Ir para conteúdo
  • Cadastre-se

Ronei Amandio

Membros
  • Total de itens

    15
  • Registro em

  • Última visita

Reputação

1 Neutra

Outras informações

  • Lugares que já visitei
    Brasil, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e Chile.
  • Próximo Destino
    Peru e Equador

Últimos Visitantes

O bloco dos últimos visitantes está desativado e não está sendo visualizado por outros usuários.

  1. Ronei Amandio

    Urubici e São Joaquim

    Eu e minha esposa Janaina Telles resolvemos na última terça-feira (18-07-17) dar umas voltas pelo interior de Santa Catarina e resolvemos ir a Urubici e São Joaquim. Urubici e São Joaquim são cidades próximas (60 km), levando os turistas a conhece-las quando em viagem na região do planalto serrano catarinense. A primeira (Urubici) recheada de belezas naturais e aventuras, a segunda (São Joaquim) de importantes vinícolas, produtoras dos renomados “vinhos de altitude” muito elogiados e indicados por enólogos, sommeliers e, claro, por nós, os enófilos. Procure conhecer a Rota Vinhos de Altitude Santa Catarina... Fomos e recomendamos a Villa Francione, (reserve uma visitação antes)... embora em São Joaquim localizam-se 14 das 20 vinícolas da Rota Vinhos de Altitude e nem todas exigem a reserva... Vá por nós, reserve ao menos dois dias em cada cidade. Neste post vamos abordar apenas os principais pontos turísticos de Urubici, pois São Joaquim, como mencionamos, é mais voltado à vinicultura... Vamos ao que interessa: Sem ser pejorativo, quem olha a cidade de Urubici não percebe ou acredita o quanto ela pode surpreender com suas magníficas obras da natureza. Mas antes de qualquer coisa, passe no SESC de Urubici onde tem um ponto de Informações Turísticas e você poderá esclarecer dúvidas e retirar gratuitamente um mapa turístico da região. Morro da Igreja e Pedra Furada: Um de seus principais pontos turísticos é a Pedra Furada no Morro da Igreja. No inverno o local fica extremamente frio e por que não dizer congelante. A temperatura é muito baixa e a sensação térmica é cortante, mas nada que um bom e gostoso chocolate quente ou um bom vinho não aumente a temperatura de seu corpo e aguce seus pensamentos... O local fica a 29 Km do Centro da cidade e a 1.822 MSNM. Atenção: Para entrar no Sindact II (base da aeronáutica que controla o espaço aéreo de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul), de onde se pode avistar a Pedra Furada, deve-se, “antes”, passar no ICMBio (atrás do banco do Brasil), no Centro de Urubici, para validar "gratuitamente" a autorização de acesso. Você também poderá requerer a autorização por telefone ((49) 3278-4994) ou por e-mail ([email protected]). Se você for em alta temporada (inverno/férias julho) é bom saber que, no ICMBio, dependendo do movimento, poderá obter a autorização apenas pro dia seguinte, pois é limitado a 200 carros/dia. Mesmo assim você estará sujeito a enfrentar fila, pois, por conta do estacionamento, é autorizado a permanência simultânea de apenas 20 carros no local, ou seja, a partir deste número você vai ter que esperar um carro sair para poder entrar... logo, se chegar cedo, terá grandes chances de não enfrentar fila. Mas relaxe, pois, as 200 permissões/carro de acesso são distribuídas ao longo do dia e claro isto só ocorrerá em altas temporadas como férias de julho, por exemplo... A vista do local vale qualquer esforço. Ao chegar no cume da montanha você vai ficar extasiado com tanta beleza natural. Montanhas a perder de vista, sem contar a personagem principal e motivo do seu deslocamento, ou seja, a Pedra Furada ou janela da vida... Dicas: 1 – Retire a autorização no ICMBio (local, telefone ou internet); 2 – Coloque água no seu carro, afinal são 1.882 MSNM; 3 – Muito cuidado, pois tem vários trechos com gelo na pista o que a torna extremamente escorregadia e perigosa; 3 – Leve roupa de frio e máquina fotográfica; 4 - Fácil acesso, inclusive a cadeirantes. Cascata Véu de Noiva: Antes ou depois de conhecer a Pedra Furada, você poderá conhecer a Cachoeira Véu de Noiva. Não há queda d`água, mas a água desliza pelos 62 metros de altura de uma rocha gigantesca, assemelhando-se, como propõe o próprio nome, a um véu de noiva quando na sua plenitude, ou seja, quando há bastante vazão de água. O desvio até o local leva apenas 5 minutos e fica a caminho da Pedra Furada. No local há pousada e restaurante. O custo é de R$ 5,00 por pessoa. Este é um passeio casado, ou seja, não dá pra conhecer a Pedra Furada sem conhecer a Cascata Véu de Noiva e vice-versa. Local de fácil acesso podendo chegar de carro a 100 metros da cascata e o caminho é muito tranquilo com calçada de concreto, ou seja, podendo ser acessado também por deficientes físicos. Dicas: 1 – Leve câmera fotográfica; 2 - Leve dinheiro; 3 - Fácil acesso, inclusive a cadeirantes. Serra do Corvo Branco: Feito os dois passeios e de volta à SC370 pegue à direita e ande mais 20 ou 25 km para conhecer a serra do Corvo Branco. Mas prepara-se para a adrenalina, pois a serra não está asfaltada e o caminho é extremamente estreito... Dicas: 1 - Vá com calma e sem ingerir álcool; 2 - Leve máquina fotográfica. Cachoeira da Neve: Não chegamos a conhecer a Cachoeira da Neve, mas segundo relatos é uma das mais bonitas dentre as 80 existentes na região. Segue um pequeno relato neste link: https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g1632650-d7374697-i137081057-Arroio_do_Engenho-Urubici_State_of_Santa_Catarina.html Morro Campestre: Depois de conhecer a Pedra Furada, as Cachoeiras Véu de Noiva e da Neve e a Serra do Corvo Branco, procure relaxar um pouco e guarde fôlego pro dia seguinte. Afinal, como afirmamos no início deste post, Urubici oferece muitas opções naturais a serem exploradas pelos turistas. Afinal, se você estiver com pouco tempo e quiser aproveitar todas as atrações de Urubici num único dia, isto será impossível. E para relaxar, antes de jantar num dos vários bons restaurantes da cidade, vá, "no final do dia", ao Morro Campestre para vislumbrar um dos mais lindos pôr do sol que você certamente verá e guardará em sua memória... Local de fácil acesso, podendo chegar de carro bem próximo do cume. Mas atenção, nem sempre é possível chegar de carro próximo ao cume. Isto vai depender da ocasião (alta temporada é mais difícil) e do seu automóvel... De qualquer maneira você não perderá o pôr do sol, pois poderá deixar o carro e caminhar por aproximadamente 1.000 metros... Custo R$ 5,00/pessoa. De três coisas tenha certeza: Você vai revigorar as energias pro dia seguinte; Se estiver acompanhado, vai “causar” com a sua (seu) parceira (o); além de poder registrar belas fotos... Dicas: 1 – Não deixe pra ir quando o sol já estiver se pondo. Vá antes para garantir um lugar bacana e pra não ficar no meio do caminho quando o sol se pôr... Se isto acontecer não se desespere. Retorne no dia seguinte...; 2 – Leve roupa de frio e câmera fotográfica; 3 - Leve dinheiro trocado. PENSA QUE ACABOU? Cascata do Avencal: No segundo dia (mais relaxado) não deixe de conhecer a Cascata do Avencal e mexer um pouco com a sua adrenalina (sua e de quem estiver com você). É que além da beleza natural e mágica do local, você poderá fazer uma tirolesa sobre a cascata (R$35,00). Acredite é incrível! A cascata do Avencal, com 100 metros de queda livre, é frequentada por praticantes de rapel. O nome deriva da avenca, vegetação comum na região. É possível chegar de carro à parte de cima da cachoeira e a pé à parte de baixo, mas é preciso ter calçados apropriados e tomar cuidado com as pedras escorregadias. Fica no Morro do Avencal, próximo às inscrições rupestres, na saída de Urubici para quem vai a São Joaquim. Dicas: 1 – Leve dinheiro (R$ 10,00 por pessoa) um absurdo! 2 - Faça a tirolesa (R$ 35,00); 3 – Leve máquina fotográfica; 4 - Fácil acesso, inclusive a cadeirantes. Caverna Rio dos Bugres: Também não fomos, mas segundo consta é um antigo abrigo de índios. Para chegar no local será necessário enfrentar 11 km de estrada estreita de terra batida. Um rio é presença constante no cenário. Nos últimos 300 metros antes de chegar à caverna, a trilha piora e o melhor é deixar o carro e seguir a pé. Dicas: 1 – Levar lanterna para apreciar o interior da caverna; 2 – Aberto de segunda a domingo com atendimento 24 horas; 3 – Leve dinheiro trocado (R$ 3,00 por pessoa); 4 – E-mail: [email protected] / Telefone: 49 9128 2937 ou 49 8409 8257. Outras dicas sobre Urubici e região: Baixe o aplicativo Guia SerraSC no seu celular e desfrute de muitas dicas como passeios, mapas, hotéis, restaurantes/cafés, etc. Se quiser economizar almoce e jante no SESC, embora Urubici tem opções gastronômicas para todos os gostos e bolsos... No SESC o almoço fica por R$ 17,00 o Kg para comerciários e R$ 38,00 para público em geral. A janta é a la carte. A Igreja Matriz "Nossa Senhora mãe dos Homens", localizada no final da avenida que corta a cidade é muito bonita. Não espere ver no inverno fazendas de videiras e macieiras verdinhas com frutos brilhantes e suculentos prontos para a colheita. No inverno tanto as parreiras de uvas como os pés de maçãs ficam sem folhas, flores ou frutos. Expõem seus caules retorcidos e acinzentados, lembrando (em especial as macieiras) aqueles bosques assombrados de filmes de terror... Mas não pense que isto diminuirá o brilho da cidade ou de sua viagem. Não, isto não acontecerá. Afinal, se as árvores estão secas tenha certeza que a colheita foi feita e você poderá desfrutas de uma bela torta de maçã ou um bom vinho em dos bons restaurantes da cidade. A viagem não poderia ser melhor, afinal na companhia de minha esposa não poderia ser diferente. Esperamos que estas dicas os ajudem a se organizarem quando estiverem indo a Urubici. Ronei Amandio e Janaina Telles – São José/SC
  2. Está aqui um relato útil! Muito bom mesmo. Apenas recomendaria editar e tirar as mazelas pessoais como enjoos, etc... pois isto não contribui, embora respeite a particularidade dos momentos vividos. Parabéns! Espero que o bebe tenha nascido com muita saúde. Ronei Amandio
  3. Ronei Amandio

    Hostel em São Paulo

    Pessoas depois de procurar muito por um local bom e barato para me hospedar em São Paulo, enfim encontrei o Nomade In Art e Hostel cujo proprietário é o Marcelo - gente boa! O Hostel é super limpo e dá um banho em muitos hotéis e a galera é muito atenciosa. Fica na rua Eça de Queiroz, 414 - Paraíso - SP - próximo da estação de metrô Paraíso. (fone: 11 - 35672822) - Tem vários bares e restaurantes a 300 metros - na Rua Vergueiro. Fica próximo do aeroporto de Congonhas, mas é muito tranquilo chegar a partir do aeroporto de Guarulhos tb. Do aeroporto de Guarulhos basta: 1 - pegar o ônibus Linha Metro Tatuapé (fica dentro do aeroporto e sai de 20 em 20 minutos; 2 - Saltar na estação (metrô) Tatuapé; 3 - Pegar o metrô sentido Barra Funda; 4 - Descer na Estação da Sé e fazer a baldeação; 5 - Pegar a linha azul - sentido Jabaquara e saltar na Estação Paraíso 6 - Sair na rua Correia Dias, depois entrar na 3ª rua à direita (Eça de Queiroz) Pronto - Tudo isso leva mais ou menos 1h. É só ligar pro Marcelo que ele ensina tudo... Grande abraço - Ronei Amandio
  4. Por aí... Uma aventura com meu filho (Dylan Thomas) Como diria Mário Quintana "viajar é trocar a roupa da alma." Assim convido você a trocar a roupa de sua alma e nos acompanhar, através deste carinhoso relato, numa aventura pela Argentina, Chile e Uruguai ÀS MINHAS PAIXÕES (Janaína-esposa e Ana Paula-filha) 1º dia - 09-07-2012 (segunda-feira) Córdoba e Alta Gracia, Argentina Casa Museu Che Guevara Por conta de não haver disponibilidade de vôo para Santiago do Chile, optei pelo destino que nos conduziria à cidade mais próxima, que foi Córdoba, na Argentina. O único horário para aquela data não foi dos melhores e, por conta disso, chegamos em Córdoba às 03h da madrugada. Independente do sono e do cansaço por não ter dormido, estávamos cheios de expectativas para conhecer a cidade e os pontos turísticos. De táxi nos dirigimos diretamente para o Backspackers Hostel (tipo de albergue) que fica super bem localizado e próximo a pontos turísticos e do terminal rodoviário de Córdoba, que viríamos a utiliza-lo outras vezes. Descansamos muito pouco, mas o suficiente para recarregar as energias. Tomamos nosso primeiro desayuno (desjejum) e, a pé, iniciamos os primeiros passos desta marcante aventura. Inicialmente e antes de partirmos à procura dos pontos turísticos de Córdoba, que não são muitos, resolvemos conhecer apenas o Centro. Andando por seu calçadão, como que adaptando-nos àquela nova realidade, sobretudo ao frio, que naquela manhã aproximava-se dos 05ºC, passamos a observar tudo enquanto nos dirigíamos à Plaza (Praça) San Martin. Estranhei o pouco movimento na cidade, mas imaginei que a causa fosse o horário, porém, alguns minutos depois, nos informamos e descobrimos que tratava-se de um feriado em comemoração à independência Argentina. Conhecemos a praça com seu monumento em homenagem ao General San Jose de San Martin – militar e político argentino (25-02-1778 / 17-08-1850) que em 1812 retornou à sua pátria depois de morar por muitos anos na Espanha quando colocou-se a serviço dos revolucionários em prol a libertação de sua terra natal. Em 1816 saiu vitorioso da guerra contra a Espanha e cruzou os Andes para juntar-se ao líder Bernardo O´Higgins na libertação do Chile. Em 1821, com a ajuda de Simon Bolívar, dominou e declarou a independência do Peru, exilando-se voluntariamente na Bélgica e na França aonde veio a falecer. No entorno da praça encontra-se também o Cabildo, que atualmente funciona como auditório, centro cultural e artístico além de centro de informações turísticas, mas originalmente era utilizado como cárcere e ao decorrer dos anos teve tantas reformas quanto utilidades como, por exemplo, delegacia de polícia e museu. Com isso perdeu parte das características hispânicas da época em que fora construído, ou seja, no século XVII. Cabildo são instituições instaladas na América pelos primeiros conquistadores hispânicos. Seus membros, escolhidos entre os principais habitantes da cidade, se encarregavam da administração geral das colônias resolvendo problemas administrativos, econômicos e políticos. A Catedral Metropolitana de Córdoba é outro ponto turístico que se encontra na Praça San Martin. Ali, experimentamos os primeiros alfajores da viagem, que realmente fazem jus aos comentários que ouvira a respeito dos alfajores argentinos. Naquele local meu filho (Dylan) catava as primeiras folhas de árvores para pôr em sua coleção o que, de antemão, alertei-o sobre o risco de não conseguir retornar ao Brasil com as mesmas, pois a legislação dos países reza que, além de outras coisas como alimentos perecíveis, armas, animais, etc. não se pode entrar nos paises com plantas e/ou suas partes. Quanto a isso ele se manifestava dizendo que alegaria ser folhas mortas (caídas) e não arrancadas das árvores, acreditando que isso seria o suficiente para convencer as autoridades dos três países que visitaríamos. Vistos os principais pontos turísticos, nos dirigimos ao espaço destinado às comemorações cívicas que concentrava uma grande massa de argentinos que prestigiavam os desfiles das forças armadas e de várias representações da Argentina e, estranhamente, de outros países como a Estônia, por exemplo. O que nos chamou mais atenção naquele local foi a grande participação dos argentinos e as imensas filas que, pacientemente, aguardavam para receber chocolate quente ofertado pelo exercito daquele país. A primeira parte daquele dia passou rapidamente e revolvemos fazer o passeio à Cosquín – cidade a quase 60 km de Córdoba, à tarde. Nossa intenção não era apenas conhecer a cidade que pouco ou nada tem de turística, mas sim para prestigiar o passeio no Trem de La Sierra (Trem da Serra) onde pode-se contemplar bonitas paisagens entre bosques, vilas e como o próprio nome se refere, as serras, numa velocidade máxima de 40 km/h. Neste percurso o condutor procura animar os passageiros apagando as luzes sempre que o trem entra nos túneis o que provoca grande gritaria e algazarra dos passageiros, principalmente das crianças. O trajeto é bastante bonito tendo como destaque o Lago San Roque que proporciona uma linda paisagem e dá um “Q” especial à Vila Carlos Paz. Contudo, tudo isto só pôde ser contemplado no dia seguinte, pois ao chegarmos na estação, a qual não me recordo o nome, a mesma encontrava-se fechada. Perguntamos e um sujeito que nos informou que devido o feriado a estação não estava funcionando naquele dia, mas o trem partiria de uma outra estação (Rodrigues del Busto) às 13h. Nos informou ainda que no dia seguinte estaria funcionando e o passeio partiria às 08:40. Como não tínhamos tempo hábil para chegar à estação Rodrigues del Busto resolvemos retornar ao Centro e fomos diretamente ao Terminal de Córdoba invertendo a ordem dos passeios programados, ou seja, deixamos Cosquín para o dia seguinte e partimos para Alta Gracia que, conforme pesquisado na internet, seria uma cidade bastante interessante. O ônibus era daqueles coletivos comuns e o percurso levou em torno de uma hora e meia atravessando vilas e campos desmatados onde a vegetação nativa dava lugar a uma pastagem sem vida e de cor amarronzada que mais parecia ter sofrido uma recente queimada, mas na verdade era devido à seca, uma vez que não chovia na região há mais de três meses. De qualquer maneira, sentíamos uma agradável sensação, talvez pelo fato de estarmos contemplando uma paisagem extremamente diferente daquela que estamos acostumados. Chegamos na Estância Jesuítica de Alta Gracia por volta das 14:30h e saltamos do ônibus quando avistamos o dique El Tajamar – um lindo lago construído pelos jesuítas onde dezenas de famílias e casais de namorados aproveitavam o feriado e faziam convescote (piquenique) à sombra das árvores. O local é o cartão postal da cidade e rende lindas fotos do dique que espelha a torre e as árvores do parque. Ficamos ali por um bom tempo contemplando aquele local que trazia muita harmonia e paz. Em seguida resolvemos dar a volta no lago e, assim, descobrir coisas interessantes às suas margens enquanto íamos registrando inúmeras fotos daquele lindo local. Ao chegarmos do outro lado do lago fomos surpreendidos pela linda torre incrustada ao lado do dique e da Manzana Jesuítica. Na praça ainda esta umbicada (localizada) a histórica e conservada iglesia (Igreja) jesuítica que no ano de 2000, em Cairns, Autrália foi considerada patrimônio da humanidade pela Unesco. Não estou bem certo sobre a igreja, mas a estância foi transformada no Museu de La Estancia Jesuítica de Alta Gracia – Casa del Virrey Liniers, o qual foi o primeiro museu a visitarmos na viagem. Pagamos os ingressos a preços simbólicos e percorremos as 17 salas de exposição permanente que são mobiliadas e decoradas com móveis e objetos dos cordobeses que viveram na estância durante os siglos (séculos) XVII, XVIII e XIX. Em seguida fomos a um restaurante onde tomei uma cerveja Quilmes (produzida na Argentina) e meu filho um Jugo de naranja (suco de laranja) enquanto conversava com amigos e postava suas primeiras fotos no facebook, através de seu celular. Na sequência fomos caminhando até a Casa Museu Ernesto Che Guevara. No caminho percebemos o quanto Alta Gracia é bonita, harmoniosa e limpa. Não foi à toa que os pais de Che Guevara resolveram se instalar na cidade para amenizar os males da asma que o filho sofria. As casas são super ajeitadas com arquitetura diferenciada e jardins muito bem cuidados. O Dylan chegou a cogitar a possibilidade de um dia morar naquela cidade que considerou a mais bonita que já conhecera. No caminho ele mais observava às árvores, à procura de folhas, que à cidade em si, entretanto me chamou a atenção para a seguinte frase: “Rara vez, esta vida tiene sentido!!” de autoria de Bob Dylan, pichada num grande muro branco. Próximo dali chegamos naquele que seria o principal motivo da nossa ida à Alta Gracia, a casa museu Che Guevara. A princípio a atendente nos quis “passar a perna” querendo cobrar o equivalente a R$ 80,00, alegando que tratava-se do valor da taxa para estrangeiros. Argumentarmos que éramos estudantes, depois que éramos brasileiros e consequentemente do Mercosul, mas nada adiantou. Então, depois de uma simulada manifestação de desistência ela, não sei se por pena ou por perceber que deixaria de vender dois ingressos, nos permitiu entrar por apenas R$ 20,00 “os dois”. Entretanto, teríamos que afirmar que éramos portenhos (argentinos) caso fossemos indagados por alguém. Não gostamos muito da ideia, mas tendo em vista o desconto aceitamos a oferta. Rimos e balbuciamos um ao outro que não sabíamos que éramos tão volúveis! O museu é pequeno e poucos objetos são expostos, mas confesso que me causou certa emoção ao ver de perto a La Poderosa - motocicleta que, em 1952, Che Guevara e o amigo Alberto Granado saíram de Córdoba e cruzaram a Argentina, Chile, Peru, Equador e Colômbia numa aventura que contribuiu com a definição dos ideais socialistas do revolucionário. A aventura foi tão eloquente que chegou a ser eternizada através do filme Diário de Motocicleta (vencedor de muitos prêmios) dirigido pelo carioca Walter Salles, filme este que já assisti algumas vezes e recomendo. Vivido o momento e registradas as fotos, fomos caminhando até o cassino Sierras que é super moderno e realmente surpreende pelo tamanho. Em seguida nos dirigimos ao terminal onde apanhamos um ônibus para retornar ao centro de Córdoba. No hostel, depois do banho, que nos aliviou um pouco, ligamos para casa para contar as primeiras novidades daquele primeiro dia da viagem. Na sequência, enquanto procurava-mos por uma pizzaria e aproveitávamos para conhecer um pouquinho da noite de Córdoba, passamos por uma bonita fonte iluminada que pensei ser a do Paseo del Buen Pastor, mencionada por alguns mochileiros como um atrativo a mais a se conhecer em Córdoba, mas que logo descartei a hipótese por perceber que seria improvável que aquele chafariz, ainda que bem iluminado e bonito, construído num cruzamento de duas grandes e movimentadas avenidas fosse tão famoso a ponto de merecer destaque dentre os pontos turísticos da cidade. Encontramos e jantamos numa pizzaria interessante que oferecia pizzas inteiras ou em fatias o que se diferencia do nosso sistema de rodízios, pois lá paga-se de acordo com a quantidade de fatias consumidas. Degustamos algumas fatias e resolvemos retornar ao hostel para descansar daquele dia bastante atribulado e cheio de novidades. No simplório quarto, com apenas duas camas de solteiro e uma pequenina escrivaninha, onde dormiríamos a primeira das quinze noites que passaríamos juntos, ficamos conversando um tempo até que meu filho não resistiu ao cansaço e dormiu enquanto eu fiquei escrevendo este relato e organizando o roteiro do dia seguinte, cuja programação era conhecer o Paseo del Buen Pastor, o Shopping Olmo e o mercado público, além, é claro, de realizar o passeio no Trem de la Sierra o qual viria a ser um passeio bastante marcante sobretudo pela paisagem do percurso. 2º dia - 10-07-2012 (terça-feira) – Córdoba e Cosquín, Argentina Um peruano muito engraçado Depois do simplório café da manhã com apenas tê (chá) e dois paizinhos minúsculos com geleia, solicitei informações na recepção sobre o passeio do trem de La Sierras. A atendente, bastante prestativa, ligou imediatamente e conseguiu importantes informações que sem elas teríamos nos aborrecido e possivelmente desistidos daquele lindo e exuberante passeio que é bastante econômico, pois é gerenciado pelo governo de Córdoba. Graças a atendente ficamos sabendo que a estação que fomos no dia anterior permanecia (cerrada) fechada. Tomamos um táxi e fomos até a estação Rodriguez Del Busto, compramos as passagens e partimos para a cidade de Cosquín. O passeio leva seis horas entre ida, estada e volta. Chegamos às 13h e tínhamos apenas duas horas para almoçar e conhecer o pequeno município. O comercio concentrava-se praticamente numa avenida que cortava toda a cidade, a qual percorremos por completo, conhecendo o centro e passando de fronte a Plaza Próspero Molina, cenário do Cosquín Rock – maior festival de Rock da Argentina, que depois de 2004 foi transferido devido aos inconvenientes causados pela agitação dos festivais. Resolvemos almoçar do outro lado do Rio Cosquín num restaurante que leva o mesmo nome onde éramos os únicos clientes naquele momento. Pedimos uma Parrilha - comida que consiste, no caso daquele restaurante, num pequeno corte de costela, outro pequeno corte de contrafilé, duas morcelas (puro sangue cozido e embalado numa tripa) e duas linguicinhas (puro sebo embalados numa tripa) tudo chamuscado numa pequena chapa levada à mesa. Mesmo com temperatura super baixa resolvemos almoçar do lado de fora do restaurante que proporcionava uma linda vista do Rio Cosquín e da ponte. A comida, com preço amargo para a pouquíssima quantidade/qualidade e pouco acompanhamento (apenas alguns paezinhos e pedaços de berinjelas cozidas e conservadas num molho estranho), nos proporcionou a primeira experiência com comidas típicas, vindo a ser o nosso primeiro almoço em terras argentinas, o que nos foi bastante gratificante. Tínhamos pouco tempo e, por conta disso, pedimos para o garçom servir o quanto antes e acelerar o processo do pagamento da conta, pois teríamos que retornar toda a avenida para apanhar o trem, cujo último horário seria às 15h. Com isso o dono do restaurante que conhecia o horário do trem e percebera nossa pressa nos ofereceu uma carona até a estação. No percurso fomos convidados para a festa que seria organizada no seu restaurante em comemoração aos 100 anos de atividade, tendo a filha como a quarta geração no ramo. Disse-nos que contrataria os melhores artistas argentinos para se apresentarem na festa o que, cheio de orgulho, nos afirmou que seria uma das melhores já realizadas em Cosquín. Fiquei com vontade de esquecer o trem e tomar um ônibus para conhecer Vila Carlos Paz, que destaquei como um dos locais a conhecer em Córdoba, mas sabia que logo escureceria e pouco aproveitaríamos da cidade. Com isso, resolvemos retornar de trem prestigiando mais uma vez as serras de Córdoba até chegarmos à estação Rodriguez Del Busto e tomarmos um coletivo próximo da estação. Descemos no centro de Córdoba e fomos conhecer o Palácio Ferreyra, construído em 1900 ao estilo Luis XVI. Atualmente este palácio abriga uma coleção de arte. Próximo dali, o Paseo Del Buen Pastor proporciona à Nova Córdoba, como é conhecido o local, uma opção a mais com o famoso show das águas dançantes que acontece todos os dias às 19h e 21h. Este show é dividido em três partes de cinco minutos cada, tendo como fundo musical três músicas diferentes. Na primeira a música We Are the World, composta em 1985 por Michael Jackson e Lionel Richie e gravada por 45 dos maiores nomes da música norte-americana para arrecadar fundos para o combate à fome no continente africano, torna o show ainda mais emocionante. Visto o início do show, logo percebi que aquele chafariz que tínhamos visto na noite anterior, de fato, não era o do show das águas dançantes de Córdoba. Ao lado do prédio do Peseo há uma lindíssima igreja, a Sagrado Coração de Jesus que, sem dúvidas, devido a sua arquitetura excêntrica é a mais linda que já conheci. Retornamos ao hostel, tomamos um banho, apanhamos as mochilas e partimos em direção ao terminal para tomarmos o ônibus para Mendoza. Deixamos Córdoba às 21h para chegar em Mendoza às 07:30 da manhã. Não havia mais tempo para nada. Entretanto, havíamos visto muitas coisas interessantes em Córdoba e região como, por exemplo, a Praça San Martín, o quarteirão jesuíta, Paseo del Bom Pastor, Alta Gracia, Cosquín, entre outros pontos turísticos que a cidade proporciona como Parque Sarmiento e outros atrativos. Compramos os assentos “arriba e adelante”(acima e à frente), como dizia meu filho, de forma que ficamos nos primeiros bancos do segundo andar do ônibus com uma visão 180º. Nas duas poltronas ao nosso lado estavam: uma mulher que da forma que entrou, deixou o ônibus, ou seja, calada e um peruano com metade da cabeça raspada e a outra com longos cabelos com tererê (finas tranças com aplique de linhas coloridas). O “figura” era muito cômico e nos proporcionou boas risadas ao longo da viagem que, aliás, foram as mais gostosas que vi meu filho dando em todos os seus dezessete anos de idade. Gostei tanto de ver meu filho gargalhando daquele jeito que nem me importei quando o peruano sacou um enorme micro system e ligou o aparelho (por alguns instantes) num volume nada razoável e ouvia músicas peruanas e americanas enquanto balançava a cabeça e o corpo espremido entre todas as bugigangas que levava consigo. O frio era tamanho que na parte interna do ônibus uma fina placa de gelo foi criada nos vidros, o que fez com que nos enrolássemos nas roupas mais quentes que levamos. Até o cachecol o Dylan enrolou nos pés! O peruano gemia e, de tempo em tempo, reclamava do frio, o que achamos muita graça da forma com que ele resmungava madrugada à dentro com as pernas esticadas, os pés descalços apoiados no console do ônibus e separados da fina placa de gelo do vidro apenas pela fina contina do próprio ônibus. Entre uma parte e outra de chocolate, aproveitei para refazer o roteiro, lendo-o e relendo-o várias vezes, uma vez que resolvemos não mais pernoitar em Mendoza para seguir viagem direto para Santiago do Chile. Voltei a ler o livro “No Direction Home – A vida e a música de Bob Dylan”, de Robert Shelton que levara para estes momentos, ou seja, horas e horas dentro dos ônibus que certamente tomaríamos. Ouvi músicas no mesmo MP4 que me acompanhou nas viagens pelo Peru, Bolívia e Chile em 2010, Venezuela, Colômbia, Nicarágua, El Salvador, Costa Rica e Panamá em 2011, o qual cumpriu seu papel rigorosamente, proporcionando-me momentos de extremo relaxamento ao ouvir as minhas músicas prediletas. Enquanto a maioria, se não todos, dormiam, eu permanecia acordado curtindo a escuridão das estradas que aquele ônibus rasgava madrugada à dentro. Talvez esse fora um dos momentos que mais tenha pensado na minha esposa que ficara sozinha em casa que, pela primeira vez, estava tanto tempo longe de seu filho. Pensei muito também, é claro, na minha filhota e o quanto ela me faz falta com a sua alegria, descontração, afeto e carinho. Não cansei do olhar as fotos que registrei das duas na despedida no aeroporto, em Florianópolis. Passamos por algumas cidades e vilas antes mesmo dos primeiros clarões do dia aparecerem no horizonte e o silêncio do ônibus ser quebrado pelas várias vezes que o telefone celular da mulher que dividia o assento com o peruano tocar sem que a mesma acordasse para atende-lo, motivo este que levou o peruano a sacar seu poderoso micro system e, novamente, o liga-lo num volume bem mais alto que no início da viagem, o que foi motivo de novas risadas, minhas e do Dylan. Assim passamos a noite naquele trajeto entre Córdoba e Mendoza, que mesmo com o frio e as dificuldades para dormir, conseguimos transforma-la numa viagem super agradável e divertida. 3 º dia - 11-07-2012 (quarta-feira) Entre Mendoza, Argentina e Viñas del Mar, Chile Cordilheira dos Andes (Estrada Caracoles) Na rodoviária de Mendoza, buscamos as informações necessárias para o embarque com destino ao Chile, tomamos um café com medias lunas (paozinho com formato de meia lua parecido com croasant) e chocolate quente para aquecer o corpo, afinal os termômetros marcavam 3°C naquela hora da manhã. Pouco tempo depois nos acomodamos novamente adelante e arriba, ou seja nos primeiros assentos da parte superior do ônibus da El Rápido Internacional onde, de novo, teríamos uma visão de 180°, quando iniciamos a nossa segunda parte da viagem até Santiago do Chile, onde passaríamos por lindas e exuberantes paisagens ao longo do trajeto. Fazendas, parreirais de uvas, montanhas nevadas, entre outros panoramas, foi o que contemplamos nos 360 km que separam Mendoza de Santiago. Poucos quilômetros depois de deixarmos Mendoza, a paisagem já se alternava, cedendo lugar a imensos parreirais das mais variadas vitivinícolas da região. Aos poucos percebíamos os primeiros picos nevados das Cordilheiras dos Andes o que fazia alterar, a cada quilômetro, as expressões de meu filho que quanto mais nos aproximávamos, mais brilhantes ficavam seus lindos olhos negros afinal, a neve era, para ele, o principal objetivo da viagem. Nesta parte do trajeto aquela sonolenta senhora e o peruano cederam lugar a um simpático casal de Suecos que foram conversando conosco durante boa parte da viagem. Mostraram-nos muitas fotos dos lugares que já conheceram e afirmaram que conheceriam o Brasil no próximo ano. A paisagem das vitivinícolas aos poucos ia ficando para trás sendo substituída por desertos e imensas montanhas de terra escura e com pouca vegetação, emprestando à paisagem uma visão diferenciada que alternava-se com umas camadas cada vez mais brancas, ou seja a neve. Assim o ônibus seguia numa manhã extremamente linda com céu extremamente azul em direção as montanhas brancas feito algodão, ziguezaguando-as lentamente. Horas depois iniciávamos a grande subida das Cordilheiras dos Andes deixando o nível do mar para atingirmos os quase 2400 metros de altura o que já dava para sentir o desconforto da altitude. Próximos do Aconcágua passamos por estações de esqui, onde algumas pessoas divertiam-se na neve, até chegarmos na fronteira entre os dois países, quando tivemos que sair do ônibus para carimbarmos nossos passaportes, deixando a Argentina e entrando em terras chilenas, eu pela segunda vez e meu filho pela primeira. Ali, enquanto os demais passageiros registravam suas entradas no país aproveitei para mostras ao Dylan a neve que ele tanto senhava em tocar. Com um lindo sorriso estampado no rosto ele tocou pela primeira vez em neve propriamente dita, pois numa certa oportunidade, quando participamos de um passeio de moto com colegas de serviço, ele e a irmã tiveram a oportunidade de ver pequenos blocos de gelo no morro da Igraginha em Urubici, Santa Catarina, mas nada se comparava com aquele momento e com aquela quantidade de neve. A cordilheira dos Andes, em comprimento, é a maior cadeia de montanhas do mundo. Estende-se desde a Patagônia, no extremo sul da América do Sul, até na Venezuela, ou seja, no extremo norte. Possui aproximadamente 8000 km de extensão com 160 km nos trechos mais largos. A altura média está em torno de 4000 m sendo o Aconcágua o ponto mais alto chegando a atingir 6962 m. Carimbados os passaportes e passando ilesos pela guarda da fronteira, que incluía um excepcional cão farejador, iniciamos a descida da Cordilheira dos Andes que era outro dos meus objetivos nesta viagem, pois conhecer esta parte da rodovia conhecida como Caracoles sempre foi uma das minhas maiores curiosidades. A altura e as curvas realmente impressionam com sua beleza, arrojo, e o asfalto serpenteando e destacando-se entre aquelas montanhas branquinhas com uma linda lagoa azul no final da descida. Levamos sorte pelo fato de haver muita neve e ainda assim as pistas estarem livres para transitar, uma vez que há situações em que as mesmas são fechadas por vários dias devido a grande quantidade de neve. Novamente a paisagem alternava-se de forma que passada a Cordilheira voltava a apresentar montanhas secas e livres de vegetações, formadas apenas por rochedos e terra escura. Conforme íamos nos aproximando de Santiago a mesma transforma-se apresentando lindos cenários verdes e bem arborizados. É uma sucessão de alternâncias de panoramas que somente por terra para se observar e contemplar de forma tão intensa o quão vasta e incrivelmente surpreendente é a natureza. Chegamos em Santiago às 15h. Pouca ainda aproveitaríamos daquele dia e pensando nisso sugeri a meu filho seguirmos viagem até Valparaiso ou Viña del Mar, que seriam os dois locais mais distantes a serem conhecidos nesta viagem. Ao contrário do que deveria fazer, que seria seguir para um hotel ou hostel para descansar, pensei na hipótese de seguir até o ponto mais distante pela simples sensação de, a partir de lá, para onde quer que fossemos, estaríamos sempre retornando ao Brasil. O Dylan que a nada se opunha e aos poucos me surpreendia tamanho companheirismo, acatou a sugestão afirmando que era eu quem resolvia as coisas, que era eu que o conduziria e ele estava ali para topar toda e qualquer aventura que eu sugerisse. Assim, na própria rodoviária busquei informações, troquei uns poucos dólares por pesos chilenos e seguimos nossa aventura rumo ao Oceano Pacífico, mais especificamente Viña del Mar. Nas estradas entre Santiago e Viña que são extremamente bonitas com muito verde, serras e plantações de videiras, senti uma preocupação estranha que me fazia lembrar a todo momento os meus dois amores que ficaram sós em casa. Naquele momento em que nos aproximava-mos cada vez mais do Oceano Pacífico e, consequentemente, nos distanciava-mos ainda mais de casa, me recorreu a frase “Na estrada, à medida que você ganha distância do ponto de partida, é mais fácil entender de onde vem e quem você é”, lida num artigo intitulado Pé na Tábua de Carlos Messias que narra a história de vida de Walter Salles, aquele que dirigiu o filme Diário de Motocicleta que aborda a viagem de Che Guevara, conforme mencionado antes. Chegamos à Cidade, que é coirmã de Valpaiso, à noite e saímos à “caça” do hostel Che Lagarto que foi indicado no site mochileiros.com. Alguns minutos depois resolvemos buscar informações num hostel localizado na calle piatonal (rua de pedestre ou calçadão). A garota que nos atendeu, por sinal muito atenciosa, ligou para o Che Lagarto, perguntou o endereço, se havia vaga e o preço. Ficamos ali mesmo, ou seja, no Hostel Kalagem que além do melhor preço tinha quarto privado e a melhor localização. Mesmo cansados da viagem, que naquele momento perfazia 24h, uma vez que saímos de Córdoba, Argentina às 21h do dia anterior, resolvemos tomar um banho e sair para jantar. Então, depois de uma longa e exploratória caminhada pela cidade em busca, de, pasmem, um Burger King que para minha sorte não encontramos, jantamos uma espécie de entreveiro (picadinho de carne e calabresa) que foi servido sobre batatas fritas, o que é um prato bastante típico naquele litoral. Em seguida degustei um chope gelado e então retornamos ao hostel para descansarmos daquela maratona que muito agradara a mim e a meu filho. Afinal, sabíamos que na manha seguinte buscaríamos alcançar outro objetivo da viagem que era ver o Oceano Pacífico, mas que não era o único, pois em Viña del Mar eu guardava uma das maiores surpresas que já pude oferecer a meu filho. 4º dia - 12-07-2012 (quinta-feira) Viña Del Mar e Valparaiso, Chile Olhos de Satisfação Os ponteiros do velho relógio dependurado na parede da sala de café da manhã ainda não passavam das 07h quando jogávamos dardo enquanto degustávamos torradas com geléia e suco de laranja. Em seguida percorremos o simpático centrinho da Cidade-Jardim, como é conhecida Viña del Mar, e chegamos à Quinta Vergara que é um enorme e verdejante parque bem no centro da mesma. Na entrada deste parque há um portal com uma poesia de Fernando Salvador em homenagem a Pablo Neruda, considerado o melhor poeta chileno. Entre tantas coisas que conhecemos destacamos o Teatro Municipal e a praça José Francisco Vergara que além de muito limpa e arborizada possui lindos canteiros, sendo que um deles nos chamou a atenção, pois é formado por uma espécie de couve-flor o que dá à praça uma beleza singular. Infelizmente não foi possível conhecer o famoso relógio de flores nem outros pontos turísticos, pois se encontravam em reformas devido aos estragos ocasionados pelo terremoto que em 2010 ocorreu na região. Conhecido parte do centro, tomamos um microônibus e alguns minutos depois estávamos em Rañaca. Compramos uns kiwis e caminhamos até o ponto em que, enfim, poderíamos pisar nas águas geladas do Oceano Pacífico. Meu filho nada falou, apenas semicerrou os lábios engolindo a saliva e contendo o sorriso. Me olhou com satisfação e balançou a cabeça positivamente parecendo dizer algo como: “Estamos aqui!” ou “Conseguimos!” e voltou a fitar aquele lindo marzão azul escuro, bastante revolto e demasiado frio. Rañaca é um balneário super lindo cuja curiosidade se dava também por conta da arquitetura dos edifícios que são construídos em forma de escadarias, ou seja, não seguem uma linha vertical e sim diagonal como que apoiando-se na encosta, o que me pareceu ser uma engenharia estratégica relacionada aos tremores de terra que são constantes naquela região. É comum encontrar placas informando que o local é seguro contra terremoto e outras informando pontos de fuga em caso de tsunamis o que deixou-nos bastante curiosos, mas pouco a vontade. Iniciamos nossa caminhada pelas areias da praia que estava completamente vazia devido a baixa estação e logo encontramos uma alga marinha de forma, tamanho e peso bastante curiosos. A alga media aproximadamente uns três metros e pesava muito. Cruzamos toda a praia até chegarmos à outra extremidade quando retornamos à orla e, sem saber aonde íamos, resolvi parar um microônibus que vinha em nossa direção. Eis que, lá estávamos nós nos afastando ainda mais, seguindo por uma bela estrada à beira-mar sem saber ao certo para onde estávamos indo. O passeio nos proporcionou bons momentos e uma vista excepcional das playas (praias) Amarilla, Negra, la Boca e Lilenes, onde avistamos do alto muitos pelicanos, alguns leões marinhos e grandes concentrações daquelas algas que encontramos na areia da praia de Rañaca quando, sem querer, chegamos num elegante balneário. Tratava-se de Concon que é uma comuna (subdivisão) da província de Valparaiso. Saltamos do ônibus no ponto final e caminhando, enquanto alguns garçons nos abordavam na rua para divulgar cardápios dos restaurantes, fomos conhecer uma praia que em nada se parecia com as que acabáramos de passar e que não nos aguçou a curiosidade, mas já que estávamos ali, resolvemos conhece-la. Eis que duas agradáveis surpresas estavam reservadas naquela humilde colônia de pescadores! Um bando enorme de pelicanos começou a nos sobrevoar. Sem saber o porquê, simplesmente registramos algumas fotos. Segundos depois um senhor de aproximadamente 80 anos e nome bastante estranho, mas que não me recordo, nos chamou e disse que estavam sobrevoando, pois sabiam que ele estava levando restos de peixes para atirar na beira da praia e nos convidou para acompanha-lo. Ao atirarmos os restos de peixes aconteceu a primeira surpresa que foi ver meu filho rodeado de enormes e agitados pelicanos em busca de comida. Estavam tão próximos que chegavam a assusta-lo, mas lhes proporcionaram enorme satisfação, pois era a primeira vez que ele via pelicanos livres e tão próximos. A segunda boa surpresa foi um ótimo e econômico almoço que saboreamos naquela praia, afinal ainda não tínhamos degustado frutos do mar até auele momento o que foi muito bem vindo. Por apenas 4.000 pesos chilenos, algo em torno de R$ 20,00, que surpreendentemente consistia em vários pratos típicos daquela região: Paella Marinha, Chupe de Marisco (delicioso), empanados (pasteis) de marisco e file de peixe com batatas fritas, acompanhados de um copo de Pisco Sour chileno – bebida parecida com caipirinha. Foi ótimo! No início da tarde retornamos contemplando as belas praias e a orla marinha que interliga ConCón à Viña. Foi nesta tarde que levei meu filho para conhecer aquela que foi uma das mais agradáveis surpresas que reservara nesta viagem, o Museo fonck. Como ele preferiu que eu não o revelasse onde, como, porque e quando iríamos ou o quê faríamos, falei-lhe apenas que conheceríamos um museu muito interessante sem, claro, revelar-lhe sua especificidade, mas comentando que na parte externa do museu havia um dos dois únicos moais (estátua rapa nui) originais que estão fora da Ilha de Páscoa, a mais de 3,5 mil quilômetros da costa chilena. O Museo Arqueológico Francisco Fonck reúne várias coleções antropológicas dos vários povos primitivos que viveram no Chile e outras relacionadas à fauna do país. Os dois salões são subdivididos em salas que reúnem utensílios das etnias que viveram 08 a 12 mil anos atrás, esqueletos mapuches (um dos povos mais resistentes à conquista espanhola e incaica), coleção de peças da civilização rapa nui, que habitou a ilha de Páscoa desde 300 d.C, totens de madeira que representavam os espíritos ancestrais de cada clã mapuche, anzóis de pesca da cultura rapa nui, feitos de ossos humanos de pescadores falecidos, animais empalhados da fauna chilena e o que mais aguçou a curiosidade de meu filho, e disso eu já sabia, enormes coleções de insetos que compõem o ecossistemas de diversas regiões do Chile. Dylan não sabia ao certo o que fazer ou ver. Saiu fotografando todas as vitrines de insetos que via pela frente. Observou e leu cada detalhe de cada coleção. Olhava-me com um olhar diferente como que agradecendo a surpresa, fato que deixou-me bastante satisfeito e certo de que valeu a pena leva-lo nesta aventura que ainda tinha muito a ser explorada, afinal, entre tantas outras coisas a conhecer ainda faltava atingir o principal objetivo que era ver, pisar, rolar e tocar à neve. Não da forma que vimos e tocamos quando paramos na fronteira da Argentina com Chile para registrar os passaportes, onde a neve estava suja devido ao tráfego de carros, ônibus e caminhões sem contar que ficamos apenas dois minutos fora da aduana, mas sim em neve branquinha, limpa e volumosa que é o que esperávamos encontrar na Alta Montanha em Santiago do Chile. No caminho que percorremos a pé até a estação de metrô para irmos à Valparaíso, ainda extasiado com o que acabara de ver, meu filho foi se soltando e me confidenciou que um de seus sonhos é criar um museu, mas ainda estava incerto sobre o que exatamente. A estação que fica defronte a Quinta Vergara é uma das mais organizadas e limpas que conheço. Tomamos o metrô e 15 minutos depois já estávamos em Valparaíso. Nos dirigimos a Praça Sotomayor onde encontraríamos um guia que nos conduziria a um tour por Valparaíso, indicado por um dos atendentes do hostel Kalagen onde estávamos hospedados em Viña del Mar. O tour sairia às 15h e enquanto sondávamos a praça à procura do guia vimos duas mexicanas com o mesmo panfleto nas mãos e resolvemos aguardar com elas. Faltando cinco minutos para o horário programado as mexicanas resolveram não aguardar mais e deixaram a praça. Eis que cravados 15h chegou uma mocinha identificando-se como a guia. Acertamos os preços que ficou em R$ 40,00 os dois, mas que só seriam pagos se gostássemos do passeio, e demos inicio ao tour, quando juntou-se a nós um jovem casal de alemães. Para nossa surpresa o tour seria realizado a pé e levaria quase 4 horas! A praça Sotomayor, ponto de encontro e partida do passeio realizado pela Tours 4 Tips é extremamente bonita e curiosa, muito embora não possua uma só árvore, característica de muitas praças dos países andinos. Esta é a principal praça de Valparaíso que foi o local das primeiras construções da cidade. É nela que se encontra a Armada Chilena (Marinha Chilena) instalada num lindo e imponente prédio de arquitetura exuberante que a meu ver é o mais bonito da cidade. Em seu entorno também foi construído um enorme monumento em homenagem aos heróis de Iquique que é, na verdade, mais que um simples monumento, ou seja, possui um mausoléu subterrâneo onde estão enterrados os combatentes da batalha final da Guerra do Pacífico. Deixamos a praça em direção ao porto e depois tomamos um funicular para subir o Cerro Alegre de onde obtivemos uma linda vista da cidade. Ao circularmos as inúmeras ruelas de Valparaíso e prestigiar a arquitetura das igrejas, restaurantes e casas que foram construídas com restos de contêiners e pintadas com restos de tintas das embarcações, encontramos inúmeros grafites nos muros e paredes que creio ser incentivado pelos governantes locais, tamanha quantidade espalhada por toda a cidade. Segundo a guia é em Valpa, como é conhecida entre a geração mais jovem, da mesma forma que Sampa (São Paulo) e Floripa (Florianópolis), que encontra-se o maior grafite do mundo o qual pudemos conferir e não discordar, pois é demasiadamente grande. Descemos o morro, tomamos um troller-bus (ônibus elétrico) e nos dirigimos ao Cerro Concepcion onde finalizamos nosso tour na casa/bar de uma amiga da guia com um delicioso chá e uma vista bacana. Ali ficamos alguns minutos conversando com os alemães e trocando endereços eletrônicos para futuros contatos, pois ficaram muito interessados em conhecer Santa Catarina quando lhes comentamos sobre Joinville e Blumenau (colônias alemãs do estado) e principalmente quando mencionei que é em Blumenau que se realiza a segunda maior festa do Chope do mundo, a Oktoberfest. Por conta do cansaço físico deveríamos ficar em Valpa ou retornar apenas à Viña del Mar, mas para ganhar tempo, apanhamos nossas mochilas no hostel e, de ônibus retornamos a Santiago. Tarde da noite, encontramos certa dificuldade para conseguir um hostel no local que paramos e para isso precisamos andar com as mochilas nas costas por quase duas horas até que nos hospedarmos num Hostel que dispunha de apenas um quarto por apenas uma noite. Não tinha como deixar de ficar, mas ainda precisávamos jantar. Para desespero do Dylan, que queria porque queria um hamburguer do Burger King, resolvi ir numa pizzaria próxima ao hostel e deixar o fast-food para o dia seguinte. Assim, quarenta minutos depois já estávamos de volta ao hostal. O Dylan já estava dormindo quando resolvi reavaliar nosso roteiro para o restante da viagem e constatei que seria interessante aumentar a nossa estada em Santiago tendo em vista tudo que relacionara para conhecer e fazer. Resolvido à questão do roteiro, adormeci, mas não sem antes dar um carinhoso beijo em meu filho e dizer-lhe ao “pé do ouvido” o quanto o amo e o quanto estava feliz em compartilhar com ele aquela experiência que esperava fosse uma grande e boa lembrança em sua vida. Naquele momento pensei muito em minha esposa e na minha filha e em quanto gostaria de compartilhar aqueles momentos com ambas. Rezei para que tudo estivesse bem com elas, pois não conseguimos nos falar naquele dia tão corrido. No entanto, muitas surpresas ainda nos aguardavam no dia seguinte quando exploraríamos ainda mais a cidade de Santiago do Chile. 5º dia - 13-07-2012 (sexta-feira) Santiago, Chile Conhecendo Santiago do Chile Sexta-feira treze, acordamos sem dar a mínima às superstições inerentes à data, apenas pensei em retornar à rodoviária para alterar a data das passagens para Mendoza o que foi feito sem nenhum problema, mantendo, para nossa alegria, as mesmas poltronas, ou seja, à frente da parte superior do ônibus o que nos garantiria uma excelente vista da Cordilheira dos Andes quando estivéssemos retornando à Argentina. De lá, embarcamos noutro metrô e fomos direto pro centro de Santiago, onde paramos na estação Universidade de Chile, próxima à avenida Ahumada que é um dos calçadões de Santiago. Perto dali, fomos direto à Praça de Armas que é o centro nevrálgico de Santiago. Lá estão ubicados (localizados) lindas construções Nacionais como os Correios, o Museo Histórico Nacional, a Catedral Metropolitana de Santiago que, independentemente de crenças religiosas, merece ser visitada tamanha a sua importância, herança da colonização espanhola. No local ainda pode-se contemplar a (Municipalidad) Prefeitura Municipal e os monumentos em homenagem a Pedro Valdívia e aos incas o qual foi curiosamente esculpido numa enorme pedra e, claro, muito comércio, bancos, casas de show, restaurantes, mas menos Burger King. Contornamos toda a praça e seus atrativos e em seguida incentivei Dylan a fazer uma caricatura com um dos muitos artistas de rua que se utilizam da praça para “ganhar a vida”. O resultado não foi dos melhores e meu filho queria que o desenho fosse tacado no lixo, pois mais pareceu a fusão do Gustavo Kuerten (tenista catarinense) com Bart Simpsons (filho de Homer e Marge do desenho animado da TV americana). Claro que não taquei fora, pois serviria para chacoteá-lo quando mostrasse aos familiares e amigos. Resolvemos sair à “caça” de um Burger King, pois já passava do meio dia quando, enfim, encontramos um e meu filho pode matar a vontade de comer uma hamburguesa (hamburguer) tamanho família e saciar sua vontade e parar de encher a minha paciência. Realizado seu desejo seguimos para o Palácio La Moneda que é um dos principais pontos turísticos de Santiago, entretanto, particularmente, não vi nada de extraordinário. No subsolo há o Centro Cultural Palácio de La Moneda com um museu e um grande espaço com lojas e exposições de artes que naquele dia estava tomado por crianças de algum colégio local de forma que passamos muito rapidamente, pois ainda tínhamos que conhecer o Cerro San Cristóbal. Visto o local sem muita demora e registradas algumas fotos externas tomamos um outro metrô e fomos ao cerro onde nos deparamos com uma enorme fila. Enquanto aguardávamos na fila, meu filho que a todo tempo e tudo que via lembrava de sua mãe e de sua irmã, num gesto que muito me agradou, escolhia uma lembrança para elas. Aproximadamente uma hora depois enbarcamos no funicular que deixa os turistas no alto do morro onde visualizarmos Santigago do alto. San Cristobal é um grande morro muito próximo ao Centro de Santiago. Pode-se optar por conhecer ou não o zoológico o que encaresse em muito o passeio. Optei por não conhecer por três motivos: o primeiro era o preço; o segundo o pouco tempo que dispúnhamos e o terceiro era o fato de que conheceríamos o zoológico de Lujan na Argentina que prometia ser um dos pontos fortes da viagem, coisa que confirmou-se depois de conhecermos. O Cerro San Cristóbal, com quase 1000 sobre o nível do mar, é lindo e merece estar entre os pontos turísticos a serem visitados em Santiago. Juntamente com o Cerro Tupahue, Chacarillas, Los Gemelos e La Pirâmide, faz parte do conjunto de montanhas que formam o Parque Metropolitano de Santiago, o maior parque urbano do Chile e um dos maiores do mundo. Caminhamos muito, brincamos, lanchamos, tomamos sorvete, registramos inúmeras fotos e contemplamos com muita satisfação a linda vista de Santiago do Chile. Percebe-se, do alto do morro, o quanto a cidade é poluída. Uma “névoa” de poluição paira sobre a cidade que fica entre grandes montanhas nevadas o que impede a circulação do ar contribuindo com a poluição no local. No entanto nada disso impede ou altera a satisfação de se estar lá e poder visualizar Santiago como um todo, ou seja, 360°. A noite dava o ar da sua graça de forma que tínhamos que retornar ao hostel para apanhar nossas mochilas e sair à procura de um outro local para nos hospedar, pois conforme dito pela atendente não havia mais quarto disponível para aquela noite. La chegando conversamos com Diogo, um brasileiro que nos informou que acabara de surgir um quarto por apenas mais uma noite, porém com uma única cama de casal, coisa que em nada nos incomodou. Devidamente hospedados refiz o roteiro, mantendo o dia seguinte para conhecer a Alta Montanha (imprescindível). Com isso, retornamos à rodoviária para alterar mais uma vez as passagens, pois pensei que o que fizemos naqueles dois dias juntamente com o que faríamos no dia seguinte, estava de bom tamanho. De todo o roteiro que planejara para Santiago deixaria de conhecer apenas o mercado público (que dizem valer a pena conhecer) e o cerro Santa Lucia (idem). Contudo, entendi que não valeria ficar mais um dia em detrimento destes dois pontos turísticos o que nos garantiria um dia em Montevidéu no Uruguai, última cidade a ser conhecida nesta viagem. Depois da rodoviária fomos dar umas voltas para conhecer as redondezas do bairro onde estávamos quando encontramos um restaurante de comidas japonesa e entramos. O Dylan comeu um temaki enquanto eu o observava comer aquela comida que ainda não tinha me despertado a vontade de experimentar. Bem adaptado a comer comidas japonesas o garoto degustou com propriedade dois temakys me afirmando, para a minha surpresa, que volta e meia almoça com amigos num restaurante japones em Florianópolis. Voltamos para descansar daquele maravilhoso dia onde conhecemos Santiago do Chile, coisa que a muito estava em meus planos. No dia seguinte, cedo, subiríamos à Alta Montanha para definitivamente ver e tocar em neve propriamente dita. Barriga cheia, banho tomado, nos acomodamos naquela cama que nos pareceu bem confortável devido ao nosso cansaço. Enquanto conversavamos sobre nosso dia e sobre as expectativas para o passeio do dia seguinte, o qual não me contive, e comentei com Dylan o que programara para o nosso sábado em Santiago. Depois de guardar as novas folhas de árvores que catara entre as páginas de uma revista passou a ouvir suas músicas enquanto eu escrevia este relato e degustava uma garrafa de vinho chileno que comprara antes de voltar para o hostel. 6º dia - 14-07-2012 (sábado) Santiago, Chile Neve! Muito cedo depois de um café da manhã “mais ou menos”, mas ainda antes mesmo do sol raiar, lá estávamos tomando um metrô em diração loja da Sky Total para comprarmos as passagens e seguirmos rumo a El Colorado. A estrada que leva às estações de esqui é impressionante em função das diversas curvas. São quarenta até El Colorado e 60 até a Alta Montanha! Uma vez que Farellones estava interditado devido a pouca neve naquela estação de esqui, optamos por El Colorado seguindo orientações de mochileiros e dos atendentes da Sky Total que nos garantiram que é mais apropriada para turistas ou iniciantes do esporte, enquanto que a estação da Alta Montanha é para profissionais do esporte. Antes das dez horas já estávamos em El Colorado. Compramos os ingressos que tem preços diferenciados para esquiar ou apenas contemplar o local. Para praticar o esporte o valor é superior, pois alem de poder subir e descer a montanha pelos teleféricos, dá direito a toda a parafernalha, ou seja, sky, botas, luvas, óculos, capacete, bastões, etc. Já, para quem quer apenas conhecer o local, o ingresso dá direito apenas a subir (uma vez) e descer (uma outra). Por mais que eu insistesse com meu filho para esquiar, coisa que não aceitou, decidimos por apenas contemplar aquele local surreal envolvido em neve e rodeado por montanhas. O local me remeteu a uma sensação ainda não sentida, muito mais extasiante que a que vivi no Chacautaya, glacial que conheci quando estive, em 2011, em Los Altos na Bolívia. Maior que qualquer satisfação particular foi sentir a emoção daquele garoto que tanto queria ver neve. Sentir sua satisfação e poder perceber o quanto valeu chegar ali. Não sei afirmar ao certo se ele ficou mais emocionado com os insetos do Museo Fonck ou com aquele visual impar que com meus quarenta e quatro anos ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer. Embarcamos num dos muitos teleféricos que, sem saber, dava diretamente nos únicos três restaurantes da montanha e subimos contemplando extasiádos repito a surreal paisagem do local. Nada se via senão brancas montanhas e pontinhos pretos riscando a neve enquanto desciam rapidamente a montanha. Eram adultos e crianças, homens e mulheres, jovens e idosos numa sincronia perfeita praticando esqui e se divertindo montanha abaixo. Aquela brincadeira toda teve um custo que não foi muito agradável, pois quando se sente-se explorado, ou melhor roubado, as coisas mudam de contexto. Digo isso, pois não há muitas opções para se alimentar na Alta Montanha. Há apenas três pequenos restaurantes, cada um com um tipo de prato e o pior todos com preços obsurdamente semelhantes, formando uma espécie de cartel. Ou você come uma simples tigelinha de seviche, ou um espetinho de carne, ou um hamburge. O problema não está nas opções e sim nos preços das mesmas, ou seja, em média quarenta reais. Sim, quarenta reais (!) por um pequeno prato de seviche, ou um espetinho de carne, ou um simples hamburgue que tem seu preço diferenciado se o cliente solicitar uma fatia de tomate e/ou uma de queijo, e/ou uma de presunto. Como chegamos cedo e retornaríamos somente às 17h não tínhamos outra opção, senão, comer uma daquelas opções. Opatamos pelos hamburgues. Então, lá estávamos, eu e Dylan, degustando um lanche, num lugar extremamente exótico, a mais de 2500 metros sobre o nível do mar, a céu aberto, numa montanha encoberta de neve. Continuamos naquela montanha pelo resto da tarde e tínhamos que inventar o que fazer, então fomos até um dos extremos da montanha, onde havia uma demarcação proibindo a passagem devido a possíveis avalanches, sentamos numas pedras isoladas de tudo e de todos, conversamos, brincamos de guerra de neve e tentamos, sem êxito, montar um boneco de neve. Em outro momento, agora mais próximo dos restaurantes, quase que deixo meu filho órfão, quando o pé da cadeira que eu estava sentado contemplando aquele incrível visual afundou e despenquei na neve e quase rolei morro abaixo, flagrado pela câmera que acabara de acionar para registrar nossa foto, proporcionando boas gargalhadas de meu filho. Por volta das dezesseis horas embarcamos no teleférico e descemos a montanha. Lá embaixo, aquecidos por uma espécie de lareira a céu aberto, tomamos um chocolate quente no Café Valdes, uma renomada cafeteria da Colômbia, até que a van voltou para nos apanhar e nos deixar na sede da Sky Total. Com o frio e os pés completamente molhadas de tanto andar e brincar na neve o Dylan começou a apresentar sintomas de gripe. Compramos uns antigripais, umas guloseimas e refrigerantes e retornamos ao hostel pensando em descansar, pois no dia seguinte bem cedo retornaríamos à Argentina. As escadas e o assoalho do hostel eram de madeira de forma que fazia muito barulho cada vez que uma pessoa passava pelo corredor. Isto foi o motivo da nossa insônia e de grande discussão com um grupo musical local que estava hospedado no final do corredor do mesmo andar do nosso quarto. Os caras subiam e desciam o tempo todo produzindo grande ruído com suas botas de salto de madeira. Noutros momentos chamavam uns aos outros no andar debaixo e isso foi até as duas da manhã quando, de cueca, saí no corredor e “descasquei o verbo” gritando: - O que ostes estão pensando - Ostes não estão solitos a cá - Tengo compromisso temprano - Pelo amor de Dios Segundo meu filho até quem não acordou com o barulho deles acordou com meus gritos. Os rapazes se aquietaram de vez e voltamos a dormir até às seis horas da manhã. 7º dia - 15-07-2012 (domingo) Santiago, Chile / Mendoza, Argentina Cordilheiras dos Andes II O sol ainda não tinha dado a ar da graça quando deixamos o hostel e seguimos para o metro, que segundo um polonês “tapado” que trabalha no hostel, abriria a partir das 07h. Como estava fechado e com pouco tempo que tínhamos para chegar no rodoviária, tomamos um táxi e, “encima do laço” conseguimos embarcar no ônibus para Mendoza e mais uma vez subir a Cordilheira dos Andes, o que nos daria a grata satisfação de poder contempla-la novamente, em especial os Caracoles. Em poucas horas deixáramos o nível do mar e estávamos a mais de 3100 metros de altura viajando entre picos nevados, por uma estrada que parece contorcer-se entre as montanhas como serpente procurando uma saída, ziguezagueando as encostas, entrando e saindo de túneis e proporcionando uma agradável sensação que limita a coragem do medo e a segurança da insegurança. Entre os túneis que passamos destaco o Cristo Redentor de Los Andes construído em 1980 a 3175 msnm com mais de 3 km de comprimento, sendo 1564 metros em território chileno e 1516 em solo argentino. A rodovia segue quase que contornando todas as curvas do Rio Mendoza e a antiga estrada de ferro que ligava os dois países, mas que encontra-se abandonada, pois o trecho chileno foi destruído pelo governo daquele país quando da disputa com a Argentina pelas ilhas do Canal de Beagle. Na fronteira, enquanto todos cumpriam seus trâmites alfandegários, deixei a grande construção que devido ao frio e a neve é toda fechada com aberturas apenas nas entradas e saídas dos ônibus, caminhões e carros e fui num quiosque do lado de fora para comprar umas guloseimas e água. O frio e o vento eram cortantes, mas mesmo assim comprei o que buscava e uns presentinhos feitos de pedra Ônix, bastante bonitas e interessantes. Chegamos em Mendoza às 15h e saímos, novamente, a procura de um hostel o que foi mais tranquilo de encontrar. Nos hospedamos no hostel Punto Urbano, que considerei o mais familiar dos hostels que já me hospedei. Deixamos as mochilas e partimos para a bela Praça Independência que pode-se dizer ser o marco zero da cidade. Muito bem cuidada, iluminada e limpa esta praça é considerada a mais bonita e importante da cidade. Há outras tão bem cuidadas quanto, porém menores e menos expressivas que levam nome de países como Espanha, Itália e Chile. Estava acontecendo duas grandes feiras naquela praça: Uma de livro infantojuvenil e outra de artesanatos onde compramos várias outras lembrancinhas. A preocupação do Dylan para comprar algo para a mãe e a irmã realmente me surpreendia, pois queria comprar tudo que era possível para presenteá-las. Escureceu, retornamos ao hostel e, mesmo fazendo muito frio, saímos para jantar numa cantina. Ali tomei um gostoso vinho mendocino e por volta das 22h retornamos ao hostel para descansarmos de outro dia super agitado, interessante e bem aproveitado, ainda que tenhamos passado boa parte do dia dentro de um ônibus. No pequeno percurso entre a cantina e o hostel ligamos para casa quando nos surpreendemos com a angustia da minha esposa que naquela altura estava extremamente saudosa e não conseguia parar de chorar. Demos um tempo e, dez minutos depois, voltamos a ligar quando ela já estava mais tranquila e conseguimos conversar com mais calma e clareza. Mediquei meu filho que naquele momento estava altamente gripado e com febre e passamos a discutir sobre o que faríamos no dia seguinte, quando decidimos alterar a programação inicial que no primeiro dia seria participar de um tour conhecido como Alta Montanha e no segundo ir à Maipu conhecer o Museu do Vinho e algumas bodegas da região, o que veio a ser uma das coisas que de melhor aconteceu nesta viagem para, somente à tarde, conhecer com mais tranquilidade a parte central daquela interessante cidade que foi totalmente destruída por um terremoto em 1861 e reconstruída próxima ao local de origem. Hoje, a nova cidade peca no quesito segurança para pedestres, pois os bueiros por onde escoam as águas pluviais ficam expostos, ou seja desprovidos de grades, ocasionando um perigo eminentes em especial os deficientes visuais. Uma curiosidade na cidade é que as lojas fecham das 13h às 16h ou 17h para a famosa siesta, principalmente no verão quando a temperatura chega facilmente aos 40ºC, já no inverno a temperaturas chegam próximas a 0º o que era o caso quando estávamos na cidade. 8º dia - 16-07-2012 (segunda-feira) Maipu, Argentina 12 km de pedaladas Naquela segunda-feira deixei que meu filho dormisse um pouco mais devido a gripe e somente às 9h acordei-o. Depois do dasayuno (desjejum) fomos caminhando até o terminal de ônibus onde apanhamos um coletivo até a cidade de Maipu, conhecida como o berço do vinho argentino. Não sei se já estávamos no centro, pois não vimos prédios, praças ou igrejas, mas seguindo as orientações colhidas no hostel saltamos próximo a uma pequena locadora de bicicletas para alugar duas bikes para, pedalando, conhecer o Corredor Turístico - Eixo Urquiza onde se concentra, num raio de 10 quilômetros, várias vinícolas, olivícolas e o Museo del Vino (Museu do Vinho). Uma vez com as bikes e devidamente equipados com capacetes e água, seguimos o “mapinha” entregue pelo Mr. Hugo - simpático proprietário da loja e partimos para a nossa primeira parada que foi o Museu do Vinho. Aulas com um sommelier sobre história do vinho, visita aos parreirais e por último a tão esperada degustação dos vinhos San Felipe da Bodega La Rural com as Cordilheiras dos Andes como Pano de fundo, o que foi muito prazeroso e original. Na parte externa do museu há inúmeros carros e carroças antigos que acredito terem pertencido à família de San Felipe ou utilizados no transporte das uvas até à vinícola que hoje mantém apenas 10% da produção de parreirais altos, sendo todo o restante parreirais baixos, parecidos com tomateiros. Os 10% que ainda são cultivados da forma antiga são em homenagem ao falecido San Felipe. Depois da visita guiada pela Bodega La Rural, apanhamos as bicicletas e partimos para olivícola “Entre Olivos” onde com um ingresso de R$ 10,00 pode-se experimentar chocolates, paezinhos com vários tipos de azeites de oliva e mais de uma dezena de licores, incluindo o de pina colada, pimenta e absinto. Depois da degustação há uma simples e rápida passagem pelo terreno para se conhecer três ou quatro dos muitos tipos de oliveiras e uma máquina que separa o óleo das partes sólidas da azeitona, descaroçando-as e moendo a carne para extrair o azeite. Uma hora depois fomos direto a outra vinícola a aproximadamente uns 5 km de onde estávamos. Passa-se por uma avenida bonita, ladeada de Álamos, parreirais e olivais, mas muito perigosa, pois não possui acostamento adequado e nem ciclovia. O turista divide o asfalto com automóveis e inúmeros caminhões que exportam uvas, vinhos e azeitonas. Enquanto pedalava e cuidava para que meu filho ficasse bem próximo à margem da rodovia ficava imaginando como um local tão conhecido e visitado por turistas do mundo inteiro não possuía uma ciclovia adequada àquele tipo de tour que é um dos mais difundidos em Mendoza. Resolvemos almoçar na vinícola e restaurante Família de Tommaso onde descansamos, apreciamos o local e o museu para em seguida degustarmos um prato típico da região conhecido como Locro Criollo, um cozido argentino com feijão branco, carnes de porco e batatas, semelhante a Dobradinha só que sem o fato (bucho) do boi que resolvemos comer nas mesas externas da vinícola acompanhado de um suco de laranja e uma generosa taça de vinho colonial. Mesmo com a sensação de que algo estava faltando, afinal aquele é um passeio bastante romântico e digno de ser compartilhado com a pessoa que se ama o que seria bastante agradável faze-lo com minha esposa, muito embora duvide que ela compartilhe desta idéia, retornamos e continuamos a apreciar paisagens marcantes e viver um momento realmente singular, até porque compartilhar aquele momento e aquela paisagem com meu filho amado foi motivo de muita satisfação. Lembro que muitos momentos interessantes vivi sozinho nas outras duas viagens que fiz em 2010 e 2011 e que a falta da família ofuscava a alegria, de forma que naquele momento meu filho dava um brilho a mais ao passeio. Ainda que muito gripado, o que dificulta exercícios físicos, aquele garoto que pedalava ofegante a minha frente mais uma vez demonstrou o quanto era companheiro. Sem reclamar em nenhum momento seguia firme e forte em direção à outra vinícola com uma ou outra pequena parada apenas para registrar fotos do local. Há muitas outras vinícolas a serem visitadas como a Trapiche, por exemplo, mas o frio aumentava e cinco ou seis quilômetros ainda nos separavam da loja de Mr. Hugo o que nos fez, por volta das quatro horas retornar e devolver as bicicletas para seguirmos para Mendoza. Chegamos a Mendoza quando as primeiras lâmpadas dos postes já se acendiam e novamente passamos pela praça Independência e pelo agitado calçadão, que naquela hora já estava com suas lojas abertas. Substitui a medicação trocando o antigripal por um antibiótico, pois o garoto estava ficando pior e deixei-o repousar, até mesmo pelo cansaço das pedaladas, pois não estava acostumado. Com isso resolvemos jantar no próprio hostel que, como mencionei, foi um dos mais familiares que já me hospedei. Saí apenas para ligar para casa e comprar uns ingredientes para a pizza que assamos num grande forno industrial na cozinha do hostel. Degustei outro bom vinho mendocino, montei a pizza de calabresa com queijo que, diga-se de passagem, ficou ótima e jantamos na companhia de outros hospedes: uma peruana e dois irmãos rappers, chilenos que conheciam muito bem a ilha da Magia (Florianópolis). Lá pelas 21h juntou-se a nós uma família de argentinos que prepararam um assado no mesmo forno que assamos a pizza. Tratava-se de um grande pernil de ovelha com tomates, cebolas, pimentões picados, tempero verde e ervas finas o que fez espalhar um aroma agradável pelo hostel, chegando até nosso apartamento que ficava no andar acima da cozinha. Assim, depois de uma boa “prosa” com aqueles hospedes, subimos e aproveitamos para descansar daquele dia bastante cansativo, recuperando energia para no dia seguinte que, sem saber, entraríamos na maior “furada” que nos ocorreu na viagem até aquele momento. 9º dia - 17-07-2012 (terça-feira) Uspallata, Argentina Furada! Na programação que planejei antes da viagem havia um passeio que, estando em Mendoza, não poderíamos deixar de fazer. Foi um passeio que muito pesquisei na internet e muito elogiado por todos que o fizeram, então não tinha dúvidas quando a realização do mesmo. Este tour, intitulado “Alta Montanha”, implica no percurso Mendoza, Potrerillos e Uspallata, aos pés da Cordilheira dos Andes, até chegar no Aconcágua e Caracoles, sendo que, neste caso, percorre-se a mesma rodovia antes percorrida por nós tanto na ida quanto na volta do Chile. Por essa razão resolvemos não fazer o tour que além de caro levaria todo o dia e queríamos ainda conhecer outras coisas em Mendoza. Sendo assim, resolvemos apenas conhecer Uspallata que segundo informações era uma cidade tão interessante que fora cenário do filme Sete Anos no Tibet (Jean-Jacques Annaud, 1997), cujo Brad Pitt (ator norte-americano) foi o ator principal, interpretando o alpinista Henrich Harrer. A cidade mantém praticamente intactas as Bovedas utilizadas na fundição de prata e ouro que eram levados ao Chile para depois serem transportados à Espanha. Então, na manhã daquela terça-feira acordamos mais tarde do que de costume, comemos umas medias lunas, retornamos à rodoviária de Mendoza, tomamos um ônibus e partimos para conhecer Uspallata que encontra-se a aproximadamente 130 km, cerca de uma hora e trinta minutos de Mendoza para desbravar o que imaginava ser uma cidade ou, ao menos, uma vila andina com curiosidades e pontos turísticos interessantes que valessem a pena tal deslocamento. A rodovia que liga as duas cidades, o mesmo dantes percorrido para ir e voltar do Chile, conforme comentei, é extraordinário, com paisagens surreais que por si só dão à viagem um toque especial. Chegamos a Uspallata perto do meio-dia, graças a um atraso de quase 1 hora em Potrerrillo. Um tanto ou quanto decepcionados com o que vimos, resolvemos almoçar imediatamente e optamos pelo El Rancho Parrillada um restaurante recomendado por uma senhora, dona de um hotel, que abordamos para pedir informações sobre a cidade. No restaurante pedimos um churrasco completo com pauta (maionese com abacate) e degustamos ali a carne mais macia em terras argentinas. Provei também uma cerveja de 1 litro chamada Andes que me pareceu bastante saborosa e leve. Depois daquele belo almoço de fronte a uma churrasqueira, que de tão quente aquecia todo o ambiente, onde as carnes não são assadas em espetos, mas sim numa enorme grelha, fomos conhecer as famosas Bovedas de Uspallata. Estas construções históricas, data fins do século XVIII, com três enormes cúpulas interligadas, foram utilizadas pelo General San Martin para fundir metais e, com estes, produzir as armas e os canhões usados pelo exército dos Andes. Retornamos à Mendoza com uma sensação desagradável, pois Uspallata não correspondeu às nossas expectativas. Tal sensação possivelmente se deu, pois no dia anterior tínhamos passado às margens da cidade e poderíamos ter conhecido a mesma e, assim, evitaríamos aquele deslocamento ganhando mais tempo para explorar outra ou outras cidades na Argentina. Entretanto, tudo era válido e fazer aquele caminho pela terceira vez foi importante, pois assim pudemos perceber detalhes dantes não percebidos e assim, visualizar com mais percepção a natureza e aquela paisagem magnífica. Então às 18h tomamos um banho, pegamos nossas mochilas e fomos à rodoviária para apanhar o ônibus das 20h com destino a Buenos Aires. Desta forma passaríamos aqueles 1200 km, ou seja, toda a noite e possivelmente toda a manhã seguinte viajando e tentando, de alguma forma, fazer passar as horas. Para variar, meu filho iniciou a viagem lendo e assim seguiu até quase às 00:35 quando deixava-mos a cidade de San Luis à 300 km de Mendoza. Por ser noite não foi possível obter uma boa visão da cidade, mas me pareceu agradável e bastante tranquila. A tirar pelas Terrazas del Portezuelo (Centro Cívico), a impressão que se tem é que trata-se de uma cidade bastante grande, pois seu centro cívico está instalado numa obra faraônica, entretanto é uma cidade de médio porte com menos de 170.000 habitantes. Duas horas da manhã e a única poltrona iluminada era a minha. O ponto de luz clareava as páginas do livro que levei e que lia instigando o sono que não vinha. Assim, enquanto aquele silencioso o frio ônibus nos conduzia por intermináveis retas, pensava que a distância contrastava com o tempo, pois quanto menor a distância de casa, maior era o tempo que nos separava de tudo e de todos, em especial das nossas meninas. Diminuía a distância e aumentava a saudade daquela que me confessara arrepender-se de consentir a nossa partida, pois a saudade agora era dobrada, conforme me revelou em nosso último contato. Paramos numa pequena cidade para apanharmos novos passageiros. Com o barulho meu filho acordou e mostrei-lhe o quanto fria estava e a temperatura, que de tão gelada, criou uma fina camada de gelo na parte interna dos vidros do ônibus. Passadas mais alguns quilômetros e percebendo que a leitura não surtia o efeito desejado, resolvi apagar tudo e tentar me concentrar ou talvez me desconcentrar para poder dormir, pois ainda neste dia teríamos que desbravar um pouco da capital argentina, fato este que não tinha dúvidas do quanto divertido seria. 10º dia - 18-07-2012 (quarta-feira) Buenos Aires, Argentina Conhecendo Buenos Aires Uma ou duas horas depois da rápida cochilada e antes mesmo do sol raiar eu já estava contemplando as estradas que rasgavam as planícies com inúmeras fazendas e pastagens a perder de vista que antecediam a ezuberante capital argentina - Buenos Aires. Diferentemente, meu filho dormia despreocupado e largado nos dois bancos a meu lado e assim o fez até às nove horas quando já nos encontrávamos em Lujan, cidade onde viríamos a conhecer o Zoológico de Lujan que veio a ser uma das experiências mais marcantes desta viagem. Entretanto, ali estávamos só de passagem, pois iríamos direto a Buenos Aires, coisa que me arrependi mais tarde devido a distância entre as duas cidades, percurso este que tivemos que refazer no dia seguinte. Desta forma, ele nada ou pouco viu da paisagem que antecede Buenos Aires, mas optei por deixa-lo descansar até mesmo porquê lindas paisagens não lhe faltaram nesta aventura. Não querendo ser “babão”, afinal este relato é para registrar a viagem e não a relação com meu filho, contudo, não posso deixar de mencionar que esta viagem foi um estimulante para admitir aquilo que muitos pais (e mães) demoram para perceber e aceitar, ou seja, que seus filhos crescem e viram homens e mulheres capazes. Digo isto, pois além da paisagem passei a observar também aquele garotão ali dormindo. Seu tamanho, barba e, sobretudo, a sua personalidade que muito me orgulhou durante este período que passamos juntos num verdadeiro “Big Brother” itinerante. Sua personalidade aflorou, em especial, quando cometi um grande erro que foi o único momento verdadeiramente desagradável da viagem, que por uma inconsequência minha quase pus tudo a perder. Trata-se de uma passagem que ocorreu no penúltimo dia, na feira de Tristan Navarro em Montevideo, Uruguai, a qual descreverei mais adiante com todos os detalhes, inclusive os que nem meu filho nem minha esposa sabem por completo. Por volta das 10h chegamos em Buenos Aires e com o itinerário em mãos seguimos para tomar o primeiro metro com destino ao centro da cidade. A rodoviária é muito próxima a Puerto Madero que foi revitalizado e é um dos mais lindos portos do mundo na atualidade. Com a remodelação nasceu também um novo bairro que levou o mesmo nome. Naquele momento não nos dirigimos a Purrto Madero, pois estávamos com as mochilas, algumas sacolas com presentes e, sobretudo, cansados da viagem. Rolou um pequeno estresse ao procurarmos um hostel, pois os três ou quatro primeiros que encontramos, ou estavam lotados ou eram muito caros com preços de hotéis. Senti ali que aquilo poderia ser reflexo da crise financeira mundial e Buenos Aires não escapara, o que me preocupou um pouquinho, uma vez que os preços estavam exorbitantemente além dos que pesquisara na internet. Não conseguindo hostels algum, seguimos para o plano “b” e partimos a San Telmo que é um bairro muito próximo ao centro da cidade e oferecia hostels mais baratos. O bairro San Telmo é extremamente bonito, boêmio e tranquilo . Há de tudo lá e vale muito a pena hospedar-se, afinal nada fica devendo ao centro da cidade, pelo contrário há mais segurança. Mal chegamos à praça Dorrego, a mais importante do bairro, e fomos abordados por garçons apresentando vários cardápios com as mais variadas sugestões. Optamos por uma pizza que, de brinde, acompanhava uma jarra de 1 litro de chopp Quilmes. Então, em plena luz do sol e ao ar livre estávamos saboreando uma deliciosa pizza e prestigiando uma linda apresentação de tango na praça, em San Telmo. Em seguida partimos a pé e percorremos as onze quadras que separam o hostel que nos hospedamos do centro de Buenos Aires, onde exploraríamos os locais destacados no meu itinerário. Assim fomos vagarosamente desbravando cada quadra, conhecendo cada detalhe, registrando fotos de tudo que víamos de interessante e degustando sorvetes Freddo, mundialmente conhecido e o mais saborosos que já experimentamos. Seguimos as recomendações e optamos pelo doce de leite que, de fato, é uma delícia e assim chegamos à praça 25 de Mayo que é onde se concentram algumas das mais importantes atrações turísticas da cidade como o Cabildo, a Casa Rosada, a Catedral e o Banco da Nação, por exemplo. Conhecemos a praça e registramos algumas fotos. Em seguida demos uma volta completa pela Casa Rosada – Palácio do Governo de Cristina Chirchner e, sem querer nos deparamos com o Museo Del Bicentenário (Museu Bicentenário). Depois de alguns minutos no seu interior fomos caminhando até o Obelisco quando pudemos observar quão agitada é Buenos Aires. No entorno do Obelisco encontra-se de tudo e o que mais chama a atenção são os outdoors eletrônicos gigantes e iluminados que fazem o marketing de Cassinos e marcas mundialmente famosas como Mac Donalds e Coca-Cola. Ali, desistimos de realizar um tour pela cidade em função da exploração. Percebi que assim como no Brasil na Argentina os comerciantes deixam de explorar o turismo para explorarem os turistas. O fato nos levou a fazer todo o percurso planejado na redondeza a pé, o que muito me agrada devido ao fato de proporcionar um conhecimento mais ampliado dos locais percorridos. Foi desta forma que chegamos no luxuoso Teatro Cólon, principal casa de óperas de Buenos Aires e considerados um dos cinco melhores do mundo em termos de acústica. Depois passeamos por Puerto Madero aonde comprovamos o modernismo e a imponência das recentes edificações e o quanto a zona portuária com seus armazéns e cais ficou moderna e bonita, transformando o local numa orla convidativa. Os antigos armazéns velhos e decadentes foram restaurados e transformados em academias, residências, escritórios, bares, cinemas e universidades. Os dois bilhões de dólares empregados no projeto, obviamente transformaram o local que incluiu na sua revitalização a linda Puente de la Mujer (Ponte da Mulher) que passou a ser o mais novo cartão postal de Buenos Aires. Quando já estava escurecendo retornamos à linda praça 25 de Mayo e ali permanecemos um bom tempo contemplando a bela iluminação da linda Casa Rosada que alternava as cores das luzes, ofertando àquela praça uma atração à parte. Esta praça tem esse nome em comemoração a revolução de maio de 1810 que deu início ao processo de independência das colônias da região sul da América do Sul. No caminho entre a praça e o bairro San Telmo há inúmeros restaurantes, kioskos (quiosques), padarias, e bares. Os preços, como narrei antes, estavam fora da realidade e optamos por jantar no hostel. Assim passamos numa padaria e compramos suco e algumas empanadas (pasteis). Depois do banho, conversamos um pouco e saí para comprar um vinho que resolvi tomar enquanto conversava com um paulista e um goiano que estavam bebendo umas cervejinhas numas mesinhas dispostas justamente de fronte a porta do nosso quarto. Antes mesmo das 22h meu filho já estava dormindo e eu aproveitei para relatar aquele dia e depois dormir, mas a conversa e o cheiro de cigarro dos colegas brasileiros não permitiam. O quarto era o primeiro depois da recepção de forma que as chamadas telefônicas e o entra e sai também contribuíram para a atrapalhar meu sono. Enquanto ele não vinha, pensei também em conseguir um hostel “menos pior” e resolvi que acordaria mais cedo e sairia a procura de um, o que foi feito e para a nossa felicidade encontramos um que nos proporcionou muito mais privacidade, sossego e conforto. Felizmente o cansaço venceu o barulho e a fumaça e consegui adormecer pensando no roteiro do dia seguinte quando iríamos a Lojan para visitarmos seu famoso zoológico que permite a interação direta com os animais, inclusive dentro de suas jaulas. 11º dia - 19-07-2012 (quinta-feira) Buenos Aires, Argentina A África é aqui (!?) Acordei às 6h, saí do hostel e me dirigi ao hostel Nômade próximo de onde estávamos, para ver se havia vaga, pois pretendíamos mudar haja vista o barulho. O agravante também se dava pelo diminuto tamanho e pouca higiene da cozinha, além da distância entre o quarto e os banheiro que eram fora do estabelecimento, ou seja, para usa-lo tínhamos que percorrer um corredor externo que naquele frio tornava a situação bastante desagradável. Assim que retornei, acordei meu filho, arrumamos as mochilas e as deixamos no novo hostel. Partimos então para Praça de Mayo e de lá tomamos um metrô para Praça Itália que é onde se toma os ônibus para ir à cidade de Lujan onde conheceríamos o tão renomado Zoológico de Lujan. As informações eram bastante contraditórias, contudo depois de algumas perguntas conseguimos chegar ao guichê que vende as passagens. Como as postagens na Internet afirmam que necessita-se de moedas para as passagens, algumas pessoas que estavam conosco resolveram buscar um banco para efetuar a troca das notas de pesos por moedas, pois aquele guichê vendia apenas a passagem de ida. Resolvi ignorar as informações e partimos logo no primeiro ônibus e deixaria para resolver a situação no retorno, sendo que qualquer necessidade iríamos à cidade de Lujam para efetuar a troca. Entretanto, pode-se comprar o bilhete de ida naquele guichê e o retorno no próprio zoológico o que fizemos sem estresse e sem a necessidade de moedas. Aproximadamente uma hora e meia depois estávamos no zoológico. Compramos as entradas, cuja informação na internet também não condizia com a realidade, quero dizer, os R$ 70,00 pagos por pessoa soam diferente dos R$ 15,00 informado por algumas internautas no site mochileiros.com e, com o mapa do zôo em mãos, demos início aquele surpreendente passeio em meio a um cenário bastante singular. Inicialmente interagimos com alguns cavalos, dromedários, camelos e lhamas oferecendo-lhes milho que comiam com avidez em nossas mãos. Depois de alimenta-los e sermos perseguidos por gansos, patos e marrecos que ficam soltos à procura de comida, nos dirigimos à jaula de um bugio, espécie de primata neotropical que pode atingir até 9 kg de peso e 75 cm de altura onde, através de alguns comandos de seu adestrador, veio até nós, sentou-se em nossos colos e tomou leite em nossas mãos. Depois fomos até as piscinas com algumas focas que pareciam se apresentar num belo ballet aquático enquanto contorcionavam-se na água com extrema agilidade e graça, para depois, sem jeito e sem ginga, aproximarem-se das pessoas que as alimentavam com pequenos pedaços de peixes. Contudo, é claro que não selecionara aquele zoológico em detrimento ao zoológico de Buenos Aires ou de Santiago e nem percorreria 75 km para interagir com cavalos, gansos, focas ou, com todo respeito à espécie, um simples símio adestrado que alimenta-se nas mãos das pessoas. Assim, tomamos coragem e, contrariando aos pedidos de minha esposa e de uma amiga de serviço, convidei meu filho a entrar na jaula dos Tigres-de-Bengala. Eram seis os felinos naquela jaula e nem todos com cara de bons amigos, mas não nos intimidamos e, seguindo as orientações dos três adestradores, não os encaramos, não os tocamos, nem os assustamos e calmamente percorremos a jaula até nos posicionarmos atrás de um deles para registrar as fotos tão desejadas. Meu filho parecia apavorado, sobretudo por ter outros cinco tigres atrás de nós sendo que um deles encontrava-se praticamente encostado em nós. Menos de cinco minutos depois ele, assustado, pediu para sair, mas com um brilho nos olhos como que extasiado com a situação inevitavelmente surpreendente e assustadora. Resolvemos então relaxar daquela experiência e fomos almoçar. Comemos sanduíches de pão com carne enquanto contemplava-mos aquele imenso zôo com seus diversos animais e os estridentes barulhos das tiribas ou tirivas (aves) que acasalavam-se e construíam seus grandes ninhos nos galhos das árvores acima de nossas cabeças. Depois do lanche passeamos por uma trilha e alimentamos ovelhas, veados, castores, emas, entre outros animais silvestres que vivem e dividem o mesmo espaço, ou seja, uma grande área verde destinadas a estes bichinhos que enriquecem o ambiente e dão ao zoológico um ar mais selvagem tendo em vista a suposta liberdade. Em seguida alimentamos elefantes, lhamas, camelos, dromedários e dois enormes ursos brincalhões. Vimos pássaros silvestres e uma coleção de carros antigos e de guerra fruto da coleção dos proprietários. Mais tarde, depois de brincarmos com filhotes de tigres, tomamos coragem e entramos na jaula de dois leões africanos enormes. Seguindo as mesmas orientações recebidas na jaula dos tigres, ou seja, não os assustamos, não os tocamos, nem os encaramos para, da mesma forma, registrarmos lindas fotos enquanto admirávamos aqueles imensos felinos. A experiência foi extremamente positiva e a sensação é de tirar o fôlego, pois por mais alimentados que tivessem e bem domesticados que fossem, tem-se a sensação de que a qualquer momento algo pode sair errado mudando o comportamento dos bichos o que fez nossa adrenalina subir e nossos músculos ficarem tensos. Enquanto alimentava-mos um leão o outro nos rondava nos dando uma sensação de insegurança e medo. Contudo, ficamos naquela jaula uns dez minutos e registramos muitas fotografias que logo depois foram postadas no facebook de meu filho o que rendeu dezenas de comentários de pessoas e amigos curiosos com a sena e espantados com nossa coragem. Já no final, caminhando e explorando um pouco mais do zoológico, vimos alguns flamingos e resolvemos ir vê-los. Eis que ali surgiu o momento mais marcante daquele inesquecível passeio. Avistamos ao longe uma jaula com um gigantesco leão africano e um adestrador preparando suas coisas para encerrar seu expediente. Nos aproximamos pensando que aquela jaula era reservada e a entrada não era permitida, pois não havia ninguém próximo. Nos enganamos! Conversando com aquele sr., conseguimos a sua autorização e entramos na jaula. Então éramos só nós dois (eu e o Dylan), o adestrador e o leão naquela jaula. Novamente seguimos as orientações e registramos fotos fantásticas daquele magnífico animal que resolveu cooperar conosco ficando numa posição realmente imponente e majestosa como se estivesse em transe. Felizes da vida por ter atingido mais um objetivo da nossa viagem saímos do parque cansados, afinal foram mais de sete horas caminhando e explorando aquele ambiente surreal que nos proporcionou muita satisfação e uma sensação extremamente gratificante. Dizem que os animais do zoológico de Lujan são dopados e por isso não reagem às pessoas. O parque desmente este fato informando que igual aquele só existem cinco ou seis outros no mundo e afirmam que os bichos são dóceis, pois convivem desde que nascem com outros animais nas jaulas, recebem constantes visitas dos tratadores e adestradores e que são muito bem alimentados. Fato este que realmente podemos constatar, pois vê-se filhotes de leões com cachorros e coelhos, macacos com cachorros, castor com flamingo, paca com veados, avestruzes, emas e cabritos montanheses, entre outras misturas de espécies que tornando o local super sociável a todas as espécies ali criadas. Retornamos à Praça de Mayo na expectativa de presenciar o “Movimento das Mães da Praça de Mayo”. Este movimento consiste na concentração de mulheres que se reúnem defronte a Casa Rosada para exigirem notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina. Seus filhos eram retirados à força com a denuncia de que seus pais eram considerados subversivos ao regime militar da época, colocando-os para adoção de famílias militares. Ainda hoje, todas as quintas-feiras, estas mulheres manifestam-se naquele local na expectativa de manter viva na memória de todos os argentinos a esperança de rever seus filhos. O drama é retratado no filme La história oficial, o primeiro a vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro. Infelizmente não chegamos a tempo de compartilhar com aquelas mulheres a dor que sentem desde 1976, ou seja, há 36 anos. Exaltos, caminhando, não por falta de ônibus ou táxi, mas sim por opção, retornamos a San Telmo e no caminho resolvemos jantar numa aconchegante cantina para depois deliciamos outro delicioso sorvete Freddo. Feito isto comprei refrigerante, chocolate e uma garrafa de vinho e retornamos ao hostel Nômade. Fazia muito frio, em torno de 3º, de forma que depois de interagirmos um pouco com uns hermanos na sala de estar, resolvemos tomar banho e descansar. Afinal aquele fora um dia atípico, de muita caminhada e descobertas que nos cansaram de forma muito salutar, o que nos levava à eminente necessidade de descansar. No quarto, meu filho, através de seu celular, publicou outras fotos dos animais do zôo, o que rendeu, conforme já mencionado, diversos comentários, em especial sobre o último leão que interagimos. Mesmo apresentando melhoras, ainda havia sintomas da gripe. Com isso mediquei-lhe mais uma vez. Conversamos um pouco e quando ele se embrenhou na internet onde conversava com seus amigos, fui pra sacada do quarto aonde fiquei registrando a passagem daquele marcante dia, enquanto degustava um bom vinho argentino e curtia aquele agradável frio de Buenos Aires. Aquele momento estava tão agradável que sequer mencionei que o planejado para aquela noite era conhecer Palermo e/ou El Caminito, coisa que deixei para o dia seguinte o que foi a melhor escolha uma vez que durante o dia pudemos conhecer lindos parques como o Rosedal e o Jardim Japonês. 12º dia - 20-07-2012 (sexta-feira) Buenos Aires, Argentina Choque de culturas Seis e trinta da manhã, o hostel estava fechado e não havia ninguém na recepção. Por esta razão, aceitamos a sugestão de uma senhoria que peranbulava de roupão enquanto fumava pelo hostel. Pulamos um janelão cuja sacada ficava a aproximadamente 1 metro de altura da calçada de passeio do lado externo para nos dirigirmos a lanchonete da esquina onde tomamos um simples café que estava incluso na diária. Lá conversamos com um casal intercultural, ou seja de nacionalidade diferente (a moça da Argentina e o rapaz da Guina Francesa) que também apresentaram o vale café e foram orientados pela mesma senhoria a pular a janela. Aproveitamos pra obter umas informações de como chegar em Palermo e o que fazer naquela última manhã em Buenos Aires. Curiosa, a moça perguntou o que já havíamos conhecido e então sugeriu que não deixasse-mos de conhece El Caminito afirmando que daria tempo de passarmos por lá para depois irmos a Palermo. Foi o que fizemos e não nos arrependemos. Em menos de trinta minutos já estávamos no El Caminito que é um bairro extremamente boêmio, com arquitetura colorida e muitas lojas, bares e restaurantes. É também onde fica o Estádio do Boca Júnior um dos maiores e melhores times de futebol da Argentina. Passeamos pelo local, compramos sulvenires, lembranças e alfajores. Registramos inúmeras fotos e fomos ao museu do Maradona que fica no Estádio do Boca. Fiquei imaginando aquele local depois de um clássico argentino ou contra um jogo do Brasil e tentei vislumbrar a loucura que dever ser. Seria preciso estar presente e, claro, sem camisa do Brasil para contemplar tamanha agitação que los hermanos devem promover naqueles bares. Em seguida tomamos um ônibus e partimos para Palermo onde conheceríamos o Parque Rosedal, o Jardim Japonês e o Planetário. Iniciamos por uma longa caminhada que teve início no Jardim Botânico, contornou todo o longo zoológico de Palermo, cruzando um enorme parque que não me recordo o nome para, então, chegarmos ao Jardim Japonês. Compramos as entradas, circulamos pelos trilhos e pontes em estilo japonês, por obvio, e contemplamos um pouco da cultura do parque, presente doado pela comunidade japonesa da Argentina em 1979. O local oferece uma casa de chá e um restaurante, além de espaços para meditações, lago, jardins seco e atividades da cultua japonesa como origami, bonsais, danças, lutas marciais entre outras atrações. O dinheiro e o tempo já se faziam curtos e por esse motivo todas as nossas atitudes seguintes foram desproporcionais ao local zen em que estávamos, ou seja, ao invés de mantermos a serenidade, fomos com pressa ao observatório, ao invés de degustarmos uma comida japonesa, comemos pão com chouriço (linguiça). Ao invés de caminharmos, corríamos... De qualquer maneira estávamos nos divertindo e tudo contribuía para enriquecer nossa viagem. Uma vez que o observatório estava fechado e só abriria à noite para apresentação de filmes voltados a observação do espaço celeste, partimos então para o Parque Rosedal com sua linda ilhota coberta de jardins de rosas entre um grande lago com pedalinhos e muitas opções de lazer. Como era dia do amigo o parque estava fechado para que as pessoas não colhessem rosas para seus amigos, de forma que as pessoas aproveitavam o dia às margens do lago fazendo pique-nique, conversando e praticando esportes. Contornamos todo o parque e tomamos outro ônibus até San Telmo onde buscamos as mochilas para nos dirigirmos a Buquebus, empresa de transporte marítimo responsável pela travessia entre Buenos Aires na Argentina e Colônia del Sacramento ou Montividel no Uruguai, nossos dois últimos destinos nesta agradável aventura e onde perceberíamos o choque de cultura que há entre um pais e outro ou de uma cidade para outra, como foi o caso de Buenos Aires e Colônia del Sacramento. Buenos Aires é fantástica! Há inúmeras coisas para se ver e fazer naquela linda cidade. A cultura é algo que flutua no ar e as opções de lazer são diversas. Os poucos lugares que visitamos serviram apenas para dar a dimensão do quanto ainda havia para ser explorado e que três dias são poucos para conhecer a capital da Argentina. Excetuando a inflação que os argentinos convivem, principalmente depois da crise financeira mundial de 2009, é uma cidade que vale muito a pena conhecer e desfrutar. De volta ao porto, aquele que foi totalmente restaurado, seguimos direto à Buquebus para comprar nossas passagens para o Uruguai. Mais uma vez quase cai pra trás ao ouvir o preço que, novamente, fora majorado pela crise e que me apanhou de surpresa como quem recebe um susto. De qualquer forma precisávamos atravessar o Rio da Prata, pois nossas passagens de retorno ao Brasil eram de Montevideo. Então, compradas as passagens, ainda tínhamos muitas horas até que o enorme navio zarpasse. Resolvemos sair do porto e fomos conhecer a piatonal (calçadão), principal artéria comercial de Buenos Aires. Tínhamos duas horas para conhecer mais um pedacinho da cidade e não perdemos tempo. No calçadão, sem bancos e com muitos vasos de flores, nos deparamos com grande excentricidade da Argentina e por que não dizer da viagem quando nos deparamos com inúmeras ofertas, propagandas, comercio, restaurantes, apresentações de arte e cultura locais e internacionais, etc. Descansamos um pouco na Praça San Martin para, em seguida, retornar à Buquebus que ficava a umas quatro ou cinco quadras do local, para fazer nosso check-in (verificação) e então embarcarmos, mas não sem antes passarmos pela polícia argentina e uruguaia para fazermos o serviço de imigração. Já começava a escurecer quando fizemos o embarque e nos acomodamos nas confortáveis e espaçosas poltronas do navio que oferece muito requinte e até um free shopp. Aquela altura nos sentíamos mochileiros de luxo, pois se utilizar daquele moderno navio e comprar lembrancinhas em free shopp de alto padrão não condizem com o tipo de viagem que nos propusemos a fazer, muito embora deixar duas donzelas em casa e não presenteá-las com um presentinho de melhor qualidade seria era coisa que não conseguiríamos fazer. Com o atraso na saída e a hora percorrida pelo Rio da Prata, chegamos à Colônia del Sacramento por volta das 21h. Seguimos diretamente para o terminal de ônibus para comprar a passagem a Montevidéu para o dia seguinte e depois, como das outras vezes, saímos pelo centro novo da cidade à procura de um hostel. Aproximadamente uma hora depois de batermos pernas e nas portas de uns três ou quatro hostels, nos hospedamos no Sur hostel que nos pareceu bom e confortável. Faziam 2º. Cansados e com frio, optamos por permanecer no hostel onde dividimos uma pizza com um uruguaio – atendente do hostel, um mochileiro paulista e duas argentinas que faziam direito e jornalismo, sendo que a que fazia jornalismo defendia uma tese sobre a evolução política do Brasil que tinha como marco principal o Governo Lula. Fogo, pizza e vinho foi a combinação perfeita para permanecermos ali conversando e trocando experiências da viagem, além de buscar informações mais precisas a respeito de Colônia del Sacramento. A curiosidade ficou por conta da forma como o uruguaio assava suas pizzas. Primeiro assou a massa para, somente depois, pôr o recheio que naquele caso consistia apenas numas bolinhas de queijo e molho de tomate. De qualquer forma ficamos ali por volta de uma hora e meia quando às 23:30 nos retiramos para descansar daquele dia bastante dinâmico, pois na manhã seguinte nossa programação seria conhecer o centro histórico da cidade e desfrutar um pouco da colonização portuguesa com estradas e casas de pedras que convivem e misturam-se a outras casas clássicas da arquitetura espanhola e, claro, a comida. 13º dia - 21-07-2012 (sábado) Colônia del Sacramento, Uruguai Cultura européia Com certo entusiasmo partimos para a nossa primeira exploração no Uruguai. O dia estava bonito e já era o 13º que não víamos nuvens. Entretanto, foi o maior frio que enfrentamos nesta viagem, cuja temperatura era mais baixa que os outros dias no Chile e na Argentina. Mal saímos do hostel, cruzamos uma avenida pouco movimentada, na qual podemos observar um ou outro carro antigo trafegando, ou melhor, desfilando com uma suave graça, destacando-se dentre os demais automóveis conduzindo-nos a uma época remota. Em seguida recebemos a companhia de quatro grandes cachorros que nos acompanhariam todo o tempo e em todos os lugares que percorremos naquela pacata e singela cidade localizada às margens do Rio de La Plata (Rio da Prata). Quem chega não imagina que aquela simples cidadela já foi palco de guerras, tratados e negociações diplomáticas entre Portugal e Espanha. Com a independência do Brasil chegou a integrar nossos domínios até que, em 1828, quando a República Oriental do Uruguai tornou-se independente do Brasil passou a pertencer ao novo país. Ao chegarmos ao simpático e histórico centrinho de Colônia del Sacramento, sempre acompanhados pelos cachorros, por um momento pareceu me faltar algo. Não sabia ao certo, mas me parecia faltar a boa sensação de se sentir a importância de poder prestigiar aquele momento, como se não estivesse dando a devida importância a uma cidade de tamanha influência histórica. Talvez esperasse mais e, por essa razão, não lhe dei, naquele primeiro momento, a relevância merecida. Talvez fosse a vontade de voltar logo para casa ou, quem sabe, o frio ou ainda por não estar compartilhando aquela cidadezinha genuinamente romântica com minha esposa. De qualquer forma dávamos início a uma busca por algo interessante que tornasse válida a ida àquela cidade. Assim, fomos percorrendo toda a orla do Rio da Prata, contemplando suas ruas de pedras e algumas casas construídas com o mesmo material, as quais foram encaixadas de forma muito peculiar. Chegamos então a um pequeno centro de informações, recebemos um mapa e constatamos que duas horas eram suficientes para conhecer todo o espaço urbano do centro histórico da cidade, já que tudo, curiosamente, encontrava-se fechado. Entretanto, Colônia tem muito mais a oferecer que uma simples caminhada. Pode-se explorar seus bons e curiosos restaurantes, conhecer os vários museus como o Museu Municipal, Museu Português e Museu Espanhol, por exemplo. Fundada em 1680 pelo militar português Manuel Lobo e declarada patrimônio Histórico da Humanidade em 1995 pela Unesco, Colônia del Sacramento ainda tem como pontos turísticos a calle de Los Suspiros, casa do vice rei, igreja matriz, praça de touros e o portal da cidade. Depois da crise de falta de espírito cultural, posso afirmar que valeu a pena sim conhecer o local, pois a cultura européia e a história andam de mãos dadas. A arquitetura portuguesa impera em cada esquina com seus casarios com lampiões ornamentais instalados até em muros. Arquitetura esta que convivem e fundem-se com casas de tijolos e telhados de açotéia clássicos da típica arquitetura espanhola. Suas árvores coloridas adornam as ruas e paredes das casas, contribuindo ainda mais com o ar romântico proporcionado por uma cidade que respeita as tradições de seus antepassados, como se tivesse parado no tempo. Não sei a razão, mas, como disse, a cidade estava completamente deserta. Andamos por todo o seu centro histórico e não encontramos mais que dez turistas e um ou dois habitantes. As casas e o comércio estavam fechados e apenas o centro de informações e dois restaurantes encontravam-se abertos. Passadas as horas que dispunha-mos, voltamos ao hostel, apanhamos nossas mochilas e nos dirigimos a rodoviária para apanhar um ônibus com destino a Montevidéo, nosso último e definitivo destino antes de retornar ao nosso querido Brasil. Assim, por volta das 14h, deixávamos a pequena e pacata Colônia del Sacramento para enfrentar os quase 200 km que a separam da capital uruguaia. Pradarias com gramíneas predominam a paisagem que chega a dar sono devido a monótona paisagem. Não há no trajeto, ou se há não percebi, qualquer curiosidade que merecesse uma fotografia. Assim, umas duas horas depois já estávamos no Centro de Montevideo. Novamente “ralamos” para encontrar um hostel o que me fez cometer o primeiro dos dois grandes erros cometidos na viagem. Por questão econômica, mais do que nunca, precisávamos nos hospedar num hostel. Além do Che Lagarto, que fica localizado na Praça Independência, mas que estava lotado e o hotel de luxo Holliday Inn, não conseguimos encontrar outras opções pelas imediações da praça. Cansados e impacientes de tanto andar, resolvemos entrar numa hospedaria (espécie de dormitório) que encontramos por acaso. Como não fazia diferença para nós, resolvemos nos hospedar. Cometia ali meu primeiro erro no Uruguai. O edifício, extremamente antigo e sinistro, parecia um castelo assombrado. O pé direito tinha uns cinco metros de altura e o corredor era demasiado estranho forrado por tapetes escarlate e ornamentado com alguns móveis rústicos e muito antigos, em péssimo estado, além de algumas relíquias como máquinas de escrever tão antigas que remeteram meus pensamentos ao século XIX quando, em 1873, foram fabricados os primeiros modelos. Precipitadamente paguei duas diárias, o que muito me arrependi depois, como se jamais fosse possível conseguir outro local para ficar no dia seguinte. De qualquer forma, garantida a nossa estada em Montevideo e com o pouco tempo que tínhamos para conhecer a cidade, resolvemos aproveitar aquele fim de tarde para conhecer alguns pontos turísticos destacados com precedência. De imediato fomos à Praça Independência que possui no seu centro uma impressionante estátua equestre com José Gervasio Artigas – militar e político uruguaio considerado herói nacional, que também pode ser acessada por escadas e possui no subterrâneo da praça o mausoléu onde é conservado seus restos. A obra, do escultor italiano Ângelo Zanelli impressiona pelo tamanho e perfeição que é percebida em todos os detalhes, tanto do cavalo quanto do herói. Sem dúvidas é a maior do gênero que já vi em todos os paises que visitei na América do Sul e Central, destacando que não me lembro de nenhuma praça importante sem uma estátua equestre com os respectivos heróis sulamericanos. Vista a praça, o calçadão e o teatro Solís, fomos jantar e resolvemos caminhar pela Avenida 18 de Julho, que é a principal da cidade, à procura de algo qualquer que nos saciasse a fome. Não muito condizente com a situação aceitei a sugestão do Dylan e paramos num Mc Donalds. Também pudera, cansados daquele dia inteiro de andanças, quando pela manhã estávamos em Colônia del Sacramento e à noite em Montevideo, qualquer fest-food da vida ajudaria a voltarmos mais cedo para o “hotel” para descansarmos. Entretanto, antes de voltar fomos conhecer um Cassino próximo ao hotel onde ficamos alguns minutos, trocamos alguns dólares e sem demora saímos, afinal não sabia e nem queria aprender a jogar, pois não poderia arriscar meus últimos trocados numa máquina caça níquel. No quarto, tomamos banho e fomos descansar, mas algo me incomodava. Refiz meu roteiro e meu pensamento insistia em lembrar do bar Fun Fun que me fora muito bem recomendado. Neste bar acontece apresentações de tango (música e dança) que são realizadas num palco tão minúsculo que mal dá para se acreditar que ali um casal consegue dançar espetacularmente. Lá também é apresentada o Candonbe que trata-se de um ritmo proveniente da África e que, há mais de duzentos anos, tem grande influência na cultura uruguaia. Comentei o fato com meu filho que prontamente se vestiu e disse: “Vamos conhecer”. Rejeitei a proposta, pois ele apresentava sinais de muito cansaço, principalmente em virtuda da gripe que ainda guardava resquícios, mas logo depois ele me convenceu e fomos pro bar que fica atrás do Teatro Solís e próximo do “hotel” que estávamos. O frio mostrava suas garras parecendo rasgar nossa pele, gelando até nossos ossos, fazendo com que nossos passos fossem mais apressados na tentativa, talvez, de aquecer o corpo. No bar procuramos sentar numa mesa próxima a um aquecedor a gás, no entanto tivemos que nos retirar tamanho o calor que aquela engenhosidade fazia. Sentamos, então, num curioso banco de madeira com o encosto coberto de notas de dinheiro de vários países. Pedimos para o garçom colar uma nota de dois reais e ali ficamos aguardando o espetáculo, enquanto meu filho tomava suco de laranja e eu uma Patrícia, cerveja uruguaia vendida em litro. Em seguida o gerente nos pediu para mudarmos de local, pois aquele era exclusivo a alguém que, segundo ele, tinha lugar cativo no bar. Negociamos que assim que o cidadão chegasse nos retiraríamos sem problema algum. O show que começaria somente às 23h não foi contemplado por nós uma vez que preferi não explorar as energias do garoto que apresentava, conforme narrei, muito cansaço. Assim, retornei ao hotel pensando no dia seguinte e na proposta de participar de um tour organizado pelo hotel Holliday Inn que custaria R$ 200,00 e nos levaria à Punta de Leste passando por locais interessantes como a Casapueblo que é um luxuoso hotel e museu construído pelo renomado artista uruguaio Carlos Paez Vilaro. Então enquanto tentava dormir resolvi decidir o itinerário do dia seguinte somente quando acordasse, de forma que escolheria entre o tour e conhecer um pouco mais do centro da capital uruguaia. Entre a segunda opção sobressaiam-se o almoçar no Mercado del Porto e conhecer a feira de Tristán Narvaja, onde cometeria meu segundo e maior erro da viagem. Erro este que marcou a viagem negativamente e que espero que meu filho se esqueça e me desculpe pelo acontecido, bem como, assim como eu, também absorva o ocorrido como experiência para que nunca caia no golpe que caí e nunca cometa o erro que cometi. 14º dia - 22-07-2012 (domingo) Montevidéu, Uruguai Grande e lastimável erro (último dia) Depois de arrumarmos nossas mochilas, conversamos sobre o que faríamos naquele último dia daquela inesquecível viagem. Depois de expor, a meu filho, algumas alternativas interessantes, decidimos explorar um pouco mais do centro da capital. Desde o 1º dia todas as nossas ações, conversas, passeios e experiências foram extremamente positivas e ricas em aprendizado e aproximação pai e filho. Aquele domingo, no entanto, toda aquela harmonia, intimidade e principalmente a confiança e cumplicidade formada quase se esvaiu em frações de minutos. Por um pequeno deslize da minha parte parecia que toda a fantasia colorida criada na cabeça de meu filho tornara-se monocromática, cinza. Como estávamos com pouco dinheiro, resolvemos não fazer o tour oferecido pelo hotel do cassino, uma vez que, para tanto, precisaríamos sacar mais dinheiro para podermos almoçar, jantar e tomar o táxi para o aeroporto na madrugada seguinte. Desta forma, decidimos por visitar a feira de Tristán Narvaja que acontece todos os domingos e impressiona pela extensão que vai além, aliás, muito além da Rua Tristán Narvaja. Caminhando pela Avenida 18 de julho em direção a feira, encontramos um ponto turístico que não visualizara nas minhas pesquisas sobre Montevideo, ou seja, a Fonte dos Cadeados. Diz a lenda que se prender um cadeado nas grades da fonte com as iniciais da pessoa que se ama e se um dia a levar ao local, o casal estará atado para resto da vida. O local é bastante interessante e possui milhares de cadeados de todos os tipos, formas e tamanhos. Foi uma curiosidade que valeu a pena conhecer e só aconteceu graças ao estilo que exerço nas minhas viagens: muita caminhada. Chegando à feira percebemos que a mesma se arvora por todas as ruas adjacentes, transformando-se num dos maiores mercados de pulgas da América do Sul. Ainda na Av. 18 de Julho, antes mesmo de adentrar-se à Rua Tristan Narvaja, pode-se encontrar inúmeras razões para se surpreender. Aranhas, tartarugas, cachorros, peixes, gatos, faisões, pássaros (das mais diversas espécies) e muitas outras curiosidades são oferecidas com muita naturalidade, sem a menor cerimônia e, claro, sem a mínima inspeção dos órgãos públicos. Os que mais sofrem são as galinhas, galos, pombos, pássaros e coelhos que aos montes dividem minúsculas gaiolas empoleirando-se uns sobre os outros numa tortura insuportável e cruel. Aquilo aborreceu meu filho! Ele que pretende ser biólogo se revoltou com a situação dos bichos, mas senti uma incontida vontade de comprar a tartaruga-de-esporas-africana, a salamandra, a cobra, a iguana, etc, talvez para liberta-las daqueles cativeiros. Desejo este, acalentado desde criança, mas contido, pois todos eram ilegais e certamente nos causariam problemas na alfândega. A feira me surpreendeu em todos os aspectos, pois realmente oferece de tudo um pouco. São antiguidades, móveis, louças, quinquilharias, flores, ervas, frutas, legumes, laticínios, animais e muitas outras curiosidades inimagináveis. Enquanto passávamos, íamos identificando mentalmente as barracas que voltaríamos para comprar uma ou outra lembrancinha. Pelo menos umas quatro ou cinco já tínhamos mapeado e as compraríamos no retorno. Contudo, fui do entusiasmo à desilusão em menos de 5 minutos. Eis que bem no final da feira havia uma pequena mesinha com um grupo de curiosos vendo a habilidade do feirante com o jogo dos copos. Este jogo que contém uma bolinha e três copos, consiste em descobrir em que copo parou a bolinha depois de embaralhados. Percebi que a bolinha estava no copo à minha direita e o apostador errou ao apontar para o copo do meio. Em seguida apostou novamente e ficou muito claro onde estava a bolinha, pois o manipulador dos copos não parecia tão habilidoso, mas, novamente, o apostador indicou o copo errado. Eu, em contrapartida havia acertado mentalmente onde a bolinha estava nas duas vezes que acompanhei o processo. Na sequência uma senhora apostou e, mais uma vez, eu vi e tive certeza do copinho que estava a bolinha. Meu filho que pressentiu aquilo que eu deveria ter pressentido me convidou a sairmos dali. Entretanto, resolvi, erroneamente, apostar e imediatamente fui cercado por várias pessoas que falavam muito alto e apontavam o copo aonde a bolinha estava, fato este que coincidia com a minha suposição. Tomei coragem e apostei! Meu filho me puxou e eu não quis saber. Aquelas pessoas se infiltraram entre nós afastando-o de mim, mas eu nada percebia. Diz ele que discutiu e foi empurrado. Cego! Só queria jogar. De cara, pela certeza, apostei alguns pesos equivalente a R$ 50,00 e perdi. O Dylan gritou comigo enquanto empurrava uma mulher que o impediu de se aproximar. Eu nada via. Queria apenas recuperar os R$ 50,00 perdidos. Erro fatal. Apostei a mesma quantia e desafiei a mulher a apostar comigo. Ela prontamente depositou na mesa o mesmo valor e assim apontamos o mesmo copo. Perdemos! Inconformado com a situação, pois eu vi aonde a bolinha parou, abri a carteira, que naquele momento só tinha 1000 pesos uruguaios (quase R$ 100,00), e quase recuei principalmente quando meu filho apavorado gritou comigo dizendo: “Pai isso é uma farsa! Eles estão te roubando!” Falei que iria apontar o copo e o seguraria. Naquele momento tudo passou em minha cabeça: o almoço, a janta, as lembrancinhas da feira, o táxi pro aeroporto, enfim, tudo que estava jogando fora, menos a confiança de meu filho, que àquela altura estava apavorado sem que eu percebesse. Era tudo muito rápido e confuso. No desespero de recuperar os R$ 100,00 perdidos esperei o malandro mexer os copos e pus o dedo em cima com a certeza de que era naquele copo que estava, pois ele me deixou ver isso. Mas ao tirar os últimos pesos da carteira, o desgraçado deve ter mexido muito rapidamente nos copos sem que eu percebesse. A habilidade dele falou mais alto que minhas vistas e perdi todos os duzentos reais. Tentei apelar dizendo que fiquei sem dinheiro para voltar pro hotel, que tinha que pegar um táxi pro aeroporto, etc. Nada! O cafajeste não quis saber. Derrotado, desnorteado e confuso segui meu filho que saíra em passos largos andando sem nem saber para onde. Eu pedindo desculpas, ele chorando. Eu me justificando, ele ignorando. Disse que eles o empurraram. Que fiquei cego. Que algo pior poderia ter acontecido. Que não entendia como que eu pude cair naquela armação. Que todas aquelas pessoas faziam parte de uma quadrilha. Tentei, sem êxito, acalma-lo enquanto pensava no que faria para conseguir dinheiro. Será que meu cartão funcionaria? Será que justamente agora ele apresentaria problemas? Era domingo! Será que conseguiria sacar? E o táxi pro aeroporto na madrugada? E as lembrancinhas? E o almoço? E a janta? O que fazer? Eu fiquei péssimo. Sem rumo, sem chão e sem saber ao certo o que dizer a meu filho. Pode parecer bobagem, ou exagero, mas me senti impotente diante daquela situação. Como pude ser ludibriado por aqueles uruguaios? Pensei em falar com uns policiais, mas recuei, pois estava com muitas dúvidas. De certeza, tinha apenas a decepção e a desilusão nos olhos do meu filho. Foi horrível. A feira foi um divisor de água. Me senti como se até aquele momento eu tivesse atraído todos os holofotes em minha direção e com o acontecido eu os tivesse repelido. A máquina da teimosia mói centenas de curiosos por dia e eu fui apenas mais uma vítima. Saímos da feira, sem as lembrancinhas, pela primeira rua que apareceu na frente de meu filho. Como disse: Ele na frente eu atrás. Ele chorando e eu sem palavras. Adiante avistei um banco com alguns caixas eletrônicos. Entrei. Pus meu cartão na máquina e ansioso tentei sacar alguns pesos. Segundos depois, os pesos correspondentes aos R$ 200,00, necessários para aquele dia, estavam em minhas mãos. Acredito que nunca valorizei tanto o dinheiro uruguaio. Escondi a realidade e para não decepciona-lo e não preocupa-lo ainda mais, disse-lhe que recuperara parte do dinheiro e que perdera apenas R$ 50,00. Assim, num clima nada agradável e muitas desculpas depois tomamos um ônibus até a Praça Independência que era nossa baliza naquela cidade. De lá, seguimos o calçadão da rua Sarandi, que era a continuação da Av. 18 de Julho, cortado apenas pela praça, em direção ao Mercado deu Puerto, onde pretendia degustar uma costela bovina uruguaia, tomar uma cerveja e tentar esquecer por completo o ocorrido na Feira Tristán Narvaja. Quase no final do calçadão, onde já avistava-mos com mais nitidez parte do Rio da Prata, encontramos um hostel que não me recordo o nome, com uma equipe muito hospitaleira e organizada. Era por volta de 12h quando entramos para obtermos informações sobre o mesmo. Obtidas as informações, e sabendo que perderia mais uma diária, aquela que pagara adiantado à bruxa da hospedaria, resolvi fazer a troca, pois precisava tirar meu filho daquele castelo mal assombrado. Eu devia isto a mim e, em especial, a ele, principalmente depois da situação delicada pela qual o expus. Eu precisava resgatar seu entusiasmo e principalmente a sua confiança. No local em que estávamos hospedados não havia a menos chance disso acontecer. Não havia sequer internet, coisa que vinha sendo uma boa distração, pois com seu novo celular ele vinha se comunicando com os amigos. Este foi mais um fator determinante para retornar à hospedaria, pegar nossas mochilas e dar entrada naquele simpático hostel. Em seguida, ainda tensos, fomos ao Mercado del Puerto e nos acomodamos no balcão do famoso restaurante El Palenque – Parrilla / Mesón. Fazia muito frio, acredito que uns 5 graus, de forma que nos acomodamos em frente à churrasqueira onde é assado contrafilé, costela, frango, porco, etc ao vivo e em cores. A fumaça que emana das churrasqueiras e invade o ambiente é só um complemento. A comida, super saborosa, vem em porções tão generosas quanto à conta. Contudo era ali que eu tinha pensado em levar meu filho e era ali que estávamos independentes do que ocorrera ou não. Aquela altura do campeonato, meu discurso passava de lamentável para otimista. Dizia que o que ocorreu foi passado e não deveríamos pensar mais naquilo. Que valeu a experiência. Que é errando que se aprende, etc, etc, etc. Meu filho parecia mais tranquilo e até voltou a conversar comigo e a degustar aquela saborosa costela que ele apreciou, segundo ele, com o melhor suco de laranja que tomou na viagem. Tudo o que fizemos juntos até aquele último dia de viagem ficará registrado em nossas mentes da forma mais positiva possível. As brincadeiras, as surpresas, o brilho nos olhos e muitas outras coisas agradáveis que aconteceram foram momentos que valeram cada centavo gasto nesta viagem. O cansaço, a procura pelos hostels, as comidas exóticas, tudo tinha um significado especial. Tudo era surpresa, experiência adquirida. Tudo era saudade. Ao tempo em que vislumbrávamos algo, logo pensávamos nas duas mocinhas que havíamos deixado em casa. Mas o entusiasmo com que explorávamos as coisas, os lugares, as comidas, a cultura de forma geral compensavam a saudade. Dali, saímos caminhando pela Rambla (Avenida) 25 de Agosto de 1825 até à Praça Guruyú e dali rumo à Escollera (quebra-mar) Sarandi que é o ponto mais extremo de Montevideo em direção ao Rio da Prata. O dia estava ensolarado, mas fazia um forte frio e o vento que soprava era bastante intenso. Ainda assim registramos algumas fotos e ficamos observando inúmeros hermanos uruguaios pescando no Rio da Prata. Depois de algum tempo retornamos ao hostel para descansar um pouco. Mais tarde comprei umas guloseimas e uma garrafa de vinho e retornei ao hostel, pois não pretendia sair naquela noite, uma vez que duas horas da manha teríamos que embarcar para o Brasil. Defronte a lareira fiquei boa parte daquela noite refletindo sobre as agradáveis e desagradáveis surpresas daquele dia que certamente ficará registrado, enquanto degustava aquele delicioso vinho. Meu filho descansava no quarto e só mais tarde fizemos um lanche na cozinha do hostel. No horário combinado o taxista nos apanhou e nos conduziu ao lindíssimo e longínquo aeroporto internacional de Carrasco localizado no Departamento de Canelone, à leste da capital uruguaia para, enfim, retornarmos para nossa casa. Dali pra diante não incorremos em mais nenhuma surpresa, exceto a de termos que despacharmos o dragão, aquele que meu filho comprou em Mendoza, na Argentina, no aeroporto de Porto Alegre. Contudo as folhas e lembranças recolhidas ao longo daqueles dias foram preservadas e não encontramos dificuldades em decolar com as mesmas. Mas é claro que não terminaria este relato narrando o péssimo episódio ocorrido na feira. Claro que aquele lamentável momento de lapso não ofuscou todos os momentos agradáveis que juntos passamos e claro que, além desta, muitas outras aventuras hão de vir. Por obvio que valeu muito a pena ter realizado esta aventura extremamente gratificante com meu filho. Que cada dia, cada hora e cada minuto convivido com ele foi extremamente fascinante. Que cada quilômetro, cada metro e cada centímetro percorridos a seu lado foi gratificante. Viajar, a partir de agora não será mais uma aventura solitária como foi as outras que fiz pela América do Sul e Central. Ao contrário, descobri um grande parceiro e amigo. Um desbravador que, como não poderia ser diferente, assemelha-se a mim no quesito explorar. Agradeço o esforço da minha esposa em ter dado força para irmos e, em especial, por ter cuidado de nossa filha, suportando a saudade que certamente sentiu. Argentina, Chile e Uruguai foram os três países que mochilamos e desbravamos nesta aventura. Todos possuem suas belezas naturais, sua arquitetura, culinária e cultura super preservadas. Todos nos proporcionaram momentos ímpares em nossas vidas e todos certamente serão lembrados com muito carinho depois de sair “Por aí... Com meu filho”. Agradeço aos que tiveram paciência em ler este relato e espero que tenham curtido, assim como cutimos cada instante (quer dizer menos um) desta aventura. Meu filho a sua companhia foi super agradável e gratificante. Espero ter outras oportunidades para viajar com você. Te amo. Ronei Amandio. Fotos identificadas (Chile, Uruguai e Argentina)
  5. Camarada, não seu estilo de aventura, mas se for igual ao meu não desperdiçaria a oportunidade e levando em conta o tempo que você dispõe eu aproveitaria e partiria de Guayaquil, tomaria o trem nariz del diablo até Riobamba e depois de ônibus até Alausi/Cuenca/Guayquil/Quito (tudo no Equador). Depois partiria para Cali/Medellin/Bogotá. Se quiseres algumas dicas sobre estes lugares é só gritar... Achei que 6 dias em Cali e 6 em Bogotá é bastante tempo e você vai acabar ficando ocioso... de qualquer maneira nas proximidades de Bogotá não deixe de conhecer o Restaurante Andres Carne de Res em Chia e a Catedral de sal em Zipaquirá. Em Bogotá gostei de Monserrat e do museu Casa de Botero... Mais dicas veja o meu relato aqui mesmo no mochileiros.com "Por aí... Uma aventura solitária 2". 1 abraço e boa viagem. Ronei Amandio
  6. Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia e Venezuela (Caribe) Por aí... Uma aventura solitária II Sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares que fui, um pouco das saudades que deixei, sou muito das coisas que gostei. Entre umas e outras errei, entre muitas e outras conquistei. Ramon Hasman Por aí... Uma aventura solitária II À minha esposa Janaina, aos meus filhos Dylan Thomas e Ana Paula à minha mãe Maria e a meus irmãos Adailton, Jailton e Roseli Agradecimentos Sou grato às minhas amigas Silvana Granato e Nayra de Oliveira e a meu amigo Telmo Siqueira Homenagem: Para Romilda (in memorian) Que seu sorriso e o brilho de seus olhos continuem iluminando onde quer que você esteja. PREFÁCIO Assim como a primeira viagem, realizada em 2010, onde explorei solitariamente boa parte da Bolívia, Peru e Chile, e que acabou virando um livro (Por aí... Uma aventura solitária, editado pela DIOESC) [acesse o relato através do seguinte endereço: por-ai-uma-aventura-solitaria-pelo-peru-bolivia-e-norte-do-chile-t49087.html], esta também se deu da mesma forma, ou seja, foi realizada solitariamente, com uma mochila nas costas. Nela ousei conhecer lugares que não estavam no planejamento inicial e com isso pude enriquecer, ainda mais, este relato que compartilho com você, a partir de agora. Estas descobertas, por certo, se deram graças a ímpetos que me ocorreram durante a viagem, uma vez que não costumo “engessá-las”, pois caso o fizesse certamente deixaria de conhecer lugares e coisas interessantíssimas ao longo desta jornada que perdurou por quase vinte dias. Quando me decidi a fazer esta segunda viagem internacional, dei início a uma busca virtual por lugares exóticos e pontos turísticos nos países e cidades escolhidas. A internet é uma ferramenta fantástica neste e em outros sentidos. Através dela pesquisei o que conhecer, que passeios fazer, o quê e onde comer, beber, hospedar-me e como me deslocar de um local a outro. Desta vez, não me preocupei tanto com o deslocamento, o que foi um erro, pois fui surpreendido em dado momento da viagem. Igualmente, na prática, não segui à risca o planejado, pois como disse, não costumo “engessar” minhas viagens com predefinições e arranjos limitados, com exceção da data de ida e volta. Resolvi conhecer Caracas na Venezuela, Manágua na Nicarágua, San José na Costa Rica, Cidade do Panamá no Panamá e Bogotá na Colômbia (nesta ordem) e se houvesse tempo suficiente conheceria, ainda, Quito e as Ilhas Galápagos no Equador. Com as referidas pesquisas e os reajustes nas datas em função do carnaval, aumentei os dias de viagem e, com isso, pude desfrutar ainda mais os países percorridos. A adrenalina desta viagem iniciou com a obrigação (que era a única certeza) de começar por Caracas, Venezuela e terminar em Bogotá, Colômbia, com data e hora marcadas para, então, tomar o avião de retorno ao Brasil, mas não sem antes peregrinar por parte da América Central. A idéia inicial era chegar à Venezuela e, de lá, partir para América Central, cruzando assim a Nicarágua, Costa Rica e Panamá até retornar à América do Sul, entrando pela Colômbia. Com isto muitas cidades seriam visitadas e, o mais importante, conheceria o Caribe, que seria o ápice desta aventura que, com entusiasmo, compartilho através deste relato. Desta forma convido os leitores a percorrerem novas aventuras pela América Latina e, juntos, desbravarmos o que há de mais fantástico nestes lugares. Apronte a sua mochila... 12-03-2011 (sábado) – Brasil Conforme programado, eu e minha esposa, Janaina Telles, por conta da necessidade de estar no aeroporto com três horas de antecedência, por se tratar de um voo internacional, acordamos às 04h30min. O voo para Caracas partiria às 08h e, após despedir-me de meus filhos que queriam nos acompanhar, mas estavam sonolentos e preferiram continuar dormindo, seguimos rumo ao aeroporto Hercílio Luz em Florianópolis. A poucos quilômetros de casa nosso carro resolveu ferver o motor. Paramos num posto de combustíveis, pusemos água no reservatório e seguimos por mais alguns quilômetros até que a luz de STOP (pare) acendeu novamente. Tudo isto antes mesmo de cruzarmos uma das pontes que ligam o continente à nossa linda Ilha da Magia, como é carinhosamente conhecida a cidade de Florianópolis, Capital de Santa Catarina. O tempo foi ficando cada vez mais curto e, naquela altura, o relógio já marcava 06h30min. Com isso, infelizmente, tivemos que nos despedir ali mesmo e cada um tomou um táxi – eu para o aeroporto e minha esposa de volta à nossa casa, para mais tarde resolver o problema técnico do nosso velho e guerreiro carro que até então nunca tinha nos “deixado na mão”. Uma despedida nada programada, pois pensei em tomar um café da manhã no aeroporto e conversarmos um pouco mais antes de partir. Enquanto aguardava o embarque, a forma encontrada para amenizar a ansiedade e tentar esquecer os contratempos ocorridos foi iniciar a leitura de uma das apostilas da pós-graduação em Gestão Pública que estava cursando no Instituto Federal de Santa Catarina – IFSC. As duas apostilas, juntamente com meu velho e companheiro MP4 seriam meu passa-tempo durante toda a viagem. Também fiquei pensando que caso eu fosse supersticioso teria desistido da viagem devido a tantos contratempos que a antecederam. O problema com o carro e com o terceiro pododáctilo (terceiro dedo do pé) por causa de uma madeira que caiu sobre meu pé e resultou numa unha quase arrancada às vésperas da viagem, são apenas dois exemplos destes contratempos. Persistente e confiante de que tudo aconteceria conforme planejado, deixei, sem muita opção, a responsabilidade com minha esposa e, às 8h embarquei rumo a cinco países da América Latina, afinal não poderia iniciar mais uma aventura senão pensando no melhor e sendo otimista de que minha esposa, como sempre, contornaria os problemas da melhor maneira possível. Passei a refletir sobre quantas novidades estariam me aguardando nos países que resolvi conhecer. Entre elas, segundo minhas pesquisas, destacar-se-iam o Parque Nacional Morrocoy na Venezuela; a Ilha Ometepe na Nicarágua; o Parque Nacional Manuel Antônio na Costa Rica; San Blas e o Canal do Panamá no Panamá e, por fim, o bairro Lá Candelária, a Catedral de Sal e o extravagante restaurante Andrés Carnes de Rês na Colômbia. Lugares como a Cordilheira de Mérida, localizada na cidade de Mérida na Venezuela, onde Charles Chaplin viveu por muitos anos e onde se encontra o mais alto e extenso teleférico do mundo e a Mitad del Mundo (Metade do Mundo) e Ilhas Galápagos no Equador dependeriam de tempo para que eu pudesse conhecê-los. Parti de São Paulo para Caracas às 11h de uma manhã chuvosa num voo que durou seis horas. Senti, logo na decolagem, um “aperto no coração” e um “embrulho no estômago” ao pensar que estaria, novamente, me distanciando dos meus amados filhos, esposa, família e amigos, para lugares distantes e desconhecidos, numa viagem solitária que duraria quase vinte dias. Compreendia que estava indo ao encontro de lugares interessantes e que a viagem me conduziria a outras terras, outros mares, outras eras e outros ares. Sabia que haveria algo mais a ser descoberto, provado ou sentido, sem saber exatamente o quê. Contudo deixava novamente o Brasil em direção a mais uma inesquecível aventura. 12-03-2011 (sábado) – Caracas, Venezuela Cheguei a Maiquetia às 16h e, diferentemente de São Paulo, fazia um lindo dia. Após enfrentar quase duas horas de cola (fila) no Aeroporto Internacional Simon Bolívar para carimbar o passaporte e registrar a minha permanência na Venezuela, troquei alguns dólares por bolívares (moeda venezuelana) no câmbio negro, pois assim consegui sete bolívares por cada dólar enquanto que no câmbio oficial conseguiria apenas três e meio. Ao chegar pensei em me dirigir imediatamente a Tucacas, mas com o tempo perdido no aeroporto chegaria somente à noite e resolvi dormir em Caracas. Embarquei num micro-ônibus esquisito que parte do aeroporto nacional que fica anexo ao internacional e parei próximo da Praça Bolívar, imaginando que conseguiria com facilidade um hostel (albergue) ou hotel pelas imediações. Depois de muito procurar, somente às 21h encontrei um hotel, se é que se pode denominá-lo assim, a alguns quarteirões da Praça Bolívar. Ao perguntar à atendente, uma adiposa senhora, se havia vaga no hotel ela simplesmente me ignorou e continuou suas anotações de cabeça baixa. Fiquei no balcão parado e olhando-a pacientemente, esperando a resposta, até que ela me olhou firmemente e perguntou rispidamente: “¿O que passa?”. Perguntei novamente se havia vaga e quanto custava a hospedagem e ela, com a sutileza que Deus lhe deu, disse: - Cento e oitenta bolívares. - Mas no cartaz diz 130 (disse eu). - Cento e oitenta. - Mas no car... (tentei dizer). - Cento e oitenta. De cento e trinta não há mais. Em face da dificuldade de encontrar hotel, da dor no pé devido a unha machucada, do peso da mochila e do risco que correria caso voltasse a procurar hotéis àquela hora da noite, principalmente com uma mochila, resolvi ficar ali mesmo. Ao entrar no quarto levei um susto com seu tamanho e aspecto. A quantidade de mosquitos nas paredes e no teto eram algo assustador e, para piorar, a única tomada elétrica existente no aposento não funcionava e, devido a isso, não pude ligar o aparelho de inseticida contra mosquitos que levava na bagagem. A solução foi expulsar os mosquitos com a toalha de rosto (única que tinha) e atear fogo numas folhas de um jornal de dias atrás que estava sobre uma velha escrivaninha para que, com a fumaça e a porta aberta, os indesejáveis insetos desocupassem aquele quarto. Isto feito, comprei um jornal local (tática que utilizo para tentar disfarçar a condição de turista) e fui dar uma volta para telefonar para casa e comer algo. Depois de tentar telefones públicos, celulares (que os ambulantes alugam) e em telefônicas (que fecham às 18h) desisti e fui à Praça Bolívar onde estava finalizando uma espécie de carnaval, onde poucas pessoas ainda permaneciam com suas fantasias estranhas perambulando pela praça. Em seguida, fui ao bar do hotel (que era um bar gay), bebi duas cervejas Polar - hechas en Venezuela (feitas na Venezuela) antes de subir e tentar dormir naquele pardieiro. Fui pro quarto sozinho, como não poderia deixar de ser, tomei um banho de água fria que saía de um cano, pois não havia chuveiro e procurei descansar devido à necessidade de acordar cedo. Antes mesmo de apagar as luzes recebi uma “visita” inusitada. Em princípio fiquei paralisado ao sentir que ela começou por acariciar meu tornozelo, em seguida, continuou a subir pela minha perna, lenta e vagarosamente, como se quisesse explorar cada centímetro do meu corpo, até chegar pouco acima do joelho, quando a tive a meu alcance e pude estapeá-la com uma das mãos jogando-a contra a parede. Assim afastei aquele invertebrado que ao cair no chão ainda conseguiu esconder-se atrás de um velho roupeiro. Tratava-se de uma “senhora” barata (tão adiposa quanto a atendente) que, com suas grandes antenas e pernas serrilhadas, deu-me as boas vindas e a sua contribuição para que eu passasse aquela noite mais acordado do que dormindo. As baratas são divididas em cinco famílias com aproximadamente três mil e quinhentas espécies, assim não é difícil de imaginar e entender que “ali” pudesse ter uma delas a me recepcionar e importunar, juntamente com os mosquitos, naquela noite. Com o ocorrido, perdi o sono e fiquei assistindo um programa venezuelano que, na verdade, fazia mais propaganda do governo Hugo Chaves do que apresentava alguma coisa útil. Passei ainda boa parte da noite matando mosquitos e pensando na maldita barata. Mas nem tudo era desespero e passei a imaginar como poderia ser o dia seguinte, quando partiria para Tucacas para conhecer o Parque Nacional Morrocoy e aproveitar meu primeiro dia no mar do Caribe. 13-03-2011 (domingo) – Caracas, Venezuela. Programei o relógio para despertar às 06h30min, mas acabei acordando antes do horário previsto com diversos mosquitos “zumbizando” em meus ouvidos. Naquela altura tinham aumentado em tamanho, peso (fizeram a festa comigo) e em número, pois deviam ter entrado por uma pequenina janela, sem tela e sem vidro, que havia no alto do quarto. Arrumei a mochila e tentei sair do hotel, coisa que não se consegue com facilidade no hotel Manaure, pois a porta de saída fica trancada e há um cartaz, escrito num castelhano torto, com a seguinte frase: “Por medidas de seguridad “NO” se permite la entrada y salida despues que se cierra la puerta principal. No insista. No moleste. No se abre la puerta principal... ¿ okey” (“Por medidas de segurança “NÃO” permitimos a entrada e saída depois que se fecha a porta principal. Não insista. Não perturbe. Não abrimos a porta principal... certo?”). Se algum hóspede precisar tomar um avião muito cedo é melhor não se hospedar naquele hotel sob pena de perder o voo ou ter que enfrentar uma séria confusão com o vigilante ou com aquela “simpática” atendente que me recepcionou na noite anterior... De qualquer forma consegui sair cedinho e apanhar, próximo à Praça Bolívar, uma buseta (ônibus pequeno) com destino ao terminal La Banderas, onde se toma outra buseta para Valência, que é uma cidade que parece viver uma fantasia, ou seja, grande parte de sua arquitetura, em estilo russo, é construída com pequenas torres parecidas com as do castelo de Aladdim – clássico da Disney. Alguns comerciantes chegam a pôr o nome Aladdim em seus estabelecimentos como panaderias (padarias), gomerias (borracharias), entre outros. De Valência tem-se que apanhar um terceiro microônibus para Tucacas, onde fica o Parque Nacional Morrocoy, numa pequena e bonita viagem que dura aproximadamente umas três horas. Este último trajeto inclui um rally no asfalto, pois o motorista desce a uma velocidade acima de 120 km/h a imensa serra que separa estas duas cidades. No percurso passa-se pelas cidades de Marabobo, Maracay e San Diego. Em Tucacas, logo que saltei do microônibus, experimentei plátano frito, que é uma espécie de banana frita cortada em tirinhas, salgada e servida em saquinhos plásticos como batatinha inglesa. Em seguida subi na carroceria de uma camioneta que partia rumo ao parque Morrocoy, ou seja, rumo às praias, rumo ao Caribe. Este meio de transporte é o único que faz o percurso entre o ponto final em Tucacas e a praia Ponta Brava, no parque Nacional Morrocoy. Chegando à praia soube que as lanchas, que levam até cayo Sombrero e outros pequenos cayos (pequenas ilhas geralmente inabitadas devido ao seu reduzido tamanho e falta de água potável) no mar das Caraíbas, não partem daquela praia e sim da entrada do parque, que fica a poucos metros de onde eu estava quando saltei do microônibus. Retornei, então, numa outra camioneta e me dirigi aos trapiches, onde funciona uma espécie de marina, para tomar uma lancha que me conduzisse aos cayos, objetivo este que me levou a sair de Caracas e percorrer tantos quilômetros. Perguntando, me indicaram o embarcadero (plataforma de barcos) Virgem de Carmo onde tentaram me cobrar "apenas" 400 bolívares (R$ 100,00) para me levar e buscar no cayo Sombrero. Como já havia pesquisado na internet, sabia que o preço estava fora da realidade e resolvi perguntar se outras lanchas faziam o mesmo percurso. Ao perceberem que eu desistiria, tentaram negociar por 300 bolívares. Como não suporto este tipo de atitude, ou seja, quando o sujeito percebe que não conseguirá explorar o turista tenta diminuir a oferta inicial, saí sem sequer responder, correndo o risco de não conhecer os cayos caso fosse somente eles que fizessem o transporte. Dirigi-me a um outro trapiche, que ficava a uns cem metros daquele e antes mesmo de chegar lá fui abordado por um rapaz que me ofereceu um tour, que me conduziu a vários cayos, inclusive o Sombrero, por 150 bolívares, ou seja, R$ 35,00. Como ainda tinha alguns minutos antes da partida, me hospedei num hotel próximo, com uma linda vista para o mar, troquei de roupa, apanhei a máquina fotográfica, comprei umas latinhas de cerveja que foram postas num saco plástico com gelo (nos cayos é permitido o consumo, mas não a venda de cervejas) e me dirigi ao trapiche, onde outros turistas já estavam a postos aguardando a saída. Diria que, não a aventura, mas o bom da viagem começou ali e afirmo que valeu cada quilômetro percorrido, cada centavo gasto e até mesmo o medo causado pela velocidade do microônibus, pois o passeio naquele mar é extremamente encantador e recompensa qualquer esforço. Este tour inicia-se a “mil por hora!” O barqueiro, pelo menos aquele, não quer saber se seu chapéu vai voar da cabeça, se os óculos também vão voar de seu rosto ou se você tem medo da alta velocidade. O sujeito acelera tanto a lancha que parece estar participando de um campeonato. Vai desbravando as ondas e batendo com o casco da mesma com tanta força que parecia querer destruí-la. Experiente, vai serpenteando os canais entre os cayos, passando muito rente à vegetação e tirando verdadeiros finos de outras lanchas que surgem do nada em sentido contrário. Os canais parecem rios, perfazendo inúmeras curvas até chegar nas várias praias dos quase vinte cayos existentes naquela região. Na verdade se trata do próprio mar do Caribe, que antes de virar mar aberto é salpicado de ilhotas dando a sensação de se estar num labirinto gigante. Todos os cayos têm suas próprias características e belezas, mas nenhum se compara ao cayo Sombrero que, além de grande, é totalmente arborizado e oferece duas lindas e cristalinas praias cujo azul turquesa, que ainda não tinha visto nada igual, permite ver o fundo do mar com muita clareza. O local é ideal para a prática de snorkling. Como disse e repito, ali começou a minha viagem, pois, afinal, estava no mar do Caribe pela primeira vez e me sentia muito bem por isso, mas não totalmente satisfeito, pois gostaria de compartilhar aquele momento com minha esposa e meus filhos. Impossibilitado de compartilhar aquele momento, resolvi aproveitar as poucas horas que ainda me restavam, pois o barqueiro retornaria para nos apanhar às dezesseis horas. Percorri todo o cayo, fotografei o que pude e mergulhei naquelas águas transparentes feito vidro. Enquanto caminhava por uma das praias daquela ilhota juntei alguns corais que ficam espalhados na areia da praia, como as conchinhas nas praias brasileiras, e os trouxe de recordação da minha primeira visita ao mar do Caribe. Lagostas cozidas acompanhadas apenas de limão e, claro, uma cervejinha bem gelada, foram meu almoço. Comer lagostas frescas, ao menos em cayo Sombrero, é um luxo excepcionalmente barato, pois por apenas 100 bolívares (R$ 25,00) degustei duas deliciosas lagostas sob exuberantes coqueiros e com vista para uma das paias mais lindas que já vi na vida. O tour incluiu também uma rápida passagem por outros cayos, onde muitas lanchas atracam para que as pessoas se refresquem e até passem o dia inteiro descansando e aproveitando o local. O inusitado fica por conta de lanchas que são verdadeiros restaurantes ambulantes, que se aproximam das lanchas com turistas para oferecer as mais variadas opções de comida e bebida. Além destas lanchas/restaurantes há ainda outras que oferecem, especificamente, água de coco, cocada, batidas, etc. Há também diversos ambulantes que vão de lancha em lancha, andando por dentro da água, oferecendo óculos, roupas, moluscos e muito mais. É um verdadeiro comércio fluvial ambulante. Conforme combinado, o guia voltou para nos apanhar às 16h e, “rasgando o mar”, retornou ao trapiche muito mais cedo do que imaginei. Com isso tentei cancelar minha hospedagem em Tucacas para voltar logo a Caracas e ganhar tempo para poder conhecer o máximo possível da capital da Veneza Sulamericana, como foi batizada por Américo Vespúcio que em 1499, ao explorar a costa daquele país juntamente com Alonso de Ojeda e Juan de La Cosa, encontraram nativos cujas casas construídas sobre estacas de madeira fixa (palafitas) no lago, hoje conhecido como Maracaibo, eram semelhantes às da cidade de Veneza, Itália e, por isso, batizou o país como Venezuela, ou seja, Pequena Veneza. Existem outras versões a respeito do nome, mas esta é, sem dúvida, a mais aceita e divulgada no País e no mundo. Como a ordem da casa é não devolver dinheiro em caso de desistências, a recepcionista do hotel não quis negociar. Portanto, para não ter que pagar duas diárias (aquela e outra em Caracas), resolvi ficar em Tucacas que, além dos passeios pelos cayos, pouco ou nada tem a oferecer aos turistas, principalmente à noite. Tomei um banho frio (não tinha outra opção) e fui caminhar pela avenida Libertador, que é a principal da cidade, até a via Moro, que corta Tucacas e leva até a cidade de Coro, procurando ganhar tempo até anoitecer quando fui pro hotel descansar deste dia cansativo, mas agradável. Antes porém, percorri a pequena cidade à procura de algo interessante, mas tive que me conformar apenas com uma pequenina praça em forma triangular com uns poucos bancos e uma estátua de Simon Bolivar com oferendas e flores onde fiquei uns poucos minutos, para depois me dirigir à uma arepera ou areperia (local que vende arepas) e degustei uma reina pepeada que é uma arepa servida com ensalada de pollo y aguacate con mayonesa (salada de galinha e abacate com maionese) enquanto observava os embarques e desembarques de venezuelanos que se utilizavam daquelas camionetas que me conduziram até o Parque Morrocoy. A programação do dia seguinte seria acordar bem cedo, tomar um ônibus para Santiago de Léon de Caracas, conforme foi batizada em 1567 pelo explorador espanhol Diego de Losada, hoje conhecida apenas como Caracas, para descobrir o que aquela cidade poderia oferecer e, com isso, tentar mudar a imagem negativa que tive na noite em que cheguei. Um dos objetivos de deixar o mar do Caribe e retornar à capital era conhecer o teleférico Warairarepano, hoje conhecido como teleférico de Caracas, localizado no Cerro (morro) El Ávila e, de lá, conhecer o tão famoso poblado (povoado) de Galipan. Só não sabia que este plano seria completamente alterado e, com isso, outras surpresas, talvez melhores, estavam por acontecer. 14-03-2011 (segunda-feira) – Caracas, Venezuela Ainda escuro, saí do hotel e, caminhando na extensa rua que liga o Parque Morrocoy à Avenida Libertador, me dirigi a um ponto de ônibus e tomei o primeiro que partiu com destino à Valência para, então, tomar uma segunda condução com destino a Caracas. Aquele ônibus, como todos os outros, não importa a hora ou o itinerário, tocava reggaeton, com volume extremamente alto, desrespeitando completamente aqueles que queiram dormir, ler ou simplesmente gozar do direito do silêncio e não ter que compartilhar aquela poluição sonora. Mas lá é diferente! Ninguém reclama das músicas e nem do volume do som. Conseguem ler, dormir, conversar sem se importar com o barulho. Os altofalantes, twiter e amplificadores, em sua maioria, ficam instalados na parte superior da cabina dos ônibus, ou seja, literalmente sobre as cabeças dos motoristas, que definem as músicas e o volume do som. Aproximadamente três horas depois cheguei no Terminal de pasajeros de Valência (Terminal de passageiros de Valência), Capital de Carabobo. Este terminal é extremamente barulhento devido à disputa dos cobradores e motoristas dos autobuses e microbuses (ônibus e microônibus) que tentam, de todas as formas e a todo custo, chamar a atenção dos passageiros na tentativa que estes façam a viagem com eles. Tal atitude me deu a impressão de que estes veículos são particulares ou que eles ganham comissões pela quantidade de pessoas que transportam, tamanha disputa por passageiros. Para se ter uma idéia o motorista do ônibus que me conduziu a Caracas “gritava” umas setenta vezes o nome Caracas em menos de um minuto. A altura e a pressa eram tamanhas que a palavra Caracas era compreendida como craca, craca, craca, craca... e os sons dos demais motoristas na tentativa de chamar a atenção dos passageiros mais pareciam vindos de um bando de gralhas. O ônibus em que viajei era super velho, mas ainda assim o motorista não aliviou a velocidade e a altura do volume do som, o que não me deixou dormir, coisa de que muito precisava devido o horário que acordei. Ao chegar no terminal La Bandera, próximo a Caracas, resolvi tomar um táxi para passar pelo Campo de Carabobo onde aconteceu a batalha de Carabobo, que assegurou a independência da Venezuela. Naquele local de imensos jardins, árvores e uma extensa avenida, onde são realizados desfiles militares e que a população utiliza para, entre outros objetivos, caminhar e praticar esportes, tomei um grande susto. Ao sair do táxi para registrar uma foto o taxista informou que daria uma volta no Campo, pois não é permitido estacionar naquele local e, com isso, levou junto minha mochila que, além das roupas, continha alguns dólares e meu passaporte. Como não o avistei mais no entorno do Campo e, sobretudo, pela demora, imaginei que fugira com meus pertences. Meu coração disparou e aqueles três ou quatro minutos pareceram uma eternidade, até que o vi retornando vagarosamente com seu táxi branco por entre as árvores. O taxista, chamado Miguel é um sujeito muito tranquilo e me ajudou, ainda que sem sucesso, a procurar um hostel indicado por alguém através da internet, mas acabei por me hospedar noutro hotel, próximo ao Panteón Nacional. Antes, porém, o taxista me levou (sem cobrar nada a mais) para mostrar a entrada do teleférico Warairarepano que conduz ao Volcán (Vulcão) Ávila. Como o teleférico encontrava-se cerrado (fechado) para manutenção, Miguel me deu várias dicas turísticas para visitar em Caracas naquela tarde chuvosa e acinzentada, já que não seria possível subir o Ávila e almoçar no povoado de Galipan – conhecido como Jardim de Caracas, cujos imigrantes das Ilhas Canárias são famosos pela produção de flores e frutas. Para minha infelicidade este não seria o único local que planejei e não consegui conhecer nesta viagem, mas que abriu espaço para que conhecesse outros tão interessantes quanto. Uma vez hospedado noutro hotel, muito mais decente do que me hospedara na primeira noite em Caracas, tomei aquele que seria o primeiro banho quente da viagem e parti para conhecer o Panteón Nacional – igreja onde estão os restos mortais de Simón Bolivar. O local é bonito e rico em histórias, com um enorme largo que, certamente, deve ser utilizado para encontros e manifestações. A igreja é bem conservada e o local super limpo, mas sem outros atrativos que justifiquem tamanho destaque entre os pontos turísticos da cidade, salvo pela sua relevância histórica. Afinal, guardar os restos mortais daquele que é considerado o maior herói na América Latina, pois liderou vários países na luta pela libertação, é algo de cobiça de qualquer país latinoamericano. A adoração a este mártir é tamanha que, em homenagem a ele, praças, ruas, avenidas, estádios de futebol, museus, teatros, comércios e muito mais levam seu nome. O próprio nome do País foi alterado para República Bolivariana de Venezuela, por Hugo Chaves. Manquitolando devido ao dedo machucado, resolvi cruzar todo o calçadão de Caracas à procura de camisa e souvenires da Venezuela. Não deu para entender como um país tão nacionalista não oferece, com facilidade, camisas e objetos com temas venezuelanos. Depois de muito andar me dirigi à Praça Bolivar, onde fiquei observando uns bichinhos pretos parecidos com esquilos e que comiam pipoca nas mãos dos transeuntes. Estes bichinhos são muito rápidos e espertos e fazem o maior sucesso numa figueira enorme que tem naquela praça. Ainda na praça, além de alimentar estes bichinhos, também resolvi sentar-me para apreciar um pouco das características e costumes dos caraquenhos (como são chamados os habitantes de Caracas). Experimentei a chicha de arroz – bebida doce e suave feita com arroz cozido e leite, muito apreciada por todos os venezuelanos, independente da idade; papelon com limon que, se não me engano, significa açúcar mascavo com limão – bebida de rapadura com limão, muito refrescante e de sabor marcante e comi arepas (espécie de panqueca feita de milho e recheada com carne, frango, entre outras iguarias). Ainda em busca de camisas e souvenirs continuei andando, agora por outro calçadão e, sem querer, cheguei numa zona muito movimentada do centro de Caracas e avistei, de longe, os bondinhos que ligam a parte baixa da cidade às favelas “encravadas” nas encostas dos morros ao entorno da cidade. Comprei um par de chinelas de dedo para substituir os tênis que estavam machucando ainda mais meu dedo e, mesmo com a informação de que seria muito perigoso subir, não me contive, e quando percebi já estava cruzando todo o maciço das favelas, sentado num dos bondinhos do teleférico que o governo Hugo Chaves implementou e disponibilizou gratuitamente à sociedade caraquenha. O trajeto facilita muito a vida daquelas pessoas que agora não passam mais tanto trabalho subindo e descendo escadarias para ir trabalhar, passear ou simplesmente comprar pão, como foi o caso de Marcos – um garotinho que entrou com um pacote de pães no mesmo bondinho em que eu me encontrava. Recentemente pude perceber que foi implementado no complexo do Alemão no Rio de Janeiro – RJ o mesmo meio de transporte. A tarde estava passando rapidamente e no entardecer, agora de metrô, me dirigi ao Shopping Sambil para conhecer o Hard Hock Café Caracas. Trata-se de um bar reconhecido mundialmente, que oferece ambiente sofisticado, cozinha internacional e bons shows de rock. Na verdade foi um choque de cultura, pois em menos de uma hora saí de uma enorme favela para um enorme shopping center, mas na verdade era esse mesmo o objetivo da viagem, conhecer de tudo um pouco e Caracas oferece esta disparidade com muita naturalidade e transparência. Às vinte e uma horas retornei ao hotel para arrumar a mochila e descansar, pois no dia seguinte o Miguel (taxista) me apanharia às 4:30 da madrugada para me levar até o aeroporto em Maiquetia quando partiria para a América Central para desbravar um pouco da Nicarágua, o segundo país desta segunda aventura solitária. No hotel, enquanto arrumava a mochila, fiquei pensando no que havia lido a respeito de Caracas, ou seja, que ir naquela cidade e não subir o teleférico de Ávila é como ir ao Rio de Janeiro e não conhecer o Corcovado (Cristo Redentor), coisa que acredito, mas que, naquela situação, me levou a conhecer um pouco mais da realidade daquela irreverente cidade sulamericana. Caracas realmente me lembrou o Rio de Janeiro, pois há um movimento intenso de pedestres e automóveis (principalmente em Chacao, onde está localizado o shopping Sambil). As pessoas são animadas e existe um certo apartheid (separação) entre zona norte e zona sul. A Venezuela é super politizada e Hugo Chaves (Presidente) faz questão de deixar claro e explícito que sua política está acima de qualquer coisa, pois ao viajar pela capital ou interior pode-se avistar com muita intensidade placas, outdoors, faixas, etc. com frases como “liberdade ou morte”, parecendo querer incutir uma lavagem cerebral na população. Não pude evitar a comparação que naquele momento me ocorreu, entre a popularidade de Hugo Chaves e Lula, que não precisou nem precisa destes artifícios para ser o que é e conquistar o que conquistou, muito pelo contrário. Aquela Federação é repleta de belezas e contrastes. Com exceção de Caracas, as demais cidades da Venezuela são tranquilas e o país oferece muitos pontos turísticos interessantes que valem a visita. Andar por sua costa apreciando o mar do Caribe é algo sensacional. Pode-se, ainda, visitar os Andes e vislumbrar paisagens impressionantes. Los Roques e Ilhas Margaritas são outros pontos turísticos que devem ser visitados, mas para isso precisa-se de muito mais tempo do que dispunha naquela oportunidade. 15-03-2011 (terça-feira) – Caracas, Venezuela Acordei às 4h e fui apanhado pelo Miguel às 4h40min, conforme combinado. O preço das corridas de táxi devem ser tratados antes do início do embarque, sob pena de se ser explorado por taxistas mau caráter que se aproveitam das oportunidades para se darem bem. Com esse taxista acertei o preço em 120 bolívares, o que foi razoável devido ao horário e, segundo pesquisas, os preços das corridas de Caracas ao aeroporto de Maiquetia oscilam na casa dos 150 bolívares. Durante o trajeto disse a ele que o indicaria no mochileiros.com o que o deixou super animado pois, segundo ele, deixaria de ser um simples taxista para se transformar num taxista internacional e dava risadas com a idéia. O Miguel me pareceu muito competente e honesto e pelo seu profissionalismo paguei-lhe 150 bolívares o que o deixou ainda mais contente. Afinal, depois do susto que levei no Campo Carabobo, quando pensei que ele tinha fugido com minha mochila, dar-lhe uma gorjeta era uma forma de alívio diante do que poderia ter acontecido. Não é nada fácil trocar dinheiro em Caracas, principalmente bolívares por dólares. Tentei, sem sucesso, trocar os 350 bolívares que naquele momento me sobravam e parti pro aeroporto certo de que teria que voltar pro Brasil com aquele pequeno montante. Quase não há casas de câmbio e nas poucas que existem o dólar vale 50% menos que no câmbio negro. Nem mesmo uma casa de câmbio oficial que existe dentro do aeroporto aceitou fazer a troca em função do valor. De qualquer forma foi pura sorte não conseguir o câmbio, pois é necessário pagar 190 bolívares para deixar o país e 30 para taxa de bagagens, coisa que até então desconhecia. Pagas as taxas, comprei alguns chaveiros e tomei um café com o restante dos bolívares. Claro, deixei alguns para levar como lembrança e presentear meu filho Dylan que já colecionara algumas moedas e notas do Peru, Chile, e Bolívia, países visitados na minha última viagem. Naquele momento fui abordado por um cidadão que, em troca de alguns bolívares, propôs alterar a minha passagem da classe econômica para primeira classe, o que recusei imediatamente. O sujeito, que me pareceu participar de algum esquema ilícito com os empregados da companhia aérea, se chateou e depois de resmungar algo, que não entendi, me apontou o balcão da companhia e se retirou rapidamente para abordar outro passageiro. 15-03-2011 (terça-feira) – Panamá City, Panamá Desembarquei no Aeroporto Internacional de Tucumen, na Cidade do Panamá, e circulei pelo hall que possui poucas lojas, mas curiosamente todas de grandes marcas, como La Coste, Tommy, Johnny Walker, etc. Poucos minutos depois já estava de volta ao avião e me deparei com um fato que não entendi e não quis entender. Eis que o comissário de bordo da Taca Airline me informou que meu assento havia mudado e me alojou na primeira classe. A única coisa que fiz foi me certificar de que estávamos indo à Nicarágua, o que me foi confirmado. Com direito a algumas “frescuras” como cobertor, travesseiro e até paninho úmido e quente para limpar as mãos (recusei tudo), me acomodei na enorme poltrona individual da aeronave e resolvi curtir uma de “doutor”. Degustei o almoço executivo que consistia em salmão grelhado ao molho de maracujá, creme de batatas, fatias de lombo de porco grelhadas e torta fria, além de sobremesa e um bom vinho servido numa linda taça de cristal. Depois do almoço resolvi esnobar e deixar a vida de mochileiro para quando aterrissasse, pois teria que cruzar boa parte da América Central (Nicarágua, Costa Rica e Panamá) de ônibus ou trem, até cruzar a fronteira com a Colômbia, na América do Sul. Reclinei a poltrona, pedi uma dose dupla de whisky e fui curtindo aquele momento, sobrevoando a América Central e apreciando lindos cenários da natureza como o Caribe e vulcões, que naquela estreita extensão territorial são mais de quinze. Mais tarde acreditei que a troca do assento deve ter se dado em função da alteração do trajeto, pois não estava previsto que eu iria a San Salvador, El Salvador, para só então retornar à Manágua, Nicarágua. Possivelmente me acomodaram na primeira classe para que eu não reclamasse, estratégia esta que surtiu efeito, muito embora não fosse reclamar, em absoluto, mesmo porque seria mais um país na lista dos conhecidos... Também pode ter acontecido algum mal entendido entre o sujeito que me oferecera aquela regalia, a qual recusei veementemente, e os tripulantes da empresa aérea. De qualquer forma não quis saber e apenas aproveitei a cortesia oferecida. Fiquei pouco tempo em solo salvadorenho e no trajeto entre os dois países aproveitei os mesmos privilégios da ida enquanto contemplava a imensidão de florestas que separam El Salvador da Nicarágua e pensava como poderia ser a minha estada na Nicarágua, que é o país mais pobre da América Central e não tinha encontrado boas recomendações a respeito do mesmo. Alguns colegas, inclusive, me questionaram o fato de querer conhecer a América do Sul e Central em detrimento dos Estados Unidos ou Europa. Respondo sempre que viajar é estilo e que prefiro conhecer primeiro esta região para, depois, quem sabe, conhecer o continente africano e, por último a Europa e os Estados Unidos. 15-03-2011 (terça-feira) – Manágua, Nicarágua Em solo nicaraguense, uma coisa muito me agradou, pois o que se tem à disposição logo que se entra no aeroporto é uma casa de câmbio e a atenção e clareza das atendentes é algo extremamente profissional, totalmente diferente de Caracas, Venezuela. Ali não há o stress de ter que desviar-se de doleiros, nem tão pouco tê-los em seu encalço insistindo para que você troque seus dólares com eles. Surpreendeu-me também o fato dos taxistas não abordarem as pessoas com tanto afinco como em outros aeroportos. Saí do aeroporto com aquela boa impressão e me dirigi à rodovia para tomar um ônibus para ir pro centro de Manágua, quando um senhor que estava caminhando pela calçada parou e me orientou a tomar um táxi alegando que ali, por ser muito isolado, poderia ser perigoso permanecer sozinho. Achei tudo isso muito exagerado, mas resolvi “dar ouvidos” aos conselhos daquele senhor e parei um taxista, questionei-lhe quanto seria a corrida e paguei-lhe 100 cordobas (moeda nicaraguense), algo em torno de R$ 8,00 (oito reais), para o cidadão me deixar próximo à Catedral Metropolitana Inmaculada Concepción de Maria – considerada a mais moderna do mundo e que se destaca pela sua arquitetura e por sua torre que mede aproximadamente 40 metros. Ali, visitei um bonito centro comercial e suas imediações, fui até à Catedral que fica num imenso vazio a uns 500 m do “centro” de Manágua. A entrada principal da catedral se dá por uma rua ladeada de palmeiras imperiais, que mais parecia a entrada de um palácio do que de uma igreja e que, naquele momento, estava quase deserta não fosse a presença de alguns pedintes. Lá, fui abordado por um jovem que chegou apressado e me perguntou de onde eu vinha, para onde iria, se já tinha hotel, etc., depois ofereceu-me sua casa para me hospedar. Primeiramente recusei com educação e, tentando ignorá-lo, tirei da pochete a máquina fotográfica para registrar a Catedral, quando percebi que o jovem, curioso, tentou ver o que tinha dentro da mesma aproximando-se ainda mais. Na tentativa de intimidá-lo, num tom grosseiro, pedi licença e recusei a oferta, pois parecia se tratar de alguém mal intencionado. O jovem, então, saiu sem dizer nada e eu fiquei mais tranquilo, muito embora com certo peso na consciência, pois o garoto não tinha “pinta” de malandro e estava uniformizado, segurando cadernos e livros e que parecia se tratar de alguém que realmente só queria ajudar. De qualquer forma não estava em condições de arriscar, pois o que ouvira falar e ler sobre Manágua não me dava à condição de confiar em qualquer um, mesmo porque tinha recém chegado à cidade e ainda estava me situando. Registrei umas fotos e segui caminhando até o centro comercial à procura de uma agência de turismo para obter mais informações sobre Manágua e região, bem como, tentar ligar para casa e para minha querida mãe que, segundo meu filho, estava chateada comigo por não ter me despedido dela, muito embora houvesse me pedido para não despedir-me, pois ficaria muito preocupada, mas acredito que tenha esquecido deste detalhe. Como não havia nenhuma agência naquele local, obtive informações com taxistas da região. Feito isto, me hospedei próximo ao centro comercial num simpático hostel, que fica situado em dois endereços, ou seja, a parte mais simples numa quadra e a “menos simples” noutra. Como preferi um quarto com acomodações melhores do que o que me foi oferecido no primeiro endereço, paguei, peguei a chave e me dirigi à outra quadra. Depois de devidamente hospedado, tomei um daqueles característicos ônibus escolares, que tem aos montes em Manágua, e fui conhecer o Parque Histórico Nacional Loma de Tiscapa - um local alto de onde se pode avistar de um lado a Manágua antiga e do outro a nova, além de uma linda vista do Lago Nicarágua. No Parque Loma de Tiscapa há um imenso monumento de madeira e um museu com pertences, souvenires e artigos sobre a história de Augusto César Sandino, considerado o maior líder revolucionário nicaraguense; símbolo da resistência à dominação dos Estados Unidos. Sandino foi capturado e executado pelo General Anastásio Somoza García em 1934. É um lugar agradável, muito embora seu passado obscuro remonta a prisões e execuções de revolucionários ligados a Sandino. Há pouco tempo, tornou-se um ponto turístico que além de história oferece esportes como o canopy que cruza a laguna de Tiscapa produzindo muita adrenalina aos que ousam arriscar-se em tal aventura. De lá, mesmo mancando devido à inflamação no dedo quase sem unha, fui caminhando até o Lago Nicarágua onde há uma boa infraestrutura de bares e restaurantes. O local é muito agradável e fica muito próximo dos principais pontos turísticos de Manágua, como a antiga Catedral de Santiago – símbolo do século XX; a praça, onde há um monumento conhecido como Concha Acústica – um enorme palco construído no Central Park onde o Papa João Paulo II rezou a missa quando em visita à Manágua; o Palácio Presidencial; o Museu Nacional da Cultura, entre outros. Manágua é uma pequena cidade, instalada às margens da grande rodovia que a interliga a Granada. Dividida em duas partes pelo Parque Nacional Loma de Tiscapa possui uma parte que é considerada como velha Manágua, que é muito interessante e rica em história, e a outra considerada nova Manágua que, na verdade, trata-se da parte comercial da cidade, mas que pouco tem a oferecer em termos turísticos e culturais. Tinha poucos dias reservados para minha estada na Nicarágua e precisava adequar meu tempo às melhores coisas a fazer e ver naquele inusitado país. Inicialmente resolvi conhecer a cidade de Masaya, que fica próxima a Granada. Antes, porém, fui ao Volcán (Vulcão) Masaya, que fica às margens da estrada e ao qual chega-se numa caminhada de mais ou menos uma hora, a partir da saída da rodovia principal. Durante a caminhada por entre árvores e depois por savanas ganhei uma carona de ida e volta com uma família de franceses que estavam conhecendo o mundo em dois furgões. O vulcão é baixo, mas possui uma imensa cratera fumegante onde, segundo recomendações descritas numa placa instalada aos pés do mesmo, não se deve ficar por muito tempo devido a seus gases tóxicos. Fotografei aquele cenário surreal e retornei com os franceses até a rodovia para tomar um ônibus até Masaya (a família se dirigia à Manágua), mas, alterando o plano inicial, fui direto a Granada. Chegando lá, bastante exausto devido às caminhadas, me surpreendi com a arquitetura da cidade e, num rompante, cheguei a procurar hotel para me hospedar, pois me pareceu muito melhor que Manágua. De qualquer forma, como já estava anoitecendo e pouco daria para ver, resolvi retornar a Manágua para “recarregar as baterias”, pensando em, no dia seguinte, retornar a Granada para poder conhecer melhor a cultura daquela que me pareceu ser uma das melhores cidades da Nicarágua, juntamente com Leon Santiago de Los Caballeros, conhecida apenas como Leon, a 70 km de Manágua e que é considerada o centro intelectual do País. Retornei um tanto quanto indignado, pois deveria ter pesquisado melhor sobre a Nicarágua para saber que Granada seria a melhor opção para me hospedar. Afinal, com o pouco tempo que tinha naquele país, se pernoitasse em Granada ganharia mais tempo para conhecer a Ilha Ometepe, que fica a umas duas ou três horas daquela cidade. Cheguei ao hostel por volta das 21h, cansado e com fome, pois estava sem comer desde o almoço no avião (aquele da primeira classe) e percebi que a chave não abria a porta do meu quarto. Chamei a moça que ficava de plantão que, por sua vez, chamou o proprietário – um canadense que me disse que aquela chave era de um outro quarto. Conduzido até o outro (pequenino) quarto, sem banheiro privado e mal cheiroso, cuja entrada se dava por fora do hostel e a subida por uma escada caracol enferrujada me recusei a aceitá-lo, pois paguei por um quarto melhor e mais confortável onde havia deixado meus pertences e que tinha uma boa cama, banheiro privativo e TV. O proprietário disse que se eu quisesse aquele quarto teria que pagar mais 20 cordobas. Questionei-o sobre o fato, muito embora o valor fosse uma ninharia, sobre meus pertences e como que eu havia entrado naquele quarto se a chave que me foi entregue não o abria mais. Eis que ele explicou que possivelmente estava aberto quando entrei e, por isso, não percebi que a chave não entrava na fechadura e que quando saí, possivelmente, travei apenas a fechadura por dentro sem a necessidade de usar aquela chave e com isso não percebi que a mesma estava trocada. Gerada a confusão, aborrecido e deixando muito clara a minha insatisfação, afirmei que precisava de meus pertences e que não mudaria de quarto, ainda que tivesse que pagar a diferença. Para minha surpresa e mais indignação o proprietário me disse que eu deveria ir até o outro endereço para pegar a chave do quarto desejado, o que me recusei energicamente. Mais de uma hora de discussão, ele, então, louco pra voltar a dormir, ligou pro outro endereço e me trouxeram a chave correta. Chateado com o episódio e muito mais por não ter dormido em Granada, fui arejar a cabeça numa agradável área do hostel coberta com palhas, onde há mesinhas, redes, televisão e até uma mesa de sinuca. Ali fiquei conversando com um mochileiro de Toronto, Canadá e um casal de americanos (do Texas) e acabei indo dormir sem jantar, mas torcendo que aquela noite passasse rapidamente para, no dia seguinte, bem cedo, retornar a Granada e conhecer melhor a cultura e arquitetura daquela agradável cidade. Naquela altura, em função do tempo, conhecer a Ilha Ometepe, conforme planejado, parecia estar fora de cogitação. No entanto, outras situações inusitadas me aguardavam no dia seguinte e dali pra frente quase toda a viagem foi uma surpresa nada planejada... 16-03-2011 (quarta-feira) – Masaya, Nicarágua Por volta das seis horas da manhã me dirigi a Masaya. Então, às sete horas, faminto, afinal não havia jantado na noite anterior, fui convencido por uma comedora de yuca (mandioca) – como são conhecidos os habitantes de Masaya, dona de um quiosque instalado na praça principal, a experimentar uma das comidas mais tradicinais da América Central. Então, lá estava eu, numa praça em Masaya, às sete horas da manhã, comendo Gallo Pinto – prato típico da Nicarágua, que consiste em feijão com arroz, plátano (espécie de banana) frito, huevos hevueltos (ovos mexidos) com cebola e tomate e uma generosa fatia de queijo branco aquecido na chapa. Na Nicarágua este prato é extremamente consumido nas primeiras horas do dia. Outro prato típico, também muito consumido pela manhã, é o Vigorom (salada de carne de porco), que é feito com yuca, chicharones (carne de porco), col (repolho) e outras iguarias locais que são enroladas numa folha verde, parecida com as de bananeira, e cozidos por muitas horas. No ponto de ônibus pedi e ganhei uma carona numa carroça que me levou até Granada. O percurso demorou muito, pois percorri uns quinze ou vinte quilômetros naquela velha carroça puxada por um velho pangaré e guiada por um senhor de poucas palavras que quase não conversou comigo, limitando-se apenas a responder uma ou outra pergunta que lhe fiz. Passear por Granada é como retroceder, no sentido saudoso da expressão, ao século passado. A cidade mais antiga das Américas, fundada em 1524 por Francisco Hernandéz de Córdoba, foi muito maltratada, não sei a razão, e veio a ser incendiada pelo britânico Willian Walker em 1857. A cidade é pequena e em apenas um dia pode-se conhecer seus principais pontos turísticos, como a praça principal, a linda Catedral pintada num amarelo ouro lindo, o Centro Cultural dos Três Mundos – uma espécie de museu, passear de charrete observando a bela arquitetura hispânica da cidade ou, ainda, passear no Lago Manágua. Isto feito, restava-me apenas parte daquela manhã e o restante do dia para explorar um pouco mais da Nicarágua. Ainda tinha duas opções interessantes que era conhecer Léon e a Ilha Ometepe, mesmo sabendo que o correto seria ficar pelo menos um dia em cada uma. Mas tinha que decidir e não me restava muito tempo, pois as horas voavam e não queria mais ficar ali parado. Próximo das 11h, caminhando, decidi, num daqueles rompantes, ir ao terminal de onde partem os ônibus para Rivas onde, por sua vez, se toma uma embarcação para a Ilha Ometepe, que por falta de tempo havia retirado do meu roteiro principal, mas não de meus pensamentos. Esta pequena caminhada revelou uma outra face de Granada. Uma face obscura, de pobreza e de possível violência, ainda que não tenha sofrido nenhuma. Como não fui pela rua principal e sim por uma secundária, onde estava acontecendo uma enorme feira, confesso que por um momento fiquei bastante apreensivo e inseguro, pois tive que passar por entre a feira que tinha apenas um pequeno corredor e as pessoas se esbarravam para poder passar entre as centenas de barracas, grudadas umas nas outras, onde eram oferecidos os mais variados artigos, inclusive alimentos, como ovos, peixe, carne de boi, frango, porco, etc., tudo sem acomodação ou refrigeração adequada. Contornado aquele episódio, me dirigi ao “terminal” do ônibus, que fica num terreno baldio e, claro, sem nenhuma estrutura, para tomar um ônibus a Rivas. Lá, naquele local empoeirado, permaneci das 11h às 12h aguardando o ônibus lotar para, só então, seguir pro meu destino principal na Nicarágua: a Ilha Ometepe. Fiquei conversando com duas suíças que “mochilavam” juntas, sendo que uma das moças fala português fluentemente, conhece Florianópolis, Rio de Janeiro e muitas outras cidades brasileiras. Também fiquei observando os habitantes locais e me impressionei com o quanto eles vendem e consomem alimentos dentro dos ônibus. É oferecido hamburquesas (hamburguer), palomitas (pipocas), donas (roscas), refrescos (vendidos em saquinhos com gelo), ensalada de pollo (salada de frango), vigoron e muitas comidas exóticas além, claro, de doces e refrigerantes. Na parte superior daqueles velhos ônibus da empresa Blue Bird Body/CO que são, ou pelo menos eram, fabricados em Fort Valley – Geórgia/USA, são transportados frutas, bicicletas, balaios e artigos em geral, que são comprados em Granada ou Masaya e revendidos em cidadezinhas como Tipitapa e Ticuantepe, por exemplo. O cenário é bastante curioso e remete a cenas interessantes. Então, depois de muita espera e uma longa viagem, consegui chegar a Puerto San Jorge em Rivas, bastante atrasado. Com isso, tomei, apressadamente, um grande barco que faz a travessia do lago Nicarágua, também conhecido como lago Cocibolca, com destino à Ilha Ometepe. Durante a travessia fui conversando com Cristian, um morador da ilha Ometepe, mais precisamente de Moyogalpa – uma pequena cidade com cerca de quatro mil habitantes que é a porta de entrada da ilha, e com poucos minutos de conversa já me oferecera a sua casa para que eu pernoitasse. Expliquei-lhe que, infelizmente, por falta de tempo, ficaria na ilha apenas até o retorno do último barco para, depois, tomar o último ônibus de Rivas para Manágua, pois na manhã seguinte daria sequência à minha viagem pela América Central. Na oportunidade, Cristian me informou que é acostumado a recepcionar muitos turistas em sua casa e que numa ocasião havia um grupo de dezesseis suíços hospedados durante cinco dias. Contei-lhe o ocorrido sobre o jovem que, no dia anterior, oferecera sua residência e ele me garantiu que essa é uma característica dos nicas (como gostam de ser chamados os nicaraguenses), fato este que me pesou a consciência, pois agira de forma grosseira com o rapaz que, pelo visto, só queria ajudar. Com Cristian conversei muito sobre os costumes locais. Me deu dicas de restaurantes e como chegar no Ojo de agua (Olho d`água) – uma fonte cristalina que forma uma imensa piscina natural. Conversamos ainda sobre motos e ele me narrou sua aventura quando, sozinho, foi até a Guatemala. Cheguei na ilha e almocei uma deliciosa tilápia, pescada no Lago Nicarágua. Um peixe extremamente saboroso, de carne branca e tenra, que foi servido com arroz e salada, proporcionando um excelente almuerzo (almoço), que foi acompanhado por uma Toña – a cerveja mais tradicional da Nicarágua. A ilha Ometepe é a maior ilha do mundo em água doce, consequentemente a maior das duas ilhas do lago Cocibolca. Na língua nahuati, Ometepe significa Duas Montanhas. Esta ilha é de origem vulcânica e é composta por dois vulcões com origem na mesma base: o Madera, já extinto, e o Concepción, ainda ativo. A ilha tem muito a oferecer aos turistas. O Ojo de agua e o vulcão Concepcion são as duas principais referências turísticas, mas muitas outras atratividades podem ser aproveitadas naquela grande ilha, como alugar um quadriciclo ou um cavalo para conhecer suas praias de água doce e seus pequenos povoados. No regresso a Rivas, com os fones do MP4 nos ouvidos ouvindo Beto Guedes, Djavan, Adriana Calcanhoto, Zé Geraldo, Legião Urbana, Coldplay, Yes, Super Tramp e muitos outros cantores (as) nacionais e internacionais, fui contemplando aquele lindo final de tarde enquanto o vulcão Concepción que estampava um exótico “pano de fundo”, numa paisagem de tirar o fôlego, fumegava como uma locomotiva a vapor, emprestando ao cenário uma participação especial, enquanto seu irmão, o dorminhoco Madera, fazia o pepel de coadjuvante. O barco transportava, além de umas poucas pessoas, um automóvel e um caminhão carregado de plátanos. Neste percurso, que durou aproximadamente uma hora e meia, imaginei que o esforço de me deslocar até Rivas valeu a pena. Conhecer um pouquinho da ilha me deixou satisfeito e certo de que a ida à Nicarágua me fez perceber que, ainda que seja considerado o país mais pobre da América Latina, é um país de muitas opções turísticas e que merece ser explorado com mais tempo. Em Rivas tomei o último ônibus para Granada. Este ônibus, assim como os demais, tocava músicas nicaraguenses extremamente altas e foi parando em todos os vilarejos possíveis e imagináveis até que, à noite, cheguei em Manágua, onde fiz um lanche e rumei pro hostel à procura de descanso, que era o que precisava naquele momento. Aquele hostel pode ter lá as suas falhas na sua administração, mas até aquele momento ainda não tinha dormido num colchão tão confortável quanto aquele. Nesta noite reencontrei os colegas de albergue e, enquanto conversávamos na área comum do hostel, “derrubamos” uma garrafa de Jack Daniel's. Mas logo me recolhi, pois o ônibus da Tica Bus partiria às 07h da “matina” e eu, ansioso, não via a hora de embarcar e conhecer aquelas estradas e, claro, as maravilhas naturais da tão sonhada Costa Rica. A Nicarágua possui uns 40 vulcões e é o maior país da América Central, banhado a oeste pelo Oceano Pacífico e a leste pelo Mar das Caraíbas, também conhecido como Costa dos Mosquitos. Nos outros extremos faz fronteira com Honduras e Costa Rica. De natureza exuberante e com boas estradas, agrega condições suficientes para o turismo e deve ser uma delícia explorá-la de motocicleta. 17-03-2011 (quinta-feira) Entre Nicarágua e Costa Rica. Às 5h30min da manhã, quando a noite não se foi totalmente, o dia ainda não era dia e a madrugada cedia lugar ao sol, saí do hostel e, caminhando, me dirigi ao terminal da Tica Bus para tomar o ônibus com destino à Costa Rica. Naquele amanhecer a única companhia que tinha nas ruas eram os sanates que, em bandos enormes, despertavam toda a cidade com seus estridentes cantos. Sanate é um pássaro semelhante ao Pássaro Preto, também conhecido com Chupim ou Vira Bosta. Os machos possuem penas pretas e olhos azuis e as fêmeas penas marrons. São grandes, ariscos e muito espertos. Devidamente acomodado em minha poltrona, iniciei a viagem com previsão de dez ou onze horas de duração que contornaria o lago Nicarágua, cruzaria a fronteira (Peñas Blancas), atravessaria os Parques Nacionais Guanacastes e Santa Rosa, e passaria próximo à cidade de Puntarenas, próxima ao Oceano Pacífico, numa estrada sinuosa e linda, até chegar na Capital, San José. A expectativa de chegar na Costa Rica era grande, mas não a ponto de impedir que lampejos preocupantes sobre a minha família ressurgissem a todo instante em meu pensamento. Não sabia ao certo os motivos, mas fui tomado por sensações ruins sobre minha mãe e meu filho. Os tais lampejos traziam à memória cenas de acidente, doença e até mesmo morte. Sem entender direito o porque daqueles horríveis pensamentos, involuntariamente meus olhos lacrimejaram enquanto trilhava aquelas intermináveis estradas que cruzavam rios, povoados e florestas, dentro daquele gelado ônibus – é, os homens também choram! O último contato com minha família havia sido na Venezuela, pois desde de que cheguei na Nicarágua, não consegui contatos, haja vista que foi uma correria só e não encontrei nenhuma telefônica, bem como, não havia possibilidades de realizar ligações a cobrar. Por isso não via a hora de chegar em San José para saber notícias de todos. Na tentativa de burlar a péssima sensação e me distrair com outros pensamentos, passei a assistir um filme na TV do ônibus, ouvir músicas, rever o roteiro da viagem e buscar informações com um ou outro passageiro sobre a melhor forma para chegar ao Parque Nacional Manuel Antônio e, assim, treinar um pouco o meu limitado castelhano. Quanto a chegar ao Parque Nacional, as duas primeiras informações foram de que seria melhor ir a San José e, de lá, no dia seguinte, seguir para Puerto Quepos, onde fica localizado o referido parque. De repente, ao perceber que o ônibus parou às margens da estrada entre as cidades de Quatro Cruces e Macacona, próximo a Puntarenas, para deixar alguns passageiros, me dirigi ao motorista, pois estava insatisfeito com as primeiras informações, e questionei a respeito do assunto e ele me recomendou saltar naquele local e tomar um táxi até Puntarenas, de onde partiria um ônibus para Quepos. Contudo, me alertou que já eram 14h50min e que o último ônibus partiria, de Puntaneras para Quepos, às 15h. Então, sem tempo para uma tomada de decisão mais reflexiva, arriscando pernoitar numa cidade que estava totalmente fora do planejamento, peguei a minha mochila, embarquei num táxi e segui para Puntarenas para tentar pegar o que seria o último ônibus do dia para Quepos, confirmado pelo motorista do táxi. Como o taxista sabia que o referido ônibus já havia partido de Puntarenas, cortou caminho e me deixou próximo a um hospital, em um lugar que não me recordo o nome, onde o ônibus passaria em alguns minutos. Caso já tivesse passado, o jeito seria dormir em Puntarenas e seguir viagem no dia seguinte. De qualquer forma evitaria ir a San José e retornar boa parte da viagem até Quepos. Para meu alívio, minutos depois, o ônibus passou e parti rumo ao Parque Nacional Manuel Antônio, numa viagem cansativa onde fiquei de pé naquele ônibus lotado pelo menos umas três ou quatro horas até chegar na cidade de Parrita quando, enfim, consegui um lugar para sentar. Fui apreciando a paisagem e as imensas fazendas com gigantescas plantações de Palma Africana – árvore que fornece frutos estranhos, parecidos com pinhas das araucárias, mas que, na verdade, servem para fabricar óleo de cozinha e, segundo o dono do hotel Coco Beach, no qual me hospedei, é mais cultivada que a banana que antes dominava as fazendas da Costa Rica. Neste pequeno e cansativo trecho da viagem fui tomando água de coco servida em saquinho plástico com um pedaço de coco dentro, o que achei muito refrescante e original para a ocasião. A primeira coisa que fiz em Quepos foi falar com minha mãe, minha irmã, minhas “jóias preciosas” (meus dois filhos) e minha esposa, que me informou estar num velório de uma senhora chamada Lauriana, mãe de um dos meus concunhados. Dona Lauriana estava com oitenta e dois anos e era uma amiga muito próxima da família. Lamentei muito o ocorrido e me assustei um pouco com a intuição desconfortante que sentira durante a viagem e que naquele momento parecia se explicar. Quepos é uma cidade extremamente internacionalizada, onde encontra-se mais turistas que costariquenhos ou costarrisences como são conhecidos na América Central. Os americanos e europeus dominam a região e por onde quer que se ande encontra-se um deles. Já era noite quando cheguei e, sem conhecer nada, tomei um táxi de um senhor estiloso, cheio de “marra”, com seu rabo de cavalo, correntes, pulseiras e anéis de prata, que falava muito e corria pouco, pois dirigia a 20 Km/h por ser portador de necessidades especiais. Com isso fomos conversando tranquilamente pelo curto e sinuoso trecho entre Quepo e Manuel Antônio, à procura de um hotel e acabei por me hospedar num indicado pelo taxista, que destacou a comida feita pela própria dona, uma chinesinha miudinha e com cara de poucos amigos. Durante o percurso o taxista recomendou ainda um tour de catamaram para ver golfinhos, tartarugas, e fazer snorkel. Ligou para seu filho, passou-me o celular e agendamos para a manhã seguinte. Enfim, hospedado num hotel limpo, agradável e com um bom atendimento por parte do esposo da chinezinha, tomei um banho quente e desci para experimentar a comida daquela senhora, conhecida como dona China cuja antipatia superava, em muito, seu tamanho e peso. O senhor me ofereceu, e eu aceitei experimentar, a cerveja costariquenha Imperial, que foi acompanhada por um filé de Dourado com arroz ao alho e salada. Achei a cerveja boa e o prato maravilhoso, o que comprovou o que o taxista havia comentado a respeito dos dotes culinários da dona China, mesmo porque passei o dia inteiro comendo biscoitos e tomando agua de pipa (água de coco), aquela servida em saquinho plástico. O hotel fica numa pequena encosta e o restaurante a uns cinco metros de altura da estrada, totalmente aberto nas laterais, de forma que podia-se ouvir o barulho das ondas da praia Manuel Antônio, que logo foi abafado pelo barulho da chuva, que me prendeu naquele simples restaurante onde permaneci atualizando este relato e conversando com o proprietário até às 22h. Havia agendado com o filho do taxista para me apanhar às 06h e, portanto, precisava mesmo descansar e deixar para explorar o local durante o dia, depois do retorno do tour que prometia ser a sensação do lugar além, é claro, do próprio parque. Com o contato feito com minha família, a única coisa que me preocupava naquele momento era o fato de não ter conseguido adaptador de tomadas para recarregar as pilhas da máquina fotográfica e, talvez, não conseguir registrar o passeio. O adaptador se fazia necessário tendo em vista que na Costa Rica, ou pelo menos em Quepos, as tomadas elétricas permitiam apenas pinos chatos e não cilíndricos como as do Brasil. Com isso conversei com o proprietário que me garantiu não ter adaptador, mas tentaria me trazer, conforme solicitação minha, um pequeno pedaço de fio para que eu mesmo confeccionasse o tal adaptador. Como já passava das 23h e o tal senhor não trouxera o fio, resolvi, com a pinça do cortador de unhas, desaparafusar a tomada da parede e, por trás dela, encostar os pinos do recarregador de pilhas nos pólos (neutro e fase) da mesma. Esta prática deu certo e as pilhas foram recarregadas. Não imaginava, no entanto, que aquela prática recarregaria também a fúria da dona China. Resolvido o problema do contato familiar e do recarregador de pilhas, me restava, naquele momento, resolver dois problemas: a minha unha que ainda não me deixava calçar confortavelmente, mas que parecia que enfim me deixaria, e uma maldita afta que nascera no Brasil e se internacionalizara, pois viajou pela Venezuela, foi a San Salvador, atravessou a Nicarágua e estava, firme e forte, em terras costariquenhas. Passava das 22h quando a chuva cessara e eu estava muito contente e relaxado por ter conseguido chegar ao Parque Nacional e estar hospedado num hotel simples, mas razoável, de forma que subi com umas latinhas de Imperial e fiquei na sacada do hotel ouvindo o suave barulho das ondas da praia Manuel Antônio. Pesquisei e me inteirei muito na internet antes de iniciar a viagem e, por isso, estava ansioso para que o dia amanhecesse para poder vislumbrar o local. Naquele momento, inevitavelmente, passei a pensar, novamente, em cada uma das pessoas que convivo e com saudosismo refleti sobre a qualidade de cada uma delas, lamentando não poder compartilhar aquele momento, em especial com minha esposa e meus filhos. Pensei também que naquela noite meus amigos do futebol das quintas-feiras no Roçado, São José/SC – bairro em que morei desde criança até pouco antes de casar, mas que ainda convivo e tenho grande apreço, jogaram nossa tradicional “pelada” e deveriam estar jantando o tradicional churrasco... Próximo da meia noite, num silêncio absoluto, quebrado apenas pelo uivo de um macaco, resolvi descansar, pois no dia seguinte, cedo, partiria para um passeio no Oceano Pacífico que prometia muita adrenalina, novas aventuras e descobertas. Imaginei várias coisas a respeito daquele passeio, mas não pude imaginar que enfrentaria também, repito, a irritação da dona China. 18-03-2011 (sexta-feira) – Parque Nacional Manuel Antônio, Costa Rica Despertei cinco horas da manhã, retirei o recarregador de pilhas da tomada, peguei a máquina fotográfica e, curioso, me dirigi à praia, cuja entrada (caminho) principal ficava a menos de quinhentos metros do hotel. No trajeto avistei alguns macacos prego, macacos de cara branca e uma ou outra pessoa que me cumprimentaram com a curiosa saudação “Pura Vida?”, à qual, eu, empolgado, respondia “PURA VIDA AMIGO! PURA VIDA!”. Esta expressão nada mais é que perguntar se está tudo bem, mas surte um efeito mágico como se as pessoas não estivessem apenas cumprimentando umas às outras e sim desejando algo além... Caminhei pela linda praia, contemplei lindos pelicanos em seus vôos rasantes, registrei algumas fotos e retornei ao hotel onde encontrei a dona Chica e a cumprimentei com a expressão “PURA VIDA?” Sem resposta ao cumprimento, a chinesinha se limitou apenas a parar e lançar um olhar cortante que até então não havia entendido – eu heim! Mesmo assim degustei o reforçado desayuno (café da manhã), o primeiro da viagem em hotel, que consistia em fatias de queijo e presunto sobre ovos fritos, torradas e suco de laranja. Em seguida fiquei aguardando a van do filho do taxista que me levaria até o local para participar do primeiro tour marítimo na Costa Rica. Com o atraso pensei em desistir, afinal seria um tour pelo mar e, pensei, mar é o que não me falta em Florianópolis... Com a desistência visitaria, ainda naquela manhã, o Parque Nacional Manuel Antônio e anteciparia minha viagem para San José. Neste ínterim conversei com o Oscar sobre a possibilidade de me devolverem uma das duas diárias que paguei antecipadamente na noite anterior, exigência de dona China, mas ele me respondeu que finanças eram com a própria. Conversando com a chinesa, que amargamente respondeu, em alto e bom tom, um NÃO, mas pensou melhor (acredito que tenha refletido sobre algo) e me ofereceu a metade da diária para que eu deixasse seu hotel. Concordei, porém, naquele momento a van chegou e fui para o tour que encerraria às 12h. Informei que retornaria para pegar os meus pertences, aceitando a proposta daquela senhora, mesmo sentindo que ela não deveria falar comigo daquela maneira, afinal eu nada tinha feito de errado. No grande catamaram que partiu lentamente à procura de golfinhos, fiquei imaginando o que poderia ter deixado aquela senhora tão brava comigo. Pensamento este interrompido pelos tripulantes quando avistaram os primeiros golfinhos. Ficamos por aproximadamente uma hora perseguindo os mamíferos e, com isso, voltei a prestigiar o passeio e a admirar as malabarisses daqueles lindos e espertos animais. Uma vez vistos, fotografados e filmados partimos para fazer snorkel, uma prática esportiva de mergulho, o que fez valer a pena o passeio. Mergulhei junto a peixes exóticos, ouriços, corais e estrelas do mar de tentáculos compridos. Simplesmente fantástico! Em seguida o catamaram foi atracado próximo a uma ilha enorme cheia de pelicanos, onde foi servido um almoço super original com frutas, macarrão e espetinho de peixe. Além dos golfinhos, snorkel e o almoço, outra coisa que muito me satisfez foi a possibilidade que o comandante costariquenho me oferecera de conduzir o enorme catamaram no regresso do passeio, o que fiz com extrema satisfação. Tal oferta só me foi dada, pois afirma o comandante gostar muito dos brasileiros. Havia ao menos uns trinta turistas naquele catamaram, mas por incrível que pareça toda a tripulação conversava mais comigo e curiosos perguntavam sobre carnaval, mulheres e futebol... Depois do passeio me dirigi a Quepos para comprar a passagem de ida a San José cujo horário é único, ou seja, às 18h; conheci um pouco da cidade, telefonei para casa novamente e, de transporte coletivo, retornei ao Parque Nacional. O parque me surpreendeu muito haja vista que imaginava ser um parque fechado com animais encarcerados num espaço ainda que grande, mas não, trata-se de um parque de preservação natural onde os animais vivem de fato livres na natureza. O que me frustrou um pouco foi a dificuldade de avistá-los, pois imaginei que veria com mais facilidade uma série deles o que, na prática, não é bem assim. O acesso se dá por um portal onde paga-se o ingresso e, se quiser, contrata-se um dos muitos guias que ficam naquele local aguardando grupos de turistas para conduzi-los, por uma estrada larga, e mostrar-lhes os animais através das lentes de suas poderosas lunetas. Um tanto quanto sem saber o que fazer nem para onde ir, fui seguindo um grupo de alemães guiados por uma profissional que fora contratada por eles na entrada do parque. Infiltrado entre os deutsches (alemães em alemão) aproveitei para ver alguns animais me valendo da luneta da guia. Seguindo o grupo fui observando que os guias informavam uns aos outros a localização dos monos (macacos), osos perezosos (bichos-preguiças), entre outros animais que, para enxergá-los, os turistas necessitam das suas lunetas já que a olhos nus praticamente não dá para vê-los, pois geralmente ficam nas copas das grandes árvores daquele parque, fato que me desagradara, pois não tinha viajado tanto para avistar animais selvagens através de lentes. Naquele momento, sem saber onde daria e o que veria, arriscando a me atrasar para seguir viagem, resolvi, sozinho, seguir uma trilha com a intenção de sair daquela estrada cheia de grupos de turistas e tentar descobrir alguma coisa que valesse a pena o esforço de me deslocar até lá. Para a minha surpresa a trilha finalizou numa linda e pequena praia de água cristalina e uma vista espetacular. Com satisfação fui contemplado com uma cena pra lá de excitante. Flagrei com admiração o esforço incondicional de uma linda mamãe preguiça que atravessava dependurada num cipó que se prendia de uma árvore à outra, com seu bebezinho agarrado em sua barriga, a apenas três ou quatro metros acima de onde eu me encontrava. Aquele flagrante, sim, foi prazeroso, afinal, aquele momento era só nosso – meu, da mamãe e do filhotinho – e me proporcionou uma fantástica surpresa ver aquela travessia perigosa e arriscada, mas de muita competência e responsabilidade da mamãe preguiça. Um momento especial que a natureza me reservou e que valeu muito ter saído do trivial, da mesmice e me separar do grupo e dos guias com suas lunetas. É por estas e outras razões que não costumo, repito, “engessar” as minhas viagens, pois se assim o fizesse perderia momentos tão especiais quanto aquele que presenciei no meio da mata da Costa Rica. Em contrapartida, na mesma praia que tanto me impressionou com a beleza da natureza e o “respeito” do homem para com os animais, me surpreendi com o que poderia se transformar numa atrocidade. É que, por curiosidade, fui até um pequeno barco que acabara de chegar à praia e percebi, com surpresa e indignação, que dentro do mesmo havia duas tartarugas ainda enroladas numa rede e com os cascos voltados para baixo. Depois de conversar com o pescador, um sujeito atarracado, mas simpático, soube que a captura acontecera por acaso, mas não deixaria de ser seu jantar naquela noite. Pensando como fazer para libertá-las, sem entrar em conflito com o pescador, tentei explicar-lhe sobre a importância daqueles animais, da sua possível extinção e a pouca quantidade de carne que ele aproveitaria, como se ele não soubesse. Minutos depois, mas somente com uma contribuição “espontânea” de 10 dólares, ele permitiu que eu as libertasse e as devolvesse ao mar. Aquele episódio me remeteu a uma passagem que me ocorreu há muitos anos atrás quando passeava com minha esposa (na época minha namorada), na praia dos Ingleses em Florianópolis. Fomos contemplar a chegada de um barco de pescadores e avistamos, próximo ao rancho onde guardam as canoas, uma pequena tartaruga nas mesmas condições daquelas, ou seja, com o casco voltado para baixo e as barbatanas a cortar o ar numa tentativa agonizante de virar-se. Sem pensar nas consequências, escondi a tartaruga debaixo da minha camiseta e saímos andando discretamente, depois mais apressados e então corremos pelas dunas que separam a praia dos Ingleses da praia do Santinho. Chegando à praia, uns 20 minutos depois de ter “raptado” a tartaruga enquanto os pescadores encontravam-se distraídos com o barco que acabara de chegar, eu e ela reanimamos a pobrezinha com a água do mar até que tivesse força suficiente para seguir sozinha. O impressionante é que ao ser devolvida ao mar aquele quelônio mergulhava e levantava a cabeça como que se despedindo ou agradecendo por arriscarmos as nossas vidas para salvar a dela. Foi realmente uma cena muito gratificante e inesquecível que fora revivida com a que presenciei no parque Manuel Antônio na Costa Rica. Depois das agradáveis e exclusivas cenas proporcionadas pela mamãe preguiça e da prazerosa libertação das tartarugas, ainda pude ver vários macacos das espécies prego, de cara branca e bugios antes de retornar, apressadamente, ao hotel, apanhar minha mochila e ir a Quepos, pois, às 17h tomaria o ônibus com destino a San José. Cheguei no hotel às 16h e fui conversar com a dona China para receber a meia diária, afinal não pernoitaria naquela noite e havíamos combinado a devolução. Ao conversar com a chinesa, rabugenta, sobre a devolução da diária a mesma esbravejou e ficou tagarelando em espanhol uma série de coisas que mal entendia, mas pela aspereza do tom da voz percebi, logo, que não eram elogios. O pouco que entendi foi que: “quem eu pensava que ela era”; que “desliguei o frigobar e molhou todo o piso do apartamento”; que “eu poderia causar um curto-circuito com aquela tomada aberta”; que “não devolveria diária nenhuma”; e que “deveria ir embora naquele momento”... Eu, em contrapartida, achando graça da situação me limitei a falar: “Que passa dona China? Que passa? – Pura Vida! Pura Vida!” e sem mais a dizer me retirei do hotel rindo daquela senhora estressada, baixinha e folgada que ficou resmungando (acredito que em mandarim) enquanto eu deixava seu hotel sem o dinheiro e me dirigia à praia que, para chegar, caminha-se entre várias tendas de artigos artesanais onde comprei umas lembranças legais da Costa Rica, até chegar nuns restaurantes onde fiquei contemplando o visual daquela linda praia – que até mesmo no google maps é difícil localizar, dos artesanatos, dos esportes, das pessoas, enquanto aguardava o ônibus para Quepos. O ônibus atrasou e já estava escuro quando parti de Quepos. As fazendas de Palma africana estavam iluminadas por milhares de vagalumes. De quilômetro em quilômetro, de curva em curva, ia me distanciando daquele lugar bacana que, com exceção da dona China, oferecia um astral digno da expressão tão utilizada na Costa Rica – “PURA VIDA” A estrada, conforme ia se afastando de Quepos e se aproximando de San José estreitava-se cada vez mais, ao ponto dos retrovisores dos ônibus e caminhões quase se tocarem. Algumas pontes do percurso possuem apenas uma faixa, de forma que os motoristas devem ceder a vez e aguardar para passar. Em algumas há até semáforo! Percorridos cento e setenta quilômetros, aproximadamente três horas de viagem, por uma estrada extremamente sinuosa, movimentada e, consequentemente perigosa, sobretudo pela sua altura, que passa dos mil metros acima do nível do mar, cheguei em San José. Ainda na “rodoviária” fui informado que não conseguiria hotel na cidade, pois estavam acontecendo as festividades do dia de São José. O local, ao menos naquela hora, era um tanto ou quanto sinistro e como só restava eu (todos os outros passageiros tomaram táxis ou foram apanhados por parentes ou amigos), fui abordado por um taxista que se apresentou mostrando seu crachá e afirmando que conseguiria um hotel. Como não via outra opção naquele momento, entrei no seu táxi velho e aguardei enquanto ele fazia uma ligação para um hotel para saber se havia vaga. O hotel queria cobrar em torno de duzentos e cinquenta reais a diária, o que recusei de imediato. Com isso ele ligou para um amigo que informou que só havia hotéis disponíveis em Alajuela – cidade a sessenta quilômetros de San José. Pedi para que aguardasse enquanto refletia sobre o que faria no dia seguinte. Observei o planejamento da viagem que naquela altura já não seguia mais à risca, mas que servia de referência e constatei que Alajuela seria mesmo a cidade que iria (de ônibus) no dia seguinte para subir o vulcão Poas. Acertamos o preço e partimos. No caminho o taxista me informou que passaria na casa de sua cunhada, pois sua esposa estava cuidando do sobrinho que estava doente. Pelo clarão das luzes da cidade de Alajuela percebi que ele estava se distanciando do destino e embrenhando-se num bairro estranho e escuro. Falei-lhe que o aguardaria numa pracinha que passamos, mas me disse que ali seria perigoso permanecer sozinho aquela hora da noite. Indaguei-lhe do por que não ligou para esposa para saber notícias e ele me respondeu que um carro bateu num poste e danificou a linha telefônica daquela região. Perguntei-lhe do por que não passar na volta, pois poderia conversar com mais calma e ele me respondeu que o retorno seria bem mais longe pois teria que desviar em muito o caminho. Diante de tantas desculpas juro que pensei que seria assaltado pelo taxista quando, de repente, a rua terminara e só havia uma estrada de chão batido que adentrava num grande terreno baldio que parecia uma fazenda abandonada. Ali meu coração acelerou, o sangue esquentou, o cérebro imaginou muitas coisas negativas e, mesmo assustado, ao ver a ponta de um porrete atrás de seu banco me veio à lembrança um provérbio africano “Fale com suavidade e tenha na mão um grande porrete”. Discretamente pus a mão esquerda no porrete para me garantir, mesmo consciente de que não se deve reagir em casos de assalto, mas, graças a Deus, naquele momento, ele disse que tínhamos chegado e buzinou em frente da última casa da rua. Falou rapidamente com a esposa e seguimos para Alajuela, onde ele me deixou num hotel simples e antigo, mas bastante aconchegante e limpo. No trajeto falei que me preocupara com o ocorrido e que estava pronto para reagir caso ele tentasse adentrar naquele local. Ele sorriu e afirmou ser uma boa pessoa, que estava trabalhando e que não tinha coragem de fazer mal à ninguém. De qualquer maneira penso que fui ludibriado pelo taxista que, imaginei, precisava é saber da esposa e queria que algum “trouxa” bancasse o combustível, pois acredito que havia, sim, hotéis disponíveis em San José. Nesta noite dei uma pequena volta pelas redondezas de Alajuela – cidade natal do herói da Costa Rica: Juan Santamaría – que é uma agradável cidade de aproximadamente quarenta e cinco mil habitantes e possui localização estratégica para quem vai à Costa Rica, pois fica próxima ao aeroporto e é base para quem quer conhecer o vulcão Poas que possui a maior cratera do mundo, fato este que me fez destacá-lo como um dos pontos turísticos da Costa Rica a ser visitado. 19-03-2011 (sábado) – Alajuela, Costa Rica Sete horas da manhã já estava me dirigindo ao centro principal da cidade que, em termos turísticos, resume-se numa praça e numa catedral, mas possui um comércio tão aquecido que não fecha nem mesmo aos sábados e domingos. Na praça fiquei conversando com uma simpática senhora jornaleira que, sentada em sua banquetinha, cumprimentava todas as pessoas que por lá passavam. A senhora me garantiu que na cidade não havia terminais da TicaBus nem mesmo da TropoBus – empresas que fazem o percurso Costa Rica/Panamá, desmentindo o taxista que me garantira que próximo ao hotel teria um terminal TicaBus. A jornaleira gentilmente conseguiu descobrir o telefone da empresa de ônibus, em San José, para onde liguei para saber se funcionava nas tardes de sábado, pois, caso contrário, teria que viajar para o Panamá somente na próxima segunda-feira. Conversei um pouco mais com a jornaleira, contei-lhe a história da viagem (coisa que a surpreendeu) e agradeci por ter conseguido o número do telefone da TicaBus. Ela, muito simpática e generosa, diferentemente da Dona China, se despediu, desejando-me sorte e proteção divina dizendo “Adios e que Dios te lo bendiga Ronei” (Adeus e que deus te abençoe Ronei). Retornei ao hotel e fiz a ligação onde me confirmaram que tanto o terminal quanto o hotel TicaBus, que funciona no próprio terminal, permanecem abertos todos os dias da semana. Assim sendo, poderia deixar para comprar a passagem no período da tarde e fui à garagem de onde parte o único ônibus para o vulcão Poas, que sai às 09h30min e retorna às 14h. O Poas, na verdade, é um estratovulcão, pois seu formato é em forma de cone formado por magma extravasado – rocha fundida debaixo da superfície da terra que, quando expelida, dá origem à lava que dá a forma cônica ao vulcão. O Parque Nacional Vulcão Poas é bastante interessante pois, além da altura, que passa dos 2700 metros, há muitas alternativas de trilhas que conduzem às suas duas crateras, sendo que numa delas, a ativa, os visitantes não podem descer devido à fumaça tóxica de ácido sulfúrico, enquanto que na outra, a extinta, formou-se a lagoa Botos. Seu nome se deve a uma tribo indígena com mesmo nome, que habitava as proximidades da cratera. Este vulcão possui a maior cratera vulcânica do mundo, com 1,3 quilômetros de largura e 300 metros de profundidade, onde já foram registradas aproximadamente 39 erupções desde 1828. No parque, a exemplo do Parque Nacional Manuel Antônio optei por caminhadas solitárias onde fotografei várias espécies de plantas e pássaros. O destaque ficou por conta de uma planta que possui folhas enormes, maiores que um guarda-sol, cujo nome popular é sombrinha de pobre por poder abrigar, facilmente, duas pessoas. O outro destaque se deu por conta de um casal de beija-flores cujo tamanho da fêmea não atingia três centímetros e do macho não passava de quatro (incluindo a calda) o que me fez lembrar do nosso caçula que é considerado o menor pássaro brasileiro. O quetzal – uma ave com plumagem colorida de cauda grande e brilhante também chamou minha atenção devido a sua beleza. Há vários tipos de quetzais como o de crista, cabeça-dourada, pontas-brancas, pavão e resplandecente, mas não saberia distinguir quais destes estava pousado sossegadamente à minha frente, mas que ao perceber meus movimentos voou sem deixar-se fotografar. Às quinze horas já estava de volta ao centro de Alajuela, me dirigindo à rodoviária da TicaBus em San José. Lá chegando, deixei meu nome na lista de espera do ônibus que partiria para o Panamá à meia noite. Feito a reserva, resolvi conhecer o centro da capital e, se valesse muito a pena, pernoitaria no próprio hotel da empresa de ônibus e embarcaria para o Panamá somente no dia seguinte. Fui então conhecer o Museu Nacional, o Teatro Nacional, o Mercado Modelo (patrimônio histórico) e a feira, onde comprei uma série de souvenires. Visitei ainda duas praças, incluindo uma onde os nicas (nicaraguenses), imigrantes do país vizinho, costumam se reunir, e perambulei pelo bonito calçadão onde encontrei algumas esculturas de Botero feitas em bronze, o que muito me chamou a atenção pela particularidade das obras. Estas esculturas estão expostas, em especial, em Medellin e Bogotá na Colômbia, cidade que seria meu ponto de retorno pro Brasil. Uma vez explorado o centro de San José, resolvi, às 23h, retornar ao terminal para tentar embarcar e, com isso, adiantar a viagem para poder aproveitar, com mais tranquilidade, o Panamá e a Colômbia que, segundo minhas pesquisas, tinham muito a ser explorado por este solitário mochileiro. Lá, obtive a informação que eu seria o número 1 da lista de espera e que bem provavelmente poderia, sim, embarcar naquela noite, porém tal confirmação só se daria às 23h30min, ou seja, meia hora antes da partida. Quanto ao turismo propriamente dito, não há muito o que se fazer em San José haja vista que a Costa Rica oferece muitas outras melhores opções, principalmente ecoturísticas, no interior do país. Nem por isso deixa de ser um importante local para se conhecer naquele belo país que, cercado de um lado pelo Oceano Pacífico e do outro pelo mar do Caribe, muito se pode prestigiar e fazer, uma vez que a fauna e a flora da Costa Rica são realmente muito conservadas e oferecem muitas possibilidades de se praticar os mais diversos esportes radicais, como montanhismo, canopy, rafting, trekking, bang jump, mergulhos e muito mais... Por sorte, além de conseguir a passagem, fiquei num banco duplo, “sem companhia”, o que facilitou em muito a viagem, pois, assim, ficaria muito mais à vontade para relaxar e descansar durante as 12 horas que levaria até Panamá City. Acontece que tenho grande dificuldade de dormir em ônibus e, mesmo com a regalia, passei uma noite terrível e não consegui dormir sossegado. Passei novamente a lembrar de minha família e o quanto eu gostaria de estar ali com cada um deles. Li minhas apostilas, relatei no “diário de bordo” o ocorrido neste dia e ouvi muitas músicas que aleatoriamente tocava no meu velho e companheiro MP4. Naquele momento muito pensava na minha esposa e ao ouvir uma linda música de Biquíni Cavadão (Quando Eu Te Encontrar) cuja letra descrevo a seguir, meus pensamentos me levaram de volta ao Brasil e me aproximaram telepaticamente dela. Eu já sei o que meus olhos vão querer Quando te encontrar Impedidos de te ver Vão querer chorar Com riso incontido Perdido em algum lugar Felicidade que transborda Parece não querer parar Não quer parar Não vai parar Eu já sei o que meus lábios vão querer Quando te encontrar Molhados de prazer Vão querer beijar E o que na vida não se cansa De se apresentar Por ser lugar comum Deixados de extravasar, de demonstrar Nunca me disseram o que devo fazer Quando a saudade acorda a beleza que faz sofrer Nunca me disseram como devo proceder Chorar, Beijar, te abraçar, É isso que quero fazer Isso que quero dizer Eu já sei o que meus braços vão querer Quando te encontrar Na forma de um C Vão te abraçar Um abraço apertado Pra você não escapar Se você foge me faz crer Que o mundo pode acabar Vai acabar... Sem saber, me aproximava cada vez mais daquele que foi um dos melhores e mais bonitos lugares que conhecera nesta viagem. Uso a expressão “sem saber” pois por muito pouco não deixei a oportunidade passar e com isso, não tenho a menor dúvida, muito me arrependeria mais tarde, uma vez que estava substituindo este local em detrimento de outro que, quis o destino, não viria a conhecer. 20-03-2011 (domingo) – Fronteira Panamá/Costa Rica Ainda escuro, às 5h da manhã, cheguei na Aduana Peñas Blancas, que fica na fronteira entre Costa Rica e PanamḠmas a mesma ainda encontrava-se fechada com abertura prevista para as 06h. A lua cheia e prateada estava baixa e, além dela, nada havia para se ver, nem mesmo fazer naquele lugar e, sem outra opção, tive que sentar e aguardar para ser atendido e liberado a cruzar a fronteira. Nesse ínterim fiquei conversando com um espanhol naturalizado no Panamá, com uma panamenha e uma colombiana que dividiam a viagem no mesmo ônibus e também aguardavam a abertura da alfândega para seguirmos viagem. O panamenho me deu muitas dicas do que fazer na Cidade do Panamá, disponibilizando-me, inclusive, o número de seu telefone para, se precisasse, fazer contato. Me deu ainda, dicas de hotéis e restaurantes próximos à Cinta Costera – um aterro à beira mar onde foram construídas áreas esportivas e duas enormes rodovias que interligam o Casco Viejo ao potente e moderníssimo centro comercial, bancário e administrativo da cidade. Já a panamenha que depois de tentar, se convenceu que não dava para fazer ligações a cobrar pro Brasil, me chamou a atenção para o fato de eu não ter programado ir a Bocas del Toro, uma vez que estava passando muito próximo do local que, para ela, era o mais lindo do Panamá; informação esta que coincidia com o que pesquisei sobre o lugar, mas devido ao cronograma, o deixaria para uma próxima oportunidade, já que meu principal objetivo no Panamá era conhecer San Blas e a cultura dos índios Kuna Yalas. Uma vez aberta a aduana, foram mais três horas entre a saída da Costa Rica e a entrada no Panamá, de forma que às nove horas eu, minha unha machucada, sufocada dentro do curativo, juntamente com minha afta, entramos no penúltimo país a ser percorrido nesta aventura solitária, com destino à Cidade do Panamá e San Blas. Tal demora se deu, pois as autoridades panamenhas são bastante rigorosas com as documentações de estrangeiros. Exigem que estes tenham toda a documentação em dia. Exigem também que os turistas comprovem que possuem uma quantia mínima de 500 dólares e, o mais inusitado, que todos apresentem uma passagem de saída do país seja pra Costa Rica (terrestre) ou para qualquer outro país (aérea), caso não o tenhamos, nos obrigam a comprar uma de retorno à Costa Rica, pois, descobri ali, não há como sair do país por via terrestre para a Colômbia, ou seja, para a América do Sul, o que seria o meu propósito. Com isso tive que comprar uma passagem para a Costa Rica muito embora meu destino fosse a Colômbia, mas isto era um detalhe cujo desfecho se deu somente depois, em solo panamenho. Entretanto, menos de uma hora depois, quando o ônibus parou em David, cidade próxima da fronteira, pensei melhor e sem mensurar se deveria ou não ou se seria viável ou não, alterando completamente meu planejamento, pedi pro motorista apanhar minha mochila e, seguindo a sugestão daquela moça, me dirigi ao terminal de ônibus para apanhar uma van com destino a Almirante e, de lá, seguir de barco até Bocas del Toro, afinal, não estava certo se aquela oportunidade voltaria a acontecer outra vez em minha vida. O transporte para Bocas del Toro, a partir de David, só é feito por vans e leva aproximadamente umas quatro ou cinco horas, cortando o Panamá de sul a norte, ou seja, do Oceano Pacífico ao Mar do Caribe por uma estrada extremamente linda que serpenteia por entre o Bosque de Proteção Palo Seco donde pode-se contemplar lindas paisagens. Ao chegar na pequena rodoviária o motorista já estava fechando a porta da van e, um tanto quanto apressado, foi jogando minha mochila no porta malas do automóvel e me acomodou no último assento disponível que, na verdade, era do cobrador que, insatisfeito, foi de pé a viagem inteira. A van estava lotada das mais diferentes nacionalidades (turistas que se dirigem diariamente a Bocas del Toro), além de índios da Comarca de Ngöbe-Buglé, que é a maior Comarca indígena do Panamá, com extensão territorial de 6.968 km² e fica localizada na região ocidental do país. Uma curiosidade que percebi ao chegar próximo da laguna de Chirique foi que as casas destes índios são construídas acima do solo, erguidas sobre madeiras que, penso, servem para minimizar a entrada de cobras, escorpiões e outros bichos peçonhentos. Em Almirante, obtive as informações necessárias e me dirigi até uns trapiches velhos e mal acabados para tomar um barco com destino a Isla Colón (Ilha Colón) que, com seus 61 km², é a principal ilha do arquipélago de Bocas del Toro, no Mar do Caribe e a quarta maior do País, onde me hospedei. O local de partida é extremamente estranho e sujo, com inúmeras palafitas sobre um rio escuro e totalmente poluído em decorrência do não tratamento dos esgotos despejados diretamente em suas águas. Tal cenário não possibilita imaginar que a menos de uma hora dali encontra-se parte do paraíso em forma de mar. Naquele momento eu estava na metade da viagem e já gastara dois terços do dinheiro que levei. Em função disto, tive de economizar o máximo possível e me hospedei no hostel Calipsu que me cobrou 10 dólares para ficar sozinho num quarto com banheiro privativo, coisa que prefiro, muito embora esta ação não condiz com um mochileiro, já que mochileiros dividem quartos e não se importam com o fato de, a qualquer momento do dia ou da noite, estranhos adentrarem e se alojarem no mesmo apartamento. Uma vez hospedado resolvi conhecer um pouco daquela interessante ilha com “ares” jamaicanos. Caminhei pela avenida e ruas adjacentes, parei num bar à beira mar e, do trapiche, onde experimentei uma Balboa (cerveja panamenha) me impressionei com a quantidade de peixes que, com a maior tranquilidade, como se interagissem com as pessoas ali sentadas, exibiam seus coloridos sem demonstrar qualquer preocupação. Confesso que pensei numa tarrafa e numa frigideira. Ainda durante a caminhada sentei num balcão do Bocas Book Histore Bar onde degustei uma outra cerveja panamenha e fiquei conversando com o inglês – dono do bar – que “arranhava” um espanhol com sotaque made in Inglaterra. Chamou-me a atenção umas notas vermelhas dentro de um recipiente de vidro sobre o balcão que servia para pôr propinas (gorjetas). Pedi licença para ver e constatei que eram dólares de Trinidad & Tobago. Ao final fui presenteado pelo inglês com três daquelas notas e retribui-lhe com uma nota de dois e outra de cinco reais, que muito lhe agradou e lhe chamou a atenção. O inglês, cujo nome não me recordo, saiu mostrando as notas aos colegas que lá estavam repetindo a cada um deles a palavra Wonderful (maravilhoso). O Books Bar é um simples bar de madeira com um balcão que comporta apenas três ou quatro pessoas e umas poucas mesinhas dispostas a céu aberto. As instalações são precárias e a cerveja, gelo e refrigerantes são mantidos em isopores. O “barato” do bar é que, como o nome sugere, tem uma biblioteca bastante improvisada mas bem diversificada e é frequentado basicamente por turistas europeus e americanos. Naquele fim de tarde comprei um cartão internacional e consegui ligar para casa e conversar tranquilamente com minha esposa. Pus a conversa em dia, contei-lhe as principais novidades da viagem, admitimos o quanto nos amamos e precisamos um do outro e choramos juntos, cúmplices do amor e reféns da saudade que, naquele momento e mais do que nunca, tomava conta de nossos corações... Confesso que estava muito contente e feliz por estar ali, em Bocas del Toro; por possuir a coragem de me aventurar, de me dar o direito de explorar, de não me permitir aceitar o básico. Não sei ao certo se devo classificar como qualidade ou defeito mas, enfim, tais atitudes me levam a ousar e, com isso, a conhecer novas situações que por vezes são acertadas. No entanto me sentia num circo vazio e a alegria era triste pois preferia estar compartilhando aquele momento, como tenho repetido várias vezes, com minha família. Durante parte da noite perambulei pela ilha levantando informações de como ir aos lugares mais famosos e interessantes de Bocas del Toro que começa a ser conhecida como a nova Galápagos. Comprei algumas lembranças, contratei um tour para o dia seguinte e experimentei a cozinha panamenha, que é bastante cheirosa e leve com temperos e especiarias de origem creóle, introduzidos no país por negros vindos do Caribe para a construção do Canal do Panamá. A base de toda a culinária é a banana mas não faltam arroz, castanhas e leite de coco. Tem purê de banana, banana frita, assada, refogada, recheada e até banana sautée com acompanhamento de carnes, aves e pescados. Para não comprometer ainda mais o planejamento da viagem, haja vista que queria muito conhecer San Blas, não pude contratar o tour completo que leva dois dias e tive que me consolar com isso pois são roteiros completamente diferentes de forma que o que se vê e se faz em um, não se vê e não se faz em outro. De qualquer forma fiquei na varandinha do hostel ouvindo Coldplay e atualizando este relato enquanto percebia que Colón ia, aos poucos, entregando-se ao silêncio da noite, o que me trouxe certa nostalgia e passei a lembrar de minha família, mãe, irmãos e amigos. Passava da meia noite quando resolvi dormir para descansar, pois no dia seguinte teria que estar em forma para, segundo o que pesquisara, encarar o que de melhor aconteceria na viagem até aquele momento. 21-03-2011 (segunda-feira) – Bocas del Toro, Panamá Com a mochila devidamente arrumada, saí em direção ao cais para tomar o barco que me conduziria às ilhas Bastimentos, Cayo Coral e Punta Hospital. Este meio de transporte é muito utilizado pelas comunidades locais para, entre as ilhas, deslocarem-se para escola, hospital, trabalho, mercado, etc. Acomodados, eu e alguns turistas, num pequeno barco, deu-se início ao passeio que começava com a busca por golfinhos, frustrada em função da chuva que nos tomou de surpresa e pela ausência daqueles mamíferos que resolveram não dar o ar da graça naquela manhã. Ao término da busca fomos a um restaurante, daqueles sobre palafitas e com cobertura de palha, no melhor estilo caribenho, para fazermos a reserva do almoço. Diferentemente de tudo que conhecemos, a espera pelo preparo do almoço se dá de uma forma muito inusitada, ou seja, fazendo snorkel nas águas rasas, tranquilas e muito transparentes do Mar do Caribe, apreciando arrecifes e dezenas de espécies de peixes coloridos que com muita tranquilidade ficam nadando à sua volta, parecendo querer mostrar as suas belezas diante das curiosas e estranhas criaturas humanas. Enquanto os turistas degustavam suas lagostas, filés de peixes ao molho de camarão, e outras iguarias eu, discretamente, comia biscoitos, pois a grana já estava escassa e todo e qualquer gasto extra poderia comprometer o final da viagem que, repito, estava apenas na metade. Dentre os países visitados nesta aventura solitária, o Panamá é o único que adota o dólar como moeda corrente, logo os preços das coisas são mais altos. Há o Balboa, mas circula apenas em forma de moeda de no máximo 1 Balboa que corresponde a 1 dólar. Não fui o único a não sentar nas mesas, pois havia outros dois mochileiros – um irlandês comendo chocolate e uma outra moça, cuja nacionalidade não saberia dizer, degustando barras de cereais – e, portanto, fiquei mais à vontade sentado num trapiche virado de costas para o restaurante e de frente para a linha do horizonte do lindo e inesquecível Caribian Sea (Mar do Caribe), enchendo, se não meu estômago, mas minha visão com os mais lindos e coloridos peixes que já vira até então e que vinham comer comigo os biscoitos que atirava no mar para vê-los com mais proximidade. O snorkel ou snorkeling é um esporte que eu ainda não tinha praticado e nem sequer conhecia, por isso, me cobrei por este fato, pois morando numa cidade que oferece diversas praias com águas cristalinas e com boas condições de praticá-lo, deveria, ao menos, conhecê-lo. Ao pôr o equipamento, que nada mais é que uma máscara com lentes de vidro temperado e um tubo de respiração – conhecido como snorkel – simplesmente a pessoa é transportada a um mundo de pura beleza natural, silêncio e tranquilidade; um mundo de paz e serenidade, que pode ser vivenciado por qualquer pessoa, independente da idade. Se com a experiência vivida no Pacífico eu já me tornara adepto do snorkeling, imagine com a vivida no Caribe. Peixes das mais diversas espécies, tamanhos e cores, estrelas, ouriços e arrecifes de corais são apenas algumas das atrações subaquáticas que se pode vislumbrar nesta prática de esporte que pretendo adotar e compartilhar com minha família. O Sol voltou a brilhar e após o “almoço”, nos dirigimos à marina de um hotel na praia Red Frog ou Rã Vermelha. Ali, os pobres mortais caminham por uns dez minutos até chegar numa linda praia de águas cristalinas e agitadas, enquanto que os “iluminados” hospedados no spa fazem o trajeto em carrinhos movidos a bateria e guiados por funcionários. Caminhei a praia inteira, fotografei a beleza do lugar e adentrei, sozinho, numa outra trilha à procura das tão faladas rãnas (rãs). Depois de mais de trinta minutos caminhando, resolvi retornar à praia, pois não havia encontrado nenhuma delas, o que me deixou um tanto quanto frustrado pois esperava fotografar aqueles anfíbios de coloração viva e tamanho diminuto. Vozes de crianças vindas de dentro do mato me chamaram a atenção. Mato este que surgia de um mangue e consistia em folhas grandes muito parecidas com as bananeiras de jardins do Brasil. Curioso, tentei olhar para a parte interna daquela vegetação para verificar o que estava ocorrendo quando, instantaneamente, o som parou e ouvi, então, apenas alguns ruídos e risos abafados de crianças. Mais curioso ainda me afastei um pouco e fiquei olhando o que poderia acontecer. Eis que, de repente, vi um certo movimento nas folhas e um indiozinho surgiu abrindo as mesmas com suas maozinhas, como quem abre uma cortina, e depois de conversar com uma indiazinha perguntou-me se eu gostaria de fotografar ranas. Afirmei que sim e ele, então, chamou as donas das vozes e dos risos que ouvira anteriormente. Saíram do mato três indiazinhas que possivelmente eram da Comarca Ngöbe-Buglé. As rãs, de um vermelho intenso, eram oferecidas aos turistas para que estes fotografassem. Então, por um dólar registrei algumas fotos daqueles bichinhos que não mediam mais que três centímetros. Na verdade, a função do indiozinho era vigiar a área e avisar às amiguinhas quando da aproximação dos guardas florestais que fazem a segurança do local. A estratégia era evitar que estes não flagrassem as meninas com suas rãs, de forma que com um assovio, pré combinado, escondiam-se naquele lugar e só saiam quando turistas se aproximavam para exporem suas rãs e, com isso, faturarem uns trocados. Pedi para que me mostrassem o lugar onde se escondiam e adentramos no mangue, onde pude observar que elas criaram um esconderijo com bambus e assentos feitos de palhas de coqueiros onde ficavam descansando enquanto o indiozinho fazia a ronda e dava as coordenadas. Ali as rãzinhas foram soltas e pude registrar algumas fotos. Juntos demos risadas quando pus uma rãzinha no nariz para que uma das meninas tentasse fotografar. Quando me dei conta de que poderia me complicar se os guardas flagrassem aquele turista brasileiro, dentro daquele mato, com quatro crianças, resolvi sair de lá o mais rápido possível. Fora do esconderijo o indiozinho me confidenciou que ficava trepado numa árvore e que, de lá, passava as coordenadas através de assovios e gestos às suas amiguinhas que o observam do improvisado “QG” e lhes pagam por isso. De volta à linda praia fui ao único bar/restaurante que há no local e comi uns pastéis de carne de peixe feito com massa grossa e branca, enquanto admirava a beleza natural do local. Em seguida me dirigi à marina e lá fiquei aguardando o restante dos turistas, enquanto conversava com um panamenho que afirmou que só não conheceu três países, coisa que duvidei, mas, de certa forma, ficou aparentemente evidenciado devido à propriedade com que afirmava tal façanha e descrevia suas experiências. Disse que adorava os brasileiros e não suportava os argentinos, fazendo um gesto obsceno quando lembrou de Maradona – ídolo dos argentinos que, segundo ele, não tomará jamais o título de melhor jogador de futebol do mundo reconhecidamente conquistado por Pelé. Depois de Bastimentos fizemos mais uma rápida parada para mergulho na pequena e linda praia de Punta Hospital, retornando em seguida à Ilha Colón. Às 16h45min cheguei no hostel, apanhei a mochila e tomei um banho, às escondidas, num banheiro que ficava conjugado à cozinha. As lanchas para Bastimentos, que é de onde partem os ônibus para Panamá City, zarpam a cada trinta minutos. Me dirigi à pequena marina, comprei a passagem, para a lancha das 18h e telefonei para casa para contar as novidades daquele dia. Depois, comprei umas bobagens para consumir na viagem noturna, que duraria aproximadamente doze horas. Distraído, enquanto aguardava no balcão, fiquei de costas para a lancha e não percebi que a mesma fora completamente lotada, de forma que quando me dei conta não havia mais lugar disponível para aquele horário, o que me faria perder o ônibus para Capital do Panamá que partiria às 19h, pois o próximo transporte partiria somente às 18h30min e levaria quase uma hora para atravessar a Bahia do Caribe. Conversei com o condutor, expliquei-lhe o fato e o mesmo se mostrou indiferente, mas, por sorte, um tripulante percebeu a minha “choradeira” e me autorizou a embarcar em seu lugar. Com grande atraso partimos para atravessar aquele percurso. Já anoitecendo, o lancheiro parecia sentir a minha aflição quanto à possibilidade real de perder o ônibus, pois acelerava de tal forma que parecia querer que a mesma voasse sobre o mar. A lancha, com a metade do casco acima do mar, dava fortes lambadas nas ondas que, naquele momento, eram maiores do que o dia em que cheguei em Bocas del Toro, rasgando, literalmente, o mar, deixando para trás um paraíso que, por pouco, não teria conhecido não fosse a dica da panamenha. Cheguei a Almirantes às 18h45min e tratei de tomar o primeiro táxi que passou na marina onde as lanchas são atracadas. Pedi para o motorista acelerar, mas ele me explicou que não poderia fazer isso, pois lá as pessoas (principalmente as crianças) andam nas ruas despreocupadas já que o limite de velocidade dos carros é de 40 km/h. Ao chegarmos próximo ao pequeno terminal, avistamos um ônibus da empresa Tranceibosa que acabara de partir do terminal. O motorista do táxi deu sinal de luz e eu acenei, feito louco, na expectativa de pará-lo. O ônibus parou e eu desesperado, com a mochila nos ombros, corri em direção ao mesmo e ao indagar o cobrador sobre o destino do ônibus ele me informou que aquele ônibus não iria para a Cidade do Panamá e sim o que ainda estava no terminal, mas que também já estaria partindo. Voltei correndo pro táxi, pois o motorista ficou parado olhando o meu estrafego e, enfim, cheguei a tempo de conseguir uma passagem e embarcar. Perder aquele ônibus me causaria grandes transtornos, pois teria que pernoitar naquela estranha e nada familiar cidade ou retornar a Bocas, atrasando a viagem e pondo em risco meu planejamento, muito embora já o tivesse alterado por várias vezes. Penso que para viajar há de se fazer um bom planejamento, mas há de se ser maleável e atrever-se, pois mais uma vez comprovou-se que se eu não tivesse ousado deixaria de visitar o local mais lindo que conhecera até aquele momento da viagem. Logo no começo da viagem percebi que passaria muito frio, pois os ônibus no Panamá trafegam com o ar condicionado “a todo vapor”. A TicaBus, empresa em que vim da Nicarágua ao Panamá, dispõe de travesseiros e cobertores para os passageiros, já a Tranceibosa, empresa que faz Chirique Grande a Panamá City, não fornece. Percebi também que esquecera, no balcão da “marina”, o que comprara para a viagem, ou seja, água, barra de cereal, biscoitos e balas. Por sorte, uma ou duas horas depois de partirmos de Almirante teve uma parada para jantar num grande restaurante à beira da estrada, onde pude comprar novas guloseimas. Como tinha que garantir energia para o dia seguinte e sabendo que não consigo dormir em ônibus, fui a uma farmácia ao lado do restaurante onde consegui comprar, com facilidade, dois comprimidos para dormir. Tomei um dos comprimidos, adaptei o banco do ônibus da melhor maneira possível e só acordei na elegante rodoviária da Cidade do Panamá, onde fui surpreendido pelo tamanho e beleza da construção. 22-03-2011 (terça-feira) – Panamá City, Panamá Cheguei no terminal rodoviário da Cidade do Panamá, que de tão grande e bonito mais parece um shopping center, às 4h da madrugada, com pelo menos uma hora de antecedência do horário informado. Com a antecipação da chegada, alterei, novamente e ali mesmo, o roteiro da viagem, embarcando num ônibus daqueles, estilo escolar americano, com destino à Praça 5 de Mayo (maio), que é de onde partiam as camionetes 4x4 que levam nativos e turistas até os barcos que fazem a travessia para San Blas. Também é possível chegar a San Blas de avião, pois existe um pequeno aeroporto numa das ilhas do arquipélago que oferece infraestrutura mínima aos que não querem conviver com a extrema simplicidade dos índios Kunas Yalas, que vivem em cabanas sem assoalho, feitas de bambu e cobertas com palhas das palmeiras locais; utilizam banheiros alternativos e nada ecológicos, feitos também de bambu sob as águas do Caribe; tomam banho de “canequinha” e dormem em macas (redes de dormir) à luz de lampião. Os Kunas foram e são uma tribo extremamente valente e, por conta disso, conseguiram manter a independência das ilhas que foram e são sinônimo de cobiça do governo panamenho e de grandes grupos empresariais do ramo hoteleiro. Uma coisa é certa, não fosse a valentia destes índios certamente o arquipélago já não estaria mais com as mesmas características que tanto encantam os turistas (principalmente mochileiros) de todo o mundo. Na atualidade, o Panamá está dividido em nove províncias e cinco comarcas indígenas, sendo a Kuna Yala uma das mais importantes e famosas. Na praça, ainda de madrugada, procurei me informar com os transeuntes sobre as 4x4 e, juntamente com um argentino que também era mochileiro e já estava no local desde as 4h aguardado as tais 4x4 para ir a San Blas, esperamos sem que nenhuma delas aparecessem. Procuramos nos informar com taxistas e comerciantes locais que afirmaram que era exatamente dali que os carros partiam. Como normalmente partem às 5h, passamos a suspeitar do fato de não ter nenhum índio Kuna Yala no local e já pensávamos em desistir quando, enfim, às 06h30min, apareceu uma camionete guiada por um senhor chamado Macho que nos informou que o local de partida não era mais na praça e sim numa oficina, como foi identificada a sala comercial utilizada como uma espécie de terminal das 4x4, onde fomos levados para fazermos as reservas que, àquela altura, havia somente para o dia seguinte. Extremamente cansado da viagem noturna, principalmente por ter acordado tão cedo, me despedi do aventureiro argentino e, ainda escuro, saí à procura de um hotel. Enquanto caminhava, me ericei quando ao cruzar uma esquina sinistra dei de cara com, nada mais nada menos, uma dezena de gatos pretos o que me fez lembrar dos contratempos do início da viagem, da má sorte por não poder ir a San Blas naquele dia e pensei novamente que se fosse supersticioso deveria me hospedar e não sair do hotel naquele dia. O dia amanheceu e, só então, encontrei um hotel simples e barato nas imediações da oficina e próximo à Cinta Costera onde, imaginei, poderia desfrutar um pouco mais daquela bela e atípica cidade. Ignorando a superstição, resolvi não descansar e saí para aproveitar ao máximo aquele dia que, embora não começara da forma pretendida, prometia melhorar, pois pensei em desbravar tudo quanto fosse possível daquela, repito, exuberante cidade. Então, sem direito a descanso, calcei meus tênis que foram substituídos, quase que imediatamente, por outro par de chinelas de dedo que comprei poucos minutos depois de iniciar minha caminhada em busca de um ônibus para ir ao Canal do Panamá. Às nove horas eu estava a postos defronte ao portão principal do Centro de Visitantes Miraflores e por apenas cinco dólares, em função da apresentação da carteira de estudante do IFSC, entrei para conhecer aquela que é considerada a mais importante e famosa hidrovia do mundo. Preferi visitar a eclusa Miraflores, onde há uma sala de cinema especialmente montada para a apresentação do filme que conta a história sobre a construção do canal, restaurante, loja de souvenires e um museu muito interessante. Falar sobre o Canal do Panamá certamente daria para escrever um livro, pois o idealismo, a construção e sua história são, sem dúvida alguma, muito importantes para a logística de transportes entre as nações, pois a partir de sua construção reduziu-se significativamente a distância e o tempo que os navios levavam para cruzar de um oceano a outro. O Canal possui aproximadamente oitenta e um quilômetros de extensão, interligando o Oceano Pacífico ao Oceano Atlântico. As travessias das embarcações consistem no bombeamento de água para dentro das eclusas, que se enchem e elevam a embarcação 26 metros acima, ou seja, ao nível do lago Gatún. Depois segue-se navegando até as eclusas de Pedro Miguel, que se esvaziam até se nivelarem ao Lago Miraflores. Isto feito, seguem viagem até chegar às eclusas de Miraflores que, por sua vez, reduzem o nível da água até atingir novamente o nível do mar, desta vez próximo à cidade do Panamá, já do lado do Pacífico. Nem tudo foram flores naquela imensa obra. Os franceses tentaram em 1880 e fracassaram devido às diferenças de tipo de terreno, chuvas, enchentes, desmoronamentos, doenças tropicais como a malária e a febre amarela, e à falência da companhia. Os americanos, por volta de 1903, então presididos por Theodore Roosevelt, entenderam que a construção do canal teria importância militar e econômica consideráveis e iniciaram negociações com a Colômbia, pois o Panamá pertencia àquele país. Como o tratado foi assinado, mas não reconhecido pelo Senado colombiano, Roosevelt, com segundas intenções, apoiou a causa da independência panamenha que, depois da conquista e em retribuição, permitiu que as obras fossem retomadas e exploradas pelos Estados Unidos. Com base nos trabalhos do médico cubano Juan Carlos Finlay, a erradicação da febre amarela, que vitimara mais de vinte mil trabalhadores franceses, foi o grande trunfo dos americanos para o reinício das obras. Então, em 1914, o canal finalmente foi inaugurado e seu controle só veio a passar às “mãos” panamenhas em 1999, com o cumprimento do tratado Torrijos-Cartes assinado em 1977 pelos presidentes dos dois países. Os detalhes, dados e números ($) a respeito do canal são enunciados por uma funcionária do canal através de altofalantes, enquanto os turistas apreciam as travessias dos enormes transatlânticos. Ao chegarem eles desligam os motores e são rebocados, por equipamentos parecidos com tanques de guerra (em proporções menores), para dentro das eclusas que são fechadas até se encherem d`água para que, só então, os navios sigam até a próxima e assim por diante até que cheguem ao nível dos lagos para prosseguir viagem. Tirei fotos, observei as travessias dos navios, visitei o museu e assisti ao vídeo que narra a história do Canal. Neste intermédio conheci uma família de Brusque, SC, que estava fazendo um city tour e aproveitei para saber qual o itinerário que ainda estavam por fazer. Informaram-me que o Canal fora o segundo e que ainda iriam passar pela Ponte das Américas, Calçada de Amador, Isla (Ilha) Flamenco, Mercado de artesanías (artesanatos) e, por fim, chegariam no Casco Viejo. Por quinze dólares fechei com o guia para continuar com eles o restante do city tour que, conforme combinado, passou pela Ponte das Américas, parou no mercado de artesanías, passou pela Causeway de Amador ou Calçada de Amador e me deixou no Casco Viejo. A Calçada de Amador é um local agradável com uma pequena rua ladeada de palmeiras, onde há diversos restaurantes e possui um charme singular. Possui menos de dois quilômetros de extensão e é um ótimo local para passeio familiar ou romântico, pois além dos bons restaurantes, possui a melhor vista da entrada do Canal do Panamá, entre outros atrativos locais. Este aterro (Calçada de Amador) liga a cidade a quatro ilhas: Naus, Culebra, Perico e Flamenco – local onde se encontra um mercado livre de alta qualidade e restaurantes requintados. De lá se tem uma vista impressionante da Cidade do Panamá e de seu exuberante centro comercial, administrativo e bancário, com prédios altíssimos e modernos, finos e compridos como lápis, alguns com mais de 70 andares. Depois, já no Casco Viejo me separei do grupo e passei a explorar aquele lindo, romântico e histórico bairro. Casco Viejo ou Casco Antiguo, local marcado no meu roteiro como uma das prioridades a serem conhecidas no Panamá, realmente merece destaque e, no caso deste relato, um parágrafo à parte, pois trata-se de um dos locais mais interessantes do Panamá e que contrasta completamente com o novo Centro da cidade. Interligados pela Cinta Costera, o Casco Viejo fica no outro extremo da Bahia de Panamá, defronte para o elegante e novíssimo centro comercial, administrativo e bancário, deixando perceber a imensa diferença entre o velho e o novo; o antigo e o moderno; o passado e o futuro, enfim, a diversidade entre o romantismo e a badalação. Com sua história, seus casarios antigos e arquitetura própria o Casco Viejo é a prova cabal de que a Cidade do Panamá não se resume a shoppings e zonas francas. A cidade começou a ser construída em 1671 e, vítima de ataques de piratas, teve suas construções arruinadas e as restaurações até hoje não foram concluídas o que traz ao local uma aparência de cidade histórica. De qualquer forma conhecer este local é imprescindível para quem está em Panamá City. O Parque Bolívar e a Plaza de Francia (Praça da França) são pontos de visita obrigatórios no Casco Viejo. No entanto, há que se ter muita atenção, pois, dependendo da quadra em que se adentra, pode-se correr risco já que nem tudo é confiável neste bairro, principalmente para quem está a conhecê-lo pela primeira vez e sem a companhia de outrem. Explorado o que considerei um dos locais mais bacanas da viagem, super cansado, com dor no pé e sem almoço, caminhei horas pela Cinta Costera, indo do Casco Viejo ao Centro novo enquanto ia tirando inúmeras fotografias (que certamente ilustrarão, ainda mais, o álbum de fotografias desta viagem) daquela beira-mar que separa a Bahia de Panamá (Oceano Pacífico) da capital do país. Neste percurso entrei no mercado de mariscos onde tinha um panamenho com a camisa do Brasil e que fez questão de posar para uma foto com um enorme peixe na mão. Neste local pode-se comer Ceviche por apenas U$ 1 dólar o copo. Ceviche é uma comida de origem peruana que consiste em pequenos pedaços de peixe, camarão, caranguejo, polvo, etc, crus e marinados em limão com outras iguarias... O Panamá é extremamente quente e durante a caminhada resolvi ficar sem camisa. Este ato me fez ser repreendido por um guarda à paisana que se utilizou de seu apito para me mandar esperar e, aproximando-se com educação, me orientou a pôr a camisa, pois no Panamá só é permitido andar sem camisa nas praias, algo que não sabia, até então. Expliquei-lhe que era turista e que não sabia todos os costumes do país e me desculpei pelo ocorrido. Ele, então, me explicou que naquele dia em especial o Panamá estava de luto pela morte de um ex-presidente panamenho e que o fato poderia ser considerado uma afronta caso eu tornasse a ficar sem camisa. Depois discorreu em falar de futebol e fazer as velhas e tradicionais perguntas sobre jogadores brasileiros... Fiz todo o percurso sem beber nenhum líquido, pois não avistei nenhum bar na Cinta Costera, mas ainda que houvesse, não serviriam cervejas naquele dia, face ao luto no país. Sim, no Panamá, quando há luto oficial, todos os bares são proibidos de vender bebidas alcoólicas e os habitantes são proibidos de ouvir músicas, o que me pareceu ser realmente respeitado por todos. Retornei ao hotel Latino, tomei um banho e “recarregei as baterias” antes de rondar, novamente, pelas imediações do hotel, que ficava mais próximo do Casco Viejo que do grande centro da cidade. Como tinha que acordar às 4h para ir a San Blas, retornei cedo pro hotel, mas não antes de falar com minha família. Na oportunidade conversei, também, com minha menina (Aninha), meu garotão (Dylan) e com minha esposa, quando senti uma forte preocupação nas suas palavras e consegui “arrancar” dela a sua frustração quanto à minha ida. Afinal, estava sentindo-se extremamente chateada por estar de férias, sozinha, dentro de casa e com pouco dinheiro, pois o que deixara já tinha acabado. Mesmo à distância, resolvi a situação do dinheiro, mas senti que não poderia contornar a sua frustração quanto às suas férias, o que me despertou uma sensação de egoísmo da minha parte por estar viajando e explorando muitas coisas novas e interessantes enquanto ela estava “presa”, sem poder fazer nada em suas próprias férias senão cuidar das crianças e da casa. No quarto do hotel passei a pensar se naquela noite eles fariam o que batizei de clube do filme, que trata-se de uma noite por semana (sempre às terças) quando alugo um ou dois filmes, organizamos, aliás desorganizamos, a sala para, juntos, assistirmos os filmes, comermos bobagens e, depois, dialogarmos sobre o que vimos e sobre nós. Esta iniciativa só faz aproximar mais a família, pois o fato de meus filhos desligarem o computador e as televisões de seus quartos para, con nosotros (conosco), participarem daquele momento me traz uma sensação agradável de união e fortalecimento familiar. De qualquer forma, mesmo com a sensação desagradável que sentia naquele momento eu estava ansioso para que amanhecesse o dia para partir, de uma vez por todas, para aquele que prometia ser o melhor lugar a se conhecer no Panamá e consequentemente o auge da viagem – San Blas. 23-03-2011 (quarta-feira) – Panamá City, Panamá Em razão da preocupação com o horário de acordar, acabei por não dormir despreocupado e, por conta disso, acordei várias vezes até que às 4h levantei, acomodei meus pertences na mochila e fiquei na recepção do hotel aguardando o Sr. Macho, que me levaria à “oficina”, aquela das 4x4, para partir rumo ao local onde ficam os barcos que conduzem os turistas e nativos a San Blas. As camionetes partem às 5h, de forma que às 4h45min tomei um dos táxis que ficam estacionados defronte ao hotel, pois o Sr. Macho não apareceu e não atendeu as ligações que a recepcionista do hotel fez, a meu pedido. Por sorte gravei o caminho e conduzi o taxista sem maiores problemas. Na oficina, me dirigi a um senhor que parecia ser o gerente do local e informei-lhe que tinha uma reserva, quando percebi, pela expressão em seu rosto, que alguma coisa não estava de acordo. Mesmo com pressa e extremamente agitado, pois os carros deveriam partir naquele horário para chegar no tempo previsto para a partida dos barcos, aquele índio, grande e pesado, parou tudo, debruçou-se no balcão de madeira e me perguntou, com muita calma e olhando nos meus olhos, quem me fez a reserva e se eu tinha recibo. Apresentei o recibo, ele baixou a cabeça de forma inconformada e telefonou para alguém, sem sucesso, e depois, em voz alta, falando o que pensei ser o idioma Kuna Yala, reclamou com outro índio questionando o fato enquanto balançava a mão e apertava o recibo próximo aos olhos dele. Senti uma certa incipiência na organização e por isso me pareceu que algo não estava certo, mas, confiante, perguntei-lhe em quais das 4x4 poderia pôr a minha mochila. Ele, então, com semblante triste, me informou que me devolveria o dinheiro, mas não poderia me conduzir a San Blas pois a estrada estava em obras e, por ordem governamental, a polícia só estava permitindo a passagem de nativos e que os estrangeiros não poderiam, em hipótese alguma, passar pela barreira policial. Informou ainda que eu poderia ir de avião, mas que talvez, com sorte, conseguisse ir no dia seguinte pois são poucos os voos e quase sempre há lista de espera. Em voz baixa me disse, penso que para me consolar, que acreditava que nem mesmo os nativos embarcariam naquele dia, pois o mar estava muito agitado e talvez os barcos não zarpassem. Diante de suas palavras e gestos percebi claramente que de nada adiantaria insistir e, desolado, presenciei a partida das 4x4, com seus racks lotados de bugigangas dos índios Kunas Yalas. Vi que, junto com as bugigangas dos índios, partia também a minha esperança de, naquela viagem, conhecer o que seria a principal motivação da minha passagem pelo Panamá e, repetindo, o ápice desta viagem. Desiludido, saí caminhando pelo bairro Calidonia, que ainda não recebera os clarões do dia, sem muito a fazer, pensando e me consolando, pois talvez não fosse desta vez que eu devesse conhecer um dos (se não o) últimos redutos de mochileiros na América Latina. Naquele momento relembrei que, na minha última viagem a três países da América do Sul, também não alcancei o meu maior objetivo que era conhecer Machu Picchu no Peru devido às fortes chuvas que destruíram parte da estrada de ferro que liga a cidade de Águas Calientes a mais importante e conhecida cidade Inca. Na verdade, a impossibilidade me serve de estímulo para, um dia, retornar ao Peru, o que devo fazer de motocicleta e, quem sabe, percorrer o mesmo trajeto que Che Guevara e seu amigo Alberto Granado perfizeram em 1952 e que virou filme (Diários de motocicleta), que assisti e recomendo. Caminhando, percebi que tinha perdido a fivela da alça da mochila e retornei ao hotel na esperança de encontrar o taxista, pois acreditei que a mesma pudesse estar em seu táxi. Aguardei um pouco e logo o mesmo apareceu, estranhando a minha presença. Encontrei a tal fivela e expliquei-lhe o ocorrido. Tentando se dar bem, senti, afirmou que poderia me levar por uma rota alternativa. A opção foi recusada por dois motivos, o preço pedido (100 dólares), que correspondia ao preço da passagem aérea, e pelo alerta que aquele senhor da oficina me dera quanto às condições do mar que, afinal, poderiam ser verdadeiras. Resolvi, então, por em prática o plano “B” que era conhecer a maior feira livre das Américas, na cidade de Colón (a segunda maior do Panamá). Com a pesada mochila nas costas me dirigi à rodoviária e embarquei num ônibus com destino à feira. Próximo da cidade percebi o grande congestionamento e resolvi perguntar ao cobrador se naquela região havia praias que valessem a pena conhecer. Ele me informou que ali mesmo havia um ônibus que levava a Porto Belo onde há praias caribenhas muito bonitas. Pensando em ter um dia mais tranquilo que os demais e aproveitar, de fato, aquela tarde inteira numa destas praias, sem obrigações, guias ou horários a cumprir, apenas curtir a praia, comer peixe frito, beber água de coco, tomar sol e mergulhar, entrei no ônibus com destino a Porto Belo. Mais uma vez alterava o planejamento da viagem indo para um local sobre o qual nada sabia, mas, intuitivamente, lá estava eu, o único “cara pálida” naquele antiquíssimo ônibus indo, novamente, para o desconhecido, para o abstrato, sem saber o que iria encontrar, fazer ou ver. Levei aproximadamente uma hora e meia até Porto Belo e, ao chegar, percebi que tratava-se de uma cidade muito antiga e histórica, pois vi que havia turistas com máquinas fotográficas registrando fotos do seu “cartão postal” – uma fortaleza com antigos e desativados canhões estrategicamente apontados para o mar azul turquesa, que fazia uma espécie de canal ou estreito entre a cidade e uma grande ilha localizada a uns quinhentos metros à sua frente e que escondia o mar aberto e transformava o local numa baía calma de águas cristalinas, mas sem praias. Também registravam fotos da igreja e de uma grande e antiga construção que já foi uma aduana, onde os espanhóis guardavam o ouro que traziam do Peru e que posteriormente seria enviado para Espanha. Seu pequenino centro resumia-se a estes pontos turísticos e a uns poucos restaurantes improvisados e rústicos. Almocei num destes restaurantes e comi arroz com coco e ahoyama (uma espécie de abóbora moranga) com pescado cojinua. No entanto, Porto Belo que é uma cidade da província de Colón, é muito mais do que parece ser. Trata-se de uma das cidades mais importantes durante a colonização Espanhola, época em que embarcavam as riquezas com destino a Espanha. Durante uma rápida caminhada para conhecer aquela antiga e pacata cidade, visitei a igreja local, o forte e a feirinha das índias Kunas onde comprei uma mola – painel de tecido bordado à mão, que tradicionalmente é utilizado para adornar as vestimentas das índias. Estas peças, de fabricação exclusiva nas ilhas Kunas Yalas (terras Kunas) – arquipélago de trezentos e sessenta e cinco ilhas que compõem San Blas, na costa panamenha, são encontradas em todo o país e comercializadas exclusivamente pelas índias que possuem estatura diminuta, lenços vermelhos na cabeça, piercing de ouro em forma de argola presos no septo nasal, contas com miçangas nas pernas e roupas multicoloridas. A minha vontade de ir até San Blas se dava, entre outras coisas, para conhecer a cultura daquela comarca indígena e, em especial, poder passar o dia e até dormir sozinho numa das muitas ilhas do arquipélago. Sim, a grande maioria das ilhas não são habitadas, são pequenas e não há nada nas mesmas além de coqueiros sendo que em algumas há apenas um. Pode parecer loucura, mas sentia que ficar só, numa ilha no meio do Caribe, poderia ser uma experiência ímpar. Quanto a comida, se o turista quiser os índios levam. Não seria o meu caso, pois a minha pretensão era ficar na ilha apenas com uma faca, anzol, isca, fósforo e sal... A única coisa que temia era a chuva, caso não conseguisse improvisar uma barraca. Durante a tomada de fotos conheci um senhor italiano que, além de fotógrafo, é historiador. Este senhor é profundo conhecedor da colonização européia na região sul do Brasil e sabe muito mais sobre a história da colonização portuguesa em Florianópolis que a maioria dos habitantes da nossa querida ilha, inclusive eu. Ele e seu grupo estavam indo de barco à Cartagena de Índias na Colômbia e passariam por San Blas. Juro que pensei em embarcar também, mas eles me informaram que levariam uma semana, pois partiriam somente no dia seguinte, demorariam para chegar no arquipélago, ficariam uns dois ou três dias, para, só então, partirem para Cartagena de Índias, que fica muito distante de Bogotá, que seria meu último destino antes de voltar ao Brasil, no dia 29-03. Isto me fez desistir da idéia, pois poderia comprometer o meu retorno ou, no mínimo, prejudicar a minha estada na cidade. Outro senão foi o preço, que não era nada barato. Porto Belo vivia, naquele dia, uma excepcionalidade, pois diversos estudantes e doutores da Califórnia, USA, prestavam serviços médicos aos habitantes. Boa parte da comunidade estava reunida numa pequena praça onde era feita uma triagem para encaminhar os assistidos às salas daquela grande e antiga construção desocupada. Muito próximo dali há uma família que mantém um macaco numa varanda. Os turistas param, fotografam e brincam com o símio. O macaco atende pelo nome de Carlitos e, segundo a proprietária – uma simpática senhora – é carente de colo, pois ficou órfão ainda bebê quando perdeu também todos os seus irmãos. Bastou um pequeno descuido da minha parte e ele se agarrou, com sua calda e depois com suas mãos na minha mochila e logo estava abraçado em meu corpo, choramingando e com a cabeça encostada em meu peito. Fedia “feito um porco” e tinha um mau hálito insuportável. Aproveitei a deixa e pedi para um turista registrar aquela troca de contato e em seguida, sem êxito, tentei me desvencilhar do pobre macaquinho que ficou tentando explorar a minha mochila abraçado a mim por pelo menos uns vinte minutos até que a dona, enfim, conseguiu tirá-lo, convencendo-o com um pedaço de pão, mas não sem antes ele gritar furiosamente com ela como que exigindo que ela o deixasse ali comigo. Foi um momento muito engraçado, pois o bichinho era, realmente, muito perspicaz. Imaginei que poderia desbravar ainda mais o Panamá indo a outras cidades ao invés de pernoitar ali e tomei outro ônibus, agora extremamente colorido, e parti para Colón para conhecer a feira livre. Na feira, paga-se um ingresso que não sei quanto custa, pois, como não sabia deste detalhe, me dirigi ao portão principal sem o dito cujo e o guarda, que até pediu o ingresso, me liberou após revistar minha mochila. Esta feira é de fato gigantesca e mais parece uma cidade de tão extensa. Ela não é composta de barracas e sim de lojas de grandes marcas. Lá pode-se comprar de tudo, incluindo automóveis, motos, aparelhos eletrônicos, roupas de grifes famosas e muito mais. Carros circulam pelas estradas entre as lojas, dando a impressão de se estar realmente no centro de uma grande cidade com lojas e até pequenos prédios. Comprei apenas um relógio para minha esposa e pouco tempo depois resolvi cruzar parte de Colón para chegar no terminal de ônibus e regressar à Cidade do Panamá. Naquele percurso percebi que Colón é uma cidade pobre e perigosa, pois a cada esquina daquela avenida que liga a feira livre ao terminal de ônibus havia dois policiais fortemente armados. Ao atravessar a avenida, para fotografar uma das ruas entre os prédios da favela que me chamou a atenção devido à sujeira e ao emaranhado de fios entrelaçados que interligavam um prédio a outro, dois dos policiais me interpelaram, perguntaram de onde eu era, pediram passaporte e, depois, orientaram-me a me afastar dali e seguir até o terminal pelo outro lado da avenida, pois aquele lugar era muito perigoso e se eu entrasse não sairia (pelo menos com a mochila) e nem mesmo eles poderiam entrar para me ajudar. A mochila naquele momento se tornara um perigo, pois poderia chamar a atenção de malandros em função de eu estar saindo da feira livre e levantar suspeita quanto a seu conteúdo, ou seja, poderiam pensar que estava recheada de muambas. Um tanto quanto preocupado, passei a mochila para frente do corpo e retornei ao outro lado da avenida, procurando ficar bem próximo a uns dois caras que estavam seguindo na mesma direção e, com isso, dar a impressão de estar acompanhado. Não costumo arrepender-me do que faço, mas ir a Colón naquele dia foi uma coisa que fugiu à regra. Enquanto retornava à Cidade do Panamá fiquei calculando quantos dias ainda faltavam para retornar para casa, pois parecia que o tempo não passava enquanto a saudade só fazia aumentar. Fiquei imaginando o dia de chegar, puder abraçar minha esposa, filhos e todos os meus próximos que tanto amo e que me fizeram tanta falta. De volta à Cidade do Panamá me hospedei numa pousada e, no final de tarde, resolvi caminhar pela Cinta Costera até chegar no Centro Administrativo para conhecer as “internas” daquele intrigante bairro. Registrei fotos dos grandes edifícios e avistei, por acaso, a grande guitarra – marca registrada do Hard Hock Café – e percebi que tratava-se de um grande shopping center e não perdi a oportunidade de conhecê-lo. Aproveitei para comprar um chapéu panamenho (versão feminina) para minha esposa e uns presentinhos para meus filhos e, pela primeira vez na viagem, fiquei num bar até às 21h e, lá, tomei umas cervejas panamenhas enquanto um conjunto de rock passava o som para um show que fariam mais tarde. Estava bom, mas o cansaço veio à tona em decorrência daqueles dias mal dormidos em função da vinda da Costa Rica e de ter acordado na madrugada anterior para tentar ir a San Blas, bem como, pelo dia extremamente corrido e exaustivo. Mesmo assim retornei a pé, atravessando toda a Cinta Costera que à noite é desprovida de policiamento e estava totalmente deserta, até chegar na pousada que fica próxima ao Casco Viejo. Uma vez no quarto, arrumei meus pertences e procurei descansar para no dia seguinte, o mais cedo possível, ir à rodoviária comprar uma passagem de ônibus para a Colômbia e assim tentar antecipar a viagem, pois em Bogotá tentaria, junto à Gol Linhas Aéreas, antecipar meu retorno ao Brasil para compartilhar o que restava das férias da minha esposa. Caso não fosse possível, exploraria com mais afinco o último país desta aventura solitária pela América do Sul e Central, afinal, no Panamá eu já tinha conhecido Bocas del Toro, Casco Viejo, novo Centro, Ponte das Américas, Canal do Panamá, entre outros locais interessantíssimos e não adiantaria ficar, pois não conseguiria chegar a San Blas. O Panamá é um país extremamente lindo e que vale muito ser explorado, pois tem muito a oferecer aos turistas e é um dos países mais diversificados da América Latina. Tem uma capital que é uma das cidades mais internacionalizadas das Américas e, ao mesmo tempo, inúmeras opções de se conviver com um passado ainda preservado, como é o caso de Bocas del Toro, San Blas, Casco Viejo ou ainda o Panamá Viejo, isso sem contar com as Províncias de Darién, Coclé, Herrera, Los Santos, Veraguas e suas respectivas comarcas indígenas. O que conheci, ou seja, as Províncias de Panamá, Colón, Chiriquí e de Bocas del Toro foram o suficiente para perceber que este país é, de fato, destino obrigatório para qualquer pessoas que queira conhecer e entender um pouco mais da cultura antilhana. Cada Província e cada comarca indígena possuem suas próprias peculiaridades. A Província de Panamá tem como principal atrativo turístico a capital do país que oferece um excelente centro de compras e o Canal do Panamá. A Província de Darién possui a maior extensão territorial, sendo a menos habitada do país e oferece uma das maiores reserva biológica da América Central assim como a Bahia Pina, Rio Tuira e Punta Patiño. A Província de Colón dispõe da maior zona franca e zona livre do hemisfério ocidental, além de espetaculares praias cristalinas. Já a Província de Coclé, no sudoeste do país, tem o Vale de Antón como atração, onde pode-se avistar rãs douradas e desfrutar de águas termais advindas de um enorme vulcão. Herrera que é a menor província do Panamá possui uma grande riqueza natural e folclórica. Na Província de Los Santos os turistas podem desfrutar também de muito folclore com destaque para los carnavales (os carnavais) de Las Tablas que é a capital e de suas lindas e harmoniosas praias. Veraguas é a única província que possui costas nos dois oceanos (Atlântico e Pacífico) o que lhe proporciona inúmeros rios e cachoeiras além de praias paradisíacas, com destaque para de Santa Catalina, uma das mais famosas do mundo para a prática do surf. A província de Chiriquí, onde tomei a condução em David para Bocas del Toro, recomenda-se visitar El Valle de La Luna (O Vale da Lua), suas praias e montanhas com uma diversidade imensa de fauna e flora com destaque para o Vulcão Barú que é o mais alto de toda a América Latina (3.475 metros sobre o nível do mar) de onde se pode avistar os dois oceanos que banham o istmo. Por fim, a província de Bocas del Toro ubicada (localizada) no Caribe panamenho, mais precisamente na entrada da Laguna de Chiriqui, cuja maior parte esta envolvida por selva, traduz o que tem de melhor no Panamá quanto a praias, cultura, costumes, gastronomia, música, dança e muitas outras manifestações das Antilhas. 24-03-2010 (quarta-feira) – Panamá City, Panamá Muito cedo eu já estava indo pra a rodoviária e a impossibilidade de comprar a passagem de ônibus para Colômbia ratificou o que eu soubera na aduana e me surpreendeu a ponto de se tornar uma das coisas que mais me intrigou nesta viagem, ou seja, ter certeza de que a América do Sul não possui ligação rodoviária com a América Central, ou seja, para ir do Panamá à Colômbia, ou vice-versa, só é possível por via aérea ou fluvial. Cruzar a pé, uma terceira opção, sugerida por um mochileiro que conheci na rodoviária e que também estava buscando passagem de ônibus, levaria uma semana ou duas. Esta idéia estava fora de cogitação, afinal, se não comprometi meu retorno indo à Colômbia de navio, não seria andando no meio daquela inóspita região, conhecida como Darien, sem ter a certeza de que chegaria vivo em meu destino, que o faria. Sou aventureiro, mas não sou maluco. A interligação das Américas através da Ruta (Rota) 5 ou Panamericana, como é mais conhecida não se deu em função da presença das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, presentes em quinze ou vinte por cento do território colombiano, principalmente nas selvas do sudeste e nas planícies localizadas na base da Cordilheira dos Andes. As FARC é uma organização que luta pela implantação do socialismo na Colômbia e opera mediante táticas de guerrilhas. Diante da surpresa me dirigi à avenida Espanha onde, segundo informações, teria uma agência da Copa Airline. Às 9h fui atendido e consegui uma reserva para o vôo das 11h50min. O problema era que, como se tratava apenas de uma reserva e como era voo internacional, àquela hora eu já deveria estar no aeroporto. Tomei o primeiro táxi que passou na avenida Espanha e acertei o preço para o taxista me levar na pousada e no caminho acertei para me levar no aeroporto sem, claro, alertá-lo da minha pressa, sob pena de querer se beneficiar da minha aflição, afinal, determinados taxistas olham os turistas (em especial os atrasados) como uma cifra ambulante. Enquanto o sujeito me aguardava, subi correndo e desci “voando” as escadarias da pousada. Passei, pela última vez naquela viagem, pela Cinta Costera contemplando aqueles enormes arranha-céus e contemplando ainda mais, também pela última vez naquela viagem, o Oceano Pacífico. Minutos depois já estava no Aeroporto Internacional Tocumen onde pude fazer meu check-in e confirmar meu embarque, o que renovou as esperanças de antecipar meu retorno para o Brasil. Tamanha vontade de voltar não condizia com a viagem, que estava cada vez mais interessante, mas, pura e simplesmente, por querer estar junto da minha família novamente o mais rápido possível. Assim, às 12h, estava deixando o último país que visitei na América Central, indo em direção à Colômbia que seria o último país a ser visitado na viagem. 24-03-2011 (quinta-feira) – Bogotá, Colômbia Às 14h, com grande satisfação, eu já estava em solo colombiano. Este país sempre me inspirou curiosidade. Não sei ao certo o motivo, mas só o nome “Colômbia” já soava como algo inatingível, algo fora da minha realidade, algo que me instigava a querer conhecê-lo... Contornei o terminal internacional para chegar no nacional, que fica anexo, e tomar um microônibus que é o meio de transporte mais utilizado naquele país (muito embora o sistema Transmilênio de altobuses [ônibus] tenha sido recentemente implantado e é o meio de transporte mais eficiente) e me dirigi à La Candelaria – um dos barrios (bairros) mais tradicionais de Bogotá, frequentado por turistas do mundo inteiro. Lá, andei por entre as ruas daquele charmoso e antiquado bairro à procura de um hostel mais em conta, afinal a grana estava, literalmente, no limite e não poderia me dar ao luxo de gastos excessivos. Nos três primeiros hotéis que me informei sobre preços os valores foram: 125, 150 e 180 mil pesos, enquanto que no hostel que fiquei a diária custou apenas 20 mil pesos, ou seja R$ 20,00. Diferentemente do colchão que dormi no hostel em Manágua, Nicarágua, o deste hostel era incrivelmente duro a ponto de me obrigar a solicitar um outro ao atendente, que me ofereceu uma espuma para por sobre aquele que mais parecia uma tábua. A localização do hostel é excelente, haja vista que fica a duas quadras da praça Bolívar, próximo à iglesia (igreja) da Candelaria e de todos os demais pontos turísticos do bairro como o Museo Botero (museu dedicado a Botero – renomado escultor e pintor colombiano), Museo del Oro (Museu do Ouro), Juan Valdez Café, Santuário de Monserrate, entre outros. As primeiras casas de Bogotá, fundada por Gonzalo Jiménez de Quesada em 1538, foram edificadas em La Candelaria, que é um bairro tombado como Patrimônio Nacional. Suas ruas estreitas, sua arquitetura e os casarios coloniais nos remetem ao passado e nos conduzem a um dos bairros mais bem conservados da América do Sul. A história e cultura aguçam os artistas, intelectuais, historiadores e muitos empreendedores estrangeiros. Museus, teatros, cafés, faculdades, pizzarias, pubs e muitas outras atratividades são algumas das opções naquela zona completamente tomada por pessoas alegres e descontraídas. O sol bem que tentou disputar com as nuvens que afinal venceram e tornaram aquela tarde cinzenta, chuvosa e fria. Larguei a mochila no hostel e, passando muito frio, me dirigi à praça Bolivar, que considerei uma das mais interessantes praças que conheci nos oito países que já percorri na América Latina, muito embora, não haja uma única árvore plantada na mesma. No entanto, é impregnada de história e cultura, pois possui antigas e belas construções, ou melhor, obras primas da engenharia hispânica e barroca, como a Alcadia (Governo de Bogotá), Congresso Nacional, Colégio Mayor de San Bartolomeu – obra de 1604, Casa do Presidente, Santa Cúria Colombiana, Catedral Primada de Colômbia e o Palácio da Justiça, onde encontra-se esculpido na sua fachada a expressiva frase: “COLOMBIANOS: LAS ARMAS OS HAN DADO INDEPENDENCIA LAS LEYES OS DARÁN LIBERTAD” (COLOMBIANOS: AS ARMAS LHES DERAM INDEPENDÊNCIA AS LEIS LHES DARAO LIBERDADE). Com o aumento da chuva e a queda de temperatura, que naquele momento baixara para 6°C, me obriguei a comprar uma jaqueta e, pela primeira vez nesta viagem, me agasalhei como se estivesse no apogeu do rigoroso inverno do Sul do Brasil. Antes, porém, parei num botequim e degustei o tão famoso café colombiano. Neste momento experimentei um tipo de pão de queijo cujo nome é Buñuelo, com gosto de “bolinho de chuva” e aparência de ovo recheado (aqueles que se vendem em lanchonetes no Brasil). Devidamente agasalhado busquei por uma lan house e acessei o site da Gol Linhas Aéreas para tentar antecipar meu vôo de retorno ao Brasil, fato este que não foi possível pois não havia assento disponível para qualquer um dos dias desejados. Dali mesmo liguei para casa e “matei” aquela que estava me “matando” – a saudade. Noite chuvosa e fria, mesmo cansado, solitário e faminto, me neguei a ir para o hostel àquela hora, pois certamente isso não seria a melhor opção e só faria aumentar a minha angústia, pois o quarto era pequeno, sem televisão, janela ou computador. Me dirigi, então, a um dos diversos restaurantes do bairro La Candelária, experimentei uma sopa de frango com três tipos de batatas, conhecida como Ajiaco Bogotano; acompanhado de arepas de carne (aquelas que comi na Venezuela e que na Colômbia é apreciada em todas as refeições). Para beber, mesmo naquele frio, optei por Club-Colômbia – cerveja colombiana que considerei tão gostosa quanto as cervejas brasileiras e ali permaneci atualizando este relato e passando o tempo, tal como o fiz na noite anterior quando estava no Hard Hock Café Panamá. De volta ao quarto, percebi que a campânula, popularmente conhecida como campainha, com volume tão alto que parecia estar instalada dentro do meu quarto, era acionada por todos que ali chegavam seja para hospedar-se, retornar ao hotel ou para obter uma simples informação e, com isso, as horas se passavam sem que conseguisse dormir, pois cada vez que quase adormecia a “maldita” campainha era acionada; o coração disparava num susto sem tamanho e o sono, é claro, ia embora e assim foi por mais alguns longos minutos até que, enfim, adormeci, mas não sem antes pensar nas opções que teria para conhecer no dia seguinte sem, no entanto, ter a definição do que fazer, mas, confesso, curioso para conhecer o restaurante Andrés Carne de Rês em Chía ou a Catedral de Sal em Zipaquirá. 25-03-2011 (sexta-feira) – Bogotá, Colômbia Acordei mais cedo que o programado graças aquela campainha, tomei um banho quente e sugeri ao dono – um judeu – que, em substituição daquele som, instalasse uma lâmpada que ficasse piscando (ao menos à noite) para chamar a atenção do recepcionista sempre que alguém quisesse entrar no hostel. Como tinha recém chegado a Bogotá e muito embora eu soubesse que tinha muitas opções de entretenimentos a serem exploradas nos três dias que antecediam meu regresso ao Brasil, não esquecia a possibilidade de retornar e aproveitar estes dias em casa. Não sei se seria um erro ou acerto, mas era essa a sensação que sentia naquele momento. Com a possibilidade do regresso descartada pela Gol procurei obter informações com o atendente do hostel sobre os destinos que escolhi para conhecer, sendo que a possível ida a Chía para conhecer o mundialmente famoso restaurante Andrés Carnes de Res, a Zipaquirá conhecer a Catedral de Sal ou o Santuário de Montserrat ou Monserrate, ali mesmo em Bogotá seriam definidos a partir da hora que eu saísse do hotel para ver o clima, já que o quarto não possuía janela. Com as informações atualizadas, calcei meus tênis, muito embora a danada da unha ainda incomodasse bastante, de forma que somente com curativo era possível calçá-los e fui ao Juan Valdez Café onde degustei arepas de frango com café colombiano. Aquela quinta-feira amanheceu nublada e pouco se via do cerro (morro) de Monserrate, de forma que resolvi descer pela cidade, passando pela Praça Bolivar até chegar no Ferrocarriles Nacionales (Ferroviária Nacional) – local de onde partem os trens com destino à cidade de Zipaquirá, em que localiza-se a primeira maravilha da Colômbia: a Catedral de Sal. Duas coisas me chamaram a atenção neste percurso: a primeira foi um largo onde havia diversos ambulantes com celulares acorrentados em suas vestes, que eram alugados aos transeuntes por dois pesos o minuto, ou seja, vinte centavos de real/minuto. Por vezes um único ambulante tinha umas duas ou três pessoas, simultaneamente, falando nos tais celulares. A outra foi a quantidade de policiais e a educação e presteza nas informações. Sim, Bogotá atualmente é uma cidade segura! Na estação, fui informado que os trens só partem à Zipaquirá nos finais de semana, mas que as reservas devem ser feitas com antecedência sob pena de não conseguir assento. Fiz a reserva para domingo uma vez que o atendente me garantiu que era o melhor dia, pois aos domingos o trajeto é realizado com uma velha Maria Fumaça enquanto que aos sábados ocorrem com um trem mais moderno. Ao retornar percebi, de longe, que o nevoeiro em torno da colina de Monserrate estava se dissipando e o Santuário – um composto curioso de pureza e nobreza começava a dar o ar da sua graça, oferecendo uma bela paisagem como que convidando-me à subir o morro para conhecê-lo. Aceitei o convite e caminhando em paralelo ao corrimão da Transmilênio, utilizado apenas pelos ônibus daquela empresa, segui morro acima até chegar à estação de onde partem tanto os bondinhos quanto os funiculares que conduzem os turistas e fieis ao alto do Santuário. Na parte da manhã sobe-se e desce-se apenas de funicular e à tarde apenas de bondinho. Monserrate, a mais de três mil metros acima do nível do mar, é um local de peregrinação para muitos turistas e bogotanos, pois lá é realizada a Via Sacra – ato litúrgico celebrado pela Igreja Católica na Semana Santa. Ao longo da colina há imagens dos personagens representando os atos vividos por Jesus Cristo quando carregava a cruz na Via Dolorosa em Jerusalém. No interior do Santuário há uma talha do Cristo Caído de Monserrate, do século XVI, de Albarracín e Pedro de Lugo que os fiéis crêem ter poderes de cura e de purificação coletiva. Bogotá foi fundada por Jiménez de Quesada em 1538, a 2.640 metros sobre o nível do mar, num vale da Cordilheira Oriental dos Andes. A vista da cidade a partir do alto de Monserrate é sensacional e imperdível. Opções a serem realizadas la no alto não faltam. O turista pode, entre outras atividades, caminhar, orar, comprar artesanatos, almoçar num dos lindos restaurantes ou apenas sentar e contemplar a vista do belo cenário daquela que é considerada a capital cultural, política e econômica da Colômbia. Tudo isso com som ecumênico que surge dos altofalantes distribuídos ao longo das calçadas que levam desde a saída do funicular até o alto do Santuário. Como havia subido de funicular – bondes puxados por cabos de aço que circulam sobre trilhos, resolvi esperar e retornar depois das 12h, para descer de bondinho e tentar registrar fotos mais privilegiadas do local, já que o funicular, a partir de uma certa altura, segue por túnel até chegar no cume do morro. Almocei e voltei caminhando em direção à La Candelaria quando, sem saber, me deparei com a Quinta de Bolívar – casa de campo usada por Simón Bolívar e que foi transformada em museu. Em seguida me dirigi à praça Bolívar e lá permaneci boa parte daquela tarde cinza e fria, assistindo shows folclóricos e participando de uma feira indígena que chamava a atenção das pessoas para a importância da preservação da Madre Naturaleza (Mãe Natureza). Retornei ao hostel para descansar um pouco, pois voltou a chover e o frio começava a incomodar. No início da noite fui à Zona Rosa que, segundo informações, é a parte onde se concentra uma grande variedade de bares e restaurantes. A Zona Rosa é a face moderna de Bogotá, assim como a Zona T. Suas ruas são planejadas, as praças iluminadas e muito bem limpas e percebe-se que trata-se de um bairro rico, pois só há casas, lojas, cafés, bares e restaurantes chiques e bem frequentados. Como estava chovendo, não fiquei vagando à procura do melhor ou do mais atraente bar ou restaurante e acabei entrando no primeiro que vi e lá fiquei somente o tempo necessário para tomar duas doses de Whisky e comer uns petiscos típicos, pois estava preocupado com o retorno já que o local era distante do hostel e retornar de táxi oneraria muito e de ônibus quanto mais tarde mais perigoso. Então, às 21h30min retornei à La Candelaria, mesmo porque depois das 22h não é recomendado perambular sozinho no bairro, principalmente nos finais de semana. Viajar só, traz esse tipo de empecilho. O pequeno quarto do hostel, com apenas uma escrivaninha e uma pequena cama de solteiro, era nostálgico e dava a sensação de se estar numa cela de prisão, porém sem janela. Estava sem sono e acabei por não conseguir mudar a sensação de arrependimento por estar tanto tempo longe de casa. Lá fiquei, deitado naquele colchão mal cheiroso, pensando que, ao menos, não podia reclamar do café da manhã, da televisão, do ar-condicionado ou do luxo, pois nada disso era oferecido naquele pequeno e sombrio apartamento mas que, de qualquer forma, me serviu pois o preço foi bastante satisfatório coisa que, naquela altura, equilibrou meus gastos. Para completar aquela nostalgia, me veio à memória que o meu espírito aventureiro e a minha vontade de conhecer novos países se deve, em parte, à minha falecida irmã Romilda. Ela conheceu parte da Europa e da América do Sul e sempre que podia me enviava postais com frases me instigando a conhecer outros lugares. Lembrei que ainda guardo, com carinho, os postais e um LP – long play de Bob Dylan, que ela me trouxe da Espanha e que na capa traz a seguinte mensagem: “Ronei, você é levado em sua vida pela criatura viva de seu interior, um ser espiritual brincalhão que é o seu verdadeiro ser. Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não terá nada a aprender com ele... esteja sempre livre para mudar de ideia e escolher um futuro ou um passeio diferente. O mundo está para você... España, julho de 1988.” Opções não faltavam para fazer no próximo dia, mas teriam que ser bem planejadas para que eu não viesse a me arrepender de deixar de fazer uma coisa em detrimento de outra, pois não haveria tempo para reverter a situação. Com isso pensei em fazer os passeios culturais nos diversos museus que La Candelária oferece ou ir à Zipaquirá ou ainda à Chía e em um destes lugares comprar um presente especial para minha filha e esposa pois, os que comprei para elas e a outros parentes e amigos havia perdido no Panamá. Acredito que esqueci no táxi ou na pousada, na hora da correria para chegar no aeroporto. Adormeci sem imaginar que a minha ida à Chía para conhecer o restaurante seria, juntamente com o momento vivido com a mamãe preguiça, a libertação das duas tartarugas no Parque Manuel Antônio na Costa Rica e o mergulho (snorkeling) em Bocas del Toro no Panamá, as coisas mais interessantes que aconteceriam nesta viagem. 26-03-2011 (sábado) – Chía e Bogotá, Colômbia Conforme previsto na noite anterior, este dia foi totalmente tomado por muita cultura em Bogotá. Cedinho embarquei num Transmilênio, e segui ao Portal Norte onde fica o ponto final e, de lá, tomei um outro ônibus – conhecidos como alimentadores – com destino a Chía, uma pequena cidade localizada ao Norte de Bogotá, para conhecer o Restaurante Andrés Carne de Res. Cheguei na cidade às 09h30min e como estava muito cedo fiquei perambulando e percebi que a cidadezinha possui quatro portais de entrada e saída como que delimitando os pontos cardeais os quais levam à praça principal, um local agradável localizado no coração do centrinho. Sentei numa das mesinhas de uma das lanchonetes da praça onde fiquei observando os costumes dos cidadãos daquela cidade provinciana. Ali tive a ilustre companhia de um senhor mexicano, nacionalizado na Colômbia, que pediu licença e sentou-se comigo como se aquela fosse sua mesa cativa ou estivesse sentando com um velho amigo, já que havia outras mesas desocupadas ou ocupadas com nativos que certamente seriam seus conhecidos. Com senilidade, ligou seu rádio a pilhas que estava enrolado num grande saco plástico, introduziu um pente de memória (!) e ficou ouvindo músicas mexicanas enquanto eu saboreava, mais uma vez, o típico café colombiano que me fora servido com açúcar mascavo por um garçom bestalhão que vivia com o polegar apontado para cima em sinal de positivo. Chía possui um comércio reduzido, porém aquecido, com destaque para os açougues. Numa pequena distância percorrida enquanto caminhava pelas imediações contei uns doze! O inusitado fica por conta que todos mantêm as peças de carne expostas sem a devida refrigeração ou proteção adequada. Telefonei para casa, conversei tranquilamente com a esposa que àquela altura me pediu para eu voltar logo, bem como com meus filhos e minha irmã Rose. Tentei falar com meus outros irmãos (Jailton e Adailton), mas não consegui. Mais uma vez a saudade apertou e um tanto quanto emotivo, devido às ligações, saí andando por Chía com o objetivo de chegar logo ao restaurante para poder confirmar o que lera a respeito do mesmo. Enquanto aguardava a abertura do estabelecimento, que se dá somente às 12h, registrei algumas fotos externas daquele restaurante com aparência de ferro velho, pois muitas quinquilharias ficam instaladas ao longo de sua grande fachada, mas que, sem dúvida, é o restaurante mais original da Colômbia e por que não dizer do mundo. Lá estão expostos vários objetos como vacas multicoloridas feitas em resina em tamanho real, calçadas com sapatos femininos, saia e cachecol, grandes hélices giratórias iluminadas, tampas de panelas de todos os tamanhos dependuradas numa árvore que, por sua vez, tem um dragão enorme feito de latão abraçando-a, zebras de madeira indicando as faixas de pedestres, brinquedos de parque infantil, telefone antigo, quadriciclo, escada e muito mais. Ao registrar o ambiente externo fui abordado por um policial que pensou que eu estava fotografando-o. Pediu para ver as fotos e como não constatou nenhuma anormalidade pediu para que eu parasse de fotografar em sua direção. Mal sabia ele que em meio a tantos objetos eu nem o tinha reparado. Às 12h, quando abriu o restaurante, fui o primeiro a entrar e pude constatar que a decoração entre kistch e barroco dá uma excentricidade especial ao local. São tantos objetos que não se sabe, ao certo, se se está num restaurante ou num manicômio. Mesmo que a parte externa apresente um ar extremamente extravagante, não dá para imaginar tudo o que tem lá dentro. Na verdade chega a ser difícil de expressar em palavras o que se sente e o que se contempla naquele enorme e exótico restaurante de cozinha internacional e, repito, reconhecido mundialmente. Para que se tenha uma idéia, segundo informações, numa só noite aproximadamente duas mil pessoas visitam o lugar, que possui em torno de seiscentos empregados, incluindo seguranças, cozinheiros, garçons, recreadores, animadores, artistas, etc. Antes de me acomodar, percorri cada um dos diversos corredores e ficava cada vez mais estupefato com tantas coisas milimetricamente colocadas em todos os espaços possíveis. Naquele momento lembrei de meu querido cunhado, que considero tanto quanto um irmão, César Assunção, pois imagino que aquele seria um lugar que ele adorará conhecer na viagem que cogitamos fazer, de moto, pela América do Sul. Múmias, ogivas, manequins dependurados nos tetos, caveiras, bruxas, imagens religiosas, garrafas de vinho cheias e vazias, paredes decoradas com tampas de garrafas, outras com velas de todos os tamanhos, forno à lenha com grandes velas acesas dentro, máquina de costura, rabo de sereia, panelas, lamparinas, tigre de resina em tamanho real, estátuas e muito..., muito..., muito mais coisas que, como mencionado anteriormente, seria difícil descrever neste relato. No entanto, a disposição das mesas, a quantidade de garçons e garçonetes, o atendimento e, sobretudo, a comida, realmente são qualidades fantásticas daquele exótico e extravagante restaurante onde durante o almoço, dependendo do prato solicitado, sem cerimônias nem perguntas, eles vestem no cliente um babador de papel gigante. Os talheres são grandes e a conta vem numa caixa de madeira enorme com caneta, lupa e lanterna, para não ter desculpas de não enxergar o valor da conta. É tudo muito animado e torna-se perceptível que as pessoas transformam-se, pois o local proporciona um clima realmente diferenciado, digno da fama e das recomendações... Minutos depois da abertura os clientes, quero dizer, os curiosos, tomam conta de todo o ambiente. Observei que durante toda a tarde continuam chegando mais e mais pessoas para conhecer aquele restaurante que foi uma das coisas mais interessantes que conheci nesta viagem. Atravessando uma pequena rua na parte de trás do Andrés Carne de Res há ainda uma extensão do restaurante, não tão excêntrica quanto o da frente, mas não menos exótica, onde são atendidas as crianças. Aproveitei o momento e sanei a vontade de degustar uma suculenta costela bovina, muito saborosa, de tamanho generoso e que veio acompanhada por molho vinagrete, um tomate recheado com uma massa estranha cujo sabor não identifiquei, queijo em cubos, batatas cozidas, fatias de uma massa parecida com pizza e uns tomatinhos amarelos. Retornei a Bogotá com a certeza de que o deslocamento foi compensado pela satisfação que tive com a experiência vivida. Cheguei às 16h e fui diretamente conhecer o Museu do Ouro da República da Colômbia, fundado em 1939 quando o Banco da República passou a proteger o patrimônio histórico e arqueológico colombiano. O museu possui uma das coleções de ourivesaria mais importantes do mundo. Um dos maiores destaques é a famosa Balsa Muisca – uma peça votiva, fundida em ouro de alta qualidade. Na sequência visitei La Casa de La Moneda (A Casa da Moeda) onde é possível ver em funcionamento uma antiga máquina de cortar moedas e o Museu Casa Botero. O Museu Casa Botero é interessantíssimo. Foi inaugurado no ano 2000 e trata-se de um museu de artes visuais que fica no coração do centro histórico e cultural de Bogotá – La Candelária. Seu surgimento se deu a partir de uma doação de obras de arte feitas pelo pintor e artista plástico colombiano Fernando Botero ao governo do seu país. Logo na entrada há uma escultura de uma mão que chega a estar desgastada de tão utilizada como ponto principal para registros de fotos pelos turistas que por lá passam. As artes de Botero estão distribuídas pela Colômbia e por outros países como a Costa Rica, por exemplo. Em Medellin, na própria Colômbia, há uma praça com dezenas dessas esculturas. Já no museu, com exceção daquela mão, os demais objetos são em tamanhos reduzidos. Os quadros sim, são diversos e todos se destacam por figuras rotundas e há de se perceber uma certa crítica social, sobretudo, no que diz respeito à gula do ser humano. Ao anoitecer fui numa lan house, gravei as fotos num pen-drive, li meus e-mails, depois jantei pizza e retornei ao hostel, pois nos finais de semana o bairro fica bem menos movimentado, fato este explicado pelos alunos das dezenas de faculdades que retornam para suas casas. Com isso, andar nas ruas, sozinho, depois das 22h, não é recomendado. No pequeno quarto, organizei a mochila e tentei descansar daquele dia atribulado, afinal, no dia seguinte, cedo, estaria embarcando no trem – o primeiro da viagem – para conhecer a Catedral de Sal. Naquele ambiente fiquei pensando que, embora o Panamá tenha me oferecido os melhores momentos da viagem, ser um país realmente interessante e dar uma boa estrutura ao turista, antecipar a viagem à Colômbia foi uma medida acertada, pois é reduto cultural extremamente rico e as opções turísticas são vastas. Na verdade, seriam necessárias umas três semanas para conhecer bem aquele país cujas cidades históricas como Cartagena de Índias – de estilo colonial, fundada em 1533, localizada no litoral do Caribe e cercada por muros nos séculos XVII e XVIII para protegê-la dos piratas do Caribe e denominada Patrimônio Mundial da UNESCO em 1984 ou a tão famosa Medellin – fundada em 1675 por colonos espanhóis, famosa pela amabilidade de seus habitantes e por sua beleza cultural são opções turísticas que não devem, ou pelo menos não deveriam, ser deixadas de lado quando se está na Colômbia. Foi naquele claustrofóbico quarto que passei a minha última noite em Bogotá de Santa Fé e a minha última noite em terra antes de retornar ao Brasil, pois a noite seguinte passei no ar, dentro de um avião, em direção a São Paulo para, na manhã seguinte, retornar a meu querido Estado; à minha querida cidade; à minha harmoniosa casa e à minha adorável cama... e, devido a maldita campainha, custei a dormir, mas não antes de pensar no dia seguinte e em como seria conhecer a tão comentada Catedral de Sal de Zipaquirá e, claro, na possibilidade de fazer uma viagem de trem que me gerou muita satisfação e agradáveis surpresas. 27-03-2011 (domingo) – Zipaquirá, Departamente de Cundinamarca, Colômbia Acordei às 06h30min, pus a mochila nas costas, comi uma arepa num café próximo à praça Bolívar e fui caminhando por uma outra parte da cidade até chegar no Ferrocarril de onde parte o trem para Zipaquirá. Cheguei em cima da hora, deixei a mochila na lanchonete da estação Gran Sabana (Grande Savana) e às 08h30min parti numa Maria Fumaça “idosa”, lenta e, como não poderia deixar de ser, fumacenta, no entanto “charmosa” e confortável, para conhecer a primeira maravilha da Colômbia, ou seja, a Catedral de Sal de Zipaquirá, último ponto turístico que conheci nesta viagem. A passagem do trem é um espetáculo à parte, esperado e apreciado por muitos bogotanos, que moram, ou não, próximo aos trilhos. São casais com seus filhos em jardins, idosos e idosas nas janelas dos apartamentos, casais enamorados e muitas crianças que, por vezes, chegam a parar o futebol para prestigiarem a locomotiva, acenando ou aplaudindo na tentativa de expressarem uma certa sensação – talvez gratidão ou orgulho – sentida e demonstrada através destes gestos. Considerando as paradas nas estações de Usaquén e La Caro, onde outros passageiros são apanhados e a locomotiva é abastecida com água e carvão, o percurso leva quatro horas e meia até chegar em Zipaquirá. Dentro do trem servem-se, entre outras curiosidades, o Tamal Bogotano – espécie de pamonha – um cozido em forma de massa com frango ou carne e acompanhamentos envolvidos em folha de plátano. Também há apresentação de mariachis, que fazem a festa dos turistas mais entusiasmados. Acomodado, em princípio, na última janela do último vagão, escolhido propositadamente, para poder registrar fotos de um ponto estratégico do trem, fui apreciando a linda paisagem da savana entre Bogotá e Zipaquirá. Durante este percurso fui registrando inúmeras fotografias e ouvindo músicas, entre elas, Encontros e Despedidas de Milton Nascimento, selecionada para a ocasião, cuja letra é a seguinte: Mande notícias do mundo de lá Diz quem fica Me dê um abraço venha me apertar Tô chegando Coisa que gosto é poder partir sem ter planos Melhor ainda é poder voltar quando quero Todos os dias é um vai-e-vem A vida se repete na estação Tem gente que chega pra ficar Tem gente que vai pra nunca mais Tem gente que vem e quer voltar Tem gente que vai querer ficar Tem gente que veio só olhar Tem gente a sorrir e a chorar E assim chegar e partir São só dois lados da mesma viagem O trem que chega É o mesmo trem da partida A hora do encontro é também despedida A plataforma dessa estação É a vida desse meu lugar É a vida desse meu lugar, é a vida A cidade de Zipaquirá foi vista apenas de relance, pois assim que o trem para na estação os passageiros são orientados e encaminhados a entrar nos microônibus que conduzem os turistas à Praça do Mineiro cujas atrações, além da Catedral de Sal, são o Museu do Sal, monumentos em homenagens aos mineiros, restaurantes, lojinhas e vendas de esmeraldas de valores variados e até paredões artificiais para escaladas. Acredito que esta Catedral de Sal seja sui generis (única em seu gênero). Trata-se de uma gigante igreja esculpida a cento e oitenta metros de profundidade numa mina de sal desativada e visitada por mais de 300 mil pessoas/ano onde são rezadas missas semanais e comporta, segundo informação que um guia prestava a um grupo de turistas, em torno de três mil pessoas. É dividida em três seções: via-crúcis, cúpula e naves. Percorri a via-crúcis – que trata-se de um verdadeiro labirinto com altares e imagens esculpidas nas rochas de sal daquela enorme mina e, sozinho, contemplei as demais seções da catedral. No final de alguns corredores há altares e imagens sacras. Estes corredores também levam à grande cúpula, onde localiza-se o que imagino ser o altar principal. Há ainda um outro grande e alto espaço cujo paredão de fundo, iluminado por diferentes tonalidades de luzes, é quase todo encoberto de sal parecendo uma grande cachoeira congelada, semelhante às que, no inverno, estamos acostumados a ver em São Joaquim, Urupema, Urubuci e em outras cidades da nossa linda serra catarinense. Após ter terminado de visitar a Catedral, percorrer todos os seus corredores, comprar souvenires e registrar muitas fotos retornei à Praça do Mineiro para apreciar o local, escalar o paredão artificial, contemplar a cidade de Zipaquirá a partir do mirante e fotografar os monumentos lá expostos, como a escultura gigante de um mineiro e uma grande caçamba antes utilizada no transporte do sal e que hoje serve como “cartão postal”, exibindo a frase “Catedral de Sal de Zipaquirá Primeira Maravilha da Colômbia”. Em seguida retornei ao microônibus e parti em direção a Cajicá, para almoçar num restaurante típico colombiano. É nesta cidade que se toma o trem de retorno a Bogotá. Enquanto aguardava a partida fiquei imaginando que ainda naquela noite, super animado, embarcaria de volta ao Brasil. O retorno, a bordo daquele trem, é tão especial quanto a ida. As pessoas fazem da sua passagem um programa de família e chegam a pôr cadeiras de praia para apreciar a elegante travessia do que mais parece um desfile da maior personalidade da Colômbia. Cheguei de volta na estação La Sabana às 17h45min e tomei o maior susto, pois a lanchonete estava fechada e não consegui pegar a minha mochila com facilidade. Os donos da lanchonete tinham saído e o guarda não sabia nada a respeito. Para minha sorte um outro guarda me avisou que ainda tinha alguém no interior da lanchonete e que eu deveria insistir. Isto feito fui atendido por uma empregada que me repassou a mochila sem maiores problemas. Como ainda me restava tempo o bastante para chegar no aeroporto, resolvi caminhar um pouco mais por outro ponto do bairro La Candelária para conhecer um pouco mais daquele que foi uma surpresa agradável, principalmente no que tange a cultura propriamente dita. 27-03-2011 (domingo) – Bogotá, Colômbia Com tempo suficiente para chegar ao aeroporto, tomei um Transmilênio até a calle (rua) 26 e, de lá, uma buseta para o Aeroporto internacional El Dorado aonde cheguei tranquilo e com as três horas de antecedência necessárias para vôos internacionais. Com tempo disponível, liguei mais uma vez para casa e, com grande satisfação, pude mencionar as palavras “estou embarcando daqui a pouco e amanhã cedo estarei em casa”. Depois de dezessete dias viajando solitariamente, estas palavras soaram como um alento para a noite que ainda teria que enfrentar dentro do avião antes de poder rever as pessoas que mais amo. Cheguei à conclusão de que a Colômbia, que já foi um país bastante difamado por causa do narcotráfico, hoje é bastante tranquilo e bem policiado, livre, inclusive, dos Cartéis de Cali e Medellin. Seu povo é hospitaleiro e há muitas coisas boas a serem exploradas... Um quarto de dia me separava do Brasil e, ao contrário da partida, quando segui viagem com destino a um mundo abstrato e incógnito, estimulado pela família e por queridos amigos como a Nayra e Telmo que trabalham comigo há vinte e três anos, estava retornando ao meu mundo, à minha realidade. À realidade de um país com tantas distorções, com tantas diferenças e indiferenças, e outras tantas pejorações, mas, acima de tudo, um país etnicamente diversificado, de gente trabalhadora e alegre, de natureza exuberante, de multiculturas, arquitetura e história invejáveis. A noite no avião foi razoável, mas só consegui dormir um pouco lá pelas 3h da madrugada e ainda assim graças a um trio de acentos vazios que ocupei logo após o fechamento das portas, na esperança de transformá-los em cama para amenizar as dificuldades que certamente sentiria na viagem. Então, desconfortavelmente “deitado sobre as nuvens”, cruzei a América do Sul de Leste a Oeste, ou seja, de Bogotá a São Paulo naquelas três poltronas que, por certo, não foram desenhadas praquele fim. 28-03-2011 (segunda) – Brasil Cheguei a São Paulo de madrugada e a ansiedade de embarcar logo, num vôo doméstico, com destino a Florianópolis era grande. Então, naquele momento, poucas horas me separavam de Santa Catarina, um estado onde se vive intensamente as quatro e bem definidas estações do ano. Onde se pode aproveitar tudo que a natureza oferece. Um lugar que mantém viva as suas raízes e tradições herdadas das mais diversas etnias que aqui se instalaram. Mas, ainda antes de embarcar, pude registrar algumas fotos de alguns jogadores da seleção brasileira de futebol, com destaque para Neymar, Elano e Victor (goleiro), bem como de Ronaldinho (fenômeno) que estavam retornando de um amistoso na Irlanda do Norte. Cheguei em Florianópolis às 13h e fui recepcionado por minha esposa e minha filha, pois meu filho estava em prova. No percurso até a nossa casa, desta vez sem contratempos com o carro, lhes contei partes das aventuras vividas enquanto mostrava as lembranças que trouxe de cada um dos países. Depois, minha menina foi para o colégio e minha esposa para seu trabalho. Um pouco mais tarde repeti tudo a meu filho que vislumbrou as moedas e notas que lhe trouxe. Descansei e só à noite fomos a uma pizzaria comemorar meu retorno onde pude, com muito mais calma, narrar toda a viagem aos três que mais prestaram atenção nas histórias que comeram pizza. Planejar e realizar esta viagem foi a concretização de um desejo há muito tempo guardado. Conhecer a, ou parte da, América Central e mais alguns países da América do Sul foi uma aventura extremamente positiva e rica em todos os sentidos. Cada momento vivido, cada uma das coisas vistas, cada diferente comida degustada, cada bebida experimentada são provas de que não devemos nunca nos acomodar. Devemos sempre aventurar, seja no Brasil ou fora dele, para conhecer novos idiomas, novas culturas, ver diferentes arquiteturas, perceber diferentes costumes, enfim, experimentar e viver de tudo um pouco, pois assim, valorizaremos ainda mais o que é nosso. Creio que agora poderei sossegar um pouco até voltar a planejar e conhecer, com a família, a Argentina, Paraguai e Uruguai para depois, somente depois, voltar a pôr novamente a mochila nas costas e conhecer Quito e as Ilhas Galápagos no Equador, viagem que pretendo ir com meu filho e assim, com exceção da Guiana, Suriname e Guiana Francesa (três pequenos países ao extremo norte da América do Sul) conhecer grande parte América do Sul e, quem sabe, outros países da América Central antes de conhecer a África. Parafraseando o Rei – Roberto Carlos, “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”, pois os erros e acertos desta empolgante aventura valeram de experiência e de exemplo para que eu quebrasse alguns paradigmas e mais do que nunca valorizasse tudo que conquistei e preservo, sobretudo, a família e a saúde. Uma coisa é certa, além de provar novos sabores, descobrir novos lugares e sentir diferentes emoções, provei, descobri e senti algo a mais. Encontrei, portanto, o que buscava e não sabia ao certo quando parti. Provei o gosto amargo da saudade. Descobri na distância a aproximação. Que na solidão a companhia (ainda que distante) é fundamental. E que na ausência a onipresença é o que mais importa. Enfim, senti e tive a certeza de que o regresso ao seio familiar está acima de tudo. Que retornar é melhor que partir. Valeu! Ronei Amandio [email protected] Fontes de pesquisa de datas e fatos esquecidos ou não anotados durante a viagem: http://www.colombia.travel/po/ http://www.wikipedia.org/ http://www.apolo11.com FOTOS DA VENEZUELA Vista de Caracas a partir dos bondinhos que atendem as favelas da cidade, Venezuela Praça Simon Bolivar no centro de Caracas Panteon Nacional - onde estão os restos de Simon Bolivar - Caracas, Venezuela Alimentando esquilos na praça simon Bolivar em Caracas, Venezuela Sede do governo - Caracas, Venezuela De Caracas para Tucacas (Caribe), Venezuela Em Tucacas indo à Praia Ponta Brava (Caribe), Venezuela Praia Ponta Brava no Parque Nacional Morrocoy em Tucacas, Venezuela Em Cayo Sombrero - Parque Nac. Morrocoy, Tucacas, Venezuela Cayo Sombrero - Parque Nac. Morrocoy em Tucacas, Venezuela FOTOS DA NICARÁGUA Vulcão ativo próximo de Manágua, Nicarágua Nova Catedral de Manágua (considerada a mais moderna do mundo), Nicarágua Nova Catedral de Manágua (considerada a mais moderna do mundo), Nicarágua Antiga Catedral de Manágua, Nicarágua Vista do Centro Histórico de Manágua, Nicarágua Museo Augusto Cesar Sandino no Parque Nac. e Histórico Loma de Tiscapa - Manágua, Nicarágua Tomando uma Toña (principal cerveja da Nicarágua) às margens do Logo de Manágua - Manágua, Nicarágua Monumento Concha Acústica - Manágua, Nicarágua Entrada do Parque Nac. Vulcão Masaya - Masaya, Nicarágua Sentado na cratera do Vulcão Masaya - Masaya, Nicarágua Indo de expresso emergente para Granada Linda Catedral de Granada - Granada, Nicarágua Travessia de Rivas para Ilha Ometepe pelo Lago Nicarágua - Nicarágua Vista do Vulcão (ativo) madera e da cidadezinha Mayogalpa (Ilha Ometepe) Indo da Nicarágua para Costa Rica FOTOS DA COSTA RICA Teatro Nacional - San José, Costa Rica Museu Nacional - San José, Costa Rica Parque Morazan - San José, Costa Rica Cratera vulcão Poas (maior cratera do mundo) - Alajuela, Costa Rica Praia Manuel Antonio - Manuel Antonio, Costa Rica Golfinhos em manuel Antonio - Costa Rica Praia Manuel Antonio - Manuel Antonio, Costa Rica FOTOS DO PANAMÁ Fronteira Costa Rica x Panamá (Peñas Blancas) Em Almirante, indo pro Caribe (Bocas Del Toro, Panamá) Praticando snorkel enquanto aguardava o almoço no Mar do Caribe - Bocas Del Toro, Panamá Bocas Del Toro, Panamá Em Bocas Del Toro, Panamá Bicho preguiça descendo cipós na ilha Bastimentos - Bocas Del Toro, Panamá Praia Red Frog (rã vermelha) em Bastimentos - Bocas Del Toro, Panamá Mínusculas ranas (rãs) vermelhas em Bastimentos - Bocas Del Toro, Panamá Canal do Panamá - Panamá City, Panamá Canal do Panamá - Panamá City, Panamá Passeando pela Cinta Costeira entre Casco Viejo e Centro Adm. - Panamá City, Panamá Praça de Francia - Casco Viejo, Panamá City, Panamá ] Vendedor de groselha - Casco Viejo, Panamá City, Panamá Panamá City, Panamá Panamá City, Panamá Macaco Carlitos em Porto Belo, Panamá Molas (trabalhos artesanais das indias Kunas Yalas de San Blas) - Porto Belo, Panamá Fortaleza em Porto Belo, Panamá FOTOS COLÔMBIA Uma rua qualquer no bairro La Candelaria - Bogotá, Colômbia Praça Bolivar - La Candelaria, Bogotá, Colômbia Entorno da Praça Bolivar - La Candelaria, Bogotá, Colômbia Cerro Montserrat - La Candelaria, Bogotá, Colômbia Vista parcial de Bogotá (bairro La Candelaria), Colômbia Cerro Monserrat - La Candelaria, Bogotá, Colômbia
  7. Ronei Amandio

    Brasília - Hospedagem (Hotéis - Pousadas - Albergues e Campings)

    AS POUSADAS DA W3 SUL FORAM, REALMENTE, INTERDITADAS PELO GOVERNO DO DF, MAS UMAS POUCAS AINDA OPERAM NA CLANDESTINIDADE, OU SEJA, SEM FACHADA, NOTA FICAL, CARTÕES DE VISITAS, ETC. A POUSADA VILA ZEM (61 3443.6527) É BEM LOCALIZADA, MUITO LIMPA E CONFORTÁVEL (CAMA E COLCHÕES BONS, TV, FRIGOBAR, BANHEIRO PRIVATIVO, ETC). O ÚNICO DEFEITO É QUE FICA NUMA ESQUINA COM MUITO RUÍDO DE CARROS... FICA A UNS 10 MINUTOS (ÔNIBUS) DA ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS E MUITO PRÓXIMO DO SHOPPING PÁTIO BRASIL. SEGUNDO MEU IRMÃO ELES COBRAM R$ 100,00 A DIÁRIA MAS CHORADINHO FAZEM POR R$ 70,00 - TB HÁ A OPÇÃO DE BANHEIRO COLETIVO QUE SAÍ MAIS EM CONTA. COMO CHEGAR: NO AEROPORTO TOMAR O ZEBRINHA (MICROÔNIBUS Nº 30) PEDIR PARA SALTAR NA W3 SUL, QUADRA 705, BLOCO A, CASA 3 - QUE FICA DE FRONTE AO SESC ESTAÇÃO 504. ATRÁS DO SESC HÁ UM SUPERMERCADO PÃO DE ÁÇUCAR QUE FICA NA RUA DA MODA COM MUITAS LOJAS E PELO MENOS UNS TRÊS BARES BACANAS COMO O LAPA, POR EXEMPLO, QUE SERVE UMAS EMPADAS DE 1ª QUALIDADE (CAMARÃO, FRANGO OU CARNE). NA QUADRA AO LADO (DE FRONTE AO BANCO DO BRASIL E ITAÚ) HÁ UMA OUTRA POUSADA QUE MEU IRMÃO NÃO SOUBE INFORMAR O NOME MAS É CONHECIDA POR TER UMA BANDEIRA DO BRASIL PINTADA NA PORTA...
  8. Amigos ATENÇÃO! As 4x4 que levam os turistas para San Blas não saem mais da praça 5 de maio e sim da oficina que fica na Calle 33 - calidonia diagonal com igreja Dom Bosco, cujo telefone é 2254900 ou 2252387. Também não estão transportando estrangeiros pois a estrada esta em obras... pelo menos até final de março que foi quando tentei ir a San Blas. Um abraço a todos. Ronei Amandio
  9. Ronei Amandio

    San Blas - Perguntas e Respostas

    Amigos ATENÇÃO! As 4x4 que levam os turistas para San Blas não saem mais da praça 5 de maio e sim da oficina que fica na Calle 33 - calidonia diagonal com igreja Dom Bosco, cujo telefone é 2254900 ou 2252387. Também não estão transportando estrangeiros pois a estrada esta em obras... pelo menos até final de março que foi quando tentei ir a San Blas. Um abraço a todos. Ronei Amandio
  10. Ronei Amandio

    relato América Central e México - 30 dias

    Fala Paulera e demais mochileiros, Belo relato! Me servirá muito na viagem que farei em março de 2011 para Venezuela, NICARÁGUA, COSTA RICA, PANAMÁ, Quito e Colômbia. Aqui mesmo no mochileiro postei também um relato (apaixonado) da viagem que fiz pelo Peru, Bolívia e Norte do Chile (Arica) - é só procurar por: Por Aí uma aventura solitária... Valeu e até a próxima.
  11. Bacana galera. Obrigado pelas palavras de todos. Valeu.
  12. Márcio show de bola a sua aventura... Gostei muito das fotos com os animais... Aquele abraço e sorte. Visite o meu relato: "Por aí... Uma aventura solitária pela Bolívia, Peru e Norte do Chile; tem muitas fotos bacanas. Att. Ronei Amandio
  13. "Amigos, eu nem acredito! Este relato foi transformado num livro que foi lançado dia 01-08-2011 na Assembléia Legislativa de Santa Catarina pela Diretoria Oficial de Imprensa do Estado através da Lei 15.019 "Cem Cópias Sem Custos". Muito legal né? Valeu, um abraço a todos e boa leitura... se desejarem um exemplar do livro é só me escrever [email protected] Curta um relato de uma viagem por parte de três países da América do Sul. A aventura, no estilo mochileiro, é realizada de forma solitária e experimenta-se muitas emoções... O relato convida você a pôr uma mochila imaginária nas costas e aventurar-se, comigo, pelo Peru, Bolívia e Norte do Chile... Ronei B. Amandio POR AÍ... Uma aventura solitária À minha esposa Janaina e aos meus filhos Dylan Thomas e Ana Paula. Agradecimentos Agradeço a DIOESC em especial ao Cidnei R. Soares pela correção, ao Paulo Silveira pela diagramação e arte e a Milene Dias Luz pelo atendimento dispensado. Agradeço meu amigo Telmo Siqueira que, desde o início, e por conta de sua experiência, me orientou sobre importantes detalhes a serem observados antes, durante e depois da viagem. Agradeço também à minha amiga Silvana Barbosa Granato, que colaborou com a revisão ortográfica deste relato. Aos meus sobrinhos Marcos e Gleyce, que se fizeram presentes durante toda a minha ausência. E, em especial, à minha esposa Janaina Telles, que foi a primeira a me apoiar e a “carimbar” meu passaporte. Afinal, sem o respeito, confiança e, principalmente, o aval daquela que me apoia sempre, a viagem não teria o mesmo valor. Homenagem Semente de tudo: Minha Mãe – Maria F. Amandio, exemplo e orgulho de perseverança, dedicação e carinho. Base de tudo: Meu Pai – Bertholino E. Amandio, exemplo e orgulho de honestidade, trabalho e humildade. (In memoriam) “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser... é preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo.” Amyr Klink, (Mar Sem Fim) Prefácio Inicialmente planejei a minha primeira viagem internacional para conhecer a Venezuela (considerada a Veneza sul-americana) e, de lá, ir de ônibus ou trem até a Colômbia, Panamá e Costa Rica, e assim conhecer, entre tantas outras coisas, o mar do Caribe e o oceano Pacífico. Como a companhia aérea da qual possuo os pontos do Programa de Fidelidade não faz os destinos Costa Rica, Panamá e Colômbia, eu teria de retornar à Venezuela que, além de ser mais dispendioso, o tempo ficaria comprometido. Com esse empecilho resolvi alterar o destino da viagem para o Peru, o que não me desagradou em nada, pois conhecer Machu Picchu também era um sonho há muito acalentado. A programação inicial era ir a Lima e, de lá, de ônibus ou trem, a Machu Picchu, conhecendo algumas cidades do trajeto e voltando a Lima para apanhar o avião de retorno a Florianópolis. Após muitas pesquisas na Internet, que me despertaram interesse em conhecer outros lugares além de Lima e Machu Picchu, e aproveitando a oportunidade, resolvi alterar o roteiro e a data da viagem. Enfim, conciliei o novo roteiro, agora mais extenso, às minhas férias que, na ocasião, também foram adiadas para março de 2010, na expectativa de conseguir conhecer Machu Picchu, que se encontrava fechado devido às chuvas que assolaram Cuzco e Aguas Calientes, cidades-base para ingresso à mais famosa e intrigante cidade/ruína inca de que se tem notícias. Com isso, o itinerário escolhido foi Lima, Cuzco, Machu Picchu e Puno no Peru, Arica no Chile e La Paz na Bolívia, de forma que a partida se deu no dia 17-03-2010, para Lima, e o retorno, de La Paz, no dia 29-03-2010. Aprofundando-me nas pesquisas sobre os pontos turísticos de cada um dos novos destinos escolhidos, dei início, por ora virtualmente, àquela que se tornou uma das maiores aventuras já realizadas na minha vida. Providenciei uma nova carteira de identidade, tomei vacina contra a febre amarela (obrigatória) e tirei meu primeiro passaporte. A intenção do relato sobre esta viagem é tentar descrever os principais acontecimentos desta aventura que, repito, sozinho realizei com o propósito de conhecer o máximo possível dos locais escolhidos, durante o pouco tempo que dispunha. De forma alguma se trata de um “diagnóstico” das cidades ou países visitados, mesmo porque não era esta a intenção e nem poderia ser em face da vasta cultura daqueles povos, da extensão territorial daqueles países e, sobretudo, da brevidade com que se deu a permanência nas cidades percorridas... Apresentação Há mais de vinte anos eu conheço e trabalho com o Ronei. Ao longo desses anos tive a oportunidade de realizar muitas viagens profissionais com ele, que sempre me surpreendeu com a criatividade de torná-las mais agradáveis, pois, sem negligenciar o trabalho, ou seja, nos momentos em que estávamos de folga, sempre descobria algum lugar pitoresco ou um ponto turístico para conhecer pelas muitas cidades pelas quais passamos. Posso afirmar que o meu amigo Ronei, com toda certeza, me fez despertar o gosto pelas viagens. Agora ele me presenteia com a honra de fazer a apresentação deste livro em que relata as suas aventuras, ainda que com uma certa dose de luxo, num verdadeiro estilo mochileiro que, a meu ver, é o verdadeiro retrato de um aventureiro. Descreve de forma muito agradável os seus passos desde a partida de Florianópolis, passando por cidades do Peru, Chile e Bolívia, até seu retorno a Florianópolis. Com cuidado descreveu não apenas o que vivenciou, mas também as peculiaridades de cada local. Com habilidade para fazer amizades, podemos notar em seu livro que ele não se restringiu apenas a conhecer as localidades, mas interagiu com o povo, podendo, desta forma, conhecer, de verdade, a realidade de cada local que visitou. Finalmente, me resta dizer a todos que tiverem a oportunidade de ler este livro que o façam com a mente aberta, pois, com certeza, estarão viajando juntos nesta gostosa aventura. Telmo Siqueira Florianópolis, Brasil (quarta-feira, 17-03-2010) Chegado o dia da viagem, a expectativa era grande e todos sentiam uma certa angústia. Afinal, este dia vinha sendo programado e esperado por todos da família há bastante tempo. Então, com o roteiro preestabelecido e a mochila pronta, minha esposa (que me apoiava, mas insistia em afirmar que era loucura ir sozinho) e minha amada filha Ana Paula acompanharam-me ao Aeroporto Hercílio Luz, onde ficamos conversando por algum tempo enquanto a ansiedade me castigava até a hora do embarque. Meu filho não pôde nos acompanhar. Bem que eu gostaria de levar toda a família, mas com o início das aulas das crianças e com a esposa trabalhando, não foi possível. Convidei alguns amigos, que também não puderam me acompanhar. Então o jeito foi ir só. Assim sendo, com o apoio incondicional de minha esposa e com a determinação de um desbravador, parti, sozinho mais Deus e uma mochila nas costas, para conhecer outros mares, outros povos, outras culturas... A primeira parada foi no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, onde jantei pela última vez, antes desta viagem, em solo brasileiro. O pequeno e rápido percurso se deu numa noite estrelada, onde a Lua clareava o mar de Florianópolis como um holofote gigante apontando para a bela capital catarinense, tornando-a ainda mais charmosa e atraente. Da pequena janela do avião me peguei pensando se encontraria num dos três países que estava prestes a conhecer lugares tão lindos e maravilhosos quanto este já cantado por tantos poetas. São Paulo, Brasil (quarta-feira, 17-03-2010) Como parti de Florianópolis com conexões em Porto Alegre e São Paulo, tive de pernoitar em Guarulhos/SP, pois lá cheguei por volta da 01h da madrugada e o voo para Lima, Peru, só partiria às 8h da manhã. Como meu objetivo, como um bom mochileiro, era economizar o máximo possível, a intenção era dormir no aeroporto de São Paulo, porém a claridade, o barulho, o desconforto e, principalmente, a preocupação me levaram a tomar uma das vans que ficam de plantão na saída do aeroporto e ir descansar num hotel próximo. Essa decisão certamente contribuiu para que eu chegasse a Lima mais descansado, embora “dormir” das 2h30 às 6h não foi tão relaxante assim. Após um simples café da manhã, parti mais cedo para o aeroporto com o intuito de comprar uma nova máquina fotográfica, pois a que levava e que fora comprada recentemente apresentou defeitos quando registrava algumas fotos da despedida no aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis. No aeroporto de São Paulo me dirigi a uma loja onde me certifiquei de que a câmera realmente estava com defeito e realizei a compra de uma outra. Essa foi uma decisão essencial, pois sem ela não poderia registrar as mais de 1.000 fotos dos belos e exóticos lugares que percorri nessa inesquecível viagem. Lima, Peru (quinta-feira, 18-03-2010) Às 08h30 São Paulo e o Brasil ficavam para trás e diante de mim um mundo abstrato estava por ser descoberto. Cheguei a Callao, Peru, às 12h, tendo a impressão de ter voado apenas três horas e meia, mas como o fuso horário entre as duas cidades é de duas horas, o voo, na verdade, durou quase seis horas. Com um belo dia de sol parti em direção a Lima e, percorrendo alguns bairros, cheguei ao Centro Histórico, vislumbrando a arquitetura hispânica da cidade que, fundada em janeiro de 1535, foi declarada a Cidade dos Reis por seu fundador, o conquistador espanhol Francisco Pizarro. Conhecer apenas essa pequena parte de Lima, reconheço, foi pouco, mas o suficiente para sentir o agradável clima daquela linda região. É impressionante ver lindos bairros instalados a uns 100 metros sobre o nível do mar (m.s.n.m.). Outro fato interessante é a quantidade de museus. Lima tem mais de sessenta! Antes mesmo de procurar um hotel, que encontrei facilmente próximo à Plaza Mayor (Praça Mayor), também conhecida como Plaza de Armas (Praça de Amas), localizada no “coração” de Lima, registrei várias fotos daquela praça que foi cenário da colonização espanhola de Lima e serviu como palco de algumas das mais importantes conquistas da História do Peru. Foi também usada como praça de touradas e como lugar de execução de condenados. Nesse local foi proclamada, em 1821, a Independência do Peru. Ao redor da praça ficam o Palácio do Governo, a Catedral e a Prefeitura com suas sacadas em madeiras nobres, que também ornamentam muitos outros prédios e casas das cidades peruanas. Após a hospedagem, num hotel simples, porém “simpático”, saí para fazer o reconhecimento das imediações passeando pela praça e arredores. Nessa região há um variado comércio e uma grande quantidade de restaurantes. Afinal, no Peru, há uma significativa reserva de recursos naturais, como inúmeros frutos do mar do oceano Pacífico, vegetais dos Andes e ervas e peixes da selva amazônica. Almocei um curioso e gostoso prato denominado cebiche, aportuguesado com o nome de ceviche – símbolo da culinária limense. Ceviche é um prato típico peruano baseado em peixe cru marinado em limão, acrescido de sal, alho, cebola roxa e pimenta, muito apreciado em todo território daquele lindo país. Lula e polvo também são usados como alternativas. Dizem que os melhores são servidos num bairro próximo chamado Miraflores, mas a fome era tão grande que experimentei a primeira comida exótica da viagem ali mesmo. Nessa tarde fui conhecer a Costa Verde – balneário que agrupa muitas praias. O curioso é que, em algumas delas, as pedras cinza, pequenas e roliças substituem a areia, tão comum em nossas praias. A diferente e estranha sensação de andar descalço sobre aquelas pedrinhas me fez pensar em minha família e, em especial, em meu filho Dylan. Não sei exatamente o porquê, mas ele gosta de transformar pedras em lembranças, ao ponto de, numa ocasião, levar para casa uma das pedras da calçada de Copacabana no Rio de Janeiro. Naquele momento recolhi a primeira lembrança da minha viagem, algumas pedrinhas roliças e escuras que guardei com carinho no bolso da bermuda para levar a ele. É, de fato, uma sensação totalmente diferente, e ali se percebe que, definitivamente, não se está em “casa”, ou seja, no Brasil. O restaurante Rosa Náutica é uma atração à parte. Ele se estende sobre o mar por uns 150 metros aproximadamente, numa harmonia perfeita, contribuindo ainda mais para a beleza do lugar. Resolvi conhecê-lo e percebi que sua arquitetura suave não condiz com os preços salgados de seu cardápio. De qualquer forma, lá estava eu numa linda e ensolarada jueves (quinta-feira) à tarde, tomando uma deliciosa cervejinha peruana, à “bagatela” de R$ 10,00 cada long neck (365 ml). Tomei duas e, claro, pedi a conta. Este lindo restaurante abre aos domingos, lunes, martes, miércoles, jueves, viernes e sábados (domingos, segundas, terças, quartas, quintas, sextas e sábados) e serve, entre outros pratos, uma especialidade diferente por dia. Com um dos meus objetivos realizados – conhecer Lima e algumas praias do oceano Pacífico –, iniciei uma agradável e longa caminhada por grande parte da orla da Costa Verde, que abrange os bairros de Miraflores, San Isidro, Barranco e Chorrillos. Para observar o mais belo pôr do sol de que me recordo me acomodei estrategicamente na varanda de um dos restaurantes do lindo Shopping Larco Mar e ali permaneci até jantar uma deliciosa Paella Marinha do Pacífico. O Larco Mar é um shopping a céu aberto aonde centenas de pessoas vão para, entre outras coisas, prestigiar e registrar o magnífico pôr do sol. Depois disso, retornei à Praça Mayor para registrar algumas fotos noturnas. De volta ao hotel, enquanto experimentava o Pisco Azedo – bebida tradicional do Peru, que consiste de conhaque de uva, limão, clara de ovo e uma pitada de canela, conversei com o atendente/dono sobre minha intenção de conhecer as islas Palominos (ilhas Palominos). Depois de ligar para algumas agências de turismo, ele me informou que não haveria passeio às ilhas. Desgostoso com a informação, mas satisfeito pelo que vira no primeiro dia em Lima e bastante cansado, relaxei e recuperei forças tomando um bom banho numa pequena e antiga banheira que tinha no velho apartamento do hotel, sem imaginar que no dia seguinte teria uma agradável surpresa. Lima, Peru (sexta-feira, 19-03-2010) Durante o desayuno (café da manhã) me lamentei com um outro atendente sobre a falta de sorte por não poder conhecer as ilhas Palominos. Fui dar uma volta enquanto ele tentava saber se haveria algum modo de me ajudar. Depois de andar muito pelo centro e imediações de Lima, perto do meio-dia retornei ao hotel, quando o rapaz me disse que se eu chegasse a Callao (local de partida) em uma hora, eu conseguiria conhecer as ilhas... Começou ali uma frenética corrida contra o tempo. Subi para trocar de roupa; pôr uma bermuda e pegar uma toalha. Enquanto isso, ele fez contato com um taxista, que já estava me aguardando na porta do hotel quando desci, e apressados partimos em meio ao agitado trânsito de Lima. Chegando ao local, que fica numa praça que não me recordo o nome, ao lado do porto de Callao, me frustrei quando um rapaz disse que já tinham partido. Nesse momento ouvi o taxista que me levara me chamar e apontar para o outro lado da praça, onde havia uma pequena banca improvisada. Ao me aproximar, uma mocinha falou: Señor Ronei (Senhor Ronei) Sí. (sim) Estamos esperando por ti. A sensação foi de alívio e de expectativa, pois, enfim, eu conheceria as tão famosas ilhas. O passeio inicia-se numa simples embarcação e depois se segue numa linda lancha, onde são servidos salgadinhos (tipo Elma Chips) e Pisco Sour, uma espécie de caipirinha que consiste de limão, açúcar, gelo e pisco (aguardente feita de uva), objeto de embate internacional entre Peru e Chile, que requerem a patente da bebida. Estas duas pequenas ilhas têm cheiro desagradável e barulho assustador, pois são habitadas por muitas espécies de aves, mas os leões marinhos e as focas dominam o ambiente. Mergulhar livremente junto a esses mamíferos traz uma indescritível sensação. São milhares deles descansando numa ilha sem vegetação alguma e mergulhando em seu entorno como se estivessem dando as boas-vindas às embarcações que de lá se aproximam. Esses animais são muito dóceis, curiosos e engraçados, pois fazem malabarismos na água para chamar a atenção dos turistas, que se deslumbram com tal experiência. O local é fora do comum devido à sua magnífica beleza natural. A partir de Callao, leva-se aproximadamente uma hora e meia para chegar às ilhas Palominos, e durante o trajeto o guia vai explicando todos os interessantes acontecimentos que ocorreram próximos ao local. Passa-se pela maior ilha do Peru, com aproximadamente oito quilômetros por quatro quilômetros de extensão onde, por tradição, o Presidente e oficiais das Forças Armadas do Peru confraternizam-se em datas festivas e, principalmente, nos réveillons. Há até cassino na ilha! Passa-se ainda por uma ilha que abrigou a ex-prisão El Frontón, na qual estavam encarcerados mais de 300 prisioneiros de guerra e membros do Partido Comunista peruano (Sendero Luminoso), cujo extermínio, planejado e executado pelo então presidente Alan García, em julho de 1986, foi considerado o fato mais sangrento da história carcerária do país. No trajeto há uma forte agitação no mar que, segundo o guia, trata-se de uma cidade, hoje submersa, cuja população foi praticamente extinta, pois houve poucos sobreviventes do que teria sido um “tsunami”. No retorno, pensei no porquê de o dono do hotel haver-me informado que não haveria passeios às ilhas e lembrei que ele disse que gostava do Brasil, mas achava que o país virou as costas para a América do Sul. Senti um certo desprazer em suas palavras que tinham certo fundamento, o que me levou a imaginar que seria este o motivo da sua indisposição. Ainda nesse dia, após visitar as ilhas Palominos, retornei à Costa Verde para filmar e registrar o estrondoso e impressionante barulho que a maré faz nas pedrinhas quando do repuxo das ondas, dando a impressão de se estar próximo a uma queima de fogos de artifício. No percurso andei pelos bairros de Miraflores e Barranco, extremamente elegantes e bonitos, muito diferentes dos bairros de Callao, nos quais é necessário fechar os vidros dos carros para não se ser assaltado, conforme orientam os taxistas. Fui então conhecer a praia de Chorrillos, onde conheci dois senhores aposentados da Marinha e da Aeronáutica peruanas, que me convidaram a sentar com eles. Ali permaneci até o final da tarde, conversando, comendo peixe-rei, tomando cerveja e ouvindo músicas peruanas que um trio, convidado pelos senhores, tocou durante um bom tempo. Esses dois aposentados eram profundos conhecedores da história contemporânea do Peru e fizeram questão de contar-me detalhadamente. Depois de curtir aquele belo local, com uma vista deslumbrante dos bairros que ficam, repito, a uns 100 metros acima do nível do mar, comentei aos dois cavalheiros que pretendia conhecer o Mosteiro de São Francisco. Um deles divergiu sobre a relevância cultural e turística do tal mosteiro e convidou-me para conhecer o clube do qual era presidente, dizendo que o tal clube era muito mais interessante do que o mosteiro. Com habilidade recusei o convite e, antes de me despedir, ouvi seus conselhos quanto à minha segurança, alegando que eu era diferente do povo local e que poderia despertar a atenção de pessoas mal-intencionadas, o que poderia ser perigoso, pois andar sozinho por lá não era recomendado. Tomei uma mototáxi que leva os passageiros apenas da parte baixa para a parte alta dos bairros e vice-versa, pois são proibidas de trafegar no centro de Lima. Então, no alto da cidade e antes de me dirigir de volta ao centro de Lima, precisei ir a um banheiro. Me “viro” razoavelmente bem com o castelhano, mas fugi da aula que ensinava a pedir para usar um banheiro, pois ao entrar num boteco com o intuito de me aliviar, pedi licença a dois rapazes que estavam atrás do balcão: Puedo usar el banheiro? (Posso usar o banheiro?) Perdón! (Perdão!) – disse um deles. Puedo usar el banheiro? Banheiro? – disse o outro. Não me aguentando mais tive de gesticular, pagar um “mico” e, quase gritando com os desentendidos, disse: Banheiro, amigo, banheiro – URINAR, URINAR! Ah! Sí, sí, servicios higiénicos. Aliviado e satisfeito por saber que não passaria mais aquele ridículo, tomei um táxi e voltei ao centro de Lima. As corridas de táxis nesta parte da cidade são extremamente baratas, pois funcionam de forma coletiva, entrando e saindo passageiros o tempo todo, como transporte coletivo, pagando-se uns 4 Nuevos Soles (S./), mais ou menos R$ 2,50, para percorrer uma média de 10 quilômetros. Cheguei ao mosteiro que já estava cerrado (fechado), de forma que não o conheci internamente e, portanto, não pude prestigiar um dos ambientes mais visitados do museu – os túmulos que serviram de cemitério público e ficam em corredores escavados, silenciosos e sombrios. Dizem que é um ambiente mórbido, mas curioso. Só me restava então passear pelas imediações da Praça Mayor, jantar e depois descansar, afinal, o dia foi intenso e na manhã seguinte partiria para Cuzco, na esperança de conhecer Machu Picchu. No entanto estava acontecendo uma feira artesanal com apresentações folclóricas (indígenas e mexicanas (?)) no Largo do rio Rumac, próximo ao hotel, de forma que aproveitei para assistir a algumas delas e comprar umas lembrancinhas. Jantei numa pizzaria onde as pizzas são servidas em fatias únicas e come-se dividindo o mesmo balcão, como nas lanchonetes no Brasil. Também não havia talher e só serviam café e Inca Kola – tipo de refrigerante amarelo com gosto parecido com refrigerante de tutti-frutti, formulado com Lúcia-lima – uma espécie de planta sedativa e digestiva, utilizada para fazer chá. Nessa noite liguei para casa para falar com minha amada esposa e filhos, mas esqueci que o fuso horário é de menos duas horas, quando comparado ao Brasil, de forma que em Lima eram 22h30, resultando num belo susto às 00h30. Depois disso voltei ao hotel e fiquei conversando com uns turistas australianos, que falavam português e que pretendiam conhecer o Pantanal. No apartamento, enquanto assistia à televisão, descansava para enfrentar a altitude que me aguardava em Cuzco. A expectativa quanto à abertura de Machu Picchu era grande, mas eu só saberia no dia seguinte... Cuzco, Peru (sábado, 20-03-2010) Cuzco é uma das cidades mais lindas do Peru. Caminhar por suas ruas é como voltar no tempo, pois o que quer que se faça e para onde quer que se olhe, sente-se a cultura inca e/ou espanhola no ar. De arquitetura ímpar (quase tudo em pedras), esta cidade exala cultura. Antes de os espanhóis invadirem Cuzco, a cidade era o centro do Império Inca e, não por acaso, foi uma das mais importantes do período colonial. Cuzco, em Quéchua, significa Umbigo do Mundo. De Lima a Cuzco leva-se aproximadamente uma hora de transporte aéreo. Mal se sai do avião, e antes mesmo de pegar a bagagem, se é “atacado” por uma “enxurrada” de agenciadores oferecendo as mais diversas propostas de hotéis e passeios. Ali mesmo, e sem conhecer nada, garanti a hospedagem com direito a traslado de táxi (aeroporto-hotel-aeroporto), no meu caso aeroporto-hotel-rodoviária, pois partiria de Cuzco para Puno de ônibus ou trem. O Sr. Victor (dono da agência) teve de me levar ao hostel (espécie de albergue), pois o taxista, “podre de bêbado”, não acordou e foi dormindo no banco traseiro do carro. Mal larguei minha mochila no minúsculo, sombrio e malcheiroso quarto do hostel e já havia outra agente de viagem de nome curioso, chamada Luz Marina, que quis, logo no meu primeiro dia em Cuzco, bancar a espertinha, inflacionando o turismo na cidade. Sem ter tempo nem para me aclimatar, ela queria me vender, além do tour por Cuzco, a passagem, hospedagem e passeio para o lago Titicaca, tudo em Puno, ou seja, a quilômetros de Cuzco, que seria o próximo destino da viagem. Enquanto tomava meu primeiro chá de coca, percebia a tal señorita (senhorita) tentando explorar esse ofegante, solitário e confuso turista brasileiro, cobrando-me muito caro pelos serviços oferecidos. Devido à pressão imposta, foi com certa dificuldade que consegui rejeitar e, claro, ela diminuiu em muito o pacote turístico por Cuzco, incluindo apenas a passagem para Puno. Acredito que todo esse emergente “ataque” acontece de propósito e antes que os efeitos do soroche, também conhecido como Mal da Montanha (espécie de mal-estar que se sente quando se está em altitudes muito elevadas), comece a diminuir, pois a pessoa chega um tanto quanto lenta e precisa de um tempo para se acostumar com a altitude, que em Cuzco é de 3.500 metros sobre o nível do mar. Tive vontade de expulsá-la, mas o tour daquela tarde partiria dentro de uma hora e talvez não desse tempo de procurar uma outra agência, além do fato de que o tour do dia seguinte para o Vale Sagrado e ruínas de Saqsayhuamán, Q´enqo, Pukapukara, Tambomachay, Chinchero, Pisac e Ollantaytambo levaria o dia inteiro, ou seja, partiria às 08h e retornaria às 20h, o que tomaria todo o meu tempo em Cuzco. Ainda que ela tenha levado alguma vantagem, valeu a pena, pois a comodidade e a certeza de garantir os passeios e a passagem para Puno sem precisar me deslocar até outra agência de viagem e à rodoviária otimizaram meu tempo naquele momento. No primeiro tour em Cuzco conheci lugares interessantes e intrigantes, como Qorikancha (Convento de Santo Domingo) – construído sobre o Templo do Sol e considerado o maior templo inca, quando suas paredes, revestidas de ouro, em adoração ao Sol, abrigavam o lugar mais importante para os cultos de todo o império incaico. Conheci também o Convento de La Merced, a Igreja La Compañia de Jesus, a Igreja e Convento de Santa Catalina, entre outros importantes cartões postais. Reza a lenda que Saqsayhuamán – ruína mais próxima da cidade de Cuzco – foi construída por 20.000 pessoas. Há pedras gigantescas, sendo que uma delas mede sete metros e pesa muitas toneladas. Desinformado, acabei indo de bermuda e camiseta, passando muito frio, pois o vento naquela altura era intenso. O guia emprestou-me uma capa de chuva para amenizar a situação, mas, ali mesmo, comprei blusa, touca, luva e cachecol de lã de lhama, o que me fez sentir muito mais confortável para apreciar e enfrentar o restante do passeio. Q´enqo ocupa uma área de 3.500 m² e acredita-se que era um centro cerimonial de orações e rituais dedicados ao Deus da Guerra. Puka Pukara, ou Fortaleza Vermelha, é uma ruína a 3.765 m.s.n.m. construída com pedras avermelhadas, destinada a abrigar as comitivas incas quando visitavam Tambomachay. Tambomachay, por sua vez, era uma espécie de lugar de repouso dos incas. Construído em 1500 d.C., ainda possui aquedutos, fontes, cascatas, canais de irrigação e até uma banheira de pedra usada, na época, para rituais e cerimônias, o que fazia desta ruína um templo de cultura à água. Na saída é oferecido queijo e maíz – um milho com grãos enormes do tamanho de uma moeda de cinco ou dez centavos de real, que depois de cozido é conhecido como choclo. No Peru, com exceção de Lima e Callao, em todas as outras cidades que visitei, em especial nos pontos turísticos que basicamente resumem-se a ruínas, as lhamas são usadas como objeto comercial. Seus donos as usam para que os turistas fotografem-nas e em troca lhes deem propina (gorjeta) atribuindo, ainda mais, um astral andino à viagem. Evidentemente que registrei várias cenas interessantes, como senhoras sentadas em pastos tricotando vários tipos de peças artesanais; peruanas com seus filhos embrulhados num pano e carregados nas costas, e crianças, como as que fotografei nas ruínas de Saqsayhuaman, que também se beneficiam das lhamas para ganharem suas propinas. No final deste tour, já noite, parei na Praça de Armas e me dirigi a uma pollería (galeteria), na expectativa de conseguir jantar algo habitual e tomar uma cervejinha cuzqueña “gelada” (raridade na região andina). Não imaginava que naquele momento iniciaria a “saga” do pollo (frango)... A jornada da viagem, as noites mal dormidas e o cansaço do tour me fizeram “voar” ao hotel depois da janta. Já deitado, percebi que havia esquecido, na galeteria, as luvas, toucas e cachecóis que comprei para meus filhos e esposa. Voltei, encontrei os objetos e retornei ao hotel. Mesmo tomando comprimido para alpinista senti dormência nos dedos e intensa dor de cabeça – efeitos do soroche. Mas foi o cansaço que contribuiu para que eu dormisse razoavelmente bem. Enquanto escrevia os detalhes daquele dia, pensava em como seria o dia seguinte e quais surpresas e emoções o segundo tour me reservaria. Cuzco, Peru (domingo, 21-03-2010) Naquele segundo dia em Cuzco parti bem cedinho para o segundo tour em direção ao Vale Sagrado de Los Incas que, conforme previsto, durou o dia inteiro. Tomei um café da manhã com pão cuzqueño e mate de coca para ajudar a suportar a altitude e, claro, outro comprimido para alpinista. Vale Sagrado compreende a linda região entre os poblados (povoados) de Pisac e Ollantaytambo a 75 quilômetros de Cuzco e a 600 metros mais baixo. Este vale é composto por muitos monumentos arqueológicos e rios que cortam pequenos povoados indígenas. O principal rio é o Urubamba, o mesmo que, em fevereiro de 2010, arrasou alguns povoados de Cuzco e isolou turistas em Águas Calientes quando destruiu partes da ferrovia que liga aquela cidade a Machu Picchu. Segundo a guia do tour, o vale foi muito apreciado pelos incas devido à sua qualidade geográfica e climática, sendo um dos principais pontos de produção pela riqueza de suas terras que até hoje ainda é o lugar onde se produz o melhor grão de maíz do Peru. No pequeno povoado de Chinchero, que era considerado pelos incas como o lugar onde nasce o Sol, estava acontecendo uma feira artesanal muito original, onde os nativos fazem o intercâmbio de seus produtos e vendem muitos produtos estranhos. Naquela feira podem-se comprar carne e cabeça de lhama, peixe cru ou frito, grãos, estrela-do-mar seca e, claro, produtos artesanais como roupas, mantas, macas (redes), entre muitas outras curiosidades. Naquele local, além do templo sagrado, conheci uns peruanos apaixonados pelo Brasil e acabei respondendo a um extenso interrogatório: Quantos anos tem o Pelé? Você conhece o Ronaldinho? Você joga futebol? Você já jogou com Kaká? O Brasil vai ser campeão nesta copa? E o Lula é bom mesmo?... Depois de responder a cada uma das perguntas consegui mudar a conversa, afinal o turista era eu, logo, as perguntas deveriam ser minhas. Ao me explicarem sobre a cidade, a igreja e que eram quarenta os guardiões do templo, não perdi a oportunidade de brincar com eles, dizendo: ¿Son cuarenta tutores y el templo es como allá? (São quarenta guardiões e o templo está daquele jeito?) É que a igreja estava com uma característica nada zelosa e no seu interior havia muitas cadeiras e bancos quebrados e amontoados, demonstrando um certo desleixo para com aquela que, por certo, é o centro turístico daquela pequena comunidade. Eles riram e tentaram se explicar, enquanto bebiam as cervejas em litro que paguei a eles e que eram servidas, diretamente da caixa, ou seja, quente, por uma senhora que mal cabia atrás do pequeno balcão. Enquanto bebiam, brindavam; bem, o brinde foi o seguinte: Viva el Pelé; Viva el Zico; Viva el Ronaldo; Viva o Lula (esse foi meu) Viva el Brasil... (todos) Despediram-se aplaudindo-me e desejando-me boa viagem, gritando para todo o Vale Sagrado ouvir que “Los brasileños son nuestros hermanos” (Os brasileiros são nossos irmãos). Pisaq, que está situado a 33 km da cidade de Cuzco, possui um dos mais importantes universos arqueológicos do Vale Sagrado. Este povoado, conhecido pelo seu observatório astronômico, tem uma parte inca e outra colonial. Sua praça principal é um lugar colorido com diversos artigos artesanais à venda. Dá para observar facilmente que a arquitetura é mestiça e, garante a guia, pode-se assistir a uma missa em Quéchua no meio dos indígenas. Igualmente, pode-se comprovar como os agricultores incas resolveram o problema de semear nas encostas dos morros. Um exemplo prático da inteligência incaica. De todos os turistas que estavam neste tour, eu fui, involuntariamente, o único que havia escolhido almoçar no Restaurante Tunupa. Quando a guia, de voz fina e com bom domínio do inglês e do castelhano, comentou esse fato por meio do sistema de som do micro-ônibus, pensei que mais uma vez fora ludibriado pela agente de viagem; mas não. Segundo ela, tratava-se do melhor restaurante da região, e deveria ser mesmo, a julgar pela aparência do outro restaurante onde os demais turistas almoçaram. Sem tempo para voltar atrás, tive de almoçar ali mesmo, pois se eu fosse consultado, por certo, teria escolhido o mais em conta. Mas já que isso não era mais possível, resolvi aproveitar o ambiente, que oferece show musical ao vivo, para degustar e experimentar exóticos pratos criollos internacionais, servidos numa varanda ao ar livre com uma linda vista do rio Urubamba. Ali eu experimentei o cuy (porquinho da Índia) assado e cortado em pedacinhos, pachamanca (carnes, milhos, batatas e ervas aromáticas, colocados num buraco e revestido com pedras aquecidas) e juanes de galinha (arroz, frango, ovos cozidos, azeitonas e especiarias envolvidos e fervidos em folhas de bananeira). O ápice desse tour é Ollantaytambo, sítio arqueológico que impressiona pela originalidade, tamanho e estilo. Trata-se de um dos complexos arquitetônicos mais monumentais do antigo Império Inca. Uma das montanhas que cercam a cidade mostra umas formações rochosas e uma delas lembra o rosto do Deus Wiracocha. Segundo os habitantes, a imagem apareceu após um terremoto que aconteceu no século XX. A aproximadamente 75 quilômetros de Cuzco, o passeio até Ollantaytambo já é válido por si só. Durante o trajeto contemplam-se diversas aldeias e lindas vistas do Valle Sagrado de Los Incas – é realmente muito bonito. De acordo com o dialeto Aimará, Ollantaytambo significa “lugar para ver até embaixo”. Já para o idioma Quéchua significa “cidade que oferece alojamento”. O complexo arqueológico de Ollantaytambo foi um estratégico centro militar, religioso e agrícola. Percorri as ruínas separadamente do grupo de turistas (incluindo três maranhenses) que dividiam o tour comigo, pois eu já começava a evitar um pouco os guias tendo em vista a vasta quantidade de informações, um erro, admito. Cheguei ao local combinado com pelo menos 30 minutos antes dos demais e fiquei conversando com um artesão local e sua esposa, grávida de oito meses. Contribuí com eles, mas não fiquei com nenhuma das suas obras, pois estavam muito caras. Como conheço Machu Picchu apenas por fotografias, não posso fazer uma comparação com propriedade, mas as ruínas de Ollantaytambo devem ser as que mais se assemelham, pelo menos em tamanho e originalidade. Visitar essas ruínas me trouxe uma sensação muito agradável e, para minimizar a frustração de não poder conhecer Machu Picchu, fiz de conta que estava visitando a própria cidadela, que, inicialmente, era o principal propósito desta viagem. As horas iam passando e a aclimatação aos poucos se estabilizava. Nesse dia tomei apenas um comprimido e não senti mais os efeitos da altitude. Mesmo assim foi um dia altamente cansativo, porém muito proveitoso, já que o Vale Sagrado traz uma sensação ímpar a quem o visita. Restavam-me agora as emoções do dia seguinte, quando passaria por Andahuaylillas, Raqchi, Sicuani, La Raya, Pukara e Juliaca, entre outros destinos, até chegar a Puno para conhecer o lago Titicaca e as curiosas ilhas Tequile e de Los Uros. Entre Cuzco e Puno, Peru (segunda-feira, 22-03-2010) Às sete horas, conforme horário marcado, fui apanhado no hostel pelo Sr. Victor, que deve ter despedido aquele taxista. Conforme combinado, me deixou na rodoviária onde eu tomaria o ônibus que faz o percurso Cuzco – Puno. Este trajeto também pode ser feito de trem, o que seria mais original para o propósito da minha viagem, mas, infelizmente, não foi dessa vez, graças àquela agente de viagem (Luz Marina), que me informara que a Peru Rail – Train Travel (empresa que faz o percurso Cuzco – Puno) não estava operando devido às fortes e recentes chuvas que assolou Cuzco, o que não era verdade, pois do ônibus avistei o lindo trem azul indo, harmoniosamente, pelo altiplano andino, em direção a Puno. De qualquer forma me fez economizar alguns dólares, pois a passagem de trem para Puno custaria aproximadamente uns duzentos dólares e faz exatamente o mesmo percurso do ônibus, com uma diferença: o ônibus para para visitas guiadas em Andahuaylillas, Raqchi, Sicuani (para almuerzo [almoço]), La Raya e Pukara, onde o guia explica cada detalhe, num discurso ensaiado e cuspido, sobre essas cidades e seus sítios arqueológicos. A viagem foi inesquecível, com lindos e incríveis cenários por todos os lados. Saindo de Cuzco, a primeira parada foi em Andahuaylillas, a 3.400 m.s.n.m., lugar onde se encontra a igreja de San Pedro e San Pablo, denominada como a Capela Sistina da América, que possui em seu interior uma decoração de valor incalculável. Em Raqchi, a 3.450 m.s.n.m., há um complexo arqueológico onde foi edificado um grande templo dedicado ao Deus Wiracocha, entre outras importantes construções da época incaica. Nessa comunidade experimentei a chicha de cebada – bebida fermentada, produzida pelos povos indígenas andinos quando do Império Inca, sendo a mais popular entre todas as bebidas da época. O seu preparo, pelo menos em tempos remotos (espero), consistia em milho mascado por garotas e cuspido em um caldeirão com água fervida. Depois de fermentada, a mistura se transformava em chicha, quando só então poderia ser servida. Parei em Sicuani para almoçar e, ao sair do ônibus, senti um cheirinho familiar de churrasco. E era mesmo, só que se chama anticucho – churrasco de carne de alpaca, que foi servido com cebola e macarrão “gelado”. O restaurante fica no meio do altiplano peruano. Enquanto aguardava os demais passageiros comprei uns souvenires e tirei fotos ao lado de duas lhamas enfeitadas. Parti, então, em direção à La Raya, divisa entre Cuzco e Puno, que até então foi o ponto mais alto da viagem, com 4.335 m.s.n.m. Dali pode-se apreciar os cumes nevados da Cordilheira dos Andes. A desagradável surpresa que tive nesse lugar foi o alto preço dos artesanatos e a inusitada cusparada que uma velha lhama me deu no rosto quando me aproximei para registrar uma foto. Algo que é comum acontecer, mas que eu desconhecia até então. Antes de Puno, passa-se ainda por várias cidadezinhas, entre elas Pukara, que é uma cidade peculiar, pois dá a impressão de se estar numa cidade fantasma. Parecia cena de um filme de western, quando algum duelo está por acontecer, pois a cidade estava quase deserta, com muita poeira levantada pelo forte vento e uma simpática e solitária camponesa sentada nas escadarias da velha igreja da praça principal. Só faltaram os rolos de capim seco sendo arrastados pelo vento pelas ruas da cidadezinha para caracterizar ainda mais o clima de faroeste. Essa cidade é produtora dos famosos toritos (touros em miniaturas) de cerâmica, que ornamentam quase todas as casas no Peru andino e servem como proteção. Nessa cidadezinha há um museu que pareceu interessante, mas, confesso, não o conheci, pois, desculpem a minha ignorância, não aguentava mais ouvir falar em cultura inca, em Pachamama, Pachapapa, Mama Ocllo, etc., e resolvi, enquanto aguardava os demais turistas, ficar na escadaria da igreja, conversando com a senhora andina e uma jovem americana que estava lecionando inglês (voluntariamente) na cidade. O que me impressionou também foi a cidade de Juliaca, que fica próxima a Puno. A desordem em parte da cidade foi algo que me chamou a atenção. Carros, caminhões, caçambas, uns táxis em forma de bicicletas e aquelas mototáxis (iguais as de Chorrillos em Lima) se “entendiam”, não sei de que forma, parecendo uma cidade que estava em plena desocupação de emergência devido a alguma catástrofe natural anunciada. No entanto, essa cidade é considerada como a “Cidade das Meias”; “Cidade dos Ventos” ou “Capital da Integração Andina”. Com isso, a impressão que tive deve se desfazer ao conhecer melhor essa cidade que fica no Sul do Peru. De gastronomia exótica, o caldo de cabeça de cordeiro é um dos principais pratos da cidade. Puno, Peru (segunda-feira, 22-03-2010) Semelhante a Cuzco, guardadas as devidas proporções, em Puno também mal se sai do ônibus e nem mesmo se apanha a bagagem, os taxistas estão a postos na disputa por um passageiro. Durante o curto trajeto entre a rodoviária e o Centro, o motorista indica hotéis e agências de viagem que fazem o tour pelo lago Titicaca. Levado até uma agência de turismo, escolhi o hotel, comprei o tíquete para o passeio pelo lago Titicaca e a passagem à Tacna – divisa com o Chile – ambos para o dia seguinte; tudo muito cronometrado, mas garantido pela agência. Dessa vez não fui enrolado e nem sequer tentaram levar qualquer tipo de vantagem. Em Puno, cidade com cerca de 117 mil habitantes, me hospedei e, via de regra, fiz o ritual de reconhecimento, andando pelo centro de lado a lado, fazendo uma espécie de zigue-zague entre as interessantes ruelas daquela cidade onde buzinar é uma necessidade perene. Em Puno fica-se realmente atordoado com as claxon (buzinas) dos taxistas e mototaxistas, que economizam faróis, mas não economizam gasolina, pois circulam pelas ruas sem parar, disputando, a buzinadas, todos os pedestres que encontram pela frente. A 3.625 m.s.n.m., a cidade oferece como pontos turísticos a Catedral de 1657 e o lago Titicaca com as ilhas Tequille (com ruínas pré-incaicas) e Flutuantes de Los Uros (construídas sobre totora – uma espécie de junco que os habitantes utilizam para fazerem suas casas, barcos e as próprias ilhas). Essas ilhas são habitadas por descendentes dos antigos índios Uros, que se dedicam especialmente ao artesanato e à pesca. Puno não me pareceu uma daquelas cidades com restaurantes requintados de cardápios sofisticados. Na verdade o que mais existe são pizzarias, que dão um show à parte, pois em todas há um pequeno forno à lenha e um pequeno balcão bem na porta de entrada, onde o pizzaiolo estica a massa e assa a pizza “ao vivo e em cores”, servindo como um chamariz para os transeuntes. Os clientes entram, passam pelo pizzaiolo, passam pelo forno, para então se dirigirem ao interior da pizzaria, diferentemente do Brasil. Algumas oferecem apresentações de grupos de danças tradicionais, ou seja, peruanos. Em Puno e, creio, em todo o território peruano, os vendedores ambulantes imploram que você compre alguma coisa deles; alguns chegam a implorar tanto que parecem estar chorando num exaltado “señor, compre. Compre, señor, por favor, compre. Ayúdame, señor, por favor”... e assim, seguem as pessoas por alguns metros até desistirem ou conseguirem vender algum produto. Depois de muitas “pernadas” e fotos, jantei numa daquelas pizzarias pitorescas e visitei o museu Carlos Dreyer, onde há objetos retirados das Chullpas de Sillustani – zona arqueológica interessante que se destaca pelas suas gigantescas torres de pedras (chullpas), onde os incas enterravam seus mortos, e que gostaria, mas não tive tempo, de conhecer. Depois perambulei mais um pouco entre a Praça de Armas e a Praça Pino, contemplando o comércio local. Chegara a hora de voltar ao hotel e descansar, pois a saída para o Titicaca seria bem cedo e, segundo o agente, era bom estar em boa forma, pois o dia seria bem cansativo devido às curiosidades que as ilhas oferecem. Não via a hora... Puno, Peru (terça-feira, 23-03-2010) Era hora de me certificar se não tinha entrado numa “barca furada”, ou seja, cedinho, acordei para aguardar o motorista da empresa de turismo que me levaria à marina de Puno para zarpar em destino às ilhas do lago Titicaca. Antes, porém, acordei o recepcionista do hotel, que dormia sob quatro grossos cobertores de lã de lhama num sofá na recepção e, se não bastasse, com pelo menos três blusas e calças de agasalhos (eu dormi com apenas um cobertor e no hotel não havia ar-condicionado). Penso que o frio está nos ossos ou no psicológico dos nuestros hermanos, pois, mesmo durante os dias de sol, com temperaturas amenas, eles agasalham-se muito, parecendo que a qualquer momento uma nevasca vai assolar a cidade sem lhes dar tempo de apanharem suas roupas. O rapaz teve de acordar uma moça para preparar o desjejum, que era servido no terraço do hotel de quatro andares e com uma vista sobre os telhados das casas e comércio daquela cidade sem grandes paisagens. Pão achatado e chá de coca foram o meu café da manhã. Chegando ao Titicaca me acomodei no barco e, enquanto aguardava outros turistas, assistia a uma apresentação, um tanto quanto improvisada, de um descendente Uro que tocava flauta. Assim que o barco zarpou, o guia iniciou uma aula sobre o lago e as duas ilhas que visitaríamos. Ele simplesmente não parava de falar! Subi para a parte exterior do barco e lá conheci um paulista muito “gente boa”, chamado Fábio, que trabalha numa empresa fabricante de equipamentos de segurança para automóveis, como cintos e air bag, e que me fez companhia durante este tour. Existem dois passeios pelo lago Titicaca: um que sai de Puno, no Peru, e outro de Copacabana, na Bolívia. Do lado peruano se conhece as Islas Flotantes de Los Uros (Ilhas Flutuantes dos Uros), a isla Tequile e a Amantaní. Já do lado boliviano, conhece-se as Islas del Sol e de la Luna (Ilhas do Sol e da Lua). Existem outras ilhas no lago Titicaca, mas não sei ao certo se são habitadas ou visitadas por turistas. O passeio de aproximadamente oito horas é uma afronta à cultura de qualquer pessoa. Nas Islas Flotantes de Los Uros são conhecidos os hábitos e costumes dos seus habitantes, sua culinária, artesanato e como se constroem as ilhas. Uma das peculiaridades é o fato de eles poderem se deslocar tanto com as ilhas, que ficam presas com amarras, quanto com as próprias cabanas quando há desentendimentos familiares, desde que dentro da própria ilha. Eles vivem da pesca artesanal, do turismo e do artesanato, que consiste em pinturas, bordados e trabalhos com as palhas da totora. O meio de locomoção entre as ilhas é muito interessante, pois são realizados por intermédio de barcos feitos de totora, que possuem um aspecto muito original, com suas proas e popas pontiagudas ou em formato de dragões. Pode-se pernoitar nas cabanas e assim conhecer ainda mais a cultura daquela curiosa tribo. Na ilha Tequile, conhece-se também os hábitos e costumes daquele povo, cujo atrativo principal é um almoço servido nas casas dos nativos. Esse almoço é normalmente servido na rua, sob uma lona improvisada. Naquele dia, depois de uma caneca de sopa, serviram trutas rosadas pescadas no Titicaca pelos próprios nativos; batatas, arroz e salada, tudo plantado e colhido ali mesmo. A grande mesa de tábuas foi dividida por várias nacionalidades, como americanos(as), argentinos(as), franceses(as), austríacos(as) e dois brasileiros – eu e o paulista. O interessante é que se chega de um lado da ilha, sobe-se por uma trilha, conhece-se os nativos (no alto da ilha), almoça-se (no alto da ilha) e desce-se para partir do outro lado dela, perfazendo uma espécie de escalada, pois o centrinho daquela aldeia localiza-se a uns duzentos metros acima do nível do lago, o que torna a caminhada bastante cansativa, já que Puno está a mais de 3.600 m.s.n.m.. Não cheguei a conhecer a ilha Amantaní, que consegue se manter ainda mais rústica que a Tequile, pois recebe menos turistas. O lago Titicaca, com seus 8.300 km² e 3.600 m.s.n.m., é o lago navegável mais alto do mundo e o segundo em extensão na América Latina, superado apenas pelo lago de Maracaibo, na Venezuela. Localizado no altiplano dos Andes, na fronteira do Peru e da Bolívia, tem uma profundidade média de 150 m e uma profundidade máxima de 280 m. A origem do nome Titicaca é desconhecida; foi traduzido como “Pedra do Puma”, combinando palavras da língua local Quíchua e Aimará. Localmente, o lago é conhecido sob diversos nomes. Segundo a lenda andina, foi nas águas do Titicaca que nasceu a civilização inca. Acredita-se que o “Deus Sol” instruiu seus filhos para procurarem um local ideal para seu povo quando Manco Capac e Mama Ocllo chegaram, então, a uma ilha - mais tarde batizada de Isla del Sol. O local teria sido o berço dos incas, que dominaram a região entre os séculos XII e XVI, quando se deu a invasão espanhola. Duas horas depois do retorno já estava embarcando para Tacna, cidade fronteiriça com Arica, no Chile. Antes, porém, passeei um pouco mais pelo centro de Puno e retornei à Praça de Armas e Praça Pino, onde as pessoas faziam uma enorme fila para serem abençoadas por um franciscano que, dizem, só aparece de tempos em tempos. Ainda antes de partir, e agora sim sob um frio intenso, telefonei para casa e falei com meus filhos e minha esposa, que estava de tala no braço devido a um tombo que levara na piscina. A saudade já começava a “apertar” e eu já começava a pensar em antecipar minha volta, até porque fiquei preocupado com a situação. Segundo os mais vividos, a “língua é o chicote do rabo”. Digo isso porque critiquei meu amigo Telmo quando este antecipou a viagem que fez a Machu Picchu por saudades de sua família. Realmente não é fácil ficar em terras estrangeiras por muito tempo, ainda mais sozinho. A cultura e culinária diferentes e, principalmente, a falta da companhia da família, entre outras coisas, fazem a diferença nessas horas. A estrutura emocional de cada um, aliada ao objetivo traçado antes de partir, é fundamental para se manter firme até o final. Diferentemente de Cuzco, repito, dessa vez não fui explorado e paguei apenas 30 Nuevos Soles, em torno de R$ 18,00, pela viagem até Tacna, claro, sem tour, sem comida e com direito a dividir o ônibus com uma mãe peruana e um bebê chorão de apenas vinte e três dias que choramingou a noite toda, o que não me deixou dormir. Acredito que ele estava assustado com o escuro e, sobretudo, com os roncos de um andino que parecia um vulcão em erupção, tamanho barulho que fazia enquanto dormia, sossegadamente, durante toda a viagem – um horror! Esse deslocamento foi horrível e levou a noite inteira. É que o ônibus parou em quase todas as cidades do trajeto. Para tentar relaxar procurei ler e ouvir músicas. Enquanto isso, os pensamentos se intercalavam entre a satisfação daquilo que já havia vivido e a ansiedade daquilo que ainda estava por conhecer. Afinal, estava mais próximo do que nunca de entrar no Chile pela primeira vez, cruzar parte do deserto, conhecer Arica e pisar nas lindas praias do oceano Pacífico pela segunda vez nessa viagem. Tacna, Peru (quarta-feira, 24-03-2010) Cheguei a Tacna às cinco horas da madrugada e tomei um táxi para o terminal terrestre internacional, onde partiria para Arica, no Chile. Tomei um suco de laranja e comecei a suspeitar que não estava muito bem. Nesse terminal conheci quatro haitianos que estavam indo para Iquique, também no Chile. Há duas opções para se ir à Arica a partir de Tacna: ônibus ou táxi. De ônibus a passagem é mais em conta, ou seja, 10 S/. (+/- R$ 6,00), mas precisa ter no mínimo 25 passageiros, e só havia 14 naquele momento. Então resolvi ir de táxi (15 S/.), que dividi com dois equatorianos e uma mulher com um bebê (outro) que não sei a nacionalidade, pois não falou nada durante todo o trajeto. Aqui tive uma grande prova de que estava bem guardado, pois, ao devolver os passaportes que pedira a todos os passageiros para fazer os registros da viagem junto aos órgãos de controle de Tacna, o Sr. (taxista) me devolveu os quinhentos dólares que estavam no meu passaporte, dizendo: Hijo, guarde su dinero porque la policía de la frontera es ladrona (Filho, guarde seu dinheiro, pois a polícia da fronteira é ladrona). Fiquei sem palavras pela honestidade daquele senhor e fui pensando, enquanto atravessava parte daquele deserto, em quantos problemas teria se ele não tivesse me devolvido os dólares... Um dos equatorianos aproveitou para me sacanear e, a todo momento, me olhava e balançava a cabeça de forma negativa, como se quisesse falar: “que mancada”. Em outro momento puxava novamente o assunto dos dólares no passaporte, dizendo que com aquele valor o taxista pagaria metade do carro que dirigia. Quase mandei o equatoriano à m... Arica, Chile (quarta-feira, 24-03-2010) Depois de todos os trâmites para entrar no Chile, o meu anjo da guarda em forma de taxista me deixou no terminal terrestre de Arica. Ainda um pouco confuso com a situação, paguei a corrida e não deixei uma gorjeta adequada para aquele senhor que salvara o resto da minha viagem, fato este de que mais tarde muito me arrependi. A minha suspeita se tornara realidade. Estava me sentindo muito mal. Com febre e cólicas. Ao me hospedar já sentia a diferença, pois não fiz o reconhecimento que costumava fazer ao chegar às cidades. A placa do hotel, velha e enferrujada, instalada exatamente sobre a janela do meu apartamento, balançava e fazia um barulho insuportável não me deixando dormir, de forma que fiquei ali deitado, refletindo, lendo, ouvindo música, vendo as fotos, ou seja, ganhando tempo até recuperar um pouco de energia para, somente no final da tarde, sair e conhecer a linda Arica. Comprei e tomei alguns remédios e parti para conhecer o famoso morro de Arica. De volta ao oceano Pacífico me sentia bem melhor quanto à altitude, mas muito indisposto pelo que estava sentindo. Mesmo assim subi o morro de Arica a pé e registrei fotos fantásticas da cidade e das praias de La Machas, Chinchorro, El Laucho, La Lisera, Brava e Arenillas Negras – única com areia negra da região. Arica é uma província do Chile localizada no extremo norte do País, muito próximo à fronteira do Peru e Bolívia e, por isso, tornou-se um ponto de conexão por via terrestre entre os três países. É apelidada de “Cidade da Eterna Primavera”, pois seu clima é agradável durante todo ano, com pouca variação de temperatura mesmo nas mudanças de estações. Impressionante como o céu parece ter um azul mais vivo. Dizem que ali, como em Lima, não chove nunca. O morro de Arica tem aproximadamente 130 metros de altura e é o melhor lugar para se ter uma vista privilegiada de toda a cidade. É neste local que o Museu Histórico de Armas está localizado. Em 1999 foi construído também “El Cristo de la Paz”, uma estátua de Cristo com os braços abertos, voltado para o oceano Pacífico. Para celebrar a paz entre Peru e Chile há, no alto do morro, as bandeiras destes países. Ao registrar uma foto na bela praça, aos pés do morro de Arica, que lembra a cabeça de um leão, consegui, emprestada, uma bicicleta de um senhor para ilustrar uma foto. Ele acabou me oferecendo a bicicleta para dar uma volta. Agradeci e sai pedalando até a isla Alacrán (ilha Alacrán) interligada artificialmente por aterro. Em Arica os costumes são parecidos com os do Brasil: não usam roupas tradicionais, frequentam bares e restaurantes parecidos com os nossos, “não buzinam” e possuem a tradicional simpatia dos moradores litorâneos. Nessa noite, mesmo não me sentindo muito bem, andei pelo belo calçadão no centro da cidade, explorei o variado comércio local, me acomodei numa mesinha de uma choperia bem transada que fica naquele calçadão, tomei “uns chopps” bem gelados e comi pollo frito con papas (frango frito com batatas). As opções de bares e restaurantes são bem variadas nessa cidade, com apenas um desagrado: tem uns conjuntos musicais itinerantes que perturbam a noite inteira. Sem trégua, ao sair um grupo outro entra imediatamente em seu lugar, deslocando-se entre as mesas até parar na sua e só sair depois de ganharem algumas moedinhas. Devido ao mal-estar, deixei de contratar um tour bacana que duraria em torno de dez horas e me levaria para conhecer pontos turísticos interessantes, como a cidade de Putre, os cactos milenares, e se estenderia até o lago Chungará – o mais alto do mundo, que fica aos pés do vulcão nevado Parinacota. Entre as construções históricas de Arica estão a antiga aduana e a Catedral de San Marcos, desenhada por Gustave Eiffel, o mesmo que desenhou a Torre Eiffel, em Paris, França. A Catedral foi construída em 1876 sobre os escombros de uma antiga igreja que foi destruída no terremoto de 1868. Com exceção das portas feitas em madeira, a igreja foi totalmente construída em ferro maciço. Arica seria uma interessante cidade para desfrutar e conhecer mais a fundo a sua cultura, culinária e outros pontos turísticos que com certeza há, mas, infelizmente, não foi possível. De qualquer forma posso afirmar que valeu a pena o deslocamento até o Chile. O Museu Antropológico, em San Miguel de Azapa, onde se encontram as múmias mais antigas do mundo (Múmias de Chinchorro) e várias informações sobre os povos antigos da região, é um exemplo do que deixei de conhecer nessa bela cidade. Mas, no dia seguinte, ocasionalmente e mesmo embarcando para Bolívia bem cedo, acabei conhecendo muito mais sobre o Chile do que esperava e do que pesquisara na internet. A sorte realmente estava do meu lado. Arica, Chile (quinta-feira, 25-03-2010) Por pouco não perdi a hora e, consequentemente, a viagem para La Paz (Bolívia), pois esqueci de ajustar o fuso horário entre Peru e Chile e pus o celular para despertar no horário do Peru. Sorte a minha ter combinado com um taxista para me apanhar às sete horas, pois ele fez com que o atendente do hotel me despertasse a tempo de chegar à rodoviária e não perder o ônibus. Ao me dirigir à rodoviária solicitei ao taxista que contornasse a praça para eu ver, pela última vez naquela viagem, o morro de Arica e a igreja de ferro, o que fiz com o gostinho de ficar um pouco mais, mas novas e intrigantes aventuras me aguardavam em La Paz. Entre Chile e Bolívia (quinta-fera, 25-03-2010) Durante a viagem para La Paz, fiquei pensando na sorte que dei em não contratar a agência de turismo para fazer o tour para conhecer o lago Chungará e o vulcão Parinacota, pois o ônibus para La Paz faz exatamente o mesmo percurso. Tenho certeza de que eu ficaria muito indignado se tivesse me deslocado até a divisa do Chile com a Bolívia e retornar a Arica para, no dia seguinte, passar pelos mesmos lugares. Passei pela cidade de Putre, pelos cactos milenares (que crescem apenas 1 cm por ano e não tem graça nenhuma), pelo lago Chungará e, enfim, cheguei ao vulcão Parinacota, ou seja, exatamente os mesmos pontos turísticos do tour e com a economia de US$ 70, sem contar que ainda adiantei minha viagem em um dia, o que poderia fazer a diferença caso acontecesse algum imprevisto. A passagem custou 8.000 pesos chilenos, cerca de R$ 27,00, com direito a marmita – detalhe, sem faca. O almoço, para variar, consistia em frango com batatas, que foi servido exatamente no ponto em que o asfalto acabara e o ônibus sacolejava feito uma pipoqueira gigante. Mas eu não tinha outra opção: ou comeria ou ficaria com fome até o fim do dia, pois não comprara nada para comer durante a viagem, que não previa paradas. Cheguei à divisa do Chile com a Bolívia exatamente às treze horas. O frio era intenso e o vento soprava mais forte, o que me agradava muito, pois adoro vento; ele me traz uma nostalgia gostosa. A satisfação de estar ali, próximo ao lago Chungará e aos pés do nevado Parinacota, foi realmente única. Afinal, ainda não tinha vivido a experiência de estar tão próximo da neve. O nevado Parinacota é um vulcão da Cordilheira dos Andes localizado na fronteira entre o Chile e a Bolívia. Ao seu lado há outro vulcão (irmão) chamado Pomerape, que juntos formam os nevados Payachatas. Seu cume está a 6.348 metros acima do nível do mar. Dividi essa viagem com um uruguaio muito pacato, os três haitianos que encontrei na rodoviária de Tacna, alguns bolivianos e um sujeito estranho, que me deixou muito intrigado com o seu ar de quem estava armando alguma coisa, pois, no início da viagem, vivia olhando para todos os lados, inclusive para a parte de trás do ônibus, onde eu estava sentado. O mais estranho foi que todos, inclusive o “espião”, dormiram do Chile à aduana boliviana, despertando somente quando o motorista berrou da porta da cabina para que todos aguardassem, menos eu, é claro, que corri desesperado para o banheiro da aduana, ainda em território chileno, pois o ônibus não dispunha de um. Deu a impressão de que todos os passageiros tinham tomado algum tranquilizante. Eu, em contrapartida, me mantive alerta durante toda a viagem para fotografar e curtir cada quilômetro daquelas interessantes estradas. Depois dos trâmites legais, carimbaram meu passaporte e, agora, com grande satisfação, eu estava em território boliviano. Confesso que me deu um certo friozinho na barriga, aliás na minha barriga já tinha dado de tudo. Naquele momento, meu rosto, lábios e nariz estavam descascando devido ao sol e ao frio que peguei, pois não usei o protetor solar que acabava sempre esquecendo na mochila e, por fim, não me protegendo devidamente. Um dos haitianos enfrentou uma certa dificuldade para atravessar a fronteira, o que atrasou nossa viagem em pelo menos 40 minutos. Eu, como estava sozinho e sem pressa alguma, até porque adiantara a viagem em um dia, aproveitei para registrar umas belas fotos dos nevados gêmeos e do lago Chungará. Depois de tudo resolvido, voltei a conversar com o haitiano e ele me explicou que o guarda implicara porque um dos carimbos de seu passaporte estava um pouco apagado e sem assinatura. Conversamos novamente sobre a atuação do Governo e do Exército brasileiro no Haiti (pelo que eles são extremamente agradecidos), sobre as recentes catástrofes que ocorreram naquele país, futebol e sobre o Rio de Janeiro, que seria o próximo destino daqueles três jovens aventureiros. Eles me pediram dinheiro brasileiro para coleção e presenteei-os com três notas novinhas de R$ 1,00 – que levei com este propósito –, o que fez com que eles ficassem agradecidos. Também pedi uma nota haitiana, mas me informaram que a moeda corrente lá é o dólar americano e, claro, não ganhei. Todos comentavam sobre futebol quando percebiam que eu era brasileiro e com os haitianos não foi diferente. Taxistas, guias, atendentes de hotéis e até as mais simples das pessoas que conheci nessa viagem – os habitantes das ilhas flutuantes de Los Uros no lago Titicaca comentavam a respeito. Durante a viagem, enquanto admirava aquela exótica paisagem, bem diferente da que estamos habituados a ver no Brasil, e observava de dentro do ônibus os povoados e as pessoas nos campos, muitas coisas me passaram pelo pensamento, entre elas a dificuldade das pessoas que moram em lugares tão inóspitos como aquele (entre Arica e La Paz), onde o sol e o vento castigam tudo e todos, deixando seus rostos tão secos e rachados quanto seus pés e a terra em que plantam. Avistam-se apenas savanas e rebanhos de lhamas, uma ou outra casa fechada sem vida e sem cor. Não se veem homens, mulheres ou crianças nos quintais, é como se todos tivessem abandonado suas casas, mas é muito provável que estivessem no campo... trabalhando. Não há iluminação e, acredito, que a água seja escassa. Interessante que ali, como no Peru, não se vê uma única lhama, vicunha ou alpaca sem a presença de uma pessoa vigiando-as e na grande maioria das vezes uma mulher. Essa situação me chamou a atenção, pois fiquei imaginando o porquê de uma pessoa passar horas e horas, dias e dias, sozinha, numa savana cuidando de um rebanho de animais, sendo que, na maioria das vezes, muito pequeno. Durante esse trajeto aproveitei para ouvir minhas músicas preferidas que estavam gravadas no MP4 que minha esposa me dera de presente para esta viagem, o que me transcendeu além da viagem em si, ou seja, afora do simples deslocamento de um lugar a outro. Naquele momento eu pensava em muitas coisas, com destaque para a minha família e o quanto ela me faz bem e me fez falta. O quanto eu, como irmão, filho, pai e marido, peco em determinadas situações e o quanto ainda tenho de progredir para que as pessoas me olhem e pensem coisas agradáveis a meu respeito e sintam vontade de conviver comigo da melhor forma possível. A natureza e sua geografia são mesmo surpreendentes. Pensei isso porque em Arica eu estava curtindo as praias e, em poucas horas depois, numa região completamente surreal, eu estava passando por desertos e vulcões totalmente nevados a milhares de metros sobre o nível do mar. O momento foi de satisfação e de reflexão. Pensei em como somos pequenos diante da natureza e de tudo o que ela nos proporciona. Tentava entender o que fazia uma senhora sentada no chão à beira da estrada, com uma lhama com os olhos vendados deitada a seu lado. O que fazia um ser humano daquele jeito àquela hora e naquele lugar? O ônibus seguia e, sem respostas para tantos questionamentos, continuava a pensar se as pessoas permanecem naquele lugar por não terem condições para buscar outra forma de viver ou se realmente gostam dali. Pensei no que aquelas terras lhes oferecem e como conseguem viver com tão pouco. Naquele momento ouvia, entre outras músicas, Blowing the Wind, de Bob Dylan, que traduzida é mais ou menos assim: Quantas estradas precisará um homem andar Antes que possam chamá-lo de homem? Sim e quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar Antes que ela possa dormir na praia? Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voarem Até serem para sempre abandonadas? A resposta, meu amigo, está soprando no vento A resposta está soprando no vento Quantas vezes precisará um homem olhar para cima Até poder ver o céu? Sim e quantos ouvidos precisará um homem ter Até que ele possa ouvir o povo chorar? Sim e quantas mortes custará até que ele saiba Que gente demais já morreu? A resposta, meu amigo, está soprando no vento A resposta está soprando no vento Quantos anos pode existir uma montanha Antes que ela seja lavada pelo mar? Sim e quantos anos podem algumas pessoas existir Até que sejam permitidas a ser livres? Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça E fingir que ele simplesmente não vê? A resposta, meu amigo, está soprando no vento A resposta está soprando no vento La Paz, Bolívia (quinta-feira, 25-03-2010) Cheguei a La Paz às 18h e me hospedei a três ou quatro quadras da Praça Murilo, num hotel aparentemente decente. Nesse momento dei mais uma ligada para casa e pude matar um pouco da saudade que assola aqueles viajantes de primeira viagem. Falei também com meus três irmãos e minha mãe. Durante dez anos viajei pela minha empresa, saindo às segundas e retornando às sextas-feiras. As atividades diárias que envolviam os trabalhos, os constantes deslocamentos entre as cidades, a companhia de outros colegas de serviço e, sobretudo, os curtos períodos das viagens, davam a impressão de que o tempo passava mais rápido e a saudade de casa fosse superada com mais tranquilidade. Enquanto que numa viagem desse porte a situação é diferente, pois viajar só, principalmente em terras distantes, me levou a pensar profundamente em cada uma das pessoas com as quais convivo. Isso me fez valorizar ainda mais cada uma delas e respeitar suas diferenças, o que só fez aumentar a saudade de todos. Dividida em duas partes, a “Grande La Paz” conta com o Centro e suas imediações (parte baixa e encostas) e Los Altos (parte alta), onde fica o aeroporto. La Paz é um enorme cânion, sem árvores, apinhado de casas com tijolos aparentes. Dizem que os habitantes não rebocam as casas porque sem reboco recebem desconto de 50% no IPTU, o que deixa a cidade com aparência de inacabada, parecendo um verdadeiro e gigantesco canteiro de obras. A poluição sonora nesta cidade é semelhante à de Lima e Puno. Os motoristas de automóveis, ônibus e, principalmente, os de táxis aterrorizam as pessoas com suas incansáveis buzinas, que não cessam nem mesmo à noite. Cheguei à Praça Murilo, a maior e mais linda da cidade, andei por seu entorno, sentei e contemplei a arquitetura local. A praça é realmente bonita, embora a falta de árvores tire um pouco de seu brilho. Ela possui apenas meia dúzia delas, ao contrário, por exemplo, da nossa Praça XV de Novembro, em Florianópolis, Santa Catarina, que é muito bem arborizada e muito mais bonita, é claro. Já noite, à procura de algo para jantar além de frango e batatas (extremamente comum nos Andes), perguntei a um transeunte onde poderia degustar algo e beber uma cerveja boliviana gelada. O rapaz chamado Marcus prontamente me acompanhou a um pequeno bar a três quadras da praça. Lugar muito interessante que, muito embora eu não conheça pessoalmente, me deu a impressão de estar em Cuba, e o barzinho parecia um pub inglês. Embora eu tenha ficado bastante alerta, o cara me pareceu normal, principalmente quando me apontou o bar e me desejou sucesso. Perguntei se era caminho dele e me respondeu que não, estava apenas sendo um bom anfitrião. Nesse caso, ofereci uma cerveja, o que ele aceitou. Conversamos um pouco sobre família, serviço e, claro, futebol. Na oportunidade, entre outras coisas, ele me falou que era empregado do governo municipal e que conhecia muito o Brasil por revistas, fotos e internet... e que em breve iria conhecer o Rio de Janeiro. Cansado e desgostoso pela temperatura da cerveja (quente), solicitei a conta. O sujeito me acompanhou de volta à praça e combinamos de, no sábado, ele me apanhar para jogar futebol, comer um churrasco de lhama com os amigos e, garantiu, tomar cerveja gelada. De repente, no meio de uma multidão sem tamanho, ele saiu correndo em zigue-zague. Aquilo me pareceu muito estranho, dando a impressão de que algo havia acontecido, mas não imaginei o que poderia ser. Pensei apenas que as histórias que ele contara e o convite para jogar futebol poderiam ser “balelas”, o que não justificaria tal atitude... ou que ele poderia ter visto algum trombadinha agindo e correu para apanhar o moleque... sei lá. Um minuto depois, um tanto quanto nervoso e pálido, ele me reencontrou. Perguntei o que havia acontecido, e ele me disse que reconheceu um amigo que lhe devia plata (dinheiro) e foi cobrá-lo. Sinceramente achei o comportamento dele anormal, pois, além do nervosismo, ele parecia que estava se cuidando, olhando para sua própria cintura, dando a impressão de que estava verificando se alguma arma não estaria aparecendo. Naquele momento falei que apanharia um táxi e ele disse que ali era muito desordenado e que eu deveria ir a pé até o hotel, pois estava muito próximo, ou tomar um táxi mais abaixo, o que me soou contraditório com a primeira opção. A suspeita aumentou e, defronte a um guarda, mandei um táxi parar (o que não precisei fazer esforço algum) e, entrando no veículo, disse apenas que o esperaria no sábado; e enquanto o táxi partia disse algo como: “Yo no he nacido hoy! Tome el cuidado, bribón.” (Não nasci hoje! Te cuida, malandro). Espero realmente que eu não tenha cometido nenhum falso testemunho, mas naquelas condições não poderia agir de outra forma e nem dar guarida a espertinhos que, por certo, há muitos naquela frenética cidade. No hotel pedi aos atendentes que informassem, caso alguém me procurasse, que eu havia partido. Para meu alívio, ninguém me procurou. Como já havia conhecido a Praça Murilo – principal ponto turístico de La Paz –, não tinha muito que me preocupar com o horário de acordar, já que tinha de conviver por mais 72 horas naquela cidade que não me oferecera boa impressão desde a primeira hora. Esperava dormir até mais tarde, na esperança de acordar melhor daquele susto e da minha cólica, mas muito ansioso para desbravar o que La Paz poderia oferecer. La Paz, Bolívia (sexta-feira, 26-03-2010) Buzinas me despertaram às 05h30 da manhã e não pararam mais. Não quis acreditar naquilo e tentei dormir mais um pouco, mas em vão, pois o buzinaço aumentava a cada minuto. Levantei-me, tomei um banho e um café da manhã com chá de coca, que era servido no oitavo andar, de onde se tinha uma vista linda da cidade e do vulcão Illimani. Dirigi-me a uma agência de turismo para ver o que poderia inventar naqueles três dias que me restavam. Visitei várias delas e, depois de subir e descer ladeiras e mais ladeiras, encontrei uns passeios bem interessantes para fazer: conhecer o Vale de La Luna, subir o Glaciar Chacaltaya ou descer de bike, se não me engano, a carretera de la muerte (estrada da morte), em Coroico. Optei pelo Vale de La luna, que é uma vasta área arenosa com irregularidades parecidas com estalagmites gigantes. É uma área interessante, pois são mais de três quilômetros de extensão com pequenas pontes de madeiras e uns pequenos cânions. Uma hora, porém, é suficiente para conhecer e registrar algumas fotos daquele local, sendo que numa manhã faz-se o tour de ida e volta ao vale. Na verdade, o que me chamou mais a atenção foi o percurso até o vale, pois se percebe claramente a diferença do poder aquisitivo ao sair do Centro de La Paz e percorrer alguns poucos quilômetros. O bairro que antecede o Vale de La luna, por exemplo, é habitado por pessoas famosas e endinheiradas da região. Com exceção de Cingapura, acredito que em todos os lugares existem miseráveis e ricos e lá não é diferente. Na verdade, não me surpreendi com a pobreza, pois isso eu já esperava, mas sim com a grande riqueza de uns poucos. Durante esse tour conversei muito com uma senhora sueca que já visitara a Bolívia umas quatro vezes e por gostar tanto de La Paz estava pensando em se naturalizar. Bom, “cada um é cada um”. Essa senhora conhece dezenas de países, mas não conhece o Brasil, pois tem muito medo e acha que precisamos mudar a imagem no exterior. Segundo ela, pelo menos na Suécia, somos mal vistos e o pouco que se divulga não os agrada. Listou os países que já conheceu e destacou a Costa Rica como um lugar extremamente lindo, porém perigoso, pois fora assaltada por dois homens armados em plena capital (San José) e ninguém fez absolutamente nada. Passeei pelo centro da cidade e almocei um X-alpaca, com batatas (tudo é acompanhado por batatas) e refrigerante (quente), na Praça Izabel La Católica, e me dirigi novamente à Praça Murilo, onde descansei um pouco, apreciei os milhares de pombos e suas revoadas, bem como a característica das pessoas e alguns de seus costumes. Registrei umas fotos e caminhei pelo comércio local até encontrar um pequeno shopping, que me pareceu um bom lugar para ir jantar. As lojas desse shopping fecham das 12h às 14h. Ladeiras abaixo, ladeiras acima, afinal em La Paz não existe lugar plano, cheguei ao Mercado de Las Brujas (Mercado das Bruxas), que fica muito próximo do hotel onde eu estava hospedado. Esse mercado é extremamente variado, nele encontra-se de inúmeros tipos de semente a abóboras morangas gigantes; de muda de grama a flores de várias espécies; de talismãs (dos mais diversos tipos e tamanhos) a fetos de lhama secos, que são usados para “despachos”. Quando vi os fetos de lhamas secos logo comprei um, não para “despachar” nada, mas para sacanear uma de minhas cunhadas que, brincando comigo, me pediu para trazer uma lhama da viagem. Encontram-se ainda instrumentos musicais, oferendas prontas e muitos artigos de lã de lhama, como roupas, redes de dormir e souvenires em geral. Não é só esse mercado que é estranho. Em La Paz há muitas outras coisas exóticas, como o hábito de as mulheres usarem chapéu com uma copa de mais ou menos vinte e cinco centímetros de altura e de os engraxates usarem roupas compridas e o rosto completamente tapado com balaclava (gorro confeccionado com lã que deixa apenas os olhos à vista) e boné para, segundo eles, protegerem-se das toxinas expelidas pela graxa. As ruas de La Paz formam um gigantesco comércio, com suas calçadas totalmente tomadas por ambulantes e seus coloridos artigos. Pode-se presenciar uma imensa variedade de produtos, sendo que, dependendo do local, não há o mínimo grau de higiene e alguns produtos parecem ser de procedência duvidosa, o que pode apresentar riscos aos turistas. Imagine, em plena calçada, comer um pastel frito em óleo reaproveitado e extremamente queimado, ou um peixe que fica exposto ao sol sem o devido resfriamento, ou ainda beber um suco que não passa de um copo d’água, fora do gelo, com um pedacinho de fruta dentro que, ao longo do dia, vai tingindo a água com a cor da fruta até ser consumido por alguém. As unhas de alguns comerciantes são um caso à parte. De todas as comidas exóticas que pude presenciar e/ou experimentar, a mais estranha foi, sem dúvida, um caldo de cabeça de lhama (cortada ao meio) ensopada. Sinceramente não via essas coisas de forma pejorativa, e sim com a curiosidade de um turista, afinal, no Brasil, certamente há coisas tão ou mais estranhas quanto na Bolívia, Peru ou Chile. Nesse dia conheci uma brasileira chamada Georgina Reche, que é profissional em Charango – um pequeno instrumento de cordas sul-americano que tem uns 65 cm de comprimento, tradicionalmente feito com carapaça de tatu. As apresentações dessa simpática senhora podem ser vistas no youtube “charangobrasil”. Sem muito que ver e fazer, resolvi descer, a pé, toda a cidade até chegar num mirante para fotografar o Illimani, uma gigantesca montanha nevada que atinge os 6.462 metros de altitude e que parece ficar guardando a cidade de La Paz. Illimani tem a maior altitude da Cordilheira Real (o cume mais alto da Bolívia é o Sajama, na Cordilheira Ocidental). Quanto ao Illimani, não consegui boas fotos, pois havia algumas nuvens que resolveram, insistentemente, permanecer em seu entorno, aparentemente paradas e dispostas a não deixar que a gigante montanha fosse fotografada por inteiro. De qualquer forma valeu a caminhada, pois pude conhecer um pouco mais daquela diferente cidade, coisa que de ônibus ou táxi não daria para explorar tanto. De volta ao Centro de La Paz, preferi deixar para jantar no shopping no dia seguinte e resolvi comer numa pizzaria na Praça Murilo. Liguei para casa e fui caminhando por entre os milhares de ambulantes até chegar ao hotel que deve ser o mais malcheiroso de La Paz. As toalhas nada perfumadas e extremamente ásperas como lixas tinham de ser solicitadas, pois a camareira arrumava o quarto, mas não deixava nenhuma limpa no lugar, conforme todos os demais hotéis que conheço. Que saudade de casa! Das toalhas cheirosas e macias e da deliciosa comida feita com higiene, dedicação e carinho. Depois de um precário banho, no precário chuveiro, do precário banheiro, do precário hotel, resolvi, enquanto escrevia, tomar uma das duas garrafas de vinho que comprara para meu concunhado Jorge. Esses vinhos foram comprados no Chile a pedido dele. Aquelas garrafas já haviam viajado muito e estavam me atrapalhando e pondo em risco as minhas roupas e a mochila que Santoro, um colega de serviço, me emprestara. Disposto a aliviar peso, tomei aquele vinho chileno com muito gosto e, caso resolvesse tomar a outra garrafa, naquela noite ou na seguinte, simplesmente passaria num supermercado qualquer, compraria um vinho chileno e diria a ele que trouxera do Chile – coisa em que já deveria ter pensado, pois assim carregaria menos peso. Qual seria a diferença? Afinal as duas garrafas quase ficaram na aduana boliviana quando um dos policiais me questionara por que razão eu estava entrando na Bolívia com duas garrafas de vinho chileno, quando respondi que não faria sentido entrar na Bolívia com duas garrafas de vinho boliviano (se é que existe). Mas acho que ele ou percebeu a sua infelicidade ou não entendeu o que eu disse e me deixou passar – acredito que ele não deveria gostar de vinho, pois, caso contrário, os teria apreendido. Acontece que não trazer pelo menos uma das garrafas pesaria mais a minha consciência que a mochila, o que me fez carregar aquela solitária garrafa até o Brasil. Muito embora o vinho estivesse realmente saboroso, não se comparou – aliás, a meu ver, vinho nenhum se compara – aos vinhos do Roberto e Família produzidos artesanalmente e sem conservantes em Santa Izabel – Águas Mornas, Santa Catarina. Certamente qualquer sommelier classificaria este vinho como de primeira qualidade. Gorros, luvas, cachecóis, blusas, camisetas dos três países, jogos de xadrez, pedrinhas do pacífico, chaveirinhos, trilobitas e até lhama seca eram outras lembranças que eu carregava na pesada mochila. Afinal, “Prefiro carregar o peso de uma mochila nas costas do que o peso de não ter conhecido o mundo”. Frase extraída do livro de Alice Watson – O Guia do Mochileiro. La Paz, Bolívia (sábado, 27-03-2010) Sessão nostalgia Levantei-me extremamente cansado, não só pelo mal da montanha, mas também por não conseguir dormir bem. É que às 2h da madrugada uma banda começou a tocar, desordenadamente (como muitas coisas em La Paz), uma espécie de fanfarra que perdurou até aproximadamente às 4h. Sentia-me cada vez pior. Além da falta do que fazer, acordei com o rosto descascando e com herpes, devido à febre que me deu à noite. Com mais 48 horas para encontrar o que fazer em La Paz, pensei, sem muito entusiasmo, em dividir o tempo entre ir ao zoológico, retornar ao mirante para tentar fotografar o Illimani, retornar à praça Murilo e caminhar novamente pelo Mercado das Bruxas. Depois do café da manhã, entrei num daqueles ônibus característicos de La Paz e parti para o zoológico, que ficava no Parque Nacional Mallasa, distante do centro e próximo ao Vale de La Luna. Por apenas dois bolivianos cheguei ao zoológico e ali passei a manhã mais solitária de que me recordo enquanto observava cada animal do altiplano e ouvia músicas do meu inseparável e cada vez mais companheiro MP4. Trata-se de um lugar agradável e muito tranquilo, incrustado num vale onde antes era um grande lago. Acredito que é daqui que retiram as trilobitas – inseto fossilizado em pedras pelo qual alguns ambulantes chegam a pedir 200 bolivianos. Eu comprei por 20! A paz do lugar me fez refletir o quanto as pessoas nos fazem falta; o quanto é bom trabalhar; o quanto é bom jogar futebol com os amigos; estar com meus irmãos (Adailton, Jailton e Roseli), minha querida mãe (Maria), cunhados, cunhadas, sobrinhos e, claro, com minha amada esposa e meus maravilhosos filhos... Naquele lugar eu realmente me dei conta do quanto estava longe de casa e de todos... Nessa região encontra-se de tudo, menos cerveja gelada! O frango é assado em assadeiras parecidas com as que temos no Brasil, só que em vez de usar eletricidade, usa-se fogo, feito com lenhas colocadas dentro das assadeiras. Às 13h retornei à La Paz, almocei naquele shopping, fui ao Mercado das Bruxas comprar alguns presentes, contratei um tour para o Chacaltaya e depois voltei ao hotel para descansar um pouco. Passei a tarde vendo TV e arrumando minha mochila, pois às 7h do dia seguinte iria ao Chacaltaya e precisaria de muita energia. Eis que às 19h o dono da agência de turismo me chamou na recepção do hotel para devolver o valor pago pelo tour, pois não atingira o número mínimo de pessoas necessárias para encarar os 5.500 metros de altitude. Revoltado com a cidade que, principalmente naquele momento, não me agradara, prometi a mim mesmo que só voltaria ali se fosse para pagar promessa e das brabas. Pensamento este que hoje repudio, pois penso que La Paz tem sim atratividades interessantes que seriam ainda mais bem aproveitadas se eu estivesse em melhores condições de saúde. Então, bastante chateado por não ter mais o que fazer no próximo dia, sai para comer alguma coisa... pollos, pollos e mais pollos; papas, papas e mais papas... é só o que se vê, de forma que procurei por um supermercado e me indicaram um, mas se tratava daquele cuja higiene eu já comentei e que não passava de uma feira. Expliquei que não é aquele tipo de mercado que eu estava procurando, mas sim um que vendesse leite, iogurte, pão, biscoitos, conservas etc., mas o sujeito apontou para o mesmo local afirmando que ali eu encontraria tudo isso... Desisti, afinal neste mercado não se tem a certeza de que se vai comer e não se vai morrer. Vencido o dia, depois de retornar pela enésima vez à Praça Murilo e subir e descer ladeiras, retornei ao hotel. Um sanduíche e dois sucos em caixinhas é o que jantei debruçado na janela do hotel, vislumbrando aquele mundo de luzes acesas nas casas incrustadas nas paredes do cânion, parecendo uma verdadeira constelação. Dali, observei o desafinado coro formado pelos auxiliares de transportes coletivos que, com metade do corpo para fora das vans ou ônibus, gritavam a todo volume os destinos e os preços das passagens, numa disputa que só eles entendem, e tudo isso com o som de fundo das buzinas já comentadas. Ali eu vislumbrava outro cenário surreal, pois a Lua dava seu show particular iluminando La Paz sem, imagino, que seus habitantes percebessem a sua presença. Aquela visão me deu outro ânimo e me fez ver as coisas de forma diferente, ou seja, La Paz pode até não ter sido como eu esperava, mas valeu muito a experiência de, pela primeira vez, sair do Brasil e conhecer, numa única viagem, parte de três países tão curiosos e diferentes em suas culturas, arquitetura, culinária (bem, culinária nem tanto) e em todos os outros sentidos. Depois de uma longa reflexão a esse respeito, li parte do livro “Lula - o Filho do Brasil” que ganhei da minha esposa para ler nesta viagem. Percebam que, mesmo distante, ela sempre esteve presente... Depois disso, mentalizei a hipótese de dormir até as dez horas sem ser acordado por buzinas e bandas noturnas como na noite anterior, mas algo em mim não me deixava satisfeito e a necessidade de conhecer, fazer ou aprontar (no bom sentido) alguma coisa era latente e fui dormir com essa sensação, que não chegou a me tirar o sono, mas que me fez acordar com outra disposição... La Paz, Bolívia (domingo, 28-03-2010) Enfim passei uma noite tranquila e consegui dormir bem, ainda que ansioso por ser a penúltima noite longe de casa e a última em La Paz, o que me deixou bastante motivado naquele momento. Não consegui dormir até mais tarde conforme planejado, pois acordei com uma passeata política, às sete horas da manhã, que atravessava todo o centro de La Paz e acordou, creio eu, até os habitantes das cidades vizinhas. O ano de 2010 é eleitoral na Bolívia, de forma que vi em todas as esquinas manifestações políticas a respeito da eleição presidencial. O que fazer? Eis a questão! Afinal meu voo era às 2h30 de 29-03, ou seja, tinha o dia inteiro e parte da noite para encontrar o que fazer, embora soubesse que seria difícil, pois não vislumbrava outra coisa na cidade senão a Praça Murilo, Mercado das Bruxas e o Vale da Lua, sem contar que tinha de fazer o chek-out no hotel às doze horas. Pensei em conhecer o lago Titicaca do lado boliviano onde Copacabana – cidade de onde se parte para as ilhas do Sol e da Lua – seria bom atrativo para aquele dia. Pensei também em ir conhecer o Salar de Uyuni em Potosi, mas não daria mais tempo devido à distância, ou ir a Oruro, Cochabamba ou até mesmo a Santa Cruz de La Sierra, sei lá, qualquer lugar fora de La Paz... Depois do café da manhã, decidi sair caminhando para ver se encontrava algo diferente para prestigiar e acabei atravessando toda a cidade novamente e dando de cara com o Illimani, sem, outra vez, conseguir boas fotos, pois, novamente, estava encoberto por nuvens que se concentravam ao seu redor. Entrei em algumas agências de turismo para confirmar se formara ou não algum grupo de turistas a fim de subir o Chacaltaya. Acontece que várias agências vendem o tour, mas somente duas empresas o fazem e nem uma nem outra conseguira formar um grupo com o número mínimo de interessados. Outros passeios me foram oferecidos, mas infelizmente todos dependeriam de mais tempo para ser realizado. Um deles me aguçou a curiosidade, pois consistia em fotografar animais selvagens na selva amazônica. Porém era necessário dormir numa espécie de acampamento no meio da mata para retornar somente no dia seguinte, o que, naquele momento, não seria possível. Questão de honra! Passei a interrogar alguns taxistas sobre o valor que cobrariam para me levar ao Chacaltaya. Só encontrava propostas de 350,00, 370,00 e até 400,00 bolivianos, contra 50,00 das agências de turismo. Como a diferença era exorbitante e o preço extremamente “salgado”, estava me dando por vencido. Nesse momento eu comecei a ficar bastante chateado e outra vez indignado com La Paz. Parei onde? Praça Murilo. Próximo a um ponto de táxi, fiquei atento a uma figura muito simpática que conversava com outro taxista e, embora não demonstrasse a sua indignação, tamanha simpatia e descontração, dizia estar chateado, pois acabara de perder uma corrida a Coroico. Dizia que uma senhora que havia agendado com ele não passava muito bem e resolveu cancelar. Aproveitei o momento e expliquei-lhe, sem demonstrar muito interesse para não ser explorado, que pretendia conhecer o Chacaltaya e estaria disposto a pagar-lhe 150 bolivianos, em torno de R$ 50,00. 200 Bs, disse ele. 150 Bs, disse eu. 150 Bs y la camiseta de Brasil que está utilizando (e a camisa do Brasil que você está usando), disse ele. De acuerdo, disse eu. Oh! Pancho muy feliz, muy feliz! – disse ele. Fomos ao hotel, fechei a conta e deixei a mochila na recepção. Seguindo as instruções de Pancho, que é uma “figura” extremamente espirituosa, peguei uma jaqueta e uma garrafinha d’água e partimos. Fomos conversando enquanto ele cantava e ouvia músicas bolivianas misturadas com jogo de futebol que se ouvia ao fundo da gravação feita em fita K7. De vez em quando ele repetia: Pancho muy feliz; Amigo brasileño; camiseta brasileña... (Pancho muito feliz; amigo brasileiro; camiseta brasileira...) Antes, porém, Pancho teve de abastecer o carro e, por conta disso, fomos a Los Altos onde ocorria a maior feira livre do mundo, segundo meu novo colega. A estrada que liga La Paz ao Chacaltaya é muito bonita e interessante, sobretudo por ser de chão batido e cascalhos, com muitas curvas e muitas lhamas soltas pelo caminho. Não há sinalização nem proteção alguma, e qualquer vacilo que se dê pode-se parar dentro de uma das muitas lindas lagoas coloridas bem abaixo, aliás, muito abaixo. O Glaciar Chacaltaya é um dos pontos turísticos de La Paz mais visitados, ou pelo menos era, pois ali já funcionou a pista de esqui mais alta do mundo, desativada recentemente. Atualmente não passa de uma montanha de pedras de coloração marrom, ligeiramente soltas e sem gelo, devido ao aquecimento global. O cenário, se comparado com o passado recente, é triste, pois devia ser muito bom e bonito visitar aquele local quando ainda tinha um clube de esqui e neve. De qualquer forma é um lugar extremamente alto e tem-se uma visão excelente, ainda que distante, de Los Altos, La Paz e dos picos nevados da Cordilheira Real. Para chegar à estação de esqui o melhor é ir de carro, porque fica a uns 30 quilômetros de La Paz e a 5.300 m.s.n.m., e, depois, seguir a pé mais uns 150 metros ou 200 metros até onde seria o início da pista. Acontece que, para conseguir essa façanha, é necessário muita disposição e fôlego, já que a 5.500 m.s.n.m. falta oxigênio no cérebro, os dedos adormecem e, no meu caso, a dor de cabeça e a sensação de cansaço foram muito fortes. Existe um senhor que cuida do Clube Andino e dá as boas-vindas aos turistas. Oferece (por cinco bolivianos) uma xícara de chá de coca e orienta que as pessoas descansem pelo menos meia hora para aclimatar-se antes de começar a subir (se quiser) o restante da montanha. Tomei um comprimido para alpinistas, tomei a xícara de chá e pensei estar aclimatado quando iniciei, sozinho, a subida rumo ao cume do Chacaltaya. Partindo da base de apoio, que era a base de esqui quando o clube funcionava, sobe-se primeiro uns 100 metros e depois mais uns 200 para se chegar ao lado do Huayna Potosí com seus imponentes 6.088 m. Inicialmente, sente-se que as pernas pesam três ou quatro vezes mais, dando a impressão de que se acabou de participar de uma longa maratona. Lá em cima encontrei “uns loucos” da Nova Zelândia, Estados Unidos, Guatemala, Nicarágua e um guia particular boliviano que estava acompanhando-os. Depois que eu pedi para eles registrarem umas fotos minha e conversarmos um pouco, o guia, com sua filmadora, pediu para que eu registrasse uma mensagem a La Paz dizendo que colocaria no youtube. Posteriormente verifiquei que realmente postou, mas ficou tão mal gravado que não vale a pena conferir. O lugar é realmente mágico e eu estava muito satisfeito por estar tornando a última tarde em La Paz na melhor aventura que tive na Bolívia. No topo do Chacaltaya e em absoluto silêncio, quebrado apenas pelo vento que parecia assoviar uma canção melancólica que “soprava” e “varria” os últimos e escassos centímetros de neve que, insistentemente, tentavam permanecer naquele que já foi orgulho dos bolivianos, me deixei tomar pela paz que o lugar traz às pessoas que ali conseguem chegar. É uma sensação de inferioridade devido à beleza da paisagem, misturada com outra de puro êxtase devido à conquista, afinal, não é todo dia que se está no cume de uma montanha a 5.500 metros sobre o nível do mar. Depois de muitas e muitas fotos e um bom repouso, pois o fôlego fica realmente escasso, os dedos adormecem e, no meu caso, o nariz, que já estava interna e externamente ressecado, sangrou um pouquinho, iniciei a descida daquele que foi um dos melhores momentos da viagem, perdendo apenas para a sensação que tive ao mergulhar com as focas e os leões marinhos nas ilhas Palominos em Callao, Peru. Naquele momento, a música que aleatoriamente era selecionada pelo MP4, que me acompanhou em todos os momentos, era da Blitz – uma antiga banda brasileira já extinta – cujo refrão era assim: Longe de casa A mais de uma semana Milhas e milhas distante Do meu amor Será que ela está me esperando Eu fico aqui sonhando Voando alto bem Perto do céu... Que ela estava me esperando eu não tinha dúvidas e que eu estava bem mais perto do céu, também. Era hora de voltar! Acordei o amigo Pancho, que ficou descansando no táxi, e o critiquei por não ter me lembrado de comprar umas frutas ou chocolates, pois estava com fome e já eram quase dezessete horas. Ele sorriu, bateu palmas e me disse ter uma surpresa. Foi ao porta-malas do táxi e trouxe uma sacolinha plástica com duas sobrecoxas de frango assadas, porém geladas. Tive vontade de descer a montanha correndo, porque não suportava mais ver frango, ouvir falar de frango ou comer frango. Com cuidado disse (mentindo) que, assim como na Índia é proibido comer carne de vaca, no Brasil é proibido comer frango. Esperto, ele insistiu alegando que não estávamos no Brasil e que nesse caso eu não estaria cometendo nenhum pecado. Aceitei! O retorno a La Paz foi tranquilo, e contente com a “graninha” extra que ganhara e acima de tudo com a camisa do Brasil que lhe daria conforme combinado, o taxista passou por outro caminho para que eu conhecesse um pouco mais daquela exótica região. Satisfeito por ter passado o melhor dia em La Paz, fiquei no hotel e combinei para Pancho me apanhar à meia-noite para me levar ao aeroporto. O tempo que fiquei na recepção aguardando Pancho era interminável e aproveitei para ler um pouco mais do livro, até que o atendente me ofereceu um quarto para descansar um pouco, o que aceitei de imediato e com gratidão. Tomei um banho e relaxei até às 23h, já que a noite seria um martírio, pois partiria no voo das 2h30 e teria de fazer uma escala em Assunção, no Paraguai, às 4h30. No caminho para o aeroporto com o simpático Pancho que, mesmo cansado, foi cantando e conversando muito, não imaginava que a Bolívia ainda me reservaria uma desagradável surpresa. Acontece que, para chegar ao aeroporto, tem-se de passar pela periferia de Los Altos que, com todo respeito, mais parecia uma visão do inferno. Imagine passar lentamente à meia-noite e meia num local que mais parecia o “quadro da dor”. Centenas de pessoas obstruíam as ruas como se estivessem em greve geral, embora se divertindo(?). Sem o menor pudor urinavam, ouviam músicas em volume alto, dançavam, conversavam e traficavam drogas com total liberdade. As buzinas dos táxis eram acionadas sem parar como que pedindo licença para puderem chegar a seus destinos e horários marcados. O lixo ocupava boa parte das ruas e numa encruzilhada até servia como rótula. Rótula essa disputada por alguns cachorros e duas ou três mulheres à procura de algo, talvez para comer... Realmente um submundo onde o que impera são a desordem e o desleixo, trazendo-me a sensação de estar vivenciando as cenas do filme Ensaio Sobre a Cegueira, baseado no livro (com o mesmo nome) de José Saramago. Todo esse caótico cenário só foi amenizado com a certeza de que estaria retornando ao Brasil e ao seio da minha amada família ainda na manhã deste dia. Não sabia, entretanto, que ainda levaria um grande susto em solo paraguaio. Assunção, Paraguai (segunda-feira, 29-03-2010) O voo atrasou duas horas, o que me fez sair de La Paz às 4h30 e de Assunção, Paraguai, somente às 13h, pois tive de aguardar outra aeronave chegar de São Paulo devido a um incidente com uma das turbinas do avião que “engoliu”, literalmente, uma ave no momento da decolagem, o que fez com que o piloto abortasse o voo e retornasse ao aeroporto. Alguns passageiros passaram mal e o desespero foi grande. O piloto tinha poucos metros de pista para conseguir controlar o avião, o que fez com extrema competência, já que o trem de pouso dianteiro encontrava-se no ar. Passado o susto e a agitação dentro do aeroporto com a realização do visto e do check-in imprevistos, eu e dois outros passageiros, um paulista e um senhor mineiro muito bacana chamado Olisio, almoçamos e ficamos tomando umas cervejas paraguaias (afinal estávamos vivos!) até partirmos para o Brasil. Florianópolis, Brasil (segunda-feira, 29-03-2010) Depois de muito esperar e tomar um verdadeiro “chá de aeroporto” em La Paz, Assunção e em São Paulo, fiz as devidas tramitações de entrada no Brasil e aterrissei em Florianópolis às 21h, onde meu sobrinho Diogo estava me aguardando no aeroporto enquanto minha família e outros sobrinhos (Marcos e Gleyce) me aguardavam em casa com um jantar especial: um delicioso churrasco e GALETO! Marcos e Gleyce foram o braço direito da Janaina durante essa viagem, pois estiveram presentes em todos os momentos, o que trouxe a todos mais tranquilidade durante a minha ausência. A recepção foi bastante calorosa. A euforia do retorno, misturada com a curiosidade dos fatos e fotos e não menos pelos presentes e lembranças, fez com que a noite fosse descontraída e alegre, apesar de todos terem ficado bastante surpresos e preocupados com a minha aparência que, naquele momento, apresentava seis quilos a menos. Mais tarde, meu irmão Adailton, minha cunhada Nilva e meus sobrinhos Vinícius e Bruna também foram me dar as boas-vindas, e ali permanecemos boa parte daquela noite conversando e comemorando o meu retorno. Enquanto todos jantavam, brincavam e viam as novidades, fiquei imaginando uma série de coisas e me convenci do quanto foi ótima a iniciativa e a coragem de ter realizado essa viagem que já me traz saudades. Há, com toda certeza, muito mais coisas bonitas e interessantes que eu poderia ter conhecido nestes países, mas tudo aquilo que pude ver, sentir, tocar, beber e comer, agradável ou não ficará marcado em minha memória de forma extremamente positiva. Afinal, conhecer a capital do Peru (Lima), a Costa Verde e suas praias de pedras; ver de perto lhamas, alpacas, vicunhas (comer os pobres dos bichinhos), pelicanos e flamingos; mergulhar com focas e leões marinhos; comer cuy, ceviche, paella marinha do Pacífico e pizzas montadas e assadas “ao vivo”; andar em táxis e ônibus exóticos; viajar por entre as Cordilheiras dos Andes e Cordilheira Real; conhecer e navegar no lago navegável mais alto do mundo (Titicaca) e conhecer o lago mais alto do mundo (Chungará); conhecer novas cidades e suas diferentes culturas, políticas, geografia, economia, arquiteturas e culinária; conhecer ruínas, vulcões, desertos, ilhas, parte da região Norte do Chile e o famoso morro de Arica e se aventurar pela capital da Bolívia (La Paz), tudo isso são coisas que se leva para a posteridade e deixa, sempre, um gostinho de “quero mais”... Me segundo relato contando as as experiências vividas na Venezuela, Colômbia, Nicarágua, Costa Rica e Panamá durante a viagem realizada solitariamente em março de 2011 já esta pronto... qualquer hora eu posto Por aqui... Aguardem! Ronei B. Amandio [email protected] DICAS: Antes de viajar é importante que você verifique se sua Carteira de identidade está válida - a CI tem validade de 10 anos e deve ser renovada para poder viajar e/ou tirar o passaporte. Outra coisa importante é liberar, junto a seu banco, seu cartão de crédito para uso no exterior. A vacina contra a Febre Amarela é exigida no Peru, portanto procure um posto de saúde e vacine-se com antecedência mínima de dez dias, depois vá à ANVISA e solicite seu Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia - "exigido no Peru". Faça um curso básico de Espanhol. Existem alguns na Internet (grátis) - por exemplo http://www.babelmundo.com.pt FOTOS DO PERU: FOTOS DO NORTE DO CHILE: FOTOS DA BOLÍVIA: Obs.: A foto da casa sobre o penhasco foi registrada no Glaciar Chacaltaya, La Paz - Bolívia. ESTA FOTO, INTITULADA "O REFÚGIO", FOI CLASSIFICADA EM 1º LUGAR NUM CONCURSO NACIONAL DE FOTOGRAFIAS.
  14. Ronei Amandio

    Lima à La Paz

    Então, a minha viagem vai de 17/03 à 29/03 sendo que estarei em Lima no dia 18/03 e retorno à Floripa dia 29/03 às 02:30h da madruga, de forma que terei, na verdade, do dia 18 ao 28 (dez dias). 18, 19 e 20 (Lima) / 20, 21, 22 e 23 (Cusco/MP), 23, 24 e 25 (Puno/Titicaca), 25 e 26 (Puno/Copacabana) e 26, 27 e 28 (La Paz). Algué, sugere algo bacana neste trajeto? Alguma informação sobre a retomada de Machu Picchu? Obrigado.
  15. Fala Leonardo, Ontem eu também li a notícia que MP só abriria em abril, mas aqui no Mochileiros.com obtive informação de que abriria em três semanas. Você sabe algo sobre esta informação.
×