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cissa29

A Conquista da Serra Fina em 3 Dias e 3 Noites

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Feriado que começou com a frustração da previsão de chuva pro Sudeste inteiro. O que sobrava era a vontade de fazer a tal da Serra Fina: se não fosse agora, dificilmente conseguiria fazer ainda em 2012, já que são 4 dias. Do grupo de 3-4 que aparentemente iam, 2 desistiram. E conforme a data ia chegando perto, eu ia ouvindo mais gente cancelando, e mais gente falando que ia estar feio, perigoso e complicado. Mas o problema é esse, quando eu quero muito uma coisa, por mais idiota que seja, perco a noção e vou atrás. E não foi diferente, fazer Serra Fina com chuva foi uma ideia totalmente de gente sem noção.

 

COMEÇA O FERIADO

Nada menos que 7 horas pra ir de São Paulo a Itanhandu, sendo mais de 3 pra sair da cidade, da Zona Sul à Marginal Tietê. Trânsito, muita chuva, e muita paciência. Já não tinha certeza se a gente ia sequer conseguir começar a trilha, mas fomos na cara e na coragem, enfrentar tudo isso pra ver se ia dar certo. Passamos em Itamonte pra comer perto da meia noite, e nem isso eu consegui pois estava meio mal do estômago a semana inteira. E dá-lhe presságio de que não ia rolar travessia. Seguimos depois pra Itamonte e não achamos hotel nenhum, o que nos levou a dormir (muito mal por sinal) no carro, no estacionamento do hospital da cidade. Mais presságio ruim: acordamos com uma mega chuva, e bem cansados. Saímos pra procurar uma padoca pra tomar café, ainda na dúvida se ia rolar. A chuva continuava fina e o tempo muito fechado. Era muita coisa ruim junta, e desistimos da travessia. Mas e aí? Fazer o que no sul de Minas, agora que a gente já estava lá?

 

Saímos dirigindo meio sem rumo e surgiu a ideia de ir até Aiuruoca. Então fomos! No caminho pegamos algumas informações e tivemos a ideia de subir o Pico do Papagaio, ou de repente outro que tem por lá onde dá pra acampar, mas tinha que pagar guia e já estava tarde pra começar qualquer um dos dois (eram 11 da manhã). Nesse meio tempo, o céu abriu bastante, pelo menos praqueles lados. Estávmaos com bastante sono e bem cansados. Descemos então até o Vale do Matutu, onde fizemos uma caminhada super light até uma cachoeira. Mas não dava pra negar a frustração – a ideia de fazer a travessia não parava de passar pela cabeça, e fica me perguntando se o tempo lá pra Passa Quatro estava aberto igual em Aiuruoca. E não deu outra, Marcelito soltou o verbo pra corrermos de volta pra Itanhandu, ligar pro nosso resgate e arriscar daquele jeito mesmo. Bora! Pro inferno o perrengue, a segurança, e sei lá mais o que. Gente teimosa e sem noção é assim mesmo.

 

Saímos correndo, ligamos pro cara do resgate, comemos salgado de padaria e tocamos pra Passa Quatro. Paramos na frente do Refúgio Serra Fina, já que o carro não iria além de lá. Organizamos as mochilas rapidinho, batemos um papo com o dono do refúgio – o Maurício, que nos disse que 4 grupos tinham iniciado a travessia, e às 16h30, estávamos de mochila nas costas pra iniciar a subida sob chuva fina. Não dava nem pra acreditar muito na loucura – íamos tentar a Serra Fina em praticamente 3 dias, naquele tempo péssimo.

 

Exaustos e a praticamente 2 dias sem dormir, sem se alimentar direito e sob chuva, saímos do refúgio e caminhamos 1,5 km até a Toca do Lobo. Subi com 6L de água, e depois de pouco mais de 1 hora de caminhada, com uma chuva cada vez mais grossa, já não estava me sentindo muito bem. A ideia era caminhar 3h até o Quartzito, o último acampamento antes do Capim Amarelo, mas sem visibilidade, com chuva grossa e já no escuro, drenada e sem energia, e ensopada, não consegui tocar em frente. Paramos no acampamento 1 (Cruzeiro, 1793m) e montamos a barraca debaixo de chuva. Às 19h, já com a barraca montada, desabou uma chuva pesadíssima sobre nós. Descobri que só tinha levado 1 par de meia, e estava molhada. O que seria dos próximos dias? Nem sabíamos se iríamos continuar no dia seguinte – se sim, teríamos um dia duríssimo, pois teríamos que chegar o mais próximo possível da Pedra da Mina. Ia depender do volume da chuva. Na pior das hipóteses, teríamos que desistir dali mesmo.

 

DIA 1 - ACAMPAMENTO CRUZEIRO AO ACAMPAMENTO DOS QUASE PERDIDOS

Acordamos com metade do céu aberto, garoa fina e uns 10 graus. Deu ânimo pra botar a roupa molhada e desmontar o acampamento, mas em pouco tempo, a chuva engrossou e o vento começou a ficar mais forte. Na teimosia, decidimos tocar em frente. Saímos às 8h30, e em pouco tempo o tempo abriu e começamos a andar nas cristas e visualizar um pouco do que tínhamos à frente – deu ânimo pra aguentar o perrengue. Mas não durou muito. O tempo fechou novamente, a chuva voltou, e o vento ficou ainda mais forte. Subimos e descemos cristas, às vezes protegidos no meio da mata. A primeira parada foi no acampamento Maracanã, mas durou 5 minutos por conta da chuva que novamente apertou. Na subida do Capim Amarelo (2.491m) teve trégua e cruzamos um grupo que tinha dormido lá em cima mas estava abortando a travessia - mais presságio ruim. Subimos mesmo assim e enfrentamos um paredão de lama – a cada 3 passos acima, escorregávamos 2 pra baixo. A chuva voltou. O ventou ficou mais forte. Mas alcançamos o cume antes do meio dia, totalmente sem visibilidade. E foi assim por várias horas, subir e descer cristas sem saber pra onde estávamos indo, escalaminhar paredão de pedra com vento forte e totalmente encharcados, com uma ou outra parada de 5 a 10 minutos pra comer qualquer coisa e respirar um pouco. Mal dava pra parar, porque os anoraks já estavam molhados por dentro, e com a parada o corpo esfriava e ficava mais frio ainda.

 

Já estava imaginando que não conseguiríamos chegar na Pedra da Mina. Eram quase 17h quando, depois de vencer mais uma crista, o tempo começou a abrir um pouco, e avistamos um vale enorme mais à frente. Já tinha avisado o Marcelito que não aguentaria muito mais tempo - já eram quase 9 horas caminhando em chuva, vento e frio e pouca comida. Decidimos parar num dos próximos acampamentos, e aí começou mais um perrengue, pois passamos por 2 acampamentos totalmente inviáveis, que estavam encharcados. Não tínhamos opção, já estava escurecendo e teríamos que caminhar até achar algum lugar que prestasse pra montar barraca. Pra piorar a situação, subimos por um morro – caminho errado – enquanto procurávamos o acampamento marcado como #20 no tracklog. Quando encontramos a trilha, ainda entramos errado num capinzal, e pra completar, o GPS deu chabu e não mostrava mais onde estávamos. Bateu o desespero: estávamos desorientados de noite, num capinzal, sem visibilidade, sem referência, e perigando tomar uma chuva daquelas. Mas não durou muito - se descemos pro capinzal, teríamos que subir de novo. E nessa subida, nos encontramos a 15 metros do acampamento. Alívio como senti poucos vezes na vida! Montamos a barraca e nos trocamos, e não deu outra, o mundo desabou sobre nós em formato de tempestade. Depois de mais de 9h de caminhada nas piores condições possíveis, podíamos descansar. De novo pensei, na pior das hipóteses, abortamos no dia seguinte via Paiolinho.

 

DIA 2 - ACAMPAMENTO DOS QUASE PERDIDOS AO PICO DOS TRÊS ESTADOS

Na noite anterior tínhamos visto algumas lanternas mais acima de nós. Devia ser um dos grupos restantes. De manhã o céu amanheceu aberto, e o sol apareceu timidamente por alguns momentos, mas iluminava com persistência os topos das montanhas em volta. Mais uma vez foi sofrido vestir a roupa molhada e gelada no frio, e apesar de ter mais um dia duríssimo à frente, tínhamos boa visibilidade e parecia que o tempo ia ficar firme. No caminho, logo cedo, o desafio de subir a Pedra da Mina (2.798m).

 

Desmontamos acampamento e tocamos em frente. No caminho cruzamos 2 grupos que acamparam improvisadamente, sendo que metade deles ficou com tudo encharcado e estavam com um menino de uns 12, 13 anos. Mais acima, 2 caras subiam o morro. Em teoria, eram essas pessoas e mais ninguém que estavam fazendo a travessia, e se ninguém tinha chegado ainda à Mina, é porque todo mundo tinha passado muito perrengue. Tocamos pra cima numa subida interminável, cuja parte final era um barranco de capim que não acabava nunca. Qual foi minha supresa quando cheguei lá em cima e vi os dois caras assinando um livro de cume? Como assim? Assim sim! Estávamos na Pedra de Mina, em menos de 1 hora de caminhada. E que presente: tempo aberto! Visão em 360 graus da Serra Fina, sol secando a roupa e iluminando bem o caminho. Bom sinal? Se descêssemos a Mina, teríamos que ir até o fim!

 

P1040550.JPG

Durante o segundo dia o tempo começou a abrir e foi possível apreciar um pouco do que tinha pra frente.

 

Aproveitamos a paisagem pra recarregar um pouco a bateria, avistamos o tal Vale do Ruah e tocamos pra baixo. Erramos um pouco o caminho mas depois voltamos à trilha. Na descida, cruzamos um grupo de 4 cariocas que ia atravessar o Vale só na base da carta, e convidei eles pra irem com a gente, já que estávamos de GPS. Achar o caminho certo no Ruah é meio difícil no começo, mas depois é só seguir o rio pela esquerda, cruzar à direita e seguir tocando. Apesar do capim alto, a trilha é relativamente visível pra quem tem experiência. Pegamos água no meio do Vale, e em alguns momentos não teve jeito de não meter o pé na água. O capim é realmente isuportável, mas saber que não tínhamos desistido e que iríamos até o fim depois de tanto perrengue, foi bem estimulante. Nessas horas me lembrava do meu amigo Jorge Soto e a travessia perpendicular que ele fez da Serra Fina... deve ter amassado muito capim! Bom, o que tinha começado como uma incerteza arriscada, estava se concretizando em um feito. Ainda faltava muito, mas o tesão – isso mesmo que você leu – da possibilidade de completar essa travessia com todo esse volume de acontecimentos estava virando energia, vontade, perseverança.

 

Romantismo à parte, depois do Ruah inciamos a subida mais longa da travessia: os dois cumes antes do Cupim de Boi (2.530m), um trecho que parece não acabar nunca. Dá-lhe vara mato, capim, subida. Ninguém fala muito, e é possível ouvir a respiração ofegante de quem vai à frente e de quem vem atrás, todo mundo exausto, entretido em seus próprios pensamentos que provavelmente não iam muito além de chegar no Três Estados (2.656m), comer, vestir uma roupa seca e dormir. No cume do Capim do Boi já é possível avistar o dito cujo, o que dá uma mistura de alívio e desespero. O caminho ainda é longo, e o tempo novamente começou a fechar. A descida parece ser muito íngreme, mas rapidamente descemos a encosta rochosa, atravessamos capinzal, adentramos mata, e depois começamos a subida do Três Estados, com escalaminha e lama, tudo misturado e bem íngreme. O cansaço era tanto que parecia que dávamos passos de alpinista em altitude: um de cada vez, intercalado com a respiração. Foram dois dias de 9 horas de caminhada, comendo mal e dormindo não tão bem assim. Mas no ponto em que estávamos, pra acabar com o sofrimento, só terminando a trilha. E olha, ô povo que gosta de sofrer...

 

Chegamos no cume do Três Estados e nos surpreendemos, pois além dos 2 que estavam à nossa frente, tinha mais uns 3 grupos pequenos por lá. E só tinha espaço suficiente pra nós. O grupo que em teoria vinha atrás com as crianças tinha desaparecido – talvez tivessem descido pelo Paiolinho, mas se tivessem continuado certamente não chegariam ao Três Estados com luz, e se chegassem não teriam onde acampar. Tivemos tempo de montar a barraca e trocar de roupa (eu com luva de Polartec no pé né...), antes de ver um incrível por-do-sol, com um céu bem aberto e uma noite salpicada de estrelas. A travessia que tinha começado como um perrengaço estava nos dando pequenos prêmios, um atrás do outro. O dia tinha sido lindo, sem chuva, e agora, a noite era bem clara. No entanto, o vento estava bem forte lá em cima, e derrubou a temperatura durante a noite. Não foi fácil dormir.

 

DIA 3 - PICO DOS TRÊS ESTADOS À BR

Se alguém pensa que a Serra Fina tem dia fácil, pensa errado. Não assisti ao sol nascer por inteiro, mas saí sim da barraca de pé pelado pra ver o tapetão de nuvens mais lindo da história da minha vida. De um lado da Serra Fina, tudo encoberto, com as pontas de Itatiaia visíveis, do outro, tudo aberto. No meio, o maciço da Mantiqueira, e nós lá em cima: uma visão que perdurou o dia inteiro.

 

P1040570.JPG

Roupa molhada, meia e bota encharcadas, cansaço e frio: assim começou o terceiro dia, descendo do Pico dos Três Estados.

 

Saímos pouco antes das 9h. O último dia sempre dá a impressão de que vai ser fácil, por ser só descida. Mas a descida na Serra Fina começa bem no fim. Descemos o três Estados e passamos por algumas cristas, com a impressão de não estar perdendo muita altitude. E aí vem a subido do Alto dos Ivos (2.513m) – mais um trepa pedra totalmente desanimador, debaixo de sol firme. Foi o único dia da trilha em que realmente fiquei preocupada em estar com pouca água. Mas vencida essa última subida, e depois de admirar um pouco a paisagem do último ponto alto da travessia, adentramos uma descida por mata que dura mais de hora, com bambu, planta e capim enroscando na cara, na perna no braço e na mochila. Me seqüestraram uma Nalgene e terminaram de fatiar meus dedos e mãos.

 

Pra ser bem sincera, essa etapa final da trilha é miserável. São algumas horas caminhando dentro da mata, sem visão de nada, e sem perspectiva de sair, com muita lama escorregadia, num caminho que não acaba nunca e paisagem que não muda, e quando acaba, acaba numa estrada. Falando nisso, uma coisa muito suspeita: quando a estrada bifurca em T, e deve-se tomar a esquerda, que é a descida pra sede da fazenda, Porém, algum “esperto” (pra não falar palavrão) montou uma seta pra direita. Pra quem não tem noção de navegação, ou GPS, ou indicação de nada, vai entrar no caminho errado. Uma mega sacanagem, pra dizer o mínimo.

 

Descemos até a sede da fazenda, depois pela estrada de terra e pelo vale, e finalmente chegamos na saída da BR, com seu calçamento octavado. É uma sensação e tanto, terminar a tal “travessia mais difícil do Brasil”. Não tem como não sorrir, depois de uma conquista tão suada como essa: não foi só fazer a travessia, foi driblar o tempo ruim, correr pra fazer em bem menos tempo que o sensato, chegar inteira, e ainda dar risada no final.

 

P1040573.JPG

A maior parte da descida do terceiro e último dia foi com esta vista: o maciço de Itatiaia ao fundo, e uma mar de nuvens sem fim.

 

Dados numéricos finais

Km total 31.58km

Tempo total de trilha 27h53

Peso ida 18-19kg estimados, com 6L de água (como a mochila é nova e muito confortável, ainda não peguei a manha de estimar o peso, como conseguia com a antiga)

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Muito bom o relato Cissa, parabéns.

Que conquista! E que disposição e perseverança! ::otemo::

Eu iria subir na quinta, porém como estava chovendo em Passa Quatro na quarta e a previsão era de que continuaria chovendo nos dois dias seguintes acabei desistindo.

Outro que não desistiu e encarou a serra foi o Divanei que acredito você ter encontrado assinando o Livro Cume da Pedra da Mina junto com um camarada.

 

Abraço.

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Wow, PARABENS pela trip e pelo relato.

kkk, está f.a.n.t.a.s.t.i.c.o !!!

Super engraçado e leve de ser ler, não dá vontade de parar, hehehe.

Mais uma vez parabens !!!!!!!

Super beijo

Vivi

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Parabens, Cissinha e Divanei pela perseverança neste feriado de tempo modorrento e bem desanimador. Fica aqui minha sugestao de mais uma trip perrengosa ai mesmo, na Serra Fina, q apenas meia duzia de doidos ja encarou com sucesso: a conquista da Mina pelo Rio Claro, pernada pauleira de 4-5 dias q corta transversalmente no sentido norte-sul a tradicional Serra Fina.

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Caraca, perrengão gostoso esse, hein? Parabéns pela coragem e pelo relato, que ficou muito bem escrito. Fiquei curisoso para ler o texto do Divanei....

abs!

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Parabens pela Conquista. Nos encontramos no cume da Pedra da Mina e o garoto que voces viram por lá tinha 14 anos e acabaram nos acompanhando da Pedra da Mina até o final. Nós passamos pelas mesmas desgraças metereológicas que voces passram e por pouco não sucumbimos ao mau tempo.

O meu relato estou escrevendo aos poucos porque ainda sinto dores em todas as partes do corpo(rsrsrsrsr).Foi minha segunda travessia pela Serra Fina e fiquei muito feliz de reencontrá-la tão selvagem como em 2001. É sem dúvida umas das melhores travessias do país. Uma travessia digna de quem gosta de montanha e detesta a chatisse e normas tacanhas dos Parques Nacionais. Montanhismo e liberdade, acho que é isso que precisamos. Um abrço.

Divanei Goes de Paula

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Essa travessia foi realmente um baita perrengue !

Graças a são pedro os turistas sumiram da montanha e as agencias que poluem os acampamentos não marcaram presença

 

Aposto que o perrengue seria maior com tempo bom e sem local para dormir

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      Ficamos na barraca por 20:00 hs, pois durante o dia ficou feia a coisa.
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      Volta ao Hostel, dormimos e fomos embora na segunda feira, finalizando assim a trip, que foi umas das mais HARD que já fiz.
      A Serra Fina para Mim é considerada uma das mais difíceis e pesadas do Brasil.
       
      Use sempre Protetor Labial.
       

      Dicas
      Mesmo fazendo a travessia no final da temporada de montanha, bambus e Capim Elefante são uma constante. Luvas e blusa de manga longa é boa pedida.
      O desespero em saber que a travessia oferece pouca água, não deve ser considerado algo extremo, lembre-se que o corpo necessita de liquidos, não somente água. Eu particularmente, levei sucos prontos, e água de coco e só abasteci a garrafa de água mesmo no terceiro dia. Os dois primeiros só bebia nos pontos de água. Mas isso claro, vai de pessoa para pessoa.
      Quando fizer paradas próximo ao Capim Elefante, a presença dos ratinhos deve ser considerada e não deixe a mochila aberta de forma alguma. Nos cumes, nada de comida fora da barraca e se possivel, longe dos cantos para evitar o cheiro.
      Protetor solar e chapeú que cubra o rosto e pescoço é ótimo, pois o bambuzal deixa muito matinho caindo pelas costas. Bandanas também são muito uteis, principalmente nos cumes para não ficar com o nariz vermelho pelo frio.
       
       
       
       































    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
    • Por eleonardo
      SERRA FINA
      CAMINHANDO ENTRE GIGANTES
       
      Texto por Alan S. Kronemberg
       
      NA MANHÃ de uma quinta-feira, 27/09, Eleonardo Louvain e eu descíamos do ônibus em Passa Quatro, pequena cidade do sul de Minas, com 50 Kg de víveres e equipamentos nas costas. Tínhamos pela frente uma longa e difícil jornada: a travessia da Serra Fina. Após cruzarmos a pracinha local admirando ao longe as montanhas, nosso breve destino, chegamos à pousada São Rafael onde um quarto nos aguardava para algumas últimas horas de conforto. Era nosso plano partir no dia seguinte.
      O maciço da Serra Fina fica numa região isolada e de difícil acesso da Mantiqueira. Posto nos mapas pela primeira vez em 1923 pelo engenheiro Álvaro da Silveira, esse lugar fora durante muito tempo esquecido, ofuscado pelas montanhas do outro planalto próximo e mais famoso, o Itatiaia. A situação começou a mudar apenas em 2000, quando uma nova medição feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, anunciou o maior cume desse maciço, a Pedra da Mina, como sendo o 4º mais alto do Brasil, com 2.797 m. Esse fato fez a gente de Passa Quatro se acostumar a ver tipos mochilados como nós perambulando na região. Naquele fim de semana, porém, éramos os únicos na cidade dispostos a partir rumo àquelas montanhas.
      A carta que possuía comigo conseguida junto ao IBGE mostrava bem o descaso ao qual me referi sobre a Serra Fina. Datada de 1974, era a única existente da região. Não tinha sequer o nome ‘Serra Fina’ escrito nela, além de mostrar a Pedra da Mina com a altitude antiga de 2.770 m. Esse mapa e uma bússola eram tudo o que dispúnhamos até, por sorte – quando entrávamos num armarinho para comprar camisa para o lampião –, conhecermos Taia e seu filho, Davi. Os dois, experientes guias locais, nos deram informações valiosas sobre o caminho e um croqui da trilha mostrando os pontos de acampamento e abastecimento de água.
      Fora os conselhos, ouvimos com atenção as histórias sobre resgates vindas das montanhas no horizonte próximo. Eram muitas. Impressionou-me o caso de um senhor de mais de setenta anos que, depois de subir a serra e ser pego de surpresa por um temporal, passou três dias e três noites sem água e comida, tendo que beber a própria urina para sobreviver. Segundo os guias, o mau tempo na Serra Fina representa um risco considerável por causa dos ventos fortes, da neblina cegante e do frio excessivo. Outrora, no inverno, chegou-se a medir na região a temperatura de -17ºC.
      O maior obstáculo da travessia, no entanto, chama-se Á-G-U-A. Em todo o percurso de quase 40 Km, somente existem quatro pontos para o reabastecimento, o que obriga cada viajante a levar consigo pelo menos 4 L. No caso dos mais sedentos, um litro a mais se torna indispensável na mochila.
      A navegação em alguns trechos da travessia também exige muita precisão devido ao capim-elefante. Essa vegetação, de altura maior que um homem, ocupa campos extensos da Serra Fina e encobre a visão do horizonte e da trilha já aberta. Taia alertou-me para estar atento principalmente ao chegar no traiçoeiro Vale do Ruah após a descida da Pedra da Mina.
      Pelo fim da tarde, retornamos ao hotel para nos certificarmos de que não faltava nada para a partida no dia seguinte. Seu César, dono do São Rafael, aproveitou uma brecha entre os seus afazeres e nos levou a uma esfirraria famosa da cidade, a Monte Líbano, a fim de prosearmos um pouco.
      Aos goles de uma cervejinha bem gelada e escorados sobre um balcão rústico de madeira, conversamos sobre a Serra Fina, que Seu César definiu como a mais difícil travessia do Brasil. Falamos ainda sobre a vida em Passa Quatro. Com 15.000 habitantes, esse município é uma estância hidromineral repleta de fontes d´água espalhadas pelas suas praças e jardins. A cidade conserva casarões do início do século XX e sua rua principal é a antiga Estrada Real por onde aventureiros e bandeirantes passavam a caminho dos sertões das Gerais. A propósito, a cidade teve sua origem em 1674 na passagem do bandeirante Fernão Dias pelas terras altas da Mantiqueira. Achei interessante a origem de seu nome. No passado, aos paulistas que procuravam um lugar sossegado para pouso nessas bandas, Fernão Dias deixara o seguinte recado: “Saindo da Capitania de São Paulo, segue o rio Paraíba do Sul, terás ao norte uma grande cordilheira, a Mantiqueira. Ao encontrares nela uma garganta profunda é o Embaú, a única passagem tranqüila para o Sertão das Gerais, então galga a serra e passa quatro vezes o rio que se escorrega por um verde e espaçoso vale, chegarás assim a um pouso...”. Dessa expressão, surgiu Passa Quatro. Dela, bandeirantes modernos partem, hoje, em busca de aventuras nas montanhas que circundam a Pedra da Mina.
       
      O BATISMO NAS MONTANHAS
       
      A TRAVESSIA COMEÇA, de fato, um pouco longe de Passa Quatro, num local chamado Toca do Lobo. Para se chegar nele, é preciso percorrer alguns quilômetros da rodovia e entrar numa estrada de terra, seguindo por mais uns 10 Km. Pagando-se em torno de cem reais, se consegue um transporte 4x4 até esse lugar em Passa Quatro, mas, como nosso dinheiro era curto, na manhã seguinte, nos restou aproveitar a carona de Seu César até o começo da estrada de chão batido e, nesse ponto, arrumar outra carona do caminhão de leite para o alto da serra. Essa baldeação nos valeu chegar a 8 Km da tal toca. O restante passou a já fazer parte da travessia.
      Após um banho na cachoeira gelada da Toca do Lobo, que preparou o corpo e o espírito para a trilha, subimos morro acima ganhando altitude até a cachoeirinha, no Quartzito, primeiro ponto de água. Aí, adentrávamos a linha dos 2.000 metros, pela qual seguiríamos cada vez mais alto nos próximos dias. Nesse ponto também, começamos a conhecer a verdadeira face daquelas montanhas.
       
       
      Como já estava um pouco tarde e uma nuvem escura caminhava em nosso encalço, julgamos que não tardaria a chover. Preferimos, por isso, montar ali o acampamento. Para sermos mais rápido, dividimos as tarefas: Eleonardo foi pegar água, enquanto eu comecei a arrumar a barraca amarela, chamada por mim de Tempestade I. Não bem tinha esticado a capa de chuva sobre ela e um trovão varreu os céus da serra anunciando o que acabávamos de prever.
      No CABRUUUUUUUUM seguinte, os pingos d´água começaram a cair e rapidamente o horizonte ficou tomado de nuvens brancas. Era a certeza do temporal vindouro. Felizmente, Eleonardo já vinha com os cantis.
      Esforcei-me para deixar a barraca preparada para uma chuva forte - coloquei pedras esticando sua capa ao máximo. Quando pulei para dentro dela, enfim, o céu desabou. O vento começou a chacoalhar a barraca e a zunir tanto que mesmo uma conversa a alguns centímetros era difícil. A Serra Fina rugia.
      Há tempos, a região enfrentava uma seca tremenda que chegara a ocasionar um vasto incêndio no vizinho Itatiaia. Quando deixamos o Rio de Janeiro rumo à Passa Quatro, a meteorologia previa chuvas esparsas no final de semana em razão da primavera. Eu chegara a pensar que seria bom chover um pouco, pois a secura poderia tornar mais difícil a travessia devido ao calor e à pouca umidade. Vendo minha barraca balançar, tive outro julgamento. Imaginei que estávamos somente começando a subir. Se naquela altitude, as coisas na Serra Fina se comportavam de tal maneira assustadora, como seria mais acima aonde iríamos?
      Estando com fome e não havendo como deixar a barraca, a solução foi prepararmos alguma refeição dentro dela mesmo. Sacamos as canecas, preparamos um achocolatado com biscoitos e ficamos aguardando pacientes pelo fim do temporal. Cerca de duas horas depois, a chuva deu uma trégua. Ao sairmos para ver a situação, uma surpresa! Dessa vez uma nuvem gigantesca vinha na direção do Quartzito, embranquecendo tudo sob ela. Parecia um enorme monstro branco jogando suas presas sobre as colinas. Uma visão impactante.
      Acompanhei a chegada da nuvem até bem próximo da barraca, de pé. Quando vi um lampejo sair do seu interior, minha reação foi correr para dentro de Tempestade. Um trovão estrondoso ecoou no céu. Vi Eleonardo deitado na posição fetal – segundo ele, para não atrair os raios. Logo depois disso, houve um clarão enorme, seguido de outro trovão pavoroso e resolvi fazer o mesmo, por precaução. O relâmpago, dessa vez, pareceu passar ao lado da barraca!
      Lá pelas tantas da noite a chuva cessou e, em seu lugar, um manto de estrelas cobriu o céu. Do mirante onde estávamos, podiam-se ver as luzes de Passa Quatro e de algumas fazendas espalhadas pelo horizonte. A Lua brilhava com todo o seu vigor, cheia e prateada. À luz do lampião, acendemos o fogo e preparamos uma mistura reforçada de alimentos. Até um champingon que havíamos levado foi junto. Tudo para matar a fome e nos deixar prontos para o outro dia. Aquela sexta valera como o batismo na Serra Fina.
       
      RATOS
       
      SÁBADO, 10 h. Após abastecermos todos os cantis – dali para frente só encontraríamos água perto da Pedra da Mina, a dois dias de viagem – arrumamos as mochilas e partimos. Deixamos o Quartzito tarde, pois nosso plano era subir apenas o Capim Amarelo, primeira grande montanha da travessia, com 2.491 m.
      A subida levou algumas horas. O tempo se manteve nublado, dissipando ao fim da tarde. Logo que chegamos, arrumamos o acampamento num dos muitos espaços abertos para pouso, preparamos a espiriteira, acendemos o fogo e fizemos a comida: macarrão com molho de tomate recheado de orégano. Ótimo paladar! Senti-me em casa.
      O Capim Amarelo é chamado dessa maneira por causa do tom amarelado que o capim-elefante possui nesse local. É tamanha a incidência dessa vegetação nesse cume que a vista fica comprometida. De lá, pudemos ver pela primeira vez, ao longe, a Pedra da Mina. Descobrimos, também, que não estávamos sós na travessia. A noite nos revelou um importuno invasor.
      Enquanto a comida era feita, um pequeno rato aproximou-se das panelas. Nessa hora, eu estava na barraca e pude apenas ouvir Eleonardo gritando Sai! Sai! e batendo com os pés no chão.
      – Foi um rato? – perguntei. Taia nos advertira sobre ter cuidado com esses animais no alto do Capim.
      – Sim. E era grande – respondeu Eleonardo.
      Mais tarde, quando já havíamos deitado para dormir, ouvi um barulho estranho perto da barraca. Suspeitei de um rato estar tentando rasgar o pano para entrar.
      Acordei Eleonardo e apanhei a lanterna. Acendi a luz, o barulho cessou. Abri a porta. De dentro da barraca, não via nada lá fora. Passando as mãos entre as coisas amontoadas perto do meu lado de deitar – de onde suspeitava vir o som – não encontrei coisa alguma. Achei melhor examinar direito.
      Quando afastei minha mochila, logo pude ver um buraco no pano da barraca. Constatei que estava enganado: o rato não queria entrar; ele já estava dentro. Retirei a mochila de ataque e vi o rabinho mexendo que denunciava o invasor. Ao tirar a panela, flagrei o animal comendo sem titubear o miojo. Quando pus a luz da lanterna em seu rosto, ele nem ligou, continuando sua refeição. Só quando mexi as coisas perto dele que resolveu sair pelo mesmo buraco por onde entrara.
      Resultado da noite: levamos alguns miojos para longe da barraca, junto com as panelas sujas de alimento, para podermos ter um sono tranqüilo enquanto o ratinho e seus parentes faziam um banquete.
       
      PEDRA DA MINA
       
      APESAR DO incidente com o rato, na manhã seguinte, a lembrança viva em minha mente era do instante em que, de madrugada, havia saído da barraca para ver como estavam nossas coisas. Guardo comigo a visão colossal da Pedra da Mina iluminada pela Lua cheia, com um mar de nuvens cinza aos seus pés. Senti-me no paraíso naquele momento e agradeci aos céus por poder contemplar aquela fotografia que nossas câmeras não eram capazes de capturar, apenas meus olhos.
      Fazia silêncio. O que se ouvia era apenas a suave brisa sobre o capim, a balançar o mato devagar. A silhueta escura do gigante de rocha dominava o horizonte e sua imponência impunha um respeito a toda a natureza ao seu redor. Nada era mais alto do que ele. Não se podiam enxergar os vales escondidos debaixo das nuvens de uma brancura contrastante. Tive a impressão de ser possível caminhar sobre o mar de algodão formado por elas, espesso o bastante para suportar o peso de até um exército de aventureiros que nele quisessem passar rumo à Pedra da Mina. Do caminho que tomaríamos no dia seguinte, somente os trechos mais altos, como a Serra Fina, eram contemplados. Tudo isso emoldurado pela Via-Láctea e pela abóbada de estrelas do céu, onde a Lua, radiante, surgia como um farol a iluminar aquela vasta paisagem.
      Olhando para a Pedra da Mina, soberana daquelas terras, refleti sobre a vida do explorador. Em quanto ela é solitária e cansativa, mas também recompensadora. Definitivamente, as mais belas paisagens do nosso mundo, assim como os maiores mistérios, estão em locais afastados dos grandes centros. Nos extremos, encontramos nossas origens e nos deparamos com a natureza selvagem, muitas vezes amiga, outras vezes inimiga. Lá, não diria que somos meros coadjuvantes; não acredito nos que dizem que o homem seja nada diante dela. É certo que o poder da natureza em muito supera a força humana, mas o ímpeto que carregamos dentro de nós é tamanho que mesmo ela, em sua grandeza, nos deixa passar. Até os gigantes nos permitem transpor suas coroas.
      Assim, com essa imagem na retina, deixei o alto do Capim Amarelo atrás de Eleonardo. Ele teve mais sorte para encontrar o começo da trilha que descia a montanha.
      Na descida do Capim, encontramos o primeiro sinal de alguém que passara por aquelas terras: um bastão de trekking quebrado. Desde que havíamos partido da Toca do Lobo, na sexta de manhã, não cruzávamos com ninguém.
      O caminho começou a ficar mais fechado e traiçoeiro em alguns trechos de capim-elefante. Eu mantinha os olhos atentos à minha bússola, na sua agulha apontada para o norte, que, ao longo do percurso, se mantinha às oito horas de nós. Horas depois, após subirmos e descermos diversos morros e vales, atravessamos a crista da Serra Fina. Esse conjunto de colinas, responsável por dar nome a todo o maciço, é uma linha de montanhas altas por sobre as quais se marcha num caminho desenfiado e estreito, que leva aos pés da Pedra da Mina. O nome “Fina” não é por acaso. Há espaço para somente uma pessoa de cada vez passar na sua crista. O viajante segue o tempo todo admirando a serra da Bocaina no horizonte sul e os campos de Minas no leste.
       
       
      Naquele dia, um domingo de bastante sol, acampamos na base da Pedra da Mina, no local conhecido como cachoeira Vermelha. Essa queda d´água de uns quinze metros serve de guia para os viajantes que, ao descerem o morro do Melano, podem vê-la de longe. A água aí é rica em ferro – razão de ela ser avermelhada – o que a deixa com um gosto diferente, mas facilmente bebível para quem chega de uma jornada de horas com a garganta seca.
      Dela, seguimos, na segunda-feira pela manhã, para o ataque à Pedra da Mina. O gigante, mais próximo do que nunca, lançava seu olhar sobre nosso caminho, o tempo todo a nos instigar. Cruzamos a nascente do rio Claro com os cantis parcialmente cheios, certos de que do outro lado da montanha, no Vale do Ruah, acharíamos água. Enfrentamos duas horas de subida sob um sol forte, de totem em totem, fitando com os olhos o topo mais esperado.
       
       
      Por volta de 14h, passamos pelo gigantesco totem montado por montanhistas e, logo em seguida, chegamos! Tocamos a marcação recente do IBGE, datada de 2004, e o livro que sela o nome de todos que alcançaram o cume da Pedra da Mina. Deixamos lá nossos nomes, a 2.798 m de altitude.
       
       
      O VALE DO RUAH
       
      PASSADOS trinta minutos admirando o horizonte no topo da Mantiqueira, seguimos adiante para o trecho considerado por muitos o mais difícil da travessia. Do alto da Pedra da Mina, a visão do Vale do Ruah é fan-tás-ti-ca! Uma região do tamanho de quatro campos de futebol, tomada de capim-elefante.
      Enquanto descíamos, era possível ver o rio Verde do lado oposto a onde cairíamos no vale. Tínhamos que rumar até ele e depois margeá-lo até a Brecha, um monte uns dois quilômetros à frente no qual começa a subida para o pico dos Três Estados, a décima maior montanha do Brasil. Eu sabia que, dentro do vale do Ruah, não enxergaria mais nada, por isso, tinha que do alto traçar o azimute certo.
       
       
      Nosso ritmo de marcha durante a descida da Pedra da Mina fora comprometido devido às dores intensas que Eleonardo começou a sentir no joelho. No dia anterior, ele havia tido uma entorse e vinha caminhando suportando a dor e com certa dificuldade. Foi necessário parar algumas vezes. Chegamos a cogitar a possibilidade de acampar no Ruah, hipótese descartada depois que nuvens negras começaram a se avolumar sobre nossas cabeças.
      Entre as moitas de capim-elefante, a trilha certa exigia olhos de águia. Há picadas no Ruah para todos os lados e direções, abertas por viajantes que perderam o caminho. Com a visão comprometida devido à altura da vegetação, caminhamos mata adentro nos guiando pela bússola e pelo som do rio Verde. Quando era possível, olhava por sobre o capim e avistava o colo para onde eu sabia correr esse rio, local aonde nós também deveríamos seguir.
      Dessa forma, conseguimos atingir o rio Verde. Abastecemos nossos cantis para mais um longo trecho sem ver água e continuamos lado a lado com o seu curso. Foi quando começou a chover granizo.
      Já era quase noite, quando tomamos uma direção para fora do Ruah, galgando novas alturas. Estava feliz por ter vencido a parte dita a mais difícil da travessia e com frio devido à chuva que não parava. No topo da Brecha, havia um bom local para acampar. Com presteza, montamos o acampamento e, cansados, adormecemos logo após entrarmos na barraca. Despertamos lá pelas 11 h da noite. Não chovia mais. Preparamos uma suculenta sopa de feijão com legumes e macarrão para matar a fome. Se tudo corresse como prevíamos, aquela seria nossa última refeição na Serra Fina.
       
      TRÊS ESTADOS E O RETORNO PARA CASA
       
      O DIA AMANHECEU com uma bela manhã de sol, propícia para secar nossos equipamentos. Outra vez, cada um tomou sua caneca de chocolate e, levantado o acampamento, partimos rumo ao pico dos Três Estados.
      O caminho seguiu pela crista das montanhas até o topo da elevação chamada Cupim de Boi devido à semelhança que possuí com essa parte do bovino. Dela, descemos um vale profundo dominado por uma mata de bambus e por isso de difícil passagem, após o qual, derramava-se a encosta do Três Estados.
      Durante a subida dessa montanha, a natureza revelou-se benévola conosco. A chuva do dia anterior havia depositado gelo entre os tufos de capim-elefante e com isso, pudemos encher os cantis.
      O pico dos Três Estados, a 2.665 m, é repleto de capim-elefante e possui um triângulo de ferro já bem enferrujado indicativo das direções dos estados que se encontram naquele ponto. Aliás, essa uma particularidade dessa montanha. Em qualquer mapa do Brasil que possua as divisões interestaduais, pode-se identificar o local exato de seu cume. Lá, um mastro marca o último grande desafio da travessia da Serra Fina para quem chega da Toca do Lobo. Aos que vem pelo outro sentido e iniciam a jornada, o fato de ele estar sem a bandeira brasileira serve de sinal da força dos ventos e da natureza naquela região inóspita.
      Após o Três Estados, o Alto dos Ivos é a última altitude a ser vencida antes do começo da descida da serra. De seu topo, avista-se ao longe o maciço de Itatiaia e o grandioso Agulhas Negras. Lá, eu e Eleonardo despedímo-nos da Serra Fina por onde caminhamos cinco dias seguidos sem a companhia de ninguém, apenas dos gigantes.
    • Por BetoPira
      Caros,
      Semana passada estava em Piracicaba, sem minha mulher nem meus filhos, que tinham saído de férias, quando olhei pra minha cargueira e resolvi fazer a travessia da Serra Fina na Mantiqueira. Já namorava essa travessia faz vários anos, mas nunca tinha calhado de dar certo fazer. Bom, em dois dias reuni o material de navegação necessário, chequei o equipo, passei no supermercado e pé na estrada. Já sabia que o verão não é a época recomendada pra essa trilha, por causa das tempestades que assolam toda Mantiqueira e que são ainda mais violentas acima dos 2.500 m de altitude. A previsão do tempo era de trovoadas esparsas o que achei de bom tamanho pra um janeiro...
      Pra fazer a travessia estudei as planilhas do S. Beck e do G. Cavallari (publicadas), levei a indispensável carta 1:50.000 de Passa Quatro, bússola e, como estava sozinho e queria me garantir, levei ainda um GPS com WP e Tracks carregados. Desnecessário dizer que equipo completo é obrigatório em função das viradas de tempo, então é bom estar preparado pra chuva e frio. Fiz em 4 dias, mas vi que mais leve dá pra fazer em 2, encurtando o tempo entre as fontes de água. É só uma questão de balancear os objetivos de cada um.
      1º dia
      Entrei no carro e rumei direto pra Toca do Lobo, que tem acesso 5 km depois da divisa SP-MG de quem vem da Dutra em direção a Passa Quatro (MG). São uns 15 km de subida que como estava seco o carrinho agüentou bem, mas recomendo deixar o carro na cidade e arrumar transporte traçado pra subir a serra. Cheguei na Toca por volta da uma da tarde, enchi os cantis (3,5L) que deveriam durar até o meio do dia seguinte e peguei a trilha rumo ao Capim Amarelo. Nenhum problema de navegação. O rumo é claro e a trilha bem marcada nesse trecho. Depois de umas 5 horas e meia eum graaaaaande desnível vencido já chegava no cume, fazia a janta e caía num sono bom.
      2º dia
      Amanheceu com o tempo fechado, visibilidade reduzida e na descida do Capim Amarelo já percebi que o verão tinha feito sua parte e a trilha já estava mais fechada, exigindo atenção , carta e bússola na mão pra não sair do rumo. Mesmo assim me desviei e também em função de distração minha não percebi que o GPS tinha se descalibrado... bom, problema detectado, problema resolvido, trilha reencontrada. Pra temperar veio um pouco de chuva, mas, sem grandes transtornos já chegava depois de umas 5 horas na fonte d’água. Almoço farto, muita água pra dentro e encarei a subida da Pedra da Mina por mais uma hora... chegando lá em cima, recompensa merecida, vista magnífica do vale do Ruah com o maciço de Itatiaia ao fundo. Isso durou umas 2 horas até o tempo começar rapidamente a fechar e a preparar um espetáculo de tempestade!!! Foi água pra ninguém colocar defeito!!! Por precaução não tinha armado a barraquinha no cume, mas num lugar mais protegido e não tive problemas de ser carregado pelo vento e jogado lá embaixo.
      3º dia
      Choveu a noite toda e tinha decidido pegar a trilha de descida do Paiolinho e interromper a travessia na metade. Afinal, pai de filhos pequenos tem que se cuidar... Mas... amanheceu com o tempo bom e não teve jeito, fui puxado em direção ao vale do Ruah coberto por capim elefante com rumo marcado pra atingir o Cupim de Boi e depois o Pico dos Três Estados. O que que é esse vale do RUAH!!! Coisa mais linda, parece uma savana africana, só faltam os leões e as girafas. O capim estava exuberante e... fechado. Mas a navegação não teve complicações, mais uma vez a desatenção junto com o crescimento da vegetação faziam perder a trilha facilmente e logo me via num emaranhado de capim dificílimo de transpor. Essa é uma tônica na Serra Fina: os rumos são claros, mas fora da trilha a passagem é muito complicada. Parabéns pra quem abriu essa travessia!!! Bom, depois de um bom banho no vale e reabastecer os cantis, cheguei rápido no Cupim de Boi e logo até o Pico dos Três. Lá pelas 4 da tarde vi o tempo fechar novamente e pensei que seria prudente acampar uma hora mais pra frente num ponto mais protegido conhecido como abrigo dos bandeirantes. Fiquei por lá mesmo. E o tempo fechou mesmo. E caiu água novamente!!! ê vidão!
      4º dia
      Aproveitei a noite pra coletar água e me esbaldar com o precioso líquido, amanheceu tempo fechado com um tímido nascer do sol, mas mesmo assim deu pra curtir o visual com toda a Serra Fina ao fundo e a vista perfeita de Itatiaia à frente. Era meu aniversário o que deu um tempero bom pro início da manhã. O último dia tem uma descida complicadinha logo de cara, mas a direção é certa, o Alto dos Ivos, e não tem como se perder. Em 2 horas chegava lá, e logo iniciava a descida final no meio da Mata, passando pelo espetáculo do bosque das bromélias, chegando na Fazenda e logo nas amenidades da civilização. Uma carona fácil até Itamonte (sorte???) e de lá, peguei ônibus de saída pra Passa Quatro (sorte???). Em Passa Quatro contactei o famoso Cipriano (35) 3371-1660 com sua Toyota e fui resgatar meu carrinho debaixo de muita chuva e muita paz de espírito.


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