Ir para conteúdo
  • Faça parte da nossa comunidade! 

    Encontre companhia para viajar, compartilhe dicas e relatos, faça perguntas e ajude outros viajantes! 

Posts Recomendados

  • Membros

Este é meu primeiro relato. Não tenho o costume de escrever sobre minhas trilhas, mas esta é uma aventura que merece ser contada, que deve ser compartilhada com as pessoas que gostam de trilha, para que possam ter ideia de quanto é bela e desafiadora fazer esta travessia.

 

Saindo de Sampa

Combinamos de nos encontrar na estação da Barra Funda por volta das 22:30, na quarta feira que antecedia o feriado de Corpus Christi. Encontrei com o Adilson na estação de Santo André e de lá partimos para Barra Funda. Para variar, fomos um dos primeiros a chegar, logo em Seguida chegou o Daniel, e depois foi chegando o resto da galera. De um grupo de 15 pessoas eu conhecia apenas o Fúlvio, Daniel, Adilson, Ronaldo e Furtado, as outras pessoas eu nunca tinha visto (esta é a parte legal do trekking, sempre conhecer pessoas novas).

Depois que todos chegaram (quase todos) pegamos a Van que nos levaria até Passa Quatro, onde seria o inicio da trilha, mas antes passaríamos por Pinda para pegar o casal que faltava (Douglas e Ju).

 

Dia 1 – O Erro

Chegamos no inicio da trilha em Passa Quatro por volta de 5:30 da manhã de quinta-feira. Ainda estava escuro, vários grupos chegando. Pegamos nossas lanternas e seguimos a trilha. A trilha já começa com uma subida, onde o grupo que era de 15 pessoas começou a se separar. Havíamos combinado que os mais rápidos iriam na frente com as barracas para conseguir lugar nos pontos de camping, que por sinal eram bem disputados. Já estávamos cientes disto, por se tratar de feriado prolongado sabíamos que haveria muita gente na trilha.

Na linha de frente estavam Eu, Adilson, Ronaldo, Daniel e Furtado (mais a frente o Clayton iria se juntar ao nosso grupo) e o restante do pessoal ficou no grupo de trás, sendo que o Fúlvio estava com um rádio para se comunicar com nosso grupo que estava à frente.

Seguindo a trilha, não é preciso caminhar muito para chegar até a toca do lobo, onde se encontra o primeiro ponto de água e onde fica o caminho para prosseguir na trilha. É preciso atravessar o rio que fica a direita e começar a subir a pirambeira. A maioria de nós não pegou água neste primeiro ponto, visto que já estávamos com água e até aquele momento ninguém havia consumido quase nada. Para minha infelicidade, quando fui atravessar o rio que é bem raso, pisei em uma pedra que estava solta, perdi o equilíbrio, e para não cair dentro da água de uma vez meti os dois pés dentro da água... Ok, vamos lá, quem disse que eu queria fazer a trilha com o pé seco? Com emoção é melhor #SQN.

IMG_4980.JPG.0fd4828a0c5d7c22d34e2af31959f876.JPG

A partir deste ponto é só subida, subida, subida e... mais subida. Quando o dia amanheceu já era possível ver os tapetões de nuvens, o que nos da um pouco mais de fôlego para continuar subindo. Depois de algum tempo subindo, paramos para descansar, onde outra parte do grupo nos alcançou. Ficamos alguns minutos tirando fotos, comendo e tomando o café que o Adilson acabava de fazer, para partimos logo em seguida. Neste momento o Wagner (Que era o único que já havia feito a trilha anteriormente) falou para gente esperar que ele iria nos mostrar onde ficava o próximo ponto de água. O pessoal que estava na dianteira disse que iria esperar um pouco mais a frete, mas quando eu vi, eles já estavam lá no alto da pirambeira. Camelei um pouco até conseguir alcança-los, a subida vai ficando cada vez mais íngreme, e o fôlego acabando cada vez mais rápido, mas o Adilson me esperou e acabamos conseguindo alcançar os outros.

Seguindo Pirambeira acima, começamos a subir uma parte bem íngreme e com lama, onde era possível ver no rosto de várias pessoas o desespero, e era quase possível escutar elas dizendo para si próprias “O que eu estou fazendo aqui”? Neste momento nosso estomago já roncava de fome, foi quando decidimos parar para comer. Não foi o lugar ideal pra parar, bem no meio do caminho, em uma subida onde o pessoal chegava com a língua de fora pensando “Viva, eu consegui” e davam de cara com a gente fazendo nosso lanche... Fazer o que, a fome falou mais alto. Neste momento o Clayton nos alcançou, e começou a nos acompanhar. Agora estávamos em seis pessoas, continuamos a subir mais uma pirambeira (Notaram como eu falo pirambeira com frequência?) para enfim chegar o alto do Capim Amarelo. Ficamos parados por alguns minutos lá em cima, e parte do grupo começou a chegar. Em comunicação através do rádio, descobrimos que o pessoal que estava no final do grupo estava bem longe da gente. A ideia era espera-los para prosseguir, mas estavam muito longe, e nós seis que estávamos na frente tínhamos como pretensão acampar na Pedra da Mina, e conseguir lugar para os que estavam vindo logo atrás (mera ilusão).

IMG_4991.JPG.a35c2425066210ab594411c9437dfda9.JPG

Saindo do Capim amarelo, descemos pirambeira abaixo. Descida bem ingrime, super fácil de descer rolando. O esquema é segurar nos capins e bambus laterais pra não descer de uma vez. Tem também algumas pedras soltas, inclusive o Adilson pisou em uma sem querer que desceu rolando e acertou meu tornozelo, era tudo que eu precisava naquele momento! Haha.. Mas continuamos descendo até finalmente chegar ao ponto de acampamento do Maracanã. Nosso próximo ponto de água seria na cachoeira vermelha, segundo informações não demoraria a chegar, mas estávamos andando que nem loucos e nada de chegar nesta tal cachoeira. Neste momento nossa água já estava escassa. Posteriormente descobrimos que perto do acampamento do Maracanã tinha um ponto de água, mas até então, para nós não tinha validade alguma, já estávamos bem longe dali...

Quando começamos a subir em direção ao Melano, alguns urubus começaram a dar rasantes em nossa direção. Será que estavamos fedendo tanto assim? Era apenas nosso primeiro dia senha banho! rs, mas o Furtado, em reação ao ataque do Urubus atirou uma bolacha Negresco que quase acertou o pobre coitado do Urubu, demos muita risada! Kkkk. Seguindo em frente, alcançamos o Melano, local onde perecebi que estava já estava ficando sem forças. Em um trecho que é preciso subir com corda, tive muita dificuldade para subir, coisa que com energia faria muito fácil. Neste mesmo local, entramos em contato com o Fúlvio pela ultima vez e descobrimos que estávamos a mais de 2:30 a frente deles. Encontramos um amigo do Daniel que estava fazendo a travessia no sentido inverso, e nos disse quanto tempo seria necessário para chegar até o próximo ponto de água e para alcançar o cume da pedra da Mina. Deste modo, tivemos certeza que não seria mais possível espera-los e tampouco eles conseguiriam nos alcançar. Devido a um erro de planejamento, tivemos que passar a primeira noite separados e sem comunicação. A bateria do radio tinha acabado e não tínhamos comunicação com a outra parte do grupo. Não sabíamos como estavam, se tinham água, ou se estavam bem. A única coisa que nos restava a fazer era alcançar o cume da Pedra da Mina e espera-los por lá. Após andar um pouco mais, finalmente avistamos a tal cachoeira vermelha, que não chegava nunca. Avistamos um descampado próximo à cachoeira, onde montamos nossas barracas antes de escurecer e fomos nos abastecer com água do rio. A nossa frente estava a Pedra da Mina. Avistamos varias lanternas lá em cima, mas estávamos exaustos pra atacar o cume no mesmo dia e era bem provável que não teria lugar pra acampar no cume. Foi aí que descobrimos nosso erro, de nada adiantou termos acelerado na trilha, pois nem todos conseguiriam alcançar o rio vermelho, e por ser em um local baixo, perdemos o por do sol. Acampamos ali mesmo, fizemos uma pequena fogueira que nos manteve aquecido por um tempo. Com o eu havia molhado a meia no começo da trilha, estava com muito frio nos pés, estava batendo 5°, troquei a meia por uma seca, mas como minha bota também estava molhada, acabei molhando a única meia que tinha seca. Mesmo com a fogueira, não estava suportando o frio porque meu pé estava molhado, resolvi ir deitar. Discutimos sobre o que fazer no dia seguinte e fomos dormir. O Adilson me emprestou uma meia seca extra que ele tinha e todos fomos dormir. Fez muito frio durante a noite, mal consegui dormir, mas o dia seguinte prometeria.

IMG_5030.JPG.76bedb6e0579ce9e9bf657cc7321d149.JPG

Dia 2 – As aparências enganam

Acordamos por volta das 5:30 da manhã e resolvemos atacar o Pico do Tartarugão que estava próximo a cachoeira vermelha, onde estávamos acampados. Ainda escuro, pegamos nossas lanternas e começamos a correr que nem loucos na esperança de conseguir ver o nascer do sol. Estávamos no meio do vale, e nossa única chance de ver o nascer do sol era conseguir subir em algum dos picos que estavam ao nosso redor. Pedra da Mina impossível, não daria tempo, então fomos em direção ao Pico do Tartarugão. Procuramos trilha, e nada... então atravessamos o rio e começamos a varar mato no campim elefante. Este foi um dos momentos mais engraçados da nossa travessia, nossa luta contra o capim elefante. Vira e mexe alguém afundava no capim elefante, ou desparecia metendo o pé nos vários charcos que existiam escondidos no meio do capim. Depois de um tempo, alcançamos uma parte mais elevada, onde o Adilson, Clayton, Daniel e eu resolvemos ficar por lá mesmo, já que acreditávamos não ser mais possível alcançar o cume do Pico do Tartarugão em tempo de ver o nascer do sol. Ronaldo e Furtado continuaram subindo, pelo lado do “casco” do Tartarugão e conseguiram ainda pegar o finalzinho do nascer do sol. Nós subimos pela parte da cabeça do Tartarugão, fazendo uma escalaminhada pelas pedras.

Encontramos com o Ronaldo e Furtado no cume do Tartarugão e aproveitamos para tirar fotos e curtir o belo visual. Dos seus 2595 metros de altitude, se tem um linda vista em 360° onde é possível ver todas as montanhas que estão ao seu redor, como Marins, Itaguaré, Pedra da Mina, Pico dos 3 Estados, Alto do Capim amarelo e por aí vai...

Depois de algum tempo lá em cima, apareceu mais um trilheiro, que pediu para tirar uma foto conosco, para provar aos amigos dele que haviam pessoas lá em cima. Ele também comentou que estava acampado perto da cachoeira, e que nos havíamos acordado ele! rsrs. Normal, faz parte!

Após a sessão de fotos ele desceu, e nós permanecemos lá por mais algum tempo, não havia necessidade de correr, pois como estávamos horas a frente do restante do grupo, teríamos que ficar o dia todo na Pedra da Mina. Só não queríamos subir muito tarde para não correr o risco de não arrumar lugar para montar acampamento.

Sendo assim, começamos a descer, para em seguida atravessar o temido vara mato de capim elefante. Desta vez consegui gravar um vídeo do Daniel afundando no Capim, ficou hilário, dou risada toda vez que vejo o vídeo. Seguimos até alcançar novamente a cachoeira, e vimos que algumas pessoas já estavam por alí se abastecendo de água, e percebemos que deveríamos acelerar o passo se quiséssemos arrumar lugar para acampar no cume da Pedra da Mina. Tomamos um café bem rápido, desmontamos acampamento, pegamos água, e começamos a subir em direção ao cume da Pedra da Mina por volta das 10:00 da manhã.

IMG_5134.JPG.4e481ce6b55c6dde8f8dad6290f239ab.JPG

A subida é íngreme, e notávamos que estava rolando um tipo de corrida para conseguir lugar para acampamento. Durante a subida encontrávamos algumas pessoas que estavam cansadas e fazíamos nossa parte incentivando-os a continuar. O Clayton disparou na frente, enquanto Eu, Daniel, Ronaldo, Furtado e Adilson subimos um pouco mais devagar, e quando chegamos lá conseguimos o que seria um dos melhores lugares para acampar, cobiçado por vários grupos que chegavam depois e olhavam para nosso acampamento, com o desejo de ter chegado antes e conseguir aquele lugar. Conseguimos dois pontos de acampamento, mas ainda precisávamos arrumar lugar para o restante do grupo que estava por vir. No cume não existia mais espaço, então fomos procurar lugar na parte mais baixa, que é onde fica o acesso para a trilha do Paiolinho. Com uma pazinha que ao Adilson levava em sua mochila conseguimos dar uma ajeitada em dois pontos de acampamento. Em um deles já deixamos a barraca do Fulvio montada, e no outro o terreno preparado para a chegada dos nossos amigos. Estávamos preocupados, pois havíamos perdido a comunicação com eles no dia anterior, e nossa ultima noticia era que dois deles tinham passado mal, e ficamos preocupados pensando que eles poderiam estar sem água. De vez em quando avistávamos grupos bem longe, e eu tentava através do zoom da câmera ver se eram eles, mas nada, nem sinal. Este foi um dos dias mais tranquilo, como chegamos cedo no cume da Pedra da Mina deu para fazer bastante coisa: Cozinhamos, Ronaldo e o Furtado foram procurar lenha, tiramos bastante fotos, e é claro, fomos deixar nosso registro no livro do cume. O dia estava lindo, visibilidade perfeita, era possível avistar de longe alguns picos do Parque do Itatiaia, como o Agulhas Negras e Prateleiras. De lá era possível também avistar o vale do Ruah, muito belo visualizado de cima, mas chegando nele a historia é totalmente outra...

IMG_5258.JPG.d6818001506cef7bfd9b4c1cbe9b2ca9.JPG

Estávamos nos felizes, certos de que desta vez conseguiríamos ver o por do sol, quando de repente começa a baixar a neblina e ventar. Lá se vai embora novamente nossa chance de ver o por do sol, e com a chegada do final do dia o restante do grupo começou a chegar. Descemos parte da trilha da Pedra da Mina para ajudar a carregar a mochila de alguns dos nossos amigos que estavam chegando. Estávamos descansados e eles exaustos, pois tocaram direto até aquele ponto. Ajudamos o pessoal a montar as barracas e nos reunimos próximo a barraca em que eu Adilson e Ronaldo iriamos dormir, pois havia uma pequena mureta feita de pedra para proteger do vento e um belo espaço para cozinhar. Fizemos uma pequena fogueira, preparamos nosso jantar, e até pipoca estouramos. O Céu estava meio encoberto, as vezes abria e era possível ver o mar de estrelas. Tivemos a sorte também de ver uma lua maravilhosa surgindo entre as montanhas, toda alaranjada, exibindo toda sua beleza. Acabado os comes e bebes, fomos dormir, a temperatura estava abaixo dos 5°, e ventava muito. A noite foi longa, o vento parecia que ia levar a barraca embora. As paredes da barraca ficaram úmidas e molharam os sacos de dormir. Foi uma péssima noite e foi então que descobrimos que o lugar que parecia ser perfeito não era tão perfeito assim...

 

Dia 3 – O temido vale do Ruah

Após uma terrível noite, ainda estávamos na esperança de ver o nascer do sol. Tentei olhar pra fora da barraca, mas estava tudo cinza, frio e um vento muito forte. Novamente perdi as esperanças de ver o nascer do sol, nem quis sair de dentro da barraca. O Furtado saiu da barraca dele que estava a poucos metros da nossa e ficou lá fora gritando para todo mundo acordar. Eu acho que o pessoal que estava nas outras barracas não ficaram muito felizes com isto! Hahaha

Vimos um grupo passando por nossa barraca, e depois voltaram dizendo que estava perigoso descer a pirambeira da Pedra da Mina indo sentido ao vale do Ruah, devido ao mal tempo.

O Adilson fez (mais) um café dentro da barraca, que tomamos junto com algumas bolachas, desmontamos o acampamento correndo, o vento estava muito forte, deu trabalho, arrumamos nossas mochilas e partimos. Chamamos o Clayton, Furtado e Daniel que estavam próximos a nossa barraca, mas eles disseram que iriam esperar o tempo melhorar, os outros não chamamos porque estavam acampados longe da gente, e por terem chegado tarde na Pedra da Mina imaginamos que iriam querer dormir até mais tarde. Com o pessoal ciente de que estávamos indo na frente, começamos a descer a pirambeira da Pedra da Mina. Haviam vários grupos descendo, incluindo o grupo que tinha abortado a descida, mas voltaram atrás. Senti-me em um dos filmes do Senhor dos Anéis, várias pessoas descendo uma pirambeira no meio do nada, visibilidade quase zero, e um vento forte, cortante, batendo no rosto e que podia nos derrubar se houvesse qualquer vacilo. O pessoal estava descendo muito devagar, conseguimos ir cortando a fila ate tomar a dianteira, um pouco mais abaixo encontramos um grupo acampado em um lugar mais protegido do que o cume, mas mesmo assim eles disseram que a noite deles também não havia sido fácil. Continuamos a descer até chegar ao inicio da travessia do Vale do Ruah. Encontramos um grupo que estava desmontando acampamento, e pedimos informação para o Nilson, que viriamos a conhecer melhor mais a frente na travessia. O Nilson falou que para seguirmos a trilha, deveríamos ir para a esquerda, o problema era que tínhamos que ir pra esquerda e depois continuar em frente, e não continuar seguindo para a esquerda. Fomos nos embrenhando no meio do Capim elefante, e desviando dos charcos quando possível. Quando nos demos conta, já estávamos no meio do nada, dentro daquele verdadeiro labirinto, sem visualização alguma, devido a densa neblina que dominava o local. Se tivéssemos visualização, seria fácil prosseguir, pois a subida para o Cupim do Boi seria a montanha que estaria bem a nossa frente, mas nossa visualização era zero, escutávamos apenas vozes de pessoas dos outros grupos, mas era impossível saber de onde vinham. Conseguimos sinal do GPS do celular, e após afundar os pés por diversas vezes nos charcos avistamos o grupo do Nilson, que estava procurando o caminho para prosseguir na trilha. Assim, alcançamos o Rio Verde, nos abastecemos de água, e prosseguimos a trilha, agora sem maiores problemas, pois era só ir acompanhando a margem do rio.

Encontramos diversos grupos mais a frente do rio pegando água, continuamos e paramos na parte mais a frente do rio para escovar os dentes e descansar.

IMG_5329.JPG.4f973abd939b66757740076164272e52.JPG

Na pressa de fugir do cume da Pedra da Mina não havia tido tempo de fazer isto ainda. Prosseguimos com a trilha, abandonando o rio e começando a subir em direção ao Cupim do Boi. Finalmente chegamos a uma área de acampamento bem plana, e ótima pra descansar depois de subir a pirambeira. Ficamos em duvida se deveríamos prosseguir, ou esperar pelos outros. Havíamos avisado que estaríamos esperando em um local protegido do vento, abaixo do cume da Pedra da Mina, mas a empolgação nos fez prosseguir. Sendo assim, resolvemos esperar um pouco na área de camping. Deitamos em nossas cargueiras e depois de alguns minutos vários grupos começaram a passar por nós, todos que passavam seguiam no sentido errado da trilha, e nós ficávamos ali indicando o caminho correto. Vários grupos paravam para descansar e conversar conosco, foi onde fizemos amizade com o grupo do Nilson, e com o grupo da Erika e Analú. Conversando com os grupos, chegamos a conlusão de que o melhor lugar para acampar seria na parte baixa do capim do Boi antes das base do Pico dos 3 estados. Como as meninas estavam indo na frente, pedimos para elas guardarem lugar no acampamento para nós em troca do café do Adilson, tudo na base da brincadeira, rs!

Depois de algumas horas esperando, encontramos o Wagner, Douglas, Ju e Amanda. Eles haviam nos informado que os outros nem tinham saído do cume da Pedra da Mina quando eles começaram a descer. Com esta noticia, decidimos seguir a trilha em busca de acampamento, disparamos na frente até que os outros grupos sumiram de vista. Continuando a trilha, Eu, Ronaldo e Adilson estávamos num ritmo bem acelerado. Chato como sou, cheguei a dar uma reclamada dizendo que não havia necessidade de corrermos tanto, visto que o resto do grupo estava bem atrás, e tínhamos apenas uma barraca para montar acampamento. De nada adiantaria chegar cedo para guardar lugar sem barracas, diferente do que havíamos feito no primeiro dia. Eu disse também que queria tirar umas fotos, e curtir um pouco mais a trilha. O tempo estava começando a abrir, e eu queria tirar algumas fotos. Já estava meio desanimado em trilhar o dia todo com o tempo fechado, e já não tinha esperança de arrumar um bom lugar para acampar. Duas noites sem dormir mexem com o físico e psicológico. O pessoal concordou, e fomos um pouco mais devagar até chegar em outro ponto de acampamento, onde paramos para almoçar. Preparamos alguns Cup Noodles, e o Adilson fez (mais) um café. Estávamos ali no silencio, somente nos três quando escutamos o chão vibrando, como se fossem pessoas correndo. Não demos muita atenção, mas minutos depois ouvimos o mesmo barulho, ficamos em alerta, esperando que algo fosse sair da mata que nos rodeava. O Ronaldo em silencio falou pra que eu deixasse a câmera engatilhada. Escutamos o barulho novamente, mas depois sumiu. Logo apareceram o Daniel, Furtado e Clayton, que se juntaram ao nosso grupo que já estava bem próximo a subida do Cupim do Boi. Subindo a crista do Cupim do Boi, avistamos um vale, todos ficaram maravilhados com a vista e é claro que começou a sessão de fotos.

IMG_5344.JPG.e1b30d91225f78665680d250f2feba20.JPG

Já no alto do Capim do Boi já era possível avistar o Pico dos 3 Estados, e algumas pessoas que já atacavam seu cume. Começamos a descer uma pirambeira, e no final dela adentramos em um bambuzal. Encontramos algumas pessoas montando acampamento e perguntamos se haviam mais locais para acampar a frente. O rapaz informou que havia, mas eles não quiseram ficar porque não daria para ficar todos juntos. Disse que um grupo havia chegado antes, e ficamos preocupados em não conseguir lugar para ficar. Não seria possível subir para acampar no cume do Pico dos 3 Estado. Se estava tarde para nós, imagina para o restante do grupo que havia ficado para trás? Arriscamos e quando chegamos na área de acampamento, para nossa surpresa tínhamos um lugar garantido para acampar. Lembram do grupo que havíamos oferecido café em troca de lugar? Pois é, as meninas reservaram um lugar para gente. Na minha opinião este é o melhor lugar de acampamento de toda a travessia. Chão plano, forrado de folhas e todo protegido pelas arvores e bambus. Conseguimos montar nossas duas barracas, e arrumar lugar para o restante do grupo que estava por vir. Quando estávamos terminando de montar nossa barraca, o Furtado chega e torce o pé, bem quando pisa no acampamento (Coisas que só ele consegue fazer rs). Perguntamos sobre o Wagner, Douglas, Amanda e Ju que tínhamos encontrado no meio da trilha, mas ninguém sabia deles. Podíamos jurar que eles não haviam passado por nós durante a trilha. Montamos nossa barraca, e deixamos o sobre teto e as outras coisas secando, que estavam molhadas devido ao mal tempo que havíamos enfrentado na noite anterior. Uma das primeiras coisas que o Adilson fez, foi fazer o café prometido, e serviu a todos que estavam com vontade de toma-lo. Antes de chegar neste ponto, estava desanimado. Tempo ruim,roupas molhadas, duas noites praticamente sem dormir, mas chegando no acampamento parece que tudo começou a melhorar e dar certo. Novamente comecei a me empolgar e as coisas começaram a dar certo. O tempo melhorou, estávamos protegidos do vento, e tinha a esperança de que finalmente conseguiria dormir. Enquanto ajeitávamos nossas coisas, o Ronaldo juntou galhos secos que haviam pelo chão para fazer uma fogueira durante a noite. Fizemos um jantar coletivo, cada um cedendo algo e o Adilson como chefe de cozinha e contando com a ajuda de algumas pessoas. Acendemos a fogueira com os devidos cuidados, e fizemos um belo de um banquete, nunca havia comido tão bem em um acampamento. Até tapioca e outros doces foram servidos, acabou virando o “Arraial do Adil” como alguns comentaram. E até minhas meias e botas que estavam molhadas consegui secar na fogueira. De fato as coisas estavam melhorando, e eu sentia que o dia seguinte seria ainda melhor.

IMG_5351.JPG.a3ffd21be3b5206c1a986712d018d31b.JPG

Dia 4 – Pico dos 3 Estados e o Bambu

Finalmente depois de dois dias sem conseguir dormir, uma bela noite de sono. Roupa seca e local protegido do vento, contribuíram para que isto acontecesse. O Adilson até disse que eu ronquei rs.

Havíamos combinado na noite anterior que caso o tempo estivesse bom pela manhã, iriamos tentar ver o nascer do sol do cume do Pico dos 3 Estados. Por volta das 4:00 da manhã escutei o pessoal do outro grupo desmontando o acampamento e vi que o tempo estava bom. Acordei o Adilson para ver se ele iria tentar atacar o cume do Pico dos 3 Estados, e de prontidão ele topou. Gritamos o Clayton que estava na barraca ao lado com o Daniel e eles também toparam. Demos umas beliscadas numas bolachas, avisamos o Ronaldo e o Furtado que iriamos partir e logo mais todos estavam de pé. Recolhemos nosso lixo, e partimos em direção ao cume do Pico dos 3 Estados. O inicio da trilha é bem Íngreme, e como o grupo que saiu antes da gente era grande a subida foi lenta. Começamos a subir por volta das 5:00 e a medida que íamos subindo o ceu começava a ficar avermelhado, dando indícios do nascimento do sol. Após subir um pouco, o grupo que estava na nossa frente nos deu passagem. Foi então que Eu, Clayton e Adilson assumimos a dianteira. Uma trilha que não conhecíamos, onde nos guiávamos apenas com o auxílio das luzes de nossas head lamps, disparamos no desespero de não querer sair da travessia sem ter visto ao menos um nascer do sol. Em poucos minutos já estávamos subindo a pirambeira dos 3 Estados, e avistando várias lanternas cada vez mais longe da gente. Uma cena muito bonita, varias luzes abaixo de nós e o céu ficando alaranjado. Subimos como se fossemos corredores de montanha, me sentia muito bem. Tinha conseguido dormir na noite anterior, me alimentado bem e com a cargueira bem mais leve. Estava voando na trilha. Chegamos antes do amanhecer e antes do sol começar a surgir, e ainda conseguimos um camarote no disputado espaço do estreito cume para conseguir ver o sol nascer.

IMG_5413.JPG.82025a15d5604b1f4cdc5a0961a8e590.JPG

Após contemplar o lindo espetáculo, admirar a linda vista do cume dos 3 Estados e tomar (mais) um café preparado pelo Adilson, nos preparamos para descer. Novamente voltamos ao sobe e desce, desta vez partindo para o nosso ponto de resgate. Começamos a descer a pirambeira e comecei a sentir calor, paramos para tirar as camadas de roupa e seguimos em frente até chegar na parte baixa onde mais a frente encontramos o Wagner, Amanda, Douglas e Ju. Eles passaram nossa frente em algum ponto do dia anterior. Provavelmente quando paramos para fazer os Cup Noodles, eles decidiram tocar direto subindo o Pico dos 3 Estados, e desceram para acampar no descampado da parte de baixo. Não deve ter sido uma boa escolha, pois segundo eles pegaram muito frio e vento. Paramos para o Adilson fazer (mais) um café, e o pessoal comeu as tapiocas preparadas pelo Wagner. Logo à frente teríamos que enfrentar uma parte de escalaminhada, que aparentava ser bem perigosa. Até que uma das pessoas que estava vindo e iria passar no mesmo local nos informou que eles estavam indo pelo lugar errado. Quando estávamos de saída, notei que o meu corta vento não estava na mochila. O Ronaldo se prontificou a voltar comigo para procurar na trilha, mas para nossa sorte um grupo havia encontrado e estava procurando o dono. Fiquei muito contente e agradeci várias vezes o pessoal. Desta vez guardei o corta vento dentro da mochila, e quando estávamos de saída, o Marcelo apareceu. Ele iria nos acompanhar, mas como tinha acabado de chegar e o pessoal estava se preparando para desmontar o acampamento, sugerimos que ele descansasse um pouco e que seguisse com o pessoal. Fizemos a escalaminhada sem maiores problemas, descemos uma pirambeira para em seguida voltar a subir. Vira e mexe gritávamos “Fruviooooooooooooooooooo” que acabou virando o grito de guerra oficial da travessia. Desde o dia que o Fúlvio ficou pra trás, ficavamos gritando o nome dele, e logo vários montanhistas começaram a gritar também, sem fazer ideia de quem era o dito cujo, ou por qual motivo estávamos gritando. No último dia o Fúlvio já tinha virado uma celebridade. Todos estavam achando engraçado gritar “Fruvioooooooooooo” menos ele, não sei porque.. rs.

IMG_5450.JPG.a6aa4bc6638ceaa61fb02cee3038f764.JPG

Continuando a subir, chegamos ao Alto dos Ivos, onde encontramos um guia (super gente fina) que estava com um grupo e que ficou conversando com a gente. Um dos integrantes do grupo deles teve a ideia de juntar os dois grupos e gritar “Fruvioooooooooooooooooo” Quem sabe assim ele nos escutaria? Assim o fizemos e o Adilson registrou o momento em vídeo.. rs. A partir dai começamos a perder altitude, até chegar ao sitio do Pierre. Paramos em baixo das Araucárias para descansar e preparar o almoço. Novamente o Adilson preparando o rango, desta vez um talharim que logo após estar pronto ele acabou derrubando no chão.. kkk. A regra é clara, 5 segundos é o tempo de reaproveitar o que se cai no chão, conseguimos ainda aproveitar o que estava por cima.. rs. Aos poucos a galera foi chegando, e continuamos a descer até o ponto de resgate, que já era na rodovia em Itamonte. Como havíamos chegado 1 hora antes do horário combinado para o resgate, parte da galera queria ir comer pastel, resolvemos subir a rodovia andando para chegar até um bar que vendia os pasteis. O Wagner era o único que já tinha ido ao bar que servia os pasteis, e o mesmo nos informou que levaríamos cerca de 40 minutos para chegar até lá. E lá vamos nós subir cerca de 4Km depois de uma caminhada de 4 dias na Serra fina em busca de pasteis. Subíamos a rodovia atento aos carros que passavam próximos a nós, pois a mesma não possuía acostamento. No final da trilha, o Raul volta e mexe dava uns gritos xingando o Wagner por fazê-los andar novamente depois de ter terminado a travessia.

Comemos, bebemos, mas havia um problema: No local não havia sinal de celular. O Marcelo ficou preocupado, pois não teria como avisar o nosso resgate que não estávamos mais no local combinado. Passado alguns minutos, escutamos o famoso grito “ Fruviooooooooooooo”. Para que todos caíssem na gargalhada. Não só nosso grupo, mas todos que estavam por perto. Eram o Furtado e Clayton, dentro da Van do nosso resgate. Por sorte eles tinham ficado lá atrás porque tinham achado uma cachoeira e estavam tomando banho. Viram nossa Van de resgate, acenaram e subiram até o bar que estávamos. Depois que todos estavam de barriga cheia, tiramos uma foto de todo pessoal em frente a Van, nos acomodamos e seguimos viajem de volta a São Paulo, com sensação de dever cumprido e todos contentes por terem superado este grande desafio que se chama Serra fina.

11337043_1592335694348872_6481638955481553768_o.jpg.946d1c393d27261f6fae08289ae9e705.jpg

Link para o post
Compartilhar em outros sites

  • Membros

Obrigado irmão! Seria muito bom se você estivesse lá conosco. Iria acrescentar muito ao nosso grupo. Tenho quase certeza de que quando for sua vez de fazer a travessia você ainda irá escutar os grupos gritando: "FRUVIOOOOOOOOOOOOOOOOOOO" kkkkk

Link para o post
Compartilhar em outros sites

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisar ser um membro para fazer um comentário

Criar uma conta

Crie uma nova conta em nossa comunidade. É fácil!

Crie uma nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Entrar Agora
  • Conteúdo Similar

    • Por Renato37
      Bem, sei que há trocentos relatos sobre essa clássica travessia, então aqui vai mais um....
       
      Álbum, com todas as fotos da travessia estão em:
      https://photos.app.goo.gl/gh3c4PJaBMSHoF887
       
      Travessia realizada entre dias 12 a 15/06/2014.
       
      Eram 3:55h da manhã de uma fria madrugada de quinta-feira qdo saltei do ônibus na minúscula e pacata rodoviária de Passa Quatro (MG), que mais parecia um galpão qualquer. Após pegar meu chum...ops, cargueira do bagageiro do busão, Vivi, Marcão e alguns amigos do Sandro já se encontravam no local a minha espera e dos demais. Michel também já estava no local, mas só foi aparecer meia hora depois, pois se encontrava no mundo dos sonhos dentro de seu carro.
       
      Feitas as devidas apresentações, ficamos aguardando os demais do grupo chegarem. A madrugada na pacata cidadezinha localizada em um vale no meio das imponentes montanhas da Mantiqueira estava gelada, como é comum em cidades de altitudes elevadas (acima dos 1.000 metros). O céu estava com poucas nuvens, o que indicava que o dia seria bem aproveitável nesse primeiro dia. Os 2 resgates contratados já se encontravam no local e ficamos aguardando o resto do pessoal chegar.
       
      Tão logo isso ocorreu (embora alguns que disseram que viriam, deram para trás e sequer avisaram, mas felizmente a maioria apareceu), as 5:30h partimos rumo ao inicio da trilha, onde chegamos por volta das 6h20, na chamada "Fazenda Santa Amélia" (Toca do lobo) na cota dos 1.570 metros de altitude. A fazenda parecia estar abandonada e uma placa verde já bem gasta pela ação do tempo nos dava as boas-vindas com algumas orientações, dicas e o mapa com os picos, pontos de acampamento e de água.
       
      1º Dia - Toca do Lobo (1.570 m) ao Pico do Capim amarelo (2.491m)
       

      Mapa ilustrativo da travessia com os pontos de acampamento, água e os principais picos
       

      A placa bem gasta, já não dava para visualizar quase nada, infelizmente....
       
      Após ajeitarmos as cargueiras e alguns alongamentos básicos, iniciamos a caminhada por volta das 6:40. O trecho inicial da fazenda até a Toca do Lobo já começa logo de cara com uma subida, dando uma idéia do que nos aguardara nesse primeiro dia, rumo ao Pico do Capim amarelo. Após o primeiro lance de subida (que foi boa para aquecer os músculos e espantar o frio da manhã), a estradinha nivela, vira trilha e segue margeando a encosta esquerda de um morro, passando a descer levemente em direção a um pequeno vale. Passo por uma trifurcação, onde pego o caminho mais batido a esquerda.
       

      Galera ajeitando as cargueiras
       

      A simpática e discreta fazenda Santa Amélia
       

      Inicio da trilha
       
      Os primeiros raios de sol coloriam o topo das montanhas ao redor, indicando que o dia seria igualmente aproveitável e com visão total do percurso e do entorno. Nesse trecho inicial, algumas aberturas no meio da mata fechada revelavam os picos do entorno, por onde iria passar, dando uma ideia do que me esperava pela frente....
       

      Janelas em meio a mata fechada, revelavam alguns picos
       
      Não demora muito e as 7:10, chego no 1º ponto de água da travessia ao lado de uma pequena gruta conhecida como "Toca do Lobo", que realmente lembra uma toca. Lá, encontro parte da galera que havia saído minutos antes de mim na frente, fazendo seu primeiro pit stop no local e também faço o mesmo. A água de um rio que corre bem do lado direito é corrente e de boa qualidade, mas sabendo que havia outro ponto de água mais acima, optei por deixar para abastecer os cantis mais acima, entre os morros do Cruzeiro e Quartzito, a cerca de 1 hora de caminhada trilha acima, economizando no peso da cargueira.
       

      Toca do Lobo
       

      1ºponto de água ao lado da Toca
       
      Depois de atravessar o rio, sigo pela trilha a direita e passo por mais um trecho de mata fechada, que não dura muito tempo e logo dão lugar aos primeiros trechos de campos de altitude, formado inicialmente por gramídeas e capim ralo, com trilha bem aberta, possibilitando as primeiras visões dos picos ao redor por onde ainda irei passar. Pouco a pouco, o pessoal vai se afastando uns dos outros, devido ao ritmo variado de cada um e nisso, vou seguindo pela trilha, que vai subindo meio que em zig-zag, sem maiores dificuldades....As primeiras vistas nesse trecho inicial de subida já são de impressionar, inclusive com as primeiras visões do Pico do Capim amarelo bem lá no alto imponente, a esquerda.
       

      Primeiras vistas logo que sai da mata fechada
       

       

       

      Pico do Capim amarelo lá no alto, bem distante ainda
       

       
      Passados 30 minutos desde a Toca, chego no alto do morro do Cruzeiro na cota dos 1.783m, onde já é possível visualizar parte dos trechos por onde a trilha segue em direção ao próximo morro, o do Quartzito. Após alguns cliques e uma curta parada para descanço, retomo a pernada, descendo levemente o morro, para então iniciar a primeira subida forte em direção ao Quartzito.
       

      Subida do morro do cruzeiro,se não me engano...Subidinha ainda "tranquila"
       
      A trilha segue galgando a crista em zig zag, com a visão do entorno e o percurso da trilha bem demarcada a frente que são um atrativo a parte. Quanto mais você vai avançando, mas te dá vontade de parar e ficar apreciando aqueles belos contornos serranos e as finas cristas que dão nome a Serra fina.
       

      Belíssimas vistas do vale do Paraíba durante a subida
       
      Mas a subida ainda está só no começo e logo visualizo bem a frente, o paredão íngreme do próximo morro, o do Quartzito, pronto para ser escalaminhado, ao mesmo tempo que ouço um barulho de água de um riachinho do lado direito. Mais 15 minutos após passar pelo alto do Cruzeiro e 45 minutos desde a Toca, chego ao segundo e último ponto de água desse 1º dia as 8:40, onde uma discreta bifurcação a direita sugere que o acesso ao riachinho é por ali.
       
      É a partir desse ponto que deve-se encher todos os cantis para os próximos 2 dias, pois o próximo ponto de água será somente no rio claro, no final do 2ºdia, nas nascentes da base da Pedra da Mina.
       

      Chegando ao 2º e último ponto d´agua desse 1º dia de Travessia. É aqui que acaba a moleza da cargueira mais leve e deve-se encher os cantis para 2 dias.
       

      2º ponto d´agua
       
      Encho os cantis com 3 litros de água e ainda tinha mais 1 de gatorade que foram mais que suficientes para mim.
      Com os cantis cheios, inicio a subida em direção ao Quartzito. Com a mochila mais pesada do que nunca, a moleza acaba e é o bicho iria pegar para valer, pois é a partir do segundo ponto de água que se inicia a primeira subida pirambeira em direção ao morro do Quartzito. E vamos que vamos.
       
      Esse primeiro trecho é bem íngreme e com a cargueira mais pesada ainda, foi bem complicado, dando uma idéia do que ainda teria pela frente. As 9:15, chego ao topo do Morro do Quartzito (na cota dos 2.020 metros de altitude) para um merecido, mas breve descanso. Aproveito a pausa para apreciar as belas paisagens do entorno, com os picos do Marins, Marinzinho e Itaguare bem ao fundão, se destacando no horizonte.
       
      É nesse trecho que se passa pela parte mais bonita da subida e também onde se visualiza o trecho da foto "clássica" da trilha descendo e contornando o topo da crista até a base do enorme paredão do Capim Amarelo. Aqui a subida dá uma tregua e a caminhada segue no plano, com uma leve descida pelo alto de uma fina crista logo após passar pelo alto do morro do Quartzito. O Topo do Capim amarelo aparece bem imponente lá no alto e a frente, parecendo estar próxima, mas ainda resta uma longa subida pirambeira até lá. Aqui encontro alguns vestígios de acampamento, mas como o local é exposto aos ventos, é arriscado acampar aqui.
       

      Alto do morro do Cruzeiro visto do alto do Quartzito
       
      Do alto do Quartzito, se tem a visão de todo o trecho percorrido e também todo o traçado da trilha demarcada pelo alto das cristas. É um capitulo a parte e rendeu vários clicks. O grupo de 12 pessoas se dividiu em grupos menores, onde cada grupo foi seguindo em seus ritmos, com os mais rápidos mais acima, eu no intermediário e os mais lentos logo atrás de mim, o que gerou belas fotos da galera em diferentes ângulos. Em uma travessia como essa, é quase impossível todo mundo ficar juntos em um mesmo ritmo.
       

      Picos do Marins, Marinzinho e Itaguaré bem ao fundão....
       

      Chegando ao trecho da foto "classica"
       

      Caminhar pela fina crista é uma sensação única...
       
      Após descer levemente o morro do Quartzito, passando pela crista com 2 grandes vales a direita e a esquerda, chego definitivamente no "paredão" da base do Capim e é a partir de agora que as pernas serão postas a prova máxima de resistência e superação. As 10:15, começo a longa e exaustiva subida que vai ficando cada vez mais íngreme e com alguns lances de escalaminhada, onde o auxilio das mãos passam a ser necessários para impulso nas pedras e troncos.
       
      A subida é árdua, o sol castiga muito e nisso, acabo parando várias vezes para retomar o fôlego. As 11:00 chego ao alto de um morro, conhecido como "Cotovelo" onde a subida dá uma leve trégua e aproveito para fazer uma pausa. Olho para cima e vejo a nebulosidade aumentando sobre o topo do Capim amarelo.
       

      Vista do alto do morro do Cotovelo
       
      Subindo de cocoruto em cocoruto, vou seguindo em direção ao morro do camelo em trilha bem demarcada e com vários lances de escalaminhada. O Grupo está bem dividido e a minha frente vejo os mais rápidos mais acima e os mais lentos lá embaixo. A pirambeira não dá trégua e parecia não ter fim. Só de olhar para cima, cansava até a vista. Vou ganhando altitude rapidamente e quase 3 horas desde o Quartzito lá embaixo, chego a um ombro do Capim Amarelo, conhecido como "Camelo" na cota dos 2.380 metros de altitude.
       
      A principio, achei que era o topo do capim, mas não era. Enquanto isso, a neblina foi ficando ainda mais densa e nisso, a visão ficou prejudicada. Descanso por algum tempo aqui e pouco antes das 13h00, volto a caminhada.
       

      Alto do morro do "Camelo" um ombro do Capim amarelo, com o pico do Capim mais acima ainda, encoberto pelas nuvens
       
      Segui mais um pouco até chegar a uma parte mais plana onde a trilha passa por 2 descampados bem protegidas no meio de enormes tufos de capim elefante. Olhando para baixo (aproveitando algumas janelas em meio a neblina), consegui visualizar o Michel e os demais bem lá embaixo ainda, enquanto a Vivi, Marco e Fábio dispararam na frente e imaginei que a essa hora, já haviam chegado no topo. O relógio marcava 13:00hs e eu ainda não fazia ideia de qto tempo iria levar até o topo do capim.
       
      Após passar pelas áreas de acampamento, visualizo bem a frente outro paredão no meio da neblina, com a trilha indo na direção dele. A subida volta a ficar ainda mais íngreme e com alguns trechos enlameados e pirambeiros, acabo parando mais algumas vezes para recuperar o fôlego. Em alguns pontos, havia cordas estrategicamente instaladas para auxilio nos trechos mais complicados da subida e que foram muito bem-vindas. O ataque final ao cume é de matar com mais lances de escalaminhada e trepa-pedra. Com o peso da cargueira e uma noite praticamente sem dormir, não foi nada fácil vencer esse trecho.
       
      As pernas e braços já pediam arrego, mas continuar era preciso. E se já estava ruim com a falta de visibilidade, ficou pior qdo começou a chover fraco, o que me deixou apreensivo....O Topo parecia estar bem próximo e finalmente, as 13:20 chego nele, onde sou recepcionado por parte da galera da turma do Roger, Marco e da Vivi que já haviam chegado lá entre 30 minutos a 1 hora antes de mim e já tinham até montado seus respectivos "aposentos"....rsrs
      Mas ainda faltavam o Michel, Mariana e outros que estavam atrás de mim e só chegaram cerca de 40 minutos depois.
       

      Enfim, barraca montada e o merecido descanso no topo do Capim amarelo
       
      O Cume do Capim é bem plano e com várias clareiras para 1 ou 2 barracas, todas bem protegidas por conta dos enormes tufos de capim elefante que formam uma ótima proteção contra os fortes ventos. Como ainda havia muitas clareiras disponíveis, pude escolher o melhor ponto para montar a barraca. Na subida final a chuva havia parado, mas voltou no exato momento que estava montando a barraca. Não foi fácil montar a barraca por causa da chuva, pois tive que monta-la as pressas, mas felizmente era apenas uma chuvinha passageira e logo parou, não chegando nem a molhar direito o chão.
       

      Descampados entre os tufos de capim elefante
       
      Após montada a barraca, explorei as laterais do topo e depois fui preparar meu almoço, ficando o resto da tarde de boa com o pessoal. Fui deitar por volta das 19h30 e logo peguei no sono. De madrugada, acordei com o teto da barraca mais clara e ao botar a cabeça para fora, vi que a neblina havia dissipado, o céu estava com poucas nuvens e a lua brilhava forte. Com isso pude apreciar as cidades em volta todas iluminadas e com a lua cheia iluminando todo o topo. E ainda pude me presentear com a bela visão dos picos da Serra fina ao redor, com a Pedra da Mina em destaque a leste. A temperatura não caiu muito de madrugada e ficou em torno dos 04ºC.
       
      Continua no post abaixo....
    • Por PedrãodoBrasil
      Expedição Extreme e Serra Fina
       
       
       
       
       
       
      Serra Fina 4 dias    16 a 19 Maio 2019
      Saida de Vitória no dia 15 de Maio e nos Hospedamos no
      Harpia Hostel Pousada Hotel,
      Do Amigo Alessandro (35) 98894-0533  (Hostel e Transfer)
       R. Ângelo Dalessandro - Centro, Passa Quatro – MG
       
      Participantes
      Idealizador da Trip
      https://www.facebook.com/pedraodobrasil  
      27 99805 8885
      Participantes
       
      https://www.facebook.com/bruno.languer.9
      https://www.facebook.com/patrick.martinscastelo
      https://www.facebook.com/rosa.natura.rosa
       
       
       
      1°dia
      16/05/2019
      Início 9 hs
      Fim 16 hs

      -Toca do Lobo, Quartizito e campi amarelo
      -Local do Camping : Capim Amarelo (Acampamento 1)
      *Entre toca do lobo e capim amarelo tem o último ponto de agua do dia a direita no quartizito.
      -Capim Amarelo. 2491mt de altitude.
      Muita subida, escalaminhada, muitas cordas.
      Enfim se vc é nutela não vá .
       
      2°dia
      17/05/2019
      Inicio 08 hs,
      termino 17 hs
      -Capim amarelo
      -Maracanã
      -Cachoeira vermelha
      -Base da pedra da mina (Acampamento 2)
      *Ultimo Ponto de agua do dia na base da Pedra da Mina.
      Chegamos neste ponto estava um bento muito forte e chovendo muito e estava muito frio, resolvemos acampar neste local (Base da Pedra da Mina). Isto por volta das 17:00 hs.
      Os ventos, tempestades e raios se intensificaram.
      Ficamos na barraca por 20:00 hs, pois durante o dia ficou feia a coisa.
      Saímos por volta das 14:00 hs do outro dia, devido tempestades e raios.
       
       
       
      3°dia
      18/05/2019
      Inicio 14:00 h
      Término 18:00 h
      Saímos da base da Pedra da Mina ainda com chuva e ventos fortes, atingimos o topo da Pedra da Mina com seus 2797 Metros de altitude.
       
      Os ventos lá em cima eram muito fortes, além do frio.
      Descemos e atingimos o vale d Rhuá.
      Encontramos uns caras que passaram um perrengue durante a noite.
      Seguimos pelo vale sempre a direita do rio.
      Passar pelo vale do Rhuá e uma coisa única, um belo vale com capins amarelos bem alto e muita lama.
      No final do vale foque sempre o V no final do vale.
      Pegamos agua para o dia seguinte, é importante pegar no mínimo 6 litros de água, pois até o ponto de água seguinte.
      Saímos do vale e dormimos num camping acima. Agora sim fomos agraciados por um por do sol maravilhoso. (Acampamento 3)
       
       
       
      4º dia
      19/05/2019
      Inicio 08:00hs
      Término 18:30 hs.
      Saída do Camping acima do vale do Rhuá e seguimos em frente, hoje porem deu um nascer do sol lindo, indicando que o dia ia ser aberto, pois os dias anteriores não foram de um bom tempo.
      Passamos Pelo Mirante do Vale das Cruzes, Pelo cume do Cupim de Boi, Pico dos três estados 2656 mt altitude, Ombro dos 3 estados, Cume Bandeirante, Alto Dos Ivos, entroncamento com a garganta do Registro, Ponto de água antes do Sitio do Pierre, Sitio do Pierre e Asfalto, onde o resgate nos aguardava.
      Volta ao Hostel, dormimos e fomos embora na segunda feira, finalizando assim a trip, que foi umas das mais HARD que já fiz.
      A Serra Fina para Mim é considerada uma das mais difíceis e pesadas do Brasil.
       
      Use sempre Protetor Labial.
       

      Dicas
      Mesmo fazendo a travessia no final da temporada de montanha, bambus e Capim Elefante são uma constante. Luvas e blusa de manga longa é boa pedida.
      O desespero em saber que a travessia oferece pouca água, não deve ser considerado algo extremo, lembre-se que o corpo necessita de liquidos, não somente água. Eu particularmente, levei sucos prontos, e água de coco e só abasteci a garrafa de água mesmo no terceiro dia. Os dois primeiros só bebia nos pontos de água. Mas isso claro, vai de pessoa para pessoa.
      Quando fizer paradas próximo ao Capim Elefante, a presença dos ratinhos deve ser considerada e não deixe a mochila aberta de forma alguma. Nos cumes, nada de comida fora da barraca e se possivel, longe dos cantos para evitar o cheiro.
      Protetor solar e chapeú que cubra o rosto e pescoço é ótimo, pois o bambuzal deixa muito matinho caindo pelas costas. Bandanas também são muito uteis, principalmente nos cumes para não ficar com o nariz vermelho pelo frio.
       
       
       
       































    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
    • Por eleonardo
      SERRA FINA
      CAMINHANDO ENTRE GIGANTES
       
      Texto por Alan S. Kronemberg
       
      NA MANHÃ de uma quinta-feira, 27/09, Eleonardo Louvain e eu descíamos do ônibus em Passa Quatro, pequena cidade do sul de Minas, com 50 Kg de víveres e equipamentos nas costas. Tínhamos pela frente uma longa e difícil jornada: a travessia da Serra Fina. Após cruzarmos a pracinha local admirando ao longe as montanhas, nosso breve destino, chegamos à pousada São Rafael onde um quarto nos aguardava para algumas últimas horas de conforto. Era nosso plano partir no dia seguinte.
      O maciço da Serra Fina fica numa região isolada e de difícil acesso da Mantiqueira. Posto nos mapas pela primeira vez em 1923 pelo engenheiro Álvaro da Silveira, esse lugar fora durante muito tempo esquecido, ofuscado pelas montanhas do outro planalto próximo e mais famoso, o Itatiaia. A situação começou a mudar apenas em 2000, quando uma nova medição feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, anunciou o maior cume desse maciço, a Pedra da Mina, como sendo o 4º mais alto do Brasil, com 2.797 m. Esse fato fez a gente de Passa Quatro se acostumar a ver tipos mochilados como nós perambulando na região. Naquele fim de semana, porém, éramos os únicos na cidade dispostos a partir rumo àquelas montanhas.
      A carta que possuía comigo conseguida junto ao IBGE mostrava bem o descaso ao qual me referi sobre a Serra Fina. Datada de 1974, era a única existente da região. Não tinha sequer o nome ‘Serra Fina’ escrito nela, além de mostrar a Pedra da Mina com a altitude antiga de 2.770 m. Esse mapa e uma bússola eram tudo o que dispúnhamos até, por sorte – quando entrávamos num armarinho para comprar camisa para o lampião –, conhecermos Taia e seu filho, Davi. Os dois, experientes guias locais, nos deram informações valiosas sobre o caminho e um croqui da trilha mostrando os pontos de acampamento e abastecimento de água.
      Fora os conselhos, ouvimos com atenção as histórias sobre resgates vindas das montanhas no horizonte próximo. Eram muitas. Impressionou-me o caso de um senhor de mais de setenta anos que, depois de subir a serra e ser pego de surpresa por um temporal, passou três dias e três noites sem água e comida, tendo que beber a própria urina para sobreviver. Segundo os guias, o mau tempo na Serra Fina representa um risco considerável por causa dos ventos fortes, da neblina cegante e do frio excessivo. Outrora, no inverno, chegou-se a medir na região a temperatura de -17ºC.
      O maior obstáculo da travessia, no entanto, chama-se Á-G-U-A. Em todo o percurso de quase 40 Km, somente existem quatro pontos para o reabastecimento, o que obriga cada viajante a levar consigo pelo menos 4 L. No caso dos mais sedentos, um litro a mais se torna indispensável na mochila.
      A navegação em alguns trechos da travessia também exige muita precisão devido ao capim-elefante. Essa vegetação, de altura maior que um homem, ocupa campos extensos da Serra Fina e encobre a visão do horizonte e da trilha já aberta. Taia alertou-me para estar atento principalmente ao chegar no traiçoeiro Vale do Ruah após a descida da Pedra da Mina.
      Pelo fim da tarde, retornamos ao hotel para nos certificarmos de que não faltava nada para a partida no dia seguinte. Seu César, dono do São Rafael, aproveitou uma brecha entre os seus afazeres e nos levou a uma esfirraria famosa da cidade, a Monte Líbano, a fim de prosearmos um pouco.
      Aos goles de uma cervejinha bem gelada e escorados sobre um balcão rústico de madeira, conversamos sobre a Serra Fina, que Seu César definiu como a mais difícil travessia do Brasil. Falamos ainda sobre a vida em Passa Quatro. Com 15.000 habitantes, esse município é uma estância hidromineral repleta de fontes d´água espalhadas pelas suas praças e jardins. A cidade conserva casarões do início do século XX e sua rua principal é a antiga Estrada Real por onde aventureiros e bandeirantes passavam a caminho dos sertões das Gerais. A propósito, a cidade teve sua origem em 1674 na passagem do bandeirante Fernão Dias pelas terras altas da Mantiqueira. Achei interessante a origem de seu nome. No passado, aos paulistas que procuravam um lugar sossegado para pouso nessas bandas, Fernão Dias deixara o seguinte recado: “Saindo da Capitania de São Paulo, segue o rio Paraíba do Sul, terás ao norte uma grande cordilheira, a Mantiqueira. Ao encontrares nela uma garganta profunda é o Embaú, a única passagem tranqüila para o Sertão das Gerais, então galga a serra e passa quatro vezes o rio que se escorrega por um verde e espaçoso vale, chegarás assim a um pouso...”. Dessa expressão, surgiu Passa Quatro. Dela, bandeirantes modernos partem, hoje, em busca de aventuras nas montanhas que circundam a Pedra da Mina.
       
      O BATISMO NAS MONTANHAS
       
      A TRAVESSIA COMEÇA, de fato, um pouco longe de Passa Quatro, num local chamado Toca do Lobo. Para se chegar nele, é preciso percorrer alguns quilômetros da rodovia e entrar numa estrada de terra, seguindo por mais uns 10 Km. Pagando-se em torno de cem reais, se consegue um transporte 4x4 até esse lugar em Passa Quatro, mas, como nosso dinheiro era curto, na manhã seguinte, nos restou aproveitar a carona de Seu César até o começo da estrada de chão batido e, nesse ponto, arrumar outra carona do caminhão de leite para o alto da serra. Essa baldeação nos valeu chegar a 8 Km da tal toca. O restante passou a já fazer parte da travessia.
      Após um banho na cachoeira gelada da Toca do Lobo, que preparou o corpo e o espírito para a trilha, subimos morro acima ganhando altitude até a cachoeirinha, no Quartzito, primeiro ponto de água. Aí, adentrávamos a linha dos 2.000 metros, pela qual seguiríamos cada vez mais alto nos próximos dias. Nesse ponto também, começamos a conhecer a verdadeira face daquelas montanhas.
       
       
      Como já estava um pouco tarde e uma nuvem escura caminhava em nosso encalço, julgamos que não tardaria a chover. Preferimos, por isso, montar ali o acampamento. Para sermos mais rápido, dividimos as tarefas: Eleonardo foi pegar água, enquanto eu comecei a arrumar a barraca amarela, chamada por mim de Tempestade I. Não bem tinha esticado a capa de chuva sobre ela e um trovão varreu os céus da serra anunciando o que acabávamos de prever.
      No CABRUUUUUUUUM seguinte, os pingos d´água começaram a cair e rapidamente o horizonte ficou tomado de nuvens brancas. Era a certeza do temporal vindouro. Felizmente, Eleonardo já vinha com os cantis.
      Esforcei-me para deixar a barraca preparada para uma chuva forte - coloquei pedras esticando sua capa ao máximo. Quando pulei para dentro dela, enfim, o céu desabou. O vento começou a chacoalhar a barraca e a zunir tanto que mesmo uma conversa a alguns centímetros era difícil. A Serra Fina rugia.
      Há tempos, a região enfrentava uma seca tremenda que chegara a ocasionar um vasto incêndio no vizinho Itatiaia. Quando deixamos o Rio de Janeiro rumo à Passa Quatro, a meteorologia previa chuvas esparsas no final de semana em razão da primavera. Eu chegara a pensar que seria bom chover um pouco, pois a secura poderia tornar mais difícil a travessia devido ao calor e à pouca umidade. Vendo minha barraca balançar, tive outro julgamento. Imaginei que estávamos somente começando a subir. Se naquela altitude, as coisas na Serra Fina se comportavam de tal maneira assustadora, como seria mais acima aonde iríamos?
      Estando com fome e não havendo como deixar a barraca, a solução foi prepararmos alguma refeição dentro dela mesmo. Sacamos as canecas, preparamos um achocolatado com biscoitos e ficamos aguardando pacientes pelo fim do temporal. Cerca de duas horas depois, a chuva deu uma trégua. Ao sairmos para ver a situação, uma surpresa! Dessa vez uma nuvem gigantesca vinha na direção do Quartzito, embranquecendo tudo sob ela. Parecia um enorme monstro branco jogando suas presas sobre as colinas. Uma visão impactante.
      Acompanhei a chegada da nuvem até bem próximo da barraca, de pé. Quando vi um lampejo sair do seu interior, minha reação foi correr para dentro de Tempestade. Um trovão estrondoso ecoou no céu. Vi Eleonardo deitado na posição fetal – segundo ele, para não atrair os raios. Logo depois disso, houve um clarão enorme, seguido de outro trovão pavoroso e resolvi fazer o mesmo, por precaução. O relâmpago, dessa vez, pareceu passar ao lado da barraca!
      Lá pelas tantas da noite a chuva cessou e, em seu lugar, um manto de estrelas cobriu o céu. Do mirante onde estávamos, podiam-se ver as luzes de Passa Quatro e de algumas fazendas espalhadas pelo horizonte. A Lua brilhava com todo o seu vigor, cheia e prateada. À luz do lampião, acendemos o fogo e preparamos uma mistura reforçada de alimentos. Até um champingon que havíamos levado foi junto. Tudo para matar a fome e nos deixar prontos para o outro dia. Aquela sexta valera como o batismo na Serra Fina.
       
      RATOS
       
      SÁBADO, 10 h. Após abastecermos todos os cantis – dali para frente só encontraríamos água perto da Pedra da Mina, a dois dias de viagem – arrumamos as mochilas e partimos. Deixamos o Quartzito tarde, pois nosso plano era subir apenas o Capim Amarelo, primeira grande montanha da travessia, com 2.491 m.
      A subida levou algumas horas. O tempo se manteve nublado, dissipando ao fim da tarde. Logo que chegamos, arrumamos o acampamento num dos muitos espaços abertos para pouso, preparamos a espiriteira, acendemos o fogo e fizemos a comida: macarrão com molho de tomate recheado de orégano. Ótimo paladar! Senti-me em casa.
      O Capim Amarelo é chamado dessa maneira por causa do tom amarelado que o capim-elefante possui nesse local. É tamanha a incidência dessa vegetação nesse cume que a vista fica comprometida. De lá, pudemos ver pela primeira vez, ao longe, a Pedra da Mina. Descobrimos, também, que não estávamos sós na travessia. A noite nos revelou um importuno invasor.
      Enquanto a comida era feita, um pequeno rato aproximou-se das panelas. Nessa hora, eu estava na barraca e pude apenas ouvir Eleonardo gritando Sai! Sai! e batendo com os pés no chão.
      – Foi um rato? – perguntei. Taia nos advertira sobre ter cuidado com esses animais no alto do Capim.
      – Sim. E era grande – respondeu Eleonardo.
      Mais tarde, quando já havíamos deitado para dormir, ouvi um barulho estranho perto da barraca. Suspeitei de um rato estar tentando rasgar o pano para entrar.
      Acordei Eleonardo e apanhei a lanterna. Acendi a luz, o barulho cessou. Abri a porta. De dentro da barraca, não via nada lá fora. Passando as mãos entre as coisas amontoadas perto do meu lado de deitar – de onde suspeitava vir o som – não encontrei coisa alguma. Achei melhor examinar direito.
      Quando afastei minha mochila, logo pude ver um buraco no pano da barraca. Constatei que estava enganado: o rato não queria entrar; ele já estava dentro. Retirei a mochila de ataque e vi o rabinho mexendo que denunciava o invasor. Ao tirar a panela, flagrei o animal comendo sem titubear o miojo. Quando pus a luz da lanterna em seu rosto, ele nem ligou, continuando sua refeição. Só quando mexi as coisas perto dele que resolveu sair pelo mesmo buraco por onde entrara.
      Resultado da noite: levamos alguns miojos para longe da barraca, junto com as panelas sujas de alimento, para podermos ter um sono tranqüilo enquanto o ratinho e seus parentes faziam um banquete.
       
      PEDRA DA MINA
       
      APESAR DO incidente com o rato, na manhã seguinte, a lembrança viva em minha mente era do instante em que, de madrugada, havia saído da barraca para ver como estavam nossas coisas. Guardo comigo a visão colossal da Pedra da Mina iluminada pela Lua cheia, com um mar de nuvens cinza aos seus pés. Senti-me no paraíso naquele momento e agradeci aos céus por poder contemplar aquela fotografia que nossas câmeras não eram capazes de capturar, apenas meus olhos.
      Fazia silêncio. O que se ouvia era apenas a suave brisa sobre o capim, a balançar o mato devagar. A silhueta escura do gigante de rocha dominava o horizonte e sua imponência impunha um respeito a toda a natureza ao seu redor. Nada era mais alto do que ele. Não se podiam enxergar os vales escondidos debaixo das nuvens de uma brancura contrastante. Tive a impressão de ser possível caminhar sobre o mar de algodão formado por elas, espesso o bastante para suportar o peso de até um exército de aventureiros que nele quisessem passar rumo à Pedra da Mina. Do caminho que tomaríamos no dia seguinte, somente os trechos mais altos, como a Serra Fina, eram contemplados. Tudo isso emoldurado pela Via-Láctea e pela abóbada de estrelas do céu, onde a Lua, radiante, surgia como um farol a iluminar aquela vasta paisagem.
      Olhando para a Pedra da Mina, soberana daquelas terras, refleti sobre a vida do explorador. Em quanto ela é solitária e cansativa, mas também recompensadora. Definitivamente, as mais belas paisagens do nosso mundo, assim como os maiores mistérios, estão em locais afastados dos grandes centros. Nos extremos, encontramos nossas origens e nos deparamos com a natureza selvagem, muitas vezes amiga, outras vezes inimiga. Lá, não diria que somos meros coadjuvantes; não acredito nos que dizem que o homem seja nada diante dela. É certo que o poder da natureza em muito supera a força humana, mas o ímpeto que carregamos dentro de nós é tamanho que mesmo ela, em sua grandeza, nos deixa passar. Até os gigantes nos permitem transpor suas coroas.
      Assim, com essa imagem na retina, deixei o alto do Capim Amarelo atrás de Eleonardo. Ele teve mais sorte para encontrar o começo da trilha que descia a montanha.
      Na descida do Capim, encontramos o primeiro sinal de alguém que passara por aquelas terras: um bastão de trekking quebrado. Desde que havíamos partido da Toca do Lobo, na sexta de manhã, não cruzávamos com ninguém.
      O caminho começou a ficar mais fechado e traiçoeiro em alguns trechos de capim-elefante. Eu mantinha os olhos atentos à minha bússola, na sua agulha apontada para o norte, que, ao longo do percurso, se mantinha às oito horas de nós. Horas depois, após subirmos e descermos diversos morros e vales, atravessamos a crista da Serra Fina. Esse conjunto de colinas, responsável por dar nome a todo o maciço, é uma linha de montanhas altas por sobre as quais se marcha num caminho desenfiado e estreito, que leva aos pés da Pedra da Mina. O nome “Fina” não é por acaso. Há espaço para somente uma pessoa de cada vez passar na sua crista. O viajante segue o tempo todo admirando a serra da Bocaina no horizonte sul e os campos de Minas no leste.
       
       
      Naquele dia, um domingo de bastante sol, acampamos na base da Pedra da Mina, no local conhecido como cachoeira Vermelha. Essa queda d´água de uns quinze metros serve de guia para os viajantes que, ao descerem o morro do Melano, podem vê-la de longe. A água aí é rica em ferro – razão de ela ser avermelhada – o que a deixa com um gosto diferente, mas facilmente bebível para quem chega de uma jornada de horas com a garganta seca.
      Dela, seguimos, na segunda-feira pela manhã, para o ataque à Pedra da Mina. O gigante, mais próximo do que nunca, lançava seu olhar sobre nosso caminho, o tempo todo a nos instigar. Cruzamos a nascente do rio Claro com os cantis parcialmente cheios, certos de que do outro lado da montanha, no Vale do Ruah, acharíamos água. Enfrentamos duas horas de subida sob um sol forte, de totem em totem, fitando com os olhos o topo mais esperado.
       
       
      Por volta de 14h, passamos pelo gigantesco totem montado por montanhistas e, logo em seguida, chegamos! Tocamos a marcação recente do IBGE, datada de 2004, e o livro que sela o nome de todos que alcançaram o cume da Pedra da Mina. Deixamos lá nossos nomes, a 2.798 m de altitude.
       
       
      O VALE DO RUAH
       
      PASSADOS trinta minutos admirando o horizonte no topo da Mantiqueira, seguimos adiante para o trecho considerado por muitos o mais difícil da travessia. Do alto da Pedra da Mina, a visão do Vale do Ruah é fan-tás-ti-ca! Uma região do tamanho de quatro campos de futebol, tomada de capim-elefante.
      Enquanto descíamos, era possível ver o rio Verde do lado oposto a onde cairíamos no vale. Tínhamos que rumar até ele e depois margeá-lo até a Brecha, um monte uns dois quilômetros à frente no qual começa a subida para o pico dos Três Estados, a décima maior montanha do Brasil. Eu sabia que, dentro do vale do Ruah, não enxergaria mais nada, por isso, tinha que do alto traçar o azimute certo.
       
       
      Nosso ritmo de marcha durante a descida da Pedra da Mina fora comprometido devido às dores intensas que Eleonardo começou a sentir no joelho. No dia anterior, ele havia tido uma entorse e vinha caminhando suportando a dor e com certa dificuldade. Foi necessário parar algumas vezes. Chegamos a cogitar a possibilidade de acampar no Ruah, hipótese descartada depois que nuvens negras começaram a se avolumar sobre nossas cabeças.
      Entre as moitas de capim-elefante, a trilha certa exigia olhos de águia. Há picadas no Ruah para todos os lados e direções, abertas por viajantes que perderam o caminho. Com a visão comprometida devido à altura da vegetação, caminhamos mata adentro nos guiando pela bússola e pelo som do rio Verde. Quando era possível, olhava por sobre o capim e avistava o colo para onde eu sabia correr esse rio, local aonde nós também deveríamos seguir.
      Dessa forma, conseguimos atingir o rio Verde. Abastecemos nossos cantis para mais um longo trecho sem ver água e continuamos lado a lado com o seu curso. Foi quando começou a chover granizo.
      Já era quase noite, quando tomamos uma direção para fora do Ruah, galgando novas alturas. Estava feliz por ter vencido a parte dita a mais difícil da travessia e com frio devido à chuva que não parava. No topo da Brecha, havia um bom local para acampar. Com presteza, montamos o acampamento e, cansados, adormecemos logo após entrarmos na barraca. Despertamos lá pelas 11 h da noite. Não chovia mais. Preparamos uma suculenta sopa de feijão com legumes e macarrão para matar a fome. Se tudo corresse como prevíamos, aquela seria nossa última refeição na Serra Fina.
       
      TRÊS ESTADOS E O RETORNO PARA CASA
       
      O DIA AMANHECEU com uma bela manhã de sol, propícia para secar nossos equipamentos. Outra vez, cada um tomou sua caneca de chocolate e, levantado o acampamento, partimos rumo ao pico dos Três Estados.
      O caminho seguiu pela crista das montanhas até o topo da elevação chamada Cupim de Boi devido à semelhança que possuí com essa parte do bovino. Dela, descemos um vale profundo dominado por uma mata de bambus e por isso de difícil passagem, após o qual, derramava-se a encosta do Três Estados.
      Durante a subida dessa montanha, a natureza revelou-se benévola conosco. A chuva do dia anterior havia depositado gelo entre os tufos de capim-elefante e com isso, pudemos encher os cantis.
      O pico dos Três Estados, a 2.665 m, é repleto de capim-elefante e possui um triângulo de ferro já bem enferrujado indicativo das direções dos estados que se encontram naquele ponto. Aliás, essa uma particularidade dessa montanha. Em qualquer mapa do Brasil que possua as divisões interestaduais, pode-se identificar o local exato de seu cume. Lá, um mastro marca o último grande desafio da travessia da Serra Fina para quem chega da Toca do Lobo. Aos que vem pelo outro sentido e iniciam a jornada, o fato de ele estar sem a bandeira brasileira serve de sinal da força dos ventos e da natureza naquela região inóspita.
      Após o Três Estados, o Alto dos Ivos é a última altitude a ser vencida antes do começo da descida da serra. De seu topo, avista-se ao longe o maciço de Itatiaia e o grandioso Agulhas Negras. Lá, eu e Eleonardo despedímo-nos da Serra Fina por onde caminhamos cinco dias seguidos sem a companhia de ninguém, apenas dos gigantes.
×
×
  • Criar Novo...