Ir para conteúdo

divanei

Membros de Honra
  • Total de itens

    513
  • Registro em

  • Última visita

  • Dias Ganhos

    4

Tudo que divanei postou

  1. Yuri , Esse relato , como todos outros que escrevi, foram escritos com a intenção de mostrar um esporte verdadeiro . O texto simples e as vezes simplório descreve a realidade dos fatos , você nunca vai ver heróis, mas gente comum , com seus erros, seus acertos e suas manias . Obrigados pelas palavras carinhosas . Valeu mesmo . Abraços.
  2. Elaine e Tadeu , Esse relato escrevi com a intenção de humanizar a escalada , num mundo onde todo mundo quer ser " picas das galáxias" , parece ser proibido sentir medo , parece ser proibido fraquejar e a gente sabe que isso é uma bobagem porque a grande maioria é seres humanos normais .Grande abraço aos dois. Valeu mesmo.
  3. Mais fotos: https://aventurebox.com/divanei/agulha-do-diabo-a-conquista-do-penhasco-fantasma/report
  4. AGULHA DO DIABO “Agora não adianta chamar por santo nenhum, quem mandou se meter no Caldeirão do Inferno. Pendurados no meio da Unha da Agulha do Diabo, a gente só pensa em não cair e tenta grudar as costas naquela chaminé diabólica, tentando evoluir centímetro a centímetro, mas a gente sabe que o próprio dono da montanha está lá, sentado logo acima com seu rabo a balançar, como a nos atrair para uma armadilha. Não quero olhar para baixo, mas a curiosidade é maior que o meu bom senso e quando faço isso, o mundo parece dar uma rodopiada e é nessa hora que penso em gritar um “valei-me Nossa Senhora”, mas me contenho a minha insignificância diante daquele colosso de pedra, porque cada um é responsável por exorcizar seus demônios interiores e sigo determinado, sabendo que eu mesmo terei que chutar o traseiro do cão se quiser conquistar aquela montanha. ” Não por acaso que a AGULHA DO DIABO foi escolhida mundialmente entre as 15 montanhas mais bonitas e mais desejadas para se escalar em todo o planeta. Um gigante rochoso tocando o céu no meio selvagem do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro, a meio caminho entre Teresópolis e Petrópolis, mas por incrível que pareça, mesmo estando no parque por meia dúzia de vezes para a travessia famosa e para escalar o Dedo de Deus, eu jamais consegui por meus olhos nessa formação rochosa e quando os meninos levantaram a possibilidade de escala-la , aceitei o convite sem nem pensar se teria ou não condições de ir ao cume com os meus toscos e rudes conhecimentos do esporte. Havíamos combinado então que, quando o inverno desse as caras, a gente partiria para o Rio, mas a ansiedade de alguns do grupo fez com que antecipassem a tentativa da escalada para maio, data em que eu estava às voltas com uma Expedição Selvagem previamente programada na Serra do Mar Paulista, então fui deixado para trás. Nessa ocasião o grupo que tentou escalar a Agulha cometeu alguns erros de logística, extrapolaram o tempo e dos 7 integrantes, 5 ficaram pelo caminho e somente 2 foram ao cume e assim mesmo tiveram que subir quase ao anoitecer. Diante desse meio fracasso, o Alexandre Alves retomou o projeto antigo que havíamos traçado e para aproveitar um feriado Paulista, resolvemos montar uma equipe 100 % caipira, a mesma equipe que havia conquistado o Dedo de Deus (1.692 m), os mesmo que haviam se juntado um dia para aprender a escalar por conta própria. A equipe inicial seria formada por mim, pelo Alexandre e pelo Vinícius e de última hora surgiu o Dema, mas o Alexandre estava meio com um pé atrás com ele porque fazia muito tempo que o professor não aparecia para treinar e poderia pôr em risco nossa segurança por estar desatualizado quanto aos procedimentos, mas no final, a amizade acabou por falar mais alto que a nossa segurança e essa tomada de decisão seria fundamental para o sucesso daquela “expedição” rumo ao cume daquela diabólica agulha. Foram acaloradas as discussões sobre qual estratégia usar, alguns achavam que fazer um bate e volta apenas com mochila de ataque seria o ideal, já outros discordavam veementemente e insistiam que deveríamos subir com cargueira para estarmos seguros, se desse alguma merda, já que a pedra ficava num fim de mundo escondida no meio de um vale sinistro e potencialmente perigoso, além do mais , se houvesse um fracasso no primeiro dia, poderíamos acampar e tentar num segundo dia, coisa que seria impossível se estivéssemos apenas com mochilinha de ataque, sem os equipos para acamparmos. No fim, nos convencemos de que subir com as cargueiras seria a melhor estratégia e essa tomada de decisão foi a responsável por um dos integrantes, além de nós quatro, picar a mula da escalada, alegando que a gente era doido de enfrentar aquela subida do satanás com mochilas nas costas. Paciência, perdemos um experiente escalador, mas a equipe puro-sangue se manteve e se era para “se lascar” todo naquela montanha, que fosse então com um grupo acostumado a se meter em encrencas e a fazer isso com alegria. Foi então que numa tarde ensolarada de um sábado, que o Vinícius apanhou o Alexandre na rodoviária de Sumaré-SP e passou na minha casa para que eu e o Dema nos juntássemos a eles e partíssemos para Teresópolis-RJ, onde lá chegamos umas sete horas depois, já no início da madrugada de domingo, onde nos refugiámos num posto de gasolina aos pés do Escalavrado(1.410 m) e passamos a noite lá até esperar pela abertura do Parque nacional às seis da manhã. Com o ingresso do parque já comprado antecipadamente e impressos e as devidadas autorizações assinadas, não tivemos dificuldade de acesso e antes das sete da manhã, já havíamos estacionados o veículo o mais próximo possível da barragem e adentramos na trilha histórica que faz parte da Travessia Petrópolis x Teresópolis ou usada para quem quer ir apenas até o cume do parque, na Pedra do Sino (2.275) ou mesmo visitar trocentas outras montanhas de belezas ímpar. No início a subida parece ser bem suave, muito porque estamos todos animados e cheios de energia. O caminho vai se enfiando por dentro da floresta, cruzando algumas pontinhas e menos de uma hora depois chega a uma grande gruta ou toca, onde é possível bivacar com um certo conforto. Não demora muito e damos de cara com a Cachoeira Véu de Noivas, completamente seca, mas já não é grande coisa com água, pelo menos não, se compararmos com as maravilhas que estamos acostumados na Serra do Mar de São Paulo, mas também não viemos aqui atrás de quedas d’água e tocamos para cima, um passo de cada vez, numa subida enfadonha. Eu já havia subido e descido aquela trilha nas duas vezes que estive nas travessias de Petrópolis para Teresópolis e ao contrário e as duas vezes havia odiado aquela parte do caminho, mas pensando bem, acho que odiei pouco, não sei se era pela minha tenra idade com muita mais energia que agora ou porque naquela época tudo me parecia novidade em matéria de trilha, o certo é que aquele zig-zag infernal vai dando nos nervos e só faz aumentar nossa ansiedade de chegar logo na tal Cota 2.000, de onde parte a trilha mais em nível para acessar o tal Caminho das Orquídeas. Quando as curvas acabam, damos de cara com o grande descampado, chegamos ao ABRIGO 3, mas não passa mesmo de um gramado convidando-nos para um descanso, porque abrigo nem existe mais mesmo. Aqui a trilha vai dar uma guinada para a esquerda e vai dar uma nivelada, passar por um mirante também à esquerda. É preciso ficar esperto porque quando o altímetro bater uns 2.000 de altitude e mais ou menos 7,2 km desde a barragem, no início da trilha, precisamos nos atentar para uma saída à esquerda, quase imperceptível. É mesmo uma trilha meio sem vergonha e não há nenhuma placa, nenhuma identificação dizendo ser esse o caminho que vai nos levar para o Mirante do Inferno, ou por negligência do Parque Nacional (grande novidade!) ou por sacanagem de guias e agências que retiram as placas para que ninguém chegue sem seus serviços. Pegando essa bifurcação mencionada, adentramos na direção do tal Caminho das Orquídeas ou talvez seja um atalha para ele. Vamos descendo, agora numa trilha bem mais fechada, quase uma picada e logo que tropeçamos numa bifurcação, pegamos para direita e seguiremos reto até que o mundo se abre à nossa frente num MIRANTE espetacular, com um vale profundo e mais à frente já podemos deslumbrar uma minúscula parte da ponta da Agulha a nos convidar para uma aventura inesquecível. Desse mirante é possível ver também parte do Dedo de Deus e o que é mais interessante é que não é possível ver a Agulha do topo do Dedo e nem ver o Dedo do topo da Agulha, como se Deus e o Diabo nunca pudesse se confrontar. (Dedo de Deus visto do mirante) De cima do mirante às vistas para outras montanhas do parque são deslumbrantes, mas não é hora de perder tempo, o relógio anda e precisamos nos apressar. Nossa jornada é descendo pela laje de pedra e se enfiando nas canaletas floresta à dentro, desescalando até atingirmos o fundo do vale onde um brejo tem que ser pulado para não empapar os nossos tênis. Logo temos água boa vinda de um pequeno córrego e então chegando a mais uma bifurcação e seguimos para a direita contornando uma pedra e não demora muito, às 10:30 desembocamos no ACAMPAMENTO PAQUEQUER, que não passa de um lugar mais aberto no meio da trilha, às margens da nascente do riachinho de mesmo nome, hora de parar para um breve descanso, mais um gole de água e traçar uma estratégia. (Paquequer) Numa breve reunião, decidimos esconder nossas cargueiras ali nos arredores do acampamento e seguir apenas com os equipos de escalada e com uma mochilinha de ataque. Portanto, pulando o riacho, interceptamos o estirão final que vai subir sem dó em direção ao mirante e logo que chegamos mais ao alto, beirando uma grande pedra do lado esquerdo, interceptamos a tal saída que vai nos levar para a Agulha, mas antes de para lá partirmos, seguimos em frente e menos de dez minutos depois chegamos à beira do GRANDE ABISMO DO MIRANTE DO INFERNO. (Mirante do Inferno) Aquilo era inacreditável! Eu já havia dito que achava o Dedo de Deus a montanha mais espetacular do Brasil, mas diante daquela visão eu estava confuso, perdi a referência, meio que perdi o chão. O Dema e o Vinícius também pareciam encantados com aquele gigante de pedra. Dali era possível contemplar outras montanhas : São João, São Pedro(2.160), Verruga do Frade(1.920), Pedra da Cruz(1.980), Capuchinho do Frade, Santo Antonio e tudo beirava à santidade, mas era ela a grande atração do lugar, enfiada no meio do Caldeirão do Inferno, a AGULHA DO DIABO parecia nos convidar para uma grande aventura e a gente estava em êxtase e não havia mais como fugir, a gente poderia ficar por ali mesmo e nos entregarmos as coisas do céu, mas o desafio é que nos move, porque o montanhista de aventura nunca vai se contentar com o calmo e o sereno, ele quer é ver a desgraça de perto, ele quer o caos, quer a tormenta e foi com esse pensamento que a gente largou tudo para trás , voltamos a descer por uns cinco minutos e adentramos de vez à direita na trilha rumo ao nosso desafio. Esse caminho em forma de picada vai seguindo quase que em nível, mas logo faz uma curva para direita e se enfia numa garganta montanha à baixo, numa sequência de gretas e fendas potencialmente perigosas. Vez por outra surge à nossa frente assombrando a nossa alma a silhueta da AGULHA e numa dessas aparições acabei ficando para trás para tentar sacar uma foto e perdendo o equilíbrio, escorreguei de um patamar e enfiei meu pé numa laca de pedra e virei o tornozelo que veio a inchar instantaneamente. Nessa hora pensei que minha jornada naquela montanha havia acabado, mas mesmo assim gritei para que o grupo me esperasse e aguardasse uns minutinhos até que a dor diminuísse um pouco. Tentei ser forte e demostrar calma, não queria de jeito nenhum dar chance para que alguém pudesse me mandar voltar para o acampamento para eu não atrapalhar a escalada, muito porque eu mesmo já teria feito isso se sentisse que daria problema. (Agulha vista de dentro do Cadeirão do Inferno) Continuamos seguindo até nos vermos quase no fundo do vale, onde um pequeno riacho seco descia da direita e é justamente nesse amontoado de pedras que nosso caminho segue e segue subindo para valer, nos fazendo escalar rochas escorregadia e íngremes. Vou me arrastando como posso, mesmo com muita dor, me agarro na minha vontade de não desistir, pelo menos até chegarmos ao início da via. Logo à frente somos barrados por uma gruta, uns amontoados de matacões gigantes. Estamos na GRUTA DA GELADEIRA e não há outro caminho possível se não o de passar por dentro dela e sair pelo teto, por um buraco tão estreito que mais parece que você está saindo do útero da sua mãe. Escalado esse trecho apertado e úmido logo damos de cara com um pequeno platô que poderia servir até para um bivac numa emergência e mais acima, quase ao meio dia, nos deparamos com a linha de escalada propriamente dita, hora de calçar as sapatilhas, fazer o sinal da cruz e enfrentar de vez essas forças do além. (Gruta da Geladeira) Acima das nossas cabeças o gigante rochoso se elevava num espigão assombroso, rodeados por paredes escuras e colossais. Havia chegado a hora de desafiar o guardião do Caldeirão do Inferno e todas as discussões acaloradas vividas meses antes de estarmos ali, agora teriam que nos mostrar que serviu para alguma coisa. É bom lembrar que dos 4 integrantes daquela empreitada, apenas o Alexandre e o Vinícius poderiam ser considerados como escaladores de verdade, porque eu e o Dema não passávamos de meros bons montanhistas trepadores de paredes, mesmo assim, aquele grupo heterogêneo não deixava de ser formado por escaladores ainda com muito à aprender. Em um primeiro momento havia se decidido que formaríamos duas duplas para a escalada, sendo a primeira composta pelo Alexandre e o Dema e a outra pelo Vinícius e por mim, sendo que o Alexandre e o Vinícius subiriam guiando a corda e eu e o Dema faríamos o "segue"(manobras realizadas com a corda para dar segurança ao companheiro), mas num ato de desapego, de última hora, o Vinícius abriu mão de guiar e foi decidido que apenas o Alexandre seria o responsável por levar a nossa corda e essa atitude foi mesmo muito sensata, porque nos faria ganhar tempo precioso e isso também faria toda a diferença na conclusão daquela escalada. (acima croqui da escalada) Traçado a estratégia, a primeira enfiada (lance) já começa encrencada. Parece fácil, mas é uma rampa lisa e sem agarras e já no começo o Alexandre dá uma sambada até que resolve colocar um camalot (pequeno equipamento que ao ser enfiado numa fenda, por exemplo, trava e se pode pendurar a corda para dar segurança ao escalador, numa explicação bem tosca, rsrsrsr ) numa fenda para dar uma estabilizada no psico. Depois é preciso se entalar numa fenda e se espremer até ganhar o alto e subir por outra rampa até uma paredinha que dá acesso a parada junto a um platô. O Dema zueiro que é, já inventa de nem colocar as sapatilhas nesse trecho, apanha sua mochilinha e também a do Alexandre e se agarra à corda e depois se lascou todo para conseguir passar pela fenda lateral e não deu outra, ficou entalado, o tonto, rsrsrsrsr. O Vinícius foi outro que deu uma sapateada nessa rampa e eu, sem molejo para dança nenhum, não fiz mais bonito que ninguém, também rebolei pra subir ali, mas me agarrei no que deu até me juntar aos amigos do platô. (Primeiro lance) O segundo lance nada mais é que uma passagem seguindo em frente, praticamente caminhando ao lado de uma parede com vegetação. É um lance fácil, mas para mim que era o último, achei um pouco exposto e passei com cuidado, mas ao tentar descer no final do corredor de pedra, fiquei sem saída e com medo de pular até atingir a parte mais abaixo, antes de ganhar uma parede final. O problema é que você não pode seguir o seu instinto e querer perder altura logo, é preciso ir até o final da parede caminhando, onde tem várias agarras de pé e de mão para se descer em segurança e uma vez no chão é só fazer a travessia para direita quase numa escalaminhada tranquila e ir subindo até a parada em nível. (segundo Lance) A enfiada seguinte, a terceira, é um pouco mais técnica por ser mais inclinada. Começa com uma fenda em forma de diedro, do qual é necessário subir em oposição. A gente enfia as mãos dentro da fenda e começa a puxá-la até ganhar altura, mas alguns não estavam nem aí e subiram com os pés na fenda e as costas na parede abaulada da direita porque na escalada clássica a única regra é não ficar lá embaixo moscando e atrapalhando o andamento da empreitada. Depois dessa fenda, desse diedro, a parede empina de vez e é preciso ir achando as agarraras certas até poder se pendurar numa fenda horizontal, uma verdadeira salvação para quem já está despencando parede à baixo. Uma vez travado nessa fenda, onde você já está rindo à toa, aí você percebe que não há mão para ficar em pé e colocar os pés dentro da fenda para ir caminhando para esquerda e tem que colar o corpo na parede e ir levantando de vagar, raspando seu nariz na pedra até se estabilizar, pelo menos foi isso que aconteceu comigo, e logo em seguida subir e ganhar a parada. (terceiro Lance) Quando me estabilizei na parada, clipando minha solteira (pedaço de fita preso ao corpo com um gancho na ponta, afff Maria, que explicação furreca !), o Alexandre e o Dema já haviam partido para a quarta enfiada. Esse lance é muito esquisito porque se faz todo praticamente caminhando ao lado de um abismo, junto à uma parede que se estende por uns 15 metros. Dali de onde estávamos eu e o Vinícius, já era possível avistar a imponência da CHAMINÉ DA UNHA, uma laca de pedra descolada da Agulha do Diabo, uma visão assombrosa e é melhor nem ficar pensando muito e apenas nos concentrar nos problemas presentes, deixemos o futuro para depois. Essa próxima enfiada é fácil, mas com uma grande exposição para quem guia e para quem vem por último na cordada e eu passo por ali com todo cuidado, primeiro me agarrando como posso para descer um pouco mais à baixo, depois seguindo lentamente, caminhando quase numa trilha de pedra até me grudar de vez ao chegar na parada com 2 “P” e é bom marcar bem esse lugar porque será aqui o penúltimo rapel para quando voltar. (quarto Lance) Até ali, a escalada estava fluindo numa perfeição espantosa, tudo afinado e alinhado. A subida seguia sempre a mesma linha, com o Alexandre guiando a corda, precedido pelo Dema e o Vinícius, tendo eu como o último homem a fechar a corda. Ganhávamos terreno rapidamente e cada vez mais íamos subindo, nos elevando metro a metro e foi nesse quinto lance que a gente começou a tomar ciência de que estávamos chegando perto dos enfrentamentos maiores. Aliás, esse lance não passa de mera caminhada, que vai se enfiando numa trilhazinha e subindo numa escalaminhada fácil, vira totalmente para a direita e sobe até uma espécie de gruta, que também não passa de um amontoado de pedras. Passa ao lado do Pico do Diabinhoque é uma formação rochosa belíssima e já te joga de frente para as “Chaminés em L “, hora de juntar a equipe novamente, tomar fôlego, beber um gole d’água e se preparar para ganhar altura de vez. Essa tal “Chaminé L”, que marca a sexta enfiada, é muito parecida com a chaminé do Dedo de Deus, com paredes largas e com boa aderência, a subida é bem no final dela, onde a parede se fecha, e sobre o teto despenca uma rocha entalada em formato de estalactites, aquelas formações que pendem dos tetos das cavernas. É preciso subir até essa formação, que não fica a mais de uns 4 metros de altura e alcançando-a, saindo para a direita, mas isso é tão óbvio porque não existe mesmo outro caminho. O Alexandre se pendura nessa parede, se agarra na estalactite, passa pelo buraco apertado e some das nossas vistas. Lá de baixo, eu o Vinícius e o Dema não conseguimos ver nada do que se passa depois disso e mal escutamos a voz do Alexandre que parte sozinho para essa passagem para a direita. O tempo vai passando e o “nosso guia” pouco dá sinal de vida, vez ou outra ouvimos sua voz sussurrando alguma coisa e acaba demorando para descobrirmos que a corda havia enroscado. Diante daquele imbróglio todo, resolvemos mandar o Dema atrás dele e para isso foi preciso que ele escalasse em livre, ou seja, sem nenhuma segurança, foi um risco, mas era o que tinha para o momento, mesmo porque era uma subida muito tranquila e não achamos que seria um risco tão grande. Uma vez que o Dema se juntou ao Alexandre, depois de algum tempo, a corda foi liberada e logo foi o Vinícius que se esgueirou parede acima e ganhou o alto, sumindo das minhas vistas e para o nosso azar, a corda voltou a enroscar novamente. O Vinícius teve que mudar novamente a instalação da corda para liberar a minha subida. Encostei as costas na parede esquerda da chaminé e finquei os dois pés na outra parede, mas logo notei que poderia fazer diferente: Meti o pé esquerdo no fundo da chaminé onde ela se eleva até o buraco de saída, junto à pedra entalada, e fui alternando os movimentos, como se subisse num batente de porta, mas agora com o pé esquerdo na parede do fundo e o direto na parede lateral. Não sei se esse estilo foi o melhor, só sei que rapidinho eu me agarrei na estalactite e me elevei para dentro do buraco e ressurgi para um outro mundo. Depois virei para a direita, que é o único caminho onde fica plano e é necessário encostar as mãos do lado direito e dar um pulinho maroto de menos de um metro, um pulo tranquilo, mas a prova de qualquer erro ou então é cair no vazio e virar carne moída de tanto que vai ralar nas paredes da chaminé. O Vinícius foi fazendo meu "segue" até que eu me juntei a ele onde uma paredinha final de uns três metros precisa ser escalada usando uma fita em um grande “P” para poder se elevar, agarrar em um arbusto e se jogar definitivamente para cima de um grande platô, cheio de árvores, onde de tão grande, poderia servir até para se montar um abrigo provisório. Nesse GRANDE PLATÕ foi instalada uma placa para homenagear os conquistadores de 1941, mas a importância daquele lugar vai muito mais além, ali naquele marco geográfico da escalada é o lugar onde vai se separar os homens dos meninos, é ali que se define quem vai ao cume ou quem definitivamente vai abraçar o fracasso , botar o rabo entre as pernas e bater em retirada, seja por incompetência técnica ou por incompetência na hora de montar a logística, fazendo com que ao se chegar aqui, já tenha extrapolado o tempo hábil para se ir ao topo. Essa pode ser considerada a anti-sala do inferno, é aqui que o diabo faz a sua triagem, separando os caras que tem ou não as condições de enfrentar o seu desafio derradeiro, uma vez tomada a decisão de seguir em frente, você acabou de colocar seu nome na roleta russa, ou é tudo ou é nada. O Alexandre fracassou aqui da outra vez, portanto agora para ele é tudo novidade e havia chegado a hora de enfrentar o tal CAVALINHO, uma passagem alardeada por muitos como sendo a parte mais complicada da escalada, é o sétimo lance, uma passagem por fora da montanha, uma fenda lateral que vai dar acesso a entrada da Unha do Diabo. A partir de agora todos as mochilas devem ficar ali no platô, todos devem esvaziar as suas mentes, sua bexiga e tudo mais que faça o sujeito entrar leve porque uma vez dentro da chaminé, até respirar será difícil. O Alexandre procura não perder tempo e quando vejo , ele já havia sumido das minhas vistas e quando chego à beira do abismo, só consigo ver parte do Dema já dentro da fenda , gemendo para conseguir se jogar para dentro da chaminé. (Cavalinho) Quando chega a vez do Vinícius, auxilio fazendo uma espécie de segundo "segue". Ele se apoia na costura na entrada da fenda fixada logo acima, enfia a perna esquerda e parte do corpo na grande rachadura e se pendura no vazio até se arrastar para a entrada da chaminé e com muita dificuldade consegue se jogar para dentro. Assim que o Vinícius se acomoda entre as paredes da Unha, dá o start para que eu comece a escalar. O problema de fechar a corda é ter que fazer alguns lances tão expostos quanto quem faz a guiada e aqui no Cavalinho é pior ainda, porque se houver uma queda, além do escalador despencar no vazio fazendo um pendulo monstro, ainda vai arrastar o cara que está dando "segui" de dentro da unha, porque mal é possível se mexer lá dentro. Me aproximo do abismo com muito cuidado e já me agarro à costura para manter o equilíbrio. Muitos escaladores dão a dica para se entrar nessa fenda deitado com a barriga para cima, ou seja, enfiando a perna direita e ir se arrastando de costas até chegar na entrada da chaminé e já entrar virado para o lado certo, mas para mim é uma grande bobagem, coisa de gente barriguda mesmo. Portanto, seguro firme na costura e enfio a perna esquerda dentro da fenda que num primeiro momento me deixa com metade do corpo pendendo no vazio e para contraria as dicas dos velhos escaladores, já me ponho a olhar para o abismo de uns 200 metros, mas para quem já esteve pendurado no lance da Maria Cebola no Dedo de Deus, aquilo nem causa vertigem. Colo o corpo à pedra e vou avançando fenda acima porque na realidade não é uma reta e sim uma diagonal e é necessário fazer força para se avançar. Ganho meio metro de terreno e o meu corpo já escorre para dentro da fenda e me entalo dentro do buraco. Que beleza! Aquilo foi mole, uma vez dentro do fundo da fenda só faço avançar lentamente e já caio direto no interior da GRANDE CHAMINÉ DA UNHA DO DIABO, para mim aquele cavalo não passou de um pônei. Claro, caí do lado errado, com as costas viradas para a Unha, quando o certo é estar com as costas na parede da Agulha, mas basta um contorcionismo indiano e já me junto aos meus companheiros, tentando buscar um melhor posicionamento num lugar tão estreito que mal se consegue virar o pescoço e quem sofre de claustrofobia, deve pensar muito antes de encarar esse desafio. Continuando com a analogia, uma vez dentro da Unha, você agora está no terreno do tinhoso, agora não tem mais volta. Naquele lugar frio e úmido, espremido feito uma mortadela no pão de forma, é preciso ter sangue frio para seguir em frente, no caso, seguir definitivamente para cima. Aquele colosso de pedra que marca o oitavo lance dessa escalada incrível, vai com certeza marcar a vida de qualquer homem metido a escalador e eu acho que não há ninguém que não saia dali transformado, pelo menos não se o cara for alguém chegado recentemente ao esporte ou até mesmo velhos escaladores, o certo é que ninguém sai indiferente. O Alexandre foi quem veio tocando toda nossa escalada até então, coube a ele a responsabilidade de abrir caminho guiando a nossa corda, fazendo desenrolar as encrencas que iam surgindo pela frente, e sem que ninguém se apresentasse para enfrentar o demônio de frente, coube também a ele arrombar as portas do inferno e dar início aos trabalhos de escalada da temida chaminé da Unha. O primeiro grande problema é conseguir sair do chão nessa chaminé, já é difícil até respirar lá dentro de tão apertada, imagina conseguir espaço para se elevar e se grudar às paredes, ainda mais para o Alexandre com estatura alta. A ralação inicial é de dar dó do coitado, mas ninguém disse que seria fácil. Aos poucos ele foi progredindo e quanto mais se sobe, melhor fica, porque a parede vai abrindo aos poucos. Logo ele chegou à primeira proteção da chaminé e estacionou numa grande fenda que serve como um patamar de descanso, o primeiro demônio havia sido vencido, mas uma legião de outros demônios estava à espreita, só esperando para o contragolpe final. (chaminé da Unha ) Lá embaixo, estacionados no fundo da Chaminé da Unha, Eu, o Dema e o Vinícius, não conseguíamos ver nada do que estava acontecendo com o Alexandre, porque como eu disse, o lugar é estreito e sobe em curva. O Alexandre fez de tudo, mas parecia mesmo que esse era um demônio que ele não estava a fim de encarar guiando. Também pudera, sua condição psicológica já deveria estar em frangalhos somada ao excesso de gasto energético ao qual tinha passado para trazer nossa corda guiando até o momento. Ele resmungava ao longe, como se tentasse levar os capetas guardadores de chaminé na conversa, mas não teve jeito e não houve reza e nem oração que fizesse com que deixassem o nosso amigo passar, seria preciso chamar alguém tão ruim quanto aqueles filhotes de satanás. Ainda lá embaixo, passando frio e apreensivos quanto ao rumo daquela “expedição”, três escaladores quase que brigavam para não ir, ou ao menos, não ser o primeiro a tentar salvar aquela escalada, já que o nosso principal guerreiro já estava meio fora de combate grudado na parede mais acima. Nessa luta do bem contra o mal, cada um se defende como pode e eu já usei minha arma principal, que é a de persuasão e logo tentei convencer que o DEMA era o cara perfeito para aquele enfrentamento, olha só que ironia, o mesmo cara que saiu desacreditado porque estava há muito tempo afastado da escalada. Mas o Dema foi o cara que se apresentou primeiro mesmo, parecia ser o cara mais confiante naquele momento e eu e o Vinícius torcíamos muito para que desse certo, senão teríamos que sair da nossa zona de conforto, que nem era tão confortável assim, e nós mesmo tentarmos fazer aquilo que a gente sabia que teríamos que fazer. Assim foi feito, com as nossas bênçãos, o Dema grudou naquela parede e subiu até onde estava o Alexandre e daí para a frente mal ouvíamos a conversa entre os dois, somente quando o Dema gritava para que os demônios que o atormentava fosse saindo do seu caminho é que ouvíamos a sua voz. O Alexandre auxiliava ele, mas ali não é a técnica que prevalece, é a força interior é a vontade de não cair e de permanecer grudado à parede, a vontade de chegar ao final da chaminé, e só o Dema poderia narrar esse sentimento, o certo é que quando ele gritou:" cheguei", o ecoo da sua voz chegou ao nossos ouvidos lá embaixo e houve um misto de felicidade e satisfação, era a certeza de que havíamos dado um grande passo para que aquela escalada terminasse com sucesso. Chegando na Ponta da Chaminé da Unha, o Dema puxou o Alexandre, fazendo o "segue" dele e quando esperávamos que seria a nossa vez de nos juntarmos aos dois, o próprio Alexandre pediu que esperássemos porque não havia mais lugar lá encima e que primeiro faria a proteção para que o Dema fosse ao cume e nos esperasse lá, era mais do que justo. Quando o Vinícius partiu de vez, foi que me vi só naquele mundo hostil, encravado no meio de um vale selvagem, quase no cume de uma das formações rochosas mais espetaculares do todo o planeta. O Vinícius chegou ao topo da unha, não sei como, não sei de que maneira, não sei que tipo de enfrentamentos teve nesse seu martírio, só sei que quando ele gritou que o "segue" já estava pronto e que eu poderia subir, não deu nem tempo de fazer o sinal da cruz porque a ansiedade era tanta que eu já estava a uns dois metros do chão, totalmente inebriado pelo aquele momento mágico. No começo a subida parece impossível, mas pensando bem, mesmo apertado e quase que usando os dentes para conseguir ganhar altura no início, é muito melhor do que o que estava por vir. Logo chego à primeira proteção, onde consigo encaixar os pés e tomar fôlego, tiro a corda da costura e ao olhar para cima ainda me dou conta que faltam uns 15 ou 20 metros de chaminé, Jesus! Naquela Chaminé dos infernos pouco importa se você está guiando ou se está indo de "segue", ali os seus demônios interiores vão te colocar à prova. Quando meus pés deixaram aquele ultimo patamar e virei com as costas agora para pedra da unha, foi como se todos os demônios pulassem para cima dos meus ombros. Milímetro a milímetro fui vendo aquela parede passar diante dos meus olhos e o demônio da dor foi o primeiro a tentar me derrubar pelo tornozelo, já bastante inchado pela torção na trilha de acesso. Me concentrei o máximo que pude, as pernas tremiam e a cada metro ganho, mais infeliz eu ficava porque via o chão cada vez mais distante. “Não quero cair, não vou cair, sai pra lá cão dos infernos, cadê o fim disso meu Deus do céu? ‘ Minha cabeça parece girar, não quero olhar pra baixo, mas é o instinto ou é a tentação do além que me força a fazer isso. A cada metro subido, a chaminé vai ficando mais larga e mais difícil de se sustentar, já perdi a concentração, mas continuo mirando somente a costura que está acima da minha cabeça, não quero nem saber, vou me agarrar nela quando lá chegar, mas quando lá chego, ela já ficou para baixo dos meus olhos e nem serve mais para nada mesmo, só faço seguir adiante confiando que o Vinícius ainda vai estar lá para me receber e não o chifrudo guardião do lugar. Na hora que minhas duas mãos tocam a aresta afiada do topo da CHAMINÉ DA AGULHA DO DIABO e prendo minha solteira nos cabos de aços que vão levar ao estirão final, mentalmente dou uma banana para aquele diabólico abismo em forma de chaminé. “ Não foi dessa vez que vocês nos venceram, seus desgraçados! Sentei-me ali na ponta da Agulha na companhia do Vinícius, já que o Alexandre também havia partido para o cume. Aliás, a visão do estirão final até o cume é algo impressionante, uma ponta de pedra lisa e que se não fosse a instalação de um potente cabo de aço, seria impossível ir ao cume dessa montanha. O tempo está perfeito, mal ventava nesse dia, lá encima muito mais quente que dentro daquela chaminé. Tomei folego, apreciei a paisagem ao redor e quando a “segui” vindo dos meninos do cume ficou pronta, me grudei aos cabos de aço e clipei minha solteira para o derradeiro lance antes da conquista final. (subida final) Esse é o nono lance, o que antecede o cume, e olhando para ele você acha que vai ser uma moleza e que vai passar com os pés nas costas. Eu também achei e me lasquei bonito, porque entrei nele todo displicente, somente pensando no topo e por isso mesmo fui com tanta sede ao pote que levei um escorregão e dei um tranco nos braços. Aquela pedra é extremamente lisa, é preciso procurar as aderências certas e botar uma força descomunal, além de ter que ir passando a sua solteira de um lado para o outro até que finalmente consigo avistar o Dema e o Alexandre junto à caixa do livro de cume. Estava definitivamente vencido os 2050 metros da AGULHA DO DIABO e quando lá cheguei, já não havia mais nenhum diabo para chutar a bunda, os meninos já haviam feito o serviço sujo e quando o Vinícius se juntou a nós, foram calorosos os abraços de comemoração, havíamos conquistado o PENHASCO FANTASMA, como era conhecida essa montanha nos seus primórdios. O topo é minúsculo, mas muito maior do que havia sido alardeado por outros escaladores, tanto que depois ouvimos uma história de que alguém havia acampado no cume com uma barraquinha e se o topo não é lá grande coisa, a paisagem ao redor é grandiosa. Para muitos estar no cume daquela montanha lendária poderia ser somente mais uma escalada, mas para nós era mesmo uma grande honra, como eu havia dito, não somos pertencentes as comunidades de escaladores tradicionais, somos mais um grupo de amigos do interior Paulista que um dia ousou se juntar para aprender os rudimentos da escalada e olha só aonde fomos parar. Aquilo era incrível, quanta montanha linda ao nosso redor, quantos abismos colossais, que paisagem fenomenal ! ( Cume) Já passava das cinco da tarde e era preciso parar de sonhar e voltar ao mundo dos homens, muito porque, subir é só a metade do caminho e já é sabido que a maioria dos acidentes acontecem nas descidas. Assinamos o livro de cume e já demos início ao primeiro rapel que num primeiro momento vai nos devolver até o topo da unha. A descida do cume da Agulha do Diabo até topo da chaminé da unha é um dos piores rapeis que eu já enfrente na vida. É necessário descer a pedra lisa, atrelando a solteira ao cabo de aço porque é muito grande a chance de se escorregar e fazer um pendulo que vai rodopiar no vazio. A gente vai descendo e a força da gravidade vai te jogando para fora da pedra, te empurrando, como se quisesse te chutar para fora da montanha. Uma vez no topo da unha da chaminé, o segundo rapel não é por dentro dela e sim por fora, uma descida não muito melhor que anterior e só não é pior porque alguém serve como anjo lá embaixo, guiando a corda para fora dos abismos até que se chegue em segurança no platô da unha, juntamente enfrente de onde está a placa homenageando os conquistadores. Quando desclipo a corda e me achego ao próximo rapel, o terceiro em questão, nem encontro mais o Alexandre e o Dema, que já desceram com a outra corda e já vão se encaminhado e adiantando o caminho. Nesse terceiro rapel vamos descer direto do platô da unha até a entrada inicial das chaminés em “L”, bem de frente para o pico do Diabinho, o que vai nos fazer cortar todo o caminho. Quando o Vinícius fecha a descida, ajudo ele enrolar a corda e juntos já pegamos a trilha, passamos novamente por dentro da caverninha e descemos até onde termina a quarta enfiada, aquele lance que você caminha beirando a parede rochosa. Nesse ponto encontramos dois “P” e nele já vemos a corda instalada que vai se enfiar por dentro de um mato e esse será o quarto e penúltimo rapel. Ao chegarmos ao patamar mais abaixo, agora sob a luz das nossas lanternas, finalizamos o último rapel, o quinto e descemos todos em segurança aos pés da Agulha do Diabo, perfazendo assim quase sete horas de escalada entre subir e descer. ( Pico do Diabinho) Conquistada aquela montanha, agora era preciso sair vivo daquele buraco. Sem muitas delongas já estávamos de volta à Gruta da Geladeira, mas ao invés de nos enfiarmos no buraco no teto e voltarmos para útero da nossa mãe, aproveitamos um “P” instalado encima da gruta e improvisamos um rapel até o chão e sem perder tempo fomos descendo aquele vale de pedra no escuro, escorregando nos patamares rochosos até chegar na curva que vai nos levar de volta para cima. É uma subida de matar mula, coisa que nem nos demos conta quando estávamos descendo, talvez pela ansiedade da escalada, mas agora é um tormento. Aquilo é praticamente outra escalada e a canseira e o sono vão tomando conta da gente e quando saímos desse racho da montanha e nos vimos na parte plana, foi como se tirássemos uma tonelada das nossas costas. O Alexandre ia à frente porque conhecia mais a trilha e sem que nos descemos conta, pegamos uma bifurcação errada. Gritei para o Alexandre que estávamos confusos e ele murmurou algo sem sentido e eu acabei indo parar numa falsa trilha, descendo em um mato alto e me perdendo e aí tive que varar um capim no peito e subir trepando um barranco íngreme e enquanto fazia isso, ia fazendo elogios à mãe do Alexandre por não ter nos esperado naquele trecho. Interceptamos a trilha da descida final e logo caímos morto novamente no Acampamento Paquequer. Ao chegarmos ao Paquequer, o Alexandre já foi dizendo que não ia acampar ali de jeito nenhum, que ali era muito úmido e que ia passar um frio do cão. Eu por mim teria desmaiado por ali mesmo, mas como o Vinícius e o Dema também não quiseram enfrentar a “tirania” do Alexandre, pouco me importei e quando eles levantaram a bola de fazer uma janta quente antes de partirmos para talvez acamparmos no gramado do Abrigo 3, eu já estava com o fogareiro ligado tostando o bacon. Já era bem tarde quando partimos e deixamos aquele vale para trás. Escalamos as rampas de pedra até o mirante, nos embrenhamos na mata morro acima até saírmos de vez na trilha principal que desce da Pedra do Sino e nos pomos a caminhar mais rapidamente, agora com a visão deslumbrante das luzes de Teresópolis no vale. Ao chegarmos no Abrigo 3, um infeliz dos infernos teve a ideia de querer continuar a caminha a fim de bivacarmos na grande toca que fica há mais ou menos uma hora do final da caminhada. Nessa hora eu já não tinha mais vontade de dar opinião nenhuma, eu era só um zumbi tomado pela vontade de ver o fim daquela aventura terminar em algum lugar que pudesse esticar o esqueleto. Caímos de vez novamente naquele zig-zag irritante e uma hora depois, ao pararmos para tomar um folego, já havíamos tocado o foda-se e decidido não dormir em mais nenhuma toca, iríamos sair do parque seja lá que hora fosse. A madrugada já ia alta e a gente ainda estava presos naquela trilha e pior, até os caras novinhos não faziam outra coisa senão a de amaldiçoar aquele caminho. Teve uma hora que o grupo se dispersou. Minha lanterna já não clareava mais nada e eu mal enxerguei quando a tal gruta passou ao meu lado. Eu já nem caminhava mais, meu pé já parecendo uma bola, apenas fazia com que eu me arrastasse em transe e não demorou muito para o Alexandre me ultrapassar e me por na condição de fiofó de tropa. Pensei em parar, sentar, deitar um pouco para aliviar os pés e as dores nas costas por causa da mochila, mas não estava querendo passar atestado de molenga, tinha uma reputação a zelar e quando ouvi o barulho de água me animei um pouco e tirei forças para desembocar de vez no asfalto da barragem, já dentro da sede do Parque Nacional da Serra dos Orgãos e sem perder tempo já descemos pelo asfalto até onde havíamos deixado o carro estacionado. Passamos pela portaria do Parque, demos baixa na nossa saída e ganhamos a estrada e voltamos novamente ao posto de gasolina aos pés do Escalavrado, chegando depois das 2 da manhã, 20 horas depois de termos partido daquele mesmo ponto. Ninguém queria saber de nada e eu muito menos, tanto que quando me deitei em um lugar qualquer naquele posto de gasolina, já ameacei de morte o primeiro cara que inventasse de me acordar antes das oito da manhã. Quando o dia amanheceu e o sol ameaçou nos despejar, pegamos nosso caminho e voltamos para a nossa aldeia , perdido num canto esquecido do interior Paulista. Na semana que antecedeu a escalada, a maioria teve insônia e a ansiedade tomou conta de praticamente todo mundo. Naquele momento cada qual travava uma batalha ferrenha, era uma guerra silenciosa contra os seus próprios demônios interiores. Parece ter ficado claro que todos os tais demônios narrados nesse relato, nada tem a ver com personagens malignos, tirados de qualquer religião, é tão somente a materialização dos nossos medos, das nossas angustias, das nossas frustrações. Temos medo do fracasso, medo de não dar conta da empreitada que nos propusemos a realizar, medo de falhar e por consequência, nos quebrar, mas quando esses medos são domados, esses demônios exorcizados, aí a gente cerra os punhos e comemora a vitória, aí a gente volta para casa feliz, porque a luta valeu a pena, descobre que não vencemos só uma montanha, mas vencemos a nós mesmos. E aquela AGULHA nem era tão do Diabo assim, haja vista que nos fez voltar para casa com um belo sorriso no rosto, nos fez voltar para casa muito mais satisfeitos, porque juntamos um grupo de velhos amigos num só objetivo: Escalar uma das mais incríveis montanhas do mundo e celebrar a vida. Divanei Goes de Paula - julho/2018 NOTA IMPORTANTE: Esse relato foi escrito de uma forma simples para que as pessoas que não são ligadas a escalada possam enterder, muito porque, eu mesmo sou apenas um montanhista que aprendeu os rudimentos da escalada para poder ir ao cume de montanhas como a Agulha do Diabo e o Dedo de Deus, portanto, se você é escalador profissional ou graduado, leve isso em consideração antes de tecer elogios a minha mãezinha (rsrsrrsr) . Abraços a todos.
  5. Valeu Leandro, essas expedições são sempre muito animadas, as vezes meio sem noção, mas sempre um grande prazer. Abraços !
  6. Gostaria de saber se tem alguma restrição à essa travessia ultimamente, autorizações e tal.
  7. EXPEDIÇÃO PEDREADO “Qual é o propósito de um monte de homens adultos se jogarem numa jornada incerta, num roteiro desconhecido, chafurdando numa floresta quase que inacessível, num fim de mundo que quase ninguém sabe que existe? Enquanto tento achar resposta para essas perguntas, vou me arrastando pela margem deste incrível rio de águas quase que intocadas, tentando levar minha carcaça destruída até o acampamento, nesse final de tarde de outono. Ter um tornozelo torcido minutos antes de chegarmos as grandes gargantas foi um pouco de azar, por isso não fiz nem objeção quando alguém cantou a bola para pararmos ainda antes das 4 da tarde, mesmo porque, ser pego pela noite emparedados naqueles cânions poderia nos render um sofrimento desnecessário, melhor mesmo é ir cuidar das feridas, fazer uma janta quente e se preparar para o dia seguinte que promete ser de grandes aventuras. ” Não havíamos nem nos recuperado da Expedição ao VALE DO RIO SÃO LOURENCINHO, que quase culminou em uma tragédia e meus olhos já se voltaram para outro grande rio isolado ali da região de Juquitiba. O grande rio PEDREADO, conhecido e chamado pelos sitiantes locais pelo nome de RIO DO BRAÇO GRANDE, nasce no meio da Serra do Mar Paulista e se enfia em um vale quase inacessível, terra de ninguém, visitados eventualmente eu suas partes mais planas, apenas por alguns corajosos palmiteiros e caçadores mais audaciosos. Quando os estudos começaram, já ficou claro que esse rio apesar de selvagem, não teria um desnível tão abrupto quanto outros já explorados por nós, mas o fato de ser uma travessia extremamente longa da sua nascente até a sua foz, no encontro com o próprio São Lourencinho, esse afluente do Rio Juquiá, já me fez olhar essa expedição como uma missão de respeito. O rio era longo, mas a parte que nos interessava, aquela onde quase ninguém já teve coragem de meter a cara, contava com um 20 km de travessias, grande demais para apenas 4 dias, que era o tempo que dispúnhamos. Mesmo assim tínhamos que ariscar, precisávamos que alguém fosse lá e encontrasse um caminho até o rio, que alguém investigasse a qualidade da água. Para essa missão prévia se apresentou como voluntários Décio Marques e Regis Ferreira, que para lá se dirigirão, entraram pelo Bairro do Engano e se embrenharam nuns sítios abandonados até darem nas barrancas do Pedreado. Fizeram um excelente trabalho, e voltaram com o caminho mapeado no GPS, estava estabelecido a rota até o rio, agora era hora de montar uma equipe e botar mais um rio selvagem no mapa das grandes travessias da Serra do Mar Paulista. Ao apresentar o projeto para a equipe, a grande maioria já deu uma desdenhada, achando que por não haver grandes desníveis, talvez não valesse a pena tanto sacrifício e seria correr um risco desnecessário. Na minha opinião, depois de passar meses debruçado sobre os mapas de satélite e cartas topográficas eu não tinha a menor dúvida que a expedição era totalmente viável, muito porque se tratava de um rio selvagem, em estado quase bruto e que ao longo do caminho receberia mais de 50 afluentes de águas intocáveis, atravessando uma das mais exuberantes florestas do mundo. Resumindo: Parte do grupo caiu fora e foi se divertir em outras paragens. Paciência, como a gente fala, não existe carteirinha e nem obrigação com ninguém e cada um tem a liberdade de ir quando quiser e quando bem entender e isso é muito legal porque sempre deixamos bem claro. Os feriados foram passando e nada da expedição sair do papel até que no feriado de maio encostei uma meia dúzia de sem noção à parede, montamos um grupo e mesmo com alguns desconfiados quanto ao roteiro, resolvemos que já estava na hora de desvendar os mistérios escondidos naquele fim de mundo. Às nove da noite já estava eu plantado na Estação Faria Lima do Metrô, na capital Paulista, quando me aparece Paulo Potenza, arrastando atrás de si Thiago Dias (Rasta) com seus cabelos de corda, mal deu tempo de cumprimenta-los e já surgiu sei lá de onde, Guilherme rocha, que veio me cumprimentar dizendo que acompanhava meus relatos na internet e quando pediu para tirar uma foto comigo, tive que aguentar a zueira geral, muita coisa para um caipira do interior de São Paulo, rsrsrsrsrs . Não demorou muito e os outros chegaram e o grupo se completou com Anderson Rosa, Régis Ferreira, Rafael Araújo e Daniel Trovo. Nos dirigimos para o tal Largo da Batata e lá pegamos um ônibus para Itapecerica da Serra e de lá outro para Juquitiba, aonde uma van escolar já esperava para nos levar até o mais próximo do rio. O motorista rodou por 14 km pela BR 116 no sentido sul e depois entrou no tal bairro do Engano, tocou direto pela estrada principal para o sul e seguiu sempre por ela que foi se dirigindo para leste/sudeste e se bifurcou 5 km depois que saímos da BR e ali paramos porque não havia mais condições de seguirmos motorizados. Num primeiro momento eu pensava em adentrar no sítio em que a vam havia nos deixado e cortar caminho por um vale, andando uns 2 km até atingirmos o rio Pedreado, mas logo vimos que seria impossível forçar passagem por uma área habitada de madrugada e aí resolvemos seguir o plano original, o roteiro conseguido na primeira incursão. Portanto, naquela madrugada de sexta para sábado, jogamos as mochilas às costas e partimos pela estrada da esquerda que logo adentra pela mata e sem pegar nenhuma bifurcação, vamos seguindo por ela que vai ficando cada vez mais intransitável, passa por um sítio à esquerda e uns 300 m depois o terreno se abre e aparece um grande lago também à esquerda, denunciando ser ali o último ponto com sinal de gente porque a partir daí a estradinha vira quase um trilha e numa bifurcação pegamos para a direita até desembocarmos num sítio abandonado de gente aonde uma placa nos dá as boas-vindas: Caiam fora, proibido entrar, caçar, pescar, colher palmito, MEXEU MORREU ! A gente sabia que ali é terra sem lei, mas naquela hora da madrugada era o nosso único porto seguro para tentar descansar um pouco, então adentramos assim mesmo, já que era nítido que não havia ninguém no sítio. O lugar até que estava bem cuidado, sinal que não estava de todo abandonado. Em uma das casas, uma grande varanda já nos chama a atenção e nos indica um possível lugar para nos abrigarmos. Na outra casa encontramos a porta sem trancas, mas o lugar estava deplorável, com cheiro de rato morto e não havia a menor possibilidade de dormimos nas camas, mesmo assim arrastei um colchão mais apresentável e o levei para a varanda da outra casa, fiz o mesmo com um cobertor que continha apenas bostas de ratos, nada que uma boa espancada não o deixasse em condições de uso, mesmo sobre protesto e cara de nojo dos participantes daquela expedição. Então nos alojamos ali naquele casebre mequetrefe e cada um se ajeitou como pode, espalhando seus sacos dormir sobre lonas ali no chão de barro e eu tive uma noite de rei, sem friagem, sem umidade e dormi como um anjo, mesmo que alguns dissessem que nem o satanás ousaria usar aquele cobertor e aquele colchão, bobagem, exagero da galera, (rsrsrsrsrsrs). Pouco depois das 6 da manhã já estávamos de pé, tomamos café, arrumamos as mochilas e partimos. Passamos entre os dois casebres e demos a volta no lago e interceptamos uma trilha atrás dele, mas não andamos nem cinco minutos e o Régis já notou que havíamos entrado pelo lado errado, então varamos mato para a direita por uns 100 metros e achamos a trilha de acesso ao rio. Sabendo que o rio iria fazer várias voltas, resolvemos cortar caminho e seguir rente ao morro do nosso lado direito e fomos varando mato acompanhando a direção correta dado pelo nosso GPS. Aliás, havíamos marcado todo o percurso do rio Pedreado com GPS e escolhemos como nosso navegador Anderson Rosa, que iria conduzir aquela expedição com extrema competência no uso do Wikloc, que foi o aplicativo usados. A chegada ao rio alegra todo mundo. Ele está lindo, a água ainda um pouco amarelada, típica de rio ainda de planalto, que carrega um pouco de sedimento, mas logo saberíamos que ele a cada curva iria ganhar novos afluentes de águas cristalinas e irá aos poucos se transformando em um rio translúcido. Como sempre acontece, no início da caminhada a gente vai tentando manter as botas secas, tentando ganhar terreno pela margem ainda plana e transitável, mas não demora muito para as botas começarem a empapar e quando o mato fecha de vez é hora de largar de frescura e se jogar de vez na água fria da manhã, a AVENTURA ESTÁ POSTA À MESA. Nesse início o rio se mantém raso, com a água mal passando do nível da cintura, mas numa grande curva, quando somos obrigados e passar com água na altura do peito e vez por outra tendo que nadar nos lugares mais fundos, foi aí que demos conta de que esse rio seria uma grata surpresa, e alguns, que antes se mantinham céticos a respeitos do sucesso daquela expedição selvagem, já se renderam completamente e seus olhos brilharam de felicidade. O rio serpenteia, vira para um lado, vira para o outro e quando dava, usávamos suas margens para nos locomover com maior rapidez, nos utilizando também de algumas raras trilhas de palmiteiros e caçadores, aliás, em poucos lugares na Serra do Mar vimos tantas Palmeiras Juçara. Logo o rio se encaminha para dentro da floresta densa e até os raros caminhos de palmiteiros já não são mais vistos. O dia já ia pela metade quando a primeira garganta se apresentou à nossa frente, local que chamaríamos de PORTAL DO PEDREADO. Nesse ponto o rio começa a se encachoeirar e as grandes rochas faz valer o nome dado ao rio. Paramos ali para um breve lanche e para traçar a estratégia de descida, que é sempre a mesma : ganhar um pouco de altura pela direita para depois começar a descer na diagonal, que vai nos devolver de novo ao rio aonde uma Grande Cascata se apresenta e como alguns caras estavam meio que apressados para passarem por esses obstáculos, coube a mim e ao Régis nos enfiarmos numa descida para registrarmos umas fotos do salto, que aliás, era muito bonito, quase que se espalhando de um lado ao outro do rio Pedreado. Logo nos encontramos entre algumas paredes com corredeiras um pouco mais rápidas e foi ali que o Rafael tentou se jogar e ir boiando e se fudeu todo, sendo arrastado pela água e quase triturado pela máquina de lavar natural. A caminhada consiste em avançar pelo rio, hora por dentro da sua correnteza, hora pela sua margem às vezes planas e com mata mais aberta. Quase sempre era preciso cruzar de um lado a outro e numa dessas travessias vindo do interior da floresta, eu mais um pisamos a um palmo de uma jararaca velha, mas foi o Rafael que quase foi picado ao se apoiar na pedra e cair com a mão encima da serpente, que por sorte só fez pular fora da rocha. Notamos logo que teríamos problemas com as cobras e não demorou muito já me deparei com outra jararaquinha tomando sol encima de uma outra pedra no meio do rio e também tive sorte de vê-la antes de saltar sobre a pedra, ainda bem-estarmos todos com perneiras e isso faz uma grande diferença, principalmente psicológica. A galera estava motivada e tudo era motivo para alegrar mais ainda o grupo, até uma ossada de queixada servia para distrair e virava assunto, mas um tal Potenza começou a aloprar todo mundo porque queria parar para nadar, mas eu e o Trovo queríamos ganhar terreno, ainda mais porque estávamos agora numa parte plana do rio e esperávamos encontrar grandes poços mais abaixo, mas como ele encheu muito nosso saco, tivemos que esperar quando ele resolveu se jogar num poço parado , cheio de tranqueiras. Depois dessa parada não muito estratégica, cruzamos o rio para sua margem direita e os olhos treinados de lince do Rosa localizou um girau de caça e o Rasta investigando o terreno encontrou um vestígio de trilha. Nos enfiamos nesse caminho e qual não foi a nossa surpresa ao encontrarmos um vestígio de antiga estrada tomando o caminho para o norte. Era praticamente uma trilha, tomada de árvores de grande porte e só olhos bem treinados seria capaz de saber que outrora aquilo fora uma passagem maior. Mas com o objetivo daquela estrada, para que teria servido, porque estaria ali? Estudando a carta topográfica de 1973 era possível verificar que nela constava a construção de uma pequena usina hidrelétrica, coisa comum nessa época, mas esta usina, se existisse, estaria muito mais abaixo e só a encontraríamos no segundo dia de travessia. Bom, o certo é que seguir aquele caminho mais desimpedido era uma boa pedida, mas depois de uma meia hora, talvez menos ,esse vestígio de estrada foi se afastando cada vez mais do rio e eu a todo momento insistia para direcionarmos nosso nariz de volta para as barrancas do rio. Sem me dar ouvidos, parte do grupo continuou caminhando, mesmo que a estrada fosse cada vez mais se afastando do rio e ganhando altura. Teve uma hora que eu já estava implorando para a gente tomar outro rumo, tanto que cheguei a apostar até a minha dignidade, contando com o Rafael como fiador da aposta e tendo o Potenza como assinante de algumas promissórias. Mas os caras não queriam nem saber e quando a caminho se bifurcou, pulamos um afluente e seguimos meio que para oeste, infelizmente ainda subindo. Eu já estava nos cascos quando finalmente a tal estradinha que nem trilha mais parecia de tão fechada, se enveredou para o sul, indo em direção ao rio e logo à frente ela acabou de vez e aí descemos escorregando em um barranco até desembocarmos umas 4 da tarde, olha só, bem na barragem da tal usina hidrelétrica. Ninguém entendeu nada, na marcação da nossa carta topográfica essa tal usina seria muito mais abaixo do rio, tanto que só esperávamos encontra-la apenas no outro dia. Achar essa Usina hidrelétrica foi mesmo gratificante porque pensávamos até que ela nem existisse e chegamos à conclusão de que o IBGE havia cometido um pequeno engano ao coloca-la um pouco mais abaixo, um erro plenamente justificável, haja vista que a carta datava de 1973, mas a construção dessa usina é muito antes disso, talvez da década de 30 ou 40. Então estava explicado aquele vestígio de estrada que havíamos encontrado, ela serviu para a construção da usina, que por sua vez foi construída para alimentar uma madeireira as margens da local aonde hoje é a BR 101. Claro, é uma usina minúscula, tanto que só no outro dia conseguimos localizar no meio do mato e carcomida pelo tempo o maquinário e a turbina que gerava a energia, mas hoje só resta mesmo a barragem de pedra que fecha o rio de um lado ao outro, mas ainda deixando passar toda sua água, formando uma bucólica cachoeira aos seus pés e diante desse engano e aproveitando a própria deixa com o nome do bairro, vou chamar essa queda d’água de CACHOEIRA DA USINA DO ENGANO, para marcas essa localização. Ainda era muito cedo para acamparmos, mas os caras bateram o pé para que passássemos a noite ali e quanto a isso não fiz objeção, mesmo achando ser muito cedo para arriar as mochilas. Então nos pés da cachoeira armamos nossas redes e enquanto alguns cozinhavam, outros aproveitaram para se esbaldar no poço da queda d’água. Alguns se viraram como puderam, fazendo o velho e tradicional miojo, mas eu, em parceria com o Régis, cozinhei uma boa de uma janta reforçada. Aliás, o Régis e o Rasta eram os novatos do grupo, mas logo se enturmaram e não escaparam em nenhum momento das piadas e chacotas destinadas aos debutantes, muito porque eles mesmos, já “não valiam nada”(rsrsrsrsr) Foi uma noite bem dormida, de temperatura agradável e só não foi melhor porque demora um pouco para a gente se acostumar com o barulho da queda d’água explodindo no poço da usina, mas o dia que amanhece é um dia sem nuvens e promete ser sem chuvas. Antes das sete da manhã já estávamos de pé, mas só depois das oito foi que nos animamos a partir. Ficamos divididos entre voltarmos para a estrada/trilha ou continuar seguindo por dentro do rio, mesmo ainda sendo muito cedo para nos atirarmos na água. Num primeiro momento tentamos descer pela margem e não andamos nem 100 metros já nos deparamos com a tal casa de maquinas em completa ruina, aonde o caminho acabou de vez. Querendo ganhar um pouco de terreno resolvemos retornar e novamente interceptar a tal estradinha, mas logo descobrimos que ela na verdade acabava mesmo ali na usina e quebramos a cara porque perdemos muito tempo rodando para ver se achávamos ela na direção que pretendíamos. O jeito foi retornar novamente até a antiga casa de maquinas e varar mato pela direita, até que o barranco fechou nossa passagem e fomos obrigados a nos jogarmos novamente dentro do rio e uma vez com as partes baixas molhadas, não havia mais motivos para fugirmos da água gelada. A caminhada seguiu alternando as margens do rio e sempre procurávamos facilitar nossa passagem, as vezes varando mato por algum barranco, outras vezes abrindo passagem pela vegetação mais tranquila, quando o rio se estabilizava, até que chegamos às gargantas e aí foi hora de nos esgueiramos por dentro de grandes rochas, subindo e descendo, escalando fendas e vencendo paredes lisas. Não que o rio nessa parte tenha grandes correntezas, mas sempre é um tormento para atravessá-lo, principalmente para mim que sou muito leve e qualquer bobeada aumenta a chance se ser arrastado é um perigo real, mas quando se pode ver o que se esconde atrás de alguma curva é sempre um barato se jogar nessa correnteza e deixar com que a força do rio o conduza bem mais à frente , sem nenhum esforço, nos poupando energias .Quando o rio resolve se enfiar de vez numas paredes que o espreme, é hora de pular fora dele e voltar a escalar pedras novamente. Chega uma hora que a margem que se caminha não serve mais ao nosso propósito, então é preciso montar uma operação para conseguir voltar ao outro lado. Caminhar pela Serra do Mar é algo incrível não só pela paisagem deslumbrante e selvagem, mas também pela forma com que se faz isso. Aqui não seguimos nenhuma regra cagada aos quatro ventos por grupinhos constituídos, as regras nós mesmos criamos dependendo do momento e da ocasião e para atravessar uma torrente de água basta uma cordinha qualquer, um nó de emergência criado na hora por quem se sente mais seguro com ele. Basta um pedaço de pau qualquer, uma mão amiga para não deixar que o indivíduo despenque na queda mais abaixo e tudo está resolvido. Mais à frente o rio se afunila mais ainda e aí é preciso tomar cuidado para não escorregar e cair na máquina de lavar e se lascar todo. Logo sem ter como prosseguir voltamos a nos enfiar no mato e subimos barranco abrindo passagem pela vegetação mais densa até novamente podermos voltar ao rio, desta vez sobre uma imensa laje de pedra, hora de parar para um breve descanso e umas mordidas em uns lanches. A cada passo dado, a cada metro que ganhamos vamos vendo a transformação desse rio. Suas águas vão ganhando novos afluentes e vão ficando cada vez mais cristalinas e logo quando as gargantas acabam, nos vimos caminhando numa mata bonita, onde o rio vai se enlarguescendo e fazendo várias curvas. O dia já vai bem adiantado quando começamos a sentir um cheiro característico de comida no fogão a lenha, sinal de que algum grupo de caçador poderia estar por perto, mesmo porque, vimos no mapa que estávamos nos aproximando de um local aonde era possível que se pudesse chegar ao rio pela existência de uma estradinha no passado. Passamos em silêncio, não queríamos ser confundidos com algum animal de caça e corrermos o risco de tomarmos um tiro de cartucheira. Resolvemos mudar de margem para uma maior segurança e de repente, sem prévio aviso, tropeçamos numa ponte pênsil que atravessava o rio de um lado a outro, que ligava nada a lugar nenhum. Estava bem claro que havia um caminho vindo de algum lugar da civilização, mas era claro que nenhum turista chegava por ele, haja visto que não havia nenhum sinal de lixo. Logo acima da ponte de cabos abria-se uma grande clareira e a partir dela saia uma larga trilha que denunciava que realmente no passado uma estradinha poderia ter chegado até ali. Parte do grupo que estava à frente resolveu seguir a larga trilha que se distanciava do rio na perpendicular e era claro que não serviria a nosso propósito, mas os caras teimosos foram seguindo, feito cabras segas, enquanto eu o Rasta já putos da vida, seguíamos atrás reclamando porque víamos que aquele caminho não daria em lugar nenhum, a não ser para nos tirar da nossa rota. Dez minutos de caminhada, depois de uma curva, surge a nossa frente um telhado de um rancho e isso fez com que a gente ficasse apreensivo por não saber o que encontraríamos naquele fim de mundo e poderíamos dar de cara com os bandoleiros da serra que provavelmente nos receberia com um trabuco na cara. Se nós já estávamos apreensivos, imagina a cara dos sete homens que foram surpreendidos por outros sete saído do meio da floresta, vindos sabe-se lá de onde. O rancho não passava de uma construção rústica, com uma cobertura de telhas, mas sem paredes e rodeado de algumas lonas velhas. Mesmo sendo um barraco qualquer, no meio daquela selva parecia mesmo um castelo, onde um fogão a lenha jogava fumaça pelos ares denunciando que havia comida cozinhando e algumas camas rusticas espalhadas pelo outro ambiente completava o senário do palácio perdido. Logo nos apresentamos como aventureiros e exploradores, eliminando assim qualquer mal-estar que a nossa presença pudesse causar. Aqueles homens que ali estavam não eram caçadores e nem palmiteiros e sim convidados do cuidador daquela propriedade que segundo nos disseram, pertencia a um grande banco que a comprou para fazer lastro financeiro, mas eles estavam ali apenas para praticar um ócio: beber, comer e jogar conversa fora. Ao lado do rancho, uma willis velha deixava claro que realmente havia uma estrada ligando a civilização ao rio, mas por ser propriedade particular, ninguém passava, deixando o lugar no mais total isolamento. Todos apresentados. Fomos logo convidados a nos sentar à mesa para compartilhar a refeição, coisa que o Daniel Trovo já recusou de cara por educação, mas como educação passou longe da barriga lombriguinha do Potenza, o “zoiudo” já se atirou no fogão à lenha e saiu de lá com um prato caindo comida pelas beiradas. O Trovo mandou logo sua educação para os quintos e abocanhou seu quinhão e assim, um a um foram se achegando naquele fogão à lenha e revirando o “zóio” de tanto comer. Eu mesmo, um pouco mais contido, talvez pela minha educação europeia, ao olhar para o tamanho daquela panela, aonde poderia comer umas 20 pessoas e me dando conta que sobre aquele rústico fogão havia dobradinha com carne de porco, arroz, torresmo, carne de panela cozida com palmito selvagem, enchi meu prato como se fosse um refugiado de guerra, muito porque aqueles homens não estavam mesmo a fim de comer mais nada, já estavam com o rabo cheio de cachaça. Fazendo justiça a um do nosso grupo, que se recusou a comer todo aquele banquete, não posso deixar de citar o único cara que se mostrou civilizado naquele dia e se manteve firme nas suas convicções, o Rasta não tocou na comida, mesmo estando varado de fome, não por ser um lorde inglês, mas simplesmente por ser vegetariano e esse foi o único que se lascou bonito e teve que fazer sua própria janta. Bom, a comida estava boa, o papo estava melhora ainda, mas já passava das 4 da tarde e a gente tinha que decidir o nosso rumo. Numa rápida reunião decidimos que mesmo ainda sendo muito cedo, acamparíamos na clareira à beira do rio, mas aí o inesperado veio alegrar a alma já que a barriga estava para a lá de cheia. Seu Joaquim nos ofereceu o rancho para passarmos a noite já que eles estavam de partida em no máximo meia hora. Não havia o que pensar, aceitamos e ficamos agradecidos pela oferta, aquilo iria além do que a gente sonhava. Enquanto os donos do rancho se organizavam para ir embora, aproveitamos para tomar um bom banho no rio e colocar roupas limpas e secas e quando retornamos eles haviam partido e aí nos apossamos do abrigo e cada qual foi escolher sua cama e seu colchão. Os mais espertos se empoleiraram nas camas rusticas e os outros tiveram que se deitar no chão mesmo. Ali naquele casebre improvisado e quentinho rolou papo furado até quase de madrugada, sempre regado a café e chá. Alguns ainda se deram ao luxo de comer o resto da comida que havia sobrado, outros foram ainda preparar mais comida. Na hora de deitar os homens se separaram dos meninos logo que elas surgiram: Eram aranhas de tudo quanto é tamanho e tipo, saíram dos lugares mais estranhos e foram tomando tudo de conta. Alguns logo se revelaram com a masculinidade abalada e outros nem disfarçaram, já largaram os colchões no chão e trataram de montar suas redes, até aqueles que vive de defender a sociedade acabou por nos decepcionar e ameaçou dar chilique e só depois de uma operação de guerra com muitas chineladas é que conseguimos vencê-las e os mais medrosos conseguiram pegar no sono no RANCHO DAS ARANHAS. Quando o dia raiou foi difícil abandonar aquele cafofo confortável e só lá pelas nove da manhã foi que resolvemos partir, ainda bem porque eu andava preocupado com o zunzum da noite anterior aonde alguns ameaçavam largar a expedição no meio e voltar para casa ou no mínimo ficar no rancho por mais um dia. De volta ao rio, a caminhada segue pela sua margem e não demora muito achamos um grande afluente do lado direito, justamente o riacho que rasgava a montanha e abri caminho para a estradinha que vinha da civilização. As andanças se alternam entre varar mato e andar dentro do próprio rio que nesse trecho é raso e plano, com uma água incrivelmente limpa e menos de duas horas depois achamos o que nos pareceu ser uma trilha e resolvemos segui-la, até que ela começou a se afastar muito da água e quando pensamos em abandoná-la, demos de cara com mais um abrigo abandonado. Apreensivo fomos nos achegando aos poucos e logo notamos que esse também estava vazio a um bom tempo e desse rancho partiu uma trilha que nos devolveu novamente ao rio. Nesse trecho a correnteza deu uma aumentada e o leito rochoso dificultava o caminhar, mas se por um lado é preciso empreender mais energia, por outro lado aquele era um cenário lindíssimo com poços sempre nos convidando para um mergulho e em um deles uma caverna escavada no barranco foi o parque de diversão de alguns mais afoitos. Logo em seguida, numa curva para esquerda, o rio desembestou de vez e para não ser arrastado pela correnteza foi preciso que passássemos nadando até uma grande espécie de ilha de pedra e por haver um super poço, foi a grande desculpa para ariarmos as mochilas para uma parada mais demorada e um bom mergulho e alguns se ariscaram a se jogar na correnteza e viraram passageiros do rio, num divertimento sem compromisso. Estávamos ansiosos para encontrarmos as cachoeiras que aquele dia nos prometia e quando as pedras do rio começaram a ficar cada vez maiores, já nos preparamos para desce-las e a primeira que apareceu foi logo uma que tomou conta de todo o rio, uma cascata não muito alta, mas que parecia com uma catarata que jogava gotículas de água para todos os lados. Para descer ao pé dela, parte do grupo varou mato pela esquerda, enquanto outros já se jogaram de cima dela e passaram à nado, aproveitando a força da sua queda para ir parar já na prainha de pedras. Já passava das duas da tarde, talvez um pouco mais e aproveitando a parada providencial, aproveitamos para instalar ali nossa capsula de registro de travessias selvagens,aonde deixamos nosso recado para os futuros aventureiros que por lá passarem algum dia e depois disso deixamos aquela bela cachoeira entregue a sua própria sorte e agora as CATARATAS DO PEDREADO ganhou o registro da nossa ilustre passagem. Para nossa surpresa, mal havíamos começado a caminhar e já demos de cara com mais uma gigante cachoeira, justamente a queda d’água que eu havia estudado tanto e imaginava que poderia ser uma das mais altas da travessia. Só que dessa vez não era uma cachoeira no Rio Pedreado, mas sim num afluente do lado esquerdo e a meinha suspeita se confirmou. Uma queda d’água larga de um grande rio vindo do interior da serra, mais um rio perdido nesse mundo selvagem aonde ninguém põe a cara e que transforma esse ecossistema em um dos mais espetaculares da Terra. Fico feliz em ver se materializar à minha frente aquilo que eu só imaginava nos mapas de satélite e na carta topográfica. Enquanto eu e o Rasta ficamos ali apreciando aquele espetáculo, os meninos se adiantaram e fomos obrigados a apertar o passo para nos juntarmos novamente à eles. O Daniel Trovo o tempo todo vinha com uma conversa de que poderíamos acabar ainda hoje aquela travessia, mas eu já sabia que isso não passava de delírio, muito porque eu não estava nem um pouco a fim de abandonar aquele rio extraordinário antes do combinado, mas o dia foi passando, a gente varando mato, atravessando rio a nado, nos jogando nas corredeiras, subindo barranco e escalando paredes na unha e numa curva qualquer, talvez por já estar cansado e um pouco desatento, num pulo mal dado, vi meu pé virar e foi inevitável que meu tornozelo torcesse junto. Na mesma hora eu já ví que o estrago havia sido feito, mal conseguia colocar o pé no chão e perdido naquela vastidão de floresta temi pela continuidade daquela travessia. Uma parada de uns 15 minutos para que a dor inicial desse uma estabilizada e me valendo da água fria para um analgésico momentâneo consegui prosseguir. A dor ainda era intensa, mas não havia tempo para ficar choramingando pelos cantos, o jeito era tentar me arrastar até o fim do dia e tentar um curativo a noite, no acampamento. A tarde já ameaçava acabar e como já pensávamos em acampar, fomos andando e já de olho em alguma área plana, mas por infelicidade estávamos presos entre duas paredes sem nenhum lugar descente para montamos nossas redes e como nada é tão ruim que não possa piorar, surgiu à nossa frente uma sequência de gargantas profundas, hora de parar e montar uma estratégia. Já eram quase 4 horas da tarde e nos veio à cabeça a possibilidade de iniciarmos aquela descida e acabarmos mais presos ainda e agora por paredões de pedra. Ser pego à noite sem nenhum lugar para montar acampamento não estava nos nossos planos, já havíamos passado por isso em outras expedições e sabíamos muito bem o quanto é desagradável e sofrível, então numa reunião rápida, o grupo decidiu que deveríamos montar acampamento e deixar aquela aventura para o outro dia. O grande problema era aonde conseguir um lugar descente, mas aí o Trovo se lembrou de que algum tempo atrás ele havia visto uma área de caçadores abandonada e que seria prudente retornarmos e tentar passar a noite por lá. Sem ter outra alternativa fizemos o caminho de volta e por sorte encontramos essa área do lado direito do rio e não poderia ser melhor. Um local plano e com boas árvores para esticarmos nossas redes, abrigado do vento e com um pequeno afluente para nos abastecer. Quando montamos essa expedição e decidimos que mesmo o rio não tendo um desnível descomunal como estávamos acostumados a explorar, iríamos ir nos divertir, acampar num lugar selvagem e jogar conversa fora e felizmente tudo que havíamos planejado estava saindo ainda melhor. Os quatro acampamentos que fizemos foram realmente incríveis e como é gratificante poder nos sentar às margens desse rio fantástico, numa noite de lua clara e temperatura agradável e poder se dar ao luxo de viver uma vida de desapego. Lá nós não somos ninguém, nem ricos nem pobres, ninguém é Cristão ou Budista ou Espírita. A profissão de cada um não vale absolutamente de nada e muito menos a sua posição política ou filosófica. Somos apenas nós mesmo, apenas homens crescidos brincando ao som da simplicidade da vida. E nesses acampamentos é muito zueira, muito porque o politicamente correto não existe e quem puder mais chora menos. Mesmo já estando a 3 dias nessa labuta incessante, todos estão muito dispostos e animados e a conversa acaba por se estender até tarde, ou ao menos até mais tarde do que estamos acostumados e quando o sono chega é só se jogar para dentro das nossas redes e dormir como nunca dormimos antes até que o sol venha nos acordar para mais um dia de jornadas gratificantes. Pouco depois das 6 da manhã já estamos de pé e enquanto a água do café não ferve, desmontamos tudo e nos aprontamos para partir. E a partida já começa em grande estilo porque logo cedo já somos obrigados a cruzar o rio com a água pela cintura e ganharmos o mato do lado direito, interceptando um vestígio de trilha que vai ganhando altitude e quando vimos já estávamos paralelos à garganta. Poderíamos tentar seguir varando mato pela crista mas aí nos afastaríamos do objetivo principal que eram as cachoeiras e por isso embicamos nosso nariz numa diagonal e avançamos escorregando pelo barranco até nos posicionarmos novamente às margens do Pedreado, bem aos pés de uma queda incrível, que abria o início das grande cachoeiras antes do rio fazer sua curva para esquerda e começar a acompanhar a Rodovia Regis Bittencourt (BR 116). Não demora muito e entre escaladas e desescaladas, ganhando terreno dentro do rio, conseguimos perder altura até nos posicionarmos em mais uma Cachoeira larga, com um véu abaulado, mais um cenário lindíssimo, mais uma descoberta surpreendente aonde alguns ficaram brincando no meio do seu véu. Por incrível que pareça, nós estávamos enfiando dentro de um vale bem no meio da SERRA DO CAFEZAL , aonde milhares de pessoas passam todo dia indo ou voltando do sul do país e que nem imaginam o que se esconde por dentro dessas montanhas. Em épocas de feriados, congestionamentos monstros se formam na BR 116 , são horas e horas parados , pessoas perdem seus tempos, dinheiro e saúde, parados no meio do nada, enquanto aqui em baixo nos vales a vida pulsa numa beleza poética, com rios de águas cristalinas, cachoeiras lindas ,plantas exóticas e animais extraordinários e naquele momento tudo nos pertencia e somente a nós, donos absolutos do lugar. Agora à nossa frente o vale se abriu de vez e acima das nossas cabeças já era possível notar que estávamos bem perto da rodovia, talvez em uma hora varando mato e escalando a montanha conseguíssemos chegar ao asfalto, mas ainda não havíamos chegado ao meio dia e seria uma pena abandonar tudo aquilo e quando o Rio Pedreado curvou-se de vez para o sul, junto a um grande afluente do lado direto, no próprio rio uma outra cachoeira se fez presente, num cenário de tirar o fôlego e um mundo paisagens fascinantes se abriu para nós e ficamos encantados de estar tão perto de uma das rodovias mais movimentadas do país e ao mesmo tempo tão isolados num mundo selvagem. Aquilo era realmente incrivelmente belo e para nossa surpresa uma antiga ponte pênsil caindo aos pedaços havia sido construída ali, mas com sinal de estar abandonada há muito tempo, parecendo mesmo ter sido esquecida ali para todo o sempre. A Cachoeira da Ponte Pênsil marcava definitivamente nossa vitória e nossa conquista daquele vale e daquele rio desafiador porque sabíamos que poderíamos cair fora a qualquer momento, mas a aventura ainda não havia terminado, então decidimos nos enfiar na próxima garganta e avançar um pouco mais e não nos arrependeríamos por isso. O Pedreado dá uma afunilada e é pelo lado esquerdo que vamos seguindo, nos enfiando no meio de pedras e descendo uma a uma até nos posicionarmos acima de uma grande e longa rampa que nos trava a passagem. Descer por ali seria realmente perigoso e o jeito foi retornar um pouco e tentar uma passagem para o outro lado do rio, mesmo assim seria necessário se jogar à beira da queda potencialmente perigosa. O Rasta acabou sendo o boi de piranha que se ariscou e já puxou o Daniel Trovo para o mundo dele, mas o resto do grupo não achou prudente passar por ali sem nenhuma segurança e só se animou a cruzar o rio quando o próprio Rasta sacou um cordim para nossa segurança e um a um foi se agarrando àquela corda medíocre e se atirando na correnteza até alcançar a outra margem. Uma vez cruzado o rio, até tentamos varar mato para descer até a próxima cachoeira, mas a inclinação do terreno e sabendo que aqueles eram os últimos momentos nossos naquela expedição, preferimos não gastar mais nenhuma energia e o melhor caminho se mostrou mesmo pelas bordas do rio, passando e se esgueirando pelas pedras lisas, mas ainda assim perfeitamente passáveis e nem quinze minutos depois a gente largou nossas mochilas e agradecemos por estarmos diante de mais uma maravilha despencando de cima das pedras formando mais uma grande cachoeira para coroar de vez a nossa passagem por aquele vale. Não Era mais uma cachoeira qualquer, era outro espetáculo que se espalhava de um lado a outro do rio e foi bonito ver parte da galera se esbaldando embaixo da sua queda e no seu grande poço de águas claras. Eu da minha parte não queria mais saber de água, quase 4 dias socado dentro do rio para mim já era suficiente. Sentei sobre uma grande rocha e me pus a contemplar pela última vez aquele cenário que me encantou nesse feriado do dia do trabalho. Foram 4 dias intensos, de grandes descobertas, de novas amizades, de desafios e deslumbramentos e quando a galera cansou de desfrutar daquela Cachoeira com uma espécie de chafarizdo lado direito, demos por encerrada aquela expedição por dentro do rio, mas ainda estava longe de nossa aventura terminar por completo. Estávamos a uns 200 metros de desnível abaixo da BR 116 e para lá chegarmos seria necessário escalar a montanha e varar mato até o asfalto. Não havia muito o que fazer, apenas pedimos proteção a nossa senhora do barranco e nos pomos a puxar mato e subir sem nem olhar para trás e logo demos adeus a Cachoeira do Chafariz e ao vale do Rio Pedreado. O Rasta e Trovo foram à frente puxando a fila, mas logo o Potenza nos ultrapassa e ele e o Rasta tiveram o privilégio de avistar os primeiros sinais de civilização e um pequeno cervo selvagem correndo apressado ao perceber nossa presença. Finalmente antes das 2 da tarde comemoramos com um abraço coletivo mais uma expedição bem-sucedida na Serra do Mar Paulista, chegamos todos em segurança, cansados, mas felizes de mais uma vez podermos ir ao lado escuro dessa fascinante serra, numa das mais incríveis florestas do mundo, aonde ainda reina a paz que todos desejam. Chegar a rodovia foi uma conquista, mas fomos sair num lugar inóspito, praticamente desabitado e somente depois de quase uma hora de pernadas foi que conseguimos achar uma alma viva que morava num sítio e ele nos informou que deveríamos descer por mais um km até uma borracharia abandonada, aonde seria possível pegar um ônibus subindo a serra que possivelmente viria do bairro de Santa Rita. Esperamos, esperamos até que a bunda ficasse quadrada e nada de conseguirmos um transporte, muito menos uma carona. Com muito custo nos veio a informação que somente as 18 horas poderia haver um ônibus e nós ficamos lá abandonado a própria sorte até que um ônibus vazio e que não nos servia parou e nos avisou que ali não conseguiríamos voltar para casa nunca e nos ofereceu uma carona até mais acima na rodovia, aonde havia um ponto de ônibus que fazia a linha Juquitiba x Barnabés ou sei lá que fim de mundo dos infernos era aquele. O ônibus quando apareceu, a noite já havia caído faz tempo e em mais de hora de viagem, nos deixou na pequena rodoviária de Juquitiba e de lá conseguimos outro ônibus para a região metropolitana de são Paulo aonde cada qual se dispersou para um lado e eu voltei para minha aldeia em Sumaré, no interior Paulista. Essa Travessia expedicionária surgiu da vontade de poder explorar um mundo quase selvagens, ir à lugares ainda desconhecido pela maioria dos Paulistas. Poder botar nossos pés e arrastar nossa alma ávida de conhecimentos até lugares praticamente intocados, poder lutar e vencer a nós mesmo, poder cerrar os punhos e enfrentar uma natureza quase que desconhecida e entrar de um lado e sair do outro transformados, satisfeitos, inebriados e agradecidos por mais uma vez ir aonde poucos foram e principalmente por ter conseguido juntar uns amigos e conhecidos e ao final da jornada quase poder chamá-los de irmãos. Divanei Goes de Paula / maio - 2018
  8. Alguém saberia me dizer se essa travessia ainda é possível , ouvi dizer que a Fazenda Hare está interditando a passagem. Vendo o mapa do google Earth, notei uns traklog subindo por dentro do Vale do Bonfim, será que a passagem é livre pelo vale ou tem que enfrentar alguma propriedade particular ?
  9. O vídeo da expedição ; https://aventurebox.com/divanei/pico-desmoronado-a-conquista-inedita-do-cume-da-jureia/videos
  10. Valeu Rosangela, essa região é simplesmente incrível, logo mais pretendo subir os picos escalando , assim que estiver bem treinado pra isso, abraços !
  11. Sabe se a família do seu Roselito ainda está morando no Sitio, faz tempo que não tenho notícia do filho dele.
  12. Pois é LF BRASILIA , eram outros tempos aqueles, sem Facebook, sem mapas de satélites, sem gps, sem informações nenhuma. O mapa que eu tinha era uma rodoviário aonde eu usei para saber apenas em que local estava a estação de trem. O relato que me baseei era o do Sergio Beck, que narrava parte do caminho , ia até um ponto e retornava de novo, não ia até o litoral e ele mesmo nunca falou da tal Tribo Rio Branco( livo Caminhos da Aventura) . Toda caminhada era um tiro no escuro, vc sabia aonde possivelmente começava a s trilhas e não sabia mais nada. Hoje vc salva o percurso no seu celular, lê um milhão de relatos, traça o caminho do google Earth . A travessia do Rio Branquinho hoje é uma piada como caminho e pode ser feita até por quem não tem experiência nenhuma porque uma vez no rio, é só desce-lo até essa tribo se algo der errado .
  13. Quinze anos atrás um acontecimento me fez começar a escrever sem eu nunca ter escrito nem uma carta se quer, foi o start para colocar no papel algumas aventuras que achava relevante, deixando alguma coisa escrita para ajudar outros caminhantes como eu, num tempo em que nem internet existia, não como agora. "-Divanei, é melhor vocês não irem viajar, pois nosso primo de Rio Preto recebeu uma mensagem espiritual e a mensagem dizia que se vocês fizerem esta trilha, PELO MENOS UM VOLTARÁ EM UM CAIXÃO”. Caminhar em trilhas pelas florestas e montanhas sempre foi minha grande paixão, escrever, minha grande decepção. Mas o que aconteceu conosco nesta caminhada, acho que merece ser colocado no papel. Invertendo o velho ditado, seria trágico se não fosse cômico. A trilha do Rio Branquinho é uma daquelas caminhadas pouco conhecida pelos paulistanos, apesar de partir do extremo sul da cidade, mais precisamente do distrito de Parelheiros, num lugar conhecido como Represa, ela atravessa toda a Serra do Mar findando em Itanhaém, já no litoral. Eu já havia tomado conhecimento a algum tempo da existência desta trilha e aguardava a oportunidade de fazê-la, para isso convidei um primo que mora na capital, pois seria mais fácil para ele descobrir os horários e itinerários dos ônibus, do que para mim, pobre habitante do interior de São Paulo. Marcamos a viagem para o primeiro final de semana de agosto(2003), pois eu não iria trabalhar e a previsão do tempo era favorável. Começava então uma série de acontecimentos e coincidências que parecia anunciar uma tragédia. Ao sair de casa para trabalhar, três dias antes da viagem, pela primeira vez depois de seis anos trabalhando como motociclista, levei a minha primeira queda ao atropelar um cachorro. Braços ralados, mãos esfoladas, joelhos inchados e outras escoriações pelo corpo. Viagem cancelada, que frustração!!!! Na semana seguinte não seria possível ir, tinha que trabalhar no sábado e ponto final. Escolhemos então como nova tentativa o terceiro final de semana do mês, mais precisamente o dia vinte e três de agosto, já que o calendário da empresa onde eu trabalhava não previa trabalho para o final de semana. Na quinta-feira, 21 de agosto, minha mochila já estava pronta, a comida e tudo para a viagem já estava pronto. Quando cheguei à tarde na empresa me deram a péssima notícia: Por alguns problemas técnicos, eu iria ter que trabalhar no sábado. Bateu em mim um sentimento de derrota, mais uma vez iria ter que dar o cano no meu companheiro de caminhada? Passei toda a sexta-feira tentando achar uma solução rápida. Trabalheira na hora do almoço, consegui que um colega fizesse parte do meu trabalho no sábado. A outra parte eu faria na sexta-feira mesmo, depois do expediente. E assim foi. Terminado o expediente às 17 horas, peguei a minha moto e fui terminar o serviço que me restava. Foi quando de repente minha moto foi atingida por trás por um carro. Lá estava eu, mais uma vez beijando o asfalto e amaldiçoando a minha sorte. Seria a maldição da trilha? Seria algum aviso para eu esquecer desta caminhada? Levantei-me do chão, tirei a poeira da roupa, minhas mãos sangravam um pouco, as costas e as pernas estavam doloridas, mas eu não havia quebrado nada. Levantei e fui correndo para casa. Tomei um banho, eu ainda não estava derrotado, nunca escondi de ninguém o meu ceticismo por estas coisas, tudo não passava de mera coincidência do acaso, eu iria viajar, mesmo dolorido, eu iria assim mesmo. Coloquei a mochila nas costas e peguei o ônibus para São Paulo às 08 da noite, fui para casa do meu primo na Zona Leste, chegando lá descobri que um amigo dele, na verdade um rapaz casado com uma meia prima minha, iria conosco. O Marcão parece ser gente boa, nunca tinha caminhado em nenhuma trilha, seria a primeira dele. Ele é evangélico, só não me perguntem de que igreja, pois não saberei responder, possivelmente de uma destas dezenas que surgem a cada ano no Brasil. Todas as mochilas prontas, mapas, e outros equipamentos, resolvemos dormir na casa do meu primo e combinamos de sair as 04 horas da manhã, pois era primordial começar a trilha o mais cedo possível. Dormíamos na sala, eu, o Marcão e a esposa dele, quando mais ou menos as 03 e meia da manhã tocou o Telefone. Eram os nossos parentes que haviam chegado de Rio Preto e estavam no portão e como a casa era de fundos e nós não estávamos escutando eles baterem, resolverão ligar para que nós fôssemos abrir o portão. Como quem atendeu ao telefone foi o Marcão, coube a ele a missão ingrata de levantar da cama quente e fazer entrar os parentes. Estes parentes são gente boa, primos, tios, todos da mesma igreja do Marcão. Eles passam os finas de semana viajando com uma Vam cheia de evangélicos, pregando e tinham vindo à São Paulo justamente para isto. O que o Marcão conversou la fora com eles, eu não sei dizer, só sei que o Marcão foi até a sala aonde estávamos dormindo e disse que não iria mais viajar, pois teria que participar de uma vigíliacom os nossos parentes evangélicos e que se ele não fosse à vigília e fosse viajar, para ele seria a morte. Como eu estava meio sonolento não liguei muito para o assunto, já havia me acostumado durante vários anos de caminhadas a levar bolos de última hora. Com toda esta confusão acabamos perdendo a hora e acordamos depois das 06 da manhã. Tudo bem, mais um infeliz azar. Agora éramos só nós dois, eu e meu companheiro de viagem, o meu primo Lindolfo . Mochila nas costas ,partimos para o ponto de ônibus, meu primo à frente e eu logo atrás. Mas antes que eu cruzasse o portão, fui surpreendido por uma janela que se abriu subitamente na minha cara. Era outra prima minha que morava na casa da frente. Cumprimentei-a, pois não a vi quando cheguei à noite. O cumprimento foi retribuído. Foi quando ela sem me deixar falar mais nada, me deu o seguinte aviso:-“Divanei, é melhor vocês não irem viajar, pois nosso primo de Rio Preto recebeu uma mensagem espiritual . A mensagem dizia que se vocês fizerem esta trilha, pelo menos um voltará em um caixão". Há, vai se foder, diante de tanta coincidência não havia ceticismo que não se abalasse. Mesmo assim fingindo estar todo seguro de mim, balancei os ombros e sai. Decidi que não contaria nada para o meu primo, se contasse sei que ele não sairia de casa. Confesso que fiquei muito preocupado, já pensou se acontecesse alguma coisa com o meu primo, iriam me culpar para o resto da vida, mas eu tinha que pagar para ver. Pegamos as peruas, metrôs e ônibus, atravessamos da zona leste até o fim da zona sul em mais de três horas de viajem. Chegamos ao vilarejo da Represa, possivelmente pertence ao distrito de Parelheiros, que aliás, é conhecidíssimo por ser uma região muito violenta . Descemos do ônibus que estava muito lotado e fomos tomar um café antes de começarmos a caminhar. Tínhamos que andar uns 15 km pela linha de trem que desce para o litoral e enquanto caminhávamos, eu ia pensando em tudo que tinha acontecido até o momento, nos dois acidentes de moto, na convocação para trabalhar no sábado, na chegada dos parentes 30 minutos antes da viagem, na desistência de última hora do Marcão, sem falar naquela previsão mórbida que teimava em não abandonar os meus pensamentos. Comecei então a me sentir responsável pela vida do meu companheiro de trilha. Começamos a cruzar com alguns elementos estranhos e eu imaginava que poderíamos ser assaltados a qualquer momento, pelo menos enquanto não nos afastássemos da civilização. Mais ou menos uma hora depois de começarmos a caminhar, passou por nós uma caminhonete, já que paralelo a este pedaço da linha do trem havia uma rústica estrada. A caminhonete passou uns 100 metros e voltou. Foi quando um dos ocupantes disse : “Aí, vocês tem dinheiro aí mano”. Na hora gelei, mas felizmente, era só uma brincadeira. Eles só queriam uma informação, que foi dada por nós sem nenhum problema. Abandonamos de vez a civilização e chegamos ao nosso primeiro objetivo , a Estação Evangelista de Souza. Melhor dizendo, antiga estação, pois está abandonada desde que os trens pararam de carregar passageiros e passaram a transportar apenas cargas. Nós só não contávamos com um pequeno problema: Haviam instalado ali um pequeno posto da polícia metropolitana e assim fomos informados que não poderíamos passar sem autorização da prefeitura. Caramba!! Nada estava dando certo, agora mais esta ,parecia haver uma conspiração para nos impedir de realizar a trilha. Depois de muita conversa o guarda nos disse que faria vistas grossas e nos deixaria passar, não antes sem dar um aviso: “Vocês vão com cuidado, pois é muito grande o número de pessoas que morrem atropeladas nesta ferrovia”. Mais morte atravessando o nosso caminho, parecia que morrer seria apenas questão de tempo. (Estação Evangelista de Souza-2003) Mesmo assim seguimos nosso caminho, olhando as belas e surpreendentes paisagens ao nosso redor. Florestas e montanhas a perder de vista, rios de águas cristalinas, pássaros, muito ar puro e também, é claro, o patrimônio histórico da ferrovia, com suas estações, túneis e pontes. Por falar em túneis e pontes, estes dois me fizeram tomar cuidados especiais. A todo o momento eu pedia para o meu primo não andar na beira das pontes, que estavam muito deterioradas e escondiam debaixo de si, dezenas de metros de altura. E os túneis sempre escuros e em curvas, podiam nos fazer bater de frente com um trem. (2003) Estávamos na metade da caminhada que teríamos que fazer na linha férrea, quando passou por nós um trem com umas vinte pessoas em cima. Eram alguns mochileiros que estavam descendo para o litoral de carona, clandestina é claro. Meu primo sugeriu pegar uma carona até o nosso destino, já que a velocidade ali na serra era muito baixa. Pensei bem: Andar de pingente de trem depois de tudo o que estava acontecendo, não seria uma boa. Meu primo não entendia o que estava acontecendo comigo, onde estava o meu espírito de aventura. O coitado ainda não sabia o que realmente estava acontecendo. (2003) Cruzamos com um índio, que morava numa tribo próxima dali e pedimos informação sobre a tal trilha que iria até o mar. Ele nos disse que nós poderíamos pegar um atalho, e assim não precisaríamos andar muito sobre o trilho, entrando logo na mata. Agradecemos a dica e seguimos. Alguns minutos depois encontramos um rapaz que já tinha feito a trilha e nos confirmou a dica do índio. Mas disse que seria quase impossível terminarmos a trilha, pois não tínhamos cordas para atravessar alguns abismos no final da trilha( eu nuncsa soube que abismos eram esses). Fiquei preocupado, mas decidi seguir caminhando assim mesmo, deveria haver algum desvio que pudéssemos pegar para terminar a trilha. Ele ainda avisou para tomar cuidado no início da trilha com uma grande cachoeira, que deveria ser transposta sem trilha. Enfim abandonamos a ferrovia e caímos na mata. No início a trilha um pouco íngreme e escorregadia logo nos levou a uma pequena cachoeira, com um poço de águas verdes e profundas. Imediatamente tirei a minha roupa, me apoiei sobre uma grande rocha e .........voltei a vestir a roupa de novo , pois a água estava muito fria e eu não queria virar picolé. Minha atitude foi seguida pelo meu primo. Comemos alguma coisa e retomamos a viagem. Nosso próximo objetivo era chegar até o Rio Branquinho e percorrê-lo até o seu encontro com o Rio Capivarí. Andamos uns dez minutos pelo rio até que encontramos a tal cachoeira. Na verdade uma gigantesca queda d' água descendo por fendas na rocha. Começamos a descer os abismos pela mata, na esperança de encontrar a tal trilha no pé da cachoeira. Levamos quase uma hora para vencer o desnível de mais de cem metros. A dificuldade do terreno voltou a me preocupar. Cada vez que meu primo por algum motivo escorregava a beira do precipício, aquele pensamento macabro voltava à minha cabeça. Minha preocupação começou a se transformar em pânico quando percebi que no pé da tal cachoeira não havia sinal algum de trilha. Procurei dos dois lados do rio, mas nada encontrei. E para piorar a situação, surgiu no pé da cachoeira outro abismo igual ou maior que aquele que acabávamos de atravessar. Foi aí que tomei conta da gravidade e da enrascada em que tínhamos nos metido. Não contei nada para o meu primo, não queria deixá-lo em desespero. Era como se naquela hora o passeio tivesse acabado para mim, e agora o meu principal objetivo era me manter vivo, e principalmente manter vivo o meu primo. Claro que se fosse em outra circunstância eu estaria vibrando com a possibilidade de uma aventura a mais na viagem, mas como não pensar na tal profecia depois de tudo que vinha acontecendo de errado, era como se a tragédia anunciada fosse acontecer a qualquer momento. Tinha chegado a hora de eu por em prática toda a minha experiência adquirida em vários anos de caminhadas por todo tipo de terreno. Tinha que redobrar atenção, usar meu faro de trilheiro, mas será que tudo isso resolveria, já que a minha maior luta seria contra supostas forças do alem? Literalmente não dava para voltar atrás, nem na trilha e nem no destino. Aliás, o nosso destino teria que ser sempre em frente, ou melhor, sempre para baixo. Abismos, despenhadeiros, gargantas profundas, cipós que agarravam na mochila, espinhos que castigavam as mãos, as dificuldades iam se seguindo. Quando a tensão diminuía um pouco, podíamos prestar atenção nos maravilhosos poços que se formavam no pé das cachoeiras. Houve um momento em que eu e meu primo estávamos tentando vencer mais uma queda, quando nos vimos presos à um paredão. Pendurados, não conseguíamos ir para lugar algum. Abaixo de nossos pés uns quinze ou vinte metros de altura e, para piorar, um poço profundo, não que para mim isso fosse algum problema pois sei nadar razoavelmente bem, mas meu primo só sabe nadar o famoso estilo machado sem cabo. E para piorar ainda, ele acabará de perder seu colete salva vidas. Seria apenas mais uma coincidência, o certo é que conseguimos nos livrar de mais aquele sufoco. Já era quase seis horas da tarde, o sol já começava a desaparecer no horizonte, ainda estávamos presos ali naquela garganta, sem nenhum lugar para dormir. Se ficássemos sentados ali no leito do rio esperando a noite passar, corríamos o risco de sermos arrastados por alguma cabeça d' água, que poderia possivelmente inundar todo o rio. Foi quando quase praticamente já sem luz, depois de descer mais um paredão, para minha surpresa dei de cara com um antigo acampamento de palmiteiros ou caçadores. Tratava-se de uma pequena barraca quase todo destruída pelo tempo, parecia ter sido abandonada há anos , mas para mim parecia o mais lindo e confortável hotel. Comemoramos muito aquele achado. Depois de um dia de decepção, poderíamos descansar confortavelmente. Se realmente íamos morrer no dia seguinte, pelo menos morreríamos de barriga cheia e com o sono em dia. (Encontro Branquinho com o Capivarí-2003) Acordamos poucos minutos depois das cinco da manhã, nenhuma cobra, onça ou qualquer outro animal selvagem tinha aparecido, tínhamos um longo dia pela frente. Teríamos que caminhar bravamente para tentar alcançar o litoral até o anoitecer. Fiquei pensando como ficariam preocupados as nossas famílias se não chegássemos em casa na hora marcada. Ainda mais sabendo da previsão macabra. Parecia que nossa sorte tinha começado a mudar. Depois de uma vasculhada pela área, encontrei uma trilha. Só podia ser a tal trilha, era batida, um pouco confusa, mas larga. Corria paralela ao Rio Branquinho, e olhando o mapa que tínhamos em mãos, não tínhamos mais dúvida, era a trilha que procurávamos. Estávamos no plano, o rio era cristalino, gelado e maravilhoso. O prazer voltara a fazer parte da nossa caminhada. Pássaros, árvores enormes, todos os cheiros e cores que só a mata Atlântica pode proporcionar. Depois de três horas de caminhada finalmente encontramos o famoso Rio Capivarí. Paramos, fizemos um lanche, estávamos estasiados com tanta beleza. A preservação do local é incrível. São florestas e montanhas a perder de vista. Pequenos rios que deságuam no Rio Branco, que passa a ganhar esse nome depois do encontro com o Capivarí, são dezenas. Por enquanto toda tensão havia passado, caminhávamos eufóricos, a trilha era fácil , plana e larga. Batíamos papo e observávamos tudo ao nosso redor. Resolvi então apertar o passo, deixando meu primo um pouquinho para trás. Foi quando de repente ouvi um grande barulho de alguém caindo no chão. Olhei para trás e o que eu vi me deixou paralisado, mal consegui mover as pernas, senti arrepios em todo o corpo. Vi meu primo caído no chão com as mãos na garganta sem poder respirar. Ele levantava e caia de novo. Apontava a mão para a cabeça e para a coluna, balançava os braços pedindo socorro. Sim, meu amigo estava morrendo na minha frente e, aparentemente sem que eu pudesse fazer nada. Mesmo conhecendo técnicas básicas de primeiros socorros, na minha cabeça só um pensamento: A maldita profecia havia se cumprido. Eu estava pasmo, perplexo. Havíamos passado por tantos perigos, e a morte nos apanhara em um lugar onde nem uma criança seria capaz de se acidentar. Meu primo Lindolfo é grandão, um pouco acima do peso. Quem o vê pela primeira vez, com seu chapéu com uma pena de urubu, pensa estar frente a frente com um Rambo das florestas Brasileiras, mas não é bem assim, como ele mesmo diz, ele é meio estabanado, costuma cair com certa freqüência ,mas é impressionante o progresso que teve em pouco tempo em matéria de caminhadas. Hoje ele já consegue terminar trilhas que antes ele nem sonhava em realizar. Falastrão, é uma excelente companhia para caminhar, me agrada e da prazer caminhar a seu lado. De repente vi o meu pesadelo ruir em alguns segundos, meu primo voltara pouco a pouco a respirar. Foi se acalmando, sua cor voltara ao normal. Ele sobrevivera a mais esta. Até hoje não sei o que aconteceu. Possivelmente ao cair no chão depois de tropeçar em um cipó, bateu com o peito e a garganta em um toco, fechando-lhe as vias respiratórias, que aos poucos foi voltando ao normal. Depois de um breve descanso, seguimos firmes e a passos largos, vário riachos foram cruzados e começaram a surgir de repente alguns pés de bananas, um claro sinal de civilização. Mas como? Civilização no meio da floresta? . Mais meia hora de caminhada e nossa pergunta foram logo respondidas. Uma tribo indígena! Sim indígena, uma tribo Guarani, uma visão de encher a alma. Depois de tanto tempo quase nos arrastando pela mata, fomos dar de cara logo com um povo que sonhara em conhecer. Mesmo estando a menos de 100 km da maior cidade do país, esta tribo conhecida como tribo do Rio Branco, mal fala português, as crianças só tupi-guarani. Nosso primeiro contato foi com as crianças, claro que não entendemos uma palavra do que elas falaram. Logo avistei uma índia semi-nua, que tratou logo de vestir uma camiseta. Pedimos para nos aproximar e fomos autorizados. Cumprimentamos o índio e a índia, que nos responderão com um português de difícil compreensão. Perguntamos o tempo que gastaríamos para chegar ao litoral e ele disse que em quatro ou cinco horas de trilha chegaríamos a um local onde seria possível pegar um ônibus. Ficamos felizes, conseguiríamos com certeza terminar a nossa viagem na data prevista. A pedido do índio distribuímos alguns doces para as crianças, nos despedimos e seguimos em frente . ( 2003) A trilha continuava plana e de fácil navegação. O Rio Branco continuava a nos acompanhar e fazia jus a seu nome, limpo , translúcido e calmo. Encontramos pela frente um índio que vivia isolado da tribo. Parecia ter uns 50 anos de idade( seria o seu Vera Tupâ, que eu só conheceria 12 anos mais tarde ?). Segundo ele, estava morando ali a uns vinte anos. Disse ter vindo de uma tribo guarani do Estado de Santa Catarina. Foi por ele também que descobrimos e ficamos sabendo que aquela tribo, conhecida como Rio Branco, está ali a menos de trinta anos. Provavelmente habitavam o litoral e com a explosão urbana, foram obrigados a se mudar para as montanhas. Atravessamos o Rio Branco e continuamos a caminhada, agora pela sua margem esquerda. Depois de algum tempo de caminhada, agora por uma estradinha de terra, paralela ao rio, chegamos ao que parecia ser a área principal da tribo. La havia uma pequena escola e um posto de saúde e a iluminação elétrica também havia chegado, o que não diminuía em nada a fantástica sensação de estarmos diante de um povo de hábitos tão primitivos, surpresas que só um país como o Brasil pode nos proporcionar, um Brasil pouco conhecido pela maioria dos brasileiros. Tiramos algumas fotos e continuamos pela estradinha. Eu estava eufórico, fui acometido der repente por uma felicidade que não sentira há muito tempo. Sentia-me leve, parecia estar flutuando, era como se eu tivesse atingido o nirvana. Começara a perceber que toda aquela profecia não passava de pura cretinice. Ao invés de morrermos, havíamos ganhado mais vida. Tínhamos passado algumas dificuldades,admito, mas estávamos ali de pé, firmes para contar a história. Sobrevivemos a tal maldição, íamos ver o sol nascer mais veze, desta vez fortalecidos e confiantes em nós mesmos. Contei toda a história paro o meu primo enquanto caminhávamos pela estradinha de terra e depois fizemos muitas piadas com o que tinha acontecido, rimos muito. Foi ai que ele começou a entender porque eu havia durante toda a caminhada, o tratado como se ele fosse uma criança. Conseguimos uma carona com um baiano que morou na Chapada Diamantina e hoje vivia em São Bernardo. Descemos em um bairro do litoral, aonde pegamos um ônibus que nos deixou na rodoviária de Itanhaém. Pedi que meu primo ligasse para casa dele, pois provavelmente sua esposa poderia estar preocupada por causa da tal profecia. Ficamos sabendo que a profecia teria sido recebida, na verdade, por uma tia nossa, e que a profecia dizia que se fôssemos, seríamos picados por uma serpente negra e que a visão se limitava apenas ao Marcão e sua esposa e no caso, serpente negra na crença deles não tinha nada a ver com cobra e significaria somente a morte. Juro que a minha vontade era de mandar enfiar profecia e serpente negra na bunda, mas por respeito deixei pra la. Pegamos uma Vam até o terminal do metrô Jabaquara. Despedimo-nos na Estação da Sé com uma sensação de vitória, de alma lavada, com alegria e satisfação, que só pode ser sentida apenas por quem se dispuser a abandonar a civilização e se lançar rumo ao desconhecido. Como se chama esse gato, é seu animal de estimação? -"Chama gato mesmo, nois cria pra comer no Natal" ( Vera Tupâ, lider da tribo) Divanei Goes de Paula / agosto de 2003 NOTA IMPORTANTE: Pois é caros amigos, se você teve paciencia para ler esse tosco relato até o fim e não está entendendo nada, preciso lhe dizer que estamos falando de um tempo sem internet, sem celular, sem redes sociais , sem mapas de satélites, sem GPS, sem comunicação quase nenhuma, tanto que nem sabíamos da existencia da tal tribo do Rio Branco. Hoje a tal travessia do Rio Branquinho é uma travessia clássica, quase uma carne de vaca, mas ainda continua linda como sempre foi. Para ilustrar melhor esse relato, eu intercalei fotos originais da época com fotos recentes e essa narrativa por incrível que pareça, acaba por se tornar um documento histórico de um passado não muito distante. Divanei Goes de Paula- março/2018
  14. EXPEDIÇÃO VALE DO ITINGUÇU Foi numa tarde quente e chuvosa de verão que eles surgiram. Nove homens desembocam de supetão na extraordinária e turística CACHOEIRA DO PARAÍSO, nos domínios da JURÉIA. Toda a ação é assistida por uma multidão que fica perplexa, sem se darem conta do que está acontecendo. Um burburinho toma conta do lugar, homens, mulheres, crianças e velhos tentam entender de onde surgiram aqueles extraterrestres de coletes, perneiras, capacetes e mochilas estanques com equipamentos de escalada a tira colo. Os salva-vidas do parque ficam paralisados, sem ação, só fazem acompanhar com os olhos um a um dos exploradores descerem a escadinha de madeira e depositarem suas mochilas ás margens do grande POÇO VERDE e se atirarem na água, nadando para o outro lado até se posicionarem embaixo da queda da cachoeira. Nada disso havia sido combinado e o grupo foi tomado por um sentimento avassalador de satisfação e conquista e ao se juntarem, se abraçaram e comemoraram juntos, como jamais haviam comemorado antes e o aniversariante do dia não se conteve e escondidamente deixou escapar umas lagrimas em meio àquela enxurrada de emoções e agradeceu por estar vivo para apreciar aquele momento único. (Uma das Grandes Quedas do Itinguçu, no centro da Mata Atlântica, quase 2 dias da civilização) Já fazia muito tempo que eu deslumbrei a possibilidade de explorar às nascentes do Rio Itinguçu, o rio conhecido por abrigar a fenomenal CACHOEIRA DO PARAÍSO, uma das maiores atrações do entorno da Reserva Ecológica Juréia-Itatins nos domínios de Peruíbe, mas foi procurando um caminho para chegar ao cume da serra que descobri uma possível passagem que poderia nos levar a montar uma expedição que pudesse descer aquele vale selvagem e desconhecido. Por incrível que pareça, esse projeto foi parar em um canto esquecido do meu computador após tomarmos ciência de um pico selvagem e deslumbrante que servia como guardião das nascentes do rio, então deixamos de lado a aventura aquática e nos embrenhamos no meio da floresta até alcançarmos o cume perdido do Morro das Três Pontas. A expedição ao cume do pico Careca foi um sucesso e a partir daquela conquista, estabelecemos também um caminho viável para um dia tirarmos o Vale do Itinguçu do anonimato. (Cume Motchaka-Morro das Três Pontas) Eu já estava propenso a me enfiar em outros vales, quando parte do nosso grupo insistiu que a gente deveria pôr fim à novela do Vale do Paraíso, que era como vínhamos chamando aquele vale perdido até então,no feriado do Carnaval. Num primeiro momento dei uma titubeada por achar a logística partindo da cidade de Itariri muito complicada por ser um município perdido no Vale do Ribeira e sem transportes regulares partindo do interior Paulista ou mesmo da capital e quando os caras botaram os planos sobre a mesa , foi aí que me dei conta que a logística era mesmo uma grande merda: Teríamos que dirigir com nossos carros até lá na véspera do grande feriado e depois de tentarmos atravessar o vale, ainda teríamos que retornar para resgatar os veículos que ficariam aonde o Judas cagou nas botas. Bom, como não sou explorador de arregar pra coisa nenhuma e sabedor de que se não fosse agora perderia a chance de escrever também meu nome na história, dei uma garibada no velho NIVA 4X4 , apanhei o Vinícius e o Alexandre no centro de Sumaré e rumamos para a cidadezinha de Itariri que fica a uns 300 km de casa, mas antes paramos no meio do caminho para dar uma carona para o Gersinho, que era um dos que estavam na expedição ao Morro das Três pontas. A outra metade do grupo, todos da região metropolitana de São Paulo decidiram sair só na manhã do sábado e nos encontrar na cidadezinha antes do meio dia. Ao chegarmos à primeira entrada de Itariri, viramos para a direita e fomos rumo ao bairro da Igrejinha, sempre seguindo paralelos ao Rio Azeite e, ao atravessarmos a grande ponte, nos mantivemos a esquerda e ao chegarmos a um ponto de ônibus, alguns metros depois, deveríamos também continuar nos mantendo a esquerda, mas nosso navegador bobeou e fez com que pegássemos o caminho errado e fossemos nos perder no meio do nada, numa estrada sem saída em meio a escuridão daquela madrugada quente. Já passava das 4 da manhã, eu estava tombando de tanto sono e não houve nada que fizesse com que a gente voltasse para o nosso rumo, então encontramos um motoqueiro fantasma e ele nos guiou para fora do labirinto e nos deixou novamente depois da grande ponte do Rio Azeite e logo à frente um boteco abandonado, com uma grande cobertura, nos serviu de hotel pelo resto da noite e o tal QUIOSQUE DO BURRO acabou por se tornar uma escolha bem inteligente. Quando o dia clareou, o Vinícius já fez logo um pampeiro para que a gente levantasse. Me levantei, mas não deixei de protestar porque pensava em dormir até um pouco mais tarde e mesmo ainda com muito sono, dar de cara logo cedo com aquele rio espetacular, já faz com que o nosso humor se eleve rapidamente. A parte paulistana do grupo já nos sinalizou que só chegaria perto das 11 da manhã, então aproveitamos o tempo ocioso e voltamos até o centro de Itariri para um café reforçado e quando o bucho encheu, voltamos para perto do Quiosque do Burro, junto à uma ponte pênsil e lá ficamos até que que o resto do grupo se juntasse a nós. Antes do meio dia os meninos paulistanos aparecerem e é sempre um grande prazer rever esse bando de malucos vindos de todos os cantos da cidade e de outros municípios vizinhos. Silvester Natan, Daniel Trovo, VGN Vagner, Paulo Potenza e Rafael Soares, todos com uma alegria irradiante e felizes por estarem ali prestes a darem início a mais uma Expedição Selvagem, sem a certeza do rumo que aquela brincadeira tomaria, sem saber se aquela loucura chegaria bem ao seu final, mas todo mundo consciente de que cada um estaria por conta e risco, sabedores dos perigos que tal empreita envolveria. Com o dia claro, não tivemos problemas para encontrarmos a fazenda de bananas que procurávamos e seria nosso ponto de partida, a mesma propriedade do qual havíamos conquistado o cume do Morro das Três Pontas no ano passado, que por sorte, acabamos virando amigos do administrador que já havia nos dado o aval, deixando a gente estacionar nossos veículos na casa dele. Essa expedição tinha uma característica diferente das outras, desta vez teríamos que subir uma montanha com um desnível enorme para depois tentarmos navegar varando mato no peito até encontrarmos a nascente do RIO ITINGUÇU. Já conhecíamos o caminho até o topo da montanha, mas ainda discutíamos se era melhor varar mato em linha reta e ganhar precioso terreno ou tentar seguir por uma antiga trilha de caçadores e palmiteiros, que bordejaria o rio da Usina dos Ingleses, uma ruina perdida no meio da selva. Lá pelas 13 horas jogamos às mochilas às costas e partimos, mas me chamou a atenção o excesso de equipamentos que alguns carregavam, claro que eu já sabia qual era a intenção deles, mas me mantive sereno, já que essa foi uma discussão que eu havia perdido. Abandonando a casa do administrador, seguimos enfrente pela estradinha que ia ganhando altura aos poucos. O grupo se dividiu em dois e a pernada inicial foi servindo para botar os papos em dia, até que vinte minutos depois somos obrigados a abandonar a estrada em uma curva e adentrar para a esquerda, numa antiga estrada que hoje não passa de uma trilha erodida e interditada pelo matagal. Esse caminho servia para dar acesso ao bananal nas cabeceiras da fazenda, mas pela dificuldade de acesso, toda a plantação foi abandonada. Quinze minutos de caminhada, talvez menos, ouvimos um grito do grupo que vinha logo atrás. O Rafael estava passando mal e precisava descansar um pouco. Também pudera, a temperatura beira os 38 graus e até os mais magrelos já ameaçavam sucumbir diante daquele calor dos infernos. Logo o Rafael retomou seu caminho, mas não foi muito longe, caiu novamente prostrado, botando os bofes para fora. O Potenza deu-lhe um remédio e fomos caminhando lentamente, tentando fazer com que ele chegasse vivo até o casebre abandonado onde pensávamos que conseguiríamos um pouco de água. A chegada ao barraco caindo aos pedaços nos remete às boas lembranças de expedições antigas, mas água mesmo somente em uma garrafa grande deixada por algum caçador que logo foi despejada sem dó sobre a moringa do Rafael, que tinha anunciado a sua desistência da Travessia Expedicionária. Ficamos na choupana velha, vendo se seria necessário alguém acompanhar o nosso amigo de volta para a civilização, mas de repente o Rafa sacou lá do fundo da sua alma um último suspiro de vida e desistiu da sua desistência, preferia morrer na subida da serra do que se ver fora daquela expedição e correr o risco de nunca mais ter outra oportunidade e se a frase é mais do que batida, também seria mais do que oportuna: O SOFRIMENTO É PASSAGENRO, MAS DESISTIR É PARA SEMPRE! Com o Rafa aparentemente recuperado, largamos aquela habitação decrépita e partimos para o pé da montanha, atravessamos o bananal no peito, nos guiando pelo faro e pelo nosso GPS, até vermos que havia chegado a hora de deixarmos o conforto das bananas docinhas e nos enfiarmos de vez no meio da floresta espinhuda. O rio era audível do nosso lado direito, mas a vegetação não nos deixava avançar e o Rafael já começava a querer tombar de novo, aliás, todo o grupo cozinhava os miolos naquele calor escaldante. Todo mundo parecia implorar para que o rio chegasse logo, mas ao invés de água, toma barranco na fuça. A paciência acabou, mandamos o traklog para PQP e seguimos nosso instinto de sobrevivência até água e quando lá chegamos, não teve um que não tenha se atirado de cabeça nos poços de águas translucidas e alguns quase morreram de tanto beber e o moribundo do Rafael se atirou no leito do rio e lá ficou até que seu corpo absorvesse metade da água do córrego na tentativa de se restabelecer novamente. A tarde já ia lá pela sua metade e aquela dúvida inicial se seria melhor seguir pelo mato ou bordejando o rio, acabara de ser desfeita. Com o Rafa ainda meia boca, seria muito mais seguro ir tocando por dentro da água ou pela margem do rio, sempre subindo as pirambeiras que iam surgindo. Portanto, pela água começamos a pular pedras e atravessar pequenos poços e cachoeirinhas bucólicas e isso deixava todo mundo feliz por termos nos livrado do calor intenso. Sabíamos que aquele rio nos levaria direto para a grande cachoeira dos Ingleses e consequentemente para o alto da serra, mas ao chegarmos a uma bifurcação de rio, os caras que estavam seguindo o caminho pelo GPS, comeram bola, e ao invés de pegarmos o rio da direita, pegamos o da esquerda, talvez hipnotizados pela bela cachoeira que se apresentou à frente. Como subir a cachoeira era tarefa árdua e vendo que o caminho não era aquele e que estávamos no rio errado, aferimos nosso azimute e tentamos voltar para o vale correto, mas a gente começou a subir barranco atrás de barranco e cada vez mais parecíamos estarmos fora da rota, até que os navegadores decidiram pegar uma linha reta até o outro rio e ao invés de subirmos, começamos a descer. Perder altitude foi uma péssima ideia, foi um tempo perdido e eu morrendo de sono por ter dirigido a noite toda e não ter dormido, achei aquela navegação um furo n’água. Quando cansamos de andar para o lado errado, finalmente encontramos terreno aberto, mas longe de ser um caminho mais tranquilo porque aí começou a tocar de vez para o rio e ao chegar no seu leito tocamos para cima até interceptarmos a antiga CACHOIRA DA USINA DOS INGLESES, uma ruina do século passado que foi engolida pela floresta. A chegada à essa cachoeira é uma grande festa e as mochilas foram largadas ao chão e todo mundo se atirou para debaixo da queda no intuito de baixar de vez a temperatura do corpo, mas como não é possível ser feliz para sempre, logo já estávamos de volta a nossa labuta de tentar conquistar aquela montanha ainda hoje. ( Cachoeira Usina Velha dos Inglêses) A continuação do caminho é escalando ao lado da cachoeira, adentrando embaixo de uma espécie de gruta cavada na rocha e já saindo para esquerda e logo interceptando uma antiga trilha de caçadores.. A subida estava dura, o Rafael parava a cada 15 minutos e pelo andar da carruagem eu já estava vendo que daria o último suspiro e pediria para ser enterrado ali mesmo. A cada parada do Rafa, o grupo também era obrigado a cessar a caminhada e eu já procurava uma árvore para dormir por alguns míseros minutos, mas foi em um momento específico que todo mundo acordou de vez: ao passar por um buraco no chão, o grupo mais à frente despertou a ira de um vespeiro e não deu nem tempo para mais nada quando alguém gritou a palavra mágica: “CORRE, ABELHA “. O Rafael que já era uma múmia a vagar pela floresta, deu meia volta junto com o Vagner e despinguelou barranco à baixo na trilha e eu peguei carona no vácuo deles. O resto do grupo correu para cima e mesmo assim o Vinícius foi alvejado duas vezes. Quando tudo parecia se acalmar, o grupo que correu para baixo tentou se juntar ao grupo do alto e foi nessa que também fui atingido. Uma ferroada certeira bem na mão esquerda, que imediatamente ameaçou cair do meu braço de tanta dor. A dor é tão grande que nem a picada de jararaca que tomei anos atrás se compara. Por sorte o Vagner, já esperto de outros carnavais, me deu logo um antialérgico para acalmar minha ansiedade. A tarde já quase que agonizava e nada da gente encontrar água e nem um lugar descente para acampar. Nos enfiamos por dentro de uma parede rochosa, denunciando que estávamos muito perto da saída do vale. Eu estava com tanto sono que nem sabia mais que rumo tomar, só deixava minhas pernas me levar aonde meu cérebro achava que estava seguro. O Rafa insistia em continuar em pé e a todo momento alguém tentava persuadi-lo a não desistir de vez, até que sem termos outra opção, apontamos nosso nariz de volta para o grande rio e nos escorregamos na sua parede íngreme até novamente chegar as suas águas, aonde um poço esverdeado, junto a uma cachoeira Afunilada nos deu as boas-vindas. O lugar era lindo, mas imprestável para acampar por ser um vale rochoso e sem árvores aonde pudéssemos montar nossas redes. Eu já estava com vontade de sentar e dormir encostado em qualquer lugar, até que alguém deu a ideia de apanharmos água e voltarmos a subir até um selado onde havíamos passado na descida para o rio e sem perder tempo nos dirigimos para lá e cada qual escolheu sua árvore favorita para montar sua casa de mato. Diz a lenda que alguns ainda voltaram ao rio para tomar um belo banho no poção esverdeado, eu particularmente, caguei e andei para o banho, montei minha rede e me joguei para dentro aonde morri por umas 2 horas e só acordei porque o Alexandre teve dó da minha pessoa e me trouxe um prato de comida, porque se dependesse de mim, não iria nem jantar. (Cahoeira AFunilada) Doze horas de sono tem o poder de transformar um moribundo em outra pessoa. Acordei renovado, com energia suficiente para arrastar toda uma floresta no peito até o litoral e mesmo o Rafael que no dia anterior agonizou, já estava um touro bravo. Vagarosamente, desmontamos nosso acampamento e partimos. Retornamos ao alto da serra junto a parede rochosa e localizamos novamente o rabo da trilha que nos tiraria de dentro do “VALE V” e nos jogaria num mundo novo, de descobertas e encantamento, um mundo talvez trilhado por ninguém, apertem os cintos, a AVENTURA SELVAGEM vai começar. Logo cedo é hora de subir montanha e quando o terreno começou a se estabilizar, passamos por um córrego, esse ainda, afluente do rio da Usina dos Ingleses. Estamos num grande planalto e teremos que atravessá-lo por dois ou três quilômetros até que interceptemos de vez o grande Rio Itinguçu, bem na sua nascente, mas até lá chegarmos vamos comer o pão que o diabo amassou. Para aquela expedição, havíamos traçado um caminho usando as curvas de nível no mapa, mesmo porque é um mundo de florestas fechadas onde é impossível saber a real localização da nascente do Itinguçu apenas pelas imagens de satélite. Andaríamos por mais de 2 km até termos certeza absoluta que estávamos mesmo descendo o leito do rio. É , tudo isso parece obviu , mas na verdade não passa de uma grande ilusão e uma vez ali, parece que o mundo gira de tal forma que ninguém mais sabe para que lugar seguir, por isso a importância do GPS para nos dar um rumo, uma direção. (início do Rio Itinguçu) O terreno estabilizou de vez e é impressionante o numero de pequenos córregos que vão correndo para todas as direções, portanto seria quase impossível se apegar a um deles na tentativa que eles desaguassem no rio que procurávamos. Nessa condição os nossos navegadores tiveram que não desgrudar mais os olhos do GPS. O avanço é lento, emperrado por uma vegetação fechada e com terreno encharcado. Outros tantos pequenos córregos são cruzados, mas nenhum seguia para o nosso destino e muito provavelmente seriam abastecedores de algum afluente do Itinguçu que possivelmente ira interceptá-lo mais a baixo, Passado mais de hora, a gente se deparou com uma grande nascente, um grande buraco de onde a água brotava e tomava a direção exata do grande Vale do Itinguçu e foi aí que a gente começou a desconfiar que por uma grande sorte, havíamos finalmente achado a verdadeira nascente do rio. Aquela nascente foi ganhando outras vertentes de água e foi crescendo e quando ficou com mais ou menos um metro de largura, tivemos a certeza de que nossa navegação havia sido um grande sucesso, então não perdemos mais tempo com o GPS e tratamos logo de nos jogarmos de corpo e alma naquele corpo d’água. O rio foi crescendo, se alargando e quando pensávamos que nossas vidas seriam facilitadas, os homens que iam à frente foram surpreendidos por um Lamaçal de respeito, inclusive Daniel Troco e Vagner quase foram sugados para a entranha da terra, atolando seus corpos até na linha da cintura e outros que vinham atrás também tiveram o mesmo destino. As águas do córrego a cada curva ficavam mais cristalinas e o seu leito, antes barrento, começava a ganhar uma camada de pedregulho. Alargou-se de tal maneira que poços profundos já eram cruzados com a água acima da linha da cintura e quando chegamos a uma prainha formada por pedrinhas, paramos para um descanso e para morder alguma coisa. Sentados ali, naquele lugar lindo, em meio a uma das florestas mais espetaculares do mundo, há quase dois dias longe da civilização mais próxima, logo nos chama a atenção uma frutinha muito familiar, na verdade o chão estava qualhado delas: Quando alguém balbuciou dizendo que se tratava de JABUTICABAS, dei uma desdenhada antes de cair a ficha totalmente. Aquilo era realmente incrível porque se existe uma fruta que é símbolo do Estado e até do Brasil, essa seria a jabuticaba, mas eu em quase 25 anos de andanças pela Mata Atlântica jamais havia visto um pé selvagem desta fruta, já me deparei até com onças, mas jabuticaba era a primeira vez. Bom, a fruta estava ali, espalhada por toda a prainha, mas onde estaria o pé? Procurei pelo pequeno arbusto em meio às grandes e frondosas árvores e nada encontrei, até que do outro lado do rio, uma árvore de tronco esbranquiçado e de uns 15 metros de altura se curvava sobre nossas cabeças. Encontrar aquela raridade no Vale do Itinguçu foi mesmo uma grande honra e essa travessia iria nos mostrar que é igual a jabuticaba selvagem, só existe na Mata Atlântica e destinada a poucos. (Jabuticabas Selvagens) Retomamos a travessia, mas agora já sabedores de que os grandes desníveis não tardariam em se apresentar e logo quando o rio de pedrinhas se transformou em um rio de leito de rochas gigantes, as primeiras quedas já surgiram pelo caminho e para felicidade geral do grupo, uma delas nos chamou a atenção pelo tamanho do poço de águas esverdeadas e essa foi a deixa para todo mundo se jogar de vez e lavar a alma naquele dia ensolarado de verão. O poço fez a alegria da galera, o banho renovou os ânimos, lavou a lama e já nos mostrou um pouco do que nos esperava pela frente. O rio afunilou por um momento e logo apareceu uma cachoeira de tamanho considerado e aí foi hora de pararmos para estudar o terreno. Antes de expedição começar houve um embate sobre levar ou não cordas para fazer a descida das grandes cachoeiras. Eu e outra parte do grupo achávamos totalmente desnecessário carregar um material pesado para esse tipo de travessia selvagem, ainda sabendo que a possibilidade de pegarmos lugares intransponíveis seria praticamente nenhum, mas uma outra parte do grupo achou que seria viável e muito bem vindo para um treinamento específico, então parte da equipe acabou por carregar esse peso extra. Pois bem, ao nos depararmos com essa cachoeira, parte do grupo se preparou para montar as cordas e a outra parte se enfiou no vara-mato e ficou combinado de todos nos encontrarmos no patamar mais abaixo, no pé da cachoeira. Como imaginávamos, a passagem pela floresta, perdendo altura, foi rápida e tranquila, mesmo a gente tendo que nos pendurarmos numa parede coberta por vegetação solta e depois tendo que descer escorregando por outro barranco até ganharmos o leito do rio.Descemos e ficamos apreciar a galera fazer um bonito rapel ao lado da queda e quando todos estavam unidos novamente, partimos novamente por dentro do rio. (Primeira Grande queda do Itinguçu) Por dentro da corredeira o avanço é lento, mas muito prazeroso já que o calor estava de matar. O rio vai perdendo altura até que se joga novamente num abismo em forma de garganta e novamente o Vinícius, o Alexandre, o Gersinho e o Natan abrem mão do equipo para o rapel, enquanto os outros já encontram uma passagem pelo lado direito entre as árvores e em poucos minutos estávamos todos na entrada da garganta de pedras pretas e que logo ganhou o nome de CACHOEIRA DO CÂNION DO ÉBANO. Mais uma vez a gente assistiu de camarote a galera se pendurar nas cordas e ir baixando vagarosamente até caírem no leito do rio. Apesar desse procedimento tomar um tempo , a gente não estava muito preocupado com isso não, já que chegamos a uma conclusão que poderíamos estar com um tempo de sobra e poderíamos nos dar ao luxo de curtir cada parada. (Cachoeira do Cânyons do Ébano) Enrolada a corda e guardado os equipamentos, a descida continuou, mas não deu nem tempo da corda escorrer a água e já foi novamente retirada da mochila para fazer a descida de mais uma cachoeira aonde um grande poço na sua base convidava todo mundo para outro mergulho. Mais uma vez parte do grupo se aventurou pela descida sem corda, na verdade, somente eu, o Troco e o Vagner atravessamos a correnteza à beira da queda para tentar descer. O Vagner desceu um barranco pulando de uns três metros, se valendo de um patamar mais abaixo, mas eu não tive confiança de ariscar o salto porque se o tal patamar escondido na vegetação não parasse meu corpo, com certeza eu iria despencar no vazio e achei melhor tomar outro rumo. O Trovo passou pendurado numa rampa igualmente perigosa e foi se junta ao Vagner na base do poço. Retornei para junto do resto da galera e quando estava tentando procurar uma passagem mais segura pela direita, os caras me convenceram a descer pela corda. Nunca tive problemas com rapéis à beira de cachoeiras, pelo contrário, o fato de eu ter passado anos da minha vida me dedicando a descida de dezenas de quedas, fez com que esse tipo de atividade perdesse a graça e se tornasse uma coisa comum, mas confesso que até foi interessante me jogar novamente corda à baixo e deixar meu corpo cair dentro daquele poço incrível e sair nadando até sua margem. Quando todo mundo se juntou ao pé da cachoeira, partimos novamente, agora nos enfiando em mais um vale estreito e cada um vai desescalando como pode e logo mais a baixo, alguém chama atenção para uma cachoeira que despenca de afluente do lado direito do rio e para lá nos dirigimos, escalando alguns pequenos matacões até nos depararmos com uma parede negra de onde uma água limpíssima despencava de num véu incrível e a coloração da rocha já fez alguém batiza-la de CACHOEIRA NEGRA. Aproveitamos a parada para comer alguma coisa e para nos refrescarmos, mas foi uma parada rápida porque ainda sabíamos que teríamos que vencer mais uma grande queda até a hora de acamparmos (Cachoeira Negra) Outras pequenas quedas são cruzadas, alguns poços atravessados, barrancos desescalados até chegarmos às bordas da maior cachoeira da travessia. Não era uma cachoeira gigante, nos moldes das que estávamos acostumados a encontrar nessas expedições, muito porque já sabíamos que esse rio não seria um rio com desníveis abruptos e abismos colossais, mas era uma cachoeira muito cênica e os meninos que carregavam as cordas e vinham aprimorando suas técnicas, não perderam tempo e já instalaram o rapel do seu lado direito, enquanto o grupo sertanista, como o Trovo chamou em tom de brincadeira, se enfiou mato à dento do lado direito e em poucos minutos já estavam apreciando a movimentação dos canyonistas, sentados confortavelmente sobre uma grande rocha e ali ficaram, comendo “pipoca com manteiga” e assistindo a ação bem sucedida do grupo radical e para marcar esse ponto importante dessa EXPEDIÇÃO SELVAGEM, vou me dar ao direito de batizar essa cachoeira e o nome acho que não poderia ser outro, uma homenagem a esse rio incrível , que nasce no meio do nada e vai crescendo, ganhando corpo até se transformar nessa espetacular CACHOEIRA DO ITINGUÇU. ( Cachoeira do Itinguçu) O dia quase que já havia findado e o sol já se preparava pra se deitar ao oeste e então decidimos que já era chegada a hora da gente achar um lugar para acampar. Conseguir localizar um lugar descente e que possa abrigar nove exploradores não é tarefa das mais fáceis quando se está imerso dentro de uma vale com paredes rochosas dos dois lados e é preciso achar algo antes de escurecer. Todos estão cansados e loucos para descansar o esqueleto porque foi um dia de aventuras intensas, mas a cada passo dado e sem encontrar nada, a preocupação vai aumentando e até a euforia vai diminuindo consideravelmente. Um afluente quase seco faz com que a gente opte por um desvio e foi aí que o batedor que ia à frente vislumbrou um patamar acima, quase plano, com árvores grossas e espaçadas e não tivemos mais dúvidas, jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado mais um dia de explorações. ( Segundo Camping) Cada qual foi cuidar de montar seu abrigo e quem for mais esperto vai conseguir ficar com as melhores árvores, uns se dão bem, outros como eu, são obrigados a dormir pendurados a um passo da ribanceira. Montada minha rede, instalado o meu toldo, me livro das roupas molhadas e vou cuidar da janta, porque apesar de ter sido um dia duro e intenso, me sinto muito bem disposto. A janta não vai ser um banquete porque optei em vir o mais leve possível e apenas cozinho um pouco de arroz, frito umas fatias de bacon, pico um pedaço de pimenta dedo de moça, abro uma lata de sardinha, jogo um queijo ralado no arroz, dissolvo um suco de laranja numa garrafa pet e isso é o bastante para deixar a minha alma alegre pelo resto da noite. Antes das oito já me atiro para dentro da minha cama de mato, fecho o mosquiteiro e apago completamente. Acordo lá pelas cinco da manhã descansado e bem disposto e como ainda está escuro, fico envolto nos meus pensamentos e logo me lembro de que hoje acordei um ano mais velho e me sinto feliz de, aos 48 anos ainda estar ativo, podendo desfrutar de uma vida de aventuras. Lentamente vamos desmontando nosso acampamento e enquanto a água não ferve para preparar um café, resolvo instalar a capsula de registro das travessias selvagens, mas ao invés de uma capsula bem elaborada, desta vez apenas improvisei com uma garrafinha de suco de uva porque não queria me dar ao trabalho de carregar peso algum que não fosse o essencial para minha sobrevivência naquela expedição. A galera realmente acordou diferente nessa manhã de 12 de fevereiro, estavam parecendo mais leve, todo mundo mais animados, acho que já prevendo que seria um dia tranquilo, um dia dedicado ao divertimento e ao laser, já que a pior parte parecia ter ficado para trás. ( Capsula do tempo) A nossa travessia é retomada voltando de novo ao rio, mas por ainda ser muito sedo, vamos evitando entrar na água, só que o esforço de ficar quebrando mato no peito já faz com que parte do grupo proteste com os batedores que logo são obrigados a tomarem outro rumo e voltarem para o rio, fazendo com que o grupo seja obrigado a se pendurar num barranco alto, tendo que se jogar encima de um arbusto e fazer uma queda controlada até mais abaixo. O dia já começa quente e o melhor caminho é mesmo por dentro da água, deslizando entre suas correntezas, saltando nas suas piscinas naturais. O rio vai sendo cruzado de um lado para o outro, grandes pedras são escaladas ou apenas desescaladas. Quando os obstáculos parecerem intransponíveis é hora de avançar pelo mato e quando era preciso, um pedaço de corda era jogado e nele nos pendurávamos como dava e descíamos de volta para o rio. Algumas ilhas vão surgindo no nosso caminho, fazendo com que o rio se divida em vários, mas logo voltava a virar um só quando os rios se juntavam mais abaixo. Quando apareciam aqueles poços incríveis era hora de parar e desfrutar das suas águas incrivelmente cristalinas, era hora de se jogar, era a hora do divertimento, do lazer. Os mais eufóricos se jogavam de cima de grandes pedras em saltos espetaculares, outros só faziam passar vergonha com seus saltos pífios. Pelo caminho uma infinidade de pequenas cachoeirinhas é transposta, vales, corredeiras vão ficando para trás e antes do meio dia, como havíamos previsto, chegamos a um grande poço de onde uma CACHOEIRA se espalhava de um lado a outro do rio, formando um grande tobogã natural, hora de jogar as mochilas ao chão para um descanso mais demorado e comer algo porque o lugar é mesmo especial. Aquele lugar era mesmo incrível, de uma transparência única. Sentei-me sobre uma grande rocha para poder me aquecer um pouco, já que eu mesmo havia me atirado de cabeça naquele grande poço. Fiquei ali parado, inerte, assistindo parte do grupo despencar cachoeira abaixo, escorregando na grande rampa. Estávamos ali, imersos em um lugar onde, muito provavelmente, nunca ninguém esteve antes e aqueles homens, alguns com a metade da minha idade, mais pareciam crianças descendo no escorregador do parquinho, felizes da vida e imersos num mundo só deles, sem se preocuparem com coisa nenhuma, apenas a desfrutar de uma vida simples e de desapego. A galera parecia não querer ir mais embora, mas depois de descerem de trenzinho mais uma vez, tomaram ciência de que aquela expedição teria que terminar ainda hoje e para guardar uma boa lembrança daquele lugar, nos reunimos para uma foto histórica no coração selvagem da Serra do Mar Paulista, como a fazer um brinde pela vida e pela oportunidade de estarmos mais uma vez juntos em mais uma travessia memorável. Depois da cachoeira do grande escorregador, pegamos uma sequencia onde o rio afunilavam nos obrigando a descermos por dentro das corredeiras e sempre tendo que cuidar para não sermos levados ao desescalarmos por dentro da água e assim foi o ritmo por mais de uma hora até tropeçarmos em outro grande poço com uma pequena cachoeirinha que despencava num refluxo de águas azuis, onde mais uma vez fizemos uma parada para recreação, regados a muitos pulos e mergulhos. Na sequencia ainda passamos por incontáveis outros poços aonde nos jogávamos de cima das pedras e nadávamos para o outro lado, sempre nos divertindo muito até que chegamos a uma grande rampa d’água, uma cachoeira inclinada, que desaguava em outro poço fenomenal e ali paramos para mais uma descanso, para apreciar uns petiscos e esperar que a galera das cordas se divertisse tentando descer mais esse corpo d’água. Verdade mesmo que somente o Vinícius e o Natan acabaram por se envolver nesse rapel, porque o Alexandre e o Gersinho preferiram ficar à beira do poço degustando uma calabresa com limão e depois tiveram que ouvir poucas e boas porque o Vinícius teria quase se lascado na torrente de água e eles não estavam lá pra ajudar, mas não demorou muito e logo as coisas se acertaram. Lá pelas 14 horas começou a chover e estávamos sempre atentos para não sermos pegos por alguma possível cabeça d’água. A chuva veio, mas o tempo continuava quente e agradável e o rio continuava com a mesma transparência de sempre. A travessia continuava muito animada e tranquila e o terreno só se complicou um pouco quando chegamos a um grande desnível de onde despencava uma pequena cachoeira em um afluente do lado esquerdo do rio. Descemos por um desnível considerável e logo nos jogamos de cima de mais uma cachoeirinha e passado esse trecho enfrentamos uma sequencia de corredeiras mais violentas onde íamos nos jogando por dentro delas e deixando a força da água nos adiantar o caminho. No nosso localizador por satélite observamos logo que o final da travessia não estava muito longe, mas ao transpor mais um imenso poço de águas cristalinas nos deparamos com um amontoado de rochas e alguns que esperavam moleza no final, fizeram uma cara de desanimo. Foi aí que demos um pulo certeiro. Ao tentarmos varar mato pela esquerda nos deparamos surpreendentemente com uma trilha larga, aberta e bem consolidada. A trilha corria perpendicular ao rio e logo achei que ela poderia se perder em alguma localidade rural, mas o Rafael insistiu que deveríamos ir por ela, já que ele mesmo era exímio conhecedor ali daquela região. Seguimos então por ela e logo passamos por um afluente, onde o atravessamos e subimos o barranco do outro lado e em mais uns 10 minutos tropeçamos numa bifurcação e o Rafael reconheceu o lugar e nos indicou que deveríamos pegar para a direita que logo chegaríamos à Cachoeira do Paraíso. Bastou alguns minutos mais de caminhada e já avistamos a placa que indicava que deveríamos virar à direita e ao fazermos isso, já demos de cara com a cachoeira e seu grande poço de águas esverdeadas. Já fazia maios de 20 anos que eu não botava meus pés nessa CACHOEIRA DO PARAÍSO e sinceramente, nem me lembrava de que o poço era tão grandioso. Quando adentramos naquele lugar, que estava lotado de turistas, fomos recebidos com um enorme espanto pela multidão que se aglomerava naquela grande atração . Não sei o que houve naquela tarde de segunda-feira feira de carnaval porque surpreendentemente nosso grupo pareceu estar tão extasiado com o final daquela travessia que ninguém disse nada e como um zumbi, um a um foi caindo no poço e nadando para o patamar aos pés da cachoeira. Pior ainda foi a cara dos guarda-vidas do Parque Estadual, que só nos olhavam sem entender o que estava acontecendo. Quando todo o grupo se juntou, fomos tomados por uma sensação inigualável de sucesso, de dever cumprido. Havíamos proposto realizar uma travessia inédita, desbravar um grande rio a partir da sua nascente e agora estávamos todos ali, havíamos cumprido o planejado. Estávamos eufóricos, extasiados, inebriados pela conquista, nos abraçamos e celebramos o sucesso da empreitada. ( Cachoeira do Paraíso) Depois daquela cena memorável, varias pessoas ficaram nos perguntando o que estava acontecendo e de onde vínhamos com aqueles trajes de astronautas. Desconversamos, muito porque já percebemos que os salva-vidas ganharam a nossa movimentação e avisaram a portaria pelo rádio que algo estranho estava acontecendo. Juntamos-nos para uma ultima foto do grupo enfrente a cachoeira, apanhamos nossas mochilas e saímos vazados de lá. Bom, agora havia chegado a hora de enfrentarmos a fiscalização do Parque Estadual do Itinguçu, parque esse que foi meio que desmembrado da reserva Ecológica da Jureia, justamente para poder permitir que o cidadão pudesse frequentá-lo, mas que jamais entenderiam se falássemos que vínhamos da nascente do rio, três dias atrás, mesmo assim teríamos que enfrentar esse problema. Quando o grupo chegou à portaria não demorou muito para um dos controladores de acesso encurralar o Natan na parede. Perguntou que horas havíamos entrado, se estávamos nos aventurando mais acima da cachoeira do Paraíso e o Natan já deu um “migué” dizendo que havíamos chegado bem cedo e já foi picando a mula sem dar maiores satisfações e assim foi seguido pelo resto do grupo, que mal olhou na cara dos guardinhas e ganhamos rapidamente a rua e sem nem olhar para trás, continuamos caminhado até sair das vistas de quem quer que seja. Ficamos sabendo que o único ônibus que poderia nos levar de volta à civilização só partiria depois das oito da noite, então resolvemos caminhar uns 3 ou 4 km até uma bifurcação de onde tentaríamos outro ônibus ou uma carona para nos levar até Peruíbe, mas quando lá chegamos, descobrimos que talvez não houvesse ônibus algum, já que o rio que corta a estrada estava cheio. Mesmo chovendo, não Havia alternativa, senão tentarmos chegar ao vilarejo do Guaraú caminhando por umas três horas ou mais. Sem termos o que fazer, lá fomos nós, um pé à frente do outro até que logo à frente nos deparamos com a cheia do rio que inundou uns 200 metros de estrada e chegamos bem a tempo de presenciarmos um caiçara que incorporou a mãe d’água e foi morar com sua motoca no fundo da inundação. Depois desse trecho passamos por um camping e por sorte, uma conhecida do Potenza estava por lá “excursionando” e não demorou nadinha para o menino passar um óleo de peroba na cara e ir lá descolar uma carona numa Van, mediante a um pagamento simbólico. O veículo nos deixou numa pracinha do Guaraú, que fica bem ao pé do morro de mesmo nome e o que nos restava agora era termos paciência até que o ônibus que partiria para Peruíbe chegasse. A chuva não dava trégua e mesmo assim a festa de carnaval corria solta no vilarejo, onde um trio elétrico fazia a alegria da multidão de foliões que, possivelmente com a cara cheio de pinga, não estavam nem aí com a “molhasseira” dos infernos. A noite já ia caindo e nada do tal ônibus chegar. Estávamos todos molhados e com frio e ficamos ali, numa marquise de uma lanchonete, assistindo ao show de horrores dos “cú de pinga” dançando carnaval e quando um dos nossos (Alexandre), depois de tomar uma latinha de cerveja, resolveu descer na boquinha da garrafa, decidimos que era hora de fazermos algo pela gente e que nos tirasse daquele antro de perdição. Quando uma Kombi encostou enfrente a lanchonete do outro lado da avenida, vislumbramos a possibilidade de conseguirmos um transporte para Peruíbe e para isso destacamos para essa missão, nosso enviado especial para assuntos logístico, o xavecador mor, VGN Vagner e esse foi o maior erro que cometemos nessa expedição. O Vagner voltou dizendo que havia conseguido um carreto para Peruíbe por meros “cinco conto”, mas que o nosso motorista parecia estar um pouco alterado. Quando lá chegamos com nossas cargueiras, nos deparamos com uma Kombi toda zuada, sem bancos e com um “rippie maconheiro” , com o rabo cheio de fumo. Bom, é aquele negócio, já que está no inferno abraça logo o capeta, mas essa frase talvez não fosse muito adequada para o que ia se seguir. A chuva havia aumentado ainda mais e rapidamente nos jogamos com mochila e tudo para dentro da Kombosa e cada um se ajeitou como pode e como deu. O motorista e seu ajudante ainda tiveram tempo de dar um sorriso amarelo, quando viram nove homens e suas cargueiras adentrarem no veículo. Deu a partida no bagulho e logo que se livrou dos foliões que desfilavam atrás de nós, ganhou a estradinha escura que leva ao alto do Morro do Guaraú. O barulho era ensurdecedor, parecia que o carburador iria explodir a qualquer momento, mas mesmo assim estávamos contentes porque finalmente parecia que sairíamos daquela travessia, porque já tinha gente comparando aquela expedição com a Caverna do dragão. O rippie acelerou, esgoelou, a Kombi tremeu, balançou e foi subindo aos trancos e barrancos e nós tentávamos ajudar com a força do pensamento, mas quando faltava menos de 1 km para chegar ao alto da serra, o trambolho morreu de vez e ficou atravessada na diagonal, no meio da pista e não houve nada que o rip pudesse fazer para que ela voltasse a pegar, inclusive nem o freio ele conseguia acionar direito, fazendo com que a gente quase caísse na ribanceira. Ficamos todos ali, sem saber o que fazer e só esperando a hora que um carro viria para estraçalhar a Kombi com a gente dentro e a cada freada dos veículos na escuridão, nossos corações pareciam que saltaria pela boca. Ninguém disse uma palavra, eu olhava para os caras e só via olhos arregalados e o safado do rippie também não dizia coisa com coisa e quando alguém resolveu tomar uma atitude dizendo que iria sair para sinalizar e abriu a porta da perua, uma avalanche de mochilas e caras cagados, se jogaram para fora da Kombi naquela noite escura e chuvosa e essa foi a ultima vez que ouvimos falar do o tal rippie porque não quisemos nem saber o que houve com ele e com aquele veículo do satanás. Tendo nos livrado do rippie para salvar nossas vidas, caminhamos até o alto da serrinha e lá nos amontoamos embaixo de um ponto de ônibus mequetrefe e esperamos até que um ônibus nos apanhasse e evitasse que morrêssemos de frio e nos levasse direto para a rodoviária de Peruíbe e chegando lá, embarcamos imediatamente para Itariri. Já passava das dez da noite e ali na minúscula cidade, nos despedimos da galera paulistana, que conseguiram um taxi para poder resgatar o carro na fazenda de bananas, enquanto eu, o Alexandre, o Vinícius e o Gersinho resolvemos dormir num hotelzinho e voltar para casa somente na terça feira, já que não queríamos dirigir a noite por quase 300 km até a região de Campinas. E essa foi mais uma EXPEDIÇÃO, até então inédita na Serra do Mar Paulista, uma aventura que marca mais um pioneirismo em um dos mais exuberantes lugares do mundo, uma travessia de descobrimento, encantamento, regada a amizade, companheirismo e determinação, uma aventura em busca de conhecimento, de aprendizado, mas antes de tudo, um brinde a vida e ao desapego porque a simplicidade sempre nos bastou. Fomos em busca do novo, do diferente, de um mundo selvagem, nos embrenhamos na selva para escaparmos das mesmices de sempre e voltamos de lá extasiados pela descoberta, porque em matéria de AVENTURA, essa SERRA nunca decepciona . Divanei Goes de Paula - Fevereiro/2018
  15. Mateus Como vc leu no relato, é necessário uma certa experiencia e autonomia pra seguir o roteiro. Existe muitos abismos para transpor e um acidente grave ali a chance de socorro é muito pequena e vc está certo em querer ir só quando estiver bem treinado com a navegação. Abraços !
  16. Divanei Goes de Paula 04/02/2018 02:20 com 1 participante EXPEDIÇÃO ALTO AREADO: ILHA BELA -SP Expedição às maiores cachoeiras de ILHA BELA , pela primeira vez grupo de exploradores conseguem chegar ao topo das nascentes do RIO AREADO. Relato Rox 7 0 EXPEDIÇÃO ALTO AREADO Quando meu espírito atravessa aquele portal mágico que costumamos chamar de floresta, deixo para trás exatamente tudo que fui antes, não sou mais o mesmo eu, sou outro eu, mas agora travestido de mim mesmo. Descarrego ali a minha barbárie civilizatória e passo a viver com a pureza de outrora, sou uma criança a me deslumbrar com os sons, com a beleza das águas, com o cheiro do mato, sou o aventureiro descobridor das coisas, sou menino vivendo num outro mundo. ILHA BELA sempre me fascinou desde os primórdios da minha vida aventureira. Os relatos que envolviam aquele arquipélago no Litoral Norte de São Paulo sempre atiçavam o meu espírito de aventura e não foram poucas as vezes em que me vi tentando explorar coisas na ilha da magia. Mas já ia longe a última vez em que havia pisado meus pés lá, desde a Volta Completa feita em 2012. De tudo eu já havia feito um pouco e se não fiz mais é porque alguns lugares não me apeteceram e porque achei que seria muita energia gasta para pouca coisa, mas quando começaram a surgir os mapas de satélites, minha alma já se levantou do estado de letargia e voltou a deslumbrar uma grande aventura nos confins das florestas fechadas no sul da ilha. O rio Areado até então era somente um bucólico córrego de águas cristalinas que cruzava a trilha para a praia do Bonete, uma simpática praia de pescadores distante a não mais que uns 12 km de Borrifos, último lugarejo habitado no sul da Ilha Bela. Olhando a ilha de cima, do espaço, o tal rio Areado nascia no interior da ilha a uns 800 ou 900 m de altitude e começava a despencar em impressionantes quedas d’água de dezenas de metros e em uma das suas vertentes me chamou a atenção uma grande queda que poderia passar facilmente de uns 150 metros de altura, uma coisa impressionante para uma ilha que intitulava como sua maior queda d’água a Cachoeira do Gato que mal tinha 40 metros de altura. Juntamente com outros amigos, fui tocando outras expedições, algumas inéditas, mas aquele rio nunca saiu da minha memória, um dia eu ia pegar minha mochila e ia lá naquele fim de mundo desvendar aquele mistério que sempre martelou na minha cabeça. Os anos foram passando e o plano de exploração nunca conseguia sair do papel, até que um dia me deparei com um artigo na net sobre um grupo que havia se aventurado pelo vale. Senti-me meio desolado pela demora, bobeei, alguém chegou primeiro, méritos para o pessoal da “viagem ecológicas.com.br”. Mas ao ler o artigo logo notei que o tal grupo mal aranhou o local e haviam chegado apenas até aos pés da grande queda do qual eles deram o nome de CACHOERIA GRANDE DO AREADO e aí foi a deixa que me faltava para retomar meu plano. Chegar até as paredes da Cachoeira Grande é sim um grande feito, mas a grande cereja do bolo era a vertente da direita, mais de um km de paredes aonde outras 4 ou 5 cachoeiras gigantes despencavam em abismos colossais e cânions quase que intransponíveis e com todo respeito aos outros grupos que por aí andam, se houvesse alguém capaz de desvendar esse grande mistério, esse grupo seria o nosso, justamente pelos vários anos nos dedicando a expedições como essa , então seria preciso juntar 4 ou 5 corajosos e novamente , como sempre digo, botar as faca nos dentes e ir lá tirar aquela lenda do papel e botar no mapa de vez. Voltando de férias às barrancas na foz do Rio Grande, no interior Paulista, me vi ainda com quatro ou cinco dias de ociosidade e nas curvas do destino acabei por relembrar novamente deste projeto, mas como eu poderia encontrar um grupo que pudesse esticar o fim de semana por mais uns dois dias, sendo que todo mundo da nossa equipe estava voltado aos afazeres e obrigações trabalhista? Eis que esses caras apareceram: Paulo Potenza, Felipe Asheley e Anderson Rosa se apresentaram por ter trabalhos autônomos. Daniel Trovo estava de férias com a família em São Sebastião e quando ouviu falar a palavra EXPEDIÇÃO SELVAGEM, largou sua boia de pato, sogra, filhos, mulher, cachorro , papagaio e picou a mula para Ilha Bela, rsrsrsrsrsrsrsrs. Formada a equipe, embarquei de Sumaré, no interior de São Paulo e me encontrei com o grupo lá nos confins da zona Leste, na capital do Estado e antes mesmo que o Potenza e o Asheley comessem todo o bolo de cenoura da mãe do Anderson Rosa, tratamos logo de arrastar os dois para dentro do carro e partimos numa tarde de sábado para o litoral Norte, aonde chegamos por volta de dez da noite. Comemos um pastel de vento no centro da Ilha e nos dirigimos para o sul aonde nos encontraríamos em Borrifos com o Trovo, mas ao chegarmos ao lugarejo não encontramos ninguém, então tocamos para o estacionamento, no fim da estrada, já na boca da trilha que vai para a PRAIA DO BONETE. O plano era deixar o carro no estacionamento do pescador, mas como já era tarde da noite, resolvemos dormir numa cobertura de lona enfrente da propriedade porque não queríamos acordar ninguém. Estendemos uma lona no chão e jogamos nossos sacos de dormir e o Rosa dormiria no carro mesmo. Já passava da meia noite quando ele chegou. Quase havíamos pegado no sono e ele veio com aquele portunhol horrível, nos indagando o porquê de estarmos dormindo ali em frente da propriedade. Estava meio zuado de cachaça e por isso não demos muita atenção, apenas dissemos que não queríamos incomodar o pescador e descansaríamos até o dia amanhecer. Ele continuou a nos encher o saco, dizendo que a família dele morava ali na propriedade agora e que ali não era lugar para playboy acampar. Era um chileno todo tatuadoe dizia que tinha estudo, que falava quatro línguas e outras balelas que a gente não queria ouvir, falou outro tanto de coisas inúteis e se foi na escuridão da noite. Logo depois o Daniel Trovo surgiu e veio alegrar nosso mocó, pegou seu saco de dormir e se juntou a nós naquele chão duro, daquela noite quente de verão. O chileno voltou, desta vez espumava raiva pela boca. Ficou lá, novamente a nos atazanar as ideias. Pedíamos para ele nos deixar dormir, mas ele não arredava pé até que déssemos o fora de lá. Nossa paciência já foi chegando ao limite até que o Anderson Rosa saiu do carro e veio ver o que estava acontecendo. Imploramos para o chileno folgado se retirar, mas não teve conversa e o que a gente tentou evitar aconteceu: O Rosa já peitou o cara e aí começou o quiproquó. Todo mundo se levantou e cercou o estrangeiro safado, já meti a lanterna no olho do meliante, enquanto outros já ameaçavam chutar ele para o outro lado da Cordilheira dos Andes, mas foi o cangaceiro de ilha Bela quem deu a cartada final. Paulo Potenza das Candangas já sacou seu facão e passou nas ventas no dito cujo que arregalou os olhos e murchou na hora, estava instalado uma crise diplomática. O facão só assustou o chileno, que vendo que o negócio havia esquentado, tratou logo de se retirar da nossa presença para nunca mais voltar. O dia amanhece quente, mas embaçado. Guardamos o carro no terreno do pescador, arrumamos as mochilas e adentramos na larga trilha que antes já fora uma estrada até a Praia do Bonete, mas que a floresta tomou de volta, impondo assim uma derrota acachapante ao governo militar, que tentou construir o caminho na década de 80. No começo parece mesmo que iremos caminhar por uma estrada, passamos por dois mirantes de onde se pode avistar o mar sem fim e menos de uma hora depois estacionamos na famosa CACHOEIRA DA LAGE para um gole de água. Nesse intervalo o tempo já melhorou e o sol já brilhava forte, mas como ainda era muito cedo, ninguém se atreveu a entrar na água ou brincar nos poços e escorregador que marcam a atração. Atravessamos a ponte pênsil e continuamos nossas andanças, mas agora o caminho já vai se enfiando numa voçoroca enorme e 4 km depois chegamos ao RIO AREADO com mais uma ponte pênsil para atravessar. É um rio com uma beleza sem igual, a água de uma transparência única e alguns metros acima da ponte, um poção lindo para um mergulho, mas ao chegar ao rio a gente já sabia que a brincadeira havia terminado, era chegada a hora da aventura começar, era hora de discutir a estratégia e deixar todo mundo ciente de que naquela expedição selvagem cada qual estaria por conta própria e cada um teria que assumir os riscos. Logo de cara me chamou a atenção o peso da mochila do Anderson Rosa, achei que poderia estar levando muitas coisas desnecessárias, mas não gosto de ficar cagando regras, muito porque cada um sabe o que aguenta carregar e quais suas necessidades. A única coisa que procurei deixar bem claro, inclusive antes de sair de casa, era a necessidade de todo mundo estar munido de perneiras anti-cobra e isso faria toda a diferença no decorrer daquela expedição. Decidimos que subiríamos o rio por dentro do seu curso e ao chegarmos à bifurcação onde ele se divide em dois, montaríamos um acampamento fixo e exploraríamos as duas vertentes, da esquerda que é de onde despencaria a cachoeira gigante de mais de 150 m e o da direita, por onde despencaria várias cachoeiras em uma parede COLOSSAL de mais de 1 km. Num primeiro momento tentamos achar um caminho pela direita de quem sobe o rio, prestando atenção para ver se não achávamos uma trilha perdida nesse início de expedição, mas surpreendentemente encontramos um mato totalmente fechado, denunciando assim que, mesmo sendo uma trilha turística, ninguém se atreve a subir o leito do rio. Abandonamos o mato e nos enfiamos por dentro do rio mesmo, pulando de pedra em pedra, mas não deu nem cinco minutos e nos deparamos com uma parede intransponível, num amontoados de pedras grandes Eu até pensei em escalar por dentro da água, mas os meninos acharam cedo para se molhar e o Asheley foi à frente e encontrou um buraco no meio dos matacões, aonde você tem que se enfiar e atravessar como se tivesse saindo do útero da sua mãe. Demos a volta nessas grandes pedras e voltamos ao rio novamente e logo nos deparamos com uma cachoeirinha incrível, com um poço profundo e como eu era o único que portava uma mochila totalmente estanque, os meninos optaram por passar e subir ao lado dela e fizeram um grande malabarismo para não se molharem, mas eu não me fiz de rogado e logo cedo já me joguei na água. Escalada essa pequena cachoeira, surgiu à nossa frente, mais uma cachoeira muito parecida com a anterior, mas com um poço gigante, esverdeado, daqueles de cair o queixo. Já me joguei para dentro dele e fui nadando até ela, enquanto o resto do grupo bordejou pela esquerda, mas somente depois de cada um se esbaldar dentro do lago esmeralda. Não havíamos caminhado nem três quartos de hora e já havíamos nos apaixonado pelo rio e ficávamos a todo o momento nos perguntando por que um lugar daqueles, tão perto da trilha principal, não havia sido descoberto pelos turistas. Escalei a cachoeira e me encontrei novamente com a galera e juntos pulamos pedras e quinze minutos acima chegamos ao POÇO DO ESCORREGADOR, uma grande atração desse roteiro, uma pedra inclinada e extremamente lisa, de onde o rio se precipitava. Escalamos a rocha pela esquerda e largamos nossas mochilas do lado direito do rio, hora de comer algo e nos lançarmos de volta ao passado, hora de viramos crianças novamente e escorregarmos nossa felicidade para dentro da água. Aquele lugar era incrível, sentado ali naquela grande rocha plana aonde seria possível até montar uma barraca, fico a apreciar aqueles meninos felizes da vida se jogando cachoeira a baixo e mergulhando de cima de uma rocha oposta para dentro do poço, mas logo me esqueço de que já vou me encaminhando para quase meio século de vida, me levanto e despinguelo rio abaixo também e vou me juntar à criançada como quem vai brincar no jardim de infância. A brincadeira estava boa , mas logo nos lembramos para que viemos, é hora de retomar a caminhada porque aquela ainda era uma expedição séria e havíamos traçado um objetivo de atingir a confluência dos rios até o anoitecer. Jogamos as mochilas nas costas e partimos novamente rio acima, hora pulando pedra, hora varando mato ou escalando ao lado do barranco. Meia hora acima, talvez um poço mais, outra cachoeira nos fecha o caminho novamente e obriga parte do grupo a se pendurar pela esquerda, enquanto eu aproveito para mais um mergulho, me jogando em mais um poção incrível e depois escalando por dentro da cachoeira de rocha lisa como mármore polido. Já é sabido que tenho um grande problema com água gelada, mas por incrível que pareça o rio Areado naquele dia estava com uma temperatura agradabilíssima e desta vez eu tinha decidido me divertir muito no rio. A subida do rio realmente não é complicada. Mas o esforço que se faz acaba por ir aos poucos minando a energia da gente. São várias as pequenas escaladas feitas com a água batendo de frente e logo notamos que o Anderson começava a definhar de vez, não porque fosse mais fraco que qualquer um de nós, mas porque havia mesmo escolhido mal os equipos e exagerado no peso. Eu e o Potenza começamos a monitorá-lo e já havíamos confabulado entre nós que se fosse preciso, dividiríamos um pouco da sua bagagem entre o resto do grupo. Não demora muito e a primeira queda um pouco maior se apresenta à nossa frente, na verdade, são três cachoeiras, uma ao lado da outra e com mais um poço maravilhoso ao seu lado. Sem demora parte do grupo já estava lá, se esbaldando em suas águas translucidas. O próximo trecho nos leva para um rio mais estreito, com várias ilhas e alguns afluentes do lado direito até nos depararmos com outra cachoeira, não muito alta, mas com mais uma piscina natural para ninguém botar defeito, aonde mais uma vez tivemos que experimentar a incrível sensação de nadar onde praticamente ninguém nunca nadou. A caminhada estava avançando bem, mas a gente sabia que se não apertasse o passo poderíamos ser pego pela noite sem chegar ao entroncamento dos rios . Grandes matacões começaram a surgir e depois de enfrentarmos uns trepa- pedras dos infernos , nos deparamos com mais uma grande cachoeira e bem que tentamos escala-la pela esquerda , mas foi mesmo o Rosa que encontrou o melhor caminho pela direita, varando mato até sairmos em mais uma ilha, onde o rio volta a se afunilar. Já passava das 17 horas e nada da gente chegar a tal confluência, então decidimos que avançaríamos por mais uma hora e acamparíamos no primeiro lugar decente que encontrássemos. Como o rio não deixava avançar, resolvemos varar mato pela direita e nos enfiando numas grotas e paredes de pedra que iam formando uma espécie de cânion seco, um lugar muito bonito , com uma paisagem diferentes das que estávamos acostumados na Serra do Mar no continente. Passado esse trecho, o barulho de uma grande queda nos chamou a atenção, então abandonamos o vara- mato e voltamos ao rio para nos encontrarmos com a maior queda até então. Aquela sim era uma cachoeira de respeito e aquele poço era algo para agradecer e fazer esquecer os perrengues passados até agora. Ficamos todos encantados com aquela queda e as caras amarradas pela ultima hora passada no mato, sendo estraçalhados por espinhos e cipós, se abriram num sorriso de felicidade e juntos decidimos que era mais que hora de descansar os esqueletos e mais que depressa retomamos a caminhada, sempre de olho em algum lugar plano para montarmos nossas redes. Subimos o rio por mais uns 15 minutos e ao encontrarmos uma laje plana e boa, jogamos nossas mochilas ao chão para tentar conferir nossa localização, já que a tal confluência não chegava nunca e para surpresa de todos, o nosso GPS nos mostrou que já havíamos passado faz tempo do entroncamento e por incrível que pareça , havíamos pegado o rio da direita e já estávamos uns 100 metros de desnível acima da confluência. Logo descobrimos o erro: Havíamos passado direto quando começamos a varar mato entre as paredes rochosas e sem nem perceber, adentramos ao rio da direita e o seguimos montanha acima. Antes mesmo que algum de nós começasse amaldiçoar o erro, alguém grita ao voltar seus olhos para cima: “- olha lá gente, a grande cachoeira do areado despencando do outro rio que acabamos por passar direto”. Sim , lá estava o monstro a despencar de uma parede colossal entre as árvores, que nos fechava parcialmente a visão. Sem querer, tínhamos avançado bem e agora, pelos cálculos do Trovo, poderíamos chegar à base dela em não mais de meia hora varando mato e interceptar novamente a vertente esquerda do rio. Ficamos felizes de termos cumprido com o objetivo do dia e não havia mais o que fazer, encontramos um terreno favorável para montarmos nossas redes e demos por encerrado esse primeiro dia de expedição. Parar ali foi mesmo fundamental porque o dia ensolarado já havia partido e no alto da serra ,uma tempestade já se avizinhava. Parte do grupo se apressou em montar suas redes, enquanto a outra parte ficou moscando à beira do rio e o Asheley ainda escapou por pouco de tomar uma picada de jararaca. O tempo virou numa velocidade inesperada e a tal tempestade chegou de vez. Eu havia já montado minha rede e meu toldo, mas não deu nem tempo de esticar todas as cordinhas antes que o dilúvio desabasse. Pulei para dentro da rede e fiquei segurando a cobertura para o vento não levar e torcendo para que minhas coisas continuassem secas. Choveu desgraçadamente durante quase 2 horas e a turma que demorou em montar abrigo, acabou por pagar o seu preço e depois de se lascarem todos, foram dormir sem janta. Quando a chuva deu um tempo, minha rede estava meio unida, mas nada do que eu já não tivesse acostumado, mesmo assim eu estava feliz porque os famosos borrachudos de Ilha Bela não haviam dado as caras com aquela voracidade já conhecida e isso já era algo para comemorar e eu e o Potenza resolvemos fazer uma janta e saborear um bacon com arroz, pra fechar a noite e alegrar a alma. Foi uma noite espetacular. Na madrugada bateu um vento tão quente que secou até as meias jogadas ao chão. Às seis horas da manhã já estávamos de pé preparando nosso desjejum e já conversando e discutindo a estratégia para a conquista final das CACHOEIRAS GIGANTES DE ILHA BELA. Eu achei que levaríamos mais de uma hora varando mato na diagonal para atingirmos a base inferior da grande cachoeira do areado, situada no outro rio, mas o Daniel Trovo insistia em dizer que em uns 15 minutos estaríamos nos regozijando embaixo da queda, mas o Potenza não contente , quis apostar com o Trovo que o tempo seria infinitamente maior que o que ele insistia em dizer, mas o instrumento da aposta vou me dar ao direto de omitir pelo bem da moral e dos bons costumes, rsrsrsrsrsrssr Bom, como a nossa intenção era explorar os dois rios apenas com mochila de ataque, deixando o nosso acampamento montado, apenas enfiei na minha cargueira os equipos de emergência, caso algo desse errado, isso me daria um conforto maior pra sobreviver por uma noite ao relento. Plano traçado, aferimos o azimute e partimos atravessando o rio, subindo o barranco e já descendo a um vale com um córrego de águas cristalinas. Galgamos terrenos em nível por menos de 15 minutos e já nos deparamos com o véu da grande cachoeira. Ninguém disse nada, cada qual procurou se livrar do mato que nos fechava a passagem, cada qual se apegou ao seu espírito desbravador e no fundo todo mundo sabia que aquele momento era de pura magia e encantamento e quando a paisagem se abriu de vez, cada um correu para onde achava melhor e de onde estávamos ficamos lá parados a contemplar o GIGANTE despencando da pedra. A GRANDE CACHOEIRA DO AREADO se apresentou ao nosso grupo, mas se recusou a se mostrar por inteira porque seu gigantismo é tão imenso que não é possível vê-la por completo. Aquilo que a gente esperava se confirmou diante dos nossos olhos e aquela era de longe, mas de muito longe a maior cachoeira de Ilha Bela. Sua altura passava fácil de 150 metros, mas de tão grande mal podíamos ver um terço dela. A gente tinha a plena certeza que não éramos o primeiro grupo a por os olhos nessa cachoeira, como eu havia dito no começo deste relato, mas estávamos dispostos a sermos os primeiros, até que se prove o contrário, a chegar até o seu topo, mas também sabíamos que a conquista não viria de graça, haja vista o tamanho do paredão que teríamos que escalar. Num primeiro momento pensamos na possibilidade de seguir pelo lado esquerdo, mas ao analisarmos melhor o terreno, a possibilidade pela direita nos apresentou mais viável. Começamos a empreitada nos distanciando da queda e aproveitamos uma rampa inclinada, mas bem protegida pelas arvores para avançarmos montanha acima. Cada um se segurou e seguiu por onde achou melhor, sempre tentando se livrar dos inúmeros espinhos que guardam esse patrimônio. Os pés e as mãos sempre grudados na rocha e na vegetação que parecia que despencaria a qualquer momento e nos jogaria no vazio astronômico. A chegada ao topo da Grande Areado foi marcada por muita comemoração e para nos presentear, a visão se abriu para um horizonte de frente para o mar azul, naquela manhã ensolarada de janeiro. Embaixo dos nossos pés uma pedra lisa e abaulada de onde a cachoeira despencava no vazio infinito. Estar ali é fazer história, é se sentir grande diante de tamanho feito e ao mesmo tempo minúsculo diante de tamanha beleza colossal. Depois de nos inundarmos de tamanha satisfação, chegou a hora de dar continuidade a nossa Expedição e dessa vez iríamos tentar ir aonde provavelmente ninguém jamais havia botado os olhos antes. Chegar até a maior cachoeira da ilha já era um feito incrível, mas chegara as cabeceiras do ALTO AREADO, como vínhamos chamando o outro rio, era a grande cereja do bolo na Ilha Bela. Iríamos explorar 1 km de paredes de onde possivelmente despencariam outras cachoeiras gigantes. Voltar ao nosso acampamento era uma decisão que poderíamos ter tomado e de lá poderíamos partir subindo o rio até sua cabeceira, mas ao invés disso, decidimos apontar nosso GPS de onde estarmos e vararmos mato nos aproveitando da crista da serra, onde já sabíamos por experiências anteriores que a vegetação é mais espaçada, podendo nos dar um corredor rápido até o alto do outro rio e depois era só descermos por dentro da água, explorando as grandes cachoeiras. Então foi o que fizemos, tocamos para cima , escalando num primeiro momento uma parede inclinada até ganharmos o topo da crista e seguimos por ela sempre subindo, num terreno gostoso de caminhar e a passos largos e por nos entretermos com a caminhada tranquila, por pouco não fomos apanhados por mais uma jararaca que nos encurralou no canto de uma árvore. Deixamos a serpente em paz e seguimos nosso caminho e quando paramos para ver nossa localização no GPS do celular foi que ficamos sabendo que havíamos andado fora da rota estabelecida e já estávamos praticamente paralelos ao rio da grande cachoeira do Areado. Já havíamos subido bastante e para corrigir o curso resolvemos pegar uma diagonal para a direita e não nos desgrudarmos mais do GPS até que pudéssemos atingir o outro rio. Portanto, abandonamos a crista que não estava mais servindo ao nosso propósito e voltamos a varar mato lateralmente, nos mantendo meio em nível e nos dirigindo para o outro rio, mas antes já sabíamos que teríamos que passar por dentro de um grande vale para depois escalarmos uma parede íngreme que nos deixaria na cumeada da parede esquerda do vale do Alto Areado. Quando chegamos nesse vale intermediário tivemos que abrir mão de uma corda para podermos descer em segurança, mas os mais ousados trataram logo de se jogarem morro a baixo apenas se valendo de alguns troncos e alguns cipós e ao tropeçáramos no riacho, aproveitamos para uma breve pausa para um gole de água. À nossa frente agora, uma parede íngreme, que logo conseguimos chegar ao seu topo e vendo que estávamos na calha do rio buscado, partimos para uma diagonal definitiva, descendo de vez até as margens, aonde fomos parar bem no meio de uma cachoeira que nem chegamos a ver seu topo de tão grande que era. Nesse momento vimos que o melhor a fazer era nos distanciarmos do leito do rio e ganhar mais altitude, numa tentativa de alcançar o seu patamar superior e foi o que fizemos e mais uma vez nos deparamos com uma cachoeira ainda maior onde o Daniel Trovo achou que ali seria nossa ultima parada antes de nos jogarmos dentro do próprio rio e descê-lo, explorando todas suas cachoeiras até interceptarmos de novo nosso acampamento perto da confluência. Mas foi aí que um pequeno impasse se instalou entre o Trovo e eu e o Potenza. O Trovo achava que deveríamos atravessar por ali e eu e o Potenza insistíamos que o topo das cachoeiras ainda não havia chegado, mas depois de uma conversa mais demorada, chegamos a um consenso e convencemos o Daniel de que deveríamos continuar escalando. O Asheley tomou à dianteira e Foi puxando a fila até que nosso caminho chegou ao fim, barrados por uma parede intransponível e que mais uma vez nos deixou travados no meio de uma queda d’água. Agora o caldo havia entornado de vez, ou a gente voltava e tentava uma volta gigante para retomar nosso rumo pela direita até o topo ou dávamos por encerrado aquela exploração, tentando voltar a descer até que pudéssemos passar para o outro lado rio. Mas ainda havia uma terceira opção, tentar uma escalada suicida pelas bordas do abismo. O Trovo que havia perdido a contenda anterior, só de sacanagem já foi empurrando o Asheley e fazendo o menino escalar o paredão, se segurando numas vegetações cretinas que nem os calangos selvagens estavam querendo se ariscar. Com a ponta do pé sobre uma raiz que ameaçava se descolar da parede e jogar todo mundo no vale , pegaram impulso e foram se elevando como dava, deixando a gente para trás e o Paulo Potenza, com um olho arregalado, já pensando que havia se fudido por desafiar o mestre Trovo e agora era caminho sem volta. Eu até que tentei subir pela vegetação, mas quando Trovo e Asheley passaram, levaram tudo com eles e como o Potenza já tava xingando horrores pelo caminho escolhido, pedi para que os meninos do topo que nos jogasse a corda e tinha que ser logo porque meus pés já não estavam mais aguentando se segurar naquela raiz mequetrefe. Com a corda instalada todo mundo foi ao alto da parede e aí foi só nos agarrarmos a mais uma rampa e varar uma pouco mais de mato até que nos posicionamos no topo das cachoeiras que vínhamos buscando, mas a comemoração pela conquista foi logo abreviada porque alguém olhou para cima de outro ângulo para simplesmente descobrir outra monstruosa cachoeira despencando em duas quedas enormes com uns 70 metros de tamanho. Agora sim estávamos de cara com a queda d’água que havíamos nos proposto a alcançar, enfim o início do ALTO AREADO acabara de ser descoberto e essa era, muito provavelmente, até que se prove o contrário, a primeira vez que uma equipe de exploradores botou o os olhos nela. A expedição não havia terminado, muito porque ainda tínhamos mais de um km de rio e cânions para descer até o nosso acampamento, mas cada um já estava ciente de que havíamos agora de completar todo o nosso planejamento. Despedimos-nos da GRANDE CACHOEIRA DO ALTO AREADO , atravessamos o rio para o lado direito de quem desce e começamos a perder altitude, nos valendo de um corredor mais aberto até vinte minutos a baixo voltarmos novamente ao rio para apreciar mais uma queda de uns 60 metros, justamente aquela que tivemos que ir escalando pelo lado esquerdo do rio. Verdade mesmo que tudo fazia parte de uma parede extraordinariamente gigante, que quase formava uma só cachoeira. Continuamos descendo até a base dessas paredes aonde encontramos um patamar e lá nos instalamos para apreciar mais um espetáculo de águas despencando de cima das pedras onde no topo, uma cachoeira de uns 50 metrosemendava com mais uns 50 de paredes. Esse nos pareceu ser o final das grandes cachoeiras da parte superior do Alto Areado, que juntando com a cachoeira mais próxima da confluência, formavam assim um total de quatro grandes quedas d’água gigantes, num dos roteiros SELVAGENS mais incríveis de Ilha Bela. Seguimos bordejando o rio, mas agora só olhando os vários poços que iam se formando. Estávamos com muita fome e havia chegado a hora de retornarmos para o nosso acampamento, foi um dia de muitas conquistas e muito esforço físico e quando lá chegamos, já tratamos de colocar nossos fogareiros para trabalhar, fizemos um almoço tardio, mas ninguém arredou o pé até que não aguentasse comer mais nada e aí ficamos jogando conversa fora à sombra de um grande pico em forma de tetas que guarda do outro lado do outro afluente, a maior cachoeira da ilha. Havíamos deixado nosso acampamento montado, então era algo com que não tínhamos que nos preocupar. A noite estava linda, mas todos estavam bem cansados, então logo que escureceu cada qual caçou seu rumo e foi descansar o esqueleto nas suas redes. Todos foram dormir cedo e para nossa alegria, novamente os borrachudos vorazes da ilha não deram as caras e ninguém reclamou de nada e logo que o dia nasceu já tinha gente de pé preparando o café. Desmontamos tudo vagarosamente e partimos de volta para a civilização, mas ao invés de voltarmos por dentro do rio, decidimos que ganharíamos a crista do lado esquerdo e vararíamos mato nos mantendo uns 100 metros afastados do rio para evitarmos as grandes pedras. Portanto, subimos o barranco e avançamos muito rapidamente ao encontrarmos uma vegetação mais espaçada, que só se fechava quando tínhamos que descer para cruzarmos os inúmeros afluentes. Achar essa rota foi realmente sensacional porque acabou nos economizando umas três horas de pernadas e mesmo a gente tendo encontrado umas passagens com alguns amontoados de pedras, inclusive formando arcos rochosos, mesmo assim foi um caminho feito na metade do tempo de ida. Mas ao chegarmos ao rumo de onde estavam os grandes poços e a cachoeira do Escorregador, apontamos nosso nariz para lá e jogamos nossas mochilas ao chão para mais uma rodada de ócio, brincadeira e descontração infantil, onde todo mundo resolveu se atirar na água e saltar de cima das pedras e escorregar na tal cachoeira. Ninguém queria ir embora daquele lugar, mas ainda tínhamos uma caminhada longa até Borrifos, onde estava o nosso carro. Fomos descendo, mas dessa vez ninguém quis mais abandonar o rio, eu mesmo fui me atirando em tudo quanto é poço e de cima das pequenas cachoeirinhas, dava para ver o azul do mar, se contrastando com o verde da floresta, numa visão realmente muito bonita. Quando chegamos de volta à ponte pênsil, aonde uma galera que voltava da Praia do Bonete estava, todo mundo olhou espantado para o nosso grupo e ninguém entendeu nada do que estava acontecendo e ficaram surpresos ao saber que havia malucos que vararam mato por três dias, subindo o rio para procurar algo que eles nunca ouviram falar. Ao chegarmos à trilha e a ponte do Rio Areado, a gente se cumprimentou e comemoramos de vez o sucesso daquela Expedição, tudo que havíamos planejado, havíamos cumprido. Retomados novamente a trilha e 4 km depois paramos novamente na pequena cachoeira da Laje para mais um banho e para comermos a única coisa que havia sobrado nas nossas mochilas: dois gomos de calabresas com limão e um suco em pó, para brindar a vida, a amizade e a conquista inédita e em seguida apertamos o passo até desembocarmos de vez no estacionamento do pescador e finalmente encerrar aquela jornada incrível. ILHA BELA é um dos lugares nesse país com o maior numero de enigmas e mistérios. A segunda maior ilha marítima do Brasil, com histórias de piratas, trafico clandestino de escravos, naufrágios memoráveis como o Navio Príncipe das Astúrias, considerado o Titanic brasileiro. Histórias de tesouros escondidos e animais exóticos. Fez fama por ser a capital da vela, tem os maiores picos insulares do país, o mosquito mais voraz da via Láctea e é claro, a grande fama de hospedar em seu território mais de 300 cachoeiras. São muitos os mistérios, mas a partir de agora o misterioso Rio Areado deixou de ser lenda e essa expedição veio para jogar uma luz definitiva nesse acidente geográfico e colocá-lo em definitivo no mapa das grandes descobertas do Estado de São Paulo. Divanei Goes de Paula – janeiro/2018
  17. Infelizmente seu Roselito foi a óbito e nunca mais tivemos contato com a família dele. Depois de fazermos essa Cachopeira , também realizamos a Travessia Completa até o litoral.
×
×
  • Criar Novo...