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  1. Esse é meu primeiro relato aqui no Mochileiros! Espero não decepcionar Dividí o post em 3 partes para não ficar grande demais: * Montanhas Rochosas Canadenses – O Planejamento * A Viagem Parte 1 – Relato pelo Parque Nacional de Jasper, no Canadá * A Viagem Parte 2 – Relato pelo Parque Nacional de Banff, no Canadá Montanhas Rochosas Canadenses – O Planejamento Que o Canadá é um país de muito frio, de bandeira vermelha e branca, da típica Maple Leaf, de Niagara Falls e de inglês e francês, muita gente sabe. Não é difícil que Vancouver, Quebec, Montreal e Toronto já tenham feito – ou ainda fazem – parte da lista de destinos de muitos viajantes. Grandes cidades e modernidade, por ali não falta. Mas o que mais esse país tão extenso tem a oferecer? Eu e meu namorado partimos rumo às Montanhas Rochosas Canadenses para explorar cenários que fogem do comum. Com a mochila nas costas, seguimos viagem nos sentindo exploradores. Queríamos ir além das dicas de revistas, além do turismo padrão, além da multidão. E conseguimos! Agora trazemos tudo para vocês sentirem que foram com a gente – e os desafiamos a não quererem arrumar as malas agora e partir ! Entendendo os locais, a logística, o período e a duração - O que são as montanhas rochosas, onde estão localizadas e pelo quê são conhecidas? As Montanhas Rochosas (ou Rocky Mountains) são uma importante cordilheira localizada na América do Norte ocidental. Elas possuem mais de 4.800km de extensão, seguindo desde British Columbia, no oeste do Canadá, até o Novo México, no sudoeste dos Estados Unidos. Os picos mais altos estão no Colorado: é para lá que muitos amantes dos esportes de inverno partem para a prática de snowboard e ski, com destaque para as cidades de Aspen e Vail. A parte canadense das Rocky Mountains também tem grande importância no inverno, mas é no verão que elas são mais convidativas: nessa época, os lagos originados pelas geleiras formadas nos topos das montanhas ganham tons azul turquesa que causam grande admiração naqueles que passam por ali. As Rockies estão presentes em 4 parques nacionais reconhecidos como patrimônio mundial pela Unesco. O mais famoso deles, o Parque Nacional de Banff, é o que abriga o tão falado Lake Louise; mas há também os parques de Jasper (o maior entre eles), Kootenay e Yoho. Resolvemos explorar os Parques Nacionais de Jasper e Banff devido à suas grandes extensões e alto número de atrações naturais. Além disso, a estrada que os conecta é considerada a mais cênica do Canadá, já fazendo valer a viagem. Abaixo mostramos a localização das Rockies, dos Parques Nacionais e do trajeto que fizemos. Para dirigir por eles, é necessário adquirir o Park Pass. Falaremos sobre isso adiante. Os aeroportos mais perto dos parques de Jasper e Banff são aqueles localizados nas cidades Edmond e Calgary respectivamente (veja no mapa acima). Como já falamos no post anterior, chegamos em Jasper de trem, partindo de Vancouver. Precisaríamos de um avião apenas para o retorno. Utilizamos o aeroporto de Calgary – por isso nossa rota termina aí. Escolhemos o sentido Jasper-Banff simplesmente para aproveitarmos o passeio de trem no início da viagem, mas não há impedimentos para aqueles que desejam fazer a mesma rota no sentido contrário, partindo de Calgary a Jasper e de lá embarcando tanto no trem para Vancouver quanto em um avião saindo de Edmond. É possível também fazer a rota Vancouver – Jasper de carro, mas se prepare para achar um lugarzinho para passar a noite na estrada, afinal serão quase 800km!! A nossa dica é que visitem os Parques Nacionais de carro. Nós escolhemos a Budget para o aluguel (o site era mais bem estruturado, o preço bom e a empresa de confiança). Pegamos o carro em Jasper e o devolvemos no aeroporto de Calgary. A Budget está em praticamente todas as cidades que passamos e oferece essa mordomia de alugar o carro em um local e fazer a devolução em outro. Outra sugestão de locadora seria a Avis, também muito boa. Existem diversas excursões, de duração aproximada de 4 dias, que levam turistas para conhecer as Rocky Mountains. Se essa é a sua única saída, tudo bem! Não é tão ruim assim e é definitivamente melhor que nada Mas em um lugar tão lindo como esse, nada se compara à flexibilidade de poder parar aonde quiser, ficar o tempo que desejar em cada destino e escolher o seu próprio roteiro e trajeto. A temperatura média nas montanhas é de 6 °C. No inverno ela cai facilmente até -14 °C e as chuvas são mais comuns. Essa é a estação mais úmida e fria, indicada apenas para aqueles que buscam os esportes de neve. Já os verões são mornos e secos e a temperatura média é de 15°C. Não é muito raro, entretanto, que a sensação térmica chegue aos 25°C: os dias de sol podem ser bem quentes. O outono é, na nossa opinião, a estação mais indicada. Além de possuir menor probabilidade de chuvas, ela não conta com a aglomeração de turistas do verão. A temperatura média será realmente mais baixa, próxima aos 10°C, mas a sensação térmica facilmente chegará aos 20°C nos muitos dias de sol. Considere viajar em setembro ou aproveitar o finalzinho do verão no mês de agosto. Os parques nacionais têm muito a oferecer, principalmente com um tempo bom e sem chuvas. Indicamos reservar 6 ou 7 dias para fazer o roteiro com calma, principalmente se você for um grande amante da natureza e decidir alugar um carro. Cinco dias também é um período bom, mas as visitas serão mais corridas e alguns “luxos”, como passar uma manhã inteira na beira de um lago para um mergulho e um pic-nic, talvez precisem ser eliminados, além de algumas caminhadas mais extensas. Entretanto, se trekking não é muito a sua praia e só de pensar em caminhar por mais de 2km já bate aquele cansaço, 4 ou 5 dias serão extremamente suficientes! Para entender um pouco mais sobre os parques a serem visitados, veja os mapas abaixo. Eles mostram: 1. Os locais que visitamos (em destaque verde); 2. As cidades (em destaque laranja) e 3. As rodovias pelas quais passamos. Para ter uma rápida ideia do que foi nossa viagem, veja esse videozinho abaixo:
  2. Obs: Esse é um relato resumido de minha viagem. Para mais detalhes, bem como outros destinos por todo o mundo, confiram em meu blog: http://rediscoveringtheworld.com/ Dia 1 Em 1º de junho de 2017, parti para minha aventura mais radical até o momento. Com passagem de ida emitida por 37 mil milhas Smiles, segui de Floripa a Calgary, no Canadá. Como eu já tinha visto americano, precisei apenas do eTA, emitido pela internet em 5 minutos, ao custo de apenas 9 dólares canadenses (22 reais). A primeira conexão, indo pela Gol, foi em Buenos Aires-Ezeiza. Ô aeroportozinho mais caro esse - uns 20 reais para um salgado. Ainda bem que tinham dado um sanduba no voo e eu também tinha levado comida junto. Ao menos a internet é liberada no terminal. Passei a noite no voo da Aeroméxico até a Cidade do México. Só que peguei um avião meio velho e com refeições não muito decentes. Dia 2 Tive uma longa escala no terminal 2 da Cidade do México. Até pensei em dar uma volta no centro, mas como eu já tinha estado por lá, achei melhor não arriscar ter minha câmera usurpada. Pra quem fica, tem wi-fi livre no saguão. Passei o dia entre a leitura de um livro de aventura em meu leitor digital Kindle e as refeições de comida típica mexicana nas várias opções da praça de alimentação. Aqui os preços foram um alívio. Paguei cerca de 4 dólares num omelete de queijo branco e cogumelos + tortilhas com feijão + suco de tamarindo. No final da tarde, voei na rota da Aeroméxico inaugurada no dia anterior, até Calgary. Ao desembarcar à noite, na própria área externa do aeroporto paguei 10 dólares (daqui pra frente canadenses - cotação ~ 2,40) numa máquina de cartão e esperei o ônibus nº 300 que vai até o centro da cidade, desembarcando a poucas quadras do HI-Calgary City Centre Hostel. Lá, paguei os 34 dólares pela noite (+5% de taxa sobre todos produtos e serviços no país) com café da manhã, tomei aquele banho e capotei. Dia 3 Tive um café decente e o albergue limpo e ajeitado. Então, peguei a linha de bonde que cruza o centro e depois um ônibus de tarifa separada (3 dólares), pois era de outra cidade, até chegar ao shopping outlet CrossIron Mills. O passe diário válido para os meios de transporte público somente de Calgary custa 10 dólares. No mesmo modo dos outlets americanos, esse possui uma grande área horizontal, com lojas de marcas conhecidas e produtos com desconto. Mas eu vim aqui apenas para comprar equipamentos de camping na Bass Pro Shops, uma incrível loja com tudo que você pode precisar para atividades ao ar livre. Fiquei horas e gastei uma pequena fortuna. Mesmo que eu já tivesse o equipamento, precisaria ainda comprar o spray de pimenta para urso e o cartucho de combustível gasoso, pois não é permitido carregá-los no avião. O spray, inclusive, não pode nem ser portado por civis no Brasil. Almocei no Subway (10 dólares pelos 30 cm), enquanto reparava na diversidade da população, composta por muitos imigrantes. Não consegui distinguir a etnia majoritária. Regressei admirando as Montanhas Rochosas cobertas de neve no fundo do horizonte, enquanto aqui fazia inacreditáveis 26 ºC. Em sequência, saí para caminhar pelas áreas verdes ao redor do centro, no Rio Bow. O principal parque fica na ilhota Prince’s Island e conta com atrações para toda a família. Havia bastante gente lá nesse sábado… ...Ao contrário do centro. É incrível como este é pequeno e silencioso pra 3ª cidade mais populosa do país, ainda que tenha cerca de 1,3 milhões de habitantes. Prédios altos e modernos escondem alguns menores históricos. Entre os pontos de interesse está a Calgary Tower, torre de observação que não é mais o edifício mais alto da cidade. Outro é a rua dos bares, a Stephen Avenue, movimentada naquele final de tarde. Depois de muito rodar, achei um lugar mais em conta pra jantar, no fast food Tim Hortons. Vi o pôr do sol no parque do Fort Calgary. Seria interessante se não houvesse uma congregação de drogados consumindo suas desgraças por ali, sendo que não foi o único parque em que vi essa cena lamentável. Dia 4 Acordei bem cedo para pegar o ônibus da Greyhound até Banff (18 dólares). Foi uma hora e meia num ônibus decente, passando por paisagens cênicas. Ao chegar pela rodoferroviária, fui direto ao centro de visitantes do Parque Nacional Banff, pois precisava fazer a reserva nos acampamentos dos dias seguintes. Para minha decepção, a trilha de 4 dias que tinha planejado (Sawback Trail) estava fechada devido a avalanches. Com isso, tive que improvisar, de acordo com as sugestões das atendentes. Deixei a mochila no Samesun Banff Hostel, minha hospedagem de 45 dólares, e fui conhecer a cidade. Para qualquer lado que se olhe, a vista das montanhas nevadas e florestas de coníferas é incrível. A isso, soma-se um pequeno centro charmoso, limpo e organizado. Tive dificuldade com as refeições, pois era tudo caro. Com sorte, esbarrei num Subway que estava com uma oferta de um sanduíche de 30 cm por apenas 6 dólares. Só pra comparar, na hamburgueria ao lado, o sanduba mais barato custava 15 pratas! Satisfeito, entrei no próximo Banff Park Museum. Assim como as demais atrações nacionais naturais ou históricas, esse museu é gratuito em 2017, devido à comemoração dos 150 anos do Canadá. É basicamente uma porção de animais empalhados, representativos da fauna do parque. Dali caminhei até o distrito Cave & Basin, do outro lado do Rio Bow (o mesmo que passa por Calgary, nomeado por ser de onde era tirada madeira pra construção de arcos pelos indígenas). Indo em direção à trilha Marsh Loop, consegui fotografar um coiote a distância, enquanto um cara que passou por mim viu um urso por ali! A trilha em si, bastante frequentada por passeios à cavalo, é um banhado de águas razoavelmente quentes, devido às fontes termais surgentes na montanha logo acima. A descoberta dessa fontes no fim do século 19 por trabalhadores da ferrovia, teve tamanha importância que ali foi fundado o primeiro parque nacional canadense, expandindo-se para o que é Banff hoje em dia. Do ponto de vista biológico, esse local apresenta fauna e flora endêmicas, tanto pelo excesso de enxofre quanto pela temperatura boa até no inverno. A única cobra do parque vive ali. Já um pequeno caramujo é o xodó das fontes, por não existir em nenhum outro lugar do mundo. Você pode observá-lo na bacia ou na caverna do Cave & Basin National Historic Site, onde ficavam as antigas piscinas por onde brota a água termal sulfurosa. Na volta, passei na Indian Trading Post, loja de souvenires que vende artigos produzidos no Canadá e até mesmo elaborado pelos índios nativos, chamados aqui de First Nations. Há variedade e os preços são um pouco melhores do que das outras diversas lojas desse tipo na avenida principal. Nessa hora a chuva iminente desabou e não parou mais. Como estava perto do McDonald's, jantei ali mesmo, gastando tão pouco quanto no Subway. Voltei ao albergue pra resolver minhas coisas. Dia 5 Tomei um café razoável e parti no ônibus gratuito até o Lago Minnewanka. Havia bastante turistas por lá. O dia estava ensolarado, mas só foi o tempo de eu chegar no lago pra tirar uma foto que uma chuva forte desabou. Foi a hora de testar meu traje à prova d'água da North Face, que funcionou. Com isso, caminhei até a ponte do cânion Stewart. Não pude ir além porque a área foi fechada pela presença de urso. Dali, caminhei mais um pouco pela rodovia até o começo da trilha Cascade. São 5 km e meio de cascalho, às vezes inundado, até o acampamento. Um pouco de subida no começo, que não facilitou nada pra quem tava carregando pelo menos 18 kg no lombo, já que havia comprado mantimentos pra trilha de 4 dias. Enquanto o tempo mudava constantemente, a paisagem de pinheiros, riachos, lagos e montanhas, nem tanto. Passei por uns ciclistas no caminho. De animais silvestres, só um esquilo e alguns pássaros. Ao cruzar a ponte do Rio Cascade, cheguei ao acampamento. Entre os preparativos, como armar a barraca, tem-se o curioso içamento da comida por um cabo até uma altura que um urso não alcance. Comi uns frutos e grãos desidratados e dei uma volta pra tentar achar algo pra fotografar. Nenhum bicho maior que mosquito, infelizmente. Pro jantar preparei um macarrão com queijo liofilizado em meu fogareiro compacto, junto com um cartucho de gás e a panela de titânio. Quando vi a cara da comida no pacote não botei fé, mas estava delicioso. Enchi o bucho. O camping possui apenas 5 pontos para colocar barracas. Tive outros 3 vizinhos, sendo uma dupla de caras, duas canadenses e um pai e uma filha americanos, com os quais fiquei batendo um papo ao redor da fogueira enquanto esperava a noite surgir. Pelas 11, quando fui dormir, o céu ainda não estava preto, apenas no crepúsculo. Total caminhado no dia: cerca de 11,5 km. Dia 6 Acordei algumas vezes passando frio e tendo que colocar mais camadas de roupa, pois fez em torno de -1 ºC nessa madrugada. E a escuridão não chegou em momento algum, nem mesmo quando a lua quase cheia se foi. Ao contrário da janta, meu café tava bem ruim, quase não consegui tomar o leite com granola e morango liofilizado, que em teoria deveria ser bom. Desfiz acampamento e regressei, sem nada de novo a ver na trilha… até chegar ao fim/início dela. Nada menos que um uapiti (Cervus canadensis), uma espécie de cervídeo de grande porte, surgiu em minha frente e ficou ali pastando por um bom tempo. Logo que comecei a fotografar, muitos curiosos apareceram, já que era bem próximo da estrada. Antes de voltar pra cidade no ônibus gratuito, vi ainda uma engraçadinha marmotazinha ao redor de sua toca subterrânea. E de dentro do ônibus, um carneiro-selvagem, aquele que tem os chifres curvados. Parei no Subway pra matar a fome e usar o wi-fi. Em seguida, caminhei em direção à entrada da trilha do Rio Spray, passando pelas quedas Bow Falls no caminho. Essa trilha começa no campo de golfe do luxuoso hotel Fairmonts. No caminho você vê o teleférico que leva das fontes Upper Springs até o topo da Sulphur Mountain. A passagem é mais bonita do que a da trilha da manhã, mas assim como aquela, é frequentada por pedaleiros. Vi praticamente a mesma fauna e flora de lá, até chegar no camping, já com o sol sumido atrás da montanha. Os únicos que estavam lá na beira do rio com a barraca armada eram os dois americanos que acamparam no mesmo lugar que eu na noite anterior. Ao checar a área de preparação de comida e estocagem, adivinha quem estava por lá procurando alimento? Sim, finalmente consegui ver um urso! Mais precisamente dois, dos negros. Um deles ficou me encarando à distância, mas como estava meio escuro e ele escondido, tentei chegar mais perto pra foto - uma mão na câmera e outra no spray de pimenta. Só quando fui em direção a ele, o mesmo se mandou morro acima. Outro avistamento que tive foi enquanto preparava minha janta de galinha à la mesquite (seja lá o que for isso) com feijão e arroz. Do nada apareceu outro uapiti, que nem demonstrou medo enquanto comia mato perto de mim. Contente com o dia proveitoso, me retirei após os americanos fazerem o mesmo. Dessa vez me preparei melhor pra outra noite abaixo de zero graus. Usei 2 camadas de roupa na cabeça, 2 nas mãos, 2 nos pés, 3 nas pernas e 4 (!) no tronco. Meu vizinho ainda me emprestou uma lona para enrolar ao redor do meu saco de dormir, mas isso só fez com que ele ficasse úmido, já que a transpiração de meu corpo não conseguiu passar pelo alumínio da lona. Total caminhado no dia: 13,5 km. Dia 7 Me despedi da dupla e conheci outra, de adolescentes cicloturistas canadenses. Assim que eles deixaram o acampamento, vi dois veados passeando pela outra margem do rio. E quando eu estava a partir, passei pela cozinha do acampamento, e o mesmo uapiti do final do dia anterior estava lá (eu sei que é o mesmo porque havia marcação nele). Em seguida, parti colina acima, cruzando a ponte para seguir pela Goat Creek Trail até a cidadezinha de Canmore. A trilha é longa, meio monótona e bastante inclinada. O mais recomendado é fazer no sentido contrário ao meu e de bicicleta. Parei pra almoçar num trecho do rio que acompanha a trilha. Enquanto eu espantava as mutucas, ou seus equivalentes canadenses, fui preparar a quarta refeição com o pequeno cartucho de gás de 100 g. Somente​ ao abrir o pacote de macarrão que fui perceber que ele já estava vencido a alguns meses… Azar, no máximo eu mandaria os restos dele embora mais cedo que o previsto (o que não ocorreu). Ao sair do parque, algumas horas depois, as coisas ficaram mais interessantes. Nesse ponto vi uma lebre, e o cenário a seguir, na mais alta elevação da trilha a 1650 m, era deslumbrante. Montanhas cobertas de neve, paredões de rocha, florestas, lagos e a vista da cidade no vale abaixo. No desfiladeiro ao lado do Whitemans Pond, um bando de carneiros-selvagens estava à toa, escalando e comendo o mato. A trilha para descer até Canmore é uma de verdade, com pouca abertura e desníveis e obstáculos constantes, e não aquela estrada de chão da Goat Creek Trail. Quase torci meu pé e deslizei na descida, mas ainda assim prefiro desse jeito. O nome dessa rota é Grassi Lakes Trail, em homenagem ao homem que a criou nos anos 20. Vários escaladores estavam praticando naquele momento sobre os lagos turquesas da rota. Continuei até o centro da cidade, com o corpo quase todo dolorido e com feridas nos dedos do pé, mas satisfeito. Dormi no Banff International Hostel, já que não havia mais vagas no que fiquei anteriormente. Tava bem salgado o preço, 55 dólares! Total caminhado no dia: 23 km! Dia 8 Ao menos o café da manhã foi ótimo. Pão com geleias de vários sabores, suco, algumas frutas, brownie, bolo e cereais. Enquanto fazia a digestão, peguei o translado gratuito que sai a cada 20 min do Elk + Avenue Hotel em direção ao teleférico Banff Gondola. Para quem não quiser subir a pé, o ingresso ida e volta custa 62 dólares. Chegando lá, comecei a caminhada íngreme ao topo da Sulphur Mountain. A trilha possui cerca uns 5,5 km de extensão e mais de 650 m de desnível. Apesar do tempo indicado para vencê-la ser de 3 a 4 horas, levei uma hora e meia, incluindo paradas. O sendeiro é um ziguezague sem fim sob o teleférico e entre pinheiros. Em uma parte há vista para uma cascata de degelo. Fora isso, só vi uns carneiros-selvagens e esquilos terrestres. O melhor fica no topo. O centro de visitantes, além dos já esperados restaurantes, mirantes, banheiros e lojas, inclui ainda um centro de interpretação bem interessante. Do lado de fora fica ainda um tablado que leva ao pico Sanson (2280 m), onde jaz a cabine da antiga estação meteorológica. O local já abrigou também um importante receptor de raios cósmicos. Nessa parte exterior a vista 360º é totalmente demais. Várias montanhas, lagos e a cidade de Banff estão na mira. Além disso, tive a sorte de ver e fotografar uma gorducha marmota branca (Marmota caligata). Porém, quando eu olhei pro relógio, tomei um susto. Já era 4 da tarde, sendo que o último ônibus grátis para a vila de Lake Louise sairia em uma hora! Sem pensar muito, levei meia hora pra descer correndo o mais rápido que pude a montanha. Ainda contei com a sorte do ônibus pro centro da cidade estar saindo no momento em que cheguei. Corri de novo até a hospedagem a fim de pegar minha mochila e de lá pra estação rodoferroviária, chegando no exato instante em que ele estava para partir! Que sufoco! Entrei no ônibus mais ensopado do que se tivesse tomado um banho e tentei relaxar pelos 64 km seguintes. A rodovia é cheia de corredores de fauna, que são passagens vegetadas como se fossem pontes verdes sobre ou sob as vias, para que os animais possam cruzar livremente sem ser atropelados ou atrapalhar o trânsito. Fiquei novamente hospedado em um albergue da rede HI, dessa vez o Lake Louise Alpine Centre, de 45 dólares. O lugar é simpático, mas fica ao lado da ferrovia e os trens de carga não deixam o ambiente muito silencioso. Assim que botei os pés no albergue, caiu um temporal e a luz junto. Consegui ainda tomar um banho quente, mas nada da eletricidade voltar. Aproveitei pra lavar a roupa. No meio tempo, chegaram 2 brasileiros no meu quarto (Larissa e Rafael). Passamos o resto da noite conversando e comendo o que nos sobrou. Total caminhado (e corrido!) no dia: 15 km. Dia 9 Ainda sem eletricidade, não consegui achar um lugar sequer no vilarejo pra comprar comida, terminando com a minha estocada. A cada 15 minutos sai um ônibus gratuito do vilarejo pro lago, que fica a alguns km subindo morro. Embarquei num desses. Lá em cima fazia um frio maior do que eu esperava. O vento mesmo, era estraçalhante. Subi quase correndo a trilha do mirante pro hotel Fairmont, o único que fica em frente ao grande Lago Louise. Nesse trecho já havia várias faixas de neve e gelo. Mas a vista pro lago em si não é das melhores, devido aos pinheiros cobrirem a visão. Na beira do lago há um caminho bem acessível que circunda boa parte dele, onde fica lotado de turistas. Dali a visão do lago glacial cercado de montanhas íngremes semi-vegetadas e com a geleira Victoria ao fundo, é mais que bonita. Entrei um pouco no hotel para me esquentar. Lá há uma lanchonete de comida saudável, que foi onde almocei. Uma tigela de açaí por 12 dólares - caro, mas o restaurante seria ainda mais. Fui até o final da via pedestre do lago. Podia ter pegado uma trilha bem inclinada até o belo Lago Agnes, mas o tempo cronológico e o estado do meu corpo não permitiram. Com isso, fui até metade do sendeiro que inicia no fim do lago, o Six Plains Glacier Trail. Passei deslizando por cima de pequenas avalanches e parei ao longo do rio formado pelo degelo dessa baita geleira, onde ocorre a zona de mistura das cores da água. Tive que voltar a passos rápidos para novamente pegar o último ônibus, das 18 h. Como a luz tinha voltado, dei uma volta no centro comercial da vila. Ali ficam restaurantes, lojas de equipamentos esportivos, de souvenires e um mercado. Esse, até que tem boa variedade e preços. Arranjei meu jantar. Fiquei enrolando no albergue até o suposto ônibus que me levaria pela noite toda até Vancouver. Mas… lembram da tempestade que acabou com a eletricidade? Pois bem, ela também interditou um pedaço essencial da rodovia. Com isso, o trajeto foi cancelado. O pior de tudo foi que a irresponsável empresa Greyhound nem chegou a enviar um email avisando! O resultado foi que tive que passar a noite no sofá do albergue pra não ter que pagar uma tarifa de hospedagem absurda de última hora. Total caminhado no dia: 12 km. Dia 10 Expliquei a situação ao motorista, que me deixou tomar o primeiro ônibus a Calgary, onde meio que resolvi a situação: passar o dia na cidade, embarcar à noite para Edmonton, e em seguida a Vancouver, indo por uma rota bem mais distante. Se fosse no Brasil, toda essa confusão daria causa ganha num processo… Deixei a mochila no guarda-volumes e, com o dia chuvoso e frio, peguei o bonde e passei a tarde no shopping Chinook Centre. É como um qualquer, com lojas de marca. No fim da tarde, parti pra Edmonton. O trajeto é todo rural, por um rodovia remendada. Aproveitei para ler o trecho final do “AWOL on the Appalachian Trail”, o relato de uma trilha longa de verdade. Chegando lá, esperei um pouco e embarquei até Vancouver. Os ônibus da Greyhound, assim como os da Megabus, não são os mais confortáveis para passar a noite. Nesse quesito os brasileiros ganham. Ao menos há tomada e wi-fi. Dia 11 Até que dormi bem, apesar das paradas constantes. Apenas às 4 e meia da tarde o veículo chegou em Vancouver. Como ainda tinha um tempo até o ônibus seguinte, saí para caminhar. Passei pela Carrall Street, que atravessa a Chinatown e a Gastown, bairros históricos com mais de um século de existência e artefatos, como o primeiro relógio a vapor. Infelizmente, havia uma alta concentração de sem-tetos, como não lembro de ter visto antes em lugar algum. Lixo também abundava pelas ruas. Desapontado com a primeira vista de Vancouver, só tomei um milkshake de bordo (a árvore que está na bandeira do Canadá) na sorveteria orgânica Soft Peaks, passei na feirinha chinesa pra comprar um carregador (perdi o meu havia uns dias) e voltei pra rodoviária. Às 20 h peguei a última condução da Greyhound com destino a Whistler, a 2 h de Vancouver. Saltei em Creekside Village, a área menos movimentada da cidade. Tanto que estava tudo fechado e quase sem luz na rua nessa hora. Tive que caminhar um pouco e subindo morro até chegar ao Whistler Lodge Hostel, que fica no bairro Nordic Estates, longe do agito. O albergue é bem limpo, organizado, equipado e confortável, além de ser auto-gerenciado pelos hóspedes à noite, já que o staff não fica por lá depois das 9 e meia. O valor? 39 dólares por noite, sem café. Cheguei já sendo bem recebido por um hóspede que estava indo embora e me deu sua cerveja. Como também estava com fome e não tinha o que comer, fiz bom uso da caixa de comida grátis. Dia 12 Pela manhã, peguei o ônibus nº 1 (2,5 dólares - troco exato apenas) até o Whistler Village, a parte mais central e importante em termos turísticos da cidade. Lá, retirei meu ingresso do Whistler Blackcomb, a empresa responsável pelos teleféricos, trilhas na montanha, pistas de esqui e etc. Na internet paguei 84 dólares pelo passe válido para a temporada. O complexo todo tem uma área enorme, maior que outros resorts de neve, mas pelo menos enquanto eu estive lá, estava subaproveitado, já que metade dos teleféricos e quase todas trilhas estavam desativados. Subi primeiro no bondinho fechado que leva à parte alta da montanha Whistler, onde ficam algumas das instalações. No caminho, reparei na quantidade de gente descendo as trilhas de downhill em bicicletas, nesse que descobri ser um dos principais parques para a prática desse esporte. Pena que o aluguel das bikes é absurdamente caro. Lá em cima, depois de admirar a vista, brinquei um pouco na área reservada para escorregar na neve com uma bóia, como uma criança que não teve neve na infância. Em seguida, subi a trilha Pika’s Traverse, uma estrada que passa entre paredes de neve até 3 vezes o seu tamanho! Da parte alta e final da trilha, a vista é ainda melhor. Lá fica um inukshuk, marco de pedra dos povos do Ártico. De volta ao meio da elevação, embarquei no teleférico Peak 2 Peak, que vai até a montanha Blackcomb. Esse transporte é o recordista mundial em altura (436 m) e distância​ sem sustentação (3 dos 4,4 km)! Ainda assim, não deu medo algum. Na tal montanha, era abundante a quantidade de marmotas, parentes grandes e gorduchos dos esquilos e que dão nome à cidade, devido a seus assobios de alerta. Esses estão domesticados a ponto de não terem mais medo dos humanos. Desci em mais 2 teleféricos, com o diferencial de serem abertos por todos os lados. Assim ficou fácil admirar o terreno abaixo. Esses deram um friozinho na barriga, principalmente quando pararam subitamente comigo no ar, levando quase 10 minutos pra voltar a operar. Ao sair, já era quase 5 da tarde, hora em que os teleféricos param de operar. Então, decidi percorrer algumas das muitas trilhas do Lost Lake Park. Caminhei horas mas só vi esquilos, além do tal lago e algumas plantas interessantes. Ao retornar à vila, encontrei o supermercado IGA, que fica no setor chamado de Marketplace. Esse foi o mercado mais completo que vi em minha breve visita ao oeste do Canadá. Comprei todas as minhas refeições seguintes ali. Fica difícil ser saudável com tantas guloseimas norte-americanas, como cookies, brownies, muffins e cupcakes. Total caminhado no dia: 15 km. Dia 13 Voltei à estância Whistler Blackcomb. Visto da base da montanha, dessa vez havia uma​ névoa bem densa. No caminho dos teleféricos inferiores não se via quase nada. Mas como havia um outro aberto a mais que no dia anterior, fui lá pra cima assim mesmo. O 7th Heaven te leva a mais de 2200 m na montanha Blackcomb, quase seu topo. Em seu caminho, muita neve e cada vez menos pinheiros, até chegar a haver apenas rochas e metros de camada de neve, já bem acima da névoa. Fazia um frio tremendo lá em cima e pra variar eu não tava preparado. Tirei umas fotos e caminhei afundando, desci e vi mais umas marmotas. Descobri que num cantinho do prédio do meio da Blackcomb há uma sala da Nintendo com videogames (3DS e Wii U) e jogos. Joguei um pouco, atravessei a gôndola de uma montanha a outra, vi alguns passarinhos, mas nada de urso, apesar de não ser incomum vê-los de cima por ali. Saí do complexo para caminhar ao redor do lago Alta, nas trilhas que o cercam. É bonito até, mas não tem nada de especial para turistas, ainda que seja ótimo para moradores praticarem um pouco de exercício. Regressei ao albergue mais cedo, onde rolava uma zoeira. Total caminhado no dia: 13 km. Dia 14 Com a empresa Epic Rides, voltei a Vancouver pela manhã (35 dólares ida e volta). Há vários food trucks pelo centro; escolhi o de cachorro-quente indiano (6 dólares). Caminhei um bocado passando pelos pontos mais interessantes. Contornei a orla do centro de convenções, onde várias placas contam a história da cidade, até o grande parque Stanley, que conta com diversas atrações, como os totens das First Nations (indígenas). Ao retornar fui pela gay-friendly Davie Street, uma rua comercial com pontos e lixeiras rosas e placas e faixas de pedestre com arco-íris. No fim da rua, entrei na estação de metrô Yale-Roundhouse, onde peguei a condução até Bridgeport, de onde saem os ônibus para a terminal de balsas de Tsawwassen. O metrô custou 4 dólares e o ônibus 2,75 (troco exato ou cartão de transporte Compass). Já para a balsa até Swartz Bay, são 1 hora e meia de tempo da sua vida e quase 17 dólares. O barcão, que contém todas necessidades básicas como wi-fi, passa por algumas ilhas, até chegar a Vancouver Island. Ao sair do terminal um garoto me deu um passe diário de transporte, então não precisei pagar os 2,5 do ônibus nº 72, que me levou ao centro de Victoria, a capital do estado da Colúmbia Britânica. De cara já deu pra ver que aqui também há um problema sério com moradores de rua e drogados, quase todos caucasianos. Tirei umas fotos na prefeitura, comi um Whopper no Burger King, já que estava em promoção naquele dia (3 dólares) e dei entrada no albergue Ocean Island Inn, onde coincidentemente fiquei no quarto com outros 2 brasileiros, que ali estavam para um congresso de química. Total caminhado no dia: 13 km. Dia 15 Só no café da manhã notei o quanto esse albergue era grande, pois brotava gente pra tudo quanto é lado em meio aos waffles de mirtilo com Nutella. O quarto também não era dos mais limpos, mas pela tarifa de 30 dólares, que incluía até jantar, não tive o que reclamar. Como estava previsto chover o dia todo, comecei conhecendo a cidade por lugares fechados. Primeiro o Maritime Museum. Pequeno, mas conta histórias bem interessantes de explorações pelo Canadá e apresenta artefatos históricos. Entrada de 10 dólares. O seguinte foi um tipo de zoológico que nunca tinha visto em lugar algum. Este abrigava apenas invertebrados! Em terrários transparentes, insetos, aracnídeos, miriápodes e crustáceos de várias partes do mundo ficavam à vista de curiosos. Além de cartazes básicos, o staff explica muito bem e ainda deixa você pegar em alguns. Custou 15 dólares. Continuando, o Royal B.C. Museum, este já de maior porte e preço (22 dólares). Um dos andares foca na história natural, demonstrando os ambientes, fauna e flora do estado da Colúmbia Britânica, além de climatologia e outras ciências. Representações dignas de um grande museu fazem parte das amostras, assim como dioramas completos de cada ecossistema. O outro andar ensina sobre a história humana, sempre baseada no estado canadense. Uma boa parte é relativa às First Nations, as nações indígenas que, assim como as demais no mundo, sofreram muito com a chegada dos colonizadores britânicos. Suas culturas estão bem representadas, através de seus artefatos e as complicadas linguagens. Para a parte branca da história canadense, há até mesmo um vilarejo de época montado. Faminto, achei pelo GPS um supermercado de comida natural. O excelente Thrifty Foods continha tudo que eu esperava e muito mais. Saí de lá com almoço, sobremesa e lanche do dia seguinte. O passo seguinte foi o Beacon Hill Park, um parque artificial erguido numa colina onde fica um sinalizador marítimo. O lugar é histórico, mas não achei tão interessante. Segui caminhando pela orla sul, sob leve chuva, protegido pelos meus trajes de Gore-tex comprados no Vietnã. O último lugar que conheci foi o Fisherman’s Wharf, um ancoradouro localizado em Victoria Inner Harbour. Abarca, além de uma marina, restaurantes de frutos-do-mar e passeios aquáticos, uma vila com 33 belas casas flutuantes habitadas. Se der sorte, pode ainda ver alguma foca perambulando ao redor dos deques de madeira. Voltei correndo pro albergue, chegando a tempo da janta de curry. Dia 16 Num dia ensolarado, caminhei até o Craigdarroch Castle. Essa mansão foi construída em 1890 para um magnata do carvão e ferrovia, mas ele nem pôde aproveitar pois morreu antes. Depois que a família se desfez da propriedade, a construção virou hospital para veteranos de guerra, universidade e escola de música, até virar o museu atual há algumas décadas. São diversos cômodos bastante mobiliados em 4 andares, além de uma torre voltada para o interior da ilha (seria mais interessante se tivesse virada para o mar). Há placas explicativas em todos os quartos, e para ver essa opulência toda você tem que desembolsar 14 dólares. Depois da visita, caminhei pelos jardins da casa do governador do reinado (Lieutenant’s Governor Park), aberto ao público. Além de flores plantadas, resguarda uma área do ecossistema original da ilha, de carvalho Garry. Vi até mesmo um veado por lá. Voltei ao centro para pegar minha mochila e partir para o aeroporto de Victoria, embarcando no ônibus nº 70 até Mctavish Exchange para tanto. Como a condução seguinte demoraria muito, resolvi ir caminhando os 2 km e meio finais. O aeroporto é relativamente pequeno e bem tranquilo. Ponto positivo pro wi-fi gratuito. No meio da tarde voei com a Delta para Fairbanks no Alaska, com conexão em Seattle. Enquanto lia no voo, observei um fenômeno estranho pela janela do avião. No início do voo o sol já estava se pondo, com aquele tom do céu magenta, mas conforme o avião seguia rumo ao pólo, o céu foi ficando amarelado e mais claro, e o sol subindo, como se estivéssemos voltando no tempo! Pousamos na 2ª maior cidade do Alaska quase à meia-noite, mas nada da escuridão surgir, apenas o crepúsculo. Peguei um caro táxi de 22 dólares, já que o ônibus urbano não operava aquela hora e minha hospedagem era distante para caminhar. Fiz o check in no muitíssimo bagunçado e meio sujo Aurora Lake Chalet Homestay (20 dólares a noite em papel), tomei um banho e dormi. Pelo preço não dava pra reclamar muito. Além disso, só havia eu no quarto e a moça deixou usar a máquina de lavar roupas com sabão, algo muito útil naquele momento. Dia 17 Cedo, um americano me trouxe a bicicleta usada que eu havia negociado no Craigslist, uma espécie de OLX dos EUA. Paguei 80 Trumps naquela que seria minha companheira nas próximas 2 semanas. Meia-boca, mas serviu. Esperei a chuva dar uma aliviada para conhecer a cidade e comprar mantimentos. À primeira vista, é notável a quantidade de carros à venda e lojas de segunda mão. O centro de Fairbanks é bem ajeitado. Entrei no museu do gelo (Fairbanks Ice Museum). São 15 dólares por uma apresentação de vídeo que conta a tradição em esculturas de gelo da cidade, que possui até um campeonato mundialmente famoso. Depois do vídeo, você entra numa sala abaixo de 0 graus com diversas das esculturas, incluindo até um tobo-gelo. Por fim, há uma demonstração ao vivo do trabalho. Curti. Uma quadra adiante, ingressei no gratuito centro de visitantes Morris Thompson Cultural & Visitor Center. Além de alguns cenários montados representando a natureza e cultura do Alaska, há uma infinidade de informações escritas para consulta. Poderia ficar ali muitas horas. Mas como o dia não é infinito, apesar de ser quase nessa época do ano, continuei pedalando. No meio da cidade, e ainda na margem do Rio Chena, fica o Pioneer Park. Esse é o tipo de parque em que as famílias vão passar os fins de semana. Mas nem por isso deixa de ser uma atração turística. Há uma vila simulada da época da Febre do Ouro, quando houve a fundação da cidade no começo do século passado. Diversos museus também ficam na área. Alguns deles gratuitos. Como havia poucas opções para se comer, almocei mais adiante no Big Ray’s Eatery, um pequeno restaurante. Por 10 dólares comi uma sopa apimentada com carne e feijão, e tomei uma batida com mirtilos de verdade. Saborosos. Terminei de cruzar Fairbanks quando cheguei no jardim botânico, ao lado da universidade. O Georgeson Botanical Garden, grátis, não me empolgou muito. São jardins aleatórios com plantas da região, parte floridas nessa estação, mas não muito vistosas. Subi o único morro do município para chegar à universidade e seu museu de 14 dólares. Trata das pesquisas realizadas no ambiente polar do estado, com ênfase em natureza e cultura dos povos tradicionais indígenas e esquimós. Retornei alguns km, sempre pelas ciclovias da cidade. No outro lado da mesma fica o refúgio de aves aquáticas migratórias Creamer’s Field. É uma área protegida de campo, floresta boreal e banhado, onde há um grande número de aves. Na pressa, vi apenas bandos de gansos canadenses, andorinhas, alguns passarinhos e uma nova ave pra mim: grou-canadiano (Grus canadensis). Correndo, consegui entrar na loja de equipamentos para atividades ao ar livre REI, onde peguei as comidas liofilizadas e o cartucho de gás. Depois passei no gigante e 24h Walmart pra comprar o resto. Quando voltei à hospedagem, já estava virando o dia. Total pedalado no dia: 49 km. Dia 18 Descansei bem e comecei a preparar o equipamento pra jornada. Regular o veículo e colocar o mochilão na frente da bicicleta numa cesta deu mais trabalho do que eu pensava. De fato, nunca vi um cicloturista com a carga desse jeito improvisado. Só consegui sair depois das 2 e meia da tarde. Com isso, não tive tempo de aproveitar o festival do sol da meia-noite, que comemorava o solstício de verão (dia mais longo) com apresentações musicais gratuitas. Até sair de Fairbanks, a cidade com pequena população mas grande infraestrutura, levei bastante tempo, isso devido à quantidade de cruzamentos com semáforo. A ciclovia deu lugar ao acostamento com trânsito moderado. Era notável a quantia de motorhomes, mas nenhuma bike passou por mim ao deixar a cidade. Fora da pista, floresta boreal com bétulas e abetos por todos os lados. De fauna, só vi 2 esquilos e alguns passarinhos. O que eu não contava era com a quantidade de subidas que esse trecho teria. Como eu não tinha muito tempo a desperdiçar, deu pra cansar bastante. Ao menos as vistas dos vales de rio florestados abaixo eram bonitas. Com uma média de 17 km/h, mais do que os 15 que eu previa, no final do dia cruzei a ponte e cheguei ao vilarejo histórico de Nenana, sob os pingos de um temporal que estava por vir. Fiquei no Nenana RV Park & Camping. Por 15 dólares, tive direito a um banho quente, um gramado pra minha barraca e até wi-fi! A chuva passou, jantei um sandubão na mesa coberta enquanto admirava o céu roxo, onde o sol tentava se pôr, e fui dormir. Total pedalado no dia: 91,5 km. Dia 19 Acordei algumas vezes devido aos ruídos externos, principalmente do trem, que fazia questão de apitar quando passava perto. Esse trem é parte da história do povoado. Na descoberta de ouro por volta de 1900, Nenana foi um importante entreposto, já que a ferrovia passa ao lado e também há um rio navegável, facilitando a troca de modal. Ainda nessa época surgiu um tipo diferente de loteria, o Ice Classic: ganha quem acerta a data em que o rio descongela no ano. Hoje em dia o que resta são algumas quadras com casas, um número desproporcional de igrejas, comércio básico, centro de visitantes e um projeto de museu da ferrovia. Esse é apenas uma sala com antiguidades, mas não se paga para entrar. Fora isso, só a beira do rio, cheia de gaivotas e andorinhas. Deixei Nenana no começo da tarde. Depois do primeiro trecho, estava descrente de que valeria a pena pedalar, mas a parte desse dia me surpreendeu. A vegetação é mais aberta, graças a banhados e pequenos lagos. Assim, é possível ver mais além a paisagem. Ainda, a inclinação é pouca, permitindo uma média de 18 km/h sem me esforçar tanto quanto o dia anterior. Tá precisando de alguma coisa? A cada algumas dezenas de milhas há algum comércio, hospedagem ou banheiro ao longo da rodovia. De bicho, vi apenas​ duas aves de rapina não identificadas, poucos esquilos e umas tantas lebres. Ao final da tarde, passei pelo cruzamento da famosa Stampede Road e cheguei a Healy. Um pouco além, fica o camping que escolhi, atrás de um posto de gasolina com um caro mercado. Aqui tem quase tudo que vocês precisa comprar, incluindo cartucho de gás pra fogareiro. O nome do lugar é Miner’s Market - uma referência à única mina comercial de carvão ainda em operação no Alaska. Não achei tão simpático quanto o anterior, mas deu pro gasto. Havia mais gente também, poucos em barraca, mas em seus trailers. De facilidades, quase os mesmos que do camping anterior, exceto que o chão é de terra e a mesa não é coberta. Isso foi um probleminha quando eu tava jantando meu chili liofilizado e começou a chover. Me recolhi mais cedo, tentando dormir enquanto algum caçador fazia uma chacina pela área. Total pedalado no dia: 92,5 km. Dia 20 A chuva quase constante fez uma meleca danada no lado de fora da barraca. Já​ por dentro, nada. Tá aprovada a Ascend Nine Mile One. Depois de limpar como pude, comi uns cookies e peguei a bike usada rumo a Stampede Road, eternizada no clássico “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild). Achava que a estrada estava abandonada, mas o trecho inicial tinha várias construções e estava até mesmo sendo recapeado onde tinha asfalto e aplainado onde era terra ou cascalho. Não esperava também que os 13 km de estrada aberta fossem uma subida bem considerável. Só foi terminar esse trecho acessível que tudo começou a complicar. Poças infinitas impediam acesso à trilha. Uma dupla que estava em quadriciclo já desistiu na primeira - foi a última vez que vi humanos. Eu desviava como podia pela tundra alagada que cercava o caminho, junto com uma floresta de coníferas bem esparsa e de baixo porte provavelmente devido ao permafrost, que é o subsolo congelado que impede a profundidade das raízes das árvores. Na hora das descidas, a bicicleta fazia valer a pena o esforço em empurrá-la. Porém, quando o solo começou a ser de seixos, essa vantagem deixou de existir, tanto porque os pneus podiam furar quanto pela dificuldade em manobrar a bike com a mochila no guidão. Quando, algumas horas depois, rompeu uma parte da cesta e as poças viraram riachos, amarrei o veículo num pinheiro e segui a pé. Mosquito era o que mais tinha. Se aqui tivesse nossas doenças tropicais, eu já teria pegado todas. Não estava mais nem me importando com o frio da água, já evitava os desvios, que eram muitos, e seguia pelos riachos mesmo. Havia marcas de pneus por diversas rotas diferentes, mas por onde eu passei acho difícil que mesmo um 4x4 conseguisse seguir. Além dessas marcas, vi várias vezes pegadas animais: ursos, alces e lobos. Quanto aos bichos de verdade, vi lebres logo no começo, uns patos num lago, um roedor cruzando a estrada, aves de pequeno porte diferentes dos outros dias, e por duas vezes uma que não é fácil de ver: tetraz é seu nome. Parecida com uma codorna, só bateu suas asas atrofiadas quando cheguei a uns 5 m da mesma. Vinte e quatro km depois do início da Stampede Road, cheguei ao primeiro rio de verdade, o Savage. Não foi tão selvagem assim; consegui cruzá-lo sem muito esforço e com a água pelo joelho. Mais 3 km e enfim dei de cara com o temível Rio Teklanika, responsável pelo homicídio de algumas pessoas, como uma suíça há poucos anos, e o impedimento do retorno de Christopher McCandless ao mundo real, que resultou também em seu falecimento. Alimentado pelas geleiras das montanhas mais altas dos EUA, no parque fronteiriço Denali, durante o verão ele fica profundo e com uma correnteza forte, apesar de no inverno ele chegar a congelar. Usei uma estaca como terceiro apoio e tentei atravessar pelo ponto clássico. Quando estava na metade, com a água já na metade das minhas coxas, a força da correnteza começou a me desequilibrar. Fui sendo jogado alguns passos à jusante. Nessa hora meu coração começou a bater forte. Virei metade do corpo na água, mas com um esforço tremendo, consegui me estabilizar e voltar lentamente à margem. Meu estojo com câmera e celular tinham molhado, mas felizmente não deixaram de funcionar. Eu saí ensopado, mas ileso. Apesar do susto, continuei por mais alguns km pela margem do rio em direção à nascente, procurando um ponto mais fácil para a travessia. Eis que um porco-espinho surgiu a minha frente. Arrisquei ligar a câmera molhada e consegui uma foto. Depois de mais 2 tentativas cautelosas frustradas, e com o relógio batendo quase 7 da tarde, decidi acampar numa ilhota fluvial entre 2 braços do rio e tentar novamente chegar ao Ônibus Mágico na manhã cedo seguinte, quando em teoria o nível estaria mais baixo. Só que fiquei perto demais da água. Ao urinar, percebi que o líquido estava extremamente amarelo, como se tivessem posto um corante. Acredito que na ânsia de chegar logo eu não tenha bebido água o suficiente. Como isso é um sinal de desidratação, e eu já tava me sentindo um pouco alterado, enchi meu filtro com a água cheia de silte desse rio maldito e mandei ver. Montei o acampamento com tudo que pude usar de proteção para o caso de um urso-pardo, o mais perigoso animal da região, vir xeretar minha barraca. Deixei toda a comida longe da barraca, fiz uma cerca de árvores caídas, lapidei uma lança e deixei o canivete e o spray de pimenta a pronto uso. Com o sol baixo, deixei minha roupa a secar, vesti as demais para enfrentar o frio e jantei a comida liofilizada da AlpineAire, minha marca favorita pelo alto teor de proteína e calorias. E fui dormir, tentando não ter pesadelos. Total caminhado e pedalado do dia: 34,5 km Dia 21 Esse dia foi pra esquecer, quase tudo deu errado. Dormi pouco, preocupado com ursos-pardos a cada barulho diferente que o vento fazia. Tentei atravessar o Teklanika em outro trecho e não consegui. Não vi nenhum animal muito interessante pelo caminho. Me perdi e acabei afundando numa várzea do musgo Sphagnum e escalando uma colina inclinada pra voltar. Passei horas arrumando a cesta da bike que havia quebrado na descida. Por fim, tive que subir um monte o caminho de volta pra Healy, já exausto, faminto e desidratado. Estava tão acabado que comprei minha janta no mercado, apesar de ser bem caro, e fiquei pelo mesmo camping de 2 dias atrás. Total caminhado e pedalado no dia: 35 km. Dia 22 Fiz um brunch e segui em direção ao sul. No início há uma leve subida, mas depois quase todo trecho é plano ou de descida. Alguns km adiante, cheguei ao vale do Rio Nenana. Cruzando uma ponte com uma bela vista, dei uma parada​ no povoado turístico de Denali, que serve aos visitantes do parque. É charmoso e possui os serviços essenciais, mas não possui mais que algumas quadras. Fui à Denali General Store, onde comprei alimentos bem mais baratos que na vila anterior. Ali mesmo almocei um sanduíche com suco de laranja - esse originário do Brasil. Logo mais fica a entrada do Denali National Park, o mais famoso do Alaska, pois é onde fica a maior montanha da América do Norte, com quase 6200 m. No Wilderness Access Center obtive algumas informações, acessei a internet, paguei 10 dólares pela entrada no parque e mais 15 para uma noite em um camping dentro dele. Há um serviço de ônibus grátis quase horário até o primeiro acampamento interno, o Savage. Enquanto o último do dia não vinha, percorri a pé a trilha ao redor do lago Horseshoe. Nela, vi um picapau e alguns castores reparando suas represas. Às 8 e meia, coloquei a bicicleta no ônibus em direção ao Savage. Chegando lá, tive que pedalar até o seguinte, o Sanctuary, o único por perto que ainda havia vagas. Nesse caminho, vi vales e montanhas belíssimas, além de pequenos animais como o lagópode-escocês (Lagopus lagopus), que é a ave símbolo do Alaska. Esse acampamento, assim como os demais do parque, fica ao longo de um rio e as únicas instalações são banheiros secos, área para refeições, lixeiras, containers para armazenar alimentos e muitos mosquitos. Total caminhado e pedalado no dia: 34,5 km. Dia 23 Passei um pouco de frio pela maior altitude desse lugar. E quando estava pronto pra sair, começou a chover. Não tive escolha, botei o traje impermeável e pedalei de volta até o centro de visitantes. O começo foi bem difícil, visto que a pista de terra estava ensopada, mas quando cheguei no asfalto e parou de chover valeu o esforço. Primeiro vi um quadrúpede correndo de longe e depois outro comendo folhas de perto: eis o maior cervídeo do mundo, o impressionante alce do Alaska. Ao chegar ao centro de visitantes, dei uma olhada, comi e decidi apressar o passo para chegar antes do previsto no destino final da viagem. Para isso, pedalei mais algumas dezenas de milhas até Cantwell. O caminho, cercado de montanhas nevadas e rios, nem pôde ser aproveitado, pois a chuva não deu trégua e o acostamento todo remendado foi um martírio. Já era 9 e meia da tarde quando cheguei a Cantwell, outro projeto de cidade. Parei na conveniência do posto da rodovia para jantar burritos mexicanos, uma das opções menos caras, e fui para o parque de trailers e camping (Cantwell RV Park), que já deveria estar fechado. Com insistência, consegui ainda por 19 dólares tomar um banho revigorante e passar a noite ali. Total pedalado no dia: 81,5 km. Dia 24 O caminho apresentou paisagens de montanhas muito bonitas, além de lagos. No meio desse cenário, uma das poucas construções, um tipo de iglu moderno abandonado, chamou a atenção. Nessa hora, passei pela única cicloturista com quem cruzei seguindo também rumo ao sul. Na metade do trajeto do dia, entrei no Denali State Park, onde ficam as melhores vistas da cadeia das mais altas montanhas do país. A partir da rodovia, passei pela entrada de algumas trilhas e áreas de acampamento. Dei uma breve entrada no Beyer’s Lake State Recreation Area. Há informação de interesse pro público e algumas instalações básicas, mas não achei a lagoa tão interessante. Vi apenas alguns patos nela. De volta à estrada, rodei mais um bocado até o Denali View South, o melhor mirante que encontrei. Infelizmente, o topo do McKinley estava coberto por nuvens, mas ainda assim a iluminação nesse fim de dia estava especial. Para dormir, escolhi o K’esugi Ken Campground, que fica ali perto, mas subindo um morro. Tive que pagar 20 dólares para um gramado pra minha barraca. No entanto, assim como nos outros campings do parque, não há chuveiros - muito menos internet. Para resolver o problema do banho, aproveitei bem o gel higienizador do banheiro pelo meu corpo. Para acesso à água, há uma bomba manual, mas o poço é tão profundo que são necessárias umas 50 bombeadas pra sair as primeiras gotas - melhor que nada, pois eu já não tinha mais nada para beber e cozinhar. Como era sábado, bastante gente passava a noite ali, inclusive fui convidado por uns jovens a me unir em sua fogueira. Total pedalado no dia: 125 km! Dia 25 Ainda pela manhã, caminhei a pequena trilha do K’esugi. Vi uns passarinhos e nada de mais. E no céu havia o fenômeno do halo solar. O percurso foi o mais sofrido da viagem. Acostamento remendado, bicicleta dando sinais de falha, costas, ombros e traseiro extremamente doloridos por causa do assento duro e da mochila, que teve que portar quase metade do peso desde o incidente com a cesta na Stampede Road. Indo ao sul, passei por Trapper Creek, vilarejo em cujas estradas há alta incidência de atropelamentos de alces. Por acaso, vi um desses bichos - vivo na mata. O auge do dia foi quando parei num Subway na junção a Talkeetna, onde devorei um sanduíche de 30 cm por 8 dólares. Quando o sol foi pro horizonte, a temperatura caiu e os ventos aumentaram, deixando o trecho final em Willow ainda mais complicado. Como já era 11 da noite, parei um pouco antes do previsto, na primeira hospedagem ainda aberta, que foi a Pioneer Lodge. Doze dólares pelo espaço da barraca + 4 dólares pelo banho. E ainda tinha wi-fi. Total pedalado no dia: 104 km. Dia 26 Para diminuir meu martírio, me desfiz de alguns itens que não poderia levar no avião, como o gás de cozinhar e o spray de pimenta pra urso. Antes de descartá-lo, porém, fui testar. Soltei um jato vermelho no sentido do vento, mas pouco depois senti meu olho arder como se enfiassem uma pimenta inteira das brabas dentro dele! Creio que algumas partículas tenham ficado no ambiente, mas só isso já foi o suficiente pra me deixar uns 10 minutos jogando água nos olhos até passar. Que p*rra! Segui pela ciclovia de Willow, depois a vila de Houston, parei pra almoçar na cidade de Wasilla e para jantar na entrada de Anchorage, após passar uma baixada vegetada protegida em Palmer. Esse dia teve os trechos mais urbanos da viagem. Ao menos isso significou caminhos melhores para a bicicleta. Mas nem por isso deixei de ver natureza. Ao sair do restaurante no fim do dia para a ciclovia de entrada em Anchorage, eis que surgiu à minha frente uma alce descornada e 2 filhotes! A mãe ficou só de olho, enquanto os pequenos saiam ao redor para comer o mato à beira da estrada. Até esqueci da hora tardia enquanto os fotografava bem de perto, preparado pra correr na mais leve ameaça, que não surgiu. Entrei na cidade grande já noite, passei por uns lugares não muito agradáveis e finalmente à 1 e meia da madruga, cheguei no hostel Base Camp Anchorage, onde pude enfim dormir em algo que não fosse inflável. Total pedalado no dia: 127,5 km! Dia 27 Paguei 30 dólares por noite, com direito a um semi-café e um ambiente agradável e limpo - e comida grátis deixada pelos outros. Coincidentemente, reencontrei um ciclista espanhol que havia conhecido no meio do caminho. Peguei novamente na bike, agora sem carga, pra conhecer o centro da cidade e fazer umas compras, já que o Alaska é livre de impostos. O centro é compacto, bonitinho, com construções quadradas coloridas e pontos históricos, como a ferrovia que deu início à cidade. Procurei uma lanchonete para provar um prato típico do Alaska. Achei o Sandwich Deck, que tem um hambúrguer de halibute, um peixe dessas águas frias. Apesar do preço quase tão salgado quanto o peixe (12 dólares com acompanhamento), estava bem bom. O peixe em si não possui muito gosto. Caminhei em sequência pelo Anchorage Museum (15 dólares). Numa construção desproporcional ficam algumas galerias contendo fotografias, utensílios, história e vídeos dos povos nativos e atuais do Alaska. Essa dos utensílios é a mais legal, pois contém diversos artefatos de cada grupo étnico em exposição. Também há outras salas com assuntos não relacionados, como um centro de experimentação científica. Também ao lado, fica o Anchorage 5th Avenue Mall. Com algumas lojas conhecidas, fiz umas compras. Depois pedalei o caminho de volta passando pela Westchester Lagoon, um parque com lagoa e muitas aves aquáticas. E antes de retornar ao albergue, comprei mais umas coisinhas no caminho. Dia 28 De manhã, perambulei pela Tony Knowles Coastal Trail, uma trilha que segue pelo litoral oeste de Anchorage, por detrás do aeroporto. É bem agradável para se passear e ter vista da enseada de Cook. Diversos parques estão nesse trajeto, como o que relata sobre o grande terremoto de 1964, com magnitude 9,2. Mais ao sul, há diversos quarteirões com centro de compras. Usei o tempo que me restou para tanto. Ao voltar ao albergue, vendi a bicicleta para a recepcionista por 40 dólares e fui até o ponto de ônibus. Acontece que ele havia mudado temporariamente de lugar, e até eu chegar ao outro perdi o transporte. Droga. Tive que esperar uma hora até o seguinte, pra poder pagar só 2 dólares. À noite, comi um hambúrguer de salmão (não podia deixar o Alaska sem isso, né?) e voei de United Airlines até Guarulhos por 30 mil milhas LifeMiles. Total pedalado no dia: 41 km. Total aproximado pedalado no Alaska: 806 km! Dia 29 Conexões em Denver e Houston, ainda pela United. Os dois aeroportos possuem wi-fi liberado. Depois, de Guarulhos para Floripa pela Azul (230 reais). Fim! Curtiram? Então não se esqueçam de dar uma passada em meu blog http://rediscoveringtheworld.com/
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