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A pedido dos participantes do fórum, posti aqui uma réplica do relato que fiz sobre a Travessia do Trigo que realizei nos dias 8 e 9 de Outubro de 2011. O material atualizado e original com todas as fotos e mapas se encontra no link abaixo:

 

[align=center][t3]https://sites.google.com/site/fleckventura/ferrovia-do-trigo[/t3][/align]

[align=right]Porto Alegre, 21 de Novembro de 2011[/align]

 

[align=center][t3]O RELATO[/t3][/align]

 

Tudo começou quando eu tinha por volta dos 12 anos de idade. Toda vez que eu ia aos meus avós eu escutava o trem passar pela ferrovia e me dava à maior vontade de ir lá ver como era aquele mostro barulhento. Meus avós, de origem italiana, moram a 30km de Bento Gonçalves, na Linha João Abott, em um lugar conhecido como Campinhos, fica entre Santa Tereza e Muçum. A Ferrovia do Trigo (EF-491), construída pelo exército brasileiro nos anos de 1970, passa bem próxima a casa deles, cerca de uns 500 metros subindo um morro em uma estradinha que só passam tratores e carroças.

 

Quando estava lá, diversas vezes via ou escutava o trem passar, aquilo sempre me chamava a atenção, ver aquela baita coisa passando e puxando um monte de vagões de forma bastante imponente, é muito bonito de se ver e escutar. Certa vez fui caminhando até a boca de um túnel que existe próximo a casa dos meus avós e se aquele dia tivesse uma lanterna teria atravessado ele. Mas todas vezes que ia até lá nunca tinha ou quando tinha as pilhas estavam muito fracas. Aquilo sempre ficou na minha cabeça e sempre desejei atravessar aquele túnel para ver o que tinha do outro lado!

 

Depois de muito tempo com aquilo em mente, levei uma lanterna para atravessar para o outro lado. Aquele túnel tem uns 300 metros de comprimento e é em curva, chega uma hora que a escuridão fica total e não se enxerga literalmente um palmo na frente do nariz! Senti bastante medo quando a escuridão ficou absoluta, estava sozinho e só escutava alguns ruídos não identificados e aquele barulho clássico de uma gota caindo em uma caverna. Dei graças a Deus quando vi a luz no outro lado do túnel e fui até lá para bater uma foto e ver o que tinha do outro lado, uma questão de orgulho e realização, pois do outro lado não tinha nada além do óbvio. Fiquei com muita vontade de seguir caminhando, a região é muito bonita, cheia de vales, muita mata nativa, cachoeiras e cascatas, mas acabei dando meia volta volver.

 

Anos mais tarde, conversando com um amigo meu, fiquei sabendo que ele fez uma caminhada na mesma ferrovia, só que em um lugar diferente, um pouco mais ao norte. Contou-me como fez a chamada Travessia da Ferrovia do Trigo de Guaporé a Muçum com seus 22 túneis e 11 viadutos distribuídos em 50 quilômetros e achei aquilo legal demais, surgiu dentro de mim uma louca vontade de fazê-la também!

 

Foi assim que começaram os preparativos. A maioria dos equipamentos eu já tinha, pois costumo viajar de moto e acampar, mas tive que pensar bem os imprevistos que poderiam estar me esperando e o que eu precisaria levar a mais, pois nunca tinha feito caminhadas tão longas e seria uma situação bastante diferente além do fato de ir sozinho.

 

Abaixo segue uma tabela do que eu levei, com execessão da barraca. Marquei com um asterisco alguns equipamentos, que em minha opinião, são obrigatórios e não podem faltar, de maneira nenhuma, para quem planeja fazer a travessia.

 

- Lanterna, com no mínimo 5 horas de independência *

- Velas *

- Isqueiro *

- Clor-in ou purificador de água equivalente *

- Filtro de café *

- Calçados próprios para trekking *

- Água 2 litros / dia *

- Garrafa PET para armazenamento de água *

- Saco de dornir *

- Barraca *

- Rede de descanço

- Espiriteira *

- Panela *

- Álcool *

- Prato e talheres *

- Refeições de macarrão instantâneo com sardinha ou atum enlatados *

- Refeições de comida liofilizada

- Sal

- Açúcar

- Café em pó

- Copo plástico descartável *

- Pão caseiro *

- Salame, charque ou qualquer outro tipo de carne para se armazenar em temperatura ambiente *

- Chapéu *

- Filtro solar *

- Relaxante muscular adesivo

- Papel higiênico

- Escova de dentes e creme dental

- CamelBak 1,5 litros

- Toalha

- Lona 4 x 4 metros

- Binóculos

- Canivete

- Máquina fotográfica *

- Celular para emergências

- Mapa da travessia *

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%201.JPG?height=400&width=300

Preparativos[/align]

 

Tendo os equipamentos em mãos restava agora definir uma data. Lendo relatos e conversando com meu amigo que já tinha feito a travessia fiquei sabendo que dois dias seriam muito pouco tempo e de fato é muito pouco tempo, então me programei para ir no dia 2 de Setembro, a empresa onde trabalho iria puxar a folga do dia 7 para segunda-feira, isso me daria o que eu precisava, três dias. Na véspera do dia 2consultei a previsão do tempo e eis que tenho uma surpresa, previsão de chuvas e temporais.

 

Fiquei chateado, senti aquela sensação de quando gastamos muito tempo preparando uma coisa e ela não dá certo, mas calma, calma, não criemos pânico! Devido ao feriado do dia 20 de Setembro, dia da Revolução Farroupilha aqui no Estado do Rio Grande do Sul, a empresa adotou a mesma política de trazer a folga para segunda-feira. Nova data, dia 16 de Setembro. Um dia antes, novamente, consultando os entendidos do tempo, previsão de chuvas e temporais.

 

Já era a segunda vez que tinha me programado para ir e não dava certo, resolvi então que no dia 8 de Outubro iria de qualquer jeito com chuva ou Sol, pois as últimas duas vezes não choveu quase nada e nem deu temporal nenhum, ninguém pode prever com exatidão a natureza. O feriado do dia 12 trouxe a folga para segunda-feira o que me dariam os três dias de que eu precisava. Como de costume, na véspera a previsão era de chuva, me lembro que deu Sol toda a semana e que no final de semana estava marcando tempo ruim, que raiva! A minha vontade era muito maior que qualquer chuvinha e fiz conforme havia programado.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%202.JPG?height=400&width=300[/align]

[align=center]Previsão de Temporais[/align]

 

8 de Outubro de 2011, Sábado.

 

Saio de casa de moto as 04:45 da manhã, em direção a Muçum. Muçum fica a 160km de Porto Alegre. O trecho passa pela BR-386 e RS- 130 é todo asfaltado e em boas condições, existem 2 pedágios no caminho.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%203.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Saindo de casa as 04:45[/align]

 

Cheguei em Muçum as 07:10, fui na média a 80 Km/h e não parei nenhuma vez. Quase chegando em Muçum peguei uma chuvinha de leve, só para molhar as pernas e pés, nada de mais. Fui direto para a rodoviária, ainda não sabia onde ia deixar a moto. Chegando lá e conversando com o Sr. José que cuida do boteco e rodoviária de Muçum, obtive autorização par a deixar a moto nos fundos. Sem flanelinha, sem estacionamento pago, sem preocupações.

 

O ônibus que vai para Guaporé sai de Muçum as 07:50 e a passagem custa menos de R$10,00, o ônibus demora aproximadamente 1 hora e 15 min para chegar lá. O telefone da rodoviária de Muçum, para quem quiser maiores informações é: (51) 3755-1170.

 

Chego em Guaporé em torno de 09:25, passei ao lado da ferrovia mas não desci, tinha que comprar pão e conseguir água antes de partir. No ônibus uma senhora me perguntou se eu estava indo no evento da Fórmula Truck que iria ter na cidade naqueles dias, eu nem sabia de nada respondi. Desci na rodoviária de Guaporé, passei em uma padaria que tem logo em frente para comer um pastel com café e comprar pão caseiro, salame, algumas balas de hortelã e também para me abastecer de água. Com tudo pronto e arrumado para partir começo a rumar em direção a ferrovia, atravessei quase toda a cidade caminhando, foi um erro não levar o pão e a água de casa pois poderia descer ao lado da ferrovia, ela passa bem ao lado do pórtico da cidade e o acesso é fácil.

 

Começo de verdade a travessia as 10:30 no quilômetro 60 da EF-491, a Ferrovia do Trigo.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%204.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Iniciando a travessia[/align]

 

Parei a 1º vez para pegar algumas ameixas que estavam de bobeira em uma árvore bem próxima aos trilhos, depois de descansar um pouco segui caminhando. Não existem muitas árvores frutíferas no caminho nessa época que eu fui, somente alguns pés de ameixeiras. Notei que existem muitos pés de goiabeiras que na época apropriada pode ser uma boa fonte de alimento e energia.

 

Existem diversos pontos onde se pode pegar água em todo o trajeto. Pequenas cascatinhas, mangueiras que passam ao lado dos trilhos e caixas com água corrente que vem de cima de morros são comuns em todo o percurso. Água não é um problema, desde que tratada adequadamente. Eu usei Clorin, paguei R$12,00 uma cartela com 30 comprimidos, cada um pode ser misturado com 1 litro de água e aguardando 30 minutos á água fica potável.

 

O primeiro dos 22 túneis é o de nº 24 no quilômetro 55,705 com seus 529 metros de comprimento. Aqui vale salientar o quanto é importante levar uma lanterna, pois no meio do túnel se experimenta uma escuridão TOTAL!

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%205.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]1º túnel[/align]

 

O tempo estava nublado, não vi a cara do Sol aquele dia. Parei para almoçar exatamente ao meio-dia pois foi quando escutei o barulho de uma cascata. Quando coloquei a primeira garfada na boca começou uma chuvinha fraca, deixei tudo de lado e corri para pegar a lona que levei junto e colocar em cima das coisas, uma forte apreensão se abateu, será que ia começar a chover o dia inteiro? Será que dessa vez os entendidos teriam acertado? Novamente não, foram só algumas gotas. Demorei mais ou menos 1 hora para preparar, comer e limpar as coisas, segui em frente sem chuva.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%206.JPG?height=400&width=300[/align]

[align=center]Cascata do 1º almoço[/align]

 

Às 13 horas estava caminhando novamente. Não tem nada de interessante ou que mereça algum comentário do trecho de Guaporé até onde eu estava no momento, na verdade estava começando a me arrepender pois não tinha visto nada de mais em todo o percurso a não ser algumas quedas de água e trilhos de trem. Essa sensação mudou no momento em que cheguei no Viaduto Mula Preta, aí sim o bicho pegou!

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%207.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Viaduto Mula Preta[/align]

 

Até o momento não tinha passado nenhum trem por mim e nenhum passou naquele dia. Demorei mais de 15 minutos para atravessar o viaduto, foi bastante complicado, o peso nas costas e o espaço entre os dormentes onde se enxerga lá no fundo o chão me fizeram embaralharem os olhos e às vezes era necessário parar um tempo e recuperar a visão para poder continuar. Estava apreensivo e tenso pois poderia vir algum trem quando eu estivesse bem no meio do viaduto e ser obrigado a saltar para os refúgios que depois de 40 anos não me pareciam muito confiáveis e deveriam balançar bastante caso algum trem passasse em cima do viaduto. Após algum tempo caminhando em cima dos dormentes meu deu uma sensação de que estava empurrando a Terra com os pés e não estava saindo do lugar, muito engraçado! Deve-se tomar muito cuidado entre os passos para não cometer erros, não existe a possibilidade de cair lá em baixo mas se caso errar uma passada é bem provável que se torça um pé ou até quebre uma perna pois o pé irá cair direto pro fundo. Aquele trecho da ferrovia é o mais emocionante de todo o trajeto em minha opinião. Fortes emoções!

 

A noite se aproximava e eu ainda não tinha um lugar definido para armar o acampamento. Tinha levado somente uma rede, saco de dormir e uma lona para proteção da chuva, optei por não levar barraca por causa do peso. O primeiro problema foi arranjar duas árvores próximas o bastante para armar a rede, eu achei que seria bastante fácil devido a existir milhares de árvores na região, mas encontrar duas árvores com a distância certa e em um local sem muito mato foi difícil. Depois de algum tempo procurando achei duas árvores com a distância perfeita e com o chão limpo, sem mato. Logo surgiu outro problema, aonde amarrar a rede se não tinham galhos? As árvores tinham galhos somente em uma altura em não era possível amarrar a rede. Pensando nessa situação levei dois pregos para pregar na árvore caso isso acontecesse. Achar uma pedra para pregar não foi difícil, coloquei o prego na altura certa e encaixei a argola da rede neles, perfeito. Foi quando deitei em cima para ver se ela ia aguentar meu peso e cai com rede e tudo no chão! Eu estava praticamente no meio do caminho, e sabia que existia uma estação abandonada não muito longe dali, mas o tempo era curto, já eram 18:00 passadas e o Sol começava a se esconder atrás dos morros. Resolvi que iria usar a lona para fazer uma barraca improvisada e dormir no saco de dormir, não me restava outra solução. Arranjei um lugar e fui atrás de lenha para fazer fogo, ao lado dos trilhos existia uma estradinha , alguma coisa me chamou para andar naquela direção e para minha surpresa achei uma casa abandonada de 2 pisos, aquela era a minha salvação.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%208.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Casa abandonada onde dormi[/align]

 

Entrei na casa para verificar as condições e logo percebi que seria um ótimo local parar passar a noite. Armei minha rede no segundo andar da casa e fiz uma fogueira para passar a noite.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%209.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Rede armada[/align]

 

Madeira não é problema, existem muitos dormentes que são substituídos pela equipe de manutenção ao longo de toda ferrovia e em vários locais. Os dormentes servem muito bem como lenha para a fogueira, tem alguma coisa naquela madeira que faz com que ela pegue fogo muito facilmente e fiquem horas e horas queimando.

 

!!! IMPORTANTE !!!

É EXTREMAMENTE perigoso fazer fogueira com os dormentes encontrados na ferrovia

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2010.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Fogueira[/align]

 

Cometi um gravíssimo erro de fazer a fogueira em baixo da estrutura de madeira da casa, não achei que aquilo seria um problema e até certo momento não foi. Depois de ter jantado e de horas na frente do fogo resolvi ir dormir, a fogueira já estava somente em brasas e não fornecia mais suas mais chamas tão confortantes em noites solitárias.

 

Assim que me deitei na rede, PÃÃÃM! Caio direto no chão, o nó que eu dei nas madeiras do teto da casa não foram muito bons. Fiquei uns 15 minutos tentando amarrar de uma forma que eu não caísse mais e depois de muitas tentativas achei uma maneira de amarrar a rede para que ela não desabasse novamente. Não tinha a mínima noção de dar nós, quando dependemos muito de algo damos um jeito, aprendi na marra. Quando deitei não me senti muito confortável, a rede era muito pequena e ficava muito curvada, não foi uma posição muito agradável para se dormir, mas era isso que tinha. O silêncio era tanto que escutava meu coração batendo e meu nariz puxando e soltando o ar, demorei para me acostumar com aquilo mas logo pego no sono com o ruído da chuva batendo no telhado.

 

Lá pelas tantas, acordo tossindo e escuto um barulho muito estranho, parecido com vento. Notei que o ar estava diferente, meio enevoado e quando olho para os lados levo um grande susto, o piso da casa estava pegando fogo bem atrás de mim! Levantei em um pulo e fiquei parado, sem saber o que fazer por uns 5 segundos que mais pareceram uma eternidade. Nesses 5 segundos se passaram diversas cenas em pensamentos pela minha cabeça. Primeiramente venho aquele pensamento: “Puta que pariu! O que eu vou fazer?!” Não sabia se pegava minhas coisas e saia correndo, se não pegava nada e salvava minha vida, se tentava apagar o fogo, se tinha como apagar o fogo, como ia apagar o fogo, se valia à pena apagar o fogo, a merda que podia dar se deixasse a casa toda pegar fogo, o que eu estava fazendo parado se tinha que fazer alguma coisa e outros tantos que não me recordo.

 

Depois da avaliação instintiva resolvi que ia ao menos tentar apagar o fogo, peguei a água que tinha tratado no dia anterior para consumo e joguei em cima do fogo onde as chamas eram maiores. Saiu muita fumaça e tive que sair do foco do incêndio, pois não conseguia mais respirar e nem abrir os olhos. Assim que me recupero olho para o fogo e noto que ele diminuiu bastante, volto com mais água e finalmente consigo controlar as chamas. Depois que gasto toda a água pego algumas madeiras do chão e abafo o restante das chamas que restaram.

 

Para minha sorte consigo controlar o incêndio e abro as janelas da casa, não conseguia mais respirar direito de tanta fumaça. Paro para avaliar os estragos, nada de muito grave, somente algumas partes do teto da casa queimadas. Cometi o grande erro de fazer a fogueira em baixo da estrutura da casa, em uma espécie de garagem, em cima tinha o segundo piso onde dormi, na parte que prendeu fogo não tinha piso, somente uma espécie de placas de conglomerado de madeira. Nem me passou pela cabeça que aquilo poderia causar algum problema. Eu estava bem, não tinha perdido nada, somente gasto toda a água que tinha tratado para consumir no outro dia. Volto a dormir na minha rede desconfortável.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2011.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Fogo na casa![/align]

 

9 de Outubro de 2011, Domingo.

 

Acordo com a buzina do trem, era o primeiro que ia passar desde que comecei a caminhada, espio pela janela do meu quarto improvisado ele puxando seus vagões. Preparo o café com o pouco da água que restou dentro do CamelBak, coloco alguns relaxantes musculares em formato adesivo nas costas e do lado do quadril, ajeito minhas coisas e saio a caminhar novamente. Mal começo a caminhar e os pés começam a doer na sola, tinha que caminhar mais de 30 quilômetros ainda e achei que aquilo seria o meu maior problema e realmente foi. Depois de uns 15 minutos caminhando passo pela estação abandonada de Dois Lajeados, um lugar muito bom para se acampar também. Fica praticamente no meio do caminho.

 

O dia está limpo e com uma temperatura agradável, nem muito quente e nem muito frio. Sigo em frente parando as vezes para bater algumas fotos, as vezes para aliviar o peso da mochila das costas e descansar um pouco.

 

Entro em mais um dos túneis, a essa altura já não sabia quantos já tinham passado e nem qual era o seu número pois a partir de Dois Lajeados as placas que identificam os túneis com seu número e extensão não existem mais, elas só voltam a aparecer em Muçum. A cerca de 100 metros da saída escuto uma buzina muito forte,era o trem chegando! Corro para um refúgio e por minha sorte aquele tinha uma saída para o exterior do túnel, fazendo com que a claridade da rua entrasse para dentro do túnel e se enxergasse melhor. Assim que o trem entra no túnel o barulho aumenta muito e surge um forte vento. Eu achava que aqueles refúgios eram somente frescuras e que não precisava entrar neles quando o trem fosse passar. Estava errado! Ainda bem que entrei, pois a máquina do trem passa muito próximo as extremidades do túnel, se não entrasse ele me levaria. Esse foi o único que vi passar ao meu lado, o movimento de trens estava bastante fraco naquele final de semana.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2012.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Trem passando dentro do túnel[/align]

 

Quando sai do túnel, notei que o Sol já estava bem em cima da cabeça. Escutei um barulho de água e a minha esquerda vejo que existe uma pedra saliente formando um muro de uns 2 metros, atrás do muro tinha uma entrada para a selva e era dali que aquele som vinha. Me lembrei nos relatos que li que tinha um lugar onde existia um desvio do curso da água por baixo dos trilhos.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2013.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Desvio d'água[/align]

 

Era por volta do meio dia e decidi que iria fazer o almoço ali mesmo, um lugar perfeito. Preparei um macarrão instantâneo, misturei com uma porção de comida liofilizada de arroz com legumes e frango e para deixar o prato com mais sustância misturei uma lata de atum. Depois de alimentado lavei a louça e em seguida me deu aquele sono mortal que dá depois do almoço. Sentei encostado em um murinho com a cabeça em pé e não demorou muito para começar a pescar, apoiei a cabeça nas pernas e não me lembro de mais nada. Acordei apavorado, achando que tinha dormido por muito tempo, mas verificando o relógio vejo que cochilei por exatos 30 minutos.

 

Um túnel antes do Viaduto do 13 escuto vozes de pessoas. É engraçado como nós ficamos com o pé atrás em lugares onde não existe muita gente, deveria ser ao contrário. Um pouco antes parei para escutar o que estava acontecendo em frente e percebo que eram apenas um grupo de turistas que vieram a ferrovia para tirar algumas fotos. Quando me aproximo mais dou um grito de cumprimento para avisar que estou chegando estilo: “Ooopa”! Eles fazem uma cara de espanto por ver aquele extraterrestre vindo da escuridão cheio de coisas penduradas, na verdade acho que eles não viram nada além da luz da minha lanterna. Quando me aproximei mais eles partem em retirada, não me perguntaram nada e eu não disse mais nada também. Às vezes olhavam para trás enquanto caminhavam para fora do túnel e cochichavam algo que não podia entender.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2014.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Túnel antes Viaduto 13[/align]

 

Caminho mais 10 minutos e a cerca de 300 metros a minha frente avisto um grupo de três pessoas caminhando na mesma direção que eu. Achei que estavam fazendo a travessia também, mas analisando melhor seus equipamentos percebi que só estavam dando uma volta por ali pois não carregavam quase nada, somente uma mochila pequena. Tentei apertar o passo para ver se os alcançava, mas pouco me aproximava, às vezes eles olhavam para trás, mas sempre caminhavam em frente sem parar. Depois de mais de 30 minutos caminhando e tentando os alcançar, já estava a mais ou menos uns 100 metros de distância dou um grito: “Peraííí!” Eles me aguardaram na saída de um pequeno túnel. Aproximo-me com um: “Opa, tudo bem?” Ismael, uma garota e um guri que não me lembro mais seus nomes vieram até ali pois um pouco mais a frente existia um viaduto do estilo do Mula Preta, somente os dormentes para se pisar. Seguimos juntos até lá conversando, ficavam me perguntando um monte de coisas a respeito do caminho e dos equipamentos que eu carregava. Trocamos contatos, tiramos umas fotos juntos, eles de mim e eu deles e se despedimos, me desejaram boa caminhada.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2015.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Foto com a gurizada[/align]

 

Desse ponto em diante meus pés estavam doendo muito e eu não caminhava mais, estava me arrastando, pisando de dormente em dormente para evitar as britas. O calor estava muito forte, olhando minhas reservas de água e fazendo um cálculo mental rápido de consumo percebi que deveria começar a racionar, pois se continuasse com o mesmo consumo andaria mais 2 quilômetros e minha água acabaria, estava tomando 3 goles a cada 200 ou 300 metros, reduzi para 5 goles a cada quilômetro. Faltavam mais de 10 quilômetros para chegar em Muçum. Eu não pensava em mais nada, só me arrastava para frente, entrei em transe. Não sei quanto tempo depois, pois perdi a noção do tempo nesse último trecho, escuto um trovão forte. Olhei para cima e enxerguei nuvens escuras, os raios e trovões eram tantos que fiquei com medo achando que se algum raio caísse muito próximo a mim poderia ser afetado por estar caminhando no meio dos trilhos, e se caísse um em cima dos trilhos com certeza iria me afetar, os pensamentos ficaram muito criativos naquelas horas. A chuva e o vento foram bastante fortes, uma típica bomba d’água. Eu carregava uma lona preta que serviu como proteção para chuva. Tentei bater algumas fotos, porém estava com as mãos ocupadas segurando a lona e quando tentei achar um jeitinho a lona virou um embrulho.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2016.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=center]Temporal[/align]

 

 

A bomba d’água não durou mais de 30 minutos e logo que parou o Sol voltou deixando a paisagem mais bonita. Dei graças a Deus por não fazer tudo aquilo e ser recepcionado com chuva forte na chegada em Muçum.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2017.JPG?height=400&width=300[/align]

[align=center]Trilhos com Sol[/align]

 

Mais um tempo de caminhada e avisto a estação abandonada de Muçum e ao longe o viaduto que corta a cidade. Faltavam não mais de 3 quilômetros para completar a caminhada e fazendo alguns cálculos rápidos noto que chegarei lá no final do entardecer. Neste último trecho não pensava em mais em nada, só onde ia ser o meu próximo passo. Os pés doíam tanto que a cada passada que dava mudava minha expressão facial, realmente doíam muito! Estava também sentindo uma dor muito incômoda onde o fêmur encaixa no quadril, cada passada era um estalo, as costas, para minha surpresa não estavam doendo muito, talvez pelo fato de no início daquele dia ter colocado alguns relaxantes musculares.

 

Quando chego próximo ao viaduto de Muçum, não me seguro e começo a derramar algumas lágrimas, não sei por qual motivo, me deu uma sensação estranha que não sei explicar com palavras. Paro um dormente antes do início do viaduto e fico ali um tempo, relembrando de todos os acontecimentos que tinha passado, até que então resolvo dar o primeiro passo. O sol já tinha se escondido atrás dos morros dando uma coloração diferente ao local.

 

[align=center]Ferrovia%20Trigo%2018.JPG?height=300&width=400[/align]

[align=centerViaduto de Muçum[/align]Atravessei o viaduto e cheguei a boca de mais um túnel, foi então que notei que não tinha por onde descer, teria que voltar. Mas procurando um pouco melhor achei um local no meio do mato com um declive bem acentuado e escorregadio por conta da chuva que tinha caído, que saia no pátio de uma casinha simples. Quando comecei a descer apoiei o pé em uma pedra e ela rolou barranco a baixo caindo em cima de umas telhas e fazendo o maior barulho, o dono da casa saiu para ver o que estava acontecendo e se deparou comigo. Eu prontamente falei: “Ooobaa, tudo bem?” e ele me olhando com uma cara estranha não falou nada, só saiu da casa e abriu a porteirinha no seu pátio para eu sair de uma vez.

 

Não conseguia mais caminhar, estava literalmente com os pés arrastando, mudava a expressão facial a toda nova pisada. As pessoas me olhavam de uma maneira estranha. Eu só queria chegar a algum hotel comer alguma coisa e dormir. Na minha frente caminhavam uma senhora, uma menina e uma criança, as vezes olhavam para trás e cochichavam algo que não podia escutar. Parei para lavar as mãos em uma poça de água, pois estavam todas embarradas devido ao barranco que tinha descido logo atrás. Quando me aproximo mais, mesmo me arrastando estava caminhando um pouco mais rápido, chuto uma poça d’água sem querer e molho elas, alguém olhou para mim e falou alguma coisa em tom de xingamento, eu nem olhei para o lado. Segui em frente.

 

Cheguei a um posto de combustível para pedir informações de um lugar para passar a noite e fui indicado para ir ao Hotel Marchetti, mais algumas quadras e chego em frente ao hotel mas ao olhar para o lado, a primeira coisa que enxergo é uma máquina de sorvete da marca Italianinha na fachada de um barzinho, meu corpo trocou de lado quase que instintivamente indo em direção a macchinetta! No bar estavam sentados um senhor e uma senhora, o senhor prontamente venho para me atender. Pedi um cascão sabor misto com cobertura de chocolate e ao largar as tralhas na mesa e iniciar a degustação do meu sorvete começamos uma conversa que viraria uma amizade, contei a eles o que tinha feito, os dois ficaram com certa dúvida se acreditavam em mim, dúvida esta logo desfeita depois de mostrada as fotos.

 

Depois de algum tempo conversando, o senhor de nome Lucca, falou para eu cuidar do bar pois ele ia jantar. Assim que ele volta eu comento: “Bah! Mas que cheirinho bem bom de polenta brustolada!” E ele: “Tu quer que eu peça pra mãe fazer um prato pra ti?” Sem pensar muito eu retruco: “Mas bah!”. Ainda por cima ele pega uma Coca-Cola e me traz na mesa por conta da casa.

 

Ferrovia%20Trigo%2019.JPG?height=300&width=400

O prato

 

Ficamos bastante tempo conversando, o Sr. Lucca, é filho do dono do antigo frigorífico que existia em Muçum, atualmente em ruínas. Decretaram falência devido à inflação do início dos anos 90. E de fato, conforme uma pesquisa que fiz, do ano 1990 a 1994 o Brasil teve uma taxa de inflação média anual de 764%.

(Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Infla%C3%A7%C3%A3o#Hist.C3.B3rico_do_Quadro_Inflacion.C3.A1rio_no_Brasil)

 

Hoje ele está com uma fábrica do mesmo ramo quase pronta em uma cidade perto de Bonito em Mato Grosso do Sul. Vai para lá de tempos em tempos para resolver as últimas burocracias com o Ministério da Saúde antes de iniciar suas operações. As horas voam, já são quase 22:00 horas e tenho uma leve impressão que ele não quer mais continuar com o papo, então me despeço e vou para o hotel logo em frente.

 

Entro no quarto, largo as coisas no chão e deito na cama para descansar um pouco, acordo somente no outro dia pela manhã. Desci para tomar um belo de um café, paguei a estadia que ficou em R$30,00 e fui em direção a rodoviária pegar a moto para voltar para casa.

 

Porto Alegre, 1º de Novembro de 2011.

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Caro Gfleck,

 

Bacana seu relato! No entanto peço que considere postá-lo em réplica também aqui no Mochileiros.com (não somente o link para um sítio externo). Assim enriquecemos o conteúdo disponível a esta comunidade da qual você também faz parte. Fica ainda o backup das suas aventuras para a posteridade... ::otemo::

 

Abraço!

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Parabéns, bela pernada!!! ::otemo::

Só uma coisa, os dormentes são tratados com produtos químicos contra o apodrecimento. Por isso os gases da sua queima são tóxicos, muito cuidado e nunca use pra cozinhar.

 

Boa observação...

 

Eu senti uma sensação meio estranha depois de usar eles para fazer a fogueira, talvez tenha inalado muita fumaça... :D

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    • Por Robson De Andrade
      Se o mundo não acabar, lá vou eu kkkkk
      Já não dava para adiar o inadiável, tinha de ser agora ou sabe se lá quando.
      Sai de Porto Alegre às 13 horas do dia 28, previsão de chegada lá por volta das 16 horas.
      Passagem de volta só na Estação Rodoviária de Muçum, vou lá pegar a minha kkkk
      As estradas para o interior são muito boas, a paisagem é agradável aos olhos a primeira vista.
      Em Guaporé desci numa calçada, vi um táxi e pedi para me levar até o Hotel 55 54 9106-7404
      Ande com um pouco de dinheiro rapaz, tive que ir numa agência sacar para pagar o taxista.
      No Hotel Rocenzi ninguém usava máscara, foi assim até o dia seguinte a minha saída.
      Fim de tarde tive que ir num mercado local debaixo de chuva, por insistência do Sr. Rocenzi levei seu guarda-chuva rsrs
      Tudo de boa no hotel, só aguardar pelo dia seguinte.
      Meu plano era sair sem café da manhã e caminhar até os trilhos, só que não.
      Fiquei para o café da manhã, deveria ter comido mais rsrs
      E o plano de ir a pé também rodou, chamei um táxi que me deixou na estação, a chuva caiu logo em seguida, teria tomado ela na cidade se tivesse saído a pé.
      Ajustei a mochila nas costas protegida com sua capa, usei uma jaqueta impermeável que comprei em Porto Alegre, na Decathlon, já sabendo que ficaria feio o tempo durante a minha travessia.
      A estação reformada de Guaporé.

      Primeiro Dia: Chuva, chuva e mais chuva
      "Não é um dia ruim só porque está chovendo." segui de boa, não tinha me entusiasmado tanto assim rsrs
      Os primeiros passos são... sei lá os primeiros passos, um pouco chato, margeando casas, estradas, lixo visível nas beiradas...
      Quando cheguei no meu primeiro túnel abri um sorrisinho, fiz o mesmo quando cheguei no meu primeiro viaduto.

      Choveu praticamente o dia todo e quando parava tinha de tirar a jaqueta impermeável para logo em seguida botar ela outra vez, o terreno castiga e os pés começam a sofrer, todo o caminho é só pedras, dormentes.
      Dentro dos tuneis bateu uns pensamentos sobre a morte, a solidão que me seguiram por boa parte da travessia. Eu tive a ideia de parar e desligar a lanterna para ficar naquele estado de completa escuridão e silêncio, talvez aquele fosse o mais próximo da morte estando vivo, consegue imaginar escuridão total e silêncio? Mas eu estava vivo e tinha de seguir, que alívio trouxe cada luz da saída.
      Fiz uma pausa para comer, descobri que tinha comprado pão de alho, não era bem isso que queria haha
      Nunca mais quero saber de pão de alho e atum em óleo.
      Optei por não fazer fogo, enlatados são uma boa opção, barrinhas de amendoim também, pão de alho não rsrs

      Lá pela metade do dia fez um solzinho. E o resto da tarde cairia mais chuva.
      Chuva pra caralho! cheguei na estação abandonada com a bota encharcada, a água escorreu da calça para a coitada da bota.
      A estação abandonada me segurou, ali tirei as botas e segui de chinelo, os meus pés agradeceram, os ombros não tinham muita escolha, lá perto do fim da tarde já chegava no meu limite.
      Parei perto do Recanto da Ferrovia; não estava nos meus planos ir lá. Quando cheguei  fui recebido por um cachorro muito simpático, não vi uma alma humana, já tava querendo vazar dali, até que o proprietário do lugar, o Clair surge nada simpático se comparado com seu cão. Acho que pensou que estava invadindo, depois disse que tinha que ter reserva, trocamos umas ideias, cada um no seu cada um, acabei ficando assim mesmo, pra mim tava bom, ali tomei banho, escovei os dentes e me reorganizei para vazar pela manhã.
      O trem passou algumas vezes durante a noite, fazendo um tremendo barulho.

      Segundo Dia: Sol
      O sol já dava as caras quando passei pelo Viaduto Pesseguinho, este também vazado, dava pra andar num bom ritmo pelo meio e dificilmente você vai cair se ficar só no meio. Andava parando para olhar ao redor, meu medo de altura não é lá grande coisa, mesmo assim eu senti que ia travar por lá junto do receio do trem passando por ali, imagina a correria ali rsrs
      Há placas com avisos de que não é permitido fazer passeios por ali. Bem, o que não é permitido? kkk
      Tomem cuidado dentro dos tuneis, eu tropecei uma vez e quase fui ao chão, fora que meu pé torceu umas duas vezes; sem grandes problemas.
      Parte de alguns tuneis desabaram e devem estar desabando, vi água saindo das paredes no meio de um túnel, não precisei correr até um daqueles "abrigos". Havia dormentes arrebentados e soltos dentro do túnel, sinal de que poderia dar merda.
      Há um túnel de mais de 1200 metros, este deu pra perder a noção do tempo por lá, e outros que você sonha kkkk
      Tentei seguir uma trilha perto de um túnel, ela ia pra cima de um morro, subi com mochila e tudo, até que vi uma fita, acho que era uma fita vermelha, fiquei receoso sobre aquilo, desci rapidinho, mas de ré em alguns pontos, caso contrário a queda seria engraçada kkkk
      Ao longo do caminho se vê locais de acampamentos, eu sabia que mais tarde teria que procurar um, os bons foram ficando para trás.
      Há lixo deixado pelo caminho, guardem o seu lixo e jogue na lixeira da cidade mais próxima.
      Fiz o meu almoço diante desta linda paisagem e o rio Guaporé nervoso lá embaixo
      ,
      Segui com o sol de rachar.
      Percebi que o lugar não é totalmente isolado; há sítios e fazendas por quase todo caminho, às vezes ouvia pessoas falando, cachorros latindo, carros transitando por alguma estrada... Há sinal de telefone e até o 3g tava dando sinal em alguns trechos haha
      Achei uma cachoeira perto de um túnel, melhor água que tomei, haha
      Água não falta pelo caminho, obviamente de procedência duvidosa, usem clorin moças e rapazes kkk

      Uma surpresa no trilho, tomando um sol talvez?

      A mochila já castigava novamente, os pés pediam para parar e minha teimosia de continuar era maior.
      Saindo de um certo túnel, já tinha perdido as contas de qual era, mas era perto do ponto mais "turístico". Ali vi pessoas de bobeira, a primeira impressão é de manter distância e ficar esperto, mas vi que era um casal, trocamos algumas ideias e segui...
      Mais pra frente, encontro outras pessoas, um grupo de amigos fazendo a travessia até Guaporé, trocamos umas ideias também.
      Havia pessoas em outro túnel com lanternas, poxa vida ali percebi que não estaria mais sozinho rsrs saindo dali mais um grupo de pessoas, que estavam retornando, segui junto deles, conversamos sobre como fui parar ali, de onde era, para onde vamos...
      Confesso que foi a primeira vez que senti seguro ao caminhar por outro túnel, na verdade a companhia das pessoas que tinha acabado de conhecer trouxe essa sensação, um deles se ofereceu para carregar minha mochila, passamos por trabalhadores fechando um lugar que tinha uns arcos, e mais pessoas surgiam, quando saímos do túnel tinha praticamente dezenas de pessoas do outro lado. O rapaz  apertou minha mão, desejou me sorte e perguntou meu nome, respondi e ele me disse o seu, e seguimos nossos caminhos.
      Segui desviando das selfies, dos caras das agências kkkk fui parar lá no meio do v13, cansado, a paisagem maravilhosa, até que mais gente se aproximou e eu tinha de ir. Por ali passou pessoas com cachorros, crianças, dei boa tarde, uma mulher me perguntou o que estava fazendo ali com a mochila nas costas, há maluco para tudo né? rsrs
      E assim uma hora você está completamente sozinho, no outro dia encontra pessoas dispostas a carregar sua mochila, apertar sua mão e lhe desejar sorte. Experimente um pouco de solidão e boas companhias também
      E continuei com minha teimosia, só pararia se achasse um lugar para acampar quando o sol já tava se escondendo, muitos paredões de pedras... Fique atento aos sinais do corpo rapaz, é hora para tudo, hora de caminhar, hora de parar, de cansar, de descansar... Terminei o dia exausto, montei a barraca e tentei dormir, a noite choveu pra caralho e o fim estava próximo.

      Terceiro dia
      O último dia começou, escovei os dentes, desmontei a barraca, arrumei as coisas, já não estava me sentindo bem, o cansaço do dia anterior ainda estava lá, andava cambaleando, a água estava ficando intragável, só queria parar. Acabei sonhando com mais tuneis e viadutos, pensei que o v13 estava a minha frente, quando na verdade já tinha passado por ele, encontrei um casal indo na direção contrária, apenas um bom dia.
      Quando vi a plaquinha de Muçum vi que o meu "sonho cansado" tinha chegado ao seu fim.
      A travessia pede prudência, paciência e resistência.
      São quase 60km caminhando por dormentes, pedras, tuneis e viadutos.
      Em Muçum me hospedei no Hotel Marchetti 55 51 9566-8544 muito bom o lugar.
      Almocei no Kiosque da Praça, os caras não usavam máscara huehue Mas a comida compensou.
      A noite pedi um hambúrguer que fica ao lado do hotel, havia alguns jovens no local vivendo como se não houvesse segunda-feira haha
      As passagens para Porto Alegre são vendidas na estação rodoviária, só aceitam dinheiro.
      Em POA me hospedei na chegada no POA ECO HOSTEL 55 51 3377-8876. Fiz a reserva pelo HostelWorld
      Na volta para POA fiquei hospedado no Hostel Rock, acomodação econômica 55 51 9415-5531.
      Se um dia retornar optaria pelo POA ECO HOSTEL sem dúvidas
      A empresa que opera por aqueles lados é a Bento Transporte, comprei a passagem até Guaporé pelo app da Veppo.
      http://www.bentotransportes.com.br/horarios
      Minha viagem não terminou em Porto Alegre como previsto, mas em Santa Catarina, e isso é uma outra história
      Agora devo estar de quarentena, quem sabe? rsrs
      Até a próxima.




    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      2020 ano imprevisível. Ficamos a deriva desde fevereiro. Toda a temporada de montanha foi se embora, as viagens minguaram. Precisamos recorrer a destinos não antes planejados.
      Foi assim que topamos com a Ferrovia do Trigo, como descrevi em relato anterior, conseguimos fazer um circuito pelo Campo dos Padres em setembro e cinco dias antes de sairmos para a Serra Geral catarinense, recebemos um convite para fazer o trekking Guaporé Muçum. É claro que já havíamos ouvido falar e lido algum relato, mas não estávamos muito iterados sobre. Não gosto de perder oportunidades, então, após uma lida rápida em um relato e olhadela no wikiloc aceitei a proposta. O trekking não tem muito segredo é autoguiado, e a logística também é tranquila.
      Chegando ao Início
      De Urubici descemos por Lages, Vacaria até Muçum. A viagem já foi um charme, depois de Vacaria, entrei em uma área  de vinhedos e colonização italiana (Ipê, Antônio Prado, Nova Prata etc.) com muitas capelas, colinas e construções majestosas. Acredito que faça parte de alguma rota turística, mas como não conheço muito do RS né. Resumindo, estou pensando em voltar para lá fazer um tour bem longo.

      Saímos em Guaporé e fomos dormir em Muçum, no Hotel Marchetti, talvez seja o único da cidade. Fizemos um acordo com o proprietário que permitiu deixarmos o carro por ali, sob supervisão dele. E diga se de passagem o rapaz foi nota mil, além de zelar pelos carros, o hotel é fantástico, dá show em muito Ibis por aí. Excelente atendimento, limpeza impecável e o café da manhã top.
      No dia seguinte pegamos o ônibus suicida para Guaporé. A viagem foi uma história. Começou quando perdi a passagem, e tive de entrar no ônibus sem ela, ainda bem que o motorista não encrencou. Durante o trajeto nos contou muitas de suas peripécias, quando dirigia carretas, vários golpes em danceterias e restaurantes (talvez ele estivesse achando que eu estava dando o balão na passagem). De repente, a 90 km/h ele vira para a esquerda num portal dentro do vale, o coração quase sai pela boca. A conversa acabou até Guaporé (acabou o fôlego ou rezávamos para que não houvesse outro drift). Descemos na entrada de Guaporé, e a poucos metros já podíamos ver os trilhos.
      A Trilha
      Começamos a trilha, meio desconfiados com alguns carros de fiscalização parados ali na estação. Mas logo estávamos todos no ritmo dos dormentes. Os primeiros 6 km são monótonos, os passos ainda teimam em ser descompassados (é cada bicuda no trilho/dormente). Então começam os viadutos, e a direita o vale começa se exibir.

      Lá pelo terceiro/quarto viaduto já é possível ver o majestoso Rio Guaporé a bailar no vale. Surgem os primeiros túneis. Uns curtos, outros alongados, mas nada muito incrível. Topamos com a equipe de manutenção logo cedo, foi o teste que precisamos para ter certeza que não seríamos proibidos de passar por ali, afinal andar nos trilhos não é tão "legal" assim. Batemos um papo, tudo ok, seguimos.
      Já eram 14:00 quando chegamos no primeiro grande viaduto, vazado, muito alto e comprido. Cautelosamente passamos. Só fomos saber no dia seguinte que era o Mula-preta.

      Ali do lado tinha um sinal de acampamento, mas como era cedo e os destroços indicava fluxo de pessoas considerável, resolvemos seguir. Pouco tempo depois entramos num túnel infinito. Foram 40 min no meio do breu. Apenas os pontos de luz das lanternas indicava a existência de vida naquele buraco. Saímos do túnel de 2000 m já num local ideal para o pernoite. Uma estrada de caça ao lado da ferrovia, com sinal de acampamento, a poucos metros de um córrego de água limpa. Armamos as barracas, e só fomos acordados às 02:45 quando o gigante de aço rasgou a escuridão com seus olhos de fogo e silvo de dragão.
      No dia dois, começamos a caminhada era idos 07:00. Mais alguns túneis e chegamos no Viaduto Pesseguinho (esse possui placa de identificação), de posse dessa informação já suspeitamos que aquele do dia anterior era o Mula-preta.

      Quando estávamos parados para tirar algumas fotos e recuperar o fôlego fomos surpreendidos por um senhor vestidos de militar. A abordagem foi bem categórica:
      - Os senhores sabem que é proibido andar nos trilhos? - Indagou o militar.
      - Sim senhor, está escrito em letras garrafais na placa ali da entrada do viaduto. - Respondo em tom bagual, hshs.
      - Então o que fazem aí em cima? - Retrucou o homem.
      - Estamos a fazer a travessia. - Mudei o tom, para não criar problemas.
      Logo de início tinha percebido que o 'militar' era proprietário do camping ali embaixo. Ele frustrado com o movimento veio desabafar. Tentou aplicar um sermão, falando que a polícia estava prendendo e que haviam câmeras na entrada, saída e no camping dele, que iria passar para a polícia e estaríamos encrencados. Ouvi pacientemente. Ele acalmou e depois esclareceu algumas dúvidas, contou alguns acontecimentos da travessia recentes, passamos quase 1h conversando (no final do dia fomo saber que esse proprietário costuma causar alguns problemas por ali, inclusive já foi preso por abordar trekkers armado).
      Passado essa lorota seguimos. Atravessando viadutos, mergulhando em túneis, eles estão por toda a parte. O Rio Guaporé a cada curva é mais bonito.

      Depois de passar pela Cachoeira da Garganta com muita gente, na altura dos 35 km paramos para almoçar. Como o maps.ME indica um cachoeira ali perto, não tive dúvidas, achei uma trilha e fui procurá-la com um dos parceiro. Andamos 2 km morro adentro até sair nas margens do Guaporé, lindo de águas turquesas. Mas nada da cachoeira, o pequeno resquício de água nem chegava no Guaporé. Desistimos de fazer a incursão pelo leito seco até a base da queda.


      De volta aos trilhos, passamos mais um viaduto e na entrada do seguinte, saindo para à esquerda tem uma cascata. Paramos para reabastecer e curtir um pouco.
      Cruzamos mais um túnel longo, com uma seção vazada, para sair no viaduto V13. Ao longo desse dia tínhamos passado por mais dois tuneis de aproximadamente 1km cada. No V13 dei razão para o milico, algumas centenas de pessoas desfilavam sobre os trilhos e dentro do túnel, tinham crianças, pessoas de mobilidade reduzida, bêbados, drogados, pessoas com caixas de bebidas e caixas de som, uma verdadeira zona. Imagina o perigo se o guarda trilhos ou até mesmo o trem se aproxima (há relatos recentes de situações bastante tensas envolvendo trens e pessoas irresponsáveis nos pontos de acesso fácil ao longo da travessia).
      .
      Nesse dia nós descemos os 1200 m até a base do V13 para dormir em um camping (Paraíso V13). Diga-se de passagem fomos muito bem recebidos, ate travesseiro teve gente que emprestou dos proprietários. No camping, além da área coberta para a barraca (acertamos em cheio) tem uma cachoeira nos fundos muito legal que vale a visita.

      Nosso terceiro dia amanheceu debaixo de água. Desmontamos o equipamento, cobrimos com capa de chuva e seguimos morro acima. A chuva não deu trégua. Era tanta água que não se podia ver de uma ponta a outra do V13.

      Com todo cuidado do mundo, os dormentes agora estavam liso, seguimos caminhando. Mais uma série de túneis, todos curtos. Outra série de viadutos, nenhum vazado. A paisagem estava perfeita, a umidade deixa as cores mais intensas, das encostas despencavam dezenas de cachoeiras sazonais, fruto da chuva impiedosa.
      Não demorou muito para se formarem grandes alagados nas margens do trilhos. Local para descanso e refeição somente dentro dos túneis quando não estavam alagados. Em um deles, paramos e de repente um ronco ensurdecedor entrou na escuridão, luzes seguiam nosso sentido contrário. Paramos no recuo, coração na mão, uma das luzes (tive a impressão) saiu dos trilho e veio pra cima, foram longos segundos, um filme passou na cabeça, pensei em tudo que perderia, quando então, a luz vira novamente para o outro lado e escuto gritos e buzinas. Eram duas motos de trilha. Não sabia eu se chorava, xingava ou agradecia.
      Adiante em outro túnel estávamos almoçando quando o limpa trilhos passou, fui uma correria só para as áreas de escape, não gosto de arriscar a canaleta, vi nesse ano um vagão (na serra do cadeado) arrastando um pedaço de madeira por dentro da canaleta.
      Seguimos adiante, o relevo muda, passamos por alguns cortes de rocha imponentes. E no último grande viaduto ainda avistamos um bando de macacos pretos (não consegui identificar a espécie), estavam todos agitados nas copas das árvores.

      A caminhada voltou a ficar monótona nos últimos 6 km. Apenas grandes poças de água, o Guaporé some no meio da vegetação e a única surpresa foi a reformada estação ferroviária de muçum. Muita gente termina por aí, chamando um táxi ou seguindo pelo asfalto.

      Nós optamos por caminhar pelos trilhos até o centro de Muçum, descendo logo depois do primeiro viaduto sobre a rodovia. No total foram 60 km, 22 túneis e 16 viadutos.
      Depois de um banho merecido, melhor de se secar, o banho já havia sido o dia todo, fomos fazer o desjejum na lanchonete principal da praça de Muçum para no dia seguinte retornar às terras paranaenses.
      No Youtube coloquei um vídeo que mostra um pouco mais do trajeto, https://youtu.be/-Odmah6b8rU
       
      Dados que podem interessar
      A ferrovia EF491 também conhecida como ferrovia do Trigo percorre entre os municípios de Roca Sales e Passo Fundo. Comercialmente pouco explorada, hoje serve apenas para transporte de combustíveis por escassas locomotivas, e a partir de 2020 passou a receber uma rota turística. Entre os municípios de Muçum e Guaporé, que engloba também Vespasiano Correa e Dois Lageados a estrada acompanha o Rio Guaporé, percorrendo uma série de túneis, vales e encostas. Nesse pequeno trecho de pouco mais de 60 km se concentram 22 túneis dos 34 da ferrovia e 16 viadutos dos 26.
      As principais atrações do trecho, que podem ser acessadas durante a travessia ou em caminhadas curtas ou ainda chegando de carro pelas estradas de manutenção da ferrovia, são:  
      Viaduto Mula-preta em Guaporé, possui 94 metros de altura, 360m de extensão e dormentes vazados, um desafio para quem tem ou não medo de altura; Viaduto Pesseguinho, também vazado, possui mais de 80m de altura e 368 de comprimento; Viaduto V13 com 143m de altura é o mais alto viaduto das Américas; Cascata da Garganta adaptação da engenharia onde um riacho mergulha para dentro da terra em uma cachoeira que flui abaixo dos trilhos. Está situada entre os viadutos Pesseguinho e V13; Túnel de 2km perfuração dentro do morro que percorres 2000 m entre os viadutos Mula-preta e Pesseguinho; Túnel vazado com cerca de 1300 m está na chegada do V13. A 300 m da entrada dele estão algumas aberturas (janelões) de frente para o vale do Rio Guaporé; Cascatinha ao lado da entrada do terceiro túnel segundo túnel depois da Garganta (sentido Guaporé Muçum), de águas límpidas e queda macia ideal para descanso; Cascata Bem Estar situada anexa ao Pesseguinho é acessível a partir do camping na base desse viaduto; Rio Guaporé visível em mais de metade da travessia. Um dos locais de acesso à suas margens fica entre o terceiro e quarto túneis a partir do V13. Existem ainda muitos outros locais interessantes para se visitar pela região, cascatas, rochas, vales e passeios. Só pegar a mochila estudar os roteiros e se jogar.
    • Por mcm
      Como de hábito, se tem promoção pra Porto Alegre, não recusamos. Viajamos para lá com certa assiduidade desde o começo da década, salvo engano ao menos uma vez por ano. Nos últimos anos temos alternado sucessivamente entre Porto Alegre, Gramado e arredores, e, nossa opção preferencial, Vale dos Vinhedos. Com mais uma passagem comprada para um fim de semana, era questão de escolher. Mas deu coceira de conhecer lugares novos pelo RS.
      Um lugar que está no meu radar há tempos para conhecer é Mostardas, mas Katia sempre recusa. Então bolei uma rota alternativa que cabia num fim de semana, no nosso esquema. Montei um roteiro para conhecer algumas atrações em Lajeado, Lagoa da Harmonia (em Teutônia), e onde fosse possível chegar na Ferrovia do Trigo, sobretudo nos viadutos (V13, Dois Lajeados, Pesseguinho, Mula Preta), Serafina Corrêa e sua Via Gênova, e alguma coisa de Cotiporã. De lá, retornaríamos a Porto Alegre por Bento Gonçalves, velha conhecida de tantas idas. Onde quer que parássemos num dia, dali seguiríamos o roteiro no dia seguinte.
      Seria muito tempo de carro, sim, estava no radar. Meu foco maior era conhecer a ferrovia do trigo e aquelas pontes vazadas que parecem flutuantes. Era o ápice. Mas curtiríamos também o barato dos visuais das estradas rurais por onde certamente passaríamos.
      Há vários e ótimos relatos da famosa travessia sobre a ferrovia do trigo aqui no mochileiros.com, que a galera geralmente faz em 3 dias. Foi inspirador ler, mas nosso foco era chegar mesmo de carro. Esquema conforto, em virtude (também) da premência de tempo.
      Acompanhando a previsão de tempo na semana anterior, o plano ficou por um fio de ser abortado. Num determinado momento havia previsão de chuva forte em todo o fim de semana. Se fosse assim, ativaríamos o plano B, que seria novamente Vale dos Vinhedos, que cuja curtição independe de tempo bom.
      Dica: acompanhar os relatos do @fernandos que vem explorando esses cantinhos menos badalados do RS. Inspirador!

      Chegamos na sexta de noite, dormimos em Canoas, e deixamos para escolher qual plano seguir no sábado de manhã. Previsão para sábado era sem chuva. Plano A mantido. Amem! 
      Mas o roteiro acabou quebrado, porque choveu bastante na manhã de domingo, nos forçando a praticar um plano B parcial (Caminhos de Pedra, em Bento – sempre muito agradável!) naquele dia. No sábado conseguimos seguir até a Ferrovia do Trigo, especificamente Viaduto 13 e Pesseguinho (acabamos pulado o Dois Lajeados), e ainda esticamos até Serafina Corrêa, onde pernoitamos. Ficou faltando conhecer outros dois viadutos e Cotiporã, além de toda a paisagem rural que nos leva a esses cantinhos.
      Seguem abaixo os lugares que conhecemos:
      Jardim Botânico de Lajeado: pequeno, bonito, bem tratado.
       
      Parque dos Dick: com laguinho bacana e letreiro da cidade para curtir.
      Parque Histórico Municipal. Construções em estilo da época da imigração; muito bem transado, mas não muito cuidado.
       
      Lagoa da Harmonia: lindíssima. Propriedade privada, pagamos 15 pratas (os dois, acho que é por carro) para entrar. Tem chalés por lá, tem restaurante. Galera vai para curtir o lugar, fica no chimarrão e/ou no churrasco. Muito bacana. Curtimos um bom momento por lá. E ainda tem um mirante, que não dá vista para a Lagoa, mas para o vale na parte de trás. Vista panorâmica, aliás.
       
      Viaduto Brochado da Rocha: Imponente, uma prévia do que estava por vir.

      Viaduto 13: o mais alto das Américas, e segundo mais alto do mundo. Grande ponto turístico da região, com restaurante e camping na base lá embaixo. Chega-se facilmente de carro, tanto na parte baixa quanto na alta. Parte alta = onde efetivamente está a ferrovia. Tem o viaduto para vc curtir o visual. E tem tuneis para curtir também. Percorri três deles, fui até a cascata subterrânea (garganta do diabo), e voltei. Andando rápido dá uma meia hora de ida, mas levei mais tempo porque o visual das janelas e o barato do escuro absoluto dentro do túnel requer maior contemplação. Estava calor (era Março), mas dentro dos tuneis fazia até algum friozinho.
       
       
      O viaduto é facilmente caminhável, não é vazado, “flutuante” como os outros.
      Viaduto Pesseguinho: esse é vazado, um dos que chamo de “flutuantes”. Vc caminha sobre os trilhos ou sobre os dormentes. Se vc olha para baixo, enxerga o abismo a dezenas de metros abaixo sobre seus pés, entre os dormentes. Achei melhor prestar a atenção aos dormentes e onde eu pisava, enquanto andava. Sensação de olhar para baixo era bacana, mas aterrorizava também. Não tem parapeito, mureta ou qualquer tipo de proteção lateral. Há escapes laterais para vc se abrigar se por acaso passar algum trem. Mas somente de um lado que esses escapes têm base para vc se abrigar, do outro já não existe mais, a base já se foi. E há de se confiar naquela estrutura!
      Achei esses viadutos, essa ferrovia, tudo sublime. Gostei demais. Voltarei.

      Ao longo do caminho (rural) para chegar até o 13 é possível observar, além de belas paisagens rurais (belas para pessoas urbanas, como nós), os viadutos 11 e 12. Ou melhor, os viadutos que presumo que sejam o 11 e o 12. Podem ser vistos ao longe. Importante dizer que o google maps não mapeia todas as estradas rurais da região. Necessário ter algum senso de direção e apostar que aquela estrada em que vc está terá um fim!
      Serafina Corrêa: cidade pequena e bacana, onde jantamos e pernoitamos. Tem a Via Gênova, com réplicas de monumentos italianos, e tem um belo e simpático (e muito bem cuidado) centrinho com praça + igreja.

       
    • Por fernandos
      Saímos de Caxias do Sul as 11 horas rumo ao famoso Viaduto 13 (V13), na cidade de Vespasiano Corrêa, o mais alto Viaduto Férreo da América Latina, com 143 metros de altura. No caminho cruzamos por Bento Gonçalves, sentido Veranópolis, pegamos a estrada para localidade de Farias Lemos.    1ª Parada. Balneário do Rio das Antas. Cotiporã.RS: Certa altura vejo uma placa indicando o acesso secundário para a cidade de Cotiporã, não dei muita bola, ao passar avistei uma ponte, um rio, com suas margens repletas de pedras. Meia volta! Vamos ver do que se trata. Era o Balneário do Rio das Antas, já em Cotiporã, a uns 10 km do centro da cidade. Era quase meio dia, o sol estava forte, mas o lugar é bonito, uma ponte antiga, o rio caudaloso, algumas pessoas fazendo churrasco, outras nadando, um lugar tranquilo para se refrescar num dia de sol forte. O curioso que as margens rio nesse ponto, são cobertas por pequenas pedras, ao invés de terra como é mais comum em outros balneários. Pra mim o nome mais apropriado para o lugar seria "Praia de Pedras", enfim... O lugar rende belas fotos. Como não estava preparado para tomar banho, seguimos viagem.    2ª Parada. Vespasiano Corrêa.RS: O plano era almoçar em Vespasiano Corrêa, mas era domingo, e a cidade bem pequena, com seus 2.000 habitantes, e após darmos algumas voltas pelo centro não encontramos nada aberto. Ainda bem que havíamos tomado um café reforçado, e rumar ao V13. Já no centro de Vespasiano, existem placas indicando o caminho, são uns 13 km, de estrada de terra, estreita, morro abaixo, com pedras soltas, tem que se ter muito cuidado. E no caminho somos brindados com a visão dos viadutos V11 e V12. Chegando ao local  onde fica o V13, já na chegada avistamos muitos carros, estava havendo uma festa de alguma comunidade rural. Um grande aglomerados de pessoas, maioria mais velhas. Debaixo V13 impressiona por sua grandiosidade. E rumo ao dito cujo, são 1, 3 km morro a cima, mas da para fazer de carro, deixamos o carango, na via de entrada, junto com os muitos que estavam lá. Dia de casa cheia na Ferrovia do Trigo. Primeiro tratamos de explorar os Tuneis Férreos, muito legal, os tuneis são extensos, e a medida que se adentra, a escuridão toma conta, aqui uma dica: TEM QUE LEVAR LANTERNA! (É completamente escuro lá dentro). Legal ver apenas as luzes das lanternas das pessoas dentro do Túnel. Não foi muito fácil tirar fotos, pelo completo breu, e por estar muito movimentado esse dia. mas mesmo assim a experiência é muito interessante, vale a pena. Fomos até o final do túnel que deve ter uns 600 metros, sentamos e fizemos um lanche, já que o almoço não rolou. Retornamos pelo túnel, rumo ao V13. Chato foi nos depararmos com muitos turistas bêbados, e sem educação no local. Gente riscando as paredes dos tuneis com pedras, e por aí vai. Lá de cima a vista encanta, de um lado da para ver o Rio onde bote descem de rafting e do outros algumas belas cachoeiras. dessa vez o trem não passou (graças a Deus!),  o que seria bem tenso, mas no local tem alguns refúgios, caso isso ocorro. É um passeio bem divertido passar por cima do viaduto, da para tirar boas fotografias. Ficamos ali um bom tempo curtindo o visual. Depois descemos e fomos em direção as cascatas, seguindo as placas. Tem um balneáriozinho no local, e novamente muita gente bêbada, e sem noção. Um bando de velhos, borrachos, tomando long neck, e atirando as tampas na cachoeira. É o Fim da Picada!  Esse foi o unico porém da viagem, a falta da educação de nosso povo. Acho que não deve ser sempre assim, com certeza pegamos um dia ruim, mas mesmo assim o lugar é lindo. E infelizmente não pude tomar banho na cachoeira, pois, não levei roupa, pois, em Caxias estava friozinho quando saímos, no V13 bem calor. Então via das duvidas leve roupa de banho. 


        3ª Parada. Muçum: Para voltar e escapar da subida ingrime de volta, decidi ir em direção a cidade de Muçum, 14 km diz a placa, mas se anda uns 20 até o centro da cidade. Muçum intitulada a Capital das Pontes, destino já visitado. Possui uma bonita ponte de Brochado Rocha, e o Chafariz de Pedra da Praça Central. A cidade é impressionou pelo desenvolvimento, para seus ditos 5000 hab. Possui até prédio, e no entorno da praça, em frente a igreja, existem duas ruas cobertas, e diversos quiosques e estabelecimentos para lanche. Acabamos no Don Fulano, onde comemos um bom pastel, uma soda italiana, e uma Taça de Sorvete, tudo ótimo, e a bom preço. O ambiente é bem legal também. Muçum encantou pela  beleza, e limpeza da cidade. Mais uma atração de nosso RS visitado, e um ótimo passeio para recarregar as baterias. 

      Mais Fotos:
                    https://rotasetrips.blogspot.com.br/?view=magazine
    • Por luiz.junyor
      Há um tempo eu havia visto sobre a travessia da ferrovia do trigo, que é umas das travessias mais clássicas de Rio Grande do Sul e de cara fica fascinado, falei sobre ela a alguns amigos para ir comigo nessa grande aventura, poucos se mostraram interessados, então resolvi deixar para uma próxima oportunidade, então que um dia convidei meu amigo Jorge, que curtiu muito a ideia de ir, nesse mesmo tempo minha namorada Fernanda também iria, mas teve que desistir devido aos estudos, então eu e Jorge ficamos amadurecendo a ideia de irmos, até que mais dois amigos resolveram participar também, o Zé e o Franck. Então quando marcamos a data que seria no feriado de 7 de setembro, mais três amigos do Zé e do Jorge de Pato Branco embarcaram junto, o Cléber, o Randas e o Thomaz. Iríamos em dois carros, porém na véspera de ir, o Franck e o Thomaz tiveram que desistir devido a compromissos. Como estávamos em cinco, conseguiríamos ir em um carro só. Consegui contato com um hotel de Guaporé e reservei para nós 5, a maior preocupação era onde deixar o carro, pois iriámos de ônibus até muçum, e então subiríamos a ferrovia até retornar a Guaporé, o senhor do Hotel muito simpático falou que poderíamos deixar na garagem do Hotel, foi um alívio. Já liguei na rodoviária e peguei os horários de ônibus para nos organizar. Saímos de Coronel Vivida na quinta-feira, as 14:00hs no dia 06 de setembro, fomos a Pato Branco encontrar os piás e de lá continuamos com o carro de Cléber, que tinha espaço para colocar todas as mochilas cargueiras, foi uma viagem tranquila, paramos jantar em Casca/RS no Xis do Elvis, xis top.  Chegamos no Hotel Rocenzi em Guaporé as 22:40, fomos bem recebidos. Como nosso ônibus saia as 7:30 com destino a Muçum, não daria tempo de tomarmos café no hotel, mas o tiozinho serviu o café da manhã mais cedo para que conseguíssemos comer antes de ir. Embarcamos no Ônibus e fomos de pé pois não tinha lugar para sentar, uma hora depois estávamos em Muçum. Começamos nos arrumar para dar início a caminhada quando Jorge deu conta de deixou o celular no ônibus, a próxima parada era em encantado a 7 km a frente, então Jorge pegou um taxi e foi atrás do ônibus, voltou meia hora depois com o celular na mão e com a boca nas orelhas. Caminhamos alguns quilômetros dentro de muçum até encontrar a escadaria que levaria a Ferrovia.   Iniciamos a ferrovia do trigo era passada das 9:30, no começo era tudo muito fácil, todos estávamos descansados e aquecidos, logo de início já encontramos a estação ferroviária de muçum, que está abandonada.    Andamos mais de uma hora até chegar no primeiro túnel.        Como o sol estava quente foi um alívio, pois no túnel é muito fresco e gostoso de andar, os dormentes são mais conservados e alinhados, facilitando andar sobre eles, tem um bom espaço lá dentro, em caso de o trem vir é possível se proteger apenas ficando encostado na parede. Esse não tinha cheiro de mofo, então não era muito extenso. Logo mais à frente passamos pela primeira ponte, essa não era muito alta e sua estrutura não era vazada, então foi bem tranquilo.     Já era 13:00 e a fome estava chegando, paramos para preparar o almoço em uma sombra próximo a um túnel.         Foi nessa parada que percebi que minhas panturrilhas e meus pés estavam muito doloridos, devido aos pedregulhos da trilha e o peso da mochila, mas foi só começar a andar e aquecer o corpo que as dores diminuíram. Mais alguns quilômetros e aparece o primeiro viaduto vazado, chegou a dar um frio na barriga de ver ele lá de longe.      Andar nessa ponte foi uma emoção muito grande, a vista é espetacular, nos primeiros passos na parte vazada já é alto, tem que andar se concentrando nos dormentes para não ficar tonto, mas logo vai se acostumando e fica menos tensa a passagem.      Chegamos ao Viaduto 13 ou Viaduto do exército como também é conhecido, é o maior viaduto férreo das Americas, sendo o terceiro maior do mundo, com seus 143 metros de altura. Aqui o plano era descer até o camping que tem logo a baixo e ficar por lá, mas como chegamos cedo, era 15:30, não acampamos ali.    Resolvemos continuar para aproveitar o tempo, passamos por um grupo de vinha de Guaporé que nos deram algumas informações, nos disseram que mais uns 8km teria um camping ao lado do viaduto pesseguinho, que ficava no meio da travessia, foi então que decidimos fazer em dois dias em vez de três e seguimos até lá. Logo a frente chegamos no túnel onde tem as aberturas em formas de arcos. Lugar muito propício para lindas fotos.     Chegamos na Cachoeira que se chama garganta do diabo, esse túnel foi feito para desviar o fluxo do rio, onde ele passa por baixo dos trilhos.      Enfim chegamos no viaduto pesseguinho com o sol já se pondo, mais uma ponte vazada para atravessar, acampamos na casa recanto da ferrovia, com uma ótima estrutura, chuveiro com banho quente, área para preparar as refeições. O zé queria chegar e comer todas as batatas fritas que tivessem, o Randas queria uma cerveja, mas estava cagado de fome também, a noite estava com um céu muito estrelado, após montar a barraca deitei e fiquei lá por uma meia hora relaxando.   2º dia, um amanhecer com muita serração, conseguimos descansar bem, as dores eram menores, o Cléber fez alguns calos na sola dos pés, mas conseguiu continuar a jornada mesmo com as dores. Andar na ponte com cerração dá mais medo, pois parece que está mais alto devido ao nevoeiro, uma sensação muito legal, ficamos por ali fazendo algumas fotos e seguimos com a caminhada, pois já era 9:30 e precisávamos chegar no fim da tarde em Guaporé.        Nesse segundo dia, ainda tinha 24km para percorrer, no início da caminhada as dores eram grandes, mas foi só começar a caminhar que logo foi diminuindo, as paisagens eram muito lindas, com a serração ainda presente nos rendeu lindas fotos.     Passamos por mais alguns túneis e pontes, e o tão esperado túnel de 2km, que foi uma meia hora para atravessa-lo, esse tinha cheiro de mofo, por ser longo. O cansaço e as dores já nos dominavam, não foi cansativa a caminhada, mas sim dolorida, caminhar sob dormentes e pedregulhos com uma mochila de uns 15 kilos acaba dificultando, começamos a fazer mais pausas, para relaxar, cada retorno de caminhada era um sacrifício, pois a musculatura esfriava e as dores voltavam, mas como eu sempre digo, quando mais difícil for, maior a sensação de conquista e prazer de ter conseguido concluir.    Chegamos a Guaporé era passada das 17:00.     Concluindo, andamos 50km de trilhos em dois dias, nunca havia feito nada igual, andar em terreno onde só tem pedras é totalmente diferente que andar em trilhas de mato, exige mais preparo e uma boa bota com solado mais firme, mas tive muitos aprendizados que levarei para minha vida, fiz grandes amizades, nos divertimos muito, registramos todos os momentos, por trás de todas essas fotos tem uma grande história. Até breve!
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