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  1. Trilha feita em 03/04/2015. Álbum com todas as fotos estão em: https://picasaweb.google.com/110430413978813571480/ParanapiacabaCircuitoDasCachoeirasDoValeDaMorte?authuser=0&feat=directlink Eram 10:15 de uma bela manhã de outono qdo lá estava eu, saltando do trem na Estação de Rio Grande da Serra para mais uma pernada, dessa vez não exploratória, mas sim para fins de ter registros fotográficos digitais de algumas cachoeiras que eu já estivera 11 anos atrás, mais precisamente em 2004. Naquela época, a máquina que dispunha ainda era daquelas analógicas. A logística inicial era chegar aqui 2 horas antes, mas infelizmente o despertador falhou e eu só fui acordar 2 horas depois, saindo de casa por volta das 9h00, qdo o programado era sair até as 7h00. Tinha planejado fazer essas cachoeiras desde Fevereiro desse ano. Para essa trilha, convidei algumas pessoas com algumas semanas de antecedência, mas como nenhuma delas mostrou interesse em me acompanhar (inclusive não dando resposta alguma), acabei deixando para lá e optei por ir solo mesmo, infelizmente.... Chegando ao tradicional ponto do busão para Paranapiacaba, es que encontro a mesma cheio de gente, mas felizmente a maioria estava indo para a vila inglesa de Paranapiacaba. As 10:45 salto em frente ao inicio da trilha para a tradicional cachoeira da fumaça, trilha essa que já foi palco de várias outras pernadas exploratórias nos últimos 10 anos e que outrora já foi uma larga estrada de terra, mas que ficou reduzido a uma reles trilha estreita. Após ajeitar a mochila e fazer os alongamentos básicos de praxe, dou inicio a pernada propriamente dito as 10:50, logo de cara tendo que meter os pés no mini-lago permanente que existe bem no começo da trilha, por conta da mesma estar em um vale e por passar um córrego ali. Por isso nem calço as botas e vou de chinelo mesmo, calçando as botas mais para frente. Enquanto terminava de ajeitar a mochila, um grupo grande (de cerca de 12 pessoas que desceram junto comigo) passaram por mim e eu logo vi que iriam me atrasar. Dito e feito, os alcancei num piscar de olhos, mas tive que seguir no ritmo deles até chegar à uma enorme área de charco (o tal pântano), para só então conseguir ultrapassa-los. Isso porque, estavam em ritmo de tartaruga manca com muletas. Assim que cheguei, passei rapidamente na frente deles e disparei na frente, enquanto dava boas risadas por conta das meninas gritando por terem mergulhado seus tênis na lama, literalmente.... Trecho erodito da trilha A medida que ia me distanciando deles, o silêncio da mata voltou a ser a minha cia, nessa pernada que realizei totalmente solo. Após passar pelo Pântano, a trilha logo mergulha no frescor da mata me livrando do sol forte. Após passar por um grande trecho erodito da trilha, chego ao primeiro riacho, afluente do rio principal, onde quase dou adeus ao conforto da bota seca, se não tivesse visto um banco de areia a esquerda que tornou possível saltar de um lado para o outro sem molhar as botas. Ufa, ainda bem! Após o trecho de travessia de rio, a trilha passa por uma bifurcação em "T" (onde o caminho a seguir é para a direita), mais uma área de charco e depois passa a acompanhar o rio à direita até chegar ao mirante. Passo por uma mega piscina natural do rio e um descampado que cabe pelo menos umas 3 barracas. Água não é problema nessa trilha, pois a trilha passa por vários bicas e pequenos afluentes do rio e como estava com 1 litro de gatorade + 1 de suco natural na mochila, nem paro para coletar água. Mega piscina natural, onde tb há descampados Como não tem chovido nos últimos dias, a trilha estava bem menos enlameada e com isso pude desenvolver um bom ritmo, principalmente para recuperar um pouco o atraso lá do começo por conta do grupo grande. Uns 30 minutos desde a rodovia, chego ao 1º mirante, onde faço uma rápida parada para beber algo e também para ver o incêndio nos tanques lá em Santos. Dali era possível ver de longe as labaredas e a imensa cortina preta de fumaça poluindo o já poluído céu de Cubatão. Sempre achei um absurdo esses tanques de gasolina do lado de um ambiente natural e selvagem, como a serra do mar. Vista de Cubatão As 11:30, após atravessar o rio, passo por um descampado plano para 3 ou 4 barracas e ao lado da 1ºqueda significativa do Rio, uma bela cachoeira com uma piscina natural, onde havia um grupo de 4 pessoas curtindo o local e que cumprimento cordialmente. Por ter perdido cerca de 20 minutos lá atrás, nem paro na cachoeira e continuo em frente, aproveitando alguns rabichos de trilha que cortam caminho e que me livram do tédio de ter que caminhar entre as pedras do rio. 1ºCachoeira 10 minutos desde a mirante, vejo uma entrada de uma trilha bem demarcada a direita, que não existira até meados de 3 anos atrás. Antigamente, assim que se passava pela 1º cachoeira, o restante da pernada era pelo leito do rio até chegar ao topo da cachoeira da fumaça. Alto da Cachoeira dos Grampos, com o morro do careca em destaque, a frente Piscina natural do Rio vermelho, que se encontra com o rio da cachoeira da fumaça próximo ao portal Vou seguindo pela trilha bem demarcada que segue margeando o rio a direita e que termina bem próximo ao topo da cachoeira, o que ajudou a acelerar bastante os passos do que ir pelo rio. As 11:50, com cerca de 1 hora de caminhada desde a rodovia (meu normal sem atrasos é de 40 a 50 minutos), finalmente chego a famosa cachoeira da fumaça, onde para minha surpresa (ainda mais pelo horário -quase meio dia e feriado sem chuva) só havia meia duzia de gato pingado na cachoeira. Imaginei que por ser feriadão e com sol, estaria lotado. Mirante da cachoeira da Fumaça, detalhe para o incêndio nos tanques de gasolina em Cubatão Topo da Cachu da fumaça, vista do alto de um morro Descampado próximo a cachoeira da fumaça Como meu objetivo não era ali (e por conta dessa cachoeira já ter sido palco de várias outras pernadas que fiz na região nos últimos 10 anos), nem paro e logo pego uma trilha a esquerda do topo dela e inicio a íngreme descida serra abaixo pela sua encosta esquerda em direção ao conhecido vale da Morte, onde se encontram as cachoeiras da Garganta do Diabo e várias outras. A descida nesse trecho inicial é bem tranquila e 15 minutos depois já estava na base da cachoeira da fumaça, que foi merecedora de alguns cliques, é claro. Vale a pena descer até sua base para contempla-la. Descendo pela trilha Vista lateral da Cachu da fumaça Após os cliques, atravesso o rio e pego a continuação da trilha em direção as outras quedas do rio, como as cachus do funil, Poço da fumaça, Portal e Garganta do Diabo. Já havia passado do meio-dia e não poderia perder muito tempo, para não comprometer o retorno e ter que voltar no escuro, embora tenha trazido lanternas para isso.Do outro lado do rio, encontro a continuação da trilha que dá acesso as outras cachoeiras em patamares inferiores a da fumaça. Vista de uma das 2 grandes quedas da cachu A cachoeira, vista por baixo São quedas menores em relação a fumaça, mas que são compensadas por belas poções naturais. As 12:05, chego a uma nova queda do rio, que por não saber o nome, batizei de cachoeira poço da fumaça. É uma bela cachoeira com cerca de 10 metros de queda. Mas chegar ali não foi fácil, pois depois que saí da base da cachu da fumaça, a trilha vira uma pirambeira daquelas, onde qualquer descuido, significaria despencar morro abaixo até o rio. Nos trechos mais complicados, existe cordas que se mostraram extremamente útil, principalmente se você estiver passando por aqui com mochila cargueira ou voltando de noite, por exemplo (antigamente não tinha). Cachoeira poço da fumaça Piscina natural da cachu Um outro grupo que estava na base da fumaça (no momento que passei por lá) tb estavam descendo, mas pareciam não saber o onde estava a continuação da trilha e estavam descendo pelo rio a esquerda, enquanto eu atravessei em linha reta até a outra margem e desci pela trilha que segue a direita. Cheguei na base da cachoeira e eles ainda estavam lá em cima procurando o caminho. Dei uns gritos e apontei para onde estava a trilha que desce. Já na poço da fumaça havia um casal e mais um carinha apenas. Parei rapidamente para tirar fotos e logo retomei a pernada em direção da segunda queda, a cachoeira do Funil. Rio da Cachoeira do vale Trecho pirambeiro com uma corda E da-lhe pirambeira dos infernos novamente, essa eu tive que descer na base da desescalaminhada, literalmente. Assim como a outra, também havia uma corda instalada que novamente foi bem útil. Mesmo assim, tive que tirar a mochila das costas em alguns trechos, por cautela. Mesmo com as cordas, foi um pouco tenso descer ali, pois a trilha estava um pouco escorregadia e os poucos pontos de apoio não eram confiáveis. Passado esses trechos, chego na base da 2ºcachoeira, onde não havia ninguém. Dono absoluto do lugar, fiz uma parada para um lanche e relaxar os músculos, que estavam meio trêmulos devido aos trechos tensos que exigiu bastante dos músculos da perna de tão ruim que estava. Só se salvou o fato da trilha ser bem demarcada, não ter bifurcações e agora ter cordas fixas que ajudaram bastante nos trechos mais pirambeiros. Cachoeira do Funil Os 2 trechos são curtos, mas perde-se muito tempo ali. Claro que tudo isso pode ser facilmente evitado pegando uma trilha-atalho que sai lá do topo da cachoeira da fumaça e desce direto por dentro da mata e cai quase ao lado do Portal. Ela corta um belo caminho, evitando todos esses perrengues. Em cerca de 15 a 30 minutos vc chega ao Portal. A outra trilha que desce até a base da cachoeira da fumaça e vai pela margem do rio é só para quem quer ver a cachoeira da fumaça por baixo e quiser passar pelas outras cachoeiras do rio. Por isso, se quiser chegar mais rápido ao Portal e as cachoeiras do Vale da Morte a partir do topo da cachu da fumaça, desça pela trilha atalho que sai dos descampados lá do topo da cachoeira. Ela é bem fácil de achar. Assim, economiza-se pelo menos 40 minutos de caminhada e a descida é bem mais tranquila. Fica a sua escolha! Após o breve descanço, retomo a pernada, agora em direção ao Portal, onde os 3 grandes rios da cachoeira do vale, grampos e fumaça, se encontram. Depois da 2º cachoeira, há mais um trecho complicado de descida, onde encontro mais uma corda fixa amarrada, dessa vez sobre uma grande rocha. Como estava sozinho, os cuidados tem que ser em dobro para evitar acidentes, pois um resgate num lugar desses é bem complicado e em meio de vales, sinal de celular praticamente inexiste. Fim da descida do rio da cachoeira da fumaça, detalhe para a corda no rochedo Bifurcação onde os rios vermelho (da cachoeira dos grampos) e da fumaça se encontram). É exatamente nesse ponto que as 2 trilhas-atalho terminam Pouco antes de chegar ao portal, encontro com 3 trilheiros que estavam fazendo a travessia da ferradura, vindos do Poço de Cristal e cachoeira do vale e que perguntaram da trilha que sobe até a cachu da fumaça. Indiquei as 2 opções de trilhas à eles. A trilha atalho que vai direto ou a trilha que passa pelas cachoeiras, mais bonita, porém mais demorada e com trechos ruins. Eles optaram pela trilha atalho e após mostrar onde estava a entrada, me despeço deles e retomo minha caminhada. No portal, além do encontro dos 3 grandes rios, há tb uma cachoeira conhecida como a Cachoeira do Portal, onde chego as 13:00hs. Cachu do Portal A partir de agora, os 3 grandes rios viram um só e a partir desse ponto, inicia-se o Rio da Onça, rio esse que desce furiosamente, formando várias outras cachoeiras serra abaixo. Ali é praticamente o coração do Vale da morte. Um vale que fica na base do Morro do careca e encravado em meio a vários outros morros. Após contornar os enormes rochedos, passando por pequenas grutas em meio dos rochedos, inicio a descida do Rio da Onça. A partir dali são cerca de 30 a 40 minutos de caminhada até a Cachoeira da Garganta do Diabo. Inicio do Rio da Onça No Rio da Onça (trecho entre o Portal e a Garganta do Diabo) Vou descendo o rio sem grandes dificuldades, já que o trecho mais íngreme entre a cachu da fumaça e o Portal ficou para trás. E depois de pular pedra aqui, ali, acolá, finalmente chego à cachoeira da Garganta do Diabo as 13:43, com exatas 3 horas de caminhada desde a rodovia para o merecido descanço. Mas não sem antes contemplar a bela cachoeira, que realmente parece uma garganta de tão estreita e profunda que é. O rio afunila e despenca em meio a um enorme paredão estreito que é de impressionar. Cachoeira garganta do Diabo visto por cima De frente Descampado ao lado da cachu Ao lado da cachoeira, há descampados protegidos e planos no meio da mata para cerca de 4 a 5 barracas do tipo "iglu" e que havia vestígios de acampamento recente, inclusive. Como não havia nínguem, fui dono absoluto do lugar. Depois da contemplação da cachu, almocei e fiquei cerca de 40 minutos a toa ali. Até pensei em seguir mais para frente, mas com o horário avançado (Já havia passado das 14h30 e o céu estava com cara de chuva), resolvi abortar o resto da caminhada até a cachoeira do Tobogan e do Poção. A garganta Bem profundo As 14:40 dou adeus a cachoeira e inicio a caminhada de volta que transcorreu sem grandes problemas. Ao contrário da ida, na volta optei por subir pelo atalho que vai direto até o topo da cachu da fumaça. A ideia era essa até notar uma trilha nova que começa exatamente no cruzamento entre 2 rios (da fumaça e dos grampos), que me despertou a curiosidade em explora-la e ver aonde iria dar. Então, abandono a trilha principal em favor dessa trilha nova. As 15:20, inicio a subida da mesma que logo de cara se mostrou uma pirambeira daquelas, com vários lances de escalaminhada, onde o auxílio das mãos foram constantemente necessários para impulso nos troncos e pedras. Cachoeira do rio vermelho Mesma foto, com zoom A subida é árdua, o que me fez parar algumas vezes para recuperar o fôlego. E da-lhe escalaminhada, mesmo sabendo que é curta, parecia não ter fim. 25 minutos desde o portal, a trilha nivela e logo chego a bifurcação onde a trilha nova encontra com a antiga bem no final dela, terminando nos descampados do alto da cachu da fumaça. Ambas as trilhas sobem o mesmo morro em caminhos diferentes. Trecho pirambeiro da trilha nova com uma corda A antiga achei melhor por estar mais larga e batida, embora tenha alguns trechos de trepa-pedra, onde é necessário até tirar a mochila e jogar para cima, para facilitar a escalada por alguns trechos eroditos, estreitos e de pedras. Na trilha nova, não encontrei nenhum trecho assim e em alguns trechos havia até cordas para auxílio, porém ela é um pouco mais estreita que a outra. De volta ao topo da cachu da fumaça, dou um tempo ali para relaxar os músculos das pernas e aproveito para comer algo e molhar a goela seca. As 16:30 inicio o caminho de volta, chegando a rodovia por volta das 17:25 a tempo de pegar o busão das 17:30 de volta para a estação de trem e depois o trem de volta para Sampa, chegando em casa pouco depois das 19:00h, cansado, mas feliz. Mesmo 12 anos depois de ter posto os pés pela primeira vez nessa região e de ter explorado trilha por trilha cada fim de semana nessa parte fora da vila de Paranapiacaba, ainda me surpreendo como essa região da serra ainda reserva tantos lugares e cachus escondidas, prontos para serem descobertos. Tudo isso a menos de 50 km duma das maiores cidades da América do sul. As melhores e mais bonitas cachoeiras e belezas naturais de mata virgem e selvagem você só encontra nas entranhas da serra do mar. ---------- Algumas infos, principalmente para os iniciantes em trilhas na serra do mar: -> A cachoeira da Garganta do Diabo está a mais ou menos 3 a 4 horas de caminhada a partir da Rodovia, contando com algumas paradas para descanço e lanche, dependendo do seu ritmo ou do grupo. A trilha até a cachoeira da Fumaça é bem tranquila, mas a partir do Portal, não há mais trilha e a caminhada é feita pelo leito do rio. Você só reencontrará a trilha na Garganta do Diabo. Já a Cachoeira da Fumaça leva-se em torno de 1 hora em ritmo médio da rodovia até lá. A maioria das pessoas costuma ir somente até a Fumaça. -> Se não quiser passar pela base da cachoeira da fumaça, além das outras 2 cachoeiras logo abaixo dela, desça pela trilha atalho que sai dos descampados do topo da cachoeira da fumaça a direita. Ela desce direto e termina próximo ao Portal. De lá, segue-se por mais ou menos 40 minutos até a Garganta do Diabo. Muito cuidado no trecho de rio, pois há várias fendas entre as rochas. Utilize calçados adequados, como bota de trilha por exemplo. -> No trecho entre o Portal e a Garganta do Diabo, há 2 descampados que cabem apenas 1 barraca do tipo "iglu" que podem ser utilizados em caso de emergência ou para o caso de você ter começado tarde a trilha e estar chegando ali a noite. Uma delas está localizado em uma gruta do lado esquerdo do Rio e a outra um pouco mais abaixo, do lado direito do rio. -> Também é possível chegar na Garganta e em outras cachoeiras mais abaixo a partir da trilha da Cachoeira do Vale e Poço de Cristal. Porém, a distancia até lá é maior. O caminho mais rápido é pela trilha da cachoeira da fumaça. A partir da Garganta do Diabo não me recordo se há descampados planos para montar barraca. Por ser relativamente perto, eu montaria acampamento na Garganta e desceria o resto só de mochila de ataque, se livrando do peso da cargueira. -> Se for fazer apenas batevolta, comece a trilha no máximo até as 9h00, afim de chegar na Garganta por volta do meio dia e ainda ter tempo para ir as outras 2 cachoeiras logo abaixo que são relativamente próximas a da Garganta (não dá nem 1 hora de caminhada, dependendo do seu ritmo) -> Se for acampar, traga o seu lixo de volta, mantenha o local limpo, seja consciente para que o local não seja fechado, como ocorreu nas trilhas de Paranapiacaba. Ali, segundo fiquei sabendo, os motivos eram porque tinha gente se perdendo e a quantidade enorme de lixo que muitos deixavam nas areas de acampamento, assim como nas cachoeiras também. -> Não faça fogueiras em hipótese alguma, pois um descuido e você pode começar um incêndio de grandes proporções na mata. Se for esquentar comida, utilize fogareiros. -> Se não tiver experiência suficiente em caminhadas por trechos de rios e nem farejo de trilha, vá com alguém mais experiente e ganhe conhecimento com essa pessoa. -> Repelente e protetor solar são itens indispensáveis, principalmente o repelente, pois na Serra do mar há muitos borrachudos que picam até por dentro da roupa, se encontrarem qualquer abertura. -> Mesmo se não for acampar, leve sempre lanternas com pilhas reserva para não correr o risco de ser pego pelo cair da noite antes de chegar no final. Na Floresta, escurece mais cedo do que na cidade. Atente-se a esses detalhes.
  2. Informações relevantes de extrema impotancia atualizadas e detalhadas para fazer suas Trilhas e Travessias na região de Paranapiacaba. Não se baseie em informações antigas para fazer suas aventuras. Consulte previsão do tempo....mesmo sendo local propenso a mudança de clima. E se prepare pois se está ruim, pode piorar caso não tenha as habilidades necessárias... Essas informações a seguir servem apenas para ressaltar alguns pontos importantes que devem ser levados em consideração. Apesar de conter informações atualizadas e precisas não o considere como um guia oficial. Travessia Raiz da Serra Paranapiacaba ate Cubatão Não se arrisque caso não tenha experiência....o risco é real...não é como acampar no quintal da vovó.... Já fizemos diversas investidas na região de Paranapiacaba e arredores......trilhas, travessias.....Até alguns circuitos que atravessa o vale todo, ja descemos pirambeiras e subimos no mesmo dia isso entrando na trilha logo ao amanhecer....pausas em lugares fantásticos....Não consegui colocar fotos nesse primeiro momento pelo celular não carregou......estarei colocando fotos e detalhando... Devido aos deslizamentos e outras erosões as trilhas estão em níveis acima do moderado....pesado de dificuldade superior mesmo com falta de chuva... Vivendo e aprendendo....estamos aqui para trocar experiências e aberto a aprender sempre..... Trilha Poço Formoso Acesso restrito, está em condições acima do moderado..... Um amigo e eu descemos ao Poço na sexta-feira 28/07/2017 decidimos descer um pouco mais tarde e a trilha está ruim bastante esburacada, pedras soltas, troncos e locais com certo perigo devido aos deslizamentos e erosões mas possível a descida... Em certo ponto ja tem até uma trilha opcional para cortar um ponto de deslizamento....Até da pra passar ainda mas com cuidado para não cair..... A vista e sensacional grande vista geral de grande parte do Vale, da pra ver algumas pontes e túneis do antigo e desativado sistema funicular......em certos pontos abertos e possível ver torres de transmissão que seguem vale abaixo.... Em um ponto da trilha tem um buraco com deslizamento onde o Matheus Camaleão caiu na volta do Poço...por fim a dor veio só depois pq estava com sangue quente mas sem novidades.....nada mais grave por sorte ele se segurou e não caiu barranco abaixo.... Percebemos que o Poço Formoso esta com fluxo muito abaixo do nivel de agua....inclusive no meio da trilha existe pontos de passagem de água....o primeiro ainda tem água descendo.....porém o segundo está seco só nas rochas.... Certo ponto da trilha tambem tem bastante água descendo... Praticamente dentro da trilha na Mata fechada meu irmão o Nê ligou achei muito estranho ter sinal e o celular tocar......Mas não consegui atender e retornei a ligação via vídeo.... Para nossa surpresa funcionou e começamos a descer a trilha por uns 300 metros ou mais ate a segunda torre onde perdemos o contato após a tentativa de mostrar o trem subindo a serra.....porém qualidade e movimentos não ajudaram muito..... Seguindo trilha abaixo....... Na chegada ao Poço Formoso encontramos um tipo de roedor de tamanho razoável na Mata a direita, mas acabou se afastando...na volta sentimos um cheiro forte provavelmente de algum animal muito próximo e tratamos de andar logo nesse ponto..... Chegamos no final do dia tranquilo e prontos para próxima.... Vamos ver se nas próximas o Luis Nê e o Caio Jacaré tomam coragem e participam da aventura...ou vai virar lenda!?!?! O meu primo Renato Gordo e o Bruno Supla talvez entrarão nas próximas barcas...De repente o João irmão do Jacaré também topa a trekking...Não queria falar no pezinho do Jacaré que está com uma torção duvidosa......mas tudo bem!!!!!ele ate comentou depois de fazer uma travessia ate o litoral....!!!! ------------------------------------------------------------------ obs...essa parte abaixo inseri depois 13 de agosto. Infelizmente muitas trilhas e tal na regiao que não tem fiscalização e muito menos segurança alguma aos trilheiros..... Muitos vao na sorte e risco.....e outra a prefeitura de Santo André que deve ser responsável pela região não investe....Local muito abandonado principalmente em dias de semana.....mesmo indo algumas excursões......tipo alguns poucos ônibus....tem uns que dizem "MORAR" na região e aparenta índole e perfil duvidoso devido vícios em drogas e postura não apropriada.....Não digo pessoas humildes de baixo poder aquisitivo e roupas mais usadas..Mas tb....em que lugar não tem??.......por outro lado existe sim pessoas trabalhadoras e corretas que merecem tudo respeito....Não se pode generalizar por causa de meia dúzia..... (o paraíso pode virar um inverno) Digo...pode ser que pela condiçao do tempo....por se perder na mata ou até pior ser assaltado....Até o pior pode acontecer....se é que me entende....em qualquer lugar estamos sujeitos a tudo......então não dá pra dar bombeira.......Até pq já fiquei sabendo de assaltos na região de Cubatão na trilha para lagoa azul.....Um local que tenho vontade de visitar........vai saber um monte de doido por aí.....ouvi dizer ate história de um cara que mora na região que bateu na mãe.....imagina vc encontrar um desse.....pensa ae o cara bate na mãe.....o que ele pode fazer com "alguém" que ele não conhece? NÃO ESTOU FALANDO DENTRO DA VILA DE PARANAPIACABA E SIM DE SUAS MATAS AOS ARREDORES QUE PODE SER PERIGOSO.......ISSO DEVIDO ALGUMAS VEZES QUE ME METI NA MATA NA MAIORIA DAS VEZES SOZINHO....Ate porque adoro ir à Vila e ficar de bombeira andando por todo lado e conhecendo cada vez mais..a culinária não é das melhores...mas encontra coisa boa......é um lugar que vale muito a pena ir.....Estou direito na região e conheço bastante.....recomendo visita no museu ferroviário e até passeio de trem...fique atento nos detalhes......Bom passeio.... Não aconteceu nada comigo e só um desabafo.....Um desconforto....que bateu.......uma maneira de ver as coisas......Pode ser que depois eu vejo por outro ângulo e edito....escrevo mais ou até apago tudo isso....... ------------------------------------------------------------------ Falando um pouco sobre outras trilhas na região.... A Trilha para cachoeira escondida está boa em nível moderado....mes passado fizemos 2 vezes lembro também que na segunda vez choveu no dia e estava tendo convenção das bruxas e magos....porém trilha com acesso restrito... Pedra Lisa acesso proibido...nem é bom ir. Local de perigo...As pessoas têm escorregado da pedra e aí já era porque é muito alto não tem como sobreviver.... Poço das Moças acesso proibido... Cachoeira da fumaça acesso proibido..não tenho certeza de como está a situação. Cachoeira da barragem.... Pedra Furada... Acesso restrito não significa proibido.... Ainda assim alguns aventureiros não autorizados fazem essas trilhas atualmente proibidas tornando-se um passeio clandestino... Para chegar em algumas trilhas é preciso passar por guaritas sendo mais restrito o acesso. Por outro lado existem trilhas opcionais que podem ser percorridas tranquilamente.. Semana Passada fomos ao festival de inverno.....o estacionamento estava em um espaço a 5 km da entrada da vila na parte de cima.....o valor do estacionamento estava em 40 reais e você descia de ônibus tipo fretado....Mais a fila era grande tipo mais 800 pessoas em fila única.....Na volta do festival mais uma vez o Camaleão e eu não tivemos coragem de esperar e fomos na pernada até o estacionamento.....5 km pra fechar até o estacionamento.....sorte que sempre estou preparado e usamos as lanternas de cabeça.....Mas valeu a pena a aventura...Não tem jeito ou vai e racha....ou senta e chora!!! E é isso!!!! Agradeço ao Camaleão pela coragem, disposição e bravura em nossa expedição!!! Preparação/ equipamentos.....autorização de acesso em locais restritos e melhores épocas... o que levar na mochila? Mochila adequada (carqueira ou mochila estanque impermeável) Documentos de identidade Barraca/ saco de dormir/ abrigo Manta térmica... Cantil de água. (2 litros por pessoa...mesmo sendo possível encher o cantil.....recomendado clorin para purificação da água coletada) Pederneira/ fósforo/ isqueiro facão/ canivete suíço inox (pode ser muito útil) GPS/ rádio comunicador/ celular. Bússola (sabe usa-la?) Repelente de insetos/ Protetor solar. Alimentos Roupas reservas e bota impermeável Sacos plásticos extras Capa de chuva Lanternas bastão e de cabeça (pilhas reserva e extras) Equipamento de rapel Remédios de uso particular Kit de primeiros socorros Claro que vai depender da dimensão da sua aventura. Lembre-se de fazer o descarte consciente do lixo produzido em local apropriado. Muitas vezes recolhemos o lixo dos outros em preservação do meio ambiente....pense nisso e ajude a preservar a natureza..... Será ressaltado e abordados assuntos relacionados. O intuito é orientar para não entrar em furada...Até pq ninguém quer dormir no meio da mata atlântica sem prévio aviso e passar a noite perdido despreparado sem equipamentos apropriados.. o que levar no kit de primeiros socorros? descritivo do kit...e seus níveis...
  3. Diferente do que aparenta ser, e do que muitos pensam, o Vale da Morte não tem esse nome por ter acabado com a vida de muitos que se aventuraram por suas fendas estreitas e perigosas. O nome, como um estigma, vem sido mencionado com veemência desde a década de 80, quando o Pioneirismo do Polo Industrial chegou no Brasil e se instalou na parte baixa da Serra do Mar, mais precisamente em Cubatão, produzindo fumaças tóxicas, colorindo e aromatizando o ar com uma névoa permanente, densa e venenosa, pairando naquele lugar. Com isso, a fauna e flora local ia sendo trucidada pelo desmatamento desenfreado, que abriu uma gigantesca clareira na floresta, para posteriormente, fincarem raiz na Baixada. Com tanta poluição, não demoraria muito a aparição das doenças que, quando começaram a aparecer, causaram espanto com a gravidade do problema: "em seis meses, no período de Outubro de 1981 à Abril de 82, nasceram 1868 crianças: 37 estavam mortas; outras cinco apresentavam um terrível quadro de desenvolvimento defeituoso do sistema nervoso; três nasceram com anencefalia (ausência de cérebro) e duas tinham um bloqueio na estrutura das células nervosas que ligam o cérebro ao resto do corpo através da espinhal dorsal (fechamento do tubo neural)." Dentre tudo isso, e outros agravantes, a ONU deu à Cubatão o título de cidade mais poluída do mundo. E com essa repercussão mundial passou a ser chamada de Vale da Morte. Pois havia ali uma mortandade horrenda do meio ambiente. Travessia pelo Vale da Morte (Rio da Onça) Confesso que sempre tive muita vontade de fazer esse roteiro. Coragem, respeito e admiração não faltavam da minha parte, mas por diversos motivos tive que adiar essa travessia por dois anos. Quando eu queria, não encontrava companhia disponível, ou corajosa o bastante para tal feito, quando aparecia alguém indo, e me convidava, era eu quem estava enrolado com as datas e acabava não podendo ir. Isso me dava nos nervos. Teve vezes de chegar a arrumar meus aparatos na mochila e querer encarar o desafio sozinho, mas quando chegava a hora, eu via que o mais sensato era eu admitir que não tinha peito para ir sozinho, e que o certo era esparar minha vez chegar e ir acompanhado, pois estar num lugar como aqueles e não ter alguém que te socorra de imediato, caso precise, pode ser fatal. O Vale da Morte não admite erros. Vinte e dois de Janeiro de 2016 foi a data de início que, por algum motivo, fui escolhido para atravessar a "Rainha da Serra." Para meu espanto, eu estava calmo, sem anseios, sem medos e sem aquela vontade louca de estar lá (diferente das vezes que não pude ir). Creio que estar indo com pessoas experientes, que já haviam percorrido o Vale mais de duas vezes, me passava confiança. Mas quando deu 21h do mesmo dia, e eu chegava na estação Brás da CPTM, junto ao Paulo, percebi que teríamos uma tarefa árdua pela frente. Eu pensava que seríamos um grupo de 8 pessoas, no máximo, mas quando chegaram todos, fechamos ali um grupo de 11 aventureiros e seguimos até a Estação de Rio Grande da Serra, onde encontramos o Prince, e completamos nosso clã com 12 membros. Dentre todos, eu conhecia apenas o Loures e o Paulo, mas como não sou antissocial, logo estaria entrosado com todos. Já na estação de RGS, esperamos o ônibus que leva à Paranapiacaba por muito tempo. Tempo suficiente para irmos atrás de táxis para para nos levar até o ponto de partida da caminhada. Conseguimos 3 carros, e rapidinho já dávamos os primeiros passos na Estrada do Gasoduto, e pouco depois entrávamos na picada à esquerda. Trilha que leva ao Lago Cristal. Seguimos entre prosa e risos, escorregando, tropeçando e atolando os pés no lamaçal que é aquela via. Mas não era coisa de outro mundo. Pra mim, só tive problemas com 30 minutos de caminhada, que foi quando minha lanterna de cabeça falhou, foi à óbito e nunca mais voltou, rs. Conclusão: tive que seguir na rabeira de quem tinha luz o suficiente, já que a lanterna reserva que eu tinha na mochila também falhava Deu 01:30 a.m. Foi quando pisamos nossos pés no entorno do Lago Cristal à procura de um lugar para o primeiro pernoite. Coisa que não foi difícil, pois todas as áreas de acampamento dali estavam vazias. O que é um caso raríssimo (mais raro do que a lua de sangue). Nos dividimos em duas áreas diferentes, pois a que comportava todas as redes e barracas estava dominada por muita lama. Assim encerramos a primeira etapa. Sábado, 23 de Janeiro, de 2016 Aos gritos de Booom diaaa, do Vinicius, levantamos e preparamos o café da manhã, ajeitamos as tralhas e demos início a caminhada do dia às 9h. Descemos sem novidades, sem dificuldades a parte do Rio Solvay até a Cachoeira Escondida, mas quase não houve pausa para fotos, só a olhamos de longe, demos bom dia e seguimos rs. A parte do trepa pedra sempre é ruim de se avançar, tem que ter cautela pra que ninguém se machuque, e com um grupo numeroso, esse tempo se estende. Chegamos local que o Portal do Vale se apresenta de forma única, linda e sem igual, da mesma forma de sempre: entre a neblina e o céu cinzento de todas as manhãs da Serra. O peso que vinha nas mochilas, junto ao esforço físico, ia fazendo as energias minarem, e a fome não tardou a aparecer. Quando chegamos na junção tríplice dos Rios Solvay, Vermelho e Areias, passamos com calma pela Cachoeira do Portal, e em sua base, onde começa o Rio da Onça, paramos para um lanchinho, um descanso, fotos e tibuns para alguns. Quando decidimos continuar, levamos pouco mais de uma hora até o ponto mais conhecido do Vale da Morte: A Garganta do Diabo, onde o rio se estreita dentre dois paredões de aproximadamente 10 metros de altura, o que transforma o lugar num cenário sem igual, e até recreativo. Pois é da parte mais alta desses paredões que os mais corajosos saltam, fazendo um mergulho recheado de adrenalina a flor da pele. Essa era a vontade de alguns do grupo, mas como estávamos com um pouquinho de atraso, foi melhor não arriscar, rs. Antes de chegar ali, outro grupo nos alcançou, e nas honrarias e cumprimentos, perguntaram o que faríamos, explicamos que desceríamos até Cubatão, completando a Travessia. Se espantaram, e até perguntaram: As meninas também vão? Sim, elas também vão - foi a resposta. O Espanto e admiração se estampou e imediato no rosto deles. "Corajosas, hein. Eu estudo esse trajeto a muito tempo, e estou vendo a melhor hora para fazer isso. Parabéns aí, e bom rolê pra vocês" - disse um deles. Depois disso nos separamos, e eles seguiram num ritmo mais rápido. Foi nessa hora que algumas das meninas começavam a entender a dimensão do que estavam prestes a realizar ali. Com isso veio a preocupação, mas aquelas meninas não estavam nem um pouco dispostas a desistir. Cada rosto trazia o desejo pela aventura.Isso era claro. Quando chegamos na "Goela do Tinhoso," foi avisado que a partir dali, começaríamos a ter maior dificuldade para transpor cada obstáculo. E isso foi confirmado no ponto de escalaminhada que o lado direito do rio oferece como meio de passagem àqueles que pretendem seguir em frente. Os "caras" que estavam na frente, subiram assim que chegamos. E isso foi bom, pois sem a jogada tática de ter alguns homens na parte de cima, puxando as meninas através das mãos e cordas, e o restante dos homens na parte de baixo, dando sustentação aos pés e pernas para que as meninas pudessem subir, não haveria progresso. Mesmo assim, houve situações em que duas das meninas, por se estabilizarem com as pernas entre abertas nas rochas se colocavam, sem querer, como pêndulos a balançar de um lado para o outro, prestes a cair, mas saíram intactas daquela "prova de fogo". Aliás, teve um dos momentos em que, ao agarrar a mão do Loures na tentativa de subir, a Kelly jogou todo o peso de seu corpo para trás e quase despenca piramba abaixo. O que causaria um estrago e tanto, pois eu estava logo abaixo fazendo apoio à ela. Fizemos um novo tempo de parada para descanso, contemplação e fotos, e continuamos. Até então, tudo estava indo de vento em popa, a felicidade era dominante entre todos, e os mais experientes sabiam que a partir dali começaria a brincadeira de gente grande. Começava, ali, a maior prova dinâmica que poderíamos passar, e saber se estávamos aptos a superar a nós mesmos e contribuir com solidariedade e companheirismo uns aos outros, agindo no coletivo e deixando o individualismo de lado. Até me lembro de ter dito: "quem quiser desistir, esse é o momento! Por que agora o bicho pega." E foi isso que aconteceu! O bicho pegou a partir desse ponto. O Loures, em comentário discreto, me pediu para que eu tivesse paciência, e que seria uma das travessias mais difíceis que teríamos. Não pela grandiosidade, quantidade e dificuldade dos obstáculos, mas, sim, pelo caminhar da alcateia, que teria que ser a mais tática possível, caso quiséssemos sair vivos dali. Saímos com o "peito aberto à balas," seguindo o último vestígio de trilha que há naquele trecho do vale. Passamos pela via que trás de volta quem pula na Garganta do Diabo e sai da correnteza antes dela formar a próxima queda dágua: a Cachoeira do Anúbis. Descemos um pouco mais, varando mato pela direita. Vendo o quanto nos adiantamos, questionei se não passaríamos na Cachoeira do Anúbis, que fica logo na sequência da Garganta, o Prince afirmou, respondendo que não. Então seguimos os passos do Loures, que liderava a aventura abrindo o caminho com fortes golpes de facão, que só pelo tamanho e peso não fazia muito esforço para tal finalidade. rs. Mais dificuldades apareciam pelo caminho, sorrisos se extinguiam como chama de vela acesa sob o vento forte soprando ao ar livre, o suor escorria pela testa, se fazia nascente nas costas, encharcando camisetas e eliminando as energias que teimavam em sustentar o peso daquela árdua atividade. Um poção aqui, outro poção acu lá, nos afastávamos do rio, e voltávamos a acompanhá-lo. Um detalhe que, vez ou outra, martelava minha cabeça era o fato de estarmos em desacordo com os ponteiros. As vezes eu perguntava, á quem já fez aquela travessia, se tinha como terminar em tempo com o combinado, e a resposta era sempre a mesma: sim. Chegamos no topo da Cachoeira do Poção, a mais bonita da travessia (minha opinião), nem tão cansados, mas paramos por um tempo suficiente para que todos tirassem fotos na quantidade que quisessem, se alimentassem, e se renovassem para a nova etapa, que sem sabermos, que iria judiar de quem estivesse menos preparados. A única coisa que ouvi dizer, foi: a subida que contorna a cachoeira, e te coloca de volta no rio, é íngreme. Mas não imaginava tanto. Devido ao grande número de "trilheiros" que ali passam, agora já há um caminho certo a seguir. Noutrora, quando o Loures esteve por lá com outros amigos, tiveram que meter os peitos morro acima. Aliás, voltando à subida íngreme, que morro é aquele? Meu Deus. Deviria se chamar: Morro do quase morro. rsrs. Enquanto subíamos, vagarosamente em direção à crista, atentos com as armadilhas naturais, e quase colocando a língua no queixo por conta do esforço feito, a enorme cachoeira que desce a escarpa direita do Poção ia ficando lá embaixo, cada vez mais longe, parecendo uma pequena queda, diferente do que realmente é. Grande e grandiosa, charmosa. O ritmo foi o mais lento possível, pois as cargueiras começavam a cobrar um preço alto por terem sido preenchidas com tantos trambolhos. As meninas sofriam cada vez mais, o pedido de ajuda era evidente no olhar de cada uma, que mesmo sem forças, não fugiriam à luta. Nem todos tem a mesma paciência de Jó, e aos poucos notava-se que o excesso de gentileza, que passaria mais segurança à elas e manteria o psicológico mais resistente, ia sendo deixado de lado por alguns homens do grupo. Quando chegamos na parte mais alta da crista, quase 1h depois, os cinco minutinhos de descanso se estenderam por 15 min, mais ou menos. Era hora de se preparar, já que depois de uma grande subida existe uma descida infernal, onde santos não ajudam, e diabos te empurram, seria tenso e demorado o avanço por lá. Começamos a descer num ritmo mais lento do que se possa imaginar. Nos separando em três grupos em alguns momentos, pois as meninas tem aquela dificuldade de "tacar o foda-se," e se jogar sem medo nos obstáculos mais fáceis (pelo menos pra nós "H") que aparecem. Em determinado momento, vendo que o atraso era enorme, e que não sairia disso, paramos, Loures, Luciana e Eu, para esperar o povo de não aparecia, e solicitamos que seguissem em frente, Potenza, Natan e o Adriano (o Primo), na tentativa de sondar terreno e ver se haveria local com espaço suficiente para que pudéssemos passar a noite, razoavelmente bem. Já que o próximo ponto de acampamento seria na base da Cachoeira do Pé de Limão. Eles continuaram a descer pelo caminho de água (agora seco) que estávamos, se desvencilhando de cipós, driblando os espinhos e formigueiros, e atentos com pedras soltas até encontrar o Rio novamente. Mas no meio de tanta destreza, num grupo numérico, dificilmente alguém sairia ileso de alguma armadilha. E nesse caso, foi eu. Não sei se parado a esperar, ou esbarrando na vegetação, formigas tocandira subiram em mim, sem que eu nem percebesse. E como se fosse um comando sincronizado, começaram a picar meu pescoço e minhas costas. De imediato já fui jogando a mochila no chão, tirei a camiseta e comecei a bater com ela por toda parte do corpo. Acabei sendo "picado" 5 vezes (4 nas costas e 1 no pescoço). Fiquei com calombos beeem salientes no alvo das mordidas, e uma ardência, uma dor insuportável no local. O Potenza sabe que não sou de chorumelas, frescuras e afins. Só olhou meu rosto transtornado de dor e já fazia ideia do quanto eu estava sofrendo. Passados uns 40 minutos, e a gente ainda esperando o povo, volta o Primo, respondendo aos meus silvos de apito e vindo de encontro até a gente. Afirmou que não havia local para acamparmos, e subiu direto até onde estavam as menias para ver no quê poderia ajudar. Acabou trazendo mochilas. A procura de abrigo Com todos na margem esquerda do Rio, ao pé de uma linda cachoeira com a queda separada por uma rocha, os mais experientes já sabiam que teríamos uma noite de cão. Não havia mais tempo hábil para avançar e encontrar algum lugar que comportasse o grupo, muito menos faríamos essa busca durante a noite. Como um bom líder de grupo faz, Loures saiu com o facão na mão, e eu o acompanhando, a procura por algo que fosse menos horrível para nós. Rodamos todo o entorno, dos dois lados do rio, e o que encontrávamos erma apenas pirambas atrás de pirambas, impossível de estabelecer uma estada noturna. Quando voltamos, a rapaziada já estava a "abrir/limpar" uma espécie de clareira pra que pudéssemos armar acampamento por ali, mesmo sendo difícil. Na insistência de achar algo melhor, seguimos uns 80 metros rio acima, Prince e Eu, até esbarrar com a Cach do Pé de Limão, onde consegui ver uma área plana e mais aberta na margem oposta, apontei ao Prince, e enquanto ele foi averiguar, eu continuei escalaminhado as rochas inclinadas e escorregadias um pouco mais acima, mas nada encontrei. Na verdade, encontrei um sarna pra me coçar. Quando fui tentar descer, não achei fendas para apoiar os pés e as mãos. Desci escorregando sem parar, com um medo da "preula" de me arrebentar no patamar abaixo. Por isso, enquanto eu descia igual um caminhão sem freio, assobiava igual um louco, na intenção de que o Prince visse onde eu iria cair, e se algo acontecesse, ele saberia saberia onde me encontrar. Menos mal que só foi um susto (o menor da travessia). Quando voltamos de junto ao grupo, mencionamos o achado, e julgamos que não compensaria retroceder com toda galera para lá, já que isso nos tomaria mais de uma hora. Com toda aquela situação de perrengue, ao lembrar dos perrengues que passou sozinho nessa mesma travessia, um dos nossos não conteve o choro compulsivo. Assim diz o Potenza - que me contou com surpresa. Com boa parte do espaço já aberto, começamos a armar as redes e dividir os "cantos" para quem iria bivacar. A ideia foi a seguinte: como as meninas estavam bem debilitadas, com esgotamento batendo às portas, preferimos deixá-las descansar/dormir, nas redes, com o máximo de conforto que poderíamos arranjar naquela noite, enquanto os homens se ajeitariam no chão mesmo, onde desse. Foram armadas 5 redes, 3 espaços no chão foram o suficiente para acomodar o restante do pessoal. Não foi fácil. A Kelly jurava de pés juntos que não dormiria numa rede daquelas, que seria inseguro, que iria cair, coisa e tal. Ficou de pé um tempão, passando frio, se distraindo com o "conversê" entre as meninas, e na hora que decidiu deitar, a profecia se cumpriu. Vira daqui, mexe dali... ploft! Kelly ao chão. Levou um tombo de cima da rede e quase sai rolando ladeira abaixo rsrs. Sorte a dela, que Prince pernoitou numa rede que estava "vaga," fez chazinhos e afins para esquentá-la enquanto tremia de frio. O que se sucedeu depois disso eu não sei dizer, pois o corpo precisava descansar, já tínhamos terminado o jantar, então me acomodei num cantinho, "plano", duma rocha, de onde o Loures rolou duas vezes durante a madrugada, e Eu tive que segurá-lo para não sair rolando na piramba. Na outra extremidade das redes se acomodaram o Primo e o Natan. Já o Potenza, que ficou batendo cabeça de um lado pro outro, acabou sendo largado a passar a noite numa parte que a primeira vista era um tanto que escrota, mas na hora H se mostrou com um solo bem fofo, e por sorte, ele fez seu bivak ali mesmo. Onde jura ter escutado uma cobra passando do lado do seu rosto, fazendo aquele característico barulho com a língua, e a viu um pouco distante quando acendeu a luz da lanterna. Na manhã seguinte todos acordaram sãos e salvos. Demoramos demaaais para tomar café, recolher acampamento e darmos partida na caminhada do dia. Era mais de nove horas quando atravessamos o rio até a outra margem, pois continuaríamos pela mata, onde já se notava que o aquele domingo não seria fácil! Obstáculos de monte, encostas a subir na base da unha, pouco espaço para que um ajudasse o outro a prosseguir. Tava F***. Em um determinado momento tivemos que ganhar altitude para contornar duas rochas, altas, que afunilavam o rio e não nos dava passagem. A solução foi tocar pra cima. E isso trouxe problemas. O grupo seguia alinhado, com o Potenza na frente, num terreno extremamente íngreme e sem firmamento algum. "Degraus" não existiam, achar qualquer espaço plano que coubesse o pé era como ganhar na loteria, a vegetação era escassa, raízes expostas também, à nossa esquerda o morro descia escarpado até encontrar a marginal rochosa que acompanha o barulhento rio. Qualquer queda dali poderia dar merda. E quase deu. Cada curto espaço do terreno inclinado que passava um membro do grupo ia sendo rapidamente desgastado pelo pisoteio, deixando pequenos apoios quase inexistentes, insustentáveis. Numa parte elevada a isso tudo, eu estava oferecendo ajuda, entrelaçando as mãos e punhos, puxando quem precisava. E foi nessa hora, antes de se firmar na minha mão, ao tentar puxar uma fina raiz fincada na terra, e impulsionar o pé direito em um pequeno apoio gasto, a Thays despencou rápido, ralando toda parte frontal do corpo no barranco, tentando se prender, se agarrar em algo firme, mas não tinha, e o peso do corpo somado com o peso da mochila fazia ela descer mais rápido ainda. Por sorte, ela se lembrou de manter as pernas abertas, e foi aí que ela conseguiu parar, presa numa árvore. Eu, não sei como (por instinto), de imediato, desci a ribanceira correndo quase no mesmo tempo que ela, e quando ela parou, eu travei seu pé com o meu, dando apoio para que ela não descesse mais. Foi um susto e tanto. Enquanto a gente aguardava ajuda para nos tirarem de lá, alguns tentavam subir ainda mais, e com tanta agitação, foi inevitável começar a rolar pedras em nossa direção, ora passando perto, as vezes mais afastadas, mas teve uma que foi certeira no meu joelho. A pancada trouxe uma dor dor cara***, e fez com que me debruçasse sobre a Thays, mas num flash de consciência, me lembrei que eu estava ali para dar apoio a uma mulher que rolou precipício abaixo. Então eu tive que me mante forte. Recobrei minhas forças até o Loures e o Prince chegarem lá embaixo para ajudar removê-la. Mas, antes disso o rebuliço continuava lá encima, e outra pedra rolou, porém, bem maior e mais veloz. Nossa sorte foi que ela quicou e passou sobre nós, por que se acertasse na cabeça de um dos dois, se não matasse, com certeza deixaria desacordado. Aí sim a merda estaria feita. Passado o susto, O Loures retomou a liderança da jornada e decidiu que teríamos que nos afastar mais do rio para fugir do perigo eminente, e subir a crista até o topo pra depois voltar a descer numa parte onde pudéssemos estar mais seguros. Subimos, subimos e subimos, passando por mais um caminho enfestado de espinhos, até dar no topo do morro. Era evidente que o peso da travessia estava sendo cobrado a cada passo dado, pois algumas meninas estavam esgotadas. Paramos naquele topo, onde havia uma área plana que serviu para alguém, ou algum grupo num passado não tão distante. Roupas abandonadas foram o rastro deixados para trás. Começamos outra descida fervorosa em direção a um afluente que, visivelmente, era detentor de algumas grandes quedas. Tivemos que buscar os meios mais favoráveis para seguir, mas parecia que algo conspirava contra o nosso grupo. Em determinado momento, ao vencer um simples barranco, um patamar baixo, tivemos que fazer corrente humana (Adriano, Loures e Eu) para que os últimos pudessem passar em um lugar que oferecia uma queda de uns 3 mts de altura. Nada fatalmente tão perigoso, apenas o suficiente para causar uma situação nada fácil de ser superada. Passado por isso, atingimos outra descida forte, com caminho mais vantajoso de ser traçado, e fomos seguindo por ali. Hora caindo, hora nos divertindo com as palhaçadas, mas sem andando em um ritmo vagaroso. Grandes pausas eram feitas para reagrupar o povo. Quando atingimos o rio novamente, aproveitamos para fazer um merecido almoço, em uma parte ampla e plana do rio da onça. Ali o tempo foi gasto à vontade, muitos de nós achando que o pior já havia ficado para trás. Particularmente, eu só me preocupava cem findar a travessia no mesmo dia, e de preferência, no início da noite (no máximo). Tanto é que eu sempre perguntava para quem já havia feito o percurso, e a confirmação era satisfatória. TENSÃO Continuamos a pular pedra sobre pedra, sem serpenteando pelas poucas curvas que surgiam. A alegria vinha a tona, pois os "poções" da reta final da travessia se aproximavam, e "neles" teríamos umas das partes mais esperadas de todo o trajeto: cada um ser levado pela leve correnteza que transita por aqueles poções. Alguns estreavam suas bolsas, e sacos, estanque, doidinhos para boiar, poucos se arriscariam a ir nadando, e os demais usavam colete salva vidas. Me lembro dos que foram na frente: Natan, Adriano, Potenza, Vinícius e Prince. O restante, inclusive eu, se preparando e criando coragem, ficaram para trás. A Thays Marques foi uma das primeiras (se não a primeira)mulheres a pular. Ela disse que sabia nadar muito bem, e na confiança soltou a mochila estanque. Só que o poção fazia uma divisão de águas. Uma parte corria em direção favorável, dando continuidade ao rio, já a outra parte, mais forte, fazia um refluxo (tipo um redemoinho) levando água com muita força ao canto do piscinão. E foi nesse canto que o refluxo encurralou a Thays. Ela lutava tentando sair de lá, dava muitas braçadas, mas não saia do mesmo lugar. Até que, de repente, ela perdeu as forças, sentiu cãibras, e afundou. Quando emergiu novamente, já cuspindo água, conseguiu gritar o nome do Natan (que nada muito bem). De imediato ele pulou para prestar socorro, e enquanto ele tentava segurá-la de uma maneira firme para tirá-la de lá, o desespero ia ganhando a cena, ela afundava e puxava ele junto. E o risco da tragédia só aumentava. Foi aí, nesse momento que pulou o Loures para dar um suporte e afastar o risco dos dois se afogarem. Mas, como tinha tudo para dar errado, o Loures também começou a ter cãibras, teve que se afastar dos dois para não agravar a situação. A Kelly entrou em estado de choque (paralisou), não conseguia se mover para nada, e Eu só enxergava o colete que estava no corpo dela. Eu puxava, tentava arrancar, aos gritos: dá o colete, dá o colete. E ela, travada, com o olhar fixo no nada só conseguia perguntar: vai precisar? E Eu gritava de novo:dá o colete. No final do Poção o pessoal do outro grupo não conseguia ver o que estava acontecendo, pois havia uma rocha lhes tapando a visão. E sem entender muito bem, quando eu gritava, assobiava, e sinalizava chamando eles com urgência, vinham devagar. Sem presa nenhuma. Enquanto isso a Thays já tinha afundado três vezes, engoliu bastante água, estava pálida, lábios roxo, e quase sem forças. Quando o Prince chegou por cima da rocha e viu o que acontecia, pulo de cabeça na água, e por baixo, já foi por trás da Thays, a segurou e ergueu com um braço, fazendo ela respirar melhor. Eu, sem saber nadar, não tinha condições de mergulhar em auxilio à nossa colega, só pude chegar até a beira do piscinão e dar a mão ao Loures, e depois ao Prince, junto com a Thays, para saírem daquele pesadelo. Uffaa, essa foi por pouco, e foi um susto e tanto. Demorou para o grupo se restabelecer psicologicamente. Era nítido que o risco de morte foi grande, e que isso havia desestruturado alguns dos nossos. Mas, como era pra ser, seguimos. E muita coisa ainda estava por vir, sem que ninguém esperasse. Prosseguimos, analisando a prova de fogo que tínhamos passado, e dando graças a Deus por nada de pior ter acontecido. Pois a dona Morte deferiu seus golpes de foice, mas todos foram em vão. Ainda bem. A SEPARAÇÃO "A batalha pela vida" nos tomou um tempo enorme. Alguns ainda tinham esperança de finalizar a travessia no mesmo dia. Eu já estava entregando os pontos em relação a isso. Era óbvio que não conseguiríamos. Ao chegar numa última cachoeira (a pedra em nossos sapatos), já eram quase 20h, do horário de verão, e faltava muito chão pela frente. O Prince desceu essa cachoeira para analisar a situação e ver se seri uma boa ideia passar com o grupo pelo mesmo caminho (e não era). Mas não tinha como o Prince voltar, muito menos submeter o grupo a tal proeza em meio ao crepúsculo. O Potenza tentou seguir por esse mesmo caminho, mas, não conseguia avançar, nem retroceder. Teve de ser resgatado pelo Vinícius, por que estava correndo perigo. Por conta da dificuldade do obstáculo, ficou decido que o Prince continuaria pelo rio, e todo o restante do grupo iria varar mato até nos encontrarmos mais adiante. Foi um erro. Enfrentamos uma dificuldade descomunal para ganhar altitude sobre uma rocha, toda molhada, que nos servia como o único caminho existente daquele lado do rio. Sobe um, puxa o outro, sobe outro, puxa o próximo, e assim por diante. Estávamos crentes de que a perda de tempo era grande ali, mas não sabíamos que perderíamos muito mais tempo nas próximas dezenas de metros. O caminho estava muito fechado, e quem estava indo na frente (Loures), teve que trabalhar feito gente grande. E ele se mostrava incansável, devastando o que tinha pelo caminho, com a gana de querer nos tirar dali o quanto antes. Mas o trecho era perigoso, beira de penhasco, com valas terminavam no fundo do vale. Metade do grupo não tinha lanterna, umas pifaram, outros não trouxeram. E isso só atrapalhava no progresso. Pois precisávamos Jogar luz nas árvores para que o Prince acompanhasse a altitude e a direção em que estávamos. Entre toda dificuldade que tínhamos, gastamos exatas 3 horas para cruzar um trecho que, talvez, não tivesse 300 metros. E ao chegar no rio novamente... Cadê o Prince??? Começava ali uma preocupação que castigava. No ponto mais aberto do rio, amplo e apropriado para estarmos todos juntos novamente, nosso amigo não estava lá. Um trio dos nossos subiu, às escuras, por um tempo o contra fluxo do rio, mas retornaram sem boas notícias. Ele havia fica mais atrás de nós. Por se tratar de um cara que é bastante experiente, conhecedor da região, e de técnicas que lhe manteriam vivo até a luz do dia seguinte chegar, optamos por dar continuidade ao plano de irmos até a Estação Raiz da Serra, e passarmos a noite por lá. Já que não havia a menor possibilidade de terminar o que faltava, quase 5km, naquela mesma noite. Já eram 22h20. Já em terreno mais aberto, e próximo da baixada, conseguimos sinal de celular para avisar os familiares que estávamos todos bem, e que por motivo de atraso teríamos que passar mais uma noite na mata. Nos vimos rumo ao glorioso final dessa travessia quando, no início da madrugada, arrastávamos nos carcaças pelo tortuoso do Rio Mogi em seu trecho final. Aquela parte, cheia de pedras arredondadas, e soltas, que quando são pisadas fazem o favor de te desequilibrar. Isso se não for ao chão. Esse foi um das partes mais cansativas. Já tínhamos um acumulo de desgastes e situações vindas dos dois dias que se passaram. A cada 10 minutos caminhados, um dos nossos deitava nalguma ilhota do rio, com mochila nas costas mesmo, e desabava para poder descansar. A Kelly, alem de estar com a maior parte dos ombros queimados, estava fazendo tudo isso usando tênis sem meias. Resultado? A constante umidade nos pés, e o atrito entre dedos e as pontas do interior dos calçados, lhe causou um problemão: a perca de duas unhas dos dedos dos pés. Isso lhe incomodava tanto, trazia uma dor incessante, que a garota não aguentava mais. Andava com o braço dado ao meu, se apoiando para não cair, e a cada 10 minutos ela perguntava se estávamos chegando. A resposta, claro, era uma tentativa animadora de afagar seu sofrimento. Mas tudo que lhe dissessem seria em vão. Em determinado momento, em um surto de fraqueza psicológica, ela começou a gritar, chorando e dizendo que estávamos enganando ela, e que ela já não aguentava mais, coisa e tal. Foi difícil. Se não fossemos, o Loures e Eu, conversar com calma, acalentar com toda paciência do mundo, seria mais penoso continuar. Demos graças à Deus quando vimos que a água do rio já não cobria apenas nossos tornozelos, e sim as nossas cinturas. Um sinal de que já era hora de abandonar o leito penetrando a mata da margem esquerda e chegar na antiga, e abandonada, Estação Raiz da Serra. Um lugar sujo, depredado e fedorento que nos veio como um palácio para passarmos a noite. Pronto, estávamos satisfeitos! Ops, nem tanto... Cadê o Prince??? O certo, seria encontrá-lo por lá. Já que estava sozinho, e em terreno aparentemente mais transitável que o nosso, teria uma vantagem sobre nós. A não ser que algum empecilho pudesse ter atrasado ele pelo caminho. Lógico que a preocupação reinou sobre todos. Onde será que estava aquele cara??? Mesmo estando preparado para enfrentar e aguentar uma noite a mais, coisas acontecem. Né? O tempo foi passando, e nada do Prince aparecer. O cansaço dominou geral, e todos foram sendo derrotados pelo sono, largados no chão, ou, pendurados em suas redes. A esperança derradeira era que ele tivesse avançado, alem dali, seguido até a rodoviária de Cubatão para passar a noite por lá. Às 03h30 da madruga, ouço passos quebrarem os azulejos soltos pelo chão. Era a Thays perambulando pra lá e pra cá. Ao levantar para ver o que causava aquele barulhão, ela me perguntou: - Vgn, você vai embora que horas ? - o quanto antes. - respondi. - nós, Kelly e Eu, estamos indo embora agora. Não quer vir com a gente ? - vou sim! só me deem um tempinho para recolher minhas coisas, e nós já vamos. Foi uma das melhores coisas que eu poderia fazer naquele momento. Além de ter compromissos inadiáveis na segunda feira, as duas estavam dispostas a saírem dali, ainda na madrugada, sem saber o caminho. E ainda faltavam uns 3 km’s até o ponto de ônibus. Poderia dar merda. Já com minhas coisas arrumadas na mochila, acordei o Loures, que roncava feito um Javali, e avisei que estaria acompanhando as meninas. Ele fez sinal afirmativo e achou bom que as duas não fossem sozinhas. Pisamos nossos pés para fora daquele casebre bem na hora que descia um trem pelo sistema CREMALHEIRA. Nos escondemos por trás de outra casinha trancada com correntes e cadeados, esperamos por uns 15 minutos até acabar o vai e vem de alguns funcionários da empresa, e saímos assim que a “barra estava limpa.” Claro que foi um caminho que parecia não ter fim. Andar entre os trilhos, tropeçando nos dormentes e pedras, não é nada animador. Chegamos no ponto de ônibus já com a luz do dia, embarcamos sem demora, e em poucos minutos já estávamos desembarcando no Terminal Rodoviário de Cubatão. E enquanto esperávamos nosso coletivo chegar, chegam umas mensagens do Prince, afirmando que estava bem, e já havia chegado em casa. O Prince passou um dos piores perrengues quando nos separamos... ...enquanto seguíamos varando mato morro acima, Ele tentava seguir pela água, mas tinha muita dificuldade. Estava sem facão, sem corda e sem lanterna, tinha em mãos apenas o celular com a bateria em 4% (que esgotou rápido), e uma faca de punho. Por pouco tempo ele conseguiu nos acompanhar, olhando os fachos de luz que jogávamos no fundo do vale. Mas quando se deparou com poções e gargantas intransponíveis, ainda mais em período noturno, teve que varar mato, escalar a ribanceira e tentar seguir nosso rastro. Como não conseguiu, traçou seu próprio caminho, e acabou indo além de onde estávamos. Passou por áreas pantanosas, com capins que cobriam sua altura, terrenos encharcados, o risco de dar de frente com algum animal peçonhento ou de grande porte. Mas, entre toda essa situação, ele acabou por sair da mata e entrar na empresa de Container’s que fica ao lado direito do Rio Mogi, e foi o mais sorrateiro possível para que os guardas não o vissem circulando lá dentro. Saiu o mais rápido que pode, e seguiu direto para Cubatão. Pernoitou nos bancos da Rodoviária e conseguiu pegar o primeiro ônibus que deu partida com direção á São Paulo. Só depois de toda essa explicação (que foi compartilhada entre os demais, via SMS), todos puderam respirar mais aliviados e seguir com a consciência em paz, agradecendo a Deus por terem saído “sãos e salvos.” Participantes: Thays Marques, Thais Santana, Kelly Almeida, Vanessa Traceur, Luciana Lopes, Eduardo Loures, Vinicius MZK, Marcos Piccoli Prince, Silvester Natan, Adriano, Paulo Potenza, e Eu (Vgn Vagner)
  4. Participantes: Diego Lopes e Vgn Vagner Introdução Após termos completado o Circuito Ferradura Da Fumaça (Trilha Das 7 Cachoeiras), no trem de volta pra casa o Diego já me mostrava fotos da "prainha" do Rio Mogi. Não tem como ficar indiferente a um cenário tão magnifico quanto aquele, a vontade de estar presente a beleza impar do lugar floresceu instantâneamente, e ali mesmo no trem foi marcado para o dia 01/05/2013, uma investida ao Rio Mogi. Para tal feito resolvemos chamar dois de nossos Brother's de trilha (Gleison e Abimael). Horário e local de encontro marcados... lá vamos nós. O relato Como por prevenção decidimos burlar a possível fiscalização ali presente a partir das 08:00h. Então combinamos de pegar cada um, o primeiro trem em funcionamento na CPTM às 04:00 AM. Eu segui meu itinerário depois de ter ligado pro Diego, confirmando estar acordado. Tudo seguiu tranquilo até a Estação Rio Grande da Serra, onde cheguei às 05:40am e Diego no trem seguinte. Já fizemos então os contatos com nossos brother's, e para nossa surpresa: OS MANO TAVAM DURMINDO...KKKK (ou seja, perderam o rolê). Dai então fomos ao ponto de ônibus que vai até Paranapiacaba, aguardamos um bom tempo e já com o dia rescem clareado, o motorista fazia valer a espera. Entremos na trilha exatamente às 06:50am sem dificuldades. A única mística seria para os supersticiosos, um gato morto em início de decompisição aos primeiros 5 metros de trilha (sem problemas, avançamos). Logo no começo da pernada se tem um vista ótima para admiradores: As montanhas em forte declive formando o vale que corre o Rio Mogi e seus afluentes. Torres elétricas e o Sistema Funicular junto a baixa neblina e o barulho dos trens da Cremalheira compõem a vista que se tem do Mirante. A investida se dá sempre em descida. Após uns 15min. encontramos um CARA sozinho refletindo e curtindo o lugar. Conversas a parte, seguimos nosso rumo e ele o dele, dizendo que ficaria n a 1° quedinha com um poço ali perto. Continuamos, e após passar por 2 riozinhos que desciam da encosta e uma bifurcação à esquerda, percebemos que estávamos no rumo errado, pois avistei uma fita amarrada na arvore (trilha das fitas). Voltando, vimos que já haviam se passado 4 arvores com as fitas. O certo seria pegar a primeira a esquerda, quase um entroncamento no sentido oposto. Dai pra frente sempre seguindo na direção da descida visualizando as torres de alta tensão. No contato direto são duas torres. Na primeira, só pega a esquerda se quiser ir ao POÇO FORMOSO. Caso contrario siga a trilha até encontrar a 2° torre e passar por baixo dela como se estivesse voltando, que logo uma curva acentuada te coloca sentido Cubatão novamente. Andando em trilha semi aberta, hora muito fechada com mato até o ombro e deslizamentos cobrindo o caminho. Com um bom tempo de percurso chegamos ao barulho de um rio que corre forte a nossa direita, onde está a 1° PEDRA DO PULO, com um lago de água cristalina e seus aproximados 2mts de profundidade. Fizemos uma merecida pausa para lanches, descanso e tibuns. Em meio as rochas encontrei um caranguejo de uns 10cm tomando conta do lugar..rs obs.: POÇO TEM APROXIMADAMENTE 2mts DE PROFUNDIDADE E SOLO DE AREIA QUE NÃO É FIRME. CUIDADO! Sessão de fotos, ok e energias recarregadas demos continuidade por trilha localizada à uns 30mts do outrolado do rio, fazendo com que ele corresse a nossa esquerda a partir dali. Essa trilha margeia a encosta nos deixando claro que, qualquer descuido toma róla. A caminhada se distancia várias vezes deixando o som das águas longe, e quando ficamos no mesmo nível que o rio e ele bem próximo de nós uns 40 minutos depois, foi só olhar a esquerda e se deslumbrar com o espetáculo principal da travessia: A PRAINHA. Lugar que me deixa sem palavras pra explicar tamanha beleza. A Prainha... ...uma area onde o Rio Mogi dá uma pausa, formando um poço com 2mts e água esverdeada abraçando uma rocha de cortes diagonal que parecem ser talhados a mão. Quando se mergulha nessa água e abre os olhos, você consegue avistar cada detalhe submerso. *uma das melhores sensações que já tive, foi estar naquele lugar. Pra continuar após 1h de curtição seguimos. Daí por diante não há trilha, então iniciasse a pressão psicológica, por estarmos cansados, com mochila, a maior parte pela frente e tendo que escolher onde pisar dentro d'água. O cenário continua maravilhoso, com vários poços de cor esverdiada e as montanhas da Serra enclinando em nossa direção formando o vale da morte. Eu passei a entender nesse passeio, o por quê do nome do Rio da Onça (várias e várias pegadas dos felinos nas margens do rio). Tinhamos que ziguezaguear o rio para poder atravessar algumas piscinas naturais, e quando deixamos a 2° PEDRA DO PULO para trás, já podiamos ver bem longe uma das empresas Petroquimicas de Cubatão e o Pátio de Container's. Ao andar por esse percurso, passamos por pequenas ilhas que dividiam o encontro dos rios e uma galeria fluvial á esquerda. Logo aparecia do mesmo lado uma area como uma grama baixa e de um verde bem vivo (ali foi nossa saida), sendo que não tinha como seguir pelo rio, pq o mesmo já se torna visivelmente fundo e bem largo. Atravessamos esse gramado, pulamos cerca de arame farpado, varamos um pouco de mato e por fim chegamos a uma linha de trens desativada com vários vagões sendo consumidos pela ferrugem. Prosseguimos (tiramos fotos), até chegarmos na Casa das bombas do Rio Mogi, ver lá de cima da ponte que corre os trilhos uma linda queda d'água formada pela represa da casa das bombas e avistar de longe 2 homens vindo do mato em nossa direção. Imediatamente Diego sacou o facão da mochila pra nos os assegurar de maiores problemas, e para cômica surpresa, os 2 estavam bêbados e com uniformes de uma empresa...rsrs Mesmo assim rolou uma conversa, perguntamos sobre o ônibus que nos levaria a rodoviária de Cubatão. Antes do fim da conversa, um dos dois, o mias embreagado tentou dar um bote na mão do Diego, dizendo que queria ver o facão melhor. Diego já estava arisco, e com o "pulo do gato" se esquivou fácil fácilm deixando o manguaça no vácuo..kkk. Seguimos a rua de paralelepípedo até o ponto (bom tempo de espera). A rodoviária de Cubatão é pequena e aparenta estar largada ao descaso. Fomos ao banheiro nos trocar, depois compramos as passagens pra 1h mais tarde com destino a Jabaquara-SP. Aproveitamos pra tomar um cafezinho (parecia ter sido feito a uns três dias atrás) com leite no único MUKIFO que tinha ali, e ao fazer o pedido a balconista solta: NÃO ACREDITO, VOU TER QUE ESQUENTAR LEITE DE NOVO. Aff, essa foi a pior! Enquanto ela tagarelava com as amigas clientes, pedimos duas vezes (sem resposta) um pão com manteiga, mais desistimos. Fim de rolê!!! Seguimos pra Sampa, descansando no Bus e depois Metro. *cada um pra sua casa matutando o próximo rolê. Qq dúvida, estarei à disposição. Abraço.
  5. Trip realizada nos dias 29 e 30 de Setembro de 2012 Com:: Thiago Furtado e Fernanda F. / Funiculeiros Confira a galeria de fotos completa desta trip! "Desconhecido e temido, o Vale, finalmente vencido..." As inúmeras vezes em que pisei nos caminhos da região também conhecida como Serra do Meio, remota, compreendida entre Santo André e Cubatão, se resumiram a bate-e-voltas os quais agora posso considerar como exploratórios "picados", mas que por isso me permitiu situar de maneira interessante parte de uma expedição maior por aquelas bandas. Isto mesmo, ainda havia muito a ser desbravado por mim, fato já esperado, uma vez que estamos nos referindo ao Rio da Onça, sinuoso, que rasga a encosta serrana impiedosamente, até dar de encontro com o famigerado Rio Mogi, já em seu trecho mais brando, na planície, resultando assim numa magnífica e desafiadora travessia, conhecida por muitos como "Vale da Morte", com água em abundância em suas corredeiras e abismos, contrariando sua irmã árida californiana. O Vale Não é mito que esta é considerada pelos locais e por praticamente qualquer um que tenta desbravar os caminhos das matas de Rio Grande da Serra, Paranapiacaba e Cubatão como a travessia mais complicada, arriscada, desafiadora, e proporcionalmente bela e emocionante daquela região da Serra do Mar, mas não por isso seu sugestivo nome nasceu de seus obstáculos ou de acidentes e tragédias que hora ou outra vieram a ocorrer em seus cânions vertiginosos. Originalmente, o apelido "Vale da Morte" estava relacionado à tamanha devastação decorrente da atividade petroquímica desenfreada e não regulamentada desenvolvida no município de Cubatão, no sopé da Serra do Mar, que assim sendo, transformou boa parte da área referente ao Vale do Rio Mogi e também o Vale do Rio da Onça, o atual "Vale da Morte" em questão, num imenso corredor de natureza morta, um cenário em época quase apocalíptico que, felizmente, veio a se recuperar de forma surpreendente ao longo das décadas que se passaram. O plano Diversas investidas pela região me renderam certo conhecimento dos possíveis caminhos e variantes, no entanto, várias datas furadas devido a condições climáticas desfavoráveis ou mesmo compromissos extraordinários acabaram por engavetar esta travessia por tempo indefinido. Assim, fiquei sem pisar nas trilhas da Serra do Meio durante um hiato de quase um ano, até tomar conhecimento, por meio dos amigos Maycon E. e Tiago Furtado, de que os Funiculeiros (grupo de trilheiros do qual participam, originado em Paranapiacaba, que realiza incursões pela Serra do Mar e outras regiões e que busca manter viva a memória do trecho ferroviário abandonado da antiga São Paulo Railway, que outrora ligou Paranapiacaba a Cubatão, utilizando um sistema funicular para vencer o grande desnível serrano) também estavam traçando planos de realizar a descida da serra pelo Vale, e para esta fui convidado de antemão. Sem pensar uma segunda vez, acatei o convite de imediato, pois era o ponta-pé que me faltava para, finalmente, encarar o "suprassumo" das trilhas daquela extensão natural! A data fora marcada, com certa antecedência, para o final de Setembro daquele ano, e ainda viriam algumas tripzinhas básicas antes da aclamada data, tais como minha segunda travessia do Vale do Rio Mogi, a investida ao Vale do Rio Sorocaba e a escalaminhada da Cachoeira dos Pretos, todas realizadas com uma estratégica segunda intenção de treinar para o que poderia me aguardar naquele fim de mês. Chegadas as vésperas do "dia-D", a euforia era grande entre os membros Funiculeiros e os não-membros na rede social. Havia uma espécie de tensão, muitas vezes, atenuada ou confundida com empolgações e expectativas, afinal, apesar de alguns ali, como Hassan, Fabrício e Paulinho, já terem vencido a travessia antes, uma grande parcela do pessoal não tinha sequer ouvido falar sobre tal região. Mas mesmo os mais conhecedores do Vale eram afetados por uma sutil insegurança, afinal, é uma região em constante formação, sujeita às ações do tempo, da água, do crescimento e do desaparecimento da vegetação local, enfim, na natureza nada é fixo, e esta é uma das principais lições para qualquer um que se disponha a encará-la. Pouco a pouco, cada um foi se despedindo e se desligando da rede, afinal, já faltavam poucas horas para que todo aquele pessoal se jogasse, enfim, em meio à Mata Atlântica da Serra do Mar Paulista. A partida Psicológica, física e tecnicamente preparado, despertei-me às quase 5h daquela tímida manhã de Sábado e logo resolvi os últimos detalhes antes de me jogar pelas ainda escuras ruas de meu emergente bairro periférico. Um trajeto de ao menos uma hora, envolvendo ônibus e metrô, me separava do Furtado e de sua então parceira Fernanda, com os quais havia combinado de iniciarmos a trilha separados do restante do pessoal, que pretendia pisar na mata apenas no meio da tarde. Estava um tanto empolgado, já que planejamos iniciar a jornada por um caminho o qual ainda não havia tido oportunidade de conhecer, ou seja, desceríamos o Rio das Pedras, pelas quedas da Cachoeira da Fumaça, para acessar o "Portal", local de encontro entre este rio, o da Solvay e o Vermelho, e início definitivo, por consequência, do Rio da Onça. Como já pude relatar, já tive acesso ao início do Vale da Morte em meados de Novembro de 2011, quando desci aquele rio até um pouco depois da profunda Garganta do Diabo, mas naquela ocasião, o acesso ao tal rio teria sido feito pelo Rio da Solvay. Às 6h10, devido a um pequeno atraso de minha parte , recebi um SMS do Furtado, alegando que tanto ele quanto a Fernanda já estavam no local combinado, a plataforma onde estaciona o trem da Linha 10-Turquesa, com sentido a Rio Grande da Serra, na Estação Brás, da CPTM. Felizmente, eu também já estava me dirigindo à plataforma, pois havia acabado de desembarcar do trem do Metro e feito a transferência para a ala da CPTM. Alguns poucos minutos depois, conseguimos nos encontrar e embarcamos no primeiro trem a vir a partir daquele momento. Após uma rápida, mas bem conversada viagem a bordo daquele confortável trem de fabricação espanhola, datado da década de 1970, chegamos à estação final da linha, Rio Grande da Serra, às 7h da manhã. Sem muita pressa, caminhamos em direção ao ponto de ônibus da EMTU, onde embarcamos, após algum tempo de espera, no coletivo da linha 424TRO-Paranapiacaba, que nos deixou numa solitária parada em meio à Rodovia SP-122, estrada que conecta Rio Grande da Serra a Paranapiacaba. Por sorte, a pretendida "Trilha da Cachoeira da Fumaça" teria seu acesso logo ao lado daquela parada. Parece estratégico?! TRILHA DA FUMAÇA (AMARELO) / PONTO DE ÔNIBUS 100 APÓS A ENTRADA DA TRILHA / R. G. DA SERRA A NOROESTE E PARANAPIACABA A LESTE Mata adentro De forma ágil, mas descompromissada, avançávamos por aquele trecho inicial da Trilha da Cachoeira da Fumaça, também conhecido como "Trilha dos Tênis" devido aos diversos calçados pendurados em torres e antenas os quais o caminho, sempre empoçado e alagadiço, costura. De forma quase despercebida, o caminho ia se tornando cada vez mais "arrebentado", estreito e encharcado. Minha sorte é que, desta vez, contava com minha recém inaugurada bota tática, que poderia, talvez, me garantir alguma sequidão em meus pés. Bem, não foi o que aconteceu, fui pego por uma poça de água barrenta, com quase 30 centímetros de profundidade, que praticamente atolou meu pé direito ali. Beleza, o "perrengue" acabara de começar, mas bora nessa! Em pouco mais de meia-hora de caminhada pelo trecho inicial quase pantanoso da trilha, o cenário já começava a mudar. A partir deste ponto, a trilha parecia se misturar organicamente com grandes lajeados rochosos que margeavam o leito por enquanto raso do Rio das Pedras - sim, já estávamos nele! -, chegando a até mesmo nos forçar a cruzarmos o rio de um lado para outro, sempre nos atendo às pedras de diferentes tamanhos que compunham seu fundo. Passamos pelo primeiro marco de referência, a Prainha da Fumaça, que tem seu nome justo devido a um vasto banco de areia que neste local acolhe as águas calmas e cristalinas do rio. A partir deste ponto, optamos por ignorar a trilha e seguir somente pela água, que já naquele horário, encontrava-se irresistível! E assim fomos, com água até a altura dos nossos joelhos, enfrentando uma série de obstáculos que, eventualmente, resultavam em inesperados "banhos forçados pela gravidade". A Cachoeira da Fumaça Já estávamos a quase uma hora e meia longe da "civilização" quando, finalmente, pudemos avistar o que parecia ser o fim daquela aparentemente interminável pulação de pedras fluviais. Pois, era! Ali, logo à frente, estava o mirante referente à cabeceira da Cachoeira da Fumaça. Saltamos pelos últimos metros daquele curso d'água e logo fomos prestigiados pela impressionante vista que agora tínhamos daquele topo de serra. De lá, podíamos avistar perfeitamente o caminho que nos aguardava, bem como toda a região metropolitana da Baixada Santista, em segundo plano, e por fim, quase se perdendo no horizonte, Oceano Atlântico! Eu, Furtado e Fernanda arranjamos um local propício para sentarmos e comermos algo, pois já eram 9h30 e havíamos vencido a primeira parte da travessia. O clima de tranquilidade daquele lugar só pairou sobre nós quando um numeroso grupo de escoteiros deixou o local do qual compartilhávamos naquele momento, e seguiu em nossa frente, para também descer a cachoeira. Portanto, fizemos mais alguma hora ali e jogamos papo fora, até que o grupo se distanciasse o bastante para que iniciássemos nossa descida tranquilamente e sem farofa desnecessária. Uma hora depois, decidimos que era tempo de darmos continuidade à pernada. Arrumamos nossas mochilas e subimos uma ladeira à esquerda do rio, de onde uma trilha íngreme se projeta em direção ao fundo do vale e desce vertiginosamente a encosta serrana, sempre paralela às quedas d'água, audíveis a todo momento, hora á nossa direita, hora à nossa esquerda. Não nos preocupamos nem um pouco quanto ao horário, pois dispúnhamos do restante da manhã e de todo o período da tarde para chegarmos apenas até o cânion da Garganta do Diabo, onde faríamos nossa pernoite. Sendo assim, paramos em cada uma das sete principais quedas que compõem a Cachoeira da Fumaça, todas acompanhadas de refrescantes e cristalinas piscinas naturais formadas a partir de suas bases. Em algumas de nossas paradas, acabávamos alcançando os escoteiros que estavam à nossa frente, mas nem por isso a contemplação e a curtição do local ficava comprometida. A todo instante, era possível avistar o Rio da Solvay à nossa frente, nos aguardando cada vez mais próximo de nós, e acima dele, o majestoso Morro do Careca se impunha sobre toda aquela paisagem exuberante! Alcançando o "Portal" Mergulhando de queda em queda, nos vimos, às 16h30, no encontro dos rios das Pedras, da Solvay e Vermelho, local também conhecido como Portal do Vale da Morte e início definitivo do Rio da Onça. Novamente, nos deparamos com o numeroso grupo que, praticamente, desceu a Cachoeira da Fumaça conosco. Porém, estes não prosseguiriam pelo mesmo rumo nosso, pois retornariam para a estrada pelo Rio da Solvay, enquanto nós seguiriamos no sentido oposto, descendo o rio até a Garganta do Diabo. Ficamos durante algum tempo no Portal, onde finalmente preparamos um prato um pouco mais decente - miojo -, em uma humilde panela trazida pelo Furtado. Bem, refeições teríamos de sobra, pois todos nós estávamos bem munidos quanto a isto. Após o breve pit-stop, demos seguimento à nossa descida de rio, agora descendo ligeiramente as pedras maiores do Rio da Onça, e não demorou muito para encontrarmos um pessoal que estava acampando encima de uma rocha um pouco mais plana na beira do rio. Inesperadamente, fui reconhecido por um deles, Renan Prado, até então, amigo de rede social, que disse estarem la para atacar a Garganta do Diabo no dia seguinte :'> . Conversamos com seu pessoal por mais alguns minutos, mas nos despedimos em seguida, pois o Sol já apresentava sinais de que queria nos deixar na mão, e quando isso acontece num lugar como onde estávamos, é bom ficar esperto! A Garganta do Diabo São menos de 600 metros de água, rocha e areia que separam o Portal da Garganta do Diabo, um trecho relativamente curto, mas que ainda assim é vencido em pouco mais de meia-hora. A Garganta do Diabo, finalmente alcançada, é um grande abismo cavado pela força das águas em meio à rocha maciça, deve ter algo em torno de 50 metros de profundidade. O rio é tragado repentinamente, retomando seu curso no fundo desta fenda, após uma queda d'água vertical . É impressionante observar como a natureza flui de forma tão espontânea e ao mesmo tempo artística. Objetivo do dia cumprido? Não necessariamente... Pernoite na Garganta Já eram 18h passadas, e aparentemente, havíamos chegado ao nosso destino. Mas precisávamos, ainda, nos estabelecer nalgum local para pernoitarmos. Felizmente, na encosta que se ergue à direita do cânion, há uma precária trilha que corta uma clareira ampla, frequentemente usada como ponto de camping. Para alcançarmos a tal trilha, tivemos que escalar uma parede de rocha à direita do poço que antecede a queda da Garganta, onde agora existe uma corda amarrada, o que facilitou bastante nossa ascensão Caminhamos pela trilha durante menos de 5 minutos e, ao depararmos com a tal clareira, ainda sob os últimos resquícios de claridade do dia, sacamos nossas lonas e cordas e improvisamos um quase luxuoso abrigo com capacidade para nós três. Em seguida, eu e o Furtado fomos em busca de água para o jantar e para nosso suprimento naquela noite, água esta que só foi possível coletar num poço abaixo da Garganta, o mesmo onde encerrei meu último bate-e-volta ao Vale, no ano anterior. Ao retornarmos, com apenas uma pequena parte da água que havíamos coletado, pois o acidentado caminho de volta nos rendeu alguns tombos, dá pra adivinhar com quem nos deparamos? Claro, toda a galera prometida para a trip acabara de chegar também! Um a um surgia da trilha e logo se acomodava como podiam ali naquela clareira que agora se tornava cada vez menor e disputada. Felizmente, todos conseguiram se ajeitar, uns em redes, outros em abrigos improvisados, outros em barracas. Ainda tinham uns mais loucos que decidiram, àquela hora, saltar no poço da Garganta - sim, é possível esta façanha! - , a partir de uma laje na encosta rochosa, de onde se tinha fácil acesso da clareira, quase dois segundos no ar até se espatifarem na gélida água! Conforme a calmaria da noite abraçava a todos, a fome também vinha de brinde e como nossa busca por água havia sido quase um fracasso, relutamos em repetir a mesma peregrinação em busca do dito líquido, sob o risco de voltarmos, novamente, com as mãos abanando. Mas eis que uma ideia brilhante veio à tona - afinal, agora contávamos com várias cacholas pensando ao mesmo tempo - , a de "pescar água" no poço da Garganta, no mesmo local onde alguns saltaram minutos atrás. Com isso, estávamos prontos para preparamos nossa merecida janta! Satisfeitos, fomos, aos poucos, nos recolhendo em nossos abrigos. Fui um dos primeiros a apagar, ao som harmônico de Bob Dylan, que naquela ocasião, combinava perfeitamente com o clima local. Despertar no Vale Passada uma noite até bem dormida por mim, pois mesmo com a friaca de 7º C naquela madrugada, estava protegido com um saco de dormir feito em alumínio, usado geralmente em situações emergenciais. Alguns poucos que iam acordando, gritavam para que os próximos acordassem tambem, pois já eram 6h da manhã, e o céu já se mostrava ligeiramente claro. "Pescamos" um pouco mais de água para lavarmos nossas panelas, fiz algumas fotos da área de acampamento e da Garganta ao amanhecer, na tal "plataforma de saltos", e perto das 7h, partimos para encarar o que o Vale tinha a nos presentear naquele dia. Em poucos minutos, chegamos ao poço após a Garganta, onde eu e o Furtado havíamos estado no dia anterior, mas o ignoramos e demos seguimento à trip.De fato, a Garganta do Diabo é apenas uma amostra quase grátis do que se segue adiante. O primeiro desafio era vencer uma encosta rochosa quase sem agarras, escorregadia, que beirava uma corredeira erodida pelas turbulentas águas deste trecho do rio. Em alguns trechos, uma porção de vegetação nos garantia certa firmeza ao avançarmos, no entanto, sempre era preciso prestar atenção em certos troncos e galhos que estavam tomados por formigas. Vencido o escorregadio trecho na rocha e um pequeno paredão onde valeu uma quase escalada, passávamos pela Cachoeira do Véu, na forma de cascata, não muito alta, mas com sua beleza única! Fizemos a primeira transposição do leito do rio naquele dia, pois na margem direita já se mostrava impraticável qualquer tentativa de avanço. Rapel Uma vez na margem oposta, escalaminhamos a encosta, desta vez, coberta por rica vegetação densa, onde beiramos o cânion por aproximadamente 100 metros - inclusive, passando despercebidamente pelo incrível "Poção do Vale da Morte", uma cratera onde despencam duas enormes quedas d'água, formando uma enorme piscina natural em seu interior - , até um ponto onde preferimos retornar ao fundo do vale, por onde julgamos que nosso avanço seria mais eficiente, mesmo que, para tal, tivéssemos que descer dois lances verticais do paredão, na corda! E assim, com o auxílio do Hassan, que também havia trazido todo o aparato de rapel, um a um, fomos "aterrizando", novamente, no leito pedregoso do rio. Todo o procedimento nos custou quase 2 horas da travessia, mas ainda assim, não poderíamos considerá-lo nem a melhor opção ou a pior, visto que não sabíamos o que poderia nos aguardar caso optássemos por continuar pela encosta do morro. No mais, todo este tempo foi uma boa oportunidade para que eu pudesse me enturmnar de vez com o grupo. Enquanto aguardava minha vez de descer, trocava assuntos com Maycon, Kátia e mais uma galera que estava conosco a respeito de profissões relacionadas á área industrial e aeronáutica (tudo a haver!). Pé de Limão Dando continuidade à caminhada, agora pelo leito do Rio da Onça, novamente, avançamos de pedra em pedra, de poço em poço, num ritmo desimpedido, e em menos de 20 minutos de fácil pulação de rochas, chegamos ao patamar superior da Cachoeira do Pé de Limão, que foi facilmente identificada por mim pela sua sua queda de 15 metros de altura seguida de um grande maciço rochoso a partir de sua base, que se estendia até um patamar mais abaixo, onde o curso do rio mudava sua direção bruscamente para a esquerda. A descida desta cachoeira foi feita, inicialmente, pela direita, onde havia uma ladeira não muito íngreme que permitia fácil acesso à sua base. Uma vez na base da cachoeira, transpusemos cautelosamente a correnteza, a fim de alcançarmos a margem esquerda novamente, e assim, prosseguirmos pela encosta, que agora, se mostrava um pouco mais generosa que antes. Mais mato, mais ladeiras, mais poços, mais cachoeiras E assim avançávamos por aquele vertiginoso cânion em meio à Serra do Mar, enfrentando obstáculo por obstáculo, usando cordas quando requisitados pela natureza, ou simplesmente saltando, escalaminhando, escalando, nadando, varando mato no peito e no braço. Haviam partes em que cada um seguia pelo caminho que mais achava conveniente, haviam outras em que nos era oferecido apenas uma ou duas alternativas. E assim avançamos vale abaixo, por mais quase 3 horas, até que atingimos a confluência do Rio da Onça com um grande afluente seu à sua esquerda, do qual desconheço o nome, e que encontra seu "irmão maior" na forma nada mais elegante que a de uma enorme cascata. Mas espere... ainda estávamos no topo de um imenso bloco basáltico, que só nos apontava uma única direção: para baixo, 30 metros quase verticais! Obviamente, a corda se fez necessária novamente, mas de maneira não tão sofisticada quanto antes, devido à inclinação do paredão, que permitia o não uso dos demais equipamentos de rapel. Cuidadosamente, vencíamos os lances íngremes e limosos daquele grande pedaço de rocha, que outrora nos separava do patamar onde os dois rios finalmente se encontravam. O encontro dos dois rios formava uma piscina natural onde em sua margem sul havia um banco de rochas e areia, no qual pretendíamos descansar e almoçar. :'> Finalmente alcançado o patamar inferior, ainda era preciso transpor, novamente, o rio, para que chegássemos a um ponto mais seguro e amplo para todos. Devido à considerável profundidade deste trecho do rio, tivemos que transportar nossas mochilas em nossas cabeças, com água na altura do peito. Felizmente, todos conseguiram atravessar com êxito e nenhuma mochila foi "estreada" ! Cada um se acomodou como podia nas inúmeras pedras que formavam aquela bela margem de rio, e enquanto o almoço não ficava pronto, alguns curtiam as duas cachoeiras presentes ali, uma pertencente ao Rio da Onça e outra ao seu afluente. Rapidamente, preparei meu miojo e logo me vi por satisfeito. Às 15h30, recolhemos nossos pertences e demos continuidade à trip, mais uma vez, vencendo lagos, poços, cachoeiras menores, alguns barrancos e encostas. Podemos dizer que a partir da grande confluência, a travessia passa a ser mais leve, porém, conforme os obstáculos naturais subsequentes iam se tornando cada vez menores e menos desafiadores, estes eram cada vez mais monótonos, o que tornava este trecho final um tanto quanto enjoativo, ao meu ver, talvez até mesmo, devido à própria ausência dos desafios maiores. Pelo fato de o rio agora portar-se mais brando e com declividade visivelmente menor, os poços passavam a ser cada vez mais intransponíveis dada sua profundidade - alguns chegavam a não dar pé, nos obrigando a contorná-los pelas beiradas. Reta final, a conquista do Vale Às 16h30, finalmente, abandonávamos o Rio da Onça e, com ele, o Vale da Morte, na confluência deste com o principal rio da região, o Mogi. Naquela hora, eramos cativados uma inexplicável sensação de missão cumprida e de vitória, afinal, acabávamos de vencer o que muitos consideram como a travessia mais difícil da Serra do Mar! Sendo assim, com todos reunidos, não pudemos deixar de registrar este momento na forma de nostálgicas fotos de todos os guerreiros que sobreviveram a mais esta grande trip. De volta à civilização Não bastante, ainda tínhamos ao menos uma hora e meia pela frente, seguindo pelo leito raso e tranquilo do Rio Mogi até a altura da Estação Raiz da Serra, onde o abandonamos em favor de uma picada em sua margem esquerda que nos deixaria em frente à tal estação e de cara nos trilhos do Sistema Cremalheira, da MRS Logística. Já eram 18h e o breu já tomava conta de toda a paisagem. Acompanhamos a estradinha de serviço do pátio ferroviário por uns 3 km, até interceptarmos o viaduto referente á Rod. Domênico Rangoni (vulga Piaçaguera-Guarujá), onde ao lado deste situa-se a humilde casa da Dona Anésia, antiga residente da região, e que já foi importunada pela concessionária da ferrovia, pois seu lar, construído bem antes de a área ter sido concedida, estaria, agora, dentro de uma área de serviços. É cada uma... Por fim, antes de tocarmos rumo a São Paulo, passamos na casa da simpática senhora, que é amiga de longa data de muitos membros do grupo, e que nos acolheu alegremente. Realmente, era possível me sentir em casa naquele lugar :'> . Um clima amistoso e bem aconchegante. Às 21h, nos despedimos e seguimos para o ponto de ônibus localizado na rotatória da Usiminas, já bem próxima dali. Era tarde, e os ônibus já estavam escassos, mas mesmo assim, tivemos sorte de conseguirmos chegar à rodoviária de Santos, onde embarcamos no veículo da Viação Cometa que seguiria para São Paulo. Não se pode negar que o Vale merece todo o respeito que tem. Este mostra-se exuberante, mas igualmente feroz. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais belas obras de arte, rabiscada, pintada e esculpida de forma singular pelas forças naturais das quais nós, meros humanos, podemos não mais que pertencer. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ IMPORTANTE: - A Travessia do Vale da Morte é considerada de grande dificuldade, mesmo para trekkers mais experientes. Apresentam-se, ao longo de praticamente todo o trajeto, paredões, encostas, mata fechada, trechos acidentados no leito do rio, com grandes blocos de pedra a serem vencidos, ladeiras íngremes e escorregadias, cachoeiras e poços naturais. Não é recomendada a realização desta e de outras trilhas e travessias que envolvam trechos feitos em rios em épocas chuvosas, pois há grande risco de ocorrer o fenômeno chamado "cabeça d'água", caracterizado pelo aumento repentino da vazão e do nível das águas. - Em épocas propícias, as águas do Rio da Onça são límpidas, potáveis e propícias para banho, mergulho. - É sempre recomendável o uso de calçados e roupas adequadas para lidar com trechos feitos no rio e nas encostas. Cordas e equipamentos para pernoite, mesmo que emergenciais, são itens praticamente indispensáveis. INFORMAÇÕES ADICIONAIS Seguem abaixo as tabelas com os horários, itinerários e tarifas das linhas de trem e ônibus utilizadas no trajeto: LINHA 10 - TURQUESA (CPTM) Imagem original Site oficial da CPTM LINHA DE ÔNIBUS INTERMUNICIPAL 424TRO / RIO GRANDE DA SERRA - PARANAPIACABA (EMTU/RIBEIRÃO PIRES) link original LINHA DE ÔNIBUS INTERMUNICIPAL CUBATÃO (USIMINAS) - SANTOS (EMTU/PIRACICABANA) Link original LINHA DE ÔNIBUS RODOVIÁRIO SANTOS - SÃO PAULO (JABAQUARA) (VIAÇÃO COMETA) Site oficial da Viação Cometa
  6. TRAVESSIA DO VALE DA MORTE JANEIRO DE 2015 Vídeo da travessia: Ao final, algumas dicas do que levar e comentários do que levei. A minha primeira visita ao Vale do Rio da Onça, popularmente conhecido como Vale da Morte, foi no final de outubro de 2014. Naquela época, por falta de companhia e excesso de ansiedade depois de ver o vale a partir do ponto de confluência dos rios Vermelho, Pedra e Solvay numa outra ocasião, acabei indo sozinho e a experiência foi, digamos, estranha. Sempre que voltava a pensar nos dias que passei sozinho naquele vale me vinha um misto de sentimentos que me deixavam muito confuso. O Sol radiante, as águas cristalinas e os contornos dos morros verdes da Serra do Mar - era tudo incrivelmente belo e convidativo, salvo se você decidisse se deslocar por meio de toda essa beleza. É como o Diabo que te tenta a cometer um pecado pra depois te jogar nas profundezas do Inferno. Ali me deparei com um tipo de terreno hostil, com correntezas que com um passo errado te levaria pra uma queda d’água de 4 a 5 metros, vegetação agressiva que destruiu minhas mãos sem a proteção de um par de luvas e muita piramba com o solo macio, forrado de matéria orgânica que cedia a qualquer toque. Os preparativos para essa mais recente travessia começaram há mais de 2 meses, quando conheci o Eduardo Loures, Bruno Dias Conde e o Luciano Lourenço. Eu falava em retornar ao Vale, porém com mais pessoas, e o Eduardo comentava que o retorno já estava programado para janeiro de 2015. Depois disso, conversa vai, conversa vem, o assunto começou a ficar muito esparso pela internet (Facebook) e começavam a surgir muitos trilheiros interessados na descida do Rio da Onça. Com o intuito de organizar melhor as conversas, criei o evento na rede social e deixei que a organização se desse de forma democrática - sugeria roteiros, horários e outras coisas e pedia a opinião dos que pretendiam participar, mas parece que esse povo tem uma dificuldade em se expressar. A maioria nem sequer digitou uma palavra para sinalizar qualquer coisa. Alguns, de última hora, anunciaram suas desistências e outros não se deram o trabalho de dar satisfação nenhuma. No final, de 22 confirmados, compareceram com o intuito de encarar o desafio apenas 6 pessoas: Loures, Bruno, Luciano, Masgrau, Thunder e eu. Além desses, o Kamal, que estava apenas de passagem, mas foi convencido pelo Luciano a nos acompanhar apenas com a roupa do corpo e uma sacola de loja de shopping, se juntou ao grupo, somando 7 pessoas que rumaram juntas da Estação Brás até o início da trilha. Bom, como se nota, vou aproveitar a oportunidade pra fazer um relato misto, visto que não escrevi um para a travessia que fiz sozinho ano passado. O plano inicial era acampar no topo da Cachoeira da Fumaça e, no dia seguinte, descer as sete quedas para posteriormente adentrar no Vale. Infelizmente um grupo de muitas pessoas que estavam a nossa frente também estavam se dirigindo para a referida cachoeira, então, a fim de evitar muvuca e desentendimentos desnecessários, mudamos o plano e decidimos acampar nas proximidades do Lago Cristal, do qual também é possível ter acesso ao Vale por um caminho igualmente agradável. Acordado o novo plano, iniciamos a caminhada já em meio a uma leve garoa, suficiente para em poucos minutos nos deixar quase todos encharcados. Alguns tentaram tomar providências para se protegerem da umidade, mas não sei se ajudou muito. O Eduardo costuma andar todo à prova d’água, sempre, com calça e jaqueta impermeável. O Bruno se enfiou dentro de uma saco de lixo e o Kamal deu sorte: ele que não havia trazido praticamente nada, ganhou uma capa de chuva descartável de uns caras que estavam ali colocando placas de sinalização para uma corrida que seria promovida no dia seguinte. Caminhamos por cerca de 45 minutos até cruzarmos com uma clareira. Não haviam árvores boas para pendurar as redes, então, apesar de passar da meia noite, continuamos em direção ao Lago Cristal, onde possivelmente encontraríamos um lugar melhor para montarmos acampamento. Aqui o rio faz uma curva bastante acentuada, de forma que temos que cruzá-lo duas vezes para continuar a trilha, indo para a margem esquerda, atravessando uma ponta de terra e depois para a margem direita novamente. Logo nas primeiras vezes em que nos deparamos com o rio nessa trilha já havíamos percebido que o nível estava mais alto. Estivemos ali há pouco tempo e a altura da água tinha pelo menos o dobro da outra vez. Ocorre que, ao iniciarmos a primeira travessia para a margem esquerda, enquanto ajudávamos um ao outro a se equilibrar por conta da forte correnteza, repentinamente o rio começou a subir muito mais rápido. Era uma CABEÇA D’ÁGUA! Rapidamente nos deslocamos para a ponta de terra e analisamos a possibilidade em continuar em frente, visto que onde estávamos seria impossível ter qualquer noite de descanso digno. Mal havia espaço para nos acomodarmos no chão, quem dirá armar redes. Entramos na água, miramos as lanternas que sobraram para o outro lado do rio e nada da continuação da trilha. Minha headlamp já estava fraca, a lanterna do Bruno só era melhor que nada e o Eduardo havia perdido a lanterna mais potente dele alguns minutos atrás. O rio continuou ganhando força. Pedras grandes da altura do peito estavam sendo cobertas pela água e o Thunder continuava dentro do rio buscando a continuação da trilha. Mesmo se encontrássemos a vereda, seria complicado atravessar o rio como ele estava. Resolvemos aguardar na ponta de terra até que o nível da água diminuísse um pouco. Ficamos jogando conversa fora, alimentando a esperança, a última que morre, na expectativa de que o as águas se acalmassem ainda naquela noite. Não demorou para percebemos que isso demoraria muito tempo. O Eduardo é sempre inquieto, fica andando de um lado pro outro o tempo todo e se não tem espaço pra andar ele escala, cava um buraco ou abre uma picada com seu facão, mas não fica parado. O Bruno deu a ideia de subirmos uma piramba ao lado para ganharmos altura e não correr o risco de sermos levados pelo rio mais tarde. Juntou o útil ao agradável e terminamos a noite lá em cima, a uns 3 metros de altura de onde o rio estava levando tudo que encontrava pela frente. O Bruno, que pelo visto já está dominando as técnicas de sobrevivência avançadas com maestria, dormiu bem, sem passar frio ou sofrer com os insetos que rasgaram minha pele a noite toda. O Luciano e o Kamal se enfiaram dentro de um mosquiteiro e se cobriram com um plástico. O Rafael Masgrau e eu nos cobrimos como pudemos. Ele pegou até o saco de dormir e eu me cobri com um saco plástico e depois com a capa de chuva da mochila. No meio da noite acordei com uma tremedeira danada. Não enxergava nada e estava com muito frio. Acho que era princípio de hipotermia. Imediatamente peguei meu kit de primeiros socorros com a ajuda da lanterna do Bruno, um daqueles que todo site de atividades outdoors dão extrema importância, mas que ninguém leva pro mato. Tinha um adesivo que poderia ser dividido em dois e que, em contato com o ar, esquentava de forma a auxiliar na recuperação da temperatura do corpo. Colei-os de baixo dos braços e comecei a fazer uns exercícios toscos pra aquecer o corpo. Troquei a roupa que estava encharcada por uma seca e prometi nunca mais dormir de roupa molhada. Felizmente me recuperei e voltei a me enfiar na capa de chuva da minha mochila que estava usando para me proteger do vento e da chuva. Foi uma noite horrível, mas que sirva de lição para as próximas. A luz começa a ofuscar os olhos, mas o sentido que alerta a hora de acordar é a audição. As cigarras não perdoam e nos primeiros raios do Sol elas tratam de acordar qualquer um do mais pesado sono. Bom, na verdade foi só eu que acordei e comecei a falar sozinho até que os outros foram acordando, um a um. Tive uma noite miserável e espero nunca mais passar por isso. Subestimei o frio e acabei sofrendo um bocado, mas o dia se mostrava promissor e logo fui me arrumando para sair daquele barranco onde nos enfiamos para fugir das correntezas furiosas que a chuva trouxe no dia passado. Logo percebemos que haviam pessoas acampadas lá embaixo, na clareira que ignoramos na noite passada. Era uma lona azul já conhecida. Era o Eduardo que havia voltado para lá e havia montado sua rede e dormido como um rei em plena guerra (falei que ele não aguenta ficar parado por muito tempo). Notei que o Thunder também não estava entre nós, então deduzi que ele deve ter se deslocado pra outro lugar a fim de se acomodar melhor e foi isso mesmo. “Desmontamos o acampamento”, tomamos um café rápido, comemoramos o aniversário do Bruno que ficou mais velho nessa semana e ficamos uma hora discutindo o rumo dessa aventura - iríamos voltar para nossas casas e ficaríamos contemplando os temporais previstos para aquele final de semana ou continuaríamos arriscando nossas vidas nesse vale que é um dos mais difíceis da região para se transpor, depois de sermos quase engolidos por uma tromba d’água e dormidos na pior condição que eu já estive em toda a minha vida e em meio à previsão de tempo totalmente desfavorável. O caminho de volta era tão fácil e a insegurança de alguns, inclusive a minha, tornava o retorno tão atrativo. A luz permeava as folhas úmidas da floresta enquanto uma rala neblina bloqueava a visão do outro lado. O céu estava aberto em uma parte e algumas nuvens prometiam mais chuva a qualquer momento e eu não duvidava nem um pouco que se chegássemos no fundo do vale um dragão de águas violentas iria nos devorar e triturar nossos ossos em poucos minutos de chuva. Depois de muito debater o bom senso reinou - tinha um pouco de Sol, então continuaríamos a travessia! Voltando a caminhada, em poucas passadas chegamos ao Lago Cristal que não fazia juz ao nome naquele dia. Estava barrento, com a água completamente turva. Sem mais delongas, continuamos. Nesse trecho ainda há uma trilha batida de fácil navegação. As cachoeiras começam a surgir pelo caminho, indicando uma inclinação maior do terreno e junto a trilha batida vai desaparecendo, dando lugar a caminhos de pedras, rastros de deslizamento dos dias anteriores e pequenos afluentes que em dias mais secos desaparecem. O terreno se torna bastante acidentado, mas ainda de fácil deslocamento. Passamos pela Queda das Andorinhas onde apenas notamos sua presença e continuamos em frente - a pausa estava prevista apenas para depois da Garganta. Até o “Portal do Vale” passamos por diversos poços que em épocas de tempo ameno são cristalinos e ótimos para um banho, mas estavam turvos e com águas ligeiramente mais volumosas em razão da precipitação do dia anterior. Algo em torno de 50cm a mais que da última vez que estive ali. A título de comparação, postarei duas fotos do mesmo local, mas em dias diferentes para que possam verificar que não estou exagerando. Vamos vencendo as correntezas e os obstáculos ajudando um ao outro e às 09h12 chegamos ao “Portal do Vale da Morte”, um monólito do qual é possível ter uma boa visão do início do Vale até os primeiros e maiores cânios do Rio da Onça. A partir desse ponto o nível de dificuldade sobe por tratar-se de um local onde três rios se juntam para formar um maior, que corta a Serra do Mar até o Rio Mogi, próximo a cidade de Cubatão, cavando diversos buracos nos enormes blocos de rocha pelo caminho em forma de cachoeiras e cânions. Continuamos pela margem aparentemente menos exposta e vamos cruzando o rio conforme a necessidade, sempre ajudando um ao outro para que ninguém seja levado pela correnteza ou sofra um acidente. Mais uma hora de pulação de pedras e chegamos à “Garganta do Diabo”, um cânion gigantesco que em época de tempo bom é possível pular de uma altura de uns 10 metros para seu interior e depois subir de volta pela encosta ou continuar descendo pela água se você for muito maluco. Após atingir o início do cânion, é necessário escalar uma rocha do lado direito, após a qual surge uma vereda que da acesso a uma clareira boa para acampamento e ao topo da encosta do vale de onde é possível mergulhar em seu interior. Como a chuva do dia anterior foi muito forte e havia grande possibilidade de a água ter levado troncos e galhos de árvore para o interior do vale, colocando em risco a integridade daqueles que pulassem para lá, resolvemos que não era uma boa ideia saltar dali naquele dia e ficamos apenas contemplando sua beleza e imponência. Depois de tirar umas fotos e fazer umas filmagens, lamentamos a quantidade de lixo abandonada ali e continuamos a caminhar sempre pra baixo, perdendo altura, sempre acompanhando o fluxo do rio. Alcançamos uma grande queda d’água após a Garganta do Tinhoso onde nos deparamos, mais uma vez, com um cânion cabuloso que começa com os paredões laterais com inclinação de uns 30˚ e ficam mais inclinados até que depois de nada mais que uns 10 metros seguindo as correntezas, que viram para a esquerda, ficam super inclinados e impossíveis de serem transpostos beirando o rio. Aqui nos separamos em dois grupos e nos deslocamos cada um de um jeito diferente. Uns foram até onde era possível pela rocha que beirava o rio, agarrando-se nas agarras disponíveis até que a inclinação não permitisse mais seguir em frente, apenas subir para cima para depois entrar no mato. Outros, incluindo eu, voltaram um pouco até o mato e se embrenharam novamente para continuar por cima, sem perder os outros de vista. A trilha segue até uma pequena cachoeira a qual acessamos utilizando corda. Ancorei numa árvore aparentemente firme, coisa difícil por estas bandas, e desci uma rocha de uns 4 metros de altura e cheia de limo, tornando-a super escorregadia. Anda-se mais poucos metros, após o rapel de pobre, e chegamos ao “Panelão”, famosa Cachoeira do Anubis. Trata-se de um buraco com uns 15 metros de diâmetro esculpido na rocha onde desaguam duas cachoeiras lindíssimas e imponentes. Parada obrigatória para apreciar essa obra da natureza. Há relatos de pessoas que descem desescalando as paredes pelo lado direito, mas sem cargueiras. Então fomos pela caminho “tradicional”, jogamos nossas cargueiras para o lado esquerdo do rio, atravessamos a correnteza com cuidado e ajuda pra não ser levado pro Panelão e virar sopa de gente moída e iniciamos a subida de uma piramba - a primeira de muitas - para contornar aquele enorme poço. A subida foi mais tranquila que da outra vez que ali estive. A vegetação estava mais firme, porém a umidade deixada pela chuva da noite anterior tornou o solo muito escorregadio, tornando árdua a subida para alguns. Na medida em que se ganha altura, aumentam a quantidade de cipós que se enrolam em qualquer ponta sobrando nas mochilas e dificultam ainda mais a subida. Alcançado o cume do morro a visão recompensa. Nesse dia a neblima já ameaçava bloquear qualquer tentativa de contemplar o litoral, mas ainda pudemos dar uma bisbilhotada no mar e no emaranhado de rios que iam em sua direção. Como a subida foi longa, nos acomodamos em meio ao mato denso daquele lugar e retomamos o fôlego para a descida. A partir daqui começam a surgir os malditos vegetais cheios de espinhos que destriuiram minhas mãos da outra vez. Cheguei em casa com as mãos parecendo dois pãezinhos de tão inchadas, pois não havia levado luva. Desta vez me equipei com uma luva de couro e fui agarrando em qualquer coisa que servisse de apoio para não sair rolando o barranco abaixo e terminar, possivelmente, jogado de um penhasco para o além. Na descida, interceptamos um afluente e o seguimos até alcançar o rio novamente. Esse trecho pode ser um pouco complicado de ser vencido se a água estiver muito forte. Pode-se varar mato por mais um tempo até contorná-lo ou ir pulando de pedra em pedra, com muito cuidado, pelo lado esquerdo, como fizemos. O progresso pela água não dura muito mais que 30 metros de deslocamento e temos que alcançar o lado direito do rio para voltar a varar mato pelas encostas super inclinadas e com o solo traiçoeiro que cede com muita facilidade, por isso qualquer coisa ao alcance das mãos são bem vindas para não deslizarmos piramba abaixo e causar um acidente. Galhos, troncos caídos, bromélias - era tudo agarra naquela hora. Na medida do possível, sempre tentávamos retornar ao rio e varar menos mato, mas não tardava a termos que nos embrenhar novamente na mata. A essas horas o Bruno aponta para o céu e me lembra da previsão de tempo. Sim, ainda não havia chovido naquele dia, mas tudo indicava que não faltava muito. Tivemos o dia inteiro de Sol com algumas nuvens nos agraciando com uma boa sombra, mas as nuvens começaram a adquirir aquela tonalidade cinzenta que os trilheiros adoram. Além disso, já era quase 15:00 e ainda não tínhamos arrumado um bom local para acampar. O plano era chegarmos a Cachoeira do Pé de Limão e nas proximidades dessa queda montar o acampamento, porém acabamos desviando o caminho e passamos batido por esta pequena e bela cachoeira. Da outra vez lembro de ter tomado um café na sua base que lembra uma prainha, com areia fina e poucas pedras, diferente de qualquer outro lugar naquele vale. Infelizmente não vou saber dar as coordenadas para acessá-la. Como a situação não estava muito boa em termos de tempo, apesar de ainda termos algumas horas de luz, o Eduardo, o Bruno e eu entramos no “modo emergência” e aceleramos o passo, rasgando o mato das encostas, subindo e descendo barrancos até perder de vista os outros participantes. Em meia hora cruzamos com mais um afluente e logo ao seu lado uma área plana, grande o suficiente para acomodar muitas barracas e redes, mas que estava com o solo barrento, dificultando um pouco a vida dos que iriam dormir no chão. Perfeito! Tínhamos água próximo e um local plano para acampar, com árvores com copas generosas para nos proteger da chuva. Gritamos um tanto para sinalizar onde estávamos e esperamos mais alguns minutos até que o restante nos alcançasse e iniciamos a montagem dos nossos lares daquela noite. Eu ainda tenho uma dificuldade danada em armar a minha rede. Apesar de ter aprendido uns nós muito bons, ela ficou horrível e depois de uma ajuda do Bruno fiquei extremamente confortável. Montei o toldo de forma que um dos lados ficasse mais alto, possibilitando que eu cozinhasse debaixo com mais conforto. Segui a dica de um amigo e levei linha de pesca para algumas coisas e é uma boa ideia. Só não ficou bom pra suportar o toldo, mas pra amarrar suas pontas ficou ótimo. Não absorve água e é mais leve. Acampamento armado, tratei de tomar um banho no afluente ao lado que contava com uma pequena cachoeira e iniciei o preparo da janta. Como não sou desses de fazer miojo, todo o processo demora uns 30 minutos ,ao invés de 3, e acabo carregando uns 2Kg a mais, mas eu não fico sem uma boa alimentação no final do dia de jeito nenhum. Até levo dois pacotes de miojo em todas as trilhas que faço, mas para uma situação emergencial. Cozinhei uma batata com arroz e fritei duas calabresas com muita cebola e alho. Nada muito original, mas era comida e deu pra encher o bucho. Logo após a janta cai pra dentro da rede, me enfiei dentro do saco de dormir pra me esconder dos mosquitos e tirar o sono que não pude na noite passada. Na manhã seguinte, acordei muito cedo ao som das cigarras, novamente, mas todos os outros já estavam de pé fazendo seus cafés da manhã ou desmontando suas redes. Eram 6:00, mas pra quem foi dormir antes das 20:00 era um bom horário. Passei frio novamente. A parte que deixei mais alta do toldo permitia que todo o vento gelado passasse por mim levando o calor do meu corpo. Mais um aprendizado aqui. Tirando isso a noite foi boa. Fiz um suco de limão com a água gelada da cachoeira do tributário ao lado e adocei com mel. Me alimentei, escovei os dentes e às 08:10, depois de muita enrolação, voltamos a caminhar rumo ao Rio Mogi. Parece que está virando costume nosso enrolar muito após acordarmos. O Eduardo e eu sabíamos que não faltava muito e que esse dia seria mais “light”, mas deixamos que o restante descobrisse por conta própria. O terreno fica visivelmente mais plano e ganhamos metros com muito mais facilidade. Se no dia anterior tínhamos que transpor uma cachoeira de 5 a 10 metros a cada 10 metros de deslocamento, nesse dia conseguíamos caminhar uns 30 a 50 metros sem que um penhasco nos interrompesse, apenas algumas pequenas quedas de até 3 a 4 metros de altura. Não foram mais que 30 minutos de caminhada e, ao escalarmos uma pedra para transpor um cânion e entrar na mata, de repente o Eduardo volta gritando “RECUA! RECUA!”. Na hora me lembrei da vez em que nos deparamos com uma jararaca na Trilha do Sistema Funicular e o Luciano ameaçou mexer com o bixo e eu, cabaço que sou, tratei de me distanciar o máximo que pude com medo da peçonhenta vir nos atacar. Não deu outra - era uma jararaca e das mais grandes. O Thunder tirou ótimas fotos da criatura e poderão notar que essa era das grandes. Passado o susto, resolvemos nos desviar do caminho, pois ela insistiu em permanecer no lugar. Acho que até ela estava convencida de que era grande demais pra míseros sete mateiros ameaçarem seu território. Às 08:45 cruzamos com uma sequência de duas cachus de um tributário do Rio da Onça bem gostosas e fizemos a primeira pausa pra nos refrescarmos. Com um poço raso e cristalino alguns molharam o corpo, já que o Sol prometia nos condenar com muitos cânceres naquele dia que a mídia burra e manipuladora anunciou tempestades. Ainda bem que somos todos revoltados e não acreditamos nesse tipo de bobagem. A partir daqui começamos a nos deparar com vários poços, todos com a água ainda turva, mas que me pouparam de fazer tanto esforço quanto os outros - aproveitei minha mais recente aquisição, uma mochila estanque, e fui me jogando de poço em poço a deixava que a correnteza me levasse. Foi ótimo, além do frescor da água, podia assistir aos meus amigos pularem sobre as pedras e transporem os obstáculos da forma mais desgastante. O Luciano, que não estava com uma mochila impermeável, mas que era pequena suficiente para ele não se importar em molhá-la, me acompanhou e também veio com a ajuda das correntezas que naquele trecho se tornam mais brandas. Enfim, às 09:15 chegamos em um dos poços mais legais. Uma super piscina natural com direito a hidromassagem e um pequeno escorregador. Ao avistar suas águas, os mais acelerados Bruno e Eduardo jogaram suas cargueiras e saltaram nas águas marrons daquele lugar que é um marco desta travessia. Um daqueles lugares em que todos concordam que valeu a pena todo o esforço, os machucados, as picadas e o risco que assumimos ao entrarmos na trilha a dois dias atrás. Os mais sossegados logo repararam na presença de uma pequena cobra que, assustada com nossa presença, também saltou no poço e fugiu dali sem causar muito alvoroço. Ficamos uns 40 minutos nesse poço nos deliciando com suas águas. Tiramos muitas fotos e filmei muito. Subimos em pedras pra pular na água. O Luciano sempre com mais destreza que nós pra saltar na água. e retomamos a caminhada, pois eu sabia muito bem que ainda haviam três cânions um pouco mais complicados pela frente e depois uma longa caminhada pelo Rio Mogi até Cubatão. Em dois ou três minutos de caminhada chegamos ao próximo cânion. Aqui, se o rio estiver baixo, é possível atravessar tranquilamente de pé, erguendo a mochila no alto e caminhando pelo lado direito. Desta vez, porém, a água estava bem alta e, tirando o Luciano e eu que estávamos à vontade dentro da água, o restante teve que erguer bem alto suas cargueiras para se pouparem de carregar uma mochila encharcada pelo resto da travessia até Cubatão, com as águas até o pescoço dos mais baixinhos. Sem muitas dificuldade e depois de todos emergidos daquele poço com uns 1,60m de profundidade em sua parte mais funda, mais cinco minutos de caminhada e nos deparamos com mais um vale de rochas com águas caudalosas, o qual tentamos subir pela inclinação da direita, mas fomos interrompidos por um pequeno penhasco que terminava no meio de uma correnteza furiosa, então nos alinhamos novamente cruzando o rio e jogamos nossas mochilas de um em um até o outro lado do rio para depois atravessarmos e continuar a caminhada pelo outro lado. Vamos seguindo, o Luciano e eu boiando sempre que possível para economizar energia e o restante pelo caminho das pedras, passamos por mais algumas rochas verticais que emparedam o rio, mas sem muita dificuldade em transpô-las, até que às 10:40 chegamos a um lugar muito bonito. Trata-se de uma rocha plana que forma um bico e divide o rio em duas cachoeiras, novamente cercado por dois pendores inclinados e escorregadios. Abaixo dessa rocha plana há outra rocha plana que forma um pico para a direita, dando acesso, se você não tiver medo de pular de uma pedra pra outra com um liquidificador logo abaixo, a um pequeno platô, após o qual é possível descer com o uso de uma corda que até a data em que estivemos lá estava amarrada, estratégicamente, em uma pequena árvore, em péssimas condições. Aqui nos dividimos novamente. Eu fiquei olhando para aquele lugar tentando me lembrar de como eu havia vencido esse trecho da outra vez, e quando vi a ponta virando para a direita me lembrei que eu havia jogado minha mochila pra baixo e depois pulado para a pedra de baixo e depois pulado o vão acima do liquidificador que dava acesso à corda e, consequentemente, ao restante do caminho para a casa. Relatei minha experiência para o Eduardo e então ele topou seguir o mesmo caminho, enquanto o Thunder e o Bruno já estavam se pendurando no declive do lado direito para chegar a algum lugar plano depois daquele cânion. O Luciano e o Rafael vieram conosco, mas aquele desistiu pra poupar os joelhos. O Rafael até pulou pra baixo sem dificuldades. Era o mais alto da turma e foi moleza pra ele, mas depois que ele viu as correntezas cavarem as pedras debaixo do vão entre a ponta de uma rocha para a continuação da trilha do outro lado, acabou retornando e optando pelo caminho da “escalada horizontal”. Aqui, realmente, a correnteza não estava fraca. Até agora eu não entendi direito como o Eduardo consegui entrar no meio daquele monte de água pra ajudar os outros a descerem suas mochilas, sem ser levado rio abaixo. Vencidas as dificuldades dessa parte, com a ajuda da corda descemos uma altura de 3 metros e continuamos...e paramos novamente. Logo em seguida temos mais uma fenda erodida pelas correntezas que não dava acesso a qualquer barranco que pudéssemos subir para desvia-la. Essa é a mais funda. Há três pedras que formam uma escadinha e depois um poço estreito que, no seu início tem cerca de 2 metros de profundidade. Não é muito fundo, mas pra quem está de bota e uma cargueira pesada, acaba tornando uma tarefa um pouco mais complicada. Quando estive sozinho, coloquei a capa de chuva na minha mochila e a cobri com um saco de lixo de 100L e a joguei na esperança de que ela fosse flutuar. Na verdade eu sabia que ela flutuaria, pois é uma questão de física básica. Se o saco tem 100L e 100L de água pesa 100Kg e minha mochila não passava dos 16Kg, é claro que a força de empuxo não permitiria que a dita cuja afundasse. Então orientei o restante a fazer o mesmo. Emprestei a capa de chuva que havia levado para o Eduardo que estava sem e assim fomos. Joguei a minha na água e fui nadando atrás. Depois desse grande cânion, o restante é tudo plano. Quando digo plano, entende-se que o terreno não tem inclinação maior que 15˚, não quer dizer que o terreno seja liso, sem pedras. Muito pelo contrário. É pedra o caminho todo e aqui elas se tornam menores e mais chatas. Às 11:00 chegamos a última cachoeira onde o Luciano tratou de se banhar novamente e o Kamal deve ter tomado uns 28 banhos seguidos, enquanto o restante preparava algo pra comer, pois já era hora do almoço, coisa que dificilmente temos quando estamos trilhando por aí. Geralmente só preparamos algo na janta. O resto do dia é na base de barra de cereal, amendoim, biscoitos e frutas. Como ainda tinhamos tempo, resolvemos juntar tudo que havia sobrado e o Eduardo preparou um miojo e depois um pouco de arroz. Eu fiz um café e comi com umas bolachas que sobraram. Depois de uma longa pausa de uma hora e meia, retornamos ao caminho até o Rio Mogi que se encontrava logo a frente, não mais que 15 minutos de caminhada. Chegando ao Rio Mogi, algumas pequenas celebrações e já vou acelerando o povo porque, embora tivéssemos bastante tempo, depois de uma hora e meia parados fazendo nada, acabou ficando um pouco tarde e o caminho era longo. Joguei minha mochila na água, providenciei um bastão para me auxiliar na caminhada dentro daquele rio cheio de pedras redondas, pequenas e lisas e fui seguindo em frente. Reparamos que nas margens do rio havia muito mato derrubado. Nos dias anteriores, o rio estava a pelo menos 1,50 metro a mais de altura. Havia arrastado muita coisa e mais uma vez percebemos o perigo de se embrenhar nesses lugares em dias de chuva. Aqui o caminho, na minha opinão, é chato. O Rio Mogi, nessa altura, se torna um rio monótono, sem nenhum atrativo em especial. Sem falar do visual apocaliptico dos contêineres abandonados na sua margem direita somado ao som crescente das estações do pátio de manobras da ferrovia MRS que sinalizam que estamos nos aproximando da civilização, embora não na forma como gostaríamos. Vamos caminhando e o Eduardo insistia em encontrar uma suposta trilha que dava acesso a um sítio, mas da outra vez que fizemos isso tivemos que varar muito mato e não houve economia de tempo, então insisti que continuássemos pelo rio, pois sabia que em pouco tempo estaríamos bem ao lado de uma estação de manutenção de trens, dando acesso a uma estrada de terra que nos levaria a onde queríamos. Depois de uma hora e meia de caminhada por esse rio, já com o som dos trens ao nosso lado, viramos para a esquerda e cruzamos com um tributáirio do Mogi que da acesso à antiga estação Raiz da Serra, onde pude me trocar para roupas limpas e secas, já que eu ainda teria que retornar para Campinas, e o restante se deliciou com um pé de jacas logo ao lado. Aqui é possível seguir a estrada de terra e ir de ônibus para Cubatão, conforme narro a seguir, ou subir o trilho da ferrovia cremalheira até Paranapiacaba, percurso que não sei quanto tempo deve gastar, mas não deve ser mais que 3 horas. Às 14:55 retomamos a caminhada em direção ao ponto de ônibus que ainda estava bastante longe, mas eu há um atalho que descobri da outra vez e nos aproveitamos dele para cortar um longo caminho por aquela estrada de terra sem graça. Logo após o pátio de manobras, a uns 10 minutos de caminhada, há uma bica d’agua muito boa em frente a um quilombo. Da outra vez que estive ali eu me esqueci de pegar água no rio e passei uma sede danada, então me sentei do lado da bica para me recuperar do calor que fazia naquele dia, quando um senhor veio ao meu encontro e começou todo aquele interrogatório que todo trilheiro pós trilha está acostumado. Expliquei a ele a situação e ele se admirou com o fato de eu ter descido a Serra sozinho. Então o sr. Francisco, nome do sujeito, começou a contar suas histórias de mateiro e eu fui só escutando e comparando com minha experiência, pois desconfiado que sou, queria cruzar as informações pra ver se aquilo tudo não passava de conversa de pescador. Até que os relatos não eram tão surreais, mas como o tempo tava curto e eu queria zarpar dali logo, peguei minha mochila e me despedi do simpático senhor que no dia seguinte pretendia passear pelo Rio Mogi. Foi aí que ele me convidou para passar por dentro da propriedade e me orientou que eu cortaria um bom caminho, segundo ele mais de 2Km de caminhada. Eu não pensei duas vezes. Apontei para o portão e perguntei “é por aqui mesmo?” e já fui adentrando com medo de que ele mudasse de ideia. Dessa vez, como eu estava acompanhado de mais pessoas, foi mais fácil chamar a atenção do sr. Francisco que, mais uma vez, veio “trocar ideias” com agente. Ele se lembrou de mim da outra vez, mas isso não foi suficiente para ele não repetir todos os relatos novamente para os demais que não estavam comigo na minha primeira travessia do Vale. Conversamos, conversamos, deixei ele conversar só mais um pouco, pois o plano era cortar caminho por sua propriedade novamente. Então depois de 15 minutos de muita conversa, peço permissão para cortar caminho e é claro que ele não ia negar tamanha gentileza para um bando de trilheiro com cara de acabado. Atravessamos o quilombo, interceptamos um trilho abandonado e, em meia hora, chegamos ao ponto de ônibus que nos levaria ao centro de Cubatão. Queríamos a linha 2 que vai direto à rodoviária, porém um outro coletivo passou antes e, como não queríamos esperar, pegamos esse mesmo e paramos a umas 5 ou 6 quadras da rodoviária. Às 17:10 pegamos o ônibus para São Paulo/Jabaquara e damos por concluída a nossa aventura. Há, certamente, uma infinidade de vales na Serra do Mar tão belos e desafiadores quanto o Vale do Rio da Onça, contudo, por ter o acesso facilitado pela disponibilidade de coletivos que transitam pelas diversas trilhas que dão acesso ao mesmo, embora este aspecto se torne um contra em algumas situações, este vale se torna uma excelente opção aos que buscam alguns dias selvagens cercado de muitas cachoeiras e com dificuldade elevada. A menos que a pessoa tenha muita experiência com trilhas e orientação em mata fechada, é altamente desaconselhado se embrenhar nessas pirambas sozinho, pois a qualquer momento pode-se perceber o risco de algum acidente - deslizamentos, terreno extremamente acidentado, travessia de rio com correntezas fortes, animais peçonhentos etc. No mais, qualquer informação que tenha faltado é só me deixar uma mensagem que procuro ajudar. Abaixo, deixo dicas de equipamento a serem levados e comento o que levei: - Cargueira - tratando-se de uma trilha que acompanha o curso de um Rio e, muitas vezes, requer seja atravessado por dentro do mesmo, a mochila deve ser preferencialmente à prova d’água. Isso irá facilitar muito no deslocamento e protegerá todo o equipamento que extará exposto às intempéries da Serra do Mar. Se não tiver uma mochila estanque, leve ao menos um saco de lixo grande suficiente para colocar a mochila dentro para fazê-la boiar nos trechos com água. Caso o planejamento seja completar a travessia em um dia, o que é possível, é claro que deverá se optar por uma mochila menor condizente com a logística de uma trilha de um dia; - Alimentação - algo muito pessoal. No meu caso, lelo frutas (maçã, pera e laranja), cenoura, barras de cereal e nozes ou amendoim sem sal para comer de 2 em duas horas e na janta preparo arroz, frito calabresa com alho e cebola e, conheço o local e sei que da pra levar mais peso, complemento com batata, cenoura, pimentão ou brócolis. Sempre levo dois pacotes de miojo para um situação emergencial na qual eu precise de algo rápido e prático; - Sistema de abrigo - altamente desaconselhado acampar com barraca. Há pouquíssimos locais planos e os que existem são cheios de pedras. Para o Vale da Morte deve-se considerar uma rede e um plástico/lona de uns 3mX3m. É leve, possibilita dormir num local mais alto e protegerá de possíveis elevações do nível do rio. Não é necessário o uso de mosquiteiros. No meu caso, coloquei calça, meia por cima desta, camisa de manga longa e me cobri com um saco de dormir e não tive problemas com inseto na noite em que dormi na rede. Recomendo levar duas cordas de 4 a 5 metros com 5 a 6mm de espessura para amarrar a rede e linha de pesca para amarrar as pontas do toldo; - Calçado - depois de alguns “river trekkings”, percebi que botas com cano mais alto e impermeáveis mais atrapalham que ajudam. Seguram muita água e tornam-se pesadas, dificultando o deslocamento. Desta vez optei por um tênis de trilha com pouco acolchoado e solado voltado pra terrenos acidentados. Como foi importado da China e seu acabamento não ajuda, ficou bem destruído ao final da travessia, mas deu pra notar que optar por tênis é uma boa em trilhas com muita água; - Hidratação - ao longo de todo o percurso pode-se encontrar água de boa qualidade para beber, mas se chover ela pode tornar-se um pouco sedimentada. No meu caso apenas um cantil de 700mL bastou para a travessia inteira, embora eu sempre leve uma garrafa maior para colher água e utilizar no acampamento de noite; - Outros: - 10 metros de corda é o suficiente para transpor os trechos em que passamos, mas sempre levo 20 metros por precaução; - Saco de lixo de 100L a 200L é sempre bem vindo, pois pode virar um poncho improvisado e também proteger a mochila em trechos com muita água, além de não pesar quase nada.
  7. Bom, esta travessia já é bem conhecida entre os que frequentam a Vila de Paranapiacaba, encravada no alto da Serra do Mar paulista, a 45km da capital. A tradicional "Picada Raiz da Serra", que, de uns tempos pra cá, anda interditada sob as mais estúpidas alegações, foi palco de mais uma aventura nossa, numa oportunidade única e prazerosa de conhecer seu esplendoroso caminho serra abaixo, rumo à baixada santista. http://rotamassa.blogspot.com/2011/11/travessia-peabiru-de-paranapiacaba.html ------------------------------------------------------------------------- Trip realizada nos dias 18 e 19 de Novembro de 2011 Por: Gabriel Medina, Jefferson Zanandrea, Kássio Massa e Renata Cristina Participação especial: André Pimentel e Ricardo Carvalho Galeria de fotos da trip Em pouco mais de 2 meses sem retornar à vila inglesa propriamente dita, este dia chegou, e em grande estilo. Das inúmeras travessias possíveis entre o planalto paulista e o litoral, ao menos três delas têm como ponto de partida, a pacata vila ferroviária de Paranapiacaba. Pois bem, com a expedição pela antiga Funicular concluída com sucesso, a travessia da vez ocorreria no fundo do vale: a chamada Travessia Peabiru, no Vale do Rio Mogi. Marcamos a trilha com certa informalidade, uma vez que esta, apesar de interditada, se apresenta bastante tranquila, sem muitas dificuldades, ao contrário das demais travessias existentes na região, segurança quebrada apenas pela presença de bifurcações duvidosas, de aluviões, pequenos cursos d'água que, devido à quase sequidão de seus leitos, mais se parecem com caminhos a serem seguidos, por desmoronamentos na encosta e pela inevitável onipresença de temidos animais, que variam em tamanho, forma e periculosidade, desde a aranha armadeira até grandes jararacas, ou mesmo, felinos selvagens. Demos início à jornada quando nos encontramos, com certo atraso por parte do Jefferson e da Renata - que havia sido segurada em uma reunião de serviço -, às 22h50, na Estação Rio Grande da Serra, e fomos diretamente ao ponto de onde sai o circular à Paranapiacaba. Após alguns bons assuntos sobre nossas semanas, embarcamos no micro ônibus que acabara de estacionar e, em cerca de 30min, descemos no então bucólico estacionamento, em frente ao cemitério, para seguirmos diretamente à entrada da referida Trilha Peabiru, ao lado da plataforma de madeira que costuma receber os turistas da vila, com um visual esplêndido de todo o vale logo abaixo! Esta travessia é dividida em três partes distintas, sendo seu primeiro trecho, de 5km, em trilha batida, acompanhando as antenas de alta tensão até que a mesma intercepta o Rio Mogi, no fundo do vale, numa piscina natural conhecida como "Prainha", por contar com um vasto banco de areia. A partir da "Prainha", a travessia se dá pelo leito do próprio rio, por cerca de 2,5km, uma vez que não há mais trilha. Por fim, o último trecho consiste em uma estrada de terra, de 3km, margeando o pátio ferroviário de Cubatão, onde também está localizado o ponto de ônibus - o final. Sem delongas, adentramos a picada, a passos ligeiros, não escapando dos tombos nos discretos "degraus" repletos de limo. Ainda coube muito cuidado ao bordejarmos alguns desmoronamentos na íngreme encosta pela qual a trilha margeia, até atingirmos a primeira clareira, marcada pela 1ª torre de alta tensão, onde aproveitamos para observar o belo visual da cidade de Cubatão. Cogitamos se poderíamos instalar nosso acampamento naquela clareira, porém, decidimos por acampar em algum ponto mais distante do início da trilha - talvez na 2ª ou 3ª torres -, para assim, evitar visitas indesejáveis, durante nossa pernoite. Assim, seguimos adiante, a fim de chegarmos à 2ª torre, porém, devido à pouca iluminação, saciada apenas por nossas lanternas, acabamos por adentrar o "caminho das fitas" - caracterizado por fitas amarradas nos troncos das árvores ao longo do caminho -, seguindo pelo mesmo por aproximadamente 1h, até que, percebendo o equívoco - por não termos cruzado com mais nenhuma torre, durante todo este período -, optamos por retornar até a 1ª torre e pernoitar por lá mesmo, afinal, já eram 1h30. Enfim, às 2h30, nos instalamos na clareira, numa tentativa de conseguirmos ter ao menos alguns minutos de sono, uma vez que começara a cair uma fina garoa, decorrente da bruma que havia tomado conta do lugar. Esta permaneceria constante e inabalável até o clarear do dia, numa friaca de uns 7ºC, contrariando qualquer boa previsão meteorológica coletada ao longo da semana. Às 6h, após uma noite literalmente não-dormida, enfim, levantamos nossos equipos, estreamos nossas câmeras para esta trip e tocamos pirambeira abaixo, ininterruptamente, sempre indo de encontro às inúmeras torres ao longo do caminho. Vista para a Grota Funda: pontes do antigo Sistema Funicular "Serra Nova" e da Cremalheira Na 4ª torre, é valido lembrar que há uma bifurcação, e o caminho correto a ser seguido é, não estranhamente, o que vai sentido nordeste - ou seja, Paranapiacaba. Porém, este mesmo prossegue em uma brusca e fechada curva, retomando o sentido sudoeste - Cubatão. Em cerca de 3h, atingimos o ponto onde a trilha passa a margear o Rio Mogi, já no fundo do vale, sendo possível avistar os incontáveis e embelezados poços azul-cristalinos que caracterizam o dito rio, em praticamente toda sua extensão. Atingimos a "Prainha" às 9h30, onde realizamos um merecido descanso, com direito a mergulhos em suas límpidas águas - que não devem em nada a uma típica praia caribenha -, cliques fotográficos e alguma farofa... Suruba silvestre Enfim, nos preparávamos para dar continuidade à pernada, quando nos deparamos com as quase-inesperadas visitas dos amigos André Pimentel e Ricardo Carvalho, dos quais já havia enchido o saco para que viessem conosco nesta trip, sem sucesso até então - pelo jeito, acho que acabou dando certo, e de uma forma inusitada! Com a trupe ampliada, finalmente, prosseguimos pelo caminho que se abria na outra margem do rio. Seguindo por uns 50m desta via, nos deparamos com um pequeno afluente. Visto que a trilha acabava alí, optamos por acompanhar o curso de água, a fim de interceptarmos novamente o Mogi, mais abaixo. Sucesso! A partir deste ponto, como era de se esperar, não havia mais trilha alguma e, para prosseguir, o único jeito seria acompanhar o leito pedregoso do rio, por algo em torno de 2,5km, até cairmos nos trilhos do sistema Cremalheira-aderência - ferrovia especial operada pela MRS Logística, para transporte de cargas entre Paranapiacaba e Cubatão. Ao longo deste árduo percurso, saltando de pedra em pedra, com água até a altura dos joelhos, pudemos presenciar cenários incríveis, tais como a Pedra do Pulo - uma enorme rocha encravada às margens de um profundo poço, de onde os mais aventureiros costumam saltar -, as pontes do 2º Sistema Funicular "Serra Nova" - com destaque para o Viaduto 4, ou "Ponte Mãe" -, e a confluência do Rio Mogi com o Rio da Onça - o rio do "Vale da Morte", onde estivemos duas semanas atrás. Pois bem, por estarmos adiantados na pernada, eu, o André e o Ricardo decidimos adentrar o tal Rio da Onça, em seu trecho final, sussa, se comparado ao que se tem mais acima. Ali , pudemos clicar algumas pequenas cachus, poços e bancos de pedra, até um trecho onde só é possível atravessar a nado. Optamos por não prosseguir a partir daí e, após mais um tempo para contemplação, retornamos ao encontro do restante grupo, que ficou nos aguardando - dormindo profundamente - em um local apropriado, às margens da confluência dos rios. Trecho da travessia pelo leito do Rio Mogi e últimas cachoeiras do Rio da Onça Por fim, recolhemos nossas tralhas novamente e pusemos-nos a concluir o trecho final da jornada, que agora, se resumia ao trecho restante, de 1,5km, pelo leito imutável do Rio Mogi, até uma piramba, na margem esquerda, na cota da fábrica de containers, por onde subimos em direção aos trilhos da Cremalheira. Neste ponto, também se encontra a antiga e desativada Estação Raíz da Serra, do 1º Sistema Funicular da Serra, também conhecido como "Serra Velha", que teve seu leito totalmente substituído pela atual ferrovia concedida à MRS. Paramos por algum tempo no velho prédio para as últimas fotos e impressões históricas daquele fantástico local que, ha mais de um século, foi de extrema importância na formação do povo e economia brasileira. Viaduto 4, ou "Ponte Mãe", do 2º Sistema Funicular Satisfeitos e descansados, nos dirigimos ao clássico ponto de ônibus, na rotatória em frente à Usiminas(antigo Cosipa), onde tomamos o coletivo rumo ao centro da cidadela, onde, por vez, já na rodoviária, nos preparamos para o tranquilo retorno à "selva-de-pedra" chamada São Paulo, retorno este marcado por um sono profundo e coletivo, pelo qual nem notamos que o André e o Ricardo haviam descido uma cota antes de adentrarmos o perímetro da capital. Esta foi, sem dúvidas, uma excelente incursão, marcada pela sua perfeita sincronia, ausência de contratempos e total integração do grupo. Certamente, o Vale do Rio Mogi, com todo seu esplendor e possibilidades diversas de pernadas, ainda será palco de muitas outras expedições!
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