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Lucas Ramalho

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Tudo que Lucas Ramalho postou

  1. Olá Letícia. Então em Lukla quando fui não tinha muitas coisas por lá, se passar por Kathmandu, compre tudo que puder por lá. O ônibus ou jipe que vai pra lá sai de Kathmandu, então não sei como chegar lá por via terrestre sem passar pela capital. Talvez de avião. Sorte!
  2. Bom Dia Universo! Viajamos 14 dias pelo centro-oeste da Argentina: San Juan, Rodeo, Pismanta, Dique Cuesta Del Viento e Ullum, lugares pouco visitados por turistas e até mesmo por argentinos. A viagem foi de carro saindo de Buenos Aires dia 24 de agosto. 1100 km nos separavam de San Juan. 16 horas de viagem com uma dormida de 4 horas em posto de gasolina. Apenas 1 policial nos parou e de forma gentil nos deixou seguir. A cidade é bem receptiva. Ficamos na casa de uma amiga. Diversos conhecidos e amigos nos convidaram para ótimos assados e para tomar os bons vinhos da região. Recomendo fortemente a Bodega El Milagro que fica em Albardón, 12 km de San Juan com seus vinhos de Cosecha Tardia naturalmente doces. Nos arredores, o dique de Ullum é obrigatório. É possível ir de ônibus e curtir o lindo visual. A trilha do Cerro das 3 marias é tranquila para iniciantes. Prepare a câmera e se estiver calor, meta-se nas águas. Rodeo fica a 200 km de San Juan. Há linhas de coletivos regulares, fomos de carro pela rota 149, com um visual incrível. No entanto, ela chega aos 2600 metros em seu trecho mais alto e pode enjoar um pouco. Rodeo deve ter uns 6 ou 7 habitantes haha! Brincadeira, mas é de fato uma vila com uma população bem reduzida. Possui 3 rádios locais e alguns restaurantes. O circuito mundial de Kitesurf rola por lá em fevereiro. A cidade se enche. De clima seco, chuva por lá é ouro. O vento constante garante a diversão no dique Cuesta del Viento. Cada minuto por lá vale a pena. Pouco turística, a região se mantém autêntica com costumes bem interioranos. Não há muito pressa, a hora da sesta dura incríveis 4 horas das 13h às 17h. A punta de espalda é o corte tradicional, delicioso e raro de encontrar em outro lugar. O doce de Alcayota (abóbora-chila) é uma iguaria doce típica de região. Ainda dentro da cidade, a palmeira de dois troncos é única no mundo! Praças bonitas, asséquias e monumentos completam a obra. Está pra ser inaugurado em outubro um dos maiores teatros da Argentina por lá. A região vai fazer parte do futuro corredor bioceânico que vai conectar o Chile (La Serena) a Porto Alegre de forma direta. Ótima opção pra quem quer conhecer um lugar ainda não tão explorado. Mais fotos https://bomdiauniverso.com.br/2016/09/10/rodeo-e-san-juan/ By Lucas Ramalho
  3. Bem eu fiz em 2014 certo. Mas acredito que o grande Senhor Tozaki ainda está por lá! Manda um abraço pra ele se você for!
  4. Diego parabéns pelo relato! Show de bola as fotos! Moro aqui na argentina Em agosto vamos com meu carro a San Juan passar 1 mês! Vou aproveitar pra dar uma esticada mais ao norte que ainda não conheço. Purmamarca, Salta, Jujuy e quem sabe o salar de Uyuni. É um Ford Fiesta 1.6, você acha que dá pra encarar o Salar de Uyuni com ele? Abraços
  5. Esquece acampar e cozinhar. É bem mais prático dormir nas casas das pessoas. Não precisa nem de barraca. Se quiser saber mais detalhes, manda mensagem privada. Forte Abraço!
  6. Olá Lucas, Penso em fazer esse trekking, não sei ao certo qdo e gostei dessa forma alternativa e por conta própria que vc fez. Faço trekking aqui na minha cidade. Então gostaria de saber qual a preparação que a pessoa deve fazer antes de encarar o EBC? E relação a Altitude é muito perigoso? Olá Então. Comece com montanhas mais próximas do Brasil. Na Argentina e Bolívia tem várias montanhas de 4 a 5 mil metros que servem de preparação para lá. O altitude pode ser mortal, Então só vá quando estiver em plena forma física, em plena forma mental, preparada para a altitude e com bastante experiência com trekking. Lucas Ramalho
  7. Olá! Então veja bem as condições climáticas! Tem tido muito terremotos na região. É tranquilo ir sozinho quando se tem experiência. Mas nunca solitário hehe! Namahô! TSS
  8. Até onde eu sei não. Porém é necessária bastante experiência!
  9. O clima em dezembro eu não sei te dizer. Em agosto estava muito bom. Calor e pouca chuva! Então o transporte entre as ilhas é super fácil. Barcos e balsas garantem a travessia diariamente.
  10. Olá! Então não fiz o tracklog. Mas um bom mapa é vendido por lá e já garante 90% da localização na trilha. O resto vai da experiência de cada um!
  11. Olá Meu caro. Vá por terra de Nairobi. É mais tranquilo. Não sei quanto está o preço agora, na época estava 500 USD para ver os gorilas. Boa Trip!
  12. A Indonésia foi o último país da minha volta ao mundo. De Hanói eu peguei um avião para Jakarta. A capital se situa na ilha de Java e é um aglomerado de 20 milhões de pessoas. País de maioria muçulmana, conta com forte presença budista sobretudo em Bali. A Indonésia é um país extremo, ariano, fogo e conta com mais de 17 mil ilhas, sendo o maior arquipélago do mundo. Com mares revoltos e dezenas de vulcões, muitos deles ativos, não é raro populações inteiras serem deslocadas devido a uma erupção. O país é ótimo para um explorador que gosta de se aventurar pela natureza, seja mergulhando, fazendo trekking pelos vulcões ou conhecendo os dragões de Komodo. Em jakarta, eu tive duas ótimas surpresas. A primeira delas é que eu cheguei justamente no último dia do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos, então o país estava em festa. Segunda, que reencontrei Lirón da Dinamarca que havia conhecido no Egito, 8 meses antes. Sem combinar nada, nos encontramos à noite em uma das milhares de ruas da capital. Santa Sincronia. Fomos celebrar juntamente com Ferry, holandês que também tinha acabado de chegar no país. Mas não perdi muito tempo por lá, logo segui de trem para o interior da ilha, em busca dos vulcões. Yogyakarta foi minha próxima parada. Apesar de ter ido só, reencontrei Ferry por lá, Lirón ficou em Jakarta. Na manhã seguinte eu fui de bicicleta até Borobudur, templo budista Mahayana do Século IX. A trip rendeu no total 100 quilômetros feitos em aproximadamente cinco horas. Valeu a pena. O templo é realmente interessante, apesar de uma multidão visitá-lo todos os dias. De volta à cidade, fui a um restaurante tomar um café e escrever um pouco. Então comecei a conversar com Devi, que trabalhava por lá. Eu disse que era brasileiro e para minha surpresa na mesma hora ela me convidou para sair. Perguntei se ela não estava em horário de serviço, mas ela disse que o trabalho era bem flexível hahaha. No dia seguinte eu sai do hotel e me “mudei” para a casa dela. Nós fomos então conhecer o famoso vulcão Merapi, o mais ativo da Indonésia, com 2968 metros. Eu fui dirigindo a scooter dela e Ferry foi com sua namorada em outra moto. Saímos dez da noite da cidade para uma trip de 3 horas até a base do vulcão, de onde então começaríamos a caminhada. Nos perdemos várias vezes pelo caminho e o frio só ia aumentando conforme íamos subindo pela estrada. Ferry estava congelando. Chegamos por volta das 2h da manhã e nenhum dos três teve coragem de começar a subida. Eu fui sozinho. Eles ficaram dormindo lá na base. Após 3 horas em um forte ritmo alcancei o topo do vulcão. Uma dezena de pessoas já estava por lá. O visual é inacreditável e é possível ver a lava borbulhando no meio do vulcão. Não pareceu muito seguro hehe, mas como experiência valeu muito a pena. Desci em uma hora e reencontrei Devi sonolenta me esperando por lá. Ferry e sua namorada já tinham se mandado. Eu estava morto de sono e como voltei dirigindo, paramos em um café para descansar. Após recuperar o fôlego, voltamos então para Yogyakarta. A cidade é bem peculiar: conta com uma avenida central estilo 25 de março repleta de lojas, com milhares e milhares de pessoas dia e noite vagando por lá. Sem moto é difícil se deslocar na cidade, como Devi tinha duas eu consegui visitar alguns pontos turísticos enquanto ela estava trabalhando. Nós também aproveitamos o calor para ir à praia que fica há duas horas de lá. Confesso que nem me arrisquei na água, nunca vi mar tão revolto como aquele. À noite fomos ao Ramayana Ballet que conta a história do casal mais famoso do mundo oriental: Devi e Rama, mesmos nomes nossos, Devi e Rama, como eu custamava ser chamado por lá. O curioso foi que choveu durante o espetáculo e como era a céu aberto todos continuaram assistindo o show de guarda-chuva, inclusive a gente. No total fiquei oito dias em Yogyakarta, apesar de ter planejado apenas dois. Devi tinha que retornar para Brunei onde trabalhava e eu então acabei seguindo viagem para Bali. Nossa despedida foi em um show de Reggae que rolou no Rasta bar, no centro da cidade. Antes de chegar à Bali, fiz uma visita a Ijen Crater, famosa pelos trabalhadores que coletam enxofre das paredes da cratera. Ganhando cinco centavos por quilo coletado, eles vivem em regime de quase escravidão. Há também um grande lago de enxofre na base da cratera famoso pelo fenômeno do fogo azul, gás sulfúrico inflamado que aparece durante a noite e atrai milhares de visitantes. Bali é uma ilha exótica, mas super turística. De maioria budista, os habitantes mantém as tradições de longa data. Suas praias são convidativas para surfar, logo aluguei uma prancha e fui me aventurar na praia central. Ocorre que o mar é sempre traiçoeiro e as correntes de retorno (rip currents) me levaram quase para alto-mar. Sem conseguir voltar, comecei a acenar para os últimos surfistas que já pareciam bem longe. Esperei um pouco e não tentei ir contra a corrente, apenas relaxei. Depois de alguns minutos, comecei a voltar vagarosamente e por sorte consegui chegar até a beira. Alguns surfistas me ajudaram no retorno. Eu já estava quase com hipotermia. Mar é coisa séria. A ilha conta infelizmente com muitos policiais corruptos. Eu dirigia uma scooter quando um policial se aproximou dizendo que eu havia cometido uma infração: virei à esquerda e depois voltei para a principal já que eu tinha errado a rua. Me mostrou um desenho de uma moto fazendo isso com um X dizendo que não era permitido. Logo me pediu dinheiro, creio que 20 dólares. Ele segurou a minha carta e eu me recusei a pagar. Então ele disse que eu teria que ir até o juiz para pegá-la de volta. Como não queria enfrentar esta burocracia, ele disse que eu poderia ter a carta de volta caso pagasse. No fim das contas, deixei 10 dólares com ele, mas tratei logo de sair daquela ilha. Fui para Lombok. A ilha é bem mais interessante que Bali e atrai menos turistas. Fui fazer um trekking no segundo vulcão mais alto do país, Monte Rinjani. A 3726 metros, ainda está ativo e acidentes fatais não são raros. Geralmente se recomenda 3 dias para chegar ao topo com 2 pernoites na base dele. Porém eu resolvi subir em apenas uma noite e mesmo os guias se recusaram a ir comigo dizendo que era impossível. Então comecei às 20h guiado apenas pelo GPS. À meia-noite encontrei dois indonésios perdidos ainda no platô, eles tinham ligado para os seguranças que logo chegaram de moto. Eu disse que estava indo rumo ao pico e eles então decidiram me seguir após uma conversa com os seguranças. Mas logo ficaram para trás, já que estavam num ritmo muito mais lento e aparentemente relembraram o caminho. A trilha é bem árdua sobretudo se for fazer em apenas uma noite. A última parte é realmente desgastante. Como a trilha até o topo é de pedras soltas misturadas com areia e cinzas vulcânicas, cada passo acima é dois abaixo. Mas eu fiz isso e às 7h da manhã cheguei finalmente ao pico. A paisagem é fantástica e também é possível ver o vermelho-fogo da lava no núcleo. Após fotos e um lanche rápido, voltei até o início, dessa vez em apenas 3 horas. Não recomendo obviamente que alguém vá sozinho e em apenas uma noite, a não ser que saiba muito bem o que está fazendo, até porque é comum mortes de estrangeiros por acidentes nessa montanha. Feito isso fui para Gili, famosas ilhas cuja circulação de motos e carros é proibida. Um paraíso, porém completamente lotado, estilo Guarujá. Fiz um mergulho, porém a visibilidade não estava muito boa. Mas valeu a pena o pôr do sol, que é fantástico. Voltei para Lombok e logo me dirige a Lakey Beach, paraíso dos surfistas no meio da ilha. Fui como sempre com um francês, Gil. Dividimos uma pensão e no dia seguinte fomos tentar surfar. De longe, as ondas não pareciam tão grandes, porém in loco eram imensas para um surfista iniciante. Gil foi na frente e quando eu entrei no mar, ele estava branco. Ele apenas me olhou e disse: elas são muito grandes, cara. E realmente eram. Tentamos por uma hora mais ou menos, mas eu só engoli água e levei caldo. Em uma delas fiquei quase 1 minuto submerso, não conseguia subir de jeito nenhum e quando voltei à superfície, outra onda veio e mais um minuto submerso. Realmente é preciso ter peito e respeito para surfar. A última parte da trip foi na Ilha das Flores, pertinho da Ilha de Komodo, do famoso dragão. Mergulhar por lá é divino. Em um dos mergulhos que fiz, fiquei lado a lado com 3 tubarões. Realmente incrível. Fui então conhecer os perigosos dragões de Komodo, que para minha surpresa ficam bem próximos das instalações dos guardas que tomam conta do lugar. Era meio-dia e eles estavam deitados embaixo da estrutura da cozinha que era elevada. Estavam tirando uma soneca. Mas não se engane, são venenosos e caso alguém seja atacado, tem 24 horas para ir ao hospital, do contrário morre. Geralmente eles evacuam a pessoa de lancha super rápida até Bali. No dia 7 de setebro, dia da independência, peguei então o avião de volta ao Brasil. O avião não, cinco aviões, foram 48 horas de viagem de onde o vento faz a curva até São Paulo. Era hora de voltar pra casa depois de quase um ano e meio de aventuras. Ainda no aeroporto da Ilha das Flores, havia uma sacada no segundo andar e todo mundo que estava ali, indonésios e indonésias, acenaram para mim dizendo adeus enquanto eu andava até o avião. Eu senti como se fosse realmente o encerramento de um filme que foi filmado durante toda essa minha viagem. Valeu muito a pena e eu faria tudo novamente. Viajar o mundo não é perigoso como se pensa, aliás o maior perigo é ficar preso, não em um lugar físico, mas dentro de si mesmo, da sua jaula mental, dentro de preconceitos, idéias fixas, condicionamentos e mentiras que tomamos como verdade. Não acredite na tevê quando diz que o mundo é perigoso, não acredite em seus pais quando dizem para não falar com estranhos, duvide até mesmo de você quando acha que não pode fazer algo, mesmo querendo fazer. O mundo é como uma pedra de amolar, afia-nos ou desgasta-nos conforme o metal que somos feitos. Não deixe o tempo passar sem que você faça algo com ele, não queira sentir a dor do adiamento. O mundo está aí apenas esperando para ser descoberto, dia após dia, é possível se encantar e se maravilhar com o que ele nos oferece. Sabedoria é encontrar o divino no profano, o fantástico no cotidiano e a verdade no engano. Lucas Ramalho
  13. Infelizmente ou felizmente é obrigatório meu caro. A altitude pode ser fatal para quem não tem experiência. É possível sim contornar esta situação, mas só recomendo para quem já está acostumado com alta montanha. Caso queira mais infos, manda uma mp pra mim. Abraço
  14. Fábio Cordeiro. Faça um relato e coloque no mochileiros para ajudar quem quer ter mais informações sobre os países.
  15. De longe um dos meus países favoritos, Nepal surpreende pela exuberância de suas montanhas e pela harmonia com que seu povo se adaptou à vida nos Himalaias. Cheguei à capital Kathmandu e logo senti a diferença para a Índia: sem muita amolação, tudo fluindo de forma mais fácil e rápida e até pra conseguir informações estava mais fácil. Curti a capital por três dias e logo rumei às montanhas sagradas. Fui de Jipe: estava bem mais barato e não tinha o risco de enfrentar o aeroporto mais perigoso do mundo: Lukla. Diga-se de passagem, a aviação no Nepal é uma roleta russa, nenhuma das companhias aéreas locais tem autorização para operar na Europa e pegar um avião por lá é sempre um tiro no escuro. Mas a aventura por terra foi igualmente emocionante. Uma viagem de 20 horas por locais em que não havia sequer estrada e com diversas travessias de rios. Estávamos em 13 num carro que era pra apenas nove pessoas e ainda pegamos um protesto de 1 hora na estrada. Vale a pena. Chegamos já de noite e após a refeição descansei bastante para o início da trilha no próximo dia. A partir daqui irei descrever a trilha que eu fiz até o Acampamento Base do Everest (EBC) com detalhes do percurso incluindo locais e tempos estimados. Com uma mochila pesando 25 kg, um mapa e bastante determinação comecei a trilha rumo ao EBC. A trilha começa em Faplu, onde termina a estrada para os carros e começa a trilha para os Yaks (boi tibetano) e para os Sherpas (povos que vivem nos Himalaias, atualmente trabalhando como carregadores e guias das trilhas). Para entender a trilha, veja o mapa abaixo com o roteiro aproximado que eu fiz. A trilha do mapa começa em Lukla, mas eu comecei em Faplu, há dois dias caminhando de lá. O circuito que eu fiz envolve três passes, Kongma la, Cho La e Renjo La, cada um tem uma atitude aproximada de 5400 metros, sendo que o acampamento base fica depois do primeiro passe caso o trilheiro opte pela direção leste-oeste. Optei como sempre por ir sem guia e sem carregadores, não consigo ver o mérito de subir uma montanha com alguém carregando sua mochila e te guiando, isto corta toda a magia de percorrer uma trilha, mas é apenas a minha forma de ver e há casos e casos. Comecei às 8h saindo de 2600 metros aproximadamente rumo à Juving. No caminho encontrei apenas um grupo de romenos e um casal ucraniano. A trilha é bastante óbvia e não há como se perder. Muitos locais vivem por lá e podem te ajudar caso haja necessidade. Não é preciso levar muita comida, já que toda noite dorme-se em uma pensão já com o jantar incluso, tampouco é necessário barraca, apenas um saco de dormir que nem precisa ser para inverno, já que as casas são bem abrigadas do frio. Era maio de 2013, quase início do verão por aqueles trópicos. De dia, bermuda e camiseta eram mais do que suficientes, à noite, uma jaqueta e uma calça davam conta do recado. No 2º dia encontrei como sempre um francês, Antona, e um sueco, Magnus, que também estavam indo rumo ao EBC e nós acabamos indo juntos. Com o nosso ritmo forte, a trilha rendeu bastante. No segundo dia caminhamos 11 horas até Choplung, bem abaixo do temido aeroporto Lukla. Outro fato interessante de Lukla é que como ele está localizada no seio dos Himalaias, não há serviços de táxis ou ônibus, de lá só se sai a pé ou de helicóptero. É um dos poucos aeroportos que eu conheço neste sentido. O 3º dia foi mais tranquilo até Namche Bazaar, principal centro comercial da região, que fica a 3400 metros e é o último ponto onde se pode desfrutar de lojas, padarias, restaurantes, bares e até clubes. A partir dali, somente abrigos dos nativos montanha acima. Tudo que precisa ser comprado tem que ser ali: equipos, eletrônicos, suprimentos etc. Incrível que não há estradas até lá, tudo é carregado nas costas dos Sherpas ou no lombo dos Yaks. A estrada mais próxima fica a 3 dias dali, justamente onde eu comecei a trilha. Descansei um pouco da intensa caminhada e até tomei um conhaque com Gal de Israel que havia desistido da trilha. No dia seguinte saí mais tarde rumo à Tengboche, Antona e Magnus optaram por um caminho mais longo que eu decidi não ir. A 3800 metros fica um dos monastérios mais famosos do Nepal, onde Rimpoche, líder do budismo tibetano, costuma realizar suas cerimônias. Eu tive a honra de participar de uma delas e de andar lado a lado com ele no final dela. Uma sensação única ouvir os mantras emanando da boca de todos aqueles monges a quase 4 mil metros de altitude. Aquele momento foi sem dúvida o cume espiritual da trilha. Na Guest House, vi fotos e assinaturas de brasileiros que subiram até o topo do Everst, maior montanha do mundo. Até hoje, pouco mais de 10 brasileiros chegaram até o pico e em 2014 todas as expedições foram canceladas devido à morte de 16 sherpas no Khumbu Ice fall, umas das partes perigosas da ascensão. No 5º dia segui até Chukung onde reencontrei o francês e o sueco. Ficamos em um abrigo a 4800 metros. Como tinha feito um trekking no Markha valley, norte da Índia, 10 dias atrás, não senti qualquer efeito da altitude. Cheguei quase de noite e como estava bem aquecido, tomei um banho gelado do lado de fora do abrigo pra espanto geral. Foi apenas um banho rápido hehe. Mais tarde joguei xadrez com um israelense, Avi, e logo fui dormir. O dia seguinte consistiu em um ataque ao Chukung Ri, a 5500 metros aproximadamente. Acabei se desencontrando dos dois e perdido por 2 horas pela montanha voltei ao abrigo. Peguei mais informações e novamente fiz o ataque, dessa vez, encontrei o caminho certo, só que já estava tarde e eu fui o último a subir. Os ventos fortes e a rápida mudança de tempo são características de lá, mas tudo foi tranquilo. De volta ao abrigo recarregamos as baterias e no 7º dia então partimos rumo ao acampamento base. De fato há um abrigo chamado Gorak Shep, 200 metros abaixo do EBC onde os trilheiros passam a noite. A trilha até lá partindo de Chukung envolve o primeiro passe Kongma La a 5500 metros. Com mochila pesada, a subida parece interminável. Levamos 4 horas até a passagem e de lá mais duas horas por uma dura geleira até Lobuche. Almoçamos bem, descansamos e seguimos finalmente para Gorak Shep. Mais 2 horas de caminhada e finalmente chegamos ao último abrigo do circuito. O local conta com chuveiro elétrico, internet, aquecimento e quartos para os trilheiros. Tudo isso é pago à parte, eu optei por banho gelado e não fiz questão de internet. Lá conversei com um grupo de estadunidenses que tinham pago de 2 a 3 mil dólares pela trilha. Nós, se gastamos 200 dólares cada no total, foi muito. Esta é uma outra vantagem de ir sem guia e sem carregadores, os custos vão lá embaixo, mas isto é uma questão delicada e cada um deve decidir o que é melhor pra si. O 8º dia foi o coroamento, acordamos antes do sol nascer e rumamos então para uma montanha chamada Kala Patar, de onde se tem uma vista privilegiado do Everest e do EBC. Chegamos ao topo em uma hora e após a celebração e dezenas e dezenas de fotos voltamos ao abrigo para o café da manhã. Após recarregar as baterias seguimos finalmente para o acampamento base onde milhares de barracas disputam espaço no gelo, bem próximo de onde começa a rota de ascensão até o cume. O interessante é conversar com quem está ali e com quem acabou de voltar do pico. De lá são “apenas” mais 3 mil metros até o topo do mundo. Quem quiser se aventurar, além de precisar de muita experiência também precisa de muito tempo e dinheiro: o preço gira em torno de 100 mil reais e leva-se no mínimo 2 meses para realizar o feito. Um dia, um dia! Voltamos ao abrigo, arrumamos as coisas e partimos em direção a Dzonghla, via Lobuche. A trilha foi árdua já que o tempo virou e ventava muito forte. Ficamos perdidos por 30 minutos, mas acabamos por encontrar o caminho. A trilha principal vai de Namche Bazaar até Gorak Shep, já a trilha dos 3 passes conta com partes menos batidas e mais fáceis de se perder, por isso, mapa, GPS e um forte senso de orientação são fundamentais neste roteiro. Chegamos quase à noite e Antona pensou em passar o dia seguinte descansando, mas depois mudou de idéia. No 9º dia então seguimos para Gokyo pelo 2º passe Cho La a 5400 metros. Mais um dia de longa caminhada que rendeu no total 12 horas até o abrigo. Para celebrar comemos Yak Steak e tomamos muito, muito chai. Meu lugar favorito de todo o circuito, o lago Gokyo é impressionante. Os abrigos ficam de frente pra ele. Na verdade são sete lagos que são considerados sagrados tanto para o budismo quanto para o hinduísmo e no dia seguinte fizemos uma curta caminhada até o quarto lago chamado Thonak Tso. Então topei o desafio de Antona e mergulhei nele por 1 minuto. Gritando de alegria e de frio, foi um verdadeiro batismo nessas águas sagradas. De lá eu segui sozinho para o quinto lago onde fiz uma meditação. Voltei para o abrigo e descansei. A noite fizemos uma celebração de despedida já que no dia seguinte eu voltaria direto para Namche enquanto Magnus e Antona ficaria mais um dia por lá. Levantei cedo no 11º dia preparado para o terceiro e último passe chamado Renjo La a 5400 metros. Já devidamente aclimatizado, não tive maiores problemas e caminhando por mais 10 horas cheguei então a Namche Bazaar a 3400 metros, onde pude celebrar com um casal estadunidense o sucesso do circuito. De madrugada fomos a um bar onde conversei com Paul que tinha acabado de voltar do pico e me contou um pouco da sua missão. No penúltimo dia segui então de namche até Bupsa em mais 11 horas de caminhada por uma trilha alternativa. Ironicamente, foi o dia que mais exigiu de mim fisicamente. Mesmo estando em altitudes médias de 2 a 3 mil metros, essa trilha alternativa sobe e desce verdadeiros penhascos e mesmo com a mochila mais leve, o esforço físico necessário foi tremendo. Além disso, por ser pouco usada, ela conta com 2 pontes velhas de madeira, quase caindo aos pedaços, e a passagem por elas é uma roleta russa. Esse caminho alternativo é pra quem gosta de emoção. No último dia então segui de Bupsa até Faplu em mais 12 horas de trilha. De lá peguei o velho Jipe que dessa vez foi em 2 dias com uma parada à noite pro motorista descansar. Se antes não havia estrada, o que tinha ficou completamente destruído pelas chuvas. Ficamos horas parados esperando pelos tratores limparem a via, pelo menos havia tratores hehe e não tivemos que cavar a estrada como na Índia. Cheguei em Kathmandu ao meio-dia com uma mulher ainda dentro do jipe vomitando nas minhas costas hehe, por que não? O Circuito dos três passes do acampamento base do Everest durou 13 dias em um ritmo bastante forte. Foi sem dúvida a trilha mais prazeirosa que eu já fiz (a mais difícil foi o Kilimanjaro até então) e pra quem gosta de trekking, aquele lugar é a Meca. Os gastos foram mínimos: contando o Jeep, os abrigos e a alimentação gastei menos de 200 dólares. Quem quiser fazer os três passes em um tuor com guia e carregador não pagará menos de 4 mil dólares. Minha dica é: se você está decidido a ir em um tuor, reserve tudo em Kathmandu e não daqui do Brasil ou de outro país. Nepal tem outros circuitos interessantes como o Annapurna, mas conversando com quem fez os dois, a preferência vai sempre para o EBC. Se puder fazer os dois, melhor. Há também centenas e centenas de monastérios onde se pode ficar meses em meditação vivendo com os monges. Enfim, é um país para sempre se voltar na minha opinião. De Kathmandu peguei um voo até Bangkok ou Banguecoque no brasileirês. Após esses vários trekkings realizados, era tempo de descansar um pouco, mas só um pouquinho. Conto na próxima. Lucas Ramalho
  16. Para sair do tórrido verão indiano, na última parte da minha trip pela Índia, eu fui para as montanhas do norte, de Khajuraho diretamente à Rishikesh, capital internacional do Yoga. Ao chegar à cidade, primeira grande surpresa: muita gente falando português. Local onde está o Ashram do Prem Baba, milhares de brasileiros todo ano visitam o lugar para um Satsang com ele. Como eu não sabia disso até chegar lá, achei que eu tinha me teletransportado de volta a alguma localidade do Brasil desconhecida. Minha segunda surpresa foi a limpeza do rio Ganges naquele ponto: como Rishikesh é a primeira grande cidade à beira do rio Ganges, suas águas límpidas e geladas são um convite a um mergulho sagrado. Toda noite havia danças, cantos e mantras com dezenas de pessoas em comunhão bem pertinho do rio. O fluxo energético é enorme no local e Rishikesh me pareceu um dos Chakras principais da Terra onde a energia cósmica dança e vibra em todos que ali se encontram (lugares não são apenas lugares). Na cidade, é proibido o consumo de carnes e álcool e em contrapartida é possível desfrutar de dezenas de pratos vegetarianos deliciosos nos restaurantes localizados à margem do Ganges. É até possível experimentar o famoso Bhang Lassi ou Special Lassi, iogurte com partes das flores e folhas da Cannabis usado há séculos na Índia. Só provando pra entender. Para quem gosta de Yoga, Rishikesh é a Meca. Dezenas de locais oferecem cursos, práticas, encontros em suas diversas abordagens: Hatha Yoga, Ashtanga Yoga, Raja Yoga, Bhakti, tem para todos os gostos e eu encontrei até um russo que oferecia Ignis Yoga por lá, método que ele próprio desenvolveu. Para quem gosta de massagem, é possível se aprofundar na Ayurvédica e outras variantes. Falando nisso, há grupos de estudos e práticas da medicina Ayurvédica, das técnicas de respiração como o Pranayama e por aí vai. Alguns monastérios oferecem o Vipasana, processo em que o praticante fica 10 dias sem comunicação (sem falar) e com uma alimentação restrita. Enfim, a cidade é um prato cheio pra quem se interessa por tudo isso. Passei 10 dias em Rishikesh, mas foi pouco. Conheci gente do mundo inteiro, desfrutei de cachoeiras próximas à cidade, fiz passeios de bicicleta, conheci sadhus que optaram por não participar da sociedade e se isolaram nas montanhas, tomei um super café depois de um trekking com 2 holandesas, Julia e Lidh, em um hotel cinco estrelas chamado Ananda Hotel Spa, local onde geralmente as autoridades, presidentes e primeiras-damas se hospedam quando visitam a região (uma noite por lá custa 700 dólares). Para quem gosta de esportes, há opções de rafting no rio Ganges, trekking nas montanhas próximas, ciclismo e outros mais. Eu fiz o rafting no Ganges, que não se compara ao rafting do Rio Nilo, mas vale a diversão até pelo preço que é irrisório e dessa vez o bote não virou nenhuma vez. Como nem tudo são flores, mais uma vez eu peguei diarréia, mas que felizmente durou apenas um dia. Mesmo comendo em restaurantes de boa qualidade, nunca se sabe. Como eu tinha apenas mais 20 dias de visto, segui então mais ao norte, para Dharamsala, outro lugar muito especial. Cidade onde está assentado o Dalai Lama, Dharamsala é ainda mais alta e mais fria que Rishikesh. Na época o Lama estava de férias, mas eu fiz uma visita ao seu monastério Namgyal, local de residência de diversos monges e aspirantes. É possível observar seus diversos cantos, rituais, conversar com eles e até participar de suas práticas. A vista da região é inacreditável e o friozinho torna aquele lugar super aconchegante. À noite, sempre ocorre alguma celebração nos diversos cafés espalhados pelas montanhas. Falando em montanha, eu decidi realizar um trekking de 3 dias até Indrahaar Pass, aproximadamente a 4300 metros de altitude. Quem me acompanhou na aventura foi a Carol da França. Nós preparamos a mochila e com um mapa pusemos o pé na trilha. O primeiro trecho até Triund (2900 metros) foi tranquilo, mas conforme íamos subindo, o tempo foi mudando e logo começou a nevar. Aquela época (abril) não é recomendada para subir até o pico, já que a neve acumulada torna a subida difícil e perigosa. Nós chegamos até Laka Got, conhecida como linha da neve, onde fica um acampamento temporário de locais que vendem café e alimentos. De lá começa uma inclinada montanha de gelo rumo ao pico. Com a neve, o caminho foi ficando mais complicado. O plano era pernoitar na Caverna Lahesh a 3500 metros e realizar o ataque ao pico de manhã. No caminho encontramos um casal e um guia que tinham tentado o ataque ao cume, mas sem sucesso. Nós achamos a tal caverna, porém ela estava cheia de gelo e nós então acampamos nas pedras em volta dela. Como nevava e ventava, a sensação térmica foi lá embaixo, mas nós sobrevivemos a noite. No dia seguinte, tendo em conta a tentativa do guia e do casal no dia anterior, nós abortamos o ataque e decidimos regressar a Laka Got. No caminho vimos diversas pegadas de ursos. Passamos a segunda noite em uma caverna próxima, que dessa vez estava seca, e no dia seguinte voltamos para Dharamsala, por um outro caminho, acompanhando um grupo que também estava por lá. Apesar de não termos chegado até o pico, a trilha foi compensadora por todo o nosso esforço e coragem de suportar aquele frio intenso das montanhas e pelas vistas espetaculares que tivemos da região. Como a Carol também estava indo pra Ladakh, fomos juntos pra aquela região do extremo-norte indiano considerada o Oásis do país. Na Índia, uma viagem de ônibus não é só uma viagem de ônibus, é uma verdadeira expedição. De Dharamsala até Leh, capital de Ladakh, nós pegamos três ônibus e levamos cinco dias. De Dharamsala fomos a Srinagar onde fizemos uma pausa de 1 dia. Local de forte influência muçulmana, a cidade é bem organizada e recebe muitos turistas de outras partes da Índia. Diversos botes ficam atracados na orla e servem como hospedagem tanto para os locais quanto para os visitantes. Vale a pena dormir em um deles. Nós então pegamos um ônibus que iria até leh. Saiu às 5h e seguiu pelas montanhas nevadas rumo à capital. A travessia chega até 4 mil metros de altitude e não é raro alguém vomitar pelo caminho. Na primeira tentativa, após cinco horas de viagem, chegamos a um ponto em que a estrada estava bloqueada por uma avalanche. Após horas parados por lá, o motorista optou por voltar à Srinagar. No dia seguinte, nova tentativa, mas a viagem tinha sido remarcada para o próximo. Assim no dia seguinte finalmente embarcamos no mesmo horário, às 5h da manhã. Dessa vez a avalanche ocorreu em frente do ônibus. Havia apenas mais cinco ou seis carros parados à frente. Nós fomos caminhando para ver a montanha de gelo que se formou na estrada. Não era tão grande, aproximadamente dois metros, mas o suficiente para bloquear a passagem. Havia poucas pás ou picaretas, então os indianos começaram a cavá-la com as próprias mãos para retirar o gelo, a tarefa durou incríveis cinco horas. Eles abriram uma passagem por entre o gelo e os carros menores conseguiram passar, mas com muito custo já que a pista escorregava demais. O ônibus tentou três vezes e somente na última e com um ronco forte do motor ele passou. Como estava tarde, o motorista decidiu pernoitar em Kargil, metade do caminho. Dia seguinte, finalmente nós completamos a missão e chegamos em Leh antes do por do sol. Que aventura. A cidade encontra-se a mais de 3 mil metros de altitude e possui um cenário fantástico. Como ainda não tinha começado a temporada, vários hotéis estavam fechados. Nos abrigamos em um hotel aconchegante e quente (lá faz bastante frio à noite). Floron, amigo de Carol, chegou no dia seguinte e nós então programamos uma nova trilha dessa vez de 5 dias pelo Markha Valley. A trilha é bastante árdua e conta com uma passagem máxima a 5100 metros aproximadamente chamado Gongmaru La. Fomos sem guia como sempre e levamos comida suficiente apenas para a caminhada, já que à noite, algumas casas ao longo da trilha oferecem hospedagem e jantar para os trilheiros. Não havia ninguém pelo caminho já que a temporada começaria no mês seguinte e mesmo algumas casas estavam fechadas. Por sorte, famílias indianas vivem por lá o ano inteiro e auxiliam na trilha. Ela começa de uma forma inusitada, com uma caixa acoplada a uma corda para atravessar um rio. O primeiro dia foi tranquilo, já o segundo rendeu oito horas de caminhada até Markha Village. O próximo dia também foi mais curto, já que a passagem seria no quarto dia. Saímos bem cedo, às 6h e começamos em um ritmo forte. Paramos para comer e ao meio-dia comçamos a subida até a passagem. Fazia bastante frio e a altitude aumentava o esforço da subida. Nós fomos de forma bem vagorasa e por volta das 14h finalmente alcançamos o pico. Pausa breve para fotos, aperitivos e logo seguimos em frente, havia mais 5 horas de descida até a casa mais próxima. No fim do dia, após 13 horas de caminhada, estávamos esgotados. Um jantar que parecia de gala fechou com chave de ouro aquele dia de grande esforço e coragem. Nós dormimos como bebês. O úlitmo dia, enfim, foi bem mais tranquilo e após uma hora já estávamos à beira da estrada. De lá pegamos um táxi de volta a Ladakh e voltamos para o mesmo hotel. Após uma noite bem dormida, eu desfrutei então do meu último dia na Índia naquela viagem. Tinha vôo para Delhi no dia seguinte, e de lá para Kathmandu, Nepal, de onde iria começar uma expedição rumo ao acampamento base do Everest. Conto na Próxima. Ahô! Lucas Ramalho
  17. Seguindo viagem pela extraordinária Índia, eu saí de Madurai no Sul do país e voei até a caótica Delhi. Com mais de 20 milhões de habitantes em sua área metropolitana, a capital do país apresenta uma organização bem confusa. Em muitas avenidas, não há contramão e cada um faz o caminho que quiser. Lá, eu peguei um trânsito inacreditável mesmo estando de bicicleta. Chega a ser bizarro lembrar das vacas presas no meio do intenso tráfego humano. Falando nisso, há vacas por toda parte, inclusive nas estações e dentro dos trens haha. No restaurante enquanto desfrutava de um Veg Biryani (mix de arroz apimentado com vegetais), uma vaca ruminava ao meu lado. Elas também tem passe livre pelos templos e monumentos do país. Infelizmente se alimentam de lixo e restos de comida, sobretudo nas cidades; eu cheguei a ver vacas lambendo a lataria de motos sabe-se lá pra quê. Uma outra questão interessante em Delhi é a alimentação, apesar de ser barata, é preciso ter um extremo cuidado para não ter problemas estomacais, existe até um termo comum entre os viajantes para indicar o problema: Delhi-Belly. Eu mesmo peguei uma senhora diarréia após comer um frango suspeito em um restaurante. A higiene é mínima por lá e qualquer descuido pode ser fatal. Após uma curta visita aos pontos principais da cidade, tratei logo de sair de lá. Fui de trem para Udaipur, conhecer seu famoso City Palace. Era final de março e logo ocorreria o Holi Festival, famoso festival das cores que celebra o início da Primavera na tradição Hinduísta. De Udaipur eu segui então para Pushkar para comemorar o evento. A cidade é pequena e possui apenas uma via principal que circunda o sagrado lago Pushkar, onde muitos peregrinos se banham. Pela cidade, eu encontrei Jammie, que fez parte da nossa equipe de motociclistas de Goa. Como precisava relaxar um pouco, fiquei em uma super pensão com piscina, ar condicionado e tudo mais por um preço bem módico. A cidade é famosa pelo Templo de Brahma, um dos poucos dedicado a ele em todo mundo. A cerimônia do Holi começou na noite de lua cheia com a queima de Holika, mulher-demônio, representando o triunfo do bem sobre o mal. A cidade inteira se reuniu no cruzamento principal e após uma série de mantras e cantos sagrados, deu-se início à fogueira. Houve então muita dança em volta dela até às 4h da manhã, quando a multidão se dispersou. No dia seguinte, logo cedo, começou de fato o festival de cores. Eu fui com uma roupa bem velha e em cinco minutos já estava completamente colorido. Rico ou pobre, mulher ou homem, hindu ou não-hindu e até mesmo as vacas não escapam dos pós coloridos. A cerimônia vai até de tarde com dança e celebração até o final. Foi um evento espetacular e até hoje guardo na memória detalhes da festa. Segui então para Jaipur, para conhecer o imponente Forte Nahargarh. Conhecida como a cidade rosa, Jaipur impressiona pela organização de suas ruas e pela divisão dos distritos. Não é à toa que faz parte do triângulo dourado que inclui Delhi e Agra (Taj Mahal), compreendendo um circuito de visitação prático e acessível para os viajantes. Falando nisso, fui então visitar o famoso Taj Mahal, uma das sete maravilhas do mundo moderno. Para quem não conhece, é um mausoléu de mármore branco construído pelo Imperador Shah Jahan para a sua terceira esposa. É tida como a joia da arte islâmica na Índia. Cheguei cedo para a visita e fui um dos primeiros a entrar. Acompanhado de uma japonesa, testemunhamos um batalhão de pessoas que se amontoavam para tirar fotos incessantes do Taj. Em um momento, pensei que o monumento iria ser implodido em breve, tão afoitos estavam todos para tirar fotos dele. Obviamente que o Mausoléu impressiona pela harmonia e concordância, mas acredito que alguns que estavam ali não desgrudaram os olhos da câmera e nem sequer apreciaram propriamente a obra. Nós entramos dentro dele, apreciamos o jardim e relaxamos um pouco. O preço da entrada é caro para os padrões indianos, porém ele é diferente para turistas estrangeiros e nacionais. Nada muito de assustar, na época custou 25 dólares e vale muito a pena. Ainda dentro do triângulo dourado, há uma cidade chamada Vrindavan que é pouco visitada por estrangeiros. O inglês não é muito falado por lá. A cidade é tida como o Vaticano da Índia, lugar sagrado para todas as tradições hinduístas. Segundo reza a lenda, Krishna teria nascido a 10 quilômetros de lá, em Mathura. Há centenas e centenas de templos localizados um ao lado do outro. Impressiona a demonstração de fé dos indianos que visitam o local. Dentro de um dos principais templos da cidade, eu testemunhei uma intensa catarse coletiva, com gritaria, choro, alegria, tudo ao mesmo tempo. Em outro templo, eu vi uma beleza inacreditável nos detalhes, nas esculturas e quadros e na arquitetura. Se estiver visitando esta parte da Índia, Vrindavan é imperdível. De trem então segui para o leste, para visitar Varanasi, tida como capital espiritual da Índia. Lá testemunhei as tradicionais cremações dos mortos. Segundo a lenda, morrer em Varanasi traz a salvação para a alma. Por isso, muitos hindus trazem seus entes falecidos para a cremação à beira do rio Ganges. Não é um ritual fácil de assistir, alguns dele vem enrolados em panos, outros vem com face, pés e braços descobertos. Diversas fogueiras ficam acesas ao mesmo tempo e há um fluxo continua de corpos, sobretudo, à noite. Após a cremação, as cinzas são jogadas no Ganges. Para quem tem estômago para assistir, é um momento auspicioso em que paramos para refletir sobre o que é a morte. Pela manhã, muitos hindus se banham no rio, apesar de estar intensamente poluído (também serve para refletir sobre o que fazemos com nossos rios). A temperatura passava fácil dos 40 graus na região e eu ainda tinha uma última parada antes de rumar às montanhas do norte: Khajuraho. A pequena cidade é um destino popular entre os viajantes pelos templos jainistas e hinduístas famosos pelas esculturas eróticas nas fachadas externas. Segundo a história, a dinastia Hindu Rajput na época da construção dos templos era seguidora do culto tântrico e decidiu esculpir centenas de figuras de posições sexuais envolvendo homens, mulheres e animais. O local impressiona pela qualidade e conservação dos templos que datam do século X. As representações eróticas são bem detalhadas e sugestivas e às vezes envolvem grupos e até mesmo cavalos. Para quem gosta do tantrismo ou se interessa por história e arqueologia em geral, vale a pena a visita. A temperatura já chegava aos 45ºC e era hora de rumar para lugares mais serenos e tranquilos: para as montanhas do norte. Minha próxima parada foi a fantástica Rishikesh, capital internacional do Yoga. Conto na próxima e última parte referente à Índia. Lucas Ramalho
  18. Cheguei a Índia em fevereiro de 2013, em Mumbai vindo de Nairobi. Um casal amigo, Arjun e Lavynia, ofereceu seu apartamento para que eu pudesse me ambientar com a cidade. Trens auxiliaram na aventura pela cidade. Portas abertas, pedintes e o famoso pulo com o trem chegando na estação são suas características, nada muito difrente do que havia em São Paulo há uns 10 anos atrás. No segundo dia, caminhando pela cidade, ouvi uma música e resolvi seguir o som. Entrei no corredor de uma casa e lá no fundo um casal no chão realizava uma pequena cerimônia. Quando me viu, um outro rapaz se aproximou e pediu que colocasse meu nome em um papel dourado. Era o convite para um casamento que aconteceria no dia seguinte. Eu prontamente aceitei o convite. Na manhã seguinte apareci e em um ônibus com mais 20 pessoas fomos ao local da cerimônia. Foi-me servido um ótimo café da manhã e algumas pessoas chegaram para perguntar se eu era o rapaz que tinha vindo do Brasil para o casamento, eu respondi que sim hehe. A cerimônia durou horas e horas, eu acompanhei a primeira parte antes do almoço, em uma certa parte jogaram arroz nos noivos, em outra fizeram o ritual com a chama de uma vela. O almoço incluía buffet indiano e chinês, ambos vegetarianos. Eu desfrutei de tudo que poderia. Mais tarde conheci Shreeneth e fui a sua casa para trocar minhas roupas. Ele me emprestou um terno azul e uma calça social, eu comprei sapatos na rua e então retornamos à cerimônia. Já no salão, muitas fotos com os convidados, inclusive com os noivos e obviamente um jantar de gala que novamente incluía os dois buffets. Encerrada a cerimônia, disse a Shreeneth que queria ir a um bar, mas ele me levou para um lugar mais exótico. Uma porta de madeira discreta era a entrada. Sentamos em um sofá no meio do salão. Havia um palco em frente e músicas sensuais eram tocadas. Pedi uma cerveja e logo diversas garotas asiáticas começaram a desfilar para a gente: era um prostíbulo. Como estrangeiro, eu era um prato cheio por lá e não podia sequer sorrir para qualquer uma que isso já era um sinal de positivo. Bebemos a cerveja e eu incomodado disse a Shree para partimos. Tudo isso aconteceu já no meu segundo dia na Índia. Eu continuei usando o terno azul pela cidade e era engraçado como muitas pessoas me seguiam e perguntavam o que eu fazia por lá e quais eram meus planos para a Índia hehe. A todo instante alguém vinha papear comigo. Conheci os principais pontos de Mumbai, o clássico Portão da Índia, feiras, templos, igrejas, bares, baladas. Comi em ótimos restaurantes acompanhado de Arjun e Lav e após uma semana decidi que era hora de partir. Segui então para Goa, destino mais famoso do país. Escrevendo isso hoje, acabei de ler que os viajantes poderão tirar visto de 30 dias no próprio aeroporto de Goa, inclusive, os brasileiros (naquela época, somente visto com antecedência). Decidi ir por terra. O transporte é um caso à parte no país. Os ônibus são equipados com beliches e todos viajam deitados. Comprei uma passagem simples e a trip duraria 12 horas. Na hora do embarque percebi que a largura das camas era muito boa e pensei comigo que dormiria confortavelmente a viagem toda. Ledo engano, nunca estamos confortáveis na Índia. Após uma hora, um rapaz que estava no fundo do ônibus se aproximou de mim e disse que ele logo viria descansar. Eu perguntei aonde e ele apontou para a letra B atrás da cama. Meu tíquete era a letra A e só então eu percebi que aquelas camas largas e confortáveis são para duas pessoas hehe. Fiquei bravo. Perguntei ao assistente do motorista porque ele não havia me dito nada e ele garantiu que tinha me dito. Não havia muito o que fazer, eu me enfiei no saco de dormir e deitei de ponta-cabeça eseprando pela chegada do rapaz. Felizmente ele era simpático e a noite transcorreu sem maiores problemas, exceto pelas curvas da estrada. Cheguei pela manhã e após tomar um Masala Chai, encontrei uma pousada perto da praia. Conheci Jammie, da Nova Zelândia, Ros, da Inglaterra e Anna da Escócia, melhor jeito de treinar o inglês, impossível. Nos tornamos uma equipe de motociclistas, cada um de nós alugou uma scooter. Eu consegui uma por 1 dólar por dia, acreditem se quiser. De lá, visitamos diversos pontos de Goa, Vagator, Arambol e a capital com tradição portuguesa. Nesta última, eu comi até uma feijoada, um pouco diferente e mais apimentada, mas deu pra enganar. Em uma das tardes, fomos a uma clássica rave na praia e à noite visitamos diversas festas. Todos os estrangeiros em Goa alugam scooters, sendo que acidentes são bem comuns. Algo divertido ocorreu em uma das noites: terminada a festa, eu com Ros na Garupa voltei para o hotel. A estrada é bem escura e com bastante curvas. Eu, sem lembrar muito do caminho aquela hora da noite, peguei uma entrada à direita e após três minutos fui parar em uma rua sem saída com um portão grande em frente, quando olhamos pra trás, diversas outras scooters estavam nos seguindo e também tiveram que dar meia volta. Nós rimos que nem loucos. Há também um perigo adicional de se pilotar pela Índia: as vacas. De dia elas ficam na praia tomando sol e à noite, elas dormem no meio da rua e para quem está pilotando isto não é nada bom. Diversas vezes, tive que frear em cima para não bater em uma vaca dormindo no meio da rua estreita, parece até mentira, mas quem manda por lá são elas. E nada de buzinar, é preciso esperar que elas decidam se levantar e sair do caminho. Falarei mais delas na segunda parte. Fiquei uma semana em Goa e me diverti adoidado, para quem gosta de festa, aquele é o lugar, mas eu também queria ver algo mais “indiano” e segui viagem. Novamente de ônibus fui para Hampi, no centro-sul da Índia, à beira do Rio Thungabhadra. Capital de um atigo império, possui centenas de templos antigos, esculturas, pinturas e sistema de irrigação, que compõem um cenário fantástico. Conheci Charlotte, francesa que viajava por lá e decidimos ficar no mesmo quarto. Passeamos de bike pela região e até fizemos um trekking até um monte próximo para ver o por do sol. Um ponto de destaque de lá são os cafés: não há cadeiras, todos sentam nos chãos e descalços assistem a filmes temáticos. Nada melhor que um ótimo almoço depois de uma pedalada e uma soneca no restaurante para recarregar as energias. Tive a impressão que o tempo por lá passou em um ritmo mais vagaroso e foi muito bom para curar a ressaca da frenética Goa. Segui ainda com Charlotte para Mysore, onde um palácio magnífico nos esperava para ser visitado. Ricamente decorado, o local impressiona tanto de dia quanto de noite, com shows de luzes na parte externa dele. Com mais dois franceses, seguimos então para um bar local. Quebrando o tabu machista do país, as garotas entraram conosco, mas não foi fácil. Ficamos em uma espécie de cabine só para a gente, mas não estávamos sós. Um ratão enorme quase do tamanho de um gato tentou entrar no recinto para desespero de Charlotte e da outra francesa que nos acompanhava. Em seguida um bêbado descontrolado também invadiu a cabine e num tom ameaçador falou alguma coisa em Hindi para nós. Depois disso, decidimos que era hora de partir, era Resident Evil demais para nós. Como estava muito calor na época, fomos para as montanhas do sul respirar ar fresco. Ooty foi nosso próximo destino, a 2400 metros de altitude, equivalente à nossa Campos do Jordão aqui de São Paulo. Com um ritmo mais tranquilo e com uma temperatura média de 14ºC, serve como um refresco para o quente verão indiano. Charlotte e eu ficamos em uma incrível pensão colonial e fizemos um trekking pelas montanhas da região. Com um comércio voltado para o turismo, mas também para agricultura, as colinas impressionam pelas plantações de chá, de legumes como batata, couve-flor e de frutas como pêssegos, ameixas e morangos. Dessa vez quem nos atormentou foram os macacos, extremamente agressivos, eles podem te atacar facilmente caso vejam que você está com uma banana que a princípio é deles. Eles me roubaram um doce que eu pus ao meu lado enquanto estava sentado em um banco, mas por sorte, pouparam o meu celular. Após dois dias, me despedi de Charlotte que estava indo ao leste indiano para um trabalho voluntário e eu segui ainda mais para sul: para o rico estado de Kerala. Com o maior PIB da Índia, o pujante estado de Kerala apresenta diversas atrações. Tratamentos Ayurvédicos à beira-mar, surf nas ondas de Varkala, Yoga, ótima gastronomia, além de alimentação orgânica e vegetariana por toda parte. No hostel Shiva Garden, conheci Mike, da alemanha e Erick da Suécia. Formamos uma equipe de surf e nos arriscamos pelas ondas da praia em frente. Os hostels ficam todos no topo de uma colina, enquanto que para acessar a praia é preciso descer uma grande escadaria. O cenário é fantástico. Tomamos muito caldo no mar, mas deu pra se divertir. À noite, violão, fogueira, chai e muita diversão. Fiquei quatro incríveis dias por lá e até pratiquei um pouco de Yoga ao amanhecer com uma portuguesa, dona do Shiva Garden. Fizemos a saudação ao sol, Surya Namaskar. Eu me despedi de Mike e Erick que acabaram comprando um Rickshaw (triciclo automotor usado como táxi na Índia) e decidiram seguir para Goa. Eu fiz minha última parada no sul da Índia em Kollam, para um passeio pelos canais do lago Ashtamudi, um dos mais preservados da Índia. A região inteira é conectada por canais e tudo é feito de barco por lá: ida à escola, igreja, mercados flutuantes, visitas a pontos turísticos, vale a pena conhecer a região. Por fim, segui então para Madurai para uma breve visita ao espetacular templo Meenakshi Amman e de lá peguei meu avião para a Delhi começando uma outra jornada, mais turbulenta, mais quente e ainda mais insana pela Índia. Conto na Próxima. Lucas Ramalho
  19. Valeu. No começo de dezembro agora, talvez eu volte lá. Mas ainda não está confirmado.
  20. Obrigado por me lembrar Otávio. A gente levou fogareiro também e usou-o para cozinhar. Só uma questão, o fogareiro não é tão ecológico assim, já que o gás é composto de butano, um hidrocarboneto derivado do petróleo. No entanto, comparando com as outras opções, ele se torna sem dúvida mais prático e seguro.
  21. Com uma altitude de 1181 metros, o acesso ao Corcovado se dá através da cidade de Ubatuba, litoral norte, por uma trilha pesada de aproximadamente 5 horas que começa ao nível do mar. Diferentemente do Corcovado do Rio, não há trens ou vans subindo até o topo e você terá que caminhar por uma selva cheia de cobras, onças e lagartos. Se só de saber isso, você já desaminou, saiba que a vista do topo compensa o esforço e deixa o outro Corcovado no chinelo. Pois bem. A missão dessa vez foi feita com Léo, aqui de Sampa. Aproveitamos o feriado do dia 20/11 e saímos da capital na quinta-feira bem cedo rumo à Ubatuba. A viagem demorou cinco horas devido ao trânsito na Ayrton Senna. O fiestinha 96 aguentou bem a descida e não tivemos problemas para acessar o local. A trilha começa na casa do Senhor Tosaki, no bairro do Corcovado. Para acessá-lo, entre à esquerda no km 69 da rodovia Rio-Santos, sentido centro de Ubatuba. Após sair da rodovia, seguimos por 3 km de estrada asfaltada até avistar a placa indicando a trilha à direita. Então entramos em uma estrada de terra e passamos uma ponte. Depois dela, pegamos a segunda à direita e estacionamos o carro no final da estrada que termina em um campo de futebol. Ao lado esquerdo, está a casa do Sr. Tosaki, gente finíssina. Chegamos lá 12h e decidimos começar a trilha imediatamente. Preparamos todo o equipo e seguimos selva adentro. Ao passar pelo campo, a trilha segue em frente até chegar a uma casa que estava fechada. Ali pegamos à direita e seguimos até uma pinguela. Ao cruzar a pinguela, deveríamos continuar por menos de um minuto e já virar à esquerda fora da “principal”. É ali que começa mesmo a trilha. Só que nós passamos direto e seguimos em frente até um rio. Cruzamos o rio, e mais à frente, cruzamos outro rio. A partir dali, a situação foi se complicando. Diversas bifurcações foram surgindo e nós na verdade se afastamos mais do caminho real. Após algum tempo, nos demos conta de que estávamos perdidos e deveríamos tentar uma aproximação à oeste. Achamos então uma clareira, com diversas garrafas, resquícios de uma fogueira bem feita e acampamentos. Eu julguei então que tínhamos achado a principal, só que não. Havia uma trilha seguindo em frente, mas que não ia a lugar algum e logo terminava. Após alguns momentos de reflexão e considerando o tempo que ainda tínhamos e o cansaço, decidimos adiar a expedição e retornar até a base. Só que não havia retorno de fato. Fizemos um super vara-mato rumo à base. Com o GPS em mãos, chegamos até uma clareira e de lá passamos a seguir os encanamentos que iam em direção às casas. Só que alguns trechos eram bem complicados: ora a vegetação estava bem fechada e com bambus venenosos, ora precisávamos cruzar rios. Em um desses rios, vimos pegadas recentes de onça e sentimos o odor forte da urina delas. Haja coração. Após 2 horas de vara-mato finalmente chegamos até a casa de um nativo e de lá até a estrada asfaltada. Respiramos aliviados. Depois ficamos sabendo que muita gente se perde por lá, às vezes, por dois ou mais dias, por isso é sempre bom ter GPS em mãos e estar preparado. Descansamos na praia e recarregamos a energia para o próximo dia. Às 6h da manhã, o Sr. Tosaki, junto com uma de suas cadelas Bela, veio até o carro com uma garrafa de café quentinho. Nós estávamos maravilhados com a atitude dele e agradecemos. Ele também nos mostrou o trecho que tínhamos passado batido. De fato, havia uma fita amarrada em uma árvore indicando o caminho à esquerda, mas nós não vimos. Para evitar que futuros aventureiros se percam, nós amarramos uma sacola plástica justamente antes dessa entrada para que outros não se percam por lá. A trilha cruza apenas a pinguela, um rio e logo a seguir um pequeno riacho, então se você cruzar outros rios ou surgirem diversas bifurcações confusas pelo caminho, volte que você errou a entrada. Começamos a trilha às 9h 30min. Ainda cansados tanto da viagem, quanto da aventura do dia anterior seguimos com tranquilidade. A 210 metros de altitude há uma bifurcação à esquerda que dá acesso a uma pequena corredeira. É possível tomar banho por lá e foi o que fizemos. Seguimos então até a famosa Igrejinha, a 440m, que é na verdade um conjunto de pedras. Léo estava se sentindo extremamente cansado da subida e achamos por bem que ele descansasse um pouco e tirasse até uma soneca. Havia tempo para isso. Eu escalei a pedra com o auxílio de um bambu deixado lá justamente para isso. Do alto dela, já foi possível ter uma idéia do visual que esperava lá no topo. Eu estava com o binóculo e de lá pude ver o carro estacionado, o campo de futebol, uma aldeia indígena e a vila do Corcovado. Após quase uma hora de parada, seguimos bem devagar. A partir dali a trilha vai ficando cada vez mais íngrime. A vegetação alta da Mata Atlântica ajuda a filtrar os raios solares, mas fazia um calor intenso. A 715 metros segundo o GPS, chegamos ao último ponto de água, também em uma bifurcação à esquerda. Fizemos uma parada de meia-hora. A partir dali, subimos direto até a clareira já na crista da montanha, a 1080 metros. Lá, há espaço para diversas barracas e a partir dali, a trilha segue menos inclinada, exceto pelo trecho final. Mais uma hora de caminhada e com um super esforço no último trecho, que é de fato uma escalaminhada, chegamos finalmente ao topo do pico do corcovado, a 1181 metros de altitude, às 16h 30 min, após 7 horas de trilha. Não ha como descrever a sensação de atingir o cume, mas o visual é fenomenal. De lá é possível avistar Ubatuba, Caraguatatuba, Ilha Bela, São Sebastiião, Guarujá, Ilha do Tamanduá, Ilha de Alcatrazes, Serra da Mantiqueira, Serra da Bocaína, Vale do Paraíba etc. Vale a pena ou não? Acampamos por lá, fizemos fogueira, cozinhamos um super macarrão integral com espinafre e orégano e dormimos naquele paraíso. Não havia mais ninguém no topo naquela noite. Apenas alguns lagartões atrás de comida. A volta também foi dura, já que estávamos com um cansaço acumulado de alguns dias. Mas fomos mais rápidos e em apenas 3 horas chegamos até o rio no qual eu simplesmente me joguei para comemorar o sucesso da empreitada. Mais tarde ainda tomamos novamente o café do Sr. Tozaki e por fim partimos rumo à capital já de madrugada. A trilha exige bastante condicionamento físico e experiência, mas exceto pelo trecho inicial confuso, ela é de fácil navegabilidade já que você estará subindo praticamente o tempo inteiro. Há diversas espécies de cobras pela floresta, algumas venenosas como a Jararaca e a Cascavel, e outras do bem, como a Caninana. Nós vimos duas pelo caminho. Onças, pacas, tamanduás, lagartos e outros animais completam o cenário. Não se aventure por lá sozinho ou sem experiência já que os resultados podem ser desastrosos. A subida exige bastante técnica, já que em alguns trechos um escorregão pode ser fatal. E obviamente se o tempo estiver nublado ou chuvoso, nem pense em seguir em frente. Nós fícamos felizes por ter conseguido, mas Léo disse que não iria se soubesse como seria a trilha. Já eu sigo em frente, em preparo para as próximas que virão. Aquele abraço! Lucas Ramalho
  22. Minha última parada na África foi em Uganda (fev/13). Fui de pau-de-arara de Arusha, na Tanzânia até a capital do país, Kampala (lembrem-se desse detalhe para entenderem o final da história). A cidade é um caos completo. A poluição é tão grande que o ar da cidade é preto. Motocicletas por toda parte irritam até o mais tranquilo dos Budas. Há trânsito até para caminhar, já que não há calçadas, muito menos iluminação. Os Upanishads falam de mundos assombrados pelos demônios, regiões de absoluta escuridão, certamente se referem à Kampala! Para compensar a loucura da cidade, fiquei no hostel backpackers, um pouco afastado do centro e com um ar de tranquilidade e uma comida muito boa. Pra não dizer que não falei das flores, a noite na cidade é bem animada e vários bares contam com música ao vivo. Também fiquei por 3 dias na casa de Marvin, no centro de Kampala e curti um pouco desses bares. Mas o clima estava tão denso que eu pensava em ir logo para a Índia e cair fora de lá. Pra relaxar resolvi arriscar um rafting pelo Rio Nilo no interior do País. Não conhecia nada do esporte, foi minha primeira vez. Quando o instrutor começou a explicar como desvirar o bote caso ele vire, eu comecei a sentir um frio na barriga. O Rio foi considerado um dos melhores para a prática antes da construção de uma barragem, mesmo assim, suas águas violentas impressionam. Havia quedas nível 5, 4 e 3 ao longo do percurso. Nosso bote com espaço para oito, foi com mais quatro pessoas, duas suíças, um espanhol e o instrutor. Estávamos super leves. Na primeira queda, nível 3, nós já viramos. Eu me sentia em uma máquina de lavar. Não conseguia subir de jeito nenhum, após 30 segundos finalmente consegui respirar. Estava morto de cansado, mas haviam outras sete quedas pela frente, meu Deus! A próxima era nível 4 e nós conseguimos passar por ela com muito esforço. Mas na seguinte viramos novamente: mais 30 segundos embaixo d’água. Não havia como escapar, a próxima seria nível 5, o máximo para o rafting e enquanto nos aproximávamos, era possível sentir o cheiro de medo emanando de nós. O guia percebendo isso pegou um caminho lateral para frustração das garotas que iam com a gente, elas realmente queriam se jogar lá no meio do turbilhão. Passamos ilesos. Nas últimas 4 quedas, o bote não virou nenhuma vez. Apesar disso, em uma delas, todos nós caímos na água, menos o instrutor, que mais experiente, conseguiu se segurar no bote. Ao fim da experiência brindamos a vida com cerveja e almoço. Eu me sentia extremamente feliz por estar vivo e decidi que iria pensar 7 vezes antes de fazer o próximo rafting desse nível. Pois bem, de lá segui para um hostel que se localizava no meio da ilha de Itabira, no interior do país. Para chegar lá, só de caiaque ou barco. Eu fui remando por 40 minutos juntamente com um barqueiro até pisar em terra firme. A ilha é um oásis de paz e tranquilidade. Com alimentação natural, uma represa limpa e muitas histórias do povo nativo da região, os pigmeus, descansei das aventuras de Kampala e do Nilo. Conheci um casal da República Tcheca de meia idade e juntos comemoramos o aniversário de uma dinamarquesa. Trocamos muitas risadas nesses dias. Decidi então que era hora de seguir até a fronteira com a Ruanda para ver os famosos gorilas da região. O casal me acompanhou na aventura. O preço é hipertensivo, mas vale a pena desfrutar de uma hora com estes adoráveis e perigosos animais vivendo em seu estado natural. Nós chegamos cedo e após recebermos instruções, começamos a caminhada pela selva para encontrá-los. Guias monitoram a posição deles diariamente e nós já tínhamos as coordenadas de onde eles estavam. Em 20 minutos avistamos os gorilas. Uma família com dois bebês, além de um blackback (adolescente) mais um silverback, que é o decano do grupo. Este último é o mais mal humorado e nós não podíamos chegar perto dele. Os bebês, vendo a gente, brincavam o tempo todo: um batia no outro, tentavam se agarrar nos galhos pra depois cair, faziam caretas, sem dúvida estavam se divertindo com a nossa presença. O blackback estava mais afastado deitado no chão e no fim da aventura, nós o rodeamos. Ele aparentemente dormia e aproveitamos para tirar fotos mais próximas. Então aconteceu o inesperado: ele levantou de repente e veio em minha direção, eu tive tempo apenas de me jogar para o lado enquanto uma de suas mãos acertou as costas da Tcheca. Ele passou por entre a gente e ficou comendo algumas folhas na árvore atrás de nós. Foi um susto enorme, a Tcheca que já era branca estava albina. Meu coração estava a mil por hora. Nós aprendemos uma grande lição: nunca fique em grupo ao redor de um gorila, eles não gostam hehe. Após a experiência, voltamos para a cidade a pé. No caminho, um grupo com mais de 50 crianças felizes correu em nossa direção, nos rodeou e começou a nos seguir, foi outra experiência inexplicável. Eu me sentia no filme do Forrest Gump. Elas nos tocavam para ver se éramos reais, aparentemente, nenhum viajante caminha por aqueles lados. Um outro rapaz, mais à frente, perguntou quais eram os meus planos para a vila, eu não tinha nenhum, mas gostaria de ter. O alegria das crianças naquele mundo abandonado é inesquecível. Por fim voltei para Kampala. Era hora de embarcar rumo à Índia. Meu avião saíria de Entebbe, perto da capital, com destino a Mumbai pela horrível Ethiopian Airlines, sempre ela. Ao chegar ao aeroporto, primeira surpresa. Pela primeira vez na trip, queriam que eu apresentasse uma reserva de um voo de retorno ao Brasil ou a outro país depois da Índia. Eu discuti com o gerente e por fim tentei fazer uma reserva pela net na própria sala dele, mas a internet era muito lenta, pior que conexão discada, e eu não consegui. Resultado: perdi o voo. Voltei então para Kampala, marquei o voo para o próximo dia e fiz uma reserva de retorno ao Brasil para apresentar a eles. Chegando lá, fiz o check-in normalmente, apesar de uma das atendentes da Ethiopian Airlines apresentar um comportamente suspeito, como se não tivesse contente com a minha presença. Despachei a bagagem e me dirigi para o controle de imigração. Lá o oficial começou a verificar meu passaporte e perguntou como eu tinha chegado à Kampala, eu respondi que tinha vindo de ônibus da Tanzânia e ele então simplesmente me devolveu o passaporte e disse para eu voltar para lá de Ônibus. Baixou o santo nele. Eu disse que aquilo não fazia sentido algum, que eu nunca tinha visto esta exigência em nenhum país do mundo, mas ele estava irredútivel. Pedi que ele ligasse para o seu superior, ele ligou ou fingiu que ligou e eu escutei ele falando mais ou menos assim: tem um rapaz aqui que esta viajando por diversos países e agora quer ir para a Índia, vamos “quebrar” ele aqui? Ele então me devolveu novamente o passaporte e disse que eu não era bem-vindo à Uganda. A atendente da Ethiopian rasgou meu bilhete de embarque e depois de meia hora trouxeram minha bagagem de volta. Eu estava enfurecido. Mas não tive escolha. Peguei por fim o ônbus com direção à Nairobi, e de lá, voei tranquilamente para Mumbai, pela 1000 vezes melhor Qatar Airlines. Eu só sei que Ethiopian Airlines eu não recomendo nem para o pior dos humanos, e Uganda tem seus pontos positivos, pouquíssimos, é verdade, mas fica a critério de cada um lembrando que viajantes não são bem-vindos em Uganda, pelo menos, não no aeroporto. Vá por terra e saia por terra. No dia seguinte eu já pisava em Mumbai e começava então uma louca jornada pela Incredible Índia. Abraços. Lucas Ramalho
  23. Victória veio fazer uma visita ao Brasil esse ano. Ainda estamos em contato. Aho!
  24. Fala Tiago. Parabéns pela trilha. Sabe dizer quantas horas de subida em um bom ritmo?
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