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Nepal 2005


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À caminho de Dzongla, vindos de Lobuche. Ao fundo o vale Khumbu Khola. Esta foi uma das melhores trilhas do trek.

 

Dia 24

 

Com o EBC alcançado, começo a sentir uma sensação de “dever cumprido” e que o trek chegou ao fim. Ainda falta Gokyo, mas isso é “apenas” outro trek secundário, algo extra que coloquei nos planos para caso tivesse tempo, grana e energia. O principal era o EBC e o Kala Pattar. Com estes feitos, meu “trabalho” estava terminado. Agora era encarar a trilha de forma bem mais descompromissada.

 

Como sempre, acordei e tomei café-da-manhã bem antes de Marcéu. Como sempre, pedi mingau, chá de limão e um extra como prêmio por toda a bravura que demostrei nos dois últimos dias, traduzido em biscoitos e panquecas. A festa ainda continua!

 

Enquanto estou ocupado devorando isso tudo, um pequeno japonês chega com seu guia, vindo do dormitório. Como de costume com os japoneses, esse também se senta todo duro na mesa e espera que seu guia lhe traga a comida. Tudo que vem é do melhor e mais caro, mas ele mal toca nos pratos. Petisca aqui e ali, com jeito de estar enjoado. Parece ter passado uma péssima noite. Quando o guia leva de volta os pratos quase cheios, o que é um motivo de felicidade para os guias e carregadores que lotam a cozinha, ele se dedica à paciente tarefa de ficar bicando umas cream-crackers que traz consigo, em pacotinhos pequenos, tipo comida de avião. Pessoa estranha, mas enfim... é a força dele que está em questão, não a minha.

 

(A relevância desse personagem virá mais tarde.)

 

Terminei tudo e fui empacotar. E acordar Marcéu. Enquanto ele se lava, come e se prepara, eu espero do lado de fora com a mochila e aprecio o levantar de Lobuche. Como sempre, carregadores, yaks e trekkers vão, nessa ordem, se preparando para o dia que vem. Uns se preparam para voltar e outros pra seguir adiante em seus treks. Caras cansadas de noites mal dormidas ou de frio perambulam aqui e ali, cedo se transformando numa atividade cada vez mais intensa que irá durar até a vila ficar vazia e os primeiros trekkers vindo de Duglha ou Gorak Shep começem à chegar. Eu espero que Marcéu apareça logo, antes que o vento me cubra até o pescoço de poeira. O japonês, Cream Cracker-sam, passa com seu guia vale a baixo. Seu carregador leva dois sacos enormes. Para um pessoa só, certamente que ele leva bastante coisa.

 

Eventualmente Marcéu sai do alojamento e iniciamos nossa trilha para Dzongla. O pessoal do alojamento me disse que não ficava longe. Apenas duas ou três horas de caminhada. Traduzindo do sistema de horas sherpa para o meu, calculei mentalmente umas 5 ou 6 horas pela frente.

 

Tal como a vinda para Lobuche, a ida para Dzongla segue inicialmente pelo vale ao lado da moraina do Khumbu, que é plano e fácil. No entanto depois de uma meia hora andando, o calor me pega e tenho de parar para tirar casacos. Como estou quase ao lado de Marcéu, achei que ele tinha me visto ou ouvido parar e achei que fosse me esperar. Sem olhar para trás, ele seguiu em frente até sumir de vista. Não gostei.

 

Minha parada demorou mais que o planejado, porque um grupo se aproxima e ficamos conversando um pouco sobre direções. Quando enfim volto ao caminho, Marcéu está completamente fora de vista. Ando, ando e nada dele. Já bastante furioso, pego o rádio e tento chama-lo. Ele diz que está a minha espera depois “da curva”. A curva é a encosta de um morro, depois da qual o vale alarga um pouco e temos de cruza-lo para alcançar umas encostas que tem do outro lado. Nada difícil, mas quando faço a curva e me vejo no meio do vale, reparo que Marcéu está lá longe, na metade da subida para a encosta do outro lado. Continua andando, então não me parece que tenha parado de jeito nenhum. Fico mais furioso e decido que o combinado foi prá cucúia. Farei a trilha só, mais uma vez.

 

Sozinho outra vez, diminuo o rítmo. Sem Marcéu não preciso ficar apertando o passo.

 

Depois de cruzar o vale e seu riacho raso e pedregoso, começo a pequena porém cansativa subida das encostas do outro lado. Depois disso fica tudo plano outra vez. Apesar de muito estreita, é uma caminhada bem agradável, que corre paralela com a trilha para Duglha, que está na encosta oposta à minha, do outro lado do vale. À medida que o vale se alarga entre as duas encostas e curva para o Sul, as trilhas se afastam, até que uma garganta profunda separa as duas. Os trekkers do outro lado são pontinhos se mexendo vagarosamente. Quando a nossa trilha entra de frente para o vale baixo onde Pheriche fica, ela curva para a direita e fico a impressão que dessa vez o EBC ficou mesmo para trás. Mas precisamente onde a trilha curva e esconde os últimos traços da região, um gramado largo se abre e temos um visão panôramica de todo o vale e diversas montanhas. Simplesmente coisa de sonhos. Muita gente parada ali, carregadores e trekkers, então acho que é um ponto natural onde tomam fôlego e descansam, e apreciam a paisagem, claro. Como tem muitas pedras, há lugar para sentar e deixar as mochilas enquanto nos sentamos pela grama ou ficamos de pé, hipnotizados pelo espetáculo diante dos nossos olhos. Fico certo tempo lá, tirando fotos e só olhando. Cream Cracker-sam, o japonês, também está lá.

 

É então que escuto um ruído esquisito vindo da minha mochila e vou ver o que é. Marcéu no rádio tentando saber onde raios eu estou, porque ele está me esperando faz mais de meia hora num lugar bem legal com uma vista espetacular. Eu respondo que estou eu mesmo num lugar bem legal com vista espetacular mas não o vejo. Ele tenta dar coordenadas, mas o sinal não está legal e não consigo entender nada. Como ainda estou zangado por ele ter sumido, digo qualquer coisa sobre não estar entendendo e desligo. Cinco minutos depois ele aparece de detrás dumas pedras, bem mal-humorado. Brigamos um pouco, apenas para abrir o apetite, e ele vai embora. Deixo passar algum tempo para que ele ganhe boa distância e não tenha chance de alcança-lo. Se nos vermos outra vez, vai ser briga na certa e não estou afim. Por agora, quero é ficar sozinho.

 

Quando enfim volto à trilha, descubro que a mesma é bastante usada. Muitos trekkers e carregadores lotam a estreita trilha, indo e voltando. A vista continua muito boa, mas a trilha começa a entrar numa de subir e descer, por isso tenho de me concentrar mais nela que na vista. A montanha do Cholatse, seu glaciar e um lago enorme abaixo preenchem todo meu campo de visão. A perda de escala faz tudo parecer terrivelmente perto e enorme.

 

Depois de muito sobe e desce, cruzo com um grupo. Nada especial sobre esse, mas após cruza-lo e descer para um pequeno vale, e eles subirem para onde eu estava antes, a trilha bifurca. Eu sigo pela maior, mais usada, que vai pela esquerda. Estão quando olho para trás, num gesto casual, vejo que o grupo está lá em cima,olhando para onde estou e apontando com seus bastões para a outra trilha, a pequena da direita. Como que para confirmar, aponto a mesma com meu bastão e eles apontam com os deles para a trilha pequena, outra vez. A trilha menor é uma miserável. Pequena, fechada e incerta. Não parece ser muito usada. Umas tendas estão armadas na boca do vale. Isso e o fato de gente que veio dessa direnção ter-me apontado para seguir por ali, me convençeram que apesar das aparências, a trilha menor era a correta. Acho que eles sabem para onde apontam...

 

Depois de uns 20 minutos andando por ali, por entre arbustos e com a trilha cada vez mais difícil de se ver, ligo prá Marcéu para saber por onde ele foi. Ele disse que seguiu pela grande e tem cruzado com muita gente desde então. Para mim é o suficiente: retorno por onde vim e pego a grande. Não sei se o grupo estava apontando a trilha para mim ou apenas apontando algo entre eles e eu achei que fosse comigo. O lado bom foi que engoli meu orgulho e chamei Marcéu, senão em breve estaria à horas de caminhada para lugar algum. Talvez as barracas fossem de escaladores.

 

Um “pouco” antes de Dzongla, há um riacho semi-congelado. A travessia do mesmo não me era clara, por isso não vi uma ponte pequena feita de pedras largas e comecei a pular de pedrinha para pedrinha até me ver no meio do riacho encarando a ameaça de um banho gelado e mal-vindo. Aborrecido, olho em volta e vejo a ponte. Como não a vi antes, não sei. Me equilibrando precariamente nas pedrinhas, dou meia volta e salto de uma em uma até chegar a margem. Saltar com uma cargueira cheia e à 5000m é algo que não aconselho. Se não fosse pelo incentivo da água gelada, creio que nunca faria aquilo. Enfim, alcanço a margem e cruzo o riacho pelo lugar devido. Depois de mais uns sobe e desce, posso enfim ver um telhado, a primeira vista de Dzongla. Por essa altura, minhas forças estão nas últimas e só xingando muito que consigo subir a última ladeira.

 

Uma vez lá, vejo que Dzongla não passa de dois alojamentos pequenos e uns 3 currais de yaks. Marcéu está sentado no muro do primeiro dos alojamentos, o menor dos dois. Pergunto sobre arranjos para o dia e ele diz que não fez nada, porque está cansado e tinha acabado de chegar. Não gostei do fato de have apenas duas pensões ali, numa trilha bem concorrida, e vou direto no em frente perguntar sobre quarto e dhal. 300 Rúpias pelo dhal e 250 pelo quarto! Caríssimo! Marcéu vai na outra pensão, mas já está cheia. Estamos presos com a cara, pequena e mais porcaria das duas. Nosso quarto é um cubículo com um estrado de madeira coberto com um colchão fino à quisa de cama. Não há assoalho, que é feito de tufos quadrados de terra gramada. Para piorar, a “cama” estava desnivelada e se encontravam no meio. Primeira vez que dormirei numa cama em diagonal. Mas as boas-novas não terminam aí: mesmo ao lado da porta, uma pilha enorme de fezes secas de yak perfuma todo o recinto. Para finalizar, o refeitório é minúsculo.

 

Aguardando o almoço, Marcéu e eu temos a mais azeda e pior das brigas de todo o trek, sobre o virmos juntos hoje. Os detalhes dessa briga são tão espetacular e incrivelmente vãos, pobres, podres, mesquinhos e fúteis que me recuso a entediar qualquer um com eles. A imagem mais próxima que posso dar é de dois orgulhosos bodes nepaleses batendo suas cabeças um contra o outro por nenhuma outra razão senão para passar o tempo.

 

Depois do prato de arroz frito misto miserável e caro, saímos para uma pequena volta pelos arredores dos alojamentos. Cada um para seu canto. Para meu canto descubro logo o banheiro: outra pedra grande. Reparo que as encostas tem quadrados cavados aqui e ali, que são os “azulejos” usados pelas pensões para seus chãos. As encostas ao redor das pensões são gentis e numerosas, mas eu prefiro subir uma maior que está do lado direito, que suponho ser a que leva ao Cho la. Só até a parte mais alta, onde umas bandeiras de oração estão esticadas. Dali devo poder ter boa visão do que nos espera no dia seguinte. Muito bom lá em cima, apesar do vento forte. Subo e me deito numa pedra grande, por onde passam as bandeiras de oração e fico ali contemplando o próximo dia. A primeira parte será muito boa, pois a trilha segue no comprimento de um grande e plano vale, mas depois me dá calafrios ve-la subir até perder de vista por umas encostas muito íngrimes. Olhando pelos mapas e contando as aberturas entre as montanhas, prevejo muito suor e dores para amanhã. Será um dia para andar seriamente, coisa para relembrar os dias de Jiri até Lukla ou de Namche para Tengboche. Só que bem mais alto.

 

Por fim o frio do vento supera o calor do Sol e resolvo descer e voltar para a pensão. Quando chego lá, encontro Marcéu me esperando, porque eu fiquei com as chaves do quarto por engano. Foi por engano, juro! Não se tratou de nenhuma vingança... coff... bom... me senti um pouquinho vingado, mas foi mesmo sem querer. Meti as chaves no bolso sem pensar em trancar Marcéu do lado de fora.

 

Dou as chaves e resolvo continuar a caminhada para o outro lado dos alojamentos, pelas gentis encostas. Me entendio logo, pois anda e ando e nada muda no cenário. E fica cada vez mais frio. Resolvo voltar dando uma grande volta por fora, mas sem descer muito que é para não subir muito depois. É aí que vejo um pequeno grupo ao redor de uma pedra alta. Alguns sherpas estão à volta com cordas e outras coisas para escalada. Ao pé da pedra, o grupo de valentes escaladores aguarda que seus sherpas façam todo trabalho de prender cordas e tudo mais, de forma que eles possam treinar escalada e rapel. Os sherpas fazem tudo, inclusive testar tudo. Aí então seus clientes vão heroicamente subir, e descer. Desculpem lá, mas não consigo simpatizar com esse tipo de aventureiros. Depois que os sherpas fazem e testam as cordas é que eles vão se fazer de escaladores? Que raios de escaladores são esses que nem sequer conseguem treinar por conta própria?

 

Acabo me cansando de assistir a comédia e volto pro alojamento. Quando chego lá, fico de frente ao mesmo, pegando os últimos raios de Sol, quando vejo quem chegando? Fred e Chris! Vou cumprimenta-los, abraça-los e dar as boas-vindas. Dormiram em Dingboche e voltaram hoje para fazer o Cho la. Fred se recuperou um pouco, não muito, mas quer fazer o Cho la de qualquer jeito. Fico feliz de ter meu parceiro lento outra vez, deixando Marcéu livre para correr na frente com Chris.

 

Mas eles chegaram muito tarde em Dzongla e não acharam mais quartos livros. Nosso alojamento só tem 4 quartos. O outro tem mais, mas já encheu. Depois de muito encher o saco do dono do alojamento de cima, que tem um refeitório maior, conseguiram que os deixasse dormir lá por uma módica quantia.

 

Fofocamos um pouco e fomos para nossos respectivos alojamentos para comer. Outra vez, a comida no nosso é péssima, pouca e cara. Além disso, deixaram para nos servir depois que serviram os clientes mais ricos, dos grupos organizados, que acampam fora mas passam a maior parte do tempo dentro. Marcéu e eu estamos lendo tranquilamente depois de devorarmos nosso segundo prato de comida e mesmo assim ainda ficarmos com fome quando um sherpa que estava guiando um grupo entra com suas ovelhinhas a segui-lo fielmente e fala para mim, todo bruto, que é para tirar minha mochila do banco de maneira que seus clientes possam ter mais espaço. Quase que educamente o mando para os detritos fecais ou que fosse se entreter com algum ato sexual em si mesmo, mas me contentei em gritar de volta, todo bruto, que a referida mochila não era minha e que de forma alguma iria tocar nalgo que não era meu. Não me mexi um centímetro e voltei para a leitura, deixando-o de pé com seus clientes. Depois de mais educadamente perguntar em volta de quem era a mochila, o bravo guia conseguiu espaço para seus reis, que não abriram as bocas o tempo todo.

 

Com a parca comida na barriga e alguma literatura na cabeça, fui para a cama. Muito apertado no refeitório para poder relaxar. Já no saco, estou contando as horas para poder sair daqui e torcendo para dormir logo e acordar para o dia do Cho la. Mas não é nada fácil dormir numa cama quando estamos constantemente escorregando para um lado, onde então ela se encontra com a cama de Marcéu. Os outros 3 trekkers nos outros quartos são bem barulhentos, mesmo que sejam poucos. Dois franceses em dois quartos que ficam, cada um no seu quarto, falando alto um com o outro. Quando por fim adormecem, não melhora muito, pois roncam bastante. O outro quarto restante é ao lado do nosso e quem está lá é Cream Cracker-sam, o japonês da trilha e de Lobuche. Quando os franceses adormecem e roncam, Cream Cracker-sam decide se transformar ele mesmo numa pequena, porém eficiente, fábrica de barulho. A produtividade é espetacular: se mexendo sem parar no saco-de-dormir, abrindo o saco-de-dormir, acendendo a lanterna, abrindo suas sacolas e fechando-as, abrindo seus famigerados pacotinhos de cream-cracker e comendo-os, sugando água, se metendo no saco-de-dormir e fechando-o, se mexendo de um lado pro outro dentro dele e daí 5 minutos repetir tudo de novo. Até umas duas da matina, quando o cansaço venceu minhas orelhas e consegui adormecer, foi desse jeito. Fiz uma nota mental para trazer tampões de ouvido da próxima vez.

 

O que me ajudou a adormecer foi o ter decidido que Cream Cracker-sam irá acordar muito, muito cedo no dia seguinte. Isso eu prometo.

 

Combinamos com Chris, Fred e um israelense que sairíamos para o Cho la por volta das 7.30h.

 

Continua...

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Mais um objetivo alcançado: o passe Cho!

1) Eu e Marcéu. Comemoração por termos atingido o Cho la.

2) Marcéu cruzando o Cho la. Esse passe leva cerca de 1 hora para ser cruzado.

3) Marcéu descansando antes de iniciar a descida do Cho la, para o vale do Gokyo. Muito frio e vento nesse lugar.

4) Eu, o Chris e um israelense que conhecemos em Dzongla descendo a íngreme encosta após cruzar o Cho la.

 

Dia 25

 

Tal como tinha jurado, acordei bem cedinho com o único propósito de levar à cabo o nobre sentimento humano de vingança. Dei várias pancadas “acidentais” na fina parede de madeira de Cream Cracker-sam, até ter certeza absoluta que ele tinha acordado. Tosses e murmúrios vindos do seu quarto confirmaram que minha missão matutina foi um sucesso. Com minha consciência em paz, deixo o alojamento e vou ver como é o esquema da pedra-banheiro. Infelizemente ela não oferece muita cobertura. Se me escondo do meu alojamento, me abro pro outro. Se me escondo do outro, me abro pro meu. E em ambos casos estou aberto para a trilha. Para quem não consegue fazer xixi em banheiro público, situações como essas são um pesadelo biológico.

 

Como ainda falta muito para às 7.30h e como iremos com Fred e Chris, suponho que terei muito tempo para comer e empacotar. Por mim sairia mais cedo, mas agora estou em grupo e acho que tenho de misericordiosamente sacrificar um pouco da minha onipotência à favor dos meus companheiros. Marcéu e eu tiramos umas fotos do nascer do dia ali, mas foi coisa rápida, pois o frio era muito. Voltamos e comemos nosso péssimo e sujo café-da-manhã. Odeio a forma como o dono olha para nossa cara antes de dar o preço de algo. É como ele estivesse estudando o quanto ele pode cobrar extra. Vingo minha carteira depredando significativamente suas reservas de mel e açúcar que ele tem sobre a mesa. Meto colher de sopa atrás de colher de sopa em todo frasco cujo conteúdo fosse minimalmente digerível, desde mel até pasta de amendoim. Ele marcou bobeira em deixar tantos frascos numa mesa junto com mochileiros que viajam por conta própria. O que sobrou do meu massacre foi consumido por Marcéu, que chega de seguida e imediatamente lança olhares e sorrisos perversos para os potes. Mal o dono lhe serve o ralo mingau e vira as costas e ele está fazendo a festa com tudo que há na mesa. Tem gente sem vergonha mesmo nesse mundo...

 

Acho que agora tenho açúcar que chegue nas veias para subir o Cho la e vou ver se meus companheiros já se levantaram. Do lado de fora encontro Cream Cracker-sam, com uma cara terrível, muito cansado, como se alguém não tivesse deixado ele dormir o quanto ele queria. Quem mundo cruel. Pago tudo que devo ao dono que encontro lá fora. A maior facada do trek, considerando o tempo que ficamos e o que usamos e consumimos.

 

No alojamento de Chris e Fred, eles ainda estão dormindo. Quase 7h e ainda estão dormindo! O dia vai ser longo... Enquanto eles acordam, se lavam, comem e empacotam, peço um chazinho e biscoitos ali. O dono de lá é mais honesto e segue o preço da tabela, sem ficar me analizando para ver se pode acrescentar mais duas dúzias de Rúpias ao produto. Para os defensores de que se deve pagar o que lhe perguntam porque lá os preços são fixos, bem... nesse alojamento o pacote de bolacha era 30 Rúpias mais barato que no outro. Adeusinho, política dos preços fixos. Mais, o refeitório aqui é maior e os quartos, melhores. Da próxima vez, se houver próxima vez, farei de tudo para ficar neste alojamento. Dos males, o menor.

 

Já perto das 8h, saímos de Dzongla para o meu temido Cho la. Li tanta coisa sobre esse passe montanhoso que nutri um tipo de medo dele. Sempre o pintam como algo mais para gente muito experiente em montanhismo do que para gente como eu, novato das montanhas. Por conta disso carrego comigo 700g de meio crampon, solas especiais com ponteiras de ferro que são amarradas nas botas. O LP adverte bastante sobre este passe, sugerindo cuidado extra e mesmo para voltar se as condições não forem boas o suficiente para a travessia. O problema é que, sendo novato no ramo de travessias de passes montanhosos, eu não faço a menor idéia de como inferir essas condições. Não tenho qualquer exemplo de gelo e pedra em passes cruzáveis para poder comparar com os do Chi la e decidir que os de lá estão ou não em condições de travessia. Também tenho medo de me perder lá em cima, uma vez que no gelo a trilha é menos óbvia. Até temia, no extremo, em me perder lá dentro e congelar, já que o LP diz que congelamento dos pés e outras extremidades é um perigo real no Cho la. Em nenhum relato de trekkers brasileiros li que tenham feito o Cho la. Nem o Luciano, nem o Ortiz, nem o Tramontina.

 

Então, basicamente eu estava paranoico na cabeça. Talvez não fosse o melhor estado de mente para se cruzar um passe montanhoso como o Cho la. E para piorar, meu andar lento estava com dificuldades em colar no Fred, que demostra estar em boas condições e raramente pára. Poucas paradas é uma catástrofe para mim. Minha única sorte foi que a primeira parte era pelo vale, plano e fácil. Marcéu, Chris e o israelense avançam bem. Se não fosse por Chris esperar Fred de vez em quando, eles sumiriam de vista.

 

O que é bom dura pouco e logo chegamos na parte de subir à sério. Uma íngrime subida que leva horas para ser feita e se arrasta sem fim. Ao longe posso ver uma linha correndo na diagonal, subindo pela encosta em pedra de uma montanha. Sua localização aberta e grau de inclinação me fazem pensar se tratar de alguma falha geológica que abriu no flanco do monte. Não pode ser a subida final para o passe. A que estamos fazendo já é ruim que chegue. Desejo com todas minhas restantes forças que minha tortura acabe logo. Só que raramente meus desejos se realizam e duas horas depois vejo que aquela falha geológica é, na verdade, a subida final para o passe. Chris, o israelense e Marcéu sobem penosamente por ela.

 

Eu mal posso acompanhar Fred, que desiste de tentar acompanhar Chris, que desiste de esperar Fred e Marcéu, que desiste de tentar acompanhar Chris. Essa subida final é a Subida da Desistência. É cada um por si e cada um com suas dores. É tão estreita, exposta e íngrime que acho desesperante subi-la. Toda feita de pedras de todos os tamanhos, ela sobre pelos degraus naturais formados por essas pedras, nem sempre de acordo com o alcance de uma perna humana. Nem em sonhos pensaria conseguir subir aquilo com 25kg nos lombos. Deve ser a trilha errada. Aqui deve ser trilha para bodes, não para gente.

 

Mas não, é ali mesmo... Seria bem divertida, tipo uma subida à um pico, se não fosse pelas minhas pernas tremendo sob o peso da mochila ao tentar vencer cada degrau. Temos de usar as mãos algumas vezes para poder subir e equilibrar. Subir aquilo era o equivalente a andar todo vale e subida inicial. Pelo menos era assim que me sentia.

 

Então desenvolvi a técnica do balanço: usando o peso da mochila, balançava-a e depois seguia seu momentum quando para cima, o que me ajudava a subir algumas pedras maiores e mais difíceis. Sei que parece maluquice e perigoso numa subida tão exposta quanto aquela, mas era a única forma de conseguir subir quando o jeito normal não dava conta. Já perto do último terço da subida, Marcéu e Chris já estavam lá em cima. Sobramos Fred e eu. E o israelense, mais à frente. Parece que quanto mais subo, mais o passe se distancia. Quando depois de um tempo infernalmente longo chegamos ao topo, Chris vem todo sorrisos nos abraçar e parabenizar por termos conseguido. Gostaria de ter sido tão efusivo quanto ele, mas fora sentar e refolegar não me sentia poder fazer nada mais exigente.

 

Depois de descansar um pouco, a felicidade de ter alcançado o Cho la estourou em todos. O Cho la! Conseguimos! E não foi tão ruim assim... parece que o LP exagerou sobre o lugar. Ok, muito gelo, solto e duro, velho e novo, mas se andar com cuidado, não tem perigo. É só não se aproximar muito dos lugares mais expostos e íngrimes.

 

Comemos algo, conversamos, brincamos bastante, fotografamos muito, descansamos, etc... depois de quase 1 hora nisso, o cara de Israel, que já tinha feito o Cho la antes, disse que era melhor irmos andando. Não gostei da pressa em sua voz e perguetei o porque de termos de ir logo. Ele responde que ainda falta cerca 1 hora para cruzar o Cho la.

 

Como??? onde estamos não é o passe???

 

Sim, é o passe. Mas só uma pequena parte dele. O passe em si tem uma hora de travessia, talvez menos se andarmos bem depressa.

 

Meu mundo desabou. Fiz das tripas coração para conseguir chegar aqui nas últimas horas. A simples idéia de ter mais horas de caminhada dura pela frente não estava mesmo em meus planos. Quase meio-dia e já começava a sentir fome séria. Isso vai ser bom...

 

Agora já é tarde para voltar, nem me animo a descer e andar tudo de volta para a péssima Dzongla. Seguindo meu destino de sofredor, empacoto tudo e vou atrás dos meus colegas de trilha. É aí que vejo o perigo real do Cho la. Apenas saímos de onde estávamos e a trilha entra em gelo puro, subindo estreitamente e mesmo ao lado de um buracão que cai até um glaciar lá embaixo. Apesar da trilha correr o mais próximo possível de umas pedras da encosta contrária, o gelo cobre tudo e temos de andar muito devagar, para não escorregar e ir escorregando até sei lá onde. Primeira vez que sinto medo de verdade na trilha. Geralmente estaria pisando em neve fofa, mas com o uso constante, a neve virou gelo sólido. Usando as pontas de ferro dos bastões para ter certa aderência, cuidadosamente atravessei os 20 metros mais assustadores de minha vida. Certa altura meu pé direito chegou a escorregar e tive de me inclinar para o outro lado e pôr tudo em cima dos bastões, que aguentaram bem. É então que vejo um carregador calçando tênis vindo em sentido contrário. Ele praticamente salta de degrau de gelo para degrau de gelo. Mesmo à minha frente, ele se enrola um pouco num degrau maior e fico achando que vou testemunhar a queda fatal de alguém. Mas ele passou e eu também. Olho para trás e vejo Marcéu tendo as mesmas dificuldades que eu. Agora sei porque falam de crampons... só que pegos de surpresa no meio do gelo, era tarde demais para voltar e coloca-los. Mesmo assim, sem saber usa-los, não sei se seriam mais seguros.

 

Depois disso a trilha abre bastante. Chegamos numa subida gentil, porém longa, toda de neve. Tenho de andar ao lado da trilha e afundando as pernas até as canelas, mas se não for assim teria de andar dentro da trilha, que de tão usada e pisada, virou gelo sólido e escorregadio. Ainda não sei patinar, nem quero patinar aqui. Depois de uma eternidade andando naquela paisagem branca, tudo fica mais plano e chegamos ao outro lado do passe, onde várias bandeiras de oração marcam seu início (para quem vem. Para nós marcavam seu fim). Lugar com muito vento e frio, ficamos lá todo tapados até todo mundo chegar, se reunir e descansar. O que vale é a paisagem, uma vista panorâmica do vale do Gokyo belíssima.

 

Ao descer do passe pelo lado do Gokyo, tenho de repensar minhas idéias sobre o quão íngrime foi a subida pelo lado do EBC. Esta descida é muito mais íngrime. E não só isso. Ela é toda feita de pequenas pedras, de forma que todo tempo até chegar lá embaixo, estamos mais escorregando que andando. Acho impossível subir isso, como fazem as pessoas que vem de Gokyo para o EBC.

 

A trilha para Tagnag pode ser vista daqui. Vai serpenteando pelo vale abaixo, em subidas e descidas pequenas até subir um morro maior e desaparecer. Apenas espero que Tagnag seja após esse morro.

 

Só que por agora estou com muita fome. Muita mesmo. São quase 14h e já tremo de tanta fome. Espero apenas passar pelo sopé do passe, mesmo antes de entrar na parte fácil da trilha. Então digo aos outros que não posso mais. Tenho de comer qualquer coisa senão desabo sob o peso da mochila. Todos estão cansados e famintos, em especial o Fred, que começou a se sentir mal outra vez e tem certa tosse. Como onde estamos há um lugar para acampar, sugiro pararmos ali e almoçarmos o que Marcéu e eu temos nas mochilas, que é suficiente para todos. Os outros preferem continuar. Pergunto se Marcéu não quer acampar ali. Ele não sabe, claro.

 

Chegamos à um compromisso: Marcéu e eu ficamos para comer e depois vemos se vamos acampar. Os outros seguem em frente. Não querem acampar (nem tem barraca) e preferem comer em Tagnak.

 

Demoramos um pouco para cozinhar algo e preparar tudo. Envolvia tirar coisas que estavam no fundo das mochilas e ferver água gelada demora mais que o usual. Quando terminamos de comer e descansar, nos sentimos melhor e decidimos arriscar chegar em Tagnag, apesar de já passar das 15. Se for por trás do montinho que vemos mais à frente, tudo bem. Empacotamos toda a bagunça, depois de com muito esforço lavar panelas e talheres num buraco aberto no gelo de um fio de água que corria ali perto, e vamos embora.

 

A exaustão já nos bate um bocado e subimos o morro com dificuldades. Tanto que eu estava à frente desta vez, para se ter idéia de como Marcéu estava cansado. Quando chegamos lá em cima, parece que morri. Tagnag não está lá do outro lado. Não tem nada do outro lado, só mais morros e trilha. Até onde a vista alcançava, e ela alcançava um bom bocado do vale, não havia o menor sinal de vila alguma. E agora? Acampar? O frio da noite e das manhãs não eram incentivadores. Puxamos mais para frente. Temos de chegar à Tagnag, seja lá onde isso for. Para nossa sorte, de agora em diante é só descer.

 

Mas é uma longa descida vale abaixo. Descemos, descemos, descemos... e o Sol também desce, desce, desce... Outra vez encaro o receio da noite nos pegar no meio do nada, com o agravante que onde estamos agora, margeando o rio, não tem onde acampar, mesmo que queiramos. Temos de chegar em Tagnag. Voltar é impensável. Sem forças para subir. Tagnag agora é obrigação, não opção.

 

Outra vez por volta das 18h, já com a luz fraca do início da noite, chegamos em Tagnag. Foi um alívio quando, contornando uma curva das encostas que margeiam o rio, me deparo com a vila mesmo ali, à poucos minutos de nós. Me viro para Marcéu, que está exaurido e meio desanimado pela caminhada longa que não levava à lado nenhum, e digo que chegamos. Ele quase não acredita sem vir até onde estou e ver com os próprios olhos.

 

Agora estamos felizes e sorrimos. Brincamos, conversamos e fazemos pouco da trilha. É a euforia dos desesperados que foram salvos no último minuto.

 

Temos luz suficiente apenas para chegar lá e vamos direto para o primeiro alojamento. Passando por baixo das janelas do refeitório e Chris aparece lá dentro, todo contente de nos ver e saber que conseguimos chegar. Faz sinal com o dedão para cima.

 

Eu mesmo não acredito que chegamos. Parece tudo um sonho e que irei acordar e ver que ainda estou no sopé da subida para o Cho la.

 

Mas as boas novidades não terminam aqui. A pensão é ótima. Os quartos são grandes, com luz, camas retas e piso de madeira. Além disso temos janelas! Nada de cama torta, piso de grama, pilha de fezes de yak ou japonês barulhento ao lado. Perfeito! O paraíso na Terra! Muito feliz, resolvemos pegar as toalhinhas perfumadas que compramos em Namche e mudar de meias, cuecas e camisas. Nos lavamos com as toalhinhas e nos sentimos limpos e saudáveis outra vez. Desde Dingboche, 8 dias atrás, que minha pele não vê água. É como se tivesse renascido.

 

Muito bem humorado, apesar do cansaço, desço ao refeitório onde poucos - poucos! - trekkers presentes rodeiam o aquecimento. Festeiro, peço um jantar enorme. Para a espera, peço biscoitos, chá, uns momos (bolinhos recheados com vegetais ou carne) e me sento junto com os outros. Fred não está lá. Piorou bastante e resolveu ficar no quarto. Parece que amanhã eles irão descer e não vão para a vila do Gokyo.

 

Vou gastar uma grana preta aqui, mas nós merecemos. Comendo e bebendo chá, ficamos por ali conversando com os outros ou lendo ou escrevendo ou jogando.

 

Na hora da cama, tenho pena de ir me deitar de tão bom que estava achando o alojamento. A cama tinha cobertas extras e eram espaçosas. Ao lado, o rio ruge e se transforma numa música de ninar. Foi um dia muito, muito, muito longo mesmo. A noite em Tagnag foi como férias para meus ossos doridos e cansados. Mente e músculos também aproveitavam cada segundo de relaxamento. Com a pensão quase vazia e por conta da noite mal dormida na titica Dzongla, não demorei a adormecer.

 

Continua...

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Vindo de Tagnag, Marcéu cruza o imenso glaciar Ngozumpa em direção à vila de Gokyo. Ao fundo pode-se ver o Cho Oyu, uma das montanhas acima dos 8000m que há no Nepal e na fronteira com o Tibete.

 

Dia 26

 

Me sinto excelente! Dormir em um local tão bom como Tagnag de fato recarregou minhas baterias, físicas e psicológicas. Sinto como se estivesse no primeiro dia do trek, com todas as esperanças e entusiasmos no máximo. Poderia recomeçar a caminhada toda de novo sem grandes problemas, mas só se uma escavadeira for à frente, aplainando morros e vales.

 

Hoje vai ser outro dia curto, ou pelo menos é o que achamos. A dona da pensão nos disse que a vila de Gokyo não fica longe, umas duas horas no máximo, e que não haveria nenhuma ladeira digna de nota para ser subida até chegar lá. Por isso e por estar mesmo em clima de confidência inédita, deixei-me dormir mais um pouco e fizemos as preparações e café-da-manhã vagarosmente. Não me importaria em passar mais um dia em Tagnag, descansando e explorando em volta, mas como Gokyo está tão perto, acho que poderei fazer isso por lá mesmo. Mais um último esforço e será chá de limão com biscoitos de coco o resto do dia. Quando penso nisso me sinto como o personagem Homer Simpson imaginando um donut... biscoitos de coco... hmmm...

 

Agora não me recordo o que aconteceu com o cara de Israel que nos acompanhou no dia anterior. Não me lembro se ele estava em Tagnag e se foi conosco para Gokyo, se partiu mais cedo ou se continuo no dia anterior. Irrelevante. Fred e Chris irão cruzar o glaciar Ngozumpa conosco e depois irão descer o vale de volta para Namche. Tento convencer Fred a vir até a vila de Gokyo conosco e tentar subir o Gokyo ri depois de descansar bem, mas ele disse que piorou um bocado e passou uma noite péssima, mal saindo do quarto. Ele diz que puxaram demais no início do trek, pulando algumas etapas de aclimatização e agora os Himalaias estão cobrando isso do corpo dele. Sinto pena dele, pois aqui estamos nós, às portas de uma das regiões mais bonitas do Nepal e ele não pode entrar. Mas com a saúde não se brinca – ainda mais em um local onde ambulância não chega – e ele está certo de descer. Só eu que posso brincar com saúde.

 

A hora que deixamos Tagnag não me é clara, mas era bem tarde. O Sol está completamente livres dos picos e nos queima as cabeças sem misericórdia, seu império ameaçadado apenas brevemente pelas correntes de vento frio. Apenas saimos de Tagnag e temos a subida para a moraina do glaciar. Pequena, mas algo larga demais para meu gosto (ou desgosto por subidas) e bastante tortuosa. Apenas um aquecimento. O vero chega logo a seguir, se abrindo majestosamente diate de nós: o glaciar.

 

Engraçado, eu esperava que fosse tivesse mais gelo nele... mas é apenas um local de pó e pedras. Aqui e ali, aos únicos sinais que revelavam a verdadeira natureza do glaciar eram enormes paredes de gelo. Pequenos lagos gelados ou semi-gelados pontilham o glaciar. Eu sei que mesmo abaixo dos nossos pés, talvez apenas centímetros abaixo, há o maior bloco de gelo da região, mas eu esperava aqui algo mais ao estilo do glaciar Khumbu. Este aqui parece estar morrendo. Claro, temos de considerar que cruzamos o outro glaciar quase em seu ponto de nascença. O berçario deste aqui se encontra à muitos quilômetros ao Norte. Suponho que mais perto das montanhas de onde nasce, este seja tão selvagem quanto o do Khumbu.

 

O lado bom é que, por conta disso, acho, não há quase sobe e desce. Trechos planos nos permitem andar vários metros sem ter de pisar sobre uma única pedra! Impressionante para uma pessoa cuja rotina de há vários dias tem sido andar sobre pedras. Há partes da trilha que não são tão claras, por conta do constante movimento e mudança no glaciar, as trilhas são soterradas, colapsadas ou simplesmente seguem o gelo glaciar abaixo. Porém pequenas pedras postas de pé marcam a trilha onde houver alguma curva importante. Outras pedras estão pintadas com dizeres de propaganda dos alojamentos de Tagnag e uma seta apontando a direção. Diversas trilhas quebradas e interrompidas testemunham que o glaciar não está morto. Uma vez, quando íamos numa dessas, quase que seguimos a trilha antiga glaciar abaixo. Graças à mim e meu acurrado senso de percepção e excelente senso de direção não perdemos horas valiosas de chá e biscoito mais tarde. Eu que nos salvei, viu? Não se esqueçam disso e espero que tal compensse por todas as centenas de trapalhadas que tenho feito durante todo trek. Medalhas não são necessárias, mas as aceitarei com humildade.

 

Por agora, todos, menos eu, estamos andando rápido. Até Fred virou foquete, em sua pressa de dormir abaixo dos 5000m. Isso significa que fico sem parceiro de trilha, mas a diferença entre eu e eles não é tão grande assim. Não sei se estou mais rápido ou eles mais devagar. Minha vaidade gosta de pensar que sou eu que estou mais rápido.

 

Tudo pesado, cruzar o glaciar foi bom. Mais fácil do que eu esperava quando li o quase paranóico LP e relativamente plano e desobstruído, muito para contentamento das minhas costa e pernas. Ao Norte, uma imensa cadeia de montanhas domina o cenário, com o Cho Oyu como estrela principal. Mas o que é bom dura pouco e logo chegamos ao outro lado do glaciar e na subida para a moraina, que é mais dura que a subida do outro lado. Nosso clima de festa não combinava com dureza da subida e tivemos de descansar um pouco quando chegamos ao seu alto. Compensa porque de lá podemos ver o Gokyo ri pela primeira vez e parece muito perto.

 

Tem um sherpa descansando ali também, sentando sobre uma pedra. Eu me recordo dele. Está guiando uma francesa. Pergunto de sua cliente. Sem pejo, ele responde que ela foi cag**. Suprimo uma gargalhada, que nasceria morta de qualquer jeito devido a falta de ar. Não consigo esquecer a candura e inocência dessa gente. Perguntas diretas, respostas diretas. Nada de eufemismos.

 

Ficamos ali um tempo, descansando da subida e conversando com o sherpa. Ele diz que dali prá frente é tudo fácil. Descer, descer, descer e depois em pegar a trilha da direita para ir em caminho plano até Gokyo. Me parece bom demais para ser verdade. Enquanto conversamos sobre o nome do lago que está diante de nós, se é o primeiro ou segundo Lago Sagrado, sua cliente aparece depois de ter satisfatoriamente atendido o chamado da Natureza. Então eles vão para Tagnag e nós, para Gokyo.

 

De fato daqui para frente a trilha é boa, boa demais. Descemos por um tempo, uma boa descida - mas ruim para quem tem de subi-la no sentido contrário – e chegamos à junção onde nos despedimos de Fred e Chris, que irão seguir para baixo e nós, para cima. Mesmo ao lado da trilha para um rio 99% descongelado. A visão de água corrente é tão estranha após esses dias todos no Khumbu que um sentido de urgência desperta em nossas bexigas e temos de, ali, tirar água do joelho. Depois de dias só vendo pedra e gelo, ver um rio naquelas condições é mesmo fantástico.

 

Mas temos de nos apressar porque uma fila enorme de yaks se aproxima, subindo o vale. Não sabemos como a trilha é daqui para frente. Se for como onde estamos, é estreita e só tem espaço para uma pessoa, ou yak, de cada vez. Seguir atrás de yaks, sentindo o pungente odor de seus pêlos e fezes, misturados ao pó e suor, não é muito atraente. Nos apressamos e pegamos a trilha momentos antes das bestas chegarem. No fim foi tudo para nada, pois quando se chega ao lago, a trilha se abre e um imenso e largo vale aparece, com espaço suficiente para yaks e trekkers. Ficamos na trilha em si, mas qualquer coisa podemos sair dela e deixar passar, ou ultrapassar, o que vier ou for. O Segundo Lago Sagrado é outra visão magnífica. Um lago de verdade e todo descongelado.

 

Logo reparamos que a trilha para Gokyo é menos usada que a para o EBC. Cruzamos trekkers, carregadores, guias e yaks, mas nem de longe na mesma frequência ou quantidade que no EBC. À nossa esquerda, imensas montanhas e o lago. À direita, a alta parede da moraina. À frente, mais montanhas e vale. O mesmo para trás. Tudo isso numa trilha plana! Estou gostando do lugar.

 

Daqui, o caminho para a vila parece longo, mas não é. É apenas eu que quero chegar logo lá, tanto que estou à frente dessa vez, andando no mesmo passo que Marcéu.

 

Cruzamos alguns trekkers independentes, novos e velhos, com suas grandes mochilas e bufando seu fôlego como yaks. Ou como eu. Muito bom encontrar gente do meu estilo.

 

(Outra vez: acho que trek é uma experiência pessoal e cada um deve decidir o que é melhor para si e como deve fazer a caminhada. Se guiado, guiado. Se com carregadores, com carregadores. Se em grupo organizado por agências, em grupo organizado por agências.)

 

Mas a expressão de realização e satisfação que vejo nos rostos de trekkers independentes, não vejo em mais ninguém. Ou pelos menos não como vejos neles.

 

Bom, todos os trekkers independentes que cruzamos nos sugere ficar numa pensão chamada Cho Oyu View Lodge. Eles dizem que seus clientes são em sua maioria como nós, que a dona é super gente fina, a comida boa e generosa e, como se isso tudo não fosse bastasse, se ficarmos lá alguns dias, o quarto é de graça. Me parece bom demais para ser verdade, mas irei checar quando chegar lá. Depois dos pesadelos logísticos de Duglha e Dzongla, acho ser quase impossível haver tamanho paraíso na trilha.

 

Andamos um pouco mais, seguindo os meandros da moraina e, numa curva, chegamos à um lugar com um grande chorten, bandeiras de oração e assentos para carregadores. É a “entrada” da vila de Gokyo, que agora se mostra para nós. Belíssima. O quadro que vemos é de tirar o fôlego: a grande moraina por trás, o Terceiro Lago Sagrado pela frente e o Gokyo ri ao lado formam uma visão do paraíso. De imediato decido passar uns bons dias aqui, se não for tudo muito caro.

 

Depois das bandeiras de oração, a trilha segue mais perto da moraina, por isso fica mais estreita e sinuosa, mas por pouco tempo. Em breve chegamos à vila. Os alojamentos são grandes, com refeitórios espaçosos por cima, com janelas à toda volta, bem ensolarados. O Cho Oyu View Lodge é o último de quem vem sentido Sul-Norte, mesmo de frente para o lago e o mais próximo do Gokyo ri. Simples e de tamanho médio, se comparado com os outros. Mas tal como as pessoas disseram, a dona é uma ótima pessoa e nos recebeu amavelmente. As negociações são breves, pois ao ouvir que o quarto seria de graça desde que comessemos ali, decidi ficar ali mesmo sem ver os outros. Nosso quarto, como os outros, fica virado para o lago, é espaçoso, tem janelas, bons colchões, cobertas e... travesseiros! Por essa altura, travesseiro para mim é algo quase tão mítico quanto o saci-perêrê. Quando me lembro de Dzongla, onde tinha de dividir minha cama desnivelada com minha mochila, me sinto estar no paraíso aqui. O banho quente ainda é caro demais para nossos bolsos e teremos de esperar chegar em Lukla para ver água novamente. Quando entro no quarto, imediatamente espalho quase tudo da mochila pelo quarto, pela minha metade do quarto. Checo as vistas da janela, troco de camisa e vou logo ver o refeitório.

 

Enorme. Tem algumas pessoas lá, preguiçosamente jogadas aqui e ali sobre os confortáveis bancos, que tem assentos almofadados. O Sol entra quentinho pelas enormes janelas. A vista do lago e montanhas rodeiam tudo. De fato, nem que quisesse poderia pensar em melhor local. Peço logo o almoço e um chazinho para passar o tempo. Enquanto isso vou conversando com um trekker que está de saída e se despedindo da dona do alojamento. É então que presencio uma das situações mais bizarras de todo trek:

 

Do lado de fora, perto do regato que vem do Quarto Lago Sagrado e passa ao lado do Gokyo ri, um grupo organizado de japoneses está reunido com seus guias e carregadores, e enormes bagagens. Então um helicóptero enorme aparece e começa a pousar. Alguns yaks que estavam pastando perto começam a fugir. A bagagem do grupo começa a rolar com a força das hélices e cai dentro do riacho. Os carregadores saem correndo atrás delas e alguns caem dentro do riacho também. Os japaneses se encolhem todos e sofrem um banho de pó. Quando enfim aterrisa, tudo é carregado, japonês e bagagem, e o helicóptero sae em vôo baixo pelo lago. Um verdadeiro espetáculo! A dona diz que é um grupo que veio de Lukla e agora alugou o helicóptero para voltarem para Kathmandu. Isso sim, que é não poupar grana...

 

Quando os intrépidos aventureiros do Japão somem em seu garboso, e caro, helicóptero, chega a hora de comer. Os preços são bem menores que os praticados no trecho Namche-EBC, o que é muito bem-vindo para mim. Por isso peço muita comida. Arroz misto com tudo, mais litros e litros de chá. Os famosos momos que não me atreveia a pedir antes com frequência por serem muito caros. Marcéu chega e após se recuperar do choque diante de tanto luxo do refeitório, abre um sorriso de orelha à orelha para o banquete diante de nós. E comemos... e comemos.. e comemos... É como se nossos estômagos fossem buracos negros.

 

Depois da devoração, me sinto uma jibóia que comeu um boi. Pesado... decidimos andar pela vila para ajudar na digestão. Vimos um alojamento, outro, outro e outro. Todos com muita gente, principalmente grupos organizados. Pelos vistos eles ficam todos nos alojamentos mais “chiques”. Ainda bem, pois assim tenho férias dessa gente e suas fantasias. Foi então que vi algo surpreendente: uma livraria! E outra! E outra! As livrarias mais altas do mundo! Alguns alojamentos abriram um quarto onde encheram prateleiras com livros, novos e usados, trazidos desde longe nas cestas dos carregadores ou lombos dos yaks. Sem bem acreditar na minha imensa sorte, pois meu livro pela metade já tinha terminado, entro na maior de todas e fico um tempão lá, lendo os títulos. São caros e o dono se recusa a baixar o preço mesmo para os mais velhos e danificados. Para acabar com a frescura, escolho logo um novo e grosso. Espero que dure o resto do trek. Como está completo, pelo menos saberei como este acaba.

 

Comido e “enlivrado”, fomos para as margens do lago. Um pouco frio lá, mas suportável. Ficamos por ali em silêncio, só apreciando a paisagem, viajando no local. Temo que tudo seja um sonho e irei acordar em Dzongla com Cream Cracker-sam abrindo um dos seus infames saquinhos de biscoito às 3 da matina. Mas não, tudo é real. Um perfeito fim de trek e mais que agradável surpresa. Gokyo era inicialmente um trek que faríamos caso o tempo desse. Algo secundário do secundário. No fim, estava sendo o melhor local por onde passamos.

 

Gokyo ri está mesmo ao nosso lado, como que nos convidando a subi-lo hoje mesmo. Mas não quero fazer mais nada por hoje tirando descansar e comer. Talvez amanhã o subamos.

 

É enquanto estamos olhando o Gokyo ri e sua íngrime e sinuosa trilha, e as pessoas andando penosamente para subi-lo, que vemos dois descendo usando uma combinação de roupa que nos é familiar. Um está todo de amarelo e o outro tem um casaco amarelo e calças que parecem jeans. Será? Chris e o israelense? Ficamos olhando eles descer até chegar ao sopé. Parecem mesmo eles, mas deveriam estar à meio caminho do vale abaixo por essa altura. Marcéu assobia e eles olham para nós. Marcéu abana e eles abanam. Sim, são eles. Vagarosamente vamos para onde estão e ver o que aconteceu com os planos de irem para casa mais cedo.

 

Um vez lá, conversamos e eles dizem que voltaram com o único propósito de subir o Gokyo ri, pois ainda era cedo. Fred continuou descendo para ver se melhorava. Irão se encontrar nalguma vila depois. Esses caras devem ter pernas de ferro!

 

Convido-os a ficar e fazermos o Lagos Sagrados restantes ao Norte, mas eles recusam. Para eles, o trek acabou mesmo. Os acompanhamos até a pensão onde tinham deixado as coisas e tomamos um chá, falando das experiências que vivemos nos últimos dias. Enquanto isso mais um grupo de japoneses chega. Lentamente, eles tomam assento e ficam ali, duros feito palitos e silenciosos. Então um deles abre a mochila e começa a tirar os aparelho para medir isso e aquilo, que logo vira atração no refeitório. Acho tudo muito engraçado e peculiar, mas internamente estou aliviado de estar em outra pensão.

 

Enfim nos separamos e Chris e o israelense se vão. Voltamos ao nosso alojamento e é hora de ler, escrever e jogar cartas. Por agora, estamos empatando em número de vitórias. O refeitório está meio cheio e 90% são trekkers independentes, o que é bom para falar sobre trilhas, lugares e mapas. Muitos ainda irão ao EBC e por isso me vejo numa espécie de posição de conselheiro. Sem me fazer de rogado, dou minha opinião e sugestões sobre o que os espera do outro lado. Falo o pior que posso de Duglha e Dzongla, sugerindo-os à, se possível, passar batidos por esses assentamentos. Mas a maior parte quer saber do Cho la e o que os espera em geral depois disso. É minha noite de fama!

 

Continua...

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Ascenção do Gokyo ri! mais fotos para comemorar.

 

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1) Vista desde o cume da vila de Gokyo, de parte do glaciar Ngozumpa e dos três primeiros Lagos Sagrados (do primeir só se vê uma pontinha).

 

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2) O Evereste é muito mais visível do Gokyo ri que do Kala Pattar.

 

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3) Marcéu passeando pelo pico do Gokyo ri

 

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4) Eu no topo de uma pedra no Gokyo ri.

 

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5) Magníficas vistas podem ser admiradas do cume do Gokyo ri.

 

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6) Eu apreciando a paisagem no cume do Gokyo ri.

 

Dia 27

 

Dia de subir o Gokyo ri!

 

O bom de ter completado o EBC e Kala Pattar é que não sinto uma certa obrigação, um dever, de fazer seja lá o que for mais. Se fizer, fiz. Se não, não fiz. Sem problemas (ou quase). Esse sentimento de missão cumprida me permite gozar mais os dias e fazer as coisas de forma mais... irresponsável. Planejei este trek ao Nepal por tanto tempo e investi tanto dinheiro nele para virmos aqui – Marcéu teve de fazer uma pausa de 6 meses em seu curso para poder vir, e deixou para trás família, amigos e namorada – que eu estava mesmo obçecado em fazer tudo que tinha planejado. Era quase que um dever. E eu acho difícil me divertir no cumprimento de algum dever.

 

O bom foi que deu tudo certo. Com sorte e algum cuidado, fizemos tudo e mais alguma coisa. Por isso o Gokyo era uma parte que podia ser vivida mais levemente. O ambiente da vila e vale, menos stressantes que o lotado EBC, ajudava bastante nesse sentido.

 

Dormimos tanto quanto nossos corpos aguentaram. O desconforto de dormir em sacos-de-dormir está ficando pior com o passar do tempo. Sinto falta de poder me mexer, esticar braços e pernas, me virar na cama. No saco chega a ser doloroso pôr o rosto para fora, por conta do frio, quanto mais braços e pernas. Tudo tem de ficar rigidamente esticado a noite toda.

 

Tomamos o café-da-manhã vagarosamente. Sem pressa. Gokyo ri não vai à canto algum. Seriam umas nove da manhã, talvez, quando saímos do alojamento e fomos para a montanha. Como sempre, 2L de água, casacos extras, lanche, câmera e outras coisinhas mais compunham a leve mochila.

 

Gokyo ri é outra montanha de início abrupto. Cruzamos o riachinho que vem do Norte, andamos uns 50 metros e estamos no começo da escalada. E já começa matando. Íngrime e sinuosa, a trilha segue vagarosamente montanha acima. Agora no começo ainda posso acomapnhar Marcéu e nós logo alcançamos um grupo de japoneses – os mesmos que vimos ontem no alojamento onde Chris deixou a mochila – que estavam um pouco à frente de nós. Eles andam muito lentamente, parando diversas vezes e falando muito. Nós andamos rápido, paramos pouco e não falamos nada. Eu sei o quanto custa falar numa subida dessas.

 

E Gokyo ri é uma senhora subida. Tanto zigue-zague! E como é íngrime!

 

Digo, é diferente das subidas anteriores, que aqui e ali tinham partes mais planas e retas, nem que fossem por poucos metros. No Gokyo ri foi todo caminho aos zigue-zagues e muito acentuado. Faço o que posso e não posso para acompanhar Marcéu. Quero que pelo menos esta subida façamos juntos. Mas está sendo tão duro que depois de um tempo tenho de parar para descansar e recuperar o fôlego, como de costume, e nisso Marcéu abre cada vez a distância que nos separa. Os japoneses estão pior que eu. Lá longe e abaixo, eles estão cada vez menores e mais imóveis, como se parassem mais que andassem. Olho para Marcéu. Ele continua andando, raramente parando para descançar ou ir mais devagar. Foi então que pensei: “fod*-se isso! Esta é minha última subida. Não tem mais montanhas daqui em diante. Poderia pelo menos fazer esta de forma absolutamente exaustiva e depois terei quanto tempo queira para recuperar na pensão. Ainda faltam muitos dias para chegar em Lukla e voltar para Kathmandu. Pelo menos o Gokyo ri eu farei da forma mais difícil e dura. Vou alcançar Marcéu e ver se posso acompanha-lo, mesmo que isso me mate!”

 

Dei uma última afinada nas tiras da mochila, tirei o quebra-vento e amarrei-o na mochila, bebi alguma água, me assoei e... marcha!

 

Putz, depois de 10 minutos andando rápido eu estava respirando como alguém que esteve tentando bater seu próprio recorde de ficar mais tempo embaixo d´água e acabou de subir à superfície, desesperado por ar. Minha pernas reclamavam tanto das dores e cansaço que achei que elas iriam entrar em greve e se recusar dar mais um passo sequer pelo resto da minha vida. O suor misturava-se com a poeira e me cobria o rosto, escorrendo para os olhos, nariz e boca, que me suplicavam por todos os deuses do pateão que os limpasse imediatamente. Mas é tarde demais. Minha mente tomou o poder e agora reina como ditadora, se recusando a ouvir pernas, narizes ou pulmões. Continuei no meu passo acelerado. Sem paradas. Puf, puf, puf, puf subida acima. Puf, puf, puf, puf quanto queira e por tanto tempo queira. Daqui para frente vai ser cada vez pior.

 

Depois de mais um tempo, tipo 30 minutos mais ou menos, me parece que estou alcançando Marcéu. Meu corpo chora por misericórdia e pede pausa. Estou surdo aos seus clamores. Agora eu sou um zumbi. Só penso em ser rápido, mais rápido. E aperto ainda mais o passo, para desespero de todos meus membros e pulmões.

 

É então que depois de mais uns 30 minutos o fora do comum ocorre: Marcéu pára para uma pausa. Talvez por uns 10 minutos, não sei. O que sei é que enquanto isso eu o alcanço de vez. Depois de quase uma hora de pura dor, eu alcanço Marcéu.

 

Mas e agora, o que faço? Páro e espero ele terminar a pausa para podermos continuar? Sinto que se parar, irei me desmanchar e será muito difícil recomeçar depois. Estou cansado para um descanso de pelo menos 1 hora. 10 Minutos não vai dar nem para recuperar o fôlego.

 

Faço então o que todo trekker sensato – não! - faria: continuo como estava vindo, rápido e rápido. Não mais, não menos. Íngrime ou não íngrime. Como estava vindo, eu vou. Por isso eu ultrapasso – ouviram bem: ultrapasso – Marcéu numa subida. Ei! Eu escutei esse “uau!”. Façam silêncio.

 

Dessa vez estou na frente (tá bom, chega de “uaus”, gente!). Em breve estou bem na frente, muito na frente. Quando Marcéu termina a pausa e recomeça, não mais podia me alcançar e eu não mais podia esperar ou ir mais devagar, sob o risco de me desmonntar ou qualquer coisa do tipo, tipo como se fosse feito com peças da Lego. Por isso continuei a subir, respirando pesado, me machucando pesado e suando pesado.

 

E dá-lhe zigue-zagues! Quando parece que estou chegando ao fim deles, mais aparecem, intermináveis, logo mais no trecho à frente. Cada vez que a curvatura da montanha esconde o trecho depois dela, eu acho que estou chegando ao fim do tormento, só para descobrir mais subida sinuosa quando chego lá. Nada de vista do topo. Eu não me importo. Continuo a subir feito um maníaco. Por agora a distância entre Marcéu e eu estabilizou. Eu não me importo. Ando feito louco. Esta subida vai ser a minha subida, é tudo que me importa.

 

O tempo passa. Duas horas de subida e vejo o primeiro sinal de pico. Piso no pedal e acelero mais ainda. O motor reclama. Eu não me importo. Alguns japoneses estão descendo do topo. Eu não me importo. Distingo as primeiras bandeiras de oração do pico. Não me importo. Mais gente está descendo. Não me importo. A paisagem se abre mais e mais bela. Não me importo. Aparecem as primeiras pedras grandes imediatamente antes do pico. Não me importo. Acho difícil ser o topo logo depois dessas pedras. Acho ser mais uma falsa esperança. E sinceramente: não me importo.

 

É então que, inesperadamente, chego ao pico. Então me importei.

 

Esta subida é a subida do Não Me Importo. Não me importei com distâncias, dores, paisagens, ar, gente, eu... tudo. Só voltei a ter sentimentos quando me vi no pico. Antes disso, só pensava em ir o mais depressa possível.

 

O cume do Gokyo ri é bem espaçoso. Alguns japoneses - mais! - estão também lá acima, num lugar que parece ser o tradicionalemente escolhido pelos turistas e grupos para a sessão de fotos. Passo direto e escolho uma pedra do outro lado. Tiro minha mochila, subo a pedra e... desabo.

 

De jeito nenhum o fôlego quer voltar. Minhas pernas estão insensíveis. Fico ali em cima até Marcéu chegar, uns 20 minutos depois. Descanso, mas sem resultados. Mesmo quando Marcéu termina de descansar, ainda me sinto cansado. Mas as vistas são espetaculares e demandam que lhes dê atenção. Ignorando meu corpo, me lanço com Marcéu na exploração do cume.

 

Massa, muito massa mesmo. Muito mais bonito e legal que o cume do Kala Pattar. Podemos andar por horas pelo Gokyo ri, obtendo vistas de todos os lados e todo lado era uma vista de tirar o fôlego. Não que eu precisasse de ajuda nesse sentido.

 

OK, o Evereste em si está mais longe, porém mais dele está visível. E ele é tão grande que toda a distância extra faz pouca diferença. O glaciar Ngozumpa é visto em quase toda sua extensão e ele é um monstro de grande. Para onde nos viremos, há pontos para se ver e estar. Por ser espaçoso, podemos ter certa privacidade. Há lugar para todos no cume do Gokyo ri.

 

Tiramos muitas fotos, comemos bastante, conversamos, brincamos e descansamos. Então nos lançamos na construção de mais uma “torre brasileira”, feita na beirada de uma pedra enorme que dava a impressão de estar suspensa sobre o abismo. Isso nos toma considerável quantidade de energia, que exige mais descanso e mais lanche. Quando por fim nos cansamos de estar ali, olhei o relógio e vi que já se passaram mais de 2 horas desde que chegamos ao cume. Muito tempo mesmo, se comparado com o que ficamos em outros picos.

 

Ah, sim! Entretanto os japoneses que passamos ainda no começo chegam, junto com mais gente. Obviamente eles se comprimem na parte turística da montanha, sem se atrever a sair de perto do seu guia e companheiros.

 

Temos de descer. A fome aperta e o almoço nos espera. Um descanso sério é o planejado para o resto da tarde. A descida de uma montanha ainda é minha parte predileta da escalada de uma montanha. Ainda no começo, uma tosse chata se apodera de mim. Seca e forte. Nada bom. Finalmente todo o esforço e descuido ao fazer mais do que podia resolveram cobrar o preço. Daqui para frente e até Paris, tossir será parte de minha vida, com altos e baixos de intensidade, mas sempre lá. Nada mais justo: abusei, paguei.

 

...

 

Mas cheguei primeiro em um pico!!!

 

...

 

Coff... bom... orgulho de lado, chegamos à pensão e comemos, comemos e comemos. E comemos mais ainda que é para estarmos seguros que comemos que chegue. Entre tossidas, também conversamos com os outros hóspedes, inclusive com uma que tinha feito os lagos ao norte do vale, indo até o Quinto Lago Sagrado. Se eu estiver descansado amanhã, este é outro, o último, trek secundário que pretendo fazer, sendo que quero ir até o Sexto Lago Sagrado, umas três horas de trilha depois do Quinto Lago Sagrado. Mais tarde, fomos para os sacos. E eu tusso. E tusso bastante até tarde da noite, antes que o cansaço pudesse me surpreender entre uma tussida e outra e me fazer pegar no sono.

 

Continua...

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Trilha que leva em direção aos Lagos Sagrados superiores, depois da vila de Gokyo. Sentido da foto: Norte-Sul, ou seja, voltando do 6° Lago Sagrado, mesmo depois da grande curva para a esquerda de quem vem de baixo.

 

Dia 28

 

Noite ruim... a tosse piorou bastante. Minha sorte é não ser constante mas intercalada com momentos cada vez mais raros de tranquilidade. Nesses momentos posso descansar bem até a próxima leva de tosse começar. Sinto pena daquela gente que via nos alojamentos e trazem essa tosse, ou tosse pior, desde cedo na caminhada. Ir de Namche até o EBC tossindo as tripas para fora é para deixar qualquer um exausto. Fora isso, minha tosse é seca, ao contrário da tosse mais comum que ouço, uma cheia de... eca... melhor nem lembrar.

 

Comecei a manhã com chá de limão, sanduíche de ovo com queijo e um prato de sopa de alho, com alho extra. Quase que não consigo fazer a sopa descer de tanto alho, mas me fez bem e acalmou a garganta. Marcéu também não está legal, se sentindo meio gripado, mas diz estar pronto para o dia. Fora a tosse e o cansaço de ontem, também estou pronto.

 

Para hoje temos planejado o trek aos Lagos Sagrados superiores. Onde estamos é o Terceiro Lago Sagrado e para o Norte ficam mais três, com uma distância média de 3 horas entre cada um. É outra caminhada "extra-talvez-veremos" que pensamos fazer meses atrás e que dependeria do termos tempo e saúde. Saúde não temos tanto assim, mas tempo nos sobra. Inicialmente planejava acampar por lá, no 6° Lago Sagrado, mas o frio da noite e da madrugada é difícil de aguentar dentro do confortável alojamento e não quero testa-lo fora de um. Arrumar barraca e saco-de-dormir deve ser impossível nas frias manhãs dos Himalaias. Teremos de fazer essa caminhada em um único dia, ida e volta, ou não ser feita de todo.

 

O problema é que o LP nos diz que essa caminhada é especialmente longa. Diz ser possível fazer num dia, mas apenas se andar depressa e tomando o dia todo. Além disso é demandativa devido à altitude e inúmeros altos e baixos. Será uma corrida, não uma caminhada.

 

Não tenho como demandar coisa nenhuma do meu pobre corpo depois da subida ao Gokyo ri e ter tossido por boa parte da noite. Se meu corpo tinha algum respeito por mim, perdi-o ontem. Quando peço que se mova, ele tipo que me diz de forma clara um “vá à mer**”. E agora peço-lhe que me leve por umas 10h de caminhada pesada. Sinto quase que motim dentro de mim e tenho de lhe prometer generosas porções de sanduíche e sopa de alho caso ele colabore com este último projeto.

 

Outro pequeno problema é que faz tempo que eu não faço uma caminhada que tome o dia todo. Certo, certo... Cho la, EBC e Chokung nos tomou o dia todo, mas começamos tarde. Este será iniciado ao nascer do dia, para ver se temos chance de completa-lo. Para piorar, decidimos seguir a sugestão do LP e ir pela crista da moraina para termos melhores vistas do vale e montanhas. Pela moraina é só sobe e desce. Pelo vale é mais plano, mas só veremos um monte de nada.

 

Então com o dia ainda por nascer, subimos a moraina. Como sempre, escolhemos trilhas diferentes. Eu decido ir mais em linha reta enquanto Marcéu segue outra mais paralela à crista, subindo mais gentilmente. Eu queria acabar logo com o sufoco de subir e acabou que Marcéu chegou primeiro lá acima. Ainda bem que ele me espera e podemos seguir juntos.

 

Andar pela crista daquela moraina foi incrível. De acordo com a gente subir ou descer, andar mais próximo da beirada ou mais para dentro, a vista muda de acordo. O conjunto de montanhas nesta caminhada é imbatível de tudo que vimos até então. Mais e mais montanhas aparecem ao avançarmos. Algumas vezes a trilha serpenteia mais próxima do vale e não vemos nada, mas algumas vezes ela segue tão próxima do fim da moraina que podemos assistir, não sem certo medo, pequenos deslizes de pedras e terra que rolam para dentro do glaciar a poucos centímetros dos nossos pés, produzindo pequenas núvens de poeira. Apesar disso, creio ter sido, até agora, o trek mais selvagem que fizemos, até mais que o feito ao EBC. O ambiente é o mais “himalaiano” até agora. Por conta da constante mudança na moraina, a trilha algumas vezes dá em becos se saída e temos de procurar pela nova trilha, mas desde que continue a seguir Norte, não há problema.

 

Levou muito tempo até chegarmos ao Quarto Lago Sagrado. Desde muito tempo antes que podíamos adivinhar sua localização, mesmo ao lado norte do Gokyo ri, mas por conta da imensa escala dos arredores, perdemos todo e qualquer senso de proporção e gastamos muito tempo nos auto-iludindo, pensando que o local estava perto mas que na realidade ainda estava horas de distância. Andávamos, andávamos e nunca chegávamos perto. Quem já fez trilha em locais de paisagens monstruosamente gigantescas sabe do que estou falando. Andamos por umas 3 horas sem que parecesse haver qualquer mudança nossa em relação ao suposto local onde o lago estaria.

 

Quando enfim chegamos lá, foi tão súbito que quase que o passamos. Ao andar pela moraina, uma pequena elevação à nossa esquerda nos escondeu o lago. Se não fosse a presença de algumas torres de pedra, típicas de lá para demarcar lugares ou rotas, creio que não veríamos o quarto lago. Curiosos sobre as construções, fomos lá checar e vimos o lago.

 

O lago é muito bonito, com certeza. Me pareceu menos cristalino que o de onde estamos hospedados, mas é uma visão fantástica de qualquer forma. Aninhado nos sopés de altas montanhas, este lago parece ser mais selvagem que o anterior. Infelizemente o romantismo do momento foi muito diminuído pelo meu mais terrível desastre digestivo de todo o trek. Com espamos de dor, pedi uma pausa ao Marcéu e corri para longe dali até achar um local que me parecesse escondido o suficiente. Ali, dei vazão aos meus desejos mais íntimos sobre alívio e bem-estar. Na falta de terra, cobri tudo com neve, que por sorte minha tinha com abundância nas encostas do meu “banheiro”. Deixei tudo lá e me pergunto se daqui uns milhares de anos minha obra será descoberta, perfeitamente preservada em gelo, por algum geólogo ou paleontólogo, e virará tema de tese. Infelizemente esqueci de assinar.

 

Eu sei, eu sei... é algo que não deveria ser feito como foi feito. Foi a primeira vez que me vali do “mato” - figurativamente falando, pois não havia mato algum. Sempre usei os banheiros dos alojamentos. Mas foi um momento de crise aguda que demandou minha mais urgente e inadiável atenção. Por isso, caros colegas seguidores do lema “leave no trace”, peço desculpas pela minha barbaridade.

 

Depois de atender meu alto compromisso, vou ver se Marcéu ainda não morreu de tédio. Ele se encontra em estado meio catatônico, mas procuro compensar o tempo longamente perdido apertando mais o passo para ficar mais próximo da velocidade dele. Dizer é mais fácil que fazer e tenho dificuldades em aguentar o ritmo ao mesmo tempo que tusso meus pulmões para fora.

 

Após o 4° lago, acho, tem um local mais ou menos plano que serve para campings. Quase uma dúzia de barracas ocupam o local e seus ocupantes, um grupo organizado, eca, está iniciando o dia, indo para o 5° lago, movendo-se bem devagar, como se já tivesses andado horas e horas. São todos na casa dos 40 ou mais e não mostramos nenhum respeito, ultrapassando-os sem pedir licença. Em breve os perderíamos de vista, embora ache que é por eles terem seguido pela trilha de baixo, que vai pelo vale, ao invés da de cima, pela moraina. Marcéu e eu nos perdemos um pouco e ficamos um tempinho atrás da trilha. Isso nos custou muita energia para poder ficar pulando pedra até achar o caminho.

 

Novamente na trilha certa, andamos feito loucos. Mesmo assim, lendo o LP, vi que ainda estávamos atrás dos tempos de caminhada dados pelo guia. Certamente pelas pequenas trilhas perdidas e meu longo atendimento à assuntos internos e pessoais. O problema é que o dia não será astronomicalmente mais longo que o de ontem e, por isso, não sei se conseguiremos chegar ao 6° Lago Sagrado e voltar antes de anoitecer. Trouxemos bastante lanche para o caminho, mas eu planejava voltar antes das 16h e poder ter um bom almoço.

 

E nada do 5° Lago Sagrado. Andamos, andamos e andamos. Contava o tempo e nada do lago.

 

Acho que eram umas 5.30h ou 6h quando deixamos o alojamento. Agora, chegando ao 5° Lago, são 11h. Por volta de 6 horas para alcançar o 4° e 5° Lagos Sagrados. Nada mal, mas também não tão bom. Nossa condição física não está grande coisa e noto certo desgaste psicológico também. Nem toda a beleza do 5° Lago nos consola muito. Sentamos o máximo protegidos do vento quanto podemos e comemos um belo lanche. Marcéu não se sente nada bem, apesar de estar gostando da caminhada. Parece que ele tem gripe... sem gripe. Não tosse, não espirra, não tem corize. Nada. Mas está bem caidão. Sugiro que volte, mas ele quer continuar. Dou mais um tempo para ele descansar, mas depois de uns 30 minutos de descanso, ele não parece mais descansado que antes e sua recusa de voltar é menos convicente. Mais alguma insistência e ele decide voltar.

 

Eu não me sinto nenhum tarzan, mas gostaria de tentar um último esticão e ver se chego ao 6° Lago Sagrado. Deixo Marcéu descansando mais um pouco às margens do 5° Lago e meto pé na trilha para o 6° Lago. E corro, figurativamente falando. Corro feito doido. Depois de umas duas horas sem parar, quando por fim chego à curva do glaciar, que vira para o Cho Oyu, eu cometo o imperdoável erro de permanecer do lado da moraina ao invés de cruzar o vale, que agora é minúsculo, e seguir pela trilha perfeitamente visível do outro lado, que segue pela encosta de uma montanha. Por conta de uma decisão que envolvia 5 minutos de caminhada, me perdi e gastei mais de uma hora andando às cegas pela moraina que, uma vez mais próxima do local onde o glaciar “nasce”, deixa de ser gentil e se torna bem inóspita. Todo esse tempo subo, desço e contorno por pedras enormes, do tamanho de carros ou casas, atrás de saber ou ver onde raios eu estava ou, diáfama esperança, talvez ver onde raios estava o 6° Lago Sagrado. Em certo momento estou numa abertura da moraina, uma espécie de sangria ou garganta por onde enormes blocos de pedras rolam, lentamente, para dentro do glaciar. Dessa janela posso ver o Cho Oyu bem de frente. Uma visão inesquecível que seria melhor aproveitada se um certo pânico não estivesse a tomar conta de mim. Por mais que ande pela borda do glaciar e suba ou desça essas enormes pedras, não há o menor sinal de trilha ou lago. Pelo mapa, ele deveria estar por aqui. Penosamente deixo a garganta de pedras e continuo meu caminho. Qualquer trekker responsável diria que nese caso o mais prudente é voltar até o local onde a trilha estava visível, mas eu não devo ser um trekker responsável e se voltasse iria perder o dia e certamente não tenho intenções de tentar essa caminhada monstrusa tão cedo outra vez.

 

Foi então que após cruzar uma enorme plantação de pedras, saltando o melhor que podia de uma para outra, eu o vejo lá ao longe. Paro imediatamente, bebo água e lancho um pouco e... corro para lá. Muita neve em muitos lugares do caminho, mas tudo bem. Em breve as pedras somem e estou andando sobre terreno mais gentil. Então vejo pegadas! Pegadas! Não há trilha à vista, mas gente esteve aqui vindo de trás. Então vejo algumas pequenas pedras postas de pé. Sinais!

 

Procuro memorizar o menos pior que posso o local e me lanço para a última pernada para o lago. Em breve estou mesmo ao seu lado. Olho em volta, escolho umas pedras mais adiante como base, vou para lá e me sento. Consegui! Cheguei ao 6° Lago Sagrado!

 

Muito diferente de fazer uma trilha sozinho. Me senti mais vulnerável, mais frágil, medroso e solitário. Mas serviu para me dar uma boa idéia do que eu sou. Rodeado pelos poderosos Himalaias num lugar particularmente inóspito, no meio do nada e à horas de “civilização”, me senti bem pequeno... e grande ao mesmo tempo. Me sinto como o primeiro a chegar num local onde nenhum homem esteve. Sei que não é verdade, mas era como me senti. Só estando sozinho no meio de um nada imenso com o barulho do vento e altas montanhas em toda volta para entender o que senti.

 

Infelizmente o tempo não me permite aproveitar meus paradoxos por muito mais tempo. Está bem tarde e ainda tenho de andar todo caminho de volta à vila. E eu sei que não há atalhos, mesmo sabendo agora onde está a trilha certa, que é mais incerta do que esperava e me fez ter dúvidas sobre se estava indo bem diversas vezes. Eventuais pedras postas de pé e pegadas me confirmavam a direção. Quando chego à curva do glaciar, a trilha se torna bem clara, sem perigos de sair dela.

 

Dessa vez sigo pela trilha que vai por dentro do vale, que é mais plana, logo mais rápida. Mas a vila ainda está muitas horas à frente. Acho que deixei o 6° Lago entre as 13.30h e 14h. Não tenho muitas horas mais de luz e não quero ser apanhado pela noite no meio do nada tendo apenas uma pequena lanterna com pilhas fracas. Durante a caminhada desde Lukla estava sempre atrás de baterias para ela, mas nunca achava. Quando pensei ter achado, em Namche, Marcéu me convenceu que não precisava gastar tanta grana. Qualquer coisa, era só usar a dele, que tinha baterias extras.

 

Bom, talvez eu vá precisar da dele logo mais e ele não está aqui. Me arrependo de não ter comprado aquela cara bateria em Namche...

 

Correndo vale abaixo feito louco, logo chego ao 5° Lago e lá cruzo com um cara bem peculiar.

 

Não, não o Yeti.

 

Eu explico: ainda ontem no alojamento, quando estávamos nos recuperando da subida ao Gokyo ri, um cara da Rússia entra para se alojar lá. Ele está fazendo o trek sozinho e carrega uma mochila enorme nas costas, com montes de coisas penduradas. Ele vem de Dzongla. Por isso podemos ver que ele anda bastante. Ele diz que está acostumado a pedalar e andar muito na Rússia e não tem tido problema algum com as trilhas ao EBC. Anda horas e horas por dia. Como tinha chegado em Gokyo já anoitecendo, não podia fazer muito mais, mas para hoje tinha planejado fazer o Gokyo ri e os Lagos Sagrados em um dia. No mesmo dia!

 

Portanto, aqui estava ele, no 5° Lago Sagrado, já pouco depois das 16h, indo para o 6° Lago Sagrado. Pessoalmente eu não faria isso, mas ele é um rapaz crescido e sabe do que é capaz, eu acho. Mas não sei como achará o lago no escuro. Ele pergunta quanto tempo dali até o 6° Lago e eu não minto: 3h. Dou a dica de ficar pela trilha da esquerda, senão vai parar no meio do nada. Ele agradece e vai em bora.

 

Eu também, vou embora, mas para baixo. Cruzo o 5° Lago o mais rápido que posso, apenas parando eventualmente para tirar fotos que não tirei quando vinha por ter pouca bateria na máquina e ter medo que ela não durasse até o 6° Lago. Cruzei o camping com seus ocupantes quarentões, que me olharam meio que surpreendidos. Corri pelo 4° Lago, que demorou uma eternidade a ser ultrapassado, mais por haver uma infinidade de trilhas serpenteando pelas suas margens (pela moraina só há uma trilha).

 

E está escurecendo... E tusso todo tempo, o que contribue para a falta de ar e crescente cansaço. Me sinto como no dia que subimos o Deurali ou ao nos aproximarmos do Lanjura la. Mas não me atrevi a descansar. Com cada minuto de descanso, menos luz tenho na trilha e não sei quanto tempo levarei até chegar à vila de Gokyo.

 

Quando por fim chego lá a última luz está sumindo dos picos mais altos. Esta foi a caminhada mais apertada que fiz. Morrendo por comida, bebida e descanso, vou direto ao refeitório, mas não sem antes passar pela cozinha e pedir com urgência um chá, biscoito e sopa de alho. Deixo também o resto do jantar já pedido. Subo pro refeitório e dou de cara com Marcéu deitado lá, enrrolado em uns cobertores. Ele diz estar melhor, mas não 100%. Parece que gripou mesmo. Conversamos, comemos e jogamos. Muita gente nova aparece e mostra interesse nos treks que fizemos, o que nos rendeu mais uns minutos de fama, mas estamos exaustos. Marcéu pela gripe e eu pelo dia puxado que tive, e a tosse que agora é constante. Quando estamos indo nos deitar, chega o russo. Deviam ser mais de 20h, acho. Ele disse que foi até onde o glaciar faz a curva, se perdeu lá, provavelmente onde me perdi, não achou o 6° Lago Sagrado e voltou por estar ficando muito tarde.

 

Então, só para recordar: de todos os dias que estivemos no Gokyo, creio que fui o único que foi até o 6° Lago Sagrado. A maioria das pessoas sobe até o 5° e volta.

 

Infelizmente não fui até o Campo Base do Cho Oyu, como tinha planejado antes. Me era impossível rodear o lago até chegar ao Campo Base e voltar com luz. Creio que ainda estaria por lá se o tivesse feito. Impossível. Estou exausto e é hora de ir para a caminha.

 

Continua...

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Foto de despedida da super simpática dona do alojamento onde ficamos. Por trás, bandeirinha do Brasil comemorativa do fim do trek e parte do lago e montanhas que são descanso para os olhos no conforto do refeitório.

 

Dia 29

 

Tenho muita pena de deixar este lugar fantástico, mas também estou feliz de enfim iniciar a jornada de volta para casa. Com o trek dos Lagos Sagrados superiores feitos, sei que agora cheguei ao fim dos meus planos. Certo, ainda temos de retornar para Lukla e voar de volta para Kathmandu, mas me sinto com o sentimento de que agora acabou de vez. Fizemos tudo que planejamos e muito mais coisas extras.

 

Nosso plano inicial era ficar mais tempo nas montanhas e agora temos vários dias de sobra até o avião partir de Lukla. Queria fazer mais coisas. Mas querer nem sempre é poder. Gastei minhas reservas de energias todas na subida ao Gokyo ri e na ida aos lagos superiores. Agora canso muito depressa, demoro a recuperar e a tosse está cada vez pior. Marcéu está melhor da gripe, mas não muito, por isso também está fisicamente muito debilitado. Se estivéssemos bem, poderiamos tentar passar daqui para Thami, via outro passe montanhoso, ou ficar mais uns 2 dias aqui, descansando e explorando. Ou fazer a volta para Lukla bem lentamente, explorando os locais por onde passamos.

 

Mas não. Por mais felizes que estejamos em estar em Gokyo, numa das vistas mais espetaculares dos Himalaias e nas mais belas paisagens que jamais vi, seja ao vivo, revista ou TV, estamos ansiosos para voltar para a chamada “civilização”. Pequenas coisas como um bom prato de comida com um bife enorme, ter um banheiro com latrina onde possa me sentar, tomar banhos frequentes, tomar belas canecas de café-com-leite e pão com manteiga e outras miudezas da vida são coisas que sentimos saudades. Por mais de mês vivemos sem isso, coisas simples e pequenas, mas cuja importância só sentimos quando nos privamos delas. Para Marcéu é pior, pois ele sente falta da namorada, dos amigos, da família, do Brasil (eu também, mas terei de esperar mais que ele para rever isso tudo).

 

Antes de ir ao Nepal, Marcéu e eu concordamos em não contemporizar com muitas de nossas luxuosidades anteriores. Desde que este será muito provavelmente um trek único em nossas vidas e uma experiência sem repetição, decidimos fazer isso o mais “puramente” possível, sem recorrer de coisas que possam suavizar o choque físico, ambiental ou cultural. Por isso não fomos às padarias, discotecas, bares e outras coisas mais finas que havia em Namche nem ficamos pedindo refrigerantes, salgadinhos, pizzas e outras comidas mais ocidentais que podem ser encontradas até bem longe no trek. Há Coca-Cola e outras coisas até em Gorak Shep! Fora ser onerosa, tal conduta não nos parece condizer muito com a filosofia do trek, se assemelhando mais à um passeio turístico. É a nossa filosofia e não julgo quem não consiga passar o dia sem seu copo de café ou sua Coca-Cola. É que para nós o trek não seria o mesmo se passássemos o tempo todo como se estivéssemos em casa. Se é para passar a noite bebendo ou comendo em pizzaria, teria ficado em casa e não vindo para cá. Essa também foi a razão de não termos contratado guia ou carregador, embora reconheça a conveniência de ter carregador.

 

O nosso 29° dia começa tarde, com um generoso café-da-manhã, lento empacotamento e muitas despedidas. A dona da pensão, muito simpática, nos oferece dois pacotes de biscoitos para a viagem, nos agradece ter ficado lá e pede que façamos propaganda pela caminho, o que fiz obedientemente até Machermmo, quando desisti por ver que as pessoas com quem cruzamos estavam ainda um ou dois dias de chegar em Gokyo e estavam mais preocupadas com o sofrimento dos seus corpos e mentes para querer saber de uma pensão dias à frente. Para eles, a pensão poderia estar na Lua, tão distante ainda estavam de se ver em Gokyo, muito menos de escolher uma pensão lá. Nesse caso se pareciam bem como nós, quando nos davam cartões para ficar em alojamentos dias à nossa frente. Simplesmente não tínhamos cabeça para pensar naquilo naquele momento. Mas acho que até Pangka, eu parei e conversei com cada trekker independente que cruzei. Devo ter, naquele dia, mandado uma dúzia de gente para lá.

 

Já ia esquecendo: plantamos nossa bandeirinha brasileira no alojamento. Se alguém for ao Gokyo, passe no Cho Oyu View Lodge e veja se ela ainda está lá.

 

A descida de Gokyo é rápidamente feita, principalmente porque o terreno é muito mais plano que no lado do EBC. Certo, certo... tem coisa bem pesada de subir e descer, mas muito menos. Também bem menos zigue-zagues. Tanto que se houve algum, foi tão esporádico que nem me dignei a reconhece-lo como tal. Se não causam uma dorzinha de pelo menos uma hora no joelho ou nas costas, não é nada.

 

Para completar, como estamos andando pela trilha que segue pelas encostas altas, temos vistas magníficas todo tempo. Segundo o guia, tem uma trilha mais baixa do outro lado, mas ficamos pelo lado direito mesmo. Cruzamos diversos trekkers e um cara da Bélgica, Paul se não me engano. Ele tipo que seria um companheiro da trilha, pois cruzamos com ele diversas vezes até chegar em Lukla. Às vezes ele na frente, às vezes nós. Nos cruzávamos quando a situação invertia. Bem legal ele e metade do seu equipo é uma mochila com uma câmera enorme, profissional, cheia de acessórios. Deve ter custado tanto quanto a viagem em si.

 

E andamos depressa. Putz, como andamos rápido. Com as baterias das câmeras esgotadas, não há mais razão para parar e tirar fotos. O caminho é tão largo e desimpedido que não temos de parar para apreciar a vista. Andamos, andamos e andamos. Rápido. Muito rápido. A tosse não ajuda, bem como Marcéu e seu restinho de gripe, mas conseguimos mais ou menos ignora-los até chegar num local onde encontramos balas de menta, balas para tosse e algumas laranjas à preço de ouro que nos ajudou a carregar nossas penas mais levemente.

 

Caí algumas vezes no caminho, sempre nas descidas mais íngrimes. Virou quase que uma rotina. Com a pressa, não tinha cuidado algum e quando a descida era muito arenosa, lá ia eu beijar o chão de bunda. Mas não me importo mais com isso. Só penso em sair daqui o mais depressa possível.

 

Por volta das 15h, paramos para gastar mais alguma da comida que temos carregado desde longe, mesmo quando chegamos num vale antes de Dole, onde um pequeno riacho corria. Enquanto preparamos tudo para o almoço, escutamos uns “muuu-muuuu-muuuu” vindos da outra margem. Um yak impaciente parece querer nos atacar, vindo em nossa direção. Só depois de olhar bem é que vimos que era uma yak e ela parecia muito interessada no cabeludo Marcéu. Talvez para alguma experiência íntima intra-espécies. Jogamos pedras e tangemos a yak dali. Depois de um tempo, ela percebeu que seu amor não correspondia e foi tentar a sorte com algo mais próximo, com chifres longos, mais pêlos e que andasse de quatro. Foi nossa última experiência com yaks e foi bem vexante. Talvez precisemos mesmo de banho e fazer a barba...

 

Cozinhamos, comemos e lavamos as coisas no rio, sempre uma tortura devido ao frio da água. Cruzamos o riacho e subimos para Dole. Uma subida íngrime, porém curta. Lá em cima, achamos que Dole é um tanto suja e com alojamentos ruizinhos. Mas as camas eram boas e isso era o que importava. Passamos a noite como os heróis do refeitório, pois eramos os únicos que vinham de cima e todos queriam saber de nossas histórias. Nossas amarguras serviu para deixar todo mundo de bom humor. A comida foi horrível e Marcéu insistiu que eu reclamasse, pois nosso arroz era mais pedra que arroz. Chamei quem nos servia e pedi que ele dissesse ao cozinheiro que nos agradecemos todas as pedras extras de graça que veio no arroz. Eu achei 12 de tamanho suficientemente grande e muitas pequenas que não me dei ao trabalho de catar ou tirar da boca e simplesmente as comi. Marcéu, por sua vez, desistiu de catar qualquer uma quando percebeu que a comida iria esfriar demais se o fizesse.

 

Nesse alojamento havia um casal de espanhóis, últimos membros de um grupo organizado cujo trek falhou por completo. Um grupo de amigos numas férias apertadas que decidiram ir ao EBC. Por estarem sem tempo e se sentindo bem, cometeram o erro primário de puxar a subida, por fim colapsando com AMS em Tengboche. Das 6 ou 7 pessoas do grupo, os do casal eram os únicos que ainda alimentavam esperanças de poder ao menos fazer o rápido Gokyo e assim não terem desperdiçado as férias completamente. O restante voltou para Namche e depois para Lukla, de onde voarão para Kathmandu. O casal não está tão bem e apenas parcialmente recuperados da AMS. Hoje tinham feito uma curta caminhada de aclimatização numa encosta, religiosamente cronometrando o tempo que demoraram. Para mim, isso não é caminhada de aclimatização, mas como eles estão meio mal mesmo, talvez seja tudo que possam fazer. Mesmo sem estar bem, irão tentar Machermmo amanhã.

 

Fica aí o exemplo do quanto é importante aclimatizar bem e do que não se deve fazer. Tentaram fazer o trek sem aclimatizar para ver se ganhavam dias, acabou que não tiveram trek de todo. Ou pelo menos não um que pretendiam ou aproveitaram. Se tinham pouco tempo, seria melhor ter ido até Thami, Dingboche ou feito o Gokyo desde o início, sempre aclimatizando bem.

 

Enfim, comemos, bebemos montes de chá, jogamos cartas num baralho já todo esfarrapado e comemos um monte de pedra com arroz. Hora de ir dormir.

 

E como é bom dormir em altitudes mais baixas!!!

 

Continua...

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Fim do trek! para celebrar, mais fotos extras:

 

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1) A vila de Phortse, encravada numa encosta.

 

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2) Foto de Marcéu de uma carregadora na última "Subida dos Infernos", à caminho de Mong.

 

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3) Marcéu se despede do Evereste. E do Ama Dablam, claro.

 

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4) Eu me despeço do Evereste. E do Ama Dablam, claro.

 

Dia 30

 

Acordamos cedo para o dia, que promete ser puxado. Já estamos terminando o café-da-manhã quando os outros hóspedes ainda estão se levantando e vindo para o refeitório. Falamos pouco, mais porque estou morrendo de pressa de chegar pelo menos em Namche hoje.

 

E daqui para Namche passa como um relâmpago para mim. Tirando uma ou duas coisas, não me recordo da maior parte do caminhzo. Lembro que nalgum ponto começamos a ver árvores outra vez, o que foi bem estranho, como se um monstro tivesse surgido em nossa frente vindo da 83° dimensão de algum Universo paralelo. Mas conseguimos superar o trauma do choque.

 

Agora há mais subida e descida a serem feitas. Felizmente eram curtas e, por conta das árvores, bem sombreadas. A quantidade de trekkers a usar o caminho é cada vez maior. Para onde vai toda essa gente de Dole para frente, não sei. Me parece haver mais trekker até certo ponto e dali em diante se tornam menos e menos. Agora não passamos 30 minutos sem cruzar com alguém ou, pior ainda, com um grupo organizado e sua comitiva de guias, yaks e carregadores. Por agora a trilha não é tão larga assim e nós praticamente corremos nela. No início do trek sempre parávamos para esperar educadamente gente ou bicho passar. Agora estamos nos espremendo em qualquer centímetro livre que nos permita sair do congestionamento e continuar a carreira ladeira abaixo.

 

Em certa altura cruzamos com um pequeno grupo de brasileiros numa descida longa, uns 4 ou 5 deles, acho eu. Estavam numa curva qualquer, cobertos de protetor solar fator 1000, esperando que um vagaroso e grande grupo organizado passasse. Eu tentei passar pelos caras e seguir em frente, mas realmente não havia espaço. Vendo minha pressa, um deles comenta para os outros: “cês acreditam que esse cara está tentando me ultrapassar aqui?” Claro, sendo brasileiro eu mesmo, entendi o que ele disse e dei um sorridente “bom dia” e enquanto esperamos pelos lentos restos do grupo organizado passar, pergunto pelo trivial: onde foram, quanto tempo estão na trilha, de onde são, etc. Eles estavam na trilha faz 16 dias. Eu estou faz 30, portanto estou muito mais desesperado. 1+1=eu tenho máxima prioridade.

 

Enfim chegamos em Phortse Tenga e vejo que o Nepal me reservou, como presente de despedida, uma última "Subida Infernal". Lá encontramos o cara da Bélgica outra vez, que seria tipo uma companhia na subida. Estamos exaustos de toda a correria desde Dole, mas eu não poupo pernas e pulmões e subo a ladeira tão rápido quanto posso. Muita gente a descer. Alguns carregadores a subir, carregando enormes placas de contraplacado nas costas. Uma senhora de certa idade carrega três feixes enormes, maiores que ela, do que me parece ser capim. Tenho vergonha de admitir, mas o pensamento de ajudar a pobre senhora, que avançava penosamente, nem sequer me passou pela cabeça. Só estava pensando em chegar rapidinho na vila ao fim da ladeira, que era Mong.

 

Chego lá bem antes de Marcéu. Quando ele chega, vemos que o calor deu mais um pouco de carga à suas baterias e tiramos mais umas fotos das vistas ao redor da vila, que são bem legais, já agora. Estranho essa relação das baterias com o calor, mas ocorreu com a minha também ainda em Gokyo.

 

De Mong, descemos rapidamente para onde ficava a bifurcação que vi quando estava indo para Tengboche, dias atrás, e onde fiquei bem assustado sobre o quanto havia de descer e subir para chegar lá. Mas desta vez é a minha vez. Passo direto pela trilha plana e fácil que vai para Namche.

 

Trilha muito legal, já agora. Algum sobe e desce, mas nada sério, e temos oportunidade de nos despedir da última vista que teríamos do Evereste e do Ama Dablam. Mais umas curvas e eles somem por trás dos montes.

 

Já chegando em Namche, passo por um guri, que não devia ter mais de 4 anos. A coisinha vem em minha direção todo sorridente e achei que fosse pedir lápis ou bombom. Mas ele se agarra às tiras de minha mochila e fica tentando me escalar. Teve sua piada por uns minutos, mas o pestinha não me largava e já estava ficando preocupado sobre o que faria e como faria quando um local passa e dá dois berros no pimpolho, que me larga e segue brincando na estrada.

 

Chego em Namche e espero Marcéu. Ele chega e vamos ao nosso antigo alojamento, onde pedimos o almoço. Enquanto o mesmo está sendo feito, passamos uns e-mails para os amigos e família, dizendo que tudo estava bem, que estamos regressando e que na última contagem, todos os braços e pernas estavam no lugar e inteiros.

 

Foi muito bom comer comida boa outra vez, servida em porções enormes, se comparadas com as porções que pegamos de Tengboche para cima. Deixamos uma lembrança com o simpático dono e fomos embora.

 

A terrível subida de Namche agora é uma longa descida. Dessa vez é Marcéu que come poeira. Mais uma vez caio durante a descida, para horror dos novatos esbaforridos que vem ladeira acima. Eu simplesmente levanto e digo que já estou acostumado e continuo a descer, tão rápido quanto antes. Uma núvem de poeira é o que resta de minha passagem.

 

Quando alcanço o vale abaixo, tenho a má sorte de ficar atrás de um enorme grupo de adolescentes. Parece um tipo de expedição escolar. Andam tão perto uns dos outros que ultrapassa-los todos é impossível. Parecem um bloqueio na trilha.

 

Quando eu e meus colegas estudantes chegamos em Jorsale, a tarde já anda avançada, mas eu quero ir para Monjo e passar a noite por lá, de forma a não ter de andar muito no dia seguinte até Lukla, que tem uma bela ladeira a ser vencida antes de chegar lá. Porém Marcéu chega e está cansado. Ele acha que devemos ficar por Jorsale mesmo. Eu iria mais, mas vejo que ele está bem cansado. Jorsale será nossa última pernoite no trek.

 

Ficamos num alojamento legal. O rio que corre no vale nos dá uma música boa para dormir. Pouca gente hospesdada por lá, na maioria garotas viajando sem guia. Uma delas viaja sozinha mesmo. Elas vem de Jiri e suas histórias sobre seus encontros com os Maoístas são bem reveladoras e mostram que tivemos até sorte quando os encontramos em Bhandar. Elas não tiveram tanta sorte assim, tirando a que viajava sozinha, que disse ter simplesmente dito que não tinha grana para a doação e foi embora. Mas as outras relatam que encontraram uns garotos que foram bem grosseiros, chegando mesmo a apontar-lhes os trabucos quando tentaram negociar.

 

Estamos cansados demais para ficar muito tempo conversando e fomos dormir logo. Amanhã é outro dia puxado e ainda temos de ver em Lukla se conseguimos abreviar a data do nosso vôo de volta para Kathmandu, de forma a não termos de ficar em Lukla até o dia 18/11 (hoje é 09/11, acho). Minha tosse não melhorou nada e tusso bastante antes de conseguir adormecer.

 

Continua...

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1) O que restou dos dois protagonistas, quando chegamos em Lukla.

 

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2) Marcéu comemorando numa padaria de Lukla.

 

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3) Depois de 30 dias comendo dhal, batata ou arroz e bebendo chá de limão, essa padaria foi o Paraíso na Terra. Ou melhor: em Lukla.

 

Dia 31

 

Dia curtíssimo, ao contrário do que pensava ser. Após deixarmos Jorsale, achei impressionante o quanto era curto e rápido o trecho que ia para Monjo. No início do trek, dias atrás, me parecia mais distante o sentido inverso. Antes de estarmos bem acordaddos, chegamos à estrada do parque e para manter a simetria da nossa entrada, quando fomos os primeiros do dia, hoje também somos os primeiros do dia a sair.

 

Aliás, em geral a ida para Lukla me pareceu mais rápida, fácil e curta. Certo, certo... alguns trechos onde tivemos de andar por uma hora mais ou menos sob um Sol forte e com muita poeira pareciam não ter fim.

 

Monjo e a outra vila pequena onde ficamos no dia que saímos de Lukla passaram como um flash. Phakding também foi assim, embora talvez fosse por conta de termos entrado numa trilha errada que no final das contas era um atalho local. Tudo se passou e passamos por tudo muito rápido. Quando víamos algum local conhecido, pensava logo “já estamos aqui?”. Antes de nos acostumarmos à ligeireza, chegamos ao fundo do vale e à nossa última subida do trek, melhor que a para Mong, mas que deu algum trabalho também. A ponte que estava sendo construída quando passamos no sentido contrário, 30 dias atrás, já está completa e vai nos poupar subir pela trilha provisória que tinham aberto nas encostas arenosas e era bem perigosa.

 

A subida é cansativa. Não tão íngrime, mas longa. Porém eu quero mesmo chegar em Lukla e a faço de uma só vez, raramente parando para beber ou descansar e mesmo assim brevemente. A vila de Choblung, que fica no meio da ladeira, me engana diversas vezes ao me fazer pensar que se tratava de Lukla. Choblung está construída em diversos níveis, como Lobuche, mas bem mais que Lobuche. Quando passei o primeiro nível e vi o segundo ao longe, achei tratar-se de Lukla e fiquei todo esperançoso. Ao chegar lá, ainda era Choblung. O mesmo para os outros 2 ou 3 níveis seguintes da vila. Meio frustrante isso...

 

Para encurtar o pesadelo, cheguei em Lukla por volta das 11h. Tínhamos saído de Jorsale umas 3 ou 4 horas atrás, de forma que foi um bom tempo, acho eu, embora no final das contas eu tenha gasto todas as energias do dia nessas poucas horas. Se houvesse uma tarde de caminhada pela frente, não creio que a pudesse fazer. Bufando feito doido, sentei em frente à agência de aviação que usaríamos para voltar à Kathmandu e espero por Marcéu, que em menos de 30 minutos aparece, bufando por todos os poros. Sorte nossa, a agência tem gente lá dentro (ela deveria estar aberta apenas das 15.30h-16.00h) e vou pegar info sobre abreviar a data do nosso vôo. A garota que estava lá diz que é possível sim, mas que quem faz as mudanças só estará lá pela tarde. Ela chega mesmo a telefonar para o aeroporto e ver se há vagas para hoje, mas nessa hora já há poucos aviões saindo de Kathmandu. Voltaremos mais tarde.

 

Fomos para nosso antigo alojamento, onde Marcéu deixou algumas coisas antes de iniciar o trek. Ficamos no mesmo quarto e tudo, uma suíte com chuveiro. Primeira vez em dias que enfim posso obrar com tranquilidade e privacidade. Depois, hora do banho! Desde Dingboche, 14 dias atrás, que não tomamos banho. O aquecimento ainda não está ligado, mas eu não tenho paciência para esperar e tomo banho gelado mesmo. Depois é a vez de Marcéu ir congelar um pouco embaixo do gélido chuveiro. Foi tão bom tomar um banho. Me sinto gente outra vez!

 

Corpo limpo dentro de roupas limpas e fomos dar uma lenta volta por Lukla, enquanto o almoço não sai. Fomos ao aeroporto, ver como era o esquema de embarque. Perguntei à um soldadinho por onde se entrava, mas ele não falava inglês. Na volta, quase de frente ao aeroporto, achamos uma padaria em estilo alemã. Ho, ho, ho... espera só até de tardezinha...

 

Ficamos por ali um tempinho, olhando o ir e vir de trekkers e carregadores, chegando ou partindo de e para Kathmandu. Muitos carregadores saindo do aeroporto carregados com as coisas dos seus ricos clientes. Trekkers limpos e perfumados misturandos com uns não tão limpos e perfumados, como nós. Tudo dependia de que lado da trilha você está. O lado final mostrava gente barbada, cansada, tossindo e cheirando mal. O lado inicial mostrava gente limpa, perfumada, cheia de saúde e energia. Pobres seres... mal sabem o que os espera pela frente... Já não estarão tão sorridentes quando daqui uns dias estiverem cobertos de poeira e fezes de yaks, torrando a cuca na subida para Tengboche, sentindo os primeiros sinais de AMS e com todas as juntas estalando de dor e agonizando de cansaço.

 

Voltamos ao alojamento, onde temos uma refeição muito boa. Depois gastamos boa parte da tarde descansando, lendo, jogando, escrevendo, apanhando sol no refeitório, protegidos do vento e poeira. Às 15.30, fomos ver das passagens. O cara lá diz que não tem problema e que podemos ir amanhã mesmo, às 7.00h. Eu me sinto radiante! Tudo vai bem, até mesmo a temida e famosamente confusa parte de embarcar para Kathmandu. Quase inacreditável que o trek tenha corrido sem nenhum problema maior.

 

Com as novas passagens em mão, que especificam que devemos estar lá uma hora antes da hora marcada, fomos para a padaria que vimos de manhã. Uma vez lá, posso dizer que foi a coisa mais próxima do Paraíso que jamais vi. Bolos! Pães! Café com leite! Croissants! Tudo fresquinho, feito na hora! Comemos, comemos e comemos. E bebemos, bebemos e bebemos. Tudo muito caro, mas quem se importa? Acho que fizemos por merecer! E é tudo tão saboroso...

 

Amanhã certamente teremos café-da-manhã aqui.

 

Depois do maior lanche do mundo, voltamos ao alojamento, onde esperamos o estômago criar um pouco de espaço antes de pedir pelo jantar. Enquanto esperamos e comemos, ficamos vendo TV que o pessoal tinha no refeitório. Programas locais ou indianos era o que passava. A história mudava pouco de série para série: um cara forte e cabeludo detonando os vilões com artes marciais. Depois de ver um episódio, viu-se todos. Até o mocinho parece ser o mesmo. Mas tudo bem, serviu para distrair.

 

Hora de dormir. Amanhã é dia do pequeno carnaval no aeroporto, se a lenda sobre o caos do embarque em Lukla estiver correta. Escutei tanta má experiência do local que tenho minhas dúvidas se de fato iremos embarcar amanhã.

 

Continua...

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Marcéu embarca no bimotor que nos levará para Kathmandu. Agora é de vez: adeus, EBC. Já temos imensas saudades.

 

Dia 32

 

Outra vez, começamos o dia bem cedo. Como o cara marcou o vôo para às sete e temos de estar lá uma hora antes, acordamos cedo para estar lá às seis. Sonolentos, preparamos tudo e fomos para o aeroporto, onde tenho uma pequena, porém calorosa discussão com o sujeito do embarque, o mesmo que nos havia mudado as passagens no dia anterior, que me jura não nos ter dito que nosso vôo era às sete, mas que deveríamos estar aqui às sete e o vôo era às oito. Ele nem sequer se lembra de nós! Putz, eu tenho má memória, mas assim é exagero. Quase que me atiro ao seu pescoço, porque eu vi que a razão de não partirmos às 7 não era aquela, mas de que um vôo de outra companhia foi cancelado e ele estava, via favores para com donos de agências e hoteis de Lukla, acomodando em nosso vôo algumas pessoas de um grupo organizado, inclusive entre eles o cara da Bélgica. Achei uma barbaridade a falta de ética disso tudo, mas pelos vistos é como as coisas são feitas por lá.

 

O ambiente no aeroporto é de loucos. Carregadores, sacos enormes e montes de faces perdidas olhando em volta à procura dos seus contatos ou guias estão espalhados pelo salão de embarque. Os do grupo organizado dependem tanto dos seus guias que não fazem idéia do que está acontecendo, se limitando a andar de um lado para o outro, feito baratas tontas.

 

Eu decido que a melhor orma de importunar o filha-da-biiiip que nos enganou é grudar em frente à ele e ficar lhe jogando cara feia. Marcéu está menos animado com esse meu projeto e vai tomar o café da manhã na padaria fina de ontem. Quando ele volta, ele fica no meu lugar e eu vou comer. Quando volto, já outro monte de trekkers chegaram e o cara fica recebendo seus bilhetes e distribuindo passes de embarque à nossa frente. Os brasileiros que encontramos entre Dole e Mong estavam entre eles. Pelo que me disseram, há um dono de uma pensão grande em Lukla, onde eles ficaram, que praticamente manda no aeroporto. Esse dono estava lá, negociando com nosso cara do embarque, com uma pilha de tickets e recebendo outra pilha de passes. Eu quase explodo, mas acalmo e tento falar com o tal dono de pensão, que de repente se torna correto e diz que não há problemas e todos serão embarcados. Sim, obrigado, mas desse jeito nós ficaremos lá até bem tarde...

 

Doído, porém não resignado, me contento em redobrar meu olhares de ódio ao cara do embarque, que eventualmente deve ter se cansado de ser secado daquela forma e nos atendeu e nos deu passes de embarque.

 

Com isso em mãos, fomos ao check-in da bagagem. Os guardas mal abriram nossas imensas mochilas, mas vasculhavam meticulosamente a bagagem dos locais.

 

O salão onde esperamos embarcar é pequeno e cedo fica lotado. Eu começo a me sentir mal e ainda não tenho certeza do que seja. Talvez uma queda de pressão depois de toda sessão de ódio e antagonismo que vivi nas últimas duas horas. Quando nosso vôo chega, muitos tentam furar fila e alguns conseguem, mas como somos brasileiros e não europeus, não temos muita vergonha em furar vários de volta.

 

No avião, um bimotor, a carga que veio de Kathmandu está sendo cuidadosamente desembarcada. Os profissionais pegam os pacotes e os lançam ao chão, onde vão formando uma pilha desordenada. Muitas caixas arrebentam com o impacto e sacos de batatinha e outras mercadorias se espalham pela pista. Apesar das hélices estarem paradas, os motores continuam ligados. Ali é chegar, descarregar, carregar e partir.

 

Depois do descarregamento, hora do carregamento. Feito uma multidão esperando o ônibus, todo mundo quer ser o primeiro e só com muito empurra-empurra conseguimos defender nossas posições.

 

O avião é pequeno e estamos excitados pela perspectiva de voar num bimotor, experiência ainda inédita para nós. O carregamento leva tanto tempo quando o descarregamento e antes de podermos dar conta do que se passava, estávamos no ar.

 

No caminho de volta, comecei a me sentir cada vez pior. Parece que a chegou minha vez de curtir uma gripe. Não pude nem apreciar como deve ser a paisagem abaixo, que era em grande parte das trilhas que fizemos na vinda desde Jiri. Mesmo assim, pude reconhecer várias partes, como o passe do Lanjura, onde 30 dias atrás fiquei mal. 30 dias... tanto tempo que até parece ter sido algo ocorrido na infância. 30 dias desde que estávamos ali, lutando com todas nossas forças para vencer aquelas ladeiras medonhas, abrindo caminho para o ainda distante e sonhado EBC... Vistas do avião lá embaixo, me parece quase impossível que dois paraibanos magrelas e canelas finas como nós tenham conseguido fazer tudo aquilo, no tempo que fizemos e carregando o que carregamos. Mas o poder de um passo atrás do outro, mesmo que lentamente, é imenso. Quase que na mesma velocidade em que essas imensas montanhas se formaram, nós tivemos o privilégio, o prazer, a honra e a dor de conhecer e viver 30 dias nos poderosos Himalaias.

 

Adeus, queridas e temidas trilhas. Já sinto imensas saudades de vocês.

 

FIM

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Nossos pulos de bungy de uma ponte suspensa de 176m. Coisa de doidos.

 

Epílogo

 

O resto dos dias em Kathmandu foram gastos, em sua esmagadora maioria, na cama. A gripe que senti começar no avião de Lukla bateu pesado em mim e me jogou na cama por alguns dias, ao ponto de não poder sequer me levantar e não podia comer quase nada. Quando melhorei, tinha tanta fome que fui comer um enorme sanduíche misto num boteco qualquer, que me deu um problema terrível de digestão e me pôs na cama até o anti-penúltimo dia no Nepal. Fiquei deitado e vomitando as tripas até lá. Má sorte, pode-se dizer. Nas poucas horas que me sentia melhor, saía para comer com Marcéu, fazer compras de lembranças e procurar outro livro para a viagem de volta. Tantos dias de cama me fizeram terminar o livro grande que tinha comprado em Gokyo.

 

No anti-penúltimo dia, numa decisão de última hora, nos increvemos para o Ultimate Bungy, um salto altíssimo de uma estupidamente alta ponte suspensa feito por uma agência local gerida por estrangeiros, a Last Resort. Decisão de último minuto mesmo. E cara. 80 doletas por salto.

 

Uma vez no resort, no dia seguinte, penúltimo antes do embarque para Paris, onde o salto tinha lugar, eu tremia feito vara verde e não tinha certeza se poderia saltar. Achei que chegaria na hora do salto, já na ponta da plataforma, pensaria melhor e não saltaria. O problema é que deixei para pensar melhor até esse minuto final, só que uma vez na ponta da plataforma e diante do imenso abismo e assim que o cara que estava me dando instruções me soltou, minha mente apagou e simplesmente saltei para o vazio. Foi incrível! Só voltei à razão quando senti o elástico parando a queda. Experiência fantástica, que valeu cada dolar gasto. Imperdível mesmo.

 

A viagem ao resort, em ônibus local, foi tão assustadora quanto o salto em si. As estradas eram péssimas e diversas vezes passávamos na beirada de abismos ou por trechos onde as marcas de recentes deslizes eram visíveis.

 

No dia seguinte deixamos nosso querido hotel, o Marco Polo Hotel, que tem o melhor banho quente de Thamel, e fomos para o aeroporto internacional, onde uma imensa fila nos esperava. Uma taxa extra deve ser paga no aeroporto mesmo e em Rúpias. Ainda bem que tínhamos Rúpias extras no bolso.

 

Nosso vôo iria atrasar e tivemos de ficar diversas horas à espera do mesmo na sala de embarque. Uma marmita é servida pela companhia aérea, mas eu só toco no que estava em sacos plásticos fechados. Minha desconfiança dos lanches locais ainda estava viva no meu estômago e intestinos. Eventualmente embarcamos e fizemos a tradicional e caótica conexão em Abu Dhabi, onde esperamos mais umas 5 horas pela ponte para Paris. Horas essas que gastei praticamente no banheiro.

 

Chegados em Paris e depois em casa, na Suíça, eu ainda não tinha certeza de estar de volta. A mágica do EBC ainda estava em nossos corações e se fechasse os olhos podia me imaginar bufando e amaldiçoando as subidas de Deurali, Sete, Tengboche, Lukla, Namche, Cho la... Apesar de lentamente retornarmos à rotina do dia-a-dia e futilidades da vida, creio que nossa percepção da realidade mudou bastante. Depois do Nepal, creio que se tornou mais fácil lidar com a trívia e nos sentimos maiores e melhores enquanto pessoas.

 

Já sonho com a próxima vez. Quero ir ao Annapurna e gastar mais uns 30 dias nesse trek. Não tenho grana, não tenho tempo, não tenho condição física. Só tenho vontade, por isso: quem sabe?

 

O futuro dirá.

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