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divanei

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Tudo que divanei postou

  1. TRAVESSIA VALE DO GUARATUBA Nossos olhos se entrelaçaram quando as bordas do abismo se apresentou à nossa frente. Cada qual daqueles exploradores modernos se deu conta de que haviam chegado em um caminho sem volta e uma vez tomada a decisão de descer aquele vale gigantesco, estariam por conta e risco. No fundo mesmo, havia meio que um medo estampado no rosto de cada um por tudo que tinha envolvido toda a organização daquela expedição, onde o grupo se esfacelou, com membros desistindo na última hora e dizendo ser impossível tal empreitada. Mas como a vontade de realizar algo é maior do que o medo, mesmo estando diante do maior desnível que jamais havíamos enfrentado na Serra do Mar Paulista, haveríamos de nos agarrar uns aos outros, botar a faca nos dentes e inserir mais um vale selvagem nos mapas da SERRA DA AVENTURA. Quando eu dei o start, dizendo que meus próximos estudos para as travessias selvagens na Serra do Mar estavam direcionados para o VALE DO RIO GUARATUBA, o Vagner e o Potenza já saíram da moita dizendo que já fazia algum tempo que também estavam de olho nesse rio e aí não houve problemas para que resolvêssemos juntar forças para tirarmos esse projeto do papel. Acontece que eu e eles sabíamos que acessar aquele rio no planalto de Biritiba Mirim-SP, não era nem de longe coisa fácil por ele estar inserido dentro da área da SABESP (Companhia de Águas de São Paulo) e que conseguir uma autorização era tempo perdido. As conversas nos levaram a que seria preciso alguém ou algum grupo ir até o local e achar um caminho alternativo que pudesse nos levar até o rio, ou seja, uma entrada clandestina até a Estação de Bombeamento Guaratuba, uma operação de guerra que poderia nos custar o fim do projeto caso alguém fosse pego pela fiscalização. Como eu moro no interior, coube ao Vagner e ao Tony a missão inicial de tentar achar o caminho, coisas que eles fizeram como uma competência ímpar, mas infelizmente não conseguiram chegar até o rio e então seria preciso mais uma incursão, a derradeira, para que começássemos a discussão final sobre a expedição. Na segunda tentativa se juntaram ao Vagner, o Rafael, Potenza e o Daniel Trovo e o grupo se esgueirou pela madrugada numa noite de chuvas torrenciais até finalmente alcançarem a Estação de Bombeamento e voltaram de lá com o caminho pronto para o Rio Guaratuba, a primeira parte do projeto estava finalizado, hora de nos preocuparmos com a descida em si e a convocação do grupo, que logicamente teria de ser escolhido a dedo. Como sempre tudo começa com horas e horas de pesquisas na internet a fim de descobrir se haveria algum registro de descida, mas lá no fundo todos nós sabíamos que não encontraríamos coisa alguma, mesmo porque, se não havíamos encontrado nada em outros rios com desníveis muito menor, nesse Guaratuba é que não encontraríamos nada mesmo. A segunda parte é partir para os estudos topográficos e mapas de satélite e foi aí que o queixo da gente desabou no chão. O desnível parecia grande, mas no mapa topográfico era um convite ao suicídio. Mais de 800 metros em míseros 4 km, sendo que no início o rio despencava numa parede vertical em uma inacreditável sequência de abismos e penhascos inacessíveis. Pronto, era a deixa para que parte do grupo picasse a mula, desconfiados de que aquilo ali era uma furada dos infernos e cada qual tratou logo de procurar outra coisa para fazer e nos deixou com um grupo escasso, restando apenas uma meia dúzia que ainda insistia na possibilidade de êxito. A data escolhida foi o feriado da Consciência Negra, que nos daria três dias de possibilidades, mas que por uma infelicidade nossa, quando essa data se aproximou, arrastou atrás de si uma frente fria tremenda e que anunciava um dilúvio para a região. Pronto, foi a deixa para que mais gente do grupo apanhasse seus panos de bunda e fosse se aventurar em outras paragens, ninguém seria retardado para enfrentar uma descida naquelas e com aquele tempo na sucursal do inferno. Pois é, eu mesmo queria saber se os que sobraram estavam mesmo engajados no projeto e se ainda lhes interessava ariscar suas vidas naquele vale, muito porque não haveria outra oportunidade nesse ano e para minha surpresa ainda restaram além de mim, mais quatro suicidas. É numa sexta-feira chuvosa e de transito infernal que me encontro com o Paulo Potenza no metrô de Itaquera, na zona leste da capital Paulista. Mal nos cumprimentamos e ele já veio com aquela conversa de “cerca Lourenço”, dizendo que com aquele tempo éramos candidatos a sair daquele vale como passageiros de um certo helicóptero do Águia. Enquanto o trem sacolejava na estrada de ferro, ele ia me passando um milhão de dados acerca da descida do Guaratuba, onde dizia ele ter descoberto que ali era a morada do próprio satanás e que a gente estava sendo atraído para uma grande armadilha. Eu ia escutando tudo que ele dizia, mas no fundo estava cagando e andando para os dados, muito porque não foram poucas as vezes que em outras expedições eu tive que escutar lamúrias negativas de outros exploradores e sempre me mantive firme. É mais uma vez com uma grande alegria e satisfação que na Estação de Suzano volto a rever meus amigos Daniel Trovo e VGN Vagner e passo a conhecer o Tony, que vai ser o novato do grupo e enquanto esperávamos a VAN que nos levaria para a trilha, aproveitamos para colocar o papo em dia e juntos tentarmos resistir as investidas do Potenza que tentava salvar nossas vidas da tragédia que se anunciava, pelo menos na cabeça dele. Não demora muito e o nosso transporte chega e com ele um motorista loroteiro que foi contando histórias sem pé nem cabeça e fazendo a gente dar muita risada. O motorista era alegre e sorridente, mas quando chegamos em Biritiba Mirim e o Vagner indicou que teríamos que pegar a estrada de terra para o destino Casa Grande, o piloto começou a definhar na escuridão daquele fim de mundo. A estrada fazia curva atrás de curva e nunca chegava a lugar nenhum e o motorista só fazia coçar a cabeça e o saco e amaldiçoar a dia em que ele foi aceitar aquela viagem onde cinco sem noção diziam que iriam descer para praia varando mato sabe-se lá por onde. Pouco antes do motorista ter um infarto, nosso caminho motorizado chega ao fim assim que passamos pela área principal da SABESP e pegamos logo a direita numa estradinha de terra escura e enlameada. Parados ali naquela escuridão e prestes a nos perdermos rumo ao nosso próximo destino, o Paulo Potenzaanuncia a sua desistência formal. Com os olhos arregalados de quem não sabia o que estava fazendo ali, pede mil desculpas e humildemente diz que não se sentia em condições psicológicas de nos acompanhar e é claro que nós prontamente entendemos a posição dele e achamos muito nobre da sua parte usar de sinceridade para com o grupo, do que simplesmente tentar seguir por um caminho que ele já não estava mais a fim. Bom, a gente entendeu mais ou menos, porque sempre tem uns filhos da puta que não está a fim de deixar barato e nem perder a oportunidade de dar uma zoada, então foi aí que o safado do Tony, do nada resolveu imitar um frango ou uma galinha, para aloprar a cabeça do Potenza, coisas que só as grandes amizades podem proporcionar e aí não teve jeito, fez com que a maioria do grupo rolasse no chão de tanto rir e foi assim, naquela madrugada embaçada, que vimos Potenza, Van e o motorista contador de lorotas se perderem na escuridão da noite. A caminhada agora ia começar, seriam quase 12 km até o Rio Guaratuba e logo o Vagner toma à frente, porque ele é o cara que sabia o caminho clandestino para passarmos sem ter que enfrentar a burocracia da companhia de águas. Na escuridão da noite, logo após alguns minutos, deixamos a estradinha que estávamos e nos enfiamos em outra que mais parecia uma trilha e quando chegamos a um capão de mato, adentramos no meio da floresta e fomos arrastando mata no peito e por uns quinze ou vinte minutos navegamos meio que às cegas até que a picada nos desovasse na estrada principal, já longe das vistas da Sabesp. É uma noite mesmo estranha, ao mesmo tempo quente e agradável, mas com prognóstico de muita chuva. Ganhando a estrada, em 2 km tropeçamos na primeira ponte do Rio Claro, o Vagner e o Tony vão à frente e eu e o Trovo seguimos na cola, botando a conversa em dia. Mais outros 4 km de andanças e já estávamos passando novamente por cima do Rio Claro, já que o rio vai serpenteando bem perto da nossa estradinha e à frente, numa bifurcação, pegamos para a direita e andamos mais uns 4 km e logo, após cruzarmos mais uma grande ponte, aparece a iluminação da Estação de Bombeamento Guaratuba. Os corações ficam acelerados e a apreensão toma conta de todo mundo porque não passa pela nossa cabeça sermos pegos àquela hora da noite e dizer adeus ao nosso projeto. Devagar e silenciosamente dobramos a curva e adentramos nas instalações e mesmo sabendo que nossas intenções são das melhores, porque não queremos mexer em nada que não seja da nossa conta, não tem como não sentir aquele frio na barriga que só passaria ao constatarmos que tudo estava vazio e usando do mesmo método da primeira investigação, os meninos conseguem sutilmente abrir as portas e nos botar para dentro e ali faríamos nosso abrigo até que um novo dia rompesse dizendo que havia chegado a hora da aventura começar. Foi uma noite difícil, com sobressaltos constantes, sempre com aquele medo de sermos surpreendidos, mas logo antes que o despertador batesse seis da manhã, pulamos rapidamente de dentro dos nossos sacos de dormir, arrumamos as mochilas e saímos vazados de lá. A Estação de Bombeamento Guaratuba fica bem `as margens do rio de mesmo nome e como não poderia deixar de ser, junto dela uma pequena barragem faz a contenção do rio, que surpreendentemente, apesar das chuvas dos últimos dias, está baixo e muito bonito. Falando em chuvas, foi mesmo uma sorte a nossa de a chuva não cair durante a noite porque se tivéssemos pego o rio bufando de cheio, muito provavelmente a moral do grupo já iria para os níveis mais baixos possíveis. Certo mesmo é que o grupo estava animado e sabedor de que os riscos eram muitos, mas nossas experiências passadas neste tipo de expedição durantes vários anos poderia nos dar uma chance de êxito, mas tudo dependeria do tipo de terreno e principalmente de como se comportaria o tempo, porque se o céu desabasse como estava previsto, aí a caldo poderia entornar de vez. Sete horas da manhã abandonamos de vez a Estação e nos enfiamos num rabo de trilha na curvinha da estrada e alguns minutinhos depois, estávamos no GRANDE POÇO DO GUARATUBA, com suas águas cor de Coca-Cola. Daqui para frente era varar mato e escalar pedras até definitivamente nos vermos à beira do rio e como ainda é muito cedo, ninguém quer molhar as botas e cada qual vai tentando se livrar como pode, até que o único caminho viável é atravessar o rio para sua margem esquerda, junto a primeira queda do rio, uma cachoeirinha bucólica e bonita, um pequeno aperitivo do que estava por vir. Atravessando junto a cachoeira, não demora muito já somos barrados por um grande poço e como vou à frente, o único caminho que percebo ser possível passar sem ter que se jogar na água, é escalando as paredes laterais, feito caranguejo, andando de lado, mas chega uma hora que o inevitável acontece e um passo mal dado me leva para dentro do rio, me fazendo empapar minhas botas e sentir o começo da gelada em que havíamos nos metido. Vendo que eu já havia me lascado logo cedo, os outros meninos já se metem num vara-mato e cortam essa parte e a gente se junta aonde a água começa a despencar do poço. A opção mais fácil é novamente voltar para a margem direita, atravessando sobre umas pedras lisas e escorregadias e logo ganhamos o outro lado, mas infelizmente nem avançamos muito e já nos apareceu o primeiro problema. Uma parede se eleva sobre nossas cabeças e a única solução que encontro é jogar uma corda e tentar descer uns 12 metros para poder chegar novamente ao leito do rio, mas infelizmente a nossa corda não conseguiu chegar até a água, faltando uns 3 ou 4 metros, então metemos de novo nossa corda na mochila e resolvemos escalar o paredão na unha mesmo e essa foi a única vez em toda essa travessia que tentamos usar a corda. Aqui na Serra do Mar a gente vê o que é escalar de verdade, não tem corda, não tem proteção, nem equipamento algum para salvar sua vida se algo der errado, é ter sangue frio, confiar na intuição de encontrar o lugar certo para pôr os pés e a planta certa para segurar as mãos, as vezes uma mera bromélia ou um cipó, talvez uma pequena raiz e aí é prender a respiração e praticamente levitar para conseguir chegar vivo ao outro lado e já ir preparando o espirito para o próximo lance. Descemos a outro patamar e foi nessa hora que o nosso mundo sumiu nos abismos colossais que se apresentou à nossa frente. Agora éramos 4 homens entregues cada qual ao seu medo interior. Ninguém disse muita coisa, mas no fundo a cabeça de cada um girava mais que o pião da casa própria. Será que valeria mesmo a pena a gente se jogar naquele vale monstruoso, com o maior desnível que a gente já tinha presenciado até hoje em toda as expedições na Serra do Mar? A confusão, a desistência de parte do grupo e de membros de última hora não seria um aviso para se levar em conta? O tempo ainda se mantinha embaçado e se a chuva viesse a cair como estava previsto, estaríamos perdidos no meio daqueles vales e pendurados em paredes escorregadias sem ter como voltar, porque uma vez tomada a decisão de adentrar rumo ao desconhecido, era caminho sem volta. No horizonte avistávamos uma grande cadeia de montanhas e florestas a perder de vista. Daniel Trovo e Vagner até vislumbraram um grande roteiro alternativo, caso as entranhas do inferno nos barrasse o caminho, mas eu sinceramente não estava nem um pouco convicto que varar mais de um dia de mato seria a nossa solução. O Tony, coitado, o debutante da turma, nem sabia na enrascada que poderia estar entrando e nem palpite dava. Por hora havíamos chegado à conclusão de que nosso maior obstáculo seriam os dois próximos afluentes, sendo que um grande afluente da direita, uma espécie de encontro de vales era o que poderia nos dizer se fracassaríamos ou não, então em um primeiro momento combinamos que nosso propósito era ir pelo menos até esse afluente e lá tomaríamos a decisão de seguir ou voltar, esse seria nosso porto seguro, mas eu duvidei desde o princípio. Tomada a decisão de seguir, comemos a torta da sogra do Trovo e partimos. Partimos para o alto, porque para baixo é caminho impossível, onde as águas despencavam exprimidas em gargantas estreitas, então o único caminho era voltar a escalar a parede do lado direito, ganhar altura e voltar a descer numa diagonal alucinante até voltarmos ao rio. Já na subida começamos a perceber que o tempo havia mudado e o sol apareceu no céu para renovar nossas esperanças. A subida é dura, pedras deslizam constantemente, urtigas vão raspando na nossa pele, transformando o nosso trabalho num árduo pesadelo, mas não demora muito para o Daniel Trovo soltar um grito estridente que ecoou por todo o vale: Paramos imediatamente para saber do que se tratava e foi aí que ele nos avisou que no meio da floresta, bem diante dos nossos olhos, dava para ver um pedacinho do mar e do condomínio perto da praia. Nos alegramos imediatamente e mais que depressa deixamos nossos corpos deslizarem barranco abaixo e nos rendemos a lei da gravidade até que o Vagner vislumbrou a possibilidade de acessarmos o rio descendo por um afluente seco, talvez apenas um caminho de água de chuva. O barulho do rio era cada vez maior e a “branquitude” de suas águas se refletiam no verde da floresta como a nos hipnotizar e a nos chamar para contemplar o espetáculo que estava por vir. A cada passo dado, ou a cada escorregão dado, a presença do gigante era sentida. Mais uma vez estávamos prestes a botar nossos olhos no que muito provavelmente ninguém ou quase ninguém jamais havia botado. Vamos nos livrando dos obstáculos, descendo, escorregando, caindo, despencando até finalmente nos vermos aos pés da primeira grande queda do Vale do Guaratuba. Uma impressionante cachoeira despencando numa fenda gigante. O deslumbramento tomou conta de todo mundo, o Daniel Trovo urrava feito doido e a todo momento agradecia a companhia de gente doida que não se deixou abater pelo medo do desconhecido. Se a cachoeira era um espetáculo, o que dizer da vista daquele patamar: Uma visão esplendorosa nos fez cair de costas. Simplesmente toda a visão do litoral aos nossos pés, com suas praias, suas ilhas e o seu mar. Não tivemos dúvidas que até então essa era a visão mais espetacular de todas as travessias selvagens na Serra do Mar até hoje, mas felizmente, estávamos redondamente enganados. Ficamos ali, junto a cachoeira conversando sobre o futuro incerto daquela expedição e enquanto as ideias iam surgindo, a gente ia se deleitando com alguns petiscos e mais uma rodada de torta da sogra do Trovo. A gente estava contente, não só pelo bom andamento da empreitada, mas porque o grande astro resolverá reinar no céu e aquecer as nossas almas famintas de aventura e para marcar essa primeira conquista resolvemos nomear aquela queda como SALTO DO CACAREJO, haja vista que havíamos dado muitas risadas do acontecido com o nosso amigo Potenza e lamentamos muito que ele não estivesse com a gente. Abandonamos o grande salto e caímos novamente no mato porque seguir pelo rio já sabíamos ser impossível. A tenção vai aumentando a cada metro vencido, mas o alívio também é sempre comemorado a cada obstáculo ultrapassado. Mesmo tendo que descer, a única solução é ganhar altitude para poder escapar dos paredões à beira do abismo, que insiste em querer nos jogar nas gargantas. Geralmente as ações seguiam sempre um mesmo ritmo, com eu e o Vagner nos revezando no vara-mato com o Trovo dando as direções que achava necessárias e o Tony fazendo as honras do cú de tropa, que é sempre o lugar mais confortável nessas expedições. O grande problema é sempre saber a hora certa de abandonar mais ou menos a caminhada em nível e partir para a despencada final do barranco, às vezes uma decisão mal tomada faz com que tenhamos que voltar a ganhar altitude novamente e aí dá vontade de sentar e chorar, mas não há tempo para isso, é preciso tomar folego e voltar a escalar as paredes lisas e sempre torcer para que nenhuma pedra role e atinja o explorador que vem logo atrás. Já no alto novamente, desembestamos agora numa descida alucinante e ao encontrar um grande degrau para descer ao rio, eu e o Vagner resolvemos ariscar, enquanto o Trovo e o Tony acharam um caminho melhor e logo toda a equipe se amontou em um grande patamar de rocha, junto a uma cachoeira linda onde se descortinou toda a magnitude do Oceano à nossa frente, hora de estacionar ali e deixar aflorar todo o prazer de ter podido ter a oportunidade de conhecer um lugar daquele. Poucas eram as nuvens no céu e o sol queimava tudo. No horizonte era possível quase que ver as barracas na praia de Boracéia e a gente não conseguia se conter de tanta felicidade por saber que, muito provavelmente éramos os únicos ou ao menos estávamos entre os poucos privilegiados a poder deslumbrar aquela paisagem. A cachoeira despencava numa rampa e depois caia sobre uma gruta formando um poço profundo. Já passava do meio dia e o cansaço também tomava conta da gente, já que havíamos dormido quase nada. Eu aproveitei para aquecer o corpo depois de entrar na água gelada e por um tempo fique lagarteando sob o sol, mas o Tony não tinha como esconder, a cara dele denunciava seu sofrimento aparente. Ele havia descido escorregando e caindo em tudo que é lugar e eu mesmo naquela hora cheguei a duvidar da capacidade dele de chegar inteiro no final da expedição, acho que ele mesmo ainda não havia se conformado de ter entrado naquela furada e acho que pensava constantemente onde foi que ele resolveu amarrar seu bode. Os meninos se divertiram entrando na gruta e se escondendo atrás do véu da cachoeira e eu me esbaldava com a visão do mar e logo o trovo já veio oferecendo mais torta da sogra, cada um comeu um pedaço e quando nos saciamos de torta e de daquele visual, abandonamos a CACHOEIRA GRUTA DA BELA VISTA e fomos nos aventurar em outras paragens, mas para isso tivemos novamente que estudar o caminho e ver as possibilidades viáveis. Já estávamos nos aproximando do momento crucial, onde havíamos definido que seria o lugar que poderíamos ser barrados. Primeiramente sempre depois de voltarmos a subir paredes lisas e varar mais mato nos segurando nos cipós e em vegetação cada vez mais espinhuda, cruzamos por um dos afluentes que localizamos no mapa topográfico, mas que para nossa sorte, não passava de um vale seco, talvez apenas um escoadouro de águas da chuva e logo conseguimos voltar ao rio , aonde uma singela cachoeira que despencava de um amontoado de pedras enormes nos dava as boas vindas e nos instigava a pular no seu poço de aguas escuras, chamamos de CACHOEIRA Da CUNHA ,mas resolvemos não nos demorar muito ali, estávamos ansiosos para chegarmos logo ao grande afluente superior e ver qualquer que era as dificuldades que ele iria nos impor. Desta vez não tinha jeito, era subir até onde o terreno desse passagem, muito porque, ao encontrarmos mais um rio seco, tentamos descer e fracassamos, então varamos matos e samambaias gigantes, até que lá do alto avistamos o rio se encontrando com o afluente que buscávamos. Contornamos mais acima ainda para escapar dos abismos e sem muita demora desembocamos bem acima do tal afluente, de águas cristalinas e vistas espetaculares das praias e do próprio Rio Guaratuba encontrando o mar. É impressionante como a gente projeta as coisas baseadas nos nossos medos interiores. Achávamos que ali seria as bordas do planeta, donde cairíamos nos abismos do além, mas ao contrário disso, nos deparamos com uma queda d’água deslumbrante e com vistas para o jardim do Éden. Imaginávamos que ao chegarmos nesse trecho estaríamos numa espécie de proa de navio, aonde descer seria impossível e voltar , necessário. De cima daquele patamar, junto aquele afluente lindo era possível ver o grande rio Guaratuba correndo um pouco mais manso logo abaixo e no Horizonte uma floresta verdejante se juntando ao oceano e para marcar esse incrível lugar resolvemos chamar essa queda d’água de CACHOEIRA DA PROA. Depois de um breve descanso, resolvemos descer ao pé da cachoeira e num piscar de olhos, já havíamos escorregado para baixo da sua queda aonde os mais corajosos, não eu, já se meteram embaixo dela e ficaram lá por um bom tempo se refrescando. Quando todos estavam satisfeitos, jogamos as mochilas nas costas e fomos desescalando pedras e descendo degraus até retornarmos ao rio e como as surpresas nessas expedições nunca parecem ter fim, fomos desembocar em mais uma espetacular cachoeira que vinha de um afunilamento e depois se esparramava sobre as pedras e caia em mais um poço de águas escuras, hora de parar para mais uma rodada de ócio, acompanhada de pedaços suculentos da torta da sogra do Trovo e de deliciosos petiscos roubados de uma certa festa de aniversário e para marcar mais essa conquista chamamos aquela queda de CACHOEIRA DA JUNÇÃO. O dia estava rendendo e já estávamos a mais de sete horas num ritmo alucinante e agora uma brecha no rio nos fez passar para o lado esquerdo e nossa caminhada vai seguindo passando por um infinidade de pequenas cachoeirinhas, onde descer de grandes matacões e rampas rochosas sempre era preciso, mas varar mato nunca saia de moda e logo estávamos novamente descendo ao pés de mais uma grande queda, aliás, uma não, três quedas. Talvez uma das mais bonitas sequencias de saltos, com um poço gigante que vai hipnotizando um a um até que eu mesmo, que não sou muito chegado em aguas frias, não me contenho e vou parar no fundo do rio. O Tony, o Trovo e Vagner já se enfiam debaixo na última queda e só saem de lá porque já sabem que o dia não tarda em se findar e é preciso adiantar o passo e ganhar terreno. A CACHOERIA DOS TRÊS POUSOS, serviu para termos uma certeza: Aconteça o que acontecer, nada mais poderia nos deter na nossa caminhada rumo ao litoral, mesmo que algo viesse a dar errado, o único caminho possível era finalizando essa travessia selvagem. Outra cachoeira é cruzada e quando mais uma garganta no fecha o caminho, é hora de voltar para o mato, comer folha, se pendurar em arvores de espinho, varar terreno irregular, subir pendurado em arbustos podres e rezar para que eles não quebrem e nos faça despencar nos abismos. O corpo já do sinal de que está chegando ao seu limite e já começamos a cogitar em encontrar algum lugar para acampar, mesmo porque o tempo já começa a fechar e não tarda em começar a chover, mas acampar nesses lugares não é coisa fácil, o terreno é muito irregular e achar arvores que preste à beira do rio é algo trabalhoso. Já passa das quatro da tarde e ao tropeçarmos em um afluente de águas cristalinas, a gente jogas as mochilas ao chão e damos como encerrado esse dia de aventuras e deslumbramentos. É um lugar imprestável para acampar, mas é o que temos para hoje e foi bom parar aqui porque na mesma hora as torneiras do céu resolveram se abrir. A chuva caiu por uns quinze minutos e quando parou foi a deixa para montarmos nossas redes, coisa que fiz em menos de vinte minutos e por estar tão cansado, ao deitar sobre ela, não consegui mais me levantar e apaguei por umas duas horas e só acordei porque os borrachudos já haviam comido uma das minhas pernas e a chuva havia inundado a minha rede porque os meus vizinhos resolveram cair da rede e levar junto a cordinha do meu toldo. A noite já havia caído e eu estava envolto no meu sofrimento, com a cara toda inchada de tanto borrachudo. Levantei-me naquele aguaceiro todo e na escuridão da floresta tentei encontrar minha lanterna para ver se conseguia fazer uma janta, mas desisti, não consegui localizar um palmo de terreno plano nem para estabilizar meu fogareiro e por estar com a barriga entupida de uma certa torta, nem fome estava sentindo. Enquanto eu tentava concertar meu toldo e instalar meu mosquiteiro corretamente, um dos meus vizinhos, um tal de Tony, se debatia na sua cama de mato e expunha todo o seu sofrimento de novato nessas expedições. Sem saco de dormir, numa rede molhada e sem mosquiteiro, ele exalava sofrimento que beirava o desespero, e essa foi mais uma noite passada no inferno. Para nossa sorte o dia amanheceu sem chuvas e logo que um facho de luz iluminou nosso acampamento, pulamos das redes para um desjejum meia boca. Havíamos acampados surpreendentemente na cota 350 m de altitude, conseguimos descer 500 metros de desnível em um só dia, mas sabíamos também que em matéria de distância, havíamos percorrido muito pouco e ainda teríamos muita quilometragem para descer o rio, varar mato, subir parede. Aliás, por falar em paredão, o nosso destino nesse novo dia era nos livrarmos de uma parede gigante, aonde pelo rio era impossível passar porque uma garganta profunda já se apresentava à nossa frente. Tentamos subir o afluente do nosso lado esquerdo, mas logo vimos ser impossível e aí tivemos que escalar uma das suas margens e dar uma grande volta até nos posicionarmos acima da própria cachoeirinha, passar para o outro lado e escalar uma parede menor. A sequência foi um teste de paciência, sempre tentando achar uma diagonal que nos devolvesse de volta ao rio, aonde vislumbrávamos chegar aos pés de outra grande cachoeira. A gente deu a volta em um morrote para cortar caminho e fomos descendo, perdendo altura aos poucos, nos livrando dos obstáculos, mas quando vimos que estava difícil achar uma linha de árvores para voltarmos ao rio, não teve jeito, saímos deslizando barranco a baixo nos guiando pela luminosidade da grande queda d’água até chegarmos em um patamar ao alto imediatamente jogarmos nossas mochilas ao chão para melhor podermos no desfrutar daquele espetáculo aquático. Mais uma cachoeira gigante se descortinou no meio da floresta. Três quedas despencando, sendo a última muito maior e caindo em um poço gigante. Para nossa surpresa havíamos andado muito e quase não saímos do lugar e acabamos voltando ao rio pouco abaixo de onde havíamos bivacado. Infelizmente descer até o pé da cachoeira seria um esforço enorme e como havia voltado a chover um pouco, o rio estava cheio e se aproximar da queda, muito perigoso, então batemos uma foto, viramos as costas e seguimos nosso caminho e para marcar esse ponto geográfico chamamos de CACHOEIRA NEBLINA DO GUARATUBA. Surpreendentemente aquela expedição estava seguindo seu curso numa normalidade jamais pensado pela gente, perdíamos altitude rapidamente. Nada era fácil, claro, um terreno terrível e desafiador, mas que aos poucos ia sendo conquistado e por volta da onze da manhã já conseguíamos ganhar distância caminhando pela margem do Guaratuba e ao chegarmos numa espécie de ilha foi que conseguimos achar um lugar decente que poderia ser transformado em um lindo acampamento, inclusive com uma gruta que poderia servir de abrigo para um grupo inteiro e para marcar esse lugar foi ali que resolvemos deixar nossa CAPSULA DE REGISTRO DE TRAVESSIAS SELVAGENS , bem na cota 200 de altitude.. Mas desta vez não foi nada elaborado, porque eu havia decidido não carregar nada que pudesse colocar minha segurança em risco com peso excessivo, diante da perspectiva de uma travessia ariscada. A capsula dessa vez foi improvisada com uma garrafa de boca larga e dentro deixamos os manuscritos de nossa passagem pelo vale, marcando assim essa conquista inédita, pelo menos em tempos modernos. A partir desse ponto o grande Rio Guaratuba já começou a dar sinais de calmaria, que ia se alternando com pequenas quedas. O caminho ia seguindo, cruzando por ilhotas e matacões, hora a gente seguia pelo mato, agora já com pouca inclinação, hora descíamos pelo próprio rio, as vezes alternando de margem. Até então não havíamos encontrado qualquer sinal de passagem humana, nada que nos dissesse que um dia aquele vale teria recebido alguma pegada humana, mas quando o terreno caiu abaixo dos 100 metros de altitude começamos a desconfiar de que logo poderíamos encontrar rastros de civilização e ao cruzarmos um bonito afluente do lado esquerdo, paramos para acabar de vez com a torta da sogra do Trovo e logo a frente um rabo de trilha foi localizado, então estacionamos imediatamente já que o caminho se dirigia para longe do rio. Aquela trilha poderia não nos levar a lugar nenhum, poderia servir apenas para acessar o interior da floresta para extração ilegal de palmito, mas também poderia servir para cortar caminho numa grande curva do rio, então resolvemos ariscar e ir acompanhando no mapa sua direção. Num primeiro momento ela se afastou, mas logo voltou a direção que nos serviria. Avançávamos a passos largos, mas como a tarde já estava chegando, decidimos andar até encontrarmos um local privilegiado para acamparmos, talvez algum rancho de pescador ou de caça. A trilha nos desovou novamente no rio, que agora era raso e com vária prainhas de areia. Suas águas eram cor de coca –cola, como as da Chapada diamantina e de Ibitipoca. Poderíamos acampar em qualquer lugar, mas a trilha era tão plana e gostosa de andar, que a gente se empolgou e quando a trilha sumia, avançávamos pelas areias do rio até que na sua margem direita surgiu uma trilha mais larga ainda e através dela a gente foi deslizando por muito tempo até que ela também acabou novamente no rio. A trilha continuava do outro lado do rio, mas começava a subir o rio como se tivesse voltando , então resolvemos abandoná-la e voltar a descer pelo rio, hora pelas praias de areia, hora por dentro da água mesmo, mas por um golpe de sorte, o Vagner resolveu olhar no nosso mapa e descobrimos que aquela trilha era na verdade o acesso para sair do rio e ir em direção ao condomínio por onde pretendíamos encerrar nossa expedição, retornamos imediatamente, mas desta vez convictos de que aquela jornada terminaria naquele dia mesmo. A trilha realmente era estranha, estávamos subindo o rio, mas tinha algo que a gente não havia se dado conta, aquele rio na verdade era um afluente do Guaratuba e logo a direção desse caminho começou a apontar para a civilização. Havia uma preocupação de como conseguiríamos entrar em um condomínio de luxo e cruza-lo por uns 5 km sem sermos notados. Cruzamos o afluente bem nas costas das casas do tal condomínio, que para nossa sorte não tinha muros ou cercas e ao subirmos o barranco, saímos atrás de uma casa que parecia não haver ninguém. Passamos por seus domínios na surdina, cruzando uma espécie de garagem e caímos nas ruas do milionário CONDÔMINIO MORADA DA PRAIA. Quatro eram os homens que desfilavam sua felicidade e seus orgulhos naquele que sem dúvida deve ser um dos lugares com o maior número de milionários do Brasil. Casas com estilo americano, sem muros e com jardins incríveis, algumas devem custar uma dezena de milhão, num lugar que invadiu a Mata atlântica e destruiu tudo, em um dos maiores crimes contra a Serra do Mar Paulista. Alguns estavam morrendo de medo de serem pegos lá dentro, ainda mais quando a segurança passou por nós e já fez aquele olhar de reprovação, mas outros cagavam e andavam para aquilo tudo. Éramos como sempre, extraterrestres saídos sabe-se lá de onde, vindos de algum lugar que a alta Sociedade Paulista nem sabia que existia. Desfilávamos nossa pobreza financeira pelas ruas dos endinheirados rumando em direção à praia, como tartaruguinhas que correm em direção ao mar, tentando escapar dos tubarões. Passou pela gente um ônibus, que pensamos que poderia nos levar até Bertioga, mas na verdade não passava de um transporte interno do condomínio, porque não basta ser milionário, tem que ter um ônibus particular para saber como os pobres se locomovem. O motorista, vendo a nossa cara de fome, resolveu nos dar uma carona até a portaria já na beira da praia, fazendo assim com que a gente fosse enxotadados o mais rápido possível das vistas dos condôminos e assim a gente ganhou as ruas da Praia da Boracéia entre Bertioga e São Sebastião e demos por encerrado essa grande expedição, que marcou a entrada de mais um vale perdido no mapa das TRAVESSIAS SELVAGENS DA SERRA DO MAR PAULISTA. Divanei Goes de Paula- novembro/2017
  2. TRAVESSIA VALE DO GUARATUBA Nossos olhos se entrelaçaram quando as bordas do abismo se apresentou à nossa frente. Cada qual daqueles exploradores modernos se deu conta de que haviam chegado em um caminho sem volta e uma vez tomada a decisão de descer aquele vale gigantesco, estariam por conta e risco. No fundo mesmo, havia meio que um medo estampado no rosto de cada um por tudo que tinha envolvido toda a organização daquela expedição, onde o grupo se esfacelou, com membros desistindo na última hora e dizendo ser impossível tal empreitada. Mas como a vontade de realizar algo é maior do que o medo, mesmo estando diante do maior desnível que jamais havíamos enfrentado na Serra do Mar Paulista, haveríamos de nos agarrar uns aos outros, botar a faca nos dentes e inserir mais um vale selvagem nos mapas da SERRA DA AVENTURA. Quando eu dei o start, dizendo que meus próximos estudos para as travessias selvagens na Serra do Mar estavam direcionados para o VALE DO RIO GUARATUBA, o Vagner e o Potenza já saíram da moita dizendo que já fazia algum tempo que também estavam de olho nesse rio e aí não houve problemas para que resolvêssemos juntar forças para tirarmos esse projeto do papel. Acontece que eu e eles sabíamos que acessar aquele rio no planalto de Biritiba Mirim-SP, não era nem de longe coisa fácil por ele estar inserido dentro da área da SABESP (Companhia de Águas de São Paulo) e que conseguir uma autorização era tempo perdido. As conversas nos levaram a que seria preciso alguém ou algum grupo ir até o local e achar um caminho alternativo que pudesse nos levar até o rio, ou seja, uma entrada clandestina até a Estação de Bombeamento Guaratuba, uma operação de guerra que poderia nos custar o fim do projeto caso alguém fosse pego pela fiscalização. Como eu moro no interior, coube ao Vagner e ao Tony a missão inicial de tentar achar o caminho, coisas que eles fizeram como uma competência ímpar, mas infelizmente não conseguiram chegar até o rio e então seria preciso mais uma incursão, a derradeira, para que começássemos a discussão final sobre a expedição. Na segunda tentativa se juntaram ao Vagner, o Rafael, Potenza e o Daniel Trovo e o grupo se esgueirou pela madrugada numa noite de chuvas torrenciais até finalmente alcançarem a Estação de Bombeamento e voltaram de lá com o caminho pronto para o Rio Guaratuba, a primeira parte do projeto estava finalizado, hora de nos preocuparmos com a descida em si e a convocação do grupo, que logicamente teria de ser escolhido a dedo. Como sempre tudo começa com horas e horas de pesquisas na internet a fim de descobrir se haveria algum registro de descida, mas lá no fundo todos nós sabíamos que não encontraríamos coisa alguma, mesmo porque, se não havíamos encontrado nada em outros rios com desníveis muito menor, nesse Guaratuba é que não encontraríamos nada mesmo. A segunda parte é partir para os estudos topográficos e mapas de satélite e foi aí que o queixo da gente desabou no chão. O desnível parecia grande, mas no mapa topográfico era um convite ao suicídio. Mais de 800 metros em míseros 4 km, sendo que no início o rio despencava numa parede vertical em uma inacreditável sequência de abismos e penhascos inacessíveis. Pronto, era a deixa para que parte do grupo picasse a mula, desconfiados de que aquilo ali era uma furada dos infernos e cada qual tratou logo de procurar outra coisa para fazer e nos deixou com um grupo escasso, restando apenas uma meia dúzia que ainda insistia na possibilidade de êxito. A data escolhida foi o feriado da Consciência Negra, que nos daria três dias de possibilidades, mas que por uma infelicidade nossa, quando essa data se aproximou, arrastou atrás de si uma frente fria tremenda e que anunciava um dilúvio para a região. Pronto, foi a deixa para que mais gente do grupo apanhasse seus panos de bunda e fosse se aventurar em outras paragens, ninguém seria retardado para enfrentar uma descida naquelas e com aquele tempo na sucursal do inferno. Pois é, eu mesmo queria saber se os que sobraram estavam mesmo engajados no projeto e se ainda lhes interessava ariscar suas vidas naquele vale, muito porque não haveria outra oportunidade nesse ano e para minha surpresa ainda restaram além de mim, mais quatro suicidas. É numa sexta-feira chuvosa e de transito infernal que me encontro com o Paulo Potenza no metrô de Itaquera, na zona leste da capital Paulista. Mal nos cumprimentamos e ele já veio com aquela conversa de “cerca Lourenço”, dizendo que com aquele tempo éramos candidatos a sair daquele vale como passageiros de um certo helicóptero do Águia. Enquanto o trem sacolejava na estrada de ferro, ele ia me passando um milhão de dados acerca da descida do Guaratuba, onde dizia ele ter descoberto que ali era a morada do próprio satanás e que a gente estava sendo atraído para uma grande armadilha. Eu ia escutando tudo que ele dizia, mas no fundo estava cagando e andando para os dados, muito porque não foram poucas as vezes que em outras expedições eu tive que escutar lamúrias negativas de outros exploradores e sempre me mantive firme. É mais uma vez com uma grande alegria e satisfação que na Estação de Suzano volto a rever meus amigos Daniel Trovo e VGN Vagner e passo a conhecer o Tony, que vai ser o novato do grupo e enquanto esperávamos a VAN que nos levaria para a trilha, aproveitamos para colocar o papo em dia e juntos tentarmos resistir as investidas do Potenza que tentava salvar nossas vidas da tragédia que se anunciava, pelo menos na cabeça dele. Não demora muito e o nosso transporte chega e com ele um motorista loroteiro que foi contando histórias sem pé nem cabeça e fazendo a gente dar muita risada. O motorista era alegre e sorridente, mas quando chegamos em Biritiba Mirim e o Vagner indicou que teríamos que pegar a estrada de terra para o destino Casa Grande, o piloto começou a definhar na escuridão daquele fim de mundo. A estrada fazia curva atrás de curva e nunca chegava a lugar nenhum e o motorista só fazia coçar a cabeça e o saco e amaldiçoar a dia em que ele foi aceitar aquela viagem onde cinco sem noção diziam que iriam descer para praia varando mato sabe-se lá por onde. Pouco antes do motorista ter um infarto, nosso caminho motorizado chega ao fim assim que passamos pela área principal da SABESP e pegamos logo a direita numa estradinha de terra escura e enlameada. Parados ali naquela escuridão e prestes a nos perdermos rumo ao nosso próximo destino, o Paulo Potenzaanuncia a sua desistência formal. Com os olhos arregalados de quem não sabia o que estava fazendo ali, pede mil desculpas e humildemente diz que não se sentia em condições psicológicas de nos acompanhar e é claro que nós prontamente entendemos a posição dele e achamos muito nobre da sua parte usar de sinceridade para com o grupo, do que simplesmente tentar seguir por um caminho que ele já não estava mais a fim. Bom, a gente entendeu mais ou menos, porque sempre tem uns filhos da puta que não está a fim de deixar barato e nem perder a oportunidade de dar uma zoada, então foi aí que o safado do Tony, do nada resolveu imitar um frango ou uma galinha, para aloprar a cabeça do Potenza, coisas que só as grandes amizades podem proporcionar e aí não teve jeito, fez com que a maioria do grupo rolasse no chão de tanto rir e foi assim, naquela madrugada embaçada, que vimos Potenza, Van e o motorista contador de lorotas se perderem na escuridão da noite. A caminhada agora ia começar, seriam quase 12 km até o Rio Guaratuba e logo o Vagner toma à frente, porque ele é o cara que sabia o caminho clandestino para passarmos sem ter que enfrentar a burocracia da companhia de águas. Na escuridão da noite, logo após alguns minutos, deixamos a estradinha que estávamos e nos enfiamos em outra que mais parecia uma trilha e quando chegamos a um capão de mato, adentramos no meio da floresta e fomos arrastando mata no peito e por uns quinze ou vinte minutos navegamos meio que às cegas até que a picada nos desovasse na estrada principal, já longe das vistas da Sabesp. É uma noite mesmo estranha, ao mesmo tempo quente e agradável, mas com prognóstico de muita chuva. Ganhando a estrada, em 2 km tropeçamos na primeira ponte do Rio Claro, o Vagner e o Tony vão à frente e eu e o Trovo seguimos na cola, botando a conversa em dia. Mais outros 4 km de andanças e já estávamos passando novamente por cima do Rio Claro, já que o rio vai serpenteando bem perto da nossa estradinha e à frente, numa bifurcação, pegamos para a direita e andamos mais uns 4 km e logo, após cruzarmos mais uma grande ponte, aparece a iluminação da Estação de Bombeamento Guaratuba. Os corações ficam acelerados e a apreensão toma conta de todo mundo porque não passa pela nossa cabeça sermos pegos àquela hora da noite e dizer adeus ao nosso projeto. Devagar e silenciosamente dobramos a curva e adentramos nas instalações e mesmo sabendo que nossas intenções são das melhores, porque não queremos mexer em nada que não seja da nossa conta, não tem como não sentir aquele frio na barriga que só passaria ao constatarmos que tudo estava vazio e usando do mesmo método da primeira investigação, os meninos conseguem sutilmente abrir as portas e nos botar para dentro e ali faríamos nosso abrigo até que um novo dia rompesse dizendo que havia chegado a hora da aventura começar. Foi uma noite difícil, com sobressaltos constantes, sempre com aquele medo de sermos surpreendidos, mas logo antes que o despertador batesse seis da manhã, pulamos rapidamente de dentro dos nossos sacos de dormir, arrumamos as mochilas e saímos vazados de lá. A Estação de Bombeamento Guaratuba fica bem `as margens do rio de mesmo nome e como não poderia deixar de ser, junto dela uma pequena barragem faz a contenção do rio, que surpreendentemente, apesar das chuvas dos últimos dias, está baixo e muito bonito. Falando em chuvas, foi mesmo uma sorte a nossa de a chuva não cair durante a noite porque se tivéssemos pego o rio bufando de cheio, muito provavelmente a moral do grupo já iria para os níveis mais baixos possíveis. Certo mesmo é que o grupo estava animado e sabedor de que os riscos eram muitos, mas nossas experiências passadas neste tipo de expedição durantes vários anos poderia nos dar uma chance de êxito, mas tudo dependeria do tipo de terreno e principalmente de como se comportaria o tempo, porque se o céu desabasse como estava previsto, aí a caldo poderia entornar de vez. Sete horas da manhã abandonamos de vez a Estação e nos enfiamos num rabo de trilha na curvinha da estrada e alguns minutinhos depois, estávamos no GRANDE POÇO DO GUARATUBA, com suas águas cor de Coca-Cola. Daqui para frente era varar mato e escalar pedras até definitivamente nos vermos à beira do rio e como ainda é muito cedo, ninguém quer molhar as botas e cada qual vai tentando se livrar como pode, até que o único caminho viável é atravessar o rio para sua margem esquerda, junto a primeira queda do rio, uma cachoeirinha bucólica e bonita, um pequeno aperitivo do que estava por vir. Atravessando junto a cachoeira, não demora muito já somos barrados por um grande poço e como vou à frente, o único caminho que percebo ser possível passar sem ter que se jogar na água, é escalando as paredes laterais, feito caranguejo, andando de lado, mas chega uma hora que o inevitável acontece e um passo mal dado me leva para dentro do rio, me fazendo empapar minhas botas e sentir o começo da gelada em que havíamos nos metido. Vendo que eu já havia me lascado logo cedo, os outros meninos já se metem num vara-mato e cortam essa parte e a gente se junta aonde a água começa a despencar do poço. A opção mais fácil é novamente voltar para a margem direita, atravessando sobre umas pedras lisas e escorregadias e logo ganhamos o outro lado, mas infelizmente nem avançamos muito e já nos apareceu o primeiro problema. Uma parede se eleva sobre nossas cabeças e a única solução que encontro é jogar uma corda e tentar descer uns 12 metros para poder chegar novamente ao leito do rio, mas infelizmente a nossa corda não conseguiu chegar até a água, faltando uns 3 ou 4 metros, então metemos de novo nossa corda na mochila e resolvemos escalar o paredão na unha mesmo e essa foi a única vez em toda essa travessia que tentamos usar a corda. Aqui na Serra do Mar a gente vê o que é escalar de verdade, não tem corda, não tem proteção, nem equipamento algum para salvar sua vida se algo der errado, é ter sangue frio, confiar na intuição de encontrar o lugar certo para pôr os pés e a planta certa para segurar as mãos, as vezes uma mera bromélia ou um cipó, talvez uma pequena raiz e aí é prender a respiração e praticamente levitar para conseguir chegar vivo ao outro lado e já ir preparando o espirito para o próximo lance. Descemos a outro patamar e foi nessa hora que o nosso mundo sumiu nos abismos colossais que se apresentou à nossa frente. Agora éramos 4 homens entregues cada qual ao seu medo interior. Ninguém disse muita coisa, mas no fundo a cabeça de cada um girava mais que o pião da casa própria. Será que valeria mesmo a pena a gente se jogar naquele vale monstruoso, com o maior desnível que a gente já tinha presenciado até hoje em toda as expedições na Serra do Mar? A confusão, a desistência de parte do grupo e de membros de última hora não seria um aviso para se levar em conta? O tempo ainda se mantinha embaçado e se a chuva viesse a cair como estava previsto, estaríamos perdidos no meio daqueles vales e pendurados em paredes escorregadias sem ter como voltar, porque uma vez tomada a decisão de adentrar rumo ao desconhecido, era caminho sem volta. No horizonte avistávamos uma grande cadeia de montanhas e florestas a perder de vista. Daniel Trovo e Vagner até vislumbraram um grande roteiro alternativo, caso as entranhas do inferno nos barrasse o caminho, mas eu sinceramente não estava nem um pouco convicto que varar mais de um dia de mato seria a nossa solução. O Tony, coitado, o debutante da turma, nem sabia na enrascada que poderia estar entrando e nem palpite dava. Por hora havíamos chegado à conclusão de que nosso maior obstáculo seriam os dois próximos afluentes, sendo que um grande afluente da direita, uma espécie de encontro de vales era o que poderia nos dizer se fracassaríamos ou não, então em um primeiro momento combinamos que nosso propósito era ir pelo menos até esse afluente e lá tomaríamos a decisão de seguir ou voltar, esse seria nosso porto seguro, mas eu duvidei desde o princípio. Tomada a decisão de seguir, comemos a torta da sogra do Trovo e partimos. Partimos para o alto, porque para baixo é caminho impossível, onde as águas despencavam exprimidas em gargantas estreitas, então o único caminho era voltar a escalar a parede do lado direito, ganhar altura e voltar a descer numa diagonal alucinante até voltarmos ao rio. Já na subida começamos a perceber que o tempo havia mudado e o sol apareceu no céu para renovar nossas esperanças. A subida é dura, pedras deslizam constantemente, urtigas vão raspando na nossa pele, transformando o nosso trabalho num árduo pesadelo, mas não demora muito para o Daniel Trovo soltar um grito estridente que ecoou por todo o vale: Paramos imediatamente para saber do que se tratava e foi aí que ele nos avisou que no meio da floresta, bem diante dos nossos olhos, dava para ver um pedacinho do mar e do condomínio perto da praia. Nos alegramos imediatamente e mais que depressa deixamos nossos corpos deslizarem barranco abaixo e nos rendemos a lei da gravidade até que o Vagner vislumbrou a possibilidade de acessarmos o rio descendo por um afluente seco, talvez apenas um caminho de água de chuva. O barulho do rio era cada vez maior e a “branquitude” de suas águas se refletiam no verde da floresta como a nos hipnotizar e a nos chamar para contemplar o espetáculo que estava por vir. A cada passo dado, ou a cada escorregão dado, a presença do gigante era sentida. Mais uma vez estávamos prestes a botar nossos olhos no que muito provavelmente ninguém ou quase ninguém jamais havia botado. Vamos nos livrando dos obstáculos, descendo, escorregando, caindo, despencando até finalmente nos vermos aos pés da primeira grande queda do Vale do Guaratuba. Uma impressionante cachoeira despencando numa fenda gigante. O deslumbramento tomou conta de todo mundo, o Daniel Trovo urrava feito doido e a todo momento agradecia a companhia de gente doida que não se deixou abater pelo medo do desconhecido. Se a cachoeira era um espetáculo, o que dizer da vista daquele patamar: Uma visão esplendorosa nos fez cair de costas. Simplesmente toda a visão do litoral aos nossos pés, com suas praias, suas ilhas e o seu mar. Não tivemos dúvidas que até então essa era a visão mais espetacular de todas as travessias selvagens na Serra do Mar até hoje, mas felizmente, estávamos redondamente enganados. Ficamos ali, junto a cachoeira conversando sobre o futuro incerto daquela expedição e enquanto as ideias iam surgindo, a gente ia se deleitando com alguns petiscos e mais uma rodada de torta da sogra do Trovo. A gente estava contente, não só pelo bom andamento da empreitada, mas porque o grande astro resolverá reinar no céu e aquecer as nossas almas famintas de aventura e para marcar essa primeira conquista resolvemos nomear aquela queda como SALTO DO CACAREJO, haja vista que havíamos dado muitas risadas do acontecido com o nosso amigo Potenza e lamentamos muito que ele não estivesse com a gente. Abandonamos o grande salto e caímos novamente no mato porque seguir pelo rio já sabíamos ser impossível. A tenção vai aumentando a cada metro vencido, mas o alívio também é sempre comemorado a cada obstáculo ultrapassado. Mesmo tendo que descer, a única solução é ganhar altitude para poder escapar dos paredões à beira do abismo, que insiste em querer nos jogar nas gargantas. Geralmente as ações seguiam sempre um mesmo ritmo, com eu e o Vagner nos revezando no vara-mato com o Trovo dando as direções que achava necessárias e o Tony fazendo as honras do cú de tropa, que é sempre o lugar mais confortável nessas expedições. O grande problema é sempre saber a hora certa de abandonar mais ou menos a caminhada em nível e partir para a despencada final do barranco, às vezes uma decisão mal tomada faz com que tenhamos que voltar a ganhar altitude novamente e aí dá vontade de sentar e chorar, mas não há tempo para isso, é preciso tomar folego e voltar a escalar as paredes lisas e sempre torcer para que nenhuma pedra role e atinja o explorador que vem logo atrás. Já no alto novamente, desembestamos agora numa descida alucinante e ao encontrar um grande degrau para descer ao rio, eu e o Vagner resolvemos ariscar, enquanto o Trovo e o Tony acharam um caminho melhor e logo toda a equipe se amontou em um grande patamar de rocha, junto a uma cachoeira linda onde se descortinou toda a magnitude do Oceano à nossa frente, hora de estacionar ali e deixar aflorar todo o prazer de ter podido ter a oportunidade de conhecer um lugar daquele. Poucas eram as nuvens no céu e o sol queimava tudo. No horizonte era possível quase que ver as barracas na praia de Boracéia e a gente não conseguia se conter de tanta felicidade por saber que, muito provavelmente éramos os únicos ou ao menos estávamos entre os poucos privilegiados a poder deslumbrar aquela paisagem. A cachoeira despencava numa rampa e depois caia sobre uma gruta formando um poço profundo. Já passava do meio dia e o cansaço também tomava conta da gente, já que havíamos dormido quase nada. Eu aproveitei para aquecer o corpo depois de entrar na água gelada e por um tempo fique lagarteando sob o sol, mas o Tony não tinha como esconder, a cara dele denunciava seu sofrimento aparente. Ele havia descido escorregando e caindo em tudo que é lugar e eu mesmo naquela hora cheguei a duvidar da capacidade dele de chegar inteiro no final da expedição, acho que ele mesmo ainda não havia se conformado de ter entrado naquela furada e acho que pensava constantemente onde foi que ele resolveu amarrar seu bode. Os meninos se divertiram entrando na gruta e se escondendo atrás do véu da cachoeira e eu me esbaldava com a visão do mar e logo o trovo já veio oferecendo mais torta da sogra, cada um comeu um pedaço e quando nos saciamos de torta e de daquele visual, abandonamos a CACHOEIRA GRUTA DA BELA VISTA e fomos nos aventurar em outras paragens, mas para isso tivemos novamente que estudar o caminho e ver as possibilidades viáveis. Já estávamos nos aproximando do momento crucial, onde havíamos definido que seria o lugar que poderíamos ser barrados. Primeiramente sempre depois de voltarmos a subir paredes lisas e varar mais mato nos segurando nos cipós e em vegetação cada vez mais espinhuda, cruzamos por um dos afluentes que localizamos no mapa topográfico, mas que para nossa sorte, não passava de um vale seco, talvez apenas um escoadouro de águas da chuva e logo conseguimos voltar ao rio , aonde uma singela cachoeira que despencava de um amontoado de pedras enormes nos dava as boas vindas e nos instigava a pular no seu poço de aguas escuras, chamamos de CACHOEIRA Da CUNHA ,mas resolvemos não nos demorar muito ali, estávamos ansiosos para chegarmos logo ao grande afluente superior e ver qualquer que era as dificuldades que ele iria nos impor. Desta vez não tinha jeito, era subir até onde o terreno desse passagem, muito porque, ao encontrarmos mais um rio seco, tentamos descer e fracassamos, então varamos matos e samambaias gigantes, até que lá do alto avistamos o rio se encontrando com o afluente que buscávamos. Contornamos mais acima ainda para escapar dos abismos e sem muita demora desembocamos bem acima do tal afluente, de águas cristalinas e vistas espetaculares das praias e do próprio Rio Guaratuba encontrando o mar. É impressionante como a gente projeta as coisas baseadas nos nossos medos interiores. Achávamos que ali seria as bordas do planeta, donde cairíamos nos abismos do além, mas ao contrário disso, nos deparamos com uma queda d’água deslumbrante e com vistas para o jardim do Éden. Imaginávamos que ao chegarmos nesse trecho estaríamos numa espécie de proa de navio, aonde descer seria impossível e voltar , necessário. De cima daquele patamar, junto aquele afluente lindo era possível ver o grande rio Guaratuba correndo um pouco mais manso logo abaixo e no Horizonte uma floresta verdejante se juntando ao oceano e para marcar esse incrível lugar resolvemos chamar essa queda d’água de CACHOEIRA DA PROA. Depois de um breve descanso, resolvemos descer ao pé da cachoeira e num piscar de olhos, já havíamos escorregado para baixo da sua queda aonde os mais corajosos, não eu, já se meteram embaixo dela e ficaram lá por um bom tempo se refrescando. Quando todos estavam satisfeitos, jogamos as mochilas nas costas e fomos desescalando pedras e descendo degraus até retornarmos ao rio e como as surpresas nessas expedições nunca parecem ter fim, fomos desembocar em mais uma espetacular cachoeira que vinha de um afunilamento e depois se esparramava sobre as pedras e caia em mais um poço de águas escuras, hora de parar para mais uma rodada de ócio, acompanhada de pedaços suculentos da torta da sogra do Trovo e de deliciosos petiscos roubados de uma certa festa de aniversário e para marcar mais essa conquista chamamos aquela queda de CACHOEIRA DA JUNÇÃO. O dia estava rendendo e já estávamos a mais de sete horas num ritmo alucinante e agora uma brecha no rio nos fez passar para o lado esquerdo e nossa caminhada vai seguindo passando por um infinidade de pequenas cachoeirinhas, onde descer de grandes matacões e rampas rochosas sempre era preciso, mas varar mato nunca saia de moda e logo estávamos novamente descendo ao pés de mais uma grande queda, aliás, uma não, três quedas. Talvez uma das mais bonitas sequencias de saltos, com um poço gigante que vai hipnotizando um a um até que eu mesmo, que não sou muito chegado em aguas frias, não me contenho e vou parar no fundo do rio. O Tony, o Trovo e Vagner já se enfiam debaixo na última queda e só saem de lá porque já sabem que o dia não tarda em se findar e é preciso adiantar o passo e ganhar terreno. A CACHOERIA DOS TRÊS POUSOS, serviu para termos uma certeza: Aconteça o que acontecer, nada mais poderia nos deter na nossa caminhada rumo ao litoral, mesmo que algo viesse a dar errado, o único caminho possível era finalizando essa travessia selvagem. Outra cachoeira é cruzada e quando mais uma garganta no fecha o caminho, é hora de voltar para o mato, comer folha, se pendurar em arvores de espinho, varar terreno irregular, subir pendurado em arbustos podres e rezar para que eles não quebrem e nos faça despencar nos abismos. O corpo já do sinal de que está chegando ao seu limite e já começamos a cogitar em encontrar algum lugar para acampar, mesmo porque o tempo já começa a fechar e não tarda em começar a chover, mas acampar nesses lugares não é coisa fácil, o terreno é muito irregular e achar arvores que preste à beira do rio é algo trabalhoso. Já passa das quatro da tarde e ao tropeçarmos em um afluente de águas cristalinas, a gente jogas as mochilas ao chão e damos como encerrado esse dia de aventuras e deslumbramentos. É um lugar imprestável para acampar, mas é o que temos para hoje e foi bom parar aqui porque na mesma hora as torneiras do céu resolveram se abrir. A chuva caiu por uns quinze minutos e quando parou foi a deixa para montarmos nossas redes, coisa que fiz em menos de vinte minutos e por estar tão cansado, ao deitar sobre ela, não consegui mais me levantar e apaguei por umas duas horas e só acordei porque os borrachudos já haviam comido uma das minhas pernas e a chuva havia inundado a minha rede porque os meus vizinhos resolveram cair da rede e levar junto a cordinha do meu toldo. A noite já havia caído e eu estava envolto no meu sofrimento, com a cara toda inchada de tanto borrachudo. Levantei-me naquele aguaceiro todo e na escuridão da floresta tentei encontrar minha lanterna para ver se conseguia fazer uma janta, mas desisti, não consegui localizar um palmo de terreno plano nem para estabilizar meu fogareiro e por estar com a barriga entupida de uma certa torta, nem fome estava sentindo. Enquanto eu tentava concertar meu toldo e instalar meu mosquiteiro corretamente, um dos meus vizinhos, um tal de Tony, se debatia na sua cama de mato e expunha todo o seu sofrimento de novato nessas expedições. Sem saco de dormir, numa rede molhada e sem mosquiteiro, ele exalava sofrimento que beirava o desespero, e essa foi mais uma noite passada no inferno. Para nossa sorte o dia amanheceu sem chuvas e logo que um facho de luz iluminou nosso acampamento, pulamos das redes para um desjejum meia boca. Havíamos acampados surpreendentemente na cota 350 m de altitude, conseguimos descer 500 metros de desnível em um só dia, mas sabíamos também que em matéria de distância, havíamos percorrido muito pouco e ainda teríamos muita quilometragem para descer o rio, varar mato, subir parede. Aliás, por falar em paredão, o nosso destino nesse novo dia era nos livrarmos de uma parede gigante, aonde pelo rio era impossível passar porque uma garganta profunda já se apresentava à nossa frente. Tentamos subir o afluente do nosso lado esquerdo, mas logo vimos ser impossível e aí tivemos que escalar uma das suas margens e dar uma grande volta até nos posicionarmos acima da própria cachoeirinha, passar para o outro lado e escalar uma parede menor. A sequência foi um teste de paciência, sempre tentando achar uma diagonal que nos devolvesse de volta ao rio, aonde vislumbrávamos chegar aos pés de outra grande cachoeira. A gente deu a volta em um morrote para cortar caminho e fomos descendo, perdendo altura aos poucos, nos livrando dos obstáculos, mas quando vimos que estava difícil achar uma linha de árvores para voltarmos ao rio, não teve jeito, saímos deslizando barranco a baixo nos guiando pela luminosidade da grande queda d’água até chegarmos em um patamar ao alto imediatamente jogarmos nossas mochilas ao chão para melhor podermos no desfrutar daquele espetáculo aquático. Mais uma cachoeira gigante se descortinou no meio da floresta. Três quedas despencando, sendo a última muito maior e caindo em um poço gigante. Para nossa surpresa havíamos andado muito e quase não saímos do lugar e acabamos voltando ao rio pouco abaixo de onde havíamos bivacado. Infelizmente descer até o pé da cachoeira seria um esforço enorme e como havia voltado a chover um pouco, o rio estava cheio e se aproximar da queda, muito perigoso, então batemos uma foto, viramos as costas e seguimos nosso caminho e para marcar esse ponto geográfico chamamos de CACHOEIRA NEBLINA DO GUARATUBA. Surpreendentemente aquela expedição estava seguindo seu curso numa normalidade jamais pensado pela gente, perdíamos altitude rapidamente. Nada era fácil, claro, um terreno terrível e desafiador, mas que aos poucos ia sendo conquistado e por volta da onze da manhã já conseguíamos ganhar distância caminhando pela margem do Guaratuba e ao chegarmos numa espécie de ilha foi que conseguimos achar um lugar decente que poderia ser transformado em um lindo acampamento, inclusive com uma gruta que poderia servir de abrigo para um grupo inteiro e para marcar esse lugar foi ali que resolvemos deixar nossa CAPSULA DE REGISTRO DE TRAVESSIAS SELVAGENS , bem na cota 200 de altitude.. Mas desta vez não foi nada elaborado, porque eu havia decidido não carregar nada que pudesse colocar minha segurança em risco com peso excessivo, diante da perspectiva de uma travessia ariscada. A capsula dessa vez foi improvisada com uma garrafa de boca larga e dentro deixamos os manuscritos de nossa passagem pelo vale, marcando assim essa conquista inédita, pelo menos em tempos modernos. A partir desse ponto o grande Rio Guaratuba já começou a dar sinais de calmaria, que ia se alternando com pequenas quedas. O caminho ia seguindo, cruzando por ilhotas e matacões, hora a gente seguia pelo mato, agora já com pouca inclinação, hora descíamos pelo próprio rio, as vezes alternando de margem. Até então não havíamos encontrado qualquer sinal de passagem humana, nada que nos dissesse que um dia aquele vale teria recebido alguma pegada humana, mas quando o terreno caiu abaixo dos 100 metros de altitude começamos a desconfiar de que logo poderíamos encontrar rastros de civilização e ao cruzarmos um bonito afluente do lado esquerdo, paramos para acabar de vez com a torta da sogra do Trovo e logo a frente um rabo de trilha foi localizado, então estacionamos imediatamente já que o caminho se dirigia para longe do rio. Aquela trilha poderia não nos levar a lugar nenhum, poderia servir apenas para acessar o interior da floresta para extração ilegal de palmito, mas também poderia servir para cortar caminho numa grande curva do rio, então resolvemos ariscar e ir acompanhando no mapa sua direção. Num primeiro momento ela se afastou, mas logo voltou a direção que nos serviria. Avançávamos a passos largos, mas como a tarde já estava chegando, decidimos andar até encontrarmos um local privilegiado para acamparmos, talvez algum rancho de pescador ou de caça. A trilha nos desovou novamente no rio, que agora era raso e com vária prainhas de areia. Suas águas eram cor de coca –cola, como as da Chapada diamantina e de Ibitipoca. Poderíamos acampar em qualquer lugar, mas a trilha era tão plana e gostosa de andar, que a gente se empolgou e quando a trilha sumia, avançávamos pelas areias do rio até que na sua margem direita surgiu uma trilha mais larga ainda e através dela a gente foi deslizando por muito tempo até que ela também acabou novamente no rio. A trilha continuava do outro lado do rio, mas começava a subir o rio como se tivesse voltando , então resolvemos abandoná-la e voltar a descer pelo rio, hora pelas praias de areia, hora por dentro da água mesmo, mas por um golpe de sorte, o Vagner resolveu olhar no nosso mapa e descobrimos que aquela trilha era na verdade o acesso para sair do rio e ir em direção ao condomínio por onde pretendíamos encerrar nossa expedição, retornamos imediatamente, mas desta vez convictos de que aquela jornada terminaria naquele dia mesmo. A trilha realmente era estranha, estávamos subindo o rio, mas tinha algo que a gente não havia se dado conta, aquele rio na verdade era um afluente do Guaratuba e logo a direção desse caminho começou a apontar para a civilização. Havia uma preocupação de como conseguiríamos entrar em um condomínio de luxo e cruza-lo por uns 5 km sem sermos notados. Cruzamos o afluente bem nas costas das casas do tal condomínio, que para nossa sorte não tinha muros ou cercas e ao subirmos o barranco, saímos atrás de uma casa que parecia não haver ninguém. Passamos por seus domínios na surdina, cruzando uma espécie de garagem e caímos nas ruas do milionário CONDÔMINIO MORADA DA PRAIA. Quatro eram os homens que desfilavam sua felicidade e seus orgulhos naquele que sem dúvida deve ser um dos lugares com o maior número de milionários do Brasil. Casas com estilo americano, sem muros e com jardins incríveis, algumas devem custar uma dezena de milhão, num lugar que invadiu a Mata atlântica e destruiu tudo, em um dos maiores crimes contra a Serra do Mar Paulista. Alguns estavam morrendo de medo de serem pegos lá dentro, ainda mais quando a segurança passou por nós e já fez aquele olhar de reprovação, mas outros cagavam e andavam para aquilo tudo. Éramos como sempre, extraterrestres saídos sabe-se lá de onde, vindos de algum lugar que a alta Sociedade Paulista nem sabia que existia. Desfilávamos nossa pobreza financeira pelas ruas dos endinheirados rumando em direção à praia, como tartaruguinhas que correm em direção ao mar, tentando escapar dos tubarões. Passou pela gente um ônibus, que pensamos que poderia nos levar até Bertioga, mas na verdade não passava de um transporte interno do condomínio, porque não basta ser milionário, tem que ter um ônibus particular para saber como os pobres se locomovem. O motorista, vendo a nossa cara de fome, resolveu nos dar uma carona até a portaria já na beira da praia, fazendo assim com que a gente fosse enxotadados o mais rápido possível das vistas dos condôminos e assim a gente ganhou as ruas da Praia da Boracéia entre Bertioga e São Sebastião e demos por encerrado essa grande expedição, que marcou a entrada de mais um vale perdido no mapa das TRAVESSIAS SELVAGENS DA SERRA DO MAR PAULISTA. Divanei Goes de Paula- novembro/2017
  3. Almeidass, Muito obrigado, essa foi sempre a intenção , fazer com que as pessoas saiam por aí sozinhas , sem a necessidade de contratarem nenhum guias se não quiserem. Valeu meu amigo !
  4. O RELATO da Conquista está nesse link abaixo, com isso temos duas descrições que vai ajudar qualquer um com um mínimo de experiência em escalada a se dar bem no maior ícone do montanhismo nacional.
  5. DEDO DE DEUS-RJ: A conquista que atravessou o tempo. 1997: Dois amigos de infância tentam alcançar a montanha mais lendária do Brasil, sem experiência nenhuma em escalada, tentando laçar pinos com uma corda de sisal, fracassam e fazem um juramento de um dia botar os pés no topo daquela montanha. Juntos, ganham parte do Brasil subindo outras montanhas, atravessando vales selvagens, desbravando lugares praticamente intocados e um deles também se aventura por outros caminhos do Continente Sul-americano. A vida vai passando, os filhos vão chegando e entre uma montanha e outra, sempre ficam remoendo o fato de ainda não terem cumprido a promessa que haviam feito. 2017: (junho) Por um golpe do destino, apenas um desses dois amigos consegue se agrupar com outros amigos em comum e numa tentativa de chegar ao cume da montanha, perdem a trilha, cometem alguns erros e são obrigados a enfiar o rabo entre as pernas e voltarem para casa sem chegar ao topo: mais um fracasso! Tendo já feito praticamente tudo em matéria de montanhismo clássico, subido todo tipo de montanha no Brasil e algumas fora dele, tendo me dedicado vários anos a exploração selvagem de vales e rios, tendo tido a honra e a oportunidade de, junto com alguns amigos, poder botar meus pés em montanhas onde outros jamais puseram, vi que havia chegado a hora de aprender os rudimentos da escalada. Quase que inconscientemente eu sabia que aquela promessa feito 20 anos atrás, jamais sairia do papel se uma atitude não fosse tomada. Mas há um porem: A escalada é um mundo fechado e diferentemente do montanhismo clássico, poucos são os praticantes que estão dispostos a perderem seu precioso tempo para ajudar novatos, muito porque esse é um esporte caro e por isso mesmo, o tipo de gente que o pratica costuma ser um pouco mais elitizada. Como, ainda bem, tudo na vida tem suas exceções, um convite de um casal de amigos para conhecer o esporte, fez com que eu tivesse esse primeiro contato com o mundo das paredes. Aprendi meia dúzia de procedimentos, mas foi o suficiente para eu voltar a sonhar com a promessa de 20 anos atrás. Num dia qualquer, sem nada para fazer em casa, tive uma “ideia brilhante”: Peguei minha velha corda de rapel, minha cadeirinha antiga e um freio da década de 90 e uns mosquetões de aço de construção civil e convidei meu grande amigo de infância e mais outros novos amigos de algumas roubadas memoráveis. e foi assim que 4 paspalhões se encaminharam para uma pedreira abandonada em Campinas, que virou palco de escalada com mais de 80 vias, no interior de São Paulo. A nossa chegada à Pedreira do Garcia acabou por se tornar um evento de bizarrices, os escaladores locais nos olhavam com cara de reprovação, alguns com cara de nojo, mas a gente estava feliz. Subíamos três ou quatro metros de paredes e nos divertíamos para valer com aquilo e pouco nos importávamos se tinha gente gostando ou não, a gente nunca esteve nem aí pra coisa alguma porque ao contrário do que os outros imaginavam, tínhamos plena consciência do que estávamos fazendo, porque não éramos garotinhos brincando pela primeira vez no balanço da mangueira e naquela mesma pedreira, mais de uma década atrás, a gente já tinha feito muito rapel e ficar pendurado numa corda não era nem de longe nenhuma novidade pra gente. Voltamos um outro dia na Pedreira, agora com uma corda de escalada conseguida pelo Alexandre e algumas costuras, estávamos evoluindo, no nosso conceito, porque no conceito de outros, continuávamos os mesmos merdas de sempre, rsrsrsrsrsr. Mas, como ainda é possível continuar acreditando em parte da humanidade, alguns escaladores se sensibilizaram com a gente e vieram oferecer ajuda, gente que hoje somos eternamente gratos, do qual acabamos nos tornando amigos também. Naquele dia, com uma corda de escalada, mesmo com o fiofó na mão, alguns de nós conseguiu guiar algumas vias fáceis, no caso, eu, o Vinícius e o Dema, porque o Alexandre mal conseguia se segurar a três metros, inclusive eu e o Dema comentamos que o Alexandre era um dos que não iria a lugar nenhum, não havia nascido para o esporte. Entre idas e vindas à pedreira, somente o “molenga” do Alexandre foi quem efetivamente começou a se dedicar verdadeiramente ao esporte, porque eu e o Dema aparecíamos esporadicamente, às vezes passávamos meses sem nem aparecer por lá. O Vinícius foi outro que procurou correr atrás, fazendo alguns cursos de técnicas verticais com a galera da espeleologia e começou a subir alguns degraus na escalada. Mas foi mesmo o safado do Alexandre que se entregou de cabeça, foi ele quem correu atrás de se especializar, fez cursos rápidos no Rio de Janeiro e adquiriu equipamentos mais modernos. Continuamos a nos encontrar para algumas vias de escalada, inclusive em algumas paredes de escalada clássicas, mas nada que exigisse muito da gente e sempre que estávamos juntos, lembrávamos que um dia havíamos combinado que escalaríamos o Dedo de Deus e que quando isso fosse acontecer, iríamos pegar firmes e treinar pelo menos uns três meses antes. Pois é, mas um dia o Alexandre me manda uma mensagem no meio da semana e me diz : -“ Se prepara Divanei, domingo vamos subir “sua montanha”. O Alexandre estava de brincadeira, não havia o menor cabimentos de nos metermos naquela enrascada de uma hora para outra sem uma preparação específica, mas ele não queria nem saber, era agora ou nunca e pior, o Dema não poderia ir nessa data, logo ele que havia jurado estar comigo no topo daquela montanha antes de morrer. Não era o que eu queria, mas era o que me restava e se eu não fosse, não aproveitasse aquela oportunidade, talvez jamais teria outra. Eu não estava pronto, mesmo assim aceitei o desafio. Chegamos em Teresópolis de madrugada e mesmo praticamente sem dormir, nos lançamos na trilha que nos levaria às paredes do Dedo de Deus, nos agarramos aos cabos e cordas e quando vimos, estávamos perdidos lá no começo da via Teixeira. Havíamos perdido a trilha de acesso à VIA LESTE e quando a reencontramos, tínhamos perdido várias horas, além de já encontrarmos outros escaladores congestionando a parede de escalada. Cometemos alguns erros, demoramos demais e quando a noite nos pegou, estávamos ainda a mais ou menos uma hora do cume e para piorar, perdemos a sequência da via e sem saber para onde ir, demos meia volta e descemos no escuro fazendo rapel e desescalando até depois da meia noite, FRACASSAMOS BONITO ! Voltei para casa arrasado, decepcionado, havia decidido que não queria nem escalar mais. Mas a raiva passou uma semana depois e caí na besteira de contar em relato como havia sido aquela aventura fracassada. Resolvi contar como se sentia um novato no mundo da escalada, os sofrimentos, as dificuldades, as agruras, os erros cometidos e os medos passados. Foi a deixa para parte da comunidade escaladora me bombardear sem dó nem piedade, destilaram ódio, não aguentaram ver novatos como a gente se meter sem um guia no solo sagrado do montanhismo nacional. Disseram que a gente havia subido nos cabos de forma totalmente errada e que agora havíamos comprometido a estrutura dos mesmos, colocando em risco a vida de todo mundo. Apontaram erros que eu nem havia mencionado nem em relato e nem em fotos, ou seja, aproveitaram a oportunidade para deixar bem claro que aquilo ali era feudo de meia dúzia de grupinhos constituídos. Não posso negar, fiquei puto com parte daqueles caras, mas também me serviu para correr atrás de aprender os tais procedimentos alardeados por eles, mesmo que outros escaladores tivessem me dito que isso não passava de um monte de mimimi, mas se havia algum procedimento específico, não custava nada aprender. Algumas semanas se passaram depois disso, ninguém mais tocava no assunto Dedo de Deus. O Alexandre até falava que poderia ir escalar a Agulha do Diabo com um escalador experiente qualquer dia desses, mas esse menino não se tornou amigo nosso de graça, só sendo um grande porra louca mesmo e num ataque de porra-louquisse desvairada, jogou logo no ar que voltaria na Serra dos Órgãos porque não aguentava mais ficar com aquela montanha entalada na goela. Aquilo assombrou todo mundo, porque ninguém nem sonhava em voltar lá tão sedo, inclusive o Natan e o Gersinho que estiveram lá na primeira investida, já sinalizaram que não poderiam ir na data estipulada. Para ser sincero, nem eu mesmo estava em condições de novamente fazer uma loucura daquela, de viajar em um bate e volta de 1200 km para o Rio de Janeiro, mas foi aí que o Dema me encostou contra a parede: “- Divanei, meu amigo, você esqueceu do nosso juramento? É chegado a hora, vamos lá amigão, a gente merece aquela montanha por tudo que já fizemos juntos em mais de duas décadas de montanhismo. ” 2017- (Agosto) Ali estávamos nós, depois de viajarmos por mais de sete horas, estacionamos novamente atrás do Restaurante Paraíso das Plantas, a pouco mais de 1 km da trilha de acesso ao Dedo de Deus. Alias, de onde estávamos era possível avistar o grande gigante de pedra tocando o céu, numa imagem assustadora. Já passava das duas da madrugada e combinamos em dormir até pouco depois das quatro da manhã ali mesmo, deitados no duro concreto de uma calcada fria e úmida, que faria qualquer mendigo ter náuseas. Quando o celular despertou-nos, eu que já havia dormido de bota e tudo, dei um salto, estava muito ansioso, mas não menos que o Dema , o Alexandre e o Vinícius. Arrumamos tudo nas pequenas mochilas e partimos. Uns 15 minutos de caminhada descendo o asfalto nos leva para a curva da Santinha, junto a uma pequena cachoeira e aí é só continuar descendo e ir se atentando para quando passar os dois próximos bueiros e depois do segundo, uns 30 metros à frente, entramos numa trilha, subindo o barranco à direita, que em mais alguns metros vai tropeçar numa cerca onde está a placa do Parque Nacional. Para não termos que ficar ouvindo bobagens de outrem e para não correr o risco de uma possível encheção de saco na volta, desta vez enviamos as autorizações com os nossos nomes para a sede do Parque, coisa que nem os próprios escaladores locais costumam fazer, como ficamos sabendo dos grupos que encontraríamos na montanha. Na cerca, adentramos para a esquerda e acessamos a trilha que sem nenhuma bifurcação vai nos levar em uma hora, direto para a grande parede rochosa da Toca da Cuíca, onde começam os cabos de aço. Diante da grande parede dos cabos de aço, que ainda não é a via de escalada obviamente, é preciso parar para uma breve reflexão: São quase 100 metros de cabos de aço, mas no início não existe cabo algum. São uns 10 metros de parede lisa, com uma sequência de chapeletas a cada uns dois metros. Tudo isso foi planejado para que nenhum montanhista desprovido de equipamentos de escalada pudesse acessar a montanha e segundo a comunidade escaladora, ir fazer alguma merda lá encima. Claro, isso é uma posição que eu como montanhista, apesar de entender os porquês, não concordo, mas é uma opinião exclusivamente minha, não sendo compactuada com o resto do grupo. Mas a questão nem é essa, segundo as “normas”, os cabos de aço devem ser subidos com uma corda paralela, como se a pessoa estivesse escalando de fato e usando os cabos apenas para ganhar terreno. Essa são as normas e foi por causa de contar que nós subimos apenas nos apoiando aos cabos com as mãos é que fomos “ameaçados” de morte e de linchamento pelos escaladores, mas não me contentando com essa cagação de regra toda, fui ler relatos e ver vídeos na internet e foi aí que me caiu a ficha. Praticamente todos os vídeos que eu vi e relatos que eu li, todo mundo subia o cabo de aço feito chimpanzé de circo e para minha surpresa, eram escaladores renomados, gente experiente, dono de agencia de escalada, que fazia esse procedimento inclusive guiando seus clientes. Diante do exposto acima, conclui que havíamos sido apenas vítimas de preconceito por nos colocarmos como iniciantes no esporte e querermos fazer algo que apenas os mais graduados se achavam no direito de fazer. Claro, não posso deixar de citar as dezenas de pessoas que entraram em contato comigo depois do primeiro relato, oferecendo nos guiar de graça e também agradecendo por eu ter tido a coragem de contar algo que parece ser um tabu na escalada, porque esse não seria um esporte para pessoas fracas e todo mundo que escala estaria acima desses “sentimentos mesquinhos “, o que obviamente não passa de uma grande bobagem. Bom, o certo é que a gente tinha combinado que da próxima vez que voltássemos lá, procuraríamos seguir todas as regras da ABCR (associação brasileira dos cagadores de regras), mas diante de tudo que havíamos visto, resolvemos somente subir pensando mesmo só na nossa segurança e para subirmos os primeiros 10 metros sem cabos, usamos 2 solteiras cada um. Escalávamos um misero metro, colocávamos uma solteira longa e quando alcançávamos a próxima chapeleta, instalávamos mais uma solteira e retirávamos a anterior e assim sucessivamente até ganharmos os cabos de aço. Nos cabos de aço apenas nos preocupamos em clipar as duas solteiras e ir subindo nos apoiando levemente. Claro, há a possibilidade de por qualquer descuido escorregar e despencar por uns 4 metros e a gente sabe que solteira não foi feita para receber impacto, mas como não se trata de uma queda livre, é quase impossível haver um rompimento. Mas também, se o sujeito não tem competência para se segurar num cabo tão grosso que é capaz de aguentar o peso de ônibus, então não há nenhum motivo para que esteja ali, que vá procurar outra coisa para fazer e além do mais, nós estamos acostumados a nos pendurarmos em paredões escorregadios de 200 metros na Serra do Mar apenas nos segurando em cipós, bromélias e cordinhas de varal e aqueles cabos são brincadeirinha de criança no jardim da infância. Não levamos nem quinze minutos e já nos livramos daquela parede, depois os cabos se alternam com algumas cordas e como dessa vez já conhecíamos a trilha, mais uns 15 minutos nos deparamos com a bifurcação à direita que vai nos levar direto para a via de escalada propriamente dita ( via Leste), seguindo a esquerda ou reto é a continuação da trilha para a via Teixeira, a via da conquista de 1912. Essa trilha para a direita vai beirar um grande paredão e também vamos ganhando altura e terreno nos valendo de alguns pedaços de cabos de aço e cordas velhas e não leva nem 15 minutos, já estamos no selado de conexão entre o Dedo de Deus e o Polegar. O caminho para a via de escalada segue para a esquerda, mas antes fomos até o Polegar para admirar o gigante de pedra. De cima do Polegar é possível vislumbrar toda a parede que iremos escalar a partir de agora e é a hora de sentir a grandiosidade daquela montanha lendária. Eu e o Dema estamos ansiosos porque é chegado a hora de nos lançarmos para aquilo que esperamos por vinte anos e agora é caminho sem volta, estamos prontos e resolutos a não cometermos nenhum erro dessa vez. Descemos ao selado entre o Polegar e o Dedo de Deus e adentramos logo na última escalaminhada até o início da escalada e ao chegarmos na primeira enfiada (lance) decidimos que não escalaríamos encordados, muito porque essa primeira enfiada tem somente um lance de escalada e o resto não passa de uma escalaminhada. Da outra vez, essa foi a única parte que cai porque entrei com o pé errado. Aqui muitos se enfiam dentro de uma pequena fenda a esquerda e vão ganhando altura até conseguir uma mão na pedra abaulada. O Vinícius subiu com a ajuda do Alexandre e amarrou a corda em um arbusto apenas para que a gente tivesse uma segurança psicológica. Logo em seguida o próprio Alexandre se pendurou e ganho o patamar mais acima. Eu e o Dema analisamos melhor a subida e concluímos que o melhor mesmo era subir pela direita, que é muito mais exposto, mas muito mais fácil e para não corrermos risco de despencar no vazio, providenciei um prussik de segurança e o amarrei à corda e subimos de Batmam mesmo e já nos encaminhamos para a segunda enfiada, onde os outros dois já nos esperavam, fim da brincadeira, hora de checar todos os procedimentos e começar a escalar de verdade. Dessa vez estávamos em quatro e não mais em cinco, mas não sei porque, acho que é pura perseguição, o Alexandre mais uma vez me colocou novamente como cú de tropa, ou seja, o ultimo de novo. A configuração se deu então com o Alexandre guiando e como ele é esperto, colocou logo o Dema para fazer a segurança dele, acho que no intuito de filar uns torresmos e umas mandiocas fritas de vez enquando, já que o Dema sempre carregava esses petiscos a tira colo. O Vinícius desta vez insistiu em ficar em terceiro para poder operar a câmera e a máquina fotográfica. Ancorados numa árvore e em um “P” sobre um platô de pedra, ficamos ali a acompanhar o Alexandre levar nossa corda para cima. Nessa segunda enfiada é preciso se enfiar numa chaminé de meio corpo, ganhar altitude e já sair dela. É um lance fácil para qualquer escalador, mas obviamente para alguns de nós que não tem lá tanta experiência assim, qualquer lance no Dedo de Deus vai ter que ser vencido na raça e nada vai vir de graça. A parada dessa segunda enfiada é lá encima já perto de uma rampa exposta que leva à gruta onde está a árvore e onde as vias se separam em duas. Quando o Alexandre chegou nela, já nos avisou pelo rádio (sim, a gente levou rádio) que poderíamos subir. O Dema foi o próximo e como ele era o único que ainda não havia subida aquele trecho, teve uma certa dificuldade no início e pagou o preço de ser o “debutante “da turma, mas como ele é um cara safo, não demorou muito, já se juntou ao Alexandre. O Vinícius nem perdeu tempo também, trepou na rocha e subiu feito um lagarto assustado e quando percebi, ele já havia sumido da minha vista. Quando chegou minha vez, desclipei minha solteira do pino e já me agarrei à rocha e me enfiei na fenda e fui subindo por dentro dela e logo a subi como se estivesse numa chaminé e assim consegui ganhar a parede do lado direito, que é meio arredondada, mas com várias agarras boas. Ao chegar ao fim dessa paredinha é preciso fazer uma espécie de travessia mais para a direita, se segurar numa raiz e ganhar um arbusto. Daí para frente é uma subida gostosa, cheio de grandes agarrar até finalmente dar de cara com a rampa que leva até a gruta. Essa rampa é meio exposta, mas a rocha é muito áspera e subir por ela desencordado é bem seguro e foi o que fizemos. Agora reunidos dentro da gruta, aos pés de uma grande árvore que teimosamente sobrevive ali naquele mundo hostil, havia chegado a hora de enfrentar mais uma vez a temida enfiada conhecida por MARIA CEBOLA. Na gruta, junto à arvore, a sequência da escalada se divide em duas: Temos a já citada Maria Cebola, que é uma curva tenebrosa na quina da montanha, bem na beira do abismo de centenas de metros e a outra variante é uma sequência de chaminés escuras conhecida como Blackout . A gente já tinha se fodido na Maria Cebola da outra vez e agora decidimos que iríamos “se foder” novamente (rsrsrsr). Mais uma vez coube ao Alexandre levar nossa corda, mas antes ligamos os rádios porque depois da curva do abismo, a comunicação fica bem prejudicada. Ver o Alexandre guiar ali é um motivo de orgulho para a gente, um cara que até esses dias mesmo tinha dificuldade para subir até pé de goiaba e agora estava escalando naquele nível, com aquela eficiência, é um avanço muito acima da média. E ele fez mesmo bonito, nem chegou a sofrer na curva e quando pisquei o olho, ele já estava no arbusto montando a parada e pedindo para o Dema subir, hora de comer uns torresmos e nos preparáramos para o show, de horrores. ( rsrsrsrsr) Eu e o Vinícius também já havíamos passado por isso na primeira vez e agora a gente ia se divertir vendo o inexperiente Dema passar pela Maria Cebola. Como todo mundo, ele já se pendurou na primeira costura e se jogou, pulando de cima da árvore direto para a parede e antes mesmo de se estabilizar, já tremeu as pernas buscando alcançar a nova costura à frente, onde já tratou de passar a outra corda que prendia ele a mim e ao Vinícius. Aos trancos e barrancos chegou à curva, aonde um escalador local contou que havia visto a sua vó e ali naquela curva de gente morta, o coitado pagou todos os seus pecados, desta e das vidas passadas. Esqueceu de retirar a corda que o prendia à costura e ficou preso na curva com o corpo pendendo para o precipício. Ficou gritando para liberar a corda e quando ela afrouxou um pouco, desesperado gritou para retesar. Fazendo a segurança dele, o Alexandre se cagava de tanto rir e compartilhava a sua zoeira com a gente falando pelo rádio. O Vinícius então, era outro que até caiu no chão de tanto rir de ver o Dema se lascando na curva. Eu fui o único que “se manteve firme|”, sério, como a situação exigia, afinal de contas era meu amigo de infância que estava ali se fodendo e eu tinha a obrigação de ir passando os betas, as dicas e não era conveniente ficar fazendo galhofa numa situação daquelas. (Só que não, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk). O Dema chegou lá encima, junto ao Alexandre, sem saber nem onde estava, mas sobreviveu a passagem lendária. O próximo foi o Vinícius, que da primeira vez foi quem mais sofreu nessa terceira enfiada, mas vejam só, dessa vez passeou na via e enquanto eu conversava com um grupo de escaladores que acabara de chegar onde estávamos, ele já virou a curva e eu não o vi mais. Falando nisso, nos preocupou muito a chegada desse grupo e ficamos com medo de eles começarem a botar pressão encima da gente, o que poderia colocar todo o nosso planejamento em risco, mas felizmente os caras foram de boa e ficaram na deles, mesmo porque eu já tinha comentado que dessa vez não iria ter choro nem vela, não iríamos dar uma de Rubinho Barrichello e deixar nenhum Schumaker nos passar na curva final. Ainda em casa, o Alexandre havia me dito que eu guiaria a Maria Cebola dessa vez e eu mesmo cheguei a pensar nessa possibilidade e psicologicamente já fui preparado para isso, caso ele insistisse muito, mas como na hora ele já tomou à frente e nem disse nada, nem fiz questão em relembrar essa promessa que ele havia feito, as coisas estavam dando tão certo que preferi não ariscar em acabar levando uma queda e correr o risco de me machucar. Mas quando chegou a minha vez de enfrentar novamente a lendária Maria Cebola, decidi que o faria com a maior dignidade possível, provando para mim mesmo que eu seria capaz de guiar aquele lance e quando o Alexandre gritou pelo rádio que eu poderia ir, me posicionei rapidamente encima do tronco de árvore, junto a parede e liguei minha câmera instalada no capacete. Um dos grandes problemas é justamente o de ter que se jogar de cima da árvore direto para essa parede exposta. Ao lado da primeira costura até tem uma boa agarra do lado esquerdo, mas o fato de não haver um pé que lhe de segurança é uma situação difícil, porque se você der o bote e não se sustentar, vai despencar de cima da árvore e vai se ralar bonito. Então fiz igual a todo mundo, inclusive os escaladores graduados, me segurei na costura acima da minha cabeça e me grudei à parede. Uma vez equilibrado, retirei essa primeira costura e rapidamente encontrei uma ótima agarra para as mãos e outra para os pés e sem muitas delongas já consegui retirar a segunda costura. Minha intenção era passar todo esse lance sem “roubar” nenhuma vez, ou seja, sem tocar na corda, nas chapeletas ou nas costuras instaladas pelo Alexandre. Logo em seguida chego bem perto da curva maldita, onde até os escaladores experientes fazem uma prece. Estou diante de um diedro em curva, onde os mais medrosos tendem a se enfiar em baixo de uma grande quina de pedra para fugir do abismo e quando fazem isso, ficam entalados e começam a amaldiçoar o filho da puta que resolveu estabelecer uma via naquele inferno. Já tendo passado por isso na outra vez, não quis nem saber, peguei por baixo da rocha, me equilibrei na beira do abismo, me posicionei na curva, dei um bom dia para minha avó e fui ganhando centímetro por centímetro e vez ou outra, olhava para baixo somente para me sentir um coitado pendurado a uns 500 metros de altura. Claro, minha vontade era a de agarrar logo em tudo que é costura e sair vazado dali rapidinho, mas pela minha honra resisti bravamente e quando passei a curva já me joguei com a mão esquerda dentro do diedro e fui me arrastando pela rampa acima até que sem nem perceber, já me dei conta que estava na grande fenda que nos levaria para a sequência de chaminés, passei limpo, estava feliz, uma satisfação pessoal indescritível, adeus minha vó, adeus Maria Cebola, até nunca mais. ( rsrsrssrrs) Dentro daquela fenda monstruosa, fria e úmida, onde da outra vez o Alexandre não quis nem guiar, desta vez não nos pareceu tudo isso e o próprio Alexandre não perdeu tempo, se esgueirou parede acima e já montou a parada. O Dema se assustou no começo, mas bastou subir uns dois metros para ele se adaptar e rapidinho já estava apoiado a uma pedra entalada no meio da chaminé e estando lá, puxou nossas mochilas e já passou para o Alexandre. O Vinícius dessa vez, se disfarçou de calango, juntou as pernas curtas nas duas rochas e subiu cantando. Para falar a verdade, apesar desta ser apenas a segunda vez que a gente encara uma chaminé, vimos que se fosse preciso solaríamos de boa, mas como a corda já estava instalada, me apoiei na parede e fui subindo alternando os pés até alcançar a tal pedra entalada uns quatro ou cinco metros acima, aí é preciso ficar em pé encima dela e ganhar um grande facão diagonal do lado esquerdo e finalizar essa grande chaminé invertendo o corpo, passando a subir com as costas do lado direito até poder montar na rocha e passar novamente para o lado direito, onde está instalado o pino onde se coloca a parada e aí poder se deslumbrar com uma vista estonteante de todos os abismos dessa montanha, onde você se torna um nada diante da grandiosidade da pedra. Depois de subir essa chaminé gigante, a sequência da via vai prosseguir entrando- se em outra fenda horizontal obvia de uns 10 metros, porque não há mesmo para onde ir e adentrando até quase o seu final já é preciso subir mais uma chaminé de não mais de uns 4 ou 5 metros para conseguir sair da própria fenda. Dessa vez não teve conversa, subimos sem corda nenhuma, todo mundo solou. É uma subida fácil, uma chaminé estreita onde é pouco provável que alguém caia de lá, basta subir e ganhar uma rocha com ótima mão e se lançar para cima onde existe um amontoado de grandes rochas. Olha, foi justamente nesse ponto que dá outra vez a noite nos apanhou e tivemos que enfiar o rabo entre as pernas e sair correndo para casa, descendo tudo de rapel naquela madrugada fria e agora nem ao meio dia ainda havíamos chegado. Até agora havíamos feito um trabalho excelente, nenhum erro, tudo como havíamos planejado. Quando chegamos ao alto daquele amontoado de pedras gigantes, onde uma fenda monstro separa onde estávamos do estirão final para o cume do Dedo de Deus, não teve como não sentir um frio na barriga, e agora José, acharíamos a sequência da via? Não posso negar, a partir dali eu estava ansioso, com uma descarga de adrenalina que ia transbordando, sim, eu estava extremamente nervoso. Ali era o lugar que nos disseram que teria que fazer um pulo exposto para passar de onde estávamos para a outra sequência da montanha e veja bem, não demorou nada para eu bater o olho num pino “P” na altura do umbigo para me ligar que era ali o tal pulo, coisa que nem me passou pela cabeça na outra vez, não sabia se ficava feliz ou muito puto com aquela descoberta. O lance é o seguinte: É preciso passar uma costura no “P”, apoiar levemente a mão encima dele, colocar o pé direito na parede entre a fenda e dar um pulo e agarrar um patamar uns 2 metros e meio acima da cabeça com a mão esquerda. É um lance fácil, principalmente para quem é alto, mas para quem tem tamanho de toco de amarrar jegue, tem que ser um pulo com vontade e certeiro porque se não corre o risco de despencar dentro da fenda e cair no vazio. O Alexandre nem precisou instalar corda alguma, se apoiou na parede e já se jogou lá para cima, agarrou com vontade o bloco de rocha e montou nele como se tivesse subindo em um cavalo e antes mesmo de ir investigar, já puxou o Dema lá para cima, entraram em um arbusto do lado esquerdo e não deram mais sinal de vida por um bom tempo, deixando eu e o Vinícius mais agoniados ainda. Logo os caras do “outro lado do mundo” chamaram o Vinícius para fazer parte do clubinho deles e eu fiquei ali, largado para as cobras, criando uma úlcera no estomago de tanta ansiedade. Por mais de meia hora o tempo parou para mim, sentado naquela rocha exposta, meus pensamentos voavam longe e quanto mais demorava para saber o que se passava do outro lado da fenda, mas ansioso eu ficava, pensei em passar sem depender deles, mas achei melhor não, ali não era lugar para cometer nenhum erro. Quando o Vinícius me chamou, levantei-me rapidamente e me posicionei conforme o procedimento correto e avisei o meu amigo que pularia. Apoiei a mão direita no referido “P”, olhei para cima com vontade e determinação, coloquei meu pé direito em um regletinho (pequena ranhura) na base da parede e saltei feito um campeão olímpico disputando a medalha de ouro: -“Segura essa porra aí caralho, ai meu Deus do céu! Não alcancei o patamar e minha mão esquerda passou no vazio, despenquei no meio da fenda e fiquei pendurado na corda, feito siri no pau. O Vinícius fez um ótimo trabalho, foi tão bom que nem consegui esticar a perna para voltar a minha posição anterior, tendo que implorar para que ele afrouxasse um pouco a corda para eu me recompor. Na segunda tentativa só fiz elevar mais a minha perna direita um palmo mais acima e aí pulei tão forte que mais um pouco eu alcançava a Pedra do Sino, lá na Travessia Petrópolis x Teresópolis. Agarrei a patamar rochoso como se fosse um prato de comida, passeia aperna por cima dele e de me segurei no arbusto, longe do abismo. A esquerda desse arbusto existe uma fenda horizontal de uns 4 metros e a diferença dessa fenda para as outras, era que essa não tinha chão. Quando cheguei nela os meninos já não estavam mais, já haviam passado, mas como estavam perto de mim, eu podia ouvi-los muito bem e logo perguntei as dicas para onde seguir. O Alexandre já gritou: -“ Facin, facin, Divanei, é só entrar na fenda e pisar nesse patamar do lado direito e atravessa até o final e aí tu sobe a chaminé de uns 3 metros e pronto” Eu até encontrei o patamar que se referiu, mas como diabos esses caras passaram nessa fenda sendo que não havia chão pra pisar e em baixo dos nossos pés, um abismo monstro ficava rindo pra gente. Eu já estava nos cascos, meu coração já estava tamborilando faz tempo, respiração ofegante e eu mal estava conseguindo raciocinar direito. Olhei uma pedra entalada no meio da fenda sem chão, mas ela estava uns 3 metros de mim e já pensei logo; mas nem fodendo que eu vou conseguir pular lá naquela rocha e fiquei vendido naquele lance. Tentei me acalmar e prestar bastante atenção na dica que vinha do outro lado da fenda: Entendi qual era o lance: Na parede do lado direito existia uma rachadura que corria na horizontal bem embaixo dos pés e por incrível que parece o próprio pé cabia dentro da rachadura e aí o lance é colocar as costas na parede do lado esquerdo e os pés dentro da rachadura e simplesmente caminhar, um procedimento ridículo de fácil, mas extremamente exposto e ao chegar ao final, subir uma chaminé de uns 3 metros e se agarrar numa rocha pontuda que se não tomar cuidado , acaba furando seu olho. Subindo essa pequena chaminé, emergi dentro de uma grande gruta e já me dei conta de que o Alexandre já estava bem adiantado nos procedimentos para a última enfiada, porque reconheci a grande estalagmite de rocha que eu havia visto numa foto, onde é preciso amarrar uma grande fita em volta para poder colocar uma costura, estávamos sem sombra de dúvida no PASSO DO GIGANTE. O Alexandre levou a nossa corda , ancorou-se e logo pediu para que o Dema subisse. Nesse lance é preciso retirar as mochilas e coloca-las na solteira e subir com elas no meio das pernas, coisa que vai te jogando para baixo, mas ninguém reclamou e o Dema macaqueou para cima, se agarrou onde deu e sumiu na última rampa de acesso. Ajudei o Vinícius a ganhar a primeira rocha e esse foi outro que que se livrou rapidinho desse lance e foi se juntar ao Dema e ao Alexandre. Não sei porque, mas aos meus olhos, levou uma eternidade até que o Vinicius autorizasse a minha subida. Segurei em oposição na rocha que dava acesso ao início da subida e ganhei terreno em direção a estalagmite. Pouco consigo descrever como foi essa última enfiada, só sei que uma hora você tem que encostar as costas no teto e ir se elevando e aí passar para o outro lado para ganhar a rampa. Juro que não me lembro de nenhum passo de gigante, minha cabeça e meus pensamentos voavam no tempo, voltei para 1997. Eu já não enxergava mais nada, só me lembrava que não podia mais cair e aquela luz que vinha lá de fora era minha única direção. Minhas pernas já foram bambeando e quando meus olhos se acostumaram com a claridade e alguém lá de cima gritou: “ Olha Divanei, que maravilha, a escadinha do cume “. Lentamente levantei meus olhos e quando o metal brilhou, minha cabeça rodou e deixei aflorar toda minha fraqueza humana. Os caras estavam irradiantes, o Dema transbordava de alegria, mas eu desgraçadamente desabei a chorar. No meu caso e do Dema não se tratava somente da conquista de uma montanha, era muito mais do que é isso, era a promessa cumprida de nos mantermos vivos e ativos na vida desde a nossa juventude, era a consolidação de uma amizade que atravessou uma geração e que começou no nosso tempo de escola, 35 anos atrás. A gente sobreviveu ao tempo, ultrapassamos as agruras da vida para estarmos juntos ali naquele momento magico na vida de cada um. Nem estávamos no cume ainda e já nos abraçamos ali mesmo e chorando, fiz um discurso de agradecimento e muito provavelmente não disse coisa com coisa. Ainda faltava subir uns 4 metros de escadinha para chegarmos ao topo e fizemos questão que o Alexandre tivesse a honra de ser o primeiro do grupo, mas ele se recusou e pediu para que eu e o Dema subíssemos. A escadinha é um tanto exposta e eventualmente perigosa, tanto que a maioria sobe nela encordado, mas eu e o Dema estávamos pilhados demais para qualquer outro procedimento se não o de subir correndo e nos jogarmos no estirão final. Quando ganhamos o cume, tocamos juntos a pedra que marca o seu ponto mais alto, onde fica a caixa com o livro e mais uma vez deixamos as emoções aflorar. Éramos duas crianças a se esbaldar de felicidade no cume do DEDO DE DEUS (1692 m) e quando o Vinícius e o Alexandre chegaram, a felicidade se completou. De cima daquele Dedo Divino, que quase tocava o céu, era possível se maravilhar com as montanhas ao redor, além de uma vista linda da Baia da Guanabara, é um mundo de beleza e encantamento, que faz do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, um dos mais bonitos do mundo. Logo o outro grupo chegou e como não é possível ser feliz para sempre, vimos que era hora de descermos, porque o cume é apenas metade da conquista. Decidimos que faríamos o descenso pelo rapel vertiginoso e para achar os dois pinos é necessário caminhar como quem vai em direção ao Pico do Garrafão, já que o topo do dedo de Deus é surpreendentemente do tramando de uma quadra de futebol de salão, o que mostra a grandiosidade dessa montanha. Estávamos com duas cordas de 60 metros e amarramos uma a outra para descermos com ela dupla. O Alexandre desceu, montou a parada e deu o gritou para que o Dema fosse, já que o nosso rádio havia acabado a bateria. Depois do Dema, eu fui o próximo a me clipar à corda. Rapel é uma coisa que nunca me assustou, mesmo sabendo que é nesse procedimento que a maioria dos acidentes acontecem. A saída à beira do abismo é complicada, mas rapidamente montei o meu prussik e me lancei no vazio, mas infelizmente com o peso da corda é preciso fazer uma força tremenda para que se possa pegar alguma velocidade. Esse rapel de fato não tem mais que uns 50 metros, mas não leva o nome de vertiginoso atoa, porque mesmo que a parada seja em um patamar mais abaixo, a gente fica uns 500 metros pendurado no vazio, só vendo as árvores no fundo do vale e quem sofre de medo de altura vai cagar nas calças. Para desgraçar tudo, o Vinicius preocupado demais com a segurança, me fez dar umas 3 voltar no nó blocante e o resultado foi que ele acabou travando no meio da descida e como eu não estava com mais nenhuma cordinha, fiquei pendurado sem ter o que fazer. Só depois de várias lutas é que consegui derrotar o prussik e consegui chegar em segurança ao patamar, mas já é necessário ficar esperto para tocar o rapel sempre para esquerda, para não correr o risco de passar direto e ficar pendurado sem ter como subir, principalmente para o primeiro que vai descer. O patamar à beira do abismo até que comporta bem uma meia dúzia de pessoas. Nele temos um arbusto que serve muito bem para uma ancoragem, além de mais um pino instalado junto a ele e mais três pinos para a segurança do próximo rapel. Logo que o Vinícius desceu e juntou-se a gente, o Alexandre já se posicionou e despencou no próximo rapel. São mais uns 20 metros de descida, mas é necessário descer bem para a esquerda, junto à parede e instalar uma costura para evitar que a corda acabe pendendo para o lado do abismo. Esse procedimento é necessário apenas para o primeiro e uma vez no chão, é só ficar atento para direcionar a corda para os outros, tratando de não deixar que eles pendam para o vazio e cheguem ao chão em segurança, já que o segundo ao descer, já fez o procedimento de retirar e recolher a costura. O último e derradeiro rapel não tem mais que uns 10 metros e nenhum segredo aparente, finalizando esse, mais uns 20 metros de caminhada nos leva até a gruta onde há uma pequena placa que homenageia os escaladores brasileiros mortos no Aconcágua. E assim se finaliza a descida que vai beirando a lendária rota da via Teixeira, usada pelos pioneiros de 1912 para a grande conquista. Agora com os pés firmes no chão, mas nem tanto assim, vamos desescalaminhando um pequeno trecho de rocha, onde um cabo de aço todo enferrujado e nenhum um pouco confiável, ainda sobrevive. O tempo está incrível e a vista do Escalavrado e dos Dedinhos é arrebatadora. Descemos por mais um pedaço de cabo de aço até não ter mais jeito e termos que instalar a corda para descer de rapel. Todo mundo se encordou e deslizou rapidamente, menos eu que, só me agarrei a corda e desci esse pequeno trecho no braço mesmo. Daí para frente ganhamos a trilha e fomos descendo lentamente, hora usando alguns cabos, hora nos valendo de algumas cordas, até que antes do sol se pôr, tropeçamos no grande e derradeiro paredão dos cabos de aço. Eu e o Dema pensamos logo em nos agarrarmos nos cabos e deslizarmos até lá embaixo, no braço mesmo, mas como havia alguns guias descendo com uns clientes, o Alexandre montou logo um rapel com as duas cordas e assim evitamos de alguém nos torrar a paciência e agente ser obrigado a mandar a merda e rapidinho já nos vimos de volta à Toca da Cuíca, já na boca da trilha. Menos de uma hora, esse foi o tempo que levamos para novamente nos vermos de volta à civilização, agora totalmente em segurança. Desta vez não houve espaços para comemorações e cada um seguiu caminhando no seu ritmo naquela noite escura e agradável de primavera. Eu mesmo me pus a caminhar por último, minha cabeça ainda rodopiava e eu quase que levitava naquele último trecho de asfalto. Vez por outra eu me virava para trás e me punha a contemplar a silhueta do grande DEDO DE DEUS e eu poderia passar os restos dos meus dias olhando para aquela montanha e mesmo assim não me cansaria de contempla-la, parecia mesmo que o grande DEDO havia se curvado, como a me dar um joinha e a dizer: ” Valeu meninos, obrigado pela visita, nos vemos novamente daqui uns 20 anos”. Chegamos de volta ao carro antes das sete da noite e sem pensar muito, já pegamos a estrada para casa e oito horas de viagem depois, estávamos novamente de volta ao nosso mundo no interior de São Paulo. E esse não foi nem de longe um relato de grandes conquistas, de feitos memoráveis, realizados por grandes escaladores. Esse é um relato que fala de amizade, de perseverança, de aprender a não desistir, de saber esperar o momento certo. No meu caso e do Dema a espera foi de 20 anos e foi uma grande honra poder dividir esse sonho com esses outros dois grandes amigos, que calhamos de encontrar na curva do tempo. Estar no topo do Dedo de Deus foi ter a oportunidade de relembrar dos velhos tempos de juventude, tempos de espirito livre, onde o mundo parecia menos complicado e subir montanhas era apenas um ato de se libertar das mediocridades da vida, um tempo de montanhas sem donos, onde todo mundo tinha acesso livre e precisa apenas se preocupar em cumprir com as promessas feitas e no nosso caso: PROMESSA MAIS DO QUE CUMPRIDA! Divanei Goes de Paula – Agosto/2017
  6. Infelizmente não gravei em gps, na época não sabia nem da existência do wikloc.
  7. Obrigado Jeferson, já fazia anos que eu perseguia essa conquista, mas foi a conquista de outra montanha inédita na mesma serra que nos impulsionou para o DESMORONADO. Aqui mesmo no mochileiros.com vc poderá ler a conquista do PICO MOTCHAKA, cume do Morro das Três Pontas. Abraços.
  8. DEDO DE DEUS-RJ :Montanhismo, escalada e aventura na mais clássica montanha do país. Quando o último homem se despediu, cortou literalmente a única raiz que nos unia e ao fazer a curva à beira do precipício, foi aí que me dei conta que realmente me encontrava só, encravado numa fenda gigantesca, pendurado a algumas centenas de metros na escuridão daquela noite fria. De onde eu estava, podia avistar as luzes dos carros subindo a estrada em direção a Teresópolis-RJ, serpenteando numa lombriga de asfalto, milhares de metros a baixo de mim. Aquilo que estava prestes a fazer era a mais insana das loucuras e o meu medo já havia transpassado todos os limites razoáveis. O vento soprava forte e já não havia mais como me comunicar com ninguém, se algo desse errado, se eu não conseguisse me sustentar na corda, despencaria no vazio e para piorar ainda mais, a corda reserva estaria comigo, amarrada à minha cintura, tirando qualquer possibilidade de eu ser resgatado sem que fosse preciso um esforço sobre humano dos meus companheiros de aventura. Minha cabeça ainda girava, eu ainda não havia compreendido muito bem como a gente conseguiu deixar que a nossa situação chegasse àquele nível, verdade mesmo que eu ainda não estava conformado com o que tinha acontecido, mas como as coisas estavam fora do meu controle, eu tinha mesmo era que tentar me manter calmo, manter a concentração nos procedimentos mínimos de segurança e tentar sair vivo daquela enrascada. Me amarei à corda instalando o freio, pedi proteção a “Nossa Senhora do Abismo” e fui.............................................. Foi numa quarta-feira que eu soube da notícia ao abrir as mensagens num grupo de WhatsApp. Sem mais nem menos o Alexandre Alves havia resolvido que no sábado à noite partiria para Teresópolis-RJ no intuito de escalar o lendário DEDO DE DEUS. Ao ler a mensagem tomei um susto, na verdade, foi mais uma indignação mesmo. Já era sabido por eles a muito tempo que, mesmo eu não sendo nenhum escalador que prestasse, cultivava um sonho antigo de escalar aquela montanha há mais de 20 anos. Inclusive tínhamos combinado que se um dia a galera resolvesse escalar aquele pico, eu iria me dedicar uns 2 ou 3 meses antes, pegando firme nos treinamentos, mas numa decisão meio atabalhoada, resolveram que havia chegado a hora. Aquilo era uma coisa insana, um bate e volta de 1200 km, saindo sábado à noite, escalando o pico e voltando para casa no domingo. Estava na cara que era uma organização feito nas coxas, que a chance de algo dar errado era muito grande, porque o nível daquela escalada estava muito acima da competência da maioria do grupo, a possibilidade de dar merda naquela empreitada era enorme e diante de tudo que me haviam exposto, a minha resposta ao convite não poderia ser outra: “- Foda-se, tô dentro! Vinte anos atrás eu havia subido a encosta que leva ao Dedo de Deus juntamente com dois amigos. Na ocasião não entendíamos nada de escalada e mesmo assim, numa atitude estúpida, quase que laçando pedra na via Teixeira, amarando corda de sisal nos velhos pinos, ficamos a não mais que uns 50 metros do cume. Foi naquela vez que juramos que um dia escalaríamos aquele pico. O tempo passou e eu ainda voltei lá na Serra dos Órgãos para realizar a Travessia Petrópolis x Teresópolis por duas vezes, mas o Dedo mesmo, foi ficando para trás, muito porque só se chega ao cume com escalada complexa, mediante ao uso de equipamentos caros. Nos dois últimos anos eu tinha aprendido os rudimentos do esporte, mas se eu falar que me dediquei a isso, estaria contando uma grande mentira. Cheguei até a subir algumas paredes de escalada clássica, mas nada que pudesse me dar alguma experiência para poder subir uma montanha com a envergadura do Dedo de Deus. Mesmo assim eu não estava a fim de perder aquela oportunidade e o meu pensamento era compartilhado por grande parte da equipe. O Vinícius se propôs a nos levar no carro dele, pegou o Alexandre, passou na minha casa em Sumaré-SP e partimos para Teresópolis, mas antes de chegarmos lá, se juntaram a nós na Via Dutra, nossos amigos paulistanos Natan e Gersinho, estava fechado o grupo insano que desafiou a montanha mais lendária do Brasil, berço do montanhismo no país. A viagem, apesar de demorar uma eternidade, acabou por ser muito prazerosa devido aos causos, histórias e outras lorotas de aventuras passadas e quando menos percebemos, já estávamos subindo a serrinha que leva à Teresópolis, aonde estacionamos atrás do restaurante PARAÍSO DAS ÁGUAS, do lado direito da rodovia, cerca de pouco mais de 1 km da entrada da trilha para o Dedo de Deus. Já era alta madruga e havíamos combinado de dormir umas 3 horas de sono e acordar antes da cinco da manhã. Como a noite estava limpa, deitamos no concreto do estacionamento improvisado, mas antes de pegarmos no sono, um maldito carro estacionado na frente do restaurante nos deu as boas-vindas tocando um fank pornográfico. Bem-vindos ao Rio de Janeiro! Conforme o combinado, cinco da manhã estávamos de pé. Tomamos café, jogamos os equipamentos na mochilinha de ataque e partimos. Descemos a rodovia, passamos por um estacionamento onde uma Santinha protege uma pequena cachoeira e logo depois de passarmos por dois bueiros, interceptamos a trilha do lado direito, que iria nos levar para cima da montanha. Portanto, na placa do parque, viramos para a esquerda e começamos a subir a íngreme trilha no meio da mata fechada. Uma coisa logo de cara assustou todo o grupo, começou a chover, mas logo notamos que era apenas uma precipitação de uma nuvem mais baixa e que logo quando o sol nascesse, aquela nuvem se dissiparia e foi o que aconteceu. Numa caminhada alucinante, uma hora depois estávamos de frente para o grande paredão da Toca da Cuíca que dá início à subida da encosta rochosa da montanha, mas essa ainda não é a via de escalada, inclusive era ali que começava os famosos cabos de aço. Engraçado que havia se passado 20 anos desde o dia que eu havia estado ali e não me lembrava que o paredão era tão íngreme daquele jeito, inclusive me lembro que a gente subiu uma parte dele apenas com a aderência das nossas botas de caminhada. Nessa parede, onde citei que começam os cabos de aço há de se fazer uma ressalva: Os cabos de aço foram instalados apenas depois de uns 10 metros e no início não existe a possibilidade de subir se não for colocando uma corda e ganhar essa altura toda escalando, se valendo das chapeletas instaladas. Claramente pode se notar que isso foi feito de propósito, com o intuito mesquinho de barrar qualquer tentativa de subida de quem não é do ramo da escalada, uma atitude medíocre dos que se acham donos das montanhas, inclusive com o possível aval do Parque nacional. Bom, o caso é que por estar molhado, foi impossível repetir o feito de 1997 e eu não consegui subir esse trecho e como não queríamos perder tempo sacando corda e equipamentos, nos ariscamos a subir pelo lado direito, onde uma trilha mais que escorregadia nos leva até um pouco acima e com a ajuda dos companheiros consegui escalar a rocha e aos poucos alcancei uma língua de mato mais acima, onde consegui acesso ao cabo de aço. Os cabos de aço estão bem preservados e dão muita segurança para se subir essa parede gigante, mas para não corrermos riscos desnecessários, fomos clipando nossas solteiras nos cabos. O esforço é grande, mas não leva nem 10 minutos e esse paredão já é deixado para trás. O caminho que se segue vai alternar outros cabos de aço, escalaminhada pesada onde cordas, algumas de segurança duvidosa, terão que ser vencidas. Às vezes o caminho se torna uma simples trilha no meio da mata com grande inclinação. A gente estava rápido, mas também sabíamos que tínhamos que ficar espertos com uma possível bifurcação para a direita, que seria o caminho que teríamos que pegar para acessarmos a via de escalada. Quando nos demos conta, estávamos no grande selado que separa um dos dedinhos do grande Dedo de Deus, uma das visões mais impressionantes do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. De cima era possível avistar além da própria extensão do Dedo, quase todas as fabulosas montanhas e formações rochosas que dão nome aquele parque. Ali estavam o Escalavrado, o Garrafão, Cabeça de Peixe, a Pedra do Sino, Nossa Senhora e uma infinidade de outros picos que fazem desse parque, um dos mais bonitos do mundo. Ficamos por ali por uns quinze minutos, inebriados pela aquela paisagem dos sonhos, mas logo nos demos conta de que nosso objetivo naquele Parque era outro e tratamos de seguir nosso caminho, sempre nos atentando pela localização da tal trilha à direita que nos levaria para a face leste da montanha. Galgamos mais um pequeno ombro e demos de cara com um grande paredão, onde paramos imediatamente. Aquele caminho não me era estranho, vi logo que era a parede que nos levaria para a Via Teixeira, a via da primeira conquista do Dedo em 1912. Ao lado dessa parede íngreme parecia que para a direita seguia uma trilha, coisa que eu até investiguei, mas que somente me levou para um abismo monstro. Diante disso, resolvemos subir também essa parede e ver se a tal trilha não estaria mais acima. Tivemos que instalar a corda e alcançar a parte mais acima escalando, coisa que em 1997 nós fizemos na raça. Alguns subiram com seus equipamentos clipados à corda, já eu e o Gersinho nos agarramos e subimos no braço, ganhando precioso tempo. Ao chegar ao cume, nenhuma trilha encontramos e ainda tivemos que subir outra parede, mas agora nos valendo de um cabo de aço, porcamente instalado. Enquanto eu procurava novamente pela trilha, o Gersinho e o Alexandre continuaram subindo até que tropeçaram na gruta onde uma placa homenageia um antigo pioneiro, era definitivamente o começo da via Teixeira, fim da linha para a gente. Mas onde diabos era essa tal trilha para a VIA LESTE DO DEDO DE DEUS? A gente se recusava a acreditar que a uma das vias de escalada mais clássica do país não era sinalizada dentro de um Parque Nacional, onde clubes e federações de montanhismo desfilam seus egos. Nenhuma placa, nenhuma fita, nada de nada. O Gersinho já de saco cheio de procurar a trilha queria escalar logo a Via Teixeira, coisa que a gente refutou logo de cara. Viajamos de tão longe para escalar a Via Leste e não era possível que por não encontrar uma mísera trilha de acesso, iríamos perder a viagem. Descemos novamente para o selado entre o estirão final e o Dedinho, bem no pé da parede onde tentei seguir uma trilha, mas só havia me levado a um abismo. Para ter certeza de que aquela não era mesmo a trilha dei outra investiga, só para constatar que não era por ali mesmo. Só poderia ser descendo, não tinha outra explicação. Então eu e o Alexandre começamos a descer novamente a trilha enquanto os outros enrolavam as cordas. Fomos descendo, mas nada encontramos, até que deixei o Alexandre esperando o resto da galera e continuei perdendo altura no meio da mata, atentando agora para o lado esquerdo, até que ao investigar um lugar que parecia com uma canaleta de água, percebi que se tratava da tal trilha. Pronto, estávamos de volta ao caminho, mas agora com mais de 2 horas perdidas. Quando toda a galera se juntou, nos enfiamos naquela trilha, que vai beirando uma grande parede e vai subindo sem dó e muitas cordas são puxadas, algumas imprestáveis e velhas, onde todo cuidado é pouco. Uns quinze minutos depois já estamos no colo que separa a via Teixeira do Polegar do dedo de Deus e para o nosso azar, encontramos já ali instalados, um grupo de 3 paulistas, guiados por um carioca, prontos para começar a escalar. Quando resolvemos sair de madrugada foi justamente para que pudéssemos escalar com mais tranquilidade, já que éramos um grupo com a maioria de inexperientes e por perdermos a trilha e nos atrasados por mais de 2 horas, agora tínhamos que nos contentar em aguardar os procedimentos do grupo à nossa frente. E foi mais um tremendo azar porque o guia deles demorou uma eternidade somente para escalar a primeira enfiada, o primeiro lance de corda e aí foi mais uma hora perdida e isso iria fazer toda a diferença no final do dia. Bom, o certo é que estávamos diante do nosso grande desafio. O Alexandre havia ficado encarregado de pegar todos os betas (dicas) sobre a via de escalada e também seria o cara encarregado de guiar a via, mas como esse primeiro lance era o mais fácil, deixou que o Vinícius tivesse a honra de inaugurar os trabalhos. A configuração do grupo montada pelo Alexandre seria o seguinte: Ele guiando, depois o Vinícius e no meio das duas cordas o Gersinho que seria precedido pelo Natan e eu fecharia na ponta da segunda corda, ou seja, me deixou como cú de tropa, o último. Narrar uma escalada não é fácil, principalmente para mim que não passo de um novato e que ainda não domino bem os termos técnicos direito, ainda mais tendo ficado como o último escalador e quase não pude presenciar o que acontecia mais acima nas subidas das paredes, então contarei o que se sucedeu mediante a minha percepção das coisas, até um pouco individualista, mas antes é preciso dizer que a subida em si, só foi possível por causa da união de todo mundo e mesmo no grande perrengue sucedido, não faltou empenho de ninguém para que essa escalada pudesse terminar bem e sem nenhum acidente. Quando todos estavam preparados e equipados, o Vinícius deu o start. Como falei, essa primeira enfiada (lance) é o mais fácil de todos, mas o início é um movimento chato, onde quem tem perna curta vai sofrer um pouco. É necessário jogar o pé esquerdo na parede e com o pé direito alcançar a outra parede e se puxar para cima, mas mão que é bom não tem onde segurar por ser uma pedra meio abaulada. Nessa hora uma força de quem está embaixo ajuda muito para que se consiga passar sem muito esforço. E assim foi, um ajudando o outro até que todos subiram, menos eu, é claro. Achei que estar com uma luva sem os dedos poderia ajudar a proteger as mãos, então me apoiei na rocha, cravei o pé esquerdo na pequena fenda e com o pé direito tentei alcançar a rocha, mas não achei lugar para colocar a mão direita e quando vi ,já não mais me sustentei e despenquei feito uma jaca madura. A escalada nem havia começado e eu já cai logo no primeiro lance, nessa hora me deu um medo de não dar conta da empreitada do qual eu havia me apresentado. Tirei as luvas, me posicionei melhor. Minha perna tremeu feito vara verde, pensei que cairia novamente, mas antes de escorregar, joguei minha mão direita o mais longe possível e finquei meus dedos numa saliência mais acima. Ufa, passei! O restante deste primeiro lance vai se alternando entre escalaminhada e escalada tranquila, as vezes nos valendo de arbustos e raízes para se ganhar terreno e logo me junto ao Natan e ao Gersinho, junto a uma parada de 2 “P”, onde um arbusto também serve para dar uma segurança. O Vinícius e o Alexandre haviam partidos para a segunda enfiada. A próxima enfiada (segunda) vai nos levar mais acima nos valendo de uma rachadura na rocha, onde é preciso tentar se enfiar por dentro dela e logo galgar a rocha do lado direito. Parece ser um lance fácil para quem olha, mas a falta de onde pôr as mãos causa um incomodo inicial, mas logo depois que se consegue se estabilizar, a subida vai fluindo até com certa facilidade e na metade já se transforma em mais uma subida fácil, onde mais arbustos são usados para ganhar altura e se elevar até a próxima parada dentro de uma toca. A subida final até essa pequena caverninha é uma boa oportunidade para tirar uma das fotos mais clássicas da subida, com uma visão privilegiada do polegar mais abaixo. Passado esse trecho cênico, todos nós nos juntamos na gruta, é hora de montar a estratégia para o lance mais temido da escalado do Dedo de Deus, chegou a hora de nos encontrarmos face a face com a lendária MARIA CEBOLA. Dentro da gruta, todo mundo está ancorado numa grande árvore que resiste em sobreviver naquele mundo hostil. Nesse ponto temos duas opções: Pegar uma chaminé escura que leva o nome de BLACKUOT ou enfrentar a enfiada mais aterrorizante, que vai fazer uma curva na face da montanha, onde o escalador vai ficar pendurado a mais de 500 metros em queda livre. Bom, como a gente tinha pouco experiência, mas nenhum juízo na cabeça, escolhemos a Maria Cebola, porque desgraça pouca é bobagem. Então nessa terceira enfiada já de cara é preciso se equilibrar encima da árvore e tentar alcançar um pino “P” logo acima da cabeça, coisa que parece fácil para quem é grande, mas mesmo o Alexandre que tem uma certa estatura, não conseguiu esticar o braço e alcança-lo e, tentar encontrar um pé ali não é fácil porque um passo errado nesse primeiro lance, é pedir para cair numa fenda potencialmente perigosa. Ainda bem que, espertamente, o Alexandre pediu para que o último membro da equipe que estava a nossa frente, colocasse a costura para a gente. Poderíamos ter feito isso tranquilamente, mas já que tínhamos essa opção, porque não a usar a nosso favor? O Alexandre se apoiou na rocha e se lançou de cima da árvore. Sua perna tremeu, mas conseguiu encontrar um agarra minúscula para poder se equilibrar. Os próximos 15 ou 20 minutos foi a gente assistindo ao Alexandre suar em bicas e se virar para conseguir fazer a curva do abismo, se ralando todo para conseguir passar por debaixo de uma rocha, onde a mochila vai moendo nas costas do escalador e o escalador vai moendo feito uma cana caiana entre as duas pedras ásperas. Passado a pedra que insiste em jogar o cara nas bordas do precipício, é hora de ganha um DIEDRO, que nada mais é que uma grande fenda entre as duas rochas. Daí para frente não tenho mais como narrar o que se sucedeu com o Alexandre porque, de onde estávamos, não víamos mais nada e mal ouvíamos o grito dele pedindo para retesar ou afrouxar a corda. Não sei como e nem de que maneira, mas o nosso “guia “ chegou ao fim daquele lance e agora era chegado a nossa vez. O tempo ia passando rapidamente e nós nem nos preocupamos em olhar no relógio. O próximo a subir para encarar o diedro da Maria cebola foi o Vinícius, que já de cara se apoiou na corda e se puxou para cima da parede e por lá ficou, escorregando para todos os lados até encontrar um apoio para aos pés. Ficou de pé, mas não progrediu, não rendeu, empacou feito uma mula teimosa. Tentou de tudo para ganhar terreno, mas não ia, nem puxando na corda de segurança. Foi aí que numa atitude desesperada, tentou usar de alguns artifícios ninja, tentando fazer algo que nem a gente conseguiu compreender o que seria, mas parecia algo como se fosse para jumar, uma técnica de subir em cordas ou sei lá que diabo era aquilo, o certo, é que não deu certo (rsrsrsr) e ele se agarrou como deu em cada lasquinha de pedra, fez a curva e desapareceu na subida do diedro e foi se juntar ao Alexandre. O Gersinho foi o outro a agarrar no rabo da corda e pular da árvore para parede, mas antes que ele desse mais um passo, já me ouviu pedir para instalar uma fita maior junto a primeira costura porque eu e o Natan, com pernas curtas, nem a costura iríamos alcançar. O Gersinho por incrível que pareça, encontrou os pés rapidinho e rapidamente se entalou na fenda, virou na curva e sumiu e sem demora deu o aval para que o Natan subisse. Auxiliei o Natan, meio que fazendo algumas leituras imaginárias lá de baixo. O Natan agarrou a fita com gosto e como o Robin, porque Batman é muito para ele, se pendurou e foi se segurando em tudo que pode, mas foi outro que conseguiu encontrar os regletes na rocha (pequenas ranhuras) e avançou rapidamente, mas só ele mesmo é quem poderia nos contar o tamanho do medo que passou na esquina do abismo e o que aconteceu no rastejo pelo diedro, a única coisa que eu sei, é que foi mais um a chegar vivo na parada mais acima. Quando o Natan gritou: ” - Pode vim Divanei “ , já me caguei todo de medo. Ficar por último é um teste de resiliência, você sabe que não vai poder contar com ninguém se algo der errado, pior ainda era ali onde eu estava, que mal conseguia me comunicar com os companheiros. Trepei naquela árvore, agarrei na ponta daquela fita colorida e me alcei com tanta força que fui parar muito mais acima do que deveria e tive que acabar descendo. Apoiei o pé numa verruga de pedra e com a mão direita retirei a fita e a costura. Cravei a unha numa pequena fissura e avancei de uma tacada só até a outra proteção, onde retirei mais outra costura. Pensei: “Meu, estou indo muito bem! ”. Passei com uma facilidade que nem eu acreditava e logo ganhei a maldita curva, por onde fui obrigado a montar na “quina da rocha arredondada” e quando olhei para o vazio, bambeie as pernas. Mais de 500 metros de abismo me espreitava de onde eu estava e se o olhar fosse mais adiante, essa altitude dobrava fácil, fácil. Claro que quando você escala de segundo a proteção é muito maior do que estar guiando, mas uma queda ali naquela curva significa levar uma vaca monstro, porque a corda vai fazer um pendulo no abismo e você vai ralar até os órgãos internos. Eu só pensava em não cair. Minhas mãos pareciam que tinham ventosas e eu sonhei ser uma lagartixa ou um calango. Enfiei minha mão embaixo da grande rocha e fui rastejando, me apoiando na fenda do diedro. Eu era quase um verme a me esgueirar pela pedra nua e gelada e nem me importava se meu nariz ia raspar naquela rocha áspera e muito menos me preocupava com a minha dignidade, essa eu já tinha perdido faz tempo. Quando consegui avançar um pouco mais sobre o diedro, percebi que ele foi se alargando e nessa hora minha vontade não era só de entalar as mãos, era de entalar minha cabeça. Como o Alexandre já havia retirado os camalot (equipamento móvel que se coloca nas fendas para dar uma maior segurança), só me preocupei em ir arrastando minha mão e retirando as costuras e quando vi, já estava de joelhos bem aos pés do Natan, que rapidinho me jogou para dentro da fenda, onde me encontrei em segurança e mesmo sem saber rezar agradeci por ter passado por aquele lance sem ter caído e fiquei aliviado por não ter que voltar mais por ali. (Só que não) Ali onde estávamos era a entranha da montanha, uma fenda gigantesca. O Natan enrolou a corda e desmontou o equipamento, aliás, fiquei impressionado de nossas vidas depender apenas de uma única ancoragem em um pino e isso me deixou muito espantado já que sempre ouvi dos mais experientes de que nunca se deve confiar em um só ponto e sempre é preciso ter pelo menos um outro como backup, mas depois descobri que deveríamos ter nos ancorado no arbusto mais alguns metros acima, mas acho que o Alexandre não quis nem saber, ao ver a grande fenda tratou logo de se jogar para dentro dela e acabar rapidamente com aquele sofrimento. Eu e o Natan fomos entrando para dentro da fenda que forma um corredor estreito e vai nos levar até o lance da grande chaminé. Por lá já estavam os outros três escaladores e surpreendentemente desta vez, o Alexandre se recusou a guiar e essa tarefa acabou sobrando para o Gersinho. Quando os três subiram, o Vinícius ficou com a incumbência de içar nossas mochilas e isso também nos fez perder outro bocado de tempo. Novamente fiquei por último e auxiliado pelo Natan, que era quem me dava a segurança, me apoiei nas duas paredes. Primeiro usei os pés para ganhar os primeiros metros e logo em seguida me entalei entre uma parede e outra. Eu jamais havia treinado subir uma chaminé com àquela altura e envergadura toda, mas fiquei pensando na infância quando a gente subia em batentes de porta e no corredor da casa da minha avó e aquilo não poderia ser diferente e com aquele pensamento, dei início a quarta enfiada. Mesmo com a corda de segurança vindo de cima, cair ali não seria nada bom, então me concentrei o máximo que pude e fui me elevando centímetro a centímetro, entalando todo o corpo entre as duas grandes paredes, alternado as pernas e quando parecia que eu poderia despencar, já apoiava os joelhos e travava tudo até pegar folego novamente. Mais uma vez, subi com muita facilidade nesse trecho de quase 20 metros, até finalmente poder ganhar uma rocha entalada no meio do vão e me posicionar em pé encima dela, aonde rapidamente retirei a costura que me dava segurança. O próximo passo é continuar subindo pela chaminé, mas agora como se fossemos sair fora da fenda e realmente é isso que vai acontecer. Logo de cara é preciso se elevar, subir um pouco e tentar alcançar um facão na parede esquerda, galgar esse facão numa diagonal e a partir de aí grudar as mãos no lado direito e os pés no lado esquerdo até sair da chaminé para descobrir que você está de volta ao grande abismo colossal novamente e saber que você não é ninguém diante da magnitude daquela montanha. A gente estava perdido naquele mundo de pedra, enfiados a milhares de metros do chão num pico lendário, na mais importante montanha do Brasil e aquilo era magico de mais. Perdemos a noção do tempo, praticamente quase não nos alimentamos, eu mesmo quase nem água bebi. A escalada estava correndo como imaginávamos até então, na verdade, tirando os medos de iniciantes, tudo corria numa normalidade que até me impressionava. Eu e o Natan recolhemos a corda e desmontamos os equipamentos e já nos enfiamos no próximo lance que nada mais é que mais uma fenda soberba, com mais uma chaminé de noventa graus, essa um pouco menor que a outra. Rapidamente o Vinícius pediu para que a gente se clipasse à corda e subíssemos. O Natan já encarou a chaminé com bravura e se juntou ao Vinícius. Sem perder tempo, dei logo início a mais essa enfiada, no caso a quinta. Aquela chaminé era das minhas, aquilo sim não diferenciava em nada dos batentes de portas da minha infância e eu poderia ter subido até de ponta cabeça, ainda mais por ser um lance curto de não mais que uns quatro ou cinco metros. Quando cheguei ao alto, já encontrei o Alexandre e o Gersinho procurando desesperadamente pela próxima linha de escalada. Fazia um frio do cão lá encima e estávamos sobre um amontoado de grandes pedras, com uma fenda gigante separando estas pedras das paredes principais que se estendiam em direção ao cume do Dedo de Deus. Já passava das cinco da tarde e o dia já ia se esvaindo por completo. O Alexandre e o Gersinho pareciam camundongos encima das pedras, correndo para lá e para cá à procura de saber para onde seguia o nosso caminho. Não foi uma cena bonita de se ver, não para mim que logo comecei a perceber que o Alexandre, ou não havia pego os betas desse lance, ou não estava conseguindo se lembrar das informações. Fiquei parado, imóvel, tentando processar o que estava acontecendo. Os caras tentaram ler o croqui da via, mas aquele era sem dúvida o croqui mais cretino que eu já tinha visto e pouco ajudava e quando o Alexandre gritou: “- Gente, vamos fazer o rapel, agora! ” Sem que a ficha caísse por completo, fiquei olhando para onde seria esse tal rapel, porque para mim só havia um caminho, que era em algum lugar tocando para cima. Nesse momento a conversa ficou quase “inaudível” e incompreensível para mim, principalmente quando o Vinícius já se posicionou para adiantar os procedimentos. Eu havia esperado por 20 anos para ter a chance de alcançar o cume daquela montanha lendária e na hora e dia que eu havia chegado a não mais que uns 20 ou 30 míseros metros do cume, os caras resolvem abandonar tudo e voltar. Quando compreendi o que estava acontecendo, minha voz mal conseguiu escapar da minha boca. Paralisado diante daquela decisão, quase que monocrática, não tive forças nem para responder quando o Alexandre pediu para eu ir procurar a continuação da via. Claro, ele notou a minha decepção porque estava mais que estampada na minha cara. Havíamos sentido praticamente o cheiro da escadinha de metal que nos levaria ao cume e der repente viraríamos as costas para a conquista e abraçaríamos o fracasso. O Natan e o Gersinho também pouco falaram e enquanto o Vinícius e o Alexandre papagaiavam palavras de consolo, seguimos atrás como a participar de um cortejo fúnebre. A minha decepção era tamanha que me deu vontade de descer aquela primeira chaminé sem cordas. Dei uma última olhada para cima e me senti como se tivesse chegado a poucos metros do cume do Everest e fosse obrigado a desistir. Desci a chaminé menor sem nem saber como, e logo me vi à beira do abismo, me amarrando à corda para fazer o rapel da chaminé maior. A noite já havia caído e agora nossos olhos eram auxiliados pelas nossas lanternas de cabeça, um ponto luminoso num mundo escuro e sombrio, encravados num dedo de rocha que por pouco não tocava o céu. A descida dessa chaminé foi aos trancos e barrancos, com mochila nas costas que foi enroscando em tudo que é pedra. Como estamos com duas cordas, o Alexandre e o Vinícius sempre iam à frente para adiantar o próximo rapel, mas tudo era lento e moroso, principalmente quando alguma das cordas enroscava em alguma fenda de rocha e aí era preciso um trabalho penoso para tentar liberá-las no escuro e depois enrolar. O vento e o frio haviam aumentado consideravelmente e a fome, o cansaço e o sono já faziam com que a nossa concentração fosse se desmilinguido aos poucos, por isso era preciso que cada procedimento antes da descida, fossem checados por todos os envolvidos na hora do rapel. Quando acabei de descer a chaminé, fiquei com a incumbência de enrolar a corda e leva-la comigo, mas eu já estava cambaleando de sono e aquele trabalho acabou se tornando um tormento, tanto que embolei tudo e dei um laço qualquer e sai puxando até atravessar o grande corredor que nos levou novamente na parada para o rapel da temida Maria Cebola. Ali estávamos nós novamente, bem no lugar aonde havia jurado horas antes nunca mais passar e para piorar as coisas, seria preciso enfrentar no escuro. Há uma recomendação pela maioria dos escaladores experientes de que uma vez escalado o lance da Maria Cebola, não tem mais volta, tem que subir e ir até o cume e agora seríamos obrigados a desconsiderar essa regra e mesmo com a maioria de principiantes, seria preciso encarar aquele mito de frente. Quando cheguei à borda do abismo, o Alexandre e o Vinícius já não mais estavam. O próximo a descer foi o Gersinho, mas infelizmente para piorar as coisas, que já andavam tensas faz tempo, a corda enroscou em alguma fenda na rocha e travou o coitado no meio da rampa. Como o vento soprava forte, a comunicação ficava quase impossível e por mais que se gritasse, nada se ouvia. Como o Natan era o cara que auxiliava ele na descida e eu ainda estava meio que socado no meio da fenda, coube a ele a incumbência de desenroscar a corda, seguindo os procedimentos que ele mesmo achou necessário. O Gersinho se foi. Agora sozinhos ali naquela parede sinistra, se encontravam dois arremedos de escaladores. Eu e o Natan nos vimos órfãos de ajuda e naquela escuridão de uma noite gelada de inverno, confabulamos algo, antes do próprio Natan se amarrar à corda e me abandonar à minha própria solidão. Na minha cabeça, o Natan levou uma eternidade para descer e me liberar a corda. Sentei-me na borda do desfiladeiro e fiquei olhando ao longe, vendo lá embaixo, milhares de metros aos meus pés, as luzinhas dos carros subindo e descendo pela rodovia. A solidão daquele lugar escuro me atormentava a alma, como nunca havia acontecido em nenhum outro lugar e olha que já passei dias e dias sozinho em outras travessias memoráveis. Eu tremia de frio, eu tremia de medo, de medo de não dar conta daquela descida, de medo de algo dar errado e não mais poder contar com ninguém. Estava extremamente cansado, tanto física como psicologicamente e quando senti que a corda havia afrouxado, percebi que havia chegado a hora de me desgrudar do meu porto seguro, que nem era tão seguro assim, porque nossa corda estava ancorada em apenas um único “P”, instalada do lado de fora da fenda, em um lugar à beira do abismo que dificulta até se ancorar nela. Me levantei de onde estava e alcancei a corda, tomando cuidado para não me desequilibrar. Me clipei, puxei a outra corda que eu havia enrolado porcamente e grudei-a com um mosquetão em uma das tiras da perna da minha cadeirinha, quis ficar com a cintura livre para melhor manusear a descida do rapel. Pronto, agora minha vida estava a se segurar por um único ponto e era somente eu e a pedra. Nunca fui nenhum escalador que prestasse, mas rapel nunca me preocupou, porque na década de 90 nos tornamos experts em descer cachoeira, pontes, paredes e abismos, mesmo que fosse com equipamentos toscos e com segurança sofrível. Mas ali era diferente, era uma espécie de rapel em curva, mais do que isso, era mais desescalada noturna, onde você tem que descer deitado na rocha, rastejando. E foi assim, como um verme, que eu iniciei a descida. Deitado de costas, mão esquerda na corda e mão direita cravada dentro do diedro. Me agarrei naquela rachadura e fui rastejando, minha mochila e minha calça quase que foram puindo na aspereza da rocha. Eu só pensava em não escorregar para o lado do abismo, eu só pensava eu jamais deixar minha mão direita se desgrudar daquela fenda e torcia para que as proteções deixadas pelos meninos pudessem fazer com que a corda não fizesse um pendulo no vazio. Quando cheguei à curvatura da montanha e levantei meus olhos em direção ao grande despenhadeiro, foi que me dei conta de que o pior já havia acontecido. Acabou-se a fenda e havia chegado a hora de me posicionar em pé nas bordas do vazio e foi aí que gritei o mais alto que eu pude: “- Segura essa porra dessa corda aí caralho, vou cair nessa merda! “ Nem liguei para as risadas que vieram lá de baixo, joguei-me na rocha e tentei grudar todo o meu corpo e se preciso fosse, teria me segurado com os dentes naquela curva maldita. Auxiliado pelo Alexandre, desescalei os metros finais porque nem rapel era possível fazer direito e quando apoiei os pés na grande árvore respirei aliviado. Se as desgraças eram vencidas em partes, uma desgraça a menos para nós vencermos. Faltavam ainda dois lances de rapel, dois longos lances entediantes e demoradas para descer, mas condicionei a minha mente para ir vencendo cada situação de cada vez e quando os rapéis acabaram no selado do Polegar, onde a trilha começa, tomei a frente e sem nem tomar fôlego, desembestei, descendo cabos e cordas como um chimpanzé de circo e 20 minutos depois reencontramos a trilha principal, pegamos para a esquerda e tocamos o pau para baixo. O Gersinho tomou à frente e eu fui no encalço dele, despencando pelos cabos de aço e desescalando onde era preciso até chegarmos novamente no grande paredão final, nos grandes cabos de aço, os últimos antes da trilha derradeira. Sem demora, eu e o Gersinho nos agarramos aos cabos e quase que deslizamos parede à baixo e foi muito melhor descer do que subir, mas o resto do grupo, capitaneados pelo Alexandre, inventaram de montar rapel para ir descendo pelos cabos, coisa que eu e o Gersinho não conseguimos entender qual era o propósito, porque a descida sem as cordas era tão rápida e tão fácil que acabamos achando excesso de preciosismo e desnecessária aquela manobra toda, mas, como cada um sabe das necessidades de sua segurança, nem nos pronunciamos, vai que os caras estavam tão cansados a ponto de realmente necessitarem desse procedimento. O certo é que eu e o Gersinho descemos toda a parede em menos de 15 minutos e como na parte final faltam uns 10 metros de cabos, que deixaram de instalar de propósito para que somente quem escala tem acesso à montanha, tivemos que nos prendermos no cabo e esperarmos os meninos, já que as duas cordas estavam com eles. Esperamos uma eternidade, esperamos tanto que nós dois chegamos a dormir por um momento e quando acordei, minha penha esquerda havia dormido de vez por estar presa a cadeirinha, dificultando a circulação do sangue. Somente uma hora e meia depois é que eles conseguiram se juntar a nós e todos juntos descemos de volta à Toca da Cuíca, finalmente no início da trilha que nos levaria de volta ao asfalto. Reunidos na toca, aproveitamos para um gole de água e para morder alguma coisa. Sentados ali, estavam 5 homens destruídos de sono e de cansaço, mas como a desgraça não tem hora para acabar, o Alexandre puxou a fila da trilha e cada qual foi seguindo em silêncio, na sua labuta e no seu martírio individual e vez ou outra se ouvia um grito e um gemido de indignação contra aquele maldito caminho que nunca chegava ao fim. Uma hora depois tropeçamos no alambrado e na placa que marcava o início da trilha e finalmente ganhamos o asfalto, estávamos de volta à civilização quase que pontualmente a meia noite, dezenove horas depois de termos iniciado aquela aventura, 19 horas de caminhada, escalada, perrengue, sono, frio, fome, cansaço e deslumbramentos. A comemoração foi tímida, eu mesmo ainda estava chateado por ter desistido tão perto do cume, mas a maioria estava mais para zumbi e poucas forças nos havia restado para abraços calorosos e comemorações exacerbadas. Cambaleando de sono, fomos subindo pelo asfalto a fim de vencermos esse km final até onde havíamos deixado o carro, mas uma coisa nos chama a atenção naquela noite gelada. Ao olhar para trás e ver a imponência do grande DEDO DE DEUS (1692 m), com sua torre atingindo o céu, não nos restou dúvidas de que aquele monstro rochoso é de longe a montanha mais fantástica e bonita do Brasil e foi muito justo ter ganhado o título de berço do montanhismo nacional. Meia hora de caminhada no asfalto nos levou de volta ao carro e depois de um breve cochilo, 2 da manhã nos enfiamos no veículo e fomos cumprir a parte final desta aventura maluca, que foi a de dirigir por mais 8 horas até São Paulo, onde chegamos às 10 horas da manhã da segunda-feira, prontos para enfrentar outra batalha cruel, voltar a rotina e ao trabalho. Quando estava praticamente com os pés no cume e recebi a notícia de que voltaríamos, pensei comigo: Lá se foi a minha única oportunidade de ascender ao topo daquela lendária montanha, talvez eu já estivesse velho demais para retornar, talvez eu nunca mais conseguisse me juntar a outra “expedição” como essa, com gente disposta a ter paciência com escaladores novatos e por isso mesmo, senti uma decepção maior que a imponência daquele dedo divino. Minha decepção foi tamanha que naquele momento pensei em nunca mais me aventurar na escalada, mas não se passou nem 2 dias para que meus pensamentos se voltassem novamente para aquela serra e com a cabeça fria, o corpo descasado e a mente em paz consegui enxergar o quão importante foi aquela aventura, o quão importante foi aquele aprendizado. O Alexandre foi um monstro tão grande quando aquela pedra por ter guiado aquilo tudo, sem nunca ter estado lá. Todos os outros companheiros de aventura se esforçaram bravamente para que a gente conseguisse subir e descer com segurança e só não chegamos ao cume por um pequeno detalhe. Hoje sabemos que o tal Passo do Gigante estava ali na nossa cara, mas o tempo nos barrou a conquista. Mais uma vez o Dedo de Deus não permitiu que eu o conquistasse por completo, mas não está longe o dia em que nós iremos desafiá-lo novamente e desta vez vamos pegá-lo desprevenido e quando ele menos perceber, já estaremos com os pés na sua goela. Divanei Goes de Paula –
  9. Carina Não sei, deixemos o tempo passar, por hora o que eu quero é distancia de lá. Um dos lugares mais incríveis do Brasil em se tratando de montanha, uma vista espetacular de um dos lugares mais bonitos deste país , mas é um preço muito alto que se paga para chegar lá, até hoje ainda não curei as feridas, rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrrs
  10. DEIXO O LINK PARA O VÍDEO DA EXPEDIÇÃO ; https://aventurebox.com/divanei/pico-desmoronado-a-conquista-inedita-do-cume-da-jureia/videos
  11. Deixo aqui o Link para o videozinho da Expedição que depois dessa chegou ao Cume da Serra dos Itatins, no topo do PICO DESMORONADO. https://aventurebox.com/divanei/pico-desmoronado-a-conquista-inedita-do-cume-da-jureia/videos
  12. Aí mano, vocês são malucos por acaso ? Não seria mais fácil descer para a praia de "busão" , fizeram tudo isso pra economizar 30 conto ? rsrsrsrsrsrsr
  13. DESMORONADO : Conquista inédita do Cume da Serra dos Itatins-Juréia Foi na madrugada gelada de início de inverno que aquele titã rosnou. Acampados naquele selado úmido e congelante, três homens se espremem em suas redes e são testemunhas do grito do gigante que lhes assombra até a alma. Eles estão a poucas horas de alcançar, não só a maior montanha da Serra dos Itatins-Juréia, mas uma das maiores montanhas de toda a cadeia que compreende a parte litorânea da Serra do Mar Paulista. O vento uivava no cume do DESMORONADO, o barulho fazia estremecer a montanha e era como se o monstro tivesse a nos dizer que não se entregaria facilmente. Foi no início dos anos 2.000 que eu tive o privilégio de botar os olhos naquela cadeia de montanhas. Estava acompanhado de um primo, tentando realizar a travessia pelas praias selvagens da Juréia. Havíamos partidos de Peruíbe com destino a Iguape e já naquela época era preciso enfrentar a fiscalização ferrenha que fecha a passagem pelas praias e foi justamente da Praia do Una que vi meu queixo cair diante daquela cadeia rochosa que cercava todo aquele paraíso, em uma das áreas mais preservadas e fantásticas do planeta. Naquela época não existiam mapas de satélite, não como hoje e eu nunca fiquei sabendo como se chamavam aqueles monstros rochosos que se erguiam no meio da grande floresta paulista. Foi preciso que se passasse 15 anos para que meus olhos se voltassem novamente para aquele lugar, justamente quando sem querer me deparei com um tal Dedo de Deus Paulista e daí para frente me enterrei em estudos de cartas topográficas, imagens áreas e caminhos selvagens. Em 2015, juntamente com outros exploradores, tivemos a honra de reabrir a trilha que levava ao Dedo de Deus e no começo desse ano, outra expedição nossa, inédita, ascendeu ao cume do MORRO DAS TRÊS PONTAS, aonde alcançamos pela primeira vez o topo do Pico Motchaka. Mas uma coisa sempre me intrigou, o Dedo de Deus Paulista era uma montanha lendária, mas seus 1.333 metros estava muito longe de ser realmente o cume da Serra dos Itatins-Juréia, muito porque, as cartas mostravam que a nordeste dele, longe, mas muito longe de qualquer lugar habitado, existiam picos gigantes que poderiam passar de 1.400 metros de altitude. Comecei então a devassar toda a internet a procura de mais informações, mas como internet é uma coisa recente, também procurei me informar com outros exploradores das antigas, conhecedores da região. Debulhei materiais antigos e revistas do gênero, pesquisei em mapas de tudo que é lugar, me enfiei de cabeça em tudo que era artigo relacionado àquela serra e para minha surpresa, foi como se praticamente aqueles cumes nunca existissem. Já há vários meses eu vinha me dedicando àquele ofício, um trabalho paciente de pesquisas e observações de mapas de satélites e foi aí que senti minhas pernas tremerem ao perceber que aquele cume perdido naquela serra esquecida poderia também ser um dos maiores cumes de toda a faixa litorânea de toda a Serra do mar do Estado de são Paulo, já que algumas altitudes no litoral norte, se encaixavam somente no Parque Nacional da Serra da Bocaina. Vi que alguns picos se destacavam pela sua altitude, como o Cuscuzeiro 1280 m, o Corcovado de Ubatuba com 1180 m, a Pedra da Boracéia em Bertioga com 1250 m e o maior de todos eles, o Pico São Sebastião, em Ilha Bela, com impressionantes 1370 metros aproximadamente, mas nenhum deles passavam nem perto dos gigantes das Serra dos Itatins, na Juréia. Diante de toda essa informação, não havia mais nada o que fazer, era hora de montar uma expedição de gente grande e ir lá naquele fim de mundo e tirar a dúvida. Então comecei a me concentrar nas pesquisas específicas. Bom, primeiramente encontrei nas cartas, dois possíveis picos que poderiam se tornar o cume da Serra, sendo que um deles já de cara me dizia que estava acima de 1.400 metros e outro, um pouco mais bicudo e a sudeste deste, estava muito próximo disso. Só que existe um grande porem: naquela região vários picos contam com torres rochosas nos seus cumes e infelizmente a carta topográfica não consegue identificar esses espigões de pedra, inclusive o próprio Dedo de Deus Paulista não passa de 1.100 metros, tanto na carta, quanto no satélite e todo mundo sabe que ele é 200 metros mais alto que isso. Então não havia o que fazer, tínhamos que montar uma estratégia e estarmos preparados para escalarmos os dois picos, caso nos deparássemos com esse tipo de torre no pico mais à sudeste, a uns 2 km do primeiro. Outro fato que é necessário relatar é que esses dois picos em primeiro plano não pareciam oferecer uma coisa muito importante para atrair qualquer montanhista para o seu cume e talvez esse fosse um dos grandes motivos de ter se mantido virgem até aquele momento. Quem em sã consciência se meteria a enfrentar um vara-mato por dias para chegar ao seu cume e não enxergar coisa alguma? Pois é, esse também era o grande problema para atrair mais algum trouxa (opsss, montanhista) que pudesse acreditar naquele projeto. Ai que veio o pulo do gato! Nos estudos encima do mapa de satélite localizei um grande desmoronamento que rasgava a montanha por uns 200 metros bem ao lado do cume, sendo que no mapa, parte deste deslizamento gigante, se precipitava no vazio da parede por quase 100 metros e isso, na minha cabeça, era visual certo de todo a parte sul da serra, justamente a que nos daria vistas para todos os grandes picos e do litoral de toda a Juréia. Escolhido o grupo a dedo, geralmente os mesmos retardados de sempre, que se metem nessas enrascadas, havia agora chegado a hora de chegarmos num consenso de onde partiríamos. Já era nítido e notório que partir lá do litoral era coisa impensável, não só pela logística quase impossível, mas também porque jamais conseguiríamos uma autorização da administração da Juréia para podermos subir, então uma coisa era certa: a expedição deveria partir de Pedro de Toledo, a cidade mais perto do acesso norte da montanha, praticamente longe da reserva e sem as necessidades burocráticas.. Mesmo assim, ainda teríamos que conseguir uma autorização de alguma fazenda, onde seus administradores não são muito afeitos a forasteiros transitando por suas terras e plantações, geralmente de bananas. Por isso mesmo tratei logo de montar pelo menos três planos diferentes, todos perto um do outro, mas saindo de três fazendas diferentes, tudo para garantir uma boa chance de conseguirmos passagem livre. O plano principal era partir de uma fazenda de bananas exatamente a 10 km de Pedro de Toledo, bem às margens da Estrada do Despraiado. Sabíamos que o mais sensato erámos ter ido ao local e conseguir essas autorizações previamente, mas a distância e a falta de tempo nos fizeram abortar essa parte do plano e então decidimos que isso teria que ser resolvido tudo na hora mesmo. Montada a estratégia, escolhemos o feriado de junho onde poderíamos desfrutar de 4 dias para tentarmos lograr êxito, mas quando esse dia chegou, os possíveis integrantes começaram a debandar um a um, alguns por motivos de trabalho, outros por motivos ignorados e alguns talvez não tivessem convictos de que realmente essa expedição pudesse mesmo valer a pena diante do esforço fora do comum a qual ela se apresentava. No fim acabaram sobrando apenas eu e o Natan Sanches, número insuficiente para pôr em pratica tamanha grandeza expedicionária. Foi aí que de última hora arrumamos mais um sem noção para encarar o gigante de frente e foi assim que se juntou a nós, Paulo Potenza e o grupo se completou não com o que tinha de melhor, mas com o que tinha disponível, ( rsrsrsrsr). Parti de ônibus para capital Paulista, onde esperaria no terminal rodoviário do Tietê pelo carro do Natan. O local combinado era nada mais nada menos que a boca do lixo da rodoviária, onde transeuntes, prostitutas, pinguços, travestis, nóias, drogados, mendigos, ladrões e outros vagabundos em geral fazem do local, seus lares e eu, menino vindo do interior, fui apresentado à anti-sala do inferno e foi bom para eu ir me acostumando com o que estava por vir. Logo que o carro chegou, pedi licença ao capeta e me retirei daquele antro em direção à Pedro de Toledo. O Natan sentou a bota no acelerador, sempre contando com seu copiloto preferido, Potenza, que ia passando as marchas no tempo certo e, rapidinho, já nos vimos passando em frente à entrada da cidadezinha do Vale do Ribeira, onde logo à frente, numa pequena rotatória, viramos para a direita, andamos 5 km e viramos à esquerda na pracinha do vilarejo de Três Barras, caindo assim na famosa Estrada do Despraiado. Passamos encima da ponte sobre o Rio do Peixe e 5 km depois do povoado, estacionamos em um recuo da estrada, bem em frente da fazenda que havíamos marcado no mapa, com a ajuda do traklog previamente traçado. Já passa das 2 horas da manhã e é claro que nós não iríamos incomodar os moradores da fazenda àquela hora da noite, na tentativa de obtemos uma autorização para passar e o jeito foi nos acomodar dentro do carro mesmo até que o galo cantasse, nos avisando que mais um dia havia nascido. Estávamos ali, bem em frente da Fazenda Primavera e o que mais nos alegrava era que se tratava de um lugar extremamente simples, até pobre, se comparado a outras entradas que havíamos passado, tanto que nem porteira havia, apenas uma tosca ponte de tronco sobre um pequeno afluente do Rio do Peixe. Quando o sol se levantou, fizemos o mesmo e assim que o ponteiro marcou sete horas, atravessamos a ponte desmontados e fomos tentar mendigar uma autorização para passar. Atravessamos a pontinha de troncos e duzentos metros à frente nos deparamos com um galpão aberto e uma casa simples, onde um cão preguiçoso nos olhava com cara de poucos amigos. Vimos logo que seus moradores ainda dormiam, então nos adiantamos até outro casebre, onde um senhor negro e sem calças se apressou para se recompor diante da nossa inesperada aparição. Fomos recebidos pelo seu Osvaldo, caboclo local que residia naquele lugar a mais de 25 anos. Contamos-lhe nossas intenções, mas o nativo pouco entendeu o que pretendíamos fazer. Ele coçou a cabeça, pensou, pensou, quis perguntar algo, mas deixou quieto, apenas disse que a estrada de 3,5 km que pretendíamos usar para ganhar uns 500 metros de desnível, estava totalmente interditada para carros e hoje não passava de uma trilha um pouco mais aberta. Para nós não importava, claro que se pudéssemos economizar duas ou três horas de caminhada dura, seria muito melhor, mas o grande objetivo, um dos principais para o sucesso daquela expedição era conseguirmos a autorização para seguir e isso acabava de ser dada, primeira etapa do projeto: efetuada com sucesso. Guardamos o veículo junto ao galpão, jogamos as mochilas nas costas e partimos. E já partimos em grande estilo, sempre subindo e alguns minutos depois passamos por uma bica de água e como já estávamos com o cantil abastecidos, passamos batido. A estrada/trilha vai serpenteando montanha acima sempre cruzando no meio de enormes bananais e quanto mais subíamos, mais as vistas se alargavam. Depois de uns 2 km chegamos à uma bifurcação, onde um rancho de lona azul é encontrado. Nesse ponto já estamos a 500 metros de altitude e nessa bifurcação pegamos o caminho da direita que vai se enfiando no meio da floresta, onde a estrada embica para cima de vez e vamos percorre-la por mais 1,5 km até que finalmente tropeçamos num casebre abandonado e ali paramos para um breve descanso antes de darmos início a expedição selvagem. Estamos na cota dos 700 metros de altitude e o Natan e o Potenza, vendo que haviam exagerado com o peso nas mochilas, resolveram refazer suas estratégias, tocar o foda-se e deixar parte da comida e alguns agasalhos no casebre e eu, como não havia nada para tirar, tive que me conformar e amargar um peso de mula andina nas minhas costas. Às dez e meia da manhã abandonamos de vez aquela choupana velha e quando nossos pés tocaram de volta o caminho que nos levaria ao início do grande vara-mato, já tínhamos consciência que havíamos entrado num caminho sem volta. Mais 100 metros à frente outra bifurcação nos faz pegar o caminho da direita, agora nos enfiando no meio do bananal abandonado onde nossas botas já empapam num brejo dos diabos e isso vai durar por uns 10 minutos até chegarmos na entrada da floresta, onde o vale do Rio do Peixe se apresenta para ser cruzado, hora de parar novamente e rever o plano traçado, estudar os mapas, calibrar o GPS, pedir proteção para o Curupira e para que os deuses tenham piedade das nossas almas. Nessas expedições, sempre traçava o caminho me valendo do satélite, mas desta vez, já muito mais experientes nesse tipo de mapeamento, decidi juntar satélite com carta topográfica, traçando o caminho minunciosamente, metro a metro, curva a curva, estudando cada linha, cada desnível, cada possibilidade, cada caída do terreno, tudo isso para que a gente conseguisse nosso objetivo com menor esforço, sem ser jogado contra abismos ou paredões intransponíveis. Foi um trabalho longo e de paciência, mas aquela expedição ia nos mostrar que mapa é uma coisa e comer bambu espinhudo, é outra. ( rsrsrsrsrs) Primeiramente não havia o que fazer, se não despencar até o fundo do Vale do Rio do Peixe, encher os cantis e subir novamente a outra margem para dar de cara com uma rampa inclinada, que nos indicava que ali era o sopé da montanha, num emaranhado de bambu, cipó, taquaras e outras vegetações plantadas pelo cão, para impedir a passagem de bisbilhoteiros. Calibramos a direção a seguir, no caso para cima mesmo e dei início ao vara-mato, pouco antes dos nossos relógios marcarem onze horas da manhã. Já de cara foi preciso colocar o joelho na boca por causa da inclinação, mas não se passou nem dez minutos para eles aparecerem no nosso caminho. Os malditos bambus com espinhos parecidos com anzóis foram os primeiros que tentaram nos barrar e para piorar, eram bambus deitados, que nos faziam rastejar feito vermes. Eu estava à frente e para minha infelicidade, havia esquecido minhas luvas e portava apenas uma camiseta e até o final daquela sessão de tortura, pagaria o preço pela minha ousadia, ou burrice. Quando a gente pensou que poderia estar vencendo os bambus espinhudos, fomos golpeados pelos cipós navalha, aquele que passa no pescoço e você acha que vai cortar até a sua jugular. As taquarinhas agarravam na gente, os cipós enroscavam nas mochilas, as bromélias furavam nossas calças, os espinhos dos bambus enfiavam na pele até o sangue escorrer pela pele, era um passo para frente e dois para trás. A caminhada não avançava, a vegetação ia enervando a gente de uma tal maneira que as vezes parávamos e ficávamos inertes, meio que a contar até dez para não explodir de tanta raiva. Foi nessa hora que nos demos conta do tamanho da enrascada que tínhamos pela frente. Quando conseguimos finalmente passar pela porta do inferno, do outro lado saiu um homem todo retalhado e ensanguentado e foi aí que tive que abrir mão de um agasalho de mangas comprida, na tentativa de minimizar o estrago que já havia sido feito pela vegetação. Deixado o caminho espinhoso para trás, o terreno melhorou, mas a inclinação continuava a mesma e logo quando chegamos a que nos pareceu meio com um bosque, paramos para um descanso providencial e um gole d’água, foi aí que um barulho fez com que a gente tremesse as pernas: Estávamos bem próximos de um enxame de vespas e era nítido e claro o som dos seus zumbidos. O Natan e o Potenza ficaram ainda mais assustados com a presença dos insetos, mas quando um barulho de porco ressoou na floresta, nós três já nos viramos e sem pensar muito, nossos olhos já tentaram localizar uma arvore para subir, porque ali ninguém queria virar presa de queixada ou mesmo de algum javali, mas felizmente, do mesmo jeito que veio, o som sumiu sem deixar rastro. O enxame de vespas abreviou nosso descanso e achamos melhor sair dali o mais rápido possível e então voltamos para o ofício de varar mato no peito. Quando tracei aquele roteiro, procurei evitar de ir até o cume daquela primeira montanha, mesmo porque, teríamos que descê-la novamente até o grande selado que nos serviria de “ponte” para passar entre duas gargantas afim de alcançarmos outra montanha, mas infelizmente ter desviado a rota desse primeiro cume acabou por se tornar um grande erro, porque acabamos ficando nos equilibrando numa curva de nível a uns 1.150 metros bem na encosta da serra. Não que o declive fosse assim tão perigoso de se caminhas, bem longe disso, mas a vegetação que se apresentou à frente nesse trecho nos fez mais uma vez comer bambu e todo tipo de vegetação espinhuda novamente. A gente não avançava nada e toda hora a vegetação acabava nos afastando do trajeto planejado, nos fazendo ziguezaguear hora para cima, hora para baixo. O dia foi passando e a gente enroscado naquele terreno e nossa água foi acabando e sem perspectiva de molhar a garganta com abundância. Foi aí que começou a surgir nas nossas cabeças as dúvidas sobre que rumo aquela expedição poderia tomar se não encontrássemos água no tal selado que havíamos vislumbrados a possibilidade de encontrar o tal liquido. Se não houvesse água ali, estávamos perdidos. A cada pequeno vale que descíamos e víamos que estava seco, fazia com que nossa decepção aumentasse. Ficamos envolvidos naquele vara-mato sobre a mesma curva de nível por quase duas horas e quando o terreno começou a nos jogar para baixo, sem nem percebermos que havíamos nos afastados da rota do GPS, foi aí que nos deparamos com um primeiro filete de água e mais abaixo ela jorrou aos montes e as caras carrancudas até então, se abriram num sorriso de alegria e felicidade. Mas aquela pequena nascente não era somente mais uma das milhares de nascentes que se encaminham para os vales para formar os rios da serra, era simplesmente a principal nascente que forma o GRANDE RIO DESPRAIADO. Era ali, exatamente naquele lugar que ele nascia e nós erámos provavelmente as primeiras pessoas que se tem notícias a botar os olhos na sua nascente, mas isso pouco importava naquele momento. Diante naquele achado, estávamos de volta ao plano principal, que era o de botar os pés no cume da Serra dos Itatins-Juréia. Bebemos o tanto de água que aguentamos e cada um colheu uns três litros. Ainda era umas três da tarde, mas a luz da floresta já começava a sumir. A gente ainda estava tentando chegar ao tal selado, muito porque à nossa frente se apresentou um grande abismo sem fundo, por onde o Rio Despraiado daria seus primeiros passos e para a gente não havia outra alternativa senão a de encontrar esse caminho, que nos levaria para o outro lado, servindo de passagem natural. Logo notamos que estávamos bem abaixo do selado, já envoltos na garganta e então calibramos nossa rota e começamos a ganhar altura para valer, mas era impressionante como não avançávamos de jeito nenhum. A gente subiu, subiu, depois começou a descer até que encostamos em outra grande subida à nossa frente e como era o Natan que fazia o ofício de navegador, pensei que havíamos chegado ao selado e ele havia tocado em frente, já que eu ainda tinha uma leve esperança de chegarmos o mais perto possível do Pico Desmoronado. Mas quando vi que ele fez um desvio da parede e começou a descer de novo, fui obrigado a interpela-lo o porquê da mudança de rota. Para minha surpresa e do Potenza, ele logo nos disse que ainda nem tínhamos chegado ao selado e que também não aguentava mais aquela vegetação. Foi preciso mais quase meia hora para que finalmente desembocássemos no Grande Selado, a 1.200 metros de altitude, uma área linda, plana e com grandes árvores espaçadas. Nossos relógios já estavam prestes a marcar quatro horas da tarde e eu queria me apressar e conseguir uma área para acampar e para isso só nos restaria umas duas horas antes que a noite chegasse de vez, mas o Natan e o Potenza me encostaram à parede: Diante daquele belo selado, eles não queriam mais arredar os pés dali, indo adiante num caminho incerto, subindo a nova encosta da montanha sem nenhuma perspectiva de encontrar uma área descente para acampar. De certo modo eles tinham razão, mas me intrigava ter que deixar de aproveitar mais duas horas, que poderiam talvez comprometer o seguimento da expedição, além do mais, tinha a questão da água. Se acampássemos ali, gastaríamos parte da água para preparar a janta, mas se subíssemos por mais duas horas, poderíamos saber se teríamos mais água perto do cume e se não houvesse água alguma, ainda teríamos a chance de economizarmos o máximo possível, revendo nossas logística, o que nos daria uma chance maior de sucesso. Não houve conversa com os dois e os argumentos deles eram imbatíveis: Estávamos sem dormir, cansados, famintos, todos estropiados pelos espinhos e pela caminhada dura até ali. Diante disso, não houve o que fazer, joguei logo minha mochila ao chão e demos por encerrado aquele dia de caminhada, hora de montar acampamento, cozinhar a janta e descansar os esqueletos. Em cinco minutos minha rede estava montada e decidimos que enquanto eles montavam os toldos para proteger nossas camas de mato, eu sairia à procura de outra fonte de água, porque com água disponível também ali no selado, poderíamos usufruir de um conforto muito maior. Na carta estava claro que em cada lado do grande selado nascia um rio, que iam tomar direções opostas. Primeiro tomei a direção leste, me dirigindo para o vale da esquerda de quem almeja ir ao cume da serra. Desci por uns duzentos ou trezentos metros, mas nada encontrei. Voltei para o acampamento e tomei a direção oeste, meio que me dirigindo para outra possível nascente do rio Despraiado(Espraiado na carta). Também desci por quase uns duzentos metros e quando já estava por desistir, avistei o reflexo da luz numa pequena poça no fundo do vale. Bingo! Voltei e dei a notícia para a galera, que logo se alegraram com a possibilidade de termos uma janta descente. Eles ainda estavam no ofício de montagem de redes e tenda e como não precisavam da minha ajuda, aproveitei para esticar as costas na minha rede e acabei apagando, vindo a acordar somente uma hora depois para me deparar com os mesmos caras, tentando montar as mesmas tendas e as mesmas redes, isso que dá não ter lido o manual antes de sair de casa. ( rsrsrsrsr) Fazia um frio de rachar, e a noite prometia esfriar mais ainda. Estávamos todos exaustos e após prepararmos a janta, cada um pulou para sua rede e foi tentar se aquecer como deu. Mas foi de madrugada que ele começou. Uma rajada de vento varreu toda a montanha e era ensurdecedor o barulho do vendaval que açoitava o cume do Desmoronado. No vale onde estávamos, parecia que as árvores tombariam encima da gente. Os urros do vento no alto da serra eram assustadores, como um dos meninos disseram: “Parecia que a própria montanha sairia caminhando e arrastando tudo que havia pela frente”. O Urro do titã perdurou por algum tempo ainda e a temperatura despencou de vez, mas quando o dia nasceu, tudo se acalmou e a gente pulou cedo da cama, vestimos nossas armaduras e nos fizemos prontos para enfrentar o desafio final, havia chegado a hora da conquista e para isso tínhamos que pôr a faca nos dentes e como D. Quixote, encarar o gigante de frente. Desmontamos tudo, tomamos café, colhemos água e partimos. Logo de cara temos uma parede íngreme para subir, mas no início até que a vegetação ajudou, mas não demora muito já estávamos lá nós de novo a comer bambu e a brigar com cipós, taquaras e bromélias espinhudas. Logo na primeira hora de caminhada, o caminho nos leva direto para um grande deslizamento, aonde uma grande parede de rocha nua, nos presenteia com a primeira visão de todo o vale e as montanhas que se entendem em direção de Itariri. Até então a gente havia tomado a direção sudeste e a partir do selado, nosso caminho fez uma curva bruscamente para o sul, ande teríamos que galgar quase todo o cume arredondado da próxima montanhas para aí sim, nos virarmos de vez para o leste, até tentarmos atingir o cume da serra. A pernada então continua para o alto, avançando lentamente, um pé à frente do outro, eu sempre na dianteira, revezando com o Potenza a dura tarefa de abrir mato no peto e o Natan fazia a parte mais importante, que era a de fazer com que a gente nos mantivéssemos o mais próximo possível no caminho previamente traçado no mapa. É uma navegação praticamente às cegas, sempre tendo que confiar no GPS do celular, mas como a vegetação não estava nem aí para tecnologia, insistia em nos mandar para onde ela queria e logo nos víamos longe da linha traçada, tendo que recalcular nosso rumo e procurar um terreno e uma vegetação mais favorável para podermos passar. Finalmente umas três horas depois de partirmos da área de acampamento, interceptamos outro grande desmoronamento que havíamos traçado no mapa. Era uma rampa inclinada, uma parede de barro de uns 100 metros ou mais, um rasgo na montanha. A chegada à RAMPA DA SERPENTE nos anima muito porque realmente é duro ficar arrastando uma floresta no peito sem um pouco de sossego e isso tende a nos deixar com os nervos à flor da pele. Aproveitamos o caminho desimpedido para ganhar altura e distância, mesmo tendo que escalaminhar o barranco. Ao chegarmos ao seu topo foi preciso passar com cuidado porque uma jararaca velha e gigante nos olha com cara de reprovação e põe a língua de fora, como a zombar da nossa cara por estarmos ali naquele fim de mundo, naquela terra onde somente os bichos rastejantes se atrevem a ir. Saímos pelo lado direito da rampa da serpente, subindo o barranco e nos enfiando por baixo de mais bambus. A nossa rota indicada pela linha do navegador, nos dizia que deveríamos seguir em frente, mas para escapar de mais uma vegetação fechada, resolvemos subir um pouco para a esquerda, haja vista que logo interceptaríamos o caminho que teria que fazer a sua grande curva para a esquerda. Esse trajeto nos deu a oportunidade de, através de uma janela na mata, podermos botar nossos olhos na montanha que almejávamos, mas o pico nos pareceu tão alto que chegamos a duvidar que seria mesmo o pico que buscávamos. A gente já tinha quase certeza que o pico a Sudeste do Desmoronado era muito mais baixo, mas visto de um ângulo diferente, ele era meio bicudo, então isso nos fez crer que poderíamos estar olhando para ele, mas nos enganamos bonito. Voltamos a ganhar altitude e o terreno melhorou bastante e quando estávamos quase no topo de mais um morrote, atravessamos uma floresta de bromélias e passamos o mais rápido possível, já que são conhecidas como camas de jararaca. Daí para frente foi uma descida alucinante até o fundo do vale, tendo que fazer uma descida controlada para não nos tornarmos vítima da força da gravidade e irmos parar com a fuça no leito de um riacho que aliás, nos fez mais uma vez sorrir de felicidades pela água encontrada. Nosso caminho bordejou o rio por algum tempo até que do nada e sem percebermos, um grande descampado surgiu à nossa frente, mas até então não sabíamos do que se tratava, estávamos confusos. Era como se uma grande enchente tivesse passado por ali e arrastado todas as árvores. Nosso GPS dizia que o tal desmoronamento que buscávamos estava perto, mas não conseguíamos ver coisa alguma. Onde estava a borda da serra? Porque ainda não conseguíamos ver o litoral? Será que o GPS havia parado e nos deixado na mão justamente ali? Atravessamos o grande brejo que à nossa frente se apresentou, mesmo sem saber se aquele era mesmo o caminho. Pulamos grandes troncos até que surpreendentemente demos de cara com uma prainha de rio que se estendia para o leste, numa fenda em forma de vale, gigantesca e inesperada. Paramos ali para respirar um pouco, descansar e comer algo, mas não por muito tempo. Logo nos levantamos e ainda totalmente desorientados, saímos a navegar meio sem rumo e quando o nosso navegador percebeu, já estávamos quase a cair nos abismos profundos das encostas daquelas paredes. Havíamos saído completamente da rota e tínhamos andado perpendicularmente ao caminho traçado, foi aí que caiu a nossa ficha: Aquele grande vale era nada mais nada menos que os grandes desmoronamentos que havíamos encontrado no mapa de satélite e que , por incrível que pareça, não se estendia pela parede que deveria cair no abismo colossal da serra e não passava de uma vale formado por um riacho, com os tais desmoronamentos convergindo para o centro do vale, o GOOGLE EARTH , acabava de nos dar um tombo gigantesco, com um erro grotesco no mapa de satélite, uma distorção impensável. Percebendo o erro no mapa, agora sabíamos que nosso caminho deveria seguir por dentro do grande vale, subindo o riacho até a sua nascente por uns 200 metros. Até tentamos fazer isso, mas como em um primeiro momento o terreno se mostrou quase impassável, resolvemos bordejar pela direita, varando mato e quando vimos que o riacho começou a correr livre dos troncos e capim alto, pulamos para o seu leito e fomos subindo até que ele acabou na sua nascente principal, encravada entre dois desmoronamentos monstros, um a esquerda e outra à direita, justamente a última rampa que nos levaria para a conquista final. Aquela era sem dúvida a nascente mais alta de toda a Serra dos Itatins, um veio d’água a quase 1.400 metros de altitude. Nós paramos ali para tomar um último gole e enquanto a gente se fartava, ficamos meio em silêncio e aí me veio à cabeça que poderíamos ter enfrentado um dos piores terrenos de todo o Estado e chegando ao cume, não conseguir ver coisa alguma, só mato e mais mato. Valeria pela conquista inédita, claro, mas a gente sabe muito bem o que todo montanhista busca no cume de uma montanha. O dia já ia lá pelas três horas da tarde quando a gente acertou o azimute do nosso roteiro para ir em direção ao cume e o nosso caminho passaria mesmo por escalar a grande parede do desmoronamento, uns 100 metros de escalaminhada em um terreno solto, onde as pedras rolavam só de olhar para elas. A subida foi lenta, devagar, cada qual no seu ritmo, como se cada um fosse alcançar seu próprio Everest e quando todos chegaram no alto, já novamente na borda da floresta, nos juntamos para novamente varar mato e tentar encontrar, com a ajuda do gps e da elevação do terreno, onde seria o cume daquela serra. Subimos o barranco e para variar, como não poderia deixar de ser, enfrentamos um pouco mais de bambus e cipós. Tudo ao nosso redor era mato e era até difícil encontrar onde estaria o ponto mais alto, mas quando chegamos ao local indicado pelos nossos equipamentos de localização por satélite, ficou claro que uma grande árvore, que nasceu justamente em uma pequena elevação marcava o CUME DO DESMORONADO. Não, nessa hora não houve qualquer comemoração, na verdade, da minha parte houve foi um pouco de frustação por até então não conseguir as grandes vistas do qual fui buscar. Mas a gente havia se dado conta de que acabávamos de realizar um grande feito, naquele dia 16 junho de 2017, finalmente alguém havia jogado luz num enigma que perdurava por muito tempo, o ponto mais alto da SERRA DOS ITATINS-JURÉIA acabara de ser conquistado, agora o cume daquela serra esquecida já poderia constar nos mapas geográficos do Estado de São Paulo e o nome acho que não poderia ser mesmo outro, fazia menção ao acidente geográfico que marcava sua localização. Ainda teríamos que auferir sua altitude, pelo menos uma altitude aproximada e bem próxima do real, mas antes era hora de ir atrás do bônus da conquista. O cume da serra incrivelmente fica bem nas bordas de uma parede de quase mil metros de desnível, sendo uns 500 ou 600 metros de uma parede de noventa graus de inclinação, em um dos maiores abismos colossais da Serra do Mar Paulista. E tudo isso a não mais que míseros dez metros do cume. Hora bolas, se conseguíssemos nos aproximar dessa parede vertical seria claro que poderíamos ter as vistas que buscávamos, então no enfiamos em direção as bordas do vazio, seguindo para o sul e quando chegamos lá, ninguém acreditou no que estava diante dos nossos olhos. Entre cotoveladas e empurra e empurra, por pouco um de nós não foi conhecer as profundezas do abismo pela primeira vez na história. Cada qual lutava com as armas que tinha para poder se maravilhar com aquele espetáculo que se descortinou diante dos nossos olhos. Ainda era uma pequena janela miserável entre a paisagem, mas já foi o suficiente para cada um de nós se encantar diante de tamanha beleza. Aquilo nem parecia real e mesmo com o tempo apresentando uma bruma que cobria parte do horizonte, assim mesmo, a gente pode se dar conta que estávamos diante de um dos maiores espetáculos de montanhas do Brasil. Ali estava ela, toda a Reserva Ecológica da Jureia diante dos nos pés, com toda as suas matas, seus bichos, seus rios e suas praias selvagens, um dos maiores patrimônios da Humanidade. A sudoeste, ainda meio escondido entra as nuvens o gigante Dedo de Deus Paulista e toda a sua cadeia de montanha com espigões de pedras espetados acima da floresta. Do nosso lado esquerdo, quase já fora da nossa visão, o PICO SUDESTE 1.389 m, justamente aquele que poderia ser o cume da serra se por acaso viesse a ter alguma torre rochosa em seu cume, do qual a carta não podia nos mostrar, era visivelmente bem mais baixo, com seu topo coberto de floresta, quase sem nenhuma elevação proeminente e essa visão completa desse outro pico mudava todo o rumo daquela expedição. Nós três estávamos em êxtase, mas sabíamos que ainda faltava uma janela maior, que nos desse a condição de fazermos umas fotos e uns registros melhores e ainda sabíamos que as condições meteorológicas pela manhã são muito melhores que na parte da tarde, então decidimos que iríamos acampar no cume, no dia seguinte poderíamos procurar outras janelas, amassar os bambuzinhos, abaixar alguns galhos e brotos que nos fechava ainda parte da visão. O dia já ia findando, mas a gente ainda não havia localizado nenhuma área propícia para acamparmos. Pensamos em descer e tentar algo mais abaixo, mas depois decidimos que seria muito mais cômodo ficarmos no cume, onde pretendíamos, no dia seguinte, fazer a medição com os 3 equipamentos de gps e também abrir uma janela maior que nos desse uma tomada de 180 graus de toda a Juréia. Como estávamos com redes, a única coisa que precisávamos fazer era amassarmos os bambuzinhos e limpar os cipós para liberarmos uma área entre três árvores. Fizemos um ótimo trabalho e em mais cinco minutos pendurei a minha rede, enquanto os meninos, mais uma vez, ficaram umas duas horas brincando de montar tendinha (rsrsrrs). Nos reunimos para fazer a janta e para discutirmos o rumo da expedição. Estava bem claro que o tal Pico Sudeste não passava de uma colina perto do Pico Desmoronado, além de visivelmente muito mais baixo, não havia nada nele que justificasse mais pelo menos um dia de caminhada e vara-mato num inferno de bambus e cipós. Poderíamos apenas, no outro dia, nos dedicar as contemplações e a abrir uma nova e boa janela que nos desce o máximo de visão possível de toda aquela serra espetacular. Depois de uma janta de gala, todos nos recolhemos antes das nove da noite e quando o sol nasceu, trazendo um novo dia, o Potenza e o Natan se encarregaram de fazer uma foto legal e depois disso, eles mesmos voltaram para a ”cama” novamente e só acordamos muito tempo depois, quando o galo já estava roco de tanto cantar. Foi uma noite tranquila, muito diferente da noite anterior, passada no selado. Nosso primeiro passo logo pela manhã foi de instalar uma capsula que iria conter nosso Livro de Cume, onde se um dia alguém também ascender a esse cume novamente, poderá ler os registros da conquista e também deixar seu recado para as gerações futuras. Aproveitamos para fazer a medição da altitude, claro, é uma medição prévia, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas chegamos a um consenso de que por hora aquela seria uma medição bem próxima da realidade. Juntos, os nosso três GPS, nos deram em média uma altitude de 1.425 metros e aí estava a prova de que realmente tudo havia batido, tanto as cartas, quanto as medições por mapas de satélite e os nossos equipamentos só vieram para confirmar definitivamente, estava estabelecido o novo cume da SERRA DOS ITATINS-JURÉIA, o Pico DESMORONADO (1.425 metros) agora era oficialmente o topo de toda a serra e estava entre um dos pontos mais altos de toda a Serra do Mar Paulista. Enquanto o Natan e o Potenza seguiam para a direita do cume, tomei o caminho contrário, tentando achar uma nova janela, mas vi logo que a crista que desce para outro selado entre o Desmoronado e o Pico Sudeste, também não daria passagem nem para um mamute assustado por causa da vegetação entrelaçada e quando desisti de tentar essa rota e voltei para onde estavam os dois companheiros, já os encontrei com os serviços adiantados. Já haviam amassado toda uma grande moita de capim elefante, como também já tinham retirado todo os cipós e bambuzinhos que pudesse impedir a nossa vista. E dali para frente, a visão daquela serra com o tempo totalmente aberto, nos arrebatou a alma. Toda a comemoração que faltara no dia anterior, aconteceu ali, naquele espaço minúsculo e apertado. Os gritos de felicidade ecoaram e se espalharam por toda aquela serra, vazia de homens e cheia de encantos. Mais uma vez cada um queria lutar pelo seu espaço, cada um querendo tirar uma foto mais espetacular que o outro e os ângulos eram tantos e tão diversos que ninguém queria mais arredar os pés dali. O Dedo de Deus Paulista agora reinava soberano no horizonte e essa era a primeira vez que ele seria fotografado a partir do cume da serra. Também a sudoeste todo o espigão do Boa Vista com sua antena característica. A nossa frente os grandes abismos e os picos pontudos e rochosos transformavam aquela serra numa espécie de Serra dos Órgãos Paulista. A nossa esquerda e a nossa frente se estendiam uma floresta intocada com destaque para os Rios Una e Verde, bem como toda a extensão do Maciço da Jureia. Antecedendo a grande ponta da Juréia, as Praias do Una e logo após ela a Praia da Grajaúna, divididas pela ponta do mesmo nome e para finalizar a descrição dos principais atrativos bem ali aos nossos pés, o Pico Pogoçã, também conhecido como Nariz de Palhaço. Nós ficamos ali, até o meio dia, inebriados pelo cenário. Era muito provável que a linha que delimita toda a Reserva Ecológica Juréia – Itatins, passasse bem encima daquela cumeada toda, então sabíamos que aquela grande parede serviria de barreira natural para proteger uma das reservas ambientais mais importantes do mundo, tudo aquilo que estava à nossa frente, era área intangível, totalmente proibida para pés humanos e ficamos felizes de pelo menos podermos olhar tudo aquilo de cima, um privilégio até agora de três exploradores. Como eu disse, o dia já ia pela metade, então nos apressamos, desmontamos tudo rapidamente e partimos, deixando aquele pico selvagem novamente largado a sua solidão eterna. Ao chegarmos novamente ao fundo do vale, colhemos um pouco de água e usamos o próprio rio para ganharmos distancia, passamos pela prainha de areia, viramos à direita e fomos pulando de tronco em tronco para não empapar nossas botas no brejo. Sem desgrudar o olho do GPS, mais uma vez nossa vida se resumiu a varar mato sem fim, mas dessa vez, com as mochilas bem mais leve, imprimimos uma velocidade duas vezes maior que a da ida. Subimos a primeira montanha, descemos pela rampa da serpente e novamente nos enfiamos em direção ao selado, mas novamente sem percebermos a vegetação foi nos empurrando para fora da rota e quando vimos, já estávamos perdidos em um vale qualquer. O Natan corrigiu a rota, mas aí já havíamos perdido um tempo precioso e logo percebemos que havíamos saído bem do outro lado do deslizamento de rocha, então fomos obrigados a usar a descida da rocha como caminho, onde por uma bobeira, o Natan perdeu o equilíbrio e foi conhecer a dureza da rocha com sua fuça. Por sorte foi só um susto! Paramos imediatamente para um descanso, mas eu, na minha ingenuidade, ainda sonhava em conseguir pelo menos voltar até a noite para o rancho abandonado e fazer dele nosso lar por um dia, mas os meninos não estavam de acordo com essa correria toda não, já vieram com aquela conversinha de que seria melhor acampar novamente no selado e então fui facilmente persuadido por eles e a decisão foi essa. Já que estávamos bem perto do tal selado, ao invés de voltar a varar mato, decidimos desescalar aquela parede rochosa até atingirmos o fundo do vale e através dele subir até a área de acampamento. Feito isso, em meia hora estávamos de volta onde tínhamos passado a primeira noite, foi como retornar para casa novamente. Ainda era cedo, mas decidimos começar logo a nos dedicar às montagens das redes e do abrigo e a colher água para o jantar. Ali no selado a noite cai rápido e quando a escuridão chegou, nossos fogareiros já ronronavam fazia tempo. Arroz, atum, bacon, frango desidratado, queijo ralado e suco de laranja, foram nosso cardápio e uma boa comida quente tem sempre potencial para elevar o moral da equipe, mas diferentemente da primeira noite que passamos ali, agora estava uma temperatura agradável e nem se ouvia o barulho do vento. Como estávamos bem descansados, depois do jantar, iluminados pelas luzes das nossas lanternas, ficamos até tarde da noite nos dedicando a contar causos de aventuras passadas, de experiências vividas do mundo das montanhas e das trilhas, enfim, jogar conversa fora até que o sono viesse a nos carregar para dentro das nossas redes. Quando o dia nasceu, nos levantamos, desmontamos tudo e partirmos. Mas dessa vez iríamos mudar nossa rota e apontamos nossa bussola para o cume da montanha, queríamos evitar assim passar pelo mesmo lugar que enfrentamos na vinda, onde ficamos travados na vegetação encima da curva de nível lateral. Nos agarrando como deu, subimos o paredão que se apresentou à nossa frente. Duzentos metros de parede nos levaram direto para umas moitas monstro de bambus e taquaras, onde rastejar era o que tinha para aquele momento. Logo percebemos que infelizmente estávamos novamente caminhando por outra linha lateral, ziguezagueando novamente a uns 200 metros do cume e o pior é que a vegetação não nos deixava passar e nem ganhar altitude. O tempo vai passando e os nervos vão ficando a flor da pele novamente e chegou uma hora que apontamos o nariz para o topo da serra e fomos arregaçando tudo que tinha pela frente, nos grudando no barranco e escalando a parede de mato até atingirmos nosso objetivo e pararmos para um gole de água em meio a uma vegetação um pouco melhor. Na nossa carta topográfica, víamos claramente que o topo se estendia por uns 300 metros antes que a montanha começasse a despencar de vez em direção ao vale. A nossa progressão foi rápida e perdíamos altitude numa velocidade incrível, mas a gente sabia que teríamos que enfrentar novamente o inferno de vegetação espinhenta novamente, então decidimos fazer um desvio na nossa rota e começar a tocar rumo ao vale do rio que corria à nossa direita e não demorou muito, lá estávamos nós de volta ao leito das nascentes do Rio do Peixe, onde os mais corajosos, não eu, se pincharam para debaixo de uma cachoeirinha de águas congelantes. A princípio nos pareceu uma ótima ideia descermos um pouco pelo leito do rio, mas logo uma pequena garganta nos barrou o caminho e fomos obrigados a desviar pela esquerda, subindo à margem. Mas aí descobrimos que tínhamos no enfiado numa roubada dos infernos, dando de cara com moitas gigantes de bambus quase que intransponível. Não houve o que fazer, não conseguíamos progredir, então abandonamos aquela ideia estúpida e ganhamos altitude novamente para podermos passar longe da margem do rio e fora da linha dos bambus. A caminhada se tornou um pesadelo, mas avançávamos, e quando percebemos que as gargantas do rio tinham acabado, descemos novamente para o seu leito e fomos caminhando por dentro dele, pulando de pedra em pedra e fazendo pequenos desvios. Numa dessas subidas de barranco bobeei e quando percebi, lá estava eu agarrado na beira de um barraco com as mãos pregadas numa espécie de samambaia açu com espinhos negros. Não pude fazer nada, se soltasse cairia de cabeça nas pedras pontudas do rio, só fiz ficar gritando e amaldiçoando a minha má sorte até que o Potenza me auxiliou e me ajudou a voltar o corpo para trás. Aquilo tinha sido a gota d’ água. O nosso gps dizia que estávamos a não mais de 100 metros do encontro com a trilha, mas eu não queria mais saber daquele mato e ao avistar o primeiro pé de banana no barranco da direita, piquei a mula na direção dele e ganhamos a trilha mais à frente e por falar em banana, fiz questão de dar uma bem grande para aquela serra, prometendo nunca mais colocar os meus pés novamente lá, mas logo a raiva passou e meus pensamentos já se voltavam para aquele cume espetacular com uma visão arrebatadora da Juréia. Antes da uma da tarde, desembocamos novamente no casebre abandonado e ficamos lá o tempo suficiente para reavermos as coisas que havíamos deixado, comemos alguma coisa e descemos à passos largos pela estradinha que nos levaria de novo até a humilde sede da Fazenda Primavera, para reencontrar seu Osvaldo e vê-lo ficar perplexo ao assistir um pequeno vídeo mostrado pelo Natan, de onde se podia avistar o mar. Acho que aquele caboclo perdeu até o rumo pois nunca tinha ouvido falar que um caminho passando pela sua propriedade, poderia levar alguém as bordas do paraíso. Sem mais nada para fazer ali, nos despedimos do seu Osvaldo e fomos tomar banho sob a pontinha de troncos, onde um afluente do Rio do Peixe desfila com águas cristalinas e em seguida tocamos para Pedro de Toledo, e nos acabamos de tanto comer num restaurante, onde comemoramos o sucesso da expedição. O ano de 1953 já ia pela metade quando uma expedição militar, capitaneada pelo então Coronel Petená logrou êxito ao escalar pela primeira vez o Dedo de Deus Paulista. Terminava assim uma corrida insana para ver quem seria o primeiro a fincar os pés no então “cume de toda a Serra dos Itatins”. Mas aí é que estava o grande erro geográfico e o Coronel acabou morrendo sem se dar conta de que o Dedo (1.333), passava muito longe de ser o cume da grande cadeia de montanhas ou se soube, nunca se interessou em explorar, muito provavelmente pelos motivos já descrito no começo deste relato. O mais incrível ainda é que outros montanhistas experientes, até hoje repetem os mesmos erros geográficos aos 4 ventos, mas agora finalmente, quase 65 anos depois essa EXPEDIÇÃO totalmente independente, sem ajuda de ninguém e muito menos munidos de previas informações, teve a honra de colocar as coisas no seu devido lugar. A partir de agora o PICO DESMORONADO (1.425 m) passa a reinar soberano como o CUME de toda a Serra dos Itatins-Juréia. A conquista INÉDITA nasceu simplesmente da inquietação de alguns velhos montanhistas que nunca se conformaram em ver fatos narrados, dados como verdades absolutas e sem contestação. Pagaram para ver e voltaram depois de 4 dias, esfarrapados e triturados pela vegetação, comeram tanto bambu que quase se transformaram em pandas, mas com a certeza do dever cumprido de terem consertado um erro geográfico histórico, com a satisfação de poderem ter tido o privilégio de mais uma vez, desnudar mais uma parte do LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA. Divanei Goes de Paula – junho/2017
  14. PICO MOTCHAKA : JURÉIA – ITATINS : Cume do MORRO DAS TRÊS PONTAS A noite já se avizinha quando sete homens se espremem num minúsculo espaço entre moitas de capim elefante, em um inferno de um terreno irregular e encharcado e se preparam para sobreviver ao tempo inclemente que a mãe natureza destinou à eles. O vento sopra de sudeste e a massa de ar fria toma conta de tudo, a chuva fina não cessa um minuto e quase todos já se encontram em estado de semi-hipotermia e fazer qualquer atividade, mesmo que simples, já se torna um grande sacrifício. Todos estão molhados e é visível o sofrimento estampando no rosto de cada um, mas eles sabem que nesse momento não poderão contar com ninguém, pois estão isolados da civilização, perdidos numa montanha até então desconhecida, no meio de um mar de florestas no centro da Serra do Mar Paulista. Alguns não querem nem conversa, estão inebriados pelo momento e pelo sofrimento, pés destruídos, mão e pele dilaceradas pela vegetação selvagem e nesse momento não há comemoração e são apenas sete homens resignados que buscam apenas amanhecer vivos ao dia seguinte, porque a conquista ainda não se completou e nem é hora de se pensar nisso e sim de curar as feridas e tentar elevar novamente o moral da equipe. Toda vez que eu olhava aquela montanha isolada no mapa de satélite e na carta topográfica, onde constava uma informação como sendo parte da cadeia de montanhas conhecida como MORRO DAS TRÊS PONTAS, sempre me perguntava se haveria como subi-la, ainda mais porque esse era um dos pouquíssimos picos com cume exposto de toda aquela cadeia de montanhas da Serra da Juréia- Itatins. O grande problema era achar uma rota que partisse do Norte, algum caminho que a gente pudesse seguir sem ser barrado nas fazendas de bananas que por lá existem. As pesquisas não evoluíam, muito porque, ainda me faltava um tempo para dar umas voltas lá pelos lados de Itariri, a cidade mais próxima, para poder investigar, antes mesmo de tentar uma expedição para o pico. Conforme o tempo foi passando, fui atualizando os mapas, traçando um plano de ataque, mas infelizmente sem contar com nada da internet, nem uma menção, nada que pudesse me ajudar a angariar algo que me dissesse se seria ou não possível ascender ao cume sem escalada técnica. A montanha era um gigante perdido na selva, um monstro de rocha, isolado do mundo e com paredes inclinadas, onde parecia mesmo que teríamos que usar corda se quiséssemos conquista-la, coisa que estava fora das nossas pretensões, já que não seria viável enfrentar um vara-mato daqueles, carregando equipamentos pesados. Mas depois de uma análise mais precisa, chegamos juntos a conclusão de que uma linha de árvores na face leste da montanha poderia sim nos dar uma chance de chegarmos o mais alto possível e de lá partir numa escalaminhada meio suicida até o cume. O tempo passou, mas foi no feriado do dia do trabalho que a oportunidade chegou. O Alexandre Alves, mancomunado com seu primo Gersinho, vieram com aquela conversa fiada, me perguntando se eu não teria um pico inédito para indicar para eles subirem e que pudesse ser feito em no máximo dois dias. Claro que os safados sabiam que eu sempre tenho algum projeto engavetado e que eu não ia entregar o ouro para os bandidos, sem que eu mesmo pudesse estar nessas furadas que só a gente inventa. Para completar o grupo, ainda escolheram outros trouxas a dedo para enfiar nesse perrengue dos diabos e foi assim que os nossos amigos Dema, Natan e Vinícius vieram se juntar ao grupo e o Gersinho, não satisfeito em querer lascar com a vida dos amigos distantes, resolveu enfiar seu jovem sogro de 55 anos de idade no meio da confusão e o grupo fechou sua cota de gente sem noção com seu Betão, o cara da panturrilha de aço. Partimos de Sumaré, no interior do Estado, no carro do Vinícius e depois de uma breve passada em Embu das Artes, nos juntarmos aos expedicionários paulistanos e nos mandamos para Itariri, uma cidadezinha minúscula e pacata no sul de São Paulo, mas antes mesmo de entrarmos na cidade, viramos à direita no trevinho e nos enfiamos na estradinha de terra que vai para o nordeste e 4,5 km depois, atravessa o Rio Azeite e quebra pra esquerda na bifurcação, junto a um ponto de ônibus, começa a cruzar com um grande bananal e 2 km depois chegamos à entrada da fazenda que havíamos identificado no mapa e viramos a direita, mas não andamos nem 100 metros , já paramos o carro diante de uma matilha de cães raivosos que vieram em nossa direção , naquela madruga fria e escura de outono. O que a gente temia aconteceu! Logo no início do caminho havia uma casa e agora seria necessário negociar a passagem, já que o caseiro levantou-se para ver que arruaça era aquela em seus domínios. Da porta da casa, em meio a um grande bananal, somos recebidos por um jovem de cueca, que mesmo assim, já botou medo na gente. Por sorte era um nativo manso e nem fez menção em nos barrar a passagem, apenas pediu para que deixássemos os dois carros estacionados no início da estradinha e seguíssemos a pé, já que o restante da estrada estava destruída e seria impossível seguir motorizado. Botamos as mochilas nas costas e partimos, agora certos de que estávamos por conta e risco e que aquela expedição só dependia da nossa competência. Subimos pela estradinha por 600 m e logo chegamos a uma bifurcação, onde fomos obrigados a parar para analisar o mapa. Minha marcação dizia que deveríamos seguir em frente, uma saída levemente para esquerda, já no GPS do Vinícius, marcava para a gente fazer a curva para direita na estrada principal. A discussão para saber para onde seguir se perdurou por alguns minutos, mas o Alexandre já cansado da viagem chutou o balde e sugeriu que a gente montasse logo a barraca à beira do caminho, num lugar qualquer da estrada. Eu estava convicto de que teríamos que encontrar um tal barraco abandonado que o caseiro da fazenda havia nos dito, por isso tentei logo persuadi-lo a continuar andando, já que logo vimos que o traklog do meu celular havia reencontrado a rota certa. Pegamos então a estradinha destruída e com mato alto e enquanto o Vinícius reclamava do trambolho de uma bolsa cheia de material de camping que o Alexandre o fez carregar, fomos avançando metro a metro na escuridão da noite até que uns 500 metros mais acima nos deparamos com uma área plana junto ao bambuzal, onde novamente o Alexandre implora para acamparmos. O local onde estávamos não era um lugar ruim para passarmos a noite, mas estava longe do que eu estava pensando. Então chamei o Dema para seguirmos sem mochila e tentarmos interceptar o tal casebre abandonado e se não fosse muito longe, poderíamos ainda convencer o grupo a ir acampar nele. Fomos subindo por dentro da estradinha erodida até que começamos a ver mais uma plantação de bananas, mas agora totalmente abandonada, onde grandes cachos da fruta madura tombavam à beira do caminho. Não demora nem 15 minutos e já avisto o telhado da choupana do nosso lado direito. Era um barraco caindo aos pedaços, isso não posso negar, mas comparado àquele terreno onde os meninos queriam acampar, parecia mais um palácio, mesmo que parte do teto já não se encontrasse mais em condições de abrigar coisa alguma. Descemos correndo de volta pela estradinha e logo demos a notícia para os meninos, que não perderam tempo e já se puseram a caminhar rumo ao nosso hotel de selva e em mais vinte minutos estávamos todos arrumando a nossa nova morada pelo resto daquela madrugada. No barraco cada qual se virou como pode, uns montaram sua barraquinha e outros dormiram no chão mesmo, apenas estendendo seus isolantes e se enfiando nos sacos de dormir até que um novo dia veio nos dizer que a grande jornada estava na hora de começar. Estamos terminando nosso desjejum quando eles chegaram. A cena era sul real, foi como ver o bando do cangaceiro Lampião chegar sem aviso prévio. Seis ou sete homens armados até os dentes nos encurralaram na porta do casebre e quando vi aquilo, demorou para que a ficha caísse. Meu cérebro ficou tentando processar a informação enquanto eu me mantinha estático, sem me mexer. Os outros caras ficaram mais assustados que gato correndo de macaco e assim como chegaram, os bandoleiros partiram para o mato atrás do que procuravam, no caso, dar uns tiros em algum animal indefeso. Os caçadores se foram quase sem dizer nada, mal balbuciaram meia dúzia de palavras, na verdade acho que estavam mais com medo da gente do que a gente deles e aproveitando a deixa, tratamos também de pegar nossas tralhas e no metermos mato à dentro porque não tínhamos mais tempo a perder e era preciso nos adiantar porque traçamos um objetivo de tentar chegar ao cume daquela montanha ainda hoje. Quando abandonamos aquele velho barraco perdido naquele mar de bananeiras, não tínhamos a mínima ideia do que encontraríamos pela frente. Nem fechamos a porta, muito porque, porta não havia e nos lançamos de vez num mundo desconhecido, onde o objetivo era alcançar uma montanha distante, perdida no meio da selva e sem o conhecimento de que alguém já teria botado os pés no seu cume. A jornada começou lá pelas oito da manha e sem perder tempo já caímos de volta para a estradinha tomada de mato, mas não demora muito, esse caminho se torna impossível de passar, então nos mandamos por dentro do labirinto de bananeiras até que 15 minutos depois a moleza acaba e nos deparamos com o pé da montanha e a quase intransponível Mata Atlântica, hora de parar e montar a estratégia. Para aquela expedição eu havia traçado um roteiro subindo por dentro de um grande vale, não exatamente por dentro do rio , mas sim margeando ele, procurando usá-lo sempre como referência. Montei um pré-roteiro sobre o mapa de satélite e o jogamos para os GPS do Vinícius e do Natan e esses dois seriam os nossos navegadores dali em diante, caberia a eles a incumbência de nos manter bem próximos do projeto pré-estabelecido. Pra começar, não havia o que fazer e já nos enfiamos mato à dentro levando a vegetação no peito e de cara tomando um banho do orvalho da manhã. Do nosso lado direito era possível ouvir o rio que descia do alto da montanha, mas optamos por já ganharmos altura e tentarmos interceptar o vale mais acima. No início fomos nos desviando de alguns matacões que sem percebermos começou a nos direcionar para muito longe do caminho traçado, então tratamos logo de tentarmos corrigir a rota e retomarmos o nosso rumo. Fomos ganhando altitude muito lentamente porque o terreno não ajudava por causa da inclinação e como não conseguíamos nos aproximar da rota desejada, logo percebemos que o vale que estávamos subindo era apenas um afluente do rio principal e aí tomamos a decisão de cruzá-lo para sua margem esquerda e assim descemos uma ribanceira, escorregando até o leito do riacho e cruzando-o, já escalamos a grande parede onde pedras rolavam e cada um tinha que se virar como podia para não ter sua cabeça achatada por uma rocha. Tocamos para cima de vez porque não queríamos nos enfiar na cava do outro rio e sim apenas bordejá-lo e ganhar altitude. Numa floresta como essa, achar um corredor que lhe de uma passagem livre é quase impossível, então é preciso muita energia para ir se livrando dos infernais bambuzinhos e outras vegetações que vão agarrando na gente e tornam o progresso um tormento. Na subida dos barrancos é um passo pra frente e dois para trás e quem perde a concentração pode acabar virando passageiro no tobogã natural e ir parar de novo no fundo do vale. Já fazia quase três horas que vínhamos lutando com aquela subida e teve uma hora que a gente se viu preso no meio de uma cachoeira lisa, onde não conseguíamos ver o seu fim e foi aí que mais uma vez nos demos conta de que ainda não havíamos atingidos o vale que procurávamos, estávamos em outro rio e pior, num beco sem saída. Não, a gente não ia voltar a descer e perder um tempo precioso, resolvemos nos valer da nossa estupidez de sempre e encarar uma parede coberta por bromélias à beira de um abismo. Um a um fomos escalando pela vegetação que ao pisarmos, balançava e ameaçava se desprender da rocha e nos jogar no vale profundo. Ninguém queria ficar fazendo onda naquele lugar, então todos tiraram forças de onde não tinham e se apressaram para sair daquele incomodo caminho, até que eu consegui dar a volta em mais um matacão e atingir a parte superior da cachoeira lisa, onde vislumbrei a possibilidade de cruzar o rio para o outro lado e para comemorar mais aquela conquista, paramos para um breve gole de água e um lanchinho rápido. Retomamos o caminho, mas desta vez tentando tocar tudo para a direita pensando na possibilidade de ir nos encostando na rota programada, mas como querer não é poder, a gente acabou sendo levado instintivamente para longe do nosso caminho e isso começou a mexer com os nervos do grupo porque alguns queriam continuar subindo e ganhando altura , enquanto outros queriam tentar traçar uma diagonal para a linha marcada previamente no GPS, mesmo que isso custasse perder um rim de tanto escalar barranco. Fiquei no meio da futrica, tentando me direcionar para o meio termo e tentando agradar aos dois grupos distintos. O dia já ia quase pela metade e a gente ainda tava preso na subida da primeira montanha, num labirinto de árvores e morros, mas já havíamos vencido quase 800 metros de desnível rasgando a floresta no peito, o que não é pouca coisa não, mas estávamos cientes de que aquela era só a primeira parte da empreitada e ainda não havíamos nem botado os olhos na montanha que seria o nosso objetivo. As coisas não se resolviam e a partir dali não desgrudamos mais os olhos do GPS, era hora de nos decidirmos de uma vez. Pegamos uma reta para a cumeada da serra e fomos explorando as curvas de nível, traçando uma rota para o ponto mais alto no intuito de podermos ver logo que raios de montanha era aquela que vínhamos buscando ,porque por hora só a conhecíamos por imagem de satélite e por uma tosca foto aérea. Não demora muito e nos vimos subindo uma rampa natural e não nos desgrudamos dela até que finalmente as 13h00min atingimos o topo da serra, onde um esqueleto de um animal de grande porte nos deu as boas vindas. De onde estávamos mal podíamos ver muita coisa, mas por um breve momento ele deu o ar da graça: Lá estava ele , o GIGANTE DE PEDRA , mais gigante do que pensávamos e muito mais inclinado do que imaginávamos. Era quase um vulcão perdido no meio da floresta e foi nessa breve visão que comecei a desconfiar da nossa capacidade de atingir o cume ainda naquele dia e por um breve momento de pessimismo, cheguei a pensar que não seria possível acender ao cume sem cordas. Estávamos cansados, molhados e com frio, mas ainda assim não passava pela nossa cabeça voltar dali, era preciso levantar a cabeça e avançar, continuar navegando, continuar acreditando que era sim possível. Estávamos longe da rota traçada, do caminho desejado e agora era hora de largar tudo e tentar voltar para a rota pretendida ou poderíamos ter o mesmo fim do esqueleto que jaz ali, frio num canto perdido daquela floresta úmida e sombria. Acertamos o azimute e descemos a montanha me direção ao vale que nos separava do MOTCHAKA . Tentamos ir perdendo altura aos poucos, bordejando em zigue-zague, mas logo parte do grupo” mordeu a chumbada” e queria por que queria descer de vez em direção a grande montanha e pra não ficar enrolando , já me pinchei na parede íngreme e fui escorregando como deu até atingirmos mais outro riacho, cruzá-lo e começar a subir por outro morrote, onde outra rampa natural nos leva para cima e aí tivemos que enfrentar outra leva de bambuzinho infernal. Passamos por um selado onde o Alexandre, que já vinha capengando, pediu para pararmos de vez. Em um primeiro momento o estado do Alexandre nos preocupou, tanto que eu e o Dema já havíamos notado que ele não estava nada bem e agora ele havia quase desabado, inclusive ele mesmo já havia elogiado algumas clareiras dizendo que era um bom lugar para acamparmos, mesmo sendo ainda muito cedo para isso. Na minha cabeça não passava nem de longe a possibilidade de acampar naquela altura do dia e eu tinha certeza que se isso viesse a acontecer, aquela expedição estava fadada ao fracasso. O Vinícius e o Natan vinham conduzindo muito bem a navegação e apesar de jamais nos aproximarmos do caminho pré-definido, ainda nos mantínhamos muito perto dele, o que nos dava a garantia de não estarmos perdidos no vale. O seu Betão pouco falava e se mantinha firme, sem reclamar de nada e o Gersinho era o cara que sempre sacava alguma guloseima da sua mochila para alimentar o grupo, que junto com os torresmos do Dema, nos mantinha com o moral elevado. A montanha que buscávamos nunca chegava e toda vez que ela aparecia numa janela do tempo, sempre me parecia mais longe ainda e quando o Alexandre resolveu tomar a dianteira, minha alma se alegrou e comecei a levar fé que se alcançássemos o pé da grande pedra, nada nos deteria a caminho do cume, porque uma vez pendurado na rocha , era caminho sem volta. Quando os estudos sobre essa montanha começaram, foram surgindo várias teorias de como subi-la, sempre baseadas nas fotos de satélite, alguns fizeram rotas frontais, onde poderíamos subir apenas com a aderência das nossas botas, mesmo que no limite do possível. Outros traçaram rotas em zigue-zague, entendendo que poderiam usar platôs para chegar ao cume e eu até que levei fé em todas, não descartando nenhuma possibilidade, mas agora vendo o tamanho da encrenca em que estávamos prestes a nos meter, todas as teorias caíram por terra e a única que sobreviveu foi mesmo a de tentar aproveitar a linha de árvores na face leste da montanha e foi pra lá que, sem titubear, tocamos com todas as nossas forças, que já não eram tão grandes assim. Estávamos varando mato por quase um dia inteiro e como não há sofrimento e desgraça que dure para sempre, finalmente a gente chegou à parede rochosa. Agora éramos sete homens contra uma montanha, sete exploradores buscando aquilo que até então nem sabiam ser possível, iam tentar algo do qual ninguém nunca haviam lhes contado nada, iam para o desafio final, a aventura estava prestes a começar. Num primeiro momento, ainda nos mantivemos subindo pela floresta, ganhando altura bem lentamente e tendo toda a parede da montanha do nosso lado direito, mas chegou uma hora que minha paciência acabou de vez, pois não aguentava mais ficar abrindo mato molhado no peito, arrastando cipó e todo o inferno de vegetação grudenta, parei e falei para o Dema para a gente tentar logo subir pela rocha, estava na hora de ver um pouco de luz, brincar de ser calango. O Dema, que também já estava de saco cheio de mato, saiu logo no aberto e foi nesse momento que a gente se deparou com a parede inclinada e tivemos que mudar o rumo pensado. O Dema tomou a dianteira e começou a escalar a rocha, não em direção para onde poderia nos levar direto ao cume, mas numa diagonal para esquerda, meio que para acompanhar a linha de árvores, mas sempre seguindo pela pedra. O tempo havia se mantido fechado por quase todo o dia e uma chuvinha fina sempre nos acompanhando, portanto, a rocha estava lisa feito um bagre ensaboado. A subida se deu sempre bordejando algumas touceiras de capim, mas logo à frente nos deparamos com uma passagem exposta onde foi preciso usar toda a habilidade de escalada para se manter grudado na pedra sem escorregar no vazio. O Alexandre ao tomar ciência do local onde pretendíamos passar, já deu uma dura em mim e no Dema, achando que estávamos nos expondo a um perigo desnecessário, mas não adiantou que ele fizesse “ beicinho” não, foi por ali mesmo que a gente seguiu e não restou mais nada além dos que vinham atrás, auxiliar o Betão nessa passagem, que depois veio a confessar que passou ali com o fiofó na mão. Às vezes o tempo abria e era possível enxergarmos muito longe, além de revermos todo o mar de florestas e montanhas que havíamos atravessado para chegarmos até ali. O cansaço já era grande, mas agora não havia como voltar atrás, era hora de tirar energia de algum lugar e continuar avançando, não adiantava chorar, reclamar, essa era a parte que nos separava da conquista e havia chegado a hora de mostrarmos para que viemos, retroceder não estava mais em discussão. Então grudamos à rocha e fomos nos elevando, metro à metro, centímetro à centímetro. O Dema tomou a dianteira de vez e eu colei nele para auxiliá-lo nas escaladas mais problemáticas. Tratava-se de uma parede rochosa, com moitas de capim elefante grudadas a ela, onde era preciso agarrar o tal capim com as mãos, segurar firme e se puxar para cima, sempre tomando cuidado para que o corpo não voltasse para trás e fizesse com que o indivíduo fosse conhecer o pé da pedra, rolando com mochila e tudo lá para baixo. Às vezes dava vontade de desistir, as mãos já começavam a sangrar, a mochila já pesava uma tonelada, cada vez mais as forças nos braços iam diminuindo de tal maneira que eu pensava em deitar naquele capim e ficar por lá mesmo, ainda mais porque a subida era lenta e o corpo todo molhado, esfriava rápido. “Onde estaria minha mãe naquela hora que não vinha me socorrer, porque me abandonou naquele inferno de pedra e capim, com um monte de caras estranhos e fedorentos? Por que eu fui deixar minha cama quentinha para me enfiar naquela furada, quem foi o desgraçado que me convenceu a estar ali”? Quando me lembro de que eu era o único responsável por ter ido, me resigno e volto novamente a puxar o capim e subir mais um lance de pedra, diante dos milhares que ainda restavam pela frente. Não havia muita coisa a fazer, a noite logo chegaria e nós estávamos presos àquela parede composta de rocha e capim. A nossa vida naquele momento se resumia a escalar, escalar e escalar. Resumia-se a subir degraus de pedra, num tormento que parecia nunca acabar. O mato era molhado, o tempo sempre fechado e a temperatura caindo vertiginosamente. Quando era preciso mudar a direção por causa de alguma parede íngreme e intransponível, mudávamos! Sempre tínhamos em mente que era necessário seguirmos o rumo de alguma linha de arbusto porque seria a eles que nos agarraríamos no caso de sermos barrados sem poder voltar, mas chegou uma hora que o Dema deu a notícia que ninguém queria ouvir:” Pessoal fim de linha, daqui para frente ninguém sobe mais” Todo mundo já gritou atrás dele que não havia essa possibilidade e que voltar não estava nos nossos planos. O Dema tinha feito a parte dele, tinha se acabado abrindo caminho, agora assumi a dianteira, mesmo sem vontade e fui tocando como deu, fizemos um desvio providencial para a direita afim de nos livrarmos da parte intransponível e logo saímos novamente na rocha crua, lisa e escorregadia. Ali passamos com cuidado já que duzentos metros de abismos nos espreitavam montanha abaixo. Cansados de ziguezaguear montanha acima, resolvemos pegar uma linha reta em direção ao platô principal da montanha, onde as paredes íngremes terminariam e finalmente, quase três horas depois de emergirmos da floresta e encostarmos-nos à montanha, desembocamos no que nos pareceu ser o cume ou a parte que nos conduziria para o topo. Agora no platô, perto do cume, onde o capim elefante parecia tomar conta de tudo, fomos agraciados com o ultimo suspiro do sol, que nos presenteou com um arco-íris espetacular, mas as vistas só eram da parte norte da paisagem porque o resto estava tudo fechado. O show não demorou mais que 10 minutos e do mesmo jeito que veio, o sol se retirou para não voltar mais naquele dia e uma nuvem espessa varreu todo o cume e a nossa vida voltou a desgraça de sempre e fomos jogado num mundo molhado, frio e sombrio. Apressamos-nos tentando ver se alcançávamos o grande cume da montanha, mas logo percebemos que o cume não passaria de um amontoado de arbustos baixos e de árvores tortas e imprestáveis para acampar com nossas redes. Rodamos por um tempo, mas não encontrávamos coisa alguma e cada vez mais eu sentia que havíamos nos enfiado numa furada. A temperatura despencou de vez e a chuva fina chegou sem dó e não havia um palmo de chão para que pudéssemos montar um abrigo. A gente estava no CUME ou ao menos bem pertinho dele, mas por incrível que pareça, não ouve nenhuma comemoração, mesmo porque, ainda não tínhamos nos dado conta do feito que acabávamos de realisar, porque é impossível comemorar algo quando se está sofrendo. Naquele momento apenas éramos um grupo de sete homens resignados e envolvido nas suas próprias amarguras pessoais. Enquanto parte do grupo tentava amassar umas moitas de capim elefante para ver se era possível abrir uma clareira, eu e o Alexandre largamos as mochilas ao chão e fomos tentar encontrar algo melhor , seguindo na direção onde estaria o suposto topo da montanha, mas logo nos deparamos com mais arbustos fechados e molhados, então voltamos correndo de volta para onde estavam os outros. Quando retornamos nos deparamos com uma briga feia. O Dema e o seu Beto, querendo se livrar de uma moita gigante de capim elefante, chamaram o dito cujo para briga. Os dois agarraram no pescoço da moita e a jogaram no chão, mas o capim não ia se entregar tão fácil e não demorou muito para os dois caírem exaustos. Acontece que por um grande azar, havíamos perdido nosso facão no início da expedição e os dois resolveram desafiar aquela touceira com uma faquinha de merda. O Betão acostumado a quebrar osso com suas mãos de massagista de MMA não cavou nada de bom, então chamou o Dema para brigar na pernada. Os dois se juntaram e começaram a dar pontapés na moita, que dessa vez começou a dar sinal de que começaria a se mover e foi nessa hora que o Dema, professor de matemática, descobriu que era hora de cortar na raiz quadra, coisa que deu certo porque não demorou muito e o capim elefante tombou de vez, agora morto e fora de combate, jogado para fora da nossa área de acampamento. Enquanto os caras lutavam bravamente com o capim elefante, o Vinícius e o Natan cortavam o capim para forrar o chão e o Alexandre e o Gersinho cuidava de montar a tenda que nos abrigaria naquela noite. E eu? Bom, eu nem me mexia. Sentia muito frio, fiquei paralisado, inerte, sofrendo com as baixas temperaturas e fui definhando cada vez mais. A previsão do tempo era de zero milímetro de chuva durante todo o feriado e como a intenção não era adentrar a rio nenhum, nem me preocupei em escolher um agasalho impermeável ou coisa parecida e havia pagado o preço. Do jeito que estava não dava para ficar e quando os caras acabaram de montar o toldo, aproveitei a deixa para tirar a roupa molhada e colocar roupa seca, antes que eu sucumbisse de hipotermia. Por fim os caras fizeram um excelente trabalho, mas o lugar era medíocre, uma rampa inclinada onde era difícil até equilibrar um mísero fogareiro. Forraram uma lona no chão sobre o capim e encima dela faríamos nossa casa, bivacando por uma noite. A chuva fria não parava um só minuto, mas mesmo assim aqueles caras estavam contentes e alegres por estarem secos e abrigados e aí a gente pode ver como certas simplicidades na vida pode nos trazer felicidade. Sinceramente eu não estava nada feliz, mesmo estando seco e quentinho. Havíamos montado uma grande estratégia para conquistar uma nova montanha e até aquele momento éramos sete homens confinados num espaço cretino, perdidos num fim de mundo suspenso, como se estivéssemos presos num livro de aventuras de Conan Doyle ( mundo Perdido). Eu sonhava dormir num cume rochoso, com céu aberto e vistas para todo o litoral e agora estava ali, deitado quase em pé, correndo o risco de acordar com a bota de um cara na minha boca. Enquanto os caras se deleitavam com a cachaça levada pelo Betão e pelo Gersinho e se perdiam na mandioca e na coxa de frango, resolvi que para compensar a minha falta de ajuda na montagem do acampamento, faria a janta para todos, coisa que não foi assim tão fácil, diante daquele terreno inclinado e quando todos jantaram, se enfiaram nos seus respectivos sacos de dormir e morreram por uma noite, menos o coitado do Betão que ficou quase a noite inteira zumbizando, porque acabou ficando sem espaço nem para esticar as pernas. (esse se fudeu bonito,rsrsrsrssr) O dia que nasce é o mesmo dia frio e cinzento do dia anterior. O sol até tentou romper a camada de névoa espessa, mas sua tentativa não durou nem 10 minutos e ele já foi se esconder novamente. O despertar foi lento e demorado, pois ninguém parecia querer largar a quentura dos seus sacos de dormir e a gente ficou por ali, tomando nosso café e jogando conversa fora enquanto arrumávamos as coisas a passos de tartaruga paraplégica. Eu ainda estava muito amuado porque não me conformava em ter chegado até ali e nem ter conseguido saber para onde ficava o CUME e se já estaríamos nele ou não. Tudo continuava fechado e eu até perguntei se a gente iria no enfiar no capim molhado em direção ao sul para tentarmos chegar às bordas daquela montanha, na expectativa de enxergarmos o litoral, mas ninguém nem me respondeu, parecia mesmo que a intenção do grupo era sair vazado daquele topo o mais rápido possível Quando eles deram a notícia de que iam continuar mais um pouco, mesmo tendo que se enfiar no meio do mato molhado, para tentar localizar o cume, meu humor mudou rapidamente. Largamos nossas mochilas na área do acampamento e nos enfiamos no meio dos arbustos e fomos seguindo para oeste, que era onde o terreno se elevava um pouco mais. Abrindo mato no peito e ainda sem enxergar muita coisa, uma visão nos assombrou a alma quando o vento bateu e nos revelou outra montanha acima da nossa cabeça. Paramos imediatamente porque não estávamos entendendo coisa alguma. Aquela montanha seria um dos outros dois picos que formam o conjunto de montanhas? Quando veio outra rajada de vento foi que nos demos conta do que estava acontecendo: Não era nenhuma outra montanha, era sim outro morro encima da própria montanha em que estávamos, era onde estaria o CUME PRINCIPAL e para nossa surpresa, era totalmente livre dos arbustos, era um cume todo forrado de capim elefante e que muito provavelmente poderia nos dar a tão sonhada vistas para o litoral que havíamos sonhado . Depois disso, aquela que era uma caminhada meio modorrenta, se tornou numa corrida maluca pra ver quem chegava mais rápido e primeiro ao cume. Pra começar já nos jogamos em direção ao vale que separava o lugar onde estávamos daquele morrote acima da gente, passamos pelo selado e iniciamos a subida final até o topo, rasgando capim molhado no peito. Não me recordo quem chegou primeiro, mas me lembro muito bem da festa que houve no cume daquela montanha até então desconhecida do mundo. E a gritaria de felicidade não foi nem de longe por termos atingindo os 1.240 metros de altitude do PICO MOTCHAKA, mas sim pelo que vimos de cima dele: Aquela era sem duvida nenhuma a mais bela visão de montanha de toda a Serra do Mar Paulista . Quando o vento deslocou as nuvens, foi que nos demos conta do que estava acontecendo naquela manhã do dia 01 de Maio de 2017: Estávamos diante de toda a Reserva Ecológica da Juréia – Itatins, bem ali aos nossos pés a não mais que 12 km das águas da PRAIA DO UNA e na metade disso, o próprio Rio Una serpenteando na planície litorânea, num mar de florestas e mangues. Ainda, mas um pouco mais distante, a Ponta da Grajaúna e sua praia, que junto com a praia do Una somam mais de 20 km de areia e restinga. Fechando a visão ao sul, a imponente Ponta da Juréia complementa a visão de uns dos lugares mais preservados e fascinantes do mundo. Para oeste ,por um breve momento , as paisagens que são a própria cumeda de toda aquelas serras, inclusive com o imponente e impressionante DEDO DE DEUS PAULISTA, que já foi alvo de expedições passada realizado por nós. O tempo abrira por poucos minutos, mas já foi o suficiente para decretarmos definitivamente que aquela Expedição havia sido um grande sucesso e não havia um só par de olhos que não demonstrasse uma felicidade e uma satisfação de estar ali e de ter feito parte de um momento único na vida de montanhista de cada integrante que ali estivesse e o que até então não passava de um ponto perdido numa carta topográfica e num mapa de satélite, agora tinha sido conquistado e ganhado um nome. Se dependesse de mim, ficaria ali pelo resto da manhã, mas os meus companheiros, preocupados com o caminho de volta, botaram pilha para a gente partir. Meu único arrependimento foi o de não ter conseguido acampar no cume e ter tido mais tempo para poder curtir o visual, ainda mais porque aquele lugar não tinha mesmo nenhum sinal que pudesse nos indicar que algum dia alguém teria botado os pés ali , nem ali ,nem em nenhum outro cume dos 3 picos do MORRO DAS TRÊS PONTAS, que de morro nunca teve nada, porque era uns monstro rochoso a dominar a paisagem. Abandonamos de vez aquele cume a sua própria solidão e partimos de volta para o nosso acampamento e chegando lá jogamos nossas mochilas nas costas e retomamos nossa jornada. No começo houve um princípio de discussão porque parte do grupo queria voltar por outro caminho, ou seja, tentar seguir o roteiro que havíamos traçados previamente antes daquela expedição começar, caminho esse que pegava uma linha reta em direção a um vale que despencava numa falha da montanha que se apresentava em forma de um GRANDE “V” e outros achavam que não deveríamos inventar nada e que o certo era voltar pelo mesmo caminho que havíamos feito, mesmo que tivesse sido um caminho penoso, mas nos dava a garantia de voltarmos com um mínimo de segurança. Eu não tinha certeza nenhuma que o novo caminho direto para o Vale “V” daria certo, mas o simples fato de voltar pelo mesmo roteiro já me aborrece, então fui um dos defensores ferrenho para que escolhêssemos um novo caminho e por sorte, aos poucos fui ganhando o apoio de outros e no fim todo mundo já tava mesmo era a fim de tocar o foda-se e ver para onde aquele novo rumo poderia nos levar. Bom, seja qual caminho usássemos para voltar, primeiro teríamos que despencar daquela montanha em direção à floresta mais abaixo e já passava das dez da manhã quando a gente chegou novamente nas bordas do gigante e nos metemos novamente no capim elefante para ir perdendo altura lentamente ou nem tão lentamente assim, já que sabíamos onde poderíamos nos jogar e escorregar sem corrermos riscos desnecessários. No fim até que acabou sendo mesmo divertido deixar o corpo cair de patamar em patamar somente escorregando naquele grande tobogã natural e isso nos ajudou a ganhar um tempo precioso porque gastamos apenas uns 40 minutos para voltarmos novamente ao pé da grande pedra, já na entrada da grande floresta. Ali foi o ultimo passo para tomarmos a decisão de voltar por outro caminho. Decidimos que de agora em diante seguiríamos o traklog que eu havia traçado em casa e não desgrudaríamos mais dele até o vale “V”. E começamos por adentrar na floresta naquela direção e quando perdemos altura até o fundo de um pequeno vale, resolvemos nos enfiar nele e ir descendo já que a linha do GPS corria por dentro. Quinze minutos à frente ele tomou outro rumo e foi hora de o abandonarmos e vararmos um pouco de mato até que interceptamos mais um córrego, esse maior que o anterior e como a direção nos favorecia , foi por ele que avançamos já quase na certeza que aquela torrente de água poderia fazer parte de um afluente do grande vale que buscaríamos para começarmos a despencar em direção à civilização. A gente foi perdendo altura, mas não muito, mesmo assim era preciso desescalar algumas cachoeirinhas para continuar e meia hora depois esse afluente chegou ao rio principal, que naquela altura ainda era tímido, mas no decorrer do caminho iria ganhar novos afluentes e crescer muito de volume. Avançávamos muito rápido e tínhamos certeza que havíamos tomado a decisão certa, mas ao chegarmos no vale onde o terreno começa a despencar a quase 1000 metros de altitude, a coisa começou a ficar feia. O Rio se transformou de vez num cânon e a descida começou a ficar perigosa e cada vez mais as cachoeiras ficavam maiores e não demorou muito nos vimos travados nas margens do rio, num beco sem saída. O Dema e o Natan estavam à frente e o resto do grupo se encontrava mais acima, esperando para ver se ia ser possível seguir pelo rio, pelo menos até que a gente cruzasse pela fenda na cadeia de montanhas para começarmos a nos encaminhar para a grande descida. O Natan já gritou lá de baixo que teríamos que cruzar o rio à nado para cruzarmos para a sua margem direita, onde a curva de nível parecia nos dar um caminho melhor. Bom, nadar não era problema, mas ninguém ali estava preparado para passar com as mochilas e na hora já rechacei essa possibilidade e fui me encaminhado pelas bordas da parede, na tentativa de encontrar uma alternativa, mas fui logo travado por um deslizamento onde a parede a minha frente se tornou impassável, voltei imediatamente. Enquanto os dois batedores ainda discutiam se devíamos ou não ariscar passar a nado, já me enfiei numa canaleta de água à esquerda e ganhei altura para procurar uma solução mais acima. Vendo que nadar não seria a solução, todo o grupo tomou o rumo da parede e eu e o Natan nos embrenhamos no mato e fomos tentando achar um caminho que pudesse novamente nos devolver ao rio, mas agora distante da pequena garganta. Decidimos tentar descer seguindo uma linha de árvores, o que nos daria certa segurança. Tentei avançar barranco abaixo, mas acabei ficando travado na descida de um tronco gigante, onde fiquei pendurado parecendo siri no pau. O Natan acabou tendo mais sorte porque escolheu o caminho por baixo, mas ao chegar à beira do paredão já deu o alarme dizendo que era impossível descer por ali, ainda porque estávamos numa garganta e então seria preciso retornar e tentar outro caminho. De volta ao topo da parede, onde o terreno era bem plano, decidimos que seguiríamos pela margem esquerda mesmo, pelo menos até conseguirmos uma passagem que nos levasse em segurança para outra margem, onde possivelmente encontraríamos um terreno mais favorável para iniciarmos a descida. E realmente foi uma decisão acertada já que avançamos bem, sempre perdendo altitude aos poucos até que novamente descermos de volta ao rio, que dali para frente ia se jogar numa sequência de cânions e gargantas. Nesse ponto, o rio se estreitou e foi possível passar para a margem direita com certa segurança e vendo que as curvas de nível do terreno começavam a se alargar, nos enfiamos novamente no mato e fomos perdendo altitude rapidamente, sempre de olho no traklog pré-estabelecido e também tendo como referência o próprio traklog que fizemos na ida. Finalmente a caminhada parecia começar a ficar confortável, ainda mais quando logo à frente nos deparamos com uma trilha larga de palmiteiro e caçador, que aliás, deitam e rolam nessa parte da serra, onde a fiscalização não existe. Todo mundo ficou contente com esse que parecia ser um grande achado, mas não demorou nem 15 minutos para a trilha desaparecer na quiçaça e nos deixar novamente na mão. Como não havia o que fazer, resolvemos descer de novo rasgando mato no peito em direção a outro vale, num afluente do rio principal que havíamos abandonado e descemos por dentro dele até que de supetão ele desembocou novamente no rio, onde uma grande cachoeira despencava e aí foi hora de estacionarmos para um descanso providencial. Demos o nome para aquela queda d’água de CACHOEIRA DA USINA VELHA, já que ainda era possível ver as ruínas de uma antiga e pequena usina hidrelétrica, construída por alguma fazenda em um passado muito distante. Quando chegamos ali, parte do grupo jogou as mochilas ao chão e se enfiou debaixo da grande queda, mas eu e o Dema não quisemos saber de água fria, já bastava o perrengue passado no dia anterior. Enquanto os meninos de esbaldavam na água gelada, fui dar uma pesquisada para ver se localizava algum final de estrada ou alguma trilha, mas nada encontrei e logo concluímos que aquela construção era mesmo muito antiga e se essa tal estrada existisse, já teria sido engolida pela floresta há décadas. Quando o grupo que tomava banho na cachoeira resolveu seguir, voltamos para a nossa jornada e subimos o barranco na margem direita do rio onde um vestígio de trilha foi encontrado, mas logo à frente mais uma vez se perdeu no mato e a gente vendo no GPS que o caminho feito na subida estava próximo, nos miramos a ele até encontrarmos mais um afluente, atravessá-lo e descer sem dó em direção ao grande bananal, onde a estrada abandonada novamente apareceu e em mais 20 minutos , fora as paradas para mais uma rodada de bananas maduras, desembocamos no casebre abandonado, de onde havíamos partidos a quase dois dias atrás , estávamos finalmente de volta a civilização, MISSÃO MAIS DO QUE CUMPRIDA . Essa foi uma grande EXPEDIÇÃO, uma incrível jornada selvagem que nos deu a honra de, até que se prove o contrário, sermos os primeiros a botar os pés no cume dessa que é hoje a montanha escalada mais isolada da SERRA DO MAR PAULISTA. Por hora essas são as únicas informações existentes no mundo do Montanhismo Paulista sobre essa montanha e como eu disse: É um mundo perdido numa selva isolada e que vendeu muito caro a sua conquista. Seu nome estranho surgiu simplesmente de uma palavra que não tinha significado nenhum e que foi grafada errada e ao vermos que tudo que imaginávamos sobre aquela montanha que, não era totalmente rochosa, não era nem de longe fácil de subir, não se situava na serra da Juréia e sim na Serra dos Itatins, achamos que o nome viria bem a calhar. O MOTCHAKA foi conquistado, o cume do MORRO DAS TRÊS PONTAS será por muito tempo um lugar abandonado a sua própria sorte e solidão, como sempre foi, mas a partir do dia 01 de maio de 2017 não poderá mais se gabar de sua invencibilidade e para aqueles que acham que tudo já foi explorado e conquistado, será preciso repensar, porque o MONTANHISMO EXPLORATÓRIO está mais vivo do que nunca. DIVANEI GOES DE PAULA – MAIO/2017
  15. Obrigado Ricardo RM, Esse projeto de Expedição selvagem na Serra do Mar Paulista já dura uns 5 anos e sempre estamos trazendo lugares novos, descobrindo novos caminhos.
  16. Abaixo fica o link para o RELATO DO VAGNER, um dos exploradores e que também escreve aqui no mochileiros. expedicao-vale-do-rio-sao-lourencinho-a-travessia-pelo-vale-do-inferno-t141813.html
  17. TRAVESSIA EXPEDICIONÁRIA VALE DO SÃO LOURENCINHO A CONQUISTA FINAL ...............Já é final de tarde quando nos posicionamos à beira do grande abismo no fundo do vale e, enquanto parte do grupo já procura uma forma de descer ao pé da grande cachoeira, eu fico por ali, a contemplar aquele espetáculo, mas a minha demora em ir ao encalço do grupo fez com que me tornasse o “cú de tropa” da equipe. Não que eu fizesse questão de sempre ser a linha de frente, mas ser a rabeira é o lugar mais ingrato que se possa imaginar. Cinco integrantes escalam o paredão e somente eu e o Loures ficamos tentando ver se não haveria um caminho menos íngreme para subir e, como ficamos com medo de nos separar da galera, resolvemos encarar a grande subida mesmo. O Loures subiu como deu e eu fui atrás tentando me agarrar em tudo que é tronco, cipós e pedras para tentar me elevar para o alto, mas o peso da mochila e a minha pouca força para sustentar meu corpo no vazio, quase fez com que eu despencasse de volta. Assim que eu consegui subir, só deu tempo de ver o Loures correndo desesperado em minha direção: -“ CORRE DIVANEI, VESPAS, VESPAS! ” Não tive tempo nem de tomar fôlego pela subida, dei meia volta e me lancei barranco abaixo com corpo, alma e mochila e só parei quando a força da gravidade se cansou de rir da minha cara. O Loures também não se fez de rogado e sem nenhuma vergonha de passar vexame, também voou de volta para beira do rio São Lourencinho. De onde estávamos agora só podíamos ouvir o grupo no topo do barranco. Os gritos ecoaram por toda a Serra do Mar Paulista. Não eram só simples pedidos de socorro, eram gritos de agonia e desespero. Eram gritos de quem pareceria estar encarando a própria morte de frente e tentava escapar de qualquer jeito. Foi o mesmo que presenciar o dia do juízo final e ouvir os gritos das vítimas que seriam arrastadas para as profundezas do inferno. Em mais de 20 anos, esse foi o momento mais tenso que já passei nessa minha vida de aventuras, muito porque, eu e o Loures não podíamos fazer nada diante daquela situação e eu mal conseguia me sustentar sobre as minhas pernas. Ficamos inertes, parados, sem sair do lugar, mal respirávamos, não trocamos uma palavra durante essa cena de horrores e quando veio um silêncio ensurdecedor, vindo da direção onde estava o grupo mais acima, apenas imaginamos que aquela expedição selvagem havia se transformado numa tragédia..................... Eu ainda estava perdido pelo deserto do Jalapão – TO , quando recebi a mensagem da galera da capital Paulista pedindo para que eu organizasse o evento ,porque no carnaval iríamos tirar o Vale do São Lourencinho do mapa das travessias selvagens da Serra do Mar de São Paulo. Na ocasião mal respondi a mensagem, mas quando voltei para casa percebi que a coisa era séria mesmo e diante do inevitável, já deixei bem claro que dessa vez só iria com um grupo forte e não haveria nada e nem ninguém que iria me impedir de descer aquele vale e uma vez no leito do rio, seria caminho sem volta. O Rio SÃO LOURENÇINHO era um rio diferente de todos até então, justamente por não seguir o mesmo curso da maioria dos rios que, ao percorrerem todo o planalto, despencavam violentamente nas bordas da Serra e ia terminar sua vida no grande Oceano Atlântico, mesmo que se juntando por um breve momento a outros rios. O São Lourencinho depois de se jogar do planalto, surpreendentemente, se enfiava nas entranhas de um vale gigantesco e mudava seu curso quase que total para oeste e correndo por dezenas de quilômetros, voltava aos vestígios de civilização, indo serpentear por mais dezenas e dezenas de quilômetros em direção ao interior, até finalmente se juntar ao grande Rio Juquiá, esse por sua vez, afluente máximo do Rio Ribeira do Iguape. Nossas pesquisas sobre esse grande rio já durava mais de um ano e havíamos ido duas vezes ao seu encontro, uma para localiza-lo e a outra, uma expedição para localizar sua nascente, mas desta vez seria algo mesmo grandioso, onde a intenção era nos jogarmos gargantas abaixo até atingirmos a planície litorânea, coisa que nem sabíamos se era possível. Iria ser uma jornada suicida e de antemão, já intimamos todo mundo a “assinar” um atestado de responsabilidades individuais, deixando bem claro que todos estavam cientes de que ninguém seria responsável pela vida de ninguém e cada qual seria obrigado a cuidar da sua segurança, porque ali não existiria nenhum líder, guia e muito menos algum chefe de expedição. E esse tipo de procedimento passa longe de ser exagero, muito porque, não foram poucos os acidentes que já sofremos nessas expedições, inclusive com um acidente fatal. Numa sexta-feira infernal, eu me encontrava travado dentro do ônibus que me trouxe de Sumaré-SP para a capital do Estado, parado completamente a menos de 1 km da famosa Rodoviária do Tietê, quando o Natan me avisa por telefone que nosso transporte motorizado para o inicio da travessia havia furado e que agora teríamos que partir para o plano “B” : o foda-se e seja o que Deus quiser. Me apresento com uma hora de atraso no local marcado e para não ser esculhambado, já dou logo um abraço em cada integrante daquele grupo de gente doida que se propôs a por suas vidas em risco por um propósito em comum, que na verdade, poucos entenderão . Além de mim, o grupo seria composto pelo Eduardo Loures, Daniel Trovo, Marcos Prince, Silvestre Natan, Vgn Vagner e pelo Rafael Soares. Não restavam dúvidas, aquele era um grupo extremamente forte e dessa vez eu tive certeza que aquela expedição lograria êxito com os pés nas costas, mais uma vez, estava enganado. Na estação Faria Lima pegamos um ônibus para Juquitiba, que em pouco mais de uma hora nos deixou enfrente a entrada do Viva Parque e quando nos posicionamos embaixo do portal, foi que nos demos conta que já se aproximava da meia noite e estávamos realmente num beco sem saída, sem a mínima chance de conseguir um transporte para nos levar por uns 20 km estrada a dentro até o bairro rural de Pedra Lisa, num fim de mundo qualquer, perdido nas bordas das florestas da Serra do Mar. O grupo se separou em várias frentes , no intuito de conseguir um transporte . Tentamos conseguir que uma Kombi escolar nos levasse, mas o proprietário não quis nem abrir a porta da residência. Tentamos de tudo que foi possível, mas nada dava certo, até que uma Kombi com caçamba, voltando das entranhas dos bairros rurais e indo para São Paulo, surgiu à nossa frente. Claro que o sujeito não queria de jeito nenhum fazer uma viagem de volta para o fim de mundo de onde ele acabara de voltar, mas bastou balançar duas notas de 100 reais para os dois caras crescerem os olhos e antes mesmo que eles resolvessem pensar bem, já estávamos com as mochilas em cima do veículo, que rapidamente fez meia volta e se enfiou na escuridão da noite e foi se perdendo em tudo que é estradinha errada até que nos desovou bem na entrada da trilha e aquela foi a ultima vez que vimos àqueles caras, que provavelmente se perguntam até hoje, que diabos ia fazer sete elementos num mato sem cachorro. Sem perder tempo, jogamos nossas mochilas às costa, ligamos nossas lanternas e nos pomos a caminhar pela estradinha serra à dentro e em 1 km passamos por um lago e em mais outro km tropeçamos num rancho infestado de cães raivosos, mas como da outra vez, lá estava o proprietário para segurá-los , no intuito de nos ver longe da sua propriedade o mais rápido possível . Meia hora depois acessamos o que já foi uma casa e hoje mal se consegue ver os escombros e foi ali que montamos nosso acampamento, lá pelas três da madrugada. Na verdade apenas bivacamos coletivamente até que um novo dia viesse a nos iluminar novamente. Surpreendentemente o dia que nasce é um lindo dia de sol, já que a metereologia havia previsto muita chuva para o feriado de carnaval. O grupo estava muito bem disposto e logo depois de rápido desjejum, partimos floresta à dentro, que logo atravessa um riacho e em pouco tempo nos leva novamente para o morro do escorrega. A trilha agora está bem demarcada e sinalizada depois que a abrimos por duas vezes, então de agora em diante não teremos dificuldades para percorrê-la e sem muito esforço atingimos a crista das samambaias e sem pestanejar em meia hora estávamos de novo no fundo do vale e aí foi só segurar o fôlego, subir mais uma crista até que a antiga estrada do Maluf, que hoje nem trilha é mais, acaba de vez e aí é hora de descermos até o vale e seguirmos o curso da água, desescalar pequenas cachoeiras e também nos surpreender com o horário em que desembocamos no GRANDE RIO SÃO LOURENCINHO. Ali estava ele mais uma vez. Parecia que me olhava e ria da minha cara, como a me dizer que não adiantava nem tentar, mais uma vez ele estaria pronto para me derrotar. E dessa vez ele se encontrava mais lindo do que nunca, uma beleza transparente, translúcida e sem igual. Ele se apresentou calmo desta vez, nem parecia o Lourencinho raivoso de outrora, mas mesmo assim eu desconfiei, poderia ser mais um subterfúgio para enganar os desavisados e antes mesmo que ele nos fizesse de besta, juntamos a equipe e botamos a faca nos dentes, unimos forças e nos lançamos vale à dentro, ele nos desafiou e a gente resolveu aceitar o desafio, mas cientes de que a jornada que estava por vir seria uma das maiores aventuras das nossas vidas. Onde estávamos não era necessariamente a nascente do rio, isso porque já havíamos explorado essa parte na segunda tentativa, quando fomos obrigados a abortar a descida por causa de um temporal que se abateu sobre a serra e que perdurou por três dias sem cessar. Mas agora não havia tempo ruim que nos fizesse voltar atrás e já nos primeiros passos, parte do grupo se jogou na água para aplacar o calor, mesmo não passando de dez horas da manhã. Não houve nem tempo para esquentar a caminhada porque na primeira curva do rio, já nos deparamos com uma garganta e a primeira cachoeira dessa parte do vale. No início alguns tentam se livrar da água, muito porque não são todos que portam mochilas estanque e evitam que suas cargueiras encharquem, mas isso é só questão de tempo porque logo à frente não há escalada que resolva e aí é hora mesmo de tocar o foda-se e mergulhar nos grandes poços e dar início à descida do maior parque aquático natural que já se tem notícias. A próxima descida nos leva para mais uma pequena cachoeira e outro poço enorme e na próxima curva o vale se fecha e se comprime na forma de uma garganta, onde as pedras escorregadias já fazem o Vagner conhecer a dureza da rocha, explorando o terreno com sua bunda volumosa. À frente outro poço com correnteza, onde todos se pincham para dentro e se deixam levar pela velocidade da água. O ritmo é frenético, todos nós estamos com energia de sobra e o avanço é rápido porque todos são experientes em caminhar sobre rochas molhadas e dá gosto de ver a competência desse grupo, todo mundo em sintonia, desde os mais velhos até os jovens, são um só time e isso me agrada muito. Mais algum tempo de caminhada e o trajeto faz com que tenhamos que varar uma pequena língua de mato pela direita e mais uma vez, presos nas pedras, nos jogamos novamente nas corredeiras. Alias, se jogar de cima de grandes pedras para dentro da correnteza iria ser praticamente a tônica desse primeiro dia, tanto que não deu tempo nem de escorrer a água da roupa e depois de uma passagem pela esquerda, já era hora novamente pular de cima de mais uma cachoeira. O dia já ia se encaminhado para sua primeira metade e resolvemos que faríamos uma pausa para um lanche logo que encontrássemos um grande afluente que vínhamos perseguindo do nosso lado esquerdo, acontece que o afluente havia passado e nem nos demos conta de que aquele rio manso era o curso d’água que procurávamos. Bom, já que o tal afluente passou batido, resolvemos estacionar o esqueleto em um lugar mais favorável, mas antes desse trecho aparecer levamos o primeiro susto ao quase pisarmos numa cobra, ainda bem que era somente uma serpente inofensiva, que foi logo capturada pelo Prince para uma sessão de fotos e depois devolvida para sua pedra quentinha à beira do rio. Com a barriga cheia, o caminho segue, mas não demora muito uma grande garganta nos trava o trajeto, meio que uma espécie de mini garganta do diabo, para aqueles que são de são Paulo e já se aventuraram pelo vale da morte ou pelo menos até a entrada do vale depois da cachoeira da fumaça de Paranapiacaba. Na entrada da garganta não era possível pular no rio e isso só foi possível depois que a gente passou se equilibrando nas bordas do cânion, até que atingíssemos o seu meio e dela despencasse no vazio. Aliás, essa pratica de se jogar de cima de grandes rochas nunca parava e em seguida nem mal andamos dez minutos outro poço gigante nos convida para um salto e mais à frente outra garganta faz a alegria dos mais afoitos saltadores de penhascos. O Lourencinho dá uma alargada e começamos a progredir mais rapidamente até estacionarmos em mais um grande lago cercado por paredões de pedra e não tendo como fugir, o jeito foi jogar as mochilas e voar de novo para a água. A gente pulou daquela altura, mas eu sempre fico desconfiado , vai que um grande tronco ficou estacionado no fundo, então eu já pulava meio que evitando submergir muito, meio que uma espécie de barrigada controlada, mas quando outro grande poço chegou tivemos que estacionar e analisar bem nossos próximos passos. Não era uma altura muito grande, mas claramente necessitava de certo cuidado. Alguns de nós estávamos meio tensos, mas o Rafael empacou e não ia de jeito nenhum, ficou sambando na pedra feito mulata de escola de samba e quando eu o questionei se ele ia ou não, ele se virou e me confessou que tinha medo de altura. Medo de altura? Viche ! Naquele lugar não havia espaço para esse tipo de medo não, e vendo que não havia outra saída, o sambista, (opsss) o Rafael fez o “sinal da cruz” e se lançou no grande lago e depois disso nem sei que fim ele tomou porque eu mesmo já despenquei atrás dele e tentei nadar o mais rápido possível para longe da cachoeira que insistia em nos querer juntinho dela. Mas quando eu comecei a nadar para beira das rochas, vi que algo estranho estava acontecendo. Quanto mais braçadas eu dava, menos eu saia do lugar e para piorar, eu havia saltado de cima da cachoeira com a mochila presa ao corpo, fazendo com que eu afundasse mais ainda. Foi um desespero ficar rodando e não avançar e para piorar, o Vagner também foi pego pelo redemoinho, que se formava porque a correnteza batia nas grandes paredes do poço e voltava para onde estávamos. Nesse vai e volta acabei foi engolindo um pouco de água e só consegui sair daquele sufoco porque consegui me segurar numa fenda da rocha e dela não larguei de jeito nenhum, até eu conseguir tomar fôlego, me acalmar e me lançar para longe da torrente de água. Por sorte o Vagner também conseguir chegar onde eu estava e nós dois juntos tratamos logo de picar a mula dali e ficamos de longe vendo o resto do grupo tentar desenroscar a corda que havíamos usado para descer algumas mochilas mais pesadas. Há mais de três anos a gente vem se dedicando a essas expedições selvagens à Serra do Mar Paulista e durante todo esse tempo, já tiramos do mapa pelo menos uma dezenas de rios selvagens, mas nenhum destes rios, destas travessias de cânions e gargantas, nos apresentou tantos poços e lugares incríveis para lazer aquático, quanto o São Lourencinho. Esse é um rio diferente, tanto que foram muito pouco os vara- mato que tivemos que fazer e praticamente 90 % do trajeto é feito se jogando de cima das rochas e nadando dentro das gargantas, ainda mais porque esse rio tem uma característica bem peculiar, os poços são sempre bem protegidos, ou seja, sempre que o rio vai despencar vale abaixo, ele é precedido por lagos mansos, nos dando uma boa segurança para atravessar a nado. Mas como toda regra tem uma exceção, chegamos à beira de mais uma grande cachoeira e ali ficamos travados. O maluco do Trovo queria se jogar de uma altura de mais de 15 metros, sem saber se era possível sobreviver à queda no grande poço logo a baixo, mas depois de muito custo, conseguimos persuadi-lo a desistiu daquela ideia maluca e logo em seguida o Loures puxou a fila e foi abrindo mato no facão pelo lado direito, até que jogamos uma pequena corda e descemos freando como dava, uns despencando no barranco abaixo, outros freando com os dentes mesmo e aí tomamos o rumo do rio novamente e fomos escorregando até pararmos no espelho d’água. O dia já se aproximando do seu final e todo o grupo já está empenhado em achar um lugar razoável para acampar, quando mais uma enorme cachoeira se apresenta diante de nós. É realmente grande, mas é uma queda d’ água inclinada e com muita habilidade fomos descendo por dentro dela, aproveitando cada apoio para conseguirmos nos equilibrar sem despencar. Essa era uma cachoeira realmente linda e suas águas despencavam tomando vários lugares na rocha, como se cada pequeno riosinho resolvesse tomar um caminho diferente e por isso mesmo resolvemos batizá-la de CACHOEIRA VÁRIOS CAMINHOS. Um ajudando o outro e logo já estávamos nos jogando novamente no grande lago que se formou aos seus pés e mesmo antes de abandoná-la completamente, a gente já avistou uma garganta gigantesca e que provavelmente seria a grande cachoeira até aquele momento. O Trovo foi à frente e ficou olhando para o vazio e quando estávamos nos aproximando, ele já indicou que deveríamos sair pela esquerda, que era provavelmente para onde se dirigia o rio, mas antes fizemos uma pausa para apreciarmos aquele grande espetáculo de uns 50 metros de queda. A galera tirou algumas fotos do abismo, mas como eu já havia citado, a noite já se avizinhava e precisávamos achar um local para acampar a qualquer custo, já que ali era impossível descolar algo descente mesmo para armar sete redes. Dos sete integrantes, cinco foram à frente, tentando achar caminho pela esquerda, escalando um paredão gigantesco. Eu e o Loures ficamos mais atrás, acho que me demorei guardando a câmera que não era à prova d’ água e quando me juntei ao Loures, a gente achou que aquele caminho que eles estavam fazendo era totalmente desnecessário porque vislumbramos a possibilidade de evitarmos uma subida muito íngreme. Todos estavam a pelo menos uns 50 m ou mais paredão acima e já rasgavam a floresta no meio, quando eu e o Loures resolvemos deixar de lado qualquer outro caminho e tentar reencontrá-los novamente, não era hora de haver separação perto de acamparmos. O Loures se agarrou à parede e foi escalando como deu e já foi se encaminhando para onde estava o resto do grupo. Já quando fui tentar subir, não encaixei a pegada na raiz mais acima, minha mão escorregou e só não despenquei porque minha mochila travou nos cipós que envolviam a árvore. Voltei novamente e dessa vez cavei uma raiz e enfiei minhas mãos e me elevei e quando novamente alcancei o galho da árvore, me segurei nela com toda a minha alma, apoiei meu pé numa pedra, que por pouco não rolou de volta e dei impulso, me catapultando barranco acima. Quando me senti seguro, soltei logos uma meia dúzia de palavrões para amaldiçoar o desgraçado que havia escolhido aquela merda de caminho. Levantei-me, puxei um pulmão inteiro de ar e quando me preparava para dar o primeiro passo, só vi o Loures correndo na minha direção feito um touro bravo. Olhos arregalados, gritava desesperadamente para que eu voltasse para o buraco de onde eu acabara de subir. Foi nesse momento que eu ouvi o primeiro grito de desespero vindo do outro grupo e da boca Loures eu só ouvi as palavras: - VESPAS, VESPAS, CORRE DIVANEI! Não importa o tempo que levei para subir, dei meia volta e sem por as mãos em lugar nenhum, despenquei de volta para baixo da parede. Escorreguei, cai, rolei, passeio feito uma piramboia ensaboada pelos cipós e espinhos e por tudo que é vegetação e em menos de um piscar de olhos já me encontrava de volta à beira do rio. O Loures veio logo atrás, arrastando mato no peito e logo se juntou a mim. A cena que se seguiu foi um verdadeiro filme de horror. Gritos agonizantes, berros desesperados, pedidos de socorro. Eu e o Loures não nos movemos, na verdade nem respirávamos e ficamos paralisados diante daquela situação. Diante da agonia do grupo acima, eu só pensava que havia chegado a hora que a gente nunca quis que chegasse: a hora de retirar um corpo do meio da Serra. Alguns minutos depois a gritaria parou e um silêncio tomou conta de tudo e foi nessa hora que o nosso coração disparou, o que acabou por nos tirar da letargia em que nos encontrávamos. Sabíamos que não seria seguro subir pelo mesmo caminho, então combinamos de nos afastarmos uns 50 metros para a esquerda e abrirmos novo caminho. A gente precisava saber o que havia acontecido com o grupo, mas não podíamos correr o risco de nos juntarmos aos acidentados, então caminhamos devagar, com extremo cuidado, sempre gritando para ver se alguém nos respondia. Uma voz vinda de longe reverberou nos nossos ouvidos como música. O Prince ou o Trovo, não sei direito, respondeu aos nossos chamados. O grupo já estava distante do foco do acidente. Por sorte estavam todos em pé e aquilo nos aliviou a alma e nos consolou o coração. O grupo contou que haviam dado o azar de bater de frente com um enxame de abelhas e vespas e a maioria havia levado dezenas de picadas e necessitavam de serem medicados, mas era preciso voltar ao rio o mais rápido possível. Desesperados, nem quiseram dar muitos detalhes, já tomaram à dianteira e foram rasgando mato no peito e ao verem que o terreno havia ficado menos íngreme, empreenderam uma diagonal em direção à água. Na verdade, tocaram como deu, de qualquer jeito, sem se preocuparem muito com a grande inclinação que o terreno ainda apresentava. Nesse caminho, o Loures descia junto com o Rafael e por um grande azar, viu uma última vespa se depreender do cabelo enrolado do menino e pular direto para o seu olho e foi assim que eu me tornei o único explorador a sair dessa expedição sem experimentar nenhum “beijo” envenenado. O local que saímos era mesmo muito bonito. Um grande lago aos pés de uma grande cachoeira que despencava de um afluente que alias, era o hospedeiro de uma cachoeira gigante que só conseguimos ver quando estávamos encima do barranco, onde o acidente aconteceu. Era uma cachoeira tão grande, que chegamos a calcular que poderia ter mais de 100 metros de queda e por isso à batizamos de MÃE DA SERRA , mas o local era realmente imprestável para acampar, mal havia árvores para montarmos nossas redes, só que naquela situação, com o dia já estando nas últimas, teríamos que nos virar por lá mesmo. Improvisamos tudo como foi possível e tivemos que nos contentar em acamparmos uns longe dos outros, mas deixamos os moribundos agrupados. O saldo era o seguinte: O Prince estava muito bem, apesar das picadas. O Loures também estava bem, mas seu olho inchou tanto que desfigurou seu rosto. O Trovo ficou enjoado, mas ainda se mantinha em condições de ajudar a medicar os “feridos”. O Natan foi outro que também ficou meio grogue, mas nada que nos preocupasse muito. O Rafael era o cara que mais nos preocupou. Começou a vomitar sem parar, na verdade, estava em choque e esse foi o primeiro a receber os anti- inflamatórios que eu levei, mesmo assim vimos logo que ele seria o cara que ia requerer muito cuidado, principalmente quando ele citou que deveríamos chamar o resgate para tirá-lo do meio do vale, mas isso a gente iria discutir muito tempo depois. Como nada é tão ruim que não possa piorar, a caixa de pandora se abriu sobre o coitado do Vagner. Ele havia sido agraciado com muitas picadas, mas antes mesmo do efeito do veneno invadir seu corpo, ele se tornou personagem de mais uma desgraça no meio daquele vale no centro selvagem da Serra do Mar. Estávamos todos reunidos embaixo de uma tenda, conversando sobre o rumo daquela expedição e ao mesmo tempo um fogareiro fervia uma grande panela de água para prepararmos uma parte da janta. Estávamos em um terreno inclinado e ao chegar ao estado de ebulição, a água fez balançar o fogareiro e o mesmo tombou de lado, fazendo com que a panela de água fervendo caísse toda no pé do Vagner. Poucas vezes vi alguém gritar tanto. Urrava mais que jagunço com cólica de rim. Imediatamente jogamos um cantil de água fria sobre seu pé e já o fizemos engolir alguns analgésicos, depois de deitá-lo numa rede. Pronto, a tragédia estava completa. Havia um homem que vomitava sem parar e agora outro com um pé que se transformou numa pururuca. Reunimos-nos para uma conversa franca. No começo a palavra resgate até que andou saindo da boca de alguns, mas foi preciso lembrar a todos de onde estávamos. Havíamos descido um dia todo por um cânion dos diabos, só nos jogando de cima de grandes paredões e atravessando a favor da correnteza, grandes torrentes de água. Se fosse possível subir, jamais o faríamos em menos de dois dias, então essa hipótese estava mais que descartada. Até então tínhamos a esperança de saímos daquele vale em mais três dias de expedição, portanto aquele negócio de resgate era totalmente um absurdo da nossa cabeça, muito porque não havia comunicação com o mundo externo e se quiséssemos sair vivos, só poderíamos contar com nós mesmos. Para piorar, o Vagner começou a sentir o efeito do veneno e agora além de gritar, também tremia e vomitava. Fomos ministrando alguns remédios e tentando acalma-lo como podíamos. O pé dele estava feio, mas eu sabia que não haveria risco de morte por causa de um pé gravemente queimado, mas era preocupante se caso ele entrasse em estado de choque grave. O Rafael continuava a vomitar e aos pouco os outros começavam a sentir o efeito do veneno. Medicamos todo mundo e aí eu fui tentar deitar um pouco, estava exausto e um pouco abalado com toda aquela situação. Mal me deitei na minha rede e já ouvi os gritos desesperados do Loures, gritando para que ajudássemos socorrer o Vagner. Quando desci da rede, me esqueci da inclinação do terreno e quase despenquei barranco abaixo. Chamei o Prince e corremos para lá, bem na hora de ver o Vagner mais uma vez, quase dar seu ultimo suspiro de vida. Estava tremendo feito vara verde e teve que engolir mais um antitérmico e um analgésico. Mas não era só ele não, os outros já começavam a sentir também o efeito devastador das picadas de vespas. O Natan já tava xarope e não dizia nada com nada e o Trovo já começava a dar sinais que seria outro a sucumbir de vez. A noite foi mesmo tensa, parecíamos estar num hospital de guerra e foi assim, entre gemidos e murmúrios que o dia nasceu novamente. Parte da galera passou quase toda a noite vomitando e cagando e ao amanhecer , alguns que passaram a noite delirando, juraram de pés junto que uma onça havia nos visitado e que o próprio felino havia defecado perto das nossas redes, uma bela desculpa esfarrapada para quem não se deu ao trabalho nem de trepar no barranco para se aliviar, mais uma lorota para entrar na lista de tantas outras. ( rsrsrsrssrr) O fato é que o Rafael estava novamente restabelecido e o Vagner não sentia mais dores nas queimaduras do pé. Mesmo assim ainda nos preocupava como ele sairia andando de dentro do vale pelos próximos três dias. Desmontamos nosso acampamento e o Trovo e o Rafael foi o encarregado de fazer o curativo no pé no Vagner. O resto do grupo ainda tinha uma missão a cumprir: Subir o rio por uns 20 minutos para fotografar a grande cachoeira que havíamos visto somente por cima no dia anterior, pouco antes do acidente acontecer. Então sem perder tempo, já nos jogamos nesse poção que estávamos acampados e nadamos até o pé da pequena cachoeira e já a escalamos rapidamente, deixando também para trás a grande cachoeira do afluente da Mãe da Serra e nos lançamos em mais um grande lago superior, até que à nossa frente se descortinou um dos maiores espetáculos do vale: Uma grande cachoeira de uns 40 ou 50 metros de altura despencava vertiginosamente para dentro de um grande lago. Foi um momento mágico aquele que vivemos ali, sabíamos nós que muito provavelmente aquela era a primeira ou uma das primeiras equipes a botarem os olhos naquela maravilha. Tínhamos certeza que havíamos feito história naquele momento e se um dia alguém chegou ali, jamais contou para ninguém e seria provável que a foto que havíamos tirado ali, seria a primeira foto publica de que se tem notícia e não haveria um nome mais significativo para batiza-la se não o de CACHOEIRA DAS VESPAS. Fizemos a maior festa naquela cachoeira, mas o tempo urge e tínhamos muito caminho pela frente, portanto lavamos mais uma vez a alma e retornamos rapidamente para junto do resto do grupo, que já nos esperavam ansiosos para partir. O Vagner calçou suas botas e não as tiraria mais durante o restante daquela expedição, comprovando que os meninos haviam feito um grande trabalho no que tange aos curativos. O dia já se aproximava das onze da manhã quando partimos. O sol reinava soberano no céu e o calor se fazia presente, como nunca antes havíamos pego em uma travessia selvagem. O rio não mudara em nada, se comparado ao dia anterior, continuava com suas águas translucidas e se apresentava sempre à nossa frente com as mesmas gargantas e poços impressionantes, que fazia a alegria da galera, mesmo porque, o moral do grupo já estava novamente de volta e todas as angustias e preocupações foram deixadas no “acampamento vômito”. Um pulo, dois pulos, três pulos e um mergulho profundo em mais um cânion e vamos deslizando por baixo de grandes pedras, envolto em grandes correntezas. Quando tem que escalar, a gente escala, quando tem que saltar de grandes pedras para outras pedras tão grandes quanto, a gente salta. A vida naquele vale selvagem se resume a vencer obstáculos e cada um se dedica a superar seus próprios medos e suas próprias limitações. Se pudéssemos olhar de fora veríamos claramente que esse é um grupo envolto numa felicidade incontrolável, veríamos os olhos de cada um brilhar a cada curva porque esses meninos haviam encontrado o que se propuseram a buscar. Fomos atrás de aventura, não uma falsa aventura, uma aventura autêntica, aventura verdadeira, aquela que só nos faz buscar a vontade incontrolável de permanecer vivos. Mais uma mochila é jogada no vazio e mais um homem pensando ser Ícaro, voa para dentro do rio e desaparece no fundo do poço para reaparecer mais à frente e assistir de camarote os outros Ícaros tomarem o mesmo caminho e ganharem nota dez no quesito salto sincronizado e todos seguem juntos até serem vencidos momentaneamente por mais uma cachoeira, onde o grupo de reuni para estudar como será vencer mais esse obstáculo. O calor era forte e por isso mesmo uma nuvem matreira começou a nos acompanhar. Vencemos a próxima cachoeira por dentro dela, cada um se segurando como pode para não ser carregado pela água e quando a coisa complicou, bastou deixar a força do rio nos levar direto para o poço logo abaixo, de onde saímos nadando até o início da próxima garganta fechada. E essa não era uma garganta qualquer, era uma garganta com um lago exprimido por suas paredes que tinha uma extensão de uns 100 metros de comprimento. Justamente nessa hora a nuvem que nos acompanhava desabou sobre nossas cabeças em forma de um temporal, por isso mesmo tratamos logo de nos jogarmos no rio e passarmos aquele trecho rapidamente antes que uma possível cabeça d’ água pudesse vir a nos atingir. Foi sul real estar nadando naquela garganta com uma chuva momentaneamente devastadora. Uma cena linda de ver e de viver. Eu era o último homem e acompanhava de perto o Vagner, os dois dando braçadas inúteis, que mal levava a gente a lugar nenhum. Então resolvi me aproximar da parede rochosa e usá-la como uma espécie de trampolim para me impulsionar mais à frente, foi nesse momento que o Vagner, que não sabe nadar, mas estava de colete, começa e se torcer todo como se estivesse sido possuído pelo caboclo “puxa perna”. Se contorcendo de dor, começou pedir ajuda, mas eu mesmo já estava envolvido na minha desgraça pessoal, já que além de não enxergar coisa alguma com aquele aguaceiro todo, ainda tentava escapar da minha própria mochila que insistia em querer me afogar, já que estava com ela nas costas. Respirei fundo e consegui me desprender da mochila e me valendo de um galho de um tronco submerso, cheguei até o Vagner e agarrei sua mão e o trousse para junto de mim e ficamos os dois agarrados feito siri no pau até que ele conseguiu se livrar das câimbras e eu consegui tomar fôlego e juntos saímos em grande estilo, ou nem tanto .( rsrsrssr) Do mesmo jeito que veio, a chuva se foi, não durou nem 15 minutos e logo em seguida o sol voltou a ser novamente o oitavo companheiro dessa expedição. À frente, o rio se estreita um pouco e com muita dificuldade o Prince conseguiu passar para a outra margem, correndo o risco de ser jogado vale abaixo. Nesse momento vimos logo que ali seria necessária uma corda para dar uma segurança. principalmente para os “ meio quilo”, como eu, por exemplo. Do outro lado do rio, o Loures e o Prince seguravam uma ponta da corda, enquanto a gente se agarrava nela e se jogava na correnteza, sendo arrastado até a beira da queda, até se agarrar na pedra e se puxar para cima. Mas eu não dei bobeira porque já assisti vários filmes como aquele. Amarrei a corda envolta do meu corpo e me segurei o máximo que pude e antes de me atirar na água, já dei um aviso em alto e bom som para que os caras prestassem atenção para não me deixar cair cachoeira abaixo. Passei fácil, mas ainda assim sempre fico tenso nessas passagens de cordas, onde sua vida depende exclusivamente de outrem. O terreno começa a ficar menos íngreme e aí começa o festival de gente boiando nas águas e despencando nas pequenas cachoeirinhas. Era só se segurar e deixar a natureza seguir o seu curso e quando era hora de ver o mundo como passageiro da correnteza, bastava apenas erguer os pés e se deixar despencar para o desnível mais abaixo, num verdadeiro parque de diversões aquático. Quando o rio se alargava e ficava raso, era hora de caminhar e ganhar terreno, avançando rapidamente, seja pelas margens do Lourencinho, seja pulando de pedra em pedra e às vezes corendo o risco de escorregar e ir parar com a fuça no fundo do rio. Bom, havia sido mais um dia lindo de travessia e a galera estava toda em êxtase com o lugar. Quando comecei os estudos sobre o São Lourencinho, muitos torceram o nariz, dizendo que era pouco provável que o lugar tivesse algum potencial para uma expedição de peso, mas agora estávamos convencidos de que estávamos vencendo um dos lugares mais fascinante do país, mas o dia estava mesmo no seu final e quando tropeçamos em uma grande afluente do lado esquerdo, nadamos para a sua margem e demos de cara com uma clareira plana, cheia de árvores gigantes e surpreendentemente, com sinal de passagem humana. Dois cortes de facão denunciavam que alguém já estivera por ali, o que nos levou a crer que poderia haver uma trilha, mesmo que muito selvagem, que pudesse nos levar de volta à civilização, já no litoral. Independente se haveria ou não a tal trilha, não tínhamos o que discutir. Aquele era o lugar mais perfeito que já havíamos encontrado em mais de três anos de expedições, uma área linda e que poderia agregar dezenas de pessoas e então foi unanime a decisão de acampar ali e sem pensar muito, jogamos às mochilas ao chão e encerramos mais um dia de caminhada. Montamos as redes com calma, colocamos todos os toldos e fomos cuidar do jantar e para garantir a segurança do grupo, montamos os fogareiros no ”alto da colina”, vai que né .......... ? ( rsrsrssrsrsr) A noite foi quente, fez um calor de lascar e infelizmente os borrachudos ou mosquitos pólvora não deram trégua para quem, como eu, não havia levado o mosquiteiro. Consegui dormir apenas por duas horas e pouco depois das seis da manha já pulei para fora da rede para mais um dia de aventuras. Vasculhei o local em busca da tal trilha que poderia haver, mas nada encontrei. Começamos a desconfiar que se essa tal trilha existisse, poderia estar bem mais abaixo do rio e então paramos de procurar, desmontamos tudo e partimos nos valendo das margens planas e de mato ralo, onde caminhamos por um tempo, mas logo o mato fechou e logo cedo a gente já caiu no rio e atravessamos um grande poço de águas esverdeadas para avançarmos mais rapidamente pela margem direita. O rio se alargou muito e agora suas curvas ficavam profundas e a todo momento era preciso empreender umas braçadas para transpor de um lado para o outro. O caminhar era tranquilo e rendia muito, mas as pedras lisas ainda não perdoava quem se desse ao luxo de perder a concentração. Por vezes era possível andar pelo mato, mas não durava muito e logo lá estávamos nós, nos jogando no rio e nadando sem parar. Menos de uma hora de caminhada, numa curva do rio demos de cara com um rancho improvisado de pescador. E mesmo tentando, não vislumbramos qualquer trilha que pudesse nos tirar de dentro daquele vale e nos devolver ao litoral, mesmo que fosse por um dia inteiro de andanças. O céu e a mata vai passando rápido e às vezes tudo vira de ponta cabeça e posso avistar parte do grupo que vem logo atrás de mim. Sou como um graveto a deslizar sem rumo e sem direção nas águas correntes do São Lourencinho. Uma pedra mais afoita insiste em abalroar minha bunda ou minhas costelas, mas logo quando posso, volto à posição original e bem em tempo de prender a respiração, antes de afundar na torrente mais à frente. É um grande barato se deixar levar pela correnteza. A gente volta a virar criança, não quer que aquilo acabe nunca mais, somos passageiros da vida e nessa hora não estamos mais nem aí para nada, a gente não se importa com coisa alguma, não estamos sobre as regras de nenhuma sociedade e cada qual faz o que bem quiser, age como bem quiser. Aquilo não faz parte do mundo, é como se entrássemos num portal para fora da realidade e embarcássemos em outro mundo de sonhos e a felicidade fica plena quando mais malucos vem sonhar os nossos sonhos, no caso, se jogando na mesma corredeira e se deixando levar para a terra da aventura. Logo as grandes ilhas, que vínhamos acompanhando pelo mapa, aparecem e aí é preciso escolher um dos lados do rio, que nessa hora fica raso e de fácil locomoção e quando o dia já ia pelo meio, estacionamos numa grande ilha onde o rio se partia em três e ali paramos por uma meia hora para um lanche providencial. Ainda não sei o porquê, mas parte da galera resolveu batizar aquela ilhota de rio de Ilha São Matheus, talvez em alusão a alguma referência local perto de suas casas , mas que eu ainda desconheço. O fato é que mesmo a gente avançando rápido pelo rio, agora sem muito desnível, eu já há muito tempo tinha chegado à conclusão de que o tempo estabelecido para aquela travessia já tinha ido para o saco faz tempo, inclusive cheguei até a comentar informalmente com alguns deles. Já estávamos no começo da tarde do terceiro dia e pelas minhas contas ainda tínhamos pela frente quase 20 km de muito rio para descer, mesmo que no seu final, vislumbrando a possibilidade de encontrarmos alguma trilha pela margem nos últimos 5 km. Naquele ritmo, e não havia como ir mais rápido que aquilo, só chegaríamos ao final na quarta feira de cinzas, perfazendo assim cinco dias de caminhada. Mas um acontecimento iria mudar radicalmente os rumos daquela expedição. Depois de atravessar muito rio à nado o destino nos presenteou com uma surpresa, quando o rio fez um grande cotovelo de quase noventa graus. Todo o grupo tentou passar pela margem direita do rio, mas eu nadei para outra margem e subi o barranco tentando cortar caminho pela floresta para ganhar tempo e foi quando subitamente tropecei em um acampamento de caçadores. Quando vi aquela lona azul se destacando no meio da mata, de onde subia uma fumaça proveniente de um fogão a lenha improvisado, dei um grito e alertei a galera sobre o achado. Mas nem havia necessidade do aviso, logo o grupo ouviu os latidos estridentes dos cães que denunciavam os caçadores escondidos no mato. Parte do grupo se aproximou e chamou-os, mas os caras desconfiados, somente responderam rispidamente as perguntas que eles fizeram. Nosso grupo perguntou como poderíamos voltar o mais rápido possível para a civilização e os caçadores, que segundo me falaram, já que eu estava na margem oposta, disseram que estávamos a meras duas horas de uma habitação, descendo o rio. Claro, aquilo era uma mentira deslavada e logo percebemos que os caras queriam era se livrar da gente o mais rápido possível. A gente sabia que aquele rio corria encravado no meio de um vale gigante e era totalmente selvagem e a única maneira de achar uma saída era cruzar por uns 10 km de floresta morro acima até atingirmos o a borda da serra e aí descer vertiginosamente de cima de uma montanha de mais de 300 metros para o litoral. O caso é que a gente notou logo que aqueles caras eram homens de pouca conversa e ao perguntarmos sobre uma possível trilha, eles desconversaram rapidamente e apenas disseram que existia a tal trilha, mas jamais conseguiríamos segui-la, já que era totalmente fechada e sem uso e nos perderíamos muito fácil e que deveríamos pegar mesmo o caminho da roça,( opssss), do rio. No fim , todo mundo atravessou o rio e vieram ao meu encontro , perto do acampamento dos caçadores. Eu estava convicto que qualquer trilha, mesmo fechada ou não, seria muito melhor que continuar pelo rio. E foi mesmo uma grande sorte a nossa de encontrar essa trilha bem atrás do acampamento e antes mesmo que os caras resolvessem vir atrás de nós, nos enfiamos mato adentro e aceleramos o mais que pudemos, até nos perdermos da vista deles. No começo a trilha até que era nítida e corria em nível, atravessando um riacho por várias vezes, mas uma meia hora depois, quando atingiu o fundo do vale, se perdeu no meio do nada e aí ficamos a ver navios em plena Mata atlântica. Realmente começamos a perceber que os caçadores tinham razão quando disseram que a trilha quase não existia, muito porque, eles mesmo não faziam questão nenhuma de deixá-la aberta, no intuito de que ninguém pudesse encontra-los nas suas atividades ilícitas naquele fim de mundo. O grupo teve que se revezar para que aquela travessia pudesse continuar e a todo momento era preciso usar nossos faros de trilheiros para buscar o rabo do caminho, que insistia em mudar de direção a todo momento, até que finalmente encostou no pé de uma montanha e sem dó e nem piedade, tocou o pau para cima e foi aí que a porca torceu o rabo para o meu lado. Eu já havia entrado nessa expedição meia boca. Estava fazendo tratamento do joelho e só me arisquei mesmo porque não passava pela minha cabeça ficar de fora dessa descida final, além de que, eu havia passado meses estudando e me dedicando para que esse rio pudesse sair do mapa, inclusive já havia estado naquele fim de mundo por duas vezes, uma para achar o rio e a outra para encontrar e explorar sua nascente. Junte se a isso mais dois fatores: eu não havia dormido mais que duas horas na noite anterior por causa dos malditos pernilongos e agora havia comprado uma mochila estanque, que é ótima para a parte aquática, mas por não conter uma barrigueira, já tinha destruído meus ombros. Vai ter uns filhos da puta que vão citar um terceiro fator e irão jogar mais o peso da minha idade nessa conta, mas é pura intriga desses novinhos folgados. (rsrsrsrsr) O fato é que com aquela subida interminável, eu comecei a bambear as pernas e só acompanhei o grupo de perto porque não me dei por vencido, mas minha vontade era mesmo de arriar a mochila e acampar logo. Aquela subida desgraçada não acabava nunca e quando ela chegou a sua metade, notei que uma parte do grupo já compartilhava do meu sofrimento. A água acabou, mas o desgraçado do morro não e quando pense que finalmente iríamos desembestar ladeira abaixo, a subida continuou até dar uma nivelada e nos jogar bem numa grande moita de bambus, onde outrora deveria haver um rancho. Aproveitamos para tomar um balde de água junto ao riacho aos pés do bambuzal e quando já havíamos secado o córrego, partimos novamente para mais uma rodada de sofrimento. A trilha contorna o bambu pela nossa esquerda, passa para o outro lado da água e mais uma vez se perde na floresta. Não demora muito e a gente chega a uma grande clareira, bem numa parede inclinada, onde em seu sopé foi construído mais um rancho, que por estar abandonado, não passava de uma tapera, mas que os meus olhos enxergaram um grande hotel de luxo e até mencionei da gente acampar ali, mas todos fingiram não me ouvir e me deixaram no vácuo. Foi nessa hora que o Prince e o Loures já sinalizaram que também queriam acampar e que aquela correria toda, que parte do grupo resolvera empreender, já não fazia mais sentido, porque estava claro que de um jeito ou de outro, aquela expedição seria finalizada dentro do prazo que havíamos estipulado e que a única coisa que poderia acontecer era a gente conseguir sair na civilização altas horas da madrugada e termos que dormir em algum lugar miserável até o sol raiar. Mas gente é bicho teimoso e como não foi possível persuadi-los a acampar em um lugar mais descente, perto da água, botamos a faca nos dentes e fomos nos arrastando atrás. Eu já nem fazia mais questão de dar nenhuma opinião, apenas tentava manter o foco nas ultimas energias que ainda me restavam e tentava esquecer as bolhas enormes que os meus pés carregavam. Em um dado momento a nossa trilha desembocou bem no barraco de lona de dois mateiros e quando notamos, já estávamos de frente com os dois senhores. Imediatamente os caras trataram de fazer com que a gente nem se aproximasse da rústica habitação. Alguns acham que não, mas na minha opinião os caras escondiam alguma coisa ilícita no barraco, muito provavelmente mais um animal morto proveniente de alguma caçada. O bom foi que os caras nos levaram até onde havíamos perdido a trilha e nos disseram que rapidamente estaríamos de volta à civilização.” Tá , sei !” Pra mim foi mais um jeito de se livrar da gente, porque não demora muito e a gente novamente já não encontrou trilha alguma, que muito provavelmente havia sido engolida por várias arvores tombadas. A noite já havia desembarcado na floresta quando um monte de gente tonta rodava para lá e para cá tentando uma conexão para casa. Eu apenas estacionei meu esqueleto cansado e assisti de camarote o Natan e companhia saírem voados quando uma cobra quase passeou sobre o corpinho dos meninos, mas a seguir todo o grupo presenciou o Eduardo Loures tombar de cima de um barranco, depois que uma jararacuçu resolveu dar um bote na sua perna e se não fosse a proteção de couro, esse seria mais um a sair carregado dessa travessia. O fato é que o Loures levantou assustado e com mais um corte na testa e esse coitado foi mais um a voltar todo estropiado para casa. Aquela cena do Loures tomando o bote da cobra e rolando barranco abaixo foi a deixa para a gente dar um basta naquela situação dos infernos. Era hora de parar, botar a cabeça no lugar, descansar e deixar aquela exploração para o outro dia. Por sorte encontramos um ótimo lugar para passar a noite. Montei minha rede perto de uma pequena fogueirinha que o Prince fez, com a ajuda de outros. Eu já estava farto de tanto borrachudo que mesmo com muito repelente não davam trégua. A noite estava linda e nem toldo usamos, mas havia um problema: ninguém tinha água para cozinhar e nem para matar a sede e logo vimos que aquela seria uma noite de cão. Foi quando o Loures e o Trovo se propuseram a descer em alguma “piramba” e encontrar algum veio de água. Os caras partiram e só retornaram lá pelas onze horas da noite e na bagagem, uns 10 litros de água fresca. Foram recebidos com festa e com todas as honras do qual haviam merecido. Todos se levantaram de suas redes e foram cuidar do jantar em volta da fogueira e quando a gente não aguentou comer mais nada, nos jogamos para dentro dos nossos sacos de dormir e morremos, até que um novo dia viesse a nos despertar para mais uma jornada de aventuras. Acordei renovado, totalmente descansado e disposto, era outro homem depois de uma ótima noite de sono, mas ao contrário de mim, a nossa situação continuava na mesma: Ainda estávamos “perdidos” em um lugar qualquer no meio da floresta e encima da montanha. Claro que sabíamos que bastava perdermos altura em direção ao litoral que encontraríamos uma saída. Tentamos seguir por um caminho que ao primeiro momento nos pareceu uma trilha, mas do mesmo jeito que apareceu, sumiu do nada e aí não nos restou outra alternativa senão a de apontar o nariz para direção que pretendíamos e arrastar uma floresta inteira no peito, às vezes nos valendo de pequenos veios d’ água ou canaletas de chuva para conseguirmos prosseguir com mais destreza. Fomos perdendo altitude aos poucos e em um determinado momento encontramos um riacho, onde paramos para um bom descanso e um gole de água, mas ao recebermos a visita indesejada de uma jararaca raivosa, tratamos logo de picar a mula dali e voltar para nossa labuta. A descida final é por dentro do riachinho e quando encontramos uma mangueira preta, não tivemos mais dúvidas de que a saída estava muito próxima. Mais uns minutinhos e um telhado de uma habitação nos saltou aos olhos por uma fresta da floresta e aí corremos para sua direção e desembocamos em um gramando, onde um casebre abandonado, sabe-se lá há quanto tempo, nos recebeu com um grande sorriso no rosto. Havíamos conseguido, finalmente estávamos de volta à civilização! Era um local caindo aos pedaços, onde um grande trator, mesmo carcomido pelo tempo, sobrevivia bravamente. Aproveitamos para descansar, comer umas goiabas, chupar umas canas e nos lançar ao ócio por algum tempo. Havíamos conseguido um grande feito ao localizarmos aquele rabo de trilha à beira do rio, quase no final do terceiro dia. Claro que a gente teve que navegar por mais de 10 km arrastando mato no peito e nos expondo a todo o perigo que a mãe natureza nos impôs. Por incrível que pareça fomos sair bem próximo ao local conhecido por abrigar a cachoeira do Ouro, no sopé da Serra do Mar, em Peruíbe. De onde estávamos, bastou sair da propriedade abandonada para ganhar a rua, onde viramos para a direita e em alguns minutos interceptamos a própria Estrada do Ouro e pegamos o sentido contrário ao da cachoeira famosa e em 20 minutos, jogamos nossas mochilas ao chão, bem encima da ponte, onde o próprio rio cruzava por baixo e onde nos disseram que seria um ponto de ônibus. O dia nem havia chegado a sua metade e como o ônibus ainda ia demorar, parte do grupo matou o tempo se jogando de cima da ponte. O grupo estava mais unido do que nunca, mas quando uma família, que fazia um churrasco na beira do rio, resolveu jogar alguns pedaços de carne no meio da galera, foi aí que alguns resolveram mostrar a cara da fera irracional que habita nos seus interiores. Saiu no lucro os que só levaram cotovelada no nariz e para não perder amizade, não vou apontar o dedo para os caras que usaram de subterfúgios baixos para levar vantagem sobre os demais. Só quando o ônibus chegou é que aquela cachorrada se espalhou e todo mundo tratou logo de pegar suas mochilas e se atirar para dentro do veículo motorizado e finalmente dar um descanso para suas pernas. O “cata traste” levou mais de uma hora para nos desovar na rodoviária de Peruíbe e antes de voltarmos para a capital Paulista, nos encostamos-nos a um restaurante para comemorar o sucesso daquela expedição. Por sorte conseguimos um ônibus rápido para o terminal do Jabaquara, onde a galera se despediu e cada um foi se perder para a maloca de onde havia saído a quatro dias atrás e eu só cheguei em Sumaré, no interior do Estado, no final da noite, cansado e mais que feliz que pinto no lixo. Foi mais uma grande EXPEDIÇÃO e sem dúvida nenhuma, foi mais uma grande honra poder tido a oportunidade de botar mais um grande rio no mapa do Estado de São Paulo. Foram muitas idas e vindas, madrugadas perdidas estudando mapas e traçando estratégias para que a empreitada pudesse sair do papel. Foram necessárias três incursões naquele fim de mundo selvagem, com logística difícil e complicada. Foi necessário juntar uma dúzia de pessoas, de velhos aventureiros que se dispuseram a deixar suas famílias e suas casas para um objetivo em comum. Esse vale do Rio São Lourencinho foi mais um achado nessa serra desconhecida, mesmo estando tão perto da maior cidade da América do Sul. Deparamos-nos com grandes cachoeiras, cânions incríveis, vales espetaculares e gargantas encantadoras e tudo regado por uma água com 100% de pureza, que corre livre dos olhos da raça humana, já que nasce longe de qualquer vestígio de civilização. O grupo que finalmente venceu aquele vale não é nem de longe um grupo com super poderes, com habilidades fora do comum, ninguém é mestre em escalada, nem em mergulho, nem em navegação, nem são os mais fortes e muito menos os mais rápidos. É um grupo formado por gente comum, como outro qualquer, mas o que nos difere é a grande capacidade de aguentar todo tipo de desgraça que a natureza selvagem pode nos jogar às costas. Esse é um grupo que brilha os olhos, quando ouve a palavra AVENTURA SELVAGEM e quanto a isso, a SERRA DO MAR PAULISTA, não deve nada a nenhuma outra serra do Brasil. Divanei Goes de Paula – fevereiro/2017
  18. Luka, Na verdade essa montanha é pouco conhecida e está a meio caminho de das montanhas mais isoladas da serra do Mar, no meio de uma reserva controlada,onde é preciso escalar pra se chegar ao topo. Nesse fim de semana passado estabelecemos um caminho até o DEDO DE DEUS PAULISTA e só não fomos ao topo porque tem que escalar 30 metros de parede e estava caindo o mundo em chuva.
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