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peter tofte

As pontes para o Shangri-la - EL BOLSÓN - Patagônia

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Shangri-la, da criação literária de 1925 do inglês James Hilton, Lost Horizon (Horizonte Perdido), é descrito como um lugar paradisíaco situado nas montanhas do Himalaia, sede de panoramas maravilhosos e onde o tempo parece deter-se em ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre pessoas das mais diversas procedências. Shangri-la será sentido pelos visitantes ou como a promessa de um Shangri-la, mundo novo possível, no qual alguns escolhem morar, ou como um lugar assustador e opressivo, do qual outros resolvem fugir. O romance inspira duas versões cinematográficas nas décadas seguintes.

No mundo ocidental, Shangri-la é entendido como um paraíso terrestre oculto

 

Fonte: Wikipédia.

 

Vou começar desta vez pelas fotos, depois pelo relato.

 

Trekker atravessando a ponte sobre o Rio Azul.

 

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Começo da ponte pênsil.

 

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A ponte.

 

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Após passar o Mallín de los Palos, vista ao fundo para o cerro Piltriquitron.

 

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Vista do mirador da Rachel.

 

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A frente do Glaciar Barda Negra.

 

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Companheiros de jornada: Iain (escocês) e Hélène (francesa).

 

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Vista da morena frontal do glaciar para o vale onde está o refúgio Hielo Azul, abaixo.

 

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O belíssimo rio Azul onde ele sai do canion (Cajón del Azul).

 

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A bonita área de camping em Cajón del Azul.

 

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Outra foto do Cajón del Azul.

 

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Vista para o lago defronte ao refúgio Los Laguitos. Há uma ilhota ao fundo.

 

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O refúgio. Dormi lá devido a chuva no dia/noite anterior.

 

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Um sagrado Alerce milenário.

 

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A valente Carina Milec, na passarela, com Diego Abregú a frente, subindo para o passe, rumo a Encanto Blanco.

 

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Vista do passe, para o vale do Cajón del Azul.

 

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O vale do Encanto Blanco.

 

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O hermoso local para acampar no refúgio Encanto Blanco.

 

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Na companhia dos gentis refugieros (Julieta e Nacho).

 

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A ponte sobre o rio Blanco, na descida, voltando para pegar o bus para El Bolsón.

 

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Monumento na praça principal de El Bolsón.

 

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Depois posto o relato correspondente!

 

Abraços, peter

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AS PONTES PARA O SHANGRI-LA – El Bolsón – Patagônia Argentina

 

Fernando e Luciano, que conheci em Esquel (vide relato), me disseram que el Bolsón era lindo, quando comentei que era minha próxima parada na viagem. De fato fiquei surpreendido com a beleza do lugar. Uma série de refúgios nas montanhas, vários deles conectados por trilhas de modo que não seria necessário baixar para o vale, onde estava a cidade, para ir para outro refúgio. Montanhas, vales e rios de água cristalina belíssimos.

 

01/03/2011

 

Levantei cedo no camping em Esquel e depois do café fiz minha mochila. Dez a quinze minutos andando e já estava na estação de ônibus onde havia um busão da Via Bariloche já parado. Consegui pegá-lo. AR$ 60 (R$ 24) , um pouco caro para 2 horas de viagem, mas o conforto, o DVD e o café servido a bordo compensam.

 

Notei outra vez o resultado de um incêndio nas encostas, num trecho da rodovia. Houve um incêndio recente, neste verão ainda, que causou estragos. Sorte que a chuva chegou antes que atingisse as principais áreas de preservação.

 

Em lago Puelo ficamos parados meia hora porque o ônibus, numa ré desajeitada, atingiu um carro e teve que aguardar a lavratura da ocorrência. Mas assistindo filme o tempo passa rápido.

 

Cheguei por volta de 12 horas em El Bolsón. Cidade que fica já na província de Rio Negro, a poucos metros da divisa com a província de Chubut. Justamente o paralelo 42° Sul divide as províncias e passa quase dentro da cidade. Portanto ainda estava dentro dos 40 rugidores (roaring forties). El Bolsón é conhecida por seu clima mais cálido, provavelmente porque fica numa baixada (442 m), em relação a Esquel (790 m.) e Bariloche (770 m.). O lúpulo plantado no vale é famoso por sua qualidade, sendo que a cidade tem várias cervejas artesanais. Cervejas excelentes, onde notamos o gosto pronunciado do lúpulo (na cerveja brasileira quase não se sente o gosto do lúpulo). Tem uma feira artesanal famosa.

 

O atendente disse que um brasileiro gostou tanto do lugar que ano passado passou o inverno inteiro como refugieiro num dos vários refúgios de montanha da região.

 

Fui logo para o Centro de Informações Turísticas na praça principal da cidade. Me chamou a atenção que estava cheia de turistas mochileiros. Tinha 4 ou 5 atendentes e diante de cada um uma fila de espera.

 

O atendente foi muito eficiente. Me deu um mapinha da região e após dizer o que desejava, sugeriu um roteiro, informou o preço dos refúgios e deu a previsão de tempo (sempre peça aqui na Patagônia!). Consegui ainda comprar o mapa topográfico da travessia Colonia Suiza – Pampa Linda, que faria em Bariloche. Algo também muito importante é o horário dos ônibus que voltam para El Bolsón, para não ter que paletar muito na volta.

 

Saí para fazer o supermercado, para ressuprimento, no La Anonima, na entrada da cidade, cuja propaganda é “Diversidad, calidad y frescura”. Ressalto que só estava interessado nos dois primeiros.

 

Em seguida, já urrando de fome, fui atrás de um cordero patagônico, desejo reprimido desde Esquel. Como estava com poucos pesos e teria que pagar para acampar nos refúgios, queria poupar os pesos e pagar com o cartão de crédito, mas cadê que aceitavam? Isto é uma dificuldade no Sul da Argentina. Até que me decidi por um restaurante que aceitava dólares com uma boa taxa de câmbio. Matei minha fome de lobo com cordeiro...

 

Depois peguei a pesada mochila e fui para o centro e dali dobrei para a esquerda na calle Azcuénaga rumo a ponte sobre o rio Quemquemtreu, aonde sairia da cidade. Pega-se uma estrada de terra para a esquerda e após poucos minutos se inicia a subida do Lomo do Meio, um morro baixo cumprido, bem no meio do vale, como se cortasse ele ao meio, longitudinalmente. Na subida uma bela vista do Cerro Piltriquitron (2.260 m), do outro lado do vale, cartão postal de El Bolsón. É um cerro cumprido imponente, cujo pico é alcançado por trilha. Tem agulhas interessantes ao longo da crista no seu lado Sul. Dava para notar um refúgio lá em cima (1.400 m), que quase pode ser alcançado de carro.

 

Placas mostravam o caminho para o camping Los Alerces, meu destino para pernoite. Ficaria muito puxado subir mil metros para o refúgio Hielo Azul naquele mesmo dia, embora fosse possível. No caminho uma criança de 3 -4 anos, andando no meio da estrada, sozinha. Apressei o passo pois podia estar perdida e um carro podia não visualizá-la. Quando cheguei perto vi que os pais na verdade estavam lá, escondidos entre os arbustos a beira da estrada, catando amoras. Relaxei, conversei rapidamente com o pai e ao saber que eram amoras (dezenas de pés ao longo da estrada) comecei a comer. Uma hora e meia depois que saí de El Bolsón cheguei ao camping los Alerces com as mãos roxas de tanto colher e comer amoras. Teve uma hora que decidi arrancar a amora direto do pé com os dentes para não sujar mais as mãos já que elas facilmente esmagavam entre os dedos na hora de pegá-las. E depois poderia sujar as roupas tocando-as com as mãos.

 

O Camping Los Alerces fica a margem do belo Rio Azul. O camping sugerido pelo Lonely Planet, Trekking em the Patagonian Andes, o Hue Nain, estaria fechado segundo o Centro de Informações Turísticas (daí ser importante checar as info antes de partir). Tem uma proveeduria onde podemos comprar o básico, inclusive beber e comer.

 

Pessoal simpático, camping legal, com um gramado bom a beira do rio, churrasqueiras e postes de luz que podíamos acender na hora que desejássemos. Com banho quente ficava, pelo que recordo, AR$ 35,00.

 

Ao ver que tinha interesse em conhecer um Alerce, Juan, funcionário do camping deu um passeio mostrando as diversas árvores e mostrou 2 alerces pequenos. Eu não estava sabendo diferenciá-lo de um cipreste da cordilheira. Depois que aprendemos fica fácil. Mostrou Maitenes, Pitares, Espiño Negro, Rosa Mosqueta. Contou que, como no ano passado ocorreu a morte maciça de caña colihue, e proliferação de ratos, houve 3 casos de morte por hantavirus na região. Parece que apenas um roedor é responsável pela propagação do vírus, o rato de cola grande (a cauda e bem maior que o corpo). A maioria dos refúgios tem um gato ou gatos para manter os ratos longe. Muito cuidado ao se abrigar em construções abandonadas. Prefiro ficar numa tenda por mais frio e chuvoso que esteja!

 

02/03/2012

 

Dia seguinte parti cerca de 09 horas para Hielo Azul. Tive de andar mais uma hora e meia por uma trilha as margens do Rio Azul, subindo-o. A caminhada é muito bonita, cenário maravilhoso. Passamos pelo fundo de algumas fazendas. Normalmente bem sinalizado o caminho. Cheguei no camping Hue Nain, que estava de fato fechado. Pena, pois é um camping mais bonito que aquele onde fiquei, num local idílico. A proveeduria fica mais no alto, com um deck onde se pudia tomar uma cerveja com vista para o rio.

 

Logo em seguida a ponte pênsil sobre o Rio Azul, a primeira das pontes para o Shangri-la. Não inspirava muita confiança, mas o negócio é seguir devagar, sem movimentos bruscos. Umas tábuas quebradas indicavam que você não deveria confiar todo o seu peso (ambos os pés) numa única tábua.

 

Do outro lado descemos um pouco pela margem do rio e logo começa a subida que não dá descanso nos mil metros de desnível (saímos de 400 m para 1.400 m no refúgio). No início acompanhamos o zig-zag de uma estrada até um pasto e um pequeno curral. Muita rosa mosqueta no caminho, com os frutos quase maduros.

 

O tempo estava bonito e agradável. Ganhava altura num ritmo bom, cerca de 400 metros por hora, considerando a mochila pesada. Passei pelo Mallin de los Palos (brejo). Pouco depois atingi o mirador de Rachel. Bom lugar para fotos e lanchar. Lá havia um casal de trekkers almoçando. Cumprimentei-os e fui para um ponto mais na beirada, para sacar fotos.

 

Depois de meia-hora parti. O casal pouco depois me alcançou. Acabamos chegando juntos ao refúgio Hielo Blanco. Em El Bolsón não se permite camping selvagem. Ou você acampa nos refúgios ou se hospeda no refúgio. O camping fica entre 15 a 25 pesos. O banho quente varia de 7 a 20 pesos. Depende do refúgio.

 

Este era legal. Tinha uma casa separada para os campistas onde podíamos cozinhar, com uma grande mesa e uma lareira que deveríamos acender com a lenha seca disponível.

 

Para espanto dos refugieros e de Iain (escocês) e Hélène (francesa), o casal que encontrei no mirador de Rachel, entrei no arroyo Teno de calção e dei um rápido mergulho, ao invés de optar pela ducha quente. Preferi economizar no banho para consumir na cerveja artesanal do refúgio (AR$ 30). A água tava gelada. Lógico, descia de um glaciar.

 

O refúgio tinha do lado de fora uma casinha de brinquedo feito de madeira, para crianças. O permissionário do refúgio tinha filhos de 3 e 7 anos. O de 7 já subia a pé até o refúgio. O de 3 era levado numa mochila baby-carrier. Mas as crianças não estavam lá.

 

Acabei ficando amigo do casal e conversamos bastante enquanto fazíamos fogo e preparávamos a janta. Já estavam percorrendo a Patagônia a algum tempo e demos risadas quando comentamos certos trechos difíceis de trilhas em Ushuaia que ambos já havíamos feito (eles mais recentemente). E trocamos ideias sobre trekkings que um ou outro ainda não fez. Sugeri a eles a Travessia do Villarica. Eles, por sua vez, falaram muito bem do Cerro Castillo (Chile).

 

Estávamos bem acomodados quando houve uma invasão israelita. Um turma de 10 ou 12 jovens chegou e iria dormir no 2º piso de onde estávamos. Se sentaram e ocuparam todo o redor da lareira que acabáramos de acender.

 

Decidimos ir para o refúgio para deixá-los mais a vontade e ficamos conversando com os refugieros, muito simpáticos. Luz da lareira e de velas, música de alta qualidade (Astor Piazzola, jazz,...) com cerveja artesanal. Dia seguinte iria para Cajón del Azul. Antes porém subiria para o Glaciar Barda Negra, side trip de 1:30 hrs do refúgio com o Iain e Hélène.

 

03/03/2012

 

Deixamos as mochilas já prontas no refúgio e partimos os três para o Glaciar. Sem dificuldades, apenas um pouco cansativo, com trechos de terra e pedras soltas. Para subir é chato, para descer, divertido. Alcançamos a morena frontal após uma hora e pouco e avistamos a laguna glaciar do outro lado, embaixo, e baixamos mais 10 minutos para atingir sua margem, onde tiramos mais fotos. O vento sempre presente, daí o nome ventisqueiro para estes glaciares.

 

Ao regressar comemos uns sanduíches e saímos quase as 12 horas do refúgio, para Cajón del Azul. Baixamos para a margem do arroyo Teno, o cruzamos num tronco e, logo, uma subida bem íngreme. Cerca de 45' depois estávamos no refúgio Natación, a 1.450 m. Casinha bem simples. O grupo de israelenses, que havia partido na frente, estava lá, comendo e cantando ao redor da mesa, muito unido, numa cerimônia religiosa.

 

O refúgio fica ao lado do lago Natación. Soube pelo refugiero que tem este nome porque no verão o pessoal consegue nadar nele!

 

Visitamos o anfiteatro, a 5 minutos de caminhada, donde se sobe para o pico da montanha Hielo Azul. Iain e Hélène planejavam subir, mas o tempo, nublado e ventoso, alteraram o plano deles. Iriam comigo para Cajón del Azul.

 

Voltamos um pouco atrás, pois o desvio para Cajón del Azul é um pouco antes do refúgio. De lá seguimos por um platô. A nossa esquerda excelentes locais para acampar (infelizmente não permitido): gramados em meio a um bosque de lengas baixas.

 

A descida, suave até então, começa a ficar acentuada, até que chegamos na beirada do vale, onde ela fica íngreme, forçando bem os joelhos. Observei um teto de placas de zinco que brilhava refletindo o sol, lá embaixo no vale, direção Oeste. Seria o refúgio ou uma casa de fazenda? Na verdade era ambos, saberia depois.

 

A descida foi demorada, cerca de uma hora. Grande desnível. Lá embaixo chegamos numa estrada de terra e placas indicando a direção e seguimos vale acima. O caminho margeia a margem direita verdadeira do rio Azul. Num trecho subimos numa pedra com vista bonita para o rio Azul (na verdade o rio deveria ser chamado de Azul Turquesa). Podíamos ver o fundo a 3-4 metros de profundidade, a água cristalina permitia ver as trutas nadando! Elas nadando contra a corrente ficavam paradas, como se estivessem esperando algo. Um pescador de mosca saberia exatamente onde jogar a linha. Iain ficou olhando as trutas com cobiça, pois tinha uma vara desmontável na mochila mas não tinha o permiso de pesca.

 

Quando começamos a entrar no canion, escadas de madeira ajudavam a avançar em alguns trechos. E placas colocadas pelos refugieros diziam “Falta poco”, para estimular os caminhantes. Logo antes do refúgio cruzamos o rio num lugar espetacular. Uma curta ponte de madeira, de 3 metros de extensão, ligando as paredes rochosas, no ponto onde o canion é mais estreito. O rio passa afunilado 40 metros abaixo.

 

Tiramos fotos e mais fotos. Seguimos e chegamos numa porteira e depois um bonito pasto e árvores frutíferas. Uma ameixeira e uma cerejeira carregadas. Com ajuda do bastão de trekking derrubamos ameixas e cerejas e nos fartamos. Bom comer frutas frescas depois de dias só na base de alimentos desidratados e cozidos.

 

Seguimos para o refúgio. Na entrada um canteiro de lavandas. O simpático proprietário nos recebeu como manda a tradição: com chá ou mate, oferta da casa. Pedi um mate que sorvi com vontade através da bombilla até acabar a água da garrafa térmica (tô virando gaúcho!). Iain e Hélène me observavam com curiosidade.

 

O refúgio/camping é também uma fazenda de criação de ovelhas com horta. Muito caprichada.

 

Depois montamos as barracas num gramado, um dos campings mais bonitos onde já acampei. Um abrigo com teto de zinco. Era aquele teto que avistamos ao iniciar a descida. Tinha uma mesa grande e uma lareira (um tonel cortado e invertido). Cozinhamos ali. Buscamos musgo, gravetos e lenha na floresta para acender o fogo. Uma chuvinha volta e meia caia. Mas estávamos bem abrigados. Compramos cervejas artesanais e ficamos conversando e lendo ao lado da lareira.

 

Aqui os refúgios preferem fazer a própria cerveja, pois trazer os vasilhames cheios da cidade, vale abaixo, é muito mais trabalhoso. Neste caso eles só precisam trazer extrato de malte e lúpulo. Água de excelente qualidade eles tem de sobra. As garrafas de vidro são reutilizáveis, após lavadas. Fiquei impressionado com a simplicidade do equipamento para fazer a cerveja. E que cerveja... A partir daí já chegávamos nos refúgios dizendo que éramos de uma comissão julgadora que deveria escolher a melhor cerveja dentre os refúgios de El Bolsón!

 

Eu estou lendo “Sete anos no Tibet” de Heinrich Harrer. Já havia visto o filme, mas o livro é muito bom ler quando você gosta do filme. O melhor lugar para lê-lo são as montanhas! E é uma história verdadeira. Infelizmente também verdadeiro o final do livro.

 

04/03/2012

 

No dia seguinte prosseguimos para o Refúgio Los Laguitos, mais para o fundo do vale, a Noroeste. Saímos tarde porque Iain e Hélène queriam descansar um pouco mais.

 

Cortei um pouco de lavanda para botar no meio dos sacos das roupas e das meias, para cheirar melhor. Sempre que podia lavava as meias, cuecas, calça e camisa. Nem que fosse apenas deixar algum tempo na água, sem sabão.

 

Partimos. Cerca de 45' depois uma bifurcação para o refúgio El Retamal, que dizem ser também bonito. Tomamos o caminho da direita, rumo a Los Laguitos. Tínhamos a opção de ir por uma estrada ou por uma trilha paralela. Escolhíamos um ou outro, dependendo donde havia menos lama. As vezes ficava difícil de decidir – tava sobrando lama!

 

Em certo ponto o vale se divide em dois. Tomamos o vale da direita, por onde segue a trilha. Passamos por algumas porteiras. Embora seja área protegida, as terras são privadas. Havia algum gado, mas pouco.

 

Começou a chover mais grosso no final da tarde. Botei o abrigo de Goretex. Mas não coloquei a 2ª camada e no final da jornada já estava com frio pois a pele estava molhada e fria. Não sei se o molhado era suor ou água que penetrou no casaco. O correto teria sido vestir a camada quente (um agasalho de Polartec).

 

Chegamos debaixo de chuva pesada, após cerca de 6 a 7 horas caminhando. O refugiero deu-nos a boa-vinda do lado de fora apertando as mãos. Fiquei desanimado para armar a barraca na chuva, imaginando como seria fria a noite. Decidi pagar os AR$ 60 para dormir no refúgio. Tô ficando mole. Em outros tempos teria me recusado a ficar no refúgio, para criar endurance. Mas como é confortável dormir no quentinho de um colchão, mesmo que largado no chão (sem cama)!

 

Bebemos cerveja e cozinhamos. Conheci um casal simpático de montanhistas argentinos, o Diego e a Carina. No dia seguinte iriam para Encanto Blanco, no outro vale, ao Norte. Resolvi ir com eles pois ainda tinha tempo antes de ir para Bariloche.

 

05/03/2012

 

Partimos por volta de 08 horas. A caminhada seria longa. Baixamos juntos o vale eu, Diogo, Carina, Iain e Hélène. No caminho, o mesmo do dia anterior, mas em direção oposta, passamos ao lado de alerces milenários. Tirei fotos. Eles se distinguem dos demais pela grande altura e espessura de seu troco. A cortiça é macia, dá para furar com a ponta do bastão de trekking e a cor, muitas vezes, é avermelhada. Alguns necessitariam de 5 pessoas para abraçar o tronco. Sabe-se que são milenários, pois só crescem 1 milimetro por ano!

 

Descemos até que saímos numa área a céu aberto, sem árvores. Pouco depois a bifurcação na trilha que iria para Encanto Blanco. Paramos para almoçar uns sandubas. Ali me despedi de Iain e Hélene, grandes companheiros de trekking. Eles baixariam para pernoitar no refúgio El Retamal ou no Cajón Azul.

 

A subida prometia. Trilha bem mais estreita, escorregadia e íngreme. Era necessário as vezes o uso das mãos. Me antecipei e guardei os bastões presos à mochila. O Diogo tinha um ritmo interessante: era lento, mais ao mesmo tempo firme e eu não me cansava seguindo-o. Ele me perguntava se não queria ir na frente, mas sempre que o fazia, eu adiantava bem porém, em determinado momento, estava esbaforido. Assim resolvi ir atrás deles, no ritmo deles. Incrível, mesmo com o abrigo de Goretex (usava devido a vegetação muito molhada) eu não suei. Estava num ritmo que o tecido respirável dava conta do recado. O Goretex não aguenta uma grande transpiração.

 

No caminho uma pinguela com cabos para se segurar, num paredão. Nada do outro mundo. Uns 6 a 8 metros de travessia, e uma queda de 10 metros ou menos. O livro que li em Cajón del Azul alertava que esta trilha só deveria ser feita por baqueanos ou montanhistas experientes devido a esta passarela. Será que era esta ou mudaram o traçado da trilha? Achei fácil atravessá-la ou então estou perdendo o medo de altura.

 

Chegamos ao topo para descansar e fazer um lanche. Subi num pequeno mirante e tirei fotos. Começamos a descida. Muita lama e cruze de pequenos riachos. Finalmente o vale lateral sai num vale maior, o Encanto Blanco. E tome descida, agora mais suave, por bosques de coihue e ñirres. Havia também o retamal, usado por muitos como cerca de casa, em Bariloche.

 

Depois de umas 6 horas caminhando, uma placa avisando que faltavam mais duas horas. Sentamos num tronco, desanimados, para lanchar. Comi batom, pirulito e jujubas que carregava das festas de aniversário que meu filho frequentou. Carina deu risada quando expliquei a origem daqueles doces de criança.

 

Finalmente chegamos na beira do rio Blanco. Na maioria do trajeto costeamos as encostas, provavelmente para evitar brejos. Com mais um pouco chegamos numa casa pequena de madeira. Lá estavam Julieta e Nacho, o casal de refugieiros e nos receberam com um bom mate.

 

Escolhi um lugar bem abrigado para a tenda, na beirada de um bosque, para ficar protegido dos ventos. O banho quente custava apenas 7 pesos. Fizemos a janta no refúgio. O pessoal provou e aprovou minha sopinha de missoshiro. Depois a massa. Eles, Carina e Diogo, fizeram um interessante arroz de paella, da Knor. Como jurado, claro que também tinha de experimentar a cerveja do último refúgio em El Bolsón, antes de partir para Bariloche.

 

Ouvi e participei da conversa dos dois casais argentinos. Julieta e Nacho procuram viver uma vida alternativa, com os recursos do refúgio ou da venda de livros de poesia e diários de viagem em El Bolsón. Bem bicho grilo. Mas como o refúgio é pouco conhecido, eles as vezes passavam dificuldade$. Gostam de viajar. Passearam duas semanas pelo interior de Cuba, viajando de bicicleta. Os cubanos não acreditavam que duas pessoas pudessem viajar independentemente dos tours oficiais pelo interior da ilha de Fidel. E conhecem boa parte da América Latina espanhola. O dono das terras permitiu que explorassem o refúgio Encanto Blanco gratuitamente (não arrendou). Melhor que deixá-lo abandonado.

 

Julieta foi para fora tocar violão, cantando para uma lua cheia esplendorosa. Céu sem nuvens e o maior frio que senti em toda a viagem. Devia estar algo em torno de 0° C.

 

Me despedi de todos e fui para a barraca onde tive de botar toda a roupa que tinha. Mesmo assim senti um pouco da friaca.

 

06/03/2012

Dia seguinte, a despedida. Diogo e Carina ficariam mais um dia no Encanto Blanco. Fotos e troca de e-mails. Os refugieiros Nacho e Julieta foram os mais simpáticos de toda a jornada.

 

Desci correndo pois tinha acordado tarde e por rádio eles souberam que provavelmente não haveria o ônibus de 14:30, porque era um ônibus escolar e havia uma greve de professores. Teria que alcançar o ônibus de 12:50. Saí correndo as 10:50. Nacho me disse que em duas horas dava para baixar, se fosse correndo.

 

Apesar do cenário maravilhoso não pude ir num ritmo que permitisse contemplar a paisagem. Eu corria sempre que a trilha era boa. Só me dei ao luxo de parar para fotografar a ponte pênsil sobre o rio Blanco.

 

Cheguei na sede da fazenda da família Tijera, onde a estrada passa em frente e é ponto final do ônibus. Quando já estava perto da porteira ouvi o ronco do busão. No que ele chegou foi logo dando meia-volta. Só foi o tempo de embarcar e ele partiu. Se tivesse chegado um minuto depois já era! Possivelmente outro só no dia seguinte! Que sorte!

 

Mais adiante o ônibus parou em outro ponto, onde espera quem desce do refúgio Cajón del Azul, El Retamal e Los Laguitos (vale do Cajón del Azul). Iain e Hélène estavam lá e foi aquela alegria no reencontro. Eles acabaram ficando de novo no refúgio Cajón del Azul, preferindo-o, ao invés do El Retamal enquanto eu pernoitei no Encanto Blanco. Também alcançaram o ônibus por pouco. Um trekker que estava com eles, muito cansado, ficou para atrás porque precisava descansar um pouco e perdeu o busão.

 

Disse que ao chegar no refúgio Cajón del Azul ontem, novamente catou mais frutas com o bastão. O dono viu e ficou aborrecido!

 

Com 40' chegamos em El Bolsón onde me despedi dos amigos (ficariam num camping da cidade) e fui para a parada de ônibus (não tem rodoviária) para ir para Bariloche, última etapa da jornada.

 

El Bolsón foi uma agradável surpresa. Não esperava tanta beleza. A comparação com o Shangri-la é inevitável. Um paraíso no meio das montanhas, com muita gente boa e simples, sem aquelas ambições idiotas e desejos fúteis que observamos nas cidades grandes.

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Peter, que relato fantástico!!! eu sempre viajo junto, fico visualizando as cenas... (coverdia o batom e jujubas!!!rsrsrsr) a descrição de um cenário lindo!! roubei a foto da ponte, tá? rsrs

Maravilha, parabéns!

 

Abraços! ::otemo::

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Que bom Frida!

 

O lugar é muito lindo. Tem uma atmosfera especial.

 

Depois me diz como foi a travessia da ilha de Tinharé, fiquei curioso.

 

Abraços, peter

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Em tempo Frida:

 

Acho que Batom, pirulito, jujuba e Tang são essenciais na trilha. Caminhar muito dá uma larica danada!!!

 

Abs, peter

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Peter,

 

Pelo visto, o caminho para a paradisíaca Shangri-la não é nada fácil! Especialmente passando por aquela fantástica ponte pênsil!

 

Se Theo souber que roubou os doces! ::mmm:

 

Uma dúvida, todas essas opções que você explorou, estão descritas no guia da Lonely Planet?

 

Percebi a grande sorte que teve, nos dias em que passou pela Patagônia e arredores. Pegou dias ótimos para trekking!

 

Abraços,

Edver

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Edver:

 

É incrível mas o Theo não gosta de doces! Assim pego a cota que ele não comeu nas festinhas!

 

O Lonely Planet só descreve o roteiro para Hielo Azul e Cajón del Azul, e menciona Laguitos. Mas sequer menciona Encanto Blanco.

 

Em todo caso as trilhas não são dificeis de seguir. Perto do refúgio Los Laguitos há várias trilhas de gado paralelas mas todas vão na mesma direção.

 

Tive muita sorte com o tempo, exceto pela chuva no dia de ir para Laguitos. Me descuidei um pouco e cheguei "frio" no refúgio.

 

Abs, peter

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Peter tofte, Obrigada por compartilhar o seu relato! Muito legal!

 

Seguem alguns mapas de El Bolsón que peguei no centro de informação turística:

 

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598dcd5633015_Mapa-ElBolson-Cidade.JPG.6a7e28a56ebc57dad61ec5f9cf9aacaf.JPG

 

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Valeu!

 

Eu também passei no Centro de Informações Turísticas. São muito prestativos.

 

El Bolsón é relativamente desconhecida e não está longe de Bariloche.

 

É um lugar muito bonito. Tem muitas opções de trilhas. Algumas vão até o Chile. A rede de refúgios é ótima. A cerveja artesanal é feita com um dos melhores lúpulos do mundo, plantado localmente.

 

Seus mapas podem ajudar na escolha da trilha.

 

Abraços, peter

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    • Por spriesly
      Oi gente! Como o Mochileiros me ajudou muito nesses últimos anos a planejar as minhas viagens, resolvi relatar a minha mais recente aventura pros lados argentinos e chilenos. É a minha segunda vez nesses 2 incríveis países e vou começar com algumas informações básicas.
      Roteiro
      28/jan - Curitiba - Buenos Aires
      29/jan - Buenos Aires
      30/jan - Buenos Aires
      31/jan - Buenos Aires
      01/fev - Buenos Aires
      02/fev - Buenos Aires
      03/fev - Buenos Aires - Bariloche
      04/fev - Bariloche
      05/fev - Bariloche
      06/fev - Bariloche - San Martin de los Andes e Villa la Angostura
      07/fev - Bariloche - El Bolsón
      08/fev - Bariloche - Puerto Varas
      09/fev - Puerto Varas
      10/fev - Puerto Varas
      11/fev - Puerto Varas
      12/fev - Puerto Varas - Bariloche
      13/fev - Bariloche - Buenos Aires
      14/fev - Buenos Aires - Curitiba
      Comprei os trechos Curitiba - Buenos, Buenos - Bariloche, Bariloche - Buenos e Buenos - Cwb por 2 mil reais na Aerolíneas Argentinas. Tinha passagem mais barata mas com muitas horas de conexão, perrengue que não tô mais disposta a pagar. Não compensava também ir pra São Paulo pegar o vôo, a diferença era mínima e não pagava a passagem à parte pra SP.  Outra coisa: fiquei acompanhando por meses os preços mas ficaram bons em novembro, quando finalmente comprei.
      Como já conhecia Buenos Aires e parte da Patagônia, tentei fazer outras coisas nessa viagem, ainda mais que estava levando a minha mãe junto. Ela não conhecia nada e adaptei o roteiro pra que ela não tivesse desconforto, por isso optei por alguns passeios com tour na região dos lagos. Mas mesmo assim andávamos uma média de 10km por dia em Buenos e usamos metrô e ônibus. Ainda tenho que voltar pra região dos lagos pra fazer trekking, com certeza!
      Custos de Transporte
      Aéreos: R$2 mil cada
      Trecho Bariloche - Puerto Varas: R$109 (comprei um melhor assento na ida, valeu a pena!)
      Trecho Puerto Varas - Bariloche: R$83
      Uber Ezeiza - Recoleta: ARS533,35
      Uber Ezeiza - Palermo: ARS673
      Uber Palermo - Aeroparque: ARS300 (estava na tarifa dinâmica)
      Uber Recoleta - Aeroparque: ARS138
      Taxi Aeroporto - Airbnb em Bariloche: ARS500
      Remis Hotel Bariloche - Aeroporto: ARS400
      Táxi Airbnb Bariloche - Rodoviária: ARS170
      Táxi Rodoviária Bariloche - Hotel: ARS160
      Hospedagem
      Airbnb BA: R$1130,89
      Airbnb Bariloche: R$1443,06
      Hotel Bariloche: R$320
      Hostel Puerto Varas: R$940
      Hotel BA: R$190
       
      Utilizei os sites do Booking e Airbnb pra reservar acomodações e Skyscanner e Busbud para as passagens aéreas e rodoviárias. A empresa com que viajei para Puerto Varas foi a Andesmar.
      Felizmente peguei cotações de câmbio boas: na Argentina o real estava valendo 9,80 e no Chile 187. Em Buenos Aires troquei reais no próprio Banco de la Nacion no Aeroporto Ezeiza, pegando uma fila de mais de meia hora, e em Puerto Varas troquei na esquina da Calle San Francisco, uma das ruas principais da cidade. O câmbio no Chile estava me preocupando pois pela internet todas as as casas fechavam às 18h e meu ônibus chegava às 17:40, porém chegando lá tive a boa surpresa de que no verão as casas de câmbio ficam abertas todos os dias e em dias de semana fecham às 20h! 😍
      Pra escolher os lugares da viagem escolhi o critério de preço, localização e comodidade. Em Buenos Aires optei pela Recoleta porque tem vida à noite, é próximo de tudo e fazíamos praticamente tudo à pé. Estávamos atrás do Mall Recoleta e do Cemitério, e a 4 quadras da estação de metrô Las Heras, da linha amarela, além de ônibus que passavam na avenida principal próxima.
      O que ficou caro mesmo foi Bariloche e foi difícil escolher lugar tanto na ida quanto na volta. O Airbnb era bem compacto e o único defeito foi o calor (só tinha ventilador que não vencia) e fez muito calor na cidade pra ajudar. Porém a vista do lugar foi incrível - estava ao lado do lago Nahuel Huapi. Um problema de pegar hotel foi que os mais centrais tinham muitas avaliações negativas e continuavam caras; e os lugares mais em conta eram mais afastados. Como não alugamos carro, a opção foi pegar um airbnb mesmo. Na volta, decidimos pegar o hotel - que ficou atrás da rua do airbnb, bem central - para não ter incômodo em relação às malas. O nosso horário de volta para Buenos era apenas às 18h e precisávamos de um espaço guardar as bagagens sem nos preocuparmos se a pessoa estaria disponível ou não.
      Já em Puerto Varas, no Chile, pegamos um hostel com quarto privativo e banheiro (única exigência da minha mãe para ficar em hostel haha) e foi uma das acomodações mais baratas da região. A cidade é muito cara e tem pouquíssimos Airbnbs. 
      Na volta em Buenos Aires o critério foi proximidade com o Aeroparque e preço - e valeu muito a pena!
      Todas as acomodações não tinham café da manhã, com exceção do hotel em Bariloche. Porém os Airbnbs de BA e Bariloche, além do Hostel em Puerto Varas tinham cozinha, amenidades tipo café, açúcar, chaleira elétrica para água, cafeteira, etc que ajudou. O hotel de BA não tinha cozinha mas tinha a chaleira e saquinhos de chá, café e snacks com manteiga e geléias para um café rápido. Pra complementar, a gente comprava medialunas, empanadas e até pêssegos que estavam baratos (em Buenos Aires só ;p) e assim economizavámos no café da manhã.
      Estou de férias ainda e quero terminar esse relato até o final de fevereiro/março. Até a próxima postagem!
    • Por andejovadio
      Olá a todos.
       
      Este relato é a descrição de um trekking que fiz nas montanhas pertencentes à Cordilheira dos Andes, nos limites da cidade de El Bolson, na Patagônia Argentina. É bastante longo, mas tenham certeza de que ocultei vários detalhes importantes e para mim inesquecíveis para tentar deixar este relato um pouco mais conciso. Também está editado de um modo diferente, com fotos e vídeos que exemplificam a história. Sugiro que leiam com tempo.
       
      Vejam este relato com fotos e outros relatos de meus primeiros 17 meses de viagem em:
       
      O Andejo Vadio - http://andejovadio.blogspot.com/
       
      Um Abraço,
       
      Andejo.
       
      ***
       
      Terça-Feira. Trajeto decidido. Clube de Montanha avisado. Previsão do tempo: Céu azul até sábado. Mochila pronta, deixarei mais da metade de minhas coisas no camping, impossível subir com toda a mochila. Enfim meu primeiro verdadeiro trekking. A partir de amanhã passarei 3 dias nas montanhas de El Bolson, caminhando sozinho pela Cordilheira dos Andes. Pego os mapas e estudo um pouco melhor o caminho antes de ir dormir. Deixo tudo bem empacotado e torço para que estejam da mesma forma quando eu voltar. Tudo pronto, acho que já posso ir dormir, novamente em cima da mesa, com meu saco de dormir. Desejo boa noite ao céu estrelado.
       
      Acordo com um barulhinho gostoso. O que pode ser? Chuva, que droga. São 4 da manhã, ainda está escuro, então volto a dormir. Agora são 8 horas da manhã, segue noite, segue chovendo. Por isso acordava todos os dias tão tarde no hostel em Bariloche, aqui o dia não amanhece antes das oito, ainda bem que já passei da minha época de escola. Planos cancelados. Não vou subir por trilhas desconhecidas com chuva e frio, muito frio. Vou esperar até meio dia, horário limite para começar a subida de 6 horas até o refúgio Hielo Azul. Nada feito, a chuva continua. Deixo pra amanhã ou cancelo a subida?Caramba, seis da tarde e o céu começa a limpar. Sim ou não? Sim, e agora.
       
      Agarrei minha mochila e comecei a andar, vou acampar ao pé da trilha para poupar tempo amanhã, quero começar a subir antes de amanhecer. Caminhei e caminhei, ruas de terra e subidas implacáveis e as primeiras paisagens começaram a aparecer, como a árvore amarela que se destaca sobre o rosa das nuvens iluminadas pelo sol ao entardecer ou leito do rio Azul visto pela primeira vez em todo seu explendor.
       
      Noite. Sigo caminhando sem nenhuma visibilidade. Noite sem lua, a lanterna é necessária. Enfim chego ao camping que buscava, sabia que estava fechado, mas tinha esperança de poder cruzar por dentro dele para não me perder no bosque durante a noite, e recebi um belo não como resposta. Após pedir, argumentar e quase implorar, achei o argumento correto, 12 pesos. Depois de oferecer propina ao responsável pelo camping ele me deixou cruzá-lo, dando-me instruções claras para não dormir dentro da propriedade já que era proibido. Mas eu paguei, não? Com uma névoa bastante fechada, que refletia a luz da lanterna e não me deixava ver a mais de 3 metros, decidi acampar essa noite abaixo do telhado do prédio da administração. Cozinhei um delicioso arroz com atum e me preparei para dormir. O trekking já começou.
       
      Novamente oito da manhã, novamente escuro. Preocupo-me, afinal não vejo as estrelas. Frio cortante, minhas mão doem, muito. Tenho até certa dificuldade de desarmar a barraca por isso. Quando termino tudo, o dia amanhece e descubro que minha preocupação procedia, o dia estava completamente nublado. Entretanto havia caminhado duas horas e meia até ali e não estava disposto a voltar atrás. Caminhei por uma trilha rápida até uma ponte que tentava me convencer a não seguir a diante, não conseguiu, às oito e meia da manhã comecei a trilha.
       
      Lembro-me do meu “primeiro” dia de viagem, quando subi o Monte Olimpo, no parque Marumbi. Parece que a subida será semelhante. Poucos passos depois percebi que por mais que não estivesse chovendo, a trilha estava muito molhada e escorregadia. Quebrei um galho para usar como bastão de caminhada. Desliguei o celular para economizar bateria e segui caminhando e depois de uma curta, mas difícil, subida cheguei a uma parte plana e aí sentei para guardar todo o equipamento de frio que tinha tirado depois de aquecer o corpo - que alívio por minhas mãos não estarem mais congelando. Infelizmente a parte plana não durou muito e comecei novamente a subir, dessa vez por mais tempo, mas com uma inclinação menor. Caminhei por muito tempo e tive uma incrível surpresa quando comecei a ver o céu. Eu estava dentro das nuvens. Subi um pouco mais e quando já tinha ultrapassado as nuvens e tinha somente um céu azul sobre mim, parei para comer, feliz de não ter desistido quando vi o tempo fechado. Devo estar próximo do destino. Quando ligo o celular, a surpresa: apenas duas horas. Então, de acordo o cara do clube de montanha, ainda tenho quatro horas de caminhada pela frente, que desanimo!
       
      Sigo subindo e logo encontro outra surpresa, a água empoçada no chão estava congelada, melhor eu não molhar os pés! Encontro um riacho e lavo o rosto e a água estupidamente fria que fazia seu caminho morro abaixo e isso renovou meu espírito e contente segui morro acima até encontrar o Mallín de Palos. Nada mais era que um riacho pantanoso com cerca de 20 centímetros de profundidade, entre barro e água, que eu teria que atravessar para continuar. O fato é que a água estava congelada e o caminho a seguir era caminhando por troncos cobertos de gelo e extremamente escorregadios. Apoiando-me em meus bastões de caminhada segui cuidadosamente e feliz encontrei uma placa avisando que o refúgio estava a 2 horas e meia dali, ou seja, na realidade me faltava muito menos que as 4 horas que estava imaginando!
       
      A paisagem já estava mudando e o denso bosque dava lugar a uma floresta de árvores grossas e altas. Riachos em grande quantidade exigiam que eu saltasse todo o tempo por pedras para não molhar os pés, o que seria muito incômodo levando em consideração a temperatura da água e do dia. O caminho estava relativamente bem sinalizado até chegar a três grandes árvores caídas onde nenhum caminho era aparente, e para ajudar não via a sinalização que deveria estar ali em algum lugar. Após muito procurar, encontrei a continuidade da trilha, e após segui-la por mais alguns minutos, novamente a paisagem começou mudar. Um bosque congelado de árvores sem folhas estava ao outro lado do pequeno riacho e ao caminhar por pouco tempo com esse bosque à minha direita, visualizei a atrativa casa de madeira que soltava fumaça pela chaminé. Cheguei ao refúgio Hielo Azul após 4 horas e 20 minutos e com um dia lindo e ensolarado preparei meu primeiro almoço a montanha e comi um delicioso arroz com atum (sim, de novo).
       
      Conversei com Luciano, o Refugiero, e me explicou que eu teria uma caminhada de 3 horas, ida e volta, até o pequeno glaciarHielo Azul, que fica a 1700 metros de altitude, 400 a mais que o refúgio de mesmo nome, e sem demorar, continuei a caminhar. Subida muito difícil, ao menos para mim. O chão era composto somente por pedras soltas, ora grandes, ora quase como terra, transformando o terreno em armadilhas naturais que tentam te fazer escorregar e torcer o tornozelo, sem contar a inclinação que me fazia sentir a sensação que não poderia subir sem escorregar até lá embaixo novamente.
       
      E, finalmente, neve. Meu primeiro contato com o desconhecido estado da água foi primeiro com pequenas porções que conforme eu subia aumentavam gradativamente até que afundava meu pé até quase a altura do joelho. A inexperiência com a neve me fez escolher caminhos bastante difíceis para desviá-la que me levaram a perigosas rochas cobertas de gelo que tive que escalar para chegar ao glaciar, mas a primeira visão valeu a pena. O lago de um azul esverdeado formado pelo glaciar de gelo azul formava uma piscina perfeitamente localizada dentro de um poço na montanha nevada.
       
      Não pude escapar, para chegar à margem tive que passar por grandes trechos de neve, e o medo do desconhecido passou rapidamente a fascínio e desci esquiando com minhas botas pela neve endurecida. Depois de novamente lavar o rosto com a água congelante subi correndo,temendo que inesperadamente meu pé afundasse vários centímetros e acabasse me machucando, mas felizmente isso não aconteceu. Agora, como um expert em neve, desci escorregando por todo o caminho, o que facilitou, e muito, minha volta ao refúgio.
       
      Acampar, 15 pesos, sem direito a banho, ou usar o aconchegante refúgio. Dormir em uma cama no refúgio com direito a banho quente e desfrutar de todas as comodidades que isso incluía – usar a cozinha e a parte interna do refúgio constantemente aquecida – 50 pesos. A diferença não era muita e com muita dor no coração escolhi... Acampar. Estou em constante contenção de despesas, especialmente depois do tanto que gastei em Bariloche! Negociei e consegui dormir no quincho por 20 pesos – não sei uma palavra equivalente em português, mas seria o equivalente a churrasqueira, ou uma área externa coberta destinada ao lazer. Neste caso, área coberta e fechada. Tentei sem sucesso acender a lareira, as madeiras que encontrei estavam completamente molhadas, e sem algo pra começar um fogo que fosse suficiente para secá-las, tive que torcer para que todas minhas roupas somadas ao saco de dormir fossem suficientes para passar a noite.
       
      Foram, e no outro dia continuei a trilha que terminaria em outro refúgio chamado Cajón Azul. Passei novamente pelo bosque de árvores secas congeladas e logo de cara encontrei um obstáculo digno de ser comentado: uma ponte congelada sobre um rio profundo o suficiente para não poder atravessá-lo. Essa ponte nada mais era que um tronco com um corrimão feito de troncos finos, seguido de dois pedaços de madeira sem corrimão algum. Temeroso, provei o tronco para ver quão escorregadio estava e verifiquei que seria difícil ficar de pé nele. Subi e desci pela margem do rio buscando algum outro ponto de travessia e descobri que as poucas pedras que permitiriam a travessia estavam também congeladas e ainda mais perigosas que o tronco. Sem escolha para seguir segurei firme com as mãos sem luvas o corrimão coberto de gelo e vagarosamente cruzei o rio. Ainda na metade do tronco minhas mãos doíam com o frio, mas em nenhum instante me atrevi a soltar minha única esperança de permanecer em pé.
       
      Superado outro desafio, seguiu-se uma trilha bastante íngreme e escorregadia, entretanto curta e rápida que me levou a um refúgio intermediário chamado Natación. Essa trilha, por mais que curta, esconde lindas paisagens como bosques, lagos e campos verdejantes que pareciam tão cuidados quanto campos de futebol. Entretanto nenhuma dessas paisagens é comparável à do refúgio às margens do lago de mesmo nome e foi aí que tive o prazer de cozinhar meu simples almoço.Inesquecível, assim como indescritível.
       
      Não havia alcançado ainda meu objetivo nesse dia e depois de desfrutar macarrão com sopa “Quick”, segui o mapa que descrevia o próximo trecho como “Bajada Pronunciada”. Nunca senti tanto medo em minha vida. O caminho não era tão bem sinalizado quanto antes, e a todo o momento tinha a impressão de estar perdido. A trilha cada vez mais fechada e com espinhos raspava meus braços, pernas e mochila até que cheguei até a parte mais difícil. O caminho era estreito, muito íngreme e escorregadio – o degelo da montanha transformou a trilha em um pequeno riacho. Grandes pedras cobertas de gelo e água que descia montanha a baixo tinham que ser escaladas e o fato de estar sozinho com uma mochila de aproximadamente 15 quilos complicava ainda mais a situação. Por diversos momentos rezei ao acaso para que a trilha não se complicasse ainda mais, porque não sabia se seria capaz de voltar pelo mesmo, e único, caminho. Por outros, duvidava que estivesse no caminho certo não acreditando na dificuldade deste trecho. Para ajudar, torci levemente o joelho direito e a dor que incomodava, dificultava ainda mais as coisas. Devagar e seriamente temendo por minha vida – um escorregão poderia ser fatal visto que seria uma queda bastante grande, e caso não fosse, dificilmente seria encontrado, visto que estava só e ninguém saberia a localização exata de meu desaparecimento –superei esse trecho agarrado à baixa e densa vegetação dessa parte das montanhas, muitas vezes compostas por plantas cheias de espinhos. Aliviado e cheio de adrenalina, logo após completar esse trecho e o caminho voltar a ser um pouco mais simples, sentei-me por cerca de quinze minutos esperando o coração voltar a bater em seu ritmo natural. A razão e a emoção brigavam entre si com uma mistura de incredulidade e felicidade por haver realizado tal façanha, que pode ser ridiculamente fácil para alguns, e pensava até que ponto nós corremos riscos em busca de superar nossos limites.
       
      Acreditando que havia sido demasiado lento apertei o passo no resto da caminhada até Cajón Azul. Cansado, em certo momento me desequilibrei com o peso da mochila e tive que me jogar no chão para não cair de outro lugar com desnível considerável. Mas, para minha surpresa fiz o caminho em 2 horas e 20 minutos, tempo menor que o previsto que variava entre 3 e 4 horas, em que passei por lindas paisagens, entre elas as águas claras do rio Azul.
       
      Esse refúgio era impressionante e tinha uma estrutura bastante completa. Seu dono vivia ali com a família há 30 anos e com muito trabalho construiu uma fazenda no meio das montanhas, completamente isolado da civilização. Fui muito bem recebido, entretanto decidi novamente dormir no quincho para economizar mais alguns pesos – o problema era que esse era aberto. Felizmente dessa vez fui capaz de fazer fogo que durou toda a noite e me aqueceu de forma intensa e contínua. Nesse lugar creio que tive a mais linda visão do céu. A noite escura e sem lua, sem uma nuvem ou neblina somada à falta de luz da fazenda sem eletricidade, fazia com que o céu ficasse congestionado, e quase podia perceber as estrelas se empurrando em busca de espaço. E escutando apenas o crepitar do fogo que me iluminava e me fazia superar a temperatura de aproximadamente 6° negativos, dormi completamente fechado em meu saco de dormir.
       
      O mais difícil já havia passado e meu último dia nas montanhas foi tranquilo. Mesmo sentindo um pouco meu joelho fiz uma curta trilha até o nascimento do Cajón, que era um local onde o plano e raso rio de cerca de 30 metros de largura passava todo por um espaço de um metro e meio e com força esculpiu as rochas formando em seu caminho dois paredões de 40 metros de altura.
       
      Antes de começar o caminho de volta fui presenteado com um pão com linguiça e depois do almoço, comecei a volta a El Bolson. Cantarolava feliz “eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou, pararatibum, pararatibum” e caminhava rápido e despreocupado. As trilhas não eram difíceis e ainda passei em dois refúgios pelo caminho, La Tronconada e La Playita, ambos muito lindos e em perfeita harmonia com a natureza.
       
      Após cruzar mais quatro pontes suspensas, todas em péssimo estado, escorregadias e balançando muito, cheguei a última e longa subida até o povoado de MallínAhogado, a 13 km de El Bolson. Decidi não esperar o ônibus, voltei caminhando torcendo para conseguir uma carona, e assim aconteceu. Uma mulher, com suas duas filhas, me levou em sua caminhonete até a pequena cidade, que sem dúvida ficará marcada para sempre em minhas lembranças, como palco de uma aventura de superação contínua, reflexão, descobertas e interação com a natureza.
       
      Um grande abraço a todos e até o Fim do Mundo.
       
      Andejo.
    • Por Luizz
      Fala galera, acabei criando este tópico para tentar juntar alguma informação sobre a cidade de El Bolsón.
       
      "Diz a lenda que, no final da década de 60, parte do elenco de Hair, o famoso musical que havia sido apresentado em Buenos Aires, mudara-se para El Bolsón. Esse seria um dos principais motivos para a cidade ter se tornado popular entre os adeptos da vida hippie. [..] "
       
       
      Li que existe um glaciar próximo a cidade chamado de Hielo Azul.
      "O circuito de trekking, que começa em El Bolsón, dura cerca de 8 horas até o refúgio Hielo Azul. Quem chega ao lugar, pode caminhar mais duas horas e visitar uma das paisagens mais bonitas da região: o glacial do Hielo Azul. É um lago azul de beleza estonteante, formado pela água do gelo que derrete do cume das montanhas."
      A cidade está a 2h de ônibus de Bariloche e 22h de Buenos Aires, também utilizando o ônibus.
       
      Quem souber de alguma coisa a mais, compartilhe suas informações com o fórum!
       
       
      Abraços a todos!
       



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