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Caminho de Santiago (Caminho Português) partindo de Lisboa, alguém já fez?


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Minha esposa e eu faremos o Caminho português partindo de Lisboa no final de Julho deste ano. Alguém estará por lá também? Se alguém fez recentemente esta rota e quiser contar um pouco, seria legal! Uma das poucas fontes de informações que achei sobre a rota partindo de Lisboa foi desse manual: http://www.amigosdelcamino.com/attachments/article/143/Caminho%20central%20portugues.pdf.

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Olá, pretendo fazer o caminho saindo de Porto em setembro/2016 ou maio/2017. Alguém anima?

 

Olá Talita, pretendo fazer o caminho em maio de 2017, vamos eu e minha prima Brunela, nossa intenção é partir de Lisboa.

Queremos ir leve, para aprender as lições do "camino", já sair do Brasil com a Credencial do Peregrino, mesmo não sendo trilheiras habituais estamos ansios apelos dias de caminhada.

Espero que possamos ir trocando figurinha até a viagem e quem sabe não seremos peregrinas juntas, caso haja coincidência nas datas da viagem.

 

Abraços.

Caminho central portugues.pdf

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    • Por divanei
      Na vastidão do deserto, somos dois pontos perdidos a meio caminho de lugar nenhum. O vento sopra de leste para oeste e vai penteando as dunas, levantando uma fina camada de areia, que se amontoa junto a uma lagoa, refletindo a luz cintilante do sol, que naquela tarde de inverno, chega a impressionantes 32 graus de temperatura. Do topo da duna, acompanho a trajetória do astro rei, enquanto me deslumbro com a cena da minha filha, imersa nas águas prateadas, se preparando para passar a noite num dos mais incríveis cenários do mundo. Quando o sol se deita, logo a lua cheia se levanta e ilumina nossa barraquinha e aí nos damos conta da grande aventura que estamos vivendo, do momento mágico que estamos presenciando. Estamos a um dia de caminhada de qualquer lugar onde se possa ver uma face humana, somos testemunhas da solidão, do isolamento e escolhemos por conta própria, sermos parte daquele sonho, senhores do nosso próprio destino, testemunhas de uma vida cheia de simplicidade, desapego e deslumbramentos.

      Quando nosso avião pousou em São Luís - MA, partindo de Campinas-SP e chegando ao destino, às três da madruga, mal colocamos os pés para fora do aeroporto e já nos vimos sequestrados pelas vans que seguem de madrugada para Barreirinhas, tecnicamente a capital dos Lençóis Maranhenses. Fomos arrastados sem termos tempo nem de nos manifestarmos e quando vimos, já estávamos à caminho, numa viagem de mais ou menos 5 horas por estradas ruins.
      Barreirinhas é uma cidade não muito grande, mas é o local mais movimentado da região, bem às margens do Rio Preguiças e é junto às dezenas de barcos, que somos desovados pelas vans, e ainda cabeceando de sono, ficamos por ali, tentando nos localizarmos, tentando compreender melhor a geografia do lugar, enquanto alguns agentes de viagens tentam nos vender algum pacote, algum passeio, mas queremos mesmo é achar uma hospedagem para podermos descansar e traçar um plano.
      Fazer a GRANDE TRAVESSIA DOS LENÇOIS MARANHENSES, era um sonho antigo, mas o fato de conseguir tirar férias somente no verão, inviabilizava qualquer projeto, já que no fim do ano, as lagoas já estão secas e a data fica quase imprestável. Por isso fomos sempre adiando e me parece que cada coisa tem seu tempo, já que agora, além de conseguir féria em final de junho, ainda teria a possibilidade de viver esse sonho com a minha filha, mas para isso era preciso montar uma estratégia, uma logística quase perfeita e que nos desse a possibilidade de viver uma das mais extraordinárias jornadas das nossas vidas.
      Uma coisa era certa e disso a gente não abria mão: Queríamos fazer a travessia independentes, sem a necessidade de um GUIA. Não que a gente não achasse importante o profissional, mas no estágio que havíamos chegado, depois de 25 anos de andanças pelo Brasil e fora dele, não me via mais com a necessidade de um, para caminhar em nenhum lugar desse país, se não fosse obrigado. Outra coisa, era que, por decidir não depender de ninguém, também queria estar autosuficiente, desejava andar com todos os equipamentos de segurança para poder resolver os problemas, sem vir a ter que recorrer a nenhuma ajuda.
      Mas para andar com um nível de segurança pleno, ainda mais estando responsável por carregar minha filha, teria que escolher os equipamentos a dedo, mesmo que isso me custasse andar com uma cargueira cheia. Consultando alguns amigos que lá estiveram, fui aconselhado a não levar blusas, sacos de dormir e deixar a barraca em casa, já que os pernoites seriam feitos nos chamados OÁSIS, lugarejos perdidos no meio do deserto. Os sacos de dormir e as blusas, até cheguei a tentar persuadir minha filha a deixá-los, mostrando para ela que a previsão no deserto estava por volta de 26 graus à noite, mas não teve jeito, ela não arredou pé, segundo ela, não queria correr nenhum risco num fim de mundo novo, desconhecido até então para ambos. Já a barraca, essa foi eu mesmo quem se recusou a deixá-la, porque se algo acontecesse, queria ter uma proteção sobre nossas cabeças, seria nosso porto seguro, seja lá em que lugar fosse. Para caminhar, decidimos que usaríamos as papetes, sandálias de couro, inclusive, cagando e andando para o que iriam pensar, embarcamos com elas até dentro do avião, feito uns molambos, foda-se. E para completar, levamos fogareiro a álcool, panelas, e todos os utensílios de cozinha necessários, além de comida reserva para quando tudo falhasse, além dos equipamentos básicos de primeiros socorros, lanternas, capas de chuva, enfim, estávamos pronto para sobreviver no deserto , como se fosse nas nossas expedições pelas grandes montanhas e florestas do Brasil.
      De volta à Barreirinhas , conseguimos uma hospedagem barata e depois fomos nos perder pela cidade, comer uma comidas típicas e apreciar a cultura local. O que nos chamou a atenção, foi o número absurdo de motocicletas, onde capacete não existe e famílias inteiras se penduram numa só moto, inclusive carregando recém-nascidos, algo inimaginável para nossa cultura aqui do Sudeste. Fomos até o píer comprar a passagem que nos levaria para ATINS no dia seguinte, lugar onde oficialmente começa a travessia a pé. E há vários jeito de se chegar lá : a pé , por quase um dia de caminhada pelas estradas de areia, de carro , balançando numa espécie de pau de arara de luxo , pegando o barco e navegando pelo rio Preguiças direto para o litoral( Atins) ou pelo melhor jeito , que é o passeio completo , também pelo Rio Preguiças, mas parando em tudo que é vilarejo, uma experiência incrível que vai lhe introduzir nos PEQUENOS LENÇOIS, uma prévia sensacional do que virá.
      DE BARREIRINHAS ATÉ CANTO DOS ATINS
      Compramos o passeio completo por 70 reais, não sei se é barato ou caro, muito porque , depois de Barreirinhas quase tudo é inflacionado e rola uma espécie de cartel até entre os nativos dos oásis. Às nove da manhã, nos apresentamos no lugar marcado, com nossas cargueiras, contendo tudo que tínhamos para 15 dias de viagens, tudo que havíamos trazido de São Paulo estava com a gente, o que usaríamos na travessia e o que não usaríamos. No porto, não encontramos ninguém que iria fazer a travessia a pé, só uma multidão de turistas indo para todos os lados. O Barco partiu e já ganhou a curva para o norte em direção ao litoral, deixando para trás, uma grande duna de areia que ameaça engolir parte da cidade.
      O Rio PREGUIÇAS é extremamente lindo e a navegação vai nos surpreendendo o tempo todo, com paisagens muito parecidas com a Floresta Amazônica, qualhado de buritis e todo tipo de palmeiras, até que o piloto faz um atalho e nos diz que aquele caminho, que corta uma grande curva do rio, foi talhado a mão. Não demora muito, somos surpreendidos pela lancha do Instituto Chico Mendes em conjunto com a Marinha do Brasil e logo nos vemos com uma metralhadora apontada para nossa cara. O fiscal faz um teatro danado quando o condutor do barco diz que não estava com os documentos da embarcação, mas logo percebemos que o tal fiscal era amigo do piloto e fez o teatro para impressionar, dizendo que ele teria que aportar mais à frente e só poderia seguir depois que fosse trazido todos os documentos, estava blefando, claro.
      A nossa primeira parada é simplesmente mágica, é quando você é apresentado oficialmente aos Lençóis Maranhenses, na verdade, aos Pequenos Lençóis, uma prévia do que a gente vai encontrar pela frente. Mas ao desembarcar, antes mesmo de ver a primeira lagoa, as boas-vindas são dadas pelos inúmeros macacos prego, que vão fazer de tudo para tentar abocanhar alguma comida, caso você esteja com uma, apesar das placas dizendo para não os alimentar. Estamos no lugarejo conhecido como VASSOURAS, tão minúsculo que eu não consegui enxergar mais que duas ou três casas. Mas se o cenário parece um tanto bucólico, com aquelas atrações onde deixa transparecer o clichê de que no Brasil, macaco anda na rua, não se engane, quando se sobe as dunas, atrás do vilarejo, seu queixo vai despencar na areia. Lagoas incríveis se apresentam, com dunas gigantes no horizonte, esse é o primeiro contato real com o paraíso, aprecie essa beleza, mas lembre-se de que coisas grandes é o que viemos buscar.

      Retomamos a viagem de barco e logo descemos em Mandacaru, na margem esquerda do rio. Um vilarejo pobre, formado por pescadores, onde a sua maior atração é o FAROL PREGUIÇAS, que infelizmente estava fechado para subir, mas ainda com acesso livre à visitação. O farol é bem bonito, um dos mais belos que já visitei, mas foi uma visita rápida, uma foto e já estávamos voltando para o barco que em mais 15 minutos nos levou para o vilarejo de CABURÉ.
      Em Caburé é onde se para na hora do almoço, mas os preços não são nada convidativos, coisa de 110 reais para duas pessoas por pratos simples, então eu e a Julia decidimos que não comeríamos ali, aproveitaríamos o tempo para conhecer a praia e as cabanas de pescadores. E foi realmente uma decisão muito acertada, porque é um espetáculo aos olhos o passeio na praia com as Usinas EÓLICAS de cenário e os ranchos de buriti , feitos para abrigar os pescadores por dias, enquanto esperam que os peixes caiam nas suas redes. Os ranchos tem uma construção próprias, feitos para abrigar do vento e do sol, com algumas tarimbas e poços para retirar água doce da areia da praia, uma engenharia bonita de se ver e como todos estavam vazios, pudemos entrar e conhecê-los, um passeio e tanto.
      A última e derradeira parada é o vilarejo de ATINS, mas antes de lá chegar, vamos nos deslumbrando com as gigantes construções das usinas Eólicas, grandes pás girando com a constância do vento que nunca para de soprar, nesse momento, somos D. QUIXOTE sem cavalo, absorvidas pelos gigantes que nos fascina.

      Pouco depois das 2 da tarde, encostamos perto do vilarejo de ATINS e para nossa surpresa, não vimos nada, nem casa, nem vila e muito menos um porto para desembarcarmos. A descida do barco é feita ali, de qualquer jeito, parecendo que éramos clandestinos tentando entrar ilegalmente em algum lugar. Na areia, várias caminhonetes com bancos tipo pau de arara, esperavam para levar para alguma pousada, todos os turistas que ali desembarcavam, vindos com a gente, no nosso barco e também de outras embarcações. Mas nós não, nós ficamos como cachorros que caem do caminhão da mudança, perdidos, sem saber nem qual direção seguir, com uma cargueira enorme nas costas, pés na areia, sol na cabeça, apreensão no coração. Tomamos um rumo que achávamos coerente, mas antes de darmos meia dúzia de passos, liguei meu GPS, anotei nosso ponto de partida e a partir de agora, estávamos oficialmente iniciando nossa TRAVESSIA e por 6 dias, somente um meio de transporte nos levaria ao nosso destino, o melhor meio de transporte que se pode ter, o único capaz de nos levar a qualquer lugar sobre a face da terra, NOSSAS PERNAS.

      Com o estomago nas costas, viramos à esquerda na primeira rua que vimos junto a praia ou foz do rio Preguiças, passamos por um córrego de águas escuras e vendo que a rua de areia não tinha saída, viramos à direita e interceptamos o que nos pareceu ser a estrada principal, uma rua mais larga, igualmente de areia fina, num lugar meio desolador, num sol escaldante, já que dentro desses vilarejos, costuma ventar pouco. Andamos umas 2 centenas de metros e descobrimos um pequeno restaurante aberto com Prato feito a 25 reais e como a fome já estava de matar, jogamos nossas mochilas ao chão e nos deleitamos com o banquete simples, que não passou de arroz, feijão, peixe frito e uma saladinha de tomate e um guaraná Jesus, porque a fome é o melhor tempero.
      Com a barriga cheia e diante de um calor infernal, a Julia ficou questionou se valeria a pena enfrentar quase 3 horas de caminhada até o próximo destino, já que a tarde já ia alta, mas eu bati o pé, queria aproveitar aquele resto de dia para adiantar a travessia. Então jogamos as mochilas às costas e partimos, deixando para trás as casas do vilarejo, adiantando passo nas ruas de areia, que por vezes eram cruzadas por rios que tinham que ser atravessados com a água pela cintura. De olho no mapa, fomos avançando, até que sem percebermos, fugimos da estrada principal e acabamos por pegar algumas alternativas que parecia que nos devolveria de novo ao tronco certo da estrada. E foi mesmo uma sorte ter errado o caminho, já que acabamos colando nas dunas dos Lençóis, onde uma placa nos avisa que é proibido adentrar naquela área com carros particulares e somente carros cadastrados são permitidos, mas como não falava nada de pessoas caminhando, demos de ombros e seguimos, um pé a frente do outro, numa caminhada linda, uma planície cheia de pequenas lagoas rasas, margeadas por dunas gigantes de areia.
      O sol baixou e o cenário ficou bucólico, não conseguíamos enxergar onde estaria essas tais casas que deveríamos achar. Resolvemos então, cortar caminho e seguir nossa intuição, até que interceptamos a estrada principal e por ela seguimos, até que vimos surgir a nossa frente, um amontoado de meia dúzia de casas espalhadas e numa delas, do outro lado de uma lagoa, uma mulher veio nos atender e sem ouvir nada do que ela dizia, atravessamos a lagoa até adentrarmos no portão e nem precisava perguntarmos onde estávamos, a placa já denunciava ser ali o RESTAURANTE E REDÁRIO DA LUZIA, um dos pontos de apoio em CANTO DOS ATINS, um fim de mundo a meio caminho entre o litoral e as dunas.

      A área do restaurante é enorme, mas o redário não passava de uma cobertura mequetrefe, sem paredes, onde a chuva poderia surpreender caso viesse com vento. Os preços são extremamente salgados pela estrutura oferecida, inclusive, como eu havia dito, há um cartel e todos cobram o mesmo preço: São 50 reais pela rede com café da manhã e mais 50 reais pelo prato feito, talvez o PF mais caro do mundo, mas não se engane, você vai pagar com gosto depois de um dia inteiro de caminhada. Mas ainda não era o nosso caso e como vimos que o tempo estava para chuva, resolvemos optar por um quartinho fuleira que custava 10 reais mais caro, mas poderíamos descansar bem, para no dia seguinte poder pular da cama bem sedo.
      As instalações eram bem ruins, mas não estávamos ali atrás de luxo nenhum, ao contrário, fomos buscar simplicidade. Se pouco ligamos para as instalações ruins, muito nos aborreceu o atendimento. A D. Rita não estava e o estabelecimento foi deixado a cargo de um pessoal mais jovem, mas com uma má vontade incrível de fazer as coisas, mal respondia o que perguntávamos. Como tínhamos almoçado tarde, tentamos descolar algo para comer que não fosse propriamente uma janta completa, mas a má vontade das pessoas nos fez optarmos por fazermos uma jantinha básica dentro do quarto mesmo. Eu de uma próxima vez, trocaria essa opção pela do seu Antônio, que é bem ao lado, talvez tivéssemos mais sorte.
      DE CANTO DOS ATINS ATÉ O ACAMPAMENTO SELVAGEM
      Combinamos de tomar café às 4:30 da manhã e você tem essa opção de escolher os horários em qualquer lugar, mas as 4 horas desabou uma tempestade que não víamos a muito tempo. E choveu e trovejou e relampeou. Acabamos saindo da cama somente as 7:30, tomamos café (servido com uma má vontade de espantar) e partimos. O nosso caminho começa por logo sedo, atravessar a lagoa, que agora, depois da tempestade, havia virado um oceano. Passamos entre as duas casas, se valendo de uma rua de areia, viramos à esquerda, logo a direita e fomos curvando novamente para esquerda até nos vermos meio que paralelos ao mar, que só ouvíamos o barulho das ondas ao longe, sem poder enxergá-lo.
      A caminhada é paralela ao mar, mas sem ainda conseguir botar os olhos neles, talvez pelas pequenas dunas que nos trava olhares mais distantes, mas 2 km depois de partirmos do abrigo, talvez uma meia hora, nos chama atenção uns ranchos de pescas e abandonamos nosso caminho para investigar. É realmente uma maravilha essas construções, esses ranchos e sinceramente, ao invés de dormir lá no alojamento, de uma próxima vez eu dormiria nesses ranchos, secos , bem construídos e que colocaria uma charme maior nessa travessia. Vinte minutos depois já estamos com o mar sob nossos olhares e ao invés de ser uma caminhada enfadonha, acaba se transformando numa paisagem bem bonita. Vamos cruzando incontáveis rios e riachos, margeando lagoas e vegetação rasteira, até que uma elevação nos chama a atenção e o que nos pareceu ser uma construção, não passava de uma formação rochosa, uma pedra furada.

      Uns 6 km após partimos do Alojamento, fomos obrigados a parar para analisar nossa saída do litoral e programar nossa entrada definitivamente para o interior do deserto. Essa parte do litoral, a turistada faz contratando um 4 x 4 e vai até um lugar, acho que um RANCHO que chamam de BONZINHO, mas eu não faço a mínima ideia de onde seja, muito porque, é necessário tocar mais uns 5 km pela praia e encurtar o caminho até Baixa Grande, o próximo destino de todo mundo. Mas o nosso roteiro está longe de seguir esse caminho, minha intenção era a partir dali, virar à esquerda e nos enfiar definitivamente no vazio, o que nos proporcionaria uma experiência jamais vivida, esse era o plano, essa era a estratégia, talvez um pouco ousada porque jamais havíamos tido contato com esse tipo de terreno, mas eu não abria mão disso, para isso havíamos discutido o projeto, para isso estávamos com uma cargueira enorme nas costas, havia chegado a hora de nos despedirmos da civilização, mas ainda tínhamos que alcançar o último ponto habitado ou com vestígio de moradia, que era um grande RANCHO DE PESCA, uns 200 metros afastados da praia, onde ao longe já enxergamos um bode pastando.
      No rancho, não encontramos ninguém, mas era um rancho com sinal de que pessoas passavam por ali constantemente, já que um gato tomava conta do local, mesmo que ninguém tomasse conta dele como deveria. Com dó do bichinho, abrimos a porta do rancho e pegamos um pouco de água para abastecê-lo e ficamos com o coração partido por não termos nada de comida pronta para deixar para ele, torcendo que o morador esporádico, voltasse logo.

      Agora seríamos somente eu e a Julia, pai e filha numa jornada solitária, se apegando um ao outro pelos próximos 5 dias. Apontei minha bussola e meu nariz para SUDOESTE, jogamos as mochilas nas costas e partimos, com a alma livre e o coração preso, fomos em busca de uma vida de aventuras, fomos fazer história, não para o mundo, que nem sabe que existimos, mas a nossa própria história de vida, história essa que compartilho a seguir com quem possa interessar.
      Nos despedimos do gato e do bode, atravessamos um riacho, onde atolamos até a canela e já ganhamos as areias das dunas e não levou 15 minutos para a gente ser definitivamente apresentados às lagoas da travessia. Era dia 25 de junho, uma sexta feira de inverno, mas o sol brilhava como nunca, com uma temperatura de 32 graus e vento soprando de leste, nos trazendo uma sensação muito agradável. A lagoa de aguas levemente amareladas pelas algas presentes no fundo, contrastava com a branquidão das dunas ao redor. As mochilas foram jogadas ao chão e delas retirados alguns petiscos, mas as roupas continuaram no corpo e foi com elas que nos atiramos para dentro da água, que mesmo ainda sendo pouco mais de 10 horas da manhã, estava quente, numa temperatura agradável, estava inaugurado o primeiro de centenas de banhos daquela travessia.

      Tínhamos um objetivo claro, como todos que partem para essa travessia, seja lá que caminho acabem pegando: chegar ainda hoje no OÁIS DE BAIXA GRANDE, mas, porém, entretanto, todavia, não tínhamos compromissos com o tempo, aliás, não tínhamos compromisso com coisa nenhuma, tempo era o que tínhamos de sobra. A caminhada vai seguindo, enquanto vamos tentando nos adaptarmos com o novo e desconhecido terreno, vendo o que é preciso ajustar nas cargueiras, testando o que melhor funciona, andar descalço ou com as papetes (chinelas de couro). Minha filha prefere se manter calçada, mas eu já havia pendurado as chinelas, achei que era menos atrito para os pés, mas não tinha certeza se seria mesmo uma boa ideia andar com os pés nus, era questão de tempo para ver o que seria melhor.
      No meu celular, um caminho previamente marcado para nos dar sempre um norte , uma direção, mesmo porque, o deserto do ano passado, não é mais o desse ano, as dunas mudam de lugar, as lagoas enchem ou esvaziam, novas surgem e outras desaparecem.
      Menos de 15 minutos depois, tropeçamos em outro lago, dessa vez com águas esverdeadas, ainda mais bonita que a anterior. Por enquanto, estávamos numa espécie de vale, um corredor entre grandes dunas que avistávamos ao longe e para lá fomos nos guiando, sempre cruzando por algumas pequenas lagoas, descendo ao fundo de algum vale que ligava uma lagoa à outra.
      Esperávamos uma caminhada dura, até meio enfadonha, subindo várias dunas até que uma ou duas horas depois, poderíamos aproveitar alguma lagoa, mas estávamos REDONDAMENTE ENGANADOS. Começamos a notar, que não se passava nem 15 minutos para que estivéssemos com o corpo, os pés e até o pescoço chafurdado dentro da água. A ficha começou a cair aos poucos, principalmente quando ao subirmos a encosta de uma grande duna, ela despencou vertiginosamente para dentro de uma lagoa do tamanho do mundo, donde bodes selvagens corriam de um lado para o outro, que ao notarem nossa ilustre presença, fugiam assustados. Eram lagoas não muito fundas, com muita vegetação, um jardim de possibilidades que iam transformando tudo que pensávamos a respeito dos Lençóis. O mundo não era só de areia e água como imaginávamos. Quanto aos bodes, ficamos sabendo que tinham donos, mas nasciam muitos sem o contato com humanos, ficavam lá, seres do mundo e seres do mundo não costumam ter donos, o mesmo que buscávamos nessa viagem, não ter donos, não sermos guiados por ninguém, seríamos viajantes ao sabor do vento, da água e da areia.

      Uma lagoa prateada é cruzada, uma verde-azulada deixada para trás, uma duna subida, para logo em seguida, um mundo de mais areia e água fazer com que a gente nos detivéssemos novamente. Aquilo era algo que nunca imaginávamos existir e por mais fotos e vídeos que tenhamos vistos dos Lençóis Maranhenses nesses últimos anos, nos custava acreditar naquilo que nos passava à frente dos olhos. Era o nosso cérebro tentando se adaptar a algo que lhe era estranho. O corpo parecia querer se aprumar para melhor compreender o que ali se passava e a cada passo que dávamos rumo ao interior do DESERTO MAIS MOLHADO DO MUNDO, nossa cabeça tendia a recalcular as mensagens recebidas.
      Com a caminhada deslanchando, começamos a ver que a dinâmica era sempre a mesma: Depois de uma lagoa, subíamos uma duna que era penteada com o vento, deixando suas costas duras e fáceis de subir, para em seguida, despencar para dentro de alguma lagoa, nenhuma igual a outra, cada uma com um cenário único, cada uma com uma cor própria. Eram lagoas rasas, fundas, grandes, pequenas, secas, com vegetação, com bode, sem bode, com alga, sem alga, era uma infinidade de possibilidade que em nenhum momento a caminhada se quer passava perto de ser monótona, pelo contrário, eram os adjetivos para classificar cada lagoa que iam escasseando do vocabulário.

      Ao meio dia e mais de 20 km de travessia desde que partimos lá de ATINS e umas 4 horas de caminhada de Canto dos Atins, paramos para um breve almoço junto a uma lagoa esverdeada com algas lindíssimas. Apesar do calor intenso, uma coisa é muito legal nos Lençóis, além de ventar um pouco, o que deixa o clima agradável, o próprio vento não deixa com que a areia fique muito quente a ponto de queimar os pés. Outro fenômeno que é incrível, é que a água não chega a ficar quente a ponto de incomodar, pelo mesmo fenômeno do vento que acaba resfriando-a um pouco e mantendo a areia do fundo da lagoa quentinha, então é a sensação mais incrível de bem-estar que se possa ter ao adentrar uma lagoa dessas. Você entra e se não se der conta, vai ficar lá para o resto da vida.
      O dia vai passando, as lagoas vão sendo cruzadas e são tantas e tão diferentes que fica difícil narrar aqui uma por uma. Depois das 13 horas resolvemos ir gastando nosso tempo em brincadeiras memoráveis, aqueles que largamos as mochilas e despencamos dunas à baixo , explodindo nas lagoas fundas. Aqueles eram momentos de pura diversão, de puro desapego , éramos dois perdidos no ócio, ligando pra coisa nenhuma , mas chega uma hora que é preciso começar analisar o tempo e a distância do oásis de Baixa Grande e percebemos que se quiséssemos dormir nele, precisaríamos parar e acelerar um pouco.
      Antes das 14 horas, um lago mais seco acaba marcando nossa virada definitivamente para OESTE, foi quando a Julia achou que daríamos conta de cumprir o roteiro completo do dia, mas eu já não tinha essa certeza toda não. Grandes dunas vão surgindo, o cenário vai ficando cada vez mais impressionante, o horizonte vai se pontilhando de lagoas para todos os lados e mesmo quando temos que descer até alguma mais seca, rios atravessassem grandes baixadas, num cenário de sonhos. Por vezes, encontramos lagoas mais profundas, que tinham que ser contornadas, mas eram raras as vezes que usávamos esse artifício, porque eu sempre procurava cruzar por dentro, carregando até a mochila da Julia quando pressentia que ela poderia ter problemas, deixando-a livre para nadar, caso fosse preciso.
      Mas, mesmo a areia não sendo muito fofa, chega uma hora que o corpo já começa a dar sinais de desgaste, afinal de contas, as 15 horas já fazia mais de 7 horas que estávamos envoltos em pernadas intensas, então tentamos apertar o passo com o objetivo de chegar há algum lugar onde pudéssemos vislumbrar a possibilidade de um camping. Cada passo que dávamos, cada lagoa que cruzávamos, não encontrávamos nada que nos deixasse satisfeito. Claro, poderíamos colocar nossa barraquinha em qualquer lugar plano, porque água não ia faltar, mas pretendíamos encontrar um lugar bem abrigado do vento, mas quando esse lugar era encontrado, era dentro de uma lagoa seca, então passávamos reto e seguíamos em busca do lugar perfeito.
      A gente começou a cruzar por cristas de dunas, onde algumas, com lagoas secas, parecia bocas de vulcões. Todas nos pareceu abrigadas, mas nós ainda buscávamos alguma com água dentro. Não que faltasse lagoas cheias, longe disso, não se passavam 15 minutos sem trombarmos com uma, mas nenhuma delas nos oferecia abrigo que esperávamos, até que numa curva de uma crista de areia branca, o lugar perfeito nos saltou aos olhos e nem precisou que consultássemos um ao outro sobre a possibilidade, nós dois sabíamos que aquele lugar era o mais perfeito possível. Uma duna gigante, uma lagoa rasa e de águas cristalinas, bem abrigada, num lugar lindíssimos, era tudo que eu sonhei quando resolvi planejar aquela travessia com uma cargueira nas costas, era aquele momento que eu esperava. Jogamos as mochilas ao chão e demos por encerrada nossa jornada naquele dia mágico. Eu estava no limite da minha capacidade emocional, mais um pouco e eu aumentaria aquela lagoa com lagrimas.

      Passava da 4 da tarde e o sol já estava nos preparativos para logo mais ir se deitar a oeste. Antes de mais nada, aproveitamos para tomar um belo de um banho, o centésimo quadragésimo terceiro daquele dia. Logo depois, aos pés da duna gigante, montei nossa barraquinha com a porta voltada para oeste, a fim de evitar que a areia das dunas entrasse pela porta.
      Me organizei para fazer uma boa de uma janta, mas antes, joguei para dentro da barraca nossos sacos de dormir, um trambolho inútil que serviu apenas para forrar o chão, já que a temperatura era extremamente agradável. Para cozinhar, levamos uma espiriteira (fogareiro a álcool), optamos por ele porque não é possível carregar gás no avião e não teríamos tempo de procurar em São Luís. O vento atrapalha um pouco, mas safo como sempre fomos, já tratamos de fazer uma cobertura com uma toalha e resolver a contenda. Enquanto o arroz cozinhava lentamente, minha filha foi tomar o derradeiro banho do dia e eu subi a duna para apreciar o pôr do sol.

      Do alto daquele monstro de areia, sentei-me confortavelmente e fui acompanhando o cenário ao meu redor. O sol derramava uma luz cintilante, deixando a lagoa mais abaixo, toda prateada. Dentro da lagoa, minha filha se esbaldava com a água quentinha e ao lado dela, nossa morada provisória insistia em me informar que estávamos prestes a passar a noite num dos lugares mais isolados do Brasil, longe de qualquer lugar habitado. O acaso, o destino, havia nos levado até ali e as chuvas da madrugada, que caíram torrencialmente e nos fez começar tarde aquela caminha, fazendo com que não tivéssemos tempo de atingir o oásis, acabou apenas por se tornar uma grande desculpa. Verdade mesmo, é que já tinha a intenção de viver essa experiência única no deserto com a minha filha e quando o tempo foi se esvaindo pelos dedos, por dentro eu fui comemorando a possibilidade de podermos acampar.

      O dia se foi, a noite caiu, jantamos e nos pinchamos para dentro da barraquinha. A temperatura continuou agradável e uma leve brisa continuou a soprar a noite, jogando fragmentos de areia na nossa casa. Por incrível que parece, alguns mosquitinhos apareceram, nada demais e foi só fechar o mosquiteiro para nos sentirmos confortáveis. A Julia apagou imediatamente, mas eu ainda fiquei um tempo remoendo emoções vividas . Dormi umas 7 da noite e lá para a 11, saí da barraca para apreciar uma lua cheia de encher os olhos. O deserto iluminado pela lua é qualquer coisa de sensacional, acho que essa é uma cena que nunca mais vou esquecer em toda minha vida.
      DO ACAMPAMENTO SELVAGEM ATÉ BAIXA GRANDE
      Foi uma noite de sono incrível. Às 6 da manhã, estávamos em pé, desmontando nossa barraca, enquanto nosso fogareiro fervia uma água para o café. O dia amanheceu quente, como amanheceria todos os outros e nuvens no céu não havia, somente um azul de encher os olhos. Partimos às sete e para variar, não deu 10 minutos para a gente ter que negociar a descida para uma baixada, com uma imensa lagoa de águas mirradas, mas com um cenário encantador, onde uma vegetação rasteira, cruzada por inúmeros fragmentos de rios, e ia nos dizendo que foi muito acertada a nossa decisão de ter acampado antes, já que ali era bem desprotegido, sendo varrido por ventos constantes, nada de mais, mas que poderia ter atrapalhado um pouco nosso sono.
      O cenário vai se modificando radicalmente, as dunas vão crescendo de tamanho e parece querer engolir tudo ao nosso redor, principalmente onde não havia lagoas e sim baixadas com aguas rasas e vegetações rasteias. É impossível narrar como são as infinitas lagoas nesse percurso, mas o que marcou, foram as areias mais consistentes, que nos fazia avançar rapidamente para os cumes das dunas, mas por outro lado, também tínhamos que despencar mais vezes nas areias fofas que desabavam para dentro de lagoas profundas, onde tínhamos que atravessar com a água acima do peito. Não que isso fosse problema, na verdade, era uma enorme curtição.

      Ao longe, uma lagoa rasa e com vegetação rasteira, abriga um grupo de BODES SELVAGENS, que ao menor sinal da nossa ilustre presença, fogem apressados para as dunas. Atravessar essas lagoas, requer um cuidado para não atolar a perna até os joelhos e perder suas chinelas ou, acabar machucando os pés em algum graveto maroto.
      Por volta das 10 horas da manhã, conseguimos avistar ao longe, a vegetação do oásis de Baixa Grande e essa é a primeira vez que vemos uma árvore em quase um dia e meio. São florestas de cajueiros, que nessa época do ano, estão sem frutos. O aparecimento de algo que nos remeta à civilização nos anima a apertar o passo e vamos caminhando, decididos a chegar na hora do almoço. Pelo caminho, vamos deixando inúmeras lagoas, atravessando a nado ou rodeando, quando assim desejamos, parando vez ou outra para um bom banho demorado, afinal de contas, somos passageiros do ócio, não temos muito compromisso com o tempo, mesmo porque, nosso almoço é quando a gente quiser.

      Às onze da manhã, somos obrigados, pela força da beleza, a parar, jogar nossas mochilas ao chão e apreciar uma LAGOA VERDE CLARA, onde uma árvore seca a transforma numa atração imperdível. Com águas extremamente transparentes e quentes, por lá ficamos, extasiados pelo momento, como se pedíssemos para o tempo parar e para nos congelar ali mesmo.


      O oásis estava perto, mas não víamos nenhum sinal de habitação humana. A barriga já estava roncando, mas resolvemos que nosso almoço seria no povoado, então aceleramos. Os cajueiros foram aparecendo, mas a gente se enroscou para conseguir achar as trilhas que adentra definitivamente e rodamos um pouco, perdendo e achando trilhas. Adentramos no oásis, margeando um rio e só depois de cruzarmos para o outro lado, foi que percebemos uma estradinha/trilha de areia que nos levou para o centro da vegetação, saindo bem em frente a casa do seu Moacir, finalmente no OÁSIS DE BAIXA GRANDE.

      Já passava do meio dia. Bodes, porcos e galinhas, circulavam livremente ao redor do que mais me pareceu com uma aldeia indígena, do que com uma habitação. Mas logo somos recebidos pelo seu Moacir, que deitado na sua rede, embaixo de um barracão de folhas de buriti, nos convida para ficar . O preço por uma rede no redário é o mesmo, 50 reais com café da manhã. Mas naquele momento, nosso interesse era mesmo em um bom almoço e mesmo que a gente carregue comida e que possa cozinhar nosso próprio rango, não nos furtamos em pagar outros 50 reais por um prato feito, porque nós merecíamos.
      No deserto, as opções não são muitas e só havia frango, para gente, mais do que suficiente, ainda mais porque serviram muita comida, e sabedores de que tudo ali era escasso, tratamos logo de guardar o excesso para janta. Seu Moacir é um dos filhos do saudoso BRITO e nos disse que seu pai era o fundador de tudo aquilo, sendo dono de milhares de bodes, resolveu distribuir a família para cuidar do rebando e assim nasceria os povoados no meio do deserto.

      QUEIMADA GRANDE é um oásis no meio do nada e a casa do seu Moacir está um pouco afastado do vilarejo, que nem chegamos a conhecer. Umas casas simples, feitas de materiais simples, na sua maioria de folhas de palmeiras, mas o redário é bem construído, melhor que o alojamento de Cantos dos Atins. Com a pandemia, o turismo decaiu muito, segundo seu Moacir, tanto que praticamente ninguém havia chegado lá nesse mês de junho e eu e a Julia éramos os únicos hospedes deles. Internet não havia, estava com problemas há muito tempo. A luz vem de painéis solares, instalados há pouco tempo também. Como não tenho muita paciência para ficar só dormindo, levantei e fui passear pelas dunas ao redor, tomar banho num rio local, onde encontrei seu Moacir e a menina que trabalha com eles, lavando as redes. Acontece que, não os reconheci, porque o seu Moacir tinha tirado a barba e a mulher estava com um lenço na cabeça. Fiquei lá, fazendo perguntas sobre o povoado e ouvindo quase as mesmas coisas que já tinham me falado e quando resolvi falar que estava hospedado numa casa ali perto, seu Moacir saiu da moita: - Eu seu, sou o dono da casa e foi eu quem recebeu vocês. E a moça: -E foi eu quem cozinhou para vocês. ( hahahahahahahahahha). Passeio como doido, mas ainda sai no lucro ( rsrsrsrsrsrssrr)
      À noite, jantamos a sobra do almoço e fomos dormir sedo e deixamos combinado o café para 6:30 da manhã, porque achamos que não deveríamos madrugar, porque nosso próximo destino não estaria muito longe e pretendíamos alcança-lo lá pela hora do almoço. Dormimos muito bem, já que estávamos acostumados em dormir em redes, coisa que fazemos muito nas expedições à Serra do Mar de São Paulo.
      DE BAIXA GRANDE ATÉ QUEIMADA DOS BRITOS
      O dia amanheceu agradável, espetacularmente quente, mesmo sendo alto inverno, aliás, enquanto nos esbaldávamos com o calor nordestino, nossos conterrâneos do centro sul do pais, quase congelavam por causa de uma massa de ar polar. Tomamos café e partimos pontualmente às oito da manhã, passando por uma minúscula lagoa e já subindo do meio do oásis para as dunas, recomeçando nossa travessia, agora rumo ao oásis de Queimada dos Britos.
      Nossa jornada pelos Lençóis Maranhenses, já havia consumido quase 40 km de caminhada na areia, desde o povoado de ATINS. Oficialmente esse era o início do quarto dia de travessia e mesmo tendo optado por caminhar com cargueiras nas costas, ainda nos sentíamos muito bem, estávamos alegres e muito dispostos, ainda maravilhados com a paisagem. A Julia veio se comportando direitinho, sem reclamar e ao meu ver, parecia também muito envolvida com a empreitada, sem reclamar de coisa nenhuma, sempre uma companheira de primeira linha, atenta a tudo e palpitando na condução do roteiro, dando suas opiniões quando precisávamos decidir para que lado seguir, como cruzar as lagoas ou a melhor maneira de ganhar terreno sobre as dunas.
      E logo pela manhã, assim que subimos a primeira duna, já nos deparamos com uma grande baixada, onde um rio atravessava o nosso caminho. Esses rios são rasos, cruzam por dentro de grandes depressões, as vezes ligando uma lagoa à outra. A água varia muito, mas quase sempre são cristalinas ou assumem as cores das algas no fundo, num cenário muito bonito de ver e prazeroso de cruzar, com areia fininha. Aliás, as areias das dunas vão se alternando entre branca e branca feito neve, as vezes dura e compacta, outras vezes fofinha.

      Cruzar lagoas e subir dunas, vai sendo a tônica daquele dia, como seria a de todos os outros dias, mas não se engane, monotonia não existe e antes das nove da manhã, paramos para um descanso, que no caso se resume a ficar correndo sem mochila e se jogando de cima das dunas para dentro das lagoas, que hora são verdes, hora são azuladas, algumas mais rasas e outras profundas, emolduradas por plantas aquáticas, numa paisagem de sonhos.
      As vezes ficamos encantados e abismado com a capacidade da natureza de criar cores para as lagoas, que cansadas de serem só azul ou verde, começam a combinar com vermelho e amarelo e de repente, vira uma lagoa de múltiplas cores, um arco-íris de beleza, emolduradas por areias desenhadas pelo vento. Vamos perdendo a capacidade de achar adjetivos para homenageá-las, vamos embaralhando sentimentos, já perdemos noção do que é belo e do que é extraordinariamente belo e nossos olhos não se cansam, é um condutor de emoções, é através deles que vamos ampliando nosso arquivo de felicidade.

      Diferentemente dos dias anteriores, desde muito cedo, quando iniciamos a nossa caminhada, sempre tivemos ao longe a visão do nosso próximo objetivo, que sempre pareceu perto, mas só pareceu, porque no deserto, as distancias enganam muito. Mas às 10 horas da manhã, já vislumbramos a nossa chegada ao OÁSIS, mas antes de lá encostarmos, um trecho do caminho vai nos surpreender novamente: Uma mistura de rios, lagoas, baixadas e pântanos, vão nos fazer cair o queixo diante de um mosaico colorido impressionante. Aguas de todas as cores vão se juntando, mas dessa vez um rio na sequência de outro , com areias coloridas e algas, que vão formando outro mosaico , aquilo era bonito, aquilo parecia ir além das belezas , eu e a Julia estávamos novamente extasiados diante de tamanha diversidade.

       
      Havia chegado a hora de adentrarmos definitivamente no oásis, mas as coisas foram se complicando. Ao longe, vimos um grupo de pessoas sobre uma duna, calculamos uns 3 km da gente, mas como estávamos com o esboço da entrada da trilha no nosso gps, ignoramos a direção e começamos a navegar para dentro da vegetação, mas uma infinidade de rios começou a cruzar nosso caminho. Tentávamos escapar para todos os lados, mas as vezes éramos barrados por rios profundos ou com terrenos pantanosos. Sem desgrudar os olhos no gps , fomos nos perdendo para todos os lados, atravessando caminhos batidos, mas que no fim, não nos levaram há lugar nenhum. Tentei forçar a passagem pela vegetação, mas foi impossível passar, porque os cajueiros não estavam a fim de facilitar nossas vidas. O tempo foi passando e a gente preso num labirinto de vegetação rasteira, onde jardins de plantas carnívoras acabavam nos alegrando os olhos, até que achamos uma passagem entre uma duna e outra, que nos levou para uma estradinha de areia.

      Achar o caminho de areia foi realmente um alívio, mas estava longe de nos levar para dentro da Queimada dos Brito. Por um tempo até que achávamos que nossa missão estaria cumprida, mas logo tivemos que rever nossa euforia. A estradinha começou a atravessar uma lagoa atrás da outra. Atravessávamos meio que pelo rumo, com a água pela cintura, sempre tentando encontrar a sua continuação do outro lado. Mas às vezes era angustiante estar dentro de uma lagoa enorme, de águas turvas e não saber para onde ir e como nem tudo é ruim que não possa piorar, perdemos completamente a direção e nosso caminho se enfiou num oceano, fim da linha para a gente.

      Fizemos uma pausa para analisar o mapa e a trilha protada no gps, mas nosso caminho não mais existia. Estava claro que na época das chuvas o terreno muda, rios e lagoas tomam conta de tudo e o que outrora fora uma estradinha, hoje não mais existia e agora jaz no fundo das aguas. Vasculhei ao redor, tentei forçar passagem novamente pelo mato, mas não havia mesmo sinal de caminho. À nossa frente, uma ”lagoa oceânica” e sobre o topo de uma duna, 500 metros de onde estávamos, uma casa nos acenava como vestígio de civilização. Não havia o que fazer, havia chegado a hora de por em pratica alguma ideia estúpida e quando olhei para minha filha, com cara de deboche, ela já sabia que íamos nos enfiar em encrencas.
      Apesar da situação complicada, estávamos como ótimo estado de espírito e fazíamos piadas sobre a possibilidades de cobras e jacarés. A julia se segurou na minha mochila e fui nos guiando, tentando nos manter sempre com a cabeça fora da água, mas orientando a Julia sobre a possibilidade de soltarmos as mochilas e nadarmos. A temperatura da água estava excelente e mantive o foco, sempre mirando a casinha no alto de uma duna, do outro lado da lagoa. Avançamos bem e teríamos cruzado por dentro d’água, mas uma saída à direita conseguiu nos levar de volta para uma trilha de areia, que margeava a lagoa e surpreendentemente nos desovou bem em frente a uma casa, onde nos pareceu ser um alojamento, já que mais parecia uma maloca de índios, com alguns redários e foi aí que descobrimos ser ali a casa do seu Raimundo e da D. Joana, enfim QUEIMADA DOS BRITOS.

      Seu Raimundo era irmão do seu Moacir lá da Baixa Grande, portanto filho do seu Brito, o fundador de tudo aquilo ali. Quando lá chegamos, encontramos um casal de turistas que haviam chegado ali de quadricículo, vieram para uma expedição fotográfica junto com um guia e mais uma vez, não encontramos ninguém fazendo a travessia a pé, eu e a Julia éramos os únicos e claro, causamos espanto em todos quando souberam que estávamos por conta própria e com uma mochila gigante nas costas.
      O alojamento ali era bem estruturado e bonito, ainda que extremamente simples e os preços eram os mesmo de todos os outros, os mesmos 50 reais para rede e para a comida. Novamente decidimos não cozinhar, estávamos varados de fomo, com o estomago lá nas costas e nos demos esse presente, já que a comida também era agradável, mesmo que não passasse de um peixinho frito, arroz, feijão e uma saladinha.
      Havíamos enfrentado um dia difícil, complicado em termos de navegação, mas estávamos ali, sentados à mesa e com uma comida quentinha a nos alegrar a alma. Foi um dia incrível, com paisagens de sonhos e eu estava imensamente satisfeito de estar ali com a minha filha, num fim de mundo , no centro selvagem do deserto mais molhado do mundo e a minha felicidade transbordava, eu estava justamente onde queria estar, fiz tudo para estar ali, a vida me trouxe até ali , não tinha o direito de reclamar de nada, mas tinha o direito de chorar, extremamente emocionado pelo momento único.
      Depois do almoço saímos para conhecer o povoado de QUEIMADA DOS BRITOS e também já ir nos familiarizando com o caminho que nos levaria para fora do oásis no dia seguinte. Seu Raimundo nos contou que as dunas estavam avançando e que mais uma vez teriam que se mudar de lá, mas que já estavam acostumados. O povoado em si não tem muitas casas, talvez uma dúzia ali nos Britos e mais uma dúzia 1 km à frente, que é onde se diz ser a Queimada dos Paulos, mas o seu Raimundo diz que é invenção do povo e que tudo aquilo pertence a queimada dos Britos e que não tem nada de Paulo não.
      Nossos aposentos no alojamento da D. Joana (mulher do seu Raimundo), não passou de uma rede, instalada cuidadosamente numa espécie de oca circular, feita de troncos de cajueiro e palha de Buriti, um charme rustico. Além dessa espécie de oca, ainda há um grande galpão que serve de redário, que é justamente onde estão o casal de turistas e o guia. Aliás, o guia quis tirar uma casquinha, oferecendo para levar nossas mochilas no quadricículo, para o próximo destino, para o próximo oásis, mas recusei imediatamente, mesmo vendo que minha filha já estava com os pés bem machucados e que o dia seguinte seria o maior trecho que teríamos de percorrer. Talvez fosse um pouco de orgulho, mas tinha em mente atravessar o deserto com minhas próprias pernas, carregando minhas próprias coisas e não ia fraquejar agora, quando só nos faltavam 2 dias, nem que eu tivesse que carregar duas mochilas nas costas.
      DE QUEIMADA DOS BRITOS ATÉ BETÂNIA
      Às cinco da manhã, nos pomos de pé, tomamos café e partimos às seis, quando o sol deu as caras. Pegamos um atalho para fugir do rio, que nessa época do ano tomou conta da estradinha de areia, nos fazendo cruzar por uma ponte de troncos, que nos leva diretamente para o centro da aldeia. A estradinha cruza no meio das casas, onde ajudamos um bode a se livrar de uma rede de pesca. À frente, passamos pela escola que homenageia o seu Manoel de Brito e logo em seguida pelo pequeno cemitério. Um km depois, adentramos em QUEIMADA DOS PAULOS, onde está o caminho que vai nos devolver novamente para o deserto de areia, primeiro seguindo por um caminho sinalizado para algum veículo eventual, mas logo o abandonamos e nos enfiamos em definitivo no mar de dunas e lagoas, estávamos novamente envoltos a nossa própria solidão.
       
      Nesse quinto dia de caminhada, teríamos pela frente nada mais nada menos que 20 km de dunas , areia e lagoas e estávamos plenamente conformados de que seria um dia duro, talvez o mais duro de toda a travessia, mesmo assim, havia qualquer coisa de mágico no ar , porque havíamos ouvido falar que esse trecho era o mais bonito de todo o roteiro, mas não conseguíamos imaginar como poderia ser isso, já que na nossa cabeça , estava difícil pensar que ainda teria algo para nos surpreender, tamanha a beleza que já tínhamos presenciado nesses 4 longos dias.
      Logo de cara, uma lagoa gigante se apresenta. Não era uma lagoa muito fundo, mas daquelas que requer cuidado porque poderia haver algum buraco e como a Julia ficou com receio de atravessar e se dar mal, coloquei a mochila dela na cabeça e passei com as 2 mochilas, mas não foi algo fácil, já que era uma lagoa com uns 500 metros e andar dentro da água com 2 mochilas não é lá algo muito confortável, além do mais, tinha sempre que fazer um esforço enorme para não afundar e acabar sofrendo risco de afogamento. Poderíamos ter dado a volta, mas isso nos custaria tempo e mais esforço numa areia extremamente fofa. Para diminuir o trecho e tomar um fôlego, fomos usando as ilhas no meio da lagoa como porto seguro, para descansar e enfrentarmos o próximo trecho.
      As dunas vão crescendo de tamanho e como nada no deserto parece não ser insuperável, a areia foi mudando de cor e se transformando em um branco de doer os olhos, num fenômeno impressionante, a tal ponto da gente perder a noção de distância e profundidade e quase acabar despencando várias vezes em verdadeiras bocas de vulcões, poços de areia sem água. A cada duna subida, a cada lagoa atravessada, a paisagem ia se agigantando, como se as montanhas de areia quisessem engolir o mundo.

      O dia vai passando e é impossível contar quantas lagos diferentes testemunharam nossos pés, quantas dunas de areias foram subidas por nós, muito porque , dizem haver 36 mil delas espalhadas por um território tão grande que caberia toda a gigante cidade de São Paulo e ainda sobraria espaço e como eu havia dito, era impossível que se passasse mais de 15 minutos sem termos que cruzar uma lagoa, seja com a água pela canela, seja com a água no pescoço ou mesmo com algumas confinadas em verdadeiros poços, o que as tornam um espetáculo à parte.
      Esse quinto dia estava excepcionalmente mais quentes que os outros, talvez fosse impressão nossa, já que esse era um dia longo, com um desgaste um pouco maior, mas no horizonte, nuvens negras já pairavam sobre nossas cabeças, anunciando que a tarde não escaparíamos de uma boa chuva. Por isso mesmo, puxei a fila, apertei o passo, não poderíamos dar bobeira. Mas o dia vai passando e mesmo que já tenhamos o próximo oásis na nossa visão, temos plena consciência de que ele ainda se encontra numa distância considerável.
      Outro fenômeno que vai nos chamando a atenção, são os pássaros que ao nos ver, vão dando rasantes sobre nossas cabeças, na tentativa desesperada de proteger filhotes e ninhos. Essas pequenas coisas vão nos distraindo, vão fazendo o tempo correr e mesmo que estejamos apreensivos com uma possível tempestade no final de tarde, nunca nos furtamos de nos enfiarmos de cabeça nas lagoas transparentes e lá ficarmos, até acharmos que é hora de partir para outra lagoa, num ciclo que se repete a cada 15 minutos, fazendo com que estejamos sempre de bom humor , sempre felizes pela oportunidade que a vida estava nos dando, mas uma hora foi preciso descer para o mundo real, porque o nosso maior pesadelo veio sorrir para a gente.
      Estávamos há menos de 2 horas de caminhada da entrada do próximo oásis, quando o vento começo a urrar, soprar velozmente, levantando poeira para todos os lados. No horizonte, nuvens negras ameaçadoras faziam derramar uma atmosfera de água, a coisa começou a ficar feia. Atravessamos uma grande baixada, onde uma lagoa rasa era pontilhada por pequenos arbustos mortos. Não havia tempo para mais nada e infelizmente, eu nem mesmo sabia o que fazer diante da situação ameaçadora que se apresentava à nossa frente. Não havia para onde correr, éramos apenas espectadores passivos de um show de horrores, onde uma guerra de raios era travada no céu. Não havia tempo nem para montarmos nossa barraca e minha única ação foi tirar nossas capas de chuvas da mochila e esperar que a sorte fizesse com que passássemos ilesos pela tempestade. A água caiu com gosto, mas surpreendentemente não durou mais que 10 míseros minutos e do mesmo jeito que veio, foi embora, desapareceu na imensidão do deserto e nos deixou novamente com nosso companheiro de jornada e nós três, eu , a julia e sol, descemos e subimos mais algumas dunas até nos posicionarmos numa montanha de areia bem alta e ter certeza de que a terra prometida, ao menos daquele dia, já estava ao nosso alcance , o OÁSIS DE BETÂNIA já quase poderia ser tocado com nossos pés.

      Lá embaixo, duas lagoas de águas transparentes nos convidam para ficar. O sol tomou conta de tudo e não havia nenhum vestígio da chuva. Como o oásis estava ali, a não mais que uns 30 minutos de caminhada, jogamos nossas mochilas no chão e nos entregamos mais uma vez ao ócio e só fomos embora porque nossas barrigas começaram a roncar. Do nosso lado esquerdo, uma área alagada nos chama atenção e por um momento quase pensamos estar no PANTANAL. Avistamos uma prainha de rio, onde muitos veículos 4x4 estavam estacionados, os tais pau de arara de luxo e aí começamos a entender que esse oásis é onde os turistas conseguem chegar motorizados. Pois bem, para entrar no povoado é preciso que se atravesse o grande rio ALEGRE, pagando-se uma pequena quantia que deve girar em torno de uns 10 ou 15 reais, como haviam nos dito, mas antes mesmo de chegarmos no lugar onde se pega uma canoa, fomos interceptados por um pequeno barquinho a motor que nos ofereceu uma carona até o RESTAURANTE E REDÁRIO NOVO HORIZONTE.
      Esse estabelecimento fica um pouco afastado do povoado, não muito, mas como estamos na época das cheias, tudo em volta parece estar embaixo d’água e como eu disse, se você não se situar bem, vai pensar que está dentro do Pantanal. Já passava das três da tarde e a maioria dos turistas que foram ao restaurante, já haviam se mandado, mas ainda havia comida e mandamos ver um “PF” de peixe e camarões gigantes, com custos muito menor que a comida dos oásis anteriores, chegando a pagar 35 reais, mas como ali há muitas opções, era só procurar para achar preços ainda melhores, afinal de contas, o cartel estava quebrado pela concorrência e até as redes conseguimos alugar por 40 reais, num lugar tranquilo e aconchegante.

      DE BETÂNIA ATÉ SANTO AMARO DO MARANHÃO
      BETÂNIA, como os outros povoados é minúsculo, mas a gente nem chegou a ir no meio das casas, como eu disse, tudo alagado e também aproveitaríamos o barco do restaurante que nos levaria de volta sem nenhum custo. O Percurso Britos x Betânia é sem dúvida um dos mais duros e longo dessa travessia. A Julia estava com os pés em frangalhos, além das bolhas, sentia muitas dores por causa da repetição de movimentos, como se você ficasse o tempo todo dando pequenas batidinhas na areia dura e isso durante 5 dias seguidos, chega uma hora que o pé vai colapsar. A grande maioria que faz essa travessia, chega em Betânia e contrata uma das dezenas de caminhonetes que passam por lá todos os dias trazendo e levando turistas e poderíamos tranquilamente ter feito o mesmo, mas a gente se recusava a sair dali motorizados, nem que tivéssemos que nos arrastar de joelhos na areia até o final.
      Eram pouco mais de sete horas da manhã, quando o barquinho nos deixou em terra firme, bem do outro lado do rio, em frente à entrada ou saída do vilarejo. Tomamos a larga trilha de areia e em alguns minutos já estávamos novamente na mesma prainha onde ficam estacionados os jipes e caminhonetes 4x4. Passamos por eles, sob o olhar incrédulo dos turistas que por lá estavam, como se eles quisessem nos perguntar, para onde diabos iríamos com uma cargueira enorme nas costas. Deixamos definitivamente a civilização para trás e nos metemos nos caminhos dos jipes, descendo e subindo dunas, voltando a nos maravilharmos com lagoas cada vez mais espetaculares, mas numa curva do deserto, se é que deserto tem curva, fomos obrigados a logo pela manhã, pinchar nossas mochilas na areia e aplaudir de pé, mas as vezes aplaudíamos de cabeça para baixo, quando escorregávamos para a LAGOA AZUL E VERDE.

      Aquela lagoa ia além da nossa capacidade de achar as coisas bonitas. Não importa quantas lagoas havíamos visto, não importa que havíamos nos deslumbrados com centenas de paisagens incríveis, não sei porque, mas a gente ficou hipnotizado por ela, talvez nem fosse a mais bela do roteiro, mas estávamos fragilizados por ser o último e derradeiro dia daquela travessia. Era uma lagoa um pouco mais funda, principalmente na borda, onde a duna despencava para dentro d’agua e aí não teve jeito, ficamos brincando de correr e se jogar para dentro dela, duas crianças brincando no parque de diversão.
      Nesse último dia de travessia, como sabíamos que era um trecho curto, resolvemos não nos preocuparmos com o tempo. Decidimos apenas caminhar, apenas andarmos, um pé à frente do outro, fomos curtindo cada metro de areia, quando nos dava na telha, parávamos por um longo tempo e ficávamos imersos nas lagoas. Quando queríamos ganhar terreno, usávamos os caminhos dos jipes, sempre tomando cuidado para não sermos atropelados por um, já que as vezes caíamos em pontos cegos nas dunas, onde ninguém via ninguém. Aliás, toda vez que um jipe passava lotado de turistas, nós éramos a atração, ficavam apontando o dedo para gente, dois minúsculos pontos vagando pelo deserto ou éramos reverenciados, como símbolos de persistência e determinação. E não era de se estranhar mesmo tal comportamento, já que em quase uma semana, jamais vimos outro grupo fazendo esse roteiro a pé e tão pouco encontramos outros caminhantes por onde passamos e dormimos e olha que estávamos na alta temporada dos Lençóis.
      As lagoas vão se sucedendo, enquanto o sol vai se posicionando no meio do céu. Eu e a Julia vamos nos arrastando, vagarosamente. A julia mais ainda, devido as dores nos pés e conforme o tempo vai passando e vamos comendo quilometragens, parece que o corpo vai desacelerando, sabendo que o fim está próximo. Continuamos alternando o caminho dos jipes e a rota das lagoas, muito porque, o caminho dos jipes também passava por lagoas espetaculares, só não havia a necessidade de termos que cruzar por dentro delas, mas como passava colado, não nos furtávamos em nos jogar para dentro da água e lá ficávamos até a pele descolar dos ossos.
      Como essa parte da travessia passa pelas bordas dos Lençóis, vamos encontrando pelo caminho, placas que vão sinalizando, além do lugar onde devem passar os jipes, (já que podem despencar facilmente de uma duna de uns 50 metros de altura), mas também algumas lagoas turísticas, as poucas com nomes, das mais de 36 mil que existem por lá. Ao longe, uma antena nos indica que Santo Amaro já está na nossa mira, mas ainda muito distante, onde um vai e vem de veículos aparecem e desaparecem sobre as grandes dunas e vão nos dando a direção a seguir, nos facilitando a vida e nos fazendo planejar atalhos, que encurtam nossa jornada.
      Miramos a Antena e traçamos uma rota para ela, cruzando baixadas alagadas, subindo outras tantas dunas, dando tchauzinho para a turistada motorizada que passavam constantemente por nós, até nos desviarmos do caminho em favor de uma placa que marcava uma lagoa famosa. Às 11:30 estávamos na PISCININHA, uma lagoa incrível, não muito funda, mas com uma transparência única. Largamos tudo e corremos para dentro dela, sabedores que essa seria nossa última parada, oficialmente nosso último mergulho, nossa despedida final. E por lá ficamos, imersos, curtindo o que de melhor essa vida pode nos proporcionar.
      Nos levantamos e partimos, agora imbuídos de chegar, sem pressa, mas com determinação. Uma lagoa profunda se apresenta à nossa frente, mas bastou margeá-la para encontrar uma passagem, virar à esquerda e ganhar o km final, até tropeçarmos numa placa que marca a ENTRADA PARA DOS LENÇOIS, no nosso caso, a SAÍDA. Ganhamos a rua de areia, atravessamos um riacho e já demos de cara com uma BASE MUNICIPAL que fiscaliza os veículos 4x4 para saber se são cadastrados, CHEGAVA AO FIM NOSSA JORNADA PELOS LENÇOIS MARANHENSES, o mundo feito de DUNAS, AREIAS E AGUAS, acabava de ficar para trás.
      Antes de começarmos esta travessia, ainda em São Paulo, tentamos angariar informações sobre a necessidade ou não de sermos obrigados a contratar um guia ou sobre as restrições de se acampar no meio do deserto. Não encontramos nada e nem ninguém que nos dissesse o contrário, mas mesmo assim, ficamos preocupados o tempo todo de sermos barrados, não no meio do deserto, mas no início ou no final da caminhada. Então, quando vimos a base, ficamos receosos de sofrermos alguma sanção, mas com a cabeça firme e o olhar confiante, chegamos até a base e lá encontramos uma mulher, que mal olhou na nossa cara, quando demos um sonoro, BOA TARDE. Passamos ilesos e não demos outras satisfações, mas alguns metros depois, encontramos uma placa que nos esclareceu todas as nossas dúvidas: Na placa do próprio Parque Nacional, um monte de ícones nos dão aval para caminhadas, travessias , mergulho, fotografia, canoagem e acampamentos e só restringem fogueiras, jipes e motos não credenciadas , portanto, toda a nosso jornada estava dentro da lei , mas se o mundo de areia chegou ao fim às 13 horas da tarde, ainda nos faltava mais de uma hora de caminhada até o centro da cidade.

      Aquele era um dia quente, talvez o mais quente de todo a nossa travessia. A Julia capengava, quase não conseguia mais andar e até eu comecei a sentir uma cólica de rim, consequência de uma pedrinhas mal tratadas. Ganhamos o calçamento empoeirado. As ruas quase desertas, de um povoado meio que beirando um fim de mundo, ainda que um tanto grande. No caminho, tentávamos achar uma birosca para nos hospedar , mas não encontramos nada que nos interessasse e depois de perambular por mais de uma hora, ganhamos o que nos pareceu ser a avenida principal e ao vermos uma placa de restaurante, viramos a direita antes da praça central e quando lá chegamos, descobrimos que além de um lugar para se comer alguma coisa, também servia de alojamento e aí não tivemos dúvidas, encerramos nossa travessia oficialmente, SANTO AMARO DO MARANHÃO havia sido conquistado, MISSÃO CUMPRIDA.
      Almoçamos e fomos até o centrinho da cidade para comemorar nossa travessia com muito sorvete a base de frutas locais, além de agendar a volta para São Luís. E é preciso mesmo ficar atendo a isso, porque quase não há lugares disponíveis nas vans que partem geralmente uma vez ao dia e quase sempre de madruga, tipo quatro ou cinco da manhã. À noite, ficamos de bobeira, apenas descansando e curando as feridas, mas ainda extasiados com a aventura vivida nessa última semana e como no outro dia teríamos que acordar com o cantar do galo, fomos dormir sedo e se a caminhada havia terminado definitivamente, ainda sabíamos que nossa jornada por terras maranhenses estava apenas no começo, hora de conhecer a capital do Estado e dar um pulo na histórica Alcântara, mas essa é uma outra história, um longa e deliciosa história.
      Nessa vida, já tive a oportunidade de conhecer grande parte dos Estados do Brasil. Subir quase todas as grandes montanhas, viajar por quase todo o litoral. Já me enfiei em quase todas as Chapadas brasileiras, fui há lugares onde poucos já estiveram, pelo acesso difícil e complicado. Estive em dezenas de Parques Estaduais e Nacionais. Viajei por vários países da América do Sul, desde o norte da Patagônia, passando pelos desertos do Chile, altiplano boliviano, Cordilheira Branca no Peru, lugares históricos e de relevância mundial e apesar de serem lugares deslumbrantes e diferenciados, nenhum deles conseguiu me cativar quanto os Lençóis Maranhenses, mas tem um, porém, essa beleza toda tem que ser sentida, vivida intensamente, é preciso que a pessoa se desapegue das comodidades da vida moderna e se lance numa das mais incríveis caminhadas do Brasil. Será necessário sair da zona de conforto e se organizar para poder atravessar um dos desertos mais molhados do planeta, para sentir o quão isolado um ser humano pode estar, para sentir a essência do vazio espacial, mergulhar num mundo feito de areia e água, mas com uma diversidade inigualável e só assim poderá descobrir a grandiosidade dessa caminhada, que faz dos LENÇÓIS MARANHENSES, a mais SENSACIONAL travessia do nosso continente.
       
       
       
       
       
       
    • Por mcolzani
      Eu e minha esposa Magali decidimos em setembro de 2020 fazer a travessia. Começamos a planejar e nos preparar desde então. Definimos que a melhor data seria na semana santa pois seria mais fácil de conciliar férias, folga etc e ainda daria uma margem de segurança maior caso fosse necessário estender a travessia.
      Fomos com o objetivo de caminhar no mínimo 35km/dia mas tentar fazer 40km/dia, que reduziria em um dia a travessia.
      Inicialmente iríamos seguir no sentido sul (Rio Grande x Barra do Chuí), porém na semana que antecederia nosso início a previsão indicava maior incidência de vento sul e optamos em inverter, saindo da Barra do Chuí no sentido norte.
      Saímos de Itapema/SC de carro até a rodoviária de Pelotas/RS no dia 27/03 onde deixamos nosso carro e pegamos o ônibus até Chuí. Chegando em Chuí levamos 20min até conseguir um taxi para a Barra do Chuí (lá não existe Uber/99 etc).
      Pernoitamos em um Airbnb lazarento, mas enfim, a ideia era ficar bem próximo da praia para conseguir começar a caminhada cedo.
      Obs: não conseguimos sinal de celular na Barra do Chuí.
      Dia 01
      Iniciamos a caminhada as 06:00 do dia 28/03/2021 com vento sul moderado. Nossa ideia inicial era fazer uma parada a cada 10km, porém preferimos tocar direto até Hermenegildo e nos abrigar do vento.
      Foram aproximadamente 13km até essa primeira parada. Aproveitamos para comunicar os familiares.
      Trocamos as meias e seguimos a caminhada. Logo ao passar Hermenegildo começou uma chuva leve. Vestimos a capa de chuva e continuamos.
      Poucos km a frente a chuva engrossou, porém não havia local para abrigo e continuamos a caminhada por mais 5km até encontrar um barraco de pescador onde nos abrigamos por aproximadamente 1 hora até a chuva passar.
      Ao longo do dia o sol ia e vinha. 
      Como era domingo, vários moradores de Hermenegildo passavam de carro.
      Estávamos aproximadamente no KM 38, totalmente secos quando uma chuva torrencial nos atingiu. Sem possibilidade de abrigo, seguimos até completar 40km e montamos acampamento em meio as dunas (agora sem chuva).
      Nessa noite ventou pouco, porém a chuva recente e o orvalho que se formou acabou gerando um pouco de condensação no interior da barraca.
      Jantamos, cuidamos dos pés e eu percebi a primeira bolha inesperada (bolha nos mindinhos eu já esperava).
      Distância: 41km (areia fofa)
      Dia 02
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento. Eram aproximadamente 6:45 quando começamos a caminhar com as roupas e tênis molhados.
      Decidimos racionar a água para reabastecer na casa do Sr. Ricardo que possui poço e atingiríamos entre 10 e 11 horas da manhã.
      Faltando 1 km da casa do Sr. Ricardo, avistamos uma vaca deitada na beira da praia. Minha esposa achou que ela estivesse morta, mas eu percebi movimentos de orelha. Estávamos a 50mt dela quando nos observou e levantou assustada. Virou-se contra nós e avançou em nossa direção. Nesse momento tentei chamar atenção para mim e me afastei da minha esposa. Imediatamente empunhei os bastões como se isso fosse resolver alguma coisa. A vaca recuou e virou da direção da Magali quando pedi para ela ficar parada e fui até ela. A vaca ameaçou novamente e juntos erguemos os bastões lentamente até que a vaca recuou e se afastou pelo outro lado. Lentamente nos desviamos e seguimos nosso rumo. A adrenalina subiu bastante nessa hora e o susto foi enorme. Melhor que nada aconteceu e ficou apenas por isso.
      Chegamos na casa do Sr. Ricardo e chamamos por ele. Não estava, enchemos nossas garrafas e tratamos com cloro. Enquanto isso, aproveitamos a sombra para um descanso e para trocar as meias.
      Descobri uma nova bolha se formando em baixo do outro pé.
      Quando estávamos para sair chegou um veículo com 3 homens que estavam construindo uma nova casa para o Sr. Ricardo mais aos fundos (pois a atual está quase sendo tomada pelas dunas). Conversamos um pouco e seguimos nossa caminhada.
      Por ser 2a-feira, nesse dia praticamente não tivemos contato humano. Nesse dia encontramos o único caminhante que veríamos ao longo da nossa caminhada. Nos cumprimentamos, conversamos rapidamente e cada um seguiu seu destino. Nós querendo seguir e ele querendo terminar logo.
      No meio da tarde pegamos chuva novamente. Decidimos proteger os tênis com o saco que usávamos para atravessar os arroios pois não queríamos andar novamente com os pés molhados.
      Esse foi o pior dia e a pior noite, o dia todo foi um misto de "chega, vamos desistir, etc", por sorte não passou ninguém oferecendo carona. 
      Quando paramos para acampar, ventava sudoeste e então montei a barraca abrigado por dunas nesse lado. Só havia abertura pequena para o leste e foi ai que começou nossa pior noite. Já estávamos dormindo (aproveitamos 21:30) quando o vento virou leste com chuva forte.
      Vacilei ao não reforçar o estaqueamento da porta que estava exposta ao leste e aconteceu o óbvio, o speck soltou e essa lateral "caiu". Fiquei sentado encostado no bastão para a lateral ficar de pé. Quando estiou sai à procura de algo para ancorar essa porta e achei um barril cortado que coloquei sobre o speck e enchi de arreia.
      Nessa noite continuou ventando muito e chovendo diversas vezes.
      Distância: 40km (areia fofa com bem pouca área firme)
      Dia 03
      Despertador tocou as 5:00, estava chovendo e botei o soneca para + 15min. Continuava chovendo e seguimos dormindo até aproximadamente 6:15 quando parou de chover, então comemos e saímos para caminhar já eram 8:00.
      Decidimos que 30km estaria bom para esse dia.
      Seguimos +/- a ideia do dia anterior e racionamos a água para reabastecer no Farol Albardão que estava a 7-8km de distância.
      Fomos muito bem recebidos no Albardão onde bebemos água e reabastecemos todas nossas garradas. A água lá é potável, então não tratamos nem filtramos.
      Nesse dia percebemos que uma parada a cada 10km não era sustentável e decidimos parar a cada 7km. Nesse dia comecei a sentir fortes dores na junção do fêmur com o quadril e comecei a "mancar" para não estender a perna e doer mais. Assim foi praticamente até o final da travessia.
      Outro dia que tivemos pouco contato humano e com pouco vento, dessa vez sentido leste.
      Apenas no final do dia quando chegamos na área de reflorestamento que avistamos 2 caminhões saindo de uma área indo no sentido norte.
      Quase no final do dia, avistamos um morador indo recolher sua rede. Perguntamos se conhecia algum lugar bom para acampar na região querendo ouvir um "pode acampar no lado da minha casa" mas veio um "lá naquela baleia tem uma base do reflorestamento, talvez consiga lá". A tal baleia estava a uns 3-4 km e já estava começando a anoitecer. Deveríamos nos arriscar a andar toda essa distância e chegar lá de noite correndo o risco de nem achar a base? 
      Preferimos seguir mais 1km e acampar em meio as dunas altas. Dessa vez ancorei muito bem praticamente todos os lados da barraca para não ter surpresas.
      Novas bolhas para cuidar.
      Dormimos magnificamente bem. Como todas as noites anteriores, choveu bastante durante a noite.
      Distância: 35km (areia fofa)
      Dia 04
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Nesse dia acreditamos que seria difícil manter o ritmo e terminar em 6 dias. Já aceitamos que precisaríamos de 7 dias. Porém mantivemos o desejo de fazer os 35km.
      O dia foi bastante movimentado, muitos caminhões, ônibus, etc. Sabíamos que agora a água viria apenas dos arroios, porém perto das 11:00, quando devíamos ter apenas 1 litro de água, vimos um quadricíclo vindo em nossa direção. Pedi para parar e perguntei se sabia de algum ponto de água pela frente. Conversamos um pouco e o Mauro, funcionário da empresa de reflorestamento, se ofereceu para ir pegar água na base deles. Deixamos nossas 4 garrafas de 1,5lt com ele. Uma hora depois ele passou por nós e falou que deixou as garrafas em uma placa mais a frente para que não precisássemos carregar todo o peso. Caminhamos uns 2km até chegar nas garrafas, tratamos e filtramos. Ficamos absurdamente contentes, não tinha como ficar mais contente.
      Próximo das 15:00 uma caminhonete branca nos intercepta. São funcionários da empresa de reflorestamento. Conversamos um pouco e eles falam (se pedirmos) que iriam trazer água para nós quando voltassem. Ganhamos o dia e agora não tinha mais como melhorar mesmo.
      Uma hora depois passa outra caminhonete igual (também da empresa) e pergunta se queremos algo (água, comida, fruta etc). Respondo que aceitamos qualquer coisa, mas principalmente água. Ele diz que na volta trará algo para nós.
      Continuamos a caminhada e com o sol de pondo resolvemos achar um local para acampar. Enquanto montava a barraca a esposa ficava nas dunas de olho se vinha alguma caminhonete.
      Quando terminei de montar a barraca, avistei um veículo vindo e como já estava escuro sinalizei com a lanterna.
      Dois santos que caíram do céu. Nos trouxeram 4 litros de água tratada e gelada (com pedaços de gelo ainda). Não só isso, trouxeram duas marmitas e frutas. Estávamos nos sentindo reis.
      Só então percebemos que montávamos acampamento praticamente na entrada de uma base deles e nos falaram que o movimento de caminhões ali seria a noite toda pois a operação deles é 24hrs. Nos ofereceram ficar em um alojamento vago.
      Agora certamente não tinha como melhorar. Decidimos aceitar o convite pois o local onde estávamos era de dunas baixas e o vento provavelmente iria incomodar. Caminhamos quase 2km até chegar na base e nos deparamos com o inimaginável, além de tudo que já tinham nos oferecido, poderíamos tomar um banho quente em chuveiro a gás.
      Nossa energia se renovou absurdamente nessa noite. Decidimos dormir uma hora a mais nessa noite pois não precisaríamos arrumar muita coisa pela manhã.
      Agradecemos ao pessoal que nos recebeu e principalmente ao Rodrigo (encarregado). Pegamos seu contato para agradecer novamente quando concluíssemos.
      Nesse dia outras bolhas surgiram e algumas antigas começavam a parar de incomodar.
      Distância: 42km (enfim, areia firme)
      Dia 05
      Despertador tocou as 6:00, comemos, organizamos as coisas, reabastecemos nossa água, nos despedimos do pessoal e começamos a caminhada.
      Pela distância percorrida no dia anterior, decidimos que esse dia seria de luxo, 35km bastaria.
      Saímos dá área do reflorestamento e começamos a avistar as torres geradoras de energia eólica. Que visão horrível. Você começa a enxergar elas a 20-25km de distância, então caminha, caminha, caminha e caminha ainda mais e nunca chega.
      Esse dia foi um dia caminhando olhando apenas para baixo, pois era desmotivador. Esse foi o 1o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      O vento estava moderado a forte no sentido leste, o que fez com que a maré estivesse acima do normal, nos forçando a subir para areia fofa em vários momentos.
      Ao final do dia, chegamos em um trecho de dunas baixas e já bateu aquela sensação ruim para achar um local bom para acampar. 
      Nós não queríamos ter que andar 500-700 metros para chegar nas árvores, querendo ou não é uma distância que pode fazer a diferença e em terreno ruim.
      Atravessamos o primeiro grande arroio e achamos um ponto menos exposto. Ancorei bem a barraca e dormimos igual reis.
      Distância: 38km (alternando entre areia firme e fofa)
      Dia 06
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Esse seria o primeiro dia para captar água nos arroios. Estávamos com 1 litro de água e a esperança era conseguir água com quem passasse, afinal era feriado e teríamos movimento. Passou o primeiro carro e nada de água. Logo chegamos a outro arroio grande e decidimos captar água ali e garantir. Pegamos 4,5 litros, tratamos e filtramos.
      Esse dia estava puxado, o vento resolveu querer dificultar e virou norte moderado. Foi o dia todo contra o vento, mas nada nos seguraria. Muitos arroios pela frente, já estávamos exaustos de colocar e tirar a sacola nos pés, mas assim o fizemos durante todo o dia.
      No 4o ou 5o arroio a Magali não olhou bem o terreno e entrou em uma arreia movediça, ficando com os 2 pés enterrados até acima do tênis. Falei para não tentar sair, fui até ela e puxei ela pela cargueira. Saiu fácil mas encharcou os pés e os tênis.
      Andamos, andamos, andamos e a quilometragem não andava. Parecida que estávamos em uma esteira, andava sem sair do lugar.
      Dia bem movimentado, carros, motos, ônibus, bicicletas e o primeiro cachorro de toda travessia. Esse foi o 2o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      Enfim chegamos a praia do Cassino, mas ainda tínhamos 13 km pela frente. Parece que foi a parte mais longa da travessia. A praia estava muito movimentada devido ao feriado. Às 16:30, enfim, chegamos aos molhes. Ficamos sem reação, apenas sentamos e aproveitamos o momento.
      Decidimos pegar um Uber até Pelotas e retornar direto para casa.
      Distância: 34km (areia firme)
      Distância total: 230,74 km

      Equipamentos que levamos:
      Murilo Magali Se alguém querer, posso passar também a relação dos alimentos levados.
      Tracklog
       

    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Em tempos complicados nos colocamos na estrada. Foram 26 horas dentro do ônibus. A lotação praticamente vazia, nem 15 pessoas, uma série de protocolos para evitar ao máximo qualquer contaminação. Depois de todo esse trajeto ficaríamos sós, isolados, quase uma quarentena. Sete dias completos e muitas surpresas, superações e no final um evento triste que poderia estragar toda uma viagem, mas deixa pra lá. As pessoas de boa índole não merecem que seja despendida grande atenção para os intrépidos.
      Dia 1
      Ficamos meio período na cidade de Rio Grande, um local de muita história, 9 museus (fiquei sabendo) todos fechados, muita arquitetura e praças dignas de um povo desbravador.

      Ao meio dia pegamos o circular que vai até a Barra. Descemos no último ponto antes do retorno. Recebeu-nos um aguaceiro danado. Enquanto encapávamos a cargueira e colocava a capa de chuva, tomamos o primeiro banho. Só não foi maior porque fugimos para uma varanda ali do lado. Não demorou para o proprietário aparecer. Depois de algumas curiosidades sanadas, seguimos firmes pelo asfalto até o molhes. Já na chegada encontramos um bugue, nele um homem desesperado. Pedindo ajuda. Seu filho, um amigo e o tio haviam seguido pelo molhes mar adentro. O mar enfurecera e subiu rapidamente. O homem fugiu com o carro mas os outros nem sinal, o molhes já estava praticamente tomado de água. O mar quebrava com força, rajadas de ondas cobriam metros acima do monumento. Orientei o a correr na Barra e chamar o bombeiro ou qualquer coisa (nesse momento eu não havia visto a situação do mar ainda). Quando chegamos no molhes, padre mio... Olhei para trás e lá vinha o homem, não tinha ido atrás do bombeiro ainda. Quando peguei o telefone para fazer a ligação um casal que estava em um trailer ali do lado gritou - Lá, estou vendo alguém. Guardei o telefone, os três vinham com dificuldades entre as ondas. O pai desabou em prantos, e xingamentos. Horas mais tarde fui refletir: ele não ligara para o socorro temendo a notícia horrível que receberia. No final todos ficaram bem.
      Para nós, vida que segue. Primeiro não conseguimos chegar no molhes, o mar tinha tomado toda a praia. Desviamos pela direita e saímos nas dunas. Dali seguimos com dificuldades contra o vento e sobre as dunas. Para ter uma ideia os banheiros químicos que ficam na praia estavam todos tombados. Mas não se apavoremos, toda essa situação se devia a um ciclone que estava sobre o oceano nesses dias.

      Caminhamos os 8 km até o Balneário Cassino, durante o trajeto traçamos vários planos B. Se a tempestade não passasse teríamos de esperar alguns dias, em último caso desistir. Pernoitamos num Hostel. Ventava muito. Passei a noite monitorando o ciclone e os ventos pelo app wheater. De madrugada os ventos começariam a se afastar e no sábado já estaria tudo calmo.

       
      Dia 2
      Acordamos cedo, o vento ainda soprava forte, mas o céu já estava melhor. Partimos. Na praia o mar tinha recuado um pouco, apesar do vento sul. Logo na primeira hora, depois da garoa um arco íris pintou sobre o parque eólico. Isso é um bom sinal.

      Seguimos firmes, 3 horas depois o parque eólico ainda estava às vistas. Chegamos no Naufrágio Altair. Pera lá! Chegamos perto dele, as ondas tomavam a ruína. O mar já avançara sobre a praia novamente, muitos dos canais de água se tornaram bancos de areia movediça engolindo os pés. Paramos para almoçar no Hotel Netuno, único lugar abrigado do implacável minuano (vento).

      Voltamos a marcha, agora pelas dunas. A praia estava alagada. Não demorou muito até que a Bruna fosse engolida até a cintura na areia movediça. Com muita luta conseguimos resgatá-la. Um misto de apreensão, medo e comicidade tomou conta dos dois. Às 15:00 demos por vencidos, depois de 30 km, tomamos o rumo da mata, em meio a um novo parque eólico, as poucas árvores restantes serviram de guarida.
       
      Dia 3
      Saímos cedo, ansiosos por descobrir o que o mar reservara. Pelo menos o vento já reduzira pela metade. Com a praia larga a caminhada fluiu bem. Logo cedo avistamos o Farol Sarita. Mais um desafio psicológico. Caminhamos 25 km dos 30 km, avistando o luminoso, e nada de chegar. Parecia que o negócio tinha rodinhas. Logo depois do almoço o mar voltou a complicar. A caminhada voltou a ser pela duna. Em poucos quilômetros encontramos um homem todo esfarrapado, com uma faca e olhar desafiador. Com receio, me aproximei a tentar um diálogo. Não entendi nenhuma palavra que ele disse, tratava-se de um hermitão que vive nas dunas, provavelmente.

      Enfim às 15:00 chegamos no farol, e logo à frente tentamos ir para a mata acampar. Caminhamos 3 km circulando o mangue alagado até que decidimos acampar embaixo de um arbusto na duna mesmo (sei que é burrice, mas depois do hermitão, fiquei um pouco abalado, não com medo de ser atacado, mas vai que ele se sentisse invadido...). Depois de lavar as partes no alagado, deitamos na barraca e nem lembramos mais do hermitão ou de qualquer coisa. Nessa hora o vento já havia cessado. Durante o dia, manhã, encontramos muitos carros e motos fazendo a travessia, a penas um grupo de motocross parou e falou que acampariam perto do Farol Verga, que deveríamos passar lá. Também encontramos um leão marinho e muitas, muitas tartarugas mortas.

      Dia 4
      Começamos cedinho na tentativa de fugir das dunas no período da tarde. O dia estava lindo, céu azul, vento leve, areia fina, mar calmo. Encontramos muitos carros fazendo a travessia nesse dia, também um grupo de ciclistas, que inclusive nos deram água. Logo avistamos a primeira carcaça de Jubarte, no segundo dia tínhamos visto uma Beluga morta. Mais à frente um naufrágio recente ainda bastante visível apesar das ondas.

      Logo que retomamos do almoço encontramos novamente a galera do motocross. Nos disseram que tinham feito um churrasco e esperado por nós, mas... No fim o seu Zeca falou que seria um bom lugar para acampar, e foi o que fizemos. Durante a caminhada da tarde percebemos que algumas caminhonetes iam e vinham pela praia, só não entendi o motivo. Como o mar tinha acalmado e a praia estava larga aproveitamos. Debaixo do sol forte das 14:00 uma das caminhonetes parou, um simpático senhor nos ofereceu um suco de limão, oh glória. Pensa num negócio bom, agradecidos seguimos em frente. Já eram passadas 15:00 quando chegamos no local de acampar. Definitivamente não chegaríamos a tempo de almoçar. Nesse dia alcançamos a marca importante dos 100 km andados.

      Dia 5
      Foi o dia que começamos mais cedo. Logo nas primeiras horas avistamos um senhor maltrapilho, descalço, caminhando com dificuldades. Ainda lembrando do hermitão, me aproximei. Ele com a mão dentro da bermuda, eu com cautela. Surpreendentemente entendi sua fala. Se chamava Paulo, recusou um sapato que tinha minha mochila, recusou comida, apenas aceitou água. Como tínhamos avistado um pouco antes um acampamento de trabalhadores na mata de pinus, orientei o senhor que caso precisasse chegasse lá. Nesse ponto já estávamos no Farol Verga.

      Saindo do Verga avistamos no horizonte um veículo gigante que saiu na areia e rumou para o sul. Não demorou, encontramos um carro parado com adesivos "Pet Free", não sei o que fazia ali. Uma hora depois aponta no horizonte o gigante, eram um caminhão de carregar toras, carregado. Vinha a todo vapor na areia. Passou por nós, buzinou e sumiu no norte. Paramos para almoçar quando encontramos uma carreta parada na areia. Sentamos à sombra e logo o dono dela apareceu. Curiosamente ele tinha o mesmo nome do senhor dos sucos. Conversando, explicou-nos que têm frentes de trabalho que ficam acampadas na floresta de pinus (chegam a 150 trabalhadores). Ele estava com a carreta-casa esperando um ônibus que traria o pessoal de Rio Grande e Pelotas. Quando falei do seu Paulo ele disse que já havia visto o mesmo homem andando de bicicleta na areia, de certa forma me senti aliviado por saber que ele se virava por aquelas bandas.

      Pouco depois de deixar a carreta, encontramos outra Jubarte, essa bem mais conservada. Ao tirar foto da baleia, olhamos para trás e lá estava o ônibus, descendo uma galera.

      Às 14:00 o reflorestamento que nos acompanhara acabou. Percebemos que seria possível chegar no Farol Albardão ainda naquele dia, ele já se desenhava no horizonte. Com 40 km, exaustos, com chuva, chegamos no farol. Já não esperávamos dormir lá devido a pandemia. Montamos acampamento do lado de fora do pátio da Marinha. Como o vento já rugia, fiz algumas ancoras com sacos cheios de areia que, enterrei e amarrei a barraca neles. Fomos dormir assustados com o vento, mas a amarração deu conta.

       
      Dia 6
      Acordamos de madrugada com trovões, vento e muita chuva. O dia clareou e a chuva castigava, meu maior medo não era se molhar, eram os raios. Pensamos em fazer um dia de descanso caso não passasse. Eram 07:15 quando as nuvens começaram a ceder, fizemos um desjejum e partimos, já 08:10. A chuva sumiu, mas as dunas estavam todas alagadas.

       
      Assim que começamos a caminhar começaram aparecer os problemas. Os passos de água que, até então eram raramente fundos, agora pareciam rios de desgelo. E para piorar se multiplicaram, cruzamos em média 5 por km nesse dia. Nessa manhã observamos uma infinidade de caravelas azuis na areia, assim como raízes e galhos que devem ter saído das dunas com a enxurrada (não as caravelas, que, devem ter vindo do mar).

      Só atingimos os 30 km às 17:00, quando avistamos um pedaço de mata, onde nos escondemos à noite. Além de atingir os 150 km nesse dia, tomar água muito boa drenada das dunas, encontrar um bom local para acampar, acompanhamos o segundo pôr do sol nas dunas (o primeiro havia sido no Albardão), tomamos banho fresco na água da chuva acumulada nas dunas e dormimos em meio a algazarras dos periquitos que aninham nas árvores ali.

       
      Dia 7
      Sabíamos que seria um dia longo, faltavam mais de 40 km para chegar no Balneário Hermenegildo onde teria um camping. Partimos às 06:40. O mar tinha recuado muito, as enxurradas formaram muitos canais (já secos). O chão irregular castigou os pés a manhã toda, quando ficava mais plano o conchal tornava os passos mais pesados. Nesse trecho muita vacas vigiam a praia, é grande também o número de ranchos nas dunas. Lá pelas 09:00 encontramos um negócio motorizado, feito em madeira, puxando uma carretinha cheia de entulho, com rodas largas que parecia um rolo compressor, apinhado de gente. Ainda de manhã avistamos mais dois naufrágios quase submersos na areia e no mar, um hotel destruído e um leão marinho começando a putrefação.

      Na hora do almoço se chegamos à sombra de um rancho na areia. Descansamos, aliviamos os pés e retomamos a marcha. O número de veículos que encontramos cresceu exponencialmente, muitas pessoas pescando de molinete. A praia agora alternava em trechos terríveis de irregular e outros menos, mas os pés doem até a alma. O alento é que já avistamos o Hermenegildo. No final foram 45km caminhados, além de bater os 200km. Valeu a pena. Chegamos no Camping Pachuca, o dono (incrivelmente tinha o mesmo nome dos dois outros homens que conversamos na praia nos dias anteriores) nos recebeu muito bem. Ofereceu a garagem para montar a barraca, nos trouxe pão com queijo e mortadela e ainda disse que seria cortesia da casa. Depois do banho, de barriga cheia, e diga-se de passagem a musica no rádio incrível, dormimos feito criancinhas.

       
      Dia 7
      Se demos o luxo de acordar mais tarde e sair só às 08:00. Diga-se de passagem que amanheceu chovendo. E ventando, mas o vento agora era norte e empurrou nos para o molhes. Na praia novamente, não demorou para dois cachorros, muito brincalhões nos acompanharem.

      Foram 15 km tranquilos. Com muitos passos de água, alguns fundos, inclusive. Mais um negócio estranho aconteceu, eram umas 10:00 quando passou uma patrola por nós. O maquinista ainda ofereceu carona, dispensamos numa boa. Chegamos no molhes da Barra do Chui às 11:50. Fomos recebidos por um bombeiro, todo empolgado que nos revelou estar pronto para fazer a travessia nos próximos dias. Descansamos algum tempo refletindo nosso feito.

      Tomamos as ruas do balneário até encontrar um buffet, onde fomos à desforra. De barriga inchada pegamos o ônibus para o Chui, chegamos lá a então a palhaçada. Como o ônibus para Porto Alegre era só às 22:00 ou às 12:00 do dia seguinte, fomos procurar um local para tomar banho e descansar, quem sabe passar a noite.
      Fomos em um posto Ipiranga que segundo o dono da rodoviária tinha chuveiro para os caminhoneiros. Fomos muito mal recebidos, e mesmo oferecendo para pagar fomos recusados. Segunda tentativa, uma pousada. O velhote que nos atendeu, primeiro fez cara de nojo por que talvez não estávamos muito bem trajados, segundo ele estava lotado, sei. Terceira tentativa, outra pousada. O homem que nos viu nem a porta abriu direito, após nos analisar, disse em tom ríspido que não tinha vaga e deveríamos procurar outro local. Respondi pra ele que não adiantaria procurar, o problema não era vaga, era preconceito. Nossa última investida foi um hotel de uma rede, Turis Firper, apesar de não muito barato (afinal não passamos a noite), fomos muito bem recepcionados.
      Às 22:00 tomamos o ônibus para passar 29 horas viajando até nossa terrinha. A maior dificuldade acabou sendo o chão irregular dos últimos dias, e a batalha psicológica do terceiro e quarto dias. Agora vamos descansar que a temporada de montanhas se avizinha.









       
    • Por Caçadordeviagem
      No dia 14 de Junho de 2019 foi inaugurado o Caminho de Nhá Chica, inspirado no Caminho de Santiago de Compostela e no Caminho da Fé, a rota se inicia na cidade de Inconfidentes/MG e vai até o Santuário de Nhá Chica em Baependi/MG, são cerca de 260 km cruzando as belíssimas paisagens montanhosas da Serra da Mantiqueira, é todo sinalizado com setas e placas, para mais informações há um grupo no Face com o nome "Caminho de Nhá Chica" ou visite o site: www.caminhodenhachica.com
      1° Dia: Inconfidentes/Borda da Mata (21 km).
      Eu percorri em Setembro de 2019, o 1° trecho, entre Inconfidentes e Borda da Mata, é o mesmo do Caminho da Fé, após Borda os caminhos se separam, o da Fé vai pra Tocos do Moji e o de Nhá Chica vai para Congonhal...
      2° Dia: Borda da Mata/Congonhal (25 km).
      Trecho muito bonito após uma fazenda com um haras, muito pitoresco, na metade do trecho há uma torneira ao lado da Igrejinha no bairro das Almas, o topo da Serra das Almas e Cachoeira das Almas são os destaques desse trecho...
      3° Dia: Congonhal/Espírito Santo do Dourado (26km).
      Trecho magnífico, logo de cara tem que superar a Serra de São Domingos, ainda na Serra, no km 07 tem fonte de água potável e mais uns 7 km depois tem o Santuário da Obediência, com estrutura de água e lanchonete, a paisagem é linda, com lindas araucárias e várias plantações de brócolis e morango, um dos trechos mais bonitos do caminho...
      4° Dia: Espírito Santo do Dourado/Silvianópolis (20 km).
      Trecho muito bonito e ermo até a rodovia MG-179, chegando nessa rodovia, a uns 100 mts tem uma barraca de frutas e doces mineiros onde adquiri bananas e doces, os últimos 3 quilômetros são em asfalto até Silvianópolis...
      5° Dia: Silvianópolis/Careaçu (20 km).
      Trecho plano e tranquilo perto dos anteriores, na saída de Silvianópolis há um belo lago chamado Lago dos Bandeirantes, próximo a Careaçu o caminho coincide com o Caminho de Aparecida até a cidade, paramos no bar da ponte para beber alguma coisa e seguimos para a belíssima Pousada Castelo...
      6° Dia: Careaçu/Heliodora (24km).
      Saindo de Careaçu por baixo da Fernão Dias, chegasse na Comunidade Rainha do Brasil, ali o monge Bernardo ofereceu café e batemos um papo, deixando o local passa-se por umas 3 porteiras e uma pequena trilha até pegar a estrada de terra novamente, a partir dali caminha-se por lugares muito ermos e bonitos até o km 16, ali há um comércio para abastecer e depois seguir pelos 8km finais pelo asfalto visualizando lindas montanhas...
      7° Dia: Heliodora/Natércia/Conceição das Pedras (24km).
      Entre Heliodora e Natércia há uma grande inclinação a ser vencida, ou seja; vai ter que subir muito e descer tudo até Natércia, lá de cima tem uma bela vista de ambas cidades, em Natércia me abasteci com víveres e segui rumo a Conceição das Pedras em meio a belíssimas paisagens, o destaque nesse trecho é a bela Cachoeira da Usina, eu aconselho a ficar em Natércia pois a pousada lá é muito boa e serve janta e a de Conceição das Pedras fica atrás de posto de gasolina, sem janta...
      8° Dia: C. das Pedras/Cristina (36km).
      Mais um dia com uma serra a ser vencida, talvez a maior inclinação do trecho, porém esse trecho é o mais belo do caminho, passa por mata nativa, pelo bairro Sertãozinho e Vargem Alegre onde há muitas plantações de banana e café, em Vargem Alegre (km18) há uma pousada, seguindo adiante, o caminho até Cristina revela-se magnífico com suas belas paisagens, Cristina é uma cidade turística e charmosa, a mais bela do caminho...
      9° Dia: Cristina/Carmo de Minas Carmo de Minas (20km)/ Soledade de Minas (16km).
      Pretendia fazer os 36km mas entre Cristina e Carmo de Minas é por uma rodovia movimentada e sem acostamento, portanto peguei uma carona até Carmo e de lá iniciei os 16 km até Soledade, o trecho é por terra e plano, não tem a beleza dos trechos anteriores mas é bonito, ali já estamos caminhando pela famosa Estrada Real, Soledade de Minas é uma cidade bem pequena, há um trem turístico que vem de São Lourenço até lá...
      10° Dia: Soledade de Minas/Caxambu/Baependi (30km).
      Pra sair de Soledade é necessário subir uns 4 km de asfalto (trecho movimentado) até a estrada de terra que leva a Caxambu, alguns km depois encontra a Estrada Real e segue até a cidade por trechos tranquilos, com matas preservadas, consegui ver alguns saguizinhos nas árvores, ao chegar em Caxambu segue pela rua de cima da rodoviária rumo a Baependi, terra de Nhá Chica, devido a proximidade das cidades, os 7 km finais não tem muita beleza, com alguns lixos no meio da estrada mas ali o importa é chegar ao Santuário de Nhá Chica e agradecer pela jornada perfeita, conhecer o local, comprar lembranças, carimbar e pegar o certificado, foi o que fiz depois segui para um hotel p/ descansar e voltar pra casa no dia seguinte...
      POUSADAS QUE PERNOITEI: Preços em 2019...
      Santa Varanda: Inconfidentes: $50 Tem janta 👍
      Nossa Senhora de Fátima: Borda da Mata: $60 Tem janta 👍
      Hotel Silva: Congonhal: $50🙁 sem janta (é melhor ficar no JS).
      Pousada do Adão: Espírito Santo do Dourado: $50🙁sem janta (Na verdade é ponto apoio onde vc pousa, não tem outra opção por enqto).
      Hotel Luciana: Silvianópolis: $50👍 Tem janta no comércio embaixo do hotel.
      Pousada Castelo: Careaçu: $50👍 Tem janta na praça da Matriz.
      Hotel Vilarejo: Heliodora: $50😒 (Única opção na cidade, tem o suficiente, conseguimos janta mas não sei se é sempre que consegue).
      Natércia: Pousada do Juliano: $?👍Tem janta, eu não fiquei lá mas vi que é bonita.
      Conceição das Pedras: Pousada da Dona Fininha ☹️ $50 sem janta, fica atrás de um posto de gas.
      Bairro rural Vargem Alegre: Zé Toco $?( Por ser casa de família, provavelmente serve janta, eu não fiquei lá).
      Cristina: Pousada Casarão: 👍🤑$100 (belíssima pousada mas é cara e não oferece janta, é melhor ficar na Pousada Real, do Célio, $50 + janta).
      Carmo de Minas: Hotel São Lucas:👍$? (Não fiquei mas vi que o hotel é muito bom).
      Soledade: Solar das Montanhas: 👍$60(boa mas não serve janta).
      Caxambu: Hotel São Francisco 👍$80 não oferece janta.
      Baependi: Pousada Instituto Nhá Chica: 👍$? (não fiquei, não sei se serve janta, a pousada é bonita).
       
      Se quiserem um relato bem detalhado visite o site abaixo:
      http://www.oswaldobuzzo.com.br/Home/caminho-de-nha-chica
       
       
       
       
       
       
       
       
    • Por Vanessa Suk
      Relato Caminho Português de Santiago de Compostela
      Primeira vez escrevendo um relato de viagem, e como toda primeira vez tem que ser especial, esse relato é sobre uma viagem muito especial. A experiência mais incrível até hoje, difícil, intensa, enriquecedora.
      Desde a primeira vez que ouvi falar sobre o Caminho de Santiago eu quis percorrê-lo e foram mais ou menos seis anos até que esse sonho pudesse ser realizado.
        Eu sempre gostei de caminhar, me dá a sensação de liberdade. E neste caso não seria apenas caminhar, seria uma longa jornada passando por muitas cidades e pequenas vilas que eu desconhecia completamente ou apenas ouvira falar de seus nomes. Seria muito mais do que caminhar ou querer apenas alcançar um destino, afinal, se a intenção fosse apenas chegar existiam maneiras mais fáceis do que andar centenas de quilômetros a pé. Percorrer o Caminho de Santiago tem um significado muito particular para cada um de seus peregrinos, cada pessoa com quem encontramos pelo caminho tem uma história de vida, uma história com o caminho e um porque só seu de estar ali.
      O Caminho de Santiago de Compostela é uma das peregrinações mais conhecidas em todo o mundo. A peregrinação tem como destino final a cidade de Santiago de Compostela na região da Galícia na Espanha, onde por volta do ano 830 d.C. foi encontrado o túmulo do apóstolo Tiago. A noticia dessa descoberta foi levada ao rei Afonso II de Astúrias que viajou até o local da descoberta partindo da sede de seu reino. Chegando lá e após confirmar a descoberta mandou construir uma capela e tornou-se o primeiro peregrino oficial. Dessa forma surgiu um dos mais importantes centros de peregrinação cristã.  Ao longo dos séculos, milhares de pessoas têm percorrido os caminhos que levam a Santiago de Compostela em busca de reflexão, autoconhecimento e para professar a sua fé.
      Existem muitas rotas para se chegar até Santiago de Compostela e alguns pontos mais conhecidos e procurados para iniciar o percurso, porém na verdade cada um pode iniciar o seu caminho onde bem quiser. Após muita pesquisa, leitura sobre o caminho e planejamento., resolvi que dos muitos caminhos que levam a Santiago de Compostela iria percorrer o Caminho Português Central.
      O Caminho Português é a segunda rota mais utilizada para se chegar até Santiago de Compostela na Espanha, perdendo apenas para o famoso Caminho Francês, cujo percurso total tem aproximadamente 800 km e costuma ser feito de 30 a 40 dias passando por diversas regiões da Espanha. Ainda é um sonho caminhar esses 800 km, mas diversas razões me levaram a escolher para essa primeira vez o Caminho Português Central. A principal razão é que essa seria a minha primeira vez em uma experiência desse tipo, uma peregrinação que exige tantos dias de caminhada. Eu nunca tinha feito antes um trekking que durasse vários dias, por exemplo, então, mesmo não sendo uma pessoa sedentária eu não fazia idéia de como meu corpo reagiria a um esforço tão prolongado. Nos meses que antecederam a viagem me preparei fisicamente, fiz muitas trilhas em montanhas, caminhadas e musculação para fortalecer o corpo e isso tudo foi bem importante. Enquanto planejava me encantei pela idéia de caminhar pelo norte de Portugal e por parte da Galícia na Espanha e a viagem ia então tomando forma.
      Cada viajante faz seu próprio caminho. É o que se diz a respeito dos peregrinos. Oficialmente esse caminho inicia em Lisboa. Segundo muitos relatos não há muitos albergues peregrinos municipais entre o trecho Lisboa e Porto, por isso a grande maioria das pessoas opta por iniciar no Porto e foi o que decidi fazer também. Mas com certeza em outra oportunidade com mais tempo disponível gostaria de fazer esse Caminho iniciando em Lisboa.
      Partindo da Catedral da Sé no Porto até alcançar a Catedral de Santiago de Compostela foram 245 km de caminhada em 11 dias.

       Antes de detalhar cada etapa da minha peregrinação quero descrever um pouco os dias de viagem em Portugal que antecederam o seu inicio. Infelizmente não tenho uma planilha de gastos, pois sou péssima com isso. Em todas as viagens anoto os gastos nos primeiros dias e depois acabo deixando isso pra lá quando percebo que o dinheiro vai ser suficiente. (RS) Não vou detalhar muito essa parte da viagem, mas sim eu gostei bastante dessa etapa. Encantei-me com a hospitalidade dos portugueses desde o primeiro momento, a maioria com quem conversei demonstrou gostar dos brasileiros. Em Portugal tem muitos brasileiros também, nos restaurantes, hostel e em toda parte. A maioria bastante solicita com a recém chegada que era eu.
       
       
      Chegada em Portugal
      Não é toda hora que a gente pode fazer uma viagem à Europa em tempos de real tão desvalorizado, então antes de rumar a Santiago de Compostela a idéia era conhecer um pouco de Lisboa e Coimbra a ultima cidade a ser inclusa no roteiro.
      Cheguei a Lisboa no dia 13 de agosto no período da manhã. Vôos noturnos pra mim são bem cansativos, pois raramente consigo dormir, mas o vôo foi bem tranqüilo. Vôo da Cia aérea Azul, que saiu por um preço razoável após muitos dias de pesquisa (R$ 2850,00 aproximadamente ida e volta saindo de Viracopos para Lisboa e a volta do Porto para Lisboa). Ter comprado um vôo multitrip ( quando a ida e a volta são rotas diferentes, como nesse caso) foi ótimo para a logística da viagem, assim pude conhecer duas importantes cidades antes de fazer o caminho e no final não precisei voltar até Lisboa.
      A imigração em Lisboa foi bem tranquila, a funcionaria que me atendeu não perguntou nada sobre dinheiro ou seguro (embora o seguro seja obrigatório) me perguntou quanto tempo eu ficaria por lá e eu expliquei que faria o caminho e a moça me pareceu bem curiosa sobre isso.
      Em Lisboa é muito fácil se locomover com o transporte público, fui de metrô até o Brothers Hostel  que já estava reservado.  O hostel fica a poucos minutos de caminhada do centro e da Avenida Liberdade.  Cheguei ao hostel por volta das 10 horas da manhã, o check-in seria somente às 15 horas, porém o local cobrava um valor por hora para deixar a mochila lá antes do check-in... Achei aquela recepção bem frustrante e claro, não paguei, fui dar uma volta pelas redondezas com meu mochilão nas costas. Fora isso a recepção do hostel nem sempre tinha pessoas que falassem português, apenas inglês, o quarto era um pouco apertado, o café da manhã era muito bom, tinha uma cozinha para esquentar comida e os banheiros estavam sempre limpos. Bom custo benefício.
      Apesar de bastante cansada, já nesse primeiro dia foi possível ver e me encantar com muita coisa. A famosa Praça do Comercio, os Arcos da Rua Augusta, o rio Tejo, que tanto me lembrou dos antigos poetas.  A região central mais antiga é repleta de monumentos históricos e estatuas que homenageiem personagens importantes portugueses.
      Em agosto o verão europeu está no auge, nesses dias que passei por lá fez bastante calor, porém no fim da tarde sempre batia um vento gelado. É a alta temporada de férias dos europeus então havia turistas para todos os lados, pessoas com diferentes idiomas pelas ruas, restaurantes e praças.  Apesar da cidade parecer bem cheia como a minha intenção não era pular de um ponto turístico a outro isso não foi um problema, mas a fila era notável em alguns locais.
      No segundo dia fui conhecer o bairro do Belém. Foi um dos lugares que mais gostei em Lisboa. Novamente usando o transporte público, metro e comboio (trem). Não fui a nenhuma atração paga e foi um dos dias mais proveitosos. Conheci o Padrão dos Descobrimentos, que com sua imponência homenageia os navegadores portugueses que desbravaram os mares ao longo da história. A famosa Torre de Belém que eu queria muito ver, em frente à torre tem um parque cujo nome não me lembro e seguindo em frente fica o museu do combatente.
       Após almoço no Café do Forte bem próximo a Torre de Belém, atravessando a avenida e caminhando um pouco fica o Centro Cultural do Belém e logo depois o Mosteiro dos Jerônimos, onde havia visitação gratuita, uma igreja imensa e muito bonita por dentro e por fora. Depois segui para um lugar bem tradicional onde foi inevitável pegar uma fila grande, Pastéis de Belém, o verdadeiro é feito nessa pastelaria, em todos os outros locais chamam de pastel de nata. Não é um lugar caro, cada pastel custa 1,15 euros. Comprei alguns e fui comer em outro parque bem pertinho dali com bastante sombra para descansar daquele calorão.
      Ainda no fim da tarde mais uma caminhada até o MAAT, Museu de arte, arquitetura e tecnologia, onde na área externa tem-se uma bonita vista do rio Tejo. Passei ainda pela Ponte 25 de Abril que liga a cidade de Lisboa com a cidade de Almada. Na ponte há uma visita guiada que eu queria ter feito, mas devido ao horário não foi possível.
      No dia seguinte fui conhecer outros bairros em Lisboa. Bairro Alto, Alto Chiado e Santa Maria Maior, no Bairro alto você pode chegar usando o elevador de Santa Justa, o tradicional bonde (eléctricos) ou apenas subir a ladeira que foi o que eu fiz.
       O almoço foi na Fabrica da Nata, uma pastelaria tradicional com preços acessíveis, além dos pastéis de nata que custa um euro, há diversas opções de sanduíches quentes ou frios e vinhos.
      Foi mais um dia batendo perna pela cidade. Encantei-me pelas paisagens na freguesia de Santa Maria Maior, onde fica o Castelo de São Jorge, À tarde, novamente na Baixa de Lisboa, resolvi provar o gelato na Amorino´s, na casquinha o gelato é servido em formato de flor.
      Dia seguinte parti para a cidade de Coimbra. Viagem de ônibus de quase duas horas que custou 14,50 euros (comprei a passagem no terminal de ônibus, mas comprando antecipadamente provavelmente sairia mais barato).
      Em Coimbra fiquei hospedada no NX Hostel que eu recomendo muito pela minha experiência lá. Todos os funcionários foram atenciosos e simpáticos. O hostel funciona em um antigo casarão reformado e as instalações não deixam a desejar em nada. O café da manhã tem muitas opções e é servido em uma área externa, local bem agradável para começar o dia. Fiquei em um quarto misto para 4 pessoas. O hostel fica na Praça da Republica e bem perto da Universidade.
      A famosa Universidade de Coimbra é a alma da cidade, uma das universidades mais importantes de Portugal e até do mundo é impensável ir a Coimbra e não visitar a Universidade. A visita é gratuita e pode-se circular por quase todos os complexos. Bem próximo dali fica o Jardim Botânico, um lugar enorme com inúmeras espécies de arvores e plantas.
      Coimbra é uma cidade grande com certo charme de cidade pequena. O centro histórico com suas ruas estreitas, a Catedral da Sé, O Seminário Maior onde se tem uma vista do alto da cidade e com certeza um passeio pela margem do rio Mondego não pode faltar.
      Coimbra foi a ultima cidade a ser incluída em meu roteiro. Não gosto da idéia de ficar pulando de cidade em cidade sem conhecer nada direito. Gosto de ter tempo para apreciar as coisas sem correria, andar e gastar mais tempo onde achar interessante. Por isso não parei em muitas cidades nesses dias antes do caminho e não me arrependo. Coimbra foi inclusa também por ser uma das mais importantes cidades no caminho entre Lisboa e a cidade do Porto, e a idéia era fazer um roteiro seguindo nessa direção.
      Foram dois dias ali e mais uma vez mochila nas costas, hora de partir para o Porto.  A viagem de ônibus durou cerca de uma hora e custou 12,50 euros.  Nessa primeira passagem pela cidade me hospedei no Alma Porto hostel, que fica a poucos minutos de caminhada do terminal de ônibus o que facilitou bastante a minha chegada. Afinal quem viaja de forma independente sempre tem aquela estranha sensação de chegar a um lugar novo e pensar “e agora pra onde vou?”.  Nesse caso foi só caminhar algumas ruas.
      O hostel era também um grande e antigo casarão, com paredes de pedra, quartos grandes e espaçosos. Apenas o café da manhã era fraco, mas no geral um bom custo beneficio.
      E desde a chegada à cidade onde iniciaria minha peregrinação um misto de felicidade e ansiedade ia tomando conta de mim.
       Fiz o check-in no hostel me acomodei e fui em direção a Rua de Santa Catarina almoçar no Fabrica da Nata, além de já conhecer e gostar de lá não queria perder tempo procurando um lugar para comer.  A  Rua de Santa Catarina é uma importante região comercial, tem lojas, restaurantes shoppings e camelôs por toda sua extensão.
      Lembro que quando saí de Lisboa pensei em passar os próximos dias antes do caminho fazendo passeios mais pontuais, mas por mais que eu quisesse passar um tempo desacelerando antes de começar a peregrinar eu não conseguia. Não consegui não andar pra cima e pra baixo em Coimbra e tampouco consegui no Porto. Eu não esperava ver tudo em poucos dias, mas de qualquer forma era a minha primeira vez no velho continente, e em todos esses lugares por onde passei tinha a sensação de ter muita coisa para ser vista, muita coisa que valia a pena ser vista. Sempre gostei muito de história e em Portugal a história se mostra em toda parte, tudo é bastante antigo é um país que valoriza muito a sua história e como brasileira me identificava muito com essa história da qual estava conhecendo um pouco mais nessa viagem. Então tudo bem eu não desacelerei aproveitei o que foi possível desses dias no Porto enquanto tratava dos últimos preparativos para a minha grande jornada rumo a Galícia.
      Antes da viagem me disseram que o Porto tem uma atmosfera um pouco mágica e é verdade. No bairro da Ribeira às margens do Rio Douro, sentindo a brisa gelada do final de tarde eu tive essa mesma sensação sobre a cidade. Caminhei pelas estreitas ruas de paralelepípedo, algumas abarrotadas de turistas, fique impressionada com a estação São Bento, que de fora nem parecia uma estação de trem, visitei a torre dos Clérigos e o mercado Bolhão.
      Um dia antes do inicio do meu caminho era a hora dos últimos preparativos. Passei em um mercado perto do hostel e comprei algumas coisinhas pra comer durante o dia seguinte. Passei também em uma loja de produtos eletrônicos onde pedi pra darem uma olhada no meu celular que não estava carregando direito. Disseram-me que o problema era o cabo, então comprei outro cabo para carregar o celular e achei que o problema estava resolvido. Voltei ao hostel, deixei lá as coisas que havia comprado e parti em direção a Catedral da Sé.
      Tinha algumas dúvidas sobre o inicio do caminho então pretendia ir até o Centro de Acolhimento a Peregrinos do Caminho de Santiago, na Capela Nossa Senhora das Verdades que fica numa rua logo abaixo a Catedral, porém o local estava fechado. Fui então ao centro de informações turísticas onde uma funcionária muito solicita me deu um mapa do percurso do caminho na cidade do Porto e me explicou a diferença entre as setas que indicam o caminho central e as setas que indicam o caminho da Costa. Na verdade não teria como confundir os dois caminhos, mas só percebi depois.
      O caminho de Santiago é todo sinalizado por setas amarelas, então basicamente é só seguir na direção das setas até o próximo ponto de parada. Mas eu ainda não estava muito segura se seria realmente tão simples e se o caminho principalmente nessa região tão urbana seria bem sinalizado então com o mapa na mão resolvi seguir as primeiras setas do caminho para “estudar” esse inicio do percurso e confesso que me atrapalhei um pouco, num certo ponto a seta apontava para uma rua que teria que atravessar e depois eu não achava a outra seta. Claro, eu tinha o mapa, mas queria entender a lógica das setas. Não era mesmo difícil segui-las e fui treinando o percurso até chegar numa rua não muito longe da Catedral e que seguiria numa reta quase interminável e claro vi pelo mapa que dali era muito simples seguir.
       Em lugares que não conheço muito bem eu tenho a grande tendência de me perder e não tenho muito senso de direção, então um dos maiores medos que eu tinha era de me perder e acabar perdendo tempo indo na direção errada, mas verificando essa pequeno trecho do caminho eu me senti mais preparada para não cometer erros desse tipo.
      Faltava apenas comprar uma vieira de Santiago, uma concha com a cruz de Santiago que me disseram que eu encontraria na Torre dos Clérigos. Na verdade encontrei a vieira em uma loja de artigos religiosos quase em frente à torre que custou muito mais caro do que custa em qualquer outro lugar...  Enfim, erros que a gente acaba cometendo em viagem, mas não pague mais do que 1 ou 1,50 euros por uma vieira.  A vieira é um dos mais conhecidos  símbolos do caminho de Santiago e eu queria sim tê-la na minha mochila  no dia seguinte.
      Voltei cedo para o hostel naquela noite, deixei tudo o mais organizado possível para o dia seguinte e separei a roupa que ia usar.  Eu raramente consigo dormir cedo, mas queria ao menos deitar cedo e descansar um pouco o corpo.
      Caminhando
      1° dia. Do Porto até Vilarinho, 26,9km

      Acordei por volta das cinco e meia da manhã. Nunca fui fã de acordar cedo então já estava começando a superar um grande desafio. Como tinha deixado tudo organizado me arrumei bem rápido, tentando não fazer barulho e apenas com a luz de uma lanterna para não incomodar as outras pessoas do quarto. Em poucos minutos já estava na rua ainda com céu escuro, caminhando em direção a Catedral da Sé.
      Do hostel até a Catedral teria que caminhar mais ou menos 25 minutos e como queria ir por um caminho mais curto e diferente dos que tinha feito antes, pedi informação a um senhor na rua e o mesmo me disse que para ir a pé a catedral estava muito longe, mas me indicou o caminho de qualquer forma. Já que distancia não era um problema pra mim segui para o ponto zero da minha caminhada já com o dia amanhecendo.

      A imensa Catedral da Sé no Porto parece ainda mais imponente nas primeiras horas da manhã. Sem a multidão de turistas, o céu ainda adquirindo as cores daquele novo dia e naquele grande pátio em frente à catedral apenas algumas pessoas de mochila nas costas que tinham com certeza o mesmo destino que eu. Fiz ali uma oração, pedi a Deus para guiar meus passos no caminho. Sentei em um degrau, comi alguma coisa e tomei um suco. Logo em seguida comecei a seguir as setas amarelas.
      Como havia estudado esse primeiro trecho do caminho, não tive dificuldade. Caminhei firmemente, sem pressa, no meu ritmo.  Quando o caminho chega à Rua de Cedofeita se estende numa reta quase sem fim e foi seguindo por ali que escutei o primeiro “Buen Camino” do meu caminho e aquilo encheu meu coração de alegria. Mais a frente, parei em um mercado para comprar água e me atrapalhei para voltar ao caminho certo...
      Nesse primeiro dia a paisagem é predominantemente urbana. Muitos carros, apenas ruas de asfalto e bairros industriais. Em alguns pontos mal havia acostamento para caminhar e era preciso tomar bastante cuidado com os carros. Ainda estava tudo bem diferente do caminho que imaginei.  Apenas chegando a Moreira da Maia a paisagem urbana vai se distanciando dando lugar ao verde do interior.  O calor era intenso, não havia muita sombra.
      No município de Araújo comecei a caminhar com o Ricardo, que é português e com quem conversei muito sobre muitas coisas. Fomos até a cidade de Vilarinho, onde nos hospedamos no albergue particular Casa de Laura por 12 euros (valor normalmente cobrado nos albergues particulares). O lugar era bem confortável e não havia muitas pessoas hospedadas lá. Após tomar um banho e lavar as roupas saímos para comer perto dali.
      Vilarinho é uma cidade bem pequena, não havia nada para fazer por ali. Como não estávamos cansados Ricardo e eu fomos até a praia de uber a poucos minutos dali.  Um passeio bem inusitado e bem agradável.
      2° dia. De Vilarinho a Barcelos 28,1km


      Acordei bem disposta, me alonguei como café da manhã, comi bolinhos que ainda tinha na mochila e pé na estrada novamente.  A paisagem era completamente diferente do dia anterior e o caminho tomou outra forma. Muito verde, ruas de paralelepípedo, um rio bem tranqüilo que refletia a ponte sobre ele. O cenário ideal para caminhar e se conectar com o caminho e com você mesmo.
      Você pode escolher caminhar sozinho, mas sempre haverá no seu caminho boas companhias. A conversa sempre começa com um “buen camino”, a saudação oficial no caminho de Santiago e logo se tem um novo companheiro de jornada, ainda que seja apenas por algumas horas ou alguns quilômetros. 

      Nessa manhã conheci um grupo de mulheres que estavam caminhando juntas  desde a saída de seu albergue e me convidaram a caminhar junto com elas e claro, eu aceitei.  Eram elas, Maria, de Portugal, Cecilie, uma jovem indonésia que mora na França e Katerine, uma senhora canadense.  Conhecer pessoas tão diferentes de mim é certamente um dos presentes que o caminho nos oferece. Juntas nós quatro caminhamos alguns bons quilômetros naquele dia de baixo de um sol muito forte que parecia só piorar com o passar do dia.

      Cecilie eu na verdade já tinha visto no dia anterior em um café, andava rápido, estava sempre um pouco à frente, Maria foi com quem eu mais conversei, foi uma grande companheira nesse dia. Katerine, uma inspiração pra mim, estava fazendo o caminho aos 65 anos de idade, infelizmente não pode seguir conosco até o final naquele dia, pois estava bem cansada e precisou parar antes.
      Seguimos em frente, passando por plantações de milho, bosques, ruas de terra, ruas de asfalto, muitas igrejas e para minha felicidade vários campos de girassóis. Foram longos trechos sem sombra alguma, poucos lugares com água potável e depois do almoço foi ainda mais cansativo.  Maria e eu paramos varias vezes para descansar. Cecilie sempre na frente até que a perdemos de vista.  Levamos muitas horas até chegar a Barcelos.
      A cidade é bem turística, logo na entrada tem um enorme galo, um dos símbolos de Portugal. Infelizmente estava tão cansada que não consegui ver muita coisa da cidade.
      Chegando ao albergue Cidade de Barcelos, após um penoso dia o lugar estava lotado. A senhora responsável pelo local nos disse que só havia um pequeno quarto onde poderíamos dormir em colchões se não nos importássemos em dividir o lugar com uma garota que já estava lá. Não nos importamos e a garota era Cecilie que havia chegado um pouco antes. Nesse albergue não havia um valor específico para pagar, era só fazer uma doação com valor que pudesse pagar colocando o dinheiro em uma caixinha.
      Foi nesse dia que fiquei sem celular, pois meu aparelho quebrou. Não havia o que fazer sobre isso além de me conformar. Felizmente para tirar fotos tinha levado uma câmera e tinha um tablet então não fiquei completamente incomunicável.
      Maria teve muitas bolhas nos pés, teve que ir ao centro médico e infelizmente não iria seguir no caminho. O quartinho onde estávamos no albergue era bem abafado então para não passar tanto calor à noite pegamos nossos colchões e nossas coisas e aceitamos a sugestão da dona do local e dormimos na recepção do albergue. Simples assim, sem frescura, grata por mais um dia na jornada que eu havia escolhido. Na simplicidade você percebe que tem tudo àquilo que precisa.
      3°dia De Barcelos até Portela de Tamel 10 km

      No caminho de Santiago nenhum dia é igual ao outro. A paisagem muda constantemente, o tipo de solo muda quase que a cada curva. Algumas pessoas você encontra varias vezes ao longo dos dias, outras caras novas vão surgindo. Com o passar dos dias o corpo vai sentindo o esforço prolongado também. Doem os pés, as pernas as costas... Às vezes alguma dor vai incomodar bastante. Tem dias em que é mais fácil se manter em movimento, em outros, você quer parar a todo instante.
      A única rotina consistia em acordar bem cedo, me arrumar, arrumar a mochila e partir. E ao chegar ao próximo local de descanso, tomar um banho, lavar a roupa e comer. Não dava pra fugir disso. 
      Nesse terceiro dia Cecilie e eu seguimos juntas. Devido ao cansaço do dia anterior, fizemos uma das etapas em duas partes, caso contrario seria um percurso de quase 34 km e o calor estava fortíssimo. Não havia muitas opções de albergues antes de chegar a Ponte de Lima, então nesse dia o trajeto foi de apenas 10 km até Portela de Tamel, uma vila minúscula onde além do albergue havia uma igreja, um restaurante e mais nada.
      Por ter feito um trajeto mais curto que os outros dias foi relativamente mais fácil. Cecilie e eu conversamos bastante apesar do meu inglês não ser dos melhores. Nesse dia encontrei um casal de brasileiros, até então não havia encontrado ninguém do Brasil.
      Chegamos ao albergue por volta das 10 horas da manhã e o local só abria às 14 horas. Ficamos esperando abrir no restaurante em frente onde tomamos algumas cervejas. Não havia nada para fazer por ali então foi um dia de descanso.
      4° Dia De Portela de Tamel até Ponte de Lima 23,7 km


      Mais um dia de lindas paisagens. O caminho te leva por bosques, trilhas, videiras. Provavelmente um dos dias mais bonitos em relação ao visual em todo o trajeto. A paisagem jamais te deixa entediado.
      Comecei o dia sozinha novamente. Em paz com meus pensamentos. Apreciando a minha companhia, com um longo caminho ainda pela frente, mas firme em cada passo.
      Ainda nas primeiras horas do dia conheci o Alberto, um italiano que me fez companhia durante todo esse dia. Alberto não falava muito bem inglês e eu também não, mas quando duas pessoas querem se comunicar elas dão um jeito de se entender e assim passamos o dia. Às vezes ele não me entendia e eu tinha que repetir alguma frase ou eu não o entendia e ele se esforçava pra me falar com outras palavras.
      Com o passar dos dias as suas pernas vão se acostumando com o esforço, mesmo assim ainda doem, principalmente quando você para por alguns minutos. Alberto às vezes caminhava junto comigo e às vezes eu acabava ficando para trás.
       Seguindo tranquilamente num percurso bastante agradável, com bastante sombra, cruzando pequenas vilas, trilhas em meio à natureza e nisso um sentimento de gratidão vai se intensificando. Gratidão por estar ali no caminho e tudo dar tão certo. Naquele dia já havia me acostumado bem a acordar tão cedo, pular da cama e em pouco tempo estar no meu caminho. Para muitas pessoas isso é simples, mas eu definitivamente não sou uma pessoa matinal, há anos trabalho no período da tarde, sempre tive o costume de dormir tarde, mas nessa jornada consegui transpor mais essa dificuldade e sim eu estava orgulhosa de cada pequena conquista durante todo o meu caminho.
      Eu que sempre me considerei muito distraída e avoada, aprendi a estar atenta. Por muitas vezes eu me perguntava se estava no caminho certo e quase sempre quando pensava isso logo via outra seta amarela para tirar minhas incertezas. Então logo eu pensava. Ok está tudo certo é só continuar seguindo, você está indo bem.
       Em muitos momentos eu sentia que o caminho é uma metáfora da vida. Na vida a gente às vezes fica confusa sem saber se está no lugar certo, no emprego certo, com as pessoas certas, a gente quase implora por um sinal, mas a falta de um sinal também pode indicar que estamos tomando o rumo errado. No caminho e na vida também.
      Nesse dia cheguei a Ponte de Lima por volta do meio dia. Quase não senti a caminhada, não senti o cansaço que geralmente sentia na chegada. Reencontrei o Alberto na ponte principal da cidade, ele já havia ido até o albergue público e como só abriria às 15 horas, procuramos um lugar para almoçar e tomar cerveja, porque aquele calor pedia uma cerveja gelada.
      Ponte de Lima é uma das cidades mais encantadoras desse caminho. Com certo ar medieval, construções muito antigas em paredes de pedra, banhada pelo rio Lima. Muitos peregrinos iniciam ali o seu caminho e a cidade estava também cheia de turistas.
      O albergue público ficava logo depois da ponte, em um edifício muito antigo como quase todos da cidade. No quarto onde fiquei havia uma varanda com uma linda vista da cidade e principalmente da ponte e do rio. O quarto era enorme com aproximadamente 30 camas, o único que não eram camas beliche e tinha um armário enorme para cada pessoa, um luxo para um albergue público.
      Foi ótimo ter chegado cedo à cidade, acabou sendo um dos dias mais proveitosos. Alberto e eu fomos passear no rio, tentei tomar sol, enquanto ele entrou na água que parecia gelada.
      É engraçado como em tão pouco tempo a gente se aproxima das pessoas que conhecemos em viagens a ponte de ter conversas tão sinceras e reflexivas sobre a vida, os planos, o futuro...  Alberto é muito inteligente, mesmo sem falar inglês tão bem falava pelos cotovelos e naquela vibe boa praticamos um pouco de yóga.
      Saímos dali, novamente para sentar em um bar e tomar uma super bock, uma das cervejas mais tradicionais em Portugal. À noite jantamos junto com outros italianos e Alberto ia traduzindo a conversa toda para mim.
      5° Dia de Ponte de Lima até Rubiães 17,9 km

      O caminho vai nos surpreendendo todo o tempo. No caminho português central não há muita dificuldade técnica, no geral basta ter disposição para caminhar bastante. Porém essa etapa foge bastante à regra.
      Nessa etapa temos muitas subidas por trilhas em meio à mata e muitas pedras nessas subidas. Foi de grande ajuda nesse trecho ter um bastão de caminhada. Mesmo onde só havia trilhas de pedras as setas amarelas estavam lá, mas é preciso ter mais atenção. Houve um momento em que quase segui errado e fui chamada de volta ao rumo certo pela Carie, australiana que conheci no primeiro dia e vira e mexe reencontrava.
      E esse foi o primeiro dia caminhando sozinha. No caminho nunca se está completamente só e nessa altura já havia muitas caras conhecidas com quem reencontrava frequentemente. Eu também já me tornara um rosto conhecido para muitos deles. Ainda que não pudesse me comunicar tão bem com todos devido principalmente as diferenças de idiomas, era como fazer parte de um grupo, andávamos quase no mesmo ritmo, parávamos nas mesmas cidades, dormíamos nos mesmos albergues e até no mesmo quarto que era sempre coletivo.
      Como mulher que frequentemente viaja sozinha, a minha principal preocupação é a segurança. Em nenhum momento em todo o caminho me senti insegura ou com medo. Obviamente estava sempre atenta, como brasileira, infelizmente a gente se acostuma com a sensação de que pode estar em risco em certos lugares ou situações, mas em todo meu percurso não houve nenhum momento que tivesse sentido algo assim, mesmo caminhando sozinha por muitos quilômetros. Havia muitas mulheres de todas as idades, também fazendo o caminho sozinhas.
      No Brasil ainda existe um grande tabu com relação a mulheres que viajam sozinhas. Entre europeus e em muitos países do mundo isso é completamente normal.  Muita gente reage com estranheza quando digo que faço esse tipo de viagem sozinha, mas para mim isso já se tornou algo normal.
      Para mim é inconcebível não apreciar a minha própria companhia. Então estar ali caminhando sozinha, em paz, me parecia tão natural quanto respirar.
      Uma manhã de caminhada bem intensa, mesmo com calor e as subidas pesadas, o percurso praticamente todo teve a sombra dos bosques, o que no verão europeu é uma verdadeira benção.
      Chegando ao albergue de Rubiães faltava quase uma hora para o local abrir.  Era um lugar no meio do nada. Bem em frente ao albergue havia um restaurante fechado. Cheguei a pensar que não haveria onde comer ali. Felizmente seguindo pela rodovia havia um restaurante e um pouco mais adiante um pequeno mercado.
      O albergue era bem agradável, com salas bem arejadas e até uma área externa com espreguiçadeiras e vista para as montanhas. Foi uma tarde tranquila com tempo de sobra para descansar.
      6° Dia De Rubiães a Tuí 20 km



      Mais um dia cheio de grandes novidades nessa longa jornada. Deixando Rubiães para trás, caminhando entre bosques e trilhas, antes de encontrar um lugar para tomar o café da manhã encontrei com um peregrino alemão muito disposto a conversar e que me fez um milhão de perguntas. Felizmente ele parecia não se importar muito com meu inglês ainda mais travado devido à fome e o sono.
      A pergunta que um peregrino mais ouve é “Por que está fazendo o caminho?” E claro, o alemão me fez essa pergunta. Não há uma resposta única e exata para essa pergunta. Geralmente eu tentava simplificar a conversa dizendo que eu sempre quis fazê-lo. Mas havia muito mais do que isso.
       Aquele era o momento perfeito para fazer o caminho. Havia passado por algumas mudanças na vida, saí de um trabalho que já não me deixava feliz, me decepcionei com algumas pessoas. Não estava triste, deprimida, nem nada disso. Muito pelo contrario, eu me sentia leve, sentia que tinha tirado um peso das costas. Sentia-me rompendo com o que já não fazia sentido e fazer o caminho iria celebrar tudo isso. Era um momento para mim. Um momento de reflexão, e autoconhecimento. Uma forma de me afastar de tantas coisas e me aproximar de mim mesma.
      Desde o momento em que comprei as passagens uma semana depois de ser demitida eu me senti em paz. Não queria provar nada pra ninguém, era apenas eu sendo eu mesma, aquela que vai até o fim quando quer realizar algo. Eu queria apenas me re-conectar comigo mesma, restaurar a fé que eu sempre tive em mim, a minha coragem e a minha força pra continuar seguindo em frente. Quando contei que a viagem estava confirmada uma amiga me disse “essa viagem vai te re-equilibrar”.  Não poderia estar mais certa.
      Não falei nada disso com o alemão, mas falei sobre planos para o futuro e desejos de mudança até chegarmos num local chamado São Bento da Porta Aberta, onde paramos para o café da manhã.
      Segui caminho envolta em meus pensamentos e me dei conta que naquele dia eu chegaria a Espanha e aquilo me deu um novo gás para caminhar. O clima estava mais ameno e isso sempre ajuda no caminhar.
        Estava tão animada que parecia que eu estava flutuando, principalmente depois que comecei a ouvir música. Mas não qualquer música, só as que me trouxessem energias positivas. Não era nada prático ouvir música com um tablet, mas era o que eu tinha depois que fiquei sem celular.
      Em algum ponto antes de chegar a Valença, um casal que estava passando de carro parou ao meu lado e me fez muitas perguntas sobre o caminho, quantos dias eu já havia caminhado, quantos quilômetros e coisas do tipo. Pareciam bastante interessados e curiosos. Me ofereceram uma garrafa de água e me desejaram felicidades no caminho.
      Já em Valença do Minho, ultima cidade portuguesa no caminho português, encontrei dois dos mais simpáticos amigos desta jornada, Paolo e seu pai Roberto ambos da Guatemala. Foi uma companhia muito agradável, sobretudo em um trecho tão emblemático no caminho, afinal adentraríamos em pouco tempo na sonhada região da Galícia na Espanha. Caminhamos sem pressa por Valença cuja parte histórica estava bem movimentada, havia muito comércio voltado ao turismo e um forte de onde se via o Rio Minho e a Ponte Internacional Tuí-Valença  que separam os dois países. Vale à pena desviar-se um pouco do caminho para conhecer essa região de Valença. Paramos para uma cerveja no Fronteira, “ultimo bar português do Caminho de Santiago”. 
      Atravessamos a Ponte Internacional Tuí-Valença e iniciamos uma nova etapa do caminho. Não mudava apenas a cidade dessa vez, agora seria outro idioma, já no país de destino, o fuso horário com uma hora a mais com relação ao horário de Portugal.
      Tuí é a ultima cidade para se iniciar o Caminho de Santiago nessa rota, já que para obter a compostela, o documento emitido na oficina de peregrinos que comprova que a pessoa percorreu o Caminho de Santiago, é preciso caminhar pelo menos 100 km (para quem faz o caminho de bicicleta é necessário ao menos 200 km).

      Em Tuí me senti na idade média. Com uma catedral românica, construções de muitos séculos atrás, ruas estreitas de pedra e suas ladeiras que desembocavam perto das margens do rio. Me senti privilegiada mais uma vez por estar no caminho e assim ter a chance de conhecer lugares tão peculiares que dificilmente eu visitaria se não o estivesse percorrendo.
      Era um domingo. Os dias de verão na Europa são longos, pois o sol se põe por volta das 21 horas. Então para quem está disposto a enfrentar as altas temperaturas é uma ótima época para fazer o caminho. Dá tempo de fazer o percurso do dia, descansar e conhecer as cidades antes de cair à noite.
      Após o almoço descansei em um parque na margem do rio, perambulei pelas ruazinhas da cidade, mandei mensagem para a família informando que já estava na Espanha. Sentei numa praça para tomar sorvete e pensar no quanto já havia percorrido do caminho e o quanto ainda faltava percorrer.
      7° Dia De Tuí a O Porriño 15,6 km

      Acordei às 6 horas, dormi de novo e acordei uma hora depois, ainda confusa com o fuso horário diferente. Olhei em volta e vi que era a única pessoa ainda na cama. Tratei de pular de lá e me arrumar. Roberto quando me viu pronta para sair ficou impressionado com a minha rapidez. Encontrei um lugar para tomar café da manhã ainda antes de sair da região central da cidade. Logo depois encontrei com Franziska, uma jovem alemã que estava fazendo o caminho com a mãe e a tia e quase sempre nos encontrávamos-nos mesmos albergues. Nessa ultima etapa elas haviam pernoitado em Valença ao invés de Tuí.
      Nessa etapa já se observa um número muito maior de peregrinos, principalmente nos primeiros quilômetros, aos poucos com cada um no seu ritmo a pequena multidão vai se dispersando.
      Em Portugal o caminho sempre adentra em bosques, trilhas em meio à mata, estradas de terra ou de pedra. Quando havia alguma avenida ou rodovia, quase sempre você devia cruzá-la ou andar apenas alguns metros e já estaria novamente em meio à natureza. Mas essa primeira etapa já em solo espanhol se diferenciava bastante nesse sentido. Havia muitos trechos para percorrer em ruas de asfalto, ao lado de grandes veículos e nesses trechos em específico o caminho se torna um pouco maçante.
      Foi um percurso bem cansativo para mim. Além de caminhar em uma paisagem não tão convidativa em boa parte do trajeto, o calor estava cada vez mais intenso e eu senti nesse dia muita dor nas costas, provavelmente não havia arrumado as coisas muito bem na mochila. Sentia vontade de parar o tempo todo. Sentia certa inveja de algumas pessoas que carregavam mochilas minúsculas e pareciam estar passeando no bosque. Mas estas pessoas certamente haviam contratado o serviço que transporta bagagens até o próximo destino.
      O roteiro que eu estava seguindo no aplicativo Buen Camino indicava como próximo local de parada uma cidade chamada Mos, porém vi que seria outro lugar sem muita coisa para se ver ou fazer. Resolvi então adaptar essa parte do roteiro e decidi encerrar essa etapa um pouco antes de chegar a Mos, na cidade de O Porriño, além de aliviar um pouco o cansaço que foi grande nesse dia, simpatizei com a cidade assim que cheguei por lá.
      À tarde acabei encontrando novamente com Franziska, na avenida principal da cidade. Junto com sua mãe e sua tia tomamos uma cerveja ao estilo alemão. 
       
      8° Dia De O Porriño a Pontevedra 34,9 km

      A maior etapa desse meu caminho. E ficou ainda mais longa devido a ter encurtado a etapa do dia anterior. Poderia ter dividido essa etapa em duas parando em Redondela, mas isso renderia um dia a mais para chegar a Santiago.  Além disso, o clima no período da manhã estava bem diferente dos dias anteriores, o céu muito cinza, temperatura ligeiramente mais baixa amenizando o calor. Não imaginei que seria tão difícil chegar a Pontevedra.
      Acordei às 7 horas, o que é bem tarde para quem teria tantos quilômetros pela frente. Me arrumei voltei ao caminho, parei num café na avenida principal da cidade e quando me pus novamente em marcha já eram 8 horas. Acabei perdendo muito tempo nessas primeiras horas da manhã. Claro, não poderia deixar de tomar café da manhã. Na maior parte do caminho se você não aproveitar e parar no primeiro café aberto para tomar café da manhã ou matar a fome durante o dia pode levar muito tempo e muitos quilômetros até encontrar outro lugar para comer ou comprar algo.
      Até chegar a Redondela foi razoavelmente tranqüilo, apesar das muitas descidas para testar os joelhos. No período da tarde ainda com muito chão pela frente viriam muitas subidas. Mas o caminho é bem interessante nesse trajeto, bosques, cidades, pontes, rios, trilhas de pedras, mata mais fechada, outro bosque, outra cidade, rodovias. Um caminho longo, mas, nada maçante como no dia anterior.
      Parei para almoçar em um local simples, porem com uma vista linda e um pouco escondida ao fundo e ao sair de lá o calor já era intenso. Estava aliviada, pois tinha andado um tempão com outro peregrino que parecia não desgrudar de mim, como demorei no almoço ele resolveu seguir na frente sozinho. Mais a frente, parei um pouco conversando com algumas garotas muito animadas, uma portuguesa e outra espanhola, essa ultima contou que havia caminhado 5 km a mais porque se perdeu...
       Como elas iriam ainda demorar por ali segui meu rumo novamente. Passei por uma auto-estrada onde tive que andar ao lado de enormes caminhões. Logo depois passei pela linda cidade de Pontesampaio, que parecia ter congelado no tempo. Ali, uma senhora estava em seu quintal enquanto eu passava em frente a sua casa, com muita vontade de conversar me falou sobre ter percorrido o caminho muitas vezes e contou da sua vida, perguntou se podia ajudar em algo.

      Andei depois por um bom tempo sem avistar mais ninguém e a animação foi se esvaindo. Ao menos tinha certeza do caminho, pois era bem demarcado e cheio de sobe e desce. Quando achei que já estava bem perto o mapa mostrava uma bifurcação onde entraria em um bosque ou iria pela auto-estrada. Fui pelo bosque, que mais parecia um labirinto sem fim. Embora o aplicativo indicasse que estava indo na direção certa a impressão que eu tinha era de andar em círculos. Ia margeando um pequeno fluxo de água quando encontrei um morador local que me disse que até o final daquele bosque seriam 2 km e pela auto-estrada seria mais rápido porem não havia acostamento. Eu não queria acreditar que ainda andaria tanto para sair daquele bosque infinito, mas não tinha o que fazer.
      No albergue publico em Pontevedra não havia mais vagas. Fui até outro albergue, o Aloxa Hostel que também não tinha mais vagas e o senhor na recepção me ajudou entrando em contato com outros dois albergues na cidade que também já estavam cheios. Ele me pediu para esperar e depois de atender outras pessoas que tinham feito reserva me disse que tinha uma cama, e perguntou se eu não me importaria de ficar no quarto junto com um grupo grande. Eu estava desde o inicio dormindo em albergues públicos então porque me importaria?  Fiquei sim muito aliviada por ter um lugar para descansar, depois de tantas horas “na estrada”.
        Com certeza o senhor Pedro que me atendeu na recepção não tem idéia do quanto me ajudou naquele dia. Aquele foi o único momento em todo o caminho em que fiquei realmente preocupada. Se não tivesse conseguido ajuda lá talvez tivesse que ir a muitos outros lugares até conseguir um local para passar a noite ou gastar muito ficando em algum hotel. Ele me recomendou que eu fizesse reserva no meu próximo destino para não correr o risco de ter dificuldades com a hospedagem novamente, verifiquei as opções e ele ligou para mim e reservou.
       Me senti abençoada por ter encontrado tamanha ajuda no momento em que mais precisei. Senti naquilo tudo a magia do caminho. Eu não estaria abandonada no fim daquela jornada, eu teria um lugar para descansar, tomar um banho, lavar minhas roupas, enfim, cumprir meu ritual diário sempre que finalizava outra etapa. Eu senti o meu coração cheio de gratidão e a certeza de estar onde devia estar.
      Essa magia do caminho se manifesta das mais diferentes maneiras. Como nesse mesmo dia, quando eu caminhei quase 35 km e achei que não teria energia para mais nada além de dormir. Mas depois de tomar um banho e me alimentar eu me sentia renovada, eu me sentia leve novamente. E ainda fui presenteada naquele longo dia com outra cidade das mais encantadoras do caminho. Era como se todo o meu esforço fosse recompensado. Era mais uma vez o caminho como uma metáfora da vida. Naquele dia eu senti o caminho me ensinado que eu sempre tinha força para seguir em frente, por maiores que fossem as dificuldades. E os problemas que surgissem eu poderia contornar e eu precisava ter fé.
      Foi uma pena não ter tido muito tempo de conhecer direito a cidade de Pontevedra, pois a cidade é realmente encantadora. Com ruas de pedra, edifícios medievais, monumentos, praças e estreitas vielas, além da lindíssima Igreja da Virgem Peregrina À noite a cidade se torna ainda mais agradável. Muitos restaurantes, bares com mesas ao ar livre, uma combinação interessante entre a história tão viva em cada detalhe do centro histórico e a modernidade de uma pequena cidade turística.

      Andando por aquelas ruazinhas, já nem parecia que tinha caminhado mais do que nunca na minha vida. Me sentia relaxada, absorta por aquela cidade. Antes de voltar ao hostel, comprei um pedaço de pizza e um chá gelado, sentei na escada de uma igreja para comer e apreciar um pouco mais daquela noite.
      9° Dia De Pontevedra a Caldas de Reis 21 km


      Saindo de Pontevedra, passando pela ultima vez por seu centro histórico, ainda dominada pelo sentimento de encantamento e gratidão por aquela cidade. Nos primeiros quilômetros o caminho me lembrava uma procissão, tamanha a quantidade de pessoas.
      Não foi uma etapa tão longa, mas para mim foi com certeza a mais sofrida. Talvez pelo esforço do dia anterior, meus pés doeram muito durante quase todo o trajeto. Cheguei a pensar que acabaria com bolhas, tão temidas por todos os peregrinos. Nunca senti tanto a sola dos meus pés. Para piorar a minha situação durante esse trajeto o caminho era em sua maior parte em estradas de terra com muitas pedras, grandes, pequenas, de todos os tipos, mas muitas pedras sob meus pés já cansados.
      Usei no caminho botas de trilha intensiva, que eram um tamanho maior que o meu e também meias específicas para trilhas e até aquele dia não tive problema algum com os pés. Por iisso acho que o problema não foi o calçado e sim o cansaço acumulado que não combinou com as pedras do meu caminho. Pela primeira vez eu tive que parar, sentar em um lugar qualquer, descalçar as botas e as meias e examinar a situação dos meus doloridos pés. Felizmente nenhum sinal de bolha e não houve bolha até o fim, mas aquela dor seguiu comigo.
      Em meio a esse sofrimento, me consolava o fato de ter feito uma reserva em um albergue particular, afinal seria uma preocupação a menos. Nas cidades mais próximas a Santiago era de se esperar que os albergues públicos ficassem logo sem vagas. Geralmente custam entre cinco e seis euros e os particulares custam normalmente o dobro disso, mas às vezes vale a pena gastar um pouco mais.
      Em Caldas de Reis fiquei no Albergue Timonel, que custou 10 euros. Fica logo na entrada da cidade próximo a ponte. Um lugar simples, porem do qual não tive do que reclamar. Dividi o quarto com apenas duas pessoas, uma jovem garota com sua mãe, que também eram peregrinas. Uma companhia bem tranquila.
      A cidade de Caldas de Reis é bem pequena e tranquila. Provavelmente se não fosse o fluxo constante de peregrinos, seria uma cidade muito pacata. Com uma ponte logo na entrada da cidade, como em quase todas as cidades da região, a cidade tem uma Fonte de água termal. Uma senhora que atendia em um restaurante em frente ao albergue me deu uma maçã e me recomendou que eu fosse até a fonte e ficasse com os pés na água por uns 30 minutos, disse que ajudaria a diminuir as dores das quais eu havia lhe falado. E lá fui eu meter os pés na água quente.
      Apesar de não haver muito a se fazer ou ver na cidade, dei umas voltas à tarde. O clima estava agradável. Voltei cedo para o albergue. Aproveitei que dessa vez teria um pouco mais de privacidade para descansar.  
       
      10° Dia De Caldas de Reis a Padrón 19,2 km


      Com os pés praticamente recuperados do dia anterior segui meu rumo. Sempre no meu ritmo, sem pressão, firme e forte. Após 10 dias a mochila nas costas já fazia parte de mim. Me acostumei a acordar bem cedo dia após dia e continuar em frente. Cada dia era único, cheio de surpresas. Cada dia trazia uma infinidade de paisagens que mudavam a cada curva. Queria ter fotografado tudo, cada vez que me deparava com algo novo, cada vez que a natureza me brindava com sua beleza de maneira diferente. Mas era importante manter-me caminhando. E foi o que eu fiz. E tentei guardar tudo aquilo em fotografias mentais, aquelas imagens que vem a cabeça e te trazem um sorriso ao rosto. Aquelas memórias que vem junto com a sensação de liberdade, sonho realizado e fé.
      Em determinado ponto daquela etapa parei em uma igreja, onde havia na parte de trás um cemitério vertical. Ali conheci uma simpática família de portugueses, mais adiante conheci alguns peregrinos que viviam nas Ilhas Tenerife. Eram pessoas de muitos lugares diferentes, historias e motivações diferentes e todos com um objetivo comum ali.
      Em Padrón parecia ser o meu dia de sorte. Não fiz reserva em albergue então fui direto ao albergue municipal. Chegando lá já havia uma fila grande, inclusive havia alguns brasileiros que eu tinha conhecido vários dias antes. Fiquei com a penúltima vaga do albergue para aquele dia, e como fui uma das ultimas a conseguir vaga, fiquei em um quarto menor, com apenas quatro camas e um banheiro exclusivo. Não parecia nada com um quarto de albergue publico, onde normalmente são dezenas de pessoas no mesmo ambiente. Mais uma vez tive sorte também com as companheiras de quarto, que nesse caso eram duas garotas portuguesas peregrinando juntas e no fim da tarde para minha surpresa depois de muitos dias Cecilie chegou para ficar com a ultima vaga no albergue.


      Quando saí para conhecer a cidade a mesma já estava em plena siesta ( horário no período da tarde em que os espanhóis tiram para descansar). Havia poucas pessoas na rua, alguns turistas ou peregrinos perdidos como eu.
      Padrón foi uma interessante surpresa após a tediosa Caldas de Reis. Com quase tudo fechado relaxei por um tempo no jardim botânico da cidade, visitei a igreja de Santiago de Padrón e descansei um pouco mais sob a sombra das arvores na margem do rio em mais um longuíssimo dia de verão espanhol. No fim da tarde a cidade pareceu se encher de vida novamente. Diversas ruas exclusivas para pedestres com mesas ao ar livre, muitos bares e restaurantes onde era servido o prato típico da cidade, Pimentos de padrón.  A impressão que eu tive é que a cidade inspira certo entusiasmo ao peregrino, afinal chegar até ali significa ter superado muitos quilômetros, dificuldades, dores no corpo e todo tipo de imprevisto que possa ter surgido.
      Esse clima de ansiedade e animação era bem perceptível no albergue. Bastante gente reunida na cozinha até tarde, diferente do que costuma acontecer nos albergues, onde a ordem é o silencio e o respeito ao descanso de todos.  Mas naquela noite observei uma agitação alegre e contagiante compartilhada por todos. Não poderia ser diferente afinal, estávamos muito perto do sonhado destino.
      11° Dia de Padrón a Santiago de Compostela 24,5 km

      Acordei às 5 da manhã para iniciar a minha ultima etapa deste cainho. Acho que ninguém consegue dormir muito no ultimo dia. Tomei café da manhã bem perto do albergue, no café de D. Pepe que se despedia com abraços calorosos de cada peregrino que passava por lá.
      Saindo dali, caminhando pela primeira vez antes do sol nascer, conheci a Marta, uma portuguesa, muito querida que me fez companhia nesse dia. Eu estava há muitos dias sem falar muito português e quando comecei a conversar com a Marta parecia que estava falando sem parar. Falamos sobre viagens, sobre a vida e sobre o caminho.
      Ter a certeza da chegada mudou bastante o meu caminhar naquela manhã. Não sentia dores nas pernas ou nos pés. Não sentia o peso da mochila e não me incomodava com o calor. O dia foi amanhecendo calmamente enquanto seguia sem ver a hora passar. Mas ainda que anestesiada pela certeza da chegada, foi uma longa etapa.
      Eu me perguntava durante aqueles dias como seria a minha chegada e tive a sorte de ter nesse dia pessoas do bem e com boas energias dividindo comigo aquele momento.  Em certo ponto da caminhada reencontrei a Márcia que fazia a peregrinação junto com seus pais e mora em Viana do Castelo, cidade próxima ao Porto.  Estavam no mesmo albergue que eu no dia anterior. Contei a eles um pouco da minha história, de sair sozinha do Brasil e ir a Europa fazer o caminho de Santiago, que era um desejo antigo. Lembro que me disseram o quanto eu era corajosa por ter feito isso.
      Acho que realmente é preciso muita coragem para realizar um sonho. Não é fácil estar em um país estranho, percorrendo um caminho solitário durante tantos dias. Não é fácil tomar a decisão de fazer algo audacioso quando você está num momento de incertezas na vida. Então acho que fui bem corajosa.  Foi pensando em tudo isso que as lágrimas vieram aos meus olhos quando já na cidade de Santiago de Compostela nos aproximávamos da catedral.
      A Praça do Obradoiro onde está situada a Catedral de Santiago de Compostela é certamente um lugar que reúne muitas emoções. Finalmente eu estava lá entre risos e lagrimas. Transbordando de alegria, fé e gratidão.
      É difícil descrever a sensação que tive naquela chegada, sem dizer muitas frases que seriam puro clichê ou que até parecessem obvias demais. Eu posso dizer que foi uma felicidade e uma realização imensa estar em Santiago de Compostela após um longo caminho. Estar ali era a recompensa pela minha coragem, pela minha determinação, por cada passo dado, cada dor que eu senti no meu corpo. Era a certeza de que Deus e o apóstolo Tiago me guiaram durante todo o meu caminho. A certeza de que a minha fé nos meus passos me levou até ali.
      Depois de curtir a chegada fomos até a oficina de atenção ao peregrino onde a espera era de pelo menos duas horas para apresentar a credencial com os devidos carimbos e receber a Compostela, atestando que a peregrinação foi concluída. São emitidos dois documentos, um deles com as informações de onde foi o inicio da peregrinação, qual rota foi feita e a quantidade de quilômetros e o outro documento que é opcional e de caráter religioso e todo escrito em latim.  A Compostela custa 1,50 euros e ali também se pode comprar a vieira de Santiago e outras recordações da chegada.
      Em Santiago de Compostela
      No dia anterior havia feito reserva no albergue Sixtos no Caminho que para minha surpresa era de uma família de brasileiros. O albergue era excelente. Ambiente acolhedor, muito limpo e arejado. Cama bem confortável, tomada e lâmpada individual, além de uma cortininha para que cada um tenha um pouco de privacidade. A poucos minutos de caminhada da região central e também muito perto do terminal de ônibus, foi uma ótima escolha.
      Resolvi ficar dois dias na cidade. Depois de tantos dias eu merecia uma pequena pausa para conhecer um pouco da capital da Galícia. Uma das coisas interessantes nesses dois dias é que enquanto passeava pela cidade ia encontrando o tempo todo algum velho conhecido do caminho.
      Para todos os peregrinos, em especial aos católicos, um evento bem especial é assistir a missa do peregrino. O caminho todo é um até de fé e aquele era para mim um momento de agradecer por tantas bênçãos no meu caminho e na minha vida.  A missa na época da minha peregrinação estava ocorrendo na igreja de São Francisco, que fica bem próxima a Praça de Obradoiro, devido às obras na catedral. Outro importante ritual é o abraço ao Apóstolo, a estátua românica que recebe os peregrinos está sobre a cripta que contém a urna com as relíquias do Apóstolo, este ritual simboliza o amável acolhimento do apóstolo após o esforço da peregrinação.
      Um lugar imperdível em minha opinião é o Museu das peregrinações e de Santiago, que conta com riqueza de detalhes a historia do caminho de Santiago através dos séculos, sua origem e as mudanças e transformações nos costumes dos peregrinos ao longo do tempo. É possível conhecer também a origem e o significado de cada um dos muitos símbolos do caminho. O museu apresenta também outras importantes rotas de peregrinação pelo mundo, Roma e Jerusalém, que junto com Santiago de Compostela formam as três grandes peregrinações Cristãs mais conhecidas. O museu é gratuito aos sábados à tarde, para minha sorte justamente quando eu estava lá e também aos domingos durante todo o dia.
      Outro ponto interessante na cidade, recomendado por uma moradora local, é o mercado de abastos, a segunda atração mais visitada na cidade, onde é possível comprar diversas iguarias da região e também se deliciar com a culinária local.
      A cidade é repleta de atrações para todos os gostos, igrejas, mosteiros, parques e museus. Acho que mais interessante do que ir de um ponto turístico a outro é se permitir explorar livremente a cidade, bater perna pelo centro histórico, relaxar sem compromisso. Sentar em um café ou em uma praça e observar o movimento da cidade.
      Escolhi fazer isso na tão emblemática Praça de Obradoiro, observar os grupos animados, tirando as mais criativas fotos, muitos peregrinos cansados tirando as mochilas das costas e descalçando as botas, algumas pessoas cantando e outras fazendo suas orações. A praça estava sempre cheia de gente durante todo o dia, formando uma egrégora de paz.
      Ao menos para mim o compromisso era cumprir a minha jornada. Feito isso, a idéia era apenas curtir os próximos dias, tanto em Santiago, quanto nas cidades que viriam depois. Inicialmente  havia pensado em fazer a prolongação do caminho caminhando mais três dias até chegar a Finisterre e depois caminhar até Muxia, outra prolongação do caminho. Devido principalmente ao fato de ter poucos dias até a data da minha volta ao Brasil, resolvi manter os dois locais no roteiro, porém a prolongação do caminho ficaria para uma próxima ocasião.
      Finisterre

      A viagem de ônibus de Santiago até Finisterre dura pouco mais de uma hora. A cidade fica na região conhecida como Costa da Morte, na região costeira da Galícia. A região recebeu esse nome por causa dos muitos naufrágios ocorridos ao longo da costa rochosa e traiçoeira.
      Em Finisterre me hospedei no albergue Arasolis, que fica na rua com o mesmo nome. A cidade não tem terminal de ônibus, os mesmos param na rua principal onde fica também o guichê de venda de passagens. Após sair do ônibus é só entrar à direita e em poucos minutos encontrará o albergue.  O proprietário do local recebe a todos de maneira muito amável e alegre, contando suas historias de vida e presenteando a todos com uma concha e um cartão postal da cidade e as meninas ganham também uma pulseira. Além disso, me deu ótimas dicas sobre o que fazer na cidade. O lugar tem uma cozinha de uso coletivo. Fica bem próximo á praia também.
      Fiquei dois dias na cidade, queria aproveitar a proximidade com o mar e relaxar.  A principal atração da cidade é o Faro de Finisterre, o farol, onde termina o caminho para quem faz a prolongação do mesmo até a cidade de Finisterre.  Ali fica o totem indicando o quilometro 0,0 para os peregrinos. O farol fica a três quilômetros do centro da cidade e para chegar é só seguir as indicações na cidade e depois seguir a estrada. Uma subida bem peculiar e bonita em minha opinião, do lado esquerdo avista-se o mar e em certo ponto do caminho tem uma estátua de um peregrino. Lá em cima tem também uma loja de suvenires e um restaurante que parecia ser bem caro. 
      O farol do Cabo Finisterra, ainda ativo nos dias de hoje, é o farol localizado mais no oeste da Europa e tem grande importância para a navegação na região da Costa da Morte.  Há uma tradição entre os peregrinos de prolongar o caminho até ali e queimar peças de roupa antes de regressarem as suas casas. Conforme me recomendou El gato, no albergue deixei para ir até lá ao anoitecer para poder ver o por do sol na encosta do Cabo e valeu muito à pena. Daquele ponto ver o  sol se pondo no mar foi um espetáculo lindíssimo e até mesmo um privilégio para quem tem a chance de conhecer a cidade. É bom levar uma lanterna, pois na volta para a cidade, descendo a estrada a única luz vem dos poucos carros que passam por ali.

       
      No dia seguinte pela manhã caminhei até a praia de Langosteira, no outro extremo da cidade. Naquela manhã o vento era tão forte como eu só havia visto na Patagônia. Mesmo com a ventania a praia era muito bonita, as areias cheias de conchinhas e quase deserta a não ser pelos peregrinos que ali chegavam.
      À tarde, para minha surpresa, o tempo esquentou bastante, não havia nenhum sinal da ventania de algumas horas antes. Então aproveitei o clima favorável para tomar sol na pequena praia da Riveira.  Conheci também o Museu da Pesca, bem próximo da praia, um museu pequeno, mas bem interessante que conta a história da pesca e da navegação na Costa da Morte.
      A cidade tem alguns cafés e restaurantes, e alguns destes especializados em peixes e frutos do mar. Um restaurante que eu gostei muito foi o Baleas, fui lá duas vezes, a especialidade são as massas, muito saborosas e os preços eram razoáveis. Outro restaurante muito bom e com atendimento acolhedor, o Frontera, em frente à parada de onibus, os dois locais tinham muitas opções vegetarianas, o que não era muito comum em algumas cidades por onde passei.

      Outro lugar com um visual incrível para apreciar o por do sol é a praia Mar de Fora. Cerca de quarenta minutos de caminhada do centro da cidade até lá, mas vale muito à pena.
      Muxia

      Outra cidade na Costa da Morte onde a fé e as tradições religiosas  se ligam aos caminhos de Santiago é Muxia. Há cerca de 30 minutos de onibus saindo de Finistere, num caminho que deixou meu estomago embrulhado. Uma cidade pequena, porém muito simpática. O ultimo destino dessa empreitada pela Europa.
      Em Muxia me hospedei no albergue/hostel Bela Muxia. Mais uma vez a recepção foi excelente. Quando cheguei ao local ainda faltava uma hora para o horário de check-in, poderia esperar claro, mas comentei com o senhor na recepção que tinha ficado um pouco enjoada pela viagem de ônibus e o mesmo foi muito solicito comigo e me deixou ir para o quarto naquele mesmo instante. Além da ótima recepção o lugar era muito agradável, tinha uma cozinha bem grande e um lindo terraço com vista da cidade onde era possível avistar também o mar. Uma pena que fiquei somente um dia na cidade.
      A praia de A Cruz, indicação de um morador da cidade tem águas claras, mar calmo e um visual muito bonito. Passei horas ali aproveitando um dia lindo de muito sol.
      O principal ponto de interesse na cidade é o Santuário Virxe de La barca (Virgem da Barca) Segundo a lenda o apóstolo Tiago foi até Muxia, implorar a Deus que seus sermões tocassem as pessoas. Nesse momento então, a virgem teria aparecido a ele num barco de pedra puxado por anjos e lhe disse que voltasse a Jerusalém, pois a sua missão naquela terra havia terminado, Tiago retornou conforme a virgem lhe havia dito, porem havia plantado ali a semente da fé cristã que viria a florescer futuramente.
      Há também lendas sobre as pedras localizadas no rochedo de Muxia. As pedras teriam relação com o barco da virgem em sua aparição e também lendas sobre propriedades curativas.
      Ainda ali no rochedo, complementando de forma peculiar a paisagem o monumento “A Ferida”, dedicado aos voluntários que durante meses limparam as praias da Costa da Morte após um desastre que provocou o derramamento de óleo combustível naquela região. È uma das maiores esculturas de toda a Espanha, com mais de 11 metros de altura, é dividido em duas partes e simboliza a ruptura e o impacto que esse desastre causou a costa Galega. A obra pode ser vista de muito longe pelos bascos que se aproximam da costa.
      Ali no rochedo a vista do por do sol é belíssima. Infelizmente não fiquei para ver. Ainda faltava pelo menos duas horas para o sol se por quando voltei ao centro da cidade para meu ultimo jantar no meu restaurante favorito por ali.
       
       
       
       
       
       
       
       
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