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Mendigando em Lausanne


DanielFrazao

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Lá estava eu, novamente na Suíça, dois anos depois. É gostoso e ao mesmo tempo triste reencontrar algo depois de alguns anos. É como reencontrar uma garota pela qual você foi apaixonado no colégio. É bonito, mas com uma pontinha de melancolia no fundo.

Eu tinha tirado aquele dia para vaguear por Lausanne. Gosto de Lausanne. Durante o dia, é uma cidade aconchegante; à noite, é linda. O fato de ser cheia de ladeiras e curvas me agradava. Alguma coisa nela me fazia lembrar de Santa Teresa, no Rio, ou mesmo de Montmartre, em Paris. Mas acho que o que mais me agradava é que não me sentia pressionado a marcar presença nos pontos turísticos. Podia simplesmente vagabundear por aí, sentar numa amurada qualquer e ver os suíços indo e vindo do trabalho e dos restaurantes. Essa é a grande vantagem de ser turista: você pode ser vagabundo sem se sentir mal por isso.

O chão ainda estava molhado da chuvinha que caíra mais cedo. Todos sabem que um dia de chuva é o pesadelo de qualquer turista - na mente dele, aparece a imagem de um calendário com o roteiro da sua viagem e um X vermelho marcado em cima de um dia -, mas aquela chuva até que tinha sido agradável. Não me atrapalhou em nada e me fez descobrir o Palais de Justice, um prédio imponente, cheio de estátuas de guerreiros e leões e um jardim bonito pra burro na frente. Foi um dos meus recantos do dia. Sentei lá e simplesmente esperei a chuva e as horas passarem, enquanto olhava a cidade de cima. Até que chegou um momento em que minha bexiga estourava e eu precisava fazer xixi de qualquer maneira. Segurei até não aguentar mais, e finalmente saí vasculhando as cercanias do Palais de Justice em busca de um lugar decente para fazer xixi. Encontrei um cubículo velho e grafitado que chamavam de banheiro, escondido entre a vegetação da praça do Palais. Era o tipo de lugar em que se pode ser assassinado. Um banheiro mais usado por viciados em crack que por sujeitos apertados. Às vezes temos que arriscar a vida e a grana para fazer xixi. Tudo correu bem, saí vivo lá de dentro, me despedi do Palais e desci a ladeira na direção do centro da cidade.

Desde que tinha chegado, topei com um punhado de tipos. Eu precisava me virar em meio a eles. De preferência, conhecê-los.

Já passava da hora do almoço e meu estômago roncava. Eu procurava algum lugar para comer onde os vendedores falassem inglês. Um McDonalds, pois Big Mac é a linguagem universal. Foi quando vi um sujeito de barba grisalha ao estilo Papai Noel e roupas surradas, com a mão estendida para os transeuntes. Um autêntico mendigo de Lausanne. Resolvi dar uma grana para ele, pois me sentia bastante generoso. Como não estava a par da cotação de esmolas na Suíça, puxei do bolso uma moeda de 5 francos suíços. Melhor esbanjar que parecer mesquinho.

- Bonjour, monsieur - disse o mendigo.

- Bonjour, monsieur - repeti. - 5 francs - falei, entregando a moeda para ele.

Os olhos do mendigo brilharam e captei um sorriso por trás do bigode de morsa.

- Merci, merci, monsieur! - ele disse, enfiando a moeda no bolso.

- De rien.

Em seguida, o mendigo disparou a tagarelar em francês. Eu não entendia o que ele dizia, mas pela expressão e entonação dava para ver que era algo importante, ao menos para ele.

- Pardon, je ne parle pas français - eu disse. - Je suis brésilien.

- Ohh... Brésil?

- Oui.

Ele esboçou um olhar de espanto e admiração, me tomando por um milionário ou algo assim.

- Anglais? - ele perguntou.

- Oui, I speak English - respondi.

- I talk English, "one little" - continuou o mendigo.

- That's good.

- Where your house à Brésil?

- Rio - achei melhor não dizer Nova Friburgo, pois teria que explicar muito mais e fiquei com preguiça.

- Ohh, Riô! Riô beautiful!

- Oui. Very beautiful. And very dangerous too.

- Pardon?

- Very dangerous.

- "Dangerous"?

- Oui.

- Ah! Oui, oui! Samba! Carnaval! La musique! Very dangerous!

Acho que ele entendeu "very dangerous" como "muito alegre" ou "muito musical". Novamente, fiquei com preguiça de explicar e resolvi seguir na dele que, afinal, não estava de todo equivocada, apenas um pouco exagerada e cartunesca.

- Oui. It's a pleasure to live in such a dangerous city - eu disse.

- You are lucky man! - exclamou o mendigo.

- Very lucky.

Suspirei, olhei ao redor, para a ladeira que se enroscava na cidade com um sobe-e-desce cheio de gente, e continuei:

- But Lausanne is very beautiful too.

- Oui, but not so dangerous.

- I can see that.

- We don't have that luck.

- Don't be sad. Someday Lausanne will be very dangerous, like Rio.

- Ohh, monsieur... I pray for this toujour...

Dei "au revoir" e segui ladeira abaixo, quase me sentindo bem pela minha cidade tão perigosa.

 

Daniel Frazão

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"Essa é a grande vantagem de ser turista: você pode ser vagabundo sem se sentir mal por isso."

 

Essa frase vai pra minha assinatura. :D

 

Muito bom ler seus textos, apesar de não serem tão informativos (e até por conta disso) a leitura fica bem mais agradável.

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  • 2 meses depois...

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