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Lucas Ramalho

O Fim Do Mundo no Egito - 12/2012

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No começo de dezembro de 2012 estava na Jordânia e segui para o Egito. O ferry saíria às 23h, à 0h ou à 1h. Não se tinha uma idéia exata. Cheguei cedo para garantir meu lugar. Nenhum viajante à vista, apenas locais com centenas de quilos de muambas tentando ganhar a vida do outro lado do Mar Vermelho. A travessia durou uma hora, mas a viagem durou sete. Chegando no Egito não se podia desembarcar. Como que religiosamente, foi aguardado o nascer do sol. Às 5h, uma gritaria no convés me deu a impressão do armageddon, mas ainda era 2 de dezembro e o mundo só acabaria dia 21. Todos tentavam pegar as malas e muambas ao mesmo tempo. Por sorte achei a minha e me esquivando dos outros segui em direção à saída. Mais um pouco de espera e fianalmente pus os pés no Egito.

 

Fui para a famosa Dahab, berço egípcio do mergulho. A temperatura e as condições de visibilidade do mar vermelho garantem uma experiência sem igual. De fato eu tinha medo de mergulhar. Tentara uma vez na Bahia sem sucesso. Então decidi fazer o curso de mergulho para perder o medo. O curso dura cinco dias combinando o iniciante e o avançado. A parte teórica consiste na leitura de livros e vídeos explicativos. A parte prática começa à beira-mar. E logo o medo foi embora. No hostel conheci Lirón, da Dinamarca, e fizemos juntos alguns mergulhos. Os primeiros foram até 12 metros de profundidade. Já dava pra sentir a incrível paz de se estar no mundo submarino. O avançado consiste no mergulho a 30 metros tanto de dia quanto de noite. Na primeira vez que chegamos a essa profundidade, eu tive a famosa narcose nitrogênica, quando o cérebro fica saturado com o nitrogênio alterando os reflexos, o raciocínio e o poder de decisão. É quase como fumar um baseado, só que embaixo d’água. Eu fiquei tonto e sinalizei para meu instrutor Jay que algo estava errado. Ele rapidamente me levou para cima. A 12 metros eu recuperei um pouco o raciocínio. Mas ainda estava em pânico, com a pressão acelerada. Fui me acalmando pouco a pouco. Estes efeitos ocorrem com alguns poucos mergulhadores de primeira viagem que chegam próximo aos 30 metros. Eu fui premiado. Mas só ocorreu uma vez. Nos outros mergulhos profundos tudo se deu normalmente e eu achei fantástica a experiência. É algo para nunca se esquecer e para sempre se repetir. Dahab também é muito barata, os hotéis, a alimentação e o transporte. Nem parece que você está em um paraíso de tão barato que são as coisas. Até pela distância, é um lugar meio alheio ao que acontece em Cairo ou em outos pontos do país. Tanto que lá não se sentia os efeitos da turbulência pela qual passava o Egito na época entre a revolução de 2011 e o golpe de estado de 2013, no qual os militares, auxiliados pelos Estados Unidos, depuseram um governo legítimo e democraticamente eleito.

 

Eu continuei a viagem. Subi o Monte Sinai antes do nascer do sol. Lá, segundo reza a Bíblia, Moisés teria recebido as tábuas da lei diretamente do Senhor. Resta saber como ele comprovou a autenticidade das tábuas, mas isso é outra história. Fui então para Cairo. Uma cidade no mínimo caótica com um trânsito bem difícil de entender. Pra atravessar a rua, a dica era fechar os olhos, abrir o coração e seguir em frente hehe. Tudo era muito barato lá. Havia até um serviço similar ao bom prato e com apenas R$1,00 era possível comer. Visitei lugares bem interessantes. Primeiro e óbvio, as grandes Pirâmides de Gizé e a famosa Esfinge. São grandiosas e é possível entrar em algumas delas. Se o mundo acabasse, seriam um ótimo abrigo, porém faltavam alguns dias ainda. Já a Esfinge, apesar de colossal, não é tão bonita quanto se pinta nos filmes. Mas deixo para avaliação do leitor quando tiver a oportunidade de visitá-la. Fiz o passeio das pirâmides a cavalo e é realmente divertido andar por lá. Me sentia num faroeste caboclo. Escalei uma das pirâmides menores e consegui ótimas fotos. Cairo ainda conta com uma vila-cemitério urbana, com isso quero dizer que as pessoas moram no cemitério. Eu vi até escolas no local. Entrei em umas das tumbas e o rapaz explicou que dormia ao lado de um dos esqueletos. Chocante. Já o museu egípcio de Cairo é fantástico, mesmo para quem não gosta, há tantas relíquias e preciosidades que um dia apenas não é suficiente. Destaque para a máscara de ouro de Tutancâmon.

 

Era 19/12 quando peguei o super econômico trem para Aswan. São 16 horas de viagem sem serviço de bordo e sem escalas. Venha preparado. Como não tinha alimentos comigo, as outras pessoas do trem começaram a me oferecer comida. É como eu digo, as pessoas mais simples são as mais humanas e cordiais. Quanto mais rica, mais provável é que a pessoa seja sórdida e desumana. É óbvio que não é uma regra geral. Encontrei na cidade um grupo de conhecidos japoneses e eles me indicaram o hostel. Lá marquei a ida aos templos de Abu Simbel para o dia seguinte às 4h da manhã. Em uma van, fomos em dez pessoas. Eu sentei no fundo do carro e ao meu lado, uma russa, Victória. Estava sozinha e conversando descobri que ela também temia o fim do mundo. Tivemos afinidade imediata. Estava de férias havia dois meses e caso o mundo não acabasse, voltaria para a Rússia no dia 22. O templo é incrível e um prato cheio para quem gosta de história, com muitos hieróglifos nas paredes, estátuas colossais e uma visão panorâmica do Nilo sem igual. Após a visita, nós decidimos passar a última noite no deserto. Pegamos o trem para Luxor. Já era noite e tomamos um táxi com destino ao deserto, por mais estranho que isso possa parecer. O taxista não entendia o nosso destino. Perguntava onde ficava o hotel. Eu com o GPS apenas indicava as direções para ele, porém eu também não tinha muita certeza sobre o local. Após meia hora ele começou a ficar em pânico e já estávamos bem afastados de Luxor. Ao passar por uma rua de terra, um morador local perguntou o que ele fazia com dois viajantes por lá. Aí começou a confusão. O morador tinha poder de polícia e poderia fazer uma denúncia caso acontecesse alguma coisa conosco (veja como eles se importam com os viajantes). Após 20 minutos de discussão, o táxista já estava bem alterado e optamos por voltar para o centro de Luxor. Lá, levamos mais uma hora até achar um hotel decente. Hotel Nefertiti, nome perfeito. Caso acabasse o mundo, eu estaria nos braços de Nefertiti hehe. Eram 22h, e nós praticamente esquecemos de tudo, até mesmo do fim do mundo. Ele já poderia acabar e estaríamos felizes…

 

Mas ele não acabou. Diante dessa situação inesperada, a russa voltou para a Rússia no dia seguinte e eu, após participar de um casamento muçulmano em Luxor, peguei o avião nas vésperas de Natal para Nairobi começando então uma viagem por outra África, mais brutal, mais dura, mais abandonada.

 

Lucas Ramalho

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Irmão, que história massa!

Ainda na escola, quando comecei a estudar o Antigo Egito que tenho esse "sonho" de conhecer esse país. Sem dúvidas de que depois que eu conhecer à todos os lugares que pretendo aqui no Brasil minha primeira trip internacional será o Egito.

Ao decorrer da leitura pensei por um certo instante que você e a Victoria ficariam juntos, não só no sentido do passeio, mas juntos como um casal.

Que Deus lhe conceda muita saúde mano pra você continuar rodando por esse mundão.

Bons ventos em tua caminhada!

Aho.

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