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divanei

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Tudo que divanei postou

  1. abaixo o link do vídeo da Travessia e outras informações no facebook: DIVANEI GOES DE PAULA https://aventurebox.com/divanei/travessia-lagamar-cananeia-sp-a-paranagua-pr/videos
  2. Todas as fotos podem ser vistas no link abaixo : https://aventurebox.com/divanei/travessia-lagamar-cananeia-sp-a-paranagua-pr/photos
  3. TRAVESSIA LAGAMAR: De Cananéia-SP à Paranaguá-PR ....................... Ela vai à frente. Cabelos coloridos ao vento. Desfila feito um cisne e os passos são firmes e decididos, mesmo com os pés carcomidos pela areia da praia. Quando partimos a quase três dias atrás, eu tinha minhas dúvidas se ela chegaria ao fim dos quase 60 km de caminhada, mas não só chegou, como pulverizou minhas desconfianças. Às vezes ameaça correr como quem vai agarrar as garças e outros pássaros que bicam uns olhos de uns peixes à beira mar. Atrás vou eu, já homem de meia idade, 46 anos, dor nas costas por carregar uma mochila abarrotada de tranqueiras de acampamento. Contento-me em olhar minha filha de 15 anos esbanjar energia e vitalidade, ela sou eu, eu sou ela, somos um só e me alegro porque nela meus passos continuarão a palmilhar por lugares tão encantadores como estes, porque, até que se prove o contrário, os país renascem nos filhos e se isso for mesmo verdade, através dela minha jornada está longe de terminar....................... Muitos anos atrás, sozinho, cruzei pela parte norte da Ilha do Cardoso. Me deslumbrei com uma paisagem incrível, passei por praias desertas, atravessei rios, comunidades caiçaras isoladas, atravessei grandes costões rochosos, onde a maré alta me fez escalar grandes paredões açoitados por ondas gigantes e chegando à Marujá, uma povoado perdido num fim de mundo ilhéu, sem energia elétrica, carros ou qualquer outra modernidade, prometi para mim mesmo voltar lá um dia para terminar o resto da ilha paulista e emendar a grande caminhada pelo LAGAMAR, como é conhecida toda aquela região de ilhas, mangues , golfinhos, tartarugas, restingas, dunas, ilhas selvagens e povoados isolados. Acontece que o tempo foi passando e sempre uma desculpa nova era dada para deixar essa clássica travessia de lado. Além de ser um dos maiores berçários de vida marinha de todo o planeta, ainda foi tombada como Patrimônio Natural da Humanidade e considerada um dos melhores roteiros de ecoturismo do mundo. Mas mesmo com essa pompa toda, essa grande travessia nunca foi popular no trekking do Brasil, coisa que ainda não consegui entender o porquê, talvez pela grande dificuldade de acesso, com uma logística extremamente difícil e um percurso não tão curto assim, sendo preciso suar por mais de 60 km de praias isoladas num fim de mundo perdido na dívida do litoral de São Paulo com o Paraná, tanto que é mais fácil ver ciclistas cruzando pelas grandes praias do que gente com mochila nas costas. Mas chega um dia que é preciso retirar velhos planos da gaveta e colocá-los em prática, ainda mais quando minha filha de 15 anos me encostou-se à parede exigindo que eu a levasse para uma grande travessia e aí não tive dúvidas, jogamos as mochilas às costas e fomos nos perder pela vastidão dos mares do sul. Nosso ônibus para Cananéia partiu da capital paulista somente às 14:30 de uma véspera de feriado da Inconfidência e só foi possível partir nesse único horário vespertino, porque consegui uma folga do trabalho e foi uma grande sorte mesmo conseguir um lugar, porque o outro horário somente às nove da manhã, dois horários ingratos que vão nos mostrando porque o Lagamar tem ficado de fora dos roteiros dos paulistas. Antes das nove da noite nosso transporte encosta junto a um grande terreno, onde a maioria que desce, vai mesmo atravessar a balsa para a Ilha Comprida a fim de participarem de um congresso circense e eu, a Julia e outro turista, somos os únicos que iremos nos dirigir para a distante Vila de Marujá, na Ilha do Cardoso, mas isso somente na manhã do outro dia porque a noite não existem barcos para a distante ilha. Então eu e a Julia nos juntamos ao Heitor e fomos tentar achar um camping e não encontrando nada, nos contentamos com um quartinho num muquifo qualquer ali perto de onde o nosso ônibus parou e sem perder tempo, fomos comer um lanche no conhecidíssimo bar do Rauzito de Cananéia. Aliás, Cananéia para quem não sabe é considerada a primeira cidade funda no Brasil (1.531), cinco meses antes de São Vicente, uma polêmica histórica que ainda perdura até hoje e fica a 265 km da capital, tento um lindo centro histórico e com uma população em torno de 12 mil habitantes. Na manhã seguinte, pouco depois que o sol nasceu, fomos perambular pelo caís na tentativa de conseguirmos um barco que nos leve para a Ilha do Cardoso, mais precisamente para a capital da ilha, no povoado de Marujá. Descobrimos que o barco público sairia depois das oito, mas não demora muito, alguém nos oferece uma vaga em uma "voadeira", como são conhecidas as lanchas rápidas que fazem essa travessia e como o preço proposto não ficava muito acima do que pagaríamos pelo barco popular, aceitamos a oferta, ainda mais sabendo que a voadeira gasta apenas 1 hora de viagem, enquanto o barco comum pode levar até umas 3 horas de navegação. Nesta pequena lancha nos faz companhia, uma família que não está indo para Marujá e sim para Ariri, outro povoado perto de Marujá, mas não na ilha e sim num povoado esparramado à beira do canal. Conforme a lancha vai de enfiando nos canais, em meio ao mangue, nos sentimos com quem navega no meio da floresta Amazônica, já que o canal interior é tão calmo que mais parece um grande rio. Hora ou outra é possível avistar o dorso de um golfinho, na verdade são botos cinza que aqui no estuário se adaptam muito bem, tendo como companhia guarás e outras infinidades de aves como o xauá ou papagaio de cara rocha, além do jacaré de papo amarelo e outra infinidade de animais. É uma viagem mesmo encantadora, diria que é uma viagem de sonhos em se tratando de natureza e é difícil passar incólume por uma paisagem daquelas. Nem vimos a viagem passar e uma hora depois a lancha encosta em um pequeno trapiche em Marujá. O povoado parecia uma vila fantasma, e nos surpreendeu todo aquele abandono em se tratando de um feriado prolongado. É verdade que descemos em um píer secundário, mas mesmo o principal se encontrava igualmente vazio e abandonado. Energia somente de painéis solares e alguns poucos geradores. Existem alguns campings no povoado e também algumas pousadas e aluguéis de quartos, mas na maioria tudo simples, em casas sem cercas e com grandes gramados. Nesta parte onde está o vilarejo, a ilha é estreita e pertence a um Parque Estadual, de um lado o canal interior e do outro lado, a grande praia em mar aberto, sendo que as casas da vila se esparramam ao lado do canal, onde o mar é calmo e de fácil navegação. Sem perder muito tempo, antes das nove da manhã, jogamos nossas mochilas nas costas e partimos e como o Heitor ainda não conhecia a ilha, resolveu nos acompanhar na caminhada por algum tempo. Poderíamos termos pego uma trilha e em cinco minutos atingiríamos logo a praia, mas preferimos ao invés disto, seguir para a direita, caminhando pela grande trilha interior, entre o canal e a praia. A trilha, na sua maioria sombreada, vai cortando o povoado ao meio, passando por casas de pescadores e alguns campings, onde em um deles aproveitamos para encher nossos cantis, no caso, meu e da Julia, dois litros por pessoas, já que teremos mais de 15 km para enfrentar até o final do dia, sem saber se poderemos encontrar o precioso liquido pelo caminho. Não demora muito e as casas do minúsculo povoado ficam para trás, a trilha passa por um túnel de arbustos mais alto e vira definitivamente para a esquerda, passa por dentro de umas pequenas dunas e restingas e desemboca na grande praia da Ilha do Cardoso, um mundo sem fim se descortina à nossa frente, num mar aberto e tranquilo, chegamos a vastidão dos mares do Sul, do qual faremos de casa pelos próximos dias. Nossos primeiros passos servem para irmos estudando o terreno, vendo qual o melhor caminho a tomar, analisando a consistência da areia e logo notamos que andar perto da arrebentação, onde a areia era compacta, seria o tom dado naquela travessia. Eu ainda prefiro continuar caminhando de bota, mas minha filha faz companhia ao Heitor e se joga para dentro do chinelo para poder ir sentindo a água do mar, que surpreendentemente está quente. O Heitor resolve continuar caminhando conosco e eu até tento persuadi-lo a nos acompanhar até o próximo povoado, mas parece claro que ele não iria muito longe não. Estava com uma mochilinha pequena, com uma barraca amarrada do lado de fora, meio que um hip que caiu do caminhão de mudança. Como as distâncias são intermináveis e praticamente não se consegue ver o fim no horizonte, afinal de contas é uma praia de mais de 16 km que temos de vencer nesse primeiro dia, procuramos na paisagem algo que nos distraia a mente e nos alegre a alma e como primeiro objetivo nos guiamos por um arbusto solitário e isolado sobre a restinga. Faz um calor que a muitos anos não se via num dia de outono, no céu não há uma nuvem se quer. Mas antes mesmo de atingirmos nosso objetivo, avistamos uma família de pescadores à frente e esse acabou por se tornar nosso novo alvo. A Julia vai se encantando com as bolachas do mar e as águas vivas se espalham pela areia da praia. Outra coisa que acaba por chamar a atenção é a quantidade de coisas que acabam trazidas à praia pela maré e como esse paraíso é deserto, não há ninguém para limpar. Às onze da manhã nos encontramos com os pescadores, que vieram de um povoado do outro lado do canal apenas para coletar um pouco de corruptos, uma espécie de crustáceo que se esconde na areia da praia e é capturado com uma bomba manual que suga o bicho do buraco. Minha filha fica encantada com o bichinho, mas eu nem tanto, porque foi a mim que ele escolheu para enfiar suas garras e abrir um buraco no meu dedo. (Desgraçado dos infernos.........rsrrsrsr) Aproveitando a parada para uma boa conversa com a família de pescadores, resolvemos nos enfiar de vez na água e inaugurar nossos mergulhos no mar. Como eu disse, a água estava espetacularmente quente, com uma transparência incrível já que as águas dessa região costumam ser um pouco mais escuras por causas dos rios que vem dos mangues. O mar é um pouco violento, com ondas altas e é preciso ficar atento às corretes, mas mesmo assim foi um grande prazer nos jogar naquele marzão sem fim, onde apenas nós três reinávamos soberanos naquelas praias, já que até a família de pescadores já haviam tomado seu rumo e se perdido no meio da restinga, de volta para o mundo de sonho deles. Já é mais do que sabido que eu odeio praias lotadas e estar ali naquele lugar me traz uma satisfação indescritível, mas nós não viemos para pregar a bunda na areia da praia não, temos dezenas de km pela frente e não podemos nos demorar por ali, então botamos novamente a mochila às costas e partimos para mais uma pernada. Mas o sol estava mesmo queimando tudo e não deu nem mais uma hora de caminhada e novamente pinchamos as mochilas na areia e corremos para o mar, quando digo corremos, me refiro a mim e a Julia, porque o Heitor aproveitou um barranco de uma duna para se esconder na sombra e tirar uma soneca. Quando voltamos do mar, ele acordou e foi se banhar e esse seria o último mergulho dele em nossa companhia, porque logo quando voltou também apanhou sua mochila, se despediu da gente e foi se perder de volta na imensidão da praia, tomou o caminho de volta para Marujá e até então, essa foi a última vez que ouvimos falar nele, do mesmo jeito que apareceu no nosso caminho, desapareceu para sempre. Agora éramos somente eu e a Julia e antes de retomarmos a caminhada, subi numa pequena duna e avistei ao longe, no meio da restinga, o telhado de uma casa e não demorou muito localizamos a entrada da habitação. Entrada marcada por uma construção de madeira, tipo um observatório de uns 3 metros de altura, onde subimos para tentar aumentar o nosso horizonte. Nada conseguimos enxergar, então resolvemos pegar o caminho que ia em direção a tal casa. É um caminho que se enfia restinga à dentro porque todas as habitações desta caminhada, sempre ficam distantes do mar, mais encostada ao canal interior, onde existe um excelente abrigo para os barquinhos dos pescadores. Nossa intenção era adentrarmos no povoado da ENSEADA DA BALEIA para podermos preparar um almoço, já que fazia mais de uma hora que o dia havia passado da sua metade. Chegamos até a casa e fomos informados que ali não era a Enseada da Baleia e antes de voltarmos para areia da praia, não resistimos e apanhamos uma mão de minúsculos peixes que secava ao sol, esparramado em uma lona jogada ao chão. Mais vinte minutos de caminhada nos levou ao tal povoado que procurávamos. Meia dúzia de casas esparramadas entre o Canal interno e a grande praia. Aliás, esse é um povoado fadado a desaparecer do mapa com o tempo porque o canal já está quase se juntando ao mar e segundo me relataram os pescadores, é possível que toda a ponta final da Ilha do Cardoso um dia acabe virando terras paranaenses, mudando toda a geografia do lugar. Na Enseada da Baleia, conseguimos uns 3 litros de água para preparar nosso almoço e enquanto o rango cozinhava, aproveitamos o tempo para um grande mergulho no canal interior, já que o calor não arrefecia de jeito nenhum e o lugar é realmente muito bonito, com dunas altas espalhadas à beira da água. O povoado é um silêncio só, na verdade não passa de um fim de mundo isolado da civilização, pontilhado por algumas grandes árvores, meia dúzia de casas e um barracão que serve de apoio aos pescadores e abriga uma pequena escola que nem sei se funciona mais. Despedimos-nos da gentil família que nos deu guarida e tomamos novamente o rumo da grande praia, confiando na informação dos nativos de que não estaria longe o nosso próximo paradeiro. Pés na areia novamente, agora nosso objetivo era chegarmos ao fim do mundo paulista, a última terra ao sul do Estado de São Paulo. Gaivotas e urubus marcam o caminho, se alimentando dos peixes porco que acabam encalhando com a maré alta. No horizonte um grande trambolho se descortina e esse será nosso próximo alvo. Desviando nosso olhar mais para oeste é possível ver uma grande cadeia de montanhas coberta de florestas a perder de vista. Como a tarde já se anunciava, tratamos logo de apertar o passo e como o calor não diminuía, ao chegarmos no tal trambolho, que na realidade não passava de uma boia marítima totalmente corroída pelo tempo, resolvemos dar uma descansada em sua sombra, onde acabamos caindo no sono e só fomos acordados meia hora depois porque um siri safado resolveu morder o pé da Julia, que já acordou pensando que eu estava sacaneando ela. Mas o sirizinho nos fez um favor porque cansados do jeito que estávamos, era capaz de dormirmos a tarde toda. Levantamos-nos então para o estirão final, só tínhamos olhos para o final da ilha, onde deveríamos encontrar o próximo povoado onde pretendíamos passar a noite. Pouco depois das quatro da tarde passamos por um rancho que servia de proteção para um barco, mas ao adentramos a trilha, não vimos ninguém no casebre. Seguimos enfrente nos atentando para uma grande antena de rádio, mas ao vermos que a antena estava distante da praia, acabamos passando reto no que deveria ser a entrada do povoado. Agora hipnotizados pela foz do canal que divide os dois Estados e loucos para ver o que havia no fim da ilha, apertamos o passo de vez e quando o final chegou, largamos nossas mochilas ao chão e corremos para pisarmos no último palmo de terras ao sul do Estado, estávamos no PONTAL DO LESTE. No final das terras Paulistas, que não passa de areia coberta pela vegetação rasteira da restinga, uma grande árvore isolada marca o extremo fim. As águas do canal são calmas, mas com certa correnteza, onde alguns bancos de areia se espalham pelo seu meio. Ao chegarmos nessa ponta de areia não poderíamos ter feito outra coisa senão apoiarmos nossa câmera em um tronco caído ao chão e corrermos para o último palmo de terra para uma foto geográfica do lugar. Registramos nossa passagem e sem demora já partimos, mas não para frente e sim dando a volta, atravessando todo o estado de São Paulo no seu percurso mais curto, que aqui não passa de uma dezena de metros. Caminhamos agora nas praias internas do canal e realmente é um lugar de encantos. Mais à frente uma tradicional canoa caiçara encosta na areia, tornando aquele cenário encantador. Perguntamos para o caiçara se era possível atravessarmos para o outro lado, para o vilarejo de Barra do Ararapira, já em terras Paranaenses, mas ainda à beira do canal. O caiçara nos responde que se nossa intenção é continuar caminhando pelas praias a partir de Ararapira, melhor que tiremos nosso cavalo da chuva porque a antiga trilha não existe mais a muito tempo, foi totalmente interditada pelos galhos de árvores jogados pela maré. Diante da notícia desanimadora, decidimos dormir mesmo no povoado de Pontal do Leste e no outro dia conseguir uma canoa que nos atravessasse direto para a Grande Praia Deserta de Superagui. Despedimos-nos do pescador e continuamos caminhando pelas praias internas e como o calor ainda estava de matar, aproveitávamos para vários mergulhos nas águas mornas. Fomos mirando as casinhas e os barcos que se esparramavam à beira do canal e como eu não sabia se teríamos onde ficar no povoado, já fui vendo algum lugar que pudéssemos montar nossa barraquinha e realmente, se quiséssemos, poderíamos acampar por ali mesmo, mas achei melhor tentar um camping no vilarejo. Minutos depois já estamos estacionados no porto da vila, onde uma meia dúzia de barquinhos está amarrados, porque nem trapiche existe. Um homem sentado à beira da praia nos indica o caminho para o centro do povoado. Entramos então a direita, passamos por uma pontinha, pela igrejinha e chegamos em um camping. Na verdade, uma área sombreada e sem nenhuma barraca se quer. A família simples do lugar nos acolheu de braços abertos, mas já nos avisou que a vila anda meio sem água e banho somente de canequinha. Montamos nossa barraquinha e voltamos para o canal para aproveitarmos o final de tarde e não foi um final de tarde qualquer. Eu e a Julia sentamos na areia da prainha e nos preparamos para o deslumbramento. O sol começou a se por, refletindo nas águas do canal, avermelhando tudo ao seu redor. Os barquinhos coloridos, espalhados pela água, quase não se mexiam e nós quase nem respirávamos, com medo de perder aquela cena que teima em não sair da nossa retina e quando a gente resolveu se levantar para ir embora, fomos obrigados a bater continência para uma lua cheia avermelhada que espalhou brilho por todos os cantos e a gente voltou para o povoado para tomar banho de canequinha, feliz da vida por sermos testemunhas daquele momento único. Naquele povoado perdido num fim de mundo qualquer do litoral Paulista, como não poderia deixar de ser, logo fizemos amizade com os nativos e não demorou muito tempo, estávamos comendo na mesa com eles, porque nenhuma travessia dessa valeria a pena se a gente não pudesse se juntar ao povo local e interagir com os nativos. O patriarca da família prometeu nos levar de barco na manhã seguinte para o outro lado do canal, na praia do Superagui e como pretendíamos começar bem cedo, jantamos e fomos para barraca dormir. Mesmo à noite, fez um calor infernal, por isso mesmo, deixamos nossa casa de mato sem a cobertura externa. Mas por incrível que pareça o tempo mudou. Antes das 5:00 da manhã o vento uivou. Acordei de sobressalto, e com dó da minha filha por ser tão sedo, mas achando que não era tão sedo assim e que não compensaria ter um grande trabalho para colocar a cobertura, arrastei ela para uma área coberta e desmontei logo a barraquinha. E a chuva veio e eu já pensei logo que a travessia poderia ter terminado ali mesmo, fiquei com medo de a minha filha pedir para abortarmos a caminhada, ainda mais porque ela acordou com a garganta inflamada. Antes das sete da manhã fizemos companhia para a família de pescadores no de jejum matinal e logo em seguida botamos as mochilas às costas e partimos para a praia e sem muitas delongas subimos na canoa a motor e partimos para a travessia do canal que separa São Paulo do Paraná. E aqui eu proveito para um adendo: Muito se falou de que a tal trilha que parte do povoado de Barra do Ararapira não mais existia, que o mar havia jogado grandes troncos no caminho, inviabilizando de vez esse trajeto, mas isso não passa de uma grande bobagem. Na maré baixa é possível que se passe pela praia até de bicicleta, com certo esforço, mas é possível. Mas a pé pode-se passar de qualquer jeito porque são apenas umas galhadas que podem ser cruzadas até sem muito esforço. Mas fica a pergunta: Porque então os caiçaras sempre dizem que é impossível? Hora bolas, caiçara não estão acostumados com trekking e qualquer obstáculo, por mínimo que seja, já é motivo para eles classificarem como impassável. Tudo isso a gente pode constatar passando bem rente à praia que liga Ararapira à Grande Praia Deserta do Superagui, que foi onde desembarcamos, nos despedimos do caiçara e ganhamos a imensidão de areia, mar e solidão. A chuva havia parado, mas as nuvens negras não deixavam dúvidas: o céu iria desabar nas nossas cabeças. Improvisamos uma capa de chuva e seguimos a passos firmes para aproveitar a manhã fresca. Menos de quarenta minutos avistamos o que nos parecia ser uma casa enfiada no meio da restinga, de onde uma meia dúzia de cachorros barulhentos saiu para nos acuar na praia, mas passamos batidos sem dar muita liga. Mais uma hora de caminhada chegamos a foz de um rio com águas cor de coca cola e foi aí que a chuva que prometia cair, caiu. Como não era uma chuva provida de raios resolvemos nos esconder embaixo de um pequeno arbusto solitário no meio da restinga, mas logo nos vimos molhados, então abandonamos a ideia e nos lançamos a dançar na chuva já que o calor não havia nos abandonado. Caminhamos às margens do rio que foi aumentando de largura, onde pequenas dunas, que se formaram na praia, tiveram que ser cruzadas. Vamos mirando no horizonte e tentando identificar à frente o que parece ser várias pessoas vindas em nossa direção. Pensamos ser um grupo de pescadores, mas não demora muito, descobrimos ser um grupo de ciclistas fazendo o caminho inverso ao nosso e durante toda nossa travessia só encontramos mais um grupo de ciclistas e ninguém, absolutamente ninguém se aventurando a pé e isso me faz crer que esse é mesmo um roteiro especial, uma travessia esquecida, um roteiro que ainda não foi descoberto pela maioria caminhante do país. Cumprimentamos o grupo de ciclista, que se espantaram com nossa presença solitária e desmontada. Nuvens negras no horizonte voltavam a ameaçar a nossa paz e comecei a ficar preocupado com aquela situação. Estava claro que desta vez a gente corria perigo de sermos atingidos por um raio, vagando naquele mundo onde nós éramos o ponto mais alto. Por isso apertamos o passo, desta vez sem nem conversarmos, precisávamos chegar a algum abrigo rapidamente. Já se aproximava das onze horas da manhã e nossa caminhada se resumia em dar um passo após o outro e quando a coisa parecia que iria ficar monótona, avistei ao longe algo que se debatia na areia, onde as ondas findavam. Passei sebo nas canelas e desembestei a correr feito um doido, enquanto a Julia arregalava os olhos sem saber do que se tratava. Me atirei encima do nosso almoço e venci a briga contra as ondas do mar, agarrei o peixe porco quase pelo rabo e fiquei comemorando até que a minha filha chegou e tirou o doce da minha boca: - Coitado pai, vamos devolver o bichinho para o mar agora mesmo! Desgraça, eu que já lambia os beiços pensando em comer um peixe fresco, teria que me contentar com uma sardinha em lata. Para nossa sorte o temporal que se avizinhava, não veio e as nuvens passaram ao largo, mas ainda havia a possibilidade de outra leva de nuvens carregada nos atingir. Logo à frente conseguimos identificar o que parecia ser a entrada de uma casa. Como já expliquei antes, não há casas nas praias, elas ficam até centenas de metros no meio da restinga e só é possível saber que há uma habitação porque os caiçaras colocam uns paus enfincados na areia. Além dessa madeira visível à frente, nos chamou a atenção algo parecido com um grande peixe perto dos paus e quando chegamos lá nos deparamos com a carcaça de um boto e minha filha ficou impressionada com a beleza, mesmo fúnebre, do animal inusitado. Passamos pelo animal e nos dirigimos em direção a trilha que em alguns minutos nos levou a casa da D. Rose e seu Amarildo. Uma casa de madeira erguida sobre troncos a um metro do chão e em meio a um bosque. Fomos recebidos por seu Amarildo, uns 35 anos mais ou menos. Ao seu lado três crianças pequenas e logo aparece D. Rose, jovem também. São gente simples que vivem isolados do mundo a 15 km do vilarejo mais próximo, sem barco e com uma bicicleta que lhes serve de transporte para leva-los para onde precisam. Tomamos um gole de água fresca do poço e para nossa própria infelicidade, recusamos o convite para ficar para o almoço. “Meu, como a gente é burro”! (rsrsrsrsrsr) Depois de uma boa prosa com a doce família de caiçara, nos despedimos deles rapidamente porque o dia já começava a chegar a sua metade. Tomamos de novo o caminho da praia e novamente nos pusemos a caminhar nas areias duras. Com quinze minutos de caminhada passamos por uma lagoa à beira da restinga, onde uma grande boia náutica marca esse ponto e a partir daí aquilo que a gente temia aconteceu: As grandes nuvens negras nos alcançaram e com quem faz troça com meninos desavisados, despejou toda sua raiva sobre nossas cabeças. Do nosso lado outro grande rio começou a correr, mas com certeza não corria mais que a gente, que vendo a entrada que nos levaria para outra casa, não perdemos tempo e entramos na trilha, onde cruzamos o próprio rio passando por cima de uma pinguela de madeira que boiava sobre umas boias improvisadas, onde um desavisado não tardaria em despencar e ir conhecer suas lindas águas vermelha a fundo. Pegamos o caminho longo em direção a habitação e, quase à nado, fomos tropeçar na casa da D. Rosa, onde eventualmente é possível acampar. Rapidamente fomos convidados a entrar e a sair do molhaceiro. A priori, a nossa intenção era acampar na casa da D. Rosa, mas o tempo fresco daquele dia nos fez caminhar muito rápido e acabamos por chegar muito cedo àquele ponto. Então apenas aproveitamos a gentileza dos proprietários caiçaras, que nos cederam o fogão para fazermos um chá quente, comemos umas torradas com requeijão e partimos para o estirão final até o povoado, já que a chuva havia cessado por completo. Cruzamos novamente a pontinha e apertamos o passo, tendo como objetivo um trambolho amarelo no nosso campo de visão e uma hora depois estávamos fazendo pose para uma foto encima de mais uma boia marítima. Mais quinze minutos de andanças e nos deparamos em mais um rio e menos de uma hora depois, chegamos à entrada da trilha que nos levaria ao povoado. Na verdade, poderíamos ter continuado pela praia mesmo, mas como recebemos informação de que essa trilha nos economizaria quase meia hora de caminhada, foi por ela que optamos. A trilha é marcada por dois galões coloridos de 20 litros pendurados num pau. Na verdade, são duas trilhas. Nós pegamos a da direita, mas as duas irão sair no mesmo lugar, nos levando em direção a vila. A trilha passa pela restinga e entra na vegetação mais alta, cruza por cima de vários riachos, passa ao lado de um grande rio e quarenta minutos depois nos leva ao centro da VILA DE SUPERAGUI, que comparada a Pontal do Leste é quase uma metrópole, mas que na verdade não passa mesmo de mais um povoado de ruelas de areia, perdido em mais um fim de mundo sem carro e sem modernidades excessivas. Superagui é o nome da vila, da ilha e do Parque Nacional, Patrimônio Natural da Humanidade, berçário de várias vidas marinhas. Já passava das cinco da tarde quando chegamos à vila, poderíamos simplesmente ter retardado um pouco a nossa caminhada e acampado em qualquer lugar, na praia ou na restinga, mas queríamos acampar no povoado para conhecê-lo, mas não contávamos com um problema: o nosso dinheiro praticamente havia acabado e os lugares que aceitavam cartões estavam com problemas com o dinheiro de plástico, então nos vimos perdidos no vilarejo. Cansados e vendo que o tempo havia virado novamente para chuva, saímos a procura de solução, mas sem saber ainda qual seria. Encontramos um pescador que nos ofereceu um quarto em sua casa e como essa prática é comum nesses lugares, aceitamos o convite, já que o valor cobrado era irrisório frente às pousadas do povoado. Foi realmente um achado porque a chuva voltou a varrer o lugar e ficamos felizes por estarmos abrigados e não acampados naquela noite sombria. O dia que amanhece é um dia ensolarado, com um céu azul e sem nenhuma nuvem. Logo cedo nos mandamos para o píer da praia no intuito de conseguirmos uma canoa para nos atravessar para a outra ilha, onde voltaríamos a caminhar. Não demora muito e aparece um pescador e nos oferece o serviço. Em pouco mais de cinco minutos já estamos saltando do barquinho a motor e ganhando mais uma nova imensidão, agora na ILHA DAS PEÇAS, numa praia bem mais limpa que as demais, já que não estamos mais em mar totalmente aberto, tendo ao longe a ilha do Mel. Quarenta minutos de caminhada nos leva ao encontro do primeiro riacho mais encorpado, mas o grande rio, o Rio do Barco, apareceria em mais vinte minutos de caminhada. É um lindo rio de águas vermelhas e como o calor já estava de lascar, não pensamos duas vezes e nos jogamos dentro dele, antes mesmo que ele desaguasse no mar, já que corria paralelo a praia. À nossa frente, algo branco chama a nossa atenção. Pensei logo que estávamos próximo do tal farol em ruínas e cegamente compramos essa ideia por muito tempo e realmente em praias de longa distância ter algo em que se agarrar alegra muito a alma. Mas a cada passo que dávamos, essa certeza ia caindo por terra. Vimos logo que a tal coisa branca era na verdade uma fortaleza que ficava do outro lado, na Ilha do Mel e que a nossa praia fazia uma curva grande para a direita, mudando completamente de direção, estávamos contornando a ponta da Ilha das Peças. Não tenho dúvidas, esse é um lugar deslumbrante. Ao nosso lado, bem pertinho, a Ilha do Mel nos atrai a atenção, onde dá até para ver o seu farol. Mas falando em farol, o farol da Ilha das Peças finalmente apareceu e antes de nos apresentarmos a ele, nos entretemos com um cadáver de uma tartaruga jogado na areia e logo depois, mais outra tartaruga, mas desta vez dentro da água e quando o farol se aproximou, corremos para vê-lo, feito D. Quixote, querendo derrotar os moinhos de vento. O gigante deitou, não sei em que época, mas hoje jaz esticado em escombros na areia da praia, atravessado quase de uma ponta à outra e mesmo não sendo nós os responsáveis pela sua desgraça, não nos furtamos em trepar em sua estrutura e tripudiar encima de seu esqueleto de concreto. A caminhada segue e a paisagem muda de vez, a restinga dá lugar a uma floresta exuberante, os nossos olhos se enchem de alegria e meia hora depois quando tropeçamos no Rio do Índio, jogamos nossas mochilas ao chão e fomos nos jogar novamente ao mar e por ali ficamos um bom tempo, nos regozijando nas águas quentes e mansas daquele lugar incrível, desabitado. Aquela grande praia de quilômetros de tamanho desapareceu e agora reinavam as pequenas enseadas, com minúsculas praias cobertas de matas. No nosso horizonte já era possível avistar ao longe a grande antena de rádio que marca o próximo povoado. Ela vai à frente. Cabelos coloridos ao vento. Desfila feito um cisne e os passos são firmes e decididos, mesmo com os pés carcomidos pela areia da praia. Quando partimos a quase três dias atrás, eu tinha minhas dúvidas se ela chegaria ao fim dos quase 60 km de caminhada, mas não só chegou, como pulverizou minhas desconfianças. Às vezes ameaça correr como quem vai agarrar as garças e outros pássaros que bicam uns olhos de uns peixes à beira mar. Atrás vou eu, já homem de meia idade, 46 anos, dor nas costas por carregar uma mochila abarrotada de tranqueiras de acampamento. Contento-me em olhar minha filha de 15 anos esbanjar energia e vitalidade, ela sou eu, eu sou ela, somos um só e me alegro porque nela meus passos continuarão a palmilhar por lugares tão encantadores como estes, porque, até que se prove o contrário, os país renascem nos filhos e se isso for mesmo verdade, através dela minha jornada está longe de terminar. Mas deixando os devaneios de lado, porque tô velho, mas não tô morto e por enquanto sou eu quem manda nessa bagaça, logo tomo novamente a dianteira e aperto o passo e como a maré está bem alta, vamos caminhando praticamente dentro do mar, com a água pela canela e a uma e meia da tarde encontramos com o primeiro pescador, denunciando que o vilarejo não tardaria em aparecer. Quinze minutos depois já atingimos as primeiras casas e antes mesmo de chegarmos ao trapiche da vila, que está escondido numa curva, mais uma vez nos livramos das nossas mochilas e fomos comemorar nossa chegada com um peixinho frito e uma coca cola gelada num restaurante à beira mar e foi ali que conseguimos descolar a grana que precisávamos, em uma operação financeira com o cartão de débito, mediante pagamento de uma pequena comissão ao dono da birosca. Com a barriga cheia e a alma lotada voltamos para nossa jornada que estava a menos de quinze minutos do fim. Vamos, agora a passos lentos, caminhando pela praia, olhando a turistada que se espantam com o tamanho das nossas mochilas e parecem querer saber de onde saímos e de onde viemos, mas acostumados com esses olhares de quem viu extraterrestres no toco, nem ligo mais para isso e faço a curva da praia e já dou de cara com o trapiche onde aportam os barcos que chegam do continente ou de outras ilhas vizinhas. Em frente ao trapiche, finalmente somos apresentados a VILA DAS PEÇAS, outro povoado isolado, sem carros, com ruas de areias e sua tradicional igrejinha no centro da vila. É um mundo diferente do nosso, onde o tempo parece passar devagar, muito devagar. De repente há um alvoroço no píer, sem saber o que está acontecendo corremos para cima do trapiche, bem a tempo de presenciar um grande boto saltar para fora da água na tentativa de capturar um peixe desavisado e logo em seguida outros golfinhos da mesma espécie vem se juntar a ele, então a gente toma nossos assentos no chão do píer e somos espectadores do espetáculo promovido pelos mamíferos aquáticos, o show estava completo. A caminhada havia terminado, mas nossa jornada ainda não. Faltava a travessia marítima da Ilha das Peças até a cidade de Paranaguá-PR e como o único barco que saí a tarde só partiria às 16h30min, enquanto a Julia resolveu ir tirar um cochilo à sombra de uma árvore entre o campo de futebol e o restaurante popular, resolvi ir conhecer o povoado e quando voltei e a encontrei dormindo, fui dar um mergulho no mar e lavar a alma com sal para me despedir do paraíso. Antes das cinco então, partimos. Pouco mais de uma hora e meia depois, debaixo de um sol vermelho, sem aviso prévio fomos apresentados a Paranaguá e foi aí que meu queixo despencou da minha cara e foi parar no fundo do mar. Que cidade linda! Nunca pensei encontrar uma cidade tão agradável no litoral do Paraná, com seus casarios coloniais preservados, uma beleza que nos surpreendeu. Para falar a verdade, conheço quase todo o litoral do Brasil, mas jamais tinha pisado no litoral paranaense, exceto uma breve espiada numa noite fria, no fim de uma travessia de montanha que culminou com seu final em Antonina, mas isso nem conta. O certo é que Paranaguá foi uma grata surpresa, mais uma linda cidade que irá figurar nas minhas melhores lembranças. Mas não tínhamos muito tempo a perder se quiséssemos voltar para casa no mesmo dia, então partimos para rodoviária e imediatamente embarcamos para Curitiba e de lá abandonamos o Paraná e retornamos para capital de São Paulo, aonde chegamos às seis da manhã, bem a tempo de voltarmos para o interior paulista, Campinas e depois Sumaré, onde amarramos nosso burro por mais de 35 anos. Até hoje eu me pergunto por que diabos levei mais de 20 anos para me jogar nessa incrível travessia, onde estava eu com a cabeça que deixei passar essa preciosidade bem no quintal da minha casa e porque até hoje essa jornada passa tão despercebida pela maioria dos amantes das aventuras sobre duas pernas? No meu caso a resposta parece ser simples: Ainda não havia chegado a hora. Não que eu acredite em destino, mas essa jornada não poderia ter acontecido na companhia de outra pessoa se não a da minha filha, parece que o tempo nos juntou no lugar certo e no momento certo, um pai, uma filha, um paraíso à beira mar, uma vastidão sem fim. Em um certo momento a Julia, ao me ver reclamar de uma dor nas costas, me disse que achava que estava chegando a hora de eu pendurar as botas, que talvez eu não fosse muito longe nessas aventuras. Talvez ela esteja certa, talvez seja mesmo a hora de passar o meu bastão, mas para garantir e para tentar mais uma vez passar a perna no tempo, desafiei ela a refazer essa travessia daqui a 10 anos e eu, desde já os convido a ler mais um relato desta Travessia pelos Mares do Sul em 2026, porque mesmo que eu não esteja presente (mas vou estar, pode apostar), já tenho quem carregue minha mochila e meus sonhos. Divanei Goes de Paula - abril/2016
  4. Abaixo o link para o vídeo da Expedição, também podem entrar em contato comigo pelo facebbok : DIVANEI GOES DE PAULA https://aventurebox.com/divanei/expedicao-nascentes-do-itariru-sp/videos
  5. Abaixo o link para as fotos: https://aventurebox.com/divanei/expedicao-nascentes-do-itariru-sp/photos
  6. EXPEDIÇÃO NASCENTES DO ITARIRU -2016 ITARIRU - Esse foi o nome que ficou guardado num canto perdido do meu cérebro por mais de 2 anos. Uns 15 km de rio que cortava um vale selvagem e desconhecido entre o planalto de Juquitiba a e a planície litorânea de Itanhaên. Um vale onde não havia notícia alguma de que uma espécie humana teria botado os pés, pelo menos não notícias públicas e se alguém por ventura havia se jogado naquele vale, nunca compartilhou informações com o mundo, ficamos sabendo que um único homem e em uma expedição solo, contando com apoios de outros, havia acessado o meio do vale por um afluente, partindo do oeste, vindo de uma trilha já conhecida que descia do planalto para o litoral. Foi uma expedição ha mais de 15 anos atrás e isso era tudo que tínhamos de informações e então teríamos que partir do zero, tendo como primeiro objetivo DESCOBRIR A NASCENTE DO RIO ITARIRU. Minuciosos estudos nos levaram ao bairro das Marrecas como ponto mais próximo ao rio. Num primeiro momento achei que se tomássemos o caminho vindo por Santa Rita, um povoado de Embu Guaçu, poderíamos acessar o rio partindo de umas estradinhas rurais ao norte do mesmo, mas logo fiquei sabendo que não havia transporte partindo daquela localidade e as condições das estradas eram praticamente intransitáveis. As coisas então não se definia, foi aí que entrou em ação nosso enviado especial na região Décio Marques, caberia a ele tentar dar uma investigada no local, já que ele conheceria bem aquele fim de mundo e foi justamente o que ele fez, pegou seu carro, sua esposa Antônia e se juntou ao Eduardo Loures e o Prince e foi para o local tentar encontrar algum caminho que pudesse nos levar ao grande Rio Itariru. Partindo da BR 116, entrou no portal que leva ao antigo Parque do Gugu e foi se perder naquelas estradinhas de terra até o lago de um sítio à beira da estrada no bairro das Marrecas em Juquitiba. Em seguida virou a direita e seguiu a pé até que a estrada fizesse uma curva de noventa graus para à esquerda. Nessa curva entraram em um sítio, pediram permissão para o caseiro para continuar por uma estradinha de terra, até que ela terminou ao lado de uma casa abandonada no alto de uma pequena colina à direita. Ao lado esquerdo dessa colina, se enfiando floresta à dentro, um pequeno córrego de não mais que meio metro de largura que corria para o leste, juntamente a direção do grande Poço do Itariru e foi esse o caminho que eles pegaram.Se enfiaram no meio dessa selva e percorreram esse pequeno córrego caminhando por dentro da água durante umas três horas, até que o rio foi crescendo, começou a despencar em pequenas cachoeiras, onde em uma delas o Décio resolveu batiza-la de CACHOEIRA DA ANTONINHA , em homenagem a sua amada. Seguiram mais um pouco, mas diante do tempo escasso, resolveram voltar e dar por encerrada a investigação. Quando eles voltaram e fizeram um relatório dessa primeira incursão, fiquei com um pé atrás porque eu esperava que eles tivessem feito essa exploração vinda do norte do tal poço, que era o ponto do rio visível pelo satélite, mas depois tive que aplaudir esses cara de pé pelo ótimo trabalho que fizeram. Não que eu estivesse errado no meu planejamento virtual, mas diante do vasto território e da dificuldade de acesso, tenho que admitir a grande competência dessa primeira investida. Não havia mais o que fazer, havia chegado a hora de parar de sonhar e se jogar na aventura, era hora de juntar o grupo e juntos ir para o local e tentar tirar esse grande vale selvagem do anonimato, pondo-o no roteiro das grandes travessias do Estado de São Paulo. Escolhendo os exploradores a dedo e deixando claro de que essa era mais uma expedição selvagem, sem nenhuma garantia de sucesso, onde cada qual seria responsável pela sua segurança, num vale sem comunicação e sem chance de salvamento se algo viesse a dar errado. Aceitaram o desafio e “assinaram” o contrato demêncial : Eu, Daniel Trovo, Eduardo Loures,Vivi Mar, Fábio Borges, VGN Vagner,Vinícius MZK,Bruno Conde. Décio Marques e Marcos Prince e marcamos para o dia 24 de março de nos encontrarmos todos na casa do Décio em Itapecerica da Serra, onde dormiríamos para partir na madruga seguinte em uma VAM que nos levaria direto para o local. Foi uma festa o encontro dessa galera trilheira vinda de todos os cantos para se juntar na casa do Décio, onde fomos recebidos com um jantar de gala servido por sua mãe D. NEGA .Não poderei nem relatar a zueira que foi dez maloqueiros reunidos em um só lugar porque esse relato é de família, ou quase, rsrsrsrsr. Às cinco da manhã subimos na VAM e pouco mais de uma hora depois desembarcamos no tal lago com patos à beira da estrada do bairro das Marrecas e sem perder tempo, em uns quarenta minutos a estradinha de terra nos levou à porteira do sítio, onde adentramos e seguimos até a casa do caseiro, que ficou espantado quando afirmamos que desceríamos até o mar por ali :”- Ói, o cêis num chega no mar por aqui não, a trilha que o cêis procura é outra “ A gente deu risada, mas nem nos demos ao trabalho de tentar explicar como pretendíamos chegar ao mar por dentro do vale, primeiro porque nem ele nem ninguém daquela região sabia onde ficava esse raio de Rio Itariru. Seguimos enfrente e entramos à esquerda no córrego encontrado pela primeira incursão. No início é possível seguir por uma trilha paralela ao córrego, mas uma meia hora depois, nos jogamos de vez dentro das águas cristalinas do riozinho e fomos acompanhando-o selva adentro. O riacho vai aos poucos se transformando, crescendo, ganhando corpo ao ser abastecidos por pequenos afluentes. É uma caminhada gostosa, mas não sabemos se realmente esse córrego nos levará ao grande rio e para não perdermos o rumo, vamos ficando sempre de olho nos GPS ou nas bússolas porque não podemos nos desviar do leste e o nosso medo é que o riacho comece a se desviar para o sul e correr paralelo ao grande rio e ir reencontrá-lo somente uma dezena de quilômetros à baixo, coisa que não nos interessava, já que nosso objetivo é cruzar todo o rio e descer por todo o vale até a praia. Passamos pela Cachoeira da Antoninha e deste ponto em diante o rio começa se alargar e ganhar afluentes maiores e às vezes é preciso passar pela água na altura do peito. Felizmente, apesar de serpentear feito uma grande cobra, ele vai nos dando a direção que queremos e quando faltava menos de 1 km para chegar ao tal POÇÃO DO ITARIRU, encontramos um vestígio de acampamento de palmiteiros/caçadores e logo em seguida uma trilha bem fechada, mas estava claro que era um caminho usado anos atrás. Essa trilha nos fez ganhar terreno rapidamente e quando menos esperávamos desembocamos no tal POÇO DO ITARIRU, surpreendentemente não havíamos encontrado o grande rio vindo por um dos seus afluentes, havíamos encontrado a própria nascente do rio e agora se descortinava a nossa frente o grande vale que até então só conhecíamos olhando pelo satélite. Essa tosca trilha que havíamos encontrado seguiu por mais alguns minutos até que acabou do nada e aí não teve jeito mesmo, pulamos novamente no rio, jogamos nossas mochilas na água e fomos seguindo, hora pulando de pedra em pedra, hora atravessando grandes poços nadando ou simplesmente boiando sobre nossas mochilas. Quem estava com mochilas estanque se dava bem, mas quem não estava, o que era o meu caso, ao jogar novamente a cargueira às costas para um eventual vara-mato ou escalar alguma pequena parede, tinha que se contentar em carregar um saco de batatas no lombo. Pulando de pedra em pedra e tentando sempre manter o equilíbrio para não ir dar com a fuça no chão, logo chegamos ao grande lago de onde uma pequena cachoeira despencava. Foi hora de fazer uma pausa para um lanche porque o dia já havia passado do meio já fazia bem uma hora. Enquanto alguns comiam, outros se jogavam de cima da queda em saltos cinematográficos. Eu não fiz nem uma coisa e nem outro, estava mesmo muito excitado e não via a hora de voltar para descida. O tempo ainda se mantinha instável, mas a temperatura estava alta e cheguei a achar que a tal chuva prevista pela meteorologia, poderia passar ao largo de onde estávamos. Poucos minutos depois e um pouco mais abaixo do grande lago dos saltos, o rio despencou em mais uma queda, dessa vez um pouco maior, mas um pouco mais fina, formando uma espécie de tobogã à direita do rio. Passamos por mais essa cachoeira pela direita e fomos descendo até sermos travados por uma garganta de uns 20 metros de comprimento, com paredões dos dois lados. Se não bastasse a garganta, começa a cair um pé d’água na serra e sem demora e sem pensar muito jogamos nossas mochilas de novo na água e um a um fomos passando a nado. Foi uma cena linda de ver. Quando você entra em um lugar destes sempre rola uma tensão porque ninguém consegue prever o que vai acontecer se em um determinado momento a corrente do rio não poderá te arrastar para o lado errado e acabar te jogando rio a baixo, mas felizmente a água estava bem calma e a travessia acabou sendo tranquila e prazerosa, mesmo com a chuva despencando em cântaros sobre nossas cabeças. Passado o cânion, as paredes dão uma diminuída, mas mesmo assim ainda é preciso nadar ou passar se segurando em algumas fendas da parede e foi numa destas que o Décio se lascou todo quando uma destas pedras podres quebrou e ele despencou de novo no rio. Por sorte só algum hematoma nas mãos e mais nada. Mas a maioria do grupo preferiu mesmo varar mato e cortar caminho por cima do barranco, evitando todo esse esforço desnecessário. Na sequência nos deparamos com uma linda cachoeira, que despencava em três patamares e isso começou a me surpreender porque eu de maneira nenhuma esperava encontrar essas quedas no início desta travessia, na minha cabeça e na cabeça de quem já vinha estudando esse rio a muito tempo, imaginávamos que pegaríamos um rio tranquilo, com algumas corredeiras somente, inclusive quando decidimos colocar esse vale no nosso roteiro até rolou a ideia de trazermos umas boias para uma melhor flutuação nesse primeiro dia de expedição, nos enganamos mais uma vez. A descida dessa cachoeira foi feita do lado esquerdo dela. É uma descida se pendurando na parede rochosa, como uma escalada para os lados. O grande problema é que você está de botas e não de sapatilha e ainda carrega, como eu disse, um saco de batatas nas costas que insiste em querer joga-lo no vazio, que no caso não passa de uns dois míseros metros, mas o suficiente pra partir sua cabeça ou sua perna nas rochas mais abaixo. Enquanto todos passavam devagar e com os cuidados necessários, o Prince já se posicionou mais abaixo e vendo que o caminho à frente se precipitava numa enorme queda, ele tratou logo de passar para o lado direito do rio porque vislumbrou um caminho mais fácil. Mas essa passagem foi extremamente complicada porque a correnteza já estava muito forte devido ao afunilamento do rio. O menino passou sufoco mas finalmente chegou ao outro lado e diante disso, vimos logo que ali não seria o local mais seguro para a gente passar, então seguimos uns 50 metros mais abaixo até onde as águas do Itariru se jogava no vazio, fim de linha para nós, se quiséssemos passar, só poderia ser ali mesmo. Já que o Prince estava do outro lado do rio, coube a ele nos jogar a corda para que tentássemos passar. A largura do rio neste trecho não tinha mais que uns 5 metros, pelo menos onde efetivamente se concentrava o turbilhão de água. Na outra ponta da corda, que estava junto a nós, se posicionou o Eduardo Loures e sem muita demora se lançou para a travessia o Fábio e logo em seguida o Vinícius e foi aí que eu comecei a notar que algo não estava certo. O Vinícius começou a balançar na corda, parecia que não iria se sustentar sobre as próprias pernas e vendo o ocorrido, minhas pernas também começaram a bambear. Não tive dúvidas, arregalei os olhos e disse logo sem pestanejar : - Eu não vou passar nessa porra aí não, se esses caras que são forte pra caramba já estão quase sendo carregados, imagina eu pesando meio quilo? Nem ferrando, vou pelo mato e pela encosta e tentarei passar mais abaixo da cachoeira. Disse isso e fiquei esperando que alguém se juntasse a mim, mas ninguém disse uma palavra, fingiram que eu nem existia, como se eles estivessem hipnotizados pela cena que acontecia no meio do rio. O Vinícius chegou ao outro lado do rio e logo em seguida o Vagner se jogou na corda, enquanto isso eu continuava repetindo, feito papagaio gago, que não iria atravessar por ali de jeito nenhum e continuava sendo ignorado, o que acabava por me deixar mais nervoso ainda. O Vagner é mais um cara forte e foi tentando se sustentar, mas a cada metro percorrido via- se claramente que algo não ia bem. O menino começou a ficar arqueado feito um velho de 80 anos, tentando se manter em pé na correnteza. Quando ví aquela cena não tive dúvidas: Aquilo ia dar merda! O Vagner estava prestes a ser arrastado pelo rio e pior, nós que estávamos na margem oposta não tínhamos o que fazer. Eu, da minha parte, fiquei paralisado diante da situação e mesmo os outros que estavam do meu lado, mal deram uma palavra. Mas como não há nada tão ruim, que não possa piorar, o Vagner acabara de ficar preso entre a torrente de água e a corda a um passo da margem do rio. Ninguém estava entendendo nada e nem a ajuda do Fábio estava conseguindo liberá-lo. Parecia inevitável a sua precipitação cachoeira abaixo. Foi uma luta ferrenha entre o Fábio e a correnteza e no meio, já perdendo as forças, o Vagner procurava não se entregar, mas a situação parecia mesmo caminhar para uma tragédia e foi em uma última tentativa desesperada que o Fábio conseguiu puxá-lo para fora do rio. Não houve tempo para comemorações. No momento em que o Vagner se salvava, olhei para o rio e vi que a rocha onde os meninos usaram como base para atravessar, não mais existia e foi aí que a ficha caiu de vez. Estávamos passando por um fenômeno temido e devastador que costuma acontecer com frequência nos grandes vales, uma cabeça d’água havia nos pegado. Quando olhei para mais acima do rio e vi que a cachoeira anterior que tinha 3 quedas e agora tinha se transformado em uma só, soltei um grito que ecoou por toda a Serra do Mar : -SAÍ DA ÁGUA, SAÍ DA ÁGUA, SAI DA ÁGUA AGORA ! Cada qual correu como pode, abandonamos o rio e subimos o barranco imediatamente, enquanto a água tomava conta do vale e arrastava tudo que tinha pela frente. Talvez eu tenha até exagerado um pouco, mas minhas experiências passadas em outros vales já me deixaram bem experto pra saber da força devastadora deste fenômeno natural. Agora o que era um grupo, havia se transformado em dois, separados por um rio bufando e furioso. Do lado direito do rio ficaram o Fábio, o Vinícius, o Prince e o Vagner. Do lado esquerdo além de mim, a Vivi, o Trovo, o Décio, o Bruno e o Loures. Mesmo com a comunicação prejudicada pelo barulho das águas, ainda deu para combinarmos de seguirmos até a próxima curva do rio, na verdade um grande cotovelo que fazia o rio se jogar mais ainda vale abaixo e tentar juntar o grupo novamente. Acontece que o grupo da esquerda acabou por ficar sem os equipamentos de segurança, sem facão, sem GPS, sem corda, que estavam com o grupo da direita. Então sem pensar muito o grupo da esquerda subiu pelo barranco que margeava o rio, vendo do lado oposto o outro grupo se perder mato à dentro. Fomos nos pendurando à margem do rio, rasgando mato no peito e nos segurando em tudo que era vegetação espinhenta para não nos precipitarmos no vazio. Metro a metro fomos vencendo o terreno, sempre parando para admirar a monstruosidade daquele fenômeno que deixava um rastro de destruição, transformando uma água cristalina em um rio de barro e lama. Menos de uma hora de caminhada nos levou a grande curva do rio, de onde do seu lado esquerdo se juntava a ele, um afluente que não devia em nada ao rio principal. Esse afluente estava encravado num grande cânion e a nossa frente se descortinou um paredão de uns 100 metros de altura, fim de linha para nós. Não havia mais o que fazer, não havia a menor possibilidade de atravessar o afluente para passarmos para o outro lado, nem se tivéssemos com corda poderíamos passar. Estávamos mesmo num beco sem saída, o jeito foi sentar em um toco caído e pensar no que fazer, pensar em alguma possibilidade. Poderíamos tentar subir o afluente e ver se conseguíamos passar mais acima, mas mesmo se conseguíssemos, essa manobra acrescentaria pelo menos mais um dia de caminhada ao nosso roteiro e estaríamos definitivamente separados do outro grupo. Alguns já levantaram a possibilidade de abortarmos, mas boa parte já rechaçou essa possibilidade de imediato, mas a gente sabia que a situação estava mesmo complicada para nós. Depois de algumas discussões que acabaram não levando a lugar nenhum, resolvemos em conjunto que o melhor mesmo seria voltarmos a subir o rio e tentar passar em algum lugar bem mais acima da cachoeira, contando que o rio poderia voltar a baixar um pouco e conseguindo atravessar para o lado direito, seguiríamos no rastro do outro grupo até nos juntarmos a ele novamente. Demos uma última espiada na grande CACHOEIRA DA CABEÇA D’ÁGUA e subimos rapidamente o barranco de volta para a cabeceira da grande queda, mas não deu nem 15 minutos de caminhada e já ouvimos os apitos que vinha do outro lado do rio. Alguém gritava desesperadamente para que voltássemos e logo respondemos de volta que estávamos mesmo voltando. Até então não sabíamos o que tinha feito com que o outro grupo do outro lado do rio resolvesse voltar e num primeiro momento até ficamos apreensivos e pensando que algo grave poderia ter acontecido, talvez um acidente. Surpreendentemente em meia hora os grupos estavam novamente no mesmo lugar de onde havia se separado e vimos logo que todos estavam bem e recebemos a notícia de que o outro grupo havia abortado a descida, haviam sido travados mais abaixo também. Já passava das 16:00 horas e como o rio ainda estava perigoso, combinamos de unir definitivamente os grupos no grande poço mais acima e cada grupo seguiu varando mato do seu lado do rio, mas não demora muito achamos um lugar onde vislumbramos a possibilidade de nos juntarmos. Jogaram a corda e um a um fomos passando, mas mesmo assim ainda traumatizados com o ocorrido anteriormente. Agora ao invés de esticarmos a corda, preferimos apenas amarrar na cintura e nos jogarmos na correnteza enquanto uns dois ou três puxava pela outra ponta, evitando que alguém pudesse ficar travado. Finalmente unidos novamente, tocamos para cima até o poção e ali fizemos uma grande pausa para nos alimentarmos e para um grande mergulho comunitário. Alguns mais ousados deram pulos e saltos memoráveis, mas outros, minha nossa, não dá nem para descrever a desgraceira que foi, cada barrigada que sinceramente eu não via faz tempo. O show de horror foi tão grande que já me arrependi de não ter torcido para o cara ter caído naquela cachoeira, feito o pica-pau, mas sem barril, teria nos poupado de tamanho vexame (rsrsrsrsrsrsr). Acabado o divertimento e vendo que o dia já se ia findando, decidimos arrumar um lugar para acampar e não andamos nem mais de meia hora e ao chegarmos junto a uma ilhota mais acima, resolvemos jogar nossas mochilas ao chão e encerrar nosso dia de caminhada, acampar e ir tentar cuidar do jantar e descansar o esqueleto. A área do acampamento não era lá grande coisa, mais cada qual escolheu seu pé de pau e foi montar sua rede, só a Vivi e o Fábio que tiveram que dar uma limpada de meio metro de chão para montarem sua barraquinha. O acampamento virou uma competição para ver quem fazia o rango mais sofisticado. Eu até desauguei um bacalhau, mas estava tão cansado e meio chateado com os acontecimentos que acabei por nem preparar um jantar descente. Roubei um pouco de macarrão do Vinicius e logo em seguida fui morrer na minha rede. O dia amanheceu lindo, o rio havia baixado completamente e a água voltado a ser cristalina e quando o Eduardo me chamou para continuar com a expedição, minhas pernas voltaram a tremer e fiquei balançado. Apesar do tempo estar excelente, a previsão do tempo dava muita chuva para o resto do feriado e seria um grande risco levar a travessia adiante, não pelos perigos do rio, mas sim porque diante daquela situação teríamos que acrescentar mais um dia na expedição e ainda havia a possibilidade de conseguirmos chegar em casa somente na terça feira, quando o combinado seria no domingo à noite, perderíamos dois dias de trabalho e isso estava forqa de cogitação para a maioria. Então o melhor a fazer, mesmo que com um sofrimento de derrota momentâneo, era enfiar o rabo entre as pernas e marcar uma outra data para dar prosseguimento a essa aventura. Desmontamos tudo e começamos a retornar. Pouco mais acima, localizamos o final da trilha que havíamos achado no dia anterior e desta vez, ao invés de voltarmos pelo afluente ou a própria nascente do Itariru, resolvemos tentar voltar sempre pela trilha, sem ter que caminhar por dentro do rio. O Eduardo foi à frente limpando a trilha com o facão, enquanto o Vinicius e o Fábio ficavam de olho no GPS para ver se essa trilha não iria desviar muito do nosso caminho e realmente essa nova opção se tornou excelente porque seguia quase em linha reta, sem termos que dar grandes voltas como foi seguindo pelo rio no dia anterior. Tivemos que subir alguns topos de morro no meio da floresta, nada muito grande e umas duas horas depois cruzamos com o rio novamente e aí foi um estirão de não mais de meia hora até sairmos no aberto, junto a uma clareira com um coqueiro isolado, já em terras civilizadas. Havíamos descobertos uma trilha que economizaria mais de duas horas de caminhada, justamente o caminho que eu pensei existir, vindo mais ao norte da estrada, mas que os meninos na primeira investida não conseguiram localizar. Marcamos esse ponto para da próxima vez podermos acessar o rio por um caminho muito mais rápido. Da clareira do coqueirinho, andamos por mais uns minutos e pegamos uma trilha para a direita e em mais outros minutinhos, desembocamos na estrada, junto a um sítio com alguns lagos cortado ao meio por uma ponte de madeira, onde conseguimos uma carona para voltar a BR 116, evitando que precisássemos andar modorrentos 18 km. Na BR pegamos um ônibus direto para casa do Décio, em Itapecerica da Serra, onde resolvemos fazer um churrasco para comemorar, se não o sucesso total da empreitada, ao menos a união e o companheirismo do grupo que juntos se safaram ilesos do que poderia ter se transformado numa grande tragédia, mas que no final só aguçou a vontade de colocarmos novamente a faca nos dentes e definitivamente tirar aquele vale selvagem do anonimato. Essa foi mais uma EXPEDIÇÃO AO LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA, é verdade que o referido vale não foi completamente explorado por causa das circunstâncias descritas acima, não conseguimos registrar as tais cachoeiras monstro que imaginávamos existir, mas podem ter certeza, neste exato momento que esse relato chega ao conhecimento de todos, já estamos com as mochilas prontas e fechando a porta atrás de nós para que essa Travessia e esse Vale selvagem seja revelado definitivamente e entre para a galeria das grandes Travessias da Serra do Mar Paulista. Divanei Goes de Paula – março/2016
  7. Caro amigo, Esses caminhos são passeios de um dia, para relaxar as pernas, respírar um pouco. Não é nada grandioso que valha a pena fazer uma filmagem aquatica . Para isso existem um trilhão de lugares muito melhores. A té o próprio rio Jaguarí, onde eu desci boiando das antenas da Embratel até Pedreira, é bem melhor para isso. Você pode até ler o relato aqui no mochileiros ou me procurar no facebook para eu passar para você. Essa trilha das Siriemas foi traçada por mim para termos uma caminhada domingueira e faz muito tempo que não ando por ela, aliás, to pensando em refazer e ampliar o caminho porque descobri outras áreas para isso, com a intenção de colocar um acampamento no meio, às margens do proprio Rio Jaguarí. Mas se quizer me achar : Divanei Goes de Paula, no facebook, abraços.
  8. Todas as fotos estão nesse link abaixo: https://www.facebook.com/divanei.goesdepaula/media_set?set=a.945752775474697&type=3&pnref=story
  9. https://www.facebook.com/divanei.goesdepaula/media_set?set=a.945752775474697&type=3&pnref=story
  10. TRAVESSIA EXPEDICIONÁRIA: VALE DO JUQUERIQUERÊ-2015 Anos atrás, quando esse roteiro caiu em minhas mãos, vindo de um amigo da capital, dei uma desdenhada. Claro que eu já havia ouvido falar no Rio juqueriquerê, que era aquele rio que dividia Caraguatatuba com São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, mas nunca tinha me atentado para a possibilidade de uma possível descida e nem muito menos saberia de onde partiria o tal rio que, vindo do planalto paulista, se jogava nas bordas da serra do Mar até atingir o litoral. Na minha cabeça havia muitos outros roteiros muito mais interessantes que mereceria o nosso empenho e dedicação, antes de voltarmos nossos olhos para aquelas bandas da Serra do Mar Paulista, mas a gente aprende que menosprezar algo que desconhecemos pode nos custar caro e essa travessia acabaria por nos mostrar uma lição que haveríamos de guardar para o resto da vida. O ano de 2015 havia sido um ano duro para nós, que tivemos que conviver com o desaparecimento de amigo em uma das nossas expedições e por isso mesmo parte do grupo havia se dispersado ao longo do ano e a minha intenção era achar um roteiro tranquilo que pudesse nos aproximar novamente, uma espécie de confraternização de fim de ano e logo me veio à cabeça que poderíamos usar essa travessia, que ao mesmo tempo me parecia fácil, mas não deixava de ser uma grande expedição. Então comecei os estudos geográficos, sempre contando com a ajuda do Daniel Trovo, que foi quem me citou o roteiro. Mais uma vez nos deparamos com uma lacuna na Serra do Mar, onde a única informação que dispúnhamos era a notícia de uma descida feita por um grupo a 20 anos atrás usando cordas, mas não havia nenhum relato, nenhum documento e nada que nos dissesse como havia sido feito, qual o caminho tomado, de onde tinham partido. As pesquisas na internet não deram em nada e até nos mapas e cartas topográficas da região nos deparamos com uma icoglinita gritante que não nos deixava duvidas que aquela descida seria feita numa das áreas mais remotas do litoral norte, mas mesmo assim, estudando os mapas de satélite, cheguei à conclusão que teríamos no máximo pouco mais de 1 km de dificuldades para transpormos as grandes gargantas do rio e o tempo se encarregaria de provar que eu estava completamente errado. Ainda faltava definir qual seria o melhor lugar para nos lançarmos rio abaixo e chegamos à conclusão que o melhor ponto seria logo abaixo das cachoeiras turísticas que ficam perto da Estação Elevatória da Petrobras, mas aí chegávamos a mais um ponto de dificuldades, que seria como chegar até essa Estação, que está bem no meio da própria Estrada da Petrobrás, a 40 km de Salesópólis e a 40 km de Caraguatatuba. Essa estrada é muito conhecida por jipeiros e ciclistas e dela também parte outra caminhada famosa, que é a descida do Ribeirão dos Itus, uma descida por trilha que pode ser feita em poucas horas, aliás, trilha que eu já havia percorrido a mais de 10 anos atrás, quando parti com o Lin Quintas da cidade de Salesópolis e percorremos toda a estrada da Petrobrás até a praia de Boiçucanga. Nem é preciso dizer que essa estrada é praticamente uma trilha enlameada e passar com carro comum por lá é coisa quase impossível, por isso pensei logo numa VAM que pudesse nos deixar a uns 15 km da Estação elevatória e depois partiríamos percorrendo o resto a pé. Montada a estratégia, era hora de montar o grupo. Já havíamos decidido que nunca mais realizaríamos essas expedições com um numero grande, mas desta vez teríamos que juntar pelo menos uns oito ou dez integrantes para podermos conseguir custear o preço da VAM que deveria nos levar de São Paulo até bem perto do início da travessia. Fui entrando em contato com um por um e muitos já trataram logo de cair fora quando ouviam a palavra “expedição selvagem na serra do Mar” e outros, com viagem marcada para o fim de ano, agradeceram o convite e declinaram. Estava difícil montar o grupo, então me valendo do conhecimento sobre alguns amigos do mundo virtual, tratei logo de estender esse convite para esses amigos que sempre me cobravam uma participação nessas expedições, mas também como sempre, nesse mundo virtual, muito se fala mas pouco se age e mais uma vez fui recebendo um grande não de todo mundo e no fim acabei mesmo me deparando com dez nomes já muito conhecidos, na verdade, os mesmos de sempre. Certo de ter uma lista fechada e feliz por contar com boa parte da base do grupo original, qual não foi minha surpresa quando comecei a ver esse grupo desmoronar feito um castelo de cartas. Menos de uma semana para a data marcada, três dos mais importantes integrantes deram uma desculpa qualquer e abortaram a expedição e outro ficou cozinhando o galo até o final, para depois desistir também. Bom, na verdade esses caras não estavam levando muita fé nessa travessia, talvez achando que seria só um passeio no parque e o melhor mesmo seria aproveitar e se prepararem para os festejos natalinos, do que investir uma grana e também seu precioso tempo em alguma descidinha mequetrefe e eu não os condeno, pois eu mesmo não estava certo se valeria a pena ou não investir tanto trabalho para realisar tal empreitada. Eles estavam enganados e felizmente, eu também. No final das contas, com o grupo totalmente rachado, e eu sem confiar nos que sobraram, resolvi que não poderíamos mais custear a Vam e teríamos que tomar outro rumo, talvez ir de ônibus para Salesópolis e de lá tentar uma carona ou mesmo um carro que pudesse nos deixar próximo ao começo da travessia. Foi aí que apareceu a ideia de usarmos a Kombi do sogro do meu primo Lin Quintas, que também é meu tio, para nos levar até o local, já que ele havia topado fazer um preço bem camarada para os aventureiros da família. Sem saber quantos apareceriam nessa derradeira expedição de 2015, Eu e o prof. Dema picamos a mula de Sumaré, no interior paulista, na intenção de encontrar com os outros integrantes no bairro de Itaquera, na capital de São Paulo, de onde partiríamos. É com grande alegria que antes das 18 horas de uma sexta-feira de um dia 18 de dezembro, que reencontro meu primo Lin Quintas em sua casa na zona leste paulista e lá já instalado encontramos também Marcelo Baptista, que também responde pela alcunha de Guibson. O Lin já é parceiro velho de memoráveis caminhadas e acabará por se tornar um dos personagens principais até o fim desta expedição, já o Marcelo eu só conhecia através das redes sociais e de um ou outro encontro de um mesmo grupo de caminhada que fazíamos parte, mas jamais caminhamos juntos e ele será o novato nessas nossas expedições. Os outros dois integrantes são o Luciano Lourenço e o Rodrigo Ligado, que surpreendentemente acabou voltando atrás da sua desistência e veio se juntar a nós de ultima hora. Apenas seis integrantes, esse foi o número que nos restou para essa empreitada e mesmo assim estávamos confiantes que poderia dar certo e quando tudo se acertou subimos na Kombi do tio Sidney e rumamos todos para Salesópolis e como o tio era camarada, deixou que o Lin Quintas fosse guiando a “kombosa” e esse foi o primeiro erro do “veio”. Pouco mais de duas horas depois ao chegar à cidadezinha interiorana de Salesópolis, encostamos nosso veículo à beira de um boteco para perguntar como fazíamos para acessar a Estrada da Petrobras e meu tio Sidney por ser um cara que não gosta de perder a piada já lascou um pergunta pertinente : “- Pra onde eu vou, tá longe ?” O tiozinho do boteco deu uma olhada atravessada, acho que fez menção de mandar me tio a merda, mas ouvindo alguém soprar que queríamos ir para a Estrada da Petrobras, não titubeou em responder : “- Ô ceis querem ir pra Estrada da Petrobras né, pode ir tranquilo, a estrada tá que é uma beleza.” Essa foi a vingança do matuto de Salesópolis( rsrsrsrsr). Logo à frente uma placa nos indica o caminho a seguir. Uma estrada de chão batido pontilhada por alguns sítios, onde não tarda em aparecer a entrada a direita que vai dar no Parque das Nascentes do Rio Tietê, mas nosso caminho é sempre reto, sempre seguindo pela estrada principal que serve para a manutenção do oleoduto. Aos poucos os atoleiros vão surgindo e a kombosa sobre o Comando do Lin Quintas vai resistindo bem, diferentemente do humor do tio Sidney, que a cada curva e a cada raspada do veículo em uma pedra, vai diminuindo. Bom, minha intenção era ir apenas até onde o veículo conseguisse chegar, mas como o Lin insistia em tentar ir cada vez mais à frente, não seria eu quem iria impedir, já que quanto mais a perua avançasse, menos teríamos que andar. O” veio” tentava se manter calmo, mas quando a Kombi começou a se retorcer nos buracos , meu tio começou a fumar um cigarro atrás do outro e logo a frente quando apareceu uma cratera que cabia a perua dentro e o Lin Quintas ao invés de frear, deu um grito e acelerou a kombosa pra cima do buraco fazendo com que o veículo embicasse e despencasse no vazio, ficando com duas rodas no ar, o seu Sidney teve que ser socorrido para não enfartar e então toda a nossa reputação na boca do “veio”, já estava valendo menos que as ações da Petrobras.(rsrsrsrsr) Desatolada a Kombi, o Lin ainda continuou insistindo em seguir enfrente, já que o “veio” ficou em estado de choque e nem falava mais. Mas como não há sofrimento que dure para sempre, finalmente nos deparamos com a iluminada Estação elevatória e ao passar por ela e chegar à ponte que cruza por cima do Rio Novo, que naquele lugar encontra com o Rio Pardo, estacionamos a beira da estrada e demos por encerrada a nossa aventura sobre quatro rodas. Seria ali ao lado da ponte de madeira que passaríamos o resto da madrugada até que o dia raiasse e foi ali que nos despedimos do meu tio, que obviamente e não poderia ser diferente, nos mandou pra puta que o pariu, pegou sua Kombi e seu filho, que o acompanhava, e se perdeu na escuridão da noite prometendo acabar com a raça do próximo que o chamar para participar de outra expedição dessas. ( rsrsrsrssr) Já era madrugada e não nos restou outra alternativa, pouco mais à frente, encontramos uma estradinha lateral e foi ali que estendemos um grande plástico no chão e bivacamos até que o sol viesse nos iluminar. Como eu disse estávamos bem na ponte onde o Rio Novo se encontra com o Rio Pardo e aí é preciso fazer uma pausa para explicar melhor: acontece que nossa expedição não parte já no Rio Juqueriquerê e sim se inicia no Pardo mesmo, apenas no final do primeiro dia é que deveremos interceptar o grande rio que dá nome a essa expedição. E aqui também é preciso fazer outra resalva: Quando uso a palavra EXPEDIÇÃO nessas travessias selvagens, acabo por despertar a fúria de parte da comunidade montanhista e excursionistas , mas sempre estive convicto ao usar tal expressão. Para por essas travessias em pratica é preciso se debruçar em mapas, tentar colher informações em livros, internet, fazer consultas a outros aventureiros, mas aí é que está a questão, praticamente nenhuma informação a gente acaba conseguindo. São lugares onde quase ninguém já mais pisou e a imensa maioria, já mais ouviu falar, mesmo os mais super experientes nem ao menos sabe do que se trata. Aí podemos concluir que ninguém nunca pisou? Longe disso, podemos concluir que os andarilhos do passado que por ventura passaram por esses lugares, nunca tiveram ou não quiseram fazer um registro publico destes paraísos selvagens, gente que guardou as informações para si e por isso mesmo levarão estas informações para o túmulo. Portanto posso afirmar que essas descidas sempre merecerão ser chamadas de expedição porque é um mergulho no escuro, nunca sabemos o que iremos encontrar pela frente, estaremos sempre a mercê do desconhecido, a cada curva do rio, a cada penhasco vencido, a cada grande cachoeira transposta, é uma vitória para o grupo. Reunimos todo o grupo, discutimos os últimos detalhes e poderíamos ter saltado no rio ali na ponte mesmo, mas preferimos ganhar alguns metros, pois a estrada ainda corria um pouco paralela ao rio Pardo e quando o rio virou para esquerda e a estada para direita, nos enfiamos no mato e já logo de cara e sem qualquer frescura, nos jogamos com mochila e tudo dentro do rio, dando inicio a grande aventura. Nesse ponto o rio não tinha mais que um metro e suas águas translucidas deixava transparecer o seu fundo de areia. É um rio largo que hora temos que atravessar por alguns poços a nado e hora é preciso apenas arrastar nossas mochilas pela lamina d’água com não mais que 30 cm. Sua margem é toda composta de uma floresta densa e preservada, já nos mostrando que é um rio em estado bruto. O grupo vai caminhando junto, batendo papo, contando histórias de aventuras passadas e como é um dia bem quente, sempre se jogando em algum poço para aplacar o calor. Por ainda estarmos no planalto, não temos que enfrentar muitos desníveis e quando alguma pequena corredeira surge à nossa frente não nos resta alternativa se não nos lançarmos na água e deixarmos o rio nos levar num passeio divertido e gostoso. Pouco depois das 0nze horas, ao chegarmos em um grande banco de areia em forma de ilha, demos uma parada para um lanche e foi nesse momento que eu descobri que havia esquecido de fechar a válvula do meu saco estanque, onde estava minha roupa e meu saco de dormir. Tudo que estava dentro molhou e para tentar diminuir o prejuízo, coloquei para secar um pouco enquanto cozinhávamos um arroz e abríamos uma lata de sardinha. De volta à caminhada, nosso trajeto seguiu até às duas da tarde do mesmo jeito, até que surgiram os primeiros obstáculos reais. Um pequeno cânion, onde com muito cuidado daria para passar ao lado, mas nessa hora sempre surge um maluco querendo pegar o pior caminho possível. Foi aí que o Rodrigo Ligado resolveu se jogar no meio da corredeira, sem ao menos saber o que viria pela frente. Pegou sua mochila e se atirou de cabeça no pequeno cânion e nós só ficamos esperando o que poderia acontecer, torcendo para não ser o pior. Ele caiu na corredeira e foi batendo em tudo que é pedra, sumiu embaixo de uma queda e logo reapareceu e quando ganhou a curva e voltou a sumir, a gente começou a perceber que ele não batia muito bem não. Por sorte nada aconteceu, mas se tivesse acontecido, não nos restaria outra coisa se não marcar o local onde ficaria o corpo. Passado esse trecho a caminhada voltou a ser tranquila, com poucos obstáculos pela frente e quando alguma corredeira tranquila aparecia, voltávamos a nos jogar rio abaixo, ganhando terreno e nos divertindo muito com nossa mochilocross, que é a arte de descer corredeiras boiando encima das nossas mochilas. A noite já se avizinhava quando finalmente encontramos o Rio JUQUERIQUERÊ. Ficamos felizes com esse encontro porque havíamos estabelecido como meta do primeiro dia dormirmos no encontro do Rio Pardo com o Juqueriquerê, mas ao atingirmos esse objetivo, descobrimos que não havia um só local razoável para montarmos nosso acampamento e então decidimos continuar caminhando até que encontrássemos algo, mas o tempo foi passando e não achávamos nada do nosso agrado, até que numa curva do caminho, o rio que por hora era até manso, se precipitou no vazio e entrou de vez no grande vale, fim de linha pra gente. Diante da noite que acabara de chegar, não havia outra alternativa se não procurarmos algum lugar para montarmos nossas redes e para piorar o mundo começou a desabar em forma de uma chuva fria. Regressamos alguns metros antes do rio começar a se jogar no vale e na curva que antecede a queda, localizamos um lugar horrível para tentar acampar. Vendo que o local era o pior possível, o Luciano saiu a caça de outro lugar, se enfiando mato adentro. Enquanto isso, Eu e o Dema tentamos descer um pouco o vale para ver o que nos esperava no dia seguinte, mas vendo que as pedras estavam lisas feito um quiabo, regressamos com muito cuidado e fomos auxiliar os outros na montagem do acampamento. A chuva não parava. A noite caiu de vez e a primeira providencia que tomamos foi fazer uma cobertura com um grande plástico para tentarmos sair do aguaceiro. O lugar encontrado era melhor que o anterior, mas mesmo assim não passava de meio metro plano, encravado num lameiro só e foi preciso que se cortassem algumas folhas de palmeira para que pudéssemos desfrutar de um pouco de conforto. Estávamos todos um bagaço de dar dó e quando veio a proposta de dormirmos todos ali naquele chão, sem nem montarmos nossas redes, eu protestei. Meu saco de dormir ainda estava todo molhado então fiz minha janta e fui amarrar minha rede num pé de pau qualquer, já que eu ainda estava com meu toldo e diante disso, o Ligado vendo que aquele chão não seria suficiente para todo mundo, pegou uma carona na minha cobertura e também montou sua rede embaixo da minha. O resto do grupo se amontoou no chão mesmo e dormiram abraçados até que o dia rompesse. rsrsrsrsrs. O dia amanhece sem chuva e sem perdemos muito tempo, desmontamos tudo, tomamos café e partimos. Eu e o Dema tomamos o rumo das pedras, onde o rio começa a entrar no vale, já o Lin e outros tentaram se enfiar no mato, no intuito de cortar caminho para não passar pelas pedras escorregadias, mas logo voltaram a tomar o rumo que havíamos tomado. Nos enfiamos no pequeno vale, desta vez o Dema ia à frente, seguido pelo Luciano. Entre uma pedra escorregadia e outro, o Luciano deslizou para dentro de uma pequena poça e foi por pouco que uma pequena jararaca não lhe picou a perna, foi sorte ele estar com uma perneira porque um acidente ali no meio do vale, a chance de sair vivo é quase nenhuma. Passado o susto e assim que a cobra resolveu sair do caminho, passamos e nos juntamos quase no final do pequeno cânion. Ao percebermos que mais à frente o mundo ia acabar numa garganta gigantesca, resolvermos que o melhor a fazer seria atravessar o rio para o outro lado. O Ligado se jogou na correnteza e nadou até a outra margem com a corda amarrada na cintura e a ancorou em uma rocha. O Lindolfo se jogou na água e agarrou a corda e auxiliado por nós, também chegou à outra margem, atitude que também foi seguida pelo Luciano e o Marcelo. Já eu e o Dema, sentindo que a correnteza não oferecia tanto perigo assim, nos jogamos de cima da pedra e nadamos até onde estava o resto do grupo. Jogamos as mochilas, agora encharcadas , às costas e nos pusemos a caminhar para minutos depois percebermos que estávamos no topo da Cabeça do monstro. Percebemos que havíamos chegados à beira do cânions de onde despencava as CATARATAS DO JUQUERIQUERÊ, uma impressionante sequencia de várias quedas que despencavam em direção a grande garganta. Corri à frente e me debrucei à beira do abismo e logo depois vieram os outros. Foi neste momento que todos nós percebemos o tamanho da encrenca em que estávamos prestes a enfrentar. Cada um ficou ali, admirando as águas se jogarem no vazio, cada um no seu momento solitário, todos cientes que o passeio acabara de terminar e daqui para frente entraríamos num mundo mais desconhecido ainda, uma vez tomada a decisão de descer aquele vale, não teria mais volta, estaríamos totalmente desconectados do mundo, seriam seis indivíduos a vagar por um mundo de incertezas, onde a vida de cada um dependeria da união de todos. Depois de uma rápida conversa, decidimos os últimos detalhes e ao analisarmos o terreno, vimos logo que a única maneira de nos enfiarmos no abismo seria uma descida de corda pela direita. Amarramos a corda numa árvore e um a um fomos descendo em direção ao vale, lembrando que essa descida em corda é feita sem nenhum equipo de rapel, apenas segurando e deslizando com a força dos braços. Enquanto todos desciam, ao chegar um pouco mais a baixo, fui mais uma vez até a borda do abismo para apreciar a cachoeira principal de outro ângulo e vi logo que estávamos presos entre grandes paredes e percebi que a única maneira de seguir enfrente seria nos enfiarmos mais ainda na fenda. Quando todo mundo desceu da corda e nos juntamos novamente, tratamos logo de botar em pratica nossa enfiada garganta a baixo. Passamos por debaixo de uma grande pedra e fomos escorregando como dava até que não demorou muito estávamos ao pé da primeira queda e bem de frente dela, onde paramos para umas fotos e para apreciarmos o grande volume de água que caia. O grande problema é que cada vez mais a gente ia se enfiando num caminho sem volta. Seguir pela água era totalmente impossível porque a garganta havia se estreitado e mesmo que resolvêssemos tentar jogar uma corda, seria inviável porque não havia nem onde amarra-la. É nessa hora de desespero que as opiniões acabam por se divergir. Uns queriam tentar voltar de alguma maneira e tentar dar uma volta por cima da grande montanha do lado direito do rio, coisa que já rechacei de cara, não tinha cabimento tentar escalar aquelas paredes e voltar todo o caminho, perdendo horas para fazer isso. Era hora de mantermos a calma e tentarmos achar uma solução, pois não seria a primeira vez que nos deparávamos com uma situação desta, nas nossas expedições. Havia só um do grupo que nunca havia passado por isso, e esse era justamente o Marcelo Baptista. Era visível que ele estava meio desnorteado com aquela situação, não era cara de medo, mas era uma cara de quem se perguntava o que ele estaria fazendo num lugar daquele, preso num vale onde a solução não parecia vir de lugar nenhum. E o espanto do Marcelão cresceria quando eu e o Dema resolvemos parar de murmurar e partimos para a ação. A situação era a seguinte: Não havia como seguir enfrente, voltar seria perigoso e trabalhoso, não havia como atravessar para outra margem e do lado direito uma parede gigante nos fechava a passagem. Peguei a corda, chamei o Luciano e fui escalando a grande parede do nosso lado direito. Fui me segurando na vegetação e ganhando altura por uma rampa, até que a parede subiu a noventa graus. Minha intenção era chegar até o alto e tentar caminhar beirando o paredão para a esquerda até que eu pudesse alcançar uma grande árvore e amarrar a corda nela para que todos pudessem subir e adentrar a mata. No alto fui caminhando lateralmente, sempre contando com o auxilio do Luciano, mas ao chegar a certo ponto, a vegetação que sustentava meus pés, deixou de existir e a única solução seria eu passar dois metros de rocha totalmente na aderência da bota, mas um erro, um misero erro e eu me precipitaria no abismo. Aí fiquei ali, no vai não vai. Lá embaixo, com cara de quem não tava gostando nenhum um pouco do rumo que as coisas estavam tomando, o Marcelo acompanhava tudo, sem acreditar que aquela maluquice poderia dar certo. Enquanto eu tentava decidir se ia ou não, o Dema se encarrega de escalar outra parede bem à beira da grande queda e quando o Ligado gritou lá de baixo que o Dema obtivera êxito, senti meu coração aliviado por não precisar mais dar seguimento naquela ideia de jerico e logo eu e o Luciano, estávamos de volta e nos pendurando em uma corda que o Dema havia instalado para o grupo subir. O dia já ia pela metade quando nos posicionamos acima da grande queda das Cataratas do Juqueriquerê. Dali de cima do grande paredão é que pudemos ter uma grande visão das varias quedas que despencavam na parede oposta de onde estávamos, mas ainda faltava àquela foto que pudesse englobar todas as cachoeiras, então deixei todo mundo fazendo um lanchinho e me dirigi para beira da garganta, onde escalei uma grande pedra e sentei à beira do abismo. Infelizmente fiz de tudo para conseguir tirar uma foto que prestasse, mas a grande vegetação que me cercava não deixou que eu obtivesse êxito nesta ação e então apenas me conformei em guardar tudo na minha mente, já que maquina nenhuma pode capturar o que o olho humano vê. Retornei para onde estava os outros e vendo que havia um corredor aberto que contornava um pequeno morrote, fomos perdendo altitude, varando mato no peito, nos livrando de uma infinidade de vegetação até que novamente desembocamos às margens do rio bem enfrente a uma grande cachoeira, onde uma grande rocha corria horizontalmente bem perto de onde a queda despencava e como naquele momento não chegamos a um consenso sobre o nome a dar aquela queda, resolvi chamar de CACHOEIRA DA PEDRA COMPRIDA, para marca esse ponto da nossa travessia. . De certa maneira ter chegado até ali representava um grande passo para expedição, não porque havíamos percorrido um caminho muito grande, mas por termos passado por uma importante fase, onde a parte psicológica havia exigido muito da gente, mas por outro lado sabíamos também que havíamos nos enfiado cada vez mais num caminho sem volta e como eu sempre costumo dizer: Nada é tão ruim, que não possa piorar. Depois de quase todo mundo se aventurar a se equilibrar encima da rocha horizontal aos pés da Cachoeira da Pedra Comprida, nos enfiamos de novo barranco acima porque não havia a menor condição de continuarmos seguindo pelo rio, porque mais uma vez as águas despencavam garganta abaixo. Pegamos o caminho do mato e voltamos a ganhar altura escalando barrancos escorreguentos, nos segurando em tudo que era vegetação espinhuda. Alguns subiam os barrancos com muita desenvoltura, enquanto outros o faziam com tremenda dificuldade por causa da inclinação. Quando vimos que já estava na hora de voltarmos ao rio por acharmos que já havíamos passado os grandes aclives, pegamos uma diagonal e nos dirigimos para lá e essa pratica seria uma constante em toda nossa expedição porque estávamos convictos que sempre deveríamos nos manter colados ao Juqueriquerê para podermos ver todas as quedas do rio. Acontece que voltar às margens do rio não é garantia que poderemos descer até a água, pelo simples fato de às vezes darmos em barrancos muito altos e aí termos que voltar a subir mais ou então tendo que jogar cordas para descermos pendurados. As 13h00min da tarde quando de novo atingimos o rio, nos deparamos com mais uma queda de beleza indescritível, onde uma pedra arredondada parecia que despencaria queda a baixo e um grande poço convidava a todos para um mergulho, nessa que acabei batizando como CACHOEIRA DA PEDRA REDONDA. Diante daquela grande cachoeira, onde uma fabulosa queda d’água despencava, todo o grupo se reuniu. É uma paisagem para lavar a alma e para comemorar, aquele grupo de homens barbados voltou a ser criança, dando saltos atabalhoados no grande poço. É mesmo um grande momento esses acontecimentos porque se trata de uma celebração da vida, afinal de contas é pra isso que a gente veio, foi pra isso que a gente se jogou num fim de mundo perdido da civilização, onde nosso mundo se resume a seis indivíduos e um rio, cercado de florestas e animais selvagens por todos os lados, onde ninguém nos obrigou a nada, viemos porque quisemos e se estamos aqui vamos celebrar o fato de termos o privilégio de chegar onde quase ninguém chegou. Com a alma totalmente lavada abandonamos aquele lugar incrível e continuamos a nossa jornada, desta vez seguindo pelo rio mesmo, pulando de pedra em pedra, nos jogando com mochila e tudo nas corredeiras, nos espremendo entre gretas e saltando nos poços, mas felizmente esse trajeto até a próxima cachoeira não demorou mais que uns 20 minutos e quando menos esperávamos, já estávamos lá fazendo pose para uma foto aos pés da CACHOEIRA DO DIAMANTE NEGRO, onde uma pedra escura, em forma de triangulo, não deixa dúvida de como ela deveria ser batizada. Depois dessa cachoeira fomos obrigados a escalar um novo barranco de pedra, na verdade, alguns subiram no barranco e se enfiaram na floresta, mas Eu, o Dema e o Ligado tentamos passar beirando o rio mesmo, nos pendurando à beira do barranco, mas o Rodrigo Ligado quis inovar e vendo que escalar as pedras era uma tarefa muito árdua, resolveu se jogar no rio e enfrentar a forte correnteza, mesmo diante do nosso palpite de que a água era muito veloz para ariscar. E Eu e o Dema estávamos com a razão e o Rodrigo Ligado só descobriu isso quando se viu em maus lençóis, sendo arrastado em direção à garganta de onde o rio se jogava mais à frente. Foi um momento muito tenso porque a nossa corda de segurança estava com a outra metade do grupo que resolveu tomar o caminho da selva. A sorte do Ligado foi que antes de ele despencar no vazio, conseguiu se segurar numa rocha e lá ficou esperando que a divina providência o salvasse. Imediatamente comecei a gritar pelo Luciano, que era o homem que estava com a corda e logo que ele chegou, vindo de dentro do mato, sacou a corda e jogou para o Rodrigo que a agarrou e nós o puxamos para fora da correnteza. Mais uma vez sem podermos seguir pelo rio, que para nossa surpresa, continuava sempre com um desnível assustador, nos encaminhamos para mais um vara mato, onde tivemos que subir muito, ultrapassando um grande desnível, passando por algumas gretas potencialmente perigosas. É preciso salientar aqui que por estarmos sempre com as mochilas mergulhadas na água, esse era um fardo muito grande para todos carregarem. Ao tirá-las da água, o peso quase que dobrava e até que toda a água começasse a sair, parecíamos que estávamos a carregar sacos de batatas às costas e subir aqueles barrancos nos destruía fisicamente. Foi neste trecho que o Lin Quintas começou a dar sinal de que suas forças e suas energias já estavam zerando, mas como já passava das 14h00min e havia sido um dia intenso, acabamos por não dar muita bola para isso, afinal de contas, todos estavam cansados. Depois de rasgar muito mato no peito, voltamos à beira do rio, rio esse que se apresentava em várias e várias quedas, despencando de um amontoado de pedras gigantes. Chegamos à beira do rio, mas não à beira da água e para chegar até lá tivemos que ir nos enfiando por dentro de gretas e matacões igualmente gigantes. Atiramos nossas mochilas barranco a baixo e nos escorregamos até o patamar rochoso uns três metros de onde estávamos e depois nos enfiamos dentro de uma espécie de gruta e descemos o restante beirando uma enorme parede por onde despencava uns cipós secos, até que finalmente pudemos nos deliciar com um gole de água fresquinho e parar por alguns minutos para apreciar mais um grande espetáculo da natureza em forma de cascatas e cachoeiras. Continuamos descendo, hora nos enfiando no mato, hora subindo barranco e quando o rio assim permitia, nos jogávamos na correnteza e íamos nadando até que uma nova queda “impassável”, nos fizesse mudar de estratégia. O dia já ia findando e quando fomos obrigados a novamente varar uma infinidade de mato e subir outra infinidade de morros, parte da galera já começou a protestar para que achássemos um bom lugar para acampar. Acontece que não estava fácil e como tínhamos combinado que acamparíamos numa certa curva do rio, justamente a grande curva que o rio teria que fazer para a esquerda, continuamos seguindo, mas essa curva nunca que chegava e quando um dos homens estava prestes a tombar de tanta canseira, resolvemos descer novamente ao Juqueriquerê para tentar acampar de qualquer jeito e para isso resolvemos acompanhar um pequeno afluente, de onde despencava uma pequena cachoeira com musgos verdes em suas paredes. Realmente esse afluente nos devolveu ao rio principal, mas novamente nos vimos obrigados a descer um grande barranco para acessar a água. Eu, o Dema e o Marcelo, descemos para investigar, nos pendurando em algumas raízes até baixarmos ao rio, de onde despencava mais uma espetacular cachoeira, uma queda d’água que despenca em uma fina e larga camada, como um grande véu. Nós três nos juntamos e ao analisar bem a sequencia do rio e calcular o tempo que ainda tínhamos de sol, decidimos que seria melhor mesmo dar aquele dia por encerrado, vimos que já era mais que hora de descansarmos o esqueleto e como parte da galera estava a nos esperar perto do afluente, subimos novamente o barranco e nos juntamos a eles. O local que escolhemos para acampar, não poderia ser pior, uma área irregular, cheio de pequenas pedras e com poucas árvores para montar as redes e como não havia outra solução, solucionado estava, nos viramos com o que tínhamos, montando uma rede encima da outra ou usando uma mesma árvore para amarrar várias redes, medicamos os que pareciam doentes, fizemos uma boa janta e cada um foi morrer na sua cama de mato. Apesar da chuva que caiu durante a madruga, o dia chega trazendo expectativa de tempo bom. Em tese esse deveria ser o nosso último dia de travessia mais o que se sucede se encarregaria de provar o contrário. Enquanto a água do café não chegava aos 100 graus, tratamos de nos reunir para traçar um plano e para começar, quebramos a cabeça estudando um mapa tosco que tínhamos do percurso e chegamos a dura conclusão que não havíamos descido mais de 1500 m de garganta no dia anterior. Foi um golpe duro que tivemos que assimilar e decidimos que se quiséssemos sair hoje daquela travessia, teríamos que botar a faca nos dentes e nos jogarmos de cabeça naqueles cânions. Mesmo assim, ainda tínhamos a confiança de que a pior parte havia passado e daqui para frente o rio iria cada vez mais ficar plano e mais uma vez havíamos de quebrar a cara nas nossas previsões. Botamos as mochilas às costas e já sabendo que não daria para descer pelo rio, metemos a cara num emaranhado de bambus e mato entrelaçados e fomos avançando lentamente até atingirmos o que parecia ser o topo de um morrote e de lá tocamos reto e paralelo ao rio que não se encontrava a mais de 300 metros de onde estávamos. A todo o momento eu tentava persuadir o grupo a voltar para o rio, mas parte da galera queria mesmo é tentar avançar pelo mato e foi aí que nosso pesadelo começou. O lin Quintas já havia se queixando que não estava bem no dia anterior, mas agora alem das queixas aumentarem, ele estava lento, muito lento, tão lento a ponto de caminhar 100 metros e desabar no chão. Eu e o Dema tomamos a dianteira e fomos rasgando o mato no peito, abrindo caminho no meio da vegetação de espinhos e que cortava feito navalha, tentando não perder altura para não termos que voltar a subir novamente, mas a lentidão do Lim já nos fazia pensar em mudar a estratégia e começar a descer ao rio o mais rápido possível, na tentativa de encontrar águas calmas que pudesse nos fazer avançar boiando, mas ao desembocarmos novamente no Juqueriquerê, nos espantou a declividade daquele rio. Grandes quedas ainda faziam parte do rio, não havia como avançar nadando ou coisa parecida. Resolvemos não voltar mais pelo mato, tentaríamos seguir pulando de pedra em pedra, saltando nos poços e escalando as paredes laterais, mas mesmo isso ainda não foi suficiente para que ganhássemos velocidade, pelo contrário, o Lim Quintas a cada passo que dava , se esborrachava em uma pedra e lá ficava, até que alguém fosse ajudá-lo. A situação começava a sair do controle, era preciso parar e ver como poderíamos fazer com que ele se mantivesse caminhando, mesmo que devagar, mas caminhando. Ali não havia nenhum médico, mas sempre carregamos maletas de primeiros socorros para o caso de alguma emergência. Ao perguntarmos par o Lin o que ele sentia, obtivemos como resposta : “NADA”. Hora bolas, aí ficava difícil, não tinha dores de cabeça, não tinha febre, não tinha dores no corpo, dores no estomago ou qualquer outras dores que pudesse ser curada com algum remédio. Diante desse quadro não havia nada que pudéssemos fazer, apenas tratei de dissolver um pacote de soro e dei para que ele tomasse para melhorar sua hidratação e fizemos que com ele se alimentasse um pouco e ficamos torcendo para que melhorasse, sabe-se lá do que. Mas foi tempo perdido, ele ficou foi pior e não andava mais que 50 metros sem tombar no chão, pra desespero de todo o grupo, que implorava para que ele continuasse andando, mesmo devagar. E pior que o diabo do terreno não arrefecia, o rio não ficava plano, nos fazendo ter que nos pendurar em paredes cada vez mais perigosas e foi numa destas que ao deslocarem uma grande árvore morta, quase que o próprio Lin e o Ligado foram parar abismo abaixo. A situação estava mesmo feia e o dia começava a passar muito rápido e nós avançávamos cada vez mais lentos. Foi aí que percebi que jamais conseguiríamos sair daquele vale naquele dia. O Marcelo era o mais preocupado, pois era ele que tinha a maior obrigação e não passava pela cabeça dele gastar mais um dia para sair dali. O ritmo seguiu o mesmo, até que um paredão intransponível nos fechou o caminho de vez. Agora sim o caldo tinha entornado, até então nossa jornada havia sido sempre pelo lado direito do rio e não havia outra alternativa se não a de transpormos o rio para a margem esquerda, mas com aquela correnteza toda, eu não via como e me preocupou quando vi o Dema e o Ligado tentarem uma ação suicida por uma corredeira que não havia a menor maneira de passar. Aquilo era loucura, aquilo era ariscado e logo foi preciso que interviéssemos para que os dois malucos tirassem aquela ideia da cabeça e nos ajudasse a achar outra solução. Eu sabia que aquele grupo era bom, com gente com várias especialidades, uns escalavam bem, outros nadavam muito bem, outros navegavam muito bem e ainda havia os que mandavam bem varando mato e guiando o grupo no caminho menos penoso, mas o Ligado era só doido mesmo, botou a corda na cintura e se jogou numa correnteza à beira de uma queda e só parou quando o rio o jogou para outra margem. Foi a deixa para segurarmos a ponta da corda e empurarmos o Lin Quintas na correnteza e vermos o coitado nadar desesperado até se juntar ao Rodrigo ligado. E assim fomos um por um e pra finalizar a travessia do rio, puxamos o Marcelo amarrado a todas as mochilas do grupo e finalmente nos posicionarmos do lado esquerdo, onde o caminho parecia ser menos complicado para continuarmos nossa jornada. Agora na margem esquerda do rio a caminhada começava a avançar mais rapidamente, mas quando pensávamos que a coisa ia engrenar, o Lim Quintas desabava e novamente tínhamos que parar e aguardar que ele se recuperasse. A nossa frente surgiu uma das ilhas que aguardávamos ansiosamente e passamos pelo seu lado esquerdo, interceptando mais a frente o encontro do rio. Como o terreno deu uma nivelada, fomos seguindo pelo mato e ganhando terreno e quando tínhamos alguma oportunidade, nos jogávamos nas corredeiras e íamos boiando até onde era possível e esse era o único jeito do Lim Quintas não desabar, já que dentro da água, ele já estava caído mesmo. Fazer mochilocross sempre era um grande barato, era sem duvida a parte mais divertida. Pendurávamos-nos nas mochilas e nos atirávamos na água sem saber aonde iríamos realmente parar, passávamos raspando em grandes pedras e nos precipitávamos nos poços e quando submergíamos, era sempre uma grande festa. Mas quando era hora de voltar a escalar paredes, trepar pedras e varar mato, tínhamos que ter mesmo uma paciência de Jó para esperar o Lim se levantar a cada 100 metros de trilha. A coisa começava a ficar complicado, o dia já começava a ficar curto e não avançávamos. O Marcelo já deixava transparecer a sua irritação com o atraso do grupo e quando o Lim Quintas desabou depois de atravessarmos mais uma ilha e nos postarmos novamente do lado direito do rio, a situação ficou insustentável. Estávamos exatamente na grande ilha dessa travessia, mas mesmo assim não tínhamos a menor ideia de quanto tempo ainda gastaríamos para atingirmos a estrada que havíamos anotado no mapa. Antes de chegarmos ao grande encontro dos dois rios que a tal ilha havia separado, o Lim Quintas desabou de cara no chão e não levantou mais. Deixamos o nosso amigo moribundo tentando se recuperar e corremos para ver o encontro dos dois rios. Bem no lugar onde eles se encontravam, para voltar a ser um só, forma-se um degrau de onde os rios se jogavam, formando um espetáculo belíssimo. Não era uma cachoeira muito alta, mas era sem duvida um espetáculo único. Sentamos-nos no encontro dos rios e ficamos lá, de boca aberta a contemplar aquele cenário incrível e enquanto apreciávamos aquela maravilha, o Lim Quintas ainda continuava lá caído, com a cara entre as pedras sem se mexer, como se morto estivesse e para marcar essa queda d’água resolvi homenageá-lo batizando-a como CACHOEIRA DO HOMEM CAÍDO , que é muito melhor que cachoeira do homem morto, rsrsrsrsrs O tempo passava, o Lim não levantava e o Marcelo perdeu de vez a paciência e todo mundo notou isso e quando perguntei se ele queria seguir à frente, ele não titubeou em responder que sim. Sentamos eu e ele e conversamos, estudando o rústico mapa, das possibilidades que ele poderia encontrar pela frente. Mas antes do Marcelo partir para sua jornada solo, me arrependi de ter o incentivado a partir sozinho, lembrei-me de que se algo desse errado, o Marcelo não teria com quem contar e achei melhor pedir para que o Ligado o acompanhasse. O Ligado não estava nem um pouco a fim de nos deixar, mas felizmente ele também se deu conta de que seria primordial para a segurança de todo o grupo, que os dois seguissem juntos, era um sacrifício que ele teria de fazer. Enquanto os dois integrantes se preparavam para partir, o Lim Quintas gritava lá de longe que deveríamos deixa-lo ali e irmos sem ele e quando chegássemos à civilização, acionássemos o resgate porque ele não aguentava dar mais nem um passo. A gente nem deu bola para os resmungos do Lim, porque não tinha nenhum cabimento o que ele dizia, claro que ninguém iria abandonar ninguém, só precisávamos saber como exatamente iríamos tirá-lo daquele vale. Quando o Lim finalmente resolveu sair do buraco onde estava e se aproximou do grupo, comunicamos a ele que os dois, o Marcelo e o Ligado, partiriam e avisariam para nossas famílias que iríamos nos demorar mais para deixarmos o vale e que acamparíamos assim que descolássemos um bom lugar para passar a noite para poder medicá-lo, afim de que se recuperasse e tivesse forças para sair do cânion sem que fosse necessário chamar o resgate. Passava das 14h30min quando o Ligado e o Marcelo partiram e não foi uma partida qualquer, os dois se jogaram numa corredeira e foram despencando de um monte de cachoeirinhas até desparecerem onde começava mais uma ilha. Vendo que os dois haviam avançado rapidamente nas corredeiras, resolvemos fazer o mesmo para ganhar terreno e foi aí que a gente quase se fudeu todo. O Luciano se jogou primeiro e foi seguido logo pelo Dema. Sem pensar muito, quase que empurrei o Lim e me joguei atrás dele. Vinte metros depois eu nem sabia mais onde eu estava, caí no diabo de uma queda, virei de ponta cabeça e afundei com mochila e tudo e quando submergi, mal deu tempo de respirar e já caí em uma nova cascata, onde tive que apoiar os pés numa grande pedra para não bater a cabeça. Virei passageiro naquela corredeira, eu já não controlava mais porra nenhuma, tentei me agarrar a qualquer santo, mas infelizmente não sabia rezar e fiz só amaldiçoar o desgraçado que me convenceu a fazer aquela descida insana. Quando pensei que eu iria despencar nas quedas logo abaixo, senti uma mão me agarrando, era São Luciano que veio atender as minhas preces. Levantei-me e sem pensar muito agarrei nas mãos do Lim Quintas que se preparava para passar batido e cair nas cascatas e todos nós fomos comemorar às margens do Juqueriquerê. Assim que nos posicionamos fora do rio, o Lim exigiu que continuássemos seguindo pelo mato já que o terreno permitia. Realmente essa foi uma boa ideia porque ganhamos terreno rapidamente, mas o Lim queria acampar de qualquer jeito e eu tentava persuadi-lo a acampar somente quando encontrássemos um local bem favorável. Quando encontramos mais uma ilha, resolvemos ir caminhando por dentro dela, já que era plana e com arvores bem espaçadas. Mas não teve jeito mesmo, antes das 17h00min o Lim chegou ao seu limite e na primeira clareira da ilha jogamos as mochilas no chão e demos por encerrado nosso dia de caminhada. Não perdi tempo, montei a rede do meu primo e lhe enfiei logo um remédio na goela e o pusemos para descansar até que preparássemos a janta. Era um lugar muito bonito e como a ilha era estreita, tínhamos um rio de cada lado. Limpamos a vegetação rasteira com um facão e cortamos umas folhas de palmeira para colocarmos no chão. Ficou tão bom que resolvemos nem montar nossas redes e Eu, o Dema e o Luciano decidimos que dormiríamos apenas com os sacos de dormir. Claro que ficamos expostos aos mosquitos, às cobras, aos carrapatos e as onças. Fiz uma bela de uma janta e alimentei o Lim e logo em seguida comemos muito também. O Dema não demorou muito, já se enfiou no saco de dormir e apagou. Eu e o Luciano ficamos conversando até tarde, enquanto ele tentava manter uma fogueira de dois palmos de diâmetro para afugentar os borrachudos. Ficamos tentando adivinhar que fim teria levado os dois integrantes que haviam seguido à frente. Teriam conseguido sair? Teriam achado o caminho? Teriam conseguido chegar ao litoral ou estariam ainda presos em qualquer lugar do rio? Resposta que só teríamos no outro dia. Por hora eu só podia olhar o céu naquela noite escura e ficar matutando como a simplicidade da vida pode nos fazer feliz. Éramos quatro homens barbados deitados no chão sobre umas folhas de palmeira, sendo iluminados por um foguinho mequetrefe que insistia em apagar o tempo todo. Estávamos totalmente desprotegidos e expostos a todos os perigos ocultos naquela floresta perdida no centro selvagem de um vale desconhecido, longe da civilização e mesmo assim nos sentíamos felizes de estar ali. O dia que amanhece é sem dúvida o melhor de todos, sem nenhuma nuvem no céu e já com promessas de um dia muito quente. Tomamos um café e partimos rapidamente. O Lim Quintas parece melhor, mas ainda anda meio capengando, mas já digo logo que hoje essa travessia tem que chegar ao fim. Como estamos numa ilha com vegetação bem fácil de cruzar, seguimos pela floresta, onde os avanços são rápidos. Mais alguns minutos a ilha acaba e cruzamos o rio para margem esquerda, tentando nos valer do terreno ainda plano pelo mato. Não demora muito já localizamos as pegadas dos dois aventureiros que se separam da gente no dia anterior. Seguindo sempre alternando caminhadas pelo mato e pela água, logo depois de cruzarmos mais uma pequena ilha, desembocamos numa bela prainha de areia, um lindo lugar para acampar, junto a uma enorme piscina natural. Aproveitamos esse incrível lugar para instalar nossa CAPSULA DO TEMPO, que consiste num pequeno tudo de PVC onde um pequeno caderno serve para que outros exploradores que nos suceder possa deixar seu recado. Esse é um projeto inédito nas travessias selvagens em rios, inspirado nos livros de cumes de montanhas do Brasil, um projeto que venho chamando de EXPLORADORES DO LADO ESCURO DA SERRA DO MAR, por estarmos desvendando lugares onde quase ninguém esteve, uma espécie de lado escuro da Serra mesmo. Aproveitamos aquele lindo lugar para um bom banho porque um bom mergulho tem sempre o poder de renovar os ânimos. Estudando o lugar onde estávamos, vimos logo que do outro lado do rio o terreno era bem plano e então resolvemos atravessar o rio a nado e ir investigar. O terreno se abriu, quase sem nenhuma árvore, como se fosse um grande vale seco. Pegamos esse caminho e não demorou nada para a gente descobrir que começávamos a caminhar em um lugar parecido com uma trilha e uns 20 metros depois não tínhamos mais dúvidas, aquilo não era uma trilha, era o final de uma estrada abandonada que a floresta havia tomado de volta, estávamos justamente no local onde eu havia conseguido identificar pelo satélite. A estrada abandonada se tornou num grande brejo e logo que virou para a esquerda, se afastando um pouco do rio, cruzou por um afluente, onde paramos para um gole de água gelada. Logo surgiu o vestígio de uma propriedade a nossa direita, mas sem nenhum sinal de que houvesse alguma casa com habitantes. Pegamos a rua para a esquerda, ou para ser mais preciso, descartamos uma estradinha enlameada que saia a direita e fomos entrando e mais à frente cruzamos com uma porteira e saímos em campo aberto, onde as montanhas se distanciam do Rio Juqueriquerê. Era um lugar muito bonito, mas não sabíamos onde estávamos, só fomos avançando pela estradinha principal, nos mirando em uma grande lagoa que havia à frente. O calor estava de arrebentar e a gente acabou se distanciando um pouco do rio, que estava a nossa esquerda. Passamos pela lagoa, que parece ser de rejeitos da mineradora, pulamos uma grande vala e ao vermos umas maquinas trabalhando, viramos à esquerda e caminhamos até passarmos por cima de uma grande ponte que cruzava o Rio Juqueriquerê. Passou pela gente um caminhão carregado de areia e quando o motorista nos viu, diminuiu a velocidade. Perguntamos para ele que caminho deveríamos tomar para chegarmos ao litoral. Ele meio espantado com nossa presença, nos disse que deveríamos contornar o Porto de Areia pela esquerda e caminhar por uns 10 ou 12 km. Quando passamos por onde os trabalhadores faziam a extração de areia vimos os caras ficarem espantados com nossa presença, apontavam os dedos para nós e ficavam se perguntando de que diabos de lugar a gente tinha saído. Contornamos o tal porto e pegamos a estrada que possivelmente nos levaria para o litoral, mas a nossa presença dentro das dependências da FAZENDA SERRA MAR já havia sido detectada pela administração e não tardou muito para a gente ser enquadrado pelos seguranças da propriedade, ARMADOS ATÉ OS DENTES. -“Parou, parou, parou, de onde vocês vêm, para onde vocês vão, como entraram e o que estão fazendo aqui? ” Antes mesmo de terminarmos as explicações para o segurança, já colou na gente o chefe dele e mais outro “jagunço” da fazenda para também nos encostar contra a parede. A cada explicação que dávamos, a cada história que contávamos, os “homens” iam caindo com os queixos no chão, a ponto de acabarmos nos tornando seres de outros planetas que acabava de cair de uma espaçonave bem no meio das terras deles. Nos disseram que jamais ouviram falar de que alguém tivesse descido por dentro daquele vale e nem o chefe da segurança, que já havia trabalhado no meio ambiente, jamais teria tido notícia desta descida e quando descobriram que não éramos meros “maconheiros” nos aventurando pelo mato, pediram para tirar fotos com a gente. Nos contaram também que haviam interceptado o Marcelo e o Ligado na noite anterior e foi assim que ficamos sabendo que os dois haviam conseguido chegar ao litoral com segurança e que haviam retornado para São Paulo. Mas os caras eram pagos para fazer a segurança da fazenda e tinham que fazer o trabalho deles e então fomos convidados a subir na caminhonete para sermos enxotados para fora, sem dó nem piedade. Essa atitude que eles tomaram até nos agradou porque o Lim já estava novamente se arrastando na caminhada. Jogamos nossas mochilas no transporte e pulamos para cima e fomos escoltados pelos caras armados e uns 10 km depois, já perto do litoral os caras pararam a caminhonete e quando fizemos menção de descer, fomos advertidos para que continuássemos la encima. Fizeram um desvio para esquerda, passaram por uma guarita e entraram em direção a sede da Fazenda Serra Mar e foi nessa hora que a gente ficou com o “fiofó na mão” achando que os caras iam nos levar para o “matadouro. “A cada metro que a caminhonete andava, mais aumentava a nossa apreensão e já começávamos a especular qual seria o nosso fim, alguns afirmavam que seríamos apresentados aos chefões da fazenda, já outros que a gente seria entregue à polícia mesmo. Eu, para falar a verdade, tinha vontade era de pular fora e picar a mula dali. Passamos ao lado das obras da Nova Tamoios e logo à frente já entramos na área urbana de Caraguatatuba e quando estacionamos enfrente da rodoviária da cidade, meu coração se aliviou, ainda mais quando o chefe da segurança gritou la de dentro do carro: - “Está bom para vocês aqui meninos? ” Mais que rapidamente pulamos no chão e pegamos nossas mochilas e saboreamos um sentimento de vitória indescritível. A satisfação estava escancarada nos rostos de cada um, tanto que acabou rolando até uma comemoração ali mesmo, sem nenhum constrangimento, era a sensação do dever cumprido, era ter a certeza de que a Grande Aventura do qual a gente tinha proposto a realizar, chegou ao fim com o sucesso que esperávamos. Nos dirigimos para o banheiro da rodoviária e tratamos de tirar a lama e o barro do corpo e quanto estávamos um pouco mais apresentáveis, fomos tentar morrer de tanto comer e brindar com um refrigerante gelado. Foi uma grande Travessia, uma das maiores desde que começamos com essas expedições na Serra do Mar Paulista. Foi como se jogar em outro mundo, foi como descobrir novas terras, num lugar onde tudo parece já ter sido descoberto. Não somos homens corajosos, nunca fomos, apenas me alegra o fato de poder contar com gente que não se intimida com pouca coisa, aventureiros que estão dispostos a lutar e a vencer a mesmice da vida, gente que se treme todo quando houve a palavra expedição selvagem e que transforma essa tremedeira em ação, porque eles querem ir lá ver com os próprios olhos, querem sentir toda a explosão de beleza que a natureza selvagem pode lhe oferecer. Eu posso até ter sido o Pero Vaz de Caminha desta Expedição, mas esses caras não, eles são conquistadores, navegadores, descobridores, obrigado meus amigos por me deixar fazer parte desta caravela que navega em rumos desconhecidos e quando volta, vem abarrotada de conhecimento, companheirismo e de muitas histórias para contar. Divanei Goes de Paula- dezembro/2015
  11. Para quem leu esse relato, agora poderá saber que é possível também, descer pelo Rio Jaguarí de Morumgaba até Pedreira, em 2 ou tres dias de aventura molhada. Link abaixo ; rivertrekking-jaguari-travessia-morungaba-x-pedreira-sp-t111678.html
  12. Obrigado Zaney , Gostaria de poder escrever com mais riquezas de detalhes mas infelizmente não tenho paciencia para ficar anotando nada por causa da intensidade da aventura.
  13. https://aventurebox.com/divanei/expedicao-dedo-de-deus-paulista/report http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=11552516
  14. Minha primeira tentativa de atingir a lendária montanha, juntamente com o Alexandre Alves, pelas circunstâncias em que ocorreram, debaixo de um temporal daqueles, acabou por ser o verdadeiro estopim para eu não tirasse mais aquela montanha da minha cabeça. Subimos até o Pico boa Vista e estabelecemos um caminho varando mato, que nos deixou a uns 2 km de chegar à sombra da grande Pedra. Naquele dia, voltamos com a sensação de que poderíamos ter avançado mais se a chuva e a falta de tempo não tivessem nos barrado. Pois bem, durante um mês inteiro meus pensamentos acabaram se voltando em como conseguir voltar lá novamente, mas desta vez teria que ser uma expedição bem mais planejada e organizada, teria que escolher os desbravadores a dedo. Durante mais de um ano de pesquisas acabamos por não conseguir quase nenhuma informação a respeito dessa montanha. Um vídeo que mostrava uma homenagem ao Coronel Pethená em 2005, onde o Vitor Negretti, juntamente com os monitores ambientais da região, foi ao cume, era o que tínhamos a respeito e do mais, só uma citação de um membro do Grupo de Escalada Esportiva da Unicamp, que em 2006 se aventurou por lá, na companhia de mateiros da região. Sabíamos que não era uma mera caminhada até o cume, já que a parte final é uma escalada técnica que necessita de equipamentos móveis. Tentei fazer contato com dezenas de excursionistas renomados, gente que já se aventurou por tudo que é lugar e para minha surpresa, a maioria nem ao menos havia ouvido falar no tal Dedo de Deus Paulista e outros apenas sabia da sua existência por avista-lo de alguma parte do litoral sul Paulista. O fato de ser preciso escalar uma parede de uns 30 metros para se chegar ao topo deu uma balançada no início do projeto porque nós nunca fomos escaladores e então era preciso que saíssemos da inércia e começássemos a aprender os rudimentos. Durante um mês nos dedicamos ao tal ofício e foi aí que acabamos mesmo por descobrir que escalador é uma coisa, montanhista explorador é outra bem diferente. Encontramos muita gente boa escalando, mas nenhum parecia ter mesmo condição de enfrentar uma empreitada de vara-mato no meio daquele inferno verde e foi aí que surgiu meio que por acaso a oportunidade de agregar ao grupo a Vivi Mar e o Fábio Borges, que além de ótimos escaladores, também são excursionistas com o “sangue nos zói” e não arregam para coisa alguma, era o que faltava para completar o grupo expedicionário. A outra parte do grupo seria formada além de mim, pelo Eduardo Loures, pelo Daniel Trovo, pelo Rodrigo Ligado e pelo Professor Dema, pessoas que dispensam comentários quando se trata de explorações onde é preciso botar a faca nos dentes e navegar num mar de florestas e cânions no submundo selvagem da Serra do Mar Paulista. Esse era ao meu ver o grupo mais forte que já havíamos formado porque cada um era dotado de uma grande habilidade e todos se completariam. Mesmo com uma previsão de tempo anunciando um dilúvio, resolvemos manter a nossa operação, ainda apostávamos que poderíamos ter pelo menos umas três horas de tempo de sol, que nos levaria direto para o cume da montanha, mas deixamos bem claro que não haveria qualquer certeza de que conseguiríamos escalar a parede final e que todos deveriam estar cientes disto para que não houvesse frustações. O desafio foi aceito por todos, que de antemão já estavam cansados de saber que aquela “expedição” não teria um líder, um guia, um chefe, um cacique, um comandante e que cada um estaria por conta e risco, que cada um teria que ser responsável por sua segurança e também cuidar da segurança do grupo. O local de encontro marcado foi o “boteco do compadre”, o único estabelecimento comercial perdido à beira da ponte metade concreto, metade madeira, que atravessa o Rio Despraiado. A estrada também se chama Despraiado e fica a meio caminho entre Pedro de Toledo e o litoral sul do São Paulo, encravado no meio da Estação Ecológica da Juréia-Itatins. Tirando todos os contratempos de feriado prolongado, foi somente às 11 horas da noite que todos nós nos juntamos no referido bar, que por sinal e de costume, estava totalmente deserto de gente e somente o simpático senhor dono da birosca, estava por lá para vender uns refri e umas cervejas geladas. Claro que é com uma grande alegria que nos encontramos com toda essa galera, que não víamos a um bom tempo. Sem perder muito tempo resolvemos em conjunto que o melhor mesmo seria seguirmos com o plano inicial, que era o de acamparmos na antiga escola em ruínas, porque além de mais confortável, já estaríamos na boca da trilha. Como algumas mochilas ainda não estavam prontas, resolvemos pegar tudo as pressas e ir levando nas mãos mesmo, já que seria apenas meia hora de caminhada até a escola em ruínas. Era uma noite com uma grande lua a nos iluminar . Tomamos o caminho de volta e tendo agora o Rio Despraiado a nossa direita, vamos subindo pela estradinha de terra até interceptarmos 1.500 metros depois, três grandes tubos de concretos abandonados à beira da estrada e 50 metros depois localizamos também do lado direito uma trilha que vai descer o barranco por uma escadinha de concreto. Descemos por uns 10 metros e viramos a direita e vamos acompanhando o rio por mais alguns metros até conseguirmos acessa-lo , onde localizamos a cabeceira de concreto de uma antiga ponte que já não existe mais. Atravessamos o rio pulando pelas pedras e subimos o barranco para localizarmos uma trilha que alguns metros depois, nos leva para a grande ponte pênsil. É uma ponte totalmente carcomida pelo tempo e ainda é de se admirar que esteja em pé. Passamos com muito cuidado pela ponte e logo em seguida localizamos uma pinguela, igualmente podre. Depois desta pinguela, passamos ao lado de uma grande parede de pedra e nos enfiamos em uma "floresta" de lírios do brejo e metros depois, demos de cara com a escola abandonada. Passamos pela frente dela até que desembocamos no grande galpão que servia como área de merenda e ali jogamos nossas mochilas ao chão. No grande galpão cada um se virou como pode: Eu e o Dema apenas jogamos nosso isolante ao chão, a Vivi e o Fábio montaram a barraca e o Eduardo, o Ligado e o Trovo montaram suas redes nas pilastras de concreto. Aliás, o Ligado ficou meio indeciso se dormia na rede ou dormia no chão, já que vez ou outra se esborrachava no concreto. O Loures, que muito provavelmente, foi Nero nas vidas passadas, já meteu fogo numas madeiras velhas e fez com que tudo que era escuro, se iluminasse. O dia amanheceu lindo e a galera muito bem disposta, comprovando que foi mesmo uma boa termos acampado ali. Tomamos café, desmontamos tudo e partimos às 8:30 da manhã. Nosso caminho segue direto para a parte atrás da escola até interceptarmos o cano que a abastecia. Localizado o cano, subimos o barranco até encontrarmos a antiga estradinha que a uns 40 anos atrás servia para que os jipes acessassem as antenas da antiga COTESP, menos de meia hora abaixo do topo do Boa Vista. Pegando para esquerda seguiremos o que outrora fora uma estrada e agora mal passa de uma trilha toda obstruída por árvores e vegetação espinhuda. como eu estivera ali a pouco mais de um mês para subir o Boa Vista e abrir parte do Caminho para o Dedo de Deus Paulista, coube a mim a ingrata tarefa de ir abrindo o mato no peito e como eu sou um cara super inteligente, usei camisa sem manga para realizar tal empreitada e pagaria muito caro por isso. A cipozeira vai agarrando na gente e um bambuzinho em especial gruda na pele e faz um estrago danado, formando feridas que logo inflamam e te deixa todo retalhado. A unica coisa que denuncia que estamos no caminho correto é o nitido corte do que antes era uma estrada, mas vez ou outra, a floresta cai sobre o caminho e aí você se ve abandonado, sem saber para onde ir e então é preciso rodar pelo mato pra tentar novamente encontrar o caminho. Como o grupo é grande, a caminhada segue em um ritimo não muito rápido, mas constante. Eu estou pilhado e as vezes acabo por tomar uma certa dianteira e quando percebo, diminuo o passo até todos se ajuntarem novamente para mais um gole de água e mais uma conversa divertida. Por se tratar de uma antiga estrada, o desnível acaba sendo suave nas primeiras duas horas, mas o calor e a umidade da floresta densa, vai minando a energia da gente e quando o caminho começa a inclinar mais, uma névoa baixa sobre nossas cabeças, dando indícios que o dia lindo e ensolarado vai ter mudanças. Quando completamos três horas de labuta serra acima, já não vemos a hora de chegar, mas é aí que o terreno inclina de vez e as mochilas e a lei da gravidade já começam a nos sacanear, fazendo um complô para não nos deixar avançar como queremos. Continuo à frente com os dentes serrados e só me animo de vez quando vejo uma pequena mureta de concreto à beira do barranco, que denuncia que o fim está próximo. Agora o terreno inclina de vez e a trilha fica um pouco mais confusa, às vezes nos obrigando a pular por cima de árvores caída, mas logo quando vejo vestígio de um poste à beira do caminho , já me dou conta que estou bem embaixo da grande antena da antiga TELESP e bem na boca do abrigo do Boa Vista e logo em seguida todo o grupo se juntou a mim para comemorarmos essa nossa primeira parte da travessia. Levamos umas 4 horas para percorrermos o caminho até o abrigo, um tempo até bom se considerarmos estar em um grupo grande. O abrigo em forma de iglu nada mais é que o lugar onde estava instalado os geradores e se encontra bem preservado se considerarmos as décadas de abandono. Resolvemos fazer um almoço rápido antes de partirmos e enquanto o fogareiro roncava, alguns foram subir na grande torre, que surpreendentemente se encontra totalmente inteira e sem sinais de deterioração. A subida é vertiginosa e é preciso ir subindo bem devagar, mantendo a concentração para não se despencar no vazio. A visão lá de cima é deslumbrande, tendo uma visão de quase 360 graus, interrompida somente pelo próprio cume do Boa Vista, justamente a direção da cadeia de montanha que buscávamos. Como o tempo estava dando sinal de melhoras, tratamos de almoçar rapidamente e partir. Saindo do abrigo passamos ao lado da torre, subimos a escadinha e demos de cara com a antiga casa de madeira, que só se mantém em pé por pura obra do destino e não tarda em ir ao chão. Pegamos uma trilhinha do lado esquerdo da casa e fomos acompanhando uma mureta até que ela acaba em uns elementos vazados. Pulamos a mureta e nos livrando dos arbustos, caindo em uma trilha e a seguiremos em direção a grande rocha que está acima de nós, mas antes de chegarmos a grande pedra, buscaremos a direita as duas caixas d’àgua que abasteciam a casa. É uma água de qualidade totalmente duvidosa, amarela, onde sapos, rãs, e outros animais aquáticos desfilam suas gosmências e deverá ser tratada com clorim, hidrosteril ou fervida e mesmo assim teve uns que fizeram cara de nojo e se mantiveram longe do liquido. Rumamos para a pedra e passamos pelo seu lado esquerdo, onde tem um fio preto que irá nos auxiliar na subida do barranco. O Dema vai à frente puxando a fila e abrindo caminho, caminho esse que vai curvando para esquerda até entrar no mato e se estabilizar de vez e metros à frente alcança o cume do PICO DO BOA VISTA – 1.140 metros de altitude. Não há no topo um lugar que denuncie ser ali o cume, não existe uma pedra exposta e sim uma clareira no meio da mata, mas nem precisava porque é desta clareira, desta pequena abertura na floresta, que se descortina a nossa frente a visão impressionante do DEDO DE DEUS PAULISTA. É uma pedra gigante, elevada feito um vulcão que enfeitiça a cabeça da gente. Pouco mais de um mês antes, quando estive no Boa Vista, me deslumbrei com essa vista e agora, mais uma vez, me deparo com aquilo que vinha estudando a mais de um ano, a montanha que vinha tirando meu sono nos últimos tempos. Reunimos todo o grupo ali e repassamos novamente o plano traçado, seria um vara mato meio que as cegas numa das mais fascinantes florestas do Brasil. Bom, daqui para frente eu teria que assumir a liderança, não porque eu seria o melhor navegador, mas porque era eu quem já havia aberto parte do caminho anteriormente e agora cairia sobre os meus ombros a responsabilidade de conduzir todo o grupo até o Vale Verde, que foi o nome que havíamos dado ao último local onde chegamos. Deixando a clareira que marcava o topo do Boa Vista, vou seguindo pela crista, tentando me guiar pelas lembranças da expedição anterior. Depois de alguns minuto na crista, começamos a descer e logo em seguida voltamos a subir novamente até que praticamente a crista acaba em outra clareira. Seguir enfrente não é mais possível, mesmo porque olhando no mapa já sabemos que o único caminho deverá ser para direita, mais ou menos uns 130 graus de azimute. É exatamente isso que eu faço, mas novamente, como da outra vez, chego num abismo sem fim e vejo que será preciso virar à esquerda e ir acompanhando até que se aviste uma linha de árvore logo abaixo , denunciando existir ali uma rampa de acesso para nos levar para outra cadeia de montanhas. Da outra vez eu e o Alexandre gastamos um tempão para descobrir esse caminho e agora, graças as marcas de facão, já encontrei rapidamente a trilha de conexão e sem perder tempo já fui me enfiando no mato e despencando para o vale mais abaixo. Logo no vale já dá para ver do nosso lado direito o lugar que quase despenquei na outra investida. O caminho segue sempre descendo por uma crista e vai se enfiando mata a dentro em linha reta até 15 minutos depois nos leva a outro abismo. Mais uma vez é preciso descobrir para onde ir e só resta uma opção:seguir para a esquerda até novamente , se valendo da linha de árvores mais abaixo, encontrar outra rampa de conexão. Mas agora com o caminho marcado nas árvores com um fação, foi só seguir para a esquerda até novamente voltar a descer por dentro de uma espécie de fenda, onde é preciso se jogar em um buraco e logo em seguida encostar na parede rochosa que escorre água, a parede que nós chamamos de Pedra que Chora para marcar o território. Depois é preciso descer um barranco para acessar a referida rampa, que nada mais é que uma nova crista, com vales dos dois lados. O caminho para frente é bem óbvio porque o vara mato agora se transforma numa trilha e essa trilha vai nos conduzir uma hora e meia depois do topo do Boa Vista, direto para o Vale Verde, o último lugar que eu havia chegado com o Alexandre na expedição anterior. Meu papel naquela travessia já estava cumprido, cheguei onde prometi e agora a responsabilidade seria de todo o grupo, que deveria se unir para estabelecer um caminho até a montanha lendária, deveria navegar usando todos os recursos disponíveis para cumprir a missão estabelecida e eu tinha certeza que se tivesse alguém capaz de encontrar um caminho para o Dedo de Deus Paulista, esse alguém seríamos nós. Nos reunimos mais uma vez no Vale Verde, onde tentei dar um giro para ver se encontrava água, mas nada achei. Pulamos o grande tronco e reencontramos a trilha que eu já havia visto na primeira expedição. Agora era a vez do Rodrigo Ligado tomar a dianteira, seguido de perto por mim e pelo Eduardo Loures. A trilha segue por alguns minutos em linha reta e aos poucos vai curvando-se para a direita, justamente para a direção que deveríamos ir, mas não demora muito a dita cuja desaparece e aí é preciso enfrentar mato no peito, sempre tentando manter a direção desejada que no caso seria uns 140 graus de azimute. é uma mato desgraçado que vai destruindo a gente, meus braços já estão em carne viva e os meus amigos compartilham comigo da mesma desgraceira. Nessa hora entra em cena pra nos socorrer o Fábio e seu GPS, já que eu tinha marcado um caminho encima do mapa de satélite e o Fábio conseguiu jogá-lo para o aparelho. Sempre que começávamos a nos distanciar da linha , éramos avisados para nos mantermos mais a direita ou mais á esquerda e assim fomos nos embrenhando cada vez mais naquele fim de mundo, num lugar tão longe da civilização que era como se estivéssemos em um mundo perdido, uma espécie de caverna do dragão tupiniquim. Pouco mais de uma hora depois de partirmos do Vale Verde, demos de cara com um vale, onde um riacho corria alegremente e antes mesmo de eu tocar os meus pés na água, o Daniel Trovo já estava se afogando nas águas cristalinas. O tempo havia fechado de vez, já não era mais possível ver o Dedo de Deus Paulista. Seguimos nosso caminho, hora guiado por mim, hora pelo Dema, hora guiado pelo Loures, hora guiado pelo Trovo e o Ligado, sempre com a consultoria técnica do Fábio e da Vivi. Cada um dava sua opinião para onde deveríamos seguir, sempre havendo um consenso entre todos. Buscávamos agora o tal vale que teria servido de acampamento para expedições do passado, mas desse tal vale da última água, não vimos nem sinal. Em algum momento,o Daniel Trovo estava à frente, ele chegou a ver a tal nascente do rio que cortaria todo o vale a esquerda até desaguar no mar, mas vimos logo que o caminho não seria por ali, e decidimos subir para a crista que deveria nos levar direto para o pico. Foi uma decisão mais do que acertada, porque alem de estarmos encima da linha demarcada por mim, ainda localizamos uma trilha bem nítida cruzando por cima da crista, mas ali nem precisava de trilha, porque não há outro caminho possível, ou você está na crista ou caiu no abismo que há dos dois lados. O dia já ia findando, eu já estava um bagaço, porque além de estar todo retalhado pelo mato, ainda tinha o fator de ter ficado o dia inteiro estraçalhando mato e cipó no peito e isso vai acabando com a energia da gente. Sentíamos que as paredes do Dedo não estavam longe, mas quando deu 17:00 horas e encontramos o único lugar plano daquela crista, não tivemos dúvidas, jogamos as mochilas ao chão e demos por encerrado aquela longa jornada. Eu e o Loures ainda tentamos ir mais um pouco à frente sem as mochilas para ver se localizávamos o tal vale da última água, mas não deu nem cinco minutos de caminhada, um temporal desabou sobre nossas cabeças, então voltamos para trás correndo e fomos nos juntar aos outros que já haviam montando uma lona para se proteger do aguaceiro. Eu e o Dema montamos a barraca e a Vivi e o Fábio também, já o Loures, o Ligado e Trovo, optaram por acampar com redes. Ficamos um bom tempo embaixo do toldo improvisado jogando conversa fora, mas antes que o sol fosse se jogar a oeste, me enfiei na barraquinha para um descanso, antes de ir cuidar do jantar. Acordo uma hora depois para ver que uma tempestade havia tomado toda aquela floresta de assalto e vendo que o Dema também havia sucumbido ao cansaço, voltei a dormir e deixei esse negócio de janta pra lá. O dia que amanhece é um dias dos mais horríveis possíveis. A chuva além de não cessar, acabou foi aumentando. Lá fora ouço a reclamação dos exploradores que acabaram por acordar molhados por não terem tido tempo de montar o toldo como deveria, mas me chama muito a atenção de ouvir os caras combinando de desmontar tudo e picarem a mula de volta, sem mesmo tentarem chegar até o Dedo de Deus Paulista e meu espanto também é compartilhado pelo meu companheiro de barraca. Para mim e para o Dema não fazia o menor sentido chegar a menos de uma hora do nosso objetivo e fazer meia volta. Subir aquela Pedra debaixo daquele temporal era tarefa quase impossível, mas estava mais que claro pra gente que só desistiríamos quando nos víssemos grudados à rocha, desistir dali, era algo totalmente inimaginável para nós. Ainda bem que a Vivi e o Fábio também comungavam com a nossa visão e logo o ameaço de desistência de alguns ruiu como um castelo de cartas e novamente éramos um grupo unido num mesmo objetivo. Nos equipamos com o que tem de mais moderno em matéria de proteção contra chuva, que no caso meu e do Dema , não passou de dois sacos de lixo que improvisamos como capas de chuva. Jogamos as mochilas de ataque às costas e partimos para a nossa empreitada final. Como relatei anteriormente, estávamos acampados bem encima da crista final que nos levaria direto para a Pedra. Ali não tem jeito, não tem outro caminho para seguir porque de ambos os lados são vales gigantescos e ainda é possível ver , com olhos bem treinados, que há um vestígio de trilha que provavelmente foi usado por expedições antigas. O caminho logo começa a subir, as vezes meio confuso, outras vezes mais óbvio. A cada passo dado, vai aumentando nossa expectativa de avistarmos o gigante rochoso, mas o tempo extremamente ruim, não nos deixa ver coisa alguma. Logo o terreno se estabiliza e começa a descer a um vale e aí ficamos imaginando que esse poderia ser o tal Vale da Última Água , mas ao chegarmos ao seu fundo, constatamos que apenas se tratava de um selado e após esse vale, o terreno volta a se inclinar de vez e menos de uma hora depois do nosso acampamento, tropeçamos no MONSTRO ROCHOSO e então o que era apenas um ponto perdido no mapa, se materializou à nossa frente e quase não podíamos vê-lo, mas podíamos senti-lo, estava estabelecido o caminho para a montanha esquecida da Serra dos Itatins , o DEDO DE DEUS PAULISTA ( 1.333 M) acabara de ser reencontrado, o que antes era feudo de meia dúzia de nativos da região, agora era domínio de exploradores de "terras distantes". O objetivo de chegar à Pedra havia sido cumprido, faltava agora encontrar um caminho que pudesse nos levar ao topo, mesmo sabendo que seria tarefa quase impossível diante do aguaceiro. Já vimos logo que o caminho pela direita, não era possível, então peguei pela esquerda e escalei o barranco, que uns três metros acima me levou direto para linha de árvores. No meu encalso seguiu todo o grupo. Seguimos em uma linha reta, nos segurando em cada "pé de pau " do caminho até que finalmente os arbustos acabam e não ha mais o que fazer porque estamos diante das grandes paredes verticais do Dedo de Deus, com abismos para todos os lados, aí é hora de estacionarmos e tentarmos montar um plano para a escalada final. Do nosso lado esquerdo temos uma fenda extremamente gigantesca, que nos pareceu ser impossível acessar o cume por ela, mas diante da chuvarada, não tivemos nem condições de investigar. À nossa frente outra fenda e foi essa que nos pareceu ser o caminho de onde partiria a tal parede que deveria ser escalada. Essa investigação acabou sobrando para mim ,para o Dema e para o Fábio. Então nos enfiamos naquela fenda de lama escorregadia e fomos escalaminhando nos valendo de alguns arbustinhos de raízes soltas e que, uns dez metros acima, nos leva a um platô, que mais uns dois metros à frente acaba numa fenda potencialmente perigosa, onde um abismo sem fim nos faz pararmos imediatamente. Do lado esquerdo dessa fenda me pareceu ser um lugar por onde daria para acessar um novo patamar mais acima, justamente de onde parte a parede que deverá ser escalada com equipamentos. Até tentei ver se era possível subir, mas quando me apoiei na vegetação grudada à rocha, ela se soltou e foi cair no abismo, recuei imediatamente e me afastei para o meio do platô. Enquanto isso o Dema optou por tentar escalar uma chaminé de uns dois metros e meio, mas como a pedra estava muito molhada ele acabou tendo uma certa dificuldade em achar um apoio para as mão, mesmo porque uma queda ali seria dispensar no vazio. Claro que com um tempo seco, subir ali não seria coisa de outro mundo, mas debaixo de chuva a situação muda de figura. Mas o Dema não desiste fácil e logo se agarrou num arbusto mais acima, se pendurou na rocha e se esgueirou por dentro de um buraco por debaixo de uma rocha e atingiu o ponto em que desejávamos chegar. Com o Dema já alojado acima, auxiliei o Fábio na subida, explicando pra ele por onde subir e quando ele também se juntou ao outro, me disse : -" Divanei fica aí embaixo para nos auxiliar na descida porque estamos sem corda e com esse terreno escorregadio, talvez seja necessário alguém para nos indicar onde será melhor apoiarmos os pés". O Fábio era o cara que iria comandar aquela escalada e era óbvio que eu iria aceitar as suas indicações, mas fiquei ali na metade daquela fenda me descabelando de ansiedade e torcendo para os dois conseguirem fazer uma análise daquela parede e dar o aval para que todos pudessem subir. Ficaram uma meia hora por lá analisando, mas para mim foi uma eternidade. Segundo eles, não se tratava de uma escalada tão difícil, mas o único ponto de fixação de costura estava a uns 15 metros de altura e como a rocha estava toda babada, a chance de alguém despencar abismo abaixo, era realmente grande. Parecia que realmente não havia nada a fazer, porque logo a chuva apertou de vez. Diante disso, os dois voltaram e se valendo do meu ombro, voltaram ao platô intermediário e depois descemos quase que escorregando na fenda abaixo e nos juntamos de novo ao grupo, que não arredaram o pé de onde estavam. Bom a escalada final do Dedo de Deus Paulista ficaria para uma próxima oportunidade, havíamos sidos barrados por uma parede de uns 30 metros, mas por fim, havíamos cumprido com a missão a qual nos propusemos realizar, a rota estava estabelecida. Eu e o Dema até havíamos conversado sobre a possibilidade de ficarmos acampados ali na base da pedra para esperar que fossemos agraciados com umas três horas de sol que pudesse secar a parede e nos desse a oportunidade de irmos ao cume, mas como parte do grupo já estava mesmo a fim de voltar, nem colocamos essa nossa posição em discussão, ainda bem, porque o tempo se encarregaria de mostrar que eles estavam certos. Demos às costa para aquela montanha lendária e nos valendo do rastro que havíamos deixado na vinda, fomos voltando rapidamente, desta vez me pus a trás e fui amarrando algumas fitas zebradas para marcar o caminho no caso de uma próxima expedição. Não deu nem 40 minutos já estávamos de volta às barracas e enquanto o Dema desmontava tudo, tratei logo de preparar um belo almoço com a água que se acumulou no toldo, mesmo porque a chuva teimava em não cessar. Enquanto almoçávamos rolou uma discussão se devêramos voltar e mesmo noite adentro, terminar a caminhada no mesmo dia para voltarmos para casa. Eu já me coloquei logo contra, mesmo porque ainda tínhamos um dia inteiro para nos divertirmos naquela trip, opinião essa que foi seguida prontamente pela Vivi e o Fábio, o Dema estava comigo e não iria abandonar uma bela noite de bate papo no Abrigo do Boa Vista por nada. No fim ficou mesmo decidido que faríamos uma grande confraternização a noite, com direito a fogueira e tudo. Desmontamos tudo e partimos. Decidimos que iríamos seguir agora toda a crista até ela acabar e só depois tomaríamos o rumo do Vale Verde. Foi o que fizemos, nos enfiamos no mato e fomos caminhando por onde achávamos que o terreno estaria mais desimpedido, as vezes parecia estarmos caminhando sobre uma trilha, mas logo em seguida estávamos mesmo era enroscados numa floresta fechada. Nesta parte da caminhada me fazia companhia à frente, ajudando no vara mato, o Trovo e ao passarmos por uma árvore com uma enorme fenda onde parecia um abrigo de animais de grande porte, o Trovo deu um grito, fazendo menção de que o animal estaria deitado ali, foi quando olhamos para trás e vimos que o matemático do grupo havia conseguido escalar o Dedo de Deus sem corda, oooooo bicho medroso, ( rsrsrssrsr) . Seguimos enfrente, sendo sempre orientados pelo Fábio, que ia nos indicando a melhor direção para não nos distanciarmos do caminho, que naquele momento, seria a bica de água. Começamos novamente a subir e quando fomos parar no meio de uma floresta de bambu, foi que notamos que aquele caminho era o pior que poderíamos seguir, porque o GPS te indica a direção, mas não te fala que demônio de vegetação você vai enfrentar pela frente. Resolvemos nos desviar um pouco para esquerda para abandonarmos de vez aquela quiçaça e logo demos de cara com fenda de pedras, feito um leito de rio. Tentamos atravessar mais acima mas diante da dificuldade, escorregamos para transpor mais abaixo e mais alguns minutos estávamos de volta ao ponto de água que havíamos encontrado na ida. Gastamos pouco mais de uma hora desde o nosso acampamento até o ponto de água, um tempo espetacularmente rápido para a volta. Abastecemos os cantis e desta vez fiz questão de ficar atrás para marcar bem a trilha com as fitas zebradas e logo à frente, percebemos que a tal trilha que poderia nos levar para o tal ponto da última água, poderia ser ali naquela bifurcação, mas agora para nós pouco importava, já havíamos estabelecido outra rota, outro caminho. Voltamos muito rápido porque desta vez não havia mais nenhuma vegetação para nos barrar e quando algum empecilho aparecia, o Loures e o Ligado tratavam logo de exterminar com eles, se valendo das suas armas cortantes. Meia hora foi o que levamos para ir da água até o Vale Verde e do Vale verde até o topo do Boa Vista, mais uma hora. Sem perder tempo, escorregamos como deu e alguns se fuderam na descida, até novamente estarmos de volta antes das 18:00 ao abrigo do Boa Vista, junto a Torre. A chuva não dava trégua. Nos alojamos no abrigo de metal em forma de iglu e dividimos a tarefa de deixá-lo mais habitável, fazendo uma faxina geral. Alguns foram recolher madeira da casa em ruínas para a fogueira, que pretendíamos fazer para secar nossas coisas, principalmente os sacos de dormir do grupo que acampou com rede e que estavam totalmente encharcados. Sem perder muito tempo já me pus a preparar o jantar, dessalgando a carne seca e descascando as batatas. A Vivi e o Fábio montaram sua barraquinha em um canto do abrigo, o Dema pegou a madeira excedente e fez uma cama improvisada, já que ele viu o Rodrigo Ligado montando sua rede encima de onde pretendíamos estender nossos sacos de dormir e segundo o matemático, não ia correr o risco de ser amassado, já que o Ligado costuma cair muito da rede durante a noite e não deu nem cinco minutos, lá estava o Ligado e o Loures se esborrachando no chão. É , esse Dema entende bem desse negócio de força da gravidade, bem que ele avisou que os caras iam cair, ( rsrsrsrsrs). Realmente ter passado a noite ali no abrigo foi o melhor que poderíamos fazer. Foi a deixa para colocarmos o papo em dia à beira da fogueira. Foi muito bom para podermos conhecer melhor a Vivi e o Fábio, com quem tínhamos amizade a vários anos, mas por coisas do destino, nunca havia calhado de fazermos uma trip juntos. Outro que conhecíamos a algum tempo era o Rodrigo Ligado, mas a única vez que tentamos caminhar com ele, quis o destino que a trip fosse interrompida logo nas primeiras horas de caminhada por causa de um acidente com um dos integrantes. Como não poderia deixar de ser, os novos companheiros de aventura não nos decepcionaram, a Vivi , o Fábio e o Ligado, deram um show na trilha, sempre prontos à avançar, em nenhum momento reclamaram de nada e estavam sempre prontos para assumir o papel de personagem principal quando o bicho pegava. Já o Dema, o Loures e o Trovo, esses aí dispensam qualquer comentário, parcerassos de roubadas e perrengues memoráveis, são os caras que mantém a faca nos dentes, prontos pra seguir caminhos onde outros tem medo de olhar até pelo mapa. Foi uma confraternização daquelas, regados a muita comida, papo furado, conversa pra boi dormir e narrativas de aventuras memoráveis, já que o grupo confinado ali naquele minúsculo espaço, já tinha idade´para fazer Matuzalem parecer um adolescente. Eram gente velha, mas alguns resolveram voltar ainda mais no tempo, a tal ponto de uns caras começarem a catar carrapatos uns nos outros e como comentou a Vivi, pareciam babuínos numa caverna e como eu me recusava a ficar assistindo aquela cena dantesca, me recolhi ao meu saco de dormir e apaguei . O amanhecer no iglu é um amanhecer lento e preguiçoso. Lá fora a chuva não cessava. Com calma e sem maiores atropelos, desmontamos tudo, tomamos café e partimos somente lá pelas 11 horas da manhã. Foi uma volta tranquila e surpreendentemente rápida, gastamos menos de 2 horas do Boa Vista até a escola abandonada e sem perder muito tempo, já passamos pelas pontes e desembocamos na estrada do Despraiado. Estávamos finalmente de volta à civilização, para trás ficaram um mundo selvagem, um mundo ainda totalmente preservado onde quase todos os bichos desfilam livremente, um mundo de florestas e montanhas exuberantes. Valeu a pena cada minuto passado naquela lugar, valeu a pena ter passado horas e horas debruçado sobre mapas, se dedicando a pesquisas, consultando nativos,esmiuçando mapas topográficos e mapas de satélite e desvendando curvas de nível. Valeu a pena ter escolhido a dedo um grupo que se não são os melhores, com certeza estão entre os melhores exploradores e companheiros de aventura que poderíamos ter encontrado. Fomos lá e realizamos o que havíamos proposto a fazer, reencontramos o caminho para a LENDÁRIA E ESQUECIDA montanha que atende pelo nome de DEDO DE DEUS PAULISTA . Divanei Goes de Paula - novembro/2015
  15. Esboço do mapa desta travessia : http://pt.wikiloc.com/wikiloc/spatialArtifacts.do?event=setCurrentSpatialArtifact&id=11560138
  16. Esboço do mapa desta travessia ; http://pt.wikiloc.com/wikiloc/spatialArtifacts.do?event=setCurrentSpatialArtifact&id=11552564
  17. Um esboço desta travessia : http://pt.wikiloc.com/wikiloc/spatialArtifacts.do?event=setCurrentSpatialArtifact&id=11552183
  18. Evelin, É sempre um prazer compartilhar , infelizmente não tenho o dom que outros tem para usar a nossa língua, mas escrevo para gente como eu, usando a linguagem de quem está envolvido na aventura. Abraços.
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