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SamuelSchw

Patagônia em 26 dias (dez2015/jan2016), Circuito O em 7 - Planilha de custos.

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Saudações, povo da mochila.

 

O relato que segue refere-se à uma viagem realizada há um ano atrás (ontem exatos 365 dias que finalizei o Circuito O!). Devido à correria da vida e uma promessa de que parte dele sairia em uma revista de escalada e montanhismo, acabei não publicando antes. Apesar de possíveis mudanças nos preços e regras de visitação, possui uma série de informações relevantes em um texto que lembra um diário sobre essa viagem de 26 dias (de 25/12/2015 a 18/01/2016) passando por Ushuaia, Punta Arenas, Puerto Natales, El Chaltén, El Calafate e ainda uma curta passagem por Buenos Aires. Foram mais de 200 km de trilhas percorridas, sendo o objetivo principal da viagem o circuito O em Torres del Paine. Para ajudar na coleta de informações pelo amigo leitor, aquelas que considero chave ou relevantes estão em negrito.

 

O relato está dividido em quatro partes: I- Informações Gerais; II- Ushuaia a Puerto Natales; III- Torres del Paine - Circuito O; IV- El Calafate, El Chaltén e Buenos Aires. Caso deseje informações mais objetivas ou não deseje ler a totalidade das palavras e devaneios deste que vos escreve, sugiro ler somente a Parte I e esta planilha resumo, além da Seção “Dicas”, da Parte III.

 

PARTE I - INFORMAÇÕES GERAIS

Lembro de quando ouvi sobre e vi imagens da Terra do Fogo pela primeira vez em uma reportagem do Globo Repórter. Tinha uns 12 ou 13 anos e o nome Terra do Fogo me pareceu misterioso, místico, atiçando minha curiosidade. Depois de muito tempo habitando minha mente, a viagem começou a tomar forma. Inicialmente programada para acontecer no final de 2014, uma mudança de emprego e de cidade resultou no adiamento por um ano, mas todo o roteiro já estava traçado, sendo necessário apenas atualizar o orçamento e buscar algumas informações adicionais. A essa empreitada, juntaram-se dois amigos do grupo Trekking Brasília: Luzardo Alves e João Paulo Marques

 

Passagens

Como minha família passaria o Natal em Campinas, acabei comprando diferentes trechos de voo: Brasília-São Paulo (ida e volta, Gol), São Paulo-Buenos Aires (ida e volta, TAM), Buenos Aires-Ushuaia (ida, Aerolíneas Argentinas) e El Calafate-Buenos Aires (ida). Os trechos São Paulo-Buenos Aires e El Calafate-Buenos Aires foram adquiridos por pontos, sendo o primeiro um generoso e bem-vindo presente de meu pai que estava com vários pontos acumulados e nenhuma perspectiva de usá-los no curto prazo. O trecho Buenos Aires-Ushuaia custou R$ 850,00.

 

Dinheiro/Câmbio

Optei por levar dólares, alguns reais e cartão de crédito. Quando comprei as passagens, o dólar estava na casa dos R$ 3,40 e para meu desespero começou a disparar. Atento às projeções pessimistas, e que se concretizaram, fiz questão de comprar dólares assim que possível e consegui comprar a R$ 3,80. Embora muitos recomendem realizar câmbio em Buenos Aires, essa não era uma opção viável dentro de nosso itinerário. Graças às decisões do Macri de acabar com o controle cambial, a cotação oficial do dólar estava US$ 1,00 = AR$ 13,00, nenhuma discrepância significativa da paralela. No dia 25/12 o real estava bem valorizado ante ao peso (R$ 1,00 = AR$ 4,50). Se fosse possível prever, teria levado reais e ficaria uma manhã apenas para cambiar. Nos dias seguintes, entretanto, o real começou a cair. Na região patagônica, levar dólares ou reais seria equivalente pois o câmbio era R$ 1,00 = AR$ 3,50 e US$1,00 = 12,50 a 13,50. No Chile o câmbio estava em média R$ 1,00 = CH$ 180 e US$ 1,00 = CH$ 650 a 700.

 

Mochila

Fui com minha Curtlo Mountaineer 60+15 velha de guerra. Excelente mochila. Para uma viagem como essa e para realizar o circuito O de forma autônoma recomendo no mínimo uma mochila de 60 Litros. Como fui com câmera DSLR, duas objetivas e tripé, os 15 Litros a mais foram muito úteis. Nessa viagem apliquei uma dica que li no livro Manual de Trekking e Aventura, do Guilherme Cavallari para proteger a mochila no avião: colocá-la em um saco. Eu usei um saco plástico grosso, mas pode usar um saco de fertilizante ou de batata. São leves e você pode guardá-lo dobrado na mochila. Como algumas companhias aéreas ou não fornecem mais sacos plásticos para embalar a mochila ou fornecem sacos de litragem pequena, recomendo fortemente para proteger tanto a mochila quanto a capa de chuva.

 

Transporte Terrestre

Entre as cidades, viajamos por empresas de transporte, mas é completamente possível fazer essa viagem de carona. Conheci várias pessoas que estavam viajando dessa forma e constantemente revia na próxima cidade alguns cidadãos que vi à beira da estrada. Se o amigo leitor dispuser de tempo e vontade, acredito que valha muito a pena não apenas pela economia, mas pela própria experiência em si

 

Disponibilizo aqui link para planilha com o roteiro executado, preços, itens levados. Se tivesse mais alguns dias teria ido a Los Antiguos e a Chile Chico.

 

PARTE II - USHUAIA A PUERTO NATALES

O voo para Buenos Aires partiu de São Paulo. Antes do embarque aproveitei para passar no posto médico do aeroporto para ter um parecer sobre um calombo que surgiu na minha coxa esquerda, mas que era apenas uma inflamação dos folículos pilosos, exigindo apenas uso de um antiinflamatório (Profenid 100mg ). Esta é a segunda vez que faço uso dos serviços médicos dos postos dos aeroportos e deixo a dica ao amigo leitor. O atendimento é bom e gratuito.

 

Na sala de embarque encontrei o Luzardo. Partimos de São Paulo no dia 25/12, às 18:30, com uma hora de atraso e chegamos às 20:10 em Buenos Aires, onde encontramos o João. Aproveitamos para fazer câmbio de US$ 100,00 no aeroporto. Luzardo e João pegaram um táxi para dar uma volta em Puerto Madero e eu fiquei no aeroporto. Comi um lanche extremamente caro no piso superior, AR$ 126,00 por uma baguete e uma sprite, e depois fui descansar. Às 4:00 fizemos o despacho das malas e às 5:35 o avião decolou.

 

USHUAIA

26/12. Cheguei em Ushuaia às 9:10. João e Luzardo chegaram cerca de 20 minutos depois. Pegamos as malas, um mapa no balcão de informações e, após apreciar por uns minutos a bela cadeia de montanhas que guarda a cidade, tomamos um táxi para nos levar até o Hostel Antarctica ao custo de $115. Recomendo fortemente o Hostel Antarctica. Ambiente legal, equipe atenciosa e acolhedora, boa estrutura e café da manhã reforçado. Destaque para o fato de que o hostel fornece ovos e o hóspede prepara à sua maneira. A diária estava $260 e o público é variado, viajantes solitários, casais jovens e idosos, famílias, uma das quais me permitiu praticar o alemão durante uma boa conversa.

 

Para esse dia não havíamos planejado nada. Por sugestão do recepcionista do Hostel, acabamos comprando o passeio para a Laguna Esmeralda por volta das 11h, ao custo de $250, ida e volta. Recomendo. É uma trilha leve e o lugar é realmente belo. Quando retornamos ao estacionamento, havia ainda 1h até nosso transfer chegar. Para nossa surpresa, uma senhora que realiza transfers por outra empresa nos viu e ofereceu transporte, de graça e ligou para a outra empresa, e ainda ganhamos croissant e café. De volta à cidade aproveitamos para fazer compras no mercado e garantir nossa janta e almoço para os próximos dias, por preço bem mais em conta que os dos restaurantes.

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27/12. Domingo. Grande parte das lojas e mercados fechados, o que impediu-nos de comprar a passagem para Punta Arenas. Cedo pela manhã fui efetuar o pagamento do passeio do Beagle Channel (Islas de los Pájaros, Lobos, Farol e descida na Isla Carello) o qual reservei antecipadamente por email com a Canoero (http://www.catamaranescanoero.com.ar/principal.htm) para as 15:30 daquele dia. Aproveitei para pedir desconto, visto que seriam 3 pessoas e consegui baixar de $750 para $700. $50, não muito no total mas já ajudava em alguma coisa. Dei uma caminhada na cidade ainda adormecida e voltei ao Hostel para encontrar os piás e ir ao Presídio.

 

Presídio. O ingresso custou $150. Já há bastante informação disponível sobre o Museu, me limitarei a dizer que eu gostei e acho um passeio bem válido para se conhecer a história de Ushuaia e da navegação. Detalhe para os mapas e cartas náuticas antigas e a seção dedicada aos Yamanas, povo original da região, já extinto.

 

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Beagle Channel. Escolhi o horário da 15:30 por conta da luz começar a perder intensidade nesse horário e não estourar as fotos. No fim, com o tempo nublado ficou ainda melhor. Enquanto esperávamos a partida, Luzardo resolveu brincar que seria fácil fazer novos amigos brasileiros. Ao falar alto “Brasil? Alguém?”, atrás dele havia um brasileiro, Daniel, com o qual fizemos amizade e trocamos ideias sobre os planos de viagem. Ele estava viajando solo, de moto, e iria também para Torres del Paine. Acabou que combinamos dele nos informar por email se as lojas de aluguel de equipamento estariam abertas no dia 01 de janeiro e o preço dos equipamentos. O passeio do Beagle Channel também é bem conhecido e há muita informação disponível a respeito. É um passeio bem tranquilo, padrão, mas vale a pena. O lugar é realmente bonito e instiga a imaginação. O tempo estava fechado e o vento frio. A descida na Isla Carello é interessante para se conhecer o ecossistema e imaginar como os nativos sobreviviam na região. Voltamos à Ushuaia depois das 18 horas.

 

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28/12. Acordamos cedo para garantir as passagens para Punta Arenas. Pensamos em adiantar 1 dia e sair de Ushuaia em 29/12, para chegar em Puerto Natales no dia 31. Depois de rodar todas as agências de viagem (não existe uma rodoviária com balcões das empresas), tivemos que voltar ao planejamento original e compramos para o dia 30/12. Minha recomendação ao amigo leitor é que compre as passagens para Punta Arenas assim que chegar em Ushuaia, se seu planejamento não for flexível.

 

Cerro Martial. Como perdemos a manhã, resolvemos deixar o Parque Nacional para o dia seguinte e fomos ao Cerro Martial. Nos juntamos a outra brasileira, Clara, e pegamos um táxi até a entrada ($135). A vista é bacana e o lugar vale uma visita se você tiver tempo, mas não consideraria um must-see. Pegamos um táxi por $120 até o centro de Ushuaia. Sinceramente, acho que teria valido mais a pena dedicar esse dia ao Parque Nacional, pernoitando lá e subindo o Cerro Guanaco, pois achei um dia pouco para o Parque.

 

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29/12. Parque Nacional Tierra del Fuego. Tiramos o dia para o Parque. Saímos no ônibus das 10 e pouco, mas recomendo sair no primeiro transfer. O custo foi $370 ($270 transfer + $100 tarifa Mercosul). Fomos até o Correio del Fin del Mundo, para em troca de alguns dólares - 2 ou 5, não lembro ao certo - obter o carimbo no passaporte. Lá vimos a lancha sendo carregada com cartas e postais e deixando a margem do lago. Fizemos a Senda Costera, que margeia a Bahia Lapataia. Entretanto não fomos até Puerto Arias, indo somente até a Laguna Negra e retornando no penúltimo ônibus.

 

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PUNTA ARENAS

30/12. Ushuaia-Punta Arenas. Saímos cedo para pegar o ônibus para Punta Arenas. Os ônibus saem de um pátio na Av. Maipú, entre as ruas 25 de Mayo e Fadul. Nosso ônibus saiu às 5:30. Viagem longa mas com belas paisagens, clipes de músicas românticas e de sofrência que fariam Pablo sentir inveja, e passagens de fronteira com guardas mais preocupados com seu Whatasapp do que com as imagens do Raio X. Chegamos em Punta Arenas perto das 18h e fomos providenciar Câmbio. Há duas casas de câmbio próximas ao ponto de parada do ônibus. Na verdade, ficam na mesma quadra/rua (Colón) da oficina da Bus Sur. Câmbio feito, fomos providenciar a passagem para Puerto Natales na Bus Sur, ao custo de $6.000. Ao lado do balcão da BusSur há um balcão de empresa de turismo. Nosso plano era fazer a Pinguinera clássica (ilhas Marta e Magdalena), entretanto o atendente nos ofereceu o passeio do Pinguim Rei, dizendo que era mais completo, sendo possível avistar lobos marinhos e baleias. Enquanto a Pinguinera custava $35.000, o passeio do Pinguim Rei custava $60.000 ($12.000 são pagos na entrada da reserva). Com certa relutância mas confiando no vendedor, acabamos comprando o passeio do Pingüim Rei, que na verdade, se mostrou não um passeio mais completo, mas um completamente diferente da Pinguinera e da propaganda feita. Explicarei nos próximos parágrafos.

 

Saímos da BusSur e fomos em direção ao hostel que havíamos reservado, o Samarce House. Depois de andarmos alguns bons minutos e não encontrarmos, resolvemos pedir ajuda em uma lavanderia. A dona da lavanderia foi bastante solícita, tentando inclusive ligar para o hostel, sem sucesso. Ao ver a foto da fachada do Hostel, ela percebeu que se tratava de uma casa ali perto e descobrimos que o endereço na internet estava errado. O Hostel fica, na verdade, na Av. España, 940. Ao chegarmos achamos o local com cara de abandonado, uma perfeita casa para um filme de suspense ou terror, mas o lugar é aconchegante e limpo. O café da manhã é reforçado, servido, pelo menos num dos dias que lá ficamos, pelo próprio senhor Samarce, um sujeito simpático e conversador. A diária lá custou $11,000. Recomendo!

 

Deixamos as malas e pegamos um táxi ($2000) até a zona franca, pois pensávamos em comprar alguma coisa, mas só compramos o gás para Torres del Paine. Confesso que esperava maior variedade de marcas e produtos, mas algumas coisas realmente valem a pena lá, como por exemplo, as barracas Doitê. Aproveitamos e fomos ao mercado ao lado comprar a janta e suprimentos para Torres del Paine, e saímos de lá no fim do expediente. A essa hora há poucos táxis e poucos ônibus. Felizmente demos sorte de encontrar um taxista ainda no estacionamento e voltamos até o centro da cidade ($2350). De lá seguimos a pé até o Hostel e por lá ficamos.

 

31/12.

Eram por volta das 7:30 quando o ônibus que nos levaria à pinguinera chegou. Fomos muito bem recepcionados pelo motorista e dono da agência, um sujeito bonachão, simpático e divertido, e o guia. Passamos buscar os demais participantes e aí seguimos. Como mencionei acima, este é um passeio completamente diferente do oferecido pelo vendedor, e completamente diferente da Pinguinera das ilhas Marta e Magdalena. O passeio foca em dois temas: a história do povo Selknam, um dos povos originais da ilha e exterminado pelos colonos, e no Pinguim Rei. É de fato interessante, mas passa-se muito mais tempo na van do que qualquer outra coisa. Cruza-se novamente o Estreito de Magalhães e retorna-se à Isla Grande de Tierra del Fuego, em direção ao município de Porvenir, onde há um pequeno mas interessante museu. Lá o guia contou sobre a história da região, realmente interessante, mas pesada e sanguinária e não consta nas páginas oficiais do Chile. O povo Selknam foi exterminado com direito à caçada e troca de orelhas, cabeças e seios por dinheiro, tendo a última representante falecido nos anos 60 ou 70. De lá segue-se para a Reserva do Pingüim-rei, com uma parada em uma panificadora, onde comprei uma deliciosa empanada por $1000. A partir daí é estrada e mais estrada, até chegar na reserva, que é privada. O pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus) está voltando a colonizar a região da Bahia Inútil após ter sumido devido à caça e captura. Os bichos são realmente belos, sendo a segunda maior espécie de pinguins, atrás apenas do pinguim-imperador, (aquele do filme Happy Feet). Ao contrário da pinguinera clássica, aqui há cercas que delimitam a área onde o turista pode ficar, sendo impossível o contato direto com os animais, o que é positivo para não prejudicar a recolonização e não influenciar o comportamento ou saúde dos animais De lá, retorna-se para Punta Arenas, cruzando novamente o Estreito, o que dessa vez foi recompensador pelos vários golfinhos-de-commerson (Cephalorhynchus commersonii), com seus saltos e mergulhos sincronizados. Minha opinião sobre o passeio: É um passeio interessante, mas caro. Se o amigo leitor dispõe de tempo e dinheiro, ou quer muito ver essa espécie, que vá, pois é uma oportunidade única de vê-la. Caso tenha apenas um dia, como nós, e seu objetivo é chegar mais perto dos animais e tirar selfies, o passeio das ilhas Marta e Magdalena valerá mais a pena, além de ser $25.000 mais barato, um dinheiro que faz falta numa viagem. (http://www.pinguinorey.com/index.php ; http://turismoselknam.cl/)

 

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Retornamos a Punta Arenas próximo das 20 horas. Depois de tomar banho e descansar um pouco, começamos a pensar no que faríamos na noite de Reveillion. Decidimos por jantar e depois ir para a festa de virada na avenida. Entretanto, não foi fácil encontrar restaurantes aberto e com mesas disponíveis, pois os poucos necessitavam ter feito reserva. Acabamos encontrando o Submarino Amarillo, na Colón, e por lá ficamos. O local é um bar e restaurante, e também hotel, com temática rock´n´roll clássica e recebe apresentação de bandas. Pedi um salmão com purê de batatas e uma coca-cola, ao custo de $11.700. Indico o lugar.

 

Saímos do bar rumo à concentração de pessoas. O clima no local estava agradável, bastante familiar. No microfone, o mestre de cerimônia animava o público, perguntando volte e meia quem iria “carretear hasta las 5 de la mañana”, ao que o povo respondia alegremente. Depois da contagem regressiva, dos fogos e da comemoração, uma banda local animou a festa, tocando inclusive IlarilariÊ. Para nossa surpresa e contrariando o discurso anterior, às 1h da manhã a música cessou, o mestre de cerimônia encerrou a festa e o povo foi para as suas casas. Voltamos ao hostel, arrumamos as mochilas e dormimos.

 

PUERTO NATALES

Partimos de Punta Arenas rumo a Puerto Natales no ônibus das 10 da manhã e chegamos por volta das 13:30. Assim que desembarcamos, fizemos o que todos devem fazer de imediato: providenciar o translado até o Parque Nacional. Apesar de termos planejado iniciar o circuito pela manhã do dia 02, decidimos pegar o ônibus das 14:30 para Torres del Paine, pois ainda precisávamos comprar mantimentos. Tomamos essa decisão tranquilamente pois durante a viagem de Ushuaia para Punta Arenas um holandês que havia feito o O confirmou que, mesmo indo ao parque no ônibus das 14:30, era totalmente possível completar o primeiro trecho ainda com luz. Conseguimos por $12000 negociando na Via Paine (O preço normal é $15000). Negociando desconto em outra empresa, me responderam sarcasticamente que se eu não quisesse comprar não teria problema, pois os ônibus sempre partem cheios, outros comprariam. . De lá caminhamos até nossa hospedagem, Hostal San Augustin, o qual não recomendo. A diária custa $13.500, com café da manhã fraco. O lugar não é ruim, é limpo, confortável, mas o tratamento é péssimo. Além disso, só faltava cobrar para respirar. Cobravam $500 ou $1000 pesos por dia, por mala no locker room. Existem opções melhores, como por exemplo, o Lili Patagonicos, no qual fizemos reserva para quando regressamos do Parque e o qual recomendo fortemente. O preço é $12.000 em quarto com 4 camas e banheiro, café da manhã bastante reforçado, wifi. Ótima estrutura e atendimento. Além disso, o locker room é gratuito e nos permitiram deixar o resto da bagagem lá enquanto percorriamos o Circuito O, obviamente com pagamento de 50% da diária. Lá eles também alugam e compram bons equipamentos para trekking por um bom preço.

 

Almoçamos no Restaurante Marítimo ($9.250 o prato principal mais bebida). Lá também é servido menú completo por $4.000. Recomendo, assim como recomendo outro restaurante, o Carlitos, que serve um Menu mais saboroso e reforçado por cerca de $5.000 se não estou enganado.

 

Depois do almoço no dia 01, fomos até a Kallpamayu, loja na qual reservamos por email a barraca que levaríamos para Paine. A loja é boa e foi uma das que me passou mais confiança. Pegamos uma Doité Aconcágua para 3 pessoas, por $ 6.500,00 o dia (depois de negociar). A barraca era grande o suficiente para nós três e seria uma boa casa para os próximos 7 dias, além de que dividiríamos o peso.

 

No dia 02 pela manhã aproveitamos para comprar o restante dos mantimentos e eu aproveitei para comprar um capacete de escalada também na Kalpamayu, pois o preço estava compensando. Para quem está procurando equipamentos, os preços são bem convidativos. Almoçamos no Carlitos e às 14:30 partimos para o Parque.

 

CONTINUA...

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PARTE III - TORRES DEL PAINE - CIRCUITO O

Caminhar mais de 120 km não é uma decisão lógica. A ideia de percorrer a pé uma distância pouco menor que a de de São Paulo até Taubaté ou do Rio de Janeiro até Volta Redonda, traz vários “mas” e “ e se” para se pensar. De qualquer forma, decidindo racional ou irracionalmente, o Circuito O foi o Clímax do mochilão e a maior trilha que percorri de forma autônoma até então.

 

Na tarde do dia 02 pegamos o ônibus na rodoviária de Puerto Natales e seguimos por 2h30min até o Parque. Conforme nos aproximávamos do Parque, a força dos ventos que lá sopram tornava-se perceptível na sua ação na vegetação, nas nuvens de poeira que se moviam rapidamente na paisagem e também no chacoalhar do ônibus em determinados momentos. Chegando na Portaria da Laguna Amarga, demos entrada no parque, pagamos os $18.000, assistimos o vídeo instrutivo e fomos reservar nossa vaga para os campings Italiano e Torres. Essa reserva pode ser feita no escritório do CONAF, em Puerto Natales, mas quando fomos, este estava fechado. Nossa sorte foi que a reserva era para dali a 5 e 6 dias, caso contrário, não seria possível reservar por causa da alta procura. Cantis carregados, mochilas nas costas, uma foto para registrar o dia e iniciamos nossa marcha.

 

1º Dia: Laguna Amarga-Serón (16 km)

Se me pedissem para escolher uma palavra para descrever o primeiro trecho, seria vento. Muito vento. Durante a primeira parte do trajeto, um vento constante soprava das Torres, muito forte a ponto de me desequilibrar diversas vezes. Graças aos bastões de caminhada evitei diversas quedas, mas era impossível manter uma linha reta na caminhada. Felizmente, cerca de uma hora depois, o vento diminuiu. A medida que caminhávamos, a grandiosidade dos cursos d´água e a beleza da vegetação iam aumentando. Quando contemplei o Rio Paine, me detive durante alguns minutos para que meus olhos captassem e minha mente gravasse aquela visão majestosa. Mal sabia eu que aquela era apenas a primeira de várias epifanias que viveria ao longo da caminhada. Continuamos a caminhada, passando pelos campos cobertos de flores capitulares brancas, à semelhança de margaridas, que de tão numerosas, davam a aparência de os campos estarem cobertos de neve.

 

A luz começava a perder intensidade, e ainda não havíamos alcançado o acampamento. Fomos ludibriados diversas vezes ao pensar que ele estaria na mancha de vegetação em frente, e chegamos a nos questionar se ele não teria passado desapercebido. Num de nossos curtos momentos de descanso e indagação, Pablo, um italiano nos seus 24 anos de idade nos alcançou. Conversávamos a base de portunhol e italiano, até que foi possível uma comunicação decente. Resolvemos seguir juntos. Pouco tempo depois alcançamos o acampamento Serón. Eram quase 22h e começaram os primeiros indícios do anoitecer. Sentamos, esticamos as pernas por um momento e em seguida montamos nossa barraca. Para a janta, um belo macarrão com atum sem molho, e chá mate para acompanhar. Estranhamente nosso fogareiro não pegou – antes que comecem as críticas, testamos o fogareiro no dia anterior a trilha - e tivemos que emprestar de um grupo composto por dois italianos e uma coreana chilena, com os quais fizemos amizade. O período entre me deitar e o amanhecer foi um coma de algumas horas devido ao cansaço.

 

2º Dia: Serón-Disckson (18 km)

Pela manhã do dia 3, saboreamos uma deliciosa granola com leite em pó, acompanhada de chá e café, cardápio que nos acompanharia durante todo o circuito. Felizmente nosso fogareiro voltou a funcionar. Levantamos acampamento e prosseguimos em nossa caminhada. A caminhada do segundo dia é longa e cansativa, em ascensão por cerca de 9 km. A subida é gradual nos primeiros quilômetros, aumentando o desnível cerca de 4,5 km depois do Camping Serón. A caminhada, no entanto, é recompensadora, brindando os olhos do andarilho com belas paisagens desde o início, em especial após a conquista do Paso del Viento, cuja recompensa é a visão do Lago Paine, guardado por uma impressionante cadeia de montanhas ao fundo.

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De lá, continua-se em descida, numa caminhada mais leve, mas não menos cansativa e não poucos sobe e desce, cercada por lagos, descampados, manchas de floresta andina, picos nevados e vislumbres de glaciares. Após 8h horas de caminhada e já no entardecer, a visão do Camping Dickson além de reconfortante, é fabulosa, evocando um bucolismo perdido que mesmo o mais exigente dos viajantes aceitaria passar uma noite lá. Após um momento de descanso, preparamos o acampamento, tomamos banho (gelado, diga-se de passagem) e preparamos um risoto pronto, sem adicionarmos qualquer tempero, visto que não fizemos questão de trazer nenhum tipo, decisão esta que foi lamentada amargamente nos dias seguintes! Aqui me chamou a atenção uma dupla de senhores norte americanos, aparentemente entre 55 e 65 anos. Mais tarde descobri que eles também estavam percorrendo o Circuito O de forma autônoma, o que me gerou o desejo de amadurecer com energia semelhante. Após a janta fui apreciar as belas paisagens, que com o anoitecer ganhavam uma beleza a mais. No lago havia um grande bloco de gelo, desprendido do Glaciar Dickson e que se deslocava lentamente e partia-se, como num processo estrondoso de reprodução. Retornei ao acampamento e o céu escurecia aos poucos. Aproveitei para fazer algumas fotos e apreciar a noite-que-não-é-noite por alguns minutos, contemplando os feixes de luz alaranjados que sobreviviam atrás dos cumes, persistentes como a criança teimosa que não quer dormir. Essa teimosia, porém, não tomou conta de mim e pouco tempo depois adormeci.

 

3º Dia: Dickson-Los Perros (11 km)

Se antes de iniciarmos o Circuito pensávamos em ir direto do Serón ao Los Perros, ou direto do Dickson ao Paso, no 3º dia essa já não era considerada uma opção sã, tanto pelo fato de desejarmos apreciar a paisagem quanto pelo fato de ser fisicamente muito exigente. Tomamos nosso café da manhã, desmontamos acampamento e seguimos rumo ao Camping Los Perros. Este dia é de ascensão, saindo-se de 210 m rumo a 570 m de altitude, e novamente de belas paisagens, percorrendo-se o vale por onde corre o Rio Los Perros e com a floresta andina marcando presença. Sim, é fato que nossos bosques tupiniquins tem mais vida, mas a monotonia e o silêncio das matas patagônicas tem um charme e um mistério tão fascinantes quanto. Um dos momentos mais gratificantes deste dia é a visão limpa da Cordilheira Paine. Após esse momento, as paisagens não mudam muito e o entretenimento passa a ser ruminar pensamentos, procurar respostas e reencontrar lembranças, agradáveis e desagradáveis, que levam a tomar decisões. Entre um pensamento e outro, algumas interrupções para apreciar a beleza singela de uma flor ou a sutileza de movimento de uns poucos pássaros que decidem se exibir. A medida que nos aproximávamos do Glaciar Los Perros a subida ficava mais íngreme e o terreno mais pedregoso. No topo, a visão do glaciar e seu lago, não tão impressionante quanto o vale mais adiante. Mais alguns quilômetros e estávamos no Camping Los Perros, um perfeito cenário para um filme de terror com seu bosque uniforme, árvores esparsas e nenhum subosque. Ainda era cedo quando chegamos e, apesar do vento gelado, o sol brilhava forte, atraindo os caminhantes para uma área descampada coberta de grama, onde deitavam e eram absorvidos pelo cansaço. Com esse que vos escreve não foi diferente. Após esse lapso de tempo a opção era alimentar-se novamente de risoto – dessa vez, reforçado com atum - e depois dos cuidados necessários de limpeza e higiene, adormecer.

 

4º Dia: Los Perros-Grey e o famoso Paso John Gardner (14 km)

Quarto dia. Amanhecer de uma noite mais fria. As atividades já eram previsíveis: tomar café, escovar os dentes, desmontar acampamento. O tempo estava bom, a temperatura estava agradável e as expectativas altas, dado as inúmeras descrições do “trecho mais difícil de todo o circuito”, da impiedade e força dos “ventos cortantes”, combinadas com os elogios ao “visual mais impressionante”. Após o tradicional e importante momento de alongamento dos músculos, retomamos a caminhada por um caminho discreto entre as árvores, que dada a inclinação desde os primeiros metros, já fornecia uma prova dos quilômetros que viriam a seguir. O trecho segue em ascensão, sob as árvores na maior parte do tempo. Nesta primeira parte, havia vários pontos com lama densa, um belo convite para encardir as botas, e passamos por apenas uma pequena mancha de neve, de alguns poucos metros quadrados.

 

Durante alguns minutos, dois pássaros iam a frente, a poucos metros de mim, com curtos voos em diagonal de uma árvore ao lado direto da trilha para outra do lado esquerdo. Um gracioso zigue-zague, como se fossem dois anjos guiando-me ao paraíso. Os anjos acabaram indo embora, cabendo a nós terminar a subida. Chegando ao fim dela, sentimos a força do vento assim que deixamos a proteção das árvores e resolvemos fazer uma pausa. Poucos minutos depois, a dupla de senhores norte-americanos nos alcança, decidindo também parar e recuperar o fôlego, de forma que apenas trocamos poucas palavras. Fôlego recuperado, seguimos, ora à frente, ora atrás, ora ao lado da dupla, percorrendo a segunda parte do trajeto em um terreno pedregoso e bastante exposto ao vento intermitente. Seguindo a sinalização dos canos laranjas, prosseguimos, numa subida menos íngreme, cortada por alguns córregos com água límpida que era coletada com as canecas que ficavam sempre à mão. Meus músculos estavam aquecidos e minhas pernas me levaram num ritmo forte e fui seguindo mais à frente do grupo, mas olhando repetidamente para trás, apreciando a paisagem que se descortinava e ficaria lá.

 

Prossegui, até chegar ao ponto em que a inclinação aumentava drasticamente. Fiz uma longa pausa, respirei e aguardei os meus colegas de caminhada ficarem ao alcance da vista. Então iniciei a subida num passo mais lento. Cada ponto alto que alcançava revelava outro ponto ainda mais alto a ser alcançado, numa espécie de brincadeira de mau gosto da montanha, tal qual o garoto traquinas que aponta o laser na frente de um sapo, fazendo-o seguir o ponto de luz sem nunca capturá-lo. Até que, depois de uma dessas subidas um gélido e forte vento bateu em minha face e meus olhos vislumbraram o gigante de gelo que o soprava, o Glaciar Grey. O vento era forte, ruidoso, cortante, vindo de encontro a nós. Constatei que vestir a segunda pele e luvas foi uma sábia decisão, diminuindo a perda de calor e poupando energia. Uma pausa de alguns minutos para contemplação e fotos e seguimos, agora em descida, em direção ao gigante de gelo. Depois de descermos uns bons metros e estarmos mais protegidos do vento, paramos para repor as energias, com o tradicional pão com salame e geleia. O gigante de gelo nos acompanhava, à direita, e as árvores nos protegiam do seu sopro gelado. Cerca de uma ou uma hora e meia depois, chegamos ao Camping Paso.

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Mochila tirada das costas, esticar as pernas. A temperatura estava mais alta e a segunda pele não era mais necessária. Aproveitamos para fazer um chá mate para recobrar as forças e acabamos encontrando novamente o Pablo, nosso amigo italiano, o qual ficaria por lá neste dia. Nós, depois de terminado o chá e recobradas as forças, continuamos rumo ao Camping Grey. O caminho continuava sob a sombra da floresta andina, com poucas mudanças na paisagem, até o momento em que se começa a ver o Lago Grey. A medida que o lago se torna mais visível, o cenário fica mais impressionante e a grandiosidade da paisagem fica ainda mais evidente quando se observa os pequenos humanos remando em caiaques em direção ao glaciar. Chegamos ao Camping Grey perto das 20:30, cerca de 10h depois de deixarmos Los Perros e encontramos nossos outros amigos italianos, com os quais conversamos um pouco, inclusive sobre a incrível mudança de cenário, perceptível até para o mais desatento campista: como este é um dos pontos do Percurso W, a quantidade de visitantes é muito maior, assim como o número de barracas, o que dificultou encontrar um lugar para dormir. Na cozinha o espaço disponível era inversamente proporcional ao número de visitantes. Nesta noite a janta foi mais reforçada, com direito a sopa como entrada, seguida de risoto com atum como prato principal. Infelizmente tanto a cozinha quanto os banheiros fecham às 21:30, de forma que tivemos que escolher entre jantar com calma e não tomar banho ou jantar apressadamente e tomar banho. Acabamos escolhendo a primeira opção, mas dormimos satisfeitos.

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5º Dia: Grey-Italianos (17,5 km)

Nas horas iniciais da manhã as montanhas que cercam o Camping Grey ganham uma tonalidade bela. A grama e arbustos ainda apresentavam resquícios de orvalho e os músculos amanheceram mais enrijecidos que nos dias anteriores. Acordei cedo para tomar um banho. Segundo as informações coletadas na internet e disponíveis no local, o refúgio teria chuveiros com água quente, o que não correspondeu à realidade. Mas com o corpo relativamente acostumado às temperaturas mais baixas do local e ansiando por uma limpeza, a possibilidade de um banho, mesmo que frio, é algo a se agradecer.

 

Enquanto desmontávamos nosso acampamento, chamou-me a atenção uma família germânica com uma composição um pouco inesperada para o local em questão (ou não tão comum de ser ver nas terras de cá): Pai, mãe, uma filha aparentemente entre 12 e 14 anos, e uma bebezinha de não mais de dois anos de idade. Se precorriam o O ou W, não posso afirmar, mas definitivamente me convenci de que há muita ideia pré concebida sobre ter filhos, viagens e trekking e fiquei imaginando como seria se todas as crianças e adolescentes pudessem ter contato com atividades outdoor desde pequenos. Talvez teríamos cidadãos que valorizassem o igualmente o natural e o tecnológico, que soubessem ver o mundo de outra forma que não a mostrada em televisores e computadores e que percebessem que é possível sobreviver e se relacionar sem muitos luxos. Thoreau já dizia que a maioria dos luxos e ditos confortos da vida, são não somente dispensáveis, como constituem obstáculos para a elevação da humanidade. Claro que esta é uma frase para ser usada com moderação.

 

Depois dos devaneios filosóficos e da família germânica partir, com a mãe carregando a bebê em uma mochila-cadeirinha e o pai e a filha mais velha levando o restante dos suprimentos e equipamentos, fechamos nossas mochilas e continuamos a caminhada. Pularíamos o camping Paine Grande e seguiríamos para o Italianos. O tempo estava bom e o sol brilhava forte sobre nós. Poucos metros após deixarmos os limites do Camping Grey, fomos surpreendidos e agraciados com o aparecimento de um Zorro (Lycalopex culpaeus) na trilha, vindo em sentido contrário. Animal e humanos, parados, menos de 10 metros de distância, encarando-se por alguns segundos, até que o animal caminhou silenciosamente para fora da trilha, em direção às árvores alguns metros à nossa direita, permitindo algumas fotos até sumir na mata. Uma cena simples, mas para mim, magnífica. Continuamos caminhando.

 

A trilha durante este trecho é mais aberta, cortando uma vegetação mais esparsa e acompanhando o lago Grey. A grandiosidade do glaciar continua imperando na paisagem e a quantidade de caminhantes nos dois sentidos assusta em um primeiro momento, pois na parte mais remota do circuito O chegamos a ficar horas sem ver outras pessoas. Mas como se diz, o ser humano é adaptável. No caminho entre os Camping Grey e Paine Grande, uma das passagens míticas é a enorme ponte pênsil sobre um alto despenhadeiro. De um lado, a cordilheira Paine, de onde corre uma cascata nascida do gelo. Do outro lado, o fim do Glaciar Grey, e abaixo, queda livre. Outro ponto que vale a pena mencionar é uma elevação localizada após o Mirador (considerando o sentido Grey-Paine Grande), que é possível atingir através de uma leve escalaminhada e de onde se tem uma vista impressionante.

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O céu estava particularmente interessante durante todo o trecho até o Paine Grande. As nuvens pareciam formar padrões e sequências, as quais tentei capturar através de minha câmera. No Camping Paine Grande, o qual atingimos cerca de 2h45min depois de deixarmos o Grey, a arte no céu era semelhante, recebendo, contudo, um toque de mestre com a adição das cores do Lago Pehoe na parte inferior do quadro. Chegando ao Paine Grande senti uma ponta de arrependimento de não pernoitar ali. Não pelo cansaço, mas pela singularidade do lugar, combinando campos, lago de água azul turquesa e a montanha Paine Grande tão próxima.

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Como havíamos feito reserva para o Italianos e seria impossível alterá-la e estávamos economizando pesos, não haveria outra opção senão seguir para lá. Enquanto ruminava meu leve descontentamento, ouvimos dois rapazes falando em português e puxamos conversa enquanto consumíamos nosso almoço. Eram dois mineiros que acabavam de completar o W, em três dias e estavam exaustos. Pouco depois, surge um casal de gaúchos com os quais cruzamos algumas horas antes e que também finalizaram o W. Almoço encerrado, pernas descansadas e conversa encerrada, seguimos rumo ao Italianos. Nos primeiros quilômetros, cruzamos com um casal de idosos, possivelmente acima de 70 anos, que caminhavam na mesma direção que nós. Seguiam acompanhados de um outro casal mais jovem, possivelmente filho e nora ou filha e genro, e possivelmente pernoitando nos refúgios, visto que não levavam cargueira. Mais algumas centenas de metros percorridas, paradas para passagem de caminhantes no sentido contrário e chegamos nas proximidades do Lago Sköttsberg, quase lançados ao chão por rajadas de vento repentinas que cessaram minutos depois. Nos quilômetros seguintes a esse trecho o número de caminhantes que encontrávamos foi diminuindo, assim como o nosso ritmo. Já era o quinto dia e corpo começava a dar sinais de cansaço. Os 7,5 km do Paine Grande até o Italianos já não eram “apenas” 7,5 km. Convém destacar que, contrariando o que os dois mineiros citados anteriormente nos disseram, este trecho não apresenta tantos pontos de água limpa até a metade do trecho, a partir de onde a situação melhora. Apresenta vários pontos de água, mas a maioria com muitas partículas e matéria orgânica.

Após o Lago Sköttsberg a trilha segue pela floresta andina na maior parte do tempo, e é possível avistar algumas cachoeiras. Chegamos ao Italianos por volta das 18h, cruzando o Rio Francês, com suas águas rápidas e violentas, por uma ponte pênsil. Preenchemos o livro de registro, montamos a barraca e fomos à área de cozinha, juntando-nos aos demais caminhantes, cujos rostos expressavam sentimentos compartilhados por todos ali: satisfação e fadiga. Reencontramos nossos amigos italianos e compartilhamos um pouco mais de tempo e histórias. Terminada a janta meus dois colegas se puseram a descansar e eu fui apreciar o pôr do sol das 22h e bater algumas fotos. A temperatura caiu um pouco mais, o corpo precisava relaxar e convenci-me a deitar. Já havíamos conquistado cerca de 76,5km do circuito e o outro dia seria o mais intenso de todos, pois faria o ataque ao Mirador Britânico e prosseguiríamos rumo ao Camping Torres, ou seja: 31 km em um único dia.

 

6º Dia: Italianos-Valle del Frances-Torres (31 km)

Planejei acordar às 4h para tomar um café e seguir rumo ao Mirador Britânico. Nenhum dos companheiros de caminhada estava muito animado em ir junto, dado o cansaço. Meu despertador soou, e quando coloquei a cabeça para fora da barraca, havia um escuridão densa, acompanhada do som de fortes ventos. Decidi voltar a dormir e iniciar a caminhada uma hora depois. Assim que despertei novamente, me arrumei, peguei uma barra de chocolate, bastões de caminhada, água, lanterna, câmera, kit de primeiros socorros e segui morro acima. O dia já estava clareando, não sendo necessário utilizar lanterna. Como normalmente evito trilhar sozinho em lugares desconhecidos, algumas indagações sobre a necessidade daquilo me vinham a mente. A vista lá de cima era a única razão da decisão.

 

A trilha se apresentava íngreme desde o início, e as pernas cansadas, embora sentissem a exigência física da inclinação, pareceram mover-se por vontade própria depois de um tempo. Possivelmente fui a primeira pessoa a percorrer o trecho naquele dia, minha única companhia eram meus pensamentos e o estrondo do deslocamento do gelo do Glaciar Francês, estrondos altos como de trovão. Acredito que cerca de 40 minutos depois alcancei o Mirador, onde parei por alguns minutos para contemplar a enorme paleta de corres do horizonte, a qual, imagino eu, nenhum grande mestre da pintura jamais possuiu igual. Prossegui, ainda sob às árvores mas por um relevo mais regular, permitindo um ritmo mais rápido de caminhada. Certo tempo depois, a floresta acabava e uma imensa clareira descortinava-se. Lá estava eu. Um pequeno e solitário intruso num imenso vale cercado por paredes de rocha sob um céu cinza. Um quadro de imponência, tão hostil quanto belo. Parei. Meus olhos marejavam. Após a emoção e recobrados os sentidos, comecei - como aspirante a escalador - a imaginar como seria escalar aquelas paredes, embora esta seja uma possibilidade ainda distante para mim. Detive-me por uns 15 minutos até retomar a caminhada. A trilha voltou a entrar na floresta e pouco tempo depois estava no Camping Britânico, onde uma única barraca laranja estava armada. Prossegui e pouco tempo depois estava no alto do Mirador Britânico. Uma leve garoa começava a cair e o céu ficava mais fechado. Permaneci alguns minutos no topo da pedra mais alta naquela área, contemplando e desfrutando da satisfação de ter feito o percurso em 1h50min mesmo com as pernas cansadas.

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Despedi-me do local e do horizonte e iniciei o retorno. Passei novamente pelo Camping Britânico e a barraca continuava lá, solitária, sem nenhum sinal de seus habitantes. Quando já tinha percorrido dois terços do trajeto de volta cruzei com as primeiras pessoas naquele dia. Cheguei ao acampamento 1h40min depois da descida. Meus colegas de caminhada tinham recém acordado. Tomamos café, desmontamos acampamento e iniciamos a marcha às 11h. As negras nuvens que vi no Mirador Britânico pareciam ter se dissipado e seguimos com tempo bom, apreciando a beleza do Lago Nordenskjöld à direira e a imponência do Monte Almirante Nieto à esquerda. Às 13 horas atingimos o Camping Los Cuernos onde fizemos uma pausa de menos de 1 hora para comer um macarrão instantâneo e descansar as pernas.

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Continuamos a marcha e caminhamos, caminhamos, caminhamos, na esperança de chegar até a famosa bifurcação do “atalho” ao Camping Chileno. Depois dela, percebemos que um atalho pode representar não necessariamente um caminho sem dificuldades, pois nesse caso, tratava-se de uma redução no tempo e exigência física. Redução, não eliminação. O caminho é sinuoso, com muitas variações no terreno. A partir do momento em que se avista o Refúgio Torres, prossegue-se apenas para cima, com ganho de 300m de altitude, e a partir de determinado ponto, vê-se os vários caminhantes indo e vindo de Las Torres e do Chileno. Atingimos a confluência do caminho ao Chileno e passamos a ser mais três caminhantes na multidão. Este trecho tem uma beleza singular, beirando o precipício por onde, centenas de metros abaixo, corre o Rio Ascencio. Era por volta de 19:30 quando chegamos ao Camping Chileno, agradecidos e cansados. O Camping Chileno é uma local onde, apesar de bucólico, no fundo de um vale e ao lado do rio, só a necessidade me faria pernoitar. Hordas de visitantes barulhentos e pouca área remota para acampar, de forma que não diferiria muito de acampar no quintal de sua casa. Felizmente ficamos lá por apenas 40 minutos. A luz já dava sinais de que, como todos os dias, voltaria a se recolher. Felizmente, ainda tínhamos tempo, confiando na informação do mapa de que em uma hora e meia chegaríamos ao nosso destino. Porém, confesso que não imaginava que o caminho já iniciaria com inclinação aguda. Três coisas nos motivavam: a falta de recursos para mais um pernoite em camping pago, a reserva efetuada para o Camping Torres e certeza de que valeria a pena pernoitar a uma hora de caminhada da base das Torres.

Já demonstrávamos irritação. O dia havia sido cansativo, as distâncias longas e a essa altura, pareciam ainda mais longas. Ao passo que encontrávamos poucos caminhantes retornando das Torres, não encontrávamos ninguém indo na mesma direção. Como a trilha segue por sob a floresta, tínhamos a impressão de estar muito mais escuro do que realmente estava, e, contra o meu desejo de respeitar as regras do parque, em minha mente já cogitava a possibilidade de acampar em algum lugar no meio do caminho caso não chegássemos até as 23 horas e rascunhava as desculpas caso fossemos abordados por um guarda-parque.

 

Felizmente, 1h30min depois de deixarmos o Chileno, vislumbrei pontos de luz em meio a uma mancha de floresta à frente e a placa apontando ao Camping Torres. Com pouco diálogo, apenas comemoramos e nos parabenizamos. Armamos a barraca no único lugar disponível, preparamos a janta e fomos dormir. Aqui cabe destacar a inusitada chegada de uma escocesa perto da meia noite, cujo sotaque impediu que eu e qualquer outra pessoa compreendesse a maioria de suas palavras. A mulher parecia querer entender como funcionava o camping. Como os guardas já haviam encerrado o expediente e ninguém podia compreendê-la, ela se limitou a tirar o saco de dormir e bivacar na porta da cabana dos guardas. O detalhe é que a temperatura estava baixa, e caiu muito mais à noite. Depois de presenciar esta cena, recolhi nosso equipamento de cozinha, e deixei tudo preparado para o dia seguinte, pois pretendia assistir ao nascer do sol nas Torres, saindo às 4:15. Era meia noite, estava exausto e só pude pensar em deitar.

 

7º Dia: Torres-Torres del Paine-Laguna Amarga (17 km)

Incômoda. Esse seria o adjetivo para qualificar a última noite em Torres del Paine. A temperatura estava mais baixa que as outras noites, o solo abaixo da barraca duro e irregular e os músculos pareciam não relaxar. Pouco mais de 4 horas depois de ter me deitado, o despertador toca e me ponho em pé, assim como outros campistas. Vagarosamente me arrumo, pego minha mochila, câmera e tripé e me junto à procissão na penumbra, salpicada por pontos brancos das lanternas dos peregrinos e sob a guarda de algumas centenas de estrelas que ousavam brilhar na noite que não é noite.

 

Meu ritmo estava lento devido ao cansaço das pernas, que não haviam descansado o suficiente para prover firmeza e velocidade nesse trecho de apenas uma hora segundo o mapa. Uma hora, mas em ascensão. Acabou se tornando uma hora e vinte minutos. Ao chegar na base das Torres me juntei aos vários outros peregrinos, todos ávidos por ver o espetáculo das torres avermelhadas ao nascer do sol. A temperatura ainda era baixa, os que não corriam de um lado para o outro em busca de um clique, encolhiam-se em busca de abrigo. Até mesmo a escocesa que bivacou ao lado da cabana dos guardas, que diga-se de passagem deve ter chegado bem cedo ao local, estava recolhida em seu saco de dormir.

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Me sentei e aguardei. À medida que os raios de sol surgiam no horizonte, a cor das Torres, do lago, enfim, todo o local ganhava novas cores, mais quentes e saturadas. As pontas tingiram-se de um alaranjado forte, contrastando com o cinza da base. Infelizmente as condições climáticas e astronômicas não possibilitaram o tingimento total das Torres, mas mesmo assim, fiquei satisfeito. Mais alguns minutos e o amarelo predominou no local e a temperatura aumentou, revigorando meu corpo cansado e arraigado às pedras, enquanto meus olhos fitavam cada detalhe do local para tentar gravá-lo por completo em minha memória. Um pouco mais tarde, João e Luzardo chegaram.

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Aproveitamos as Torres por mais alguns momentos e às 8h iniciamos a descida, chegando ao acampamento às 9h. Após o café da manhã e desmontar acampamento, assinamos o livro de registro, presenciamos o guarda-parque dando lição de moral em um turista israelense que queria deixar seu lixo no camping, e deixamos o local às 10h. No trajeto de volta, muita movimentação no sentido contrário, várias paradas para passagem dos séquitos de turistas montados em cavalos e a gravidade ajudando a ganhar velocidade na descida até o Refúgio Las Torres. Em determinado ponto do trajeto, uma mulher me para e pergunta se tenho água para ela e para suas filhas adolescentes. Digo que sim e pergunto se não traziam água, ao que ela responde que já tinham bebido toda água e esperavam encontrar pontos de água por todo o caminho. Ofereço mais água e sou obrigado a avisar que só visualizei um ponto de água, de potabilidade duvidosa, até o Chileno. Despedimo-nos e prossigo na descida. Por volta das 12:50 estávamos no Las Torres.

 

Segundo as informações, o ônibus para a Portaria Laguna Amarga sairia às 14h, e nosso ônibus para Puerto Natales sairia de lá Às 14:30. Diante disso, uma pergunta veio a minha mente: “Por que não chegar lá caminhando e completar todo o percurso só com as pernas? São só mais 7km” Embora o consenso geral seja de que chegando em Las Torres o percurso estaria finalizado, rendi-me a um excesso de purismo e literalidade, somado à vontade de realizar o feito - talvez até um pouco de vaidade - e às 13h parti. Diversas vezes olhei para trás para guardar a paisagem na memória até afastar-me por completo. Às 14:10 cheguei em Laguna Amarga e deparo-me com várias pessoas, inclusive meus companheiros de caminhada que optaram por ficar. Descuro então que João me seguiu no início, tentou me chamar mas eu estava disparando. Pegou uma carona com algum carro. Luzardo, que ficara a esperar o ônibus, contou que um ônibus saiu às 13:30, um dos três que passaram por mim na estrada. Alguns minutos mais tarde, ônibus para Puerto Natales chegou e às 14:30 partimos. Era o fim. Quilômetros de trilhas e espetacular beleza ficavam para trás sob a guarda das Torres, eternas e inabaláveis, tal qual as lembranças dessa peregrinação.

 

Retornando a Puerto Natales providenciamos a passagem para El Calafate, só conseguindo para o ônibus das 14:30. De lá fomos rumo ao Hostel deixar as mochilas, e em seguida devolver a barraca. Creio que comemos alguma coisa antes de retornar ao hostel para, depois de um bom e demorado banho quente, sermos absorvidos pelas camas. Feliz é quem sabe valorizar um banho quente e uma cama macia! Mais tarde fomos comemorar com uma boa parrillada no Don Jorge.

 

Dicas

- Tanto o circuito W como O são exigentes fisicamente. Embora não exijam muitos conhecimentos técnicos e as trilhas sejam auto guiadas, não seja tolo: prepare-se fisicamente para aproveitar o máximo a experiência e não se frustrar. Meu treino é constante e inclui correr e ir de bicicleta ao trabalho (até 2x na semana, cada) e fazer trilhas sempre que possível. Se você nunca fez trilhas longas com pernoite, sugiro fazer algumas para conhecer melhor seu corpo e se acostumar com a atividade (Aqui no Brasil temos a Petrópolis-Teresópolis, Serra Fina, Marins-Itaguaré, além das trilhas na Serra do mar paranaense!).

 

- Uma bota de qualidade e amaciada, uma boa mochila e boa barraca são obrigatórios, assim como uma headlamp (lanterna de cabeça). No verão, as temperaturas não são tão baixas e um saco de dormir com temperatura de conforto -5º é suficiente. Bastões de caminhada são opcionais, mas muito úteis para poupar seus joelhos. É possível comprar e alugar excelentes equipamentos por um bom preço em Puerto Natales (alugamos na Kallpamayu, Calle Prat 297).

 

- Conheça seus limites e necessidades e escolha bem seus alimentos, certificando-se da quantidade certa (nós deveríamos ter levado mais comida). Prefira alimentos com menos sódio para reduzir a desidratação, embora água em Paine não seja problema. Esqueça o miojão.

 

- Leve dinheiro em espécie para pagar a entrada do Parque e os campings pagos. A maioria dos campings vende, por preços bem elevados, comida e bebida e alugam equipamentos, o que é útil em caso de emergência. Existe a possibilidade de reservar as refeições e leitos nos refúgios. Informações e preços podem ser encontrados nos sites http://www.fantasticosur.com/ e http://www.verticepatagonia.com/

 

- Para contemplação e menor desgaste, minha recomendação é percorrer o circuito O em no mínimo 8 dias. O tempo de permanência no Parque fica a critério do viajante e de seu condicionamento físico. Conheci um polonês que realizou em 5.

 

- Dependendo das condições climáticas, é possível que o Paso John Gardner esteja fechado. Certifique-se ao chegar no Parque.

 

- A água do parque é potável e há vários pontos de água ao longo da trilha. Além de cantil ou garrafas abastecidas, ter uma caneca à mão é uma boa ideia.

 

- É terminantemente proibido fazer fogo e só é permitido cozinhar nos refúgios e nas áreas destinadas à essa finalidade. Essa regra é observada a risca pelos guardas e desobedecê-la implica na expulsão do Parque, uma pesada multa de até 2 milhões de pesos e possibilidade de três anos de prisão.

 

CONTINUA...

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PARTE IV - EL CALAFATE, EL CHALTÉN E BUENOS AIRES

09/01. Depois de caminhar 130km movido a granola, leite em pó, atum, macarrão e risoto instantâneo, acordar e ter um verdadeiro manjar para o café da manhã é de encher a alma de prazer e euforia. Comi o quanto pude, e devo ter bebido mais de um litro de suco. Era necessário. Foi uma manhã de descanso. Almoçamos novamente no Marítimo, onde conhecemos um casal oriundo de Anápolis (GO), Johnatan e Natália, os quais reencontraria no aeroporto de Buenos Aires.

Partimos para El Calafate às 14:30, chegando as 20:20. Não tínhamos reserva e nosso plano era tentar comprar o Big Ice Trek para dali um dia, mas o escritório da Hielo y Aventura já estava fechado (Não fizemos reserva antecipada por conta das taxas do cartão e da flutuação do câmbio à época). Partimos em busca do El Ovejero (indicação de um chileno que conhecemos em Paine) para ficar uma noite, e no meio do caminho encontramos nosso amigo italiano Pablo que procurava o Hostal Guerrero. Como o El Ovejero ($130 em domritório-container) estava lotado, voltamos ao Guerrero ($100). Ambos não servem café da manhã e possuem wi-fi e água quente, mas o El Ovejero, no qual fiquei posteriormente, é muito melhor. O Guerrero é uma hospedagem bem simples, um tanto precária e suja e o público não é de viajantes ou mochileiros. Recomendo apenas em caso de necessidade, como o nosso, avaliando a relação Preço x Vagas disponíveis.

 

10/01. Fomos cedo (7:30) até a Hielo y Aventura reservar o Big Ice Trek, sem conseguir desconto mesmo pagando em dinheiro vivo. Esse foi o passeio mais caro de todos, totalizando $2.700 somando translado e ingresso. Como o Big Ice era para dali alguns dias, a opção era ir para El Chaltén. Saímos do escritório e fomos comprar as passagens para El Chaltén, que custaram $840, ida e volta. Partimos depois do almoço.

 

Él Chaltén

Chegamos em Chaltén às 16h sob sol forte e temperatura média, sem reservas. Saindo da rodoviária começamos a percorrer a pequeno povoado em busca de um local para dormir mas a maioria dos hostels ou pensões baratas estavam lotadas. Enfim, encontrei um hostel com placa “Hay vagas”. Hostel Ahonikenk, quarto coletivo, sem café da manhã, cozinha liberada e água quente por $130. Ficamos por lá. O local não é o mais organizado nem com a melhor estrutura, o que fica evidente na sacola plástica usada para substituir a corda da descarga da privada). Também não é o mais espaçoso nem o mais limpo, mas isso se deve mais ao comportamento dos hóspedes, pois limpam o local uma vez ao dia e trocam a roupa de cama a cada saída de um hóspede, felizmente. No fim, tem um clima bem agradável e divertido. Destaque para o fato de que, por ser junto a um restaurante, constantemente oferecem batata-frita ou restos de refeição como pizza, filé, saladas, macarrão o que é uma verdadeira dádiva ao viajante que retorna de um dia de trilha ou que está com pouco dinheiro para comida. Viajantes mais exigentes ou que primam muito por conforto e luxos talvez não gostem, mas para quem está com orçamento apertado ou é mais desapegado ou quer aprender a desapegar, eu recomendo. Acredito que 85% dos hóspedes eram israelenses. Apesar de muitos dos que lá estavam serem barulhentos e folgados, acabei interagindo bastante com alguns deles e pude aprender algumas coisas em hebraico e divulgar as belezas e destinos do nosso Brasil.

 

Embora as paisagens de Paine tenham me impressionado mais, gostei muito de Chaltén, além de que foram dias de descanso e reflexão. Como já havia me despedido de meus companheiros de viagem, a partir do terceiro dia, nas trilhas me encontrava acompanhado unicamente de meus pensamentos, o que também foi valioso. Dividir momentos com amigos é bom e precioso, mas momentos esporádicos de solidão voluntária são, ao menos para este que escreve, importantes e produtivos.

 

Confesso a você, amigo leitor, que deveria ter pesquisado melhor a respeito de Chaltén, pois assim poderia ter optado por levar minha barraca e percorrido todo o circuito de trilhas desfrutado dos campings gratuitos. Nesse caso, porém, não desfrutaria do banho quente do Hostel. Coisas a serem consideradas, mas nada impede uma nova ida a Chaltén em algum momento futuro. Quanto às atrações de Chaltén, dediquei minha atenção a:

 

11/01. Chorillo del Salto e Mirador Los Condores: apesar de situados em direções opostas, é possível fazê-los em um único dia. Trilha sem dificuldades. Chorillo del Salto é uma cachoeira sem graça, que não impressiona quem já viu as nossa cachoeiras do Planalto Central. O Mirador proporciona uma vista bastante bela, principalmente ao entardecer em noites com lua.

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12/01. Laguna de los tres (Base do Fitz Roy): imperdível. Para quem não tem preparo será um pouco puxada. Neste dia um gringo empolgado mergulhou nas geladas águas do lago, sendo aplaudido pela multidão. Vale a pena explorar a área, descer e caminhar margeando o lago até ter uma visão de uma queda d´água e do outro lago, bem abaixo do nível do lago principal. No caminho de volta da Laguna, cruzei com um grupo de escaladores que, presumi, tentariam conquistar o Fitz Roy ou outra montanha ali. Dias depois, já no Brasil, descubro ao ler algumas notícias que um deles era Iñaki Coussirat, grande escalador que infelizmente veio a falecer devido a um bloco de pedra que o atingiu durante a escalada do Fitz Roy. Em 31 de janeiro, os brasileiros Waldemar Niclevicz, Eduardo Mazza e Branca Franco conquistariam a famosa montanha;

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13/01. Loma del Pliegue Tumbado: em minha opinião, a melhor e mais exigente das trilhas que percorri em Chaltén. Chega a 1.490m de altitude e proporciona uma vista espetacular da região e da maioria das montanhas. Percorri só, pois Luzardo e João já haviam retornado a Calafate, visto que retornariam antes ao Brasil.

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14/01. Laguna Torre: percorri a trilha até o Mirador Maestri. Confesso que depois da trilha do Pliegue Tumbado, o visual não me impressionou, mas vale para registrar mais alguns quilômetros de trilha e ver o Cerro Torre de perto.

 

Ainda que as trilhas sejam bem demarcadas e mesmo que você pernoite na cidade, fazendo apenas bate-volta, SEMPRE LEVE ÁGUA, COMIDA E LANTERNA (eu ainda levo sempre um cobertor e apito de emergência), e planeje bem o horário de saída e regresso com base no seu condicionamento e nas horas que o sol nasce e se põe, ainda mais se estiver sozinho.

 

El Calafate

15/01. Na tarde do dia 15/01 peguei o ônibus das 13h rumo a El Calafate, chegando por volta das 16h. Fui direto para o El Ovejero, onde havia feito reserva para o dormitório-container via pelo Hostel World, o que me permitia utilizar a cozinha. Gostei muito do local, que abriga um restaurante, hostel, área para motor-home, camping e dormitório-container. Devo destacar ao amigo leitor, que é uma boa opção de hospedagem para o viajante em contenção de despesas e que é capaz de se virar em pequenos espaços. O dormitório-container abriga dois beliches, reduzindo em muito o espaço de circulação e para alocar as mochilas, tanto é que minha opção foi alocá-la embaixo do beliche. Os banheiros são externos, atendendo também aos campistas, mas limpos e com chuveiro quente. A cozinha é limpa mas poderia ser melhor equipada. Tudo isso por $130. Mais barato, só o Hostel Guerrero, sobre o qual já emiti meu parecer.

 

Para quem quiser comprar lembranças, há uma espécie de rua dos artesãos, onde há coisas muito belas à venda. Para comida, sugestão boa e acessível é o La Fonda. O San Pedro, onde jantei nesta noite, é bom e não é caro ($189 por um cordeiro com papas + bebida). Bons sorvetes, na Acuarela Helados Artesanales, e bons alfajores, na Koonek. Bom câmbio no restaurante Casimiro. Fique atento aos horários, algumas lojas fecham aos domingos.

 

16/01. Big Ice: Acordei cedo e andei alguns metros até o escritório da Hielo y Aventura. Saímos com atraso de cerca de meia hora. A viagem até o parque é repleta de cenários tipicamente Patagônicos, que a essa altura já não despertavam mais a euforia da novidade, mas mesmo assim era um presente para os olhos. Após entrarmos no parque, fomos levados até a área das passarelas e depois de aproximadamente uma hora regressamos ao ônibus para irmos aos catamarãs, nos quais cruzarmos o lago para iniciar a caminhada até o Glaciar, uma trilha fácil. Mais a frente, colocamos os crampones e iniciamos a caminhada sobre o gelo. Minha opinião: vale muito a pena, os equipamentos são bons, os guias são bem capacitados e um Glaciar é um ambiente único e que nunca veremos em terras tupiniquins, salvo vivamos alguma nova era glacial. Quanto à exigência física, superestimam a dificuldade. Em minha opinião, impor uma idade limite de 50 anos é uma tremenda bobagem visto que há pessoas mais velhas que com condicionamento físico impressionante. Quanto ao valor, poderia ser mais barato, mas como lá não há concorrência e nós turistas pagamos, tende a ser sempre assim. Devido ao alto valor do passeio até ponderei realizar o ice trek no Glaciar Viedma, em Chaltén, mas acabei optando pelo Perito Moreno por ser um gelo mais puro, apenas por isso. Se sua intenção é só saber como é andar sobre o gelo, pode optar pelo ice trek em Chaltén, ou mini trekking em Calafate. Em Chaltén também oferecem o Viedma Pro, um pouco mais caro que o Big Ice, mas que possibilita escalar em gelo com uso de piolets. Como pretendo fazer curso de alta montanha em 2017, decidi poupar o dinheiro.

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Retornei do passeio por volta das 20h e passei no mercado comprar ingredientes para a janta e almoço do dia seguinte. Ao voltar ao Hostel, reservei na recepção o translado para o aeroporto ($100, um táxi custaria $250). Lembrando que se o tempo não estiver apertado, uma carona é totalmente possível!) e tive uma boa conversa com dois neozelandenses, um rapaz e uma garota, com os quais dividi o quarto naquela noite. Além de trocar informações e aprender um pouco sobre seu país vendi o botijão de gás que sobrou de Paine, pelo preço de custo obviamente. Mais tarde fui preparar a minha janta conversando com um pessoal da Irlanda, que volte e meia repetiam que eu não tinha a mínima cara de brasileiro.

 

17/01

Mais uma noite bem dormida e de descanso para o corpo. Acordei relativamente cedo, tomei café, ainda finalizando alguns dos mantimentos de Paine e fui dar uma caminhada pela cidade. Fui até a Superintendência do Parque Los Glaciares, mas a seção que conta sobre Darwin estava fechada. Fui até a Laguna Nimez, belo local que emana paz e tranquilidade, mas desanimei de pagar o ingresso para ficar pouco tempo. Me contentei em apreciar o local a partir do calçadão. Se dispuser de tempo, creio que vale a visita, em especial para conhecer as aves da região. Voltei ao hostel, preparei novamente um macarrão, aproveitando o restante do molho preparado na noite anterior. O transfer chegou e fomos ao aeroporto. Lá, os minutos passavam, uma imensa fila se formava e o balcão continuava vazio, talvez o pessoal estivesse tirando “la siesta”. Mala despachada, embarque realizado, rumo a Buenos Aires

 

Buenos Aires

Durante os preparativos para o desembarque em Buenos Aires, converso com duas senhoras porteñas que me fornecem dicas para chegar até a área do Obelisco, onde situava-se o hostel no qual fiz reserva. Utilizei o ArBus, que custou apenas $30. O trajeto é repleto de voltas mas vale a pena pelo preço, mas acabei chegando no Obelisco um pouco mais tarde do que gostaria. O hostel no qual fiquei foi Obelisco Suits. Optei por ficar por lá pela proximidade do aeroporto e dos pontos turísticos principais, visto que gostaria de percorrê-los a pé. O hostel é bom, mas nada espetacular. Quartos grandes, café da manhã médio, bons banheiros. Entretanto, a noite foi barulhenta (ão posso afirmar que sempre será assim) e quente, muito quente. O quarto, infelizmente não tinha ar condicionado.

 

Já estava tarde e eu precisava jantar. Saí só pelas ruas da região sem levar nenhum pertence, todavia tenho quase certeza que poderia ter sido assaltado. Virando uma esquina, um grupo de 4 homens sentados na calçada, pouco a frente. Escondendo minha desconfiança e receio, caminho normalmente. Ao passar pelo grupo, percebo que um deles levantou e começou a me seguir. Graças ao bom Deus havia uma dupla de policiais na esquina à frente e pude seguir tranquilo até chegar na região mais movimentada. Acabei voltando para a avenida principal e jantando no Burguer King.

 

18/01

Levantei cedo para comprar o ticket do ArBus, em uma pequena banca na esquina da Carlos Pellegrini com Lavalle (não há nenhuma placa indicando Airbus ou algo do tipo. O ponto onde o ônibus para é mais abaixo, próximo ao Hotel Panamericano). Feito isso, parti para meu tour a pé. O dia estava quente e o sol forte. Circulei pelas ruas da cidade porteña, indo a San Telmo, Plaza de Mayo, Casa Rosada e Puerto Madero. Depois de imergir no isolamento e na beleza da paisagem patagônica, foram horas estranhas e de pouco fascínio, tanto que não bati fotos. Pra falar bem a verdade, achei a cidade sem graça e serviu mais para saciar a curiosidade e para marcar mais uma cidade no check-list. Estou me convencendo de que cidades não me impressionam tanto quanto uma montanha ou uma mata preservada. Voltei ao Hostel, e antes de subir, almocei duas fatias de pizza e uma coca cola em uma pizzaria ao lado. Check-out feito, embarquei no ônibus, das 13:42 se não me engano. No aeroporto, uma grande confusão por causa de um protesto de funcionários de uma companhia aérea argentina. Sigo meu caminho. Às 15:05 deixo o solo da cidade porteña rumo às terras tupiniquins. Faço conexão em São Paulo, desembarcando, felizmente, no mesmo terminal onde deveria embarcar para Brasília. Mais algumas horas e próximo às 22h chego ao planalto central, reecontrando minha amada.

 

Sentimento de gratidão por 26 dias de sol e nenhum acidente, pelas amizades feitas e experiência vivida. Gratidão misturada com o estranhamento do ambiente urbano e com a saudade de poder olhar o horizonte sem obstáculos, sem cercas ou construções, temperadas com a vontade de continuar caminhando por esse imensa casa que chamamos de Mundo.

 

Se você chegou até aqui, fico feliz que tenha lido e desfrutado do relato em sua totalidade. Até a próxima!

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Parabéns pelo relato e viagem, muito legal!

Adorei as dicas da lanterna, cobertor e apito, pois são coisas baratas e simples de levar, eque fazem toda a diferença nas trilhas. Imprevistos acontecem, é melhor estar preparado.

Anotei todos os restaurantes, caso sobre algum peso para gastar na minha viagem.

Sobre a Kallpamayu, vc se lembra mais ou menos os valores de locação de anorak e calça impermeável? Tá osso de comprar aqui.

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Parabéns pelo relato e viagem, muito legal!

Adorei as dicas da lanterna, cobertor e apito, pois são coisas baratas e simples de levar, eque fazem toda a diferença nas trilhas. Imprevistos acontecem, é melhor estar preparado.

Anotei todos os restaurantes, caso sobre algum peso para gastar na minha viagem.

Sobre a Kallpamayu, vc se lembra mais ou menos os valores de locação de anorak e calça impermeável? Tá osso de comprar aqui.

 

RENATAT, obrigado pelo feedback :) Você vai quando?

 

Sobre os itens, recomendo muito ter, e ainda um kit básico de Primeiros Socorros

 

Sobre lanternas de cabeça, pra comprar considere a quantidade de lúmens, alcance do feixe e durabilidade da bateria. Recomendo ler esses artigos:

http://www.outdoorgearlab.com/Best-Headlamp/Buying-Advice

http://www.backcountry.com/explore/how-to-choose-a-headlamp

http://www.rockandice.com/gear-guide-tips/how-to-choose-a-headlamp

 

Atualmente uso uma BlackDiamond Spot. Trouxeram pra mim dos EUA e saiu por um ótimo preço. Das nacionais, as da AZTEQ são uma boa escolha. Creio que na Kallpamayu eles tem excelentes produtos por preços muito melhores que os daqui, até por Puerto natales ser zona franca. Lá em P Natales também tem a La cumbre e a Balfer.

 

Segue abaixo os preços de aluguel de quando fui, bom confirmar se eles alugam anorak e calça. Contato Kallpamayu: Alex - [email protected] - Tel 2415891/Cel 92568594

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Ótimo relato! Obrigada por compartilhar conosco.

Já está na minha lista de lugares a serem desvendados.

Vou deixar seu relato salvo para quando chegar a hora de fazer esse percurso, pois possui muitas dicas boas.

Fiz a Carretera Austral agora em outubro de 2016 e fiquei encantada com as maravilhas da Patagônia Chilena. Quero muito conhecer esse trecho mais ao sul. ::Cold::

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Ótimo relato! Obrigada por compartilhar conosco.

Já está na minha lista de lugares a serem desvendados.

Vou deixar seu relato salvo para quando chegar a hora de fazer esse percurso, pois possui muitas dicas boas.

Fiz a Carretera Austral agora em outubro de 2016 e fiquei encantada com as maravilhas da Patagônia Chilena. Quero muito conhecer esse trecho mais ao sul. ::Cold::

 

Obrigado Manueli, que bom que foi útil!

 

Vá mesmo....Legal ter feito a Carretera Austral! Essa tá na lista também! Percorreu toda ela?

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Boa tarde Samuel, grande trip e grande relato amigao... Minha trip de 27 dias de pela Patagonia esta chegando tb... Gostaria d tirar duas dúvidas com vc amigo mochileiro... Vc disse no inicio do relato que se tivesse tempo teria ido presumo às marbles caves... Como faço pra chegar la? conheçe alguma agencia? a logistica? Estarei indo de Chalten pra la ou de Calafate n sei por onde seria mais perto... Tenho tentando achar alguma agencia pra enviar email sei la mas n consigo... e meu embarque é dia 1 de Março mas essa etapa da viagem seria só pro dia 24 de Março... Sobre o passeio pra laguna esmeralda vc o pagou... Ele e um passeio q tem q ser pago obrigatoriamente ou pod ser feito por conta como o Cerro Martial... Segue meu roteiro abaixo... Abraços.

 

         
01\03\2018   hora voo Rio (Galeão) Ushuaia
02\03\2018     Ushuaia (chegada às 18:00) Ushuaia (fotografar a noite) (1 diária)
03\03\2018     Ushuaia Ushuaia (2 diária)
04\03\2018     Ushuaia Ushuaia (3 diaria)
05\03\2018     Ushuaia  Ushuaia (4 diaria)
06\03\2018     Ushuaia (bus as 5 da manha) Punta Arenas (12 hs de viagem) 1 diaria
07\03\2018     Punta Arenas  Punta Arenas  2 diaria
08\03\2018     Punta Arenas (bus as 7 ou 8 da manha) Porto Natales (chega as 10 hs) 1 diaria
09\03\2018     Porto Natales  Torres Del Paine 1 dia ( Camping Seron)
10\03\2018     Torres Del Paine Torres del Paine Torres Del Paine 2 dia (Camping Dickson)
11\03\2018     Torres Del Paine Torres del Paine Torres Del Paine 3 dia (Camping Perros)
12\03\2018     Torres Del Paine Torres del Paine Torres Del Paine 4 dia (Refugio Grey)
13\03\2018     Torres Del Paine Torres Del Paine 5 dia ( Camping Paine Grande)
14\03\2018     Torres Del Paine  Torres Del Paine 6 dia (Camping Francês)
15\03\2018     Torres Del Paine Torres Del Paine 7 dia (Camping Chileno)
16\03\2018     Torres Del Paine Torres Del Paine 8 dia X Puerto Natales
17\03\2018     Puerto Natales x El Cal x Chalten El Chalten
18\03\2018     El Chalten El Chalten
19\03\2018     El Chalten El Chalten
20\03\2018     El Chalten El Chalten
21\03\2018     El Chalten El Chalten
22\03\2018     El Chalten El Chalten
23\03\2018     El Chalten  El Chalten
24\03\2018     El Calafate Caverna de Mármore
25\03\2018     El Calafate El Calafate
26\03\2018     El Calafate El Calafate
27\03\2018   hora voo El Calafate Rio

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Parabéns pelo post! As fotos ficaram muito bonitas e as informações são bastante úteis, no entanto, tenho uma dúvida e gostaria de saber se vcs poderiam me ajudar.

Pretendo fazer o circuito O das Torres de Paine ano que vem, porém, o sistema de reservas dos acampamentos da Conaf encontra-se indisponível no momento. Sendo assim, gostaria de saber se é obrigatório ter a reserva nos acampamentos da Conaf (el paso e italiano) para entrar no parque e começar o percurso, ou somente é obrigatório para pernoitar nesses acampamentos.

Porque se não for obrigatório ter reserva nesses dois acampamentos, pretendia passar direto por eles durante o dia, pernoitando no próximo acampamento. 

Desde já agradeço.

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    • Por MauriVirissimo
      Olá pessoal, farei um breve relato da viagem.

      Resumo da viagem:
      30 dias, entre janeiro e fevereiro de 2019
      13 mil quilômetros

       
      Combustivel: 13 mil km
      1400 litros gasolina, R$ 5700 reais para CARRO (Jeep - Grand cherokee 3.6)
      520 litros gasolina, R$ 2000 reais para MOTO (Honda - CB 500x)

      Partimos de Florianópolis em direção a Bariloche nosso principal destino inicial, onde ficamos 2 dias inteiros fazendo alguns passeios na cidade.


      Depois disso continuamos para Sul descendo Ruta 40 ate Esquel para então entrar no chile por Futaleufu e descer Carretera Austral ate Puerto Rio Tranquilo onde fizemos passeio nas Capilas de Marmol (catedral marmore). Neste trecho pegamos Aproximadamente 300 km  de Rípio que para carro tava tranquilo porem pra moto tava um pouco sofrido devido a "brita" solta nova que colocaram pois estão pavimentando a Carretera e essa rípio solto fica complicado para pilotar.


      Bom, para quem conhece Carretera sabe muito bem que vale cada quilometro percorrido nela, porem voltamos para ruta 40 para chegar a El chaiten, El calafate e no decorrer dos dias ir descendo ate torres del paine, e neste porto da viagem, por motivos de Doença na família minha madrasta teve que voltar ao Brasil de Avião e junto meu irmão por parte de pai também voltou, onde infelizmente mãe dela, avo dele veio a falecer infelizmente.


      Detalhe, meu pai estava com Moto em nome de minha madrasta e estava sem procuração dando os devidos direitos dele poder passar aduana com moto em nome dela, ai então em Puerto Natales fomos ate NOTARIA (tipo nosso Cartório no brasil) e la fizemos o documento.
      Outra observação, é que passamos as aduanas por varias vezes durante o restante da viagem e não entregávamos o documento para ver se iriam questionar algo, e nada pediam, passávamos tudo ok.

      Bom, Continuando então descemos ate Ushuaia onde ficamos 3 dias inteiros e depois fomos subindo ruta 3 com destino ate Puerto Madryn e la fazer passeio ate pinguinheira e também para conhecer Península Valdes.


      Apos isso tínhamos ainda tempo suficiente para passar em Buenos Aires, mas decidimos voltar para casa e dar apoio psicológico a família que voltara antes.

      Não tivemos nenhum contra tempo, nem com carro nem com moto, temperatura era na maioria das vezes boa para andar de moto, exceto em algumas regiões pela parte da manha quando cedo, porem no trexo da ruta 40 entre Gobernador Gregores e Tres Lagos, o ripio muito solto pior que na carretera e o FORTISSIMO VENTO LATERAL fez com que meu pai chegasse a chorar ao conseguir passar, neste dia 3 motos que la estavam passando pela mesma situacao desistiram e um reboque grande levou 3 motos e seus respectivos pilotos para trecho onde asfalta começava novamente. meu pai foi guerreiro antava pela antiga rodovia paralela a atual que esta para ser pavimentada por isso ripio (brita) solta.


      Bom meus amigos tenho videos curtos no youtube vou deixar link abaixo, esta dividido em 5 videos curtinhos!
       


      Grande abraços a Todos e em Março Abril de 2020 pretendo ir ao Atacama, BORA!?!?!?!
       

       

    • Por dji_pedro
      PATI SELVAGEM: uma travessia de tirar o chapéu e deixar marcas
      Como toda banda de Rock a vida nos bastidores nem sempre é um mar de rosas.  É que a convivência em grupo por vezes desponta em desentendimentos que destoam do objetivo principal. É nesse contexto que o Projeto Rota das Travessias iniciado em 2016 com cinco integrantes perde alguns de seus talentos que, por hora, seguem “carreira solo” (rsrsr). Mas como o “show tem que continuar” aqui teremos uma aventura com participação de três integrantes da antiga “banda”: Eu (Djair), João e Wilson. 
      Assim como na experiência anterior em 2017, escalamos o experiente Marquinhos Soledade (@expedicao_chapada) para ser nosso guia. Dessa vez, iremos realizar a Travessia do Vale do Pati, lá no coração da Chapada Diamantina, na Bahia. Entretanto fugindo um pouco do convencional optamos por deixar esse trekking mais radical fazendo um trajeto mais selvagem.  A ideia é começá-lo em Andaraí subindo o curso do Rio Paraguaçu e seu Cânion.  É uma opção que cobra maiores cuidados tanto pelo terreno como pelo isolamento. É percurso pouco testado. Muitos evitam. É um trecho do Pati esquecido, uma rota praticada por garimpeiro. A trilha exige subir muitas pedras e paredões, bem como experimentar cruzar dezenas de vezes o lado do rio de modo a encontrar melhor caminho. Sem falar da possibilidade de ocorrência de fenômenos naturais como as temíveis cabeças d’água dentro do cânion. Os primeiros dois dias se passa numa região onde possivelmente não cruzaremos com outros caminhantes. 
      Partimos de Recife numa sexta-feira (28 de junho) num voo da Azul Linhas Aéreas com destino a Salvador. Às 23h30 já estávamos na rodoviária para pegar o confortável ônibus da empresa Rápido Federal com destino à belíssima Lençóis.  Rodamos a madrugada inteira.  Às 6h da manhã desembarcamos e seguimos para a Pousada Bons Lençóis, ali mesmo na parte central da cidade.  À tarde tomamos umas cervejas para celebrar aquele reencontro e também meu aniversario: 29 de junho, dia do santo São Pedro, estou ficando mais velho, presenteie-me com essa travessia: vamos brindar!!! 
      À noite entre outras coisas e fizemos a feira coletiva que irá nos alimentar durante os cinco dias do trekking. Compramos, pesamos e separamos os pacotes dos alimentos em quatro partes. Agora cada um pode enfim fechar suas cargueiras para a pesagem final: 23 Kg (Djair), 20 kg (Wilson) e 17 kg (João). Guardamos a fração de alimento que cabia a Marquinhos para entregá-lo em Andaraí (distante 100 quilômetros da cidade de Lençóis) na manhã seguinte onde começaremos nossa travessia.
      30 de Junho – 1º DIA (domingo)
      O domingo chega. Fretamos um taxi para nos levar à Andaraí.  Encontramos nosso guia no pátio da igreja católica naquela cidade e de lá seguimos no veículo até a estrada onde tem início nossa jornada. Donana é como os moradores conhecem aquela área, uma referência a uma antiga moradora da localidade: Dona Ana. Vamos seguir a velha trilha usada por garimpeiros. 
       

       
      Uma vegetação arbustiva é o que encontramos nos primeiros metros. Seguindo um pouco e ela vai mudando. Agora temos uma área mais preservada. Árvores maiores vão ocupando os espaços. Uma ponte de madeira marca o inicio dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Daqui pra frente à aventura começa pra valer. A trilha segue paralela ao Rio Paraguaçu. O terreno é de subida, sentimos o peso nas costas.
      Enfileirados seguimos pela trilha dentro da mata. O lado esquerdo fica o leito pedregoso do rio Paraguaçu de onde se ouve o som forte de suas águas. A certeza de que estamos optando por um trecho selvagem nos obriga a muitos cuidados. Aliás, pela primeira vez iremos realizar uma expedição utilizando equipamentos de GPS: Eu com um relógio Garmin Fênix 3 HR, enquanto Wilson carregava o indispensável SPOT G3. Esse é o instrumento mais importante, pois é capaz de acionar socorro e enviar nossa localização precisa em caso de acidentes.
      Era apenas o início de nossa travessia. Mal tínhamos completados 2 km e tivemos um susto: Wilson acabou batendo a cabeça contra uma ponta de um galho ao passar por baixo dele e o resultado foi um corte na parte superior do couro cabeludo que causou um sangramento. O kit de primeiros socorros levado por Marquinhos foi logo usado e minutos depois pudemos continuar. Ufa!
      Descemos. Seguimos agora pela margem pedregosa do Rio Paraguaçu. Esse é o tipo de terreno que iríamos enfrentar nas próximas 48 horas. A visão das pedras que formam todo o conjunto é muito bonita. Nossa caminhada exige muito equilíbrio porque temos que pular pedras imensas e andar sobre elas e descer outras tantas. Executar um pulo entre pedras com 20 kg nas costas é algo que exige bastante. É preciso jeito e sorte! 

       

      No quarto quilômetro fizemos uma pequena pausa para um descanso. Nosso guia buscou se refrescar nas águas geladas do rio eu a fazer as primeiras filmagens pra não perder nada da aventura que estava apenas começando. 30 minutinhos nessa parada e já tomamos uma subida forte à direita pelo paredão do Cânion do Paraguaçu: uma trilha dura pela encosta recoberta de arbustos. Agora já estávamos a quase 400 metros de altura em relação ao ponto inicial do trekking.
      Já era quase 2h horas da tarde. Estávamos outra vez dentro do leito do Rio Paraguaçu. Havíamos cruzado apenas de 6,5 km e fizemos a parada para o almoço. Visual deslumbrante. Comentava com o João de como tudo aquilo era admirável e do privilegio de se estar ali. A imagem das paredes do Cânion recoberta de vegetação verde em contraste com a água avermelhada, com as pedras no leito, as nuvens e o céu azulado trazia mais beleza ao cenário. 
      Marquinhos assumiu a cozinha e sobre um enorme pedra fez uma mistura que seria nosso almoço: grão de bico e atum sólido. Foi bem breve nossa parada.  Seguimos a caminhada e agora já estávamos diante de uma bifurcação de cânions. Majestoso recorte de rochas que marca o encontro de dois rios: do lado esquerdo as águas do Rio Paraguaçu e do direito as do Rio Pati.  É um marco geológico de dois grandes cânions. Pela primeira vez avistamos a boca do Cânion Pati.
       

      Às três da tarde havíamos percorridos 7,7 quilômetros quando chegamos à prainha formada do lado das águas do rio Pati onde levantamos o acampamento. Aproveitamos a área de terra, sem vegetação, para fazer uma fogueira distante uns 3 metros das portas das barracas. Depois disso foi momento de aproveitando os raios do sol cair e naquelas águas de dupla identidade. O tempo passou rápido e a noite se aproximava.

      Marquinhos como de costume assumiu a cozinha preparando macarrão, linguiça defumada, tomates, cebola: o cheiro e o sabor estavam perfeitos! Depois da janta seguimos com nossas lanternas para o meio do rio. Aproveitamos uma das imensas pedras para sentar e experimentar a imagem contemplativa do céu estrelado e o som das águas naquele lugar inóspito. 

       
      Às nove da noite estávamos em nossas barracas. Marquinhos “homem bruto” resolveu lançar seu saco de dormir próximo à fogueira para passar a noite. Cabra de coragem (rsrsrs). A temperatura estava agradável. O termômetro marcava 21 graus. Foi fácil pegar no sono dessa vez.

      01 de Julho – 2º DIA (segunda-feira)
      Acordei por volta das seis e meia da manhã imaginando como seria nossa caminhada. Vamos preparar o café e começar mais um capítulo de nossa história. O dia era bonito, eu estava tranquilo e até mesmo meio lerdo (rsrsrs), por isso me atrasei um pouco retardando a partida. Somente às 9h30 iniciamos a trilha. Há uma estimativa de que o percurso possua 9 km e que os mesmos serão bem pesados.
      O Cânion do Paraguaçu ficou ali. Nosso movimento agora é à direita, dentro do Cânion do Rio Pati. Por ele iriamos saber a razão pelo qual muitos aventureiros evitam aquela rota. O nível de dificuldade do trekking aumentou bastante já nos primeiros metros. O pula-pedra passou a ser uma constante e tirar a bota para não encharcá-la logo se mostrou ilusão e perda de tempo.  Avançar sobre rochas escorregadias é uma maluquice, mas não ha outra maneira de seguir.  
       

      Os joelhos sofrem demais com o peso nas costas somados ao impacto dos saltos entre as pedras que tem que ser precisos. É força, equilíbrio e principalmente sorte: levamos 1h42 minutos para percorrer 2 km tamanha dificuldade que o terreno apresentava. Ora estávamos de um lado do leito, ora do outro. E quando nos aproximávamos do terceiro quilômetro executando umas dessas passagens entre pedras escorregadias o companheiro João tomou uma queda. Ele escorregou batendo com a canela em numa pedra dentro do rio.  Um hematoma imenso se formou no centro de sua canela. E isso nos deixou assustados uma vez que ele poderia ter fraturado a perna. Tirá-lo dali aquela altura seria impossível salvo por helicóptero.  Levamos alguns minutos cuidando do amigo e graças a Deus tudo ficou bem: uma atadura foi colocada em volta da lesão, e seguimos ainda mais cautelosos com a certeza de que não podemos errar! 
       

      O terreno continuou duro. Percorremos mais 2,5 km e de trilha. Dessa vez fizemos uma subida violenta a direita, uma trilha dentro da mata que margeia a parede do cânion Pati. Às 12h30 curta parada, dessa vez para recobrar o fôlego. O trajeto em ziguezague pelo rio, atravessando, pulando pedras é um exercício para o corpo e mente. A beleza do cânion em sua forma esbranquiçada emoldura o cenário. Outros 20 minutos de descanso. Passamos à margem esquerda desafiando pedras e vegetação da encosta. Agora temos um “tronco” fixado junto o paredão que serve como ponte evitando o caminho por uma parte escorregadia sob nossos pés. É preciso segurar na parede. 

      Saindo da parede do cânion entramos na mata outra vez.  Aqui é necessário muito empenho, forca, determinação. Tivemos que transpor um emaranhado de pedras e arvores: uma combinação que exige do corpo. O esforço ofusca a beleza daquele trecho. A única coisa que queremos é sair daquilo para um lugar amplo e sem obstáculo.  
       
      Às 13h30 paramos dentro do Cânion para almoçar: grão de bico, atum cebola e tomate foi nosso almoço. Até ali tínhamos percorridos 7 km em 5 horas de muito esforço. Não temos a certeza da distancia exata do ponto de acampamento. Os 9 km que mencionei é uma mera especulação! Retomamos a trilha e ela continuou da mesma forma: dura e técnica. Quando completamos os 10 km já estávamos bem cansados e frustrados: percebemos que nossa ideia de quilometragem tinha ido por agua a baixo.  1 km depois se fez outra parada, estava bem claro que nosso moral estava baixo: expectativa e realidade se conflitavam. 
      Somente após percorrer mais 3 km chegamos ao nosso destino: a Toca do Guariba. Já passava das 17h30 minutos. Foi preciso correr para montar as barracas sob a luz da tarde, afinal dentro do Cânion escurece mais rápido. Foram exatos 14 km percorridos naquele dia.  A Toca do Guariba é nossa morada! Aliás, esse nome é dado pelo fato de que há um corte no Cânion que forma uma cavidade onde em geral os aventureiros buscam abrigo. É uma área protegida. O nome Toca do Guariba deriva pelo fato de que é comum avistar o macaco Bugio naquela área, eles também são conhecidos pelos nomes de Macaco Barbado ou Macaco Guariba. Não avistamos nenhum, tampouco os seus sons. Aliás, nesses quase dois dias ainda não cruzamos com ninguém na trilha. De fato estamos em local isolado.

       
      A noite chegou muito depressa. Não deu pra estar no rio e tomar banho. Dessa vez a higiene foi com lenços umedecidos. Estávamos exaustos, quebrados! Jantamos às 19h: frango, macarrão, linguiça defumada e bolo de rolo! Depois disso alguns instantes de conversa e música e às 21h já estava recolhido. O dia foi pesado! 
      02 de Julho – 3º DIA (terça-feira)
      Não consegui uma boa noite de sono. Só com o amanhecer do dia foi possível apreciar a beleza do lugar. O Rio Guariba é afluente do Rio Pati. Estamos exatamente no encontro dos Cânions. Tomamos nosso café e levantamos acabamento. Às 8h30 Deixamos as cargueiras em um ponto e fomos fazer uma breve visita dentro ao Cânion do Guariba. É um cânion estreito e belo. Passamos não mais que 1 hora. E infelizmente não tivemos a sorte de ver nem ouvir nenhum Bugio na local. 
       
      Voltamos, pegamos as mochilas e fizemos uma subida pela mata. Uma acentuada inclinação nos lançava mata acima. As pernas sofridas pelos 14 km do dia anterior reclamavam a todo instante.  A ideia é chegar à casa de seu Eduardo onde vamos dormir. Agora nosso caminho é por uma linda mata. Ela reveste a encosta do cânion dando beleza única a nossa caminhada. Estamos no alto do cânion encoberto onde é possível ouvir o som das águas do Pati. 

      Seguimos firmes e confiantes por 1 hora onde fizemos breve parada para um rápido lanche. A nossa direita estava a majestosamente Serra do Império. Continuamos. Ainda estamos na mata. No quilômetro 3,5 nos desviamos erroneamente numa bifurcação à esquerda que nos levou a um curral, ops! Logo achamos a trilha certa e seguimos.
      Após 5 km de trilha, às 11h da manhã estávamos diante da primeira residência nesses três dias de trekking: a casa de seu Joia e dona Leu.  E pra celebrar aquele encontro nada mais épico do que uma cerveja gelada. Sim, é possível tomar cervejas geladas no Vale do Pati. Comemos pão caseiro feito por Dona Leu e tomamos cerveja. Pagamos 12 reais por uma long neck (eu pagaria ate 50 reais rsrsrs). Passamos alguns minutos naquela casa humilde e acolhedora. Lavamos os rostos, enchemos nossos depósitos de água e seguimos.  O terreno de seu Joia tem um visual incrível. Curiosidade daquele lugar são os avistamentos de felinos como as onças que causam receios a nativos e aventureiros que cruzam a região. Graças a Deus não tivemos nenhum susto. Mas há muita gente que já viu, ouviu seus sons ou seus rastros.


      Percorremos 8.20 e às 12h40 estávamos na residência de Seu Eduardo atualmente sob os cuidados do Domingos, seu neto.  A casa fica aos pés do Morro do Sobradinho, a beira da Boca do Cânion Cachoeirão. Ela fica exatos três quilômetros daquela de seu Joia. Compramos refrigerantes e cervejas geladas. Isso e resultado das geladeiras alimentadas a gás butano e da energia solar que abastece a casa. 

      O cansaço dos dois dias nos fez desistir do planejamento inicial que era visitar o Cachoeirão por Baixo.  Resolvemos conter o dia conversando, tomando refringentes e cervejas e uns petiscos vendidos naquela casa.  A decisão se deu pela perspectiva que tínhamos daquele trekking. Queríamos devolver o prazer da caminhada, buscar prazer efetivo. Na nossa visão acumular a visita ao Cachoeirão fazendo o bate-volta iria nos desgastar e o que precisávamos mesmo era de um tempo pra ficar à toa entre amigos.  Acertamos também em comprar a janta ali oferecida e manter o acampamento com as barracas nas dependências da propriedade. 

      Tivemos a oportunidade de conhecer um bom sujeito Catalão: Joan, ele estava de passagem em visita ao amigo Domingos. Ali contou sua vida e sua relação com o Pati. Joan mora no Capão junto com sua esposa, de nacionalidade brasileira.  Ele relatou suas experiências com a natureza e de suas habilidades como especialista em agricultura sustentável e de sua colaboração em algumas comunidades na Chapada Diamantina.
      No meio da tarde fomos tomar banho no rio Cachoeirão, ele passa nos limites da casa.  Uma pequena descida te leva às margens, grande poço e corredeiras te convidam a cair na água. Ao fundo temos uma visão incrível das paredes dos morros que formam o vale.
      A noite chegou e o jantar oferecido foi sensacional: carne de sol, estrogonofe de frango, arroz, feijão, macarrão, farofa de cenouras, abóbora, e suco. Perfeito! Comemos divinamente e continuamos até umas 21h conversando em grupo. A noite estava estrelada. Eu, Wilson e João fizemos uma pequena fogueira próxima à barraca e às 21h30 já estávamos recolhidos.

      03 de Julho – 4º DIA (quarta-feira)
      Às 6h despertamos. Dessa vez procurei me apressar pra não atrasar o grupo. O café da manha foi preparado ali bem próximo às barracas: cuscuz e ovos. 8h15 já estávamos de saída. Tomamos o caminho a esquerda no sentido da casa de Seu Tonho. Atravessamos o leito do rio Pati sobre as pedras para seguir à margem esquerda do rio. Do lado direito margeando todo o leito uma belíssima mata acompanha o curso do rio. Essa caminhada ainda cedo ganhava muita beleza. A quantidade de sons dos pássaros trazia um encantamento fenomenal. O lado esquerdo nos acompanha o Morro Sobradinho, tocado pelos raios do sol. Tudo é maravilhoso!
      Agora temos forte subida.  Logo estamos a 178 metros de altitude em relação à casa de Domingo. O visual belíssimo já nos revela ao longe o Morro do Castelo. 2 horas depois e 5.6 quilômetros fizemos a parada de descanso naquela área conhecida como “prefeitura” que na verdade é um antigo entreposto dos antigos comerciantes e produtores de café do Vale do Pati. A imagem que temos é perfeita, uma pintura que cabe em qualquer quadro.


      Nossa próxima parada será na casa de seu Aguinaldo. Deixamos a prefeitura, atravessamos o Rio Lapinha e seguimos a trilha tendo a nossa direita o imponente Morro do Castelo.  Seguimos a trilha dentro da mata. No caminho Marquinhos à dianteira nos indica com cuidado a presença de uma cobra Jararaca ali bem no meio da trilha... Imóvel e bem camuflada ela parecia buscar os raios do sol que atravessava os altos dos galhos e folhas daquele lugar. Olhar para o chão sempre, essa e a dica! 

      Um pouco adiante tivemos a oportunidade de cruzar na trilha com Seu Antônio, Seu Tonho. Havíamos passado em frente a sua casinha, logo que saímos da casa de Seu Eduardo, lembra? Seu Tonho surgiu vindo atrás da gente, dentro da mata, na trilha estreita. Montava um burro e puxava outro que levava uma cela de carga (cangalha), seguia vocalizando comandos ao animal. Uma imagem bonita. Retrato de uma historia vida. É um som bonito que ecoava por entre a mata.  De perto assistimos como são transportados todos os suprimentos dos nativos dali. O burro é o motor, o transporte. 

      Enfim, depois de três horas de relógio, 8.4 km de distância e 426 metros de ganho de elevação chegamos à casa verde onde mora o casal. Estamos agora no Pati de Cima a 932metros acima do nível do mar. Ali fomos recebidos por dona Patrícia que nos ofereceu seus deliciosos pães caseiros e latinhas de Coca-Cola geladíssimas. Podemos apreciar os sabores ofertados diante de um visual belíssimo: estamos aos pés do Morro do Castelo.  

      Alguns minutos de descanso e seguimos às 13h com nossas mochilas de ataque rumo ao alto. São 400 metros de subidas em meia a mata atlântica preservada, uma trilha íngreme que exige muito mesmo dos joelhos e muita atenção para evitar quedas.  Levamos 1h20 minutos para completar os mais de 3 km de trilhas subindo até chegar ate o Morro do Castelo no alto dos seus mais de 1.400 metros. Numa subida tão vertical, não adiantar negar: vai doer.
      O Morro do Castelo é colossalmente bonito.  O fato de existir uma gruta que atravessa todo maciço de quartzito no local faz o morro ganhar ares ainda mais mágicos. É espetacular o conjunto da obra. Adentrar na gruta mexe com a imaginação. Ela possui aproximadamente 800 metros de extensão e para cruza-la se faz necessário o uso de lanternas: a escuridão é total. Não esqueçam as lanternas e muito, muito cuidado ao caminhar, pois há Pedras soltas e pontiagudas por todo percurso.


      Ao cruzar a extensão da gruta temos do outro lado um visual incrível do Vale do Calixto, ele está no lado oposto ao Vale do Pati. É magico, é incrível! Estamos a mais de 1.400 metros do nível do mar e para onde se olha é um mar de beleza que agrada aos olhos e ouvidos. É o som dos ventos soprando forte que impressiona. 

      Diante de tanta beleza muitos e muitos clicks, mas já é hora de retornar para Casa de Seu Aguinaldo que está 400 metros abaixo. É hora de descer aproveitando a luz do sol. Temos uma trilha dentro da mata e é bom não vacilar. Levamos 1h pra refazer o caminho de volta. 
      Ao chegar corri, junto com o João, para armar nossas barracas na área de frente à residência. Wilson preferiu contratar um pernoite num dos quartos da casa.  Nesse momento a temperatura começava baixar um pouco. O sol estava refletindo sem força nas bordas das paredes do Vale. Já estava imaginando a temperatura da água que iriamos tomar banho. Apelei por um aperitivo.  Eu e João provamos umas doses de cachaça para ver se a coragem aparecia. Nem sei se isso ajuda. Fomos ao banho: água gelada da mísera!
      Contratamos o jantar e não nos arrependemos. Dona Patrícia caprichou: carne de sol, macarrão, arroz, salada crua e suco de maracujá. João que não come carne foi contemplado com uma omelete preparada com exclusividade. Todos felizes e de barriga cheia. Ao termino do jantar, enfim seu Aguinaldo apareceu e conversamos bastante. Ele falou de sua vida, da rotina naquele lugar e os desafios de se viver ali. O clima era úmido e a temperatura na casa dos 18 graus. Não tardamos buscar o aconchego de nossas barracas, Wilson se recolheu ao conforto do quarto. É nossa ultima noite dentro do Vale do Pati.
      04 de Julho – 5º DIA (quinta-feira)
      Último dia. Acordei às 6h30. O termômetro marcava 14 graus. O som das águas do Rio Lapinha correndo, dos pássaros cantando e voando pertinho da barraca e a imagem do Morro do Castelo diante de nós marcavam o inicio daquele nosso derradeiro dia no Vale do Pati. Eu já sentia saudades de cada momento. Por outro lado, nosso amigo e guia estava com dores estomacais e apresentava também quadro de diarreia. Ficamos preocupados com a condição física dele. Ninguém merece ficar doente na trilha. Retardamos um pouco a saída. Marquinhos sinalizava que já estava tudo ok, então tínhamos que partir.

      Às 9h010 saímos da casa de seu Aguinaldo. Subimos a trilha e seguimos pulando pedras no curso do Rio Lapinha e após caminhar 1.7 km a gente chegava à Cachoeira das Bananeiras.  Seguindo o curso daquele rio e 1h 15 depois de nossa partida (2,5 km) estávamos na Cachoeira do Funil que se apresenta belíssima. Cruzamos o leito para pegar a trilha que fica na parte de cima da encosta, próxima a queda d´água. Minutos depois chegamos a Cachoeira da Altina. Ali havia um pequeno grupo de turistas. É uma cachoeira um pouco menor que a do Funil. Deixamos a Cachoeira da Altinha (nome que faz referencia a uma antiga moradora que ali lavava as roupas da família) e tomamos o caminho novamente à esquerda, atravessando o rio e subimos uma trilha íngreme pela mata.

      Chegamos à igrejinha. Percorremos 4 km contados a partir da casa de Seu Aguinaldo.  Ali é a Casa de Seu João. Ela está próxima da Ladeira da Rampa que dá acesso ao Mirante do Pati e os Gerais do Rio Preto.  Ali é uma casa que também oferece serviços de recepção aos aventureiros com comida e hospedagem.  Lavamos os rostos e tomamos nossas ultimas latinhas de refrigerante dentro do Vale. O sol do meio dia castigava forte. São os testes finais de resistência depois de cinco dias de trekking. Doente, Marquinhos sentia bastante cada passo. Tive pena do nosso Leão da Montanha.

      Ao meio dia e meio estávamos no Mirante da Rampa. 6 km separam a casa de seu Aguinaldo do Mirante do Pati. E o visual a 1.337 metros é de tirar o fôlego. Ali enxergamos toda extensão do Vale do Pat: é o lugar perfeito para fazer aquelas fotos clássicas. Mas não podemos demorar. Temos horário marcado para nosso resgate lá no Beco, em Guine. O motorista Ari nos aguarda!
      As 13h10 seguimos nossa jornada pelo magnifica planície que forma as Gerais do Rio Preto. O terreno é um platô de campo rupestre, não há arvores naquele trecho, o lugar é belíssimo. A partir do Mirante, depois de 1,3 km cruzamos o riozinho que dá nome aquele local, o Rio Preto. Seguindo por mais 3.27 km estávamos enfim diante da descida de Aleixo. Eu diria que A Rampa e a Descida do Aleixo são tecnicamente iguais. A diferença e a ordem das coisas. Assim iniciamos nossa descida sob o calor das às 14h em direção ao ponto de encontro. Percorridos mais 2.1 km de trilhas chegamos ao final de um dos trekking mais bonitos desse pais.  Foi sensacional! Agora vamos voltar pra Lençóis!
       

       























































      Pati_Selvagem_-_Uma_Aventura__-_31_-08.docx


    • Por rafael_santiago
      Siete Picos
      Início: Cercedilla
      Final: Cercedilla
      Duração: 5 dias
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Dificuldade: média para quem está acostumado a trilhar com mochila cargueira. Há muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 1227m (4º dia) e 1435m (1º dia).
      A Serra de Guadarrama se localiza a cerca de 70km a norte-noroeste de Madri e é avistada tanto dessa cidade quanto da cidade de Segóvia. Há vários roteiros possíveis de caminhada pela serra, com durações que vão de um a vários dias, porém o acampamento selvagem é proibido no parque (bem como em toda a Espanha), sendo permitido apenas o bivaque acima dos 2100m e somente por uma noite. Eu escolhi fazer um trajeto de forma circular a partir da cidade de Cercedilla que percorresse seis dos cumes mais altos dessa serra: Peñalara (2427m), Cabeza de Hierro Mayor (2376m), Bola del Mundo ou Alto de las Guarramillas (2254m), La Maliciosa (2219m), Siete Picos (2117m) e Peña Águila (2011m). Essas altitudes parecem bastante modestas, inclusive se comparadas às montanhas mais altas do Brasil, porém todas ficam cobertas de neve no inverno, o que obriga ao uso de equipamentos apropriados.

      Vista do Pico Peña Águila
      1º DIA - 17/06/19 - de Cercedilla a Puerto de Cotos com subida do Pico Peña Águila
      Duração: 8h05 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2011m no Pico Peña Águila
      Menor altitude: 1140m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: nesse dia encarei as primeiras subidas da caminhada com desníveis de 871m desde Cercedilla ao Pico Peña Águila, depois 149m até Puerto de la Fuenfría e 415m da rodovia CL-601 até Puerto de Cotos
      Na estação Chamartín, em Madri, tomei às 8h10 o trem Renfe com destino à pequena cidade de Cercedilla, aonde cheguei às 9h20. Demorei algum tempo para encontrar o início da trilha para o Pico Peña Águila pois não havia indicação e a trilha não era nada óbvia. O trajeto é o seguinte: saindo da estação do trem deve-se descer a rua à esquerda por 100m até sua guinada para a esquerda, onde passa num túnel por baixo da linha férrea - exatamente na guinada deve-se cruzar a ponte (Rio de la Venta) e o estacionamento em frente para encontrar sob as árvores a trilha com placas de Sendero Ródenas (toda pichada) e Camino Puricelli (com mapa). Outra alternativa é caminhar a partir da plataforma da estação ao longo da linha férrea para oeste e encontrar a mesma trilha num ponto acima das citadas placas. 
      A partir das placas a trilha sobe em zigue-zague até uma rua de terra que deve ser tomada para a direita, subindo (a trilha que sai à direita antes da rua não serve). O casarão bem em frente à trilha funcionava como Albergue El Colladito, mas agora é uma escola infantil. Dali já avistei os Siete Picos, o Pico Bola del Mundo (Alto de las Guarramillas é o nome verdadeiro) e Pico La Maliciosa, meus objetivos para os próximos dias nesse trekking, todos a nordeste. Eram 10h20. Caminhei 640m por essa rua de terra (ignorando um caminho que sai para a direita logo no início dela) e às 10h32 entrei numa trilha à direita onde há uma placa de Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares. É um atalho que me levou a caminhar entre muros de pedra e subir a uma clareira alta com a primeira visão ampla para as serras, com destaque para os Siete Picos. Caminhando na direção de uma casa vazia à esquerda reencontrei a estrada de terra e segui nela para a direita, mas por apenas 200m pois entrei na trilha à esquerda, subindo entre pinheiros. Ali há um cocho de pedra com água corrente. Nas árvores há marcações de PR (Pequeño Recorrido = Percurso Pequeno), que são duas faixas horizontais, uma branca acima e outra amarela abaixo. Para mais informações: es.wikipedia.org/wiki/Pequeño_Recorrido.
      Às 11h55 cruzei uma estrada de terra (com círculos vermelhos pintados nas árvores) e continuei subindo pela trilha. Alcancei enfim às 12h09 a crista da serra e nela uma bifurcação em T, onde fui para a direita (norte). Nesse ponto estou entrando na famosa e longa trilha GR 10, que vai de Valência a Lisboa (as marcações em tinta branca e vermelha vão aparecer mais acima). Não cruzo o muro de pedra da crista por enquanto. Deixo para trás a floresta de pinheiros e continuo paralelamente ao extenso muro de pedras. Já avisto o cume do Pico Peña Águila, com as encostadas tomadas pelo tapete amarelo das flores piorno. A trilha cruza finalmente o muro de pedras apenas 140m antes do cume, aonde cheguei às 13h17. Visão espetacular num dia de céu limpíssimo: La Pinareja e Montón de Trigo ao norte (cumes da Serra Mujer Muerta); Peñalara a nordeste; Siete Picos, Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, Bola del Mundo (esses três em Cuerda Larga) e La Maliciosa a leste. Altitude de 2011m e desnível de 871m desde Cercedilla. O vento estava forte e bem frio e usei o muro de pedra como proteção para tomar meu lanche. 

      Pico Peña Águila com piornos floridos
      Às 14h iniciei a descida no sentido oposto ao que cheguei (nordeste) e em 12 minutos caí numa estradinha de terra muito chata. Caminhei por ela até um portão de ferro que cruzei às 14h42 e fechei com atenção seguindo a recomendação da placa (para o gado não fugir). Ali passava uma estrada tediosa de terra, mas procurei por trilha e encontrei uma no sentido nordeste, não muito óbvia no começo. A ela entroncou uma outra vindo da direita chamada Camino Viejo de Segovia. Atravessei uma ponte de madeira (água boa), outra ponte (quase sem água) e à direita surgiu a trilha conhecida como Calzada Romana. A Calzada Romana faz uma curva para a direita e eu preferi me manter no Camino Viejo de Segovia por ser mais direto, por isso segui à esquerda. Porém 190m depois fui à direita e passei a caminhar pela larga Calzada Romana, mas por menos de 100m pois alcancei uma estrada de terra às 16h06. Esse é um importante cruzamento de caminhos, inclusive de uma das rotas do Caminho de Santiago: Puerto de la Fuenfría.
      Observação: se tivesse caminhado à esquerda na estrada tediosa teria continuado na GR 10 e chegado a esse mesmo lugar. A partir dali a GR 10 toma a direção sul.
      Um dos significados da palavra puerto em espanhol é "paso entre montañas" ou "collado de montaña", portanto os puertos costumam ser lugares altos que dão passagem de uma vertente a outra da serra/montanha. Após a subida até esse puerto iniciaria uma suave descida.
      Há diversas placas nesse local indicando e explicando os muitos caminhos que por ali passam. Tantas placas que levei algum tempo para encontrar qual seria a continuação do meu caminho em direção a Puerto de Cotos. Mas era só continuar no meu sentido nordeste por uma estradinha de terra entre pinheiros. Um cocho de pedra tinha água corrente. Na primeira bifurcação fui à direita e na segunda, à esquerda. Às 16h44 a estradinha vira trilha e passo a caminhar pelo Carril del Gallo (sem placa mostrando essa informação). Às 17h41 cheguei a uma grande clareira usada como pasto e parei para descansar por 17 minutos com uma vista bastante ampla e bonita. Continuei no sentido sul (e depois leste) e reentrei na mata de pinheiros. Cruzei uma ponte de troncos e 130m depois alcancei uma estrada de terra, que tomei para a esquerda (norte) (aqui fui explorar uma alternativa à estrada mas não deu em nada, a trilha fechou; gastei 40min nisso). Desprezando as trilhas que nasciam dessa estradinha, às 19h11 cheguei ao asfalto da CL-601, exatamente num local chamado Las 7 Revueltas. Cruzei a cancela e desci à esquerda até uma cancela igual (à direita), onde tomei a estradinha de asfalto entre pinheiros. Altitude de 1409m. Parei para descansar por 22 minutos. Nas bifurcações continuei no asfalto até encontrar às 20h35 uma estradinha de terra à direita com placa de Puerto de Cotos a 3,2km. Passei por quatro riachos e alcancei as casas de Puerto de Cotos às 21h33, ainda com luz do dia (o sol estava se pondo às 21h45). Altitude de 1824m (desnível de 415m desde o asfalto da CL-601). 
      Puerto de Cotos não chega nem a ser uma vila, o lugar se resume a uma estação de trem onde funciona um refúgio de montanha (El Refugio de Cotos), o Centro de Visitantes do Parque Nacional Sierra de Guadarrama e um bar-restaurante (Venta Marcelino). Como é proibido acampar de forma livre e não há camping pago busquei hospedagem no refúgio, onde fui o único hóspede da noite já que era uma segunda-feira (no final de semana estava lotado). Lá fui atendido pelo Carlos, que me preparou um saboroso jantar. O único problema ali foi o banho pois a água não esquentava de jeito nenhum. 
      Além do trem há ônibus ligando Puerto de Cotos a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Laguna de los Pájaros
      2º DIA - 18/06/19 - Pico Peñalara 
      Duração: 5h20 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1816m na estação de trem de Puerto de Cotos
      Resumo: circuito passando pelo cume do Pico Peñalara a partir de Puerto de Cotos num desnível de 611m
      Após o café da manhã no Refugio de Cotos e uma boa enrolação saí às 11h36 para subir o Pico Peñalara com mochila de ataque apenas. Meu plano era subir pela crista do lado sul-sudoeste e descer pelo lado norte-nordeste, retornando pela face leste do pico. Passei pelo Centro de Visitantes Peñalara do Parque Nacional Sierra de Guadarrama para pegar informações e continuei no sentido nordeste por 370m. Logo após a curva do Mirador de la Gitana continuei pela trilha principal, a RV2, à esquerda (voltaria pela trilha da direita, a RV8). Após vencer um desnível de 611m desde o refúgio, com trechos em zigue-zague e grandes manchas de neve próximas ao caminho, alcancei o cume do Pico Peñalara às 13h34. Ele é o ponto mais alto da Serra de Guadarrama e das províncias de Madri e Segóvia. Dali se avistam Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, La Maliciosa e Bola del Mundo ao sul; Siete Picos, Peña Águila, Montón de Trigo e La Pinareja a sudoeste; Segóvia a noroeste.
      Iniciei o retorno às 14h46 seguindo a crista no sentido norte-nordeste. Cerca de 540m depois, num trecho com grandes blocos de pedra, desci pela face direita da crista, mas estava errado, o caminho foi sumindo e a descida se complicando. Voltei e desci pelo lado oposto, à esquerda da crista, onde havia uma trilha mais fácil. Observei depois que algumas pessoas continuavam pelo alto da crista, mas pelo que vi é preciso saltar grandes blocos de pedra bastante expostos. 
      Desci por trilha bem marcada e alcancei às 16h45 a Laguna de los Pájaros, onde uma placa alerta para a proibição de banho e a permanência a menos de 3m da margem para evitar a mortalidade de anfíbios, entre outros motivos (porém poucos minutos depois encontrei vacas pastando livremente às margens de outras lagoas). Ali tomei a trilha da direita (sul) e efetivamente iniciei o retorno a Cotos. Cruzei com um grupo grande com mochilas cargueiras que pretendia bivacar no Peñalara sem nenhum medo do vento frio da noite. Às 18h13 parei para fotos no Mirador de Javier e tomei o atalho que sai à direita dele para alcançar em 12 minutos a Laguna Grande de Peñalara, que é cercada com um cabo de aço para evitar a aproximação.
      Saindo da Laguna Grande às 18h54 desci por uma passarela de madeira e depois trilha até a casinha de vigilância e continuei na trilha em frente (ignorando as trilhas da direita e da esquerda). Reentrei na mata, passei por uma bica e reencontrei a trilha da ida (RV2) às 19h38. Passei pelo Centro de Visitantes, pela Venta Marcelino (fechada) e estava de volta ao refúgio às 20h10.

      La Pedriza
      3º DIA - 19/06/19 - de Puerto de Cotos a La Pedriza
      Duração: 7h50 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2376m no Pico Cabeza de Hierro Mayor
      Menor altitude: 1478m no acampamento em La Pedriza
      Resumo: subida de Puerto de Cotos ao cordão montanhoso Cuerda Larga num desnível de 560m e descida ao "parque" rochoso de La Pedriza num desnível de 898m
      Há dois caminhos possíveis para subir à crista de Cuerda Larga a partir de Puerto de Cotos. Um deles sai diretamente para o sul e passa próximo ao Albergue El Pingarron, o outro sai para leste e é 1,3km mais longo, porém foi o que escolhi (talvez tenha menos sobe-e-desce).
      Saí do refúgio às 10h53 no sentido leste e atravessei todo o estacionamento que fica ao longo da rodovia M-604. No final do estacionamento desci uma escada de madeira e encontrei na mata a trilha que me levaria a Cuerda Larga. Porém ao sair da mata, apenas 170m depois, a trilha sumiu. Cruzando o campo na direção sudeste, entrei em outra mata e reencontrei a trilha junto a uma pequena ponte de tábuas. Uma outra trilha entroncou nessa vindo da rodovia também. Um círculo amarelo pintado nas árvores confirma o caminho. Tomo o rumo sul e depois sudeste, direções que manterei por algum tempo. Cruzo um riacho pelas pedras e desemboco numa estrada, na qual vou para a esquerda, descendo. Atravesso a ponte sobre o Arroyo de las Cerradillas. Encontro outra estrada às 12h01 e desta vez vou para a direita, subindo por um vale com o Arroyo de las Cerradillas à direita. Surgem caminhos à esquerda que exploro tentando evitar a monotonia da estrada, mas foi só perda de tempo (apesar dos sinais vermelhos pintados nas árvores). Felizmente logo a estrada vira trilha (na bifurcação vou à direita), cruzo três pontes, a trilha dá uma guinada para o norte e chego a uma bifurcação com placas às 14h34. Da direita vem a trilha do Albergue El Pingarron, o outro caminho de Cotos. Eu sigo para a esquerda retomando o rumo sul.
      Cruzo quatro riachos em sequência, formadores do Arroyo de las Cerradillas. Alcanço o limite das árvores (1825m) e passo a subir por entre moitas de piornos floridos. Depois vem a parte mais inclinada da encosta da serra com a dificuldade de caminhar por um terreno chamado de canchal (em espanhol) ou scree (em inglês), uma ladeira de pedras desmoronadas. Cruzo um riacho para a direita às 15h26 e essa será a última água até descer para a outra vertente no final do dia. 

      La Pedriza
      Às 16h40 alcanço enfim a crista de serra conhecida como Cuerda Larga. Desnível de 505m desde as placas. Dali avisto as formações rochosas de La Pedriza, a cidade de Manzanares El Real, meu objetivo deste dia, e bem distante no horizonte a capital Madri. Sigo para a esquerda (nordeste) na bifurcação em T às 17h02. O Pico Cabeza de Hierro Menor (2374m segundo a Wikipedia), segundo mais alto de Cuerda Larga, fica apenas 300m à direita dessa bifurcação, mas não fui até ele.
      Seguindo pela crista (PR-M 11), um desvio de apenas 40m à esquerda me leva ao cume mais alto de Cuerda Larga, o Pico Cabeza de Hierro Mayor, com 2376m de altitude pelo meu gps. Ele é o segundo em altitude da Serra de Guadarrama, perdendo apenas para o Peñalara. Avisto lá do alto o estacionamento de Puerto de Cotos onde iniciei a caminhada desse dia e também as montanhas: Peñalara ao norte; La Pinareja, Montón de Trigo, Siete Picos, Peña Águila e Bola del Mundo a oeste; La Maliciosa a sudoeste; La Pedriza e Manzanares El Real a sudeste; e ao sul-sudeste os prédios de Madri. Desnível de 560m desde o refúgio em Puerto de Cotos. 
      Continuando pelo sobe-e-desce da crista no sentido leste passo pelos outros cumes de Cuerda Larga: às 18h08 pela Loma de Pandasco (2247m, segundo a Wikipedia, não fui medir cada um), às 19h06 por Navahondilla (2234m) e às 19h15 por Asómate de Hoyos (2242m). Nesse trajeto tive o primeiro contato com as cabras montesas e estavam em grande número, mas são mansas e ariscas. Cerca de 310m após o último cume sigo os totens e faixas pintadas à direita e abandono a crista de Cuerda Larga, que segue para nordeste, em favor de uma crista secundária a sudeste que me leva ao "parque" rochoso de La Pedriza. O lugar é incrível, com formações fantásticas de granito, algumas lembrando o nosso Parque Nacional de Itatiaia. Há inúmeros caminhos em La Pedriza, muitos deles usados por escaladores para acesso às pedras e suas vias. Vários outros levam ao vale do Rio Manzanares, o qual eu deveria percorrer para alcançar o Camping El Ortigal, a caminho da cidade de Manzanares El Real.
      Dos muitos caminhos ao Rio Manzanares optei pelo mais direto, passando pelo Refugio Giner de los Rios (PR-M 2). Após descer 330m (de altura) desde a crista de Cuerda Larga pela PR-M 2, às 21h02 chego a uma bifurcação em T em Collado del Miradero e vou para a esquerda (ainda PR-M 2), reentrando no bosque de pinheiros cerca de 100m depois. Voltam a aparecer as fontes de água e com elas os locais propícios para o bivaque para quem se aventura escalando as muitas pedras do entorno. Já estava começando a anoitecer (quase 22h) e o camping ainda estava muito longe, então parei no primeiro local plano que encontrei, na altitude de 1478m, para pernoitar. 

      Sierra de los Porrones
      4º DIA - 20/06/19 - de La Pedriza a Puerto de Navacerrada
      Duração: 8h10 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2254m no Pico Bola del Mundo
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Resumo: descida de La Pedriza ao Rio Manzanares, em seguida subida aos picos La Maliciosa e Bola del Mundo e descida a Puerto de Navacerrada. Diferença de 1227m entre os pontos mais alto e mais baixo do dia.
      Esse dia e o dia seguinte são de escassez de água. É preciso reabastecer os cantis nas poucas fontes encontradas no começo desse dia para durarem até a tarde do dia seguinte (a menos que se consiga água em Puerto de Navacerrada, que não foi o meu caso). 
      De manhã fui explorar o entorno do local onde acampei e encontrei um lajedo com pedras de diversos formatos e tamanhos, uma miniatura do Lajedo do Pai Mateus de Cabaceiras(PB). É bom lembrar que o acampamento selvagem nos parques da Espanha é proibido, mas eu montei a barraca já à noite, desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local.
      Comecei a caminhar às 8h18 ainda descendo. Apenas 340m depois do local de pernoite, aos 1433m de altitude, encontrei um cruzamento de trilhas mas fui em frente pois era o caminho mais rápido ao Refugio Giner de los Rios e depois ao Rio Manzanares. Continuo na PR-M 2. Aos 1256m encontrei a primeira água do dia. Às 9h28, na altitude de 1179m, uma placa aponta para o refúgio à esquerda, num desvio de 150m da trilha principal. Cruzei uma pequena ponte e depois uma clareira para subir ao refúgio, que encontrei em bom estado porém trancado. A bica ao lado estava quase seca. A clareira tem espaço de sobra para acampar porém logo cedo já começam a passar os trilheiros e escaladores uma vez que há um estacionamento a 2km dali. Voltei à trilha principal às 10h08.
      Às 10h39 cheguei ao Punto de Información Canto Cochino, mas estava fechado (só abre de sábado, domingo e feriado das 9h às 17h). Esse é o ponto de convergência de pelo menos quatro trilhas que descem de La Pedriza e as placas indicam esses caminhos. Foi também o local onde vi mais gente. Dali tomei a direção sul por um calçamento e cruzei às 10h58 a ponte sobre o Rio Manzanares, encontrando do outro lado uma estrada e um pequeno estacionamento. Essa ponte é o ponto de menor altitude do dia e de todo o trekking (1027m) e a última água do dia.
      A estrada quebra para a direita e ao fazer uma curva para a esquerda encontro dois grandes estacionamentos e um ou dois bares (se fosse ao Camping El Ortigal teria que tomar a direção sul aqui). Ao final dos estacionamentos cruzo o asfalto e entro na trilha em frente (oeste). Na bifurcação uns 35m depois vou à esquerda (pois a direita morre no asfalto mais à frente). Cerca de 1,1km depois da bifurcação chego às 11h31 a um cruzamento de trilhas, onde vou para a esquerda, quase voltando. Meu objetivo é subir à crista da Sierra de los Porrones e descer à cidade de Puerto de Navacerrada para pernoite. 

      Sierra de los Porrones
      Não percebi uma trilha saindo para a direita e subi até um muro de pedras que fui contornando para a direita até reencontrar a trilha no sentido oeste novamente. Às 12h21 cruzei uma estrada de terra e parei para descansar e me refrescar do forte calor. Os insetos também estavam incomodando um bocado. Nesse ponto há algumas placas e uma delas apontava para o Pico La Maliciosa, meu destino. Faixas amarelas e brancas pintadas indicam ser uma rota de Pequeño Recorrido, nesse caso a PR-M 16. Havia um cocho de pedras mas as bicas estavam secas. Às 13h05 retomei a caminhada agora subindo bastante. Nessa subida pela encosta norte da Sierra de los Porrones tive de fazer mais algumas paradas longas porque o calor estava me tirando a energia. Às 15h53 atingi a crista da serra e fui à direita na bifurcação, subindo, pois a trilha da esquerda desce pela vertente sul da serra. Às 17h22 avistei uma grande formação rochosa à frente e uma nítida trilha subindo ao seu cume: era o Pico La Maliciosa, uma dura subida ainda a enfrentar. As árvores desaparecem.
      Alcancei o cume de La Maliciosa às 18h57 e havia mais duas ou três pessoas. Conversei com um rapaz de Madri que veio fazer um bate-e-volta desde a capital até esse pico e já ia retornar! La Maliciosa é o pico mais alto da Sierra de los Porrones, com 2219m, e dali se avistam: Bola del Mundo e Pico Peñalara ao norte; Cabeza de Hierro Mayor e Cabeza de Hierro Menor a nordeste; La Pedriza a leste; Manzanares El Real e o reservatório Embalse de Santillana a sudeste; Madri ao sul-sudeste; Navacerrada a sudoeste (não é Puerto de Navacerrada, que fica mais acima e não se vê dali); Peña Águila e Siete Picos a oeste.
      Retomei a caminhada às 19h18 em direção a Bola del Mundo e suas horríveis antenas parecendo três foguetes prestes a ser lançados. Continuei pela crista da serra por mais 520m no sentido noroeste e tomei a direita (norte) na bifurcação onde a esquerda desce a vertente sul em direção à cidade de Navacerrada. Desci por um caminho de pedras com bifurcações mantendo a direita e cruzei na parte mais baixa uma outra trilha que corria no sentido leste-oeste. Subi a encosta oposta por caminho largo e cheguei a Bola del Mundo, ou Alto de las Guarramillas, às 20h32. Aqui retorno ao cordão montanhoso Cuerda Larga já que esse pico é o mais ocidental dele, com altitude de 2254m. Mas aquelas antenas causam tanto incômodo que não parei, segui para oeste, agora por estradinha concretada (350m a leste de Bola del Mundo se situa o Ventisquero de la Condesa, local onde nasce o Rio Manzanares, mas não fui até lá para conferir se seria fácil coletar água abaixo do nevado). 
      Desci 850m pela estradinha e cheguei a um bar-restaurante que deve funcionar somente no inverno, quando a pista de esqui da face oeste da montanha entra em atividade. Ao lado do bar-restaurante fica a chegada do teleférico que parte de Puerto de Navacerrada, mas a inclinação e o terreno de pedras soltas dificultam a descida direta por ali. Tive de descer pela estradinha de concreto mesmo, com todas as suas curvas e zigue-zagues. Às 21h35 cruzei a cancela ao lado do ponto de partida do teleférico e com mais 5 minutos cheguei a Puerto de Navacerrada, cortada pela rodovia M-601. Altitude de 1862m. Procurei hospedagem no Albergue Peñalara, mas estava fechado. O único lugar aberto e funcionando era o Hotel Residência Navacerrada, porém a mulher fez uma cara de assustada quando me viu entrar de mochila cargueira nas costas e foi logo dizendo que o hotel estava lotado. Já era noite. A única saída era acampar. Procurei o início da trilha do dia seguinte, desviei para dentro da mata com lanterna e encontrei um lugar plano, espaçoso e muito discreto para montar a barraca a menos de 300m da rodovia. 
      Há trem e ônibus ligando Puerto de Navacerrada a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      5º DIA - 21/06/19 - de Puerto de Navacerrada a Cercedilla
      Duração: 6h05 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2117m no Pico Somontano, em Siete Picos
      Menor altitude: 1149m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: subida de Puerto de Navacerrada aos Siete Picos num desnível de 255m e descida a Cercedilla num desnível de 968m
      Desmontei acampamento e voltei à rodovia para ver se havia algum lugar aberto para tomar um café da manhã, mas continuava tudo fechado. Iniciei a caminhada do dia às 8h45 entrando na trilha sinalizada como "Sendero Arias" e "Estacion Ferrocarril" localizada entre o Hotel Residência Navacerrada e o estacionamento dos restaurantes/cafeterias mais acima. Após uma plataforma de teleférico à esquerda o caminho trifurca e fui para a direita. Cruzei uma cancela de ferro e subi à direita e depois esquerda na bifurcação. Cheguei a uma cerca de troncos finos que delimita uma pista de esqui pequena (talvez para iniciantes) e parei para tomar meu desjejum. Às 9h41 continuei subindo pela floresta de pinheiros e alcancei uma grande clareira com outro teleférico. À frente (oeste) já avisto toda a extensão dos Siete Picos. 
      Percorro no sentido sudoeste por 230m um caminho largo que vem do teleférico mas o abandono para tomar um outro um pouco mais estreito à esquerda que me leva à formação rochosa com a pequena estátua da Virgen de las Nieves. Dali se avistam o Pico Peñalara, Bola del Mundo, Puerto de Navacerrada e La Maliciosa. A trilha continua a partir dali e corre paralela ao caminho largo que abandonei. Às 10h48 chego a uma grande clareira gramada onde caberiam muitas barracas, ainda com um lindo mirante uns 100m depois (porém não há água). Retomo às 11h07 o caminho largo que havia abandonado e ele começa a se estreitar ao cruzar uma outra trilha - continuo em frente (noroeste) e tomo a esquerda na bifurcação 45m depois. Começo a subir em direção aos cumes de Siete Picos. Nos 2109m de altitude vou à esquerda numa bifurcação em T e 165m depois já estou no ponto mais alto, o pico conhecido como Somontano, de 2117m, às 11h44. Desnível de 255m desde Puerto de Navacerrada. Porém uma forte neblina havia tomado conta do lugar, mal me deixando ver a formação rochosa do pico, o mais oriental do conjunto.

      Piornos floridos
      Às 12h12 continuo pela trilha da crista, que se divide em várias, mas tento sempre me manter na mais alta. Passo por mais um dos cumes, ainda com muita neblina, e às 12h38 surge uma bifurcação em que se deve continuar à esquerda pois a direita desce a vertente norte da montanha. Na bifurcação seguinte vou para a esquerda e passo por mais um dos cumes. A neblina começa a se dissipar e o dia volta a ficar perfeito para fotos. Paro por 46 minutos para almoçar e curtir o visual. Antes de descer a encosta sul da montanha faço um desvio de uns 50m para alcançar mais um dos cumes às 14h37.
      A partir desse ponto inicio a descida e aos poucos reentro na mata de pinheiros. Na altitude de 1906m saio da trilha principal para subir (escalaminhar) o Pico de Majalasna (1935m), o mais ocidental dos cumes de Siete Picos e um tanto afastado dos outros que se encontram na crista. Do seu alto, às 15h36, avisto La Maliciosa e Peña Águila (as nuvens não me deixam ver mais que isso). Só retomo a caminhada às 16h33. Continuando a descida passo por duas fontes de água mas com muito pouca vazão. Essas fontes são a primeira água que encontro desde o Rio Manzanares, na manhã do dia anterior. Às 17h46 cruzei uma estrada de terra com diversas placas e seguindo 120m para oeste encontrei uma bica com mais água sob um abrigo de pedras (Refúgio del Aurrulaque). Parei para descansar e beber bastante água. Ao cruzar essa estrada de terra estou cruzando novamente a GR 10.
      A partir do abrigo tomei às 18h35 a Vereda Alta: desci no rumo noroeste, cruzei outra estrada de terra e na bifurcação abaixo fui à direita (à esquerda um X pintado numa árvore). Às 18h59 parei em mais uma fonte de água. Surgem trilhas vindo da direita e sigo por 115m um muro de pedras, mas ele continua à direita numa bifurcação em que vou para a esquerda. Às 19h41 chego a uma clareira com muitos caminhos para todos os lados. Fica até difícil descrever em detalhe o que fiz, para resumir tomei a direção sudoeste e alcancei o Caminho del Agua, uma trilha bem larga em que há um cano semi-enterrado. Às 20h13 vou à direita numa bifurcação e já começo a marcar algum lugar discreto para acampar em caso de necessidade, porém logo encontro um portão de ferro e depois algumas casas. Às 20h30 chego à periferia de Cercedilla. Primeiro cruzo uma rua e continuo na trilha em frente. Mais abaixo a trilha termina no asfalto da M-966, onde vou para a esquerda. Com mais 290m, às 20h47, estou na estação ferroviária de Cercedilla, onde tudo começou cinco dias atrás. 
      Ainda havia trens e ônibus para Madri mas eu não tinha reservado nenhum hostel lá e ia chegar muito tarde (o trem sairia 21h33 e deveria chegar a Madri às 22h37). Procurei hospedagem em Cercedilla mas só encontrei lugar caro. O jeito foi me meter na floresta de novo e encontrar um lugar afastado para montar a barraca. No dia seguinte peguei o trem das 8h30 e cheguei às 9h35 à estação de Chamartín, em Madri. Há opções de ônibus também (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      Informações adicionais:
      . trens na Espanha: www.renfe.com
      . ônibus 680 - Madri-Cercedilla-Madri: 
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__680___.aspx
      . ônibus 684 - Madri-Cercedilla-Madri: www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__684___.aspx?origen=2
      . ônibus 691 - Madri a Puerto de Navacerrada e Puerto de Cotos
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__691___.aspx
      . Refúgio em Puerto de Cotos: 32 euros o quarto coletivo com café da manhã e jantar, banheiro no corredor. Mais preços no site elrefugiodecotos.com.
      . roteiro adaptado a partir das informações do guia Lonely Planet Walking in Spain, 3ª edição, 2003
      Rafael Santiago
      junho/2019
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
    • Por Renato37
      Travessia feita em: 28/09/2019.

      Todas as fotos estão em: https://photos.app.goo.gl/sS4m5bB5wDXsYJNe6
                                                                                                                               
                                                                                                                           
        - Introdução -
       
      Uma semana antes dessa caminhada, estava conhecendo o Morro do Saboó em São Roque. Do seu topo, comecei a reparar em outros picos bem maiores ao redor, qdo um em específico me chamou muito a atenção. Era uma enorme elevação com 2 picos enormes e outras menores se destacando no horizonte e estava com parte do topo encoberto pelas nuvens.
      Mas foi no final do dia, qdo a nebulosidade dispersou sobre o topo dessa montanha, que eu pude ver que é bem mais alta do que eu imaginava. E obviamente me atiçou a curiosidade de desbravar esse pico. Mas antes, precisaria buscar infos do nome, como chegar, qual é o ponto mais próximo de ônibus ou carro.
      Pois bem, na semana seguinte ao morro do Saboó, me debrucei no pc e olhando no google earth, descobri o nome da tal elevação: Serra do Voturuna. Outra coisa que me chamou mais a atenção ainda, é a altitude de seus picos: mais de 1.200 metros. Foi a deixa para descobrir como chegar lá.
      Buscando relatos aqui, ali e acolá, encontrei um do famoso colunista, montanhista e trilheiro conhecido: Jorge Soto, que já esteve lá algumas vezes e havia disponibilizado um relato de uma travessia que fez de ponta a ponta de toda a cadeia montanhosa da Serra de Voturuna.
      Pois bem, após ler todo o relato, onde ele diz em detalhes o percurso e como chegar, era hora de bolar a melhor logística possível para chegar lá, usando transporte público.

      1º dia - Do centro de Araçariguama ao Topo do Pico do Morro Negro
      Para essa travessia, chamei várias pessoas, mas apenas 6 corajosos toparam ir na empreitada comigo: Marcio, Paola, Monike, Diego e a novata do grupo do Whats: Andréia.
      Eram 7:40 qdo saltei do trem na Estação Itapevi, cujo movimento estava tranquilo por ser um Sábado. Lá, encontrei o Diego que já havia chegado antes e me aguardava no ponto marcado.
      Aos poucos, a turma foi chegando, mas logo tivemos uma baixa: A Monike, que havia perdido a hora e não conseguiria vir. Caiu na armadilha de "ah, só mais 5 minutos" e se deu mal. Com isso, continuamos em 5.
      Com todos reunidos, fomos para o ponto de ônibus esperar o coletivo para Araçariguama. O tempo estava com cara de poucos amigos, uma fina garoa caia sobre nossos rostos ansiosos e nisso, vinha a pergunta que não quer calar: Será que sol vai aparecer e teremos algum visual?
      Sim, as previsões meteorológicas para o fds estavam favoráveis.
      Aproveitei para tomar um café da manhã reforçado em frente a estação e depois logo embarcamos no latão rumo a Araçariguama que passou as 10:00hs.
      Parte do trajeto é feito ao lado do antigo leito da Sorocabana e depois adentra uma estrada de terra que só por deus.
      Após muito chacoalhar, balançar e até pula-pula, finalmente chegamos ao trecho da Castelo Branco, onde não demorou muito e logo chegamos a pacata Araçariguama, após 1 hora desde a estação Itapevi.
      Ao longo do trajeto, o tempo abriu um pouco, corroborando a previsão meteorológica, para a alegria e o entusiasmo de todos.
      Ao lado esquerdo, ainda na Castelo Branco, a Serra do Voturuna aparecia em alguns momentos com todo seu explendor e seus 2 picos mais altos aparecendo em destaque, quase que rasgando os céus.
      Araçariguama é uma cidade bem montanhosa, cujas ruas são verdadeiras pirambeiras. Deve ser por isso que não vi nenhuma academia por lá...😂
      Tão logo desembarcamos, a turma resolveu fazer um café da manhã reforçado e sem perder tempo, partimos em direção ao nosso objetivo: a Serra do Voturuna.

      O avião lá em cima, visto do centro da cidade.
      Munidos apenas do relato, infos e uma bússola, lá fomos nós em direção ao morro do Avião, onde há um avião da decada de 50, que visto de longe, parecia estar se equilibrando a meio caminho.
      O relógio já havia passado das 11:00hs e vi que precisávamos apertar o passo, já que nenhum de nós tinha noção alguma de quanto tempo iriamos demorar para chegar até a base, quiça o topo. Partindo do centro da cidade, chegamos a um enorme campo de futebol e uma praça, onde a partir dali, pega-se uma estrada de terra que sobe até o topo.
      Não demora muito e vem o primeiro trecho de subida forte, em direção ao topo do morro do avião, que segundo o relato, é a nossa referência do caminho em direção ao sopé da Serra do Voturuna.

      As primeiras vistas da Serra de Voturuna durante a subida
      No trecho inicial da estrada de terra, uma trilha a direita serviu de atalho e evitou uma grande volta que a estrada de terra dá em boa parte de sua subida. A medida que iamos ganhando altitude, já conseguíamos visualizar parte da Serra do Voturuna, com seus 2 maiores picos em destaque, para a animação de todos.
      A Subida é ingreme, mas não dura muito tempo e logo estamos no topo, onde pudemos ver o tal "avião" todo carcomido e enferrujado pelo tempo, repousando no alto do morro. Do topo, passa uma rodovia vicinal que segue na direção desejada. Do morro do avião, se tem um belo visual da cidade e do entorno, mas com o tempo passando, nos limitamos a algumas fotos, pois ainda tinhamos muito chão pela frente.
      Do mirante do avião, pegamos o caminho da direita pela rodovia e seguimos por cerca de 6 km até o sopé da Serra, onde parte a trilha que sobe.

      No mirante do avião
      Desse ponto, a Serra do Votoruna aparece com todo o seu explendor e imponência e vale até alguns minutos para contempla-lo. No trecho da Rodovia, após a mesma fazer uma grande curva a esquerda, ela inicia um longo trecho de descida até um grande vale. Nesse vale, passa um riacho e é o unico ponto de água disponível nesse primeiro dia. Nós não pegamos água nesse riacho e só fomos descobrir lá na frente que foi uma péssima decisão. Pegue água nesse ponto ou terá problemas!

      Na Rodovia, chegando próximo a base da Serra do Voturuna todo imponente a sua frente.
      1 hora e 20 minutos desde o avião e 2 horas desde o centro de Araçariguama, finalmente chegamos ao ínicio da trilha que subia forte logo de cara e vimos que não seria nada fácil.
      As 13:35 começamos a subida da trilha, que começa em meio a trecho de grama baixa, com trilha meio precária, que hora aparecia e desaparecia constantemente, mas o sentido a seguir era obvio: sempre para cima, seguindo pela crista....30 minutos desde a Rodovia,  chegamos a um ombro, onde a subida dá uma trégua e desse ponto, já era possível avistar todo o percurso a frente, com os 2 grandes picos do Voturuna à  esquerda, parecendo estar perto, mas distante umas 2 horas de subida ainda.

      Trecho inicial da subida só com vestígio de trilha ou mesmo sem mesmo, porém de grama rala e por isso, a subida foi facil.

      As primeiras vistas do trecho onde ainda iriamos passar e os 2 principais picos do Voturuna a esquerda, ainda distantes.
      Aqui a trilha fica mais definida, o que ajudou nessa parte com o mato mais alto, composto em sua maioria por Samambaias. Felizmente o trecho mais fechado não dura muito tempo e logo saímos em um trecho onde parece que a grama foi cortada e com isso, a caminhada fica bem mais fácil e rápida.
      Com visual total de tudo a frente, vamos ganhando altitude e a medida que subíamos, o vento e o frio iam apertando mais. O sol ia e vinha entre muitas nuvens o tempo todo, o que foi um alivio, pois não há nenhum ponto de sombra e imaginei subindo com o sol castigando a todo momento.

      Subida segue pela crista acima
      Mais 30 minutos e chegamos ao primeiro dos 3 topos e aqui, a subida da uma trégua. Nesse ponto, se visualiza a imponente Serra do voturuna bem a sua frente, com seus 2 principais picos parecendo estar perto, mas ainda restava a descida de um vale até lá.
      Um Pinheiro solitário e fora do contexto chama a atenção, pois é o unico visivel no topo e aqui também encontro vestígios de acampamento, mas como o lugar é totalmente exposto aos ventos, é arriscado acampar aqui.
      As 14:47 inicio a descida do vale em direção a base do Pico do Morro Negro e logo a frente vejo o enorme subidão pirambeiro por onde ainda iria passar e vejo que não será nada facil, pois é uma subida bem íngreme.

      No primeiro topo, com visão total dos próximos 2 picos a sua frente.

      Trecho de descida até um vale
      A descida é tranquila e é feito por um trecho de estradinha de terra, o que me faz supor que aqui deve subir veículos motorizados vindos de alguma bifurcação a frente. A descida é rapida e nesse trecho, passo por 2 bifurcações, uma a direita e outra a esquerda e percebo que existe outro acesso ao Voturuna vindo lá da rodovia, de algum outro ponto posterior ao que eu entrei, provavelmente usados por quem vem de carro.
      Resolvo dar uma descansada aqui na base antes de começar a subir, pois só de olhar o paredão íngreme a frente, cansou até a vista.  Olho para trás e vejo os demais se aproximando, mas com o vento gelado, nem consigo ficar muito tempo parado e logo começo a subida.
      Aqui, a trilha é bem marcada e definida, com isso, nosso avanço foi bem mais rápido.
      A medida que ia subindo, a trilha vai ficando mais íngreme e nisso, fui parando algumas vezes para retomar o fôlego ao mesmo tempo que curtia o visual e aguardava os demais me alcançar.

      Iniciando o segundo trecho de subidão pirambeiro em direção ao próximo pico
      A subida é árdua e com o peso da cargueira, esse trecho não é nada facil e vou seguindo em um ritmo lento. Vamos ganhando altitude rapidamente e felizmente, com o tempo encoberto, não tivemos o sol castigando, já que toda a subida é exposta e quase sem nenhuma area de sombra.
      Seguimos subindo em trilha bem demarcada e com vários trechos de pedrinhas soltas e rochedos, sem grandes dificuldades. 25 minutos desde o vale lá embaixo, chegamos ao topo do primeiro dos 2 picos e aqui, a trilha passa a descer entre os cocorutos do topo. A partir desse ponto, temos a visão total do trecho final até o Pico do Morro Negro, que aqui já se encontra bem próximo e bem visível a nossa frente.

      Trecho de vale após passarmos pelo topo do 2ºpico

      Vales enormes
      Descemos um pequeno vale e entramos definitivamente na subida final em direção ao cume. O relógio marcava 15:40hs e vendo que estamos relativamente próximo, resolvo fazer um pit stop para molhar a goela e mastigar algo, afim de forrar o estomago e também aguardar o pessoal que ficou para trás.
      O que preocupa aqui é que desde a rodovia, não passamos por nenhum ponto de água e sem expectativa de qdo encontrar um, aviso a turma para maneirar no consumo da água.
      20 minutos depois, retomamos a caminhada e a medida que íamos nos aproximando do topo, o visual de todo o contraforte serrano do Voturuna ia se abrindo e se destacando cada vez mais, o que chamou bastante a atenção. Aqui também era possível ver todo o percurso que ainda falta e o que já passamos.

      Trecho final ao cume
      O trecho final de subida ao cume a partir do segundo pico é mais leve, já que as subidas mais íngremes acabaram. Mas mesmo assim, os músculos das pernas já estavam esgotados, pois toda a força foram dirigidas a eles. Os ventos estavam bem fortes, o que dificultou nosso avanço, mas continuar era preciso!
      O topo parecia estar bem próximo e as 16:00hs, com pouco mais de 3 horas cravadas de subida desde a rodovia, finalmente chegamos ao cume do Pico do Morro Negro, a mais de 1.200 metros de altitude, para literalmente, desabarmos ali.

      Chegando ao topo e todo o trecho percorrido atrás

      Enfim, barracas montadas e o merecido descanso no cume
      Não havia ninguém no cume e com isso fomos donos absolutos do lugar. Fomos em busca de um local protegido dos fortes ventos para montarmos a barraca e nem demorou muito para encontarmos um bom local, amplo, plano e com um pouco de proteção. Até há outros descampados, mas todos expostos aos fortes ventos.
      Enquanto montavamos as barracas, uma forte neblina bateu no topo e a visão ficou prejudicada, frustrando a expectativa de todos por algum visual e o por-do-sol. Com o tempo fechado, a temperatura diminuiu rapidamente e ficou próxima dos 10ºC.
      Após montada a barraca, exploro as laterais do topo, afim de encontrar a trilha que desce para Sudeste. Encontro algumas bifurcações levando a outros mirantes e até encontro a trilha que segue na direção desejada. Mas com a visão prejudicado pela forte neblina, deixo para fazer isso melhor amanhã, torcendo para que o tempo esteja melhor.
      Com o anoitecer, resolvemos fazer nossa janta, ficamos jogando conversa fora e fazendo um pouco de hora. Mas com os fortes ventos, a neblina e o frio, nem fico muito tempo fora da barraca e logo fui dormir.
      2ºDia - Do topo do Morro Negro à Pirapora do Bom Jesus

      O domingo amanheceu ensolarado e com um tapetão de nuvens cobrindo os vales. Mas com a neblina do dia anterior e sem expectativa alguma de que abrisse o tempo antes do amanhecer, ninguém acordou para ver o nascer do sol. Acordei pouco depois das 7:00hs com os raios do sol batendo do lado de fora da barraca e ao colocar a cabeça para fora, vejo tudo aberto e as nuvens embaixo, o que me deixou bastante animado!
      A neblina da noite anterior tinha dissipado e na verdade, as nuvens estavam embaixo, o que deixou todos radiantes.
      Com o tempo aberto, deu para ver todo o caminho que viemos no dia anterior, com as cidades de Araçariguama, Pirapora do Bom Jesus, Santana do Parnaíba, dentre outras até onde a vista alcançada. É um visual de tirar o fôlego.
      Aproveitei para analisar melhor a trilha que desce para Sudeste em direção aos 2 outros picos da Serra, planejando o percurso de descida. Do topo, dava para ver boa parte do percurso por onde irei descer, com algumas pequenas subidas e vejo que será uma caminhada longa, mas relativamente tranquila. Volto para as barracas e vejo que boa parte da turma ainda estavam se fartando de clicks do topo. Afinal, o dia estava radiante e o sol brilhava forte em um céu estupidamente azul e sem vestígio de nuvem acima, só embaixo. Após os clicks, fomos fazer nosso café da manhã e em seguida, começamos a arrumar as coisas.

      Pirapora do Bom Jesus lá embaixo

      Barraca desmontada e mochila nas costas, começamos a descer sentido Sudeste pouco depois das 9:30 da manhã em uma pequena trilha que ora sumia, ora reaparecia.
      Seguindo sentido Sudeste/leste, a descida é tranquila e a maior parte feita só no visual. Nesse trecho, vestígios de trilha vão aparecendo e indo na direção de um pico mais baixo. 15 minutos desde o acampamento lá no topo, chegamos a um vale, onde a trilha reaparece mais definida a esquerda, no meio desse vale e indo na direção desejada.
      A trilha está bem demarcada e com isso, nosso avanço fica mais rápido. Aos poucos, vamos perdendo altitude, enquanto passamos por várias paisagens do alto da Serra do Voturuna, com inumeras vistas do entorno e uma vegetação diferenciada. Uma pecularidade dessa Serra é os cavalos selvagens soltos por vários pontos e suas fezes encontrados em vários pontos da trilha.
      A trilha principal tem algumas ramificações, mas vamos seguindo pelo trecho principal mais demarcada em direção Sudeste, a caminho de Pirapora do Bom Jesus, visivel algumas vezes lá do alto, mas ainda distante. A trilha segue descendo discretamente em direção a um grande vale a esquerda, onde avisto uns cavalos tomando agua.

      Primeiro ponto de água a mais ou menos 1 hora de descida do topo, mas impropria para o consumo, infelizmente

      Cume do Morro Negro ficando para trás
      As 10:05, chegamos ao vale que vimos lá de cima, mas por conta dos cavalos e seus dejetos, a água está imprópria para consumo e por isso, somos obrigados a continuar em frente em busca de outro ponto de água potável. Felizmente, a turma soube racionar bem a agua que dispunha e por isso, ainda tínhamos agua suficiente para chegar até o próximo ponto.
      Atravessamos o pequeno vale e começamos uma nova subida ao alto de um morro. Chegamos à uma bifurcação em "T" onde pegamos o caminho da direita sentido Sul. O da Esquerda parecia ser a tal "trilha norte". A trilha da direita segue pelo alto da crista do pequeno morro.
      10 minutos após a birfurcação, a trilha começa a descer até uma grande planície, onde se dividiu em pequenas ramificações, mas que todas se encontravam. Aqui o caminho é um pouco confuso, mas a trilha principal se mantem bem demarcada e é só seguir por ela que não tem erro. Mais 20 minutos e chegamos a um enorme descampado plano e protegido para umas 10 barracas pelo menos.

      Descampado em um trecho bem amplo
      Continuamos em frente e as 10:45h chegamos a beira de um enorme precípicio. Ali, tivemos um perdido: A trilha termina ali e não tinha caminho a seguir em frente. Segui à esquerda, depois a direita e nada de trilha ou de um caminho visivel. A frente, só um enorme precipício intransponível, sem continuação. Diante dessa situação, pensei: E agora, José?
      Considerando as várias ramificações da trilha principal, resolvemos voltar e ver se encontramos alguma bifurcação que deixamos passar batido. Dito e feito, 10 minutos de retorno, demos de cara com uma bifurcação a direita (esquerda para quem está descendo) que ia na direção desejada. Resolvido o perdido, bora continuar a pernada.

      Pico que é a referência da bifurcação que desce/sobe por um vale
      A Referência dessa bifurcação, é um pico que fica bem a frente. Depois que entramos na bifurcação, ela logo mergulha na mata fechada e segue por dentro dela até encontrar uma pequena nascente de um corrego com água limpa.
      Enfim, após 1 dia e meio sem ver agua, finalmente encontramos o precioso líquido. Era uma nascente, então descemos mais um pouco até um ponto onde o corrego fica com mais vazão e paramos para coletar água limpa e corrente.
      Goela molhada e cantis cheios, retomamos à caminhada de descida em direção a Pirapora do Bom Jesus e a partir desse ponto, a trilha fica mais íngreme e vamos descendo com mais cuidado. Outro detalhe desse ponto são os carrapatos. Pegamos vários no trecho, então, muito cuidado nesse trecho de mata mais fechada. Use um bom repelente para evita-los, de preferência aqueles com ação forte contra carrapatos.
      As 11:40hs, saimos da mata mais fechada e a caminhada passou a bordejar a encosta direita do morro onde estavamos, com o sol castigando o tempo todo. Passamos por uma cerca e chegamos a um ponto onde demos de cara com uma família de bois e vacas com seus filhotes bem no meio da trilha.

      A trilha vem lá do meio do vale, entre os 2 picos

      Trecho final de descida pela trilha

      Tentamos passar, mas o macho, ao perceber nossa aproximação, deu uma bufada de aviso. Perdemos algum tempo aqui e tivemos que esperar, mas conseguimos passar, fazendo um desvio por cima e logo retomamos a trilha logo a frente.
      As 12:40, chegamos ao trecho final, onde a trilha desce e cruza um enorme campo de cerrado bem aberto. Aqui a caminhada fica mais tranquila. Passamos por uns trechos de mineiração e logo a frente já se vê as ruas da pequena cidade de Pirapora do Bom Jesus, com a trilha descendo para lá.

      Enfim, chegamos a cidade
      E finalmente, as 13:10, com mais de 3 horas de caminhada desde o topo do Pico do Morro Negro (incluindo os perdidos e as paradas), pisamos no asfalto da pequena cidade, para a alegria de todos.
      Andamos mais alguns minutos e logo estacionamos numa lanchonete para bebemorarmos o sucesso da empreitada e forrar o estomago com algo "gorduroso". Foram cerca de 21 km de pernada em 2 dias com 1 pernoite com perrengues, superação e muitos carrapatos. Mas tb com visuais e desafios para andarilho algum botar defeito.
      As 14:30 embarcamos no ônibus para a Estação Barueri e depois no trem da CPTM de volta para SP, onde cheguei pouco antes das 17:00hs, cansado, mas feliz.

      DICAS:
      -> Pontos de água nessa travessia são escassos. Só há um ponto de agua na rodovia, pouco antes de iniciar a subida até a base, onde começa a trilha. Não há nenhum outro ponto de agua durante toda a subida e no topo.  Só fui encontrar água na metade da descida do dia seguinte, em um pequena nascente a mais ou menos 2 horas de caminhada do topo. Por isso, traga toda a água que for precisar da cidade ou pegue em um riozinho no vale ainda na rodovia, pouco antes de entrar na subida final até a base. O ideal é levar pelo menos 3 litros.
      -> A trilha no começo da subida é pouco demarcada. Mas a maior parte do percurso é só no visual, é só tocar para cima pela crista e mais a frente, ela aparece e depois adentra a um trecho de estrada de terra, onde a grama foi aparada e a caminhada fica bem mais fácil.
      -> Não há local para deixar o carro no começo da trilha, nem tem como parar, pois ela começa em um trecho da rodovia.
      -> A distancia de Araçariguama até o inicio da trilha é de 6,5km. Deve-se subir até o mirante onde tem um avião da decada de 50 exposto lá no alto e depois seguir pela rodovia a direita, até chegar na base da Serra, que é visível a maior parte do tempo.

      -> Os horários dos ônibus de Itapevi para Araçariguama são bem ingratos. Tem apenas 8 horários por dia e um dos horários é 7:45 e o próximo só as 9:50. Os onibus partem do lado da Estação de Itapevi, em um local reservado para paradas somente de ônibus intermunicipais e com o logo da EMTU. Na dúvida, informe-se com moradores.

      -> A Subida da rodovia para o topo do Pico do Morro Negro leva em média 3 horas com mochila cargueira e em um ritmo médio. Ela passa pelo topo de um dos picos vistos lá embaixo. É uma subida exigente e não é uma trilha recomendada para iniciantes.

      -> No Topo há vários locais para barraca, mas a maioria são expostos aos ventos. Mas há um ponto que fica dentro de um pequeno vale e é uma boa opção para montar barracas.com um pouco de proteção dos ventos.

      -> Não há água durante toda a subida, no topo e nem próximo dele.

      -> Só há 2 pontos de água e ambos ficam na descida para a cidade.

      -> O primeiro ponto de agua da descida é impróprio para o consumo humano, pois é usado pelos cavalos e bois, tendo vários dejetos deles lá. Só vai ter água potavel entre 30 minutos a 1 hora de descida após passar por esse ponto.

      -> Encontrei muitos carrapatos nessa travessia. Leve um bom repelente e passe várias vezes ao dia, mesmo em locais onde você achar que não vão picar. Os carrapatos costumam andar pela roupa e buscam locais quentes e escondidos.

      -> Em Pirapora do Bom Jesus, há linhas de ônibus direto para a Estação de Barueri. Só não sei os horários, mas pode ser consultado no site da EMTU.
      -> Sinal de celular pega no topo e na maior parte dos trechos da crista. Principalmente o da VIVO.
       
      É isso.🙂
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       


    • Por Jone
      Em 1999, percorri o Caminho Francês de Santiago, partindo de San Jean em direção à Santiago de Compostela. Já naquela ocasião, eu ouvia falar que existiam 4 rotas sagradas do Cristianismo na Idade Média, que seriam o Caminho de Santiago, Jerusalém, Roma, e um quarto Caminho que eu nunca descobri qual era, num tempo em que a internet estava engatinhando e o acesso à informação era mais batalhada.
      Em 2018, decidido a refazer a peregrinação à Santiago de Compostela, comecei a investigar a respeito do Caminho do Norte, o qual fiz partindo de Irun (quase França) e percorrendo o norte da Espanha, novamente rumo à Santiago. E nessa pesquisa descobri acerca do caminho que faltava. Trata-se do Caminho Lebaniego, uma rota de peregrinação que possui seus anos jubilares desde 1512, e que tem como destino o Monastério de Santo Toríbio de Liébana, onde está depositado a Lignun Crucis, que reza a lenda, trata-se da maior parte ainda conservada da Cruz de Cristo, a qual foi confeccionada com o braço esquerdo da cruz original, e hoje é uma cruz menor acondicionada em um relicário de Ouro, prata e cristal.
      Esse caminho está situado no Parque Nacional Picos de Europa. Um lugar belíssimo, com várias outras trilhas e atrações aos caminhantes em busca de locais bucólicos. Porém em geral são trechos que exigem um certo preparo, pois o relevo é muito acidentado (vindo daí a beleza do local).
      O Caminho Lebaniego está localizado na Cantábria e é apenas uma das quatro rotas para chegar em San Toríbio. O interessante é que essas rotas podem ser conjugadas com o Caminho de Santiado, pois elas unem o Caminho do Norte ao Caminho Francês. Assim, em uma única viagem é possível fazer as duas peregrinações juntas. Em certos trechos inclusive encontramos juntas as setas amarelas (Caminho de Santiago) com as setas vermelhas (Caminho Lebaniego).
      O Caminho Lebaiego em si, constitue-se de 72 km, que unem San Vicente de La Barquera a Santo Toríbio de Liébana, podendo ser percorrido entre 3 a 5 dias. Eu particularmente sugiro partir de Santander, que é a cidade onde retiramos a Credencial do Peregrino, elevando assim em mais 76 km a viagem. Para quem pretende fazer o Caminho do Norte de Santiago, o trecho entre Santander e Muñorrodero já faz parte do Caminho, apenas se separando aqui no sentido sudoeste, podendo depois retornar ao Norte, ou seguir até o Francês.
      O Caminho Lebaniego conta com uma estrutura para os peregrinos, de albergues e rede wi-fi (que ao menos estava disponível no último ano santo). E para os amantes da culinária regional, não deixem de provar a truta e o Cocido Lebaniego.






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