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  1. È meu primeiro relato, vou tentar retribuir a comunidade que tanto me ajuda em silêncio. Em julho desse ano acampei na Pedra Macela em Cunha - SP e desci com alguns amigos para Paraty via trilha dos 7 degraus, que ainda tem seu calçamento histórico, de lá partimos para praia do Sono onde tentei sozinho (já que estavam todos esgotados) e sem sucesso alcançar a cachoeira do Saco Bravo, o tempo era apertado e o sol estava castigando, mas ficou na minha imaginação e hora ou outra iria alcançar esse objetivo. Dia 18 de Dezembro parti para Paraty novamente, sozinho e com a cachoeira do saco bravo em mente mas com um trajeto muito mais ousado que teria a famosa cachoeira como quase final. Realizando a travessia com início em Paraty Mirim e finalizando na praia do sono. DIA 1: Embarquei em São José dos campos pela manhã com destino a Paraty, onde cheguei por volta das 14h, de lá peguei um circular ali mesmo na rodoviária que me deixou com o pé na areia da praia Paraty Mirim, por 5 reais. Minha missão era encontrar um barqueiro para me levar a praia do cruzeiro, e todos davam o valor fixado de 100 reais por barco, não importando se está sozinho ou em cinco. Depois de muito negociar conseguir um barco que me levou por 70 reais. Já era por volta de cinco da tarde e até então, iria fazer o Pico Pão de Açúcar no dia seguinte, porém assim que desci do barco já avistei uma placa que indicava a trilha para o pico e com uma duração de 1 hora, arrumei o primeiro camping que vi por 30 reais, larguei minha mochila, peguei minha lanterna e parti para o cume. A subida era leve/moderada, o calor naquele horário não era mais tão forte e os troncos de arvores permitiam o apoio, subi tranquilamente em cerca de 1h e 30. Consegui descer antes que escurecesse, um senhor que estava na varanda de uma casa ali na beira da praia disse que foi ele quem abriu a trilha, que lá de cima da para ver até a antena da usina nuclear (eu não vi) e que o pessoal costuma subir cedo para chegar no cume as meio dia, quando as águas tem uma coloração mais bonita, fica pra próxima. Jantei e fui dormir, nem coloquei a lona na barraca pois a noite estava muito bonita, se não fosse um cachorro encrencar com minha barraca durante a noite teria sido uma noite perfeita. DIA 2: Levantei cedo e parti para a trilha, o sol estava castigando muito e logo no inicio da caminhada me vi dentro de uma mansão, pensei ter errado o caminho, fui a praia e procurei por uns 20minutos a continuação, sem sucesso, retornei a mansão morrendo de medo de ter um cachorro, vi um funcionário da limpeza que me indicou que a trilha continuava nos fundos da casa, um puta lugar e que dizem que foi gravado o filme crepusculo. A trilha toda acompanha os postes que levam os cabos de energia. Segui a caminhada até a praia grande da cajaiba, este foi o dia mais cansativo da caminhada, entre a praia do crepusculo e a praia grande tem uma subida de 450m toda com o sol na cabeça, com mata rasteira, sem ponto de agua e quase nenhuma sombra. Cheguei na praia grande por volta das 16h, onde só tem 2 restaurantes, um deles tem camping nos fundos onde fiquei por 20 reais, pedi um prato feito, que veio bastante caprichado com peixe, por 25 reais que deu para recuperar as energias. Encontrei um rapaz neste camping que estava fazendo a travessia no sentido contrário ao meu, eramos os únicos dois no camping, me deu algumas dicas que foram valiosas para os próximos dias, para se atentar no trecho entre a ponta negra e martim de sá, que ele havia se perdido por cerca de 2h. E para se atentar que ele viu cobras. DIA 3: Este foi o dia mais tranquilo, saindo da Praia grande, passei pela praia do pouso até chegar na praia martim de sá, é notório a mudança do mar a partir desse dia, se antes parecia uma piscina de tão calmo, na praia martim de sá era um mar super bravo com uma correnteza forte, tinha vários surfistas no único camping da praia, não só o único camping, era a unica coisa que tinha naquela praia. O camping estava cheio tinha umas 8 barracas (para quem tinha ficado sozinho nos outros dias, era muita gente kk), a trilha terminava dentro dele e começava (com sentido pra ponta negra) também dentro dele. Foram 25 reais com direito algumas várias picadas de insetos, o pf era de ovo também por 25 reais, e preferi não comer, na cozinha do camping tinha um armário com dizeres armário da herança, deixe o que não for usar, lá tinha uma embalagem de azeitonas que estavam deliciosas, muito obrigado a quem deixou. O ponto negativo do camping eram os banheiros, pelo preço caro que cobravam não disponibilizavam nem papel higiênico, estavam sempre entupidos e ou sem água. E o chão era muito duro, o que dificultava fixar a barraca, no final, nem fixei ela direito por preguiça, e fui castigado pela primeira chuva da travessia, muito forte e com vento, mas deu tudo certo e minha humilde barraca (windy 1 da nautika) aguentou. DIA 4: O dia amanheceu lindo, em contraste a tempestade do dia anterior, logo arrumei minhas coisas pro dia que prometia ser o mais difícil da travessia e o mais longo (12km) com uma subida a 550m. Logo no começo tem uma bifurcação para o pico do miranda, que fica a 3,2km dali, que em uma pesquisa posterior, descobri ser de fácil acesso e com um nascer do sol lindo, uma pena ele não ser muito conhecido, me arrependi muito de não ter esticado mais um dia para subi-lo. Segui em frente e fui pego por uma tempestade que me assustou bastante no meio da mata, foi o primeiro momento que senti falta de um parceiro de trilha e o psicológico começou a pesar, por sorte, a praia de cairuçu das pedras estava perto e por lá fiquei num teto de um camping, esperando a chuva passar. Logo após a praia de cairuçu das pedras tem várias bifurcações sem sinalização, graças ao wikiloc notei rápido que tinha pego uma bifurcação errada, foi bom poupar bateria do celular até esse dia. O sol voltou durante a caminhada e no final a subida foi tranquila, a mata era fechada deixando o clima ameno, cheguei na praia da ponta negra e comi um belo prato de peixe por 30 reais, com uma deliciosa coca gelada, e pra minha surpresa o local passava cartão, eu realmente fiquei impressionado depois de dias em lugares que mal tem energia elétrica. Encontrei um camping com uma boa estrutura, lona, banheiros, estava aberto sem ninguém, entrei e montei a barraca. Da hora que cheguei por volta das 16h até a manhã seguinte ninguém tinha aparecido, procurei o dono pela praia, que atende pelo nome de Ismael, e nada, ninguém sabia, por fim, dormi de graça. DIA 5: Acordei cedo, por volta das 6h para ser o primeiro a chegar na cachoeira do saco bravo, que dizem lotar de pessoas, entre café da manhã e desmontar barraca gastei um tempo e parti para a trilha as 7h e 30 da manhã, deixei minha mochila num comércio local pois achei inseguro deixar ela sozinha num camping que não tinha ninguém. Era um alívio andar sem a mochila pesando nas costas, estava desfrutando de cada passo e chegando ao meu objetivo, nem as duas grandes subidas entre ponta negra e a cachoeira podiam me cansar, por fim cheguei por volta das 9h e 30, tive alguns minutos sozinho na cachoeira, uns 10min após chegou mais um, e depois grandes grupos de gente. Para minha surpresa, havia muitas pessoas iniciando a travessia e que passariam o natal andando. A volta foi cansativa, comecei por volta do meio dia, e muitas pessoas indo em direção a cachoeira, o negócio realmente é ir bem cedo. Cheguei na ponta negra e meu corpo já estava exausto, almocei por lá, e graças a máquina de cartão, me sobrou dinheiro pra ponderar pegar um barco de volta a laranjeiras. Dito e feito, por 40 reais fui direto da ponta negra até o condomínio, já conhecia a praia do sono e a praia do antiguinhos. De lá peguei o circular para voltar a rodoviária, e fui para Taubaté no primeiro ônibus que encontrei, as 17h, que por sorte estava vazio e ninguém precisou sentir meu cheiro sentado do lado.
  2. Fala pessoal, trazendo mais um relato pelo litoral baiano, dessa vez um pouco mais ao sul. O trecho que fiz saindo de Itacaré em direção a Barra Grande me motivou a fazer outro logo! hehehe (http://www.mochileiros.com/itacare-algodoes-a-pe-t141705.html) Idealizei essa travessia desde o carnaval, para realizar em abril, coincidindo com as férias, e fazendo um planejamento simples, por se tratar de um trecho curto. Serra Grande fica situada entre Ilhéus e Itacaré, e é uma pequena cidade que tem se desenvolvido mais atualmente, com surgimento de empreendimentos e inciativas com uma abordagem mais ecológica. Assim como toda a região, tem muitas opções de aventura, atividades ao ar livre e em contato com a natureza, oferecendo paisagens paradisíacas de rios, cachoeiras, costões rochosos e praias desertas. PLANEJAMENTO Idealizei fazer esse trecho saindo do pé da serra e contornando o costão rochoso pra então seguir pela areia até a praia da Engenhoca ou Jeribucaçu, isso tudo me baseando em muita pesquisa, vendo alguns vídeos do local no YouTube, imagens de satélite no Google Maps e fotos que procurava pela internet. Morei em Ilhéus minha vida quase toda e frequentava muito Itacaré, sempre de passagem por Serra Grande, mas nunca atento aos detalhes que eu precisava saber pra fazer esse trecho, principalmente do costão, (grau de declividade, distância "caminhável" entre a encosta e a água durante a maré seca, regularidade do solo nas rochas, entre outros) e, por esse motivo, o contorno do costão foi na completa aventura, já que essas pesquisas não me davam noção exata desses detalhes e não conheço ninguém que pudesse me dizer, me precavendo apenas com um tênis, que foi essencial! Entretanto, caso não fosse possível fazer esse trecho, subiria Serra Grande e desceria a trilha pro início da praia, local que inclusive já fui há um tempo. Pelo Google Maps/Earth, o trecho do pé de serra até Jeribucaçu deu um total de 16,3Km. Tinha observado um rio pequeno desaguando no trecho (Barra do rio Tijuípe) e, assim como qualquer caminhada de praia, é imprescindível que saiba a maré ideal pra o local que vai, que nesse caso seria seca. Isso pode evitar perrengues ou complicações (que vou citar a seguir! hahaha). Apesar de o trecho ser relativamente curto, não tenho costume de fazer grandes caminhadas e não sabia se dormiria no caminho ou se daria pra terminar em um dia, então levei a barraca. Como sempre tem muuuito coqueiro, acredito que fazer um trecho desse com rede e cobertura (lona, tarp...) deve ser uma boa, já que reduz o peso e volume da mochila. Além disso tudo, como já conhecia o início da praia, sabia que teria pelo menos um trecho de praia com declividade grande e areia grossa fofa (praia predominantemente refletiva), sabendo que seria hard caminhar nessa condição! ORGANIZAÇÃO De férias em Ilhéus, já tinha visto com muita antecedência o dia bom com maré seca pela manhã, para ter mais área de areia pra caminhar e um amigo iria comigo, mas cancelou na noite anterior ao dia combinado. Fiquei no impasse de ir sozinho ou cancelar de vez, mas a vontade era muita e me organizei pra ir sozinho no dia seguinte ao combinado. Consegui carona com outro amigo e tudo foi dando certo pra fazer nesse dia mesmo. Estava com uma cargueira de 35L. (Não levei minha câmera dessa vez, e a GoPro afogou uma semana antes, num acidente enquanto surfava . As fotos ficaram por conta do celular mesmo). CAMINHAR! A minha carona avisou que sairíamos de Ilhéus às 7h, me animei porque saindo essa hora a programação com o horário da maré ia encaixar tranquilo, entretanto acabamos saindo mais tarde, aproximadamente às 8h30. Chegando no pé de serra, me preparei e saí: camisa de manga comprida, óculos escuro e tênis! Do jeito que era acidentado, se caminhasse no costão descalço, chegaria sem pé . Saí às 9h50. O costão é acidentado em praticamente todo o contorno, mas em alguns trechos tem trilhas mais acima, que ficam na parte com grama, no pé dos coqueiros, inclusive já mostrando que passa gente por ali com certa regularidade, porque a trilha é bem marcada, provavelmente pelos pescadores que vi. Em algumas partes, caminha-se em parede quase vertical, e o "bastão de caminhada" (cajado de madeira hehehe) que achei no início me ajudou muito no apoio. A maré já estava cheia a um ponto considerável e cheguei a tomar alguns "sprays" das ondas em trechos mais estreitos, mas nada que pusesse a caminhada em risco, é sempre bom prezar pela segurança, ainda mais sozinho! Depois de andar mais um pouco sobre as rochas, surge um caminho bem fechado entre palmeiras baixas, que seguia até uma pequena praia onde vi algumas pessoas chegando e que aparentemente não tem acesso difícil, seguida por um grande gramado liso com coqueiros espaçados (gramado perfeito pra um camping! haha). Mais à frente, algumas piscinas naturais se formam entre as rochas, o visual é sempre convidativo e é tentador parar em cada lugar pra curtir um pouco. Depois, mais uma pequena (essa é beem pequena, com uns 10m de extensão!) praia paradisíaca com cara de cenário de filme/série, onde tinha uma família (4 pessoas), aparentemente da comunidade de Serra Grande, pescando. Dali pra frente, só mais um pequena parte e acabou o costão rochoso. O contorno do costão foi um trecho curto, mas bem puxado! Havia um pescador no início da praia, e era visível também muitos pontos de desova de tartaruga. Caminhei uns 100m até um lugar bom pra parar, me hidratar e comer algo pra então sair e iniciar a grande caminhada pela areia. Alguns metros depois, uma lagoa espelhada se destacou mais pra trás, muito bonita e parece ser um bom lugar pra acampar. Daí pra frente, o trecho segue praticamente o mesmo, com algumas casas bem grandes, mas vazias, dunas pequenas sempre beiram a praia e segue assim praticamente até chegar ao rio. Em cima das dunas se vê muitos mandacarus, e alguns tinham frutos que eu, com certeza, peguei pra comer! Quem conhece sabe como é bom e deve imaginar como foi bom esse achado! hahaha (importante não comer nenhum fruto se não conhecer! É melhor morrer de fome do que de envenenamento ). O RIO! Quando cheguei no rio tomei um susto! Tinha chovido um pouco nos dias anteriores, mas não imaginei que tivesse aquela intensidade de fluxo...pra dentro do rio! A maré estava enchendo e as ondas quebravam e entravam com força. A travessia era bem curta,15 a 20m. Dois pescadores estavam jogando tarrafa no rio e ainda de longe vi que um deles estava atravessando com água quase no pescoço e dava algumas braçadas pra conseguir andar e vencer a correnteza. Do lado de cá, chamei eles e gesticulei com a mão, perguntando em que altura estava a água, quando um deles fez o nível acima da cabeça. Nessa hora, tive uma breve certeza de que acamparia do lado de cá do rio, pra na manhã seguinte, na maré seca, atravessar e continuar. Larguei a mochila na beira e resolvi checar por conta própria, dando uma analisada visualmente antes, pra ver onde parecia estar mais raso. A correnteza estava forte, a areia era fofa e afundava o pé até um pouco acima do tornozelo e as ondas não paravam de entrar, andei até a metade e atravessei o resto com ajuda de braçadas, assim como o pescador. Do outro lado, dei uma olhada melhor, fui mais pra frente, voltei, fui de novo, olhei, olhei e atravessei traçando uma diagonal até o outro lado, dessa vez com a água no peito, chegando ao ombro. Dei uma pensada e confesso que quaase fiquei por ali mas, além de ter achado um local mais raso pra atravessar (mas ainda assim arriscado), ainda era cedo, 12:10! Única coisa que estragaria realmente se acontecesse de molhar a mochila acidentalmente, seria o celular, pois o resto era "recuperável" (claro que seria terrível molhar a barraca, mas é mais fácil de enxugar e recuperar). "Embrulhei" o celular em duas sacolas plásticas, pensei mais um pouco e resolvi atravessar segurando a mochila acima da cabeça pelo caminho que tinha traçado. Sim, deu tudo certo, mas foi bem hard hahaha, a mochila estava com um peso considerável, e todos os outros fatores dificultaram bastante também. Atravessei e deitei na água na "lagoa" que se formava do outro lado, muuuito boa pra tomar banho e além dos pescadores na beira do rio, só estavam duas meninas com uma mulher tratando uns peixes, à qual pedi pra tirar uma foto minha . (link com um vídeo curto que fiz do rio, depois de atravessar: ) -Observação 1: muito importante analisar as condições do rio, bem como do local e o seu preparo e conhecimento de corrente, maré e etc., PRINCIPALMENTE ESTANDO SOZINHO. O risco de se afogar existe até para os mais experientes mesmo nas condições mais desprezíveis e a análise dos riscos podem livrar de um perrengue. Além da correnteza jogando para dentro da lagoa do rio, a profundidade era pouca, tenho boa natação, não atravessei preso à mochila (poderia largar para nadar) e haviam pessoas ali. Na dúvida, é melhor não arriscar! -Observação 2: por mais que tenha visto a desembocadura do rio pelas imagens do Google Earth, esse ambiente tem um perfil que está constantemente sujeito a mudanças causadas pelas forçantes locais como: ondas, maré, fluxo do rio, entre outras. O perfil que encontrei lá pessoalmente, já estava BEM diferente do que observei pelas imagens então, é bom estar preparado para isso (olhando as imagens históricas do Google Earth, vi que nas imagens de 2010 a desembocadura chegou a ter aproximadamente 100m de uma margem à outra, aparentemente com uma profundidade considerável, condição praticamente impossível de atravessar sem ajuda de um barco ou algo do tipo!). Dessa parte em diante, a praia já fica menos inclinada e em vez de dunas, uma mata fechada com muitas palmeiras e coqueiros beirava a praia, e seguiu assim até chegar num "morro" pequeno que debruçava na água, com um riacho na lateral (um pouco antes disso, vi um esqueleto de baleia realmente grande!). Comecei a subir o morro por uma trilha, que tinha uma cerca com uma passagem, mas na dúvida se também teria passagem do outro lado, resolvi voltar e contornar por baixo. Depois de contornar o morro, um coqueiro baixo com um cacho de cocos chamou minha atenção e não resisti em subir e tirar: bebi muita água de coco e segui. Nessa parte depois do morro, tinha também uma cerca com uma propriedade imensa com uma casa e até alguns cavalos pastando! A partir daí, algumas casas de alto nível, depois o resort Txai e a praia de Itacarezinho, onde vi que não tinha possibilidade de contornar o costão rochoso para a Engenhoca, porque tem uma declividade muuito acentuada. Me informei da trilha que sai dali para a Engenhoca, tomei um banho gelado na bica e segui. Nunca havia feito essa trilha de Itacarezinho pra Engenhoca, e é uma trilha bem fácil e bonita. Antes da Engenhoca, ainda se passa por duas praias, a primeira (pelas pesquisas, o nome parece ser Camboinha) estava deserta, e a segunda é a Havaizinho, conhecida, que tem estrutura bem simples de barraca de praia, dali pra Engenhoca é um pulo, mais dez minutos e finalizei o percurso na Engenhoca mesmo, às 15h15, totalizando 5h25 de percurso. Já era fim de tarde e cheguei à conclusão que não valeria a pena dormir ali para no outro dia só fazer o trecho até Jeribucaçu. Atualização: fiz uma estimativa do tempo parado, me baseando em fotos que havia feito na hora de cada parada longa e quando voltava a caminhar. Como além das paradas longas parei algumas vezes rapidamente pra tirar fotos e não contei o tempo, estimei um tempo somando cada foto. A soma das paradas longas totalizou 1h10min, mais uma estimativa de 20min das paradas curtas, resultando aproximadamente 1h30min de tempo parado. Dessa forma, o tempo efetivo de caminhada estimado foi de 3h50min. Considerando a distância do percurso como 15Km, a velocidade média foi de 3,9Km/h. Espero conseguir comprar meu GPS logo pra ter essas informações de forma mais prática e exata! O QUE APRENDI NESSA TRAVESSIA: -Nunca tinha usado "bastão de caminhada" e foi muito útil não só no costão rochoso mas também na praia; -Em casos como esse, trocar a barraca por uma rede e cobertura talvez seja ideal; -Acondicionar as coisas em sacos estanques dentro da mochila é realmente importante, ficaria menos preocupado no caso do rio, por exemplo; EQUIPAMENTOS USADOS: -Curtlo Highlander 35+5L -Azteq Nepal 2 (não usei)
  3. ORGANIZAÇÃO/PLANEJAMENTO Moro em Salvador e, de férias regulares, não poderia ter melhor oportunidade para realizar essa trip. Não lembro exatamente quando pensei nesse trecho, mas já estava planejando havia um bom tempo e queria fazer pelo menos o trecho de Itacaré a Barra Grande, que não finalizei da primeira vez (https://www.mochileiros.com/topic/58177-itacaré-algodões-a-pé/). Quando defini qual seria o trecho, revisava o planejamento com frequência pra ter certeza de que nenhum ponto estava passando em branco. Inicialmente, o planejamento era de sair de Itacaré e ir até Morro de São Paulo, passando o réveillon em Moreré, que acabou sendo o destino final por causa de imprevisto (no dia 1 em Moreré, senti uma dor muito forte no tendão que se estendeu por alguns dias e mal conseguia andar. Não seria prudente continuar a travessia nessa condição). Voltei do natal no Rio e chegando em Salvador só troquei de mochila e segui para o ferry boat para iniciar a viagem. Digo iniciar a viagem, porque ainda na travessia do ferry boat encontrei um amigo e comentei sobre estar ansioso para a travessia, quando ele me falou "nem precisa, já está acontecendo", e me dei conta de que realmente eu já estava a caminho, a viagem já tinha começado. Estava usando uma mochila cargueira de 40 L com aproximadamente 15 Kg. Como pretendia passar o réveillon em Moreré e sairia de Itacaré no dia 27, teria que andar pelo menos 19Km por dia até o dia 31, pernoitando na praia. Como já disse em outros relatos, é importante lembrar que para caminhada em praia, tem que saber a tábua de marés para os dias planejados, do contrário, por falta de planejamento pode pegar uma maré cheia para caminhar, por exemplo, e terá que ir pela areia fofa, obrigando a parar ou dobrar o esforço de caminhada e, assim, dificultando o percurso. 1º DIA Como o ônibus de Bom Despacho (ferry boat) para Itacaré demora, cheguei em Itacaré já umas 15h, e acabei saindo tarde de lá. Não tinha mais nada pra fazer e saí da rodoviária já em direção à orla pra fazer a travessia de barco. Chegando lá, tem alguns barqueiros que fazem a travessia do Rio de Contas para a praia do Pontal por 5 reais. Cheguei do outro lado e só precisei me arrumar e iniciar a caminhada, que foi aproximadamente às 15h30. A praia do Pontal é pouco frequentada, e só tinha um grupo de umas 6 pessoas. Daí pra frente, como já esperava, só vi pessoas em frente a Piracanga. (travessia do Rio de Contas, Itacaré) Chegando em Piracanga, o rio me surpreendeu pelo nível. Tive que tirar a mochila e atravessar antes pra conferir o nível e caminho onde poderia atravessar "tranquilo". Depois de conferir, atravessei com água 5 dedos acima do umbigo, carregando a mochila na cabeça e 3 pessoas me assistindo do outro lado. Como eu queria essa cena registrada! 🤣 Segui caminhando e parei pra descansar já com tudo escuro e aproximadamente 13 Km caminhados, onde abri a canga, deitei e fiquei deslumbrado com aquele céu inteiro numa praia deserta, tudo só pra mim, contando inúmeros satélites e estrelas cadentes e acabei dando uma cochilada. Acordei recarregado e continuei caminhando, até fechar os 19 Km desse primeiro dia. No meio do caminho, dei de cara com um cachorro, que só vi quando estava a uns 3 m de mim, já latindo e vindo em minha direção, era um risco que eu não tinha previsto, mas me saí bem, só acendi a lanterna na cara dele, fui pra beira do mar e virei de costas pra água garantindo que não viria nenhum outro cão surpresa junto com ele, enquanto o afastava com um pedaço de pau (um "cajado") que tinha em mãos. Ele entendeu que eu não era uma ameaça, continuou latindo, mas ficou parado, e fui andando com a lanterna ainda acesa, vendo aqueles olhos caninos brilhantes se distanciando na escuridão Parei em um ponto mais pra frente, armei meu acampamento e deitei pra dormir. Fui acordado em algum momento no meio da noite por dois cachorros latindo, que acredito que era o de mais cedo com um outro. Só precisei espantar eles batendo em um pedaço de pau e continuar dormindo. Total percorrido: 19,5 Km 2º DIA Acordei bem cedo com um nascer do Sol que não assistia havia muito tempo. Contemplei aquele momento por um instante, tirei algumas fotos e voltei a dormir, acordando de novo já perto das 8h. Comi, tomei um banho (de mar, obviamente), arrumei as coisas e segui caminhando. Com cerca de 2 Km, cheguei a Algodões, local onde a quantidade de habitações, pessoas e barracas já chama a atenção, e foi onde passando por um caminhante na praia, ouvi um comentário sobre uma das minhas tatuagens: três diafragmas de lentes fotográficas, o bastante para reunir e dar assunto entre eu, um fotógrafo das horas vagas e amante dessa arte e ele, um estudante de cinema, que me acompanhou por uns 4 Km enquanto conversávamos sobre a minha caminhada, sobre fotografia, cinema, filmes e temas afins. Foi meu primeiro contato e interação em 24 Km, e durante a conversa eu nem vi o tempo e caminho passarem. (meu xará, estudante de cinema, com quem troquei algumas ideias) Daí pra frente segui caminhando e comecei a ficar atento ao GPS, porque tinha marcado um waypoint na entrada com menor caminho para a lagoa do Cassange, onde já tinha planejado uma parada de descanso com banho doce e talvez almoço. A lagoa é bem bonita, bem rasa (andei mais de 50 m em direção ao meio e a água não chegou nem na cintura), com água quente e cheia de peixinhos que ficaram mordiscando enquanto eu estava de molho. Após o banho, dei uma olhada no cardápio da barraca que fica na beira da lagoa para saber a possibilidade de almoçar ali, e os preços eram bem altos, mas nada surpreendente para Barra Grande em alta estação. Fiz um lanche com o que tinha na mochila, fiquei um bom tempo descansando e segui a caminhada. (Lagoa do Cassange) Essa parada na lagoa durou quase 2h, deu pra descansar bastante e passar o horário de sol a pino, além de dar o tempo de a maré secar toda, melhorando a área de caminhada na areia. Andei até um pouco antes de Taipus de Fora, e abri a canga pra descansar de novo, onde dei mais uma daquela cochilada revigorante e gastei mais um bom tempo observando o visual e o movimento na praia enquanto pensava sobre seguir para dormir mais a frente ou parar por ali, já que já tinha percorrido um total de 40 Km nesse ponto. O Sol já estava se pondo, mesmo assim resolvi pegar a mochila e ir andando devagar, mas logo que fiz a curva de Taipus de Fora já parei e fiquei olhando de longe: eram muitas casas, muita gente, festa, barraca...não seria legal dormir por ali, se é que acharia um lugar tranquilo e onde pudesse dormir. Fiquei olhando por uns cinco minutos e vi um casal, aparentemente andarilhos também, me olhando de longe, com mochilas, sentados mais acima da areia e fui falar com eles: -Estão vindo de lá de Barra? -Sim, estamos indo pra Itacaré -Maravilha! Estou vindo de lá, saí ontem à tarde. -Olha aí, mais um colega de caminhada haha -Pois é haha sabem me dizer se seguindo a praia a partir daqui é sempre assim com muita casa, cheio de gente? Estou procurando um lugar pra dormir na rede e virei aqui já desanimando com tanto movimento. -Nãão, se você apertar o passo, depois daquela ponta ali vai ter umas barracas com cobertura de palha que ficam armadas para o pessoal ficar durante o dia, mas à noite é bem tranquilo, não fica ninguém e dá pra armar a rede e dormir bem lá. -Ótimo, vou seguir! … A ponta que ele indicou ficava a aproximadamente 1 Km, e obviamente eu fui em busca das barracas com cobertura de palha para dormir, afinal, eu estava bem cansado, mas 1 Km não é tanto assim e dormir bem seria importante. Andei, passei da ponta, andei, andei, andei, andei e depois de uns 4 Km sem ver nenhuma estrutura semelhante ao que ele descreveu, decidi que qualquer estrutura que aparecesse, eu pararia, quando logo depois vi, na praia da Bombaça, ao lado da entrada de um terreno com casarões, uma armação de bambu com um tecido branco e algumas palhas de coqueiro por cima, era ali. Montei a rede, deitei e depois de observar a movimentação de algumas pessoas da casa pela praia observando o céu, apaguei, mas acordei algumas vezes durante a noite com carros, quadriciclos e motos passando, além do frio que fez na madrugada. Foi uma noite bem difícil porque eu não tinha mais recursos para me proteger do frio e fiquei lutando com ele por um bom tempo. Total percorrido: 45 Km 3º DIA Apesar de algumas nuvens densas se aproximando pelo Norte, mais uma vez acordei com um nascer do Sol maravilhoso, mas dessa vez não dormi de novo. Fiquei observando a praia e algumas pessoas já passavam por ali quando levantei da rede pra arrumar minhas coisas e iniciar minha caminhada logo em seguida, já às 6h40. Com menos de 1 Km de caminhada, vi as estruturas que o cara me falou no dia anterior e percebi que tinha dormido no lugar "errado". 😂 Passei a Praia dos três coqueiros, farol, Ponta do Mutá e cheguei no “centro” de Barra Grande com uma hora de caminhada. Logo que cheguei, fui ver como faria para atravessar para a Barra do Serinhaém, e o pessoal das empresas que operam as lanchas não tem esse trecho nos serviços deles, então é um pouco complicado. Não é tão fácil como poderia ser, mas dei sorte depois. Depois de terem me cobrado 250 (duzentos e cinquenta!!!!) reais para atravessar, resolvi tomar logo um café da manhã na padaria e voltaria pra resolver isso e, obviamente, achar outra forma (e outro valor) para atravessar. Caminhei até o final do píer e fiquei lá “queixando” carona para cada barco que encostava pegando ou deixando passageiros, sem sucesso em todos eles, já que a travessia era meio contramão para o caminho usual que eles costumam fazer. Depois de tentar em alguns, comecei a conversar com alguns caras que estavam no píer comigo, todos trabalhando, ajudando a carregar, coordenando ou ligados de alguma outra forma às movimentações de embarcações que aconteciam ali. Falei brevemente sobre minha viagem e para onde estava indo e um deles colou comigo e ficou conversando, quando me falou -não sei se para confortar ou para desanimar- que SE eu conseguisse a travessia, poderia ser no fim da tarde, quando alguns trabalhadores residentes de Barra do Serinhaém voltavam de Barra Grande pra lá e eu, com essa informação, ao mesmo tempo que pensei no tanto de tempo que perderia esperando até o fim da tarde, me confortei sabendo que pelo menos de uma forma eu conseguiria atravessar. Não se passaram cinco minutos e esse mesmo cara gritou: -Ó lá quem vai te levar pra Barra! Eeei! - gritava e acenava para um casal numa lanchinha saindo da praia - leva esse amigo nosso aqui pra Barra! Eu, atrás dele, pulava, balançava os braços, acenava e assobiava alto para chamar atenção do casal e não passarem direto😂. O piloto prontamente mudou a rota, encostou no píer e eu só desci a escada e embarquei, feliz da vida e agradecendo mil para o brother que arranjou a carona pra mim. Seguimos e eles não me cobraram nada pela travessia (afinal, ele já estava indo pra lá). Parei, e segui procurando a casa de uma amiga com quem já tinha falado previamente e estava à minha espera. Nessa parada, tomei banho de chuveiro com xampu e sabão, fui servido com um prato de frutas muito farto e ainda almocei uma moqueca deliciosa hahaha, não sei se ela e a família tinham noção disso, mas a recepção, cada gesto e ato de generosidade foram extremamente significantes pra mim, e agradeço demais por aquilo, saí de lá revigorado, muito bem alimentado e com disposição para continuar firme na caminhada. Depois de almoçar, descansei por uma hora e comecei a reorganizar minha mochila, para sair perto das 15h40, quando comecei a caminhada saindo da Barra do Serinhaém em direção à praia de Pratigi. (início da praia de Pratigi) Pratigi é uma praia bem extensa, toda dominada por plantações de coco, e depois de andar por uma boa extensão, logo após o pôr do Sol resolvi que iria parar porque meu saldo estava bom (tinha andado 26 Km no segundo dia, então a meta desse dia era menor, não precisava me estender tanto) e meus pés já doíam, entretanto, acabei sendo obrigado a andar mais quando subi a faixa de areia indo pegar materiais para montar um abrigo e fui surpreendido por um enxame de mutucas me rodeando. Como estava ventando, continuei andando na esperança de elas perderem meu rastro e eu poder parar logo, mas eu parava de vez em quando checando e ainda via algumas voando ao meu redor, e nessa história, tive que andar mais 4 Km com os pés doendo e no escuro até finalmente parar e não ver mais nenhuma mutuca. Parei, catei materiais, montei o abrigo e finalmente pude deitar e dormir. Estava a 2 Km da vila de Pratigi e apesar de não ter movimento na praia, as luzes da vila eram bem fortes. Total percorrido: 75 Km 4º DIA (abrigo montado no primeiro e terceiro dia) Acordei umas 5h, e se não fosse o abrigo eu certamente sentiria frio, já que tive que me cobrir durante a noite. Levantei e percebi que tinha parado exatamente no local onde acontece o Universo Paralello quando reconheci a estrutura ainda resistente da cozinha comunitária (era uma estrutura de barro, por isso devem ter deixado por lá do jeito que estava). Estive no festival no ano anterior e tudo aqui estava irreconhecível sem movimento, música, luzes, pistas e estruturas montadas. Iniciei a caminhada planejando a parada na vila de Pratigi para poder trocar dinheiro caso precisasse pagar para a próxima travessia de barco. Parei lá e rodei em algumas barracas até conseguir trocar uma nota de 100: início da manhã de um domingo, não estava fácil trocar uma nota de valor alto, mas consegui e segui. 1 Km depois da vila tem um riozinho raso com travessia tranquila com a água pouco acima do joelho e 4 Km depois cheguei na Barra do Carvalho. Nesse ponto, tirei a mochila e acenei para alguns barcos que passavam para saber se iriam atravessar em direção a Cova da Onça ou Ponta de Castelhanos, e nada. (Barra do Carvalho) Sentei e fiquei esperando por cerca de uma hora até decidir ir para a parte de dentro da ponta de areia que se formava ali e na mesma hora que levantei e comecei a andar, surgiu um pessoal vindo andando no sentido oposto. Fui andando, dei de frente com o grupo e perguntei como tinham chegado ali, quando me responderam e apontaram os barcos parados, meus olhos quase brilharam de felicidade. Fui direto ao barqueiro perguntar se faria a travessia para Cova da Onça e o mesmo prontamente me negou com a cabeça. Fui atrás do dono do outro barco, que estava com a família já preparando um churrasco naquela prainha enquanto comiam alguns petiscos e tiravam cervejas geladas dos isopores que tinham levado, e me disse que era uma travessia pouco feita, difícil e depois de pensar e enrolar um pouco, me cobrou 50 reais, ao mesmo tempo que me perguntou se queria comer alguma coisa, “que ficasse à vontade”. Ainda era cedo, neguei. Depois de pagar 5 reais para atravessar o Rio de Contas, 50 reais me soava um preço altíssimo e eu tive que negar, resolvi esperar por mais tempo. Sentei já com pouca esperança e imaginando ter que dar os 50 reais mais tarde mas, passado mais um tempo, chegaram mais dois barcos dos quais tive uma negação e uma oferta de travessia por 20 reais: o preço já tinha melhorado! Ainda assim, resolvi esperar mais um pouco e uma pessoa que estava com o barqueiro que me cobrou 20 reais chegou perto de mim e começou a conversar, perguntando sobre a viagem, o que eu estava fazendo, etc., perguntas que àquela altura eu já estava acostumado, e me ofereceu um prato de almoço, que pelo tempo que já tinha passado, eu não pude negar. Mais um tempo de espera, já olhando pro horizonte pensando em qualquer coisa, esquecendo por um instante que eu estava à espera de uma travessia, ouço uns gritos. Era o segundo barqueiro, chamando atenção de um barco que passava e me chamando pra ir até lá. O barco, no qual embarquei prontamente, era de um primo dele que estava de passagem indo para Cova da Onça só com o filho pequeno a bordo. As 2 horas e 40 minutos de espera compensaram o custo nulo da travessia e, durante o caminho, que durou uns 20 minutos, conversei bastante com o dono do barco, que me explicou - e mostrou, enquanto “zigzagueava” - o motivo de aquela ser uma travessia tão evitada: a batimetria ali é muito ruim para navegação porque além de ser raso, tem muitas rochas, bancos de areia e recifes e nem todo mundo conhece bem o local mas ele, com muito conhecimento do local e, claro, aproveitando a maré cheia, passava com maestria pelos locais que indicava perigo e eu, enquanto conversava com ele, ia debruçado na lateral vendo nitidamente o fundo passando bem raso. Chegando em Cova da Onça, ele me explicou por onde eu pegaria o caminho até Ponta de Castelhanos, meu próximo destino. Pedi água numa casa com duas senhoras na frente, que encheram minha garrafa de 1,5 L sem problema e segui ansioso por esse próximo trecho, afinal, eu já estava bem próximo do fim. A caminhada de Cova da Onça até Ponta de Castelhanos foi, sem dúvida alguma, onde mais suei e cansei. Por ser uma estrada de areia fofa que passa por trás do mangue, acaba sendo uma área protegida de vento, pior ainda considerando o Sol escaldante do início da tarde na areia fofa. Depois de pouco mais de uma hora de caminhada, cheguei à praia de Castelhanos, um dos paraísos na Terra. Não queria perder muito tempo e fui logo ver como era a travessia para pegar a trilha do mangue e chegar em Moreré. Depois de conversar com dois canoeiros, me disseram que existia a travessia de barco direto para Moreré, por 40 reais, e a travessia para o início da trilha do mangue, por 10 reais, que era a que eu estava procurando. Sentei um pouco enquanto conversávamos e depois subi na canoa para atravessar, enquanto um deles me levava dando orientações sobre a trilha. A travessia do rio dura 5 minutos, e a trilha, que é dentro do mangue fechado, iniciou com água acima do tornozelo e, para o meu alívio, o fundo era de areia sem afundar o pé, ao invés de lama que afunda até o joelho, como é comum em manguezais, o que seria bem ruim de lidar com uma mochila pesada nas costas😅. A trilha é linda, e segui sozinho por ela, passando por mangue, apicum, coqueiros e até uma pequena plantação de cana, até chegar na praia de Bainema, e depois, finalmente, na vila de Moreré. (Praia de Bainema, pouco antes de chegar em Moreré) Total percorrido: 100 Km OBSERVAÇÕES: -Acabei usando a rede só em uma noite, dormindo nos abrigos que montei na areia nas outras duas noites, então acredito que poderia abrir mão da rede (peso e volume) e dormir no abrigo todas as noites. -Um ponto importante que ainda preciso melhorar é a alimentação. De forma alguma passei fome ou me alimentei muito mal, mas investir em comida liofilizada é uma prioridade urgente para reduzir o peso e volume da mochila. -O GPS foi uma das melhores aquisições que fiz e realmente faz muita diferença, me possibilitando acompanhar meu rendimento com dados de quilometragem percorrida e velocidade média, além de poder marcar pontos de interesse como entradas de lagoas, possíveis pontos para acampamento, pontos de apoio, etc., e, claro, gravar o tracklog para compartilhar com quem tenha interesse em realizar o mesmo percurso. TRACKLOG NO WIKILOC: https://www.wikiloc.com/wikiloc/view.do?pic=hiking-trails&slug=travessia-itacare-morere&id=31923513&rd=en EQUIPAMENTOS USADOS: -Curtlo Highlander 35+5L -Camelbak Chute 750ml -Garmin eTrex 30x
  4. Preparação Mais uma vez começamos um planejamento para uma trip em grupo, e acabamos terminando em dois só, kkkk. Levantamos muita informação, dados, e dicas. Não é segredo algum que minhas viagens geralmente não contam com guia contratado, eu mesmo navego e planejo tudo. De posse das informações, havíamos levado dois meses aprendendo sobre a Serra dos Órgãos, talvez por isso as pessoas desistiram. Tiveram tempo de pensar no que fariam. Encarar uma grande aventura exige mesmo espírito livre. A Grande Jornada Em 19/07/19 saímos de Campo Mourão às 00:00, foram 1.100 km de estrada, cerca de 17h de viagem. Ainda bem que um dos passageiros que me acompanhou (BlaBlaBla Car) se dispôs a dirigir entre São Paulo e o Nova Iguaçú. Foi um dia todo na estrada. Chegamos em Terezópolis já se passavam das 17:50; o primeiro furo da viagem. Eu havia estimado chegar em Tere dia 20/07 antes das 17h e conseguir viajar até Petrópolis no mesmo dia ainda, dormindo próximo da portaria lá. Doce ilusão, já era noite e tive de procurar um camping ainda, mas tudo certo os Óreas (deuses da montanha) sempre fazem certo. Paciência ... tenha paciência. Levantamos acampamento ás 06:00, que é a hora que abre (deveria abrir) o Parque em Tere. Chegamos na portaria para guardar o carro e lá estava um aglomero de gente, logo fiquei sabendo que a recepcionista não tinha chegado. Foram 45min de espera, enquanto isso ia aumentando a fila. Quando a mulher chegou já armou-se um fuzuê danado, o povo queria brigar ao invés de me deixar fazer checkin. Com muito trabalho consegui fazer o meu checkin e deixei o povo lá batendo boca. Com o carro estacionado voltei para a portaria na esperança de um Uber me levar a Petro. Outra trabalheira danada, uns cinco motoristas recusaram a viagem, chegaram a pedir dinheiro por fora pra fazer o carreto, mó sacanagem. Mas o sexto Uber não hesitou e nos levou ao destino. Dia 1, subida, subida, s u b i d a . . . Às 10:15 começamos a trilha, foram 7h de subidas sem fim, mas com um visual de tirar o fôlego, até o desgaste físico passa desapercebido diante da exuberância da mão verde. Quase todo o dia foi por dentro do Vale do Bomfin subindo suas encostas. Quase no fim do dia chegamos a Isabeloca de onde já podemos avistar a Baía de Guanabara e os Castelos do Açú, nossa parada para dormir. No final da tarde, o pôr do Sol visto do Morro do Açú foi apaixonante. Leia mais aqui. Dia 2, sobe e desce, sobe e desce... O segundo dia é o mais intenso de toda a travessia, e provavelmente um dos mais belos dias que você pode passar na vida. Toda a cadeia da montanhas da Pedra do Sino ficam de frente para nós. A navegação também é mais complicada, presenciamos alguns grupos perdidos (geralmente pessoas sem experiencia ou fanfarrões). A cada descida uma subida maior esperava do outro lado, mas tinha-mos a certeza que o visual depois da ascensão e durante a próxima descida seriam ainda mais incríveis. Foram cerca de 8 km, caminhamos por 6 morros (Morro do Açú, Morro do Marco, Morro da Luva, Morro do Dinossauro, Pedra da Baleia e Pedra do Sino), é nesse trecho também que ficam os obstáculos mais difíceis (Elevador, Lajão, Grotão e Cavalinho). Eu particularmente me apaixonei pela pedra conhecida como Garrafão, talvez seja a lembrança que ela me traz que tenha me conquistado. Foi um dia realmente incrível e às 17h novamente chegamos no Abrigo. Ainda tive tempo de tomar um banho frio numa tarde de 4º C. Leia mais aqui Dia 3, uma corridinha para encerrar a travessia.🏃‍♂️ Levantei com o escuro e subi novamente na Pedra do Sino contemplar a sinfonia de Apolo ao empurrar seu Astro sobre as montanhas. Saímos do abrigo às 07:15, a partir daí só descida praticamente uma trilha bem relax, com a oportunidade de avistar Teresópolis de cima, o Morro da Caledônia e os Três Picos no horizonte. De brinde uma vista por entre as montanhas da Granja Comari, onde um dia já treinou uma seleção de dar medo. Chegamos na barragem às 11:00 fizemos a trilha suspensa e conhecemos o encanto (Cachoeira Peri e Ceci) onde nasceu uma obra prima nacional: "O Guarani". Deixei a tralha no carro e tomei a trilha para o mirante do cartão postal, logo na entrada li que tinha 1.200 m, e eu com pressa; ainda tinha 1.110 km de rodovia até a casa. Não deixei me abalar, liguei a Go Pro e saí em disparada, em 15 min estava de frente para a formação que encantou os portugueses. Mais 15 min estava novamente no carro, exausto agora. Reuni tudo, dei uma parada para repor as calorias e às 14:00 rumava novamente para o Paraná, dessa vez tive de dirigir sozinho por 16h. 06:30 do dia 24 de julho eu deligava o carro com aquela sensação de euforia, sinônimo de missão cumprida, só no aguardo da próxima. Leia o relato completo aqui.
  5. Olá, pessoal! Em outubro irei passar 14 dias no Amazonas com meu marido, dos quais, 5 dias em Presidente Figueiredo. Estaremos com um carro alugado e gostaria de estender até o Pará ou Roraima, já que não são tão distantes. Alguma dica do que posso fazer em algum desses lugares? Dá pra chegar de carro até lá, alguém já se aventurou?? Obrigada!
  6. Travessia da Serra Fina Full – 3 dias Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia, que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste – conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado... então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora. A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda: aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo. Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar, independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a real beleza que veríamos. Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares, complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui, tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as 23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas, ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa dela e partiríamos assim que possível. Primeiro dia A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas, em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras. Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das 2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA, notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato, o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina. Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o dia que nascia. Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a base da cachoeira vermelha, às 8h. Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha, quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão. Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM, subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado, essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às 12h. Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a 2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO. Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume. Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado, iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos até a parede quase vertical do acampamento base. Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho. Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas, que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour. Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava. A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável. Segundo dia Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e, vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste e a PM compensava o desconforto. Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas, peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior, em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma. Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros, água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume, considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue explorando os arredores da trilha tradicional. Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava, mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada. Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume, havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa passagem, na travessia full anterior. Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às 10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior, à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto, retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé” para cima. Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores... a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4. Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda o faríamos antes de dar o dia por encerrado. CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse, acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião, encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia. Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos agua até o final da tarde do dia seguinte. Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido. Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT. Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera, no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais; ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo, de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho isolante “casca de ovo”. Terceiro dia Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei 3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda, para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de 2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava, apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto uma pequena lagoa, à esquerda da trilha. Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim, tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe “safar a onça”. Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo, buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha. Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas, busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo, do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno. Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante... Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo, mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso. Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos. Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal, e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às 10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h, com o sol rachando tudo e a todos. Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive, atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto do grupo em que estava. O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada. Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem. No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate. Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada, colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h. Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água, imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em generosos goles. Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer, preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada. Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30. Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro. Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas. A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas, mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores, conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento, percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias. Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF, tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente, preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste. Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais, evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de algumas passagens. Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!
  7. Quero fazer a travessia monte Crista até marco da divisa na divisa Paraná/Santa Catarina, procuro companhias, irei acampar um dia no Monte Crista e outro no marco da divisa, data vai ser definida entre os participantes!
  8. Bom dia/tarde/noite aos aventureiros e aventureiras. Apesar de existirem dezenas de relatos sobre a Travessia da Serra Fina, creio que, independente de todos compartilharem do mesmo objetivo (completar o roteiro), também possuímos experiências e perspectivas diferentes das situações que planejamos e encontramos, portanto, como os relatos nos ajudaram muito, retribuirei com minha parte, para quem sabe ajudar próximos aventureiros também. Não tem como escapar, a rotina de trabalho dificulta muito os planejamentos para realizar estes desafios. Juntando a temporada ideal + 4 dias de folga seguidos = feriado prolongado. É grupo em cima de grupo. Você sobe em uma árvore e tem gente sentado no galho que você iria sentar, cava um buraco e sai três trilheiros, pega fila para abraçar a árvore, saem 15 pessoas de Robert na selfie (fica parecendo entrevista de político com os papagaios de piratas atrás) e por aí vai. É lotado mesmo e ponto final. Isso é um problema? Não se você for já sabendo isso. É possível curtir e apreciar tudo sim, afinal é melhor uma Serra lotada do que o metrô de Sampa. Eu e minha companheira Mi ingressamos nas trilhas há alguns anos. Como paulistanos, fomos conhecendo as trilhas mais próximas. Subimos aqui, ali e logo começamos a sentir falta de algo mais imersivo. Descobrimos as inúmeras travessias que podem ser realizadas próximo a SP, principalmente nas divisas de MG e RJ. Já que é o desafio que nos motiva, nos preparamos para a Serra Fina, a travessia mais difícil do Brasil, segundo algumas reportagens. Se é verdade, ou não, explicarei ao longo do relato. Feriado prolongado de 9 de julho, no meio do inverno, em alta temporada, nas férias de julho de muitos trilheiros, previsão de maior frente fria já registrada... Pensamos igual no filme missão impossível: altas chances de fracasso, certeza de explosão, é isso, vamos. Chega de introdução, vamos para o relato. Nosso grupo se define em: Rafael, Miriam, Luan e Charles (guia). Roteiro previsto: 1º dia: saída da Toca do lobo - Pernoite no Pico do Capim amarelo ou Maracanã (01h30m depois) - Aprox. 7 km; 2º dia: saída Pico do Capim Amarelo ou Maracanã – Pernoite Pedra da Mina - Aprox. 7 km; 3º dia: saída Pedra da Mina – Pernoite Pico dos 3 estados - Aprox. 7 km; 4º dia: saída Pico dos 3 estados – Pernoite Sampa City Summit - Aprox. 11 km. Total aprox. 33km. Na prática: 1º dia: Saída do Hostel as 07h com o transfer. Chegada no início da subida de barro as 07h30m aproximadamente. Dependendo do transfer, ele te leva uns 500 metros mais para cima, bom negócio se for possível. Começamos a subir e as 08h estávamos no point inicial. A toca do lobo. Todos se abasteceram de água no nível máximo (4L cada), pois precisaríamos de água para o dia e para a janta, já que o próximo ponto de água seria 01h:30m após o Pico do Capim Amarelo, no maracanã. Tivemos uma breve conversa com o guia Charlinho, no qual explicou o roteiro, dicas, perigos, etc. Partimos para a aventura. 🧗‍♂️ Como previsto, você sobe, daí sobe um pouco, sobe ali, escalaminhada aqui, subiu um trecho, subiu outro, daí tem uma subida e você chega onde? No ¼ da subida do dia. Num trecho famoso, o quartzito. Muita nuvem, mas já bonito e animador. Que tal subir agora? Subiu, subiu e continuamos subindo, até que apareceu um dos cartões postais da travessia. O passo dos anjos. Emblemático trecho que mostra toda crista da serra que vinha pela frente no primeiro dia. Só que aconteceu o que previmos, estava com neblina devido a chuva do dia anterior. Não vimos no ângulo tão sonhado, mas conseguimos uma imagem semiaberta depois que passamos. Paramos algumas vezes para petiscar e adivinha? Subimos mais. Daí aconteceu algo que abalou a todos. Estávamos na trilha quando passamos por uma senhora que estava desacordada. Isso quando já estávamos há mais de 2 mil metros de altitude. Ficamos sabendo depois que ela teve um AVC e inclusive saiu no G1 uma notícia sobre isso. Esperamos que ela esteja bem. Um helicóptero dos bombeiros fez um trabalho espetacular junto dos guias que estavam na montanha. Fizeram uma tremenda força tarefa e conseguiram levar a senhora até o helicóptero, que conseguiram pousar NA MONTANHA. Foi um trabalho de extrema competência. Todos ficaram baqueados, mas seguimos em frente. Fica como um adendo para todos. A montanha deve ser levada a sério. Muito importante estar com exames em dia e se preparar, pois imprevistos podem acontecer, infelizmente. Após este ocorrido, fizemos um lanche em uma área coberta por bambus e já fomos recebidos pelos proprietários da montanha, . Os ratinhos. Chegam a ser bonitinhos, pois são pequenos, como hamsters, mas não deixa de ser um rato, eita bicho medonho e travesso. Já notamos que eles estariam presentes na viagem. Também ficamos chocados com trechos congelados que encontrávamos já na subida. Imagine o frio que estava por vir. Chegamos no capim amarelo as 13h. Um local incrível. Já sentimos muito orgulho de ter iniciado essa aventura. Conversamos sobre o planejamento e decidimos ir para o Maracanã, pois seria mais próximo da água e também do próximo destino do dia seguinte. Ao descer o capim amarelo, o joelho do nosso amigo Luan deu uma esperneada, afinal o dia da ascensão exige muito. Decidimos parar em um bambuzal bastante abrigado, chamam de "avançado". Por volta das 15h já estávamos com as barracar montadas e prontos para um por do sol próximo dali. No fim ficamos sabendo que fizemos boa escolha, perceberá o porquê. Pendure suas comidas e lixos em árvores, pois os ratos causam nesse lugar, como em qualquer outro. Tivemos visitas na madrugada que incomodaram um pouco. Inclusive a barrigueira da Mi foi roída , pois havia o sachê do gel (que é doce) usado, então deve ter vazado um pouco. Tivemos de colocar as cargueiras para dentro da barraca. Deixar no avance deu receio. Aproveitamos e usamos as mochilas para colocar a perna em cima nos locais onde dormimos inclinados. Importante nivelar para não ter dores na madrugada. 2º dia: Sair da barraca já foi o primeiro desafio, pois o frio estava insano. Arrumamos as coisas, tomamos o café e iniciamos o dia. Não adianta, a roupa para o dia depende de cada um. Alguns saem igual esquimó e ficam no efeito cebola o dia inteiro, outros já saem com pouca roupa para fazer menos pausa para tirar. Todas as vezes que coloquei blusa a mais eu me arrependi. Assim que o sol aparece você já começa a sentir calor. Protetor solar eu já passo antes mesmo do sol aparecer, pois nessa altitude o sol judia. 40 minutos após o início da caminhada e avistamos o Maracanã. Os grupos que dormiram ali já estavam saindo também. Para surpresa nossa, todos reclamaram do frio. Congelaram todas as águas que eles tinham nas garrafas. Fez -8º no maracanã, surreal. No bambuzal pegamos uns 0º, tivemos “sorte”. ❄️ Reabastecemos em um ponto de água logo após o maracanã. Fizemos um isotônico do Popeye e deixamos 2 litros de água na camelbak para cada um caminhar, visto que antes do ataque ao cume da Mina haviam 2 pontos de água para reabastecer completo. Desde a primeira subida do dia já podíamos avistar nosso objetivo: a Pedra da Mina. Eita negócio alto. Quando você acha que ela é pequena, você se surpreende ao ver o pessoal mais atleta já subindo com as mochilas fluorescentes. Pareciam 1 grão de areia na montanha. Dia mais agradável de percurso, pois são constantes sobe e desce, diferenciando bem do primeiro dia do Everest amarelo . Logo após o primeiro "mini" cume que passamos já tínhamos uma linda vista do Capim Amarelo atrás. E também conseguíamos ver Marins / Itaguaré no fundo. Que show! Quase chegando na base da Mina, fomos para o ponto de água chamado cachoeira vermelha. Incrível o lugar. Água com muito ferro, por isso dos tons avermelhados. Reabastecemos com água para a janta, pois o próximo ponto de água só aconteceria no dia seguinte após descermos a Pedra. Ao chegar na base da Pedra, passamos por cima da mini ponte do rio que cai 🌁. Ali havia um bom acampamento no qual vimos um grupo já instalado para pernoitar. Era um grupo com roteiro diferente. Eles não dormiam nos cumes, fizeram um outro planejamento. Ali tinha o rio com pessoas abastecendo para a subida, mas eu não acho uma fonte muito confiável. O guia inclusive comentou que pode estar contaminado. É ao lado do acampamento, consequentemente os banheiros também devem ser. Se for pegar esta água, ferva e jogue o clorin como precaução, pois dor de barriga ninguém merece . Iniciamos o ataque. Estávamos pesados com a água, mas suportável. Como todas outras subidas da travessia, esta era mais uma bem estruturada. Sempre com degraus “curtos” formados pelas pessoas. Quase não esticamos as pernas na travessia inteira, pois as ascensões eram todas em pequenas “escadinhas” já formadas. Um agravante seria o barro, muito presente na serra inteira, mas como a temperatura estava hiper baixa, os barros estavam congelados, evitando possíveis deslizes dos pés ao subir. Uma boa perspectiva para ver o tamanho da encrenca com as formigas atômicas fluorescentes subindo. Pausa na subida da Pedra com a vista para o Capim Amarelo a esquerda da foto (ponto onde iniciamos o dia). Chegamos no incrível no cume, que lugar sensacional! Sem dúvidas o pico mais legal de toda a viagem. Bem cheio de barraca, pois haviam os grupos da travessia completa, meia travessia e bate a volta pelo Paiolinho, uma opção bem legal de chegar na Pedra da Mina também. O bom é que há espaço para todos, pois mesmo sem ficar no cume, você consegue ficar logo abaixo dele, 5 minutos de caminhada. O Agulhas Negras já aparecia imponente no parque Itatiaia. Que vista! Pegamos um baita pôr do sol, jantamos e fomos dormir. Nessa noite conseguimos uns goles de cachaça e dormimos mais quentes. Já virou um item indispensável para as próximas travessias. O cobertor de litro salva sua noite.🍹 3º dia: Meio congelado, meio vivo. Era mais ou menos nossa situação. Com certeza fez menos que -5º esta noite. Serra fina do gelo!!! Após o ritual sagrado de desmontar, arrumar e seguir, iniciamos a descida pelo lado de trás da montanha, num visual muito show! O vale do Ruah já se destacava no nascer do sol. Os primeiros raios de sol no Vale refletiam o rio de uma maneira diferente, achamos estranho. Quando chegamos perto que entendemos, o rio inteiro estava congelado. Imagine como foi a noite num dos locais mais frios do Brasil. Há quem diga que bateu -15º. E que lugar muito doido, achamos legal demais. Capim Elefante para todo o lado, barro, labirinto, rio congelado... Parecia um filme! Bom momento para se despedir da bota semi limpa. Ali não tem jeito, você vai usar todas funções da sua bota impermeável. Os grupos seguiram e abasteceram a água em umas cachoeiras mais a frente, mas nós abastecemos antes em uma correnteza que passava no meio do vale. Parecia bem limpa e cristalina, afinal é dali que surge a fonte do Rio Verde. Nome fácil de entender, pensa em uma água transparente e limpa! Atenção!!! É aqui o último ponto de água da trilha, basicamente. Coloque água nas garrafinhas, camelbaks, meias, bonés, toucas, etc. 🌊. Saímos com 4 litros e pouco cada um (para caminhada do dia, jantar e caminhada da volta). Foi o suficiente, mesmo fazendo macarrão a noite. Também passamos por mais cristas, muito lindas por sinal, em direção ao cupim de boi. Da pra entender o porquê do cupim de boi. É esta montanha menor que está um pouco abaixo do Agulhas Negras. A montanha a direita é a cabeça de touro. Bem alta e imponente, mas é um passeio a parte. Do cupim, partimos pelas cristas até a montanha mais alta a esquerda, que já é o Pico dos 3 estados. Pedra da Mina ficou para trás... A caminho do cupim do boi a esquerda. Chegando no topo do cupim, fizemos um almoço com vista para o Pico dos 3 estados de um lado e todo o parque do Itatiaia do outro. Vista incrível!!! O Agulhas Negras estava nítido, mesmo há bons km’s de distância. Dica: Levem filtros de lente UV e Polarizados para a câmera. Eu esqueci a minha câmera no transfer, sorte que a Mi tem uma super potente com um zoom sinistro, mas as fotos ficaram azuladas com a luminosidade da altitude. Energias renovadas, partiu 3 estados. Trilha nota 10. Escalaminhadas só próximo ao cume. Nenhuma pernada longa, escalaminhamos porque no final estava mais íngreme e escorregadio, mas não havia exposição. Mais uma montanha top 10 Brasil na listinha pessoal!!! Rolou aquela vida “chata” de bater papo sentado nas pedras do cume, vendo o pôr do sol, tomando um refresco, se preparando para o jantar e rindo dos perrengues da trilha. Depois disso caímos no sono. Noite bem tranquila, local abrigado por capim, então rolou pouco vento, foi bom o descanso. Não esquecendo nunca daquela boa olhada no céu MUITO estrelado e das cidades brilhando bem longe. Que cenário show! 4º dia: Já acordamos naquele ar de: Será que tô feliz por conseguir chegar até aqui? Triste por ir embora? Feliz por chegar perto de um banho? Triste por pensar na rotina de SP voltando? Não tem segredo, o jeito é curtir o momento. E esses momentos são incríveis todos os dias da travessia. Todos têm suas particularidades e belezas diferentes. Nascer do sol de praxe... Despedida da montanha e partiu dia mais longo (11 km). Como diz a Mi, subir é sempre mais difícil, em tudo na vida, mas na serra fina não tem nada fácil. Até o descer é difícil, pois os joelhos já estão cansados dos 21 kms já percorridos e o esforço da constante descida é ainda mais doloroso para os joelhos do que a subida. Mesmo já não estando tão pesado. Tínhamos quase 1,8L cada em média para o dia até a última fonte, que já é próxima do fim. Sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce até que avistamos a última subida da viagem. Até comemoramos quando subimos, pois para quem tem joelho meio abalado, subir é melhor que descer. Chegamos no Pico dos Ivos, mais um dos muitos picos de 2400+ que passamos. Paramos para o lanche, fizemos a selfie da equipe e voltamos para a descida. Se tivesse uma tirolesa do pico dos 3 estados até a fazenda pierre, seriam 2 horas na corda de aço eita descida interminável! Aos poucos a vegetação foi mudando, brigamos com os bambuzinhos (use capa nas mochilas e proteja seu isolante, pois a treta é brava) e a mata mais fechada surgiu. Incríveis bons km’s no meio da mata, show de bola! Nossa água deu na medida. Acabou a hidratação minutos antes da última fonte de água antes da saída. Já batia um sentimento de saudade da montanha. Andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, chegamos na mansão do Pierre. Olha só, chegamos! Não, não chegamos. Ainda tinham uns 2 km, eita! Meu joelho, que vinha tão bem, já começou a me questionar o pq eu estava fazendo isso com ele e decidiu resmungar, mas isso ficou de lado e foi só comemorações e orgulho do corpitcho que, apesar de um pouco acima do peso, conseguiu aguentar essa travessia incrível. Chegada... Óbbbbvvviiioo que brindamos com a cervejinha na casa e fomos para o transfer. Pensa numa cerveja merecida! Fim... Vou deixar informações abaixo sobre o que utilizamos. Minha companheira Mi, que a todo momento ficou ao meu lado, foi um exemplo de força, determinação e comprometimento. E claro representando as mulheres, que já são mais fortes e corajosas 💪 por natureza. Senti muito orgulho de poder participar de momentos como esse. Certos ensinamentos e pensamentos só são apreciados de verdade na montanha, quando estamos na hora da dificuldade, na hora da esperança e também na hora da vitória! Luan, um parceiro que surgiu do boteco e com certeza perdurará muitos anos, tanto nas trilhas, como nos botecos também, óbvio. Sempre agradável e solicito, um rapaz de futuro! Charles joelhos de aço, nosso guia atleta, que nos ajudou a todo o momento e deu o suporte que precisávamos. Além de cada dia tirar uma surpresa da mochila para comemorar. Nosso muito obrigado! Um exemplo de que todos nós podemos realizar nossos desejos e enfrentar nossos medos. Menino, menina, homem, mulher, idoso e idosa. Vimos todos juntos nas trilhas, se unindo e se incentivando. Bonito de se ver o respeito, educação e limpeza que os guias pregam para todos, proporcionando uma montanha agradável, limpa e o menos impactada possível. Se você tá em dúvida se aguenta, se é bonito o lugar, se vale a pena... pode parar por aí. Se prepare, se equipe com materiais de qualidade e partiu! A Serra Fina é possível para todos! Equipamentos necessários /// utilizados: · Mochilas cargueiras 70L ou mais. Item primordial, pois temos escassez de água e trajetos relativamente longos. A capacidade e ergonomia precisam ser consideradas com seriedade. Invista na sua cargueira /// Cargueira Deuter Aircontact Lite; · Sacos de dormir conforto 0º ou -5º /// Deuter Orbit -5. Foi mais do que o suficiente. Deu conta dos -9º que passamos. Não vacile com o saco de dormir, pois hipotermia é perigoso de verdade; XXX · Isolante Térmico. /// Naturehike modelo inflável Nylon TPU. Ótimo custo benefício. Isolantes tapetes também são ótimos. Ideal os de 1 cm de espessura, pois o chão é muito frio e úmido; · Bastões de caminhada. Joelhos agradecem! Acho primordial. /// Bastão de Trilha Arpenaz 200 Quechua. Modelo ok, até que aguentou, mas possuem bem superiores no mercado; · Travesseiro. Fica ao critério de cada um. O ideal é inflável para ocupar menos espaço e peso. /// Naturehike dobrável; · Barraca 2 ou 3 pessoas. Quanto mais leve e bem projetada para ventos, melhor. /// Naturehike Cloud 2p. As vezes sentimos falta de espaço, pois eu e a Mi somos relativamente altos (1,83 e 1,70), mas no frio isso não é um problema. XXX · Lanternas de cabeça e de punho. Tem que ter ou vc só funciona até o por do sol. Item obrigatório. XXX / Importei da china, nem sei o modelo, mas vale dar uma investida. · Kits cozinha: fogareiro, gás, panelas, talheres, papel toalha, álcool em gel, pratos, etc. · Botas. Impermeáveis, confortáveis e com ótima aderência (para as escalaminhadas cheias de barros e pedras). Se for nova, amaciar antes da viagem! /// Salomon Mid GTX; · CamelBak ou Garrafinhas. Vai do gosto de cada um. Gosto da praticidade da camelbak, pois você se hidrata sem parar. /// Modelo chinês, 2L. Paguei barato e deu problema na torneirinha. Aconselho investir um pouco, pois perder água por vazamento numa travessia com escassez de fontes não é nada agradável. · Cobertor de alumínio para emergências; · Roupas: Corta-vento, Jaqueta e calça impermeável, camisetas de manga comprida com proteção UV, meias para trilha, luvas (ajudam a escalar também), touca e boné, Buff (proteção UV para nariz, boca e nuca); Tudo de secagem rápida e o mais leve possível. · Protetor solar para rosto e boca. Refeições: Tudo sempre prático, que utilize pouca água de preferência e que tenha alto valor nutritivo. Na próxima viagem levarei ovos para o café da manhã. Desta vez não levei e fez bastante falta. Não fizemos almoço, apenas parávamos e comíamos os petiscos em maior quantidade e hidratávamos com isotônico em pó diluído na água (excelente negócio!!!). Uma boa dica é variar o máximo possível. Fizemos os lanches com queijo e mortadela. O ideal é fazer no mínimo 2 sabores para não enjoar. Também não tomávamos um café muito elaborado, pois acordávamos muito cedo para caminhar e nessa hora o apetite não é dos maiores. Sempre se hidratando o máximo possível. Carregávamos 4 litros de água por dia para cada um. Também ingeríamos algo a cada 1 hora, para sempre manter energia. · Primeiro dia: o Café da manhã no hostel: Bolo de queijo, diversas frutas, sucos e café (caprichado, pois estávamos com o carro ainda); o “Almoço”: lanche; o Jantar: Risoto de queijo, frango em pedaços e legumes. Tudo pré-cozido. o Petiscar: 4 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 2 Carb-Up em gel. · Segundo dia: o Café da manhã: 2 bisnagas com presunto e queijo e café; o “Almoço”: lanche; o Jantar: macarrão, molho vermelho, calabresa e bacon; o Petiscar: 4 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 2 Carb-Up em gel. · Terceiro dia: o Café da manhã: 2 bisnagas com presunto e queijo e café; o “Almoço”: lanche; o Jantar: macarrão alho e óleo, calabresa e bacon; o Petiscar: 4 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 2 Carb-Up em gel. · Quarto dia: o Café da manhã: 2 bisnagas com presunto e queijo e café; o “Almoço”: lanche; o Petiscar: 2 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 1 Carb-Up em gel. o Jantar na humilde residência XXX. Guia: Charles Llosa. Muito experiente na montanha, nota 10! - 35 9917 9001 Transfer: Leleco, gente boa, carro 4x4 (necessário) e pontual. - 35 9747 6203 Hospedagem: Hostel e Pizzaria Serra Fina. Falar com Felipe. - 35 99720 3939 Dúvidas só perguntar que respondo. Abraços.
  9. Boa tarde, pessoal!! Alguém sabe me dizer qual calçado seria mais adequado para fazer a travessia dos lençóis maranhenses (4 dias de caminhada na areia, passando por lagoas)? Várias pessoas sugeriram as papetes, mas fiquei pensando se aqueles tênis híbridos (servem para água, areia e asfalto) não seriam melhores. Não vi ninguém indicando ou contraindicando... Obrigada!
  10. RELATO TEXTÃO 😜 da minha travessia pelos lençóis maranhenses, com o grande "tchan" de ser a ideal para sedentários (que tenham disposição, claro)! (Mais fotos e outras viagens no Insta: @marcos.nak 😉) Você é do tipo que fica esbaforido ao subir uma duna? Eu sou, quase todo mundo é. Mas, se ao chegar ao topo e ver as lagoas, seu cansaço se transforma em encantamento e vontade de fazer de novo, então você consegue fazer este trekking! Todos os relatos que eu havia encontrado mostravam uma travessia longa de 3 dias de duração, saindo de Atins, mas eu tinha receio de ficar muito cansativo e acabar perdendo o objetivo, que era curtir, e não "sofrer"😎! Então, dado que eu só tinha 2 dias e estava em Santo Amaro, e depois de conversar com o guia, decidi fazer como ele indicou. Não me arrependo de jeito nenhum! Ficou assim: . 1) Fomos de Santo Amaro até a lagoa de Emendadas de quadriciclo, e lá vimos o sol nascer (14 km). A cena foi linda, e a escolha da lagoa se deu pela duna imensa, de onde se tem a vista mais panorâmica. É sério, debaixo da duna você já fica maravilhado, pela imponência. Lá de cima, não fosse o vento muito forte, poderia passar horas. Depois do belo nascer do sol, começamos a caminhada. 2) Andamos até Betânia, passando pela incrível lagoa do Junco (18 km). Eu sei, falar em andar 18 km na areia, subindo e descendo, sem sombra, parece loucura, mas eu fiz numa boa e não sei explicar por quê. É um misto de encantamento e empolgação que faz a caminhada ser fácil. Além disso, cara, cansou? É só deitar na areia e rolar, que logo vc cai numa lagoa 😂😂😂! A lagoa do Junco só é acessível a pé, e por isso a maior beleza do parque está exclusiva aos poucos corajosos que encaram a caminhada. No caso, eu tive ela e infinitas outras só pra mim! No caminho, encontramos ninhos de gaivotas e rastros de vários animais. Um fato interessante é que a lagoa do Junco é nova. Eu havia lido vários relatos de que a lagoa das cabras era a mais linda de todas, e o guia prometeu me levar até ela. Aí, num momento em que cruzávamos uma areia molhada com plantas, ele disse: "Você está em cima de onde já houve a lagoa das cabras!" 😮 QUIK_20180913_181331[1].mp4 3) No horário do almoço, chegamos a Betânia, onde passei a tarde e a noite. Na verdade eu nem conheci o vilarejo de Betânia, pois fiquei hospedado num restaurante isolado entre uma mata e um rio. É o mesmo restaurante onde os turistas do passeio a Betânia almoçam. Chegamos e já almoçamos. O guia disse que eu teria a tarde livre para descansar na rede e curtir o rio, mas eu não quis saber, pedi pra ir pra alguma lagoa (como se eu já não tivesse tomado muito banho de lagoa hehe). Aí (ele tinha um acordo de pegar caiaque gratuitamente no restaurante), atravessamos o rio de caiaque e ele me deixou numa lagoa incrível, onde uns turistas inconvenientes faziam algazarra 🙄. Aproveitei pra fazer uma caminhada pelas dunas ao redor, e assim que eles partiram eu tive a lagoa inteira só pra mim, onde fiquei horas curtindo, até o sol começar a descer. Foi delicioso! O guia chegou para me acompanhar no pôr do sol, subimos uma duna e ficamos até escurecer, e passamos um tempão apreciando o céu mais estrelado que já vi na vida! 🤩Ele tem um celular foda e é um excelente fotógrafo, e tirou fotos incríveis e me mostrou os planetas e as constelações num aplicativo que vc aponta pro céu e reconhece as estrelas. Depois, voltamos de caiaque pelo rio, num breu quase absoluto, pois a lua também havia se posto. Paramos um pouco de remar pra curtir o silêncio e o céu, e foi sensacional. Ao chegarmos ao restaurante, acredite!, havia uma belga e uma alemã (muçulmana, todo coberta), que também estavam em travessia e passariam a noite lá. Nosso "quarto" era uma palhoça com redes onde os clientes descansam após o almoço. Não tem paredes, o que fez as gringas passarem trezentos tipos de repelentes, mas a dona garantiu que, sabe-se lá por quê, não há pernilongos ali, e de fato nenhum inseto nos incomodou. Foi muito engraçado quando a belga subiu na rede e descobriu que a rede balança. Logo ela e a alemã estavam tomando impulso e se chocando uma na outra! É claro que eu filmei e coloquei no vídeo! 😂😂😂 QUIK_20180913_203058[1].mp4 QUIK_20180913_203058[1].mp4 4) De manhã, passeamos pela região (8 km) Depois de uma noite mal dormida na rede (não tenho costume e sou fresco pra dormir), acordei às 4h para ver o sol nascer. Mais uma vez atravessamos o rio a caiaque e subimos uma duna para apreciar o espetáculo, que infelizmente mais uma vez foi prejudicado pelas nuvens. Percebi que o dia amanhece meio nublado e as nuvens se dissipam durante a manhã. Outra coisa impressionante é a variação térmica da água, que amanhece gelada e anoitece morninha. Depois de clareado o dia, andamos 8 km pela região curtindo novas lagoas. Voltamos à hora do almoço (caiaque) e dei uma relaxada na rede e curti um pouco o rio. 😎 5) Voltamos a Santo Amaro (9 km) Partimos às 15h30. A volta foi bem tranquila, mas como meu pé começava a reclamar, eu preferi fazer mais paradas e ficar menos tempo em cada lagoa (não se assuste, é só um pequeno cansaço). O guia me levou a uma duna alta já no fim da tarde, para curtirmos o pôr do sol. Depois que escureceu e curtimos um pouco o céu estrelado, caminhamos alguns minutos no breu total e chegou um amigo dele pra nos dar carona até a cidade. QUIK_20180913_180443[1].mp4 QUIK_20180913_180443[1].mp4 Foi uma experiência inesquecível. Cada parte teve uma importância imensa pra mim: o dia, a noite, o cansaço, o descanso, a companhia das meninas e do guia, os momentos a sós (confesso que temi sentir solidão, levei vários ebooks e filmes no celular, e nem encostei nele. Simplesmente eu consegui amar ficar horas sem pensar em nada nem ninguém, só curtindo o momento). . Os lençóis maranhenses são uma beleza única no MUNDO e mesmo assim poucos conhecem. E o que mais impressiona é a abundância de belezas, por isso quando me peguei pensando: "Ah, a lagoa X eu não gostei muito!" eu lembrei: "Isso porque são infinitas lagoas pra eu poder escolher minha favorita. Se fosse só areia e houvesse só essa lagoa X, eu diria que é incrível! Aliás, se fosse só o rio que eu pouco aproveitei já valia o passeio!" 😂 . O melhor de fazer a travessia em vez dos passeios coletivos é poder ter o contato exclusivo com a natureza, seja a areia, as lagoas, o céu, o rio, o sol... tudo está lá pra você, e sem pressa de ir embora como nos coletivos porque "temos um monte de lugar pra ir e tirar foto e aquele turista inconveniente do grupo tem que voltar mais cedo pra não perder a van"... Sabe?
  11. Boa tarde. Tenho interesse em realizar a travessia da Serra Fina no feriado prolongado de 6 a 9 de julho. Por enquanto sou eu e minha esposa. Talvez mais 2 colegas. Encontrei algumas agências que já possuem pacotes, mas o valor está um pouco acima do planejado (acima de 1k), portanto caso alguém esteja formando um grupo, queira formar um grupo ou que conheça um guia experiente, mande um oi o/ *** Edit: conseguimos formar um grupo com guia especializado no local e possui 1 vaga. Valor bem mais em conta que por agência. Interessados me mandem msg. Abraços.
  12. Pessoal, alguém tem indicação de guia que faz a travessia a pé nos Lençóis Maranhenses? Muito obrigada.
  13. Saudações, povo da mochila. Compartilho aqui relato de uma curta passagem pelo Parque Nacional do Itatiaia no início de maio, junto com minha esposa. Já fazia uns três anos que planejava visitar o Parque, mas indisponibilidade de datas e outros compromissos postergaram a visita. Felizmente, por ter trabalhado nas Eleições/2018, consegui certo número de dias de folga e utilizei dois na sequência do feriado do dia do Trabalhador (1º de maio), que caiu numa quarta-feira. Minha esposa tinha alguns dias de folga para tirar também e dessa forma conseguimos estender um feriado para cinco dias, e seguimos o seguinte cronograma: 3ª feira (translado): Brasília-Campinas; pernoite em Campinas 4ª feira (dia 01): Campinas>Itatiaia ; Pedra do Altar 5ª feira (dia 02): Agulhas Negras 6ª feira (dia 03): Prateleiras ; Pernoite em Maromba (RJ) Sábado (dia 04): Travessia da Serra Negra (1ª parte) Domingo (dia 05): Travessia da Serra Negra (2ª parte) ; retorno à Campinas; pernoite em Campinas 2ª feira (translado): Campinas-Brasília Optamos por ir por Campinas pois os preços das passagens estavam mais atraentes e a distância e tempo de viagem não aumentavam tanto (40min). Em Campinas alugamos um carro: Fiat Mobi na Foco. É a segunda vez que alugamos um Mobi, não apenas por ser mais barato, mas também por ser bastante econômico (em nossa viagem para Paraty percorremos 700km com um tanque, usando Etanol!). A Foco apresentou os melhores preços mas o ponto negativo é que as lojas ficam fora do Aeroporto, então para quem tem pressa ou horário apertado, recomendo avaliar. Entretanto, a Foco Campinas oferece transporte numa Van para os clientes e o tempo de deslocamento é entre 10 e 15 min. Ainda que eu goste de viajar de ônibus, as opções de horários e pontos de parada para a região do Itatiaia são poucas e péssimas, fazendo com que alugar o carro seja o melhor custo-benefício. Equipamento: Optamos por pernoite no Abrigo Rebouças e em quarto na Pousada Pico da Serra Negra (com janta e café da manhã). Pernoitar no Rebouças nos ajudou também a otimizar nosso tempo, evitando, por exemplo, ir e voltar do PARNA para fazer Agulhas e Prateleiras, além de andarmos mais leves durante a travessia. Com os pernoites no Abrigo e em quarto na Pousada, pudemos levar o mínimo de equipamento e peso possível, apenas o necessário. Essa escolha nos possibilitou utilizar, durante as atividades, uma Mochila 43L e uma Mochila 36L. Para o despacho dos equipamentos que foram usados no Abrigo Rebouças (sacos de dormir, vestuário, utensílios de cozinha, etc) acabamos utilizando minha mochila de 65L. Nessa hora senti falta de um Duffel, que tornaria tudo mais simples e prático rsrs Para cozinhar, levamos um fogareiro Nautika Apolo, um kit de panela da Quechua, talheres e outros acessórios. Quanto ao gás, como é proibido o despacho de material inflamável no avião e o Abrigo Rebouças não disponibiliza botijão, a saída foi comprar um botijão TekGás em Campinas e mandar entregar no hotel. Comprei pela internet na Corricos (www.corricos.com.br) e, por telefone, negociei uma entrega rápida. Fui muito bem atendido pela equipe da loja e providenciaram a entrega no hotel através de um motoboy. Como o Itatiaia é conhecido por suas noites frias, levamos nossos sacos de dormir -5ºC de conforto. Passamos calor. Para quem fica no abrigo, acredito que um de conforto 0ºC ou +5ºC é suficiente. Para quem vai de carro e pode levar, uma opção é levar lençol e cobertas. Para a travessia da Serra Negra, levamos apenas nossas roupas (camadas de aquecimento e para dormir, Crocs pendurados nas mochilas), água e alimento para 3 dias. Como estávamos sozinhos e não cruzaríamos com outros grupos, levamos também uma barraca de emergência e dois sacos de emergência, pois o peso é insignificante e são extremamente úteis em uma eventual necessidade. Estávamos com GPS de mão, e como backup, celular com App de navegação. O Abrigo Rebouças: O Abrigo Rebouças possui energia elétrica mas não possui - ainda, vamos ver como ficarão as coisas após a concessão - nenhum serviço de alimentação, não oferece botijão de gás, apesar de haver um fogão industrial, e não possui chuveiros quentes nem geladeira. A diária sai R$ 35,00 por pessoa, sendo necessário realizar reserva entre 30 a 7 dias de antecedência da data de entrada. A estrutura é de abrigo de montanha, com quarto e banheiros compartilhados. As camas são em beliche, havendo um gavetão para cada pessoa, localizado abaixo da cama inferior. A estrutura, apesar de rústica, é bastante confortável. Inicialmente havíamos planejado dormir três noites no Abrigo Rebouças e pegar um táxi de Maringá para o PARNA no final da travessia, para recuperar o carro. Entretanto, após conversar com o taxista Marquinhos (tel/whats 35 8428-1059), preferi pernoitar em Maromba no dia anterior à Travessia e deixar o carro na pousada. Assim ficamos menos dependentes de terceiros e horários para retornar a Campinas. 1. Chegando…e já saindo Saímos de Brasília na noite de terça-feira, em voo com escala da Azul. Chegando em Campinas, fomos resolver o aluguel do carro. Chave nas mãos, fomos primeiramente comprar mais algumas coisas no Extra e depois para o Hotel Casablanca (http://www.hotelcasablanca-campinas.com.br/). O hotel é bastante agradável, com ótimo custo benefício, bom café da manhã e estacionamento grátis. Apesar da correria conseguimos descansar bem e acordamos cedo no dia seguinte para tomar um bom café-da-manhã e, às 8h, sair rumo à parte alta do Parque. A estrada é movimentada, mas excelente. Os pedágios...são aos montes - não esqueça de levar dinheiro para isso! Pouco depois do meio-dia já estávamos no Graal Alemão, onde paramos para abastecer e almoçar. O preço da gasolina estava bom; o da alimentação, caríssimo. Como não sabíamos se haveria restaurante mais acima, acabamos comendo lá mesmo. Mas para você que está lendo, fica a dica: em Engenheiro Passos há banquinhas e restaurantes bastante convidativos, talvez o maior e mais movimentado seja o Restaurante do Juquinha. De Engenheiro Passos até o Posto Marcão é curva que não acaba mais. Felizmente a estrada estava ótima, com asfalto e pintura recentes. Mas isso até a Garganta do Registro, onde começa a estrada que leva da rodovia até o Posto Marcão. Estrada ruim, mas transitável para qualquer veículo. Para um Parque tão movimentado quanto o de Itatiaia, já deveria ter sido melhorada. Entre 1ª, 2ª e raros momentos de 3ª marcha, pouco antes das 14h estávamos no Posto Marcão. Fizemos o cadastro, pagamos o ingresso, pegamos a chave e fomos largar as coisas no Abrigo. O estacionamento estava movimentado, pois um grupo do Exército estava fazendo reconhecimento para uma futura atividade de treinamento. Havia carros, tendas, caixas e muitos soldados. No abrigo estava tudo calmo, apenas sinais de duas pessoas. Pudemos escolher com tranquilidade nossas camas e organizar alimentos e equipamentos. Como ainda estava cedo, resolvemos ir para a Pedra do Altar. Saindo por volta das 15:30, cruzamos com o casal que estava no abrigo, voltando de um caminhada. A trilha para a Pedra do Altar sai (também) do Rebouças e segue parte da trilha para o Agulhas Negras. Em alguns pontos, sinais da sinalização rústica da Transmantiqueira. A trilha é bastante tranquila, sem lances técnicos. Fomos com bastante calma e apreciando a paisagem e pouco antes das 17h estávamos no cume da Pedra do Altar. O céu ensaiava o pôr-do-sol e um forte vento soprava, mas tínhamos a montanha e toda a vista só para nós: de lá apreciamos Agulhas Negras, Asa de Hermes, Couto. Na descida fomos presenteados com o Agulhas Negras tingido de laranja. Pouco tempo depois de passarmos a ponte pênsil a noite caiu. Sacamos as lanternas e seguimos para o Rebouças, atrás de um grupo que voltava do Agulhas. A noite não estava tão fria e a água gelada do chuveiro não foi tão ruim. De qualquer forma, o banho nessas situações é tomado aos poucos: mãos, pé, cabeça, pernas, tronco, e por último as costas rsrs. No abrigo, novas pessoas. Além do casal havia agora um grupo de aproximadamente 10 pessoas que fariam a Travessia da Serra Negra no dia seguinte. Descobrimos que a cozinha do abrigo ficou pequena para tanta gente, e ainda por cima gente espaçosa: São apenas duas mesas grandes com bancos. Com muito custo conseguimos um espaço para fazer nossa janta e comer com calma. Fizemos o bom e velho macarrão com atum, acompanhado de chá. Acabamos indo dormir cedo. Infelizmente a noite foi barulhenta: roncos, despertadores tocando de madrugada sem que seus donos - ou os amigos dos donos - desligassem. Pense você: o despertador tocando quase 10 minutos, as pessoas do grupo acordando e discutindo de quem era o celular, e ninguém se movendo para desligar. Em um rompante de indignação com a inação e incapacidade das pessoas de conviver no coletivo, desci da beliche, abri a mochila alheia e desliguei o celular. “Desculpa gente, mas se ninguém desliga eu desligo”. Voltei a dormir, para 1 hora mais tarde acordar com o barulho dos soldados na área externa. 2. Agulhas Negras Café-da-manhã tomado, cuscus paulista para o almoço devidamente preparado, nos arrumamos para o Agulhas Negras. Por volta das 8:30 o guia Carlos da Barba Negra Aventuras (Telefone: 24 998235501), chegou no abrigo e às 9h partimos para o Agulhas Negras. O tempo estava nublado, mas o horizonte estava limpo: tempo perfeito! Nossa progressão foi tranquila e rápida até a base do Agulhas. A partir da primeira rampa o ritmo foi mais devagar, o que era esperado. O Carlos nos conduziu em ritmo muito bom e com toda a segurança. Não me prendi muito a marcar o tempo, pois estávamos ali para curtir o local e a ascensão. Que paisagem. O Agulhas é realmente um lugar muito único e considero uma das montanhas mais bacanas que já subi aqui no Brasil, pelos seus muitos lances de 'escalaminhadas' e por exigir mais que a simples caminhada. Apesar de não ser uma montanha com muitos lances expostos, pode causar medo e vertigem em algumas pessoas e, para quem não está fisicamente preparado, pode ser exigente. No cume, tínhamos novamente a montanha só para nós. Essa foi a primeira vez da minha esposa em montanha, e mesmo com receios e incertezas encarou o desafiou. Comemos algo e aí Carlos e eu fomos para o cume verdadeiro. Assinado o livro, voltamos, tiramos algumas fotos e iniciamos a descida, também em ritmo bem tranquilo, sem pressa, sem ansiedade. Chegando no Rebouças nos despedimos do Carlos, que nos encontraria no dia seguinte para irmos ao Prateleiras, e entramos. O banho dessa noite foi um pouco mais sofrido, pois estava mais frio que na noite anterior. Mas tudo bem, água fria ajuda na recuperação muscular rsrsrs. Após o banho, fomos jantar. O cardápio do dia era purê de batata instantâneo com lombinho defumado. Nessa noite o abrigo estava mais agradável e espaçoso. O grupo grande havia partido, e agora estávamos nós, o outro casal, e mais um casal que havia chegado. Só gente bacana, e bom papo rolando. A noite foi bem mais tranquila e silenciosa, inclusive porque a atividade do exército já havia terminado. No cume verdadeiro do Agulhas Negras. 3. Prateleiras Café-da-manhã tomado, cuscus paulista para o almoço devidamente preparado, nos arrumamos para o Prateleiras. Mochilas prontas, chave do abrigo devolvida na portaria. Acabamos saindo mais tarde, umas 9:30. Eu havia alimentado uma possibilidade de fazer Prateleiras e Couto nesse dia, mas como atrasamos a saída, o Couto ficou para uma próxima. A trilha até a base do Prateleiras é tranquila e muito bonita, como é toda a parte alta do Itatiaia. Os vales que se descortinam são dignos de receberem gravações de filmes como Senhor dos Anéis e o Hobbit. A trilha que sai do Rebouças, segundo consta, era uma antiga estrada que cruzava o parque. Tanto é que parte dela é asfaltada. Rapidamente se chega à base do Prateleiras e é aí que começa a diversão. Apesar de mais baixo, sua ascensão é muito mais desafiadora e exigente: pedras para subir, pedras para descer, fendas, rastejo. Para quem não está acostumado, pode dar uma abalada. Apesar disso, indo com calma e com um bom guia, não há razões para se apavorar. Chegando na parte final, no primeiro trecho onde se recomenda o uso de cordas, Ana já estava cansada física e mentalmente, e decidida a ficar. Carlos então subiu e montou a corda para eu subir. Passamos rapidamente o pulo do gato e os demais trechos e enfim, cume. Que vista! Um carcará solitário numa das pontas nos observava, e observava a paisagem, certamente procurando uma presa. Vista incrível a partir do Prateleiras. Ana e eu na base do Prateleiras. Ficamos algum tempo ali e Carlos me mostrou as ancoragens do rapel que é possível fazer dali, ao invés de descer pela trilha. Voltamos e encontramos a Ana e descemos para uma fenda onde almoçamos. Iniciamos o retorno e pouco antes das 15h estávamos no Rebouças. Acertamos o pagamento e nos despedimos. Pegamos o carro e partimos para Maringá (RJ). Se for seguir esse roteiro, recomendo demais se planejar para chegar em Maromba antes do pôr-do-sol. São 2h30min até lá e a estrada é bastante sinuosa, com trechos estreitos e o asfalto nem sempre conservado. Chegamos em Maringá às 17:45 e já estava escuro. Seguimos direto para a Pousada Santa Clara, que fica próxima à cachoeira Santa Clara e ao Restaurante Truta Rosa. Havia reservado um quarto com a Maria Margarida (24 992690350), bastante simpática e solícita. A pousada é bem bacana, quartos limpos e confortáveis. Deixamos as coisas, tomamos banhos e fomos jantar. O centro de Maringá é bem bacana e agradável, bastante organizado. Por recomendação do pessoal da pousada fomos no restaurante Paladar da Montanha. Apesar do prato típico ser a truta, optamos por uma picanha na chapa. Prato muito bem servido e preço muito bom. Maringá estava tão agradável que Ana quase me convenceu a ficar lá rsrs mas como sou obstinado, fui fiel ao planejamento. A região da pousada é bem agradável e silenciosa. Dormimos muito bem. 4. Travessia da Serra Negra - Pt. I Acordamos às 5h. Já havia deixado todas as coisas separadas e o que não ia ser útil, na travessia foi para o carro. Maria Margarida gentilmente adiantou o café para nós. No estacionamento, vi um táxi de Itamonte que só podia ser o Marquinhos. Ele saiu tarde da noite de Itamonte e pernoitou no carro. Convidamos ele para tomar um café. Apesar de relutar um pouco, acabou aceitando. Às 6:30 saímos da pousada com destino ao Posto Marcão. A estrada estava tranquila e o Marquinhos é uma ótima pessoa e ótimo motorista, bastante prudente, e muito bom de papo. Deu uma aula sobre as possibilidades de passeio e lugares para visitar na região. Às 8:40 estávamos no Posto Marcão. Papéis preenchidos, cantis abastecidos, iniciamos a caminhada às 9:40. Escolhemos iniciar via Circuito dos 5 lagos, pois o outro lado, do Rebouças, já conhecíamos. A trilha já começa com uma subida, que vai ficando gradual. Nada muito intimidador, mas já dá uma agitada. O visual na primeira parte é muito bonito. O campo, lagos e o Agulhas Negras ao fundo é realmente fascinante. Depois começam os trechos nos lajeados, que dão um pouco mais de trabalho. A sinalização aqui não é das melhores e a progressão não foi muito rápida. A referência de direção é a Pedra do Altar. No início da Travessia da Serra Negra, via 5 lagos. No início da Travessia da Serra Negra, via 5 lagos. Chegando na bifurcação da Pedra do Altar, toma-se o rumo da Cachoeira do Aiuruoca. Segue-se em single-track em terreno bom, com algumas pedras, mas aqui avançamos bem. Há um ponto de água muito limpa. Infelizmente a área ao redor está visivelmente erodida e é necessário alguma intervenção. Acredito que uma ponte/pinguela aliviaria a pressão. Andamos bem até chegarmos na próxima placa, apontando a direção da Serra Negra, Cachoeira do Aiuruoca e Rancho Caído. Tomamos mais à esquerda e prosseguimos. Passamos por um trecho mais fechado, uma espécie de taquaral, até sairmos e ter a primeira visão da Cachoeira do Aiuruoca lá embaixo, onde um grupo que seguiria para o Rancho Caído banhava. Paramos para comer um pão com patê de atum e frutas secas. De lá partimos, desfrutando do belo visual do alto da serra. Não sei precisar o tempo, mas depois a trilha entra na mata fechada e assim vai por muito tempo. A trilha está bem demarcada, não deixando muita margem para erros, a não ser na área chamada de “Invernada”. Aqui duas vacas pastavam tranquilas e nos observavam quando nos aproximamos e, para trás, fica um enorme lajeado por onde cai uma cachoeira. A sinalização na invernada não está presente (ou apagou com o tempo) e, se não estivéssemos com GPS, poderíamos ter nos perdido, como já aconteceu com outros grupos. A trilha aqui segue na beira do barranco onde está a cabana, descendo e cruzando o córrego. A partir daqui ela fica bem visível. Pouco tempo depois encontra-se o rio Aiuruoca, onde pode-se abastecer as garrafas e, para os corajosos, tomar um banho. A trilha volta para a mata e por ela vai. Na área da Cabanas do Aiuruoca, um pouco de luz. Na ocasião dois rapazes estavam trabalhando na estrutura, dando a impressão de que a área será reativada como local de pernoite. Lá avistamos mais uma marca da Transmantiqueira. Seguimos pela trilha, um carreiro bem largo que aparenta ser uma estradinha. E aí foi pela mata até finalmente chegarmos na Sônia, às 17:30. Foram pouco mais de 7h30min, em um ritmo bem tranquilo, principalmente nas descidas, pois o joelho da Ana estava começando a doer. Chalés na Pousada Pico da Serra Negra, propriedade da Sônia. Fomos muito bem recebidos na Pousada Pico da Serra Negra pela Sônia e seus irmãos. Um deles trabalha na Posto Marcão ( e foi quem nos recebeu no nosso primeiro dia quando chegamos no PARNA), o outro é guia e também faz o serviço de levar seu carro até Maringá (R$ 250,00+R$15,00 do estacionamento). Nosso quarto já estava preparado e era bem agradável. Gosto muito de camping selvagem, mas confesso que o um quarto bacana com cama boa e chuveiro quente é algo difícil de resistir. Fizemos nossos alongamentos, tomamos banho e a noite já havia chegado com um céu bastante estrelado. O pessoal preparou uma janta reforçada com truta frita. Uma delícia! Bem alimentados, parti para a sessão de convencimento da Ana, que estava pensando em desistir de continuar no dia seguinte. Depois de muita conversa, análise do tracklog e da dificuldade de outra alternativa a não ser prosseguir, ela aceitou rsrsrs Por isso só decidam o dia de amanhã depois de banho tomado e bem alimentados! 5. Travessia da Serra Negra - Pt. II A noite foi revigorante. Acordamos bem descansados, tomamos um reforçado café, acertamos as contas com a Sônia, abastecemos os cantis e partimos às 8:40. Seguimos pela estrada e confundi na leitura do Tracklog, perdendo uma saída à direita antes da curva à direita. Acabamos chegando numa outra casa e uma senhora falou: “sobe tudo aí que vai achar a trilha”. Já estávamos pensando em voltar para achar o traçado oficial mas ela insistia, e depois um filho dela saiu e insistiu: “só subir tudo aí e já vai ver”. O problema é que era um baita morro bem inclinado. A insistência foi tanta que acabamos subindo e de fato, achando a trilha. A partir daí foi basicamente um single track, subindo quase 500m. Combinamos de ir em ritmo suave, sem esgotamento e aproveitando o visual, que é realmente incrível. Convém destacar que da Sônia é possível atacar a Pedra Preta - inclusive a trilha parte de uma ramificação desse segundo trecho da Serra Negra - mas é uma caminhada pesada e em geral, o pessoal dedica um dia apenas para isso. Pouco a pouco subimos e depois de 1h30min chegamos na altitude máxima daquele dia. Sobe, sobe, sobe! Daqui a pouco é desce, desce, desce! A partir daí foi basicamente descer, alternando entre campo aberto e floresta, em trilha cavaleira. A erosão dessa trilha é assustadora. Há pontos nos quais a trilha está 1.8m abaixo da altura original. O trecho final, já nos sítios, é muito bonito. Foram 5h30min de caminhada e pouco antes das 14h estávamos na Cachoeira Santa Clara, limpando o corpo e fazendo a recuperação muscular em suas águas geladas. De lá andamos uns 800m até a Pousada, onde só trocamos de roupa, pois o banho já tinha sido tomado na cachoeira. Nos despedimos do pessoal e às 15h partimos. Paramos em Penedo apenas para conhecer rapidamente a cidade, comer um Hambúrguer (Kako´s) e comprar uns chocolates. Às 17h partimos rumo à Campinas, nas 5h de direção mais cansativas da vida. Afinal, foram 33km de caminhada. Chegamos em Campinas, no Hotel Casa Blanca pelas 22h. Na manhã seguinte, bem cedo, estávamos no aeroporto, chegando em Brasília a tempo de cumprir nossa jornada diária de serviço. Bota suja, alma lavada! Trecho final, já em estrada. Bota suja, alma lavada! Impressões sobre os atrativos Agulhas Negras e Prateleiras, ao contrário da Pedra do Altar e Morro do Couto, são montanhas cuja ascensão de forma autônoma exige bom condicionamento, habilidades de orientação e conhecimento técnico. Para novatos, o acompanhamento de alguém que conheça a rota e os lances técnicos e esteja com os equipamentos requeridos é essencial para garantir a segurança e o aproveitamento do atrativo. Apesar de eu ter conhecimento e experiência avançada de trekking e intermediária em escalada, ainda assim optei por contratar um guia. Com isso também evitei ter de levar equipamentos como cordas, cadeirinha e mosquetões. A Travessia da Serra Negra é um trekking pesado. Ainda que não haja lances técnicos, são quase 19km no primeiro dia e pouco mais de 15km no segundo dia com muita variação altimétrica, principalmente no primeiro dia, o que exige bom preparo físico e mental. Não recomendo para iniciantes e pessoas sem experiência em trilhas. Caso escolha ela para uma primeira experiência de travessia com pernoite, esteja bem preparado. Na dúvida sobre sua capacidade de percorrê-la, recomendo ir com guia e comprar o pacote completo na Sônia, ou ter um carregador - isso não é nenhum demérito. Água não é um problema ao longo do percurso. A trilha está bem demarcada e visível e a navegação não é difícil. A sinalização, porém, está deficitária, principalmente nos trechos críticos (bifurcações), não sendo possível confiar apenas nela. Assim, recomendo levar um GPS ou celular com App de Navegação (Wikiloc, Avenza, LocusMaps) como referência. Utilizei esse trakclog. Sinalização da Transmantiqueira, apagada. Sinalização da Transmantiqueira, conservada. Contatos: Marquinhos (Taxista Itamonte): 35 8428-1059 (tel/whatsapp) Pousada Santa Clara: 24 99269-0350 (tel/whatsapp) Guia Carlos: 24 99823-5501 (tel/whatsapp) Pousada Pico da Serra Negra: 35 9965-6515 (whatsapp) Corricos: (19) 3258-5385 Hotel Casablanca Campinas: (19) 3272-7575
  14. Bom dia. Estou juntando um pequeno grupo de amigos para fazer uma viagem até os EUA. Só que de ônibus. Iremos comprar um ônibus e ir dirigindo até os EUA, porém, encontramos apenas um problema: a travessia para o Panamá. Alguém saberia nos ajudar? Vimos na internet que quem faz essa viagem deixa o carro em uma balsa e segue de avião até pegar o carro de novo, mas como vamos de ônibus, não sabemos se a balsa suporta tal veículo. E se suportar, gostaríamos também de saber qual empresas fazem esse tipo de serviço, para entrarmos em contato via email. Obrigado desde já.
  15. Travessia Canyon do Funil x Canyon Laranjeiras - novembro/2018 Essa travessia foi feita com os meus parceiros Wagner e o filho dele o Pedro. Foi uma trilha bem tranquila, saímos de carro de Itajai-SC com destino a Bom Jardim da Serra-SC subindo a serra do Rio do Rastro, passando a cidade de Bom Jardim entrando na estrada de terra até o Canyon Laranjeiras, paramos o carro na propriedade do Didio, 3km antes da fazenda Laranjeiras e fizemos um belo de um almoço na casa dele. Combinamos de deixar o carro ali para ser o fim da nossa travessia e ele nos deu uma carona até a substação de energia proximo ao mirante da Serra do Rio do Rastro, local do inicio da trilha. O tempo estava querendo abaixar uma serração, na real na direção do canyon a viração já tinha tomado conta. Já passava das 16h e iniciamos nossa travessia. Já de cara uma pequena cobra nos deu as boas vindas. Os campos estavam repletos de flores colorindo o verde. Esse começo de trilha na realidade é uma estrada 4x4 plana e de fácil trajeto. Depois de 1h mais ou menos chegamos proximos ao arroio do funil aonde tem uma antena. Ali a serração estava muito densa dificultando a navegação visual, seguimos sentido norte até o arroio onde o cruzamos e fomos pela sua margem esquerda. Logo observamos o urtigão da serra uma planta com folhas gigantes bem caracteristicos dessa região. Logo após uma subida e o arroio começa a virar canyon, avistamos o curral da fazenda do Funil, andamos mais uns 5min e já avistamos as araucarias da borda do canyon, por conta da serração que já começava a molhar não conseguimos ver o canyon e fomos logo montando acampamento. Saímos para pegar água sentido norte margeando as bordas, 1min do acampamento da área onde tem as araucarias e arbustos, entra na mata nebular e já ve uma cascatinha, eu costumo seguir adiante pela trilha dos bois e andar mais um pouco proximo a borda tem outro fio dágua que prefiro pegar. Barracas montadas, hora de fazer a janta. Ainda bem que trouxemos uma lona para cozinha pois a serração foi ficando mais forte e estava molhando bem. Fizemos uma bela macarronada a carbonara, regada de vinho, e ficamos batendo um bom papo até que o sono pegou. No dia seguinte acordamos cedo, demos uma volta e o tempo parecia que ia abrir, tomamos café, desmontamos o campo e por volta das 8h30 saimos rumo norte, antes passamos para abastecer nossos cantis e varar a mata da encosta, desta vez encontrei uma trilha melhor e mais curta por dentro da mata, apesar que essas matas com araucarias são bem limpas em baixo, com grandes xaxins e arvores pequenas. Vencido a subida da encosta dentro da mata alcançamos um plato conhecido como morro dos anastacios, onde tem uma antena bem no topo e um marco geodesico junto de umas placas sinalizadoras do radar do cindacta que esta no morro na igreja distante ainda uns 30km, bem visivel deste ponto. Esse morro dos anastacios tem um temido charco, da primeira vez que passei ali eu não conhecia e cruzamos exatamente no meio dele, levamos quase 2 horas afundando os pés nas turfas. Desta vez fui bordeando o peral até proximo da antena e ali cruzamos o morro já no caminho para a trilha que descia para o próximo vale. Desta vez encontramos o capataz da fazenda Anastacio, era o Edson que era o irmão da Dona Zue da Fazenda Santa Candida, batemos um papo e depois a gente seguiu o caminho. Logo adiante começa a descida por um pequeno vale margeando o rio, passando por cerca de arame farpado (uma constante no percurso inclusive). Até chegar no vale, um vale muito bonito, eu particularmente acho essa passagem o ponto alto da travessia, cercado por morros com muita araucaria, o vale verde serpenteado pelo rio, e nesta epoca estava muito florido. Segue proximo as bordas até a subida do morro do outro lado. O topo é formado de esporões de pedra e logo abaixo é o canyon do Portal. Chegamos ai por volta das 13h e almoçamos a serração tomou conta do lugar. Esse vale é bem largo e com um grande charco no meio. Interessante que a grande maiorias destes vales com excessão talvez do canyon do Funil todos os rios correm sentido oeste. Aqui para evitar o charco tem que descer a encosta e ir sentido oeste passar ao lado de uma pequena mata e descer pelo piquete (cruzando alguns arames farpados) ao avistar o saleiro seguir em direção a ele, cruze e siga adiante em direção a rampa do morro do outro lado, vai cruzar o rio que se forma no charco. Uma boa parada para um banho. Depois é só subir a rampa parece uma antiga estrada de caminhão da epoca das madeireiras. No plano tem um grande charco de novo, tentar cruzar o quanto antes até a mata do outro lado e seguir pro norte, vai ser observado duas "ilhas" de mata no meio do charco. Ali uma pausa na borda é bem vindo pela vista e preparar o folego para a subida. A subida tem dois lances, e o ultimo chega no topo onde vai caminhar muito proximo da borda, mantenha esse caminho pois o campo com alguns pinus ellioti é um grande charco. Ai tem um marco geodesico e logo a seguir a mata que separa do Canyon Laranjeiras. É um vara mato de uns 800m em descida com muitas trilhas de boi, bem facil se perder, tem q manter sempre norte até sair no campo do outro lado. Neste campo caminha-se por um vale muito bonito rodeado de mata logo abaixo a esquerda vai seguindo o fluxo do rio que curiosamente 2 rios correm paralelos um de cada lado das matas e um corredor de campo no meio, fomos seguindo por ai já passado das 16h. no final deste corredor a esquerda esta o canyon, porem tem q tomar cuidado ao adentrar na mata pois é um labirinto de caminhos, muito facil se perder, mantenha-se entre a mata e o campo, apesar de ser dificil isso tambem, por conta da grande trilha que tem nessa mata. Neste momento demoramos bastante até alcançar as bordas do canyon, mas ali achamos um local excelente para acampar, perto de agua, quase na borda do canyon e com uma cachoeira para banhar-se a 5 min de caminhada. Essa cachoeira esta no pequeno canyon que forma a grande cascata do canyon Laranjeiras. Acampamos ali mesmo e montamos a barraca e nossa cozinha. Foi mais uma noite de muitas risadas e vinho. Tivemos a sorte de ver um espetaculo da natureza proporcionado pelos vagalumes. No dia seguinte amanheceu um dia de sol e exploramos bastante as redondezas, inclusive indo até o castelo, uma quase "ilha" de pedra rodeada por paredões de todos os lados tendo somente uma pequena passagem estreita na mata para cruzar. Caminhamos bastante pela mata atrás e por seu labirinto até o vale que viemos. Pela tarde fomos até a cachoeira e tomamos um belo banho gelado. Continuamos mais uma noite acampados ali. No dia seguinte saimos cedo uma pequena garoa que logo se foi, caminhamos até a outra borda do mirante principal do canyon e cerca de uma hora ate a fazenda Laranjeiras pela trilha principal, na fazenda fomos falar com o sr. Assis e Dna. Zuê. Ficamos um pouco por ali e depois tocamos pela estrada até a propriedade do Gigio. Desta vez não ficamos para o almoço, nos despedimos deles e agradecemos a receptividade de sempre. (RECOMENDO MUITO ALMOÇAR ALI) agora ele esta estruturando melhor para atender mais gente, construiu 2 chales que quero logo, logo levar minhas meninas lá para uma passeio a cavalo, comer pinhão, e curtir a vida do campo.
  16. To planejando uma travessia no Parna de Itatiaia. Saindo de Mauá, acampamento no rancho caido. Segundo dia subida a pedra do sino de Itatiaia, cachoeira do aiuruoca, Pedra do altar e acampamento no Rebouças. Terceiro dia pico das agulhas negras e pernoite no Rebouças. Quarto dia travessia couto x prateleiras e descida ruy Braga. A ideia é começar em Mauá e subir via rancho caido. PERGUNTA: É possível fazer esse trajeto? Digo o PN autoriza a subida por este sentido neste caminho? Agradeço as dicas. Sempre Alerta
  17. Apesar de haver bons relatos no site, espero contribuir com o meu. Há 4 ônibus diários entre São Luís e Barreirinhas pela viação CISNE BRANCO, R$51, demora 5h (não procurei vans saindo do aeroporto direto pra Barreirinhas, mas existem). Dizem que é melhor fazer a travessia no sentido Barreirinhas - Santo Amaro, por causa da posição do sol e do vento. A estrada São Luís-Santo Amaro é relativamente nova, está boa e é mais perto que SLZ - Barreirinhas. Além disso, as lagoas de Santo Amaro são mais bonitas. ATENÇÃO com a volta de Santo Amaro para São Luís, acho que não tem ônibus (se tiver, são raros) e dependemos do guia em achar uma van que ia pra lá. Geralmente, este último dia termina 12:30h e o transporte até São Luís demora 4h30min. Grande parte da travessia é em areia firme e fria, então é melhor andar descalço ou com meia. Também tem inevitáveis passagens por lagoas menores, onde se molha, pelo menos, as pernas. Elas são boas para se refrescar (o tempo inteiro eu andei molhado ou úmido de propósito). Melhor época: junho e julho, alguns dizem agosto e até setembro, mas nestes muitas lagoas já estão secas. Preços: como junho e julho são os melhores meses, só diária do guia custa até R$250; hospedagem (café da manhã incluído), em redário, sai por R$35; jantar: R$30 a R$35; água de 2l: R$8. Converse com o guia para ver o que está incluído no preço dele (passeio pelo rio Preguiça, hospedagens e refeições, etc). Cansar vai, mas com certeza vale a pena. Acredito que uns treinos de caminhada de 8km sejam suficientes para preparação. Esta é a travessia mais tradicional do parque, mas tem outras de 6 até 10 dias! Levar: poucas roupas (inclusive com proteção UV), meias, chapéu (nessa época, não precisa levar nada para frio, nem tênis), chinelo, protetor solar, água (pode ser comprada em cada parada), snacks (frutas desidratadas, amendoim e castanhas), dinheiro em espécie, lanterna (não é essencial, não precisa na caminhada, mas ajuda nas hospedagens), coisas de higiene pessoal (sabonete, escova, pasta, repelente). É recomendável levar aquelas baterias portáteis, power bank, mas dá pra usar a eletricidade em algumas hospedagens. Dia 28/jun - 1º dia: Pegamos um barco em Barreirinhas para fazer o passeio pelo rio Preguiça (R$80) por volta das 10h, o guia já nos acompanhava. O passeio é tranquilo, para em Mandacaru, onde tem um farol, também para em Caburé onde tem dunas e uma lagoa. Termina em Atins, banhamos em uma praia. Depois, final de tarde, caminhamos até Canto de Atins, cerca de 3,5h em ritmo tranquilo, sem paradas para banhos, o GPS marcou 12km de caminhada durante o dia todo (pareceu bem menos). Em Canto de Atins, tem dois restaurantes/pousada: do seu Antônio e da dona Luzia. A dona Luzia foi pioneira e é mais famosa, mas o guia disse que a fama subiu-lhe a cabeça, ficamos no seu Antônio. O camarão na chapa é o prato chefe de ambos, não é barato (com refri e água, saiu R$50 cada um o jantar), mas realmente estava muito gostoso. Dormimos em rede (R$35), local coberto com palha, com luz, mas sem paredes, até às 2:30h da manhã. Dia 29/jun - 2º dia: Prometia ser o mais pesado, cerca de 17km até Baixa Grande (o quarto dia que foi o mais cansativo). Começamos a travessia por volta das 3:15h, depois de um bom café da manhã, caminhamos sob a lua cheia iluminando tudo e temperatura amena. Andamos pela praia um bom tempo, cerca de 4h (com direito a cochilada no caminho) até chegar às dunas. Valeu a pena? Sempre, no entanto, tem gente que faz este trajeto de carro e isto economiza umas boas horas. Nas dunas, subida, descida, banho em algumas lagoas. Terminamos em Baixa Grande às 12:10h. Cansei muito! O GPS marcou, durante todo o dia, uns 27km. Eu digo "durante todo o dia", porque ainda caminhávamos pelos arredores do local da hospedagem para conhecer lagoas, rios, ver o pôr-do-sol. Baixa grande é um vilarejo no meio do deserto, mas com construção de alvenaria e vegetação por perto. Almoçamos galinha caipira por R$35 (preço padrão e não é você que escolhe o que comer). Descansamos e, à tarde, fomos para uma lagoa e ver o pôr-do-sol. Dormimos, como sempre, em rede (R$35 preço padrão), sem iluminação, mas coberto com palha e "paredes". O dia seguinte seria mais tranquilo. Dia 30/jun - 3º: Este terceiro dia foi tranquilo, acordamos por volta das 4:30h para sairmos às 5h, após café da manhã simples (tapioca e ovo). Caminhamos devagar, parando bastante em lagoas e terminamos antes do meio-dia em Queimada dos Britos, o GPS indicou 15km. Eu comecei a usar meia, pois vi que estava começando a formar bolha no meu pé. Almoço (R$35) era peixe (estava salgado), teve salada (artigo raro) e até sobremesa. Lagoas, pôr-do-sol, jantar e dormir cedo, porque não tem muito que fazer a noite. Dia 1º/jul - 4º: De novo, acordamos umas 2:15h, tomamos café e saímos para caminhar às 3h e alguma coisa. Só terminamos à 12:30h, exaustos, em Santo Amaro. Foi o dia mais longo e mais cansativo, cerca de 28km. Neste dia, mais uma vez, é possível pegar um transporte em Vassouras, economizando assim, uns 10km. Pergunta se pegamos? Não. Faltando uns 8km (talvez 6km), o guia novamente perguntou se queríamos pedir um carro e pagar R$50 cada um. Pegamos o carro? Claro que não, só faltavam 8km! kkk. As lagoas perto de Santo Amaro são bem mais bonitas que as de Barreirinhas e, acredito eu, o turismo em Santo Amaro irá aumentar com a boa estrada até são Luís (só falta transporte).
  18. Ola rapaziada, Entre os dias 26 e 30 de dezembro de 2018 eu e mais 5 amigos fizemos uma travessia de Santos a Ubatuba em caiaque (surfski) e canoa havaiana. Ao todo fomos em 2 surfski individuais 2 canoas V1 e uma canoa OC2 e como prezamos pelo desempenho dos caiaques e canoas precisamos de um apoio em terra por quase todo o caminho. O apoio em terra foi feito por 2 carros (5 grandes parceiras e 1 linda criança), que foi fundamental para o sucesso em nossa viagem, pois não tínhamos espaço para levarmos nada além da comida e da água do dia (1l de água para cada 10km). Colocarei aqui um rápido diário de bordo, o qual publiquei em meu instagram (@leo_roke). Além de minha conta pessoal, também existe um perfil da nossa equipe de travessia chamada Anamauê Va'a (@anamauevaa). Vale ressaltar que esse relato é referente a segunda travessia feita, a primeira ocorreu na virada de 2017 para 2018 com uma canoa V6 e o percurso realizado foi de Niterói a Santos. Nesta segunda edição percorremos cerca de 200km durante 5 dias. Remamos por volta de 5 horas/ dia e repetimos o esquema feito na primeira edição - 45min remando por 15min de descanso, este podendo ser em alguma praia ou em alto mar mesmo. Para mim a viagem começou por setembro 1mes depois de voltar a viver em Santos. Já tinha uma enorme vontade de fazer essa travessia e comecei a conversar com pessoas que já fizeram alguma ou conheciam nosso litoral. Uma dessas pessoas foi o Zé (da @canoacaicara) que uns 15 dias depois falou "e ai...bora mesmo? Um amigo (@lucasmiom) de Ubatuba comprou uma OC2 e eu sugeri levarmos remando!" Ja éramos 3. Aos poucos somaram a nós @caue.serra, @nilsonfreepaddle e nos 45min @adonisespejo No início contávamos com o apoio em terra de @jessienakayama e @erika_kocssise depois somaram a elas @[email protected] e @gr4cinha que facilitaram demais nossa trip. Eu não sei o que motivou cada um da expedição. Se auto conhecimento, aprendizado do esporte, necessidade de estar só, curtição ou sumir por 5 dias. Mas isso juntou 6 amigos para viver uma experiência única que elevou o nível das nossas viagens, do nosso conhecimento pelo esporte e vários outros pontos. *Dia01 - Santos >>> Bertioga Apesar deste trajeto já ser bem conhecido por todos nós o fato dele ser o primeiro dia de uma longa jornada gerou uma certa ansiedade. Não sabíamos o que íamos enfrentar e a previsão não estava muito animadora. Era previsto um vento leste, de moderado a forte, que em grande parte do percurso seria contra. Porém o vento não entrou tão forte e ainda encontramos algumas ondulações que nos ajudaram bem, rolando até um surf. A primeira e a terceira parada fizemos em água, a segunda na praia do Éden no Guarujá e bem perto do nosso destino paramos em Camburizinho para aproveitar a tranquilidade de uma praia deserta em meio às festas de fim de ano. Expectativa 38,8km, vento leste (contra) de moderado a forte, sol forte Realidade 39,8km, vento leste fraco, ondulação a favor e sol entre nuvens. Agradecimentos a @sofis_surfree(mulherada da um confere no @maredoce_), ao corpo de bombeiros de Bertioga e ao Everdan Riesco, capitão da Brucutus. **Dia02 - Bertioga >>> Bora Bora Uma das pernas que mais me surpreendeu, talvez por eu não esperar muito da região. As praias de Bertioga, Riviera e Boracéia são extensas, com uma faixa de areia larga e de cor escura. Particularmente eu prefiro o contrário, quando tempos costões de pedra e praias curtas, o fato da paisagem mudar toda hora anima a remada! De fato, estava um pouco fora do que vimos e esperávamos ver, mas não foi bem assim. A vista dessas praias do alto mar é linda, o paredão da Serra do Mar impressiona. A remada foi muito calma, sem vento nem onda, porém o sol e o fato de não conseguirmos parar em terra em nenhum momento pesou um pouco. Desembarcamos no cantão de Boracéia, Bora Bora, e fomos muito bem recebidos no Surf Park do amigo e remador @netocantao, Dona Dirce e Joyce. Expectativa 35,1km uma parada em terra em Itaguaré, vento e ondas fracas, sol forte Realidade 41,8km, nenhuma parada em terra, sem vento nem onda e sol queimando a moleira. ***Dia03 - Bora Bora >>> Barequecaba Agora a brincadeira começou a ficar legal!!!! O Guarujá é lindo mas é nossa casa, nosso dia a dia de treino, e a perna de Bertioga a Bora Bora como comentei no Dia02 foi um pouco monótona, de Bora Bora em diante que os paraísos começaram a aparecer. Uma perna bem esperada por todos, dia lindo de céu limpo e água clara (vejam em um dos mini vídeos - sem filtro nem edição), sol forte e paisagens lindas. Ver de longe as praias que sempre frequentei desde adolescente tornou o dia mais especial, sem contar a parada das "ilhas", que recebem este nome peculiar, e de Pauba, onde aproveitamos a residência do tio do Zé para descansarmos bem! No final do dia fomos muito bem recebidos pelo Toko em Barequecaba com um banquete de almoço em sua casa. Dia de remada tranquila com vento e ondas fracas. Expectativa: 40km, nem nos preocupamos em ver a previsão de ondas e vento Realidade: 45,6km, ondas e ventos fracos Agradecimentos: Toko, tio Zé e mais uma vez o apoio em terra que agilizou nossa hospedagem!!! ****Dia04 - Barequeçaba >>> Tabatinga "O dia da lestada" e mais 42,2km p soma Se tinha algo que queríamos muito evitar era um dia de vento leste forte, principalmente no trecho de Ilha Bela a Caraguatatuba, um canal bem exposto onde não teríamos como fugir nem um pouco do vento. E foi exatamente o que aconteceu! Saímos tarde de Barequeçaba, todos estávamos bem cansados e como seria um dia que não teríamos o apoio em terra foi consentimento de todos fazermos um dia sem pressa de nada. Logo que viramos a primeira ponta paramos em uma pedra que dava para saltar e ficamos um tempo nos divertindo por ali. Quando voltamos a remar pegamos um trecho de mar muito picado. Para mim que estava com um surfski bem instável foi bem chato, ainda mais que carregava um peso um pouco maior dos outros dias, estava bem difícil manter o barco alinhado! Cruzamos o canal da Ilha Bela em direção a Ilha das Cabras. Lugar lindo de água clara e cristalina onde fizemos uma pausa para mergulho rolou até foto com uma estátua do Neptuno no fundo do mar. Saindo da ilha das Cabras fizemos uma pausa para almoço na praia do Perequê com direito a PF e até uma cervejinha. Do Perequê fomos rumo a praia da Armação, que para mim foi o melhor trecho de toda viagem. O vento estava forte e a favor, o que chamamos de Downwind, e meu caiaque encaixou muito bem nas ondas, como eu não estava preocupado em fazer o melhor traçado, ou a melhor 'linha', fui uns 2km rumo ao meio do canal e depois aproveitei toda a ondulação surfando muito bem!!! Na praia da Armação contamos com o apoio do pessoal da @basealphailhabela, descansamos, tomamos uma ducha e seguimos para travessia do canal. Remamos praticamente 2h 30min com vento contra e forte de aproximadamente 14nós. Chegamos escurecendo na Ilha do Tamanduá logo em frente da praia de Tabatinga onde iríamos dormir. Em Tabatinga contamos com o apoio do pessoal da @ecopaddle para passar a noite. Pessoal muito gente boa!!! . *****Dia05 Tabatinga >>> Itaguá Se o Dia04 foi o dia mais completo em relação à remada o 05 foi em relação às belezas naturais e a satisfação! Começamos o dia bem cedo, por volta das 6h da manhã já estávamos com os barcos na areia e fomos muito bem recompensados por isso. Em menos de 30min de remada fomos surpreendidos por alguns golfinhos que passavam muito perto de nós, ALGUNS!!! Saímos de Tabatinga rumo a Ilha do Mar Virado. Lugar lindo de água cristalina, muito cristalina, ao ponto de vermos o fundo do mar de cima das canoas. E foi engraçado qdo percebemos isso! "Meeeeeu olha pra baixo!!!" Mas infelizmente como não existe nenhum local onde poderíamos desembarcar fizemos uma rápida pausa e seguimos para Ilha Anchieta. Aproveitamos a estrutura da ilha para descansarmos bem. Fizemos nosso "almoço", cochilamos e ainda visitamos o antigo presídio. Saímos da ilha rumo a praia do Cedro onde encontramos o pessoal do @ubatubahoe e finalizamos nossa travessia em companhia do pessoal de apoio! Chegamos na data prevista, dia 30 dez, descansamos 31 e fechamos e celebramos o fim de 2018 com chave de ouro. Expectativa: o melhor dia da travessia Realidade: 45,5km, dia limpo, céu claro, vento fraco. O melhor dia da travessia. É difícil mensurar, mas certamente uma das melhores viagens da minha vida! As vezes viajamos para longe p ver algo bonito, diferente, mas não damos conta de como nosso #quintaldecasa é lindo! Espero realmente no final deste ano estar de novo planejando mais uma travessia e fazer uma terceira edição do @anamauevaa No início de cada manhã, minutos antes de sairmos, um de nós fazia uma rápida consideração. A primeira foi do Zé que falou que sua maior intenção era sairmos da expedição mais amigos que entramos. E felizmente foi isso que aconteceu. A viagem e o planejamento foram perfeitos não tivemos uma 'conversa' mais séria, não tivemos que tomar nenhuma decisão, apenas curtimos e nos respeitamos a viagem inteira. Agradeço imensamente todos os responsáveis pelo sucesso da nossa travessia. Todos já citados pelas hospedagens, ao Celso Filetti pelo #surfski, ao @zemarcosjr pelos equipamentos e mais uma vez as meninas que fizeram nosso apoio em terra.
  19. TRAVESSIA LAPINHA X FECHADOS Molhados e com um frio de lascar, essa é a nossa situação quando desembocamos no minúsculo vilarejo de Lapinha da Serra recém-chegados da travessia do não menos minúsculo, vilarejo do Tabuleiro. Poderíamos ter chegado até aqui simplesmente pegando um ônibus de Belo Horizonte até Santana do Riacho e depois nos pondo a caminhar por uns 10 km até esse povoado perdido num fim de mundo no meio da SERRA DO ESPINHAÇO, mas preferimos ir até Conceição do Mato Dentro e caminhar por 3 dias por aquela que é considerada a travessia mãe dessas incríveis montanhas, Travessia Tabuleiro x Lapinha, uma incrível jornada que nos apresenta logo de cara a sensacional CACHOEIRA DO TABULEIRO com seus 273 metros de queda, a maior do Estado de Minas Gerais. ( Cachoiera do Tabuleiro) A Travessia Tabuleiro x Lapinha é uma caminhada linda e há muito tempo figura entre as grandes travessias clássicas do Brasil, mas a Serra do Espinhaço é tão impressionante que outras grandes caminhadas são praticamente desconhecidas da grande maioria dos montanhistas e excursionistas do país, ficando renegada somente aos locais do Estado devido a dificuldade de logística, o que é uma pena porque ela tem o poder de nos apresentar um cerrado vibrante donde cachoeiras impressionantes saltam para grandes poços de águas cor de coca cola, em um dos cenários mais belos do país. Eu e o Anderson Rosa com tempo de sobra já havíamos resolvido que cruzaríamos parte da Serra do Espinhaço e havíamos nos preparado para isso e como a primeira parte da empreitada havia sido concluída com sucesso e mais sedo do que prevíamos, ao desembocarmos em lapinha da Serra ainda na metade do dia, resolvemos descansar no vilarejo e pôr nossas roupas e sacos de dormir para secar por causa da chuva que havíamos pego no topo do Pico do Breu na noite anterior. ( Lapinha da Serra) Passamos a noite em um camping e logo pela manhã empacotamos nossas coisas, passamos pelo centro do vilarejo aonde sua maior atração são duas igrejinhas no minúsculo centro e partimos pela estrada principal, a mesma que liga Lapinha à Santana do Riacho. O vilarejo é minúsculo e perdido no tempo, tanto que por hora não existe nem sinal de celular, mas se engana quem pensa que não há nada para fazer , na verdade é uma gama de atrações imensas entre subir montanhas como o Pico do Breu e da Lapinha e outras infinidades de cachoeiras ao redor e o grande lago que a cerca, mas por hora vamos nos contentar em usar esse bucólico povoado como ponto de partida para uma das caminhadas mais espetaculares do Espinhaço e botando a mochila nas costas , tratamos logo de apertar o passo traçando como principal meta do dia chegar primeiro até a grande Cachoeira do Bicame. Partindo, portanto da igrejinha do vilarejo, tomamos a rua principal que vai nos levar para o norte, sendo esse o mesmo caminho para Santana do riacho. Estamos passando ao lado de uma cadeia de montanhas ao nosso lado esquerdo e do lado direito teremos como companhia toda a cadeia principal da Serra do Espinhaço, com o Pico da Lapinha a nos espiar ao longe. É uma pernada em meio a fazendas e sítios e sempre sendo saudados pelos moradores locais, mas uma hora depois ou quase 4 km, a estrada de terra faz uma curva violenta para esquerda, abandonando o sentindo norte e quase que voltando para o sul e é nesse cotovelo, em meio a várias placas que abandonamos a estrada principal em favor de outra que sai a direita. Continuamos acompanhando o espigão mestre do Espinhaço, mas agora caminhando por uma estradinha mais modesta. O sol já estava de lascar logo pela manhã e por um golpe de sorte passo por nós uma caminhonete pequena e ao parar já nos interpela se aquele é o caminho para a famosa Cachoeira do Bicame. Anderson nem responde à pergunta e já vai para cima do motorista na tentativa de angariar uma carona. O casal que estava em férias e carregava metade da casa na traseira, logo arruma um lugarzinho para nos levar em meio as tranqueiras e mais 2 km à frente deixamos a estradinha e adentramos numa porteira junto à um pé de manga, onde o caminho se estreita e mal dá passagem ao veículo. Com muito custo conseguimos avançar por mais 1500 metros, mas numa subida mais forte o motorista arregou e decidiu parar o carro à beira do caminho e seguir o resto na caminhada. Bom, na caminhada iríamos eu e o Rosa, porque eles pretendiam seguir o resto do caminho de bicicleta, então nos despedimos da nossa carona e tratamos logo de pôr as pernas para trabalhar e não deu nem 10 minutos de caminhada para descobrimos que o carro não iria muito longe mesmo. Acontece que a sequência do caminho é dentro de uma grande fazenda particular (FAZENDA CACHOEIRA), meio que pertencente ao grupo Boticário que a transformou em uma RPPN e além de proibir a entrada com veículos motorizados, ainda limitou o número de visitantes a no máximo 30 pessoas por dia, o melhor é que não cobram nenhuma taxa de visitação. Abrimos a porteira e adentramos na fazenda onde uma placa explica as regras do lugar, mas como estávamos numa segunda-feira, sabíamos que éramos os únicos a se aventurar por aquelas bandas, então nem nos preocupamos com a possibilidade de não nos deixarem passar por excesso de visitantes. Sinceramente, acho difícil barrarem alguém pelo simples fato que a sede da fazenda está muito, mas muito longe da porteira, que é onde se faz a contagem e seria uma crueldade fazer alguém voltar para trás depois de andar tudo aquilo. Outros 3 km de andanças por um caminho extremamente lindíssimo em meio a afloramentos rochosos e temos que abrir outra porteira e mais 1 km de caminhada estamos na Sede do Parque, próximo a própria sede da fazenda. Ali é o lugar onde encontraremos água, banheiro e deveremos nos cadastrar para poder seguir a travessia, mas ao chegarmos encontramos tudo abandonado. Na verdade, 2 km antes de ali chegarmos, encontramos o guardinha que libera a autorização para seguir e ele estava cuidando de afazeres particular num dia sem nenhum movimento e sem muita burocracia nos fez assinar a entrada para o parque. Nossa maior preocupação era que ele nos barrasse por estarmos com uma cargueira nas costas, já que acampar é proibido, mas nem foi preciso contar alguma lorota, o rapazinho parecia estar meio cagando e andando para o que iriamos fazer e rapidamente se livrou da gente, mais rápido do que a gente querendo no livramos dele. Enquanto comíamos alguma coisa na sombra da sede do Parque, passou por nós uns cavaleiros da fazenda e essa seria as últimas pessoas que veríamos nos próximos 4 dias. A estradinha faz uma curva para direita e logo desce à um riacho com ponte de madeira, deixa a entrada do casarão a direita e pouco mais à frente uma placa indica que devemos entrar à esquerda numa bifurcação e abandonar de vez a estradinha. O caminho a seguir é na direção da grande montanha a nossa frente, atravessando pequenos tablados de madeira que foram colocados estrategicamente para escaparmos do charco e aí mergulhamos num jardim florido que vai encantando a alma numa beleza estonteante, porque nessa época do ano, em plena primavera, o cerrado explode em cores e belezas inenarráveis, onde a vida vai brotando a cada centímetro de solo pobre e nos fazendo parar a cada minuto para aplaudir tamanha formosura. A trilha vai perdendo altura rapidamente, logo vemos que estamos nos dirigindo para o vale o Rio das Pedras e 3 km depois, numa curva para direita somos apresentados sem muita cerimônia para o MIRANTE DA BICAME, uma visão esplendorosa da cachoeira de mesmo nome, despencando nas escarpas da serra. É uma visão de encher os olhos, algo que até emociona de tão bonito, num senário de tirar o fôlego. Nos sentamos ali naquela pedra e deixamos nossos pensamentos correr e nossa emoção aflorar, aproveitando para guardar na nossa mente cada centímetro daquela paisagem e o melhor de tudo era que estávamos sós, porque o casal que havia nos dado carona simplesmente desistiram de seguir o retiro. Aquele paraíso era só nosso e quando nosso coração se encheu e quase transbordou de alegria, escorregamos pela trilha e fomos abraçar de vez aquela cachoeira, e não deu nem mais 20 minutos de caminhada em meio às canelas de Emas, já estávamos lá, a nos jogarmos dentro daquele poço avermelhado para aplacar o calor, já que a tarde já se fazia presente, com o sol a pino a nos iluminar. ( Mirante do Bicame) A CACHOEIRA DO BICAME até que não é muito alta, mas a composição da paisagem com um poço enorme e profundo com águas avermelhadas a transforma numa visão quase que única no meio do cerrado e mesmo não muito cheia como estava agora, é algo que nos hipnotiza. Ficamos por lá um bom tempo, nadando no grande poço e deixando a vida passar sem nos preocuparmos com o tempo, mas quando nos lembramos que nosso objetivo era acampar no tal poço do soberbo, demos o ultimo mergulho e partimos. (Cachoeira do Bicame) Deve haver uma trilha que sobe até o topo da grande cachoeira, mas nós não nos preocupamos em ir investigar e já nos agarramos a uma canaleta bem ao lado da queda e foi por ela que mediante a uma escalada tranquila, conseguimos chegar ao topo, onde as águas despencavam no vazio, se jogando para dentro do poço. Esse é mais um cenário de tirar o fôlego, com pequenos poços, cascatinhas e pedras coloridas e a vontade que dá é ficar por ali mesmo, apreciando o mundo lá de cima. O caminho natural é atravessar para a outra margem e como o rio não estava muito cheio, mal molhamos nossas botas pulando de uma pedra a outro. Atravessando, a trilha vai seguir para a esquerda, descendo novamente para o pé da cachoeira e seguindo quase margeando o rio, descendo as vezes por trilha e outras vezes varando pela vegetação rasteira. Logo o rio começa a encachoeirar novamente e vai ficando cada vez mais lindo e é nessa hora que será preciso começar a se afastar do rio, subindo para depois pegar o sentido noroeste e caminhar por mais de 2 k e aí virar completamente para o sul e caminhar por mais de 1,5 km para voltar novamente ao rio e tudo isso simplesmente para dar a volta em uma montanha porque pelo rio é tarefa quase impossível, tendo que enfrentar abismos gigantes. Pois é, esse é o caminho oficial e tradicional para se voltar ao rio, mas quem quiser seguir pela trilha de cima (vou explicar isso depois) , não precisa seguir para o sul, pode simplesmente continuar sentido norte/nordeste, só não vai conhecer o Poço do Soberbo, mas nós não somos tradicionalistas, a gente tá longe de nos prendermos aos roteiros tradicionais , então para variar, resolvemos enfiar os pés pelas mãos e inventar moda, ao invés de contornarmos a tal montanha para escapar dos abismos, vamos ao encontro dele e que Deus tenha piedade das nossas almas .(rsrsrsrsrrsrsrrsrs) ( Parte alta do Bicame) Abandonando a trilha, agora vamos descendo margeando o Rio das Pedras, rasgando mato no peito, tentando nos desviar da vegetação espinhuda do cerrado mineiro e não demora muito já somos recompensados pela exuberante CACHOEIRA DO SMOKE, bela e solitária, nos convidando para um mergulho em seu poço igualmente deslumbrante. A tarde já se avizinhava de vez e não poderíamos nos dar ao luxo de ficar nos deleitando em poço e piscinas naturais ou noite poderia nos pegar no meio do cânon e não seria nada bonito para a gente. ( CACHOEIRA DO SMOKE) Fomos desescalando a escarpa, abrindo caminho a força em meio às canelas de emas esturricadas por causa de queimadas antigas e cada patamar que baixávamos, uma nova cachoeira surgia e era cada uma mais bonita que as outras e essa queda abaixo da Cachoeira do Smoke também era um convite para nos banharmos no seu poço, mas por causa do tempo vai ficar para próxima e para marcar território vou chamar de Segunda Queda. O terreno que até então era difícil, agora se transforma em quase impossível de passar, descemos mais um patamar com enorme dificuldade para apreciarmos de cima do barranco a Terceira Quedaabaixo do Bicame. Cada cachoeira era mais bonita que a outra e quem nos dera ter tempo suficiente para podermos nos perder em suas quedas, muito porque nossa realidade agora mudou de difícil para imprestável e nos vimos lascado, sem pai e sem mãe à beira de um abismo por onde o Rio das Pedras quase que se suicidava, saltando em meio a um cânion estreito, e agora José? (segunda queda abaixo do Bicame) ( terceira queda abaixpo do Bicame) Paramos para analisar os mapas e tentar traçar uma estratégia, mas nada parecia nos convencer que passaríamos por aquele abismo. Pensamos na possibilidade de cruzar o rio para outra margem, mas o mapa topográfico nos dizia que apenas trocaríamos 6 por meia dúzia, então só nos restou a ingrata missão de nos agarrarmos às grades paredes e tentarmos chegar ao cume da montanha para tentarmos uma diagonal até o fundo do vale. Em meio às pedras escorregadias lá foram dois tontos, agarrando as unhas aonde era possível até atingir um dos pico , e quando chegamos ao alto, descobrimos que ele era apenas um cume menos de outra montanha gigante. Aí, ao invés de subirmos essa nova montanhas, tivemos a ideia estúpida de tentar contorná-la pela parte de dentro do abismo, descendo escorregando e usando as velhas canelas de emas como apoio. Aquela manobra tinha tudo para dar errado, abaixo dos nossos pés umas duas centenas de metros nos chamavam para uma tragédia e eu não estava nada contente com rumo que aquela travessia estava tomando e uma hora fiquei mesmo sem saída, muito porque eu era o cara que ia atrás e quando chegava para fazer os movimentos, o Anderson já havia levado todos os apoios que eram possíveis, que no caso, não passavam de canelas de emas queimadas. A tarde já estava no fim, mas nosso pesadelo continuava e vendo que aquelas manobras já haviam ultrapassado qualquer bom senso que prestasse, tentamos tomar uma diagonal para direita e nos afastar do cânion, mesmo assim uma passagem estreita fez com que minha mochila se mancomunasse com a força da gravidade tentasse a qualquer custo me matar. Fiquei paralisado, tentando chamar a atenção do Anderson para ver se ele que já ia à frente conseguisse me ajudar a sair daquela situação em que eu havia me metido, mas só ouvi a voz dele dizendo que o caminho era aquele mesmo. Eu num primeiro momento pensei que teria que me livrar da minha mochila para não ser arrastado junto, mas consegui cravar as unhas na terra e alcancei um arbusto um pouco mais firme e me puxei para cima. ( Cachoeira do Abismo) De onde estávamos já conseguíamos avistar a trilha correndo lá embaixo e conseguimos achar uma linha que acabou nos levando com mais segurança até ela, aí viramos para a esquerda e começamos a descer novamente em direção ao rio, tendo agora como companhia a grande Cachoeira do Abismo, a mesma que nos queria, mas vai ficar querendo. ( rsrsrsrsr) Nosso próximo passo era atravessar o rio para sua margem esquerda e localizar alguma trilha que fosse descendo. Atravessar até que foi fácil porque usamos uma espécie de ponte natural que ia de um lado a outro do rio, mas ao chegarmos do outro lado, trilha nenhuma encontramos e o traklog que começamos a seguir não ia para lugar nenhum e mais atrapalhava que ajudava. O Rosa já estava nervoso porque se dizia esgotado fisicamente e queria acampar a qualquer custo e eu não arredava o pé de tentar acampar no tal poço do soberbo, mas a gente descia o rio, tentando seguir o traklog e passava cada vez mais raiva, então resolvemos abandonar de vez aquela merda de marcação e fazer nosso próprio caminho. Atravessamos novamente o rio e o seguimos pelo lado direito, atravessamos por dentro de um mato fechado até novamente sairmos no aberto, junto a uma clareira embaixo de uma grande árvore e aí o Rosa protestou veementemente para que acampássemos ali. Estávamos tão perto do soberbo que eu achei um desaforo ficar ali e admitir a derrota, mesmo sabendo que a noite já se avizinhava , então mesmo com o Anderson puto de raiva, forcei a barra para que atravessássemos o rio e andássemos mais um pouquinho até interceptarmos de vez a trilha de baixo e logo em seguida ganharmos uma estradinha à esquerda, que em menos de 10 minutos nos levou até o antigo GARIMPO DE DIAMANTES, onde meia dúzia de casas de pedra abandonadas nos convida para soltarmos nossas mochilas e darmos por encerrado aquele grande dia de aventuras, justamente nos domínios do incrível POÇO DO SOBERBO. Aquele cenário era sul-real, o pôr do sol iluminando as paredes que circundavam o poço do Soberbo, refletindo em todos os cantos, transformava o local em um lugar único. As casinhas construídas de pedra, feito uma vila medieval que mais parecia uma Machu Picchu sertaneja. As habitações infelizmente perderam seu telhado e apenas uma ainda se mantinha em pé e ao abrimos a porta fomos surpreendidos por encontrar um lugar perfeitamente habitável e nossos olhos brilhavam com a possibilidade de usá-la como abrigo naquele lugar magico, mas o Anderson não deu o braço a torcer, mesmo diante daquele achado extraordinário e apenas se calou , mas eu fiquei feliz de ter batido o pé para acamparmos ali, sem vento e sem nem precisar montar nossa barraca, mas por medo de algum camundongos, o Andersom resolveu mesmo assim se proteger dentro da tenda artificial. Foi uma noite bem dormida e acordamos só quando achamos que deveríamos já que tínhamos tempo de sobra. Enquanto o Rosa foi cuidar de lavar a louça fui dar umas voltas pelo lugar, que outrora fora usado como garimpo de diamantes. O poço é formado pelas águas do Rio das Pedras e do Rio Soberbo, que se encontram e depois vão se enfiar em um outro cânion gigante e até desci aonde as águas despencam no vazio, mas ao me aproximar, uma corrente de ar ameaçou me jogar vale abaixo, então recuei e voltei para o acampamento. O Poço do Soberbo deve ter dezenas e dezenas de metros de profundidade e suas águas escuras, mas limpíssimas, nos convidam para um banho, mas ainda é cedo para tanta molhaceira, então jogamos às mochilas nas costas e partimos para a continuidade daquela travessia. Retornamos pela mesma estradinha da tarde anterior e interceptamos novamente o Rio das Pedras no exato local aonde ele se encontra com o Rio Soberbo e encontramos a TRILHA DE BAIXO. É preciso explicar agora o que são essas trilhas: A trilha de baixo é o caminho tradicional que liga Lapinha da Serra até Fechados e deveria ser a nossa rota dessa caminhada, mas tem um porém, essa trilha corta a FAZENDA DO DANTE, um fazendeiro cabra macho que costuma enfiar o trabuco na cara de quem se atreve a invadir suas terras e para não bater de frente com ele ou seus jagunços, quem se atreve a fazer essa bela travessia tem como opção usar a TRILHA DE CIMA, ou seja, é obrigado a subir uma patamar e caminhar por outras montanhas, indo “paralelo” a trilha principal. Nós estávamos com os dois roteiros no GPS, mas ao invés de já nos metermos no caminho que nos levaria até a trilha superior, escapando das garras sanguinolentas do tal de Dante, preferíamos inventar outra coisa e por hora resolvemos usar a trilha de baixo mesmo, indo de encontro com o matador de montanhista. A trilha segue paralela ao rio Soberbo, subindo quase encostada às suas margens e logo somos surpreendidos por uma placa: “ Caiam Fora, Propriedade Particular”, mas como a gente não sabia ler, passamos batidos e nos enfiamos no meio do cerrado, meio que pressionados por duas paredes de cada lado. Nosso próximo objetivo era chegarmos até o tal POÇO DO RUBINHO e em meia hora, talvez um pouco mais, ao vermos que estávamos bem perto, preferimos varar mato e interceptar novamente o Rio Soberbo, exatamente um pouco abaixo do Rubinho. Acontece que a gente poderia chegar ao Rubinho continuando pela trilha e mais à frente fazer um desvio, mas ficamos com medo de encontramos alguma casa habitada que nos fechasse o caminho ou nos causasse algum problema. O POÇO DO RUBINHO é outro lugar incrivelmente belo, de onde uma cachoeira despenca vindo da grande fenda que parte a montanha ao meio e ao chegarmos lá não me restou outra coisa a fazer senão me jogar nas suas águas profundas e por lá ficar até que o Andersom dissesse que era hora de partir. Mas aí é que estava o pulo do gato, a gente sabia que a passagem pela tal fazenda do Dante poderia nos causar problemas, então teríamos que achar um meio de fazer a passagem da trilha de baixo para a trilha de cima e fazendo um estudo sobre a topografia, descobrimos que poderia ser possível interceptar o nosso caminho subindo todo o cânion do Rubinho escalando. Na teoria poderia funcionar, mas se fossemos barrados pelo terreno seria um tempo jogado fora e um esforço desnecessário. Eu queria já tentar escalar a própria cachoeira do Rubinho, mas o Anderson achou melhor subirmos escalando o paredão pela sua esquerda. Foi uma subida bem íngreme e cansativa e por fim tivemos que escorregarmos até cairmos de vez da parte de cima da cachoeira do Rubinho, onde outra cachoeira igualmente deslumbrante e com um poço profundo nos faz cair o queixo. Em um primeiro momento ficamos ali paralisados, tanto pela beleza, quanto pela dificuldade em escalar a queda d’água. Saímos pela esquerda, caminhando ao lado do poço até nos encostarmos junto ao véu. Escalar na unha era algo quase impossível, mas não havia outra saída, então ajudei o Rosa a tentar alcançar uma canela de ema até poder se elevar e ganhar outras agarras que o levou finalmente para o patamar definitivo e foi aí que agradecemos por portarmos um pedaço de corda porque sem ela eu teria ficado lá embaixo sem poder subir. (SEGUNDA QUEDA DO RUBINHO) É impressionante como esse lugar era bonito e o principal era saber que estávamos passando em um lugar onde pouca gente já havia chegado, umas cachoeiras isoladas do mundo, em um lugar perdido no meio do cerrado mineiro. Aquela TERCEIRA QUEDA não era muito alta, mas nem precisava ser com aquele poço incrivelmente belo e foi muito tranquilo subir escalando seus degraus ao lado das suas águas e a gente que já estava estarrecido diante de tanta beleza, quando chegamos ao próximo patamar tivemos que arriar nossas mochilas, respirar fundo e com calmar nos sentarmos para apreciar aquela paisagem estonteante. A QUARTA QUEDA e última queda daquele complexo de cachoeiras, onde a fenda já terminava, nos dá de presente um poço incrível e enquanto a Rosa resolve fazer uma boquinha, não me contento somente em olhar e já me jogo nas águas frescas de um dia ensolarado e calorento. Somos donos absoluto daquele paraíso e não há um só sinal de passagem humana por ali, muito porque quem vem pela própria trilha de cima se amedronta com a possível descida perigosa, mas quem se atrever a investigar vai encontrar uma língua de pedra que poderá leva-lo para dentro do cânion e consequentemente para essa cachoeira. O dia já ia pela metade quando finalmente emergimos na parte de cima desse degrau da Serra porque aqui no Espinhaço as montanhas parecem ser divididas em patamares e depois de ficarmos envolvidos com tanta água, era hora de enfrentar a dureza do serrado. Agora havíamos localizado a tal TRILHA DE CIMAe ela seria nossa companhia pelos próximos dois dias. Mas a verdade tem que ser dita, de trilha mesmo só o ameaço porque praticamente não se consegue andar por uma linha concreta e e aí não temos outra coisa a fazer se não seguir o traklog que foi nos passado ou ao menos nos mantermos bem perto dele, tendo-o sempre como referência , mesmo porque seria impossível seguir por essa rota sem nunca ter estado ali, mesmo com mapas e bussola, sem uma noção para onde seguir é pedir para ser um andarilho sem rumo. Mesmo sendo um terreno relativamente fácil de andar por se tratar de vegetação baixa e com boa visibilidade é preciso não dar bobeira com um acidente porque naquele fim de mundo celular é coisa imprestável para comunicação. Num primeiro momento ficamos meio desorientados tentando localizar o rabo da trilha, mas ao vermos que essa trilha mal existe, nos apegamos ao gps e fomos navegando tendo o traklog como referência e o terreno vai subindo, ziguezagueando montanha acima, meio que paralelo ao Rio Soberbo, mas não perto dele, coisa de talvez 1 km de distância. A subida foi dura, nos perdemos em vários momentos e acabamos ficando sem água e somente uns 2 km depois que deixamos o rio é que conseguimos encontrar um riacho com águas frias para largar as mochilas e nos acabarmos de tanto beber. É uma paisagem de largas vistas, com plantas incríveis, sempre com a visão esplendorosa do vale do Rio Soberbo a nossa direita. O terreno parece que vai arrefecer um pouco, mas logo volta a subir novamente e parece que vai nos levar para o início de um vale, mas logo o gps nos indica que temos que tomar um caminho por dentro de alguns arbustos e de supetão somos surpreendidos com um casebre junto a um curral relativamente novo. Ainda eram antes das cinco da tarde, mas não tivemos duvidas que deveríamos acampar por ali mesmo, junto a um gramadinho em frente do rancho, que parecia estar ali apenas para marcar território, servindo de abrigo temporário e de depósito de materiais ligados a cavalaria. Montamos nossa barraca e fomos dormir muito cedo, estávamos cansados da árdua jornada que havíamos empreendido, primeiro escalando os penhascos dos cânions do Rubinho, depois torrando os miolos até aqui chegar. Não existe água junto ao casebre e chegamos a investigar em uma matinha próxima, mas o riacho estava seco e só conseguimos fazer uma janta e um café na manhã seguinte porque ao encontrarmos a porta aberta, conseguimos pegar um pouco dentro do barraco, mas antes matamos a cede chupando umas canas que por lá encontramos. A partida na manhã seguinte foi lenta e preguiçosa. A trilha volta pelo mesmo lugar que chegamos e continua para o norte, vai se elevando lentamente por um caminho que à primeira vista parece mais um carreiro de vacas, mas ali não havia nem vaca e nem qualquer sinal de vida humana e continuamos naquela vastidão, sempre com os olhos abertos para admirarmos uma infinidade de plantas rasteiras e pequenos arbustos de todas as formas, além de inúmeras formações rochosas. Estamos num degrau do espinhaço e ao longe era possível avistar o Vilarejo de Inhames perdido no horizonte. Vamos perdendo altura bem devagar, passamos por um riacho para molharmos a goela e não demora para percebermos que estamos sendo levados pelo terreno para calha de outro rio e quando lá chegamos, jogamos a mochila ao chão logo depois de atravessarmos o próprio CÓRREGO DOS INHAMES e enquanto o Andersom descansa à sombra de uma árvore torta, aproveito para me jogar na água e por lá ficar feito um hipopótamo tentando escapar do calor nas savanas africanas. ( córrego dos Inhames) O próximo trecho de pernada vai em direção a um capão de floresta isolado e ao longe vamos nos guiando em direção a um pequeno telhado que pensamos ser uma casa, mas quando lá chegamos vimos que não passava de uma casinha de cocho, usada para alimentar os animais, que também não existiam por lá. O sol agora esquentou de vez e a gente aperta o passo tentando encontrar logo mais um riacho para refrescar a moringa e quando mais um córrego é encontrado, é hora de enfiar a cabeça dentro para baixar a temperatura. Esse rio é a própria nascente de um rio maior que vai descer em direção ao vale e entrar dentro de uma grande floresta. Vamos descendo paralelo a esse vale verdejante e ao darmos uma bobeira, perdemos o caminho do traklog. Tentamos varar mato subindo um pequeno morrote, mas logo ficamos travados numa vegetação entrelaçada e aí ao avistarmos um casebre lá de cima, que era alimentado por uma trilha do outro lado do vale, resolvemos retroceder e varar mato no peito, atravessar o riacho e interceptar essa trilha até o casebre, que por sinal estava abandonado. Voltamos para trilha, agora acompanhando o rio pela sua direita e 500 metros depois o atravessamos e subimos até a metade de uma colina e logo notamos que outra vez havíamos perdido o caminho, que na verdade continuava paralelo ao rio. A trilha se alarga de vez e vamos adentrando numa floresta refrescante até darmos de cara com uma porteira, onde uma placa anuncia que estamos entrando nos domínios da FAZENDA PINHÕES DA SERRA. Não demora muito e somos encurralados por alguns cães barulhentos e vislumbramos a possibilidade de podermos ver gente, mas quando chegamos na sede da fazenda, encontramos tudo vazio e não foi dessa vez que a gente conseguir encontrar outros seres humanos nessa travessia. ( sede da fazenda Pinhões da Serra) Uma estradinha partindo para a esquerda nos serve de caminho e quando ela vira à direita inventamos de cruzar o rio e interceptar outra estradinha gramada e a seguimos por um bom tempo até percebermos que novamente estávamos perdidos e longe do caminho. Nos recusamos a voltar pelo mesmo caminho, então inventamos de varar mato na diagonal para tentar interceptar novamente a trilha e nos vimos atolados dentro de um brejo por um bom tempo até conseguirmos voltar para direção correta e pegar o estirão final que vai descendo sem dó até que umas 4 da tarde, quando o sol já queimava tudo a sua volta, demos nas barrancas do lindo RIO PRETO, hora de dar um basta, descer as mochilas e dar por encerrado mais um dia de caminhada. O Rio Preto é um rio belíssimo, com águas escuras e avermelhadas e ali naquele local seve meio que de ponte natural para quem quer cruzá-lo. Cinquenta metros a baixo uma prainha nos convida para montarmos nossa barraquinha, mas antes de isso fazermos, largamos tudo o corremos para um banho renovador. O calor foi imenso durante todo o dia e nuvens pretas se apresentam para nos dizer que a noite poderemos ter um pouco de chuva, então armamos nossa barraca na areia e tratamos de cobri-la com um plástico. E o trabalho realizado foi muito providencial porque a noite a chuva veio com gosto, o que não foi de todo ruim porque serviu para aplacar o calor e pela manhã o sol retornou com força para ser nosso companheiro por mais um dia de travessia. A trilha tradicional parte do outro lado do Rio Preto e vai continuar seguindo na direção norte até que é preciso escolher entre virar a esquerda para Fechados ou a direita para Cemitério do Peixe, mas nós estamos longe de sermos tradicionalistas e estudando novamente o mapa, resolvemos que iríamos descer margeando o Rio Preto até interceptarmos a TRILHA DE BAIXO novamente. Em um primeiro momento tudo estava correndo bem, estávamos conseguindo encontrar um bom caminho pelo lado esquerdo, mas foi aí que dei uma bobeira monstro, não percebi no GPS que o rio havia dado uma guinada para direta e continuei navegando para esquerda pensando que o vale que eu estava seguindo fosse o vale do próprio Rio Preto. acabamos nos perdendo quase 1 km longe do nosso caminho e pior, tivemos que varar mato e escalar paredes ingrimes para tentar voltar. Não peciso nem dizer que o Andersom ficou pistola da vida com o meu erro de navegação e passou umas 3 horas resmungando. Pulei à frente e tracei um azimute direto para interceptar a trilha de baixo e fomos nos enfiando cada vez mais numas piramberas até que a tal trilha apareceu. Pegamos a trilha para a direita e não demora muito interceptamos mais um casebre, mais um barraco abandonado. Agora estávamos seguindo outro traklog, mais sinceramente era um caminho imprestável, que mais atrapalhava do que ajudava. Quando a cerca do casebre termina, entramos a esquerda e fomos meio que contornando a casa até que o traklog se mete no meio de uma quiçaça, sem trilha sem qualquer vestígio de caminho e aí a gente toca varar mato tentando conseguir nos aproximarmos novamente do Rio Preto. Depois de muito custo chegamos ao rio e o atravessamos para o outro lado, interceptando um afluente e subindo por uma meia hora até cruzá-lo também, mas antes disso paramos para fazer um almoço porque aquele dia não estava sendo fácil. Com a barriga cheia e o espírito renovado, retomamos nossas andanças, primeiro subindo o rio e depois descobrindo uma trilha que se enfiou dentro de uma fenda da montanha e começou a subir para valer. O caminho era realmente bonito, mas as dificuldades passadas ao longo desse dia junto com o calor infernal nos fizeram apressarmos o passo até que o terreno arrefeceu de vez e voltamos a caminhar com a imensidão do cerrado. Uma parede gigante nos fez companhia por um certo tempo, uma muralha do lado direito e foi um sobe e desce pequenas colinas intermináveis até que o caminho vira para esquerda e adentra no meio de vegetação mais densa, num labirinto de caminhos até pularmos uma porteira e voltarmos a subir e descer colinas. Numa olhada rápida no mapa observamos que a descida final para o vilarejo de FECHADOS faria uma curva para direita, contornando uma montanha e depois se enfiando numa ladeira interminável até o povoado. Acontece que o Anderson ainda continuava meio bolado e inventou de querer cortar aquela volta imensa, simplesmente varando mato em linha reta, mas havia um problema: O mapa nos mostrava um vale gigantesco com paredes escarpadas, resumindo, era uma furada dos infernos, mas como eu já havia dado uma mancada grande na saída do Rio Preto, fazendo a gente rodar em círculos, achei melhor nem dar muito palpite e deixar a navegação final por conta dele. E assim foi, nos enfiamos tentando descer aquela pirambeira, às vezes galgando alguns morrotes, mas sempre enfrentando uma vegetação entrelaçada por galhos retorcidos. Mas o pior ainda parecia estar por vir quando nuvens negras começaram a se formar, ameaçando desabar sobre nossas cabeças. A tarde já ia longe, sem água a boca secou rapidamente e cada vez parecíamos nos enfiar num caminho sem volta. Eu nem dava mais palpites, só ficava de olho no traklog do meu celular, tentando ver se pelo menos estávamos indo para o rumo certo, mas já temia que poderíamos ficar na mão porque a bateria já agonizava. O Anderson ia à frente e eu já me arrastava atrás, pensando na possibilidade de encontrar um pouco de água e vislumbrar algum lugar que pudéssemos esticar nossa barraquinha e finalmente depois de despencarmos barranco abaixo, um veio de água salvador foi encontrado e quando já estudávamos seguir descendo o vale, que seria sem dúvida uma estupidez, encontramos um rabo de trilha que seguia em direção a trilha principal. Fomos seguindo por esse caminho, mas ele próprio se perdeu no meio do nada e aí toca a gente varar mato no peito novamente até que por um golpe de sorte fomos interceptar uma trilha antiga no degrau da montanha e por ela seguimos quase que noite à dentro até finalmente encontramos sinal de civilização, numa casa em construção, mas bem ao lado da grande trilha que nos levaria de volta para o povoado. Estávamos realmente gastando as últimas forças, já utilizando as energias reservas e quando o Anderson deu a ideia de ao invés de acampar na casa em construção, seguirmos caminho até o povoado, não tive nem forças para dizer não, apenas me levantei e como um boi que segue caminho para o matadouro, me pus a caminhar e deixar que minhas pernas me carregassem trilha abaixo, perdendo altitude no meio da floresta escura e sombria. ( FECHADOS) Aquele final de caminhada, descendo aquela trilha tradicional, levou uma eternidade, mesmo que não tenha passado de míseros 50 minutos e logo que passamos por uma cachoeirinha que desaguava à beira do caminho, fizemos uma curva e desembocamos numa estradinha de terra e ganhamos o estirão final até que de supetão demos de cara com o povoado. Logo na primeira casa um cachorro barulhento anuncia a nossa chegada e dela saí um senhor que nos interpela, perguntando de onde surgimos. Ao saber que estávamos vagando há 4 dias pela Serra do Espinhaço e que ele era o primeiro rosto humano que víamos nesse tempo todo, imediatamente nos chamou para dentro e nos convidou para um banho, enquanto sua esposa preparava uma janta. Uma hora atrás estávamos perdidos no limbo da floresta e do Cerrado mineiro e agora aquela família nos recebera como filhos sem nunca ter nos vistos antes e até então, surpreendentemente, o cara que ao contrário de mim que já está acostumado a chorar diante da beleza ou das agruras da vida, desabou emocionalmente. Aquele ser de aparência forte e até meio turrão em alguns momentos, não segurou as lagrimas, era o jeito que o Anderson Rosa arrumou para agradecer por nós dois as boas vindas dos “nativos” de FECHADOS. A família que nos acolheu arrumou um lugar para que pudéssemos passar a noite e logo quando o sol nasceu corremos para o centrinho do vilarejo a fim de pegar o único ônibus que por ali passava, na verdade só existem 3 ônibus por semana que liga Fechados à Santana do Pirapama e ele vai recolhendo de tudo pelo caminho, desde gente até animais, sacos de farinha, mantimentos, vai cruzando uma infinidade de pequenas áreas agrícolas, lugares onde o progresso passou bem longe e mais de 3 horas depois desembarcamos no seu final, bem na hora de pegarmos um ônibus para Sete Lagoas e de lá para a capital mineira, onde conseguimos um carona por aplicativo até São Paulo. Nossa passagem pela Serra do Espinhaço, nesses 10 dias que lá estivemos, serviu para que tivéssemos uma noção clara das riquezas naturais que se escondem nesse rincão mineiro, uma natureza ainda em estado bruto que se mantém preservada e longe das farofas humanas que ultimamente vem entupindo as trilhas e montanhas desse país. Fomos lá com o intuito de fazer uma bela caminhada pelos campos floridos do cerrado mineiro e trouxemos na bagagem uma grande aventura, simplesmente porque num determinado momento resolvemos jogar no lixo roteiros pré-estabelecidos e deixamos nos levar pela curiosidade e pela vontade incontrolável de nos jogarmos atrás do novo e do desconhecido. Divanei Goes de Paula – outubro/2018
  20. Olá a todos! Já faz uns dois anos desde a última vez que publiquei algo do tipo, mas aqui estou novamente com outro relato/documentário em vídeo. Eu aproveitei os dois últimos dias de 2018 para tentar a Travessia do Rio Branquinho, que é uma trilha através das terras indígenas que ligam a Zona Sul de São Paulo à cidade litorânea de Itanhaém. Eu estou sem computador, então o vídeo saiu bem amador e com uma marca d'água, mas acredito que consegui gravar todas as partes mais importantes da trilha (por exemplo, bifurcações, eu cantando e imitando vozes, trechos em que a travessia é feita através do rio, eu falando sozinho, eu tropeçando, eu nadando e eu xingando moscas e reclamando da ausência de cobras e onças). O vídeo foi gravado com uma GoPro Hero+, mas o YouTube infelizmente não liberou a resolução HD. Mas a imagem está boa.
  21. Foi uma experiência unica, acompanhem essa aventura.. 316 km de Cora Coralina.pdf https://trekkingnatrilha.blogspot.com/
  22. EXPEDIÇÃO VALE DO ITINGUÇU Foi numa tarde quente e chuvosa de verão que eles surgiram. Nove homens desembocam de supetão na extraordinária e turística CACHOEIRA DO PARAÍSO, nos domínios da JURÉIA. Toda a ação é assistida por uma multidão que fica perplexa, sem se darem conta do que está acontecendo. Um burburinho toma conta do lugar, homens, mulheres, crianças e velhos tentam entender de onde surgiram aqueles extraterrestres de coletes, perneiras, capacetes e mochilas estanques com equipamentos de escalada a tira colo. Os salva-vidas do parque ficam paralisados, sem ação, só fazem acompanhar com os olhos um a um dos exploradores descerem a escadinha de madeira e depositarem suas mochilas ás margens do grande POÇO VERDE e se atirarem na água, nadando para o outro lado até se posicionarem embaixo da queda da cachoeira. Nada disso havia sido combinado e o grupo foi tomado por um sentimento avassalador de satisfação e conquista e ao se juntarem, se abraçaram e comemoraram juntos, como jamais haviam comemorado antes e o aniversariante do dia não se conteve e escondidamente deixou escapar umas lagrimas em meio àquela enxurrada de emoções e agradeceu por estar vivo para apreciar aquele momento único. (Uma das Grandes Quedas do Itinguçu, no centro da Mata Atlântica, quase 2 dias da civilização) Já fazia muito tempo que eu deslumbrei a possibilidade de explorar às nascentes do Rio Itinguçu, o rio conhecido por abrigar a fenomenal CACHOEIRA DO PARAÍSO, uma das maiores atrações do entorno da Reserva Ecológica Juréia-Itatins nos domínios de Peruíbe, mas foi procurando um caminho para chegar ao cume da serra que descobri uma possível passagem que poderia nos levar a montar uma expedição que pudesse descer aquele vale selvagem e desconhecido. Por incrível que pareça, esse projeto foi parar em um canto esquecido do meu computador após tomarmos ciência de um pico selvagem e deslumbrante que servia como guardião das nascentes do rio, então deixamos de lado a aventura aquática e nos embrenhamos no meio da floresta até alcançarmos o cume perdido do Morro das Três Pontas. A expedição ao cume do pico Careca foi um sucesso e a partir daquela conquista, estabelecemos também um caminho viável para um dia tirarmos o Vale do Itinguçu do anonimato. (Cume Motchaka-Morro das Três Pontas) Eu já estava propenso a me enfiar em outros vales, quando parte do nosso grupo insistiu que a gente deveria pôr fim à novela do Vale do Paraíso, que era como vínhamos chamando aquele vale perdido até então,no feriado do Carnaval. Num primeiro momento dei uma titubeada por achar a logística partindo da cidade de Itariri muito complicada por ser um município perdido no Vale do Ribeira e sem transportes regulares partindo do interior Paulista ou mesmo da capital e quando os caras botaram os planos sobre a mesa , foi aí que me dei conta que a logística era mesmo uma grande merda: Teríamos que dirigir com nossos carros até lá na véspera do grande feriado e depois de tentarmos atravessar o vale, ainda teríamos que retornar para resgatar os veículos que ficariam aonde o Judas cagou nas botas. Bom, como não sou explorador de arregar pra coisa nenhuma e sabedor de que se não fosse agora perderia a chance de escrever também meu nome na história, dei uma garibada no velho NIVA 4X4 , apanhei o Vinícius e o Alexandre no centro de Sumaré e rumamos para a cidadezinha de Itariri que fica a uns 300 km de casa, mas antes paramos no meio do caminho para dar uma carona para o Gersinho, que era um dos que estavam na expedição ao Morro das Três pontas. A outra metade do grupo, todos da região metropolitana de São Paulo decidiram sair só na manhã do sábado e nos encontrar na cidadezinha antes do meio dia. Ao chegarmos à primeira entrada de Itariri, viramos para a direita e fomos rumo ao bairro da Igrejinha, sempre seguindo paralelos ao Rio Azeite e, ao atravessarmos a grande ponte, nos mantivemos a esquerda e ao chegarmos a um ponto de ônibus, alguns metros depois, deveríamos também continuar nos mantendo a esquerda, mas nosso navegador bobeou e fez com que pegássemos o caminho errado e fossemos nos perder no meio do nada, numa estrada sem saída em meio a escuridão daquela madrugada quente. Já passava das 4 da manhã, eu estava tombando de tanto sono e não houve nada que fizesse com que a gente voltasse para o nosso rumo, então encontramos um motoqueiro fantasma e ele nos guiou para fora do labirinto e nos deixou novamente depois da grande ponte do Rio Azeite e logo à frente um boteco abandonado, com uma grande cobertura, nos serviu de hotel pelo resto da noite e o tal QUIOSQUE DO BURRO acabou por se tornar uma escolha bem inteligente. Quando o dia clareou, o Vinícius já fez logo um pampeiro para que a gente levantasse. Me levantei, mas não deixei de protestar porque pensava em dormir até um pouco mais tarde e mesmo ainda com muito sono, dar de cara logo cedo com aquele rio espetacular, já faz com que o nosso humor se eleve rapidamente. A parte paulistana do grupo já nos sinalizou que só chegaria perto das 11 da manhã, então aproveitamos o tempo ocioso e voltamos até o centro de Itariri para um café reforçado e quando o bucho encheu, voltamos para perto do Quiosque do Burro, junto à uma ponte pênsil e lá ficamos até que que o resto do grupo se juntasse a nós. Antes do meio dia os meninos paulistanos aparecerem e é sempre um grande prazer rever esse bando de malucos vindos de todos os cantos da cidade e de outros municípios vizinhos. Silvester Natan, Daniel Trovo, VGN Vagner, Paulo Potenza e Rafael Soares, todos com uma alegria irradiante e felizes por estarem ali prestes a darem início a mais uma Expedição Selvagem, sem a certeza do rumo que aquela brincadeira tomaria, sem saber se aquela loucura chegaria bem ao seu final, mas todo mundo consciente de que cada um estaria por conta e risco, sabedores dos perigos que tal empreita envolveria. Com o dia claro, não tivemos problemas para encontrarmos a fazenda de bananas que procurávamos e seria nosso ponto de partida, a mesma propriedade do qual havíamos conquistado o cume do Morro das Três Pontas no ano passado, que por sorte, acabamos virando amigos do administrador que já havia nos dado o aval, deixando a gente estacionar nossos veículos na casa dele. Essa expedição tinha uma característica diferente das outras, desta vez teríamos que subir uma montanha com um desnível enorme para depois tentarmos navegar varando mato no peito até encontrarmos a nascente do RIO ITINGUÇU. Já conhecíamos o caminho até o topo da montanha, mas ainda discutíamos se era melhor varar mato em linha reta e ganhar precioso terreno ou tentar seguir por uma antiga trilha de caçadores e palmiteiros, que bordejaria o rio da Usina dos Ingleses, uma ruina perdida no meio da selva. Lá pelas 13 horas jogamos às mochilas às costas e partimos, mas me chamou a atenção o excesso de equipamentos que alguns carregavam, claro que eu já sabia qual era a intenção deles, mas me mantive sereno, já que essa foi uma discussão que eu havia perdido. Abandonando a casa do administrador, seguimos enfrente pela estradinha que ia ganhando altura aos poucos. O grupo se dividiu em dois e a pernada inicial foi servindo para botar os papos em dia, até que vinte minutos depois somos obrigados a abandonar a estrada em uma curva e adentrar para a esquerda, numa antiga estrada que hoje não passa de uma trilha erodida e interditada pelo matagal. Esse caminho servia para dar acesso ao bananal nas cabeceiras da fazenda, mas pela dificuldade de acesso, toda a plantação foi abandonada. Quinze minutos de caminhada, talvez menos, ouvimos um grito do grupo que vinha logo atrás. O Rafael estava passando mal e precisava descansar um pouco. Também pudera, a temperatura beira os 38 graus e até os mais magrelos já ameaçavam sucumbir diante daquele calor dos infernos. Logo o Rafael retomou seu caminho, mas não foi muito longe, caiu novamente prostrado, botando os bofes para fora. O Potenza deu-lhe um remédio e fomos caminhando lentamente, tentando fazer com que ele chegasse vivo até o casebre abandonado onde pensávamos que conseguiríamos um pouco de água. A chegada ao barraco caindo aos pedaços nos remete às boas lembranças de expedições antigas, mas água mesmo somente em uma garrafa grande deixada por algum caçador que logo foi despejada sem dó sobre a moringa do Rafael, que tinha anunciado a sua desistência da Travessia Expedicionária. Ficamos na choupana velha, vendo se seria necessário alguém acompanhar o nosso amigo de volta para a civilização, mas de repente o Rafa sacou lá do fundo da sua alma um último suspiro de vida e desistiu da sua desistência, preferia morrer na subida da serra do que se ver fora daquela expedição e correr o risco de nunca mais ter outra oportunidade e se a frase é mais do que batida, também seria mais do que oportuna: O SOFRIMENTO É PASSAGENRO, MAS DESISTIR É PARA SEMPRE! Com o Rafa aparentemente recuperado, largamos aquela habitação decrépita e partimos para o pé da montanha, atravessamos o bananal no peito, nos guiando pelo faro e pelo nosso GPS, até vermos que havia chegado a hora de deixarmos o conforto das bananas docinhas e nos enfiarmos de vez no meio da floresta espinhuda. O rio era audível do nosso lado direito, mas a vegetação não nos deixava avançar e o Rafael já começava a querer tombar de novo, aliás, todo o grupo cozinhava os miolos naquele calor escaldante. Todo mundo parecia implorar para que o rio chegasse logo, mas ao invés de água, toma barranco na fuça. A paciência acabou, mandamos o traklog para PQP e seguimos nosso instinto de sobrevivência até água e quando lá chegamos, não teve um que não tenha se atirado de cabeça nos poços de águas translucidas e alguns quase morreram de tanto beber e o moribundo do Rafael se atirou no leito do rio e lá ficou até que seu corpo absorvesse metade da água do córrego na tentativa de se restabelecer novamente. A tarde já ia lá pela sua metade e aquela dúvida inicial se seria melhor seguir pelo mato ou bordejando o rio, acabara de ser desfeita. Com o Rafa ainda meia boca, seria muito mais seguro ir tocando por dentro da água ou pela margem do rio, sempre subindo as pirambeiras que iam surgindo. Portanto, pela água começamos a pular pedras e atravessar pequenos poços e cachoeirinhas bucólicas e isso deixava todo mundo feliz por termos nos livrado do calor intenso. Sabíamos que aquele rio nos levaria direto para a grande cachoeira dos Ingleses e consequentemente para o alto da serra, mas ao chegarmos a uma bifurcação de rio, os caras que estavam seguindo o caminho pelo GPS, comeram bola, e ao invés de pegarmos o rio da direita, pegamos o da esquerda, talvez hipnotizados pela bela cachoeira que se apresentou à frente. Como subir a cachoeira era tarefa árdua e vendo que o caminho não era aquele e que estávamos no rio errado, aferimos nosso azimute e tentamos voltar para o vale correto, mas a gente começou a subir barranco atrás de barranco e cada vez mais parecíamos estarmos fora da rota, até que os navegadores decidiram pegar uma linha reta até o outro rio e ao invés de subirmos, começamos a descer. Perder altitude foi uma péssima ideia, foi um tempo perdido e eu morrendo de sono por ter dirigido a noite toda e não ter dormido, achei aquela navegação um furo n’água. Quando cansamos de andar para o lado errado, finalmente encontramos terreno aberto, mas longe de ser um caminho mais tranquilo porque aí começou a tocar de vez para o rio e ao chegar no seu leito tocamos para cima até interceptarmos a antiga CACHOIRA DA USINA DOS INGLESES, uma ruina do século passado que foi engolida pela floresta. A chegada à essa cachoeira é uma grande festa e as mochilas foram largadas ao chão e todo mundo se atirou para debaixo da queda no intuito de baixar de vez a temperatura do corpo, mas como não é possível ser feliz para sempre, logo já estávamos de volta a nossa labuta de tentar conquistar aquela montanha ainda hoje. ( Cachoeira Usina Velha dos Inglêses) A continuação do caminho é escalando ao lado da cachoeira, adentrando embaixo de uma espécie de gruta cavada na rocha e já saindo para esquerda e logo interceptando uma antiga trilha de caçadores.. A subida estava dura, o Rafael parava a cada 15 minutos e pelo andar da carruagem eu já estava vendo que daria o último suspiro e pediria para ser enterrado ali mesmo. A cada parada do Rafa, o grupo também era obrigado a cessar a caminhada e eu já procurava uma árvore para dormir por alguns míseros minutos, mas foi em um momento específico que todo mundo acordou de vez: ao passar por um buraco no chão, o grupo mais à frente despertou a ira de um vespeiro e não deu nem tempo para mais nada quando alguém gritou a palavra mágica: “CORRE, ABELHA “. O Rafael que já era uma múmia a vagar pela floresta, deu meia volta junto com o Vagner e despinguelou barranco à baixo na trilha e eu peguei carona no vácuo deles. O resto do grupo correu para cima e mesmo assim o Vinícius foi alvejado duas vezes. Quando tudo parecia se acalmar, o grupo que correu para baixo tentou se juntar ao grupo do alto e foi nessa que também fui atingido. Uma ferroada certeira bem na mão esquerda, que imediatamente ameaçou cair do meu braço de tanta dor. A dor é tão grande que nem a picada de jararaca que tomei anos atrás se compara. Por sorte o Vagner, já esperto de outros carnavais, me deu logo um antialérgico para acalmar minha ansiedade. A tarde já quase que agonizava e nada da gente encontrar água e nem um lugar descente para acampar. Nos enfiamos por dentro de uma parede rochosa, denunciando que estávamos muito perto da saída do vale. Eu estava com tanto sono que nem sabia mais que rumo tomar, só deixava minhas pernas me levar aonde meu cérebro achava que estava seguro. O Rafa insistia em continuar em pé e a todo momento alguém tentava persuadi-lo a não desistir de vez, até que sem termos outra opção, apontamos nosso nariz de volta para o grande rio e nos escorregamos na sua parede íngreme até novamente chegar as suas águas, aonde um poço esverdeado, junto a uma cachoeira Afunilada nos deu as boas-vindas. O lugar era lindo, mas imprestável para acampar por ser um vale rochoso e sem árvores aonde pudéssemos montar nossas redes. Eu já estava com vontade de sentar e dormir encostado em qualquer lugar, até que alguém deu a ideia de apanharmos água e voltarmos a subir até um selado onde havíamos passado na descida para o rio e sem perder tempo nos dirigimos para lá e cada qual escolheu sua árvore favorita para montar sua casa de mato. Diz a lenda que alguns ainda voltaram ao rio para tomar um belo banho no poção esverdeado, eu particularmente, caguei e andei para o banho, montei minha rede e me joguei para dentro aonde morri por umas 2 horas e só acordei porque o Alexandre teve dó da minha pessoa e me trouxe um prato de comida, porque se dependesse de mim, não iria nem jantar. (Cahoeira AFunilada) Doze horas de sono tem o poder de transformar um moribundo em outra pessoa. Acordei renovado, com energia suficiente para arrastar toda uma floresta no peito até o litoral e mesmo o Rafael que no dia anterior agonizou, já estava um touro bravo. Vagarosamente, desmontamos nosso acampamento e partimos. Retornamos ao alto da serra junto a parede rochosa e localizamos novamente o rabo da trilha que nos tiraria de dentro do “VALE V” e nos jogaria num mundo novo, de descobertas e encantamento, um mundo talvez trilhado por ninguém, apertem os cintos, a AVENTURA SELVAGEM vai começar. Logo cedo é hora de subir montanha e quando o terreno começou a se estabilizar, passamos por um córrego, esse ainda, afluente do rio da Usina dos Ingleses. Estamos num grande planalto e teremos que atravessá-lo por dois ou três quilômetros até que interceptemos de vez o grande Rio Itinguçu, bem na sua nascente, mas até lá chegarmos vamos comer o pão que o diabo amassou. Para aquela expedição, havíamos traçado um caminho usando as curvas de nível no mapa, mesmo porque é um mundo de florestas fechadas onde é impossível saber a real localização da nascente do Itinguçu apenas pelas imagens de satélite. Andaríamos por mais de 2 km até termos certeza absoluta que estávamos mesmo descendo o leito do rio. É , tudo isso parece obviu , mas na verdade não passa de uma grande ilusão e uma vez ali, parece que o mundo gira de tal forma que ninguém mais sabe para que lugar seguir, por isso a importância do GPS para nos dar um rumo, uma direção. (início do Rio Itinguçu) O terreno estabilizou de vez e é impressionante o numero de pequenos córregos que vão correndo para todas as direções, portanto seria quase impossível se apegar a um deles na tentativa que eles desaguassem no rio que procurávamos. Nessa condição os nossos navegadores tiveram que não desgrudar mais os olhos do GPS. O avanço é lento, emperrado por uma vegetação fechada e com terreno encharcado. Outros tantos pequenos córregos são cruzados, mas nenhum seguia para o nosso destino e muito provavelmente seriam abastecedores de algum afluente do Itinguçu que possivelmente ira interceptá-lo mais a baixo, Passado mais de hora, a gente se deparou com uma grande nascente, um grande buraco de onde a água brotava e tomava a direção exata do grande Vale do Itinguçu e foi aí que a gente começou a desconfiar que por uma grande sorte, havíamos finalmente achado a verdadeira nascente do rio. Aquela nascente foi ganhando outras vertentes de água e foi crescendo e quando ficou com mais ou menos um metro de largura, tivemos a certeza de que nossa navegação havia sido um grande sucesso, então não perdemos mais tempo com o GPS e tratamos logo de nos jogarmos de corpo e alma naquele corpo d’água. O rio foi crescendo, se alargando e quando pensávamos que nossas vidas seriam facilitadas, os homens que iam à frente foram surpreendidos por um Lamaçal de respeito, inclusive Daniel Troco e Vagner quase foram sugados para a entranha da terra, atolando seus corpos até na linha da cintura e outros que vinham atrás também tiveram o mesmo destino. As águas do córrego a cada curva ficavam mais cristalinas e o seu leito, antes barrento, começava a ganhar uma camada de pedregulho. Alargou-se de tal maneira que poços profundos já eram cruzados com a água acima da linha da cintura e quando chegamos a uma prainha formada por pedrinhas, paramos para um descanso e para morder alguma coisa. Sentados ali, naquele lugar lindo, em meio a uma das florestas mais espetaculares do mundo, há quase dois dias longe da civilização mais próxima, logo nos chama a atenção uma frutinha muito familiar, na verdade o chão estava qualhado delas: Quando alguém balbuciou dizendo que se tratava de JABUTICABAS, dei uma desdenhada antes de cair a ficha totalmente. Aquilo era realmente incrível porque se existe uma fruta que é símbolo do Estado e até do Brasil, essa seria a jabuticaba, mas eu em quase 25 anos de andanças pela Mata Atlântica jamais havia visto um pé selvagem desta fruta, já me deparei até com onças, mas jabuticaba era a primeira vez. Bom, a fruta estava ali, espalhada por toda a prainha, mas onde estaria o pé? Procurei pelo pequeno arbusto em meio às grandes e frondosas árvores e nada encontrei, até que do outro lado do rio, uma árvore de tronco esbranquiçado e de uns 15 metros de altura se curvava sobre nossas cabeças. Encontrar aquela raridade no Vale do Itinguçu foi mesmo uma grande honra e essa travessia iria nos mostrar que é igual a jabuticaba selvagem, só existe na Mata Atlântica e destinada a poucos. (Jabuticabas Selvagens) Retomamos a travessia, mas agora já sabedores de que os grandes desníveis não tardariam em se apresentar e logo quando o rio de pedrinhas se transformou em um rio de leito de rochas gigantes, as primeiras quedas já surgiram pelo caminho e para felicidade geral do grupo, uma delas nos chamou a atenção pelo tamanho do poço de águas esverdeadas e essa foi a deixa para todo mundo se jogar de vez e lavar a alma naquele dia ensolarado de verão. O poço fez a alegria da galera, o banho renovou os ânimos, lavou a lama e já nos mostrou um pouco do que nos esperava pela frente. O rio afunilou por um momento e logo apareceu uma cachoeira de tamanho considerado e aí foi hora de pararmos para estudar o terreno. Antes de expedição começar houve um embate sobre levar ou não cordas para fazer a descida das grandes cachoeiras. Eu e outra parte do grupo achávamos totalmente desnecessário carregar um material pesado para esse tipo de travessia selvagem, ainda sabendo que a possibilidade de pegarmos lugares intransponíveis seria praticamente nenhum, mas uma outra parte do grupo achou que seria viável e muito bem vindo para um treinamento específico, então parte da equipe acabou por carregar esse peso extra. Pois bem, ao nos depararmos com essa cachoeira, parte do grupo se preparou para montar as cordas e a outra parte se enfiou no vara-mato e ficou combinado de todos nos encontrarmos no patamar mais abaixo, no pé da cachoeira. Como imaginávamos, a passagem pela floresta, perdendo altura, foi rápida e tranquila, mesmo a gente tendo que nos pendurarmos numa parede coberta por vegetação solta e depois tendo que descer escorregando por outro barranco até ganharmos o leito do rio.Descemos e ficamos apreciar a galera fazer um bonito rapel ao lado da queda e quando todos estavam unidos novamente, partimos novamente por dentro do rio. (Primeira Grande queda do Itinguçu) Por dentro da corredeira o avanço é lento, mas muito prazeroso já que o calor estava de matar. O rio vai perdendo altura até que se joga novamente num abismo em forma de garganta e novamente o Vinícius, o Alexandre, o Gersinho e o Natan abrem mão do equipo para o rapel, enquanto os outros já encontram uma passagem pelo lado direito entre as árvores e em poucos minutos estávamos todos na entrada da garganta de pedras pretas e que logo ganhou o nome de CACHOEIRA DO CÂNION DO ÉBANO. Mais uma vez a gente assistiu de camarote a galera se pendurar nas cordas e ir baixando vagarosamente até caírem no leito do rio. Apesar desse procedimento tomar um tempo , a gente não estava muito preocupado com isso não, já que chegamos a uma conclusão que poderíamos estar com um tempo de sobra e poderíamos nos dar ao luxo de curtir cada parada. (Cachoeira do Cânyons do Ébano) Enrolada a corda e guardado os equipamentos, a descida continuou, mas não deu nem tempo da corda escorrer a água e já foi novamente retirada da mochila para fazer a descida de mais uma cachoeira aonde um grande poço na sua base convidava todo mundo para outro mergulho. Mais uma vez parte do grupo se aventurou pela descida sem corda, na verdade, somente eu, o Troco e o Vagner atravessamos a correnteza à beira da queda para tentar descer. O Vagner desceu um barranco pulando de uns três metros, se valendo de um patamar mais abaixo, mas eu não tive confiança de ariscar o salto porque se o tal patamar escondido na vegetação não parasse meu corpo, com certeza eu iria despencar no vazio e achei melhor tomar outro rumo. O Trovo passou pendurado numa rampa igualmente perigosa e foi se junta ao Vagner na base do poço. Retornei para junto do resto da galera e quando estava tentando procurar uma passagem mais segura pela direita, os caras me convenceram a descer pela corda. Nunca tive problemas com rapéis à beira de cachoeiras, pelo contrário, o fato de eu ter passado anos da minha vida me dedicando a descida de dezenas de quedas, fez com que esse tipo de atividade perdesse a graça e se tornasse uma coisa comum, mas confesso que até foi interessante me jogar novamente corda à baixo e deixar meu corpo cair dentro daquele poço incrível e sair nadando até sua margem. Quando todo mundo se juntou ao pé da cachoeira, partimos novamente, agora nos enfiando em mais um vale estreito e cada um vai desescalando como pode e logo mais a baixo, alguém chama atenção para uma cachoeira que despenca de afluente do lado direito do rio e para lá nos dirigimos, escalando alguns pequenos matacões até nos depararmos com uma parede negra de onde uma água limpíssima despencava de num véu incrível e a coloração da rocha já fez alguém batiza-la de CACHOEIRA NEGRA. Aproveitamos a parada para comer alguma coisa e para nos refrescarmos, mas foi uma parada rápida porque ainda sabíamos que teríamos que vencer mais uma grande queda até a hora de acamparmos (Cachoeira Negra) Outras pequenas quedas são cruzadas, alguns poços atravessados, barrancos desescalados até chegarmos às bordas da maior cachoeira da travessia. Não era uma cachoeira gigante, nos moldes das que estávamos acostumados a encontrar nessas expedições, muito porque já sabíamos que esse rio não seria um rio com desníveis abruptos e abismos colossais, mas era uma cachoeira muito cênica e os meninos que carregavam as cordas e vinham aprimorando suas técnicas, não perderam tempo e já instalaram o rapel do seu lado direito, enquanto o grupo sertanista, como o Trovo chamou em tom de brincadeira, se enfiou mato à dento do lado direito e em poucos minutos já estavam apreciando a movimentação dos canyonistas, sentados confortavelmente sobre uma grande rocha e ali ficaram, comendo “pipoca com manteiga” e assistindo a ação bem sucedida do grupo radical e para marcar esse ponto importante dessa EXPEDIÇÃO SELVAGEM, vou me dar ao direito de batizar essa cachoeira e o nome acho que não poderia ser outro, uma homenagem a esse rio incrível , que nasce no meio do nada e vai crescendo, ganhando corpo até se transformar nessa espetacular CACHOEIRA DO ITINGUÇU. ( Cachoeira do Itinguçu) O dia quase que já havia findado e o sol já se preparava pra se deitar ao oeste e então decidimos que já era chegada a hora da gente achar um lugar para acampar. Conseguir localizar um lugar descente e que possa abrigar nove exploradores não é tarefa das mais fáceis quando se está imerso dentro de uma vale com paredes rochosas dos dois lados e é preciso achar algo antes de escurecer. Todos estão cansados e loucos para descansar o esqueleto porque foi um dia de aventuras intensas, mas a cada passo dado e sem encontrar nada, a preocupação vai aumentando e até a euforia vai diminuindo consideravelmente. Um afluente quase seco faz com que a gente opte por um desvio e foi aí que o batedor que ia à frente vislumbrou um patamar acima, quase plano, com árvores grossas e espaçadas e não tivemos mais dúvidas, jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado mais um dia de explorações. ( Segundo Camping) Cada qual foi cuidar de montar seu abrigo e quem for mais esperto vai conseguir ficar com as melhores árvores, uns se dão bem, outros como eu, são obrigados a dormir pendurados a um passo da ribanceira. Montada minha rede, instalado o meu toldo, me livro das roupas molhadas e vou cuidar da janta, porque apesar de ter sido um dia duro e intenso, me sinto muito bem disposto. A janta não vai ser um banquete porque optei em vir o mais leve possível e apenas cozinho um pouco de arroz, frito umas fatias de bacon, pico um pedaço de pimenta dedo de moça, abro uma lata de sardinha, jogo um queijo ralado no arroz, dissolvo um suco de laranja numa garrafa pet e isso é o bastante para deixar a minha alma alegre pelo resto da noite. Antes das oito já me atiro para dentro da minha cama de mato, fecho o mosquiteiro e apago completamente. Acordo lá pelas cinco da manhã descansado e bem disposto e como ainda está escuro, fico envolto nos meus pensamentos e logo me lembro de que hoje acordei um ano mais velho e me sinto feliz de, aos 48 anos ainda estar ativo, podendo desfrutar de uma vida de aventuras. Lentamente vamos desmontando nosso acampamento e enquanto a água não ferve para preparar um café, resolvo instalar a capsula de registro das travessias selvagens, mas ao invés de uma capsula bem elaborada, desta vez apenas improvisei com uma garrafinha de suco de uva porque não queria me dar ao trabalho de carregar peso algum que não fosse o essencial para minha sobrevivência naquela expedição. A galera realmente acordou diferente nessa manhã de 12 de fevereiro, estavam parecendo mais leve, todo mundo mais animados, acho que já prevendo que seria um dia tranquilo, um dia dedicado ao divertimento e ao laser, já que a pior parte parecia ter ficado para trás. ( Capsula do tempo) A nossa travessia é retomada voltando de novo ao rio, mas por ainda ser muito sedo, vamos evitando entrar na água, só que o esforço de ficar quebrando mato no peito já faz com que parte do grupo proteste com os batedores que logo são obrigados a tomarem outro rumo e voltarem para o rio, fazendo com que o grupo seja obrigado a se pendurar num barranco alto, tendo que se jogar encima de um arbusto e fazer uma queda controlada até mais abaixo. O dia já começa quente e o melhor caminho é mesmo por dentro da água, deslizando entre suas correntezas, saltando nas suas piscinas naturais. O rio vai sendo cruzado de um lado para o outro, grandes pedras são escaladas ou apenas desescaladas. Quando os obstáculos parecerem intransponíveis é hora de avançar pelo mato e quando era preciso, um pedaço de corda era jogado e nele nos pendurávamos como dava e descíamos de volta para o rio. Algumas ilhas vão surgindo no nosso caminho, fazendo com que o rio se divida em vários, mas logo voltava a virar um só quando os rios se juntavam mais abaixo. Quando apareciam aqueles poços incríveis era hora de parar e desfrutar das suas águas incrivelmente cristalinas, era hora de se jogar, era a hora do divertimento, do lazer. Os mais eufóricos se jogavam de cima de grandes pedras em saltos espetaculares, outros só faziam passar vergonha com seus saltos pífios. Pelo caminho uma infinidade de pequenas cachoeirinhas é transposta, vales, corredeiras vão ficando para trás e antes do meio dia, como havíamos previsto, chegamos a um grande poço de onde uma CACHOEIRA se espalhava de um lado a outro do rio, formando um grande tobogã natural, hora de jogar as mochilas ao chão para um descanso mais demorado e comer algo porque o lugar é mesmo especial. Aquele lugar era mesmo incrível, de uma transparência única. Sentei-me sobre uma grande rocha para poder me aquecer um pouco, já que eu mesmo havia me atirado de cabeça naquele grande poço. Fiquei ali parado, inerte, assistindo parte do grupo despencar cachoeira abaixo, escorregando na grande rampa. Estávamos ali, imersos em um lugar onde, muito provavelmente, nunca ninguém esteve antes e aqueles homens, alguns com a metade da minha idade, mais pareciam crianças descendo no escorregador do parquinho, felizes da vida e imersos num mundo só deles, sem se preocuparem com coisa nenhuma, apenas a desfrutar de uma vida simples e de desapego. A galera parecia não querer ir mais embora, mas depois de descerem de trenzinho mais uma vez, tomaram ciência de que aquela expedição teria que terminar ainda hoje e para guardar uma boa lembrança daquele lugar, nos reunimos para uma foto histórica no coração selvagem da Serra do Mar Paulista, como a fazer um brinde pela vida e pela oportunidade de estarmos mais uma vez juntos em mais uma travessia memorável. Depois da cachoeira do grande escorregador, pegamos uma sequencia onde o rio afunilavam nos obrigando a descermos por dentro das corredeiras e sempre tendo que cuidar para não sermos levados ao desescalarmos por dentro da água e assim foi o ritmo por mais de uma hora até tropeçarmos em outro grande poço com uma pequena cachoeirinha que despencava num refluxo de águas azuis, onde mais uma vez fizemos uma parada para recreação, regados a muitos pulos e mergulhos. Na sequencia ainda passamos por incontáveis outros poços aonde nos jogávamos de cima das pedras e nadávamos para o outro lado, sempre nos divertindo muito até que chegamos a uma grande rampa d’água, uma cachoeira inclinada, que desaguava em outro poço fenomenal e ali paramos para mais uma descanso, para apreciar uns petiscos e esperar que a galera das cordas se divertisse tentando descer mais esse corpo d’água. Verdade mesmo que somente o Vinícius e o Natan acabaram por se envolver nesse rapel, porque o Alexandre e o Gersinho preferiram ficar à beira do poço degustando uma calabresa com limão e depois tiveram que ouvir poucas e boas porque o Vinícius teria quase se lascado na torrente de água e eles não estavam lá pra ajudar, mas não demorou muito e logo as coisas se acertaram. Lá pelas 14 horas começou a chover e estávamos sempre atentos para não sermos pegos por alguma possível cabeça d’água. A chuva veio, mas o tempo continuava quente e agradável e o rio continuava com a mesma transparência de sempre. A travessia continuava muito animada e tranquila e o terreno só se complicou um pouco quando chegamos a um grande desnível de onde despencava uma pequena cachoeira em um afluente do lado esquerdo do rio. Descemos por um desnível considerável e logo nos jogamos de cima de mais uma cachoeirinha e passado esse trecho enfrentamos uma sequencia de corredeiras mais violentas onde íamos nos jogando por dentro delas e deixando a força da água nos adiantar o caminho. No nosso localizador por satélite observamos logo que o final da travessia não estava muito longe, mas ao transpor mais um imenso poço de águas cristalinas nos deparamos com um amontoado de rochas e alguns que esperavam moleza no final, fizeram uma cara de desanimo. Foi aí que demos um pulo certeiro. Ao tentarmos varar mato pela esquerda nos deparamos surpreendentemente com uma trilha larga, aberta e bem consolidada. A trilha corria perpendicular ao rio e logo achei que ela poderia se perder em alguma localidade rural, mas o Rafael insistiu que deveríamos ir por ela, já que ele mesmo era exímio conhecedor ali daquela região. Seguimos então por ela e logo passamos por um afluente, onde o atravessamos e subimos o barranco do outro lado e em mais uns 10 minutos tropeçamos numa bifurcação e o Rafael reconheceu o lugar e nos indicou que deveríamos pegar para a direita que logo chegaríamos à Cachoeira do Paraíso. Bastou alguns minutos mais de caminhada e já avistamos a placa que indicava que deveríamos virar à direita e ao fazermos isso, já demos de cara com a cachoeira e seu grande poço de águas esverdeadas. Já fazia maios de 20 anos que eu não botava meus pés nessa CACHOEIRA DO PARAÍSO e sinceramente, nem me lembrava de que o poço era tão grandioso. Quando adentramos naquele lugar, que estava lotado de turistas, fomos recebidos com um enorme espanto pela multidão que se aglomerava naquela grande atração . Não sei o que houve naquela tarde de segunda-feira feira de carnaval porque surpreendentemente nosso grupo pareceu estar tão extasiado com o final daquela travessia que ninguém disse nada e como um zumbi, um a um foi caindo no poço e nadando para o patamar aos pés da cachoeira. Pior ainda foi a cara dos guarda-vidas do Parque Estadual, que só nos olhavam sem entender o que estava acontecendo. Quando todo o grupo se juntou, fomos tomados por uma sensação inigualável de sucesso, de dever cumprido. Havíamos proposto realizar uma travessia inédita, desbravar um grande rio a partir da sua nascente e agora estávamos todos ali, havíamos cumprido o planejado. Estávamos eufóricos, extasiados, inebriados pela conquista, nos abraçamos e celebramos o sucesso da empreitada. ( Cachoeira do Paraíso) Depois daquela cena memorável, varias pessoas ficaram nos perguntando o que estava acontecendo e de onde vínhamos com aqueles trajes de astronautas. Desconversamos, muito porque já percebemos que os salva-vidas ganharam a nossa movimentação e avisaram a portaria pelo rádio que algo estranho estava acontecendo. Juntamos-nos para uma ultima foto do grupo enfrente a cachoeira, apanhamos nossas mochilas e saímos vazados de lá. Bom, agora havia chegado a hora de enfrentarmos a fiscalização do Parque Estadual do Itinguçu, parque esse que foi meio que desmembrado da reserva Ecológica da Jureia, justamente para poder permitir que o cidadão pudesse frequentá-lo, mas que jamais entenderiam se falássemos que vínhamos da nascente do rio, três dias atrás, mesmo assim teríamos que enfrentar esse problema. Quando o grupo chegou à portaria não demorou muito para um dos controladores de acesso encurralar o Natan na parede. Perguntou que horas havíamos entrado, se estávamos nos aventurando mais acima da cachoeira do Paraíso e o Natan já deu um “migué” dizendo que havíamos chegado bem cedo e já foi picando a mula sem dar maiores satisfações e assim foi seguido pelo resto do grupo, que mal olhou na cara dos guardinhas e ganhamos rapidamente a rua e sem nem olhar para trás, continuamos caminhado até sair das vistas de quem quer que seja. Ficamos sabendo que o único ônibus que poderia nos levar de volta à civilização só partiria depois das oito da noite, então resolvemos caminhar uns 3 ou 4 km até uma bifurcação de onde tentaríamos outro ônibus ou uma carona para nos levar até Peruíbe, mas quando lá chegamos, descobrimos que talvez não houvesse ônibus algum, já que o rio que corta a estrada estava cheio. Mesmo chovendo, não Havia alternativa, senão tentarmos chegar ao vilarejo do Guaraú caminhando por umas três horas ou mais. Sem termos o que fazer, lá fomos nós, um pé à frente do outro até que logo à frente nos deparamos com a cheia do rio que inundou uns 200 metros de estrada e chegamos bem a tempo de presenciarmos um caiçara que incorporou a mãe d’água e foi morar com sua motoca no fundo da inundação. Depois desse trecho passamos por um camping e por sorte, uma conhecida do Potenza estava por lá “excursionando” e não demorou nadinha para o menino passar um óleo de peroba na cara e ir lá descolar uma carona numa Van, mediante a um pagamento simbólico. O veículo nos deixou numa pracinha do Guaraú, que fica bem ao pé do morro de mesmo nome e o que nos restava agora era termos paciência até que o ônibus que partiria para Peruíbe chegasse. A chuva não dava trégua e mesmo assim a festa de carnaval corria solta no vilarejo, onde um trio elétrico fazia a alegria da multidão de foliões que, possivelmente com a cara cheio de pinga, não estavam nem aí com a “molhasseira” dos infernos. A noite já ia caindo e nada do tal ônibus chegar. Estávamos todos molhados e com frio e ficamos ali, numa marquise de uma lanchonete, assistindo ao show de horrores dos “cú de pinga” dançando carnaval e quando um dos nossos (Alexandre), depois de tomar uma latinha de cerveja, resolveu descer na boquinha da garrafa, decidimos que era hora de fazermos algo pela gente e que nos tirasse daquele antro de perdição. Quando uma Kombi encostou enfrente a lanchonete do outro lado da avenida, vislumbramos a possibilidade de conseguirmos um transporte para Peruíbe e para isso destacamos para essa missão, nosso enviado especial para assuntos logístico, o xavecador mor, VGN Vagner e esse foi o maior erro que cometemos nessa expedição. O Vagner voltou dizendo que havia conseguido um carreto para Peruíbe por meros “cinco conto”, mas que o nosso motorista parecia estar um pouco alterado. Quando lá chegamos com nossas cargueiras, nos deparamos com uma Kombi toda zuada, sem bancos e com um “rippie maconheiro” , com o rabo cheio de fumo. Bom, é aquele negócio, já que está no inferno abraça logo o capeta, mas essa frase talvez não fosse muito adequada para o que ia se seguir. A chuva havia aumentado ainda mais e rapidamente nos jogamos com mochila e tudo para dentro da Kombosa e cada um se ajeitou como pode e como deu. O motorista e seu ajudante ainda tiveram tempo de dar um sorriso amarelo, quando viram nove homens e suas cargueiras adentrarem no veículo. Deu a partida no bagulho e logo que se livrou dos foliões que desfilavam atrás de nós, ganhou a estradinha escura que leva ao alto do Morro do Guaraú. O barulho era ensurdecedor, parecia que o carburador iria explodir a qualquer momento, mas mesmo assim estávamos contentes porque finalmente parecia que sairíamos daquela travessia, porque já tinha gente comparando aquela expedição com a Caverna do dragão. O rippie acelerou, esgoelou, a Kombi tremeu, balançou e foi subindo aos trancos e barrancos e nós tentávamos ajudar com a força do pensamento, mas quando faltava menos de 1 km para chegar ao alto da serra, o trambolho morreu de vez e ficou atravessada na diagonal, no meio da pista e não houve nada que o rip pudesse fazer para que ela voltasse a pegar, inclusive nem o freio ele conseguia acionar direito, fazendo com que a gente quase caísse na ribanceira. Ficamos todos ali, sem saber o que fazer e só esperando a hora que um carro viria para estraçalhar a Kombi com a gente dentro e a cada freada dos veículos na escuridão, nossos corações pareciam que saltaria pela boca. Ninguém disse uma palavra, eu olhava para os caras e só via olhos arregalados e o safado do rippie também não dizia coisa com coisa e quando alguém resolveu tomar uma atitude dizendo que iria sair para sinalizar e abriu a porta da perua, uma avalanche de mochilas e caras cagados, se jogaram para fora da Kombi naquela noite escura e chuvosa e essa foi a ultima vez que ouvimos falar do o tal rippie porque não quisemos nem saber o que houve com ele e com aquele veículo do satanás. Tendo nos livrado do rippie para salvar nossas vidas, caminhamos até o alto da serrinha e lá nos amontoamos embaixo de um ponto de ônibus mequetrefe e esperamos até que um ônibus nos apanhasse e evitasse que morrêssemos de frio e nos levasse direto para a rodoviária de Peruíbe e chegando lá, embarcamos imediatamente para Itariri. Já passava das dez da noite e ali na minúscula cidade, nos despedimos da galera paulistana, que conseguiram um taxi para poder resgatar o carro na fazenda de bananas, enquanto eu, o Alexandre, o Vinícius e o Gersinho resolvemos dormir num hotelzinho e voltar para casa somente na terça feira, já que não queríamos dirigir a noite por quase 300 km até a região de Campinas. E essa foi mais uma EXPEDIÇÃO, até então inédita na Serra do Mar Paulista, uma aventura que marca mais um pioneirismo em um dos mais exuberantes lugares do mundo, uma travessia de descobrimento, encantamento, regada a amizade, companheirismo e determinação, uma aventura em busca de conhecimento, de aprendizado, mas antes de tudo, um brinde a vida e ao desapego porque a simplicidade sempre nos bastou. Fomos em busca do novo, do diferente, de um mundo selvagem, nos embrenhamos na selva para escaparmos das mesmices de sempre e voltamos de lá extasiados pela descoberta, porque em matéria de AVENTURA, essa SERRA nunca decepciona . Divanei Goes de Paula - Fevereiro/2018
  23. Boa noite pessoal. Estou a um tempo pensando em fazer essa trilha e decidi fazê-la em 1 ou 2 semanas, eu e mais um amigo. Estamos praticamente no mesmo nível físico, temos certo conhecimento de trilhas e alguma coisa também de escalaminhada, nossas duas últimas foram Pedra da Gávea (carrasqueira) e Pedra do Elefante (Itaipuaçu). Não temos GPS (apenas o Wikloc no celular), vamos tentar levar o máximo de power bank possível para ocnseguir realizar essa trilha com o equipamento; mas apesar disso, vimos vários relatos, alguns dizendo que é necessário ter corda, outros não. Alguém que já tenha feito poderia dar algumas dicas? Ah, também aceitamos companhia, pretendemos sair do Rio de Janeiro, mais precisamente Copacabana na sexta feira, por volta de 17h, deixar o carro em Teresópolis (no fim da travessia) pegar um ônibus para Petrópolis e passar a noite lá em algum lugar por lá, acordar sábado cedo e ir direto iniciar a travessia. Toda ajuda é bem-vinda. Agradeço antecipadamente galera.
  24. Com o feriado de 7 de Setembro se aproximando, eu e mais 3 amigos começamos a nos preparar para fazer a subida à Pedra da Mina via Fazenda Serra Fina, não fazendo ideia do que nos esperava. Moramos em Barbacena, e a viagem de carro até o pacato município de Passa Quatro (MG) demora em torno de 4 horas, mas o acesso à fazenda é por uma estrada de terra que nos toma mais 1h15min...enfim, saímos de Barbacena por voltas das 3h50 minutos, enfrentamos as precárias estradas do sul de MG, paramos em Pouso Alegre para tomar um café da manhã reforçado e seguimos para enfrentar a mais precária ainda estrada de terra que dava acesso à Fazenda Serra Fina. A estrada é bem sinalizada, então não houve grandes dificuldades para chegar até a fazenda, principalmente usando o GPS. Chegando lá por volta das 9h30, pagamos R$20,00 à senhorinha que mora na fazenda, assinamos um livro que é para controle de quem entra e sai da trilha, nos arrumamos e iniciamos a trilha por volta das 10h. A placa que marca o início do caminho passa uma ilusão gigantesca de que a subida até o pico leva 5h, o que nós realmente acreditamos veementemente e achamos inclusive que dava para abaixar esse tempo (iludidos 😓). A primeira parte da trilha é muito tranquila, basicamente um caminho por mata fechada (bem fechada, alguns pontos é até difícil ver a trilha), com alguns pontos de lamaçal e riachos, mas todos com algumas pedras que auxiliam na passagem. Após 30 min de caminhada tranquila, chegamos à cascata, com uma água cristalina e um visual sensacional. Após atravessar pelas pedras, bem escondido no canto esquerdo da outra margem do rio, tem um acesso à uma cachoeirinha que nos brinda com esse visual SENSACIONAL. Perdemos uns 20 minutos ali descansando, tirando fotos, hidratando e checando a trilha no WikiLoc (app que recomendo muito, inclusive, baixamos a trilha antes de sairmos de casa e nos ajudou muito). Na cascata também existem muitas abelhas pretas, que não têm ferrão, mas grudam no cabelo e tem uma mordida muito doída. A trilha a partir daí começa a exigir muito mais do físico, já que começa uma subida já com traços de escalaminhada, muito íngreme e muito longa (realmente parece que nunca mais acabar). É válido lembrar para levar um calçado adequado, pois a terra e o capim tornam a trilha muito escorregadia. Após esse primeiro "susto" com a necessidade física da trilha, chegamos num primeiro local de acampamento, onde paramos para almoçar e abastecer nossos recipientes de água numa bica que tem por lá (a água é geladinha e tem um gosto sensacional, a vontade era encher algumas garrafas para levar para casa), já que segundo o WikiLoc e alguns relatos, ali é o último ponto de água antes do cume (e a informação realmente procede, a travessia toda se destaca pela escassez de pontos de água). Ali tinham alguns grupos de trilheiros que almoçavam e conversavam, e todos eles nos disseram que a pior parte da trilha estava logo a frente (o que muitos relatos também confirmavam). Após uma parada de mais ou menos 1h para almoço, descanso e abastecimento de água, seguimos viagem já preparando o psicológico para enfrentar o temido "Paredão do Deus Que Me Livre", e o paredão faz jus ao nome ! Estávamos animados com o horário, já que segundo o WikiLoc, fizemos praticamente metade da trilha em questão de distância em 2 horas, mas ao observar o que nos esperava, vimos que a trilha mal havia começado. O subidão é praticamente do começo ao fim uma escalaminhada muito pesada, em alguns momentos exigindo inclusive uma certa experiência com escalada. É bom sempre ficar atento aos totens e às marcações reflexivas, pois alguns pontos da subida possuem várias bifurcações e é realmente muito fácil se perder. Sempre que possível, parávamos em algum lugar para descansar e hidratar, mas o cansaço bateu forte do começo ao fim, pensamos em desistir algumas (muitas) vezes. Terminando o subidão da Deus Que Me Livre, demos de cara com o Morro da Misericórdia, que era igual ou pior ao anterior. A essa altura, o psicológico bate forte, muitas pessoas montam equipamento ali mesmo, ou um pouco mais a frente, dentro da mata no vale, aonde tem uma área de acampamento em uma área de mata fechada; mas resolvemos continuar. Após chegar ao fim do Morro da Misericórdia, com as pernas e os ombros pedindo arrego, nos deparamos com mais uma caminhada considerável até chegar no pé do morro da Pedra da Mina, aonde montaríamos acampamento. Andamos devagar, ainda nos recuperando das duas subidas absurdas que havíamos acabado de vencer, mas chegamos à área de acampamento por volta das 17:10, montamos acampamento rapidamente e subimos ao morro sem mochila para acompanhar o por do sol, o que com certeza valeu muito a pena. Lá de cima é possível ver claramente o belo Vale do Rhua, o Pico das Agulhas Negras e alguns vários municípios da região, a vista é DESLUMBRANTE, por um instante até se esquece o esforço feito para chegar até ali. Após ver o por do sol, descemos para nos alimentar e ir dormir. Colocamos algumas roupas secas, já que as da trilha estavam encharcadas de suor e o frio já estava começando a dar as boas-vindas, fizemos um macarrão com frango desfiado usando o fogareiro a álcool, apreciamos o belíssimo céu estrelado com direito até a chuva de meteoros e fomos dormir. Nosso "rango", que deu uma sustância muito boa e ficou pronto rápido Acordamos por volta das 5:30, desmontamos acampamento e andamos um pouco até o pico do Morro da Misericórdia, para afastar-nos um pouco do frio. Lá no pico, tomamos café com uma vista deslumbrante do vale, e por volta das 7:00 começamos a descida da trilha, que é tão doída quanto a subida. O joelho dói muito na descida, já que boa parte da trilha é escalaminhada e descidas muitos íngremes, um bastão de caminhada é ESSENCIAL para a volta. Chegamos até a área em que almoçamos na subida, descansamos por mais ou menos 1h e repusemos a água na bica para continuar a descida. Chegamos à fazenda exaustos por volta das 11:30 e embarcamos no carro para a volta para casa e o merecido descanso. Nossa vista do vale durante o café da manhã A trilha exige MUITO preparo físico, equipamento bom (principalmente calçado, bastão de caminhada,barraca, isolante térmico e saco de dormir para -10ºC) e exige também muito preparo psicológico, mas com certeza valeu muito a pena. A vista durante toda a trilha é sensacional, o céu noturno no alto do pico é inexplicável e a experiência como um todo é sensacional. Da próxima vez, pretendemos fazer a travessia de 4 dia da Serra Fina, começando pela Toca dos Lobos, mas até lá ainda vamos nos recuperar por um bom tempo 😅😅😅. O frio castigou durante a noite ! ❄️❄️
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