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davicaetano

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  • Data de Nascimento 23-04-1983

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  1. Olá. Estou postando abaixo o relato de parte da minha viagem pela América Latina. Saí de casa em 21 de dezembro de 2010 e voltei em 3 de março de 2011. Fui de moto, uma Tornado 250cc. Passei por Chile, onde fiz trabalho vountário e Argentina, onde escalei um monte de montanhas nos Andes. Aos poucos vou escrevendo as histórias e colocando aqui. Tenho também um blog, onde tem umas outras histórias de viagens pra Bolívia e uns rolês nos Brasil também. O endereço é http://naturedrunk.blogspot.com Espero que gostem. --- Depois de escalar no Cordón del Plata decidi ir para o Mercedário. As medições de altitude na América não são muito padronizadas e por isso não há um concenso sobre sua altitude. O que é certo é que está entre os dez maiores cumes do continente, versando em quarto lugar em alguns deles. Muitas pessoas no próprio Plata me advertiram sobre os riscos de uma escalada sozinho por ali, pois o local era inóspito e provavelmente eu não encontraria ninguém nos dias em que estivesse na montanha. Porém, antes de chegar a montanha era necessário passar pela cidade. Então Barreal era meu objetivo. Entre os dois caminhos possíveis eu optei pelo mais longo, que passa por San Juan e dá uma volta tremenda. Mesmo assim peguei estradas horríveis, com muita pedra no asfalto, que me faziam imaginar que a alternativa mais curta deveria ser realmente intransitável. Mais tarde descobri que um rio atravessa esse atalho e por aqueles dias estava bem cheio, algo como até metade da porta de uma cabine dupla. Barreal é uma cidade tão pequena que passei por ela sem querer e tive que voltar. Perguntei para alguns cidadãos onde tinha um camping, mas meu GPS tinha um ponto que me chamou a atenção: camping barato. Fui direto pra lá. O camping tinha chuveiro quente, piscina e custava cerca de 2 reais a diária. Era esse mesmo. Logo na chegada o responsável pelo camping pediu pra tirar uma foto comigo, fez uma grande festa, me pediu pra assinar o livro de presenças, onde parecia que só gringos assinavam. Eu era uma presença ilustre no local. Fui pro centro comprar o que precisava pensando em ir pra montanha no dia seguinte. Estava bem aclimatado e bem disposto e além de tudo o tempo estava bom, coisa que por esses lados não é de se desperdiçar. Mas Barreal era tão bonito, com um lindo céu, e a piscina tão gostosa que acabei ficando três dias. Claro que o camping barato me motivou a ficar por lá. Quando já estava com tudo arrumado pra ir pra montanha, fui pagar o camping e o responsável se recusou a cobrar. Disse que ficava pela foto. Eu fiquei desconsertado com tanta gentileza. Eu havia sido muito bem tratado na cidade, no camping, em todos os lugares e o cara não ia nem me cobrar por ter ficado no camping. Eu pensava sobre a rivalidade entre argentinos e brasileiros e não acreditava naquilo. Então, na minha insistência em pagar ele disse que aceitava ao invés do pagamento uma pedra do cume do Mercedário. Aceitei o desafio e parti pra montanha. Eu esperava que o caminho tivesse um pouco de asfalto e depois um pouco de terra, mas não foi bem assim. Logo na saída da cidade já é preciso entrar a direita e é só chão de terra. Aliás, não é chão de terra, mas chão de pedra. A base da estrada ali era pedras um pouco maiores que brita comum, com areia. Muito traiçoeiro. Eu, como não queria de jeito nenhum cair, fui a vinte por hora. De moto a uns três ou quatro mil quilómetros de casa tudo que não poderia acontecer era um osso quebrado. Estragaria a escalada. Eu estava com um par de alforges bem cheios e a mochila nas costas, que ia apoiada no banco do garupa, mas o que a impedia de cair era que estava presa em mim. Na estrada de asfalto tudo bem, mas ali ficava horrível. Eu fiz então uma conta de padaria e vi que teria 70 quilómetros pela frente. Na velocidade que eu estava demoraria muito tempo. E aquela parte, segundo relatos, era a mais fácil. Comecei a acelerar e percebi que tinha uma velocidade, trinta e sete quilómetros por hora, que era meu máximo. Eu queria ir mais rápido, mas sempre que olhava para o velocimentro aquele número me acompanhava. Então, não sei de onde, baixou um piloto do rali Dakar em mim. Meti setenta num retão que deu medo. Mas logo percebi que o medo era a única coisa que me impedia de seguir rápido. Em estrada de terra eu sempre fui com muita cautela, que na verdade era um medo, agora superado. E não é que deixei aquela tensão do começo que deixava meus braços duros para trás. Então vieram as curvas. É claro que eu ia curtindo tudo. A paisagem. O riozinho. A pedra grande sobre a pedra pequena que me fazia perguntar "Quem colocou ela ali?". Tudo. Cheguei na sede de uma mineradora da região, que tinha uma cancela onde era preciso parar para se registrar. Havia uma placa que autorizava somente a pasagem de veículos com tração nas quatro rodas. Mas o meu veículo sequer tinha quatro rodas. Fiquei com medo de ser barrado e fiz tudo o que precisava falando o menos possível. Passei. Depois da mina havia uma ponte que nunca vi igual. Não parecia, a vista, perigosa. Mas era. As madeiras que formavam o assoalho pareciam estar soltas e a cada centímetro avançado pela roda eu tinha certeza que ia cair tudo. Quando terminei de passar, parei a moto e olhei para trás, como quem não acredita que está do outro lado. Mal sabia eu que aquela era a parte fácil. Depois da mina a estrada não ficava mais difícil, mas traiçoeira. Um monte de areia aqui, uma pedras ali. Outra vez uns cavalos na pista. Eu seguia com cuidado, sem no entando imaginar o que me esperava. Se me avisassem em Barreal o que estava por vir eu não teria seguido. Se me avisassem na sede da mina o que estava por vir eu teria voltado. Leio entçao uma placa que falava sobre o perigo do nível do rio nos dias de cheia. Então eis que me deparo com um rio, só que sem ponte. Desci da moto, coloquei a mochila de lado e me desesperei. Subi num monte de pedras a direita, olhei pra cima e pra baixo: nada de ponte. O nível nem era tão alto, a primeira vista, mas a correnteza estava forte. Então, como alguém que sabia o que estava fazendo, peguei uma pedra, grande, e atirei ao rio para tentar ver se era fundo. Ao invés da pedra ir para o fundo do rio foi levada pela correnteza. Ali, onde eu estava, não dava pra voltar. Então apertei bem a mochila, subi na moto e entrei de frente. A correnteza, quando bateu na moto, subiu e me molhou inteiro. Isso inclui bota, que é impermeável a não ser que voce entre num rio com ela. Eu só lembrei quando já estava do outro lado com muita água. Nem parei pra secar, segui ao meu objetivo. Eu não sabia, mas como aquele ainda haveria mais sete rios pra atravessar. Na verdade era apenas apenas um rio e não era ela que cruzava, mas era cruzado pela estrada, forçada pela geografia acidentada do local. Porque até antes do rio o caminho não tinha tanta inclinação e depois ficou bastante difícil passar da segunda marcha. A altitude não possibilitava minha moto de duzentas e cinquenta cilindradas funcionar corretamente e houve alguns momentos que altitude, inclinação e solo me inpediram de prosseguir. Então tive que descer, deixar a mochila num canto e, desmontado da Manu (o nome da minha moto), ajudar o motor empurrando ela pra cima. Depois que cruzei o riacho pela última vez avistei o abrigo. Ou pelo menos o que sobrou dele, já que era uma casa abandonada que, se fosse em São Paulo, estaria dominada por mendigos e crackeiros. Eu fiquei particulamente com medo de deixar minha moto ali e sair pra não sei quantos dias de escalada, mas logo achei um ferro chumbado no chão e a prendi. A segurança era apenas psicológica, mas me permitiria partir em direção ao primeiro acampamento. Quando eu estava saindo chegaram quatro muleiros que me disseram que não havia problemas em deixar a moto ali, que era seguro. Pensei ainda que se eles fossem me roubar não me diriam algo diferente, mas mesmo assim parti. Eu havia copiado um planejamento do Don Mercedário, um guia que faz a expedição em dezessete dias, e o trajeto que eu estava fazendo deveria demorar seis horas. Saí de Laguna Blanca com uma papete e a bota pindurada na mochila, esperando que secasse. Depois de quinze minutos sofrendo com as pedras pelo caminho, decidi colocá-la, mesmo molhada. Cheguei então em Guanaquitos, o primeiro acampamento. Havia ali quatro pessoas e eu estava um tanto cansado, não sei se pelo ritmo rápido com que subi ou se pelo caminho feito de moto. Pensei por um instante em seguir para o próximo acampamento, mas fiquei por ali. Montei minha barraca e fui papear com os hermanos. Havia um deles, o Aníbal, que vivia no Brasil há alguns anos, trabalhando como fotógrafo. Ele ficava entre falar espanhol porque estava com os amigos e falar português porque estava falando comigo. No fim das contas nos entendemos. O grupo tinha muita coisa, tendo contado inclusive com o apoio de mulas. O porém é que dali pra frente iam ter que ficar porteando coisas, o que na minha opinião era desnecessário. Eu penso que se levar comida pra quinze dias, vou ter que ficar quinze dias, porque dá muito trabalho carregar tudo pra cima. Na verdade aquele seria o meu sexto cume em alta montanha e eu nunca levava nada que não pudesse levar numa mochila. Mas eles queriam, na verdade, passar mais tempo na montanha. Eles tinham caixas cheias de coisas, e na noite em que passamos juntos pude comer macarrão com molho de brócolis junto deles. Claro, usando a tática do Davi Marski de aceitar tudo que me ofereciam. Foram uma companhia bastante agradável. No dia seguinte acordei tarde e não fiz nada a manhã toda. Decidi, talvez na onda dos argentinos, curtir a montanha. O sol ali era gostoso e fiquei um tempo sobre uma pedra tentando terminar um cubo mágico que tinha levado para me distrair. É claro que não consegui. Os quatro foram portear coisas pra um acampamento chamado Piedras Coloradas enquanto eu cozinhava meu café da manhã meio-dia. Depois de enrolar muito minha ansiedade me forçou a desmontar acampamento e subir. Já eram duas horas quando saí e queria chegar até um acampamento chamado Salto de Água. Porém, como andei rápido, em tres horas cheguei num outro acampamento mais acima, o Cuesta Blanca. Esse acampamento parecia um beco sem saída. O tres lados, com excessão de onde vim, tinham paredes gigantes. Eu não imaginava como ia prosseguir com uma cargueira bem pesada dali. Fui dar uma chacada no local e achei um pacote de macarrão e um de arroz. Os dois de qualidade, com molho em pó. O macarrão foi meu jantar e o arroz ficou pra uma emergência. Acho que os deuses da montanha tinham gostado de mim e até me davam oferendas. Ou seria uma isca? Dormi ali e só acordei no dia seguinte com o sol me fritando dentro da barraca. Levantei tudo muito rápido e subi morro acima. O pior nesse dia foi começar subindo uma inclinação muito grande. Não pude nem aquecer e já estava no limite do esforço. Mas eu me sentia forte e o tempo estava ao meu favor. Desde que eu havia chegado à montanha o tempo estava muito bom e eu me sentia um privilegiado. Seria uma peça que a montanha estaria pregando em mim ou eu era mesmo um cara de sorte? Eu tinha comigo um relato do Marcelo Delvaux que um ano antes havia tentado escalar a mesma montanha. Após alguns dias de tempo bom pegou uma nevasca de quatro dias e acabou voltando pra casa sem o cume. Sabia que quando o tempo virasse seria por um bom tempo e o cubo mágico não seria capaz de me entreter por mais que um ou dois dias, por isso meu planejando era chegar em Pirca de Índios, a 5100m, e de lá sair para o cume na madrugada seguinte e para isso eu não podia tardar na caminhada. Mais uma vez a programação que eu seguia previa seis horas, mas a custo de qual esforço eu chegaria na metade do tempo? Então ao meio-dia cheguei ao acampamento e para minha surpresa havia ali dois alemães. De onde raios eles tinham saído? Soube que eles estavam por ali há duas semanas e no dia anterior teriam feito um ataque ao cume sem sucesso. Chegaram até 6400m e voltaram. Eu os disse que naquela altitude era mais difícil descer do que subir, mas eles me disseram que tinham filhos esperando por eles. Cada um dá a justificativa que acha conveniente. De repente eles trocaram algumas palavras no idioma nativo e me disseram que estavam descendo, não sei se incomodados com a minha presença. Melhor pra mim, que ficava com um bom lugar para armar a barraca. Cozinhei alguma coisa pra comer, que ficou bastante gostosa e me deu calorias para o dia seguinte. Eu sabia que dali pra frente ficaria difícil comer qualquer coisa por isso era importante que aquela refeição fosse pesada. A diferença de altura pro cume era de cerca de 1600m, tal qual o Cerro Plata. Porém esse cume estava quase 800m acima do nível dos 6000m. Pode até parecer exotérico, mas essa barreira é importante. Acima desse nível o frio, a falta de oxigênio e os ventos tornam qualquer escalada muito difícil. Eu ainda não sabia disso e estava encarando tudo como se fosse mais um Cerro Plata. Aquele final de tarde na motanha foi inesquecível. Eu sabia que de todos os possíveis lugares no mundo era exatamente ali que eu deveria estar. A solidão não me aplacou em nenhum momento e eu acabei fazendo uma cadeira de praia com pedras onde pude tomar os últimos raios de sol na pele sem camiseta. Não sei se o sol era forte, o vento fraco ou se minha alegria emanava calor. Eu coloquei as músicas do MP3 modo aleatório e fui surpreendido por uma canção. No Chile, enquanto fazia trabalho voluntário, um amigo quis trocar umas música comigo. Eu passei Los Hermanos, Arnaldo Antunes e Engenheiros do Hawaii. Em troca ganhei Pedro Guerra, Jorge Drexler e Fito Páez. Então começou a tocar uma música que eu não conhecia mas que me arrancou lágrimas naqueles instantes felizes. quizá una canción de amor quizá una historia de piratas quizá el recuerdo de un dolor quizá la ilusión de Dios quizá un sonido de campanas quizá un recado una oración quizá sea el lobo feroz una escalera de palabras la leve estría de un temblor quizá sólo un resplandor el llanto seco de la rabia quizá sea un sueño de pasión http://www.youtube.com/watch?v=4RpEpPWKg2k Então o sol se escondeu atrás das motanhas me deixando no frio. Quase como um reflexo eu levantei para ver quem tinha tapado a luz. Quando percebi o que tnh acontecido corri para o lado oposto, onde a sombra ainda não havia chegado num gesto ridículo, impulsionado pelo momento de alegria. Tão qual o sol se punha o frio chegava. Naquela altitude não dava pra ficar muito tempo fora da barraca e fui tentar dormir para o dia que viria. Coloquei o relógio pra despertar às duas da manhã mas mal pude dormir. Dia de cume pra mim é assim, sem dormir sem comer, alimentado pela adrenalina correndo nas veias. Bastante tempo depois consegui um cochilo mas às oito da noite acordei e saí da barraca pra ver como o tempo estava. E levei um susto. O que vi não só estragava mas planos mas era por si só assustador. O local onde eu estava acampado era, assim como o do dia anterior, um beco. Tres paredes bem altas definiam claramente aquele espaço e livre apenas a direção por onde cheguei. Naquela noite então um neblina baixou no local, que era enorme, e o fez parecer um imenso e tenebroso ginásio. Parecia filme de terror. Eu olhei para os lados sem entender e não estranharia se de repente passasse por ali o cavaleiro sem cabeça. Entrei na barraca triste por ter a tentativa de cume tão prematuramente estragada. Já pensava no pior e me arrependia de ter passado tantos dias no camping com piscina em Barreal quando caí no sono. Acordei despertado pelo relógio e apenas tirei a cabeça para fora da barraca para conferir se já havia começado a nevasca que na minha cabeça era inevitável. Para minha surpresa vi um céu cheio de estrelas. Fechei a barraca e enquanto me vestia cantava uma musiquinha ridicula "Vai ter cume, vai ter cume". Saí da barraca e enquanto a água pro café fervia coloquei as botas. Tudo pronto. Pão com Nutella pra motivar e motanha acima. O caminho já começava penoso e meu desafio era ir devagar. Eu sabia o que me esperava e ir rápido só me desgastaria. O caminho parecia bem demarcado e resolvi nem ligar o GPS. Depois de meia hora andando o liguei para ver que estava indo pro lugar totalmente errado. A trilha era tão gostosa que dava vontade de continuar indo pro lugar errado. Já o caminho certo era naquelas subidas dois passos pra frente e um pra trás. E, nesse tipo de caminho não há como ir devagar, isso me deixava nervoso. Vencido a subida inicial o caminho ficava bem plano por bastante tempo, até chegar no pé dos Dientes. Claro, eu não conseguia enxergar nada na noite, mas por ter voltado com luz do dia, sei que a subida era forte. Até então eu já tinha andado bastande, cerca de quatro horas, num ritmo mais tranquilo. Eram cerca de seis da manhã e eu sentia muito frio. Aliás, durante todo o caminho o vento era meu companheiro. Com relação ao corpo, não sentia frio nenhum. Já as luvas não são muito boas e comecei a perder a sensibilidade das mãos. Fiz aqueles movimentos básicos, mas a perda de sensibilidade foi se repetindo e comecei a ficar com medo. Faltava pouco tempo pro sol nascer e decidi me esconder do vento atrás de uma rocha até que o sol nascesse. Foi uma boa estratégia e o frio deu uma trégua. Porém, às oito da manhã eu nem havia chegado aos 6100m esperados e estava bastante desgastado pela subida. Me dei conta que eu havia andando muito nos tres dias anteriores e não havia descansado nenhum dia antes de partir para o cume. Na gana por pegar tempo bom eu superestimei meu preparo físico ao mesmo tempo que subestimei a quarta maior montanha das Américas. Eu estava mentalmente desgastado e já pensava em desisitir. Mas, como estava tão perto dos Dientes eu queria só chegar até lá. Cheguei em Dientes e procurei uma pedra boa pra sentar. Pensei em voltar com o rabo entre as pernas, mas nao sem antes descansar bastante. Eu tinha que fazer uma curva pra esquerda e tinha uma pedra boa mais pra la onde poderia descansar melhor. Ali comecava a neve. Tinha um negócio que as pessoas chamam de passo, que e como uma parte mais baixa numa crista, por onde se consegue passar sem ser necessário uma subida íngreme. Nesse passo tinha neve que caia em uma canaleta de uns 600m. Coisa de "cair, morreu", mas bem simples de passar. Eu sou um montanhista previnido e sempre estou com o piolet. Estava na mochila e tirei, pois até admito morrer numa escalada, mas nao por cair numa canaleta com o piolet na mochila. O piolet, nesse caso, serviria pra auto-detenção. Se eu começar a escorregar enfio a ponta dele na neve e freio minha queda. Simples. Nem precisei de nada disso, atravessei na boa a neve dura. Porem, na subida comecei a usar o piolet em outra função: piolet bastão. Meu piolet tem 80cm e numa subida vou usando pra apoiar. Nesse caso o piolet vai me acompanhando o tempo todo, e apesar de o caminho ser na maior parte com rochas, me sinto seguro nas partes com neve. Abaixo dessa pendente, uns 200 metros, havia um glaciar gigante. Pra sair dali depois de cair seria um problema. Porem o piolet bastão acabou se tornando um aliado muito forte e comecei a subir com mais facilidade. O cume voltou a minha cabeça. Afinal, faltava apenas 700 metros verticais. A verdade e que dali pra frente a coisa foi feia. Eu pensei muito em desisitir. Os falsos cumes vão minando todo o moral aos poucos. A ilusões de óptica ali mudam tudo muito rápido: primeiro parece perto, depois longe. Eu seguia mais parando pra respirar do que andando. O vento castigava e ainda assim eu ainda seguia. No GPS havia um ponto chamado "col", com 6400m, a partir de onde eu pensava que seria impossível desisisir. Quando cheguei, olhei mais a frente e vi algo que só poderia ser o cume. Fiquei tão feliz. Nem olhei mais pro GPS. Foi aquele último esforço. Eu rastejava. Cada passo era minúsculo, só não poderia parar. Então quando estou quase no cume, olho no GPS: 6450m. Cara, eu andei tanto e não tinha subido nada? Assim são os falsos cumes. Eu subia de dez em dez minutos e minha ansiedade me fazia olhar pro altímetro. Sempre que olhava não estava mais que 30m da checada anterior. Aquilo foi me minando, mas eu não podia mais desistir. De repente, no céu azul começou a surgir nuvens que vinham do nada. Sim, eu podia ver que vinham do nada. Elas se formavam à direita, acima do glaciar, do nada. Não eram nuvens, mas neblina. Mas o vento era tão forte que fazia elas passarem por cima de mim direto. Quando se tornaram mais fortes, parei e achei que seria o bode expiatório perfeito para minha desistência. O melhor a fazer era descansar: se as nuvens parassem eu continuaria. Mas o desncando forçado pelo medo me fez ficar com vontade de continuar. E lembrei do que o Augustín, que fez cume comigo no Plata disse: "¡Passa nada!". Algo do tipo "Não pega nada" no Brasil. E segui em frente, entre o medo de ser notícia no Brasil (Brasileiro desaparece no Mercedário) e o "¡Passa nada!" que surgia na minha cabeça quando olhava para o céu Eu poderia passar horas escrevendo mas não consigo dizer o quando foi difícil chegar até os 6600m. Ali a coisa ficou feia mesmo. Além da névoa que continuava a surgir do nada o vento ficou com uns 50 km/h e eu não podia mais seguir. Sentei na neve e pensei no que fazer enquanto comecou a nevar. Eu nunca tinha visto um clima tão ruim na montanha e temi pela minha vida. Não havia o que fazer e disistir era realmente a melhor decisão. Mas que inferno, tão perto do cume não poderia ser. Então veio uma grande ideia na minha cabeça: vai sem mochila! Tirei a mochila e a coloquei no chão. Dei um passo e o vento levou ela uns 2 metros em direção à face sul. Merda. Coloquei umas vinte pedras sobre ela e continuei. Por alguns metros. Pensei que, se o vento levasse ela eu estava perdido. Sem lanterna, a pilha do GPS acabando e a reserva na mochila, sem água. Voltei e a mochila estava lá, intacta. Tirei o crampon e deixei sobre ela pra poder ir mais rápido e segui, pensando que se a mochila voasse eu estava perdido. Morto. Corri até o cume. Piolet na mão direita e GPS na esquerda. Cheguei ao cume. Parabéns. Felecitaciones. Marquei a posição no GPS e voltei. Não fiquei mais que dez segundos. Era o que dava. Voltei. A mochila ainda estava intacta. Ufa. Estou vivo. Agora é só voltar. Só voltar? Eu andava dez minutos e parava onde quer que fosse: neve, pedra, ribanceira. Dizia a mim mesmo: preciso de um descansinho. Eu estava a ponto da exaustão. Tinha real medo de desligar a qualquer momento. Sei lá, as pernas poderiam parar. Eu sentia que iam. Eu tinha ido muito além do que podia. Muito além. Aquele cume tinha sido sofrido. Eu pensava na burrisse de não ter descansado um dia. Mas sorria. Se tivesse que tomar a decisão denovo não esperaria mais um dia. Na descida o mal tempo ficou pra trás. Aconteceu um fenomeno bastante bonito. No glaciar, agora a minha esquerda, estava lá a neve branquinha. Então as nuvens de neblina, que nem são muito espessas, deixam um pouco do sol passar. E aquilo ia acontecendo sobre o glaciar, que parecia que tinha um movimento. Na verdade parecia um mar, não um glaciar. E eu ia ali, andando, decendo, olhando aquele mar ao lado. E sempre parando. Quando parava, olhava alguma pedra bem distante e percebia que estava se movimentando. Eu me senatava, apoiava os braços sobre os joelhos e fazia como um binóculos com as mãos, para ver se a pedra se movia mesmo. Mas o vento me tirava a firmeza e tudo parecia ter movimento. E pensava que era alguém subindo, ou um animal. Na verdade eu estava cansado e com apoxia. E tudo ficava engraçado. Tudo. Eu olhava pra esquerda e pensava em mergulhar no mar. Não sei como desci. Foi difícil. Mas depois que vi a barraca bem longe tive certeza que estava a salvo. Não comi nem nada dormi. Ah, um cume. Apenas quatro dias. Um cume. No dia seguinte só consegui descer após o almoço. Eu estava muito cansado. Levei para ler um livro do Cesar Perez de Tudela, chamado Cinco Montanhas Solo, que foi bastante inspirador. O autor chegou a andar perdido por sete dias no Aconcágua. Foi dado como morto e, depois de resgatado chegou a ver uma plata com seu nome feita para ser colocada no cemitério dos andinistas. Eu me perguntava de onde seria possível tirar tanta força para andar por tanto tempo, mas começava a entender o quanto o mental influencia na escalada. Na descida encontrei meus amigos argentinos, que estavam acampado em Salto, o suposto segundo acampamento, que pulei. Eles me perguntaram um monte de coisas, me parabenizaram e fui embora. Durante toda essa viagem, que durou mais de dois meses, conheci muitas pessoas. Nesse ponto da viagem por mais que conhecesse pessoas muito legais não fazia mais questão de pegar e-mails ou guardar nomes, pois sabia que aqueles momentos devem durar apenas o necessário. Continuei descendo. No final do dia cheguei ao abrigo Laguna Blanca e para minha felicidade a Manu estava lá. Sim, minha motocicleta, intacta. Aliás, eu tinha deixado umas coisas mal presas no banco dela e esperava que pudessem ser roubadas, mas ao invés disso estavam fixadas com um arame. Ao invés de me subtrairem, se preocuparam em deixar minhas coisas melhor presas. Eu fiquei surpreso com aquilo. Encontrei também os dois alemães, que me parabenizaram pelo cume. Eles esperariam até o dia seguinte quando o transporte deles chegaria. Já eu, por mais que estivesse sedento por um banho e comida de verdade, pensei bastante e decidi passar a noite ali. Não estava escuro e creio que eu chegaria ainda com a luz do dia em Barreal, mas o que me impedia eram os níveis dos rios. Durante o dia o sol atinge os glaciares e derrete a neve, o que aumenta o nível dos rios. Por isso o mais indicado seria fazer a travessia de manhã. Foi o que fiz. O restante ainda foi divertido. Atravessar oito rios novamente. Acabar a gasolina na estrada de terra. Encontrar um francês que vinha andando de Puente del Inca. E ainda, no camping, logo que vi o dono lembrei da pedra que deveria ter pego no cume. Mas como pedras são todas iguais meu amigo não ficou sem seu souvenir. Só fiquei com um pouco de ressentimento quando ele pediu que eu autografasse um papel que guardaria com a pedra. mais uma vez não cobrou minha estadia e insistiu para que eu voltasse no próximo ano. Sendo assim tão bem tratado não posso crer nessa tal rivalidade com os hermanos. Alguns dias depois segui para Fiambalá, a cidade dos maiores vulcões do mundo. Ali se encontram seis das dez maiores montanhas das Américas. Novamente sozinho, apenas com o que podia carregar iria encarar colossais montanhas de rocha e gelo. Mas isso fica para um próximo relato...
  2. Morte na montanha Acordei bem cedo e fui tomar café da manhã. Já com minha grande mochilas às costas, fechei a conta e fui a porta do hotel. O sol estava longe de dar as caras e as ruas, mesmo no centro de La Paz, são tenebrosas durante a madrugada. Eu precisava encontrar um taxi com antena e barato. Com antena, pois havia descoberto que é mais difícil pegar um taxi falso tendo ele antena de rádio. Já estava há alguns dias na Bolívia quando decidi que era hora de escalar. A escalada em alta montanha exige aclimatação e eu tinha passado alguns dias andando pela Ilha do Sol, mas ainda não era o suficiente. Finalmente parei um carro e pedi que me levasse a Praça Balivian, em El Alto. 50 pesos. No caminho eu pensava em como odiava a situação de ter que esperar por alguém em um lugar público, ainda mais tão cedo. Eu mal lembrava a fisionomia do guia tampouco sabia se era ele mesmo que iria me encontrar. O lugar parecia com a praça da Sé. Montes de pessoas pegando conduções para ir trabalhar e outros montes com cara de que a noite havia sido longa. O motorista do taxi me adverte que seria burrisse eu esperar por alguém ali. Com minha cara de gringo era questão de tempo para que me roubassem. Esperei algum tempo dentro do taxi mas acabei ficando por ali mesmo. Se tudo ocorresse conforme o combinado, o guia logo chegaria. Meu medo era inclusive que ele tivesse sido pontual demais e eu que tivesse atrasado. Mas a pontualidade boliviana é de no mínimo uma hora de atraso. Vem uma garotinha até mim e pergunta se sou o Davi. O pai dela havia pedido para que me encontrasse. Seguimos até sua casa onde encontrei os dois espanhóis que me acompanhariam naquela viagem. Eu seguiria de carona com eles até a ragião do Condoriri. Eles ficariam acampados por alguns dias e depois mudariam o acampamento para poder escalar outras montanhas. Eu iria apenas me aclimatar. Depois voltaria à La Paz e escalar o Huyanna Potosi. Eles tinham umas 6 ou 7 mochilas cheias de equipamentos para tudo e eu nunca havia visto neve. Genaro, o guia, me avisou que eu apenas iria com os espanhóis, pois eles ficariam lá umas duas semanas. Eu deveria voltar de carona com alguém que estivesse por lá. Pelo que ele disse não parecia difícil e, dado que eu estava indo de carona não parecia mal também voltar de carona. A van chegou e eu não demorei muito para embarcar minhas coisas, que se resumiam a minha mochila. Então, para parecer simpático, dei uma ajuda com as coisas dos espanhóis, inclusive, um monte de garrafas de água mineral. No caminho fizemos o usual trajeto saindo de La Paz e indo para o oeste, que se faz para ir ao Huyanna, Chacaltaya, Copacabana ou Ilha do Sol. Mas em determinado momento saímos da estrada de asfalto e pegamos terra. Na Bolívia, nessa época do ano, terra significa muito pó. Daquele que após algum tempo sentimos o gosto na boca. Atravessamos um riacho em que a água fazia esforço para continuar correndo e seguimos algum trecho já podendo visualizar a figura do Condor que dá nome a região. Os espanhóis se animaram, pois era plano deles subir a asa esquerda. No caminho o sol nos castigou, mesmo dentro do carro. O clima ali não é só caracterizado pelo frio, mas pela alta amplitude climática. Eu tentava me adaptar, mas não ligava muito. Quando está frio ponho as roupas para o frio. Sequer uso protetor solar durante os dias muito quentes. Isso me garantia uma bela marca dos óculos escuros, mas que não chamavam atenção desde que continuasse com os óculos escuros. Eu penso no Sol como uma grande fonte de energia, não apenas fisicamente, mas mental também. Não chego a colocá-lo como Deus e sair fazendo oferendas, mas não consigo perceber que ficar exposto por muito tempo sob seus raios vão me causar câncer. E não acho que um creme vá me proteger. Na prática eu digo que protetor solar é para os fracos. Já os espanhóis faziam questão de usar a tecnologia nas suas mais variadas formas para se proteger da natureza. Quando o carro chegou no nosso destino, de onde deveríamos continuar a pé até o campo base, Benja estava com tanto protetor solar que parecia maquiado. Além disso usava também um óculos estranho e um líquido para os olhos, pois ressecavam. Eu apenas observava. Eu não sabia como me comportar no meio dos alpinistas. Aliás, eu não me sentia um alpinista. Eu estava ali como o chachorro que entra na igreja porque a porta estava aberta. Eu não sabia o que tinha ido buscar ali, mas desde que pude olhar aquele horizonte tão grande, as paisagens surreais, as cores que faltam no meu monitor mesmo tendo mais de 65 milhões, eu havia sentido a natureza. Daniel e Benja haviam contratado um muleiro que os deveria estar esperando, mas não cumprira o compromisso. Ah, se ele tivesse um Blackberry. Eu segui o caminho com a minha mochila. No caminho parei várias vezes. As paisagens eram muitos bonitas. A neve, ao contrário do que imaginava não era branca, mas branca, vermelha, púrpura. Eu nem sabia os nomes das cores, mas como estava sozinho não precisava dar nomes as cores. Cheguei finalmente ao acampamento, já cheio de barracas. Vi um lugar que parecia bom e armei a minha. Uma Falcon Nautika de cem reais. Senti um pouco de vergonha no meio de tantas North Faces e Eurekas, mas era o que eu tinha. Ancorei bem, pois mais vergonhoso que uma barraca barata é uma barraca voadora. Cozinhei meu jantar e fui dar uma volta. Como toda região nevada havia as famosas morainas logo ali do lado. Percebi que havia uma coisa se movento um pouco a frente e fiquei com medo. Poderia ser atacado. Depois mais um susto e logo percebi que coelhos e outros roedores faziam toca por ali. Me sentei um pouco e um senhor veio em minha direção e puxou conversa. Era alemão e falava inglês. Eu tentei me comunicar mas os tempos verbais se enrolavam na minha cabeça e logo depois que falava percebia os erros que tinha cometido. O senhor não ligava para os erros e continuou conversando, talvez se esforçando para me entender. Ele era de uma expedição que tinha umas dez barracas montada ali no canto. A maioria dos seus amigos estava escalando o Pequeno Alpamayo naquele momento, mas ele havia ficado por ali, pois estava cansado. Os espanhóis chegaram e fui falar com eles. Eles passaram umas boas horas montando acampamento e a barraca deles parecia realmente difícil de ser armada, mas não aceitaram minha ajuda. Depois me convidaram para um chá, que fizeram dentro da barraca. Havia uma área para cozinhar. Conversamos e eles me perguntaram o que iria fazer no dia seguinte. Eu não havia planejado nada além se dar uma volta e aceitei o convite de subir com eles o Cerro Austria. Era um pico que não tinha neve, apenas uma boa subida para aclimatar-se. Fui dormir, pois havíamos combinado de acordar às 4. Antes fiz um chá e deixei numa garrafa térmica para tomar durante a noite. Até pouco antes de escurecer o clima era bem agradável, mas quando o sol se punha o frio castigava e em poucas horas não havia lugar como dentro do saco de dormir. Cada quilo que tive que carregar no caminho valia a pena durante a noite. Estava alegre em ter sido convidado pelos gringos para subir o Áustria no dia seguinte. Seria um passeio legal. Acodei cedo com tudo dentro da barraca congelado. A água e até a pasta de dente estava dura dentro do tubo. Achei aquilo tudo muito legal. Era escuro e fui com a head lamp até um cano de onde sai água supostamente limpa. Encontrei os espanhóis e logo saímos para o nosso primeiro cume por ali. Eu estava de calça jeans e uma bota bastante permeável. Os caras estavam de bota plástica. Quando vi aquilo pensei que eles esperavam neve no caminho, mas me disseram que era pra se acostumar. Eu estava com bastante medo de não conseguir acompanhá-los pois eles eram bastante experientes escalando nos Alpes, mas foi o contrário que aconteceu. No início demos uma grande pernada sem parar, até por uma questão de motivação, mas acho que isso os cansou. Na primeira parada ficamos mais do que eu gostaria e meu ritmo esfriou. Logo paramos denovo e denovo e assim fomos, parando pelo caminho. Pelo menos as paradas eram agradáveis. Sempre o Daniel dava um jeito de tirar um barato com o Benja. Numa das paradas o Benja aproveitou para retocar o protetor solar no rosto, que já era excessivo. O Daniel lhe disse que era mejor morrer como um hombre do que viver como um maricón. Essa até eu entendi. Em geral eu entendia o que o Daniel falava, já o Benja, que era de uma região basca ou algo assim, a maioiria das vezes eu apenas concordava com a cabeça sem ter a menor noção do que ele dizia. Em outras paradas, era possível avistar o Condoriri. Eles então ficavam um bom tempo olhando e traçando estratégias de escalada, caminhos na montanha longíngua, mas que faziam sentido. As vezes eu soltava alguma pergunta, tentando fazer parte. Algum tempo depois, chegamos ao cume. Comemoramos bastante, pois era o nosso primeiro cume na Bolívia. Por mais que não tivesse exigido muito trabalho, era o primeiro. Se tudo havia dado certo até ali era um bom sinal. Não tínhamos a menor idéia do que os dois passariam alguns dias mais tarde. Decidimos ficar bastante tempo no cume para deixar o corpo sentir a altitude e facilitar a aclimatação. Passamos umas duas horas tirando mil fotos, fazendo piadas, dizendo como seria mais fácil descer pelo abismo do que pelo caminho que havíamos feito. Não sei bem se era a alegria do cume, a beleza da paisagem ou apenas a hipoxia, mas definitivamente estávamos alegres. Em algum momento os espanhóis decidiram medir os batimentos cardíacos, para saber como seus corpos estavam reagindo à altitude. Eles tinham até relógios que faziam isso. Enquanto isso eu coloquei dois dedos no pulso, medi quinze segundos no relógio e multipliquei por quatro. Quando estávamos quase começando a descer, chegou uma garota argentina que havia feito o mesmo caminho que nós, porém na metade do tempo. Ficamos com cara de ué quando nos demos conta de como forámos lerdos. Falamos um pouco com ela, tiramos uma estranha foto que ela tira em vários cumes com um bicho de pelúcia, acho que para colocar no fotolog ou algo assim, e descemos, mas não sem antes ouvir a história de que ela e uma amiga eram o duo cefaléia e diarréia. Na descida o Sol veio forte e fomos tirando as roupas. Só não foi possível para meus amigos tirar as botas plásticas, que naquela hora estava um forno, conforme me disseram. Por cada poça de degelo que passávamos os dois faziam questão de parar para resfriar um pouco o pé. De volta ao acampamento, o circo havia ido embora. A duas grandes expedições não estavam mais ali. Mais abaixo a última grande estava desarmando barracas e colocando as panelas sobre as mulas. Eu estava realmente preocupado com minha carona de volta. No acampamento só restariam eu, os espanhóis e um casal, mais abaixo, que estava nas mesmas condições que eu, esperando pelo retorno de alguém. Minha esperança era um par de barracas colocadas ao lado da fonte de água, mas que eu ainda não tinha visto ninguém por ali desde que havíamos chegado, no dia anterior. Dormi um pouco antes de almoçar e aproveitei a paisagem. No entardecer, fiquei vendo os coelhos selvagens correndo atrás de algo pra comer. Me aproximei dos espanhóis para conversar, olhar no guia de montanha boliviano deles se era viável ir andando até o Huyanna Potosi, palpitar sobre os planos deles de ir até a asa esquerda do condor. A certa altura vimos uma cena totalmente National Geografic. Não sei de onde, uma águia começou a sobrevoar o acampamneto. Então deu um rasante e pegou um coelho selvagem com suas garras e levou até o alto de uma motanha, onde deu de comer a alguns filhotes que a mãe nem precisava esconder em ninhos, pois creio que não há predadores. Começou a anoitecer e fui me despedir dos espanhóis. Na manhã seguinte eles iriam cedo escalar e era bem provável que eu não os visse mais. Trocamos e-mail, que eu acho que anotei errado, pois até hoje não consegui contato. O Daniel me disse que quando eu fosse para a Europa, não deixasse de o visitar na Espanha para escalar por lá. Eu achei isso muito legal, e disse a ele que se fosse ao Brasil me escrevesse para que eu o levasse a algum lugar legal. Depois eu fiquei pensando onde eu o levaria em São Paulo e o melhor que consegui foi a Rua Augusta. Nesse momento bateu em mirra barraca uma solidão triste daquelas que sentimos que estamos sozinhos no mundo. Mas, definitivamente, eu não estava sozinho. Tá certo que muitas vezes, na cidade, entre milhões, me fizeram crer que eu estivera sozinho e eu estava sendo punido por mim mesmo da maneira que fui ensinado. Eu não souber ser forte e lutar contra aquele sentimento e fiquei muito triste. As montanhas que cubriam 45 graus da vista que tinha pela porta da barraca fizeram o que podiam para me alegrar, mas me decidi a voltar para a cidade implorando pela aceitação da pessoas, nem que fosse a de um garçom ou de um vendedor feliz com meus dólares. Essa foi a grande derrota da minha viagem. Eu era capaz desafiar cabos de aço na pista, policiais corruptos, a natureza, mas não conseguia chegar ao cume de mim mesmo? Eu poderia entender culturas milenares, paisagem complexas, idiomas estrangeiros, mas estava fugindo de mim mesmo? Decidi que tinha que encontrar uma carona e não sabia que o melhor presente que recebera era a incerteza do dia seguinte. Minha estratégia era ver se os misteriosos ocupantes das barracas vazias apareceriam na manhã seguinte para ir embora e pegar uma carona com eles. Era isso ou ter que andar muito até um lugar onde poderia pegar um ônibus. Várias vezes durante a noite acordei e fui até lá ver se eles tinham chegado. Mas nem sabia quem eram eles. Mas na manhã de sábado, logo que o Sol me acordou, botei a cabeça para fora da minha barraca e vi um monte de mulas pelos lados deles. Coloquei a bota e sem nem mijar fui correndo ver se conseguiria minha tão sonhada carona. Mas os donos das barracas nem haviam chegado. Era apenas o muleiro que tinha sido contratado para estar ali naquele horário. Segundo me disse, um casal estava escalando e iria embora aquela hora, pois em 2 horas o motorista deles chegaria no até onde os carros vão. Eu não sou muito experiente em escalada, mas mesmo alguém burro perceberia que algo de errado tinha ali. Se o casal tinha combinado com o muleiro para estar ali na sexta-feria de manhã, pelo menos na quinta-feira a noite eles já deveriam estar no campo base. Algo havia acontecido na montanha e eu não sabia o que fazer, nem quem avisar. A primeira coisa que pensei é que o motorista devia ser avisado, para que chamasse o resgate que poderia vir de La Paz. Fui então com o muleiro até onde o carro chegaria. Pouco antes da dez horas eu estava lá, mas nada do cara chegar. Fiquei até meio dia debaixo do sol, quando decidi ir a pé, pois deduzi que o motorista já deveria ter sido avisado e não iria buscá-los. Então vejo bem longe uma caminhonete parar numa casa e o motorista vir corrento até mim, achando que eu era o cliente. Explico a situação toda e decidimos voltar ao acampamento base para procurar alguma pista do paradeiro dos dois em suas barracas. Demora pouco mais de uma hora para fazer o percurso, mas eu estava realmente preocupado com o casal que sequer conhecia. O que mais me incomodava era a incapacidade técnica e, sobretudo, material. Se eu tivesse ali uma bota plástica e um crampon, iria atrás dos espanhóis para tentar achar o casal perdido. Mas não, eu nunca havia visto neve na vida. O máximo que eu conseguiria fazer era nada. Na barraca dos dois não encontramos nada e, para piorar tudo, o celular do motorista não funcionava. Daquela região deveríamos voltar muito, quase perto da pista de asfalto, para que o aparelho desse sinal. Voltamos para o carro e decidimos ir até um lugar onde o celular pegasse. Enquanto o motorista dirigia eu ficava olhando o sinal. Nada. No caminho avistamos um acampamento, cheio de barracas. Era uma expedição de ingleses que, não sei porque, havia parado ali. Havia umas dez barracas montadas, guias e cozinheiros. Explicamos a situação para eles e nos disseram para que entrasse em contato com Genaro, em La Paz, que ele organizaria o resgate. Achei aquilo muito estranho. Os guias que estavam ali, há umas 3 horas de alguém que sofrera um acidente na montanha não poderiam ajudar, mas apenas um cara que estava em La Paz poderia? O motorista disse que iria até um lugar onde o celular funcionasse e que era melhor que eu ficasse por ali. Daquele acampamento um ônibus sairia para La Paz em meia hora e eu poderia voltar. Mas eu nem pensava mais em voltar, eu estava indignado com os guias que preferiram ficar ali com os clientes a ajudar no resgate. Em meia hora peguei o ônibus e voltei a La Paz. Pensando bem no que aconteceu naquele dia vejo que nada justifica minha covardia de ter entrado naquele ônibus. Nem a covardia dos guias justifica a minha. Hoje penso que deveria ter me aproveitado da minha qualidade de gringo e ter ido falar com o ingleses que almoçavam confortavelmente na barraca refeitório para que pedissem aos seus guias que fossem ao resgate. Ou que eu voltasse ao Condoriri e tentasse algo com o espanhóis. Eu só não poderia ter saído dali naquele velho ônibus escolar, sentado ao lado da minha mochila, tentando explicar a ela que eu não poderia fazer nada. Eu fui covarde. O acidente que aconteceu na asa direita do Condoriri envolveu um montanhista, Peter Cornelius Wiesenekker e sua guia, Isabel Suppé. Eles sofreram uma queda de quatrocentos metros. Ele morreu e ela sobreviveu com fratura no pé por 2 noites na montanha. A equipe de resgate só chegou no dia seguinte e os espanhóis foram excenciais para a operação que salvou a vida da guia. Após resgatarem a guia e carregarem o corpo do australiano, voltaram para a Espanha. Eu voltei para La Paz.
  3. Estou postando abaixo a parte 2 do meu relato de viagem na Bolivia. Eu fiz um blog onde coloquei os mesmos textos, mas que vai servir para eu escrever os relatos que vou colocar da minha próxima viagem que vai acontecer no próximos dias aos Andes. http://naturedrunk.blogspot.com/
  4. Olá. Agradeço aos comments, que dão uma motivada pra continuar escrevendo. Estou escrevendo uma outra parte e vou tentar colocar aqui antes da próxima viagem, que deve ser semana que vem. Abs, Davi.
  5. Quase morri na Bolívia Existem algumas coisas que as pessoas consideram completamente insanas e eu, ainda não sei porque, considero natural como o nascer do sol. Uma dessas era que deveria viajar. Ainda no meu trabalho fui surpreendido por um colega vendo fotos de uma viagem de moto até a Patagônia. Ele achou um absurdo quando disse que gostaria de fazer a mesma coisa. Alguns dias depois voltava para aquela sala de escritório no vigésimo sétimo andar para assinar minha demissão. O mesmo colega, quando me viu, perguntou: -Ei, voce veio assinar a demissão? Achei que estava no Chile. Saí dali, comprei uma mochila, uma barraca e uma lanterna e fui para Monte Verde. Não importava que nunca havia armado uma barraca na vida. Se bem que eu havia feito uma tentativa, mas meu quarto na república em que morava não comportava o espaço da barraca para duas pessoas e acabei levando a incerteza da capacidade daquela tarefa. Era assim que eu constumava agir: levava a incerteza da capacidade das tarefas ao invés de me preparar. Eu preferia dizer que nascera preparado, mas era apenas da boca pra fora. Andei alguns quilómetros pelas serras dos Brasil como quem procura algo por todos os cantos e esquece de checar sob cama. Chequei em tudo quanto foi lugar, até no tecido adiposo sub cultâneo e nada. Quando me dei conta estava indo para a Bolívia jurando que havia deixado lá. -Mas se voce nunca saiu do Brasil, como pode ter deixado lá? Eu tinha sonhos tão complexos quanto um pequeno burguês. Índias nuas dormindo na minha barraca sob luares hipnotizantes e os Andes sob meus pés eram os pensamentos que carregava na garupa da moto ainda perto de São Paulo. A primeira parada era em Campo Grande, local que havia visitado alguns meses antes. Andar mil quilómetros de uma vez só não se mostrava uma boa estratégia, mas eu corria todos os riscos possíveis. Na minha cabeça chegaria em La Paz tres dias depois de ter saído de São Paulo, dormindo em Campo Grande, em Santa Cruz de La Sierra e, enfim, na capital boliviana. No caminho eu sabia que não ia dar certo, mas continuava. Não tinha a menor idéia do que estava fazendo. Para chegar em Campo Grande pegara estrada à noite, o que é o exato contrário da regra mais importante dos viajantes de moto. Cheguei cansado e acabei adaptando meus planos, deixando o dia seguinte para descanso, para retomar o caminho apenas na sexta-feira. A companhia em Campo Grande era agradável, o que ajudava. Porém, dali pra frente eu não sabia o que me esperava e o que imaginava se distanciava muito da realidade. Saí muito cedo de Campo Grande com destino a Santa Cruz e logo tomei o primeiro susto. Em algum lugar que não tenho a menor idéia do nome, a estrada é cheio de rotatórias em que se tem que reduzir a velocidade. Porém eu ia quase no limite. Em alguma delas eu peguei uma mancha de óleo. A moto já estava quase de lado quando, num reflexo, bati o pé esquerdo no chão, sendo devolvido a posição de equilíbrio. Ufa! Viagens de moto são cansativas, tanto fisicamente como emocionalmente. Eu pretendia passar mais de dez horas sentado ali, naquele banco, porém eu não havia me preparado para o tédio. Quando se anda de moto por horas, nem estamos prestando atenção na estrada nem em outra coisa, de maneira que os pontos de referências no caminho ficam relacionados com os pensamentos que temos na hora em que passamos por eles. Assim uma base policial me fez lembrar de quando quebrei a perna e um restaurante a beira da estrada me lembrou o SESC Interlagos. Depois comecei a cantar, o que me levou a crer que a pior desvantagem de uma moto para um carro não é a chuva ou o banco, mas a falta de um rádio. Então, para compensar minha imaginação limitada que só conseguia pensar em duas ou tres músicas, passei a investir em verdadeiras performances enquanto cantava Paralamas ou Legião. O som abafado pelo capacete fechado fica realmente intenso com um "quando o sol bater na janela do teu quarto" bem gritado. Logo cheguei aos bloqueios na estrada. No primeiro perdi a passagem por alguns minutos. Por conta de uma reforma a pista fica aberta apenas em um sentido. Cada intervalo demorava cerca de meia hora nessa primeira. Mas, quem é o burro que resolve reformar dez quilómetros de pista de uma só vez? E se eu passasse pelo bloqueio imporvisado com uma periguete responsável pela operação? Fiquei torrando no sol por meia hora pensando nisso e, logo após começar a andar um posto da polícia federal deu a entender que seria burrisse. As armadilhas da estrada. Cerca de meio dia cheguei a Corumbá, a última fronteira. Eu nunca havia saído do Brasil e estava um tanto emocionado, porém como minha primeira vez seria logo com a Bolívia, a desconfiança era maior. Parei no primeiro posto que vi para almoçar na tentativa de adiar ao máximo uma refeição do outro lado da fronteira. Ainda aproveitei para ver o Brasil perder da Holanda. O resultado do jogo era tão importante para mim quanto para um astronauta numa estação espacial. Na fronteira eu ainda não tinha a menor idéia de quais papéis deveria pegar, carimbar, se deveria pagar proprina ou se estava tudo certo. Resolvi tudo, troquei alguns pesos por ali mesmo e resolvi pegar a estrada. Era umas tres da tarde e eu queria chegar a Santa Cruz de La Sierra ainda naquele dia. Nem precisa abrir o Google Maps pra saber que era uma burrisse que beirava a inocência. Aliás, abra o Google Maps, por favor. Pede o caminho que vai de Campo Grande a Santa Cruz. O caminho que o Google dá não é o que eu fiz, mas pelo Paraguai. É que na verdade por ali não tem bem uma estrada, é mais um caminho. É tudo de terra e quando chove é preciso cruzar os rios, pois se não há estrada não há pontes. Aliás, se não há estrada, não há postos de gasolina, muito menos hotéis. Sabe o que tem de monte? Plantação de coca e traficantes. Sair às tres da tarde era uma burrisse sem tamanho. Eu estava na estrada. Achava engraçado as placas diferentes, escritas em espanhol. O sol brilhava. Por conta da demora na fronteira eu estava de camiseta, sem a jaqueta que protegeria de algum acidente. Mas que acidente porra nenhuma, eu queria era respirar liberdade. Logo veio uma placa: Plaza de pedágio: 1km. Aqui também deve ter um monte disso. Espero que seja barato, pelo menos. Andei bem mais de um quilómetro sem ver nenhuma cancela e fiquei pensando se a causa era uma decisão do Evo ou dos narcotraficantes. Depois avistei bem na frente uma casa na beira da estrada que parecia um boteco. Queria ver se vendia gasolina, por em Puerto Qujaro é proíbida a venda para veículos com placas brasileiras. Nem estava tão rápido, cerca de noventa por hora. Não consegui entender o que era aquilo com umas cadeiras e uma mesa para fora. Passava exatamente pela frente da casa de madeira direto quando senti algo no meu peito. Olhei para a esquerda e vi que havia um poste de madeira, como de varal, segurando um fio, e era esse fio que eu havia sentido. No curto instante de tempo que se seguiu eu não fui capaz de concluir que deveria parar. Ao invés disso, a lógica era de que logo o fio, que interpretei como sendo uma corda de pipa, seria cortado pela velocidade em que eu estava. Ledo engando. Era um cabo de aço. Apenas senti o fio esticando e fui puxado para trás, sendo derrubado da moto e caindo de costa no chão. Apaguei. Quando abri os olhos vi o céu azul, sem nenhuma nuvem. Durante o inverno na Bolivia o céu é sempre assim, limpo, azul. Senti o asfalto quente nas minhas costas. Eu acho que a única maneira de ficar deitado no asfalto quente é sofrendo um acidente. Que droga, por que eu não estava com a minha jaqueta? Essa não era a pergunta correta a se fazer. Eu não precisaria de nenhuma jaqueta se eu não tivesse sido puxado por um cabo de aço pelo pescoço à noventa por hora. Por que eu fui puxado por um cabo de aço? Acho que essa era a pergunta correta. Levantei e vi um boliviano correndo em minha diração. Vi estrelinhas e achei que ia apagar denovo. Respirava com dificuldade. Corri do boliviano, devagar o suficiente pra não apagar, rápido o suficiente pra fugir de um ladrão. Achei que iam roubar a minha moto e corri em direção a ela. Estava jogada no meio do mato vários metros a frente. Porra, eu tenho que chegar até Santa Cruz ainda hoje. Não posso ficar sofrendo acidentes assim. Tentei tirar a moto dali mas ela estrava presa no mato. Voltei pra estrada e o boliviano que corria atrás de mim falou qualquer coisa que não entendi. Parou um caminhão e tiramos a moto dali. Após algumas tentativas ela ligou. Estava um pouco torta mas acho que poderia seguir caminho. Eu estava adrenado. Voltei até a casinha que parecia boteco e que na verdade era o pedágio. O cabo de aço era pra evitar que passassem sem pagar. Não é que essa porra funciona mesmo? A adrelina começou a ceder. Eu percebi que minha vista estava avermelhada. Sangue. Pelo espelho restrovisor quebrado pude ver que estava mal. Logo meu pescoço começou a dar dicas que o acidente havia sido feito. Mal conseguia virar. Os bolivianos me avisaram que eu não poderia seguir pois uma ambulância fora chamada. Eu já havia desistido. Logo chegou uma viatura da polícia. Acho que ambulância deve significar viatura em espanhol. Eu deveria seguir para o hospital na viatura e o outro policial levaria minha moto para o mesmo destino enquanto eu estivesse sendo atendido. Enquanto saia da cena do acidente, fiz grande esforço com o pescoço dolorido para poder olhar pelo retrovisor da viatura a moto, sentindo que a veria pela última vez. No hospital fui suturado por uma jovem médica. Ela parecia que sabia o que estava fazendo e ganharia minha confiança não fosse pelo fato que durante todo o procedimento seu celular tocava Shakira bem alto, pendurado no seu pescoço, no meu ouvido. Pode ser que um dia a Shakira venha para o Brasil, eu a encontre e acabemos trepando. Eu só lembrarei do moderno sistema anti-fraude do pedágio boliviano. O policial que me acompanhou pediu todos os meus documentos. Todos. Não tinha escolha e entreguei. Logo após o procedimento pedi para que o chamassem para saber se minha moto já havia chegado. O policial havia ido embora. Eu já pensava na minha volta pra São Paulo, de ônibus, com o rabo entre as pernas. Não sem antes tentar de tudo. Não sei bem porque acabei conversando com o motorista da ambulância. Deve ser pelo fato que todos estavam curiosos acerca do brasileiro burro que não sabia como funciona um pedágio. Eles deviam pensar: será que não existe pedágio no Brasil? O tal motorista era o único que entendi meu portunhol ainda prematuro. Disse a ele que se encontrasse a moto eu lhe daria dinheiro. Ele sorriu quando abri a carteira e dei alguma coisa pra motivar a busca. Em poucos minutos voltou com uma notícia boa. Os policiais estavam com a moto e me devolveriam, mas só na manhã seguinte, pois queriam falar comigo. Ele também me disse que eu precisaria pagar mil reais para reavê-la. Opa, claro. Mil reias? Só se for agora. Ele estranhou, mas quanto lhe ofereci mais algumas notas ele saiu para chamar um enfermeiro que tirasse o soro. Não precisava do enfermeiro já que eu mesmo arranquei o soro. Fui de ambulância até a delegacia, onde encontrei minha moto. Peguei a corrente do baú e prendi ela num posto. Ninguém tiraria ela dali. As fardas dos policiais pareciam as daquelas tropas dos programas do Didi. Eu estava cheio de sangue seco numa camiseta do Che Guevara rasgada. Sete pontos no pescoço e dois no supercílio. Mal conseguia mover o pescoço e os braços e os policiais queriam mil reias. O responsável por me falar que tinha que dar dinheiro pra pegar a moto acabou sendo o motorista da ambulância. Eu respondi em alto e bom som: Não vou dar nenhum dinheiro a ninguém. E não saio daqui sem a minha moto. Se preciso, durmo abraçado nela. Me fizeram esperar. Eu precisava falar com o coronel. Eu esperava por alguém no estilo do sargento pincel, e não fui desapontado. O bigode do cara lembrava o Leôncio. Ele me chamou pra uma sala com poltronas e senti que não sairia dali vivo. Ele pegou todos os documentos e disse que faltava um. O tal do documento de trânsito. Esse relato não tem como objetivo informar ninguém sobre preços, caminhos, dicas ou coisas do tipo. Mas, se numa situação semelhante lhe pedirem o documento de trânsito, não vá pensar que esqueceu de algo. Ele não existe e serve apenas como pretexto para proprina. Nessa hora fiquei nervoso. Levantei da poltrona e disse que não existia porra de documento de trânsito e que tudo que precisava estava ali. Ele murmurou que no país dele quem ditava as regras era ele. Eu respondi que ele estava certo. Então dormiria ali mesmo, abraçado à moto, e no dia seguinte entraria em contato com a embaixada para providenciar o documento de trânsito. Ele olhou bem pra mim, e notou que, devido ao meu estresse o pescoço havia recomeçado a sangrar. Entregou a chave da moto e os documentos e me disse para ir embora. Voltei ao hospital de dei mais um dinheiro ao motorista da ambulância. Finamente poderia descansar. Veio então o enfermeiro e me pediu cinqueta pesos para recolocar o soro. O motorista da ambulância deve ter falado que ganhou dinheiro e ele queria se aproveitar do gringo brasileiro. O problema não era pagar pra ter o soro, mas o que poderia ter no soro. Levatei da maca, peguei a mochila decidido que voltaria ao Brasil naquele instante. Um monte de gente tentou me impedir, não sei se por prudência ou na esperança de arrancar algum dinheiro. A moto tinha o baú solto, o alforje rasgado, mas minha caixa de ferramentas deu jeito. Sem farol e com a moto torta andei uns quarenta quilómetros até Corumbá, sentindo um vento frio que parecia que entrava nos meus pulmões pelo corte no pescoço. Na primeiro hotel que vi, parei a moto e chamei o garoto que carrega malas com um gesto que parecia ter saído de "Onde os Fracos Não Têm Vez". Pedi que guardasse a moto e a bagagem e chamasse um taxi. Segui para um hospital e só voltei no dia seguinte para pegar a mala e voltar a Campo Grande. Quinze dias depois estava novamente em Corumbá. Ainda não para pegar a moto, mas apenas de passagem. Já sem os pontos no pescoço eu voltaria a Quijaro para pegar o trem da morte e seguir para La Paz. A viagem estava apenas começando.
  6. Caramba, queria eu estar com a viagem programada assim como voce. Inicialmente eu iria fazer Argentina, Chile, Peru e Bolivia, mas como faço parte de uma ong que constrói casas para pessoas em extrema pobreza e vai haver uma construção no chile e uma no paraguay, vou ter que mudar tudo e acabou virando um quebra-cabeça de dias e quilómetros. Eu vou de moto e acho que vou acabar fazendo o contrário do que planejei. E saio daqui no dia 25 próximo (se tudo der certo na faculdade) ou dia 1/julho (se nem tudo der certo). O bom que só preciso voltar no final de agosto. Mas, respondendo sua pergunta, não precisa de visto. Apenas RG original. É melhor se o RG estiver em bom estado, por isso fui ontem no Poupa-tempo tirar uma nova via. A vacina necessária é a para Febre Amarela, com o comprovante internacional da vacina. Se voce está em São Paulo tem duas opções: ir ao Pasteur na Av. Paulista, tomar a vacina, pegar o atestado nacional e, no aeroporto pegar o atestado internacional, ou o que eu fiz ontem e achei mais fácil é ir no HC, no prédio amarelo, no ambulatório dos viajantes e tomar a vacina e já pegar o certificado internacional que é feito na hora. Não demora meia hora. Lhe desejo boa viagem.
  7. Finalmente pude sentar em frente ao computador para escrever esse relato. Em parte porque já tenho outra aventura pendente e não é bom deixar que as idéias fiquem na cabeça, pois podem se misturar e até a realidade. Eu havia decidido fazer a Petrô-Terê, pois essa travessia se faz em tres dias, que é o tempo que tenho geralmente, pois não tenho aula na sexta-feira e posso voltar no domingo, mas li um relato chamado “Paranapiacaba em dois tempos” e me senti atraído pelo local me é ligado a lembranças próximas. Primeiro porque nasci em São Bernardo do Campo, cidade do ABC paulista vizinha a Santo André, meu destino. Depois porque houve uma época em que meu irmão, hoje bastante distante, cursava técnico em turismo, e fazia parte das suas abrigações escolares conhecer esses lugares turísticos que ele sempre falava. Tenho na memória, em especial, ele se referindo às “cachús” de Paranapiacaba. Então, ao invés de atravessar o estado, fui conhecer o quintal de casa. Decidi ir de trem, pois seria mais barato, mais seguro e eu achava que entraria mais rapidamente no espírito que procurava conforme o trem fosse deixando São Paulo. Porém acho que exagerei ao sair de casa e caminhar cerca de 45 minutos até a estação. Várias trocas de linhas depois, consegui sentar num banco e iniciar a leitura do livro que duraria o exato tempo da viagem e que me foi uma revelação no caminho todo. “Memória de minhas putas tristes”, de Gabriel Garcia Márquez me faria levar um ancião e uma ninfeta que me ensinariam um pouco o que é o amor num local propício para falar dele. Desci na estação em Rio Grande da Serra o procurei a padaria Barcelona para tomar um lanche, porém acabei me atrasando para o ônibus que leva até Paranapiacaba. Um senhor que estava no ponto me informou que o ônibus acabara de partir e o próximo apenas em uma hora. Eu já estava bem atrasado em relação ao grupo que eu seguia o relato, impresso e dobrado no bolso da bermuda. Porém, ao me virar passou um ônibus. Dei sinal e perguntei se ia para o meu destino. O motorista, para minha surpresa, respondeu afirmativamente. Perguntei novamente e ele confirmou. Entrei achando que o velho estava tirando uma com a minha cara. Continuei minha leitura e em poucos minutos chegamos a vila de Paranapiacaba. Sentei numa escadaria em frente a Igreja logo ao lado do ponto de ônibus e comi uma maçã, apreciando a vista que tinha da chamada parte alta. Após alguns instantes de concentração me levantei e comecei a caminhar. Sabia que andaria bastante e enfrentaria dificuldades, mas era exatamente por isso que tinha decidido naquela manhã, ao invés de passar o dia assisntindo à televisão, estar ali. Logo no começo da ladeira vi um senhor saindo de uma carro com a placa da minha cidade natal, São Bernardo. Perguntei se ele conhecia a Pedra Grande de Quatinga, meu destino final e local que havia planejado montar acampamento. Ele me olhou de baixo a cima e falou “voce vai andar um bocado, heim?”. Após me indicar a direção que deveria rumar, perguntei de onde ele era em São Bernardo, e ele disse que do Rudge Ramos. Disse que era da Paulicéia, bairro ao lado. “Nosso bairros já foram melhores. Hoje estão muito violentos”. Eu confirmei, me despedi e segui caminho. Parecia conversa de filme do Clint Eastwood, mas me deixou com a impressão de que eu tinha um lugar de onde havia saído. Continuei a descida em direção aos trilhos. Paranapiacaba tem duas partes, a alta e a baixa, estranhamente conrtada por uma ferrevia que opera apenas com cargas. Se operasse ainda passageiros não precisaria ter pego o ônibus em Rio Grande da Serra, seria apenas esperar pela próxima estação. Mas me incomodou a maneira brutal como os trilhos de meral cortavam aquela pequena vila feita na maior parte de madeira. Na ponte que atravessa a linha férrea tive que parar por um instante para não atrapalhar uma filmagem. Era uma casal que, romanticamente olhava para a torre do relógio. Perguntei a uma assistente de estagiário o que filmavam e ela me disse que era um clipe do Ed Mota. Nesse instante veio uma música dele na minha cabeça. Nas duas vezes que acampei antes dessa fiquei com uma música na cabela durante todo o tempo, e só não queria que dessa vez ficasse com uma música do Ed Mota. A garota me perguntou para onde eu ia e me desejou boa sorte. Agora sim podia seguir viagem. A parte baixa da cidade é bastante bonita. As casas são todas antigas, de madeira, e parece que aquele trem voltou um século no tempo. Caminhei mais devagar para que pudesse permanecer mais tempo naquelas ruas, mas logo cheguei na entrada do Parque das Nascentes, que me levaria ao meu destino. Havia uma guarita e uma segurança e achei que seria indagado sobre a grande mochila ou algo do tipo, mas passei deixando apenas um aceno com a cabeça. Seguia por uma estrada de terra um tanto larga em que passei por algumas pessoas. No caminho um rio cruzava a estrada em um ponte e teria que pegar água, pois levava apenas garrafas vazias. Porém, ao descer as pedras, escorrei e caí de bunda no chão. Gargalhei um pouco enquanto verificava se nada havia acontecido na minha perna esquerda, onde guardo uma prótese de titânio que ganhei graças a um acidente de moto, anos atrás. Garrafas cheias, segui pela estrada, onde o guia que seguia anunciava que naquela estrada havia uma trilha que levaria até uma cachoeira, ou cachú, como meu irmão dizia. Vi, a minha esquerda, uma trilha bem saliente e imaginei que seria ali, mas passei reto, consiente do meu objetivo. Após alguns minutos cheguei à pequena Vila de Taquarussu. Simpatissíssima, há uma pequena igreja e um coreto, onde foi impossível não parar para comer outra maçã. A cidade estava deserta e me lembrou cidadezinhas de jogos de computador pós apocalípticos. Segundo o relato que segui como guia, foi fundada por imigrantes italianos que mineravam carvão naquela região na época da segunda grande guerra. Atravessei a cidade e continuei através da estrada que continuava após a cidade. No relato que seguia havia a indicação de uma bifurcação a direita e, logo no início da estrada após Taquarussu havia uma estrada bem menor que a pincipal subindo bastante à direita. Então, para perdeir ainda mais tempo, subi ela até ver que não levava a lugar algum. Perdi mais uns 20 minutos e comecei a fazer as contas percebendo que, se minha burrisse permitisse, chegaria por volta do por-do-sol no topo da Pedra. Não queria pegar trilhas apenas com o uso da lanterna, e por isso aprecei o passo. Encontrei a verdadeira bifurcação e entrei a direita sentido camping do Simplão. Após passar uma entrada à esquerda, avistei duas casas onde, no relato que seguia havia um senhor que deu muitas informações e frutos de cambuci para os aventureiros, porém, mesmo com minhas insistentes palmas ninguém apareceu. Segundo o guia havia um caminho mais rápido porém mais confuso seguindo reto, e outro mais longo porém cerco voltando alguns metros sentido a entrada a esquerda que havia passado. Minha esperança era encontrar o senhor e obter mais informações acerca do caminho rápido e difícil, mas, após refletir sobre ter me perdido há alguns intantes numa estrada de terra onde passa carros, decidi seguir o caminho mais longo. Segui então pelo caminho a esquerda e passei por uma encruzilhada. Havia ali o caminho de onde eu havia vindo, o caminho a esquerda, que levava de volta a Taquarussu (se ao invés de ter pego a bifurcação à direita tivesse pego o ramo da esquerda, no sentido Camping do Simplão, teria vindo dessa via), o caminho seguindo em frente e o a direita. No guia que eu seguia havia a indicação para seguir reto, porém, se alguém aqui estiver fazendo esse caminho rumando para a Pedra Grande de Quatinga, basta entrar à direita e, após passar pelo Pesqueiro Truta das Pedrinhas, entrar à direita denovo e estará no caminho. Sim, fui engadado para a direção errada. E o que é ainda pior, achando que estava indo para o lugar certo. O Pico que eu queria atingir era visível a minha direita e eu não entendi porque, ao invés de atacá-lo eu ia em para o começo da montanha. Encontrei um orelhão num local um tanto deserto, que era um dos pontos de referência que seguia. Entrei numa estradinha à direita, conforme indicado e andei. Andei bastante até que algumas casas surgiram. Numa delas perguntei a uma senhora que estendia roupas no varal se eu estava no caminho da Pedra Grande de Quatinga. Ela me disse para seguir toda vida. Em outra propriedadem fiz a mesma pergunta, e fui respondido com um “Voce quer dizer Quatinga?”. Eu pensei que a Pedra Grande de Quatinga deveria ficar próxima a Quatinga, e mudei então a pergunta que fazia as pessoas que encontrava, procurando, a partir de então, Quatinga. Após passar por uma ponte, entrei numa pequena trilha a esquerda e me desesperei um pouco ao ver que no relógia jpa era cerca de 16 horas. Apressei o passo, mas não chegava a lugar algum, nem via ninguem. Enfim, quando cheguei a uma estrada que parecia que passava carros tinha certeza que estava perdido e deveria criar meu próprio caminho. Andei por muito tempo sem ter a menor idéia de onde estava, apenas seguindo onde eu pensava que seria Quatinda quando ouvi, na mesma direção que eu caminhava, um caminhão. Fiz sinal de carona e o motorista me perguntou para onde ia. Após contar toda a história ele me disse que estava indo para Quatinga e poderia me deixar lá. Subi na caçanba que levava um cachorro da raça Fila de botar susto em qualquer um e recebi um aviso “Não morde não. É tão manso que chega a ser bobo”. Andei cerca de meia hora de caminhão até que, já quase noite, finalmente cheguei a Quatinga. Mal agradeci o motorista, entrei num mercado para perguntar se estava perto. Havia uma senhora japonesa no caixa e um casal de senhores pagando por suas comprar. Após uma rápida explicação ouvi que estava no local errado e teria que caminhar umas 2 ou 3 horas para chegar no local. Realmente me desesperei e pensei que tinha perdido a viagem, afinal, não seria nada inteligente caminhar da escuridão. Não sabia se voltava pra casa, se procurava um hotel ou se montava a barraca na pracinha central daquele vilarejo afastado de Mogi das Cruzes. Ainda perguntei para a caixa se era seguro andar por ali no escuro e o casal, com o rosto comovido, disse que eu não deveria fazer aquilo. Não sei de que forma ou como aquele casal me lembrou minha adolescência, minha revolta com o sistema, com a sociedade, com os pais hipócritas. Não caí na pior das armadilhas e naquele momento disse a mim mesmo que seguiria até chegar na Pedra Grande, não importa o que teria que fazer. Sorri para os tres que me olhavam e, apenas para deixá-los um pouco desesperados, disse que seguiria em frente. A senhora ainda disse “Não vai não”. Cruzei o vilarejo, passando ao lado de um campo de futebol e adentrando a sua periferia. Segundo as indicações era só seguir naquela estrada que chegaria ao meu destino. Coloquei a lanterna na cabeça e comecei a caminhar no escuro. Ainda havia algumas casas, porém, após cruzar um riacho, que não pude ver se ela fundo pela falta de luz, por uma ponte, deixei a civilização para trás. A partir dali seria apenas eu e minha mochila. Mais importante que estar preparado era estar convencido disso, pois nesses momentos, como disse Alex Supertramp, “(...)E também sei como é importante na vida não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte. Confortar-se ao menos uma vez, achar-se ao menos um vez na mais antiga condição humana. Enfrentar a pedra surda e cega a sós, sem outra ajuda além das próprias mãos e da cabeça”. Caminhei cerca de duas horas sem ver nenhuma prova da existência humana, apenas algumas placas coladas em ávoras sinalizando “Pedra Grande de Quatinga”. Numa delas havia uma indicação a esquerda. Segui um pouco a frente, e numa cerca havia indicações de cão bravo e a trilha continuava a esquerda, porém bem acidentada e escorregadia. Eu havia acabado de passar pela entrada da trilha que, pela pouco luz, não consegui visiualizar. Seguia mais ainda uma meia-hora e peguei o celular. Eu me sentia completamente perdido e, apenas por questão de garantia tentei ligar para 190, pois, mesmo estando sem sinal as vezes outra operadora faz a chamada de emergência. Tentativa vã. Encontrei uma bifurcação que apenas me deixava mais confuso e pensei em acampar ali mesmo, esperando o dia seguinte e a luz para seguir, mas escolhi o ramo da esquerda e segui em frente. Em meio ao meu desespero comecei a cantar, fazer preces, tudo que poderia fazer para me acalmar, quando, no meio da escuridão avistei uma luz. Continuei na trilha, spo que agora correndo e, na frente da propriedade comecei bater palmas. Acordei cachorros, gatos, patos, galinhas e até os moradores. Um homem saiu a porta e pediu para que eu entrasse. Eu perguntei sobre a Pedra Grande e o homem me disse que eu havia passado por ela havia algum tempo. Perguntei a ele se podia montar acampamento por ali, e ele me disse que não havia problemas. Me senti mais aliviado e pude, finalmente fazer minha refeição. Preparado para dormir li ainda mais uma boa parte do livro que carregava comigo. Na manhã seguinte acordei logo cedo e parti para o ataque a Pedra Grande. Ah, como era fácil caminhar a luz do dia. Logo encontrei a entrada da trilha para a Pedra e percebi que seria realmente difícil ter acertado o caminho durante a noite. Caminhei cerca de duas horas, alimentado, descançado e bastante fortalecido por ter decidido enfrentar o desafio do dia anterior. Pode ser muito fácil fazer tudo aquilo que fiz em grupo eu com mais experiência, mas eu sabia que, para mim, aquele teria sido um grande psso. Nem sei rumo a que, mas foi. Enfim, cheguei ao topo. Estava bastante feliz e a vista realmente compensava tudo o que havia passado. Passei umas tres horas ali, olhando o mundo como se fosse meu, e na verdade era. Consegui ver grande parte do caminho que tinha feito e do que teria que fazer para retornar. Já era cerca de 10 horas quande decidi descer. Refiz o caminho de volta muito mais tranquilo. Só pode enter como é um caminho de volta como esse alguém que já fez o de ida. É ali, sozinho, que a vida se mostra, que tudo tem sentido sem nem ser nada. Eu não lembrava dos compromissos, do saldo bancário, das provas que tinha por fazer. A vida se fazia completa. Eu não precisava buzinar para passar, eu não precisava lutar pelo meu lugar como quem luta por uma vaga para estacionar. Ali tudo era certo, até a morte, e a ilusão de controle não existia, pois não havia o que controlar. Senti que aquele era meu lugar e que, mais difícil que chegar era ir embora. No caminho de volta encontrei um casal de senhores na trilha. Cumprimentei-os e perguntei para onde iam. Eles iam para a Pedra Grande e fiquei um tanto surpreso. Então contaram que moravam em Santo André e fazia bastante tempo que iam andar naqueles lugares. Cada vez iam mais longe, até que um dia tiveram a curiosidade de saber se havia um jeito de chegar a Pedra Grande. Descobriram o caminho na base da tentativa e erro, andando ali várias vezes. Depois disso não pararam mais de andar. Já haviam feito o caminho de fé, o de Santiago de Compostela, e vários outros. Passaram algum tempo falando sobre todos e me encorajando a fazê-los. Quando o senhor dizia um dos caminhos a senhora interrompia e dizia outro, que segundo ela era melhor, e iam assim, se intercalando. Após uma boa meia hora de conversa me despedi, desejei boa sorte, e continuei o caminho. Eles haviam também me indicado o caminho mais rápido para voltar a Paranapiacapa. Eu estava a cerca de uma hora da encruzilhada do começo de tudo, logo após a bifurcação do camping do Simplão. Passei em frente ao Pesqueiro Truta das Pedrinhas e, mais um pouco a frente cruzei uma ponte sobre um pequeno rio com águas que desciam da montanha. No caminho de volta eu havia pensado que seria bom se encontrasse alguma “cachú”, pois estava realmente quente, porém aquele rio me encheu os olhos. Havia, após a água passar por baixo da ponto, uma pequena represa de pedras que criava uma piscina natural. Passei cerca de meia hora me refrescando. Voltei a caminhar com as energias renovadas e, para minha surpresa, logo cheguei na escruzilhada que havia passado no dia anterior. Peguei a caminho certo, a frente, e logo cheguei novamente em Taquarussu. Ali havia vários japoneses. Alguns almoçavam, outros apenas descançavam. Parei um pouco em frente a igreja para comer a última maçã que carregava e continuei seguindo para Paranapiacaba. Logo cheguei em frente a entrada da trilha que eu pansava levar a cachoeira, segundo o relato que eu seguia. Passei reto por ela mas, algum metros a frente voltei e segui por ela. Se havia uma cachoeira ali eu havia de descobrir. Logo a frente encontrei dois japoneses que viam em meu encontro. Eles disseram que não viram nenhuma cachoeira, mas havia uma bifurcação que eles não sabiam para onde levava. Eu perguntei de onde eles vieram, e me responderam que da entrada de Paranapiacaba, próximo a uma guarita. Eu concluí que haviam saído da entrada do Parque das nascentes e, portanto não estaria me desviando da rota que me levava de volta pra casa. Ledo engado. Caminhei por cerca de 3 horas, encontrando caminhos realmente difíceis de passar com o peso que levava nas costas. Havia uma parte que a água transformava tudo em lama e era impossível passar sem se atolar até os joelhos. Encontrei dois rapazes que faziam aquele trecho de bicicleta. Sim, de bicicleta. Após eu alertar sobre o barreiro que eles encontrariam pela frente se sentiram encorajados em continuar. Encontrei ainda um grupo que fazia trilha de moto, bem mais adequado que as bicicletas para a região. Cheguei enfim a bifurcação e conmecei uma descida bem acentuada mas, após descer cerca de meia hora e encontrar outras várias bifurcações decidi voltar, pois o cansaço e o tempo que se fechavam me deixavam prudente. Já de volta a cidade encontrei um senhor com um motor-home. Passei alguns minutos conversando com ele sobre os lugares que havia conhecido, sobre seu estilo de vida e fiquei um tanto impressionado. Na cidade ainda havia bastante movimentação de turistas e me apressei para pegar o onibus. No caminho de volta ainda terminei de ler o livro e, após descer do trem na mesma estação em que tudo começou, caminhei de volta para casa novamente, ao invés de pegar um onibus. Geralmente eu termino meus relatos antes da volta pra casa, mas aqui acoteceu um fato importante. Jpa de banho tomado e bem alimentado, liguei a televisão e para minha surpresa estava passando o filme “Na natureza selvagem”. Eu já o havia visto, mas fazia tempo. Dessa vez vi com olhos completamente diferentes. Eu me indentificava com o que estava acontecendo. Aquele caminho me parecia obvio. Desde então li o livro, assisti o filme diversas vezes e ouço compulsivamente a trilha sonora. Quando adolescente eu sempre fiz muitas perguntas. Certa feita parei de fazê-las. Então minha vida tomou um rumo que me fazia sentir mal e eu não entendia porque. Há alguns meses voltei a fazê-las. Eu não tinha a menor idéia das respostas, assim como quando era adolescente, e pior que isso eu sequer sabia se as respostas existiam. Mas se há uma coisa que posso dizer é para que não pare de fazer as perguntas. Pois, quando menos esperar, as respostas virão, e voce perceberá que elas sempre estiveram lá. Mas essa nem é a pior parte, pois agora terá que viver com as respostas, sem poder ignorá-las como fazia antes.
  8. Fala Augusto, Acabei de chegar da Travessia. Muito boa. Disse pra voce que ia pegar o onibus das 7:30 mas acabei pegando o da 9:30 e chegando lá 11:30 (2:30 a mais com relação a voces). No começo da trilha, depois que passa a primeira fonte de água, eu me perdi um pouco. Tinha uma cerca no final, eu segui a cerca a direita, subindo, mas depois fechava demais e a trilha perdia. Mas logo me achei e quando achei o Bicão fiquei mais sossegado. Esses pontos de referencias no relato são bons, pq eu sempre vou na dúvida se estou perdido ou não, e quando tem algo que não deixa dúvidas, fico mais tranquilo. Eu acampei bem ao lado do Pico, num campinho ali. Na foto do Pico tem quatro pessoas bem sobre onde armei a barraca. Lugar bom, protegido do vento, porém pequeno para voces que estavam com muitas barracas, imagino. Apesar de ser difícil de subir com a mochila, como sabia que teria que sair pelo outro lado nem me dava o trabalho de deixar a mochila. Na volta a trilha é um pouco difícil. Eu acho que comecei a andar ao lado da cerca um pouco antes de voces, pois andei uma boa parte que não tinha trilha. Era muito íngreme e com muitos espinhos (e eu de bermuda). Eu ia descendo pensando "caralho, se isso é o que o Augusto chama de sossegado nem quero ver o que ele chama de difícil". Mas acho que foi burrisse minha, pois devia ter uma trilha mais a direita ou a esquerda. Há vários pontos onde a cerca parece terminar mas depois ela aparece novamente, e isso engana. Um ponto em especial eu acho que fiz diferente de voces. Quando havia dois pedaços de plático amarelo (tipo uma lona, só que mais dura), um de cada lado e a trilha no meio, segui reto, apesar de ter uma trilha a esquerda. Após isso havia uma bifurcação e peguei a esquerda, onde a cerca recomeçou após alguns minutos e não terminou mais, por isso acho que foi diferente. Aí a trilha ficou sossegada, bem fácil de andar e protegida do sol. Quando cheguei bem lá embaixo, havia uma pedra que subi e vi o quanto desci. Era muita coisa. Eu até acho que dê pra subir, mas o cara tem que estar com o condicionamento em dia. O engraçado da cerca é que uma hora eu caminhava com ela a minha esquerda. De repente ela sumia e depois aparecia a minha direita. Eu até cheguei a pensar que estivesse delirando, pois isso acontecia frequentemente. Seguindo a cerca, volta o declive pesado e um mato bem pisado, onde parecia que gente havia passado. Cheguei enfim na estrada, onde após caminhas uns 3 km e tomar um banho num lago num sítio que invadi, peguei uma carona até o trevo (muita sorte essa carona). Cheguei na rodoviária de Joanópolis 11:30 e peguei o onibus das 14:00. Mais tarde escrevo o relato dessa travessia. Grande Abraço, obrigado pelas dicas, Davi.
  9. Eu fui pra lá ontem e voltei agora há pouco. Estava com o relato impresso no bolso da bermuda porém houve uma pequena falha. Em breve vou postar o relato mas queria acertar mais ou menos o caminho aqui pra que quem vá não cometa os erros que cometi. Minha idéia era sair na sexta de manhã de casa, chegar lá a tarde e acampar no pico. Tudo solitário. Porém não saí de São Paulo muito cedo e cheguei em Paranapiacaba às 14:30. Logo na descida para cruzar a linha do trem perguntei a um grupo sobre a Pedra Grande e um deles, que conhecia bem a região, me disse que eu ia caminhar bastante (e eu gosto de caminhar pouco?). Quando entrei na estradinha do Parque das Nascentes todas as infos do seu relato começaram a bater e fui ficando otimista. Eu sou um pouco ansioso e logo que entro na trilha fico esperando o próximo ponto de referência e entrei numa daquela subidinhas após Taquarussú, me perdendo, mas logo voltei pro caminho certo. Vi a placa a direita para o Camping do Simplão e entrei (número 1 no mapa abaixo). Quando vi as duas casinhas fiquei muito feliz, e até bati palmas pra tentar achar o seu José numa das casinhas (número 2 no mapa), mas não havia niguém. Voltei e segui a estradinha a esquerda que voce seguiu. Então chega o ponto crucial do relato: Temos uma encruzilhada com quatro pontos (número 3 no mapa). O primeiro, de onde viemos (as duas casinhas, ponto 2). A esquerda volta exatamente para a bifurcação de onde pegamos à direita para o camping do Simplão (ponto 1), com uma observação: olhando no google maps, não precisa pegar a direita na placa do camping do Simplão (bifurcação 1 no mapa) e depois à esquerda nas duas casinhas pois o caminho é bem maior. Agora a questão é para onde ir dessa encruzilhada. Voce diz no seu relato que foi reto e achou o orelhão (ponto 4 no mapa), entrando a direita nele que é o caminho que coloquei em verde no mapa (nem há estrada no google, mas é possível ver a trilha), inferindo pelo que voce fez. Porém essa trilha é muito maior. Basta entrar a direita na escruzilhada e seguir reto rumo ao ponto 5 que é o pesqueiro de truta das pedrinhas. Olhando o caminho que voce fez, deu uma volta e quando chegou na bifurcação entrou a esquerda e não seguiu em frente, porém já tinha dado a maior volta. Agora a questão nem é de perder ou ganhar 1km, a questão foi o caminho que fiz. Quando entrei a direita no orelhão fui perguntando e, ao invés de seguir para a direita, dando a volta que voce deu, fugia de toda a placa que via escrito pesqueiro de truta das pedrinhas, pois pelo que pensei voltaria a Paranapiacaba. Isso me levou a fugir completamente do caminho, indo portando para a esquerda até andar uma hora ser ver alma viva. Quando vi gente perguntei sobre a Pedra Grande e não me sabiam responder. Perguntei sobre a Pedra Grande de Quatinga e me disseram: "Ah! Quatinga segue reto, mas tá longe". Andei feito camelo por mais uma hora e já eram 17:00 passadas quando um caminhão que ia passar por mim, na mesma direção que eu, pára quase ao meu lado para descer um caboclo que morava ali. Então perguntei sobre Quatinga, já convicto de que a Pedra deveria ser perto desse vilarejo. Segui uma meia hora de carona no caminhão até essa vila, que até pode ser simpática, mas nada seria simpático ao descobrir que estava longe umas 3 horas de caminhada da Pedra Grande e o sol só deixava aquela claridade baixa após ter se escondido. Segui com uma lanterna na trilha de que voces voltaram para Quatinga após terem chegado no topo, na escuridão total e adivinha: passei direto pela placa da entrada da trilha ao lado da cerca, desci o atalho escorregadio, depois de andar na escuridão total às 20:00 sem ver viva alma há pelo menos hora e meia. Quando ia passando pela cerca no meio da estrada (cerca que estava relatada, porém umas 4 horas depois do que deveria estar passando) vi uma casa com luz e resolvi perguntar. Quando o cara me disse que havia passado já fazia meia hora, decidi acampar ali mesmo, mas ele ofereceu uma casa que tinha na propriedade dele ali do lado, em que eu passei a noite. No dia seguinte voltei o caminho e subi na Pedra, quase como um desabafo. Fiquei bem umas duas horas tentando entender o caminho que tinha feito dali de cima e tudo clareou. Na volta, antes de passar pela cerca denovo, encontrei um casal de senhores que disse que vai a Pedra Grande com muita frequencia e me disseram para entrar a esquerda, passar pela frente do pesqueiro (a cerca está no número 6 do mapa) e voltar que encontraria fácil o caminho. Porém, na estrada do pesqueiro encontrei um simpático rio que formava uma psicina natural após passar por baixo da estrada e dei alguns mergulhos, para espantar a zica. Depois que voltei a andar, logo a frente encontrei a encruzilhada maldita do início de tudo e pensei em como fui burro. (no mapa, 7 é onde tem o atalho escorregadio. 8 é a Pedra Grande, grande objetivo conquistado). Logo que escrever o Relato com mais calma, posto aqui o link. Contudo, fica o aviso para quem quiser seguir essa aventura. O que tenho a dizer é que é uma trilha grande, que necessita de preparo se for fazer desde Paranapiacaba, contudo muito bonita, agradável e não deixa a desejar por ser desconhecida. Um atrativo a ela é o preço para acesso de São Paulo, que me custou cerca de R$10,00 saindo da estação de trem Villa Lobos-Jaguaré. Para quem mora em Santo André, tem um onibus direto pra Paranapiacaba. Eu gostaria de voltar a região para fazer a primeira parte dos dois tempos. Além disso gostaria de tentar também subir pelo caminho rápido/complicado que o José falou para voces, que passa pela tal Cachu da Macumba. Estando disposto para aventura, é só chamar. Abs, Davi.
  10. Ótimas travessias, ótimo relato, muito bem escrito. Eu sou natural de São Bernardo, apesar de morar em São Paulo atualmente. Vou ver se esse final de semana conheço esses lados que voce viajou. E com relato tão detalhado nem tem como se perder. Abs. Davi.
  11. Muito legal seu relato. É uma pena que choveu, mas, como voce diz, "Eu já estou com o pé na estrada, qualquer dia a gente se vê...". Eu andei pensando no que é alguém que sai de casa pra fazer isso que voce fez e eu acho que não tem nome. Nenhum nome cabe para quem entendeu que ali se faz anônimo. Muito menos que ali não se vai pra fazer qualquer coisa que se tenha planejado, pois os planos ficaram para trás, afinal "Eu já estou com o pé na estrada, qualquer dia a gente se vê...". Parabéns pela trip.
  12. Não fazia ainda nem uma semana que chegara em casa de Monte Verde e estava agitado. Olhei pra mochila no canto do quarto vazia, murcha e entrei no Mochileiros.com procurando algum roteiro. Entre os relatos que leio há alguns em que vou junto, sinto o frio e a chuva. Como a moto estava na revisão procurei algum lugar fácil chegar de ônibus. Encontrei o Pico do Paraná (ou foi ele que me encontrou). Acordei na sexta-feira às 6 da manhã, arrumei as coisas e fui à Rodoviária. Mal sabia que uma cratera em algum lugar fez o ônibus atrasar duas horas e meia, embarcando apenas às 10:30 da manhã. A ficha só caiu quando ouvi que chegaríamos por volta das 18:30. Isso mesmo, 18:30. Se não pegar trânsito. Diferentemente de viajar de moto, o diálogo é inevitável: Está indo pra onde? A garota que ia sentada do meu lado olhou estranho: “Voce parece mesmo um bicho grilo”. Estranhei meu novo apelido afinal, há um mes eu fazia meus úlitmos relatórios na matriz do banco em que trabalhava. Havia um número na minha cabeça: 46. Era o kilómetro que precisava descer. Quando mudou de estado os número começaram a crescer e junto a ansiedade me levaram ao lado do motorista. Saí do ônibus abafado e olhei as montanhas, ao fundo, imponentes. Apertei a mochila e adentrei a estrada. Logo na entrada da estrada de terra havia um homem com uma garotinha. Perguntei se estava no caminho certo e estava, com apenas uma resalva: na encruzilhada, pegue à direita. Se voce já foi ao PP sabe que não existe nenhuma escruzilhada, basta seguir toda vida. O dia começou a escurecer e apertei o passo já que meu plano inicial era chegar no acampamento 1 antes de escurecer. Peguei a primeira entrada à direita e andei bastante. Passei um lago, outro lago e mais um lago, até chegar a uma casa sombria. Pela janela via coisas jogadas e ninguem respondeu aos meus chamados. Na lateral várias caixas cobertas por enxames de abelhas. Não era possível saber se ali era a Fazenda Pico do Paraná, embora eu estivesse mais preocupado se encontraria corpos estripados nas redondezas. Não sabia o que fazer e caminhara mais de meia-hora desde que entrara à direita. Resolvi voltar. No último lago antes da casa sombria avistei, de longe, um homem agachado. Procurei pedras e paus ao alncance dos olhos esperando o pior e, segurando a mochila perguntei, engasgado: “Aqui é a Fazenda Pico do Paraná?”. Recebi um “Sei não” em que o sotaque paranaense aliviou a carga de paura que dobrava o peso da mochila. “Pergunta pra ele ali na frente”. Havia mais dois homens pouco a frente, também agachados. Recebi mais um “Sei não” quando me aproximara do terceiro homem. Ele virou o rosto e tomei um susto: tinha uma barba digna de homem do saco. Nem esperei resposta e apertei o passo. Voltei ao caminho correto por onde andei bastante, perguntando a cada ser vivo a direção correta. Caminhei por cerca de uma hora quando cruzei a porteira. Tive ainda que colocar a lanterna na cabeça para continuar a descida que terminava na casa da fazendo. Ali parecia até ter uma festa, com vários mochileiros, botas e lanternas. Me senti melhor e conhecei o Dílson. Não deixei de reparar também em dois rapazes que iam fazer a subida para o Itapiroca durante a noite mesmo, já que conheciam a região. O que me chamou a atenção não foi a coragem, mas que eles tinham passado por mim cerca de meia hora antes de eu chegar à fazenda, de carro. Para onde mais um cara com uma mochila enorme estaria indo? Cada um tomou seu caminho e de repente eu estava ali ouvindo as história e conselhos do Dílson, responsável pela fazenda. Tomei um banho e acampei ali mesmo, pois nunca havia andado numa trilha durante a noite, quando chegou, vindo do PP um rapaz que logo foi embora com seu Chevete 90. Antes de ir ele disse, ao constatar que era minha segunda travessia: “Seria uma ótima experiência se voce pegasse uma puta chuva lá em cima, heim”. Era melhor ir dormir, não sem antes jantar um macarrão instantaneo e meditar sobre o dia vindouro. Acordei com uma manhã linda e levantei acampamento rapidamente. Pus o pé na trilha às 7:15, subindo uma escada infinita feita de pequenos pedaços de madeira calçando a terra. Ainda descançado fiz o caminho rápido chegando à primeira encruzilhada. Não levara nenhuma informação além de que era só seguir a trilha principal para chegar ao PP. Até que a decisão ali foi fácil, pois a trilha seguia em frente e havia um caminho à direita e outra à esquerda, sendo que o primeiro estava fechado por uma fita de isolamento daquelas de filme policial. Segui em frente sem pensar e começou a ficar dificil. A trilha cruza vários caminhos de água, rochas em barrancos e raízes de árvores, deixando a caminhada bastante lenta. Porém aqui é mais prudente ir devagar para não ter surpresas, como a que tive. Certa altura da caminhada havia uma fonte de água que cruzava o caminho e descia para a direita da trilha cerca de 4 metros, um abismo. O verde sobre as rochas exibia o perigo e eu tentava escolher as que tinham menos limo. Num caminho a direita de uma árvore havia uma rocha limpa e optei por ela, apesar de ser mais próxima do precipício. Sempre tento agarrar nos galhos de árvores nesse momento, mas pela ausência fui no estilho surfista mesmo, com uma mão espalmada pra cada lado. De repente meus pés escorregaram em direção do abismo e o coração disparou frente ao perigo real. Eu tenho uma barra de titânio no fêmur esquerdo, fruto de um acidente de moto, e uma queda de tal altura pode ser um tanto trágica. Meus pés já tinham saído do chão rumo ao buraco quando, no meio da queda segurei num tronco. Fiquei alguns segundos ainda ali, olhando para baixo, suor escorrendo do rosto, com os pés já sobre a rocha enquanto imaginava o que poderia ser. Báh! Seria o pico, isso sim, o pico. Segui o caminho mais confiante de si, embora assuntado. Chegara agora o problema maior: a segunda bifurcação. Não havia caminho mais óbvio que outro e resolvi esperar a sorte de alguém passando naquele momento, enquanto me hidratava. Nada. Lembrei quando jogava video-game com meu irmão e esses problemas eram comuns. Sua regra era: “Vá sempre pela direita. Sempre”. Fui. A subida era longa e cada passo aumenta o caminho de volta em caso de erro. De repente a trilha termina em um campo aberto e já ouço vozes. Devia ser ali o acampamento 1. Quando eu atinjo um objetivo me sinto bastante contente e decidi que ia até sentar um pouco antes de continuar. Cumprimento o quarteto que conversava com o Bob quando eu chegara e recebo a fatídica: eu havia errado o caminho. Em meio a decepção da burrice própria uma sugestão: “Já que voce tá aqui no Itapiroca, vá até o cume, são só 5 minutos”. Melhor que ficar ali em meio a fumaça alheia. Deixei a mochila e subi quase que correndo, procurando o ar que o vento faz gélido. Sentei e apreciei a vista. Aproveitei para assinar o livro e fazer a Oração da Serenidade, tão propícia para aquele momento. Peguei minha mochila, agredeci as informações e segui rumo ao PP. O caminho voltou a ser acidentado, mas os passos rápidos logo me levaram, agora sim, ao acampamento 1. Havia 3 barracas ali, uma vazia de dois rapazes que atacavam o cume naquele momento e as outras duas de um grupo do litoral do Paraná. Logo responderam ao ao meu cumprimento e saíram da barraca para compartilhar as últimas. Chegaram à fazenda no dia anterior, quando eu já estava dormindo. Porém, mesmo sem conhecer o trajeto decidiram seguir na escuridão. Demoraram cerca de 6 horas o caminho que eu havia feito em 4 passando pelo Itapiroca e a canseira era visível em seus olhos. Quando me despedi levantavam acampamento para continuar e combinei de nos encontrarmos no topo logo mais. Eu mal sabia que a pior parte do trajeto se aproximava: as paredes verticais. Logo na primeira me assustei. Havia algumas escadas de ferro presa às pedras, mas ainda assim parecia temeroso. Estava no começo da crista da montanha, por onde o caminho seguiria até o final, passando por mais tres paredões daqueles. Havia ainda dois agravantes: a mochila cargueira e os degraus removidos. Fui bastante devagar e consegui vencer os dois primeiros, quando encontrei os dois garotos que recém haviam alcançado o topo. Nada mais motivador para continuar até o fim. Naquelas paredes a concentração tem que ser total, pois ali é difícil sobreviver a uma queda. Eu procurava o acampamento 2 para deixar a carga e ir ao topo. Passei por uma área cheia de clareiras, mas não firmava certeza. Lembrei de um dos garotos que havia cruzado falando de uma casa de pedra pela qual procurei em vão. Segui então sem perceber que havia acabado de passar por meu objetivo, louco para deixar a carga e subir com maior segurança. Vencidas as paredes entrei numa trilha fechada novamente, que segue no ponto onde a crista tem pouca largura e encerra em pequena clareira. Deixei a mochila ali e continuei, chegando em poucos minutos ao topo do Pico do Paraná. Na hora não me contive e gritei, olhando em direção a ensolarada baía. Eu nem acreditava que havia chegado. Corria de um lado para o outro sem saber o que fazer. A emoção tomou conta de mim e deitei sobre as pedras fitando o sol. Era uma da tarde em ponto e o dia era meu. Registrei minha passagem no livro e desci, após mais de uma hora sobre o pico para montar acampamento e almoçar. Comi o primeiro miojo quando vi o tempo fechar. Apressado, montei a barraca. Dessa vez, ao contrário do que acontecera semana passada em Monte Verde, as condições de solo eram ótimas para fixação. Porém fiquei em dúvida entre um canto gramado bem na passagem e uma área de terra batida no outro canto. Imaginei por onde a água escorreria. Com a barraca armada porém não fixa fiz vários testes e troquei várias vezes de lugar até finalmente fixar os grampos não chão. Havia optado pela terra batida, quando lembrei da foto que o Léo postou no fórum de barracas Nautika uma foto de uma piscina e, em meio aos primeiros pingos fixei sobre a grama, mesmo que na passagem. Tanto esforço para nada. Afinal, as nuvens foram embora e voltei ao topo para ver o por do sol, desde às 3 da tarde, como a natureza pede para ser observada, com calma a paciência. Esperava pelo grupo que passara no acampamento 1, quando vi um rapaz de blusa laranja no começo da crista. Ele porém não seguiu em frente e deixou o ataque para o dia seguinte. O por do sol foi fenomenal. Há uma semana estava sobre o Pico do Selado, em Monte Verde, porém aquele por do sol que via era mais bonito, porque era naquele dia e porque o por do sol mais bonito que há é o do dia de hoje, porque não há nada como o dia de hoje. As luzes de Curitiba começavam a acender e formavam um outro mar oposto ao mar, ondas ainda não decididas se iluminavam ou se deixavam o sol iluminar. Terminado o dia desci para a barraca e em pouco minutos estava dormindo. Sonhei sonhos malucos e estranhos que o cansaço físico presenteia os bravos após longas jornadas e acordei nos primeiros instantes do domingo. Para alguém que acampara poucas vezes tinha me acostumado bem a dormir em condições adversas. Subi ao pico devidamente agasalhado para ver as estrelas. Nem sinal de chuva. O céu estava limpo e Curitiba estava toda acesa na noite de sábado. Ali, deitado, me passou uma idéia maluca pela cabeça. Poderia acordar bem cedo e antes do sol nascer lavantar acampamento e rumar para o Caratuva. Eu nem sabia o caminho, porém meus sofismos faziam crer ser na primeira bifurcação, a que tinha a fita de filme policial, porém no outro sentido. No domingo alguém com quem encontrasse na descida poderia tirar minha dúvida. Após uma hora apreciando as estrelas voltei à barraca. Imprecionado com o fato de ter dormido algumas horas direto coloquei o celular para despertar, pois temi perder o nascer do sol, tamanha exaustão. Às 6, conforme planejado, fui para o topo mentalizando céu limpo para que pudesse esperar o sol. O Dílson, na minha chegada à fazenda disse que a probabilidade de encontrar céu limpo pro lado do mar era menor que 30%, ainda mais em março. Desafiando as estatísticas encontrei o céu límpido. Sentei numa pedra e me silenciei, tal qual a vegetação, temendo espantar o sol. Exatamente à 6:17 surgiu, naquela vermelhidão, seu primeiro pedaço, pedindo reverência. Esperei ali sentado, hipnótico, que subisse todo e mais, que refletisse sua luz no mar. Pouco depois chegou o grupo que havia encontrado no acampamento 1, e adiei um pouco ainda minha descida. Deixei-os ali enquanto preparava minha mochila para a caminhada. Quando decidi rumar iniciaram a descida do cume e acompanhei-os, temendo o perigo da descida das paredes do dia anterior. Descemos bastante rápido e, bem na passagem eu uma parede para outra, num pequeno espaço encontrei um montanhista bem equipado e imaginei que deveria conhecer o local. Confirmei com ele minha suspeita da trilha para o Caratuva e achei bastante legal aquela troca de informação em local inusitado. No acampamento 2 resolvi esperar o grupo de paranaenses que foram bastante amistosos comigo levantar acampamento para que seguíssemos juntos. Porém um grupo sempre tem velocidade menor que um solitário e logo me despedi, sem antes, contudo, deixar meu e-mail para que combinássemos um dia subir o Marumbi, montanha bastante conhecida por eles. Fui bastante rápido em direção ao Caratuva, temendo o horário. Para chegar eu tinha descido do onibus no kilómetro 46, porém a volta seria mais complexa, pois teria que esperar um ônibus que vai para Curitiba e passa apenas às 18:00 na Régis. Encontrei vários grupos indo em diração ao PP e sempre confirmava o caminho, temendo minhas burradas. Pedi para vários desses grupos avisarem o Dílson que eu estava indo até o Caratuva. Quando se chega à Fazenda é necessário preencher uma ficha com informações pessoais, destino e data de volta. Esse controle permite que, em caso de acidentes, uma equipe de busca possa prestar os devidos socorros. Para isso, aliás, paga-se R$10,00 na entrada da fazenda, valor que inlcui o uso do camping, estacionamento e chuveiro quente, premio final da volta. Após longa e rápida caminhada cheguei exausto à entrada para a trilha do Caratuva. Seu começo reserva grande quantidade de bambus na trilha, o que dificulta a vida de quem está com mochila cargueira, sendo necessário em alguns casos se arrastar pela trilha para não ficar preso. Eu desejava que na ida não houvesse descida, pois significaria subida na volta. E fui atendido quanto a isso, porém não imaginava que a subida seria tão cruel. Eu sabia que o ritmo ali deveria ser acelerado, caso contrário pararia no caminho, porém já estava no limite da exaustão e cada passo acima denunciava meu esgotamento. Parei várias vezes no meio da trilha, ofegante, encarando um limite que nunca havia atingido e queria superar. As paradas eram longas o suficiente para diminuir a respiração acelerada, porém curtas o suficiente para não esfriarem os joelhos. Aquela subida não terminava nunca e a adrenalina de conquistar aqueles 3 cumes que eu nem tinha previsto e apenas um erro no caminho havia me lançado contra eles unia forças dentro de mim para continuar. Quando a trilha abriu e avistei em meio a um campo íngreme da vegetação que dá nome à montanha as antenas de rádio que havia observado tantas vezes ao longo dos dias que estava ali não consegui conter a velocidade. Quando cheguei só pude soltar a mochila e me deitar, com o sol sobre minha cabeça. Eu estava completamente molhado de suor e me sentia fazendo parte não dos outros montanhistas que ali estavam, mas da própria vegetação. Só após alguns minutos em extase consegui me levantar e ir na direção de um grupo, para que pudesse voltar a existir como ser humano. Para minha surpresa era um grupo do CPM, Clube Paranaese de Montanhismo, em cerca de dez com quem conversei um pouco. Demonstravam certa seriedade nos gestos, parecendo que haviam encontrado maneira sã de fazer aquilo que eu fazia de maneira tão explosiva. Usavam GPS, bússola e roupa anti-transpirante enquanto eu me perdia e suava feito um porco. Um deles me convidou a subir o Marumbi, dizendo que o CPM tinha uma casa lá e seria bastante legal. Eu então perguntei qual foi a primeira vez que havia subido e, para meu espanto, havia sido em 1977. Até 1986 havia subido incontáveis e frequentes vezes, conhecendo muito bem o local. Eles seguiram rumo a Taipas, uma montanha próxima, me deixando sozinho no Caratuva, onde preparei meu almoço. Mal começara a comer e um grupo pelo qual eu havia passado na subida chegou. Eram tres rapazes e uma moça, sendo um deles conhecedor daquelas bandas que guiava os amigos na primeira travessia. Eles eram muito divertidos e ri muito durante o tempo que passei com eles. Com certeza foi o momento mais divertido dessa jornada. Quando eles chegaram eu já havia assinado o livro com a tradicional (ao menos para mim) oração da serenidade, e, quando um deles leu em vóz alta para os outros mencionando o que aquilo significava para ele, senti a alegria do estrangeiro que encontra um compatriota. Havia caminhado tudo aquilo solitário para saber que nunca mais preciso estar só. Tirei algumas fotos com eles e me despedi, fazendo o caminho de volta na tranqulidade da descida. Pensava apenas na água de coco de caixinha e no banho quente que teria ao chegar. Não fiquei muito tempo na fazenda e logo peguei a estrada. Precisava fazer os 5km da estradinha até a Régis em uma hora para chegar antes do onibus. Uma chuva leve foi minha companheira até a estrada, em que cheguei alguns minutos após às 18:00. O Dílson havia me instruído que de domingo o onibus constumava atrasar, porém chegar alguns minutos após às 18:00 era o suficiente pra me dar bastante preocupação. 18:30, a noite caiu. 19:00, escuridão total e olhos alertas na estrada. Teria perdido o onibus? Em poucos minutos o breu da noite já não me permitia distinguir os veículos pela estrada e adotei uma estratégia um tanto desesperada: já que não podia perder em hipótese algum aquele onibus dava sinal pra tudo que passava, não importava se era caminhão ou onibus. Após algum tempo até para carro e moto eu dava sinal. Pouco após às 19:00 um onibus parou ao lado do ponto abriu a porta. De longe, gritando para que minha voz não fosse abafado pelo vácuo dos caminhões, confirmei que ia à Curitiba. Acabava ali a viagem. Teria ainda uma passagem por Curitiba para me acostumar com a civilização antes de enfim chegar à São Paulo, tal qual os mergulhadores que, indo a grandes profundidades precisam de algum tempo despressurizando até acostumarem com o mundo normal. Já dentro do ônibus passei mentalmente por aqueles dias em alguns segundos e me assustei com tamanha insanidade que havia cometido. Era verdade, eu não era mais o mesmo.
  13. Fala bruno. Então, mordeu mesmo. Não é que esse final de semana, mesmo com a motoca fazendo revisão peguei o busão e fui pro PP sozinho. Nem tá dando tempo de documentar tudo e ainda fazer as coisas da facul. Valeu pelo incentivo e pelas dicas antes da viagem. Abs. Fala Marcos. Foi mal, eu sabia que tinha umas letras depois do seu nome e confundi. Vamos marcar uma viagem sim, cada lugar que vou encontro gente no caminho que me pergunta se não conheço tal lugar de não sei onde e fica mais um pra lista que só aumenta. Puta sorte mesmo ter pego o dia limpo, cheguei em SP bronzeado. Ainda mais depois de ver a foto de piscina que o Léo postou no fórum de barraca Nautika. Eu não tirei nenhuma foto. Não tenho máquina fotográfica e tenho uma filosofia maluca de não gostar de tirar fotos que ninguém entende. Eu dormi como um bebê sobre a pedra. Talvez minha cama seja muito dura. Comprei um isolante de EVA pra viagem que fiz essa semana mas ficar andando com ele pra fora da mochila não foi muito prático e estou repensando as coisas. Vá lá, é muito bonito. Se precisar de companhia não esquece de chamar. A primeira vez a gente não esquece. Só quem esteve sabe... Eu sempre tive moto alta e nem sei o que é ter moto speed. Tive duas XTs 225 e agora uma TDM 225. Eu acho que paga-se pouco a mais e, pelo menos em São Paulo, tem lugar que é pior que estrada de terra. Se eu fosse pegar 0Km agora com certeza pegava a XRE 300cc da Honda.
  14. Essa viagem começou, na verdade, há um tempo. Eu vou viajar a Campo Grande na semana santa, e pensei em ir para Bonito antes. Porém queria acampar. Para acampar precisava de uma barraca e digitei no google “barraca Nautika” e vim parar aqui no mochileiros.com. Nem sabia onde estava me metendo naquele momento. Pesquisei sobre Bonito e vi que não era o que eu estava procurando, pois todas as atrações exigem guias. Comecei a viajar pelos relatos de voces e vi alguns sobre Monte Verde. Perguntei para o Marcos SJC que me encorajou bastante a fazer. Então tinha que comprar o equipamento. Comecei a comprar tudo há duas semanas: Mochila, barraca, saco de dormir, lanterna, fogareiro. No sábado de manhã respirei fundo, subi na moto e rumei para Monte Verde. Não sabia se tinha tudo que precisava, mas se não tivesse descobriria lá. A viagem foi muito boa, com sol o tempo todo. Cheguei lá no sábado às 11:00 e quando entrei na trilha já era quase 12:00. Esqueci de trazer água e comprei uma garrafa no reataurante de uma senhora bem simpática. Eu achava que a mochila estava lotava e meio que pendurei a garrafa. Ainda na estrada para a trilha ela caiu no chão e então descorbi um bolso na mochila que devia servir exatamente pra isso. Inclusive tinha um de cada lado e achei que deveria ter comprado duas garrafas, mas era tarde demais. Subi, conforme meu planejamento, em direção ao Platô. Logo no começo da trilha tinha uma saída que dava pra uma pequena pedra que dava pra ver bastante coisa, mas nem era tão alta. Eu pensei que aquilo era o Platô e disse “Nossa que vista legal”. Cruzei um riachinho ao continuar a subida e molhei o rosto: a água era muito gelada. Como estou com a barba grande a água ficou nela deixando uma sensação térmica ótima praquele calor. Subindo um pouco mais cheguei no Platô. Havia ali dois grupos. Eles me viram com a mochila enorme e falaram comigo, porém eu nem conseguia conversar direito hipnotizado pela paisagem. Lá embaixo havia dezenas de pequenas montanhas num desenho irregular. O sol deixava uma sombra em um dos lados, o que fazia de tudo mais belo. Sentei e tomei uns goles de água. Logo rumei para o Selado. A trilha começou tranquila, com grama, uma poça de água. Propaganda enganosa. A vegetação começou a fehcar, a trilha a subir e a mochila pesa. Desde o começo da caminhada fui tentando ajustar a mochila para que não pesasse muito. Logo saquei que dependia do momento: tem vezes que vai mais peso na constas, outras nem tanto. Esse foi o primeiro grande aprendizado. Já estava avisado quanto às bifurcações por conta do relato do Augusto, caso contrário entraria em pânico. No caminho Ia encontrando vários turistas que confessavam que não tinham conseguido. Um casal me disse que chegaram há uns 100m do Pico, porém não acharam a trilha. Fiquei com medo mas continuei. A partir de certo ponto não havia mais ninguém. Várias vezes chegava mnuma pedra e pensava que era o cume, mas quando olhava pro lado tinha algo maior e continuava. A água estava quase acabando e eu sabia que a única fonte nessa região ficava antes do Platô, mas segui em frente. A trilha ali era muito fechada e várias vezes parecia que acabava, sendo necessário abrir a mata com as mãos para enchergar o caminho. Após muito caminhar cheguei numa pedra bem grande que precisaria escalar. Deixei a mochila ali embaixo e subi. Quando cheguei tive a melhor visão da minha vida. Ali, por ser o ponto mais alto de Monte Verde possibilitava uma vista 360 graus. Não sabia o que fazer. Olhei para o lado e vi uma caixa de metal presa a rocha. Abri o vi o livro do cume. O vento chacoalhava os sentimentos dentro de mim, e não sabia se ria, chorava, gritava. A primeira coisa que veio na minha cabeça naquele momento deixei escrita no livro: "Senhor, concêda-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença, Só Por Hoje". Eu não queria mais descer. Olhei para o lado e vi uma pedra com uns 10 metros de altura a menos, plana o suficiente para montar a barraca. Mas, se quisesse fiacar, teria que voltar e buscar água. Após alguns instantes um pássaro deu um rasante próximo a minha cabeça e me assustei. Quando olhei para cima vi uns 200 pássaros que voavam em círculos e, ao piar de um deles, devam um rasante até próximo ao solo. Era uma cena linda. Eu não acreditava que aquilo tudo estava acontecendo comigo, ali. Resolvi voltar, buscar água e armar o acampamento. Segundo grande aprendizado: água nunca é demais. Após pegar a água, no Platô fiz dois miojos e comi uma lata de atum. Rumei novamente para o Selado. Andei bem rápido, com medo que escurecesse. Eu não sabia qual era a capacidade da lanterna que levava, nunca tinha armado uma barraca na vida e sem luz tudo ficaria bem difícil, mas mantive a calma, que é a melhor companheira de uma viajante solitário. Quando cheguei novamente ao Selado fui direto para a pedra lateral montar a barraca. Eu nunca tinha feito aquilo na vida. Quando coloquei as varetas nos buracos da parte interna e a barraca ficou de pé, senti um alívio. Coloquei o sobre-teto e amarrei bem. Fui procurar uma pedras na região e achei só duas. Como o vento estava fraco ali, imaginei que seriam suficiente. Então voltei para o Selado para admirar o por-do-sol. Os pássaros ainda davam seu show voando em círculos. Quando o líder dava o sinal mergulhavam com tudo, sem se importar. Alguns exageravam e desciam para além de onde eu podia ver. Eu me levantava para tentar enxergar torcendo "não morre não passarinho, volta aqui" e engolia seco. Alguns instantes depois ele subia, como se tivesse apenas pregando uma peça em mim, arrancando um sorriso do meu rosto. A barraca ficou armada com a porta de frente para o sol que se punha. Deitei no saco de dormir olhando seu súltimos raios e pensando como seria a noite. Algumas horas depois, deitado sobre a rocha, olhava para as estrelas. Eram muitas, nunca tinha visto tantas. Reconheci algumas constelações mas o frio me empurrou para dentro da barraca. Tentei dormir, mas aí percebi o primeiro impecilho de acampar sobre a rocha: eu tinha apenas um saco de dormir e o chão era realmente muito duro. Tinha que deitar e ir me adaptando em conformidade com a rocha para que nem um osso ficasse sobre uma saliência, mas cada vez que livrava uma parte da dor, outas tantas ficavam no seu lugar. Porém, o cansaço venceu e dormi como uma bebê até cerca de meia-noite, quando fui acordado pelo vento, realmente muito forte. Nem sei qual a velocidade que estava, mas não acho que seria exagerado se dissesse 50km/h. Fiquei com medo de sair e a barraca ser levada, mas naquelas condições não tinha outra escolha. Não dava pra desmontar a barraca no escuro e levar para outro lugar, tão pouco tentar levar armada, já que tinha uma pequena trilha logo na saída dessa rocha. Então tomei a decisão mais burra e mais sábia ao mesmo tempo: Não fazer nada e voltar a dormir. Acordei a cada hora até que às 4:00 decidi que esperaria o nascer do sol. Fui para fora da barraca comer um saco de pão integral de canela e passas ao lado da barraca para testar se ela voaria sem meu peso dentro. Parecia que sim. O frio me levou pra dentro denovo e voltei a dormir. Às 5:00 acordei denovo. Coloquei a cabeça pra fora com a lanterna e não via um metro a frente com a neblina que vinha do vale. Era bonito o vento ver o vento levando a nablina pela montanha, mas eu preferia que estivesse bem limpo. Dentro da barraca eu achava que em algum momento o sobre-teto ia ser levado. Era tanto vento que se de repente acordasse no Platô por conta do vendo não seria estranho. Apesar de tudo dentro do saco de dormir estava quente e era só deitar que dormia, para acordar com o vento logo depois. O tempo ficou tão feio que mentalmente disisti de ver o nascer do sol e pensei que se saísse dali vivo já seria ótimo, mas quando chegou começou a clarear o tempo melhorou e pude subir novamente no Selado para ver o nascer do sol. Era realmente muito bonito e cada instante passado naquela noite valeu a pena. Sentei e reverenciei a paisagem olhando cidades do Vale do Paraíba distantes e pequeninas perto da imensidão daquela cena. Olhei pro livro do cume e pensei em escrever tudo o que via, mas não seria capaz. Aliás, era a natureza que escrevia em mim uma das páginas mais belas da minha vida. Caí em si novamente e fui desarmar a barraca. O vento continuava forte e cada parte que ia desmontando levava para a grama ali ao lado para conseguir dobrar. Tudo estava meio molhado e mal consegui enrolar tudo e colocar na mochila para seguir viagem. Terceiro grande aprendizado: arme a barraca sobre a grama. Segui para o Platô. Antes de pegar a trilha para o Chapéu do Bispo desci para pegar mais água e escontrei dois caras que também estavam acampando, porém no Platô. Conversamos um pouco e continuei meu caminho. A ida para o Chapéu do Bispo foi tranquila. Deixei a mochila escondida sobre uma pedra e subi até seu topo. A subida é um pouco difícil, deve-se escalar, porém há alguns ferros presos na pedra que facilitam tudo. Lá em cima existem outros desses ferros que imagino sejam para prender cordas para escalada. Cantinuei o caminho até a caixa d’água e depois de uma íngrime descida encontrei uma campinho bonito, com uma pequena mesa de pedras e umas árvores. Decidi armar a barraca ali para deixar secar e dobrar direito enquanto, às 9:30 almoçava. Como eu acordara às 4:00 meu corpo pensava que aquela era a hora do almoço. Preparei mais dois miojos e outra lata de atum, que foram mais que suficientes para uma refeição. Ali vários turistas pergutavam para mim sobre a trilha para a Pedra Redonda, que mais tarde descobri ser a mais frequentada. Alguns muito simpáticos ficavam um tempo trocando idéia. Eu gosto de conversas assim. Eu até que gosto de gente, embora prefira estar sozinho. Desarmei a barraca, sequei com uma toalha que levara a parte de baixo e dobrei tudo bonitinho. Uma garota que brincava de escola há alguns metros veio em minha direção, dizendo que eu deveria conversar com o pai dela que era dono do restaurante ali do lado. Aquele terreno era particular e eu deveria pagar para ficar acampado ali. Mas como se eu nem estava acampado, mas secando a barraca? Arrumando as coisas depressa pedi para que o pai dela viesse falar comigo, pois estava de saída, e segui a trilha, tentando voltar para onde as terras não tem cercas e as árvores demarcam os espaços de maneira torta. Já subindo avistei um casal rumando para a trilha na minha frente na qual o rapaz fumava um cigarro. O cara ia subir fumando? Melhor nem perguntar. Segui procurando uma fonte de água que o Augusto indicara que existia por ali, pois minha água estava zerada. O caminho começou a ficar molhado e pensei que encontraria por ali, porém não achei nada e achei que seria mais pra frente. Caminhei mais e encotrei uma família de japoneses, que me disseram que eu tinha passado a água, que ela onde estava molhado e tinha um caninho. Voltei bastante e encontrei o caminho, porém não pude evitar a raiva que a burrise própria causa. Subi até a Pedra Redonda e encontrei o casal do rapaz que fumava. Eles eram de Campinas. O rapaz tinha um binóculo que me emprestou e pude ver as cidades ao longe e os picos pelo qual tinha passado. Dali pude ver também a Pedra Partida, meu próximo destino. Era mais alto de onde eu estava, porém no caminho havia um vale, o que tornava as coisas mais difíceis. A Pedra Redonda é bem grande, mas em toda sua grandeza ocupada por turistas. Fiquei algum tempo e segui para meu último destino antes que a chuva chegasse ao seu. A trilha começou com grande descenso, o que era mal sinal, pois haveria de subir novamente. A trilha era bastante íngrime e fechada, e em certas trechos os bambus tomavam conta. Não raro precisava me arrastar, e a mochila desxava cada movimento difícil. Particularmente achei essa trilha a mais difícil, opinião com que meus joelhos concordavam. Cada vez que via uma pedra pensava que tinha atingido o cume, mas me precipitara. Quando cheguei tive certeza: soltei a mochila e escalaminhei a última das cinco montanhas de Monte Verde, sentindo uma espécie de gratidão especial por ter cumprido o que havia determinado. Tirei a camiseta e deitei sobre ela na rocha: o sol lavava meu rosto em meio as nuvens que não queriam chover para estragar meu momento especial. Bebi água para comemorar e olhei ao redor. Observei cuidadosamente cada um dos picos que havia subido e pude ver meus passos neles. Aproveitei os últimos momentos e desci. No caminho de volta já não era o mesmo. Quem tinha subido aquelas montanhas não era quem estava voltando. Eu tinha me perdido e me encontrado ali. Não era apenas o rosto suja, as mãos cortadas, a calça rasgada, muito menos a bota suja de barro. O caminhar sereno exibia que dali descera outro homem. Os joelhos quase dobravam em si, tremiam. Houve ainda uma última frase balbuciada para as árvores: Eu nasci pra isso!!! (Desculpem os erros de portugues, não tenho corretor nesse Word) ---- Equipamentos: Mochila Curtlo 75L Barraca Falcon 2 Nautika Saco de dormir Viper Nautika Bota Quechua Forclaz 50
  15. Olá Augusto, Nesse final de semana que passou fui fazer a travessia em Monte Verde. Usei como guia o seu relato, inclusive fiz o mesmo caminho, só não fui até SFX porque deixei a moto na frente do Bradesco. Muito obrigado pelas informações relatadas e pela experiência compartilhada. Foi minha primeira travessia e logo vou postar o relato dela. Ler os relatos aqui deixa as coisas mais fáceis, tanto pela parte técnica, como locais de fontes de água, quanto pela parte psicológica. Só uma pergunta: A pedra em que voce acampou no Pico do Selado é aquela que fica à esquerda do Pico olhando logo que se escala? Eu montei a barraca ali e no meio da noite o vento estava muito forte mesmo. Estava tão forte que não me assustaria se de repente acordasse no Platô por conta do vento Obrigado. Davi.
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