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Huayna Potosi (13 dias na região de La Paz)


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HUAYNA POTOSI

 

Decidi dividir o relato de acordo com os dias de viagem. Foram 13 dias de viagem (dia 13 ao dia 25 de Julho de 2015). O relato do Huayna Potosi começa no dia 18 e vai até o dia 20. Nos demais dias relatei a experiências que tivemos em outras atrações de La Paz e região (Tiwanaku, Chacaltaya, Teleféricos, Puno, Copacabana, Aniversário de La Paz, Museus, etc)

 

Cotação: 1 real = 2 bolivianos / 1 dólar = 6,90 bolivianos.

Passagem SP-La Paz: R$ 1250,00 (BOA-Boliviana de aviación).

Agência Alberth Tours (Huayna Potosi): 1400 bolivianos (R$ 700).

 

Dia 13

Quando o comissário de bordo nos informou que estávamos voando na mesma aeronave utilizada pelo Papa Francisco dias antes, conclui que seria uma viagem abençoada. Mal sabia os perrengues que estavam por vir.

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Depois de subir algumas montanhas da Serra do Mar no Paraná e ler alguns livros sobre escaladas e aventuras do gênero, o desafio de subir uma alta montanha começou a exercer seu fascínio sobre mim. O objetivo da viagem era subir o Huayna Potosi (Cerro jovem, em aymara), montanha de 6.088 metros acima do nível do mar, localizada a 25 km de La Paz. O Huayna Potosi possui a fama de ser uma montanha de fácil acesso e sem exigências técnicas.

Em um voo de 45 minutos saímos de 500 metros (fizemos conexão em Santa Cruz de la sierra) e fomos a 4.100 metros de altitude, na cidade de El alto. El alto é a 4ª maior cidade da Bolívia, é onde está localizado Aeroporto Internacional (15 km de La Paz). Antigo bairro de La Paz, El Alto cresceu tanto que acabou se tornando uma cidade no final da década de 80.

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Pegamos um taxi até a hospedaje Milenio (calle yanacocha, nº 860), onde havíamos reservado duas diárias (40 bolivianos a diária). O café da manhã não está inclusivo no valor da diária (15 bolivianos). Ficamos num quarto com duas camas que mais parecia uma rede, e com uma janela inútil que dava para a escada do estabelecimento. Estávamos muito cansados, resolvemos só jantar em algum fast food na calle comercial e logo voltamos para dormir. Não foi um bom sono, além da cama ser extremamente desconfortável acordei várias vezes durante a madrugada me sentindo sufocado, como se o ar estivesse desaparecido do quarto.

 

Dia 14

Depois do café partimos para a praça san Francisco, onde estudantes estavam desfilando em comemoração ao aniversário de La Paz, que seria dia 16 de julho.

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Depois fomos conhecer a calle jaén, a rua dos museus. Pagando dez bolivianos (valor para estrangeiros) você tem acesso a quatro museus, Museo Costumbrista Juan de Vargas, Museo Litoral Boliviano, Museo Metales Preciosos e Museo Casa de Pedro D. Murillo.

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O museu que mais me chamou a atenção foi o Museu de Instrumentos Musicais. Esse museu não estava incluso no “pacote” de dez bolivianos, custa cinco bolivianos para entrar. Vale cada centavo, o museu possui muitos instrumentos exóticos, de vários lugares do mundo. Imperdível.

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A Bolívia está lutando para recuperar sua saída para o mar que perdeu para o Chile na Guerra do Pacífico. No Museu del litoral Boliviano há vários mapas e documentos que mostram a época em que a Bolívia era banhada pelo oceano pacífico (região do Atacama, Antofagasta).

Depois do almoço fomos até a praça Murillo, onde está localizado o Parlamento da Bolívia e o Palácio do governo. De longe percebi que havia algo de estranho acontecendo na praça, havia mais policiais que pombos. Os policiais bloqueavam a entrada de todas as ruas que davam acesso a praça. Um policial nos explicou que aquele policiamento era em razão das recentes manifestações dos mineradores da região de Potosí. Estavam protegendo os prédios do governo de possíveis ataques de mineradores (no dia 25 uma dinamite atingiria embaixada alemã, queimando o interior do prédio). Explicamos que só queríamos tirar fotos de praça, e após uma rápida revista nas mochilas, deixaram a gente passar.

 

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Pegamos um ônibus até a estação mais próxima do teleférico amarelo. O teleférico, inaugurado em 2014, liga as cidades de El Alto a La Paz. Custa cerca de três bolivianos, tanto o amarelo quanto o vermelho. O teleférico transporta até dez passageiros e chega a alcançar 4.500 metros de altitude. Funciona das 06 até as 23 horas. Tiramos umas fotos do mirador em El alto e depois voltamos pra La Paz, com o mesmo teleférico amarelo, dessa vez fazendo todo o percurso de mais de 3 km de passeio. Reservamos hospedagem no Pirwa Hostel (av. montes, 641).

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Dia 15

Chegando no Pirwa descobrimos que nossas reservas não haviam sido feitas. O funcionário disse que resolveria nosso problema, mas que só poderíamos fazer o check-in às 13 horas. Deixamos as mochilas na recepção do hostel e fomos andar pela cidade.

Fomos até o estádio Hernando Siles, um dos mais altos do mundo, onde a Argentina levou de 6 da Bolívia em 2009. Fomos dando a volta no estádio até encontrarmos um portão sem cadeado. Entramos e em poucos segundos estávamos no gramado.

Depois de conhecermos o estádio resolvemos almoçar no Pollos Copacabana. Achei a comida muito boa. Depois fomos de taxi até o mirador Kili Kili, de onde se ter uma visão bem legal de La Paz. No mirador estavam gravando um vídeo que seria exibido no aniversário de La Paz, no dia seguinte, 16 de julho. Um senhor estava vestido de Pedro Domingo Murillo (precursor da independência da Bolívia) hasteando uma bandeira e gritando algumas frases. Apesar do aniversário ser no dia seguinte, a cidade já estava e clima de festa. O governo já estava fazendo campanha na televisão pedindo moderação no consumo de bebidas alcoólicas.

 

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A festa da noite do dia 15 de julho em La Paz foi uma das coisas mais loucas que já presenciei na minha vida. Na av. Mariscal Santa Cruz, cholas cuidavam de comércios em ambos os lados da avenida e também em volta da praça San Francisco. Esses comércios se resumiam a uma mesa com bebidas alcoólicas, um fogão que sempre estava fervendo água e fritando algo, e várias cadeiras em volta da mesa. Os clientes se apertavam nas cadeiras, diminuindo ainda mais o espaço para as pessoas caminharem na avenida. Estávamos na praça quando tive vontade de ir ao banheiro. Marquei um lugar pra encontrar meu amigo e comecei a descer a av. Mariscal procurando algum canto sossegado.

 

Na volta, quando estava subindo as escadas pra entrar na praça San Francisco, o povo começou a se exaltar por causa do aperto, tanto os que subiam a escada (e queriam entrar na praça) quanto os que desciam a escada (e queriam sair da praça). O povo começou a apertar os comerciantes que ficavam bem ao lado da escada. Esses comerciantes também tinham fogão, mesinha, cadeiras etc. De repente vejo um senhor levantando um balde e mandando o que tinha dentro do balde no povo que estava se apertando na escada. Não preciso dizer que a maior parte do que tinha no balde voou na minha cara. Não sei até hoje que porra era aquela. Enfim, o dono da barraca acabou fazendo isso umas três vezes pra tentar conter o ânimo do pessoal na escada. Cheguei no local marcado tão encharcado.

 

Depois de encontrar meu amigo, bem em frente a porta da igreja San Francisco, vi uma garrafa de vidro voando e acertando a cabeça de um rapaz. Alguns estilhaços pegaram na moça que estava ao lado. Eles ficaram um tempão retirando os estilhaços que ficaram grudados no couro cabeludo ensanguentado do rapaz. Foi aí que percebi que até aquele momento eu não tinha visto nenhum policial. Estariam todos eles protegendo os prédios do governo na praça Murillo?

Decidimos sair da praça e ficarmos no meio da av. mariscal santa cruz, lá era mais fácil encontrar cerveja. Foi a pior coisa que fizemos. Na av. Mariscal começaram a empurrar a galera pra baixo, sentido zona sul. No empurra-empurra meu amigo acabou indo pra um lado e eu comecei a descer a av. mariscal (sentido zona sul) numa avalanche humana. Lembro-me que quando a confusão começou faltava exatamente 15 minutos para a meia noite e início do show de fogos de artifício pra comemorar o aniversário de La Paz. Acabei sendo arrastado por mais de meia hora. Estava tão apertado que eu não conseguia virar meu corpo pra ver os fogos. Chegou um momento em que acabei sendo levado para o lado direito da avenida, em direção aos comércios de rua, e minha canela acabou prensada contra um banco de maneira (aqueles cumpridos, tipo de igreja). Minha preocupação era ficar longe do fogo e da água fervendo. Tentei atravessar um comércio para chegar até a calçada, mas tinha gente demais nos comércios e os próprios clientes e as cholas não deixavam atravessar e ir para a calçada. Não encontrei mais meu amigo esse dia, demorei mais de uma hora pra voltar pra praça, e só consegui retornar dando a volta por trás da Igreja San Francisco. Horas antes, eu e meu amigo combinamos que caso nos perdêssemos e não nos encontrássemos em 30 minutos, subentendia-se que o outro estava são e salvo no hostel!

 

Fiz amizade com umas bolivianas que estavam tomando vinho próximo do palco. Acabei aceitando um copo, por educação. Quando me dei conta já havíamos tomado a garrafa de dois litros inteira. Quando percebi já estava com uma paceña na mão, eu não tinha nem levado a carteira.

https://www.youtube.com/watch?v=3GhSsXEniEE

Nessa festa eu vi de tudo, a única coisa que eu não vi foi a policia. Acabei voltando para o Pirwa às 4 horas da manhã, a festa ainda estava bombando. Quando cheguei no quarto meu amigo me disse que perdeu o celular na avalanche humana que nos separou na av. mariscal, horas antes.

 

Dia 16

Pegamos um taxi até o cemitério, local onde saem as vans para Tiwanaku e Copacabana. Tiwanaku é um sítio arqueológico pré-incaico situado a 72 km da cidade de La Paz (1h30m de viagem). A paisagem na ida ao parque é muito bonita. O motorista da van parou para tiramos fotos da fantástica Cordilheira real. Identificamos a montanha que subiríamos nos próximos dias, o Huayna Potosi.

 

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Tiwanaku está a 3.870 de altitude. Para entrar no parque são 80 bolivianos (caríssimo). Pagamos cerca de quinze bolivianos de transporte de La Paz para o parque. Protetor solar, água e comida são importantes nesse passeio. A dica é ficar próximo de algum guia pra aprender sobre o pouco que restou dessa antiga civilização. Nosso motorista disse que voltaria depois de 3 horas para nos buscar. Eu achei 3 horas muito tempo pra ficar no parque, resolvi ir embora uma hora antes, em outra van. Eu achei a paisagem do caminho mais interessante do que o próprio parque.

 

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Na volta, passando por El alto, trombamos um desfile em comemoração ao aniversário de La Paz. Para tiramos fotos do desfile pedimos para o motorista nos deixar em El alto. Nas ruas de El alto várias blocos de cholas estavam desfilando com as mais variadas fantasias.

Depois que tiramos fotos do desfile decidimos voltar para La Paz de teleférico vermelho. Antes, passamos por uma enorme feira que vendia absolutamente tudo, desde comida a peças de carro, com preços mais baratos que em La Paz (dica pra quem quer comprar lembranças, mais barato que a rua das bruxas!). Acabei comprando uma calça tipo polar pra usar nos abrigos em Huayna Potosi (eu só estava levando uma calça fina de trekking). A calça custou 30 bolivianos, 15 reais. No caminho passamos pela rodoviária de La Paz, construída pelo arquiteto francês Gustave Eiffel, o projetista da Torre Eiffel.

 

Acertamos a ida ao Chacaltaya na agência de turismo que fica no Pirwa. Custou 110 bolivianos. Resolvemos fechar ali pela comodidade, a vendedora Paola era bem simpática, mas chegamos a encontrar por 80 bolivianos em agências independentes. A ida ao Chacaltaya é importante para a aclimatação para quem for subir o Huayna Potosi.

 

Dia 17

Acordei indisposto, com dores no corpo e uma leve dor de cabeça. Chacaltaya é uma montanha de 5.400 metros (mesma altura do acampamento base do Everest) localizada na Cordilheira Real. Nessa montanha funcionava a mais alta estação de esqui do mundo, que em razão do aquecimento global não funciona mais.

 

No ônibus conhecemos vários brasileiros, alguns subiriam o Huayna Potosi no dia seguinte. Inicialmente estávamos programando em subir o Huayna Potosi em dois dias porém encontramos um casal de brasileiros que subiriam em três dias. Eles sugeriram de subir com eles, porque teríamos o curso no glacial (mais um dia para aclimatação) e porque teríamos mais guias caso ocorra alguma desistência no ataque ao cume. Os brasileiros tem um índice alto de desistência no Huayna Potosi. Começamos a estudar a ideia.

 

Quando estávamos próximo de El Alto, o motorista acabou passando reto onde deveria virar a direita. Tivemos que andar uns 100 metros de ré até voltarmos na rua onde deveríamos ter virado. Essa hora foi um pouco tensa porque os caminhoneiros buzinavam incansavelmente.

O caminho de terra até o Chacaltaya é bastante íngreme e possui muitas curvas. Quem tem acrofobia é bom ficar nas cadeiras do corredor e evitar olhar pra fora! Já próximo da estação e bem ao lado de um precipício o ônibus atolou na neve. Todo mundo saiu do ônibus e começou a subir a pé em direção a estação de esqui abandonada. O nosso guia jogou pedras e areia embaixo das rodas do ônibus e acabou conseguindo desatolar.

 

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Chegando na estação, imediatamente começamos a caminhada até o cume do Chacaltaya. É uma caminhada curta, de uns 150 metros, porém, em razão a altitude, demorei quase 1 hora. Tem uma hora na trilha que se você seguir a esquerda terá uma visão pitoresca do Huayna Potosi, e se seguir a direita chegará no cume do Chacaltaya, onde há um totem de pedras. O guia disse que ficaríamos no máximo uma hora no Chacaltaya, mas acabamos ficamos umas duas horas. Na verdade eu gostaria de ter ficado mais tempo lá.

 

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Acabamos abdicando a ida ao Vale de la luna para dar tempo de chegarmos na agência para mudarmos o pacote de dois dias para três dias (Huayna potosi), bem como para fazer câmbio antes que as casas de câmbio fechem. Chegamos na agência, pagamos a diferença e combinamos de chegar as 8h30 do dia seguinte em frente a empresa Alberth Tours (calle Illampu, nº 750).

 

Tomamos uma cerveja com os brasileiros no The English Pub (calle Linares, nº 189) e depois voltamos para o hostel para organizarmos as coisas que levaríamos na manhã do dia seguinte para o acampamento base do Huayna Potosi. A montanha, que meses atrás existia apenas em nossos sonhos, agora era algo real.

 

Dia 18 – Treinamento do glacial

Assim como no dia anterior não acordei muito bem, ainda continuava com as dores que me tiraram totalmente o ânimo. Levamos somente o indispensável para a montanha, o resto deixamos na recepção do hostel.

 

Cronograma:

 

Dia 18: Treinamento no glacial na parte da tarde (depois do almoço).

Dia 19: Trilha do Refúgio Casa Blanca (4.800 mts) para o Refúgio Campo Alto (5.130 mts), na parte da tarde.

Dia 20: às 01h00 ataque ao cume.

 

A agência Alberth Tours (http://www.hikingbolivia.com) FORNECE: Transporte para a montanha, alimentação para os três dias, botas duplas, anorak, piolet, crampons, cadeirinha, balaclava, mitten, Capacete e Polaina. A empresa NÃO FORNECE: lanterna frontal (lanterna de cabeça), luva fleece, chocolates para o dia do ataque, bastões de caminhada, saco de dormir, segunda pele, fleece, protetor solar e garrafas de água.

 

Aluguei um saco de dormir na própria agência, acabou saindo por 45 bolivianos, 15 bolivianos por dia. O saco de dormir era para 15 graus negativos (conforto). Meu amigo alugou um saco de dormir (também por 45 bolivianos) e um par de bastões de caminhada por 50 bolivianos.

Na agência conhecemos os outros membros que subiriam conosco. O grupo era formado por quatro franceses (todos médicos), quatro argentinos e quatro brasileiros. Os argentinos tinham subido a montanha Pequeno Alpamayo (5.370 de altitude) no dia anterior e já tinham experiência com montanhas da Argentina.

 

Fomos em duas vans, uma com os argentinos e outra com brasileiros e franceses. Antes de partirmos para a montanha os guias pararam para comprar comida e bebida para os próximos três dias. Os guias demoraram quase duas horas para fazer as compras.

Depois de duas horas chegamos no refúgio Casa Blanca, localizado na base da montanha, a 4.800 metros acima do nível do mar. Em frente a porta do refúgio há uma mina e o banheiro. O banheiro nada mais é do que um sanitário que não possui descarga, a pessoa deve encher um balde na mina e jogar a água no sanitário até limpar. A primeira sala do refúgio possui várias prateleiras onde ficam as botas duplas, piolet e crampons. Uma pequena escada dá acesso a “sala de jantar”, uma sala que possui duas mesas onde utilizamos para o café da manhã, almoço e janta. Os guias dormem num quarto separado dos clientes. Na sala de jantar há uma escada de ferro que dá acesso a um salão enorme cheio de colchões, o quarto dos clientes.

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Depois do almoço pegamos uma parte do equipamento e fomos até o glacial para um curso básico de montanhismo. Depois dos ensinamentos básicos, colocamos os crampons e fomos até uma parede para treinar escalada técnica. Os guias prenderam duas cordas na parede de gelo, uma baixa e outra mais alta.

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No caminho de volta, já próximo do Refúgio, comecei a sentir vontade de vomitar e uma dor de cabeça que nunca tinha sentido na minha vida. Chegando no refúgio tínhamos que limpar os crampons e as laterais das botas duplas na mina que existe em frente ao abrigo (a mesma que pegávamos a água para a descarga). Com minha cabeça pulsando de dor tive dificuldade para abaixar e sentar próximo da mina para limpar o equipamento. Depois de muita dificuldade sentei e comecei a limpar meu equipamento praticamente em câmera lenta. Um dos guias, o mais brincalhão, estava em pé ao meu lado e colocou sua bota na frente da minha, só pra zoar. Eu estava confuso, e sem perceber o tom da brincadeira, comecei a limpar a bota do guia pensando que fosse a minha. Eu não tinha ideia do que estava fazendo, não conseguia pensar com clareza. Meu corpo estava se comportando de uma maneira muito estranha. Eu estava sentindo os efeitos do mal da montanha (soroche/puna).

 

Entrei no abrigo e fui direto para meu colchão. Tomei bastante água e chá de coca. Em seguida tomei um Diamox e ibuprofeno, pra tentar resolver alguma coisa. Além das fortes dores de cabeça, eu passei a noite inteira sentindo uma estranha sensação de como se estivesse bêbado.

 

Dia 19 – Ida ao Refúgio Campo Alto (5130 manm)

Tive muita dificuldade pra dormir. Fui no banheiro umas 4 vezes nessa noite. Após o almoço juntamos todas as coisas e partimos para o Refúgio Campo Alto, a 5.130 metros de altitude. As dores de cabeça persistiam, porém com menor intensidade. As dores no corpo que começaram dia 17 (dia que fomos ao Chacaltaya) ainda me castigavam. A trilha é curta e não é difícil, porém novamente senti os efeitos da altitude. Quando estávamos parados, descansando, vi um homem descendo cambaleando, desorientado, estava sendo auxiliado por um guia. Pela primeira vez vi uma pessoa com sintomas severos de mal da montanha. Já no final da trilha um argentino viu que eu estava com muita dificuldade em caminhar e acompanhar o grupo e me deixou passar na sua frente. Meu cérebro estava trabalhando com níveis de oxigênio insuficientes, era difícil me entusiasmar com alguma coisa. Meu amigo brasileiro começou a se preocupar depois que viu as condições que cheguei no Refúgio Campo Alto. Com muita dificuldade consegui subir no beliche para tentar dormir.

https://www.youtube.com/watch?v=joICydLPRak

 

Alguém me convidou pra tomar um chá. Sentei na mesa e um argentino chamado Pedro perguntou se eu estava bem, eu disse que não estava me sentindo muito bem. Pedro viu que eu estava apático e, após me dar uma aspirina, sugeriu que caso não melhorasse em 1 hora, eu deveria descer.

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Pra ajudar, em uma das idas ao banheiro, que ficava atrás do Refúgio Campo Alto, descobri que estava com diarreia, provavelmente em razão de uma virose. Informei meu amigo que eu não conseguiria subir com as dores que estava sentindo. Ele não disse nada, estava apático também. Aceitei que a desistência seria a coisa mais prudente a ser feita.

Depois de comer alguma coisa todos foram descansar para a 01 da manhã partir para o ataque ao cume. Resolvi tomar Diamox. Minhas duas garrafas d’água estavam vazias (uma de 2 litros e outra de 600 ml). Fiquei puto, pois teria que descer do beliche pra pegar água. Lembrei que tinha um pouco de água no meu camelback, cerca de 1 litro, acabei tomando tudo. O Diamox é diurético, razão pela qual tive que atender ao chamado da natureza umas quatro vezes durante a noite. Depois da 2ª vez eu não me preocupava em ir até o sanitário, ia nas pedras próximas do abrigo mesmo, depois descobri que todo mundo fez isso, o banheiro do Refúgio Campo Alto não fica tão perto quanto o banheiro do Refúgio Casa Blanca.

 

No beliche, olhando para o teto do abrigo, comecei a refletir sobre a minha situação. Meses de planejamento, dinheiro e tempo investidos para chegar até ali e desistir por motivo de saúde. Eu já havia lido sobre o mal da montanha, mas não pensava que sentiria de uma maneira que fosse prejudicar minha subida, na verdade eu nunca me imaginei sentindo os efeitos da altitude. Sentir-me bêbado sem ter bebido álcool era novidade pra mim. O médico de extremos Kenneth Kammler explica sobre o mal da altitude:

 

“Os sintomas – uma terrível dor de cabeça e náusea – são muito semelhantes aos da ressaca, e a causa provavelmente é a mesma; dilatação dos vasos sanguíneos e transferência de fluido para o interior do cérebro, o que aumenta a sua pressão dentro do crânio. No caso de bebidas alcoólicas, os vasos se dilatam em reação ao excesso de álcool; em uma montanha, isso ocorre como reação à diminuição do oxigênio. Café forte ajuda a curar a ressaca porque a cafeína contrai os vasos sanguíneos. No caso de enjoo de altitude agudo, o tratamento é fazer o caminho de volta, ou pelo menos parar de subir, até que os vasos se reequilibrem, o que normalmente demora um dia ou dois”. (O Corpo no limite, p. 255).

 

Fiquei horas olhando ora para o teto de madeira do abrigo ora para a janela de vidro que ficava bem acima da minha cabeça, ouvindo o som do vento batendo no refúgio e prestando atenção em todos que acordavam para ir ao banheiro. Pra quem não está devidamente aclimatado (como eu) não é fácil dormir acima dos 5.000 metros. Conforme eu me mexia durante a noite sentia uma lenta diminuição das dores de cabeça. Era impossível não perceber a luz da lanterna frontal flutuando em direção a porta e o “nhec nhec” do chão de maneira a cada passo dado em direção a porta de ferro. Meu celular havia ficado em La Paz, e meu relógio simplesmente parou de funcionar, de modo que eu não sabia a hora exata. Quando um francês levantou para ir ao banheiro eu cometi o erro de perguntar-lhe as horas. Me animei com a diminuição das dores de cabeça, porém ainda faltavam 4 horas para o início do ataque. Saber o horário atrapalhou meu sono.

 

Dia 20 – Ataque ao cume

Quando as luzes do Refúgio Campo Alto se acenderam eu tive que fazer uma escolha, desistir ali ou atacar o cume e assumir o risco dos sintomas do mal da altitude tornarem-se mais severos. Decidi ir até onde meu corpo aguentasse...

De uma dor latejante e contínua, agora só sentia dor quando fazia movimentos bruscos, como descer do beliche ou colocar a bota dupla. Os guias que perceberam que eu não estava bem no dia anterior vieram saber como eu estava me sentindo. Eu disse que estava melhor, que a dor de cabeça tinha diminuído. O argentino que me ajudou no dia anterior não estava se sentindo bem e acabou desistindo. Tentei convencê-lo a pelo menos tentar, porém ele disse que naquela situação era melhor desistir, para não pegar ódio da montanha. Um dos integrantes me disse que eu estava cometendo um erro em tentar subir na situação em que me encontrava, porque se eu sofri para fazer a trilha do dia anterior, que dirá uma ascensão de quase mil metros no gelo. Uma brasileira não estava se sentindo bem e acabou desistindo, assim como um francês. Dos doze clientes da Alberth Tours que estavam no Refúgio Campo Alto três desistiram de subir, um de cada nacionalidade.

 

Coloquei as camadas de roupa (segunda pele, fleece, anorak), cadeirinha, luva fleece, mitten, polaina, protetor de pescoço, gorro (não utilizei a balaclava fornecida pela empresa), capacete, lanterna frontal, tomei um rápido café, umas bolachas, chocolate, chá de coca, carreguei minha garrafa com água quente e fui para fora com os crampons e o piolet nas mãos. Todos se reuniram logo abaixo do banheiro. O relógio do refúgio marcava 1h30m, ventava. Os guias começaram a amarrar os grupos. Eu estava amarrado junto com meu amigo. Colocamos os crampons e iniciamos a subida.

 

Desde o começo da subida eu estava sentindo um formigamento na ponta dos dedos dos meus pés. Depois de meia hora de subida pedi para o guia parar para eu soltar um pouco as botas duplas para tentar resolver. Nesse momento o guia desamarrou meu amigo e amarrou-o junto com o outro brasileiro, e eles seguiram em frente, em 3, enquanto eu e meu guia ficamos pra trás. Portanto, como estávamos com 4 guias, um guia ficou com o trio de argentinos, um guia com o trio de franceses, um guia com a dupla de brasileiros e um guia ficou comigo. Pelo menos eu não prejudicaria ninguém caso desistisse no meio do caminho, pensei.

Próximo do Refúgio Campo Alto ventava um pouco. O guia nos informou que o vento diminuiria na medida em que fossemos subindo. Era incrível olhar pra cima e ver a enorme fila de lanternas frontais seguindo em fila indiana rumo ao cume. Da mesma forma que me fascinava, me desesperava, porque eu via o quanto ainda tinha que caminhar para alcançá-la. Decidi não olhar pra cima como sinal de respeito e pra me manter motivado. Tentei manter a passada uniforme, dando um passo de cada vez, literal e figurativamente. Os músculos das pernas ficavam fatigados com o menor dos movimentos. De vez em quando parávamos para descansar, beber água e comer chocolate, que são importantes para manter o nível de açúcar alto. Em uma das paradas aproveitei para tomar um gel de energia que meu amigo trouxera do Brasil. O guia me mantinha informado da nossa lenta progressão, 5400, 5500, 5750 metros... Passamos por uma parede mais íngreme, de uns 50º de inclinação.

 

Aos poucos fui percebendo os detalhes do ambiente em que eu me encontrava. Em razão da distância da cidade e da ausência de poluição pude ver o céu mais estrelado da minha vida. Na altitude em que me encontrava não havia nada senão rocha e gelo, nenhuma planta ou animal poderia ali existir. Refleti sobre o quanto somos insignificantes, frágeis diante daquele ambiente inóspito e gelado. Perdi totalmente a noção do tempo. O ar a 6.000 metros de altitude está submetido a uma pressão equivalente à metade daquela ao nível do mar, cada passo era uma vitória. Estava concentrado apenas na batalha física para colocar um pé de cada vez. De vez em quando olhava pra trás e via as luzes da cidade de El Alto.

 

Com o dia clareando no horizonte uma alegria imensa surgiu dentro de mim. O nascer do sol serviu para dar uma injeção de ânimo. Olhar pra trás e ver aquela linha laranja me deixou anestesiado. Pela primeira vez eu senti que poderia chegar até o cume. Quando a mente acredita o bastante em alguma coisa, pode fazer com que o corpo reaja da mesma forma. O guia percebeu minha evolução. O guia comentou alguma coisa, porém em razão da minha exaustão eu só respondia de maneira monossilábica.

 

Quando a neve estava com uma coloração meio laranja, em razão da aurora do dia, passamos por um guia e dois homens parados. “De onde você tirou inspiração para nos alcançar?”, a pergunta me chamou a atenção e acabei levantando a cabeça. Era meu amigo e o outro brasileiro que partiram na minha frente quando eu estava soltando as botas. Paramos para descansar e comer alguma coisa. Comi mais algumas barras de chocolate, sempre dividindo com o guia. Minha água congelara.

 

Quando pude enxergar algumas luzes no cume meu coração começou a bater mais forte. Nos metros finais eu não sentia mais nada, estava anestesiado, era só força de vontade. Depois de 6 horas de subida levantei a cabeça e percebi que acima de mim só havia a cor azul do céu.

Meus primeiros passos no cume foram acompanhados de gritos do argentino Pedro. Demorei um pouco pra acreditar que eu havia chegado no cume. Fui tomado pela emoção. Meu guia me abraçou tão forte que achei que ele estava mais feliz por eu ter chegado do que eu! Aos poucos eu fui saindo do transe... era verdade, eu havia conseguido. Parafraseando Jack London, eu estava dominado pelo impulso da vida, pela poderosa onda da existência, pelo prazer perfeito, completo, de cada músculo, de cada junta, de cada nervo, de tudo o que era contrário a morte, que se expressa por meio do movimento, arremessando-se num voo exultante sob as estrelas e acima da face da matéria morta e inerte. Senti uma emoção nunca sentida em toda minha vida.

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https://www.youtube.com/watch?v=y_yn7xEMvMA

Como estava parado, comecei a sentir frio. Alguém disse que no cume estava dez graus negativos. Do cume pude perceber algumas lagoas de águas verdes e uma sombra em forma de pirâmide apontava para o Titicaca. O famoso lago estava a 2.276 metros abaixo de nós e a mais de 50 km de distância da base da montanha. Eu não sabia que dava para ver o lago do cume. Fiquei hipnotizado pela beleza sublime da cordilheira real. Depois de 10 minutos a dupla brasileira (meu amigo e outro brasileiro) chegou ao cume. Comecei a gritar alguma coisa para motivar a dupla de brasileiros que estava já na última crista. O sol brilhava forte, era impossível ficar sem os óculos. Comecei a descer depois de 5 minutos da chegada da dupla brasileira.

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Na montanha, o cume é só a metade do caminho. A maioria dos acidentes ocorrem na descida, quando se está exausto física e mentalmente. Eu havia utilizado toda minha pouca energia na subida, na descida eu estava exausto. Não tinha mais força nas pernas. Na volta os guias deixam os clientes seguirem na frente. Ao desviar um pouco da trilha para poder mijar acabei afundando na neve até acima do joelho. Estava tão cansado que não conseguia levantar as pernas para sair dali, estava atolado. O guia rachou o bico. Nesse momento a dupla de brasileiros me passou. Durante a descida o guia parou e me chamou para ver algo que ele apontava no chão. Era uma fenda que eu acabara de passar sem ter notado. Sem nuvens para filtrar o efeito do sol comecei a sentir muito calor e acabei tirando meu anorak e voltando só com a segunda pele e o fleece.

 

Quando estava próximo do banheiro do Refúgio Campo Alto meu guia me soltou da corda e seguiu na minha frente. As botas duplas são bem rígidas, tira a mobilidade e articulação dos pés. Quando cheguei mais perto do banheiro fui tentar subir numa pedra (já sem os crampons, que estavam na minha mão esquerda) e acabei tropeçando e caindo com as palmas das mãos no chão. A ponta dos crampons furou a palma da minha mão esquerda. O argentino que não atacou o cume porque acordou mal viu tudo de camarote e novamente me ajudou. Ele levou meus crampons enquanto escorria sangue na minha mão.

 

Demoramos 1h30m pra chegarmos no Refúgio Campo Alto. Entrei no Refúgio Alto aos frangalhos. Fui direto para meu beliche. Percebi que não tinha força para subir no beliche e então fiquei sentado na cama de um francês. Ofereceram-me sopa e água quente para tomar. A água estava mais quente que a sopa. Quando fui descansar no meu beliche meu guia pediu para eu arrumar as coisas porque outra equipe chegaria para ocupar os beliches.

Demoramos um pouco mais de uma hora para descermos do Refúgio Campo Alto (5.130 mts) para o Refúgio Casa Blanca (4.800 mts). Na descida muita gente escorregou na trilha, as pernas já não obedeciam direito. A volta foi praticamente do mesmo jeito que a ida, brasileiros e franceses na mesma van, e argentinos na outra van.

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Resolvemos comemorar a subida ao Huayna Potosi no The English Pub. Comemos uma carne flambada no Whisky (60 bolivianos) e tomamos chopp (30 bolivianos). Foi a melhor carne que já comi na minha vida!! Na mesa do lado estava o gerente do Loki Hostel. Ficamos conversando um tempão sobre a atual situação econômica e política da Bolívia. Ele nos explicou as dificuldades e diferenças em gerenciar um hostel na Bolívia e no Peru. Também contou um pouco a história do Loki, que foi inaugurado em 2005, em Cusco, por quatro amigos que se conheceram em um mochilão na América do Sul. Foi um papo bem legal.

Saí de noite a procura de alguma farmácia 24 horas para comprar paracetamol. Coincidentemente encontrei o Ivan, um dos funcionários do Pirwa, descendo a av. Mariscal em direção a sua casa. Falei pra ele que estava a procura de uma drogaria 24 horas para comprar paracetamol para tratar de uma virose. Ele me levou até uma farmácia. O atendimento foi feito através de uma grade, tipo de cadeia! Agradeci ao Ivan e voltei para o Hostel.

“Entre o sofrimento e o nada eu escolho o sofrimento”

Willian Faulkner

 

Dia 21

Dormi tanto que acabei perdendo o café da manhã do hostel. Já tinha subido a montanha e como estava todo fodido mesmo, já não precisava mais me preocupar tanto com alimentação na rua. Como estava faminto, na primeira barraquinha de chola pedi alguma coisa frita com batata. O café da manhã dos campeões!

 

Passamos em frente ao prédio com o nome Casa de la democracia, antiga sede de um partido nacionalista. O prédio está abandonado, mas tem sua beleza.

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A praça Murillo estava mais fiscalizada. Dessa vez outros órgãos de segurança estavam presentes, bem como alguns camburões e caminhões de bombeiros.

Como eu já conhecia Copacabana, decidimos conhecer Puno, a cidade que fica na outra margem do Titicaca. Acabamos comprando as passagens na agência que fica no Pirwa, novamente com a simpática Paola.

Nesse dia aos poucos começamos a interiorizar o que havíamos feito no dia anterior. O interessante é que muitos fatos na montanha eu não me lembrava direito, com o passar dos dias é que fui gradativamente me lembrando. De volta ao Hostel, ao subir no meu beliche para dormir, me deparei com um maço de notas de dólares em cima da minha cama, dentro de uma sacola. A luz do quarto estava apagada, demorou um pouco para eu perceber que era uma imitação barata, provavelmente alguma lembrança esquecida pelo antigo hóspede. Estava com preguiça pra descer até a recepção, então deixei a sacola presa no pilar do beliche. Quando estava pegando no sono senti uma moça me empurrando e dizendo que eu estava deitado na cama dela. Acordei puto! Fomos até o corredor que estava com as luzes acesas e descobrimos que nossas pulseiras estavam com o mesmo número de beliche. Lá fomos nós na recepção para resolver o problema. Uma hora depois colocaram a moça em outra cama, próxima da minha. Meia hora depois de ela ter deitado, pasmem, o funcionário voltou ao nosso quarto e acordo-a para informa-la que aquela cama também estava ocupada. A bicha ficou doida, saiu batendo pé, com razão. Depois descobrimos que aconteceu algum problema no sistema da reserva dos quartos.

 

Dia 22

O objetivo era deixar a mochila cargueira na recepção do Pirwa e levar para Puno somente a mochila de ataque. Quando voltássemos (dia seguinte), pegaríamos a mochila cargueira na recepção do Pirwa e iríamos para o Wildrover, onde havíamos feito as reservas.

Às 8 da manhã partimos para Puno. O ônibus estava lotado de alemães, só havia 2 lugares livres, o meu e do meu amigo. Após duas horas de viagem chegamos no “porto” onde atravessaríamos um braço do Lago Titicaca. Quando estive em Copacabana em 2009 só havia um meio de transporte para o ônibus e para os passageiros (balsa), você tinha a opção de ficar dentro do ônibus ou do lado de fora. O ônibus ia balançando na travessia inteira! Atualmente o ônibus vai numa balsa e os passageiros em um barco separado (passagem: 2 bolivianos). Após 4 horas chegamos a Copacabana. Depois de almoçarmos fomos direto para a imigração. Ficamos mais de 2 horas na fila, nunca fiquei tanto tempo numa fila da imigração. Isso atrasou nossa viagem consideravelmente, porque esperávamos ficar mais tempo para conhecer as ilhas flutuantes de Puno.

 

Puno é uma cidade peruana que fica às margens do lago Titicaca. Possui 3.827 metros de altitude. A cidade em si não tem muita coisa pra ver. A principal atração é pegar um barco para as ilhas flutuantes de Uros. As ilhas são feitas com um tipo de planta chamada totora.

Chegamos em Puno no final da tarde, por volta das 17 horas. Imediatamente pegamos uma van até o píer e pagamos o barco (15 soles) para nos levar para conhecer as ilhas. Depois de meia hora chegamos na primeira ilha. Ainda estava dia, porém o sol já estava se pondo atrás das montanhas, infelizmente. Ao desembarcarmos na ilha fomos recepcionados por duas nativas, mãe e filha. Elas cantaram algumas músicas em aimará. Um nativo mostrou a sua casa e contou que o ex presidente Fujimori dormiu 5 dias ali na década de 90 e forneceu equipamento de energia solar para a ilha.

 

É uma sensação diferente pisar na ilha, dá impressão que a qualquer momento atravessaremos as totoras e cairemos no Titicaca. Ficamos pouco tempo na primeira ilha e depois partimos para a próxima, a capital. Lá há um pequeno mercado bem barato. Depois voltamos para Puno.

Voltamos com a van para o terminal principal de Puno. De lá pegamos um táxi cholo (tipo tuk tuk indiano) até o Pirwa de Puno. Pirwa de Puno é tipo um hotel antigo, com carpe e um monte de andares. Pegamos o último andar, lembro que tínhamos que subir muitos degraus e no final chegávamos sem ar. Pra variar o banheiro demorou pra esquentar a água. Puno é muito maior que Copacabana. Fomos numa rua próxima do plaza de armas. Na rua só havia pizzarias, escolher uma não foi difícil. Pedimos pizza de alpaca e uma cusqueña (25 soles).

Comprei na farmácia soro fisiológico pra limpar o nariz que amanhecia todo dia entupido com muito sangue. O café da manhã começava às 07 horas. Nosso ônibus de Puno para Copacabana sairia as 07h30 (2h30m de viagem). Estávamos com as passagens compradas para o trecho de Copacabana para La Paz, às 13 horas (empresa Titicaca).

Mal sabíamos que no dia seguinte teríamos que pegar caronas clandestinas e andar a pé mais de 20 km para voltar a Bolívia.

 

Dia 23

Antes de entrar na rodoviária eu percebi alguma coisa diferente, a rodoviária estava vazia demais. O funcionário do guichê nos informou que as estradas estavam bloqueadas por manifestantes, nenhum ônibus entrava ou saía do Peru por aquele trecho naquele dia. Perguntamos se não havia outra maneira de chegarmos pelo menos mais próximo da fronteira. Ele disse que o mais próximo da Bolívia que poderíamos ir de van seria até a cidade de Juli. Dali pra frente nenhum carro passava. De Juli para a fronteira da Bolívia são mais de 50 km de distância.

 

Por 8 soles fomos de Puno até Juli, numa van lotada porém muito rápida, muito mais rápida do que aquela porcaria de ônibus lotada de turistas que viemos no dia anterior! Chegando em Juli fomos até a praça principal, onde localiza-se a bela igreja de San Pedro. Pagamos 20 soles para um taxista nos levar até a primeira barreira de manifestantes.

O taxista estava se borrando de medo dos manifestantes, nos deixou a mais de 100 metros do primeiro bloqueio. Uma viatura da polícia chegou logo depois. Conversando com os policiais eles nos informaram que poderíamos passar a pé pelo bloqueio, e que só veículos motorizados estavam proibidos de passar (motos, caminhões, ônibus, carros, tuk tuk, etc).

Foi então que começou nossa peregrinação para chegar até a fronteira com a Bolívia. Nesse primeiro bloqueio estavam parados muitos caminhões e ônibus de turismo.

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No nosso lado esquerdo o Titicaca nos acompanhava como testemunha da nossa via crucis rumo a fronteira. Ninguém tinha noção exata de quantos bloqueios existiam, de quando seria o último bloqueio ou a distância até o próximo bloqueio, estávamos em um turbilhão de dúvida e incerteza. Pra melhorar as coisas eu estava sem dinheiro, meus soles tinham acabado, e meu amigo só tinha 70 soles. Na pressa de pegar a van de Puno para Juli havíamos esquecido de comprar alguma coisa pra comer na estrada.

 

Não contamos quantos bloqueios de pedras passamos, mais de 5 com certeza. Alguns bloqueios tinham manifestantes, outros não. Em um dos bloqueios com manifestantes conversamos com um peruano que nos explicou o motivo dos bloqueios. Ele disse que estavam protestando contra as mineradoras que iam construir e consequentemente destruir a paisagem da região. Também disseram que as mineradoras acabavam com os recursos naturais locais e depois iam embora, como ratos. Cada vez que passávamos pelos bloqueios chamávamos a atenção dos manifestantes. Quando falávamos que estávamos andando desde a cidade de Juli eles caiam na gargalhada!

 

Depois de mais de 3 horas caminhando sob um sol de rachar, a fome começou a bater. Resolvemos parar numa venda que ficava do lado esquerdo da estrada. Quando entramos fomos atendidos por uma peruaninha linda, até lembrei da chilenita do livro “Travessuras da menina má”, do peruano Mario Vargas Llosa, que levei para ler na viagem. Compramos 2 chips Lays, 1 bolacha de chocolate e uma água de 2 litros. Tudo saiu por 9 soles.

Ao chegarmos a uma parte mais alta da estrada, avistamos uma espécie de porto com vários barcos pequenos. “Está pensando o mesmo que eu?” perguntou meu amigo, ao olhar pra trás. Eu disse que sim. Resolvemos perguntar para um peruano que passava pelo local se ele conhecia os proprietários dos barcos. Ele nos levou até um grupo de homens que aparentemente morava na região. Perguntamos quanto sairia uma viagem de barco até a fronteira, eles informaram que custaria cerca de 200 soles e que a viagem duraria mais de 2 horas. Não tínhamos tudo isso de dinheiro.

Quando começamos a andar numa parte mais afastada do Titicaca, vimos um raro motoqueiro vindo muito devagar na direção contrária a nossa, resolvemos tentar pedir carona. Os poucos motoqueiros que passavam ou eram os próprios manifestantes ou moradores das cidades que existem ao redor do Titicaca. Parei no meio da estrada e ele parou.

Informamos nossa situação: que havíamos perdido o ônibus das 13h de Copacabana para La Paz, que teríamos que chegar em Copacabana até às 18h30 para pegarmos o último ônibus de Copacabana para La Paz, estávamos caminhando desde Juli etc., e perguntei se ele poderia nos levar até o próximo bloqueio, ele aceitou. Fomos em 3 na moto! Lembrei de uma cena do filme Viagem a Darjeeling (2007), onde os três irmãos saem de moto pelas estradas da Índia. Logo que chegamos no próximo bloqueio o motorista começou a conversar alegremente com os manifestantes, provavelmente contou que estávamos caminhando desde Juli! Todos riam e conversavam em aymará, aparentemente todos ali se conheciam. Ficamos em pé enquanto o motorista ia até um grupo de manifestantes.

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O motorista falou alguma coisa com o grupo de manifestantes e pediu para que eu e meu amigo o seguíssemos. A poucos metros do bloqueio viramos a esquerda em uma estrada de terra. Lá do nada surgiu outro motoqueiro. Já afastados do bloqueio, na estrada de terra, montamos cada um em uma moto e seguimos por uma estrada de terra por mais ou menos vinte minutos.

Na maioria das vezes quando você pega carona você deve conversar com o motorista para que ele perceba que não foi um erro ter te pegado. Ali, em algum lugar da fronteira do Peru com a Bolívia, quando os dois motoqueiros começaram a se enfiar por estradas de terra afastadas da rodovia e discutir em um idioma que nós não entendíamos, cheguei a pensar que eles levariam a gente para o Titicaca e exigiriam que déssemos nossos sagrados 61 soles! Não foi o que aconteceu!

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Paramos uns 50 metros do próximo bloqueio na estrada. Estávamos numa estrada de terra paralela ao asfalto. Subimos um barranco até o asfalto. Os manifestantes não viram que chegamos lá de moto. Atravessamos o bloqueio de pedras e continuamos a pé.

Sabíamos que não estávamos muito longe da fronteira. Já havíamos perdido o ônibus das 13h (Copacabana - La Paz). Chegamos a conclusão que a pé seria impossível chegar a tempo de pegarmos o último ônibus de Copacabana para La Paz (18h30m). Já havíamos caminhado mais de 20 km na estrada.

 

De repente outro motoqueiro surgiu vindo em nossa direção. Após eu sinalizar com a mão o motoqueiro parou. O motorista era um senhor simpático, de pele queimada pelo sol. Expliquei nossa situação para tentar sensibilizá-lo, ele aceitou nos dar uma carona. Novamente fomos em 3 na moto em direção a fronteira. Nessa última carona passamos por alguns bloqueios que não tinham pessoas, mas pedras enormes dificultavam a passagem da moto. Teve uma hora que o motorista tentou desviar de uma pedra, mas acabou acertando a outra, quase caímos.

Durante o percurso o senhor nos informou que não haveria mais bloqueios com pessoas até a imigração. Isso nos deixou aliviados. Porém o senhor disse que não poderia levar a gente até a fronteira. Ele começou a apontar para alguma referência que estava a frente e dizia que poderia levar a gente “até lá”. Chegou a um momento que falei: “Pelo amor de pachamama quanto o senhor quer pra levar a gente até a fronteira!?” Então ele disse que nos deixaria num lugar na estrada onde haveria um táxi esperando a gente. Eu pensei: Porque haveria um táxi esperando a gente no meio desse deserto peruano?!

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Depois de uma curva elevada para a direita o motorista parou a moto e apontou para o horizonte... Eu não acreditei no que meus olhos estavam vendo, cheguei a pensar que fosse alguma miragem, alucinação, mal da montanha, sei lá! Um táxi branco estava parado no acostamento da estrada, no meio do nada. Pagamos 5 soles para o motoqueiro e agradecemos. Começamos a correr em direção do táxi, meu amigo sempre na minha frente. O tema musical das olimpíadas cairia perfeito para esse momento. De repente a luz traseira do táxi se acendeu... me desesperei, não é possível que o cara largaria a gente ali, pensei. Porém o táxi começou a dar ré, vindo devagar ao nosso encontro. Adiós Peru!

 

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Diferentemente do dia anterior, não havia uma única alma na imigração, somente os funcionários. Cheguei até a pensar que estivesse fechada. Seria muita desgraça pra um dia só. Pegamos uma van de estudantes até o centro de Copacabana (10 bolivianos) onde teríamos que negociar outro ônibus, pois havíamos perdido o nosso das 13h. Chegamos na empresa Titicaca às 17h, explicamos a situação e a funcionária nos encaixou no último ônibus que iria para La Paz, às 18h30m. Ainda tive tempo de conhecer o mirador de Copacabana. A escada que dá acesso ao mirador é bem íngreme, na metade do caminho eu já havia me arrependido. Acho que parei mais subindo as escadas de Copacabana do que no ataque ao cume do Huayna! Ainda na subida tive uma vontade violenta de ir ao banheiro. Bati na porta de duas casas que possuíam a placa “baño” em frente, porém, após eu chamar, em ambas gritaram “No hay baño”. Porra, porque tem a placa então? Eu já estava escolhendo o terreno baldio pra me aliviar quando consegui encontrar um banheiro em uma floricultura.

Mais desidratado continuei subindo as escadas até chega no mirador. Fiquei um pouco decepcionado com a sujeira do local, muito lixo, muita pichação, o local parece que está abandonado. Apesar de tudo isso o visual compensa o esforço gasto para chegar até lá. Minha perna ainda estava um pouco dolorida, a descida foi foda! Cheguei faltando 10 minutos para o ônibus sair.

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O ônibus voltou chutado para La Paz. O motorista não tinha dó dos pneus, não errava um buraco. Quando fiz a reserva no Wildrover informei que chegaria às 22 horas. Chegamos 22h30 minutos em La Paz, e ainda tínhamos que passar antes no Pirwa para pegar nossas mochilas cargueiras. Nossa sorte é que a rodoviária de La Paz fica bem perto do Pirwa. Corremos para o Pirwa, pegamos nossas mochilas e fomos para o Wildrover a pé.

 

Dia 24

Fiquei dormindo enquanto meu amigo foi fazer o downhill, dessa vez eu acordei com febre. Nessa altura do campeonato eu já questionava se o avião do Papa realmente havia abençoado minha viagem! Já que era meu último dia na Bolívia resolvi andar por um lugar que não conhecia. Passei na praça Murillo bem na hora que o vice presidente da Bolívia, Álvaro Garcia Linera, estava dando uma entrevista a respeito da manifestação dos mineradores de Potosi.

Comecei a descer a av. Mariscal Santa Cruz. A zona sul de La Paz é outra La Paz. A arquitetura é moderna, possui grandes prédios, casarões, congestionamento, crianças com uniformes escolares andando em grupo. Uma coisa que percebi também foi a ausência de indígenas nessa parte da cidade. Sentado na escada da biblioteca municipal reparei em um senhor que estava vendendo morangos na rua. Eu estava adquirindo coragem pra levantar e comprar um morango quando a polícia chegou e exigiu que ele pegasse a caixa de morango e fosse vender as frutas em outro lugar, porque ali ele não poderia praticar esse tipo de comércio. O vendedor saiu xingando e acabou sendo acompanhado por uma policial de dois metros de altura. Fiquei sem os morangos.

 

Depois de uma volta no centro voltei pro hostel e capotei (não era nem meio dia). Acordei por volta das 18 horas, horário que meu amigo retornou do downhill. Conhecemos uma brasileira que iria para o Aeroporto Internacional no mesmo horário que a gente, pela manhã. Combinamos em dividir o táxi.

 

Dia 25

Não dormi nada. Durante a madrugada tive que correr duas vezes para o banheiro, não tive tempo nem de colocar chinelo, lentes de contato, blusa... saí trombando em tudo, ápice da diarréia! Fomos em 4 no táxi, 3 brasileiros e uma espanhola, 18 bolivianos por pessoa. Muita confusão na hora do check-in. Pra melhorar as coisas pro meu lado o banheiro do aeroporto não tinha papel higiênico. Sobrevoamos ao lado do imponente Illimani (6.438 metros). Já no Brasil, nunca pensei que ficaria feliz em olhar para cima e ver o céu nublado e carregado de São Paulo. Foram 13 dias sem uma única nuvem em La Paz.

Bom galera, foi isso. Foi uma das melhores viagens da minha vida, ao mesmo tempo a que eu mais passei perrengue! Acabei ficando doente e infelizmente não pude aproveitar como gostaria. Fiz muitas amizades, aprendi bastante sobre a cultura boliviana e principalmente sobre a cidade de La Paz. Subir o Huayna foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, foi a realização de um sonho. Espero que o relato ajude outros viajantes. Valeu!!

 

Agradecimentos:

Ao meu companheiro de aventuras Flávio e aos amigos Ualid, Anderson, Rafael K, Pastel, Ivan, Pedro, Eliseu e demais guias, Thaís, Caren, Yuri, Simone, Aryanna, Kellie, Emerson e aos meus pais Paulo e Cida, sem vocês essa viagem não teria acontecido, obrigado a todos!

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Parabéns pela conquista...

 

Eu subi em 2013 e foi muito difícil.... Fiquei em torno de 1 semana me aclimatando em La Paz...

 

Antes da viagem comecei a tomar um concentrado de vitamina B12... e acredite se quiser, não tive uma dor de cabeça la.. rsrsr.. levei tb comida liofilizada pra não passar mal com aquelas gororobas deles.. rsrsr

 

Achei a Bolívia fantasística e ainda quero voltar.

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