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Para mim é algo realmente complicado traduzir em palavras os momentos vividos nos dias da minha viagem. Viagem esta que não se traduz num simples mochilão ou turismo de longa duração. Foi o encontro de uma pessoa comum com seu sonho de andar por terras que tanto o inspiraram, terras mãe da esperança, terras de homens e mulheres feitos de histórias e de coração, corações gigantescos. O sentimento que fica depois de quase seis meses na estrada é o de gratidão, do agradecimento as infinitas pessoas que ajudaram esse pobre viajante das mil e uma maneiras possíveis, para vocês meu muito obrigado.

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Foto 1 - A companheira de viagem

Tinha uma vida igual a tantas outras, era bem razoável por sinal, mas a vontade de caminhar e estar frente a frente com o novo me atormentava todos os dias. Queria conhecer com meus olhos as diferenças, os sotaques, as comidas, as belezas. Desejava não ter pressa, fazer tudo no seu tempo necessário, não estar preso a rotina dos dias e principalmente aprender. Sim, aprender, não com fórmulas prontas e nem sentado dentro de uma sala de aula. Queria aprender com experiências. Queria conhecer pessoas. De alguma forma queria fugir da minha vida cotidiana, não por ela ser ruim, mas pelo desejo de se conhecer e assim, quem sabe, voltar uma pessoa melhor. Quando esse sentimento passou a ser insuportável decidi que tinha que partir.

Por um ano ajuntei algum dinheiro, queria ficar seis meses na estrada. A grana não era o suficiente, mas suficiente era a minha vontade. Dei um ponto final no trabalho. Abri o mapa e não tinha ideia por onde começar. Decidi não ter um roteiro, apesar de ter muitos lugares em que eu queria estar.

Assim começa a minha história (poderia ser de qualquer um). O relato está dividido da seguinte forma:

Parte 1: de Rio Claro ao Vale do Itajaí
Parte 2: Cânions do Sul
Parte 3: de Torres a Chuí
Parte 4: Uruguai
Parte 5: da região das Missões a Chapecó
Parte 6: Chapada dos Veadeiros e Brasília
Parte 7: Chapada dos Guimarães
Parte 8: Rondônia
Parte 9: Pelas terras de Chico Mendes, Acre
Parte 10: Viajando pelo rio Madeira
Parte 11: de Manaus a Roraima
Parte 12: Monte Roraima y un poquito de Venezuela
Parte 13: Viajando pelo rio Amazonas
Parte 14: Ilha de Marajó e Belém
Parte 15: São Luis, Lençóis Maranhenses e o delta do Parnaíba
Parte 16: Serra da Capivara
Parte 17: Sertão Nordestino
Parte 18: Jampa, Olinda e São Miguel dos Milagres
Parte 19: Piranhas, Cânion do Xingó e uma viagem de carro
Parte 20: Pelourinho
Parte 21: Chapada Diamantina
Parte 22: Ouro Preto e São Thomé das Letras
Parte 23: O retorno e os aprendizados

O período da viagem é de 01/10/2015 a 20/03/2016. De resto não ficarei apegado nas datas exatas em que ocorreram os relatos que irão vir a seguir, tampouco preocupado em valorar tudo. Espero contribuir com a comunidade que tanto me ajudou e sanar algumas dúvidas dos novos/velhos mochileiros.

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Parte 1: de Rio Claro ao Vale do Itajaí

"Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir." Paratii: Entre dois pólos, Amyr Klink

Enrolei alguns dias em casa, era para já estar viajando, na verdade eu tinha medo de começar. Acho que o mais difícil é começar, depois você já vai ter feito a merda mesmo e tudo fica mais fácil. Após pensar muito decidi que o meu primeiro destino seria Curitiba. Lá reencontraria o Boletão, parceiro do meu primeiro mochilão e amigo de longa data. Acho que era uma terça-feira. Fiz as malas horas antes de partir, minha irmã e mãe me acompanharam na rodoviária, elas tentaram me fazer desistir. Subi no buzão e já não tinha certeza de nada. Apesar de o trajeto ser noturno eu não dormi. Pensava milhões de coisas e ao mesmo tempo não pensava em nada.

Das coisas que levei comigo:

  • 1 mochila Curtlo Mountaineer 75 + 15 lts
  • 1 barraca Quechua QuickHiker II
  • 1 saco de dormir Trilhas e Rumos Super Pluma Inverno
  • 1 tênis de trilha Timberland
  • 2 calças jeans
  • 2 calças de trekking
  • 3 shorts
  • 10 camisetas
  • 10 cuecas
  • 5 meias
  • 1 anorak
  • 1 segundo pele
  • 1 touca
  • 1 toalha
  • Produtos de higiene pessoal
  • Alguns livros

Em média a mochila pesava uns treze quilos.

Chegar a Curitiba, reencontrar o Boletão, parecia mais um final de semana de folga. Apesar de ter ficado quase uma semana por lá. Andei por todos os cantos de Curitiba, conheci o que nunca tive oportunidade de conhecer. Já tinha ido algumas vezes antes à cidade, mas sempre de passagem. Dessa vez, com todo tempo do mundo, conheci tudo com a calma que cada lugar merecia. O museu do olho do genial Niemeyer é algo realmente belo e tive sorte de estar na cidade na época da bienal. O jardim botânico merece toda a fama de cartão postal da cidade, é um parque agradável demais, todos os outros parques da cidade são de igual sentimento. Vale destacar a qualidade do transporte público na cidade o melhor que conheci no Brasil.

Informação 1.1: Curitiba é considerada a capital ecológica do Brasil. Existem mais de 26 parques para visitação e também é a cidade onde a mata Atlântica é mais preservada.

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Na época da graduação, eu e o Boletão éramos os únicos da sala com viés social. Saber que está em Curitiba trabalhando com algo em que acreditávamos enquanto estudantes era realmente gratificante. Fazia mais de ano que não o via, depois do nosso mochilão cada um foi trabalhar em um canto. Nesses dias pudemos conversar sobre a nossa viagem, sobre a sua viagem pelo sul da África, futebol, a vida e claro, sobre a minha viagem que se iniciava. As conversas foram boas e os dias agradáveis. Nesse momento parecia estar em casa e havia uma sensação que a viagem não tinha começado. Era hora de prosseguir. Fiquei dias definindo qual seria meu próximo destino até decidir por Pomerode, cidade do Vale do Itajaí.

Informação 1.2: Pomerode é uma cidade catarinense próxima de Blumenau conhecida por ser a cidade mais alemã do Brasil.

Curiosidade 1.1: Em plena crise o vale do Itajaí era o oposto do resto do país, criando vagas ao invés de diminuir. O vale corresponde o nordeste do estado de Santa Catarina, região que tem como principal cidade Joinville.

Tentei couchsurfing na cidade, não consegui. Procurei nas cidades vizinhas até conseguir em Timbó. Meu primeiro host da viagem e seria o primeiro surfer delas. Cheguei pelo fim da noite na cidade. A minha espera estava a Dani, Bruna e família. Não poderia ter melhor recepção.

“A vontade de visitar Pomerode vem do simples fato de sempre saber que era a cidade mais alemã do Brasil, apesar de ser um termo vago, carregava essa vontade de estar lá. Estava tão perto, por que não ir? Não conhecia nada da região, muito menos sabia que Timbó existia. Como a viagem não tinha nada de planejado seria uma descoberta.” Notas de diário

No segundo dia seguimos para o morro Azul. Pico mais alto da cidade, o morro abriga uma bela vista, além de ser um ponto de camping da cidade. Do seu topo pode-se ver Timbó e Pomerode. Lá de cima na companhia da Bruna e da Daniela, finalmente, tive a certeza que a viagem havia começado de verdade. Agora sabia que tinha tomado a decisão certa. Depois fomos numa festa, no estilo Oktoberfest. Foi um bom dia, cheio de paz e de ótima companhia.

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Dias depois, finalmente, fui conhecer Pomerode. A cidade é toda charmosa, cheia de casas de arquitetura enxaimel. Tudo é organizado lá e em muitos cantos se houve falar alemão. O que há de melhor, sem dúvida, é a culinária, muitos restaurantes típicos e padarias com doces que parecem ter saído do cinema. Comi uma torta de frutas vermelhas (em uma padoca) maravilhosamente boa.

Informação 1.3: O Enxaimel é uma antiga técnica construtiva, na qual uma estrutura de madeiras encaixadas tem seus vãos preenchidos com tijolos ou taipa. Conjunto de estacas e caibros que sustenta as divisões da estrutura da casa, podendo ou não ficar aparente na fachada.

Culinária 1.1: No vale do Itajaí vende-se o refrigerante Laranjinha da Água da Serra, o melhor de todos. Não tem muito gás e é realmente bom.

Fiz um trekking de 16 km pela rota enxaimel. O caminho é recheado por construções do tipo enxaimel (aquelas casinhas típica alemã) e cercado pela natureza. Muito fácil conhecer pessoas no caminho e aprender um pouco da cultura alemã que sobrevive na região. Recomendo demais o trekking. Apesar de muito ouvir que as pessoas da cidade não são receptivas e muitas vezes preconceituosas com turistas, não senti nenhuma indiferença por parte das pessoas que tive contato. Pelo contrário, fui bem recebido e tratado com enorme educação.

Curiosidade 1.2: Pomerode, apesar de ter menos de 30 mil habitantes, tem grandes empresas como: Bosch , Hering entre outras.

Curiosidade 1.3: Apesar de toda fama de Pomerode, o melhor lugar para se visitar arquitetura enxaimel é a vila alemã em Blumenau.

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Nos outros dias caminhei por Timbó, se tivesse que escolher uma cidade para viver essa cidade seria Timbó. Calma, bonita, clima agradável, cheia de oportunidades, muito verde, muitos rios e mulheres bonitas. Não existem muitos pontos turísticos, mas existe muita beleza por todos os cantos. Apesar de a vizinha Pomerode ter a fama, Timbó tem muito de cultura e arquitetura alemã, de uma forma mais desapegada o que para mim é melhor.

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Passei bons momentos na companhia da família Nasato e quero um dia poder voltar para lá e receber aqueles abraços calorosos iguais da despedida. Família que tão bem me recebeu, iria ficar dois dias a principio, acabei ficando quase uma semana. A Dani e a Bruna transbordam amor e logo seguiriam para um mochilão de longa data. Lembro que dava dicas para elas de como viajar, hoje acompanhando a viagem delas era eu que merecia umas longas aulas, que orgulho e que saudades. Falando em saudades, esse é o sentimento que fica. Saudades das conversas com o Pini e a Rose, depois chegou a Grazi que abrilhantou ainda mais a pacata Timbó. Nunca me esquecerei desses dias e sempre serei grato a Dani e Bruna por dar a possibilidade de conhecer suas famílias, cidade e região. Meus eternos agradecimentos. Muito obrigado.

Depois fui para Blumenau em plena Oktoberfest, passei uma tarde na vila alemã e segui viagem. Dormi de noite na rodoviária da fria Criciúma. O próximo destino seria a região dos cânions.

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Parte 2: Cânions do Sul

Depois de ter desistido, por hora, de conhecer a serra catarinense e a bela serra do rio rastro, decidi conhecer os badalados cânions do sul. Estava empolgado, anos antes tive a oportunidade de conhecer o cânion mais profundo do mundo, o cañon del colca próximo a cidade peruana de Arequipa, lugar que também se localiza a nascente do rio amazonas. Essa experiência foi demais. Estar frente a frente com o vazio infinito e presenciar o voo dos condores sempre me trás boas sensações e lembranças. Agora era a vez de conhecer uma região fértil em cânions.

Curiosidade 2.1: O "cañon del colca" chega a ter mais de 3500 metros de profundidade.

A região dos cânions situa-se na Serra Geral divisa natural entre os estado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Essa região corresponde a diversas cidades entre os dois estados, tendo maior destaque Cambará do Sul (RS) e Praia Grande (SC) por suas proximidades dos cânions mais visitados da serra. Cambará do sul é uma cidade da serra gaúcha, muito próxima de Gramado, que tem uma altitude de mais de mil metros, portanto, fica no topo dos cânions. Praia Grande apesar do nome não é uma cidade litorânea e fica no nível do mar, o que faz dela ser cercada pelos paredões dos cânions. As duas cidades são separadas pela Serra do Faxinal, que por sinal é muito ruim e fica intransitável em épocas de chuva.

Informação 2.1: Existem 36 cânions na região.

Informação 2.2: Praia Grande fica distante 40km do litoral.

Dica 2.1: Cambará do Sul está 120 km de distância de Gramado. Caso planeje uma viagem para a serra gaúcha, não deixe de visitar Cambará do Sul e seus cânions.

Dica 2.2: De Gramado existem passeios "bate e volta" para o cânion do Itaimbezinho pelo preço de R$150.

Dica 2.3: Caso queira visitar os cânions com maior comodidade, fique na cidade de Cambará do Sul que tem maiores estruturas para o turismo.

Após Criciúma, entre um ônibus e uma carona cheguei a Praia Grande. Minha escolha foi baseada nos custos, Cambará é mais badalada e por conseqüência mais cara. Nos meus dias na cidade fiquei todo tempo acampado num sítio na comunidade de Vila Rosa, que é cercada pelo cânion de mesmo nome.

Informação 2.3: Existe ônibus direto entre Criciúma e Praia Grande, mas os horários são bem restritos. Por isso minha opção de pegar um ônibus até uma cidade um pouco mais próxima e depois por sorte eu consegui uma carona.

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“Conheci uma húngara hoje. Ela estava indo embora. Fazia quatro dias que estava em Praia Grande. Seu sonho era conhecer os cânions Itaimbezinho e Fortaleza. Em todos os dias ela chegou ao topo do Itaimbezinho e em nenhuma das subidas ela teve sorte. A neblina tomou conta dos cânions naqueles dias, por mais que chegasse muito próximo ao desfiladeiro não era possível ver nada. Com lágrimas nos olhos ela se despediu, dizendo que iria voltar.” Notas de Diário

No dia seguinte caminhei até o cânion Vila Rosa. Sua localização fica na própria Serra do Faxinal. A entrada da trilha para o acesso ao cânion não tem sinalização, o melhor é se informar com os nativos antes de partir. A boa noticia é que ele é praticamente deserto, no dia que estive lá fui à única pessoa desfrutando, daquele, que para mim é o cânion mais bonito da região. Fiz todo o trajeto a pé, subi a Serra do Faxinal e depois caminhei na pequena trilha que leva ao cânion. Tive todo o tempo necessário para sentir o lugar e ter aquela sensação de vazio que os cânions proporcionam.

Dica 2.4: Caso tenha tempo na região e esteja em Praia Grande faça todo o trajeto a pé. No meio do percurso existem diversos mirantes dos cânions.

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Gosto de estar sozinho em lugares como este. Onde a natureza foi caprichosa. Muitas coisas passam pela cabeça, mas o que mais martela nos pensamentos é que existe muita beleza no mundo. Ao dormir nesse dia, só conseguia agradecer aos céus por ter tido a oportunidade de conhecer aquele lugar. Nos outros dias tinha a missão de visitar os cânions Itaimbezinho e Fortaleza, mas esses eram muito distantes impossibilitando ir caminhando. Consegui diversas caronas para conseguir visitá-los.

Dica 2.5: Existem muitos turistas na região e a maioria aluga carro, então, é muito comum conhecer pessoas que tem lugares vagos no carro e também é tranqüilo ir até a serra do faxinal para pedir caronas.

Informação 2.4: O cânion Itaimbezinho fica 25km de distância de Praia Grande.

Informação 2.5: O cânion Fortaleza fica 60km de distância de Praia Grande.

Informação 2.6: Os taxistas da cidade de Praia Grande fazem o trajeto (com até 4 pessoas) aos cânions. Para o cânion Itaimbezinho é cobrado R$200 e para o cânion Fortaleza R$300.

O cânion Fortaleza está localizado no Parque Nacional da Serra Geral e a entrada no parque é gratuita. Difícil chegar até ele, acredito que em dia de chuva seja impossível atravessar uma parte daquela estrada, ainda mais com carro comum. Por outro lado, o trecho asfaltado da pista é lindo demais, cheio de flores coloridas por todos os lados. Fui deixado na entrada do parque e depois segui andando. No meio do caminho entrei na trilha da pedra do segredo. A pedra do segredo é uma pedra de cinco metros que está equilibrada numa base de cinqüenta centímetros. Todo o percurso vale à pena, mas a pedra em si, não me encantou muito.

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Segui rumo ao Fortaleza. Quanto mais se aproxima do cânion mais encantador ele fica. Chegando ao topo e tendo aquela paisagem como companhia, não se consegue pensar muito. O momento é destinado ao sentir.

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Não há estrutura no parque (com exceção de um estacionamento) o que possibilita você estar na borda do cânion. Eu prefiro que seja assim, mas isso afasta muito dos visitantes além de, ser relativamente longe (com estrada ruim). O lugar por não ser entupido de turistas faz da visita uma experiência agradável para todos os visitantes. Eu que gosto de admirar cada canto com calma pude me sentar (sem ser incomodado) por diversas vezes na borda do cânion e ficar ali parado, contemplando.

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O cânion Itaimbezinho, cartão postal da região, está localizado no Parque Nacional de Aparados da Serra e a entrada custa oito reais para brasileiros. Aqui se gravou várias reportagens, novelas e nos últimos meses com imensa divulgação da televisão fez aumentar demais o turismo no parque. Diferente dos outros cânions que eu já havia visitado, este era completamente diferente. Primeiro pelo seu estilo, com as fendas muito próximas. Segundo por ter muita gente e terceiro por ter uma estrutura de turismo. Aqui você não consegue se aproximar muito do cânion, existem parapeitos por toda a borda. As trilhas são bem marcadas e tem um salão de apresentação, onde é contada toda a história de formação dos cânions da região.

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O lugar é muito bonito, vale à pena visitar. Por conseguir atrair o turismo de massa o Itaimbezinho perde um pouco do charme, mas nada que tire o seu sorriso ao estar diante daquele lugar tão peculiar.

Curiosidade 2.2: Depois que a globo exibiu uma reportagem sobre o Itaimbezinho e também teve uma novela gravada, o turismo no Itaimbezinho aumentou drasticamente. O problema é que a galera acha que é o único cânion da região, deixando de conhecer os, igualmente, belos Fortaleza, Vila Rosa, entre outros.

Tinha planejado fazer a trilha do rio do boi, que nada mais é que caminhar debaixo das fendas do Itaimbeizinho. Como o nível do rio estava muito alto e começava a chover na cidade, talvez a trilha só fosse liberada (pelo ICMBio) daqui algumas semanas. Resolvi não esperar.

Curiosidade 2.3: A maioria das pessoas locais que conheci, nos meus dias na cidade, nunca haviam visitado nenhum cânion da região.

Em cenários como os de cânions é preciso ter sorte. Afinal, existe um clima particular entre as fendas, onde, do nada, pode-se instaurar uma cortina de neblina e impedir toda a visualização do lugar. Então, o melhor é ficar uns dias na região para evitar qualquer frustração.

Aqui foi meu primeiro camping do mochilão. Aqui pela primeira vez estive frente a frente com a imensidão da natureza (nessa viagem). Aqui ouvi meu primeiro "Bah, mas isso é muito longe para ir andando" de muitos que ouviria por todo o sul. Aqui fiz alguns amigos e estes diziam que eu deveria conhecer Torres. Depois de muita propaganda, desfiz acampamento, arrumei a mochila e comecei a caminhar. O próximo destino seria Torres, litoral do Rio Grande do Sul.

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Parte 3: de Torres a Chuí

Fui caminhando até uma estrada vicinal na divisa entre os estados (SC e RS) e de lá peguei uma carona até Torres. As duas cidades são bem próximas e a viagem não durou mais que uma hora. O trajeto é cheia de plantações de arroz e a estrada é de terra batida, o que é comum por aqueles cantos. Achei muito bonito o caminho.

Informação 3.1: Apesar de serem vizinhas (Praia Grande - SC e Torres – RS) não existem ônibus (diretamente) que ligam as duas cidades, é necessário ir até a rodovia para conseguir pegar algum ônibus em trânsito ou esperar um bus que sai uma vez ao dia num ponto depois da ponte que divide os dois estados.

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Torres foi a primeira cidade praiana da minha viagem. Confesso que não tinha muita expectativa sobre o lugar e como sempre fui surpreendido. A praia da guarita foi dos lugares que mais me encantou em todo mochilão. As falésias da praia lembram a baía dos porcos em Fernando de Noronha, um lugar maravilhoso. Pena que nos dias que estive na cidade fazia muito frio e ventava forte, assim, não cheguei ter o prazer de mergulhar no mar. A região onde fica situada a praia é um parque (Parque Estadual da Guarita) de proteção ambiental e tudo é muito bem organizado e todo parque é muito bonito. É possível ter acesso ao topo das falésias através de caminhadas curtas, mas intensas. Com certeza, o topo da guarita é o ponto alto da visita.

Curiosidade 3.1: Os gaúchos costumam dizer que Torres é a única praia do Rio Grande do Sul, apesar de terem um litoral extenso, eles também dizem que o resto do litoral gaúcho é só areia, água e vento.

Informação 3.2: A entrada para pedestres no Parque Estadual da Guarita é gratuito, caso esteja com veículo é necessário pagar entrada e o preço varia de acordo com o veículo.

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Não fiquei muito em Torres. Dormi apenas uma noite na cidade e aproveitei dois dias na praia da guarita, gostei tanto que não quis conhecer outras praias. Depois segui para Porto Alegre de ônibus, mas não queria ficar. Já conhecia um pouco da cidade e queria evitar metrópoles. Cheguei pela noite na rodoviária e por lá fiquei toda madrugada definindo qual seria meu próximo destino.

Sempre tive grande curiosidade em conhecer Gramado e Canela. Estava tão perto, por que não ir? Pela manhã, depois de uma noite que quase não dormi, comprei a passagem com destino a Gramado. Antes tentei couchsurfing e não consegui. Ao menos fiquei sabendo da existência de camping e hostel pela região. Entrei no ônibus e dormi.

Gramado é uma cidade tranquila, segura e feita para o turismo. Basicamente se encontra hotéis, restaurantes e parques temáticos. A arquitetura chama a atenção também, com belas igrejas por toda a cidade. A parte mais bonita, que eu achei, é o lago negro que é todo envolto com árvores vindas da própria floresta negra na Alemanha. Os pedalinhos no formato de cisne dão um charme a mais para o lugar. No geral, Gramado é um lugar muito agradável de se estar e principalmente de caminhar. Existem diversos parques e como vive do turismo é fácil encontrar um evento musical ou teatral em algum lugar. Nos dias que estive na cidade fiquei no hostel Gramado, lugar bem tranqüilo.

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Canela fica distante, apenas, três quilômetros de Gramado. Aqui existe vida sem o turismo, uma cidade com mais cara de cidade. A população de Canela, em sua grande maioria, trabalha nos hotéis e restaurantes de Gramado. As opções de restaurante e de todas as outras coisas são mais baratas na cidade. Tudo que encontrar em Gramado achará igual em Canela só que mais barato. Contudo, é um lugar para se visitar por sua beleza e a cereja do bolo é a catedral de pedra.

Culinária 3.1: Experimentar o chocolate branco com banana da Florybal pelo preço de R$1.

Informação 3.3: Existem dois hostels em Gramado: Hostel Gramado (R$45) e o Hostel Britânico (R$55). Também tem a opção de camping na cidade de Canela por volta de trinta reais.

Informação 3.4: Gramado e Canela ficam distantes apenas 3km, a opção mais barata para transitar entre as cidades é o circular que passa a todo instante a preço de 3 reais. O bus tour é a opção de quase todo mundo, no preço de cinqüenta reais. Não vejo muita vantagem nele, sendo que os pontos turísticos que estão nas cidades são muito próximos. Vale a pena caminhar. E os pontos distantes como o Parque do Caracol, vale a pena usar o transporte público.

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O principal ponto turístico da região é o Parque do Caracol. Não tem como não visitar este lugar é lindo demais. Logo ao entrar já se consegue avistar a grandiosa cachoeira do Caracol, cartão postal de Canela. Existe um mirante onde se tem a melhor vista da cachoeira. No mirante é possível admirar também todo o entorno recheado de mata atlântica. Próximo ao mirante é possível seguir pela escadaria da Perna Bamba e observar a cachoeira do Caracol debaixo e muito próximo à queda d’água. A escadaria é bem longa. Vi algumas pessoas desistindo da descida no meio do caminho. O esforço é recompensado com a vista e com a fina camada de água que é lançada pela cachoeira na escadaria. Depois caminhei por todas as outras trilhas que existem no parque. Tem muitas coisas além da cachoeira do Caracol. Essas trilhas são pouco utilizadas, não é raro estar sozinho nas inúmeras corredeiras do parque. O ideal é reservar um dia todo para caminhar com calma, tem muita coisa para visitar. O parque possui restaurantes, observatório ecológico, lojas, estação sonho vivo, centro histórico ambiental, além da bela natureza.

Informação 3.5: A entrada do parque do Caracol é de R$18,00.

Informação 3.6: O parque do Caracol fica 7km de distância de Canela.

Informação 3.7: Escada da Perna Bamba tem 751 degraus.

Dica 3.1: Ao contrário do que se pensa é possível viajar barato pela região. Existem opções de hostel, camping, além do couchsurfing. O transporte público funciona bem, os fast food invadiram a cidade, assim existem opções baratas de alimentação. Os parques de diversões (Mini mundo, Snowland), sim, esses são caros, no meu caso não visitei nenhum deles e mesmo assim fiquei muito satisfeito com o que conheci.

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Depois segui para a cidade de Três Coroas. Tinha intenção de ser voluntário numa fazenda para fazer colheitas de frutas. Por azar do destino o proprietário do lugar teve que viajar as pressas e meu plano foi por água abaixo. Na cidade tem o belíssimo templo budista Khadro Ling, principal chamariz de turistas e de pessoas desejosas de conhecer um pouco do budismo. Fiquei o dia na praça da cidade definindo qual seria meus próximos passos. Ofereceram-me carona para Porto Alegre e aceitei.

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Como dito antes, não queria ficar em Porto Alegre, cheguei e já queria partir. Decidi ir conhecer Tavares. Sempre quis conhecer a lagoa do peixe (que fica em Tavares), abrigo de pássaros que fazem a migração do hemisfério norte para a Patagônia e vice-versa. São infinitos pássaros, dos quais se destacam os flamingos. Realmente é um espetáculo natural. Por sorte ou azar, conheci um funcionário do Parque da Lagoa do Peixe na rodoviária e ele me disse que chovia há dias na cidade e que não pararia tão cedo. Disse-me também que naqueles dias não havia concentração dos pássaros e me desencorajou estar na cidade naquela época. E assim, com um aperto no coração, resolvi mudar os planos e segui para o extremo sul do Brasil.

“Primeiro foi à negativa na fazenda. Depois tive que abrir mão de Tavares. Não deveria ter ouvido o funcionário. Deveria seguir meus instintos e desejos. Agora é tarde, estou dentro de um ônibus indo para Chui. Tenho que esquecer isso e seguir.” Notas de diário

De Porto Alegre a Chui peguei um ônibus noturno. No desembarque conheci as manauaras Penélope e Rhenata que estavam no primeiro mochilão com destino ao Uruguai. Fizemos amizade e decidimos ir para Barra do Chui juntos. Diferentemente do que eu pensava a cidade de Chui não é litorânea, a porção litorânea que faz divisa com Chui na parte brasileira é a cidade de Santa Vitória do Palmar e nesta cidade é onde fica o balneário de Barra do Chui. A praia é toda similar até chegar-se à foz do arroio do Chui, na divisa natural entre Brasil e Uruguai, a praia neste momento ganha um charme a mais com a presença do arroio e das muitas gaivotas.

Curiosidade 3.2: No Rio Grande do Sul quando vai fazer uma viagem dentro do estado (de ônibus) compra-se a passagem em um guichê único, ou seja, todos os guichês vendem as passagens de todas as empresas de ônibus.

Curiosidade 3.3: O trajeto de Porto Alegre a Chui tem 515 km e de ônibus o tempo de viagem é de aproximadamente 8 horas.

Curiosidade 3.4: O Arroio do Chuí é o ponto extremo sul do Brasil.

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“Estar no ponto extremo sul do país era uma conquista pessoal. Conhecer a simbólica cidade de Chuí que tanto ouvia nas aulas de Geografia era voltar no passado. Apesar de ser só mais uma fronteira, ali tinha algo de especial. Não saberia dizer o que é, só sei dizer que existe.” Notas de diário

Voltando para Chuí, caminhamos um pouco e começamos a nos acostumar com o espanhol. A cidade tem um comércio forte e em menor escala lembra Ciudad del Este no Paraguai. Depois seguimos para Chuy no Uruguai, atravessamos a avenida e chegamos ao Uruguai.

Curiosidade 3.5: A avenida que divide as cidades de Chuí (Brasil) e Chuy (Uruguai) se chama Avenida Uruguai para os brasileiros. Para os uruguaios ela se chama Avenida Brasil. Achei interessante.

Ahora es el momento de Uruguay.

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Parte 4: Uruguai

Depois de atravessar a Avenida Brasil estávamos no Uruguai, logo em seguida trocamos o dinheiro. A cotação na época estava 1 para 7, ou seja, para cada real trocado era recebido sete pesos uruguaios. Compramos as passagens de ônibus, eu seguiria para Punto del Diablo e as meninas seguiriam direto para Montevideo. Esperamos em uma praça, viajaríamos no mesmo ônibus.

Dica 4.1: Já li várias matérias do tipo "Viagem barata: Conheça os lugares onde o real vale mais". Onde a única análise é a proporção do valor do real contra as outras moedas. Se fosse assim o Uruguai seria um país extremamente barato para nós brasileiros, pois para cada real temos sete pesos uruguaios, ledo engano, o mais importante em analisar nessas situações é o poder de compra da moeda. Por exemplo, tente fazer comparações do tipo: com quinze reais no Brasil consigo almoçar e com esse mesmo valor convertido eu consigo comer no Uruguai? Assim faça com estadia, transporte e tudo mais, assim, você vai comparar o poder de compra de uma moeda em relação à outra. Para nós, neste momento, o Uruguai é um país mais caro que o Brasil.

Dica 4.2: Ao pegar um ônibus rodoviário no Uruguai (chegando por Chuí) é necessário pedir ao motorista parar na aduana e, assim, dar entrada no país.

Curiosidade 4.1: O Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes, mas sua população bovina é quatro vezes maior. Todos os animais são identificados e rastreados.

Depois de uma hora e meia de viagem (e de sono) o ônibus chegou ao "pueblo" de Punta del Diablo.

Curiosidade 4.2: O nome Punta del Diablo é por causa que a orla do povoado tem um formato de um tridente. Igual ao usado pelo diabo.

Que grata surpresa chegar a Punta del Diablo, povoado litorâneo dominado por pescadores. Aqui tudo é muito simples e as pessoas são bem receptivas. Fiquei num camping no centro. Conheci muitos nativos que me ensinaram coisas sobre: maré, lua e peixes. Por falar em peixes, foi aqui que comi o melhor peixe da minha vida, preparado num boteco a beira mar.

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A orla é extensa possibilitando caminhar por horas na areia e até chegar às cidades vizinhas. Meus dias se resumiam em andar durante todo o dia pelas areias, sem fim, da região. Num desses dias, caminhei até a cidade de Santa Teresa que é muito bonita e cheia de verde. Pela noite, geralmente, ficava num bar de uma família que conheci. Sempre tinha boa música.

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Nas andanças pela orla sempre estava acompanhando de uma gaivota e de um bando de cachorros, aliás, tem muito cachorro por lá. Como dizia a tiazinha do bar: "esses cachorros gostam de turistas". Todos eles dormiam em volta da minha barraca e quando eu saia para a caminhada matutina, eles saiam todos atrás de mim.

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“Estranho a companhia da gaivota. Enquanto eu andava, ela sobrevoava sobre mim. No inicio achei que ela queria proteger sua prole ou ovos, por causa dos cachorros. Depois de andar por horas essa idéia não fazia sentido. Passei acreditar que aquilo era um presente da natureza.” Notas de diário

Se fosse escolher um lugar para morar no Uruguai, com toda certeza, esse lugar seria Punta del Diablo. Não consigo traduzir em palavras a paz daqueles dias. Fui embora querendo ficar.

O próximo destino seria Cabo Polônio, o principal motivo de eu estar no Uruguai. Antes de ir ao cabo parei numa cidade chamada Castillo. Uma cidadezinha charmosa, típica cidade de interior. Ao chegar estava tendo uma apresentação de artes na praça. Resolvi ficar e conferir. No outro dia bem cedo, peguei o ônibus para o Cabo Polônio.

Cabo Polônio é uma reserva ambiental, cercado por dunas (que lembram os pequenos lençóis maranhenses), por ser uma área importante de reprodução dos leões marinhos. Está localizado muito próximo de três ilhas que servem de morada para os mesmos. A entrada aqui é controlada e é necessário comprar as passagens (ida e volta) dos caminhões que levam para a comunidade.

Informação 4.1: Pode-se ir andando até a comunidade, porém é razoavelmente distante (trinta minutos de caminhão) da entrada, além de ter que caminhar por imensas dunas. Vale à pena, apesar dos pesares.

A comunidade que vive no Cabo Polônio não usufrui de eletricidade (exceto alguns restaurantes que utilizam energia solar) e se parece com um reduto hippie. Em resumo as pessoas que lá vivem são: pescadores, artesões y otras personas más. Fiquei hospedado em uma casinha a dois passos do mar. Era casa de uma família que morava há tempos no vilarejo.

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Lembro de quando eu era criança e viajava para o litoral. Achar uma concha na praia era uma conquista. Caminhando pela orla do cabo se encontra trechos que é totalmente coberto por conchas e afins. Se eu voltasse para a infância e visse aquilo, provavelmente iria achar que estava no paraíso. Não tem como não sorrir estando ali.

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Os leões marinhos são uma atração a parte. São centenas espalhados por todos os cantos. Sentar e observá-los é demais.

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O charme do povoado é pela noite, não se vê quase nada, caminhando sem rumo com a lanterna em mãos e deixando-se perder na companhia do céu estrelado. A maior parte dos visitantes fica apenas durante o dia. Não faça isso. É quase obrigação passar uma noite naquele lugar mágico.

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Confesso que em certos momentos achei o povoado meio forçado, mesma sensação que tive quando estive em San Pedro de Atacama. Todos tentavam passar a imagem de "super loucos" e em alguns momentos achei meio pré-fabricado o lugar. Prefiro povoados como em Punta del Diablo cheio de pessoas de verdade, que não tentam te impressionar e sim te acolher. Entretanto, gostei muito dos dias que passei por lá. Voltaria com toda a certeza.

Vídeo 4.1: Este clipe da banda Vanguart foi gravado em Cabo Polônio, pelo vídeo dá pra ter uma boa noção do lugar, além da boa música.

Parti para Montevideo. Queria evitar metrópoles, mas essa eu tinha que visitar. Sempre gostei muito de literatura e dois dos meus autores favoritos nasceram e viveram aqui. Um deles tinha acabado de falecer. Eduardo Galeano e Mario Benedetti que prazer estar em suas terras.

Curiosidade 4.3: Eduardo Galeano é um escritor que gosta de contar histórias, de preferência histórias de pessoas comuns. Sua linha de raciocínio é admirável, é um pensador livre, e não poupa nada e nem ninguém. Apesar de ser sempre lembrado pelo audacioso "As veias abertas da America Latina" tem uma obra vasta que fala desde futebol até a história da humanidade. O livro dos abraços, em especial, é “especial”.

Chegando ao terminal Tres Cruces não fazia ideia para onde iria. Acabei indo para o Ukelele Hostel e lá recebi um presente do destino. Reencontrei a Penélope e a Rhenata que também estavam hospedadas no hostel. Elas já partiriam no outro dia para Porto Alegre. Foi bom reencontrá-las e tive a oportunidade de me despedir, coisa que não foi feita quando desci em Punta del Diablo as pressas.

Montevideo parece uma cidade do interior de tamanho grande. Lá tem tudo o que uma grande cidade pode oferecer, além de certa paz que as cidades menores oferecem. O rio da Prata acompanha toda a extensão da cidade com belas praias. A praia de Pocitos e o parque Rodo foram os lugares que mais gostei. Cheguei a visitar o museu de futebol no estádio Centenário, não tem o mesmo glamour do museu do futebol no estádio do Pacaembu, mas ver a taça da Copa de 1950 é uma sensação estranha e só isso vale a pena da visita. A parte antiga, o centro, é toda encantadora também.

Culinária 4.1: Café Brasileiro, lugar favorito do Eduardo Galeano, é sensacional, o cuidado que eles têm ao tirar o café é coisa de cinema, ao todo demoram uns dez minutos. Tomava café da manhã todos os dias ai, primeiro pelo Galeano e depois por ser bom de verdade. Não deixe de visitar o Café Brasileiro.

Curiosidade 4.4: O Uruguai tem uma população aproximada de três milhões de habitantes e cerca de 60% vive no conurbado de Montevideo.

Curiosidade 4.5: O rio da Prata, divisa natural entre Uruguai e Argentina, não passa de um estuário formado pelas fozes dos rios Uruguai e Paraná antes do encontro com o mar. Um estuário nada mais é que o ambiente aquático de transição entre o rio e o mar. Estando lá, se parece mais com o mar, pela sua imensidão.

Curiosidade 4.6: Os uruguaios são extremamente apaixonados por futebol. Em todo canto tinha um grupo jogando bola. Em todo canto mesmo.

Curiosidade 4.7: O valor que os uruguaios dão a “boa comida” é demais, em nenhum lugar comi nada “mais ou menos”.

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“Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. — O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.” Livro dos Abraços, Eduardo Galeano

Colonia del Sacramento, reduto português em território espanhol, foi à última grande parada no Uruguai. A parte histórica, onde se encontra o famoso forte da cidade, é toda muito pequena e muito bonita. Para se conhecer a parte histórica de cabo a rabo não é preciso mais do que meio dia. Pra mim o charme da cidade é a sua orla. Aconselho passar mais que um dia na cidade. A orla com boas praias, futebol por todos os lados e muita música boa, além de uma noite com bares cheios. Aqui o rio da Prata não é imenso, tornando possível ver as luzes, ao fundo, da capital argentina. A proximidade com Buenos Aires faz de Colonia del Sacramento uma extensão do turismo de quem visita o outro lado do rio da Prata.

Informação 4.2: Colonia del Sacramento pertenceu a Portugal até o ano de 1750.

Curiosidade 4.8: Em Colonia del Sacramento é aceito Pesos Argentinos, Pesos Uruguaios (obviamente) e Real.

Curiosidade 4.9: O que mais me chamou a atenção no Uruguai foi à forma de como é feita a educação no país. Grande parte das aulas é ministrada em praças e existe uma preocupação em envolver toda a cidade no ensino. Presenciei muitas vezes os alunos, principalmente dos mais novos, na rua tendo aulas do tipo: como atravessar a rua com segurança, como ajudar os mais velhos atravessarem as ruas, a importância de preservar a história da cidade. Numa dessas aulas fui abordado por um grupinho de crianças de sete anos, a aula era encontrar pessoas de outras cidades/países e saber um pouquinho mais desses lugares, me perguntaram qual era minha cidade, meu país, o que eu mais gostava, meu time de futebol e outras coisas mais, foi muito legal essa experiência. Sempre achei que a educação é o principal motor da mudança, e o que eu vi nos dias no Uruguai, em todas as cidades (sem exceção) é o mais parecido com o que eu acho certo.

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Quando sai de casa, tinha a intenção de chegar ao extremo sul do continente, a imponente terra do fogo e sua simbólica Ushuaia. Caso seguisse com essa ideia, pegaria um barco em Colonia del Sacramento e cruzaria o rio da Prata até Buenos Aires. Fiquei dois dias em Colonia pensando se iria ou não, a grana era curta e decidi trocar a gelada Patagônia pela quente Amazônia.

“Outra vez tenho que abrir mão da Patagônia. Escolher sempre é difícil. Acho que na Amazônia irei aprender mais sobre a vida. Fica aqui a promessa que num futuro próximo irei ver a Patagônia com meus olhos.” Notas de Diário

O Uruguai é, em teoria, um país bem tranqüilo em se conseguir carona e tive que pegar muitas até sair do país. Agora me despedia do Uruguai sem não antes ter cruzado dezenas de cidades que não perguntei o nome, mas que suas belezas ficarão em meus olhos. Obrigado Uruguai, mas agora era hora de voltar para o Brasil. Terra do plural.

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Parte 5: da região das Missões a Chapecó

Uma vez vi uma foto de uma igreja em ruínas, apesar de não saber sua localização (e nem ser religioso) tive a certeza que um dia colocaria meus pés naquele lugar. Anos depois fui descobrir que a tal igreja ficava em São Miguel das Missões, noroeste do Rio Grande do Sul. Agora era o tempo de conhecer a igreja da foto.

São Miguel é uma pequenina cidade com menos de 10 mil habitantes. A cidade base da região se chama Santo Ângelo e foi para lá que segui viagem. Consegui hospedagem através do couchsurfing, seria de novo o primeiro hospedado pela família, mas o interessante dessa vez que o meu contato, Talita, não estava na cidade e assim sobrou para o resto de sua família me aturar. A Talita mesmo morando em outra cidade foi super atenciosa, conseguiu convencer a família a hospedar um estranho, sem mesmo estes nunca ter ouvido falar em couchsurfing.

Informação 5.1: Santo Ângelo é o berço da coluna Prestes.

Cheguei pela noite, o Emilton e a Tânia (pais da Talita) estavam me esperando. Ganhei fortes abraços de recepção, desde o inicio sabia que seria feliz ali. Passar aquela noite ouvindo histórias de superação em família, uma em cima da outra, me fez sentir muitas saudades de casa e também fez eu ter a certeza que estava no lugar certo.

Já ouvi muitas histórias de amor, mas com toda certeza a história do Emilton e Tânia é a minha favorita. Num tempo distante, se conheceram em uma viagem no litoral, ele de muito longe e ela de Santo Ângelo, a viagem se acabou e o amor ficou. Um dia ele resolveu seguir a estrada atrás de continuar essa história interrompida. Sem saber se haveria um final feliz ele foi. Hoje, depois de mais de 20 anos eles continuam juntos e felizes e agora na companhia da Talita e da Karen.

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São Miguel das Missões fica cerca de 60 km de Santo Ângelo. Parti na companhia do Emilton para conhecer as ruínas. No meio do caminho paramos para conhecer a vinícola Fin. Fomos muito bem recebidos pelos proprietários. Confesso que não gostei dos vinhos que estavam na degustação, mas em compensação o suco de uva era fenomenal. Carregamos a mala de suco e seguimos viagem.

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Antes de chegar às ruínas, eu achava que seria apenas um lugar bonito de se visitar. Engano total. Ao entrar nas ruínas pela primeira vez, tive uma sensação parecida de quando estive em Machu Picchu. Fiquei totalmente paralisado diante de tanta beleza.

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A ruína na verdade é o sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo (patrimônio mundial da UNESCO), na época das missões jesuítas foram instauradas várias "comunidades" onde viviam os evangelizadores (jesuítas) com os ameríndios, que nesse caso foram os Guaranis, com propósito de impor a crença cristã e os costumes de vida do europeu. Vale a pena dizer que nessa época esse território era espanhol, e depois de dezenas de anos vivendo em "harmonia" (jesuitas e guaranis), os espanhóis queriam restaurar o domínio de Colônia do Sacramento e assim "trocaram" a região das missões por Colônia com os portugueses, assim as comunidades teriam que ser esvaziadas. Os guaranis não aceitaram sair de onde, agora, eram suas terras. Guerra-pós-guerra os portugueses dizimaram os guaranis da região e reassumiram a "ordem", mas não sem antes criar um herói entre os guaranis, Sepé Tiaraju, líder da resistência guarani. As guerras também foram às responsáveis por deixar em ruína o lugar.

Passamos a tarde toda dentro do sítio. O Emilton já havia estado algumas vezes no local e me passava, com toda atenção, seus conhecimentos sobre a história do lugar. Existe na entrada um museu com bastante informação.

Informação 5.2: A entrada do Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo custa R$5.

Informação 5.3: O museu foi projetado por Lúcio Costa, o mesmo que projetou Brasília em parceria com Oscar Niemeyer.

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Toda noite no sítio tem o espetáculo Som e Luz, em que é contada toda a história das missões na região. Caminhamos por São Miguel das Missões até o horário da apresentação. O espetáculo ocorre todos os dias às oito horas da noite. Certamente, essa foi à maior expressão de arte que já presenciei.

Sentado no extenso gramado. Na companhia do céu estrelado e do frio. A voz da Fernanda Montenegro em conjunto de canhões de luzes (em direção as ruínas da igreja) vão contando, de forma mais que fantástica, a história das missões jesuítas e do herói Sepé. Todos uma vez na vida deveriam ver aquilo, é incrível. Pena que o sítio é pouco visitado.

Informação 5.4: O Espetáculo Som e Luz custa R$5.

Informação 5.5: Existe um hostel/pousada na frente do sitio arqueológico, em São Miguel das Missões. O preço do quarto compartilhado é R$60.

Dica 5.1: Como o espetáculo ocorre no mesmo lugar das ruínas o ideal é ir à tarde para visitar o sitio arqueológico. Depois esperar até o inicio do Som e Luz, que tem duração de 45 minutos.

Vídeo 5.1: Um vídeo que mostra um pouquinho de como é o Som e Luz.

“Que coisa linda. Como pode ser tão bonito? A beleza do lugar complementando a arte foi simplesmente sensacional” Notas de Diário

Fiquei mais outros dias na casa da família Ferrão. Conheci quase todos os familiares. Participei do Brique da Praça, onde a família expõe seus produtos culinários (feitos artesanalmente). Os melhores temperos, geléias, sucos e chocolates são o da família Ferrão. O Brique é uma feira de coisas “feita à mão”, todo domingo acontece na praça da cidade e quase todas as pessoas de Santo Ângelo comparece no evento. Achei muito interessante. Cada dia na cidade fazia aumentar os laços com a família, a Tânia já parecia minha mãe, além de companheira de chimarrão. Foram dias especiais.

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Depois de me despedir na rodoviária. Dentro do ônibus, olhava o Emilton, Tânia e a Karen e uma tristeza já apertava. Comecei sentir saudades mesmo antes de partir. Ir embora de Santo Ângelo foi algo difícil, mas tinha que seguir viagem. O próximo destino seria Chapecó.

Chapecó é uma cidade muito especial para mim, já estive aqui antes, e tinha muitas pessoas que eu queria rever. Cheguei numa segunda de madrugada. A minha espera estava a Tânia, que saudades eu estava. Anos antes, participei do projeto Rondon e uma parte da equipe era de Chapecó, este projeto foi das coisas mais importantes que aconteceram em minha vida.

Vídeo 5.2: Para quem quiser conhecer o Projeto Rondon esse é o vídeo que fiz quando participei.

Os dias na casa da Tânia junto com ela e a Amanda foram tranqüilos. Foi muito bom estar ali, matar uma saudade que me sufocava. Pude conhecer ainda mais elas e aprender mais sobre a vida. Considero-as a minha segunda família. Não conheci nada que já não conhecia na cidade, mas não importava. Nos outros dias vi boa parte do pessoal do projeto: Mauricy, Paola, Samara e a Paula. Bebemos, conversamos e o tempo parecia não ter passado. Chapecó no meu dicionário significa saudade.

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Fui embora. Agora era hora de rumar sentido norte. Ainda não fazia idéia qual seria o próximo destino. A única certeza que eu tinha, era que teria que voltar pra casa e deixar minhas roupas de frio. Assim, mataria as saudades da minha família.

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Acompanhando aqui e viajando também.

Curto esse jeito poético de ver os lugares, as pessoas...

Parabéns!!

 

Valeu Cristina. Ainda tem muita estrada para contar =].

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    • Por Diego Minatel
      "No século XII, o geógrafo oficial do reino da Sicília, Al-Idrisi, traçou o mapa do mundo, o mundo que a Europa conhecia, com o sul na parte de cima e o norte na parte de baixo. Isso era habitual na cartografia daquele tempo. E assim, com o sul acima, desenhou o mapa sul-americano, oito séculos depois, o pintor uruguaio Joaquín Torres-García. “Nosso norte é o sul”, disse. “Para ir ao norte, nossos navios não sobem, descem.”
      Se o mundo está, como agora está, de pernas pro ar, não seria bom invertê-lo para que pudesse equilibrar-se em seus pés?"
      De pernas pro ar, Eduardo Galeano
       
       
       O nosso norte é o sul, Joaquín Torres-García
      Cheguei ontem pela madrugada em casa. Agora sentado na frente do computador sinto uma necessidade, quase insuportável, de contar sobre meu caminhar até o fim do mundo. Foram 50 dias de viagem e mais de 14.000km percorridos por terra. Entre ônibus e caronas percorremos o sul do Brasil e a Patagônia Argentina até Ushuaia, parando em muitos lugares nos dois países. O dinheiro era pouco, mas a vontade era muita. A necessidade que tenho de escrever deve-se as pessoas que de alguma forma nos ajudaram a realizar esta viagem ao extremo sul da América do Sul. Tanta gente boa pelo caminho. Tanta solidariedade. Tanta gratidão.

      Pela primeira vez, antes de uma mochilada, eu não estava completamente bem e seguro. Nos meses que antecederam a viagem estava escrevendo a dissertação do meu mestrado (isso, por si só, já era muita tensão) e nesse intervalo de tempo perdi meu pai, a mulher que aprendi a amar resolveu seguir sem minha companhia e quase antes de embarcar perdi minha vó. Como é de se imaginar, meu estado de espírito não era nada bom, na verdade era o pior possível. Com isso tinha muito medo de atrair coisas ruins pelo caminho, como por exemplo ser vítima de violência. Assim, resolvi mudar a ideia de mochilar sozinho e decidi ter uma companhia nessa viagem. Meu amigo/irmão Matheus embarcou comigo nessa jornada. 

      Enfim, tenho como intuito neste relato contar a história dos lugares por onde passei, minhas histórias nesses mesmos lugares e, principalmente, falar sobre as muitas pessoas (leia-se anjos) que nos ajudaram nesta viagem. Quero contar de maneira honesta os acontecimentos e os sentimentos que me permearam nesses dias, e de alguma forma quero deixar esse texto como agradecimento a cada pessoa que tornou essa viagem algo possível.
      Agora vamos ao que interessa, bora comigo reconstruir essa viagem por meio de fotos e palavras!
      Parte 1 - De Rio Claro até Timbó: o mesmo início de outra vez Parte 2 - A Serra Catarinense vista por Urubici Parte 3 - O casal das ruínas de São Miguel das Missões Parte 4 - Do Brasil para a Argentina Parte 5 - Buenos Aires, la capital Parte 6 - O começo da Ruta 3 e o mar de Claromecó Parte 7 - Frustrações na estrada e a beleza de Puerto Madryn Parte 8 - O anjo do carro vermelho Parte 9 - Cruzando o Estreito de Magalhães com San Martin  Parte 10 - Enfim, o fim do mundo Parte 11 - Algumas das belezas de Ushuaia Parte 12 - El Calafate, Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino Parte 13 - O paraíso tem nome, El Chaltén Parte 14 - A janela do ônibus Parte 15 - O caminho de volta: Buenos Aires, São Miguel das Missões, Curitiba e Prainha Branca Parte 16 - Reflexões
    • Por casal100
      Vários amigos e familiares nos indagavam sobre nossas travessias, segundo eles, tudo era muito repetitivo(as fotos eram parecidas, repetimos várias vezes os mesmos caminhos, até pela falta de outros. Até tem, mas caminho particular, não faremos  mais). De certa forma eles têm razão, visto que a visão do picos e montanhas não tem comparação com fotos de estradas e, tem um detalhe mais importante: as principais atrações das cidades(tirando algumas) não estão dentro delas, mas nos arredores  (cachoeiras, picos, morros. ..). Nesses 2 meses, com certeza caminhamos mais de 800 quilômetros. Conhecemos pessoas maravilhosas por onde passamos,  não tivemos nenhum problema mais sério, tudo muito tranquilo.

      O BRASIL É SIMPLESMENTE SENSACIONAL! 
      E mais bonito visto de cima. Diante disso e, até para comemorar meus 60 anos de vida (ingressei na melhor idade), neste verão resolvemos fazer algo um pouco diferente : fomos conhecer e rever alguns parques nacionais /estaduais /municipais e privados, subir alguns picos/montanhas  e alguns circuitos desses locais, região de cachoeiras,  e Brumadinho(Inhotim), poderíamos estar no dia do rompimento da barragem,  para nossa sorte desistimos em cima da hora.
      LOCAIS VISITADOS:
      Extrema - Mg (subida as base dos pico do lopo e do lobo)
      Munhoz - Mg(subida ao pico da antenas, caminhos)
      São Bento do Sapucaí - Sp(pedra do baú e roteiro)
      Marmelopolis -Mg(subida ao morro do careca, mirantes, pedra montada, roteiros e subida ao pico Marinzinho)
      Aiuruoca - Mg(subida ao pico do papagaio, matutu, cachoeiras)
      Visconde de Mauá-Rj - (subida a Pedra Selada)
      PN Ibitipoca - Mg (Janela do céu, pico, circuito das águas e grutas)
      São Tomé das Letras - Mg (cachoeiras e roteiros)
      Carrancas - Mg(cachoeiras e circuito serra de carrancas)
      Ouro Preto - Mg (centro histórico e subida ao pico do Itacolomi)
      Mariana-Mg: Bento Rodrigues, local destruído por outro rompimento de barragem da Vale.
      Serra do Cipó - Mg(todos circuitos dentro do parque e travessão)
      Conceição do Mato Dentro - Mg: cachoeira do Tabuleiro  (base e mirante)
      Lapinha da Serra - Mg(subida aos picos da Lapinha e Breu, cachoeira Bicame e Lajeado,  parte travessia Lapinha x Tabuleiro)
      Brumadinho - Mg(Inhotim)
      PN de Itatiaia - parte alta - Mg(base do pico das agulhas Negras e prateleiras, cachoeira Aiuruoca, circuito 5 lagos, subida ao pico do couto)
      Piquete - Sp(subida ao pico dos Marins)
      Infelizmente, por excesso de chuvas, não fizemos os picos do Itaguaré e da Mina( motivação da viagem). Entrou uma frente fria na semana que antecedeu o carnaval, tivemos que abortar por questão de segurança, pois não utilizamos guias e fazemos somente Bate/volta - fica para a próxima.
      As surpresas da viagem:
      Inhotim, Lapinha da Serra e Serra do Cipó
      A decepção:
      Carrancas-Mg  (É até bonito, mas comparado com outras regiões do estado de Minas Gerais, fica muito aquém).
    • Por Viviana Ciclobeijaflorismo
      Uau... sempre gostei de ler e escrever mas 'em todos estes anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece' rsrs olho para a tela em branco mas as palavras não saem. Várias foram as vezes em que esta cena se repetiu nas últimas semanas e noto uma resistência interna em ordenar as palavras e externizá-las, permanecendo em silêncio degustando-as. Conheço bem essa resistência: é apego! Comumente remetemos o apego aos bens materiais mas quase sempre ignoramos que eles não passam de um símbolo. O real apego é sempre a ideia por trás do símbolo. Venho apegada à ideia da vida que vivi nos últimos dois anos e meio e soltar essa ideia é assumir que ela agora faz parte do passado. No entanto, o novo só vem quando soltamos o velho. E para isso se faz necessário ter coragem...
      As palavras que se seguem são um ato de coragem.
      CO.RA.GEM. substantivo feminino: 1.força ou energia moral diante do perigo; 2.sentimento de segurança para enfrentar situação de dificuldade moral; 3.atributo de quem tem determinação para realizar atividades que exigem firmeza. (Dicionário Michaelis)
      Ou, como uma irmã me ensinou um dia: do prefixo cor (coração) e do sufixo agem (do verbo agir): coragem é agir com o coração. E foi totalmente seguindo o meu coração que ao completar 26 anos em janeiro de 2015 escolhi ir viver as coisas nas quais acreditava. Contexto: na época uma angústia muito forte me acompanhava no dia a dia de faculdade, trabalho e nas pequenas efemeridades que caracterizam o cotidiano. No fundo, a angústia podia ser descrita como um sentimento de não pertencimento e até mesmo uma profunda incompreensão generalizada, não entendia o sentido de fazer as coisas que fazia pois enxergava uma sociedade doente e me apoiava em discursos de liberdade contra um "sistema opressor". No meu aniversário de 26 anos cansei de falar (lê-se: pregar) no facebook sobre as coisas nas quais acreditava e resolvi ir viver as coisas nas quais acreditava.
      Foi num ato repentino da mais profunda coragem num misto com a mais profunda inconsequência que parti. Com cinquenta e cinco reais no bolso, uma tampa de caixa de pizza escrito 'Alto Paraíso' e uma mochila extremamente pesada contendo 75% de inutilidades, fui para a BR. A única experiência que tinha era de ter pego carona com uma amiga até a cidade vizinha (interior de São Paulo, coisa de 100km de distância) poucas semanas antes, mas desde então sabia que se havia conseguido uma carona, conseguiria quantas precisasse. Afinal, muitos podem passar mas só preciso que 1 pare! E foi com essa confiança que, acompanhada de outra amiga que nunca havia viajado de carona, fui rumo a Chapada dos Veadeiros. Não olhei no Google, não tinha mapa, referências ou distâncias. Tudo o que sabia era que queria chegar na tal da Chapada e que pediria carona para isso.
      Há pouco tempo ouvi a seguinte frase sobre cair na estrada: "não tem como se preparar para isso". Essa é a mais pura verdade, e esse foi o primeiro grande aprendizado.
      Também é verdade que um único dia de BR te ensina muito mais do que toda a literatura que possa já ter lido, sobre todos os assuntos. Aprendi sobre política vendo a histórica desigualdade social na vida fora dos grandes centros urbanos e fora dos telejornais; aprendi sobre geografia percorrendo as estradas que cortam as paisagens entre serras e planaltos; aprendi sobre língua portuguesa e sobre licença poética nas placas pintadas à mão oferecendo os mais diversos trabalhos Brasil adentro; aprendi sobre matemática com os preços dos postos de combustível e suas lojas de [in]conveniência; aprendi sobre a biologia do corpo que, como um camelo, cobre distâncias incríveis sem uma única gota d'água; aprendi sobre a química da arte de cada estado em misturar água quente, pó de café e açúcar de maneira tão única (e gratuita!); e, sobretudo, aprendi a física envolvida no equilibrar de uma mochila nas costas de forma que ela (como um motor de Kombi que vem atrás) ainda assim te impulsione para frente. Sempre para frente.
      A BR é uma exigente professora muito dinâmica, com metodologia autodidata e tudo conta como matéria dada. E é justamente este nível de exigência da entrega total ao momento que nos permite absorver todo o seu conteúdo tão eficazmente. Afinal, não dá para estar na BR pensando no boleto que vai vencer ou na ração do gato. A BR te exige por inteiro. Mas essa exigência não é a toa, pois a todo aquele que se entregar plenamente, nada faltará. Nem a carona impossível do último raio de sol do dia, nem o alimento ora como cortesia, ora como oferta da natureza, nem o cantinho maroto para montar a barraca ou o banho, seja num rio, cachoeira ou nos oito minutos mais deliciosos de sua vida num chuveiro de posto de gasolina. Nada faltará! Esse foi o segundo grande aprendizado. 
      Portanto, é um fato que a BR supre a todas as necessidades daquele que se entrega à ela, mas isso não quer dizer que nossas necessidades serão atendidas como gostaríamos ou quando gostaríamos, mas certamente sempre que realmente precisarmos. Aceitar essa falta de controle sobre as situações e ainda assim confiar que nada nos faltará é um desafio proporcional à magnitude do milagre de ser atendido. Porque a verdade é que nós não controlamos absolutamente nada. Abrir mão da ilusão de controle foi o terceiro grande aprendizado.
      Depois de aprender que não há como se preparar para isso, que são necessárias confiança e entrega e de ter aberto mão da ilusão de controle, algumas virtudes certamente já se apresentam desenvolvidas das quais destaco duas: a paciência e a gratidão. Estas duas virtudes são os maiores presentes que a BR me deu. A paciência de esperar o dia in-tei-ro por aquela carona naquela estrada de terra que não passa nem vento ou naquele trecho urbano em que milhares passam mas não param por medo. A gratidão de receber o dia chuvoso como se recebe o ensolarado, de ser grata pelo jejum assim como se agradece  o banquete de coração ofertado.
      Tendo desenvolvido a duras penas a paciência e a gratidão, aprendi que a verdade é que tudo está em nossas mãos. Com paciência e gratidão criamos o que quisermos. Esse foi o quarto grande aprendizado. Esse é um dos mais belos paradoxos humanos: não temos o controle de nada  e criamos tudo o que quisermos. As palavras nem ao menos tangenciam os processos dessas compreensões e permanecem assim no campo das inefabilidades. Mas afirmo: é real. No entanto, não acredite em mim. Duvide e tenha sua própria experiência.
      Além dos impulsos de buscar viver as coisas nas quais acreditava, também ansiava por ser maior do que meus medos. No angustiante período que antecedeu a partida, já havia compreendido que a crença em nossos medos é o que nos limita. Na época, havia feito uma lista com todos os meus medos dos mais esdrúxulos aos nunca antes pronunciados. Levei algo próximo de três meses para terminá-la, e esta lista finalizada lembrava em muito um pergaminho dado comprimento. Em seguida os analisei. Considerei medos-meus aqueles que havia tido uma experiência direta, real e empírica e considerei medos-não-meus aqueles adquiridos por indução social e inconscientemente reproduzidos. Fiz isso pois compreendia que poderia lidar com os meus medos e os demais devia apenas soltá-los, afinal não eram meus e gastava muita energia com eles...
      E de todo o pergaminho, a lista se reduziu a poucos ítens contados nos dedos das mãos. Esses eram os que me interessavam vencer, os demais , como disse, abandonei. Simples assim. Junte a angústia existencial gerada por uma sociedade de consumo com a vontade de vencer os medos limitantes e algumas sessões de 'into the wild' e você tem uma pessoa disposta a rasgar documentos, dinheiro, diplomas, desapegar-se de bens materiais e referências psicoemocionais, além de cometer um "socialcídio" nas redes sociais. Toda a viagem à Chapada dos Veadeiros durou entorno de duas semanas e, ao retornar, abri mão de todos os ítens acima citados. Quando voltei para a estrada possuía apenas o meu corpo, meus conhecimentos e uma mochila com algumas roupas e alguns poucos apegos que ainda permaneciam.
      Queria ver o mundo como ele era sem referências. Queria ver como eu era sem referências. Compreendia que o dinheiro era uma forma de energia mas não era a única e me propus a viver da troca de conhecimentos e da força braçal, bem como do voluntariado. Mas num bom e honesto português o que me motivou foi querer ver se o mundo era mesmo como o Datena falava que era, rsrsrs É com alegria e gratidão que posso afirmar que ele possui uma visão muito limitada (e triste) do que é o mundo...
      Nesse período de viagens de carona que se sucedeu com trocas e voluntariado, regado à paciência e gratidão, aprendi que quanto mais a gente se doa mais a gente recebe. Esse foi o quinto grande aprendizado. Também foi um período em que muitos valores morais e crenças caíram por terra. Descobri, como diria um professor que tive, que sou o extrato-do-pó-do-peido-da-pulga no universo! Rsrs
      E viajei, e viajei e viajei. Curiosamente, curtos foram os momentos em que viajei sozinha. Já viajei em dupla, em trio, com criança e em quarteto. Viajar bem acompanhada é delicioso! Comunhão, cumplicidade, respeito, reciprocidade, apoio e alguém que olhe sua mochila para ir ao banheiro! Rsrsrs No entanto, só quem já viajou mal acompanhado sabe o valor de se andar só. Uma vez li em algum lugar que a solidão só pode ser realmente sentida em meio a outras pessoas. Hoje compreendo isso. E foi ao escolher  passar a viajar exclusivamente sozinha que compreendi a diferença entre solitude e solidão. A solitude é sobre estar só e não sentir solidão. A solidão é sobre estar acompanhado e se sentir só. Esse foi o sexto grande aprendizado.
      E ao aprender a apreciar a minha companhia e a ouvir tudo o que o silêncio tinha para me falar, a vida de caronas passou a ser incompatível com minhas novas necessidades introspectivas pois bem sabemos que o pegar caronas implica em conversar e interagir (além de responder várias vezes no dia as mesmas perguntas clássicas "de onde você é?", "para onde você está indo?", "você não tem medo?", "o que sua família acha disso?", Etc rsrsrs). As trocas me garantiam apenas o mínimo ao mesmo tempo em que recebia muitas doações, e foi quando passei a me sentir sustentada ao invés de me sustentar. Essa nunca foi a proposta. Concluí que estava na hora de ser autossuficiente, decidi investir em artesanatos e passar a viajar de bicicleta para ter mais independência.
      Viajar de bicicleta é outro universo...!
      Viajando de carona o mundo já é solícito, mas de bicicleta ele é escancarado! Minha bicicleta (Kali- A Negra) é dessas padrão, sem marca, aro 26 e 21 marchas onde os maiores investimentos que fiz foi instalar bar ends de deiz real, um selim mais largo e o bagageiro no qual amarrei dois baldes como alforges, com uma garrafa pet de paralama. Junte a cara de pau de uma bicicleta dessas circulando por aí como se fosse uma Specialized, o fato de eu ser mulher e estar viajando sozinha e você terá a trinca de ouro das portas abertas na sociedade.
       Tenho plena consciência da sociedade patriarcal em que vivemos e de como é nascer mulher em meio a isso, mas nunca havia experienciado isso de forma tão latente pois não se admiravam por ser uma pessoa viajando de bicicleta, mas por ser uma mulher sozinha, o que claramente indica a noção do inconsciente coletivo de que o mundo é sim um lugar hostil para mulheres, já que a mesma admiração não é comum aos homens viajantes solos. Também sinto que a hiperbólica solicitude que a bicicleta proporciona vem do próprio símbolo de liberdade atrelado à ela, afinal todos temos alguma memória afetiva de infância relacionada à sensação de liberdade com alguma bicicleta.
      Uma metáfora não-tão-metáfora-assim que a bicicleta me ensinou nos primeiros 10 minutos de viagem foi que não importa o peso que se carrega, mas sim como o equilibramos...
      E pedalei, e pedalei, e pedalei. Tomei chuva, me queimei no sol, atolei na lama, empurrei serra acima e senti a "mão de Deus no guidão" ladeira abaixo a 56km/h. Fui abordada diversas vezes pela própria curiosidade das pessoas, fui recebida e convidada à hospedagens e banquetes, ganhei dinheiro e presentes, orações, abraços cheios de ternura e querer bem e, por mais delicioso que tudo isso seja, estava looonge da intenção inicial de passar despercebida... Ao mesmo tempo isso ajudou com a venda de artesanatos (mandalas de papel com beija-flores, logo, Ciclobeijaflorismo) e pude experienciar o sucesso na autossuficiência plena  com dinheiro suficiente para me hospedar em campings e realizar os desejos mais supérfluos de meu ego. É nesse ápice entre a plena autossuficiência profissional e a crescente necessidade de introspecção e silêncio não compatíveis com a imprevisível vida na BR que, com a Graça Divina, tive o maior dos aprendizados. Tudo o que fizera até então era em busca da liberdade, de acordo com os conceitos que possuía de liberdade. No entanto, em dado momento pude compreender que sempre fui livre. E pela primeira vez compreendi o que Renato Russo quis dizer quando afirmou que 'disciplina é liberdade'.
      Todos somos livres, sempre fomos e sempre seremos. Inclusive para nos prendermos ao que desejarmos. Esse foi o sétimo e maior aprendizado de todos nesses dois anos e meio de vida nômade.
       
      Faz aproximadamente quatro meses que parei de viajar e isso se deu por uma série de fatores, compreensões e necessidades do momento. Tudo o que materialmente ainda possuo é a bicicleta e os baldes alforges (tá, e documentos. Tenho todos novamente, rsrsrs), no entanto a bagagem que estes dois anos e meio me gerou eu ainda mal consigo mensurar (e nem tenho tal pretensão!). A proposta do momento é encerrar pendências diversas que a impulsividade de outrora deixou e, tendo renovado inclusive a CNH, dar início ao projeto da casa própria sobre rodas, afinal sou uma jovem senhora de quase 30 anos que busca alguns confortos que viver de mochila não oferece, rsrs. No entanto, como ou quando isso acontecerá não me pertence mas sei que assim como a estrada me chamou uma vez, quando houver de retornar não será diferente. Coração cigano só bate na poeira da estrada!
      E o que ficou disso tudo?
      O brilho dos primeiros raios de sol pela manhã refletidos na superfície de um rio; 
      O aroma da primeira chuva que cai e toca a terra encerrando a seca. Uma verdadeira oração silenciosa de alívio e gratidão onde não se ouve nada além das gotas;
      A suculência da fruta madura saboreada direto do pé;
      O farfalhar das folhas com o vento no dossel;
      O toque da pele em cada rosto que se toca em um abraço ou das mãos que se apertam. E os sorrisos! Ah, os sorrisos... As donas Marias e os seus Zés... 
       
       
      Esse foi meu relato de dois anos e meio de viagens conhecendo um pedacinho de cada uma das cinco regiões do Brasil, de carona, a pé e de bike com muito pouco ou nenhum dinheiro vivendo a base de trocas e voluntariado, posteriormente com a venda de artesanatos. Este relato não envolve descrição de lugares, roteiros, valores, dicas ou distâncias. Aliás, quando me perguntam sobre a maior distância que já percorri digo que foi entre querer viajar e colocar a mochila nas costas. Esta certamente foi a maior distância. Este relato apenas compartilha outros aspectos de um mochilão. E embora eu tenha dito que este é o meu relato, estou ciente de que também é ou pode ser o seu, afinal, Eu Sou o Outro Você.
       
      Dedico a todas e todos que abraçaram e abraçam o desconhecido, escolhendo ir além dos próprios medos. Agradeço a todos e todas que compartilham seus relatos de viagem. Agradeço a todas e todos que compartilham. Agradeço.
       
       Trilha sonora da escrita:
      *Quinteto Armorial - do Romance ao galope (1974)
      *Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto
       
      PRABHU AAP JAGO
    • Por Johnhonorato0
      Fala pessoal, tudo certo? Estou em busca de  parceiro ou parceira para fazer um michilão "sem rumo", porém planejado. Sou do Rio de Janeiro, estou no Piauí faz 20 dias, estou muito animado para dar um pulo no Uruguai e dar uma volta pelo nosso Brasil a dentro. 
       
      Vamos trocar uma ideia, sem pré-julgamentos. 
       
      Vou deixar meus contatos aqui,
       
      Whatsapp: 22 99789-2318
      LinkedIn: John Honorato
      Couchsurfing: John Honorato
      Instagram: Johnhonorato0
      Email: [email protected]
       
      Espero por ti! Data e demais informações, a gente decide juntos!
       
       


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