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divanei

Serra Fina - A Grande Travessia Entre o Inferno e o Paraíso

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SERRA FINA – A GRANDE TRAVESSIA ENTRE O INFERNO E O PARAÍSO.

 

..........Já é final de tarde quando dois homens de meia idade, quase que cambaleando, descem por uma crista de pedra rumo ao acampamento base da Pedra da Mina. Um branco e magrelo o outro barbudo e de chapéu. Os dois indivíduos lutam contra o vento que vez ou outra tenta jogá-los montanha a baixo. Estão molhados, com muito frio e tentam localizar o caminho se guiando por pequenos totens de pedras, mas a forte neblina e a chuva não os deixam enxergar um palmo à frente do nariz. Quem olha a cena vê logo que os dois sucumbirão ao mal tempo a qualquer momento, parece só questão de tempo. Der repente o magrelo pisa em uma pedra lisa, escorrega e quase vai parar la em Passa Quatro – MG. O homem de chapéu fica inerte, quase não se move, fica só esperando a hora certa para tirar um sarro do seu amigo de infância (filho da mãe!). O magrelo tenta se levantar, mas o peso da mochila não o deixa. Ele se esforça e consegue. Suas mãos estão toda ralada. Sua bunda toda dolorida, mas não quebrou nada. Os dois homens seguem. Suas mãos estão congeladas e eles parecem estar em estado de semi-hipotermia. Estão com tanto frio que mal conseguem segurar seus cajados e se não conseguirem encontrar logo uma área para acampar estarão em maus lençóis, já que a noite se aproxima e a temperatura deve cair mais drasticamente ainda. Apesar de parecerem frágeis, estes homens não podem ser subestimados. Há dois dias eles vêm suportando toda desgraça que o mau tempo na montanha vem lhe jogando às costas. Suas pernas já estão destruídas, já tomaram tudo que é tipo de tombo. Seus ombros já estão tortos de tanto carregarem suas mochilas com mais de 20 quilos de peso. Já subiram montanhas com desníveis gigantescos. Já perderam o caminho várias vezes e com muita força e determinação, voltaram a reencontrá-lo. Vê se logo que não são super-homens, mas carregam dentro de si uma garra e uma vontade incontrolável de chegar ao seu destino, pois com eles sempre foi assim, não desistem nunca, são mesmos uns bravos. Finalmente antes do sol se por, eles conseguem atingir uma área de camping a 100 metros antes do acampamento base. Não pensam duas vezes, jogam suas mochilas no chão e rapidamente montam sua minúscula barraquinha. Estão salvos! Jogam-se para dentro da barraca, colocam roupas secas e entram no saco de dormir. Logo apagam, estão exaustos. Somente horas depois quando a chuva cessa um pouco é que vão cuidar do jantar.

 

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Bom, estes dois caras sou Eu e o Dema e como uma travessia não pode começar pelo meio, esta história também não. Vamos ao seu começo.

Precisou que mais de 10 anos se passasse para que eu me animasse a voltar à SERRA FINA, onde está localizada a montanha conhecida como PEDRA DA MINA, com altitude de 2.798 metros acima do nível do mar, a montanha mais alta de todo o Estado de São Paulo, o ponto culminante de toda a Serra da Mantiqueira e a quarta montanha mais alta do Brasil. A notícia que uma galera de amigos virtuais estava montando uma expedição para serra e a oportunidade de apresentar esta fantástica travessia ao meu amigo Dema foi o estopim que faltava para minha volta a estas montanhas. Diferentemente de 2001, hoje a Travessia da Serra Fina ficou famosa e quando surge uma oportunidade a galera disputa uma vaga nos grupos a tapa. No final ficou decidido que seriam 17 pessoas, divididos em dois grupos, para caberem em duas Kombis. Mas a previsão do tempo foi mudando e a possível entrada de uma frente fria no feriado começou a espantar algumas pessoas. Alguns desistiram por problemas de saúde na família, outros preferiram ir participar da passeata colorida na Av. Paulista e teve uns que não foram porque tinham que fazer inscrição no programa “O MAIOR ARREGÃO DO MUNDO” (kkkkk, foi só brincadeirinha galera). No final acabaram sobrando somente Eu e o Dema e mais dois ou três paulistanos. Combinamos de nos encontrarmos na cidade de Passa Quatro – MG, por volta das seis horas da manhã.

Às 18 horas, Eu e o Dema embarcamos na rodoviária de Campinas rumo a São José dos Campos e em São José pegamos outro ônibus às 23h40min para Passa Quatro, aonde chegamos antes das três horas da manhã. Até o dia amanhecer, ficamos “hospedados” na “Rodoviária Palace” e nos acomodamos nos confortáveis bancos de madeira. Assim que o sol surgiu por de trás do céu cinzento, nos deslocamos até o local combinado para encontrarmos nossos amigos paulistanos. Quando tocamos o interfone do hotel onde os sujeitos deveriam estar, recebemos a informação que não havia ninguém com os nomes citados. Pronto! Estávamos agora só nós dois, sem transporte para o início da trilha, perdidos em uma cidadezinha deserta de gente por causa do tempo ruim. Pelo menos a cidade estava muito bonita, com as ruas todas decorada por causa do feriado de Corpus Crist. Tentamos alugar um taxi para nos levar até a Toca do Lobo, que é o início da travessia, mas o cara quis arrancar o nosso coro, então o mandamos a merda e decidimos enfrentar os quase 20 km a pé mesmo, desistir é que não iríamos, há isso não!

 

Da minúscula rodoviária de Passa Quatro seguimos até a ponte que atravessa o rio de mesmo nome e pegamos a rodovia para a esquerda. Andamos uns 500 metros e perguntamos para um grupo de romeiros que estavam indo para Aparecida se ainda estava longe a divisa de Estado. Eles nos disseram que deveria ficar a uns 5 quilômetros, só que ficava no sentido contrário . Putzzz que furo, nem começamos a caminhada e já tínhamos errado o caminho. Voltamos para o lado correto da rodovia e em mais ou menos uma hora de caminhada, depois de passarmos pelo marco de concreto da “Estrada Real”, chegamos ao barracão da CONAB e então pegamos para esquerda na rua asfaltada. O asfalto acaba depois de uns 500 metros e mais um quilômetro à frente todo o aglomerado de casas ficou para trás e então vamos acompanhando pelo lado esquerdo, o vale do Rio Quilombo. A caminhada é agradável e não chega a ser enfadonha. De vez enquando, passa por nós a galera que também se dirige para o início da travessia, todos sortudos que conseguiram arrumar transporte e não precisarão enfrentar todo esse percurso a pé. Chegamos a pedir carona, mas todos os carros e jipes estão lotados. É vamos na canela mesmo! Logo à frente encontramos um nativo que a cavalo, vai tocando duas mulas de volta para seu pequeno sítio. Ele acabará de descarregar sua pequena produção de leite em um sítio de um parente onde há um freezer para conservar o produto. Logo puxamos conversa com seu Lourival. Homem simples e humilde não pensa duas vezes e nos oferece as suas mulas para levar nossas pesadas mochilas por pelo menos uns 3 km à frente, onde ele terá que abandonar a estrada para acessar sua casa. Mais que depressa jogamos as mochilas nos ombros das mulas e sentimos o alívio de andar morro acima sem pesos nas costas. Quando ele chega ao seu destino, nos convida para um gole de água e para saborear umas bananas maduras. Impossível recusar tal proposta. Hidratados e com a barriga cheia, voltamos para a estradinha de terra e retomamos a caminhada. Passamos por uma placa curiosa: ”PROÍBIDO A ENTRADA DE PESSOAS E TAMBÉM DE ANIMAIS”. É parece que os animais por estas bandas também são alfabetizados (rsrsrsrsrs). A pernada continua por um bom tempo até que chegamos a uma ponte que cruza o Rio Quilombo. Perguntamos a uns nativos se a Toca do Lobo está longe. Como bom mineiro eles nos dizem que se continuarmos andando no ritmo que estamos não levamos nem meia hora. Levamos mais duas. Chegamos a Toca às 11h30min da manhã. A Toca do Lobo é o final da estrada e não passa de um pequeno buraco no barranco, onde á sua frente temos o pequeno poço de águas cristalinas, onde todos devem se abastecer com pelo menos 4 litros de água para 2 dias de caminhada. Fizemos uma parada para um pequeno lanche. Logo passa por nós dois montanhistas apressados, tão apressados que com GPS e tudo perdem o começo da trilha. Explico para eles por onde seguir e volto para mastigar meu lanche.

O tempo volta a fechar. Somos os últimos a entrar na trilha. Pulamos, portanto as pedras que barram o pequeno riacho e logo encontramos a trilha que faz uma pequena curva para a esquerda e segue sempre subindo.

O relato que segue, não será um relato explicando o caminho a seguir e tão pouco servirá de guia para outros montanhistas. Claro que muitas dicas serão dadas e algumas muito úteis. Mas confesso, não tenho a mesma competência de outros caminhantes experientes que vão anotando passo a passo todo desvio e saídas de trilhas. Essa gente alem de escrever muito bem, ainda presta um grande serviço a todos os amantes de trilhas e montanhas e a eles todo o meu respeito. Muitos me acusarão de várias vezes “assassinar” Camões e fazer “picadinho” de Fernando Pessoa e isso será a pura verdade. Não sou escritor, sou montanhista e este texto não é um guia para o “ENEM”, é só um relato que deixo para minha filha e meus netos contando as aventuras que passei na minha vida, na esperança que sigam meus passos e possam dedicar suas vidas a proteger aquilo que tanto amamos : As montanhas, as florestas,os rios e todo tipo de vida selvagem. Texto que disponibilizo também aos meus amigos, os virtuais e os reais.

O tempo continua, portanto, muito fechado, mas não faz muito frio. Eu e o Dema vamos seguindo pela trilha que vai sempre na ascendente. Logo à frente ouvimos o barulho de água correndo do lado direito da encosta, mas me parece muito trabalhoso descer uma íngreme encosta para pegar água, mas como nossa mochila já está com o líquido suficiente para os próximos dois dias, nem nos preocupamos em investigar. Passamos pela parte da trilha em que a crista fica realmente fina e como não conseguimos ver muita coisa por causa da intensa neblina, o caminho se torna muito sinistro e ficamos imaginando a altura dos abismos de um lado e de outro da serra. O caminho passa por pequenos capôes de mata rala, passa por enormes corredores de capins de quase 2 metros de altura, que nos molha até a alma. Vez ou outra perdemos o caminho em alguma trilha falsa, mas logo a reencontramos. É preciso ir sempre prestando atenção nos sulcos que se escondem por baixo destes enormes tufos de capim. Sempre encontramos algum bom lugar para montar uma barraquinha, coisa que praticamente não existia em 2001. Em um destas áreas de acampamentos, fizemos uma pausa mais longa para um descanso e um descuido meu e do meu amigo, nos fez perder quase meia hora, quando caímos no sono. É, estamos só o bagaço! Os quase 20 km de caminhada adicional de Passa Quatro a Toca do Lobo nos destruíram, já começo a duvidar que chegaremos ao topo do Capim Amarelo hoje ainda. A trilha vai sempre subindo e não conseguir ver o nosso destino devido à neblina, nos deixa com os nervos a flor da pele. Aos poucos a temperatura vai caindo e o frio vai aumentando. O corpo já dá sinais de exaustão, chegamos ao nosso limite. O terreno muda radicalmente e então nos vemos escalando um paredão gigantesco e escorregadio. É lama que não acaba mais. Não são poucas as vezes que escorregamos e voltamos para baixo e aí temos que recomeçar o processo novamente. Mais fico feliz, acho que falta pouco para chegar ao topo. Tiramos força de onde não temos mais, cada obstáculo transposto é comemorado. – Vamos Dema, o topo está próximo! Mais um escorregão, mais uma grande rocha escalada, mais uma “bambuzada” no olho e finalmente ás 17h30min alcançamos o topo de coisa nenhuma. Que frustração! Uma rajada de vento faz surgir a nossa frente mais uma enorme montanha. Vemos logo que se trata do próprio Capim Amarelo. Olhando a foto do mapa que eu tirei em uma placa perto da Toca do Lobo percebo que estamos no alto do Camelo (2.380 m), uma hora ante do topo do Capim Amarelo (2491 m). No Camelo existe uma pequena clareira, que mal cabe uma barraca. Eu e meu amigo Dema nos olhamos e praticamente sem dizer nada um ao outro jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado nosso primeiro e longo dia de caminhada. Dez horas de caminhada e sem dormir já estava de bom tamanho, nossa jornada chegara ao fim naquele dia, não tínhamos mais luz natural, não tínhamos mais forças, precisávamos de calor e comida, tínhamos ido alem do que poderíamos agüentar. Não conseguimos chegar ao topo hoje, mais ainda estamos vivos e psicologicamente resolvidos a terminar esta Travessia e nada iria nos desviar do nosso caminho.

No Camelo o tempo fecha de vez. Montamos nossa barraca rapidamente e nos jogamos para dentro. Tiramos a roupa molhada e suja de lama, colocamos roupas secas e nos lançamos para dentro do saco de dormir, ficando por La por um bom tempo até que o nosso corpo pudesse adquirir uma temperatura confortável. De dentro da barraca, piloto meu fogareiro e logo cozinho arroz, frito umas tiras de bacon, esquento o feijão pronto. Jantamos muito bem e antes mesmos da chuva apertar já caímos no sono da morte. O primeiro dia no “inferno” estava finalizado.

Já são mais de 09h00min quando um raio de sol atinge a nossa barraca naquela manhã gelada do dia 8 de Junho. Levanto-me de supetão. O sol me anima a sair logo de dentro da barraca. A chuva se foi, é o que eu penso, mas em minutos o tempo volta a se fechar e ficar carrancudo e cinzento, não dá nem tempo de bater uma foto e a neblina cobre tudo. Coloco a água para ferver a fim de preparar um chá de mate e de gengibre. Enquanto a água esquenta tento tomar coragem para por de novo as roupas molhadas e a bota encharcada. Esse é um momento de maior angústia na montanha. Sair da cama quentinha e vestir aqueles trajes nojentos, ninguém merece! Começamos a ouvir vozes que vinham das montanhas. Pensamos ser a galera que estava no topo do Capim Amarelo se preparando pra recomeçar a caminhada, mas não era. Era uma expedição guiada que abandonaram a Travessia e estavam descendo e indo embora para casa. Mais umas 12 pessoas que desistiram de seguir. O guia que era de Petrópolis decidiu que não seria seguro continuar com o mau tempo. “Essa é a grande vantagem de contratar um guia, ele decide por você, ele sabe o que é melhor para você, ele é o senhor do seu destino” (rsrsrsrsrsr). Bom, nós não temos guia, não temos GPS, não temos se quer visibilidade para nos guiar nessa jornada. Estamos por conta própria, as pessoas a nossa frente já estão muito longe e atrás de nós parece não haver viva alma. Mesmo que houvesse seria impossível vermos alguma coisa.

Então ás 10h00min da manhã jogamos nossa mochila às costas e partimos para a escalada do Pico do Capim Amarelo. A trilha entra pelo mato molhado (cacete) e vai avançando até chegar a outro paredão, liso, escorregadio, enlameado, íngreme. E lá estamos nós, mais uma vez nos pendurando parede acima. Quarenta minutos depois atingimos os (2.491 m) do topo do Capim Amarelo. Infelizmente não conseguimos ver coisa alguma la de cima. Faz muito frio, cai uma garoa fina e uma neblina espessa toma conta de tudo. O pico do Capim Amarelo é um bom lugar para acampar, com muitas áreas bem abrigadas do vento, mas nesta manhã ele se encontra vazio e solitário. Como já estamos atrasados, tratamos logo de tentar encontrar a continuidade da trilha. Em 2001 me deram a informação que a trilha não seguia para onde seria óbvio, ou seja, para leste e sim segui quase para o norte. Lembrando-me disso, peguei minha bússola e encontrei o ponto cardeal e realmente encontramos uma trilha bem batida naquela direção. Essa trilha depois de uns 3 minutos começa a descer para leste e vai descendo entre as árvores e então se perde uma meia hora depois. É pegamos a trilha errada. Parece que todo mundo desce essa trilha, se perde no vale e depois tem que voltar a subi-la novamente. Foi o que fizemos. Voltamos para cima da montanha e encontramos outra trilha a uns 10 metros daquela que pegamos, essa sim, a trilha correta.

 

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O nosso caminho começa a descer por dentro da vegetação espessa e molhada. Nós procuramos acelerar o passo, primeiramente para tirar o atraso e também para nos mantermos aquecidos. Uma hora depois passamos por uma pequena área de camping e logo depois chegamos a um vale, que imaginamos ser o local conhecido como Avançado (2.296 m). Nesta hora o tempo abriu e todas as montanhas do lado mineiro podiam ser vistas. Ficamos super contentes e paramos por um bom tempo para bater umas fotos, mas meia hora depois o tempo voltou a fechar e a temperatura despencou de vez. Começou a ventar, mas não um ventinho qualquer, eram rajadas de ventos fortíssimas que faziam nossa alma virar picolé. Chegando a esse vale, é preciso encontrar uma trilha do outro lado, no meio do capinzal alto e então subir a parede de pedra e ir se guiando pelos totens de pedra. Um cego conseguiria se guiar melhor que nós naquele nevoeiro. Localizar três pedrinhas, uma encima da outra não era tarefa fácil. A 13h30min chegamos ao Maracanã, que é um dos maiores locais de camping da Serra Fina. Paramos ali para comer alguma coisa, mas ficar parado era coisa que não podíamos se não corríamos o risco de não nos levantarmos mais. A trilha continua par a esquerda, bem na entrada do camping. Entra na mata e vai subindo e descendo. Passando por ilhas de pedras expostas, onde eu e o Dema sofríamos para achar o caminho. E assim foi quase pelo resto da tarde. Perde trilha, acha trilha. Procura totem, procura marco de pedra, até que mais uma bobeada e nos lançamos de novo em uma trilha falsa, bem na divisa entre Minas e São Paulo. Foi mais uma pernada inútil serra abaixo. Aí toca a gente subir tudo de novo. Esses pequenos erros vão enervando a gente. A gente já começa a achar que o sucesso da nossa empreitada começa a ficar comprometido. O excesso de frio e o estado de semi-hipótermia começa a mexer com o nosso psicológico. A parte física já está pra lá de comprometida. A mochila já pesa uma tonelada, as pernas não respondem como antes. As quedas começam a acontecer com mais freqüência.

Abalados com o mau tempo que não dá uma trégua, para piorar, um vendaval avassalador nos atingi em plena crista exposta. O vento frio e cortante nos humilha e nos transforma em bonecos e nos joga para onde ele quiser. Não temos mais como resistir. Somos dois pobres coitados vagando por uma crista pedregosa. Mal conseguimos segurar nossos cajados. Praticamente não sentimos mais nossas mãos. Cambaleando, vamos avançando muito de vagar. Não sabemos onde estamos, não sabemos se a próxima área de camping está perto ou longe, não temos certeza de mais nada. Vamos seguindo conformados com o nosso destino ingrato e o nosso sofrimento mútuo. Resignados com a nossa desgraça. Já sabíamos que essa travessia com mau tempo não era para qualquer um. Decidimos fazê-la assim mesmo, estávamos pagando o preço pela nossa ousadia. Será que não estaríamos mesmos velhos para essas coisas? Seríamos capazes de nos safar e voltarmos inteiros para contar a história? Ou foi mesmo uma estupidez sem precedentes ignorar o aviso de tanta gente para não vir com o mal tempo? Foi com esses pensamentos na cabeça que continue descendo pela crista, até ouvir um barulho logo à frente. Não víamos nada, mais tínhamos certeza, tinha mais alguém perto da gente. Enquanto o Dema tentava chamar atenção com seu apito, acelero o passo para tentar interceptar esse grupo que está a nossa frente. Num descuido, piso em uma pedra Liza, os meus dois pés sobem para cima e caio no chão com tanta força, que chego a ficar meio tonto. Foi mesmo um tombo cinematográfico. Fiquei ali estatelado no chão. Levanto-me com dificuldade. Não sacudo a poeira, porque é só lama que tenho impregnado na roupa. Agora é que não sinto mais minha mão mesmo. O Dema me olha com aquele olhar sarcástico. O desgraçado também está sofrendo, mas não se furta de dar um sorrisinho sem vergonha no canto da boca (rsrsrsrsr). De pé, seguimos mais alguns minutinhos e encontramos uma galera de seis pessoas. Na verdade são dois grupos de três pessoas que se conheceram na travessia e se juntaram para serem cúmplices da mesma desgraça. Eles também estão em estado lastimável. No grupo de São Paulo, um menino de 14 anos e no grupo do Rio, um jovem de 57 anos e sua namorada de 29 e ainda tinha o filho do homem de 57 anos, um rapaz de 27. O grupo paulistano eu não consegui decorar os nomes, pois falavam pouco ou quase nada. Já o grupo Fluminense eram o Sr: Olau e sua namorada Viviane e o filho do seu Olau era o Rameno.

O Rameno estava com um GPS e nos disse que não estávamos nem a 300 meros do acampamento base da Pedra da Mina. Seguimos todos juntos e 200 metros depois antes de um morrote encontramos uma pequena clareira de acampamento. Faltavam apenas 100 metros para o acampamento base, mas eu e o Dema não queríamos nem saber. Vimos a nossa salvação pular á nossa frente e não iríamos deixar escapar. Naquele pequeno espaço, em meio ao capim protegido do vento, caímos com mochila e tudo. Por hora estávamos salvos, amanhã seria um outro dia, quem sabe um dia melhor, porque pior do que está seria impossível ficar.

Tremendo de frio, fizemos um enorme esforço e montamos nossa barraca. O nosso estado é realmente lastimável. Sem perder tempo entramos na nossa casa de mato. Tiramos toda a nossa roupa e colocamos roupas secas. Coloquei todas as roupas que eu trazia na mochila. Gorros, luvas, meias. Mais uma vez estávamos envoltos nos nossos sacos de dormir e não demorou muito apagamos e fomos acordar lá pelas sete ou oito da noite. Foi quando me animei a sair da barraca e ir preparar o nosso jantar, que não passou de arroz, grão de bico e lingüiça. Foi comer e voltar para dentro do saco de dormir. Mas meia hora depois ao me levantar para “regar uma moita de capim”, me deparo com um céu todo estrelado. Entro para dentro da barraca com esperança de que no dia seguinte teremos sol, mas meia hora depois uma tempestade desaba sobre nós e minha esperança volta se transformar em frustração. O jeito é ir dormir e esquecer esse negócio de sol. Parece mesmo que nosso destino já está traçado.

 

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Sábado, 09 de junho, 08h00min da manhã. Como parece não haver desgraça que dure para sempre, o dia amanhece lindo e ensolarado. Quando abri os olhos e me deparei com os raios de sol já atingindo a nossa barraca, vi logo que todo o nosso sofrimento acabara de chegar o fim. Havíamos passado pelo purgatório e agora ganharíamos o paraíso de presente e no nosso caso, a porta do paraíso estava a apenas uma hora de caminhada e atendia pelo nome de PEDRA DA MINA. Eu e meu amigo Dema não perdemos tempo. Desmontamos a barraca, enfiamos tudo nas mochilas e sem mesmo tomar café, abandonamos a área de camping e partimos. Subimos o morrote que nos separava do acampamento base da Pedra da Mina e em cinco minutos chegamos à beira do riacho (Rio Claro), onde o outro grupo estava acampado. Trocamos algumas palavras com nossos novos amigos e combinamos de nos encontrar no topo. Eu não queria perder mais tempo, queria aproveitar enquanto o tempo estava aberto. A Pedra da Mina estava a nossa frente e a sua subida é feita pela sua rampa do lado direito. Então, atravessamos o riacho e vamos galgando os ombros rochosos um por um, nos guiando pelos totens de pedra, mas como estamos com um grande, vamos seguindo por onde parece ser mais fácil passar, parando algumas vezes para tomar fôlego e tirar fotos de todos os ângulos que podemos. Quando os ombros rochosos acabam, entramos de vez no capim e vamos subindo a grande rampa. Eu estou eufórico, meu corpo foi invadido por uma adrenalina que há muito tempo eu não sentia. Na minha cabeça só existe uma coisa, chegar ao topo o mais rápido possível. Enfio a cara no mato, vou escalando pedra por pedra, rampa atrás de rampa e quando chego ao gigantesco totem de pedra, que não existia em 2001, espero a chegada do meu amigo que vem logo atrás.

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Juntos agora, seguimos rumo ao topo. Nas mãos carrego a bandeira do Brasil, para muitos um patriotismo idiota, mas par mim, é um gesto de respeito a essa grande montanha, a essa natureza exuberante. Em 2001 eu trouxe a bandeira da cidade que adotei para ser o meu lar e agora trago a bandeira do meu país. É a minha homenagem a essa montanha que já se tornou lendária, cobiçada por todos os amantes das montanhas. E foi assim que as 10h00min desse lindo dia Junho, que fincamos os nossos pés no topo da PEDRA DA MINA (2.798 metros), o ponto mais alto de todo o Estado de São Paulo, o cume da Serra da Mantiqueira e a quarta montanha mais alta do Brasil.

Chegar ao topo e encontrar o tempo todo aberto foi mais que um presente, foi um prêmio pela nossa sofrida conquista, pelo nosso esforço, pela nossa dedicação, pela nossa ousadia de contrariar todos os prognósticos desfavoráveis. É a segunda vez que chego ao topo dessa montanha, mas a satisfação é ainda maior que em 2001. Parece mesmo que toda conquista com muita dificuldade é ainda melhor. No topo, como em 2001 estou novamente emocionado. É uma visão realmente lindíssima, para muitos a mais bela visão de todo o sudeste do Brasil. No topo encontramos apenas um montanhista que subiu pela trilha do Paiolinho. Logo vai chegando a galera do acampamento base. Aí o cume se transforma em uma grande confraternização. Todos se cumprimentam e se abraçam, todos sabem que venceram e se superaram. A travessia só está em sua metade, mas o grande prazer de conseguir chegar ao topo da Pedra da Mina é algo indescritível.

No topo, alem do marco geodésico de 2.000, agora existe também um outro marco do IBGE, alem de uma grande caixa de alumínio, onde está o livro de cume, destinado para que todo montanhista possa deixar alguma mensagem e assinar a sua presença. Existem ali várias clareiras para acampar e em algumas clareiras foram colocadas ao seu redor grandes pedras empilhadas para formarem uma barreira contra os constantes ventos que varrem o cume. Ficamos por mais de uma hora contemplando as grandes montas ao redor da Pedra da Mina. Montanhas onde quase ninguém já foi. Quase a leste é possível observar os destroços de um pequeno avião que se chocou contra a montanha e muito mais ao longe, em todas as direções, é possível ver outras tantas montanhas famosas, que já trilhamos em outros tempos: Agulhas Negras, Serra do Papagaio, Marins e Itaguaré, Serra da Bocâina, Picú e muitas outras. Mas o tempo vai passando e a travessia tem que continuar. Nosso caminho agora vai em direção ao Cupim de Boi e Pico dos Três Estados. Mais cinco minutos de caminhada nos leva ao início da descida em direção ao Vale do Ruah (vale de Deus). Antes da grande descida resolvemos tomar nosso café. Nossa, a visão desse vale é realmente fantástica, são poucos os lugares que se pode sentir um isolamento tão grande da civilização como é este vale. Eu e meu amigo ficamos ali admirando tamanha beleza e acabamos sendo os últimos a começar a descida. Descida que é feita pela direita do Vale, seguindo os totens e as trilhas no capim. Só se percebe o tanto que descemos, quando chegamos ao fundo do vale e olhamos o caminho que fizemos. A chegar o fundo do VALE DO RUAH (2.512 metros), nos juntamos ao grupo da galera do Rio e de São Paulo. Agora somos 8 sobreviventes, juntos em um só grupo, unidos até o fim da travessia.

Vamos seguindo pelo fundo do vale, margeando o Rio Verde, que nasce a 2.576 de altitude, sendo assim a mais alta nascente de um rio da Bacia do Prata no Brasil. Como tivemos vários dias de chuva o vale está inundado e qualquer tentativa de fugir da lama e da água é inútil, por isso meto logo o pé no barro e vou seguindo por entre os tufos de capim elefante que de vez enquando escondem grandes buracos e fazem a gente sumir , mas como já tomei tudo quanto é tombo nessa travessia, uns a mais uns a menos pouca diferença faz. O Rio Verde vai aumentando de tamanho e já começa a ganhar algumas pequenas quedas de água e quando ele resolve se lançar de vez cânion abaixo é hora de abandoná-lo, mas não sem antes nos abastecer de água para mais um dia e meio. É a última água que teremos até o final da travessia. Faz um sol espetacular, mas a água está congelante e ninguém se arisca a tomar banho. O nosso caminho segue para a direita, aproveitando as trilhas no meio no capinzal e mesmo que se perca a trilha, o que é muito fácil de acontecer, o caminho é óbvio, vai subir a crista e galgá-la até o seu fim, no Pico do Cupim de Boi. De cima da serra, damos adeus ao Vale do Ruah e tiramos aquela foto clássica com a Pedra da Mina ao fundo. A nossa jornada vai subindo e descendo pequenas montanhas, passando por capões de mato e línguas de pedras, até que nos deparamos com um gigantesco vale a nossa direita. É uma visão arrebatadora da parte paulista da serra. Uma garganta realmente digna desta travessia. Antes de chegarmos ao cume do Cupim de Boi, nos deparamos com um abismo com uns 1.000 metros de profundidade e enquanto eu e o Dema fazíamos poses para fotos à beira do despenhadeiro, o seu Olau, o jovem de 57 anos e sua jovem namorada caminhavam de gatinho, quase se arrastando pelo chão. Foi engraçado, porque o seu Olau é um militar reformado e até então eu o via como uma espécie Rambo. É, parece que todos nós temos nossas fraquezas e medos e a fraqueza do seu Olau é o medo de altura. Já seu filho Rameno parece uma espécie de soldado universal, se alisou na Legião estrangeira, serviu na França e na África. Bom, um de quatro pés, outros fazendo gracinha à beira do abismo, foi assim que todos nós chegamos às 05 da tarde no cume do CUPIM DE BOI (2.530 metros).

 

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Ao lado direito do Cupim, existe uma montanha muito alta e muito provavelmente deve dar para contar nos dedos às pessoas que foram até lá, isso se tiver algum caminho que chegue até ela. O nosso caminho passa um 50 metros após o cume do Cupim de Boi e desce em um grande totem de pedra. Chegando ao totem pega-se para a esquerda e desce-se até o vale. Não é um caminho fácil de seguir, mas fomo nos guiando pelos raros totens até encontrarmos a trilha que entra na mata. Já é tarde e logo o sol vai desaparecer, por isso aceleramos o passo e em meia hora chegamos ao bambuzal, onde existe uma grande área de acampamento. Já estamos todos exaustos, mas a galera menos experiente já está nas últimas e todos decidem que é hora de dar por terminado esse terceiro dia de caminhada. Eu, o Dema e o Rameno, resolvemos seguir sem mochilas por mais uns 15 minutos á frente para ver se não haveria uma área ainda maior para acamparmos. O caminho começa a subir por uma trilha muito íngreme e nos leva até o topo de um morro. Não vimos nenhuma área para camping, mas em compensação tivemos a honra de presenciar um dos fenômenos mais espetaculares da natureza, um arco-íris de 360 graus. Em quase 20 anos de montanhismo eu jamais havia presenciado um fenômeno destes. Um espetáculo para aplaudir de pé.

De volta ao acampamento, montamos nossas barracas e cada um foi cuidar do seu jantar. Eu e o Dema dosamos bem o nosso consumo de água, pois eu já sabia que o dia seguinte seria muito longo e me lembrava também que em 2001 tivemos problemas com a falta de água. Mas nos chamou a atenção o fato de parte de a galera estar comendo miojo cru porque não tinha mais água para cozinhar. Se há um lugar onde a individualidade não tem vez, esse lugar são as montanhas. Se estamos juntos, somos um só grupo, uma só família e se é para passar sede, vamos passar todos juntos, por isso ofereci uma das nossas garrafas de água par o resto do grupo. Como fazia muito frio, jantamos e fomos dormir e esse foi o dia mais seco de toda a nossa travessia e a melhor noite que passamos.

Um dia lindo, foi assim que nasceu nosso ultimo dia de travessia. Acordamos cedo, bem cedo. Tomamos café e partimos. Logo de cara enfrentamos uma enorme subida e quando chegamos ao topo se descortinou à nossa frente uma magnífica paisagem, um tapete de nuvens esplendoroso, nos sentamos ali por um bom tempo. Mas o nosso objetivo estava logo ali á nossa frente nos chamando. E então partimos e só paramos quando chegamos à outra grande atração desta travessia: O PICO DOS 3 ESTADOS (2.656 metros), local exato onde os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro se encontram. Um grande marco de ferro com as letras dos 3 estados foi colocado lá encima para marcar o ponto geográfico da divisa.Do topo desta linda montanha , as Agulhas Negras ficam ainda mais espetaculares e a Pedra da Mina aparece em toda sua magnitude. Todos nós nos juntamos no topo para uma foto do grupo. Tomamos os últimos goles de água que nos restou nos cantis. Daqui para frente começará a nossa desesperada luta para encontrar água. Como no topo não é lugar par se encontrar água, tratamos de descer logo e abandonamos o Pico dos 3 Estados a sua própria solidão. É uma grande descida e algumas partes são mesmo complicadas de descer, mas nada que não possa ser vencida com muita determinação. Desta grande descida já avistamos la de cima uma ilha de pedra no meio de uma pequena mata. Uma ilha de pedra toda úmida, que aos nossos olhos parecia conter alguns filetes de água escorrendo por ele. Ao chegarmos no final dessa descida, a um selado, eu e o Rameno nos lançamos no meio do mato tentando localizar esse possível oásis . Depois de arrebentar um pequeno bambuzal no peito eu até cheguei a encontrar estas pedras, mas só havia uma grande umidade, água que é bom, nem uma gota. A situação foi ficando cada vez mais crítica e alguns de nós já começou a lamber alguns musgos, só para eliminar a secura da boca. A procura pela água era constante e cada um tentava fazer a sua parte. A caminhada seguia, a paisagem continua linda e agora tínhamos a nossa frente o Pico Alto dos Ivos, uma subida considerável. Eu e Dema estávamos com sede, mas não teríamos nenhum problema para terminar a caminhada sem beber água. O mais preocupado era o seu Olau, que tentava encontrar água de qualquer jeito. Talvez a sua maior preocupação fosse por causa da sua namorada, a única menina do grupo. Foi em mais uma tentativa de lamber uns musgos, já na subida os Ivos, que tentando puxar umas raízes, vi que elas saíram pingando água. Enfiei as mãos bem fundas nas raízes dos musgos parecendo uma esponja, puxei e torci. Meio copo de água jorrou. Dei um grito e chamei todo mundo. Então a “colheita” começou. Pegamos as panelas e fomos torcendo os musgos, do qual saiam um líquido vermelho com de barro, grosso, nojento, gosmento. Tentamos coá-los, mas não obtivemos sucesso, o líquido era muito espesso. Então o que não tem solução, solucionado está. Agora tínhamos água o suficiente para terminar a caminhada, faltava só estômago para encarar o fluído. Chegamos ao ALTO DOS IVOS (2.513 metros) e foi neste pico que abrimos a “garrafada nojenta” e bebemos sem nenhuma frescura. Era o “A PROVA DE TUDO” real, sem truques, sem cortes. Depois de tomar isso, não há mais nada que nos assuste. O que é engraçado é que depois de beber aquele negócio, não sentimos mais sede, é como se o nosso cérebro desse um aviso para o nosso corpo para não sentir mais sede. É o cérebro defendendo o organismo (rsrsrsrsr).

 

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Depois dos Ivos começa a grande descida e a grande atração fica por conta da visão das formações rochosas do Parque Nacional de Itatiaia. Ao chegarmos a uma área de acampamento, talvez o último desta travessia, paramos para um breve lanche e depois eu e o Dema aceleramos á frente e quando a trilha ficou plana no meio da mata quase corremos na trilha, até que ela se transforma em uma estradinha abandonada e em mais meia hora nós dois estávamos parados na bica salva-vidas a beira do caminho. Bebemos o quanto conseguimos e só não bebemos mais pára sobrar água par os outros, que chegaram uns 15 minutos depois.

Todos juntos mais uma vez, retomamos a caminhada e logo a frente chegamos a uma bifurcação em “T”. Pegamos para a esquerda e em mais uns 15 minutos chegamos ao sítio ou pousada do Pierre, que não é mais o dono do lugar a muito temo. O certo é que tudo parece abandonado, como estava em 2001. Mais o caminho não terminou, ainda tinha uns 40 minutos de caminhada pela estrada até o asfalto. Quando chegamos ao asfalto, foi a primeira vez em 4 dias que nos sentimos de novo com os pés na civilização. Lá encontramos outro grupo que havia feito a travessia e então nos juntamos todos nós para uma foto de despedida. E cada qual voltou para sua casa. Nós e o grupo do Rio alugamos uma perua até Engenheiro Passos e depois seguimos para Resende e de Resende para São Paulo e logo em seguida para Sumaré-SP.

E foi assim que num feriado de 2012. Eu e meu amigo Dema nos lançamos nesta travessia que é considerada por muitos a mais difícil Travessia de montanha do Brasil. Muitos poderão contestar e até apontarão outras caminhadas como mais difíceis. Podem até terem razão ou não, haverá sempre controversas. Algumas destas travessias por enquanto não passam de vara mato e outras são uma trilha que emenda em outra para formarem grandes travessias. A serra Fina é uma Travessia única, selvagem, grandiosa. Contém um das mais altas montanhas do país. Tudo isso é verdade, mas o grande atrativo desta trilha é ser travessia livre, sem encheção de saco de regras de Parques Nacionais e de órgãos ambientais. É a travessia da liberdade, é difícil, é complicada e com mal tempo o Everest paulista pode se transformar no K2 e o que mais me impressionou é que passado mais de 10 anos esta caminhada ainda continua do mesmo jeito. Não vi lixo algum, não há erosão nas trilhas, sinal que os caminhantes que por la estão passando , estão tendo uma consciência espetacular e a todos temos só que agradecer.

Finalizo este relato agradecendo ao meu amigo professor: Dema e aos outros amigos que fiz durante a travessia. O seu Olau nos disse que o homem passa sua vida inteira a procura da felicidade e que a maioria jamais a encontrará. Acho que é isso mesmo, mas mesmo assim nós vamos seguindo, de trilha em trilha de montanha em montanha, à procura da nossa felicidade e se não a encontrarmos, valerá os momentos felizes que passamos, valerá os amigos que fizemos e os grandes lugares que conhecemos. Desta vez estivemos no topo do Estado de São Paulo, mas poderemos ir a lugares mais altos, mais distantes, porque ainda não conhecemos nosso limite.

DIVANEI GOES DE PAULA – JUNHO / 2012

 

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Pauleira heim Divanei! ::hein:

Em certos momentos senti como se estivesse lendo o roteiro de um filme de sobrevivência em ambientes extremos, resguardando as devidas proporções me trouxe a mente o The Way Back (Caminho da Liberdade), o que implicitamente é no fundo o que vocês buscavam naquelas montanhas.

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Mais uma vez parabéns pela jornada e pelo relato. ::otemo::

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Sensacional o relato, a dramaticidade das situações são roteiro para qualquer alma que anseia por liberdade! Parabens pela ousadia!!!

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Obrigado a todos que tiveram paciência de ler um relato tão extenso.Sei que a maioria de vocês são montanhistas muito melhores e mais experientes que eu e sabem o prazer que é realizar uma camionhada como esta.Os meus agradecimentos aos irmãos da montanha.

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Divanei

Já vi corredor de aventura patrocinado por marca nacional grande fugindo da Serra Fina em condições climáticas bem melhores.

 

Motivação é essencial no trekking! Você queria fazer a travessia e o fez, mesmo com a pernada extra a partir de Passa Quatro.

 

O trekking nos ensina as vezes em alguns dias o que levamos anos na vida para aprender. Tal como não desistir facilmente!

 

Meus parabéns pela força de vontade e superação. Mesmo com clima adverso, problemas de navegação e água vocês foram no peito e na raça!

 

Abraço

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Obrigado a todos que tiveram paciência de ler um relato tão extenso.Sei que a maioria de vocês são montanhistas muito melhores e mais experientes que eu e sabem o prazer que é realizar uma camionhada como esta.Os meus agradecimentos aos irmãos da montanha.

GRANDE Divanei, não existe montanhista melhor ou pior, escalador melhor ou pior... existe gente melhor ou pior. E você já provou mais de uma vez (aqui mesmo, através dos seus relatos) que você faz parte do grupo GENTE BOA DA MELHOR QUALIDADE. ::otemo::::otemo::

Você e os demais que encararam essa travessia perrengosa mostraram raça e determinação, e o melhor, companheirismo e ajuda ao irmão montanhista.

Tiago, gostei do novo avatar... ::cool:::'>

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Parabéns pelo relato Divanei. É engraçado, mas quando li o seu relato, pude sentir cada coisa que vc viveu e como viveu... Cada um fez a travessia de uma forma diferente, mas no fim, todos nós saímos vencedores! Já fiz muitas e muitas trilhas, mas até agora, nenhuma me marcou tanto que nem a Serra Fina... Foi realmente um sentimento ímpar!!! Grande abraço!

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      Harpia Hostel Pousada Hotel,
      Do Amigo Alessandro (35) 98894-0533  (Hostel e Transfer)
       R. Ângelo Dalessandro - Centro, Passa Quatro – MG
       
      Participantes
      Idealizador da Trip
      https://www.facebook.com/pedraodobrasil  
      27 99805 8885
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      Volta ao Hostel, dormimos e fomos embora na segunda feira, finalizando assim a trip, que foi umas das mais HARD que já fiz.
      A Serra Fina para Mim é considerada uma das mais difíceis e pesadas do Brasil.
       
      Use sempre Protetor Labial.
       

      Dicas
      Mesmo fazendo a travessia no final da temporada de montanha, bambus e Capim Elefante são uma constante. Luvas e blusa de manga longa é boa pedida.
      O desespero em saber que a travessia oferece pouca água, não deve ser considerado algo extremo, lembre-se que o corpo necessita de liquidos, não somente água. Eu particularmente, levei sucos prontos, e água de coco e só abasteci a garrafa de água mesmo no terceiro dia. Os dois primeiros só bebia nos pontos de água. Mas isso claro, vai de pessoa para pessoa.
      Quando fizer paradas próximo ao Capim Elefante, a presença dos ratinhos deve ser considerada e não deixe a mochila aberta de forma alguma. Nos cumes, nada de comida fora da barraca e se possivel, longe dos cantos para evitar o cheiro.
      Protetor solar e chapeú que cubra o rosto e pescoço é ótimo, pois o bambuzal deixa muito matinho caindo pelas costas. Bandanas também são muito uteis, principalmente nos cumes para não ficar com o nariz vermelho pelo frio.
       
       
       
       































    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
    • Por eleonardo
      SERRA FINA
      CAMINHANDO ENTRE GIGANTES
       
      Texto por Alan S. Kronemberg
       
      NA MANHÃ de uma quinta-feira, 27/09, Eleonardo Louvain e eu descíamos do ônibus em Passa Quatro, pequena cidade do sul de Minas, com 50 Kg de víveres e equipamentos nas costas. Tínhamos pela frente uma longa e difícil jornada: a travessia da Serra Fina. Após cruzarmos a pracinha local admirando ao longe as montanhas, nosso breve destino, chegamos à pousada São Rafael onde um quarto nos aguardava para algumas últimas horas de conforto. Era nosso plano partir no dia seguinte.
      O maciço da Serra Fina fica numa região isolada e de difícil acesso da Mantiqueira. Posto nos mapas pela primeira vez em 1923 pelo engenheiro Álvaro da Silveira, esse lugar fora durante muito tempo esquecido, ofuscado pelas montanhas do outro planalto próximo e mais famoso, o Itatiaia. A situação começou a mudar apenas em 2000, quando uma nova medição feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, anunciou o maior cume desse maciço, a Pedra da Mina, como sendo o 4º mais alto do Brasil, com 2.797 m. Esse fato fez a gente de Passa Quatro se acostumar a ver tipos mochilados como nós perambulando na região. Naquele fim de semana, porém, éramos os únicos na cidade dispostos a partir rumo àquelas montanhas.
      A carta que possuía comigo conseguida junto ao IBGE mostrava bem o descaso ao qual me referi sobre a Serra Fina. Datada de 1974, era a única existente da região. Não tinha sequer o nome ‘Serra Fina’ escrito nela, além de mostrar a Pedra da Mina com a altitude antiga de 2.770 m. Esse mapa e uma bússola eram tudo o que dispúnhamos até, por sorte – quando entrávamos num armarinho para comprar camisa para o lampião –, conhecermos Taia e seu filho, Davi. Os dois, experientes guias locais, nos deram informações valiosas sobre o caminho e um croqui da trilha mostrando os pontos de acampamento e abastecimento de água.
      Fora os conselhos, ouvimos com atenção as histórias sobre resgates vindas das montanhas no horizonte próximo. Eram muitas. Impressionou-me o caso de um senhor de mais de setenta anos que, depois de subir a serra e ser pego de surpresa por um temporal, passou três dias e três noites sem água e comida, tendo que beber a própria urina para sobreviver. Segundo os guias, o mau tempo na Serra Fina representa um risco considerável por causa dos ventos fortes, da neblina cegante e do frio excessivo. Outrora, no inverno, chegou-se a medir na região a temperatura de -17ºC.
      O maior obstáculo da travessia, no entanto, chama-se Á-G-U-A. Em todo o percurso de quase 40 Km, somente existem quatro pontos para o reabastecimento, o que obriga cada viajante a levar consigo pelo menos 4 L. No caso dos mais sedentos, um litro a mais se torna indispensável na mochila.
      A navegação em alguns trechos da travessia também exige muita precisão devido ao capim-elefante. Essa vegetação, de altura maior que um homem, ocupa campos extensos da Serra Fina e encobre a visão do horizonte e da trilha já aberta. Taia alertou-me para estar atento principalmente ao chegar no traiçoeiro Vale do Ruah após a descida da Pedra da Mina.
      Pelo fim da tarde, retornamos ao hotel para nos certificarmos de que não faltava nada para a partida no dia seguinte. Seu César, dono do São Rafael, aproveitou uma brecha entre os seus afazeres e nos levou a uma esfirraria famosa da cidade, a Monte Líbano, a fim de prosearmos um pouco.
      Aos goles de uma cervejinha bem gelada e escorados sobre um balcão rústico de madeira, conversamos sobre a Serra Fina, que Seu César definiu como a mais difícil travessia do Brasil. Falamos ainda sobre a vida em Passa Quatro. Com 15.000 habitantes, esse município é uma estância hidromineral repleta de fontes d´água espalhadas pelas suas praças e jardins. A cidade conserva casarões do início do século XX e sua rua principal é a antiga Estrada Real por onde aventureiros e bandeirantes passavam a caminho dos sertões das Gerais. A propósito, a cidade teve sua origem em 1674 na passagem do bandeirante Fernão Dias pelas terras altas da Mantiqueira. Achei interessante a origem de seu nome. No passado, aos paulistas que procuravam um lugar sossegado para pouso nessas bandas, Fernão Dias deixara o seguinte recado: “Saindo da Capitania de São Paulo, segue o rio Paraíba do Sul, terás ao norte uma grande cordilheira, a Mantiqueira. Ao encontrares nela uma garganta profunda é o Embaú, a única passagem tranqüila para o Sertão das Gerais, então galga a serra e passa quatro vezes o rio que se escorrega por um verde e espaçoso vale, chegarás assim a um pouso...”. Dessa expressão, surgiu Passa Quatro. Dela, bandeirantes modernos partem, hoje, em busca de aventuras nas montanhas que circundam a Pedra da Mina.
       
      O BATISMO NAS MONTANHAS
       
      A TRAVESSIA COMEÇA, de fato, um pouco longe de Passa Quatro, num local chamado Toca do Lobo. Para se chegar nele, é preciso percorrer alguns quilômetros da rodovia e entrar numa estrada de terra, seguindo por mais uns 10 Km. Pagando-se em torno de cem reais, se consegue um transporte 4x4 até esse lugar em Passa Quatro, mas, como nosso dinheiro era curto, na manhã seguinte, nos restou aproveitar a carona de Seu César até o começo da estrada de chão batido e, nesse ponto, arrumar outra carona do caminhão de leite para o alto da serra. Essa baldeação nos valeu chegar a 8 Km da tal toca. O restante passou a já fazer parte da travessia.
      Após um banho na cachoeira gelada da Toca do Lobo, que preparou o corpo e o espírito para a trilha, subimos morro acima ganhando altitude até a cachoeirinha, no Quartzito, primeiro ponto de água. Aí, adentrávamos a linha dos 2.000 metros, pela qual seguiríamos cada vez mais alto nos próximos dias. Nesse ponto também, começamos a conhecer a verdadeira face daquelas montanhas.
       
       
      Como já estava um pouco tarde e uma nuvem escura caminhava em nosso encalço, julgamos que não tardaria a chover. Preferimos, por isso, montar ali o acampamento. Para sermos mais rápido, dividimos as tarefas: Eleonardo foi pegar água, enquanto eu comecei a arrumar a barraca amarela, chamada por mim de Tempestade I. Não bem tinha esticado a capa de chuva sobre ela e um trovão varreu os céus da serra anunciando o que acabávamos de prever.
      No CABRUUUUUUUUM seguinte, os pingos d´água começaram a cair e rapidamente o horizonte ficou tomado de nuvens brancas. Era a certeza do temporal vindouro. Felizmente, Eleonardo já vinha com os cantis.
      Esforcei-me para deixar a barraca preparada para uma chuva forte - coloquei pedras esticando sua capa ao máximo. Quando pulei para dentro dela, enfim, o céu desabou. O vento começou a chacoalhar a barraca e a zunir tanto que mesmo uma conversa a alguns centímetros era difícil. A Serra Fina rugia.
      Há tempos, a região enfrentava uma seca tremenda que chegara a ocasionar um vasto incêndio no vizinho Itatiaia. Quando deixamos o Rio de Janeiro rumo à Passa Quatro, a meteorologia previa chuvas esparsas no final de semana em razão da primavera. Eu chegara a pensar que seria bom chover um pouco, pois a secura poderia tornar mais difícil a travessia devido ao calor e à pouca umidade. Vendo minha barraca balançar, tive outro julgamento. Imaginei que estávamos somente começando a subir. Se naquela altitude, as coisas na Serra Fina se comportavam de tal maneira assustadora, como seria mais acima aonde iríamos?
      Estando com fome e não havendo como deixar a barraca, a solução foi prepararmos alguma refeição dentro dela mesmo. Sacamos as canecas, preparamos um achocolatado com biscoitos e ficamos aguardando pacientes pelo fim do temporal. Cerca de duas horas depois, a chuva deu uma trégua. Ao sairmos para ver a situação, uma surpresa! Dessa vez uma nuvem gigantesca vinha na direção do Quartzito, embranquecendo tudo sob ela. Parecia um enorme monstro branco jogando suas presas sobre as colinas. Uma visão impactante.
      Acompanhei a chegada da nuvem até bem próximo da barraca, de pé. Quando vi um lampejo sair do seu interior, minha reação foi correr para dentro de Tempestade. Um trovão estrondoso ecoou no céu. Vi Eleonardo deitado na posição fetal – segundo ele, para não atrair os raios. Logo depois disso, houve um clarão enorme, seguido de outro trovão pavoroso e resolvi fazer o mesmo, por precaução. O relâmpago, dessa vez, pareceu passar ao lado da barraca!
      Lá pelas tantas da noite a chuva cessou e, em seu lugar, um manto de estrelas cobriu o céu. Do mirante onde estávamos, podiam-se ver as luzes de Passa Quatro e de algumas fazendas espalhadas pelo horizonte. A Lua brilhava com todo o seu vigor, cheia e prateada. À luz do lampião, acendemos o fogo e preparamos uma mistura reforçada de alimentos. Até um champingon que havíamos levado foi junto. Tudo para matar a fome e nos deixar prontos para o outro dia. Aquela sexta valera como o batismo na Serra Fina.
       
      RATOS
       
      SÁBADO, 10 h. Após abastecermos todos os cantis – dali para frente só encontraríamos água perto da Pedra da Mina, a dois dias de viagem – arrumamos as mochilas e partimos. Deixamos o Quartzito tarde, pois nosso plano era subir apenas o Capim Amarelo, primeira grande montanha da travessia, com 2.491 m.
      A subida levou algumas horas. O tempo se manteve nublado, dissipando ao fim da tarde. Logo que chegamos, arrumamos o acampamento num dos muitos espaços abertos para pouso, preparamos a espiriteira, acendemos o fogo e fizemos a comida: macarrão com molho de tomate recheado de orégano. Ótimo paladar! Senti-me em casa.
      O Capim Amarelo é chamado dessa maneira por causa do tom amarelado que o capim-elefante possui nesse local. É tamanha a incidência dessa vegetação nesse cume que a vista fica comprometida. De lá, pudemos ver pela primeira vez, ao longe, a Pedra da Mina. Descobrimos, também, que não estávamos sós na travessia. A noite nos revelou um importuno invasor.
      Enquanto a comida era feita, um pequeno rato aproximou-se das panelas. Nessa hora, eu estava na barraca e pude apenas ouvir Eleonardo gritando Sai! Sai! e batendo com os pés no chão.
      – Foi um rato? – perguntei. Taia nos advertira sobre ter cuidado com esses animais no alto do Capim.
      – Sim. E era grande – respondeu Eleonardo.
      Mais tarde, quando já havíamos deitado para dormir, ouvi um barulho estranho perto da barraca. Suspeitei de um rato estar tentando rasgar o pano para entrar.
      Acordei Eleonardo e apanhei a lanterna. Acendi a luz, o barulho cessou. Abri a porta. De dentro da barraca, não via nada lá fora. Passando as mãos entre as coisas amontoadas perto do meu lado de deitar – de onde suspeitava vir o som – não encontrei coisa alguma. Achei melhor examinar direito.
      Quando afastei minha mochila, logo pude ver um buraco no pano da barraca. Constatei que estava enganado: o rato não queria entrar; ele já estava dentro. Retirei a mochila de ataque e vi o rabinho mexendo que denunciava o invasor. Ao tirar a panela, flagrei o animal comendo sem titubear o miojo. Quando pus a luz da lanterna em seu rosto, ele nem ligou, continuando sua refeição. Só quando mexi as coisas perto dele que resolveu sair pelo mesmo buraco por onde entrara.
      Resultado da noite: levamos alguns miojos para longe da barraca, junto com as panelas sujas de alimento, para podermos ter um sono tranqüilo enquanto o ratinho e seus parentes faziam um banquete.
       
      PEDRA DA MINA
       
      APESAR DO incidente com o rato, na manhã seguinte, a lembrança viva em minha mente era do instante em que, de madrugada, havia saído da barraca para ver como estavam nossas coisas. Guardo comigo a visão colossal da Pedra da Mina iluminada pela Lua cheia, com um mar de nuvens cinza aos seus pés. Senti-me no paraíso naquele momento e agradeci aos céus por poder contemplar aquela fotografia que nossas câmeras não eram capazes de capturar, apenas meus olhos.
      Fazia silêncio. O que se ouvia era apenas a suave brisa sobre o capim, a balançar o mato devagar. A silhueta escura do gigante de rocha dominava o horizonte e sua imponência impunha um respeito a toda a natureza ao seu redor. Nada era mais alto do que ele. Não se podiam enxergar os vales escondidos debaixo das nuvens de uma brancura contrastante. Tive a impressão de ser possível caminhar sobre o mar de algodão formado por elas, espesso o bastante para suportar o peso de até um exército de aventureiros que nele quisessem passar rumo à Pedra da Mina. Do caminho que tomaríamos no dia seguinte, somente os trechos mais altos, como a Serra Fina, eram contemplados. Tudo isso emoldurado pela Via-Láctea e pela abóbada de estrelas do céu, onde a Lua, radiante, surgia como um farol a iluminar aquela vasta paisagem.
      Olhando para a Pedra da Mina, soberana daquelas terras, refleti sobre a vida do explorador. Em quanto ela é solitária e cansativa, mas também recompensadora. Definitivamente, as mais belas paisagens do nosso mundo, assim como os maiores mistérios, estão em locais afastados dos grandes centros. Nos extremos, encontramos nossas origens e nos deparamos com a natureza selvagem, muitas vezes amiga, outras vezes inimiga. Lá, não diria que somos meros coadjuvantes; não acredito nos que dizem que o homem seja nada diante dela. É certo que o poder da natureza em muito supera a força humana, mas o ímpeto que carregamos dentro de nós é tamanho que mesmo ela, em sua grandeza, nos deixa passar. Até os gigantes nos permitem transpor suas coroas.
      Assim, com essa imagem na retina, deixei o alto do Capim Amarelo atrás de Eleonardo. Ele teve mais sorte para encontrar o começo da trilha que descia a montanha.
      Na descida do Capim, encontramos o primeiro sinal de alguém que passara por aquelas terras: um bastão de trekking quebrado. Desde que havíamos partido da Toca do Lobo, na sexta de manhã, não cruzávamos com ninguém.
      O caminho começou a ficar mais fechado e traiçoeiro em alguns trechos de capim-elefante. Eu mantinha os olhos atentos à minha bússola, na sua agulha apontada para o norte, que, ao longo do percurso, se mantinha às oito horas de nós. Horas depois, após subirmos e descermos diversos morros e vales, atravessamos a crista da Serra Fina. Esse conjunto de colinas, responsável por dar nome a todo o maciço, é uma linha de montanhas altas por sobre as quais se marcha num caminho desenfiado e estreito, que leva aos pés da Pedra da Mina. O nome “Fina” não é por acaso. Há espaço para somente uma pessoa de cada vez passar na sua crista. O viajante segue o tempo todo admirando a serra da Bocaina no horizonte sul e os campos de Minas no leste.
       
       
      Naquele dia, um domingo de bastante sol, acampamos na base da Pedra da Mina, no local conhecido como cachoeira Vermelha. Essa queda d´água de uns quinze metros serve de guia para os viajantes que, ao descerem o morro do Melano, podem vê-la de longe. A água aí é rica em ferro – razão de ela ser avermelhada – o que a deixa com um gosto diferente, mas facilmente bebível para quem chega de uma jornada de horas com a garganta seca.
      Dela, seguimos, na segunda-feira pela manhã, para o ataque à Pedra da Mina. O gigante, mais próximo do que nunca, lançava seu olhar sobre nosso caminho, o tempo todo a nos instigar. Cruzamos a nascente do rio Claro com os cantis parcialmente cheios, certos de que do outro lado da montanha, no Vale do Ruah, acharíamos água. Enfrentamos duas horas de subida sob um sol forte, de totem em totem, fitando com os olhos o topo mais esperado.
       
       
      Por volta de 14h, passamos pelo gigantesco totem montado por montanhistas e, logo em seguida, chegamos! Tocamos a marcação recente do IBGE, datada de 2004, e o livro que sela o nome de todos que alcançaram o cume da Pedra da Mina. Deixamos lá nossos nomes, a 2.798 m de altitude.
       
       
      O VALE DO RUAH
       
      PASSADOS trinta minutos admirando o horizonte no topo da Mantiqueira, seguimos adiante para o trecho considerado por muitos o mais difícil da travessia. Do alto da Pedra da Mina, a visão do Vale do Ruah é fan-tás-ti-ca! Uma região do tamanho de quatro campos de futebol, tomada de capim-elefante.
      Enquanto descíamos, era possível ver o rio Verde do lado oposto a onde cairíamos no vale. Tínhamos que rumar até ele e depois margeá-lo até a Brecha, um monte uns dois quilômetros à frente no qual começa a subida para o pico dos Três Estados, a décima maior montanha do Brasil. Eu sabia que, dentro do vale do Ruah, não enxergaria mais nada, por isso, tinha que do alto traçar o azimute certo.
       
       
      Nosso ritmo de marcha durante a descida da Pedra da Mina fora comprometido devido às dores intensas que Eleonardo começou a sentir no joelho. No dia anterior, ele havia tido uma entorse e vinha caminhando suportando a dor e com certa dificuldade. Foi necessário parar algumas vezes. Chegamos a cogitar a possibilidade de acampar no Ruah, hipótese descartada depois que nuvens negras começaram a se avolumar sobre nossas cabeças.
      Entre as moitas de capim-elefante, a trilha certa exigia olhos de águia. Há picadas no Ruah para todos os lados e direções, abertas por viajantes que perderam o caminho. Com a visão comprometida devido à altura da vegetação, caminhamos mata adentro nos guiando pela bússola e pelo som do rio Verde. Quando era possível, olhava por sobre o capim e avistava o colo para onde eu sabia correr esse rio, local aonde nós também deveríamos seguir.
      Dessa forma, conseguimos atingir o rio Verde. Abastecemos nossos cantis para mais um longo trecho sem ver água e continuamos lado a lado com o seu curso. Foi quando começou a chover granizo.
      Já era quase noite, quando tomamos uma direção para fora do Ruah, galgando novas alturas. Estava feliz por ter vencido a parte dita a mais difícil da travessia e com frio devido à chuva que não parava. No topo da Brecha, havia um bom local para acampar. Com presteza, montamos o acampamento e, cansados, adormecemos logo após entrarmos na barraca. Despertamos lá pelas 11 h da noite. Não chovia mais. Preparamos uma suculenta sopa de feijão com legumes e macarrão para matar a fome. Se tudo corresse como prevíamos, aquela seria nossa última refeição na Serra Fina.
       
      TRÊS ESTADOS E O RETORNO PARA CASA
       
      O DIA AMANHECEU com uma bela manhã de sol, propícia para secar nossos equipamentos. Outra vez, cada um tomou sua caneca de chocolate e, levantado o acampamento, partimos rumo ao pico dos Três Estados.
      O caminho seguiu pela crista das montanhas até o topo da elevação chamada Cupim de Boi devido à semelhança que possuí com essa parte do bovino. Dela, descemos um vale profundo dominado por uma mata de bambus e por isso de difícil passagem, após o qual, derramava-se a encosta do Três Estados.
      Durante a subida dessa montanha, a natureza revelou-se benévola conosco. A chuva do dia anterior havia depositado gelo entre os tufos de capim-elefante e com isso, pudemos encher os cantis.
      O pico dos Três Estados, a 2.665 m, é repleto de capim-elefante e possui um triângulo de ferro já bem enferrujado indicativo das direções dos estados que se encontram naquele ponto. Aliás, essa uma particularidade dessa montanha. Em qualquer mapa do Brasil que possua as divisões interestaduais, pode-se identificar o local exato de seu cume. Lá, um mastro marca o último grande desafio da travessia da Serra Fina para quem chega da Toca do Lobo. Aos que vem pelo outro sentido e iniciam a jornada, o fato de ele estar sem a bandeira brasileira serve de sinal da força dos ventos e da natureza naquela região inóspita.
      Após o Três Estados, o Alto dos Ivos é a última altitude a ser vencida antes do começo da descida da serra. De seu topo, avista-se ao longe o maciço de Itatiaia e o grandioso Agulhas Negras. Lá, eu e Eleonardo despedímo-nos da Serra Fina por onde caminhamos cinco dias seguidos sem a companhia de ninguém, apenas dos gigantes.
    • Por BetoPira
      Caros,
      Semana passada estava em Piracicaba, sem minha mulher nem meus filhos, que tinham saído de férias, quando olhei pra minha cargueira e resolvi fazer a travessia da Serra Fina na Mantiqueira. Já namorava essa travessia faz vários anos, mas nunca tinha calhado de dar certo fazer. Bom, em dois dias reuni o material de navegação necessário, chequei o equipo, passei no supermercado e pé na estrada. Já sabia que o verão não é a época recomendada pra essa trilha, por causa das tempestades que assolam toda Mantiqueira e que são ainda mais violentas acima dos 2.500 m de altitude. A previsão do tempo era de trovoadas esparsas o que achei de bom tamanho pra um janeiro...
      Pra fazer a travessia estudei as planilhas do S. Beck e do G. Cavallari (publicadas), levei a indispensável carta 1:50.000 de Passa Quatro, bússola e, como estava sozinho e queria me garantir, levei ainda um GPS com WP e Tracks carregados. Desnecessário dizer que equipo completo é obrigatório em função das viradas de tempo, então é bom estar preparado pra chuva e frio. Fiz em 4 dias, mas vi que mais leve dá pra fazer em 2, encurtando o tempo entre as fontes de água. É só uma questão de balancear os objetivos de cada um.
      1º dia
      Entrei no carro e rumei direto pra Toca do Lobo, que tem acesso 5 km depois da divisa SP-MG de quem vem da Dutra em direção a Passa Quatro (MG). São uns 15 km de subida que como estava seco o carrinho agüentou bem, mas recomendo deixar o carro na cidade e arrumar transporte traçado pra subir a serra. Cheguei na Toca por volta da uma da tarde, enchi os cantis (3,5L) que deveriam durar até o meio do dia seguinte e peguei a trilha rumo ao Capim Amarelo. Nenhum problema de navegação. O rumo é claro e a trilha bem marcada nesse trecho. Depois de umas 5 horas e meia eum graaaaaande desnível vencido já chegava no cume, fazia a janta e caía num sono bom.
      2º dia
      Amanheceu com o tempo fechado, visibilidade reduzida e na descida do Capim Amarelo já percebi que o verão tinha feito sua parte e a trilha já estava mais fechada, exigindo atenção , carta e bússola na mão pra não sair do rumo. Mesmo assim me desviei e também em função de distração minha não percebi que o GPS tinha se descalibrado... bom, problema detectado, problema resolvido, trilha reencontrada. Pra temperar veio um pouco de chuva, mas, sem grandes transtornos já chegava depois de umas 5 horas na fonte d’água. Almoço farto, muita água pra dentro e encarei a subida da Pedra da Mina por mais uma hora... chegando lá em cima, recompensa merecida, vista magnífica do vale do Ruah com o maciço de Itatiaia ao fundo. Isso durou umas 2 horas até o tempo começar rapidamente a fechar e a preparar um espetáculo de tempestade!!! Foi água pra ninguém colocar defeito!!! Por precaução não tinha armado a barraquinha no cume, mas num lugar mais protegido e não tive problemas de ser carregado pelo vento e jogado lá embaixo.
      3º dia
      Choveu a noite toda e tinha decidido pegar a trilha de descida do Paiolinho e interromper a travessia na metade. Afinal, pai de filhos pequenos tem que se cuidar... Mas... amanheceu com o tempo bom e não teve jeito, fui puxado em direção ao vale do Ruah coberto por capim elefante com rumo marcado pra atingir o Cupim de Boi e depois o Pico dos Três Estados. O que que é esse vale do RUAH!!! Coisa mais linda, parece uma savana africana, só faltam os leões e as girafas. O capim estava exuberante e... fechado. Mas a navegação não teve complicações, mais uma vez a desatenção junto com o crescimento da vegetação faziam perder a trilha facilmente e logo me via num emaranhado de capim dificílimo de transpor. Essa é uma tônica na Serra Fina: os rumos são claros, mas fora da trilha a passagem é muito complicada. Parabéns pra quem abriu essa travessia!!! Bom, depois de um bom banho no vale e reabastecer os cantis, cheguei rápido no Cupim de Boi e logo até o Pico dos Três. Lá pelas 4 da tarde vi o tempo fechar novamente e pensei que seria prudente acampar uma hora mais pra frente num ponto mais protegido conhecido como abrigo dos bandeirantes. Fiquei por lá mesmo. E o tempo fechou mesmo. E caiu água novamente!!! ê vidão!
      4º dia
      Aproveitei a noite pra coletar água e me esbaldar com o precioso líquido, amanheceu tempo fechado com um tímido nascer do sol, mas mesmo assim deu pra curtir o visual com toda a Serra Fina ao fundo e a vista perfeita de Itatiaia à frente. Era meu aniversário o que deu um tempero bom pro início da manhã. O último dia tem uma descida complicadinha logo de cara, mas a direção é certa, o Alto dos Ivos, e não tem como se perder. Em 2 horas chegava lá, e logo iniciava a descida final no meio da Mata, passando pelo espetáculo do bosque das bromélias, chegando na Fazenda e logo nas amenidades da civilização. Uma carona fácil até Itamonte (sorte???) e de lá, peguei ônibus de saída pra Passa Quatro (sorte???). Em Passa Quatro contactei o famoso Cipriano (35) 3371-1660 com sua Toyota e fui resgatar meu carrinho debaixo de muita chuva e muita paz de espírito.


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