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  1. Estou terminando um curso no SENAC chamado 'Condutor de Turismo de Aventura' e nesse finalzinho tivemos uma experiência junto com o pessoal da OUTWARD BOUND BRASIL (carinhosamente chamada de OBB) faz parte de uma rede mundial de escolas de aprendizagem experiencial ao ar livre. Do mar ao topo da montanha, do deserto à floresta, já desafiaram mais de 20 mil participantes a saírem de suas zonas de conforto e vivenciarem uma jornada outdoor única e transformadora. Uma das aulas do pessoal da OBB, bela sala de aula, não?! O nosso desafio foi fazer a travessia do Pico do Itapeva até o Pico do Diamante em um final de semana, tendo muito aprendizado sobre as maneiras corretas de se montar um acampamento, fazer a comida, guardar o lixo e ate de fazer suas necessidades fisiológicas, pude aprender muitas técnicas e cuidados ao se realizar uma travessia, as aulas foram tão boas que até deu uma vontade de fazer algum curso de liderança da OBB, pena que só tem uma vez por ano e a desse ano já foi, mas vamos falar do que interessa. Primeiro dia: O Pico do Itapeva tem 2.035 metros de altitude e fica situado na cidade de Pindamonhangaba, apesar que a sua entrada se da por Campos de Jordão, que fica apenas 30 metros da divisa, e seria desse ponto que começaríamos a nossa jornada. Eu guiando esse belo e animado grupo Como fui através do SENAC, não sei informar se é necessário pagar para entrar, pois tivemos que passar por uma portaria, e a estrada é boa o suficiente para qualquer veículo. Menos de 02km andando da entrada chegamos a uma pedra/mirante, que fica próxima a uma cachoeira e ao rio que passa entre as montanhas, mais a frente tem uma estrutura de uma casa, ali é o local para se montar o acampamento. Dessa local dá para ver o Pico da Princesa e ao fundo o Pico do Diamante, sem falar que tem água limpa próxima ao local, fazendo ser um ótimo ponto para captação de água. Área do Camping Nesse primeiro dia tivemos diversas atividades sobre como cozinhar, como lavar a louça, como fazer suas necessidades e como montar seu acampamento, sempre visando atingir o menor impacto ambiental possível, além de dividir algumas tarefas com o grupo em geral. Segundo dia: Acordamos as 05:30 da manhã para começar a fazer o café da manhã, estávamos em 17 pessoas e eu fui um dos responsáveis pelo café, as 08:45 já tínhamos terminado o café, lavado a louça e desmontado todo o acampamento. Antes de começar nossa trilha tivemos mais uma grande aula sobre orientação e navegação usando mapas e bussolas. Para começar a trilha, eu fui um dos responsáveis por conduzir o grupo, a minha parceira foi no fim, fechando; foi uma experiência muito boa, ter que orientar e assegurar o melhor caminho possível, mesmo que eu nunca tenha feito aquela trilha, ate que não me perdi nenhuma vez. Passando o rio começa a subida ao cume A trilha ate o Pico do Diamante em sua metade é bem tranquila, passando por subidas e descidas bem leves, o problema é na parte final, onde o acesso ao cume do Pico do Diamante é pura subida, levando em torno de 01 hora e 30 minutos de subida, com uma elevação de 600 metros, infelizmente não tenho as distâncias corretas, pois esqueci meu relógio que mapeia o percurso, mas acredito que de um pico ao outro tenha em torno de 8/9 km. DICAS: Leve sua comida - na região não tem lugar para comer, então leve seus sanduíches e frutas Leve água, durante o percurso você encontrará pontos de água, menos durante a subida ao Pico do Diamante Leve protetor Solar Use roupas confortáveis Use calçados adequados a trilha Leve uma troca de roupa e toalha Boné e lanterna Sempre deixe avisado para familiares para onde você esta indo Planeje a trilha antes de fazê-la pela primeira vez, saiba o que você ira enfrentar durante o dia. Subida ao Pico Diamante A travessia da para se fazer em um dia só, a questão é que como ela começa de um lado e termina do outro, você precisa planejar direito como irá buscar o transporte depois, se não tiver, tem que arranjar algum Uber para subir ate o Pico do itapeva, ai depois quando terminar é só descer pela estrada que dará no centro de Campos de Jordão. Espero que tenham gostado do relato, para qualquer dúvida só mandar mensagem pelas minhas rede sociais, estou presente no Instagram no rafacarvalho33 e no Facebook no Follow The Portuga.
  2. Expedição Extreme e Serra Fina Serra Fina 4 dias 16 a 19 Maio 2019 Saida de Vitória no dia 15 de Maio e nos Hospedamos no Harpia Hostel Pousada Hotel, Do Amigo Alessandro (35) 98894-0533 (Hostel e Transfer) R. Ângelo Dalessandro - Centro, Passa Quatro – MG Participantes Idealizador da Trip https://www.facebook.com/pedraodobrasil 27 99805 8885 Participantes https://www.facebook.com/bruno.languer.9 https://www.facebook.com/patrick.martinscastelo https://www.facebook.com/rosa.natura.rosa 1°dia 16/05/2019 Início 9 hs Fim 16 hs -Toca do Lobo, Quartizito e campi amarelo -Local do Camping : Capim Amarelo (Acampamento 1) *Entre toca do lobo e capim amarelo tem o último ponto de agua do dia a direita no quartizito. -Capim Amarelo. 2491mt de altitude. Muita subida, escalaminhada, muitas cordas. Enfim se vc é nutela não vá . 2°dia 17/05/2019 Inicio 08 hs, termino 17 hs -Capim amarelo -Maracanã -Cachoeira vermelha -Base da pedra da mina (Acampamento 2) *Ultimo Ponto de agua do dia na base da Pedra da Mina. Chegamos neste ponto estava um bento muito forte e chovendo muito e estava muito frio, resolvemos acampar neste local (Base da Pedra da Mina). Isto por volta das 17:00 hs. Os ventos, tempestades e raios se intensificaram. Ficamos na barraca por 20:00 hs, pois durante o dia ficou feia a coisa. Saímos por volta das 14:00 hs do outro dia, devido tempestades e raios. 3°dia 18/05/2019 Inicio 14:00 h Término 18:00 h Saímos da base da Pedra da Mina ainda com chuva e ventos fortes, atingimos o topo da Pedra da Mina com seus 2797 Metros de altitude. Os ventos lá em cima eram muito fortes, além do frio. Descemos e atingimos o vale d Rhuá. Encontramos uns caras que passaram um perrengue durante a noite. Seguimos pelo vale sempre a direita do rio. Passar pelo vale do Rhuá e uma coisa única, um belo vale com capins amarelos bem alto e muita lama. No final do vale foque sempre o V no final do vale. Pegamos agua para o dia seguinte, é importante pegar no mínimo 6 litros de água, pois até o ponto de água seguinte. Saímos do vale e dormimos num camping acima. Agora sim fomos agraciados por um por do sol maravilhoso. (Acampamento 3) 4º dia 19/05/2019 Inicio 08:00hs Término 18:30 hs. Saída do Camping acima do vale do Rhuá e seguimos em frente, hoje porem deu um nascer do sol lindo, indicando que o dia ia ser aberto, pois os dias anteriores não foram de um bom tempo. Passamos Pelo Mirante do Vale das Cruzes, Pelo cume do Cupim de Boi, Pico dos três estados 2656 mt altitude, Ombro dos 3 estados, Cume Bandeirante, Alto Dos Ivos, entroncamento com a garganta do Registro, Ponto de água antes do Sitio do Pierre, Sitio do Pierre e Asfalto, onde o resgate nos aguardava. Volta ao Hostel, dormimos e fomos embora na segunda feira, finalizando assim a trip, que foi umas das mais HARD que já fiz. A Serra Fina para Mim é considerada uma das mais difíceis e pesadas do Brasil. Use sempre Protetor Labial. Dicas Mesmo fazendo a travessia no final da temporada de montanha, bambus e Capim Elefante são uma constante. Luvas e blusa de manga longa é boa pedida. O desespero em saber que a travessia oferece pouca água, não deve ser considerado algo extremo, lembre-se que o corpo necessita de liquidos, não somente água. Eu particularmente, levei sucos prontos, e água de coco e só abasteci a garrafa de água mesmo no terceiro dia. Os dois primeiros só bebia nos pontos de água. Mas isso claro, vai de pessoa para pessoa. Quando fizer paradas próximo ao Capim Elefante, a presença dos ratinhos deve ser considerada e não deixe a mochila aberta de forma alguma. Nos cumes, nada de comida fora da barraca e se possivel, longe dos cantos para evitar o cheiro. Protetor solar e chapeú que cubra o rosto e pescoço é ótimo, pois o bambuzal deixa muito matinho caindo pelas costas. Bandanas também são muito uteis, principalmente nos cumes para não ficar com o nariz vermelho pelo frio.
  3. De Biritiba-Mirim à Bertioga-SP “ Chafurdados no pântano até o pescoço, cinco criaturas se arrastam na lama, se esgueirando entre camas de jararacas e casas de jacarés do papo amarelo, tentando fugir das desgraças aquáticas proporcionada pela aquela EXPEDIÇÃO que havia partido do Planalto Paulista três dias atrás. A tarde já vai pela metade e já dão por certo ter que dormir dentro d’água e virar comida dos mais terríveis insetos asquerosos que habitam aquele inferno alagado. A resiliência parece já ter tomado a alma de cada um daqueles infelizes, isolados do mundo, sem comunicação nenhuma, largados à própria sorte e fadados a pagar seus pecados antes de se transformarem em criaturas do brejo, melhor seria se fossem logo comidos por uma sucuri gigante, seria um desfecho mais glorioso para aquele sofrimento. ” (Da esquerda para direita : Anderson , Potenza , Divanei , Vagner , Trovo . ) Alguns roteiros são planejados e quando se vê a impossibilidade momentânea de realiza-los, são jogados e esquecidos numa gaveta ou num arquivo qualquer do computador, indo parar numa espécie de limbo digital até que alguém te faça lembrar que ele exista. O Rafael Araújo me consultou sobre a possibilidade de botar essa expedição em pratica já que os planos iniciais para o feriado do Carnaval acabaram indo por água a baixo. Acontece que essa Travessia tinha um entrevero que até então eu não havia achado solução, aí foi preciso voltar às pesquisas nos mapas e cartas topográficas a fim de desvendar o mistério. O projeto inicial da travessia partiria de Biritiba-Mirim, mais precisamente nas dependências da SABESP, num lugarejo conhecido como CASA GRANDE, mais de 20 km do centro do citado município, um fim de mundo servido por uma estrada de terra toda zoada. Partindo de Casa Grande ainda seria preciso mais 5 ou 6 km de andanças até interceptar a trilha de acesso para a CACHOEIRA DO DIABO, uma queda d’água quase que desconhecida nas nascentes do rio Guacá, descer o próprio rio por mais de 1 km e a partir de aí abandoná-lo pela esquerda e se jogar num mundo desconhecido varando mato montanha acima até a crista da serra e despencar para fundo do vale, ganhando as nascentes do RIO GUAÇU, afluente do grande Rio ITAGUARÉ. Do topo da serra à quase 800 m, desceríamos o despenhadeiro até a planície litorânea de Bertioga e aí é que estava o enrosco: Como passar pela área alagada, um mundo feito de água, pântano, mangue e charco? A solução inicial pensada foi a de traçar uma linha reta quando o rio arrefecesse, direto para uma estrada a 3 ou 4 km a sudoeste (direita de quem desse o rio) e deixar que o destino nos guiasse no final da travessia, mas já prevendo que o capiroto poderia fazer sua morada naquele caminho. (laranha- trilha até cachoeira do Diabo) ( vermelho - caminho da expedição selvagem) Ultimamente o grupo de gente disposta a enfrentar essas Expedições incertas acabou por diminuir drasticamente, alguns simplesmente começaram a achar que algumas travessias vinham se enveredando por lugares extremamente perigosos, outros acabaram por buscar atividades com menos perrengues, indo aprender novos esportes ligados ao mundo da aventura e outra parte já haviam sinalizado com compromissos familiares. No final apenas cinco míseros corajosos se dispuseram a enfrentar esses caminhos nunca dantes navegados e então numa sexta-feira cinzenta o grupo se juntou depois das 10 horas da noite na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes de onde partiria nossa VAN com destino à Casa Grande, no município de Biritiba-Mirim. A viagem de Mogi até Casa Grande deve ter levado umas duas horas e meia, o certo é que estávamos tão envolvidos jogando conversa fora e revivendo expedições passadas que nem nos demos conta do tempo. Depois de chegar até as instalações da SABESP (Companhia de Águas Paulista) , ainda foi preciso que o nosso transporte se metesse por mais uns 5 km de estradas enlameadas até o PESQUEIRO DO LUCIANO, que na verdade nem pesqueiro era e muito menos pertencia ao Luciano , o caseiro do criador de carpas. Como o Vagner já conhecia o caseiro de outra passagem por ali, não se fez de rogado e já intimou o nativo a nos conseguir um lugar para passarmos a noite e, entre cachorro, gatos e galinhas, nos acomodamos no chão do casebre e apagamos até depois das seis da manhã. ( o cão BINGO : mergulha, pesca e caça) A previsão do tempo era péssima, marcando quase 40 milímetros de chuva para o sábado de Carnaval, mas surpreendentemente o dia amanheceu seco e quente e tão logo o café ficou pronto, nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos para a aventura. Ganhamos novamente a continuação da estrada que havíamos chegado na noite anterior e avançamos por mais uns 1500 metros, coisa de meia hora e quando a estrada se bifurcou, com uma perna indo para direita e outra para esquerda, não pegamos nenhuma das duas e a abandonamos em favor de uma trilha em frente, para sudeste, que no começo é meio apagada e confusa, passando por uma casinha em ruínas a nossa esquerda. Tão logo nos distanciamos do casebre abandonado, a trilha volta a ficar mais nítida porque na verdade, trata-se de uma antiga estrada que muito provavelmente serviu para extrair madeira para as carvoarias, mas hoje a mata voltou a se regenerar e o antigo caminho foi engolido pela floresta, restando apenas o antigo corte no barranco. A trilha vai seguir praticamente em nível, cruzando uma infinidade de riachinhos e quase 3 horas depois vai desembocar no leito do Rio Guacá, bem perto das suas nascentes. O RIO GUACÁ é um velho conhecido meu, foi nele que comecei minha vida mateira há 25 anos atrás, muitas são as lembranças de acampamento e explorações nas imediações da sua foz, junto ao Rio Itapanhaú, então ter a oportunidade de conhecer sua nascente é sempre um grande prazer. Chegar a esse rio já é um grande trampo, pela logística ruim e pelas horas de caminhada, mas ainda falta a cereja no bolo, uma cachoeira selvagem e praticamente desconhecida, visitada apenas pela galera mais casca-grossa e experiente. O grande problema é que não há trilha para se chegar a essa cachoeira e será preciso varar mato meio que pelo rumo ou ir seguindo a direção do GPS até sua base. Claro que ao chegar ao rio é possível tentar encontra-la descendo por dentro da água, mas aí seria caminhar por mais de 1 km, perdendo assim tempo precioso. Como o Vagner já havia estado nessa cachoeira tempos atrás, atravessamos o rio e menos de 100 m depois chegamos a uma clareira de acampamento, o único vestígio de vida humana por essas paragens. Não há nenhuma trilha que ligue essa clareira direto para a cachoeira, então descemos mais um pouco até tropeçarmos em um afluente e nos enfiamos nele na certeza que uma hora ele encontraria com o rio principal, mas como começou a fazer muitas curvas, também o abandonamos e seguimos nossos instintos , apontando o nariz para a direção do rio e menos de meia hora depois tivemos êxito , encontrando um grande poço e aí foi só varar mato subindo pela margem direita até avistarmos a deslumbrante e selvagem CACHOEIRA DO DIABO. Gastamos pouco mais de 3 horas do “pesqueiro” até a cachoeira e foi uma grande alegria poder chegar ali e se maravilhar com aquela queda d’água onde poucos já tiveram a sorte de botar os olhos e ainda poder desfrutar de tamanha beleza com sol, coisa que jamais esperávamos com uma previsão tão ruim para aquele dia. A Cachoeira do Diabo é daquelas quedas clássicas, que se espalham de um lado ao outro do rio. Com o rio normal forma dois véus d’água , mas com o rio mais cheio os véus se juntam formando uma só . É possível se banhar embaixo das quedas, mas para isso é preciso se equilibrar sobre umas pedras mais lisas e escorregadias, a sorte é que um tombo ali causará pouco estrago. Já passava do meio dia quando resolvemos partir de vez e retomar nossa travessia, ainda mais porque a chuva que deveria ter chegado cedo, acabou dando o ar da sua graça. Descemos o rio nos valendo novamente de sua margem até estarmos novamente de volta ao grande poço, contornamo-lo pela sua esquerda e continuamos seguindo , alternando caminhada pelo mato e pelo próprio leito do rio Guacá até que nos surpreendemos com uma outra grande queda que nem esperávamos que havia e aí fomos obrigados a varar mato pra valer, subindo um pouco a encosta da esquerda e depois traçando uma diagonal até a base da cachoeira, onde eu e o trovo nos metemos dentro da água para ter uma visão privilegiada do salto . Um pouco mais abaixo desse salto, outras pequenas cachoeirinhas são vencidas e logo nosso GPS nos avisa que é hora de abandonar o lendário Rio Guacá, havia chegado o momento de nos jogarmos de corpo e alma para a aventura que almejamos buscar. Nos despedimos do rio e começamos nossa jornada rumo ao desconhecido, primeiramente subindo um grande barranco à esquerda e nos enfiando de vez mato à dentro e montanha acima. Encontramos uma espécie de rampa que nos deu um caminho bem promissor e nos fez ganharmos altitude rapidamente, mas logo que nos vimos bem acima, tivemos que abandoná-la porque ela tomou um rumo que não serviria aos nossos propósitos. Estávamos navegando com um aplicativo do celular, que já há muito tempo tem nos servido muito bem, mesmo nessas expedições selvagens, mas é preciso aceitar que às vezes um pequeno delay (atraso) pode dar uma desorientada básica e é preciso corrigir o rumo sem muito estresse. Nosso objetivo era ao atingirmos a crista da serra a quase 800 m de altitude, ganharmos a descida até as nascentes do Rio Guaçu e a partir de aí, nos jogarmos por dentro do vale e foi exatamente o que fizemos, só que primeiro tivemos que fazer um desvio para nos livrarmos de um vale que seria inútil descer para ter que subir novamente, então ganhamos uma subida a esquerda e quando nos vimos no alto da serra, concertamos o caminho voltando mais para a direita e por incrível que possa parecer, encontramos uma trilha larga correndo por cima da serra. Essa trilha, por sinal, muito consolidada, correndo por cima da crista, poderia tomar vários rumos que até então não tínhamos conhecimento, mas com certeza não nos serviria para nada, então a usamos apenas como descanso breve, antes de nos despencarmos terreno abaixo. E despencar era o termo correto, uma vez encontrado a calha do vale foi só nos mantermos dentro dele, avançando cada vez mais para baixo, desescalando o leito seco de um córrego até que a própria chuva que ameaçava desabar, desabou de vez e o que era seco e sem vida se inundou rapidamente até que finalmente chegamos ao que nos parecia ser as nascentes ou uma das nascentes do Rio Guaçu. A chuva castigou legal e o desnível foi aumentando e se transformando em um verdadeiro cânion, onde tínhamos que nos livrar de grandes pedras, às vezes sobrepostas por grandes árvores tombadas. O dia vai se findando, mas a gente resolveu estabelecer como meta chegarmos aos pés da grande queda que supúnhamos haver em um afluente vindo do lado esquerdo do rio, mas conforme a chuva aumentava, as dificuldades iam se multiplicando e alguns do grupo já vislumbravam a possibilidade de acampar logo e nos livrarmos daquele molhaceiro todo. Acontece que não encontrávamos um palmo de área plana para acondicionar todo o grupo, então a única alternativa era continuar navegando. A chuva aumentou de vez, mas por sorte a temperatura não caiu. Matacões eram descidos e a carta topográfica nos avisava que o terreno se abriria à frente, com linhas espaçadas, o que significa área mais plana e a possibilidade de estarmos perto da grande queda d’água que buscávamos e não deu nem quinze minutos para que um clarão alvo viesse a ofuscar nossos olhos em meio a selva densa. Foi o momento de euforia, estávamos bem perto de nos encontrarmos com aquilo que havíamos visto apenas por imagens de satélite. Abandonamos o rio em favor de um vara-mato em direção ao clarão branco formado pela cachoeira, cruzamos um riachinho para o outro lado, subimos mais um barranco e ao tropeçarmos no próprio afluente do qual desabava a cachoeira, jogamos as mochilas ao chão e saímos correndo, feito adolescentes indo ao encontro de um amor ainda desconhecido. Por sorte, bem nessa hora a chuva havia dado uma trégua, o que nos ajudou a fazer uma escalada pelas grandes rochas com mais segurança. Ao nos posicionarmos diante da parede onde despencava a grande queda, foi que nos demos conta da grandiosidade da Cachoeira. Uma parede inclinada de uns 70 ou 80 metros com um véu branco turbinado pela chuva que acabara de cair. Tiramos algumas fotos e partimos de volta para onde deixamos as mochilas, sabíamos que era hora de conseguirmos um lugar para acampar, tínhamos que aproveitar a trégua da tempestade para tentarmos montar nossas redes, muito porque, o Anderson já estava em estado terminal, inclusive ele foi o único que não teve forças nem para ir ver a grande cachoeira e acampar ali por perto lhe daria mais uma chance de conhecer a cachoeira no dia seguinte. Retrocedemos um pouco antes do riachinho e ali conseguimos uma meia dúzia de árvores descente para montarmos nossas redes. O primeiro dia de caminhada é sempre o mais complicado e cansativo porque se dorme muito pouco na noite anterior, então depois de montarmos nossas camas de mato e prepararmos uma janta, cada qual foi morrer na sua rede. Ali naquele vale onde o mundo não sabe que existimos, a noite passa de vagar, os bichos fazem barulho ao longe e o som das águas correndo sobre as pedras reina absoluto , só sendo ofuscado quando alguma grande árvore tomba na escuridão da floresta, gigantes que despencam arrastando tudo que tem em volta e assombram a nossa alma porque sabemos que se uma dessa cai sobre nossas redes, não sobra um pra contar história. O dia que amanhece é sem chuvas, mas a previsão ainda não nos é favorável. Foi uma noite de reis, quase 12 horas de sono e descanso merecido. Lenta e vagarosamente vamos desmontando nosso acampamento e nos preparando para aquele segundo dia de expedição e quando todas as mochilas ficaram prontas, partimos novamente para uma visita mais prolongada da GRANDE CACHOEIRA. O reencontro com o monstro despencando da pedra chega a ser mais prazeroso que o do dia anterior porque agora o grupo está todo reunido e sem as chuvas, fica fácil escalar as grandes pedras lisas para uma foto panorâmica. Falando em fotos, ao posicionar minha câmera numa rocha para um registro fotográfico de todo mundo junto, um vento se encarregou de joga-la dentro do rio e essa foi mais uma que a Serra do Mar comeu para todo o sempre, amém! Ali onde estávamos o nosso GPS marcava uma altitude de uns 550 m e surpreendentemente encontramos uma “inscrição rupestre” muito antiga em uma árvore onde se podia ler “ ALEMÃO”. A única explicação plausível para que alguém antes de nós tivesse chegado até aquela cachoeira perdida do mundo é que aquela trilha que encontramos na crista da serra, poderia ter descido rapidamente pelas encostas do lado direito da nascente e vindo desembocar aqui, mas esse foi o último vestígio humano que encontramos naquele vale e para ser justo com o nobre “europeu” que veio de tão longe para visitar essa queda d’água antes de nós, vou marcá-la como CACHOEIRA DA LAGE DO ALEMÃO. Deixamos, portanto, aquela cachoeira perdida e entregue a própria sorte e partimos descendo pelo próprio afluente, que mais nos pareceu ser mesmo o rio principal formador do Rio Guaçu e logo quando se encontra com o rio que descemos até ele, se encorpa de vez e cresce, tomando forma e jeito de rio digno dessas serras fabulosas. A retomada pelo rio principal segue praticamente a mesma toada do dia anterior, nos fazendo escalar e pular muita pedra, são matacões gigantes, onde é preciso se esgueirar dentro de pequenas grutas, atravessar pequenos corredores alagados, dar salto de uma rocha para outra, se segurar em rampas escorregadias e vez por outra se jogar no rio em ziguezague, cruzando de uma margem para outra, sempre procurando o melhor caminho. Poucos são os esportes em que você é obrigado a usar todos os músculos do seu corpo, aprender todas as técnicas de escalada livre que existem, tendo que se manter ligado em 100 % do tempo, porque uma bobeada, mínima que seja, você vai pagar caro e correr o risco de ver sua cabeça explodir numa pedra rio abaixo, sem contar que os olhos tem que estar fixo também no mato, tem que ficar esperto para não enfiar uma mão numa jararaca e sofrer um acidente sem volta, num lugar onde o resgate é quase que impossível por não haver comunicação com o mundo externo. O dia vai passando rapidamente e a chuva que ameaçou cair a manhã toda, desaba de vez e o rio que era manso e cristalino se rebela contra nós, tornando a aventura ainda mais desafiadora. Nosso grande objetivo desse segundo dia era encontrar outra cachoeira que nos pareceu bem grande no mapa de satélite e quando estávamos chegando perto do ponto marcado no gps, ficamos esperto com todos os afluentes que vinham do nosso lado esquerdo, porque era desses cursos d’água que pretendíamos encontrá-la, em um paredão gigante. Quando o terreno aplainou de vez, intuitivamente já sabíamos que ela estava perto e não demorou muito para alguém do grupo gritar eufórico que havia visto ela despencando ao longe. Era mais um gigante a nos surpreender, a gente de queixo caído, ficamos ali, hipnotizados diante daquela parede que ao longe ainda, nos fazia querer largar a mochila e correr ao seu encontro já que ainda seria necessário tentar escalar seu afluente, com outras quedas d’água com transposição difícil. A chuva não parava de cair e diante das dificuldades que enfrentaríamos para chegar até a base da cachoeira, decidimos deixar nossas mochilas e subir apenas com as câmeras ou celulares para tentar um registro e como eu não queria ariscar em perder meu telefone, como acontecer com minha câmera, decidi subir com a mochila estanque apenas me livrando temporariamente de alguns pesos desnecessários. Ainda era cedo, mal havíamos passado da metade do dia, mas o Anderson Rosa não estava se sentindo muito bem e decidiu não ir até a queda d’água. O Daniel Trovo tomou a frente e seguindo seu instinto, descobriu uma rampa inclinada que cortava as duas vertentes de água, dois rios que se formavam e se dividiam vindo da cachoeira. A rampa apontava para o céu e foi sendo vencida palmo a palmo até que fomos obrigados a subir o riacho da esquerda, escalando por dentro da água com o turbilhão aquático querendo jogar a gente abismo abaixo. A massa de água sobre nossas cabeças era assombrosa, um turbilhão que mal deixava a gente progredir, um espetáculo impressionante, 40 ou 50 metros de altura de cachoeira reinando soberana no coração daquele vale selvagem sem vestígio de passagem humana e para marcar esse ponto no mapa, vou dar o nome de CACHOEIRA DO ITAGUARÉ, para homenagear o rio que domina essas paragens. Essa cachoeira estava assentada sobre um degrau numa parede lateral e dela era possível avistar o mar e toda a área alagada da Restinga de Bertioga, infelizmente não conseguimos uma boa foto dela por causa da chuva intensa e de volume avassalador, mas vamos deixar gravado na memória esse dia incrível, de descobertas e explorações, o dia em que acrescentamos mais uma joia nos mapas da Serra do Mar. Não nos demoramos muito, estávamos com frio por causa da água e do deslocamento de ar provado pela queda e se já foi complicado subir, descer então foi muito pior, tanto que tivemos que contar um com a ajuda um do outro para passar pela beira da garganta, até ganharmos a descida da rampa e voltarmos ao rio principal, onde o Anderson nos esperava, dormindo sobre uma rocha. Retomamos a caminhada pelo rio, sempre espertos com o volume intenso e com alguma possível cabeça d’água, já que o rio havia se tornado totalmente escuro. O ritmo, agora mais lento tanto por causa de alguns já cansados pelo desgaste, tanto pelo terreno extremamente acidentado, com pequenas quedas e rios correndo por baixo de grandes rochas, nos causando um esforço físico para serem transpostas. As vezes era preciso correr para o mato e desescalar barrancos para tentar fugir das rampas mais íngremes que não nos oferecia uma segurança razoável para descermos. Nossa meta estabelecida eram dois grandes poços que havíamos identificados no mapa, mas que pareciam cada vez mais longe com as chuvas a nos castigar o lombo, mesmo em se tratando de chuvas com temperaturas altas, e quando esses dois poços foram encontrados, nos decepcionamos um pouco porque esperávamos e pretendíamos nadar neles, mas estavam com a água muito turva e só fizemos olha-los e partir imediatamente já que havíamos decidido começar a procurar um lugar para acampar. Abaixo desses dois grandes poços tivemos que cruzar o rio para sua margem direita e para isso tivemos que saltar de uma pedra não muito alta e tomar impulso para não sermos arrastado pela corredeira e foi nesse momento que o Vagner se lascou todo ao explodir com o joelho numa pedra rasa do qual não nos demos conta. Na hora já paramos para tentar prestar os primeiros socorros e ver se ele teria condições de progredir ou se seria preciso parar imediatamente e tentar acampar. Passada a dor inicial, o Vagner deu sinal positivo para que continuássemos até localizarmos um lugar mais descente para montarmos nossas redes. O Trovo se adiantou, mas a ilha a nossa frente não nos convenceu a ficar, então resolvemos empreender uma vara-mato pela esquerda porque era quase impossível passar diante de um abismo do qual o rio se jogava numa laje perigosa. Retornamos ao rio quando foi possível, bem aos pés de uma CACHOEIRA INCLINADA que havíamos sinalizado no mapa, uma bonita QUEDA de uns 50 metros, que nos fez parar para respirar um pouco e nos alimentarmos. A situação ia ficando angustiante porque a noite se avizinhava e nada de encontrarmos um lugar descente para acampar e cada vez que o terreno dentro do rio piorava e tínhamos que cair no mato, pior ficava, porque era uma floresta com transposição difícil, muitas árvores caídas e quando uma grande parede nos barrou do lado esquerdo, fomos obrigados a escorregar de cima do barraco nos valendo de grandes árvores, como se fôssemos bombeiros escorregando pelos troncos. Estando de volta ao rio, o Anderson e o Trovo se recusaram a fazer um pequeno desvio para conhecer uma outra cachoeira deslumbrante, alegando que estavam preocupados com o Vagner e seu joelho estourado, mas o próprio moribundo do Vagner já tratou de arrastar o Potenza varando mato até a cachoeira e logo me cheguei a eles e ficamos nós três a nos maravilharmos com mais um espetáculo em forma de massa aquática , batendo continência para uma CACHOEIRA de uns 20 metros , muito parecida com a própria cachoeira do Diabo, no Rio Guacá. Retrocedemos até onde o Trovo e o Rosa nos esperavam e descemos por mais uns 100 metros até que finalmente resolvemos acampar. E foi realmente um lugar incrível que a primeira vista não parecia lá grande coisa, mas depois de um estudo mais profundo da área, conseguimos alocar todas as redes e toldos de uma forma excelente, com conforto e espaço e assim que as redes se esticaram, fomos cuidar do jantar, já que o dia havia sido de andanças intensas. As atividades no acampamento são sempre intensas porque é preciso deixar as redes e os toldos impecáveis ou corre-se o risco de acordar durante a noite, molhado, e isso é uma coisa que ninguém quer, além do mais, fazer tudo direitinho é a certeza de dormir muito confortável. Uma vez deitado na rede, o corpo relaxa e o "marulhar" do rio embala aquele sono que é impossível ter nas grandes cidades, ainda mais se estivermos protegidos com um bom mosquiteiro, um conforto essencial contra os inúmeros insetos da floresta. Mais uma vez tivemos sorte, não caiu uma gota durante a noite e com a trégua das chuvas, o rio amanheceu novamente cristalino, uma água bonita e encantadora. Dormimos não muito acima dos 100 metros de altitude e sabíamos que logo estaríamos na planície litorânea, mas no início da caminhada daquele terceiro dia já fomos obrigados a descer umas cachoeiras e cruzar rio o rio várias vezes, o que não é muito agradável pela manhã, mas como já saímos do acampamento com as roupas molhadas, não há nem o que pensar muito, é se jogar na água e esperar o corpo se adaptar com a temperatura. Por sorte o sol apareceu logo pela manhã, ainda tímido, mas já era um grande começo. Pouco mais de uma hora de caminhada e nos deparamos com um GRANDE LAJEDO, uma formação rochosa diferente das que estávamos acostumados na Serra do Mar, uma pedra mais lixada, mais nem por isso mais escorregadia. O rio foi ficando cada vez mais plano, algumas ilhas vão surgindo, a gente já caminha com uma certa facilidade, já relaxados porque nossa carta topográfica já nos diz que o final do rio ou a parte mais complicada, a parte escarpada, já havia terminado e ao nos posicionarmos em um afluente para um gole d’água, encontramos um vestígio de trilha, que infelizmente mais à frente terminou no nada, mas nos deu a certeza que o rio finalmente havia chegado na planície litorânea, estávamos na chamada Restinga de Bertioga , mas ainda muito, mas muito longe de algum lugar habitado e civilizado , mesmo assim comemoramos muito essa conquista. Uma comemoração inútil porque era na próxima curva que o diabo nos espreitava, ia começar uma das maiores sagas desde que começamos com essas travessias selvagens na Serra do Mar Paulista. (Final dos cânyons, inicio da Restinga de Bertioga) A descida pelo rio plano era um passeio, se comparado com a descida dos cânions, íamos de um lado ao outro, batendo papo e acompanhando o nosso deslocamento no mapa, onde pretendíamos abandoná-lo de vez e tentar um vara mato de uns 3 ou 4 km até uma possível estrada, mas foi aí que uma nova trilha surgiu de repente e mudou o nosso destino completamente, mudou os rumo daquela expedição e nos jogou em uma das maiores furadas das nossas vidas. A trilha que encontramos era aberta e logo pensamos que ela poderia nos conduzir diretamente para a civilização no litoral. Rio se dividiu em dois e nem percebemos, então quando chegamos em um lugar onde a trilha se perdeu, resolvemos atravessar para direita até que tropeçamos em um rancho de caçadores que parecia estar abandonado há muito tempo. (RIO GUAÇU) Surpreendentemente, não vimos palmitos cortados naquela região, demoramos muito tempo para fazer a leitura do lugar, estava na cara que aquele lugar era totalmente inóspito e quem por lá andava, só o fazia porque chegava de canoa devido a dificuldade de acesso, mas como perto desse barraco de caça abandonado havia uma trilha, imaginamos que ela poderia nos tirar daquele fim de mundo, e ela realmente foi enveredando para a direção que nos favorecia, mas do nada acabou bem no RIO ITAGUARÉ , um rio bonito ,mas sinistro, cheio de algas e de cor avermelhada , onde a qualquer momento parecia que um jacaré do papo amarelo saltaria para fora e arrastaria um de nos . (Rio ITAGUARÉ) Fizemos uma pausa para mastigar alguma coisa e para pensar qual o rumo que tomaria aquela expedição e então enquanto as coisas não se resolviam, decidi tomar um banho naquele rio sinistro e a galera vendo que o caminho realmente havia se fechado, resolveram tentar seguir subindo o Rio Itaguaré até uma ponte que aparecia no mapa, uns 2 ou 3 km acima e realmente ao atravessar o rio para o lado esquerdo de quem sobe, encontramos algo parecido com uma trilha e decidimos seguir por ela. l No início parecia mesmo ser uma trilha, mesmo que a gente tivesse que atravessar áreas alagadas até a cintura, mas o caminhar não progredia, não avançávamos e 15 minutos depois um pântano nos barrou de vez, fim da linha para a gente. Metade do dia já se fora e era preciso achar uma solução, alguns queriam abrir caminho rio acima por uns 2 km, mas outros insistiam que deveríamos voltar até a curva do rio e tomar um destino que pudesse nos deixar longe dele, tentando evitar a área pantanosa. Nesse momento era o Anderson que comandava o GPS, então como foi ele quem gritou mais alto, saiu como vencedor na contenda e puxou a fila de volta para o local onde havíamos atravessado o Itaguaré. O plano era descer um pouco o rio e para depois varar mato numa direção paralela a subida, porque isso nos deixaria longe dele e consequentemente longe também da sua área alagada, pelo menos foi o que pensávamos. Mas antes disso acontecer uma ideia estúpida quase acabou sendo posta em pratica: Parte do grupo vislumbrou descer boiando pelo rio e se isso tivesse acontecido, estaríamos lá até hoje, perdido naqueles pântanos dos infernos, já que o rio faz curva atrás de curva e se perda num mar de florestas antes de se jogar no mar. E foi realmente por pouco que a gente não tomou essa decisão, parte do grupo já estava boiando na correnteza, inclusive eu, quando alguém sensato foi obrigado a intervir e a colocar aquela expedição de volta aos seu rumo natural. (Mas pensando bem, o cara que convenceu a gente a não ir boiando é mesmo um filho da puta dos infernos, porque o que estava por vir não seria bonito de ser ver, rsrsrsrsrsrsrr) Descemos o rio por uns 100 metros e miramos uma diagonal para a possível estrada e então começamos a vara mato. No início, um brejo dos infernos, mas logo o brejo deu lugar para um PÂNTANO, área alagada em meio a uma floresta baixa e com algumas raras árvores espaçadas. O Trovo ia à frente e eu logo no seu encalço, mas a progressão era lenta, morosa e modorrenta, não avançávamos 200 metros por hora e quando pensávamos que o terreno poderia melhorar, a água subia na altura do peito, em meio a uma selva de bromélias, onde possivelmente jararacas lambiam os beiços com a nossa passagem, já que costumam fazer dessas plantas suas camas. Para nossa sorte a chuva prevista para depois do almoço não veio e na minha cabeça um pensamento macabro de não conseguirmos sair daquele lugar e termos que dormir dentro d’água, já que em certos lugares não existiam nem árvores descentes para montar uma rede. A gente andou, andou, andou e quando vimos, estávamos no mesmo lugar. Havíamos rodado em círculos, mesmo com o GPS do celular. Ninguém disse coisa alguma, mas estava estampado em cada rosto o sofrimento passado ali naquela área alagada e eu mesmo cheguei a me perguntar se já não estaria passando da idade para me meter em tamanha encrenca, mas quando vejo alguns com a metade da minha idade, compartilhando do mesmo sofrimento, me conformo e continuo abrindo caminho metro a metro, tentando afastar da minha mente qualquer preocupação com possíveis cobras gigante e jacarés alados que possam cruzar o nosso caminho. Não há felicidade no sofrimento, mas a todo momento eu tentava transformar aquela jornada ao inferno pelo menos em algo mais divertido, fazendo troça da desgraça, pelo menos não havia ninguém machucado e era um grupo extremamente forte e se fosse preciso resistir, resistiríamos o tempo que precisasse. Acabaram-se as camas de jararacas e apareceram os capins navalha que iam cortando a pele de quem se atreveu a entrar ali de mangas curtas, os cipós espinhudos mancomunados com as palmeiras de espinhos, se encarregavam de fazer os estragos que faltavam. Muitos ali gritariam por suas mães se pudesses, mas sabedores que elas não os ouviriam naquele fim de mundo alagado, apenas se mantinham de cabeça baixa, fazendo suas orações ou praguejando em voz baixa. Mas navegar é preciso e sair vivo também e como o GPS do Rosa começou a brincar de delay por causa da bateria já combalida, coube ao Potenza assumir os trabalhos de navegação. Mais para esquerda, mais para a direita, volta, segue, diagonal reta. Eram muitos os comando, mas o terreno não nos deixava ir para onde deveríamos e isso só fazia com que ficássemos mais angustiados. Estar ali , presos sem poder avançar nos causa um sofrimento indescritível, é uma sensação de impotência diante de uma natureza bruta e selvagem e se alguém fosse picado por um cobra naquele alagado, morreria sem socorro, porque mesmo os que poderiam se adiantar para buscar um resgate, estavam presos e isolados também . Éramos cinco criaturas perdidas num mundo alagado, cinco seres que sobreviviam como monstros do pântano, incorporados a paisagem hostil em meio a algas e plantas aquáticas, passageiros de uma agonia em comum que parecia não ter fim. Uma decisão foi tomada a fim de tentar salvar pelo menos o moral do grupo que já se encontrava em frangalhos. Resolvemos mirar nossos narizes de volta para o rio Itaguaré, talvez não resolvesse coisa alguma, mas era um plano, porque até então, nada que tentamos resolveu. A labuta de abrir caminho numa vegetação quase que intransponível se estendeu por muito mais tempo, atravessar aquele mundo alagado com uma infinidade de árvores caídas, onde era preciso pular por cima, foi minando as energias e a nossa paciência. O traçado no GPS parecia não sair do lugar e a cada passo dado parecia nos enfiarmos ainda mais num caminho sem volta até que conseguimos encontrar meio metro de terreno mais alto e ali demos uma parada. Engraçado é que cercado de água pôr todos os lados e a maioria com a garganta seca, sem coragem e nem forças para captar água das bromélias, já que ainda não achávamos que era hora de partir para o desespero e bebermos água do pântano. Mas chegou uma hora que era preciso parar de sofrer, pelo menos de cede e já que havíamos parado mesmo, enchi meu cantil de um litro com a água pantanosa e nele acrescentei um suco de jabuticaba para disfarçar o gosto, tomei uns dois goles e passei para o Anderson que já estava em estado lastimável, não muito pior que o resto do grupo e quando ele me retornou a garrafa, não continha mais nada além de baba ( rsrsrsrsr) , se água do pântano matasse, esse aí não tinha voltado vivo para contar história. Hidratados e procurando colocar os pensamentos em ordem, assumi a liderança momentaneamente, tentando chegar até as barrancas do Rio Itaguaré, mas me arrependi amargamente porque ali onde estávamos já era a própria vasão do rio e em certos momentos a água quase que alcançava o pescoço. Aquilo era algo totalmente insano, onde estávamos com a cabeça quando deixamos que a situação chegasse àquele ponto e o pior era não haver nenhuma perspectiva de sairmos daquela enrascada tão cedo. Puxei capim, abri floresta de espinhos, abri caminho em meio às algas gosmentas. Meu olhar se perdia no vazio procurando uma referência em que eu pudesse me apoiar, nem que fosse psicologicamente, mas nada nos era favorável, nem mesmo a tal margem do rio conseguíamos avistar, muito porque, ela nem existia e só descobrimos isso quando já estávamos no meio do leito do rio Itaguaré, cercados de vegetação aquática por todos os lados. Por sorte o Itaguaré ali era um rio raso e com correnteza pouca, que nos possibilitou subir por dentro dele caminhando e quando não dava mais pé, nadávamos correnteza acima ou nos puxando pelas algas aquáticas. Aquela era uma cena sul-real, cinco pontinhos humanos subindo um rio obscuro no meio de uma floresta perdida num pântano a meio caminho de lugar nenhum. Trovo vai à frente abrindo caminho dentro do rio, enquanto o resto do grupo ainda sem acreditar na situação em que havia se metido, segue atrás, com o Paulo Potenza ganhando uma certa vantagem até que o próprio Potenza da meia volta e desce o rio desembestado correndo de um jacaré do papo amarelo que emergiu das profundezas do rio e veio em nossa direção. Por sorte o tal jacaré que o Paulo havia visto, não passava da perneira do Trovo que havia se soltado e ficado boiando no rio em meio às algas. A situação não melhorou nada ao interceptarmos o rio porque vimos no mapa que ele se perderia em curvas, indo para uma direção totalmente oposta às nossas necessidades, que era a de encontrar uma possível estrada que poderia nos devolver as civilizações no litoral. A gente sabia que nossa situação não era nada confortável e tentávamos criar uma reserva psicológica para aguentar o que viria pela frente, mas foi literalmente numa curva do rio que o nosso destino mudaria. Numa entradinha despretensiosa, eu e o Trovo localizamos um barquinho de fibra afundado em meio as algas, tão pequeno que mais parecia uma caixa d’água com um bico e inventamos de tirá-lo do fundo e surpreendentemente ele boiou. Enquanto nos entretínhamos com a rustica embarcação, o Trovo adentrou no pequeno canal em direção a um terreno mais alto e bingo, achou uma canoa antiga no meio do mato, ainda com seu remo e a puxou para dentro do rio. Imediatamente um pensamento macabro tomou conta da minha mente: “ Vamos roubar essa porra. ” Sei que não era nada bonito de se fazer, mas são pensamentos que permeiam nossas mentes quando o desespero já tomou conta da gente. Achei que o único jeito de saímos daquele inferno alagado era nos apossarmos daquela canoa velha e remarmos rio acima até a tal ponte e desembarcarmos nela, ganhando assim essa possível estrada que nos tiraria dali. Subimos na canoa para fazer um teste e ver se aguentaria todo mundo e se iríamos nos adaptar com o remo. Subimos remando por um tempinho, mas eu me mantive no barco reserva, sendo puxado pela embarcação, mas logo retornamos ao local de onde partimos e ao investigarmos mais a fundo, descobrimos uma trilha que vinha de algum lugar até ali, talvez da própria estrada que buscávamos, e desembocava ali na beira do rio. O plano de roubar a canoa foi deixado de lado e o trocamos por essa trilha suspeita, mas que foi se abrindo e nos apontando uma saída e surpreendentemente, nos desovou bem na estrada, estávamos salvos, a civilização estava a não mais de uns míseros 2 ou 3 km e não levamos mais que uns 40 minutos para desembocarmos na Rio Santos, bem ao lado de uma subestação de energia, 300 metros de um posto de gasolina e a menos de 2 km do litoral. Abraços e comemorações marcaram o final daquela expedição e nos sentimos orgulhos de mais uma vez escaparmos inteiros de mais uma Travessia Selvagem e até então inédita. Conseguimos pegar um ônibus coletivo que nos levou de volta à Bertioga e de lá embarcamos imediatamente para Mogi das Cruzes e cada um foi se perder para um rumo, naquela selva de pedra, chamada São Paulo. E essa aventura pela Serra do Mar Paulista teve o poder de nos surpreender positivamente, porque até então desconfiávamos desse novo caminho proposto, mas nunca, nunca mesmo, podemos subestimar a grandiosidade dessas florestas e dessas montanhas , que despencam do Planalto Paulista para a Planície litorânea e conseguem desafiar o homem a ponto de quase poder vencê-lo, mesmo em tempos modernos onde ainda temos as tecnologias a nosso favor. Tomamos uma surra, por certo quase fomos humilhados, mas sobrevivemos com as reservas e a experiência adquirida em Expedições passadas, travamos uma luta ferrenha entre homem e natureza, resistimos até sermos cuspidos para fora e ao invés de prometermos nunca mais nos metermos em um terreno tão hostil como aquele, saímos do outro lado desse vale mais fortes do que nunca, prontos para enfrentar qualquer adversidade, seja em outras travessias como essa ou na busca por novas descobertas, porque em se tratando de AVENTURAS,essa serra Paulista é insuperável. Divanei Goes de Paula – março/2019
  4. Ferrotrekking de Viana x Marechal Floriano com os amigos. dia 29 de Janeiro fiz um Ferrotrekking de Viana a Marechal Floriano passando por Domingos Martins, e contemplamos dois Tuneis e oito Pontilhões. show demais a galera curtiu e muito. Abaixo partida as oito da manhã da Pracinha de Viana. Vista da Igreja da Conceição Centro de Viana Sede. Chegamos no Pontilhão do Bairro Santo Agostinho. olha a turma começo de trilha entrando no Pontilhão. Sentido Domingos Martins Zona Rural de Viana. pausa de 20 minutos Lucas Lima cansou rápido olha que tiamos andado apenas 6 km Vale das Águias, de onde você observa muito elas. Olha a Paisagem Show Depois dessa Curva chegaríamos a Bica de água Mineral a verdadeira água direto da pedra. Eliane e Sr Sergio curtindo a caminhada Olha a Bica Aí Bica da Linha Pivetta encheu o copo kkkk Saindo do Segundo Pontilhão nesse lado estávamos em Domingos Martins olha a altura da criança. Pivetta Atravessando o Segundo Pontilhão sobre o Rio Jucu Braço Sul Bora Juliano show e Pivetta lá atras 1 KM para chegar no terceiro Pontilhão Vista do Terceiro Pontilhão Terceiro Pontilhão sobre o Rio Jucu braço sul 800 mts para o primeiro Túnel Terceiro Pontilhão no trecho tmjsss quarto pontilhão do Túnel de Pedra dos Ventos chegando Túnel de Pedra dos Ventos com o quarto Pontihão. Aquela foto na entrada do Túnel Dentro do Túnel Juliano o cara Saindo do Primeiro Túnel Bambuzal de Pedra dos Ventos Escola de Pedra dos Ventos Chegada na antiga parada Ferroviária de Pedra dos Ventos. Olha lá atras da Eliane antiga plataforma de embarque de Pedra dos Ventos em Domingos Martins. AQUELA FOTO E VAMOS QUE ESTÁVAMOS CHEGANDO NO MEIO DO TRECHO Ponte do Jucu. Estação Ferroviária do Jucu só Ruínas. Olha o que sobrou apenas a plataforma e a fundação. meio do caminho completados partiu rumo a Germânia. Pausa de uma hora na Estação do Jucu. a Turma. Segundo Túnel entrada dele. depois do Túnel 650 mts quinto pontilhão do Trecho. depois dessa curva aí. Olha ele aí quinto Pontilhão sobre o Rio Jucu Braço Sul. Farra. Pausa para aquela foto. Começa da atravessia Formações. Chegada na Estação de Germânia Vale da Estação Domingos Martins. Cansados nada bora partiu mais 6km em uma hora. Estação DE Germânia ainda bem conservada. Pontilhão lado Marechal quase chegando. Chegada em Marechal Floriano. os Guerreiros que chegaram o resto não quis tirar foto tavão mortos. kkkkk Show demais ter feito isso nosso amigo Pivetta completou os 31 km conseguimos traze lo para essa aventura foi demais. deixo meu numero para vocês puderem me mandar msg seja no zap ou me ligar já fiz de Argolas até vargem alta e pretendo fazer até a divisa. interessados me chame. 27 996973825 aguardo abraço a todos.
  5. Ferrotrecking de Marechal x Vargem Alta. chegada em Ibitirui mais conhecido como Engano. na Estação Ferroviária montando barraca e jantando partiu dormir porque amanha tem mais. Segundo dia Amanha. Montando a Barraca na Estação e jantando oito pães de forma com água e fora mais oito bananas para dá energia . deu 20:20 cama dormir e acordei as 03 da manhã com barulhos pertos da barraca nada demais mais as quatro e quarenta já tava tudo claro. Acordando na Estação de Engano ou Ibitirui. Casa de Turma da Estação. De lá que eu ví do Escuro 12 km de Matilde para cá que aventura. depois que sai da Estação a linha dá muitas voltas o mesmo elevado de montanhas e fazendas que você ver de um lado quando vocÊ termina uma volta você torna a vê a mesma fazenda mais na frente Varios bosques e vales e Paredes de Rochas entre Engano a Ipê Açu ultima cidade de Alfredo Chaves. Olha que Parede linda olha o que a Natureza proporciona já a 2 km de Ipê Açu. a Volta que te falei trecho bem cansativo você dá muitas voltas e quando pensa que saiu do lugar pior que não. 100 mts dessa trecho eu veria a Caixa d!água da Estação de Ipê Açu ela é bem afastada pois a subida do Morro é muito acho que foi estratégica do pessoal da RFFSA. Aí depois desse trecho 2 km mais a frente eu chegava na Estação de Ipê Açu ultima cidade do Município de Alfredo Chaves, a próxima eu estaria entrando em Vargem Alta rumo a Guiomar primeiro. o detalhe é que eu encontrei nesse trecho 1 km lá atras um Senhor antigo Maquinista da RFFSA ele veio caminhando comigo até a Estação me contanto algumas historias suas nossa que historia pude ouvir um pouco sobre isso e ele me dizer como era a Estação de IpÊ Açu abaixo a foto do Senhor. Estação totalmente abandonada e caindo fazer o que entrei lá dentro rápido para evitar acidentes e registrei umas fotos do descaso que é com a Estação. feito Alcançado as 11:06 partiu rumo a Guiomar já em Vargem Alta seria muinha ultima cidade até chegar no Centro de Vargem Alta. daí deu 15 km em uma hora e quinze. quando cheguei em Guiomar perguntei se tinha um Self service pois tinha um morador saindo de carro ele me indicou o Bar do Bira que tem um bar e lanchonete tamanha simplicidade do Sr Bira foi que ele ao me atender fez questão de me dá um prato de comida e outra falei que pagava mais ele falou que seria ingratidão minha pois. show demais tamanha hospitalidade dele quando forem não deixem de passar no Bar dele ok. Abaixo fotos das Antiga parada de Guiomar hoje em Ruínas só restou os vergalhões da Proteção e a Plataforma. Pausa para Almoço e descanso de duas horas já que eu tava na penúltima cidade então descansei e bem teria só mais 14 km para chegar em vargem Alta. Alimentado despeso do meu novo amigo prometendo voltar novamente em breve assim uns 300 mts já me deparo com um mini pontilhão. depois de andar muito a o cel arriar bateria não deu para tirar mais fotos desse trecho só sei que tem três voltas e uma chamada de volta da Ferradura é igualzinho memso aprendir isso com o colega de Guiomar quem me falou lá de cima você ela certinha isso a uns 400 mts de Vargem Alta. me deparei com esse mini Pontilhão e depois teria outro já na entrada da cidade chegando. Passando daí uns 150 mts aí se transforma em três linhas mais 50 mts aí veria pela primeira vez a Estação de Vargem Alta. Olha ela lá embaixo. Chegada na Estação de Vargem Alta muito legal. Fui ver se tinha passagem que pena tava fechado mais será que funciona dias Uteis kkkkkkkkkkkkkk eu sei cheguei tarde as operações acabaram em 1983 com o trem de Passageiros. o Carro Linha usado pelos Funcionários para consertarem a Via. me despedindo da Estação e prometendo voltar novamente nela pois vai ser aí meu acampamento para eu descer até cobiça 33 km . Futuramente. segui para a Rodoviária de Vargem Alta para pegar o Onibus de Volta para Vitoria e na frente dela passa a linha e tem esses carrinhos que era usado antigamente pelo pessoal da manutenção olha só que legal. Bem pessoal encerrei esse Ferrotrekking as 16:00 cravados dois dias pois sair no Sabado de Marechal Floriano e vim parar no Domingo aqui em Vargem Alta andei 66 km conheci pessoas lugares, vários visual cartões postais não passei fome pois vim com suprimentos mais uma coisa tenha disposição para fazer isso pois não é qualquer um agora próxima missão é de Vargem Alta passando por Jaciguá, Salesiano, Soturno e Salgadinho todos Distritos de Vargem Alta depois vem Cobiça já em Cachoeiro e depois Cachoeiro mesmo. Quiserem me acompanhar numa dessas aventuras será um imenso prazer ok deixo meu contato para duvidas ou informações ok. 27 996973825 Da Silva JR Guia de Turismo.
  6. Dia 03 e 04 Final de Semana de Novembro de 2018. fiz umas das outras doideiras que eu faço nessa vida de Trilhas. fiz um Ferrotrecking de Marechal Floriano a Vargem Alta em Dois Dias 66km percorridos na Linha Férrea da Antiga Estrada de Ferro da Leopoldina passei por dois Distritos de Marechal Rio Fundo e Araguaya, quatro de Alfredo Chaves Iritimirim, Matilde, Ibiritirui (Engano), Ipê Açu, Guiomar e Vargem Alta centro. abaixo a foto da chegada de sexta dia 02. dormir na Estação Ferroviária de Marechal Floriano armei minha barraca e cinco e quinze partir para essa aventura louca. Ninguém me incomodou foi tranquilo . Amanheceu acordei as quatro e meia já estava claro e cinco e quinze eu partir, prometi que ia tomar café da manhã em Rio Fundo nossa primeira Parada prometi mais nunca ví tão longe, passei por três mini Pontilhões até chegar em Rio Fundo. abaixo algumas fotos. Fotos partiu bay bay estação rumo a Rio Fundo Estação ficando para trás bem comecei a jornada passando pela Casa de Turma da VLI. Sentido Centro da Cidade aí vem o Primeiro Mini Pontilhão. Depois disso só Fazenda e Mini Pontilhões. Segundo Mini Pontilhão Depois OLHA QUE BELO VISUAL A CURVA. Rio Jucu Braço Sul acompanhando um pouco. e chegando no Terceiro Mini Pontilhão Olha que Cenário mãe e filha aguardando o Ônibus enquanto a gente trilha. Chegando em Rio Fundo Ex parada Ferroviária depois de cinco horas de caminhada rumo a Araguaya. e depois Três mini pontilhões as primeiras fotos era o local exato de ex parada ferroviária Distrito de Marechal Floriano. ao longe se vÊr a antiga caixa d"água da estação. Local Exato e caixa de Aguá para abastecimento das Locomotivas. Aqui Ficava a antiga plataforma. isso as 10:22 continuando o Rumo para Araguaya que é município de Marechal ainda. Abaixo o quarto mini Pontilhão Quinto Mini Pontilhão mais 200 mts a frente. Depois daí andei por mais uma hora e pouco já chegando nos limites de Araguaya, Depois dessa Curva estava chegando perto da estação e minha água estava acabando abaixo foto do patio de Eucalipto da Antiga Aracruz Celulose. Olha o Eucalipto 600 mts da Estação aí nesse trecho. Nessa casa ali atras branca o proprietário um rapaz novo passou nesse caminho aí de moto eu abordei o mesmo para encher minha garrafa de água o mesmo me tratou bem e não só conseguir encher minhas garrafas como ganhei doze Bananas e um maçã olha que tava dando 11:53 da manhã enchi de suprimento e partir para descansar e almoçar em Araguaya. chegando. Virou a linha passa pela Rodovia Francisco Stocker. ou melhor a Rodovia passa pela linha pois ela já estava antes da via. Lá embaixo na foto olha a placa de entrada da Cidade. Chegamos em Araguaya. Depois disso segui para chegar na Estação passando pelo perímetro urbano até a vista dela do lado direito vi um restaurante de onde eu comprei um marmitex por dez reais e almoçei na Estação onde eu descansei por uma hora merecido kkkk. Olha a Vista da Estação desse ponto do Lado direito tem um Restaurante. Casa da Cultura de Araguaya. Vista um pouco da Cidade de Comunidade Italiana. Museu do Futebol. Olha a Bandeira Italiana. Fotos da Estação chegada. Só não entendi porque a VLI- Vale devolveu para o DNIT Mais Fotos da Estação. 13:15 partida para Iritimirim primeiro Distrito de Alfredo Chaves partiu continuar. Estação ficando para trás. andei por duas horas e quarenta minutos eu chegava em Iritimirim (Alfredo Chaves) o trecho não tem pontilhões nem Túnel mais mato e pastagem poucas casas na via. assim olha a Parada Ferroviária de Iritimirim feito alcançado 15:57 chegando em Iritimirim em Alfredo Chaves a cidade é para dentro mais notei que é um conjunto de oito casas e uma Igreja. Olha essa Casinha Parada Ferroviária de Iritimirim (Alfredo Chaves). Olha a Plataforma ainda. Eu Aguardando o Trem para voltar pra Vitoria esqueci que meu tempo passou cheguei tarde. mais vai que cola nada eu quero continuar. Partir daí com dez minutos de descanso pois a a bagagem tava começando a fazer peso olha minha sobrevivência que eu levei ou melhor minha casa. Trilheiro e aventureiro kkkk quer coisa melhor. Segui viagem para Matilde seria minha ultima parada aí mais na frente a 150 mts topei com outro mini pontilhão o quinto da via. Mais 10 km eu chegava em Matilde só com curvas e umas poucas retas na via Férrea. naquela curva eu chegava em matilde depois de uma Hora de Iritimirim 350 mts do Pontilhão e da Estação. Aí depois dessa curva uns metros já do Pontilhão sobre o Rio Benevente show demais estaria terminando meu primeiro objetivo. Estaria Aí passando pela Rua Olinda Donatello a Direita começa o Pontilhão sobre o Rio Benevente a um metro eu chegaria na Estação. Pontilhão Sobre o Rio Benevente. em cima do pontilhão. assim que sair do Pontilhão vi a Caixa d"aguá e a Estação ao Fundo conseguir bati o primeiro desafio que emoção chegar e bater 33 km no primeiro dia ferrotrekking. Patio da Estação. Olha que demais isso as 16:20 objetivo completado no primeiro dia showw demais. Patio da Estação, Casa de Turma, Virador de Vagões e antiga plataforma. Parte do Museu, Restaurante. Parte que o pessoal usa como área aberta Saindo da Estação de Matilde mais 12 km ate Ibitirui ou mais conhecida como Engano e uma e meia de trilha no Escuro cheguei bem a noite. Cachoeira de Matilde do Lado aí eu estava na posição mais alta. Sexto Pontilhão a partir daí escureceu andei 12 no Escuro depois desse pontilhao das fotos a luz foi embora. só com lanterna na cabeça. Andei 12 km por uma hora e meia e cheguei a Ibitirui onde eu acampei na Estação e no outro dia fui para meu Segundo dia de Ferrotrekking, esse trecho de Marechal x Matilde recomendo muita garrafa d!aguá e nada de fazer sozinho igual eu fiz pois só se vc for aventureiro mesmo o trecho é ótimo e não enfrenta perigos seja por animal seja terreno acidentado fora que os moradores são bem receptivos, recomendo para grupos fazerem e outra tem que ter disposição porque no final cansa ok, e não façam como eu dois seguidos. meu contato para mais duvidas: Da Silva Jr. especialista em Ferrotrekking Guia de Turismo 27 996973825
  7. Travessia Canyon do Funil x Canyon Laranjeiras - novembro/2018 Essa travessia foi feita com os meus parceiros Wagner e o filho dele o Pedro. Foi uma trilha bem tranquila, saímos de carro de Itajai-SC com destino a Bom Jardim da Serra-SC subindo a serra do Rio do Rastro, passando a cidade de Bom Jardim entrando na estrada de terra até o Canyon Laranjeiras, paramos o carro na propriedade do Didio, 3km antes da fazenda Laranjeiras e fizemos um belo de um almoço na casa dele. Combinamos de deixar o carro ali para ser o fim da nossa travessia e ele nos deu uma carona até a substação de energia proximo ao mirante da Serra do Rio do Rastro, local do inicio da trilha. O tempo estava querendo abaixar uma serração, na real na direção do canyon a viração já tinha tomado conta. Já passava das 16h e iniciamos nossa travessia. Já de cara uma pequena cobra nos deu as boas vindas. Os campos estavam repletos de flores colorindo o verde. Esse começo de trilha na realidade é uma estrada 4x4 plana e de fácil trajeto. Depois de 1h mais ou menos chegamos proximos ao arroio do funil aonde tem uma antena. Ali a serração estava muito densa dificultando a navegação visual, seguimos sentido norte até o arroio onde o cruzamos e fomos pela sua margem esquerda. Logo observamos o urtigão da serra uma planta com folhas gigantes bem caracteristicos dessa região. Logo após uma subida e o arroio começa a virar canyon, avistamos o curral da fazenda do Funil, andamos mais uns 5min e já avistamos as araucarias da borda do canyon, por conta da serração que já começava a molhar não conseguimos ver o canyon e fomos logo montando acampamento. Saímos para pegar água sentido norte margeando as bordas, 1min do acampamento da área onde tem as araucarias e arbustos, entra na mata nebular e já ve uma cascatinha, eu costumo seguir adiante pela trilha dos bois e andar mais um pouco proximo a borda tem outro fio dágua que prefiro pegar. Barracas montadas, hora de fazer a janta. Ainda bem que trouxemos uma lona para cozinha pois a serração foi ficando mais forte e estava molhando bem. Fizemos uma bela macarronada a carbonara, regada de vinho, e ficamos batendo um bom papo até que o sono pegou. No dia seguinte acordamos cedo, demos uma volta e o tempo parecia que ia abrir, tomamos café, desmontamos o campo e por volta das 8h30 saimos rumo norte, antes passamos para abastecer nossos cantis e varar a mata da encosta, desta vez encontrei uma trilha melhor e mais curta por dentro da mata, apesar que essas matas com araucarias são bem limpas em baixo, com grandes xaxins e arvores pequenas. Vencido a subida da encosta dentro da mata alcançamos um plato conhecido como morro dos anastacios, onde tem uma antena bem no topo e um marco geodesico junto de umas placas sinalizadoras do radar do cindacta que esta no morro na igreja distante ainda uns 30km, bem visivel deste ponto. Esse morro dos anastacios tem um temido charco, da primeira vez que passei ali eu não conhecia e cruzamos exatamente no meio dele, levamos quase 2 horas afundando os pés nas turfas. Desta vez fui bordeando o peral até proximo da antena e ali cruzamos o morro já no caminho para a trilha que descia para o próximo vale. Desta vez encontramos o capataz da fazenda Anastacio, era o Edson que era o irmão da Dona Zue da Fazenda Santa Candida, batemos um papo e depois a gente seguiu o caminho. Logo adiante começa a descida por um pequeno vale margeando o rio, passando por cerca de arame farpado (uma constante no percurso inclusive). Até chegar no vale, um vale muito bonito, eu particularmente acho essa passagem o ponto alto da travessia, cercado por morros com muita araucaria, o vale verde serpenteado pelo rio, e nesta epoca estava muito florido. Segue proximo as bordas até a subida do morro do outro lado. O topo é formado de esporões de pedra e logo abaixo é o canyon do Portal. Chegamos ai por volta das 13h e almoçamos a serração tomou conta do lugar. Esse vale é bem largo e com um grande charco no meio. Interessante que a grande maiorias destes vales com excessão talvez do canyon do Funil todos os rios correm sentido oeste. Aqui para evitar o charco tem que descer a encosta e ir sentido oeste passar ao lado de uma pequena mata e descer pelo piquete (cruzando alguns arames farpados) ao avistar o saleiro seguir em direção a ele, cruze e siga adiante em direção a rampa do morro do outro lado, vai cruzar o rio que se forma no charco. Uma boa parada para um banho. Depois é só subir a rampa parece uma antiga estrada de caminhão da epoca das madeireiras. No plano tem um grande charco de novo, tentar cruzar o quanto antes até a mata do outro lado e seguir pro norte, vai ser observado duas "ilhas" de mata no meio do charco. Ali uma pausa na borda é bem vindo pela vista e preparar o folego para a subida. A subida tem dois lances, e o ultimo chega no topo onde vai caminhar muito proximo da borda, mantenha esse caminho pois o campo com alguns pinus ellioti é um grande charco. Ai tem um marco geodesico e logo a seguir a mata que separa do Canyon Laranjeiras. É um vara mato de uns 800m em descida com muitas trilhas de boi, bem facil se perder, tem q manter sempre norte até sair no campo do outro lado. Neste campo caminha-se por um vale muito bonito rodeado de mata logo abaixo a esquerda vai seguindo o fluxo do rio que curiosamente 2 rios correm paralelos um de cada lado das matas e um corredor de campo no meio, fomos seguindo por ai já passado das 16h. no final deste corredor a esquerda esta o canyon, porem tem q tomar cuidado ao adentrar na mata pois é um labirinto de caminhos, muito facil se perder, mantenha-se entre a mata e o campo, apesar de ser dificil isso tambem, por conta da grande trilha que tem nessa mata. Neste momento demoramos bastante até alcançar as bordas do canyon, mas ali achamos um local excelente para acampar, perto de agua, quase na borda do canyon e com uma cachoeira para banhar-se a 5 min de caminhada. Essa cachoeira esta no pequeno canyon que forma a grande cascata do canyon Laranjeiras. Acampamos ali mesmo e montamos a barraca e nossa cozinha. Foi mais uma noite de muitas risadas e vinho. Tivemos a sorte de ver um espetaculo da natureza proporcionado pelos vagalumes. No dia seguinte amanheceu um dia de sol e exploramos bastante as redondezas, inclusive indo até o castelo, uma quase "ilha" de pedra rodeada por paredões de todos os lados tendo somente uma pequena passagem estreita na mata para cruzar. Caminhamos bastante pela mata atrás e por seu labirinto até o vale que viemos. Pela tarde fomos até a cachoeira e tomamos um belo banho gelado. Continuamos mais uma noite acampados ali. No dia seguinte saimos cedo uma pequena garoa que logo se foi, caminhamos até a outra borda do mirante principal do canyon e cerca de uma hora ate a fazenda Laranjeiras pela trilha principal, na fazenda fomos falar com o sr. Assis e Dna. Zuê. Ficamos um pouco por ali e depois tocamos pela estrada até a propriedade do Gigio. Desta vez não ficamos para o almoço, nos despedimos deles e agradecemos a receptividade de sempre. (RECOMENDO MUITO ALMOÇAR ALI) agora ele esta estruturando melhor para atender mais gente, construiu 2 chales que quero logo, logo levar minhas meninas lá para uma passeio a cavalo, comer pinhão, e curtir a vida do campo.
  8. Pico Moditse visto do Campo Base do Annapurna ao amanhecer Início: Kande Final: Nayapul Duração: 12 dias Maior altitude: 4121m no Campo Base do Annapurna Menor altitude: 1004m entre Birethanti e Nayapul junto ao Rio Modi Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis de 340m a 1680m diários, ultrapassando os 3000m, o que exige cuidado com a aclimatação Permissões: permissão ACAP (Rs 3000 = US$ 26,04) e TIMS card (Rs 2000 = US$17,36), ambos obtidos no Tourist Service Center em Kathmandu Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. Este trekking foi uma combinação de dois roteiros a partir da cidade de Pokhara, a noroeste de Kathmandu: Campo Base do Annapurna e Poon Hill. Os dois roteiros são extremamente populares e lotam completamente na alta temporada de outubro e novembro, por isso deixei para fazê-los na virada de novembro para dezembro. O trekking do Campo Base do Annapurna (ABC, na sigla em inglês), ou Santuário Annapurna, sai de uma altitude de 1710m em Kande e percorre florestas de rododendros e muitos vilarejos antigos com suas plantações em terraços para somente no 5º dia entrar numa paisagem de alta montanha onde se encontram os campos base das montanhas Machapuchare e Annapurna, numa altitude máxima de 4121m. Este trekking percorre altitudes bem mais modestas que o trekking do Campo Base do Everest e por isso é uma boa opção para o início de dezembro, quando as temperaturas já caíram bastante em relação a outubro e novembro. Outro fator que me levou a fazer esse trekking em dezembro, como disse, foi fugir da lotação da alta temporada. Algumas vilas do caminho têm uma oferta bem pequena de hospedagem e mesmo em dezembro tive que dividir o quarto com outras pessoas pois alguns lodges estavam lotados. O trekking Poon Hill sai de uma altitude de 1022m em Nayapul e percorre também muitos vilarejos e infinitas escadarias de pedras para alcançar a vila de Ghorepani (2874m) e sua famosa atração, a colina Poon Hill, de onde se tem uma das vistas mais espetaculares de toda a região do Annapurna e do Himalaia. Há uma conexão por trilhas entre esses dois bonitos trekkings, Campo Base do Annapurna (ABC) e Poon Hill, e nessa conexão eu fiz o trekking Poon Hill ao contrário do descrito acima (de Ghorepani a Nayapul). Para quem dispõe de tempo para combinar os dois roteiros e não quer se arriscar caminhando muitos dias numa altitude acima dos 4000m no Everest essa é uma excelente opção. Toda a região abrangida por esses dois trekkings é uma área de proteção e está sob a administração do ACAP (Annapurna Conservation Area Project). Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são: . Australian Camp: NCell . New Bridge: NCell . Chomrong: NCell só na parte alta da vila . Sinuwa: NCell . Bamboo: NCell . Dovan: Sky Cdma . Himalaya: Sky Cdma . Deurali: Sky Cdma . Campo Base do Machapuchare: Sky Cdma . Campo Base do Annapurna: Sky Cdma . Ghandruk: NCell (internet muito lenta) . Tikhedhunga: NCell Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Cânion do Rio Modi 23/11/18 - ônibus de Kathmandu a Pokhara No dia anterior (22/11) eu havia comprado a passagem de ônibus para Pokhara numa agência da IME Travels, na Avenida Kantipath, bem perto do bairro do Thamel onde eu estava hospedado, com a doce ilusão de que o ônibus sairia dali mesmo (saíam até julho de 2018). Mas depois a atendente me falou que ali agora era só um escritório, os ônibus saem mesmo de um lugar chamado Sorhakhutte. Felizmente não é longe do Thamel também, dá para ir a pé em cerca de 15 minutos (a partir do Hotel Discovery Inn onde eu estava). Ela me vendeu uma passagem da empresa Reed Travels & Tours. Esse é um ônibus "turístico", não é um ônibus local. O ônibus local não me foi recomendado pois trafega em alta velocidade pelas estradas e os motoristas são muito imprudentes. Ele é mais barato, mas a diferença de preço é pequena e não compensa o risco. Nesse dia 23/11 cheguei ao Sorhakhutte e me deparei com uma fila enorme de ônibus estacionados na calçada da Rua Swayambhu Marg. São muitas empresas diferentes fazendo esse trajeto a Pokhara. Tive que perguntar para várias pessoas e o ônibus da empresa Reed era um dos últimos. Foi o primeiro ônibus grande em que viajei no Nepal (por ser um ônibus "turístico"). Todos partiram às 7h. Felizmente o percurso é todo em asfalto, sem aquele terror de ficar pulando e chacoalhando dentro de um ônibus minúsculo, como foi no Langtang e em Shivalaya. A passagem que comprei de Rs700 (US$6,08) era num ônibus sem banheiro, mas há ônibus com banheiro também. São feitas duas paradas no caminho, com banheiros e fartura de comida para quem quiser almoçar. Esse que peguei oferecia uma garrafa de água mineral aos passageiros. Chegamos a Pokhara às 15h, no terminal Tourist Bus Park. Como Pokhara é uma cidade grande (a segunda maior do Nepal), pesquisei antes pela internet alguma hospedagem para ir direto e não ficar procurando hotel com a cargueira nas costas. Optei pelo Harry Guest House. O quarto com banheiro privativo saía por apenas Rs700 (US$6,08). Seguindo o gps caminhei do terminal até o Harry em 27 minutos (1,9km). A localização é muito boa, numa avenida central do bairro Nareshwor com várias opções de restaurante e bastante comércio. O centro de Lakeside Norte, o bairro mais turístico, com restaurantes, cafés, livrarias e mercadinhos fica a 550m do hotel. O Harry dá toda a informação necessária sobre trilhas na região do Annapurna e passeios na cidade. Ele me sugeriu que iniciasse o trekking do Campo Base do Annapurna por Kande e não por Phedi pois teria um visual muito bonito das montanhas em Australian Camp. Pokhara, mesmo sendo a segunda mais populosa do Nepal, é uma cidade bem mais simpática e tranquila que a caótica e poluída Kathmandu. O Lago Phewa dá um clima mais gostoso à cidade, que é frequentada por muitas "tribos" diferentes. Algumas das montanhas vistas a partir de Australian Camp: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II e Asapurna 1º DIA - 24/11/18 - de Kande a Australian Camp Duração: 1h10 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2046m Menor altitude: 1706m Resumo: nesse dia encarei a primeira subida da caminhada, mas num desnível de apenas 340m pois parei na vila Australian Camp para ter pela manhã a bonita vista das montanhas Annapurna e Machapuchare. À tarde as nuvens já não deixavam ver nada. Saí do Harry Guest House às 8h10 na direção leste pela Avenida Phewa Marg. Caminhei 21 minutos até um local chamado Zero Kilometer. Ali esperei o ônibus para Kande (eles pronunciam káre) na calçada da esquerda (lembrando que no Nepal a mão é inglesa) da Avenida Pokhara-Baglung. Como os ônibus têm as placas escritas somente em nepalês pedi ajuda a alguns homens que estavam ali conversando. Esperei 24 minutos e às 8h55 eles pararam o ônibus certo para mim, que já veio lotado, mas depois foi esvaziando e pude sentar. O ônibus, após deixar a cidade, sobe bastante por estradas ruins de asfalto. Saltei em Kande às 10h33 e era o ponto final desse ônibus (há outros que continuam para outros vilarejos à frente). Logo fui abordado por algumas mulheres dizendo serem refugiadas tibetanas, contando histórias, para depois oferecerem (e insistirem para comprar) o artesanato que faziam. Aproveitei para comer alguma coisa ali mesmo pois há alguns restaurantes e a comida dali para a frente na trilha só iria aumentar de preço. De Kande já é possível avistar no alto de uma serra ao norte-nordeste um dos lodges e algumas barracas de Australian Camp. Coloquei o pé na trilha às 11h10. O início, no meio dos casebres da estrada, está sinalizado com uma placa do ACAP. Altitude de 1710m. Segui na direção norte e noroeste por trilha que aos poucos foi se transformando numa estradinha de terra. Na primeira bifurcação havia placa apontando para a esquerda, mas na segunda não havia placa apontando para a trilha à direita da estrada, que é um atalho. Na subida pela trilha quem eu encontro? O casal húngaro Zita e Daniel, que conheci em Bhandar e reencontrei várias vezes no trekking do Everest. Eles não haviam pago as permissões para o trekking do Annapurna pois não tinham intenção de fazê-lo completo, foram apenas até Pothana, onde está o primeiro check post do ACAP. Ao final dessa trilha-atalho entronca à esquerda a estrada que abandonei alguns minutos antes. Uns 150m acima a estrada vira trilha. Esse trekking será repleto de escadarias de pedra e elas começaram a aparecer já nesse primeiro dia. Apareceu também pintada nas árvores uma sinalização de duas faixas horizontais em branco e vermelho, como nas trilhas GR da França, mas ela seria bastante esporádica nesse trekking. Às 12h31 fui à esquerda numa bifurcação com placa e cheguei a Australian Camp às 12h47. Apesar de muito cedo, resolvi parar para dormir ali pois diziam que o visual das montanhas era incrível e naquele horário as nuvens já não deixavam ver nada. Percorri os quatro lodges do vilarejo e só o Machapuchare Lodge tinha vaga. Era um sábado e dezenas de adolescentes nepaleses lotavam os lodges. Algumas pessoas estavam acampadas também. Como estava tudo cheio não tive muita margem de negociação no preço do quarto, que saiu por Rs250 (US$2,17). O banheiro ficava numa varanda nos fundos, exposto ao frio à noite. Tinha ducha a gás, vaso sanitário com descarga acoplada e lavatório sem torneira. Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte. Altitude em Australian Camp: 2046m Preço do dal bhat: Rs 500 (o dobro do preço de Pokhara já no primeiro vilarejo) Preço do veg chowmein: Rs 350 Pico Machapuchare (Fish Tail) visto de Australian Camp 2º DIA - 25/11/18 - de Australian Camp a New Bridge Duração: 5h40 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2150m Menor altitude: 1378m Resumo: nesse dia subi por bosques até a vila de Pitam Deurali (desnível de 104m) e desci por trilhas e estradas de terra toda a encosta da margem esquerda do Rio Modi até cruzá-lo (desnível de 772m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,1ºC. Às 7h50 da manhã estava 11,8ºC. De manhã vi que valeu a pena ter parado em Australian Camp. O visual dos grandes picos do Himalaia é realmente fantástico. De norte para nordeste: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II, Asapurna, Gangapurna, Machapuchare (Fish Tail), Annapurna IV, Annapurna II (16º mais alto do mundo) e Lamjung Himal. Saí do lodge às 9h27 na direção norte e às 9h40 fui à esquerda na bifurcação, subindo. Apenas 4 minutos depois entroncou à direita a trilha que vem de Dhampus e Phedi, rota que eu originalmente ia fazer. Ali apareceu a sinalização do ACAP em forma de um poste metálico com placas dando as boas-vindas ao vilarejo e apontando os seguintes com o tempo de percurso. Às 9h54 cheguei à vila de Pothana, com lodges também, e fui parado no check post do ACAP para mostrar as permissões obtidas em Kathmandu (permissão ACAP e TIMS card). Um cartaz ali informa todos os tempos de caminhada entre os vilarejos e isso foi bastante útil para eu planejar a caminhada de cada dia. Há painéis sobre a trilha da montanha Mardi Himal também. Na saída de Pothana uma linda vista das montanhas, muito parecida com a de Australian Camp mas agora um pouco obstruída pela vegetação. Às 10h21 fui à direita numa bifurcação com placa apontando Pitam Deurali e desci, cruzando uma estrada de terra. Subi um pouco por uma mata e uma segunda placa causou alguma dúvida pois apontava Landruk tanto em frente quanto à esquerda. Fui em frente (parece que à esquerda se chega a Landruk por estrada). Tangenciei uma estrada duas vezes, passei pelo ponto mais alto do dia (2150m) e cheguei a Pitam Deurali às 11h05, parando para muitas fotos pois o vilarejo fica numa crista com linda vista para Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Asapurna II, Asapurna, Gangapurna e Machapuchare (de norte para nordeste). Avistei pela primeira vez também o pico Dhaulagiri, 7º mais alto do mundo, que só voltaria a ver em Poon Hill, nos últimos dias desse trekking. E tive a primeira visão do vale do Rio Modi, bastante profundo, com o rio correndo cerca de 900m abaixo desse vilarejo. De Pitam Deurali sai a trilha para o campo base da montanha Mardi Himal, mas é preciso aclimatar ou já estar aclimatado pois ele está a 4500m de altitude. Num dos lodges vi pela primeira vez um dos painéis pintados a mão com um croqui da região e o tempo de percurso entre um vilarejo e outro. Esse tipo de painel de orientação aos trilheiros se tornaria muito comum dali em diante. A verdade é que não são muito precisos e os tempos variam de um para o outro. Seguiu-se uma longa e íngreme descida por escadarias de pedra que terminou às 12h05 numa estrada de terra, onde fui para a direita seguindo a placa de Tolka e Landruk. Passei pela minúscula Bherikharka, desci até uma ponte suspensa com piso de tábuas e subi à vila de Tolka, onde parei num dos primeiros lodges às 12h28 para almoçar um veg egg fried noodles no Popular Tourist Guest House com uma bonita vista do vale do Rio Modi. Retomei a caminhada às 13h10 pela estrada ainda (logo passou um jipe) e passei por mais casas e lodges do vilarejo. Às 13h24 fui à direita na bifurcação da estrada e 5 minutos depois subi numa trilha à direita com placa apontando Landruk. Passei pelo Ram Lodge e desemboquei na estrada de novo, indo para a direita e passando por mais um núcleo de casas da vila de Tolka. Cerca de 160m após essas casas desci uma escadaria à esquerda na direção do Lodge Sanctuary, abandonando por ora a estrada e tomando um atalho. Na descida em direção a um rio passei por uma sequência de lodges e fui à esquerda na bifurcação em T para evitar caminhar pela estrada. Cruzei a ponte suspensa com piso de tábuas às 14h06 e subi à esquerda até a estrada, onde fui para a esquerda. Passei por uma cachoeira à direita e depois por várias casas espalhadas pela estrada, com muitas plantações em terraços na encosta da margem esquerda (verdadeira) do Rio Modi. Às 14h41 desprezei uma placa apontando Chomrong e ABC à esquerda e continuei na estrada, mas 8 minutos depois subi uma escadaria de pedra à direita com placa "way to Landruk ABC", que me levou a uma ponte de concreto e uma trilha acima da estrada. Cheguei a Landruk às 14h55. Há muitos lodges ali e todos os donos/donas oferecem hospedagem, mas eu passei direto pois queria caminhar até o fim do dia. Cruzei o final da estrada por onde vinha caminhando e vi ali alguns jipes estacionados que devem ser jipes compartilhados com destino a Pokhara. A vila se espalha pela encosta da montanha e desci bastante por escadarias de pedra entre lodges. Às 15h10 fui à direita numa bifurcação com placa onde à esquerda se vai a Ghandruk (Ghandrung). Em 6 minutos desci a uma ponte suspensa de tábuas, mas ali tive uma emergência intestinal. Não sei se pela água estranha desse lugar, pelo óleo usado para cozinhar ou se comi algo estragado, mas a diarréia veio com tudo e tive que correr para o mato - felizmente havia mato... A água nesse trekking tem uma camada de óleo quando colocada na caneca para ferver, algo bem suspeito. Refeito da correria parei no riacho para comer alguma coisa. Continuei descendo às 15h39 e fui à direita numa bifurcação sem placa, passando por baixo de uma tubulação e entrando na mata ciliar do Rio Modi. Às 16h07 cruzei uma ponte suspensa mas antes desviei alguns metros à direita para fotografar uma bonita cachoeira no meio da mata. Descendo mais me aproximei da margem esquerda do Rio Modi, cujo vale era tão profundo quando o avistei pela primeira vez em Pitam Deurali. Ele é um importante rio da região e o seguirei até próximo de suas nascentes nos glaciares do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). Ali a menor altitude do dia, 1378m. Atravessei sua mata ciliar, cada vez mais exuberante. Às 16h36 passei pela pequena vila de Himal Pani (com uma cachoeira) e cruzei a grande ponte suspensa sobre o Rio Modi, passando definitivamente para sua margem direita. Fui à direita ao final da ponte e à direita na bifurcação seguinte onde à esquerda se vai a Sewai, segundo a placa caída. Passei rapidamente por um deslizamento na encosta íngreme e cheguei à vila de New Bridge às 16h58. Perguntei nos três lodges que há ali e o melhor preço que consegui foi Rs100 (US$0,87) pelo quarto, no New Bridge Guest House. O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene dos nepaleses já que eles não usam papel higiênico. A ducha a gás custava Rs100 (US$0,87). Para escovar os dentes havia torneiras na frente e nos fundos do lodge. Havia tomada no quarto, algo que eu só iria encontrar de novo em Ghandruk, no 8º dia da caminhada. Altitude em New Bridge: 1465m Preço do dal bhat: Rs 480 Preço do veg chowmein: Rs 350 A mais longa ponte suspensa que cruzei numa trilha no Nepal (em Samrung, entre New Bridge e Jhinu) 3º DIA - 26/11/18 - de New Bridge a Sinuwa Alta Duração: 4h45 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2328m Menor altitude: 1465m Resumo: nesse dia comecei a percorrer a encosta da margem direita do Rio Modi, como faria nos quatro dias seguintes. Subi até a vila de Chomrong (desnível de 763m), desci ao Rio Chomrong (desnível de 346m) e subi de novo a Sinuwa Alta (desnível de 446m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,3ºC. Às 7h50 da manhã estava 12,9ºC. De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse e Hiunchuli ao norte. Saí do lodge às 8h56 subindo na direção noroeste. Aos poucos fui passando temporariamente do vale do Rio Modi para o do Rio Kimrong, afluente da margem direita do Rio Modi. Às 9h23 avistei uma ponte suspensa enorme, a mais longa de todas que já tinha visto no Nepal. Era tão alta que torci para não ter que cruzá-la. Em 3 minutos cheguei à minúscula vila de Samrung, com poucas casas, nenhum lodge e muitas plantações em terraço. Ao passar por baixo da longa ponte vi uma placa apontando Jhinu, meu próximo destino, na direção da cabeceira do vale do Rio Kimrong e fiquei aliviado. Mas quis confirmar o trajeto com um rapaz carregador que estava ali perto e ele disse que Jhinu estava logo após a ponte, a placa apontava um caminho antigo. Não teve jeito, tive que enfrentar o medo de altura e cruzar a tal ponte, que devia ter mais de 250m de comprimento, com o Rio Kimrong láááá embaixo. Do outro lado subi à vila de Jhinu, aonde cheguei às 10h12. Há seis lodges. Não me interessei em descer até as águas termais porque seria uma penosa subida de volta. Na saída da vila passei por uma placa de "safe drinking water", que é um programa do ACAP de disponibilizar água tratada para os trilheiros e diminuir assim a poluição ambiental com garrafas plásticas, porém o preço do litro não é um grande incentivo (entre Rs100 e Rs130 = US$0,87 e US$1,13). De Jhinu a Chomrong as escadarias de pedra vieram com tudo e para quebrar os joelhos mesmo. De tantos relatos que eu li antes dessa viagem nenhum enfatizava isso: as escadarias de pedra são de matar! Um ou dois bastões são imprescindíveis para distribuir o peso e não arrebentar os joelhos. Cheguei às primeiras casas de Chomrong às 11h26 e parei para descansar por meia hora. Dali se avistava a nordeste o Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Mardi Himal. Nesse local há uma bifurcação, onde fui para a direita nesse dia (para Sinuwa); na volta eu tomaria a direção de Ghandruk, que é a trilha da esquerda nesse momento. Retomando a caminhada, subi mais escadarias e a visão se abriu também para o pico Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) ao norte. Atravessei mais um grupo de lodges, depois uma pequena mata e cheguei à parte mais alta de Chomrong. A partir daí é uma descida beeem longa passando por muitos lodges e com uma paisagem estonteante do vale e das montanhas mencionadas. Chomrong tem um total de 14 lodges! Parei às 12h33 para almoçar no Lucky Guest House e o veg egg fried noodles estava salgado demais. Voltei à caminhada às 13h13 e continuei descendo. Passei direto pelo check post do ACAP porque não estava com paciência de tirar as permissões de dentro da mochila. Às 13h37 passei por uma vendinha que se autointitula trekkers wholesale store e existe desde 1981, mas com preços caros como qualquer outra da região. Por ali deu para notar a grande extensão dos campos cultivados em terraços desse vilarejo. Às 13h44 fui à direita numa bifurcação e 2 minutos depois à esquerda em outra bifurcação, ambas com placa "ABC". As últimas casas de Chomrong foram ficando para trás e às 14h02 a descida terminou na ponte suspensa sobre o Rio Chomrong, outro afluente da margem direita do Rio Modi. A má notícia é que agora começava uma outra escadaria sem fim, desta vez para cima. Subi feito um pagador de promessa, passei pela minúscula Tilche com suas plantações em terraços e parei às 14h40 na frente de um lodge em Sinuwa Baixa (Bhanuwa) para descansar por 12 minutos. Continuei a subida e a escadaria só terminou em Sinuwa Alta às 15h38. A vila de Bamboo ainda estava 1h30 à frente e resolvi parar ali mesmo. Há apenas três lodges em Sinuwa Alta. Perguntei no Sinuwa Lodge e a dona me fez o quarto de graça desde que eu fizesse as refeições ali. O banheiro era no estilo oriental e fora da casa, exposto ao frio. Havia uma torneira na frente do banheiro para escovar os dentes e se lavar. A ducha a gás custava Rs200 (US$1,74) e a carga de baterias Rs100 (US$0,87). Para meu espanto havia ao lado do banheiro uma lavadora de roupa LG - como aquilo foi carregado até aquela lonjura? Num dos outros lodges de Sinuwa Alta vi pela primeira vez um dos purificadores de água de osmose reversa doados por uma empresa do Texas, também na tentativa de diminuir o lixo plástico nas trilhas e povoados. O litro custava Rs100 (US$0,87). Na hora do jantar conheci dois holandeses que estavam caminhando com uma espanhola e também um casal chinês. Todos eu iria reencontrar nos lodges dali em diante. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a quantidade de coreanos na trilha. Muitos lodges têm inclusive pratos coreanos no cardápio, ou seja, eles devem ser habitués mesmo nesse trekking. Altitude em Sinuwa Alta: 2328m Preço do dal bhat: Rs 540 Preço do veg chowmein: Rs 450 Macaco langur na trilha 4º DIA - 27/11/18 - de Sinuwa Alta a Deurali Duração: 5h40 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3195m Menor altitude: 2281m Resumo: nesse dia continuei a subir pela encosta da margem direita do Rio Modi, porém agora por agradáveis bosques. Na vila de Deurali, acima dos 3000m de altitude, começou a aparecer a neve. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,4ºC. Às 6h45 da manhã estava 13,5ºC. De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste. Saí do lodge às 8h35 na direção nordeste ainda pela encosta da margem direita (verdadeira) do Rio Modi. As plantações em terraço de agora em diante dão lugar à mata nativa e a caminhada se torna bastante prazerosa, com algumas fontes de água pelo caminho (que deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia"). Despontam no meio do bosque os rododendros, porém sua bonita floração só acontece em março e abril. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Mas para desespero geral as longuíssimas escadarias de pedra voltam à cena, neste momento descendo (e já penso como será a volta...). Pouco antes da vila de Bamboo há um pequeno templo de pedra com bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais. Um fato curioso: ali duas grandes placas advertem para que os caminhantes não carreguem carne nessa área de Sinuwa a ABC por ser um lugar sagrado, chamado por isso de Santuário Annapurna (mais curioso é que carne de bode e de carneiro pode...). Caso contrário calamidades naturais e acidentes pessoais podem ocorrer! Nessas placas a menor altitude do dia, 2281m. Passei por Bamboo às 10h, com cinco lodges. A trilha percorre a sombra da mata novamente. Cruzei uma ponte de troncos e na segunda ponte de troncos, às 10h27, parei por meia hora para descansar e comer alguma coisa. O trecho seguinte tem mais fontes de água. Cheguei a Dovan às 11h35 e a primeira vista da vila com o cume nevado do Machapuchare ao fundo lembrava uma bela paisagem dos Alpes. Passei pelos três lodges de Dovan e após cruzar mais alguns riachos parei em Dovan Alto às 11h58 para almoçar um egg veg fried noodles. Continuei pela mata às 12h41. Vários riachos depois parei para fotografar um grupo de macacos langur que estava bem à vontade mesmo com a presença de um grande grupo de trilheiros que parou para observá-los. Exatamente no local onde eles estavam ficava outro pequeno templo de pedra repleto de lenços cerimoniais bem no meio da floresta. A placa na entrada da vila de Dovan alertava para não cuspir ou deixar lixo próximo a esse templo. Cerca de 170m após o templo a trilha bifurca e tanto faz o lado que se tome pois se encontram mais à frente, porém o lado da esquerda é uma escadaria que se pode evitar. Aliás a última das intermináveis escadarias! Ao sair da mata se tem uma bonita vista do Rio Modi com a vila de Himalaya pendurada na encosta à sua esquerda. Cheguei a Himalaya às 13h54 e há apenas dois lodges ali. Descansei por 15 minutos e continuei, agora por uma mata menos densa que permite ver enormes cachoeiras despencando do paredão na outra margem do Rio Modi. Numa bifurcação às 14h27 subi à esquerda pois a direita leva a uma casa logo abaixo. A mata vai ficando cada vez mais rala nesta altitude já passando dos 2900m e a vegetação passa a ser predominantemente de bambus. Às 15h15 cheguei à Gruta Hinku, na verdade apenas um abrigo rochoso, de onde se avista a vila de Deurali. No caminho adiante duas grandes cachoeiras despencam do paredão à esquerda. A primeira enche de lama um deslizamento de pedras, a segunda forma um rio que se cruza através de alguns bambus que servem como ponte, mas com muito cuidado pois logo à direita há uma queda-d'água. Após uma bonita cachoeira em degraus à esquerda da trilha, cheguei a Deurali às 16h, porém continuei até a parte mais alta da vila, onde está o Deurali Guest House, o último dos quatro lodges. Busco sempre os últimos lodges do vilarejo pois costumam ser mais vazios, a maioria dos trilheiros chegam cansados e param no primeiro lodge onde encontram vaga. No Deurali Guest House negociei o quarto de graça, mas o dono me avisou que eu talvez tivesse que dividir com alguém que chegasse mais tarde. O banheiro ficava fora e era no estilo oriental. Para escovar os dentes havia uma mangueira na frente do lodge, onde todo mundo passa. A ducha quente custava Rs250 (US$2,17) e a carga de baterias Rs200 (US$1,74). Um rolo de papel higiênico custava "só" Rs300 (US$2,60). Estavam hospedados ali também o casal holandês e a espanhola que conheci na noite anterior. Quando já caía a noite apareceu o chinês, mas estava sem a namorada. O dono do lodge mandou-o para o quarto onde eu estava. Ele se chamava Fei. Sua namorada voltou de Sinuwa para Bamboo pois as intermináveis escadarias fizeram estrago em seu joelho e ela não quis ir adiante. Foi a primeira vez que dividi o quarto com um total desconhecido durante as caminhadas no Nepal, mas isso iria se repetir nas noites seguintes. Imagino que durante a alta temporada (outubro) muita gente deve dormir no refeitório por falta de quarto. Nesse dia fiquei na expectativa de que o dono do lodge me procurasse no quarto a qualquer momento e não fervi o meu 1,5 litro de água para o dia seguinte (eles proíbem o uso de fogareiro no quarto porque tudo é de madeira, inclusive paredes e teto). Tive de usar o Micropur, que deixa gosto muito ruim na água. Nesse trekking do Annapurna e Poon Hill não me hospedei em nenhum lodge que tivesse o aquecedor a lenha ou esterco de iaque no centro do refeitório como nos trekkings do Everest e Langtang. O uso de lenha é proibido acima de Chomrong e iaques não há (eu não vi, pelo menos). O que se usa é um aquecedor a querosene embaixo da mesa comprida do refeitório, mas que só é aceso no inverno (a um custo de Rs200 = US$1,74 este de Deurali), ou seja, muito frio na hora do nosso jantar. Em Deurali havia bastante neve acumulada em alguns pontos, e até um pouco antes na trilha já havia manchas de neve também. Era possível ver também uma enorme área de neve na encosta deste lado do rio na direção do ABC e já fiquei pensando como seria atravessá-la no dia seguinte. Altitude em Deurali: 3195m Preço do dal bhat: Rs 620 Preço do veg chowmein: Rs 480 Campo Base do Annapurna e as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli 5º DIA - 28/11/18 - de Deurali ao Campo Base do Annapurna (ABC) Duração: 4h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4121m Menor altitude: 3179m Resumo: nesse dia o vale do Rio Modi afunila bastante e com isso passo a caminhar mais próximo dele, subindo (um desnível de 942m) entre altos paredões com risco de avalanche. No Campo Base do Machapuchare a trilha dá uma guinada de norte para oeste e já se entra numa paisagem de alta montanha, acima dos 4000m de altitude. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,2ºC. Às 6h55 da manhã estava 8,7ºC. Fei saiu bem cedo pois pretendia ir ao ABC e voltar a Bamboo, onde estava sua namorada, no mesmo dia. Calculou mal as distâncias e não conseguiu fazer tudo isso num dia só. Encontrei-o no meio do caminho para o Campo Base do Machapuchare (MBC, na sigla em inglês) já voltando, não chegou até o ABC. Saí do lodge às 8h40 na direção nordeste e desci até próximo da margem direita do Rio Modi. Aqui a trilha se aproxima do rio pois os altos paredões estão cada vez mais próximos e mais verticais, formando quase um cânion. Uma placa logo no início alerta para o risco de avalanches. O perigo é real, alguns trilheiros e guias já morreram vitimados pela neve que desceu da montanha Hiunchuli, invisível deste ponto profundo do vale. O risco é maior após nevascas e fortes chuvas. Ali a menor altitude do dia, 3179m. Havia várias manchas de neve ao lado da trilha e logo cheguei àquela grande área de neve que avistava do lodge (talvez restos de alguma avalanche). Apesar de haver um caminho bem marcado na neve algumas pessoas estavam passando com dificuldade, mas não achei tão complicado. O bastão ajuda a manter o equilíbrio pois pode-se escorregar na neve ou nas pedras molhadas embaixo dela. A primeira grande faixa de neve tinha cerca de 55m de comprimento, logo em seguida vinha outra de 30m, depois uma curtinha de 10m e mais à frente mais uma de 30m. Nesse trecho se avista o cume do Machapuchare à direita, numa fresta dos paredões, e é o ponto onde o trekking mais se aproxima dele. Na cabeceira do vale se destaca o Pico Asapurna. Às 9h53 cruzei mais uma faixa de neve, mas logo depois alcancei uma área ensolarada e tive de tirar todas as roupas quentes que vestia. Seguiu-se uma longa ladeira onde as poucas árvores que ainda havia desaparecem de vez pela altitude acima dos 3600m. No alto avistei o primeiro lodge do Campo Base do Machapuchare (MBC) com os picos Asapurna e Gangapurna à direita. Às 10h57 passei pela escadaria que dá acesso a esse lodge, Gangapurna Guest House, mas em vez de subi-la continuei pela trilha à esquerda. Esse lodge fica separado dos outros quatro desse vilarejo, que se encontram mais acima, numa altitude de 3697m. Passei por eles 12 minutos depois a caminho do ABC. A quantidade de neve acumulada aqui já é bem grande e na horta nem os repolhos resistiram ao frio. Nas montanhas ao fundo (nordeste) dos lodges do MBC ainda se avista o Gangapurna e agora já se vê à sua direita o Pico Annapurna III (42º mais alto do mundo). A sudeste começa a se destacar o Machapuchare. À frente já se veem Hiunchuli (sudoeste), Moditse (oeste) e Annapurna Fang (Bharha Chuli)(noroeste). Todo o ambiente ao redor agora é de alta montanha, com vegetação rasteira e nenhuma árvore. A altitude de 3697m do MBC e a elevação de mais 424m até o ABC levam muita gente a optar por passar a noite no MBC e ir ao ABC na manhã seguinte bem cedo, evitando assim eventuais problemas com a altitude. Eu já vinha de outros trekkings de maior altitude por isso não me preocupei tanto com a aclimatação neste. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia". O nome Campo Base do Machapuchare faz crer que há expedições de ascensão a essa montanha, porém ela foi escalada apenas uma vez em 1957 e os escaladores não chegaram a pisar no cume. Depois disso ela foi fechada pois é considerada sagrada para os hindus, associada com o deus Shiva. A subida em direção ao ABC continuou pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul, um dos formadores do Rio Modi. Entre o Annapurna III e o Machapuchare foi aparecendo o Pico Gandharwa Chuli a leste-nordeste. O Annapurna I começou a ficar visível a noroeste à medida que eu subia mas com o cume um pouco encoberto pelas nuvens. Ele é o 10º mais alto do mundo e estatisticamente a montanha mais perigosa que existe, mas continua sendo escalado. Às 12h39 alcancei finalmente as três placas que saúdam e parabenizam pela chegada ao Campo Base do Annapurna! Dali foi subir mais 5 minutos para chegar aos 4 lodges do ABC. Altitude de 4121m. Havia muita neve já endurecida acumulada aos redor dos lodges. Iacof, um dos holandeses, já estava hospedado no Snow Land Lodge e dividi o quarto com ele. O quarto saiu a Rs100 (US$0,87) para cada um. Os banheiros ficavam no fim da varanda aberta ao frio, estilo oriental os dois. Não havia uma torneira fora para escovar os dentes. Ducha a gás ou banho quente de balde por Rs350 (US$3,04). Embaixo da mesa comprida do refeitório também havia um aquecedor a querosene, mas usado só no inverno (taxa de Rs250=US$2,17). Almocei um dal bhat e à tarde fui ao mirante a 130m do lodge de onde se avista bem abaixo o enorme Glaciar Annapurna Sul, todo coberto de pedras, e onde há diversos memoriais a escaladores mortos naquelas montanhas, sendo talvez o mais famoso o do russo Anatoli Boukreev, falecido em 1997. Iacof não se importou que eu usasse o fogareiro dentro do quarto para ferver a minha água do dia seguinte. Pelo contrário, ele aceitou a minha oferta e encheu suas garrafinhas também. Afinal água quente naquele frio todo não era algo para se recusar. Às 17h30 estava 1,9ºC fora do lodge. Altitude no Campo Base do Annapurna: 4121m Preço do dal bhat: Rs 670 Preço do veg chowmein: Rs 580 Picos Gandharwa Chuli e Machapuchare com o pequeno Campo Base do Machapuchare abaixo 6º DIA - 29/11/18 - do Campo Base do Annapurna a Himalaya Duração: 4h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4121m Menor altitude: 2847m Resumo: nesse dia iniciei a descida de volta a Chomrong para dali seguir para Ghandruk. De ABC a Himalaya o desnível foi de 1274m. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 1,9ºC. Às 7h da manhã estava 3,7ºC. Às 7h15 fora do quarto estava 1,1ºC. O meu problema de insônia acima dos 4000m de altitude voltou e passei horas acordado esta noite. Esse é o único sintoma que tenho do Mal de Altitude (AMS, em inglês). Todos que estavam hospedados no Campo Base do Annapurna esperavam por esse momento. Todo mundo saiu no frio de quase 0ºC às 6h30 da manhã para fotografar e admirar os primeiros raios do sol iluminando os picos do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). O dia amanheceu com céu limpo e o espetáculo foi incrível, a recompensa depois de 5 dias de caminhada subindo e descendo escadarias sem fim. Mesmo com o céu quase todo limpo o cume do Annapurna I (10º mais alto do mundo) não deu as caras essa manhã, escondido atrás de nuvens que não dissipavam. O panorama a partir do ABC era: Hiunchuli a sudoeste, Moditse a oeste, Annapurna Fang (Bharha Chuli) e Annapurna I a noroeste, Kangshar Kang (Roc Noir), Singu Chuli (Fluted Peak), Tarke Kang (Glacier Dome) e Tharpu Chuli (Tent Peak) ao norte, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli a nordeste e Machapuchare (Fish Tail) a sudeste. O profundo Glaciar Annapurna Sul parecia uma grande cicatriz interligando essas imensas montanhas. Além dos memoriais visitados no dia anterior, nesse dia encontrei um outro em homenagem a três coreanos mortos numa expedição em 2011. Depois me disseram que esse era o motivo de haver tantos coreanos percorrendo essa trilha. Talvez... Por volta de 10h começou o festival de helicópteros pousando na vila para os passageiros endinheirados fotografarem aquelas montanhas sem ter que dar nem um passo. E adivinha de onde era a maioria? Às 12h26 peguei minha mochila no lodge e iniciei a caminhada de volta a Chomrong e de lá rumo a Ghandruk, aonde chegaria dois dias depois. Desci pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul parando muitas vezes para fotos, passei por MBC às 14h02, voltei ao cânion do Rio Modi, passei novamente por aquelas cinco línguas de neve e alcancei Deurali às 15h53. A neblina chegou. Passei pela Gruta Hinku às 16h25, reentrei na mata de bambus e cheguei à vila de Himalaya às 17h. Dovan Alto ainda estava a 1h dali e tive de parar pois não daria tempo de chegar com luz do dia. O problema é que Himalaya tem apenas dois lodges e estavam quase lotados. Consegui um quarto sozinho por Rs200 (US$1,74) no Himalaya Guest House mas logo chegou um casal (ela francesa e ele italiano) e tive que dividir pela terceira noite seguida. Mas eles não se importaram de eu acender o fogareiro no quarto para ferver a água do dia seguinte. O banheiro ficava fora do lodge, no estilo oriental e com ducha a gás por Rs200 (US$1,74). Não havia torneira no quintal para escovar os dentes. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs300 (US$2,60), mas o italiano disse que não funcionou nem à noite nem de manhã. O outro lodge se chama Himalaya Hotel, nomes bem criativos. Ali se dorme ouvindo o barulho forte do Rio Modi logo abaixo. Altitude em Himalaya: 2847m Preço do dal bhat: Rs 620 Preço do veg chowmein: Rs 480 Vila de Dovan com o Pico Machapuchare ao fundo 7º DIA - 30/11/18 - de Himalaya a Chomrong Duração: 5h40 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2847m Menor altitude: 1888m Resumo: nesse dia continuei o retorno descendo pela margem direita do Rio Modi até o Rio Chomrong e subindo até a vila homônima Às 7h45 da manhã estava 10,5ºC dentro do quarto. Apesar de já ter baixado 1274m desde o ABC, não dormi bem de novo. Passei horas acordado esta noite também. Saí do lodge às 9h16 na direção sudoeste ainda refazendo meus passos pela margem direita do Rio Modi. Reentrei na mata e reencontrei as escadarias. Passei por Dovan Alto às 10h23, por Dovan às 10h55 (com bonita vista do Machapuchare para trás) e parei às 11h56 nos primeiros lodges de Bamboo pois ali há sinal da NCell e eu precisava mandar mensagens para a família de que estava vivo. Por 44 minutos descansei e comi as bolachas que tinha na mochila (meu intestino ainda não estava bom). Continuei às 12h40. Após Bamboo vêm as piores escadarias. Na primeira, logo depois da vila, se sobe tanto que o Rio Modi acaba ficando bem distante, muito abaixo. Saí definitivamente da mata ao chegar a Sinuwa Alta às 14h28. Descansei por 8 minutos para enfrentar a interminável escadaria até o Rio Chomrong. Passei por Sinuwa Baixa (Bhanuwa) às 15h05 e às 15h31 a longa escadaria terminou na ponte suspensa do Rio Chomrong. Ali a menor altitude do dia, 1888m. Agora vinha a enorme subida para a vila de Chomrong, minha parada nesse dia. A vantagem de dormir ali é a farta quantidade de lodges, são 14. Cruzei com uma tropa de mulas pela primeira vez nesse trekking (no trekking Shivalaya-Namche elas eram um terror na trilha), mas iaque não vi nenhum. Subi bastante e ia passar direto pelo check post do ACAP às 16h14, mas um guia me chamou insistentemente para fazer o checkout. O guardinha não conferiu no livro se eu havia me registrado na ida. De tantos lodges quase vazios em Chomrong escolhi o Chhomrong Cottage, 3 minutos após o check post, e quem eu encontro hospedado lá? Fei, o chinês, agora com a namorada. Porém estava bem mal, com febre e diarréia líquida. Dei-lhe um Imosec e sais de reidratação oral que tinha na minha farmacinha, ele ficou muito agradecido. Negociei com a simpática dona do lodge o quarto por Rs100 (US$0,87) e ela ofereceu de graça a ducha quente, da qual eu necessitava muito. O banheiro era no estilo oriental no térreo e com vaso sanitário no primeiro andar, onde eu fiquei. Porém ambos no corredor aberto ao frio. Junto a eles um lavatório para escovar os dentes, coisa rara. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs200 (US$1,74). Altitude em Chomrong: 2159m Preço do dal bhat: Rs 520 Preço do veg chowmein: Rs 400 Picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli ao amanhecer em Chomrong 8º DIA - 01/12/18 - de Chomrong a Ghandruk Duração: 4h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2261m Menor altitude: 1791m Resumo: nesse dia abandonei o trekking ABC e iniciei uma conexão por trilhas para o trekking Poon Hill. Essa conexão durou três dias e nesse primeiro dia fiz um desvio para o sul para conhecer a vila de Ghandruk. De Chomrong desci ao Rio Kimrong (desnível de 470m), subi até a vila de Komrong Danda (desnível de 430m) e desci novamente até Ghandruk (desnível de 224m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,9ºC. Às 7h10 da manhã estava 11ºC. Às 6h50 os primeiros raios de sol iluminavam os picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli, num lindo espetáculo. Me despedi do Fei e sua namorada pois iam até a vila de Matkyu tomar o ônibus para Pokhara. Saí do lodge às 9h28 na direção sul, subindo o restante das escadarias até a parte mais alta de Chomrong, onde consegui sinal da NCell para poder trocar mensagens. Desci em seguida passando pelos outros lodges da vila e cheguei às 9h50 à bifurcação para Ghurjung, Kimrong Khola (Kimrung Khola), Tadapani e Ghandruk à direita, com Jhinu à esquerda (de onde vim no 3º dia). Parei para tirar a roupa mais quente e segui à direita nessa bifurcação (rumo noroeste) cruzando muitos campos cultivados em forma de terraço. Uma outra alternativa para ir a Ghandruk seria tomar a esquerda na bifurcação, descer àquela ponte enorme do 3º dia, cruzá-la e tomar a trilha que sobe em frente e à esquerda, mas desconfio que esse caminho tem estradas (e eu odeio andar em estrada!) Num suave sobe-e-desce para oeste passei por duas fontes de água e às 10h54 subi uma escadaria (de novo não...) que terminou na frente de um lodge, iniciando logo a longa descida ao Rio Kimrong. Ali a maior altitude do dia, 2261m. Às 11h04 me deparei com uma bifurcação sem placa e fui para a direita, evitando a escadaria de pedras que descia à esquerda. Uns 50m depois outra trilha descendo à esquerda. Pensei em continuar à direita mas esperei um grupo que vinha na direção contrária chegar para perguntar. Me disseram que aquele caminho à direita ia para Ghurjung e depois Tadapani. Mas eu queria ir para Ghandruk primeiro, então deveria descer a escadaria da primeira bifurcação ou a trilha da segunda. Optei pela escadaria e voltei até ela, tomando-a para a direita. Mas logo os degraus acabaram e a trilha a seguir era de terra fina solta, uma poeira só! E claro que nessa hora surgiu do nada uma tropa de mulas para me atazanar. Não podia deixá-las passar pois iam me fazer comer muita poeira, então tive de acelerar a descida. Numa bifurcação mais abaixo fui à esquerda mas tanto faz pois logo se fundem os dois caminhos de novo. Avistei lá embaixo no Rio Kimrong a ponte suspensa que teria de cruzar para subir a Komrong Danda e depois descer a Ghandruk. A descida continuou por escadarias e as mulas atrás. Às 11h43 apareceu uma outra escadaria à esquerda, mas era estreita e não estava sinalizada, então continuei descendo pela trilha principal mesmo. Mas depois de 200m vi que estava me distanciando da ponte e a trilha não dava sinais de que ia quebrar para a esquerda na sua direção. Resolvi voltar. Deixei as mulas passarem e subi um pouco de volta, tomei a estreita e íngreme escadaria (à direita agora) e desci rapidamente à vila de Kimrung Khola, com suas plantações em terraços. Parei ali às 12h04 para almoçar um veg egg fried noodles na Kimrung Guest House. O cozinheiro era muito atencioso e conversamos sobre a bonita horta que ele tinha nos fundos do lodge. Saí às 12h50 e terminei de descer até a ponte suspensa com piso de tábuas sobre o Rio Kimrong. Ali a menor altitude do dia, 1791m. Ao final dela fui para a esquerda e logo começou uma longuíssima subida até a vila de Komrong Danda, inicialmente por uma escadaria mas depois felizmente por trilha mesmo. Às 13h13 cruzei uma porteira de varas (coisa muito rara hoje no Brasil) com uma placa "way to Ghandruk" torta, depois atravessei um riacho por troncos. Na bifurcação às 13h38 uma placa apontava Ghandruk para a direita. E dá-lhe subida! Alcancei Komrong Danda às 14h24 e avistei Ghandruk pela primeira vez. Há 4 lodges nessa vila e a altitude é de 2221m. Logo iniciei a longa descida em direção a Ghandruk, em parte por escadarias de pedras até com corrimão. Às 15h06 entrei numa mata e 5 minutos depois cruzei uma ponte suspensa (com a antiga ponte de troncos ao lado). A trilha dá uma guinada para a esquerda (leste) e às 15h23 notei uma longuíssima escadaria subindo à direita ao lado de uma pequena stupa. A trilha dali em diante estava interrompida por uma obra então subi pelo desvio à direita. Logo apareceu uma escadaria à direita e subi por ela, chegando aos primeiros lodges de Ghandruk às 15h29. Parei no Bishow Guest House pois achei um lugar bem tranquilo e não me arrependi. Depois descobri que a grande maioria dos lodges se concentrava no centro da vila, que fica mais ao sul, mas talvez por ser um sábado havia muitos grupos de adolescentes fazendo festas por ali, e eu queria sossego. Alguém me disse que havia cerca de 40 lodges em Ghandruk. O Bishow Guest House fica perto da parte mais antiga do vilarejo, onde as casas têm uma linda arquitetura muito característica, com varandas na frente, janelas trabalhadas e telhados de pedra. A visão desse conjunto de casas de cima lembra uma cidade medieval, muito bonito, uma das melhores surpresas dessa caminhada. Valeu muito a pena o grande desvio que fiz para conhecer Ghandruk. Pena que a neblina não me deixava ver as montanhas, mas dali se avistam (de norte para nordeste) Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Gangapurna, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Machapuchare. Esse lodge já era praticamente um hotel, dispondo de quartos com banheiro privativo. Eu negociei o preço do quarto de graça fazendo as refeições ali e o rapaz me ofereceu um quarto com banheiro compartilhado. Eu era o único hóspede. O banheiro tinha vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava), lavatório com espelho e ducha a gás grátis. Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87). Dei um giro pelo centrinho do lugar e visitei o Museu Old Gurung (Rs75 = US$0,65), bem pequeno mas interessante, com utensílios, instrumentos musicais e roupas do grupo étnico que habita essas montanhas, os gurungs. Ghandruk é o segundo maior povoado gurung no Nepal. Ao ferver a água que peguei da torneira do banheiro apareceu uma sujeira estranha, pedacinhos brancos esquisitos por cima da água. Não quis filtrar aquilo. Pedi a água da cozinha, fervi e estava um pouco melhor, mas continuava turva e tive de filtrar depois. Altitude em Ghandruk: 1997m Preço do dal bhat: Rs 450 Preço do veg chowmein: Rs 400 A incrível vila de Ghandruk 9º DIA - 02/12/18 - de Ghandruk a Tadapani Duração: 3h (descontadas as paradas) Maior altitude: 2684m Menor altitude: 1967m Resumo: nesse dia continuei a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill encarando uma subida longa e constante por florestas de rododendros até Tadapani, num desnível de 717m Às 7h25 da manhã estava 11,9ºC. De manhã a neblina continuava e nada de montanhas. Dei mais uma passeada pelo centro de Ghandruk antes de iniciar a caminhada do dia. Fui conhecer o Centro de Artesanato, onde uma simpática moça me mostrou seus bonitos trabalhos no tear - roupas e tecidos confeccionados na mais pura tradição gurung. No caminho passei por uma bifurcação com placa em que à direita se vai a Tadapani, meu destino nesse dia. Depois fui ao German Bakery tomar um café e beliscar alguma coisa, mas tudo o que eu pedi estava ruim: café aguado, rolinho de canela seco e torta de maçã com gosto esquisito. Depois pensei em ir ao Templo Meshram Barah, mas quando vi a enorme escadaria que teria de subir questionei se valia a pena (mais tarde descobri que há três templos com esse nome no vilarejo). Em vez disso fui ao Museu Gurung and Old Gurung Culture (Rs75 = US$0,65 de entrada também), menos interessante que o Museu Old Gurung que havia visitado no dia anterior. Já estava voltando ao lodge quando vi alguns ônibus estacionados num descampado logo abaixo da vila e enfim descobri onde era o ponto final deles. Havia perguntado a duas pessoas onde era, mas eles são extremamente confusos para explicar e me disseram que eu teria que andar muito... Fui até lá perguntar os horários (só por curiosidade) e vi que no caminho eles passam por Birethanti e Nayapul, onde eu vou terminar esse trekking. Depois saí procurando o Centro de Visitantes do ACAP e acabei descobrindo onde era. O mais interessante ali é o filme que eles projetam três vezes ao dia (11h, 13h e 15h) de domingo a sexta-feira, mas eu não pude esperar porque tive receio de não dar tempo de chegar a Tadapani (teria dado). Em frente há um posto de saúde, informação importante para quem possa estar com algum problema de saúde, embora Pokhara esteja há poucas horas de ônibus dali e tem bons hospitais e clínicas. Na volta ao lodge ainda caminhei pelas ruelas da parte antiga da cidade, aquela que parece medieval, e realmente é um lugar muito especial. Voltei ao lodge para pegar a mochila e o rapaz me disse que eu poderia tomar outro caminho a Tadapani, voltando por onde cheguei no dia anterior e subindo a longuíssima escadaria ao lado da pequena stupa, e foi o que fiz. Saí do lodge às 12h13 na direção noroeste. Passei pelo desvio da trilha interrompida e cheguei à escadaria. Ali a menor altitude do dia, 1967m. Respirei fundo porque seriam centenas de degraus morro acima. Cruzei uma bonita plantação de chá e às 12h50 cheguei ao topo, onde está um dos três templos Meshram Barah e uma torneira com água. O caminho continuava à esquerda e voltava a sinalização de duas faixas horizontais branca e vermelha. A escadaria termina ali e a subida continua por uma trilha. Às 13h09 cheguei a uma bifurcação em frente ao Jungle Paradise Guest House, um lodge isolado: à esquerda se volta à vila de Ghandruk, exatamente naquela bifurcação com placa que vi de manhã, à direita se vai a Tadapani, minha meta desse dia. A trilha nivela. Cruzei uma ponte de madeira, passei pelo lodge Lonely Planet (também isolado) e a vegetação vai ficando mais densa. Às 14h14 cruzei uma ponte de concreto e subi uma escadaria de pedra com corrimão. Passei por uma cachoeira à esquerda da trilha e subi uma longa escadaria com outra cachoeira à direita. Às 14h56 passei pelo minúsculo vilarejo de Bhaisi Kharka, com dois lodges. A subida continua e entro numa extensa floresta de rododendros, a primeira mata só de rododendros desse trekking. Esse lugar deve ficar incrivelmente bonito na floração dessa árvore em março e abril. Avisto alguns macacos no alto. Às 15h34 entronca uma trilha que sobe da direita vindo de Komrong Danda, segundo a plaquinha amassada com um croqui. Ela tem uma sinalização pintada nos troncos de duas faixas também, porém branca e azul. Subi mais um pouco e às 15h51 alcancei o vilarejo de Tadapani, com 10 lodges. Ia passando direto pelo primeiro lodge, Himalaya Tourist Guest House, mas a garota me chamou. Perguntei-lhe se faria o quarto de graça se eu fizesse as refeições ali e ela aceitou (mas depois sua mãe veio me pedir para não comentar isso com ninguém, como eles sempre fazem). Os banheiros ficavam no corredor aberto ao frio: um com vaso sanitário com descarga acoplada e outro no estilo oriental. Lavatório no corredor. Ducha quente por Rs200 (US$1,74), wifi por Rs200 (US$1,74) e carga de baterias por Rs100 (US$0,87) (mas deixaram de graça). Dei uma passeio pela vila para ver os outros lodges. Há uma estação de água potável e muito artesanato à venda, mas quase ninguém para comprar... Altitude em Tadapani: 2684m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 400 Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo) e Tukuche 10º DIA - 03/12/18 - de Tadapani a Ghorepani Duração: 4h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3201m Menor altitude: 2504m Resumo: nesse dia alcancei a vila de Ghorepani e concluí a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill. Saindo de Tadapani desci a um rio e encarei mais uma longa subida até Deurali (desnível de 697m) pela mata junto a outro rio. Após Deurali percorri uma crista com neblina (perdi o visual) e desci a Ghorepani (desnível de 397m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 5,5ºC. Às 8h da manhã estava 7ºC. De manhã, com muitas nuvens, da frente do lodge se avistava com dificuldade o Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste. Saí do lodge às 9h23 na direção oeste, seguindo a placa de Ghorepani e descendo por uma trilha calçada. Parei para colocar mais roupas porque dentro da floresta de rododendros estava muito frio. A descida se transformou numa escadaria e às 9h50 cruzei uma ponte de concreto. Logo depois dela a menor altitude do dia, 2504m, e em seguida a escadaria de pedras que inicia a exaustiva subida para Deurali. Às 10h16 alcancei o primeiro lodge da vila de Banthanti, que é dividida em três núcleos. Parei por 9 minutos para descansar da subida. Cerca de 280m adiante passei pelo segundo núcleo, cruzei uma ponte de concreto sobre um riacho e depois uma de madeira no terceiro núcleo de Banthanti. No total são 6 lodges nessa vila. A trilha sobe pela margem esquerda (verdadeira) desse riacho, mas após outra ponte de concreto às 11h06 volto à sua margem direita. Nesse trecho começou a aparecer muita gente no sentido contrário e resolvi parar por 13 minutos para um lanche. Às 11h54 subi uma longa escadaria com corrimão, desci um pouco, cruzei uma ponte de madeira e subi por outra longa escadaria. Passei pelo primeiro lodge de Deurali às 12h20 (essa é a terceira vila com esse nome nesse trekking) e resolvi parar no próximo, 10 minutos depois, para almoçar um veg fried noodle no Deurali Yak Hotel. Enquanto esperava tive uma surpresa. Vi um casal chegando no lodge ao lado e, conversando com a dona, disseram que eram do Brasil! O terceiro casal brasileiro que encontrei no Nepal em dois meses! Moravam no Acre e estavam indo de Ghorepani para Ghandruk nesse dia. A pequena Deurali tem também várias bancas de artesanato e da frente do Yak Hotel sai a trilha que sobe para Gurung Hill, mas naquele horário as nuvens já não permitiam apreciar o visual desse mirante. Voltei à trilha às 13h30. Em 20 minutos caminhando pela mata de rododendros atinjo uma crista. Mais 10 minutos e passei pelo ponto de maior altitude do dia, 3201m. Às 14h15 alcancei o mirante Thapla (Thabala), que dizem ter uma vista similar à de Poon Hill, mas sem as multidões e de graça, porém a neblina já havia chegado e não pude fazer essa comparação. Há ali um bar rústico e uma chautara (descanso dos carregadores) com bandeirinhas de oração budistas. Comecei a descer e logo cruzei outra mata de rododendros. Às 14h44 cheguei a uma bifurcação com outra chautara. Havia uma sinalização branca e vermelha apontando para a escadaria que desce à direita, mas eu decidi seguir pela trilha calçada em frente que desceu muito. Ao chegar a Ghorepani às 15h18 é que entendi que havia a vila baixa (onde chegam os trilheiros que vêm de Nayapul e onde eu cheguei) e a vila alta com muito mais opções de hospedagem. Decidi ir à vila alta e percebi que naquela bifurcação da sinalização branca e vermelha devia ter ido para a direita pois é um caminho mais direto à vila alta. Dali onde eu cheguei virei à direita e subi pela escadaria principal. Apenas 100m acima, numa bifurcação em que segui à direita, fui parado num checkpoint da polícia turística para mostrar as permissões. Nessa bifurcação, à esquerda se vai ao mirante Poon Hill. Continuei subindo à direita e cheguei a Ghorepani Alta (também chamada de Ghorepani Deurali... mais uma Deurali!) às 15h34, com muitos lodges mais. Apesar da baixa temporada havia muita gente ali, muitos nepaleses inclusive. Queria ficar num lodge bem tranquilo e fiz a escolha certa: Poon Hill Guest House. Negociei o quarto de graça e fui o único hóspede nessa noite. Atendimento muito simpático e comida deliciosa, fiz questão de elogiar o cozinheiro. O banheiro era dentro do lodge e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Lavatório no corredor e ducha quente por Rs100 (US$0,87). Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87). Altitude em Ghorepani Alta: 2874m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 450 Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo) e Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) 11º DIA - 04/12/18 - de Ghorepani a Tikhedhunga Duração: 30 minutos (subida de Ghorepani a Poon Hill) e 4h (de Ghorepani a Tikhedhunga, descontadas as paradas) Maior altitude: 3185m em Poon Hill Menor altitude: 1503m Resumo: nesse dia desci de Ghorepani a Banthanti (desnível de 607m) pelo vale de um rio por dentro de bosques, depois baixei até Tikhedhunga pela encosta da margem direita do Rio Bhurungdi (desnível de 764m) A mínima durante a noite dentro do quarto foi 3,0ºC. Às 5h da manhã estava 3,6ºC. O melhor espetáculo no mirante Poon Hill seria o nascer do sol, então enfrentei o frio de quase 0ºC e saí às 6h06 do lodge com lanterna para não perder o show. Subi até o Hotel Hill Top e de lá tomei a trilha dentro da mata. Cheguei à portaria do mirante e paguei a taxa de Rs100 (US$0,87) no guichê. Continuei subindo por longuíssimas escadarias de pedras entre rododendros e alcancei o mirante às 6h35, a tempo de assistir ao nascer do sol junto com a multidão que já estava lá e o povo que ainda estava subindo. Os primeiros raios de sol vieram às 6h43. Dos 3185m de altitude de Poon Hill a visão do Himalaia realmente é de tirar o fôlego, a melhor de todo esse trekking. A lista de montanhas é extensa e pode ser dividida em dois grandes blocos. De noroeste para norte: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo), Tukuche e Dhampus. De norte para nordeste: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo), Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Annapurna II (16º mais alto do mundo). Há uma torre para tirar fotos ainda melhores de uma posição mais alta, banheiros e uma casinha onde se vendem café e chá a preços ainda mais caros que em Ghorepani. Poon Hill tem esse nome porque foi criada e divulgada como ponto turístico pelo major Tek Bahadur Pun, um apaixonado pelo lugar e pela vista que se tem dali. Iniciei a descida às 8h50, quando o mirante já estava praticamente vazio, e parei muitas vezes para tirar mais fotos. Ao passar pelo guichê (já fechado) notei à direita o caminho que desce para Ghorepani Baixa, mas eu tinha de passar pelo lodge primeiro. Cheguei ao Poon Hill Guest House às 10h21, tomei o café da manhã, arrumei a mochila e saí às 12h na direção sul. Desci até Ghorepani Baixa, passei pelo portal do vilarejo e tomei a trilha larga pela floresta descendo para a reta final desse trekking. Queria saber quanto de estrada eu teria de andar dali até Nayapul e se haveria algum caminho alternativo por trilha, mas novamente as informações do pessoal local foram muito confusas e até erradas. Me disseram que em Ulleri eu cairia numa estrada e não haveria alternativa por trilha, mas não foi nada disso. Passei pelos primeiros lodges de Nangethanti às 12h56, cruzei uma ponte de concreto e depois mais alguns lodges dessa vila. Reentrei na mata e às 13h22 cruzei para a direita outra ponte de concreto sobre um pequeno cânion e um rio de água transparente muito bonito. Esse rio forma logo abaixo uma bela cachoeira. Depois de mais duas pontes de concreto parei 16 minutos para comer alguma coisa que trazia na mochila. Logo a floresta daria lugar à vegetação mais baixa. Passei às 14h23 pela vila de Banthanti Alta (o mesmo nome de uma vila do dia anterior) e 7 minutos depois por Banthanti Baixa, com lodges. Reaparecem os campos cultivados em forma de terraço. Continuei descendo e às 15h05 cheguei à vila de Ulleri, onde há jipes para Pokhara pela bagatela de Rs6000 (US$52) para 5 pessoas. O ônibus de Nayapul estava bem longe ainda porém custava só Rs200 (US$1,74). Nessa vila inicia uma famosa escadaria que dizem ter mais de 3300 degraus (segundo o guia Lonely Planet) e lá fui eu, dando graças por ser descida e por não ter que caminhar na estrada de terra, como haviam me informado em Ghorepani. Odeio andar em estrada! Cruzei toda a vila de Ulleri descendo pela escadaria. Cruzei também com muita gente subindo e vários perguntavam se faltava muito para Ghorepani - muito! E eu lhes perguntava se teria que andar por estradas mais à frente pois já avistava muitas estradas de terra abaixo. Às 16h11 teve fim essa escadaria terrível e cruzei uma ponte suspensa com o Rio Bhurungdi (Baraudi) formando duas lindas cachoeiras, uma acima e outra abaixo da ponte. Ali a menor altitude do dia: 1503m. Ao final da ponte fui à direita e na bifurcação a seguir à esquerda seguindo as setas apontando Pokhara. Já estava chegando à vila de Tikhedhunga e seus primeiros lodges. Subi e cruzei outra ponte suspensa com outra bela cachoeira acima. Fui à direita e parei às 16h31 num dos primeiros lodges, Laxmi Guest House. A dona me fez o quarto de graça, só pagando as refeições. O banheiro ficava no fim do corredor aberto ao frio, com vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava). Para escovar os dentes havia uma pia na frente do lodge. O atendimento não foi dos melhores mas a localização era muito bonita, com muita vegetação ao redor. Só os primeiros lodges da vila têm essa vista para a mata e barulho do rio próximo. Altitude em Tikhedhunga: 1519m Preço do dal bhat: Rs 450 Preço do veg chowmein: Rs 350 Cachoeira no Rio Bhurungdi em Tikhedhunga 12º DIA - 05/12/18 - de Tikhedhunga a Nayapul Duração: 2h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 1519m Menor altitude: 1004m Resumo: nesse dia percorri o vale do Rio Bhurungdi (Baraudi) por sua margem esquerda por trilhas e estradas até o ponto do ônibus em Nayapul A mínima durante a noite dentro do quarto foi 9,9ºC. Às 6h35 da manhã estava 10,8ºC. Saí do lodge às 8h06 na direção sudoeste ainda pela margem esquerda do Rio Bhurungdi (Baraudi). Passei pelos outros lodges do vilarejo e continuei descendo. Às 8h20 cheguei aos primeiros lodges de Hille, atravessei todo o povoado e 10 minutos depois lá estava ela, a estrada de terra. Fui para a direita descendo e por enquanto não havia alternativa por trilha. Às 8h50 passei pela vila de Sudame. Ali, numa curva fechada para a direita peguei um curto atalho à esquerda e continuei descendo pela estrada. Às 9h15 passei por Ramghai (Lamdawali). Às 9h38 entrei num atalho à direita com placa "way to Birethati" e a sinalização de faixas branca e vermelha de novo. Cruzei a vila de Matathanti com casas bem antigas, atravessei uma ponte suspensa e voltei à estrada de terra às 9h50, seguindo para a direita. Numa bifurcação 4 minutos depois continuei à direita pela estrada. Às 10h07 entrei em outro atalho à direita com placa e logo comecei a cruzar o casario da extensa vila de Birethanti, onde o Rio Bhurungdi (Baraudi) deságua no Rio Modi. Às 10h16 cheguei a uma estrada e uma ponte de ferro sobre o Rio Modi. Ao lado há um check post do ACAP, mas passei direto. Me recomendaram caminhar até Nayapul pois lá os ônibus são mais frequentes, então cruzei a ponte de ferro e continuei pela estrada na margem esquerda do Rio Modi. Passei por um check post do TIMS card 80m após a ponte mas não parei e nem fui parado para fazer checkout. Nesse trecho registrei a menor altitude de todo o trekking: 1004m. Subi um pouco e nas primeiras casas de Nayapul entrei num caminho à direita da estrada, às 10h32. Não há nenhuma sinalização mas para chegar à parada dos ônibus para Pokhara tem que entrar mesmo nesse caminho. Na bifurcação 300m depois desci à direita, cruzei a ponte suspensa e na subida seguinte cheguei às 10h42 à estrada e ao centro de Nayapul, com bastante comércio. Altitude de 1022m. Consegui alcançar um ônibus que seguia bem devagar, confirmei se ia para Pokhara e entrei. Ele foi até o fim da rua e tomou a estrada de terra para a esquerda, perto de onde fica a parada de todos os ônibus. A estrada é parte asfalto e parte terra batida, mas não pula muito. Essa estrada é a mesma que me levou a Kande, no início do trekking, e passamos por essa vila às 11h40. Desci do ônibus em Pokhara às 12h48, porém em frente a um terminal chamado Baglung Bus Park, muito distante de Nareshwor ou Lakeside. Perguntei para algumas pessoas se havia ônibus para esses bairros mas não souberam dizer, então resolvi ir a pé mesmo. Levei 1 hora até o Harry Guest House, mas poderia ter tomado um ônibus para Zero Kilometer, o que teria me poupado 2,2km de caminhada. Informações adicionais: Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva. . ônibus turístico Kathmandu-Pokhara: 7h (8h de viagem) Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Sorhakhutte, 500m ao norte do Kathmandu Guest House, no Thamel Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro . ônibus turístico Pokhara-Kathmandu: de manhã entre 7h e 8h e mais 3 horários à noite (8h de viagem) Em Pokhara os ônibus saem do terminal Tourist Bus Park, a 2,5km do centro de Lakeside Norte, mas pode-se comprar a passagem no hotel e tomar o ônibus em Lakeside Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro . ônibus Pokhara-Kande: a cada 20 minutos segundo me disseram (esperei 24 minutos) (1h40 de viagem) Em Pokhara pode-se tomar o ônibus em Zero Kilometer ou no Baglung Bus Park Preço: Rs100 (US$0,87) . ônibus Ghandruk-Pokhara: de 8h30 a 14h, de hora em hora Preço: Rs500 (US$4,34) . ônibus Nayapul-Pokhara: a cada 15 minutos até 18h30 (2h de viagem) Preço: Rs200 (US$1,74) . Melhor mapa: Around Annapurna 70k, 1:70.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NA524, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs550 = US$4,77). Site: himalayan-maphouse.com. Rafael Santiago dezembro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  9. Gokyo e o o terceiro lago, Gokyo Tso Início: Pheriche Final: Lukla Duração: 7 dias Maior altitude: 5409m no Passo Renjo La Menor altitude: 2545m em Thadokoshi Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis de 380m a 1030m diários, sempre acima dos 3300m, o que exige aclimatação. O Passo Renjo La, de 5409m, impõe uma dificuldade a mais. Permissões: entrada do Parque Nacional Sagarmatha (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$ 17,36). Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. O trekking Pheriche-Lukla é a terceira parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A primeira parte está descrita aqui e a segunda parte aqui. Como esta etapa do trekking ocorre acima dos 3000m de altitude, foi preciso fazer previamente um processo de aclimatação. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia". Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são: . Pheriche: só Everest Link . Pangboche: NCell (somente em alguns lugares da vila) . Phortse: NCell . Gokyo: só Everest Link . Namche Bazar: NCell . Lukla: NCell O cartão pré-pago de wifi Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não o testei porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Pangboche com o Ama Dablam ao fundo 17º DIA - 09/11/18 - de Pheriche a Phortse Duração: 4h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 4293m Menor altitude: 3795m Resumo: nesse dia percorri os vales dos rios Khumbu (ou Lobuche) e depois Imja até a confluência deste com o Rio Dudh Koshi e a vila de Phortse A mínima durante a noite dentro do quarto em Pheriche foi -3,4ºC. Às 7h30 da manhã estava -1,4ºC. Por causa da insônia que me deixou quatro noites seguidas sem dormir (efeito do Mal da Montanha, AMS em inglês), em Gorak Shep tomei a decisão de abortar o Passo Cho La e baixar de altitude para poder dormir e me recuperar. Por outro lado, não poderia deixar de conhecer os belos lagos sagrados de Gokyo, então faria um contorno bem grande descendo para o sul para em seguida subir até Gokyo, aonde chegaria no 19º dia de caminhada. De manhã com o céu limpo, da frente do lodge Thamserku podia avistar as montanhas na cabeceira do vale do Rio Khumbu (ou Lobuche) e também o Taboche e o Cholatse a noroeste. A sudeste o Ama Dablam e ao sul estavam Kangtega e Thamserku. Saí do lodge às 10h08 na direção sul ainda pela margem esquerda do Rio Khumbu (ou Rio Lobuche). Cerca de 600m após as últimas casas de Pheriche passei para a outra margem desse rio atravessando uma ponte de ferro e seguindo para a esquerda. Subi até um memorial a escaladores às 10h55 (4293m, maior altitude do dia) e logo desci até aquela bifurcação sem placa do 10º dia. Naquele dia fui para a direita (que agora é esquerda) na direção de Dingboche, hoje vou para a direita, voltando a percorrer o vale do Rio Imja. Desse ponto até Pangboche refaço o caminho da ida ao contrário, na direção sul, e volto a caminhar abaixo do limite das árvores. Passei por Somare às 11h51 e parei em Pangboche às 12h42 para almoçar no Himalayan Lodge, onde me hospedei no 9º dia. Ali conheci um polonês que estava bem perdido, dei umas informações pra ele e ele me deu boas dicas sobre as montanhas Tatras, na fronteira do seu país com a República Tcheca. Voltei a caminhar às 14h13 e subi à direita na bifurcação bem ao lado do lodge, na direção do monastério (gomba). Duas coisas me detiveram por algum tempo para fotos nessa subida: a linda vista de Pangboche com o Ama Dablam ao fundo e o longo muro de pedras mani na trilha. Cheguei ao monastério às 14h40 e o visitei só por fora (entrada de Rs250 = US$2,17). Ele é do século 17 e é o mais antigo monastério do Khumbu. Continuei pela trilha na direção sudoeste, fui à direita na primeira bifurcação (com placa indicando um posto de saúde à esquerda) e à esquerda na trifurcação (sem placa) logo a seguir. Nesse ponto um cachorro estressado não parava de me perseguir e ameaçava me morder, mesmo atirando pedras na sua direção. Por fim me livrei dele. Passei por mais um longo muro de pedras mani na saída da vila. Deixei para trás o vilarejo de Pangboche Alto e continuei pela trilha na encosta da margem direita do Rio Imja. Passei por três bicas de água e subi até os 4084m, onde, às 15h48, avistei a vila de Tengboche e seu grande monastério. Depois de várias subidas e descidas, até com escadarias de pedra, cheguei a Phortse às 16h58 com neblina. Nessa vila não há o esquema de cobrança de preço único do quarto, como já vigora de Tengboche a Gorak Shep, então volta o método anterior de negociar o quarto desde que se façam as refeições ali mesmo. Perguntei em alguns lodges e fiquei no Namaste Lodge, onde o dono me fez o quarto de graça. O banheiro foi o mais esquisito de todos: uma casinha com um buraco no piso de madeira (sem a peça de louça) e uma montanha de folhas ao lado para jogar um pouco no buraco depois de fazer o número dois. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor dentro da casa. Havia tomada no quarto mas a recarga de baterias era paga. Barganhei o máximo que pude e chegamos a Rs500 (US$4,34) para recarregar todas as baterias durante a noite inteira. Pedi um cobertor pois não havia no quarto (não foi cobrado), mas não era tão grosso e achei melhor usar o meu saco de dormir (Marmot Helium, temperatura limite -9ºC). Nesta noite nesse lodge havia apenas um grupo de alemães, mas era um grupo tão grande que lotava o refeitório. Continuo na minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte. Altitude em Phortse: 3795m Preço do dal bhat: Rs 500 Preço do veg chowmein: Rs 450 Vila de Machermo 18º DIA - 10/11/18 - de Phortse a Machermo Duração: 4h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4446m Menor altitude: 3603m Resumo: nesse dia saio do vale do Rio Imja e volto ao vale do Rio Dudh Koshi iniciando a longa subida (de dois dias) a Gokyo pela margem direita verdadeira deste rio A mínima durante a noite dentro do quarto foi 5,2ºC, não tão frio quanto eu esperava. Como na noite anterior, meu sono foi bom, conseguindo me refazer do cansaço dos dias anteriores quando fiquei quatro noites seguidas sem dormir por causa da altitude. A partir de Phortse os mapas indicam dois caminhos a Gokyo, um pela margem direita do Rio Dudh Koshi e outro pela margem esquerda. O guia Lonely Planet sugere ir a Gokyo pela margem direita e voltar pela margem esquerda. Porém conversei com várias pessoas nos últimos dias e todos desaconselhavam tomar o caminho da margem esquerda pois nele há deslizamentos e pedras que caem. O caminho da margem direita é mais seguro e muito mais usado pelos trilheiros. O Rio Dudh Koshi é um dos principais rios da região. Acompanhei seu curso do 5º dia de caminhada, em Chhirdi, até o 9º dia em Phunki Thenga e agora vou segui-lo até Gokyo, onde estão suas nascentes. Saí do lodge às 9h22 descendo as escadarias da vila na direção sudoeste e quebrando à direita na direção do Everest Lodge. Ao lado desse lodge uma grande stupa com placa indica o caminho para Dole descendo a trilha para o norte, na direção do Rio Dudh Koshi. Cruzei uma matinha e desci bastante, atravessando a ponte metálica sobre o azulado Rio Dudh Koshi às 9h56 (3603m, menor altitude do dia). Seguiu-se uma subida por um bosque com a trilha bem mais estreita até que alcancei a principal mais acima, onde fui para a direita (noroeste). Daqui até próximo de Gokyo vou caminhar pelas encostas da margem direita verdadeira do Rio Dudh Koshi. Às 10h21 fui parado num checkpoint para mostrar as permissões pagas em Monjo no 7º dia (permissão local e entrada do Parque Nacional Sagarmatha) e a surpresa foi encontrar o casal húngaro Zita e Daniel, ele visivelmente mais magro. Eles já estavam descendo de volta a Namche, não tiveram problema com a altitude, passaram pelos passos Kongma La e Cho La mas não quiseram encarar o terceiro passo, o Renjo La. Continuei subindo e às 10h29 cruzei uma ponte de ferro com uma cachoeira congelada à esquerda. Mas essa foi só a primeira delas pois em seguida cruzei mais três pontes com cachoeiras congeladas ao lado. Esse foi o primeiro dia cinzento do trekking desde Shivalaya, sem nenhum sinal de sol, o que fazia o dia ficar muito frio. Essas águas congeladas só aumentavam a sensação de frio. As nuvens estavam bem baixas e caíram cristais de neve quase o dia todo. Às 11h51, depois de subir 445m desde a ponte do Rio Dudh Koshi, alcancei a vila de Dole e parei para almoçar um dal bhat no Namaste Lodge. Dole está a 4049m e as árvores já começam a desaparecer acima dessa altitude. Às 12h56 continuei na direção oeste e logo desci para cruzar o Rio Phule por uma ponte de troncos precária. Subi novamente e passei por um lodge em Lhafarma às 13h44. As nuvens baixaram de vez e a neblina tirava a visão do caminho. Às 14h27 cruzei um riacho e passei por um lodge no vilarejo de Luza. Na bifurcação 90m depois do lodge fui à direita, cruzei outro riacho e atravessei alguns cercados de pedra. Subi até os 4446m (maior altitude do dia) e desci à vila de Machermo, aonde cheguei às 15h com neblina. Me hospedei no Himalayan Lodge, um lodge menor e mais modesto que os outros. O primeiro em que perguntei, o Tashi Dele, estava lotado, apesar de bem grande, ao passo que o Himalayan Lodge só tinha carregadores, apenas eu de estrangeiro. Pude novamente negociar o preço do quarto e o dono fez de graça, só cobrando as refeições. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Para escovar os dentes tinha que ser no quintal com uma caneca. A energia era solar e não havia luz nos quartos, banheiro e corredores, necessitando usar a lanterna. Altitude em Machermo: 4393m Preço do dal bhat: Rs 500 Preço do veg chowmein: Rs 400 Longpunga Tso, primeiro lago de Gokyo 19º DIA - 11/11/18 - de Machermo a Gokyo Duração: 3h (descontadas as paradas) Maior altitude: 4754m Menor altitude: 4377m Resumo: nesse dia continuei a subida pela margem direita do Rio Dudh Koshi até a vila de Gokyo e seus incríveis lagos sagrados A mínima durante a noite dentro do quarto foi -4,1ºC. Às 6h30 da manhã estava -3ºC. A minha água amanheceu congelada dentro da garrafa. Como não costumam acender o aquecedor do refeitório de manhã para economizar esterco de iaque, o dono do lodge foi muito gentil e serviu o meu café numa mesa do lado de fora, onde já batia o sol da manhã (mas ainda fazia muito frio). A vila de Machermo se espalha ao longo do vale do Rio Machermo, afluente da margem direita do Rio Dudh Koshi. Saí do lodge às 9h na direção noroeste e logo cruzei uma ponte de ferro sobre o Rio Machermo (4377m, menor altitude do dia). A partir dela há duas trilhas mais ou menos paralelas em direção a Gokyo: a da direita sobe menos, a da esquerda sobe mais e depois desce para encontrar a primeira. A da esquerda deve até ter uma vista mais panorâmica mas eu optei pela da direita. Ela sobe pela encosta, faz uma curva de mais de 90º para a esquerda e toma a direção noroeste, junto ao Rio Dudh Koshi, até se fundir com a outra trilha, que percorre até ali um nível mais alto na encosta. O Cho Oyu, 6ª montanha mais alta do mundo, já fica visível na cabeceira do vale. Ao me aproximar do povoado de Phanga tomei as trilhas da esquerda mas pode-se ir pela direita também. Cruzei essa vila às 9h53 e é muito bonita a visão das casas e muros de pedra com os picos Cholatse e Taboche ao fundo (leste). Após Phanga me aproximei um pouco mais do Rio Dudh Koshi e parei para fotos. Já podia avistar dali a longa subida que teria de encarar em seguida. Às 10h57 venci essa subida (cheia de gente) e cruzei a ponte de ferro sobre o rio que verte do primeiro dos lagos sagrados de Gokyo. Ufa, parece que estava quase no fim essa subida interminável desde o dia anterior, com desnível de mais de 1000m desde a ponte do Rio Dudh Koshi até aqui. Daqui até Gokyo à minha direita tenho a moraina lateral do Glaciar Ngozumba, que vem das montanhas Cho Oyu, Ngozumba Kang e Gyachung Kang. Parei no primeiro lago, Longpunga Tso, às 11h03 para fotos com o Cho Oyu ao fundo e segui com o riacho que faz a ligação entre os lagos à minha esquerda. Cerca de 970m depois parei no segundo lago, Taujung Tso, muito maior que o primeiro, para descansar e comer o lanche que tinha na mochila. Continuei às 12h e em 45 minutos (com paradas) alcancei o terceiro lago, Gokyo Tso, ainda maior e mais bonito. Tirei algumas fotos e segui, chegando a Gokyo às 13h10. O lugar é tão bonito que parece uma pintura! O vilarejo ao lado do lago de águas esverdeadas brilhantes e cercado de montanhas e picos nevados - nem parece real! Ao fundo, ao norte, está o Pico Cho Oyu, 6º mais alto do mundo. Os lagos de Gokyo são sagrados para budistas e hindus. Durante o festival Janai Purnima, em agosto, centenas de nepaleses vão em peregrinação a Gokyo para banhar-se em suas águas geladas. Os lagos também contribuem na formação do importante Rio Dudh Koshi, que conheci no 5º dia de caminhada, em Chhirdi. Percorri alguns lodges e optei pelo Ngawang Friendship. Negociei o quarto e ficou de graça novamente, mas se o lodge lotasse eu teria que dividir o quarto com outra pessoa pois me deram (na primeira noite apenas) um quarto com duas camas. Os banheiros ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário, descarga com caneca. Como em Machermo, a energia era solar e não havia luz nos quartos, banheiros e corredores. Perguntei por curiosidade o preço da água mineral de 1 litro e custava a bagatela de Rs450 (US$3,90)! Almocei no lodge e o passeio da tarde foi abortado pois as nuvens tomaram conta do lugar. A visão das nuvens sobre o lago era bonita também, mas a minha intenção de subir até os lagos mais acima (4º e 5º) foi adiada. Altitude em Gokyo: 4754m Preço do dal bhat: Rs 700 Preço do veg chowmein: Rs 700 Everest visto da montanha Gokyo Ri 20º DIA - 12/11/18 - de Gokyo a Gokyo Ri Duração (descontadas as paradas): 1h25 (subida ao Gokyo Ri), 1h05 (descida do Gokyo Ri), 48 min (de Gokyo ao 4º lago) Maior altitude: 5356m Menor altitude: 4754m Resumo: nesse dia subi a montanha Gokyo Ri num desnível de 600m desde a vila de Gokyo e visitei o Thonak Tso, o 4º lago A mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,9ºC. Às 6h30 da manhã estava 0,3ºC. Meu sono foi bem ruim de novo. Por causa da altitude passei a maior parte da noite acordado. Saí do lodge às 7h42 na direção noroeste, cruzei pela "ponte" de pedras o riacho que se abre antes de desaguar no Lago Gokyo Tso e comecei a subir o Gokyo Ri por trilha bem marcada e muito pisada. Alcancei o cume de 5356m às 9h12 e a paisagem é espetacular. Dali se avistam Cho Oyu (6º mais alto do mundo), Ngozumba Kang e Gyachung Kang ao norte; Chumbu, Pumori e Changtse a nordeste; Everest, Nuptse (20º mais alto), Lhotse (4º mais alto) e Makalu (5º mais alto) a leste; Cholatse e Taboche a sudeste; Kangtega, Kyashar, Thamserku e Kusumkangaru (Kusum Kanguru) a sul-sudeste; Khumbila ao sul; Passo Renjo La a sudoeste. A visão de Gokyo com os lagos sagrados é uma das paisagens mais bonitas de todo esse trekking - realmente vale todo o esforço para chegar a esse lugar! Às 11h18 iniciei a descida e estava de volta à vila às 12h32. Saí 20 minutos depois para conhecer os lagos mais acima antes que as nuvens tomassem conta de tudo novamente. Caminhei pela trilha bem marcada até o 4º lago, Thonak Tso, aonde cheguei em 48 minutos, mas parei por ali pois o 5º lago estava 3,7km à frente por um caminho de pedras e se fosse "comum" como o 4º lago eu ia me arrepender de ter caminhado tanto. Se o 5º lago era bonito? Até hoje não sei. Talvez dependa da posição do sol para eles ficarem mais bonitos. Ali a altitude era de 4876m e eu tinha uma visão incrível do Cho Oyu, Ngozumba Kang e Gyachung Kang ao norte, na cabeceira do vale. Continuando ainda além do 5º lago estariam o 6º lago e o campo base do Cho Oyu. Voltei tomando uma trilha na crista da moraina do Glaciar Ngozumba, que passa bem ao lado da vila de Gokyo e é o último obstáculo para quem vem de Lobuche pelo Passo Cho La. O "mar" de pedras do glaciar é impressionante e quem já passou por um sabe a dificuldade que é. Descobri onde ficava o posto de saúde e fui lá pegar alguma informação mais confiável sobre como resolver o problema da minha insônia na altitude. Conversei com a médica sem ter que pagar a consulta e ela me disse que o Diamox é indicado para quem acorda no meio da noite com falta de ar. Não sei bem se era o meu caso, acordava espontaneamente, não necessariamente com falta de ar. Continua a dúvida se o Diamox me teria feito dormir. Passo Renjo La (5409m de altitude) 21º DIA - 13/11/18 - de Gokyo a Lungden Duração: 6h (descontadas as paradas) Maior altitude: 5409m Menor altitude: 4378m Resumo: nesse dia encarei o terceiro passo (para mim foi o segundo), o Renjo La, com 5409m de altitude e desnível de 655m desde a vila de Gokyo, para descer em seguida ao vilarejo de Lungden A mínima durante a noite dentro do quarto foi -0,5ºC. Às 6h10 da manhã estava 3,6ºC. Tive uma noite razoável de sono, não fiquei tantas horas acordado e consegui descansar para enfrentar esse dia bem puxado. Saí do lodge às 7h56 e tomei o mesmo caminho do dia anterior (noroeste), porém aos pés do Gokyo Ri peguei a trilha da esquerda (com placa apontando Renjo Pass), subindo suavemente a encosta e percorrendo a margem norte do Lago Gokyo Tso. Às 8h16 fui à direita numa bifurcação (a trilha da esquerda aparentemente vai até o final do lago). Às 9h cruzei um riacho e a subida se tornou bastante íngreme, em zigue-zague, com muitas pedras. Nessa ladeira havia pequenas quedas-d'água congeladas. Às 9h48 atingi um grande platô e olhando para trás vi que a neblina estava chegando bem mais cedo nesse dia. Numa bifurcação a 5261m fui à direita. Subi mais e alcancei o Passo Renjo La às 10h56, com muitas bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais. A altitude ali é 5409m e pode-se avistar as montanhas: Gyachung Kang a norte-nordeste; Chumbu, Pumori e Changtse a nordeste; vila de Gokyo, Everest, Nuptse, Lhotse e Makalu a leste; Cholatse e Taboche a sudeste. A neblina não foi tão forte quanto eu imaginava. Aos poucos foram chegando mais e mais trilheiros e reencontrei o russo que conheci em Pangboche. É muito legal reencontrar as pessoas depois de vários dias de caminhada e ver que continuamos "juntos", no mesmo ritmo. Comi alguma coisa (importante levar lanche e água por causa da distância entre as vilas - há uma pequena padaria em Gokyo) e às 13h38, quando quase todos já haviam saído, iniciei a descida para a vertente oeste do passo, em direção a Lungden. A trilha de descida do passo tem muitas pedras soltas e até escadas de pedra. Às 14h21 passei pelo Lago Angladumba Tso que já avistava desde o passo. A partir daí a neblina veio forte e começou a tirar a visão do caminho. Continuei descendo e às 14h57 passei à direita do Lago Relama Tso. Às 15h13 cometi um erro. Numa bifurcação sem placa e em meio à neblina olhei no gps e ele indicou o caminho da direita. A trilha era bem marcada e eu, acreditando que estava no caminho certo, não olhei mais o gps. Atrás de mim vinha um casal russo (Marina e Andrei). Eles confiaram na minha burrada e tomaram a direita também. Depois de descer muito por trilha marcada, começamos a ver que havia alguma coisa errada pois ela estava ficando indefinida, embora houvesse muitos totens (só para nos confundir). Vimos que o erro estava lá atrás e não quisemos subir tudo de novo. A neblina não deixava visualizar se aquele caminho também levaria a Lungden, talvez sim mas por um trajeto muito mais longo e difícil. Eles decidiram sair dessa trilha para a esquerda e caminhar pelas encostas sem trilha até reencontrar o trajeto correto. Dessa vez eu é que fui atrás deles para ver no que ia dar. O caminho foi bem ruim por deslizamentos cheios de pedras soltas e descidas muito íngremes. Conseguimos voltar à rota certa cerca de 800m antes da vila de Lungden, aonde chegamos às 16h51. Marina era quem espiava os lodges e conversava com os donos para decidir em qual ficar. Eles resolveram ficar no Lungden View Lodge e eu também pois o quarto não seria cobrado. Os banheiros desse lodge ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário. Descarga em ambos com caneca. Havia um grupo de franceses sem guia também e conversamos bastante no refeitório esperando pela janta. Perguntei a eles e ao dono do lodge sobre uma trilha alternativa a Lukla que sai de Thame e não passa em Namche Bazar, mas não recomendaram fazê-la porque há bem pouca hospedagem pelo caminho e um dos lodges é muito caro, sem outra opção próxima, segundo disseram. Marina também tinha pego a maldita tosse do Khumbu, como eu. Nós dois fazíamos uma sinfonia de tosses, principalmente à noite com o frio apertando. Altitude em Lungden: 4378m Preço do dal bhat: Rs 550 Preço do veg chowmein: Rs 450 Às 18h15 a temperatura fora do lodge era -3ºC. Stupa e roda mani na entrada da vila de Thameteng 22º DIA - 14/11/18 - de Lungden a Namche Bazar Duração: 6h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 4378m Menor altitude: 3415m Resumo: nesse dia percorri o vale do Rio Bhote Koshi baixando 948m de altitude de Lungden a Namche Bazar A mínima durante a noite dentro do quarto foi -0,3ºC. Às 7h50 da manhã estava 0,4ºC. Em Lungden tive meu primeiro contato maior com o Rio Bhote Koshi já que a vila fica em seu vale, na margem esquerda. Saí do lodge às 8h28 na direção sul percorrendo o restante do vilarejo. Cruzei um riacho congelado pelas pedras e às 9h11 passei pela vila de Maralung. Às 9h22 cruzei uma ponte metálica sobre o Rio Bhote Koshi, passando para sua margem direita. Fui à esquerda na bifurcação ao final da ponte. Ali fui alcançado por Marina e Andrei, que saíram depois de mim. A vila de Maralung continua depois da ponte e a trilha passa a percorrer a encosta da margem direita do Rio Bhote Koshi. Às 10h02 passei pelo povoado de Tarnga e seus inúmeros cercados de pedra. Cruzei às 10h29 a ponte de ferro sobre o Rio Langmuche. Às 10h53 fui à esquerda na bifurcação e logo cruzei um riacho pelas pedras. Cruzei mais dois riachos pelas pedras e no quarto riacho saía uma trilha à esquerda para o povoado de Yila Jung (essa bifurcação, apesar da placa, pode causar dúvida a quem está fazendo o percurso ao contrário). Às 11h20 passei por uma stupa com uma roda mani na entrada da vila de Thameteng. Ao final dessa vila há uma grande stupa à direita e uma infinidade de pedras mani à esquerda. Às 11h45 eu, Marina e Andrei chegamos a um mirante no alto da vila de Thame e resolvemos parar para almoçar. Descemos para procurar um lugar mas o vilarejo parecia fantasma, quase tudo fechado e deserto. Conseguimos almoço num lodge às 12h05. O banheiro desse lodge era diferente, era no estilo oriental mas com descarga. Nesse povoado de Thame, a 3792m, começam a reaparecer timidamente as árvores, mas elas voltam a ser mais frequentes mesmo só abaixo dos 3500m. Ao final do almoço o sol já havia sumido, encoberto pelas nuvens baixas. Saímos às 12h59 na direção sudeste pela encosta da margem esquerda do Rio Thame e descemos até uma ponte de ferro sobre um cânion formado pelo estreitamento do Rio Bhote Koshi. Após a ponte, no paredão rochoso há imagens pintadas de Tara Verde, Guru Rinpoche e Thangtong Gyalpo. Após essa ponte voltamos a caminhar pela encosta da margem esquerda do Rio Bhote Koshi e às 13h46 passamos pela vila de Samde. Na bifurcação ao final da vila fomos à direita, descendo. Às 14h11 alcançamos o monastério de Thamo, com o vilarejo logo abaixo. Bancas de artesanato demonstram que estamos voltando à zona mais "turística" do trekking. Passamos pelo povoado de Theso às 14h43 e cruzamos uma ponte de ferro sobre o Rio Thesebu (3415m, menor altitude do dia). Às 15h passamos pelo vilarejo de Samsing onde há uma imagem do Guru Rinpoche pintada numa grande rocha. A seguir cruzamos um bosque. Às 15h10 passamos pela vila de Phurte e paramos para descanso na stupa logo acima. Entramos na mata de pinheiros e às 15h36 fomos à direita numa bifurcação com placa indicando Khumjung e Khunde à esquerda. Cruzamos a mata e na descida já avistamos Namche Bazar e seu formato de anfiteatro mais abaixo. Passamos pelo monastério e chegamos a Namche às 16h10. Segui o casal russo de novo e fomos para o Family Lodge, que eles já conheciam. Na negociação, o quarto saiu por Rs100 (US$0,87). O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada e lavatório com espelho - muito luxo! O russo de Pangboche estava hospedado ali também com seus amigos. Eu precisava trocar mensagens com o dono da agência que me vendeu a passagem aérea Lukla-Kathmandu para adiantar a data do voo, mas a NCell não estava funcionando. Tive de ir a uma padaria consumir alguma coisa e usar o wifi gratuito. Consegui trocar a data para dia 16, às 9h, um pouco tarde (por causa das nuvens que costumam fechar o aeroporto) mas não havia horário vago mais cedo. Altitude em Namche Bazar: 3430m Preço do dal bhat: Rs 500 Preço do veg chowmein: Rs 500 Ponte Larja, a mais fotografada 23º DIA - 15/11/18 - de Namche Bazar a Lukla Duração: 6h25 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3430m Menor altitude: 2545m Resumo: nesse dia refiz ao contrário o percurso do 7º dia, percorrendo no sentido sul o vale do Rio Dudh Koshi e baixando 586m de altitude de Namche Bazar a Lukla, encerrando assim essa caminhada de 23 dias A mínima durante a noite dentro do quarto foi 2,2ºC. Às 7h30 da manhã estava 2,7ºC. Marina e Andrei resolveram ficar mais um dia em Namche. Saí do lodge às 8h50 na direção sul e parei na entrada de Namche para fotos da bonita stupa. Passei (sem parar) pelo checkpoint às 9h18 e 100m adiante entrei numa trilha à esquerda da principal. Essa trilha corre paralela à principal mas é bem mais estreita e mais vazia. Às 9h34 as duas se fundiram de novo e 240m depois passei pelos banheiros que há ao lado desse caminho. Às 9h58 cheguei à Ponte Larja, sobre o Rio Dudh Koshi. Parei um bom tempo para fotos. Continuei às 10h23 e tomei a direita na primeira bifurcação, descendo por uma trilha mais estreita com escadarias (o caminho em frente também serve mas aparentemente sobe para depois descer tudo de novo). Descendo na trilha à direita cheguei à margem do Rio Dudh Koshi e parei para mais fotos da Ponte Larja. Continuei descendo pela margem esquerda do Rio Dudh Koshi, cruzei a ponte suspensa Tawa sobre ele e passei por Jorsale às 11h19. Já era bem visível como a trilha estava mais vazia em relação ao dia em que passei na ida. Cruzei outra ponte suspensa voltando para a margem esquerda do Rio Dudh Koshi. Subi bastante e às 11h38 passei pela entrada do Parque Nacional Sagarmatha, onde tive de mostrar as permissões para registro da minha saída. Cruzando a vila de Monjo resolvi parar às 11h51 para almoçar no Mountain View Lodge. Atendimento muito simpático. Retomei a caminhada às 12h18 e parei no checkpoint da permissão local para carimbar a saída. Esses dois checkpoints estavam completamente vazios, ao contrário do dia em que passei na ida. Descendo cruzei a ponte de ferro sobre o transparente Rio Monjo e passei às 12h30 pela vila de Chumoa. Às 12h43 cruzei outra ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi e passei pela vila de Benkar. Cruzei a ponte de concreto com a cachoeira dupla à direita. Às 13h22 passei pela cachoeira tripla e 230m à frente cruzei a vila de Toktok. Atravessei uma ponte de concreto sobre o Rio Ghatte (ou Rio Nagbuwa) e passei por Zamphute às 13h37. Cheguei à vila de Phakding e aqui é fácil errar se não estiver atento: deve-se tomar o caminho que sai em 90º à esquerda passando no meio dos lodges, e não seguir em frente (como fizeram Marina e Andrei). Indo à esquerda se cruza mais uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi para em seguida passar pelo "centro" de Phakding. Uns 3 minutos após as últimas casas, deve-se desprezar uma nova ponte suspensa que vai para a direita e seguir em frente. Às 14h24 passei pela vila de Chhuthawa e 290m depois pelo povoado de Ghat (Yulning) com um bonito monastério de paredes vermelhas. Às 14h51 passei por Thadokoshi e cruzei a ponte metálica sobre o Rio Thado Koshi (2545m, menor altitude do dia). Estava difícil ultrapassar um grupo de iaques e aproveitei para parar e descansar um pouco. Às 15h15 passei por uma ponte suspensa sobre um deslizamento enorme. Às 15h46 cruzei uma ponte de concreto e passei pela vila de Cheplung, onde dormi na 6ª noite. Em seguida veio a longa e dura subida até Lukla, aonde cheguei às 16h36 com chuva fina. Cruzei toda a vila e fui diretamente ao aeroporto tentar adiantar o horário do voo do dia seguinte, mas os balcões estavam todos fechados (pura ingenuidade minha, mal sabia eu o caos que enfrentaria no dia seguinte). Voltei ao centro de Lukla e comecei a procurar hospedagem - todos os lodges estavam lotados por causa do mau tempo que obrigava muita gente a esperar o dia seguinte para embarcar. Finalmente consegui um quarto no Monte K2 Lodge por Rs200 (US$1,74). O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental, e não era um primor de limpeza. Altitude em Lukla: 2844m Preço do dal bhat: Rs 650 Preço do veg chowmein: Rs 400 A mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,5ºC. Às 7h15 da manhã estava 7,8ºC. Pista curtinha do aeroporto de Lukla 16/11/18 - tentativa de embarque no voo Lukla-Kathmandu Meu voo estava marcado para 9h. Tomei o café da manhã e cheguei ao aeroporto às 7h50. O saguão do check in parecia o fim do mundo. A multidão se acumulava na frente dos pequenos guichês das companhias aéreas, que são Nepal Airlines, Tara Air (a minha), Sita Air e Summit Air. Porém os guichês não têm funcionário o tempo todo como nos outros aeroportos, eles só vêm quando vai ser aberto o check in do próximo voo, e nessa hora a confusão é total, com a multidão estendendo papéis e celulares mostrando a reserva, na esperança de embarcar no próximo voo pois todos já estão atrasados. O funcionário pega só algumas das reservas dos passageiros desesperados, confere numa listagem (não há computador), manda pesar a bagagem e em seguida desaparece. Mais meia hora ou uma hora ele reaparece e começa toda a balbúrdia de novo. Um espanhol com quem conversei no meio desse caos tinha passagem com a Tara Air também às 9h, como eu. Ele foi chamado, embarcou e eu fiquei. No entanto, duas garotas estavam nesse sufoco de não conseguir embarcar desde o dia anterior às 7h da manhã. Eles não seguem a ordem cronológica das reservas, é tudo aleatório. A cada vinda do funcionário para o guichê o tumulto e a correria se instalavam, isso em todos os guichês pois nas outras companhias era a mesma coisa. Conclusão: não fui chamado para os voos seguintes e por volta de 13h os funcionários não voltaram mais ao guichê, nem para avisar se haveria outros voos ou não naquele dia. Total falta de respeito! A essa altura já tinha feito amizade com algumas outras pessoas na mesma situação que eu. Concluímos que os voos haviam sido cancelados por causa da mudança do tempo. Descobrimos onde era o escritório da Tara Air (dentro do aeroporto mesmo, no corredor à esquerda de quem entra) e fomos confirmar isso e remarcar o voo para o dia seguinte. Voltei ao mesmo lodge, almocei um dal bhat e enrolei a tarde toda. A mínima durante a noite dentro do quarto foi 6,9ºC. Às 7h20 da manhã estava 7,4ºC. Himalaia visto do avião entre Lukla e Kathmandu 17/11/18 - finalmente sucesso no embarque no voo Lukla-Kathmandu Meu voo estava marcado para 9h. Cheguei ao aeroporto às 8h30. Mas nesse dia foi diferente pois na confusão do dia anterior eu e os parceiros na mesma situação aprendemos algumas coisas que vão como dica importante aqui para não passar por tanto sufoco. Pelo menos para a Tara Air isso é válido. Ao chegar ao aeroporto é importante ir ao escritório da companhia e pedir (ou mesmo exigir) que eles informem o número do voo em que está previsto o seu embarque. Não é o número do voo dado na hora da reserva, é um número sequencial que eles criam no dia do embarque. Sim, a coisa é pra lá de confusa! Com esse número na mão não é preciso correr para o guichê e se matar junto com os outros passageiros toda vez que o funcionário aparecer para fazer um check in. Basta perguntar a ele: qual é o número desse voo? Se for o seu, basta entregar a reserva e o passaporte, se não for espere a próxima aparição dele. Isso aprendemos a duras penas! E sempre torcer para as nuvens não chegarem e os voos serem todos cancelados. Nesse dia fiz o check in às 10h e consegui decolar de Lukla às 13h, chegando ao aeroporto de Kathmandu às 13h29. Algumas pessoas no avião estavam passando mal de tão nervosas mas o voo foi ótimo, sem nenhuma turbulência. O que assusta é o tamanho da aeronave, um Dornier 228 de apenas 12 lugares, e a pista curta e inclinada de Lukla que termina num precipício. Um alerta a quem pensa em comprar a passagem Lukla-Kathmandu com a empresa Summit Air: muitos voos dessa empresa não chegam a Kathmandu, embora os passageiros paguem o mesmo valor (ou mais) que os outros que desembarcam em Kathmandu. O avião pousa em algum aeroporto menor no caminho e o restante da viagem é feito de ônibus. Como as estradas no Nepal são péssimas soube de viagens que estavam levando de 4h a 7h!!! Quer dizer, você paga US$179 por uma passagem aérea para viajar 15 minutos num avião e depois 7h num ônibus! Informações adicionais: . Somente essas quatro companhias aéreas fazem o trajeto entre Kathmandu e Lukla: .. Nepal Airlines: www.nepalairlines.com.np (clique em Domestic Flight) .. Tara Air: www.yetiairlines.com .. Sita Air: sitaair.com.np .. Summit Air: www.summitair.com.np . O posto de saúde de Gokyo tem palestras diárias e gratuitas sobre aclimatação e Mal da Montanha às 15h . Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com. Rafael Santiago novembro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  10. Travessia Alto Palácio x Serra dos Alves (3 Dias, 45 km) 22 a 24 Fevereiro 2019 ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL APA MORRO DA PEDREIRA PARQUE NACIONAL DA SERRA DO CIPÓ A travessia tem seu ponto de partida (ou de chegada, dependendo do sentido escolhido para caminhar) junto à Sede do Alto Palácio, no município de Morro do Pilar-Minas Gerais (Lat 19º15’34” S; Long 43º31’52” O). Integrantes *Pedrão do Brasil *Luciano *Mauro *Leila *Daniela *Dianna *Álisson *Vanessa *Talles *Fernando *Camila *Rafael *David *Ana Saída de Vitoria no dia 21 de Fevereiro de 2019. Chega em Belo Horizonte as 15:00 hs. Ida para o Lá em Casa Hostel no Bairro Santa Tereza. Dia 22 inicio da trip. 1º dia Saímos de Belo Horizonte as 05:00 hs numa Van e chegamos em Alto Palácio as 08:00 hs. e fomos direto para o portal de Alto Palácio. Fizemos Chek-in e partimos para iniciar logo a trilha pois não sabíamos o que nos aguardava. Logo atingimos os campos de altitude da trilha. Logo atingimos umas Pedras onde tem umas Pinturas Rupestres Passamos na Cachoeira do Espelho, Travessão, e a partir dai uma subida tensa e frenética, logo a frente uma descida longa e atingimos a Casa de tábua, nosso primeiro Camping, que por sinal foi muito bom Inicio 08:30 hs Término 18:00 hs 18 km. Os Campos Rupestres Grande parte da trilha passa pelos campos rupestres, que são uma das fitofisionomias mais significativas do Parque, correspondendo a 84% do seu território (Mata Atlântica 8%; Cerrado 8%). Sua diversidade é conhecida em todo o mundo, com mais de 1500 espécies de plantas descritas. A necessidade de se assegurar tamanha riqueza foi um dos motivos que levaram à criação do Parque Nacional da Serra do Cipó. Além da riqueza da fauna e da flora existentes nos Campos Rupestres, as formações rochosas e seus arranjos na paisagem são um espetáculo à parte. As rochas, em grande parte formadas por uma matriz de Quartzito. O trecho entre os abrigos (cerca de 12 Km) é o de maior dificuldade do roteiro. Também é o trecho que passa pelas maiores altitudes de toda trilha, cerca de 1660 metros. Dia 23 2º dia. Saída da Casa de tábua as 08:30 hs Percorremos uma subida interminável e atingimos de novo os pampas das Minas Gerais, onde se tem uma visão do Infinito maravilhosa. Inicia-se uma descida a qual se atinge uma baixada exuberante. Cagada a Casa de Currais, local que mais parece um Resort em meio aos pampas e florestas no serrado da serra do cipó Inicio 08:30 Termino as 16:00. 13 km Dia 24 3º dia Saída do Acampamento (Resort) Casa de Currais e encara-se uma subida boa e logo de novo atinge os pampas do serrado. Em seguida inicia se uma descida e logo se avista a Serra dos Alves Descendo mais ainda chega-se no mirante do Vale da Serra dos Alves. Logo se chega em meio a uma construção que foi abandonada após criação do Parque. Logos abaixo segue por uma Trilha a Direita e chega na Cachoeira da Luci, que por sinal é muito bonita. Nos banhamos e partimos para a Cachoeira dos Cristais, para mim a mais bonita de toda Trilha. Nos banhamos e partimos para a tão chegada ao Povoado da Serra dos Alves. A descida é bem Ingreme e logo abaixo da para se ver a Antiga Pousada da Luci. Continuamos descendo agora em uma estrada de terra batida até atingir o rio e Transpor a Ponte Móvel, onde algumas pessoas arregraram e forma por dentro do rio com medo. Kkkkk. Cânion Boca da Serra onde fica inserido as cachoeiras do final da trilha Inicio 09:00 hs Termino as 16:30 hs. 14 km “As travessias são uma das mais claras vocações do Parque Nacional da Serra do Cipó, já praticadas muito antes da criação do Parque, sendo, na realidade, uma das práticas que levou à sua criação. “ FAÇA A SUA RESERVA Procedimentos para solicitar a reserva e obter a autorização para a travessia IMPORTANTE: as vagas para a Travessia são limitadas a 30 pessoas por roteiro por dia. 1-Entre em contato com o Parque Parque Nacional da Serra do Cipó Rodovia MG 010, Km 97, Distrito da Serra do Cipó Santana do Riacho-Minas Gerais CEP 35847-000 [email protected] 20190224_140147.mp4 20190224_121626.mp4
  11. Em Agosto de 2018 fiz Calão/Lima -> Huaraz -> Lima -> Nazca -> Ica/Paracas -> Cusco + Vale Sagrado + Machu Picchu/Haynapicchu -> Arequipa + El Misti + Canon del Colca e pretendia fazer uma relato, mas pós retorno estava morto e do que pretendia fazer hoje ficaria bastante impreciso, o que não me agradaria. Então guardei os mapas pra dar a um priminho e hoje joguei tudo que é quanto nota fora e resolvi tratar somente do Vulcão El Misty, para quem possa interessar. Obs: adianto que não tô querendo fazer propaganda (+ ou -) de nada, mas tentando facilitar a vida de quem possa estar interessado em fazer esse rolê. No Brasil contratamos o passeio via Denomades, o processo foi bem simples, respondem bem e contratamos outros serviços com eles, mas nesse caso em específico foi um pouco frustrante. Pois na verdade eles intermedeiam a compra de serviço de outra agência local, que nesse caso, ainda comprou o serviço de uma terceira. Essa "segunda" foi um desastre. Nos informaram horário errado, não manjavam nada de rolê de montanha. Enviei informações prévias sobre condições físicas e de saúde e pedindo maiores informações para o preparo e "cagaram" pra isso. Ainda bem que não eram eles que prestavam o serviço e sim a WaikyAdventours. E esses sim são muito responsáveis e prestativos. Sem pesquisar bem, não tinha muito como prever, mas se tivesse como tinha contratado diretamente com eles, barateado o passeio e não tinha me estressado com a "terceirizadora" hehe. É possível de se chegar ao cume, mas é importante estar acostumado a fazer caminhadas grandes e estar aclimatado. Quando fomos iniciar esse passei já estávamos a 20 dias no Peru, subindo e descendo montanha e laguna. Quatro franceses jovens que estavam no grupo do Misti, estavam há apenas 4 dias na região e ao chegar o acampamento base a aproximadamente 4800m já estavam passando mal. Dia -1. Após os estresses com a "terceirizadora" fomos levados ao Waiki, que nos orientaram que tipo de comida levar, quantidade de água e roupas que deveriamos utilizaram. Alugamos lanternas de cabeça e descobrimos que nossas luvas eram limitadas - eles nos emprestaram luvas deles. Dia 1 - Após nos buscarem próximo ao nosso alojamento, checaram nossas mochilas e nos emprestaram jaquetas mais adequadas, pois nossos anoraks eram pra "mata atlântica", eram bons corta ventos impermeáveis, mas não nos protegeriam do frios - se tivéssemos idos com eles, teríamos nos dado mal. Foi bem importante checarem nossa bagagem, nos permitiu reduzir a quantidade de roupas que levaríamos não só para uma quantidade mais adequada, mas num "esquema de camadas" mais adequado ao frio que enfrentaríamos. Saindo da agência, passamos no mercado para que os demais integrantes da "trupe" (4 franceses jovens , um mais velho, um canadense, eu e minha companheira de brasileiros e os dois guias peruanos) pudessem pegar água e comida. Ao acabar o asfalto pega-se uma estrada de chão até uma "fazenda" com posto de controle, onde está o Misti. O trajeto de carro até o inicio da trilha é bem acidentado, em terreno bastante arenoso, segure-se pra não sair quicando de dentro da pick-up. Iniciamos por volta das 12h e chegamos ao acampamento base (4800m de altitude) por volta de 16h30min. Nunca caminhei tão devagar, mas descobriria no dia seguinte que esse é meu passo favorito, além de necessário para alcançar altitudes maiores com esse corpo normalmente acostumado aos 700m hehe. Nosso grupo teve "sorte", pois não precisamos carregar as barracas, sacos e isolantes, pois o grupo anterior largou no acampamento base para nós, ou seja, só foi preciso trazer de volta e tal como no Brasil, pra descer todo santo ajuda. Os guias Brendesi e Edgar, esquentaram um arroz que trouxeram cozido, fizeram a melhor "hamburguesa" de altitude que ja pude provar, além de uma sopinha da hora. Um chazinho, pra dormir bem e as 17h30/18h já estávamos dormindo (ou tentando) em nossas barracas. Deveríamos acordar a 0h para iniciar a trilha rumo ao cume. Meu maior medo era não conseguir dormir cedo, ficar cansado e não chegar ao cume por isso. Por do Sol. Apesar do frio dormi super bem, sempre tentando colar em minha companheira e não encostar nas paredes geladas (e em alguns pontos congeladas) da barraca. Dia 2 A 0h os meninos nos chamaram, tomamos um chá de coca e comemos um pão e partimos por volta das 0h30min (tentei e tentamos levar o mínimo possível pra focar em carregar meu corpo). Levei uma coca cola lata, que era para estar quente, um litro de água, um litro de chá de coca, balas de coca, umas bolachas recheadas - enfim, priorizei açúcar e depois descobri que ainda assim levei mais líquido do que precisava hehe). De saída um dos franceses já ficou no campo base, pois estava passando mal. Depois de algum tempo de caminhada, os outros franceses jovens desistiram, pois também começaram a passar mal. Um dos guias voltou com eles para o campo base. Seguimos eu, minha companheira, um australiano jovem, um guia, e o francês mais velho, que estava com dores no joelho, uma tosse horrível, tomava uns golês e fumava... e que aparentava ser o primeiro que desistiria, Estávamos caminhando num breu, que era amenizado pela luz da lua, mas que não ajudava a atenuar o frio. Ao chegar em 5500m minha companheira informou ao guia que precisava voltar, pois não estava aguentando de frio e não conseguia seguir no nosso ritmo de tartaruga. O guia questionou se mais alguém queria "bajar", pois dali em diante "teríamos que ir até o fim". Nosso amigo francês estava com o joelho doendo e com frio, mas apostava na chegada do sol, por fim decidiu ficar. O guia pediu que esperássemos, pois a levaria até um ponto um pouco mais abaixo, para que ela fosse sozinha até o campo base. Ela tinha como referência a lanterna do outro guia que estava no campo base, que parecia estar perto, mas estava longe pacas. Ele pediu que ela fosse caminhando/deslizando pelas pedras até ver a primeira moita (juro que foi essa orientação) e que lá chegando ela pegasse a esquerda sentido a lanterna. Nisso ele voltou até onde estávamos, e apesar do pouco tempo de espera parecia que tinha nos abandonado hehe. O Piere, ficava perguntando de minuto em minuto se ele voltaria, pois estava bem frio pra ficar parado. Enquanto seguimos subindo, minha companheira foi caminhando no breu em busca da moita. De pois de vários tombos e pacotes, achou a moita e ficou trocando ideia, aprendendo sobre constelações, vendo o nascer do sol e pensando nos significados e no respeitar seus próprios limites. Como "único sulamericano" (excetuando o guia) da competição imaginária que criei em minha cabeça assumi a dianteira junto ao guia, para chegar na frente dos representantes da França e Austrália. Isso até perto de onde achava ser o cume... quando avistei o verdadeiro cume, me contentei em ser o ultimo dos "competidores" e pedi que os meninos me passassem. O guia e o francês que iria desistir primeiro hehe sumiram na minha frente, e por longo tempo fui caminhando com Cameron, o australiano que só falava inglês. Meu inglês é bem limitado e só serviu pra eu ficar alimentando meu parceiro perguntando "Do you like ... (coke, tea, bread, biscoito hehe). Em dado momento eu parei pra descansar e ele foi embora um pouco mais a frente. Acabei por chegar , acredito que 1h depois do Piere, e uns 30min depois do Cameron. E acredito que só cheguei por uma brincadeira que consistia em respirar, dar 10 passos e repetir isso até o cume. Foi muito bacana reencontrar os 3, olhar as fumarolas, tomar uma coca trincando a temperatura "ambiente" (a temperatura ambiente estava proximo a -18ºc) e ficar pensando sobre os Quechuas que subiram aqueles "Apos" para fazer suas oferendas sem jaquetas ou sapatos especiais, sobre os significados das colônias, sobre a violência das mineradoras que ainda existem com as comunidades campesinas, sobre os impactos do turismo, sobre como gostaria como uma pá de gente tivesse condições (econômicas, de tempo e saúde para estar ali), como foi legal compartilhar esse rolê com aquele grupo, nos proximos vulcões, enfim, uma infinidade de coisas passaram na cabeça. Cratera do Misti (5822m) com o PIchu PIchu ao fundo. Descer foi "moleza", com alguns pacotes no "esqui" nas pedras/areias, mas bem divertido. Ir até o acampamento base, encontrar o restante do grupo, dividir sentimentos, catar os equipamentos e descer rumo a pick-up. Outras considerações: a) Os guias eram muito gente finas; b) Se aclimate para não sofrer no rolê, além de estar subindo descendo e subindo, estávamos tomando chá de coca a vários dias, e tomavamos quase todas as manhãs "profilaticamente", além de eventualmente tomar Sorochi Pill (medicamento industrializado a base de AAS) profilaticamente e Ibuprofeno, quando tivemos dor de cabeça. c) O bloqueador solar congelou na mochila no acampamento base, então conversa bem com os guias pra se proteger bem do frio. d) Como em qualquer trilha, traga seus lixos para a cidade e peça as devidas orientações para usar o "banheiro" na montanha/vulcão. No mais bons passeios e caso possa ser útil estou à disposição. Abaixo uma foto da cidade, salvo engano com a fumarola do Sabancaya ao longe.
  12. Everest e Nuptse vistos do Kala Pattar Início: Namche Bazar Final: Pheriche Duração: 9 dias Maior altitude: 5643m no cume do Kala Pattar Menor altitude: 3313m na vila de Phunki Thenga Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de 600m a 800m diários, sempre acima dos 3300m, o que exige aclimatação. O Passo Kongma La, de 5530m, impõe uma dificuldade a mais. Permissões: entrada do Parque Nacional Sagarmatha (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$17,36). Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. O trekking Namche Bazar-Campo Base do Everest é a segunda parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A primeira parte está descrita aqui e a terceira parte está descrita aqui . Como esta etapa do trekking ocorre acima dos 3000m de altitude, foi preciso dedicar alguns dias às caminhadas de aclimatação. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia". Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são: . Namche Bazar: NCell . Pangboche: NCell (somente em alguns lugares da vila) . Dingboche: só Everest Link . Chukhung: só Everest Link . Pheriche: só Everest Link . Lobuche: só Everest Link . Gorak Shep: Everest Link, NCell muito instável O cartão pré-pago de wifi Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não o testei porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Mirante próximo ao Hotel Everest View (da esq para a dir): Cholatse, Taboche, Nuptse (20º mais alto do mundo), Everest, Lhotse (4º mais alto do mundo), Lhotse Shar e o magnífico Ama Dablam 8º DIA - 31/10/18 - de Namche Bazar a Khumjung e Khunde (aclimatação) Duração: 5h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 4050m Menor altitude: 3430m Resumo: como havia ultrapassado os 3000m de altitude, segui a recomendação de fazer caminhadas de aclimatação a partir de Namche Bazar. Nesse dia subi até o Hotel Everest View para fotos do Everest e outras montanhas em 360º, depois percorri as vilas de Khumjung e Khunde, e ainda subi ao mirante Gong Ri View Point (ou Hillary Memorial View Point). Voltei para dormir novamente em Namche. Saí do lodge às 7h03 e subi pela escadaria central da vila, passando à direita do Khumbu Resort. Mais acima a escada de pedra termina, o caminho quebra para a direita e se transforma numa ladeira com degraus espaçados. Na bifurcação sem placa fui à esquerda subindo. Mais acima fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Tyangbuche à esquerda e hotéis (e um museu) à direita. Cerca de 90m acima fui à esquerda na placa apontando Khumjung Khunde à esquerda e Tengboche Gokyo à direita (meu destino no dia seguinte). A subida continua por trilha estreita e em zigue-zague. Segui pela trilha principal até um hotel no alto, o Everest Sherpa Resort. Contornei-o pela direita e subi a um morrote às 7h59. Ali está a primeira visão do Everest para quem inicia a caminhada em Lukla (para mim a primeira visão do Everest foi em Phurtyang, no 4º dia de caminhada). Desse mirante se avistam muitas outras montanhas. Na sequência da esquerda para a direita a nordeste estão: Cholatse, Taboche, Nuptse (20º mais alto do mundo), Everest, Lhotse (4º mais alto do mundo), Lhotse Shar e o magnífico Ama Dablam. A leste estão o Kangtega e o Thamserku, a sudeste o Kusumkangaru (Kusum Kanguru) e ao norte o Khumbila. Dali poderia seguir pela trilha mais batida mas o Christopher (o austríaco) me sugeriu subir um pouco mais e caminhar por uma crista que dava visão para o outro lado, para a vila de Khumjung aos pés do Pico Khumbila. E foi o que fiz, saindo às 8h27. A trilha é estreita e pouco usada, mas se funde à principal ao descer da crista. Com mais 300m já estava no Hotel Everest View, às 9h05. Não se deve entrar no hotel pela escadaria (como eu fiz) para tentar acessar a frente dele e ter a melhor visão das montanhas, mas sim subir à sua direita até algumas antenas, onde a panorâmica de 360º é bastante parecida com a do mirante anterior. Porém a vista na direção do Everest é mais desimpedida e pode-se enxergar a vila de Phortse, por onde eu passaria no 17º dia, e a vila de Tengboche na crista de uma serrinha a 4,5km dali, com o caminho subindo até ela (passaria por ela no dia seguinte). Desse mirante das antenas, a 3886m de altitude, se avista também a Ponte Larja, a ponte dupla por onde havia passado no dia anterior. Parei para contemplar a paisagem mas quando começou a encher muito e ficar muito ruidoso o lugar, saí em direção a Khumjung, às 10h33. Os pousos e decolagens de helicópteros de voos panorâmicos ali são constantes (ou serão hóspedes vip chegando e saindo do hotel?). Caminhei de volta ao hotel, desci a escadaria por onde cheguei e entrei na trilha sinalizada com "way to Khumjung" à direita. A trilha atravessa uma pequena mata e na descida para Khumjung desviei à direita até uma stupa para mais fotos. Essa stupa tem uma placa de dedicatória a sir Edmund Hillary, primeiro homem (junto com Tenzing Norgay) a atingir o cume do Everest, em 1953, e que dedicou sua vida a ajudar o povo sherpa através da organização Himalayan Trust, que ele fundou em 1960. Retomei a trilha principal mais abaixo e desci à vila de Khumjung. Atravessei-a toda e ao chegar a uma praça central com mais stupas entrei à direita seguindo a placa "Khumjung Gomba". Segui pelos caminhos cercados por muros de pedras e alcancei a gomba (monastério) Samten Choling às 11h46. Tirei fotos externas apenas pois havia uma taxa para entrar e eu já havia entrado em vários monastérios budistas. Havia duas rodas mani enormes ao lado. Sentei por ali para comer alguma coisa que trazia de lanche e às 12h02 me encaminhei à vila de Khunde. Voltei apenas 70m pelo mesmo caminho e na primeira bifurcação entrei à direita seguindo a placa. Esse é um caminho secundário de ligação entre as duas vilas, o caminho principal sai da praça central das stupas. Alcancei a vila de Khunde às 12h23 e passei perto do Hospital Hillary, o único hospital do Khumbu (não espere um grande hospital, por fora parece mais um posto de saúde). Avistei o monastério de Khunde no alto, entre as árvores de uma colina, e fui na sua direção. Ao chegar ao pé da colina havia uma placa: Khunde Gomba (monastério) à direita e Gong Ri View Point à esquerda. Fui primeiro ao monastério e é linda a vista das duas vilas com seus telhados verdes e extensos muros de pedras contra as montanhas nevadas ao fundo. Desci de volta à placa e às 12h47 segui à direita para conhecer o Gong Ri View Point (ou Hillary Memorial View Point). Subi dos 3886m dessa placa até os 4050m do mirante em 24 minutos. Ao atingir a crista fui para a esquerda na bifurcação e cheguei a um mirante murado com vista para Namche Bazar bem abaixo, as vilas de Khunde e Khumjung a nordeste e o vale do Rio Bhote Koshi a oeste. As nuvens da tarde já estavam atrapalhando um pouco a visão das montanhas mais distantes, mas ainda estavam visíveis o Khumbila ao norte, o Ama Dablam a nordeste, o Kangtega e o Thamserku a leste, o Kusumkangaru (Kusum Kanguru) a sudeste. O Everest seria visível desse mirante também, não fossem as nuvens. Depois voltei à bifurcação e fui para o lado oposto, onde estão as três stupas brancas de pedra em homenagem a Sir Edmund Hillary, sua primeira esposa Louise e a filha do casal Belinda, ambas falecidas num acidente aéreo em Kathmandu em 1975. Ele faleceu em 2008 em Auckland, Nova Zelândia, sua cidade natal. O local para prestar essa homenagem a Edmund Hillary e família não poderia ser mais espetacular. Iniciei a descida de volta pelo mesmo caminho às 14h06 e em 17 minutos estava na placa próxima ao monastério. Dali voltei mais 130m pelo caminho da chegada e fui à direita na primeira bifurcação, depois caminhei na direção do portal da vila, ao sul. Na saída passei por uma grande stupa em reforma, atravessei o portal budista às 14h41, subi uma escadaria de pedras e iniciei a descida de volta a Namche Bazar. Às 15h06 entroncou à esquerda o caminho largo que vem da praça central de Khumjung. Passei pelo vilarejo de Syangboche (com uma pista de pouso de terra) e às 15h13 fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Thame e Thamo à direita. Às 15h28 tive uma bonita visão de Namche Bazar do alto, em forma de anfiteatro. Desci mais, passei pelo monastério (gompa) de Namche e às 15h49 estava de volta à vila. Tratei logo de encontrar outro lodge para ficar já que fui "expulso" do Shangri La esta manhã. Procurei algum outro em que o quarto saísse de graça também, mas não encontrei. Resolvi ficar no Valley View Lodge por Rs100 (US$0,87) o quarto. O banheiro ficava dentro do lodge e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Para escovar os dentes havia um lavatório no corredor. Saí para conhecer mais de Namche e comprar algumas coisas. Comprei por Rs1000 (US$8,68) um par de microspikes (pequenos crampons) para ter mais segurança na passagem pela geleira do Passo Cho La, no caminho entre o EBC (Campo Base do Everest) e Gokyo. Numa padaria tomei um chá de gengibre (Rs 150 = US$1,30) enquanto esperava recarregar o celular (de graça para quem consome alguma coisa). De volta ao lodge tomei um delicioso banho quente na ducha aquecida a gás por Rs300 (US$2,60). No refeitório fiz amizade com um francês e uma americana que falava um pouco de português por ter amigos no Brasil. Ambos muito simpáticos. Ao contrário do Lodge Shangri La, este tem mais trilheiros independentes e é mais fácil fazer amizade. A comida e o banho são mais baratos também. Continuo na minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte. Altitude em Namche Bazar: 3430m Preço do dal bhat: Rs 490 Preço do veg chowmein: Rs 450 Monastério de Tengboche 9º DIA - 01/11/18 - de Namche Bazar a Pangboche Duração: 5h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3943m Menor altitude: 3313m Resumo: nesse dia percorri a vertente da margem oeste do Rio Dudh Koshi, cruzei esse rio para subir a Tengboche e em seguida passei a caminhar pelo vale do Rio Imja até a vila de Pangboche. Saí do lodge às 7h25 pelo mesmo caminho do dia anterior subindo a escadaria central e indo à esquerda na placa Tyangbuche, porém logo acima fui à direita na placa Tengboche Gokyo. Logo encontrei com grupos e mais grupos indo na mesma direção. O caminho pela encosta da margem oeste do Rio Dudh Koshi é bem largo para comportar tanta gente. O Rio Dudh Koshi é um dos principais rios da região. Venho acompanhando seu curso desde o 5º dia de caminhada, vou segui-lo nesse dia até o povoado de Phunki Thenga e depois no trajeto de Phortse a Gokyo, onde estão suas nascentes. Já era possível avistar a vila de Tengboche 4km à frente (em linha reta). Às 8h53 passei pelos lodges de Kyangjuma. Às 9h duas trilhas saem para a esquerda, mas em direções opostas. A da frente (nordeste) vai para Gokyo, subindo. A de trás (sudoeste) vai para Khumjung, também subindo. Eu fui em frente à direita, seguindo a placa de Tengboche. Às 9h04 passei pela vila de Sanasa e às 9h25 pelo povoado de Tashinga (Lawishasa, Laushasa). Às 9h50, ao cruzar a ponte suspensa após a vila de Phunki Thenga (Fungithang, Phungitanga), encontrei quem voltando? o Christopher, o austríaco ligeirinho. Porém não estava bem, seu joelho inchou e ele não podia seguir mais. Contratou um carregador para a sua mochila e ia voltar para casa. Uma pena... um amigo a menos para encontrar e reencontrar no caminho para o Everest. Atravessei a ponte (sobre o Rio Dudh Koshi) e tive uma surpresa não muito agradável: uma guarita ao lado da trilha onde se devia pagar a hospedagem nas próximas vilas (Tyangboche, Debuche e Pangboche) e no valor padrão de Rs500 (US$4,34). Ou seja, foi por água abaixo a negociação do quarto de graça se as refeições fossem feitas no próprio lodge, como tinha sido de Shivalaya até aqui (e foi no Langtang também). Após a ponte há mais lodges e restaurantes da vila de Phunki Thenga (Fungithang, Phungitanga). A altitude é a mais baixa do dia: 3313m. Parei ali na chautara (descanso dos carregadores) às 10h03 para comer alguma coisa que trazia na mochila. Ao sair sou logo parado no checkpoint na saída da vila para mostrar as permissões pagas em Monjo (permissão local e entrada do Parque Nacional Sagarmatha). Ali começa uma longa subida em direção a Tengboche, em parte à sombra da mata de rododendros e pinheiros. Às 10h23 desprezei uma trilha subindo à esquerda e continuei em frente, mas parece que as duas trilhas se encontram mais acima. Nos trechos fora da mata era possível ter uma bonita visão dos picos Kangtega e Thamserku a sudeste. Alcancei Tengboche às 11h35 depois de um desnível de 533m desde a ponte do Rio Dudh Koshi. Ali visitei o maior monastério do Khumbu, caprichosamente decorado desde seu belo portal. Da grande praça central de Tengboche se avistam Ama Dablam, Khumbila, Taboche, entre muitos outros picos nevados. Também seria possível ver o Everest se as nuvens já não o tivessem encoberto. Parei para almoçar um veg fried rice e às 12h51 prossegui descendo pela mata de pinheiros e rododendros. Passei pela vila de Debuche às 13h05 (não visitei o convento) e Milinggo às 13h25. Às 13h37 cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Imja e continuei acompanhando esse rio subindo pela margem direita verdadeira. O Rio Imja será meu companheiro pelos próximos dias. Após um portal budista (kani), fui à direita na bifurcação descendo (a esquerda leva à parte alta de Pangboche, onde está o monastério). Alcancei Pangboche às 14h18 e me instalei no Himalayan Lodge. Entreguei uma via do recibo de pagamento do quarto. O banheiro ficava dentro da casa, tinha vaso sanitário mas a descarga era com balde. Havia uma pia no corredor para escovar os dentes e se lavar. Tentei sinal da NCell e consegui apenas um sinal fraco perto da Hermann Bakery. Mais tarde no refeitório conheci um casal muito simpático que seria minha companhia por muitos dias ainda: Lando e Rosanne, holandeses. Na chegada a Pangboche à tarde havia conhecido três amigos russos muito legais também (e com um deles eu cruzaria várias vezes ainda). Altitude em Pangboche: 3943m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 450 Campo Base do Ama Dablam 10º DIA - 02/11/18 - de Pangboche a Dingboche Duração (descontadas as paradas): 2h (subida ao Campo Base do Ama Dablam), 1h20 (descida do Campo Base do Ama Dablam), 2h (de Pangboche a Dingboche) Maior altitude: 4596m no Campo Base do Ama Dablam Menor altitude: 3910m na ponte do Rio Imja Resumo: de manhã fiz uma espetacular caminhada de aclimatação até o Campo Base do Ama Dablam com um desnível de 680m de altitude e à tarde segui pelo vale do Rio Imja até Dingboche A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,2ºC. Saí do lodge às 6h52 na direção nordeste, cruzei uma ponte metálica, subi as escadarias e na trifurcação seguinte desci em frente junto ao muro de pedra de um lodge. Cruzei a ponte de ferro sobre o Rio Imja às 7h16 e comecei a longa subida em direção ao Campo Base do Ama Dablam. O caminho é bem marcado e fácil de navegar, sempre subindo em direção às duas incríveis montanhas que formam o Ama Dablam. Parei muitas vezes para fotos e para curtir o incrível visual das montanhas ao redor (antes que as nuvens chegassem): Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche a noroeste; Khangri Shar e Pumori ao norte; Nuptse, Everest, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste. A nordeste também se viam a vila de Dingboche e a subida para o mirante Nangkartshang. Cheguei ao campo base às 9h33. Altitude de 4596m. No caminho o casal holandês (Lando e Rosanne) havia me alcançado e ficamos um bom tempo ali curtindo o lugar. Foi a primeira vez que pisei num campo base com as barracas das expedições ali montadas, é muito bonito de se ver. Escaladores esperando o melhor tempo para subir e outros já se preparando para ir embora. Uns brincando de boulder, outros simplesmente tomando sol. Entre tantos escaladores encontrei dois brasileiros, ele de Campinas e ela de São Paulo. Conversando com eles e com outros por ali me contaram que apesar do dia lindo e sem nuvens os ventos no alto da montanha estavam muito fortes para tentar uma escalada. Dali se destacam na paisagem, além do próprio Ama Dablam a leste, o Kangtega ao sul, o Khumbila a oeste e o Taboche a noroeste. Às 11h22 iniciei o retorno pelo mesmo caminho porém ao cruzar a ponte sobre o Rio Imja tomei a trilha à esquerda que subiu e terminou na escadaria de pedra próxima à ponte metálica. Na ida não percebi que havia uma trilha ali saindo à direita no meio da escadaria. Às 12h43 estava de volta ao lodge para almoçar e pegar minha mochila. As nuvens chegaram por volta de 13h e até o fim do dia a neblina tomaria conta de tudo. Nessa altitude é bastante comum isso, sol e céu limpo de manhã, muitas nuvens e até neblina à tarde. Por isso é bom sair para caminhar e fotografar as montanhas bem cedo. Às 13h19 saí do lodge em direção a Dingboche. O caminho é o mesmo pela ponte metálica e a escadaria na direção nordeste porém na trifurcação toma-se a esquerda para percorrer a trilha na encosta da margem oeste do Rio Imja. Subindo passei pela vila de Somare às 14h e ali já fui parado numa guarita para pagar a hospedagem da próxima vila. De novo foram Rs500 (US$4,34) e a impossibilidade de negociar o valor do quarto diretamente com o dono/dona do lodge. Acredito que em breve toda a região do Khumbu (de Namche Bazar para o norte) deverá estar usando esse sistema de pagamento. A partir desse povoado, a 4056m de altitude, as árvores desaparecem e fica só a vegetação rasteira. Com a ausência de lenha os moradores passam a recolher, secar e estocar esterco de iaque para usar nos aquecedores. Às 14h34 cheguei a uma bifurcação bastante importante porém sem nenhuma placa. É pra isso que a gente paga Rs 3000 (US$ 26,04) de ingresso... para caminhar num parque sem sinalização. À direita é o caminho que leva a Dingboche e Chukhung, mais utilizado pelos trilheiros que vão fazer o trekking dos 3 Passos; à esquerda o início da subida para Pheriche e Lobuche para quem vai diretamente ao EBC. Meu caminho seria para a direita. Ali eu estava a 4172m de altitude e havia já um trilheiro vomitando muito e outro andando feito um zumbi apesar da mochila pequena. Consequências da falta de aclimatação! Desci até a ponte de ferro sobre o Rio Khumbu (ou Rio Lobuche), afluente do Rio Imja, e a cruzei às 14h45. Dali encarei a subida final pela encosta da margem oeste do Rio Imja até Dingboche, aonde cheguei às 15h17 com neblina. Como já havia pago a hospedagem podia escolher o lodge que quisesse, somente prestando atenção aos preços do menu. Escolhi o Moon Light Lodge e o atendimento era razoável (podia ser bem melhor). Um aviso no quarto alertava para fazer as refeições ali mesmo, caso contrário o quarto custaria Rs1000 (US$8,68). O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental, uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor e sobre ela um tambor com torneira (e uma água bastante suspeita). Altitude em Dingboche: 4294m Preço do dal bhat: Rs 550 Preço do veg chowmein: Rs 500 Pico Taboche (dir) visto da montanha Nangkartshang 11º DIA - 03/11/18 - de Dingboche a Chukhung Duração (descontadas as paradas): 2h (subida ao Nangkartshang), 1h25 (descida do Nangkartshang), 2h (de Dingboche a Chukhung) Maior altitude: 5076m no Nangkartshang Menor altitude: 4294m Resumo: de manhã fiz uma bonita caminhada de aclimatação subindo a montanha Nangkartshang com um desnível de 780m de altitude e à tarde subi à vila de Chukhung pelo vale do Rio Imja A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,2ºC. Às 5h50 da manhã estava 5,3ºC. De manhã com o céu limpo é que pude ver as montanhas ao redor de Dingboche: Lhotse, Lhotse Shar e Island Peak (Imja Tse) a nordeste, Ama Dablam a sudeste, Kangtega e Thamserku ao sul, Taboche e Cholatse a oeste. Depois de tomar o café servido com o maior mau humor por causa do horário (6h) saí do lodge às 6h42. Voltei 120m na direção da entrada da vila e peguei a trilha à direita que leva a uma stupa, logo iniciando a subida à montanha Nangkartshang. Inicialmente aparecem várias trilhas pois é possível começar essa subida pela outra extremidade da vila (ao norte), mas é só subir e subir que não há erro. Alcancei o cume, de 5076m, às 9h09 e só havia mais uma pessoa, um australiano. Logo começaram a chegar mais montanhistas e bem depois apareceram Lando e Rosanne, que haviam dormido esta noite em Pangboche. Do cume se avistam: Taboche e Cholatse e o Lago Chola Tsho (Cholatse Tsho) a oeste; Cho Oyu (6º mais alto do mundo) a noroeste; Island Peak e Makalu (5º mais alto) a leste; Ama Dablam a sudeste; Kyashar, Kangtega e Thamserku ao sul; Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste. Logo abaixo a sudoeste estão as vilas de Pheriche e Dingboche. Iniciei a descida às 11h09 e às 12h38 já estava de volta ao lodge para almoçar e pegar a mochila. Parti às 13h19 em direção a Chukhung ainda pela margem direita verdadeira do Rio Imja. Passei por 4 pontos de água limpa, mas que ainda assim deve ser tratada (mais detalhes no "Pequeno guia"). Parei nesse trecho por 19 minutos para um lanche. Por volta de 15h o Rio Imja se afasta para leste e eu passo a acompanhar um afluente seu que tem origem no Glaciar Lhotse. Após cruzar duas pontes, uma de troncos e outra de madeira com gelo nas laterais do rio, cheguei às 15h39 a Chukhung. Na entrada da vila passei por uma barraca de camping montada onde seria feito o pagamento do quarto, como nas duas vilas anteriores, mas estava com o zíper fechado e não havia ninguém. Percorri todos os 5 ou 6 lodges da vila e resolvi ficar num grande desta vez para ver como é. Escolhi o Chukhung Resort, o maior de todos. Os banheiros ficavam dentro do lodge, todos no estilo oriental. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada, mas eu preferia escovar os dentes com a água que eu pedia na cozinha. A cobrança das Rs500 (US$4,34) do quarto foi feita na hora da janta por uma pessoa da comunidade, não do lodge. Altitude em Chukhung: 4720m Preço do dal bhat: Rs 595 Preço do veg chowmein: Rs 595 Campo Base do Island Peak 12º DIA - 04/11/18 - de Chukhung ao Campo Base do Island Peak (aclimatação) Duração: 2h40 na ida e 2h25 na volta (descontadas as paradas) Maior altitude: 5105m Menor altitude: 4720m Resumo: nesse dia fiz uma caminhada de aclimatação subindo ao Campo Base do Island Peak (Imja Tse) com um desnível de 385m de altitude. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,1ºC. Às 6h25 da manhã estava -0,4ºC. As montanhas que se vê da vila de Chukhung: Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche a oeste; Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste; Ama Dablam ao sul. Saí do lodge às 6h57 tomando uma trilha na direção sudeste que em 4 minutos me levou a cruzar um riacho por uma ponte de madeira. Subi e passei a caminhar pela crista da moraina lateral sul do Glaciar Lhotse, mas não uma geleira branquinha de gelo puro e sim um vale cinzento coberto de pedras. Mais à frente, já na direção leste, desço pela vertente da moraina e reencontro o vale do Rio Imja, que acompanho de perto até uma bifurcação com placa, às 9h13. À direita o Passo Amphu Laptsa e à esquerda o Island Peak, para onde segui. O Lhotse, 4ª montanha mais alta do mundo, me acompanha o tempo todo, à minha esquerda. Numa curva para a direita já avisto as barracas do campo base, 1,6km distante ainda. Agora à minha esquerda deixo de ter o Glaciar Lhotse e passo a ter a encosta do Island Peak (Imja Tse). Alcancei o primeiro acampamento às 10h30. Demorei assim porque parei muitas vezes para fotos. O segundo acampamento estava 340m à frente, com altitude de 5105m. Ainda caminhei mais 300m para fotos do incrível Lago Imja Tsho, formado pela fusão de vários glaciares e que dá origem ao Rio Imja. A água não é tão bonita por ser leitosa e não cristalina, mas o lugar todo é impressionante pela grandiosidade. A montanha que se ergue ao norte é o próprio Island Peak (Imja Tse), os campos base estão exatamente aos seus pés. Parei para comer alguma coisa e ver o movimento de escaladores e carregadores chegando e saindo. Iniciei o retorno às 13h18 pelo mesmo caminho. Como sempre as nuvens vieram à tarde e nesse dia se formou de novo uma forte neblina. Cheguei ao lodge às 16h07. Cume do Chukhung Ri com o Cho Oyu (6º mais alto do mundo) à esquerda e Nuptse à direita 13º DIA - 05/11/18 - de Chukhung ao Pico Chukhung Ri (aclimatação) Duração: 2h20 para subir e 1h25 para descer (descontadas as paradas) Maior altitude: 5558m Menor altitude: 4720m Resumo: nesse dia fiz uma caminhada de aclimatação subindo a montanha Chukhung Ri com um desnível de 840m de altitude. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -3,4ºC. Às 7h10 da manhã estava -1,9ºC. Havia gelo no vidro da janela, coloquei o termômetro lá fora e estava -6,4ºC às 7h25, pouco antes de eu sair para a caminhada do dia. Não dormi quase nada essa noite... insônia é um dos sintomas do Mal da Montanha (AMS, em inglês). Saí do lodge às 7h44, atravessei toda a vila e continuei pela trilha na direção nordeste. Cruzei uma ponte de madeira e comecei a subir a vertente leste da montanha Chukhung Ri. O caminho é bem batido. Ao atingir um primeiro platô é magnífica a vista para o conjunto Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste. Às 9h48 atingi um falso cume com dezenas de totens a 5375m de altitude. Continuei subindo, agora pela crista, e aos 5433m a trilha virou um trepa-pedras um pouco chato. Cruzei com o russo que conheci em Pangboche e ele me recomendou caminhar pela crista dessa montanha de pedras e não cair para a direita pois o caminho iria piorar mais à frente. Assim cheguei às 10h42 ao cume de 5558m de altitude do Chukhung Ri e a panorâmica era de cair o queixo: Nuptse ao norte; Lhotse e Lhotse Shar a nordeste; Island Peak e Makalu a leste; Ama Dablam ao sul; Thamserku a sul-sudoeste; Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche, Cholatse e o Passo Kongma La a oeste; Kongma Tse (Mehra Peak), Cho Oyu, Chumbu, Khangri Shar e Pumori a noroeste. Havia só mais um trilheiro solitário quando cheguei mas logo apareceram outros. Novamente chegaram mais tarde Lando e Rosanne, acompanhados de um americano. Todos desceram e eu fiquei um pouco mais ainda. Estava difícil aguentar o vento gelado lá em cima mesmo com roupas impermeáveis (que servem como ótimo corta-vento), luvas, gorro, capuz e pescoceira de fleece cobrindo o nariz e a boca. Todo esse ar gelado teve consequências: à noite comecei a sentir a garganta estranha, depois veio a famosa Tosse do Khumbu (que durou até o final de dezembro!) e para piorar tive uma infecção na garganta que teve de ser tratada com antibiótico em Kathmandu. Iniciei a descida às 13h12 e parei por 20 minutos no falso cume para mais fotos. Às 15h04 estava de volta à vila de Chukhung. Mais tarde fui ao lodge Yak Land conversar com o casal holandês e combinamos de cruzar juntos o Passo Kongma La no dia seguinte. Lago visto do Passo Kongma La com o pico Makalu (5º mais alto do mundo) à esquerda 14º DIA - 06/11/18 - de Chukhung a Lobuche pelo Passo Kongma La Duração: 6h50 (descontadas as paradas) Maior altitude: 5530m Menor altitude: 4720m Resumo: nesse dia encarei o primeiro dos 3 Passos, o Kongma La, com 5530m de altitude, para descer em seguida à vila de Lobuche cruzando o Glaciar Khumbu, uma geleira coberta de pedras um pouco complicada. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,3ºC. Às 7h da manhã estava 0ºC dentro do quarto e -4ºC fora, pouco antes de sair do lodge. De novo não dormi quase nada essa noite... apesar das muitas caminhadas de aclimatação meu organismo ainda não se adaptou completamente à altitude. Logo cedo fui ao lodge Yak Land para encontrar Lando, Rosanne e o americano para irmos juntos para o Passo Kongma La. Saímos às 7h24 na direção norte e logo cruzamos uma ponte de madeira, tomando aos poucos a direção oeste. Havia sinalização. Deu logo para perceber que nossos ritmos eram bem diferentes, eu caminho mais devagar e paro muitas vezes para fotos e registros no gps. Eles andavam mais rápido e tinham que parar para me esperar. Tentei acompanhar o ritmo deles durante a subida e consegui por bastante tempo, mas isso me desgastou muito (principalmente por estar já há duas noites sem dormir) e às 10h50, aos 5429m, tive de parar para descansar por meia hora. Não adianta, cada um tem seu ritmo e não dá para acompanhar o ritmo do outro, seja para mais ou para menos. Retomei a caminhada e em apenas 60m me deparei com um maravilhoso lago de águas verdes... se soubesse teria parado um pouquinho mais acima. Contornei-o pela direita e veio a subida final até o Passo Kongma La, de 5530m, aonde cheguei às 12h04. Os três ainda estavam me esperando lá, mas desceram logo. O passo é uma crista bem extensa e repleta de pedras soltas, onde não faltam totens, bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais, como nas outras montanhas que subi. Dali se avistam Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste, Island Peak e Makalu a leste, Ama Dablam ao sul-sudeste, Taboche e Cholatse a oeste, Cho Oyu e Chumbu a noroeste. Comi alguma coisa (importante levar lanche e água por causa da distância entre as vilas), tirei ainda muitas fotos e iniciei a descida às 12h55 primeiro por um caminho de pedras soltas, mais abaixo é que volta a ser trilha. Passei por uma cachoeira congelada à direita e logo o gelo estava tomando conta da trilha também, mas havia lugares seguros para pisar fora dele. Já desde o passo podia avistar a vila de Lobuche e o Glaciar Khumbu, um mar de pedras que teria que cruzar para chegar lá, e isso parece que me causava mais cansaço ainda. Parei para descansar e comer alguma coisa. Terminei a descida do passo e subi em seguida a moraina lateral da geleira. Ao chegar ao topo da moraina às 15h22 e ver de perto o que teria de enfrentar sentei para descansar um pouco mais. Dali em diante segui pegadas, parei para estudar o caminho em alguns pontos e segui na direção de outros trilheiros que já estavam mais à frente para vencer o enorme glaciar. Foi um sobe-e-desce terrível por pedras soltas e sem um caminho marcado, com pegadas para vários lados. Lembrando que esse tipo de formação tem a aparência de um "mar" de pedras soltas mas embaixo de tudo aquilo é puro gelo, então é preciso ter cuidado onde pisa e para que lado ir. Pelo movimento e derretimento do gelo não é possível existir um caminho fixo e bem definido. O local é impressionante mas ao mesmo tempo aterrador. Às 15h58 tive de cruzar o rio principal que corre no meio da geleira e fiz isso exatamente onde duas pessoas já estavam fazendo. O lago formado abaixo do rio estava com a superfície congelada e era uma camada tão grossa que resistia a pedradas. Depois de mais sobe-e-desce consegui chegar a Lobuche às 16h44 mais morto que vivo. Felizmente meus três amigos estavam me esperando e não precisei procurar hospedagem, eles já haviam feito isso e estavam instalados no Sherpa Lodge. Dividi o quarto com o americano. Não havia cobertor no quarto, tive de pedir mas não foi cobrado. O valor do quarto, que aqui é de Rs700 (US$6,08), o mais caro de todo o trekking, novamente foi cobrado mais tarde por uma pessoa da comunidade e não do lodge. Os banheiros ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada. Altitude em Lobuche: 4916m Preço do dal bhat: Rs 850 Preço do veg chowmein: Rs 700 Everest e Nuptse vistos do Kala Pattar 15º DIA - 07/11/18 - de Lobuche a Gorak Shep e Kala Pattar Duração (descontadas as paradas): 2h (de Lobuche a Gorak Shep), 1h10 (subida ao Kala Pattar), 1h05 (descida do Kala Pattar) Maior altitude: 5643m Menor altitude: 4916m Resumo: esse foi o grande e esperado dia de ver o Everest o mais próximo possível e em seu melhor ângulo, que é a partir da montanha Kala Pattar. De Lobuche a Gorak Shep o desnível foi de 245m e de Gorak Shep ao Kala Pattar de 480m. Dormi em Gorak Shep para ir ao Campo Base do Everest no dia seguinte. Às 7h da manhã a temperatura dentro do quarto era 3ºC. Não dormi quase nada pela terceira noite seguida, mas como não tinha nenhum outro sintoma de Mal da Montanha segui meu roteiro. Saí do lodge às 7h31 na direção nordeste e segui por trilha paralela ao Glaciar Khumbu. A visão dos picos Pumori, Lingtren, Khumbutse e Nuptse à frente é muito inspiradora e nos prepara para o grande momento que está chegando. Às 8h48 tive que cruzar o Glaciar Changri repleto de pedras também mas sem as dificuldades da geleira do dia anterior pois nessa pelo menos há um caminho bem marcado. Depois de algum sobe e desce por essa geleira alcancei Gorak Shep às 9h42 e de cara encontrei a guarita de cobrança do valor do quarto de Rs500 (US$4,34). Pago o quarto, fui percorrer os lodges da vila para escolher em qual ficar. Optei pelo Buddha Lodge. Fiz uma mochila de ataque rapidamente com roupa de frio e de chuva (nunca se sabe...) e saí para subir o Kala Pattar e ver o Everest de seu melhor mirante. Na saída encontrei Lando, Rosanne e o americano chegando. Eles continuavam hospedados em Lobuche e vieram somente para subir o Kala Pattar, não iam ao Campo Base. Precisavam abastecer as garrafas de água mas os lodges da vila não fornecem água da torneira por causa da escassez, é preciso coletar a água na base do Kala Pattar, que é o que eles fazem para abastecer o lodge. E foi o que nós fizemos, porém a água fica em poças, então tratá-la é primordial. Iniciei a subida na direção norte às 10h54 e não fiz nenhuma parada até o topo pois queria tirar fotos do Everest e seus vizinhos sem nenhuma nuvem, céu completamente azul. Alcancei o cume do Kala Pattar às 12h02 e tratei de tirar todas as fotos possíveis antes de as nuvens chegarem. A altitude é de 5643m, que passou a ser o meu recorde de altitude já atingida. O mirante Kala Pattar está numa crista que culmina no Pico Pumori. Dali se avista, entre outras montanhas: Ama Dablam, Kongma Tse (Mehra Peak), Kyashar, Kangtega e Thamserku ao sul; Taboche e Cholatse a sudoeste; Chumbu a noroeste; Khangri Shar e Pumori ao norte; Lingtren, Khumbutse, Changtse a nordeste; Everest e Nuptse a leste. Meus três amigos desceram primeiro pois não estavam aguentando o vento gelado mesmo se abrigando atrás das pedras. Eu ainda fiquei um tempo para ter uma boa conversa com as montanhas. Esse era o momento mais esperado da viagem de dois meses no Nepal e um dos momentos mais esperados de toda a minha vida. A emoção foi bastante grande. Iniciei a descida às 14h06 e via no rosto das pessoas que subiam o mesmo esforço e a mesma expectativa que eu tive minutos antes. Todos querem coroar sua longa jornada ao Himalaia com esse instante sublime de estar diante da maior montanha de todas. Às 15h14 estava de volta a Gorak Shep. No Buddha Lodge os banheiros ficavam dentro da casa e havia um no estilo oriental e outro com vaso sanitário, mas a descarga sempre com balde (com a água congelada de manhã). Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada. Nesse lodge havia quartos de solteiro, com apenas uma cama, porém claustrofóbicos de tão pequenos. Havia um só cobertor para cada hóspede e o extra custava Rs300 (US$2,60). Tive de usar o meu saco de dormir (Marmot Helium, temperatura limite -9ºC). Às 20h15 a temperatura dentro do quarto era 1,6ºC e fora era -8,6ºC. Altitude em Gorak Shep: 5160m Preço do dal bhat: Rs 850 Preço do veg chowmein: Rs 700 Picos Changtse, Nuptse e no meio só a pontinha do Everest 16º DIA - 08/11/18 - de Gorak Shep ao Campo Base do Everest e descida a Pheriche Duração (descontadas as paradas): 1h10 (ida ao EBC), 1h15 (volta do EBC), 4h15 (de Gorak Shep a Pheriche) Maior altitude: 5264m a caminho do EBC Menor altitude: 4265m Resumo: de manhã subi até o Campo Base do Everest e à tarde desci o máximo que pude (até Pheriche) para poder dormir novamente e descansar, abortando com muita dor no coração o Passo Cho La. A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -8,6ºC, a mais baixa que registrei. Às 6h da manhã estava 0ºC. Não dormi quase nada pela quarta noite seguida e decidi baixar de altitude para poder dormir e me recuperar. Com isso estava tomando a difícil decisão de abortar o Passo Cho La, o segundo dos 3 Passos, pois seguir para ele significava ficar mais algumas noites sem dormir. Mas não poderia deixar de conhecer Gokyo e seus incríveis lagos sagrados, por isso iria fazer um contorno enorme pelo sul, descendo muito para depois subir tudo de novo até Gokyo. Pelo menos nas duas noites em altitude mais baixa durante esse contorno eu poderia dormir e descansar para enfrentar possíveis novas noites de insônia. Se eu tivesse Diamox teria tomado para ver se me ajudaria na aclimatação e eu voltaria a dormir. Eu tinha Dramin mas não é nada recomendável tomar remédio que induz ao sono nessa situação de insônia por altitude. Saí do lodge às 7h48 na direção nordeste e a caminhada foi com pouco desnível até o Campo Base do Everest, de 5257m de altitude, aonde cheguei às 9h. Esse lugar eu só visitei por seu valor simbólico mas é um "ponto turístico" meio fake. O verdadeiro campo base se estende por uma área bem maior e não é fixo, muda de lugar a cada ano em consequência da movimentação da geleira que vem da Cascata do Khumbu. Outra: dali praticamente não se vê o Everest, apenas uma pontinha dele, o que frustra muita gente. Não havia nenhuma barraca pois a temporada de escalada da maior montanha do mundo ocorre em abril/maio. Iniciei o retorno às 9h47 pelo mesmo caminho e às 11h estava de volta ao lodge. Às 11h41 comecei a descer na direção de Lobuche e além. Cruzei todo o Glaciar Changri, parei no final dele por 22 minutos para comer e tentar sinal da NCell - consegui mandar algumas mensagens. Passei por Lobuche às 13h56 e às 14h16, logo antes de uma ponte, fui à esquerda na bifurcação em que à direita se vai ao Passo Cho La. Subi e passei por um conjunto de stupas que são memoriais aos que morreram nas montanhas da região. Dali seguiu-se uma longa descida pela moraina terminal que limita ao sul o Glaciar Khumbu. Alcancei a minúscula vila de Thukla às 15h15 e tive de perguntar pelo caminho para Pheriche pois não era evidente. Desci uma rampa à esquerda e 35m adiante entrei numa trilha à direita, descendo. Ao chegar à margem do rio formado pelo Glaciar Khumbu tive de subir pelas pedras até uma ponte precária de madeira uns 140m rio acima. Cruzei-a às 15h27 e segui primeiro pela margem esquerda pedregosa, depois por uma trilha batida na encosta. Às 15h34 fui à direita numa bifurcação com placa em que a trilha da esquerda vai para Dingboche. Desci bastante em direção ao vale do Rio Khumbu (ou Rio Lobuche) e passei por três pontos de água. Às 16h35 alcancei a vila de Pheriche e arrisquei dar uma olhada no primeiro lodge, de nome Thamserku. Negociei o preço de Rs300 (US$2,60) com as refeições ali mesmo. Estava cansado (quatro noites sem dormir...) e com muito frio para ir a outros lodges procurar por melhor preço. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Nesta noite os hóspedes desse lodge eram apenas eu e um grupo de alemães com guias e carregadores, dois dos carregadores com 15 e 16 anos. Altitude em Pheriche: 4265m Preço do dal bhat: Rs 700 Preço do veg chowmein: Rs 450 Às 20h35 a temperatura dentro do quarto era 2,2ºC. A mínima durante a noite dentro do quarto foi -3,4ºC. Às 7h30 da manhã estava -1,4ºC. Informações adicionais: Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com. Rafael Santiago novembro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  13. Descobrindo as maravilhas, histórias e superação pessoal na travessia a pé de 316 km - Cora Coralina Novembro de 2018. Mauro César Vieira Vitor Entrada do museu de Cora Coralina Inspirado em Santiago de Compostela, trajeto passa por oito cidades de Goiás. Pensando em reviver os passos de uma das maiores poetas brasileiras, pirei, hora de equipar o mochilão e rasgar trilha adentro, foi à proposta imposta por mim para a realização do Caminho de Cora Coralina. Aberto ao público em abril de 2018, atravessando cerca de 316 km, oito cidades históricas, três parques estaduais, sete vilarejos em Goiás. O primeiro caminhante com a tentativa de fazer o percurso completo sem hospedagem, apenas com modalidade de camping. (Vide observação no relato). Diante da curiosidade, resolvi pesquisar, me preparar e então, dar inicio a um propósito mais que especial. Acompanhem essa aventura: Data marcada. É hora de se aprontar, 03/11/2018. Saindo de Brasília-DF em direção a Corumbá de Goiás-GO, passagem baratinha, apenas R$23,00, onde pernoitei. Dia seguinte, hora de dar inicio, mas antes... Interessante àquela voltinha na cidade e apreciação do lugar. 1° dia – Corumbá de Goiás x Cocalzinho, 04/11 Domingo Com inicio ás 09:00 do dia 04/11 comecei a trilha bastante empolgado. Feito algumas vezes de mountain bike, já conhecia o percurso com chegada até Pirenópolis. Clima agradável, bastões firmes e mochilão lotado, 22kg para alegria das minhas costas e pernas, entretanto, a emoção contida me dava forças. Passando pelo portal dando inicio a trilha fechada, bastante sombra, em seguida pegando o asfalto, foi percorrida neste dia 23 km até Cocalzinho onde pernoitei, a caminhada foi de 12 horas, sinalização ótima. Momento de montar camping e relaxar, acampei as margens do parque logo na saída da cidade, antes passei em um Hotel (SÃO JORGE) para higiene pessoal, o que era feito em paradas antes de dormir ao longo do percurso, isso quando não havia possibilidades de me lavar em lugares nas proximidades ao local escolhido para acampar... Muita fome! Portal – Início da trilha Cidade de Corumbá de Goiás Frutas no caminho 2° dia – Cocalzinho x Pirenópolis, 05/11 Segunda–Feira Descanso para dar inicio a subida Sai ás 06h00 da manhã, tomei café reforçado e o tempo indicando que seria um dia favorável, em direção ao pico do Pireneus, lugar maravilhoso. Um dos trechos mais ricos em paisagens e o mais bem estruturado em apoios aos caminhantes, foi possível ver o espetáculo da natureza, são exemplos os cachorros do mato, tucanos, araras, varias espécies de aves e seus cantos, somado à vista sendo apreciada da capela Santíssima Trindade dos Pirineus, próximo de 1340m de altitude. O maior pico de todo caminho. Uma parcela deste percurso não faz parte do trajeto de Cora, o desvio foi feito devido minha ida à Cocalzinho, percorrido em média 11Km a mais do previsto. Dando continuidade a trilha segui sentido a Pirenópolis, um banho na cachoeira (Abade) e descanso no morro com vista à cidade, foi uma caminhada tranquila apesar da chuva no final do trecho, seguindo as sinalizações que ainda estavam muito bem orientadas, cheguei por volta das 17h40, um percurso de 24km um banho de rio para refrescar um pouco e encontrar repouso. Acampei em uma das margens do rio, lugar muito seguro para camping, muito seguro e bonito. Hora do jantar, imagine uma sopa gostosa! Obs: Dentro do parque não tem hospedagem, pode acampar, mas antes é preciso fazer contato com a administração. Frase de Cora Acampamento em Cocalzinho de Goiás Chegando ao Pico dos Pireneus Pico dos Pireneus Vista para a Cidade de Pirenópolis 3° dia – Pirenópolis x Caxambú, 06/11 Terça – Feira Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário Outras Até aquele momento o caminho era desconhecido, dando a sensação de que a trilha havia começado naquele instante, grandes fazendas, trecho de muita mata, entre outros. O percurso desse trecho exige umpouco de cuidado, até por que próximo à passagem tem um rio em que a água é forte, acredito que em toda época do ano, mais a frente há sinalização mostrando o sentido, porém deve-se atravessar saltando à cerca e dar continuidade a estrada de terra. “Que morro é esse?” Parte final até a chegada a cidade de Caxambu, nível de subida difícil, exigiu muito de mim até chegar ao topo, sensação de alivio ao ver a vista da cidade, muito cuidado com a descida também, trata-se de um terreno muito íngreme, se tornando pesada a descida. Dando sequência e com o dia próximo de escurecer, a caminho da cidade para cuidar do corpo, dei de frente com um carro onde o condutor me parou, mas que alegria! Sr.Kinzinho, o que dizer dessa pessoa? Feito o convite para me hospedar em sua casa, não tinha como não aceitar, a forma em que fui abordado foi irrecusável, naquela noite estava muito cansado e fraco, foram percorridos 28 km de percurso bem difíceis. Então aquele convite veio em um bom momento, em meio a muitas conversas, o jantar então, estava maravilhoso, feito à lenha tudo muito fresquinho e muito bem temperado, a cama muito aconchegante e quentinha, ao acordar aquele delicioso café da manhã feito pela dona Cleusa. Se recomendo? Super-recomendo. Casa do Sr. Kinzinho O percurso de Pirenópolis ao povoado de Caxambu é o último trecho de relevo mais acentuado, cruza remanescentes de mata primária e transpõe as serras Paraíso e Caxambu esta última com mais de mil metros de altitude. Percorre partes do antigo caminho dos escravos, que ligava a Fazenda Babilônia (1800) a Pirenópolis. 4° dia Caxambu x Radiolândia 07/11 Quarta – feira O percurso de Caxambu a Radiolândia cruza a BR-153 (Belém-PA – Brasília-DF), até atingir a Rodovia Bernardo Sayão, próximo ao povoado de Radiolândia. Acordei por volta das 05h00, sai ás 06h00, trilha adentro, em média 5 km o povoado de Caxambu, na saída da cidade à esquerda, sinalização muito boa, sem chances de erro, trecho onde passa por meio de muitas fazendas, tornando o acesso mais curioso e atrativo, decidi então fazer o percurso até Radiolândia, dia seguinte já sabia o grau de dificuldades para chegar até Jaraguá. Era melhor evitar esforços. O caminho foi tranquilo, completei em 09h40 até a cidade, caminhei em média 14 km depois do povoado a procura de um lugar para o camping, com o total de 32 km neste dia, estava formando chuva, o lugar de escolha para acampamento era aberto, a situação piorava a cada instante, muito vento e para completar veio àquela chuva das mais pesadas, nada que um bom material pra este fim não suprisse a situação. Dormi que foi uma beleza. Interessante visitar o principal atrativo desse trecho, fazenda Babilônia, não conheci, porem, segundo relatos vale muito a pena. 5° dia Radiolândia /São Francisco x Jaraguá, 08/11 Quinta-Feira Um dos dias mais difíceis da caminhada, sai do quilômetro 14 depois de Radiolândia até Jaraguá ás 04h00 da manhã com chegada ás 20h10 na cidade em destino, percorri 52 km passando por centro de produtores, por trechos de matas, inúmeras fazendas. A sinalização para este trecho ajudou muito. Em sequencia segue-se passando por estradas rurais até chegar à cidade de São Francisco. No caminho oportunidade para ver as Serras de Loredo e Chibio. O trecho entre São Francisco e Jaraguá de Goiás começa com aproximadamente 6,5 km todo em asfalto, quando entram na trilha as margens do Rio Pari, para deslumbrar a vista de um gigante chamado SERRA DO JARAGUAR, um monstro de morro, com mais de 610m de altitude, local para pratica de voo livre. A trilha cruza-se a BR-070, Os últimos quilômetros são feitos por uma trilha antiga que transpõe a porção Norte, o caminhante é contemplado de um maravilhoso visual da cidade de Jaraguá, uma pena o clima não está favorável para esta ocasião, finalizando o percurso na Igreja Nossa Senhora do Rosário. Hora do almoço Confesso que estava em uma situação complicada, muita chuva, cansado, exausto. Pensei em desistir, tinha que reabastecer com mantimentos, organizar a mochila e lavar umas mudas de roupas, depois de tudo organizado os ânimos e forças reaparecem, vou continuar, era só o que pensava, não poderia desistir, era questão de honra. Descansei o suficiente para dar continuidade, minha moral estava altíssima. Serra + Chuva 6° dia Jaraguá x Vila Aparecida, 09/11 Sexta–Feira Tudo ok, equipamento, mantimentos e muita energia, sai de Jaraguá ás 09h00, peguei o trecho sentido Vila Aparecida pelo asfalto, foram apenas 21 km neste dia. Atentar para a saída, dando inicio da Igreja Nossa Senhora do Rosário, contornando a serra percorrendo 1,5 km pela cidade até tomar a saída em estrada de terra em volta da serra com 3,2 km até o ponto mais baixo do trajeto no cruzamento da ponte sobre o rio Pari. Em seguida vira à esquerda, retornando pelo mesmo traçado sentido a São Francisco de Goiás, após 4,3 km da travessia da ponte, segue-se à direita sentido ao povoado de Vila Aparecida. Tive um pouco de dificuldade, pois no ponto de partida não existe sinalização ao longo de 2km. Região de grande cultivo de bananas, muitos pássaros, retorna a boa sinalização, bem tranquilas para prosseguir, acampei em um lugar fantástico, uma pequena serra a 3 km da cidade, queria ver o sol nascer, mais uma vez não fui contemplado com o mesmo, muita neblina e a danada da chuva continuava, fiquei encharcado, mais deu para aproveitar. Percorridos 21 km, cheguei à região por volta de 16h50 da tarde. 7° dia Vila Aparecida x Itaguari, 10/11 Sábado Coisas de lá Passando por Alvelândia e Palestina sentido a Itaguari, Região forte em agricultura e pecuária, destacando-se áreas de cultivo de bananeiras. Um trajeto curto e bem sinalizado até chegar ao povoado de Alvelândia nas margens BR-070. As vistas de grandes áreas e túneis de árvores entre as matas tornam um lugar surpreendente. Destacando a Fazenda Estaca, de valor histórico grandíssimo, diversos viajantes cruzaram essa região nos séculos XVIII e XIX. Acordei cedo esse dia, por volta das 04h00 da manhã, não consegui dormir direito, sai ás 05h00 mata adentro, O tempo estava nublado, mas sem chuva, os pássaros mais uma vez deram um show. O sol resolveu aparecer, estava bem animado, já havia completado mais da metade do caminho e queria muito chegar ao destino final. Levei algumas carreiras de bois e vacas nesse caminho hehe, correr com mochila nas costas não é tão agradável. O acesso passa por muitos currais e propriedades particulares onde tem criação de gados e outros. 48 km em 15h30 em movimento, acampamento montado a 2 km da cidade em uma propriedade de um novo amigo, Sr.Gumercindo, uma pessoa de muita graça. Achei esse trecho bem tranquilo com algumas subidas e descidas bem leves. Itaguari - GO 8° dia Itaguari x São Benedito, 10/11 Domingo Com saída ás 07h00, sem sinal de chuva para me abençoar, sentido a terra do polvilho. Os pés estavam bem judiados neste dia. Tudo estava perfeito, o sol radiante e muito barulho de Quero-quero. Trajeto feito em 14h00, com o total de 44 km. Tive um pouco de estorvo neste percurso, o cansaço voltou a incomodar, cheguei um momento em que dormi caminhando, nada melhor que um banho para relaxar em um pequeno córrego nas imediações, mas que valeu muito a pena, resolvi aproveitar e preparar o almoço ali mesmo, sem contar que em todos os dias pós almoço o cafezinho era preparado. Nesta parte passei por varias fazendas, trecho de muitas retas, o sol escaldante, região sem muita sombra, de volta a estrada, ânimo renovado continuei a trilha seguindo sempre a direção, bom ressaltar que não tive nenhum problema com sinalização nesse caminho, somente com os cachorros e a boiada novamente. ? Cheguei à cidade em plena tarde de domingo e por sinal não encontrei comércio aberto e comprar alguns mantimentos. Nenhuma pousada para coleta de informações e programar posteriores vindas, acredito que somente em casas de moradores, nenhumas das pessoas em que perguntei souberam responder. Percorri cerca de 5 a 6 km de asfalto, deve-se tomar bastante cuidado, foi um dos trechos que achei mais perigoso (em asfalto) devido ao grande fluxo de veículos, depois do asfalto a esquerda uns 400 m cheguei em um lugar, um bar, bem simples próximo a uma ponte, segundo o proprietário, os organizadores do caminho de Cora tiveram no local e informou que pode ser um lugar para repouso, o forte deles será o camping, até por que o lugar é muito confortável para este fim, esta passando por algumas reformas, mas que já comporta uma boa dormida. Acampei no local, próximo a esta ponte citada anteriormente, o barulho da água descendo rio abaixo foi uma maravilha, banho tomado, a água estava uma delicia, preparei o jantar e logo era hora de dormir. Coisas do Lugar 9° dia, São Benedito x Calcilândia x Ferreiro, 11/11 Segunda –feira Penúltimo dia de travessia, 36 km percorridos, a trilha passa por fazendas com poucas porteiras comparando com outras em que passei, muito estradão de terra batida e mais uma vez a natureza fez seu papel, o nível desse percurso foi muito puxado, tive dificuldades devido ao inchaço no pé esquerdo, mais era parte final e nada tirava mais a minha vontade de chegar, veio a chuva, não tão forte assim. Um dia bem agradável, por mais uma vez a receptividade do povo goiano me cativou, em parada não programada, tive o prazer de conhecer Dona Madalena em Calcilândia, onde me recebeu com bastante alegria, aproveitei para descansar, me serviu um almoço delicioso, café e um bom bate papo. Pé na trilha, saindo de Calcilândia. À direita, é possível visualizar a Serra de São Pedro que guarda muito de suas características naturais cheio de histórias e mitos. Percorri uns 2,4 km de asfalto até chegar na estrada e pegar sentido à esquerda estrada rural de terra. Nesse pequeno trecho, há um tráfego de caminhões considerável e por isso importante redobrar a atenção. Seguindo em media uns 7,5 km até chegar a uma pousada, aparentemente muito confortável. Com mais 10 km, passando por várias fazendas e paisagens perfeitas com vista da Serra Dourada, chega-se as ruínas de Ouro Fino. Foi uma das etapas em que a sinalização mais cooperou, lugar passa por matas fechadas e desertas. Passando pelas serras, fiquei encantado pela beleza rara do ambiente. Na reta final desse percurso veio uma pancada de chuva, porem, passageiras. Estava chegando à fase final da travessia, emoção e o sentimento de gratidão me deixavam mais forte. Chegando às proximidades de Ferreiro, acampei em uma serra pequena naquela noite. Tudo parecia muito calmo, até que o barulho e ruídos dos animais noturnos me intimidaram, sono chegou bem tarde por volta das 02h00, próximo à hora de levantar e concluir o percurso. Onde faltava apenas 8 km. 10° dia Ferreiro x Goiás Velho, 12/11 Terça–feira Museu da Cidade de Goiás O grande dia, reta final, trilha fácil, com algumas subidinhas de leve a passagem toma conta do lugar entre histórias de filhos ocultos e suas particularidades. Foram os quilômetros mais envolventes de toda travessia, comecei bem cedo em menos de 02h00, tinha que retornar a Brasília ainda aquele dia, pegando o asfalto a vista da cidade começa a aparecer anunciando que estava próximo de concluir. Enfim, a chegada depois de 8 km de muita emoção. Cidade maravilhosa, restaurada, cheia de encantos e suas histórias. Visitei dois museus, centro histórico, algumas igrejas e por fim uma casa em restauração. Considerações finais: · A intenção era de fazer o percurso todo com a modalidade de camping; · Foram coletados contatos para apoio, porém não publicados, entrar em contato caso tenham interesse; · As marcações em quilômetros foram marcadas não exatamente como os registros entre cidades, mas sempre próximas às imediações; · Alimentação foi transportada toda na mochila. Agradecimentos: · Familiares; · Filhos – João Vitor Neves, Mayara Neves; · Amigos, em especial Andreia Olivo, Nara Niuma, Aline, Gary, Etiene e Lidiano Pereira. · Workshop Trekking Brasília. · Aos apoiadores ao longo do Percurso Para maiores esclarecimentos entre em contato: E-mail – [email protected] https://www.facebook.com/profile.php?id=100004813188325&ref=bookmarks https://www.instagram.com/mauro_cesar_trekker/?hl=pt-br Fone: (61) 99100-3001 https://documentcloud.adobe.com/link/track?uri=urn%3Aaaid%3Ascds%3AUS%3A6d592790-a29d-4c62-b959-dd2a232c443f “Se temos de esperar, que seja para colher a semente boa que lançamos hoje no solo da vida. Se for para semear, então que seja para produzir milhões de sorrisos, de solidariedade e amizade.” “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.” Cora Coralina
  14. Travessia Sitio Bom Jesus / Morro do Chapéu - Travessia dos Veadeiros, Janeiro de 2019. Essa travessia vai surpreender os amantes do Trekking Por Mauro César - Trekking na trilha Dona Madalena e Silmênia Fomos recebidos por Dona Madalena uma pessoa de muita luz, responsável pelo Sitio Bom Jesus, um lugar de pura paz, tudo muito organizado e limpo, vale muito a pena visitar este lugar. Não visitamos o bosque, lugar onde dizem que é surpreendente. Igreja - Sitio Bom Jesus Entrada do Sitio - Exemplo de cuidados com o lugar Passagem pelo portal Saímos ás 11h00 do dia 25/01, percurso com nível difícil, ao longo do trecho o GPS ficou desnorteado, mostrava o caminho diferente e acusava o erro depois de vários metros percorridos, obviamente que tínhamos que seguir, confesso que o acesso foi muito complicado. Ao longo do trajeto dessa primeira etapa, a região mostra muito riqueza nas plantações de soja que sumiam de vista. Pausa para foto Sincronismo dos pássaros Botas na trilha Silmênia pulando a cerca Trekking Proteção do equipamento na hora do almoço, muita chuva Comendo mi Bora né Depois de caminhar em média uns 16 km, chegamos na casa da Miriam, onde nos recebeu de forma muito cativante, muita conversa e risos... tomamos aquele café. Olhem isso, moleque nem gosta de ovos Delicia de café Saída da casa da Miriam Será que rola uma carona? Vista do Heliporto Paredão impressiona Exuberância Trekking Sil superando limites - Nota máxima Cansado? Não apenas impressionado O percurso mais uma vez nos surpreendeu, as coordenadas nos levou por um acesso muito arenoso, sem trilha e direção, muito ingrime e perigoso, correndo o risco de sofrer algum tipo de acidente, rasgamos mata adentro e depois de muita dificuldade conseguimos encontrar a estrada que nos levasse a casa do Sr.Geraldo, estava escurecendo e tudo piorava, mas tínhamos que seguir. E assim foi, escureceu, a estrada estava nos levando ao caminho certo e felizmente por volta das 21h00 chegamos na casa do Geraldo. Logo na chegada fomos recebidos com esse licor..Será? comemorar a chegada sempre é importante. Jantamos aquela comida caseira feita pela Dona Marlene, sem comentários para essas pessoas, estávamos com muita fome, pois esse trecho exigiu muito de nós. Tudo combinado para o resgate e hora de descansar para o dia seguinte. Seu Geraldo - Saída para o segundo dia de trilha Vamos nessa!! A partida para o segundo dia de trilha foi mais cedo, por volta das 08h30m, muito estradão e por mais uma vez a natureza nos mostra seu valor, logo os papagaios fizeram seu papel. Pausa para o lanche Vista para o rio Paranã Seleções de fotos Olhando a paisagem - Muita chuva pela frente Café no bule Desce daí criatura Sejam bem vindos Pedreira, arquibancada para apreciação do lugar Serras que se perdem de vista E lá fomos nós, caminhamos bem este dia, a chuva veio com muita força, quase 4 horas de chuva intensa, e a previsão era de continuar por um bom tempo, saímos em uma mata fechada, com muitas bocainas e achamos melhor não continuar, próximo as 18h00 montamos acampamento onde pernoitamos (Hostel Curral fofo), hehe! nome adotado para aquele lugar. Hostel Curral fofo, assim foi batizado - Acampamento 2° dia Partindo para o trecho final Seleção de fotos Fonte da juventude Subidas e mais subidas, paisagens de tirar o folego, trecho final e nada de chegar na casa do Alex, passamos por entre as bocainas, pequenos rios e a vegetação úmida, assim dificultado nossa caminhada. Enfim conseguimos chegar na tão esperada casa do Alex, hehe. mais uma recepção fantástica, fizemos um lanche, café, peta caseira feita pela sua mãe e pão com mortadela, em meio a conversa Alex nos disse sobre sua trajetória e a escolha do lugar para morar. Em sua propriedade existem três cachoeiras, não deu tempo de visita-las, quem sabe em outra oportunidade. Café na casa desse camarada - Alex Vista da casa do Alex Vai entender Palmeiral Há 5 quilometros de completar o trecho final, fomos na casa da Dona Nilza, outro ponto de apoio, e mais uma vez aquele precioso café e um papo rápido. Casa da Nilsa e Virgílio - Lugar de ponto de apoio e venda de doces e Requeijão Subida para o morro do chapéu Vista panorâmica na subida do morro tão esperado Foram em média duas horas de subida, mais é subida mesmo que chega a pensar em desistir. Zé do facão No caminho encontramos essa figura, que por sua bondade nos ofereceu sua casa para descansar e nos alimentar, já era hora de completar a travessia, não tínhamos mais tempo, até porque o resgate combinado com Sr.Geraldo estava perto conforme horário combinado. Bateu uma tensão, não conseguimos contato com o mesmo, sinal de telefone péssimo, mas por generosidade ele chega para alegria dos caminhantes. Vencemos todas as diversidades. Final da travessia Em meio há tantos obstáculos, curiosidades, vistas magnificas, a travessia foi concluída com sucesso. Minha companheira de caminhada, Silmênia José Pereira superou e me encheu de alegria por essa conquista. Parabéns Sil...Essa travessia promete. Agradecimentos Tekking Brasilia - Samuel Schwaida Sr. Geraldo (Secretário de Turismo de São João da Aliança - GO) e Marlene Taralico Luan - Filho Sr.Geraldo Alex Nilza Sra.Madalena Aline Ferreira e Nara Niuma Respeite a natureza Recolha todo seu lixo. Se possível traga de volta também o de pessoas menos cuidadosas. Não abandone latas, garrafas e plásticos. Evite cortar lenha para fogueiras. Use só os galhos caídos e apague bem as cinzas. Faça sua fogueira em local descampado e longe da mata e de moitas de capim. Evite usar sabão em fontes, riachos e lagos. Monte seu acampamento afastado das nascentes. Escolha um lugar afastado para banheiro e não se esqueça de enterrar seus dejetos. Leve alimentação adequada. Evite enlatados, leite em caixa, vidros ou bebidas alcóolicas. Conheça as regras básicas de primeiros socorros e orientação na natureza. Planeje seu roteiro de viagem e deixe sempre alguém avisado sobre ele. Frequentadores da natureza têm maior responsabilidade pela preservação ambiental. Respeite e confraternize com os habitantes dos locais visitados. Não use fogo dentro ou perto da barraca. Tenha cuidado também com a vegetação. Pratique o bem!!!
  15. EXPEDIÇÃO BRACINHO (Anderson, Dema , Trovo , Divanei , Decio e Régis ) ......................“Aquilo parecia mesmo ser uma estupidez. Não que eu já não tenha feito uma infinidade de coisas estupidas nesses quase 25 anos de aventuras, mas com a idade a gente começa a tentar ficar longe dessas ações que possam nos levar a um acidente do qual talvez não tenhamos mais como nos recuperar. O Daniel Trovo, mestre das insanidades aquáticas, já havia inaugurado o salto, despencando no poço gigante sem jamais ter estado lá, o Dema também confiou nele e se jogou sem nem pensar e até o tio Décio, olha só, já se encontrava no fundo do poço. Nem me pareceu tão alto em um primeiro momento, mas olhando bem da beirada da cachoeira, me deu uma embrulhada no estômago, mesmo assim os meus medos não advêm da altura, mas da possibilidade do que poderia se esconder no fundo do poço. Jogo minha mochila que explode na água e ao longe vejo o sorriso dos outros dois companheiros de expedição (Rosa e Régis) que optaram pela sensatez e desescalaram as paredes da queda d’água e foram fazer as fotos bem longe daquela loucura. Tomo distância, dou uma corrida e paro imediatamente. Melhor não, melhor deixar pra lá, mas lá de longe a plateia grita freneticamente para eu não desistir, então resolvo que tentarei saltar usando o patamar 1 metro mais abaixo, não muda nada, mas as condições psicológicas me diz que poderá ser menos pior, mas ao me aproximar ainda mais a fim de baixar para esse patamar é que observo uma língua de pedra que se estende da parede em direção ao poço. DEUS ME LIVRE! Se eu escorregar o pé de apoio vou me esborrachar naquelas pedras lá embaixo. Um misto de ansiedade toma conta de mim, eu quero ir, mas o medo me puxa para trás, faço menção de desistir de vez, mas a plateia grita pula, pula e eu já perdi o rumo, com o corpo tomado pela adrenalina que já invadiu cada centímetro do meu corpo. Quer saber de uma coisa: FODA-SE, LÁ VOU EU!”.................. ( rio Bracinho e sua água incrivelmente transparente) Poucos lugares são tão incríveis nesse país quanto a Serra do Mar de São Paulo, não só por conter uma das florestas mais exuberantes do mundo, mas pelo fato de estar muito perto de uma das maiores cidades do planeta e ainda esconder no seu interior selvagem uma infinidade de biodiversidade que talvez não se encontre em nenhum outro lugar do Brasil. Por incrível que pareça, são lugares desconhecidos até mesmo de pesquisadores, moradores locais e exploradores modernos, lugares que passaram despercebidos justamente pelo seu isolamento e pela dificuldade para serem penetrados. Já há mais de meia década que a gente vem se dedicando a revelar esses paraísos perdidos, principalmente rios intocados, onde o ser humano ainda não espezinhou e até mesmo os famigerados caçadores e palmiteiros, mal conseguiram aranhar, justamente pela dificuldade técnica de acesso, mas ultimamente até parte do nosso grupo vinha tendo uma certa resistência porque as expedições acabaram por ter que se distanciar cada vez mais, se enfiar cada vez mais num mundo desconhecido e sem a certeza de que poderia nos revelar algo que realmente interessasse para parte do grupo , que sempre ia em buscas das grandes cachoeiras perdidas nos rio selvagens. Depois de 2 expedições que revelaram o interior de grandes rios de uma certa região, meus olhos acabaram por se voltar para alguns rios menores, rios com desníveis bem inferiores aos anteriores como o Lourencinho, o Itariru , mas a descida do Pedreado ,ocorrida esse ano, me disse e me ensinou que se valer de desnível de rio para saber se vale a pena ou não empreender uma expedição era uma grande bobagem, mesmo porque o PEDREADO( Braço Grande) nos surpreendeu positivamente, mas mesmo assim, uma grande parte do grupo, que obviamente se recusou a encarar o rio citado acima, ainda não havia se convencido que tanto esforço e perigo poderia mesmo valer a pena. ( Rio Pedreado) O Vale do Rio Bracinho levou alguns anos até para ser localizado no mapa devido ao seu isolamento por baixo da grande floresta e das grandes montanhas que o cercava e o espremia, era quase impossível saber aonde realmente começava a sua nascente e só depois de eu recorrer a diversos mapas e cartas antigas foi que aos poucos ele foi se revelando e juntamente com o Décio Marques, fomos juntando um quebra-cabeças até que conseguimos chegar a um consenso e nos pôr a planejar a expedição para valer. O rio apresenta duas nascentes distintas em forma de “Y”, sendo a nascente da direita (de quem desce o rio) a menor e a esquerda a maior, as duas se convergindo para formar o “Grande Bracinho”. Pois bem, saber por onde corre essas duas nascentes era o “x” da questão, porque era um emaranhado no meio de uma floresta gigante e longe, muito longe de qualquer lugar habitado e com acesso motorizado. Os estudos nos levaram a escolher 2 pontos de acesso, uma em cada ponta dessas nascentes, sendo a nascente mais curta distante uns 20 km de Juquitiba e a mais longa uns 30 km. No final chegamos à conclusão que pelas condições da estrada, a vertente mais curta poderia ser a mais interessante porque nos daria a possibilidade de fazer esse caminho usando um transporte que nos deixaria a pelo menos umas 4 horas de caminhada do rio varando mato, não era nada animador, mas era o que tínhamos , era ao que poderíamos nos apegar se quiséssemos realmente tentar colocar aquele rio no mapa. ( inicio Bracinho em amarelo) A única maneira de termos uma chance da expedição dar certo, era irmos antes lá e tentarmos primeiro achar o rio e só depois montarmos uma equipe e para isso tracei uma linha no mapa me valendo das curvas do terreno para podermos chegar ao rio com um esforço o menor possível. Traçada a estratégia inicial, coube ao Décio e aos meninos Régis, Potenza e Rafael, a missão de inaugurar os trabalhos e num sábado qualquer, se dirigiram para a região e depois de rodarem por mais de 10 km, abandonaram o carro num sítio à beira do caminho e seguiram a pé, desvendando tudo que podiam e cinco ou seis horas depois de se lascarem num mato sem cachorro, conseguiram avançar muito, chegando quase nas bordas da serra, a menos de 2 km de atingirem a calha do rio. Fizeram um excelente trabalho, mesmo não conseguindo descobrir o rio, porque marcaram todo o caminho no gps e agora era chegado a hora de montar o time, encostar alguns caras na parede e força-los a sair de cima do muro definitivamente. Feito o convite às pessoas que sempre confiávamos que dariam conta da empreitada, não tardou para aparecer os desdenhamentos em relação a qualidade técnica do Rio e quando citei que o Décio Marques era presença garantida na expedição, foi aí que o grupo se desmanchou feito uma torre de cartas. O Décio sempre foi uma pessoa querida de todos, mas era considerado um pé frio, onde ele pisava era certeza de fracasso, ou chovia demasiadamente, ou perdíamos a trilha, ou aconteciam trombas d’água que beiravam tragédias, enfim, absolutamente todas as empreitadas que ele se fazia presente haviam dado errado, mas claro, essa era mais uma entre várias outras desculpas que fizeram com que parte do grupo pulasse fora, mas como eu sempre digo, mais vale um grupo com pouca experiência motivado do que gente sem tesão pela exploração e foi assim que o grupo foi se formando, por gente engajada no projeto e verdadeiramente comprometida em ir lá naquele vale desconhecido fazer história . Partindo de Sumaré, no interior Paulista, eu e o meu velho amigo Prof. Dema, que há muito tempo não nos acompanhava nessas expedições, desembarcamos na capital do Estado a fim de nos encontrarmos com o grupo na estação Faria Lima do Metrô e assim que todo mundo chegou, começamos a via sacra interminável para chegar à Juquitiba, onde uma kombi já nos esperava para nos levar por uns 15 km , lugar que a estrada acaba ou fica quase que intransitável e só as pernas é que servem de meio de transporte. Depois de deixar Juquitiba, nosso veículo retorna e volta pela Br, sentido norte (SP) e uns2 km depois deixa a rodovia e entra a direita na Estrada Amélia Correia F. Guimarães e vai seguir sem pegar nenhuma bifurcação até que essa estrada passa a se chamar Estradas das Senhorinhas e quase 4 km depois passa por cima da ponte do Rio Juquiá, segue sentido sul sempre pela principal e quase 9 km depois o caminho acaba, hora de saltar do veículo e nos pormos a caminhar. A madrugada já ia alta e o feriado da República já se fazia presente e não deu nem 15 minutos de caminhada para abandonarmos a então estradinha e nos enfiarmos à direita num caminho estreito que outrora fora também uma estrada e que hoje não passava de uma trilha que ligava uma estrada à outra e que se metia dentro de uma floresta de reflorestamento e ia subindo até 20 minutos depois cruzar por cima de um riacho e desembocar numa outra estrada com ares de abandono e virarmos para esquerda para aí então caminhar por mais meia hora e adentrarmos à direita numa casa abandonada à beira do caminho, casa que foi apelidada pela primeira incursão de reconhecimento como CASA DAS BOSTAS por causa dos excrementos de animais que ali encontraram. Da Casa das Bostas fizemos nosso lar pelo resto daquela madrugada, uns amarraram suas redes nas velhas pilastras e outros resolveram se espalhar pelo chão da varanda com seus sacos de dormir já que o interior da casa, em ruinas, não gerava confiança, parecendo que o forro desabaria há qualquer momento. Foram meras 4 ou 5 horas de sono, tempo insuficiente para um descanso merecido, mas como a jornada era longa, tivemos que pular logo cedo e dar início àquela expedição. Oito da manhã as pernas já foram postas em movimento e menos de meia hora depois já nos vimos diante do Braço Grande (Rio Pedreado), justamente o rio que havíamos descido por 4 dias na última expedição, mas ali ele era mansinho e inofensivo e sem demora nos convidou para um gole d’água e como ninguém estava a fim de molhar as botas logo pela manhã, tratamos de passar nos equilibrando sobre uma árvore que havia caído, formando uma ponte de um lado à outro do lindo rio. Rio Braço Grande ( Pedreado) Atravessado o rio, o que seria uma estradinha, se transforma em trilha, mesmo que o corte aparente no barranco ainda não tenha desparecido por completo. Agora vamos seguindo mais ou menos paralelo às suas margens, aproveitando a curvas suaves do terreno em meio a floresta fechada e vez por outra vão surgindo alguns vestígios de antigas construções que a mata não tarda em tragar por completo. Essa é uma área praticamente desabitada e somente uma única habitação junto ao rio é que parece ser frequentada vez enquando, mesmo assim alguns rabos de trilha ainda sobrevivem na região, fruto deveras de caçadores e palmiteiros que infelizmente ainda deitam e rolam na periferia dessa selva fascinante. A caminhada vai se seguindo, sempre tentando acompanhar o traklog feito pela primeira investida, que por sorte conseguiram localizar essa antiga trilha que nos levaria praticamente bem perto das bordas da descida da calha do Rio Bracinho. Algumas bifurcações vão sendo descartadas porque não seguia na direção desejada e cada vez mais nos víamos afundados dentro da floresta e quando a trilha acabou definitivamente, foi hora de começarmos a nos preparar para varar mato no peito, acabou a moleza. Nas discussões fervorosas antes da expedição, havíamos chega à conclusão de que ao nos posicionarmos no ponto onde estávamos, conseguir descer até o Vale do Bracinho seria tranquilo, era só ganhar uns 500 metros de montanha varando mato e já começar a descer, mas de repente começamos a rodar em círculos e quanto mais andávamos mais nos víamos perdidos no meio da floresta, mesmo com dois gps em operação. Acontece que quando ganhávamos um terreno favorável nos empolgávamos e esquecíamos de ir acompanhado a progressão no gps e quando víamos já havíamos andado muito para o lado errado. Corrigíamos a direção e voltámos a nos empolgar, tanto que em um certo momento caímos na calha de um afluente e demos como certo ser um tributário do Bracinho e fomos descendo feitos umas bestas cegas até que alguém gritava que novamente estávamos indo para o lado errado e tínhamos que corrigir o rumo novamente, ás vezes tendo que voltar a escalar os barrancos e enfrentar bambus no peito para desespero do Décio que já arrastava 100 m de língua no chão. O tempo foi passando e a previsão de alcançar o rio principal antes do meio dia já havia se esgotado faz tempo. Mais um morro foi subido e a tal da bandeirinha(plotada no mapa) que assinalava a descida para o rio nunca que era encontrada O Décio continuava como cu de tropa e de longe xingava a mãe de todo mundo, “Pitoco véio”( apelido que eu chamava carinhosamente um dos integrante) só fazia dar risada, ainda que ele fosse o desgraçado também responsável pela navegação, eu e Trovo que seguíamos de perto o outro navegador, tentávamos ajudar, mas teve uma hora que tivemos que dar uma basta porque já havíamos rodado mais que pião da casa própria , então nos juntamos com o Anderson Rosa e decidimos não desgrudar o olho do gps até que a bandeirinha dos infernos fosse localizada e quando a encontramos foi hora de dar uma parada para respirar um pouco e esperar que todo o grupo se juntasse novamente, comesse alguma coisa para a cartada final. Menos de 2 km nos separava do nosso grande objetivo e agora com os nervos no lugar e os olhos grudados no gps, ganhei a dianteira e fui arrastando mato no peito, procurando com os olhos o melhor caminho e sempre atento aos rumos dado pelo nosso navegador e quando ganhamos uma grande calha de onde um córrego nascia e ia se enfiando nas pirambeiras, foi aí que tivemos certeza que o caminho não teria mais volta. Fomos desescalando o riachinho que aos poucos foi crescendo e se avolumando, tanto que foi necessário passar por grandes desníveis e tomar cuidado para não escorregar e pontualmente às 14 horasnossos olhos se maravilharam com o RIO BRAÇINHO, a lenda , o mito, estava finalmente descoberto, hora da comemoração e do alivio pela primeira conquista da expedição. Durante todo o estudo do projeto eu havia cantado a bola de que aquele rio selvagem seria formado por águas incrivelmente cristalinas por nascer totalmente isolado dentro da floresta e por receber outros tantos de afluentes igualmente isolados, mas ver a materialização de todos os estudos se transformar em realidade é realmente gratificante. Logo de cara somos apresentados a um rio que mais parecia um espelho, não muito grande por ser apenas um dos grandes braços formadores, mas o sorriso no rosto de cada integrante daquela equipe traduzia o quão feliz estávamos e cada um demonstrava sua satisfação de um jeito, mas uma coisa não foi diferente, todos largaram suas mochilas quando o Trovo que, havia subido por 20 metros até uma curva, gritou que havia uma cachoeira linda um pouco mais acima. Era a primeira surpresa que o rio iria nos proporcionar durante os próximos 4 dias de expedição e aquela queda d’água foi o estopim para que a gente se unisse de vez, lavasse a alma, esquecesse os perrengues passado no acesso ao rio e tivéssemos a certeza de que a aventura agora estava pronta para começar. Alguns não se aguentaram e já se jogaram nos poços junto as duas cachoeiras, outros acharam que ainda não era hora de ficar com a roupa encharcada e logo que todos estavam satisfeitos, juntamos o grupo para uma repassada final no seguimento da expedição. Tirando o Décio que estava visivelmente com uma mochila muito acima do que deveria, os outros pareciam estar nos conformes e então combinamos de tentar interceptar o grande afluente ainda naquele dia e tentar acampar na sua junção quando os dois rios dão vida ao GRANDE BRACINHO. No início é um riacho raso e até meio bucólico, correndo dentro da floresta sombreada com pequenas cascatas decaindo em singelos degraus e vez por outra algum poço mais fundo era cruzado pela cintura, mas logo ele voltava a ficar com pedras expostas. A medida que avançávamos o rio ia ganhando mais alguns pequenos afluente pelo caminho. É um caminhar gostoso, descompromissado, onde a gente vai conversando descontraidamente e não tarda para descobrirmos as pegadas enormes de antas nas prainhas de areia que se formam às margens e também as marcas deixadas por grandes felinos, onças que devem desfilar sossegadas por esses vales encantadores. A caminhada vai seguindo sem maiores problemas, as primeiras quedinhas vão aparecendo e logo à frente um pequeno cânion estreito nos dá as boas-vindas, nada que pudesse nos custar grandes esforços para ser transposto , mas como eu ainda não estava a fim de me molhar, optei logo por testar minhas habilidade de “grande escalador” de paredes lisas na serra do Mar e me agarrei no barranco do lado esquerdo e fui cravando minhas unha nas agarras que me saltavam às vistas e logo o que eu temia aconteceu, uma agarra podre não aguentou o meu peso e despenquei feito jaca podre , indo parar no fundo do poço, mas antes quiquei numa pedra exposta e bati violentamente com o tornozelo nela. Na hora, meio assustado com a queda inesperada, não senti nenhuma dor, mas passado um certo tempo depois, mal estava conseguindo caminhar e tive que arrastar perna a base de anti-inflamatório até o fim daquela expedição. Depois desse mergulho sem querer, estava também inaugurada definitivamente o molhaceiro nessa travessia, porque a partir daí todos já foram logo se jogando em tudo que é poço e a farra aquática se faria presente até o final do dia, onde outras infinidades de pequenos poços foram nadados e pequenas cachoeiras transpostas, mas acontece que nesse primeiro dia , sem dormir quase nada na noite anterior, pouco depois das 16 horas da tarde já tratamos logo de caçar um lugar decente para acampar, já que vimos que seria mesmo impossível cumprir o plano de tentar acampar na confluência dos rios. Nessas expedições devido às incertezas, sempre optamos em usar redes com toldos para os acampamentos e discutimos isso durante vários meses, mas o Décio ainda achou melhor carregar uma barraca trambolhuda, então tivemos que ficar à mercê de arrumar um lugar que pudesse comportar também uma barraquinha e por sorte nessa travessia, foi possível sempre conseguir lindas áreas de camping e foi numa dessas áreas, plana e com várias árvores grossas à disposição, que jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado àquele dia de atividades intensas , hora de tirar a roupa molhada e ir cuidar da janta e da montagem das nossas camas de mato. Quase 12 horas de sono tem o poder de revigorar uma equipe que no dia anterior estava meio destroçada e por incrível que pareça, a noite foi tranquila e sem chuvas, aliás, a previsão do tempo era de chuvas intensas para os 4 dias de expedição e até o momento nenhuma gota de água havia caído do céu e se o sol não foi intenso, pelo menos as temperaturas se mantiveram altas durante o dia anterior. Levantar da rede depois de uma noite bem dormida não é problema, mas ter que logo pela manhã vestir roupa molhada é algo que dá uma chacoalhada na gente, mas também pouco importa porque a primeira coisa, nos primeiros metros de caminhada, já somos obrigados a nos jogar na água fria do rio e sentir o poder da nossa audácia de querer desbravar rios selvagens, faz parte do ofício e o sofrimento inicial já transforma o dia logo pela manhã numa resiliência a ser suportada. Nesse segundo dia os poços vão se sucedendo de uma tal maneira que vão faltando adjetivos para usar. Logo de cara o rio estreita e uma nova garganta tem que ser cruzada, descida até um ponto em que a gente consiga se jogar de cima dela para dentro de mais um poço profundo em meio as suas corredeiras e sair nadando rapidamente para escapar das águas ainda geladas, por sorte, praticamente todo mundo está servido de coletes e isso ajuda muito na flutuabilidade e numa segurança maior, mas algumas vezes o capacete acaba por ser empurrado pela mochila, colocando alguns em dificuldades, melhor mesmo soltar a mochila ou tirar o próprio acessório da cabeça depois que já se posicionou em segurança dentro do poço. O rio vai alternando entre ser mais raso e mais profundo quando afunila um pouco e quando chegamos a outro grande poço de águas incríveis, cruzamos nos valendo de troncos, onde alguns passaram arrastando a bunda até que, sem poder se equilibrar, acabam indo parar no fundo do rio e nem dá para ficar chateado por ter sido incompetente para passar sem cair porque logo a seguir não há como fugir e é chegar no próximo poço profundo e já se pinchar de novo e para não perder o costume, a sequência é mais do mesmo quando chegamos a uma cachoeirinha. Os mergulhos são divertidíssimos e sair nadando numa água daquelas vai dando uma sensação de prazer gigantesco, é um salto e um orgasmo prolongado. Depois dessa sequência de diversão aquática o rio arrefece um pouco e volta a ser mais raso e se estabiliza e já vai dando indício de que estamos bem perto do seu grande afluente, a outra perna que vai dar corpo e alma ao Bracinho e numa curva do caminho, um grande poço, um poço sensacional nos dá as boas-vindas e marca nosso encontro definitivo e os ponteiros do relógio já marcavam quase onze horas da manhã. Aquele era mesmo um lugar incrivelmente belo, mas nos chama atenção uma clareira com um vestígio de acampamento de caçador ou de palmiteiros. É claro que não vieram pelo rio, muito provavelmente alguma trilha antiga poderia ter dado acesso até ali, mas também estava claro que há muitos anos ninguém pisava naquele barraco de lona devido ao seu abandono. A dúvida é saber de onde partiria a trilha, mas uma coisa era certa, o abandono já indicava que seria uma caminhada muito dura até chegar ali e talvez essa trilha nem mais existisse, o certo é que a partir dali a expedição iria entrar numa região selvagem, mais selvagem ainda , estávamos prestes a ficar cercado por montanhas altíssimas dentro de um vale do qual não haveria a menor possibilidade de escapar caso algum acidente acontecesse , estávamos por nossa conta, ninguém do mundo externo saberia do nosso paradeiro, entravámos num portal sem volta, rumo ao desconhecido mundo selvagem da Serra do Mar Paulista. Abandonamos o encontro do rio a sua própria sorte e seguimos nossa labuta, que para variar já nos levava para mais grandes poços profundos e de águas esverdeadas. Mais à frente outra queda d’água é vencida tendo que usarmos nossos freios traseiros para conseguir passar sem se esborrachar ou cairmos dentro das marmitas que se formavam na queda da cachoeira. A sequência é formada por uma infinidade de outros poços e aí a gente vira criança e deixa que o rio nos carregue como bem entender, somos passageiros sem controle, vamos vendo a vida passar nas belezas daquela floresta exuberante e quando o rio cansa de nos dar carona, somos lançados imediatamente dentro de um grande lago e lá ficamos por um bom tempo para reabastecer o estômago e tomarmos folego. Nesse segundo dia o terreno começa a ficar com um desnível maior e as pequenas gargantas não tardam em aparecer e deixar o rio novamente afunilado e quando as águas resolvem saltar de cima das pedras, lá vamos nós nos precipitando para dentro do rio e essa brincadeira de jogar a mochila e saltar atrás faz a festa da “molecada” e deixa o clima da expedição divertido, fazendo com que o tempo passe sem nem percebermos. Essa Cachoeira da qual saltamos não era muito alta, mas aos seus pés um poço dourado nos deixa de queixo caído. Aquilo era impressionante, era algo de uma beleza estonteante, mesmo depois de anos e anos de exploração selvagem, poucas vezes havíamos visto um poço com tamanha formosura, então nos sentamos à sua beira e apreciamos seu espetáculo, para nunca mais esquecer aquelas imagens. O dia vai passando numa velocidade impressionante e quando todos já estavam inchados de tanto nadar, grandes quedas apareceram e aí tivemos que parar e analisar qual seriam nossos próximos passos. Aquela era uma bela cachoeira, mais belo ainda era o poço que se formava na sua base de águas escuras e provavelmente muito profundo e tínhamos duas escolhas à fazer: tentar desescalar pelo lado direito, mesmo com um gasto de energia grande ou simplesmente dar um salto alucinante. Eu já havia passado a mão nas minhas tralhas e já estava me dirigindo para acompanhar o Rosa e o Régis que mal olharam para a possibilidade de saltar, já que notaram logo que aquilo era meio insano, mas quando o Trovo chegou tive que recuar para ver que sandice ele iria aprontar dessa vez. Não era muito alto, mas pular de quase 10 metros em um lugar que jamais havia visto na vida, sem saber o que se encontrava no fundo do poço, já beirava a irresponsabilidade. É, mas ele saltou! Jogou a mochila lá de cima e pulou e foi vendo ele não chegar nunca na água que nos deixou mais agoniados e quando ele explodiu lá embaixo e sumiu por um tempo, aí só ficamos aliviados quando ele submergiu dando aquela gargalhada de sempre. Depois disso não teve jeito, o Dema também se lançou atrás e não demorou muito, o Décio também já estava despencando para o fundo do poço, mas eu não, eu não estava a fim de participar daquilo, ia mesmo apanhar minha mochila e varar mato, mas o grito da platéia que já havia se posicionado nas pedras do outro lado do poço, acabou por mexer com meu brio. Não que eu já não tenha pulado de lugares muito mais alto, mas quando a gente chega a uma certa maturidade começamos a analisar melhor nossos atos e a perceber que se um acidente acontecer naquele vale, longe, muito longe de qualquer lugar habitado e sem a possibilidade de algum socorro, faz com que a gente sempre opte pelo bom senso. Mesmo assim resolvi que iria saltar. Fui até a borda da cachoeira e aí vi que era mais alto do que imaginava, mas atirei minha mochila e dei aquela corrida para pegar impulso, mas refuguei, me senti o próprio Baloubet du Rouet. Analisando melhor, vi uma língua de pedra que se estendia da parede em direção ao poço e pensei: se meu pé de apoio escorregar nessa merda, vou me esborrachar lá embaixo e não vai ser bonito de ver, melhor enfiar o rabo entre as pernas e deixar isso para lá. Mas foi aí que a multidão (na verdade dois desgraçados que arregaram, rsrsrs) ficaram me instigando a pular e no impulso dei aquela corrida e deixei que a força “g” fizesse seu papel e quando meu corpo explodiu para dentro do poço, me senti um míssil adentrando na escuridão aquosa até que outra força me jogasse de volta para a superfície. Estou vivo, agora é nadar para longe da cachoeira até atingir as margens do lago e com um sorriso enorme no rosto, apanhei minha mochila e dei várias braçadas até me sentir em segurança, feliz da vida com o andamento daquela aventura. Depois de descermos por mais uma garganta estreita e escorregadia, num estudo rápido, já percebemos que descer pela esquerda poderia ser o caminho mais ideal, mas foi uma descida um tanto exposta e quando chegamos aos pés delas alguns não aguentaram e tiveram que ir se banhar perto da sua queda, uma cachoeira com salto bonito que depois corria por uns 80 metros até cair em mais um poço esverdeado e profundo e para não perder o costume, sr. Trovo , um espécie de Aquaman tupiniquim já inaugurou mais um salto de cima da queda e foi parar de novo no fundo do rio e como ninguém queria ficar fora da diversão, um a um fomos nos livrando das nossas mochilas e pulando também: Meu Deus, a vida poderia ser feita só de saltos ! O dia já ia escapando pelos dedos e a gente não conseguia ficar seco, quando pensávamos que o rio daria um tempo sem termos que pular em algum poço, logo aparecia outro e mais outro e cada um mais bonito que o outro, mas as 16 horas, talvez um pouco mais, a gente já começou a procura um lugar para acampar e numa margem plana, junto a uma prainha de areia, vislumbramos a possibilidade de montarmos ali nossas redes e depois que todos deram o aval, cada qual foi cuidar de preparar sua casa. Agora éramos um grupo muito diferente daquele do primeiro acampamento na noite anterior, estávamos muito mais descansados e muito mais alegres pelo dia altamente produtivo que tivemos, porque foram cerca de 8 km dentro do rio, um recorde, jamais havíamos feito um percurso tão grande em nenhum outro rio. No acampamento acabamos meio que nos juntando para compartilhar coisas, Eu o Dema e o Anderson dividimos o fogareiro e cozinhamos juntos, isso serviu para que otimizássemos o peso, inclusive eu e o Dema também dividimos o toldo que cobriu nossas redes, montando-as em estilo de beliche, usando apenas duas árvores para as duas redes. O Décio como já é sabido, trouxe barraca e teve que se contentar em montá-la na beirada do rio sobre uma prainha de areia, ainda bem que foi mais uma noite sem chuvas senão o nosso amigo teria corrido o risco de navegar rio abaixo dentro dela. Jantamos e fomo dormir muito cedo, bem antes das sete da noite e foi realmente uma noite incrível, mas quando me dei conta ao amanhecer, meu corpo estava coberto por umas 300 picadas de carrapatos e enquanto escrevo esse relato, ainda me coço todo, lembranças de um paraíso guardado por todos os bichos inimagináveis, inclusive esses indesejáveis. Todos prontos para mais um dia de aventuras, deixei uma capsula de registro pendurara numa árvore com o nome de todos os expedicionários e já fomos obrigados a nos enfiarmos dentro do rio para mudarmos de margem e sem muita demora, nos enfiamos em mais uma garganta estreita e sem ter como escapar pela margem pulamos na correnteza e fomos arrastados por um bom pedaço, chacoalhando como se dentro de lavadora de roupa estivéssemos. Às vezes eu não sei porque fazemos isso, principalmente quando não controlamos mais nosso destino, mas quando tudo dá certo e somos devolvidos são e salvos, damos muita risada e queremos repetir, mas num certo momento a adrenalina deu lugar para o medo logo quando caímos numa sequência violenta onde as quedas eram um pouco mais altas e o refluxo teimava em levar a gente para o fundo do rio para depois cuspir a gente para fora feito fumo vencido. Essas sequências de corredeiras foram realmente incríveis e por isso mesmo, por estarmos sempre envolvidos com algo que nos fazia perder a noção do tempo, começamos a perceber que o dia ia passando numa velocidade inimaginável. Quando aquela sequência de corredeiras deram um tempo e o rio voltou a se estabilizar por um tempo, foi a vez de mais poços esverdeados aparecerem e mesmo com o rio um pouco mais lento, parte da galera resolveu poupar energia e seguiram boiando nas aguas claras porque mesmo sem aquele sol exuberante, a temperatura se mantinha muito agradável e as chuvas previstas pareceriam cada vez mais distantes. Os cenários eram os mais belos possíveis e quando parecia que a paisagem não mudaria, logo éramos surpreendidos com tonalidades de águas diferentes, ás veze tão transparentes que o fundo dos poços parecia conter pouco centímetros quando na verdade eram metros de profundidade e numa curva demos de cara com uma rampa e a descemos pela esquerda e essa rampa nos jogou diretamente para mais um poço, dessa vez com quase uns 100 metros de tamanho , um gigante profundo que fez com que tivéssemos que nadar por um bom tempo. A gente apostava que os desníveis do rio haviam acabado e até o final enfrentaríamos apenas leves corredeiras e a caminhada seguia tranquila e serena, hora parávamos para beliscar alguns petiscos, hora apenas nos sentávamos à beira dos grandes poços para apreciar suas belezas e quando não esperávamos ela cruzou o nosso caminho : O rio começou a ficar rápido novamente e várias pequenas cascatas iam dando as caras e de repente o rio deu em salto no vazio e nos revelou uma grande queda que ia de um lado ao outro, quase como um pequena Catarata se jogando num lago profundo. Ficamos boquiabertos, era realmente uma grande surpresa encontrar uma cachoeira daquela. O Trovo e o Dema já lançaram suas mochilas de cima das cataratas e saltaram em meio as turbulências e se perderam no fundo das águas, os outros desceram pela esquerda aproveitando uma canaleta escorregadia mais fácil de descer e vendo que o pulo era seguro, parte do grupo deixou sua mochila sobre as pedras e também foi brincar de pular de cima da queda d’água. Depois dessa cachoeira nada mais pareciam nos surpreender, o rio se transformou novamente em uma grande garganta e entre descidas memoráveis, escalávamos as paredes laterais e nos pendurávamos nas bordas escorregadias e se algo desse errado, era mais um corpo a despencar dentro dos poços profundos e aí o expedicionário virava vítima de piadas e tiração de sarro. Às vezes cansados de tanto nadar, recorríamos para alguma margem mais plana, mas quando isso nos aborrecia por causa dos bambuzinhos, voltávamos para o rio e nos lançávamos novamente na água porque já éramos praticamente anfíbios. Mas quando as corredeiras violentas voltavam, aí a gente se divertia como se estivéssemos a brincar num parque de diversões aquático e foi em um tobogã natural que o Trovo quase se lascou todo. Eu e o Regis iamos à frente nessa parte do rio, mas quando vimos que o negócio ficou perigoso, resolvemos sair da água e tentar analisar melhor antes de nos jogarmos num paradeiro incerto, mas o Trovo vindo em seguida, logo pergunta se dá para descer e o Régis sem pensar direito disse:” Manda bala “. E lá veio o Trovo desembestado feito um tronco sem rumo e quando o Regis resolveu recuar e tentar avisá-lo que a descida era insana, não deu mais tempo e só vimos o Trovo dar tchauzinho para câmera e despencar feito pica-pau sem barril. O Trovo escapou ileso, mas foi por pura sorte mesmo. A fúria da correnteza o jogou violentamente contra a parede lateral e antes que sua cabeça rachasse ao meio nas rochas, a mochila o salvou colidindo primeiro. Foi um grande susto para todo o grupo e mais uma vez ficou provado que usar capacete nunca sairá de moda e infelizmente o Trovo é o único do grupo que ainda não aderiu ao equipamento de segurança, confiança que poderia ter lhe custado a vida ou ao menos um acidente grave. Aliás, capacete, colete e perneira, eram itens que já há muito tempo vinham fazendo parte das nossas vestimentas, justamente por causa de outros acidentes ou quase acidentes que havíamos enfrentado em todos esses anos de expedições selvagens. O rio arrefece um pouco e as quedas vão dando lugar a pequenas cascatas precedidas por poços gigantes e corredeirinhas mais suaves e aí vamos aproveitando para poupar energia, nos deixando ser carregado pelas águas que nos servem de transporte. Aquele cenário é de uma beleza fora do comum, as praias infestadas de pegadas de onças, antas, pacas e uma infinidade de pássaros e nas matas, pés de palmeiras Jussara indicam que aquele é um lugar realmente ainda intocado pelo homem e a gente se sente uns privilegiados de podermos estar num lugar daqueles. A caminhada segue num ritmo tranquilo e a boiação parece nunca terminar e aproveitamos para conversar, mas a cada curva era de praxe voltar a elogiar a qualidade das águas do rio e a capacidade que ele tinha de nos surpreender e ficamos pensando nos companheiros que fizeram corpo mole para não vir porque achavam que o rio não valeria a pena, tanto que vez ou outra, alguém mandava um recadinho maroto para dar uma alfinetada em quem havia desdenhado. O final do dia já se aproximava, mas ainda achamos que 16 horas era um tanto cedo para acampar e para nossa surpresa, o terreno que até então havia se estabilizado, acabou dando lugar para uma garganta enorme, aliás, a maior garganta de todo o percurso. Uma grande cachoeira despencando no vazio e arrastando um turbilhão de água para dentro de um cânion. Não havia como descer por dentro do rio desescalando pedras, então a única maneira foi nos embrenharmos no mato por um breve momento, ganhar altura e voltarmos a descer na diagonal até interceptarmos o fundo do vale onde a cachoeira finalizava seu curso se jogando em mais um poço fenomenal, onde mais uma vez nos jogamos de cima das pedras e fomos nos deleitando sobre suas águas, nadando e vendo a pedras passarem no seu fundo transparente. O rio resolve ficar raivoso novamente e a gente já começa a pensar seriamente em achar um lugar para acampar, mas não demora nadinha para as águas resolverem se rebelar de vez e saltarem de cima de uma grande laje para dentro de mais um impressionante poço. Anderson Rosa, Régis e Décio já não aguentam mais tanta água, mas o incansável Daniel Trovo nem pensa muito, atira a mochila de cima do barranco e se joga e atrás vamos eu e o Dema para mais um salto memorável, aproveitando o ingresso do parque aquático para brincar em todos os brinquedos. Seguimos agora por um rio mais afunilado, saltando sobre grandes pedras e quando dava, tentávamos caminhar pela margem na expectativa de localizarmos uma área mais favorável para montarmos nossas redes e numa dessas saídas do rio, caímos em um patamar com árvores frondosas espalhadas num terreno plano e aí não tivemos duvidas, atiramos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado aquele dia intenso de aventuras, aliás, foram 11 km de descida de rio em um único dia, um recorde absoluto até então, algo que já jamais havíamos feito em nenhum outro rio. Realmente foi um dia daqueles e a gente estava muito feliz por tudo estar dando certo até aquele momento, as chuvas passaram muito longe da previsão e o grupo se manteve unido o tempo todo. A montagem das redes é uma coisa que mesmo trabalhosa, acaba por ser divertida por fazer parte do processo da expedição, um aprendizado que vai se construindo pouco à pouco. A confraternização é um daqueles momentos únicos nessas expedições, serve para afinar o grupo, rever alguns erros cometidos e repassar os momentos incríveis passados durante o dia. Mas pela atividade intensa, mal terminamos de jantar e todo mundo já foi se esticar na sua rede, alguns desmaiam rapidamente, outros ainda ficam jogando conversa fora durante algum tempo. Enquanto eu também não apago, fico pensando como vales como aquele ainda conseguem se manter longe dos olhos humanos durante tanto tempo, mesmo estando nas barbas da maior cidade do Brasil, lugares onde naquele exato momento poderia estar sendo vigiado por onças incríveis e outros animais sensacionais e aí transbordo de felicidade de poder fazer parte de algo único na vida, ter a honra de poder fazer parte de uma expedição como aquela. O dia amanhece lindo e parece que logo pela manhã o sol já vai dar as caras e esse seria o nosso último dia de expedição e esperávamos não nos demorar muito para interceptarmos vestígio de civilização. Levantar da rede muito cedo não foi difícil, mas colocar roupa molhada é sempre algo que me aborrece, mesmo sabendo que os primeiros passos já serão por dentro do rio e de suas águas frias. Cada um tenta atravessar molhando o menos possível, mais tem logo uns tontos que desequilibram e vão para no fundo do rio e como dessa vez não fui um deles, me alegro de chegar apenas com a água perto da cintura, mas essa alegria não dura nem uma curva e logo o pelotão da frente já acha que deve se atirar no rio de cima de uma cachoeirinha para evitar a fadiga de ter que escalar paredes lisas para se manter ainda um pouco seco. Alguns de nós insiste em testar seus dotes de subidores de paredes e se equilibrando na ponta da unha, vão fugindo da água gelada e eu fui um deles, mas quando o caminho acabou e foi preciso trepar no barranco para rasgar mato no peito, toquei o foda-se e mergulhei nas profundidades do grande poço e já que estava no inferno, abraçar o capeta era o que estava tendo para hoje, nadei o mais rápido que pude, alternando entre longas braçadas e cachorrinho até me ver novamente as margens secas, são e salvo das baixas temperaturas matinais. Aquele era mais um poço impressionante, como todos outros que passamos nessa expedição e logo um tronco chama atenção por parecer muito com a estátua O PENSADOR, famosa de Alguste Rodim e aí não teve como não batizar aquele queda d’água como CACHOEIRA DO RODIM , nome dado , aliás, pelo Daniel Trovo. E essa cachoeira marca definitivamente a entrada da expedição na área já menos selvagem, mas nem por isso habitada. Ao Lado do grande lago, uma clareira abandonada há vários anos nos mostra que estamos mais perto da civilização e se tivéssemos nos apressado mais um pouco no dia anterior, talvez umas 2 horas, poderíamos ter acampado nessa clareira com um abrigo ainda em condições de ser usado. Dessa clareira saia uma trilha e foi por ela que seguimos por um bom tempo até localizarmos outro vestígio, um barraco destruído e sem uso também há vários anos pelo seu aspecto de abandono. A trilha se foi e o rio voltou a se tornar novamente nosso caminho e quando chegamos perto do que outrora fora uma ponte de troncos e que hoje também se encontra destruída, demos de cara com outra habitação, o BARRACO DO ESPANTALHO, esse sim parecendo ser ocupado de vez enquanto e por um golpe do destino, logo mais saberíamos quem seria o seu dono, de antemão não passam mesmo de rústicos casebres de madeira usados por caçadores locais. Até tentamos seguir por uma trilha que partia dessa choupana, mas logo ela se perdeu no mato e voltamos novamente para o rio por onde andamos por um bom tempo, arrastando nossas botas no areião e quando tentamos interceptar um casebre que eu havia marca no mapa de satélite, demos com os burros n’água e tivemos que bater em retirada, varando uns bambus e uns cipós quase que intransitáveis. Um olhar atento nos levou para outro rabo de trilha e a seguimos até que ela se transformou numa estradinha abandonada em meio a uma plantação de bananas igualmente esquecidas na floresta. Essa estrada nos devolveu novamente ao rio e o cruzamos novamente para interceptar a continuação do caminho e nos agarramos a ele por mais de uma hora até que finalmente perto das 13 horas demos de cara com a sede da FAZENDA BRACINHO, na verdade um amontoado de algumas casas simples, mas em um lugar muito bonito. Dessa casa surgiu o caseiro, que sem querer muita conversa, nos indicou o caminho para fora da fazenda e essa foi a primeira pessoa com quem conversamos em 4 dias de expedição selvagem. Agora tínhamos uma missão ingrata de caminhar por uma estradinha de terra por mais de 7 km, debaixo de um sol para cada um e antes mesmo que essa penitência começasse, ” tio Décio”, aquele das tralhas inúteis, sacou do fundo da mochila uma peça de salame e foi imediatamente ovacionado pela “multidão” ali presente que já sem comida há muito tempo, deram muitas vivas e juraram amor eterno ao nobre expedicionário. Pouco mais de 1 km nos leva até um amontoado de casas e ao passar por um laguinho, ouvimos o chamado de um casal que do alto de sua habitação queriam saber que diabos aquele monte de gente estranha, com roupa esquisita estava fazendo por aquelas bandas e enquanto contávamos nossa história, uma travessa de torresmo, pão, café e refrigerantes nos foram servidos e por causa disso resolvemos transformar o então breve conto em um romance Homérico até que cada buraco do estômago fosse preenchido. Para pôr fim àquela travessia um pouco mais cedo, já sabendo que a volta para casa seria uma via crucies, voltamos para a estradinha enfadonha a fim de alcançar logo a Rodovia Régis Bitencourt no meio da Serra do Cafezal para tentar algum transporte até Juquitiba ou o para qualquer lugar que nos deixasse o mais próximo possível de São Paulo e foi aí que, logo depois da ponte que atravessa por cima do próprio Rio Bracinho, uma esticada de dedo totalmente descompromissada fez uma caminhonete parar imediatamente. Dela desceu um homem meio desconfiado, mas a sua curiosidade não o deixou seguir em frente e quando contamos rapidamente de onde vínhamos, seu Flávio arregalou os olhos sem acreditar no que acabara de ouvir. Rapidamente deu um jeito de acomodar todo mundo no veículo, alguns dentro e outras na carroceria. Seu Flávio é um fazendeiro plantador de bananas ali da região e costuma caçar ali nas cercanias do Bracinho e quando soube que havíamos descido o rio das nascentes até quase sua foz, seus olhos brilhavam e seu espanto foi ainda maior quando soube que passamos pelo vale selvagem sem portarmos nenhuma arma para nos defendermos das onças e porcos selvagens. Ao chegarmos perto da Rodovia, fez questão de passar num boteco empoeirado para nos mostrar à outros amigos ali da região e ao sabermos que ele estava indo para capital, não nos furtamos em angariar uma carona pelo menos para os que moravam muito mais longe, no caso meu e do Dema que residimos no interior e para outros que teriam que trabalhar na segunda- feira. Infelizmente acabou sobrando para o Décio e para o Rosa a tarefa ingrata de voltar para São Paulo pegando uma infinidade de ônibus, mas para nós que conseguimos a carona, acabou por ser uma viagem tranquila e divertida e às cinco da tarde já estávamos embarcando na rodoviária do Tietê para Sumaré, enquanto isso, Daniel Trovo e Régis já foram se perder para outros fins de mundo ali mesmo naquela cidade gigantesca. O Rio BRACINHO ganhou um nome ingrato por acharem ser ele um mero afluente, tributário menor do Rio São Lourencinho, que por sua vez era um importante afluente do Rio Juquiá, um grande rio da bacia do Ribeira do Iguape. O Bracinho se mostrou gigante, não só no seu comprimento, mas na sua importância dentro de uma região ainda inexplorada e selvagem, um vale até então totalmente desconhecido, no máximo arranhado em sua porção mais próximo à civilização. Quando resolvemos nos jogar na tal aventura, esperávamos encontrar um lugar selvagem, mas jamais poderíamos prever que esse rio se transformaria em um dos maiores achados de todos os tempos da Serra do Mar e o grupo que atravessou aquele vale, na sua maioria formado por senhores já de meia idade, saíram do outro lado com pelo menos uns 10 anos de idade a menos porque se entregaram ao deleite de voltarem a ser crianças para aproveitar esse grande parque de diversões natural. Para a geografia do Estado é mais um rio que foi acrescentado ao mapa e mesmo que passe muitos e muitos anos para que outro grupo resolva atravessá-lo, ele ainda figurará muito tempo longe das vistas destruidoras da raça humana, simplesmente pela sua dificuldade de acesso, como todos os outros rios que compõem o LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA. Divanei Goes de Paula- novembro/2018
  16. Ponte Larja e o lindo Rio Dudh Koshi Início: Shivalaya Final: Namche Bazar Duração: 7 dias Maior altitude: 3536m no Passo Lamjura La Menor altitude: 1504m na ponte junto à confluência dos rios Dudh Koshi e Deku Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de 600m a 1000m diários, ultrapassando os 3000m de altitude. Permissões: entrada do Gaurishankar Conservation Area Project (Rs 3000 = US$ 26,04), entrada do Parque Nacional Sagarmatha (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$17,36). Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. O trekking Shivalaya-Namche Bazar é a primeira parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base do Everest e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A segunda parte está descrita aqui e a terceira parte aqui. A escolha de Shivalaya como ponto inicial teve vários motivos: 1. é o percurso histórico de conquista do Everest pelo neozelandês Edmund Hillary (1919-2008) e o nepalês Tenzing Norgay (1914-1986) em 1953, 2. para evitar o caro e arriscado voo Kathmandu-Lukla (além disso um voo que é cancelado frequentemente por causa do tempo instável em Lukla) 3. conhecer o lado menos turístico e mais autêntico do trekking do Everest. Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são: . Shivalaya: NTC . Bhandar: NTC, NCell . Sete: NTC, NCell . Junbesi: NTC . Nunthala: NTC . Bupsa: NTC . Cheplung: NCell . Namche Bazar: NCell O cartão pré-pago de wifi Nepal Airlink funciona de Junbesi a Kharte, e em Phaplu. O cartão pré-pago Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não testei nenhum dos dois porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Monastério Pema Namding, em Kharikhola 23/10/18 - ônibus de Kathmandu a Shivalaya No dia anterior (22/10) eu havia ido ao horrível e sujo terminal de ônibus do Ratna Park para comprar a passagem para Shivalaya. Na verdade havia tentado comprar com mais antecedência ainda mas não quiseram me vender, somente no dia anterior mesmo. Nesse dia o ônibus partiu às 8h com vários lugares vagos mas nas paradas seguintes já começou a encher e durante a longa viagem lotou e esvaziou muitas vezes. Por volta de 10h50 houve uma parada para almoço e a partir daí a estrada passou a ser de terra com muitos buracos, pedras e poeira. Felizmente a estrada não era tão estreita e com abismos como na viagem entre Kathmandu e Syabrubesi (relato aqui), mas o ônibus pulava do mesmo jeito e era preciso tomar cuidado para não bater a cabeça no teto. Foi uma viagem horrível também, muito cansativa pelas condições da "estrada" e pelo tempo muito longo chacoalhando dentro do ônibus: 11h20 para percorrer apenas 215km!!! O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo. Os únicos estrangeiros no ônibus além de mim foram um casal francês que subiu numa cidade do caminho e desceu em Jiri. Ele colocou tampões no ouvido para não escutar a trilha sonora nepalesa no último volume. Às 18h10 passamos por Jiri, já de noite (anoiteceu por volta de 17h40), e ainda rodamos mais 1h10 até Shivalaya no escuro, o que foi ainda mais emocionante pois o ônibus pulava o tempo todo e não era possível ver as ribanceiras onde a minha viagem poderia terminar. Às 19h20 saltei desse ônibus em Shivalaya, recoloquei minha coluna e minha bacia no lugar e saí procurando uma hospedagem. No Amadablam Lodge, um dos primeiros da vila, o dono estava na frente e me chamou. Pelo cansaço que eu estava aceitei os Rs200 (US$1,73) que ele pediu sem pensar em negociar o quarto de graça. Recomendo esse lodge pois toda a família era muito simpática. Conversei bastante com o dono (que fala bem inglês), que me disse que a vila foi arrasada nos terremotos de 2015 e eles tiveram de morar por 3 meses em barracas até a reconstrução do lugar. Quase todas as casas que eu estava vendo ali eram novas e todas reconstruídas em madeira. O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene deles já que não usam papel higiênico. Altitude em Shivalaya: 1782m Preço do dal bhat: Rs 300 Vila de Shivalaya, início do trekking 1º DIA - 24/10/18 - de Shivalaya a Bhandar Duração: 4h50 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2709m Menor altitude: 1782m Resumo: nesse dia subi por uma serra alongada na direção leste-oeste, inicialmente pela crista e em seguida pela vertente sul até a cabeceira do vale na vila de Deurali (2709m). Em seguida desci a encosta oposta, a leste, até o povoado de Bhandar, a caminho do vale do Rio Likhu. Quando amanheceu é que pude ver melhor como era simpática a vila de Shivalaya. O lodge estava localizado num largo cercado de sobradinhos de madeira coloridos e com sacada. Saí do lodge às 8h56 subindo a rua de volta até a entrada do vilarejo. Ali continuei em frente (esquerda) pois à direita está a estrada por onde cheguei de ônibus na noite anterior. Porém dei poucos passos e fui parado pelo guarda do checkpoint do Gaurishankar Conservation Area Project. Eu não havia ido ao Tourist Service Center em Kathmandu para obter a permissão desse parque, então paguei ali na hora, aparentemente pelo mesmo preço (Rs 3000, US$ 26,04). Só mostrei o passaporte, não necessita foto. Às 9h10 continuei pela mesma rua, que fez uma curva para a esquerda. Logo após a ponte segui para a direita, mas poucos passos depois abandonei essa rua e entrei num beco à esquerda. Logo estava caminhando por uma trilha e iniciando meu longo percurso em direção ao Everest. E também já surgiram as primeiras escadarias. Parei alguns minutos para tirar a blusa e passar protetor solar. À medida que subia ia se ampliando a visão da vila de Shivalaya encaixada no vale do Rio Khimti e cercada de morros bem verdes. Às 10h13 a trilha cruzou uma estrada e segui a placa de Deurali, subindo mais degraus. Comecei a notar fitas cor-de-laranja sinalizando a trilha. Isso me ajudou bastante em alguns pontos de dúvida mas depois soube que eram para uma competição, não eram mantidas permanentemente. Ou seja, a gente paga US$26 para caminhar por um parque que só existe no papel e que praticamente não tem sinalização... Às 10h19 cruzei a estrada de novo com uma placa de Deurali apontando a trilha que subiu até uma antena. Logo cruzei a mesma estrada e continuei seguindo as fitas laranja e a placa de Deurali. Às 10h34 quis cruzar a estrada novamente e subir a trilha na encosta mas estava errado - dessa vez deveria tomar a estrada mesmo, subindo à direita por 215m para em seguida entrar numa outra trilha na encosta à esquerda. Mais acima segui as fitas e subi a trilha à direita na direção de uma casa no alto. Passei pelo Sushila Lodge e às 10h54 pela escola de Sangbadanda. Cruzei a mesma estrada mas 45m depois passei a caminhar por ela para a direita, com placa e fita sinalizando. Nesse momento estava deixando a crista dessa serra e passando a percorrer a vertente sul dela. Caminhei pela estrada por 745m e antes que ela fizesse uma curva fechada para a esquerda abandonei-a em favor de uma trilha descendo à direita junto a uma casa, às 11h13. Dali iria caminhar por trilha até Deurali, na cabeceira do vale, passando por cinco pontos de água (parei em um deles para comer alguma coisa). Na única bifurcação, às 11h48, fui à esquerda seguindo a fita laranja. Subi até cruzar uma estrada às 13h05 e cair nessa mesma estrada 4 minutos depois, indo para a esquerda e chegando à vila de Deurali (2709m). Fui à direita na bifurcação e passei pelas extensos muros de pedras mani no centro do vilarejo. Há três lodges ali e um deles anuncia "edifício resistente a terremoto". O Lama Guest House vende queijo de iaque: 100g por Rs 150 (US$1,30), o melhor preço que encontrei (o mesmo de Ringmo, três dias depois). Havia já muitas nuvens nessa hora, mas com céu limpo seria possível ver o Passo Lamjura La, 16km a leste (onde passaria no 3º dia). Cruzei a vila sem fazer nenhuma parada e imediatamente comecei a descer a encosta oposta, a leste, em direção ao povoado de Bhandar. A parte mais alta dessa encosta está toda rasgada por uma sinuosa e poeirenta estrada de terra, mas felizmente há uma trilha que desce mais diretamente. Nos primeiros 4 minutos de descida a partir da vila não notei uma trilha abaixo à esquerda e continuei em frente, mas vi que as fitas haviam sumido e na dúvida voltei. Só então vi que a outra trilha abaixo tinha fitas e a tomei. Pelos próximos 34 minutos cruzei a estrada sinuosa e caminhei por ela o mínimo possível, tomando todas as trilhas/atalhos que encontrei. Depois continuei descendo pela trilha, que passou por diversas casas aqui e ali. Às 14h39 cruzei duas vezes uma estrada que fazia uma curva fechada à minha esquerda. Às 14h45 a trilha terminou num final de estrada com um monastério à esquerda que parei para fotografar. Na estrada fui para a esquerda e passei pelo primeiro lodge de Bhandar, o Shobha Lodge, às 14h54. Ainda desci mais por uma trilha para ver se havia outras opções de hospedagem mas não encontrei. No caminho de volta ao primeiro lodge conheci um casal da Hungria, Zita e Daniel, e eles estavam indo procurar outro lodge ainda mais abaixo ou talvez seguir para a próxima vila (distante ainda 3h, onde deveriam chegar no começo da noite). Eu voltei ao Shobha Lodge e negociei com a dona o valor do quarto: acertamos por Rs100 (US$0,87) se eu fizesse as refeições ali mesmo. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar. No quarto havia tomada para carregar as baterias (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?). Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte. Nessa noite se hospedaram dois casais franceses muito simpáticos com seu guia, carregadores e até um professor de ioga. Eles não iam para o Everest, iam na verdade subir o Pikey Peak, uma montanha de 4065m de altitude de onde se avistam Everest, Lhotse, Thamserku, Kangtega e muitas outras montanhas. Essa vila de Bhandar é o ponto final de um ônibus que sai diariamente do terminal do Ratna Park em Kathmandu às 5h30. Altitude em Bhandar: 2204m Preço do dal bhat: Rs 400 Preço do veg chowmein: Rs 260 Um agricultor no meio da plantação de cardamomo 2º DIA - 25/10/18 - de Bhandar a Sete Duração: 5h45 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2516m Menor altitude: 1576m Resumo: nesse dia continuo a descida até o vale do Rio Likhu e inicio a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte. Minha direção foi basicamente leste. Depois da aula de ioga dos simpáticos franceses, saímos juntos do lodge às 8h45. Porém eles iam subir o Pikey Peak, então iríamos caminhar apenas algum tempo juntos. Mas valeu a pena pois eles eram muito curiosos e interessados em tudo o que viam, e perguntavam tudo ao guia. Eu aproveitei a oportunidade para aprender mais sobre plantas, construções budistas, etc. Saímos do lodge descendo na direção leste e cruzamos uma estrada de terra. Passamos por várias pequenas plantações, inclusive de chá, e por um muro de pedras mani. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas e rodar as rodas mani sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum". Cruzamos outra estrada, passamos pelas casas da parte baixa de Bhandar e fomos à direita numa bifurcação com placa apontando Kinza (Kinja). Descemos até uma ponte e a cruzamos às 9h20. Passamos a caminhar por uma encosta íngreme com o grande vale do Rio Likhu à nossa direita cada vez mais profundo. Às 9h54 passamos por uma pequena cachoeira à esquerda e 13 minutos depois paramos para fotos numa cachoeira ainda maior e mais bonita. Apenas 100m depois abandonamos o caminho mais largo e entramos numa trilha à direita, ainda sinalizada com as fitas laranja que havia seguido no dia anterior. Descemos bastante e às 10h39, numa outra bifurcação com placa apontando Kinza à esquerda, os franceses desceram à direita para ir ao Pikey Peak e eu fui à esquerda, seguindo as fitas laranja ainda. Passei por mais alguns pontos de água e às 11h43 a trilha terminou numa estrada de terra, onde fui para a esquerda (nordeste). Passei por um grupo de casas junto ao Rio Chari (menor altitude do dia: 1576m), atravessei esse rio e cruzei à direita a ponte suspensa sobre o Rio Likhu. Após essa ponte segui à esquerda acompanhando o rio e atravessei uma segunda ponte suspensa para a esquerda, mas desta vez sobre o Rio Kinja, um afluente do Likhu. Subi à direita e passei às 12h13 pelo portal de pedra da vila de Kinza (Kinja), com vários lodges. Parei no New Everest Guest House para almoçar. Às 13h retomei a caminhada, passei por mais alguns lodges e na bifurcação fui à esquerda. A trilha subiu bastante em zigue-zague com escadarias rústicas de pedra. Aqui inicio uma longa subida por uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte. Às 13h44 subi à esquerda numa bifurcação sem fita (perguntei na casa para confirmar). Às 14h19 parei para descansar num gramado à esquerda da trilha e ao lado de uma casa, mas fui surpreendido por uma inusitada chuva, a única de todo esse trekking. E não foi fraca, tive que me abrigar junto à casa e esperar. Às 15h18 prossegui e a 70m dali fui à direita numa bifurcação sem fita laranja. Às 15h32 passei pela escola de Chimbu. Mais acima passei por algumas casas e uma mulher me ofereceu haxixe! Em Kathmandu isso é bem comum mas na trilha foi a única vez. Às 16h25 a trilha terminou numa estrada de terra e fui para a direita. Caminhei apenas 100m e parei no primeiro lodge da minúscula vila de Sete, chamado Sun Rise. A simpática garota (de nome Chhotin) concordou que eu pagasse apenas as refeições e me instalei ali. Saí para conhecer um pouco mais do lugar e encontrei o casal húngaro que conheci em Bhandar (Zita e Daniel) no outro lodge, Solukhumbu Sherpa Guide. Só dois lodges estavam funcionando no vilarejo. Nessa noite fui o único hóspede da Chhotin e sua mãe e elas fizeram questão que eu jantasse na cozinha com elas. Conversamos bastante e fiquei surpreso como a garota aprendeu inglês sem ter aulas, apenas conversando com os hóspedes. O banheiro ficava dentro da casa, tinha vaso sanitário mas a descarga era com caneca. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar. Altitude em Sete: 2516m Preço do dal bhat: Rs 495 Preço do veg chowmein: Rs 380 Casas acima da vila de Goyam 3º DIA - 26/10/18 - de Sete a Junbesi Duração: 7h15 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3536m Menor altitude: 2516m Resumo: nesse dia continuei a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levou ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, o qual cruzei para descer à vila de Junbesi no vale do rio homônimo. Minha direção foi basicamente leste. Saí do lodge às 8h40 continuando para leste. Passei pelo lodge Solukhumbu Sherpa Guide e em seguida subi à esquerda (à direita está o lodge Sherpa Guide). Subi bastante e às 10h cruzei uma estrada e continuei subindo pela trilha entre casas e plantações. Ali fui alcançado pelo Christopher, um austríaco que planejava fazer o mesmo roteiro que eu: Campo Base do Everest e Três Passos. Conversamos um pouco mas ele era bem mais rápido e logo sumiu na frente. Na bifurcação logo após as primeiras casas fui à direita seguindo a placa "way to Junbesi" e atravessei a vila de Dakchu. Havia atingido a crista dessa serra e agora a visão se ampliava para o norte também. Ao fim da vila a trilha sai numa estrada, na qual segui para a esquerda, mas apenas por 40m e entrei no caminho à esquerda que virou uma estrada também. Quando ela fez uma curva para a direita e outra para a esquerda, não notei mas havia uma trilha subindo a encosta à esquerda. Ia passando direto mas alguém me alertou. Subi a trilha e entrei na mata. Subindo, cruzei uma estrada. Com mais 50m a trilha desembocou na estrada, onde fui para a direita. Com 100m subi uma trilha na encosta à esquerda. Às 10h51 passei pelas primeiras casas de Goyam, com dois lodges. Cruzei a estrada mais três vezes, depois caminhei por ela por 50m e entrei em outra trilha à direita que subiu a mais casas da vila de Goyam, às 11h29, onde há um lugar que vende queijo. Na estrada acima fui à direita. Mais uma vez subi a trilha à esquerda na encosta (com fita verde dessa vez). De novo saí na estrada e segui por ela à esquerda. Mais 55m e subi na trilha à esquerda na encosta. Cruzei a estrada mais três vezes e parei por meia hora para comer alguma coisa que tinha na mochila. Passei pelas ruínas de um lodge às 12h45 e 80m depois caí de novo na estrada, indo para a direita. Na curva da estrada entrei na trilha à esquerda. Na bifurcação fui à esquerda pois à direita havia uma árvore caída, mas acho que foi o pior caminho para alcançar a estrada acima, aonde fui para a esquerda. Nesse trajeto desde Dakchu entrei e saí da mata diversas vezes. Às 13h11 finalmente a estrada terminou de vez, virou uma trilha e 500m depois cruzei um vilarejo com lodges. Subi passando por uma stupa e às 13h54 cheguei ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, com muitas bandeirinhas de oração budistas. Era possível ver a vila de Deurali a oeste, onde passei no 1º dia, a 16km dali. Ao lado há um restaurante. Este é o ponto mais alto desse trekking de Shivalaya a Namche Bazar e os muitos aviões com destino a/partindo de Lukla passam numa altitude pouco acima. Às 14h15 iniciei a descida e em 6 minutos estava entrando numa floresta de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, num lindo espetáculo. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Na descida alternaram-se trechos com algumas casas e trechos de mata (com alguns pontos de água) ao percorrer o vale do Rio Taktor, afluente do Rio Junbesi. Passei por um monastério com stupa na vila de Taktor e a trilha virou uma estrada novamente às 16h16. Numa curva fechada da estrada para a esquerda entrei numa trilha à direita e desci, seguindo à esquerda na bifurcação 50m depois. A trilha acompanhou a curva da encosta para a esquerda e às 16h38 avistei Junbesi abaixo num bonito vale coberto de árvores com o Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Nas bifurcações a seguir fui à direita e à esquerda. Desci por escadarias de pedra, passei por um primeiro lodge ainda na descida e parei no Sherpa Guide Lodge, o primeiro na entrada do vilarejo, às 17h10. Parei ali por sugestão da sra Maya, do Lodge Sun Rise da vila de Sete. Ela disse que esse lodge era da sua irmã, mas eles costumam falar isso e nem sempre é verdade. Conversei com as donas e aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, mas "eu não devia contar isso pra ninguém". O banheiro ficava dentro da casa e tinha todos os confortos ocidentais: vaso sanitário com descarga acoplada e até lavatório, coisa muito rara! Em Junbesi é que soube da existência do cartão pré-pago Nepal Airlink, que dá acesso ao wifi dos lodges ali e em muitos outros vilarejos (mais informações no meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal"). Altitude em Junbesi: 2704m Preço do dal bhat: Rs 400 Preço do veg chowmein: Rs 360 Stupa em Junbesi 4º DIA - 27/10/18 - de Junbesi a Nunthala Duração: 7h25 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3058m Menor altitude: 2206m Resumo: nesse dia percorri, subindo e descendo de maneira mais suave, a extremidade sul de uma serra que se alonga na direção norte-sul. Após cruzar o Rio Dudhkund veio uma subida mais íngreme até o Passo Taksindu La (3058m) e depois a descida interminável até a vila de Nunthala. Junbesi foi talvez o vilarejo mais bonito e simpático desse trajeto de 7 dias até Namche Bazar. Sua localização no verdejante vale do Rio Junbesi é privilegiada. Há uma grande e bonita stupa na praça central que rende muito boas fotos. Para quem está com tempo sobrando há diversos monastérios para visitar nas redondezas. Se houver necessidade de saída pode-se fretar um jipe ($$$) na vila para ir a Phaplu ou Salleri, onde se pode tomar outro jipe, ônibus ou mesmo avião de volta a Kathmandu. Da porta do lodge via o cume do Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Saí às 8h37 e enquanto fotografava a stupa no centro da vila apareceu o Christopher acompanhado do casal húngaro Zita e Daniel. Começamos a caminhar juntos mas na ponte metálica sobre o Rio Junbesi já nos distanciamos pois parei para tirar mais fotos. Ao cruzar a ponte, adornada com bandeirinhas de oração budistas, caminhei 60m à direita pela estrada e entrei na trilha subindo à esquerda, entrando na floresta de pinheiros. Com 50m cruzei uma estrada. Estava iniciando a subida pela vertente oeste de uma serra que se estende na direção norte-sul. Continuei subindo, saí da mata, passei por algumas casas e reentrei na mata de pinheiros. Às 9h45 saí da mata e logo era possível ver o Passo Lamjura La a oeste, bem longe, além do bonito vale do Rio Junbesi bem abaixo. Às 10h46 alcancei a crista dessa serra. Ali uma surpresa: a primeira visão do Everest na extremidade esquerda de uma linda cadeia de montanhas que incluía também Thamserku, Kangtega, Kusumkangaru (Kusum Kanguru), Kyashar e Mera Peak. Porém todos muito distantes ainda (o Everest estava a cerca de 58km em linha reta). Reencontrei meus três amigos e gastamos um tempo tirando fotos. O local se chama Phurtyang (Phurteng) e o lodge ali não poderia ter outro nome: Everest View. A senhora vendia queijo de iaque. Às 11h09 retomei sozinho a caminhada porque os apressados já haviam ido embora. Até ali já havia passado por três pontos de água, mas dali até Ringmo passaria por mais de dez - água não faltou nesse dia! Caminhando agora pela vertente leste da serra, às 11h28 alcancei uma stupa que me proporcionou uma visão ainda melhor do Everest. Ao sul era possível ver também a pista do aeroporto de Phaplu, além do bonito vale do Rio Solu. Passei pela vila de Salung às 11h56 e continuei descendo. Às 12h54, junto a uma ponte, parei para comer alguma coisa que trazia na mochila. Tive a sorte de avistar e fotografar alguns macacos próximos da trilha. Na ponte seguinte começaram a aparecer as pedras mani coloridas e até embaixo da ponte suspensa que veio a seguir havia várias pedras desse tipo ao lado do Rio Dudhkund. A partir do Rio Dudhkund (13h25) inicia a subida em direção ao Passo Taksindu La. A minha primeira parada nessa subida foi na vila de Ringmo, às 13h43, onde há uma fábrica de queijo de iaque com loja. O preço foi o melhor que encontrei (o mesmo de Deurali): Rs 150 (US$ 1,30) por 100g. Ali reencontrei Zita e Daniel. Há também um posto de saúde gratuito patrocinado por entidades da França e da Alemanha, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking. A trilha, que até então era vazia e tranquila, passou a ter um número crescente de pessoas. Muita gente chega de ônibus, jipe ou mesmo avião a Phaplu ou Salleri e inicia a caminhada por ali. Retomei a caminhada às 13h58 e na subida ao Passo Taksindu La cruzei seis vezes uma estrada em zigue-zague, subindo por um caminho calçado de pedras à sombra da mata. O passo tem uma stupa, um lodge e um portal de pedras com rodas mani no interior. Altitude de 3058m. Passei por ele às 15h rapidamente porque ainda queria visitar o monastério que há na descida para Nunthala. Desci 190m e caí numa estrada, onde fui para a direita, mas andei nela apenas 40m e entrei na trilha à direita. Cheguei às primeiras casas da vila de Taksindu, onde a trilha deu uma guinada de 90º para a direita, e às 15h15 cheguei ao Monastério Takgon Seddrub Tharling. O lugar é bem grande e bonito, numa posição privilegiada com vista para as montanhas. Havia muitos monges, todos muito jovens, com suas roupas cor de vinho. Retomei a caminhada às 15h31 saindo pelo mesmo portão por onde entrei (parece que há outras saídas). Na bifurcação fui à direita para descer por trilha (à esquerda caminharia pela estrada). Na bifurcação em T abaixo fui à direita e já pude ver Nunthala, porém muito abaixo ainda. Essa descida pareceu não ter fim, com pedras soltas e um pouco de lama, e havia bastante gente nela, inclusive três russos com quem conversei um pouco. Passei por três pontos de água e apareceu outra estrada, que primeiro tangenciei e depois cruzei, sempre procurando pelos caminhos por trilha e evitando andar na estrada. Às 16h40 cruzei uma ponte suspensa bem alta com vale bem estreito, quase um cânion, no fundo. Às 16h58 saí numa estrada, fui para a esquerda, fiz a curva para a direita e entrei noutra trilha à direita na próxima curva. Às 17h07 a trilha terminou numa estrada já na vila de Nunthala - fui para a direita e depois esquerda na bifurcação logo em seguida, descendo (havia placa de posto de saúde à direita). Para minha decepção havia carros trafegando ali. Parei num dos primeiros lodges pois meus três amigos estavam lá, mas era bem pequeno e parecia já estar lotado. E devia haver opções bem melhores no centro da vila, mais abaixo. E havia muitas, todas vazias. Escolhi um dos últimos, o Danfe Lodge, e dei sorte pois a família era muito simpática e por ser o único hóspede jantei com eles. Eles aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, o quarto saiu de graça. O banheiro era no estilo oriental e ficava fora da casa, um problema para ir no meio da noite. Para escovar os dentes e se lavar não havia uma torneira fora da casa, como de costume, então era preciso usar a torneira do banheiro mesmo. Havia tomada (com interruptor) no quarto para carregar as baterias pela última vez nessa caminhada. Altitude em Nunthala: 2206m Preço do dal bhat: Rs 350 Preço do veg chowmein: Rs 350 Campos cultivados em Kharikhola 5º DIA - 28/10/18 - de Nunthala a Bupsa Duração: 5h (descontadas as paradas) Maior altitude: 2328m Menor altitude: 1504m Resumo: nesse dia a descida do Passo Taksindu La continua até o profundo vale do Rio Dudh Koshi, em seguida vem uma subida bastante desgastante até Kharikhola, uma descida bem suave até o Rio Khari e para encerrar uma subida dura até a vila de Bupsa. Logo cedo apareceram alguns personagens que iriam ser companhia constante (e irritante) nos próximos dias durante o trekking: as tropas de mulas, que podiam chegar a grupos de 20 ou 30, para desespero dos trilheiros. Elas ocupam todo o espaço da trilha e é difícil ultrapassar o grupo todo, enquanto isso você é obrigado a respirar a poeira que elas levantam e o próprio mau cheiro delas. O tropeiro que as conduz dá gritos muito estranhos. Por mais cedo que se comece a caminhar não se consegue escapar de tê-las à frente. Ao cruzar uma tropa a recomendação é sempre ficar do lado da encosta e não da ribanceira já que uma topada com a carga de uma mula pode jogar o caminhante morro abaixo. Com o céu limpo da manhã pude avistar da frente do lodge o Pico Kusumkangaru (Kusum Kanguru), muito bonito e imponente, a nordeste. Saí do lodge às 8h46 inicialmente na direção nordeste e continuei minha descida. Às 9h03 fui à esquerda na bifurcação em frente a uma casa, descendo. Às 9h19 fui à esquerda em outra bifurcação pois havia uma fita verde mas tanto faz. Cruzei três pontes de concreto e depois uma estrada junto a um lodge. Saí na mesma estrada, mas andei apenas 20m por ela para a direita e entrei na trilha à esquerda. Novamente cruzei a estrada. Às 10h23 entrei na mata e desci por ela até a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, com a vila de Chhirdi cerca de 100m antes. A essa altura eu já havia reencontrado os três russos com quem conversara no dia anterior, mas caminhamos pouco tempo juntos. Tivemos que esperar as mulas passarem pela ponte para atravessá-la, às 11h01. Dela se avista a confluência dos rios Dudh Koshi e Deku do lado esquerdo. Esse foi meu primeiro contato com o Rio Dudh Koshi, um dos principais rios da região, que acompanharei durante todo o trekking a Namche Bazar e depois a Gokyo, onde ele se origina. A altitude aqui é a mais baixa de todo esse percurso de Shivalaya a Namche Bazar, 1504m. E logo em seguida inicia a longa e cansativa subida até Kharikhola e seu monastério. Nessa subida, às 11h19 alcancei a pequena vila de Juving, com vários lodges. Subi mais e logo após o Quiet View Lodge, num local chamado Chyokha, subi uma escadaria à direita seguindo a fita verde. Subi rápido tentando escapar das mulas que já se aproximavam. Mas ao cruzar com outra tropa, uma mula desembestada e desgarrada da fila esbarrou na minha mochila, sem eu ter por onde escapar, quase me jogando ao chão. Às 12h33 finalmente cheguei ao alto, ao pé da escadaria para o monastério Pema Namding. Ali estavam Zita e Daniel. Deixei a mochila no chautaara (local de descanso dos carregadores) e subi até a stupa e mais um pouco até o monastério. Dali se avista a vila de Kharikhola a leste. O casal húngaro preparou uma sopinha rápida com o fogareiro, eu preferi comer algo mais substancioso no Hill Top Guest House ali ao lado. Às 13h45, quando estava de saída, chegaram os três russos bastante cansados. Atravessei a vila de Kharikhola, bem extensa e com bastante comércio, com casas espalhadas desde o monastério até próximo da ponte suspensa sobre o Rio Khari. O Lodge Namaste oferece aulas de culinária e línguas (nepalês e sherpa). Fiquei interessado nas aulas de culinária... Cruzei a ponte suspensa do Rio Khari às 14h22 e veio a subida final até Bupsa, aonde cheguei às 15h18. Encontrei Zita e Daniel em frente ao Hotel Yellow Top e entrei para negociar o preço do quarto, que ficou de graça, só pagando as refeições. O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Para escovar os dentes havia uma torneira no quintal da frente. Já deu para perceber que escovar os dentes e se lavar é um ato público e não privado no Nepal. Saí para conhecer a vila e visitar a gompa (monastério) de 1892. Mais tarde, já anoitecendo, chegaram os três russos e se hospedaram ali também. Nessa noite Daniel tratou a minha água do dia seguinte com o Steripen dele - apenas 90 segundos para purificar 1 litro de água! Altitude em Bupsa: 2328m Preço do dal bhat: Rs 400 Preço do veg chowmein: Rs 330 Vale do Rio Dudh Koshi com Lukla à direita e o Pico Khumbila ao fundo 6º DIA - 29/10/18 - de Bupsa a Cheplung Duração: 7h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2876m Menor altitude: 2301m Resumo: nesse dia tomo finalmente a direção norte que me levará a Namche Bazar (no dia seguinte) pelo vale do Rio Dudh Koshi. Nesse dia caminho somente pela margem leste do vale (no dia seguinte cruzaria o rio quatro vezes), subindo até 2876m, descendo em seguida até 2301m na ponte de Surkhe e subindo novamente à vila de Cheplung (2687m). Saí do lodge às 7h inicialmente na direção nordeste seguindo o caminho pisoteado pelas mulas. Às 7h28 cruzei uma ponte de madeira sobre o Rio Kanre e às 7h41 alcancei a vila de Kanre (Kare), com lodges. Subindo mais, após o Sonam Lodge há bandeirinhas e lenços marcando o Passo Khari La, porém a medição do ponto mais alto do dia pelo meu gps foi quase 1km à frente, após a vila de Thamdada. Passei por Thamdada às 8h37 e pelo ponto mais alto, de 2876m, às 8h46. Dali a visão é espetacular nas direções noroeste e norte, onde estão diversas montanhas nevadas, entre elas o Karyolung (esq) e o Cho Oyu (dir). Às 9h30 cruzei uma ponte de madeira, em seguida uma ponte metálica sobre o Rio Paiya e logo cheguei à vila de Paiya (Puiya, Puyan, Poyan), com lodges e posto de saúde. Às 10h37 passei pela vila de Chhaubas, também com lodges, onde o Pico Karyolung domina a paisagem a noroeste. A visão do profundo vale do Rio Dudh Koshi à esquerda (sudoeste) vai ficando cada vez mais impressionante. Às 10h56, num mirante espetacular para a parte norte do Rio Dudh Koshi, tive a primeira visão de Lukla, com aviõezinhos pousando e decolando sem parar. Ao fundo, na direção de Namche Bazar, surge o imponente Pico Khumbila. A noroeste está o Karyolung e a nordeste se destaca o Kusumkangaru (Kusum Kanguru). Desci bastante e às 12h22 cruzei uma ponte de ferro sobre o azulado Rio Surkhe, chegando à vila de Surkhe, onde parei para almoçar. Às 13h12 retomei a caminhada e às 13h28 cheguei a uma bifurcação com um muro de pedras mani e placa: à direita a escadaria que sobe para Lukla, à esquerda o caminho para Namche Bazar, para onde segui, cruzando a ponte. Às 13h46 cruzei uma ponte suspensa muito alta com cachoeiras formadas pelo Rio Handi à direita. Às 14h04 cruzei outra ponte de ferro com várias pedras mani bem grandes. Nesse momento estava exatamente abaixo da pista do aeroporto de Lukla. Às 14h24, na pequena vila de Musey (Mushe) conheci os muros de pedras mani com uma cobertura de cor vermelha em forma de telhadinho. Às 14h41 alcancei a vila de Chaurikharka, com vários lodges, muitos muros de pedras mani e três grandes stupas. Ali comecei a notar construções mais bonitas e bem acabadas, sinal de que estava entrando numa zona mais "turística". Parei para descansar e às 15h03 voltei a caminhar. Ali havia sinal da NCell, depois de 3 dias tentando sem sucesso, e pude mandar notícias para casa. Às 15h28 alcancei enfim a vila de Cheplung e a trilha principal que vai de Lukla a Namche Bazar. E já me espantei com o intenso trânsito de trilheiros para cima e para baixo. Termina aqui a primeira etapa dessa caminhada. Fiz em seis dias o que 99% dos trilheiros faz em 30 minutos de avião, mas valeu a pena cada paisagem, cada ladeira, cada família nepalesa que conheci e cada amigo novo que fiz, mesmo sendo passageiro. A partir daqui entraria no comboio de caminhantes, mulas e iaques em direção a Namche Bazar e depois o Everest. Porém, para manter os relatos de forma mais organizada, vou relatar ainda aqui a chegada até Namche Bazar e aos 3000m de altitude. Exatamente na confluência das duas trilhas (a trilha pela qual cheguei e a trilha que vai de Lukla a Namche) simpatizei com o Lodge Sherpa Home & Kitchen. Conversei com a simpática garota e o quarto sairia de graça, bem como a carga das baterias. O banheiro era no estilo oriental, mas dentro da casa. Para escovar os dentes usava uma mangueira no quintal do fundo. Aproveitei ainda as duas horas de luz e fui conhecer o monastério da vila, bem no alto, incrustado no paredão de pedra. Saí do lodge na direção de Namche e logo após a ponte de concreto subi a escadaria de pedras à direita. Subi bastante e a trilha foi estreitando e sendo tomada pela vegetação, mas estava no caminho certo. Alcancei uma trilha mais larga acima e fui à direita na bifurcação já vendo o monastério logo acima. É impressionante a construção embutida numa enorme cavidade do grande paredão rochoso. Há ainda uma stupa, uma grande roda mani, todos os elementos de um monastério budista, além de uma bonita vista do vilarejo. Levei 14 minutos para subir a ele a partir do lodge e voltei por outro caminho, indo à direita na bifurcação logo abaixo, mas a trilha é mais confusa e mais longa. Mais tarde no lodge apareceram Zita e Daniel e resolveram se hospedar ali também. Só nós três de hóspedes nessa noite e pudemos conversar com a garota sobre muitos assuntos do cotidiano deles ali. Ela nos mostrou seus livros e cadernos escolares. Morava com a sua tia nesse lodge e nos contou histórias terríveis de rejeição e comércio de meninas pela família, além do problema sério do alcoolismo. Altitude em Cheplung: 2687m Preço do dal bhat: Rs 400 Preço do veg chowmein: Rs 300 Vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo 7º DIA - 30/10/18 - de Cheplung a Namche Bazar Duração: 6h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3430m Menor altitude: 2551m Resumo: nesse dia continuei percorrendo o vale do Rio Dudh Koshi sem grandes desníveis, mas após atravessar a famosa Ponte Larja (onde o vale desse rio vira um cânion) a subida final até Namche Bazar é longa e cansativa. Saí do lodge às 7h12 no sentido nordeste e continuei no caminho principal após a ponte de concreto (à direita a trilha/escadaria sobe para o monastério). De cara já percebi duas coisas bem diferentes do trekking que vinha fazendo até aqui: o grande fluxo de pessoas (como já disse) e o caminho bem mais largo (para comportar o número de pessoas que passam). Cruzei uma ponte suspensa sobre um deslizamento enorme, a ponte metálica sobre o Rio Thado Koshi (menor altitude do dia: 2551m) e cheguei às 7h51 à vila de Thadokoshi. Às 8h05 passei pela vila de Ghat (Yulning) com um bonito monastério de paredes vermelhas (como a maioria deles) e várias pedras mani. Às 8h22 passei pela vila de Chhuthawa. Às 8h37 ignorei uma ponte suspensa à esquerda e continuei em frente, entrando na vila de Phakding 3 minutos depois. Às 8h52 cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, que divide a vila de Phakding, contornei os lodges pela esquerda e fui à direita na bifurcação em T. Estava agora na margem oeste desse rio. Às 9h14 passei por Zamphute, com lodges. Em seguida cruzei uma ponte de concreto sobre o Rio Ghatte (ou Rio Nagbuwa) e às 9h26 passei pela vila de Toktok. Uns 5 minutos depois passei por uma cachoeira à esquerda com três quedas sucessivas. Às 9h39 subi à esquerda na bifurcação e logo avistava a vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo, numa paisagem de cartão-postal. Às 9h55 cruzei uma ponte de concreto com uma cachoeira de duas quedas sucessivas à esquerda onde alguns iaques carregados queriam parar para beber água. Subi um pouco e na descida já estava entrando na vila de Benkar. Às 10h12 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi retornando à margem leste, onde volto a visualizar o Pico Khumbila ao norte. Às 10h30 passei pela vila de Chumoa. Cruzei a ponte de ferro do transparente Rio Monjo e subi cerca de 130m até um checkpoint na entrada da vila de Monjo. Parei ali às 10h40 para pagar a permissão local (substituto do TIMS card para o Everest) no valor de Rs 2000 (US$17,36). Cerca de 400m à frente, depois de cruzar toda a vila de Monjo (com diversos lodges), parei às 11h03 na entrada do Parque Nacional Sagarmatha para pagar a permissão. Entrei na fila demorada e paguei os Rs3000 (US$26,04). Essa permissão pode ser obtida no Tourist Service Center, em Kathmandu, e somente apresentada aqui, num procedimento bem mais rápido. Às 11h32 me livrei dos pagamentos e, ao cruzar um portal budista, pude enfim pôr os pés nesse lugar tão aguardado: o parque nacional que abriga as maiores montanhas do mundo! No horizonte ainda se destaca o Pico Khumbila. Desci bastante e às 11h42 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, para a margem oeste de novo, e fui para a direita. Às 11h52 passei pela vila de Jorsale com os restaurantes todos lotados pois é o último vilarejo antes da longa subida a Namche Bazar. Mais à frente todos tivemos de esperar os iaques cruzarem a ponte suspensa Tawa sobre o Rio Dudh Koshi para poder atravessá-la. De volta à margem leste parei numa escadaria para comer alguma coisa que tinha na mochila e às 12h13 segui à esquerda pela trilha, acompanhando o rio, não subindo a escadaria. Às 12h47 parei próximo à confluência dos rios Dudh Koshi e Bhote Koshi, junto com muitas outras pessoas, para tirar fotos da famosa Ponte Larja, uma ponte dupla que aparece no filme Everest (de 2015). A ponte de baixo está desativada, todos passam pela ponte de cima, repleta de bandeirinhas de oração budistas. Ambas se estendem sobre o Rio Dudh Koshi, de águas azuladas. A linda cor do rio completava o cenário quase irreal das duas pontes muito altas na entrada do cânion. Um dos momentos mais emocionantes dessa caminhada! Dali da margem foi uma boa subida até a ponte de cima. Mas depois de cruzá-la, às 13h02, é que vem o aclive de verdade, saindo dos 2970m e subindo sem trégua até os 3430m do centro de Namche Bazar. No caminho há banheiros e um checkpoint pelo qual passei direto. Felizmente toda a subida é feita na sombra da floresta. Quando cruzei a Ponte Larja voltei à margem oeste do Rio Dudh Koshi e oficialmente entrei na região conhecida como Khumbu. Na chegada a Namche, às 14h03, me deparei com uma grande escadaria subindo à direita e a trilha continuando à esquerda. Na dúvida fui para a esquerda (cada caminho aqui leva a uma parte diferente da vila). Fiz uma curva para a direita e lá estava diante dos meus olhos um lugar quase mítico para mim: Namche Bazar, com suas casas de 3 ou 4 andares dispostas em forma de ferradura ao longo da encosta da montanha. Visão inacreditável, principalmente depois de 7 dias de caminhada. Parei para contemplar aquela visão, descansar um pouco e me emocionar com aquele momento. Passei pelo portal budista e comecei a subir pela ladeira de acesso ao centro, com várias rodas mani bem grandes à direita movidas a água. Uma vez no centro comecei a subir as ladeiras de pedra pensando para que lado procurar hospedagem quando ouvi alguém me chamar: era o Christopher, o austríaco. Ele me indicou o lodge onde estava, de nome Shangri La Guest House, e fui para lá. A dona aceitou que eu pagasse somente as refeições, o lugar era bom, mas depois não gostei de algumas coisas e não recomendo esse lodge. O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada, ainda lavatório com espelho, era muito luxo! Mas houve algumas decepções como: é um lodge que trabalha com grupos grandes e no refeitório só dão atenção para esses grupos; foi o único lugar no Nepal onde acrescentaram 13% de imposto à conta final. Para completar, somente no café da manhã do dia seguinte é que a dona me falou que eu não poderia dormir mais uma noite ali porque havia reservas de grupos. Tive de arrumar a mochila correndo e deixar guardada para procurar outro lugar para ficar quando voltasse da caminhada de aclimatação no final do dia. Altitude em Namche Bazar: 3430m Preço do dal bhat: Rs 650 Preço do veg chowmein: Rs 500 Cachoeira na entrada da vila de Benkar Informações adicionais: Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva. Horários de ônibus: . Kathmandu-Jiri-Shivalaya: 6h e 8h São 10h10 de viagem (para 197km) até Jiri e 11h20 de viagem (para 215km) até Shivalaya Em Kathmandu os ônibus saem do imundo terminal do Ratna Park Preço: Rs760 (US$6,60) até Shivalaya . Kathmandu-Bhandar: 5h30 (único horário) Em Kathmandu os ônibus saem também do horroroso terminal do Ratna Park Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com. Rafael Santiago novembro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  17. Vale do Rio Langtang com as montanhas Penthang Karpo Ri, Langshisha Ri e Gangchenpo Início: Syabrubesi Final: Sundarijal Duração: 13 dias Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La (se não considerarmos o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional) Menor altitude: 1377m em Sundarijal Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de até 1100m diários. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais. Permissões: TIMS Card (Rs 2000 = US$ 17,36), entrada do Parque Nacional Langtang (Rs 3400 = US$ 29,51) e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (Rs 1035 = US$ 8,98) Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país. Os trekkings Langtang, Gosainkund e Helambu podem ser feitos separadamente com duração de 7, 8 e 6 dias, respectivamente, variando esse tempo de acordo com o ritmo e as caminhadas de bate-volta que se queira agregar à trilha principal. Porém, para quem dispõe de mais tempo, o melhor mesmo é combinar os três num único roteiro já que estão naturalmente interligados. E foi o que eu fiz na minha primeira experiência em trilhas no Nepal. Com as trilhas de bate-volta que fiz o roteiro totalizou 13 dias. Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas. No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal". As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados durante os três trekkings são: . de Syabrubesi a Lama Hotel: NCell . de Lama Hotel a Kyanjin Gompa: Sky . Sing Gompa: NCell, NTC/Namaste . Gosainkund: nenhuma funciona . Ghopte: NCell, NTC/Namaste . Tharepati: NCell, NTC/Namaste Essas informações obtive com os moradores, eu mesmo não testei nenhuma operadora. Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20). Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. Rio Langtang e as montanhas Tsergo Ri e Gangchenpo ao fundo Trekking Langtang Início: Syabrubesi Final: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund Duração: 8 dias Maior altitude: 3856m em Kyanjin Gompa (se não considerarmos as trilhas opcionais a partir de Kyanjin Gompa) Menor altitude: 1417m na ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi Dificuldade: média (para quem está acostumado a caminhadas longas com mochila cargueira) Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang O trekking Langtang percorre em três dias o trajeto entre Syabrubesi (Syafrubesi) e Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba), saindo dos 1445m e chegando aos 3856m de altitude. Todo o percurso é feito pelo vale do Rio Langtang, que corre encaixado entre montanhas e picos nevados. No primeiro dia e meio a caminhada se dá por dentro de uma linda e exuberante floresta, depois a visão se amplia no trajeto a céu aberto com incrível visual das montanhas. A vila de Langtang foi quase toda destruída durante o terremoto de abril de 2015 por uma avalanche causada pelo desprendimento de uma geleira do pico Langtang Lirung, mas a parte mais alta da vila continua existindo e os familiares das vítimas seguem tocando a vida. 06/10/18 - ônibus de Kathmandu a Syabrubesi (Syafrubesi) No dia anterior (05/10) eu havia tentado ir a um local chamado Macha Pokhari em Kathmandu para saber horários e preços de ônibus para Syabrubesi, mas não tinha conseguido encontrar o tal lugar. Essa parada de ônibus fica junto ao anel viário da cidade, um lugar mais caótico, sujo e empoeirado que o padrão do resto da cidade. Perguntei para algumas pessoas mas ninguém me entendia. Depois descobri que era mais longe do que eu pensava, já próximo do Terminal Gongabu. Nesse dia resolvi pegar um táxi às 6h da manhã e o motorista ia se virar para encontrar o lugar de saída do ônibus. Ele também perguntou para algumas pessoas e finalmente entrei no ônibus para Syabrubesi, que partiu em seguida, às 6h25. Não existe um terminal em Macha Pokhari, o ônibus que tomei estava parado na rua mesmo (coordenadas 27.73568ºN 85.30517ºL). Havia alguns poucos estrangeiros (dois espanhóis e um indiano) e o ônibus, apesar de pequeno, não saiu lotado. Porém durante a longa viagem até Syabrubesi ele lotou e esvaziou diversas vezes. Mas uma coisa eu preciso enfatizar: essa viagem é HORRÍVEL. Assim, em maiúsculas mesmo. São apenas 126km que o ônibus faz em 8 horas e 45 minutos (!!!) pois a "estrada" (eles chamam aquilo de estrada) é um caminho de buracos, pedras e muita poeira, com lama às vezes. O caminho é estreito e beira abismos em muitos trechos, o que garante a emoção já que a qualquer momento a sua viagem pelo Nepal pode terminar no fundo de um rio centenas de metros abaixo. São quase 9 horas pulando e chacoalhando dentro desse ônibus, às vezes batendo a cabeça no teto e o ombro no vidro. Mas a "linda" trilha sonora nepalesa está garantida e no último volume. O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo. A parada para almoço foi às 10h e mais tarde houve outra parada para comer. Em dois checkpoints em Dhunche (por volta de 14h15) eu e os outros estrangeiros tivemos que descer para mostrar as permissões. O indiano não as tinha e teve que pagar ali na hora. No primeiro checkpoint também quiseram revistar as mochilas, mas no meu caso não pediram para tirar tudo de dentro, apenas algumas coisas, examinaram e liberaram. Procedimento ridículo sem a menor eficácia, só para cumprir ordens mesmo. No segundo checkpoint só anotaram os nossos dados num livro. Às 15h14 saltei desse ônibus em Syabrubesi remontando meu esqueleto e jurando nunca mais entrar nele. A volta não poderia ser por ali em hipótese alguma. A vila de Syabrubesi tem diversas hospedagens, perguntei o preço em algumas e optei pelo Hotel Lhasa, onde paguei Rs300 (US$2,60) pelo quarto com banheiro compartilhado. Ainda não foi possível entrar no esquema "quarto de graça se jantar e tomar café no local". Não recomendo esse hotel pois a dona não foi nada simpática e quase me deixou sem janta. O banheiro já era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Esse pelo menos tinha descarga de caixa acoplada, não era preciso usar a caneca com água. Havia lavatório para escovar os dentes. A vila tem como atrativo uma fonte de águas termais junto ao Rio Bhote Koshi, fui conhecer mas só havia água em um dos tanques (de cimento) e estava ocupado por várias pessoas naquele momento. O lugar é um pouco sujo também. Altitude em Syabrubesi: 1445m Preço do dal bhat: Rs 300 Preço do veg chowmein: Rs 250 Rio Langtang encachoeirado 1º DIA - 07/10/18 - de Syabrubesi a Lama Hotel (Changdam) Duração: 6h (descontada a parada) Maior altitude: 2473m Menor altitude: 1417m Resumo: nesse dia iniciei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda num trecho rico em vegetação e matas. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1056m de subida). Finalmente chegou o grande dia de colocar o pé numa trilha no Nepal. Fiquei até emocionado pois foi um momento muito esperado e planejado em todos os detalhes. Saí do lodge às 8h14 e continuei pela rua principal no sentido norte (mesmo sentido da chegada no dia anterior). Ao passar pelo checkpoint tive de mostrar as permissões. Passei direto pela trilha que desce para as águas termais e na bifurcação na saída da vila desci à direita. Não cruzei a primeira ponte, continuei em frente e entrei na trilha à direita seguindo a placa de Langtang. Atravessei a ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi, adornada com bandeirinhas de oração budista, e fui para a esquerda e logo em seguida direita. Ao cruzar a vila seguinte (Old Syabrubesi) entro no vale do Rio Langtang (Langtang Khola), o qual seguirei até Kyanjin Gompa (e depois ainda até o campo-base Langshisha Kharka). Não cruzei a ponte à direita logo após a vila de Old Syabrubesi, segui em frente. Uma placa ali indica um caminho mais curto para Thulo Syafru à direita, cruzando a ponte. Thulo Syafru é a vila pela qual eu passaria 7 dias depois já no trekking Gosainkund. Seguindo pelo vale verdejante do Rio Langtang passei às 9h42 pela vila de Tibetan Camp (Tiwari) com ao menos dois lodges. A trilha terminou numa ponte suspensa que cruzei para chegar a uma estrada de terra do outro lado do Rio Langtang. Fui para a esquerda (a direita estava interditada por obras) e na bifurcação seguinte, 700m após a ponte, continuei pela estrada à esquerda, desprezando a trilha à direita. Porém estava errado e cheguei ao fim da estrada, num local sem saída. Voltei e peguei a trilha, agora à esquerda. Aí começaram as subidas, inclusive com escadarias rústicas de pedra. Às 10h33 cheguei à minúscula Domen, cuja ponte metálica de acesso estava parcialmente destruída, causando alguma tensão na travessia. O lugar se resume a 4 ou 5 casas e tem um lodge. Logo após, a subida continua. Às 10h48 cheguei a um local estratégico, a bifurcação entre os trekkings Langtang e Gosainkund, marcado por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Nesse momento segui para a esquerda, descendo, mas na volta, no oitavo dia de caminhada, tomaria o outro lado da bifurcação, numa subida bem longa para Thulo Syafru. A trilha desce bastante e se aproxima do Rio Langtang. Se aproxima tanto que é preciso andar por um caminho estreito construído com pedras entre a encosta íngreme e o rio. Dali se avista logo acima a vila de Pairo (ou Landslide ou Hot Spring), pela qual passei às 11h07. Há opções de refeição e hospedagem. A trilha continua pela sombra deliciosa da floresta com muitas fontes de água (parei por 15 minutos numa delas para um lanche) e alcança a vila de Bamboo às 12h25, também com lodges e refeição. Ao cruzar a vila é melhor tomar a trilha da direita na bifurcação para se manter na trilha principal ao entrar na mata que segue. Cruzei uma ponte de troncos e pedras e às 13h18 uma grande ponte suspensa à esquerda sobre o Rio Langtang. O rio neste ponto é encachoeirado e tem blocos enormes de pedra. Uma casa ao lado da ponte suspensa vende artesanato e algumas guloseimas. Passei pela vila de Rimche às 14h12 e ali entronca um caminho alternativo que vem de Syabrubesi via Sherpagaon. Rimche tem três lodges com restaurantes. Porém Lama Hotel (Changdam) está a apenas 20 minutos e tem muito mais opções. Cheguei a Lama Hotel às 14h32 e parei para almoçar no Tibet Guest House. Pretendia continuar a caminhada, mas o tempo mudou, começou a chover fraco e a temperatura despencou. Conversei com a simpática garota do lodge e ela me convenceu a dormir ali, principalmente porque seria de graça desde que eu fizesse as refeições. O banheiro era no estilo oriental e ao lado dos quartos. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene deles já que não usam papel higiênico. A ducha era com energia solar (pediam para deixar uma gorjeta pelo uso da ducha). Assim como em todos os outros lodges desse trekking, o refeitório tinha um aquecedor que é aceso no finalzinho da tarde. Ali todos se reúnem para jantar, conversar e trocar informações. Nessa noite fiz amizade com um casal francês que já havia viajado bastante pela Índia e conhecia inclusive o Himalaia indiano, um lugar onde eu nunca havia pensado em trilhar mas que me despertou a curiosidade. Altitude em Lama Hotel: 2473m Preço do dal bhat: Rs 600 (o dobro do preço de Syabrubesi já no primeiro povoado) Preço do veg chowmein: Rs 450 Vale do Rio Langtang 2º DIA - 08/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Langtang Duração: 5h25 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3483m Menor altitude: 2473m Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda por dentro da floresta para em seguida sair a céu aberto com visão dos nevados na cabeceira do vale. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1010m de subida). Saí do lodge às 8h40 e continuei subindo pela trilha principal no sentido nordeste. A trilha se aproximou bastante do Rio Langtang novamente e às 10h04 passei pela vila de River Side (Gumnachowk) com um lodge de frente para o rio. Mais 10 minutos e passei pelo lodge de Woodland (Chunama). Às 10h43 uma ponte metálica à direita da trilha causou alguma dúvida mas o caminho era em frente mesmo, não pela ponte. Atravessei uma encosta com um grande deslizamento bem junto ao Rio Langtang, cruzei uma pequena ponte metálica e saí definitivamente da floresta às 11h24, tendo de agora em diante o belo visual dos picos nevados à frente. A nota triste foi ver a destruição em Ghoda Tabela causada pelos terremotos de 2015. Às 11h38 cheguei aos dois lodges que restaram no vilarejo e parei por 40 minutos para descansar, ver o movimento de trilheiros e carregadores e comer alguma coisa. Já se avista também a marca deixada na encosta da montanha pela enorme avalanche que destruiu a vila de Langtang. A altitude aqui já ultrapassa os 3000m e é preciso seguir a recomendação de não dormir mais que 500m acima da noite anterior e se possível fazer caminhadas de bate-volta a um local mais alto para ajudar na aclimatação. Às 13h04 alcancei a vila de Thangsyap (com lodges) e às 14h17 o povoado de Langtang Gumba, também com hospedagem e almoço. E às 14h38 cheguei ao local da enorme avalanche, uma paisagem aterradora por saber que há uma grande parte da vila de Langtang embaixo de todas aquelas pedras, com muitas pessoas soterradas. O que restou da vila de Langtang está logo depois. Cheguei a ela às 15h e enquanto fotografava a stupa na entrada do lugar o casal francês que conheci em Lama Hotel apareceu com uma moradora. Ela era dona de um lodge na parte mais alta e tinha ido esperá-los na trilha para oferecer hospedagem. É bastante comum os donos de lodges fazerem isso, oferecerem hospedagem, almoço, chá para os trilheiros que passam. Acabei indo para o mesmo lugar, Friendly Family Guest House. A dona, Sra Dawa, quase não falava nada de inglês mas era muito simpática e atenciosa. O quarto, com banheiro privativo (foi o único com banheiro privativo de todos os trekkings que fiz no Nepal), saiu de graça com as refeições feitas ali. A ducha quente também não teve custo adicional. Altitude em Langtang: 3483m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 450 Muro de pedras mani na trilha e ao fundo o pico Gangchenpo 3º DIA - 09/10/18 - de Langtang a Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba) Duração: 2h40 Maior altitude: 3856m Menor altitude: 3483m Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang já acima dos 3000m de altitude subindo até a vila de Kyanjin Gompa, que usarei como base para três caminhadas de um dia Logo cedo desci ao centro da vila para tirar mais fotos e vi que atrás da stupa um mural tem gravados os nomes dos 175 moradores e dos 41 trilheiros que morreram em Langtang pelo terremoto e avalanche de abril de 2015. Deixei a vila às 9h48 continuando pelo caminho principal no sentido leste. O caminho se divide em dois por 300m (!!!) com um impressionante muro de pedras mani no meio. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum". Encontrei muitos muros como esse em minhas caminhadas pelo Nepal mas esse de Langtang foi sem dúvida o maior e mais marcante. No conjunto de montanhas nevadas à frente (leste), no fundo do vale, já se avistam o Tsergo Ri à esquerda e o Gangchenpo à direita. Alcancei a vila de Mundu às 10h11 e depois Sindhum às 10h26, com seus lodges e restaurantes. E mais muros de pedras mani na sequência. Me aproximo do Rio Langtang novamente e às 11h48 chego a um grande bloco de pedra com uma stupa em cima. À direita há uma ponte mas uma placa aponta Kyanjin Gompa 30 minutos à esquerda. Porém o caminho mais curto é à direita pela ponte mesmo, isso eu só descobri na volta. Subi à esquerda, passei pela stupa maior para fotografar, pelas casas de uma usina hidrelétrica e em seguida uma grande ponte suspensa. Alcancei a vila de Kyanjin Gompa às 12h38 e me surpreendi com a arquitetura de prédios de 3 ou 4 andares. Já tinha uma indicação de onde me hospedar pois de manhã conheci um parente da Sra Dawa, um rapaz chamado Nawang, que me ofereceu hospedagem e me ensinou como chegar ao seu lodge em Kyanjin Gompa. A vila é até grande em comparação com as outras e as ruas são um emaranhado de becos, mas consegui encontrar o Lodge Ghangchempo mesmo sem placa (é um dos últimos, na saída para Tsergo Ri). Negociei com o Nawang a estadia de quatro noites sem pagamento do quarto, apenas das refeições. Depois do almoço, por volta de 14h, fui conhecer os lagos Tsona, que ficam do outro lado do Rio Langtang. Tomei uma trilha saindo para o sul da vila, bem na direção do rio, que corre bem abaixo. Cruzei-o por uma ponte metálica e fui encontrando os lagos um a um. São cinco pequenos lagos que refletem as montanhas nevadas, um lugar singelo e bonito. Na volta à vila fui comprar um pedaço de queijo de iaque diretamente na "loja da fábrica". Esse queijo não é muito barato (Rs 1700 o quilo = US$ 14,76) e lembra bastante um queijo parmesão de Minas Gerais pouco curado. Em Kyanjin Gompa, assim como nos outros vilarejos, cada morador tem um pedaço de terra onde cultiva alguns legumes para suprir a demanda do restaurante. Porém itens como ovos têm que vir de Syabrubesi nas costas de carregadores por dois dias (as galinhas não sobrevivem ao inverno). O lodge tinha um banheiro em cada andar e todos no estilo oriental, mas novos e limpíssimos. A ducha quente ficava no 1º andar e era gratuita. O quarto tinha tomada (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?) para recarregar as baterias. Altitude em Kyanjin Gompa: 3856m Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2ºC Preço do dal bhat: Rs 650 Preço do veg chowmein: Rs 450 Bandeirinhas de oração budistas em Langshisha Kharka e as montanhas Urkinmang e Gangchenpo 4º DIA - 10/10/18 - de Kyanjin Gompa a Langshisha Kharka Duração: 4h50 (ida) e 3h40 (volta bem mais rápida sem tantas paradas para fotos) Maior altitude: 4138m Menor altitude: 3823m Resumo: nesse dia fiz uma subida suave e de pouco desnível (242m) pelo vale do Rio Langtang até o campo-base Langshisha Kharka Esse foi o primeiro dia de "passeio" a partir de Kyanjin Gompa, quer dizer, o primeiro dia em que troquei a cargueira por uma mochila de ataque. Como eu já estava a 3856m de altitude iniciei a série de caminhadas com uma de altitude mais moderada, que seria o campo-base chamado Langshisha Kharka, local de acampamento para escaladas à montanha Langshisha Ri. Esse lugar é mais isolado, não há vilarejos ou lodges em todo o percurso e se não houver expedições o campo-base deverá estar completamente deserto pois poucos trilheiros vão até lá. Deve-se levar lanche e água (ou tratar a água encontrada no caminho). Saí do lodge às 7h40 e tomei a direção sudeste. Em 6 minutos fui à direita na bifurcação com placa apontando Langshisa Kharka (à esquerda apontava Chergori, outra forma de escrever Tsergo Ri, que seria o meu destino dois dias depois). Às 8h22 tive de cruzar um deslizamento de pedras que vem das montanhas ao norte (esquerda) e também o ribeirão que desce junto. Para não tirar as botas gastei algum tempo procurando um local mais acima onde pudesse saltar pelas pedras. Logo após esse deslizamento há uma trilha que sobe a encosta à esquerda mas essa leva ao pico Tsergo Ri também. Em lugar de subir eu desci por uma trilha junto ao deslizamento até alcançar uma outra trilha bem marcada. Dali em diante bastou seguir essa trilha junto ao Rio Langtang com bela paisagem de campos e vales onde pastam muitos iaques. Limitando esse grande vale altas montanhas nevadas ao sul e ao norte. Para trás se destaca o grande Langtang Lirung, de 7230m de altitude, responsável pela destruição da vila de Langtang. À sua direita o Kimshung, de 6781m. Às 9h33 a visão dos picos nevados à frente (leste) se amplia e já visualizo o Langshisha Ri, uma montanha de dois cumes à esquerda do pico Gangchenpo. Às 10h55 encontro um grande deslizamento e fico em dúvida se devo caminhar junto ao rio ou acima do monte de pedras. Um grupo vindo no sentido contrário me dá a resposta: pelo alto. Às 11h42 cruzo uma ponte de troncos e a trilha sobe até um mirante incrível de onde se avista o campo-base Langshisha Kharka 1km à frente, bem ao lado do Rio Langtang. Ali a maior altitude do dia: 4138m. Na descida cruzei com os últimos integrantes de um grande grupo de escaladores que estava deixando o campo-base. Assim, encontrei-o completamente vazio às 12h30. Altitude de 4098m. Dali se avistam os picos Langshisha Ri a leste, Pemthang Karpo Ri a nordeste, Lingshing e Urkinmang a sudeste e Gangchenpo ao sul. Às 13h18 iniciei o retorno exatamente pelo mesmo caminho e às 17h já estava de volta a Kyanjin Gompa (anoitece por volta de 17h45 nessa época). Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 4,1ºC Pico Naya Kanga visto do Kyanjin Ri 5º DIA - 11/10/18 - de Kyanjin Gompa a Kyanjin Ri Duração: 2h (subida) e 1h40 (descida) Maior altitude: 4610m Menor altitude: 3856m Resumo: nesse dia subi a montanha Kyanjin Ri num desnível de 754m Nesse segundo dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de subir a montanha Kyanjin Ri, de 4610m de altitude. Saí do lodge às 7h10 no sentido norte, onde alguns trilheiros já subiam a íngreme encosta bem junto ao vilarejo. Na primeira bifurcação logo no início da subida preferi tomar a direita e subir no sentido leste. Na segunda bifurcação, já nos 3985m de altitude, fui para a esquerda (a direita também é possível, é um outro caminho de subida). Na bifurcação seguinte, a 4096m, fui para a esquerda de novo (a direita encontra o outro caminho de subida). Aos poucos fui alcançando e ultrapassando diversos grupos mais lentos e às 8h20 atingi um primeiro cume com bandeirinhas de oração budista a 4300m de altitude. Mas a subida continua pela crista até os 4610m, aonde cheguei às 9h07. A visão é espetacular, de 360º, e se destacam as seguintes montanhas: ao norte Yubra e Kimshung, a nordeste Dagpache, a leste Yala Peak e Langshisha Ri, a sudeste Tsergo Ri e Gangchenpo, a sudoeste Naya Kanga, a noroeste Langtang Lirung. Dali foi possível avistar também diversas barracas no campo-base do Langtang Lirung. Às 11h30 deixei o cume e iniciei a descida por outro caminho, uma trilha bem marcada que se avista lá do alto e que percorre ainda por algum tempo a crista da montanha para leste para em seguida descer diretamente para o sul e sudoeste na direção de Kyanjin Gompa. Às 12h41 cruzei a trilha que percorri na subida exatamente naquela bifurcação dos 4096m de altitude e continuei para oeste. Nos 3967m aproveitei um desvio à direita para ir até uma pequena stupa a 120m da trilha principal. Fiquei 10 minutos ali e às 13h23 estava de volta ao vilarejo. Após o almoço caminhei pelo lugar e fui conhecer o monastério budista, que estava fechado (o gompa do nome da vila significa monastério). Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,2ºC No cume do Tsergo Ri, de 4989m de altitude 6º DIA - 12/10/18 - de Kyanjin Gompa a Tsergo Ri Duração: 4h de subida normalmente (consegui fazer em 2h54) e 3h15 de descida por um caminho mais longo Maior altitude: 4989m Menor altitude: 3856m Resumo: nesse dia subi a montanha Tsergo Ri num desnível de 1133m Nesse terceiro dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de encarar a montanha Tsergo Ri, de 4989m de altitude. Pela dificuldade da subida, prevista para levar cerca de 4 horas, saí do lodge bem cedo, às 5h48, no sentido sudeste como se fosse para Langshisha Kharka. Levava lanche e água, como sempre faço. Em 6 minutos fui à esquerda na bifurcação seguindo a placa que aponta Chergori (Tsergo Ri). Cruzei aquele grande deslizamento e o ribeirão pelas pedras e tomei a trilha bem marcada que sobe a encosta. Já havia um outro grupo iniciando a subida mas eles ficaram bem para trás e chegaram ao cume mais de uma hora depois de mim. Às 6h52, na cota dos 4098m, fui à esquerda numa bifurcação com as placas Yala Kharka (Yala Peak) à direita e Chergori à esquerda. A subida continuou forte e cruzei com algumas pessoas já descendo! Iniciaram a subida ainda no escuro. Cruzei um trecho mais chato de pula-pedras e veio a subida final ao cume, aonde cheguei às 8h42. Só havia três pessoas nesse momento. Levei pouco menos de 3h para subir, o que pode ser considerado bem rápido. O cume tem vários mastros com bandeiras grandes e muitas bandeirinhas de oração budista. Dali a visão consegue ser ainda mais privilegiada do que no Kyanjin Ri. Destacam-se: Langtang Lirung a noroeste; Kimshung, Yubra e Dagpache ao norte; Yala Peak a nordeste; Pemthang Karpo Ri, Langshisha Ri, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa a leste; Gangchenpo a sudeste; Naya Kanga a sudoeste. Aos poucos os aventureiros foram chegando e às 12h22 iniciei a descida por um outro caminho, uma trilha bem visível no sentido sudeste por onde vi algumas pessoas descerem. O caminho é bem marcado também mas é muito mais longo. Começa com uma inclinação moderada mas depois se torna bem mais íngreme. Volta a ser menos inclinado quando percorre a encosta do Tsergo Ri, porém há várias trilhas paralelas em níveis diferentes da encosta - tentei escolher a mais larga e batida. Às 13h32 continuei a descida por uma crista bem inclinada e cheguei a uma bifurcação em T, onde a trilha é mais larga, e fui para a direita (a esquerda é o caminho para o Yala Peak). Às 14h03 passei por um conjunto de 6 ou 7 casas em ruínas dispostas em degraus na encosta da montanha que lembram um pouco uma paisagem dos Andes. Com mais 15 minutos passei por dois pontos de água, os únicos do dia. Às 14h38 fui à esquerda na bifurcação e em 15 minutos reencontrei o caminho que fiz na subida junto às placas Yala Kharka e Chergori. Às 15h39 estava de volta a Kyanjin Gompa. Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,5ºC Vila de Kyanjin Gompa e os picos Tsergo Ri e Gangchenpo 7º DIA - 13/10/18 - de Kyanjin Gompa a Lama Hotel (Changdam) Duração: 7h (descontada a parada) Maior altitude: 3856m Menor altitude: 2473m Resumo: nesse dia deixei a vila de Kyanjin Gompa e iniciei o retorno, descendo pelo vale do Rio Langtang, em direção à bifurcação entre Pairo e Domen que me levará (no dia seguinte) para o trekking Gosainkund. Nesse dia consegui chegar a Lama Hotel. Depois de me despedir do Nawang, seus familiares e dos amigos que conheci nestes quatro ótimos dias que passei no lodge, saí às 9h tomando a mesma trilha da chegada. Logo após o morrote que marca a entrada da vila peguei na descida a trilha da esquerda para alcançar o grande bloco de pedra com uma stupa em cima através da ponte que evitei no terceiro dia. Com isso não passei pela usina hidrelétrica pela qual passei naquele dia e fiz um caminho mais curto. Não resistia à tentação de olhar a todo momento para trás para contemplar e fotografar os picos por onde caminhei nesses lindos últimos dias. Passei por Langtang às 11h14, atravessei a grande avalanche de pedras, Thangsyap às 12h46, parei em Ghoda Tabela para comer das 13h25 às 14h10, reentrei na floresta às 14h26, passei por Woodland às 15h17, por River Side às 15h27 e Lama Hotel às 16h42. Fui até Rimche para tentar dormir lá e adiantar mais alguns minutos de caminhada porém os três lodges estavam lotados. Tive de voltar a Lama Hotel pois há bem mais opções e ali consegui um quarto no Friendly Guest House (negociei com o dono e só paguei as refeições). O banheiro ficava dentro da casa (ao lado dos quartos) e era no estilo oriental, porém velho e encardido. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal. Altitude em Lama Hotel: 2473m Preço do dal bhat: Rs 550 Preço do veg chowmein: Rs 450 8º DIA - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari) Duração: 8h (descontadas as paradas) Maior altitude: 3290m Menor altitude: 1678m Resumo: nesse dia retornei mais um pouco pelo vale do Rio Langtang para alcançar a bifurcação entre Pairo e Domen onde iniciei o trekking Gosainkund. Mas foi um dia bastante pesado que eu deveria ter quebrado em dois pois há muita descida (798m de desnível) e muita subida (1612m). Deixei Lama Hotel às 7h24, cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Langtang às 8h20, passei por Bamboo às 8h46, por Pairo às 9h39 (parei por 15 minutos) e cheguei à bifurcação para Thulo Syafru às 10h09, marcada como já disse por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Altitude de 1730m. Nesse momento segui para a esquerda, subindo, e passando do trekking Langtang para o trekking Gosainkund. Lago Gosain Kund Trekking Gosainkund Início: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund Final: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu Duração: 4 dias Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La Menor altitude: 1730m (considerando o início deste trekking na bifurcação entre Pairo e Domen) Dificuldade: alta. Muita subida, com desníveis de até 1100m por dia. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais. Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang O trekking Gosainkund percorre altitudes bem mais elevadas que o trekking Langtang (sem considerar os picos opcionais de Kyanjin Gompa). Por isso os grandes atrativos dessa caminhada são a visão espetacular do Himalaia e os belos lagos de montanha da vila de Gosainkund. Os lagos são sagrados para hindus e budistas e atraem milhares de peregrinos durante o festival Janai Purnima em agosto. 8º DIA (cont.) - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari) Foi uma longa e constante subida do Rio Langtang até Thulo Syafru, somente quebrada pela descida até a ponte suspensa sobre o Rio Chopche (Chopche Khola). Essa ponte é longa, muito alta e não está nas melhores condições, o que causou um friozinho na barriga. Cruzei-a às 11h15 e parei por 35 minutos para descansar e tirar a roupa mais quente. Logo após a ponte uma trilha à esquerda parece ser o caminho mais óbvio, mas está errado. As setas vermelhas mandam descer à esquerda para passar por baixo da ponte, esse é o caminho. E a subida volta com tudo. Alcancei os primeiros lodges de Thulo Syafru às 12h32, mas a vila é bastante extensa e cercada de plantações em forma de terraço. Todos me ofereciam almoço e até hospedagem, mas eu passei direto. Subi até o final da vila e cheguei a uma estradinha de terra, onde fui para a esquerda. Apenas 60m depois duas placas brancas mal colocadas apontam Gosaikund à esquerda e Dhunche à direita. Pela posição em que estava a placa de Gosaikund fiquei em dúvida se era para seguir pela estrada à esquerda ou subir a escadaria de concreto com uma stupa no alto. A resposta estava na parede da casa logo acima, onde estava pintado "way to Gosainkund" apontando para o alto da escadaria. Subi, passei pela stupa e vi que logo acima ficava a clínica do povoado, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking. Logo após a stupa inicia a trilha que segue pela mata sempre subindo. Em tempo: a placa que aponta Dhunche à direita indica um caminho que retorna à estrada principal pela qual cheguei de ônibus a Syabrubesi - essa pode ser uma rota de fuga. Passei por uma casa em construção às 13h23 e parei por 25 minutos para comer alguma coisa que levava na mochila. A trilha continua à esquerda e atrás da casa. Continuei subindo, passei por uma bica e às 14h02 uma bifurcação importante. Pintadas num muro branco de concreto duas setas indicam: à direita Sing Gompa e Dursagang, à esquerda Cholang Pati. Os dois caminhos levam às vilas de Cholang Pati e Gosainkund, então dois fatores devem ser levados em conta na escolha do trajeto: a rota à direita por Dursagang, Forpang Danda e Sing Gompa (Chandanbari) é 3,5km mais longa que a outra, mas tem muitas opções de lodges pelo caminho; a rota direta para Cholang Pati (esquerda) é bem mais curta, no entanto tem bem menos opções de hospedagem (segundo me disseram). Eu segui as sugestões que me deram e fui para a direita, sempre subindo. Saí da mata, passei às 14h43 pela minúscula Dursagang, aparentemente com apenas dois lodges, e alcancei um grupo de três espanhóis e uma francesa (que também falava espanhol). A trilha entrou na floresta e subiu muito. A francesa tinha pernas fortes e eu nunca conseguia alcançá-la. Às 15h20 passei por conjuntos de pedras mani muito antigas e cobertas de musgo no meio da mata e às 15h56 alcancei o único lodge de Forpang Danda, já fora da floresta e com visual magnífico das montanhas Langtang Lirung (nordeste) e Cordilheira Ganesh Himal (noroeste), porém um pouco prejudicado pelas nuvens que já se acumulavam naquele horário. Ali, numa parada de 20 minutos, pude conversar um pouco com os espanhóis e a francesa. A partir de Forpang Danda a inclinação passa a ser menor. Segui no sentido sudoeste e sul por dentro de uma linda e extensa mata de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, um lindo espetáculo deve ser. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Passei por três pontos de água. Alcancei finalmente o povoado de Sing Gompa (Chandanbari) às 17h, bastante cansado pelo grande desnível que enfrentei desde o Rio Langtang (1612m). Hospedei-me no Sherpa Hotel com quarto gratuito, só pagando as refeições. Havia um grupo de 9 nepaleses passando o final de semana ali e fazendo barulho por 50. Tentei um banho (gratuito) mas como era final de tarde e o aquecimento era solar a água estava de morna a fria, o que foi um sofrimento. O banheiro ficava fora da casa e tinha vaso sanitário e lavatório, mas este não funcionava. Para escovar os dentes e se lavar era necessário usar uma torneira no quintal, bem na saída do esgoto da cozinha... A partir de Sing Gompa há um caminho para Dhunche bem mais curto do que aquele de Thulo Syafru que pode servir como rota de fuga se necessário ou uma via de entrada para o trekking Gosainkund sem passar por Syabrubesi ou Thulo Syafru. Altitude em Sing Gompa: 3290m Preço do dal bhat: Rs 480 Preço do veg chowmein: Rs 400 Lago Bhairab Kund 9º DIA - 15/10/18 - de Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari) a Gosainkund Duração: 4h25 (descontadas as paradas) Maior altitude: 4428m Menor altitude: 3290m Resumo: nesse dia ultrapassei a linha das árvores e entrei novamente em um ambiente de alta montanha ao alcançar a vila de Gosainkund, num desnível positivo de 1138m A temperatura mínima da noite foi abaixo de zero (não medi) pois o campo ao lado do lodge amanheceu coberto de gelo. Depois do café da manhã tentei comprar queijo de iaque na fábrica mas não consegui encontrar ninguém para me atender. Visitei o monastério budista (o gompa do nome da vila significa monastério) e às 8h57 deixei o povoado caminhando na direção de Cholang Pati (leste e sudeste). Já estava novamente acima dos 3000m de altitude, mas a aclimatação feita em Kyanjin Gompa me ajudou a não ter nenhum sintoma da altitude mesmo enfrentando um desnível de mais de 1100m num só dia (não recomendável). A trilha sai da vila e sobe ampliando a visão dos picos nevados para trás e do enorme e profundo vale à direita. Atravesso dois trechos de florestas de rododendros e pinheiros e ao sair no aberto novamente a visão dos nevados é ainda mais ampla e espetacular. Passo pelos dois lodges da minúscula Cholang Pati às 10h30 (onde entronca a outra trilha que vem de Thulo Syafru) e continuo subindo. Aqui estou caminhando por uma crista de montanha acima dos 3600m e já vou deixando para trás a linha das árvores. Às 11h22 me deparo com gelo na trilha (mesmo sob o sol), o que não surpreende pois já estou de novo nos 3900m de altitude, chegando ao povoado de Laurebina ou Lauribina Yak (ainda não é o Passo Laurebina La, ao qual eu chegaria só no dia seguinte). Os três lodges ali devem ter de suas janelas a vista mais bonita de todo esse trekking! Aproveitei para descansar um pouco e curtir o esplêndido visual do Himalaia. Destacam-se na paisagem a montanha Langtang Lirung a nordeste e a Cordilheira Ganesh Himal a noroeste. Ainda subi um pouco mais até a estátua do Buda sentado em posição de lótus esculpido em pedra negra (basalto?) na altitude de 4228m, aonde cheguei às 12h40. Parece que havia um templo ali mas agora só há escombros ao redor da estátua. Parei para comer o lanche que trazia na mochila (comer lanche em alguns dias em vez de almoçar foi uma opção minha, quase sempre há um lodge no caminho para comer comida de verdade). O caminho para Gosainkund continua e ainda sobe mais, porém agora deixa a crista e percorre a vertente sul da montanha, tão íngreme que em alguns trechos instalaram alambrados para evitar quedas e acidentes. Às 13h37 avisto o primeiro dos lagos, abaixo à direita, de nome Saraswati Kund, ainda pequeno em relação aos próximos mas com uma bonita cachoeira se formando a partir do seu vertedouro. Às 14h03 passo ao largo do segundo lago, este bem maior, de nome Bhairab Kund, e com mais 7 minutos chego ao povoado e ao terceiro lago, o próprio Gosain Kund. Percorri os 4 ou 5 lodges dali e optei pelo último (Hotel Lake Side) na esperança de ser um lodge mais vazio e silencioso e não ter de dividir o minúsculo quarto com outra pessoa, mas mesmo assim o dono me avisou que eu teria que dividir caso o lodge enchesse. Felizmente isso não aconteceu pois apenas uma alemã (com guia) e um francês (sozinho) se hospedaram ali. Por causa dessa condição acertamos o quarto sem custo, pagando apenas as refeições. O banheiro era no estilo oriental (havia um dentro da casa para a noite e outro fora da casa com cheiro horrível) e para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal. Aproveitei a tarde para circundar o lago Gosain Kund por uma trilha e depois subir aos mirantes adornados por bandeirinhas budistas atrás do povoado. A subida levou 28 minutos e a altitude do mirante mais alto é de 4635m, quase a altura do Passo Laurebina La que eu cruzaria no dia seguinte. Dali avistei diversos lagos menores encaixados em vários níveis acima dos lagos maiores. Na descida assisti a um belo pôr-do-sol (às 17h35). Altitude em Gosainkund: 4428m Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 3ºC Preço do dal bhat: Rs 650 Preço do veg chowmein: Rs 430 Passo Laurebina La, de 4651m de altitude 10º DIA - 16/10/18 - de Gosainkund a Phedi Duração: 4h Maior altitude: 4651m Menor altitude: 3771m Resumo: nesse dia cruzei o Passo Laurebina La, de 4651m de altitude, ponto mais elevado dos três trekkings (sem considerar o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional), para em seguida iniciar a descida para a região de Helambu. Saí do lodge às 8h40 e li numa placa na saída do povoado que há 17 lagos com nome nas proximidades, alguns bem pequenos, e outros 4 sem nome. Bem perto estava o pequeno santuário do deus Shiva. Continuei no sentido leste margeando o lago Gosain Kund e logo iniciei a subida. Havia gelo entre as pedras na subida, o que exigiu bastante cuidado. Passei por um primeiro lago à esquerda sem nome no mapa, depois pelo lago Ganesh Kund também à esquerda e alcancei o Passo Laurebina La às 10h22, com o lago Surya Kund à direita da trilha. Dos seus 4651m de altitude se avistam as cordilheiras Ganesh Himal, Manaslu e Annapurna a noroeste (mas a visão é até melhor na altura do lago Ganesh Kund). Já em dezembro deve haver neve nesse passo. Iniciei a descida às 10h33 e encontrei mais um pouco de gelo na trilha. Tentei visualizar algum caminho que subisse a montanha Surya Peak mas não encontrei. O dono do lodge me disse que não há trilha marcada e que é preciso caminhar por encostas de pedras soltas, sendo mais seguro ir com alguém que conheça. Às 11h39 passei por uma casa de pedra isolada e na bifurcação 70m depois desci à direita. Aos poucos fui reencontrando a vegetação arbustiva de novo, para cima desse ponto havia no máximo vegetação rasteira. Mas a neblina, que costuma dar as caras somente à tarde, hoje chegou antes do meio-dia para estragar todo o visual. E eu não fui até lá para caminhar sem curtir a paisagem. Somado a isso a descida íngreme de pedras estava me desgastando bastante. Ao chegar ao primeiro lodge de Phedi às 12h40 (há apenas dois lodges, mais nada) parei para resolver o que ia fazer. A francesa que falava espanhol havia parado ali pelo mesmo motivo, a falta de visual. Dei um tempo e a neblina não dava sinais de que ia embora. Resolvi ficar pois deu pra perceber que a paisagem dali era muito bonita e eu ia passar sem ver nada. Como não tinha nenhuma pressa podia deixar para prosseguir no dia seguinte. Negociei o preço do quarto ali no Hotel Dawababy e o dono fez por Rs100 (US$0,87). O restante do dia foi para descansar, conversar com a francesa (que estava viajando havia 8 meses, vindo do Sudeste Asiático) e aguardar tempo melhor no dia seguinte. Mais tarde chegou um grupo de seis franceses barulhentos e dois ingleses. Na frente desse lodge uma placa de mármore homenageia os mortos num acidente aéreo da empresa Thai ocorrido em 1992 nas proximidades. O banheiro ficava fora da casa, ou seja, era preciso encarar o frio para ir ao banheiro durante a noite. Era no estilo oriental. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal. Altitude em Phedi: 3771m Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 450 Lodge em Tharepati e alguns nevados da região de Kyanjin Gompa ao fundo 11º DIA - 17/10/18 - de Phedi a Tharepati Duração: 5h (descontadas as paradas) Maior altitude: 3771m Menor altitude: 3310m Resumo: nesse dia deixei o ambiente de alta montanha e voltei a caminhar abaixo da linha das árvores, descendo (e depois subindo) até a vila de Tharepati, com um ótimo mirante para as montanhas já percorridas Felizmente valeu a pena a parada meio forçada em Phedi pois o dia amanheceu muito bonito. Só então pude ver a beleza e grandiosidade do lugar onde estava. Dali já é possível avistar os dois lodges de Tharepati e, mais próximo, o lodge isolado de Dhupi Chaur. Saí do lodge às 8h03 seguindo as placas de Ghopte e o caminho era pela encosta íngreme da montanha com pouco desnível. Pinheiros baixos foram aparecendo a partir dos 3700m para me lembrar que eu estava reentrando no limite das árvores. Cruzei 4 pontos de água. Passei pelo Himalay Sherpa Hotel, isolado num local chamado Dhupi Chaur (Dupcheswor), às 10h32 e cheguei a Ghopte com neblina às 11h24. Há dois lodges ali. Descansei um pouco e segui. Durante a passagem por uma floresta de rododendros parei para comer uns biscoitos que trazia na mochila. Ao final dessa mata, às 12h26, encontrei uma casa em ruínas. Logo cruzo outra floresta de rododendros e pinheiros. Às 13h22 avistei no alto à frente os dois lodges de Tharepati. Às 13h41 alcancei o povoado e me deparei com uma placa: à direita Kutumsang e Mangin Goth, à esquerda Melamchighyang e Helambu (porém não há um vilarejo com o nome Helambu, mas sim toda essa região onde eu estava entrando). Ambos os lados constam dos mapas como sendo do trekking Helambu, o qual descreve um grande arco com as extremidades voltadas para o sul. Se eu quisesse encerrar essa caminhada logo, tomaria a esquerda e desceria mais de 1000m (de desnível) em direção a Melamchighyang (Melanchigaon), onde poderia encontrar um ônibus para sair (ou talvez só em Timbu, 2000m abaixo). Mas o meu plano era fazer o trekking Helambu na sua maior extensão possível e por trilhas (não estradas), então o meu caminho seria para a direita. Porém uma coisa me atrapalhava de novo: a neblina. Tharepati fica no alto de uma crista e possui um dos mais bonitos visuais de montanha de todo o meu percurso. E eu não estava vendo nada, de novo... O jeito era dormir ali e torcer para a neblina dissipar na manhã seguinte. Escolhi o Sumcho Top Lodge para me hospedar pela posição mais alta e panorâmica, mas a negociação do quarto foi um pouco tensa. O dono parecia estar embriagado e se irritou com o meu pedido de pagar somente pela alimentação. Ele pediu Rs500 (US$4,34) pelo quarto e não queria ceder. Eu agradeci e saí para ir para o outro lodge. Aí ele mandou o menino me chamar dizendo que aceitava. Mas não falou mais comigo e a sua esposa, antes muito "simpática", também passou a me tratar muito mal. Me arrependi de ter ficado. Se era para me tratar desse jeito não deveria ter aceitado a minha proposta. Havia um grupo de 5 alemães e um casal francês ali, todos com seus guias e carregadores. Para nossa surpresa depois das 16h o tempo começou a abrir e pudemos tirar boas fotos das montanhas próximas e dos nevados da região de Kyanjin Gompa a nordeste: Gangchenpo, Urkinmang, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa. Dali era possível avistar também os dois lodges de Phedi, o lodge isolado de Dhupi Chaur e ainda o Passo Laurebina La. O banheiro aqui também era no estilo oriental e fora da casa, muito frio à noite. Altitude em Tharepati: 3646m Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2,2ºC Preço do dal bhat: Rs 600 Preço do veg chowmein: Rs 450 Passo Laurebina La à direita da cadeia de montanhas vista de Tharepati Trekking Helambu Início: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu Final: Sundarijal Duração: 2 dias Maior altitude: 3646m em Tharepati Menor altitude: 1377m em Sundarijal Dificuldade: média a difícil pois há muita subida e descida por degraus de pedra na passagem pelo Parque Nacional Shivapuri Nagarjun Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun O trekking Helambu, ao contrário dos outros dois, não é uma caminhada de alta montanha. A altitude é bem menor e a paisagem é basicamente de florestas nas partes mais altas e plantações em terraços nas partes mais baixas. A caminhada percorre muitos vilarejos e tem a desvantagem de ter muitos trechos em estrada. A travessia do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun exige o pagamento da entrada (Rs 1035 = US$ 8,98) e a trilha que cruza o parque tem uma infinidade de escadarias de pedra tanto subindo quanto descendo. Por causa dessas escadarias meu joelho esquerdo começou a doer e para o trekking seguinte (Everest) tive que comprar e começar a usar um bastão de caminhada. 12º DIA - 18/10/18 - de Tharepati a Golphu Bhanjyang Duração: 6h30 (descontadas as paradas) Maior altitude: 3646m Menor altitude: 2135m Resumo: nesse primeiro dia do trekking Helambu desci um grande desnível (1511m) em direção sul para encontrar vilarejos ao longo de poeirentas estradas de terra Felizmente o dia amanheceu lindo novamente e pude apreciar e tirar muitas fotos de toda a incrível paisagem de Tharepati. Como eu era persona non grata naquele lodge tratei de tomar meu café e sair logo. Às 7h40 peguei a trilha bem em frente no sentido sul. Não é a mesma trilha por onde cheguei no dia anterior a partir da placa, é uma outra que entroncaria na principal uns 300m depois. Uma vez na trilha principal segui para a esquerda, no sentido sul que eu manteria o dia todo (com poucas variações). Mas fiquei ainda um bom tempo fotografando e só iniciei a caminhada realmente às 8h45. Às 9h53, num lugar chamado Dhobato, alcancei uma bifurcação com placas e segui à direita descendo na direção de Kutumsang. À esquerda iria para Timbu, onde provavelmente haveria ônibus, ou seja, é mais uma rota de fuga se houver necessidade. Às 10h31 passei por dois lodges em Magingoth/Mangin Goth (um parecia estar desativado) e subi até um terceiro lodge, 1km à frente, onde peguei água da torneira e tratei com Micropur. Na descida que se seguiu parei alguns minutos para comer alguma coisa que tinha na mochila. Às 11h50 tomei uma trilha à direita da principal e fui até um bonito mirante. Mas o que impressionou ali foi ver os escombros de uma grande casa de pedra que no gps consta como Red Panda Hotel. Atravessei outra floresta de rododendros e às 12h10 a visão se amplia, já podendo visualizar a vila de Kutumsang na encosta de uma montanha ao sul. A descida se torna mais inclinada, com troncos de contenção e trechos de pedras soltas. Mas antes de chegar a Kutumsang fui parado às 13h26 em um checkpoint (Kutumsang Army Camp) para mostrar as permissões. Quiseram revistar a mochila... foi um transtorno porque tive de tirar tudo de dentro para eles examinarem e apalparem. Depois tive que refazer a mochila inteira. Esse local é um final de estrada, mas caminhei apenas 50m por ela e retomei a trilha sinalizada por uma placa. Às 13h46 passei por uma stupa grande logo abaixo à direita mas não fui até ela. Na bifurcação seguinte tanto faz o lado, mas parece que o esquerdo é mais usado. Às 14h alcancei a vila de Kutumsang e seus primeiros lodges, reencontrando a estrada de terra que abandonara 23 minutos antes. Ali fotografei outra stupa ainda mais bonita que a anterior. Uma grande placa verde logo abaixo apontava os caminhos: Chanawate à esquerda, Dupchugyang à direita e Golphu Bhanjyang em frente, este último o meu destino nesse dia. Após a placa subi pela estrada de terra cruzando a vila e tendo o primeiro contato com carros e motos depois de 12 dias. Quando a estrada deixou a vila e começou a descer em direção a outro povoado achei que havia algo errado. Graças ao caminho gravado no gps encontrei a trilha para Golphu Bhanjyang saindo à esquerda da estrada, num local sem nenhuma placa ou indicação, exatamente na entrada do Hotel Mountain View. Entrei nela às 14h18 e parei num mirante à esquerda para comer alguma coisa. Às 15h18, junto a algumas ruínas, vou à esquerda numa bifurcação sem placa por ser a trilha mais larga. Com mais 7 minutos visualizo muito abaixo a vila de Golphu Bhanjyang. A trilha desembocou numa estrada de terra (continuação da anterior) às 15h51 onde há uma placa muito velha apontando os vilarejos próximos. Fui para a esquerda e Golphu Bhanjyang ainda estava bem abaixo. Numa curva da estrada tomei um atalho à esquerda e saí de novo nela já perto do povoado, onde efetivamente cheguei às 16h19. Ali mais carros e motos para minha decepção... não sabia que haveria tanta estrada nesse trajeto (algumas são bem recentes e não constam em nenhum mapa). Dei uma olhada num lodge ali e a senhora pediu Rs300 (US$2,60) pelo quarto. O outro lodge (Himalaya New Lodge) parecia fechado. Resolvi tentar alguns lodges mais à frente, já além do povoado, para adiantar a caminhada e quem sabe terminar a travessia no dia seguinte. Mas me arrependi muito pois os lodges indicados no gps não existiam, fui me afastando cada vez mais e por uma subida muito cansativa. Quando finalmente encontrei um lodge funcionando, o Thodong Top, ele estava lotado. Voltei 1,9km até a vila de Golphu Bhanjyang e encontrei o Himalaya New Lodge aberto. Fui atendido por um simpático casal e o preço do quarto era o mesmo, Rs300 (US$2,60). Havia tomada (com interruptor) no quarto e pude recarregar as baterias. Banheiro novamente no estilo oriental e fora da casa, mas aqui já não fazia tanto frio à noite. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal. Não havia ducha, o banho era de balde e custava Rs200 (US$1,74). Esse foi o primeiro lodge em que fui o único hóspede. Altitude em Golphu Bhanjyang: 2135m Preço do dal bhat: Rs 350 Preço do veg chowmein: Rs 250 Stupa perto de Golphu Bhanjyang 13º DIA - 19/10/18 - de Golphu Bhanjyang a Sundarijal Duração: 9h20 (descontadas as paradas) Maior altitude: 2464m Menor altitude: 1377m Resumo: nesse dia percorri muitas estradas na direção sul (sempre que possível fugindo delas pelas trilhas que encontrava), atravessei o Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (com grande subida e depois descida por escadarias) e encerrei o trekking em Sundarijal A intenção era me aproximar o máximo possível de Sundarijal para no dia seguinte finalizar a caminhada e tomar o ônibus de volta a Kathmandu. Mas acelerei bastante o passo e consegui alcançar Sundarijal nesse mesmo dia. Finalizei o trekking mas Kathmandu ficou para o dia seguinte, como contarei abaixo. Também foi um dia bem diferente dos anteriores pois caminhei bastante por estradas e passei por muitos vilarejos com suas plantações em terraços. Alternaram-se trechos de estrada e trilha, com as trilhas sendo basicamente atalhos para poupar as muitas curvas das estradas. Em vários pontos tive de perguntar pelo melhor caminho aos moradores e aqui a descrição vai ficar bastante "carregada" por causa das inúmeras bifurcações. Saí do lodge às 7h50 ainda na direção sul pela estrada, subi e fui à direita na bifurcação no alto, subindo mais. A parte alta de Golphu Bhanjyang tem casas bem humildes feitas inteiramente com folhas metálicas. O panorama foi se alargando e gastei um bom tempo tirando fotos das montanhas na direção do Passo Laurebina La (norte). Mais acima, à esquerda, aparece uma casa de muro alto que deveria ser um lodge mas estava fechado. Passei junto ao muro do lado esquerdo dela e fui fotografar uma linda stupa que fica atrás. Às 8h38 subi à direita na bifurcação com placa seguindo a indicação de Chisopani (segundo a placa esse povoado se chama Thodong). Passei novamente pelo Hotel Thodong Top e, desprezando uma trilha à esquerda, continuei pela estrada, que ia ficando cada vez mais precária. Às 9h37 surge uma trilha subindo à esquerda com uma placa quebrada no chão onde mal se consegue ler Chipling. Entrei nela mas é somente um atalho (maior altitude do dia: 2464m) que tem no percurso uma stupa, uma casa e uma escadaria que desce e reencontra a estrada, onde fui para a esquerda (sul). Alguns metros antes das primeiras casas de Chipling um deslizamento na estrada interrompe o tráfego para carros, apenas motos conseguem passar. Alcanço o centro do povoado às 10h19 e a partir dali as plantações em terraços passam a ser comuns ao longo do caminho, o que garante uma paisagem bastante verde. Cruzei as poucas casas do lugar evitando os caminhos à direita e indo sempre para a esquerda. Caminhei cerca de 110m mais pela estradinha e fui à direita numa bifurcação, subindo. Nessa hora contei com a ajuda dos simpáticos moradores para encontrar o caminho por trilha pois não havia placa e as trilhas não eram evidentes. Se eu me mantivesse na estrada obviamente iria caminhar muito mais. Apenas 90m após a última bifurcação entrei numa trilha entre casas à esquerda (meio estranho pois parecia que eu ia entrar numa das casas), desci, tomei a esquerda numa rua com mais casas e apenas 30m depois tomei a trilha escondida descendo à direita, por indicação do pessoal local. Dali foi só descer bastante por entre plantações em terraços e trechos de mata. Encontrei alguns trilheiros subindo - fazer esse trekking ao contrário deve ser bastante cansativo por conta de tanta subida quase sem sombra. Nas bifurcações tomei a direita e depois a esquerda, caí na estrada de novo, fui para a esquerda fazendo a curva e logo entrei noutro atalho à esquerda que desembocou na mesma estrada numa trifurcação, num vilarejo chamado Thankuni Bhanjyang, onde há o lodge Lama Guest House. Na trifurcação, às 11h21, fui para a direita caminhando pela estrada. Parei por 20 minutos para comer um lanche que levava na mochila e às 12h17 tomei um atalho por trilha à direita da estrada. Mas logo caí na estrada de novo e fui para a direita, cruzando a vila de Patibhanjyang. Ali vi várias pessoas com uma "massinha" vermelha na testa e não sabia o que era, depois descobri que estavam comemorando o festival Dasain (pronuncia-se dasái), o maior festival do Nepal, e que aquela massinha vermelha feita com grãos de arroz se chama tika. Após a vila, na bifurcação, tomei a estrada da esquerda, subindo. Com mais 130m entrei num caminho largo à esquerda que serve como atalho. Caminhei só 70m e subi na trilha bem íngreme à direita. Reencontrei a estrada numa curva fechada e fui para a esquerda, passando por algumas casas. Subi apenas 100m e entrei numa trilha à direita com uma escadaria de pedras. Subi pela sombra da mata e quando saí no aberto a paisagem era bem mais ampla e bonita. Plantação em terraços na vila de Chipling Subi até cruzar a estrada de novo e continuei pela trilha em frente subindo. Passei por uma casa às 13h06 e a trilha continuava à direita dela. Reencontro a estrada e a tomo para a esquerda, porém a abandono de novo em favor de uma trilha à esquerda ao alcançar uma matinha de pinheiros (poucos metros à frente pela estrada fica o Hotel Everest View Tower). Reencontro a estrada numa curva bem fechada e vou para a direita. Desprezo uma outra entrada para o hotel à direita (com placa) e subo a escadaria 20m à frente também à direita. A trilha dá uma guinada de 90º para a direita (oeste) e cruza a mesma estrada. Acabo saindo nela 90m à frente e vou para a esquerda. Essa estrada encontra outra mais larga numa curva fechada e subo à esquerda. Alcanço a vila de Chisopani às 13h50 e após passar pelos dois primeiros lodges vou à esquerda na bifurcação. Após o lodge Dorje Lakpa vou à esquerda onde um prédio de 3 andares inclinado lembra a destruição causada pelos terremotos de 2015. Mais dois lodges, mais casas em ruínas e às 14h08 chego à portaria do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun, onde sou recebido pelo guarda-parque e pago a taxa de entrada de Rs 1035 (US$8,98). Não acho esse valor exorbitante mas não me conformo em pagar uma taxa de entrada como essa e encontrar um parque sujo, com lixo por toda parte, sem sinalização, com quiosques abandonados, etc. Aliás o governo nepalês é craque em cobrar taxas altas dos visitantes e oferecer muito pouco em troca, e isso vale para todos os parques por onde caminhei. Ao sair da portaria às 14h23 abandonei a estrada (por um bom tempo, felizmente) e entrei no caminho descendo à direita que logo virou uma trilha. Fui à esquerda nas duas bifurcações e estava contente por voltar a caminhar por trilha e por pensar que agora seria só descida até Sundarijal. Porém havia me esquecido do passo em Borlang! Logo essa trilha começou a subir, subir... e por escadarias de pedra bastante cansativas. Por fim subi dos 2137m aos 2410m, tudo por escadarias, mas isso não significou uma bela paisagem para fotografar pois há muita vegetação obstruindo. O topo, aonde cheguei às 15h20, é marcado por bandeirinhas de oração budista. Cerca de 80m antes há uma bifurcação com uma placa indicando que ali é Borlang, com Sundarijal à esquerda, e à direita Shivapuri Peak (a 6,3km dali), Tinchule e Baghdwar (com um santuário). Ali eu já estava fazendo cálculos de distância e tempo para saber se conseguiria chegar com luz do dia ao ponto final do ônibus em Sundarijal. A descida por infindáveis escadarias foi tão cansativa quanto a subida e foi aí que comecei a sentir o joelho esquerdo. Na volta a Kathmandu tive que comprar um bastão de caminhada para poupar os joelhos nas caminhadas seguintes. Às 16h15 passei por uma "fortaleza" à direita, que devia ser do exército, com arames farpados, torre de vigilância, etc. e um portal com uma placa escrita somente em nepalês. Mais 7 minutos e chego às primeiras casas de Mulkharka, num final de estrada, e o ponto do ônibus estava ainda 3,6km à frente. Acelerei o passo. Às 16h30, onde há uma placa de Lumo Karmo, saio da estrada e desço pela escadaria à direita que serve como atalho. Ao reencontrar a estrada, cruzo-a e desço ainda por escadaria. Saindo na mesma estrada mais abaixo sigo por ela à esquerda e entro na primeira trilha à direita, 65m abaixo. Passo por uma escola, desço uma escadaria à direita e cruzo de novo a estrada junto ao Karma Guest House (onde perguntei sobre o melhor caminho). Continuando por trilha desci até uma barragem, aonde cheguei às 17h04. Cerca de 8 minutos depois passei por um posto do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun mas não fui parado para mostrar o tíquete de entrada. Passei por uma cachoeira bem alta do lado direito com quedas menores do lado esquerdo. Ainda descendo, passei a acompanhar uma tubulação à minha esquerda. Às 17h28 passei por uma guarita e pelo portal do parque nacional, mas não havia ninguém naquele horário. Alcancei enfim o largo de onde saem os ônibus às 17h39, perguntei sobre o ônibus para Kathmandu mas não me respondiam. Um vendedor de frutas é que me disse que o último sai às 17h. Como um táxi ficaria caro o jeito era dormir ali e ele me ajudou a encontrar um lugar. Parece que havia uma só opção, o Side View Hotel. Deve ter sido o pior lugar que fiquei no Nepal: quarto sujo, com restos do hóspede anterior, banheiro privativo porém sem água. Reclamei duas vezes sobre a água mas mesmo assim só tive por um curto período. Preço do muquifo: Rs900 chorado para Rs800 (US$6,94)! Se soubesse do horário do ônibus teria escolhido um lodge decente para ficar no caminho. E assim encerrei essa caminhada incrível de 13 dias. No dia seguinte tomei às 6h45 o ônibus para Kathmandu. Os trekkings Langtang e Gosainkund na minha opinião foram muito mais bonitos e recompensadores que o Helambu, mas há quem faça somente este último. Altitude em Sundarijal: 1377m Informações adicionais: Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva. Horários de ônibus: . Kathmandu-Syabrubesi: 6h30, 7h30 e 8h (9h de viagem para apenas 126km) Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Macha Pokhari, uma rua próxima ao Terminal Gongabu, no anel viário da cidade Preço: Rs600 (US$5,21) Táxi do Thamel até Macha Pokhari: Rs350 (US$3,04) . Sundarijal-Kathmandu: roda entre 6h e 17h, não consegui saber a frequência (cerca de 1h de viagem) Em Kathmandu desci próximo ao terminal do Ratna Park Preço: Rs25 (US$0,22) Rafael Santiago outubro/2018 https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
  18. TRAVESSIA LAPINHA X FECHADOS Molhados e com um frio de lascar, essa é a nossa situação quando desembocamos no minúsculo vilarejo de Lapinha da Serra recém-chegados da travessia do não menos minúsculo, vilarejo do Tabuleiro. Poderíamos ter chegado até aqui simplesmente pegando um ônibus de Belo Horizonte até Santana do Riacho e depois nos pondo a caminhar por uns 10 km até esse povoado perdido num fim de mundo no meio da SERRA DO ESPINHAÇO, mas preferimos ir até Conceição do Mato Dentro e caminhar por 3 dias por aquela que é considerada a travessia mãe dessas incríveis montanhas, Travessia Tabuleiro x Lapinha, uma incrível jornada que nos apresenta logo de cara a sensacional CACHOEIRA DO TABULEIRO com seus 273 metros de queda, a maior do Estado de Minas Gerais. ( Cachoiera do Tabuleiro) A Travessia Tabuleiro x Lapinha é uma caminhada linda e há muito tempo figura entre as grandes travessias clássicas do Brasil, mas a Serra do Espinhaço é tão impressionante que outras grandes caminhadas são praticamente desconhecidas da grande maioria dos montanhistas e excursionistas do país, ficando renegada somente aos locais do Estado devido a dificuldade de logística, o que é uma pena porque ela tem o poder de nos apresentar um cerrado vibrante donde cachoeiras impressionantes saltam para grandes poços de águas cor de coca cola, em um dos cenários mais belos do país. Eu e o Anderson Rosa com tempo de sobra já havíamos resolvido que cruzaríamos parte da Serra do Espinhaço e havíamos nos preparado para isso e como a primeira parte da empreitada havia sido concluída com sucesso e mais sedo do que prevíamos, ao desembocarmos em lapinha da Serra ainda na metade do dia, resolvemos descansar no vilarejo e pôr nossas roupas e sacos de dormir para secar por causa da chuva que havíamos pego no topo do Pico do Breu na noite anterior. ( Lapinha da Serra) Passamos a noite em um camping e logo pela manhã empacotamos nossas coisas, passamos pelo centro do vilarejo aonde sua maior atração são duas igrejinhas no minúsculo centro e partimos pela estrada principal, a mesma que liga Lapinha à Santana do Riacho. O vilarejo é minúsculo e perdido no tempo, tanto que por hora não existe nem sinal de celular, mas se engana quem pensa que não há nada para fazer , na verdade é uma gama de atrações imensas entre subir montanhas como o Pico do Breu e da Lapinha e outras infinidades de cachoeiras ao redor e o grande lago que a cerca, mas por hora vamos nos contentar em usar esse bucólico povoado como ponto de partida para uma das caminhadas mais espetaculares do Espinhaço e botando a mochila nas costas , tratamos logo de apertar o passo traçando como principal meta do dia chegar primeiro até a grande Cachoeira do Bicame. Partindo, portanto da igrejinha do vilarejo, tomamos a rua principal que vai nos levar para o norte, sendo esse o mesmo caminho para Santana do riacho. Estamos passando ao lado de uma cadeia de montanhas ao nosso lado esquerdo e do lado direito teremos como companhia toda a cadeia principal da Serra do Espinhaço, com o Pico da Lapinha a nos espiar ao longe. É uma pernada em meio a fazendas e sítios e sempre sendo saudados pelos moradores locais, mas uma hora depois ou quase 4 km, a estrada de terra faz uma curva violenta para esquerda, abandonando o sentindo norte e quase que voltando para o sul e é nesse cotovelo, em meio a várias placas que abandonamos a estrada principal em favor de outra que sai a direita. Continuamos acompanhando o espigão mestre do Espinhaço, mas agora caminhando por uma estradinha mais modesta. O sol já estava de lascar logo pela manhã e por um golpe de sorte passo por nós uma caminhonete pequena e ao parar já nos interpela se aquele é o caminho para a famosa Cachoeira do Bicame. Anderson nem responde à pergunta e já vai para cima do motorista na tentativa de angariar uma carona. O casal que estava em férias e carregava metade da casa na traseira, logo arruma um lugarzinho para nos levar em meio as tranqueiras e mais 2 km à frente deixamos a estradinha e adentramos numa porteira junto à um pé de manga, onde o caminho se estreita e mal dá passagem ao veículo. Com muito custo conseguimos avançar por mais 1500 metros, mas numa subida mais forte o motorista arregou e decidiu parar o carro à beira do caminho e seguir o resto na caminhada. Bom, na caminhada iríamos eu e o Rosa, porque eles pretendiam seguir o resto do caminho de bicicleta, então nos despedimos da nossa carona e tratamos logo de pôr as pernas para trabalhar e não deu nem 10 minutos de caminhada para descobrimos que o carro não iria muito longe mesmo. Acontece que a sequência do caminho é dentro de uma grande fazenda particular (FAZENDA CACHOEIRA), meio que pertencente ao grupo Boticário que a transformou em uma RPPN e além de proibir a entrada com veículos motorizados, ainda limitou o número de visitantes a no máximo 30 pessoas por dia, o melhor é que não cobram nenhuma taxa de visitação. Abrimos a porteira e adentramos na fazenda onde uma placa explica as regras do lugar, mas como estávamos numa segunda-feira, sabíamos que éramos os únicos a se aventurar por aquelas bandas, então nem nos preocupamos com a possibilidade de não nos deixarem passar por excesso de visitantes. Sinceramente, acho difícil barrarem alguém pelo simples fato que a sede da fazenda está muito, mas muito longe da porteira, que é onde se faz a contagem e seria uma crueldade fazer alguém voltar para trás depois de andar tudo aquilo. Outros 3 km de andanças por um caminho extremamente lindíssimo em meio a afloramentos rochosos e temos que abrir outra porteira e mais 1 km de caminhada estamos na Sede do Parque, próximo a própria sede da fazenda. Ali é o lugar onde encontraremos água, banheiro e deveremos nos cadastrar para poder seguir a travessia, mas ao chegarmos encontramos tudo abandonado. Na verdade, 2 km antes de ali chegarmos, encontramos o guardinha que libera a autorização para seguir e ele estava cuidando de afazeres particular num dia sem nenhum movimento e sem muita burocracia nos fez assinar a entrada para o parque. Nossa maior preocupação era que ele nos barrasse por estarmos com uma cargueira nas costas, já que acampar é proibido, mas nem foi preciso contar alguma lorota, o rapazinho parecia estar meio cagando e andando para o que iriamos fazer e rapidamente se livrou da gente, mais rápido do que a gente querendo no livramos dele. Enquanto comíamos alguma coisa na sombra da sede do Parque, passou por nós uns cavaleiros da fazenda e essa seria as últimas pessoas que veríamos nos próximos 4 dias. A estradinha faz uma curva para direita e logo desce à um riacho com ponte de madeira, deixa a entrada do casarão a direita e pouco mais à frente uma placa indica que devemos entrar à esquerda numa bifurcação e abandonar de vez a estradinha. O caminho a seguir é na direção da grande montanha a nossa frente, atravessando pequenos tablados de madeira que foram colocados estrategicamente para escaparmos do charco e aí mergulhamos num jardim florido que vai encantando a alma numa beleza estonteante, porque nessa época do ano, em plena primavera, o cerrado explode em cores e belezas inenarráveis, onde a vida vai brotando a cada centímetro de solo pobre e nos fazendo parar a cada minuto para aplaudir tamanha formosura. A trilha vai perdendo altura rapidamente, logo vemos que estamos nos dirigindo para o vale o Rio das Pedras e 3 km depois, numa curva para direita somos apresentados sem muita cerimônia para o MIRANTE DA BICAME, uma visão esplendorosa da cachoeira de mesmo nome, despencando nas escarpas da serra. É uma visão de encher os olhos, algo que até emociona de tão bonito, num senário de tirar o fôlego. Nos sentamos ali naquela pedra e deixamos nossos pensamentos correr e nossa emoção aflorar, aproveitando para guardar na nossa mente cada centímetro daquela paisagem e o melhor de tudo era que estávamos sós, porque o casal que havia nos dado carona simplesmente desistiram de seguir o retiro. Aquele paraíso era só nosso e quando nosso coração se encheu e quase transbordou de alegria, escorregamos pela trilha e fomos abraçar de vez aquela cachoeira, e não deu nem mais 20 minutos de caminhada em meio às canelas de Emas, já estávamos lá, a nos jogarmos dentro daquele poço avermelhado para aplacar o calor, já que a tarde já se fazia presente, com o sol a pino a nos iluminar. ( Mirante do Bicame) A CACHOEIRA DO BICAME até que não é muito alta, mas a composição da paisagem com um poço enorme e profundo com águas avermelhadas a transforma numa visão quase que única no meio do cerrado e mesmo não muito cheia como estava agora, é algo que nos hipnotiza. Ficamos por lá um bom tempo, nadando no grande poço e deixando a vida passar sem nos preocuparmos com o tempo, mas quando nos lembramos que nosso objetivo era acampar no tal poço do soberbo, demos o ultimo mergulho e partimos. (Cachoeira do Bicame) Deve haver uma trilha que sobe até o topo da grande cachoeira, mas nós não nos preocupamos em ir investigar e já nos agarramos a uma canaleta bem ao lado da queda e foi por ela que mediante a uma escalada tranquila, conseguimos chegar ao topo, onde as águas despencavam no vazio, se jogando para dentro do poço. Esse é mais um cenário de tirar o fôlego, com pequenos poços, cascatinhas e pedras coloridas e a vontade que dá é ficar por ali mesmo, apreciando o mundo lá de cima. O caminho natural é atravessar para a outra margem e como o rio não estava muito cheio, mal molhamos nossas botas pulando de uma pedra a outro. Atravessando, a trilha vai seguir para a esquerda, descendo novamente para o pé da cachoeira e seguindo quase margeando o rio, descendo as vezes por trilha e outras vezes varando pela vegetação rasteira. Logo o rio começa a encachoeirar novamente e vai ficando cada vez mais lindo e é nessa hora que será preciso começar a se afastar do rio, subindo para depois pegar o sentido noroeste e caminhar por mais de 2 k e aí virar completamente para o sul e caminhar por mais de 1,5 km para voltar novamente ao rio e tudo isso simplesmente para dar a volta em uma montanha porque pelo rio é tarefa quase impossível, tendo que enfrentar abismos gigantes. Pois é, esse é o caminho oficial e tradicional para se voltar ao rio, mas quem quiser seguir pela trilha de cima (vou explicar isso depois) , não precisa seguir para o sul, pode simplesmente continuar sentido norte/nordeste, só não vai conhecer o Poço do Soberbo, mas nós não somos tradicionalistas, a gente tá longe de nos prendermos aos roteiros tradicionais , então para variar, resolvemos enfiar os pés pelas mãos e inventar moda, ao invés de contornarmos a tal montanha para escapar dos abismos, vamos ao encontro dele e que Deus tenha piedade das nossas almas .(rsrsrsrsrrsrsrrsrs) ( Parte alta do Bicame) Abandonando a trilha, agora vamos descendo margeando o Rio das Pedras, rasgando mato no peito, tentando nos desviar da vegetação espinhuda do cerrado mineiro e não demora muito já somos recompensados pela exuberante CACHOEIRA DO SMOKE, bela e solitária, nos convidando para um mergulho em seu poço igualmente deslumbrante. A tarde já se avizinhava de vez e não poderíamos nos dar ao luxo de ficar nos deleitando em poço e piscinas naturais ou noite poderia nos pegar no meio do cânon e não seria nada bonito para a gente. ( CACHOEIRA DO SMOKE) Fomos desescalando a escarpa, abrindo caminho a força em meio às canelas de emas esturricadas por causa de queimadas antigas e cada patamar que baixávamos, uma nova cachoeira surgia e era cada uma mais bonita que as outras e essa queda abaixo da Cachoeira do Smoke também era um convite para nos banharmos no seu poço, mas por causa do tempo vai ficar para próxima e para marcar território vou chamar de Segunda Queda. O terreno que até então era difícil, agora se transforma em quase impossível de passar, descemos mais um patamar com enorme dificuldade para apreciarmos de cima do barranco a Terceira Quedaabaixo do Bicame. Cada cachoeira era mais bonita que a outra e quem nos dera ter tempo suficiente para podermos nos perder em suas quedas, muito porque nossa realidade agora mudou de difícil para imprestável e nos vimos lascado, sem pai e sem mãe à beira de um abismo por onde o Rio das Pedras quase que se suicidava, saltando em meio a um cânion estreito, e agora José? (segunda queda abaixo do Bicame) ( terceira queda abaixpo do Bicame) Paramos para analisar os mapas e tentar traçar uma estratégia, mas nada parecia nos convencer que passaríamos por aquele abismo. Pensamos na possibilidade de cruzar o rio para outra margem, mas o mapa topográfico nos dizia que apenas trocaríamos 6 por meia dúzia, então só nos restou a ingrata missão de nos agarrarmos às grades paredes e tentarmos chegar ao cume da montanha para tentarmos uma diagonal até o fundo do vale. Em meio às pedras escorregadias lá foram dois tontos, agarrando as unhas aonde era possível até atingir um dos pico , e quando chegamos ao alto, descobrimos que ele era apenas um cume menos de outra montanha gigante. Aí, ao invés de subirmos essa nova montanhas, tivemos a ideia estúpida de tentar contorná-la pela parte de dentro do abismo, descendo escorregando e usando as velhas canelas de emas como apoio. Aquela manobra tinha tudo para dar errado, abaixo dos nossos pés umas duas centenas de metros nos chamavam para uma tragédia e eu não estava nada contente com rumo que aquela travessia estava tomando e uma hora fiquei mesmo sem saída, muito porque eu era o cara que ia atrás e quando chegava para fazer os movimentos, o Anderson já havia levado todos os apoios que eram possíveis, que no caso, não passavam de canelas de emas queimadas. A tarde já estava no fim, mas nosso pesadelo continuava e vendo que aquelas manobras já haviam ultrapassado qualquer bom senso que prestasse, tentamos tomar uma diagonal para direita e nos afastar do cânion, mesmo assim uma passagem estreita fez com que minha mochila se mancomunasse com a força da gravidade tentasse a qualquer custo me matar. Fiquei paralisado, tentando chamar a atenção do Anderson para ver se ele que já ia à frente conseguisse me ajudar a sair daquela situação em que eu havia me metido, mas só ouvi a voz dele dizendo que o caminho era aquele mesmo. Eu num primeiro momento pensei que teria que me livrar da minha mochila para não ser arrastado junto, mas consegui cravar as unhas na terra e alcancei um arbusto um pouco mais firme e me puxei para cima. ( Cachoeira do Abismo) De onde estávamos já conseguíamos avistar a trilha correndo lá embaixo e conseguimos achar uma linha que acabou nos levando com mais segurança até ela, aí viramos para a esquerda e começamos a descer novamente em direção ao rio, tendo agora como companhia a grande Cachoeira do Abismo, a mesma que nos queria, mas vai ficar querendo. ( rsrsrsrsr) Nosso próximo passo era atravessar o rio para sua margem esquerda e localizar alguma trilha que fosse descendo. Atravessar até que foi fácil porque usamos uma espécie de ponte natural que ia de um lado a outro do rio, mas ao chegarmos do outro lado, trilha nenhuma encontramos e o traklog que começamos a seguir não ia para lugar nenhum e mais atrapalhava que ajudava. O Rosa já estava nervoso porque se dizia esgotado fisicamente e queria acampar a qualquer custo e eu não arredava o pé de tentar acampar no tal poço do soberbo, mas a gente descia o rio, tentando seguir o traklog e passava cada vez mais raiva, então resolvemos abandonar de vez aquela merda de marcação e fazer nosso próprio caminho. Atravessamos novamente o rio e o seguimos pelo lado direito, atravessamos por dentro de um mato fechado até novamente sairmos no aberto, junto a uma clareira embaixo de uma grande árvore e aí o Rosa protestou veementemente para que acampássemos ali. Estávamos tão perto do soberbo que eu achei um desaforo ficar ali e admitir a derrota, mesmo sabendo que a noite já se avizinhava , então mesmo com o Anderson puto de raiva, forcei a barra para que atravessássemos o rio e andássemos mais um pouquinho até interceptarmos de vez a trilha de baixo e logo em seguida ganharmos uma estradinha à esquerda, que em menos de 10 minutos nos levou até o antigo GARIMPO DE DIAMANTES, onde meia dúzia de casas de pedra abandonadas nos convida para soltarmos nossas mochilas e darmos por encerrado aquele grande dia de aventuras, justamente nos domínios do incrível POÇO DO SOBERBO. Aquele cenário era sul-real, o pôr do sol iluminando as paredes que circundavam o poço do Soberbo, refletindo em todos os cantos, transformava o local em um lugar único. As casinhas construídas de pedra, feito uma vila medieval que mais parecia uma Machu Picchu sertaneja. As habitações infelizmente perderam seu telhado e apenas uma ainda se mantinha em pé e ao abrimos a porta fomos surpreendidos por encontrar um lugar perfeitamente habitável e nossos olhos brilhavam com a possibilidade de usá-la como abrigo naquele lugar magico, mas o Anderson não deu o braço a torcer, mesmo diante daquele achado extraordinário e apenas se calou , mas eu fiquei feliz de ter batido o pé para acamparmos ali, sem vento e sem nem precisar montar nossa barraca, mas por medo de algum camundongos, o Andersom resolveu mesmo assim se proteger dentro da tenda artificial. Foi uma noite bem dormida e acordamos só quando achamos que deveríamos já que tínhamos tempo de sobra. Enquanto o Rosa foi cuidar de lavar a louça fui dar umas voltas pelo lugar, que outrora fora usado como garimpo de diamantes. O poço é formado pelas águas do Rio das Pedras e do Rio Soberbo, que se encontram e depois vão se enfiar em um outro cânion gigante e até desci aonde as águas despencam no vazio, mas ao me aproximar, uma corrente de ar ameaçou me jogar vale abaixo, então recuei e voltei para o acampamento. O Poço do Soberbo deve ter dezenas e dezenas de metros de profundidade e suas águas escuras, mas limpíssimas, nos convidam para um banho, mas ainda é cedo para tanta molhaceira, então jogamos às mochilas nas costas e partimos para a continuidade daquela travessia. Retornamos pela mesma estradinha da tarde anterior e interceptamos novamente o Rio das Pedras no exato local aonde ele se encontra com o Rio Soberbo e encontramos a TRILHA DE BAIXO. É preciso explicar agora o que são essas trilhas: A trilha de baixo é o caminho tradicional que liga Lapinha da Serra até Fechados e deveria ser a nossa rota dessa caminhada, mas tem um porém, essa trilha corta a FAZENDA DO DANTE, um fazendeiro cabra macho que costuma enfiar o trabuco na cara de quem se atreve a invadir suas terras e para não bater de frente com ele ou seus jagunços, quem se atreve a fazer essa bela travessia tem como opção usar a TRILHA DE CIMA, ou seja, é obrigado a subir uma patamar e caminhar por outras montanhas, indo “paralelo” a trilha principal. Nós estávamos com os dois roteiros no GPS, mas ao invés de já nos metermos no caminho que nos levaria até a trilha superior, escapando das garras sanguinolentas do tal de Dante, preferíamos inventar outra coisa e por hora resolvemos usar a trilha de baixo mesmo, indo de encontro com o matador de montanhista. A trilha segue paralela ao rio Soberbo, subindo quase encostada às suas margens e logo somos surpreendidos por uma placa: “ Caiam Fora, Propriedade Particular”, mas como a gente não sabia ler, passamos batidos e nos enfiamos no meio do cerrado, meio que pressionados por duas paredes de cada lado. Nosso próximo objetivo era chegarmos até o tal POÇO DO RUBINHO e em meia hora, talvez um pouco mais, ao vermos que estávamos bem perto, preferimos varar mato e interceptar novamente o Rio Soberbo, exatamente um pouco abaixo do Rubinho. Acontece que a gente poderia chegar ao Rubinho continuando pela trilha e mais à frente fazer um desvio, mas ficamos com medo de encontramos alguma casa habitada que nos fechasse o caminho ou nos causasse algum problema. O POÇO DO RUBINHO é outro lugar incrivelmente belo, de onde uma cachoeira despenca vindo da grande fenda que parte a montanha ao meio e ao chegarmos lá não me restou outra coisa a fazer senão me jogar nas suas águas profundas e por lá ficar até que o Andersom dissesse que era hora de partir. Mas aí é que estava o pulo do gato, a gente sabia que a passagem pela tal fazenda do Dante poderia nos causar problemas, então teríamos que achar um meio de fazer a passagem da trilha de baixo para a trilha de cima e fazendo um estudo sobre a topografia, descobrimos que poderia ser possível interceptar o nosso caminho subindo todo o cânion do Rubinho escalando. Na teoria poderia funcionar, mas se fossemos barrados pelo terreno seria um tempo jogado fora e um esforço desnecessário. Eu queria já tentar escalar a própria cachoeira do Rubinho, mas o Anderson achou melhor subirmos escalando o paredão pela sua esquerda. Foi uma subida bem íngreme e cansativa e por fim tivemos que escorregarmos até cairmos de vez da parte de cima da cachoeira do Rubinho, onde outra cachoeira igualmente deslumbrante e com um poço profundo nos faz cair o queixo. Em um primeiro momento ficamos ali paralisados, tanto pela beleza, quanto pela dificuldade em escalar a queda d’água. Saímos pela esquerda, caminhando ao lado do poço até nos encostarmos junto ao véu. Escalar na unha era algo quase impossível, mas não havia outra saída, então ajudei o Rosa a tentar alcançar uma canela de ema até poder se elevar e ganhar outras agarras que o levou finalmente para o patamar definitivo e foi aí que agradecemos por portarmos um pedaço de corda porque sem ela eu teria ficado lá embaixo sem poder subir. (SEGUNDA QUEDA DO RUBINHO) É impressionante como esse lugar era bonito e o principal era saber que estávamos passando em um lugar onde pouca gente já havia chegado, umas cachoeiras isoladas do mundo, em um lugar perdido no meio do cerrado mineiro. Aquela TERCEIRA QUEDA não era muito alta, mas nem precisava ser com aquele poço incrivelmente belo e foi muito tranquilo subir escalando seus degraus ao lado das suas águas e a gente que já estava estarrecido diante de tanta beleza, quando chegamos ao próximo patamar tivemos que arriar nossas mochilas, respirar fundo e com calmar nos sentarmos para apreciar aquela paisagem estonteante. A QUARTA QUEDA e última queda daquele complexo de cachoeiras, onde a fenda já terminava, nos dá de presente um poço incrível e enquanto a Rosa resolve fazer uma boquinha, não me contento somente em olhar e já me jogo nas águas frescas de um dia ensolarado e calorento. Somos donos absoluto daquele paraíso e não há um só sinal de passagem humana por ali, muito porque quem vem pela própria trilha de cima se amedronta com a possível descida perigosa, mas quem se atrever a investigar vai encontrar uma língua de pedra que poderá leva-lo para dentro do cânion e consequentemente para essa cachoeira. O dia já ia pela metade quando finalmente emergimos na parte de cima desse degrau da Serra porque aqui no Espinhaço as montanhas parecem ser divididas em patamares e depois de ficarmos envolvidos com tanta água, era hora de enfrentar a dureza do serrado. Agora havíamos localizado a tal TRILHA DE CIMAe ela seria nossa companhia pelos próximos dois dias. Mas a verdade tem que ser dita, de trilha mesmo só o ameaço porque praticamente não se consegue andar por uma linha concreta e e aí não temos outra coisa a fazer se não seguir o traklog que foi nos passado ou ao menos nos mantermos bem perto dele, tendo-o sempre como referência , mesmo porque seria impossível seguir por essa rota sem nunca ter estado ali, mesmo com mapas e bussola, sem uma noção para onde seguir é pedir para ser um andarilho sem rumo. Mesmo sendo um terreno relativamente fácil de andar por se tratar de vegetação baixa e com boa visibilidade é preciso não dar bobeira com um acidente porque naquele fim de mundo celular é coisa imprestável para comunicação. Num primeiro momento ficamos meio desorientados tentando localizar o rabo da trilha, mas ao vermos que essa trilha mal existe, nos apegamos ao gps e fomos navegando tendo o traklog como referência e o terreno vai subindo, ziguezagueando montanha acima, meio que paralelo ao Rio Soberbo, mas não perto dele, coisa de talvez 1 km de distância. A subida foi dura, nos perdemos em vários momentos e acabamos ficando sem água e somente uns 2 km depois que deixamos o rio é que conseguimos encontrar um riacho com águas frias para largar as mochilas e nos acabarmos de tanto beber. É uma paisagem de largas vistas, com plantas incríveis, sempre com a visão esplendorosa do vale do Rio Soberbo a nossa direita. O terreno parece que vai arrefecer um pouco, mas logo volta a subir novamente e parece que vai nos levar para o início de um vale, mas logo o gps nos indica que temos que tomar um caminho por dentro de alguns arbustos e de supetão somos surpreendidos com um casebre junto a um curral relativamente novo. Ainda eram antes das cinco da tarde, mas não tivemos duvidas que deveríamos acampar por ali mesmo, junto a um gramadinho em frente do rancho, que parecia estar ali apenas para marcar território, servindo de abrigo temporário e de depósito de materiais ligados a cavalaria. Montamos nossa barraca e fomos dormir muito cedo, estávamos cansados da árdua jornada que havíamos empreendido, primeiro escalando os penhascos dos cânions do Rubinho, depois torrando os miolos até aqui chegar. Não existe água junto ao casebre e chegamos a investigar em uma matinha próxima, mas o riacho estava seco e só conseguimos fazer uma janta e um café na manhã seguinte porque ao encontrarmos a porta aberta, conseguimos pegar um pouco dentro do barraco, mas antes matamos a cede chupando umas canas que por lá encontramos. A partida na manhã seguinte foi lenta e preguiçosa. A trilha volta pelo mesmo lugar que chegamos e continua para o norte, vai se elevando lentamente por um caminho que à primeira vista parece mais um carreiro de vacas, mas ali não havia nem vaca e nem qualquer sinal de vida humana e continuamos naquela vastidão, sempre com os olhos abertos para admirarmos uma infinidade de plantas rasteiras e pequenos arbustos de todas as formas, além de inúmeras formações rochosas. Estamos num degrau do espinhaço e ao longe era possível avistar o Vilarejo de Inhames perdido no horizonte. Vamos perdendo altura bem devagar, passamos por um riacho para molharmos a goela e não demora para percebermos que estamos sendo levados pelo terreno para calha de outro rio e quando lá chegamos, jogamos a mochila ao chão logo depois de atravessarmos o próprio CÓRREGO DOS INHAMES e enquanto o Andersom descansa à sombra de uma árvore torta, aproveito para me jogar na água e por lá ficar feito um hipopótamo tentando escapar do calor nas savanas africanas. ( córrego dos Inhames) O próximo trecho de pernada vai em direção a um capão de floresta isolado e ao longe vamos nos guiando em direção a um pequeno telhado que pensamos ser uma casa, mas quando lá chegamos vimos que não passava de uma casinha de cocho, usada para alimentar os animais, que também não existiam por lá. O sol agora esquentou de vez e a gente aperta o passo tentando encontrar logo mais um riacho para refrescar a moringa e quando mais um córrego é encontrado, é hora de enfiar a cabeça dentro para baixar a temperatura. Esse rio é a própria nascente de um rio maior que vai descer em direção ao vale e entrar dentro de uma grande floresta. Vamos descendo paralelo a esse vale verdejante e ao darmos uma bobeira, perdemos o caminho do traklog. Tentamos varar mato subindo um pequeno morrote, mas logo ficamos travados numa vegetação entrelaçada e aí ao avistarmos um casebre lá de cima, que era alimentado por uma trilha do outro lado do vale, resolvemos retroceder e varar mato no peito, atravessar o riacho e interceptar essa trilha até o casebre, que por sinal estava abandonado. Voltamos para trilha, agora acompanhando o rio pela sua direita e 500 metros depois o atravessamos e subimos até a metade de uma colina e logo notamos que outra vez havíamos perdido o caminho, que na verdade continuava paralelo ao rio. A trilha se alarga de vez e vamos adentrando numa floresta refrescante até darmos de cara com uma porteira, onde uma placa anuncia que estamos entrando nos domínios da FAZENDA PINHÕES DA SERRA. Não demora muito e somos encurralados por alguns cães barulhentos e vislumbramos a possibilidade de podermos ver gente, mas quando chegamos na sede da fazenda, encontramos tudo vazio e não foi dessa vez que a gente conseguir encontrar outros seres humanos nessa travessia. ( sede da fazenda Pinhões da Serra) Uma estradinha partindo para a esquerda nos serve de caminho e quando ela vira à direita inventamos de cruzar o rio e interceptar outra estradinha gramada e a seguimos por um bom tempo até percebermos que novamente estávamos perdidos e longe do caminho. Nos recusamos a voltar pelo mesmo caminho, então inventamos de varar mato na diagonal para tentar interceptar novamente a trilha e nos vimos atolados dentro de um brejo por um bom tempo até conseguirmos voltar para direção correta e pegar o estirão final que vai descendo sem dó até que umas 4 da tarde, quando o sol já queimava tudo a sua volta, demos nas barrancas do lindo RIO PRETO, hora de dar um basta, descer as mochilas e dar por encerrado mais um dia de caminhada. O Rio Preto é um rio belíssimo, com águas escuras e avermelhadas e ali naquele local seve meio que de ponte natural para quem quer cruzá-lo. Cinquenta metros a baixo uma prainha nos convida para montarmos nossa barraquinha, mas antes de isso fazermos, largamos tudo o corremos para um banho renovador. O calor foi imenso durante todo o dia e nuvens pretas se apresentam para nos dizer que a noite poderemos ter um pouco de chuva, então armamos nossa barraca na areia e tratamos de cobri-la com um plástico. E o trabalho realizado foi muito providencial porque a noite a chuva veio com gosto, o que não foi de todo ruim porque serviu para aplacar o calor e pela manhã o sol retornou com força para ser nosso companheiro por mais um dia de travessia. A trilha tradicional parte do outro lado do Rio Preto e vai continuar seguindo na direção norte até que é preciso escolher entre virar a esquerda para Fechados ou a direita para Cemitério do Peixe, mas nós estamos longe de sermos tradicionalistas e estudando novamente o mapa, resolvemos que iríamos descer margeando o Rio Preto até interceptarmos a TRILHA DE BAIXO novamente. Em um primeiro momento tudo estava correndo bem, estávamos conseguindo encontrar um bom caminho pelo lado esquerdo, mas foi aí que dei uma bobeira monstro, não percebi no GPS que o rio havia dado uma guinada para direta e continuei navegando para esquerda pensando que o vale que eu estava seguindo fosse o vale do próprio Rio Preto. acabamos nos perdendo quase 1 km longe do nosso caminho e pior, tivemos que varar mato e escalar paredes ingrimes para tentar voltar. Não peciso nem dizer que o Andersom ficou pistola da vida com o meu erro de navegação e passou umas 3 horas resmungando. Pulei à frente e tracei um azimute direto para interceptar a trilha de baixo e fomos nos enfiando cada vez mais numas piramberas até que a tal trilha apareceu. Pegamos a trilha para a direita e não demora muito interceptamos mais um casebre, mais um barraco abandonado. Agora estávamos seguindo outro traklog, mais sinceramente era um caminho imprestável, que mais atrapalhava do que ajudava. Quando a cerca do casebre termina, entramos a esquerda e fomos meio que contornando a casa até que o traklog se mete no meio de uma quiçaça, sem trilha sem qualquer vestígio de caminho e aí a gente toca varar mato tentando conseguir nos aproximarmos novamente do Rio Preto. Depois de muito custo chegamos ao rio e o atravessamos para o outro lado, interceptando um afluente e subindo por uma meia hora até cruzá-lo também, mas antes disso paramos para fazer um almoço porque aquele dia não estava sendo fácil. Com a barriga cheia e o espírito renovado, retomamos nossas andanças, primeiro subindo o rio e depois descobrindo uma trilha que se enfiou dentro de uma fenda da montanha e começou a subir para valer. O caminho era realmente bonito, mas as dificuldades passadas ao longo desse dia junto com o calor infernal nos fizeram apressarmos o passo até que o terreno arrefeceu de vez e voltamos a caminhar com a imensidão do cerrado. Uma parede gigante nos fez companhia por um certo tempo, uma muralha do lado direito e foi um sobe e desce pequenas colinas intermináveis até que o caminho vira para esquerda e adentra no meio de vegetação mais densa, num labirinto de caminhos até pularmos uma porteira e voltarmos a subir e descer colinas. Numa olhada rápida no mapa observamos que a descida final para o vilarejo de FECHADOS faria uma curva para direita, contornando uma montanha e depois se enfiando numa ladeira interminável até o povoado. Acontece que o Anderson ainda continuava meio bolado e inventou de querer cortar aquela volta imensa, simplesmente varando mato em linha reta, mas havia um problema: O mapa nos mostrava um vale gigantesco com paredes escarpadas, resumindo, era uma furada dos infernos, mas como eu já havia dado uma mancada grande na saída do Rio Preto, fazendo a gente rodar em círculos, achei melhor nem dar muito palpite e deixar a navegação final por conta dele. E assim foi, nos enfiamos tentando descer aquela pirambeira, às vezes galgando alguns morrotes, mas sempre enfrentando uma vegetação entrelaçada por galhos retorcidos. Mas o pior ainda parecia estar por vir quando nuvens negras começaram a se formar, ameaçando desabar sobre nossas cabeças. A tarde já ia longe, sem água a boca secou rapidamente e cada vez parecíamos nos enfiar num caminho sem volta. Eu nem dava mais palpites, só ficava de olho no traklog do meu celular, tentando ver se pelo menos estávamos indo para o rumo certo, mas já temia que poderíamos ficar na mão porque a bateria já agonizava. O Anderson ia à frente e eu já me arrastava atrás, pensando na possibilidade de encontrar um pouco de água e vislumbrar algum lugar que pudéssemos esticar nossa barraquinha e finalmente depois de despencarmos barranco abaixo, um veio de água salvador foi encontrado e quando já estudávamos seguir descendo o vale, que seria sem dúvida uma estupidez, encontramos um rabo de trilha que seguia em direção a trilha principal. Fomos seguindo por esse caminho, mas ele próprio se perdeu no meio do nada e aí toca a gente varar mato no peito novamente até que por um golpe de sorte fomos interceptar uma trilha antiga no degrau da montanha e por ela seguimos quase que noite à dentro até finalmente encontramos sinal de civilização, numa casa em construção, mas bem ao lado da grande trilha que nos levaria de volta para o povoado. Estávamos realmente gastando as últimas forças, já utilizando as energias reservas e quando o Anderson deu a ideia de ao invés de acampar na casa em construção, seguirmos caminho até o povoado, não tive nem forças para dizer não, apenas me levantei e como um boi que segue caminho para o matadouro, me pus a caminhar e deixar que minhas pernas me carregassem trilha abaixo, perdendo altitude no meio da floresta escura e sombria. ( FECHADOS) Aquele final de caminhada, descendo aquela trilha tradicional, levou uma eternidade, mesmo que não tenha passado de míseros 50 minutos e logo que passamos por uma cachoeirinha que desaguava à beira do caminho, fizemos uma curva e desembocamos numa estradinha de terra e ganhamos o estirão final até que de supetão demos de cara com o povoado. Logo na primeira casa um cachorro barulhento anuncia a nossa chegada e dela saí um senhor que nos interpela, perguntando de onde surgimos. Ao saber que estávamos vagando há 4 dias pela Serra do Espinhaço e que ele era o primeiro rosto humano que víamos nesse tempo todo, imediatamente nos chamou para dentro e nos convidou para um banho, enquanto sua esposa preparava uma janta. Uma hora atrás estávamos perdidos no limbo da floresta e do Cerrado mineiro e agora aquela família nos recebera como filhos sem nunca ter nos vistos antes e até então, surpreendentemente, o cara que ao contrário de mim que já está acostumado a chorar diante da beleza ou das agruras da vida, desabou emocionalmente. Aquele ser de aparência forte e até meio turrão em alguns momentos, não segurou as lagrimas, era o jeito que o Anderson Rosa arrumou para agradecer por nós dois as boas vindas dos “nativos” de FECHADOS. A família que nos acolheu arrumou um lugar para que pudéssemos passar a noite e logo quando o sol nasceu corremos para o centrinho do vilarejo a fim de pegar o único ônibus que por ali passava, na verdade só existem 3 ônibus por semana que liga Fechados à Santana do Pirapama e ele vai recolhendo de tudo pelo caminho, desde gente até animais, sacos de farinha, mantimentos, vai cruzando uma infinidade de pequenas áreas agrícolas, lugares onde o progresso passou bem longe e mais de 3 horas depois desembarcamos no seu final, bem na hora de pegarmos um ônibus para Sete Lagoas e de lá para a capital mineira, onde conseguimos um carona por aplicativo até São Paulo. Nossa passagem pela Serra do Espinhaço, nesses 10 dias que lá estivemos, serviu para que tivéssemos uma noção clara das riquezas naturais que se escondem nesse rincão mineiro, uma natureza ainda em estado bruto que se mantém preservada e longe das farofas humanas que ultimamente vem entupindo as trilhas e montanhas desse país. Fomos lá com o intuito de fazer uma bela caminhada pelos campos floridos do cerrado mineiro e trouxemos na bagagem uma grande aventura, simplesmente porque num determinado momento resolvemos jogar no lixo roteiros pré-estabelecidos e deixamos nos levar pela curiosidade e pela vontade incontrolável de nos jogarmos atrás do novo e do desconhecido. Divanei Goes de Paula – outubro/2018
  19. Como tenho me socorrido dos relatos que aparecem nesta página há anos para a realização de minhas andanças por aí, resolvi também começar a fazer os meus para que, talvez, sejam de auxílio aos demais. Meu primeiro relato é do trekking de um dia até o Refúgio Plantat, primeiro acampamento para ascensão ao Vulcão San José, que faz fronteira com a Argentina, cujo acesso se dá pelo Cajón de Maipo, na localidade de Lo Valdés, distante apenas 104 km de Santiago. - Foto tirada no caminho para Lo Valdez, alguns quilometros após San Gabriel. Como a localidade não é muito distante de Santiago, se estiver de carro ou tiver um bom transfer, até é possível fazer um bate e volta, mas não recomendo, pois ainda que a estrada agora esteja asfaltada, são cerca de 2:30 horas de viagem, pois em razão da subida, curvas e estrada estreita o trajeto se torna lento. Além disso Lo Valdés é um daqueles lugares ainda bem primitivos, sem rede de luz elétrica, onde a energia ainda vem de geradores particulares e com uma vista muito linda do vale e das montanhas Morado, Arenas e San José, além de ser ponto de partida de para vários outros trekkings, inclusive das ascensões ao San José e ao Marmolejo. Recomendo hospedagem no Refúgio Alemán, também conhecido como Refúgio Lo valdés, cujo acesso está a cerca de 300 metros antes da mineradora, no lado direito. O Refúgio no momento está sob responsabilidade de Fritz Kobel, um amante das montanhas que já foi guia e conhece tudo da região e tem dicas valiosas para todos os tipos de caminhada. - Mapinha desenhado pelo Fritz Kobel para localizar o Refúgio Alemán. - Foto do Refúgio Alemán, com vista para o Vulcão San José. Para iniciar o trekking, desde Los Valdés é necessário seguir, pela direita, passando pela mineradora, no sentido das termas de Baños del Colina, uma estrada de rípio, em estado bem razoável (estávamos num carro 1.0), pois a mineradora zela por sua conservação. Seque-se por cerca de 6,5 a 7 km, onde haverá uma bifurcação. À direita segue-se para Baños del Colina e à esquerda, embora a indicação esteja apagada, segue-se no sentido das obras da Hidrelétrica Alto Maipo. Ainda na bifurcação já se enxerga uma confusão de construções junto à rocha, local conhecido como “cabrerio”, pois ali há um curral para cabras e um alojamento de verão para os donos das cabras. O “cabrerio” fica à direita da estrada e à esquerda, praticamente em frente, há um estacionamento onde se pode deixar o carro. Como foi fortemente recomendado não deixar nada no carro, pelo risco de arrombamento, retiramos tudo de valor. Parece que no verão o dono do "cabrerio" cobra um pequeno valor pelo acesso à trilha e estacionamento, mas ninguém nos cobrou nada. Seguindo a estrada, por cerca de 50 a 100 metros se encontra, à direita, o início da trilha, marcado por vários azimunts (aqueles amontoados de pedras que indicam o caminho). - Mapa do caminho. A caminhada já começa numa subida relativamente íngreme que contorna o Morro Negro. O caminho é bem marcado, pois é também o trilho seguido pelas cabras que vão pastar nos vales acima. Além disso, nesta primeira parte, há algumas setas amarelas pintadas nas pedras, indicando o sentido. Seguimos subindo, creio que por cerca 1,5 km, com a vista do Vale de Maipo atrás de nós cada vez mais bonito. - Foto da vista do Cajón del Maipo - Lo Valdez e a Mineradora abaixo. Ao término desta primeira subida se tem a primeira vista do Vulcão San José e se chega a um bonito Vale, chamado de “Valle de La Engorda”, pois ali se desenvolve uma vegetação bem verde, porém espinhenta, apreciada pelas cabras, que em mais de uma centena, nos acompanharam nesta primeira parte do trekking. Olhando em frente, se divisam dois vales, um à esquerda (quebrada sur) e outro à direita (quebrada norte), no meio dos vales se divisa em toda sua beleza o Vulcão San José. Deve se atravessar o “Valle de La Engorda” tendo como objetivo o sentido do Vale que está mais à esquerda (quebrada sur) que é o Vale por onde se segue se quiser fazer a ascensão ao Marmolejo, mas sem adentrar no vale, pois é perto dali que reinicia a subida. São cerca de 2 km sem rota muito definida, pois há muitos caminhos pisados pelas cabras, mas se encontram vários azimunts pelo caminho. Quando fizemos o caminho tivemos que atravessar alguns riachinhos e um riacho mais largo já perto do reinício da subida, mas sem necessidade de tirar as botas, pois sempre se encontra algum caminho mais estreito pelas pedras. Creio que em época de maior degelo a travessia possa ser um pouco mais complicada. - Foto do Valle de La Engorda, mas com a perspectiva do caminho de volta. - Foto do Valle de La Engorda, com o Vulcão San José ao fundo. Após atravessar o Vale se vê uma área em que descem pequenos riachinhos. É nesta altura que se deve reencontrar a trilha, que a partir daqui somente é marcada por azimuts. Por ali existem várias marcações, mas ao final todas se unem na mesma trilha, à esquerda do riachinho. A partir deste ponto a subida vai se tornando muito íngreme, com bastante pedras soltas, o que requer mais atenção para não correr o risco de cair. Nesta parte se ascende rapidamente e a vista do vale que fica para trás, embora não vendo mais o vulcão San José, fica cada vez mais bonita. Seguindo esta subida por cerca de 40 minutos a 01 hora, um pouco depois de atravessar o riacho, se chega a uma área um pouco mais aberta e plana. Dali se segue por mais uns dois quilômetros, sempre seguindo a trilha bem marcada até o refúgio que fica localizado nas encostas mesmo do vulcão, escondido atrás de uma pequena elevação no vale. - Foto do Cero Morado e Arenas. O Refúgio Plantat fica sempre aberto e tem dois cômodos com três beliches com estrado de arame, onde se pode dormir confortavelmente protegido das intempéries, se tiver levado um isolante e saco de dormir. Além disso, há um espaço usado com cozinha, com uma mesa, alguns bancos, prateleiras e espaço para colocar o fogareiro para cozinhar. Além disso, logo em frente ao refúgio foi represada a água de um pequeno riacho que desce da montanha, o que facilita o acesso à água limpa. Como ali o vento é menos impiedoso, é um ótimo lugar para acampar. O refúgio foi construído, de forma privada, pela família Plantat em 1937. Reza a história local, que após ter encontrado em frente à porta do refúgio um alpinista que morreu de frio em dia de tempestade, não podendo entrar na habitação por estar cadeada, a família entristecida decidiu deixar o refúgio sem chaves e acessível a quem o quiser utilizar, solicitando apenas que deixe tudo no estado que encontrou. Ali comemos nosso lanche com vista para os Ceros Arenas e Morado, bem como a encosta do San José e tiramos uma sonequinha de meia hora, curtindo o sol já que ali estava bem frio e depois descemos pela mesma trilha. Ao todo levamos cerca de 4:30 para realizar a subida em 2:30 para descer. São cerca de 14 km de trekking (ida e volta) e mais de 800 metros de desnível. Caminho feito com muita tranquilidade e com várias paradas para fotos. - Foto do Refúgio Plantat. - Foto do laguinho em frente ao refúgio e da vista dos Ceros Morado e Arenas. Chegando ao estacionamento decidimos seguir até as termas de Baños del Colina, pois distam apenas 4 km. Seguimos em uma estrada de rípio que adentra no vale. Cerca de um quilometro após a estrada se bifurca, sendo que à esquerda é de acesso exclusivo da mineradora e à direita segue até as termas. O visual é quase lunar, com bonitas montanhas coloridas. Chegando as termas não entramos, pois elas fecham cedo, as 17 horas e não teríamos muito tempo para ficar ali. Além disso, o cheiro forte de enxofre, embora saiba que é saudável para a pele, não foi um bom atrativo. - Montanha colorida no caminho para Baños del Colina. Assim, voltamos ao Refúgio Alemán, onde após um bom banho, curtimos o final da tarde com vista do vale e das montanhas. - Foto do Vulcão San José a partir do Refúgio Alemán. Dicas importantes: a) não faça uma trilha sem GPS ou guia se não tiver certeza que o caminho é bem marcado; b) trilha de montanha sempre exige roupas e equipamentos adequados (protetor solar, botas, corta vento ou anorak, bastão, água e lanche de trilha); e c) mesmo que o dia esteja quente, use calças compridas, pois a vegetação é muito espinhenta e vai machucar.
  20. Gosto muito de escrever relatos de viagem (tenho alguns aqui no Mochileiros), mas como já há muitos relatos excelentes aqui e em outros sites, pretendo focar mais em dicas que não são apresentadas geralmente nesses relatos. Todas as dicas são baseadas nas minha experiências pessoais na Patagônia no período de 1 a 18 de dezembro de 2017, passando por Punta Arenas - Puerto Natales - Torres del Paine - El Calafate / Perito Moreno - El Chatén - El Calafate - Rio Gallegos - Punta Arenas. Envolverão questões relativas a planejamento de passeios, deslocamentos, compras de equipamentos, gastos durante a viagem, câmbio de moedas e outros. Espero que elas ajudem bastante no planejamento e na execução com sucesso de sua viagem. Caso queira um roteiro básico ou um mini relato da minha viagem, segue ele aqui em pdf: Viagem realizada - Patagônia.pdf DEFINIÇÃO DE ROTEIRO BÁSICO - A definição do seu roteiro vai depender da quantidade de dias que você terá na região e das suas prioridades (desafios, conhecer apenas os locais principais, conforto etc). Como é possível ver no roteiro acima, fiquei 18 dias na região e o meu roteiro incluiu: circuito O de Torres del Paine, ida ao Perito Moreno e 5 dias completos em El Chatén. Nessa quantidade de dias, eu não alteraria em nada a quantidade de dias definida para cada localidade. Agora se você tiver mais tempo, dá pra esticar pro Ushuaia ao sul ou para as Catedrais de Mármore e região de Aysén ao norte. - Se for fazer o circuito W ou o O (informações sobre os circuitos mais abaixo) ou se for pernoitar em qualquer lugar de Torres del Paine, programe a sua viagem com o máximo de antecedência possível. Isso é importante por conta da necessidade obrigatória de reserva de locais. DICAS DE BAGAGEM E COISAS A LEVAR - Se for fazer o circuito W ou O em Torres del Paine é bom levar barras de cerais, proteína, frutas desidratadas e outros alimentos energéticos de baixo volume e peso na mochila. Comprei no atacado no Brasil e saiu super em conta! < Ouvi dizer que no Chile essas coisas não são caras, mas não sei se a informação procede > - Nunca havia usado bastões próprios de caminhada (só uns improvisados com galhos), mas vou dizer que se fosse dar uma única recomendação, especialmente para quem vai fazer o circuito O, é compre bastões de caminhada! Antes da viagem, procure ver como usá-los adequadamente para não atrapalharem no seu desempenho. < Se não fosse por eles, não teria completado o circuito O de Torres e não teria depois conseguido fazer muitas coisas em El Chatén > (dicas de locais de compra no tópico Punta Arenas) - Se for fazer o W ou o O, leve uma bolsa a mais para guardar as coisas que você não vai precisar no circuito escolhido e deixá-las guardadas no hostel em Puerto Natales. < As minhas ficaram toscamente em sacolas plásticas que se rasgaram com o peso > - Se ligue nos alimentos e produtos com os quais você pode ingressar no Chile. A galera da Aduana quando resolve agir com rigor, é BASTANTE rigorosa. < Tive que abandonar com peso no coração um sanduíche na aduana terrestre entre Argentina e Chile > - IMPORTANTÍSIMO para quem vai cozinhar: leve um fogareiro à gás (lembrando que o butijão de gás não pode ir como bagagem) ou compre um modelo desses em Punta Arenas. Não invente de levar fogareiros à álcool. < Levei um modelo desses álcool e tive a maior dor de cabeça em todos os dias. Isso por que nem na Argentina nem no Chile se vende álcool líquido. Para fogareiros desse tipo, a galera vende um solvente industrial chamado Benzina Blanca. Essa porcaria além de ter um cheiro fortíssimo que fica impregnado em tudo, expele uma fumaça preta que deve ser tóxica e ainda deixa as coisas cheias de fuligem. Dor de cabeça da porra! > MOEDA/CÂMBIO - Achei muito mais vantajoso trocar dólar, ao invés de real, pela moeda local tanto no Chile quanto na Argentina. Entretanto isso só é vantajoso se você comprar bem o dólar no Brasil. Dê uma olhada no ranking de instituições com melhores câmbios no site do Banco Central e em sites de melhor cotação como o Cambiar. - Se puder troque dólares pela moeda local em casas de câmbio de Santiago ou em Buenos Aires (a depender do seu roteiro), exceto nas do aeroporto. - A casa de câmbio logo ao lado do terminal da Bus-Sur em Punta Arenas foi a que eu encontrei com a melhor cotação de pesos chilenos entre todas as que pesquisei em Punta Arenas e Puerto Natales. - É melhor ir trocar dólares ou euros por pesos argentinos em Puerto Natales e possivelmente em Punta Arenas. Em El Calafate e em El Chatén a cotação era 15-20% menos vantajosa. - Se tiver que sacar grana em El Calafate, é melhor ir no cassino local. Cotação: dólar - 17,30 / euro - $20,30. Entrada: $10. Você deve pagar o valor das fichas no cartão, jogar um jogo e depois ao trocar as fichas a casa reterá 5% do seu valor PUNTA ARENAS e PUERTO NATALES - Punta Arenas é a cidade inicial de muitos que estão chegando para conhecer a Patagônia. - Há algumas boas opções de lojas de equipamentos de trekking: La Cumbre, Andesgear, North Face, Lippi e Grado Zero. Por exemplo, na La Cumbre (localizável no Google Maps) e na Grado Zero (em frente a La Cumbre) havia ótimos bastões de caminhada da Black Mountain por aprox. $ 50 mil o par. Para chegar no centro, a opção mais em conta para grupo de 3 pessoas pelo menos é pegar um táxi no aeroporto (3 mil pesos por pessoa). Se estiver sozinho ou apenas com outra pessoa, tente achar alguém para dividir o táxi contigo ou deverá pagar 5 mil pesos para ir de van. - Puerto Natales é a cidade base para ir a Torres del Paine para quem está do lado chileno. É uma cidade bastante agradável com várias opções de restaurantes (caros, assim como tudo na Patagônia). - Tanto em Punta Arenas quanto em Puerto Natales há um grande supermercado da rede Unimarc. É uma boa opção para compras gerais mais em conta. TORRES DEL PAINE PLANEJAMENTO - As reservas deverão ser feitas no site das empresas concessionárias Fantástico Sur e Vértice e se você tiver sorte (e muita antecedência) poderá também reservas locais gratuito para acampamento no site da CONAF. <Minha experiência com a Fantástico Sur foi muito boa. Tive resposta das minhas reservas em uma semana. Porém já não posso dizer o mesmo da minha experiência com a Vértice. Só obtive resposta da empresa sobre as reservas, 25 dias depois de solicitadas e somente depois de mandar comentário público no Facebook denunciando a demora. Pouco antes de eu fazer a minha viagem, eles iniciaram um sistema de reserva online, sem a necessidade de contato por e-mail. Pode ser que agora a resposta seja rápida, porém caso você deseje realizar reservas personalizadas, fora do roteiro que aparece no site, já fica a dica de que eles podem demorar bastante para te responder. Inclusive uma amiga que foi pouco antes e reservou com bem mais antecedência que eu, conseguiu resposta, apenas na semana da viagem dela, de que não tinha conseguido vaga em alguns refúgios. > INFORMAÇÕES GERAIS - Entrada: $ 21 mil pesos - Várias empresas fazem o percurso a Torres del Paine e todas saem às 7h30 ou 14h30 e têm preço de $15 mil pesos por pessoa (ida e volta). - Tanto no caso de fazer o circuito O ou o W quanto no caso de fazer só uma ida às Torres em um dia. Recomendo fortemente pegar o transfer que sai da recepção do Parque (Laguna Amarga) até o camping central - 20 min que evita caminhada em subida monótona de 1h30 (custo $3 mil pesos). - Há três opções para dormir no Parque para quem vai fazer o W ou o O: em barraca própria (ou alugada em Puerto Natales - vi por $ 4 mil a diária), em barraca da empresa concessionária ou em refúgio. Sendo que a razão de valor é de aproximadamente 1 x 2,5 x 3 (barraca da concessionária será 2,5 x mais cara que própria e refúgio será por sua vez 3 x mais caro que barraca da concessionária e quase 8 x mais caro que barraca própria. - Percebe acima, que as diferenças de valores são muito grandes. Eu particularmente se quisesse economizar peso na mochila e dormir com conforto, não pagaria pelo refúgio. Dormiria nas barracas da operadora com tudo incluso (atenção: deverá marcar os itens que deseja quando for fazer as reservas). < Tive que dormir na barraca da concessionária, em uma noite no camping Francés, pois já havia se esgotado os lugares para barraca própria, e vou te falar: a barraca era super espaçosa, a cama super confortável (melhor do que da minha casa. hehehe) e o saco de dormir era excelente! > - É possível pagar por refeições nas bases de apoio, mas isso te custará bastante caro (aprox. R$50 em um café da manhã e mais de R$100 no almoço ou na janta). QUAL CIRCUITO ESCOLHER: O ou W? - Primeiro de tudo: caso ainda não saiba, o circuito O engloba o ciruito W. Se você tem preparo físico e tempo disponível, sugiro fortemente fazê-lo. No primeiro dia do circuito, não verá nenhuma paisagem espetacular, mas, nos dias seguintes, as paisagens serão maravilhosas. Abaixo seguem algumas fotos de paisagens exclusivas do circuito O. QUANTOS DIAS E COMO FAZER O CIRCUITO O? - Acabou que fiz em 7, mas oh considero que isso foi uma tremenda duma burrice. Jamais faria isso novamente. O conselho que dou é faça no mínimo em 8. - Programaria de uma das seguintes formas, considerando apenas os destinos por dia: 1. Para quem vai ficar em camping: a) 9 dias: Serón - Dickson - Los Perros - Paso - Grey - Francés - Francés (neste dia iria até o Mirador Británico e domiria no Francés novamente) - Chileno (ou camping central) - dia de ir ás Torres e voltar a Puerto Natales b) 8 dias: Serón - Dickson - Los Perros - Paso - Francés - Francés (neste dia iria até o Mirador Británico e domiria no Francés novamente) - Chileno (ou camping central) - dia de ir ás Torres e voltar a Puerto Natales c) Se tiver que fazer em 7 dias: Serón - Los Perros - Paso - Francés - Los Cuernos (neste dia também iria até o Mirador Británico) - Chileno (ou camping central) - dia de ir ás Torres e voltar a Puerto Natales 2. Para quem vai ficar em refúgios: a) 9 dias: Serón - Dickson - Los Perros - Grey - Francés - Francés (neste dia iria até o Mirador Británico e domiria no Francés novamente) - Chileno - dia de ir ás Torres e voltar a Puerto Natales b) 8 dias: Serón - Dickson - Los Perros - Grey - Francés - Francés (neste dia iria até o Mirador Británico e domiria no Francés novamente) - Chileno - dia de ir ás Torres e voltar a Puerto Natales c) 7 dias: Serón - Los Perros - Grey - Francés - Los Cuernos (neste dia também iria até o Mirador Británico) - Chileno - dia de ir ás Torres e voltar a Puerto Natales - Observe que não inclui opção de Paine grande em ambos. Primeiramente por uma questão de planejamento, mas também não recomendo para quem vai ficar em barraca, pois pelo que me relataram lá o vento é muito forte, a ponto de carregar barracas bem presas ao chão. - Não há opção de refúgios no Paso e no Italiano, apenas camping. INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE O CIRCUITO O (e algumas que servem para o W também) - Os primeiros dias que envolvem o caminho do camping central até Los Perros são de dificuldade mediana ou fácil (Dickson a Los Perros). Em um trecho ou outro terá um pouco mais de dificuldade. - Em todo o circuito, o dia mais pesado de todos é o que envolve a saída de Los Perros e a ida até Paso (ou até o Grey dependendo do seu roteiro) (fotos abaixo). Logo no início, tem-se uma subida inclinada que passa por dentro de um bosque. Após um tempo de caminhada a área se abre e se caminha com uma leve inclinação até uma primeira subida em terreno pouco mais inclinado. A partir daí a subida fica bastante pesada, com trechos de caminhada sobre gelo (use o bastão com o disco de neve para não correr o risco de quebrá-lo...quase quebrei o meu). A subida finaliza, após 620 m de desnível, em uma vista maravilhosa do Glaciar Grey, a partir daí é só descida bastante inclinada até chegar no acampamento Paso (725 m de desnível - 9 km no total até aqui). Depois são mais 9 km de Paso até o acampamento Grey com muitas subidas e descidas e desnível de 400 m. Pouco depois de Paso, há uma grande ponte pendular. Muito cuidado ao atravessar devido ao vento. Mais cuidado ainda logo após, pois se o vento estiver muito forte, você terá usar o bastão para jogar o corpo para o lado da encosta, fugindo do precípio. Ao longo do caminho, há mais duas pontes pendulares. < Nesse dia, especialmente por conta do impacto na descida, o meu joelho esquerdo inflamou, prejudicando todo o restante da viagem > Fotos de trechos da subida: - Outro trecho que é bem difícil, neste caso tanto para quem vai fazer o O quanto o W ou um passeio de um dia, é a subida a Torres. Bastante inclinada, mas não se compara à dificuldade do trecho de Los Perros a Grey. - Para quem vai no esquema camping com barraca própria, ficar em Paso será reconfortante após o percurso descrito anteriormente. Porém é um camping sem muita estrutura. Não tem chuveiro e o banheiro é do tipo seco, com buraco no chão. Sem contar que suas vagas costumam esgotar bastante rápido. - No campings Dickson e Los Perros há apenas duchas frias. - No trecho de Serón a Los Perros há muitos mosquitos, pelo menos nessa época que fui (possivelmente em outras também). Entenda por muitos mosquitos, muito mesmo! <Vi uma pessoa com um boné que tinha uma rede que cobria todo o rosto e fiquei com uma puta inveja. Acho que é a melhor coisa para se levar em caso de fazer o O. > EL CALAFATE / PERITO MORENO EL CALAFATE - Para chegar a El Calafate, peguei o ônibus da Cootra às 7h30 - o preço era $ 17 mil, mas paguei $ 15 mil após negociar. Só que quem chegou mais cedo conseguiu por $ 11 mil. < E eu achando que tinha me dado bem na negociação. hehehe > - A cidade é bem turística, cheia de lojinhas de lembrança, chocolaterias e sorveterias. Tudo obviamente muito caro! - A princípio fui a El Calafate para fazer o Big Ice no Perito Moreno, mas como o meu joelho ainda estava mal, as funcionárias da Hielo y Aventura acabaram cancelando a minha reserva. < Caso esteja com um probleminha físico pequeno que você tem certeza que não irá te atrapalhar, não informe nada porque a galera é bem rigorosa. Não me responsabilizo por esta ideia errada aqui > - Se você curte cerveja, recomendo fortemente ir no La Zorra (bar próximo ao posto de gasolina). Eles têm ótimas cervejas lá. Só que não são muito baratas. PERITO MORENO - Fomos ao Perito Moreno no Tour Alternativo. Pagamos $680 no hostel onde estávamos hospedados (Hospedaje del Glaciar); em outros lugares era $800. O tour consiste em um passeio guiado (muito bem, por sinal) em uma rota alternativa por estrada de chão com observação de espécies animais ao longo do caminho, parada em uma estância com uma bela localização; trilha de 45 min por um bosque que chega ao lago do glaciar pelo lado oposto à sua face norte; opção de navegação de barco opcional até o glaciar ($500, 1h de duração - pelos relatos acho que não vale a pena); e por fim, 3h para caminhar pela plataforma - retornamos às 16h30. - Outras opções: ônibus regular ($600), táxi ($340 por pessoa em carro com 4, segundo informações de uma pessoa que conheci), carro alugado (mais em conta se houver 4 ou 5 pessoas). EL CHATÉN - Chegando a El Chatén: À tarde, há opções ônibus às 18h por $600 + 10 de taxa de embarque, mas preferimos pegar o ônibus de 19h da Taqsa por $420 + 10 (ótimo ônibus, procure ir na janela para curtir as belas paisagens ao longo do caminho - TENTE NÃO DORMIR) - O principais pontos turísticos de El Chatén certamente são a Laguna de los Tres (laguna com Fitz Roy) e o Cerro Torre. A seguir sugiro duas formas para se conhecer os dois pontos que são do mesmo lado do Parque: a) Em caso de você ter barraca e desejar acampar para economizar uma diária ou mesmo para otimizar o roteiro ou pela experiência de camping, sugiro no primeiro dia ir até o Cerro Torre (com mirador Maestri) e acampar no camping DeAgostini (do lado do Cerro Torre) e no segundo dia ir a Laguna de los Tres passando pela trilha das Lagunas Hija y Madre e depois retornar a cidade pela trilha que passa pela Laguna Capri. Essa rota é preferível, pois no camping Poincenot (mais próximo do Fitz Roy) venta bastante e é mais cheio. b) Em caso de você estar interessada em bate-volta, sem pernoite em camping, recomendo em um dia ir à Laguna de los Tres e em um outro dia ir ao Cerro Torre. No primeiro dia, sugiro pegar um transfer (empresa Las Lengas - $150) até a Hosteria El Pilar e de lá seguir até a Laguna. Por esse caminho, evita-se uma subida mais inclinada que há no caminho partindo diretamente da cidade (não é tão difícil) e ainda se tem uma bela visão do Glaciar Piedras Blancas nesse caminho. Depois sugiro retornar pelo caminho que passa pela Laguna Capri No segundo dia, não há muito segredo. Há apenas um caminho direto. Recomendo ir até o Mirador Maestri para se ter uma visão melhor do Cerro Torre (foto abaixo). - Loma del Pliegue Tumbado: recomendo ir apenas se estiver com tempo sobrando depois de ir em todos outros atrativos. O caminho é longo e parte da visão que terá engloba o que poderá ver nos miradores de Los Condores e Las Aguilas e uma outra parte engloba, já no final do caminho, engloba ver o Cerro Torre de uma outra perspectiva. - Reserva Los Huemules: a reserva fica a aprox. 3 km depois da Hosteria El Pilar na ruta 23. Possui duas belas lagunas (Laguna Verde e Laguna Azul) de trilha fácil e outras duas trilhas mais longas: uma até o Rio Eléctrico e outra até a Laguna Del Diablo. Entrada na reserva: $200, que dá direito a retorno durante o período de estadia em El Chatén. Ônibus Las Lengas por $210 até a reserva (ida e volta). Retorno: saída 8h (se não me engano) e retorno 17h. - Chorrillo del Salto: só vale se você não tiver mais nada para fazer na cidade. RETORNO (de El Calafate a Punta Arenas) - Caso o seu voo de volta seja a partir do aeroporto de Punta Arenas, recomendo fortemente garantir passagem previamente de El Calafate para Puerto Natales. Pode comprar no dia em que for de El Calafate a El Chatén. - Caso aconteça de as passagens se esgotarem, como aconteceu comigo, não se desespere, há opção de uma rota alternativa que sai de El Calafate, vai a Rio Gallegos e depois vai direto a Punta Arenas. De El Calafate a Rio Gallegos: saída 3h da madruga, 4h de duração - empresa Taqsa, $640 / De Rio Gallegos a Punta Arenas (aeroporto), saída às 13h, 4h de duração - empresa El Pinguino, comprada na empresa Andesmar no terminal de El Cafalate. - Duas informações caso tenha que fazer o caminho alternativo anterior: o terminal de Rio Gallegos fica longo do centro da cidade, mas há um Carrefour ao lado, que pode servir como ponto para matar um pouco o longo tempo de espera; e no caso de ir direto ao aeroporto de Punta Arenas, sem ir ao centro da cidade antes, é preciso pedir pro motorista parar na rodovia próximo do aeroporto. Deste ponto até o aeroporto, dá quase 2 km de caminhada. Peça carona sem medo! Acho que são essas as dicas. Espero ter ajudado um pouquinho e estou aberto para qualquer questionamento. 😃
  21. Este post é um relato sobre o auge de nossa viagem pela Patagônia: o Parque Nacional Torres del Paine (TDP), símbolo da beleza exuberante da Patagônia Chilena e o destino dos sonhos dos amantes da natureza de todo o mundo. Vamos contar como foram os 5 dias de trekking, o famoso Circuito W. Tem muitas outras informações no meu blog: www.calangosviajantes.com.br Veja as fotos desta aventura AQUI. Tem um post com os custos desta viagem AQUI e outro sobre como fazer as reservas AQUI. Acompanhe nossas aventuras no Facebook ou Instagram Relato do trekking realizado de 12 a 16 de Janeiro de 2017. Dia 1 - atento às regras Caminhamos desde o nosso hostel em Puerto Natales até a rodoviária. Compramos a passagem no próprio hostel. Existem várias empresas que fazem este percurso e não há diferença significativa no valor. A rodoviária fica lotada de trilheiros com suas mochilas enormes! Todos muito animados para a trilha de suas vidas. Durante o percurso até a entrada do parque é possível ver os guanacos pulando as cercas e a linda cadeia de montanhas ao fundo. Na Portería Laguna Amarga enfrentamos uma longa fila para preenchermos o termo de compromisso e pagarmos a taxa de entrada. É necessário assistir um pequeno vídeo com informações gerais e as regras do parque. Uma das mais importantes: não é permitido fazer fogo fora das áreas delimitadas(!!!). Entramos em outro ônibus (valor já incluso) que nos levou até a Portería Pudeto. Fomos os últimos a pegar o catamarã que cruzou o Lago Pehoe. A viagem não poderia iniciar de melhor maneira, à nossa direita, o imponente Los Cuernos! Compramos o bilhete do catamarã durante o trajeto. Chegamos ao Refugio Paine Grande sem reservas e por sermos os últimos a chegar no camping, as meninas da recepção nos deixaram ficar. Muito obrigada, meninas! (AVISO: aconselho fortemente que você não faça isso!! Neste post falamos como fazer as reservas) Armamos a barraca, deixamos nossas mochilas e fomos apenas com a mochila de ataque até o mirante Grey. Muito cuidado com as comidas deixadas nas barracas, a raposa-colorada (Lycalopex culpaeus) adora lanchinhos fora de hora. Infelizmente, o que mais me impressionou neste percurso não foi a linda paisagem ao meu redor, mas o resultado do maior incêndio florestal do Chile em 2012: 18 000 hectares queimados. Uma tristeza ver as marcas desta grande tragédia e por isso repito: siga as regras do parque, não faça fogo nem use seu fogareiro fora das áreas destinadas. Precisamos cuidar e respeitar a natureza. Aquele lugar é espetacular e todos têm o direito de visitá-lo e apreciá-lo. Depois de quase 3 horas de caminhada e muito vento no caminho, chegamos aoMirador Grey. O tempo estava bem fechado. A geleira Grey se misturava com o céu e não dava para saber onde terminava a geleira e começava o céu. A geleira é um local impressionante! Dia 2 - café com montanha Após uma noite de muito vento (dica: monte muito bem sua barraca!), tomamos café na cozinha do acampamento com uma vista incrível, arrumamos tudo e saímos. Logo no início da trilha, na Portería Lago Pehoe, o guarda-parque pediu para ver nossa reserva impressa do acampamentoItaliano, reservas confirmadas, pé na trilha! A cadeia de montanhas Los Cuernos estava bem escondida, mas conforme nos aproximávamos dela, mais ela aparecia, e uma caminhada de 2,5 horas, fizemos em incríveis 4,5 horas. Haja foto! A alegre chegada ao acampamento Italiano é anunciada pela ponte que temos que atravessar e deu um medinho! Como venta muito, ela parece bem instável. Fizemos o check-in no acampamento, conversamos com os guardas e fomos preparar nosso jantar. Decidimos não fazer nenhuma outra trilha neste dia pois a trilha para o Mirador Britanico fecha às 17h e a do Mirador Frances às 19h. E quando digo que a trilha fecha, ela fecha mesmo, pois um dos guardas percorre a trilha até o final para garantir que não há mais ninguém na trilha (todos os dias, imagina!). Dia 3 - doce ilusão O vento faz parte da Patagônia, aceite! Eu acordei assustada a noite, pois dormíamos debaixo da copa das árvores e o vento balançava seus galhos com força. E o medo daqueles galhos caírem sobre nós? Não, nenhum galho caiu, ufa! Deixamos nossos pertences no acampamento e seguimos em direção ao Mirador Britanico com nossas mochilas de ataque. Todo mundo larga suas mochilas no acampamento, isso é bem normal (também algo que tive que aceitar me acostumar). Quando chegamos ao Mirador Frances o tempo já estava muito fechado, andamos mais um pouco e decidimos voltar, afinal não conseguiríamos ver nada mesmo. Ficamos sentados um tempo esperando por uma avalanche no topo das montanhas, que também não aconteceu... Mesmo assim estávamos só felicidade, afinal estávamos a caminho do Refugio Los Cuernos, onde passaríamos a noite em uma linda cabana de madeira na beira do lago. Sim, foi puro luxo! Não temos dinheiro para Não ligamos para luxo quando o assunto é hospedagem, mas há anos atrás vimos uma foto no Facebook de um casal em um ofurô com uma paisagem de tirar o fôlego ao fundo. Escrevemos para a pessoa que postou a tal foto perguntando onde era: Refugio Los Cuernos. Deste dia em diante, não tiramos mais aquela imagem da cabeça e estava decidido: iríamos naquele ofurô e ponto final. Não era nossa intenção ficar na cabana, mas no site estava bem claro: somente hóspedes das cabanas tinham acesso ao ofurô. Bem, com muita, mas muita dor, reservamos a tal cabana e sonhamos com este dia desde então. Parte deste valor eu havia ganho de presente de aniversário, muito obrigada Celzinha! Na trilha para o Refugio Los Cuernos, o sol finalmente resolveu aparecer de forma muito marcante, acentuando ainda mais a cor da lagoa. Para quem está fazendo o W invertido é descida na maior parte. Eu senti por quem estava subindo... Na minha opinião o trecho de trilha mais lindo! O vento intenso levantava a água da lagoa e até DOIS arcos-íris se formavam na nossa frente ao mesmo tempo, arrancando gargalhadas dos dois bobos incansáveis ao admirar tamanha beleza. Então, finalmente chegamos às cabanas e, ansiosos, vimos de longe o tal ofurô. Corremos para checar o tão sonhado ofurô de perto. Mas o que encontramos foi uma placa: MANUTENÇÃO! Mas que #@$%&! Ficamos muito putos, bravos, arrasados tristes com a notícia, afinal estávamos esperando há anos por aquele dia, mas não tinha nada que pudéssemos fazer. A cabana era linda, tinha uma lareira, toalha limpinha, cama fofinha e chuveiro gostoso! Fomos conhecer o refúgio, admirar o Los Cuernos e conversar com nossos amigos e quando retornamos encontramos uma garrafa de vinho chileno e alguns docinhos. A princípio, tive a certeza que havia sido o Antonio quem preparou aquela linda surpresa (tipo cena de filme mesmo! Imaginem que romântico: uma cabana de madeira, um vinho, lareira e aquela vista incrível). Ele perdeu a chance de ganhar muitos pontos (e na sequência perder muitos mais, é claro) ao não confirmar que havia sido ele - não foi, acreditamos que foi a forma do refúgio se desculpar por destruir nossos sonhospelo inconveniente. Após muitas risadas e desapontamento (nunca vou esquecer da cara do Antonio não conseguindo confirmar que havia sido ele o autor da ideia romântica) aproveitamos o delicioso vinho. Dia 4 - meu querido saco de dormir A noite na cabana não foi tão tranquila quanto imaginávamos, o vento era tão forte que parecia que a cabana se desmontaria. Não sobrou dinheiro para queríamos comprar a pensão completa no refúgio, fizemos nossa comida na mesma cozinha reservada para o pessoal do camping. Seguimos rumo ao acampamento El Chileno. Neste dia enfrentamos as 4 estações do ano, inclusive chuva. Existe um cruzamento, e você pode optar por ir para o Hotel Las Torres ou um atalho para o acampamento - é claro que optamos pelo atalho! No caminho vimos os bombeiros resgatando alguém em uma maca, ficamos muito assustados (depois ouvimos boatos de que a menina havia torcido o tornozelo - o que a impossibilitou de terminar a trilha, por isso todo cuidado é pouco). Chegando no refúgio, fizemos o check-in e fomos procurar uma plataforma para colocar nossa barraca. Dica: chegue o mais cedo que puder e coloque sua barraca, as plataformas estão colocadas num barranco, e se estiver chovendo (como estava) o chão molhado quase te impedirá de chegar em sua barraca sem cair alguns tombos. O jantar no refúgio foi extremamente agradável, nada de macarrão com vina, ou salsinha como vocês dizem. Entrada, prato principal e sobremesa, tudo com raio gourmetizador ativado! Não havia opção de reservar o local de camping sem todas as refeições inclusas (sim, eles são bem espertinhos). Ficamos na área de convivência do refúgio até tarde conversando, quando nossa amiga Tânia chega desesperada dizendo que estava entrando água dentro da barraca dela. Conseguimos alguns sacos de lixo e o Antonio foi ajudar o Beto com o "pequeno" problema. Logo em seguida entra outro trilheiro com seu saco de dormir completamente encharcado, eu entrei em desespero! Já imaginei meu saco de dormir molhado, seria o fim (que exagerada!). Pedi ao Antonio que conferisse se nossa barraca estava molhada, e para minha alegria, tudo estava completamente seco. Dia 5 - sonho realizado Antonio nunca havia visto neve e sempre falou que se fosse para ver neve, que fosse na montanha. Estávamos tomando café no refúgio quando vejo um ser saindo correndo gritando "Está nevando, está nevando". Parecia uma criança vendo neve pela primeira vez - e na montanha, como ele havia sonhado! Eu não fiquei assim tão feliz, afinal isso significava que o tempo estaria fechado nas Torres - e como eu queria ver aquelas meninas! Tomamos um café super reforçado (incluído em nosso pacote) e seguimos a trilha até às Torres. Ao contrário dos outros dias, neste caminhamos muito rápido e os joelhos reclamaram um tanto (DICA: se puderem fazer a trilha no seu tempo, sem correr, é melhor. Fizemos isso todos os outros dias e não sentimos dor alguma). A trilha é pesadinha, mas isso não impede que jovens, crianças e idosos a façam, cada um no seu ritmo, no seu tempo. Eu não sabia quem eu admirava mais, se as famílias com crianças ou o grupo dos mais experientes. Quando fomos chegando pertinho da lagoa o coração foi acelerando. O Antonio foi na frente e lá do alto chamou minha atenção ao gritar uma linda declaração <3. Quando finalmente meus olhos encontraram as meninas (as Torres) não pude me conter de emoção - me faltam adjetivos para descrever a beleza deste local. Encontramos nossos amigos Daniel, Daniela, Beto e Tânia lá no topo, foi uma delícia compartilhar aquele momento com nossos novos amigos. Mas foi o tempo de contemplarmos a paisagem, tirar algumas fotos (nossa e da Maiza, coitado do Antonio) que o tempo virou completamente. As nuvens encobriram o céu azul e as Torres, e a neve começou a cair - "não era neve que você queria Antonio?" Muita neve! O vale também ficou completamente encoberto. A emoção de completar o circuito W, nossa primeira travessia, foi indescritível. Sensação de superação e eterna gratidão. Veja as fotos desta aventura AQUI. Escrevi um post com os custos desta viagem AQUI. Bons ventos!
  22. EXPEDIÇÃO PEDREADO “Qual é o propósito de um monte de homens adultos se jogarem numa jornada incerta, num roteiro desconhecido, chafurdando numa floresta quase que inacessível, num fim de mundo que quase ninguém sabe que existe? Enquanto tento achar resposta para essas perguntas, vou me arrastando pela margem deste incrível rio de águas quase que intocadas, tentando levar minha carcaça destruída até o acampamento, nesse final de tarde de outono. Ter um tornozelo torcido minutos antes de chegarmos as grandes gargantas foi um pouco de azar, por isso não fiz nem objeção quando alguém cantou a bola para pararmos ainda antes das 4 da tarde, mesmo porque, ser pego pela noite emparedados naqueles cânions poderia nos render um sofrimento desnecessário, melhor mesmo é ir cuidar das feridas, fazer uma janta quente e se preparar para o dia seguinte que promete ser de grandes aventuras. ” Não havíamos nem nos recuperado da Expedição ao VALE DO RIO SÃO LOURENCINHO, que quase culminou em uma tragédia e meus olhos já se voltaram para outro grande rio isolado ali da região de Juquitiba. O grande rio PEDREADO, conhecido e chamado pelos sitiantes locais pelo nome de RIO DO BRAÇO GRANDE, nasce no meio da Serra do Mar Paulista e se enfia em um vale quase inacessível, terra de ninguém, visitados eventualmente eu suas partes mais planas, apenas por alguns corajosos palmiteiros e caçadores mais audaciosos. Quando os estudos começaram, já ficou claro que esse rio apesar de selvagem, não teria um desnível tão abrupto quanto outros já explorados por nós, mas o fato de ser uma travessia extremamente longa da sua nascente até a sua foz, no encontro com o próprio São Lourencinho, esse afluente do Rio Juquiá, já me fez olhar essa expedição como uma missão de respeito. O rio era longo, mas a parte que nos interessava, aquela onde quase ninguém já teve coragem de meter a cara, contava com um 20 km de travessias, grande demais para apenas 4 dias, que era o tempo que dispúnhamos. Mesmo assim tínhamos que ariscar, precisávamos que alguém fosse lá e encontrasse um caminho até o rio, que alguém investigasse a qualidade da água. Para essa missão prévia se apresentou como voluntários Décio Marques e Regis Ferreira, que para lá se dirigirão, entraram pelo Bairro do Engano e se embrenharam nuns sítios abandonados até darem nas barrancas do Pedreado. Fizeram um excelente trabalho, e voltaram com o caminho mapeado no GPS, estava estabelecido a rota até o rio, agora era hora de montar uma equipe e botar mais um rio selvagem no mapa das grandes travessias da Serra do Mar Paulista. Ao apresentar o projeto para a equipe, a grande maioria já deu uma desdenhada, achando que por não haver grandes desníveis, talvez não valesse a pena tanto sacrifício e seria correr um risco desnecessário. Na minha opinião, depois de passar meses debruçado sobre os mapas de satélite e cartas topográficas eu não tinha a menor dúvida que a expedição era totalmente viável, muito porque se tratava de um rio selvagem, em estado quase bruto e que ao longo do caminho receberia mais de 50 afluentes de águas intocáveis, atravessando uma das mais exuberantes florestas do mundo. Resumindo: Parte do grupo caiu fora e foi se divertir em outras paragens. Paciência, como a gente fala, não existe carteirinha e nem obrigação com ninguém e cada um tem a liberdade de ir quando quiser e quando bem entender e isso é muito legal porque sempre deixamos bem claro. Os feriados foram passando e nada da expedição sair do papel até que no feriado de maio encostei uma meia dúzia de sem noção à parede, montamos um grupo e mesmo com alguns desconfiados quanto ao roteiro, resolvemos que já estava na hora de desvendar os mistérios escondidos naquele fim de mundo. Às nove da noite já estava eu plantado na Estação Faria Lima do Metrô, na capital Paulista, quando me aparece Paulo Potenza, arrastando atrás de si Thiago Dias (Rasta) com seus cabelos de corda, mal deu tempo de cumprimenta-los e já surgiu sei lá de onde, Guilherme rocha, que veio me cumprimentar dizendo que acompanhava meus relatos na internet e quando pediu para tirar uma foto comigo, tive que aguentar a zueira geral, muita coisa para um caipira do interior de São Paulo, rsrsrsrsrs . Não demorou muito e os outros chegaram e o grupo se completou com Anderson Rosa, Régis Ferreira, Rafael Araújo e Daniel Trovo. Nos dirigimos para o tal Largo da Batata e lá pegamos um ônibus para Itapecerica da Serra e de lá outro para Juquitiba, aonde uma van escolar já esperava para nos levar até o mais próximo do rio. O motorista rodou por 14 km pela BR 116 no sentido sul e depois entrou no tal bairro do Engano, tocou direto pela estrada principal para o sul e seguiu sempre por ela que foi se dirigindo para leste/sudeste e se bifurcou 5 km depois que saímos da BR e ali paramos porque não havia mais condições de seguirmos motorizados. Num primeiro momento eu pensava em adentrar no sítio em que a vam havia nos deixado e cortar caminho por um vale, andando uns 2 km até atingirmos o rio Pedreado, mas logo vimos que seria impossível forçar passagem por uma área habitada de madrugada e aí resolvemos seguir o plano original, o roteiro conseguido na primeira incursão. Portanto, naquela madrugada de sexta para sábado, jogamos as mochilas às costas e partimos pela estrada da esquerda que logo adentra pela mata e sem pegar nenhuma bifurcação, vamos seguindo por ela que vai ficando cada vez mais intransitável, passa por um sítio à esquerda e uns 300 m depois o terreno se abre e aparece um grande lago também à esquerda, denunciando ser ali o último ponto com sinal de gente porque a partir daí a estradinha vira quase um trilha e numa bifurcação pegamos para a direita até desembocarmos num sítio abandonado de gente aonde uma placa nos dá as boas-vindas: Caiam fora, proibido entrar, caçar, pescar, colher palmito, MEXEU MORREU ! A gente sabia que ali é terra sem lei, mas naquela hora da madrugada era o nosso único porto seguro para tentar descansar um pouco, então adentramos assim mesmo, já que era nítido que não havia ninguém no sítio. O lugar até que estava bem cuidado, sinal que não estava de todo abandonado. Em uma das casas, uma grande varanda já nos chama a atenção e nos indica um possível lugar para nos abrigarmos. Na outra casa encontramos a porta sem trancas, mas o lugar estava deplorável, com cheiro de rato morto e não havia a menor possibilidade de dormimos nas camas, mesmo assim arrastei um colchão mais apresentável e o levei para a varanda da outra casa, fiz o mesmo com um cobertor que continha apenas bostas de ratos, nada que uma boa espancada não o deixasse em condições de uso, mesmo sobre protesto e cara de nojo dos participantes daquela expedição. Então nos alojamos ali naquele casebre mequetrefe e cada um se ajeitou como pode, espalhando seus sacos dormir sobre lonas ali no chão de barro e eu tive uma noite de rei, sem friagem, sem umidade e dormi como um anjo, mesmo que alguns dissessem que nem o satanás ousaria usar aquele cobertor e aquele colchão, bobagem, exagero da galera, (rsrsrsrsrsrs). Pouco depois das 6 da manhã já estávamos de pé, tomamos café, arrumamos as mochilas e partimos. Passamos entre os dois casebres e demos a volta no lago e interceptamos uma trilha atrás dele, mas não andamos nem cinco minutos e o Régis já notou que havíamos entrado pelo lado errado, então varamos mato para a direita por uns 100 metros e achamos a trilha de acesso ao rio. Sabendo que o rio iria fazer várias voltas, resolvemos cortar caminho e seguir rente ao morro do nosso lado direito e fomos varando mato acompanhando a direção correta dado pelo nosso GPS. Aliás, havíamos marcado todo o percurso do rio Pedreado com GPS e escolhemos como nosso navegador Anderson Rosa, que iria conduzir aquela expedição com extrema competência no uso do Wikloc, que foi o aplicativo usados. A chegada ao rio alegra todo mundo. Ele está lindo, a água ainda um pouco amarelada, típica de rio ainda de planalto, que carrega um pouco de sedimento, mas logo saberíamos que ele a cada curva iria ganhar novos afluentes de águas cristalinas e irá aos poucos se transformando em um rio translúcido. Como sempre acontece, no início da caminhada a gente vai tentando manter as botas secas, tentando ganhar terreno pela margem ainda plana e transitável, mas não demora muito para as botas começarem a empapar e quando o mato fecha de vez é hora de largar de frescura e se jogar de vez na água fria da manhã, a AVENTURA ESTÁ POSTA À MESA. Nesse início o rio se mantém raso, com a água mal passando do nível da cintura, mas numa grande curva, quando somos obrigados e passar com água na altura do peito e vez por outra tendo que nadar nos lugares mais fundos, foi aí que demos conta de que esse rio seria uma grata surpresa, e alguns, que antes se mantinham céticos a respeitos do sucesso daquela expedição selvagem, já se renderam completamente e seus olhos brilharam de felicidade. O rio serpenteia, vira para um lado, vira para o outro e quando dava, usávamos suas margens para nos locomover com maior rapidez, nos utilizando também de algumas raras trilhas de palmiteiros e caçadores, aliás, em poucos lugares na Serra do Mar vimos tantas Palmeiras Juçara. Logo o rio se encaminha para dentro da floresta densa e até os raros caminhos de palmiteiros já não são mais vistos. O dia já ia pela metade quando a primeira garganta se apresentou à nossa frente, local que chamaríamos de PORTAL DO PEDREADO. Nesse ponto o rio começa a se encachoeirar e as grandes rochas faz valer o nome dado ao rio. Paramos ali para um breve lanche e para traçar a estratégia de descida, que é sempre a mesma : ganhar um pouco de altura pela direita para depois começar a descer na diagonal, que vai nos devolver de novo ao rio aonde uma Grande Cascata se apresenta e como alguns caras estavam meio que apressados para passarem por esses obstáculos, coube a mim e ao Régis nos enfiarmos numa descida para registrarmos umas fotos do salto, que aliás, era muito bonito, quase que se espalhando de um lado ao outro do rio Pedreado. Logo nos encontramos entre algumas paredes com corredeiras um pouco mais rápidas e foi ali que o Rafael tentou se jogar e ir boiando e se fudeu todo, sendo arrastado pela água e quase triturado pela máquina de lavar natural. A caminhada consiste em avançar pelo rio, hora por dentro da sua correnteza, hora pela sua margem às vezes planas e com mata mais aberta. Quase sempre era preciso cruzar de um lado a outro e numa dessas travessias vindo do interior da floresta, eu mais um pisamos a um palmo de uma jararaca velha, mas foi o Rafael que quase foi picado ao se apoiar na pedra e cair com a mão encima da serpente, que por sorte só fez pular fora da rocha. Notamos logo que teríamos problemas com as cobras e não demorou muito já me deparei com outra jararaquinha tomando sol encima de uma outra pedra no meio do rio e também tive sorte de vê-la antes de saltar sobre a pedra, ainda bem-estarmos todos com perneiras e isso faz uma grande diferença, principalmente psicológica. A galera estava motivada e tudo era motivo para alegrar mais ainda o grupo, até uma ossada de queixada servia para distrair e virava assunto, mas um tal Potenza começou a aloprar todo mundo porque queria parar para nadar, mas eu e o Trovo queríamos ganhar terreno, ainda mais porque estávamos agora numa parte plana do rio e esperávamos encontrar grandes poços mais abaixo, mas como ele encheu muito nosso saco, tivemos que esperar quando ele resolveu se jogar num poço parado , cheio de tranqueiras. Depois dessa parada não muito estratégica, cruzamos o rio para sua margem direita e os olhos treinados de lince do Rosa localizou um girau de caça e o Rasta investigando o terreno encontrou um vestígio de trilha. Nos enfiamos nesse caminho e qual não foi a nossa surpresa ao encontrarmos um vestígio de antiga estrada tomando o caminho para o norte. Era praticamente uma trilha, tomada de árvores de grande porte e só olhos bem treinados seria capaz de saber que outrora aquilo fora uma passagem maior. Mas com o objetivo daquela estrada, para que teria servido, porque estaria ali? Estudando a carta topográfica de 1973 era possível verificar que nela constava a construção de uma pequena usina hidrelétrica, coisa comum nessa época, mas esta usina, se existisse, estaria muito mais abaixo e só a encontraríamos no segundo dia de travessia. Bom, o certo é que seguir aquele caminho mais desimpedido era uma boa pedida, mas depois de uma meia hora, talvez menos ,esse vestígio de estrada foi se afastando cada vez mais do rio e eu a todo momento insistia para direcionarmos nosso nariz de volta para as barrancas do rio. Sem me dar ouvidos, parte do grupo continuou caminhando, mesmo que a estrada fosse cada vez mais se afastando do rio e ganhando altura. Teve uma hora que eu já estava implorando para a gente tomar outro rumo, tanto que cheguei a apostar até a minha dignidade, contando com o Rafael como fiador da aposta e tendo o Potenza como assinante de algumas promissórias. Mas os caras não queriam nem saber e quando a caminho se bifurcou, pulamos um afluente e seguimos meio que para oeste, infelizmente ainda subindo. Eu já estava nos cascos quando finalmente a tal estradinha que nem trilha mais parecia de tão fechada, se enveredou para o sul, indo em direção ao rio e logo à frente ela acabou de vez e aí descemos escorregando em um barranco até desembocarmos umas 4 da tarde, olha só, bem na barragem da tal usina hidrelétrica. Ninguém entendeu nada, na marcação da nossa carta topográfica essa tal usina seria muito mais abaixo do rio, tanto que só esperávamos encontra-la apenas no outro dia. Achar essa Usina hidrelétrica foi mesmo gratificante porque pensávamos até que ela nem existisse e chegamos à conclusão de que o IBGE havia cometido um pequeno engano ao coloca-la um pouco mais abaixo, um erro plenamente justificável, haja vista que a carta datava de 1973, mas a construção dessa usina é muito antes disso, talvez da década de 30 ou 40. Então estava explicado aquele vestígio de estrada que havíamos encontrado, ela serviu para a construção da usina, que por sua vez foi construída para alimentar uma madeireira as margens da local aonde hoje é a BR 101. Claro, é uma usina minúscula, tanto que só no outro dia conseguimos localizar no meio do mato e carcomida pelo tempo o maquinário e a turbina que gerava a energia, mas hoje só resta mesmo a barragem de pedra que fecha o rio de um lado ao outro, mas ainda deixando passar toda sua água, formando uma bucólica cachoeira aos seus pés e diante desse engano e aproveitando a própria deixa com o nome do bairro, vou chamar essa queda d’água de CACHOEIRA DA USINA DO ENGANO, para marcas essa localização. Ainda era muito cedo para acamparmos, mas os caras bateram o pé para que passássemos a noite ali e quanto a isso não fiz objeção, mesmo achando ser muito cedo para arriar as mochilas. Então nos pés da cachoeira armamos nossas redes e enquanto alguns cozinhavam, outros aproveitaram para se esbaldar no poço da queda d’água. Alguns se viraram como puderam, fazendo o velho e tradicional miojo, mas eu, em parceria com o Régis, cozinhei uma boa de uma janta reforçada. Aliás, o Régis e o Rasta eram os novatos do grupo, mas logo se enturmaram e não escaparam em nenhum momento das piadas e chacotas destinadas aos debutantes, muito porque eles mesmos, já “não valiam nada”(rsrsrsrsr) Foi uma noite bem dormida, de temperatura agradável e só não foi melhor porque demora um pouco para a gente se acostumar com o barulho da queda d’água explodindo no poço da usina, mas o dia que amanhece é um dia sem nuvens e promete ser sem chuvas. Antes das sete da manhã já estávamos de pé, mas só depois das oito foi que nos animamos a partir. Ficamos divididos entre voltarmos para a estrada/trilha ou continuar seguindo por dentro do rio, mesmo ainda sendo muito cedo para nos atirarmos na água. Num primeiro momento tentamos descer pela margem e não andamos nem 100 metros já nos deparamos com a tal casa de maquinas em completa ruina, aonde o caminho acabou de vez. Querendo ganhar um pouco de terreno resolvemos retornar e novamente interceptar a tal estradinha, mas logo descobrimos que ela na verdade acabava mesmo ali na usina e quebramos a cara porque perdemos muito tempo rodando para ver se achávamos ela na direção que pretendíamos. O jeito foi retornar novamente até a antiga casa de maquinas e varar mato pela direita, até que o barranco fechou nossa passagem e fomos obrigados a nos jogarmos novamente dentro do rio e uma vez com as partes baixas molhadas, não havia mais motivos para fugirmos da água gelada. A caminhada seguiu alternando as margens do rio e sempre procurávamos facilitar nossa passagem, as vezes varando mato por algum barranco, outras vezes abrindo passagem pela vegetação mais tranquila, quando o rio se estabilizava, até que chegamos às gargantas e aí foi hora de nos esgueiramos por dentro de grandes rochas, subindo e descendo, escalando fendas e vencendo paredes lisas. Não que o rio nessa parte tenha grandes correntezas, mas sempre é um tormento para atravessá-lo, principalmente para mim que sou muito leve e qualquer bobeada aumenta a chance se ser arrastado é um perigo real, mas quando se pode ver o que se esconde atrás de alguma curva é sempre um barato se jogar nessa correnteza e deixar com que a força do rio o conduza bem mais à frente , sem nenhum esforço, nos poupando energias .Quando o rio resolve se enfiar de vez numas paredes que o espreme, é hora de pular fora dele e voltar a escalar pedras novamente. Chega uma hora que a margem que se caminha não serve mais ao nosso propósito, então é preciso montar uma operação para conseguir voltar ao outro lado. Caminhar pela Serra do Mar é algo incrível não só pela paisagem deslumbrante e selvagem, mas também pela forma com que se faz isso. Aqui não seguimos nenhuma regra cagada aos quatro ventos por grupinhos constituídos, as regras nós mesmos criamos dependendo do momento e da ocasião e para atravessar uma torrente de água basta uma cordinha qualquer, um nó de emergência criado na hora por quem se sente mais seguro com ele. Basta um pedaço de pau qualquer, uma mão amiga para não deixar que o indivíduo despenque na queda mais abaixo e tudo está resolvido. Mais à frente o rio se afunila mais ainda e aí é preciso tomar cuidado para não escorregar e cair na máquina de lavar e se lascar todo. Logo sem ter como prosseguir voltamos a nos enfiar no mato e subimos barranco abrindo passagem pela vegetação mais densa até novamente podermos voltar ao rio, desta vez sobre uma imensa laje de pedra, hora de parar para um breve descanso e umas mordidas em uns lanches. A cada passo dado, a cada metro que ganhamos vamos vendo a transformação desse rio. Suas águas vão ganhando novos afluentes e vão ficando cada vez mais cristalinas e logo quando as gargantas acabam, nos vimos caminhando numa mata bonita, onde o rio vai se enlarguescendo e fazendo várias curvas. O dia já vai bem adiantado quando começamos a sentir um cheiro característico de comida no fogão a lenha, sinal de que algum grupo de caçador poderia estar por perto, mesmo porque, vimos no mapa que estávamos nos aproximando de um local aonde era possível que se pudesse chegar ao rio pela existência de uma estradinha no passado. Passamos em silêncio, não queríamos ser confundidos com algum animal de caça e corrermos o risco de tomarmos um tiro de cartucheira. Resolvemos mudar de margem para uma maior segurança e de repente, sem prévio aviso, tropeçamos numa ponte pênsil que atravessava o rio de um lado a outro, que ligava nada a lugar nenhum. Estava bem claro que havia um caminho vindo de algum lugar da civilização, mas era claro que nenhum turista chegava por ele, haja visto que não havia nenhum sinal de lixo. Logo acima da ponte de cabos abria-se uma grande clareira e a partir dela saia uma larga trilha que denunciava que realmente no passado uma estradinha poderia ter chegado até ali. Parte do grupo que estava à frente resolveu seguir a larga trilha que se distanciava do rio na perpendicular e era claro que não serviria a nosso propósito, mas os caras teimosos foram seguindo, feito cabras segas, enquanto eu o Rasta já putos da vida, seguíamos atrás reclamando porque víamos que aquele caminho não daria em lugar nenhum, a não ser para nos tirar da nossa rota. Dez minutos de caminhada, depois de uma curva, surge a nossa frente um telhado de um rancho e isso fez com que a gente ficasse apreensivo por não saber o que encontraríamos naquele fim de mundo e poderíamos dar de cara com os bandoleiros da serra que provavelmente nos receberia com um trabuco na cara. Se nós já estávamos apreensivos, imagina a cara dos sete homens que foram surpreendidos por outros sete saído do meio da floresta, vindos sabe-se lá de onde. O rancho não passava de uma construção rústica, com uma cobertura de telhas, mas sem paredes e rodeado de algumas lonas velhas. Mesmo sendo um barraco qualquer, no meio daquela selva parecia mesmo um castelo, onde um fogão a lenha jogava fumaça pelos ares denunciando que havia comida cozinhando e algumas camas rusticas espalhadas pelo outro ambiente completava o senário do palácio perdido. Logo nos apresentamos como aventureiros e exploradores, eliminando assim qualquer mal-estar que a nossa presença pudesse causar. Aqueles homens que ali estavam não eram caçadores e nem palmiteiros e sim convidados do cuidador daquela propriedade que segundo nos disseram, pertencia a um grande banco que a comprou para fazer lastro financeiro, mas eles estavam ali apenas para praticar um ócio: beber, comer e jogar conversa fora. Ao lado do rancho, uma willis velha deixava claro que realmente havia uma estrada ligando a civilização ao rio, mas por ser propriedade particular, ninguém passava, deixando o lugar no mais total isolamento. Todos apresentados. Fomos logo convidados a nos sentar à mesa para compartilhar a refeição, coisa que o Daniel Trovo já recusou de cara por educação, mas como educação passou longe da barriga lombriguinha do Potenza, o “zoiudo” já se atirou no fogão à lenha e saiu de lá com um prato caindo comida pelas beiradas. O Trovo mandou logo sua educação para os quintos e abocanhou seu quinhão e assim, um a um foram se achegando naquele fogão à lenha e revirando o “zóio” de tanto comer. Eu mesmo, um pouco mais contido, talvez pela minha educação europeia, ao olhar para o tamanho daquela panela, aonde poderia comer umas 20 pessoas e me dando conta que sobre aquele rústico fogão havia dobradinha com carne de porco, arroz, torresmo, carne de panela cozida com palmito selvagem, enchi meu prato como se fosse um refugiado de guerra, muito porque aqueles homens não estavam mesmo a fim de comer mais nada, já estavam com o rabo cheio de cachaça. Fazendo justiça a um do nosso grupo, que se recusou a comer todo aquele banquete, não posso deixar de citar o único cara que se mostrou civilizado naquele dia e se manteve firme nas suas convicções, o Rasta não tocou na comida, mesmo estando varado de fome, não por ser um lorde inglês, mas simplesmente por ser vegetariano e esse foi o único que se lascou bonito e teve que fazer sua própria janta. Bom, a comida estava boa, o papo estava melhora ainda, mas já passava das 4 da tarde e a gente tinha que decidir o nosso rumo. Numa rápida reunião decidimos que mesmo ainda sendo muito cedo, acamparíamos na clareira à beira do rio, mas aí o inesperado veio alegrar a alma já que a barriga estava para a lá de cheia. Seu Joaquim nos ofereceu o rancho para passarmos a noite já que eles estavam de partida em no máximo meia hora. Não havia o que pensar, aceitamos e ficamos agradecidos pela oferta, aquilo iria além do que a gente sonhava. Enquanto os donos do rancho se organizavam para ir embora, aproveitamos para tomar um bom banho no rio e colocar roupas limpas e secas e quando retornamos eles haviam partido e aí nos apossamos do abrigo e cada qual foi escolher sua cama e seu colchão. Os mais espertos se empoleiraram nas camas rusticas e os outros tiveram que se deitar no chão mesmo. Ali naquele casebre improvisado e quentinho rolou papo furado até quase de madrugada, sempre regado a café e chá. Alguns ainda se deram ao luxo de comer o resto da comida que havia sobrado, outros foram ainda preparar mais comida. Na hora de deitar os homens se separaram dos meninos logo que elas surgiram: Eram aranhas de tudo quanto é tamanho e tipo, saíram dos lugares mais estranhos e foram tomando tudo de conta. Alguns logo se revelaram com a masculinidade abalada e outros nem disfarçaram, já largaram os colchões no chão e trataram de montar suas redes, até aqueles que vive de defender a sociedade acabou por nos decepcionar e ameaçou dar chilique e só depois de uma operação de guerra com muitas chineladas é que conseguimos vencê-las e os mais medrosos conseguiram pegar no sono no RANCHO DAS ARANHAS. Quando o dia raiou foi difícil abandonar aquele cafofo confortável e só lá pelas nove da manhã foi que resolvemos partir, ainda bem porque eu andava preocupado com o zunzum da noite anterior aonde alguns ameaçavam largar a expedição no meio e voltar para casa ou no mínimo ficar no rancho por mais um dia. De volta ao rio, a caminhada segue pela sua margem e não demora muito achamos um grande afluente do lado direito, justamente o riacho que rasgava a montanha e abri caminho para a estradinha que vinha da civilização. As andanças se alternam entre varar mato e andar dentro do próprio rio que nesse trecho é raso e plano, com uma água incrivelmente limpa e menos de duas horas depois achamos o que nos pareceu ser uma trilha e resolvemos segui-la, até que ela começou a se afastar muito da água e quando pensamos em abandoná-la, demos de cara com mais um abrigo abandonado. Apreensivo fomos nos achegando aos poucos e logo notamos que esse também estava vazio a um bom tempo e desse rancho partiu uma trilha que nos devolveu novamente ao rio. Nesse trecho a correnteza deu uma aumentada e o leito rochoso dificultava o caminhar, mas se por um lado é preciso empreender mais energia, por outro lado aquele era um cenário lindíssimo com poços sempre nos convidando para um mergulho e em um deles uma caverna escavada no barranco foi o parque de diversão de alguns mais afoitos. Logo em seguida, numa curva para esquerda, o rio desembestou de vez e para não ser arrastado pela correnteza foi preciso que passássemos nadando até uma grande espécie de ilha de pedra e por haver um super poço, foi a grande desculpa para ariarmos as mochilas para uma parada mais demorada e um bom mergulho e alguns se ariscaram a se jogar na correnteza e viraram passageiros do rio, num divertimento sem compromisso. Estávamos ansiosos para encontrarmos as cachoeiras que aquele dia nos prometia e quando as pedras do rio começaram a ficar cada vez maiores, já nos preparamos para desce-las e a primeira que apareceu foi logo uma que tomou conta de todo o rio, uma cascata não muito alta, mas que parecia com uma catarata que jogava gotículas de água para todos os lados. Para descer ao pé dela, parte do grupo varou mato pela esquerda, enquanto outros já se jogaram de cima dela e passaram à nado, aproveitando a força da sua queda para ir parar já na prainha de pedras. Já passava das duas da tarde, talvez um pouco mais e aproveitando a parada providencial, aproveitamos para instalar ali nossa capsula de registro de travessias selvagens,aonde deixamos nosso recado para os futuros aventureiros que por lá passarem algum dia e depois disso deixamos aquela bela cachoeira entregue a sua própria sorte e agora as CATARATAS DO PEDREADO ganhou o registro da nossa ilustre passagem. Para nossa surpresa, mal havíamos começado a caminhar e já demos de cara com mais uma gigante cachoeira, justamente a queda d’água que eu havia estudado tanto e imaginava que poderia ser uma das mais altas da travessia. Só que dessa vez não era uma cachoeira no Rio Pedreado, mas sim num afluente do lado esquerdo e a meinha suspeita se confirmou. Uma queda d’água larga de um grande rio vindo do interior da serra, mais um rio perdido nesse mundo selvagem aonde ninguém põe a cara e que transforma esse ecossistema em um dos mais espetaculares da Terra. Fico feliz em ver se materializar à minha frente aquilo que eu só imaginava nos mapas de satélite e na carta topográfica. Enquanto eu e o Rasta ficamos ali apreciando aquele espetáculo, os meninos se adiantaram e fomos obrigados a apertar o passo para nos juntarmos novamente à eles. O Daniel Trovo o tempo todo vinha com uma conversa de que poderíamos acabar ainda hoje aquela travessia, mas eu já sabia que isso não passava de delírio, muito porque eu não estava nem um pouco a fim de abandonar aquele rio extraordinário antes do combinado, mas o dia foi passando, a gente varando mato, atravessando rio a nado, nos jogando nas corredeiras, subindo barranco e escalando paredes na unha e numa curva qualquer, talvez por já estar cansado e um pouco desatento, num pulo mal dado, vi meu pé virar e foi inevitável que meu tornozelo torcesse junto. Na mesma hora eu já ví que o estrago havia sido feito, mal conseguia colocar o pé no chão e perdido naquela vastidão de floresta temi pela continuidade daquela travessia. Uma parada de uns 15 minutos para que a dor inicial desse uma estabilizada e me valendo da água fria para um analgésico momentâneo consegui prosseguir. A dor ainda era intensa, mas não havia tempo para ficar choramingando pelos cantos, o jeito era tentar me arrastar até o fim do dia e tentar um curativo a noite, no acampamento. A tarde já ameaçava acabar e como já pensávamos em acampar, fomos andando e já de olho em alguma área plana, mas por infelicidade estávamos presos entre duas paredes sem nenhum lugar descente para montamos nossas redes e como nada é tão ruim que não possa piorar, surgiu à nossa frente uma sequência de gargantas profundas, hora de parar e montar uma estratégia. Já eram quase 4 horas da tarde e nos veio à cabeça a possibilidade de iniciarmos aquela descida e acabarmos mais presos ainda e agora por paredões de pedra. Ser pego à noite sem nenhum lugar para montar acampamento não estava nos nossos planos, já havíamos passado por isso em outras expedições e sabíamos muito bem o quanto é desagradável e sofrível, então numa reunião rápida, o grupo decidiu que deveríamos montar acampamento e deixar aquela aventura para o outro dia. O grande problema era aonde conseguir um lugar descente, mas aí o Trovo se lembrou de que algum tempo atrás ele havia visto uma área de caçadores abandonada e que seria prudente retornarmos e tentar passar a noite por lá. Sem ter outra alternativa fizemos o caminho de volta e por sorte encontramos essa área do lado direito do rio e não poderia ser melhor. Um local plano e com boas árvores para esticarmos nossas redes, abrigado do vento e com um pequeno afluente para nos abastecer. Quando montamos essa expedição e decidimos que mesmo o rio não tendo um desnível descomunal como estávamos acostumados a explorar, iríamos ir nos divertir, acampar num lugar selvagem e jogar conversa fora e felizmente tudo que havíamos planejado estava saindo ainda melhor. Os quatro acampamentos que fizemos foram realmente incríveis e como é gratificante poder nos sentar às margens desse rio fantástico, numa noite de lua clara e temperatura agradável e poder se dar ao luxo de viver uma vida de desapego. Lá nós não somos ninguém, nem ricos nem pobres, ninguém é Cristão ou Budista ou Espírita. A profissão de cada um não vale absolutamente de nada e muito menos a sua posição política ou filosófica. Somos apenas nós mesmo, apenas homens crescidos brincando ao som da simplicidade da vida. E nesses acampamentos é muito zueira, muito porque o politicamente correto não existe e quem puder mais chora menos. Mesmo já estando a 3 dias nessa labuta incessante, todos estão muito dispostos e animados e a conversa acaba por se estender até tarde, ou ao menos até mais tarde do que estamos acostumados e quando o sono chega é só se jogar para dentro das nossas redes e dormir como nunca dormimos antes até que o sol venha nos acordar para mais um dia de jornadas gratificantes. Pouco depois das 6 da manhã já estamos de pé e enquanto a água do café não ferve, desmontamos tudo e nos aprontamos para partir. E a partida já começa em grande estilo porque logo cedo já somos obrigados a cruzar o rio com a água pela cintura e ganharmos o mato do lado direito, interceptando um vestígio de trilha que vai ganhando altitude e quando vimos já estávamos paralelos à garganta. Poderíamos tentar seguir varando mato pela crista mas aí nos afastaríamos do objetivo principal que eram as cachoeiras e por isso embicamos nosso nariz numa diagonal e avançamos escorregando pelo barranco até nos posicionarmos novamente às margens do Pedreado, bem aos pés de uma queda incrível, que abria o início das grande cachoeiras antes do rio fazer sua curva para esquerda e começar a acompanhar a Rodovia Regis Bittencourt (BR 116). Não demora muito e entre escaladas e desescaladas, ganhando terreno dentro do rio, conseguimos perder altura até nos posicionarmos em mais uma Cachoeira larga, com um véu abaulado, mais um cenário lindíssimo, mais uma descoberta surpreendente aonde alguns ficaram brincando no meio do seu véu. Por incrível que pareça, nós estávamos enfiando dentro de um vale bem no meio da SERRA DO CAFEZAL , aonde milhares de pessoas passam todo dia indo ou voltando do sul do país e que nem imaginam o que se esconde por dentro dessas montanhas. Em épocas de feriados, congestionamentos monstros se formam na BR 116 , são horas e horas parados , pessoas perdem seus tempos, dinheiro e saúde, parados no meio do nada, enquanto aqui em baixo nos vales a vida pulsa numa beleza poética, com rios de águas cristalinas, cachoeiras lindas ,plantas exóticas e animais extraordinários e naquele momento tudo nos pertencia e somente a nós, donos absolutos do lugar. Agora à nossa frente o vale se abriu de vez e acima das nossas cabeças já era possível notar que estávamos bem perto da rodovia, talvez em uma hora varando mato e escalando a montanha conseguíssemos chegar ao asfalto, mas ainda não havíamos chegado ao meio dia e seria uma pena abandonar tudo aquilo e quando o Rio Pedreado curvou-se de vez para o sul, junto a um grande afluente do lado direto, no próprio rio uma outra cachoeira se fez presente, num cenário de tirar o fôlego e um mundo paisagens fascinantes se abriu para nós e ficamos encantados de estar tão perto de uma das rodovias mais movimentadas do país e ao mesmo tempo tão isolados num mundo selvagem. Aquilo era realmente incrivelmente belo e para nossa surpresa uma antiga ponte pênsil caindo aos pedaços havia sido construída ali, mas com sinal de estar abandonada há muito tempo, parecendo mesmo ter sido esquecida ali para todo o sempre. A Cachoeira da Ponte Pênsil marcava definitivamente nossa vitória e nossa conquista daquele vale e daquele rio desafiador porque sabíamos que poderíamos cair fora a qualquer momento, mas a aventura ainda não havia terminado, então decidimos nos enfiar na próxima garganta e avançar um pouco mais e não nos arrependeríamos por isso. O Pedreado dá uma afunilada e é pelo lado esquerdo que vamos seguindo, nos enfiando no meio de pedras e descendo uma a uma até nos posicionarmos acima de uma grande e longa rampa que nos trava a passagem. Descer por ali seria realmente perigoso e o jeito foi retornar um pouco e tentar uma passagem para o outro lado do rio, mesmo assim seria necessário se jogar à beira da queda potencialmente perigosa. O Rasta acabou sendo o boi de piranha que se ariscou e já puxou o Daniel Trovo para o mundo dele, mas o resto do grupo não achou prudente passar por ali sem nenhuma segurança e só se animou a cruzar o rio quando o próprio Rasta sacou um cordim para nossa segurança e um a um foi se agarrando àquela corda medíocre e se atirando na correnteza até alcançar a outra margem. Uma vez cruzado o rio, até tentamos varar mato para descer até a próxima cachoeira, mas a inclinação do terreno e sabendo que aqueles eram os últimos momentos nossos naquela expedição, preferimos não gastar mais nenhuma energia e o melhor caminho se mostrou mesmo pelas bordas do rio, passando e se esgueirando pelas pedras lisas, mas ainda assim perfeitamente passáveis e nem quinze minutos depois a gente largou nossas mochilas e agradecemos por estarmos diante de mais uma maravilha despencando de cima das pedras formando mais uma grande cachoeira para coroar de vez a nossa passagem por aquele vale. Não Era mais uma cachoeira qualquer, era outro espetáculo que se espalhava de um lado a outro do rio e foi bonito ver parte da galera se esbaldando embaixo da sua queda e no seu grande poço de águas claras. Eu da minha parte não queria mais saber de água, quase 4 dias socado dentro do rio para mim já era suficiente. Sentei sobre uma grande rocha e me pus a contemplar pela última vez aquele cenário que me encantou nesse feriado do dia do trabalho. Foram 4 dias intensos, de grandes descobertas, de novas amizades, de desafios e deslumbramentos e quando a galera cansou de desfrutar daquela Cachoeira com uma espécie de chafarizdo lado direito, demos por encerrada aquela expedição por dentro do rio, mas ainda estava longe de nossa aventura terminar por completo. Estávamos a uns 200 metros de desnível abaixo da BR 116 e para lá chegarmos seria necessário escalar a montanha e varar mato até o asfalto. Não havia muito o que fazer, apenas pedimos proteção a nossa senhora do barranco e nos pomos a puxar mato e subir sem nem olhar para trás e logo demos adeus a Cachoeira do Chafariz e ao vale do Rio Pedreado. O Rasta e Trovo foram à frente puxando a fila, mas logo o Potenza nos ultrapassa e ele e o Rasta tiveram o privilégio de avistar os primeiros sinais de civilização e um pequeno cervo selvagem correndo apressado ao perceber nossa presença. Finalmente antes das 2 da tarde comemoramos com um abraço coletivo mais uma expedição bem-sucedida na Serra do Mar Paulista, chegamos todos em segurança, cansados, mas felizes de mais uma vez podermos ir ao lado escuro dessa fascinante serra, numa das mais incríveis florestas do mundo, aonde ainda reina a paz que todos desejam. Chegar a rodovia foi uma conquista, mas fomos sair num lugar inóspito, praticamente desabitado e somente depois de quase uma hora de pernadas foi que conseguimos achar uma alma viva que morava num sítio e ele nos informou que deveríamos descer por mais um km até uma borracharia abandonada, aonde seria possível pegar um ônibus subindo a serra que possivelmente viria do bairro de Santa Rita. Esperamos, esperamos até que a bunda ficasse quadrada e nada de conseguirmos um transporte, muito menos uma carona. Com muito custo nos veio a informação que somente as 18 horas poderia haver um ônibus e nós ficamos lá abandonado a própria sorte até que um ônibus vazio e que não nos servia parou e nos avisou que ali não conseguiríamos voltar para casa nunca e nos ofereceu uma carona até mais acima na rodovia, aonde havia um ponto de ônibus que fazia a linha Juquitiba x Barnabés ou sei lá que fim de mundo dos infernos era aquele. O ônibus quando apareceu, a noite já havia caído faz tempo e em mais de hora de viagem, nos deixou na pequena rodoviária de Juquitiba e de lá conseguimos outro ônibus para a região metropolitana de são Paulo aonde cada qual se dispersou para um lado e eu voltei para minha aldeia em Sumaré, no interior Paulista. Essa Travessia expedicionária surgiu da vontade de poder explorar um mundo quase selvagens, ir à lugares ainda desconhecido pela maioria dos Paulistas. Poder botar nossos pés e arrastar nossa alma ávida de conhecimentos até lugares praticamente intocados, poder lutar e vencer a nós mesmo, poder cerrar os punhos e enfrentar uma natureza quase que desconhecida e entrar de um lado e sair do outro transformados, satisfeitos, inebriados e agradecidos por mais uma vez ir aonde poucos foram e principalmente por ter conseguido juntar uns amigos e conhecidos e ao final da jornada quase poder chamá-los de irmãos. Divanei Goes de Paula / maio - 2018
  23. TABULEIRO X LAPINHA “Grande, enorme, gigante! É como um minúsculo nada que me jogo na grandiosidade daquele poço de onde despenca nada mais nada menos que a maior Cachoeira de Minas Gerais. O mergulho é meio estabanado devido a presença de rochas submersas, mas ao submergir das águas geladas, me lembro de outrora quando estivera naquele lugar há mais de 15 anos e sem muito titubear, boto forças no braço e tento alcançar o lugar donde as águas despencam dos 273 m de queda livre, mas o vento e as ondas criadas pelo deslocamento de ar me fazem tomar um rumo diferente e então nado na diagonal até me ver a salvo numa ilha rochosa. Tomo novamente a direção da cachoeira e meu olhar se perde nas alturas colossais e pulando de pedra em pedra, atravesso um arco-íris para me projetar atrás do grande véu aquático e lá me perco na euforia do momento. Nem me lembro mais quem sou eu, não sei se sou criança ou um homem de meia idade e por alguns minutos me entrego ao deleite que me assombra a alma, agora tomada por uma felicidade imensa, perdido na magia de uma das maiores atrações naturais do Brasil. “ A travessia Lapinha x Tabuleiro é um dos maiores clássicos em se tratando de caminhadas no país, mas por incrível que pareça, ainda se trata de uma ilustre desconhecida entre os grandes centros, ficando renegada apenas ao mineiros e alguns montanhistas mais safos. Claro que todo mundo que é ligado ao esporte pelo menos uma vez na vida já ouviu falar dessa travessia, mas a distância e a logística péssima, fez com que muita gente experiente acabasse por deixar essa travessia tradicional em segundo plano e eu não escapei de ser um deles, tendo ensaiado por várias vezes me enfiar naquelas paragens. Não posso dizer que desconhecia totalmente a Serra do Espinhaço porque já havia estado por lá tempos atrás, mas nunca para uma grande caminhada, sempre como turista, para visitar os parques nacionais e alguns vilarejos perdidos, como o próprio vilarejo do Tabuleiro. Tendo pelo menos 10 dias de férias, resolvi que era chegado a hora de riscar essa caminhada da minha lista e como o Anderson Rosa também estava com tempo sobrando, combinamos de emendar uma grande travessia no Espinhaço, nos perdendo por mais de uma centena de quilômetros entre o vilarejo do Tabuleiro, passando pelo Vilarejo de Lapinha da Serra e depois esticando até o vilarejo de Fechados e o que a gente achava que seria uma bela caminhada pelo serrado mineiro, acabou por se tornar uma grande aventura duríssima, porque onde a gente põe a mão ou no caso os pés , a gente tem o poder de transformar o passeio numa ida ao inferno, desnecessário, mas um dia a gente aprende.( rsrsrsrsr) (Conceição do Mato Dentro) Aproveitando a vinda de uns mineiros para capital paulista, que vieram assistir a final da Copa do Brasil de onde o time de Belo Horizonte levou a taça ganhando de um timinho de Itaquera, pegamos uma carona combinada no aplicativo e picamos a mula para a capital mundial do pão do queijo e às nove da manhã já havíamos sidos cooptados por uma lotação que iria nos levar de Belo Horizonte até o município de Conceição do Mato Dentro, que por sinal, havia mudado pouco desde que lá entive no início dos anos 2.000, continuava o mesmo fim de mundo de sempre. Conceição é daquelas cidades minúscula, onde certamente o Judas teria perdido as botas, mas nosso destino seria ainda mais distante, talvez lá para onde o Judas passa férias. Convencemos um taxista a nos dar um desconto e nos levar para o vilarejo de Tabuleiro distante quase 30 km, mesmo com as nuvens enegrecidas que ameaçavam desabar e transformar as estradas de terra num atoleiro. Numa viagem quase que interminável, tendo que fazer desvio por caminhos pouco dantes navegados, chegamos ao Tabuleiro na parte da tarde e fomos desovados num lugar vazio e em meio as chuvas que acabaram vindo, como o prometido. (vilarejo do Tabuleiro) O vilarejo conta com um amontoado de casa distribuídas em formas aleatórias, espalhadas pelo terreno montanhoso e seu centrinho fica num lugar estranho, uma subida abaulada e do ponto mais alto desponta uma igrejinha magnífica que foi reformada há pouco tempo e faz o charme do lugarejo. Deixei o Anderson cuidando das mochilas e fui ver uma vaga no camping na entrada da vila, aliás, o mesmo que havia ficado gratuitamente 15 anos atrás e que hoje era administrado por um senhor que cobra um preço camarada para se instalar com barraca( 15 reais), mas como ainda era cedo, resolvemos dar uma voltar e tirar umas fotos da singela igrejinha e foi lá que conhecemos o Dinei, morador local que nos emprestou um sinal de internet e por fim nos ofereceu a construção de uma lanchonete para que pudéssemos passar a noite. Na manhã seguinte sem muita pressa e depois de um bom café, jogamos as mochilas nas costas e partimos para o início da trilha que está a quase 4 km do vilarejo, mas não demorou muito e ao passar por nós uma perua escolar que se dirigia para a portaria do Parque do Tabuleiro, não nos furtamos em esticar o dedo e angariar uma carona salvadora. O Parque Municipal e Natural do Tabuleiro engloba boa parte dessa travessia e é o guardião da cachoeira de mesmo nome. Esse parque nem existia quando por aqui estive em 2003 e hoje conta com uma portaria que cobra 10 reais para se acessar a queda d’água, mas fornece coletes salva-vidas para todo mundo, além de ter estruturado quase toda a trilha, instalando tablados e passarela para dar acesso para todo mundo, um exemplo a ser seguido por qualquer parque. Quem vai fazer a travessia para Lapinha da Serra e não vai até a cachoeira nem precisa pagar, mas esse não era o nosso caso porque fazer a travessia sem ir ao grande poço da queda é de uma burrice gigante porque talvez essa seja uma das grandes atrações naturais do Brasil. Explicando melhor, existem dois caminhos: o tradicional que vai passar pela direita da Cachoeira e vê-la apenas do mirante e o alternativo que vai contornar pela esquerda, subindo em paredão íngreme e já saindo no topo da cachoeira, claro que existe a opção de ir até onde a queda despenca, voltar e escolher qualquer caminho, mas como veríamos no decorrer dessa travessia, são poucos os que escolhem fazer essa travessia partindo do Tabuleiro, a grande maioria prefere partir de Lapinha da Serra. Sempre pensei que esse caminho escolhido pela maioria seria para deixar a grande atração do roteiro para o final, a grande cereja do bolo, finalizar com um grande banho na Cachoeira do Tabuleiro, mas depois descobriríamos que o grande motivo seria outro. Nos despedimos dos guarda parques e viramos à esquerda e já pegamos a trilha que nos levaria até embaixo da queda do Tabuleiro. Como relatei, um caminho todo demarcado e com infraestrutura para que pessoas de idade e crianças possam seguir com segurança, mesmo que seja uma trilha puxada para esse seguimento, não se gasta pouco mais de uma hora até cachoeira. O Caminho é lindo demais e aos poucos a queda d’água vai se mostrando imponente e vai devastando a nossa capacidade de medir tamanhos. Vamos perdendo altitudes , passando por alguns mirantes incríveis e quando menos esperamos já estamos com os pés do Ribeirão do Campo de águas avermelhadas e escuras, um colorido único que vai rasgando a vegetação rupestre e aí vamos pulando de pedra em pedra, atravessando o rio em ziguezague, ás vezes somos jogamos para às margem e somos obrigados e transitar por dentro da vegetação, mas sempre seguindo setas pintadas caprichosamente para facilitar a passagem sem que tenhamos que molhar as nossas botas, pelo menos na época da primavera quando o rio está menos cheio . A cada passo dado em direção aos pés da grande queda, mais fascinante vai ficando o passeio, a vontade é largar mochila e tudo mais para trás e sair correndo e se jogar aos pés desse deus em forma líquida e se banhar no seu glorioso manto molhado, porque mais que um prazer é mesmo uma grande honra poder estar num lugar único como aquele. Quando estacionamos nossos corpos extasiados junto ao grande poço de águas escuras, apenas 4 ou 5 testemunhas se refrescavam naquela sexta feira de outubro. O sol incidia direto no poço e o véu da maior cachoeira de Minas Gerais e a terceira mais do país, se espalhava numa dança frenética, num vai e vem belíssimo e para nossa sorte, a Grande CACHOEIRA DO TABULEIRO havia sido encorpada pelas chuvas do dia anterior. Ela estava tão bela quanto 15 anos atrás, quando também pegamos ela com um volume alto e não demora nada para eu me despir da minha pele fabricada e me atirar nas águas frias e tentar nadar em direção ao véu, mas por mais que eu me esforçasse, foi impossível prosseguir por causa das ondas e da correnteza que insistia em me jogar de volta para as margens, então apenas nadei bravamente até uma pedra submersa e com um dorso de baleia aparente e lá ganhei fôlego, preferindo agora seguir pela margem esquerda até me posicionar embaixo dos 273 metros de queda livre e lá sentir toda energia daquele monstro caindo sobre minhas costas. Os minutos que lá passei foram uma eternidade, gritei palavras desconexas, frases sem sentido, invoquei a minha infância com todo o vigor da minha alma, eu estava feliz como poucas vezes estivera antes. Deixamos a grande cachoeira para trás e voltamos a descer o rio, agora na intenção de encontrar a trilha que nos levaria para o topo dela. Sabíamos que o nosso caminho seguiria para a direita de quem desce e logo depois de uma pequena grutinha localizamos um totem de pedra que nos indicou por onde deveríamos subir, mas basicamente essa trilha sobe o barranco do outro lado do rio pra quem vem lá da sede do parque, no nosso caso que estávamos voltando da cachoeira , tivermos que fazer uma escalaminhada inicial até que a trilha se consolida de vez e fica bem visível , toda forrada com pedrinhas brancas e quando se chega ao alto, pegamos para a direita numa placa do parque , junto a um amontoado de telhas . Vamos caminhado, agora mais em nível, meio que paralelo ao grande morro de onde a cachoeira desaba, mas logo se percebe que deveremos subi-la contornando o morrão pela sua esquerda. Quando nos aproximamos de vez da montanha continuamos subindo até um grande patamar para descobrir que havia mais um grande morro para ser cruzado, mas como acabei desgrudando os olhos do traklog passado por uns amigos mineiros, acabamos nos enfiando nesse patamar e seguindo reto, varando uns arbustos até darmos com os burros n’água. Verdade mesmo que o nosso burro não chegou nem perto da água, acabamos saindo no alto do penhasco com a visão do rio lá embaixo, sem conseguirmos descer sem que fosse preciso sacar de uma corda. (Ribeirão do Campo) Bom, o Anderson já estava pistola comigo porque havíamos caminhado numa subida do cão e não fomos dar em lugar nenhum. Eu até tentei achar um caminho para tentarmos descer para ver a cachoeira despencando no vazio, mas acabei por desistir e como ele já estava aporrinhando para voltarmos para trilha correta e com toda razão, interceptamos um rabo de trilha e navegamos beirando o Ribeirão do Campo pelo alto até conseguirmos perder altitude e nos acabarmos de tanto beber água. Enquanto o Andersom se acabava numa cachoeirinha, desci o rio para bater umas fotos de umas cachoeiras maiores e até pensei em seguir o rio pela margem até para ver a Tabuleiro despencando no vazio, mas achei que gastaria muito tempo para ir e voltar e como a tarde já ia pela metade, voltei para onde estava o Rosa, comemos um lanche e partimos. A sequência do caminho é do outro lado do rio, passamos por uma bifurcação para a direta que provavelmente levará para vistas do salto da cachoeira e continuamos subindo. Não é um grande desnível, mas é uma trilha longa para quem já teve que vencer o desnível desde o pé da cachoeira com a mochila carregada. Vamos caminhando devagar, desprezando algumas bifurcações que provavelmente servirá de atalho para a trilha principal que vem lá da sede do parque e quando o terreno nivela, vamos nos perdendo naquela vastidão sem fim, tentando adivinhar para onde seguirá nosso caminho, mas logo ao cruzar uma porteira, nos damos conta que devemos manter os olhos bem presos ao chão, ainda mais depois de quase pisarmos numa jararacuçu. Nosso traklog indicava que estávamos perto do camping e apoio do seu Zé, mas somente quando a noite caiu foi que conseguimos enxergar as luzes ao longe que nos serviu de guia. Debruçado na janela, seu Zé nos recebe com um boa noite e uma galera de Belo Horizonte se espanta com nossa chegada tão tardia. Seu José nos autoriza a montarmos nossa barraquinha na varanda, muito porque as nuvens negras que nos acompanhou a tarde toda ainda ameaçavam desabar, mas não choveu e logo após um banho gelado e uma janta quente, nos jogamos na nossa casa de mato e só acordamos quando o sol veio nos avisar que era hora de retomarmos mais um dia de caminhada. Nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos pela trilha que agora se parece com uma estradinha e que se inicia atrás da casa, logo depois da porteira. As vistas se alargam muito e a caminhada vai seguindo com pouco desnível por caminho muito obvies e de fácil navegação, tão fácil que a gente bobeou e ao invés de pegarmos a trilha para a esquerda 1 km depois do camping, passamos reto e seguimos enfrente pelo caminho aberto por mais 1600 m e só percebemos o erro porque nos vimos diante de uma bifurcação. Diante da burrada e da pernada desnecessária, resolvemos não voltar e sim varar mato pelo cerrado, mas agora sem tirar o olho do gps do celular que apontava que o nosso caminho deveria seguir para o sul, totalmente oposto do caminho que estávamos seguindo. Cortar caminho sem trilha em campos de altitude não é problema e é até prazeroso poder deslumbrar um tanto de novas plantas rasteiras do qual não estamos acostumados a ver e menos de meia hora depois reencontramos a nossa trilha bem onde uma ponte natural feita de raiz cruza um riacho. Mais 1 km de caminhada em campos abertos e vamos passando por uma espécie de brejo, que vai cortar dois capões de mato a distância, com uma formação rochosa muito bonita a direita e uns 15 minutos depois desembocamos num rio lindo com água abundante, cor de coca-cola e depois de um gole d’água, cruzamo-lo para o outro lado e vamos subindo levemente por mais vinte minutos até cruzarmos a porteira e a placa que delimita o início do Parque natural do Tabuleiro e ganharmos a rua de terra. Nosso caminho segue na estradinha para a esquerda, mas não dá nem 200 metros já interceptamos um rabo de trilha saindo para a direita e vamos descendo em direção a CASCALHEIRA , uma passagem muito bonita , quase uma fenda que vai despencando montanha abaixo, contornado o abismo até ganhar o fundo do vale, num plano muito bonito, todo florido e com caminho estreito já com vista para os picos que compõe toda essa paisagem lindíssima. O caminho é bem gostoso de ser trilhado e o esforço é mínimo por não haver nenhum desnível considerável e meia hora depois cruzamos mais um riachoem meio a uma matinha, no qual paramos para matar nossa sede e refrescar nossa moleira já que o sol não estava para brincadeira. Seguimos até que a trilha se enfia dentro de um capão de mato e sobe beirando uma cerca de arame até desembocar numa porteira, onde é possível avista ao longe uma casa do lado direito. A partir de agora o Pico do Breu já nos acena com um convite para subi-lo e vamos descendo em direção a ele e ao Rio Parauninha e logo quando passamos em frente do lugar marcado para pegar à esquerda e seguir para a área de acampamento da Dona Ana,resolvemos mandar o traklog as favas e cortar caminho direto para o Pico, como se ele próprio tivesse nos enfeitiçado. Abandonamos, portanto, a trilha batida e fomos traçando um caminho com o GPS até reencontrarmos no fundo do vale o RIO PARAUNINHA, com suas águas vermelhas e convidativas. Depois de um breve descanso e de termos localizado a trilha que vai galgar a encosta do Breu, recolhemos um litro e meio de água por pessoa, já que não sabíamos se teríamos fontes no topo ou a caminho do dele. A subida é meio confusa, as vezes os totens dão o caminho, outras vezes a trilha aparece em meio às pedrinhas brancas, mas a única coisa que não deixa de ser óbvia é que tem que tocar para cima e foi aí que a gente descobriu porque absolutamente ninguém costuma fazer esse roteiro vindo de Tabuleiro e somente de Lapinha da Serra. É uma subida dos infernos, principalmente para quem como nós está com uma mochila carregada para 10 dias de travessias. Vamos ganhando terreno metro à metro, centímetro à centímetro e quanto mais se sobe mais difícil vai se tornando o caminho. Eu já não vinha passando muito bem por causa do clorim que usamos para tratar a água, coisa que eu sabia que sempre me fazia mal. Estava com cólicas terríveis por causa de uma dor de barriga e aquele diabo daquela trilha não arrefecia de jeito nenhum. Para piorar o tempo fechou no cume e as nuvens desceram violentamente e nos pegou nas encostas. Quando a gente pensava que estava chegando, sempre aparecia outro ombro para ser galgado e eu já estava quase mandando aquele cume a merda e acampando em qualquer lugar, mas como o Rosa acabou se adiantando, me vi na obrigação de tentar acompanha-lo, muito porque, o abrigo estava com ele. Claro, poderíamos ter evitado tudo aquilo, poderíamos apenas ter seguido pelo caminho tradicional e não subir o Pico, apenas contorna-lo, mas não, a gente tem que inventar moda e escolher a porra do pior caminho. O Andersom sumiu das minhas vistas, fiquei para trás me contorcendo e me arrastando em meio a vegetação de altitude, sem saber se estava indo para o lado certo ou não e quando o terreno se estabilizou e galguei uma parte plana, avistei um grande totem de pedra que marcava os 1.687 metros do cume do PICO DO BREU, joguei minha mochila ao chão e dei por encerrado aquele dia de caminhada, hora de procurar um lugar para acampar e fazer uma janta quente. O Pico do Breu é o ponto mais alto do caminho e a vista lá de cima é realmente deslumbrante, mas por causa do mau tempo no cume, conseguimos ver muito pouco e por um breve espaço de tempo, toda a crista que vai levar ao Pico da Lapinha. Assim que escureceu, o tempo fechou de vez e uma garoa fina tomou conta do lugar. Não havia nenhum sinal de acampamento no topo, muito porque deve até ser proibido e além do mais, quem parte de Lapinha da Serra deve chegar aqui super sedo, sendo desnecessário acampar aqui, mas não é o nosso caso e então, depois de tirarmos algumas pedrinhas de um lugar mais plano, montamos nossa barraquinha e fomos tratar do jantar. Enquanto o Anderson cozinhava, perguntei para ele se não seria bom tentar esticar a lona superior da barraca com algumas pedras e como ele achou meio desnecessário, não dei muita liga, afinal de contas eu ainda estava envolto com minhas cólicas abdominais e estava querendo era ficar quietinho, mas essa atitude preguiçosa iria nos cobrar um preço. A neblina que durante o dia havia varrido o topo do Breu, à noite se transformou em uma garoa fina e os ventos açoitaram nossa barraquinha fazendo com que a lona de fora grudasse na de dentro e tudo o que era seco se encharcou. Estávamos tão cansados que ninguém se animou a sair lá fora com o mal tempo para tentar esticar a lona e de manhã ainda tivemos a cara de pau de praguejar contra as forças da natureza ao invés de aceitar nossa incompetência. Mesmo molhados, ficamos deitados até tarde, meio que em estado letárgico, sem coragem de levantar e encarar o tempo ruim que ainda persistia e só quando não houve mais jeito foi que tomamos coragem e resolvemos enfrentar o nosso destino. Rapidamente desmontamos tudo e jogamos para dentro das mochilas e saímos voados do cume, mas não fomos muito longe porque logo nos vimos perdidos na encosta depois que o cume acabou. Acontece que a descida é pela esquerda, numa fenda que despenca logo para baixo, mas o mal tempo nos fez rodarmos um pouco mesmo seguindo pelo traklog do gps. A descida é rápida e o caminho curva-se para a esquerda e ao atingir a crista se nivela e vamos galgá-la em direção ao Pico da Lapinha. O caminho com tempo ruim é meio confuso, mas ao longe avistamos umas estacas pintadas de azul, passamos por algumas nascentes que nos ajuda a repor a nossa água que nos faltou no cume do Pico do Breu e uma meia hora depois, talvez um pouco mais, chegamos à uma bifurcação. Para a esquerda é a descida que poderia nos levar para o Rio Parauninha e interceptar a trilha tradicional, e para a direita é a continuação para o Pico da Lapinha e a sequência da trilha que também poderá nos levar para o próprio vilarejo de Lapinha da Serra. Mesmo com mal tempo resolvemos seguir pela crista da serra e pouco mais de 3 km depois interceptamos a própria trilha final que vai subir ao cume do PICO DA LAPINHA. A vista lá de cima deve ser soberba, mas com o tempo fechado como estava, achamos perda de tempo e esforço inútil, então passamos direto, agora nos guiando por estacas vermelhas, o que nos deixou curioso para saber quem havia sinalizado tão bem essa crista de montanhas, jamais havíamos visto isso em lugar nenhum, mas não tardaríamos em saber que isso tinha seu preço. Da entrada para o pico da Lapinha, a trilha vai perdendo altitude e uns 15 ou 20 minutos depois demos de cara com um surpreendente abrigo de montanha, todo bem conservado e até com fogão à lenha e banheiros limpos. Imaginamos que poderia ser a sede do parque, mas logo saberíamos do que se tratava. O lugar aonde foi construído o abrigo é lindíssimo, mas um pouco exposto e o vento que vinha encanado pelo vale estava de congelar, ainda mais porque estávamos molhados, então tiramos algumas fotos da paisagem e do Pico da Lapinha e descemos rapidamente, tentando sair de dentro das nuvens para alcançarmos o sol que iluminava o vilarejo que já estava à vista. A trilha vai descendo para valer e o horizonte vai se alargando até podermos ver o grande lago que deixa tudo mais encantador. De degrau à degrau, vamos cada vez mais nos aproximando do vilarejo, passamos por um rio de onde placas indicam haver cachoeiras, mas já não nos alegramos mais em ir conhecer, queremos mesmo é poder finalizar essa travessia o quanto antes a fim de nos aquecer e poder comer algo porque o estomago já está nas costas. Uma última curva nos leva até uma casa e uma porteira nos fecha o caminho de onde duas pessoas nos aguardam babando para nos interpelar sobre o caminho que fizemos. Foi ali que descobrimos que todos aquelas cristas e montanhas ficavam em área particular e que a tal construção se tratava de uma portaria para cobrança do acesso. Tivemos que responder um monte de perguntas, mas a nossa astúcia de montanhistas antigos já nos fez optarmos pelos famosos “migués”, demos uma de “João sem braço”, dizendo que não sabíamos de nada e que havíamos acampados em um lugar distantes, tão distante que nem nós sabíamos explicar onde ficava. Enfim, nos deixaram passar sem cobrar os 25 reais pela passagem por suas terras, mas nos avisaram que da próxima vez teríamos que pagar. Balançamos a cabeça, ainda nos fazendo de bobos, nos despedimos dos cobradores de impostos e seguimos nosso caminho passando pelo campinho de futebol até finalmente desembocarmos num camping junto ao minúsculo vilarejo, num fim de mundo sem sinal de celular ou quaisquer outras modernidades. O dia mal havia chegado a sua metade, poderíamos nos pôr a caminhar por mais uns 10 km e ganhar o povoado de Santana do riacho de onde poderíamos tentar um ônibus para Belo Horizonte, mas apesar de termos chegado ao final dessa clássica travessia, nossas pretensões era seguir caminho para outro vilarejo perdido na Serra do Espinhaço, mas a travessia para FECHADOS é outra história, uma outra aventura surpreendente que será contado em um momento oportuno. A travessia Tabuleiro x Lapinha ou vice-versa é sem dúvida uma das mais clássicas travessias de todo o Brasil e conta a seu favor o fato de estar afastada dos grandes centros como Rio e São Paulo, o que faz dela ainda uma caminhada deslumbrante devido ao pequeno fluxo de pessoas, mas muito mais do que isso, é poder caminhar em um ambiente onde a farofa ainda não chegou e ainda é possível andar sem ver um único vestígio de lixo e muito menos tropeçar em banheiro humano largado em qualquer lugar e só isso já valeria qualquer sacrifício, mas não é só isso, esse roteiro tem a honra de poder lhe apresentar nada a menos que grandiosa Cachoeira do Tabuleiro que com certeza constará em qualquer lista das grandes atrações naturais do país e como bônus esse roteiro nos apresenta também o fantástico Pico do Breu e sua serra pontilhada por outras montanhas incríveis , incluindo o Pico da Lapinha. Nosso primeiro contato com o Espinhaço fez com que a gente ficasse completamente deslumbrados com essa serra, porque descobrimos caminhos e possibilidades ainda quase que inexplorados ou ao menos conhecidos apenas pelos nativos do Estado e uma vez picado pela mosca do Serrado é impossível deixar de se apaixonar por essas veredas. Divanei Goes de Paula - outubro/2018 AGRADECIMENTOS: Aos mineiros Francisco Cardoso ( CHICO TREKKING) e ao Robson Oliveira ( TRILHANDO TREKING) , foram os nossos contatos em Minas Gerais e se há alguém capaz de guiar ou passar informações, esses são os caras e a eles todo o meu respeito e admiração.
  24. Era quase meio dia numa manhã de novembro. Sob o sol quente, a radiação castigava a pele já queimada dos meus braços, mãos e pescoço. Estava exausto. Os pés doíam, enfiados nos calçados especiais para caminhada que por algum milagre ainda insistiam em não se esfarelar. Mesmo com o lindo dia e com a paisagem deslumbrante do alto do Canion da Rocinha a inspirar a elevação do espírito, meu humor não poderia estar pior. Durante a noite anterior havia acabado a água nos meus dois cantis e a boca seca somada à respiração ofegante faziam a sensação de sede parecer insuportável. Com as últimas forças atravessei a campina e desci à margem do último córrego que tinha que atravessar. Depois disso, a estrada e o fim da jornada. Na margem, soltei a barrigueira e tirei a pesada mochila dos ombros. Com esforço, alcancei um dos cantis de plástico verde, e tentando me equilibrar sobre o terreno molhado, acocorei sobre a vertente e o enchi com um pouco daquela água gelada e cristalina. Levantei para beber e no momento em que tocava os lábios no cantil meu pé escorregou. Caí de lado sobre o barranco irregular e úmido. O cantil bateu no chão e foi parar dentro de uma poça lamacenta, derramando todo o seu líquido. Foi a gota d’água. Senti o calor do sangue subindo à minha cabeça e a fúria tomou conta de mim. Toda a frustração, o cansaço e a tristeza vieram à tona. Levantei e alcancei o cantil apenas para jogá-lo mais longe, com toda a minha força. Uma semana antes eu me sentia muito bem, me preparando para o que imaginava seria um trekking “épico”. Já havia alinhavado alguns detalhes da viagem com meu velho amigo de caminhadas. Mauro e eu nos conhecemos durante o serviço militar obrigatório, há mais de trinta anos atrás. De lá pra cá, mesmo sem qualquer regularidade, acumulamos aventuras, quilômetros caminhados e muitas histórias para contar. A nossa última aventura havia sido num final de semana de fevereiro deste ano. Com um amigo, fomos a um cânion muito pouco visitado em Cambará do Sul, que exigiu uma caminhada de 12 quilômetros sob forte chuva. O clima não estava nada bom e a previsão para os próximos dias era pior ainda. Assim, chegamos, acampamos e no dia seguinte retornamos outros 12 quilômetros. Mesmo assim valeu pela boa companhia, pelo exercício físico e por ter matado a saudade de um dos meus cânions preferidos. Depois de muitas conversas e combinações, a decisão estava tomada: desta vez, Kátia ficaria em casa com as crianças. Eu havia conseguido uns dias de férias do trabalho e, se por um lado estava precisando me afastar das tarefas rotineiras, por outro eu tinha planos... A ideia era aproveitar a exuberância inspiradora e remota do ambiente natural dos cânions de São José dos Ausentes para produzir fotos e vídeos para um novo projeto pessoal. Há algum tempo Kátia e eu vínhamos conversando sobre fazer algo baseado em plataformas virtuais. Ela é da área de informática e, muito criativa, tinha tido experiências de trabalho com mídias sociais. Insistia para que eu montasse algo nesse sentido, com enfoque nas minhas experiências. Agora, por algum motivo, me senti mais confiante e resolvi abraçar a proposta. A oportunidade de começar a produzir material num ambiente natural era perfeita. Um local onde eu me sinto à vontade, que faz parte de mim. Abri o armário e comecei a tirar as teias de aranha do nosso equipamento fotográfico, guardado há alguns anos, especialmente depois do advento dos smartphones... apesar de ter que carregar uma pesada “tralha” (máquina DSL, suas lentes e tripé, além de baterias extras e outros acessórios), a qualidade das fotos valeria a pena. Suportar o peso extra do equipamento fotográfico era um dos principais desafios desta empreitada. Deixaria o telefone celular para comunicação, navegação, vídeos e algumas fotos ocasionais. Adquiri um power bank de 10.400mAh para garantir a duração da bateria do telefone até o fim da viagem. O segundo desafio da caminhada era justamente a navegação. Com o meu bom e velho Garmin eTrex Venture na maioridade (passou dos 18 aninhos) e já mostrando sérios problemas – mapas desatualizados, display sem mapa e tela falhando, eu queria muito testar o sistema de navegação Google pelo celular. Ainda assim levamos o velhinho eTrex (pelo menos para marcar os waypoints), além de bússolas magnéticas e cartas topográficas da região. Falando em região, chegada a véspera da viagem ainda não tínhamos decidido qual seria o roteiro exato, para desespero dos nossos familiares. Sabíamos que seria algum trecho entre o Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul e o Cânion Montenegro, em São José dos Ausentes, numa jornada entre 4 e 5 dias. Isso seria decidido no carro, subindo a serra. Com a mochila cargueira preparada e a maleta com o equipamento fotográfico ao lado, restava aguardar o Mauro, que chegou perto das oito e meia da manhã de sexta-feira, feriado de Finados. Eu estava louco para botar o pé na estrada, mas, a convite da Kátia, o meu parceiro de aventuras, com a sua calma de sempre, entrou e tomou um café e comeu um sanduíche. Finalmente saímos para a maior caminhada que eu faria em anos! Mas conhecendo meu amigo, sabia que não começaríamos assim, tão imediatamente... então, pacientemente usufruí da parada em São Francisco de Paula (80 km rodados) para pesar as mochilas numa balança de farmácia e olhar umas lojinhas (todas fechadas), da parada em Tainhas (distrito de SFP, 115 km rodados) para um lanche e olhar as divertidas camisetas do Radicci, e da parada em São José dos Ausentes (248 km rodados) para um café com bolo na única lancheria (e também loja de bolsas, calçados, roupas, panelas e todo o tipo de utensílios) aberta naquele dia de feriado nacional. Tínhamos decidido fazer um roteiro inédito: caminhar do Cânion Monte Negro, onde fica o ponto mais alto do Estado do Rio Grande do Sul, seguindo para o Sul, pela encosta do planalto até o ponto de encontro com a BR 285, no início da descida da bela Serra da Rocinha. Seria uma caminhada entre 30 e 40 quilômetros, dependendo que quantos cânions iríamos visitar no caminho, considerando os imensos recortes dos profundos vales que os compõem. Enfim, decidimos deixar o carro na Fazenda Monte Negro, vencendo mais 45 quilômetros de estrada de terra. Para o Mauro, tudo em Ausentes era novidade. Eu, no entanto, havia me hospedado ali há cerca de 17 anos atrás. Apesar do local estar diferente, maior e mais bonito, muitas lembranças vieram à tona. Foi uma saída solitária, de uns três dias, para conhecer o tal ponto mais alto do Estado. Lembro bem que peguei muita chuva e frio nas minhas caminhadas por lá. Tentei várias vezes ver o cânion mas o tempo ruim não permitia e enchia tudo com a sua névoa cinza. Lembro também da comida campeira deliciosa que era (e deve ser ainda hoje) servida lá. Lembro do calor do fogo de chão e do fogão a lenha, sempre acesos. Lembro do peso das cobertas a ajudarem a aquecer a cama fria à noite. Lembro da escuridão e do silêncio absurdo da noite, me levando a refletir sobre as coisas da vida e principalmente sobre a recente perda da minha mãe, vencida pelo câncer. Naquele momento, era apenas eu. Avós, tios, pais e irmão. Todos haviam partido. Essas foram as lembranças que aquela casa de fazenda, com seus dois andares, me trouxe assim que o carro parou à sua frente. Conversamos com um rapaz, filho do proprietário. Ele não só permitiu que deixássemos o carro no estacionamento da pousada como nos deu uma carona até a base do Monte Negro. Eram passadas quatro horas da tarde quando, enfim, colocamos as mochilas nas costas e começamos a caminhar. Como é proibido acampar na área do Cânion, tivemos que contornar o Monte, pelo Leste, através de mata fechada. Foi um início conturbado e surpreendente, já que, na minha cabeça, não teríamos que passar por nenhuma mata. Tive grande dificuldade em me deslocar, já que a organização do meu equipamento não ajudava... aquela maleta de material fotográfico na mão... assim, mal tinha começado a caminhar e consegui alguns arranhões, duas quedas e afundar os calçados na lama preta, molhando as meias e as calças. Mas a compensação não demorou a chegar.. Após uns 200 metros de sofrimento, digo, caminhada, a mata começou a abrir e, ao passar por uma espécie de túnel verde, descortinou-se uma clareira à beira do planalto. Era final da tarde e uma luz amarelada incidia, oblíqua, nas nuvens que dominavam o ar, da beira do planalto para baixo, como um tapete branco-dourado estendido em continuação aos verdes campos de cima da serra. Uma visão espetacular, revigorante. Fiz o primeiro vídeo da viagem com aquele cenário. Decidimos acampar por ali mesmo, posicionando uma das entradas da barraca para o lado do sol nascente. Jantamos e nos organizamos para descansar. Eu me sentia feliz por estar novamente no alto da montanha (por assim dizer), respirando ar puro, curtindo as cores da natureza, longe das luzes elétricas e do burburinho da cidade. Estava pronto para me livrar daquela frequência de 60 hertz que nos cerca cotidianamente e retornar à frequência da natureza, e, esperava, para minha própria frequência. Este sentimento não durou muito... Eu tinha adquirido um isolante térmico novo, mais compacto e confortável para colocar debaixo do meu saco de dormir. Eu tinha consciência que estava com 50 anos de idade e um sobrepeso de, no mínimo, 20 quilos. Não era mais um guri que podia dormir de qualquer maneira e acordar inteiro na manhã seguinte. Então, comprei, via internet, um isolante térmico inflável importado, de uma marca conhecida e reconhecida. A encomenda chegou num prazo razoável e cheguei a testá-la alguns dias antes do início da jornada. Fiz um vídeo sobre o assunto para o nosso canal do Youtube. Tudo certo. O fato é que na hora “h” o isolante inflável inflou e desinflou imediatamente, não se importando com a minha necessidade de conforto. De algum modo, ele estava furado. Muito furado. Até agora não sei o que houve. Até gravei um vídeo demonstrando minha frustração. Pior que ter frustrado a experiência com o equipamento novo foi a noção de ter que passar o resto da viagem sem o conforto, carregando um peso morto. Por sorte eu tinha levado outro isolante, de EVA, bastante fino. O suficiente para eu não ter que dormir direto no chão da barraca. Me arrumei como pude e, lembrando do meu pescoço que há meses estava dolorido, peguei o meu travesseiro compacto e comecei a inflá-lo. Por alguma ironia do destino, ele resolveu seguir o mesmo rumo do isolante térmico inflável. Minha “paz interior”, tão buscada pelo Mestre Shifu, estava sendo posta à prova. Tive que fazer o tradicional travesseiro de roupas para apoiar minha cabeça, ao deitar... paz interior, paz interior... afff... afinal, dormi. Mas não muito. Era perto das duas da manhã quando fui acordado pelo barulho do vento a bater na mata próxima e a sacudir as paredes da barraca. Nada de mais, afinal, sei que na beira dos cânions o clima muda rapidamente e sempre tem algum vento. Mas tinha alguma coisa diferente... estava quente e o vento parecia estar aumentando. Acordei de sobressalto uma hora depois com o barulho do vento que castigava violentamente a lateral da barraca, a ponto de prensá-la ao chão, sobre o Mauro, que dormia ao meu lado, enfiado no seu... esquema de dormir. O barulho era assustador e o vento parecia ser de um tornado. Bem, eu já tinha pêgo temporais enquanto acampava, mas não assim. Não à beira de um precipício, a 1.300 metros de altitude. Saí da barraca pelo outro lado, para tentar ter uma noção do que estava acontecendo. O céu estava limpo sobre nós, com uma absurda quantidade de estrelas e, olhando ao Sul, divisei uma linha mais escura junto ao horizonte movendo-se, com seus raios, rapidamente a Leste. Os ventos que passavam sobre nós eram puxados para a linha de mau tempo e pareciam alimentá-la. Uma tormenta muito forte se avizinhava. Dei a volta na barraca para conferir as estacas e as cordas. Tudo certo, apesar da pressão do vento, que realmente deitava a barraca sobre ela mesma. Sobre isso, não havia o que fazer a não ser rezar e confiar para que as varetas de estrutura não cedessem. Era uma barraca nova, comprada especialmente para uma saída com a família no feriado de sete de setembro. Aproveitei uma oportunidade no Outlet da The North Face e comprei uma Triarch 3. A barraca é sensacional. Ainda que tenha saído pela metade do preço, o valor pago era relativamente alto em relação a outras marcas, o que me fez levar um olhar preocupado da esposa. Agora a barraca estava mostrando o seu valor. O raiar do dia foi estranho. O sol nasceu esplêndido e laranja e sobre nossas cabeças ainda havia céu claro. Mas ventava muito e sabíamos que o temporal não tardaria a nos alcançar. Tirei umas fotos – tremidas por causa do vento – e fiz um vídeo mostrando a barraca adernada e o barulho do vento. Tomamos café rapidamente, arrumamos as mochilas e com bastante dificuldade, por causa do vento incessante, desmontamos a barraca. Começamos a caminhar na direção da tempestade. Saímos em busca do Cânion Boa Vista e do morro do mesmo nome, que é o segundo ponto mais alto do Estado, cerca de 10 quilômetros ao Sul da nossa posição. O tempo fechou de vez e, no meio do caminho veio a chuva. Tivemos tempo para colocar as jaquetas impermeáveis e as capas nas mochilas, mas sem muita serventia pois o vento sacudia tudo e fazia a água entrar em todos os lugares. Tentei proteger a maleta da melhor maneira possível, sem sucesso. Mesmo sendo uma maleta especial e reforçada, todo o equipamento molhou. Para piorar a situação, subiu um nevoeiro, dificultando a nossa navegação. Não víamos mais do que 10 metros à nossa frente. Mesmo com o GPS do telefone nos auxiliando, estava difícil encontrar a direção certa no meio do campo. O nosso objetivo era encontrar uma plantação de pinheiros que cortava o nosso caminho e escondia, atrás de si, uma estrada que levava ao Boa Vista. A chuva apertava e dificultava o manuseio do telefone celular. O aparelho não reconhecia a digital do meu dedo molhado. Além disso, cada vez que queria consultar o GPS eu tinha que parar, colocar a maleta no chão, puxar o telefone do bolso e de alguma forma tentar secar a ponta do dedo. Não foram poucas as vezes que eu tive que digitar a senha de segurança. Eu não quis deixar o aparelho desbloqueado porque não queria correr o risco de que algum toque acidental fechasse o mapa do GPS. Eu estava offline. Obrigado, Claro. Depois de algum tempo caminhando em zigue-zague, encontramos a plantação de pinheiros. De fato, só não batemos nela, porque quando o Mauro gritou “olha os pinus!!” estávamos andando ao lado dela e não de frente, como deveríamos. Deu tempo de cruzar a cerca e parar debaixo da primeira linha de pinheiros quando um aguaceiro começou a cair sem sinal de trégua. Ficamos parados, de pé, não havia mais nada a fazer. Dali para adiante, por outro lado, a nossa vida ficara mais “fácil”. O vento diminuiu. Bastava seguir a linha de pinheiros até encontrar a estrada. Era uma estrada típica de interior de plantação de pinheiros: rústica, suja e cheia de áreas alagadas. Uma hora e meia depois chegamos à entrada da Pousada Ecológica dos Cannyons, junto ao Cânion da Boa Vista. Nem houve discussão sobre a hipótese se seguir caminho. Era impossível. Entramos na pousada e pedimos acomodação para passar a noite. Eram onze horas da manhã e estávamos caminhando sob vento ou chuva desde as seis e meia. O atendente foi conferir se havia acomodações. Por sorte, a pousada não estava cheia. Tinha um pessoal da UFRGS (vimos a van na entrada do estacionamento) e mais dois casais hospedados. O gerente nos acomodou num chalé de madeira. Não era novo mas estava em boas condições. Contava com dois pequenos quartos de casal, um banheiro com chuveiro elétrico, e uma saleta que acomodava um beliche, um móvel com uma tv de tubo e... uma lareira! Imediatamente pedi ao gerente que acionasse a lareira. Ele retornou em seguida com uma caixa de lenha e em dois minutos ouvimos o crepitar da madeira. Era o local ideal para secarmos nossas roupas e calçados. Fiquei tão comovido que tirei uma foto dos meus tênis secando à beira do fogo. Ahhhh, um banho quente! Fiquei mais de meia hora no banho, aquecendo meus pés gelados, até que o Mauro, perdendo a paciência, bateu na porta pra saber se estava tudo bem. Coloquei uma roupa seca, pedi desculpas pela demora e fui para junto da lareira. Em seguida, fomos para a área de estar da pousada que contava com uma grande lareira ladeada por sofás confortáveis e com... wifi! Conversei com a Kátia e mandei umas fotos. Pela tv ficamos sabendo que a tormenta tinha sido realmente dura. Causou alagamentos e destelhamentos por todo o Estado. O noticiário informou que os ventos chegaram a 80 km/h na região em que estávamos. Quando contávamos o que tínhamos feito, as pessoas ficavam assustadas e nos olhavam como se fôssemos loucos. Todos na pousada – até a cozinheira – já sabiam dos coroas malucos que chegaram molhados e passaram de barraca por um vendaval. O almoço campeiro estava simplesmente delicioso. Simples e saboroso. Quando estávamos nos retirando, vimos o pessoal da universidade fazendo o check-out. Passamos o resto da tarde descansando, evitando que o fogo da lareira se apagasse (ou que as roupas queimassem muito próximas às chamas) e carregando nossos aparelhos eletrônicos. O passar das horas abriu o tempo. Lá pelas cinco da tarde, claridades mais fortes entravam pela janela do chalé. Em seguida, vinha uma nuvem e o tempo fechava novamente. Em seguida, fomos para o lobby, esperar a hora do jantar. Eu também queria ver a previsão do tempo no noticiário e aproveitar o sinal de internet disponível apenas naquele ambiente. Estávamos sentados junto à lareira quando ouvimos os dois casais que ficaram na pousada conversando com o proprietário da pousada sobre como ir ao Cânion Amola Faca. Eles queriam ir mesmo com o tempo não estando ainda tão firme. Olhei para o Mauro, que estava sentado junto ao fogo da lareira do lobby. Sabíamos que seria uma caminhada inútil de 6 quilômetros. O cânion estava fechado de nuvens, com certeza. À noitinha os casais estavam de volta. Não resisti e perguntei sobre a ida ao Cânion Amola Faca. Eles responderam, desapontados, que nem conseguiram chegar à beira. Um dos rios que corta a estrada que leva ao cânion estava transbordado, com uma corrente muito forte, devido às chuvas. Não se atreveram a tentar cruzar a torrente de água. Os casais, biólogos, viviam da pesquisa em campo e do ambiente acadêmico. Começamos uma conversa animada sobre sustentabilidade, acampar, trekkings e sobre o Cânion Josafaz, em especial. Pela conversa, entendi que os pesquisadores haviam procurado, sem sucesso, um local específico, importante para seus estudos, na região. Por incrível coincidência, a região do Cânion Josafaz nos é conhecida e querida. Estive com o Mauro lá por várias vezes. Descemos o cânion em duas oportunidades, por uma trilha inacreditável. Outras duas vezes estive lá guiando outras pessoas pela descida. Confesso que não conseguia encontrar a trilha sem o Mauro, por mais que tentasse. Por outro lado, eu conhecia muito bem a parte de cima, próxima das localidades de Aratinga e Contendas, pertencentes ao município de São Francisco de Paula. E conhecia o local procurado pelos biólogos. Isso deixou nossa conversa ainda mais interessante. Fomos interrompidos pela chamada à janta, que estava deliciosa. Em seguida, voltamos à beira da lareira, onde retomamos as conversas por mais um par de horas antes de nos recolhermos aos chalés. Resolvi me acomodar no beliche, mais próximo da lareira onde podia ficar ouvindo o crepitar da lenha sob a pouca luz avermelhada que emanava do canto da sala. A previsão do tempo era boa para os próximos dias mas eu sabia que teria dificuldades com o terreno molhado pela abundante chuva que caíra. Os campos de turfeiras deviam estar ainda mais encharcados. Organizei as cobertas sobre o pequeno colchão de beliche e adormeci rapidamente. No dia seguinte, domingo, o café foi posto às oito e meia, mais tarde do que eu gostaria. No entanto, o tempo ainda não estava firme, variando entre sol e nevoeiro. Percebi que o vento estava mudando para o quadrante Sul, o que me encheu de esperança. Aproveitei o maravilhoso café colonial que foi posto à mesa. Enfim, perto das dez horas da manhã fizemos o check-out, nos despedimos dos nossos novos amigos e retomamos a nossa jornada rumo ao Cânion Amola Faca. Quase todo o percurso de 6 quilômetros foi feito por estrada de terra e pedras. O terreno já havia enxugado bastante e os rios estavam quase em seu leito normal. Mas a sorte continuava a me testar e a sola do meu tênis do pé esquerdo começou a desprender. Iniciei a caminhada com os calçados à meia-boca mas confiante que conseguiria chegar ao final. Nada disso. Tentei amarrar cordas em torno do pé, mas ao caminhar as cordas soltavam facilmente. A situação estava começando a ficar periclitante pois, caso soltasse totalmente a sola, eu não poderia continuar. Só tinha levado aquele calçado. Perseverei e continuei a caminhar, com cuidado. Apesar do céu estar muito nebuloso, consegui belas fotos da longa cachoeira que despenca dentro do cânion. Demos a volta no vértice do cânion para nos refrescarmos nas águas daquele arroio. Aproveitei a parada para verificar o estado dos meus calçados. Nada bom. O calçado do pé direito já dava sinais de descolamento da sola. Foi aí que tive a ideia de furar a ponta da biqueira do tênis e passar uma corda, que amarrei nos cadarços. Ficou muito bom e segui confiante. O céu havia limpado de vez e agora o sol batia inclemente. Depois de encher nossos cantis, ficamos contemplando a beleza do lugar, acompanhados por uma leve brisa e alguns pássaros. Decidimos acampar por ali, em algum lugar de uma espécie de platô que se estendia para leste, a partir da face sul do cânion. Quando estava em casa estudando a região, pelo computador, percebi aquele platô e tive vontade de explorá-lo até sua extremidade leste e acampar lá, tendo uma visão de uma área litorânea que poderia se estender desde Torres até talvez Imbituba ou Tubarão, ao Norte. Mas a caminhada era longa e sob os argumentos do Mauro, resolvemos fica mais perto. Uma coisa eu não abria mão: queria ver o sol nascer no litoral. Esse é um espetáculo mágico. Não tivemos dificuldade em encontrar um local plano, que poderia servir. Consultamos o Garmin sobre a posição do sol nascente, e, a princípio, seria adequado. Montamos o acampamento sem pressa, aguardando a noite fria e ventosa que viria. Preparei uma sopa de galinha com arroz (aquelas prontas, de pacote, claro) e ainda enfiei um miojo e nacos de salame na panela. Uma refeição quente antes de dormir, simples assim. Dormi bem apesar do incômodo nas mãos, braços e pescoço causados pela radiação solar. Tinha esquecido do protetor solar e agora teria que ter muito cuidado no restante da caminhada. Dormi tão bem que quase perdi o espetáculo que buscava. Fazia uns oito graus fora da barraca e o vento forte do amanhecer deixava a sensação próximo de zero. Mesmo com as mãos tremendo, tirei várias fotos e decidi que iria filmar o sol nascendo. Este seria um presente meu para a Kátia. Ela queria muito ter vindo junto. Lembrei do nosso primeiro acampamento, perto do vértice do Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul. Estávamos namorando há apenas dois meses e assim que começou o recesso das festas de final de ano, a convidei para acampar. E ela topou, mal sabendo onde estava se metendo. O seu tênis de marca, branquinho, também. Se não me engano, o coitadinho não resistiu e foi pro lixo assim que retornamos. O importante é que o destino sorriu para nós e a nossa união inclui também o amor pela natureza e pelos acampamentos. Ela adorou conhecer a região dos cânions e me acompanha sempre que pode. Lembro do seu rosto quando a levei pela primeira vez ao mirante do Cânion Fortaleza e lembro a sua expressão maravilhada quando a levei pela primeira vez ao Cânion Malacara, o nosso preferido. Lamentei muito a sua ausência nesta jornada e por isso quis gravar um sol nascente, só para ela. E a natureza ajudou. Foi mágico. Tomamos um bom café da manhã, com direito a bebida achocolatada, frutas e pão. Muita energia para o trecho que estaria por vir. Caminhamos por lindas campinas onduladas, cheias de flores coloridas e pontuadas por capões de mata. As araucárias ainda dominavam a paisagem por ali, até que começamos a divisar as plantações de pinheiros comerciais. Quando chegamos no meio de uma campina cercada de morros verdes, aproximou-se de nós um cavaleiro, o chamado peão de estância. Por segurança paramos e aguardamos a sua lenta aproximação. Após as saudações, explicamos que estávamos caminhando e pedimos passagem. Ele falou prontamente que respeita muito os turistas “como nós” e que tem bronca apenas com os caçadores. Aposto que ele soube que éramos mochileiros (e não caçadores) muito antes de nós o termos visto. Trocamos algumas impressões sobre o tempo e perguntamos sobre o caminho a seguir. Para a nossa surpresa, ele disse que teríamos que passar pelas plantações de pinheiros... isso não estava no mapa do Google... a imagem mostrava claramente que era campo aberto até o fim da caminhada. Ao que parece a ação do agronegócio ainda é mais rápida do que a atualização da foto do satélite de navegação. O peão, lógico, estava certo e em dado momento não tivemos mais campo pela frente, apenas pinheiros. Passamos por uma taipa de pedra, uma antiga mangueira (ou curral) feita de pedras encaixadas. Essa era uma prática muito antiga da cultura serrana e uma habilidade quase perdida no tempo. Essa taipa tinha mais de dois metros de altura e, na sua base, um metro de espessura. Uma construção singular. Em seguida, fomos na direção do Cânion da Rocinha, num lugar chamado “chiqueirão”. Erramos o caminho ao tentar desviar a primeira entrada do cânion e tivemos que caminhar quase dois quilômetros a mais. No entanto, esse ponto nos deu uma visão privilegiada da estrada da Serra da Rocinha e as construções dos novos viadutos que o governo federal está construindo. Demoramos quase uma hora para contornar esse vale reto e fundo para descobrir, do outro lado, uma estrada que ia exatamente na direção que tomaríamos. Era quase meio dia e o sol a pino estava nos castigando. Eu resolvi caminhar com a minha jaqueta leve, apesar do calor, para evitar mais queimaduras nos braços e no pescoço. Passava um calor opressivo, suando bicas, enfiado naquela jaqueta de nylon. Por sorte, um nevoeiro esparso começou a toldar o céu, aliviando o calor. Paramos um pouco para descansar, no meio de uma estrada. Sentamos, nos encostamos nas mochilas, puxamos os chapéus sobre o rosto e... tiramos uma soneca. Bem no meio da estrada. Acordei sobressaltado com o barulho de um motor. Poderia ser um carro a passar pela estrada em que estávamos deitados. O cochilo não durou mais do que quinze minutos, mas foi o suficiente para renovar os ânimos. Partimos para encarar o que imaginávamos seria o último grande obstáculo: um arroio caudaloso, margeado pelas plantações de pinheiros e que acabava por se lançar no fundo do cânion. Ao chegarmos às margens, percebemos que o desafio maior para atravessá-lo seria chegar às suas margens. O arroio corria por uma depressão ou vale com mais de dois metros de profundidade, com paredes verticais tomadas por uma planta espinhosa que conhecemos por orelha do diabo. Tivemos que caminhar um bom pedaço da sua margem até encontrarmos um ponto de descida, que conjugasse também um bom ponto de travessia e uma possibilidade de subida do outro lado. O arroio era lindo, com pequenas corredeiras e poços que convidavam para um banho refrescante. Deixamos para uma próxima vez. Estávamos à meia-tarde e o “nada”, o nevoeiro que sobe das encostas sempre nesse horário estava cada vez mais forte. Após caminharmos através de plantações de pinheiros encharcadas e cruzarmos por outro belíssimo arroio, alcançamos a região da nascente do Rio das Antas. Um lugar que ainda quero conhecer melhor. Tentávamos nos afastar um pouco da borda do planalto para termos um pouco mais de visibilidade, mas assim que adentramos a estreita faixa de campo que separa o precipício do vale do Rio das Antas, a visibilidade piorou. Às cinco horas da tarde não conseguíamos ver mais do que dez metros adiante de nós. Mesmo com o GPS era difícil navegar em linha reta ou mesmo antever os obstáculos pela frente. Passamos por uma área de nascentes e turfeiras que acabou com as minhas energias. Percebi que estávamos indo da direção errada e, preocupado, me dirigi à primeira elevação que consegui divisar. Cansado, quase não consegui subir o morro, que não era tão alto mas compensava com a dificuldade de sua inclinação acentuada. No cume, declarei ao Mauro que não conseguiria seguir adiante, tanto pelo meu cansaço como pela visibilidade, que a essas alturas estava reduzida a uns cinco metros. Montamos acampamento num lugar mais ou menos plano. Acabei por montar minha cama no espaço de 40 centímetros entre duas pedras e com os pés num buraco. Repeti a janta da noite anterior, que dividi com meu companheiro, e me acomodei para dormir. Estava exausto e com os calçados, meias e as calças molhados. Sabia que as coisas continuariam assim até a manhã seguinte pois o vento forte trazia apenas aquele nevoeiro úmido e gelado. Dormi como uma pedra. O amanhecer do dia seguinte foi esplêndido. Mais um espetáculo da natureza. O morro que decidi subir, quase no escuro, estava na borda do cânion e nos presenteou com um crepúsculo de tirar o fôlego. Estávamos a poucos quilômetros do final da caminhada e o dia estava aberto, iluminado e aquecendo rapidamente. Como previ, minhas roupas ainda estavam molhadas. Decidi trocar as calças e colocar meias limpas e secas. Usar a última muda de roupa limpa não me preocupava porque estávamos concluindo a jornada e meus pés estavam doloridos e machucados por causa do esforço de caminhar com calçados danificados e sempre molhados. Devoramos tudo que pudemos no café da manhã, desmontamos o acampamento e descemos o morro, na direção Sul. Ultrapassamos uma encosta e subimos um morro que, em seu topo, mostrava afloramentos rochosos e um pouco além, uma estação meteorológica. A estação resumia-se numa antena cravejada de equipamentos e um pequeno cubículo na sua base, possivelmente para guardar algum material. Vimos rastros de veículos mas nenhuma estrada ou trilha. Paramos para descansar e tirar algumas fotos. Aproveitei para usar a máquina fotográfica para registrar as encostas azuladas do Cânion da Rocinha. A caminhada estava relativamente fácil, sobre terreno alto e seco. Após contornarmos algumas pedras, paramos para descansar numa rara sombra. Dali enxergávamos, muito perto, as antenas no topo da Serra da Rocinha e, a cerca de um quilômetro, a estrada BR 285! Emocionado, pus a mão no bolso da calça para pegar o celular, verificar a nossa posição e tirar umas fotos. O bolso estava rasgado e o telefone não estava ali. Entrei em pânico e falei pro Mauro: “perdi meu telefone!”. Não era possível. Não podia ser verdade! Não, não, não! Todas as fotos, todos os vídeos que tinha feito... Não! Falei pro Mauro: “Vou voltar e procurar”. Deixei a mochila ali mesmo e comecei a retornar. Não lembrava ao certo onde tinha sido a última vez que tinha usado o aparelho mas, mesmo sabendo que as chances de encontrá-lo eram diminutas, não podia aceitar a ideia da perda assim, tão facilmente. Minha cabeça estava um turbilhão e mal vi o Mauro caminhando atrás de mim, me auxiliando na busca. Tentando loucamente lembrar da última vez em que o tinha visto, imaginei que tinha sido naquela encosta rochosa, perto da estação meteorológica. Caminhando lentamente, olhava para o chão e, a essas alturas rezando, para encontrar o telefone. Eram aproximadamente 500 metros de trilha de gado, campina baixa e pedras até o local da estação meteorológica. Fiz e refiz esse caminho duas vezes, tentei traçados diferentes, ziguezagueei por todo o terreno. Quase duas horas de procura, inútil. Apesar do esforço no auxílio da busca, Mauro me alertou do horário. Precisávamos abandonar a busca e concluir a caminhada. Uma vez na estrada, teríamos que pedir um táxi para o nosso resgate. Estávamos a 12 quilômetros de São José dos Ausente e a 57 do nosso carro. Arrasado, concordei. Tínhamos que encerrar a jornada. Eu não conseguia falar e também não conseguia chorar, apesar da vontade. Todas as cenas gravadas e fotografadas vinham à minha memória. Um sentimento de culpa também me invadiu. Por que eu troquei de calça? Por que não tive mais cuidado? Agora, todos os vídeos estavam perdidos. Muitas fotos também. Não havia backup e a única nuvem era a negra que pairava sobre a minha cabeça agora. Todo o projeto estava comprometido. As ideias, as imagens, as falas, todos os registros estavam perdidos. Me arrastei pelos últimos metros da caminhada até a estrada. O Mauro, tentando me animar, perguntava “Por onde agora?”, mesmo sabendo que o caminho em frente era o melhor. Eu mal balbuciava, sem força, “Por onde tu quiser...”, ou fazia um sinal com a mão, indicando seguir em frente. No final, eu simplesmente continuava caminhando. Estava cansado, com sede, triste e frustrado. Meus pés e ombros doíam. Minhas mãos e pescoço ardiam, queimados do sol. Estava farto de carregar na mão aquela maleta... Será que isso era uma mensagem do destino? Ou era puro azar? Há anos eu não tinha a oportunidade de fazer uma caminhada dessas. Trabalho, família, dinheiro, preguiça, sempre havia uma “desculpa” que me direcionava para outras atividades. Agora, tinha conseguido férias, tinha companhia, tinha a liberação da família, e tinha uma motivação a mais, um projeto. Enveredar por uma área de trabalho nova, com novos desafios. Eu sempre gostei de novos desafios. Comecei a jornada animado e a encerrava frustrado. Qual seria a moral da história? Haveria uma? Vamos deixar os clichês de lado, por um momento. As respostas estão aqui mas às vezes não nos vêm facilmente. Precisei de algum tempo para processar toda a jornada. Não sei se obtive alguma resposta, mas certamente tomei algumas decisões. E se essa jornada tivesse sido com você, querido leitor? Eram quase onze horas daquela manhã quente quando eu cheguei no córrego, à beira da estrada. Eu estava suado e com sede. Lembrei que estava com os cantis vazios e resolvi pegar um pouco de água e me refrescar antes de subir o barranco pedregoso até a estrada. Após a triste cena que se seguiu, ante os olhos arregalados do meu companheiro de caminhada, lentamente peguei meu cantil, lavei e enchi novamente. Subi o barranco de pedra, deixei a mochila cair nas pedras e sentei à beira da estrada, com a cabeça apoiada nas mãos, tentando acalmar a respiração e a mente. O Mauro, com ainda mais vagar, repetiu os meus passos barranco acima. Antes que ele pusesse por os pés na estrada eu levantei e apertei-lhe a mão. Pedi desculpas pela cena e pelo mau humor. Agradeci pela companhia e pela paciência e lhe disse que eu não poderia pisar na estrada sem estar com meu amigo, companheiro de caminhadas. Pisamos juntos no leito da estrada poeirenta.
  25. Bom pessoal, depois de deixar de relatar diversos mochilões porque demorava a escrever e esquecia muuuuitas informações, resolvi começar logo o relato dessa trip que eu e meu amigo (Diego) fizemos para esse lugar absolutamente incrível que possuímos aqui do ladinho de nossas casas!!! O objetivo desse relato não é apenas o de passar as informações, mas de tentar MOTIVAR o maior número de pessoas a irem a esse local que é FANTÁSTICO e que AINDA (mas em processo de) não é sugado pelas empresas. Fiquem a vontade para tirar QUAISQUER dúvidas. Se algo ficou meio difícil de entender, só falar que tento explicar de outra forma EDIT 1 (28/07/18): ADICIONADO MAPA DA TOPOGRAFIA E DISTÂNCIAS Nesse mapa abaixo, as estrelas vermelhas são os possíveis locais de entrada no parque. Exceto a seta que está escrito "Camp Fracês", que é um acampamento que não estava plotado no mapa! O QUE LEVAR? Pra dar um norte a alguns que não tem ideia do que levar, aqui vai a lista do que levei e do que poderia ter deixado para trás ou levado a mais: - Mochila Quechua de 75L; - Mochila de ataque levada no peito (não façam isso de levar uma mochila na frente, por favor kkkkk. Foi a pior burrice por um lado, mas por outro a câmera estava a todo momento protegida e de fácil acesso. Todavia, se eu voltasse lá, não faria isso kkkk); - 2 bastões de caminhada (ajudam ABSURDO, ainda mais para passar em determinados locais inundados ou com barro); - Comida liofilizada Moutain House (MUITO boa, mas não é fundamental), salame, chocolate, frutas secas + amendoim; - Barraca Azteq Nepal 2 (frente a outras que vimos por lá, aguentou ABSURDAMENTE bem); - Isolante inflável Thermarest; - Saco de dormir North Face Aleutian (Conforto: -3ºC, Limite: -9ºC e extremo: -28ºC. Um bom saco de dormir faz sua noite ser absurdamente agradável. O Diego usou um que não era para temperaturas tão baixas e passou algumas noites de desconforto); - Capa protetora da mochila (que se foi com o vento e é desnecessária. Como já tive vários estresses despachando mochilão, resolvi colocá-la para despachar e passei um rolo de papel filme – aqueles de comida mesmo – em volta, mas não adiantou. A proteção já chegou com alguns furos no destino); - Fogareiro JetBoil (muito bom pra economia de gás, praticidade, fazer um chá/café de forma bem rápida (e na “potência” mínima do gás), levando de 2 a 3 minutos para ferver 400ml de água com temperatura entre 0 e 5ºC); - Corta vento (superior e inferior); - Máscara facial + touca (grazadeus o Diego tinha um sobrando, pois esqueci o meu rsrs) - Luvas (nos salvou de voltar para casa com todos os dedos, mesmo que ainda não estejam 100%); - 2 Fleece (um eu nem usei e sumiu L. Ou seja, 1 dá conta do recado) - 15 cuecas (-.- ... isso se deve a um aperto que passei em uma viagem, mas TOTALMENTE desnecessário essa quantidade. Umas 5 ou 6 já está ótimo); - Calça térmica (te permite usar uma bermuda por cima, daí nos locais que começa a esquentar demais – dentro de florestas –, fica bom, não aquece muito); - Duas bermudas (aquelas de academia – uma seria o suficiente); - 6 Camisetas (3 ou 4 seriam suficientes); - Botas de caminhada (ajudou MUITO. Não faria de forma diferente); - Chinelos (ao chegar ao acampamento, ajudam a deixar o pé “respirar”); - Óculos de sol - Kit Emergência (diversos remédios, agulha e linha “cirúrgica”, tesoura, pinça, etc); - Kit Banho + creme hidratante (Isso ajuda MUITO a noite antes de dormir. A pele fica absurdamente seca devido ao vento incessante) - Protetor Solar (Não usamos muito, mas dependendo do dia pode ajudar bastante); - Chapéu pra proteger do sol (nem encostei nele, kkkk. Era o tempo todo de touca e máscara); - Lanterna de cabeça (Foi totalmente desnecessária, mas numa emergência pode ajudar. Lá temos em torno de 16h de luz, então 22:30h ainda está relativamente claro); - Kit de fotografia (T5i, 18-55mm, 70-200mm, limpa lentes – importante -, duas baterias – não foi nem metade de uma –, carregador, adaptador, 2 SD card de 16 gb cada e 1 de 32 gb. No total foram umas 1300 fotos em .RAW) - Sugiro colocar separadamente as coisas de dentro do mochilão em SACOS DE GELO, isso mesmo. Tudo ficará impermeabilizado e você não terá que se preocupar com isso pelo resto da viagem (lógico que eu não fiz isso – vacilei –, mas o Diego fez e teve uma tranquilidade absurda com relação à chuva durante todo o circuito). A MOTIVAÇÃO: Essa vontade de conhecer Torres del Paine veio depois de fazer um mochilão pela Patagônia (chilena e argentina) há 4 anos atrás. Eu e minha esposa fizemos algumas trilhas em El Chaltén, visitamos El Calafate, etc. Durante as pesquisas, me interessei por TdP, mas como estávamos com pouco tempo para esse mochilão, resolvemos deixar para outra vez, mas JUREI que iria voltar e fazer o circuito O um dia. AS EMPRESAS: Vocês não podem deixar de saber que antes de ir pra lá, vocês precisam de antecipação, planejamento e muita, mas MUITA paciência. Lá existem 3 empresas para se reservar as áreas de camping ou os “lodges”. São elas: Fantástico Sur, Vértice Patagonia e CONAF, sendo esta última governamental e responsável pela gestão de vários parques nacionais, incluindo TdP. Definidas as datas dos voos de ida e volta, começamos a correr atrás das reservas dos campings. Nesse ponto, vale um adendo: · O Circuito O só pode ser feito no sentido Anti-horário. Logo, deve-se fazer as reservas dos campings nesse mesmo sentido. Conseguimos fazer as reservas com a Fantastico Sur sem problema algum. Não havíamos decidido por nenhum acampamento da CONAF (que são de graça, todos). As reservas que faltavam eram apenas as da VERTICE PATAGONIA e é aí que começa a dor de cabeça. Um a dois meses antes da viagem, começamos a fazer as reservas. Inicialmente a Vertice estava com a página em manutenção. Ao voltar, possuía um sistema de reservas pelo próprio site, mas que desde o primeiro dia (literalmente), não funcionava. Então, a outra forma seria enviando um e-mail com o número de pessoas, data e locais que gostaria de reservar e, se eles lessem o seu e-mail, te responderiam com o passo-a-passo para realizar o pagamento. Bom, enviávamos o e-mail e nada. Como foi chegando o dia do voo de ida, começamos a procurar informações no Tripadvisor e lá uma pessoa havia informado que eles possuíam mais 7 e-mails. Começamos a bombardeá-los com e-mails, mas não obtivemos nenhuma resposta (havia a confirmação de leitura, mas não nos respondiam). Apesar de vermos várias pessoas mudando as datas da viagem ou até cancelando o voo, decidimos ir e lá procuraríamos a agência física da empresa (nem o telefone eles atendiam). Caso não conseguíssemos fazer a reserva pela Vertice, faríamos apenas o circuito W (que já estava reservado pela Fantastico Sur) e iríamos para El chaltén, uma cidadezinha argentina bem pequena e aconchegante que fica a 400km de Puerto Natales e que tem vários trekkings de dificuldade variada e de vários dias, ou seja, tem para todos os gostos! Dia 1 – Porto Alegre – Punta Arenas – Puerto Natales Embarcamos em POA para a conexão em Buenos Aires e Santiago com a ideia firmada que iríamos tentar chegar à cidade e ir à agência física da Vértice (o Google informava que estava permanentemente fechada e não atendiam o telefone. MAS, não confiem nesse tipo de informação do Google!!!). Bom, como desgraça pouca é bobagem, o voo de POA para Buenos Aires atrasou e perdemos a conexão para Santiago!!! Maravilha, que mais podia dar errado?! Maaas há males que vem para o bem! Nesse meio tempo de espera no aeroporto de Buenos Aires enviamos mais um e-mail para essa maldita empresa e embarcamos para Santiago. Eis que, ao pousar em terras chilenas, abrimos o e-mail e vimos uma resposta dizendo que nossas reservas estavam feitas mas para garanti-las teríamos que pagar em 48h. Como chegaríamos em Puerto Natales no dia seguinte, deixamos para efetuar o pagamento in loco e não ter mais nenhum estresse. Aqui vale ressaltar sobre a aduana chilena que são bem chatos com comidas e/ou qualquer coisa de origem vegetal ou animal (eu já havia sentido na pele isso alguns anos atrás). Sabendo disso, resolvemos declarar o que trazíamos e deixar que eles decidissem. Foi nessa que o Diego perdeu 5 salames que estava trazendo para o circuito. Segundo o fiscal, o salame era defumado e só poderia entrar se fosse COZIDO. Comigo ele perguntou o que eram as comidas liofilizadas e eu disse que eram como o macarrão instantâneo (vulgo miojo ahaha). Mesmo fazendo uma cara de desconfiado, deixou passar. Passamos a noite no aeroporto de Santiago e embarcamos pela SkyAirline para Punta Arenas. · Sugiro, quando forem pegar voos domésticos no Chile, procurar por esta empresa. Apesar de não darem nenhum lanchinho (kkkk), pagamos US$120,00 Santiago-Punta Arenas (ida e volta/pessoa). Ao chegar no aeroporto de Punta Arenas, havia um ônibus indo para Torres del Paine direto do aeroporto, mas não tínhamos pesos chilenos suficientes (deixamos de trocar no aeroporto de Santiago e no de Punta Arenas não tem casa de câmbio. Aquela famosa economia porca, pois poderíamos ter trocado o suficiente para o ônibus e, em Puerto Natales, trocaríamos o resto). Então, saímos perguntando o preço para ir para o centro da cidade e ouvimos dois israelenses pechinchando com um taxista. O Taxista pedia 10.000CLP. Sugerimos que dividíssemos o valor em 4 pessoas e todos aceitaram. · Em Punta Arenas não existe uma rodoviária única a todas as empresas. Cada uma possui a sua “estação”, a sua garagem e você precisa ir naquela que irá pegar o ônibus. Ao chegar à cidade, trocamos R$900,00 a 190CLP/real, uma boa cotação e que não acharíamos mais. Todavia, a cotação do dólar pouco variou de Punta Arenas para Puerto Natales (algo em torno de 5 a 10 pesos/dólar). Trocamos o dinheiro e saímos correndo para a Buses Fernandez. Por sorte, o ônibus ainda não havia saído. Acabara de fechar as portas, apenas. Pedimos pelo amor de deus para que abrissem e nos deixassem entrar kkkkk. Com cara de bravo, deixaram. Durante o trajeto havia wi-fi no ônibus, mas era pago. E caro. Nos cobraram 8.000 CLP/pessoa o trecho. Todas as empresas giram em torno disso, não tem muita diferença não. Chegamos em Puerto Natales 3 horas depois, numa viagem LINDA. Sugerimos que se mantenham acordados hehehehe. Deixamos nossas coisas no hostal Vaiora, que já estava reservado (US$20/pessoa). Um hostal bem simples, mas limpinho e aconchegante. Erramos o caminho ao chegar. Começo do treinamento. Andamos 1km para o lado errado, mais 1km para voltar, mas pelo menos vimos esse fucking Dog fotogênico hahaha · Vale lembrar que ao pagar em dólar, não existe a necessidade de pagamento de 19% do IVA (desde que mostre o papel que recebeu na entrada ao país), um imposto que eles deixam passar para incentivar o turismo e para aumentar a quantidade de dólar americano no mercado chileno. Na sequência fomos direto à Vertice fazer o pagamento da reserva (fica na Calle Manuel Bulnes, 100. Há duas, mas a certa é essa). Ao chegarmos, os atendentes estavam lá tranquilões, como se nada estivesse acontecendo. Milhares (literalmente) de pessoas desesperadas e eles super de boa, mas ok. Dissemos que queríamos fazer o pagamento da nossa reserva para o circuito O. Inicialmente a atendente não levou a sério (não acreditou que tínhamos a “autorização” daquela reserva), então mostramos o e-mail deles próprios. Pagamos e fomos fazer as compras de equipamentos que nos faltavam. Compramos um bastão, caneca com mosquetão (super indico. A caneca era FODA. Não sabemos dizer como, mas as bebidas quentes que fazíamos nela simplesmente NÃO PERDIAM CALOR hahahaha. Também pela facilidade de deixa-la pendurada e a qualquer água corrente que víamos no circuito, parávamos para beber), poncho da NTK (pelo amor de deus, não comprem isso!!! Material de péssima qualidade. Rasgou inteiro nos 20 primeiros minutos de trekking) e gás. Aproveitamos para passar no supermercado e na loja de frutas secas para comprar as guloseimas que faltavam. · A loja de frutas secas é excelente! Tem muitas variedades e num preço bem acessível. A loja chama Itahue e fica na Rua Esmeralda, 455B. Voltamos para o hostal, deixamos tudo, tomamos um banho e saímos para jantar. Mandamos uma pizza, mas cabiam duas kkkkk. Voltamos para arrumar as mochilas e dormir. Dia 2 – P. Natales – Torres Del Paine (1ª noite: Camping Serón) Pegamos o ônibus na rodoviária por volta das 07:30 e chegamos na entrada da Laguna Amarga umas 9:20. Ao chegar, todos devem desembarcar do ônibus e fazer a entrada no parque. Nessa etapa, pega-se uma fila enorme (todos os ônibus chegam juntos). Se der sorte de ser dos primeiros ônibus, ótimo, caso contrário vai esperar um pouquinho. Caminho para TdP: Após todos fazerem a entrada e o pagamento (21000CLP ou uns US$35 – aceitam os dois), todos devem assistir a um vídeo de 2 minutos aproximadamente, falando tudo o que pode e o que não pode fazer no parque, inclusive o valor e pena das transgressões. Após isso, todos voltam para os ônibus. Os que vão ficar na Laguna Amarga já podem pegar suas mochilas e iniciar o trekking ou então pagar 3000CLP para pegar outro ônibus que andará por 15 minutos (7,5km) até a área do Camping Central/Las Torres. Fora isso, o ônibus que estava lá parado espera os que vão para as outras duas entradas (Pudeto ou Sede Administrativa) voltarem para seguir viagem. Chegando à entrada da LasTorres tem uma lojinha com alguns artefatos de trekking, para aqueles que esqueceram de algo ou para os que tem muito dinheiro. Desde esse momento percebemos como as coisas seriam absurdamente caras em qualquer lugar dentro do parque!!! Por exemplo, uma coca-cola de lata de 350ml custa 2000CLP, algo em torno de 11 reais. Uma bolacha menor que Trakinas também tem o mesmo valor. A única coisa que eu vi que era RAZOÁVEL de se pagar (mas não era barato), foi no Camping Grey, que tinha um chocolate Prestígio por 500 CLP, algo em torno de 3 reais. Não comprei, me arrependi, pois não haveria outra oportunidade desse tipo kkkkk. Bom, começamos então em direção ao Camping Serón. É meio complicado de achar o caminho inicial. Não tem NENHUMA placa indicando a direção (algo que constatamos depois, foi que o Circuito O por ser menos procurado/turístico, não tem a mesma infraestrutura do W, mas essa foi a melhor coisa que poderíamos ter! J). Ficamos esperando ver se haveria algum fluxo de pessoas para algum lugar e em alguns minutos achamos o caminho. Começou uma leve subida e, nossa fiel e inseparável CHUVA. Como ainda estávamos sem experiência no que se trata de patagônia, desesperamos e começamos a colocar os anoraks e o bendito poncho (aquele que indiquei para não comprarem). Mas por que comprei essa droga? Para proteger a mochila com material fotográfico que estava no meu peito. Foi só eu colocá-lo e puxar a cordinha do capuz que começou o rasga rasga. Então peguei o que sobrou desta droga e só embrulhei a mochila (6300CLP jogados fora). No final do dia iríamos perceber que não precisa desse desespero. A chuva que cai, juntamente com o clima seco e o vento forte, não é o suficiente para molhar. O que molha já seca em segundos/minutos. E todo o resto da viagem foi usando esse aprendizado, ou seja, não colocávamos mais o anorak para proteger da chuva ou neve, mas sim do vento. O caminho do Central para o Serón é bem tranquilo. Em alguns momentos tivemos que atravancar pelo mato porque estava impossível de passar pela trilha. Muito barro! Uma das coisas que ajuda a ficar assim é que muitos cavalos vão até o Serón e isso piora absurdamente a trilha, mas nada que impeça de continuar. O tempo previsto era de 4h, mas fizemos em umas 5h, fomos bem tranquilos nesse primeiro dia. Chegando no camping, largamos as mochilas num canto, definimos onde iríamos montar a barraca, a montamos e fomos comer. Nesse camping existem algumas plataformas para se montar a barraca, mas não sabemos se era para todos ou teria algum preço diferenciado (eu particularmente não gosto. Como é em campo aberto – diferente do camping Francês que só tem plataformas mas é dentro da floresta –, facilita que o vento destrua a barraca se der uma rajada muito forte e entrar por baixo da plataforma, pois ela é como se fosse um estrado de cama). Após comermos e descansarmos um pouco, demos uma andada pela área. Há um local abrigado para cozinhar, algo que ajuda bastante!!! Os campings que não possuíam isso, juntando-se ao fato de o vento não parar um segundo, faziam com que preparar a comida se tornasse algo trabalhoso e chato, já que é um momento de socializar e descansar. Após jantarmos, fomos dormir e, algumas horas depois, começou uma chuva constante que seria nossa companheira até acordarmos. Pontos negativos desse lugar: Havia UM banheiro e UM chuveiro para mais de 20 pessoas. O banheiro estava em estado deplorável... o chuveiro não sei se era quente. Não tomamos banho esse dia. 3º Dia – Camp Serón – Camp Dickson Bom, deveríamos acordar 06:00h (depois percebemos que era desnecessário), mas ficou uma chuvinha tão boa desde a meia-noite que não conseguimos acordar. Acordamos umas 07:30h e ficamos enrolando dentro da barraca até as 08h. Esse dia andaríamos bastante, cerca de 19km (~6h), mas o nível de dificuldade era tranquilo, uma vez que a maior parte seria com pouca variação de altitude (mínimo de 170m e máximo de 330m). Levantamos, arrumamos todas as coisas e deixamos só a barraca por desmontar, torcendo pela chuva parar de cair (o que mais baixava o moral era guardar a barraca com chuva, pqp! Kkkk). Enquanto comíamos, a chuva parou! Como a barraca estava molhada da chuva e de manhã é sempre bem frio, foi difícil enrolá-la, as mãos doíam de tanto frio! Mas vamos que vamooos. Nessa parte do circuito o rio Paine nos acompanha a todo o momento pela direita e também tem umas belas montanhas no começo, mas com o tempo nublado pouco conseguimos ver. Rio Paine: É nessa trilha que fica a Guarderia Coirón que vai verificar se você possui reserva no Dickson para poder prosseguir no Circuito O. Não possuindo, o guarda parque te mandará voltar. Paramos diversas vezes para comer, descansar, observar. Como sempre, chega uma hora que o vento cansa, porque não para... então ele te obriga a pegar a trilha novamente hehehe. Esse dia foi o primeiro dia que sentimos o peso da mochila. O trapézio já estava pedindo um intervalo. Como só faltavam uns 4km fizemos uma longa parada pra descansar e tirar algumas fotos! Valeu muito a pena... O Camp dickson dá pra ver de longe. Fica num lugar bem plano, circundado pelo Rio Dickson. Quase no final da trilha tem um “mirador” que se consegue ver as construções do camping, o lago e o glaciar ao fundo, mas pra chegar lá ainda tem uma subidinha bem tranquila, mas uma descida íngreme. O bonito desse lago é que diversos icebergs se desprendem do glaciar e vem parar pertinho do camping. Com uma boa luz do sol dá pra tirar ótimas fotos! Pensamos em brincar um pouco e entrar no lago, mas nessa área o vento é bem mais forte do que havíamos pego até então e como todos sabem, o problema não é NA água, é depois de sair dela kkkkk. Assim que chegamos fomos ver se tinha água quente e... TINHA! Um lugar bem apertado, mas sem problema algum. Não batia vento!! Kkkk Tomei um banho rápido, montamos a barraca e saímos bater umas fotos e conhecer os arredores. No Camp Serón não lembro de ter nada a venda; já no Dickson tinha alguns biscoitos, chocolates, etc, coisa bem básica mesmo. Nada de refeições. Voltando das fotos fomos jantar. Era mais ou menos assim as refeições: eu fazia um pacote liofilizado pela manhã, comia metade no café e guardava a outra metade para a trilha (tem um sistema ziploc na própria embalagem). Durante a trilha comia a outra metade e algumas guloseimas. A noite fazia um outro pacote para a janta e um chá bem quente antes de dormir, elevava o moral ABSURDAMENTE! fikdik heheheh. Após isso, fomos dormir e já concluímos que a medida que íamos para traz das montanhas (pensando no sentido da chegada), a temperatura diminuía e o vento aumentava. Essa noite o vento castigou, pois é uma região com árvores num dos lados, mas de onde vem o vento não tem nenhuma barreira. Dormimos mal pra caramba, mas logo logo acostumaríamos com o vento. Detalhe: No Camping Dickson, não há local abrigado para se fazer a refeição. Existem várias mesas espalhadas, mas nenhuma construção para se abrigar do vento. 4º Dia – Camp Dickson – Camp Los Perros Bom, esse dia acordamos com uma tranquilidade absurda. Teríamos que andar apenas 9km, cerca de 4h. Começamos a rotina de arrumar tudo e guardar a barraca. Aproveitamos a manhã de sol para tirar umas fotos do lago Dickson e da geleira ao seu fundo, mas as nuvens como sempre impediam a luz do sol de deixar o lugar mais bonito. Café da manhã no Dickson: Não faz maaaaal!!! O lugar já era maravilhoso por natureza! Essa caminhada foi excelente. Só o comecinho que pega bastante, pois é uma subida relativamente íngreme e parece que não acaba nunca! 90% da trilha é dentro de bosques, ou seja, algumas horinhas sem o vento de arrancar o couro da gente! A paisagem se alterna entre muitas árvores e as montanhas nevadas ao fundo e quando as copas dão uma brechinha...fica mais ou menos assim: Quase chegando ao Camp Los Perros, começa novamente uma subida, mas o problema dessa subida é que é SÓ PEDRA!! Isso acabava cansando um pouco e forçava as articulações. A dica nesse trajeto é fazer com bastante calma e tranquilidade. Fazer algumas paradas ajuda a descansar e a aproveitar a vista! J Esse trajeto é sem vento, mas quando se chega na parte mais alta, aí segurem seus gorros, óculos ou o que tiver solto: ao subir sobre a colina para observar o glaciar Los Perros ao fundo do lago, virá uma rajada de vento que desce da ravina e passa por sobre o lago, atingindo essa colina! Já na parte mais alta e pouco antes de chegar ao acampamento, tem uma geleira ao fundo. Pequena, mas com sua beleza. Uma seta dizia que o caminho estava fechado. Fomos ao acampamento deixar as mochilas e fazer o “check-in” e foi nesse momento que o guarda-parque daquele camping falou que o Paso John Gardner estava fechado e não deveria nos deixar passar, mas como já havíamos chegado até ali, seria a mesma distância de voltar e, por fim, acabou nos deixando seguir o circuito. Glaciar: Como chegamos muito cedo no acampamento e não tinha mais o que fazer, veio o ócio e, todos sabem, “mente vazia, oficina do capiroto”. Resolvemos desconsiderar o aviso e fomos até o mirador que fica em frente ao glaciar. Perigo, na real, só tem se você der mole. Basicamente é um terreno íngreme com muitas pedras soltas, à beira de uma grande queda. Se for sempre jogando o corpo para dentro do terreno e “sentindo” o chão antes de jogar o peso todo, sem problemas. Fomos, voltamos e ficou tudo bem. Seguimos para o acampamento. Esse camping é excelente! Não bate um vento, pois fica no meio das árvores. Durante a noite você ouve o vento chegando pelo barulho das copas e espera a hora de atingir a barra (como era em qualquer outro camping), mas a melhor parte é que ele nunca chegava! Hahahah. E você pode dormir tranquilamente. A partir desse dia comecei a me “acostumar” com o vento na hora de dormir, mas mesmo assim o sono não melhorou muito. Essa era a noite que teríamos que dormir o máximo possível e com mais qualidade, pois no dia seguinte seguiríamos até o Camp Grey, que daria um total de 24km (11h de caminhada, pelo mapa), incluindo a transposição do famoso e temido Paso John Gardner. 5º dia – Camp Los Perros – Camp Grey (o dia da emoção) Acordamos depois de uma noite relativamente bem dormida. Estava bem frio e chovendo, mas as árvores seguravam um pouco a água. Arrumamos as mochilas e fomos tomar café. Nós já sabíamos que esse seria o dia mais difícil (só não sabíamos que teríamos uma surpresa: uma nevasca) de todo o circuito, então comemos bastante no café da manhã e já deixamos tudo preparado para o meio da trilha. Assim que fomos tomar o café, percebemos, em cima de uma das mesas, um verdadeiro BANQUETE, com direito a tudo que imaginarem, TUDO. Naquele momento algo chamou nossa atenção: Meu deus, como alguém resolve trazer tanta comida assim para esse circuito?!?!?!? Nós estávamos contando cada grama de comida e equipamento e eles trazem tudo isso? Bom, foi nesse momento que observamos o seguinte: · Existe uma forma de contratar uma EQUIPE para fazer esse circuito O com você (ou com um grupo). Sempre vai, junto ao grupo, um guia e um ajudante. Além disso, existem mais 3 “sherpas” (sim, o mesmo nome daqueles que carregam os equipamentos dos que querem escalar o Everest) que só são responsáveis por carregar o geralzão. Como assim? Quando o grupo sai, eles ficam para trás desmontando as barracas, sacos de dormir, etc. Quando terminam, começam a correr (LITERALMENTE) até o próximo camping, para chegarem antes do grupo e montar tudo que tiver que montar. Eles levam quilos e quilos de comida e equipamento, cozinham e preparam lanches para o dia seguinte (separados em sacos ziploc) para cada integrante do grupo. Não temos ideia do quanto se paga por isso, nem perguntamos, mas não deve ser barato... Após tomarmos café, vimos vários desses guias desmontando as barracas e as levando para dentro do refeitório para que secassem e posteriormente dobrassem. Resolvemos fazer o mesmo. Já na saída do camping começam as subidas. Estas, que seriam nossas fiéis escudeiras ao longo de todo esse dia de caminhada kkkkk. Esse comecinho é totalmente dentro de um bosque, então estava bem tranquilo. Foi aí que começamos a ver granizo no chão. Já começamos a imaginar que logo logo veríamos neve. Não deu uns 20 minutos e começou a nevar sobre a gente! Maior felicidade kkkk À medida que subíamos começamos a ver maior acúmulo de neve, o que começava a dificultar a trilha. Continuamos na trilha que estava bem sinalizada, mas em um determinado momento acabamos pulando uma estaca laranja e chegamos num lugar que passava um rio por baixo do gelo! Já viu né? Frio, água e pé não combinam NADA! Paramos e começamos a olhar em volta... a estaca que então havia sido deixada para trás, estava mais para baixo e fomos até lá para evitar esse rio. Após alguns minutos de caminhada, começamos a nos dar conta do quão difícil seria o trajeto: um vento absurdo (ainda algo em torno de 60 a 70 km/h) já dificultava o nosso progresso mesmo sobre pedras e uns 30 cm de neve. E o que acontece quando se junta neve caindo e vento forte? Você não consegue olhar para a frente! O que acabávamos fazendo era seguir a trilha do grupo que estava à nossa frente (cerca de 300m), olhando para baixo, no máximo procurando a próxima marca laranja que indicava o caminho a seguir. Continuamos subindo e subindo... Não acabava nunca!!! Víamos o grupo com o guia no topo de uma montanha. Imaginávamos que aquele local seria o Paso ou estaria muito próximo dele, mas não. E pior, toda aquela neve batendo no nosso rosto, aquele vento baixando a sensação térmica e a neve acumulada aumentando, iam deixando o trajeto mais difícil ainda! Foi a partir de uma das placas que informa a distância e a elevação daquele local que a “brincadeira” começou a ficar séria... Já não víamos mais o grupo (com guia) que estava na nossa frente. As pegadas que deixavam na neve? Já haviam sumido! As estacas alaranjadas estavam começando a ficar encobertos pela neve acumulada. O vento? Só aumentava! Foi nessa hora que a CALMA falou mais alto. Paramos atrás de uma pedra, respiramos, pensamos e comemos. Retomamos a trilha... À medida que subíamos o vento aumentava numa proporção astronômica! Só conseguíamos olhar para baixo. Ao chegar numa estaca laranja, olhávamos para o horizonte, achávamos a próxima, baixávamos o rosto e íamos olhando para baixo. Lembram da subida? Ainda estava lá!!! Kkkkkk o peso das mochilas deixava TUDO mais difícil. À medida que pisávamos na neve, afundávamos. Na maior parte do tempo eram necessários dois passos no mesmo lugar para conseguir progredir. A neve estava na altura dos joelhos já. Num determinado momento o Diego, que estava na frente, parou e me falou que estava preocupado com suas mãos. Nesse momento, me dei conta que eu também tinha mãos! Kkkkkk a partir daí, também percebi que já não sentia a ponta de todos os dedos, mesmo com a luva. Primeiramente tentei achar o problema, pensando que a luva estivesse molhada, mas não! Era a neve acumulada, juntamente com o vento, que estava baixando a temperatura. Tirei a neve, coloquei as duas mão atrás da mochila que estava no meu peito e comecei abrir e fechar as mãos. Em alguns minutos havia voltado ao normal e falei para o Diego fazer o mesmo. Entretanto, à medida que usávamos os bastões para nos ajudar na neve (e acreditem, eles fazem uma diferença ABSURDA nessa situação), as pontas dos dedos voltavam a doer absurdamente. Mantivemos o ritmo. Mais pra cima? Mais TUDO! Mais vento, mais neve... e vocês já sabem. Devido à nevasca não conseguíamos ver além de 15m e aqui deixo a minha crítica ao parque: as estacas que indicam o caminho nesse trecho (O MAIS CRÍTICO DO PARQUE) são escassas. Em alguns momentos você tem que chutar uma direção e ir. O que nos ajudou numa das situações mais críticas desse trecho foi que a neve encobria as pegadas do grupo, mas os buracos dos bastões ficavam visíveis! Seguimos os buracos e logo em seguida achamos o caminho novamente. Chegando próximo do Paso, a preocupação com as mãos aumentava, mas outra coisa estava nos tomando mais a atenção: O vento. Simplesmente não conseguíamos avançar!!! Dávamos 3 passos para a frente e o vento nos empurrava 5 para trás ou nos derrubava! Vendo que não conseguiríamos competir com ele, começamos a engatinhar até chegar próximo de uma encosta rochosa onde o vento diminuiu e conseguimos chegar ao outro lado da montanha, aonde vimos o IMENSO Glaciar Grey, em toda sua infinita extensão. Após passar pelo topo o vento diminuiu consideravelmente. Sabíamos que a partir daquele ponto seria apenas descida. A partir de então foi o inverso. Era descida que não acabava mais! Em determinado momento, não era mais possível descer caminhando, de tão escorregadio que estava. Acabamos descendo de esquibunda kkkkkk. Nesse momento, juntamos a alegria de ter sobrevivido com as brincadeiras na neve. Enquanto descansávamos, um dos sherpas estava descendo (também de esquibunda kkkk), parou e nos ofereceu um chá quentinho. Aceitamos e conversamos um pouco. Ele disse que nunca havia visto essa parte do circuito, dessa forma. Era novidade para ele, mesmo já trabalhando nisso há alguns anos. Chegamos ao Camp Paso. Tinha uma infraestrutura bem básica. Fizemos um café, dividimos uma caixinha de leite condensado inteiro e recuperamos as energias. Energia recuperada, retomamos a descida. Nesse dia meu joelho começou a gritar!! Era descida que não acabava mais... Depois de algumas horas de caminhada, chegamos às pontes que são bem conhecidas (as pessoas que fazem o W pernoitam no Grey só para poder subir até essas 3 pontes que tem entre o Camp Paso e o Camp grey). O dono do hostel que viríamos a ficar em P. Arenas trabalhou para a Vértice e disse que antigamente no lugar dessas pontes, haviam escadas. Com o derretimento do gelo, a água descia e levava a escada embora. Assim, os guarda-parques iam lá e colocavam CORDAS temporariamente. Imaginem a dificuldade de subir, através de cordas, com uns 20kg a mais de equipamento, um barranco de uns 6m. Felizmente não são mais escadas, mas 3 pontes que balançam MUITO! Como estávamos cansados da travessia, a neve não parava de cair e o vento também não parava de soprar, acabamos passando meio que batido, sem ter apreciado muito bem essa parte. Depois de algumas horas de descida chegamos ao Camp Grey. Com uma boa infraestrutura, o Grey tinha uma cozinha bem espaçosa e fechada. O banheiro masculino eram duas privadas e duas duchas (chuto que o feminino era a mesma coisa). Bem pouco, pensando que esse Camping faz parte de uma das pernas do W e fica lotado de turistas. Mirador no Camp Grey: Não saiam daí! To be continued... hahahahah
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