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Caminhando entre as nuvens - Refúgio Otto Meiling (Tronador) e Paso de las Nubes


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Refúgio Otto Meilling – Paso de Las Nubes

 

Depois de um dia mais descansado em Pampa Linda, após a travessia Colônia Suiza-Pampa Linda, parti rumo ao refúgio Otto Meilling, um side trip altamente recomendado. O nome do refúgio é uma homenagem a um dos pioneiros do andinismo na região, segundo homem a subir no Tronador (3.478 m) e um dos que tinham mais ascensões nesta montanha. A última ele fez com mais de 70 anos.

 

Logo ao sair dois argentinos chegaram de carro e me perguntaram pelo início da trilha. Após dar a informação segui. Depois de cerca de 40 minutos percorrendo uma estrada de terra cheguei as margens do rio Castaño Overo, onde uma ponte de aço conduzia ao outro lado do rio e lá iniciava a subida por uma estrada em zig-zag. Aproveitei para guardar algo na mochila e os dois argentinos me alcançaram e seguiram na frente. A estrada obviamente era para veículos com tração 4X4. Algumas trilhas fazendo o atalho entre as curvas da estrada estavam fechadas pelos guardaparques para regeneração da trilha (elas provocam erosão). Algumas já tinham inclusive troncos caídos atravessados na trilha, o que impedia o uso do atalho.

 

Confesso que para ganhar tempo não respeitei alguns destes avisos de trilha fechada, pois o longo zig-zag da estrada fazia perder algum tempo. Nisto acabei ultrapassando os argentinos que me viram e gritaram “Así no vale!” Os dois eram muito brincalhões e simpáticos. Acabei me juntando a eles e subimos conversando. Gustavo (de Bariloche) estava guiando Gerardo (de BsAs), amigo e colega de trabalho, para visitar o refúgio. Ambos eram fotógrafos amadores e queriam tirar boas fotos lá em cima.

 

Caminho bonito entre altos coihues. Com pouco tempo de subida via-se uma bifurcação a direita com a placa “Paso de Las Nubes”. Teria de descer para este ponto no dia seguinte. Mais adiante uma bifurcação a esquerda com a indicação “Glaciar Castaño Overo”. A trilha subia a encosta do Tronador pelo vale do rio. Provavelmente este vale foi escavado a 10 mil anos atrás na última era do gelo pelo agora reduzido glaciar Castaño Overo.

 

Depois de cerca de 2 horas chegamos num ponto que marcava o fim das altas lengas e começava a lenga arbustiva. Iríamos agora para um trecho mais exposto aos ventos na crista de um contraforte do Tronador, que ficava entre os vales dos rios Castaño Overo e do Alerce. Fizemos uma pausa para um sanduíche e para colocar os abrigos, pois sem as árvores a chuva fina e o vento fariam um estrago se tivéssemos desabrigados. O dia continuava como ontem, nublado e chuvoso (na maior parte do tempo caia uma llovizna).

 

Seguimos. Havia mais adiante um platô descampado onde os burros de carga chegavam com os suprimentos do refúgio e ali descarregavam. Dali para cima os refugieiros tinham que levar nas mochilas. Haviam locais com excelente vista para o vale e o glaciar Castaño Overo.

 

Mais uma hora estávamos acima da linha das árvores, não tinha sequer arbustos, num mundo de rocha negra. O solo era diferente de tudo que vira antes. Claramente lava petrificada. Pircas e marcas de pintura branca nas pedras indicavam o caminho. Mas em dado momento as nuvens baixaram (ou nós subimos até elas) e a visibilidade caiu para apenas 20 metros adiante. Fiquei com receio de ficar perdido. O Gustavo me tranquilizou. Já estivera ali antes e disse-me que seria fácil chegar no refúgio. De fato volta e meia surgia um clarão nas nuvens e dava para ver o próximo marco. Mesmo que novamente baixasse a cerração já teríamos a direção geral a seguir. Gerardo fechava a fila pois estava sentindo a perna. Eles estavam com a mochila bem menor e mais leve pois dormiriam no refúgio e não levavam tenda e comida para mais 3 dias como era o meu caso.

 

Com aproximadamente uma hora e meia neste terreno lunar, tenebroso e ao mesmo tempo mágico e fascinante surgiu de repente uma construção a nossa frente. Parecia uma igreja com um campanário bem no centro do telhado. Num acometimento religioso quase me ajoelhava e rezava dando graças por ter chegado, pondo fim aquela subida cansativa, fria e molhada.

 

Descobrimos que esta primeira construção não era um refúgio mas apenas um depósito deste. Vislumbramos outra construção fantasmagórica mais acima. Seguimos para lá e vimos que se tratava também de um depósito. Avistamos mais acima outra construção. Desta vez o refúgio. A construção mais velha de todas. As outras pareciam bem recentes. Realmente da crista que descia do cerro Punta Negra tinha avistado com o monóculos o que pareciam ser 3 construções no Tronador (vide “Travessia Colonia Suiza- Pampa Linda). Era isto que estava ali.

 

Entramos no refúgio. No salão (uma cozinha americana – restaurante), a madeira ardia dentro de um calefador, onde fomos logo nos encostando junto ao fogo. Tivemos de deixar as mochilas no hall de entrada. Cheio de regras este refúgio mas, a bem da verdade, era o mais limpo e organizado de toda a Patagônia, que até agora havia visitado (pouco mais de 10). Tinha até uma adega onde descobri, lendo a carta de vinhos, que tinha vinho de mais de AR$$$$ 500. Negócio chique. Tanto que o refúgio custava AR$ 75, mais caro que os demais onde estive (cerca de AR$ 60). A obrigação de só subir sem botas e sem mochila para o sótão (quarto coletivo) também davam um aspecto limpíssimo ao dormitório, também o mais limpo até agora.

 

Fiquei na dúvida se dormia dentro ou montava minha barraca lá fora, economizando os 75 pesos. O problema é que não tinha muitos pesos e não queria trocar dólares num câmbio ruim. E tinha que reservar AR$ 250 para pagar a travessia de barco da laguna Frías – lago Nahuel Huapi, após cruzar o Paso de las Nubes (caso contrário teria de voltar tudo a pé para Pampa Linda).

 

Mas o vento, o frio e a chuva me fizeram optar por dormir no refúgio. Descobri que depois de pago o refúgio me sobraria ainda AR$ 257! Em Bariloche trocaria mais dinheiro num banco.

 

Sentei numa espécie de divã de psicanalista ao lado do calefator, com as meias dos pés encostando na parede dele. Lia com prazer o “Sete anos no Tibete”, de Heinrich Harrer, imaginando estar no Himalaia. Minhas coisas molhadas estavam penduradas numa espécie de varal acima do calefador (todo refúgio que se preze tem isto). Pedi para pendurar minha tenda túnel que ainda estava úmida, para ela não passar outra noite molhada na mochila. O refugieiro logo se interessou pela minha Ligthwave T0 Trek, dizendo que era isto que procurava, algo que fosse 4 estações e leve. Perguntou se queria vender. Observei que é prática entre muitos refugieiros comprar equipamentos e vestimentas outdoor usados dos estrangeiros que ficam hospedados. Assim teriam boas coisas a bom preço. Expliquei-lhe que ainda faria o Paso de las Nubes e que, portanto iria precisar ainda da barraca.

 

Me chamou a atenção que a lenha e o gás são transportados para o refúgio uma vez por ano, de helicóptero. A eletricidade era de um gerador eólico. O rádio na verdade era um telefone celular com uma antena potente, fixa no refúgio. Assim podemos ligar para lá e reservar lugar.

 

Visitei o local de acampe. Sólidas muretas de pedra em semicírculo ficavam a poucos metros do refúgio, na direção Oeste. Tinham que ser assim porque a força dos ventos no Tronador é famosa. Estávamos a quase 1.900 metros de altura. Uma placa de bronze numa rocha homenageava soldados do batalhão de Montanha do Exército Argentino, sediado em Bariloche, que morreram após atingir o cume do Tronador. A placa era de 2001.

 

Voltei para o quentinho do refúgio após curtir um pouco a neblina e o frio (assim é bão!).

 

Mais tarde saí novamente com Gustavo e Gerardo quando as nuvens deram um tempo. No glaciar Castaño Otero tiraram fotos, inclusive comigo, pois comentei que tinha deixado minha câmera cair na água. Foram muito legais e me enviaram depois as fotos por e-mail.

 

Quando voltamos para o refúgio, ele tava cheio. Um monte de mountain bikes largadas na frente. Uma equipe americana estava rodando um vídeo. Soubemos depois que o ministério do turismo tinha contratado esta equipe para fazerem um vídeo promocional do turismo na Argentina. Vieram pedalando. Apenas no último trecho (hora e meia) tiveram que carregar as bikes, no campo de lava que era muito acidentado. Uma galera barulhenta, tomando uma cerveja para comemorar a subida. Os guias argentinos do grupo disseram que eram uma equipe de elite dos Estados Unidos (de alta gama, como dizem na língua espanhola).

 

Havia também chegado uma equipe de alpinistas que iria subir o Tronador nos dois dias seguintes. Montaram a barraca (uma TNF Mountain 25 versão nova) num dos cercados de pedra. Já estava perto do fim da estação de escalada da montanha (até meados de março).

 

Fiz meu jantar do lado de fora (não pode ter fogareiro dentro, ao contrário de outros refúgios). O refugieiro fez um assado no forno com batatas que estava com um cheiro maravilhoso, de babar. Um ambiente muito agradável a luz de velas e música. Gustavo e Gerardo jantaram a comida do refúgio e ofereceram uma taça de vinho para mim, que estava contando os pesos.

 

Sono bom e agradabilíssimo, quente, sem necessidade de dormir encasacado.

 

Fotos tiradas por Gustavo. Glaciar Castaño Overo ao fundo.

 

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Depois continuo o relato.

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13/03/2012 - Rumo a Paso de las Nubes

 

Dia seguinte acordei por volta de 07 horas. Parte da galera do mountain bike já estava de pé fazendo tomadas. Eles eram filmados enquanto andavam num trecho do campo de lava com a bike. Mas aí vemos como estes documentários de aventura são meio que armação. Não há uma continuidade. São pequenos trechos de cenas filmadas que depois são montados e editados, dando ideia de uma ação contínua e alucinante, o que não é verdade. Em todo caso é muito bom vir para um lugar como este, com tudo pago!

 

O dia nasceu lindo. Já do salão dava para ver pela janela a espetacular vista dos dois picos do Tronador, envoltos em neve.

 

Arrumei a mochila, paguei a conta e me despedi de Gustavo e Gerardo que iriam aproveitar o belo dia para mais fotos e depois retornariam para Pampa Linda. Tinha que descer logo e rápido pois teria uma jornada longa. Cerca de quatro horas descendo e mais 4 a 5 horas para o campamento Frías, do outro lado do Paso de las Nubes. A descida é muito agradável no meio de coihues gigantescos.

 

Cheguei na bifurcação para o Paso em 3h:40 minutos. Pouco antes uns turistas a cavalo passaram por mim subindo. Deveriam estar indo para o glaciar Castanõ Overo. Havia um guia a cavalo. Duas bonitas moças em elegantes trajes de equitação. O pai, num gordo e deselegante casaco de plumas, vinha mais atrás. Eu, na pobre infantaria, descia a pé. Alugam cavalos em Pampa Linda.

 

Entrei no vale do rio Alerce, que é muito bonito (aqui na Patagônia seria muito menos trabalhoso eu fazer um relato se só descrevesse o que é feio!). A trilha vai costeando o rio na sua margem verdadeira esquerda. O caminho é encantador. Mas as vezes lama surgia na trilha obrigando a alguns desvios.

 

Cheguei na origem do rio cerca de uma hora depois. O rio nasce no glaciar Alerce (que fica no lado oposto do Glaciar Castaño Overo, em relação ao refúgio Otto Meiling) e desce por um canion estreito. Uma cascata cai e é visível do local de acampamento. Mas o meu local de pernoite ainda estava longe. Tirei as botas e cruzei o rio porque a trilha seguia do outro lado. Bem mais fácil de atravessar neste ponto em relação ao mesmo rio mais abaixo, quando cheguei de Colonia Suiza. Lá o rio era bem maior pois outros afluentes se juntavam a ele.

 

Neste ponto o rio Alerce se junta a outro que vem de mais longe, do fundo do vale, provavelmente do Paso. Enquanto o rio Alerce tinha origem no glaciar e por isto tinha suspensão na água (cor meio cinzenta), o outro tinha águas cristalinas, indicando que não vinha de um glaciar.

 

Na margem oposta parei para comer uns sanduíches (o pão comprei em Pampa Linda). Segui depois de meia hora. A trilha começa a subir para a esquerda, para se desviar de uma região alagada, o mallín do Alerce. Volta e meia surge lama no caminho. Percebe-se então que a trilha começa a subir pelas encostas do vale em meio a um bosque, em zig-zag, já rumando para o Paso. Em dado momento parece que você está prestes a chegar mas não, é apenas um contraforte do Tronador. A trilha faz tanto zig-zag que numa bifurcação quase volto para o mesmo vale, pois dava impressão que era a continuação do caminho. Após consultar a bússola e olhar para trás a direita descobri a verdadeira continuação. E tome mais uma hora fraldeando pela encosta do Tronador, rumo Norte, por umas lomas entre as quais desciam córregos da montanha.

 

De repente uma miragem. Uma casa justo onde possivelmente era o Paso de las Nubes. Não era possível. Meu mapa e o guia Lonely Planet não indicavam nada neste local, um refúgio por exemplo. A casa aparecia e desaparecia a medida em que eu subia e descia as ondulações. Achava que chegaria em breve mas quando reaparecia, aparentava estar a mesma distância ou mais longe. “Oxente, uma casa fantasma!”, pensava...

 

Finalmente depois de uma andada cansativa cheguei numa área de pasto alagado e a casa se avistava em cima de um promontório rochoso. Segui pela trilha e repentinamente ela passou a descer para o vale do rio Frías. Havia cruzado o Paso. Ia descer e não vi a entrada da casa, que estranho !?! Tomado pela curiosidade larguei a mochila e voltei subindo. Vi uma discreta trilha rumo a casa e subi. Lá chegando descobri que estava em construção, daí não constar dos mapas e do guia. Seria um novo baita refúgio, muito moderno. Tinha alicerces e vigas de metal (parecia uma liga de alumínio) e as paredes eram feitas de chapas de madeira prensada reciclada e revestidas de um material isolante. As paredes seriam duplas para isolar do frio. Aquilo tudo só poderia ter subido ali de helicóptero. Era impossível material daquelas dimensões e peso ter subido no lombo de burros.

 

A vista era espetacular: a laguna Frías se descortinava em frente, no fundo do vale. A esquerda, meio ainda escondido pela encosta, o grande glaciar Frías. Tinha certeza que aquilo seria um refúgio porque as mesas e cadeiras estavam lá empilhadas, no que seria o salão principal. Mas não havia operários na obra. Fiquei até tentado a passar a noite ali, sem a necessidade de armar a barraca. Estava bem cansado.

 

Mas e se chegasse gente? Além de tudo agora era só descida até o campamento Frías e resolvi prosseguir. A descida era por um extenso zig-zag. Num ponto, perto do fundo do vale, uma ponte feita de 2 ou 3 troncos de árvore, pouco grossos, cruzava um arroyo, mas sem corrimão. Passei por ela mas, sinceramente, achei que teria sido muito mais seguro vadear pelo rio. Um tombo daquela ponte estreita poderia causar graves ferimentos. Se o riacho não estiver caudaloso é melhor vadear. Os guardaparques deveriam ou botar um corrimão ou tirar a ponte para o bem da segurança.

 

A trilha continua descendo e com mais meia hora chega numa pedreira, que torna a descida lenta. O espetacular circo do glaciar colgante Frías está agora todo visível a sua esquerda e é uma visão que impressiona. O acampamento está logo abaixo, percebido porque uma placa já é visível. O rio Frias no seu início, corre cinzento, ondulando de um lado para outro do vale.

 

Uma ponte construída e mantida pelo CAB (tem uma bandeira do clube içada nela) ajuda a travessar um arroyo lateral e chegamos numa área com algumas tendas grandes já montadas. São do tipo daquelas tendas de festas de aniversário e eventos. Não são as típicas de camping. Ninguém a vista. É um Campamento Experimental Móvil (CEM) do clube andino que oferece bebidas, comidas e provisão. Tem banheiro e pia. Mas o aspecto não era bom, parecia bagunçado. Provavelmente também cobra para acampar. Sorte que não havia ninguém.

 

Escolhi o local para armar a barraca e fui fazer logo uma sopa para reanimar. Em seguida abri as tendas. Numa delas, a proveeduria, havia mesas e cadeiras de plástico e um fogão. Um aviso dizia que estava fechado e que se alguém quisesse comprar a passagem da travessia dos lagos Frías e Nahuel Huapi poderia fazê-lo em Puerto Frías. Um pote de conserva estava cheio de moedas e notas. Deveria ter algo como AR$ 100 pelo menos. Era a caixinha de propina (gorjeta) da proveeduria. Estranho que deixaram o acampamento abandonado com aquilo cheio. Esqueceram? Mas do jeito que as coisas são aqui na Patagônia, no próximo verão provavelmente o dinheiro ainda estaria lá, quando regressassem.

 

Peguei uma cadeira desmontável e umas revistas, para sentar e ler enquanto cozinhava. Peguei também mais um isolante térmico para melhorar o isolamento em relação ao chão. Amanhã cedo devolveria tudo.

 

Não tomei banho porque cheguei no momento em que o sol já estava escondido atrás das montanhas. E a água do glaciar não estava convidativa. Apenas lavei a cabeça.

 

Comi a janta num banquinho ao lado do rio, posicionado de frente para o ventisqueiro Frías. Muito bonito este glaciar. Fica pendurado no topo de um circo alto e estreito, de onde caem cascatas do gelo derretido. O glaciar Frías é um dos 8 que estão na encosta do Tronador. Vale a viagem para o Paso de las Nubes.

 

Li até mais tarde com a luz da lanterna de cabeça.

 

Foram 8 horas de caminhada hoje. Muito cansativa. Ou então eu já estava bem cansado de quase 15 dias de caminhadas, carregando a casa nas costas através de montanhas e vales. Amanhã seria meu último dia de trekking e dormiria numa cama em Bariloche. Depois do pessoal a cavalo, no meio da manhã, não avistei mais ninguém ao longo deste dia.

 

Continua...

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  • Membros de Honra

Adam:

 

Vale a pena conhecer. Passar uma noite lá é legal.

 

Tá com um bom olho! O abrigo é da Ansilta, modelo Olympo, de Goretex. Já tenho ele faz 3 ou 4 anos. Acho que a Ansilta já não fabrica mais. Tem agora outros modelos parecidos feitos com uma nova geração de Goretex. Gosto muito dele.

 

Abraço,

 

Peter

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Adam: Estes relatos espero que sirvam para você e para todos que topam uma viagem de aventura por lugares maravilhosos como este.

 

Roupa de qualidade como a sua é necessária nestas paragens.

 

Ultima parte do relato:

 

14/03/2012 – UFA! Último dia de trekking – Volta para Bariloche

 

Acordei cedo. Não estava sabendo ao certo o horário ou horários dos barcos que fazem a travessia do lago Frías. Assim era bom chegar cedo em Puerto Frías.

 

Depois de rápido café devolvi as coisas emprestadas do acampamento e arrumei a mochila. Notei que esqueci as luvas de Polartec no refúgio Otto Meiling. O problema é que temos que deixar a mochila no hall de entrada, não podendo levar para o dormitório. O hall é apertado e com muita mochila junta fica difícil manuseá-la e arrumar as coisas. Provavelmente o par caiu entre as mochilas e não percebi na arrumação final antes de partir. Paciência. Não ia voltar para lá para buscá-lo. Brinde para o refugiero.

 

O caminho segue pela encosta direita (Leste) do vale, descendo rumo a laguna Frías, para evitar o brejo que ocupa o vale. Apesar de fraldear a encosta, o solo é ainda muito molhado devido a floresta valdiviana, uma floresta muito úmida. Altos coihues criam uma sombra quase eterna.

 

O resultado é uma trilha bem lamacenta. Talvez a mais chata destes 15 dias. Alguns grandes troncos não estão serrados o que obriga a se agachar para passar por baixo. Como sou alto e tenho uma mochila cargueira alta, tenho de me curvar ainda mais obrigando as vezes a botar a mão no chão para apoio, chão este que está enlameado. Volta e meia o topo da mochila roçava no tronco acima, na hora de passar. Me arrependi de não ter calçado as polainas (gaiters) muito úteis quando há lama.

 

Ao lado de um brejo vi uns alerces de porte mediano. Não dava para saber ao certo que distância havia percorrido devido as árvores. Numa brecha entre as copas vi o que parecia ser o cerro Rigi (1.650 m) na encosta Oeste do vale, imediatamente do outro lado. Assim deveria ter caminhado mais ou menos 2/3 do trajeto. Havia partido a cerca de 3 horas.

 

Uma das árvores caídas atravessadas sobre a trilha tinha o tronco tão grosso que o CAB usou uma motoserra para fazer uma porta no tronco, pela qual passei tendo que baixar apenas um pouco a cabeça. E mais da metade do tronco ainda estava acima da porta, sem serrar! Aquele tronco deveria ter 2 a 3 metros de diâmetro.

 

Depois de mais uma hora a trilha finalmente baixa da encosta e desce para um mallín onde troncos pequenos atravessados ajudam a cruzar o brejo até que chegamos as margens do rio Frias, um rio respeitável. Segui pela trilha na margem direita verdadeira do rio até que aparece uma ponte improvisada. Um tronco grosso atravessado, com estruturas de aço parafusadas nele que criam uma passarela por cima. Os corrimões são cabos de aço. Cautela e vagar na travessia, mas é tranquila.

 

Atravessado o rio continuamos por uma alta floresta de coihues. Passei por um pequeno monumento que homenageia dois oficiais da gendarmeria argentina que ali morreram em um acidente de avião em 1953. Mais um pouco, finalmente cheguei a Puerto Frías, nada mais que 3 ou 4 casas onde funciona a Aduana argentina, a Gendarmeria e uma pequena proveeduria. Ninguém mora ali. Aquilo era apenas um pequeno posto fronteiriço.

 

Cheguei mais ou menos 12:30 e para minha surpresa o pessoal me informou que 12:45 chegaria um barco. De fato um barco já apontava na direção do pequeno pier, vindo do outro lado da laguna. Só deu tempo para prender os bastões de trekking e pegar uma água num córrego.

 

Um grupo de turistas, a maioria brasileiros, saiu da Aduana e se aproximou do barco. Um caminhão trouxe as malas. Faziam parte de uma excursão que partira do Chile, o “Cruce dos Siete Lagos”. A fronteira com o Chile estava a poucos quilômetros dali, no Paso de Perez Rosales. Só descobriram que eu era brasileiro quando me ofereci para tirar as fotos deles, evitando que tirassem fotos com o braço esticado.

 

A travessia da laguna foi rápida, cerca de 20-25 minutos. Do outro lado uma van já esperava para levar ao Puerto Blest, no lago Nahuel Huapi, de onde partiria um barco maior para Bariloche. A van levou apenas 10 minutos para chegar lá. O guia de turismo, um argentino, sabia pelo meu aspecto sujo que tinha vindo do Paso de las Nubes e começou a falar pelo microfone ao turistas da van que eu era um boy scout que gostava de desafios, já que a trilha é de dois dias e é difícil. Ele mesmo só iria para o Paso de las Nubes de helicóptero ou no dia que houvesse estrada. Quando me perguntou da onde era e respondi que era baiano (de criação) a galera brasileira apupou e aplaudiu, não perdendo a chance de brincar com um compatriota baiano. Fiquei encabulado. :oops:

 

Em Puerto Blest soubemos que o barco para Puerto Panuelo só saia as 16 horas. Assim quem quisesse poderia almoçar na única hosteria local (caríssima, uma armadilha para turistas). Preferi lanchar o que ainda sobrava.

 

O final do Brazo Puerto Blest, do lago Nahuel Huapi, é belíssimo. Fiz um passeio até a laguna los Cántaros, cerca de 40 a 60 minutos - ida, passando pela cascata los Cántaros. Trilha bem marcada, com uma escadaria de madeira que leva até a laguna. Pelo mapa, de lá sai uma trilha que vai ainda mais para Noroeste, até o lago Ortiz Basualdo.

 

Meu mapa também indicava que há uma trilha de Puerto Frías até Puerto Blest. Creio que 2 a 3 horas de caminhada. Possivelmente a passagem de barco ficaria mais barata.

 

Na volta de los Cántaros tomei um banho de lago e me sequei ao sol. Tirar um pouco da inhaca antes de embarcar. Estava a dois dias sem banho.

 

Finalmente embarcamos. Embora cara (AR$ 250 (R$ 100) para estrangeiros, AR$ 150 para argentinos), ainda vale mais que voltar tudo aquilo para Pampa Linda. Em Pampa Linda há um ônibus saindo para Bariloche as 17 horas por AR$ 60. De Puerto Blest até Puerto Pañuelo é uma hora de viagem.

 

O cenário é bonito. Sentei em cima para curtir a paisagem. Vários passageiros davam pão e biscoitos para as habilidosas gaivotas que arrancavam voando o alimento das mãos. Algumas pousavam no mastro do barco. Pareciam posar para as fotos.

 

No caminho o guia indicou uma pequena ilhota, onde havia uma bandeira argentina hasteada e o túmulo do Perito Moreno, um homem de história grandiosa, cuja vida dava um filme de aventura, a quem se deve a criação do Parque Nacional

 

Várias pessoas estavam tomando banho nas praias da península Llao Llao e acenavam na passagem do barco. O dia tava realmente lindo para uma praia (de água gelada...)

 

Chegando a Puerto Pañuelo, vi que a entrada do famoso e luxuoso hotel Llao Llao ficava em frente.

Tive que andar um pouco para ir numa tienda e comprar um boleto de 6 pesos para a passagem de ônibus porque ainda estávamos a uma hora do centro de Bariloche. O transporte de van para lá me cobraria mais 50 pesos. O próprio pessoal o barco disse que mais valia pegar o ônibus.

 

Consegui ir sentado na volta. Mais adiante, ao longo da av. Bustillo, o ônibus lotou. Muito turista mochileiro, especialmente israelenses. Impressionante como os jovens israelenses gostam da Patagônia.

 

Saltei perto do hospedaje Victoria. Quando cheguei e o dono me viu, após passar 8 dias no mato, não sabia se ele estava impressionado com meu aspecto devido a sujeira ou a magreza (5 kilos mais magro).

 

Um banho quente e um assado de cordeiro com cervejas me ajudaram na recuperação.

 

Mais dois dias e estaria em BsAs e, em seguida, na minha querida e tropical Salvador/Bahia, junto a família.

 

Assim encerrei os 20 dias de Patagônia, sendo 16 na trilha, conhecendo muita gente legal e mais um pouquinho deste pedaço maravilhoso da Terra.

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Pessoal:

 

Corrigindo uma falha minha: o nome completo do autor das fotos é Gustavo Tirone, argentino muito gente boa (buena onda).

 

O Paso de las Nubes tem este nome porque as nuvens das tempestades vindas do Pacífico passam por este Paso.

 

Abraços,

 

Peter

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  • 3 semanas depois...
  • Membros de Honra

Peter,

 

Excelente side trip! Parece ser bem técnica!

 

Ainda bem que não negociou sua t0 trek com o refugiero. Onde mais você vai encontrar uma tenda tão boa quanto as lightwave?

 

Minha Terra Nova chegou, mas num primeiro momento não gostei muito. Vou testá-la na Lagoa dos Patos (região de ventos fortíssimos) neste feriadão.

 

Abraços,

Edver

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    • Por peter tofte
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      1º DIA - LAGUNA ESMERALDA – 21/02/2011
       
      Parti apenas 16 horas na van (eles chamam de kombis), do ponto perto da praça de artesanato de Ushuaia. Era tarde, mas só recebi minha mochila meia hora antes (todos os passageiros do meu vôo chegaram em USH, vindo de BsAs, sem as malas. As malas só chegaram no dia seguinte). Porém o sol só se põe às 21 horas e o trajeto para a laguna, por trilha bem marcada, leva apenas 1,5 para 2 horas. A van custou 30 pesos, bem mais barato que táxi (ida e volta, na tabela das vans, são 50 pesos). Taxi 70 a 90 pesos só ida, segundo um taxista.
       
      O motorista, cara legal, deixou a gente num começo de trilha alternativo, onde não se precisa pagar 10 pesos de entrada. Na mesma van iam Pablo e Diogo, uruguaios.
       
      Senti uma pequena dor no joelho direito no início da caminhada. Enferrujado!
       
      A senda é bem marcada, com spray vermelho em troncos de árvores e, numa bifurcação, pegando a trilha oficial, passa a ter placas de metal nas árvores. No caminho vi as primeiras represas de castores. Ao Norte se avistava o circo da laguna Esmeralda rodeado de montanhas, com o Dente de Cavalo bem visível, sobressaindo do cordão de montanhas.
       
      Depois de uma bonita mata de lengas se chega num platô onde tive o primeiro contato com a turfa (que eles chama de turbal). Creio que é um campo de musgo com pelo menos 30 a 50 cm de espessura. O musgo é coberto pela neve no inverno, mas não morre. Quando chega a primavera renasce e cresce mais um pouco formando aqueles colchões de cor avermelhada. Bonito de se ver e cansativo de andar. Parece que pisamos numa esponja. Pisa, afunda. Quando tira o pé ela volta para o lugar. Normalmente de cor vermelha, formando um campo avermelhado possível de se ver do avião ou mesmo nas fotos do Google Earth.
       
      Mais uma pequena subida, sempre tendo a esquerda o desaguadouro da laguna Esmeralda (rio de mesmo nome) chegamos na bela laguna.
       
      Conversei mais um pouco com Diogo e Pablo e depois me despedi, pois era cerca de 18 horas e tinha de ir para a margem NE da laguna, ponto indicado para acampar. Ainda teria de montar a barraca e fazer a janta. Segui a margem da laguna pelo lado direito e cheguei no local onde armei minha tenda, no meio de uma mata de lengas.
       
      Comi a beira da laguna e apareceu um castor, possivelmente jovem. Nadava de um lado para a outro, paralelo à praia, me observando. Ou são animais curiosos ou os turistas atiram comida para eles (péssima prática), daí eles ficarem próximos. Saquei fotos. Mais tarde peguei um belo por do sol. A laguna Esmeralda nesta ocasião deveria se chamar laguna Rubi.
       
      Tomei um Ibuprofeno para aliviar a leve dor que sentia no joelho.
       
      Noite tranqüila, não senti frio dentro da barraca (10° C não é frio para o verão de lá). Por volta de 4:30 da madrugada ouvi um tooííííímm e a barraca tremeu. Acordei sabendo exatamente o que ocorreu. Algo tropeçou num dos cordoletes da barraca. A Ligthwave t0 trek tem 4 cordoletes para ancorá-la melhor em ventos fortes. Sempre os uso aqui na Patagônia. Gritei “Que pasa!” (se fosse bicho homem) e “xôoo” (se bicho de 4 patas). Coloquei a lanterna de cabeça e abri a tenda. Olhei em volta, mas não vi mais o que teria batido no cordolete tensionado.
       
      Fiquei imaginando o que seria: um castor curioso? Um guanaco? Uma raposa? Puma não era (não existem mais, ao menos nas proximidades de USH). Mais provável ser uma raposa já que castores e guanacos não têm, que eu saiba, hábitos noturnos. Dias depois, no último acampamento da viagem, eu descobriria.
       
      2º DIA– 22/02/2011- CIRCUITO SIERRA DE VALDIVIESO – REFÚGIO BONETE
       
      O dia amanheceu nublado. Não pude ver o topo das montanhas que formavam o circo da laguna. Parti apenas 10 horas para voltar a Ruta Nacional 3 e dali para o ponto onde deveria sair da estrada e pegar a trilha para o refúgio Bonete, primeiro pernoite sugerido pelo LP. Sabia que deveria haver uma trilha ligando diretamente os dois pontos para encurtar a distância (imagine um quadrado: indo pela Ruta Nacional 3 teria de percorrer 3 lados do quadrado ao invés de apenas 1. Mas não descobri a trilha. A dor no joelho direito que senti no início da caminhada do dia anterior desapareceu.
       
      Encontrei um grande grupo subindo para a laguna, com dois guias. Parecia um grupo japonês tal a quantidade de nipônicos. Só percebi que eram nisseis e sanseis brasileiros quando vi alguns com a mochila da Venturas e Aventuras. Os japoneses e seus descendentes têm uma atração especial por montanhas.
       
      Perguntei ao guia se tinha um caminho direto e onde começava. Ele disse-me que ficava perto da laguna, que já estava meia hora para trás, morro acima. Desisti de voltar para pegar uma trilha ruim. O guia disse que era “demasiado camiño” pela Ruta 3. Porém minha intuição dizia que com o joelho sob suspeita não era uma boa. Fora isto, como bom baiano, não queria voltar de novo subindo ladeira.
       
      Cheguei na Ruta 3 sem dificuldade e percorri aproximadamente 3-4 Km pelo acostamento. Vi uma raposa adiante fazendo zig-zag na rodovia, procurando por algo no asfalto, enquanto não passavam carros. Viu algo, abocanhou e subiu correndo o barranco ao lado da carretera antes que um carro surgisse na curva. As raposas são espertas: sabem que sempre tem um animal atropelado e morto de noite nas estradas. Café da manhã garantido.
       
      Pouco mais de meia hora cheguei no ponto que estava no GPS (km 3.041). Desci por uma estrada 4X4 e depois de 10 minutos cheguei no Rio Esmeralda (o mesmo da Laguna) e cruzei-o nos troncos. Havia uma ponte agora destruída. Do outro lado a estrada (mais parecia uma trilha) seguia. Após meia hora uma bifurcação. O guia do LP não dizia nada sobre esta bifurcação. Para a direita subia e parecia mais batido. Se fosse direto, ela descia. Achei que era à direita (ambas seguiam mais ou menos na mesma direção) e após 15 minutos sem encontrar um mallín (brejo - segundo o LP eu encontraria um brejo) com turfa, caiu a ficha: brejo fica morro abaixo e não morro acima. Voltei e peguei agora o caminho direto e após alguns minutos a mata dava lugar ao mallín.
       
      E que brejo. A trilha foi embora. Cruzeio-o no sentido indicado no guia, mas aonde recomeçava a trilha, na floresta de lenga do outro lado? O mallín era extenso. O circuito Valdivieso tem esta característica: em muitos momentos o terreno é difícil e sem trilha. Um aviso no LP alerta que os trekkers tentando este circuito devem ter bons conhecimentos de navegação.
       
      Uma alma caridosa amarrou um saco plástico branco num galho de árvore e marcou o ponto onde a trilha recomeçava.
       
      Uma senda lamacenta seguia morro acima. Havia marca de pneus de um veículo, um pequeno trator agrícola. Nem mesmo um Land Rover subia ali, nem a pau.
       
      A trilha fazia curvas a medida que subia, entre floresta e pequenas clareiras. À aproximadamente 1 km (em linha reta, segundo o GPS) estava o refúgio Bonete. Neste momento enfiei o pé na lama até a metade da canela. E adivinhem: sabem aquele efeito de sucção (desentupidor de pia) que a bota faz quando a tiramos do buraco na lama? A parte da sola traseira da minha bota Salomon esquerda se desprendeu do cabedal, parecendo uma língua solta. Soltei um sonoro MERDA! Justo no 1º dia da minha trilha mais difícil em USH!
       
      A culpa na verdade era minha. Comprei a bota em 2005, creio, e fazia parte de um lote defeituoso (ver tópico botas Salomon) e já tinha soltado a sola uma vez. Mas a Sapataria do Futuro em Salvador/BA tinha feito um bom trabalho de vulcanização e acreditei que agüentava. Só que tudo tem um prazo de validade, não é mesmo? O problema que sempre achei a bota muito confortável e relutei em aposentá-la. Mas uma bota sem sola é problema grave num trekking em área desabitada e montanhosa.
       
      Desenrolei um pouco de silver tape que sempre levo enrolado no bastão e tentei prender a sola de improviso para ver se chegava até o refúgio e lá pensava melhor no que fazer. Mas a bota molhada e enlameada não deixou a fita colar. Tive que ir até o refúgio com a sola solta, torcendo para que a parte da frente agüentasse, caso contrário a sola se desprenderia totalmente do calçado. Saí duma floresta e caí na bacia de um riacho com uma represa de castores a direita. Segui e me perdi por instantes. Onde recomeçava a trilha? Descobri após alguns minutos. Depois de alguma subida atravessei um pequeno córrego e mais 2 minutos lá estava o refúgio, uma pequena casinha de madeira.
       
      O refúgio era legal. Decidi ficar nele e não montar a barraca, apesar de não gostar muito de refúgios, pelo risco de hantavirus (pretensão achar que só teria eu lá. E os ratos e camundongos?). Estava cansado e não queria ter o trabalho de montar a barraca.
       
      Tinha mais ou menos 4 X 5 metros, uma cozinha, uma salamandra (como eles chamam um aquecedor cilíndrico de ambiente a lenha, ligada a uma chaminé) e um pequeno mezanino onde as pessoas subiam por uma escada rústica numa coluna, para dormir.
       
      Parei para pensar no que faria. Não dava para continuar com aquela bota. Mas regressar era penoso. Poderia até fazê-lo. Em USH compraria rapidamente outro calçado e ainda voltaria no mesmo dia ao refúgio, perto do anoitecer. Mas teria de comprar uma bota as pressas, e usá-la sem amaciar. Poderia me arrepender da compra e seria um transtorno cansativo esta ida-e-volta, fora os calos. Não estava a fim de perder um dia. Lembrei-me que tinha um cordolete extra de nylon nas minhas coisas e resolvi tentar improvisar um “conserto” da bota. Peguei meu lanche e as coisas necessárias para o conserto e fui para o córrego antes do refúgio. Tirei as botas, lanchei (passava das 12 horas) e pensei em como consertar.
       
      A parte traseira do solado estava solta. A da frente, que tinha se soltado 3-4 anos antes, estava vulcanizada e fizeram uma costura no bico para fixar bem. Achei que a frente agüentaria. Atrás resolvi fazer dois furos paralelos cortando a sola em diagonal, de baixo para cima, saído na traseira da bota. Passei um cordolete, com ajuda do canivete e prendi-o no loop que existe na parte traseira das botas (usamos quando penduramos o calçado). Passei outra cordinha por baixo do calçado no meio da sola prendendo em cima, de cada lado, num dos ilhoses do cardaço. Usei o silver tape para enrolar no cordolete que ficava embaixo do solado, para aumentar a resistência à abrasão. Parecia que funcionaria. Mas a trilha é dura, conhecida por sua variedade de terrenos (rocha na montanha, alagadiços e troncos caídos). Será que agüentaria? Beleza se arrebentasse de vez bem no topo de um passo nas montanhas.
       
      Para completar o azar: usei um mini-canivete para furar o solado e cortar a cordinha. Como a lamina não tinha trava de segurança, na tentativa de furar a sola, ela voltou de vez e cortou a ponta de meu dedo indicador direito, abaixo da unha, num movimento forte de guilhotina. O sangue arterial vermelho jorrou forte, para meu espanto. Comecei a chupar o dedo achando que ajudaria a coagular e fecharia a bebida, digo, a ferida. Não adiantou. Ia chupar todo meu sangue num auto-vampirismo sem resolver. Voltei rápido para o refúgio e peguei meus primeiros socorros, um spray de anti-séptico e gaze. Pressionei o corte com a gaze. Como demorou parar de sangrar! Tive de manter minha mão suspensa no ar por bom tempo para diminuir o fluxo sanguíneo para as mãos. Macgyver de meia tigela!
       
      Após, peguei panela e o cantil para encher de água no riacho e aproveitei o sol para tomar um banho de panela. Um choque no início, uma delícia no final. Ficamos mais frios que o ar a nossa volta e dá uma sensação de calor quando acabamos o banho.
       
      O refúgio ficou só para mim. Não vi ninguém depois que saí da Ruta 3. Fiz a refeição na cozinha do abrigo e comi fora, com a belíssima vista de uma tarde ensolarada para o início do vale Bebán e para o cerro Bonete, bela montanha que dava nome ao refúgio. O lugar todo que escolheram para o refúgio era belíssimo, e grátis! Hostal 5 estrelas.
       
      Numa árvore próxima vi o pão de índio, cogumelos redondos de cor amarela, pálida, que nascem nos galhos das árvores, provocando uma intumescência no galho. São parasitas. Os índios os usavam como alimento.
       
      Perto do anoitecer catei alguma lenha seca, musgo seco e gravetos. Com ajuda de uma vela consegui acender o fogo na salamandra e fervi água para um chá verde. Fiquei orgulhoso por ter acertado de primeira acender o fogo naquele troço que nunca tinha usado antes. Pouco antes de dormir apaguei o fogo para não ser asfixiado de noite. Em TDP mãe e filha morreram assim, num refúgio, anos atrás.
       
      Subi para o mezanino e fui dormir torcendo que os ratos não soubessem subir (por isso acho que o dormitório fica no mezanino). Cortei no meio o resto de uma garrafa de PET para ser meu urinol durante a noite. Descer lá de cima, no meio da noite, naquela escada não seria fácil. Noite muito tranqüila.
       
      3º DIA – 23/03/2011 – PASSOS BEBÁN, VALE DO RIO TORITO
       
      O dia amanheceu lindo. Depois do ovomaltine e do mingau arrumei a mochila. Como não precisava desarmar a barraca foi rápido recolocar as coisas na mochila. Saí 09:45 horas.
       
      Parti direção NO para a boca do vale do rio Bebán, seguindo uma trilha muito tênue, com o maior cuidado com a bota esquerda, olhando onde pisava. A bota estava ainda em fase de test drive. Vería se o armengue funcionaria.
       
      A trilha logo desapareceu. Mas o caminho é intuitivo. Teria de contornar para a esquerda um contraforte rochoso e escarpado do Bonete e subir contornando, ladeando o contraforte. O rio Bebán passava no fundo do vale bem mais abaixo. Volta e meia as marcas de desgaste numa pedra indicavam que pessoas passaram por lá.
       
      Quando estava ao lado do cerro Bonete, comecei a descer rumo ao fundo do vale. Do alto avistei um tronco de árvore atravessado no rio, que poderia servir para a travessia do Bebán sem tirar as botas. O rio é raso.
       
      Passei para a margem direita (verdadeira) e rumei para uma floresta de lengas. Ao atravessá-la procure ficar mais próximo ao rio e não da encosta do vale a esquerda. Não há trilha, mas sabemos qual a direção geral a seguir. Rumar para o fundo do vale, dobrando a esquerda para um vale lateral, onde o Bebán encontra-se com outro rio.
       
      Observei no alto, a direita, a montanha que chamam de Ojos del Albino. No topo, coberta de neve, tem um pedaço que parecem dois olhos.
       
      Não pude ver o Cerro Bebán, pois o topo das montanhas estava encoberto pelas nuvens. Subi para o vale lateral. Enfiei a bota direita num buraco escondido cheio de lama até quase o joelho. Sorte que foi a bota direita. A lama não fez sujeira maior porque a polaina ajudou muito. Estas polainas são altamente recomendáveis aqui.
       
      Depois de 30-40 minutos cheguei num bosque de lengas isolado no meio do vale. Várias clareiras eram utilizadas para acampar. O LP sugere que este seja o primeiro pernoite para quem não deseja ficar no refúgio Bonete, a apenas 1,5 – 2 horas do início do trekking. Bonito lugar. Não fosse o problema ontem com as botas teria tentado chegar aqui para pernoitar.
       
      Segui em frente para o fundo do vale rumo ao passo Bebán. Dia nublado e frio. Não sei se isto ou a visão do Passo Bebán Leste, à frente, me deram um arrepio na coluna. Passo íngreme, mais parecia coisa de escalador. Me sentia cansado só de pensar em subir aquilo com uma mochila de 18 kgs!
       
      No fundo do vale, antes do passo, o riozinho se espraia numa praia ampla, segui pela esquerda, rumo ao passo. Lá chegando parei para avaliar a subida. Logo abaixo do passo parecia ser mais íngreme e terra solta, ou seja, um suplício. Resolvi consultar minha fotocópia do guia LP e li que o caminho era um corredor de pedras descendo a montanha, mais a esquerda do passe. De fato havia uma pirca naquela direção.
       
      Bebi água no córrego, comi algo (energia para subir) e botei meu agasalho de Goretex para a subida, devido ao vento. A depender do lugar prefiro usá-lo apenas na descida porque o Goretex não dá conta de todo o suor que evapora numa subida. Mas o dia estava frio. A idéia de usar um agasalho vermelho também me agradava, pois em caso de acidente seria mais fácil me achar.
       
      A cascata de pedras não era assim inclinada, diria 40 a 45º. É interessante como de longe as coisas parecem mais feias do que realmente são. Subida tranqüila. Pouco antes de chegar ao topo virei a direita me encaminhando para o verdadeiro passo, de acesso fácil.
       
      A vista para o vale que deixava era muito bonita. Um cordão de montanhas de picos pontiagudos ladeava o vale. Entrei em seguida no circo da Lagunita Bebán, que se estendia a partir dali para o Sul, em direção ao Valle Carbajal. Não precisei baixar para atingir o Passe Bebán Oeste porque uma trilha fraldeava a montanha à direita. Estava acima da linha das árvores.
       
      Antes de atingir o topo do Bebán Oeste tive de atravessar com cuidado um manchão de neve. Aproveitei para tirar foto com a neve (afinal não vejo isto na Bahia!). No passo uma pedra com spray grafite, um deles dizia “Inglês Puto”. Um argentino muito puto, com o resultado da guerra das Malvinas, escreveu aquilo. Escolheu muito mal o lugar para um protesto.
       
      Desci para o vale do rio Torito. Descida pedregosa. Acompanhei dois riachos que se encontram mais abaixo onde a vegetação recomeça. Caminho chato na margem direita (verdadeira) do córrego, algumas vezes pulando para a outra margem. O pessoal da região cortou alguns galhos de arbustos para facilitar a passagem.
       
      Em um ponto surge uma represa de castores num lugar improvável, bem num trecho enladeirado. Achei incrível eles construírem aquilo, parecia uma piscina suspensa na encosta. Continua-se a descer até chegar num platô gramado, entre dois riachos. Parei para descansar e almoçar sanduíches. A direita um pequeno dique de castores com dois grandes castores nadando. À esquerda, outra represa deles lá embaixo, represando água cristal. Dava para ver o fundo. De frente tinha uma ampla vista do vale do Rio Torito, mais abaixo.
       
      Barriga cheia, segui em frente, uma descida íngreme e uma travessia do rio que estava à esquerda, justo por cima da represa de castores, que fazia o papel de ponte. No barranco do outro lado uma trilha subia e passei a ir pelas encostas ondulantes a margem esquerda do rio Torito, baixando mais devagar. Neste trecho havia uma trilha razoável, pelos padrões da Sierra Valldevieso!
       
      Quando atingi um ponto onde o vale nivelava, surgiu uma grande área de destruição, onde previamente havia um grande dique de castores. Parecia uma área bombardeada: lama e árvores mortas e derrubadas. Os castores além de roerem troncos e derrubarem árvores alagam extensas áreas com seus diques e as árvores morrem afogadas (não foram feitas para viver dentro d’água).
       
      Os castores são animais introduzidos pelo homem na Terra do fogo, para comercializar suas peles. Ocorre que descobriram tarde demais que, como lá o inverno não é muito rigoroso, seus pelos não cresciam muito, não tendo valor comercial. Pior, deixaram-nos soltos e sem inimigos naturais. Aumentaram sua população exponencialmente devastando áreas de lindas florestas de lengas. Tornaram-se uma praga. Agora autorizaram a caça destes animais antes que a situação fique pior.
       
      O mesmo tipo de erro que os australianos cometeram ao introduzir o coelho na Austrália e nós, o teiú em Fernando de Noronha e as cabras na ilha de Trindade.
       
      Segui por uma crista de uns morretes pelo meio do vale, contornado pela esquerda os diques de pastores, onde fosse necessário, até chegar as 06:35 horas na cascata do Arroyo Azul, lindo local de acampamento para o 2º dia.
       
      Armei a barraca atrás de umas árvores. Sempre deixo o fundo da tenda tipo túnel para oeste, a jusante de pedras ou árvores, pois dali vem os ventos mais fortes.
      Tomei um banho de panela com a água do Arroyo Azul, sem sabonete. Sempre que possível procuro dormir limpo (ou melhor, um pouco menos sujo). Tive um dia bom. Começou nublado e ventoso, porém pela tarde o sol deu as caras. Sem chuvas.
       
      A bota deu conta do recado. Jantei e dormi cedo. Desde que saí da Ruta Nacional 3, ontem, não avistei ninguém.
       
      4º DIA – 24/02/2011 - PASSO MARIPOSA – PASSO VALDIVIESO
       
      Outra noite bem dormida, tranquila, sem vento ou chuva. Muita sorte.
       
      Depois de desfeito o acampamento segui meia hora pela mergem esquerda do Torito. Num ponto a trilha começa a se afastar do rio. Uma trilha tenue indicava o caminho. Liguei o GPS para checar o ponto onde começaria a subida para o passo Mariposa. Relatos de outras pessoas diziam que era o trecho de navegação mais difícil.
       
      Logo antes do rio Torito fazer uma curva virando para o Norte, rumo ao lago Fagnano, ficava o ponto do GPS. Mas cadê a trilha? Um pequeno paredão de pedra dificultava a subida. Como a trilha ia em frente supus que a subida deveria ser mais adiante. Entrei numa floresta de lenga onde vi que costumavam acampar. Atrilha desaparecia, mas dentro da floresta era mais descampado e dobrei a esquerda começando a subir por entre as árvores espaçadas. Logo começou a dificuldade com subida íngremes, apenas indícios indicavam que gente passou ali.
       
      Num ponto surgiu um paredão de pedra. Contorneio-o pela esquerda saindo da mata e entrando nos arbustos. Subi um pouco mais, porém onde eles fechavam entrei novamente na mata e subi por ela até que outra vez fui obrigado a passar para os arbustos e encontrei um córrego descendo. Subi pela sua margem. Em trechos havia um gramado muito rente, tão rente que parecia de um campo de golfe bonito, composto por azorelas (algo que não havia visto antes).
       
      Cheguei cansado num platô gramado de azorelas. Para trás uma bonita vista do lago Fagnano. Descansei e procurei ao longo do platô indício de trilha. Olhando para baixo reparei que havia um boulder com uma pedra em cima, exatamente a indicação que o guia LP dava para o começo da trilha lá embaixo. Ao lado, de fato, tinha uma trilha subindo. Se ao invés de ter seguido para a mata houvesse lido o roteiro e procurado o boulder, possivelmente gastava metade do tempo que gastei. Dali subi, subi e subi até atingir a laguna Azul, já acima da linha das árvores.
       
      Não achei o lago bonito. E o lugar era bem exposto aos ventos fortes. Não me sentiria nada tranquilo em montar uma tenda ali. Segui para a margem SO onde um riacho indicava por onde deveria começar a subir para o passo Mariposa. Vi um passo com um manchão de neve e rumei para lá. Pegadas confirmavam o rumo. Beleza, não era tão alto assim.
       
      Quando cheguei no “passo”descobri que ele não era o Mariposa. Apenas dava acesso a um circo alto, todo empedrado, por onde deveria caminhar para atingir o verdadeiro passo 1,5 km adiante, segundo o GPS! Andei com cautela para não torcer o pé nas pedras nem acabar com o solado “especial” da minha bota.
       
      Logo antes de chegar ao passe verdadeiro contornei um esporão de pedra. Numa parede pintaram um círculo com spray amarelo indicando que era por ali. No passe, uma pirca grande resistia aos ventos fortes que sopravam. Para trás deixava o vale do rio Torito, as lagunas Azul e Superior. À frente o vale com as lagunas Mariposa e Capulo. Tirei fotos mas não me demorei apesar da vista bonita. O vento era cortante e o tempo parecia que iria mudar.
       
      Uma descida íngreme que depois atenuava, quebrando para a esquerda rumo a extremidade sudeste da laguna Capulo.
       
      Parei para comer uns sanduíches num gramado a beira da laguna. Acabei com o jamón crudo que estava na minha mochila fazia 4 dias (antes que ele acabasse comigo!). Num clima frio o jamón conserva bem. No Brasil possivelmente durava só dois dias.
       
      A laguna Capulo tem lugares abrigados para acampar, podendo servir de pernoite para quem não quer seguir no mesmo dia para o vale Carbajal.
       
      Descansei um pouco olhando para as montanhas que acabara de descer. Após, segui pelo riacho que alimentava a laguna, subi um trecho sem arbustos. Havia uma faixa de cima a baixo de gramado (azorelas) que faziam a subida perfeita. Melhor só escada rolante. Desde o alto, no passe Mariposa, havia observado qual deveria ser a continuação da laguna Capulo para subir ao passe Valdivieso (também é conhecido por passe Cinco Lagunas, pois o vale tem 5 grandes lagunas e várias menores).
       
      Chegando no topo vi o vale do outro lado, abaixo, a direita. Não precisava mais descer. Segui por um platô ondulado do lado esquerdo do vale. Duas pequenas lagunas profundas ficam encostadas na encosta da montanha. Na segunda basta seguir o seu desaguadouro para descer para outro plato onde há mais 3 ou 4 lagunas e o passe Valdivieso, marcado por uma pirca. Olhando para o sul, a grande laguna Valdivieso e, além dela, o vale Carbajal e o cordón Vicinguera.
       
      A trilha aparece seguindo pelo lado esquerdo da laguna. Parei para tirar uma fotos na sua margem e, de repente, um tchibum. Um castor, que não havia notado, estava tomando sol em cima de uma pedra ali pertinho. Ficou incomodado com a minha proximidade.
       
      A descida para o vale Carbajal é muito chata. O 1º trecho ainda vai. Sem trilha segui por tentativa e erro. O erro é chegar num penhasco e ter de dar meia volta para contorná-lo descendo.
       
      O segundo, mais abaixo do vale, é um entra e sai cansativo da mata e dos arbustos pela margem esquerda (verdadeira) do riacho que sai da laguna. Sempre fiquei na margem esquerda, mas acho que ali é melhor passar para a outra margem. Parecia ter mais clareiras e gramados. O autor do guia LP sugere isto.
       
      Cheguei bem cansado no fundo do vale. Para variar, sem trilha em vários trechos. Passei por um lugar bonito no meio da mata de lengas, com um abrigo de pescadores/caçadores, feito por troncos de árvores encostados numa árvore formando uma oca em formato de cone. Os índios Onas utilizavam este estilo de habitação. Enrolavam peles para vedar os espaços entre os troncos. Pensei em parar ali mas ainda era cedo. Dava para continuar mais um pouco.
       
      A boa trilha no meio da floresta acabava num alagado de uma represa de castores. É engraçado observar as outras pegadas também dando meia volta, o mesmo engano. O negócio é sempre que avistar ao longe, em frente, árvores mortas, correr para a encosta, subindo-a para ver se acha uma trilha. Perder não se perde, porque a direção é uma só, para a boca do vale, na margem esquerda do rio. Os alagadiços são rasos mas intransponíveis tal a quantidade delama e troncos caídos, cruzados.
       
      Neste 1º desvio tive que passar equilibrando sobre vários troncos caídos num pequeno trecho alagadiço, para não ter de voltar muito. Os bastões de trekking são de grande valia nesta hora. Depois subi um barranco chato. Acabei tendo que fazer um vara mato para voltar para a margem do rio. Desci outro um barranco para voltar ao terreno plano as margens do rio Olivia.
       
      Na descida do barranco avistei várias pegadas e uma pazinha caída (para cavar buracos de gato) que um trekker perdeu. Era uma pá de jardinagem de plástico da Tramontina. Será que eram brasileiros que passaram por ali? Provavelmente argentinos, porque a Tramontina brasileira vende muita coisa na Argentina (os talheres dos restaurantes muitas vezes eram desta marca). Ganhei uma pazinha.
       
      Cheguei exausto a margem do rio. Embora não fosse um local bonito decidi ficar ali mesmo. Armei a barraca atentando para ver se não tinha uma árvore podre ou galho morto em cima da barraca. Fiz minha sopa e chá, tomei um banho no rio Olivia e voltei para fazer a janta. Muito práticas as comidas liofilizadas da Liofoods. Rapidamente, sem muito trabalho, temos uma refeição. Algumas são saborosas.
       
      Antes de escurecer estava dormindo. Possivelmente este é o dia mais longo e puxado do trekking (7 a 8 horas caminhando).
       
      5º DIA – 25/03/2011 – VALLE CARBAJAL – RUTA NACIONAL 3
       
      Outra noite tranquila sem chuva ou vento. Coisa rara na Patagônia, ainda mais no paralelo 54º S. Vários dias seguidos de sol.
       
      Levantei 07 horas e 08:30 parti. Passei por um local lindo para acampar, apenas 5 minutos de onde estava. Logo depois um córrego, o primeiro dos quatro que despencam dos vales a esquerda do Carbajal, alimentando o rio Olivia.
       
      Quatro vales laterais caem no lado esquerdo do vale Carbajal. Chamam de vales prateleira ou suspensos pois ficam bem acima do nível do vale principal. Os riachos que saem destes vales caem em cachoeira ou cascata. Belo espetáculo.
       
      Na medida do possível segui pela encosta acima, afastado do rio, para evitar as áreas inundadas pelos castores. Haviam trilhas bem apagadas. Parece que há várias trilhas paralelas (cada um por si). Dificil seguí-las. Desaparecem. Uma vez descobri que a trilha continuava por cima de um tronco caído encoberto por arbustos. Vai adivinhar!
       
      Começa uma área de turbal (turfa). Campos extensos. Em várias ocasiões o melhor caminho é pelo turbal. Entretanto o turbal do vale Carbajal parece um pouco mais cansativo porque ele afunda mais exigindo mais esforço a cada pisada. Alguns trechos são tão batidos que formam uma trilha: uma canaleta mais baixa em relação ao turbal em volta. Por vezes espantava alguns gansos de cor branca e negra (queuquenes?).
       
      Em alguns lugares há uma pequena crista com árvores, vestígios de uma morena lateral no meio do vale, entre os campos de turfa. As vezes a trilha seguia por ali. Perto do final do vale a laguna Arco Iris. Nada de excepcional. Alguns patos e gansos pousados na água. Este último trecho é cheio de alagadiços e cansativo.
       
      Pouco depois o ponto que o Lonely Planet indicava para a travessia do rio. Entretanto arbustos extremamente espinhosos dificultavam chegar na margem do rio Olívia. Eram calafates com suas frutinhas de cor idêntica a da uva.
       
      Na margem tirei as botas e as calças e fiquei só de calção de banho. A travessia foi fácil, a água chegou apenas no meio da canela. O rio Olívia entretanto enche muito nas chuvas podendo ilhar trekkers por dois ou mais dias. Daí o guia recomendar levar ao menos mais 2 dias de comida.
       
      Falando em comida, almoçei na outra margem do rio, comendo um excelente salame argentino. Ao vestir a calça descobri que os dois botões dela foram arrancados pelos espinhos do calafate. Além do ziper e do cinto usei um pedaço de cordolete para segurar a calça. Chegar em Ushuaia de cueca não chego não! Nunca mais deixo de colocar um cordolete na minha mochila. Salvou o trekking e minhas calças.
       
      Pouco distante da margem direita do rio há uma trilha excelente,a melhor de todo o circuito. Segue ondulando pelas encostas. Possivelmente esta trilha segue mais para dentro do vale. Provável que fosse melhor atravessar o rio Olívia bem antes, alcançando esta trilha ótima e poupando o desgaste nos alagadiços do último trecho antes da laguna Arco Iris. Acho que o Lonely Planet apenas não sugeriu a travessia antes do rio para que os trekkers pudessem ver a laguna Arco Iris que, na minha opinião, não vale o esforço.
       
      Com mais uma hora cheguei a um curral e a turbalera, local onde retiram turba (não sei para que serviria). Cachorros brabos neste local, mas presos. O último portão antes da Ruta Nacional 3 estava trancado e tivede pular a cerca. Na estrada a sede do Círculo de Oficiais da Polícia Provincial de Ushuaia (era anteriormente a Posada del Peregriono). Havia vários carros estacionados no acostamento. Era uma galera treinando bouldering num boulder bem em frente ao círculo, do outro lado da pista. Parei, larguei a mochila, vesti um abrigo e acenei para os ônibus/vans que seguiam sentido Ushuaia. Nenhum parou. Embora fossem apenas cerca de 2 a 3 horas (13 km) andando até a cidade não tava com saco de ir caminhando. Perguntei ao pessoal se as vans não paravam, eles disseram não ter certeza.
       
      Pouco depois terminaram o treino de bouldering e dois deles, acompanhados de um bonito cão labrador, me ofereceram carona para a cidade. Economizei 30 pesos!
       
      Cheguei 16 horas em Ushuaia. Entrei na primeira fiambreria que encontrei, comprei um baita sanduíche e água mineral e fui para o meu cafofo, hotel de 150 pesos a diária, no centro da cidade. Quem dorme em barraca não é muito exigente com hotel. De noite iria dar um prejuízo num tenedor libre (churrascaria rodízio).
       
      Assim terminei dois trekkings seguidos em cinco dias. O primeiro, fácil, laguna Esmeralda, emendado com o segundo, Circuito Valdivieso, difícil. Não diria que a navegação é difícil, mas o terreno e a falta de trilha cria a dificuldade e torna-o cansativo.
       
      Apesar dos perengues fui presenteado com tempo bom todos os cinco dias! Como isto é raro na Patagônia!
       
      Depois posto o trekking do Paso de las Ovejas, que fiz após um dia de descanso em Ushuaia. E posto todas as fotos.
       
      Abs, peter
    • Por peter tofte
      TREKKING E TRAPALHADAS NA NEVE – P.N. NAHUEL HUAPI
       
      Final de outubro/2007 estive em Bariloche para, entre outras coisas, fazer um trekking no Parque Nacional Nahuel Huapi. Faz parte de um projeto de fazer várias trilhas famosas nos Andes, especialmente na Bolívia e Peru (ver tópico “Trekking nos Andes”, em Companhia para Viajar). Vcs verão que minha experiência com neve era nula até então!
       
      Bariloche fica no Norte da Patagônia e, embora seja mais freqüentada no inverno por nós brasileiros, devido ao ski, ela tem algumas das melhores trilhas dos Andes, na primavera-verão, no Parque Nacional. Com a vantagem das trilhas não serem tão altas e disporem de ótima infraestrutura. A desvantagem é o clima patagônico. Já disseram que a Patagônia é o melhor lugar do mundo para testar equipamento de montanhismo e trekking, especialmente as tendas.
       
      Cheguei num vôo de BsAs 13:30 hrs (1600 km). Existe ainda a opção de trem e ônibus, mas como minhas férias eram curtas preferi comprar estes dois dias (que levaria a viagem terrestre ) por 320 US$ (LAN Chile) ida-e-volta.
       
      Deixei uma mochila com as roupas sociais no hotel que reservei (onde pegaria na volta da caminhada). Tive de esperar as lojas abrirem depois da “siesta” para poder comprar gás e benzina (que não podia trazer no avião). A benzina eles conhecem como “solvente” e vc compra numa “ferreteria” ou “pinturaria” (loja de ferragens ou de tintas). Gás em cartucho tem em todas as lojas de montanhismo (junto com BsAs e Mendonza é um paraíso para comprar estes equipamentos).
       
      Depois das compras, peguei o ônibus para Villa Catedral (onde ficam os teleféricos do Cerro Catedral) e do estacionamento iniciei a trilha para o refúgio Frey. Antes, porém, tive de esperar a abertura do posto policial para registrar meu nome (obrigatório para quem vai fazer a trilha). Com isto só comecei a caminhar as 16 hrs. Até o refúgio Frey são de 4 a 5 horas. Estava um pouco atrasado, mas o sol ali se põe as 20:30 nesta época.
       
      A tarde estava chuvosa e fria. Este foi um dos invernos mais fortes de Bariloche nos últimos anos. Chegou a faltar água e gás na cidade durante alguns dias, com algumas mortes devido ao frio. Segundo os moradores a primavera ainda não havia começado (isto em 25 de outubro!!).
       
      Logo depois do estacionamento, seguindo a trilha, junto aos primeiros córregos já havia um pouco de neve, a apenas 1300 metros de altura. Mas o caminho (“sendero”) era muito fácil de seguir. A trilha sobe costeando, gradualmente e a esquerda, embaixo, avistamos o lago Gutierrez. Com duas horas de caminhada, sempre ladeando a encosta, chegamos ao Vale do Arroyo Van Titter. Viramos à direita e começamos uma subida um pouco mais acentuada, seguindo o vale. Nos trechos mais difíceis pontilhões de troncos de árvore tornam a travessia tranqüila. Cada vez mais manchões de neve. Quando cheguei a uma parte mais larga do vale, logo após cruzar o Arroyo Van Titter a neve passa a dominar o cenário, dentro de um bonito bosque de coihues e lengas. Cheguei ao refúgio Piedritas as 19 hrs. Leva este nome porque é uma construção que fica por baixo de uma grande pedra, construída pelo Clube Andino Esloveno. Lembra uma toca de garimpeiros melhorada, da Chapada Diamantina/BA. Como faltava ainda uma hora para o refúgio Frey não quis arriscar continuar subindo. Decidi ficar no refúgio e seguir no outro dia. Neste ponto só havia neve com pelo menos 30 a 50 cm de espessura.
       
      Depois de tirar as coisas da mochila fui buscar a água para preparar a janta. Ao voltar para o abrigo vi uma placa na porta que não havia reparado ao entrar na primeira vez, algo assim:“Cerrado. Peligro de Hantavirus debido a los ratos”. Bem, ao ver a neve acumulada em volta e sentir o frio que fazia, pensei, “que Hantavirus que nada, dane-se, vou ficar aí mesmo”. A aquela altura a única alternativa seria montar a barraca na neve, o que não parecia nada agradável. Agradeci a sorte do abrigo não estar de fato cerrado.
       
      Uma coisa que aprendi: por mais impermeável que seja sua bota ela acaba molhando ao andar na neve. A neve que cai em cima derrete e acaba molhando o interior da mesma, mesmo com polainas. As polainas são imprescindíveis com neve. Não evitam molhar o interior do calçado, mas vai manter a bota seca por bem mais tempo. Arrependi-me por não ter trazido a minha pesada bota de Gore Tex. Eu não esperava encontrar neve, nesta altitude tão baixa, a esta época do ano.
       
      Como a bota estava molhada tirei-a para secar e calcei minhas havaianas dentro do abrigo, para fazer a janta. Ao chegar no ponto do macarrão, fui para fora para escorrer o excesso de água. Subi numa mesa de troncos ao lado do refúgio, quase totalmente enterrada na neve e passei a escorrer a água. Porém a tampa da panela abriu e o macarrão caiu na neve. Mais que depressa meti a mão no macarrão e devolvi-o a panela (estava com fome e não estava a fim de fazer novamente o macarrão). Nisso eu escorreguei da mesa e meti minha perna na neve até o joelho. Resultado: um pé congelado e uma mão queimada pelo macarrão, tudo ao mesmo tempo! Que proeza!!!!
       
      Lição nº 1: não inove. Não existe um prato “pasta al neve”.
       
      No que volto descubro o molho de tomate queimando no fogareiro de benzina, pois havia demorado mais que previa lá fora. Depois da janta, que vcs imaginam como foi deliciosa, limpei o que pude das panelas e resolvi andar um pouco na neve para tocar um sino e ver um altar com uma inscrição junto a uma pedra vizinha ao abrigo. Como ficava apenas a cerca de 30 metros resolvi ir de havaianas mesmo, pois a neve parecia dura. Que engano! O pé deu boas enfiadas na neve. Quando acabei de ver o altar e tocar 3 vezes o sino voltei ao refúgio com os pés gelados. Quem disse que conseguia aquecer os pés? Levei quase uma hora tentando esquentá-los com massagem e enfiando-os no saco de dormir de pluma.
       
      Lição nº 2: não ande de havaianas na neve.
       
      Durante a noite meu relógio marcou 2,5 º C no abrigo. Imagine lá fora com o vento. O saco de pluma resistiu bem, mas isto porque usei todas as roupas por dentro, inclusive um corta vento como “vapor barrier”.
       
      Dia seguinte com frio, vento e chuva. Por volta de 9 hrs da manhã começou a nevar. Muito bonito, especialmente se vc estiver vendo da janela de um chalé suiço diante de uma lareira.
       
      O tempo melhorou e saí 11:30 para a etapa final até o refúgio Frey, a 1700 mts. Uma ascensão mais puxada, porém linda, através de um sendero bem marcado na neve, cruzando por um bosque de lengas (nesta altitude da Patagônia só sobrevivem as lengas). Começou a nevar no caminho. É uma experiência inebriante caminhar enquanto neva, dentro de um vale estreito, cercado de íngremes paredes de granito negro coroadas de gelo e neve. Ops... cheguei num ponto que o caminho simplesmente sumia debaixo da neve. As pegadas que segui no dia anterior desapareceram todas na neve que deve ter caído durante a noite. Tentei ir pelo que me parecia ser a continuação natural da trilha e comecei a afundar na neve, em alguns pontos até a virilha. Tentei por outro trajeto, mas o mesmo aconteceu. É estafante andar com a perna atolando na neve a cada passada. Não tinha snowshoes (aquelas raquetes que se põem nos pés).
       
      Depois parei e avaliei. Não sabia por onde seguia a trilha. E, apesar de perto, ainda era bem distante para ir atolando a cada passo. Cerca de 1 Km adiante podia ver claramente o passo na montanha para onde a trilha deveria seguir. Desisti e voltei. Lá embaixo, novamente no refúgio Piedritas encontrei um casal que vinha descendo do Frey. Ele com snowshoes e ela com um snowboard, preso as mochilas Me disseram que de fato havia um trecho de “atoleiro” muito cansativo, mas que depois melhorava, com o restante da trilha de neve dura. E que as agulhas do cerro catedral estavam lindas (dão nome ao cerro, pois parecem enormes torres de catedral) aos pés da laguna Toncek. Incentivaram-me a tentar novamente subir. Recomecei a caminhada, imaginando que agora teria rastros na neve para seguir. Porém depois de alguns metros desisti de vez porque não me agradava a idéia de subir tudo de novo com aquele tempo. Fica para uma próxima vez.
       
      Desci então a trilha do dia anterior até uma bifurcação onde tomei a direita, para baixar para Playa Muñoz, a beira do Lago Gutierrez, ao invés de retornar a Villa Catedral. Descida tranqüila, apenas alguns troncos caídos atrapalhavam a passagem em alguns trechos.
       
      Playa Muñoz é um lugar muito bonito, parece um cartão postal. Armei acampamento a beira do lago e resolvi aproveitar a tarde bonita de sol para secar as roupas. Isto não quer dizer que o tempo estava quente. Sempre há um incômodo vento frio.
       
      Antes da janta resolvi tomar um banho no lago. Totalmente nu me atirei rapidamente no lago, levantei e me ensaboei na cabeça e nas “áreas críticas” com sabão de coco. Atirei-me na água novamente para me enxaguar. Quando levantei estava com uma bela dor-de-cabeça tal o frio da água (deveria estar algo em torno dos 6º C). Corri para a margem, me enxuguei e me vesti. Porém continuei sentindo frio por meia hora ainda. Não vale a pena tomar banho com um frio destes, pois a gente sua muito pouco e o frio do banho não compensa. Nós brasileiros temos como rotina o banho diário, mas podem ter certeza, aqui é muito fácil esquecer este hábito.
       
      Lição nº 3: banho muito frio é perigoso. Cascão já sabia disto!
       
      Vacilos podem levar rapidamente a hipotermia num clima destes.
       
      Depois conto o resto...
    • Por peter tofte
      O trajeto Colônia Suiza – Pampa Linda é a mais selvagem das longas trilhas habilitadas do Parque Nacional Nahuel Huapi. São 5 dias em que não se vê gente ou se vê pouca gente. Em alguns trechos não há trilha e temos pouca sinalização. A travessia foi tranquila porque tive a sorte de pegar uma janela de tempo bom. É muito bela, fazendo jus a fama crescente e a propaganda boca-a-boca que corre nos hostels de Buenos Aires.
       
      Anexando algumas fotos antes do relato:
       
      Vista a partir do deságue da Laguna Lluvú ou CAB: cerro bailey Willis ao fundo, por onde descemos vindo da Laguna Negra (começo do 2º dia).
       

       
      Laguna Lluvú ou CAB com o cerro CAB ao fundo.
       

       
      Corrego Lluvuco (deságue da laguna Lluvú).
       

       
      Vadeando a laguna Lluvú, logo antes da camera cair na água (última foto desta fiel companheira de 7 anos).
       

       
      Posto a seguir o relato.
    • Por rafael_santiago
      Fitz Roy visto do Mirador Fitz Roy
       
      Tendo o aeroporto de Punta Arenas como ponto inicial da viagem pela Patagônia, passei pelas cidades de Puerto Natales (Ch) e El Calafate (Arg) para chegar a El Chaltén (Arg). Poderia ter pego um voo do Brasil para Buenos Aires e El Calafate, já que essa cidade tem localização mais estratégica, porém o preço era pelo menos R$400 mais caro e a conexão em Buenos Aires era bem demorada.
       
      14/02/16 - 1º DIA: DE EL CALAFATE AO ACAMPAMENTO POINCENOT
       
      As fotos estão em https://plus.google.com/u/0/photos/116531899108747189520/albums/6261436122689516993.
       
      Em El Calafate peguei o ônibus da empresa Taqsa das 7h e 2h50 depois estava em El Chaltén com um tempo perfeito, sol e céu azul. Tratei de comprar rapidamente os suprimentos num mercadinho e na padaria em frente (um pão integral delicioso) e corri para a trilha para não perder a oportunidade de fotografar o Fitz Roy enquanto havia sol, já que o tempo muda rapidamente, segundo todos dizem. Percorri oS 1200m da Avenida San Martín e ao final, após um estacionamento, cruzei o portal do Sendero Fitz Roy. Altitude de 400m. Uns 100m depois um guardaparque me parou para passar as informações de praxe, como: não fazer fogo, só usar fogareiro nos acampamentos e trazer todo o lixo de volta, só caminhar nas trilhas demarcadas e só acampar nos lugares estabelecidos. Segundo ele todas as águas correntes do parque são potáveis, mas aproveitei uma torneira ali para abastecer os cantis.
       
      Às 11h36 a trilha começa já com uma subida que alterna trechos de bosque com partes sem sombra até que cheguei às 11h50 ao Mirador Rio de Las Vueltas, a primeira bela visão panorâmica da caminhada. O Rio de Las Vueltas se origina no Lago del Desierto, recebe águas de outros importantes rios e percorre um enorme vale, cruzando a cidade de El Chaltén. Continuando a subida, logo surge a primeira placa de distância, que marca km 1 de 10 até a Laguna de Los Três. Às 12h43 uma bifurcação importante, de difícil decisão sobre qual caminho tomar pois ambos são belíssimos: à direita o Mirador Fitz Roy e à esquerda a Laguna Capri. Mais à frente as duas trilhas se juntariam para chegar ao acampamento Poincenot e à Laguna de los Três (de onde se tem a visão mais próxima do Fitz Roy). Na dúvida, segui os dois... rs. Primeiro fui para a direita e apenas 530m depois caí duro com uma das visões mais impressionantes que já tive na vida. O Fitz Roy e todo o conjunto de picos próximos a ele com um céu incrivelmente limpo e azul, e toda a paisagem inundada pela luz do sol num dia belíssimo.
       
      Após alguns minutos de contemplação e êxtase, voltei pelo mesmo caminho e peguei o lado esquerdo da bifurcação (agora à direita) às 13h23. Poderia ter continuado em frente depois do mirador mas queria conhecer a lagoa. Em 14 minutos já estava às margens da Laguna Capri, outro lugar muito bonito que merece uma parada e muitas fotos. Ali há um camping e a placa informa que já foram percorridos 4km da Senda Fitz Roy. Continuando, a trilha ainda dá visão da lagoa à esquerda por algum tempo mas depois se afasta. Às 14h09 passei pelo entroncamento da trilha que vem do Mirador Fitz Roy (à direita) e o caminho passou a ser bastante plano. Junto a um novo mirante a trilha se aproxima do Arroyo del Salto. Algumas pessoas haviam descido para pegar água.
       
      Laguna Capri
       
      Às 15h cheguei à bifurcação que leva à esquerda às lagunas Madre e Hija (e ao acampamento De Agostini e Cerro Torre), mas esse percurso eu faria dois dias depois, então fui para a direita. Como há um grande charco logo à frente, passarelas de madeira foram colocadas. Às 15h12 cheguei à bifurcação que vai para a Hosteria El Pilar à direita, mas segui à esquerda, chegando ao acampamento Poincenot às 15h15. Altitude de 737m. Uma placa marca km 8 da Senda Fitz Roy ali.
       
      O que vale comentar aqui é a grande quantidade de pessoas na trilha. Se você quiser parar para fotos é melhor sair um pouco da trilha pois logo você vai travar o caminho de várias pessoas. E muita gente no sentido oposto também, para quem você deve dar passagem ou esperar que te deem. É muita gente mesmo.
       
      No Poincenot rapidamente montei minha barraca e às 16h05 parti para a Laguna de los Três só com a mochila de ataque. É muito importante sempre carregar na mochila uma blusa a mais e jaqueta/calça impermeáveis pois o vento forte traz chuva mesmo estando sol. Cruzei o Rio Blanco por uma ponte, passei pela base Rio Blanco (que parece funcionar como guarderia, não sei) e iniciei a longa e erodida subida de pedras soltas até a Laguna de los Três, aonde cheguei às 17h05. Altitude de 1164m. A visão do Fitz Roy bem mais próximo era espetacular, com a neve a seus pés refletida nas águas verdes do lago. Um zorro colorado apareceu e circulou tranquilamente entre os visitantes à procura de comida. Contornando a lagoa pela esquerda por 250m é possível avistar a linda Laguna Sucia (que de suja não tem nada) bem mais abaixo. Ali um gavião se aproximou de mim e pude registrá-lo de vários ângulos. Os bichos aqui realmente não têm problema com os seres humanos.
       
      Às 19h43 estava de volta ao acampamento Poincenot, ainda com luz do dia.
       
      Essa subida longa e erodida até a Laguna de los Três se dá por uma moraina ou morena, que são montanhas de rochas trazidas pelo movimento das geleiras, algo muito comum na Patagônia.
       
      Os acampamentos aqui têm como única estrutura um banheiro que é uma cabine com um buraco fétido no chão. No Poincenot há dois desse. Junto a um deles há uma pá pendurada para quem preferir usar o bosque para o número dois, cavando um buraco. Não há área coberta para cozinhar. A água é coletada no Rio Blanco, a poucos metros. Bebi dessa água (sem tratar) e não tive problema. Nessa noite um guardaparque surgiu do nada (não sei onde ele se abriga, provavelmente na base Rio Blanco) e avisou para ancorar bem a barraca por causa da previsão de mau tempo.
       
      Nesse dia caminhei 16,9km.
       
      Laguna de los Três e Fitz Roy
       
      15/02/16 - 2º DIA: DO ACAMPAMENTO POINCENOT A TENTATIVA DE CHEGAR AO ACAMPAMENTO PIEDRA DEL FRAILE
       
      As fotos estão em https://plus.google.com/u/0/photos/116531899108747189520/albums/6261436505415580337.
       
      A temperatura mínima durante a noite foi de 11ºC fora da barraca, bastante acima do registrado nas madrugadas seguintes (levei dois termômetros externos com memória para fazer os registros).
       
      De manhã quem rondava o acampamento à procura de alguma comida fácil era um carcará, que aqui chamam de carancho.
       
      Estava ainda bem cansado da viagem desde o Brasil e acordei depois das 10h. A vantagem é que no verão patagônico o sol vai se pôr lá pelas 21h. Como as trilhas não são tão longas, não é preciso se apressar. Desmontei acampamento e só saí às 13h43 em direção ao acampamento Piedra del Fraile. Voltei pela mesma trilha da chegada no dia anterior por 140m e na bifurcação peguei a esquerda, na direção da Hosteria El Pilar. Uns 45 minutos depois estava no mirador do Glaciar Piedras Blancas. O Rio Blanco passa a ser visível novamente à esquerda, bem abaixo, e a descida é suave até se aproximar dele. Notei a correnteza bem forte devido ao calor e consequente degelo dos vários glaciares que o formam. Às 15h28 cheguei a um portal com uma catraca de madeira que marca o limite entre o Parque Nacional Los Glaciares e a área particular onde está a Hosteria El Pilar. Dali em diante encontrei gado pastando no bosque e às 16h19 passei pela hosteria, altitude de 468m, onde a trilha vira estradinha de rípio. As poucas pessoas que encontrei nessa trilha estavam indo ao mirador do Glaciar Piedras Blancas, deixando o carro no estacionamento da hosteria.
       
      Caminhei 680m pela estradinha e cheguei à estrada que vai de El Chaltén ao Lago del Desierto, ao norte da cidade. Porém o vento ali era absurdo e eu tive muita dificuldade em caminhar pela estrada contra o vento e recebendo toda a poeira dos carros no rosto, que eu tentava cobrir com o chapéu. Caminhei 980m e ao chegar à ponte do Rio Elétrico a situação piorou. O rio estava tão cheio que batia no piso da ponte, com correnteza bem forte. Os motoristas passavam com cautela, mas felizmente eu não precisava cruzar essa ponte pois a trilha para Piedra del Fraile começa à esquerda, antes da ponte e bem junto a ela. Contudo, caminhei só 80m e parei pois o rio cheio inundou a parte mais baixa do caminho para o acampamento. Parecia até ser raso mas a água turva não me dava certeza disso. Não arrisquei entrar na água e o vento fortíssimo estava me deixando atordoado. Decidi retornar ao Poincenot, mas na volta para a estrada o vento me empurrava para dentro do rio a cada passo que eu dava, me causando grande susto.
       
      De novo na estrada caminhei rapidamente a favor da ventania, entrei na estradinha da hosteria (à direita) passando por ela às 17h12 e retornando à Senda El Pilar. O abrigo do vento no bosque foi um alívio! Subi tudo de volta e no caminho vi dois carpinteiros, o pica-pau preto de cabeça vermelha. Cheguei ao Poincenot às 19h57 (altitude de 737m) e soube que a ventania havia feito estragos por lá. Algumas barracas voaram mesmo com a proteção das árvores altas do bosque. A barraca de um casal de chilenos com quem fiz amizade chegou a ter o sobreteto rasgado ao ser arrastada com as mochilas dentro!
       
      Nesse dia caminhei 16,8km.
       
      Laguna Hija com Cerro Madsen ao fundo
       
      16/02/16 - 3º DIA: DO ACAMPAMENTO POINCENOT AO ACAMPAMENTO DE AGOSTINI
       
      As fotos estão em https://plus.google.com/u/0/photos/116531899108747189520/albums/6261436916575077217.
       
      A temperatura mínima durante a noite foi de 4,2ºC fora da barraca.
       
      A caminhada entre os acampamentos Poincenot e De Agostini deve ter sido a trilha mais fácil e bonita que fiz em El Chaltén. Ela corre ao longo das belas lagunas Madre e Hija, em seguida por um lindo bosque e depois com a visão do maciço onde está o Cerro Torre. Linda trilha!
       
      Desmontei acampamento e saí do Poincenot às 12h05. Voltei 1km pelo mesmo caminho do primeiro dia até a bifurcação para as lagunas Madre e Hija, logo após as passarelas sobre o charco, e fui para a direita (El Chaltén à esquerda). Às 13h05 já avistava a Laguna Madre, comprida e de águas esverdeadas, e em mais 15 minutos parei para fotos no ponto da trilha que está mais próximo à faixa de terra que separa a Laguna Madre da Laguna Hija.
       
      Na continuação, a trilha desce e se aproxima das águas igualmente belas da Laguna Hija, o que rende boas fotos também. Abandonando a área das lagunas a trilha se embrenha num bosque que em alguns momentos se abre, dando visão dos campos e serras a leste. Depois de algum sobe-desce fácil cheguei às 15h29 à Senda Laguna Torre. É a trilha que vem da cidade e leva à laguna e ao Mirador Maestri, com visão do maciço do Cerro Torre. Fui para a direita (El Chaltén à esquerda). Pouco depois dali já se tem uma visão larga e privilegiada das montanhas nevadas e dos picos todos, inclusive o Cerro Torre, porém nesse dia só se viam nuvens. Na direção da cidade havia céu limpo e muito sol, mas na direção das montanhas estava bem fechado. Logo passei pela placa que indica km 6 de 9 da Senda Laguna Torre.
       
      A trilha entra no bosque e começa a acompanhar o Rio Fitz Roy, que surge à esquerda. Ao sair continua margeando o rio, contorna outro bosque pela esquerda e chega a uma bifurcação. À esquerda, em 60m, está o acampamento De Agostini, à direita a trilha continua para a Laguna Torre, aonde se chega em 7 minutos.
       
      Mas eu fui para a esquerda e às 16h30 entrei no bosque que abriga o acampamento, reencontrando meus amigos chilenos. Altitude de 613m. Teria várias horas de luz ainda nesse dia mas não adiantava subir até o Mirador Maestri pois não veria nada. Para piorar caía uma chuva fina, que logo se transformou em floquinhos de neve. Não dava para ver as montanhas mas era também um bonito espetáculo!
       
      O acampamento De Agostini possui estrutura ainda mais básica que o Poincenot, tendo como banheiro apenas uma cabine com buraco no chão. Infelizmente essa cabine fica muito próxima e o mau cheiro pode ser sentido da barraca. Não há local apropriado para cozinhar e a água é a do Rio Fitz Roy, que nasce na Laguna Torre e passa bem ao lado. Eu bebi bastante dessa água (sem nenhum tratamento) e não tive problema.
       
      Nesse dia caminhei 10,6km.
       
      Cachoeira no caminho do Mirador Maestri
       
      17/02/16 - 4º DIA: ESPERANDO A MELHORA DO TEMPO NO ACAMPAMENTO DE AGOSTINI
       
      As fotos estão em https://plus.google.com/u/0/photos/116531899108747189520/albums/6261437114070602417.
       
      A temperatura mínima durante a noite foi de 4,6ºC fora da barraca.
       
      Às 10h16 fazia 5ºC e o tempo não melhorava. Ainda havia neblina nos picos e chuva fina. Mesmo assim resolvi subir ao Mirador Maestri. Saí do acampamento às 11h29 com uma mochila de ataque, fui até a Laguna Torre (7 minutos) e de lá encarei a caminhada pela crista da moraina mesmo sem visual dos picos. A trilha do mirador não é difícil, tem apenas um ou dois trechos mais íngremes, mas no geral é uma subida suave. Uns 150m depois de uma cachoeira (dentro do bosque à direita) fui à direita numa bifurcação e entrei no bosque, mas estava errado. Voltei e fui para o lado certo, continuando a caminhar pela encosta, a céu aberto. Com esse erro e paradas para fotos (mesmo com tempo ruim) cheguei ao Mirador Maestri às 13h35. Altitude de 804m. Uma placa avisa do perigo de continuar em frente pela instabilidade do terreno e queda de rochas. E olhando a encosta para cima e para baixo é que se percebe o risco de ficar ali pois pedras enormes podem rolar a qualquer momento.
       
      Às 13h53 iniciei o retorno. Parei para fotos da cachoeira e às 15h23 estava de volta ao De Agostini. Meus companheiros de bate-papo, o casal chileno, haviam ido embora. Vi gente chegando da cidade e fui perguntar sobre a previsão do tempo. Disseram que o dia seguinte seria o melhor da semana, segundo informações dos guardaparques. Aí bateu aquela dúvida: enrolar o resto do dia e dormir mais uma noite ali apostando na previsão ou arrumar as coisas e ir embora? Consultei o meu cronograma de viagem e concluí que podia gastar mais um dia ali sem prejudicar o restante da viagem (que incluía o Circuito O do Torres del Paine ainda).
       
      Decidido isso e para não ficar parado no acampamento sem nada para fazer resolvi caminhar pelos bosques próximos e explorar as redondezas com mais calma. Saí às 16h40 e voltei pela Senda Laguna Torre até a bifurcação que leva à esquerda a um certo "Campamento Prestadores de Servicios". Entrei ali, passei pelo tal acampamento, todo de barracas iguais, e alcancei um pequeno mirante. O mirante em si não era nada especial (principalmente com tempo fechado), mas ali perto encontrei um bloco errático, uma grande rocha trazida pela geleira que tinha uma rachadura grande na lateral. Cerca de 350m depois essa trilha sobe a moraina e desemboca na trilha do Mirador Maestri. Fui para a esquerda e às 19h12 estava de volta ao Poincenot.
       
      Nesse dia caminhei 9,8km.
       
      Laguna e Cerro Torre
       
      18/02/16 - 5º DIA: DO ACAMPAMENTO DE AGOSTINI A EL CHALTÉN
       
      As fotos estão em https://plus.google.com/u/0/photos/116531899108747189520/albums/6261437370587930497.
       
      A temperatura mínima durante a noite foi de 3,4ºC fora da barraca.
       
      Felizmente as previsões estavam certas e amanheceu um lindo dia. Apesar disso, havia ainda espessas nuvens cobrindo o Cerro Torre e os demais picos, que só começaram a se dispersar depois das 10h30.
       
      Subi novamente ao Mirador Maestri parando muitas vezes para fotos, tanto na ida quanto na volta já que na volta o Cerro Torre estava ficando mais visível entre as nuvens. Saí do acampamento às 10h10 e às 13h43 estava de volta. Desmontei tudo e iniciei a descida para El Chaltén às 15h29. O caminho foi o mesmo da chegada dois dias antes até a bifurcação para as lagunas Madre e Hija, aonde cheguei às 16h29, seguindo para a direita. Para trás a linda visão dos picos com céu azul não me deixava caminhar muitos passos sem me virar para admirar.
       
      Nesse percurso encontrei um brasileiro, um gaúcho, que estava fazendo um ataque ao Mirador Maestri desde a cidade mas desistiu por causa do horário e da distância. Fomos conversando e passamos pelo Mirador do Cerro Torre às 17h36. Retomamos a trilha pelo bosque e apesar da quantidade de pessoas pudemos observar vários carpinteiros bem próximos, voando de uma árvore a outra à procura de larvas. Às 18h02 a trilha para a cidade bifurcou, com uma placa indicando El Chaltén à direita. Mas tanto faz, depende de para qual parte da cidade se vai. À direita é o acesso sul, melhor para ir à rodoviária ou à maior parte do comércio e restaurantes. À esquerda é o acesso norte, que chega à cidade mais próximo da trilha do Fitz Roy. O gaúcho (esqueci seu nome) foi para a direita e eu fui para a esquerda pois ia seguir a sua indicação de hostel e ver preços de camping.
       
      Às 18h54 a trilha terminou numa rua, fui para a direita, depois esquerda e cheguei à avenida San Martín na altura do nº 700-900. Altitude de 400m. Fui para a direita à procura do Hostel Las Cuatro Estaciones mas não encontrei (ficava para a esquerda, depois descobri). Então olhei os campings El Relincho (AR$120) e El Refugio, e optei pelo último por ser mais barato (AR$90 negociável). Os albergues mais baratos estavam cobrando AR$150 (US$10,71 considerando o câmbio ruim de US$1 = AR$14 praticado na cidade).
       
      Saí para jantar e não encontrei nada por menos de AR$140 (US$10). Esse era o preço de um filé de frango com saladinha, mais nada. Menos que isso só lanche ou cozinhando no camping. Para ter uma idéia melhor de preço, quando eu saí do Brasil em 12/02 o dólar-turismo estava sendo vendido a R$4,25. O filezinho de frango estava saindo portanto a R$42,50!
       
      Nesse dia caminhei 9,2km.
       
      Nas imediações de El Chaltén, voltando da tentativa de subir o Loma del Pliegue Tumbado
       
      19/02/16 - 6º DIA: LOMA DEL PLIEGUE TUMBADO (TENTATIVA) E MIRADORES CÓNDORES E ÁGUILAS
       
      As fotos estão em https://plus.google.com/u/0/photos/116531899108747189520/albums/6261437654486503649.
       
      A temperatura mínima durante a noite foi de 2,8ºC fora da barraca.
       
      Saí do acampamento com uma mochila de ataque para conhecer os três principais mirantes mais próximos de El Chaltén: Loma del Pliegue Tumbado, Mirador de los Cóndores e Mirador de las Águilas.
       
      Caminhei até a entrada da cidade (junto à rodoviária), cruzei a ponte sobre o Rio Fitz Roy e seguindo as placas cheguei ao Centro de Visitantes do Parque Nacional Los Glaciares zona norte. O centro é bem interessante, com mapas e informações sobre fauna e flora, além dos guardaparques muito atenciosos e prestativos. Vale a visita!
       
      Ali inicia a trilha para os três mirantes, além da trilha para a Laguna Toro, Paso del Viento e Volta do Huemul. Mas para essas trilhas mais longas e difíceis é necessário fazer registro no centro de visitantes.
       
      Peguei a trilha sinalizada para os mirantes às 10h52 e em 6 minutos há uma bifurcação. Para a direita Loma del Pliegue Tumbado e Laguna Toro, e para a esquerda miradores Cóndores e Águilas. Como o Pliegue era mais difícil fiz primeiro. Fui para a direita e às 11h04 cruzei um riacho de água boa segundo a guardaparque. Após o riacho a trilha bifurcou e eu segui para a esquerda. Aí começa uma longa subida. Às 11h16 outro riacho de água boa. Mais para cima há riachos de água não potável por causa do gado.
       
      A trilha sobe bastante exposta ao sol, atravessa um bosque de 700m, volta a ficar a céu aberto (com vista do Pliegue) e às 12h05 bifurca (796m). À direita o Pliegue e à esquerda a Laguna Toro. Seguindo para a direita logo entro num grande bosque, o último antes do cume. Na subida pelo bosque notei muita gente voltando. Comecei a perguntar se haviam chegado ao cume e todos respondiam que ao final do bosque, no mirador, o vento estava forte demais e ninguém continuava.
       
      Cheguei ao mirador às 12h43 (altitude de 1043m) e constatei que não só o vento era de arrasar como trazia pingos de chuva que batiam forte na pele, além das nuvens que encobriam quase toda a visão das montanhas. Ou seja, não havia muito sentido mesmo em prosseguir pois o vento ia ser ainda mais forte mais para cima e não havia o que ver. E dali em dias limpos é possível ver o Cerro Torre e o Fitz Roy, segundo a placa do mirador.
       
      El Chaltén
       
      Dei um tempo ali, conversei com algumas pessoas que estavam desistindo do cume também, fiz um lanche e iniciei a descida de volta pelo mesmo caminho às 13h20. Às 15h38 estava de volta à bifurcação dos miradores Cóndores e Águilas e fui em frente (à esquerda o centro de visitantes). Altitude de 404m. Inicia uma nova subida. A trilha do Mirador de Los Cóndores possui painéis educativos para as crianças que falam sobre a vida dessa ave e sua importância como símbolo dos Andes.
       
      Após subir 83m (de desnível) uma placa indica o Mirador de los Cóndores 10 minutos à esquerda e o Mirador de las Águilas 30 minutos à direita. Fui primeiro aos Cóndores para fotografar a cidade de El Chaltén com sol. Esse mirador (524m) fica bem de frente para a cidade e para o vale do Rio de las Vueltas, com as montanhas ao fundo e o encontro do Rio Fitz Roy com o las Vueltas em primeiro plano. O vento ali também estava bem forte e estava difícil ficar em pé para tirar as fotos.
       
      Desci de volta à última bifurcação e em mais 18 minutos cheguei ao Mirador de las Águilas (587m). Essa trilha não tem painéis para as crianças e há uma bifurcação não sinalizada onde se deve subir à esquerda. Esse mirador tem visão oposta ao primeiro e está no limite das montanhas em direção ao Lago Viedma, ou seja, a vista que se tem é de uma extensa estepe com o lago ao fundo. Me escondi do vento forte atrás das pedras mas na hora de voltar estava até difícil parar em pé. Desci rapidamente para um ponto mais abrigado e iniciei o retorno à cidade. Às 17h48 passei pelo centro de visitantes e já estava fechado (fecha às 17h).
       
      Nesse dia caminhei 18,7km.
       
      SOBRE O TEMPO
       
      Todos sempre me disseram que o tempo na Patagônia muda a cada hora. Não foi o que eu vi. Quando o dia amanhecia ruim, ficava ruim. Já quando amanhecia bonito, permanecia assim. O que incomoda mesmo é o vento muito forte, que atrapalha algumas caminhadas, como relatei acima. Ele traz chuva de longe mesmo estando sol no lugar onde você está. E às vezes essa chuva vem com pingos fortes e doloridos.
       
      SOBRE O FRIO E AS ROUPAS
       
      Como relatei, a temperatura mínima durante a noite e madrugada oscilava entre 4,7ºC a 2,8ºC. Um saco de dormir nessa faixa de temperatura-limite (com alguns graus para baixo para ter mais conforto) dá conta do recado. Eu levei um saco de dormir Marmot Alpha, de pluma de ganso, de especificação: conforto 2,6ºC, limite -2,8ºC e extremo -19ºC. Ele foi mais do que suficiente.
      A temperatura de manhã demorava um pouco a subir. Geralmente eu tomava meu dejejum lá pelas 9 ou 10h com temperatura externa de 5ºC. Mas para mim um fleece fino da Quechua já era suficiente para sair da barraca.
      Para caminhar, eu usava uma camiseta de dryfit de manga curta e o fleece da Quechua se tivesse vento frio. Quando o sol ficava mais forte, tirava o fleece.
      Gorro só usava à noite, e luvas levei mas não usei.
       
      Laguna Capri e Fitz Roy
       
      Informações adicionais:
       
      Horários de ônibus entre El Calafate e El Chaltén (3h de viagem):
       
      Empresa Cal Tur (AR$420) - http://www.caltur.com.ar:
      El Calafate-El Chaltén - 8h, 13h, 18h30
      El Chaltén-El Calafate - 8h, 13h, 18h30
       
      Empresa Taqsa (AR$370) - http://www.taqsa.com.ar:
      El Calafate-El Chaltén - 7h, 16h30
      El Chaltén-El Calafate - 10h30, 19h30
       
      Empresa Chaltén Travel (AR$420) - http://www.chaltentravel.com:
      El Calafate-El Chaltén - 8h, 13h, 18h
      El Chaltén-El Calafate - 7h30, 13h, 18h
       
      Hospedagem em El Chaltén:
       
      Os hostels mais baratos que vi por lá foram Ahonikenk Chaltén (ao lado do restaurante de mesmo nome) e Las Cuatro Estaciones (http://www.hostelcuatroestaciones.com). Estavam custando AR$150 a diária. Apenas vi o preço, não sei dizer quanto à qualidade.
      Os campings da cidade são El Relincho (AR$120) e El Refugio (AR$90 negociável). Têm ducha quente e área para cozinhar.
       
      Atenção para o câmbio!!!
      O único câmbio bom em El Chaltén, bem como em El Calafate, é feito no banco. No caso de El Chaltén, na agência do Banco de La Nacion Argentina, porém é preciso ficar atento aos horários de funcionamento. O horário é de 8h a 13h, mas cuidado pois na internet há informações de que a agência só abre um dia por semana em abril e maio. Não há casas de câmbio nessas duas cidades, por incrível que pareça, apenas lojas, restaurantes e hostels que fazem um câmbio péssimo. Tente não fazer câmbio nessas cidades para não perder dinheiro nessas lojas e não perder tempo nos bancos lotados. Mas se não tiver outra saída, tente em El Chaltén o Restaurante Ahonikenk e o Hostel Rancho Grande para trocar real, e diversos outros lugares para cambiar dólar. Mas (repito) evite pois a cotação para dólar é ruim e para real é impensável. O dólar estava sendo comprado nas lojas das duas cidades a AR$14, enquanto no banco em El Calafate estava AR$15,90 (não parece mas isso faz bastante diferença). O real estava com o valor ofensivo de AR$3, enquanto no banco era AR$3,60.
       
      Rafael Santiago
      fevereiro/2016
      http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
       

      Percurso completo na imagem do Google Earth. Cada dia representado por uma cor.
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