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Bem, sei que há trocentos relatos sobre essa clássica travessia, então aqui vai mais um.... :D

 

Álbum, com todas as fotos da travessia estão em:

https://picasaweb.google.com/110430413978813571480/TravessiaSerraFina?authuser=0&feat=directlink

 

Travessia realizada entre dias 12 a 15/06/2014.

 

Eram 3:55h da manhã de uma fria madrugada de quinta-feira qdo saltei do ônibus na minúscula e pacata rodoviária de Passa Quatro (MG), que mais parecia um galpão qualquer. Após pegar meu chum...ops, cargueira do bagageiro do busão, Vivi, Marcão e alguns amigos do Sandro já se encontravam no local a minha espera e dos demais. Michel também já estava no local, mas só foi aparecer meia hora depois, pois se encontrava no mundo dos sonhos dentro de seu carro.

 

Feitas as devidas apresentações, ficamos aguardando os demais do grupo chegarem. A madrugada na pacata cidadezinha localizada em um vale no meio das imponentes montanhas da Mantiqueira estava gelada, como é comum em cidades de altitudes elevadas (acima dos 1.000 metros). O céu estava com poucas nuvens, o que indicava que o dia seria bem aproveitável nesse primeiro dia. Os 2 resgates contratados já se encontravam no local e ficamos aguardando o resto do pessoal chegar.

 

Tão logo isso ocorreu (embora alguns que disseram que viriam, deram para trás e sequer avisaram, mas felizmente a maioria apareceu), as 5:30h partimos rumo ao inicio da trilha, onde chegamos por volta das 6h20, na chamada "Fazenda Santa Amélia" (Toca do lobo) na cota dos 1.570 metros de altitude. A fazenda parecia estar abandonada e uma placa verde já bem gasta pela ação do tempo nos dava as boas-vindas com algumas orientações, dicas e o mapa com os picos, pontos de acampamento e de água.

 

1º Dia - Toca do Lobo (1.570 m) ao Pico do Capim amarelo (2.491m)

 

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Mapa ilustrativo da travessia com os pontos de acampamento, água e os principais picos

 

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A placa bem gasta, já não dava para visualizar quase nada, infelizmente....

 

Após ajeitarmos as cargueiras e alguns alongamentos básicos, iniciamos a caminhada por volta das 6:40. O trecho inicial da fazenda até a Toca do Lobo já começa logo de cara com uma subida, dando uma idéia do que nos aguardara nesse primeiro dia, rumo ao Pico do Capim amarelo. Após o primeiro lance de subida (que foi boa para aquecer os músculos e espantar o frio da manhã), a estradinha nivela, vira trilha e segue margeando a encosta esquerda de um morro, passando a descer levemente em direção a um pequeno vale. Passo por uma trifurcação, onde pego o caminho mais batido a esquerda.

 

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Galera ajeitando as cargueiras

 

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A simpática e discreta fazenda Santa Amélia

 

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Inicio da trilha

 

Os primeiros raios de sol coloriam o topo das montanhas ao redor, indicando que o dia seria igualmente aproveitável e com visão total do percurso e do entorno. Nesse trecho inicial, algumas aberturas no meio da mata fechada revelavam os picos do entorno, por onde iria passar, dando uma ideia do que me esperava pela frente....

 

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Janelas em meio a mata fechada, revelavam alguns picos

 

Não demora muito e as 7:10, chego no 1º ponto de água da travessia ao lado de uma pequena gruta conhecida como "Toca do Lobo", que realmente lembra uma toca. Lá, encontro parte da galera que havia saído minutos antes de mim na frente, fazendo seu primeiro pit stop no local e também faço o mesmo. A água de um rio que corre bem do lado direito é corrente e de boa qualidade, mas sabendo que havia outro ponto de água mais acima, optei por deixar para abastecer os cantis mais acima, entre os morros do Cruzeiro e Quartzito, a cerca de 1 hora de caminhada trilha acima, economizando no peso da cargueira. ::mmm:

 

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Toca do Lobo

 

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1ºponto de água ao lado da Toca

 

Depois de atravessar o rio, sigo pela trilha a direita e passo por mais um trecho de mata fechada, que não dura muito tempo e logo dão lugar aos primeiros trechos de campos de altitude, formado inicialmente por gramídeas e capim ralo, com trilha bem aberta, possibilitando as primeiras visões dos picos ao redor por onde ainda irei passar. Pouco a pouco, o pessoal vai se afastando uns dos outros, devido ao ritmo variado de cada um e nisso, vou seguindo pela trilha, que vai subindo meio que em zig-zag, sem maiores dificuldades....As primeiras vistas nesse trecho inicial de subida já são de impressionar, inclusive com as primeiras visões do Pico do Capim amarelo bem lá no alto imponente, a esquerda.

 

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Primeiras vistas logo que sai da mata fechada

 

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Pico do Capim amarelo lá no alto, bem distante ainda

 

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Passados 30 minutos desde a Toca, chego no alto do morro do Cruzeiro na cota dos 1.783m, onde já é possível visualizar parte dos trechos por onde a trilha segue em direção ao próximo morro, o do Quartzito. Após alguns cliques e uma curta parada para descanço, retomo a pernada, descendo levemente o morro, para então iniciar a primeira subida forte em direção ao Quartzito.

 

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Subida do morro do cruzeiro,se não me engano...Subidinha ainda "tranquila"

 

A trilha segue galgando a crista em zig zag, com a visão do entorno e o percurso da trilha bem demarcada a frente que são um atrativo a parte. Quanto mais você vai avançando, mas te dá vontade de parar e ficar apreciando aqueles belos contornos serranos e as finas cristas que dão nome a Serra fina.

 

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Belíssimas vistas do vale do Paraíba durante a subida

 

Mas a subida ainda está só no começo e logo visualizo bem a frente, o paredão íngreme do próximo morro, o do Quartzito, pronto para ser escalaminhado, ao mesmo tempo que ouço um barulho de água de um riachinho do lado direito. Mais 15 minutos após passar pelo alto do Cruzeiro e 45 minutos desde a Toca, chego ao segundo e último ponto de água desse 1º dia as 8:40, onde uma discreta bifurcação a direita sugere que o acesso ao riachinho é por ali.

 

É a partir desse ponto que deve-se encher todos os cantis para os próximos 2 dias, pois o próximo ponto de água será somente no rio claro, no final do 2ºdia, nas nascentes da base da Pedra da Mina. ::essa::

 

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Chegando ao 2º e último ponto d´agua desse 1º dia de Travessia. É aqui que acaba a moleza da cargueira mais leve e deve-se encher os cantis para 2 dias.

 

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2º ponto d´agua

 

Encho os cantis com 3 litros de água e ainda tinha mais 1 de gatorade que foram mais que suficientes para mim.

Com os cantis cheios, inicio a subida em direção ao Quartzito. Com a mochila mais pesada do que nunca, a moleza acaba e é o bicho iria pegar para valer, pois é a partir do segundo ponto de água que se inicia a primeira subida pirambeira em direção ao morro do Quartzito. E vamos que vamos.

 

Esse primeiro trecho é bem íngreme e com a cargueira mais pesada ainda, foi bem complicado, dando uma idéia do que ainda teria pela frente. As 9:15, chego ao topo do Morro do Quartzito (na cota dos 2.020 metros de altitude) para um merecido, mas breve descanso. Aproveito a pausa para apreciar as belas paisagens do entorno, com os picos do Marins, Marinzinho e Itaguare bem ao fundão, se destacando no horizonte.

 

É nesse trecho que se passa pela parte mais bonita da subida e também onde se visualiza o trecho da foto "clássica" da trilha descendo e contornando o topo da crista até a base do enorme paredão do Capim Amarelo. Aqui a subida dá uma tregua e a caminhada segue no plano, com uma leve descida pelo alto de uma fina crista logo após passar pelo alto do morro do Quartzito. O Topo do Capim amarelo aparece bem imponente lá no alto e a frente, parecendo estar próxima, mas ainda resta uma longa subida pirambeira até lá. Aqui encontro alguns vestígios de acampamento, mas como o local é exposto aos ventos, é arriscado acampar aqui.

 

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Alto do morro do Cruzeiro visto do alto do Quartzito

 

Do alto do Quartzito, se tem a visão de todo o trecho percorrido e também todo o traçado da trilha demarcada pelo alto das cristas. É um capitulo a parte e rendeu vários clicks. O grupo de 12 pessoas se dividiu em grupos menores, onde cada grupo foi seguindo em seus ritmos, com os mais rápidos mais acima, eu no intermediário e os mais lentos logo atrás de mim, o que gerou belas fotos da galera em diferentes ângulos. Em uma travessia como essa, é quase impossível todo mundo ficar juntos em um mesmo ritmo.

 

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Picos do Marins, Marinzinho e Itaguaré bem ao fundão....

 

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Chegando ao trecho da foto "classica" ::otemo::

 

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Caminhar pela fina crista é uma sensação única...

 

Após descer levemente o morro do Quartzito, passando pela crista com 2 grandes vales a direita e a esquerda, chego definitivamente no "paredão" da base do Capim e é a partir de agora que as pernas serão postas a prova máxima de resistência e superação. As 10:15, começo a longa e exaustiva subida que vai ficando cada vez mais íngreme e com alguns lances de escalaminhada, onde o auxilio das mãos passam a ser necessários para impulso nas pedras e troncos.

 

A subida é árdua, o sol castiga muito e nisso, acabo parando várias vezes para retomar o fôlego. As 11:00 chego ao alto de um morro, conhecido como "Cotovelo" onde a subida dá uma leve trégua e aproveito para fazer uma pausa. Olho para cima e vejo a nebulosidade aumentando sobre o topo do Capim amarelo.

 

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Vista do alto do morro do Cotovelo

 

Subindo de cocoruto em cocoruto, vou seguindo em direção ao morro do camelo em trilha bem demarcada e com vários lances de escalaminhada. O Grupo está bem dividido e a minha frente vejo os mais rápidos mais acima e os mais lentos lá embaixo. A pirambeira não dá trégua e parecia não ter fim. Só de olhar para cima, cansava até a vista. Vou ganhando altitude rapidamente e quase 3 horas desde o Quartzito lá embaixo, chego a um ombro do Capim Amarelo, conhecido como "Camelo" na cota dos 2.380 metros de altitude.

 

A principio, achei que era o topo do capim, mas não era. Enquanto isso, a neblina foi ficando ainda mais densa e nisso, a visão ficou prejudicada. Descanso por algum tempo aqui e pouco antes das 13h00, volto a caminhada.

 

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Alto do morro do "Camelo" um ombro do Capim amarelo, com o pico do Capim mais acima ainda, encoberto pelas nuvens

 

Segui mais um pouco até chegar a uma parte mais plana onde a trilha passa por 2 descampados bem protegidas no meio de enormes tufos de capim elefante. Olhando para baixo (aproveitando algumas janelas em meio a neblina), consegui visualizar o Michel e os demais bem lá embaixo ainda, enquanto a Vivi, Marco e Fábio dispararam na frente e imaginei que a essa hora, já haviam chegado no topo. O relógio marcava 13:00hs e eu ainda não fazia ideia de qto tempo iria levar até o topo do capim.

 

Após passar pelas áreas de acampamento, visualizo bem a frente outro paredão no meio da neblina, com a trilha indo na direção dele. A subida volta a ficar ainda mais íngreme e com alguns trechos enlameados e pirambeiros, acabo parando mais algumas vezes para recuperar o fôlego. Em alguns pontos, havia cordas estrategicamente instaladas para auxilio nos trechos mais complicados da subida e que foram muito bem-vindas. O ataque final ao cume é de matar com mais lances de escalaminhada e trepa-pedra. Com o peso da cargueira e uma noite praticamente sem dormir, não foi nada fácil vencer esse trecho.

 

As pernas e braços já pediam arrego, mas continuar era preciso. E se já estava ruim com a falta de visibilidade, ficou pior qdo começou a chover fraco, o que me deixou apreensivo....O Topo parecia estar bem próximo e finalmente, as 13:20 chego nele, onde sou recepcionado por parte da galera da turma do Roger, Marco e da Vivi que já haviam chegado lá entre 30 minutos a 1 hora antes de mim e já tinham até montado seus respectivos "aposentos"....rsrs

Mas ainda faltavam o Michel, Mariana e outros que estavam atrás de mim e só chegaram cerca de 40 minutos depois.

 

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Enfim, barraca montada e o merecido descanso no topo do Capim amarelo

 

O Cume do Capim é bem plano e com várias clareiras para 1 ou 2 barracas, todas bem protegidas por conta dos enormes tufos de capim elefante que formam uma ótima proteção contra os fortes ventos. Como ainda havia muitas clareiras disponíveis, pude escolher o melhor ponto para montar a barraca. Na subida final a chuva havia parado, mas voltou no exato momento que estava montando a barraca. Não foi fácil montar a barraca por causa da chuva, pois tive que monta-la as pressas, mas felizmente era apenas uma chuvinha passageira e logo parou, não chegando nem a molhar direito o chão.

 

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Descampados entre os tufos de capim elefante

 

Após montada a barraca, explorei as laterais do topo e depois fui preparar meu almoço, ficando o resto da tarde de boa com o pessoal. Fui deitar por volta das 19h30 e logo peguei no sono. De madrugada, acordei com o teto da barraca mais clara e ao botar a cabeça para fora, vi que a neblina havia dissipado, o céu estava com poucas nuvens e a lua brilhava forte. Com isso pude apreciar as cidades em volta todas iluminadas e com a lua cheia iluminando todo o topo. E ainda pude me presentear com a bela visão dos picos da Serra fina ao redor, com a Pedra da Mina em destaque a leste. A temperatura não caiu muito de madrugada e ficou em torno dos 04ºC.

 

Continua no post abaixo....

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2º Dia - Do Capim amarelo (2.491m) a Pedra da Mina (2.797m)

 

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Nascer do sol

 

A Sexta-feira 13 amanheceu com poucas nuvens e com isso pude apreciar um belíssimo nascer do sol. A vista do alto dos 2.491 metros de altitude do cume do Capim Amarelo é de 360 graus e de tirar o fôlego. Ao noroeste visualizo as cidades do vale do Paraíba, ao oeste as cidades do sul de MG com os picos do Marins, Marinzinho e Itaguaré bem ao fundo e ao nordeste e leste todo o caminho a percorrer em direção a Pedra da Mina. que aparece distante ao fundo, imponente.

 

Porém, noto que não será nada fácil, pois há muitas subidas e descidas fortes no caminho. E era apenas uma pequena amostra do que eu ainda iria experimentar durante os próximos 3 dias de travessia.

 

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Marins, Marinzinho e Itaguaré vistos do Capim amarelo

 

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Possível trilha "alternativa" até o Capim amarelo vindo diretamente de Passa Quatro?

 

Barraca desmontada e mochila nas costas, inicio a caminhada rumo a Pedra da mina pontualmente as 9h00. A descida do Capim em direção a Pedra da Mina segue em meio ao bambuzal, com vários lances de desescalaminhadas e quem tem problemas de joelho sofre um bocadinho nessa parte, pois assim como a subida final ao cume, a descida também é de lascar. A visão do vale a frente é de impressionar e vou perdendo altitude rapidamente.

 

Assim que a descida termina, a trilha mergulha em um trecho de Capim elefante com tufos bem altos. O trecho de vale é curto e logo me vejo subindo o pequeno morro onde passo por uma área de acampamento, conhecido como "avançado".

 

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Face oposta do Pico do Capim amarelo, vista logo após a descida de seu cume...

 

Passo por algumas clareiras protegidas na base que podem ser utilizadas em caso do topo do Capim estar lotado ou se você quiser adiantar parte do percurso do dia seguinte. Do avançado se tem uma bela visão do Topo do Capim lá no alto bem imponente que acabara de descer....Também avisto parte do meu grupo descendo o pico, o que deu uma idéia de como somos minúsculos perante a grandeza e a imponência da montanha...

 

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Pico da Pedra da mina bem distante ainda, aparecendo discretamente atrás das escarpas serranas do morro do Melano...

 

Do alto do avançado, visualizo o topo do chamado Pico do Melano bem a frente, com a Pedra da mina bem atrás dela, ainda distante. Passo por mais um trecho de capim elefante com tufos bem altos e lá, tenho um perdido: Após passar mais uma clareira, a trilha parece seguir a esquerda, mas logo se fecha, então retorno até a bifurcação e após procurar por cerca de 10 minutos, encontro a trilha certa a direita, meio escondida em meio aos tufos de capim. A trilha segue pela direita depois sobe uma pequena rocha, seguindo reto pela borda direita de um pequeno morro a esquerda, para então mergulhar na mata fechada de bambuzinhos.

 

As 10:35, com pouco mais de 1 hora e meia de caminhada desde o topo do Capim amarelo, chego ao "Maracanã", onde reencontro parte do pessoal do meu grupo que estava a frente me aguardando e aos demais que estavam atrás de mim. Me junto a eles e aproveito o pitstop para molhar a goela e forrar o estômago. A area do Maracanã é composta por um amplo descampado em uma mega clareira no meio de um vale, entre o Capim e o Dourado, sendo uma otima opção de camping para grupos com 5 ou mais barracas. Mas,assim como o topo do Capim, não há água próxima.

 

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Pessoal no Maracanã

 

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Pico do Melano visto do Maracanã

 

Do Maracanã, visualizo o paredão do que acredito ser o cume do Melano bem a frente, com uma enorme subida pirambeira por onde iriamos passar. Não demora muito e logo começamos a subir. A subida é bem íngreme e com lances de escalaminhada, vou parando em alguns momentos para retomar o fôlego. As 11:10, com pouco mais de 2 horas de caminhada desde o Capim, chego ao topo para um merecido descanso e pude visualizar os campinhos do Maracanã lá embaixo com o Pico do Capim Amarelo em destaque, ficando cada vez mais para trás. É uma visão em tanto dos picos e vales acima dos 2.200 metros de altitude.

 

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Capim amarelo ficando cada vez mais para trás...

 

Do alto, a direita, se tem mais uma bela vista do vale do Paraíba e a frente e os contrafortes serranos da Pedra da Mina. A partir desse ponto, a trilha passa a seguir pelo extenso cume e por vários trechos em lajes de pedra. Desço mais um pequeno vale e discretamente, vou subindo por lajes de pedras e após passar pelo ponto mais alto do Melano, adentro a um trecho de "chapadão" com enormes rochedos, onde a trilha some de vez e a navegação passa a ser quase que exclusivamente por totens.

 

Depois de 4 horas e meia de caminhada desde o Capim amarelo, chego a um trecho mais plano do chapadão,onde tenho a visão dos grandes vales que compõe a base da pedra da mina com a mesma bem imponente a minha frente e parecendo estar bem perto, mas ainda resta a descida dos vales até lá.

 

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Gigantescos vales

 

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Trecho de lajes de pedra

 

A descida ao vale onde fica as nascentes da pedra da mina é bem tranquila e vai seguindo por lajes de pedras, trechos de bambuzal e alguns trechos de capim elefante, com a maior parte da navegação no visual, através de vestígios de trilha e vários totens indicando o caminho. A paisagem do mega vale é de tirar o fôlego de qualquer um e é claro que foi merecedor de várias pausas para clicks e apreciação do local.

 

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Inicio da descida até os 3 grandes vales na base da Pedra da mina, onde fica a Cachoeira vermelha e o Rio Claro

 

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Assim como no dia anterior, a nebulosidade aumentou bastante e escondeu o sol, mas dessa vez, as nuvens ficaram um pouco mais acima, o que permitiu a visão de praticamente todo o vale na base da Pedra da mina. Me guiando pelos totens e vestígios de trilha, vou descendo em direção ao Rio claro, passando batido pela Cachoeira vermelha. Durante a descida, visualizo a esquerda, enormes precipícios e fendas no meio de tufos de capim elefante, indicando que ali deve haver algum riozinho descendo vale abaixo, mas o caminho a seguir é para a direita e é para lá que sigo.

 

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Bem a frente, vejo a galera do Roger subindo e contornando um pequeno morrinho a esquerda em direção ao terceiro vale, onde fica o rio claro e em seguida, logo atrás deles estão a Vivi e o Marco. Estavam chegando ao Rio claro, o único e tão desejado ponto de água desse 2º dia, após 1 dia e meio sem ver água alguma desde a base do Quartzito, no inicio do 1º dia. Dizem que há água no vale entre o Maracanã e o Dourado, mas nem lembrei de conferir. Ainda tinha 1 litro de água no cantil e 500ml de gatorade da mochila, então nem me preocupei e continuei descendo o primeiro dos 2 vales que compõe a base da Pedra da mina.

 

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Trechos longos por lajes de pedra...

 

Ao terminar a primeira descida até o primeiro de 3 vales, vejo totens indicando o caminho a direita e o percurso agora passa a bordejar a encosta que desci a esquerda, onde chega-se a um outro vale a direita que lembra bastante o Vale do Ruah, por ser plano e tomado por enormes tufos de capim elefante. Inicio uma discreta subida em meio as lajes de pedra de um rochedo que divide os 3 vales e alcanço o Marco, que estava parado ali descansando.

 

Bem atrás, ainda iniciando a descida do Melano, visualizo o Michel e os demais acerca de 20 minutos de caminhada de onde eu e o Marco estavamos.

 

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Um grande vale que lembra bastante o Vale do Ruah próximo a base da Pedra da Mina

 

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Trechos de trilha e um Totem a esquerda indicando o caminho

 

As paisagens são de encher os olhos e a vontade é de ficar um bom tempo parado contemplando aquele platô inóspido no meio dos gigantescos picos acima dos 2.600 metros de altitude que lembram bastante as paisagens da cordilheira dos andes...O gps do marco indicava altitude média de 2.450 metros no vale e logo a frente o subidão nervoso e pirambeiro da pedra da mina nos aguardara. A caminhada vai seguindo em uma subida bem leve e vamos nos guiando pelos totens.

 

Após chegar no alto do rochedo, a trilha vira a direita e mergulha no meio dos tufos de capim elefante, descendo em direção do vale que fica na base da Pedra da mina. Do alto do Rochedo já era possível ver a fenda por onde passava o rio claro.

 

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Vales tomados pelo Capim elefante que de longe parece uma graminha rala, mas qdo se está lá no meio, é bem diferente....São tufos com mais de 2 metros de altura....

 

As 14h20 finalmente chego ao Rio claro, na base da Pedra da mina, onde encontro o pessoal reunido lá, enquanto que o Grupo do Roger já estavam se aprontando para iniciar a subida final ao cume. Após reabastecer meu cantil com mais 1 litro de água e outro de gatorade, parte do pessoal do grupo decidiu acampar ali por temer que o cume estivesse lotado. Como o meu foco era acampar no cume ou numa das 2 bases (via paiolinho, na chamada cratera), e sabendo que estaria vazio pelo fato do feriado ser só em SP e o jogo do Brasil na quinta (que faria muita gente vir para trilha somente depois), optei por subir e acampar no topo.

 

Me despedi do pessoal e parti rumo a subida da pedra da mina, que mostrava que não seria nada fácil e que de fato, levaria pelo menos 1 hora para chegar até o topo, conforme me alertou o Marco. Vai ver estavam com medo do JASON estar lá no topo esperando os incautos, por ser sexta-feira 13, ::lol3::

Ao lado do Rio claro e em volta, há alguns ótimos descampados bem protegidos, cada um para 2 ou 3 barracas.

 

Mesmo com o tempo encoberto e a ausência do sol, o subidão de ataque final ao cume é de matar e os músculos das pernas já estavam esgotados, por conta do stress dos constantes sobe morro/desce morro nesse 2º dia. Já havia andado mais de 6 horas desde o Capim e o corpo reclamava, pois o cansaço estava bem evidente. A trilha em direção ao cume vai subindo em relativo zig-zag em meio a um bambuzal baixo, mas com muitos lances de escalaminhada, fui parando várias vezes para retomar o fôlego e poupar um pouco os músculos, já que não tinha pressa alguma.

 

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Vista do vale do Rio claro ficando lá embaixo, durante a subida ao cume da pedra da mina

 

Depois de 40 minutos de subida íngreme, pirambeira e que mais parecia não ter fim, saio do trecho de bambuzal baixo e a a trilha novamente dá lugar as lajes de pedras, onde totens iam mostrando o caminho. Ao chegar no primeiro de 2 ombros, o nivel de inclinação diminui, o que mostra que o topo estava bem próximo. Mais 20 minutos e depois de passar pelos 2 ombros, finalmente chego ao topo dos 2.797 metros de altitude da 4º montanha mais alta do Brasil, a Pedra da mina as 16h00, com exatas 1 hora cravado de subida desde o Rio claro.

 

E para minha surpresa, só havia a galera do Grupo do Roger que havia decidido subir e acampar no cume, que logo me recepcionaram qdo cheguei. Os demais optaram por ficar acampados lá embaixo, na base mesmo e só os reencontrarei na manhã do dia seguinte...

 

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Final de tarde no cume da pedra da mina, com vista dos contrafortes serranos da Serra fina e parte do trecho por onde irei passar no dia seguinte...vale do Ruah abaixo, meio escuro e a esquerda, a crista do cupim do Boi e as encostas serranas do Itatiaia bem ao fundão

 

Após a contemplação do visual e muitos clicks, desci até a cratera-base que fica a cerca de 10 minutos do cume e para minha surpresa, assim como no topo, não havia ninguém de outro grupo lá e com isso, pude escolher o melhor lugar para montar a barraca. O topo estava bem como imaginava: Jogo do Brasil e feriado somente em SP é como dia de semana normal. Dificilmente teria outros grupos acampados. Horas depois, já dentro da barraca e pronto para dormir, imaginei que se eu tivesse subido sozinho e todos os demais ficassem acampados lá embaixo na base, teria o cume e suas 2 outras bases só para mim, sendo dono absoluto do lugar... ::otemo::

 

A temperatura não diminuiu muito a noite e foi bem tranquila. Enquanto que no cume estava ventando bastante, na "cratera" só havia um sereno. A noite desse 2º dia foi mais uma vez com lua cheia e céu limpo, o que permitiu a contemplação total de todas as cidades do entorno iluminadas, além do cume, que estava tão claro, que quase nem precisei usar as lanternas. E nenhum sinal do Jason lá.... :mrgreen:

 

Continua....

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3º Dia - Da Pedra da Mina (2.797m ) ao Pico dos 3 Estados (2.656 m)

 

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Amanhecer no cume da Pedra da mina

 

O Sábado amanheceu meio enevoado,o que me deu a impressão inicial que não iria conseguir ver o nascer do sol no cume.. Mas para a minha grata surpresa, era só uma nuvem passando e logo o tempo abriu e na verdade, as nuvens estavam é embaixo. Então corri até o topo e pude contemplar um nascer do sol sensacional, iluminando todo o topo do cume e o tapete de nuvens logo abaixo, tampando boa parte do vale do paraíba, formando um espetáculo único e diferenciado, típico de grandes altitudes. As nuvens deram um "plus" na paisagem, mas o vento forte e o frio no cume eram de lascar.

 

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Nascer do sol

 

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É um espetáculo em tanto

 

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Pico do Capim Amarelo (local do primeiro pernoite) a esquerda....

 

A leste visualizo todo o caminho que irei percorrer nesse 3º dia, passando pelo Vale do Ruah, Pìco da Brecha, a crista do cupim do Boi e do lado esquerdo do Cupim, o Pico dos 3 estados. Já a oeste, visualizo todo o percurso do dia anterior com a ponta do pico do Capim Amarelo em destaque bem ao sudoeste. Assim como no segundo dia, imaginei que o percurso do terceiro dia também não seria nada fácil, mas no final, foi mais tranquilo do que no segundo dia, pois teve menos subidas e descidas de vale.

 

Após contemplar o astro-rei surgindo por detrás das encostas serranas do PN do Itatiaia, desci para tomar café e as 7h30 já estava desmontando a barraca. Mochila nas costas, retornei ao cume, onde encontrei a galera que acampou lá embaixo na base, nas nascentes da Pedra da mina. Com o grupo todo reunido novamente, iniciamos a descida do cume em direção ao Vale do Ruah.

 

Assim como a subida do dia anterior, a descida também é relativamente forte e segue toda por lajes de pedra. A visão do Vale lá embaixo é de impressionar e as paisagens do entorno também. Apesar de forte, a descida não é longa e num piscar de olhos já estava caminhando pelo vale mais alto do Brasil, o Vale do Ruah, com 2.512 metros de altitude.

 

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Descida da Pedra da mina em direção ao Vale do Ruah

 

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O belíssimo vale do Ruah logo a frente

 

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Face oposta da Pedra da Mina

 

Termino a descida, adentrando o vale e a trilha vai seguindo em direção leste quase em linha reta. Passo por uma grande área de acampamento para pelo menos 5 barracas e a trilha vai seguindo em frente, com vários trechos de "charco". Caminhar pelo vale mais alto do Brasil é uma experiência única. O Capim elefante é a vegetação predominante e o ideal aqui é usar luvas para evitar os cortes nos dedos provocados pelo capim e para poder abrir passagem no meio das folhagens.

 

No meio do vale (após a trilha chegar as nascentes do Rio Verde), fizemos uma parada para encher os cantis, pois ali é o único ponto de água desse 3º dia. E assim como no 1ºdia, encho os cantis para os próximos 2 dias, pois só irei encontrar água no final da travessia, no dia seguinte. E novamente 3 litros de água e 1 de gatorade são mais do que suficientes.

 

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Cruzando o vale do Ruah

 

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Áreas de charco no vale do Ruah

 

40 minutos desde o topo da Pedra da Mina, termino de cruzar o vale do Ruah e a trilha segue margeando o rio verde pela direita, em direção a base do morro da Brecha. Embora plano, esse trecho não é nada fácil e os tufos de capim estão muito altos, o que dificulta o avanço do grupo e acaba deixando a trilha "invisível" em vários pontos. Muitos tufos tem mais de 2 metros de altura e a trilha some em meio das folhagens do capim.

 

O Rio Verde vai ficando cada vez mais encachoeirado e as 10:18 passo por uma pequena cachoeira formado pelo Rio. Pausa para clicks, é claro. Afinal, não é em qualquer lugar que se encontra uma cachoeira a mais de 2.500 metros de altitude, mesmo pequena. ::mmm:

 

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Cachoeira do Rio verde

 

Logo a frente após a cachu, visualizo a subida pela crista da Brecha bem próximo por onde terei que passar e noto que será um pouco complicado, por conta do capim que está muito alto, dando a impressão que não há mais caminho algum ali. Nesse ponto, o risco de se perder é bem alto para quem não tem noção do caminho a seguir ou não está munido de bússola ou gps com tracklog. Vou abrindo caminho no meio dos tufos de capim elefante enquanto sigo em direção a base do morro da Brecha.

 

Após chegar na base, inicio a subida da crista, mas pego uma bifurcação errada e tenho que voltar uns 10 minutos até encontrar novamente o caminho certo, que é bem pela direita, momento esse que o companheirismo da galera foi fundamental na hora de indicar para onde eu devia seguir, para que não perdesse tempo precioso procurando o caminho certo.

 

Qdo se chega na base da crista, o caminho a seguir é pela direita do rio, subindo bem pelo meio da crista. O problema é que o capim está tão alto ali que encobriu a trilha toda, então esse trecho inicial teve que ser no vara-capim mesmo. Felizmente a subida e o trecho de capim não duram muito e logo dão lugar a mata mais fechada, mas de bambuzal, onde reencontro a trilha bem demarcada novamente. Mais um trecho de subida e logo estou no alto do morro da Brecha, com uma bela vista de todo o caminho pela crista do Cupim do Boi, onde visualizo os primeiros do grupo na frente.

 

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Rio Verde e vale do Ruah ficando para trás.

 

Do alto da crista, visualizo o belo traçado sinuoso do Rio verde no meio do capim elefante, seguindo seu curso. As 11:20, com quase 2 horas de caminhada desde o cume da Pedra da mina, passo por uma area de acampamento para cerca de 3 barracas e a partir dai, a caminhada fica bem mais tranquila, seguindo com pequenas subidas e descidas pela crista em direção ao Pico do cupim do boi, com o imponente Pico dos 3 estados a esquerda parecendo estar próximo, mas ainda distante umas 3 a 4 horas de caminhada.

 

A trilha segue agora pelo alto das cristas em direção ao pico cupim do boi, com as belas visões da encosta serrana do PN do Itatiaia a frente, com um precipício de 2.000 metros de altitude a direita e um enorme vale a esquerda.

 

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Caminhada pela crista em direção ao cupim do boi

 

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todo o trecho de crista percorrido

 

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Pedra da Mina lá no fundo

 

É tão alto que só de olhar para baixo, chega a dar calafrios. Quem tem fobia a altura, iria passar maus bocados nesse trecho, pois a crista é fina e você caminha bem ao lado de gigantescos precipícios e desfiladeiros que são de impressionar. É um dos trechos mais bonitos da travessia. A todo momento, o Pico das Agulhas negras aparece em destaque em primeiro plano a frente com as Prateleiras a direita.

 

A sudoeste, os contrafortes serranos da Pedra da Mina, e do lado esquerdo, o vale por onde fica o bairro do paiolinho e a trilha que vem de lá. E o Pico dos 3 estados é visível o tempo todo a esquerda, exceto qdo está encoberto pelas nuvens, é claro.

 

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Vales profundos

 

Mais alguns trechos curtos de sobe morro/desce morro, as 13:06, chego ao final da crista no alto do cupim do boi, onde visualizo bem a esquerda, o enorme subida pirambeira do Pico dos 3 estados. A Partir do final da crista, a trilha vira a esquerda e desce forte até um vale, mergulhando em meio a enormes bambuzais, para então começar a longa subida em direção ao cume do pico dos 3 estados. A subida inicial em direção o cume dos 3 estados é bem ingreme e com lances de escalaminhada, vou parando algumas vezes para retomar o fôlego.

 

Chego a um ombro, onde a subida dá uma trégua, então aproveito para fazer uma parada maior, antes de encarar o subidão final de ataque ao cume....

 

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Chegada ao final da crista do cupim do Boi

 

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Pico dos 3 estados, visto da crista do Cupim do Boi

 

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No cume do cupim do Boi, se tem logo a frente, a bela vista das encostas serranas do Parque Nacional do Itatiaia, com os Picos das Agulhas Negras e Prateleiras em destaque

 

10 minutos depois, retomo a caminhada e logo a frente, visualizo a trilha subindo o enorme paredão ingreme dos 3 estados por onde terei que passar. O ataque final ao cume mais uma vez é de matar e é praticamente uma escalaminhada de quase 1 hora em meio a tufos de capim, onde o auxilio das mãos foram necessários o tempo todo para impulso e apoio nos troncos, pedras e o capim.

 

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Trecho de bambuzinhos no vale entre o Cupim do Boi e 3 estados

 

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O Subidão nervoso ao cume dos 3 estados

 

Nesse trecho, o uso das luvas mais uma vez fez muita diferença, por conta de muitos trechos de capim elefante e bambuzinhos, pois o capim acabou servindo como apoio em boa parte da subida onde não havia outra opção. Por isso, é altamente recomendável subir esse trecho com luvas. E após mais de 1 hora de subidão pirambeiro, pouco antes das 15:00hs, chego ao topo dos 3 estados para o então merecido descanso.

 

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Enfim, no marco de divisa dos 3 estados, que dá nome ao cume

 

O Cume dos 3 estados é bem parecido com o Capim amarelo, com várias clareiras abertas em meio de enormes tufos de capim elefante, então nem me preocupo com os ventos. No topo, havia só parte do meu grupo que estava na frente e chegaram antes de mim. Como ainda havia outros bons descampados disponíveis, mais uma vez, pude escolher o melhor local para montar minha barraca. Pôr do sol nesse terceiro dia estava fora de cogitação, pois o topo estava totalmente encoberto e sem pespectiva nenhuma de melhora. Por isso desencanei, fiz minha janta e fiquei junto da galera, só jogando conversa fora, enquanto esperava o sono vir.

 

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Cume do Pico dos 3 estados é bem semelhante ao do Capim amarelo, com várias descampados para montar barracas bem protegidas por enormes tufos de capim elefante

 

Por volta das 23:30 acordo para ir ao banheiro e percebo que a neblina do final da tarde do dia anterior deu lugar a um belo céu estrelado, onde pude apreciar mais uma vez a lua cheia iluminando todo o cume e as cidades lá embaixo, iluminadas. O Termômetro que deixei do lado de fora da barraca marcava em torno de 03ºC. Após apreciação da lua e da noite estrelada, volto para a barraca, me enfio dentro do saco de dormir e logo pego no sono novamente.

 

Continua . . .

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Ahhh Renato, que maravilha de relato.

Super detalhado, fotos belissimas, e pude "reviver" todos os momentos que passamos todos juntos lá na Serra Fina, uma belissima travessia, "só nossa" e sem a muvuca de feriadões...rs

Muito bom.

Estou aqui na expectativa pelo 4º e ultimo capítulo, hehehe

Abraços, e até as proximas, muito em breve hein.

Obrigada por compartilhar.

Adorei participar dessa trip com vocês.

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4º e último Dia - Descida do Pico dos 3 Estados (2.656 m) ao Sitio do Pierre (1.800m)

 

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Nascer do sol no topo dos 3 estados

 

Acordo as 5:30 com a movimentação do pessoal no cume e ao colocar a cabeça para fora da barraca, vejo tudo aberto no topo, o que permitiu uma visão geral de todo o entorno. Já tinha noção de que o amanhecer iria ser de céu limpo, pois havia acordado de madrugada para ir ao banheiro e fiquei um tempo só apreciando as estrelas, a lua cheia iluminando todo o cume e as cidades iluminadas lá embaixo. Já estava com gostinho de despedida e como o percurso do 3º dia foi bem mais suave do que nos 2 primeiros dias, nem sentia mais o cansaço acumulado e queria mais.

 

Qdo a gente vai para a montanha para curtir, apreciar, admirar e se divertir, os perrengues e o cansaço físico se torna algo passageiro e o psicológico diz: Faz parte, o corpo pode cansar, mas a mente descansa.

 

Após o registro do surgimento do astro-rei por trás das cristas da Serra do Itatiaia, preparo meu último café da manhã e aproveito para apreciar as belas vistas em torno do cume dos 3 estados, onde a oeste pude visualizar todo o percurso do dia anterior desde a Pedra da mina e a leste, a enorme descida pirambeira e o caminho a seguir em direção ao Pico do Ivo e a Fazenda Eng.da serra, distante cerca de 5 horas de caminhada dali.

 

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A direita, a imponente Pedra da mina, com a vista da maior parte do trecho do dia anterior pela crista percorridos

 

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Pedra da mina, com zoom. Detalhe no vale do Ruah logo abaixo, a esquerda ::otemo::

 

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Vista do trecho de crista por onde sobe a trilha que vem do paiolinho pelo alto dos 3 cocorutos entre a primeira subida pirambeira do "Deus que me livre" e a da "Misericórdia".

 

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Barraca desmontada e mochila nas costas, pouco antes das 8h00, inicio a caminhada do último trecho da travessia em direção a Rodovia. O trecho inicial da descida dos 3 estados é muito íngreme, com vários lances de desescalaminhada. Com isso, tenho que ir descendo e segurando forte na vegetação em volta para evitar despencar vale abaixo. Assim como na descida do Capim amarelo, a vista do vale lá embaixo é de impressionar.

 

1 hora desde o topo dos 3 estados, termino a sequencia de 2 descidas e estou cruzando o vale, onde passo por um descampado na Base denominada "bandeirante", para cerca de 3 barracas que é bem protegida pela vegetação alta e pode ser uma boa alternativa para o caso do topo dos 3 estados estar lotado ou se estiver fazendo a travessia no sentido contrário e chegar ali de noite.

 

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Ainda nos 3 estados

 

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Galera iniciando a descida do cume dos 3 estados

 

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Vista do trecho de crista por onde passamos

 

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Vista do vale e da crista durante a descida do topo dos 3 estados, por onde ainda iria passar

 

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Descida pirambeira e com vários lances de desescalaminhada ::mmm:

 

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Pico dos 3 estados ficando para trás

 

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Face oposta do Pico dos 3 estados

 

A partir desse ponto, subo alguns morros e a caminhada segue pela crista, ora por lajes de pedra, ora no meio dos bambuzinhos ou capim elefante. A cerca de 2 horas de caminhada ainda, está o topo do Pico dos Ivos. As nuvens surgem novamente e tomam conta de tudo, mas ainda consigo tirar boas fotos do topo dos 3 estados ficando para trás e o percurso de descida por onde irei passar, com o subidão do Ivos se aproximando.

 

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Vales

 

Já havia andado 2 horas desde o topo dos 3 estados e após passar por alguns trechos de bambuzal alto em mata fechada, estou subindo o Ivos e a nebulosidade já cobriu tudo, deixando a visão totalmente prejudicada. O Capim e os bambuzinhos complicam a subida e insistem em enroscar nas mochilas, dificultando meu avanço. As 10:05 chegamos ao topo do Ivos, na cota dos 2.513 metros de altitude, onde fizemos uma breve parada para descanso e lanche, pois a partir dai, só seria descida quase que initerrupta (e de pelo menos umas 3 a 4 horas) até o Pierre.

 

No topo do Ivos há alguns descampados para acampamento, mas todos expostos aos ventos, por isso, é complicado acampar aqui. As 10:20 demos adeus ao cume do Ivos, começando de vez a longa descida pela crista até a fazenda Engenho da Serra.

 

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Galera no cume do pico dos Ivos

 

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Descida do topo do Ivos, que vai ficando para trás...

 

Durante a descida, a vegetação dos campos de altitude pouco a pouco vão dando lugar a mata atlantica. A descida é longa, constante, mas não é pirambeira, apenas longa e com vários túneis de bambuzinhos e trechos de capim elefante. Mas mesmo assim, a perda de altitude ali é relativamente rápida, e vai ocorrendo a medida que a trilha vai dando voltas e mais voltas, enquanto desce. 1 hora desde o Pico do Ivos, a visibilidade começa a melhorar, pois estou saindo de dentro das nuvens.

 

A altitude ainda girava em torno de 2.100 metros segundo o gps do Marco e faltando 1 hora de descida até a fazenda, passo por mais um área de acampamento plana e protegida, para umas 4 barracas.

 

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Descampado durante a descida, entre os picos do Ivo e a Fazenda do Pierre.

 

45 minutos desde o último descampado mais acima, passo por uma bica d´água a direita, a primeira desde o última no inicio do dia anterior no vale do Ruah. Mais 15 minutos e chego a uma bifurcação, onde o caminho a seguir é a esquerda, já numa estrada de terra abandonada e tomada pelo mato....E finalmente, com pouco mais de 5 horas e meia de caminhada desde o topo dos 3 estados, chego as primeiras casas da fazenda Engenho da Serra, na cota dos 1.800 metros de altitude as 13:10, onde o trecho de descida final até a Rodovia, passa a ser por uma estradinha de terra.

 

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Picú visto do trecho final de descida, já bem próxima a fazenda....

 

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Chegando a Fazenda do Pierre (Engenho da Serra)

 

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Fim da trilha e travessia da Serra fina concluída... ::otemo::

 

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Durante a descida até a portaria, visualizo bem a frente a Pedra do "Picú" no outro lado do vale que vai aparecendo várias outras vezes, a medida que íamos descendo pela estrada de terra. Mais 15 minutos, finalmente chegamos ao portão de saída da fazenda, onde nosso resgate nos aguardara. Com todo mundo reunido novamente, fomos até um restaurante de trutas ali próximo comemorar e bebemorar o sucesso da empreitada.

 

Depois da refeição caprichada, nos despedimos e cada grupo seguiu para suas respectivas cidades. Eu segui de carona de volta com o grupo da Vivi e cheguei em SP por volta das 19h30, cansado, mas feliz.

 

____________________________________________________________

 

 

Bem, essas dicas já são bem batidas, mas é sempre bom lembrar que se prevenir, nunca é demais ::otemo::

 

--> Um dos maiores perrengues dessa travessia é a escassez de água. Entre um ponto e outro, é sempre bom levar um pouco mais de água além do necessário. Mas sem exagerar, para não extrapolar muito no peso da cargueira, é claro.

O Ideal é levar uns 3 a 4 litros de um ponto de água a outro, com excessão dos trechos entre o final do segundo dia e o inicio do terceiro, onde por conta da proximidade entre os pontos de água, dá para subir e descer do cume da pedra da mina bem mais leve, portando, não é preciso sair lá de baixo carregado, como no inicio do primeiro e terceiro dia.

 

Utilizei apenas 1 garrafa PET de 1,5 litros + um cantil de 2 litros e deu para carregar água e não fiquei sem em nenhum momento. E de quebra ainda tinha 2 garrafinhas de 500 ml de gatorade, totalizando 4,5 litros. Melhor pecar pelo excesso do que pela falta dele.

 

--> Isotônicos em pastilha, do tipo "Suum" são uma boa pedida. Assim, dá para levar mais de 5 litros de "gatorade" em apenas um tubinho. Cada pastilha rende 500 ml e cada tubinho vem 10 pastilhas em média. São ótimos para repor os sais mineirais, sem precisar carregar 5 litros a mais nas costas. Pode-se usar parte da água para dissolver as pastilhas em garrafinhas de 500 ml daqueles de gatorade mesmo, transformando 500ml de água em 500ml de "gatorade" em poucos minutos. Me deu muito pique, evitou cãibras e também de chegar exausto no final de cada dia.

 

--> Não recomendo fazer essa travessia sem o uso de luvas de jeito algum. As luvas são um item quase que obrigatório, pois evitam os cortes nos dedos provocados pelo Capim elefante. Esse tipo de capim corta com muita facilidade e o uso de luvas além de proteger dos cortes, se torna um grande facilitador, pois com as luvas, você poderá usar o capim como apoio nas subidas e descidas, diminuindo a carga nas pernas e joelhos.

 

--> Faça o possível para levar o isolante e a barraca dentro da mochila. Ou então, embale-os bem, com uma toalha ou algo que os deixe bem protegidos, evitando deixa-los na horizontal do lado de fora da barraca. Caso contrário, os bambuzinhos irão acabar com eles.

 

--> A trilha durante toda a travessia está bem demarcada, com excessão dos trechos de capim elefante. Porém, nos trechos de lajes de pedras, a trilha dá lugar a enormes e extensos costões rochosos, onde a navegação passa a ser através de totens. A navegação para quem não tem experiência em orientação por totens e vestígios de trilha, fica bem complicada até mesmo com o uso de gps, imagina sem....Portanto, muita atenção nos trechos de lajes de pedra e aprenda a se guiar sem o uso de gps, que pode falhar na hora H e te deixar numa fria.

 

--> Sinal de celular pega sem problemas no alto dos picos e na crista.

 

--> Boné é indispensável para evitar o sol forte...

 

--> A travessia da Serra fina não é uma travessia qualquer e é preciso estar muito bem preparado fisicamente e psicologicamente para vencer os desafios por ela impostos durante os 4 dias. Subidas e descidas pirambeiras e longas com alto grau de declive e aclive acumulados podem gerar lesões em pessoas que não estejam com um bom preparo físico. E por ser 4 dias e com escassez de água, a mochila fica muito pesada mesmo. Não há como escapar disso.

 

--> A melhor época para se fazer a travessia é no periodo seco, ou seja, de Maio a Setembro. Mesmo assim, vá somente com a certeza de tempo firme nos 4 dias e adie em caso de previsão de mau tempo. Não adianta arriscar achando que a previsão vai errar, pois a probabilidade dela acertar é maior do que de errar. A montanha não vai fugir de lá e é melhor adiar e ir com a certeza maior de tempo firme nos 4 dias do que contar com a sorte e pegar tempo fechado, sem visibilidade alguma e correndo risco de pegar chuva e ventos fortes.

 

--> Muita atenção nos trechos de capim elefante, pois as folhagens dela cobrem quase que totalmente a trilha, deixando-a meio que "invisível" . Por isso é preciso ir abrindo caminho entre os tufos afim de visualizar a trilha, escondida pelas folhagens do capim. Tendo um bom farejo de trilha, é possível encontrar o caminho mesmo sem gps ou tracklog, itens que devem ser utilizados para auxilio somente em caso de dúvidas qto ao caminho. As bifurcações em meio do capim podem confundir e se você não souber distinguir a trilha bem marcada daquelas bifurcações em meio aos tufos, se perderá com facilidade...

 

--> Leve saquinhos reserva, inclusive para poder trazer o seu lixo de volta.

 

--> Próximo da Toca do Lobo há um refúgio, que é um ótimo local para pernoite:

http://www.refugioserrafina.com.br

 

--> Na cidade de Passa Quatro, uma das melhores opções de hospedagem é o Hotel Serra Azul:

https://www.facebook.com/pages/Hotel-Serra-Azul-Passa-Quatro-MG/561280500569208?ref=stream

 

--> Logo abaixo seguem alguns contatos que fornecem transporte para a Toca do Lobo ou para pegar no final da travessia, no Sitio do Pierre, contatos fornecidos pela Vivi Mar.

 

- Taxista Marquinhos: (35) 9113-1214 (Itamonte) - Um dos + baratos;

- Celso: (35) 3371-1291 - Recados no Hotel Serra Azul (Passa Quatro);

- Edson da Toyota: (35) 9963-4108 ou (35) 3371-1660 (Passa Quatro);

- Sr. Caetano: (35) 3771-1510 (Passa Quatro);

- Sr.Samuel: (35) 9113-1700 (Itamonte);

- Eliana da 4P4 Ecoturismo: (35) 3371-4263, 3371-3937, 3371-2268 (Passa Quatro);

- Taxistas Schmidt e Boni: (35) 3371-2013 e (35) 9962-4025 (Passa Quatro).

- Carlinhos: (35) 9109-1185

- Zezinho: (35) 9113-0745

- Maú: (35) 9216-4793 ou faz a travessia alpina.de asfalto a asfalto.

- Joaquim Siqueira 35 3371 2410, 35 9113 7643 ou [email protected]

- Hotel Serra Azul em Passa Quatro que cobra barato pernoite de mochileiros contato Steffi Sikorski (35) 3371.1291 [email protected] .

 

--> Por ser uma travessia clássica, existem dezenas de tracklogs dela disponíveis na internet. Aqui vai um link direto:

 

http://pt.wikiloc.com/wikiloc/find.do?q=travessia+serra+fina

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Ahhh Renato, que maravilha de relato.

Super detalhado, fotos belissimas, e pude "reviver" todos os momentos que passamos todos juntos lá na Serra Fina, uma belissima travessia, "só nossa" e sem a muvuca de feriadões...rs

Muito bom.

Estou aqui na expectativa pelo 4º e ultimo capítulo, hehehe

Abraços, e até as proximas, muito em breve hein.

Obrigada por compartilhar.

Adorei participar dessa trip com vocês.

 

Oi Vivi, que bom que gostou. Fico muito feliz por isso. Já deve ter visto que postei o 4º e último dia logo acima, né? Deu um pouquinho de trabalho escrever esse relato, por conta de trocentos detalhes e a correria do dia-a-dia. Mas procurei passar da melhor forma possível a experiência que tive, os apuros, perrengues, além das sensações e tudo mais durante os 4 dias de caminhada nessa dura, dificil, porém prazerosa travessia. Caminhar ao lado de pessoas mais experientes que eu foi uma honra e um plus a mais nessa caminhada hard e deixar mais dicas atualizadas para quem ainda não fez a travessia.

 

Acredito que tenha conseguido passar uma boa noção de como é a sensação de estar ali, no meio daquele belissimo lugar, as paisagens dos campos de altitude, vales, caminhar por lajes de pedras, enfim...sensação única, um pouco da cordilheira dos andes em um país tropical.... ::mmm:

 

Beijos e até a próxima !!!

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É verdade Re, seu relato está completissimo, cheio de dicas, impressões pessoas, emoção, preciosas informações. Muito bom mesmo. Parabéns, e obrigada por compartilhar sua cia e este relato com a gente :)

Abraços, e até a proxima, muito em breve hein !!! :)

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Galera, repeti a travessia no sentido contrário no final de Julho de 2017 e escrevi um relato detalhado....se quiser conferir, o link é:

 

Abraços!

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      -Toca do Lobo, Quartizito e campi amarelo
      -Local do Camping : Capim Amarelo (Acampamento 1)
      *Entre toca do lobo e capim amarelo tem o último ponto de agua do dia a direita no quartizito.
      -Capim Amarelo. 2491mt de altitude.
      Muita subida, escalaminhada, muitas cordas.
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      *Ultimo Ponto de agua do dia na base da Pedra da Mina.
      Chegamos neste ponto estava um bento muito forte e chovendo muito e estava muito frio, resolvemos acampar neste local (Base da Pedra da Mina). Isto por volta das 17:00 hs.
      Os ventos, tempestades e raios se intensificaram.
      Ficamos na barraca por 20:00 hs, pois durante o dia ficou feia a coisa.
      Saímos por volta das 14:00 hs do outro dia, devido tempestades e raios.
       
       
       
      3°dia
      18/05/2019
      Inicio 14:00 h
      Término 18:00 h
      Saímos da base da Pedra da Mina ainda com chuva e ventos fortes, atingimos o topo da Pedra da Mina com seus 2797 Metros de altitude.
       
      Os ventos lá em cima eram muito fortes, além do frio.
      Descemos e atingimos o vale d Rhuá.
      Encontramos uns caras que passaram um perrengue durante a noite.
      Seguimos pelo vale sempre a direita do rio.
      Passar pelo vale do Rhuá e uma coisa única, um belo vale com capins amarelos bem alto e muita lama.
      No final do vale foque sempre o V no final do vale.
      Pegamos agua para o dia seguinte, é importante pegar no mínimo 6 litros de água, pois até o ponto de água seguinte.
      Saímos do vale e dormimos num camping acima. Agora sim fomos agraciados por um por do sol maravilhoso. (Acampamento 3)
       
       
       
      4º dia
      19/05/2019
      Inicio 08:00hs
      Término 18:30 hs.
      Saída do Camping acima do vale do Rhuá e seguimos em frente, hoje porem deu um nascer do sol lindo, indicando que o dia ia ser aberto, pois os dias anteriores não foram de um bom tempo.
      Passamos Pelo Mirante do Vale das Cruzes, Pelo cume do Cupim de Boi, Pico dos três estados 2656 mt altitude, Ombro dos 3 estados, Cume Bandeirante, Alto Dos Ivos, entroncamento com a garganta do Registro, Ponto de água antes do Sitio do Pierre, Sitio do Pierre e Asfalto, onde o resgate nos aguardava.
      Volta ao Hostel, dormimos e fomos embora na segunda feira, finalizando assim a trip, que foi umas das mais HARD que já fiz.
      A Serra Fina para Mim é considerada uma das mais difíceis e pesadas do Brasil.
       
      Use sempre Protetor Labial.
       

      Dicas
      Mesmo fazendo a travessia no final da temporada de montanha, bambus e Capim Elefante são uma constante. Luvas e blusa de manga longa é boa pedida.
      O desespero em saber que a travessia oferece pouca água, não deve ser considerado algo extremo, lembre-se que o corpo necessita de liquidos, não somente água. Eu particularmente, levei sucos prontos, e água de coco e só abasteci a garrafa de água mesmo no terceiro dia. Os dois primeiros só bebia nos pontos de água. Mas isso claro, vai de pessoa para pessoa.
      Quando fizer paradas próximo ao Capim Elefante, a presença dos ratinhos deve ser considerada e não deixe a mochila aberta de forma alguma. Nos cumes, nada de comida fora da barraca e se possivel, longe dos cantos para evitar o cheiro.
      Protetor solar e chapeú que cubra o rosto e pescoço é ótimo, pois o bambuzal deixa muito matinho caindo pelas costas. Bandanas também são muito uteis, principalmente nos cumes para não ficar com o nariz vermelho pelo frio.
       
       
       
       































    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
    • Por eleonardo
      SERRA FINA
      CAMINHANDO ENTRE GIGANTES
       
      Texto por Alan S. Kronemberg
       
      NA MANHÃ de uma quinta-feira, 27/09, Eleonardo Louvain e eu descíamos do ônibus em Passa Quatro, pequena cidade do sul de Minas, com 50 Kg de víveres e equipamentos nas costas. Tínhamos pela frente uma longa e difícil jornada: a travessia da Serra Fina. Após cruzarmos a pracinha local admirando ao longe as montanhas, nosso breve destino, chegamos à pousada São Rafael onde um quarto nos aguardava para algumas últimas horas de conforto. Era nosso plano partir no dia seguinte.
      O maciço da Serra Fina fica numa região isolada e de difícil acesso da Mantiqueira. Posto nos mapas pela primeira vez em 1923 pelo engenheiro Álvaro da Silveira, esse lugar fora durante muito tempo esquecido, ofuscado pelas montanhas do outro planalto próximo e mais famoso, o Itatiaia. A situação começou a mudar apenas em 2000, quando uma nova medição feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, anunciou o maior cume desse maciço, a Pedra da Mina, como sendo o 4º mais alto do Brasil, com 2.797 m. Esse fato fez a gente de Passa Quatro se acostumar a ver tipos mochilados como nós perambulando na região. Naquele fim de semana, porém, éramos os únicos na cidade dispostos a partir rumo àquelas montanhas.
      A carta que possuía comigo conseguida junto ao IBGE mostrava bem o descaso ao qual me referi sobre a Serra Fina. Datada de 1974, era a única existente da região. Não tinha sequer o nome ‘Serra Fina’ escrito nela, além de mostrar a Pedra da Mina com a altitude antiga de 2.770 m. Esse mapa e uma bússola eram tudo o que dispúnhamos até, por sorte – quando entrávamos num armarinho para comprar camisa para o lampião –, conhecermos Taia e seu filho, Davi. Os dois, experientes guias locais, nos deram informações valiosas sobre o caminho e um croqui da trilha mostrando os pontos de acampamento e abastecimento de água.
      Fora os conselhos, ouvimos com atenção as histórias sobre resgates vindas das montanhas no horizonte próximo. Eram muitas. Impressionou-me o caso de um senhor de mais de setenta anos que, depois de subir a serra e ser pego de surpresa por um temporal, passou três dias e três noites sem água e comida, tendo que beber a própria urina para sobreviver. Segundo os guias, o mau tempo na Serra Fina representa um risco considerável por causa dos ventos fortes, da neblina cegante e do frio excessivo. Outrora, no inverno, chegou-se a medir na região a temperatura de -17ºC.
      O maior obstáculo da travessia, no entanto, chama-se Á-G-U-A. Em todo o percurso de quase 40 Km, somente existem quatro pontos para o reabastecimento, o que obriga cada viajante a levar consigo pelo menos 4 L. No caso dos mais sedentos, um litro a mais se torna indispensável na mochila.
      A navegação em alguns trechos da travessia também exige muita precisão devido ao capim-elefante. Essa vegetação, de altura maior que um homem, ocupa campos extensos da Serra Fina e encobre a visão do horizonte e da trilha já aberta. Taia alertou-me para estar atento principalmente ao chegar no traiçoeiro Vale do Ruah após a descida da Pedra da Mina.
      Pelo fim da tarde, retornamos ao hotel para nos certificarmos de que não faltava nada para a partida no dia seguinte. Seu César, dono do São Rafael, aproveitou uma brecha entre os seus afazeres e nos levou a uma esfirraria famosa da cidade, a Monte Líbano, a fim de prosearmos um pouco.
      Aos goles de uma cervejinha bem gelada e escorados sobre um balcão rústico de madeira, conversamos sobre a Serra Fina, que Seu César definiu como a mais difícil travessia do Brasil. Falamos ainda sobre a vida em Passa Quatro. Com 15.000 habitantes, esse município é uma estância hidromineral repleta de fontes d´água espalhadas pelas suas praças e jardins. A cidade conserva casarões do início do século XX e sua rua principal é a antiga Estrada Real por onde aventureiros e bandeirantes passavam a caminho dos sertões das Gerais. A propósito, a cidade teve sua origem em 1674 na passagem do bandeirante Fernão Dias pelas terras altas da Mantiqueira. Achei interessante a origem de seu nome. No passado, aos paulistas que procuravam um lugar sossegado para pouso nessas bandas, Fernão Dias deixara o seguinte recado: “Saindo da Capitania de São Paulo, segue o rio Paraíba do Sul, terás ao norte uma grande cordilheira, a Mantiqueira. Ao encontrares nela uma garganta profunda é o Embaú, a única passagem tranqüila para o Sertão das Gerais, então galga a serra e passa quatro vezes o rio que se escorrega por um verde e espaçoso vale, chegarás assim a um pouso...”. Dessa expressão, surgiu Passa Quatro. Dela, bandeirantes modernos partem, hoje, em busca de aventuras nas montanhas que circundam a Pedra da Mina.
       
      O BATISMO NAS MONTANHAS
       
      A TRAVESSIA COMEÇA, de fato, um pouco longe de Passa Quatro, num local chamado Toca do Lobo. Para se chegar nele, é preciso percorrer alguns quilômetros da rodovia e entrar numa estrada de terra, seguindo por mais uns 10 Km. Pagando-se em torno de cem reais, se consegue um transporte 4x4 até esse lugar em Passa Quatro, mas, como nosso dinheiro era curto, na manhã seguinte, nos restou aproveitar a carona de Seu César até o começo da estrada de chão batido e, nesse ponto, arrumar outra carona do caminhão de leite para o alto da serra. Essa baldeação nos valeu chegar a 8 Km da tal toca. O restante passou a já fazer parte da travessia.
      Após um banho na cachoeira gelada da Toca do Lobo, que preparou o corpo e o espírito para a trilha, subimos morro acima ganhando altitude até a cachoeirinha, no Quartzito, primeiro ponto de água. Aí, adentrávamos a linha dos 2.000 metros, pela qual seguiríamos cada vez mais alto nos próximos dias. Nesse ponto também, começamos a conhecer a verdadeira face daquelas montanhas.
       
       
      Como já estava um pouco tarde e uma nuvem escura caminhava em nosso encalço, julgamos que não tardaria a chover. Preferimos, por isso, montar ali o acampamento. Para sermos mais rápido, dividimos as tarefas: Eleonardo foi pegar água, enquanto eu comecei a arrumar a barraca amarela, chamada por mim de Tempestade I. Não bem tinha esticado a capa de chuva sobre ela e um trovão varreu os céus da serra anunciando o que acabávamos de prever.
      No CABRUUUUUUUUM seguinte, os pingos d´água começaram a cair e rapidamente o horizonte ficou tomado de nuvens brancas. Era a certeza do temporal vindouro. Felizmente, Eleonardo já vinha com os cantis.
      Esforcei-me para deixar a barraca preparada para uma chuva forte - coloquei pedras esticando sua capa ao máximo. Quando pulei para dentro dela, enfim, o céu desabou. O vento começou a chacoalhar a barraca e a zunir tanto que mesmo uma conversa a alguns centímetros era difícil. A Serra Fina rugia.
      Há tempos, a região enfrentava uma seca tremenda que chegara a ocasionar um vasto incêndio no vizinho Itatiaia. Quando deixamos o Rio de Janeiro rumo à Passa Quatro, a meteorologia previa chuvas esparsas no final de semana em razão da primavera. Eu chegara a pensar que seria bom chover um pouco, pois a secura poderia tornar mais difícil a travessia devido ao calor e à pouca umidade. Vendo minha barraca balançar, tive outro julgamento. Imaginei que estávamos somente começando a subir. Se naquela altitude, as coisas na Serra Fina se comportavam de tal maneira assustadora, como seria mais acima aonde iríamos?
      Estando com fome e não havendo como deixar a barraca, a solução foi prepararmos alguma refeição dentro dela mesmo. Sacamos as canecas, preparamos um achocolatado com biscoitos e ficamos aguardando pacientes pelo fim do temporal. Cerca de duas horas depois, a chuva deu uma trégua. Ao sairmos para ver a situação, uma surpresa! Dessa vez uma nuvem gigantesca vinha na direção do Quartzito, embranquecendo tudo sob ela. Parecia um enorme monstro branco jogando suas presas sobre as colinas. Uma visão impactante.
      Acompanhei a chegada da nuvem até bem próximo da barraca, de pé. Quando vi um lampejo sair do seu interior, minha reação foi correr para dentro de Tempestade. Um trovão estrondoso ecoou no céu. Vi Eleonardo deitado na posição fetal – segundo ele, para não atrair os raios. Logo depois disso, houve um clarão enorme, seguido de outro trovão pavoroso e resolvi fazer o mesmo, por precaução. O relâmpago, dessa vez, pareceu passar ao lado da barraca!
      Lá pelas tantas da noite a chuva cessou e, em seu lugar, um manto de estrelas cobriu o céu. Do mirante onde estávamos, podiam-se ver as luzes de Passa Quatro e de algumas fazendas espalhadas pelo horizonte. A Lua brilhava com todo o seu vigor, cheia e prateada. À luz do lampião, acendemos o fogo e preparamos uma mistura reforçada de alimentos. Até um champingon que havíamos levado foi junto. Tudo para matar a fome e nos deixar prontos para o outro dia. Aquela sexta valera como o batismo na Serra Fina.
       
      RATOS
       
      SÁBADO, 10 h. Após abastecermos todos os cantis – dali para frente só encontraríamos água perto da Pedra da Mina, a dois dias de viagem – arrumamos as mochilas e partimos. Deixamos o Quartzito tarde, pois nosso plano era subir apenas o Capim Amarelo, primeira grande montanha da travessia, com 2.491 m.
      A subida levou algumas horas. O tempo se manteve nublado, dissipando ao fim da tarde. Logo que chegamos, arrumamos o acampamento num dos muitos espaços abertos para pouso, preparamos a espiriteira, acendemos o fogo e fizemos a comida: macarrão com molho de tomate recheado de orégano. Ótimo paladar! Senti-me em casa.
      O Capim Amarelo é chamado dessa maneira por causa do tom amarelado que o capim-elefante possui nesse local. É tamanha a incidência dessa vegetação nesse cume que a vista fica comprometida. De lá, pudemos ver pela primeira vez, ao longe, a Pedra da Mina. Descobrimos, também, que não estávamos sós na travessia. A noite nos revelou um importuno invasor.
      Enquanto a comida era feita, um pequeno rato aproximou-se das panelas. Nessa hora, eu estava na barraca e pude apenas ouvir Eleonardo gritando Sai! Sai! e batendo com os pés no chão.
      – Foi um rato? – perguntei. Taia nos advertira sobre ter cuidado com esses animais no alto do Capim.
      – Sim. E era grande – respondeu Eleonardo.
      Mais tarde, quando já havíamos deitado para dormir, ouvi um barulho estranho perto da barraca. Suspeitei de um rato estar tentando rasgar o pano para entrar.
      Acordei Eleonardo e apanhei a lanterna. Acendi a luz, o barulho cessou. Abri a porta. De dentro da barraca, não via nada lá fora. Passando as mãos entre as coisas amontoadas perto do meu lado de deitar – de onde suspeitava vir o som – não encontrei coisa alguma. Achei melhor examinar direito.
      Quando afastei minha mochila, logo pude ver um buraco no pano da barraca. Constatei que estava enganado: o rato não queria entrar; ele já estava dentro. Retirei a mochila de ataque e vi o rabinho mexendo que denunciava o invasor. Ao tirar a panela, flagrei o animal comendo sem titubear o miojo. Quando pus a luz da lanterna em seu rosto, ele nem ligou, continuando sua refeição. Só quando mexi as coisas perto dele que resolveu sair pelo mesmo buraco por onde entrara.
      Resultado da noite: levamos alguns miojos para longe da barraca, junto com as panelas sujas de alimento, para podermos ter um sono tranqüilo enquanto o ratinho e seus parentes faziam um banquete.
       
      PEDRA DA MINA
       
      APESAR DO incidente com o rato, na manhã seguinte, a lembrança viva em minha mente era do instante em que, de madrugada, havia saído da barraca para ver como estavam nossas coisas. Guardo comigo a visão colossal da Pedra da Mina iluminada pela Lua cheia, com um mar de nuvens cinza aos seus pés. Senti-me no paraíso naquele momento e agradeci aos céus por poder contemplar aquela fotografia que nossas câmeras não eram capazes de capturar, apenas meus olhos.
      Fazia silêncio. O que se ouvia era apenas a suave brisa sobre o capim, a balançar o mato devagar. A silhueta escura do gigante de rocha dominava o horizonte e sua imponência impunha um respeito a toda a natureza ao seu redor. Nada era mais alto do que ele. Não se podiam enxergar os vales escondidos debaixo das nuvens de uma brancura contrastante. Tive a impressão de ser possível caminhar sobre o mar de algodão formado por elas, espesso o bastante para suportar o peso de até um exército de aventureiros que nele quisessem passar rumo à Pedra da Mina. Do caminho que tomaríamos no dia seguinte, somente os trechos mais altos, como a Serra Fina, eram contemplados. Tudo isso emoldurado pela Via-Láctea e pela abóbada de estrelas do céu, onde a Lua, radiante, surgia como um farol a iluminar aquela vasta paisagem.
      Olhando para a Pedra da Mina, soberana daquelas terras, refleti sobre a vida do explorador. Em quanto ela é solitária e cansativa, mas também recompensadora. Definitivamente, as mais belas paisagens do nosso mundo, assim como os maiores mistérios, estão em locais afastados dos grandes centros. Nos extremos, encontramos nossas origens e nos deparamos com a natureza selvagem, muitas vezes amiga, outras vezes inimiga. Lá, não diria que somos meros coadjuvantes; não acredito nos que dizem que o homem seja nada diante dela. É certo que o poder da natureza em muito supera a força humana, mas o ímpeto que carregamos dentro de nós é tamanho que mesmo ela, em sua grandeza, nos deixa passar. Até os gigantes nos permitem transpor suas coroas.
      Assim, com essa imagem na retina, deixei o alto do Capim Amarelo atrás de Eleonardo. Ele teve mais sorte para encontrar o começo da trilha que descia a montanha.
      Na descida do Capim, encontramos o primeiro sinal de alguém que passara por aquelas terras: um bastão de trekking quebrado. Desde que havíamos partido da Toca do Lobo, na sexta de manhã, não cruzávamos com ninguém.
      O caminho começou a ficar mais fechado e traiçoeiro em alguns trechos de capim-elefante. Eu mantinha os olhos atentos à minha bússola, na sua agulha apontada para o norte, que, ao longo do percurso, se mantinha às oito horas de nós. Horas depois, após subirmos e descermos diversos morros e vales, atravessamos a crista da Serra Fina. Esse conjunto de colinas, responsável por dar nome a todo o maciço, é uma linha de montanhas altas por sobre as quais se marcha num caminho desenfiado e estreito, que leva aos pés da Pedra da Mina. O nome “Fina” não é por acaso. Há espaço para somente uma pessoa de cada vez passar na sua crista. O viajante segue o tempo todo admirando a serra da Bocaina no horizonte sul e os campos de Minas no leste.
       
       
      Naquele dia, um domingo de bastante sol, acampamos na base da Pedra da Mina, no local conhecido como cachoeira Vermelha. Essa queda d´água de uns quinze metros serve de guia para os viajantes que, ao descerem o morro do Melano, podem vê-la de longe. A água aí é rica em ferro – razão de ela ser avermelhada – o que a deixa com um gosto diferente, mas facilmente bebível para quem chega de uma jornada de horas com a garganta seca.
      Dela, seguimos, na segunda-feira pela manhã, para o ataque à Pedra da Mina. O gigante, mais próximo do que nunca, lançava seu olhar sobre nosso caminho, o tempo todo a nos instigar. Cruzamos a nascente do rio Claro com os cantis parcialmente cheios, certos de que do outro lado da montanha, no Vale do Ruah, acharíamos água. Enfrentamos duas horas de subida sob um sol forte, de totem em totem, fitando com os olhos o topo mais esperado.
       
       
      Por volta de 14h, passamos pelo gigantesco totem montado por montanhistas e, logo em seguida, chegamos! Tocamos a marcação recente do IBGE, datada de 2004, e o livro que sela o nome de todos que alcançaram o cume da Pedra da Mina. Deixamos lá nossos nomes, a 2.798 m de altitude.
       
       
      O VALE DO RUAH
       
      PASSADOS trinta minutos admirando o horizonte no topo da Mantiqueira, seguimos adiante para o trecho considerado por muitos o mais difícil da travessia. Do alto da Pedra da Mina, a visão do Vale do Ruah é fan-tás-ti-ca! Uma região do tamanho de quatro campos de futebol, tomada de capim-elefante.
      Enquanto descíamos, era possível ver o rio Verde do lado oposto a onde cairíamos no vale. Tínhamos que rumar até ele e depois margeá-lo até a Brecha, um monte uns dois quilômetros à frente no qual começa a subida para o pico dos Três Estados, a décima maior montanha do Brasil. Eu sabia que, dentro do vale do Ruah, não enxergaria mais nada, por isso, tinha que do alto traçar o azimute certo.
       
       
      Nosso ritmo de marcha durante a descida da Pedra da Mina fora comprometido devido às dores intensas que Eleonardo começou a sentir no joelho. No dia anterior, ele havia tido uma entorse e vinha caminhando suportando a dor e com certa dificuldade. Foi necessário parar algumas vezes. Chegamos a cogitar a possibilidade de acampar no Ruah, hipótese descartada depois que nuvens negras começaram a se avolumar sobre nossas cabeças.
      Entre as moitas de capim-elefante, a trilha certa exigia olhos de águia. Há picadas no Ruah para todos os lados e direções, abertas por viajantes que perderam o caminho. Com a visão comprometida devido à altura da vegetação, caminhamos mata adentro nos guiando pela bússola e pelo som do rio Verde. Quando era possível, olhava por sobre o capim e avistava o colo para onde eu sabia correr esse rio, local aonde nós também deveríamos seguir.
      Dessa forma, conseguimos atingir o rio Verde. Abastecemos nossos cantis para mais um longo trecho sem ver água e continuamos lado a lado com o seu curso. Foi quando começou a chover granizo.
      Já era quase noite, quando tomamos uma direção para fora do Ruah, galgando novas alturas. Estava feliz por ter vencido a parte dita a mais difícil da travessia e com frio devido à chuva que não parava. No topo da Brecha, havia um bom local para acampar. Com presteza, montamos o acampamento e, cansados, adormecemos logo após entrarmos na barraca. Despertamos lá pelas 11 h da noite. Não chovia mais. Preparamos uma suculenta sopa de feijão com legumes e macarrão para matar a fome. Se tudo corresse como prevíamos, aquela seria nossa última refeição na Serra Fina.
       
      TRÊS ESTADOS E O RETORNO PARA CASA
       
      O DIA AMANHECEU com uma bela manhã de sol, propícia para secar nossos equipamentos. Outra vez, cada um tomou sua caneca de chocolate e, levantado o acampamento, partimos rumo ao pico dos Três Estados.
      O caminho seguiu pela crista das montanhas até o topo da elevação chamada Cupim de Boi devido à semelhança que possuí com essa parte do bovino. Dela, descemos um vale profundo dominado por uma mata de bambus e por isso de difícil passagem, após o qual, derramava-se a encosta do Três Estados.
      Durante a subida dessa montanha, a natureza revelou-se benévola conosco. A chuva do dia anterior havia depositado gelo entre os tufos de capim-elefante e com isso, pudemos encher os cantis.
      O pico dos Três Estados, a 2.665 m, é repleto de capim-elefante e possui um triângulo de ferro já bem enferrujado indicativo das direções dos estados que se encontram naquele ponto. Aliás, essa uma particularidade dessa montanha. Em qualquer mapa do Brasil que possua as divisões interestaduais, pode-se identificar o local exato de seu cume. Lá, um mastro marca o último grande desafio da travessia da Serra Fina para quem chega da Toca do Lobo. Aos que vem pelo outro sentido e iniciam a jornada, o fato de ele estar sem a bandeira brasileira serve de sinal da força dos ventos e da natureza naquela região inóspita.
      Após o Três Estados, o Alto dos Ivos é a última altitude a ser vencida antes do começo da descida da serra. De seu topo, avista-se ao longe o maciço de Itatiaia e o grandioso Agulhas Negras. Lá, eu e Eleonardo despedímo-nos da Serra Fina por onde caminhamos cinco dias seguidos sem a companhia de ninguém, apenas dos gigantes.
    • Por BetoPira
      Caros,
      Semana passada estava em Piracicaba, sem minha mulher nem meus filhos, que tinham saído de férias, quando olhei pra minha cargueira e resolvi fazer a travessia da Serra Fina na Mantiqueira. Já namorava essa travessia faz vários anos, mas nunca tinha calhado de dar certo fazer. Bom, em dois dias reuni o material de navegação necessário, chequei o equipo, passei no supermercado e pé na estrada. Já sabia que o verão não é a época recomendada pra essa trilha, por causa das tempestades que assolam toda Mantiqueira e que são ainda mais violentas acima dos 2.500 m de altitude. A previsão do tempo era de trovoadas esparsas o que achei de bom tamanho pra um janeiro...
      Pra fazer a travessia estudei as planilhas do S. Beck e do G. Cavallari (publicadas), levei a indispensável carta 1:50.000 de Passa Quatro, bússola e, como estava sozinho e queria me garantir, levei ainda um GPS com WP e Tracks carregados. Desnecessário dizer que equipo completo é obrigatório em função das viradas de tempo, então é bom estar preparado pra chuva e frio. Fiz em 4 dias, mas vi que mais leve dá pra fazer em 2, encurtando o tempo entre as fontes de água. É só uma questão de balancear os objetivos de cada um.
      1º dia
      Entrei no carro e rumei direto pra Toca do Lobo, que tem acesso 5 km depois da divisa SP-MG de quem vem da Dutra em direção a Passa Quatro (MG). São uns 15 km de subida que como estava seco o carrinho agüentou bem, mas recomendo deixar o carro na cidade e arrumar transporte traçado pra subir a serra. Cheguei na Toca por volta da uma da tarde, enchi os cantis (3,5L) que deveriam durar até o meio do dia seguinte e peguei a trilha rumo ao Capim Amarelo. Nenhum problema de navegação. O rumo é claro e a trilha bem marcada nesse trecho. Depois de umas 5 horas e meia eum graaaaaande desnível vencido já chegava no cume, fazia a janta e caía num sono bom.
      2º dia
      Amanheceu com o tempo fechado, visibilidade reduzida e na descida do Capim Amarelo já percebi que o verão tinha feito sua parte e a trilha já estava mais fechada, exigindo atenção , carta e bússola na mão pra não sair do rumo. Mesmo assim me desviei e também em função de distração minha não percebi que o GPS tinha se descalibrado... bom, problema detectado, problema resolvido, trilha reencontrada. Pra temperar veio um pouco de chuva, mas, sem grandes transtornos já chegava depois de umas 5 horas na fonte d’água. Almoço farto, muita água pra dentro e encarei a subida da Pedra da Mina por mais uma hora... chegando lá em cima, recompensa merecida, vista magnífica do vale do Ruah com o maciço de Itatiaia ao fundo. Isso durou umas 2 horas até o tempo começar rapidamente a fechar e a preparar um espetáculo de tempestade!!! Foi água pra ninguém colocar defeito!!! Por precaução não tinha armado a barraquinha no cume, mas num lugar mais protegido e não tive problemas de ser carregado pelo vento e jogado lá embaixo.
      3º dia
      Choveu a noite toda e tinha decidido pegar a trilha de descida do Paiolinho e interromper a travessia na metade. Afinal, pai de filhos pequenos tem que se cuidar... Mas... amanheceu com o tempo bom e não teve jeito, fui puxado em direção ao vale do Ruah coberto por capim elefante com rumo marcado pra atingir o Cupim de Boi e depois o Pico dos Três Estados. O que que é esse vale do RUAH!!! Coisa mais linda, parece uma savana africana, só faltam os leões e as girafas. O capim estava exuberante e... fechado. Mas a navegação não teve complicações, mais uma vez a desatenção junto com o crescimento da vegetação faziam perder a trilha facilmente e logo me via num emaranhado de capim dificílimo de transpor. Essa é uma tônica na Serra Fina: os rumos são claros, mas fora da trilha a passagem é muito complicada. Parabéns pra quem abriu essa travessia!!! Bom, depois de um bom banho no vale e reabastecer os cantis, cheguei rápido no Cupim de Boi e logo até o Pico dos Três. Lá pelas 4 da tarde vi o tempo fechar novamente e pensei que seria prudente acampar uma hora mais pra frente num ponto mais protegido conhecido como abrigo dos bandeirantes. Fiquei por lá mesmo. E o tempo fechou mesmo. E caiu água novamente!!! ê vidão!
      4º dia
      Aproveitei a noite pra coletar água e me esbaldar com o precioso líquido, amanheceu tempo fechado com um tímido nascer do sol, mas mesmo assim deu pra curtir o visual com toda a Serra Fina ao fundo e a vista perfeita de Itatiaia à frente. Era meu aniversário o que deu um tempero bom pro início da manhã. O último dia tem uma descida complicadinha logo de cara, mas a direção é certa, o Alto dos Ivos, e não tem como se perder. Em 2 horas chegava lá, e logo iniciava a descida final no meio da Mata, passando pelo espetáculo do bosque das bromélias, chegando na Fazenda e logo nas amenidades da civilização. Uma carona fácil até Itamonte (sorte???) e de lá, peguei ônibus de saída pra Passa Quatro (sorte???). Em Passa Quatro contactei o famoso Cipriano (35) 3371-1660 com sua Toyota e fui resgatar meu carrinho debaixo de muita chuva e muita paz de espírito.


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