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divanei

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Tudo que divanei postou

  1. VALE DO ITAMAMBUCA Aquele foi um duro golpe na minha carreira de Explorador Selvagem. Pela primeira vez em anos estudando mapas, eu não conseguia chegar há lugar nenhum. Foi mesmo uma madrugada perdida aquela, fui dormir frustrado pela minha incompetência para encontrar uma rota que pudesse nos levar às nascentes do rio Itamambuca, no Litoral Norte Paulista. Aquele era um rio perdido, uma nascente que possivelmente nasceria num fim de mundo inacessível ou pelo menos, com uma rota inviável pelo tanto de dias que sempre despúnhamos para essas expedições. Partindo do último ponto que era possível avistar o rio no mapa de satélite, o lugar habitado mais perto ficava ao norte, por intermináveis quase 10 km de florestas e montanhas selvagens e quase a mesma distância a oeste, conseguíamos localizar uma estrada e diante disso, chegar ao rio e interceptar seu nascedouro, era tarefa praticamente impossível e talvez não valesse o esforço, então deixei para lá e fui cuidar da minha vida, investir em outros roteiros. Apesar de ter deixado esse rio de lado, sempre quando podia, voltava novamente meus olhos para ele e numa noite vazia, com mapas mais modernos, sem querer, um ponto perdido na imensidão verde me chamou a atenção: ao aproximar a imagem e ir mudando os mapas, consegui localizar uma construção isolada no meio da floresta, uns 3 km a oeste do rio. Na hora levei um susto e me enchi de alegria por encontrar o que me pareceu um barracão e, mesmo sem demostrar qualquer caminho para lá chegar, era obvio deduzir que haveria uma trilha ou uma estrada, mesmo que abandonada, o que nos daria uma chance de subir o rio partindo do litoral, varar esses 3 km de florestas até essa construção e lá tentar achar um caminho que nos levasse para a estrada. Esse roteiro ficou lá, guardado por anos, como um tesouro escondido, uma riqueza para ser gasta no futuro, até a chegada de novos exploradores ao nosso grupo. Thiago e Alan estavam acostumados a se embrenharem em Ubatuba e quando me falaram que também tinham interesse em explorar o Itamambuca, juntar forças e conhecimento, foi questão de tempo. Eles também tinham “ganhado” a construção e igual a mim, viviam esse dilema de tentar solucionar esse entrevero, achar um caminho que pudesse nos levar direto para a nascente ou ao menos, nos devolver para a civilização, caso optássemos por subir o rio. Tocamos alguns outros projetos juntos, enquanto a solução não vinha e com a advento de novos mapas, observamos que um caminho partindo perto da Osvaldo Cruz poderia nos levar nessa construção perdida na floresta, mas foi numa noite de sorte que um desses meninos conseguiu um Traklog( caminho marcado no gps) dizendo que existia mesmo uma estrada até o casarão e ia mais além, a estrada continuaria por mais uns 10 km , passando bem na cabeceira do Rio Itamambuca e diante desse achado, o mistério havia sido solucionado, era preciso achar uma data e montar um grupo que se dispusesse a tirar aquele vale selvagem do anonimato. Por diversas vezes, tentamos marcar uma data, mas o tempo sempre se encarregava de passar a perna na gente e por outro lado, um dos integrantes só dispunha de 2 dias, contando com uma segunda feira, então ficava sempre complicado conciliar previsão de tempo boa e dias disponíveis. Além do mais, parte do grupo se recusava a enfrentar essa expedição se a previsão não nos desse 100 % de certeza de tempo favorável e para piorar, um dos meninos do Norte, numa outra expedição, acabou por fraturar o pé, o que nos levou a dar uma brochada e ir deixando esse rio de lado. Mas chega uma hora, que é preciso tomar uma decisão e sair da moita e com uma previsão perfeita uma semana antes, resolvemos que o Itamambuca iria virar história naquele fim de semana combinado com uma segunda feira, formamos um grupo forte e partimos para Ubatuba. Num sábado à tarde, Thiago Silva passou na Rodoviária do Tietê e pegou a mim, o Paulo Potenza e o Júlio Ronchese e debaixo de uma chuva dos infernos, nos dirigimos para o litoral Norte. Pois é, o tempo virou de última hora e a metade do grupo que se recusava a botar a expedição em pratica com mal tempo, foi de São Paulo à Ubatuba praguejando e tentando convencer a outra metade que era loucura seguir com aquela chuvarada toda, que a chance de dar merda era grande, mas eu e o Júlio não arredávamos o pé, queríamos seguir de qualquer jeito, confiando de que a temperatura prevista de mais de 30 graus e apenas 10 milímetros de chuvas, não era motivos para cancelamento , mas estava causado o impasse : Eram dois votos a favor e dois contra, mas faltava o voto de minerva do quinto elemento, um nativo de Ubatuba seria o fiel da balança, seria dele o voto pelo sim ou pelo não . ( Ubatuba - foto net) Chegamos em Ubatuba na boca da noite e fomos muito bem recebidos pelo Tomaz “Pontes” Lamosa, o cara que organizou toda a logística para nos deixar no topo da serra, de onde partiríamos para tentar achar a nascente do Itamambuca, mas surpreendente, o nativo ficou atrás da moita. Uma hora queria ir, outra hora achava que poderíamos abandonar a ideia e irmos explorar outro rio ali pelo litoral mesmo, fazer turismo, achar pocinho, ou seja, se manteve neutro e o impasse continuava, com o Potenza e o Thiago pesando na nossa cabeça pelo cancelamento. Nada se resolvia, ninguém queria ceder, ninguém queria abrir mão das suas convicções, até que resolvemos parar de discutir e ir comer algo numa lanchonete, antes de chegarmos a um acordo e foi nessa hora que eu e o Júlio montamos uma estratégia perfeita: Teríamos que subornar um dos 3 e fazer com que viesse para o nosso lado, o lado do “ FODA-SE O TEMPO, VAMOS DESCER O RIO NEM QUE SEJA O DIA DO JUIZO FINAL”. De todos os três que ali estavam, não haveria outro mais propenso a ser subornado. Na fila da lanchonete, colamos atrás dele e o encostamos na parede. No início ele se fez de difícil, dizendo que a gente poderia morrer com o rio cheio, poderíamos pegar uma cabeça d’água, deslizar barranco abaixo, morrer afogados, trucidados por um raio, uma árvore poderia cair na nossa cabeça, mas a gente não queria saber de conversa fiada e quando dissemos a frase: “ A GENTE TE PAGA UM PÃO DE QUEIJO”, Paulo Potenza foi definhando em suas convicções, amoleceu as pernas, perdeu o rumo, gaguejou, fingiu demência até que não mais aguentou: “- TÁ BOM GENTE, MAS TEM QUE SER PÃO DE QUEIJO DOS GRANDES. ”( rsrsrsrsrsr) Uma vez decididos seguir com a expedição, nos jogamos no transporte descolado pelo Pontes e rumamos serra acima e quando chegamos ao topo, abandonamos a Osvaldo Cruz em favor de uma estradinha de terra que margeia o Rio Paraibuna e pouco mais de 1 km depois, saltamos na escuridão da noite e adentramos numa porteira. A porteira estava fechada com cadeado, mas não foi necessário pular, porque existe uma abertura lateral destinada a pedestres. A placa indicava o caminho para várias cachoeiras, mas tão pouco dizia nada sobre ser proibido passar pela estrada, mas ficamos ligeiros, não queríamos dar de cara com nenhuma guarita do Parque que nos fizesse voltar, então nos pusemos a caminhar com muita cautela, numa estradinha de terra que corta uma floresta exuberante. Caia uma fina garoa, tão fina que mal era sentida. Os passos eram rápidos e decididos e a noite já ia alta quando nossas lanternas iluminaram algo que nos pareceu ser uma placa ou mesmo a parede de uma casa, pelo menos foi o que nos passou pela cabeça e imediatamente, um facho de duas lanternas nos interceptou. Uma luz alta explodia na nossa cara sem que tivéssemos um poder de reação rápida. Nossa ação foi atabalhoada, corremos para o lado errado da estrada e acabamos por trombar num barranco de uns 3 metros de altura à nossa direita. Quem conseguiu, escalou o barranco e se escondeu floresta à dentro, mas os outros não conseguiram em tempo hábil e ficaram encostado nele, com a bunda de fora e a cara na terra, feito um avestruz envergonhado. A cena era trágica e cômica ao mesmo tempo. As lanternas se aproximando da gente e nós com o coração e a respiração parada, com medo de sermos pegos e deportados imediatamente para fora da rota. Ficamos ali, inertes, numa posição constrangedora, parecendo facínoras fugitivos da polícia, enquanto o cara com a lanterna na mão, gritava para que saíssemos, porque ele já havia nos vistos. Naquela hora, na minha cabeça, a casa tinha caído, seríamos enxotados, teríamos que dar explicações, seríamos humilhados e teríamos que engolir um fim de expedição que nem havia começado. Poderíamos ter tentado nos enfiarmos floresta à dentro, mas nem isso era mais possível, o jeito era aceitar a derrota, era preciso reconhecer que dessa vez havíamos perdido, tínhamos que sair, enfrentar nossos pesadelos de frente e antes mesmo que tentássemos qualquer discussão do que poderíamos fazer, Thiago e Pontes caíram na estrada, bem aos pés do que pensávamos ser o vigilante de alguma possível guarita que havia por ali. O Thiago já foi tentando se explicar e eu cheguei logo dizendo que não tinha armas, que não era caçador e nem palmiteiro, varrendo o tal segurança de cima a baixo, procurando saber onde ele carregava a arma, mas nada encontrei, o máximo que vi, foi um cara super educado, de fala mansa, um pouco assustado com a nossa presença repentina. Tratava-se de um casal de biólogos, que procuravam sapos na estrada e a expressão “ vai caçar sapos” nunca me pareceu tão atual. O biólogo se ligou logo que éramos aventureiros, muito porque, nossa roupa não deixava qualquer dúvida de que estávamos apenas a procura de aventura e não oferecíamos mal a ninguém. Ele nos perguntou para onde iríamos e eu lhes disse que dormiríamos na construção uns 5 km à frente e na manhã seguinte, voltaríamos para estrada por outra trilha. Claro, não quis dizer que a verdadeira intenção era achar a nascente do Itamambuca e descê-lo até o mar. Então, não tendo mais nada a dizer e como ele não fez menção de nos barrar, nos despedimos e seguimos enfrente, agora numa velocidade de foguete, querendo sair o mais rápido dali, antes que eles mudassem de ideia. Os próximos 5 km passaram voando, fomos passando por rios que atravessavam a estrada e pulando por cima de jararacas que cruzavam nosso caminho e antes da meia noite, tropeçamos no casarão perdido no meio da selva e aí vimos que se tratava de uma base de pesquisa e fiscalização, por sorte, completamente vazia. Claro, não íamos ficar dando bobeira ali, esperando que chegasse alguém que pudesse nos mandar embora, então fizemos uma parada rápida e logo seguiríamos enfrente, na intenção de acampar no mato, já na nascente do Itamambuca, mas fomos obrigados a mudar nossos planos e mais uma vez voltarmos a viver sob tensão. Paulo Potenza se apresenta a nós com cara de choro, dizendo que a expedição acabara para ele, que a bota nova havia destruído seu pé e que no outro dia iria voltar. Pior ainda, disse que não poderia ir a lugar nenhum naquela noite e que teríamos que pernoitar ali mesmo, na varanda da base de fiscalização. Foi um verdadeiro balde de água fria, muito porque, eu não tinha certeza de como o grupo reagiria àquela situação, se deixaria ele voltar sozinho, afinal de contas, era apenas uma estrada ou se dariam por encerrada a expedição. O certo é que fizemos de tudo para tentar recuperar o pé do Potenza, lhe enfiando remédios potentes e tentando achar uma solução para que ele seguisse e consequentemente a travessia também. Mas naquela noite ainda embaçada, teríamos que ariscar a nossa pele, teríamos que dormir ali e se tivéssemos sorte, às 5 da manhã, partiríamos para cumprir nossa jornada. Jogamos os sacos de dormir no chão e alguns montaram suas redes nas pilastras, mas eu apenas encostei por ali, meio que desolado e crente que a qualquer momento seríamos apanhados, portanto, mal preguei o olho e quando o relógio bateu 5 da manhã, me levantei e fiquei apressando todos para partir. O pé do Potenza estava melhor e o Júlio se propôs a trocar de bota com ele, cedendo-lhe suas botas macia para que ele continuasse e, antes mesmo que o sol resolvesse nascer, botamos o pé na estrada e demos início a travessia. Retomamos novamente à estradinha no meio da floresta, mas desta vez, ela se transformou numa trilha, cheio de árvores caídas onde era impossível passar qualquer carro, foi aí então que me dei conta de que a partir dali, estávamos por conta e risco e o sucesso da empreitada só dependia da nossa competência e não de interferências externas. Por mais 3 km fomos ganhando um pouco de altitude e por quase uma hora rasgamos o caminho até estacionarmos numa placa que divide os núcleos dos parques, bem encima de onde havíamos marcando o início da nascente do rio, era chegada a hora, voltar atrás já não era mais possível. Enfrente a placa, nos enfiamos no mato e fomos descendo levemente, nos desviando de alguma vegetação mais espinhenta, tentando escapar de um ou outro bambuzinho até que, sem ter como fugir, nossas botas empaparam. Um filete de água começou a escorrer e a cavar o chão, até que uma pequenina queda d’água nos faz pensar que estamos dentro do Itamambuca, mas 20 minutos de caminhada nos leva a um pequeno riacho, esse sim a verdadeira nascente do rio. E como é lindo e prazeroso pegar um rio com as mãos, meio palmo de água cristalina que escapa do seio da terra. A partir dali, só havia um caminho a seguir, o rio seria nossa trilha, nossa estrada, nosso rumo, nossa linha de salvação por pelo menos 2 dias, seria a ele que nos apegaríamos, mesmo porque, foi para isso que viemos, foi para isso que perdemos dias e dias nos debruçando em mapas e montando logística. A cada passo, a cada metro percorrido, vamos vendo o rio crescer e se enfiar em valetas cada vez maiores, onde cachoeirinhas, mesmo que ainda tímidas, vão despencando para o fundo do vale. Os primeiros trechos iniciais de um rio são, na maioria das vezes, feitos para contemplação, porque são planos e com vegetação exuberante, donde pequenos afluentes vão fazendo com que ele vá aumentando de tamanho, formando vários pocinhos cênicos e é um caminhar gostoso e desimpedido, mas por ainda ser bem de manhã, mesmo já ensopados, vamos tentando fugir da água, até que que alguma gargantinha nos fecha a passagem e somos obrigados a nos jogarmos nas pequenas correntezas . O rio vai crescendo e vamos avançando rapidamente. Partimos de 1.100 metros, que é a altitude de sua nascente, e quando chegamos a 915 metros de altitude, depois de termos avançados por quase 3 km, somos obrigados a nos determos por um momento, mesmo porque, não há mais chão para prosseguir. A nossa frente, o vazio se apresenta e a água que corria calma e serena, se joga no nada para formar uma CACHOEIRA em forma de catarata, não muito alta, mas assim mesmo de encher os olhos. A passagem para descer aos pés da cachoeira, parecia bem obvia pela esquerda, tanto que o Potenza e o Júlio já se encaminharam para lá, na tentativa de ganharem uma fenda e fazer a descida, mas logo esse caminho se mostrou um tanto exposto, então o Thiago e o Pontes puxaram a fila pelo caminho da direita. Uma descida bem ruim, onde tivemos que usar nossas bundas como freio para não sermos arremessados no vazio, tendo que nos enfiarmos em baixo de uma rocha gigante e usá-la como proteção até conseguirmos escorregar rente a parede e nos vermos em segurança, apreciando aquele espetáculo em forma de água caindo da pedra, uma abertura digna e da grandeza que aquele rio representa para a Serra do Mar Paulista. As CATARATAS DO ITAMAMBUCA, marcam definitivamente o início do encachoeiramento do rio, que vai alternar entre corredeiras e pequenas quedas, encontros com afluentes maiores. Agora era preciso muito pula pedra, sobe e desce. Muito escorrega de cima de grandes matacões para dentro da água. É mesmo um caminhar lento e cansativo, mesmo porque, estamos praticamente sem dormir e isso vai minando a nossa energia, mas não há tempo para murmúrios e lamentações, é preciso seguir e uns 100 de desnível abaixo das Cataratas, cerca de 1500 metros depois, um grande poço nos diz que é hora de nos determos por um instante, tomarmos um folego, comermos alguma coisa e aproveitarmos para estudarmos os mapas. Apesar de já termos andado muito, o dia mal passava das onze da manhã, mas o dia permanecia lindo, com o sol brilhando e sem nenhuma nuvem no céu. Até então, a previsão de chuvas não se confirmou e isso ajudava muito a manter o moral do grupo bem elevado. Quase sempre o Júlio seguia à frente, abrindo caminho e nos levando a perder altitude, não com muita velocidade, mas qualquer metro perdido era muito comemorado e quando podíamos, nos jogávamos para dentro do rio e virávamos passageiros da aventura, deixando com que as águas mais furiosas, nos conduzisse para mais abaixo no rio, ganhando assim metros e tempo preciosos. Quando o rio não nos parecia seguro, era hora de cair no mato por um breve tempo, tentando perder altitude e transpor trechos muito técnicos, onde passar sem corda poderia ser potencialmente perigoso, mas assim que víamos que o perigo havia passado, era hora de voltar ao rio e seguir por dentro dele. Uma cachoeirinha é deixada para trás, até que uma outra, mas desta vez bem grande, nos barra o caminho e nos faz novamente nos pendurarmos em barrancos até conseguirmos descer diante dela. É sem dúvida outra bonita queda e ele vai marcar também uma nova faze na nossa Expedição, porque após ela começa uma sequência de lajes, hora de estacionar novamente, pensar bem qual caminho seguir, porque uma oposta mal feita, uma caminho mal planejado, poderá nos tomar um tempo e comprometer nossa jornada. A nossa frente, o vale abriu. O rio começou a descer em pequenas cachoeiras, que iam debruçando suas águas em lajes que desciam em patamares, aparentemente lisas e impossíveis de descer. Ao lado o barranco do rio se transformou em paredes altas onde teríamos que nos desdobrarmos para tentar escapar delas. Mas o Júlio deslumbrou uma passagem, uma descida pelas lajes do rio. Aquilo era algo meio insano, mas a gente foi encontrando passagens perfeitas, nos aproveitando de pequenas ranhuras, pequenos patamares, onde fomos usando uma fita para nos dar sustentação e fomos avançando, perdendo altitude. Era uns quebra cabeças que iam se juntando, peça por peça, até que montamos a descida perfeita. Conseguimos descer quase 500 metros de distância da cachoeira, foi sem dúvida uma das mais bem-sucedidas descidas de rocha de todos os tempos e para comemorar, paramos numa pedra exposta ao sol para almoçarmos e planejarmos os próximos passos. Com a barriga cheia e o ânimo renovado, pela estratégia vitoriosa, retornamos nossa jornada, descendo o rio como dava, as vezes tendo que cair no mato para transpor algum trecho mais técnico. O avanço é lento, moroso e por vezes cansativo, mas é preciso continuar. Por vezes pouco nos falávamos, concentração total para descer e subir pedra, um ajudando o outro ou cada um escolhendo o caminho que mais lhe convém, prezando pela sua segurança, tentando economizar energia até que uma nova CACHOEIRA cruza o nosso caminho. Metade do dia já havia escorrido pelos nossos dedos já fazia mais de hora e o sol, ainda a pino, iluminou aquela cachoeira, transformando-a em alguma bela queda de águas clara do Cerrado mineiro. Nem era uma grande queda, mas se estendia de um lado a outro do rio, escorrendo suas águas numa bonita laje de pedra. A gente estava bem contente com o avanço da expedição, todo mundo bem, apesar do sono, e então, fizemos mais uma parada estratégica para jogarmos um pouco de conversa fora e guardar aquela paisagem para sempre na memória. Daí para frente, o rio vai se transformando, ficando cada vez mais complicado. Vamos avançando muito pouco e a altimetria não baixa de jeito nenhum. Vamos perdendo tempo em pequenos trechos técnicos, onde a passagem exige esforços descomunais, até que uma GARGANTA interrompe de vez a nossa jornada. Abrir a carta topográfica do gps era necessário, mas demos bobeira e acabamos tentando passar pela direita e fomos dar com os burros n’água. Escalamos paredes perigosas, beirando precipícios. Mas quanto mais nos enfiávamos mato à dentro, mais diminuíamos as chances de dar certo e quando resolvemos estudar a carta topográfica, foi que nos demos conta de que estávamos indo para um caminho sem volta e seríamos barrados por um afluente profundo, com chances muito poucas de conseguirmos descê-lo. Apesar de ser uma decisão sempre difícil, resolvemos voltar para a garganta, cruzamos o rio para o outro lado e só nessa ação desastrada, gastamos um tempo precioso. A passagem pelo lado esquerdo da garganta foi mesmo providencial. Escapamos da garganta e voltamos novamente ao rio, que continuava terrivelmente complicado, com uma infinidade de pula pedras e descidas exaustivas e quando o relógio chegou às 4 da tarde, o Potenza já começou a aloprar a gente para acampar. Eu era quase um zumbi vagando pelo rio, efeito de uma noite inteira sem dormir e um dia de atividades físicas intensas, mas não me passava pela cabeça, interromper a caminhada tão cedo, haja vista que ainda poderíamos avançar por pelo mais uma ou duas horas de sol. A minha preocupação era simplesmente porque não havíamos descido nem até a parte crítica do rio, verdade mesmo é que estávamos bem longe na cota 550, que era a passagem pelos cânions e desfiladeiros gigantes e se déssemos bobeira, não acabaríamos a travessia no tempo previsto, então protestei contra a parada, protestei veementemente. O empasse estava instalado no grupo. Parte queria acampar, mas eu e o Júlio achávamos que deveríamos seguir, mas como não houve um acordo satisfatório, a minoria perdeu e democraticamente, engolimos a derrota. Não que eu não gostasse de um bom acampamento com mais tempo, longe disso, sempre voto por acampar com o máximo de luz possível, mas dessa vez estávamos mega atrasados, mas acatei a decisão da maioria e nos dirigimos para uma encosta do lado esquerdo do rio e ao encontrarmos um bosque favorável, que dava para acomodar todas as redes, jogamos nossas mochilas ao chão e encerramos esse dia de caminhada, de aventuras intensas. Localizei 2 árvores, retirei um cipó enrolado em uma delas. Fixei meu toldo e em seguida minha rede. Uma ação que não levou mais que 15 ou 20 minutos. Era eu, um ser totalmente alienado ao ambiente, meu mundo se resumiu a mim mesmo, só ouvia murmúrios dos meus companheiros de aventuras, numa luta incessante para tentarem estabelecer um acampamento descente. Só ouvia os esporros do Potenza tentando ensinar os caras velhos de mato a montarem suas redes. Depois de tantos anos de expedições selvagens, não entendo qual a dificuldade de montar esse tipo de acampamento, algo tão simples, que poderia ser feito com os olhos fechado, mas enfim, nem tinha mesmo forças para ajudar ninguém, então minha crítica chega a ser cretina e nem deve ser levada em conta. O certo é que esquentei 300 ml de água e tentei fazer uma comida liofilizada, que outrora me agradou o paladar, mas que dessa vez, foi difícil de engolir. Então dei umas três colheradas e me joguei para dentro do meu saco de dormir e parti para outro mundo e só voltei a me ver como ser vivente, lá pela meia noite, quando me levantei para ir regar uma moita na escuridão daquela noite de verão, no centro selvagem da Serra do mar. Às 6 da manhã caiu uma chuva, mas não durou nem 5 minutos e já cessou. Foi a deixa para pularmos para fora da rede e desmontamos tudo. Mas eu estava preocupado, principalmente ao consultar o gps e descobrir que estávamos ainda na cota 630, uma altitude absurda diante do desafio que teríamos pela frente e era de se pensar que talvez não conseguiríamos terminar o roteiro naquele dia, o que me deixava um pouco angustiado. Às oito partimos! E a nossa partida, como sempre, já foi tendo que nos enfiarmos para dentro do rio gelado, uma atitude inevitável, já que teríamos que cruzar para a margem direita. A caminhada segue o ritmo do dia anterior, varando mato quando necessário e voltando novamente para o rio, perdendo altitude lentamente, escorregando para patamares mais abaixo, até que 1 hora abaixo de onde acampamos, o chão desapareceu mais uma vez, nos obrigando a nos deter, analisar o terreno e apreciar um monstro de Cachoeira que se jogava no vazio. Estávamos a cerca de 550 metros de altitude e ali marca definitivamente a entrada do Rio Itamambuca nas GRANDES GARGANTAS E Cânions e a partir de agora, serão mais de 300 metros de desnível para serem vencido. Hora de fazer o sinal da cruz e enfrentar o inferno de frente, hora de se apegar um ao outro e tentar escapar vivo do que há de vir. Não havia mais como seguir pelo rio e por isso traçamos uma estratégia tentando escalar uma parede íngreme pela direita, tentando dar a volta na abertura da garganta para podermos nos posicionar do outro lado e tentar apreciar a queda d’agua do lado oposto de onde estávamos. O Júlio seguiu à frente, escalou um arvore e isso nos fez elevar barranco acima, mas a segurança foi deixada em segundo plano, mesmo assim, passamos encostado a uma parede e fomos descendo até ganhar um patamar mais abaixo, subir outro barranco e conseguir descer até ficarmos com a CACHOEIRA sorrindo para nossa cara. A Cachoeira se jogava para dentro da garganta, onde era impossível descer sem equipamentos de rapel, então nos contentamos em apreciá-la lá de cima, cientes que nem sempre era possível ter o prazer de poder estar em baixo delas, mas conscientes de que éramos um dos poucos a botar os olhos nessa maravilha, onde possivelmente, como sempre digo, recebeu menos gente que o solo lunar. Retornamos um pouco mais acima, tentando escapar das paredes escarpadas. O terreno nos pareceu de fácil locomoção, mas as vezes as aparências tende anos derrubar. Passamos um bom tempo caminhando com uma vegetação bem favorável, apesar de termos que descer e subir elevações com algum potencial de perigo. Mas logo a coisa começou a encrencar. O terreno começou a ficar cada vez mais profundo e ver as grandes cachoeiras era possível apenas por trás das grandes árvores e aí teve uma hora que o negócio ficou mesmo feio e fomos obrigados a estacionar para uma releitura do caminho. Estava claro que tínhamos nos afastado muito do rio, bem mais do que gostaríamos. Mas não foi por falta de aviso, porque eu e o Júlio estávamos sempre gritando para que o rumo fosse colado às gargantas, assim, quando possível fosse, voltaríamos para a água , mas o Potenza estava sempre aprontando um berreiro quando a gente tocava no assunto, ele ficava sempre insistindo que a gente ia morrer se passasse junto aos cânions e talvez o safado tivesse até razão, mas já é sabido que parte de nós sempre presa por andar colado às paredes , mas como não há um líder eleito e nem instituído, quem grita mais leva e nisso o Potenza ganha de longe. Eu da minha parte nem fiz questão de opinar muito, mesmo porque, minha opinião não havia mudado e então, nem me estranhou o fato de terem decidido se distanciar ainda mais, tentando contornar um vale lateral perto da sua cabeceira, ao invés de ariscar uma descida de volta para ao rio. Ao chegarmos à cabeceira desse afluente, fomos obrigados a descer de corda ralando a cara no barranco e acabamos sendo travados num beco sem saída. Enquanto o Júlio tentava ganhar a parede oposta, Paulo Potenza insistia que deveríamos descer por dentro do próprio afluente, nos valendo de uma escadaria de pedra. A ação foi toda descoordenada, nenhuma das alternativas parecia viável, até que o Júlio conseguiu ganhar um arbusto mais acima e se jogar para o alto e puxar o resto do grupo com a ajuda da corda. Da minha parte, esse caminho tomado, foi uma rota escolhida com a bunda. Na continuação, teríamos que ascender uma parede de quase 90 graus de inclinação, passando com a barriga encostada a um abismo, onde era preciso e possível, apenas nos segurando com a força da alma. Pior ainda para os que vem por último, que já não tem nem mais uma lasca de vegetação para uma segurança psicológica. Minha mochila pendeu para o lado, porque o barranco insistia em querer me jogar para o abismo, fiquei vendido. Não conseguia mais ir para frente e nem retornar. Pé esquerdo travado na terra e cara encostada na pedra com a unha da mão direita grudada no musgo. A força da gravidade rindo da minha cara e eu só pensando se já não estava velho para ficar passando por isso, mas antes mesmo que eu chegasse a alguma conclusão filosófica sobre o assunto, minha mão esquerda encontra uma raiz, onde cravo minhas unhas na terra molhada e me impulsiono para fora linha da “morte”, estabilizo o corpo e dou uma banana para o abismo, ganhando a linha de arvores acima da minha cabeça. Uma parada para consultar os mapas e a conclusão era mais do que óbvia: teríamos que fazer uma diagonal direta para a esquerda, voltar para o rio agora era prioridade, então nos empenhamos nisso, fazendo uma descida alucinante, rasgando a floresta no peito até escorregarmos novamente para dentro do rio. Essa ação de subir e descer barranco nos tomou pelo menos umas 2 ou 3 horas de caminhada, portanto, estávamos exaustos e havidos por um bom banho e por sorte, nossa volta ao rio se deu bem em frente à uma cachoeira com um poço enorme, que nos sugou para dentro dele e lá ficamos por um bom tempo até recobrarmos as forças e o ânimo. Havíamos descido mais de 200 metros de desnível e nos encontrávamos a 350 metros, o que me deixou mais confiante que poderia ser possível terminar ainda hoje aquela travessia. Mas o rio não queria se entregar e continuamos a sofre muito para perder altitude, mas dessa vez ao invés de ser só sofrimento, o rio também nos deixou brincar, deslizar de cima de grandes pedras para dentro de poços incríveis, pulos cinematográficos nos fazia darmos muitas risadas, feitos crianças no parque de diversão. A travessia foi se alternando entre ir pelo rio e seguir pela sua margem. Tudo era questão de permissão do terreno, que as vezes parecia que nos deixaria avançar rapidamente, mas logo nos fechava o caminho, fazendo com que a gente tivesse que voltar a nadar e atravessar poços gigantes, alguns até com uns 100 metros de comprimento. Caíamos na correnteza e ela nos conduzia rio abaixo e a gente apenas se mantinha na superfície da agua, aproveitando a carona até que o rio voltasse a despencar em alguma pequena gargantinha, um pouco perigosa para continuarmos. Pequenas cachoeiras são tantas que é impossível contar e catalogar todas, às vezes, nem foto a gente tira. É uma descida alucinante. Entra num poço e já cai em outro, pula de cima de uma cachoeira e já é obrigado a se jogar de outra. O dia vai passando nesse ritmo, fora dali o mundo não existe, só temos olhos para a frente, não há espaço para outros pensamentos, é preciso que a concentração esteja onde se coloca os pés, onde se pula, onde se agarra, que galho ou que raiz servirá para a continuação do caminho. Cuidado com a cobra, cuidado com o buraco, fica esperto com a pedra lisa e instável. A tarde chegou e com ela o cansaço também se instala, então a todo momento vamos tentando encontrar alguma trilha, já que estamos abaixo dos 200 metros , mas surpreendentemente, nenhum vestígio de que algum ser humano tenha passado por ali, não no vale, talvez lá encima na crista, mas no vale nem a presença de palmiteiros e caçadores é notada , o que nos indica que o Itamambuca é um rio ainda em estado bruto , que ainda se mantém longe dos olhos humanos , mas isso nos pareceu estranho devido a estarmos num parte plana, com as margens abertas, o que facilitaria muito a subida de alguém mais ousado . O rio vai nos fazendo alternar de margem, entre um ou outro pulo em algum poço, que as vezes de tão grande, acaba se transformando em lago, mas chega uma hora que a nossa pergunta sobre porque não encontramos trilhas e nem sinal de gente é respondida: O rio é espremido por duas paredes gigantes e somos obrigados a escalar algumas paredes pela direita e voltar a pular grandes pedras, nos enfiando novamente dentro do rio e nos tornando mais uma vez, passageiro de correnteza. Quando era possível, caminhávamos pela sua margem esquerda, vendo passar dezenas de outros grandes poços até que um deles nos chama a atenção. Já se aproximava das 4 da tarde e uma nuvem marota nos ameaçava, deixando o céu escuro. Atravessamos o lago, que se chama POÇO DA PEDRA RASA e do outro lado, nos surpreendemos com uma trilha larga e consolidada, que fez nosso coração disparar, era nosso caminho de volta para casa, nossa linha de fuga de volta para a civilização, já não era sem tempo, estávamos inchados de tanto nadar. Pegamos essa trilha, que estava na cota dos 180 metros de altitude e por elas nos adiantamos, mas em menos de cinco minutos, o céu desabou sobre nossas cabeças e uma tempestade de verão veio para lavar nossa alma, não que precisássemos. Mas do mesmo jeito que chegou, foi embora e não tardou para que o sol voltasse a brilhar novamente. A trilha foi se enfiando mato à dentro, atravessando alguns pequenos riachos, se elevando sobre alguns morrotes e se transformou em duas, uma para esquerda e outra para direita. Tocamos para a direita, mas ela se perdeu. Voltamos e pegamos para a esquerda e ela também não nos levou a lugar nenhum, apenas nos devolveu novamente para o rio, que havia feito uma curva. Resolvemos tentar novamente para a direita e dessa vez descobrimos o erro e achamos a sequência dela, depois de algumas árvores caídas. A trilha atravessa mais mato e volta para o rio e o segue na paralela da direita, até que ela se abre de vez e finalmente, avistamos uma casa. Saímos nos fundos de um sítio e a pedidos do Tomaz, tivemos que passar em silêncio, mas não era preciso, não havia mesmo ninguém. A estradinha do sítio nos levou à uma porteira e como não havia nenhuma placa dizendo que era proibido sair, só entrar, pulamos o portão e ganhamos a rua. Uns 20 minutos de caminhada nos leva até uma fazenda de plantação de palmitos, que nos sopraram ser um antigo quilombo, que mais parece um bairro e sobre o olhar incrédulo de parte dos seus habitantes, passamos na cara dura, sem dar nenhuma satisfação, até cruzarmos um grande portão e nos pormos para fora, agora livres, sem a necessidade de dar mais conta da nossa vida a quem quer que seja. A estrada da Casanga vai acompanhar o Itamambuca de longe e uns 20 minutos depois, somos devolvidos à Rio-Santos em Ubatuba, hora de oficializar as comemorações finais, os cumprimentos da vitória, mas uma travessia concluída com sucesso. Todo projeto ousado, primeiro nasce de uma ideia que num primeiro momento pode parecer estúpida, até que apareça alguém e diga que é possível. Anos atrás era só um sonho, sonhado por mim e por mais 2 ou 3 malucos e agora, quando olhamos para trás, nos bate aquele sentimento de vitória, de satisfação pessoal, de saber que valeu a pena tanta dedicação. Enquanto estávamos no Centro da Selva Paulista, banhista e surfista se deleitavam na foz do Rio Itamambuca, sem nem imaginar que aquele rio calmo e manso, desaguando numa das mais famosas praias do Brasil, nasce há mais de mil metros de altitude, se jogando em cachoeiras gigantes, abrindo caminho a força na Serra do Mar. Uma grande expedição não se faz com homens bravos, mas sim de gente disposta a resistir, a aguentar as agruras da natureza, gente que carrega dentro de si o amor incondicional pela AVENTURA, e quanto a isso, esses caras que me acompanharam nessa jornada alucinante, não devem nada pra ninguém. (Foz do Itamambuca - foto net ) Divanei - 2018
  2. TRAVESSIA SACO DAS BANANAS 360 Quase 25 anos atrás, quando pisei pela primeira vez na Travessia do Saco das Bananas, eu ainda era um jovem iniciante, pesava quase meio quilo a menos do que peso agora, num tempo em que internet inexistia e as fotografias eram em maquinas yashica de 36 poses. O mundo era outro, a atividade de aventura era renegada a meia dúzia de esforçados, gente que foi ganhando conhecimento aos poucos, meio que na tentativa e erro, transformando frustações em experiências. Essa tal travessia era só conhecida pelos caiçaras e poucos locais, num litoral isolado e desprovido de gente. Na época, tive como companhia, minha esposa, a irmã dela e mais 2 amigos de infância e levamos dois dias para cruzá-la, partindo da pouco conhecida na época, Praia da Ponta Aguda. Depois disso, ganhei o mundo em centenas de trilhas, caminhadas e viagens expedicionárias e nunca mais voltei para refazer essa travessia, mas esse ano estava decidido que era hora de retornar, hora de reviver um passado encantador, quando saíamos sem rumo, sem gps, sem mapas, apenas caminhado ao sabor do vento. No final do ano, me mudei para uma barraca de camping na Praia da Ponta Aguda. Claro que não era mais a mesma praia deserta de outrora, mas ainda continuava com seus encantos. Nos juntamos em família e na companhia de amigos, aqueles acampamentos onde se leva tudo, transformando o lugar num camping das Arábias. Aproveitamos para desfrutar de todas as prainhas paradisíacas que tem em volta da Ponta Aguda, mas estava difícil achar alguém que se dispusesse a me acompanhar numa travessia pelo Saco das Bananas em um só dia. Até entendo que poderia ser uma furada dos infernos para quem não está acostumado a longas caminhadas, mas até minha filha se recusou a me seguir nessa empreitada, alegando que estava de férias e queria apenas sossego. Uma semana se passou, minha filha e outros amigos retornaram para Sumaré no interior Paulista e com a chegada de novos amigos, me acendeu a esperança de achar um trouxa (opssss, um amigo) que se dispusesse a me acompanhar e entre conversas e churrascos, o Anderson Rosa se apresentou como voluntário, mas o tempo foi passando e nada da gente tomar uma decisão, até que, não tendo mais como fugir, marcamos a então esperada caminhada justamente para o último dia do ano, prometendo voltar cedo a fim de nos programar para a virada. Antes de descrever essa linda caminhada, que partiu da Praia da Ponta Aguda, vou me dar ao trabalho de descreve-la por completo, para que quem leia esse relato, possa aproveitar toda a caminhada, muito porque, eu mesmo 25 anos atrás, nem tinha me dado conta da existência dessas outras prainhas que completam a Travessia do Saco das Bananas e até hoje, a grande totalidade de quem caminha nessa travessia, não inclui essas praias no seu roteiro, o que chega a ser quase um crime. Partindo da Rio-Santos, bem em baixo do Portal que divide Caraguatatuba com Ubatuba, vamos pegar a rua entre a adega e o supermercado, quando chegarmos ao final, vamos seguir para direita e caminharmos por cerca de 1500 metros até onde ficam estacionadas as caçambas de depósito de lixo e ali interceptar a esquerda, uma estradinha de terra que vai nos levar em direção a Ponta Aguda. Vamos caminhar por mais uns 3 km e entrar a direita no caminho que nos levará para incrível Praia da Figueira, onde levaremos outros 10 minutos para lá chegar e aí então daremos início a nossa TRAVESSIA. A FIGUEIRA é uma praia deserta e selvagem, com mar calmo e encantador, do seu lado direito, uma toca serviria muito bem para um abrigo de emergência, mas nosso caminho segue para a esquerda, onde interceptaremos uma trilha depois que passamos a foz de um pequeno córrego. A trilha vai subir ao alto, onde teremos uma vista espetacular da própria praia, depois vai entrar na mata e em 15 minutos, estaremos desembocando na própria praia da Ponta Aguda, com um camping gigante. A PONTA AGUDA é outra praia de sonhos, mesmo com um número considerável de frequentadores, se mantem muito agradável, com um rio de águas cristalinas fazendo a festa da criançada. Vamos atravessar toda a sua extensão e exatamente como a praia anterior, vamos cruzar a foz do riacho e imediatamente subir uma trilha que se lança mata à dentro. A trilha sobe ao alto em 10 minutos e em mais outros 10 minutos nos leva para a pequena e também selvagem PRAIA MANSA, uma prainha cercada pela floresta, onde alguns barcos costuma ancorar por ser protegida das ondulações do mar, formando piscinas naturais nas suas extremidades. Cruzamos toda praia até seu fim e ganhamos uma trilha aberta que segue na mata, subindo entre palmeiras espinhudas por uns 15 minutos, talvez menos, até que ela se bifurca, mas nosso caminho segue para a esquerda, porque para a direita a trilha vai finalizar bem na ponta que entra mar a dentro e esse não é nosso caminho. Pegando, portanto, para a esquerda, vamos seguir em nível por outros 10 minutos até que chegamos a um mirante onde é possível apreciar mais abaixo a impressionante Praia da Lagoa. Passamos com cuidado, nos apoiando em uma corda e descemos mais outros 10 minutos até a areia da praia, deserta, silenciosa, selvagem. A PRAIA DA LAGOA é outra joia dessa parte do nosso litoral paulista, uns 500 metros de areia grossa e inclinada no seu lado direito, cercada por vegetação mais baixa. Na sua extremidade esquerda, uma grande lagoa de águas quentes nomeia a praia, onde peixes nadam tranquilamente. Com mar calmo, em dias de sol intenso, parte da praia se transforma em uma grande piscina de águas transparentes. Aqui preciso fazer um parêntese: Poderíamos assim que saltamos no início da praia, pegarmos uma trilha a esquerda que daria continuidade a nossa travessia, mas seria um pecado não ir a sua extremidade conhecer a lagoa. Estando na lagoa, nem precisamos voltar pela areia da praia, apenas pegamos uma trilha larga na vegetação e vamos seguir em paralelo a própria praia até que uns 15 minutos depois, a trilha se curva para a direita, vai adentrando novamente em mata alta, passa por um atoleiro e uma meia hora depois de partirmos da lagoa, desembocamos na estrada de terra, que acaba justamente ali. Se seguirmos para a esquerda, poderíamos voltar novamente para o nosso camping na Ponta Aguada, mas nosso caminho, nossa travessia segue para a direita, cruza imediatamente uma porteira e já intercepta a esquerda, uma placa indicando o caminho para a Praia do Simão, exatamente onde oficialmente se iniciaria a travessia tradicional. Acima está a descrição de parte da travessia, fiz isso para que todos que acompanhem esse relato, tenha uma caminhada incrível, tendo tudo que esse roteiro nos permite, mas como nós já estávamos acampados na Ponta Aguda e já havíamos feito todas essas praias durante mais de uma semana que ali estávamos, nos restou apenas nos organizarmos para partirmos direto da nossa barraca e tentarmos fazer a travessia em apenas 1 ÚNICO DIA, ao invés de 2 dias, como é o tradicional. Na noite dia 30 de dezembro, arrumamos nossa mochilinha com os equipamentos de segurança e quando o último dia do ano raiou ( 31/12/2020), nos pusemos de pé e fomos ganhar o mundo. Partimos eu e o Anderson Rosa e uns 15 minutos antes das 07 da manhã, deixamos o acampamento da Ponta Aguda e ganhamos a estradinha e logo mais, na bifurcação, pegamos para a direita, mesmo porque, para a esquerda é o caminho que nos levaria de volta para a Rio-Santos, coisa que não nos interessa. Agora vamos seguindo pela estradinha embarreada, passamos por uns ranchos e deixamos a civilização definitivamente para trás. Cruzamos 2 rios que abastecem a vilinha da Ponta Aguda e em mais 10 minutos descemos a estrada até o seu final, juntamente na porteira, onde ela se encontra com a trilha que vem lá da Praia da Lagoa. Passamos pela porteira e interceptamos a trilha a esquerda, onde uma placa indica o caminho para a Praia do Simão, que alguns também chamam de Brava do Frade. Já de cara a trilha larga e consolidada entra na mata onde árvores gigantes desfilam enormemente, atravessamos um riacho de águas claras e viramos para o leste, desprezando mais à frente uma trilha para a direita, que provavelmente deve vir lá da fazenda. Logo a trilha vai virar para o sul, mas sempre dentro da mata fechada, sempre subindo até ganhar o topo da serra e começar a descer definitivamente para a praia. Vários riachos são cruzados, o que evita que carreguemos muita água e então já começamos a ouvir o barulho das ondas do mar e logo a frente viramos a direita numa bifurcação, descemos numa ribanceira enlameada e alguns minutos depois desembocamos na gigante PRAIA DO SIMÃO. Gastamos cerca de pouco mais uma hora desde o acampamento, uma velocidade absurda nessa manhã de quinta-feira. Na Praia do Simão encontramos meia dúzia de barracas espalhadas e é surpreendente como essa praia ainda se mantém selvagem, talvez a praia mais selvagem de Ubatuba. Aqui o mar é sempre bravo, o que dificulta até para a entrada de barcos, mas hoje, surpreendentemente o mar está quase uma piscina. Na chegada a areia, ao invés de seguirmos para a esquerda, pegamos para a direita e fomos tomar uma ducha numa pequena cachoeirinha no extremo. Não era nada de mais, só que como o calor estava grande já logo pela manhã, aproveitamos a água com temperatura agradável para nos refrescar. Retomamos nossa caminhada para o outro extremo da praia (esquerda), mas ao chegarmos a metade, caímos para o meio do bosque sombreado até chegarmos na grande bica e lá nos matamos de tanto beber água e abastecemos nossos cantis. No fim da praia, quando a areia acaba, entramos em outra trilha em direção à praia do Saco das Bananas. A trilha vai subindo e logo saímos no aberto com um espetacular mirante da Praia do Simão. Começamos a nos enfiar numa floresta de jaqueiras, aliás, carregadas de jacas e vamos subindo até começarmos a descer em meio aos bananais que dão nome a essa travessia. Descartamos uma estradinha a direita e quando chegamos nas ruinas da antiga escolinha, nos detemos por um instante para uma foto e um descanso. A ruína da Escolinha traduz bem o que deveria ser isso há muito tempo atrás. Aquela vilinha de caiçaras hoje está também em ruínas e somente uma ou outra casa se mantém com algum morador, mas o silêncio ali é tão grande que mais parece um lugar fantasma. Vamos descendo por uma escadaria que vai se enfiando em direção à praia, numa pequena baia até que alguns minutos nos leva ao mar. Na praia, apenas um casal e um barquinho boiando nas agás calma e verdes. E é mesmo um cenário de sonhos que encontramos. QUE COISA LINDA! É um grande prazer poder pegar a praia daquele jeito, já que quase 25 anos atrás, pegamos um mar revolto e escuro. Agora sim, agora aquele mar fazia jus à fama daquele lugar surpreendente. Subimos nas pedras e ganhamos o canto direito, onde piscinas naturais me tirou da terra e me jogou ao mar. A água está numa temperatura excelente e eu nadei até não aguentar mais, enquanto o Rosa aproveitou para se refrescar numa sombra e comer alguma coisa. E eu estava certo quando ficava inquieto querendo fazer essa travessia e não poderia ter escolhido um dia melhor, porque será difícil existir outro dia com tanta beleza na PRAIA DO SACO DAS BANANAS. É com uma imensa dor no coração que abandonamos aquela praia, mas a travessia tinha que continuar. Subimos de volta à escolinha e mesmo antes de alcançá-la, cortamos caminho por um roçado e interceptamos a trilha principal, que vai nos levar em direção a prainha da Raposa. Ela adentra na mata pontilhada por jaqueiras gigantes, nos leva ao alto, onde uma casa abandonada nos tira do nosso caminho. Nós havíamos recebido uma informação de um lugar encantador e o caminho muito provavelmente partiria dos fundos dessa casa, mas me pareceu que teríamos que varar um mato descendo a encosta até o mar, e como notei que o Rosa estava um pouco cansado devido ao colar intenso, resolvi abortar essa descida e voltar para trilha, mas logo à frente, quando o caminho sai novamente no aberto, me arrependi amargamente de não ter descido ao Saco do Morcego, uma piscina natural de tamanho grandioso. Mais alguns minutos de caminhada e a trilha nos leva para o fundo do vale, onde um riacho de águas cristalinas já serve para matar nossa sede. Depois vamos subir novamente sem dó, até atingirmos um descampado em meio a um sapezal. O sol queima tudo, é um calor insuportável que beira fácil os 40 graus ali naquele pedaço de litoral e só nos animamos novamente quando o caminho entra novamente na floresta fechada e vai seguindo em nível e começamos a descer de vez, passamos por umas entradas de uns sítios e interceptamos a trilhinha que nos levaria em definitivo até a praia. E é uma trilha bem minúscula, protegida por algumas cordas que ajuda a não escorregar no barranco, mas não leva mais de 5 minutos para a gente desembocar na PRAIA DA RAPOSA, praia selvagem e encantadora, 4 km depois de partirmos do Saco das Bananas. A prainha me surpreende positivamente, parece ainda mais selvagem que 25 anos atrás, é uma solidão imensa, com o mar batendo um pouco mais forte que a praia anterior, com areias mais grossas e com a água mais mexida, mas apesar de tudo, não estava deserta de gente. Ao pisar na areia já me dirijo imediatamente para conversar com um único casal que estava deitado no centro da praia. Ando tranquilamente, olhando o mar e as belezas em volta, sem focar muito de quem estaria deitado na areia, chego perto, cumprimento os dois e só então, depois que os meus olhos se acostumam com a luminosidade é que me dou conta que OS DOIS ESTÃO COMPLETAMENTE NUS. ( kkkkkkkkkk) Fiquei desconcertado , não por encontrar um casal pelado, mas por eu não ter percebido e ter recuado, sem me dirigir para falar com eles. Mas por sorte, o Rosa veio para me salvar, já que eu não conseguia nem falar: - Boa tarde meu irmão, curtindo aí um naturalismo né? Nem sei o que o casal respondeu, saí de fininho, sem nem olhar para trás e fui me refugiar na sombra do lado direito da prainha. Cinco minutos depois, os peladões se mandaram, ganharam o costão e sumiram da nossa frente, voltaram pelo mesmo lugar que vieram, acho que nem sabiam que existia uma trilha mais curta de volta à civilização. O Rosa se contentou em ficar na sombra descansando, mas eu é que não ia sair dali sem dar um mergulho e mesmo com o mar um pouco mais agitado, pulei na água e por lá fiquei, me refrescando, até que num mergulho, localizei uma TARTARUGA quase que encalhada na areia. Duas braçadas me levaram ao animal e consegui captura-lo e não levou mais de um minuto, tempo suficiente para que o Rosa sacasse uma foto e eu já a devolvi para o mar, evitando qualquer tipo de estresse desnecessários e esse foi mais um encontro inusitado nessa prainha tão legal. Subimos novamente a trilha e interceptamos o caminho principal, quase uma estradinha, que vai subir por 10 minutos e descer por outros 10 até nos levar direto para a PRAIA DA CAÇANDOQUINHA, uma prainha mais reservada, mas agora sem o charme das praias desertas que passamos. Por ser véspera do ano novo, estava bem cheia, mas ainda suportável. No final, do lado esquerdo, uma outra trilha larga nos conduz em pouco mais de 5 minutos até a outra praia, onde primeiro temos que descer nos valendo de uma corda para ganhar sua areia. A PRAIA DA CAÇANDOCA é um antigo quilombo e é também uma bela praia, mas nessa época do ano parece a sucursal do inferno e hoje para ir ao mar, será necessário entrar na fila de tanta gente que tem. Eu e o Rosa passamos batidos e rapidamente ganhamos o extremo da praia, e já tratamos logo de sairmos vazados daquele antro em tempos de pandemia. No fim da praia, interceptamos outra trilha larga que sobe ao alto e uns 10 minutos depois, desemboca numa estrada, bem em frente a uma guarita que dá acesso a próxima e derradeira praia dessa travessia. Essa próxima praia é uma que ainda faltava no meu currículo, porque mesmo de outras vezes que por aqui estive, nunca a visitei. Quando chegamos à estrada, já localizamos a entrada para a praia, mas para lá chegar, é preciso passar por dentro de um condomínio de luxo, onde os ricos cagam dinheiro, com casas avaliadas em milhões de reais. Quando os guardas da guarita nos viram, já foram nos pedindo os documentos. Não sei se isso é de praxe ou se vendo as nossas caras de pobres, tentaram se resguardar, mas no fim, desistiram de anotar os RG, quando dissemos que passaríamos rapidamente pela praia, porque estávamos apenas fazendo a travessia. Aqui abro um parêntese: Ter que ficar dando satisfação para poder frequentar uma praia pública é o fim da picada e é claro que deveria ter uma passagem livre ali para qualquer pessoa sem ter que dar satisfação a seu ninguém, mas enfim, entramos e seguimos por uns 10 minutos até a areia. E é realmente como eu disse, uma praia voltada para a elite da elite, a tal ponto de a gente ver uma sala de uma das casas e pensar que era um grande restaurante. Aquilo era um absurdo tão grande, uma ostentação tamanha, que o Rosa ficou até revoltado e pediu para irmos logo embora de lá. Em frente as mansões, há jardins que devem necessitar de uns 10 funcionários só para cuidarem deles, verdadeiros palácios de sultões. As pessoas que ali estavam, pareciam recém-saídos da antiga revista “ CARAS”, num gramado impecável, sem quiosques ou qualquer outra coisa que lembrasse pobreza. A Praia era bem bonita, águas calmas com embarcações luxuosas. Atendendo aos pedidos do Anderson Rosa, nos dirigimos para a outra extremidade da praia, na tentativa de acharmos a trilha que nos levaria até um castelo no alto do morro e nos devolveria novamente à estrada, mas antes de lá chegarmos, fomos descobertos pelos 3 seguranças da PRAIA DO PULSO, que vendo que éramos os únicos pobres ali, vieram nos interpelar. Os seguranças foram educados, mas a intenção era clara de nos constranger, nos dizer que ali não era o nosso lugar, era preciso que a gente soubesse que ali tinha dono, e que não éramos bem-vindos, então nos indicaram a saída, como a nos dizer: vão embora e não voltem nunca mais. Fizemos cara de paisagem, cagamos e andamos, mas não dissemos coisa alguma, recebemos a informação e assimilamos o golpe, muito porque, estávamos mais do que atrasados no nosso roteiro, então ao chegarmos no final da areia da praia, mandamos tudo aquilo a merda, ganhamos a trilha, passamos raspando no castelo, até alcançarmos novamente a estrada, onde passamos por mais uma guarita, sem dar nenhuma satisfação a quem quer que seja. Ganhando a estrada, vamos descendo sob um sol para cada um. A caminhada vai desenrolando vagarosamente, enquanto a gente vai suando em bicas e por quase uma hora, nos arrastamos até a RIO-SANTOS, desembocando bem em frente a um ponto de ônibus. Nossa intenção era ganhar a rodovia e caminhar por mais uma meia hora até o PORTAL que divide Ubatuba de Caraguá, mas fomos surpreendidos com um temporal avassalador e tentamos nos esconder dele no abrigo do ponto. A tempestade varreu o litoral, de tal maneira que tivemos que nos segurar para não sermos arrastados pelo vento e quando o ônibus apareceu, pulamos para dentro e demos graças por escaparmos vivos daquele aguaceiro todo. Descemos no portal e antes de ganharmos o caminho de volta para Ponta Aguda, passamos no mercado para garantirmos o churrasco da virada de ano. Seguimos enfrente, debaixo de uma chuva fina, caminhando por uma estrada que não dava passagem nem para tatu de chuteira e quando chegamos ao mirante da Praia da figueira, ao invés de continuarmos pela estrada, resolvemos cortar caminho e interceptar a trilha que liga uma praia a outra e em mais 15 minutos, o caminho nos devolveu a Ponta Aguda, pouco depois das 4 horas da tarde, fim da travessia, estava cumprida a jornada que havíamos programado. Cansados, extenuados, mas extremamente satisfeitos com aquele fim de ano glorioso, num ano difícil, marcado por uma pandemia mundial e que dificultou muito a vida de todo mundo. Mas reviver essa caminhada incrível, quase 25 anos depois, foi algo gratificante, melhor ainda foi encontrar essa parte do litoral quase do mesmo jeito que a encontramos nessas mais de 2 décadas atrás, num pedaço de litoral de acesso difícil, mas encantador, com praias selvagens e natureza exuberante, um lugar destinado somente para os que tem coragem de se levantar da cadeira e meter os pés na trilha, para cruzar por um dos lugares mais bonitos do litoral do Brasil.
  3. Valeu, aprender com os erros dos outros é sempre melhor do que apender com os nossos, se for pra errar, que sejam erros novos, rsrsrssr
  4. Valeu meu amigo, nunca canso de me surpreender com a Serra do Mar Paulista. Abraços !
  5. VALE DO GUAXINDUBA Naquela madruga choveu. Choveu como há tempos não chovia e eu estava feliz por estar numa cama quentinha, abrigado em baixo das cobertas e ficava pensando quem seria trouxa de sair para fazer trilha com um tempo daqueles, mas não demorou muito para a realidade ser jogada na minha cara. - Diva, acorda, já passa das 4 da manhã, hora de partirmos. Levantei-me imediatamente. Pulei para dentro da minha calça e da minha bota e me pus pronto para a aventura, mesmo sabendo que com aquele tempo horrível, teria sido melhor ter continuado dormindo. Mas bastou um gole de café, para que minha alma voltasse novamente para o corpo e eu me visse de novo eufórico para a missão da qual eu fui tirado do interior Paulista e levado para o litoral Norte. Quando o plano foi me apresentado pelo Thiaguinho, quase tomei um susto. A ideia era subir um rio em Caraguatatuba atrás de uma imagem de satélite que possivelmente pudesse nos levar até uma cachoeira de tamanho considerável. Analisei meio por cima e realmente parecia algo muito interessante, ainda mais que aquele rio havia me passado batido nas minhas explorações cartográficas, verdade mesmo que nunca havia dado muita bola para aquela região, com exceção do Rio Juqueriquerê, que eu havia descido em 2015. Mas pelo sim pelo não, fui procurar para ver se não havia uma trilha que pudesse nos levar até ela, afinal de contas, não estava tão longe da civilização assim. Vasculhei o quanto deu e tudo que encontrei foram uma meia dúzia de traclogs( caminhos marcados com GPS) que atingia no máximo 250 a 270 metros de altitude e não passava disso . Minha conclusão seria mais do que obvia: aquele ponto deveria ser o lugar onde os turistas poderiam chegar, era muito provável que ali se fecharia numa garganta alta onde só aqueles mais tarimbados conseguiriam ir adiante, mas eram pura suposições, era preciso pagar para ver, botar os pés no rio e ir conferir pessoalmente. A chuva não dava trégua, mas mesmos assim jogamos nossas mochilinhas com o necessário no porta malas do carro e partimos para o bairro Canta Galo, um amontoado de casas junto às margens do Rio Guaxinduba. Quase 2 km depois de sairmos da Rio-Santos passamos em baixo do viaduto gigante que fará parte da duplicação da Tamoios e em mais 1 km de estrada desembocamos enfrente à uma estação de tratamento de água da Sabesp, mas logo notamos que nosso caminho ficava uns 300 m antes, uma estradinha entrando na mata. Paramos o carro em uma clareira porque nossa jornada motorizados acabara de chegar ao fim. Jogamos as mochilas nas costas e partimos. Ainda chovia um pouco, mas nossa euforia fazia com que desprezássemos esse sofrimento e então nos adiantamos a passos largos, firmes e decididos. O Thiago à frente, esbanjando toda vitalidade dos seus trinta e poucos anos e eu, é claro, tive que me manter firme, consumindo litros de oxigênio para me manter colado nele e não tentar demonstrar as fraquezas dos meus 50 anos nas costas. Minutos depois a estradinha acaba junto a algumas casas e entra numa trilha onde um riacho faz barulho de água boa, mas já estávamos abastecidos e só fizemos seguir atropelando metros e metros. Passamos por um bonito descampado, que rapidamente também é deixado para trás, até nos embrenharmos definitivamente na floresta sombreada. Quando entramos nessas trilhas não encontramos nenhuma placa de que o acesso fosse proibido, tão somente havia algo dizendo ser uma área em recuperação e como era uma trilha bem larga, supomos ser bem usada pelos nativos ali da região. E é realmente uma trilha encantadora, com árvores gigantes que nos surpreendem a cada metro percorrido, por ainda estarem de pé tão perto da civilização. A trilha apesar de bem larga, vez ou outra se bifurca e confundi a nossa cabeça e alguns perdidos nos leva às margens do rio, muito provavelmente serviria para acessar algum poço ou cachoeirinha mais turística, mas como o rio está bufando, não nos pareceu valer a pena descer para conferir, então retornávamos e seguíamos por onde nos parecia ser a direção correta, mas bem menos de 1 km depois de começarmos a caminhar, fomos obrigados a nos determos por um instante para prestarmos continência a um espetáculo que a natureza nos reservou : Um exemplar de uma árvore gigante faz com que nossos queixos despenquem das nossas caras. Eu não saberia dizer que árvore seria aquela, não sou botânico e sinceramente não tenho lá grande conhecimento a respeito desse assunto, mas me pareceu ser uma Figueira Brava ou uma Samaúma, mas é puro chute, então se alguém souber o nome que me corrija, mas o certo é que não é possível passar diante de um monstro desse e não sair de lá encantado. Nossa caminhada segue a passos cada vez mais firmes, alternando pequenas descidas e subidas, mas nada em excesso e uns vinte minutos depois, um clarão surge no meio da floresta verde e junto a um afluente do rio, tropeçamos numa cachoeira enorme que nem esperávamos encontrar. E era realmente grande, uns 20 metros de queda, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas o simples fato dela cruzar o nosso caminho, já foi motivo de uma comemoração pelo prazer de tê-la encontrado , tão alta e em tão pouca altitude e sem saber o nome ainda, mas muito provavelmente ela deve ter um, como referencia vou chamá-la de CACHOEIRA DO PAREDÃO até que eu descubra o verdadeiro nome. E esse nome fictício só me veio à cabeça porque logo à frente, pouco antes de desembocarmos definitivamente no rio, somos apresentados a numa parede gigante, uma muralha de pedra deslumbrante. Abandonamos, portanto a cachoeira e passamos raspando na parede e em um minuto caímos no Rio Guaxinduba, mas agora em definitivo. O rio está cheio, mas a chuva quase cessou por completo. Estamos agora bem de frente de outra CACHOEIRA, não tão grande como a anterior, mas com um volume grande, confinado num tubo que forma um salto para dentro de um poço profundo, com a água um pouco escura, mas ainda assim muito limpa. Aqui é mais ou menos a cota 260 de altimetria e é o lugar onde a trilha acaba em definitivo, mesmo porque, agora estamos diante de uma garganta que fecha o rio num amontoado de rochas gigantes, fim da linha para os turistas, daqui para frente é só quem se atreve a botar a faca nos dentes , num caminho incerto, perigoso, é o lugar que separa os homens dos meninos, é hora de aceitar o convite para a aventura. Nossa aposta de que esse seria o lugar onde o rio estaria bloqueado foi um acerto um tanto óbvio pela nossa experiência nesses longos anos de exploração selvagem. Num primeiro momento, eu e o Thiago trocamos ideia sobre a possibilidade de escalarmos as grandes rochas, mas era uma subida um tanto exposta com a pedra molhada pelas chuvas recente. Até daria para dar um bote de cima de uma grande rocha e se agarrar à outra, mas um erro de calculo e o escalador seria jogado para dentro da fenda e ali seria moído pela rocha áspera. Então a decisão sensata era, depois de atravessar o rio, ganhar uma canaleta do lado direito e abrir uma passagem para o alto e estando mais acima, varar mato de volta para o rio. E foi isso que fizemos e em poucos minutos retornamos à parte alta dessa primeira cachoeira, justamente de frente para uma cachoeira bem peculiar, onde a água despencava no meio de grandes pedras suspensas e ao nos aproximarmos dela , um colônia de andorinhas barulhentas nos deu as boas vindas e por também não sabermos o nome, resolvemos marcá-la no mapa como CACHOEIRA DAS ANDORINHAS, mesmo não sendo um nome muito original, foi o que pensamos na hora. Paramos por um tempo para apreciar a cachoeira e tomar um gole de água. Uma analise fria já nos diz que escalar a cachoeira não é possível e muito menos viável cruzar para a margem esquerda do rio, então só nos restava a velha tática de varar mato. Também do lado direito foi que descobrimos uma abertura que nos levou rapidamente até o pé de uma parede íngreme, mas que surpreendentemente formou uma escada de raízes no barranco, onde apoiávamos primeiro as mãos e depois os pés até nos elevarmos a parte superior da Cachoeira das Andorinhas, varando um mato cheio de espinhos e descendo desescalando pedras lisas até o rio. Estávamos bem de frente a uma ilha no meio do rio e do outro lado nos pareceu haver mais uma grande cachoeira e para la chegarmos , tivemos que desenrolar uma travessia de meio rio, antes mesmo de pularmos para o meio da ilha, onde bem perto , mais uma cachoeirinha despencava. Cruzamos o rio nos valendo de algumas partes mais rasas, mas mesmo assim com a água quase pela cintura até ficarmos bem de frente com a cachoeira maior que buscávamos. Não era tão alta, mas despencava de forma bem peculiar, com um pequeno tobogã encima que fazia com que ela se transformasse num chuveiro e ao seu lado o rio saltava em mais um cachoeirinha, formando um cenário agradável e mais uma vez, sem saber se existia um nome, vou marcá-la como CACHOEIRA DO CHUVEIRÃO, nome não muito bonito, mas deve servir de referência. Pensei em continuar nossa jornada atravessando para o lado esquerdo do rio, porque me pareceu que seria fácil passar, mas logo o Thiago me avisa que mais à frente o rio se enfia num pequeno cânion, onde poderíamos ter problemas e insiste em nos mantermos no lado direito. Pulamos para a ilha e começamos a escalar algumas pedras íngremes até voltarmos para o rio, onde ariscamos passar numa parte profunda nos valendo de um apoio ao lado de uma parede do rio, cairmos novamente numa língua de mato e voltarmos para o rio na tentativa derradeira de chegarmos ao nosso objetivo principal. Não eram nem nove da manhã quando à nossa frente um clarão branco despencando de um paredão nos ofuscou os olhos. Ainda em meio às árvores e rochas, que nos fechava o caminho, essa visão ia se alternando entre ficar visível e sumir. Eu e o Thiaguinho nem conversamos sobre o assunto, apenas nos mantemos focados em escalar matacões gigantes, numa tentativa desesperada de ganharmos terreno o mais rápido possível. A chuva se foi, milagrosamente a água deixou de cair do céu e adentramos numa toca que era mais apertada quem o útero das nossas mães, mas passamos, encolhendo a barriga, mas passamos e emergimos do outro lado, aos pés de uma grande rocha. O Thiago foi à frente, abrindo caminho na quiçaça até se ver numa fenda entre duas pedras. Ele se equilibrou sobre um tronco de árvore podre, enquanto eu o avisava para que tomasse cuidado. Assim que ele passou, dei um salto e ganhei também o outro lado, e juntos, de cima daquela pedra escorregadia, saltamos para a gloria final, sobre um platô, de frente para o Objeto da nossa conquista pessoal. Diante nos nossos olhos, em toda sua magnitude e esplendor, muito mais bela do que poderíamos imaginar, um turbilhão de água saltava de cima da parede, primeiro vindo de um tobogã de uns 200 metros , depois caindo no vazio de uma altura mais ou menos de uns 30 ou 35 metros no total. Uma cachoeira se espalhando sobre a parede, onde parte do seu véu se ocultava atrás de uma grande rocha. Recebendo suas águas, um laguinho se esparramava até onde estávamos e mesmo com o rio cheio pelas chuvas recentes, ainda assim a água continuava bonita e bem apresentável. A força da água se jogando da montanha formava uma névoa sobre nós e o vento balançava a vegetação ao nosso redor, nos fazendo sentir um pouco de frio, mas pouco nos importava, a cachoeira GRANDE DO GUAXINDUBA era nossa, apenas dois aventureiros abobados, inebriados, testemunhas oculares de um espetáculo e se mesmo sabendo ser provável que não sejamos os primeiros a pisar ali, felizes estávamos por termos certezas que era uma visão presenciada por não mais de meia dúzia, então não nos restou outra coisa, senão nos abraçarmos e comemorarmos o sucesso daquela empreitada. O Thiaginho estava eufórico, um menino hipnotizado pela descoberta bem no quintal de casa. Eu fiquei ali, parado , estático, sentindo aquele momento e feliz por ter me levantado daquela cama quentinha hoje pela manhã. Mas é preciso contar o resto desta história e não deixar passar nada do que presenciávamos ali naquele momento. Se já não bastasse aquela cachoeira, que fechava o vale com uma beleza inenarrável , ao lado dela, despencando de um afluente do lado esquerdo, outra queda d'água formava o cenário perfeito, uma união de dois acidentes geográficos numa obra de arte da natureza que não precisava de retoques. Nossas cabeças rodopiava entre um cenário e outro , mas antes de perdermos o foco diante de tão deslumbrante cenário, nos sentamos para não cair e aproveitamos para comermos algo , ali mesmo ao lado dessa outra queda, que aqui temporariamente chamo de PEQUENA DO GUAXINDUBA e assim marcamos no mapa, mais uma na nossa lista de lugares perdidos no Lado Escuro da Serra do Mar Paulista. Chegamos no lugar onde havíamos deslumbrado chegar, mas sendo ainda muito cedo, resolvemos esticar ainda mais a aventura. Decidimos por escalar o grande paredão para tentarmos chegar ao alto da Cachoeira Grande. Analisamos o terreno e era fácil supor que pela direita seria impossível passar, diante de uma parede de quase noventa graus de inclinação, então só nos restava fazer um ataque pela esquerda, não da cachoeira grande, mas ao lado da pequena , a cachoeira do afluente. Usando nossa técnica inovadora de nos segurarmos em tudo e qualquer coisa que aguentasse nosso peso, nos pomos a nos elevar parede acima até ganharmos o alto do afluente e transpor suas águas, ganhando terreno lentamente, varando mato, escalando outros tantos de pedras escorregadias até firmarmos uma diagonal e voltarmos novamente para o leito do rio principal, bem acima de onde as águas se jogavam no vazio. Estamos agora encima do olho do furacão, uma rampa inclinada de impressionantes cerca de 200 metros, um tobogã descendo numa pedra lisa com não mais de dois palmos de água, mas numa velocidade "maior que a da luz". Eu e o Thiago até deslumbramos a possibilidade de poder descer em uma parte da rampa, onde o rio se projeta em um poço, mas a velocidade era tamanha que poderia nos jogar não para fora do poço, mas para fora da via láctea, então deixamos quieto. Lá do alto, era possível avistar paisagens a beira mar, montanhas e formações rochosas, mas por causa do tempo instável, não conseguimos ver o oceano dessa vez . Chegamos aos 500 metros de altimetria, poderíamos ter seguido subido o rio, mas nos demos por satisfeito, ainda mais porque não estávamos preparados para passar a noite com conforto, então antes das 10 da manhã, resolvemos optar pela volta, havíamos cumprido o objetivo que havíamos traçado quando nos levantamos da cama quente pela manhã e enfrentamos tempo ruim atrás de mais uma aventura autentica. Por sorte a chuva parou, o tempo abriu e quando retornamos para o pé da CACHOEIRA GRANDE DO GUAXINDUBA, ela estava ainda mais deslumbrante e o Thiago resolveu fazer as honras da casa, se jogando para debaixo dela, lavando a alma, enquanto eu o observava lá de fora, contente pela felicidade do amigo. Quando o Thiago se cansou de tomar banho de cachoeira, apanhamos nossas mochilas e partimos de volta, mas dessa vez, num ritmo muito maior, ainda porque, o rio estava um pouco mais baixo e já conhecíamos as passagens chaves. Fizemos uma pequena parada na Cachoeira das Andorinhas para um breve lanche, ganhamos novamente o vara-mato que nos levou de volta a trilha, assim que atravessamos novamente o rio para sua margem direita, agora de quem desce e aceleramos o passo, num perde e acha até que subitamente desembocamos na estrada, junto a clareira onde havíamos deixado nosso veículo, missão cumprida. Antes das 14 horas, estacionamos nossos corpos na Praia do Capricórnio em Caraguatatuba, foi uma caminhada linda, deslumbrante. Eu e o Thiago imprimimos um ritmo de gente grande, voamos rio acima, fomos comendo mato e destruindo altimetria como nunca e levamos 7 horas de caminhada entre ir e voltar. Na manga, mais uma descoberta, numa serra que não para de nos surpreender, lugares onde poucos pés humanos ousaram tocar, um paraíso reservado a um seleto grupo de exploradores , onde a natureza cercou e pela dificuldade de acesso, continuará lá , preservado por muito tempo, sendo mais uma entre tantas outras nessa SERRA DO MAR PAULISTA, a serra que tem cheiro de aventura.
  6. Salgado, faz muito tempo que não faço essa Travessia, mas com um traklog vai de boa, a trilha é de boa.
  7. Outras fotos: https://aventurebox.com/divanei/ilha-montao-de-trigo-remar-ate-morrer/report?fbclid=IwAR3CxenUdJG-_1f7qFN5vQMENZR2yogYV8n4Z76RvyU5fHLXT1jkJcicxX8
  8. https://aventurebox.com/divanei/ilha-montao-de-trigo-remar-ate-morrer/report?fbclid=IwAR3CxenUdJG-_1f7qFN5vQMENZR2yogYV8n4Z76RvyU5fHLXT1jkJcicxX8
  9. MONTÃO DE TRIGO Deitado naquele caiaque de plástico amarelo, vejo o céu qualhado de estrelas, enquanto ele roda sem rumo, num vai e vem de ondas que sobem e descem, chacoalhando feito uma máquina de lavar. Ao meu redor, uma escuridão avassaladora e a única coisa que enxergo são as luzes ao longe, numa ponta distante que deduzo ser para onde devo seguir. Fico me perguntando que fim levou o Alexandre, teria sido tragado para o fundo do mar ou estaria em segurança em algum lugar da costa, mas não há tempo nem para procurar tais respostas, preciso me levantar dessa inércia que me cooptou, mas como, se não consigo forças nem para me colocar sentado? Maldita hora que fui ter essa ideia estupida, ainda por jamais ter remado em mar aberto em toda minha vida. Meus braços mal conseguem se mexer, meu peito queima, minhas costas estão imprestáveis, não sei para onde ir, é provável que eu vá explodir em algum paredão de pedra e se isso acontecer, não sei se vou conseguir nadar até a praia, dessa vez fui longe de mais, passei dos limites por me enfiar em terreno que não domino, é o preço que se paga por ser marinheiro de primeira viagem, na verdade, estou mais para naufrago de última viagem. Num sábado de sol, estava eu às voltas com afazeres domésticos, quando o Alexandre Alves me liga: - O Diva, vamos comigo para São Sebastião? Você sabe que estou treinando remo aqui na lagoa perto de casa e acho que chegou a hora de experimentar remar no mar e estou querendo ir lá para aquela tal de ILHA MONTÃO DE TRIGO. - Num sei não Alexandre meu velho, acabei de retornar do litoral no último final de semana. - Vamos lá amigão, você fica de boa lá na praia, pode levar sua prancha de surf e tentar ver se consegue ficar em pé encima dela, já que você falou que queria aprender a surfar. Verdade mesmo que eu não estava animando para sair num domingo de madruga, enfrentar 05 horas de estrada e depois voltar no mesmo dia, mas o Alexandre é daqueles caras bacanas de mais, então acabei cedendo ao convite somente para não deixar ele na mão e resolvi que ia lhe fazer companhia, nem que fosse só para ficar sentado na areia fazendo castelinhos. Para ajudar o Alexandre na sua saga oceânica, fui buscar informações com uns amigos que já haviam remado naquela região e todos me disseram as mesmas coisas: Fala pra ele não ir para o Montão de Trigo sem experiência de mar, melhor ele fazer o roteiro das ilhas perto da costa, remar para AS ILHAS, ILHA DAS COUVES e finalizar na ILHA DOS GATOS, que seria um roteiro mais adequado para quem nunca entrou com um caiaque no mar antes. Liguei para o Alexandre e passei os betas, as informações colhidas com quem já remava a algum tempo, com quem já tinha experiência com caiaque oceânico, mas o Alexandre já mandou a real, bem na minha cara, sem rodeios. - O Divanei, cara, aí, eu não quero fazer o roteiro que todo mundo faz não, tô descendo para o litoral em um bate e volta alucinante com o objetivo de ir até o Montão de Trigo, vc tá ligado que a gente gosta de fazer coisas diferente, não gostamos das mesmices de sempre, vamos sempre à procura de aventura. Fiquei espantado com as palavras do Alexandre, mas nem falei nada, sabia eu que o “miseravi” estava certo, quem era eu para repreender tal atitude, logo eu que sempre fui desprovido de bom senso, então que ele fosse lá se lascar nessa tal Ilha do Montão de Trigo, que eu mal sabia onde ficava, mas não demorou muito e ele me ligou novamente: - Diva, cara, olha só, consegui contato com um local lá no litoral e consegui um caiaque pra gente alugar pra você, assim não precisa ficar só parado o dia todo na areia. Bom, eu era outro que jamais tinha remado no mar e minha experiência não passava de uma voltinha com um caiaque alugado em Picinguaba e outra volta de meia hora com um amigo na Ponta da Figueira, no fim do ano passado, nada mais que isso e nem contava pra coisa nenhuma. Mas tava bom, poderia ficar matando o tempo na beira da praia enquanto o Alexandre ia se aventurar mar adentro, mas mesmo assim, fiz questão de levar meus equipos de sobrevivência, sem eles, não importa onde eu vá ou no que eu me meta a fazer, pareço estar nu. Pouco antes das 4 da manhã, Alexandre passou na minha casa e me apanhou e a viagem até o litoral foi tranquila, fomos batendo papo e mal vimos o tempo passar, só deu uma enroscada pra chegar na PRAIA DA BARRA DO SAHY, porque acabamos entrando no lugar errado e fomos parar em Juquei, mas logo corrigimos o rumo. Mal encostamos na praia e já demos de cara com o nativo que iria nos alugar o caiaque. E era como eu imaginava: um caiaque de plástico, daqueles abertos, que minha ignorância não sabe nem dizer o nome, mas se o caiaque não era lá grande coisa, a pessoa que iria rema-lo valia menos ainda, no caso eu. Colocamos os 2 caiaques na água, mas sinceramente, ainda não tinha a menor ideia do que iria rolar, só sabia que a intenção do Alexandre era ir para o Montão de Trigo, uma ilha que mal dava pra ver ali da praia. Na minha cabeça, vendo um conjunto de ilhas infinitamente mais perto que esse tal Montão de Trigo, pensei que poderia seguir com o Alexandre até elas pelo menos, talvez meus braços dessem conta de remar até lá, não era possível que eu não desse conta de remar uns 2 ou 3 km, mesmo nunca tendo remado na vida, mas pensando bem, ainda teria a volta, mas foda-se, ia tentar assim mesmo. (Praia Barra do Sahy) Quando os caiaques caíram na água, fiquei meio apreensivo, pensando o que seria de mim se não conseguisse nem sair do lugar, preocupado em não dar trabalho para o Alexandre. Amarrei minha mochila estanque na traseira, nela levava além de 2 litros de água, roupa seca, camisa de neopreme, primeiros socorros, bussola, anorak, capa de chuva, comida de emergência, lanternas e até um cobertor de emergência, mesmo sabendo que não passaria ali da primeira ilha, mas não poderia deixar de estar preparado, ainda mais eu que sempre vomitei aos 4 ventos que as pessoas quando sai para uma trilha, precisa estar preparado sempre para o pior, no mar, não poderia ser diferente. No caiaque oceânico do Alexandre, com compartimento para carga, ia mais água, os lanches e outros equipamentos de emergência e foi assim, depois de verificar tudo, que dois caipiras entram no mar, vencendo as ondas iniciais, remando o mais de pressa que podem para não serem jogados de volta à praia. Entro no mar tentando manter o caiaque reto, sem dar chances de uma onda me pegar de lado. O bico da minha embarcação sobe, como se eu estivesse nos velhos barcos vikings da minha infância. Meto o remo na água e tento remar o mais depressa que posso, mas sou arremessado para trás e quase volto ao ponto inicial. Dobro a força dos braços, quebro a arrebentação, caiaque sobe, caiaque desce, ganho 30 metros de distância da praia e me estabilizo definitivamente e aí tenho tempo para apreciar a transparência da água, finalmente me sinto um homem do mar, agora é tentar alcançar o Alexandre voador, que já vai longe com seu caiaque oceânico. Como primeiro objetivo, embicamos nossos caiaques em direção a ilha que recebe o subjetivo nome de AS ILHAS. Porque desse nome, não consegui descobrir, talvez por ao longe parecer 2 ou 3 ilhas, sendo que é apenas uma. Então para lá nos dirigimos e não passa mesmo de mais de 2 ou 3 km de distância entre a praia da Barra do Sahy e a ilha, mas para quem nunca se viu sozinho num minúsculo caiaque, em meio aquele marzão imenso, é algo que num primeiro momento assusta, mas vou me mantendo firme, colado ao Alexandre, compensando minha inexperiência e a diferença gritante de qualidade de equipamento, apenas na raiva e na força dos braços. No início parece que não saio do lugar, mas logo sou avisado pelo Alexandre que estamos progredindo bem e cada vez mais, vamos ficando distante da Barra do Sahy e a cada remada, mais solitário vamos nos sentindo, ainda que à nossa frente vamos mirando na praia da ilha, que é nosso foco principal. Colo de vez no caiaque do meu companheiro, na tentativa de me sentir mais confortável, porque apesar do Alexandre também não ter nenhuma experiência em mar, pelo menos já está habituado ao remo. Quando vamos nos aproximando da ilha ou das ILHAS, como ela é chamada, meto remo atrás de remo, ultrapasso o Alexandre e o deixo uns 300 metros para trás. Entro na área de arrebentação e sem tempo nem para pensar, sou carregado suavemente até a areia da PRAIA DE DENTRO, deslizando calmante até que possa saltar do caiaque e arrastá-lo acima da linha da maré. Foi uma saída de mar quase perfeita, nem parecia minha primeira vez. Já o Alexandre não teve a mesma sorte. Até aportou tranquilamente, mas ao sair do caiaque oceânico, tropeçou em alguma coisa e foi parar no fundo do mar, que nem era tão fundo assim, mas nos rendeu um tombo cinematográfico e várias risadas pelo batismo inesperado. ( AS ILHAS) A Praia de Dentro é um charme só e por estarmos num fim de semana comum, quase não há pessoas na areia, apenas meia dúzia de gatos pingados, incluindo uns remadores com uma linda canoa havaiana. Há um quiosque na ilha, mas já nos disseram que cobram os olhos da cara por qualquer coisa, então nem nos aproximamos de lá. Verdade mesmo que ficamos uns 20 minutos, até tomarmos um gole de água e do mesmo jeito que chegamos, partimos, e nem chegamos a investigar muito sobre as belezas do lugar, mas me pareceu mais um daqueles paraísos perdidos do Litoral Norte Paulista e valeria uma nova visita, com mais calma, apenas para ficar por ali mesmo, curtindo um ócio, mas nós viemos para remar e quando o Alexandre deu o start, partimos, aproveitando que as ondas quase inexistiam naquele momento e voltar para o mar foi como brincadeira de criança, coisa bem diferente da volta. Saímos remando no sentido anti-horário, primeiro para oeste e depois corrigindo o rumo para sudoeste, como se fossemos dar a volta na ilha mesmo, mas nosso pensamento é irmos conhecer a outra ilha que fica atrás dessa, por isso vamos remando rente ao costão, mas não tão perto para não sermos jogados contra os rochedos, até que nos surpreendemos com mais uma prainha encantadora. Ali estava a PRAIA DE FORA, vazia e silenciosa e combinamos de visitá-la na volta, por isso passamos batido, ainda eufóricos pela empreitada que estávamos nos submetendo e ainda por parecer que estávamos indo muito bem. Passamos pelo canal que separa AS ILHAS da próxima ilha e fomos nos dirigindo para um píer que avistamos de longe e 2 km depois da Praia de Dentro, aportamos na ILHA DAS COUVES DE SÃO SEBASTIÃO. Não há praias nessa ilha, por isso desembarcamos numa bela piscinas naturais do lado esquerdo e puxamos os caiaques para cima das pedras e fomos nos apresentar para umas pessoas que papeavam ao lado do píer, que imaginamos que fossem os donos da propriedade e do camping que eli existe. No píer, algumas pessoas brincavam na água, uns campistas que por lá estavam. À sombra de uma árvore, nós pusemos a conversar com os proprietários e pergunto sobre a distante Montão de Trigo e como sempre, as informações são desencontradas, ninguém sabe informar quanto tempo se levaria para lá chegar, um senhor chega a cogitar que poderia levar umas 5 horas de remo. Mas é o Alexandre que acaba me surpreendendo e cochicha no meu ouvido com seu sotaque carioca: ( ilha das Couves) - Aí Divanei, deixa eu te falar umas paradas, não vou mais para o Montão de Trigo não, aquela ilha é longe pra caralho, tá lá na puta que o pariu, vamos ficar por aqui, curtindo essas ilhas mesmo, se é louco a gente enfrentar esse mar , aí . Não sei, o simples fato do desafio já começa a tomar conta da minha cabeça, meu cérebro simplesmente desliga a chave do bom senso e quando alguém diz que é algo impossível (pelo menos para a gente como nós) eu só consigo ouvir a palavra AVENTURA, como uma voz lá no fundo do inconsciente, gritando para que a gente ir – vai lá Divanei, o que pode dar errado, talvez nunca mais vocês tenham outra chance. - Alexandre, meu caro amigo, já viemos até aqui, o tempo parece que vai se manter firme, o mar tá balançando pouco, eu estou me sentindo bem fisicamente e se você tiver paciência comigo, acho que a gente poderia encarar essa travessia para esse tal de Montão de Trigo. O Alexandre ponderou, pensou , pensou : -Aí caraca, então vamos nessa merda, Divanei, já tamo aqui memo. Eu nem esperava outra resposta, o Alexandre foi provocado e respondeu à altura, sabendo que quando a gente se junta não é para fazer o comum e não importa em que esporte seja, sempre vamos estar em busca de algo a mais e remando nunca que iria ser diferente. Nos despedimos do pessoal da Ilha das Couves e botamos os caiaques no mar, remando sobre as piscinas naturais na beira do píer, vendo o Montão de Trigo lá na puta que o pariu, como dizia o Alexandre. O mar já não era mais aquele mar liso do início, mas ainda nos pareceu favorável e naquele sobe e desce, botamos força nos braços e nos impulsionamos, agora em mar aberto, sem a proteção psicológica do continente e nem das ilhotas, dois homens perdidos num oceano de águas salgadas, tentando esconder seus medos de principiantes, se segurando agora na vontade de reencontrar terra firme. ( Ilha dos Couves) Pouco depois de partirmos, somos parados por uma embarcação e coube ao Alexandre desenrolar a solicitação de parada. Por incrível que pareça, nesse barco se encontrava nada mais, nada menos que uma LENDA DO CAIAQUE NACIONAL. Fábio Paiva, dono da fábrica de Caiaques OPIUM, simplesmente o cara que introduziu a canoagem oceânica no Brasil, ganhador de tudo que é prêmio relacionado ao esporte. Inclusive, o Fabio ficou encantado em encontrar um dos seus caiaques, fabricado por ele, sendo remado pelo Alexandre e segundo nosso amigo, se ofereceu até para comprar de volta. O Alexandre relatou que pensávamos em ir no Montão de Trigo, mas que por não termos muita experiência, não estávamos seguros quanto a nossa capacidade e é aí que a gente consegue enxergar quem são os verdadeiros incentivadores, ao invés de ficar cagando regra, o Fábio nos incentivou a ir, nos deu forças para continuar enfrente. Nessa primeira experiência em mar aberto, o pensamento corre longe, num primeiro momento, ficamos a nos perguntar quão estúpida foi aquela decisão, não levamos em conta uma mudança repentina do mar, já que o tempo estava muito quente e poderíamos até termos um tempestade na volta ou sei lá, sermos pegos por alguma corrente que nos levasse para longe da ilha, meio que aqueles pensamentos cretinos de quem não conhece bulhufas nenhuma das coisas do mar, dois tontos que vivem no interior do Estado, desacostumado com os procedimentos de navegação. Mas, já estávamos totalmente comprometidos com a aventura, voltar atrás não era mais possível, então, levantamos a cabeça e remamos, remamos como nunca havíamos remado na vida, com a cabeça erguida, subindo e descendo, para baixo e para cima, até não aguentar mais, até pararmos e quase cairmos morto no fundo do caiaque. Paramos por um breve momento, eu já comecei a dar sinais de cansaço, na verdade, meus braços já estavam começando a queimar e um desconforto lombar já começava a me fazer querer mudar constantemente de posição, então aproveitei para me sentar de lado no caiaque, botar as pernas para fora, com os pés dentro d’água, um claro sinal de que a vaca começava a ir para o brejo. Depois dessa última parada, o Alexandre disparou na frente, segundo ele, era para ver se me convencia a me animar a remar mais rápido, mas que na verdade, só me fez me sentir um coitado, um remador de merda, perdido naquele mundão de água e parece que quanto mais rápido eu tentava remar, mais distante aquela maldita ilha ficava. Enquanto eu já ficava mareado de tanto sobe e desce, Alexandre desapareceu por completo das minhas vistas e eu já não conseguia mais identificar sua presença no mar em meio a outras embarcações que despontavam no horizonte. O jeito foi remar, remar e remar, ir vendo a ilha crescendo diante dos meus olhos, 300 metros de altura a me assombrar, procurando localizar em que parte estava o porto, tentando identificar alguma habitação que satisfizesse minha ânsia de chegar. Eu já estou em estado lastimável, tento achar energia sei lá de onde, é o último fôlego disponível, a última barrinha de energia, até que atinjo finalmente as encostas, onde o Alexandre já me espera com cara de poucos amigos. Eu pensando que o Alexandre estava meio puto comigo por eu ter me atrasado quase meia hora, mas o menino estava era mesmo muito puto com os moradores da ilha que não deixou ele aportar o caiaque no PORTO DE VARAS. Contou ele que o morador que se apresentou como líder da comunidade, foi de uma estupidez sem tamanho, mesmo o Alexandre dizendo que nem queria acessar a comunidade, apenas usar o porto para descansar por uma meia hora, antes de tomar o caminho de volta. Mas isso não era nenhuma novidade, já haviam relatos de outros que ali chegaram e foram tratados com desdenho por essas pessoas, que parece quererem se esconder atrás dos seus dogmas religiosos, numa hipocrisia sem tamanho. Talvez não sejam todos como esse senhor, mas o simples fato de deixarem esse tipo de gente como líder, também os faz coniventes com essa patifaria toda. Mas mandamos esses caras à merda e ao adentrar uma piscina natural ali ao lado, conseguimos puxar os caiaques para cima de uma grande rocha e comemoramos nossa travessia , que mesmo com todos os percalços, foi um grande sucesso, ganhamos definitivamente a ILHA MONTÃO DE TRIGO, impossível é coisa que ainda procuramos nessa vida. ( Porto de Varas a esquerda da foto) Nos sentamos sobre a pedra, junto a PISCINA NATURAL e ficamos observando as belezas das rochas da ilha, que são muito parecidas com as formações rochosas das Agulhas Negras de Itatiaia, lembrando até um pouco das Ilhas Seicheles no Oceano Índico. É um cenário realmente encantador e havíamos até conversado sobre a possibilidade de subir até o alto da Ilha, mesmo que fosse por algum caminho alternativo, mas esses planos foram por água abaixo quando o Alexandre me perguntou se já passava das 13 horas e me viu responder que já passava era das 3 da tarde. Foi um desespero mútuo, uma correria dos infernos para engolir o lanche, beber o suco gelado, enquanto o Alexandre descia rapidamente seu pequeno drone, a fim de ganharmos tempo para sairmos vazados o mais rápido possível. Dentro de nós, um sentimento de que iríamos nos ferrar bonito, a possibilidade de voltar remando a noite já era realidade e com o mar ficando cada vez mais balançado, a preocupação já começava a querer beirar a agonia. Chutamos os caiaques para o mar e pulamos para dentro deles e sem nem pensar muito, nos pomos a remar, agora contra o tempo, mas eu não havia descansado nada e ainda sentia o peito e os braços queimarem, mas como eu sempre digo: O desespero é que move o homem antes da derrota final, era preciso continuar, seguir em frente até não aguentar mais. Dois km antes de chegarmos ao Montão de Trigo, o Alexandre se ofereceu para me rebocar, mas meu orgulho foi tamanho que nem se quer passou pela minha cabeça aceitar tal ajuda, mas agora, remando de volta, talvez essa ajuda fosse bem-vinda, mesmo porque, o caiaque do Alexandre era muito mais rápido que o meu e ele estava um pouco mais preparado. Mas fiquei só na vontade, Alexandre velho, sumiu na frente e poucas vezes eu consegui alcançá-lo, ainda mais que agora éramos obrigados a remar num vento lateral, nos jogando sempre para a direita, dificultando ainda mais a gente nos mantermos no rumo. O Alexandre me confessou que estava bem mareado e não tardaria em botar os bofes para fora. Eu também estava um pouco enjoado, coisas de principiantes, mas quando resolvia parar por alguns segundos para retomar o fôlego, além de passar mal, ainda tinha que ouvir os gritos do Alexandre me alertando que deveria seguir ou iríamos ficar muito tempo remando no escuro, correndo até o risco de sermos atropelados por alguma embarcação. A paciência do Alexandre comigo chegou ao fim, teve uma hora que ele não aguentou mais e picou a mula, deu linha na pipa, mas eu nem estava mais ligando, já me encontrava resignado com minha condição e só fazia tentar me manter em movimento, nem que fosse com um mínimo de esforço, só pensava em continuar remando, remando, remando....... O dia já não mais existia, apenas uma penumbra ainda nos fornecia uma leve iluminação, mas sem os óculos, eu mal enxergava as ilhas à minha frente, apenas via alguns vultos e para lá tentava remar ou ao menos, tentava continuar me movimentando. O Alexandre já havia sumido das minhas vistas faz tempo e foquei minha remada olhando apenas para o canto das ILHAS , deixando para trás a Ilha das Couves, mas quando emparelhei nela, já não mais conseguia remar. Tentei até remar deitado no caiaque, mas não conseguia manter a direção, então apenas permanecia estático por alguns minutos, tentando me livrar das dores nas costas, já que os braços eu nem sentia mais, porque já eram órgãos imprestáveis que apenas pareciam fazer peso no meu corpo. Como era um caiaque aberto e até bem estável, pensei que poderia melhorar a postura tentando remar em pé, vai que dava certo, mas a única coisa que consegui foi ir para no fundo do mar e emergir desesperado procurando voltar para o caiaque , tendo que resgatar meu remo quase no escuro, mas que ideia mais cretina. Mas era preciso continuar e não sei nem como continuei, acho que me valendo de uma energia psicológica quando ao longe avistei a praia e para lá me dirigi, só para descobrir que aquela era só a Praia de Fora, que havia esquecido que existia, então nem desembarquei, óbvio, segui me arrastando e quando fiz a curva, embiquei meu caiaque para a ponta da Praia de Dentro das ILHAS. Dessa vez o mar já não estava tão calmo como estava de manhã e era preciso encarar a pior parte de quem rema, que é fazer a entrada na praia. Sempre ouvi dize que é preciso entrar com o caiaque reto, o mais reto possível, então é isso que eu faço, alinho meu caiaque, embico para praia e espero que uma onda entre para que eu possa pegar uma carona. Quando ela aparece, remo o mais rápido que meu braço possa aguenta e subo junto com ela, mas nem tempo de gritar, dou um rodopio, viro de lado e me transformo em passageiro do destino e não tardo em ser jogado na areia, de ponta cabeça, a cara enfiada na praia, eu de um lado, caiaque do outro, remo do outro. CARALHO DOS INFERNOS. ( Praia de dentro pela manha( calma), mas a noite com ondas.) Me levanto muito puto, mas muito puto, é pouco. Desviro o caiaque, apanho o remo e saio arrastando pela areia da praia, tentando encontrar o Alexandre que já se encontrava no outro extremo, tentando ajudar uma pequena embarcação, que se encontrava atolada na areia. O Alexandre me pergunta se estou bem, nem forças para conversar eu tenho mais, apenas pego duas lanternas no meu estojo de primeiros socorros, dou uma para ele e fico com a outra. Acendo a minha do modo luz vermelha e ele no modo piscante. Ao longe, muito mais longe do que parecia, avistamos umas luzes meio que apagadas. Pergunto para ele para onde vamos seguir e ele me diz que acha que devemos remar em direção a grande ponta, mas sem aquela certeza e antes mesmo de conversamos mais sobre o assunto, ele bota o caiaque no mar e vai ser perder na escuridão da noite, ainda que no começo eu consiga identificar a lanterna dele piscando. É preciso encontrar forças, físicas e psicológicas e o simples fato de voltar ao mar já me embrulha o estômago, enjoado, mareado, destruído fisicamente, um homem atormentado pela sua condição de principiante. As primeiras remadas nessa derradeira travessia faço com cara de choro, dores terríveis são desencadeadas, mas vou avançando, na escuridão da noite, num mar que balança para cima e para baixo. Não tardou em eu já não localizar mais o Alexandre e agora sou um navegador solitário, estou por conta e risco. Miro na ponta quase escura, onde meia dúzia de luzes fracas me servem como um farol em busca da minha salvação. Remo com um braço só e vou alternando com o outro, não saio muito do lugar, não avanço, então volto a buscar energias para não desistir de vez. A progressão é lenta, a resignação é bruta e chega uma hora que não há mais como seguir, o limite parece ter chegado. Deito-me no caiaque, estico o corpo, recolho o remo e ali fico prostrado, entregue a minha própria solidão, num vai e vem sem rumo, num sobe e desce sem destino, apenas olhando as estrelas do céu, sem me importar do que vai ser de mim. Pareço estar a meio caminho de lugar nenhum, um homem inerte, sem coragem nem para pensar, apenas ali, estático, sendo levado ao sabor do vento. Por uns 10 minutos é assim que permaneço, até me dar conta que se eu não fizer nada por mim, ninguém irá fazer. Me levando, tomo meu assento e continuo tentando remar com os ombros e não com os braços, como foi o conselho que me deram antes de enfrentar essa aventura, mas isso não resolve, não tenho técnica para isso. É para ponta que eu remo, é para lá que minha alma deseja chegar, mas num estalo repentino, descubro que a única coisa que vai acontecer é eu me chocar com os costões rochosos, porque aquelas luzes não são da praia e agora, aquele homem que já não encontrava mais forças para nada, é obrigado a remar desesperadamente para escapar de um destino inglório. Desviei o rumo para a esquerda, não passava pela minha cabeça explodir nos rochedos. Fui remando paralelo a ponta, tentando ver algum vestígio que me dissesse para onde seria a praia, ainda mais por me lembrar que ali mesmo havia a foz do Rio Sahy e eu nem saberia precisar qual o tamanho da encrenca enfrentaria caso me encontrasse com a desembocadura desse rio enfrentando o mar, então só fiz tirar forças para remar ainda mais para esquerda, procurando o fundo da areia caso eu precisasse pular fora do caiaque em caso de emergência. Minha preocupação era me fuder toda ao chegar na praia, a noite e sem enxergar nada. Enquanto estava envolto na minha saída do mar, fui agraciado com um cardume de peixes enormes, pulando na frente do caiaque e mesmo na situação em que eu me encontrava, não teve como não me emocionar com tamanha beleza. A ficha caiu quando percebi que estava realmente perto da foz do Rio Sahy e por um breve momento, avistei a faixa de areia da praia. A minha preparação para o pior foi acontecendo. Já havia dado como certo que mais uma vez seria estraçalhado pelas ondas, era certo que seria cuspido pelo mar, sem dó nem piedade, por isso pensei em me jogar na água e deixar que o caiaque explodisse na areia, mas não tive tempo, uma onda subiu o meu caiaque, me elevou como se eu fosse uma prancha de surf: “Minha Nossa Senhora, vou me foder todo, ai, ai, ai, caralhoooooooooooo..........” O caiaque subiu, balançou para cá e para lá, surfou, embicou para a praia, enquanto eu remava desesperado, tentando mantê-lo reto, até que bateu o bico na areia e deslizou suavemente até a linha da maré. Pulei para fora, cai de barriga para cima e por lá fiquei alguns minutos, olhando para o nada, quase chorando, um misto de vitória, êxtase, satisfação pessoal, como um naufrago que alcança a glória, 3 km, dez horas entre o céu e o mar. Levantei a cabeça, e no outro canto da praia, avistei as luzes piscantes do Alexandre. Apanhei a cordinha do caiaque e como fiz na Praia de Dentro, arrastei-o até o meu amigo. Encontrando ele, nos cumprimentamos, NOSSA MISSÃO ESTAVA CUMPRIDA. E foi assim, que dois remadores inexperiente, moradores do interior do Estado, resolveram abandonar as mesmices da vida, para se aventurarem num esporte novo, enfrentar seus medos, desafiar o desconhecido, para fazer a vida valer a pena, como sempre fizemos e esse vai ser sempre o nosso compromisso com o mundo da Aventura, seja lá qual seja for, nas montanha, nas trilhas, nos rios ou no MAR. ( foto Earth-Altahair de Morais) - AS ILHAS - ILHA DAS COUVES E MONTÃO DE TRIGO. Divanei- setembro/2020
  10. MONTÃO DE TRIGO Deitado naquele caiaque de plástico amarelo, vejo o céu qualhado de estrelas, enquanto ele roda sem rumo, num vai e vem de ondas que sobem e descem, chacoalhando feito uma máquina de lavar. Ao meu redor, uma escuridão avassaladora e a única coisa que enxergo são as luzes ao longe, numa ponta distante que deduzo ser para onde devo seguir. Fico me perguntando que fim levou o Alexandre, teria sido tragado para o fundo do mar ou estaria em segurança em algum lugar da costa, mas não há tempo nem para procurar tais respostas, preciso me levantar dessa inércia que me cooptou, mas como, se não consigo forças nem para me colocar sentado? Maldita hora que fui ter essa ideia estupida, ainda por jamais ter remado em mar aberto em toda minha vida. Meus braços mal conseguem se mexer, meu peito queima, minhas costas estão imprestáveis, não sei para onde ir, é provável que eu vá explodir em algum paredão de pedra e se isso acontecer, não sei se vou conseguir nadar até a praia, dessa vez fui longe de mais, passei dos limites por me enfiar em terreno que não domino, é o preço que se paga por ser marinheiro de primeira viagem, na verdade, estou mais para naufrago de última viagem. Num sábado de sol, estava eu às voltas com afazeres domésticos, quando o Alexandre Alves me liga: - O Diva, vamos comigo para São Sebastião? Você sabe que estou treinando remo aqui na lagoa perto de casa e acho que chegou a hora de experimentar remar no mar e estou querendo ir lá para aquela tal de ILHA MONTÃO DE TRIGO. - Num sei não Alexandre meu velho, acabei de retornar do litoral no último final de semana. - Vamos lá amigão, você fica de boa lá na praia, pode levar sua prancha de surf e tentar ver se consegue ficar em pé encima dela, já que você falou que queria aprender a surfar. Verdade mesmo que eu não estava animando para sair num domingo de madruga, enfrentar 05 horas de estrada e depois voltar no mesmo dia, mas o Alexandre é daqueles caras bacanas de mais, então acabei cedendo ao convite somente para não deixar ele na mão e resolvi que ia lhe fazer companhia, nem que fosse só para ficar sentado na areia fazendo castelinhos. Para ajudar o Alexandre na sua saga oceânica, fui buscar informações com uns amigos que já haviam remado naquela região e todos me disseram as mesmas coisas: Fala pra ele não ir para o Montão de Trigo sem experiência de mar, melhor ele fazer o roteiro das ilhas perto da costa, remar para AS ILHAS, ILHA DAS COUVES e finalizar na ILHA DOS GATOS, que seria um roteiro mais adequado para quem nunca entrou com um caiaque no mar antes. Liguei para o Alexandre e passei os betas, as informações colhidas com quem já remava a algum tempo, com quem já tinha experiência com caiaque oceânico, mas o Alexandre já mandou a real, bem na minha cara, sem rodeios. - O Divanei, cara, aí, eu não quero fazer o roteiro que todo mundo faz não, tô descendo para o litoral em um bate e volta alucinante com o objetivo de ir até o Montão de Trigo, vc tá ligado que a gente gosta de fazer coisas diferente, não gostamos das mesmices de sempre, vamos sempre à procura de aventura. Fiquei espantado com as palavras do Alexandre, mas nem falei nada, sabia eu que o “miseravi” estava certo, quem era eu para repreender tal atitude, logo eu que sempre fui desprovido de bom senso, então que ele fosse lá se lascar nessa tal Ilha do Montão de Trigo, que eu mal sabia onde ficava, mas não demorou muito e ele me ligou novamente: - Diva, cara, olha só, consegui contato com um local lá no litoral e consegui um caiaque pra gente alugar pra você, assim não precisa ficar só parado o dia todo na areia. Bom, eu era outro que jamais tinha remado no mar e minha experiência não passava de uma voltinha com um caiaque alugado em Picinguaba e outra volta de meia hora com um amigo na Ponta da Figueira, no fim do ano passado, nada mais que isso e nem contava pra coisa nenhuma. Mas tava bom, poderia ficar matando o tempo na beira da praia enquanto o Alexandre ia se aventurar mar adentro, mas mesmo assim, fiz questão de levar meus equipos de sobrevivência, sem eles, não importa onde eu vá ou no que eu me meta a fazer, pareço estar nu. Pouco antes das 4 da manhã, Alexandre passou na minha casa e me apanhou e a viagem até o litoral foi tranquila, fomos batendo papo e mal vimos o tempo passar, só deu uma enroscada pra chegar na PRAIA DA BARRA DO SAHY, porque acabamos entrando no lugar errado e fomos parar em Juquei, mas logo corrigimos o rumo. Mal encostamos na praia e já demos de cara com o nativo que iria nos alugar o caiaque. E era como eu imaginava: um caiaque de plástico, daqueles abertos, que minha ignorância não sabe nem dizer o nome, mas se o caiaque não era lá grande coisa, a pessoa que iria rema-lo valia menos ainda, no caso eu. Colocamos os 2 caiaques na água, mas sinceramente, ainda não tinha a menor ideia do que iria rolar, só sabia que a intenção do Alexandre era ir para o Montão de Trigo, uma ilha que mal dava pra ver ali da praia. Na minha cabeça, vendo um conjunto de ilhas infinitamente mais perto que esse tal Montão de Trigo, pensei que poderia seguir com o Alexandre até elas pelo menos, talvez meus braços dessem conta de remar até lá, não era possível que eu não desse conta de remar uns 2 ou 3 km, mesmo nunca tendo remado na vida, mas pensando bem, ainda teria a volta, mas foda-se, ia tentar assim mesmo. (Praia Barra do Sahy) Quando os caiaques caíram na água, fiquei meio apreensivo, pensando o que seria de mim se não conseguisse nem sair do lugar, preocupado em não dar trabalho para o Alexandre. Amarrei minha mochila estanque na traseira, nela levava além de 2 litros de água, roupa seca, camisa de neopreme, primeiros socorros, bussola, anorak, capa de chuva, comida de emergência, lanternas e até um cobertor de emergência, mesmo sabendo que não passaria ali da primeira ilha, mas não poderia deixar de estar preparado, ainda mais eu que sempre vomitei aos 4 ventos que as pessoas quando sai para uma trilha, precisa estar preparado sempre para o pior, no mar, não poderia ser diferente. No caiaque oceânico do Alexandre, com compartimento para carga, ia mais água, os lanches e outros equipamentos de emergência e foi assim, depois de verificar tudo, que dois caipiras entram no mar, vencendo as ondas iniciais, remando o mais de pressa que podem para não serem jogados de volta à praia. Entro no mar tentando manter o caiaque reto, sem dar chances de uma onda me pegar de lado. O bico da minha embarcação sobe, como se eu estivesse nos velhos barcos vikings da minha infância. Meto o remo na água e tento remar o mais depressa que posso, mas sou arremessado para trás e quase volto ao ponto inicial. Dobro a força dos braços, quebro a arrebentação, caiaque sobe, caiaque desce, ganho 30 metros de distância da praia e me estabilizo definitivamente e aí tenho tempo para apreciar a transparência da água, finalmente me sinto um homem do mar, agora é tentar alcançar o Alexandre voador, que já vai longe com seu caiaque oceânico. Como primeiro objetivo, embicamos nossos caiaques em direção a ilha que recebe o subjetivo nome de AS ILHAS. Porque desse nome, não consegui descobrir, talvez por ao longe parecer 2 ou 3 ilhas, sendo que é apenas uma. Então para lá nos dirigimos e não passa mesmo de mais de 2 ou 3 km de distância entre a praia da Barra do Sahy e a ilha, mas para quem nunca se viu sozinho num minúsculo caiaque, em meio aquele marzão imenso, é algo que num primeiro momento assusta, mas vou me mantendo firme, colado ao Alexandre, compensando minha inexperiência e a diferença gritante de qualidade de equipamento, apenas na raiva e na força dos braços. No início parece que não saio do lugar, mas logo sou avisado pelo Alexandre que estamos progredindo bem e cada vez mais, vamos ficando distante da Barra do Sahy e a cada remada, mais solitário vamos nos sentindo, ainda que à nossa frente vamos mirando na praia da ilha, que é nosso foco principal. Colo de vez no caiaque do meu companheiro, na tentativa de me sentir mais confortável, porque apesar do Alexandre também não ter nenhuma experiência em mar, pelo menos já está habituado ao remo. Quando vamos nos aproximando da ilha ou das ILHAS, como ela é chamada, meto remo atrás de remo, ultrapasso o Alexandre e o deixo uns 300 metros para trás. Entro na área de arrebentação e sem tempo nem para pensar, sou carregado suavemente até a areia da PRAIA DE DENTRO, deslizando calmante até que possa saltar do caiaque e arrastá-lo acima da linha da maré. Foi uma saída de mar quase perfeita, nem parecia minha primeira vez. Já o Alexandre não teve a mesma sorte. Até aportou tranquilamente, mas ao sair do caiaque oceânico, tropeçou em alguma coisa e foi parar no fundo do mar, que nem era tão fundo assim, mas nos rendeu um tombo cinematográfico e várias risadas pelo batismo inesperado. ( AS ILHAS) A Praia de Dentro é um charme só e por estarmos num fim de semana comum, quase não há pessoas na areia, apenas meia dúzia de gatos pingados, incluindo uns remadores com uma linda canoa havaiana. Há um quiosque na ilha, mas já nos disseram que cobram os olhos da cara por qualquer coisa, então nem nos aproximamos de lá. Verdade mesmo que ficamos uns 20 minutos, até tomarmos um gole de água e do mesmo jeito que chegamos, partimos, e nem chegamos a investigar muito sobre as belezas do lugar, mas me pareceu mais um daqueles paraísos perdidos do Litoral Norte Paulista e valeria uma nova visita, com mais calma, apenas para ficar por ali mesmo, curtindo um ócio, mas nós viemos para remar e quando o Alexandre deu o start, partimos, aproveitando que as ondas quase inexistiam naquele momento e voltar para o mar foi como brincadeira de criança, coisa bem diferente da volta. Saímos remando no sentido anti-horário, primeiro para oeste e depois corrigindo o rumo para sudoeste, como se fossemos dar a volta na ilha mesmo, mas nosso pensamento é irmos conhecer a outra ilha que fica atrás dessa, por isso vamos remando rente ao costão, mas não tão perto para não sermos jogados contra os rochedos, até que nos surpreendemos com mais uma prainha encantadora. Ali estava a PRAIA DE FORA, vazia e silenciosa e combinamos de visitá-la na volta, por isso passamos batido, ainda eufóricos pela empreitada que estávamos nos submetendo e ainda por parecer que estávamos indo muito bem. Passamos pelo canal que separa AS ILHAS da próxima ilha e fomos nos dirigindo para um píer que avistamos de longe e 2 km depois da Praia de Dentro, aportamos na ILHA DAS COUVES DE SÃO SEBASTIÃO. Não há praias nessa ilha, por isso desembarcamos numa bela piscinas naturais do lado esquerdo e puxamos os caiaques para cima das pedras e fomos nos apresentar para umas pessoas que papeavam ao lado do píer, que imaginamos que fossem os donos da propriedade e do camping que eli existe. No píer, algumas pessoas brincavam na água, uns campistas que por lá estavam. À sombra de uma árvore, nós pusemos a conversar com os proprietários e pergunto sobre a distante Montão de Trigo e como sempre, as informações são desencontradas, ninguém sabe informar quanto tempo se levaria para lá chegar, um senhor chega a cogitar que poderia levar umas 5 horas de remo. Mas é o Alexandre que acaba me surpreendendo e cochicha no meu ouvido com seu sotaque carioca: ( ilha das Couves) - Aí Divanei, deixa eu te falar umas paradas, não vou mais para o Montão de Trigo não, aquela ilha é longe pra caralho, tá lá na puta que o pariu, vamos ficar por aqui, curtindo essas ilhas mesmo, se é louco a gente enfrentar esse mar , aí . Não sei, o simples fato do desafio já começa a tomar conta da minha cabeça, meu cérebro simplesmente desliga a chave do bom senso e quando alguém diz que é algo impossível (pelo menos para a gente como nós) eu só consigo ouvir a palavra AVENTURA, como uma voz lá no fundo do inconsciente, gritando para que a gente ir – vai lá Divanei, o que pode dar errado, talvez nunca mais vocês tenham outra chance. - Alexandre, meu caro amigo, já viemos até aqui, o tempo parece que vai se manter firme, o mar tá balançando pouco, eu estou me sentindo bem fisicamente e se você tiver paciência comigo, acho que a gente poderia encarar essa travessia para esse tal de Montão de Trigo. O Alexandre ponderou, pensou , pensou : -Aí caraca, então vamos nessa merda, Divanei, já tamo aqui memo. Eu nem esperava outra resposta, o Alexandre foi provocado e respondeu à altura, sabendo que quando a gente se junta não é para fazer o comum e não importa em que esporte seja, sempre vamos estar em busca de algo a mais e remando nunca que iria ser diferente. Nos despedimos do pessoal da Ilha das Couves e botamos os caiaques no mar, remando sobre as piscinas naturais na beira do píer, vendo o Montão de Trigo lá na puta que o pariu, como dizia o Alexandre. O mar já não era mais aquele mar liso do início, mas ainda nos pareceu favorável e naquele sobe e desce, botamos força nos braços e nos impulsionamos, agora em mar aberto, sem a proteção psicológica do continente e nem das ilhotas, dois homens perdidos num oceano de águas salgadas, tentando esconder seus medos de principiantes, se segurando agora na vontade de reencontrar terra firme. ( Ilha dos Couves) Pouco depois de partirmos, somos parados por uma embarcação e coube ao Alexandre desenrolar a solicitação de parada. Por incrível que pareça, nesse barco se encontrava nada mais, nada menos que uma LENDA DO CAIAQUE NACIONAL. Fábio Paiva, dono da fábrica de Caiaques OPIUM, simplesmente o cara que introduziu a canoagem oceânica no Brasil, ganhador de tudo que é prêmio relacionado ao esporte. Inclusive, o Fabio ficou encantado em encontrar um dos seus caiaques, fabricado por ele, sendo remado pelo Alexandre e segundo nosso amigo, se ofereceu até para comprar de volta. O Alexandre relatou que pensávamos em ir no Montão de Trigo, mas que por não termos muita experiência, não estávamos seguros quanto a nossa capacidade e é aí que a gente consegue enxergar quem são os verdadeiros incentivadores, ao invés de ficar cagando regra, o Fábio nos incentivou a ir, nos deu forças para continuar enfrente. Nessa primeira experiência em mar aberto, o pensamento corre longe, num primeiro momento, ficamos a nos perguntar quão estúpida foi aquela decisão, não levamos em conta uma mudança repentina do mar, já que o tempo estava muito quente e poderíamos até termos um tempestade na volta ou sei lá, sermos pegos por alguma corrente que nos levasse para longe da ilha, meio que aqueles pensamentos cretinos de quem não conhece bulhufas nenhuma das coisas do mar, dois tontos que vivem no interior do Estado, desacostumado com os procedimentos de navegação. Mas, já estávamos totalmente comprometidos com a aventura, voltar atrás não era mais possível, então, levantamos a cabeça e remamos, remamos como nunca havíamos remado na vida, com a cabeça erguida, subindo e descendo, para baixo e para cima, até não aguentar mais, até pararmos e quase cairmos morto no fundo do caiaque. Paramos por um breve momento, eu já comecei a dar sinais de cansaço, na verdade, meus braços já estavam começando a queimar e um desconforto lombar já começava a me fazer querer mudar constantemente de posição, então aproveitei para me sentar de lado no caiaque, botar as pernas para fora, com os pés dentro d’água, um claro sinal de que a vaca começava a ir para o brejo. Depois dessa última parada, o Alexandre disparou na frente, segundo ele, era para ver se me convencia a me animar a remar mais rápido, mas que na verdade, só me fez me sentir um coitado, um remador de merda, perdido naquele mundão de água e parece que quanto mais rápido eu tentava remar, mais distante aquela maldita ilha ficava. Enquanto eu já ficava mareado de tanto sobe e desce, Alexandre desapareceu por completo das minhas vistas e eu já não conseguia mais identificar sua presença no mar em meio a outras embarcações que despontavam no horizonte. O jeito foi remar, remar e remar, ir vendo a ilha crescendo diante dos meus olhos, 300 metros de altura a me assombrar, procurando localizar em que parte estava o porto, tentando identificar alguma habitação que satisfizesse minha ânsia de chegar. Eu já estou em estado lastimável, tento achar energia sei lá de onde, é o último fôlego disponível, a última barrinha de energia, até que atinjo finalmente as encostas, onde o Alexandre já me espera com cara de poucos amigos. Eu pensando que o Alexandre estava meio puto comigo por eu ter me atrasado quase meia hora, mas o menino estava era mesmo muito puto com os moradores da ilha que não deixou ele aportar o caiaque no PORTO DE VARAS. Contou ele que o morador que se apresentou como líder da comunidade, foi de uma estupidez sem tamanho, mesmo o Alexandre dizendo que nem queria acessar a comunidade, apenas usar o porto para descansar por uma meia hora, antes de tomar o caminho de volta. Mas isso não era nenhuma novidade, já haviam relatos de outros que ali chegaram e foram tratados com desdenho por essas pessoas, que parece quererem se esconder atrás dos seus dogmas religiosos, numa hipocrisia sem tamanho. Talvez não sejam todos como esse senhor, mas o simples fato de deixarem esse tipo de gente como líder, também os faz coniventes com essa patifaria toda. Mas mandamos esses caras à merda e ao adentrar uma piscina natural ali ao lado, conseguimos puxar os caiaques para cima de uma grande rocha e comemoramos nossa travessia , que mesmo com todos os percalços, foi um grande sucesso, ganhamos definitivamente a ILHA MONTÃO DE TRIGO, impossível é coisa que ainda procuramos nessa vida. ( Porto de Varas a esquerda da foto) Nos sentamos sobre a pedra, junto a PISCINA NATURAL e ficamos observando as belezas das rochas da ilha, que são muito parecidas com as formações rochosas das Agulhas Negras de Itatiaia, lembrando até um pouco das Ilhas Seicheles no Oceano Índico. É um cenário realmente encantador e havíamos até conversado sobre a possibilidade de subir até o alto da Ilha, mesmo que fosse por algum caminho alternativo, mas esses planos foram por água abaixo quando o Alexandre me perguntou se já passava das 13 horas e me viu responder que já passava era das 3 da tarde. Foi um desespero mútuo, uma correria dos infernos para engolir o lanche, beber o suco gelado, enquanto o Alexandre descia rapidamente seu pequeno drone, a fim de ganharmos tempo para sairmos vazados o mais rápido possível. Dentro de nós, um sentimento de que iríamos nos ferrar bonito, a possibilidade de voltar remando a noite já era realidade e com o mar ficando cada vez mais balançado, a preocupação já começava a querer beirar a agonia. Chutamos os caiaques para o mar e pulamos para dentro deles e sem nem pensar muito, nos pomos a remar, agora contra o tempo, mas eu não havia descansado nada e ainda sentia o peito e os braços queimarem, mas como eu sempre digo: O desespero é que move o homem antes da derrota final, era preciso continuar, seguir em frente até não aguentar mais. Dois km antes de chegarmos ao Montão de Trigo, o Alexandre se ofereceu para me rebocar, mas meu orgulho foi tamanho que nem se quer passou pela minha cabeça aceitar tal ajuda, mas agora, remando de volta, talvez essa ajuda fosse bem-vinda, mesmo porque, o caiaque do Alexandre era muito mais rápido que o meu e ele estava um pouco mais preparado. Mas fiquei só na vontade, Alexandre velho, sumiu na frente e poucas vezes eu consegui alcançá-lo, ainda mais que agora éramos obrigados a remar num vento lateral, nos jogando sempre para a direita, dificultando ainda mais a gente nos mantermos no rumo. O Alexandre me confessou que estava bem mareado e não tardaria em botar os bofes para fora. Eu também estava um pouco enjoado, coisas de principiantes, mas quando resolvia parar por alguns segundos para retomar o fôlego, além de passar mal, ainda tinha que ouvir os gritos do Alexandre me alertando que deveria seguir ou iríamos ficar muito tempo remando no escuro, correndo até o risco de sermos atropelados por alguma embarcação. A paciência do Alexandre comigo chegou ao fim, teve uma hora que ele não aguentou mais e picou a mula, deu linha na pipa, mas eu nem estava mais ligando, já me encontrava resignado com minha condição e só fazia tentar me manter em movimento, nem que fosse com um mínimo de esforço, só pensava em continuar remando, remando, remando....... O dia já não mais existia, apenas uma penumbra ainda nos fornecia uma leve iluminação, mas sem os óculos, eu mal enxergava as ilhas à minha frente, apenas via alguns vultos e para lá tentava remar ou ao menos, tentava continuar me movimentando. O Alexandre já havia sumido das minhas vistas faz tempo e foquei minha remada olhando apenas para o canto das ILHAS , deixando para trás a Ilha das Couves, mas quando emparelhei nela, já não mais conseguia remar. Tentei até remar deitado no caiaque, mas não conseguia manter a direção, então apenas permanecia estático por alguns minutos, tentando me livrar das dores nas costas, já que os braços eu nem sentia mais, porque já eram órgãos imprestáveis que apenas pareciam fazer peso no meu corpo. Como era um caiaque aberto e até bem estável, pensei que poderia melhorar a postura tentando remar em pé, vai que dava certo, mas a única coisa que consegui foi ir para no fundo do mar e emergir desesperado procurando voltar para o caiaque , tendo que resgatar meu remo quase no escuro, mas que ideia mais cretina. Mas era preciso continuar e não sei nem como continuei, acho que me valendo de uma energia psicológica quando ao longe avistei a praia e para lá me dirigi, só para descobrir que aquela era só a Praia de Fora, que havia esquecido que existia, então nem desembarquei, óbvio, segui me arrastando e quando fiz a curva, embiquei meu caiaque para a ponta da Praia de Dentro das ILHAS. Dessa vez o mar já não estava tão calmo como estava de manhã e era preciso encarar a pior parte de quem rema, que é fazer a entrada na praia. Sempre ouvi dize que é preciso entrar com o caiaque reto, o mais reto possível, então é isso que eu faço, alinho meu caiaque, embico para praia e espero que uma onda entre para que eu possa pegar uma carona. Quando ela aparece, remo o mais rápido que meu braço possa aguenta e subo junto com ela, mas nem tempo de gritar, dou um rodopio, viro de lado e me transformo em passageiro do destino e não tardo em ser jogado na areia, de ponta cabeça, a cara enfiada na praia, eu de um lado, caiaque do outro, remo do outro. CARALHO DOS INFERNOS. ( Praia de dentro pela manha( calma), mas a noite com ondas.) Me levanto muito puto, mas muito puto, é pouco. Desviro o caiaque, apanho o remo e saio arrastando pela areia da praia, tentando encontrar o Alexandre que já se encontrava no outro extremo, tentando ajudar uma pequena embarcação, que se encontrava atolada na areia. O Alexandre me pergunta se estou bem, nem forças para conversar eu tenho mais, apenas pego duas lanternas no meu estojo de primeiros socorros, dou uma para ele e fico com a outra. Acendo a minha do modo luz vermelha e ele no modo piscante. Ao longe, muito mais longe do que parecia, avistamos umas luzes meio que apagadas. Pergunto para ele para onde vamos seguir e ele me diz que acha que devemos remar em direção a grande ponta, mas sem aquela certeza e antes mesmo de conversamos mais sobre o assunto, ele bota o caiaque no mar e vai ser perder na escuridão da noite, ainda que no começo eu consiga identificar a lanterna dele piscando. É preciso encontrar forças, físicas e psicológicas e o simples fato de voltar ao mar já me embrulha o estômago, enjoado, mareado, destruído fisicamente, um homem atormentado pela sua condição de principiante. As primeiras remadas nessa derradeira travessia faço com cara de choro, dores terríveis são desencadeadas, mas vou avançando, na escuridão da noite, num mar que balança para cima e para baixo. Não tardou em eu já não localizar mais o Alexandre e agora sou um navegador solitário, estou por conta e risco. Miro na ponta quase escura, onde meia dúzia de luzes fracas me servem como um farol em busca da minha salvação. Remo com um braço só e vou alternando com o outro, não saio muito do lugar, não avanço, então volto a buscar energias para não desistir de vez. A progressão é lenta, a resignação é bruta e chega uma hora que não há mais como seguir, o limite parece ter chegado. Deito-me no caiaque, estico o corpo, recolho o remo e ali fico prostrado, entregue a minha própria solidão, num vai e vem sem rumo, num sobe e desce sem destino, apenas olhando as estrelas do céu, sem me importar do que vai ser de mim. Pareço estar a meio caminho de lugar nenhum, um homem inerte, sem coragem nem para pensar, apenas ali, estático, sendo levado ao sabor do vento. Por uns 10 minutos é assim que permaneço, até me dar conta que se eu não fizer nada por mim, ninguém irá fazer. Me levando, tomo meu assento e continuo tentando remar com os ombros e não com os braços, como foi o conselho que me deram antes de enfrentar essa aventura, mas isso não resolve, não tenho técnica para isso. É para ponta que eu remo, é para lá que minha alma deseja chegar, mas num estalo repentino, descubro que a única coisa que vai acontecer é eu me chocar com os costões rochosos, porque aquelas luzes não são da praia e agora, aquele homem que já não encontrava mais forças para nada, é obrigado a remar desesperadamente para escapar de um destino inglório. Desviei o rumo para a esquerda, não passava pela minha cabeça explodir nos rochedos. Fui remando paralelo a ponta, tentando ver algum vestígio que me dissesse para onde seria a praia, ainda mais por me lembrar que ali mesmo havia a foz do Rio Sahy e eu nem saberia precisar qual o tamanho da encrenca enfrentaria caso me encontrasse com a desembocadura desse rio enfrentando o mar, então só fiz tirar forças para remar ainda mais para esquerda, procurando o fundo da areia caso eu precisasse pular fora do caiaque em caso de emergência. Minha preocupação era me fuder toda ao chegar na praia, a noite e sem enxergar nada. Enquanto estava envolto na minha saída do mar, fui agraciado com um cardume de peixes enormes, pulando na frente do caiaque e mesmo na situação em que eu me encontrava, não teve como não me emocionar com tamanha beleza. A ficha caiu quando percebi que estava realmente perto da foz do Rio Sahy e por um breve momento, avistei a faixa de areia da praia. A minha preparação para o pior foi acontecendo. Já havia dado como certo que mais uma vez seria estraçalhado pelas ondas, era certo que seria cuspido pelo mar, sem dó nem piedade, por isso pensei em me jogar na água e deixar que o caiaque explodisse na areia, mas não tive tempo, uma onda subiu o meu caiaque, me elevou como se eu fosse uma prancha de surf: “Minha Nossa Senhora, vou me foder todo, ai, ai, ai, caralhoooooooooooo..........” O caiaque subiu, balançou para cá e para lá, surfou, embicou para a praia, enquanto eu remava desesperado, tentando mantê-lo reto, até que bateu o bico na areia e deslizou suavemente até a linha da maré. Pulei para fora, cai de barriga para cima e por lá fiquei alguns minutos, olhando para o nada, quase chorando, um misto de vitória, êxtase, satisfação pessoal, como um naufrago que alcança a glória, 3 km, dez horas entre o céu e o mar. Levantei a cabeça, e no outro canto da praia, avistei as luzes piscantes do Alexandre. Apanhei a cordinha do caiaque e como fiz na Praia de Dentro, arrastei-o até o meu amigo. Encontrando ele, nos cumprimentamos, NOSSA MISSÃO ESTAVA CUMPRIDA. E foi assim, que dois remadores inexperiente, moradores do interior do Estado, resolveram abandonar as mesmices da vida, para se aventurarem num esporte novo, enfrentar seus medos, desafiar o desconhecido, para fazer a vida valer a pena, como sempre fizemos e esse vai ser sempre o nosso compromisso com o mundo da Aventura, seja lá qual seja for, nas montanha, nas trilhas, nos rios ou no MAR. ( foto Earth-Altahair de Morais) - AS ILHAS - ILHA DAS COUVES E MONTÃO DE TRIGO. Divanei- setembro/2020
  11. Travessia Cuscuzeiro x Forquilha- De Paratí ao Patrimônio (Vagner, Thiago, Divanei, Trovo e Tomaz ) Todos em fila indiana. Cabeças baixas, passos lentos e olhares laterais. Respiração presa e movimentos friamente calculados a fim de não irritar nenhum índio. Na hora me lembrei do Alemão Hans Staden, que quase foi devorado pelos índios Tupinambás quando foi capturado nessa região, 500 anos atrás. Agora não era o caso, mas mesmo assim, estávamos apreensivos com aquela situação. Atrás de nós, uns 30 índios nos seguiam, enquanto um que parecia ser o líder, nos dizia desaforos impronunciáveis a fim de mostrar poder e, se a intenção dele era fazer com que nos cagássemos de medo, no tocante a minha pessoa, ele estava tendo um grande sucesso. A caminhada nos leva onde me pareceu ser a casa de reza da aldeia e ali se encontravam alguns velhos índios, que também nos queimavam com os olhos, enquanto alguns de nós pediam perdão, esperando que aquele pesadelo acabasse logo....................... Não foram poucas as vezes em que me vi pesquisando sobre a clássica travessia da Trilha do Corisco, uma caminhada que outrora ligava Ubatuba à Parati, cortando as escarpas da Serra do Mar, na divisa entre São Paulo e Rio, partindo na altura da Praia da Fazenda, num dos cenários mais bonitos do país. Acontece que sempre achei uma caminhada muito curta, coisa de um dia, para me deslocar da minha casa no interior paulista até lá. Mas com a chegada dos mapas de satélite e com maior acesso às informações, comecei a notar que no alto da serra poderíamos acessar o PICO DO CUSCUZEIRO, um gigante visto das cercanias de Picinguaba, em formato de um grande vulcão. (foto Thiago silva) O tempo foi passando e outras montanhas tomaram meu tempo, mas quase todo fim de ano, lá estava eu em Picinguaba ou na praia da Fazenda, olhando para o gigante, assim que o tempo permitia, já que nem era sempre que as nuvens deixavam. Mas eis que um dia o Thiago Silva me manda uma mensagem me convidando para tal empreitada e achei que era essa a deixa para ir lá riscar esse ícone quase desconhecido do montanhismo paulista, da minha lista de montanhas a serem subidas. (Cuscuzeiro e Forquilha) O Pico do Cuscuzeiro é um gigante, em se tratando de Serra do Mar, mais alto que o Pico do Corcovado, e abre a cadeia de montanhas que separa Ubatuba de Parati, no extremo norte paulista, que ainda vai contar com mais 2 montanhas, o FORQUILHA e o Pico do Papagaio. Nossa intenção, portanto, ia muito mais além do que subir o próprio Cuscuzeiro, pensávamos em cruzar toda a serra da divisa, mas não sabíamos nada sobre a continuação dela depois do Cuscuzeiro, nem se havia trilha, tão pouco se a inclinação do terreno permitia um vara-mato selvagem até o cume do Forquilha, mas resolvemos pagar para ver. Oito horas da noite de uma sexta-feira, Thiago Silva nos apanha no terminal rodoviário do Tietê, na Capital Paulista, onde eu, o Daniel Trovo e o Vagner já o esperávamos ansiosamente. Aquele era um grupo de respeito, mas ainda faltava conhecer o quinto elemento, um amigo do Thiago que só conheceríamos em Ubatuba. A viagem para o litoral foi tranquila, muita conversa sobre expedições passadas e muitas risadas de presepadas presentes, até desembocarmos na charmosa cidade litorânea, vazia por estarmos no inverno. Foi hora de sermos apresentado ao Tomaz Lamosa, um Ubatubense jovem, praticante de artes marciais, mas que nos deixou uma impressão não muito boa, ao aparecer com uma mochilinha do jardim de infância, donde pendia um saco de dormir para fora, parecendo que iria numa excursão de acampamento de igreja, mas logo demos um jeito de ficar mais apresentável, colocando as coisas no seu devido lugar (rsrsrsrsr) A recepção do Tomaz foi de primeira, organizou a logística impecável, com um transporte que nos deixaria na boca da trilha, lá nas cercanias do Bairro do Corisco, em Parati, já que optamos por subir a trilha do Corisco partindo do lado Fluminense, por ser menos íngreme e mais curta até o ombro da serra, no marco que divide os 2 Estados. Já era alta madrugada quando apeamos um pouco acima do Bairro do Corisco, um fim de estrada até onde achamos que dava para ir motorizado. Mas a estrada continuava, é por ela que seguimos a passos largos. Thiaguinho imprimiu um ritmo alucinante e eu e o Tomaz fomos no encalço dele, mas o Trovo e Vagner que não queriam saber de correria desnecessária, ficaram para trás até nos juntarmos num providencial ponto de água, ainda na estradinha meio que abandonada. A estradinha histórica vai ganhando altura e ficando cada vez mais intransitável, cruza por um rio mais largo, onde passamos pulando pedras para não molhar as botas e uns 3 km desde quando saltamos do veículo, começa a curvar-se para a direita, mas não é para lá que seguimos, vamos abandoná-la em favor de outra estradinha que saí a esquerda, tendo que pular mais um rio e intercepta-la mais à frente. Nesse pedaço, por estar noite, demos uma bobeira e pensamos que a trilha subia paralela ao rio, mas logo sacamos o erro e retornamos e localizamos a estradinha do outro lado do rio e por mais uma meio hora, talvez menos, demos de cara com uma porteira junto a um córrego onde atravessamos e nos estacionamos 100 m mais à frente, junto a uma grande clareira e ali resolvemos dar por encerrada nossa caminhada noturna, porque já se aproximava das três horas da manhã. O local é ótimo para montar barraca, redes, mas eu resolvi apenas bivacar, montar uma loninha e esticar um isolante térmico com meu saco de dormir até que o sol da manhã de sábado viesse para nos dizer que era chegado a hora de recomeçar. Quando clareou, foi que ficamos sabendo que havíamos adentrado em propriedade particular e acima de onde acampamos, havia uma casa de grande porte e por sorte pareceu estar vazia. Desmontamos tudo, saímos para fora da propriedade, fechamos a porteira e interceptamos a trilha do lado esquerdo de quem chega. Verdade mesmo que é preciso forçar passagem no mato ao lado da cerca para encontrar o rabo da trilha, que logo se estabelece e um minuto depois, surpreendentemente reencontra a estradinha vindo da casa que acampamos. Sem saber, ao interceptarmos a estrada, pegamos para a esquerda, quando o caminho correto é justamente entrar na porteira a direita da trilha, com quem vai adentrar na direção da casa, mas imediatamente subir a esquerda para dentro da mata, agora definitivamente. A trilha vai subindo, ganhando altitude, mas as vezes meio confusa e aí é preciso tomar cuidado e se valer da experiência para não se perder ou estar o tempo todo grudado no gps para se manter na direção correta. E assim vamos, subindo aos poucos, passamos pelo último ponto de água e nos abastecemos com 2 litros por pessoa e mais ou menos hora e meia, depois que deixamos o acampamento, tropeçarmos no marco da divisa de Estado, datado de 1954 (720 m), hora de pararmos, jogarmos as mochilas ao chão para um breve descanso e uma alimentação mais descente. O MARCO DA DIVISA significa que estamos no ponto mais alto da Trilha da Corisco e se continuássemos por ela, poderíamos descer à Ubatuba por mais uns 7 km até a Casa da Farinha, mas nosso caminho parte a esquerda do marco e agora vai subir um caminho de matar mula por mais ou menos 4 km. Logo no início já é preciso subir se apoiando em uma corda que foi providencialmente instalada ali para diminuir o sofrimento, mas quem aqui sobe com uma cargueira carregada, não vai encontrar nenhuma moleza. ( Marco da divisa RJ/SP ) A caminhada vai seguindo lentamente, muito lentamente, o tempo fechado faz chover sobre nossa carcaça e só nos faz lamentar a possibilidade de chegar no cume e não conseguir ver nada. Mas montanhista experiente já sabe que esse excesso de neblina molhada, é sinal de que vai fazer um grande dia de sol, mas como se aproxima das 11 da manhã, a gente já começa a desconfiar que vamos chegar ao topo com mal tempo. Hora ou outra, um tímido raio de sol aparece para alegrar nossas almas, mas some com uma rapidez impressionante e nos faz voltarmos a praguejar contra a má sorte. Pouco mais de uma hora depois, atingimos um ombro da montanha e vamos galga-la por mais de uma hora até que um pequeno selado se apresenta a nossa frente onde se poderia acampar, mas ainda é cedo para pensar nisso e apertamos o passo para a subida final em busca da gloria, mas a única coisa que vemos é mato atrás de mato, um cume fechado, sem visão para lugar nenhum, uma decepção coletiva e silenciosa. Nossa jornada passa por cima do cume, sem nem perceber , já que não existe algo proeminente que nos diga que ali é realmente o ponto mais alto e segue enfrente até que o mundo desaba sob os nossos pés, fim da linha, fim da montanha e por causa da intensa neblina, não conseguimos enxergar um palmo à frente do nariz. Não há grandes árvores no cume , só pequenos arbustos de pouco mais de metro e meio e foi entre esses arbustos que buscamos alguma visão do litoral de Ubatuba ou da parte voltada para Paratí, mas sem nenhum sucesso, até que um pequeno trilho é encontrado e demos a missão de investigar para o Vagner , que em menos de um minuto gritava feito um gata copulando no telhado. Todo mundo correu como deu e quando lá chegamos, um vento forte soprava e aos poucos o litoral foi descortinando à nossa frente, como a nos dizer : " Venham meus amigos , aqui está o vosso presente, aqui está a recompensa pela vossa ousadia e determinação , apreciaí-vos essa maravilha, bem vindos ao CUSCUZEIRO ( 1278 M) , o cume mais alto do extremo norte de Ubatuba. O vento que soprava das montanhas em direção ao litoral, fazia as nuvens dançarem. Por baixo da branquidão algodoada, era como se um novo mundo surgisse do nada, um mundo fascinante e encantador, que ia devastando a nossa mente com uma beleza hipnotizante. Um sonho de litoral, um mundo vazio de gente e entupido de sonhos, resumido em praias selvagens num dos mais belos cartões postais do Brasil. Ninguém arreda pé, olhos vidrados, olhares fixos para não perder cada minuto do espetáculo. Lá está a Praia da FAZENDA com o rio Picinguaba lhe inundando de água doce. Lá está o complexo da Ilhas das Couves, pontilhando o litoral de pequenas outras ilhotas. Do lado direito, a Baia de Ubatumirim complementa o cenário que se estende até onde a vista alcança, num mar de montanhas verdejantes como em nenhum outro lugar. Mais abaixo, aos nossos pés, um vale gigante nos encanta com seus abismos até a planície litorânea, por onde repousa a outra metade da Trilha do Corisco até seu fim junto a Casa da Farinha. As caras, até então meio carrancudas pela pouca expectativa, agora sorriam por qualquer coisa, afinal de contas, havíamos sido agraciados com aquele espetáculo indescritível, quando já não esperávamos mais nada. Sem querer ir embora, decidimos ficar por mais uma hora no cume, tempo suficiente para cozinharmos um almoço e nos aquecermos ao sol do meio dia. Mas a gente sabia que não poderíamos viver de ilusão, tínhamos uma meta a cumprir, chegamos num pico, que mesmo com trilha consolidada, ainda pode-se contar nos dedos os que já tiveram a honra de lá chegarem, mas dali para frente saltaríamos rumo ao desconhecido, um mundo de incertezas seria o nosso futuro naquela travessia, hora de respirar fundo e deixar que a aventura nos guie . Eu havia traçado um caminho usando as curvas de nível para tentar descer com segurança de cima do Cuscuzeiro em direção ao Pico da Forquilha, mas esperávamos encontrar uma trilha que nos conduzisse direto para ele. Na nossa inocência, achávamos que outros montanhistas pudessem vislumbrar o mesmo que nós, mas outra vez quebramos a cara. Ali, onde o Cuscuzeiro simplesmente deixa de existir, só abismos profundos foi o que encontramos e sem muito tempo a perder, nos jogamos para o vazio, já descendo para os degraus mais abaixo da montanha, como a dar adeus para o cume de um cuscuz, como a deslizar de cima de um bico de funil e começar a nos perder na descida de um vulcão. Eu e o Thiaguinho vamos à frente, colados um ao outro e alguns metros abaixo do cume, já foi o suficiente para nos darmos conta da encrenca em que havíamos nos metido: Nos penduramos numa árvore e nos jogamos de cima dela para o fundo do vale, bem a tempo de parar antes que fossemos tragados pelo nada. Atrás de nós, Tomaz, Daniel Trovo e Vagner já começaram a caçar outra rota porque se ligaram que aquela era suicida. Trovo tomou a dianteira e encontrou uma passagem junto a uma grande rocha e abriu caminho lateralmente, mas logo se viu acuado pelo abismo que lhe chamava, mas recusando o convite, deu passagem para que o Vagner tentasse. Vagner, macaco velho, já deitou no chão e gritou para o abismo que o dia dele estava contado. Alguém gritou para que sacassem a corda que o bicho ia pegar, mas o Vagner se atirou numa canaleta rochosa e deslizou nela usando a força da gravidade, até repousar em segurança no fundo do buraco. Sem perder tempo, usamos a canaleta como tobogã e um a um fomos baixando, um festival de rolagem e eu me enrosquei num cipó e fiquei pendurado feito Siri no pau até que alguém conseguiu me libertar para que eu despencasse e fosse também repousar num patamar mais abaixo. As encrencas iam sendo resolvidas conforme iam surgindo e por sorte, não demorou muito para encontrarmos um filete de água, o suficiente para molharmos a goela e nos alegramos com a possibilidade de não passar mais sede naquela travessia. A vegetação se alterna entre palmeiras, cipós espinhudos e bambus entrelaçados, aquela vegetação típica de altitude da Serra do Mar, seca e que vai enervando a gente, mas logo o filete de água vai ganhando corpo e vai nos proporcionando um corredor que vai sendo cavado, agora por um riacho e é por ele que vamos, desescalando pequenas cachoeirinhas e de olho na direção. Mas chega uma hora que a inclinação do riacho nos obriga a cair fora e tentar seguir pela crista rumo ao nosso primeiro objetivo, que era um selado antes da subida final do cume que buscávamos. A tarde já era nossa companheira e o avanço pela vegetação era lento e modorrento, corcovavas vão sendo subidas e descidas, sempre tentando acompanhar a linha previamente traçada até que desembocamos no SELADO, um marco importante, mas que surpreendentemente não encontramos nenhuma trilha de conexão que pudesse nos dar um caminho fácil até o cume do Forquilha. Até encontramos uma marca de facão, mas estava claro que poderia ser alguma passagem entre as 2 montanhas, mas nada que denunciasse que alguém tenha subido ao cume por ali. O selado em questão era uma área muito promissor para se acampar, mas a expectativa de podermos pegar um possível pôr do sol no cume, fez com que tirássemos força sei lá de onde para continuar. E é mesmo uma subida dos diabos, uma parede em pé onde é preciso ir se agarrando onde dá para não voltar a descer novamente, ir desviando de algumas grandes rochas, procurando um caminho mais desimpedido, subindo cada ombro , cada curva topográfica até que uma hora depois, estávamos encima do platô , faltava apenas localizar onde seria o ponto que marcava o cume daquela montanha isolada do mundo, no meio da linha que divide os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, a meio caminho de lugar nenhum, numa quiçaça de dar dó. Bambuzinhos vão sendo arrastados no peito, pequenos arbustos são cruzados, as vezes nos rastejando para um melhor deslocamento. Em algum lugar ali haveríamos de localizar o cume exato, um lugar que nos desse uma vista do horizonte, mas a noite foi caindo e a gente não avançava e para piorar, não havia um só lugar para montarmos nossas barracas. Por causa da densa neblina, a vegetação encharcou toda nossa roupa e alguns de nós já estava com muito frio e não via a hora de acampar, mas cada vez mais, nos enfiávamos em algum buraco, tentando localizar algo descende para passar a noite. Até achamos uma pedra que poderia nos dar um abrigo, mas uma urubu fêmea chocava um ovo embaixo dela e a todo momento nos dizia que não seria um bom negócio usar ali de casa. O desespero aumentou, já estávamos no nosso último bastão de energia e quando alguém gritou que iria ficar por ali mesmo, foi a deixa para os outros jogarem suas mochilas ao chão e dar por encerrado aquele dia de caminhada. Aquela área para acampar era o que tinha de pior, não havia um palmo de terra plana e para piorar, beirava um barranco de uma dezena de metros. Não havia o que fazer, não havia como limpar coisa alguma, era jogar as barracas encima das raízes e assimilar o duro golpe. O Daniel Trovo estava de rede e conseguiu monta-la, usando 2 arremedos de árvore, bem ou mal resolveu seu problema. Tomaz e Thiaguinho iriam dividir uma barraca em conjunto e o Vagner acamparia numa barraca individual e esses 3 últimos se foderam bonito, tendo que aguentar pau no lombo a noite inteira. Eu estava sem rede e sem barraca, havia levado apenas um isolante térmico e um plástico mequetrefe, mas encontrei um lugar incrível embaixo de uma grande rocha e ali montei meu bivac, um grande achado que me proporcionaria uma noite de sono perfeita e assim que a janta ficou pronto, me joguei para debaixo dela e dormi por 12 horas quase seguidas, até que o sol viesse nos dizer que era hora de voltar para a aventura. O dia nasceu radiante, mas os meninos das barracas amaldiçoaram a noite mal dormida. Uma choradeira dos infernos! Nosso plano de continuar galgando a crista da serra foi por água abaixo, sabíamos que era impossível realizar tal façanha de descer o Forquilha e emendar com a Crista do Papagaio num dia só, então havia chegado a hora de pormos em pratica o plano B, traçado justamente para ser usado caso isso acontecesse, mas os caras das barracas (Thiago e Tomaz) tramaram um motim durante a noite e quando o dia nasceu, haviam decidido que mandaria também o plano B a merda e traçariam um plano C. O plano B consistia em descer o Forquilha pela sua continuação em direção ao Papagaio e quando chegássemos no selado, viraríamos a esquerda e interceptaríamos uma possível trilha que nos levaria direto para a estrada e para o Bairro do Patrimônio, junto à Rio-Santos. Mas diante da possibilidade de ter que voltar a arrastar bambu no peito por mais um pedaço da crista e depois enfrentar um desnível de abismos gigantes, eles resolveram que tentaríamos começar a descer imediatamente, mas antes, para marcar nossa presença ilustre naquela montanha isolada do mundo, deixamos um livro de cume, uma CAPSULA DO TEMPO, improvisada com uma garrafa, onde um manuscrito exibe a data, o nome dos exploradores e o caminho que fizeram para até ali chegarem. ( capsula do tempo) Pois bem, falamos de tudo, mas faltou falar do principal, daquilo que nos leva a empreender tal jornada árdua para subir esse tipo de montanha: As largas vistas que presenteiam nossas almas. Tomando, portanto, o rumo leste, que é a direção na reta de Parati, escalamos a rocha que eu havia bivacado embaixo e ascendemos ao cume, simplesmente para descobrimos que era ali que estava o nosso presente. Diante de nossos olhos a imponência gigantesca da encosta do Cuscuzeiro, que havíamos descido no dia anterior. Não tivemos duvidas, ali marcava o topo daquela montanha, o PICO DA FORQUILHA ( 957 m ) estava ao nossos pés e de cima dele as largas vistas da Baia de Parati, de toda a Reserva da Joatinga , Ilha Grande e por incrível que parece, até o imponente Pico do Frade desfilava na paisagem. A visão lá de cima é realmente grandiosa e a gente estava feliz de ter podido no último minuto, encontrar essa visão lá de cima e aproveitando que ali estávamos, era hora de aproveitar para desenvolver melhor a nossa fuga lá de cima. ( Ao fundo Baia de Parati-RJ) Tomamos em mãos o mapa eletrônico, nos baseando no satélite e na carta topográfica. De cima do Forquilha, localizamos ao longe em meio a floresta, uma habitação solitária, de onde saia fumaça pela sua chaminé. Se há uma casa, com certeza teríamos uma rota de fuga, que nos levaria ao litoral. Azimutamos a direção e calculamos que poderíamos lá chegar em cerca de umas 4 horas de caminhada, um cálculo cretino, só para animar o grupo, porque na real mesmo, não tínhamos a menor ideia de como seria a nossa descida e o que a jornada até lá nos reservaria. Traçado o plano e estratégia, abandonamos o cume do Forquilha e já despencamos da pedra em direção ao vale, tentando achar um caminho que nos fizesse ir perdendo altitude, mas outra vez nos vimos acuados numa encosta de abismos perigosos, desescalando barrancos escorregadios, onde lajes pedregosas, pontilhada por vegetação rasteira e arbustos soltos, iam nos dizendo que a gente havia entrado em outra encrenca. Trovo e Vagner tomam à frente e vão nos metendo em uma roubada atrás da outra e a gente vai vendo que aquele caminho começa a nos levar para uma rota suicida, onde apenas samambaias soltas são o fio que nos segura antes da desgraça final. É hora de parar, analisar e ter a consciência que a rota tem que ser mudada e é justamente isso que os caras da frente fazem, tomam a rota lateral, numa diagonal reta para a esquerda a fim de ganharem uma linha de árvores e retomarmos novamente a direção combinada. A estratégia deu resultado e não demora muito cruzamos por uma nascente de onde brota um filete de água, que vai se encaminhando por cima de uma pedra lisa dentro da floresta de árvores gigantes. Uma descida rápida em meio à vegetação mais fechada, nos leva a um degrau e ali um grito dado por um membro da equipe faz com que paremos imediatamente: “ Uma ponte gente, corre aqui, tem uma ponte atravessando para o outro lado”. Eu estava atrás e logo levei um susto. Aquilo era inacreditável, estávamos numa encosta de montanha onde era possível que jamais teria recebido pés humanos e como poderia uma ponte naquela altitude, que aparentemente não ligaria nada a lugar nenhum. Corremos para ver a tal ponte e lá só encontramos um tronco velho, caído encima de uma laje de pedra, nada mais que isso, pura obra da natureza. Tomaz Lamosa, o menino da mochilinha dourada, já começava a ter alucinações naquela descida e a gente achando que Lamosa era sobrenome muito pomposo para compor aquela expedição de gente rude e sem grife, resolvemos batizar nosso novo amigo como Tomaz Pontes e assim será chamado nas expedições em que esse valoroso expedicionário participar em nossa companhia. Estávamos agora enfiados dentro de um vale profundo, justamente por onde a nascente que encontramos corria e ia cada vez mais se transformando num rio. Pulando pedra por dentro do riacho ou até mesmo tendo que subir o barranco para nos livrarmos dos degraus de mais de uma dezena de metros, vamos prosseguindo a trancos e barrancos, mas nos preocupa a direção que aquele rio vai tomando, abrindo muito para a esquerda, nos tirando da direção traçada. A tarefa é árdua, o rio vai aumentando de volume e pequenas cachoeiras começam a despencar em vales cada vez mais profundo. A hora vai passando e a gente perdendo altitude vagarosamente até que ao avistarmos um grande poço, resolvemos nos deter por um instante para comer alguma coisa, enquanto alguns corajosos resolvem se jogar na água fria daquele final de manhã, gente sem noção, porque para mim, quem faz isso no inverno, é capaz de qualquer coisa. ( rsrsrsrs) Havíamos decidido que qual fosse o rumo que aquele rio tomasse, seria por ele que seguiríamos, na esperança de quando chegasse ao fundo do vale, poderíamos encontrar alguma trilha junto a talvez, algum rio maior, mas um golpe de sorte, ou talvez nem tanto, viria para mudar o rumo daquela expedição, algo que jamais esperaríamos, algo que transformaria uma travessia de montanha em mais uma experiência para contar para os nossos netos. Saímos do rio e fomos margeando, sempre andando a não mais que uns 50 metros da margem, quando se supetão alguém gritou que haviam encontrado um rabo de trilha, um arremedo de caminho, mas estava claro que não era trilha de bicho e quando um corte de facão na diagonal de um galho foi encontrado, tivemos certeza de que poderíamos contar com uma saída mais rápida daquela expedição. Mas nem precisou ir muito longe, 15 minutos de caminhada nos levou ao que nos pareceu ser uma ponte no meio da floresta, agora algo feito pelas mãos humanas, mas logo percebemos que era apenas um tablado grande, onde era usado como apoio para cortar madeira. Logo imaginei que poderia ser um daqueles lugares usados para se construir canoas parcialmente, quando se derruba uma árvore gigante e lapida-se até ficar no formato da embarcação, aliviando o peso da mesma até que se aguente puxa-la para fora do mato. A minha tese não foi confirmada, mas isso pouco importava, o certo era que a partir dali, uma trilha consolidada nos serviria de caminho. Num primeiro momento ficamos apreensivos porque poderia haver algum rancho de caçadores por perto e não seria muito bom para nós, irmos chegando de supetão, vindos de lugar nenhum. Caminhando devagar e em silêncio, poucos minutos foram o suficiente para eu avistar um telhado reluzente entre as folhagens e já cantar a bola para que os cuidados fossem redobrados e 5 minutos depois a trilha deixou de existir e deu lugar para um roçado em um descampado, num morro na descendência, donde do outro lado, também encima de outro morrote, sem que estivéssemos preparados, um amontoado de casas foi nos apresentados pelo destino. Sem óculos e sem acreditar naquilo que meus olhos pareciam ver, esperei que o meu cérebro processasse a informação: Puta que o pariu, aquilo era uma tribo indígena ou eu estava vendo coisas? À frente seguia o Thiaguinho e o Pontes, ninguém os escolheu para serem os caras que iriam fazer o contato antropológico, mas nessa vida tem que ter uns trouxas para liderarem, mas esses aí entraram mesmo de gaito no navio e coube a eles botarem o peito para levarem a primeira flechada e, ela veio, mas veio sem dó e nem piedade, aquela intimada que ecoou desde o Cuscuzeiro até Forquilha: - PAREM IMEDIATAMENTE, SE APRESENTEM ANTES DE CHEGAR. Nessa hora nem sei para onde foi parar o Daniel Trovo, eu já fiz menção de sair correndo de volta para a mata, mas logo vi que seria inútil, principalmente porque tudo que era índio daquela tribo, resolveu abandonar sua maloca e ir ver que quiproquó era aquele que estava acontecendo. À minha frente, e atrás dos nossos “antropólogos”, Vagner parecia o documentarista de uma expedição sertanistas, filmando e fotografando os novos povos da floresta, parecia alheio a gravidade do problema, cagando e andando para a situação, mas logo foi atingido por uma flecha certeira: - PODE PARAR DE TIRAR FOTO DE ALDEIA, NÃO É PARA TIRAR FOTO DE ÍNDIO NÃO ! O instrumento do nosso documentarista de araque, que na verdade era seu celular, quase rodopiou no ar e em um segundo já foi parar no fundo da mochila e esse coitado foi outro que teria fugido comigo para o mato se pudesse. Enquanto isso, Thiaguinho e Tomaz Pontes gaguejavam mais que carro velho à álcool no inverno, tentando explicar o inexplicável, muito porque os índios não estavam a fim de ouvir explicações cretinas. - QUEM É O GUIA DE VOCES? ESTÃO INVADINDO TERRA DE ÍNDIO. VOCES ESTÃO VINDO DE ONDE? ESTÃO PERDIDOS? Aquelas eram perguntas que não podíamos responder, eram flechadas que não conseguíamos nos desviar. A comunicação era aos berros, mas nós berrávamos mansos, enquanto eles nos derrubavam com as palavras. Aos poucos, vendo que a vaca já havia ido para o brejo, nos juntamos em um só grupo. Ali, naquela maloca de índios, éramos reféns do destino, estávamos a mercê das circunstâncias, não dependíamos mais de nós, já não controlávamos mais a situação e eu já estava extremamente nervoso pelo rumo que aquilo estava tomando. De cima do morrote, esse índio que parecia querer mostrar poder, nos dizia palavras duras e impronunciáveis. Uma velha índia pede que esse líder nos pergunte se temos armas, mas ele não nos repassa a pergunta, apenas continua a nos esculhambar. - VOCES NÃO PODERIAM INVADIAR TERRA INDÍGENA, VÃO EMBORA SE NÃO VAMOS CHAMAR O REPRESENTANTE. Não ficou claro se ele iria chamar o representante máximo da tribo, talvez o verdadeiro CACIC ou se ele estaria se referindo ao pessoal da Funai, ou órgão Federal que lhes dá apoio, mas para a gente pouco importava, queríamos era sair voados dali imediatamente, picar a mula para o mato, cortar volta, desaparecer da frente deles, sumir no tempo e no espaço. Atendendo à solicitação do índio, começamos nosso processo de cair fora de lá e fomos nos dirigindo pela esquerda do morrote, como a dar a volta na aldeia para cair na capoeira. Fomos cruzando o pequeno roçado, agora no máximo uns 20 metros de onde a tribo nos observava e finalmente começamos a achar que o pesadelo estava próximo do fim, íamos passar e ir embora definitivamente, mas outra flecha foi nos atirada, uma flechada agora à queima roupa. - NÃO, NÃO, NÃO ! PODEM SUBIR, VENHAM PARA O MEIO DA TRIBO, VÃO PASSAR POR AQUI AGORA. Viche , agora fudeu ! Estava claro que não iam nos deixar ir embora assim, primeiro era preciso nos impor uma humilhação que talvez até merecêssemos, mas eu particularmente já estava no meu limite de apreensão, sabíamos que nada poderíamos fazer, nem nos defender poderíamos, éramos seres indefesos diante daquela situação. Em fila indiana, um atrás do outro, subimos do roçado para o meio da tribo. Alguns de nós só fazia era pedir desculpas, perdão por ter ido parar ali, mas eu se pudesse, já estaria era implorando clemencia. Agora atrás de nós, uma multidão de índios nos empurrava, nos encurralava para o meio da aldeia, um lugar onde me pareceu ser a casa de reza, o barracão das festas tradicionais. Sob uma saraivada de impropérios, seguíamos a passos lentos, respiração presa, sem movimentos bruscos que viesse a irritar qualquer um índio daqueles. Eram velhos, mulheres, homens, crianças, índio magro, índio gordo, sei lá, tinha de tudo atrás de nós. A situação era desfavorável, mas segundos de pensamentos tem o poder de nos remeter ao passado, um passado muito distante, mas o cérebro não quer nem saber, quer sabotar nossa capacidade de acreditar que tudo vai dar certo e logo me traz à tona a história, faz nos lembrar de que no passado, aqui mesmo nessa região, os índios Tupinambás teriam nos devorado em rituais antropofágicos, que começava , numa narração simples e simplória, por dar uma paulada na cabeça e depois outro pau era enfiado no rabo para que nada de lá saísse. Por sorte os tempos são outros, a tribo é outra, mas por azar, nós somos nós mesmos. Enfrente a casa de reza, alguns velhos índios conversavam em línguas estranhas, talvez em tupi, certamente não era português e se nada compreendemos, pelo menos esses xingamentos também não absorvemos, mas dos olhares nos queimando não tivemos como escapar. Ali era o ponto crucial, o centro da aldeia, era ali que a questão teria que ser resolvida. A gente continuava implorando para ir embora, mas sem deixar de caminhar, apenas olhando de rabo de olho, mostrando humildade e sem querer afrontar nenhum daqueles índios. A multidão nos seguia, não sei qual o propósito daquele cortejo, mas o alivio só veio quando o índio mais bravo gritou: - PEGUEM ESSA ESTRADA E SUMAM DAQUI! Mais que depressa quebramos a direita e ganhamos o caminho de terra batida, descendo do morrote em direção à um córrego de aguas cristalinas, uns 100 metros mais abaixo, mas na minha cabeça só havia uma frase que não escapuliu por muito pouco: COOOOOOORRE NEGADA! ( rsrsrsr) Mais que depressa e sem perder tempo, nos pusemos a caminhar aceleradamente, na tentativa de sairmos o mais rápido possível das vistas dos índios, mas eles não arredaram pé do alto do morro, muitos com o peito estufado, felizes de terem nos enxotados de lá feito cães sarnentos. Menos de 5 minutos nos leva até o riacho, onde uma placa intimidatória nos avisa que ali é a Reserva Indígena , com entrada proibida, mas no caso nem nos preocupamos, já estávamos saindo mesmo e ali nos vimos mais aliviados, pensando já estarmos a salvo da “panela”, mas nem tudo é tão ruim que não possa piorar. Enquanto os índios ainda nos fitavam com cara de poucos amigos de cima do morro, tratamos logo de subir a ladeira que nos levaria em definitivo para longe das vistas deles, mas 100 metros acima, quando o terreno se nivela, uma paulada nas nossas esperanças foi dada pelo destino: Eu mal conseguia acreditar no que estava vendo, mais uma vez estávamos encurralados. À nossa frente, estacionado bem na nossa passagem, um carro do Órgão Federal nos "convidava" para arrancar as nossas penas. Mas que inferno! Não tínhamos nem acabado de nos recuperar da experiência traumáticas com os índios e já teríamos que enfrentarmos mais um pesadelo. E agora era muito sério, se aqueles caras que protegem os índios nos pegassem, iriam arrancar o nosso couro, seríamos multados, esculachados, estuprados, espancados e talvez conduzidos para uma delegacia, onde mais uma vez iram arrancar a nossa pele ou o que sobrasse dela. Pelo menos era isso que passava na minha cabeça, enquanto andávamos à passos lentos e modorrentos em direção aos nossos novos algozes. Nessa hora, por azar, estou à frente. Nem respiro, arrasto meus pés como quem monta uma defesa para não ir à lugar nenhum. Se pudesse teria parado os batimentos cardíacos para não fazer qualquer barulho, mas é aí que o coração desanda a bater rapidamente, com uma substancia que inunda o estomago e faz as pernas dar uma amolecida. Dou uma olhada de rabo de olho para ver se alcanço a profundidade do problema, ao mesmo tempo que rezo para que meus olhos não consigam mirar outros olhos humanos. A estratégia não dá certo, abaixo a cabeça e passo ao lado do veículo branco e noto estar vazio. Na sede do Órgão Federal, do lado direito, simplesmente não consigo enxergar, não posso nem relatar do que se trata, apenas deixo que o meu cérebro me conduza para longe e só paro quando uma curva mais à frente nos tira das vistas de quem quer que seja. Já passava do meio dia e muito provavelmente a fiscalização deveria estar almoçando e antes mesmo que a gente virasse a sobremesa, desembestamos ladeira abaixo e só paramos quando a estradinha nos desovou em uma estrada maior, já fora da reserva indígena – mais uma vez à salvos, mas passou perto. UFA! Somos agora um grupo em êxtase! Cinco aventureiros maravilhados com a Aventura vivida, com o desdobramento que aquela expedição acabou nos levando. Parecemos não acreditar no que acabávamos de presenciar. Atrás de nós, todo o esplendor da Serra que divide Rio e São Paulo, desde o Cuscuzeiro, passando pelo Forquilha até a sensacional Serra do Papagaio. A euforia acaba por tomar conta do grupo e virando à esquerda, depois que deixamos a estradinha da aldeia, nos pomos a caminhar numa leveza estonteante, quase a levitar pela alegria da conquista e quando nos deparamos com a ponte que cruza por cima do RIO PARATÍ-MIRIM, justamente o mesmo rio que descemos desde o Forquilha, jogamos as mochilas ao chão e comemoramos o nosso sucesso, não só da empreitada, mas de sabermos que escrevemos mais um capítulo de uma vida bem vivida. Aproveitamos o rio, não só para lavar a alma, mas também para nos livrarmos do barro impregnado nas nossas roupas, já que saímos dessa travessia só o farrapo humano. O caminho à frente nos reserva uma caminhada tranquila e como o sol estava bem quente, 40 minutos depois nos detemos em mais um rio para fazermos um lanche e em outros 40 minutos já adentrávamos no Povoado do Patrimônio, onde o pai do Tomaz nos esperava para nos dar uma carona salvadora de volta para Ubatuba. Era para ser uma travessia entre montanhas, uma caminhada selvagem até o topo desconhecido( Forquilha) ou quase nunca frequentado de uma montanha perdida no extremo norte de Ubatuba, mas o destino fez com que pudéssemos viver uma grande aventura, um encontro inusitado com esses maravilhosos povos da floresta, um choque cultural inusitado, não programado, até um pouco conturbado, mas encantadoramente surpreendente. Saímos dessa travessia inebriados pelo momento vivido, pela experiência adquirida, pelo novo amigo que ganhamos, o mesmo que nos fez torcer o nariz com uma mochilinha de escola, mas que surpreendeu com bom humor e competência. E essa aventura entra para o nosso vasto currículo de roubadas e perrengues memoráveis, numa busca incansável por fazer a vida valer a pena. IMPORTANTE: Esse relato reflete o sentimento de quem o escreveu, sua visão de ver a aventura e talvez não seja a mesma visão dos outros participante. Por vezes , mesmo sendo uma escrita rude e de quem conhece pouco da lingua portuguesa, há de se conisiderar as licenças poéticas e literárias, mas mesmo assim, o texto se mantendo fiel aos acontecimentos. Divanei - junho - 2018
  12. Travessia Cuscuzeiro x Forquilha- De Paratí ao Patrimônio (Vagner, Thiago, Divanei, Trovo e Tomaz ) Todos em fila indiana. Cabeças baixas, passos lentos e olhares laterais. Respiração presa e movimentos friamente calculados a fim de não irritar nenhum índio. Na hora me lembrei do Alemão Hans Staden, que quase foi devorado pelos índios Tupinambás quando foi capturado nessa região, 500 anos atrás. Agora não era o caso, mas mesmo assim, estávamos apreensivos com aquela situação. Atrás de nós, uns 30 índios nos seguiam, enquanto um que parecia ser o líder, nos dizia desaforos impronunciáveis a fim de mostrar poder e, se a intenção dele era fazer com que nos cagássemos de medo, no tocante a minha pessoa, ele estava tendo um grande sucesso. A caminhada nos leva onde me pareceu ser a casa de reza da aldeia e ali se encontravam alguns velhos índios, que também nos queimavam com os olhos, enquanto alguns de nós pediam perdão, esperando que aquele pesadelo acabasse logo....................... Não foram poucas as vezes em que me vi pesquisando sobre a clássica travessia da Trilha do Corisco, uma caminhada que outrora ligava Ubatuba à Parati, cortando as escarpas da Serra do Mar, na divisa entre São Paulo e Rio, partindo na altura da Praia da Fazenda, num dos cenários mais bonitos do país. Acontece que sempre achei uma caminhada muito curta, coisa de um dia, para me deslocar da minha casa no interior paulista até lá. Mas com a chegada dos mapas de satélite e com maior acesso às informações, comecei a notar que no alto da serra poderíamos acessar o PICO DO CUSCUZEIRO, um gigante visto das cercanias de Picinguaba, em formato de um grande vulcão. (foto Thiago silva) O tempo foi passando e outras montanhas tomaram meu tempo, mas quase todo fim de ano, lá estava eu em Picinguaba ou na praia da Fazenda, olhando para o gigante, assim que o tempo permitia, já que nem era sempre que as nuvens deixavam. Mas eis que um dia o Thiago Silva me manda uma mensagem me convidando para tal empreitada e achei que era essa a deixa para ir lá riscar esse ícone quase desconhecido do montanhismo paulista, da minha lista de montanhas a serem subidas. (Cuscuzeiro e Forquilha) O Pico do Cuscuzeiro é um gigante, em se tratando de Serra do Mar, mais alto que o Pico do Corcovado, e abre a cadeia de montanhas que separa Ubatuba de Parati, no extremo norte paulista, que ainda vai contar com mais 2 montanhas, o FORQUILHA e o Pico do Papagaio. Nossa intenção, portanto, ia muito mais além do que subir o próprio Cuscuzeiro, pensávamos em cruzar toda a serra da divisa, mas não sabíamos nada sobre a continuação dela depois do Cuscuzeiro, nem se havia trilha, tão pouco se a inclinação do terreno permitia um vara-mato selvagem até o cume do Forquilha, mas resolvemos pagar para ver. Oito horas da noite de uma sexta-feira, Thiago Silva nos apanha no terminal rodoviário do Tietê, na Capital Paulista, onde eu, o Daniel Trovo e o Vagner já o esperávamos ansiosamente. Aquele era um grupo de respeito, mas ainda faltava conhecer o quinto elemento, um amigo do Thiago que só conheceríamos em Ubatuba. A viagem para o litoral foi tranquila, muita conversa sobre expedições passadas e muitas risadas de presepadas presentes, até desembocarmos na charmosa cidade litorânea, vazia por estarmos no inverno. Foi hora de sermos apresentado ao Tomaz Lamosa, um Ubatubense jovem, praticante de artes marciais, mas que nos deixou uma impressão não muito boa, ao aparecer com uma mochilinha do jardim de infância, donde pendia um saco de dormir para fora, parecendo que iria numa excursão de acampamento de igreja, mas logo demos um jeito de ficar mais apresentável, colocando as coisas no seu devido lugar (rsrsrsrsr) A recepção do Tomaz foi de primeira, organizou a logística impecável, com um transporte que nos deixaria na boca da trilha, lá nas cercanias do Bairro do Corisco, em Parati, já que optamos por subir a trilha do Corisco partindo do lado Fluminense, por ser menos íngreme e mais curta até o ombro da serra, no marco que divide os 2 Estados. Já era alta madrugada quando apeamos um pouco acima do Bairro do Corisco, um fim de estrada até onde achamos que dava para ir motorizado. Mas a estrada continuava, é por ela que seguimos a passos largos. Thiaguinho imprimiu um ritmo alucinante e eu e o Tomaz fomos no encalço dele, mas o Trovo e Vagner que não queriam saber de correria desnecessária, ficaram para trás até nos juntarmos num providencial ponto de água, ainda na estradinha meio que abandonada. A estradinha histórica vai ganhando altura e ficando cada vez mais intransitável, cruza por um rio mais largo, onde passamos pulando pedras para não molhar as botas e uns 3 km desde quando saltamos do veículo, começa a curvar-se para a direita, mas não é para lá que seguimos, vamos abandoná-la em favor de outra estradinha que saí a esquerda, tendo que pular mais um rio e intercepta-la mais à frente. Nesse pedaço, por estar noite, demos uma bobeira e pensamos que a trilha subia paralela ao rio, mas logo sacamos o erro e retornamos e localizamos a estradinha do outro lado do rio e por mais uma meio hora, talvez menos, demos de cara com uma porteira junto a um córrego onde atravessamos e nos estacionamos 100 m mais à frente, junto a uma grande clareira e ali resolvemos dar por encerrada nossa caminhada noturna, porque já se aproximava das três horas da manhã. O local é ótimo para montar barraca, redes, mas eu resolvi apenas bivacar, montar uma loninha e esticar um isolante térmico com meu saco de dormir até que o sol da manhã de sábado viesse para nos dizer que era chegado a hora de recomeçar. Quando clareou, foi que ficamos sabendo que havíamos adentrado em propriedade particular e acima de onde acampamos, havia uma casa de grande porte e por sorte pareceu estar vazia. Desmontamos tudo, saímos para fora da propriedade, fechamos a porteira e interceptamos a trilha do lado esquerdo de quem chega. Verdade mesmo que é preciso forçar passagem no mato ao lado da cerca para encontrar o rabo da trilha, que logo se estabelece e um minuto depois, surpreendentemente reencontra a estradinha vindo da casa que acampamos. Sem saber, ao interceptarmos a estrada, pegamos para a esquerda, quando o caminho correto é justamente entrar na porteira a direita da trilha, com quem vai adentrar na direção da casa, mas imediatamente subir a esquerda para dentro da mata, agora definitivamente. A trilha vai subindo, ganhando altitude, mas as vezes meio confusa e aí é preciso tomar cuidado e se valer da experiência para não se perder ou estar o tempo todo grudado no gps para se manter na direção correta. E assim vamos, subindo aos poucos, passamos pelo último ponto de água e nos abastecemos com 2 litros por pessoa e mais ou menos hora e meia, depois que deixamos o acampamento, tropeçarmos no marco da divisa de Estado, datado de 1954 (720 m), hora de pararmos, jogarmos as mochilas ao chão para um breve descanso e uma alimentação mais descente. O MARCO DA DIVISA significa que estamos no ponto mais alto da Trilha da Corisco e se continuássemos por ela, poderíamos descer à Ubatuba por mais uns 7 km até a Casa da Farinha, mas nosso caminho parte a esquerda do marco e agora vai subir um caminho de matar mula por mais ou menos 4 km. Logo no início já é preciso subir se apoiando em uma corda que foi providencialmente instalada ali para diminuir o sofrimento, mas quem aqui sobe com uma cargueira carregada, não vai encontrar nenhuma moleza. ( Marco da divisa RJ/SP ) A caminhada vai seguindo lentamente, muito lentamente, o tempo fechado faz chover sobre nossa carcaça e só nos faz lamentar a possibilidade de chegar no cume e não conseguir ver nada. Mas montanhista experiente já sabe que esse excesso de neblina molhada, é sinal de que vai fazer um grande dia de sol, mas como se aproxima das 11 da manhã, a gente já começa a desconfiar que vamos chegar ao topo com mal tempo. Hora ou outra, um tímido raio de sol aparece para alegrar nossas almas, mas some com uma rapidez impressionante e nos faz voltarmos a praguejar contra a má sorte. Pouco mais de uma hora depois, atingimos um ombro da montanha e vamos galga-la por mais de uma hora até que um pequeno selado se apresenta a nossa frente onde se poderia acampar, mas ainda é cedo para pensar nisso e apertamos o passo para a subida final em busca da gloria, mas a única coisa que vemos é mato atrás de mato, um cume fechado, sem visão para lugar nenhum, uma decepção coletiva e silenciosa. Nossa jornada passa por cima do cume, sem nem perceber , já que não existe algo proeminente que nos diga que ali é realmente o ponto mais alto e segue enfrente até que o mundo desaba sob os nossos pés, fim da linha, fim da montanha e por causa da intensa neblina, não conseguimos enxergar um palmo à frente do nariz. Não há grandes árvores no cume , só pequenos arbustos de pouco mais de metro e meio e foi entre esses arbustos que buscamos alguma visão do litoral de Ubatuba ou da parte voltada para Paratí, mas sem nenhum sucesso, até que um pequeno trilho é encontrado e demos a missão de investigar para o Vagner , que em menos de um minuto gritava feito um gata copulando no telhado. Todo mundo correu como deu e quando lá chegamos, um vento forte soprava e aos poucos o litoral foi descortinando à nossa frente, como a nos dizer : " Venham meus amigos , aqui está o vosso presente, aqui está a recompensa pela vossa ousadia e determinação , apreciaí-vos essa maravilha, bem vindos ao CUSCUZEIRO ( 1278 M) , o cume mais alto do extremo norte de Ubatuba. O vento que soprava das montanhas em direção ao litoral, fazia as nuvens dançarem. Por baixo da branquidão algodoada, era como se um novo mundo surgisse do nada, um mundo fascinante e encantador, que ia devastando a nossa mente com uma beleza hipnotizante. Um sonho de litoral, um mundo vazio de gente e entupido de sonhos, resumido em praias selvagens num dos mais belos cartões postais do Brasil. Ninguém arreda pé, olhos vidrados, olhares fixos para não perder cada minuto do espetáculo. Lá está a Praia da FAZENDA com o rio Picinguaba lhe inundando de água doce. Lá está o complexo da Ilhas das Couves, pontilhando o litoral de pequenas outras ilhotas. Do lado direito, a Baia de Ubatumirim complementa o cenário que se estende até onde a vista alcança, num mar de montanhas verdejantes como em nenhum outro lugar. Mais abaixo, aos nossos pés, um vale gigante nos encanta com seus abismos até a planície litorânea, por onde repousa a outra metade da Trilha do Corisco até seu fim junto a Casa da Farinha. As caras, até então meio carrancudas pela pouca expectativa, agora sorriam por qualquer coisa, afinal de contas, havíamos sido agraciados com aquele espetáculo indescritível, quando já não esperávamos mais nada. Sem querer ir embora, decidimos ficar por mais uma hora no cume, tempo suficiente para cozinharmos um almoço e nos aquecermos ao sol do meio dia. Mas a gente sabia que não poderíamos viver de ilusão, tínhamos uma meta a cumprir, chegamos num pico, que mesmo com trilha consolidada, ainda pode-se contar nos dedos os que já tiveram a honra de lá chegarem, mas dali para frente saltaríamos rumo ao desconhecido, um mundo de incertezas seria o nosso futuro naquela travessia, hora de respirar fundo e deixar que a aventura nos guie . Eu havia traçado um caminho usando as curvas de nível para tentar descer com segurança de cima do Cuscuzeiro em direção ao Pico da Forquilha, mas esperávamos encontrar uma trilha que nos conduzisse direto para ele. Na nossa inocência, achávamos que outros montanhistas pudessem vislumbrar o mesmo que nós, mas outra vez quebramos a cara. Ali, onde o Cuscuzeiro simplesmente deixa de existir, só abismos profundos foi o que encontramos e sem muito tempo a perder, nos jogamos para o vazio, já descendo para os degraus mais abaixo da montanha, como a dar adeus para o cume de um cuscuz, como a deslizar de cima de um bico de funil e começar a nos perder na descida de um vulcão. Eu e o Thiaguinho vamos à frente, colados um ao outro e alguns metros abaixo do cume, já foi o suficiente para nos darmos conta da encrenca em que havíamos nos metido: Nos penduramos numa árvore e nos jogamos de cima dela para o fundo do vale, bem a tempo de parar antes que fossemos tragados pelo nada. Atrás de nós, Tomaz, Daniel Trovo e Vagner já começaram a caçar outra rota porque se ligaram que aquela era suicida. Trovo tomou a dianteira e encontrou uma passagem junto a uma grande rocha e abriu caminho lateralmente, mas logo se viu acuado pelo abismo que lhe chamava, mas recusando o convite, deu passagem para que o Vagner tentasse. Vagner, macaco velho, já deitou no chão e gritou para o abismo que o dia dele estava contado. Alguém gritou para que sacassem a corda que o bicho ia pegar, mas o Vagner se atirou numa canaleta rochosa e deslizou nela usando a força da gravidade, até repousar em segurança no fundo do buraco. Sem perder tempo, usamos a canaleta como tobogã e um a um fomos baixando, um festival de rolagem e eu me enrosquei num cipó e fiquei pendurado feito Siri no pau até que alguém conseguiu me libertar para que eu despencasse e fosse também repousar num patamar mais abaixo. As encrencas iam sendo resolvidas conforme iam surgindo e por sorte, não demorou muito para encontrarmos um filete de água, o suficiente para molharmos a goela e nos alegramos com a possibilidade de não passar mais sede naquela travessia. A vegetação se alterna entre palmeiras, cipós espinhudos e bambus entrelaçados, aquela vegetação típica de altitude da Serra do Mar, seca e que vai enervando a gente, mas logo o filete de água vai ganhando corpo e vai nos proporcionando um corredor que vai sendo cavado, agora por um riacho e é por ele que vamos, desescalando pequenas cachoeirinhas e de olho na direção. Mas chega uma hora que a inclinação do riacho nos obriga a cair fora e tentar seguir pela crista rumo ao nosso primeiro objetivo, que era um selado antes da subida final do cume que buscávamos. A tarde já era nossa companheira e o avanço pela vegetação era lento e modorrento, corcovavas vão sendo subidas e descidas, sempre tentando acompanhar a linha previamente traçada até que desembocamos no SELADO, um marco importante, mas que surpreendentemente não encontramos nenhuma trilha de conexão que pudesse nos dar um caminho fácil até o cume do Forquilha. Até encontramos uma marca de facão, mas estava claro que poderia ser alguma passagem entre as 2 montanhas, mas nada que denunciasse que alguém tenha subido ao cume por ali. O selado em questão era uma área muito promissor para se acampar, mas a expectativa de podermos pegar um possível pôr do sol no cume, fez com que tirássemos força sei lá de onde para continuar. E é mesmo uma subida dos diabos, uma parede em pé onde é preciso ir se agarrando onde dá para não voltar a descer novamente, ir desviando de algumas grandes rochas, procurando um caminho mais desimpedido, subindo cada ombro , cada curva topográfica até que uma hora depois, estávamos encima do platô , faltava apenas localizar onde seria o ponto que marcava o cume daquela montanha isolada do mundo, no meio da linha que divide os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, a meio caminho de lugar nenhum, numa quiçaça de dar dó. Bambuzinhos vão sendo arrastados no peito, pequenos arbustos são cruzados, as vezes nos rastejando para um melhor deslocamento. Em algum lugar ali haveríamos de localizar o cume exato, um lugar que nos desse uma vista do horizonte, mas a noite foi caindo e a gente não avançava e para piorar, não havia um só lugar para montarmos nossas barracas. Por causa da densa neblina, a vegetação encharcou toda nossa roupa e alguns de nós já estava com muito frio e não via a hora de acampar, mas cada vez mais, nos enfiávamos em algum buraco, tentando localizar algo descende para passar a noite. Até achamos uma pedra que poderia nos dar um abrigo, mas uma urubu fêmea chocava um ovo embaixo dela e a todo momento nos dizia que não seria um bom negócio usar ali de casa. O desespero aumentou, já estávamos no nosso último bastão de energia e quando alguém gritou que iria ficar por ali mesmo, foi a deixa para os outros jogarem suas mochilas ao chão e dar por encerrado aquele dia de caminhada. Aquela área para acampar era o que tinha de pior, não havia um palmo de terra plana e para piorar, beirava um barranco de uma dezena de metros. Não havia o que fazer, não havia como limpar coisa alguma, era jogar as barracas encima das raízes e assimilar o duro golpe. O Daniel Trovo estava de rede e conseguiu monta-la, usando 2 arremedos de árvore, bem ou mal resolveu seu problema. Tomaz e Thiaguinho iriam dividir uma barraca em conjunto e o Vagner acamparia numa barraca individual e esses 3 últimos se foderam bonito, tendo que aguentar pau no lombo a noite inteira. Eu estava sem rede e sem barraca, havia levado apenas um isolante térmico e um plástico mequetrefe, mas encontrei um lugar incrível embaixo de uma grande rocha e ali montei meu bivac, um grande achado que me proporcionaria uma noite de sono perfeita e assim que a janta ficou pronto, me joguei para debaixo dela e dormi por 12 horas quase seguidas, até que o sol viesse nos dizer que era hora de voltar para a aventura. O dia nasceu radiante, mas os meninos das barracas amaldiçoaram a noite mal dormida. Uma choradeira dos infernos! Nosso plano de continuar galgando a crista da serra foi por água abaixo, sabíamos que era impossível realizar tal façanha de descer o Forquilha e emendar com a Crista do Papagaio num dia só, então havia chegado a hora de pormos em pratica o plano B, traçado justamente para ser usado caso isso acontecesse, mas os caras das barracas (Thiago e Tomaz) tramaram um motim durante a noite e quando o dia nasceu, haviam decidido que mandaria também o plano B a merda e traçariam um plano C. O plano B consistia em descer o Forquilha pela sua continuação em direção ao Papagaio e quando chegássemos no selado, viraríamos a esquerda e interceptaríamos uma possível trilha que nos levaria direto para a estrada e para o Bairro do Patrimônio, junto à Rio-Santos. Mas diante da possibilidade de ter que voltar a arrastar bambu no peito por mais um pedaço da crista e depois enfrentar um desnível de abismos gigantes, eles resolveram que tentaríamos começar a descer imediatamente, mas antes, para marcar nossa presença ilustre naquela montanha isolada do mundo, deixamos um livro de cume, uma CAPSULA DO TEMPO, improvisada com uma garrafa, onde um manuscrito exibe a data, o nome dos exploradores e o caminho que fizeram para até ali chegarem. ( capsula do tempo) Pois bem, falamos de tudo, mas faltou falar do principal, daquilo que nos leva a empreender tal jornada árdua para subir esse tipo de montanha: As largas vistas que presenteiam nossas almas. Tomando, portanto, o rumo leste, que é a direção na reta de Parati, escalamos a rocha que eu havia bivacado embaixo e ascendemos ao cume, simplesmente para descobrimos que era ali que estava o nosso presente. Diante de nossos olhos a imponência gigantesca da encosta do Cuscuzeiro, que havíamos descido no dia anterior. Não tivemos duvidas, ali marcava o topo daquela montanha, o PICO DA FORQUILHA ( 957 m ) estava ao nossos pés e de cima dele as largas vistas da Baia de Parati, de toda a Reserva da Joatinga , Ilha Grande e por incrível que parece, até o imponente Pico do Frade desfilava na paisagem. A visão lá de cima é realmente grandiosa e a gente estava feliz de ter podido no último minuto, encontrar essa visão lá de cima e aproveitando que ali estávamos, era hora de aproveitar para desenvolver melhor a nossa fuga lá de cima. ( Ao fundo Baia de Parati-RJ) Tomamos em mãos o mapa eletrônico, nos baseando no satélite e na carta topográfica. De cima do Forquilha, localizamos ao longe em meio a floresta, uma habitação solitária, de onde saia fumaça pela sua chaminé. Se há uma casa, com certeza teríamos uma rota de fuga, que nos levaria ao litoral. Azimutamos a direção e calculamos que poderíamos lá chegar em cerca de umas 4 horas de caminhada, um cálculo cretino, só para animar o grupo, porque na real mesmo, não tínhamos a menor ideia de como seria a nossa descida e o que a jornada até lá nos reservaria. Traçado o plano e estratégia, abandonamos o cume do Forquilha e já despencamos da pedra em direção ao vale, tentando achar um caminho que nos fizesse ir perdendo altitude, mas outra vez nos vimos acuados numa encosta de abismos perigosos, desescalando barrancos escorregadios, onde lajes pedregosas, pontilhada por vegetação rasteira e arbustos soltos, iam nos dizendo que a gente havia entrado em outra encrenca. Trovo e Vagner tomam à frente e vão nos metendo em uma roubada atrás da outra e a gente vai vendo que aquele caminho começa a nos levar para uma rota suicida, onde apenas samambaias soltas são o fio que nos segura antes da desgraça final. É hora de parar, analisar e ter a consciência que a rota tem que ser mudada e é justamente isso que os caras da frente fazem, tomam a rota lateral, numa diagonal reta para a esquerda a fim de ganharem uma linha de árvores e retomarmos novamente a direção combinada. A estratégia deu resultado e não demora muito cruzamos por uma nascente de onde brota um filete de água, que vai se encaminhando por cima de uma pedra lisa dentro da floresta de árvores gigantes. Uma descida rápida em meio à vegetação mais fechada, nos leva a um degrau e ali um grito dado por um membro da equipe faz com que paremos imediatamente: “ Uma ponte gente, corre aqui, tem uma ponte atravessando para o outro lado”. Eu estava atrás e logo levei um susto. Aquilo era inacreditável, estávamos numa encosta de montanha onde era possível que jamais teria recebido pés humanos e como poderia uma ponte naquela altitude, que aparentemente não ligaria nada a lugar nenhum. Corremos para ver a tal ponte e lá só encontramos um tronco velho, caído encima de uma laje de pedra, nada mais que isso, pura obra da natureza. Tomaz Lamosa, o menino da mochilinha dourada, já começava a ter alucinações naquela descida e a gente achando que Lamosa era sobrenome muito pomposo para compor aquela expedição de gente rude e sem grife, resolvemos batizar nosso novo amigo como Tomaz Pontes e assim será chamado nas expedições em que esse valoroso expedicionário participar em nossa companhia. Estávamos agora enfiados dentro de um vale profundo, justamente por onde a nascente que encontramos corria e ia cada vez mais se transformando num rio. Pulando pedra por dentro do riacho ou até mesmo tendo que subir o barranco para nos livrarmos dos degraus de mais de uma dezena de metros, vamos prosseguindo a trancos e barrancos, mas nos preocupa a direção que aquele rio vai tomando, abrindo muito para a esquerda, nos tirando da direção traçada. A tarefa é árdua, o rio vai aumentando de volume e pequenas cachoeiras começam a despencar em vales cada vez mais profundo. A hora vai passando e a gente perdendo altitude vagarosamente até que ao avistarmos um grande poço, resolvemos nos deter por um instante para comer alguma coisa, enquanto alguns corajosos resolvem se jogar na água fria daquele final de manhã, gente sem noção, porque para mim, quem faz isso no inverno, é capaz de qualquer coisa. ( rsrsrsrs) Havíamos decidido que qual fosse o rumo que aquele rio tomasse, seria por ele que seguiríamos, na esperança de quando chegasse ao fundo do vale, poderíamos encontrar alguma trilha junto a talvez, algum rio maior, mas um golpe de sorte, ou talvez nem tanto, viria para mudar o rumo daquela expedição, algo que jamais esperaríamos, algo que transformaria uma travessia de montanha em mais uma experiência para contar para os nossos netos. Saímos do rio e fomos margeando, sempre andando a não mais que uns 50 metros da margem, quando se supetão alguém gritou que haviam encontrado um rabo de trilha, um arremedo de caminho, mas estava claro que não era trilha de bicho e quando um corte de facão na diagonal de um galho foi encontrado, tivemos certeza de que poderíamos contar com uma saída mais rápida daquela expedição. Mas nem precisou ir muito longe, 15 minutos de caminhada nos levou ao que nos pareceu ser uma ponte no meio da floresta, agora algo feito pelas mãos humanas, mas logo percebemos que era apenas um tablado grande, onde era usado como apoio para cortar madeira. Logo imaginei que poderia ser um daqueles lugares usados para se construir canoas parcialmente, quando se derruba uma árvore gigante e lapida-se até ficar no formato da embarcação, aliviando o peso da mesma até que se aguente puxa-la para fora do mato. A minha tese não foi confirmada, mas isso pouco importava, o certo era que a partir dali, uma trilha consolidada nos serviria de caminho. Num primeiro momento ficamos apreensivos porque poderia haver algum rancho de caçadores por perto e não seria muito bom para nós, irmos chegando de supetão, vindos de lugar nenhum. Caminhando devagar e em silêncio, poucos minutos foram o suficiente para eu avistar um telhado reluzente entre as folhagens e já cantar a bola para que os cuidados fossem redobrados e 5 minutos depois a trilha deixou de existir e deu lugar para um roçado em um descampado, num morro na descendência, donde do outro lado, também encima de outro morrote, sem que estivéssemos preparados, um amontoado de casas foi nos apresentados pelo destino. Sem óculos e sem acreditar naquilo que meus olhos pareciam ver, esperei que o meu cérebro processasse a informação: Puta que o pariu, aquilo era uma tribo indígena ou eu estava vendo coisas? À frente seguia o Thiaguinho e o Pontes, ninguém os escolheu para serem os caras que iriam fazer o contato antropológico, mas nessa vida tem que ter uns trouxas para liderarem, mas esses aí entraram mesmo de gaito no navio e coube a eles botarem o peito para levarem a primeira flechada e, ela veio, mas veio sem dó e nem piedade, aquela intimada que ecoou desde o Cuscuzeiro até Forquilha: - PAREM IMEDIATAMENTE, SE APRESENTEM ANTES DE CHEGAR. Nessa hora nem sei para onde foi parar o Daniel Trovo, eu já fiz menção de sair correndo de volta para a mata, mas logo vi que seria inútil, principalmente porque tudo que era índio daquela tribo, resolveu abandonar sua maloca e ir ver que quiproquó era aquele que estava acontecendo. À minha frente, e atrás dos nossos “antropólogos”, Vagner parecia o documentarista de uma expedição sertanistas, filmando e fotografando os novos povos da floresta, parecia alheio a gravidade do problema, cagando e andando para a situação, mas logo foi atingido por uma flecha certeira: - PODE PARAR DE TIRAR FOTO DE ALDEIA, NÃO É PARA TIRAR FOTO DE ÍNDIO NÃO ! O instrumento do nosso documentarista de araque, que na verdade era seu celular, quase rodopiou no ar e em um segundo já foi parar no fundo da mochila e esse coitado foi outro que teria fugido comigo para o mato se pudesse. Enquanto isso, Thiaguinho e Tomaz Pontes gaguejavam mais que carro velho à álcool no inverno, tentando explicar o inexplicável, muito porque os índios não estavam a fim de ouvir explicações cretinas. - QUEM É O GUIA DE VOCES? ESTÃO INVADINDO TERRA DE ÍNDIO. VOCES ESTÃO VINDO DE ONDE? ESTÃO PERDIDOS? Aquelas eram perguntas que não podíamos responder, eram flechadas que não conseguíamos nos desviar. A comunicação era aos berros, mas nós berrávamos mansos, enquanto eles nos derrubavam com as palavras. Aos poucos, vendo que a vaca já havia ido para o brejo, nos juntamos em um só grupo. Ali, naquela maloca de índios, éramos reféns do destino, estávamos a mercê das circunstâncias, não dependíamos mais de nós, já não controlávamos mais a situação e eu já estava extremamente nervoso pelo rumo que aquilo estava tomando. De cima do morrote, esse índio que parecia querer mostrar poder, nos dizia palavras duras e impronunciáveis. Uma velha índia pede que esse líder nos pergunte se temos armas, mas ele não nos repassa a pergunta, apenas continua a nos esculhambar. - VOCES NÃO PODERIAM INVADIAR TERRA INDÍGENA, VÃO EMBORA SE NÃO VAMOS CHAMAR O REPRESENTANTE. Não ficou claro se ele iria chamar o representante máximo da tribo, talvez o verdadeiro CACIC ou se ele estaria se referindo ao pessoal da Funai, ou órgão Federal que lhes dá apoio, mas para a gente pouco importava, queríamos era sair voados dali imediatamente, picar a mula para o mato, cortar volta, desaparecer da frente deles, sumir no tempo e no espaço. Atendendo à solicitação do índio, começamos nosso processo de cair fora de lá e fomos nos dirigindo pela esquerda do morrote, como a dar a volta na aldeia para cair na capoeira. Fomos cruzando o pequeno roçado, agora no máximo uns 20 metros de onde a tribo nos observava e finalmente começamos a achar que o pesadelo estava próximo do fim, íamos passar e ir embora definitivamente, mas outra flecha foi nos atirada, uma flechada agora à queima roupa. - NÃO, NÃO, NÃO ! PODEM SUBIR, VENHAM PARA O MEIO DA TRIBO, VÃO PASSAR POR AQUI AGORA. Viche , agora fudeu ! Estava claro que não iam nos deixar ir embora assim, primeiro era preciso nos impor uma humilhação que talvez até merecêssemos, mas eu particularmente já estava no meu limite de apreensão, sabíamos que nada poderíamos fazer, nem nos defender poderíamos, éramos seres indefesos diante daquela situação. Em fila indiana, um atrás do outro, subimos do roçado para o meio da tribo. Alguns de nós só fazia era pedir desculpas, perdão por ter ido parar ali, mas eu se pudesse, já estaria era implorando clemencia. Agora atrás de nós, uma multidão de índios nos empurrava, nos encurralava para o meio da aldeia, um lugar onde me pareceu ser a casa de reza, o barracão das festas tradicionais. Sob uma saraivada de impropérios, seguíamos a passos lentos, respiração presa, sem movimentos bruscos que viesse a irritar qualquer um índio daqueles. Eram velhos, mulheres, homens, crianças, índio magro, índio gordo, sei lá, tinha de tudo atrás de nós. A situação era desfavorável, mas segundos de pensamentos tem o poder de nos remeter ao passado, um passado muito distante, mas o cérebro não quer nem saber, quer sabotar nossa capacidade de acreditar que tudo vai dar certo e logo me traz à tona a história, faz nos lembrar de que no passado, aqui mesmo nessa região, os índios Tupinambás teriam nos devorado em rituais antropofágicos, que começava , numa narração simples e simplória, por dar uma paulada na cabeça e depois outro pau era enfiado no rabo para que nada de lá saísse. Por sorte os tempos são outros, a tribo é outra, mas por azar, nós somos nós mesmos. Enfrente a casa de reza, alguns velhos índios conversavam em línguas estranhas, talvez em tupi, certamente não era português e se nada compreendemos, pelo menos esses xingamentos também não absorvemos, mas dos olhares nos queimando não tivemos como escapar. Ali era o ponto crucial, o centro da aldeia, era ali que a questão teria que ser resolvida. A gente continuava implorando para ir embora, mas sem deixar de caminhar, apenas olhando de rabo de olho, mostrando humildade e sem querer afrontar nenhum daqueles índios. A multidão nos seguia, não sei qual o propósito daquele cortejo, mas o alivio só veio quando o índio mais bravo gritou: - PEGUEM ESSA ESTRADA E SUMAM DAQUI! Mais que depressa quebramos a direita e ganhamos o caminho de terra batida, descendo do morrote em direção à um córrego de aguas cristalinas, uns 100 metros mais abaixo, mas na minha cabeça só havia uma frase que não escapuliu por muito pouco: COOOOOOORRE NEGADA! ( rsrsrsr) Mais que depressa e sem perder tempo, nos pusemos a caminhar aceleradamente, na tentativa de sairmos o mais rápido possível das vistas dos índios, mas eles não arredaram pé do alto do morro, muitos com o peito estufado, felizes de terem nos enxotados de lá feito cães sarnentos. Menos de 5 minutos nos leva até o riacho, onde uma placa intimidatória nos avisa que ali é a Reserva Indígena , com entrada proibida, mas no caso nem nos preocupamos, já estávamos saindo mesmo e ali nos vimos mais aliviados, pensando já estarmos a salvo da “panela”, mas nem tudo é tão ruim que não possa piorar. Enquanto os índios ainda nos fitavam com cara de poucos amigos de cima do morro, tratamos logo de subir a ladeira que nos levaria em definitivo para longe das vistas deles, mas 100 metros acima, quando o terreno se nivela, uma paulada nas nossas esperanças foi dada pelo destino: Eu mal conseguia acreditar no que estava vendo, mais uma vez estávamos encurralados. À nossa frente, estacionado bem na nossa passagem, um carro do Órgão Federal nos "convidava" para arrancar as nossas penas. Mas que inferno! Não tínhamos nem acabado de nos recuperar da experiência traumáticas com os índios e já teríamos que enfrentarmos mais um pesadelo. E agora era muito sério, se aqueles caras que protegem os índios nos pegassem, iriam arrancar o nosso couro, seríamos multados, esculachados, estuprados, espancados e talvez conduzidos para uma delegacia, onde mais uma vez iram arrancar a nossa pele ou o que sobrasse dela. Pelo menos era isso que passava na minha cabeça, enquanto andávamos à passos lentos e modorrentos em direção aos nossos novos algozes. Nessa hora, por azar, estou à frente. Nem respiro, arrasto meus pés como quem monta uma defesa para não ir à lugar nenhum. Se pudesse teria parado os batimentos cardíacos para não fazer qualquer barulho, mas é aí que o coração desanda a bater rapidamente, com uma substancia que inunda o estomago e faz as pernas dar uma amolecida. Dou uma olhada de rabo de olho para ver se alcanço a profundidade do problema, ao mesmo tempo que rezo para que meus olhos não consigam mirar outros olhos humanos. A estratégia não dá certo, abaixo a cabeça e passo ao lado do veículo branco e noto estar vazio. Na sede do Órgão Federal, do lado direito, simplesmente não consigo enxergar, não posso nem relatar do que se trata, apenas deixo que o meu cérebro me conduza para longe e só paro quando uma curva mais à frente nos tira das vistas de quem quer que seja. Já passava do meio dia e muito provavelmente a fiscalização deveria estar almoçando e antes mesmo que a gente virasse a sobremesa, desembestamos ladeira abaixo e só paramos quando a estradinha nos desovou em uma estrada maior, já fora da reserva indígena – mais uma vez à salvos, mas passou perto. UFA! Somos agora um grupo em êxtase! Cinco aventureiros maravilhados com a Aventura vivida, com o desdobramento que aquela expedição acabou nos levando. Parecemos não acreditar no que acabávamos de presenciar. Atrás de nós, todo o esplendor da Serra que divide Rio e São Paulo, desde o Cuscuzeiro, passando pelo Forquilha até a sensacional Serra do Papagaio. A euforia acaba por tomar conta do grupo e virando à esquerda, depois que deixamos a estradinha da aldeia, nos pomos a caminhar numa leveza estonteante, quase a levitar pela alegria da conquista e quando nos deparamos com a ponte que cruza por cima do RIO PARATÍ-MIRIM, justamente o mesmo rio que descemos desde o Forquilha, jogamos as mochilas ao chão e comemoramos o nosso sucesso, não só da empreitada, mas de sabermos que escrevemos mais um capítulo de uma vida bem vivida. Aproveitamos o rio, não só para lavar a alma, mas também para nos livrarmos do barro impregnado nas nossas roupas, já que saímos dessa travessia só o farrapo humano. O caminho à frente nos reserva uma caminhada tranquila e como o sol estava bem quente, 40 minutos depois nos detemos em mais um rio para fazermos um lanche e em outros 40 minutos já adentrávamos no Povoado do Patrimônio, onde o pai do Tomaz nos esperava para nos dar uma carona salvadora de volta para Ubatuba. Era para ser uma travessia entre montanhas, uma caminhada selvagem até o topo desconhecido( Forquilha) ou quase nunca frequentado de uma montanha perdida no extremo norte de Ubatuba, mas o destino fez com que pudéssemos viver uma grande aventura, um encontro inusitado com esses maravilhosos povos da floresta, um choque cultural inusitado, não programado, até um pouco conturbado, mas encantadoramente surpreendente. Saímos dessa travessia inebriados pelo momento vivido, pela experiência adquirida, pelo novo amigo que ganhamos, o mesmo que nos fez torcer o nariz com uma mochilinha de escola, mas que surpreendeu com bom humor e competência. E essa aventura entra para o nosso vasto currículo de roubadas e perrengues memoráveis, numa busca incansável por fazer a vida valer a pena. IMPORTANTE: Esse relato reflete o sentimento de quem o escreveu, sua visão de ver a aventura e talvez não seja a mesma visão dos outros participante. Por vezes , mesmo sendo uma escrita rude e de quem conhece pouco da lingua portuguesa, há de se conisiderar as licenças poéticas e literárias, mas mesmo assim, o texto se mantendo fiel aos acontecimentos. Divanei - junho - 2018
  13. Fragmentos de uma vida de Aventuras, contadas por mim mesmo. vinte e cinco anos de aprendizados, conquistas e fracassos . https://papooutdoor.com.br/ep-04-as-definicoes-de-perrengue-foram-atualizadas-papo-outdoor/
  14. AGULHA DO DIABO “Agora não adianta chamar por santo nenhum, quem mandou se meter no Caldeirão do Inferno. Pendurados no meio da Unha da Agulha do Diabo, a gente só pensa em não cair e tenta grudar as costas naquela chaminé diabólica, tentando evoluir centímetro a centímetro, mas a gente sabe que o próprio dono da montanha está lá, sentado logo acima com seu rabo a balançar, como a nos atrair para uma armadilha. Não quero olhar para baixo, mas a curiosidade é maior que o meu bom senso e quando faço isso, o mundo parece dar uma rodopiada e é nessa hora que penso em gritar um “valei-me Nossa Senhora”, mas me contenho a minha insignificância diante daquele colosso de pedra, porque cada um é responsável por exorcizar seus demônios interiores e sigo determinado, sabendo que eu mesmo terei que chutar o traseiro do cão se quiser conquistar aquela montanha. ” Não por acaso que a AGULHA DO DIABO foi escolhida mundialmente entre as 15 montanhas mais bonitas e mais desejadas para se escalar em todo o planeta. Um gigante rochoso tocando o céu no meio selvagem do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro, a meio caminho entre Teresópolis e Petrópolis, mas por incrível que pareça, mesmo estando no parque por meia dúzia de vezes para a travessia famosa e para escalar o Dedo de Deus, eu jamais consegui por meus olhos nessa formação rochosa e quando os meninos levantaram a possibilidade de escala-la , aceitei o convite sem nem pensar se teria ou não condições de ir ao cume com os meus toscos e rudes conhecimentos do esporte. Havíamos combinado então que, quando o inverno desse as caras, a gente partiria para o Rio, mas a ansiedade de alguns do grupo fez com que antecipassem a tentativa da escalada para maio, data em que eu estava às voltas com uma Expedição Selvagem previamente programada na Serra do Mar Paulista, então fui deixado para trás. Nessa ocasião o grupo que tentou escalar a Agulha cometeu alguns erros de logística, extrapolaram o tempo e dos 7 integrantes, 5 ficaram pelo caminho e somente 2 foram ao cume e assim mesmo tiveram que subir quase ao anoitecer. Diante desse meio fracasso, o Alexandre Alves retomou o projeto antigo que havíamos traçado e para aproveitar um feriado Paulista, resolvemos montar uma equipe 100 % caipira, a mesma equipe que havia conquistado o Dedo de Deus (1.692 m), os mesmo que haviam se juntado um dia para aprender a escalar por conta própria. A equipe inicial seria formada por mim, pelo Alexandre e pelo Vinícius e de última hora surgiu o Dema, mas o Alexandre estava meio com um pé atrás com ele porque fazia muito tempo que o professor não aparecia para treinar e poderia pôr em risco nossa segurança por estar desatualizado quanto aos procedimentos, mas no final, a amizade acabou por falar mais alto que a nossa segurança e essa tomada de decisão seria fundamental para o sucesso daquela “expedição” rumo ao cume daquela diabólica agulha. Foram acaloradas as discussões sobre qual estratégia usar, alguns achavam que fazer um bate e volta apenas com mochila de ataque seria o ideal, já outros discordavam veementemente e insistiam que deveríamos subir com cargueira para estarmos seguros, se desse alguma merda, já que a pedra ficava num fim de mundo escondida no meio de um vale sinistro e potencialmente perigoso, além do mais , se houvesse um fracasso no primeiro dia, poderíamos acampar e tentar num segundo dia, coisa que seria impossível se estivéssemos apenas com mochilinha de ataque, sem os equipos para acamparmos. No fim, nos convencemos de que subir com as cargueiras seria a melhor estratégia e essa tomada de decisão foi a responsável por um dos integrantes, além de nós quatro, picar a mula da escalada, alegando que a gente era doido de enfrentar aquela subida do satanás com mochilas nas costas. Paciência, perdemos um experiente escalador, mas a equipe puro-sangue se manteve e se era para “se lascar” todo naquela montanha, que fosse então com um grupo acostumado a se meter em encrencas e a fazer isso com alegria. Foi então que numa tarde ensolarada de um sábado, que o Vinícius apanhou o Alexandre na rodoviária de Sumaré-SP e passou na minha casa para que eu e o Dema nos juntássemos a eles e partíssemos para Teresópolis-RJ, onde lá chegamos umas sete horas depois, já no início da madrugada de domingo, onde nos refugiámos num posto de gasolina aos pés do Escalavrado(1.410 m) e passamos a noite lá até esperar pela abertura do Parque nacional às seis da manhã. Com o ingresso do parque já comprado antecipadamente e impressos e as devidadas autorizações assinadas, não tivemos dificuldade de acesso e antes das sete da manhã, já havíamos estacionados o veículo o mais próximo possível da barragem e adentramos na trilha histórica que faz parte da Travessia Petrópolis x Teresópolis ou usada para quem quer ir apenas até o cume do parque, na Pedra do Sino (2.275) ou mesmo visitar trocentas outras montanhas de belezas ímpar. No início a subida parece ser bem suave, muito porque estamos todos animados e cheios de energia. O caminho vai se enfiando por dentro da floresta, cruzando algumas pontinhas e menos de uma hora depois chega a uma grande gruta ou toca, onde é possível bivacar com um certo conforto. Não demora muito e damos de cara com a Cachoeira Véu de Noivas, completamente seca, mas já não é grande coisa com água, pelo menos não, se compararmos com as maravilhas que estamos acostumados na Serra do Mar de São Paulo, mas também não viemos aqui atrás de quedas d’água e tocamos para cima, um passo de cada vez, numa subida enfadonha. Eu já havia subido e descido aquela trilha nas duas vezes que estive nas travessias de Petrópolis para Teresópolis e ao contrário e as duas vezes havia odiado aquela parte do caminho, mas pensando bem, acho que odiei pouco, não sei se era pela minha tenra idade com muita mais energia que agora ou porque naquela época tudo me parecia novidade em matéria de trilha, o certo é que aquele zig-zag infernal vai dando nos nervos e só faz aumentar nossa ansiedade de chegar logo na tal Cota 2.000, de onde parte a trilha mais em nível para acessar o tal Caminho das Orquídeas. Quando as curvas acabam, damos de cara com o grande descampado, chegamos ao ABRIGO 3, mas não passa mesmo de um gramado convidando-nos para um descanso, porque abrigo nem existe mais mesmo. Aqui a trilha vai dar uma guinada para a esquerda e vai dar uma nivelada, passar por um mirante também à esquerda. É preciso ficar esperto porque quando o altímetro bater uns 2.000 de altitude e mais ou menos 7,2 km desde a barragem, no início da trilha, precisamos nos atentar para uma saída à esquerda, quase imperceptível. É mesmo uma trilha meio sem vergonha e não há nenhuma placa, nenhuma identificação dizendo ser esse o caminho que vai nos levar para o Mirante do Inferno, ou por negligência do Parque Nacional (grande novidade!) ou por sacanagem de guias e agências que retiram as placas para que ninguém chegue sem seus serviços. Pegando essa bifurcação mencionada, adentramos na direção do tal Caminho das Orquídeas ou talvez seja um atalha para ele. Vamos descendo, agora numa trilha bem mais fechada, quase uma picada e logo que tropeçamos numa bifurcação, pegamos para direita e seguiremos reto até que o mundo se abre à nossa frente num MIRANTE espetacular, com um vale profundo e mais à frente já podemos deslumbrar uma minúscula parte da ponta da Agulha a nos convidar para uma aventura inesquecível. Desse mirante é possível ver também parte do Dedo de Deus e o que é mais interessante é que não é possível ver a Agulha do topo do Dedo e nem ver o Dedo do topo da Agulha, como se Deus e o Diabo nunca pudesse se confrontar. (Dedo de Deus visto do mirante) De cima do mirante às vistas para outras montanhas do parque são deslumbrantes, mas não é hora de perder tempo, o relógio anda e precisamos nos apressar. Nossa jornada é descendo pela laje de pedra e se enfiando nas canaletas floresta à dentro, desescalando até atingirmos o fundo do vale onde um brejo tem que ser pulado para não empapar os nossos tênis. Logo temos água boa vinda de um pequeno córrego e então chegando a mais uma bifurcação e seguimos para a direita contornando uma pedra e não demora muito, às 10:30 desembocamos no ACAMPAMENTO PAQUEQUER, que não passa de um lugar mais aberto no meio da trilha, às margens da nascente do riachinho de mesmo nome, hora de parar para um breve descanso, mais um gole de água e traçar uma estratégia. (Paquequer) Numa breve reunião, decidimos esconder nossas cargueiras ali nos arredores do acampamento e seguir apenas com os equipos de escalada e com uma mochilinha de ataque. Portanto, pulando o riacho, interceptamos o estirão final que vai subir sem dó em direção ao mirante e logo que chegamos mais ao alto, beirando uma grande pedra do lado esquerdo, interceptamos a tal saída que vai nos levar para a Agulha, mas antes de para lá partirmos, seguimos em frente e menos de dez minutos depois chegamos à beira do GRANDE ABISMO DO MIRANTE DO INFERNO. (Mirante do Inferno) Aquilo era inacreditável! Eu já havia dito que achava o Dedo de Deus a montanha mais espetacular do Brasil, mas diante daquela visão eu estava confuso, perdi a referência, meio que perdi o chão. O Dema e o Vinícius também pareciam encantados com aquele gigante de pedra. Dali era possível contemplar outras montanhas : São João, São Pedro(2.160), Verruga do Frade(1.920), Pedra da Cruz(1.980), Capuchinho do Frade, Santo Antonio e tudo beirava à santidade, mas era ela a grande atração do lugar, enfiada no meio do Caldeirão do Inferno, a AGULHA DO DIABO parecia nos convidar para uma grande aventura e a gente estava em êxtase e não havia mais como fugir, a gente poderia ficar por ali mesmo e nos entregarmos as coisas do céu, mas o desafio é que nos move, porque o montanhista de aventura nunca vai se contentar com o calmo e o sereno, ele quer é ver a desgraça de perto, ele quer o caos, quer a tormenta e foi com esse pensamento que a gente largou tudo para trás , voltamos a descer por uns cinco minutos e adentramos de vez à direita na trilha rumo ao nosso desafio. Esse caminho em forma de picada vai seguindo quase que em nível, mas logo faz uma curva para direita e se enfia numa garganta montanha à baixo, numa sequência de gretas e fendas potencialmente perigosas. Vez por outra surge à nossa frente assombrando a nossa alma a silhueta da AGULHA e numa dessas aparições acabei ficando para trás para tentar sacar uma foto e perdendo o equilíbrio, escorreguei de um patamar e enfiei meu pé numa laca de pedra e virei o tornozelo que veio a inchar instantaneamente. Nessa hora pensei que minha jornada naquela montanha havia acabado, mas mesmo assim gritei para que o grupo me esperasse e aguardasse uns minutinhos até que a dor diminuísse um pouco. Tentei ser forte e demostrar calma, não queria de jeito nenhum dar chance para que alguém pudesse me mandar voltar para o acampamento para eu não atrapalhar a escalada, muito porque eu mesmo já teria feito isso se sentisse que daria problema. (Agulha vista de dentro do Cadeirão do Inferno) Continuamos seguindo até nos vermos quase no fundo do vale, onde um pequeno riacho seco descia da direita e é justamente nesse amontoado de pedras que nosso caminho segue e segue subindo para valer, nos fazendo escalar rochas escorregadia e íngremes. Vou me arrastando como posso, mesmo com muita dor, me agarro na minha vontade de não desistir, pelo menos até chegarmos ao início da via. Logo à frente somos barrados por uma gruta, uns amontoados de matacões gigantes. Estamos na GRUTA DA GELADEIRA e não há outro caminho possível se não o de passar por dentro dela e sair pelo teto, por um buraco tão estreito que mais parece que você está saindo do útero da sua mãe. Escalado esse trecho apertado e úmido logo damos de cara com um pequeno platô que poderia servir até para um bivac numa emergência e mais acima, quase ao meio dia, nos deparamos com a linha de escalada propriamente dita, hora de calçar as sapatilhas, fazer o sinal da cruz e enfrentar de vez essas forças do além. (Gruta da Geladeira) Acima das nossas cabeças o gigante rochoso se elevava num espigão assombroso, rodeados por paredes escuras e colossais. Havia chegado a hora de desafiar o guardião do Caldeirão do Inferno e todas as discussões acaloradas vividas meses antes de estarmos ali, agora teriam que nos mostrar que serviu para alguma coisa. É bom lembrar que dos 4 integrantes daquela empreitada, apenas o Alexandre e o Vinícius poderiam ser considerados como escaladores de verdade, porque eu e o Dema não passávamos de meros bons montanhistas trepadores de paredes, mesmo assim, aquele grupo heterogêneo não deixava de ser formado por escaladores ainda com muito à aprender. Em um primeiro momento havia se decidido que formaríamos duas duplas para a escalada, sendo a primeira composta pelo Alexandre e o Dema e a outra pelo Vinícius e por mim, sendo que o Alexandre e o Vinícius subiriam guiando a corda e eu e o Dema faríamos o "segue"(manobras realizadas com a corda para dar segurança ao companheiro), mas num ato de desapego, de última hora, o Vinícius abriu mão de guiar e foi decidido que apenas o Alexandre seria o responsável por levar a nossa corda e essa atitude foi mesmo muito sensata, porque nos faria ganhar tempo precioso e isso também faria toda a diferença na conclusão daquela escalada. (acima croqui da escalada) Traçado a estratégia, a primeira enfiada (lance) já começa encrencada. Parece fácil, mas é uma rampa lisa e sem agarras e já no começo o Alexandre dá uma sambada até que resolve colocar um camalot (pequeno equipamento que ao ser enfiado numa fenda, por exemplo, trava e se pode pendurar a corda para dar segurança ao escalador, numa explicação bem tosca, rsrsrsr ) numa fenda para dar uma estabilizada no psico. Depois é preciso se entalar numa fenda e se espremer até ganhar o alto e subir por outra rampa até uma paredinha que dá acesso a parada junto a um platô. O Dema zueiro que é, já inventa de nem colocar as sapatilhas nesse trecho, apanha sua mochilinha e também a do Alexandre e se agarra à corda e depois se lascou todo para conseguir passar pela fenda lateral e não deu outra, ficou entalado, o tonto, rsrsrsrsr. O Vinícius foi outro que deu uma sapateada nessa rampa e eu, sem molejo para dança nenhum, não fiz mais bonito que ninguém, também rebolei pra subir ali, mas me agarrei no que deu até me juntar aos amigos do platô. (Primeiro lance) O segundo lance nada mais é que uma passagem seguindo em frente, praticamente caminhando ao lado de uma parede com vegetação. É um lance fácil, mas para mim que era o último, achei um pouco exposto e passei com cuidado, mas ao tentar descer no final do corredor de pedra, fiquei sem saída e com medo de pular até atingir a parte mais abaixo, antes de ganhar uma parede final. O problema é que você não pode seguir o seu instinto e querer perder altura logo, é preciso ir até o final da parede caminhando, onde tem várias agarras de pé e de mão para se descer em segurança e uma vez no chão é só fazer a travessia para direita quase numa escalaminhada tranquila e ir subindo até a parada em nível. (segundo Lance) A enfiada seguinte, a terceira, é um pouco mais técnica por ser mais inclinada. Começa com uma fenda em forma de diedro, do qual é necessário subir em oposição. A gente enfia as mãos dentro da fenda e começa a puxá-la até ganhar altura, mas alguns não estavam nem aí e subiram com os pés na fenda e as costas na parede abaulada da direita porque na escalada clássica a única regra é não ficar lá embaixo moscando e atrapalhando o andamento da empreitada. Depois dessa fenda, desse diedro, a parede empina de vez e é preciso ir achando as agarraras certas até poder se pendurar numa fenda horizontal, uma verdadeira salvação para quem já está despencando parede à baixo. Uma vez travado nessa fenda, onde você já está rindo à toa, aí você percebe que não há mão para ficar em pé e colocar os pés dentro da fenda para ir caminhando para esquerda e tem que colar o corpo na parede e ir levantando de vagar, raspando seu nariz na pedra até se estabilizar, pelo menos foi isso que aconteceu comigo, e logo em seguida subir e ganhar a parada. (terceiro Lance) Quando me estabilizei na parada, clipando minha solteira (pedaço de fita preso ao corpo com um gancho na ponta, afff Maria, que explicação furreca !), o Alexandre e o Dema já haviam partido para a quarta enfiada. Esse lance é muito esquisito porque se faz todo praticamente caminhando ao lado de um abismo, junto à uma parede que se estende por uns 15 metros. Dali de onde estávamos eu e o Vinícius, já era possível avistar a imponência da CHAMINÉ DA UNHA, uma laca de pedra descolada da Agulha do Diabo, uma visão assombrosa e é melhor nem ficar pensando muito e apenas nos concentrar nos problemas presentes, deixemos o futuro para depois. Essa próxima enfiada é fácil, mas com uma grande exposição para quem guia e para quem vem por último na cordada e eu passo por ali com todo cuidado, primeiro me agarrando como posso para descer um pouco mais à baixo, depois seguindo lentamente, caminhando quase numa trilha de pedra até me grudar de vez ao chegar na parada com 2 “P” e é bom marcar bem esse lugar porque será aqui o penúltimo rapel para quando voltar. (quarto Lance) Até ali, a escalada estava fluindo numa perfeição espantosa, tudo afinado e alinhado. A subida seguia sempre a mesma linha, com o Alexandre guiando a corda, precedido pelo Dema e o Vinícius, tendo eu como o último homem a fechar a corda. Ganhávamos terreno rapidamente e cada vez mais íamos subindo, nos elevando metro a metro e foi nesse quinto lance que a gente começou a tomar ciência de que estávamos chegando perto dos enfrentamentos maiores. Aliás, esse lance não passa de mera caminhada, que vai se enfiando numa trilhazinha e subindo numa escalaminhada fácil, vira totalmente para a direita e sobe até uma espécie de gruta, que também não passa de um amontoado de pedras. Passa ao lado do Pico do Diabinhoque é uma formação rochosa belíssima e já te joga de frente para as “Chaminés em L “, hora de juntar a equipe novamente, tomar fôlego, beber um gole d’água e se preparar para ganhar altura de vez. Essa tal “Chaminé L”, que marca a sexta enfiada, é muito parecida com a chaminé do Dedo de Deus, com paredes largas e com boa aderência, a subida é bem no final dela, onde a parede se fecha, e sobre o teto despenca uma rocha entalada em formato de estalactites, aquelas formações que pendem dos tetos das cavernas. É preciso subir até essa formação, que não fica a mais de uns 4 metros de altura e alcançando-a, saindo para a direita, mas isso é tão óbvio porque não existe mesmo outro caminho. O Alexandre se pendura nessa parede, se agarra na estalactite, passa pelo buraco apertado e some das nossas vistas. Lá de baixo, eu o Vinícius e o Dema não conseguimos ver nada do que se passa depois disso e mal escutamos a voz do Alexandre que parte sozinho para essa passagem para a direita. O tempo vai passando e o “nosso guia” pouco dá sinal de vida, vez ou outra ouvimos sua voz sussurrando alguma coisa e acaba demorando para descobrirmos que a corda havia enroscado. Diante daquele imbróglio todo, resolvemos mandar o Dema atrás dele e para isso foi preciso que ele escalasse em livre, ou seja, sem nenhuma segurança, foi um risco, mas era o que tinha para o momento, mesmo porque era uma subida muito tranquila e não achamos que seria um risco tão grande. Uma vez que o Dema se juntou ao Alexandre, depois de algum tempo, a corda foi liberada e logo foi o Vinícius que se esgueirou parede acima e ganhou o alto, sumindo das minhas vistas e para o nosso azar, a corda voltou a enroscar novamente. O Vinícius teve que mudar novamente a instalação da corda para liberar a minha subida. Encostei as costas na parede esquerda da chaminé e finquei os dois pés na outra parede, mas logo notei que poderia fazer diferente: Meti o pé esquerdo no fundo da chaminé onde ela se eleva até o buraco de saída, junto à pedra entalada, e fui alternando os movimentos, como se subisse num batente de porta, mas agora com o pé esquerdo na parede do fundo e o direto na parede lateral. Não sei se esse estilo foi o melhor, só sei que rapidinho eu me agarrei na estalactite e me elevei para dentro do buraco e ressurgi para um outro mundo. Depois virei para a direita, que é o único caminho onde fica plano e é necessário encostar as mãos do lado direito e dar um pulinho maroto de menos de um metro, um pulo tranquilo, mas a prova de qualquer erro ou então é cair no vazio e virar carne moída de tanto que vai ralar nas paredes da chaminé. O Vinícius foi fazendo meu "segue" até que eu me juntei a ele onde uma paredinha final de uns três metros precisa ser escalada usando uma fita em um grande “P” para poder se elevar, agarrar em um arbusto e se jogar definitivamente para cima de um grande platô, cheio de árvores, onde de tão grande, poderia servir até para se montar um abrigo provisório. Nesse GRANDE PLATÕ foi instalada uma placa para homenagear os conquistadores de 1941, mas a importância daquele lugar vai muito mais além, ali naquele marco geográfico da escalada é o lugar onde vai se separar os homens dos meninos, é ali que se define quem vai ao cume ou quem definitivamente vai abraçar o fracasso , botar o rabo entre as pernas e bater em retirada, seja por incompetência técnica ou por incompetência na hora de montar a logística, fazendo com que ao se chegar aqui, já tenha extrapolado o tempo hábil para se ir ao topo. Essa pode ser considerada a anti-sala do inferno, é aqui que o diabo faz a sua triagem, separando os caras que tem ou não as condições de enfrentar o seu desafio derradeiro, uma vez tomada a decisão de seguir em frente, você acabou de colocar seu nome na roleta russa, ou é tudo ou é nada. O Alexandre fracassou aqui da outra vez, portanto agora para ele é tudo novidade e havia chegado a hora de enfrentar o tal CAVALINHO, uma passagem alardeada por muitos como sendo a parte mais complicada da escalada, é o sétimo lance, uma passagem por fora da montanha, uma fenda lateral que vai dar acesso a entrada da Unha do Diabo. A partir de agora todos as mochilas devem ficar ali no platô, todos devem esvaziar as suas mentes, sua bexiga e tudo mais que faça o sujeito entrar leve porque uma vez dentro da chaminé, até respirar será difícil. O Alexandre procura não perder tempo e quando vejo , ele já havia sumido das minhas vistas e quando chego à beira do abismo, só consigo ver parte do Dema já dentro da fenda , gemendo para conseguir se jogar para dentro da chaminé. (Cavalinho) Quando chega a vez do Vinícius, auxilio fazendo uma espécie de segundo "segue". Ele se apoia na costura na entrada da fenda fixada logo acima, enfia a perna esquerda e parte do corpo na grande rachadura e se pendura no vazio até se arrastar para a entrada da chaminé e com muita dificuldade consegue se jogar para dentro. Assim que o Vinícius se acomoda entre as paredes da Unha, dá o start para que eu comece a escalar. O problema de fechar a corda é ter que fazer alguns lances tão expostos quanto quem faz a guiada e aqui no Cavalinho é pior ainda, porque se houver uma queda, além do escalador despencar no vazio fazendo um pendulo monstro, ainda vai arrastar o cara que está dando "segui" de dentro da unha, porque mal é possível se mexer lá dentro. Me aproximo do abismo com muito cuidado e já me agarro à costura para manter o equilíbrio. Muitos escaladores dão a dica para se entrar nessa fenda deitado com a barriga para cima, ou seja, enfiando a perna direita e ir se arrastando de costas até chegar na entrada da chaminé e já entrar virado para o lado certo, mas para mim é uma grande bobagem, coisa de gente barriguda mesmo. Portanto, seguro firme na costura e enfio a perna esquerda dentro da fenda que num primeiro momento me deixa com metade do corpo pendendo no vazio e para contraria as dicas dos velhos escaladores, já me ponho a olhar para o abismo de uns 200 metros, mas para quem já esteve pendurado no lance da Maria Cebola no Dedo de Deus, aquilo nem causa vertigem. Colo o corpo à pedra e vou avançando fenda acima porque na realidade não é uma reta e sim uma diagonal e é necessário fazer força para se avançar. Ganho meio metro de terreno e o meu corpo já escorre para dentro da fenda e me entalo dentro do buraco. Que beleza! Aquilo foi mole, uma vez dentro do fundo da fenda só faço avançar lentamente e já caio direto no interior da GRANDE CHAMINÉ DA UNHA DO DIABO, para mim aquele cavalo não passou de um pônei. Claro, caí do lado errado, com as costas viradas para a Unha, quando o certo é estar com as costas na parede da Agulha, mas basta um contorcionismo indiano e já me junto aos meus companheiros, tentando buscar um melhor posicionamento num lugar tão estreito que mal se consegue virar o pescoço e quem sofre de claustrofobia, deve pensar muito antes de encarar esse desafio. Continuando com a analogia, uma vez dentro da Unha, você agora está no terreno do tinhoso, agora não tem mais volta. Naquele lugar frio e úmido, espremido feito uma mortadela no pão de forma, é preciso ter sangue frio para seguir em frente, no caso, seguir definitivamente para cima. Aquele colosso de pedra que marca o oitavo lance dessa escalada incrível, vai com certeza marcar a vida de qualquer homem metido a escalador e eu acho que não há ninguém que não saia dali transformado, pelo menos não se o cara for alguém chegado recentemente ao esporte ou até mesmo velhos escaladores, o certo é que ninguém sai indiferente. O Alexandre foi quem veio tocando toda nossa escalada até então, coube a ele a responsabilidade de abrir caminho guiando a nossa corda, fazendo desenrolar as encrencas que iam surgindo pela frente, e sem que ninguém se apresentasse para enfrentar o demônio de frente, coube também a ele arrombar as portas do inferno e dar início aos trabalhos de escalada da temida chaminé da Unha. O primeiro grande problema é conseguir sair do chão nessa chaminé, já é difícil até respirar lá dentro de tão apertada, imagina conseguir espaço para se elevar e se grudar às paredes, ainda mais para o Alexandre com estatura alta. A ralação inicial é de dar dó do coitado, mas ninguém disse que seria fácil. Aos poucos ele foi progredindo e quanto mais se sobe, melhor fica, porque a parede vai abrindo aos poucos. Logo ele chegou à primeira proteção da chaminé e estacionou numa grande fenda que serve como um patamar de descanso, o primeiro demônio havia sido vencido, mas uma legião de outros demônios estava à espreita, só esperando para o contragolpe final. (chaminé da Unha ) Lá embaixo, estacionados no fundo da Chaminé da Unha, Eu, o Dema e o Vinícius, não conseguíamos ver nada do que estava acontecendo com o Alexandre, porque como eu disse, o lugar é estreito e sobe em curva. O Alexandre fez de tudo, mas parecia mesmo que esse era um demônio que ele não estava a fim de encarar guiando. Também pudera, sua condição psicológica já deveria estar em frangalhos somada ao excesso de gasto energético ao qual tinha passado para trazer nossa corda guiando até o momento. Ele resmungava ao longe, como se tentasse levar os capetas guardadores de chaminé na conversa, mas não teve jeito e não houve reza e nem oração que fizesse com que deixassem o nosso amigo passar, seria preciso chamar alguém tão ruim quanto aqueles filhotes de satanás. Ainda lá embaixo, passando frio e apreensivos quanto ao rumo daquela “expedição”, três escaladores quase que brigavam para não ir, ou ao menos, não ser o primeiro a tentar salvar aquela escalada, já que o nosso principal guerreiro já estava meio fora de combate grudado na parede mais acima. Nessa luta do bem contra o mal, cada um se defende como pode e eu já usei minha arma principal, que é a de persuasão e logo tentei convencer que o DEMA era o cara perfeito para aquele enfrentamento, olha só que ironia, o mesmo cara que saiu desacreditado porque estava há muito tempo afastado da escalada. Mas o Dema foi o cara que se apresentou primeiro mesmo, parecia ser o cara mais confiante naquele momento e eu e o Vinícius torcíamos muito para que desse certo, senão teríamos que sair da nossa zona de conforto, que nem era tão confortável assim, e nós mesmo tentarmos fazer aquilo que a gente sabia que teríamos que fazer. Assim foi feito, com as nossas bênçãos, o Dema grudou naquela parede e subiu até onde estava o Alexandre e daí para a frente mal ouvíamos a conversa entre os dois, somente quando o Dema gritava para que os demônios que o atormentava fosse saindo do seu caminho é que ouvíamos a sua voz. O Alexandre auxiliava ele, mas ali não é a técnica que prevalece, é a força interior é a vontade de não cair e de permanecer grudado à parede, a vontade de chegar ao final da chaminé, e só o Dema poderia narrar esse sentimento, o certo é que quando ele gritou:" cheguei", o ecoo da sua voz chegou ao nossos ouvidos lá embaixo e houve um misto de felicidade e satisfação, era a certeza de que havíamos dado um grande passo para que aquela escalada terminasse com sucesso. Chegando na Ponta da Chaminé da Unha, o Dema puxou o Alexandre, fazendo o "segue" dele e quando esperávamos que seria a nossa vez de nos juntarmos aos dois, o próprio Alexandre pediu que esperássemos porque não havia mais lugar lá encima e que primeiro faria a proteção para que o Dema fosse ao cume e nos esperasse lá, era mais do que justo. Quando o Vinícius partiu de vez, foi que me vi só naquele mundo hostil, encravado no meio de um vale selvagem, quase no cume de uma das formações rochosas mais espetaculares do todo o planeta. O Vinícius chegou ao topo da unha, não sei como, não sei de que maneira, não sei que tipo de enfrentamentos teve nesse seu martírio, só sei que quando ele gritou que o "segue" já estava pronto e que eu poderia subir, não deu nem tempo de fazer o sinal da cruz porque a ansiedade era tanta que eu já estava a uns dois metros do chão, totalmente inebriado pelo aquele momento mágico. No começo a subida parece impossível, mas pensando bem, mesmo apertado e quase que usando os dentes para conseguir ganhar altura no início, é muito melhor do que o que estava por vir. Logo chego à primeira proteção, onde consigo encaixar os pés e tomar fôlego, tiro a corda da costura e ao olhar para cima ainda me dou conta que faltam uns 15 ou 20 metros de chaminé, Jesus! Naquela Chaminé dos infernos pouco importa se você está guiando ou se está indo de "segue", ali os seus demônios interiores vão te colocar à prova. Quando meus pés deixaram aquele ultimo patamar e virei com as costas agora para pedra da unha, foi como se todos os demônios pulassem para cima dos meus ombros. Milímetro a milímetro fui vendo aquela parede passar diante dos meus olhos e o demônio da dor foi o primeiro a tentar me derrubar pelo tornozelo, já bastante inchado pela torção na trilha de acesso. Me concentrei o máximo que pude, as pernas tremiam e a cada metro ganho, mais infeliz eu ficava porque via o chão cada vez mais distante. “Não quero cair, não vou cair, sai pra lá cão dos infernos, cadê o fim disso meu Deus do céu? ‘ Minha cabeça parece girar, não quero olhar pra baixo, mas é o instinto ou é a tentação do além que me força a fazer isso. A cada metro subido, a chaminé vai ficando mais larga e mais difícil de se sustentar, já perdi a concentração, mas continuo mirando somente a costura que está acima da minha cabeça, não quero nem saber, vou me agarrar nela quando lá chegar, mas quando lá chego, ela já ficou para baixo dos meus olhos e nem serve mais para nada mesmo, só faço seguir adiante confiando que o Vinícius ainda vai estar lá para me receber e não o chifrudo guardião do lugar. Na hora que minhas duas mãos tocam a aresta afiada do topo da CHAMINÉ DA AGULHA DO DIABO e prendo minha solteira nos cabos de aços que vão levar ao estirão final, mentalmente dou uma banana para aquele diabólico abismo em forma de chaminé. “ Não foi dessa vez que vocês nos venceram, seus desgraçados! Sentei-me ali na ponta da Agulha na companhia do Vinícius, já que o Alexandre também havia partido para o cume. Aliás, a visão do estirão final até o cume é algo impressionante, uma ponta de pedra lisa e que se não fosse a instalação de um potente cabo de aço, seria impossível ir ao cume dessa montanha. O tempo está perfeito, mal ventava nesse dia, lá encima muito mais quente que dentro daquela chaminé. Tomei folego, apreciei a paisagem ao redor e quando a “segui” vindo dos meninos do cume ficou pronta, me grudei aos cabos de aço e clipei minha solteira para o derradeiro lance antes da conquista final. (subida final) Esse é o nono lance, o que antecede o cume, e olhando para ele você acha que vai ser uma moleza e que vai passar com os pés nas costas. Eu também achei e me lasquei bonito, porque entrei nele todo displicente, somente pensando no topo e por isso mesmo fui com tanta sede ao pote que levei um escorregão e dei um tranco nos braços. Aquela pedra é extremamente lisa, é preciso procurar as aderências certas e botar uma força descomunal, além de ter que ir passando a sua solteira de um lado para o outro até que finalmente consigo avistar o Dema e o Alexandre junto à caixa do livro de cume. Estava definitivamente vencido os 2050 metros da AGULHA DO DIABO e quando lá cheguei, já não havia mais nenhum diabo para chutar a bunda, os meninos já haviam feito o serviço sujo e quando o Vinícius se juntou a nós, foram calorosos os abraços de comemoração, havíamos conquistado o PENHASCO FANTASMA, como era conhecida essa montanha nos seus primórdios. O topo é minúsculo, mas muito maior do que havia sido alardeado por outros escaladores, tanto que depois ouvimos uma história de que alguém havia acampado no cume com uma barraquinha e se o topo não é lá grande coisa, a paisagem ao redor é grandiosa. Para muitos estar no cume daquela montanha lendária poderia ser somente mais uma escalada, mas para nós era mesmo uma grande honra, como eu havia dito, não somos pertencentes as comunidades de escaladores tradicionais, somos mais um grupo de amigos do interior Paulista que um dia ousou se juntar para aprender os rudimentos da escalada e olha só aonde fomos parar. Aquilo era incrível, quanta montanha linda ao nosso redor, quantos abismos colossais, que paisagem fenomenal ! ( Cume) Já passava das cinco da tarde e era preciso parar de sonhar e voltar ao mundo dos homens, muito porque, subir é só a metade do caminho e já é sabido que a maioria dos acidentes acontecem nas descidas. Assinamos o livro de cume e já demos início ao primeiro rapel que num primeiro momento vai nos devolver até o topo da unha. A descida do cume da Agulha do Diabo até topo da chaminé da unha é um dos piores rapeis que eu já enfrente na vida. É necessário descer a pedra lisa, atrelando a solteira ao cabo de aço porque é muito grande a chance de se escorregar e fazer um pendulo que vai rodopiar no vazio. A gente vai descendo e a força da gravidade vai te jogando para fora da pedra, te empurrando, como se quisesse te chutar para fora da montanha. Uma vez no topo da unha da chaminé, o segundo rapel não é por dentro dela e sim por fora, uma descida não muito melhor que anterior e só não é pior porque alguém serve como anjo lá embaixo, guiando a corda para fora dos abismos até que se chegue em segurança no platô da unha, juntamente enfrente de onde está a placa homenageando os conquistadores. Quando desclipo a corda e me achego ao próximo rapel, o terceiro em questão, nem encontro mais o Alexandre e o Dema, que já desceram com a outra corda e já vão se encaminhado e adiantando o caminho. Nesse terceiro rapel vamos descer direto do platô da unha até a entrada inicial das chaminés em “L”, bem de frente para o pico do Diabinho, o que vai nos fazer cortar todo o caminho. Quando o Vinícius fecha a descida, ajudo ele enrolar a corda e juntos já pegamos a trilha, passamos novamente por dentro da caverninha e descemos até onde termina a quarta enfiada, aquele lance que você caminha beirando a parede rochosa. Nesse ponto encontramos dois “P” e nele já vemos a corda instalada que vai se enfiar por dentro de um mato e esse será o quarto e penúltimo rapel. Ao chegarmos ao patamar mais abaixo, agora sob a luz das nossas lanternas, finalizamos o último rapel, o quinto e descemos todos em segurança aos pés da Agulha do Diabo, perfazendo assim quase sete horas de escalada entre subir e descer. ( Pico do Diabinho) Conquistada aquela montanha, agora era preciso sair vivo daquele buraco. Sem muitas delongas já estávamos de volta à Gruta da Geladeira, mas ao invés de nos enfiarmos no buraco no teto e voltarmos para útero da nossa mãe, aproveitamos um “P” instalado encima da gruta e improvisamos um rapel até o chão e sem perder tempo fomos descendo aquele vale de pedra no escuro, escorregando nos patamares rochosos até chegar na curva que vai nos levar de volta para cima. É uma subida de matar mula, coisa que nem nos demos conta quando estávamos descendo, talvez pela ansiedade da escalada, mas agora é um tormento. Aquilo é praticamente outra escalada e a canseira e o sono vão tomando conta da gente e quando saímos desse racho da montanha e nos vimos na parte plana, foi como se tirássemos uma tonelada das nossas costas. O Alexandre ia à frente porque conhecia mais a trilha e sem que nos descemos conta, pegamos uma bifurcação errada. Gritei para o Alexandre que estávamos confusos e ele murmurou algo sem sentido e eu acabei indo parar numa falsa trilha, descendo em um mato alto e me perdendo e aí tive que varar um capim no peito e subir trepando um barranco íngreme e enquanto fazia isso, ia fazendo elogios à mãe do Alexandre por não ter nos esperado naquele trecho. Interceptamos a trilha da descida final e logo caímos morto novamente no Acampamento Paquequer. Ao chegarmos ao Paquequer, o Alexandre já foi dizendo que não ia acampar ali de jeito nenhum, que ali era muito úmido e que ia passar um frio do cão. Eu por mim teria desmaiado por ali mesmo, mas como o Vinícius e o Dema também não quiseram enfrentar a “tirania” do Alexandre, pouco me importei e quando eles levantaram a bola de fazer uma janta quente antes de partirmos para talvez acamparmos no gramado do Abrigo 3, eu já estava com o fogareiro ligado tostando o bacon. Já era bem tarde quando partimos e deixamos aquele vale para trás. Escalamos as rampas de pedra até o mirante, nos embrenhamos na mata morro acima até saírmos de vez na trilha principal que desce da Pedra do Sino e nos pomos a caminhar mais rapidamente, agora com a visão deslumbrante das luzes de Teresópolis no vale. Ao chegarmos no Abrigo 3, um infeliz dos infernos teve a ideia de querer continuar a caminha a fim de bivacarmos na grande toca que fica há mais ou menos uma hora do final da caminhada. Nessa hora eu já não tinha mais vontade de dar opinião nenhuma, eu era só um zumbi tomado pela vontade de ver o fim daquela aventura terminar em algum lugar que pudesse esticar o esqueleto. Caímos de vez novamente naquele zig-zag irritante e uma hora depois, ao pararmos para tomar um folego, já havíamos tocado o foda-se e decidido não dormir em mais nenhuma toca, iríamos sair do parque seja lá que hora fosse. A madrugada já ia alta e a gente ainda estava presos naquela trilha e pior, até os caras novinhos não faziam outra coisa senão a de amaldiçoar aquele caminho. Teve uma hora que o grupo se dispersou. Minha lanterna já não clareava mais nada e eu mal enxerguei quando a tal gruta passou ao meu lado. Eu já nem caminhava mais, meu pé já parecendo uma bola, apenas fazia com que eu me arrastasse em transe e não demorou muito para o Alexandre me ultrapassar e me por na condição de fiofó de tropa. Pensei em parar, sentar, deitar um pouco para aliviar os pés e as dores nas costas por causa da mochila, mas não estava querendo passar atestado de molenga, tinha uma reputação a zelar e quando ouvi o barulho de água me animei um pouco e tirei forças para desembocar de vez no asfalto da barragem, já dentro da sede do Parque Nacional da Serra dos Orgãos e sem perder tempo já descemos pelo asfalto até onde havíamos deixado o carro estacionado. Passamos pela portaria do Parque, demos baixa na nossa saída e ganhamos a estrada e voltamos novamente ao posto de gasolina aos pés do Escalavrado, chegando depois das 2 da manhã, 20 horas depois de termos partido daquele mesmo ponto. Ninguém queria saber de nada e eu muito menos, tanto que quando me deitei em um lugar qualquer naquele posto de gasolina, já ameacei de morte o primeiro cara que inventasse de me acordar antes das oito da manhã. Quando o dia amanheceu e o sol ameaçou nos despejar, pegamos nosso caminho e voltamos para a nossa aldeia , perdido num canto esquecido do interior Paulista. Na semana que antecedeu a escalada, a maioria teve insônia e a ansiedade tomou conta de praticamente todo mundo. Naquele momento cada qual travava uma batalha ferrenha, era uma guerra silenciosa contra os seus próprios demônios interiores. Parece ter ficado claro que todos os tais demônios narrados nesse relato, nada tem a ver com personagens malignos, tirados de qualquer religião, é tão somente a materialização dos nossos medos, das nossas angustias, das nossas frustrações. Temos medo do fracasso, medo de não dar conta da empreitada que nos propusemos a realizar, medo de falhar e por consequência, nos quebrar, mas quando esses medos são domados, esses demônios exorcizados, aí a gente cerra os punhos e comemora a vitória, aí a gente volta para casa feliz, porque a luta valeu a pena, descobre que não vencemos só uma montanha, mas vencemos a nós mesmos. E aquela AGULHA nem era tão do Diabo assim, haja vista que nos fez voltar para casa com um belo sorriso no rosto, nos fez voltar para casa muito mais satisfeitos, porque juntamos um grupo de velhos amigos num só objetivo: Escalar uma das mais incríveis montanhas do mundo e celebrar a vida. Divanei Goes de Paula - julho/2018 NOTA IMPORTANTE: Esse relato foi escrito de uma forma simples para que as pessoas que não são ligadas a escalada possam enterder, muito porque, eu mesmo sou apenas um montanhista que aprendeu os rudimentos da escalada para poder ir ao cume de montanhas como a Agulha do Diabo e o Dedo de Deus, portanto, se você é escalador profissional ou graduado, leve isso em consideração antes de tecer elogios a minha mãezinha (rsrsrrsr) . Abraços a todos.
  15. HUACACHINA - PERU Pela janela do ônibus vão nos saltando aos olhos uma paisagem desoladora, como se uma guerra nuclear tivesse destruído e acabado com tudo. Minha esposa já havia me interpelado uma dezena de vezes o porquê de estarmos nos dirigindo para o sul do Peru, numa paisagem feia de dar dó , ainda mais depois de termos passado uma dezena de dias espetaculares, com paisagens de sonhos, junto à Cordilheira Branca , na região de Huaraz. Me mantive firme no meu propósito e ao invés de deixar que o desânimo tomasse conta de mim, me concentrei no outro lado do ônibus , onde o Oceano Pacífico insistia em nos dizer que o deserto não era tão feio quanto parecia. Mas não era a paisagem natural que nos assolava a alma e sim as construções e habitações dos povoados e pequenas cidades, casas cobertas de palha ou sem uma cobertura de telhado, apenas uma laje apinhada de tranqueiras e ferros espostos, coisa feia de se ver, toda empoeirada, numa sujeira desgostosa, praticamente sem nenhuma árvore. A falta de telhado era mais do que justificável, muito porque estávamos em meio ao deserto, onde praticamente não chove e mesmo na capital do país não há telhados, não como temos no Brasil. O ônibus que pegamos custou uma ninharia, não mais que 25 reais para 6 horas de viagem, mas foi pegando gente a laço pelo caminho, num sobe e desce interminável e mesmo no outono, fazia um calor dos infernos, sem ar condicionado ou qualquer outra mordomia, mas era o preço pela economia. Vendedores entravam a todo momento, vendendo de tudo que se possa imaginar, principalmente comida e petiscos, alguns com uma cara muito boa, outros nem tanto. Já era começo de tarde quando desembarcamos em ICA, uma cidade até grande se comparada ao porte dos vilarejos que passamos, mas o trânsito caótico, com carros barulheiros e tuk-tuk espalhados para todos os lados. Com as cargueiras gigantes nas costas, fruto das bugigangas compradas na Cordilheira, saímos à procura de um restaurante para almoçar, mas se tem uma coisa que peruano gosta, é comer, e achar algo vazio que conseguisse nos atender foi quase impossível. Minha mulher já estava emputecida pela situação, pela viagem extremamente cansativa, mas muito mais pela paisagem, do qual ainda não compreendia porque havíamos andado tanto para ver coisa alguma que prestasse. Por fim, resolvi logo abandonar Ica e me dirigir para o nosso destino, o objetivo daquela viagem, e embarcamos no primeiro taxi que nos abordou, uma lata velha caindo aos pedaços, que por uns 8 reais, chacoalhou por 5 km até nos desovar no meio do Deserto, num vilarejo cercado de Dunas Gigantes e com uma lagoa no meio e as caras carrancudas, deram lugar a um sorriso de orelha a orelha em meio à uma das mais belas paisagens do mundo, HUACACHINA era nossa. O Oásis é um lugar turístico e como tal, também pratica preços muito acima de outros lugares no Peru, ainda mais por ser fim de semana, mas foi só dar uma volta no minúsculo lugar para conseguir algo que coubesse no nosso bolso. O problema é que as coisas são tão baratas no Peru, que já havíamos nos acostumados com um padrão de preço e os 80 reais pagos na hospedagem nos pareceu uma fortuna, mas quando entramos no hotel e nos deparamos com uma acomodação chic , com banheira e até uma cozinha, minha esposa se alegrou de uma tal maneira que acabei achando que foi barato e comparado as hospedagem no Brasil, foi mesmo uma pechincha. Tomamos banho e fomos conhecer o vilarejo. As dunas são as mais altas do nosso continente e é quase impossível tirar os olhos delas, numa paisagem surpreendentemente diferente de tudo que vimos na vida. O lago e suas palmeiras dão um charme especial, ainda que hoje digam que ele é abastecido artificialmente. Como é um lugar turístico, é todo cercado de lojas, bares, hotéis, agências de turismo e todo tipo de comércio. Como é final de tarde, todo mundo se dirige para o alto de alguma duna para apreciar o pôr do sol, mas nós estávamos bem cansados e deixamos isso para o dia seguinte. Outra coisa que é um sucesso por ali é o passeio de bug, mas não são esses bugs mequetrefes que temos no litoral do Brasil não, são monstros construídos para destruir as dunas, mas nós mesmo não estávamos a fim de chacoalhar pelo deserto, já estávamos acostumados com nosso modesto 4 x 4 e em se tratando de emoção, nosso NIVA não ficava devendo nada para aqueles transformes peruanos. Depois que jantamos eu já deslumbrei dar a volta nas dunas no dia seguinte, coisa que minha mulher caiu fora, não passava pela cabeça dela levantar às 6 da manhã para escalar dunas de areia. Então no outro dia bem cedinho, apanhei minha mochilinha, coloquei uma garrafa d’água, uma máquina fotográfica, um lanche e assim que ganhei a rua, já enfiei os pés na areia e fui ganhando altitude. Mas era um passo para cima e dois passos para trás e mesmo ainda sendo nas primeiras horas da manhã, a areia fervia de tão quente e me senti um beduíno no meio do deserto. Aquela era a primeira experiência minha escalando uma duna e não demorou nadica para perceber que acabei subestimando aquele monumento natural. A areia quente começou a fritar meus pés e como estava apenas de sandálias, comecei a ficar desesperado. Parava às vezes e cavava um buraco na areia, tentando buscar um terreno menos quente, mas isso pouco resolvia, então a única coisa que consegui pensar foi a de colocar nos pés numa capa de saco de dormir que acabou ficando dentro da mochilinha e um saco de batatas fritas aluminado, aí eu já estava no desespero, meus miolos já haviam fritado também ou eu chegava logo no topo da duna ou tava morto. Do alto da grande muralha de areia o mundo se modificou. Lá embaixo o Oásis de Huacachina parecia uma pintura de um quadro e ao meu redor, o deserto parecia ter me introduzido dentro de um romance passado no Saara. O vento levantava uma areia fina e mesmo o sol queimando meus pés, ainda assim o encanto era maior que aquele sofrimento momentâneo. Cavei um buraco ainda maior e nele me enfiei, dando alívio aos meus pés e assim tive um maior conforto para apreciar aquela paisagem que talvez eu jamais veja novamente, talvez não com aquela proporção. Mas a minha intenção era a de dar a volta no oásis, então peguei minha mochilinha, tomei um gole d’água e parti, agora caminhando em nível, galgando as lombadas do terreno até que ser obrigado a abandonar a duna e quebrar à direita em direção aos bugs estacionados perto de um outro pequeno oásis. Perco altura lentamente, mas logo sou obrigado a despencar barranco à baixo porque a areia quente volta a fritar meus pés. O sofrimento recomeça e me vejo em desespero novamente, mas dessa vez o negócio ficou sério, então corro feito um calango do deserto até que chego à sobra de um dos bugs gigantes. Poderia muito bem abandonar aquela caminhada e a partir dali, voltar novamente para o hotel seguindo a trilha de areia que desce ao vilarejo, mas não vou arregar tão cedo. Continuo subindo até que passo pela caixa d’água instalada nesse selado de dunas, tomo um fôlego, ajeito a proteção tosca que havia colocado nos pés e sigo subindo até que alcanço de vez o cume mais alto daquele mostro de areia. São impressionantes o tamanho e a altura dessas dunas, de onde posso avistar povoados distantes, perdido num mundo árido e seco, sem árvores e totalmente desolados. Mas é justamente isso que torna esse oásis tão espetacularmente belo, é um sopro de vida no meio do caus. Minha água acabou, o sol já destrói minha pele, mas mesmo assim continuo caminhando, agora em nível sobre o cume da duna, quase completando os 360 graus ao redor de Huacachina, mas antes que esse ciclo se feche, resolvo fazer algo inusitado: despencar da duna mais alta do nosso continente, ao invés de ir perdendo altura lentamente em direção ao vilarejo. Aos saltos e aos pulos, vou escorregando rapidamente, quase sem controle e quando a força da gravidade resolve fazer troça da minha pessoa, perco o controle totalmente e saio rolando desgovernadamente. Uma hora vejo o céu, outra hora vejo areia, outra hora o topo da duna, outra hora já não vejo mais nada. Meus olhos, meu nariz, minha boca foi tomada pela areia fina. Minha mochila e minhas sandálias se perderam nas dunas e eu virei passageiro do além e do acaso. Miséria dos infernos!!!! Sou um homem humilhado. Me levanto da surra e procuro saber onde estou e quem sou eu e logo um monte de turistas, que estão passando nos pés das dunas me fazem recobrar a memória. Os japoneses ficam rindo e apontando para mim e eu apenas faço cara de paisagem, viro as costas e volto a subir a duna atrás dos meus pertences, só não encontrei minha dignidade. Recolho tudo e volto a descer até chegar a um chafariz no vilarejo, onde aproveito para lavar meus olhos, enquanto eu próprio não me contenho e caio na gargalhada com o ocorrido. Quando chego de volta ao hotel, sou obrigado a me jogar dentro de uma banheira de águas frias e por lá ficar até que meus pés se acalmem das queimaduras e eu consiga me livrar de toda areia que foi entrando em cada orifício. Resolvido o problema, saímos para um passeio mais demorado. É possível nadar no lago ou mesmo andar com umas canoas ou pedalinhos, mas eu queria mesmo era experimentar uma descida de sandboard, uma espécie de surf na areia, onde você pode alugar uma prancha pagando míseros 5 reais por 1 hora. Eu já havia feito isso uns 20 anos atrás nas praias da Joaquina em Florianópolis, mas havia me esquecido que não era tão fácil parar em pé como eu pensava e só fiz cair naquela desgraça, rolar sem rumo e encher meus olhos e meu nariz novamente de areia. Mas já que havia fracassado no surf de areia, ficamos por lá para assistir ao pôr do sol, isso sim era sucesso garantido. Huacachina é mesmo especial, um lugarzinho legal para descansar , experimentar umas comidinhas diferente ou simplesmente não fazer nada e como não fazer nada já começa a me irritar, tratamos logo de pegar nossas tralhar e picar a mula para outras paragens, fomos rumo ao Oceanos Pacífico, lá para as bandas de Paracás, outro lugarzinho lindo, com caminhadas e pedaladas para belas praias de águas geladas, onde pelicanos fazem sua morada, mas essa é outra história, o certo é que uma viagem ao Peru tem a capacidade de mudar sua visão de mundo para sempre, ninguém vai ao Peru e volta a mesma pessoa.
  16. Lugar para acampar selvagem ali é que não falta, por hora pode ter problemas por causa da pandemia, mas depois é ir e escolher onde botar a barraquinha,
  17. VALE DO RIO RIO PURUBA- Serra do Mar Paulista Na calma e serena foz do Rio Puruba, onde ele se junta ao Quiririm, na praia de mesmo nome, canoas caiçaras vão e vem, fazendo a travessia de banhistas que não querem se dar ao trabalho de atravessar o rio com a água pela cintura. A praia do Puruba figura entre as mais belas praias do litoral de Ubatuba, se mantendo ainda selvagem e quase que isolada e é justamente por abrigar dois grandes rios que ali faz sua foz, que a torna uma das mais charmosas praias do litoral do Brasil. Quem por lá passa e se dá ao deleite de desfrutar desse paraíso, jamais consegue imaginar a fúria que o Puruba exerce sobre os contrafortes da Muralha da Serra do Mar, se jogando em cânions gigantescos num dos maiores desníveis do litoral Paulista. E é nesse cenário, com o mundo se acabando em chuvas, que nove homens tentam escapar do inferno em que se meteram, tentando atravessar o monstro ruidoso, da sua nascente até o litoral, entre pedras que rolam, abismos escorregadios, torrentes de águas avassaladoras. E é com homens à beira do limite físico e emocional, que essa história vai se desenrolar, uma aventura para poucos, no coração da Selva Paulista. (Abaixo Praia do Puruba) ( Os Exploradores - Divanei,Thiago,Flórido,Régis,Rafael,Vagner,Potenza,Luciano e Júlio) O GRANDE Rio Puruba nasce aos pés do ALTO GRANDE (1662 m), na divisa Cunha, Paratí e Ubatuba, uma montanha que marca o CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA, na sua porção litorânea, inclusive essa mesma montanha foi oficialmente medida por nós na Expedição de 2019 (https://aventurebox.com/divanei/travessia-alto-grande-x-espelho-cume-da-serra-do-mar-sp/report ) , onde deixamos também um livro de cume, tanto no Alto Grande, quanto na Pedra do Espelho, outro ícone da região. É incrível poder atravessar o Puruba com não mais que um palmo de água, mas depois ele vai crescendo, ganhando outros afluentes e serpenteando floresta à dentro por uns 10 km até se jogar abruptamente do Planalto Paulista em direção à Planície litorânea. ( Foz do rio Puruba- foto tirada em outra caminhada)-https://aventurebox.com/divanei/travessia-picinguaba-x-puruba-10-praias-em-ubatuba-sp/report A intenção de desbravar o Vale do Rio Puruba, nasceu na minha cabeça muitos anos atrás, mas só voltou à tona depois que conhecemos o Thiago e o Flórido, dois andarilhos do extremo litoral norte e quando fechamos o projeto, coube a eles a incumbência de irem lá nos Campos de Cunha, no alto da serra, investigar o caminho que nos levaria às bordas da Serra do Mar, onde o grande rio se joga em direção ao litoral. Se juntaram aos dois exploradores o menino Júlio e quando voltaram da missão, trouxeram na bagagem um caminho pronto até o grande Lago Superior, um ponto que marcamos no mapa como crucial para iniciarmos a descida. Foram meses de discussão sobre esse projeto e no final acabamos por formar um grupo bem heterogêneo, tanto que eu cheguei a confessar para alguns em off, que essa descida iria separar homens de meninos, devido à dificuldade da empreitada. O desnível do rio era algo que talvez a gente jamais tivesse enfrentado antes e como era um grupo com alguns ainda sem aquela experiência mais consistente, a chance de haver dificuldades seria realmente enorme, mas pelo menos estávamos todos animados e bem preparados quanto aos equipamentos de segurança. Formado o grupo, partimos em uma Van da Rodoviário do Tietê, na capital Paulista, em direção à Cunha e ao longo do trajeto, fomos colocando a conversa em dia e revendo os planos traçados e quando lá chegamos, na alta madrugada, ainda tivemos que rodar por mais 30km, boa parte numa estradinha de terra, até que essa estrada já não tivesse mais condições de prosseguir motorizados. Nos pomos a caminhar na escuridão da noite e quando interceptamos uma mansão em reforma no alto de um morro, não tivemos dúvidas, nos jogamos para dentro dela e por lá ficamos, descansando o esqueleto até que o sol se levantasse e nos dissesse que era hora de partir. Nove homens animadíssimos seguem a passos firmes e decididos, ainda mais por termos sido surpreendidos com um dia ensolarado daqueles, muito porque, a previsão era de chuvas intensas durante quase todo o feriado de Carnaval, mas aquela belezura de tempo não duraria muito. Vamos atravessando sítios e porteiras, campos e pastos, fugindo de vacas invocadas, até que adentramos na mata fechada e começamos a descer em direção a um afluente do Rio Puruba e ao tropeçarmos com uma cachoeirinha, resolvemos seguir por dentro dele até que ele interceptasse o próprio Puruba, justamente no lago que havíamos marcado como referência. Foi uma caminhada rápida e nosso relógio marcava pouco depois das dez da manhã, a primeira parte do nosso objetivo estava cumprido com sucesso. Como previu a meteorologia, o tempo virou repentinamente, mas nem o sol da manhã foi capaz de diminuir a vazão do rio que se mantinha cheio e bufando. Do lago encontrado, partiu uma discreta trilha descendo na margem direita do rio, talvez usada por caçadores e palmiteiros, mas quinze minutos depois ela abandona o rio e vai morrer mais acima e é nessa hora que o Puruba vai se jogar nos abismos da serra, hora de abandonarmos também a tal trilha e nos jogarmos junto com o rio para um mundo desconhecido e sombrio. Desse ponto em diante, vamos entrar no coração da Serra do Mar, onde provavelmente ninguém tenha pisado e se pisaram, foram tão poucos que não contaram para ninguém. O vazio se apresentou à nossa frente, um abismo medonho, donde teríamos que nos valer de uma rampa escorregadia para acessarmos a primeira queda do rio. Já logo me espanta a cara de horror feita pelo Rafael, olhos arregalados diante do problema que se apresentou à nossa frente , querendo continuar subindo pela trilha, sem nem saber para onde o caminho iria dar, mas foi preciso lembra-lo qual era o objetivo daquela expedição e sem ter o que fazer, ele se jogou atrás de nós e foi escorregando floresta a baixo, resmungando e amaldiçoando o desgraçado que resolveu tomar aquele caminho e essa reclamação era totalmente procedente porque por pouco, alguns não foram rolar barranco a baixo diante daquela parede íngreme. Quando chegamos de volta ao rio, junto a uma cachoeira, nos posicionamos no seu patamar, na cabeceira de outro abismo e ali vimos a chuva chegar de vez e nos avisar que aquela expedição seria muito mais difícil do que esperávamos. Mesmo assim, ainda nos mantínhamos confiantes de que se passássemos pelo quilometro inicial, poderíamos ter êxito, mas ainda sabedores que era algo que talvez jamais tivéssemos enfrentado nesses anos de expedições selvagens. Abandonamos a primeira queda e pela direita fomos perdendo altitude, mas o terreno resolveu nos dar as boas-vindas de vez: Pedras e mais pedras rolavam ao menor toque e faziam com que os que iam mais abaixo, tivessem que se esquivar para não serem atingidos. Aos trancos e barrancos, conseguimos descer ao próximo lance, de onde uma CACHOEIRA enorme despencava. É preciso dizer que foi até aqui que o grupo que fez a primeira incursão exploratória chegou e batizaram-na de VAPOR BARATO, uma alusão a uma água que era aspersada ao bater em um tronco de madeira preso no meio da queda. Era realmente uma queda extraordinária, mas sem um grande poço do qual pudéssemos nadar, além do mais, a temperatura com a chuva começou a baixar e só um ou outro maluco se deu ao trabalho de se enfiar embaixo dela para uma foto mais ousada. A chuva chegou de vez, não uma chuvica molha bobo, mas um dilúvio que era amparado pela floresta antes de despencar nas nossas cabeças. Abaixo da Cachoeira Vapor Barato, decidimos que teríamos que cruzar o rio para seu lado esquerdo, aliás, essa decisão já havia sido tomada em casa com bases nas curvas de nível da carta topográfica. Com uma corrente humana, tentando proteger para que ninguém do grupo virasse pica-pau sem barril, passamos um a um em meio a água extremamente gelada e na tentativa se salvar as bolas, alguns quase que levitaram, mas por causa da profundidade e da correnteza, não molhar as costas já era lucro. O rio era simplesmente um funil desabando no abismo profundo e ter que escalar barranco foi se tornando a regra daquela travessia. Tínhamos que subir e ao chegarmos a certa altura, mandávamos uma diagonal de volta para o leito, mas pelo tamanho dos matacões que formavam seu curso, ficava quase impossível desescalar e tocava a gente voltar para as paredes gigantes e escorregadias, sempre tentando encontrar os melhores caminhos até retornarmos para a água. Interceptamos mais uma grande cachoeira de onde o rio se jogava em fúria. Infelizmente não havia poços para os mais ousados nadar e os que ainda tinham coragem e pouco juízo, se metiam de meio corpo dentro da cortina d’água, mas eu mesmo só olhei, já estava sofrendo com as baixas temperatura e não queria correr o risco de ter que gastar mais energia para tentar reaquecer o corpo. Descemos um pouco mais de rio, perdendo altitude vagarosamente, nos metendo embaixo de grandes pedras e passando com a água quase acima da linha da cintura, mas sempre atentos com a possibilidade de o rio subir mais ainda e nos arrastar. Os obstáculos iam sendo vencidos, metro a metro, centímetro a centímetro, mas chegou uma hora que o rio simplesmente nos empurrou de volta para as paredes rochosas novamente. O grupo estava cansado e não era nem três da tarde, mas os esforços iam minando a energia da gente e a chuva gelada nos jogava para um caminho perigoso, porque parte do grupo parecia já não conseguir mais gerar calor. O terreno simplesmente não ajudou, não conseguíamos mais voltar para o leito do rio e a cada subida, crescia a ansiedade de alguns e quando o caminho chegou ao fim num abismo, foi preciso parar e pensar numa solução: Raramente carregamos equipamento de rapel, às vezes uma cordinha de duas dezenas de metros para uma descida mais perigosa, mas dessa vez o Júlio resolveu carregar uma corda de rapel de uns 30 metros e alguns equipamentos. Na beira do barranco de uns 20 metros, decidimos que era hora de instalarmos a corda para voltarmos para o rio. Instalada a corda, o Vagner foi o primeiro a se pendurar, mas dispensou quaisquer outros equipamentos e se pendurou daquele fio molhado e despencou com mochila e tudo. O Júlio perguntou se eu precisava que ele montasse o freio e eu vendo que o Vagner desceu sem, apenas respondi que iria descer no “modo sertanista”, na mão mesmo. Me agarrei à corda molhada e me posicionei com os pés paralelo ao barranco, olhar firme, corpo ereto, passadas decidias de um explorador das antigas. Mas não demorou muito para sentir o peso da mochila e da gravidade a me puxar para o fundo do barranco. A mão começou a queimar, mesmo com luva, o braço já quase não dava mais conta. As pernas tremeram, enrolei a corda na mão direita, cair já era o que estava tendo, mas quando eu já havia dado a parada como perdida, uma raiz veio ao meu socorro e meio minuto depois eu estava em segurança, caído em meio a lama, aos pés daquela parede sombria. Ia mandar o Vagner se fuder por não ter me avisado daquela decida dos infernos, mas logo vi que ele próprio teve que descer com seu satanás pendurado às costas, então me contive e avisei para o Júlio que os próximos deveriam descer de rapel, não deveriam seguir nosso exemplo. Fui confabular com o Vagner sobre a possibilidade de acharmos rapidamente um lugar para acamparmos, porque do jeito que estávamos, capaz de sofrermos algum acidente grave, diante do frio que todos estavam sentindo, já em estado de semi-hipotermia. Mal acabei de terminar minhas considerações, foi quando ouvimos um grito ecoando da parede: Pendurado feito um siri no pau, menino Luciano gritava desesperado por ajuda, com as pernas balançando no ar, na iminência de despencar da parede. Eu não sabia se ria ou se acudia o companheiro: - O filho da puta, não te avisaram que era para descer no rapel? - Vai se fuder Diva, me ajuda a descer daqui, caralho! Todos os outros vendo que a gente já havia se lascado, desceram presos à corda e quando estávamos todos juntos, resolvemos que não haveria como prosseguir, mesmo diante de um terreno cretino, seria hora de montarmos acampamento. O frio era tanto que alguns não conseguiam nem se mexer mais, era hora de pôr em pratica nossas habilidades de improviso e torcer para que parte daquela parede não desabasse na cabeça de ninguém durante a noite, já que a chuva resolveu mostrar quem manda naquele pedaço isolado do mundo. Árvores que prestasse não havia. Apesar de haver árvores gigantes, eram esparsas, em um terreno inclinado à beira de outro patamar que havia mais abaixo de nós. A chuva varria tudo por lá, uma lava nojenta sob nossos pés, mal nos deixava parar em pé. Cada qual tentava se virar como dava, amarrando suas redes e cobrindo com toldo, mas fazendo um serviço dos mais porcos possíveis, parecíamos principiantes na arte de acampar com redes. Sem achar nada que prestasse, eu e o Régis resolvemos montar nossas redes juntas, no estilo beliche. Tentamos jogar a lona primeiro, mas ela era curta e não havia lugar para amarrar as cordinhas e tudo que tentávamos fazer, dava errado. Eu já havia perdido a capacidade de pensar, o frio já havia tomado conta. Regis tentou de tudo quanto é jeito e quando a tenda ficou de pé, foi que vi que aquilo não passava de uma grande merda e que a gente estava mesmo era fudido. Fudido e mal pago. Deixei o Régis e fui tentar achar outra solução, ou eu saia da chuva imediatamente ou sucumbiria ao frio daquele final de tarde. Desci ao patamar mais abaixo e lá encontrei dois pés de pau, um arremedo de arvore e lá estiquei meu toldo. Me joguei para debaixo dele e retirei a roupa molhada, vesti uma seca e instalei minha rede, tirei meu saco de dormi e me joguei para dentro dele e lá fiquei, tentando me aquecer. A chuva não dava trégua. O toldo não aguentou, foi empapando até que começou a pingar água para todos os lados e meia hora depois, meu saco de dormir já estava completamente úmido. Havia combinado de fazer a janta com o Régis, mas acabei apagando e nem vi a noite cair, nem fiquei sabendo como o grupo mais acima havia se virado, só sei que o Régis havia se dado bem mal e não demorou muito, veio chorar as pitangas na minha tenda. - O Diva, tá tudo molhado cara, tudo ensopado, uma lama só . A cara de desespero do Régis era de dar dó, o aventureiro forte e destemido de outrora, agora havia se transformado num menino assustado, aquela cara de quem não sabia o que estava fazendo ali naquele inferno molhado. Era um homem murcho, encolhido, destruído pelas agruras do tempo. - Olha Diva, vou te dizer uma coisa, eu avisei que com essa previsão de tempo iria dar merda, que a chance de dar errado era grande e olha a situação que a gente se meteu, não dá Diva, puta que o pariu. Me deu vontade de rir, confesso que ver o Régis naquela situação acabou sendo engraçado, muito porque, eu mesmo estava na mesma situação dele, éramos passageiros da mesma canoa furada e só me contive em perguntar se ele queria que fizesse uma janta. - Não, vou comer qualquer coisa fria mesmo. Melhor assim, nem me dei ao trabalho de sair mais da rede e mesmo todo molhado, por lá fiquei, no meu sofrimento individual, torcendo para acordar vivo no outro dia. E esse outro dia nasceu, sem chuvas, mas ainda embaçado. Foi mais uma noite de cão, daquelas para entrar para história. Voltei ao patamar superior e lá fiquei sabendo que os caras passaram, como eu, uma noite no inferno. O grupo estava destroçado, alguns desbocados amaldiçoavam a noite mal dormida, xingando os palavrões mais cabeludos, menos o Thiaguinho, menino bem-nascido, de uma polidez nórdica, apenas se conteve em dizer uma frase que entraria para os anais das conversas fiadas das travessias selvagens na Serra do Mar: - Noite difícil, hen Potenza?!(rsrsrsrsrsrsrrssr) Enquanto alguns tomavam café, descemos até as barrancas do Puruba para verificar se já seria possível continuar por dentro do rio, mas o encontramos tão furioso quanto a tarde anterior. O jeito foi traçar uma diagonal longa, passar ao lardo, um pouco mais acima, quase que margeando a uma distância de pouco mais de 50 metros. O terreno continuava de difícil navegação , mas encontramos um bom corredor plano, quase uma crista longa que nos fez avançar muito e logo achamos um jeito de voltarmos ao rio novamente. Mais uma cachoeira afunilada se apresentou à nossa frente e como havia uma grande rocha plana, aproveitamos para comer alguma coisa, enquanto alguns malucos se enfiavam embaixo da cortina d’água. Não nos demoramos muito por lá e logo ganhamos novamente o barranco, porque passar pelo rio ainda estava fora de cogitação. Nesse dia deixamos a cargo do Alan Flórido, a navegação, já que ele é quem tinha um gps e pode ir olhando melhor as curvas de nível do terreno, mas tinha horas que quem estava à frente exagerava em querer subir mais que o necessário e aí tínhamos que intervir e deixar bem claro que o intuito daquela expedição era seguir sempre pelo rio ou ao menos perto dele. O dia foi passando numa velocidade impressionante e cada vez que consultávamos o gps, percebíamos que mal havíamos saído do lugar, estávamos avançando muito devagar e a todo momento, uma voz se levantava insistindo de que o rio seria sempre o melhor caminho. Voltamos ao rio, mas para isso foi preciso descer uma parede muito íngreme, aliás, cada vez mais, íamos nos metendo dentro de grandes paredões e nos sentindo presos, como a nos enfiarmos num caminho sem volta. No rio, outras cachoeiras iam despencando afuniladas, nos indicando que ainda estávamos envoltos em uma encrenca das grandes. Analisando o terreno, vimos que seria hora de voltarmos para a margem direita, mas cruzar a torrente de água não estava fácil. Montamos uma operação com uma corda, afim de que um trouxa se apresentasse para tentar o salto suicida e como o Júlio foi o primeiro a levantar as mãos, amarramos a corda à sua cintura e esperamos que ele sobrevivesse sem ser arrastado para queda d’água, mas ao pular e tentar nadar com todas suas forças, foi levado perigosamente para as beiradas do vazio e logo a galera se apressou em puxá-lo de volta. O Júlio ficou puto, deu esporro em todo mundo, dizendo que ele iria conseguir e que lhe puxaram a corda quando ele já estava chegando ao outro lado, mas não quisemos nem saber de conversinha, ninguém estava a fim de se ariscar ali, então enrolamos a corda e voltamos a escalar paredões novamente, a fim de ganhar altura, pegar uma nova diagonal e voltar para o rio mais abaixo, para procurar uma passagem onde ninguém corresse o risco de morrer. Pelo menos a chuva deu uma cessada, mas o mormaço acabou aquecendo um pouco nossos miolos, ainda mais tendo que a todo momento, ficar tendo que subir paredes onde o esforço físico ia quebrando parte do grupo ao meio. Numa tentativa desesperada de voltarmos novamente ao rio, tivemos que despencar em mais uma parede vertiginosa e quando lá chegamos, conseguimos finalmente avançarmos por dentro da água, cruzando por baixo de matacões imensos e nos enfiando dentro de grutas de granito até que novamente fomos barrados por uma sequência de quedas. Não eram quedas altas, longe disso, mas descê-las parecia algo muito ariscado, então nos juntamos para tentar uma solução, já que à nossa frente, duas paredes laterais nos pareceu quase intransponíveis. O Vagner e o Flórido tentaram ver se era possível atravessar o rio, mas concluíram que a correnteza era muito forte para passar e voltaram dizendo que a parede do lado direito tinha quase 90 graus de inclinação e mesmo que conseguíssemos passar, ficaríamos presos do outro lado. Eu e o Júlio ficamos conversando sobre a possibilidade de, com a ajuda de uma corda, descermos por dentro do rio, mas sabíamos que seria uma atitude meio que suicida e só faríamos isso quando não houvesse outra opção. Por outro lado, a parede da esquerda era mais promissora, talvez fosse possível escalar a uns 3 ou 4 metros do chão e conseguir uma passagem para o outro lado e de lá, tentar ganhar um caminho para prosseguir, mas essa nossa ideia foi rechaçada de imediatamente por parte do grupo, então só nos restou mesmo, tentar retroceder e tentar fazer o que a gente fazia, que era subir a montanha , ganhar uns 100 metros de altura e descer na diagonal mais à frente, nos livrando de mais essa garganta do rio. Retrocedemos não mais que 20 metros e começamos a subir uma parede gigantesca, junto a um pequeno afluente, na tentativa de cruzá-lo mais acima e ganhar a direita de vez, mas o caldo foi entornando, o terreno cada vez mais instável, ia cedendo a cada passo dado e quando ganhamos uma altitude considerável, percebemos que a transposição para ganharmos o restante da parede era impossível, porque uma parede com mais de 50 metros de altura se erguia abruptamente. O esforço físico para lá chegar havia sido descomunal e alguns já começavam a dar sinais de exaustão e agora seria preciso nos afastarmos para a esquerda e tentarmos ganhar mais altitude ainda e essa atitude deixou alguns ainda mais preocupados. O dia passando e a gente preso na parede, subindo sem parar e nada de conseguirmos uma diagonal para direita. Era uma subida quase que inútil e alguns, já começaram a protestar com quem ia à frente porque achavam que era hora de ariscar e abandonar aquela estratégia que não estava nos levando a lugar nenhum. Os mais putos com o destino que aquela expedição estava tomando erámos eu e o Júlio e por mais que a gente vociferasse com quem fazia as vezes de guia, eles pareciam não nos ouvir, até que um dos homens caiu prostrado no chão, com a língua de fora, fazendo mais ânsia que gato com uma bola de pelo na garganta. O Rafael quebrou, chegou ao seu limite físico e emocional, estava acabado e para piorar, praticamente já estávamos sem água, pendurados numa parede há centenas de metros do rio. A situação dele parecia bem delicada, não que já não tivéssemos vistos outros exploradores abrir o bico nas inúmeras expedições, mas dessa vez estávamos numa jornada que exigiria o máximo de cada um e naquele momento específico, onde tentávamos desesperados arrumar uma maneira de prosseguir, a coisa ficava ainda pior. Numa breve reunião, resolvemos que seria melhor dividirmos parte da bagagem do Rafa com o resto do grupo, porque do jeito que ele se encontrava, naquela subida sem fim, ele não conseguiria seguir em frente. Metade do seu peso foi parar nas nossas mochilas e mesmo assim, o Rafael empacou, estacionou seu corpanzil avantajado e como uma vaca que atolou no brejo, recusou-se a continuar. - Olha gente, vou dizer uma coisa, essa é a última expedição que faço com vocês, nunca mais me chamem para essas Expedições desgraçadas. Com uma só frase, Rafael anuncia ali, de supetão, para todo mundo ouvir, que acabara de se aposentar e para provar que não estava brincando, começou a distribuir parte do seu equipamento, presenteando alguns amigos com o que lhe era desnecessário naquele momento e prometendo outros equipos quando estivesse a salvo, na civilização. Mesmo com o Rafa doente, era preciso seguir, porque ainda não me passava pela cabeça, outra coisa que não fosse terminar aquela travessia até o litoral. A subida se deu a passos lentos, e cada metro que ganhávamos, parecia que mais nos complicávamos no roteiro. À frente do grupo, feito uma cabra cega, Flórido e Thiaguindo não nos dava ouvidos, quando pedíamos para tentar desviar o rumo para a direita e parar de subir, porque tínhamos que tentar cruzar para o outro lado e achar de qualquer jeito uma maneira de voltarmos para o rio, mas logo a gente sacou qual era a deles, haviam decidido tentar outra rota e voltar para Cunha, via crista da montanha. Tivemos que parar para dar um rumo para aquela EXPEDIÇÃO. O Rafa não progredia de jeito nenhum, mas alguns de nós ainda tentávamos convencê-lo de que se alcançássemos parte da crista, poderíamos pegar uma longa descida de volta para o Puruba, alcançando a cota 450, onde achávamos que poderíamos seguir tranquilamente até a praia, mesmo com o Rafa naquela situação. Mas a conversa não evoluiu e o Flórido bateu o pé, queria porque queria voltar para o topo da serra ou seja: DAR POR ENCERRADA AQUELA EXPEDIÇÃO. Eu e o Júlio protestamos veementemente, não queríamos abandonar nada, queríamos seguir. Um ou outro, mesmo que timidamente, tentaram ser solidário com nós dois, mas outros não moveram uma palha para tentar persuadir parte do grupo a prosseguir com a Expedição. Eu compreendia que tínhamos um companheiro quase fora de combate, que vez por outra vomitava diante do grande esforço físico, mas achávamos que ainda não era hora de jogar a toalha, talvez pudéssemos descer novamente ao rio e tentarmos passar por onde fomos barrados ou mesmo ganhar a crista e continuar descendo, o que não aceitávamos era a derrota sem luta. Mas não teve jeito, parte do grupo estava irredutível e uma outra parte se omitiu. O Júlio estava transtornado, mandou todo mundo se fuder, chamou parte do grupo de cuzões e propôs que eu e ele seguíssemos na travessia. -Olha Júlio, mesmo eu discordando dessa posição de abandonar a expedição, não poderia abandonar o grupo, mesmo sabendo que poderiam seguir muito bem sem a gente e voltariam para casa em segurança, mas se algo acontecesse, teríamos que carregar essa culpa nas costas, então já que o grupo decidiu e estão irredutíveis, o jeito é engolir esse fracasso, enfiar o rabo entre as pernas e tentar voltar com um grupo mais homogêneo de uma próxima vez. Claro que o Júlio não aceitou, continuo bem puto pelo resto do dia. Mas se aquela expedição havia chegado ao seu fim e tínhamos um integrante doente, não fazia sentido continuar aquele sofrimento, sem água e subindo até sei lá onde, então combinamos de subir só até encontrarmos um bom lugar para acampar, para recolocarmos as ideias no lugar. Mais 40 minutos, foi o tempo que levamos nos arrastando até perto de uma crista, na verdade, uma hora abaixo dela, num selado mais plano onde árvores mais espaçadas nos deu a condição de montarmos nossas redes. Com o fracasso já engolido e conformados com nosso destino, pouco a pouco o grupo foi voltando a se animar e depois de uma janta quentinha, já nem lembrávamos mais das discussões acaloradas do meio de tarde e já que estávamos ali, era hora de celebrar a vida e a amizade, que era mais importante que qualquer descida de rio. Um pouco de chuva a noite, nos deu um pouco de água para um café e assim que desmontamos tudo, partimos para o topo da crista. O Objetivo era, ao atingir o seu cume, azimutar uma direção direto para o grande poço do Rio Puruba, o mesmo que havíamos encontrado logo no início da expedição e aí interceptar novamente o afluente que havíamos descido, subi-lo e voltar para a civilização, novamente nos Campos de Cunha. A caminhada foi retomada e mesmo sendo logo pela manhã, as dificuldades não mudaram devido a inclinação do terreno. Era uma subida interminável e mesmo já tendo passado a frustação do dia anterior, ainda havia um resquício de desgosto por estarmos abandonando aquela travessia, mas algo mudaria completamente o ânimo daquele grupo: Ao chegarmos no topo da crista, o terreno arrefeceu e ao percorrermos por sua planitude, agora no sentido de Cunha, uma clareira nos chama atenção e quando para lá corremos, fomos surpreendidos com um espetáculo então INIMAGINÁVEL. Estávamos bem encima de um Pico, uma montanha com vistas largas e surpreendentes para todo o litoral. Aos nossos pés, um Oceano qualhado de praias e horizontes abertos, pontilhado por ilhas, num cenário de tirar o fôlego. Estávamos encantados, alguns até eufóricos diante daquela beleza toda. Era possível avistar um mar de florestas, de onde o próprio Rio Puruba serpenteava como uma grande cobra, emoldurando toda a planície litorânea e lá estava, surpreendentemente, a famosa cratera de Ubatuba, onde pesquisadores acreditam que um meteoro de grandes proporções se chocou com a Serra do Mar, milhões de anos atrás. (Pico Puruba - Cratera de Ubatuba) Diante daquele cenário deslumbrante, cada qual pegou seu assento, seu lugar favorito, para poder guardar na memória aquele momento único e muitos já nem lembravam mais das agruras daquela expedição, que não havia chegado nem perto de atingir o objetivo proposto, mas por hora, havia conseguido aplacar um pouco da frustação que lhes consumia, se não à todos, pelo menos a parte mais exigente do grupo. Para marcar aquela conquista, que acabou se dando por puro acaso, resolveram batizar aquele pico com o único nome possível, uma homenagem àquela vale que acabava de nos vencer momentaneamente, PICO DO PURUBA (1200 m) , é assim que deve ser chamando e assim que deverá constar no mapa das montanhas selvagens de Ubatuba e da Serra do Mar Paulista. A visão era hipnotizante, mas ainda tínhamos o objetivo de encontrar o caminho de volta para casa, ou seja, voltarmos para a parte superior do rio, próximo ao grande lago de onde partiria nossa trilha para a civilização. Seguimos agora pela crista da montanha, varando mato e outros bambus irritantes, tomando o caminho dado pelo gps e por suas curvas de nível e quando uma direção nos foi favorável, mudamos de rumo até cairmos na própria calha do rio Puruba, pouco abaixo do grande poço, umas corredeiras, donde agora o rio corria cristalino, translucido e como já se aproximava da hora do almoço, resolvemos parar e aproveitar para um bom banho e para prepararmos um rango. Ali nos demoramos um bom tempo, jogando conversa fora e aproveitando o sol , admirando a beleza do rio , tentando digerir tudo que havia acontecido naquela Expedição, fazendo um balanço e as vezes lavando uma roupa suja, conversando sobre o que nos levou ao fracasso e qual lição havíamos tirado daquela jornada. Atravessamos o rio e partimos apressadamente até que, uns 15 minutos depois, interceptamos o grande poço e começamos a voltar pelo afluente e logo que trombamos com a cachoeirinha, abandonamos ela em favor de uma trilha que nos levou rapidamente para os campos abertos e os pastos cercados por montanhas arredondadas, pontilhadas por pinheiros e outras araucárias e um pé à frente do outro, nos devolveu à estradinha rural. Quase uma hora de caminhada nos levou até o casarão que havíamos acampado na primeira madrugada e lá conhecemos um nativo, proprietário de uma fazenda local às margens do Rio Paraíbuna, na sua porção córrego e ele nos ofereceu um abrigo momentâneo até que conseguíssemos entrar em contato com uns taxis que poderia nos tirar da área rural e nos levar até Cunha ou Taubaté. Mas não foi só um abrigo que ele nos deu, nos presenteou com um café que mais pareceu um banquete, onde quase morremos de tanto comer, nos deliciando com as maravilhas da roça, com direito a leite tirado direto da vaca. Enquanto os taxis não apareciam, ficamos encantados com as histórias contadas pelo fazendeiro, algumas de cair o queixo, outras difíceis de acreditar, tipo o dia que ele matou 12 catetos com apenas 12 cartuchos ou a cobra tão grande que deixaria qualquer anaconda no chinelo, sem contar os 300 kg de linguiça para um só acampamento, que serviu de acompanhamento para umas 15 pacas assadas. (É mentira Teca ? VERRRRDADE! ) Rsrsrsrsrsrsrrsrsrss Já era noite quando conseguimos voltar para Taubaté, de lá alguns afortunados, a elite do grupo, conseguiu achar um carro que os levou de volta para Capital, mas a ralé, a parte à margem da sociedade, resolveu dormir na rodoviária, jogados ao chão, feito mendigos e quando o dia nasceu, pegaram os ônibus para suas comunidades, uns para São Paulo e eu para minha aldeia, perdida no interior do Estado. Fica aí o relato e a descrição da nascente de um rio importante do Litoral Norte Paulista, por hora esse é o único registro de um grupo que chegou tão longe e conseguiu avançar naqueles desfiladeiros monstruosos. Alguns desses homens voltam para casa com o certificado de aposentadoria na bagagem, outros carregam ainda dentro de si a esperança de ver todo o mistério desvendado e ainda não se deram por vencidos. O maior aprendizado de tudo isso é que entramos juntos e saímos juntos, um protegendo o outro, demos muitas risadas e mesmo nos momentos mais difíceis, soubemos aguentar firmes e mantermos o grupo unido. Mais de 2 meses depois, nesse exato momento que escrevo esse relato, o mundo passa por uma transformação que jamais pensávamos passar. Uma pandemia mundial, com um vírus mortal, devasta parte da humanidade e corpos são empilhados em todos os cantos do mundo. Nosso sonho de descer novamente o Puruba, teve que ser adiado, sabe-se lá para quando, tudo é incerto, nem sabemos se vamos sobreviver para lá voltarmos, mas se vivos estivermos, vamos juntar o grupo novamente e da próxima vez, com a previsão do tempo favorável, a vitória vai ser certa, vamos celebrar mais essa conquista e o prazer de continuarmos vivos, explorando um mundo fantástico, resumido em florestas, rios e montanhas quase virgens, numa das mais fascinantes Serras do mundo.
  18. @schitini Estando em Huaraz, ir ao PASTOTURI vale a pena sim, como preparação para aclimatação, caminhada curta e acima de 5.000 .
  19. HUACACHINA - PERU Pela janela do ônibus vão nos saltando aos olhos uma paisagem desoladora, como se uma guerra nuclear tivesse destruído e acabado com tudo. Minha esposa já havia me interpelado uma dezena de vezes o porquê de estarmos nos dirigindo para o sul do Peru, numa paisagem feia de dar dó , ainda mais depois de termos passado uma dezena de dias espetaculares, com paisagens de sonhos, junto à Cordilheira Branca , na região de Huaraz. Me mantive firme no meu propósito e ao invés de deixar que o desânimo tomasse conta de mim, me concentrei no outro lado do ônibus , onde o Oceano Pacífico insistia em nos dizer que o deserto não era tão feio quanto parecia. Mas não era a paisagem natural que nos assolava a alma e sim as construções e habitações dos povoados e pequenas cidades, casas cobertas de palha ou sem uma cobertura de telhado, apenas uma laje apinhada de tranqueiras e ferros espostos, coisa feia de se ver, toda empoeirada, numa sujeira desgostosa, praticamente sem nenhuma árvore. A falta de telhado era mais do que justificável, muito porque estávamos em meio ao deserto, onde praticamente não chove e mesmo na capital do país não há telhados, não como temos no Brasil. O ônibus que pegamos custou uma ninharia, não mais que 25 reais para 6 horas de viagem, mas foi pegando gente a laço pelo caminho, num sobe e desce interminável e mesmo no outono, fazia um calor dos infernos, sem ar condicionado ou qualquer outra mordomia, mas era o preço pela economia. Vendedores entravam a todo momento, vendendo de tudo que se possa imaginar, principalmente comida e petiscos, alguns com uma cara muito boa, outros nem tanto. Já era começo de tarde quando desembarcamos em ICA, uma cidade até grande se comparada ao porte dos vilarejos que passamos, mas o trânsito caótico, com carros barulheiros e tuk-tuk espalhados para todos os lados. Com as cargueiras gigantes nas costas, fruto das bugigangas compradas na Cordilheira, saímos à procura de um restaurante para almoçar, mas se tem uma coisa que peruano gosta, é comer, e achar algo vazio que conseguisse nos atender foi quase impossível. Minha mulher já estava emputecida pela situação, pela viagem extremamente cansativa, mas muito mais pela paisagem, do qual ainda não compreendia porque havíamos andado tanto para ver coisa alguma que prestasse. Por fim, resolvi logo abandonar Ica e me dirigir para o nosso destino, o objetivo daquela viagem, e embarcamos no primeiro taxi que nos abordou, uma lata velha caindo aos pedaços, que por uns 8 reais, chacoalhou por 5 km até nos desovar no meio do Deserto, num vilarejo cercado de Dunas Gigantes e com uma lagoa no meio e as caras carrancudas, deram lugar a um sorriso de orelha a orelha em meio à uma das mais belas paisagens do mundo, HUACACHINA era nossa. O Oásis é um lugar turístico e como tal, também pratica preços muito acima de outros lugares no Peru, ainda mais por ser fim de semana, mas foi só dar uma volta no minúsculo lugar para conseguir algo que coubesse no nosso bolso. O problema é que as coisas são tão baratas no Peru, que já havíamos nos acostumados com um padrão de preço e os 80 reais pagos na hospedagem nos pareceu uma fortuna, mas quando entramos no hotel e nos deparamos com uma acomodação chic , com banheira e até uma cozinha, minha esposa se alegrou de uma tal maneira que acabei achando que foi barato e comparado as hospedagem no Brasil, foi mesmo uma pechincha. Tomamos banho e fomos conhecer o vilarejo. As dunas são as mais altas do nosso continente e é quase impossível tirar os olhos delas, numa paisagem surpreendentemente diferente de tudo que vimos na vida. O lago e suas palmeiras dão um charme especial, ainda que hoje digam que ele é abastecido artificialmente. Como é um lugar turístico, é todo cercado de lojas, bares, hotéis, agências de turismo e todo tipo de comércio. Como é final de tarde, todo mundo se dirige para o alto de alguma duna para apreciar o pôr do sol, mas nós estávamos bem cansados e deixamos isso para o dia seguinte. Outra coisa que é um sucesso por ali é o passeio de bug, mas não são esses bugs mequetrefes que temos no litoral do Brasil não, são monstros construídos para destruir as dunas, mas nós mesmo não estávamos a fim de chacoalhar pelo deserto, já estávamos acostumados com nosso modesto 4 x 4 e em se tratando de emoção, nosso NIVA não ficava devendo nada para aqueles transformes peruanos. Depois que jantamos eu já deslumbrei dar a volta nas dunas no dia seguinte, coisa que minha mulher caiu fora, não passava pela cabeça dela levantar às 6 da manhã para escalar dunas de areia. Então no outro dia bem cedinho, apanhei minha mochilinha, coloquei uma garrafa d’água, uma máquina fotográfica, um lanche e assim que ganhei a rua, já enfiei os pés na areia e fui ganhando altitude. Mas era um passo para cima e dois passos para trás e mesmo ainda sendo nas primeiras horas da manhã, a areia fervia de tão quente e me senti um beduíno no meio do deserto. Aquela era a primeira experiência minha escalando uma duna e não demorou nadica para perceber que acabei subestimando aquele monumento natural. A areia quente começou a fritar meus pés e como estava apenas de sandálias, comecei a ficar desesperado. Parava às vezes e cavava um buraco na areia, tentando buscar um terreno menos quente, mas isso pouco resolvia, então a única coisa que consegui pensar foi a de colocar nos pés numa capa de saco de dormir que acabou ficando dentro da mochilinha e um saco de batatas fritas aluminado, aí eu já estava no desespero, meus miolos já haviam fritado também ou eu chegava logo no topo da duna ou tava morto. Do alto da grande muralha de areia o mundo se modificou. Lá embaixo o Oásis de Huacachina parecia uma pintura de um quadro e ao meu redor, o deserto parecia ter me introduzido dentro de um romance passado no Saara. O vento levantava uma areia fina e mesmo o sol queimando meus pés, ainda assim o encanto era maior que aquele sofrimento momentâneo. Cavei um buraco ainda maior e nele me enfiei, dando alívio aos meus pés e assim tive um maior conforto para apreciar aquela paisagem que talvez eu jamais veja novamente, talvez não com aquela proporção. Mas a minha intenção era a de dar a volta no oásis, então peguei minha mochilinha, tomei um gole d’água e parti, agora caminhando em nível, galgando as lombadas do terreno até que ser obrigado a abandonar a duna e quebrar à direita em direção aos bugs estacionados perto de um outro pequeno oásis. Perco altura lentamente, mas logo sou obrigado a despencar barranco à baixo porque a areia quente volta a fritar meus pés. O sofrimento recomeça e me vejo em desespero novamente, mas dessa vez o negócio ficou sério, então corro feito um calango do deserto até que chego à sobra de um dos bugs gigantes. Poderia muito bem abandonar aquela caminhada e a partir dali, voltar novamente para o hotel seguindo a trilha de areia que desce ao vilarejo, mas não vou arregar tão cedo. Continuo subindo até que passo pela caixa d’água instalada nesse selado de dunas, tomo um fôlego, ajeito a proteção tosca que havia colocado nos pés e sigo subindo até que alcanço de vez o cume mais alto daquele mostro de areia. São impressionantes o tamanho e a altura dessas dunas, de onde posso avistar povoados distantes, perdido num mundo árido e seco, sem árvores e totalmente desolados. Mas é justamente isso que torna esse oásis tão espetacularmente belo, é um sopro de vida no meio do caus. Minha água acabou, o sol já destrói minha pele, mas mesmo assim continuo caminhando, agora em nível sobre o cume da duna, quase completando os 360 graus ao redor de Huacachina, mas antes que esse ciclo se feche, resolvo fazer algo inusitado: despencar da duna mais alta do nosso continente, ao invés de ir perdendo altura lentamente em direção ao vilarejo. Aos saltos e aos pulos, vou escorregando rapidamente, quase sem controle e quando a força da gravidade resolve fazer troça da minha pessoa, perco o controle totalmente e saio rolando desgovernadamente. Uma hora vejo o céu, outra hora vejo areia, outra hora o topo da duna, outra hora já não vejo mais nada. Meus olhos, meu nariz, minha boca foi tomada pela areia fina. Minha mochila e minhas sandálias se perderam nas dunas e eu virei passageiro do além e do acaso. Miséria dos infernos!!!! Sou um homem humilhado. Me levanto da surra e procuro saber onde estou e quem sou eu e logo um monte de turistas, que estão passando nos pés das dunas me fazem recobrar a memória. Os japoneses ficam rindo e apontando para mim e eu apenas faço cara de paisagem, viro as costas e volto a subir a duna atrás dos meus pertences, só não encontrei minha dignidade. Recolho tudo e volto a descer até chegar a um chafariz no vilarejo, onde aproveito para lavar meus olhos, enquanto eu próprio não me contenho e caio na gargalhada com o ocorrido. Quando chego de volta ao hotel, sou obrigado a me jogar dentro de uma banheira de águas frias e por lá ficar até que meus pés se acalmem das queimaduras e eu consiga me livrar de toda areia que foi entrando em cada orifício. Resolvido o problema, saímos para um passeio mais demorado. É possível nadar no lago ou mesmo andar com umas canoas ou pedalinhos, mas eu queria mesmo era experimentar uma descida de sandboard, uma espécie de surf na areia, onde você pode alugar uma prancha pagando míseros 5 reais por 1 hora. Eu já havia feito isso uns 20 anos atrás nas praias da Joaquina em Florianópolis, mas havia me esquecido que não era tão fácil parar em pé como eu pensava e só fiz cair naquela desgraça, rolar sem rumo e encher meus olhos e meu nariz novamente de areia. Mas já que havia fracassado no surf de areia, ficamos por lá para assistir ao pôr do sol, isso sim era sucesso garantido. Huacachina é mesmo especial, um lugarzinho legal para descansar , experimentar umas comidinhas diferente ou simplesmente não fazer nada e como não fazer nada já começa a me irritar, tratamos logo de pegar nossas tralhar e picar a mula para outras paragens, fomos rumo ao Oceanos Pacífico, lá para as bandas de Paracás, outro lugarzinho lindo, com caminhadas e pedaladas para belas praias de águas geladas, onde pelicanos fazem sua morada, mas essa é outra história, o certo é que uma viagem ao Peru tem a capacidade de mudar sua visão de mundo para sempre, ninguém vai ao Peru e volta a mesma pessoa.
  20. Trevas, escuridão, sede, fome, GPS inutilizado, água podre até o pescoço, lama para todo lado e numa fila de 5, dois otários se revezam, um na ponta e o outro fazendo às vezes de cu de tropa. Eu e o Vagner juramos um dia nunca mais pormos nossos pés novamente nas Restingas de Bertioga e agora nos encontrávamos justamente no lugar que prometemos nunca mais voltar. Havíamos partido quase 4 dias atrás para desvendarmos os mistérios de um rio Selvagem, descobrindo sua nascente, no longínquo Planalto Paulista e percorrendo-o até quase a sua foz, já na Planície litorânea e para escapar da fúria dos índios, resolvemos nos meter em mais essa furada, varando mato, mas nunca imaginávamos que, mais uma vez, o alagadiço litorâneo pudesse nos humilhar daquele jeito. Luciano Carvalho e os biólogos Fiorotto e Plácido, são os outros 3 trouxas que deixaram se levar pela ânsia da aventura e agora pagam o preço pela ousadia e com certeza, irão sair dessa empreitada mais bicho que homem. Há uma angustia grande sobre as costas de cada um daqueles aventureiros, são homens que ainda não desistiram porque não lhes sobrou essa opção, cientes de que é preciso continuar lutando, seguindo, navegando, mesmo que a saída não lhes pareça possível tão cedo. A ideia de fazer uma Expedição completa do Rio Silveiras, surgiu quando resolvemos subir a lendária Pedra da Boracéia e na verdade, naquela ocasião, o projeto inicial era subir a montanha e já despencar para o litoral utilizando o próprio rio como caminho, mas com um tempo curto e um grupo grande, acabamos por deixar esse plano para depois e desmembrar a travessia em duas partes, então subimos a Boracéia e voltamos pelo planalto mesmo, deixando o Silveira para uma próxima. Com a chegada do tempo quente, resolvemos que em novembro seria a vez de investir no Silveiras, mas o chamado de um amigo para outro rio icónico da Serra do Mar, nos fez mudarmos os planos e tentar juntar os grupos, mas o tempo virou e a previsão nos dava chuvas torrenciais para a região desse outro rio e aí um impasse se instalou: Metade queria continuar com o projeto, mas a outra metade achava que seria suicídio com aquele aguaceiro todo, principalmente no primeiro dia, que era o mais complicado. Conversas e debates acalorados começaram a dividir o grupo de vez, uns queriam ir, outros não, foi aí então que ressurgiu a possibilidade de retornamos os planos para o Rio Silveiras, já que o primeiro dia poderia ser feito com chuvas e a partir do segundo dia, a meteorologia já nos daria tempo bom para podermos enfrentar as gargantas. Egos inflamados e picuinhas desnecessárias de quem não quis abrir mão das suas convicções, fizeram o grupo rachar em três. A divisão ficou entre os que queriam descer um rio, entre os que aceitavam fazer o Silveiras e os que já não estavam a fim de fazer porra nenhuma. No fim, de quase 15, alguns picaram a mula e de um lado sobraram 5 para o Silveiras e outros 3 para o rio inicial e assim foi dado o start com dois grupos distintos, que um dos participantes rotulou em: Grupo dos Fudidos e Grupo dos Coxinhas, nós do Silveiras acabamos sendo esse segundo, claro, porque segundo ele, havíamos arregrado para o plano inicial, paciência, aceitamos a brincadeira e deixamos rolar.(rsrsrsr) O planejamento do Silveiras estava pronto, a intenção era ganhar o coração da floresta subindo o mesmo Rio do Alegre que nos deu acesso para uma rota inédita até o cume da Pedra da Boracéia e a partir da cabeceira desse rio, varar mato por uns 2 km até onde eu imaginei ter encontrado sua nascente, mas sem aquela certeza, então seria mesmo uma incógnita, um tiro no escuro achar essa nascente e a partir daí, despencar nas gargantas profundas e cânions vertiginosos até a planície litorânea, realizando um caminho inédito, uma verdadeira Expedição selvagem. Às nove da noite, na estação Tatuapé do metrô, lá me encontrava , sentado perto das catracas, quando apareceu os 4 cavaleiros do apocalipse com suas mochilas às costas e aí me juntei a eles e seguimos para a Estação Estudante, em Mogi das Cruzes. A chuva já havia dado novamente as caras e foi debaixo de um aguaceiro que tomamos o ônibus que vai para Salesópolis, que rodou um quarto do planeta até nos desovar bem no entroncamento com a ESTRADA DA PETROBRAS, fim de mundo perdido, junto a um boteco fechado, já que a noite já ia pela sua metade. Havíamos combinado o transporte com um taxista, velho conhecido de outra expedição, mas a notícia de que ele talvez não poderia nos levar para o nosso destino, começou a nos preocupar, ainda mais quando o Luciano fez menção de pegar o ônibus e retornar para São Paulo. Esses jovens parecem meio impacientes, querem resolver tudo de supetão, mas eu estava mais que decidido esperar o quanto fosse possível para por aquela expedição em prática e para nossa sorte, não levou nem 15 minutos e o taxista apareceu, e nos atiramos dentro do taxi, que saiu com lotação acima do permitido e fomos nos perder lá para as bandas do Bairro dos Pintos, 15 km de estrada de terra até sermos enxotados para fora do veículo, mas não sem antes morrer com uma garoupa, pagamento pelos serviços prestados. O Vagner era o cara que havia decorado o caminho de acesso para a trilha que nos levaria até o Poço Bonito, um atrativo do Rio Claro e realmente não demorou nem meia hora e lá estávamos nós, enfiados num caminho aberto e gostoso de trilhar, numa noite fresca, já que a chuva havia dado um tempo. Apertamos o passo e ganhamos terreno rapidamente, mas por pouco esse início de caminho não acabou se tornando numa tragédia: Entramos nessa trilha larga, descontraídos e eu nem perneira coloquei, já que logo acamparíamos e o descuido quase me fez ser picado por uma jararaca monstro, coisa que fazia tempo que eu não via, não daquele tamanho. Chegamos a pisar 2 dedos da boca dela e por muita sorte ela se manteve imóvel no meio da trilha e essa foi a deixa para eu me equipar com todos os equipamentos de segurança possíveis. Duas horas depois, desembocamos nas margens do Rio Claro. Poderíamos ter acampado na areia do Poço bonito, mas estávamos sem uma boa corda para montar um bivac mais elaborado, então decidimos usar uma clareira antes de atravessar o rio e ali a fizemos de nossa casa por umas 4 horas, tempo suficiente para dar uma descansada até que um novo dia surgisse, nos avisando que era hora de partir para aventura. (Poço bonito) Nosso caminho segue pela esquerda, subido o rio, ainda nos utilizando de uma trilha larga que vai nos levar até a Cachoeira do Poço Bonito, dessa vez um pouco mais cheia, devido às chuvas. Atravessamos o rio para a outra margem e nos enfiamos na mata, afim de ganharmos o alto da cachoeira e seguirmos subindo o rio, mas ao acessarmos a cabeceira, percebemos logo ser impossível ir pela margem do rio, que além de cheio, com vegetação impassável. O nosso objetivo era interceptar uma grande cachoeira que encontramos quando utilizamos esse caminho para a Expedição ao cume da Pedra da Boracéia e a partir dela, ganhar o afluente, subindo o Rio do Alegre para o sul até a sua nascente. ( Cachoeira do Poço bonito) Da esquerda para a direita - Plácido, Divanei, Luciano, Fioroto e Vagner. Azimutamos nossa direção para leste e fomos varando mato 100 metros paralelo ao Rio Claro, mas como eu havia marcado errado a posição da grande cachoeira, acabamos achando que havíamos cometido algum erro e ficamos desorientados. Eu e o Fiorotto tentamos voltar para o rio, mas não o encontramos mais, então foi aí que notamos o erro cometido e seguimos na direção proposta até desembocarmos de vez no Rio do Alegre, um pouco mais acima do encontro com o Rio Claro. A fim de mostrar a grande cachoeira para o Fiorotto e o Plácido, que não estiveram com a gente na subida da Boracéia, descemos o afluente por cinco minutos, interceptamos o principal e subimos por mais uns 10 minutos até tropeçarmos com a incrível CACHOEIRA PADRE DÓRIA, uma monumental queda d’água, conhecido por quase ninguém, além de nós e um ou outro caçador ou palmiteiro que por ali perambulem. ( Cachoeira Padre Dória) Voltamos para o Rio alegre e debaixo de uma chuvinha gelada, nos pomos a caminhar rio acima, transpondo pequenas cachoeiras, escalando barrancos baixos e as vezes nos metendo nas margens entrelaçadas por cipós e vegetação quase que intransponíveis. O rio vai subindo sem muito aclive, as vezes fundo nas curvas, outras vezes caminhávamos pela areia dentro do rio. Ao longo do dia a temperatura vai despencando e ter que passar com a água acima da cintura vai minando a gente. Uma hora ou outra, um trouxa tenta fugir de ter que passar pela água, se equilibrando em algum galho e faz a alegria da galera, quando despenca e vai bater com a fuça no fundo do rio gelado e como dizia o Plácido: “ Nossa menino, essa foi uma boa tainha que você deu”. Se referindo aos saltos dos peixes oceânicos. (Rsrsrsrsrs) (Rio do Alegre) O dia vai passando do mesmo jeito que começou, feio, embaçado e chuvoso. A gente vai definhando cada vez mais e não demora, alguns de nós já vão ao chão gritando com câimbras avassaladoras devido as temperaturas baixas. Pior que não podíamos nem reclamar, já havíamos previsto que aquele seria um dia para se fuder mesmo, mas a gente nunca está preparado para esses sofrimentos, então apenas caminhávamos, sem esperar nenhuma melhora, resignados com as desgraças do tempo. Nosso objetivo era chegarmos às cabeceiras do Rio alegre, bem onde ele passa por baixo das linhas de alta tenção e se fosse possível, continuar avançando para o norte e ganhar terreno para no dia seguinte conseguir acesso cedo a nascente do Rio Silveiras, mas diante do sofrimento coletivo, decidimos que acamparíamos embaixo da linha de transmissão, no mesmo acampamento que usamos para ir à Pedra da Boracéia. O nosso GPS nos diz que estamos perto, mas cada 100 metros percorridos, parece que estamos é retrocedendo e não avançando, talvez pelas curvas e meandros que o rio faz, se enfiando embaixo de árvores caídas, onde temos que nos rastejar, nos livrarmos de vegetação espinhosa, entrelaçada por cipós grudentos e as vezes dispostos sobre atoleiros. É nítido que estamos sofrendo, cada passo dado parece que arrastamos uma floresta nas costas. Todos não tiram os olhos do céu, tentando encontrar os fios da rede de alta tenção, como a buscar por uma salvação para suas almas, porque o corpo jaz numa penúria de dar dó, mas como não há sofrimento que dure para sempre, identificamos o barranco do lado direito que ao ser subido, nos levou à grande área de camping, com grandes árvores espaçadas, o Jardim do Éden se apresentou para nós, nos chamou para a Terra da felicidade. Vamos falar de felicidade: Só quem já passou por isso, por essas situações é que sabe o quanto de prazer se tem ao sair da tempestade dentro de uma floresta e correr para debaixo de um abrigo, tirar as roupas molhadas e vestir uma seca, não haverá nunca nenhum orgasmo que supere isso, podem lhe oferecer qualquer coisa, não vai querer mais nada senão vestir seu agasalho quentinho, parar de tremer feito vara verde. Essas situações sempre nos farão dar valor as coisas simples da vida, agasalho seco, comida quente, cama quentinha, é só isso que precisamos. Falando em comida, logo após instalarmos nossas redes, botamos fogo no fogareiro, mesmo ainda sendo antes das quatro da tarde, e fizemos um arroz, esquentamos um frango e um feijão, juntamos uns bacons, umas azeitonas, polvilhamos com queijo ralado e brindamos com suco de jabuticaba, isso sim é que é FELICIDADE. Depois da janta ninguém quis saber de mais nada, pulamos para nossas redes e nos demos como mortos. Como eu estava bem agasalhado, dormi muito bem, mas alguns sofreram com as baixas temperaturas da madrugada, mas no fim, 12 horas de sono teve o poder de renovar todo mundo. A noite foi sem chuvas e o dia amanheceu até que com uns raios de sol tímidos. Ás nove da manhã partimos e ao invés de continuarmos seguindo para o sul, resolvemos virar para oeste por um breve momento e subir até umas das Torres de Alta Tenção para termos uma visão mais ampla do terreno a seguir. (Pedra da Boracéia) Dez minutos varando mato, nos levou a campo aberto e outros dez minutos nos colocou debaixo da Torre. Eu e o Vagner escalamos, enquanto os outros se maravilhavam com a visão das encostas da Pedra da Boracéia. De cima da torre parecia um caminho fácil, mas ser enganado pelo terreno já era rotina, então nos posicionamos novamente para o sul e fomos seguindo o caminho que eu havia traçado sobre o mapa topográfico. No começo comemos logo uns bambus, mas logo o terreno se alternou em florestas de bromélias em meio a campos abertos e matas fechadas, subindo e descendo vales, cristas e travessias de pequenos rios ou charcos pantanosos até que nos elevamos o quanto deu e quase 2 km desde o acampamento, avistamos um fundo de vale cortado no terreno e lá embaixo imaginamos que poderíamos encontrar a fascinante NASCENTE DO RIO SILVEIRAS. É surpreendente como se pode pegar um rio com as mãos, pela nossa posição no mapa, nos confins perdidos dessa parte da Serra do Mar Paulista, é muito provável que homem jamais tenha pisado por aqui, muito porque, pela dificuldade de acesso, não há um só vestígio de caçador e muito menos palmiteiros e três dedos de água dão vida a um dos rios mais espetaculares do Estado de São Paulo. Eu fiquei imensamente feliz de encontrar essa nascente, estava apreensivo de não ter feito o trabalho de mapas como deveria, mas localizar esse rio já me fez estar com o dever cumprido, agora era segui-lo quase até a sua foz, tarefa e responsabilidade de todos. ( Nascente do Rio Silveiras) Estamos emersos dentro de um vale profundo, no centro de uma montanha de onde um rio acabara de nascer e o único caminho possível, era para baixo. No início perdendo altitudes aos poucos, passando por baixo de árvores caídas, donde um rio com água pela canela começava a ganhar corpo ao receber pequenos afluentes, que lentamente vão rasgando a rocha ao meio, furando o terreno que vai se abrindo cada vez mais. O caminho traçado no mapa nos dava conta que mais à frente o rio faria um cotovelo para a direita, voltando para a direção sul, mas antes de lá chegarmos, foi preciso desescalar algumas paredinhas, onde alguns se esgueiravam feito o homem aranha para não cair na água fria e passado esse trecho, foi hora de nos determos por um instante para um lanche rápido e para revermos nosso roteiro. De todos os trechos que eu havia estudado no mapa, esse primeiro grande desnível na cota dos 900 metros, era o que mais me preocupava e quando fizemos a curva para o sul e perdemos um pouco de altitude, nos deparamos com esse desnível. Era algo assustador, como chegar ao inferno e saber que não tardaria ser apresentado ao diabo. Um despenhadeiro absurdo, do qual não conseguíamos nem ver o fundo. Talvez os meninos mais novos tenham ficado ainda mais impressionados, mas eu e o Vagner já estávamos calejados de nos deparar com tais situações e logo traçamos um plano pela esquerda, que era o de perder altitude aos poucos, procurando patamares que pudesse ir nos baixando lentamente. Pela esquerda era o caminho, desceríamos escorregando e nos agarrando ao Deus árvore, enquanto houvesse um, estávamos protegidos de cair nas entranhas do inferno. Atravessamos o rio e ganhamos, portanto, a esquerda e logo de cara o Fiorotto e o Plácido fizeram com que nos detivéssemos imediatamente para apreciar um exemplar raríssimo de sempre viva da Mata Atlântica. Eu mesmo, com tantos anos de andanças na Serra do Mar, não me lembrava de ter visto uma sempre viva daquelas, mas a visão dos biólogos é diferente de nós, simples exploradores, então se vi, não me lembro, mas apreciamos a espécie e as aulas dos nossos professores. Chegamos mais abaixo no cânion, talvez descemos uns 60 metros e fomos nos apoiar em um patamar a beira de outro abismo potencialmente perigoso, tiramos uma foto e partimos novamente pela esquerda até cairmos novamente em uma laje monstruoso, que despencava para mais uns 100 metros de desnível. Pensamos logo que agora o melhor caminho seria pela direita, já que o próprio rio mudaria de rumo e viraria também para a direita, mas ao invés de cairmos novamente mato à dentro, surpreendentemente consegui me enfiar em uma fenda e fui abrindo caminho, desescalando metro à metro, me valendo de fissuras que desafiavam nossas habilidades de escaladores selvagens e quando a curva se aproximou, aí sim caímos para o mato e despencamos mais uns 30 metros até nos vermos novamente à beira do rio, agora mais manso, mas ainda continuando a furar a rocha, se enfiando no submundo do terreno, formando cavernas e grutas, onde éramos obrigados a nos arrastar feito ratões do banhado e ganhar a escuridão até voltarmos a ver a luz do dia. A luta foi grande, não chovia, mas também não fazia sol e o avanço era lento e moroso, sempre nos pegávamos em dificuldades, mas estávamos todos animamos e a diversão era certa. Passamos o resto do dia desescalando pequenas cachoeiras e grandes lajes, ainda tendo que nos metermos dentro de cavernas e hora ou outra tendo que escorregar à beira de desníveis consideráveis, alguns mais corajosos se enfiavam em alguns poços, mas eu queria mesmo era chegar no acampamento com o roupa o mais seco possível, mas as vezes um descuido já nos fazia cair de novo dentro do rio e as “tainhas” eram inevitáveis. Quando passou das 4 da tarde, foi hora de consultar nosso gps e analisar bem o terreno e chegamos a conclusão de que o único lugar possível para se acampar seria lá pela cota 650. Onde o terreno se abriu com linhas mais espaçadas e realmente quando lá chegamos, não demorou muito, localizamos do lado direito uma área bem favorável, uma espécie de ilha do lado direito, um terreno plano entre dois rios, quase uma “ Mesopotâmia” em plena selva e ali naquele lugar extremamente favorável, montamos nossas redes e nos pomos a cuidar do jantar. Agora estávamos acampados num lugar excelente, descansados, felizes por tudo ter dado certo. Éramos um grupo totalmente descontraídos, as piadas eram inevitáveis e os causos iam surgindo aos montes, histórias de aventuras passadas e algumas mentiras cabeludas também. Os novos integrantes se mostraram totalmente ambientados e pareciam velhos companheiros das antigas. Plácido, coitado, de nome de cantor de ópera, ganhou logo o apelido de TAINHA, de tanto ficar zuando o coitado do Vagner que abusou de se fuder em tombos memoráveis na água. Luciano Carvalho resolveu gastar a bateria do GPS colocando uma musiquinha e mesmo que isso não tenha influenciado em nada no final da expedição, iria pagar com a zueira eterna quando a bateria do seu celular simplesmente desfaleceu na hora mais crítica da expedição. O certo é que foi mais um acampamento memorável e para agradecer a ilustre presença do Fiorotto, outro que veio abrilhantar nosso grupo, eu e o Vagner o convidamos para ser nosso convidado no jantar e depois que, quase morremos de tanto comer, ficamos até tarde da noite jogando conversa fora, perdidos em algum lugar selvagem, completamente longe da civilização, onde macacos gritam ao longe e outros animais selvagens desfilam livremente sem ser incomodados por ninguém, onde a vida segue, como sempre seguiu, desde que o mundo é mundo e era muito provável que não houvesse um só homem mais isolado em todo o Estado que esses 5 aventureiros metidos a exploradores e que estavam ali por escolha própria, pela simples paixão que nutrem pela Aventura Autêntica. Um novo dia nasceu, cheio de raios de sol enganadores. Foi uma noite tranquila e acordamos bem-dispostos, mas uma coisa me deixava muito preocupado: Estávamos na altimetria 650 e tínhamos apenas um único dia pela frente para sairmos na civilização e jamais, em todos esses anos de expedição, conseguimos descer tantos desníveis em um só dia e eu particularmente desacreditava que até a noite terminaríamos aquela jornada. O Luciano achava que sim, achava que poderíamos avançar muito. Às vezes eu até chegava a concordar com ele, me valendo da possibilidade de encontrarmos trilha fácil lá pela cota 200 ou 250, imaginava que os índios poderiam subir até essa altimetria guiando algum turista até as grandes cachoeiras ali localizadas, mas era pura suposição. Tomamos café e partimos. É sempre um grande sacrifício ter que se jogar logo de cara para dentro da água fria àquela hora da manhã. A gente vai tentando fugir dos lugares mais fundos, mais hora ou outra, alguém dá logo uma “tainha” e solta um palavrão, mas quando a coisa aperta mesmo, rio vira caminho para evitar vara-mato desnecessário. Vamos perdendo altitude lentamente até que um mundo de abre a nossa frente, dizendo que a moleza acabou e é hora de voltar a se enfiar nas gargantas novamente, mas a visão do mar que se descortina no horizonte, anima todo mundo, é uma visão tímida, mas lá está a ilha Montão de Trigo para nos dizer para que lado fica a nossa saída. Os desníveis são vencidos com muita dificuldade, é uma pulação de pedra sem fim, mas o que está por vir causa ansiedade na equipe e caímos novamente para o mato a fim de escaparmos de um desnível monstruoso, de onde uma cachoeira se afunila em gargantas impassáveis, até que subitamente desembocamos numa cachoeira mais larga, com um poço nos convidando para um mergulho, hora de largar tudo, abandonar mochilas ao chão e correr para o deslumbramento. Os meninos se deliciam feito crianças, mergulham naquela água de uma pureza incrível, onde talvez homem nenhum jamais tenha se banhado ou se alguém aqui chegou, não contaram para ninguém, mas isso pouco importa, porque naquele momento erámos donos absolutos daquele lugar único e a satisfação de poder estar ali depois de mais de 2 dias de jornada selvagem, nos deixava numa felicidade inenarrável. Nossa descida vai se estender até nos depararmos com os grandes desníveis da cota 500 e essa era mais uma parte do rio do qual temíamos muito e ele não nos decepcionou, o rio se enfiou novamente numa sequência de gargantas, formando cachoeiras cênicas ,mas ao tentarmos fugir de um despenhadeiro assustador, acabamos nos metendo num caminho sem volta, ao descermos uma parede pendurados numa fita de escalada que havíamos levado para uma segurança providencial. É preciso deixar bem claro que a gente não carrega conosco nenhum equipamento para rapeis ou coisa desse tipo, muito porque, a proposta é fazer a descida no modo sertanista, livre, usando nossa capacidade de improvisar e descobrir rotas possíveis que nos faça avançar sem a necessidade de equipamentos mais elaborados. Então ter descido aquela parede potencialmente perigosa quase foi o nosso fim. Nos vimos presos, sem ter quase como voltar e sem ter como avançar, como se estivéssemos na proa de um navio, sem poder descer ao chão, aliás nem o chão eu conseguia avistar de onde estávamos. O Vagner seguiu e eu fiquei dando cobertura, até que ele encontrou uma grande árvore na diagonal que poderia nos levar para baixo, mas sem nenhuma certeza. O Vagner entrou no grande galho, abraçando o tronco e foi perdendo altura, seguro apenas em uma fita mequetrefe, segurada por mim apenas para dar uma segurança psicológica. Aquilo não parecia que daria certo e a chance de dar merda estava clara. Se ele caísse levaria eu junto. "Volta filho da puta", pensei baixinho, mas o desgraçado foi. Enquanto segurava a fita, tentava encontrar o chão em meio a vegetação que abraçava aquele galho mequetrefe. A fita chegou ao fim e o Vagner continuou descendo e eu gritando para ele tomar cuidado e não se ariscar tanto, enquanto os outros três continuam mais acima, pendurados à beira do precipício. Vagner parecia uma dançarina de poli dance, pendurado num pau a uma dezena de metros do chão e minha angustia com certeza era muito maior que a dele, porque eu não enxergava coisa alguma, mas quando ele gritou que havia chegado, meu coração desacelerou por um segundo, mas quando me lembrei que o próximo seria eu, voltei a ficar angustiado. Me pus a escorregar encima do tronco, me agarrando a um arremedo de fita, até que ela própria me abandonou. A barriga vai raspando na árvore cheia de protuberâncias, mas isso acaba por não ter importância nenhuma, a gente não quer é cair e mesmo que a pele vá se desintegrando pelo caminho, a gente pouco vai sentindo, porque nosso cérebro está condicionado a fazer com que a gente sobreviva. Lá de baixo o Vagner vai orientando e quando o sofrimento chega a sua metade, é hora de mudar de posição e tentar se livrar da vegetação que já te abraçou e quase enrolou no seu pescoço e não tem jeito, é se soltar e escorregar até o chão e ir chorar em um canto, o monte de hematomas que acabamos de ganhar, enquanto assiste mais 3 indivíduos passar pela mesma coisa. Voltamos a labuta, agora perdendo altitude até que rapidamente, brincando de escorregar em lajes de pedra, tentamos manter o ritmo constante até o próximo objetivo, que seria o encontro com uma grande afluente que vinha da esquerda. Na carta topografia do exército constava como Rio Una, mas aí também temos uma confusão geográfica onde alguns dizem que o próprio rio teria esse como nome oficial , mas em outras cartas e mapas o Nome SILVEIRAS é o que impera e os próprios índios o chamam assim, então é mais do que justo que respeitemos o nome dado pelos nativos. Encontrar esse grande afluente do Silveiras nos dá uma alegria na alma, é saber que se nada mais der errado, poderemos sair ainda hoje próximo à civilização. Estamos na altimetria 300 e o rio corre manso e desimpedido, dando um refresco momentâneo para nossas pernas. É uma caminhada gostosa e as conversas voltam a fluir, enquanto observamos aquele cenário único. Grandes poços esverdeados começam a cruzar nosso caminho e isso faz a alegria da galera que se precipita para dentro, numa algazarra barulhenta. A metade do dia já se foi faz tempo e a tarde já se avizinha, quando subitamente tropeçamos numa parte aberta do rio. Estávamos na Cota 200 quando uma laje gigantesca se apresentou à nossa frente. Era um escorregador monumental e sem nem pensar, corremos ao seu encontro e deixamos que a força da gravidade nos conduzisse para baixo. É o homem voltando a suas origens, é o ser barbado se desvencilhando das obrigações de macho sério e voltando a se divertir como criança e é para isso que viemos, para sermos nós mesmo, sem carregar peso nenhum imposto pela sociedade, somos homens livres para fazer o que quisermos, somos passageiros da felicidade, vivendo num mundo de sonhos. Pensando ter acabado, eis que na sequencia dessa laje inclinada, uma grande cachoeira em forma de tobogã veio nos dar as boas-vindas. O queixo caiu e não demorou para que alguém tocasse o foda-se e se jogasse no meio da queda indo parar dentro do grande lago esverdeado, emoldurando a CACHOEIRA DO TOBOGÂ. Naquela hora, estando naquele lugar mágico, nos esquecemos de todos os perrengues passado em toda expedição e nos jogamos de cabeça ao ócio e ao divertimento. Aquilo sim era um poço de respeito e ninguém queria arredar o pé de lá, mas foi preciso avisar a galera que tínhamos um objetivo de sair ainda hoje daquele vale e era preciso se adiantar, porque não era possível ser feliz para sempre. O Caminho seguiu sendo pontuado por vários outros poços, lajes inclinadas, corredeiras deslumbrantes até que tivemos que fazer um pequeno desvio para ganhar o alto de mais uma cachoeira, que até então não sabíamos sua dimensão. Era alta e larga, mas da posição superior, a visão ficava prejudicada. Resolvemos que o melhor caminho para descer até sua base seria pela esquerda, mas ao tentarmos passar rente a queda, ficamos presos em um abismo considerável e retornamos a fim de transpormos uma grande rocha e perder altura pelo outro lado. Escalamos o meio dessa rocha monumental e deslizamos como deu, nos segurando numa vegetação rala. Eu e o Vagner íamos à frente, tentando encontrar um caminho para descer, escolhendo a dedo algumas árvores espaçadas e torcendo para que fossem firmes, caso contrário, a chance de despencar no vazio era enorme. Dei apoio com uma fita para que o Vagner e o Tainha dessesse até a próxima árvore, mas quando escorregaram, levaram toda a vegetação e nos deixou órfãos sem ter onde nos apoiar. Atrás de mim ainda restavam o Fiorotto e o Luciano, que tentam se apoiar em qualquer coisa para não despencarem. Tentei buscar algo para me segurar, mas sabia que se deslizasse, só poderia me salvar abrindo as pernas e parando uns 4 metros abaixo em uma árvore isolada, mas se erasse a direção era o meu fim. O corpo é invadido por um caminhão de adrenalina, a gente começa a se perguntar porque se mete nessas encrencas. Por sorte consegui achar em meio a vegetação um galho que se estendia até um pouco mais abaixo e quando ele acabou, deslizei bonito, mas meu coração quase parou. Segurado na árvore isolada, só fiz xingar e amaldiçoar toda a geração do desgraçado que resolveu escolher esse caminho dos infernos. Orientei os meninos que vinham logo atrás sobre o galho e desci rapidamente para tirar satisfação com os safados, mas quando lá cheguei, só conseguir dizer: PUTA QUE O PARIU, QUE CACHOEIRA É ESSA MEUS AMIGOS! O Espetáculo em forma de água despencando da rocha. CACHOEIRÃO DO SILVEIRAS é daquelas quedas d’águas que nos deixa sem palavras, um monstro em um vale aberto, com um véu cobrindo quase toda a extensão da parede. Quando todo o grupo se juntou ali na cota 180, era impossível não ver um sorriso no rosto de cada um daqueles exploradores modernos e mesmo a gente sabendo que possivelmente um ou outro índio suba até ali, a sensação era a de conquista, de quem havia partido de terras longínquas, enfrentado terrenos hostis só para se pôr à frente daquela maravilha aquática. Tudo ia bem, a gente estava animado, fisicamente ninguém dava sinal de algum problema, se não uma dorzinha aqui, outra ali, tudo normal, mas era hora de apertar o passo, nos preocupávamos de não conseguir sair naquele dia, e sem podermos nos comunicar com o mundo externo, corrermos o risco de alguém querer acionar o resgate, pensando que estávamos em apuros. Jogamos as mochilas às costas e apertamos o passo, pulando pedra e se jogando dentro do rio, descendo lajes e barrancos. Num determinado momento, eu ia à frente, hipnotizado por um grande poço mais à baixo, quando ouvi uma gritaria: Alguém desesperado se batia tentando se livrar de um ataque de vespas. Corri o quanto pude na intenção de me jogar no poço, mas vi logo que o ataque havia cessado. Mais uma vez, “novamente de novo”, outra vez, o mesmo infeliz de sempre, foi agraciado com três picadas no rosto. Esse Vagner parece ter o poder de atrair as desgraças para si, nunca vi, todo raio parece cair na cabeça dele. (Rsrsrsrsrsrsrsr). Paramos para socorre-lo, um comprimido aqui, uma pomada ali e logo ele parou de gritar, pelo menos dessa vez estávamos com a medicação para esse tipo de acidente, outras tragédias nos ensinaram o caminho das pedras. O dia vai findando e nada de encontrarmos as tais trilhas que pensávamos existir, aliás, em nenhum momento vimos qualquer vestígio de passagem humana perto das cachoeiras, nada que denunciasse que os índios trouxessem algum turista para conhece-las e não é de se entranhar, porque não há nenhuma facilidade para chegar até a cota 200. Continuamos descendo, elogiando os inúmeros poços translúcidos até que baixamos para cota 50, onde localizamos a primeira pegada humana em 3 dias de caminhada e não demorou muito, interceptamos do lado direito do rio, uma trilha larga e bem consolidada. Passava pouco das cinco da tarde e em mais uns 15 minutos, desembocamos numa bifurcação, onde o rio já é manso e sem nenhuma pedra aparente. Sabíamos que para a direita poderíamos encontrar a TRIBO SILVEIRAS, não mais de meia hora nos levaria direto para o encontro deles e de la até a Rio- Santos. Era mais uma caminhadinha fácil e rápida, mas havia um, porém, que deveria ser levado em conta: Estaríamos invadindo terras indígenas, onde relatos antigos davam conta de que alguns brancos haviam sido achacados por alguns índios, obrigados a pagarem o que não tinham, para serem liberados. O pior não era isso, estaríamos reféns das vontades deles, afinal de contas, éramos os invasores e não adiantaria chamar a polícia, chamar a mãe, ou chamar o que fosse, estaríamos sujeitos a apanhar de todo mundo. Então o melhor a fazer era deixar esse povo em paz, procurar outra saída, nem que fosse para se fuder para outras bandas. Pegamos um caminho para a esquerda, o oposto da direção da tribo e fomos seguindo paralelamente ao rio Silveiras. Acontece que eu já havia previsto tudo isso no planejamento e havia marcado um caminho para varar mato direto para a Rio-Santos, seguindo sempre para o sul, muito porque não sabíamos se poderíamos ter problemas com aquela trilha que se dirigia para leste, poderia ela cair dentro de alguma fazenda, alguma propriedade particular, então o melhor era cair no mato logo e enfrentar tudo no peito, mas estávamos enganados, pagaríamos um preço alto por isso. Paramos para decidir o que fazer e ao olhar aquele mato ralo, com grandes árvores espaçadas, mais parecendo um bosque, não tivemos dúvidas, miramos nossa direção para o sul e adentramos na floresta cantando e fazendo festa, tudo estava se encaminhando para um desfecho glorioso, logo estaríamos no litoral e lá comemoraríamos mais uma conquista inédita. No início eu ia à frente, com o Luciano na retaguarda dando a direção correta, consertando a rota com o GPS e com a bussola. Caminho desimpedido, parecia até estarmos numa estradinha antiga e abandonada, mas logo ela começou a atravessar uns charcos, uns alagados enlameados, tínhamos que mudar constantemente de direção para poder passar. O terreno foi piorando, bambus foram tomando conta de tudo, a noite caiu numa velocidade impressionante e os rostos começaram a ficar carrancudos. O revezamento de quem ia na linha de frente se fez necessário porque era um esforço descomunal para passar e aos poucos fomos nos dando conta do tamanho da encrenca que estávamos enfrentando. Eu e o Vagner nos olhávamos, mas nada dizíamos, nem precisava, sabíamos que mais uma vez, num mesmo ano, havíamos caído nas temidas RESTINGAS DE BERTIOGA. Aquele terreno não é coisa para ser humano, uma área alagada e pantanosa, onde bromélias espinhudas e cipós navalha vão destruindo a parte psicológica. Não se consegue andar, qualquer passo dado é uma energia brutal que se gasta, o aventureiro vai definhando aos poucos até chegar num estado em que já não sabe nem mais o que é, se é gente ou se é bicho. Eu olhava na cara do Plácido Tainha e ficava era com pena, parecia estar sofrendo muito, mas nem falava nada, eu mesmo já estava sofrendo tanto quanto ele. A gente não progredia, o GPS cada vez mais com as baterias se esvaindo. Hora ou outra, rodávamos em círculos porque era preciso mudar rápido de direção e isso nos desorientava momentaneamente até conseguirmos voltar para o rumo. A água acabou, só liquido podre é que abundava. A fome era tanta que já tinha gente comendo miojo cru. Eram míseros 2 ou 3 km de vara-mato, mas as distancias pareciam maiores que atravessar a Floresta Amazônica. Tentávamos chegar as margens do Rio Verde, um rio que se junta e dá vida a um tal de Una, sei lá , outro Una, uma confusão de nomes que não vem ao caso, mas antes de acharmos esse rio para cruzá-lo, onde achávamos que encontraríamos um terreno mais favorável, o GPS morreu de vez, MISERICÓRDIA, o Fiorroto havia dito para não ouvir musiquinha no acampamento.(rsrsrsr) Nem as trevas eram mais escuras que aquela floresta, as lanternas foram acesas, mas agora sem gps, o bicho ficou feio, apelaríamos para uma invenção milenar chinesa, era hora de navegar com a bussola. Ninguém andava, apenas se arrastava na lama, as vezes com a àgua na cintura. Achamos o rio que procurávamos, mas um pouco abaixo de onde me pareceu haver um tronco para poder atravessá-lo, mas por sorte conseguimos passar com a água pela cintura e subir até o ponto marcado. Encontramos o tal caminho aberto que pensávamos ser uma estrada, mas que na verdade parecia mesmo um grande aceiro de linha de transmissão de energia, mas sem nenhuma torre. Acontece que nesse local, que poderia nos dar passagem, o mato era gigante, com áreas tão alagadas quanto a anterior e para piorar, a floresta havia tomado conta novamente e a gente descobriu que havíamos saído de um inferno para entrar em outro. No começo até parecia que avançaríamos fácil, mas foi pura ilusão e agora além de arrastar uma floresta no peito, vez ou outra caíamos numa vala de córrego que tentava sugar quem lá despencava. Teve uma hora que eu fazia as vezes de cu de tropa, quando pedi passagem para ir à frente, porque a fila não andava e quando lá cheguei, ví todo mundo exausto, quase desmaiados e o Vagner estropiado depois de ter aberto um pouco de mato, teria sido melhor apanhar de índio. Assumi a dianteira, mas o arrependimento não durou nem 5 minutos para vir. Conseguimos achar um pouco de bateria em um dos nossos celulares e o Luciano foi nos guiando com a bussola, mas tudo parecia interminável, a escuridão da noite diante das lanternas já meia boca ia transformando tudo num sofrimento quase inaguentável e não demorou muito para alguns começarem a surtar. Ninguém mais se entendia quanto a direção, a gente não progredia mais, a gente se arrastava no lamaçal e no mato intransponível e foi hora de alguém dar um grito e por ordem naquela bagunça. O relógio já se aproximava das 10 badaladas noturnicas. Eu voltei a ser cú de tropa, estava extenuado, nem dava mais palpites, apenas me deixava ir e assistia as investidas que eram dadas nuns lírios do brejo com mais de 3 metros de altura, o máximo que eu fazia era indicar o caminho a seguir porque consegui mais um pouco de bateria no meu celular e acompanhava o caminho no aplicativo de gps. Ao longe, uma luz denunciava que a Rodovia Rio-Santos estava próxima e aí achamos energia sei lá de onde para prosseguir e quando subimos o barranco, caímos bem em um ponto de ônibus. Éramos bicho, éramos réptil, éramos qualquer coisa, mas homens é que não éramos. Cinco seres fedorentos e grudentos se abraçaram, como a agradecer uns aos outros pela oportunidade da aventura vivida, entraram nessa expedição amigos, saíram uma família. Já passava das dez horas da noite e a gente não tinha forças nem para tirar a roupa molhada e fedorenta, ficamos ali, largados e desmontados no chão por um bom tempo, até que surgisse alguma energia para nos recompor e quando apareceu um ônibus na escuridão da noite, subimos nele, mas ele apenas nos deixou na próxima praia, que era a da Boracéia, em frente a um condomínio de luxo, mas nesse trajeto conhecemos dois garotos da comunidade local e eles ficaram maravilhados quando contamos de onde vínhamos . Os meninos se foram e nós ficamos largados em plena madrugada fria numa rodovia deserta. Sem nada mais para comer e sem esperanças de chegar em Bertioga, ficamos ali parados em mais um ponto de ônibus, esperando que o destino nos mostrasse uma solução. Foi aí que do nada, os garotos apareceram em suas bicicletas caiçaras e surpreendentemente nos abasteceram com um monte de lanches e salgados, que eles compraram sabe-se lá onde e do mesmo jeito que aparecerem, sumiram das nossas vistas e para gente não restou outra coisa senão a de voltar novamente a acreditar na humanidade. Pouco depois da uma da manhã, nossa esperança de voltar para casa acabou de vez. Sem ter o que fazer, resolvemos acampar na praia, porque o desespero é que move o homem em suas atitudes e se a lei proíbe camping selvagem na areia, o desespero e o sono justificam a desobediência civil, então fizemos um bivac junto de umas árvores e ali, diante daquele oceano imenso, nos jogamos para debaixo da nossa mansão plástica até que um novo dia rompesse e nos trouxesse a esperança de retornarmos para Bertioga e quando lá chegamos, embarcamos às oito da manhã para São Paulo e cada um foi se perder para um canto da região metropolitana e eu voltei para minha aldeia, no interior Paulista. Essa Expedição ao Vale do Rio Silveiras acabou por nos ensinar uma lição muito valiosa; mais uma vez tivemos que resistir e continuar enfrente, mesmo quando tudo parecia sem uma solução aparente. Resistir ao frio inclemente, debaixo de uma chuva fria e dentro de um rio de águas geladas e depois chafurdados a noite, numa lama fétida, sem comida e sem água potável, sendo devorados por mosquitos e mutucas e expostos a mais baixa humilhação que a natureza pode nos jogar às costas. Fomos atrás de aventura e realmente a encontramos de uma tal forma, para nunca mais esquecermos, mas isso é coisa que a gente já sabia, entrar na SERRA DO MAR PAULISTA é ter a oportunidade de se reencontrar como espécie humana, é viver uma vida de intensidades, é mergulhar atrás da AVENTURA AUTENTICA, que há muito tempo foi engolida pela mediocridade da nova civilização moderna.
  21. ATENÇÃO: o MRCA( Ministério dos Relatos e Contos de Aventura) adverte: Esse relato contém palavrões e palavras chulas que afrontam a dignidade da nova família tradicional Brasileira. VIA SOLARIS .....................O tempo fechou, trovões e relâmpagos espocavam na serra a nossa frente, a chuva que estava prometida, realmente começou a dar as caras e aquilo que parecia estar ruim, se transformou num pesadelo impensável. Mal ouvia mais a voz do meu companheiro de escalada. Minha alma saiu do corpo e voo para bem longe daquela parede, acho que ela se recusava a ver a desgraça que poderia acontecer. Meu cérebro e minha perna já pareciam não querer mais se comunicar e não, eu não estava com o cu na mão, simplesmente meu cu já havia caído da bunda. Minha cabeça deu uma rodada, as pernas mal se sustentavam naquele minúsculo buraco. Eu já via a cena de um helicóptero tentando me salvar, vergonha, vexame, mas ainda era melhor que umas dezenas de ossos fraturados, mas mesmo assim eu nem sabia se tinha sinal de celular para pelo menos avisar algum escalador ali das redondezas que pudesse me ajudar, muito porque, o próprio Alexandre estava preso na parada mais abaixo, sem corda pra descer................. Já escalei montanhas épicas nesse país, entre elas, o Dedo de Deus, Agulha do Diabo, Baú, Ana Chata dentre outras, mas nunca me considerei um escalador de verdade, sempre fui o carregador de cordas, o cara que completa o grupo, porque pra mim , escalador de verdade mesmo é o cara que guia as vias, ou seja, o cara que vai à frente, que se arisca até o ultimo limite para levar a corda da escalada. Engraçado que quando começei , era o cara que se ariscava a guiar as esportivas, mas com o tempo fui deixando de me dedicar e vi os amigos que começaram comigo deslanchar e virarem escaladores profissionais. Confesso que escalada esportiva depois de um tempo acabou por se tornar algo enfadonho para mim, mesmo sabendo que é ali nas paredes, pedreiras que se cresce e que se ganha experiência para enfrentar grandes escaladas clássicas, mas mesmo assim, pouco frequentava as tais esportivas nos últimos anos, mas quando alguém soprava um convite para uma escalada tradicional, não conseguia resistir, mas também já sabiam que eu era sempre o cara que seria um mero “segui”, ou seja, o cara que vai sempre na cola dos mais experientes e isso nunca me aborreceu, porque ia mesmo pela paisagem , pelos velhos amigos e por tudo que envolve essas escaladas clássicas . Já sabendo disso, Alexandre Alves, que sempre gostou de guiar mesmo, nos convidou para uma Clássica em Andradas-MG e passou na minha casa na boca da noite e a viagem foi rápida até tropeçarmos no Abrigo Bramido do Elefante, onde fomos recebidos pelo Tadeu que nos entregou as chaves, já que éramos os únicos escaladores naquele fim de semana. No outro dia estávamos em pé as sete da manhã, organizamos tudo e nos pomos a caminhar na estradinha no rumo leste, meio que paralelo a cadeia de montanhas que hospeda entre outras , a Pedra do elefante, mas nosso objetivo era a Pedra do Boi, um monólito pouco frequentado pela comunidade de escaladores. Um quilometro depois, adentramos a direita numa porteira meio troncha, exatamente a porteira logo depois da casa do próprio Tadeu, que exibe uma minúscula plaquinha anunciando a venda de mel. Adentrando a porteira, que pulamos, vamos caminhar por mais uns 500 m na estradinha, talvez um pouco menos, até interceptar uma trilha de pasto que vai descer até um riacho com aguas paradas, varamos mais uns 100 m de pasto até pularmos uma cerca de um cafezal novinho. Não há caminho, tivemos que atravessar o cafezal pór dentro dele, tomando cuidado para não derrubar as flores da plantação. Depois pulamos mais uma cerca e vamos adentrar em outro cafezal mais velho e ao chegarmos à cerca do outro lado, vamos nos manter do seu lado direito. O caminho é meio confuso, mas a Pedra do Boi está ali na nossa cara e é preciso ir meio que pelo rumo, seguindo as trilhas que se dirigem para aquela direção, que agora é sentido sul. Chega uma hora que a trilha acaba na mata e vira uma picada, as vezes sinalizada com uma tinta vermelha, outras vezes com uma argola de pvc. Tem que ir tendo faro de trilha mesmo e 2,7 km depois do abrigo batemos de frente com a pedra do Boi e aí é hora de caçar a via de escalada. Temos sempre que agradecer esses bravos escaladores que se dedicam a abrir essas vias, gastam tempo e dinheiro e não recebem nada em troca, mas sempre achei que falta uma identificação dessas vias, porque não é fácil localizar uma linha de escalada, ainda mais sendo em móvel. Bom, o certo é que achamos a VIA SOLARIS e nos pés dela um totem de pedra ajuda um pouco a saber que estamos no lugar certo. De novo, mais uma vez, tenho que dizer que por não ser um escalador de verdade, não tenho a intenção de ficar narrando procedimentos técnicos, vou me ater as dificuldades da pessoa humana, as emoções envolvidas nessa escalada, mas erros, acertos e uma série de outros fatores não serão descritos aqui, isso é mais um relato descontraído do que um guia para escalar essa via. A via SOLARIS tem 225 metros de extensão, é graduada como lV /V Sup (E 3), uma incógnita para quem não é do esporte, mas mesmo eu conhecendo um pouco dessas siglas todas, nem me preocupei em olhar esse croqui, muito porque, eu estava despreocupado e confortável, já que eu não ia guiar nada mesmo. Achando a sequência da via, o Alexandre deu início aos trabalhos, escalando essa primeira enfiada (lance) todo com equipamentos móveis, ou seja, aqueles equipamentos que você enfia nas fendas para passar a corda. O Alexandre é mesmo um rato de escalada, fez malabarismo, passou a fenda, virou à direita, entrou na chaminé e já estacionou na parada, 45 metros depois. Me clipei à corda e ganhei a parede inicial, ainda frio, dei uma titubeada, mas logo também entrei na fenda, mas na hora da transição da esquerda para direita, não achei mão para me agarrar e dei uma travada, mas como estava de segundo, tive calma e tranquilidade para tentar um salto mais arrojado e agarrar um patacão mais acima e ganhei o lance mais difícil e sem saber a sequência da via tentei escalar uma parede íngreme, mas logo o Alexandre me alertou que tinha que seguir fazendo a travessia para a direita até ganhar a chaminé, mas eu já estava todo lascado , pendurado na parede e tive que escorregar de volta para a sequência da via , mas ganhando também essa chaminé de meio corpo, o resto até me juntar ao Alexandre foi como mamar na teta da vaca. O segundo lance é graduado em V sup e tem 30 metros de extensão e também foi subido sem nenhum problema, passando por outra canaleta, com bons pontos de aderência, tudo conforme manda o figurino. Ao chegarmos na parada, resolvemos nos deter por um tempo para tomarmos um suco e descansarmos um pouco. O Alexandre partiu para o terceiro lance, e logo é possível ver uma chapeleta bem acima das nossas cabeças, não muito longe, mas é necessário sair um pouco para a direita para ganha uma altura. O Alexandre tentou mandar, fez de tudo, mas desescalou novamente. Fiquei ali observando os movimentos, dando o segue atentamente, tudo nos conformes. Mais uma tentativa e o Alexandre voltou a falhar. Não era nada de mais, só que uma queda faria um pendulo potencialmente perigoso, por isso o cuidado com esse lance. Pela terceira vez o Alexandre tentou , mas as pernas grandes pareciam tocar a paredinha e não o deixava progredir, então com a perna bombada e os pés sendo carcomidos pela sapatilha, ele voltou até a parada e pediu para que eu tentasse. - Divanei, vai, tenta lá, você é menor e mais leve, talvez passe fácil. - Alexandre meu velho, melhor não, não tenho condições psicológicas para guiar. - Vai lá mano, sem compromisso, dá uma tentada lá, até que eu descanso. Meio contrariado, mas também não querendo deixar o companheiro na mão, me clipei a corda e ganhei altitude. Analisei bem o lance: Havia uma nervura que se entendia na diagonal até mais acima e se eu conseguisse galgar essa nervura, logo acima dela, um cristal bem grande poderia me dar sustentação para alcançar a chapeleta. Na pratica eu havia ganhado o lance com os olhos, havia montado um mapa de ação na minha cabeça, mas a realidade era bem outra. Dei o primeiro bote, ganhei a nervura para a esquerda, mas cadê a coragem para prosseguir. Desescalei enquanto ainda podia. -Alexandre, não vou não, está muito exposto para mim. -Divanei, que isso cara, tenta aí, vai, você consegue sim, já está aí mesmo, ganha logo o lance meu. Mais uma vez joguei minha mão encima da ranhura e não tive coragem de prosseguir. Maldito medo dos infernos e o pior é que o lance era mesmo fácil para mim. -Alexandre, infelizmente meu amigo, minha condição psicológica não vai dar. -Bobagem Diva, toca aí mano! Confesso, fiquei pressionado e com vergonha e com medo do Alexandre simplesmente encerrar a escalada e descer. Não que isso fosse um problema, se fosse preciso, desceríamos sem neura nenhuma, mas também me sentiria responsável por não pelo menos, me expor a esse lance. Botei a faca nos dentes, esperei a adrenalina chegar e subi gritando, feito um maluco descontrolado, tentando espantar o medo. Ganhei a ranhura e progredi rapidamente, cravando as unhas nas aderências, nem me lembro se usei os pés, estava adrenado e quando cheguei perto do grande cristal acima das nervuras, dei um salto e o agarrei como quem agarra um prato de comida. Me pus de pé e ganhei a chapeleta, passei a costura, cerrei os punhos e comemorei como um gol, minha parte naquela escalada estava feita, agora era com o Alexandre. -Porra Divanei, caraca aí, mandou muito bem! -Mano, agora me desse de vagarinho, o resto é com você, para mim já foi o bastante. -Não Diva, toca o resto, você foi bem pra caralho. -Bom Alexandre, o lance seguinte não parece ser difícil não, mas eu estou com a adrenalina um pouco alta, não estou confiante, mas posso tentar pelo menos até a próxima chapa. O Alexandre me liberou a corda e colei o corpo na rocha, sapatilha agarrada em qualquer pedrinha e as unhas cravadas em ranhuras minúsculas. Sempre disse que me sentia bem em escalada de aderência, sempre tive certa facilidade e ali realmente era uma subida de boa tecnicamente, mas psicologicamente eu começava a definhar cada vez mais e já não sabia onde aquela loucura iria parar. Quando ganhei mais essa chapeleta, já estava com o moral em frangalhos e o pior, agora eu não tinha mais o apoio psicológico do Alexandre que havia sumido do meu raio de ação e as conversas eram aos gritos. -Cheguei Alexandre! -Bom mano! E aí como é o próximo lance? -Cara, eu estou extremamente nervoso, esses esticões estão me deixando pirado já, se eu puder descer seria bom. -Diva toca o pau, você tá indo muito bem, não tem cabimento descer agora, vamos nos encontrar na parada. Olhava para cima e as distancias entre as chapeletas estavam cada vez maior, tanto que eu nem consegui enxergar a próxima. Não sei, foi um impulso, coisa sem pensar, mas maldita hora quando abandonei aquela proteção onde eu havia me ancorado momentaneamente para descansar. A sequência da escalada continuava sendo fácil pra mim, tão fácil que acelerei muito e sem pensar, já me ví um quilometro da chapeleta que havia passado. O único problema era que não conseguia ver a próxima chapeleta e foi nessa hora que me dei conta da encrenca em que havia me metido. -Alexandre, pelo amor de Deus cara, conversa comigo, vê pra mim onde estaria a próxima chapeleta ou parada dessa via? -Divanei, é para ter mais uma chapeleta antes da parada, procura direito cara! -Meu amigo, você não está entendendo a situação, eu estou parado no meio do caminho, sem poder me segurar em nada, com um pé apoiado em um buraco abaulado com 20 cm e na iminência de despencar. Eu preciso ter certeza que ainda não passei da parada, porque se isso aconteceu eu vou me fuder todo e não vai sobrar um osso inteiro do meu corpo para contar história nessa porra. O tempo fechou, trovões e relâmpagos espocavam na serra a nossa frente, a chuva que estava prometida, realmente começou a dar as caras e aquilo que parecia estar ruim, se transformou num pesadelo impensável. Mal ouvia mais a voz do meu companheiro de escalada. Minha alma saiu do corpo e voo para bem longe daquela parede, acho que ela se recusava a ver a desgraça que poderia acontecer. Meu cérebro e minha perna já pareciam não querer mais se comunicar e não, eu não estava com o cu na mão, simplesmente meu cu já havia caído da bunda. Minha cabeça deu uma rodada, as pernas mal se sustentavam naquele minúsculo buraco. Eu já via a cena de um helicóptero tentando me salvar, vergonha, vexame, mas ainda era melhor que umas dezenas de ossos fraturados, mas mesmo assim eu nem sabia se tinha sinal de celular para pelo menos avisar algum escalador ali das redondezas que pudesse me ajudar, muito porque, o próprio Alexandre estava preso na parada mais abaixo, sem corda pra descer. -Fala comigo Alexandre! -Divanei, você tem que escalar, a chuva tá chegando. -Alexandre, estou vendo algo que parece ser uma chapeleta, mas também pode não ser e se não for, é o meu fim. É um estirão do demônio, a escalada parece fácil, mas psicologicamente já tô morto. -Cara, olha bem, deve ser a tal chapeleta, só pode ser, só se você já passou. Eu estava com uma espécie de lombada na vertical, que corria por uns 3 ou 4 metros. Aparentemente não haveria problemas em fazer esse lance, mas onde diabos estaria essa tal chapeleta? E onde seria essa tal parada com duas chapeletas paralelas? Foi quando de repente achei que teria avistado essa parada bem acima da tal chapeleta que eu pensava existir. -Alexandre meu velho, parece que avistei uma parada uns 2 m a direita da linha da via, uns 15 m de altura, seria essa? -Não Divanei, aqui no croqui essa parada é bem para a esquerda. -Puta que o pariu Alexandre, aí então fudeu cara, vê direito meu, eu tô cai mas não cai aqui e já estou no limite do que um ser humano pode aguentar no quesito medo. - Certeza absoluta, no croqui a parada está totalmente a esquerda, numa curva, procura aí meu amigo, não é possível que vc tenha passado por ela sem ver. Não, não havia nenhuma parada a esquerda e agora eu tinha que me apegar na possibilidade de que a chapeleta estava na minha mira mesmo, muito porque, meu corpo já estava inundado por um caminhão pipa de adrenalina. Bateu a cegueira, vou cair. Lancei minha mão acima e agarrei uma rachadura, não havia mais o que esperar, o que fazer e o desespero é que move o homem na sua luta, é o estágio final antes que ele se dê por vencido. Tremendo feito vara verde, colei a cara na rocha, minhas mãos viraram ventosas e minhas unhas eram agarras de falcão e eu agora já não era mais um homem, era quase um calango, uma lagartixa a se esgueirar parede acima, me segurando na vontade de não cair, só pensava nisso, não cair. – Não cai Divanei, não cai ! Repetia insistentemente, enquanto torcia para que acima da minha cabeça aparecesse logo essa chapeleta e quando minha mão tocou aquela minúscula tabua de salvação, feita de aço ou sei lá de mais o que, clipei o mosquetão da costura, passei a corda e gritei bem alto: - Caralho Alexandre, estou salvo, cheguei, mas essa foi por pouco. - Aí, boa Divanei! Meu estômago já havia sido corroído pelo suco gástrico do nervosismo. Eu estava a salvo, ali eu não caia mais e dali também não iria para lugar nenhum, ali era o fim da linha, só pensava em descer, sair dali o mais rápido possível. -Alexandre, vou desescalar devagarinho, sei que não é o certo, mas nas condições em que me encontro, não consigo mais prosseguir cheguei ao fim, não tenho condições psicológicas para mais nada, cheguei onde poderia chegar. -Não Divanei, não tem como você descer mais não cara, tem que ir até a parada e me puxar. -Meu irmão, eu não achei essa parada que está à esquerda, só estou vendo um par de duas chapeletas a minha direita e até lá é um estirão de uns 10 metros. -Caralho Diva, só deve ter uns 7 ou 8 metros de corda, aí fudeu, mas fudeu de verdade. - Alexandre, mesmo que eu esteja fazendo a conta errado e realmente a corda dê, pode ser que esse lance esteja acima da minha capacidade de escalar e se eu chegar lá encima e não conseguir passar, vou cair de uma altura desgraçada, não cara, estou fora, me desce por favor. -Puta que o pariu, você não está entendendo, não existe mais corda para você descer, você já usou mais de 50 m, descer não é mais possível, mesmo que contrariássemos todas as regras da escalada. Mas eu estava maluco mesmo, claro que o Alexandre estava certo, meu cérebro estava impossibilitado de pensar direito, tinha me esquecido desse detalhe, já havia subido tanto que a corda já tinha quase chegado ao fim e não havia outra escolha. Pedi para o Alexandre me dar um tempo, sentei-me um pouco perto da parada, tomei um pouco de água, minha cabeça estava confusa pela situação: E se a corda não desce até a parada? E se eu ficasse preso no fim do lance e não conseguisse mais escalar? Um turbilhão de coisas me passou, mas quando o céu começou a ficar preto encima da gente, aí tive que sair da inércia em que me encontrava. -Divanei você precisa escalar meu amigo, tem que ir, tem que ir logo, a chuva, a chuva. -Não vou, não vou e não vou, não vou porra nenhuma! Fiquei amuado, sentado lá, cabeça baixa, as vezes com o olhar perdido no horizonte, sem nem ligar para os gritos do Alexandre que vinham lá de baixo. Eu era o fracasso em pessoa, porque fui aceitar o desafio sabendo que estava acima da minha capacidade? Era um homem atormentado pela situação, um escalador de merda vencido pela minha própria incompetência, não técnica, mas psicológica. -Vamos Divanei, tem que escalar, tem que ir. -Divanei do céu, e aí vai ou não vai? - Libera corda Alexandre! -Você vai fazer o que? - Caralho, libera essa corda agora! Cerrei os dentes, como uma fera raivosa! Olhar fixo, fiz parar a respiração e os batimentos cardíacos para não abalar os movimentos. O mundo já não mais existia, agora era só eu contra aquela parede rochosa. Subi meu pé direito um meio metro, ganhei uma lasca de pedra e com a mão direita me puxei para cima e descolei do meu porto seguro. Um cristalzinho agarrado de cada vez, uma pisada certeira num grão de areia colado na rocha. Pensava em não cair nunca, enquanto abria uma perna feito uma bailarina arrombada. Quando não tinham agarras, eu colava meus pés e minhas mãos na rocha e ia me elevando centímetro a centímetro. Fui-me então! A concentração deixando qualquer Budista no chinelo. A corda já pesada, fazia um arrasto monstro e tentava a todo momento me derrubar da parede. Substancias inundavam meu corpo, como poucas vezes havia acontecido. Três dias se passaram antes que eu batesse a mão nas duas chapeletas da parada, ganhei o lance em definitivo, coloquei a costura, passei a corda, gritei um palavrão dos mais cabeludos que existem. Eu era um home aliviado, renascido das cinzas e quando o coração voltou a bater, fiz o Alexandre Saber da conquista. -Cheguei Caralho! Cheguei nessa porra, Alexandre! - Puta merda, boa Divanei, você sabe como monta os freios para me subir né? -Aprendi no You Tube, seu filho da puta! -Não ouvi, você falou o que? - Nada Alexandre, nada, vou montar o ATC para te puxar, rsrsrsrsrsrs. Montei a parada com o que tinha disponível, instalei o freio e fiz subir o Alexandre. Apesar de todo o perrengue passado, a gente fez piadinhas para descontrair. Dei segue para o Alexandre fazer a próxima enfiada e quando ele me puxou, me ofereceu o próximo lance para que eu guiasse até o cume. Para quem já tinha abraçado o capeta, visto a vó na curva, guiar esse finalzinho fácil até o cume, foi mamão com açúcar. Guiei com os pés nas costas e ancorei a parada numa árvore, já bem distante da beirada da parede e imediatamente subi o Alexandre e aí foi aquela comemoração, muito porque para nossa sorte, terminamos a escalada sem que a chuva desabasse na nossa cabeça no meio da parede, mas pra lavar a alma, assim que enrolamos a corda, ela desabou em cântaros e para nos proteger, nos enfiamos numa pequena gruta e ali ficamos, extasiados com a aventura vivida. A chuva caiu por uma meia hora e levantamos a possibilidade de voltar por trilha, mas assim que o sol surgiu novamente, interceptamos a linha de rapel, que não é descendo pela via Solaris e sim bem a esquerda dela, uns 30 metros ou mais, já quase fora da parede de escalada, mas não tem erro, está abaixo de um arvoredo, duas chapeletas bem expostas. Mas é mesmo um rapel enfadonho para quem trouxe apenas uma corda e serão precisos uns 5 lances para se chegar ao chão e quando lá chegamos, não perdemos tempo, guardamos nossos equipamentos e nos enfiamos na matinha até sairmos de novo nos sítios mais abaixo da Pedra do Boi e uma hora de caminhada depois estávamos de volta ao Abrigo. E qual a lição que tiramos dessa aventura? Primeiro que nunca devemos confiar cegamente em croquis de escalada: Poderia parecer só uma bobagem, mas realmente não é, uma informação errada para quem não está tarimbado ainda, pode levar a um acidente grave. Outra coisa que eu aprendi na pratica e que nunca tinha dado valor, é a leitura e a interpretação da linha de escalada, mesmo que eu não tenha intenção de guiar. Aprendi na pratica o que seria um (E 3), no meu caso foi aquele ditado: “ Não sabia que era uma exposição do caralho, o trouxa foi lá e fez” (rsrsrsrsrs). E3 – Proteção “regular” com trechos expostos que oferecem perigos, onde em certas partes a distância entre as proteções exigem alto grau técnico e concentração do escalador. No caso de uma queda pode haver contusões sérias e até fraturas em casos extremos. Por certo passei um perrengue nessa escalada, mas pude constatar que tecnicamente tenho condições de me sair bem dessas enrascadas, basta treinar a parte psicológica e para isso não há o que fazer, é treinamento, muito treinamento. Agradeço ao Alexandre por ter confiado em mim e ao me dar a honra de se fuder nessa enfiada do demônio, fez com que eu crescesse um degrau no esporte e mesmo que eu continue a não levar muito a sério, com certeza a experiência vai me servir para os outros ESPORTES DE AVENTURA. Divanei- outubro/2019
  22. ALTO GRANDE X ESPELHO Estávamos à beira do abismo colossal quando ele apareceu, vindo sei lá de onde. Como um dragão cuspidor de fogo, parecendo ter saído das páginas do apocalipse, veio em nossa direção, sobrevoou os vales do Rio Cachoeira, Puruba e Verde, passou próximo da Montanha mais alta de toda a Serra do Mar Paulista e botou força nos seus motores e suas hélices. Ninguém sabia o que estava acontecendo, uns gritavam que era a Polícia Militar, outros insistiam que se tratava da Federal, eu mesmo só pensava em não cagar nas calças diante daquela cena dantesca e inusitada. Aquela era sem dúvida uma das montanhas mais isoladas de Ubatuba, lugar onde pouca gente já teve a honra de botar os pés e o seu nome refletia a angustia presente no olhar de cada um daqueles dez aventureiros que ali estavam, depois de uma jornada duríssima até o seu cume, esquecido pela civilização. Quando pairou sobre nossas cabeças, há 5 metros do chão, eu pensei em fugir, mas atrás de mim uns 500 metros de vazio me dizia que era caminho sem volta e aquela frase clássica escapou da minha boca num sussurro quase inaudível: “ AGORA FUDEU! Agora fudeu de verdade “ A EQUIPE: Régis ferreira, Paulo Potenza, Luciano Carvalho, VGN Vagner, Daniel Trovo, Divanei Goes de Paula, Rafael Araujo, Alan Flórido, Maurício Carbone e Thiago Silva(fora da foto) Se fizéssemos uma pergunta sobre qual o CUME da Serra do Mar de São Paulo, muitos daqueles que estão acostumados com os esportes de aventura e detêm um mínimo de conhecimento, vão dizer logo, com razão, que essa montanha é sem dúvida o TIRA CHAPÉU ( 2088 M) , mas outros poderiam contestar e chutariam que a mais alta é a Pedra da Bacia( 2090 m , mas nunca provado) , as duas turística e de fácil acesso, situadas lá pelas bandas de São José do Barreiro, no Parque Nacional na Serra da Bocaina. Pois bem, mas quando nós dizemos Serra do Mar Paulista sempre estamos nos referindo a sua parte litorânea, seu espigão fantástico, coberta de florestas quase intocadas, de onde rios selvagens escorrem do planalto em direção ao mar, num dos mais lindos ecossistemas do mundo. Dos 16 municípios que compõem o nosso litoral, QUAL SERIA A MONTANHA COM MAIOR ALTITUDE E ONDE ESTARIA LOCALIZADA, ou seja, QUAL O CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA, em todo seu litoral? Durante muitos anos em que estivemos explorando a Serra do Mar, essa pergunta sempre martelou em nossas cabeças, muito porque nos faltavam mapas confiáveis e cartas com divisas de municípios e unidades de conservação. Quando meus estudos técnicos começaram antes da EXPEDIÇÃO que descobriu o Cume da Serra dos Itatins/Juréia, fui empurrado para o litoral norte tentando descobrir se aqueles picos gigantes, em se tratando de Serra do Mar, estavam ou não localizados na Bocaina e sinceramente na época, não consegui angariar informações convincentes, tanto que os 1425 metros do Pico Desmoronado nos Itatins, que eu pensava ser o cume da Serra, acabamos nem nos apegando a isso, porque faltava uma confirmação. Para muita gente, ou pelo menos para uns 99 % delas, o CORCOVADO de Ubatuba seria o cume de Ubatuba e para alguns vai muito mais além, alguns afirmam que seria o ponto mais alto também da Serra do Mar, inclusive até para alguns órgãos oficiais, uma vergonha gigantesca, uma desinformação que chega a ser patética diante do nanismo do Corcovado que não passa de míseros 1.181 metros. Outros mais antenados apostariam suas fichas no Cuscuzeiro (1278 m), ainda que pertencendo a Bocaina, mas situado também em Ubatuba. E por fim, alguma meia dúzia de gato pingado, e gente mais letrada em se tratando de estudos de mapas, irá dizer que existe um pico na divisa com Parati que atende pelo nome de PEDRA DO ESPELHO, mesmo que jamais tenha botado seus pés lá. A PEDRA DO ESPELHO eu já tinha ouvido falar e havia chegado a ela nas pesquisas dos mapas, mesmo não tendo essa certeza toda, mas havia algo que me intrigava: Pouco mais de dois quilômetros e meio ao norte/noroeste do Espelho, um cume proeminente me dava quase a certeza de que o Espelho era mais baixo e quando tive acesso a alguns mapas mais detalhados, a minha dúvida começou a ruir. Era certo que aquela montanha estava acima dos 1600 metros, mais de 100 metros acima do Espelho, mas tinha um, porém: Aquele pico até então desconhecido e sem nome, ao menos para mim, pertencia a Cunha-SP ou a Ubatuba-SP, pertencia a Serra do Mar ou a Serra da Bocaina? Aí alguém poderá me perguntar que diferença faria isso e eu simplesmente diria que se esse pico pertencesse a Cunha ou pior ainda, a Paratí-RJ, não faria o menor sentido se preocupar com ele, porque seria mais um, dentre tantos outros picos altos naquela região. Aliás, mesmo a PEDRA DO ESPELHO, apesar de pertencer a Ubatuba, estaria inserida no Parque Nacional da Serra da Bocaina, que é compartilhada tanto por São Paulo, mas também pelo Rio de Janeiro, mas mesmo assim ainda seria o ponto mais alto do LITORAL DE SÃO PAULO, só que nem isso seria verdade, como descobriríamos mais adiante. Sem saber como acessar nem o Espelho e nem muito menos essa montanha que eu supunha ser o Cume da Serra, mas não tinha certeza, fui cuidar de outras expedições à essa Serra onde a aventura te chama para qualquer lugar que você olhe e numa dessas aventuras foi que conhecemos o Alan Flórido e o Thiago Silva, dois conhecedores do litoral norte, inclusive o Flórido foi convidado por nós na expedição que ascendeu ao cume da Pedra da Boracéia( 1270 m) por uma nova rota, mas como estava às voltas com outra viagem e por infelicidade ficou fora de combate por causa de uma hérnia de disco, acabou abortando sua ida, mas numa discussão informal, acabou deixando vazar que conhecia uma rota para o Espelho e que o Thiago também já havia estado nessa montanha que eu buscava e não tardou em a gente alinhar uma data para irmos juntos desvendar esse mistério, mesmo que ainda pairasse no ar a dúvida sobre se essa montanha pertenceria ou não a Ubatuba. Dessa vez então deixamos o roteiro e os convites a cargo do Flórido e do Thiago e eu me mantive firme atrás de outros mapas e em pesquisas mais avançadas, mas infelizmente , mesmo pesquisando até no limbo da internet, nada encontrei sobre essa montanha, que agora sabia o nome que foi dado pelos locais das fazendas vizinhas e seu nome não poderia ser outro, ALTO GRANDE , um nome sugestivo para o gigantismo geográfico que ela representava, mesmo que nenhum desses nativos tivesse ciência disso, aliás nem mesmo os nossos “guias” haviam se dado conta da importância dela, pensando que fosse apenas mais uma grande montanha no caminho da lenda chamada Espelho. Bom, mas isso eu também ainda não sabia, mas tudo mudou quando sem querer cai num mapa que me deu a divisa exata entre UBATUBA E CUNHA e melhor ainda, esse mapa delimitava as divisas do Parque Estadual da Serra do Mar com o Parque Nacional da Serra da Bocaina e BINGO! O ALTO GRANDE era Paulista, o ALTO GRANDE era terras de UBATUBA, o ALTO GRANDE pertencia ao Parque Estadual da Serra do Mar e nesse dia eu fui dormir feliz, aquilo que eu buscava já estava definido e com o grupo que tínhamos nas mãos, com os caras mais experientes em se tratando de Serra do Mar, era questão de tempo para que botássemos os pés no cume dessas montanhas. (VERDE- Pq.Nac. Serra da Bocaina- Rj/SP) (BRANCO - Pq. Est. Serra do Mar- SP) O Flórido montou o grupo e no final acabamos ficando com 10 integrantes, um número grande, mas infelizmente outros companheiros ficaram de fora, alguns já vinham mesmo não querendo mais participar dessas travessias incertas, outros compareciam esporadicamente, mas paciência, dessa vez eu mesmo não tinha controle sobre isso e me mantive apenas como convidado, ainda que ajudando na logística da coisa. Outro problema era que não tínhamos mais nenhum feriado prolongado nesse inverno, então tudo teria que ser resolvido em um único final de semana e para ajudar aqueles que trabalhavam aos sábados, escolhemos o fim de semana com o feriado da Independência. Partimos da capital Paulista em dois veículos rumo a Cunha-SP e depois rodamos uns 15 km em direção à Parati, entramos à direita numa estrada de terra, andamos mais uns 06 km até estacionarmos enfrente da fazenda onde partira nossa trilha, mas como ainda era alta madrugada, tratamos de montar nossas barraquinhas enfrente a porteira e deixamos para conseguir as tais autorizações quando o dia amanhecesse. Como disse a previsão, o dia amanheceu lindamente ensolarado e pouco depois da 6 da manhã já estávamos de pé, bem a tempo de dar explicações para um dos habitantes da fazenda que deve ter se assustado com nossa invasão. Estávamos apreensivos porque uma fonte havia nos dito que os fazendeiros estavam barrando quem se atrevesse a passar por suas terras rumo aos picos, mas fomos atendidos muito bem pelo seu Lourival, com toda simplicidade do homem do interior que nos recebeu com um cafezinho quente e ainda nos ofereceu para guardar nossos carros. Pouco depois das sete já estávamos prontos para partir, jogamos as mochilas às costas e nos pusemos a caminhar pelos Campos de Cunha, sua direção a partir de agora era para o alto, em busca do Cume da Serra do Mar Paulista. Nossa jornada começa por adentrarmos um portão de fazenda do lado direito da estrada, ganha logo uma casa e intercepta uma trilha que vai atravessar uma língua de mata em direção ao sul e uns 800 metros depois viramos à direita numa cama de pinhões, um amontoado de sementes da araucária, disposta em um cercado, que não faço a mínima ideia para que serve. Cruzamos mais alguns metros de mato e subimos o barranco e começamos a ganhar altitude de vez, sempre acompanhado alguma trilha de cavalo. Perdemos um pouco de altitude e descemos à um riacho onde aproveitamos para um gole de água e voltamos a subir, atravessamos uma cerca e nos enfiamos num corredor de samambaias mais alto até sairmos de frente para um vale bonito de onde se descortina grandes montanhas a nossa frente, que revelam toda a beleza desses Campos de Cunha. O sol já se mostra impiedoso mesmo sendo ainda muito sedo e a próxima subida já não é feita no mesmo ritmo das anteriores. Cruzamos uma porteira e quando nosso GPS marca 1480 metro de altitude nos diz que já andamos quase 4 km desde a fazenda, tropeçamos na placa que delimita a divisa entre Cunha e Ubatuba e ao mesmo tempo nos diz que estamos entrando no Parque Estadual da Serra do Mar, geograficamente tudo que havíamos estudo acaba confirmando que estamos no rumo certo e aproveitando que a trilha entra na mata fechada, descemos por mais 300 metros até desembocarmos bem no meio de um vale, juntamente a nascente de uma das pernas do Rio Puruba, que na carta topográfica consta como Rio Cachoeira, hora de parar, sentar, tomar um gole de água e morder alguma coisa. Geograficamente estamos num bico do mapa bem nos cafundós mais distantes de Ubatuba, encima do Planalto Paulista. E é mesmo surpreendente estar ali naquele riacho onde o rio Puruba pode ser cruzado com a água pela canela. Mais surpreendente ainda foi a capacidade que tivemos em unir dessa vez tanta gente diferente umas das outras, um dos grupos mais heterogêneos que já formamos, mas uma coisa acaba igualando todo mundo que ali estava: A PAIXÃO INCONTROLÁVEL PELA SERRA DO MAR DE SÃO PAULO, gente capaz de largar tudo por uma aventura nessas montanhas e florestas e esse amor incondicional acaba por ligar essa gente a ponto de se tornarem quase uma família. Como eu já havia dito, os caras que puxavam a fila eram o Thiago Silva e o Alan Flórido, sendo o Thiago o único que já estivera no Alto Grande. A nossa jornada continua agora por uma trilha estreita no meio da mata sombreada, mas como havia sido uma semana chuvosa, o caminho era uma lama só e parar em pé era um desafio do tamanho daquelas montanhas que buscávamos. Quando a subida começou de verdade, o grupo se fragmentou e alguns ficaram para trás e como a subida não faz distinção de idade, velhos e novos se alternavam como cú de tropa, experientes e novatos arrastavam suas línguas no chão até que sem prévio aviso ela surgiu à nossa frente e sorrindo nos chamou para uma conquista, mas antes era melhor estacionarmos por um momento sobre uma grande pedra no caminho à 1579 m, juntar todo o grupo antes da subida final. Pelo meu gps aquela pedra que marcava a saída da trilha principal para ascendermos ao cume, marcava também a divisa de Ubatuba com Paratí, portanto, dividia também São Paulo do Rio de Janeiro e ia muito mais além, dividia Parque Estadual da Serra do Mar do Parque Nacional da Serra da Bocaina e essa informação era o “X” de toda a questão, porque sempre pairava uma dúvida se o cume ficaria ou não em terras Paulistas e agora diante dos nossos olhos , na palma das nossas mãos, a confirmação final e incontestável diante da tecnologia, faltava agora confirmar a altura aproximada do Cume, distante menos de meia hora de onde estávamos. Escondemos as mochilas no mato, mas nem precisava, e adentramos na mata rala em direção ao cume. Uns 200 m mais acima, um grande amontoado de pedras nos dá uma visão maior. O horizonte já se ampliou consideravelmente e já é possível avistar a Serra da Mantiqueira e seus famosos cumes, além da baia de Paratí e a cumeada da Bocaina. A subida final é suave, passa por uma toca e só aí começa a inclinar de vez, atravessamos um capão de mata mais fechada e desembocamos de cara com duas grandes rochas, uma do lado esquerdo e outra do lado direito e uma delas marca geograficamente o CUME DO LITOAL PAULISTA. Durante anos eu olhei para os mapas e cartas e agora diante dos meus olhos aquilo que era apenas um ponto aleatório, se materializou na minha frente. Para muitos poderia ser apenas uma pedra jogada no cume de um morrote qualquer naquele fim de mundo perdido encima do Planalto Paulista de Ubatuba, mas para mim era a consolidação de uma busca de anos, porque foram muitas noites de sono perdidas estudando mapas, buscando informações onde elas estivessem e agora nós estávamos prestes a fincar os pés naquele cume lendário. Um a um, fomos nos agarrando a qualquer coisa que desse sustentação e como era um cume não muito grande, nos amontoamos em grupos sobre ele e um abraço coletivo marcou a CONQUISTA FINAL, o CUME MAIS ALTO DA SERRA DO MAR PAULISTA era nosso, o ALTO GRANDE agora não era só uma montanha isolada nas bordas da serra, acabará de ganhar outro patamar com a nossa presença, não éramos nem de longe os primeiros, mas coube a nós revelá-la ao mundo da Aventura e talvez mudar a geografia da Serra do Mar que de agora em diante e para todo o sempre e para o conhecimento de todos, tem um cume oficial, não só o mais alto de todo o litoral, mas também o mais alto de UBATUBA. (Alto Grande) Na realidade o Cume é composto por essas duas rochas, mas a da esquerda é levemente maior, então foi nela que juntamos os 3 GPS para uma medição oficial, claro que é uma medição aproximada e num futuro, poderá se usar equipamentos ultramodernos e precisos, mas os números que achamos condiz com o que estão nas cartas, nas análises das curvas de nível. Juntos e no mesmo local os nossos equipamentos marcaram praticamente a mesma coisa, com uma miséria diferença de 1 metros entre os 3 equipamentos, então diante disso, o número estabelecido para a altitude do ALTO GRANDE foi de 1.662 metros acima do nível do mar. Se a rocha da esquerda é o cume da serra, foi a rocha da direita que escolhemos para instalar o nosso LIVRO DE CUME, bem debaixo de uma pedra, protegido da chuva e do vento e de qualquer outras intemperes do tempo, foi uma doação nossa, um presente para Serra do Mar Paulista. Tirando a importância geográfica dessa montanha, nós sinceramente não achávamos que teríamos algum visual que prestasse, pensávamos que seria um cume cercado de mato por todos os lados, porque é assim que ele se apresenta nas fotos de satélite, mas nos enganos bonito e se não é possível daqui ver o mar de Ubatuba e o litoral Paulista, vamos ter as vistas soberbas da Baia de Paratí, das montanhas que fecham o vale da Toca do Ouro , de toda a cadeia de montanhas da Bocaina, inclusive com a Pedra da Macela e o Pico do Frade, além da incrível Mantiqueira e seus ícones rochosos. Olhando para o sul/sudoeste, que é a direção do litoral Paulista, vamos ver uma sequência de montanha com cerca de 100 metros mais baixa que o Alto Grande, mas por incrível que pareça, uma delas reina como o segundo ponto mais alto do nosso litoral, com altitude em torno de 1550 metros, mas por não parecer ter nenhum cume rochoso, essa espécie de k2 da Serra do Mar, que resolvi então chamar de UB 2, por pertencer a Ubatuba, decidimos não perder tempo com ela, nosso próximo objetivo então seria o terceiro cume nessa hierarquia , a não menos fantástica e LENDÁRIA , PEDRA DO ESPELHO, de onde o mar de São Paulo te convida para um deslumbramento inesquecível. O dia quase se aproximava da sua metade quando abandonamos o Alto Grande. A descida foi rápida e sem entreveros e assim que chegamos na bifurcação, não perdemos tempo e pegamos logo para a direita e não demora muito a trilha já volta a entrar na mata fechada e entre sobe e desce, intercepta algum riachinho mais caudaloso. É uma trilha bem consolidada porque vai percorrer todo o vale até Paratí, 20 km de pernada que teremos que fazer na manhã seguinte, mas hoje o objetivo é abandoná-la em favor de outra trilha que nos levara direto para o sul em direção a Pedra do Espelho. Uma hora de caminhada desde o Alto Grande, nos faz sairmos em campo aberto e já é possível avistar a imponência do Espelho assim que cruzamos uma porteira. Os nosso “guias” sussurram que está perto, mas não passa de conversa fiada, logo se vê que a montanha está lá na puta que o pariu, mas eu mesmo me enganei ao fazer essa análise de distância, nunca vi puta que o pariu ser tão longe. ( Rumo a Pedra do Espelho) A trilha começa a descer bruscamente em campo aberto e agora o grupo voltou a se fragmentar, porque alguns fizeram questão de ficar apreciando o visual e angariar umas boas fotos. Vamos perdendo altitude até que ela volta a entrar na mata e quando chega a uma outra bifurcação, nos detemos por um instante até que todo o grupo se juntasse novamente. Nessa bifurcação vamos pegar para direita e abandonar a trilha principal. Então descemos a ribanceira até sairmos novamente em campo aberto junto a um rancho e um bucólico riacho e subimos a colina à frente até pararmos no mirante do vale, hora de nos determos por mais um momento e apreciarmos as paisagens até onde a vista alcança. A chegada ao mirante marca definitivamente o fim da trilha, de agora em diante é só mato no peito e as vezes alguma picada ou outra, mas sem gps não se vai a lugar nenhum. Reunido todos ali já se vê que o cansaço já tomou conta de boa parte do grupo. Viajamos quase a noite toda, dormimos quase nada e nos alimentamos muito pouco e a maioria não vê a hora de esticar o esqueleto, mas a pior parte da trilha ainda estava por vir. Deixamos o descampado e caímos logo na capoeira, uma mata fechada e não deu nem 5 minutos para o Daniel Trovo soltar um galho no olho do Vagner e aí tivemos que nos deter por um tempo para prestar os primeiros socorros, mas isso não foi nada porque o Vagner ia “tomar no zóio” mesmo era lá no cume do Espelho. Restabelecido o moribundo, seguimos enfrente, sempre rumando para sudoeste, descendo e subindo pequenos vales, cruzando riachos e atravessando vegetação fechada. A quilometragem total não passa de míseros 3 km desde o rancho , mas para quem já está no bagaço, 100 metros subindo é uma tortura. O calor tá de matar e a umidade acaba por ir minando a energia da gente. Alguns já vão ficando para trás, Luciano perna manca e joelho podre, assume a rabeta de vez e pega para si o título de cu de tropa da subida final. Rafael é só mais um zumbi vagando sem rumo tentando acompanhar o grupo, ao seu lado, Paulo Potenza vai tentando lhe dar um conforto psicológico, mas não demora muito para ele anunciar que o Rafa teve um mal súbito e agora jaz ali caído no meio da mata a espera do SAMU. Um km depois nosso caminho se vira para o sul e embica para cima e os “fi duma égua” do Thiago e do Flórido anunciam que logo estaremos passando pela última água antes do cume, mas, ou se enganaram ou estavam de onda com a nossa cara, porque essa água nunca chegava, passávamos por centenas de riachos, mas nunca era o último. O tempo vai passando e cada vez mais a língua da maioria vai se arrastando pelo chão, tirando 2 ou 3 novinhos, o resto arrasta seu sofrimento montanha acima e o problema não é por estarem fora de forma, mas é que no primeiro dia sem dormir e como a tarde já bate as portas, aquela leseira vai se acentuando, a fome vai tomando conta e quando é anunciado que o último ponto de água chegou, enchemos todos os reservatórios e sem perder tempo começamos a galgar a rampa final rumo ao cume. Até caras forte como Trovo e Régis já vão dando sinal de fraqueza e o Maurício é outro que resolveu trazer comida para todo mundo e se enrosca carregando uma mochila muito acima do necessário. Mas eu não, apesar de me manter firme no grupo de elite que vai à frente, meus quase 50 anos já viraram 100 faz tempo, minha perna direita resolve que não iria subir mais e fez corpo mole, se acabando em câimbras. Sem querer pagar mico e pedir para o grupo parar na reta final, apenas dou ordem para que minha perna esquerda se vire e araste a direita e quando um grande clarão surge no meio das árvores logo vem o grito do homem à frente: “CUME GALERA”. A chega ao cume da PEDRA DO ESPELHO é feita aos poucos, porque é um grande platô plano, quase do tamanho de um campo de futebol e quanto mais perto da borda, mais a paisagem vai se abrindo para um mundo de sonhos e beleza e antes mesmo de irmos a borda final, jogamos nossas mochilas numa clareira de mato mais ralo e nos cumprimentamos ali mesmo, com a sensação do dever comprido e com a certeza de que todo o nosso planejamento tinha tido êxito. Aquele mar visto lá de cima do Espelho era algo mágico e inexplicável, não só por estarmos em uma das regiões mais isoladas do litoral norte, mas também por fazermos partes dos poucos aventureiros que tiveram a honra de colocar os pés naquele cume lendário. Extasiados e sem saber para que lado olhar, corremos todos para onde o terreno despenca mais abruptamente, porque a Pedra do Espelho está virada para sudoeste, de onde vales gigantes emolduram um cenário incrível e olhando para aquele vale, quase que hipnotizados, vimos surgir ao longe um helicóptero que vinha em nossa direção, voando baixo, mas apenas ficamos ali, apreciando seu magnífico voo, mas quando ele embicou de vez para o cume do Espelho, um frio na barriga foi inevitável. Quando o troço voador começou a vir em nossa direção, dando pinta que pousaria mesmo no Espelho, não quisemos acreditar, mas quando a ficha caiu de vez, começou a gritaria de opiniões desencontradas: “ Caralho mano, é o Águia da Policia Militar”, gritou alguém. “ Que nada, é um helicóptero da POLÍCIA FEDERAL”, retrucou o Trovo do outro lado. Outros, como eu, não gritaram absolutamente nada, apenas não acreditavam no que estava acontecendo: Estava na cara que a casa havia caído para a gente. Sairíamos dali presos, multados e com os equipamentos apreendidos. O pior é que para evitar qualquer confusão com parques ou coisa assim, subimos pelas fazendas do Norte, onde tecnicamente o caminho é permitido e necessita apenas a liberação dos donos das propriedades. O helicóptero pairou no ar como um beija-flor e vagarosamente foi descendo. Eu já não sabia se corria, mas quando pensei na possibilidade, me vi acuado na beira de um abismo de mais de 500 metros de altura e parte dos exploradores, sem ter mais o que fazer diante da situação, correram em direção ao helicóptero que ameaçava pousar encima das nossas mochilas. O HELICÓPTERO foi baixando até tocar o solo. O mais perto da aeronave era o Thiago e notou logo que quem pilotava era uma mulher, acompanhada de outro homem e ao ver que corríamos (menos eu) na direção deles, permaneceu no chão por algum segundo e alçou voo rapidamente. É provável que ao verem aquele monte de malacabados indo em sua direção, ficaram com medo e picaram a mula do topo. A gente ficou a ver navios, sem saber do que se tratava, mas aliviados de mais uma vez sermos deixados em paz naquele cume sombrio e distante da civilização, 10 homens isolados do mundo, donos absolutos daquelas paragens, soberanos sobre o TERCEIRO CUME mais alto do LITORAL PAULISTA. Depois desse acontecimento inusitado, foi uma festa só, comemoração e risadas sem fim. Estávamos felizes e aproveitamos as horas de sol para montarmos nossas barracas e fazer uma comida e enquanto o fogareiro trabalhava, fomos apreciar o pôr do sol que pela localização da montanha ficava quase que paralelo ao mar, num dos cenários mais fabulosos do litoral Paulista. Dentre outras paisagens se destacava a Baia de Ubatumirim, Ilha Bela, Ponta da Joatinga, além do distante pico do Corcovado e dezenas de outras ilhas, num mar qualhado de belezas inigualáveis, além do proeminente cume do Alto Grande e o UB2, que fechava os abismos da serra. Vales e gargantas profundas podia se contar em dezenas, numa selva isolada, de onde rios desciam do planalto em direção a planície litorânea, enfim, a Serra do Mar Paulista com tudo que tem direito. Foi um dia longo e de múltiplas experiências e com a ida do sol era hora de nos voltarmos para o jantar e para o descanso merecido. Eu e o Régis dividimos a barraca e o rango, que dessa vez, como era uma única refeição quente, resolvi levar uma carne seca já dessalgada e cozida na panela de pressão, nela juntei cebola, alho, pimenta e outros temperos diversos, coloquei azeitonas picadas e quando o bacon fritou, misturei com uma caixinha de creme de leite e fizemos um super strogonoff e para complementar cobrimos com queijo ralado e para beber um suco de jabuticaba, nossa típica fruta da Serra do Mar, tudo isso com um arroz quentinho e uma saladinha de tomate cedido gentilmente pelo Mauricinho, que trouxe 5 kg pra não faltar mesmo, porque miséria não é com ele. Quando juntamos aquele grupo com os novos integrantes (Flórido, Mauricio e Thiago), a galera combinou de fazer uma grande confraternização no cume do Espelho e dessa vez resolveram que levariam um aperitivo para tomar lá encima. Eu mesmo, que não sou dado ao álcool, nem me intrometi, mas a intenção de levar uma garrafa de vinho acabou se multiplicando por vária garrafas de bebidas diversas e enquanto eu e o Regis nos recolhemos cedo depois de quase morrer de tanto comer, a galera ficou lá fora bebendo e comemorando e vez ou outra eu acordava com a algazarra, mas voltava a dormir novamente. Sei que alguns exageraram a ponto de a meia noite surgirem convites para ver disco voador colorido à beira do abismo. Mas nada se comparou ao “VGN Valita Vagner”, que passou a noite inteira espremendo laranjas. Dá barraca de onde estávamos, só ouvíamos suas “gorfadas” que iam parar na cabeça dos turistas lá no litoral. Parecia um espremedor de laranjas em ação, vomitando no mundo e até na cabeça do próprio Trovo, seu companheiro de barraca avistador de nave espacial. É mais um lindo dia que nasce e antes que o sol explodisse no horizonte, o grupo já estava de pé para saudá-lo, menos o Vagner que ainda estava às voltas com fabricação de suco de laranja, aliás, ele mal parava em pé e essa ressaca ia perdurar pelo menos até a metade daquele dia. Com a iluminação da manhã, novos cenários vão surgindo e novos ângulos vão nos dando a dimensão desse lugar. Fica até impossível escolher o melhor ângulo para uma foto diante de tantas possibilidades. E estar no topo da Pedra do Espelho é ter o privilégio de avistar um mundo diferenciado e de cima daquele pico isolado, o litoral Paulista em nada parecia com aquele lugar agitado, ali de cima o silencio reina absoluto e é possível ficar olhando aquela paisagem pela eternidade sem se cansar. Já havíamos feito as medições do cume do Alto Grande e instalado um livro de cume nele, mas para completar o serviço, também levamos uma capsula para deixarmos um livro no Espelho e aproveitamos também para atualizarmos a marcação de altitude. Pelas cartas topográficas e satélite, imaginávamos que a altitude pudesse chegar a ultrapassar a linha dos 1500 metros e realmente estávamos totalmente certos quanto a nossa expectativa. Quem chega já vê que existe uma pequena elevação uns 50 metros afastado das bordas, que o Thiago disse se chamar Cabeça do Tigre, mas minha imaginação não conseguiu saber de que tigre se tratava, mas mesmo assim é uma elevação muito pequena e irrelevante, então resolvemos proceder as marcações na borda da montanha, onde o mundo acaba em abismos colossais e foi lá também que escolhemos para instalar o LIVRO DE CUME, onde o amarramos em um pequeno arbusto para que não seja levado pelo vento e foi ali que travamos nossos GPS e marcamos a altitude que nos deu PEDRA DO ESPELHO – 1504 METROS de altitude acima do nível do mar, o terceiro maior cume de Ubatuba e também de toda a Serra do Mar Paulista. A gente se apegou aquela montanha de tal maneira que ninguém fazia menção de descer, ficamos todos reunidos ali nas suas bordas vislumbrando e conversando sobre expedições futuras na Serra do Mar, mas chega uma hora que é preciso voltar para o mundo dos homens e alguém nos acorda daquele sonho e avisa que é hora de descermos, porque ainda teremos um longo dia de caminhada pela frente. Devagar e meio contrariados, fomos desmontando as barracas, tomamos café, jogamos tudo para dentro das mochilas e partimos rumo a Paratí. Aliás, quando acaba o cume plano do Espelho e entramos na mata, automaticamente estamos também cruzando a linha imaginária que separa São Paulo do Rio de Janeiro e como agora estamos descansados e bem alimentados, a descida do cume em direção ao interior mais plano da floresta é feita numa velocidade inimaginável e o sofrimento do dia anterior, desta vez vira um bonito passeio sombreado e os 3 km até o rancho é feito com os pés nas costas, em meio a muita conversa e descontração de todo o grupo e até o Vagner já se recuperou e voltou a ser o VGN de sempre. Chegando à bifurcação acima do rancho, desta vez pegamos para a direita, vamos começar a descer o VALE DA TOCA DO OURO em direção a Parati. A trilha se enfia mata à dentro e vai alternando entre grandes descidas e pequenas subidas, mas sempre perdendo altitude, mesmo que sejam mínimas. É uma caminhada gostosa e sombreado e por não exigir muito esforço e a gente ainda estar com o nível de energias lá no alto, vamos ganhando terreno com uma certa velocidade, até que uma hora depois de termos pego essa trilha principal, galgamos uma subida exposta até sermos obrigados a nos desfazermos das nossas mochilas e pararmos para contemplarmos a PEDRA EMPILHADA. Essa formação rochosa é belíssima, num cenário de sonhos, sendo uma pedra arredondada, sustentada por outra quadrada, no início de um vale aberto, donde montanhas pontudas e picos bicudos, emolduram uma paisagem incrível. Diante daquele cenário ninguém quer ir embora e cada qual busca o melhor ângulo para uma boa foto e com a ajuda do Thiago, consigo ir ao cume da rocha redonda e depois um a um foram brincar de escalar o monumento rochoso e aproveitando a parada, nos detemos mais um pouco para comer alguma coisa e descansar numa sombra. Quando retomamos a pernada , nossa direção que era sudeste , virou drasticamente para o sul, mas 300 m depois vai dar uma guinada e seguir para o leste, ainda continuando em campo aberto, com montanhas e paredões nos acompanhando pelo lado esquerdo do vale , mas depois de queimar o couro em campo aberto, voltamos para mata e caminhamos por uns 500 metros de sombra até voltarmos novamente para o sol e mais 500 metros darmos de cara com um rio que veio para salvar nossa pele e nossa garganta já seca. Aquele era mais um rio bucólico dessas serras, água cristalina onde alguns resolveram se jogar e se refrescar de vez, enquanto outros resolveram usar o tempo para tirar as botas e apenas refrescar os pés. Do outro lado do rio, um rancho de madeira bem construído faz inveja a quem gostaria de largar tudo e passar uma boa temporada longe da civilização e nossa trilha começa por atravessar o próprio rio, contornar a casinha de madeira e ganhar novamente a descida entre grandes rochas e caminho desimpedido, hora ou outra tendo de correr de alguma vaquinha mais perigosa. A caminhada segue, mas agora estamos bem próximo do fundo do vale com o Rio do Ouro emoldurando a paisagem e menos de uma hora de caminhada já estamos novamente atravessando mais um capão de mata e passando encima de outro afluente, mais uma pausa para m gole de água e um refresco. O dia vai passando e a gente enfurnado dentro daquele vale sem ver uma viva alma além de nós mesmo. Uma meia hora depois, desde o último riacho, nos enfiamos mais uma vez dentro da floresta e sem aviso prévio, somos apresentados a tal TOCA DO OURO que nomeia esse vale incrível. Antes da Travessia, ainda nas conversas de organização, eu perguntava para o Alan sobre que raios de toca seria essa que dava nome ao vale e ele sempre desconversava, então a chegada a esse marco natural acabou por se tornar uma surpresa muito agradável para mim, achei um cenário bem marcante e bem interessante, mais um lugar para um bivac em caso de emergência, aliás, atravessar esse vale é muito possível sem ter que carregar uma barraca, apenas usando os abrigos naturais como moradia provisória . Mais 2 km vagando por campos aberto nos leva até um outro bonito rancho, vazio por sinas, aí o contornamos pela esquerda, passamos a descer bruscamente até passarmos embaixo de uma grande rocha e mais uma vez adentrarmos floresta à dentro, onde outro grande córrego nos convida para um banho mais demorado. A tarde já se anuncia e o calor vai batendo seus recordes nesse inverno e nossa energia já não é mais a mesma, muito porque estamos caminhando desde as nove da manhã e o terreno parece não querer perder altitude. Ao longe vemos Paratí e seu aeroporto e sua linda baia, mas a sensação é que o mar foge da gente. Abandonamos o riacho pelo lado errado, mas logo descobrimos que era hora de cruzar o Rio do Ouro para seu lado esquerdo e quando fizemos isso, tivemos que engolir uma subida que não esperávamos ter que enfrentar. Nesses próximos 500 metros vamos torar ao sol e depois ganhar novamente a sombra por mais 1 km e saindo novamente no aberto, vamos nos deslumbrar com um MIRANTE SENSACIONAL, onde é impossível desgrudar os olhos do mar e mesmo tendo que aguentar as altas temperaturas, nos sentamos ali naquela colina e ali ficamos grudados e hipnotizados com a paisagem. Ao longe a visão da Igrejinha da Penha já nos alegra a alma por sabermos que não está muito longe nosso destino, então adiantamos o passo, cruzamos por um vale bonito onde um desmoronamento nos surpreende pelo tamanho e agora sim, parece que estamos perdendo altitude considerável, ziguezagueando floresta à dentro até o fundo de outro vale de onde uma CACHOEIRA despenca e somos obrigados a parar para mais um banho. ( Thiago Silva) Engraçado que quando estudei esse roteiro, jurava que quase todo o vale era servido por uma estradinha, ainda mais por avistar diversos ranchos ao longo do caminho, mas vejam só, são quase 20 km de trilhas perdidas no meio de um vale selvagem e é incrível que esse lugar ainda não tenha sido descoberto pelos caminhantes do Brasil, sinal que esse nicho ainda continua a palmilhar pelos mesmos caminhos de sempre e a exclusividade desse roteiro nos deixa ainda mais satisfeitos. Mas chega uma hora que é preciso dar fim a caminhada, então por mais 2 km apertamos o passo, agora despencando freneticamente até que sem percebermos, caímos bem nos encontros do Rio do Ouro com o Rio do Sertão, numa pontinha que cruza um fim de estrada, um rio lindo demais e é à beira desse Rio que nos cumprimentamos, chegamos ao fim de mais uma jornada, mais uma empreitada bem-sucedida pela Serra do Mar Paulista e desta vez o final glorioso acabou no Rio de Janeiro, Paratí está sob nossos pés. Aproveitamos o Rio do Sertão, que logo mais à baixo vai se chamar Perequê-Açu e tomamos um belo de um banho para lavar a lama e a alma, trocamos de roupa e ganhamos a estrada até estacionarmos numa lanchonete mais à frente, para tentarmos retornar aos nossos veículos, estacionados ainda lá no início da fazenda de onde havíamos partido 2 dias atrás. Na lanchonete rural, conseguimos o contato de um carro que mediante um pagamento, nos ofereceu para resgatar os veículos. Então decidimos que os motoristas (Alan e Luciano) subiriam, enquanto nós esperaríamos eles voltarem, mas o Mauricio e o Potenza, na ânsia de experimentar o tal leitinho do Jambú lá na fazenda do seu Lourival, fizeram questão de ir fazer peso no carro do resgate. Foram e voltaram só depois de umas 2 horas e sem muita pressa, cada carro tomou seu destino e fomos chegar de volta a capital Paulista beirando as duas da manhã, o que obrigou parte do grupo a dormir como mendigo esticado num canto qualquer da Estação Tatuapé do metrô até que um novo dia nascesse e nos mostrasse a cara cinzenta de uma segunda feira de trabalho. Levou quase uma década para que puséssemos os pés nessas montanhas lendárias e eu acho que jamais sossegaríamos até nos vermos no tão sonhado CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA. Esse era um MARCO GEOGRÁFICO que buscávamos e mesmo que essa montanha seja subida por alguns nativos oriundos das bordas dos Campos de Cunha, coube a nós a honra de desvendar esse mistério ou ao menos revela-lo ao MUNDO DA AVENTURA. Eu tive o prazer de me perder nos mapas e cartas topográficas, buscar referencias e divisas, vasculhar o submundo da internet atrás de informações que comprovasse nossa tese de que aquelas montanhas estariam no topo do nosso litoral, mas toda a glória dessa “expedição” deve cair nas costas do Thiago e do Flórido, que foram os exploradores que botaram a cara e nos lideraram até esses cumes. O resultado final dessa “EXPEDIÇÃO GEOGRÁFICA” foi a confirmação de que o ALTO GRANDE reina absoluto sobre Ubatuba e todos os picos do litoral de São Paulo e mesmo que seus 1662 metros de altitude careça um dia de uma medição mais precisa, com equipamentos de ponta, sua magnitude quanto a geografia será “inderrubável”. Já a PEDRA DO ESPELHO não precisa de glamour altimétrico porque a seu favor conta o deslumbramento, o fascínio e a soberba visão do Litoral Norte Paulista e dos mares Fluminenses e mesmo figurando entre os três maiores cumes do litoral, seus 1504 metros não fica devendo nada a nenhuma outra montanha. Divanei Goes de Paula- setembro/2019
  23. LAGUNA 69 Ir ao Peru pôde ser uma das experiências mais incríveis que um Brasileiro poderá ter na vida e se você desembarcar em Huaraz, capital da província de Ancash, cidade de 140 mil habitantes situada a quase 400 km da capital Lima e imersa no meio da Cordilheira Branca, uma extensão da Cordilheira dos Andes, não espere nada menos que o surpreendente, um mundo tão diferente do nosso que irá fazer com que você perca o chão , sua cabeça vai rodar e talvez sentirá até náuseas , tanto pela diferença cultural, tanto pela altitude acima dos 3.000 metros . Eu já havia passado pelo Peru muito rapidamente em 2007, numa viagem alucinante até as ruínas de Machu Picchu, mas foi uma passagem tão rápida e tão conturbada que mal tive tempo de me deixar entrar na cultura peruana, mas desta vez havia separado muito tempo para me perder no país e agora arrastando minha mulher atrás de mim, o que para ela seria ainda mais devastador, já que era sua primeira vez. ( LIMA - PERU ) A Cordilheira Branca é algo realmente surpreendente, uma espécie de Patagônia Peruana, com uma centena de picos acima de 6.000 metros, geleiras, lagunas coloridas, glaciares, templos Pré –Inca, ruínas históricas, animais exóticos e uma infinidade de diferenças culturais e comidas diversas, trilhas e travessias de montanhas geladas são em números incontáveis e o melhor de tudo isso é que os preços são tão baixos que um brasileiro em economia de guerra vai se sentir rico lá. Na praça central de Huaraz , a Praça de Armas, meu pensamento voa longe enquanto nos deslumbramos com a magnitude de duas lhamas e as suas donas trajadas de chollas, que por algumas moedas, emprestam seus bichinhos para uma foto típica, mas meus pensamentos se elevam às montanhas gigantes cobertas de gelo e me imagino no topo delas, mas logo sou trazido a realidade e me lembro que desta vez a única coisa que poderei fazer é me portar como mero turista e não como aventureiro atrás de encrencas geladas e ser turista em Huaraz já é algo magnífico e me sinto feliz de poder compartilhar esse momento incrível com minha companheira de 30 anos. Mesmo como turista é possível passar meses na cidade sem repetir passeio e todos são grandiosos e espetaculares, alguns sem exigência física nenhuma, outros serão apenas para poucos ou pelo menos para quem não é totalmente sedentário, porque além de ter que pôr o pé na trilha ainda vai ter que superar o fator altitude, alguns passeios vão chegar a 5.100 metros e alguns acabam por ficar pelo caminho, mas outros passeio deixarão o turista já no local sem que ele precise dar um passo se não quiser. Geralmente quem vem à Huaraz acaba por separar uma semana ou pouco mais que isso e já vem com os passeios tradicionais muito bem definidos, não é regra, mas conhecer as atrações principais acaba por se tornar quase uma obrigação, isso claro para quem não vai com o intuito de fazer caminhada de alta montanha ou escalar, aí essa regra não vale nada e nem vou expor isso aqui porque seria necessário escrever uma bíblia para falar de tudo que se pode fazer na Cordilheira Branca e mais ao sul dela. Dos passeios mais tradicionais, talvez a LAGUNA 69 seja a principal atração, não só por ter uma paisagem grandiosa, mas porque também é preciso de uma superação tão grandiosa quanto a beleza da paisagem, porque de todos os passeios tradicionais, esse é o que requer um esforço físico para ser alcançado. Não que a trilha seja assim algo quase que para super-homens, mas com certeza é o fator altitude que vai determinar quem pode ou não subir ou quem aguenta ou não se expor nos 15 km de caminhada com o pulmão querendo explodir procurando um pouco de ar para respirar e esse seria o desafio que eu havia programado para tentar arrastar minha mulher atrás de mim, mesmo porque eu já sabia que meu organismo se adapta muito bem a altitude e com um condicionamento físico mais ou menos em dia para minha idade, tiraria de letra, mas minha mulher , quase que uma sedentária contumaz , teria que se preparar muito bem para aquela aventura e o principal a fazer, era não fazer absolutamente quase nada, dar tempo ao tempo e esperar que o organismo se adaptasse a altitude, então programei um roteiro de passeios com esse fim, deixando a LAGUNA 69 com mais de 4.600 metros de altitude para o final da viagem, seria a cartada derradeira, uma tentativa de fazê-la conquistar essa atração, talvez uma das mais belas da AMÉRICA DO SUL. Huaraz não é uma cidade grande, mas mesmo assim é bem movimentada, com um trânsito intenso e barulhento, onde quem buzina mais tem prioridade, mas essa característica é do país inteiro. No centro, perto da sua praça principal ou mais precisamente na avenida que passa em frente dela e uma abaixo é onde tudo se concentra, desde bancos, órgãos oficiais, lojas de equipamentos, casa de câmbio e as agências de turismo que fazem todo tipo de passeio, que eles chamam de tours. Infelizmente quando desembarcamos em uma das inúmeras rodoviárias, porque cada empresa de ônibus tem a sua, acabamos por entrar meio numa furada de aceitar uma oferta de hostel ou alojamento e com isso acabamos sendo levados a fechar todos os passeios com eles. Acontece que a oferta era tão barata, mas tão barata que ficamos deslumbrados com a possibilidade de gastar uma merreca comparada a nossa realidade no Brasil. Os caras nos ofereceram no pacote uma diária que acabou saindo 25 reais por dia, claro, numa hospedagem meia boca, mas com um quarto de casal com uma cozinha disponível, mas um pouco longe do centro. Depois descobrimos que poderíamos ter pago o mesmo valor para ficar mais bem localizados e no fim acabamos pagando mais caro pelos passeios, mas era tão barato que a gente pouco se importou, fica então a dica de não fechar nenhum pacote com hotel nenhum e negociar os preços direto nas agências e conseguir aquele desconto maneiro. Organizei um roteiro que pudesse então fazer com que a gente fosse se aclimatando para enfrentar as altitudes da Laguna 69 e no primeiro dia que chegamos, embarcamos para CHAVIN DE HUASCARAN, uma viagem de um dia inteiro, ida e volta cruzando por cima da Cordilheira até as ruínas Pré-Inca , com uma paisagem deslumbrante no caminho, subindo a mais de 4.600 metros de altitude, passando pela Laguna Querococha, uma introdução as maravilhas da Cordilheira. A viagem é meio cansativa, principalmente para quem chegou de Lima numa viagem noturna de quase 8 horas, mas vai ajudar muito o organismo a ir se adaptando e na volta ainda tivemos a sorte de pegar uma nevasca que cobriu toda a rodovia de neve, mesmo no início do outono. No dia seguinte tiramos para descansar e para perambular pela cidade, nos enfiarmos nos guetos e bocadas e tentar compreender aquela cultura deslumbrante com um povo tão diferente do que estamos acostumados. Tudo nos faz cair o queixo, as mulheres com suas roupas coloridas e que vendem de tudo que se possa imaginar. Vemos uma pobreza gritante, mas também um povo trabalhador ao extremo e que gosta de comer muito bem. Aliás, a culinária peruana faz jus aos prêmios internacionais que vem ganhando ao longo dos tempos, uma diversidade gastronômica impressionante e o melhor de tudo, com preços baixíssimos, tanto que se podia comer até não aguentar mais por míseros 6 ou 7 reais nas dezenas de pequenos restaurantes espalhados ao redor do Mercado Central. Um dos pratos mais típicos do Peru é o CUY, uma espécie de porquinho da índia e o Ceviche Peruano, esse último eu comia quase todos os dias, mas o porquinho ficaria somente para outra oportunidade, já que minha mulher se recusava a dividir a mesa comigo para degustar essa iguaria local. No terceiro dia marcamos para ir a outra grande atração local, o GLACIAR PASTORURI, uma geleira que fica ao sul de Huaraz. A agência nos pegou no hotel às 8:30 com uma van coletiva com gente de toda parte do mundo. Subimos de novo a Cordilheira em pouco mais de 3 horas de viagem, com uma pequena pausa no caminho para um chá de folha de coca para ajudar na aclimatação. Esse é mais um passeio que leva o dia inteiro e vai custar pouco mais de 30 reais por pessoa e mais uns 30 pelo ingresso no Parque Nacional de Huascarán , pode sair bem mais barato se comprar já 3 ingressos , saindo pouco mais de 60 reais, já que iríamos usar para outros dias, fizemos isso. A van deixou a gente a 2 km da geleira. O tempo estava meio embaçado e ameaçava nevar, mas o grande problema ali é a altitude que beira os 5.100 metros e vai desafiar o organismo sem piedade. A caminhada tem pouco aclive, mesmo assim muita gente opta por alugar umas mulas por míseros 7 reais para subir por uns 15 ou 20 minutos, mesmo sendo algo para turista, quem é sedentário de carteirinha vai botar a língua de fora e minha mulher não fugiu à regra, dava um passo e já apoiava as mãos no joelho tentando procurar ar sabe-se lá de onde. Vendo o estado dela tentando vencer esses míseros 2 km, comecei a desconfiar da sua capacidade de conseguir fazer a trilha até a Laguna 69, mas enfim, era preciso deixar o tempo passar para ver como seu corpo reagiria nos próximos dias, se conseguiria se adaptar a altitude. No caminho para o glaciar o tempo virou de vez e a chuva que ameaçava cair desabou em forma de neve, o que foi muito bonito de se ver, mas também acabou por congelar nossas mãos antes de nos valermos de uma luva e um gorro quentinho. Devagarzinho e sendo quase que empurrada por mim, o Rose chegou, com a língua colando no chão, mas chegou e realmente valeu muito o esforço e a oportunidade de poder se postar de frente daquela montanha de gelo, num cenário sem igual. A volta sempre é mais tranquila, tanto a caminhada, quanto a viagem para a cidade, mas foi mais um dia desgastante, agora era hora de descansar e deixar o organismo trabalhar e ir se adaptando porque a regra é clara: Suba alto e durma baixo. No outro dia a gente queria descansar, mas como já havíamos comprado o pacote, tivemos que encarar o tour para a LAGUNA PÁRON. É uma viagem longa e interminável por mais de 3 horas, onde a van desafia a cordilheira e ascende a mais de 4.200 metros, numa paisagem espetacular, em meio à montanhas geladas. A Laguna tem uma cor azul escuro que chega a hipnotizar a gente e no fundo dela um pico em forma de pirâmide ( NEVADO PIRÂMIDE-5.885) faz a gente não se arrepender de ter ido, aliás, dizem que esse cenário magnifico com a composição laguna mais pico, serviu de palco para a empresa cinematográfica Paramount Picture gravar sua vinheta de abertura antes dos filmes. A van nos deixa as margens da laguna, mas quem quiser pode subir por mais uns 500 metros até um mirante do lado direito. Eu encarei essa subida, mas a Rose ficou lá embaixo contemplando a laguna, mas a subida não é tão puxada quanto pintavam, mas caminhar na altitude nunca é mole, mesmo assim subi correndo e desci também, tentando testar um pouco dos meus limites para a Laguna 69. Chegando lá embaixo fomos dar uma volta de canoa na laguna, uma água absurdamente limpa, tanto que bebemos dela. Voltamos para Huaraz e por causa de algumas obras acabamos por chegar bem tarde da noite, cansados, mas já tendo que nos organizar para o outro dia, quando iríamos enfrentar a caminhada turística mais temida da Cordilheira Branca. ( Laguna Parón) Os dias amanhecem sempre frios na Cordilheira dos Andes, mas por sorte naquele dia não havia uma nuvem no céu e isso por si só já me alegrou. Antes das 6 da manhã a van que nos levaria para a Laguna 69 nos apanhou na hospedagem. Ainda estávamos atordoados e cansados por causa do dia anterior, mas confesso que estava um pouco apreensivo, havia chegado a hora de saber se realmente o meu planejamento quanto a deixar minha mulher em condições de fazer a trilha iria dar certo. No transporte coletivo, mais uma vez se juntavam gente de diferentes países do mundo, a maioria não falava espanhol e como pouco aranhávamos no inglês, praticamente ficamos isolados e trocávamos algumas palavras com uns peruanos e com um belga que havia morado um tempo em Portugal e falava bem a nossa língua. Ao olhar o grupo já vi que o negócio iria mais complicado do que eu pensava, porque era composto na sua maioria quase que total de pessoas jovens, sendo eu e a minha esposa de longe os mais velhos, beirando quase os 50 anos e também o belga que parecia nos acompanhar na idade e esse foi um fato que fez logo a Rose ficar desconfiada dessa caminhada, mas eu desconversei, dei umas risadas e mudei de assunto antes que ela desistisse mesmo antes de começar. A Van segue sempre para nordeste, deslizando entre a Cordilheira Branca e a Cordilheira Negra, sendo do nosso lado direito as paisagens encantadoras das grandes geleiras e seus picos acima de seis mil metros e quando chegamos à Carhuaz, saltamos em frente a sua igreja principal para um café da manhã e experimentar os sabores exóticos de uma sorveteria local e para comprarmos água e algum lanche de trilha. Seguimos , mas agora tendo como companhia o monstruoso HUASCÁRAN , simplesmente a maior montanha do Peru e uma das mais altas do nosso continente com 6.789 metros de altitude e foi justamente a encosta desse pico que veio a baixo no terremoto de 1970 que devastou a região de Huaraz, fazendo que a cidade de YUNGAI quase fosse varrida do mapa, dizem que ao todo foram mais de 50 mil mortes, uma catástrofe quase sem precedente se levarmos em conta que isso se deu há quase 50 anos atrás quando a população era bem reduzida. Chegando em Yungai, viramos para nordeste e começamos a subir a Cordilheira Branca, uma viagem interminável, mas plasticamente encantadora, passando por pequenos amontoados de casas e construções rurais, gente que sobrevive a quase 4.000 metros em meio ao ar rarefeito e as agruras da altitude. Vamos subindo pra valer, mas ainda nos valendo de uma crista com um vale do nosso lado direito e quando chega a hora de deixar a crista e entrar de vez no vale que vai nos levar para o coração da Cordilheira, é hora de dar uma parada na ENTRADA DO PARQUE NACIONAL HUASCARÁN para nos identificarmos e comprarmos nosso ingressos (30 soles). Resolvidos os problemas burocráticos, nos lançamos para dentro dos paredões e fomos singrando de um lado para o outro sem tirar os olhos da janela e por vezes tendo que limpar a baba que escorria de nossas bocas do qual o queixo não conseguia se fechar, querendo cair diante da explosão de belezas sem igual. Seis ou sete quilômetros depois da entrada do Parque somos apresentados à LAGUNA LHANGANUCO a mais de 3.800 m de altitude, um azul hipnotizante, num cenário de sonhos. Nos detivemos ali por uma meia hora, o suficiente para prever que hoje nos faltariam adjetivos para narrar as belezas que estavam por vir. Mais à frente a LAGUNA ORCONCOCHA desmonta nossa capacidade de avaliar o que é mais belo e apenas ficamos a admirar àqueles cenários que vão surgindo no nosso caminho até que o nosso transporte motorizado para de vez, é chegado a hora de botar o pé na trilha, o coração já vai disparando e aquela ansiedade toma conta da gente, a aventura vai começar, voltar já não é mais possível e agora sou eu contra a altitude, minha missão : Levar minha mulher a uma das grandes paisagens da América do Sul, fazendo com que ela, mesmo um pessoa sedentária, consiga caminhar por 15 km no ar rarefeito montanha acima, numa altitude superior a 4.600 metros. O guia dá as explicações finais, mas todos nós sabemos que ali guia não serve para muita coisa, a não ser para encher o saco de quem não se mantiver no tempo estipulados por eles para retornar, inclusive para barrar os que não tiverem condições físicas de seguir, fazendo-os desistir. E o tempo estipulado é cruel para os que não tem experiência em longas caminhadas em altitude e muitos ficarão mesmo pelo caminho se não tiverem condições de fazer o percurso até a LAGUNA em no máximo 3 horas para ir e 2 horas para o retorno, então sempre acaba caindo sobre os ombros de todo mundo a responsabilidade de se manterem no tempo previsto. Rapidamente apanho as duas mochilinhas com alimentos, água, agasalho e outros equipamentos de segurança e somos os primeiros a nos lançarmos floresta a dentro, perdendo altitude até um riacho cor de leite. Mas não passa apenas de uma língua de mata que é cruzada em pouco mais de 5 minutos até atingirmos o vale plano, que iremos acompanhar por um bom tempo cercado por uma paisagem estonteante. A minha estratégia é fazer com que a Rose só se preocupe em caminhar e poupar energia, tanto que as 2 mochilas são carregadas por mim, deixando tranquila para que possa andar livre, respirando a maior quantidade de ar possível, mesmo numa altitude superior a 4.000 metros. O cenário inicial é algo que impressiona, vamos bordejando um rio que corre à nossa esquerda, aguas do degelo de picos gigantes que já podemos observar no horizonte. Vou pedindo para que a Rosa respire fundo e se concentre em colocar um pé à frente do outro, numa estratégia de ganhar terreno nessa parte plana e tomar bastante distância do pelotão principal que é composto pelo guia, porque enquanto tivermos à frente deles, é a garantia de podermos ter uma tranquilidade para irmos mais devagar quando a parte íngreme se apresentar e bicho pegar de vez. Me concentro em falar palavras de incentivo e em abastecer de água minha esposa e em dar-lhe algo para repor as energias, mas já vejo logo que ela começou a ferver o radiador e já me parece que começa a diminuir o ritmo e quando uma placa me indica que não andamos nem 2 km, trato logo de desviar sua atenção para que não veja que até agora não andou absolutamente nada. Um pouco mais à frente, umas construções parecendo umas casinhas de duendes nos chama a atenção, mas quando retornamos nossos olhares para o vale de onde viemos é que nos damos conta de onde estamos e do tamanho da paisagem que nos cerca: sobre nossas cabeças se eleva o monumental HUSCARÁN , na verdade com 2 cumes distintos com 6.786 metros a nos assombrar, mostrando que ali naquela cordilheira ele é quem manda , senhor soberano das altitudes, não só da Cordilheira Branca, mas o teto do próprio Peru e do seu lado esquerdo o Nevado Chopicalqui ( 6.354) fecha a parede e nos deixa boquiabertos , nos impedindo de prosseguir sem que desgrudemos os olhares destes monstros feito de rocha e de gelo, um cenário para guardar na memória por uma vida inteira. (Huascarán - o teto do Peru) Tudo era lindo, mas ainda na minha cabeça eu tinha a esperança de conseguir levar minha esposa até a laguna e a todo momento, mesmo sem tirar o olho das grandes paisagens, ia atrás dela dando uma de personal trainer, dando aquele incentivo, contando umas lorotas, inventando que faltava pouco e quando cruzamos uma pontinha sobre um afluente do rio principal, vi que começamos a nos aproximar de uma grande cachoeira de onde suas águas saltavam dos degelos das montanhas gigantes do nosso lado esquerdo, que ao fazermos a curva que iria nos fazer começar a ganhar altitude, seria a hora de botar a prova toda minha capacidade de convencimento, se ela vencesse aquele trecho crucial, pensei que poderíamos ter êxito. Havíamos vencidos cerca de um terço do caminho, mas até então foi uma caminhada apenas no plano, o que poderia parecer praticamente nada, mas estamos falando de altitude, onde você puxa o ar e não encontra nada, onde o pulmão parece que vai explodir a qualquer momento. Eu me sentia muito bem, mas já sabia que meu organismo de adapta bem e rápido na altitude, mas entendia muito bem o que minha esposa estava passando. Agora o caminhar é lento, um passo e logo as mãos vão para as pernas, tentando se segurar para não cair. O terreno, a trilha, vai ziguezagueando montanha acima e cada metro vencido é uma conquista. Ela sofre, é um sofrimento que acaba sendo compartilhado por mim, que tento mentalmente empurra-la para cima: “ Vamos só mais um pouco, outro passo, respira, bebe água, não está longe o próximo patamar, vamos “. O sofrimento nos olhos dela é visível, começa a diminuir o ritmo consideravelmente e vamos sendo ultrapassados por todo mundo e é nessa hora que tenho medo de que o guia comece a pegar no nosso pé e ela desista de vez. Por sorte o próprio guia se deteve por um instante para auxiliar uma jovem que parece ainda estar pior que a Rose e foi a deixa para eu arrasta-la até que atingíssemos o grande patamar, estava vencido mais uma etapa, pelo menos por enquanto teríamos um refresco e poderíamos caminhar por mais algum tempo no plano. Aliás, a entrada desse novo vale é marcada por uma pequena e bonita lagoa que alguém me sopra ser a LAGUNA 68, mas parece ter outro nome também. (Laguna 68) Fizemos uma breve parada ali na laguna de não mais de 5 minutos, só o tempo básico para uma respirada mais profunda e para engolir alguma coisa energética. Nosso caminho segue agora em nível, numa paisagem incrível de onde a nossa frente desponta o não menos incrível PICO CHACRARAJU ( 6.108) e é com essa companhia que nossos passos vão deslizando pelo vale florido e 600 metros depois da pequena lagoa, nos deparamos com uma placa que indica uma trilha para outra laguna à direita, mas infelizmente não será dessa vez que nossos pés tocaram a Laguna Brogui, é preciso nos concentrarmos no objetivo principal porque estamos no tempo limite e ao trombarmos com uma placa onde dizia que a Laguna 69 estava a míseros 1000 metros, comemorei pensando que daqui para frente seria moleza e o sucesso estava garantido, ledo engano. Nesse 1 km final é onde o nosso organismo vai ser testado de verdade. Para quem já vinha buscando ar para os pulmões, esse pequeno trecho de subidas intensas poderá marcar definitivamente o final da caminhada, porque é aqui que muita gente passa mal e em alguns casos tem de ser ajudada a voltar para baixo, esse é o trecho que separa quem vai vencer e quem vai fracassar, pelo menos para os turistas ou até para montanhistas que não conseguem se adaptar as altitudes e já vinha capengando nas etapas anteriores. A Rose agora se arrasta de vez e só não anda de quatro pé para não passar vergonha e mesmo com o vento gelado acima dos 4.500 metros, sua em bicas. Enquanto ela vive seu calvário pessoal, caminhando feito uma tartaruga paraplégica, me contento em incentivar e também em apreciar a grandiosidade da paisagem que vai se descortinando enquanto vamos ganhando altura naquele ziguezague derradeiro. A cada passo, a cada metro ganho, nossa ansiedade vai aumentando. Sobre nossas cabeças agora localizo o que imagino ser a ponta do Nevado Pisco, montanha que já foi eleita a mais bonita do mundo, mas é um ângulo diferente e me concentro em botar meus olhos mesmo é na laguna, na esperança de vê-la ao longe. Nessa hora eu nem sei mais para onde foi parar o tal guia e pouco me importo em saber, já tenho a certeza que vamos chegar, muito porque o terreno se estabiliza e o sofrimento da subida já ficou para trás e é hora de encher os pulmões de ar ou o que conseguir, obviamente, e bater continência para uma das maiores atrações da América do Sul. O paredão gelado já está no nosso raio de visão, a geleira derretendo e deixando cair uma cachoeira e logo o azul, ainda uma pequena pontinha da laguna, desponta à nossa frente e a magia vai crescendo num dos cenários mais surpreendentes do mundo. O cérebro demora a processar o que olhos vão captando e nessa hora nem mesmo sei para onde foi parar minha mulher, só me lembro de ter sido arrastado pelo deslumbramento, quase hipnotizado pelo azul celeste. Gastamos menos do que as 3 horas limites para chegar. A Rose quase desmaia de cansada e senta-se à beira da Laguna 69 (4.604 m) e por lá fica comemorando em silêncio essa vitória pessoal, mas eu ainda estou pilhado e enquanto todo mundo, umas 50 pessoas, ficam aos pés da laguna só na contemplação, tomo o rumo do morro a nossa direita e sozinho vou ganhando altitude, galgando esse ombro rochoso até que atinjo o topo de onde se descortina uma visão inteira e completa de toda a Laguna, a mais de 4.650 metros de altitude. A grandiosidade da paisagem ao redor é coisa que me emociona e talvez esse tenha sido o lugar mais longe de casa que já estive na vida. Fico ali entregue a minha própria solidão e me esqueço completamente do tempo e da vida, apenas inerte, parado, estático, captando aquela cena do qual guardarei para o resto da vida, mas logo descubro que não é possível ser feliz para sempre e começo a descer e no final da descida surpreendo-me com uma vaca querendo chifrar, vejam só, um grupo de brasileiros, na verdade a vaquinha queria apenas matar sua curiosidade, mas os brazucas não estavam a fim de pagar para ver , então correram bem para longe dela. Quando cheguei perto, todo mundo do nosso grupo já havia partido, inclusive minha esposa, então só me restou fazer um carinho na vaquinha e desembestar montanha à baixo na tentativa de acompanhar o grupo. Às bordas de completar 50 anos, ainda me surpreendo com a facilidade que tenho de adaptação às altitudes e como carrego apenas 2 mochilinhas leves, é correndo que desço esse km inclinado, tomando cuidado para não derrapar nas curvas e despencar morro à baixo e rapidamente alcanço minha esposa e o guia, que é um dos últimos e logo quando voltamos ao plano, vamos ultrapassando boa parte dos integrantes do nosso grupo e antes mesmo de voltar ao laguinho intermediário, nos encontramos novamente com o Belga que fala português e numa conversa informal, descobrimos que o cara tinha apenas 40 anos, muito menos do que os mais de 50 que pensávamos ter e ai nos demos conta de que eu e minha esposa éramos os anciões daquele grupo multe estrangeiro, verdade mesmo que não havia ninguém mais velhos do que nós naquela caminhada e naquela montanha. O próximo lance de descida é a rampa inclinada, de frente para a grande cachoeira, mas agora a descida é constante e sem maiores pausas, apenas para uma ou outra foto da paisagem ao nosso redor e não demora muito atingimos o vale final, o ultimo estirão, agora totalmente plano, ás margens do rio do degelo das montanhas e vamos aos poucos nos despedindo do próprio Huascarán e o teto do Peru vai ficando para trás e duas hora e meia depois de abandonarmos a Laguna, emergimos da matinha e finalizamos junto à estrada, onde nossa Van foi estacionada e ali nos atiramos ao chão para um demorado descanso até que todo o grupo se juntasse e partíssemos novamente para Huaraz, onde chegamos já tarde da noite. Ainda inebriados pela caminhada do dia anterior, acordamos tarde e fomos perambular por Huaraz, nos perdemos em tudo quanto é beco e já que havíamos decidido ficar por lá mais uns dois ou três dias, resolvemos nos mudar para um hotel no centro, o que não nos custou mais que 30 reais. O choque de cultura é tão grande que ás vezes nos faz até perdermos o rumo e já que era para perder o norte, decidi que aquele seria o dia de experimentar uma das maiores iguarias da cozinha Peruana. Entramos em um restaurante popular e enquanto minha esposa experimentava mais um Ceviche, pedi logo um PORQUINHO DA INDIA, havia chegado a hora de provar o tal do CUY, mas antes mesmo que a iguaria tocasse nossa mesa, fui expulso a pontapés pela minha esposa que aos gritos disse logo: “VAI COMER ESSA MERDA LONGE DE MIM” (rsrsrsrrsrsr). Lá estava ele, nosso mascote, bonitinho e peludo, mas agora ali jaz, duro e à pururuca. Num primeiro momento não foi agradável ver aquele cadáver parecendo um rato seco sobre a mesa, mas o ser aventureiro que habita o meu corpo me dizia que aquela era talvez a única chance de experimentar um prato típico inusitado. O estômago deu um embrulhada, principalmente quando os dentes saltaram aos olhos, mas o demônio na minha cabeça insistia: “ Come aí, num dá nada, vai lá, só um pedacinho miseraviiii” Fechei os olhos, peguei um pedacinho, enfiei na boca. Minhas papilas gustativas foram se abrindo e o sabor do coitado do porquinho foi adentrando no meu corpo, tomando conta do meu ser e o animal carnívoro veio à tona e me portei como o diabo das Tasmânia, não deixei sobrar nem os ossos, só os dentes permaneceram no prato, melhor o do porquinho do que os meus. Os dias passaram e foi preciso deixar aquele lugar de sonhos para trás e a nossa volta para Lima foi como a ida, tranquila e sem nenhum percalço porque a maioria das viagens são à noite. De volta à capital do Peru embarcamos imediatamente para o sul do país, era chegada a hora de respirar o ar em abundancia do litoral e como minha proposta era a de conhecer paisagens diferentes, fomos nos perder no grande Deserto de Ica, lá onde o vento faz a curva, lá para as bandas do oásis de HUACACHINA, onde as maiores dunas do continente reinam absolutas, mas isso é uma outra história, de um outro capítulo de um livro chamado : AS HISTÓRIAS QUE AINDA NÃO CONTEI SOBRE O PERU , mas que um dia vou contar, num momento oportuno. (Huacachima) (Paracas) Essa não foi só uma história de uma caminhada por uma das maiores paisagens do continente, essa foi a narrativa de uma superação, onde o principal objetivo foi mostrar que uma pessoa sedentáriapode vencer aquilo que num primeiro momento pode parecer impossível. Me lembro que anos atrás, na subida do Vulcão Vilarica no Chile, minha esposa me fez prometer que nunca mais a faria enfrentar tais desafios. Daquela vez ela fracassou, desistiu antes do cume, mas desta vez consegui trabalhar bem a parte psicológica dela, provando que as vezes um desafio é vencido com a cabeça e não só com as pernas. Voltamos do Peru simplesmente maravilhados, um tanto chocado com a cultura totalmente diferente da nossa, mas assim mesmo, trazendo na bagagem a certeza de ter vivido o bastante para conhecer um dos países mais espetaculares do mundo, um aprendizado para uma vida inteira. Divanei-Abril/2019
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