Ir para conteúdo
  • Faça parte da nossa comunidade! 

    Encontre companhia para viajar, compartilhe dicas e relatos, faça perguntas e ajude outros viajantes! 

Posts Recomendados

                                                             

                                                                                       TRAVESSIA PINDAMONHANGABA X CAMPOS DO JORDÃO

 

           Já passava das cinco da tarde, quando joguei minha mochila às costas e sai quase sorrateiramente sem que minha filha percebesse, provavelmente teria que escutar seu choro querendo ir junto, e eu teria o maior prazer em levá-la comigo, se tivesse mais idade. Quando desembarco em Campinas neste quinze de julho, apesar de não ser feriado, não encontro mais passagem para Pindamonhangaba, e nem para qualquer outra cidade do vale do Paraíba, a solução foi ir para capital, onde consegui com muito custo uma passagem até Taubaté. 

          Já é meia noite quando finalmente o ônibus da Pássaro Marrom encosta na rodoviária nova da cidade de Taubaté . Desço do ônibus feito cachorro que acabou de cair da mudança, sem saber para onde ir, pois transporte para Pinda só ás cinco e meia da manhã. Resolvo achar um pulgueiro para dormir, coisa que fiz com extrema competência, pois lugar pior do que aquele em que eu dormi, duvido que exista. Depois de uma péssima noite de sono, lá estava eu, correndo feito um doido para chegar até o terminal tentando pegar o ônibus para Pindamonhangaba. Chegando à Pinda, o objetivo era encontrar com uns primos meus que estavam acampados no bairro de Ribeirão Grande, junto a uma fazenda que é a sede nacional da filosofia Hare Krishina.

 

          A nossa intenção era realizar uma travessia de montanha, que se iniciaria em um bairro chamado “Bairro do Pinga”, passaria pelo morro de mesmo nome, subiria até o pico do Itapeva, já em Campos do Jordão, e desceria a Serra da Mantiqueira até a fazenda Hare Krishina. Portanto as sete da manhã embarco no ônibus, que em pouco mais de 40 minutos me deixa a 2 km da fazenda Hare Krishina. Jogo a mochila nas costas e ponho-me a marchar neste trecho final. Logo alcanço duas pessoas com quem puxo conversa. Descubro que um deles pertence à fazenda Hare, e enquanto eu tento, sem sucesso, arrancar alguma informação que poderia me ser útil, o indivíduo cantarola um mantra, do qual não consigo entender nenhuma palavra. Finalmente depois de meia hora encontro com os meus primos, e sem perder muito tempo, arrumamos nossas mochilas para o início da travessia, ou melhor, eu arrumo a minha mochila, porque meu primo fez o favor de esquecer a dele, e eu tive que carregar a bagagem praticamente sozinho. Tudo certo e resolvido, a mulher do meu primo nos levou até o início da trilha, a uns 30 km da fazenda. Despedimo-nos dela e prometemos nos encontrar no dia seguinte, na própria fazenda.

 5ab3aa5403d48.jpg

          Nossa caminhada começa na estradinha rural, que vai adentrando o Vale do Pinga, cada vez mais encostando nos paredões gigantescos da Serra da Mantiqueira. Depois de alguns minutos, após cruzarmos um pequeno riacho, tropeçamos em uma porteira preta, que não estava prevista no roteiro. Voltamos um pouco para nos informarmos em uma casa próxima. As palavras da gentil moradora não foram muito animadoras. Ela nos disse, que a trilha que procurávamos, deixou de existir ha muito tempo. Por falta de uso, o mato tinha tomado de volta o que lhe pertencia, e a muito tempo ninguém conseguia fazer mais esta travessia, inclusive alguns escoteiros tentaram subir a montanha, mas não tinham alcançado nenhum sucesso. Alertou-nos ainda para tomarmos cuidado com as onças, que estavam atacando muito os animais da região. Quanto a isto não me preocupei, histórias de onças eu já ouvira em quase todos os lugares, essa era só mais uma. Mas o caso da trilha que desapareceu, isso sim me deixou preocupado. O roteiro que eu seguia, já tinha mais de dez anos e não era muito claro. Resolvemos arriscar, afinal de contas não tínhamos nada a perder, só a nos perder. Voltamos a porteira preta, e depois de uma análise, descobrimos que ela havia sido pintada, e que sua cor original era azul, justamente a porteira que constava em nosso mapa. A estradinha agora subia para valer e depois de passar por uma bica d’ água, entrou na mata, até finalmente terminar em uma porteira, e em mais cinco minutos de caminhada, chegamos a um degrau na montanha, onde pudemos ter a nossa primeira grande visão de todo o Vale do Paraíba e de todo o vale que havíamos bordejado. Aqui há uma casa, que foi reformada a pouco tempo, sua construção data da década de 50, e o proprietário, o sr Luís Reis, nos recebeu muito bem. Enquanto batíamos um bom papo, um esquilo exibido brincava em um mourão de cerca. O seu Luís também disse que alguns rapazes haviam passado por ali na semana passada portando um GPS, mas não conseguiram chegar a lugar algum. Contrariando mais uma vez os prognósticos negativos, seguimos nosso caminho.

 

          A pequena estrada, agora deu lugar a uma estreita trilha, que em mais alguns minutos nos levou a uma enorme casa de caboclos feita de madeira e barro. Esta construção muito antiga, hoje simboliza a decadência desta região. Nela mora apenas um indivíduo, que teima em tentar sobreviver neste pedaço de terra tão hostil. Aqui não há energia elétrica ou qualquer outro indício de progresso e até a casa não tarda em desmoronar. Continuamos subindo a trilha, até que depois de quinze minutos tropeçamos em duas casas em ruína. uma delas totalmente destruída e a outra ainda se segurava em pé, mas servia somente como moradia para dezenas de morcegos. Foi nesta decrépita habitação que recolhemos em um pequeno riacho a última água disponível que teríamos para o resto da travessia.

 

          Daqui para frente começava o nosso pesadelo. Procuramos, mas não encontramos trilha alguma que nos levasse ao alto da serra, como estava descrito no roteiro. Tentamos todas as direções, mas não obtivemos sucesso em nenhuma delas. Calculo que perdemos a trilha um pouco abaixo das casas em ruína. Resolvemos então enfrentar o mato no peito, guiando-nos apenas pela bússola. Prefiro subir por uma canaleta de água, aonde havia algumas bananeiras plantadas. O caminhar é lento e dificultoso, os cipós insistem em agarrar-se nas nossas mochilas. De repente ouço um barulho de algo correndo no mato. Meu primo mata logo a minha curiosidade, dá um pulo pra cima e grita: “É um tatu, um tatu galinha” . Eu não sabia que o cara era especialista em tatus. Finalmente emergimos da mata no topo desta serra. Que prazer estar aqui, sentir o vento no rosto e poder observar toda a beleza da Serra da Mantiqueira, com seus paredões gigantescos, seus vales profundos recobertos com a mais bela mata, que o olho de um ser humano pode apreciar.. Daqui já avistamos o Pico do Itapeva, que será alcançado só no dia seguinte. Também já avistamos daqui o Morro do Pinga, nosso próximo objetivo a ser alcançado.

 

          Depois de um bom descanso, retomamos a trilha que se metia no meio de enormes samambaias, na direção noroeste. Em alguns minutos a trilha simplesmente desapareceu e tivemos que seguir nossa intuição. Seguíamos bordejando o Vale do Bonfim a nossa direita e de repente estávamos travados em uma parede rochosa sem ter para onde ir, tentando adivinhar para que direção o diabo desta trilha havia seguido. Parados ali feito lagartixa na pedra, resolvemos tentar achar a trilha mais abaixo, mas para isso seria preciso tentar descer da parede. Foi quando meu primo com uma atitude totalmente desastrada e até meio irresponsável resolveu pular da pedra na vegetação logo abaixo. Resultado, o chão estava mais longe do que ele pensava, e o cara caiu feito uma jaca madura e por pouco não bateu a cabeça em uma enorme rocha que estava logo abaixo de nós. Passado o susto, descemos ao selado logo abaixo e reencontramos a trilha procurada.

 

          Estávamos agora com a encosta do Morro do Pinga subindo a nossa esquerda, mas nossa trilha não ia até o topo, continuava seguindo para nordeste até chegar de novo à floresta. Entramos na mata, mas sem nenhuma explicação, a trilha, que já não era clara, subitamente desapareceu. A incerteza começava a tomar conta de nós. Havíamos chegado até ali na raça, mas as coisas agora estavam muito complicadas. Tentei achar a trilha no meio da floresta, infelizmente sem sucesso. Saímos da mata para tentar achar outra solução, e depois de muito procurar achamos um rabo de trilha meio apagada. A trilha não era lá grande coisa, mas pelo menos serviu par nos dar alguma noção de direção. Tínhamos que tentar achar agora, uma cerca, que nos faria mudar radicalmente de direção. Claro que não encontramos cerca alguma, mas depois de meia hora de caminhada conseguimos localizar o tal selado que teríamos que atravessar. Chegando lá achei uma trilha mais nítida, que se iniciava depois de uma porteira de arame farpado. No começo a trilha até era bem aberta, mas depois de algum tempo, ela também desapareceu, e mais uma vez toca a gente ter que rasgar o mato no peito. Nesta briga incansável com a vegetação, acabei caindo em um buraco, que engoliu a minha perna, que acabei não quebrando por pura sorte. Logo a mata acabou e vimos surgir diante de nós, dois gigantescos vales, um a direita e outro a esquerda. O da esquerda nos deixava ver ao longe, algumas casinhas, que indicava ser ali o tal bairro de Piracuama(bairro das Oliveiras ?) descrito no nosso mapa, já o da direita, nos proporcionava uma linda visão de suas matas verdes e preservadas. Percebemos depois de algum tempo que a única maneira de cruzarmos os dois vales, seria pelo selado logo à baixo. Mas como chegar até lá, Se trilha alguma conseguimos encontrar? Ora, do mesmo jeito que chegamos até aqui, abrindo trilha no peito. A vegetação agora não era mais composta de árvores, mas sim de samambaias de mais de dois metros de altura. Que sufoco!! Prosseguíamos lentamente, vencendo a vegetação centímetro por centímetro, até esbarrarmos em algumas árvores isoladas, a meio caminho do selado. Paramos para descansar um pouco.

 

          O sol já ameaçava se jogar atrás da serra, e nós ali parados no meio de lugar algum, sem um centímetro plano e limpo para acampar. Escalei uma das árvores para melhor avaliar nossa posição. Estava cansado e com algumas dores pelo corpo, e dali de onde estava a melhor solução seria mesmo continuar seguindo em frente, até tentar alcançar a mata logo abaixo, pelo menos lá teríamos como achar algum lugar que desse para montar uma barraca. A decisão que tomamos se mostrou logo acertada e em menos de meia hora estávamos caminhando dentro da mata, até que avistamos ao longe o que parecia ser o telhado de alguma habitação perdida por estas paragens. Chegando ao local vimos que se tratava apenas de caixas para apicultura. E em mais um minuto desembocamos no que deveria ser no passado, uma estradinha, que hoje não passava de uma mera trilha um pouco mais larga.

 

          O local era perfeito para acampamento. Gramado, plano e seco. O único problema é que não tínhamos mais água, e não era ali que acharíamos o precioso líquido, pois estávamos muito longe dos vales, onde provavelmente algum riacho cristalino e gelado pudesse nos abastecer. Do final desta estradinha, onde pretendíamos acampar, encontramos uma trilha bem batida, com sinal de que era bem utilizada pelo pessoal da região. Mas de onde vinha? Para onde iria? Enquanto meu primo se recompunha e descansava no nosso futuro acampamento, fui investigar. Subi pela trilha durante uns dez minutos. A trilha serpenteava montanha acima e talvez nos fosse útil no dia seguinte. Mas foi nesta trilha que encontrei, para nossa sorte, dois pés de laranjas lima carregados. Posso dizer que foi a destruição da lavoura. Colhi o tanto de laranjas que uma pessoa magrela de 58 kg podia carregar. Voltei ao acampamento, e enquanto meu primo montava a barraca, fui investigar a parte da trilha que descia ao vale, para ver se achava água. O sol já acabará de se recolher a oeste e reinava sobre o vale apenas a penumbra, que dava ao local um ar de mistério e fascínio e, enquanto eu caminhava pela trilha, ouvia apenas o barulho do vento e do riacho, que provavelmente corria a centenas de metros abaixo. Caminhava a passos largos, quase correndo, foi quando de repente cai e bati o joelho em uma pedra. A dor era tanta que fiquei ali caído, uivando para o vale, feito lobo. Levantei-me e recuperado da dor e do susto, continuei descendo e percebendo que nada encontraria, resolvi voltar.

 

          Temos que agradecer muito, a sorte e a nossa competência de termos conseguido chegar até aqui neste fim de dia, como é bom poder tirar nossas botas e apreciarmos uma janta quentinha, mesmo que nossa comida não passe de uma mera lata de feijões, enriquecida com uma lata de sardinha e um pouco de queijo ralado. Se tivéssemos encontrado água podíamos nos dar ao luxo de cozinhar um bocado de arroz, mas não podemos reclamar. A lua está clara, não há nenhuma probabilidade de chuva. Já são quase sete horas da noite e antes mesmo que eu me recolha para dentro do meu saco de dormir, meu primo já havia apagado. Foi um dia longo e cansativo e novas aventuras nos espera no dia seguinte.

          Antes das 06 da manhã já estávamos de pé. Desmontamos acampamento e sem mesmo tomar café, por motivos óbvios, nos pusemos a caminhar. O nosso mapa dizia que deveríamos seguir para o oeste, até encontrarmos a trilha principal, que subia do vilarejo de Piracuama. Mas a trilha de conecção a esta trilha principal, não mais existia e então resolvemos ariscar a subir pela trilha batida que havíamos encontrado no dia anterior, acreditando que ela se encontraria com a trilha principal, já quase no meio da montanha. Caminhávamos com muito vigor e a passos largos, aproveitando a temperatura fresca da manhã. Conforme avançávamos na trilha, atrás de nós iam surgindo vistas de montanhas e vales mais distantes, sinal que ganhávamos altura com grande rapidez. Em pouco tempo a trilha entrou na mata e virou de vez para oeste, confirmando a nossa suspeita. E em quarenta minutos a dita cuja surgiu em nossa frente, sem aviso prévio e nos fez comemorar este golpe de sorte, ou de competência.

          Esta nova trilha deve ser muito antiga, pois se apresenta larga e bem consolidada. Provavelmente é usada por tropeiros e viajantes, que procuram encurtar o caminho entre o Vale do Paraíba e o sul de minas, claro, passando primeiro por Campos do Jordão. Por ela é possível até, com muita perícia e habilidade, subir de moto. 

          Subíamos de vagar, aproveitando para apreciar as casinhas de Piracuama , quando a mata fechada abria uma janela, quilômetros abaixo de nós. A caminhada era gostosa e desimpedida. Sobre nós passavam as frondosas copas das enormes árvores, nos oferecendo sombra que ajudava a arrefecer o calor. Andávamos no ritmo de um pé à frente do outro, quase sem conversar, apenas ouvindo o som do mato, a batida do coração e o ar de nossos pulmões. Eu à frente, o Lindolfo atrás, às vezes desviávamos dos profundos sulcos que iam aparecendo na trilha, causados provavelmente pelas patas dos cavalos que eventualmente frequentam estas paragens. Foi quando em uma curva da trilha, de repente, sem que eu esperasse, surgiu à minha frente, algo que eu jamais esperaria encontrar nesta trilha. Algo que eu já vinha sonhando ver nestes quase quinze anos de caminhada em lugares remotos. Caminhadas em florestas e montanhas, em vales e cavernas, em serrado e planícies. Lugares desertos em que passei dias sem ver viva alma. E agora ali estava, e eu não estava sonhando, era real. Ali na minha frente se encontrava o maior carnívoro das nossas matas, o mais temido, o mais lendário, o mais folclórico, aquele que não perdoa ninguém, aquele que come bicho, come gente. Aquele que mete pânico nas pessoas da cidade e do campo. O bicho? A famosa e espetacular ONÇA. Isso mesmo, uma onça. Uma onça adulta. Uma ONÇA PARDA. Uma Suçuarana. E agora eu estava ali, frente a frente com a “comedora de homens” frente a frente a cinco metros de distância. Ela caminhava em minha direção, com a cabeça baixa, caminhava como um enorme gato.

           Tem um ditado que diz que você nunca estará certo de sua coragem, antes que se encontre com o perigo. Acreditem, medo algum eu tive. Se tivesse tido, diria sem problema algum. Não quero aqui me fazer de grande corajoso, pois não o sou, apenas estou passando o que senti ao ficar cara a cara com a “fera”. Esperei tanto por este momento, que a única coisa que consegui sentir, foi uma emoção e um prazer imenso de estar ali. Não fiquei mudo, pelo contrário, soltei um grito para denunciar ao meu primo a presença do bicho. “Uma onça, uma onça, olha Lindolfo, uma onça” . Nesta hora o maravilhoso animal levantou a cabeça, me olhou nos olhos, deu meia volta e entrou no mato. No mesmo instante, pudemos ouvir um miado que parecia ser de seu filhote. Sim, ela estava acompanhada. Ouvimos também os passos da onça na mata, ao nosso redor, parecia que ela não queria se distanciar de sua cria. Subimos os próximos metros da trilha com todo cuidado, não queríamos que o animal se sentisse acuado.

5ab3b2d245856.jpg

          Caminhei os próximos minutos na trilha, quase sem sentir os pés tocar o chão, estava inebriado, não sabia se ria ou se chorava. Ri e chorei, chorei copiosamente, escondendo as lágrimas atrás dos meus olhos de acrílico.  Em menos de uma hora, cruzamos uma porteira e a trilha nos cuspiu para fora da mata e nos lançou a um degrau na montanha. Ventava tanto que era quase impossível ficarmos em pé. A vista era com certeza a mais bonita da caminhada até agora. Dali já avistávamos o Pico do Itapeva e toda a extensão da Serra da Mantiqueira com seus enormes picos beirando os 2800 metros. Depois de um breve descanso, adentramos em um reflorestamento e logo depois já caminhávamos com a ilustre presença das araucárias. Finalmente chegamos a uma rústica habitação e pudemos enfim nos afogar de tanto beber água, cedida gentilmente por um caboclo habitante desta região. Ele também nos serviu um revigorante café e algumas bananas. Despedimo-nos deste novo amigo e em vinte minutos já estávamos com a rampa de acesso ao Pico do Itapeva sob os nossos pés.

 5ab3b3aa1bf8c.jpg

          Quem vem a turística Campos do Jordão, dificilmente deixa de vir ao Pico do Itapeva. Ponto obrigatório, o Itapeva talvez seja o pico mais turístico do Brasil. Chega-se aqui por uma estrada asfaltada, e bem conservada. Nesta época de inverno toda a nata da sociedade, principalmente paulistana, vêm desfilar com seus carrões importados e suas roupas de grife. Se como formação rochosa o pico não é grande coisa, em contra partida a vista que ele proporciona é fabulosa. Subimos a rampa de concreto, deixando para trás as lojinhas que vendem roupas de lã e outras inutilidades mais. Enquanto caminhávamos em direção ao topo, os ricos nos fulminavam com olhar de reprovação. Possivelmente nossas roupas destoavam da maioria. Parece que na visão deles éramos viajantes do tempo, talvez do tempo das cavernas. Estendemos nossa bandeira no topo, tiramos algumas fotos, brindamos com refrigerante gelado, mandamos os burgueses a merda e seguimos nosso caminho.

 5ab3b30331a6c.jpg

          Por mais três quilômetros, caminhamos por uma estradinha de terra, sempre com o Vale do Paraíba a nossa direita e em quarenta minutos, numa curva da estrada, encontramos a trilha que nos levaria de volta ao vale. No começo a trilha é praticamente uma estrada, que serpenteia entre o reflorestamento de pinus. O caminhar é bem agradável, e por todo tempo a sombra é nossa companheira. Não demora muito e a trilha propriamente dita aparece. É uma trilha batida, larga e de fácil caminhar. Nos surpreende o esplendor desta floresta, com suas árvores de grande porte. De dentro da mata não se avista muita coisa. A caminhada de resume em pôr um pé na frente do outro, com o cuidado para não se esborrachar nos desníveis que vão surgindo à nossa frente. Com pouco mais de uma hora de caminhada chegamos a um platô na montanha, um ótimo lugar para acampar, com vistas desimpedidas para quase todos os lados. Que lugar lindo!! Quem me dera se tivesse tempo para ficar a tarde toda apreciando o mundo daqui de cima. Não é à toa que três grandes religiões escolheram este lugar para construir seus templos. O templo Hare Krishina, uma religião indiana, o Santo Daime, uma religião criada nos confins da Amazônia e o templo da religião católica, representada pela Basílica de Aparecida. Mas o tempo é curto e após um breve descanso, nos lançamos novamente montanha abaixo. Perdíamos altura rapidamente e eu ia à frente com o passo acelerado, tão acelerado que acabei deixando meu primo para trás e ele meio desatento, acabou pegando um desvio errado na trilha e foi parar do outro lado do vale. E foi só através de seus gritos que consegui localiza-lo, e traze-lo de volta à trilha principal. Falando em perder a trilha, não sei onde foi que deixamos escapar a trilha de conexão que nos levaria direto para o templo Hare, acabamos passando batidos e fomos parar a uns três quilômetros a direita de onde deveríamos ter saído. Toca enfiarmos a cara de novo na mata e nos guiarmos apenas pela intuição na direção do templo. Às vezes avistávamos apenas as torres do templo, dando-nos a sensação de estarmos caminhando em direção aos templos perdidos na selva do Camboja.

 5ab3b37226474.jpg

          Finalmente chegamos à fazenda Nova Gokula, que em sânscrito, significa lugar onde as vacas são protegidas. Passamos pela Vila Védica, vila construída para que os devotos pudessem levar uma vida de extrema simplicidade. Adentrar na área do templo é se sentir como se estivéssemos na própria Índia. Do seu topo soa uma música que acalma a alma. As mulheres, com suas roupas extremamente coloridas e com suas pintas de argila na testa, simbolizando os chacras, faz esquecermos por alguns instantes que estamos no Brasil. Enquanto meu primo corre para avisar sua família que chegou vivo. Fico sentado por alguns instantes nas escadarias do templo, admirando aquelas pessoas totalmente estranhas a minha cultura.

 5ab3b34a9a075.jpg

          Como já passava das duas da tarde, aproveitamos para experimentar a deliciosa comida vegetariana, que aqui eles chamam de ¨prachada¨ (todo alimento oferecido a Krishina, deus). Antes de pegarmos o caminho de volta para casa, ainda vimos dezenas de vacas sagradas tentarem enfiar seus chifres bentos em um pobre porquinho. A situação foi muito cômica, menos para o porco, é claro. Se há pessoas que cultuam a vaca como um verdadeiro santo, mesmo sendo um animal totalmente sem graça e sem poesia. Posso garantir que nesse final de semana ao me deparar com a onça, me encontrei com ¨deus¨. É isso mesmo, foi um privilégio que muito pouca gente já teve, quantos passam à vida toda morando no Pantanal e na Floresta Amazônica sem nunca ter avistado uma onça. Talvez agora eu faça parte do pequeno grupo dos iluminados, dos escolhidos. A única certeza que tenho é que ao me encontrar com este deus de nossas matas, descobri ser este um deus do bem, e que de assassino nunca teve nada. Ao ficarmos frente a frente, nos olhamos e nos respeitamos. Cada um seguiu seu caminho: Ela floresta a dentro e nós, montanha acima. 

                                                  Divanei Goes de Paula / julho de 2005.

 

Nota importante : Talvez essa travessia hoje esteja interditada, mas pelo que fiquei sabendo, seria possível subir pelo proprio vale do Bonfim e interceptar a trilha onde vimos a onça. Antes que alguém me pergunte da foto da onça, lamento informar que naquela época as maquinas eram obsoletas e eu tinha uma com filme de 36 poses que trazia comigo guardada na mochila, portanto impossível de ter tirado uma foto diante da situação, na verdade, foram poucas as fotos que se salvaram. Passado todos esses anos, explorei lugares selvagens, alguns onde ninguém nunca esteve antes e infelizmente a unica coisa que vi foram pegadas e nunca mais consegui ver outra onça .

 

 

                                             

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Refazer os roteiros do Beck ( q já datam de quase uma década e merecem uma boa atualizada!) dá nisso! Sao prova de persistência e total desprendiamneto! O Pinga realmente é vara-mato atualmente, eu q o diga.. vc nao viu ainda o Vista Alegre e tantos outros..

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

É Augusto

Antes de postar o relato eu perguntei como é que se fazia, você não me disse nada . Agora já estou sabendo . Também não sou escritor, apenas quis compartilhar com outros as experiências de uma boa caminhada .

Valeu , obrigado pela dica .

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Jorge ,

Já fiz o Vista Alegre e realmente você tem razão . A trilha acabou, tivemos que abrir mato no peito e isto é uma triste constatação, as pessoas estão sempre fazendo as mesmas coisas e deixando algumas trilhas desaparecerem do mapa .

Um abraço .

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Bom se o problema eram as letras maiúsculas . PROBLEMA RESOLVIDO !!!!!!!!!!!!!!!!

Esta internet é muito cheia de frescura mesmo . Vou para as montanhas que é lá que é o meu lugar , rsrsrsrsr.........

Um abraço .

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Mas eu nem imaginava que vc escrevia em letras maiusculas.

 

Mas blz, o texto ficou bom.

Aguardamos mais relatos hein. ::otemo::::otemo::::otemo::::otemo::::otemo::

 

 

Abcs

 

 

 

É Augusto

Antes de postar o relato eu perguntei como é que se fazia, você não me disse nada . Agora já estou sabendo . Também não sou escritor, apenas quis compartilhar com outros as experiências de uma boa caminhada .

Valeu , obrigado pela dica .

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Olá Divanei

 

Meus parabéns pela travessia !

Em janeiro de 2004 tentei faze-la duas vezes, sem sucesso. Aliás, quando você relatou que o seu Luis havia dito de alguns rapazes de GPS eu até pensei que fosse nós (mas não bate com a data do seu relato, em julho de 2005). Aliás (2), quando eu passei o olho pelo seu relato, antes de o lêr na íntegra, cheguei a desconfiar que era o meu relato modificado ! Pois passamos exatamente pelos mesmos lugares e mesmas dificuldades, mas em nosso caso pela falta de tempo não tivemos a oportunidade de tentar seguir mais, e tivemos que voltar. Pelas minhas contas, você levou uns 3 ou 4 dias para essa travessia ? Você tem o tracklog desta travessia ? Fiquei com vontade de tenta-la novamente ! Mas certamente vou levar bastante água -- nós também sofremos com isso em nossa incursão.

 

Meu relato sobre nossa incursão está em http://blog.blag.us/morro-do-pinga/'>http://blog.blag.us/morro-do-pinga/

 

Estarei de olho por uma resposta neste fórum, mas também peço a gentileza de me contatar para batermos um papo sobre nossa aventura !

fortes abraços e boas aventuras !

Lex Blagus - [email protected] - http://blog.blag.us/

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Então Blagus ,

Fiz esta trilha seguindo o roteiro antigo do Sergio Beck .Trilha realmente não existe mais, mas depois de passado o perrengue , acho que não é difícil de faze-la . Assim que você emergir depois dos sítios após a casa do seu Luis, é só seguir até um ponto em que encontrará um selado que liga os dois vales, acho que é o único ponto possível para passar . Ali existe uma trilha, depois de uma cerca de arame( se é que tudo isso ainda existe) e no final quebre a direita, talvez sem trilha e ande uns 50 métros . Desça a esquerda varando o mato e samambaias, porque não ha trilha alguma . Você vai chegar na mata, ai vai ficar mais fácil de andar. Siga enfrente e você chegará em uma trilha bem aberta, foi o local onde acampamos . A trilha seguirá para a esquerda, subindo o morro até se conectar com a trilha principal que sobe de Piracuama e dai pra frente não tem erro, a trilha vai sair la na estrada que vai ao Itapeva, e a descida acho que você já sabe, não deve haver problema .

Mas tudo isso é muito superficial, falar é fácil , mas na hora do vamos ver é complicado . Nós ficamos muito tempo perdidos lá e sofremos muito . Quanto ao tempo de caminhada, 2 dias são mais do que suficiente, se você não se perder muito . Um dia até o Itapeva e depois mais um ´para descer até o templo .

Bom mais se você quiser mais detalhes ou até mesmo falar comigo, terei o maior prazer em

ajudá-lo . Entra lá na minha páguina do Orkut, é só procurar por Divanei Goes de Paula.

Um abraço e boa sorte .

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Senhores, editores :

Achei legal a criação de um tópico só para as travessias. Não sei qual foi o critério usado para transportar os relatos para lá. Se for possível gostaria que esse relato também mudasse para o outro tópico(trilhas e travessias) . Um abraço.

20100804172500.JPG

20100804172610.JPG

20100804172646.JPG

20100804172735.JPG

20100804172827.JPG

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Participe da conversa!

Você pode ajudar esse viajante agora e se cadastrar depois. Se você tem uma conta,clique aqui para fazer o login.

Visitante
Responder

×   Você colou conteúdo com formatação.   Remover formatação

  Apenas 75 emoticons no total são permitidos.

×   Seu link foi automaticamente incorporado.   Mostrar como link

×   Seu conteúdo anterior foi restaurado.   Limpar o editor

×   Não é possível colar imagens diretamente. Carregar ou inserir imagens do URL.


  • Conteúdo Similar

    • Por thiago.martini
      Amigos Mochileiros,
      Como o único relato que tem sobre o trekking a Ciudad Perdida é de 2010 (muito bom por sinal e me ajudou bastante) resolvi escrever sobre a experiência que eu e minha esposa tivemos em outubro deste ano neste trekking incrível.
      No meu instagram (@thiagomrp) tem uma postagem para cada dia da trilha, com várias fotos do percurso. Quem quiser, é só dar uma conferida.
       
      PREPARAÇÃO
      Foi bem difícil achar boas informações sobre o trekking em sites brasileiros. Só um relato aqui no Mochileiros.com e poucas informações recentes. Acabei assistindo alguns vídeos feitos por viajantes gringos, buscando informações em sites colombianos e conversando com o hostel que iria nos hospedar em Santa Marta.
      Pelo que tinha pesquisado, sabia que a caminhada seria um pouco difícil, então resolvemos intensificar um pouco os treinos (fazemos treino funcional pelo menos 3 vezes por semana).
      Fiquei em dúvida sobre comprar antecipadamente ou fechar na hora. Conversei com o pessoal do hostel por e-mail (Masaya Santa Marta – recomendo muito a estadia lá) e me orientaram que sempre tinham saídas e que a diferença seria o pagamento com ou sem taxas do cartão. Em resumo, pagando lá haveria uma taxa de 3% do cartão de crédito (que de fato não ocorreu, mais adiante explico).
      Então como preparação apenas reservei o hostel em Santa Marta (Masaya) para dois dias antes do trekking e um dia depois. Assim poderíamos deixar nossos mochilões lá mesmo.
       
      COMPRA DO TOUR (dia 07/10/2019)
      Compramos o tour no próprio hostel, pelo mesmo preço que costuma ser o padrão das empresas de Santa Marta, COP 1.100.000,00. Na época que estivemos lá a melhor cotação que achamos foi 1 real para 780 COP’s. Com essa cotação nosso trekking ficou por +- R$ 1.400,00 cada um. Não tivemos a tal taxa extra, porque o atendente nos enviou um link (tipo paypal) e pagamos diretamente no site.
      Aproveitamos para pegar informações com o atendente, Francisco, que tinha sido tradutor nessa trilha por diversas vezes. Segundo ele não seria TÃO difícil. Ledo engano nosso kkkkk.
       
      DIA 1 (09/10/2019)
      Entre 8h30 e 9h00 passariam nos recolher para o tour. Às 8h30 já estávamos na recepção. Vi um rapaz com roupa de agência e perguntei se estava nos esperando. Ele disse que não. Apenas outras duas pessoas. Até aí, ok então.
      Esperei mais uns 15 minutos e nada da nossa agência. Fui falar com o rapaz sentado e perguntei se o nosso tour não era com ele também. Me perguntou qual era a nossa agência. Aqui descuido meu, não tinha perguntado ao Francisco qual era a agência. Mostrei para ela o comprovante de pagamento, ele fez uma ligação e confirmou que a gente também tinha que ir com ele. Uffaaaa, que sorte que fui abordá-lo.
      Entramos num 4x4 e recolhemos algumas pessoas pelo trajeto. Fomos até a agência antes de sair. Depois de um rápido briefing pegamos a estrada.
      Nosso grupo tinha 9 pessoas (5 colombianos, 2 ingleses, 1 alemão, 1 norte-americana e nós 2 de brasileiros). 
      Foram cerca de 1h30 de estrada de asfalto, com um motorista dirigindo loucamente kkkk.
      Por volta das 11h00 estávamos na entrada do Parque Nacional de Sierra Nevada. Lá pausa rápida para banheiro, colocar nossas pulseira de autorização para entrar no parque e mais 45 minutos de estrada de chão, com várias subidas e descidas irregulares e travessias de rio. Foi bem emocionante kkkk.
      Perto das 12h00 chegamos ao restaurante onde almoçamos e depois iniciamos nossa caminhada. Prato feito com arroz, feijão, salada, coxa com sobrecoxa e, é claro, patacones (que delícia kkk). Os pratos de comida são muito grandes. Eu não consegui comer tudo.
      Por volta das 13h15 saímos para iniciar nossa caminhada.
      O primeiro dia é basicamente uma longa caminhada estrada acima, com algumas barraquinhas no meio do caminho vendendo água, refri, cerveja, cacau, suco de laranja etc.
      Esse dia totalizou 12,2 kms com solzão na cabeça.
      Chamou atenção nesse dia a quantidade de aranhas e suas teias nas árvores.
      Chegamos no acampamento por volta da 16h45. Todos os acampamentos são ao lado de rio. Nesse primeiro tinha uma piscina natural que o povo pulava do alto de uma pedra. Eu sou meio cagão para água, mas tomei coragem e pulei, minha esposa também. Foi uma baita adrenalina. Tem o vídeo no meu instagram (@thiagomrp).
      Depois de um mergulho revigorante nas águas frias do rio, fomos tomar banho para jantar e dormir.
      Dica: muita atenção nos acampamentos com aranhas, escorpiões e cobras. O nosso guia nos alertou. Nós optamos por pendurar as botas no alto (o que depois foi seguido pelos colegas) e SEMPRE deixar as mochilas fechadas, para evitar entrada de bichos. Também revisamos as camas antes de deitar.
      Jantar estava muito farto e gostoso. Depois um brefing sobre o próximo dia e conversas sobre a história da trilha, da região, do povo Tayrona etc. Tudo muito interessante.
      Às 20h00 já estamos deitados e às 21h00 apagaram as luzes.
       
      DIA 2 (10/10/2019)
      Despertadores tocaram as 5h00 para nos arrumarmos, tomarmos café e saímos às 6h00. Acontece que no grupo tinha uma criança (11 anos) que só levantou às 6h00 e daí que foi tomar café. Ficamos bem impacientes, inclusive o guia. Aqui falha dos pais que não acordaram a criança antes e apressaram ela. Acabamos saindo 6h30.
      O segundo dia já era sabido com sendo o pior, e realmente foi. Foram 21,2 kms com muitas subidas e muita lama pelo caminho. Lugares bem escorregadios para caminhar. Nos levamos nossos próprios bastões, quem não tinha estava improvisando com tronco de árvore.
      Às 9h00 chegamos no lugar onde almoçamos. Fizemos uma parada mais longa com direito a visitar uma cachoeira próxima. Valeu muito a pena.
      Às 10h30 já estávamos almoçando e 11h00 voltamos a caminhar.
      A segunda parte do dia foi beeeeemmm difícil. Muita subida e lama.
      Por volta das 14h00 começou a chover, então complicou um pouco mais. Era subida sem fim, com chuva e fome. Por sorte chegamos numa vendinha e lá tinha frutas para nós. Foi revigorante.
      Aliás, em várias vendinhas as agências providenciam frutas para o pessoal, normalmente melancia, laranja ou abacaxi (muito doce por sinal).
      Chegamos no acampamento às 16h10, bem cansados. É o último acampamento antes da Ciudad Perdida, então todas as agências ficam no mesmo lugar. É o que tem a estrutura mais precária, mas mesmo assim foi ok.
      Jantamos, conversamos e antes das 20h00 já estávamos deitados. Às 21h00 apagaram as luzes.
       
      DIA 3 (11/10/2019)
      Novamente levantamos às 5h00, café da manhã e as 6h30 saímos. Aqui o atraso foi proposital. Como 10 minutos após o acampamento tem a travessia de um rio, o guia preferiu atrasarmos um pouco para não ter que ficar esperando na margem do rio os demais grupos atravessarem.
      Que travessia hein!
      Deve ser uns 20 metros de uma margem a outra, com pedras e correnteza forte. Duas cordas ajudam, aliás, todo mundo se ajuda porque a correnteza é muito forte mesmo.
      Depois de recolocar as botas, mais uns 10 minutos caminhando e chegamos no início das escadas que levam a Ciudad Perdida. Mais de 1200 degraus pela frente. Muita atenção, pois os degraus são curtos e bem úmidos.
      Às 7h10 já estávamos na entrada da Ciudad Perdida. Passaportes (dados pelo próprio parque com a história do lugar) foram distribuídos e carimbados.
      Nos acomodamos num lugar para ouvir o guia contar sobre a história da Ciudad Perdida e seu povo. Depois de um tempo saímos para desbravar o lugar.
      Você vai encontrar vários militares do exercício pelos caminhos da Ciudad Perdida. Eles estão ali para marcar a presença do Estado e oferecer segurança. Foram todos amigáveis e até tiraram fotos com a bandeira do Brasil (eu sempre viajo com uma).
      Na saída da Ciudad Perdida nosso guia passou na oca do líder espiritual, Mamo, porém ele não estava. Apenas sua esposa que vendeu algumas pulseirinhas feitas por ela para o grupo.
      Por volta das 10h00 já estávamos descendo de volta ao acampamento em que passamos a noite. Almoçamos por lá e depois voltamos até o acampamento em que almoçamos no segundo dia.
      Nesse dia foram quase 22km caminhados. Foi puxado, mas nem tanto.
      A noite jantamos e antes de dormir tivemos a oportunidade de ouvir histórias de um índio de uma tribo descendente dos Tayronas. Ele mostrou instrumentos de trabalho, o poporo (instrumento usado apenas pelos homens para consumir a folha de coca) e outros utensílios. Foi uma conversa legal. Ele falava mais ou menos o espanhol e era auxiliado pelo nosso guia. Uma experiência bem bacana.
       
      DIA 4 (12/10/2019)
      Novamente acordamos as 5h00 e 6h30 já estávamos caminhando para terminar o nosso trekking. O objetivo era chegar para o almoço no local onde iniciamos nossa aventura. Lá onde o 4x4 nos deixou e voltaria nos pegar.
      Umas subidas bem fortes, com quase 1 hora de subida initerrupta. Foi bem puxado.
      Confesso que tenho dúvidas se foi o segundo ou último dia o mais difícil. Ambos foram muito puxados.
      Por volta das 10h00 paramos tomar um suco e comer um bolo no mesmo local do primeiro acampamento. Descansamos um pouco e logo partimos.
      Eu e minha esposa aceleramos o passo porque queríamos terminar antes do meio dia. Não porque tivéssemos pressa, mas só para ter um objetivo.
      Uma parte do grupo foi mais rápido conosco e o resto seguiu mais lento com o guia.
      Esse trecho final foi aquele na estrada com o sol na cabeça do primeiro dia. Dessa vez o sol estava até mais forte, por isso cada vez mais queríamos chegar antes.
      Exatamente 11h50 chegamos no restaurante. Fui um trecho bem cansativo, quase 22,5 km. Todos que chegavam já foram arrancado as botas e deitando pelo chão gelado, era a melhor coisa naquele calor kkkk.
      Cerca de 1 hora depois chegou o resto do grupo.
      Almoçamos e por volta da 14h00 já estávamos no 4x4 para retornarmos até Santa Marta.
       
      SALDO FINAL
      Talvez tenha sido o trekking mais difícil que já fiz na vida (já fiz Salkantay no Peru e vários outros no sul do Brasil).
      Foi puxado, subidas e sol fortes e uma umidade muito grande, suávamos muito.
      Faria tudo de volta? Sem sombra de dúvidas, SIM.
      Foi uma experiência muito legal, uma caminhada difícil e desafiadora, com um grupo nota 10, guia e tradutor muito gente boa e estrutura de acampamentos legal. Várias vezes nos pegávamos falando: “estamos no meio da selva colombiana!!!”. E realmente é isso. É uma selva bem fechada, úmida, com rios, cachoeiras, pedras e lama.
      Trekking a Ciudad Perdida marcado como FEITO e RECOMENDADO a todos mochileiros e trilheiros!
       
      Obs.: tentarei colocar algumas fotos nos próximos comentários. Quem quiser pode ver algumas no meu instagram @thiagomrp. 
       
    • Por Érica Munhoz
      O clássico Chile-Bolívia-Peru, ou melhor, a Tríade Atacama-Salar-Cusco sempre esteve na minha lista de desejos. Dentre esses países, eu sempre tive uma vontade maior de conhecer a Bolívia. Como uma boa bióloga, eu sou apaixonada por parques nacionais e a Bolívia tem uns maravilhosos.

      Além disso, eu gosto muito de trekking em montanhas e estou planejando fazer em breve algumas montanhas bem altas, acima de 5.000 m, na África e na Ásia.

      Desde 2016 eu desenvolvi uma rara doença auditiva chamada Síndrome de Menière, que basicamente é pressão alta na cóclea. A doença é terrível, mas felizmente a medicação no meu caso ajuda a controlar bastante os sintomas da síndrome, exceto o zumbido e umas tonturas eventuais.

      O máximo de altura que eu já tinha ido até então foi 2.800 m no Monte Roraima em 2015 (que senti enjoo, mas darei mais detalhes depois). Porém como meu problema auditivo começou depois disso, eu queria saber como meus ouvidos iriam se comportar em altitudes maiores do que 2.800 m, antes de encarar por dias as montanhas que eu desejo na África e na Ásia.

      Daí juntou a fome com a vontade de comer. A Bolívia, que eu já queria muito conhecer, era um local ideal para ir, pois além de altitudes acima dos 4.000 m, é um país bem barato para se viajar.

      Então na Black Friday de 2018 eu consegui comprar minhas passagens pela Submarino Viagens por R$1641,00 chegando por Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) dia 16/09/19 e voltando por Cusco (Peru) dia 15/10/19 (mesmo pagando uma taxa para a empresa, ainda assim saiu mais barato do que comprar diretamente pelas cia aéreas. Tiveram dois problemas: o primeiro foi os horários loucos com mil pontes áreas e o segundo foi que eles trocaram os horários dos meus voos sem minha solicitação. Me mandaram só um e-mail pedindo a minha confirmação. Se eu não aceitasse eles iriam devolver o dinheiro, exceto o valor do serviço prestado pela Submarino).

      16/09 (segunda): Depois de uma longa jornada de aeroportos (BH-Guarulhos-Santiago-Santa Cruz de la Sierra) que começou às 4:50h, cheguei no meu destino por volta das 20h. Passei pelo saguão do aeroporto pra trocar um pouco de dinheiro, mas as casas de câmbio estavam fechadas. Fui até o centro de informação ao turista e perguntei quanto dava um táxi em dólares até a Catedral, pois meu hostel ficava em frente (10 dólares).

      Peguei um táxi regular (branco com uma faixa azul. Eles ficam parados em frente ao desembarque). Por causa do trânsito, o trajeto demorou cerca de meia hora. O que não faltam nas cidades da Bolívia são táxis clandestinos. Em geral, todos os carros caem aos pedaços, literalmente. Sobretudo os taxistas clandestinos. Nenhum táxi, regular ou clandestino, tem taxímetro. Então sempre pergunte o preço da corrida antes de entrar.

      O trânsito na Bolívia é muito confuso e caótico (no Peru também, mas talvez um pouco menos do que na Bolívia. É uma loucura!). Não há placas de Pare. Os motoristas simplesmente embicam o carro na tora para passar nos cruzamentos. Eles não respeitam as faixas de pedestres, mesmo que o semáforo esteja aberto para os pedestres. Quase nunca dão seta, metem a mão na buzina a cada respiração, fazem fila dupla ou simplesmente param em qualquer lugar. A vida do pedestre é complicada. Para você atravessar a rua, vai ter que se enfiar na frente dos carros. Sinto de segurança é algo que praticamente não existe, inclusive nos ônibus que fazem as viagens intermunicipais.

      Ao chegar no hostel, deixei minhas coisas e fui dar uma volta de 10 minutos na praça da Catedral. Ela já é muito bonita, mas a iluminação a noite dá um toque especial.

      17/08/19 (terça): fiquei no Nomad Hostel, que fica literalmente em frente à Catedral em uma rua lateral. O hostel é muito bom, mas não pode cozinhar. O que foi um problema pra mim. Fiquei duas noites lá e para a primeira noite tinha comprado vários legumes para fazer. Acabei conversando com o dono alegando que não fui informada sobre isso durante o meu check-in e que pelo aplicativo do Booking, por onde reservei, não havia essa observação lá. Acabou que ele permitiu que eu cozinhasse macarrão, pois era rápido e não faria sujeira. Fora isso, a estadia foi muito boa. 

      A maioria dos comércios abriam a partir de 8:30h da manhã, fechando de 12 às 14h (isso serviu para toda a Bolívia, não apenas para Santa Cruz). Então não adianta sair mais cedo do que isso. Depois que tomei café da manhã no hostel, saí para trocar dinheiro. O câmbio para dólar estava 6,94 bs e reais estava 1,69 bs. Depois comecei a procurar agências de turismo para cotar passeios para o Parque Amboró. Para a minha infelicidade, praticamente não achei agências. E das raras agências que faziam o Parque, elas estavam querendo me cobrar entre 450 ou 550 DÓLARES (!!!) para me levar, uma vez que eu estava sozinha e era baixa temporada. Dá pra ir para o Parque de ônibus (mas você tem que dormir na cidade de Samaipata), mas exatamente por ser baixa temporada, achei que a probabilidade de conseguir guias lá seria menor porque Samaipata parece que não tem muita infraestrutura. Então não quis arriscar. Acabei ficando super frustrada pois queria demais ir ao parque fazer a trilha dos Helechos Gigantes.

      Enfim, me conformei. E acabei ficando um dia a toa em Santa Cruz, que tirando a Catedral, não tem nada de interessante. A cidade é bem grande e não achei ela muito segura, embora não tenha visto ou acontecido nada comigo. Mas em pleno centro durante o dia havia umas ruas vazias com aquele ar de suspeito em que seu sexto sentido diz: "não vai por aí". Curiosamente, depois me falaram que as cidades mais violentas aos turistas eram Santa Cruz e La Paz, que são as duas maiores cidades da Bolívia.

      Fui até a rodoviária para comprar passagens para Sucre. A rodoviária é uma zona. Tem gente gritando para tudo que é lado e você é abordado o tempo inteiro por pessoas querendo te vender passagens. Irritante. E a julgar pela aparência dos guichês das empresas, você acha que todos os ônibus serão uns cacarecos. Havia lido aqui no fórum as melhores empresas e mais confiáveis. Dentre elas, fui diretamente ao guichê da Transcopabana, que apesar de na sua faixada estar escrito que eles faziam o trajeto para Sucre, na prática eles não faziam.

      Fiquei então totalmente sem referência de qual empresa confiar e ir, pois até então tinha lido só coisa ruim sobre o transporte rodoviário, especialmente para o trajeto Santa Cruz-Sucre. Por sugestão de uma outra empresa que não fazia esse trajeto, acabei indo parar em uma empresa super escondida chamada Sin Fronteras. Lá eles me ofereceram um ônibus semi leito, de dois andares, sendo que no andar de cima havia 3 fileiras de poltronas (2 juntas e uma separada), com banheiro (coisa rara) e ar condicionado. De fato o ônibus tinha tudo o que oferecia, exceto Wi-Fi, mas tinha entrada Usb para carregar o celular.

      18/09/19 (quarta): Basicamente enrolei o dia inteiro para pegar o ônibus para Sucre a noite. O ônibus não era novinho em folha, mas também não era ruim. Fui na fileira sozinha e a poltrona foi bem confortável para a viagem, que durou cerca de 12 h (saiu às 19h) e custou 100 bs.

      Antes de embarcar no ônibus a noite, eu estava bastante apreensiva por causa da qualidade do ônibus e por causa do trajeto em si. Havia lido que a estrada era péssima, extremamente perigosa por causa dos penhascos e que a maioria dos motoristas dirigem bêbados. Eu fiquei mais tranquila só depois que conversei com um outro passageiro que morava em Santa Cruz, mas estava indo fazer um trabalho em Sucre. Segundo ele, a estrada era nova e com guardrail, e que a empresa do ônibus era confiável. Para o nosso trajeto, ele também recomendou a empresa El Emperador, mas as passagens já haviam esgotado quando ele foi comprar e por isso acabou comprando da empresa Sin Fronteras. Antes de embarcar você deve pagar uma taxa de uso da rodoviária (não lembro se foi 2.50 ou 3.50 bs).
      O desconforto da viagem para mim foi que o trajeto tem muitas, mas muitas curvas fechadas. E pelo fato de estar no segundo andar do ônibus, a cada curva eu achava que o ônibus ia capotar. Então custei a relaxar. Se o ônibus que você pegar tiver banheiro, recomendo ir na parte de cima, pois o mal cheiro no primeiro andar é bem forte ao final da viagem. Recomendo também levar tampões de ouvido caso tenha dificuldade para dormir com barulho, como eu. Os bolivianos não usam fones de ouvido (uma senhorinha atrás de mim começou a tocar músicas às 5:30h da manhã. E quanto mais ela gostasse da música, maior era o volume. Eu queria matar a véia!). Leve também roupas de frio, pois de madrugada esfria bastante.

      Embora o ônibus que eu peguei tivesse banheiro, recomendo que não beba muita coisa antes de viajar. Um amigo meu viajou em um ônibus sem banheiro e o motorista não parou nenhum minuto. Segundo o relato dele, ele e os amigos tiveram que mijar da janela do ônibus em movimento. Imagina a cena! Também vi relatos de algumas meninas que também pegaram ônibus sem banheiro e tiveram que fazer xixi na estrada atrás do ônibus, depois de obrigar o motorista a parar ameaçando que iriam urinar dentro do ônibus.

      Fique esperto com as poucas paradas que o ônibus fizer na estrada. Tem alguns relatos contando situações inusitadas. No meu caso, depois de uns 10 minutos de ônibus parado em algum lugar, o motorista não conferiu os passageiros. Apenas gritou: "tá todo mundo aí?". Algumas pessoas responderam que sim e ele foi embora.
      19/09/19 (quinta): Cheguei em Sucre por volta das 07:30h e todas as empresas na rodoviária estavam fechadas. Fui caminhando até o Condor hostel (subindo e descendo as inúmeras ladeiras da cidade) (40 minutos de caminhada lenta). Deixei minhas coisas no hostel e fui para a Praça 25 de Maio para pegar o ônibus (também chamado de Dinobus) para o Parque Cretáceo (15 bs ida e volta. De táxi dava cerca de 30 bs cada trajeto). O ônibus é vermelho e tem dois andares, escrito "Parque Cretáceo" na frente dele. Não tem como não ver. Ele para em frente a Catedral na praça 25 de Maio e passa às 09:30h, 11h, 12h, 14h e 15h. Eu peguei ele às 9:40h.

      Não achei casas de câmbio pelas ruas que andei em Sucre (certamente tem, eu que não vi). Os únicos lugares que eu vi que trocavam dinheiro foi em uma tenda logo na saída da rodoviária (dólar 6,92 bs, reais não aceitavam) ou uma farmácia 24 horas em uma esquina da praça 25 de Maio (dólar 6,84 bs).

      Eu achei Sucre bem bonitinha, principalmente o Centro. As praças são bem conservadas, os jardins bem cuidados. Na praça 25 de Maio tem Wi-Fi público, que não funciona muito bem, mas quebra um galho em emergências. O trânsito também era caótico, mas tive a impressão que era menos caótico do que em Santa Cruz.
      O Parque Cretáceo, embora pequeno, é sensacional! Lá pertence a uma fábrica de cimentos, que durante suas perfurações para extrair matéria prima descobriram pegadas de 4 grupos diferentes de dinossauros. São mais de 12 mil pegadas em um paredão (a maior coleção de pegadas do mundo) e por conta disso essa área foi tombada e é conservada como patrimônio (não tão bem conservada assim considerando que passam caminhões da fábrica na área o tempo todo, além das outras atividades). Então a fábrica de cimentos fez um parque dos dinossauros e possui várias réplicas em tamanho real (e muito bem produzidas), além de fóssils. O Parque funciona de terça a domingo, de 9 às 17h. Porém, para ir ao paredão ver as pegadas originais, os únicos horários são 12 e 13h.  A entrada no parque custa 30 bs para estrangeiros e se você quiser tirar fotos, tem que pagar mais 5 bs, totalizando 35 bs (a visita ao paredão já está inclusa no ingresso).

      O clima em Sucre estava muito seco, mas no Parque Cretáceo estava pior ainda por causa do excesso de poeira. Se for visitar o paredão das pegadas originais, sugiro levar um lenço ou uma bataclava para proteger o nariz. Para ir ao paredão só pode entrar de sapato fechado. Saindo do Parque Cretáceo peguei novamente o Dinobus e pedi para descer na rodoviária para ver os horários de passagens para Potosí e Uyuni. Me indicaram a empresa Emperador (não é a El Emperador, que me indicaram como uma empresa confiável em Santa Cruz).

      Não tinha ninguém no guichê, mas na parede da empresa estava escrito os horários de saída para as duas cidades. Fui caminhando novamente até o centro e visitei a maioria dos museus. De longe o que eu mais gostei foi o Museu San Felipe de Neri (entrada 15 bs). Lá vc pode subir até o terraço e ver boa parte do centro. É bem bonito e rende fotos lindas da construção em si. A Catedral estava fechada para reformas.
      Depois de caminhar muito pelo centro, fui para o hostel descansar por volta das 17h. Comecei a sentir uma leve dor de cabeça, que atribui ao excesso de caminhada em um sol escaldante, à pouca ingestão de água e à noite mal dormida no ônibus de Santa Cruz. Porém a dor de cabeça começou a aumentar muito e comecei a ficar muito enjoada. Daí pensei que era algo que eu tinha comido (intoxicações alimentares na Bolívia são muito comuns. Cuidado com o que você come). Mas lá pelas 20h eu tava muito, mas muito mal. A dor de cabeça estava insuportavelmente forte, estava muito, mas muito enjoada, a ponto de vomitar toda a minha janta. 🤢 Já estava desconfiada de Soroche (que é o mal da altitude), mas não queria acreditar, pois não estava com dificuldade para respirar ou cansaço anormal.  
      Comecei então a ler mais sobre o Soroche e uma informação crucial foi importante para que minha ficha caísse: você não começa a passar mal necessariamente assim que chega em uma determinada altitude (geralmente a partir de 2.400 metros algumas pessoas já passam mal). Algumas pessoas podem começar a se sentir mal com 20 minutos, mas outras pessoas podem levar até 10 horas para passar mal. Além disso, ao deitar, a frequência respiratória diminui, o que piora muitos os sintomas.

      E foi exatamente isso que aconteceu comigo. Comecei a me sentir mal cerca de 10h depois que eu cheguei em Sucre (que está a 2.800 m de altitude) e quando eu deitei para descansar. Quando eu levantava e começava a andar, o enjoo melhorava pois aumentava a circulação sanguínea no cérebro. E foi aí que minha ficha também caiu que eu tinha passado mal no Monte Roraima em 2015 por causa do Soroche, que na época atribuí a outros fatores. Mas a sintomatologia foi praticamente a mesma.

      Fui então até uma farmácia comprar Soroche Pills, que é um medicamento a base de ácido acetilsalicílico, e a vendedora disse para tomar a cada 8 horas por 3 dias, que é o período que geralmente as pessoas necessitam para aclimatar ( eu precisei tomar por 4 dias e no final da viagem tive que tomar de novo por mais 2 dias) . Cerca de 1 hora depois que eu tomei o remédio, comecei a sentir melhoras e consegui dormir. Cada pílula custou 5 bs.
      Importante destacar que não tem como você prever se sofrerá ou não com o Soroche. Os efeitos da altitude independem de sexo, idade, força ou resistência aeróbica. Só estando em altas altitudes para saber como seu corpo reagirá. O meu, mesmo depois de aclimatada, ainda assim não ficou 100%.

      20/09/19 (sexta): acordei por volta das 7h da manhã com a minha cabeça começando a doer de novo e logo tomei outra Soroche pills. Tomei um café, peguei um táxi caindo aos pedaços até a rodoviária (5 bs) para pegar o ônibus para Uyuni às 12:30h, conforme eu tinha visto na parede da Empresa Emperador no dia anterior. Para a minha surpresa, a empresa não fazia o trajeto direto! Assim, tive que ir até Potosí (30 bs), desembarcar no cemitério (que é como eles chamam um terminal de ônibus antigo), pegar um táxi até um outro terminal para pegar outro ônibus da empresa até Uyuni. Isto é: nunca confie em nada que está escrito nas paredes. Sempre converse com o vendedor.

      Haviam outras poucas empresas que faziam o trajeto também, mas os ônibus saiam no final da tarde, chegando a Uyuni de madrugada (que segundo relatos de pessoas que conheci que fizeram essa viagem, não foi uma boa porque não tem nada aberto e você fica ao léu em um super frio - não tem nem uma rodoviária pra te proteger. Os ônibus param em uma rua no centro). Então preferi ir durante o dia, pois já não havia mais nada que eu quisesse fazer em Sucre.

      O ônibus era um ônibus convencional (1 andar com duas filas de cada lado). Não tinha ar, banheiro ou USB para carregar o celular. Ninguém conferiu a minha passagem. A taxa de uso do terminal foi de 2.50 bs.

      Foi muito bom ter pegado o ônibus durante o dia, pois pude apreciar a paisagem, que é deslumbrante. No início, a paisagem era mais bonita do lado esquerdo, mas a partir da metade da viagem o visual foi mais bonito do lado direito (que pega muito sol). O revelo dos Andes é muito maravilhoso. Geólogos ou entusiastas de geologia devem ficar doidos com a diversidade de rochas e paisagens. Você vê diversas formações, em diferentes ângulos e enxerga perfeitamente a influência da tectônica de placas e dos esculpimentos provocados pela água (nos passeios de Uyuni e Atacama são perfeitos para isso!). O clima é bem seco e o ar geladinho, mas nada que justifique as blusas de frio que os bolivianos usavam durante o dia pois o sol estava escaldante (e eu sou a pessoa mais friorenta do planeta!). Não sei se eles usam porque realmente sentem frio ou se é para proteger do sol. Embora eu acho que seja por causa do frio, pois quando mencionava em Santa Cruz ou Sucre que iria para Potosí, todos os bolivianos que conversei falaram: "Uh! Hace mucho frío!". Mas a medida que o sol foi se pondo, de fato começou a fazer frio.

      A estrada para Potosí é boa, mas realmente se der algum acidente e o ônibus sair da pista, já era. Os penhascos são gigantes. Fiquei um pouco apreensiva, mas não por causa dos penhascos em si, mas por causa da direção do motorista. Diversas vezes ele fez ultrapassagens em curvas que não se tinha boa visibilidade. Além disso, frequentemente o motorista metia a mão na buzina para outros automóveis na sua frente ou animais na pista, o que assustava bastante e me deixava as vezes apreensiva.
      Entre Sucre e Potosí passamos por apenas um pedágio, mas não consegui ver os preços. Na primeira metade da viagem há muitas curvas a maior parte do caminho é uma subida leve. Quando se atinge uma altura mais elevada, boa parte do caminho é plano e há mais retas. É interessante observar a vida de comunidades mais isoladas nos altiplanos. Há menos árvores e mais plantações (que não consegui identificar nenhuma).

      Chegamos em Potosí às 16h, porém o ônibus parou em um terminal novo, que não fazia viagens para Uyuni. Assim, tive que pegar um táxi (7 bs) até o terminal antigo (chamado por eles de Ex-terminal) e consegui um ônibus para Uyuni às 16:30h pela empresa Expresso 11 de Julho. O ônibus era ainda mais simples do que o ônibus Emperador que peguei em Sucre (que custava 40 bs). A taxa de uso do terminal foi de 1 bs.

      Foi impressionante como a questão da altitude é algo que realmente influencia o corpo. Assim que desci do ônibus em Potosí e andei uns 100 metros planos até a rua para pegar o táxi senti bastante cansaço. Parecia que tava correndo. Ao chegar ao antigo terminal fui ao banheiro, que fica no segundo andar. Como o ônibus para Uyuni já estava quase saindo, andei rápido e subi uns 40 degraus no máximo de escada. Parecia que eu tinha asma. Meu coração estava tão acelerado que eu tava tremendo e por mais que eu respirasse fundo, ainda era pouco.

      Antes de entrar no ônibus eu comprei um saquinho cheio de folha de coca no terminal (5 bs). E logo comecei a mascar e em pouco tempo senti diferença (que também foi influenciada por sentar no ônibus e ficar quieta. Nos dias seguintes depois que eu já tinha aclimatado, não senti diferença na respiração ao mascar folhas de coca. Só acelerava meus batimentos e me deixava um pouco enjoada. No Chile me indicaram a tomar chá de Chachacoma, que seria mais efetivo, mas não experimentei).
      Logo após sair de Potosí em direção a Uyuni paramos em uma provável barreira de pedágios, seguida logo após por uma barreira policial. Não sei se realmente era um pedágio, pois não vi placas com preços. E tanto no suposto pedágio, quanto na polícia, vi o motorista entregando um documento grande. A estrada para Uyuni também foi tranquila, em sua maior parte plana e mais reta. Em alguns pontos haviam Vicuñas cruzando a estrada (que é um animal que se parece com uma alpaca, mas menor e com menos pelos). Então tome cuidado a noite se for dirigir. Quando já estávamos quase entrando em Uyuni passamos por uma outra barreira de pedágio.

      Em Uyuni os táxis são melhorzinhos, mas a cidade é bem pequena e dependendo da localização da sua hospedagem, é melhor ir a pé. Depois de um longo dia de estrada, cheguei em Uyuni por volta das 21h e estava fazendo 5 graus (frio demais!!)

      Fui direto para o hotel (Le Ciel d'Uyuni) e tentei dormir (um dos sintomas que a altitude provoca é a insônia). De madrugada acordei com um pouco de dificuldade para respirar e com as narinas doendo bastante por causa do tempo seco (todas as cidades que tinha passado então eram muito secas, mas Uyuni e San Pedro de Atacama foram as piores). Só consegui dormir de novo depois de molhar um pedaço da toalha e deixar bem próximo ao nariz para ajudar a umedecer as vias aéreas. No dia seguinte meu nariz estava todo ferido por dentro e minhas melecas cheias de sangue (hemorragia nasal pode ser outro sintoma da altitude).

      21/09/19 (sábado): Acordei cedo, tomei café da manhã no hotel (muito bom por sinal!) e comecei a procurar agências para o Salar. A maioria das agências ficam na Av. Ferroviária e o preço variou de 730 a 900 bs para um passeio de 3 dias (e duas noites com refeições inclusas) com destino final a San Pedro de Atacama, no Chile.

      Após pesquisar algumas agências acabei fechando com a Cordillera, que frequentemente é indicada aqui no fórum (embora também tenha várias não recomendações). Inicialmente a atendente me cobrou 900 bs, mas quando ela viu que eu não iria fechar, ela abaixou para 800 bs, aceitando o pagamento em dólares (116 dólares) (câmbio 6,90 bs) e ainda chorei um saco de dormir (que geralmente é alugado entre 40 ou 50 bs - e vi várias recomendações aqui no fórum para levar, principalmente para a segunda noite, onde o alojamento é no deserto a mais de 4 mil metros de altitude). Esse preço não inclui os valores que devem ser pagos no parque e na fronteira, que em geral somam cerca de 250 bs (somente bolivianos são aceitos).

      Todas as agências oferecem os mesmos passeios. O que parece que muda são os refúgios. Algumas agências também, principalmente as menores, terceirizam os passeios, encaixando-o em grupos de outras agências (isso aconteceu em praticamente em todos os meus passeios na Bolívia, no Peru e em San Pedro de Atacama no Chile. Isso é, você nuca sabe com qual agência de fato você estará indo e no final das contas o que muda é o preço).
      Os passeios das agências geralmente saem às 10:30h. Meu jipe saiu às 11:15h. Os carros levam até 8 pessoas, mas o mais comum é 7. No meu grupo tinha 6 pessoas (o motorista, mais 5 turistas - eu do Brasil, um casal da Alemanha, uma russa e uma húngara). Boa parte dos guias são bilíngues - inglês e espanhol.

      Inicialmente fomos ao cemitério de trens, que fica a 10 minutos da cidade. A estrada é de terra batida e é super tranquilo para um carro comum, mas vai trepidar bastante. Depois do cemitério, pegamos uma estrada asfaltada por uns 15 minutos e passamos por uma barreira de pedágios, que se eu não me engano é a mesma que relatei quando o ônibus estava chegando em Uyuni. Custou 5 bs, mas segundo o guia, você tem que pagar de acordo com a distância que irá. Não entendi muito bem como isso funciona, se é que eu entendi certo, pois ele explicou em um inglês que não tava entendendo quase nada por causa do sotaque dele.

      Saímos da estrada asfaltada e começou o chão de sal. Chegamos a uma fábrica de sal (entrada 10 bs) onde o processo é bem artesanal. Depois disso almoçamos (a comida estava muito boa e no local há banheiro por 2 bs) e fomos até o símbolo da Dakar, que também é onde tem as bandeiras dos países. De lá, entramos mais ainda para o deserto do salar e paramos para tirar as fotos em perspectiva. Sugiro levar uns brinquedos/bonecos pra brincadeira ficar mais legal e você ter umas fotos diferentes além das óbvias que todo mundo bate. A roupa suja bastante de branco ao sentar ou deitar no sal.

      Quando estávamos no caminho para a ilha dos cactos gigantes nosso jipe simplesmente parou. Teve algum problema elétrico e ficamos parados por quase uma hora, enquanto o guia e o alemão do meu grupo tentavam resolver. Sem solução, o nosso guia parou outros carros e nos colocou dentro de um para nos levar até a ilha enquanto eles rebocavam o carro até a ilha, pois teria outros jipeiros para ajudar a resolver o problema.

      A entrada na ilha dos cactos custou 30 bs e no local há banheiro (o uso já está incluído no preço do ingresso). O problema do nosso jipe foi solucionado e seguimos para o refúgio. Até um pouco antes de chegar ao refúgio o chão era de sal compactado, o que dá pra ir de carro normal sem problema. Porém perto dos refúgios o sal parece que estava molhado e somente carro 4x4 passava. Se alguém for tentar ir de carro próprio, sugiro que pesquise muito bem os mapas e tenha um GPS bom, pois o salar (e o deserto nos Andes nos dias seguintes) é tão grande que você fica totalmente sem referência pra que direção ir.

      O refúgio é bem legal. A construção é toda de sal, assim como o chão. A cama foi bem confortável, mas a noite foi bem fria. Além de todas as cobertas, tive que usar bastante roupa de frio. Os chuveiros tem água quente e o banho já estava incluso. Havia energia elétrica e tomadas nos quartos para carregar os equipamentos eletrônicos. Por volta das 19h eles serviram o jantar (e experimentei carne de Lhama, que é muito saborosa. Não é o meu caso, mas para vegetarianos a empresa prepara todas as refeições adaptadas).

      Uma dica de espanhol. Eu tinha esquecido o nome do guia e o chamei de "chico". O cara ficou extremamente emputecido. Pedi desculpa e falei que não sabia que era uma expressão ofensiva para ele (O que de fato não é! Inclusive o próprio guia nos chamava de chicos e chicas). Independentemente disso eu não curti nem um pouco nosso guia. Comparado com outros que eu vi, ele dava poucas explicações. Além disso, quando deixava a gente em algum lugar, de vez enquanto ele sumia. Quando perguntava alguma coisa pra ele, muitas vezes ele dava uma resposta bem seca e com bastante má vontade. 

      22/09/19 (domingo): o café da manhã foi servido às 7h e a programação era sair às 7:30h, mas saímos só às 7:50h. Andamos pelo chão de sal que necessita de 4x4 por uns 10 minutos e depois pegamos uma estrada de terra batida, que tem um pedágio e custa 10 bs. Andamos por mais ou menos uma hora e chegamos em um povoado chamado San Juan, onde tem uma casa cultural da quinoa, que mostra o trabalho artesanal da produção de diferentes tipos de quinoa. Eu achei bem sem graça pra falar a verdade. Na rota 701 paramos para observar alguns vulcões (em quase todo o caminho há vulcões a alguns deles saem fumaça). Nesse momento estávamos a mais de 4 mil metros, mas apesar disso não estava tão frio. O vento estava geladinho, mas o sol muito quente (deu até pra ficar de camiseta). Entramos no parque nacional (150 bs, e é válido por 4 dias. Guarde esse ingresso pois precisa dele para sair do parque).

      Fomos em duas lagoas com flamingos. A primeira era menor e tinha uma concentração maior de sal. A segunda, que é maior e bem mais bonita, tem um tom esverdeado e mais animais. Paramos para almoçar nessa segunda lagoa onde tem um restaurante e banheiro por 5 bs. Depois do almoço, indo em direção a árvore de pedra, passamos por uns rochedos cheios de vizcachas (que é tipo umas chinchilas). A última visita do dia antes de ir para o refúgio foi a laguna colorada, outro lugar maravilhoso. Chegamos no refúgio às 18h, que não era bom. Ele era muito, mas muito gelado e tinha energia elétrica só entre 19 às 22h. Dormi com 4 blusas de frio, touca, luvas, 3 calças, saco de dormir, mais as cobertas que eles forneceram. Não dava nem pra mexer e ainda assim senti um pouco de frio. De fato, se eu não tivesse o saco de dormir, talvez eu passasse aperto.

      23/09/19 (segunda): Acordamos às 4:30h, com previsão de sair às 5h, mas saímos às 5:40h. Estava muito, mas muito frio (imagino que devia tá próximo a zero). Fomos para os gêiseires (muito doido! Ponto alto da viagem no deserto para mim. E também foi o ponto mais alto da viagem, literalmente, a mais de 5 mil metros de altitude). Depois fomos para as piscinas termais (6 bs para nadar), paramos para tirar umas fotos no deserto de Dalí e depois fomos para a laguna verde. Saímos do parque nacional e fomos para a fronteira Bolívia-Chile, já que eu iria para San Pedro de Atacama.

      Primeiro você passa pela aduana boliviana, entregando uma declaração de saída que eles fornecem na própria aduana. Depois de uns 5km, vc passa pela imigração, onde tem o carimbo de saída no passaporte e você precisa pagar 15 bs (em nenhuma outra aduana que passei no resto da viagem tive que pagar nada. Eu desconfio que esses 15 bs é uma espécie de propina que já está tão arraigada que é considerada como praxe). Dali, havia uma van da Cordillera nos esperando para seguir adiante. Depois de alguns quilômetros de estrada (não deu nem 5 minutos de van), chegamos ao posto de imigração e aduana do Chile. É engraçado como as instituições da Bolívia e do Chile são muito discrepantes! Os postos da Bolívia é caindo aos pedaços, poucos funcionários que não conferem nem seu nome direito no passaporte. Já no Chile eles são super sérios, tudo organizado, vários funcionários.

      Primeiro você passa pelo posto de imigração, onde eles batem o carimbo no seu passaporte. Duas coisas importantes: primeiro, eles te dão um papel que você deve guardar para sair do país. Segundo, você deve ter pelo menos uma hospedagem já garantida, pois você tem que fornecer os dados de onde irá se hospedar. Saindo da imigração você vai para a aduana, onde eles revistarão todas as suas malas. Não pode levar nada de origem animal ou vegetal (ele recolheram minhas batatas e ovos, mas deixaram minhas folhas de coca). Não deixe de declarar o que você está levando. Se eles pegarem, você será multado.

      Em nenhuma aduana ou posto de imigração tem banheiro.
      A van seguiu para San Pedro de Atacama e parou no terminal de ônibus. A cidade é bem  pequena (pelo menos a área onde se concentram a maior parte das hospedagens, restaurantes e comércios) e simples, o que dá um clima muito legal. Fui para o hostel Mamatierra e eu recomendo demais. Hostel super limpo, confortável, café da manhã excelente, se você vai sair antes do horário do café eles separam um lanche pra você, não cobram pra lavar roupa, nem pra guardar suas malas na recepção caso faça o check-out e vá passear.

      Tomei um banho e saí para o Centro onde ficam as agências de câmbio e de passeios. Há diversas opções. É bom pesquisar os preços pois há uma variação, mas não é tão grande assim. Assim como em Uyuni, várias agências terceirizam os passeios e no final você geralmente acaba indo com uma empresa diferente da que você fechou (isso vale para Cusco também). Todos os passeios que eu fiz foi com a Star Travel, que me ofereceu os preços mais baratos, mas cada dia eu estava junto com uma agência diferente.

      Talvez a única coisa mais importante, pelo menos no meu ponto de vista, seja você buscar uma boa agência para fazer o tour astronômico. Esse sim realmente tem muita variação, mas do serviço e nem tanto do preço. Há agências que oferecem mais telescópios e/ou com potências diferentes (inclusive algumas oferecem explicações científicas e outras oferecem explicações esotéricas).

      A van do tour astronômico me pegou às 20:20h no hostel, pegou outros passageiros e fomos para a casa do René, nosso guia. Fomos literalmente para o quintal da casa dele. Lá ele colocou umas cadeiras com cobertas (faz um frio bom) e nos serviu vinho quente enquanto ele nos explicava e ensinava várias coisas sobre as estrelas. Foi muito legal! Ele entende bastante, é super divertido e muito didático. Depois de quase uma hora fazendo observações e explicações, ele tirou duas fotos e cada participante (éramos 5) e entramos para a casa dele, onde ele nos serviu vinho, achocolatado quente (com água!) e uns petiscos. Ele é uma pessoa muito interessante de se conhecer e nos contou sobre um serviço  astronômico diferente que ele faz que chama Gastro, isto é, a junção de astronomia e gastronomia. Fiquei super curiosa!  (O contato dele: [email protected]). A única coisa que eu não gostei muito é que só tinha um telescópio (e a agência me ofereceu 3), mas que foi compensada pela pouca quantidade de pessoas, o que tornou o serviço bem personalizado (há agências que oferecem mais telescópios, mas vão grupos grandes, como 16 ou 20 pessoas). Ao fim do tour, a van me deixou de novo no hostel.

      24/09/19 (terça): Às 08:30h uma van de outra agência (Andes Travel) me pegou no hostel e fomos pra ir até os petróglifos e Vale do Arco-íris (até a van pegar todo mundo era umas 9h quando de fato saímos para a estrada. A entrada custou 3 mil pesos chilenos). Eu achei o vale do Arco-íris maravilhoso e achei que o tempo de passeio foi muito curto. Queria ter passado mais tempo caminhando por lá. Chegamos na cidade por volta das 13:30h. Fui para o hostel, descansei um pouco e às 16h saí para o passeio do Vale de la Luna (fui na van da empresa Iutitravel). Outro lugar espetacular e a entrada custou 3 mil pesos chilenos. Ao final da tarde fomos para um mirante (Mirador de Kari) ver o por do sol (que teria sido infinitamente vezes mais bonito se fosse no Vale de la Luna). Cheguei no hostel por volta das 20:30h.
      25/09/19 (quinta): acordei super cedo para ir para os gêiseres (a van da empresa Ilari Expediciones me pegou às 5:35h no hostel). Lá nos gêiseres está há mais de 4 mil metros e por causa das montanhas que bloqueiam o sol faz muito frio (o sol custa a iluminar no lugar onde a gente anda). Na área dos gêiseres há uma piscina termal que pode nadar e já está incluso no preço do ingresso (10.000 pesos chilenos). A tarde fui para as Lagunas Escondidas (entrada 5.000 pesos chilenos). São 7 lagoas pequenas e extremamente cristalinas que ficam em uma área com muito sal. O teor de sal das lagoas é mais de 45% e você não consegue afundar. É muito legal ficar boiando na água sem fazer nenhum esforço! A água é muito gelada, mas se você ficar só boiando, dá pra ficar de boa durante um bom tempo (até porque o gelado da água é compensado pelo sol quente). Só pode nadar na primeira e na última lagoa. Recomendo primeiro ir ver as lagoas e bater fotos, deixando para entrar na primeira lagoa quando estiver voltando pois o corpo vai ser sal puro depois, o que incomoda bastante para andar. Antes de entrar na van para ir embora tem que tomar uma ducha. Então leve toalha e roupas limpas para trocar. Das lagunas fomos ver o por do sol no mirante.
      Bom, o que eu achei do passeio do Uyuni e do Atacama? São passeios diferentes e complementares. Se você fizer só os passeios de San Pedro de Atacama (que são bate e volta), para fazer todos você precisará de uns 7 dias cheios. No meu caso, eu já tinha visto muita coisa no passeio de Uyuni, então não fiz várias coisas no Atacama, como as Lagunas altiplânicas, vulcões e termas. Então dois dias cheios para mim foram suficientes.
      Se você estiver em San Pedro e quiser fazer o passeio do Uyuni não contrate o pacote em San Pedro, pois é muito mais caro (tudo no Chile é caro) e são 4 dias ao invés de 3 (sendo que o quarto dia é basicamente só a volta para San Pedro. E partindo de Uyuni você ganhará tempo, já que pode voltar para San Pedro). 
      Se eu fosse fazer Uyuni de novo eu contrataria a Cordillera de novo? Não. Não que tenha sido ruim com a Cordillera, mas a grama dos vizinhos me pareceu mais verde. Outras agências maiores me pareceram oferecer um serviço melhor. Porém não vou saber indicar os nomes das empresas e nem os preços. 
      Sobre os gêiseres, os do Atacama são bem diferentes dos gêiseres do passeio do Uyuni. Primeiro que tem muito mais gêiser (segundo a agência é o terceiro maior gêiser do mundo). Segundo que nos buracos há água, ao invés de lama. Terceiro que você não pode chegar tão perto das aberturas, pois há muretas e limites de segurança. Eu fui mais impactada pelo gêiseres do Uyuni. Achei disparadamente mais legal, apesar de menor. Mas isso vai de cada um. Conheci gente que fez os mesmos passeios que eu que gostaram mais dos gêiseres do Atacama.
      Sobre as termas, eu não fui nas termas puritamas do Atacama, mas fui na terma dos gêiseres. A água é morninha, mas não é tão quente quanto o banho termal do Uyuni (que dava até pra suar!). Em alguns momentos senti até frio. 
      Dá para ir de carro normal? No Atacama com certeza. As estradas são na sua maioria de terra batida. O carro só vai trepidar muito. Além disso, há placas nas estradas indicando o caminho é distâncias para as atrações. Mas é bom estudar bem os mapas e ter um bom GPS também. E é interessante você ter um guia para explicações sobre a região e culturas, o que enriquece muito os passeios e você vê algumas atrações com outros olhos, como por exemplo os petróglifos.
      O passeio do Uyuni dá pra fazer de carro normal? Na estação seca você pode até arriscar se seu carro for mais alto, mas eu definitivamente não recomendo (e olha que eu viajo muito de carro e enfio ele sem dó em estradas que ninguém acredita). As estradas tem muita areia e pedras. A possibilidade de você atolar ou furar vários pneus é enorme. Só de manutenção remediativa com certeza você gastaria mais do que contratar o passeio. Além disso, como eu já disse, lá você fica totalmente sem referência de que direção seguir.
      Se você for viajar para algum desses lugares de carro não vá sozinho. Apesar de pouco tráfego, as estradas são perigosas pelas condições ambientais extremas. Lembre-se: você estará em desertos e há quilômetros de ajuda de qualquer espécie, médica, tecnológica ou mecânica. Além disso, em altas altitudes dá muito sono por causa da baixa oxigenação e é comum muitos motoristas dormirem no volante sem perceber que está com sono. Eu mesma me peguei dormindo sem perceber em vários trajetos.
      En San Pedro de Atacama você pode alugar bicicletas e fazer vários passeios de bike. Eu não fiz e deve ser muito cansativo pelas distâncias e pelo sol.
      (A partir desse momento o relato será mais superficial, pois eu parei de escrever durante a viagem).
      Dia 26/09/19 (quinta): Para ir para La Paz tive que ir para Uyuni de novo, para então pegar um outro ônibus para La Paz. Cheguei no hostel em La Paz por volta das 4h da manhã. Quando deu umas 8h fui para o centro para começar a olhar agências. Fechei todos os passeios com a agência Bolivia in Your Hands. Passei o dia andando por La Paz, o que foi bem cansativo, pois a cidade é gigante e a altitude não colabora.
      Dia 27/09/19 (sexta): Fiz o downhill de bike na estrada da morte. E foi uma experiência surreal! As paisagens são espetaculares e a adrenalina vai a mil, mas o caminho é muito, MAS MUITO PERIGOSO. Sério. Eu não sei como aquela estrada é usada até hoje. O caminho é todo de terra com pedras e é a conta de um carro de passeio normal trafegar. Se vier outro em direção contrária, fudeu. Poucos são os trechos em que é possível passar dois carros pequenos.
      São pelo menos 3h de descida (Eu gastei 3:30h). Os primeiros 20 km você desce na nova estrada, que é asfaltada e um caminho bem fácil de se fazer. Só tem que tomar cuidado com o tráfego de carros e ônibus. Depois chega de fato a estrada antiga, que é o caminho da morte. Essa estrada tem esse nome não é atoa. Todos os anos ocorrem acidentes com os turistas que resolvem fazer essa aventura e você está muito exposto ao risco. Se você cair na estrada (como eu caí), você irá se machucar bastante. Se você cair fora da estrada, já era. A borda da estrada não é um barranco. É um penhasco, literalmente. É uma parede reta. O chão está literalmente há mais de 2 mil km. É TENSO DEMAIS!!
      Embora eu goste, eu não sou uma pessoa que pratica esportes de aventura com regularidade. Para mim o caminho foi muito extenuante. Não por esforço físico de pedalar (raramente eu pedalei, afinal 99,9% do caminho é descida) e sim pelo excesso de trepidação do guidão. No final da descida eu já não tinha mais força na mão para segurar o guidão e nem apertar o freio. Meu punho estava doendo absurdamente. Teve uma mulher do meu grupo que desistiu na primeira hora da descida pelo mesmo motivo. Porém no meu grupo havia uma outra mulher que para ela foi de boa (mas ela é muito acostumada com esportes radicais e academia). Então, isso vai depender da resistência física e psicológica de cada um.
      Pelas preferências do trânsito, você deve descer pela esquerda, que é o lado do precipício. Eu não fazia isso, pois é muito perigoso. Sempre ia pelo meio ou pela direita e se vinha um carro, aí sim eu ia pela esquerda. E exatamente por ir pelo meio eu me safei de um acidente que poderia ter sido fatal. Eu estava descendo pela esquerda muito rápido, passei por um trecho com pedras mais salientes e comecei a perder o controle da bike por causa do excesso de trepidação. Então resolvi ir pelo meio porque comecei ver a merda que aquilo poderia dar. Justamente quando eu tava começando a jogar a bike pro meio, eu não sei exatamente o que aconteceu, mas eu fui ejetada da bike. Eu literalmente fiz um super man no ar. Como eu estava indo em direção ao meio da pista, eu fui ejetada nessa direção. Mas se eu tivesse do lado esquerdo, tinha caído penhasco abaixo. Foi tenso demais e por causa das pedras, eu machuquei muito, mesmo usando os EPIs. Por sorte não quebrei nada, mas na hora da queda eu achei que eu tinha rompido algum orgão interno, de tanta dor abdominal que eu senti. Não conseguia nem respirar. 
      E isso é uma dica que eu dou para qualquer um. Vá no seu ritmo, procure uma agência que te permita ir no seu ritmo e vá pelo meio ou pela direta da pista. Existe uma certa pressão dos guias para que você desça muito rápido. E foi justamente por tentar acompanhar o guia que eu me fodi. 
      Dia 28/09/19 (sábado): Fiz um bate e volta para a montanha Chacaltaya e a tarde o passeio do Valle de La Luna. Os dois são muito bonitos. Chacaltaya é surpreendente e você tem uma visão muito bonita da montanha Huayna Potosí, que é bem famosa entre os amantes do trekking, como eu. O Valle de La Luna também é bem bonito, mas não me surpreendeu tanto pois eu tinha visto paisagens bem semelhantes no Atacama. A maior dificuldade de Chacaltaya é a altitude (são 5,395 m). A van chega muito próximo ao topo e a caminhada é relativamente curta, mas muito cansativa. Na alta altitude cada passo dado é como se você tivesse subindo uma escada de 50 degraus. Você respira, respira, respira, mas o ar não é suficiente. Além disso, tava muito, muito frio. Aquele frio que a mão dói de tão gelada. Essa somatória de condições (alta altitude + frio intenso + esforço físico intenso) te deixa muito cansado.
      O caminho que a van percorre para chegar até o estacionamento próximo ao topo desafia as leis da física e da gravidade. Ao longo de toda a minha viagem passei por estradas que eu duvidava que o carro ia passar e que não iríamos cair penhasco abaixo. Mas mesmo já um pouco acostumada, o caminho até Chacaltaya foi o que me deu mais medo. Tinha hora que eu só fechava o olho pra não ter um ataque do coração! Dá um nervoso sem igual.
      Durante todo o dia eu estava sentindo um pouco a musculatura dos meus antebraços por causa do esforço muscular da bike no dia anterior. Mas bem de boa. Chegou a noite meu braço direito inteiro começou a formigar e a medida que a noite foi avançando comecei a sentir uma dor insuportável no meu antebraço direito. A dor tava tão grande que analgésico não tava segurando a onda e nem consegui dormir. 
      Dia 29/09/19 (domingo): Assim que amanheceu, a dor tava tão grande que eu tive que desistir de um outro passeio que já tinha contratado e que exigiria um esforço físico maior do que em Chacaltaya. Acionei meu seguro de viagem e fui para a emergência de um hospital. Chegando lá fizeram alguns exames e chegaram a conclusão que eu estava com Epicondilite lateral, uma inflamação decorrente de microrrompimentos das fibras dos tendões extensores do antebraço devido ao excesso de trepidação do guidão na estrada da morte. Resultado: 5 dias de anti-inflamatório e analgésico, braço imobilizado e tive que evitar de fazer esforço físico. Voltei para o hostel e acabei ficando por lá a toa o resto do dia.
      Dia 30/09/19 (segunda): Por causa do braço, resolvi ficar quieta no hostel o dia todo.  
      Dia 01/10/19 (terça): Peguei um ônibus para Copacabana, chegando lá por volta de meio dia. Deixei minhas coisas no hotel e fui fazer um bate e volta em uma ilha no lago Titicaca. O lago é sensacional e o passeio foi bom, mas não me surpreendeu tanto. Muitos relatos do fórum recomendam ficar na hospedado na ilha, mas tudo é caríssimo. Cheguei em Copacabana novamente por volta das 18h. O clima a noite em Copacabana é legalzinho e há vários restaurantes legais. As ruas ficam cheias de turistas andando a noite.
      Se você for comprar alguma lembrancinha de viagem recomendo comprar tudo na Bolívia, antes de atravessar para o Peru. Você encontra praticamente as mesmas lembrancinhas em ambos os países, mas no Peru é muito mais caro. 
      Dia 02/10/19 (quarta): Peguei um ônibus cedo em direção à Puno, para então seguir viagem para Arequipa. Embora a distância seja relativamente curta, a viagem durou longas 14h. Foi muito cansativo. O caminho é muito sinuoso, boa parte é de terra, causando grande trepidação do ônibus em boa parte da viagem. Com frequência sobem vendedores ambulantes no ônibus. Um desses vendedores que entrou no meu ônibus foi um vendedor desses chás de ervas que prometem curar tudo o que você puder imaginar. O abençoado ficou 1 HORA E MEIA falando na nossa cabeça com o microfone dele. Irritante, mas engraçado também ao mesmo tempo.
      Cheguei em Arequipa a noite e a cidade renovou todo o meu cansaço da viagem de ônibus. A cidade é incrível! Muito bonita e com um clima muito agradável. Fiquei andando pelas ruas do centro e depois fui para o hostel. Há vários passeios ao redor de Arequipa. O mais famoso é o passeio pelo Vale do Colca, porém como eu cheguei muito tarde, não consegui reservar passeios para o dia seguinte.
      Dia 03/10/19 (quinta): Passei o dia caminhando pela cidade de Arequipa. A cidade é muito rica culturalmente e historicamente. Há vários museus interessantes e casarões antigos por toda a cidade. Ao mesmo tempo, a cidade também tem algumas construções mais modernas e uma melhor infraestrutura. O que foi ótimo para dar um alívio dos perrengues que se passa na Bolívia, que é muito desorganizada e sem infra. 
      Dia 04/10/19 (sexta): Peguei um voo cedo da VivaAir para Lima (de ônibus seria mais de 30h de viagem). Essa companhia aérea é uma lowcost que faz vários voos dentro do Peru (outra cia lowcost é a SKY). No meu caso a passagem não saiu tão barata pois comprei no dia anterior e tive que comprar o despacho de bagagem. Existem duas malandragens da VivaAir para arrecadar dinheiro. Primeiro é sobre as dimensões das malas de mão: as dimensões e o peso que eles exigem eram menores do que geralmente as outras cias aéreas exigem (e no Peru eles são bem rigorosos com as medidas e medem mesmo). Se chegar no avião e sua mala estiver fora do padrão deles, você pagará uma FORTUNA (não lembro e posso estar enganada, mas era algo tipo 400 doletas). Então muita gente acaba tendo que comprar o despacho de bagagens, como eu, que tinha a minha mala de mão dentro das exigências da Latam. A segunda malandragem é sobre o check-in. Durante a compra da passagem eles oferecem um valor de 4,50 dólares para imprimir o check-in com eles. Eu não comprei porque achei um absurdo. Depois que eu fechei a compra eu fiquei com aquilo na cabeça do porquê eles iriam cobrar para emitir uma um documento que poderia ser apresentado no celular. Então fui ler os termos de condições que aceitei sem ler (como todos fazem!). E lá eles deixam muito claro que o check-in deve ser apresentado IMPRESSO.  Eles NÃO ACEITAM O CHECK-IN NO CELULAR. Se você não levar o check-in impresso, eles cobram 60 DÓLARES na hora!!! Surreal. Muito gentilmente a recepcionista do meu hotel imprimiu o check-in para mim. Mas se ela não tivesse imprimido, eu tava ferrada pois só vi essa condição do termo muito tarde na noite anterior.
      Tirei a sexta para fazer um Networking em uma universidade que tenho o contato de alguns pesquisadores que trabalham também na minha área.
      Dia 05/10/19 (sábado): Encontrei com um amigo limenho que me levou nos principais pontos da cidade. Foi um dia muito legal! Lima é uma cidade gigantesca e com um trânsito caótico (mas pra falar a verdade eu achei menos pior do que o trânsito na Bolívia). Passamos o dia inteiro rodando a cidade de carro e fomos em muitos, mas muitos lugares, além de Miraflores, que é o bairro mais turístico da cidade. De todos os lugares, disparadamente, o lugar mais imperdível na minha opinião é o Parque das Águas. Chegamos lá no entardecer e ficamos até a noite. No parque há várias fontes de água dançantes, com shows de iluminação e músicas. É fantástico! Outro lugar muito interessante que fomos é nas ruínas Huaca Pucllana, que pertenceu a uma outra civilização peruana, com uma arquitetura diferente e datada de mais de 1.500 anos. 
      Dia 06/10/19 (domingo): Meu amigo e eu saímos de novo e fomos fazer um trekking em uma montanha chamada Lomas de Lúcumo, que fica em Pachacámac (cerca de 1 hora de Lima de carro). O lugar é muito bonito pois é composto por um bioma que ocorre somente no litoral do Peru. Demoramos umas 4 horas para fazer o caminho completo e saímos de lá absolutamente sujos de lama. Não vá com tênis normal, pois você escorregará muito além do normal. Vá de bota para trekking e impermeável. Leve uma roupa extra para trocar, pois é inevitável se sujar muito de lama. 
      Dia 07/10/19 (segunda): Meu voo para Cusco saiu a tarde e foi uma peleja para conseguir imprimir meu check-in da VivaAir. O Uber que eu peguei foi muito gentil comigo procurando um lugar para eu imprimir o documento. Ele não sabia onde poderíamos conseguir e começou a descer no comércio e perguntar por indicações. Demoramos uns 20 minutos para conseguir encontrar uma copiadora. O voo foi super rápido e tranquilo (de ônibus demoraria cerca de 24h de viagem). 
      Cusco é sensacional! A cidade é muito bonita e eu era capaz de andar nela por horas. A altitude (3,400 m) pesa um pouco nas caminhadas. Ainda que eu estivesse aclimatada, parece que os 3 dias em Lima (que é litoral) fizeram o corpo desacostumar um pouco com a altitude. A cidade faz bastante frio, especialmente a noite.
      Dia 08/10/19 (terça): Passei boa parte do dia fazendo cotações de passeios. Existem várias opções de passeios. Os preços das agências não variam muito e é aquele mesmo esquema de todas as cidades por onde passei: você paga uma agência, mas no final das contas você nunca sabe com qual agência de fato irá.
      Dia 09/10/19 (quarta): Fiz o Vale Sagrado (Pisaq, Ollantaytambo e Chinchero) + Ruínas de Moray + Salineras de Maras. A excursão durou um dia inteiro e valeu a pena demais. Muitos lugares diferentes e MUITO bonitos. É IMPERDÍVEL esse passeio!
      Dia 10/10/19 (quinta): Fui para Machu Picchu. E quase não fui ao mesmo tempo. Eu estava com uma mala de mão de rodinhas e por conta disso eu resolvi que não iria dormir em Águas Calientes pois não teria como transportar minha mala nas caminhadas. Resultado: mesmo sendo muito mais caro, optei por comprar minha ida e volta de trem, ao invés de fazer todo aquele esquema de ir andando pela hidrelétrica (existem dezenas de relatos aqui no fórum e no YT ensinando a ir para Machu Picchu de uma forma mais econômica).
      O preço do trem varia de acordo com os horários de partida e com o tempo de antecedência que você compra as passagens. O valor mais barato que eu consegui, dentre as possibilidades de horários, foi saindo de Ollantaytambo às 05:30h e voltando às 00h (total 212 dólares, incluindo o ingresso de Machu Picchu e todos os transferes).
      De Cusco à Ollantaytambo são cerca de 2h de van. Isto é, para pegar o trem às 05:30h, a van teria que me buscar no hostel às 3h. Acontece que a agência simplesmente NÃO ME BUSCOU! Eu fiquei extremamente brava e frustrada. O tempo inteiro tentei falar com o número de telefone da moça da agência e nada. A raiva era tanta que nem conseguir dormir depois disso eu consegui. Por volta das 6h da manhã, assim que a moça da agência acordou e viu todas as minhas mensagens e ligações, ela me ligou imediatamente, assustada, sem graça e sem saber o que aconteceu. Em menos de 15 minutos ela chegou no meu hostel com uma cara que deu até dó de tão apavorada e sem graça que ela ficou (ficou muito claro que realmente foi um erro que nunca aconteceu). Ela me prometeu que iria me encaixar em um outro trem e que me iria pessoalmente me buscar. 
      E assim o fez. Às 8h ela me buscou para pegar a van e segui para Ollantaytambo para pegar o trem às 10h (obviamente a agência pagou toda a diferença, que foi uns 80 dólares). Chegando em Águas Calientes, uma van estava me esperando e seguimos diretamente para Machu Picchu.
      Em frente à entrada do Parque estava uma confusão sem igual. Há centenas e centenas de turistas esperando seus guias para entrar no Parque, filas e mais filas para pegar as vans de volta a Águas Calientes... e no meio disso tudo tive que procurar meu guia. Era impossível encontrar. Acabei conversando com uns dois guias aleatórios e eles fizeram um rádio peão entre eles e encontraram o meu guia, que foi ao meu encontro.
      Entramos no Parque por volta das 13h e não tive nenhum problema com relação ao horário do meu ingresso, que estava programado para as 11h. Eles nem conferiram isso. Realmente Machu Pichu é muito legal, mas é muito lotado. Ao término do passeio, retornei para Águas Calientes. A cidade é bem charmosa e o clima a noite é muito legal. Dá realmente vontade de passar uma noite por lá, mas como meu trem de retorno ia sair bem tarde, deu para conhecer relativamente bem a cidade. Eu achei as comidas e serviços oferecidos em Águas Calientes bem mais caros do que em Cusco, que já é uma cidade cara.
      Cheguei no hostel por volta das 2h da manhã. Foi tudo bem cansativo, mas no final acabou dando certo.
      Dia 11/10/19 (sexta): Para completar o estresse do dia anterior, peguei uma infecção alimentar, o que é algo considerado normal em viagens pela Bolívia e Peru. Resultado: fiquei no trono o dia todo, vomitando e com febre. No final da tarde meu amigo de Lima chegou em Cusco para curtir o fds comigo.
      Dia 12/10/19 (sábado): Meu amigo e eu fomos para o passeio das Montanhas Coloridas. Por causa da altitude e da inclinação na parte final da trilha, a caminhada exige muito, mas muito da respiração. Parávamos com frequência, mas chegamos lá! O lugar também é lotado e é bonito. Particularmente eu achei que me surpreenderia mais, mas ainda assim foi bem legal. 
      Dia 13/10/19 (domingo): Meu amigo e eu iríamos para a Laguna Humantay (que é mais alta do que a montanha colorida), mas ele estava MUITO, mas muito mal devido ao Soroche. Achei que ia ter que levar ele pro hospital. E eu também ainda estava meio fraca por causa da infecção alimentar. Assim, acabamos achando melhor abrir mão do passeio e ficamos de bobeira em Cusco mesmo.
      Dias 14, 15 e 16/10/19 (segunda a quarta): Meu amigo foi embora na segunda bem cedo e eu fiquei o resto do dia a toa ou organizando minha bagagem para o meu voo de retorno ao Brasil na terça de manhã. A viagem de volta foi super longa (24h) e fiquei muito cansada. Cheguei na quarta de manhã em BH.
      Total de gastos: R$1.641,00 (passagens BH-Santa Cruz, Cusco-BH)
      U$ 1.400,00 (comprei o dólar a R$4,34) = R$6.076,00
      Aproximadamente R$1.000,00 (passagens áreas para Lima e Cusco, Uber e comidas em aeroporto).
      Para quem tem Síndrome de Menière, eu não tive nenhum problema com a altitude. Muito pelo contrário, a minha frequência de tonturas até diminuiu. Não sei se por coincidência ou por algum efeito que a altitude proporcionou (apesar de não ver muita lógica nisso). Mas a questão é: já que eu não tive nenhum problema, agora o céu é o limite! hahaha!
      Eu sempre digo que cada mochilão me transforma de alguma maneira. Nessa viagem aprendi muito mais sobre mim, especialmente sobre aprender a respeitar os limites físicos do meu corpo. De longe a Bolívia e o Peru são os países mais culturalmente diversos que eu visitei até hoje e a minha maior recomendação é: vá sem medo. Essa viagem encheu a minha vida de novas cores, novos sabores e novos amores 🥰. 
       
       















    • Por Robbie Ferreira
      Pulei da cama ainda era 04h da manhã, depois de lavar o rosto cambaleando de sono fui preparar o café sem açúcar nosso de todos os dias. Às 04h 45min estava na estação da CPTM Prefeito Saladino em Santo André (Linha Turquesa) e dali a toada foi até a estação Brás, e uma vez lá, uma transferência para a (Linha Coral) com destino a estação terminal "Estudantes" em Mogi das Cruzes.
      Chegando na Estudantes, saímos da estação e fomos até o terminal de ônibus para embarcar na linha E392 Manoel Ferreira com destino ao seu ponto final. Era feriado de Finados (02/11/2019) e no dia anterior aconteceram algumas festinhas de Halloween na região, a estação estava dominada de gente fantasiada e os famosos zé droguinhas de juliete e havainas (leia-se: nóias). Tome cuidado na estação!
      Devido o feriado a Mogi - Bertioga (SP - 098) estava lotada o que atrasou nossos planos e acabamos iniciando a trilha às 9h 20min da manhã. Assim que o ônibus chegou no km 77 (ponto final) descemos e iniciamos uma caminhada puxada até o km 81 onde fica a entrada da trilha.
      Fizemos uso de um Tracklog até a travessia do Rio Itapanhaú. Essa foi uma trilha que eu nem imaginava existir assim tão perto de um centro de cidade relativamente grande. O lugar é de fauna e flora ricas e os afluentes que vão de encontro ao Itapanhaú então são fenomenais. Por diversas vezes tomei água direto das pedras dos afluentes, até agora estou de boa... LOL
      Iniciando a trilha foi tudo perfeito! Sol acima da cabeça e muita água fresca, além de também não encontrarmos praticamente ninguém no trajeto. Acho que porquê essa é uma trilha difícil de transpor devido os terrenos distintos do trajeto (rodovia, depois trilha em meio a mata atlântica, depois trilha em rio, depois trilha na mata novamente e depois rodovia novamente). Não é pra qualquer pé de breque, são 20 km no total com desníveis consideráveis que pedem o uso de joelhos joviais e sadios.
      Essa trilha dá acesso também a Cachoeira do Itapanhaú (Cachoeira do Elefante) é possível passar lá para contemplação e seguir adiante depois (deixei o tracklog no Wikiloc).
      Fora as incontáveis vezes que irá transpor os afluentes do Itapanhaú, com sorte, também poderá ver alguns espécimes da fauna local. Nesse dia vi Jararaca, Saracura e ouvimos sons de porcos do mato, poderia ser Caititu ou sei lá até Javaporco. 
      É preciso tomar cuidado ao trilhar as regiões da Serra do Mar pois infelizmente ainda existem caçadores na região atrás de porcos do mato, felinos ou outro animal qualquer. Além de palmiteiros que podem estar por ali também na sua maioria bêbados e podem querer atrasar seu lado.
      CUIDADO: No dia dessa pequena expedição ouvimos alguns estampidos de espingarda e o som de apitos, se um caçador atira a esmo na mata ele pode nem estar te vendo no meio do mato e te acertar.
      Essa é uma trilha que vou repetir com certeza, é umas das mais bonitas devido a grandiosidade do Rio Itapanhaú e também de sua mata bem preservada. No final do trajeto solicitamos um motorista via UBER no posto da Rodoviária Federal, dali fomos para um camping, dormimos, e no outro dia: praia. Vale a pena o rolê.
      Segue no Intagram @robsonferreiraofficial
      Facebook https://www.facebook.com/robsonferreiraofficial







      Mais fotos no Facebook e Instagram.
    • Por Nathan Martins
      Estarei no Rio de Janeiro entre o dia 15/12/19 e 22/12. Penso em fazer algumas trilhas e conhecer os principais pontos da cidade, economizando o máximo possivel.
      Amizades, boa companhia são super bem vindos. 
       
      Entre os dias 24/12 e 08/1/20 vou estar na minha terrinha em Manaus. E acredite tem muita coisa boa que quero fazer lá e ainda nao tive a oportunidade, como trafegar de barquinho no Parque de Anavilhanas, ou um camping maroto em contato com a natureza.
       
      Já no dia 09/1/20 chegarei em Foz do Iguaçu e pretendo conhecer a tríplice fronteira. (Ciudad del Este/Puerto Iguazu/Foz). Ficarei ate o dia 13/1/20.
      Amizades, boa companhia são super bem vindos. 
       
       


×
×
  • Criar Novo...