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Thiago de Sá

Prado a Porto Seguro

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Outro companheiro nosso já descreveu a viagem dele aqui, nesse mesmo percurso, porém fazendo o sentido inverso.

Fiz a minha viagem no final de 1995. Estou iniciando a publicação, em alguns capítulos, no meu blog. Dêem uma olhada lá; o link está na minha assinatura.

 

bahia_web.jpg

O mapa

 

[]z,

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Fala Marcus,

 

seria muito bacana se vc pudesse colocar o texto na integra por aqui tambem, o que acha? Assim, mais pessoas poderiam compartilhar das suas experiencias e dividir eventuais duvidas!

 

Ate logo

 

Thiago de Sá

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Posso postar sim. Só não ponho tudo de uma vez porque estou digitando ainda os textos (na verdade, copiando dos meus diários).

Lá vai:

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26 de dezembro de 1995

 

A rodoviária do Tietê estava lotada, como em qualquer outro feriado. Estávamos o Piloto, a Fabi e eu embarcando para vinte e quatro horas de viagem até Itamaraju, no sul da Bahia. A viagem, num ônibus da Itapemirim, não teve nada de diferente. A cada oito horas, havia a troca de motoristas e o que entrava se apresentava para os passageiros.

 

Por volta das sete e meia da manhã do dia seguinte, chegamos a Itamaraju. Não era ali que começava o nosso programa de índio propriamente dito. Itamaraju não fica na praia, fica a uns cinqüenta quilômetros para o interior.

 

De Itamaraju, pegamos um ônibus para Prado. Chegamos lá por volta das nove e meia. Ali começava a aventura. Aproveitamos para colocar as nossas roupas de briga e guardar as mais apresentáveis para dali a duas semanas, quando chegássemos a Porto Seguro. Cada um se trocou de acordo com seu grau de pudor: a Fabi no banheiro de um restaurante, eu na praia e o Piloto em frente da igreja.

 

Paramos numa casa para pedir água. Enchemos nossos cantis e garrafas de Big Coke - uns quatro litros com cada um - e...

 

BAHIA2_web.jpg

O Piloto, a Fabi e eu em Prado

 

...LET'S ROCK!

 

A praia de Prado estava cheia de turistas. Até me causou certo espanto, pois eu nunca tinha ouvido falar da cidade antes.

 

Como sempre ocorre, o pessoal ficou olhando meio desconfiado para nós. Afinal, no calor da Bahia, com todo mundo quase pelado na praia, passamos nós, com mochilas, tênis, bonés, indo em direção ao fim do mundo.

 

Esse caminho apareceu numa edição da revista Terra. A reportagem nem tinha me chamado a atenção. Para mim, praia na Bahia significa carnaval, coisa na qual não sou muito afeito. Foi o Piloto que leu a reportagem e teve a idéia. Esse caminho que iríamos fazer é o inverso ao que Pedro Álvares Cabral fez quando chegou ao Brasil, quinhentos anos atrás. Dizem que português é burro, mas ele chegou a Porto Seguro e foi até Prado numa caravela - houve um pessoal que veio por terra - e com o vento a favor. Nós, inteligentes e capazes que somos, estávamos fazendo o mesmo caminho a pé e com o vento contra. Como a grande maioria das praias que iríamos passar é deserta, veríamos as mesmas paisagens que nossos amigos lusos viram há cinco séculos.

 

Andamos por duas horas e paramos num bar. O pessoal de lá perguntou se estávamos indo para Cumuruxatiba. Dissemos que sim e eles falaram que era muito, muito longe. Mal sabiam eles que Cumuruxatiba seria apenas a nossa primeira parada. Comemos uns salgadinhos com refrigerante, descansamos um pouco e seguimos em frente.

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Quando decidimos que iríamos fazer essa viagem, várias pessoas falaram que vinham. Só que a única que realmente encarou o desafio foi a Fabi. O problema é que ela nunca fez algo semelhante. E nunca mais vai fazer novamente, coitada... Andar feito uma mula, com uma mochila nas costas não é para qualquer um, principalmente se a pessoa tem um pouco de inteligência.

 

Assim, fomos seguindo pelas praias desertas (os turistas já tinham ficado bem para trás) do sul da Bahia.

 

Por volta das três e meia do tarde, chegamos à Praia da Paixão. Estávamos a uns dez quilômetros do ponto de partida. Paramos num bar para dar uma relaxada e fomos ficando. Tomamos um coco gelado e, como não tínhamos almoçado, fizemos nosso jantar bem cedo, por volta das cinco. O pessoal do bar era bem receptivo e o Piloto, aliando a sua característica cara-de-pau à boa vontade deles, já conseguiu o fogão, a água, as panelas e tudo o que eles tinham na cozinha. Jantamos arroz, strogonoff e água de coco.

 

Para compensar toda essa boa vontade do povo baiano, fomos intimados a jogar um beach soccer com eles. Não achei a idéia lá muito atraente. O Piloto e eu - a Fabi escapou dessa -, que além da cara, somos pernas-de-pau também, depois de andarmos com as mochilas naquele sol desgraçado e fazermos um jantar nababesco, jogando futebol? Mas, no final das contas, até que foi legal. Era só marra daqueles pescadores pezudos. Apanhei bastante, mas até marquei um gol. Falando em mochilas, antes de sair de casa, pesei a minha. Trinta e sete quilos! Um absurdo! Dava para levar uma pessoa ali dentro.

 

Depois do futebol e de um banho rápido e salgado no mar, resolvemos ficar por ali mesmo. Os baianos nos mostraram o melhor lugar para montarmos a nossa barraca.

Primeira noite na Bahia. A barraca da Ferrino, originalmente planejada para duas pessoas, não é ruim para três (ou pelo menos três pequenos, como nós). Viramos de um lado para o outro até acharmos uma posição boa. O bom de dormir na praia é que o chão é macio e não tem pedras.

 

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Acampando na Praia da Paixão

 

No dia seguinte, acordamos cedo, como todo mundo que acampa. Descobri um problema na barraca: uma barraca italiana não se adapta bem ao clima baiano. Às sete da manhã, ela já está um forno e temos que nos levantar.

 

Tomamos café e um banhozinho rápido numa nascente que encontramos na praia, a uns trezentos metros dali.

 

Por volta das dez horas da manhã, chegamos à praia do Tororão. Essa praia é teoricamente deserta, mas tem um acesso por estrada. Quando chegamos à dita-cuja, estava cheia de turistas. Era um bando de uma excursão, daquelas com uma guia sempre animada. Falamos um pouco com eles sobre a nossa aventura e seguimos adiante.

 

Paramos para almoçar às duas da tarde. Comemos bolachas, uma lata daquelas salsichas pequenininhas - "uns amores de salsicha", segundo a Fabi -, uns nacos de salame e tang de pêssego. Nessa parada, apesar de não prometer nada, entrei na água com o snorkel de mergulho. Já estava cansado de carregá-lo na mochila e não usar. Serviu só para engolir água salgada.

 

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Nosso local de almoço

 

Continuamos a andar. Passamos por uma canoa, com o coincidente nome de Fabiana. Passamos também por diversas bicas d'água e córregos. Isso foi bom porque não precisamos ficar carregando tanta água. A parte ruim é que se não quiséssemos molhar os calçados, tínhamos que parar e tirá-los a cada duzentos metros.

 

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As duas Fabianas

 

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Passando por uma falésia

 

A Fabi, coitada, foi ficando acabada. Andávamos, andávamos e nada de Cumuruxatiba aparecer. Foi escurecendo e nada. Comecei a ficar preocupado de verdade com a situação da Fabi. Ela não estava nada bem. Pensamos em parar por ali mesmo e seguir no dia seguinte, mas acabamos desistindo da idéia; seria melhor andar até mais tarde e chegarmos a Cumuruxatiba. Isso se a Fabi não morresse. Peguei a mochila dela e continuamos em frente.

 

Foi escurecendo e achei que íamos chegar ao fim do mundo, quando, de repente e não mais que de repente, surge uma luz no horizonte.

 

PS. No blog tem algumas fotos... Estou com preguiça de copiá-las pra cá agora. Depois eu edito a mensagem e acrescento.

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Mas o horizonte é longe.

 

Fomos andando em direção àquele ponto de luz que não chegava nunca. Enquanto andávamos, ficávamos imaginando como devia ser Cumuruxatiba. Essa era outra cidade de que também nunca tínhamos ouvido falar. De onde estávamos, só víamos uma luzinha fraca. Ficamos pensando que aquela devia ser a única luz da cidade e que íamos chegar num fim de mundo qualquer, sem lugar para comer ou dormir.

 

Depois de muito sofrimento, chegamos a Cumuruxatiba. Eram oito horas da noite e havíamos andado praticamente trinta quilômetros desde Prado. Se eu estava cansado, ficava imaginando como a Fabi estava se sentindo. Mas tudo tem seu lado positivo. Cumuruxatiba não é o fim do mundo. Quando estávamos na praia, víamos só uma luz porque existe um morro na frente. Depois que chegamos, vimos que a cidade tem ruas iluminadas, bares, restaurantes, pousadas e todas as outras coisas que um cristão merece para descansar.

 

Fiquei com a Fabi ali na entrada da cidade e o Piloto foi procurar um lugar para dormirmos. E não é que tinha até um Albergue da Juventude!

 

Fomos direto para lá. A mãe do Albergue foi muito legal conosco. Só a Fabi que tinha a carteirinha de alberguista; o Piloto e eu já tínhamos desistido dos Albergues. A dona quebrou o nosso galho e nos deixou ficar com o preço reduzido, mesmo sem carteirinha. E, como tinha pouca gente, ficamos todos juntos no mesmo quarto.

 

Tomamos um banho de verdade (eu já estava todo ardido das queimaduras de sol), comemos umas latinhas de feijoada e fomos dormir.

 

No dia seguinte, depois de uma revigorante noite de sono e do excelente café da manhã do Albergue, fomos para a praia. O cartão postal de Cumuruxatiba é um velho píer, caindo aos pedaços. Ficamos um tempo por lá. A praia não é das mais bonitas, mas a cidade tem o seu charme. Tanto é verdade, que estava entupida de gente.

 

Resolvemos ir para a Ponta do Corumbau, que era o nosso próximo ponto de referência, de barco. Afinal, eram cinqüenta e quatro quilômetros de praias desertas, sem nenhum atrativo especial, a não ser a própria praia.

 

Saímos pela cidade procurando um barqueiro que nos levasse até lá. Achamos três, conversamos, enrolamos e combinamos com um deles. Ele ficou de passar à noite no Albergue para acertarmos os detalhes. Mas tinha um problema, que podia ser grave ou não, dependendo do grau de religiosidade de cada um: o barqueiro era feio como o demônio. O Piloto disse, após uma análise criteriosa do formato dos pés dele, que podia ser o propriamente dito.

 

Voltamos, almoçamos uma maçaroca de Miojo e passamos a tarde no Albergue, dormindo e conhecendo o restante do pessoal que estava lá.

 

À noite, o protótipo do Belzebu apareceu no Albergue e combinamos a hora da saída. Para dar uma aliviada no preço, que eu não lembro qual foi, convencemos mais um casal e a Ana Autista a irem conosco.

 

Saímos para jantar e tentar ligar para casa. O posto telefônico de Cumuru é outra coisa pitoresca. A cidade tem poucos telefones que, durante praticamente todo o ano, dão conta do recado. O problema é quando chegam os turistas e todos eles querem contar suas aventuras pelo telefone. Fica aquele fudevu de caçarola. Não contente com isso, esse único telefone também recebe chamadas e a telefonista anota os recados para cidade inteira. Não é de se espantar que eu não conseguisse ligar.

 

Fomos jantar num restaurante bonitinho, o Isabel - que depois ficamos sabendo que era o mais caro da cidade. Em terra de sapos, de cócoras como eles. Resolvemos pedir uma moqueca. Na indecisão em pedir uma de dendê ou de camarão ou de qualquer outra coisa, pedimos a mista. Aliás, íamos pedir duas. Como o prato era para duas pessoas e estávamos com fome, achamos que daríamos conta das duas. O garçom do restaurante disse que era muito. Teimamos e ele disse que faria uma e meia e, se faltasse, ele traria mais. Pareceu justo.

 

A dita-cuja demorou e a fome aumentou. Mas quando chegou, vimos que podíamos estar com toda a fome do mundo que ainda não comeríamos tudo. Era um caldeirão de ferro pantagruélico, daqueles de bruxa, e a moqueca vinha borbulhando lá dentro, como se estivesse viva. Quando pusemos na boca então... Era ardida de sair lágrimas dos olhos.

 

Como a gente quebra, mas não verga, comemos tudinho, não deixamos nada. E quase que não conseguimos levantar das cadeiras depois. A Fabi disse que estava à beira de um piriri.

 

Voltamos correndo para o Albergue e dormimos o sono dos justos.

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tal como a viagem em sentido contrario, do Jorge, esta é uma grande aventura que gostaria de fazer; só que acho que a minha namorada nao ia aguentar mt tempo!

 

continua aí o relato Marcus; estou acompanhando.

 

um abraço.

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No dia seguinte, tomamos café e cedinho fomos para o barco, junto com o casal e com a Ana Autista. Ela não era autista de verdade, só que não falava muito, ficava no mundinho dela.

 

- Terra à vista!

 

A viagem de barco durou umas duas horas. O legal foi que vimos o Monte Pascoal, exatamente do jeito que Cabral deve ter visto.

 

A Fabi não gostou muito da viagem. Eu a vi se contorcendo e fui saber o que estava acontecendo. Ela estava louca para fazer xixi e o barco era bem simples, não tinha banheiro. Para os homens era mais fácil. Era só ir lá para trás, onde não tinha ninguém e mandar ver no mar mesmo, como eu fiz. Só tinha que tomar o cuidado de não cair ao mar com uma onda mais espevitada. Agora para as mulheres já ficava mais complicado por motivos óbvios. Ela já estava pensando em fazer ali mesmo e dizer depois que era suor.

 

Montamos o Plano B, mais audaz. Assim que o barco chegasse à praia, a Fabi sairia rapidinho do barco e daria vazão às suas águas místicas no mar. Eu ficaria encarregado de levar a mochila e as outras tralhas dela.

 

Plano pronto, era só esperar a chegada. De longe víamos o farol da Ponta do Corumbau, mas o desgraçado nunca chegava. Olhei para cara da Fabi e achei que ela ia por em prática o primeiro plano mesmo. E haja suor!

 

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A Fabi e eu no barco do capeta

 

Mas ela agüentou firme e nós chegamos à praia. O barco nem tinha parado ainda e lá estava a Fabi se lançando ao mar. O Belzebu não entendeu nada. Segundo depoimentos da própria, ela já estava desaguando antes mesmo de cair na água.

 

A Ponta do Corumbau era para ser outra praia quase que deserta. Mas tinha, ora vejam só!, até um hotel cinco estrelas.

 

De todo o trajeto, esse era o único local assinalado como um bom ponto de mergulho, cheio de recifes e com água limpinha. Não foi isso que vimos. Ficamos lá, lagarteando na praia, até umas quatro da tarde e então começamos a andar novamente.

 

BAHIA6_web.jpg

 

Dessa feita, a Fabi até que foi bem. Afinal tínhamos descansado por quase dois dias e só começamos a andar quando o sol já tinha baixado bastante.

 

Caraívas ficava a apenas quinze quilômetros dali, dava para chegar nesse mesmo dia. Mas achamos melhor dormir na praia mesmo. Afinal, Caraívas era definitivamente o fim do mundo, não tinha telefone, luz elétrica ou água encanada. Chegar lá às altas horas da noite não iria dar muito certo.

 

Passamos pela entrada da reserva dos índios Pataxó (daqueles que queimaram um em Brasília), andamos mais um pouco e montamos a nossa barraca.

 

Fomos andando e contando histórias de terror. No final, nosso acampamento, ficou bem camuflado no meio do mato, nós morrendo de medo de algum Pataxó ficar tentado a comer a Fabi e fazer o Piloto e eu de escravos ou vice-versa. Que idéia ridícula! De onde estávamos, já dava para distinguir mais ou menos onde ficava Caraívas. Não era longe.

 

PS. Uma foto só nossa, no barco. Está lá no blog, vou postá-la aqui...

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No dia seguinte, acordamos cedinho e começamos andar. O Piloto falou que uma amiga dele, a Cissa, iria estar lá em Caraívas e que, para achar a referida, tínhamos que estar de frente para a igreja e olhar para a direita; teria uma lua desenhada na porta. O detalhe é que quando ela deu essa explicação tão esclarecedora, estavam os dois bêbados e ele não estava muito certo de que era isso mesmo.

 

Por volta das nove horas já estávamos em Caraívas. Desisti de encontrar o fim do mundo aqui na Bahia. Caraívas, que não deixa de ser uma vila de pescadores, como eu já disse, sem água, luz ou telefone, estava entupida de turistas.

 

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Caraívas

 

Fomos andando pela cidade, procurando a casa da Cissa. Não foi difícil encontrar a igreja, mas para encontrar a casa da Cissa já são outros quinhentos. Olhamos para direita, para esquerda, para cima, para baixo, para trás, perguntamos para o povo e nada da lua e muito menos da Cissa.

 

Moral baixo, saímos em busca de um lugar para ficar. A Fabi ficou sentadinha perto da igreja, cuidando das coisas, enquanto o Piloto e eu saímos. Passamos por uns três campings, todos lotados, sujos e com a galera fumando umas paradas. Sem chance. Andando pela vila, cruzamos com a Maria Mariana, a tal que fez Diário de um Adolescente, Confissões de um Adolescente ou algo parecido (não sei se é um filme ou um livro). Aliás, só sei que era a tal porque o Piloto me mostrou as sobrancelhas protuberantes dela.

 

Missão não cumprida, voltamos para a igreja.

 

Dessa vez, saíram o Piloto e a Fabi para comprar água mineral e eu fiquei ali guardando as coisas.

 

Saiu uma menina da casa bem onde eu estava sentado. Fiquei lembrando de como o Piloto tinha descrito a Cissa: baixinha, mas não muito; cabelos compridos claros, mas não loiros; olhos puxados, mas não orientais e com um nariz meio assim. Fiquei olhando para menina. Com uma descrição tão precisa, não tinha erro:

 

- Cissa?

 

Ela olhou!

 

- Oi! Você é a Cissa?

 

- Sou.

 

- Da FAU?

 

- É. Por quê?

 

- Amiga do Renato?

 

- Como você sabe?

 

Grande Marcus! Achei a Cissa sem nunca antes tê-la visto! Quando o Piloto e a Fabi voltaram, eu já estava até tomando café com a Cissa e o Robson, outro amigo do Piloto. A tal da lua era um desenhozinho fajuto, feito com uma caneta Bic, no batente da porta.

 

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Nós e a Cissa

 

A nossa idéia inicial, já que não somos bobos nem nada, era ficar na casa, junto com a Cissa. O problema era que, além dela e do Robson, estava lá também uma outra mulher, que não foi muito com a cara da gente. Também sem chance.

 

Conversa daqui e dali, conseguimos um quintal de um morador local para montarmos a nossa barraca. E ele tinha o mais precioso dos bens de Caraívas: uma torneira que saía água!

 

Nosso almoço foi na padaria da cidade. Havia três lanches diferentes no cardápio: pão com queijo, pão com presunto e pão com queijo e presunto.

 

Mais para o final da tarde, fomos para praia. Achamos estranho que já estava todo mundo voltando, mas tudo bem. Quando chegamos, vimos que não estava tudo bem. Todo dia, mais ou menos àquela hora, soprava um vento muito forte na praia, areia voando, uma beleza. Para não perder a viagem, ficamos lá assim mesmo.

 

Próximo à praia passa o rio Caraívas e a melhor praia fica do outro lado. Ali, fica uma garotada que ganha a vida levando o pessoal de um lado para o outro de canoa. Claro que fomos nadando.

 

Aproveitando a ventania, apareceu um coroa com uma pipa enorme, de um metro e meio mais ou menos, e começou a empiná-la. No início, ele conseguiu controlá-la, aproveitando para mostrar os músculos para as meninas que ainda se arriscavam a permanecer na praia, se achando o tal. Só que passou um tempo e a pipa começou a arrasta-lo e lá se foi o coroa embora. Como eu sempre digo, passarinho que come pedra, sabe o tamanho do olho que tem.

 

Mas quando todos achavam que o espetáculo havia terminado, o cidadão conseguiu controlar a pipa de novo, se jogou de barriga no mar e saiu esquiando! A pipa o levou para o outro lado do rio e ele foi-se embora para a cidade. Vou morrer e não vou ver tudo...

 

Voltamos, tomamos um banho de torneira e fomos jantar. Dessa vez, foi no restaurante da Dona Fia. Novamente moqueca. O negócio em Caraívas é bem informal, para não dizer outra coisa. Jantamos na varanda da casa da dona, à luz de lampião. A filha dela saiu para comprar o refrigerante na hora em que pedimos.

 

Quem está contando os dias desde a primeira página, sabe que estamos em 31 de dezembro, o último dia de 1995.

 

Pois é, voltamos para a barraca, dormimos um pouco e, lá pelas onze e meia, fomos para a praia, para a passagem do ano. O point de Caraívas é o Pachá, o barzinho mais ajeitado da praia. É onde a galera se concentrou para entrar em 1996.

 

Meia-noite, fogos, pulamos sete ondas, tudo como manda o figurino. Feliz ano novo!

 

Ficamos com um pessoal sentados em volta de uma fogueira. Havia um cara com um violão tocando as infalíveis músicas do Legião e do Rauzito. Lá pelas duas, voltamos para a barraca.

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