormida, de temperatura agradável e só não foi melhor porque demora um pouco para a gente se acostumar com o barulho da queda d’água explodindo no poço da usina, mas o dia que amanhece é um dia sem nuvens e promete ser sem chuvas. Antes das sete da manhã já estávamos de pé, mas só depois das oito foi que nos animamos a partir. Ficamos divididos entre voltarmos para a estrada/trilha ou continuar seguindo por dentro do rio, mesmo ainda sendo muito cedo para nos atirarmos na água. Num primeiro momento tentamos descer pela margem e não andamos nem 100 metros já nos deparamos com a tal casa de maquinas em completa ruina, aonde o caminho acabou de vez. Querendo ganhar um pouco de terreno resolvemos retornar e novamente interceptar a tal estradinha, mas logo descobrimos que ela na verdade acabava mesmo ali na usina e quebramos a cara porque perdemos muito tempo rodando para ver se achávamos ela na direção que pretendíamos. O jeito foi retornar novamente até a antiga casa de maquinas e varar mato pela direita, até que o barranco fechou nossa passagem e fomos obrigados a nos jogarmos novamente dentro do rio e uma vez com as partes baixas molhadas, não havia mais motivos para fugirmos da água gelada. A caminhada seguiu alternando as margens do rio e sempre procurávamos facilitar nossa passagem, as vezes varando mato por algum barranco, outras vezes abrindo passagem pela vegetação mais tranquila, quando o rio se estabilizava, até que chegamos às gargantas e aí foi hora de nos esgueiramos por dentro de grandes rochas, subindo e descendo, escalando fendas e vencendo paredes lisas. Não que o rio nessa parte tenha grandes correntezas, mas sempre é um tormento para atravessá-lo, principalmente para mim que sou muito leve e qualquer bobeada aumenta a chance se ser arrastado é um perigo real, mas quando se pode ver o que se esconde atrás de alguma curva é sempre um barato se jogar nessa correnteza e deixar com que a força do rio o conduza bem mais à frente , sem nenhum esforço, nos poupando energias .Quando o rio resolve se enfiar de vez numas paredes que o espreme, é hora de pular fora dele e voltar a escalar pedras novamente. Chega uma hora que a margem que se caminha não serve mais ao nosso propósito, então é preciso montar uma operação para conseguir voltar ao outro lado. Caminhar pela Serra do Mar é algo incrível não só pela paisagem deslumbrante e selvagem, mas também pela forma com que se faz isso. Aqui não seguimos nenhuma regra cagada aos quatro ventos por grupinhos constituídos, as regras nós mesmos criamos dependendo do momento e da ocasião e para atravessar uma torrente de água basta uma cordinha qualquer, um nó de emergência criado na hora por quem se sente mais seguro com ele. Basta um pedaço de pau qualquer, uma mão amiga para não deixar que o indivíduo despenque na queda mais abaixo e tudo está resolvido. Mais à frente o rio se afunila mais ainda e aí é preciso tomar cuidado para não escorregar e cair na máquina de lavar e se lascar todo. Logo sem ter como prosseguir voltamos a nos enfiar no mato e subimos barranco abrindo passagem pela vegetação mais densa até novamente podermos voltar ao rio, desta vez sobre uma imensa laje de pedra, hora de parar para um breve descanso e umas mordidas em uns lanches. A cada passo dado, a cada metro que ganhamos vamos vendo a transformação desse rio. Suas águas vão ganhando novos afluentes e vão ficando cada vez mais cristalinas e logo quando as gargantas acabam, nos vimos caminhando numa mata bonita, onde o rio vai se enlarguescendo e fazendo várias curvas. O dia já vai bem adiantado quando começamos a sentir um cheiro característico de comida no fogão a lenha, sinal de que algum grupo de caçador poderia estar por perto, mesmo porque, vimos no mapa que estávamos nos aproximando de um local aonde era possível que se pudesse chegar ao rio pela existência de uma estradinha no passado. Passamos em silêncio, não queríamos ser confundidos com algum animal de caça e corrermos o risco de tomarmos um tiro de cartucheira. Resolvemos mudar de margem para uma maior segurança e de repente, sem prévio aviso, tropeçamos numa ponte pênsil que atravessava o rio de um lado a outro, que ligava nada a lugar nenhum. Estava bem claro que havia um caminho vindo de algum lugar da civilização, mas era claro que nenhum turista chegava por ele, haja visto que não havia nenhum sinal de lixo. Logo acima da ponte de cabos abria-se uma grande clareira e a partir dela saia uma larga trilha que denunciava que realmente no passado uma estradinha poderia ter chegado até ali. Parte do grupo que estava à frente resolveu seguir a larga trilha que se distanciava do rio na perpendicular e era claro que não serviria a nosso propósito, mas os caras teimosos foram seguindo, feito cabras segas, enquanto eu o Rasta já putos da vida, seguíamos atrás reclamando porque víamos que aquele caminho não daria em lugar nenhum, a não ser para nos tirar da nossa rota. Dez minutos de caminhada, depois de uma curva, surge a nossa frente um telhado de um rancho e isso fez com que a gente ficasse apreensivo por não saber o que encontraríamos naquele fim de mundo e poderíamos dar de cara com os bandoleiros da serra que provavelmente nos receberia com um trabuco na cara. Se nós já estávamos apreensivos, imagina a cara dos sete homens que foram surpreendidos por outros sete saído do meio da floresta, vindos sabe-se lá de onde. O rancho não passava de uma construção rústica, com uma cobertura de telhas, mas sem paredes e rodeado de algumas lonas velhas. Mesmo sendo um barraco qualquer, no meio daquela selva parecia mesmo um castelo, onde um fogão a lenha jogava fumaça pelos ares denunciando que havia comida cozinhando e algumas camas rusticas espalhadas pelo outro ambiente completava o senário do palácio perdido. Logo nos apresentamos como aventureiros e exploradores, eliminando assim qualquer mal-estar que a nossa presença pudesse causar. Aqueles homens que ali estavam não eram caçadores e nem palmiteiros e sim convidados do cuidador daquela propriedade que segundo nos disseram, pertencia a um grande banco que a comprou para fazer lastro financeiro, mas eles estavam ali apenas para praticar um ócio: beber, comer e jogar conversa fora. Ao lado do rancho, uma willis velha deixava claro que realmente havia uma estrada ligando a civilização ao rio, mas por ser propriedade particular, ninguém passava, deixando o lugar no mais total isolamento. Todos apresentados. Fomos logo convidados a nos sentar à mesa para compartilhar a refeição, coisa que o Daniel Trovo já recusou de cara por educação, mas como educação passou longe da barriga lombriguinha do Potenza, o “zoiudo” já se atirou no fogão à lenha e saiu de lá com um prato caindo comida pelas beiradas. O Trovo mandou logo sua educação para os quintos e abocanhou seu quinhão e assim, um a um foram se achegando naquele fogão à lenha e revirando o “zóio” de tanto comer. Eu mesmo, um pouco mais contido, talvez pela minha educação europeia, ao olhar para o tamanho daquela panela, aonde poderia comer umas 20 pessoas e me dando conta que sobre aquele rústico fogão havia dobradinha com carne de porco, arroz, torresmo, carne de panela cozida com palmito selvagem, enchi meu prato como se fosse um refugiado de guerra, muito porque aqueles homens não estavam mesmo a fim de comer mais nada, já estavam com o rabo cheio de cachaça. Fazendo justiça a um do nosso grupo, que se recusou a comer todo aquele banquete, não posso deixar de citar o único cara que se mostrou civilizado naquele dia e se manteve firme nas suas convicções, o Rasta não tocou na comida, mesmo estando varado de fome, não por ser um lorde inglês, mas simplesmente por ser vegetariano e esse foi o único que se lascou bonito e teve que fazer sua própria janta. Bom, a comida estava boa, o papo estava melhora ainda, mas já passava das 4 da tarde e a gente tinha que decidir o nosso rumo. Numa rápida reunião decidimos que mesmo ainda sendo muito cedo, acamparíamos na clareira à beira do rio, mas aí o inesperado veio alegrar a alma já que a barriga estava para a lá de cheia. Seu Joaquim nos ofereceu o rancho para passarmos a noite já que eles estavam de partida em no máximo meia hora. Não havia o que pensar, aceitamos e ficamos agradecidos pela oferta, aquilo iria além do que a gente sonhava. Enquanto os donos do rancho se organizavam para ir embora, aproveitamos para tomar um bom banho no rio e colocar roupas limpas e secas e quando retornamos eles haviam partido e aí nos apossamos do abrigo e cada qual foi escolher sua cama e seu colchão. Os mais espertos se empoleiraram nas camas rusticas e os outros tiveram que se deitar no chão mesmo. Ali naquele casebre improvisado e quentinho rolou papo furado até quase de madrugada, sempre regado a café e chá. Alguns ainda se deram ao luxo de comer o resto da comida que havia sobrado, outros foram ainda preparar mais comida. Na hora de deitar os homens se separaram dos meninos logo que elas surgiram: Eram aranhas de tudo quanto é tamanho e tipo, saíram dos lugares mais estranhos e foram tomando tudo de conta. Alguns logo se revelaram com a masculinidade abalada e outros nem disfarçaram, já largaram os colchões no chão e trataram de montar suas redes, até aqueles que vive de defender a sociedade acabou por nos decepcionar e ameaçou dar chilique e só depois de uma operação de guerra com muitas chineladas é que conseguimos vencê-las e os mais medrosos conseguiram pegar no sono no RANCHO DAS ARANHAS. Quando o dia raiou foi difícil abandonar aquele cafofo confortável e só lá pelas nove da manhã foi que resolvemos partir, ainda bem porque eu andava preocupado com o zunzum da noite anterior aonde alguns ameaçavam largar a expedição no meio e voltar para casa ou no mínimo ficar no rancho por mais um dia. De volta ao rio, a caminhada segue pela sua margem e não demora muito achamos um grande afluente do lado direito, justamente o riacho que rasgava a montanha e abri caminho para a estradinha que vinha da civilização. As andanças se alternam entre varar mato e andar dentro do próprio rio que nesse trecho é raso e plano, com uma água incrivelmente limpa e menos de duas horas depois achamos o que nos pareceu ser uma trilha e resolvemos segui-la, até que ela começou a se afastar muito da água e quando pensamos em abandoná-la, demos de cara com mais um abrigo abandonado. Apreensivo fomos nos achegando aos poucos e logo notamos que esse também estava vazio a um bom tempo e desse rancho partiu uma trilha que nos devolveu novamente ao rio. Nesse trecho a correnteza deu uma aumentada e o leito rochoso dificultava o caminhar, mas se por um lado é preciso empreender mais energia, por outro lado aquele era um cenário lindíssimo com poços sempre nos convidando para um mergulho e em um deles uma caverna escavada no barranco foi o parque de diversão de alguns mais afoitos. Logo em seguida, numa curva para esquerda, o rio desembestou de vez e para não ser arrastado pela correnteza foi preciso que passássemos nadando até uma grande espécie de ilha de pedra e por haver um super poço, foi a grande desculpa para ariarmos as mochilas para uma parada mais demorada e um bom mergulho e alguns se ariscaram a se jogar na correnteza e viraram passageiros do rio, num divertimento sem compromisso. Estávamos ansiosos para encontrarmos as cachoeiras que aquele dia nos prometia e quando as pedras do rio começaram a ficar cada vez maiores, já nos preparamos para desce-las e a primeira que apareceu foi logo uma que tomou conta de todo o rio, uma cascata não muito alta, mas que parecia com uma catarata que jogava gotículas de água para todos os lados. Para descer ao pé dela, parte do grupo varou mato pela esquerda, enquanto outros já se jogaram de cima dela e passaram à nado, aproveitando a força da sua queda para ir parar já na prainha de pedras. Já passava das duas da tarde, talvez um pouco mais e aproveitando a parada providencial, aproveitamos para instalar ali nossa capsula de registro de travessias selvagens,aonde deixamos nosso recado para os futuros aventureiros que por lá passarem algum dia e depois disso deixamos aquela bela cachoeira entregue a sua própria sorte e agora as CATARATAS DO PEDREADO ganhou o registro da nossa ilustre passagem. Para nossa surpresa, mal havíamos começado a caminhar e já demos de cara com mais uma gigante cachoeira, justamente a queda d’água que eu havia estudado tanto e imaginava que poderia ser uma das mais altas da travessia. Só que dessa vez não era uma cachoeira no Rio Pedreado, mas sim num afluente do lado esquerdo e a meinha suspeita se confirmou. Uma queda d’água larga de um grande rio vindo do interior da serra, mais um rio perdido nesse mundo selvagem aonde ninguém põe a cara e que transforma esse ecossistema em um dos mais espetaculares da Terra. Fico feliz em ver se materializar à minha frente aquilo que eu só imaginava nos mapas de satélite e na carta topográfica. Enquanto eu e o Rasta ficamos ali apreciando aquele espetáculo, os meninos se adiantaram e fomos obrigados a apertar o passo para nos juntarmos novamente à eles. O Daniel Trovo o tempo todo vinha com uma conversa de que poderíamos acabar ainda hoje aquela travessia, mas eu já sabia que isso não passava de delírio, muito porque eu não estava nem um pouco a fim de abandonar aquele rio extraordinário antes do combinado, mas o dia foi passando, a gente varando mato, atravessando rio a nado, nos jogando nas corredeiras, subindo barranco e escalando paredes na unha e numa curva qualquer, talvez por já estar cansado e um pouco desatento, num pulo mal dado, vi meu pé virar e foi inevitável que meu tornozelo torcesse junto. Na mesma hora eu já ví que o estrago havia sido feito, mal conseguia colocar o pé no chão e perdido naquela vastidão de floresta temi pela continuidade daquela travessia. Uma parada de uns 15 minutos para que a dor inicial desse uma estabilizada e me valendo da água fria para um analgésico momentâneo consegui prosseguir. A dor ainda era intensa, mas não havia tempo para ficar choramingando pelos cantos, o jeito era tentar me arrastar até o fim do dia e tentar um curativo a noite, no acampamento. A tarde já ameaçava acabar e como já pensávamos em acampar, fomos andando e já de olho em alguma área plana, mas por infelicidade estávamos presos entre duas paredes sem nenhum lugar descente para montamos nossas redes e como nada é tão ruim que não possa piorar, surgiu à nossa frente uma sequência de gargantas profundas, hora de parar e montar uma estratégia. Já eram quase 4 horas da tarde e nos veio à cabeça a possibilidade de iniciarmos aquela descida e acabarmos mais presos ainda e agora por paredões de pedra. Ser pego à noite sem nenhum lugar para montar acampamento não estava nos nossos planos, já havíamos passado por isso em outras expedições e sabíamos muito bem o quanto é desagradável e sofrível, então numa reunião rápida, o grupo decidiu que deveríamos montar acampamento e deixar aquela aventura para o outro dia. O grande problema era aonde conseguir um lugar descente, mas aí o Trovo se lembrou de que algum tempo atrás ele havia visto uma área de caçadores abandonada e que seria prudente retornarmos e tentar passar a noite por lá. Sem ter outra alternativa fizemos o caminho de volta e por sorte encontramos essa área do lado direito do rio e não poderia ser melhor. Um local plano e com boas árvores para esticarmos nossas redes, abrigado do vento e com um pequeno afluente para nos abastecer. Quando montamos essa expedição e decidimos que mesmo o rio não tendo um desnível descomunal como estávamos acostumados a explorar, iríamos ir nos divertir, acampar num lugar selvagem e jogar conversa fora e felizmente tudo que havíamos planejado estava saindo ainda melhor. Os quatro acampamentos que fizemos foram realmente incríveis e como é gratificante poder nos sentar às margens desse rio fantástico, numa noite de lua clara e temperatura agradável e poder se dar ao luxo de viver uma vida de desapego. Lá nós não somos ninguém, nem ricos nem pobres, ninguém é Cristão ou Budista ou Espírita. A profissão de cada um não vale absolutamente de nada e muito menos a sua posição política ou filosófica. Somos apenas nós mesmo, apenas homens crescidos brincando ao som da simplicidade da vida. E nesses acampamentos é muito zueira, muito porque o politicamente correto não existe e quem puder mais chora menos. Mesmo já estando a 3 dias nessa labuta incessante, todos estão muito dispostos e animados e a conversa acaba por se estender até tarde, ou ao menos até mais tarde do que estamos acostumados e quando o sono chega é só se jogar para dentro das nossas redes e dormir como nunca dormimos antes até que o sol venha nos acordar para mais um dia de jornadas gratificantes. Pouco depois das 6 da manhã já estamos de pé e enquanto a água do café não ferve, desmontamos tudo e nos aprontamos para partir. E a partida já começa em grande estilo porque logo cedo já somos obrigados a cruzar o rio com a água pela cintura e ganharmos o mato do lado direito, interceptando um vestígio de trilha que vai ganhando altitude e quando vimos já estávamos paralelos à garganta. Poderíamos tentar seguir varando mato pela crista mas aí nos afastaríamos do objetivo principal que eram as cachoeiras e por isso embicamos nosso nariz numa diagonal e avançamos escorregando pelo barranco até nos posicionarmos novamente às margens do Pedreado, bem aos pés de uma queda incrível, que abria o início das grande cachoeiras antes do rio fazer sua curva para esquerda e começar a acompanhar a Rodovia Regis Bittencourt (BR 116). Não demora muito e entre escaladas e desescaladas, ganhando terreno dentro do rio, conseguimos perder altura até nos posicionarmos em mais uma Cachoeira larga, com um véu abaulado, mais um cenário lindíssimo, mais uma descoberta surpreendente aonde alguns ficaram brincando no meio do seu véu. Por incrível que pareça, nós estávamos enfiando dentro de um vale bem no meio da SERRA DO CAFEZAL , aonde milhares de pessoas passam todo dia indo ou voltando do sul do país e que nem imaginam o que se esconde por dentro dessas montanhas. Em épocas de feriados, congestionamentos monstros se formam na BR 116 , são horas e horas parados , pessoas perdem seus tempos, dinheiro e saúde, parados no meio do nada, enquanto aqui em baixo nos vales a vida pulsa numa beleza poética, com rios de águas cristalinas, cachoeiras lindas ,plantas exóticas e animais extraordinários e naquele momento tudo nos pertencia e somente a nós, donos absolutos do lugar. Agora à nossa frente o vale se abriu de vez e acima das nossas cabeças já era possível notar que estávamos bem perto da rodovia, talvez em uma hora varando mato e escalando a montanha conseguíssemos chegar ao asfalto, mas ainda não havíamos chegado ao meio dia e seria uma pena abandonar tudo aquilo e quando o Rio Pedreado curvou-se de vez para o sul, junto a um grande afluente do lado direto, no próprio rio uma outra cachoeira se fez presente, num cenário de tirar o fôlego e um mundo paisagens fascinantes se abriu para nós e ficamos encantados de estar tão perto de uma das rodovias mais movimentadas do país e ao mesmo tempo tão isolados num mundo selvagem. Aquilo era realmente incrivelmente belo e para nossa surpresa uma antiga ponte pênsil caindo aos pedaços havia sido construída ali, mas com sinal de estar abandonada há muito tempo, parecendo mesmo ter sido esquecida ali para todo o sempre. A Cachoeira da Ponte Pênsil marcava definitivamente nossa vitória e nossa conquista daquele vale e daquele rio desafiador porque sabíamos que poderíamos cair fora a qualquer momento, mas a aventura ainda não havia terminado, então decidimos nos enfiar na próxima garganta e avançar um pouco mais e não nos arrependeríamos por isso. O Pedreado dá uma afunilada e é pelo lado esquerdo que vamos seguindo, nos enfiando no meio de pedras e descendo uma a uma até nos posicionarmos acima de uma grande e longa rampa que nos trava a passagem. Descer por ali seria realmente perigoso e o jeito foi retornar um pouco e tentar uma passagem para o outro lado do rio, mesmo assim seria necessário se jogar à beira da queda potencialmente perigosa. O Rasta acabou sendo o boi de piranha que se ariscou e já puxou o Daniel Trovo para o mundo dele, mas o resto do grupo não achou prudente passar por ali sem nenhuma segurança e só se animou a cruzar o rio quando o próprio Rasta sacou um cordim para nossa segurança e um a um foi se agarrando àquela corda medíocre e se atirando na correnteza até alcançar a outra margem. Uma vez cruzado o rio, até tentamos varar mato para descer até a próxima cachoeira, mas a inclinação do terreno e sabendo que aqueles eram os últimos momentos nossos naquela expedição, preferimos não gastar mais nenhuma energia e o melhor caminho se mostrou mesmo pelas bordas do rio, passando e se esgueirando pelas pedras lisas, mas ainda assim perfeitamente passáveis e nem quinze minutos depois a gente largou nossas mochilas e agradecemos por estarmos diante de mais uma maravilha despencando de cima das pedras formando mais uma grande cachoeira para coroar de vez a nossa passagem por aquele vale. Não Era mais uma cachoeira qualquer, era outro espetáculo que se espalhava de um lado a outro do rio e foi bonito ver parte da galera se esbaldando embaixo da sua queda e no seu grande poço de águas claras. Eu da minha parte não queria mais saber de água, quase 4 dias socado dentro do rio para mim já era suficiente. Sentei sobre uma grande rocha e me pus a contemplar pela última vez aquele cenário que me encantou nesse feriado do dia do trabalho. Foram 4 dias intensos, de grandes descobertas, de novas amizades, de desafios e deslumbramentos e quando a galera cansou de desfrutar daquela Cachoeira com uma espécie de chafarizdo lado direito, demos por encerrada aquela expedição por dentro do rio, mas ainda estava longe de nossa aventura terminar por completo. Estávamos a uns 200 metros de desnível abaixo da BR 116 e para lá chegarmos seria necessário escalar a montanha e varar mato até o asfalto. Não havia muito o que fazer, apenas pedimos proteção a nossa senhora do barranco e nos pomos a puxar mato e subir sem nem olhar para trás e logo demos adeus a Cachoeira do Chafariz e ao vale do Rio Pedreado. O Rasta e Trovo foram à frente puxando a fila, mas logo o Potenza nos ultrapassa e ele e o Rasta tiveram o privilégio de avistar os primeiros sinais de civilização e um pequeno cervo selvagem correndo apressado ao perceber nossa presença. Finalmente antes das 2 da tarde comemoramos com um abraço coletivo mais uma expedição bem-sucedida na Serra do Mar Paulista, chegamos todos em segurança, cansados, mas felizes de mais uma vez podermos ir ao lado escuro dessa fascinante serra, numa das mais incríveis florestas do mundo, aonde ainda reina a paz que todos desejam. Chegar a rodovia foi uma conquista, mas fomos sair num lugar inóspito, praticamente desabitado e somente depois de quase uma hora de pernadas foi que conseguimos achar uma alma viva que morava num sítio e ele nos informou que deveríamos descer por mais um km até uma borracharia abandonada, aonde seria possível pegar um ônibus subindo a serra que possivelmente viria do bairro de Santa Rita. Esperamos, esperamos até que a bunda ficasse quadrada e nada de conseguirmos um transporte, muito menos uma carona. Com muito custo nos veio a informação que somente as 18 horas poderia haver um ônibus e nós ficamos lá abandonado a própria sorte até que um ônibus vazio e que não nos servia parou e nos avisou que ali não conseguiríamos voltar para casa nunca e nos ofereceu uma carona até mais acima na rodovia, aonde havia um ponto de ônibus que fazia a linha Juquitiba x Barnabés ou sei lá que fim de mundo dos infernos era aquele. O ônibus quando apareceu, a noite já havia caído faz tempo e em mais de hora de viagem, nos deixou na pequena rodoviária de Juquitiba e de lá conseguimos outro ônibus para a região metropolitana de são Paulo aonde cada qual se dispersou para um lado e eu voltei para minha aldeia em Sumaré, no interior Paulista. Essa Travessia expedicionária surgiu da vontade de poder explorar um mundo quase selvagens, ir à lugares ainda desconhecido pela maioria dos Paulistas. Poder botar nossos pés e arrastar nossa alma ávida de conhecimentos até lugares praticamente intocados, poder lutar e vencer a nós mesmo, poder cerrar os punhos e enfrentar uma natureza quase que desconhecida e entrar de um lado e sair do outro transformados, satisfeitos, inebriados e agradecidos por mais uma vez ir aonde poucos foram e principalmente por ter conseguido juntar uns amigos e conhecidos e ao final da jornada quase poder chamá-los de irmãos. Divanei Goes de Paula / maio - 2018
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