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EXPEDIÇÃO: NASCENTES DO RIO SÃO LOURENCINHO

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EXPEDIÇÃO: NASCENTES DO SÃO LOURENCINHO

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Quando às expedições selvagens à Serra do Mar começaram, ele praticamente me passou despercebido. Mas quando chegou a vez de desbravar o Rio Itarirú, ele logo saltou aos olhos. O Rio SÃO LOURENÇINHO era um rio diferente de todos até então, justamente por não seguir o mesmo curso da maioria dos rios que, ao percorrerem todo o planalto, despencavam violentamente nas bordas da Serra e ia terminar sua vida no grande Oceano Atlântico, mesmo que se juntando por um breve momento a outros rios. O São Lourencinho depois de se jogar do planalto, surpreendentemente, se enfiava nas entranhas de um vale gigantesco e mudava seu curso quase que total para oeste e correndo por dezenas de quilômetros, voltava aos vestígios de civilização indo serpentear por mais dezenas e dezenas de quilômetros em direção ao interior até finalmente se juntar ao grande Rio Juquiá, esse por sua vez, afluente máximo do Rio Ribeira do Iguape.

 

Não demorou muito para os estudos encima deste rio começarem e mais uma vez nos deparamos com os problemas de sempre: Informações inexistiam. As informações eram somente as obtidas através de observações através de satélites e aí é que a coisa complicava mais ainda. O rio só era visível somente nas bordas da Serra do Mar e no planalto pairava uma incógnita de uns 10 km no meio da floresta. Achar aquele rio no seu início seria praticamente impossível então teríamos que esquecer a parte do planalto e nos concentrarmos na parte visível do mapa, onde achávamos que estariam as grandes cachoeiras.

 

Juntei-me ao Luciano Lourenço, ao Décio Marques e sua mulher e fomos fazer uma primeira exploração a fim de localizarmos o dito cujo. Num final de semana qualquer picamos a mula para o bairro Pedra Lisa, um fim de mundo perdido a uns 20 km de Juquitiba. O Décio havia me contado que a mais de 15 anos atrás teria caminhado no que outrora fora uma tentativa de se ligar a região de Juquitiba ao litoral. A antiga estrada conhecida como Caminho do Maluf não vingou e a floresta não tardou a tomar conta do que lhe pertencia, mas vislumbramos a possibilidade de nos aproximarmos do Rio São Lourencinho através deste antigo caminho.

 

Deixamos o carro estacionado no final da SP 057, justamente o tal caminho inventado pelo político e que hoje não vai a lugar nenhum. Agora tentaríamos seguir o que sobrou da antiga estrada, abrindo passagem no peito e no facão. No começo até que está aberto por servir de passagem a alguns sítios clandestinos. Vai margeando um riacho, passa por uma lagoa e uns 3 km depois do local de onde partimos, chegamos à uma casa em meio a um vale pontilhado por pinheiros e um lago logo à frente. Aqui a estradinha acaba de vez e agora teremos que nos enfiar no meio da mata, com breves aberturas quando passarmos em mais um vestígio de uma casa que deve ter caído a dezenas de anos.

 

O Décio e a Antoninha nos acompanham por apenas mais 2 km e logo após, descermos o morro do escorrega, nos despedimos deles e seguimos na nossa missão de localizarmos o rio. O resto do caminho foi aberto no facão já que, como a gente imaginava, a antiga estrada não existia mais. Foram 3 km de sofrimento, de perde e acha o caminho até que no meio do nada, nem vestígio mais sobrou. Paramos imediatamente para traçarmos um plano.

 

O São Lourencinho só poderia estar do nosso lado direito e pensando nessa possibilidade metemos a cara num vale e fomos descendo e apostando que qualquer riacho dali para frente teria que ser afluente do grande rio, mas como a nossa intenção era apenas localiza-lo, e nos sobrava muito tempo, resolvemos acampar no encontro de dois vales e deixar para o dia seguinte o resto daquela exploração. Logo pela manhã não perdemos tempo, continuamos descendo por dentro do pequeno cânion, agora onde despencavam várias cachoeiras, do qual fomos vencendo sem muitas dificuldades e meia hora depois de onde montamos acampamento, tropeçamos no GRANDE RIO SÃO LOURENÇINHO, de águas cristalinas e poços profundos. Nossa missão havia sido um sucesso, agora era voltar para casa, montar uma grande expedição e tirar mais um rio da Serra do Mar do anonimato.

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Encontrado o rio, era hora de montar o grupo. Além dos amigos de sempre, vieram se juntar a nós uns três ou quatro novatos, muito porque, fica difícil mesmo dizer não quando alguns amigos convidam gente nova, mesmo que a muito tempo eu tenha chegado à conclusão que grupos grandes é um grande passo para o fracasso.

 

Sexta-feira, véspera do feriado da República, Eu e o Dema, vindos de Sumaré, interior Paulista, nos juntamos aos outros na Estação Faria lima, na capital do Estado. E é sempre um grande prazer rever esses amigos de outras grandes expedições e de perrengues passados: Loures, Prince, Décio, Luciano e os novatos Potenza, Natan, Wesley e Alan. Dez homens disposto a encarar um rio desconhecido e sem nenhuma garantia de sucesso, ainda mais com uma previsão de tempo totalmente instável, que nos prometia muita chuva a partir da segunda metade da expedição.

 

Agora todos juntos, embarcamos num micro-ônibus para Itapecerica da Serra, um daqueles lugares perdidos nas bordas da região metropolitana de São Paulo. De lá partimos em uma VAN que havíamos alugado e lá pelas onze da noite nos dirimimos para Juquitiba, mas nem chegamos até a cidadezinha propriamente dita, ao chegarmos no portal do Viva Parque, antigo Parque do Gugu, seguimos pela rua de terra em direção ao bairro da Pedra Lisa por uns 10 km, até que a péssima qualidade da estrada, pôs fim a nossa viagem motorizada.

 

Descemos no meio da madruga e no meio da escuridão nos pomos a caminhar pelo caminho barrento por mais ou menos uns 5 km até que a estrada se bifurcou. Na verdade, essa é a hora que ela para de correr em direção ao sul e toma o rumo leste, mas nossa caminhada vai continuar no rumo sul, seguindo pela lama, vamos andar por mais 600 metros até atravessarmos uma ponte com um riacho de águas cristalinas. A estrada faz uma curva subindo, desprezamos a bifurcação à direita (300 m) e em mais 500 metros a estrada acaba de vez e vai se transformar numa larga trilha/estrada. Mais um quilômetro vamos passar ao lado de um lago do nosso lado direito e em outro km tropeçamos num rancho que nos barra a passagem, não por haver cercas, mas por ter dois cachorros enormes vigiando o patrimônio.

 

 

Da outra vez quando passamos por ali, não havia moradores e nem cães barulhentos. Agora tínhamos que negociar a passagem e logo começamos a confabular para ver quem inventava a lorota mais convincente. O Luciano já pensou em se dar um diploma de biólogo, outros sugeriram coisas mais absurdas e eu já estava era mesmo com o fiofó na mão, com medo de não conseguirmos passar e termos que inventar um novo caminho para seguirmos na trilha. Não demora muito um facho de luz ofusca nossos olhos naquela madrugada cinzenta. O morador notou nossa presença e agora não tinha jeito, havia chegado a hora de encarar a fera, no caso, as feras, homem e cães. Mas para nossa surpresa um grito ecoou naquela noite escura. –“Pode passar, tô segurando eles”! Sem perder tempo saímos em disparada e como o cara parecia querer se livrar mais da gente do que nós dele, passamos voados sem trocarmos nenhuma palavra, além do corriqueiro obrigado.

 

A madrugada já ia pra lá da sua metade quando depois de caminharmos mais uns vinte minutos, chegamos ao que antigamente, muito antigamente, foi uma habitação e que hoje só existem as ruínas. Alguns resolveram montar suas redes, outros, suas barraquinhas, mas a grande maioria optou por dormir encima de um grande plástico jogado ao chão, apenas para descansar o esqueleto por miseras 3 horas até que o dia amanhecesse. Foi uma noite de cão, mas o dia que raiou, prometia ser ainda pior, pois já amanheceu chuvoso. Mesmo assim isso não foi suficiente para derrubar o ânimo da galera e os 10 integrantes da expedição partiram com disposição e bom humor, contando com a grande aventura que estava por vir.

A partir de agora nosso caminho se lança de vez mata à dentro e logo à frente cruza um riacho e entra numa trilha bem aberta e não demora muito vamos estar subindo o morro do escorrega, onde os mais espertos já se valem de um bastão de caminhada para não ficarem sambando no terreno. Vinte minutos depois saímos novamente em terreno aberto, junto a uma grande área tomada por samambaias rasteiras, do qual era possível avistar do nosso lado esquerdo um grande afluente do Lourencinho. Na verdade, avistar é modo de dizer por que apenas é possível ver um grande vale e ouvir que no seu leito corria um rio de grande expressão. Deixamos a Crista das Samambaias para trás e descemos até um vale, onde a trilha da uma guinada para esquerda ao chegar a um grande brejo, aonde da outra vez, atolei até o pescoço. Voltamos a subir, mas agora a trilha ficava cada vez mais fechada e se não fosse as fitas que havíamos deixado na incursão anterior, poderíamos ter algum problema de navegação. Chegamos ao alto, junto a um descampado e foi justamente aí que a tal estrada, que hoje nem trilha mais é, desapareceu. Nesse trecho foi onde começamos a nos encaminhar para os vales que vão se comunicar com o grande Lourencinho. Seguindo as fitas fomos varando certo mato ao lado de um barranco e quando chegamos ao seu final, descemos de vez em direção ao fundo desse primeiro vale e foi nessa descida que um fato relevante a essa expedição aconteceu.

 

Dos integrantes novatos que nos acompanhavam desta vez, dois me chamou muito a atenção. O Wesley por se apresentar com uma mochila três vezes maior que o recomendado e logo me veio à cabeça que esse seria mais um a distribuir parte de seus equipamentos para o resto do grupo e o outro foi o Alan, já que desse eu não sabia nada sobre suas experiências passadas nesse tipo de terreno. Foi justamente o Alan que, ao descer o terreno inclinado e escorregadio para acessar o fundo do primeiro vale, teve sua bota “importada de um país vizinho”, toda destruída, perdendo quase que praticamente todo o solado. Aquilo não era uma visão muito bonita de se ver, mas a chuva, que não parou por um só segundo, nos fez adiantarmos o passo para tentarmos chegar onde havíamos acampados da última vez, o que fez o Alam se arrastar descalço por mais uns 15 minutos, até pararmos por completo e armarmos uma tenda provisória para sairmos um pouco daquele molhaceiro dos infernos.

 

O caso da bota do Alan era uma coisa séria e ninguém sabia o que fazer. Seria uma expedição selvagem de no mínimo quatro dias e a situação era séria e estava claro que era impossível para ele continuar, mas o Alan se recusava a voltar sozinho e insistia em arrastar todo o grupo de volta, mesmo sendo a trilha que nos levou até ali toda marcada com fitas e agora, com a nossa recente passagem, toda aberta e de fácil localização. Como o grupo não deu sinal de que iria recuar somente por causa de uma bota rasgada, coube ao Alan tentar persuadir alguém a retornar, mas isso também não funcionou, já que todos ali haviam esperado por meses para estarem ali naquela expedição e ninguém queria perder aquela oportunidade única. Como aquele impasse não se resolvia, a única coisa que eu pude fazer foi sacar uma agulha de costurar couro que eu carregava já há 20 anos, que inclusive estava pra lá de enferrujada e me pôr a costurar aquele arremedo de bota e enquanto o céu desabava nas nossas cabeças, fui fazendo o trabalho ponto a ponto até que todo o solado voltasse ao seu devido lugar. Um trampo feito nas coxas, mas pela circunstância era no que eu poderia ajudar.

 

Por hora o problema da bota estava solucionado, mas estava na cara que aquele pisante não iria muito longe, mesmo assim não nos restava outra coisa senão continuarmos pelo menos até interceptarmos o grande Rio Lourencinho. Botamos as mochilas às costas e fomos descendo aquele ultimo vale, que diferentemente do que encontramos da outra vez, agora estava tomado por cachoeiras bufantes devido a intensidade do temporal que despencava. Levamos o dobro do tempo para desescalar as cachoeiras e quase uma hora depois, tropeçamos de vez no incrível rio que buscávamos. Ali estava ele, grandioso, selvagem, unicamente lindo, como todos os rios inacessíveis desta região. Suas águas não estavam mais cristalinas como da primeira vez, tudo culpa da chuva que momentaneamente arrastava sedimentos para o seu leito, mas o São Lourencinho estava ali a nos chamar para uma grande aventura e nós ainda não havíamos decidido aceitar, era hora de nos sentarmos e ponderar os perigos diante de um tempo instável e da possibilidade de algo dar errado.

 

Debaixo de um aguaceiro gigante, pairou-se um silêncio ensurdecedor. Estava na cara que a maioria queria descer o rio, mas também sabíamos que a situação estava mesmo feia. A possibilidade de a gente se dar mal era mesmo grande, já que a tal previsão do tempo que nos daria dois dias de tempo bom, havia furado. Diante de tudo que vinha nos acontecendo, parecia que era bem obvio que teríamos que enfiar os rabos entre as pernas e bater em retirada, ainda mais porque ninguém se prontificou a voltar com o cara da bota “fudida”. Parados ali, debaixo daquele temporal, eu já estava virando um picolé de tão gelado e era preciso se decidir rápido. Eu tinha certeza que se estivéssemos em um grupo um pouco menor e sem os problemas já citados, teríamos ariscado descer, mesmo correndo o risco de nos darmos muito mal, mas a decisão foi mesmo de voltar. Bom, se íamos voltar, não precisava ser naquele dia mesmo, poderíamos acampar, sair do perrengue, fazermos um belo de um almoço e batemos um papo protegidos das agruras do tempo inclemente. Melhor ainda, ao invés de voltarmos pelo mesmo caminho, poderíamos subir o rio e ir conhecendo novos caminhos, já que naquele planalto, o rio deveria ser bem calminho e tranquilo para uma bela caminhada. Sem saber, essa minha ideia estúpida acabara de nos enfiar em mais uma enrascada e se era aventura que a gente havia ido buscar, então seria AVENTURA que a gente encontraria. “- NÃO FORAM PARA ISSO QUE VOCÊS VIERAM, SEUS DESGRAÇADOS! “( rsrsrsrsrsrsrsr)

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Decidido que partiríamos somente no dia seguinte e voltaríamos explorando o rio até suas nascentes, tratamos logo de procurar um lugar para acampar e sair do molhaceiro. Mas no lugar onde estávamos não tinha a menor condição de acampar, muito porque havia dois integrantes que levaram barracas ao invés de redes, como é o indicado para essas expedições. Resolvemos então começar a subir o São Lourencinho até encontrarmos uma área mais favorável.

 

O rio está bufando, muito diferente do que encontramos na primeira incursão, onde pegamos a água cristalina e poços profundos de águas translúcidas. Logo de cara somos obrigados a cruza-lo para sua margem direita a fim de escaparmos das fortes correntezas mais à frente. Dez minutos de caminhada nos leva a uma pequena queda, que, por o rio estar cheio, despenca fortemente em mais um poço. Todo o grupo se manteve na margem direita do fluxo do rio, esquerda subindo, mas o Wesley tomou o caminho da outra margem. Logo depois de uma pequena curva o rio ficou reto e foi aí que começamos a perceber que esse rio ia nos surpreender, passando longe de ser aquele rio calmo e manso que pensávamos encontrar. Essa sequência de pequenas quedas era mesmo deslumbrante e dava ao Lourencinho um ar de selvageria inigualável. Escalamos a primeira queda e fomos seguindo, apreciando aquele espetáculo e quando menos esperávamos, surgiu à nossa frente mais outra grande cachoeira. O Wesley ainda se mantinha separado do grupo e foi aí que ele notou que tinha se ferrado e agora tentava a qualquer custo se junta a nós novamente. Mas nada que ele tentasse parecia dar certo, já que a correnteza aumentava cada vez mais e foi aí que resolvemos intervir, jogando-lhe uma corda para poder tirá-lo da enrascada em que havia se metido. Finalmente o grupo estava unido novamente.

 

Estávamos encravados dentro de um cânon e percebemos rapidamente que seria impossível acampar por ali, tínhamos que continuar caminhando até tentar encontrar uma área mais plana, mas eu comecei a perceber que a coisa ia ficar mesmo feia. Aquelas cachoeiras surgiram de repente, ninguém imaginava que nesse trecho de planalto pudesse haver quedas d’água daquele tamanho, muito porque no mapa de satélite só apareciam florestas e nada mais, aquilo era mesmo impressionante. A chuva continuava a despencar e não parava por um só minuto, mas precisávamos continuar caminhando, na verdade, escalando, já que era preciso vencer as grandes quedas nos pendurando nos barrancos lisos, nos segurando em vegetação solta e espinhudas. Essas escaladas são sempre tensas por estarmos sempre à beira de precipícios, tentando nos manter grudados à parede com nossas cargueiras às costas.

 

Vencido mais um barranco, surgiu à nossa frente mais uma sequência de cachoeiras enormes e uma dessa sequências nos chamou a atenção por conta de duas cachoeiras que juntas poderiam dar quase uma centena de metros. Paramos imediatamente onde estávamos. Reunimos a galera para admirar aquele espetáculo magnífico e para o meu azar, minha câmera que já dava sinais de que abriria o bico, pifou de vez, não aguentou tanta água e veio a falecer em seguida. Bom, foi se minha câmera, mas o desafio ainda permanecia: Teríamos que escalar uma parede gigante pra tentar passar por aquela sequência de quedas. O Prince tomou a dianteira e perigosamente passou ao lado de um grande abismo mais escorregadio que piramboia ensaboada. Viche ! Aquilo era mesmo perigoso, um simples descuido e o cabra ia virar dublê de pica-pau, descendo nas cataras, mas sem barril. Mas logo o Prince sacou uma corda e fez a segurança da galera. Mesmo assim, depois que eu passei, fiquei muito preocupado com alguns integrantes menos experientes. Aquilo ali não era brincadeira não. Chegamos ao grande poço da primeira queda e ficamos imaginando como seria fantástico se o tempo estivesse sem chuvas, aquilo deveria se transformar em um grande poço de águas cristalinas e calmas, mas por hora era um monstro que rugia e desafiava nossos nervos.

 

Acampar ali perto daquele monstro de águas barrentas estava fora de cogitação, então nos restava somente tomarmos mais uma vez o rumo das grandes paredes laterais do lado esquerdo do rio. Parte da galera tentou subir mais peto da cachoeira, mas logo perceberam que aquele caminho não daria em nada. Então restou a eu mesmo assumir a tarefa ingrata de seguir à frente, subindo numa diagonal quase vertical. A chuva não parava e o moral da equipe já tinha descido a níveis consideráveis, estava na cara que todo mundo queria parar para acampar, queria sair daquele molhaceiro dos infernos, queria se alimentar com uma comida quente, mas na serra do Mar, querer não é poder. Enquanto eu subia, sempre ia de olho em algum lugar para acampamento, mas cada passo que eu dava, só encontrava terreno fechado, íngreme e escorregadio, aonde os cipós iam cada vez mais minando minha energia e a de todo o grupo que vinha atrás. Quando cheguei a uns 300 metros acima do nível do rio, encontrei um corredor junto a um barranco. Não mais que meio metro entre a encosta e o abismo, mas acostumado com esse tipo de terreno, me apeguei a ele até que chegamos muito mais acima e vendo que era hora de pegar outra diagonal, mas agora para baixo, parei para que todo o grupo se juntasse novamente.

 

O sofrimento era coletivo. A gente que pensava apenas em achar um lugarzinho para montar nosso acampamento e passar o resto do dia comento e batendo papo, nos vimos num baita de um perrengue, que parecia não chegar ao fim. Eu já estava destruído, meu joelho que já havia entrado nessa expedição meia boca, agora era só um “órgão” imprestável e de pouca utilidade grudado na minha perna. Pedi para que o Prince tomasse a dianteira, mas ele fingiu que nem ouviu e fez menção para que eu continuasse o trabalho que havia começado. Resignado na minha condição, peguei uma diagonal barranco a baixo e fui me jogando em direção ao que parecia uma clareira. Ao chegarmos nessa área aberta, junto a uma pequena cachoeira que despencava de um afluente, não tive dúvidas, já disse que por mim ficaríamos ali, era um terreno imprestável mais mesmo assim daria para tentar acomodar todo mundo. Infelizmente eu havia me esquecido que dois dos integrantes estavam com barraca, coisa totalmente não recomendável para esse tipo de expedição, mas enfim, não era hora de lamentar e quando o Loures, que tinha continuado descendo até o rio, gritou que daria para montar as barraquinhas onde ele estava, descemos todos correndo nem sua direção e ao chegarmos lá, jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado aquele dia de caminhada.

 

Enfim, estávamos agora em um lugar que transformaríamos em um acampamento, mas aquele lugar não passava de um espaço medíocre. Havia poucas árvores em condições de nos abrigarmos com um mínimo de decência. O chão era todo irregular e os caras com barraca tiveram que se virar para poder encontrar alguns palmos de terreno plano. A chuva continua a nos castigar, sem dó e nem piedade e estava na cara que todo mundo não via a hora de sair daquele molhaceiro. Cansados, montamos nossas redes de qualquer jeito e fomos tratar de cuidar do jantar e até esse ofício acabou por se tornar um martírio diante daquele local todo enlameado. Cozinhamos de qualquer jeito e já nos jogamos nas nossas redes, para descobrir algumas horas depois que havíamos feito mesmo um serviço nas coxas. A chuva havia aumentado e água que escorria pelo tronco das árvores acabou encharcando as nossas redes e nossos sacos de dormir, coisa que fez até o Dema, cara que sempre foi pau para toda obra, ficar desesperado feito um bebe chorão, dizendo que quando amanhecesse iria sair daquele lugar arrastando mato no peito até encontrar uma estradinha que havíamos descoberto no mapa. Diante da situação não nos restou alternativa, se não, a de pularmos da nossa cama de mato e enfrentarmos a chuva para instalarmos alguns mosquetões nas cordinhas da rede para repararmos nossa incompetência .

 

Se a noite a chuva não deu trégua, o dia que amanhece em nada mudou. Desmontamos tudo e partimos e na cabeça, a esperança de conseguirmos chegar às nascentes principais do rio ainda naquele dia. O nosso GPS nos mostrava que ao norte existia sim uma estradinha, mas de qual estradinha se tratava, não tínhamos a menor ideia, apenas sabíamos que era uma estrada para jeep, encravada no meio da floresta a não mais de 2km de onde estávamos, mas todos nós sabemos que varar mato , tendo que subir paredes gigantes poderia levar um dia inteiro, então o melhor a fazer era tentarmos avançar por dentro do rio mesmo e se por acaso ele tomasse outro rumo que se afastasse do nosso caminho, aí sim o abandonaríamos e seguiríamos para a tal estrada.

O rio é o nosso caminho e é por ele que vamos seguindo, até que não demora muito, uma grande rampa d’água nos salta aos olhos. Trata-se de uma grande cachoeira de uns 100 metros de comprimento. Fomos escalando as paredes laterais e quando chegamos ao topo, nos sentamos para apreciar aquele espetáculo molhado. Por incrível que pareça, mesmo tendo que enfrentar um dilúvio logo pela manhã, a cara de felicidade de cada membro daquela expedição era visível. Aquele acidente geográfico em forma de cachoeira era mesmo uma joia perdida no centro selvagem da Serra do Mar. Todo mundo ficou eufórico e até as agruras do tempo haviam ficado para trás e nessa hora fiquei muito chateado de não ter uma câmera para registrar aquela paisagem.

 

Depois da grande CACHOEIRA DA RAMPA, felizmente o rio começou a nivelar de vez e o cenário que ia se descortinando à nossa frente era cada vez mais bucólico. Era uma floresta exuberante, onde hora caminhávamos pela margem do rio, hora era preciso que usássemos o próprio leito como caminho.

 

Chovia de cima, chovia de lado, era chuva com vento, era chuva grossa, era chuva fina. Como que saídos de um filme do Vietnã, uma dezena de homens se arrastava por dentro de um rio gelado numa manhã de novembro. Resignados com aquela situação do qual eles mesmos eram os responsáveis, pouco conversavam entre si e o silêncio só era quebrado quando alguém gritava para que o grupo novamente se agrupasse ou quando alguém caia dentro de algum poço mais profundo e dava um berro amaldiçoando a má sorte de novamente se ver atolado no fundo lodoso do rio. O rio ia ficando cada vez mais estreito e até então não passava de um córrego quando finalmente encontramos um vestígio de trilha saindo à direita do rio. Não havia dúvidas, aquele era um caminho de palmiteiro e como a direção nos pareceu favorável, achamos que ele poderia nos tirar do meio da floresta e nos levar de volta à civilização.

 

A tal trilha em 10 minutos nos levou direto para um acampamento de palmiteiros /caçadores. Uma grande lona cobria um muquifo fedorento, onde havia alguns colchões espalhados pelo chão e uma espécie de cozinha improvisada. Como a chuva ainda nos fazia raiva, aproveitamos o local para um breve descanso e para comermos algo. Por incrível que pareça essa trilha apenas cortou caminho e acabou nos levando de volta ao rio São Lourencinho, ou pelo menos ao que sobrou dele. Abandonamos então o decrépito abrigo, pulamos o rio e fomos seguindo pelo caminho de palmiteiros, mas sempre atentos para não nos perdemos nas inúmeras trilhas que cruzavam o caminho principal, até que novamente voltamos a reencontrar o rio e nos valendo das coordenadas do GPS, pegamos para a esquerda até tropeçarmos numas quedinhas d’água e esse foi o momento que nos despedimos do nosso rio, subindo por outro rastro de trilha que em menos de 15 minutos nos levou a grande estrada barrenta, havíamos então cumprido com nossa missão, as nascentes do GRANDE LOURENCINHO, haviam sido exploradas e descoberta.

 

A chegada à estrada foi muito comemorada, mas sabíamos que o nossa caminhada estava muito longe de terminar. A estrada em questão não passava de um rasgo no meio da floresta, onde somente os super veículos 4 x 4 poderiam passar e do jeito que estava, naquele dia ,nem tatu de chuteira se aventuraria por lá. Pegamos a direção para a direita e por 7 km nos arrastamos naquele barro grudento, onde minhocoçus gigantes faziam a festa, desfilando ao ar livre, “pagando” de cobra. Nos primeiros 2 km da estrada nos deparamos com um surpreendente galpão para pratica de rituais religiosos, mas que pela condição do caminho, só poderia estar vazio mesmo, pelo menos de gente viva, vai saber né, ssrsrsrsrsr.

 

Gastamos menos de 2 horas para percorrer aquela estrada, que para nossa surpresa, foi se juntar a estrada principal do qual havíamos acessado o nosso caminho na sexta à noite. Ela foi sair bem perto do rio onde havíamos cruzado a pontinha e esse foi o momento em que os corajosos aproveitaram para tomar um belo de um banho para tirar o barro do corpo. Limpinho novamente, ou quase, ainda tinha uns 16 km de caminhada até voltarmos novamente para a rodovia, porque no domingo não há ônibus partindo do bairro Pedra Lisa em direção a Juquitiba. Acontece que todo mundo já estava acabado fisicamente e a todo o momento tentávamos pegar uma carona, mas sempre sem sucesso. Até que numa curva do caminho trombamos com um cara que dizia ser dono de uma pequena caminhonete, mas que por sermos muito, não poderia carregar a todos e foi só quando falamos a palavra mágica (dinheiro) foi que o cara se animou a jogar todo mundo encima do veículo e nos desovar na rodovia, bem enfrente a um ponto de ônibus e de lá cada um partiu para seu destino, combinando de em 2017 se juntarem novamente para mais uma vez tentarmos tirar aquele rio do anonimato, mas desta vez com uma descida completa até as moradas dos homens que habitam a planície litorânea.

 

O RIO SÃO LOURENCINHO é um rio selvagem, nasce no meio do nada, sem nenhum contacto com a raça humana. Tem a mais pura das águas e como todos os outros rios selvagens deste fantástico ecossistema chamado Mata Atlântica, não se deixa conquistar tão facilmente e é certo que será preciso mais uma grande expedição para poder revelá-lo definitivamente ao mundo. Nesse momento nossos olhos já estão voltados novamente para ele e por hora ele continua fazendo parte do LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA, mas ele mesmo já deve estar ciente que é só questão de tempo, ele já sabe que já estamos com a faca nos dentes prontos para risca-lo definitivamente da nossa lista, sua intransponibilidade também só é questão de tempo para ser vencida.

 

Divanei Goes de Paula / novembro - 2016

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