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Essa travessia envolveu um percurso de quase 170 km. Fui sozinho, entre 11 e 18 de julho de 2017.

Começa no povoado "fantasma" de Cemitério do Peixe e termina em outro povoado, Serra dos Alves. Sempre de norte pra sul.

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Mochila cargueira (70 litros no mínimo) com material de cozinha + suprimentos para 10 dias é importante.

Levei aquele aparelhinho, o Spot Satellite Messenger, comprado em 2013 (mais conhecido hoje como Spot Gen3) para o caso de um resgate emergencial (que pra mim seria uma picada de cobra, um osso quebrado ou uma cólica renal - quem já teve pedra nos rins, sabe do que tô falando…). Como eu disse, estava “solo”.

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Saí de Taubaté-SP de ônibus para BeloHorizonte-MG; de BH peguei outro busão para Conceição do Mato Dentro e de lá, outro pra Congonhas do Norte. Aí tem um problema de logística: não existe transporte oficial para o povoado de Cemitério do Peixe. Carona? Não tem tráfego constante pra lá… carro? Vc sozinho vai sair caro. Moto? Foi o que me sobrou: conversa daqui e dali, consegui a garupa de uma motoca por 50 reais. Detalhe: não vá com a mochila nas costas, peça pra colocar sobre o tanque ou coisa parecida. Serão 33km até Cemitério do Peixe e chegará com a lombar no bagaço (isso se não cair da moto, pois será uma briga constante com o seu centro de gravidade naquela garupa).

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No povoado do Cemitério do Peixe, comecei a caminhar perto do pôr do sol, pois os horários de ônibus vão te colocar nessa enrascada. Caminhei então apenas 1km para sair da área do Peixe (antes fiz um “turismo” pela vila “fantasma”) e acampei a primeira noite ali por perto mesmo.

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Nos dias seguintes, sempre comecei a caminhar no máximo às 0800h e parava sempre por volta das 1700h (lembrando que o pôr do sol era perto das 1730h). Depois do camping próximo ao Peixe, acampei mais 3 noites antes de chegar no povoado da Lapinha (a noite Nr 04 foi próxima ao Poço do Soberbo, antigo garimpo de diamantes). E a noite Nr 05 já foi na Lapinha da Serra.

Ali abasteci a mochila com suco em pó, biscoito e pão sovado numa das 3 mercearias que lá existem. Detalhe: do Peixe até ali só cruzei com 2 cavalos soltos no cerrado. Ou seja, prepare-se pra ouvir apenas sua respiração/batidas do coração/passadas durante esses dias.


Depois da Lapinha, parti na direção do Alto do Palácio, para entrar no PARNA CIPÓ (Parque Nacional da Serra do Cipó), emendando o Trekking com a famosa travessia daquele parque.

Saindo da Lapinha é fácil perceber a saída nítida pra sudeste, logo depois da saída para leste na clássica travessia para Tabuleiro.


Não é uma trilha muito usada. Depois que vc sobe a serra, lá no planalto, terá uma vista maravilhosa de uma campina bem extensa e verde até onde a vista alcança. E uma casinha vazia na direção SE. Segui direto pra ela. Lá eu encontrei a passagem para outro compartimento do terreno que, através de algumas estradas abandonadas e fechadas, e depois de pular uma porteira trancada com cadeado, me levaram até o asfalto da MG-10 de onde foi fácil encontrar a sede do Parque Nacional, chamada de Alto do Palácio e assim entrar no PARNA CIPÓ.


Um detalhe: o planejamento inicial era chegar na estátua do Juquinha na MG-10, via Cachoeira da Capivara (que está fechada ao acesso de turistas). Essa cachoeira fica nas terras da CEDRO TEXTIL que mantém uns “vigilantes” moradores por ali, cuidando da pequena Usina Hidrelétrica que gera energia para a fábrica de tecelagem. Um grupo grande caminhando por ali pode chamar a atenção. Encontrei com um vigilante, o Toninho, “gente boa” que, ao me descobrir “sozinho” naquela aventura, não encheu o saco e até me ensinou o caminho para o asfalto. Mas optei seguir a rota que eu havia planejado em casa e estava no GPS (e que era mais a LESTE da cachoeira). Olhando o Google Earth agora, talvez subindo a cachoeira, eu chegasse mais rápido ao asfalto… acabei que não segui nem via Cachoeira, nem via Juquinha. Fui por umas estradas antigas que por lá existem.


Não consegui chegar no asfalto naquele mesmo dia e dormi a noite Nr 06 acampado de novo longe de tudo. No dia seguinte, acabei batendo numa ponte “destruída”, o que me fez explorar as redondezas dela para cruzar o rio que não dava vau. Perdi tempo ali mas conseguir cruzar o rio.


Depois, já dentro do Parque, acampei a noite Nr 07 na Casa de Tábuas e a noite Nr 08 na Casa de Curral - locais obrigatórios para pernoite - dentro dessa última casa, o pessoal do ICMBio/Brigadistas de Incêndio, ficam lá por 7 dias pernoitando e patrulhando o parque e revezando com uma outra turma de 5 brigadistas semanalmente. Ou seja, não conte com pernoite dentro da Casa de Curral. Fica cheio de funcionários. O chefe da equipe daquela semana era o Geraldinho, gente boa.


A noite Nr 09 (se necessário caso esteja cansado) já pode ser no povoado de Serra dos Alves, que é bem menor que Lapinha ou um pouco antes de chegar no povoado, se não quiser pagar camping/pousada. Lá só existe a pousada Portal da Serra, do Sr. Francisco, que cobra 70 reais a diária pra uma pessoa. Eu apenas almocei ali (25 reais com WIFI), tomei um banho e paguei 60 reais para me levarem, desta vez de carro :)) até Ipoema, cidade próxima, onde peguei um busão de volta pra BH (direto em 2 hs) e de lá, outro pra Taubaté-SP


Total de km: 169.

Total de noites: 8.

Média de km diário: 20km

Obs.:

- Levei um GPS MAP64s da Garmin, com os tracklogs planejados em casa.

- Levei um mosaico de 4 cartas topo na escala 1:100.000 (Baldim, Presidente Kubitscheck, Conc Mato Dentro e Itabira), recortei o que interessava e plastifiquei.

- Água: 2 litros no CamelBak e 1,5 litros pra cozinhar num Dromedary da MSR.

- Clorin em todas as águas que bebi.

- Meu BIG THREE (Pack/Shelter/Sleeping) : mochila Deuter Air Contact Pro 70+15 (velha e pesada…3,3kg), Barraca Kelty Salida 2 pessoas (1,8kg fly+corpo) e o saco de dormir da Marmot Plasma -1C pena de ganso (0,650kg).

- Temperaturas variaram entre 7 graus de noite e 36 graus durante o dia.

- Kit S.O.S com antibiótico + remédio pra cólica renal + diversos: fundamental. Usei antiinflamatórios (gripado).

- Não precisa de luva nem facão de mato (pro pessoal que tá acostumado com a Serra da Mantiqueira).

- Não paguei nenhum tipo de taxa para passar/entrar/permanecer em lugar algum. Nem no PARNA CIPÓ.

- Entrei em contato com o ICMBio para solicitar autorização para entrar no PARNA CIPÓ via e-mail.

- Encontrei “seres humanos” apenas na Lapinha (noite Nr05); mais tarde o vigia Toninho da CEDRO (antes da noite Nr 06) e depois, dentro do PARNA CIPÓ nas duas noites apenas com um grupo de universitários fazendo a travessia do Parque, ou seja, é uma caminhada bem isolada e solitária: esteja preparado física e psicologicamente pro caso de dar pane no trajeto.

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    • Por casal100
      1) - Jan/fev de 2013 - estrada real caminho velho. Foram aprox. 710 kms no total + 100 kms entre Paraty x aparecida + PN Itatiaia + visconde de mauá
      2) - Julho/2013 - estrada real caminho diamantres (diamantina x Ouro Preto);
      3) - Julho/2013 - Estrada Real caminho Sabarabuçu(Ouro preto x Glaura x Cocais)
      4) - Janeiro/2014 - Estrada Real caminho Novo (Ouro Preto x Rio de Janeiro).
      Informações Básicas e Resumo geral:
      No final da postagem desse relato, informarei nesse post , todas as principais dicas sobre esse maravilhoso roteiro, bem como o resumão.
      Muitas pessoas já fizeram a E.R. à pé, mas pouquíssimas fizeram relatos sobre a viagem, com dicas, sugestões.......
      Procurarei dar dicas sobre: tempo de viagem em cada roteiro, locais de hospedagem e seus respectivos preços..... fotos, roubadas, .....
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      Ouro preto e os distritos: http://www.ouropretovirtual.com/distritos" onclick="window.open(this.href);return false;
      Estrada Real(planilhas e informações diversas): http://site.er.org.br/" onclick="window.open(this.href);return false;
    • Por rafael_santiago
      Pico do Itambé visto de Capivari
       
      As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoPeloPicoDoItambeSerraDoEspinhacoMGJun12.
       
      Subir o Pico do Itambé era um projeto já antigo. Ao descobrir que havia duas trilhas de acesso ao cume, a idéia de uma travessia foi imediata. E que tal voltar ao ponto de partida, a vila de Capivari, passando ao largo do pico por uma tal Trilha dos Tropeiros? Melhor ainda. Para fechar, só faltava mesmo chegar a Capivari a pé. Pronto, estava montada uma pernada de três dias que tinha como protagonista um dos pontos mais altos da Serra do Espinhaço. Na verdade, a idéia era esticar ainda bastante essa travessia para o norte, mas acabou não acontecendo, como contarei mais abaixo.
       
      EM SÃO GONÇALO DO RIO DAS PEDRAS
       
      Cheguei a São Gonçalo do Rio das Pedras, simpático vilarejo que é distrito do Serro, de ônibus às 14h de um sábado. Procurei um lugar para almoçar e me indicaram o bar da Dona Lucília. Foi um achado. O lugar é simplérrimo mas ela recebe com um grande sorriso e prepara parte da comida na hora de acordo com o gosto do freguês. Para acompanhar, fez para mim um delicioso suco com carambolas do seu quintal.
       
      Para fazer a digestão, nada melhor que uma caminhadinha. E depois de andar 10,6km (ida e volta) até a Cachoeira da Grota Seca decidi passar a noite em São Gonçalo e começar a travessia só na manhã seguinte. Ali, assim como em outros povoados da região, há um tipo de hospedagem chamado receptivo familiar (iniciativa do Sebrae Minas) em que uma família recebe o visitante em sua casa e oferece refeições e café da manhã. O hóspede ocupa um dos quartos vagos e divide com a família o restante da casa (o banheiro inclusive). Como almocei no bar da Dona Lucília e ela tem receptivo familiar, resolvi passar a noite em sua casa.
       
      1º DIA: DE SÃO GONÇALO DO RIO DAS PEDRAS A CAPIVARI
       
      Após tomar um super café da manhã no bar da Dona Lucília, dei início à minha caminhada (sob o olhar de espanto dela por eu me aventurar sozinho) às 9h30 subindo a Rua Nova (é a rua do bar dela) e entrando à direita na Rua do Fogo (1092m de altitude). O caminho para Capivari é esse, sem ter como errar. Em poucos minutos as casas ficam para trás e às 10h a rua já virava uma trilha. Alguns trechos de areia fofa, mais chatos de caminhar, e às 10h36 cruzo uma porteira e começo a subir a Serrinha. A trilha bordeja pela esquerda o morro de pedra do qual vinha me aproximando havia algum tempo e alcança a casa do seu Zé e da Dona Maria pelos fundos, onde os cachorros dão o alarme da minha aproximação às 11h22. Fui calorosamente recebido pelo casal, gente simples da roça, e me sentei um pouco em sua sala para um dedo de prosa. Saindo de sua propriedade pela porteira principal às 11h43, não tomo a estrada de terra bem em frente e sim a trilha à esquerda. Depois de dois riachos e duas porteiras, já avisto o povoado de Capivari, mas não pretendo ir até lá e sim rumar direto ao pico. Às 12h39 alcanço uma estrada precária que me leva em pouco mais de 100m à esquerda a um rio um pouco largo, onde demorei algum tempo para encontrar um local de travessia sem precisar tirar as botas. Feito isso, peguei a continuação da estrada na outra margem e toquei para o norte, subindo bastante.
       
      A nebulosidade não permitia saber ao certo onde estava o pico. Depois de dois colchetes, uma outra estradinha que aparece à esquerda deve levar à Cachoeira do Amaral, mas não fui conferir. Me mantive na estrada principal também na bifurcação seguinte e às 14h37 passei pela placa que marca o início da trilha para a Cachoeira do Tempo Perdido. Menos de 200m depois entrei à esquerda numa porteira azul e comecei a descer na direção de algumas casas, mas fui parado por um homem num jipe que me disse que ali era propriedade particular e não o caminho para o Pico do Itambé. Voltei de carona com ele à porteira e à estrada principal e continuei para a esquerda, tomando a esquerda novamente na bifurcação bem próxima (à direita eu desceria para Capivari). Daí a estrada desceu bastante e às 15h20 começaram a aparecer algumas formações rochosas diferentes num local chamado Serra da Bicha, referência às onças da região. Andei uns 800m tirando fotos dessas rochas, cruzei com um morador local com sua mula e em seguida ocorreu algo inesperado. Um rapaz numa moto me parou e perguntou se eu pretendia subir o pico. Respondi que sim e ele disse que sem uma autorização eu não poderia fazer isso. E que eu poderia conseguir a autorização em Capivari. Disse que não adiantava eu continuar pois iria ser barrado na guarita do parque. Diante disso, fui obrigado a voltar até aquela bifurcação que desce ao vilarejo e seguir para lá.
       
      Cheguei a Capivari às 17h05 e procurei o Gonçalo, como orientou o rapaz da moto. Ele me disse que normalmente a subida é agendada com mais antecedência já que um ou dois guarda-parques são deslocados para o cume e que costuma ser acompanhada de um monitor. Mas fez contatos pelo rádio e se esforçou ao máximo para conseguir a autorização para eu subir no dia seguinte. Mostrei-lhe que tinha experiência em trekking e estava bem equipado e ele sentiu confiança em me deixar subir sozinho. Resolvi então fazer a travessia do pico em um dia, descendo à tarde para dormir em Santo Antônio do Itambé e retornando no dia seguinte a Capivari pela Trilha dos Tropeiros, que corre ao sul do pico. Porém combinamos de eu chegar à outra portaria do parque no máximo às 17h, que é o horário de fechamento. Como todos os funcionários se comunicam por rádio, eles iriam monitorar a minha travessia e se eu não aparecesse até esse horário alguém seria incumbido de sair à minha procura. Para facilitar, deixaria a cargueira com ele e subiria só com a mochila de ataque. Mais leve, caminharia mais rápido.
       
      Tudo isso foi conversado na casa do Gonçalo, onde acabei me hospedando também já que ele está no programa de receptivo familiar. Aliás, logo que entrei a sua esposa Noêmi já foi me perguntando se eu queria jantar, antes mesmo de eu saber que ia me hospedar ali. Acomodei-me num dos dois quartos disponíveis para hóspedes e jantei fartamente. A Noêmi faz um suco delicioso de limão-cravo, hortelã e couve, tudo do quintal dela.
       
      Mais tarde andei um pouco pelo povoado para fazer um reconhecimento, mas voltei logo pois ia acordar muito cedo no dia seguinte.
       
      Outra coisa que conversei com o Gonçalo foi sobre a minha intenção de no retorno fazer a travessia dali de Capivari até o Parque Estadual do Rio Preto, 24km ao norte, e ele ficou de ver a autorização para eu entrar naquele parque. Esses dois parques (Pico do Itambé e Rio Preto) são bastante vigiados e já deu para perceber que andar por eles sem ser notado não é muito fácil. No caso do Pico do Itambé, quase todos os dias um funcionário é destacado para subir ao cume, mesmo que não haja visitantes. Na época mais seca, devido ao risco maior de incêndio, os funcionários se revezam 24 horas no cume para monitoramento de toda a área.
       
      Nesse dia, com as idas e vindas, caminhei 22,6km.
       
      Altitude em São Gonçalo do Rio das Pedras: 1092m
      Altitude em Capivari: 1178m
       
      2º DIA: DE CAPIVARI A SANTO ANTÔNIO DO ITAMBÉ ATRAVÉS DO PICO DO ITAMBÉ
       

      Pico do Itambé visto de sua base
       
      O Gonçalo conseguiu para mim uma carona no ônibus escolar que vai até um local chamado Poço Preto, o que me adiantou 6,5km de pernada. Ele passou bem cedo, às 6h, e me deixou no Poço Preto às 6h40 (1205m de altitude). Cruzei um riacho e uma porteira e comecei a longa caminhada do dia por uma trilha com algumas casas afastadas à direita. Vários riachos e porteiras depois, passo às 7h46 próximo a uma outra casa uns 100 metros à esquerda, logo depois de uma pequena cachoeira à direita. Essa travessia tem dois pontos críticos em que é muito fácil errar e o primeiro deles está uns 1000m depois dessa casa, onde a trilha segue bem marcada em frente, subindo, mas o caminho para o pico sai para a direita, entre os troncos fincados de uma antiga cerca. Entrando então à direita, o caminho segue bem largo entre a vegetação alta e voltam a aparecer as rochas de formato estranho. Na segunda porteira, às 8h42, topei com uma placa grande de madeira do Parque Estadual do Pico do Itambé, mas nada de guarita, como haviam me dito.
       
      Logo depois dessa porteira, o ponto mais confuso da subida: o gps me mandava subir à direita porém era uma encosta de pedra vertical e eu não via caminho nenhum para subir. E a trilha continuava bem marcada (e até com variantes) para a frente. Para piorar, o pico continuava completamente encoberto e eu caminhava em meio à neblina. Resolvi seguir uma das trilhas em frente pois eram muito batidas e parecia ser o mais óbvio, ou até mesmo a única opção. Comecei a caminhar por um platô ao norte do pico quando às 9h15 finalmente a neblina resolveu se dissipar e pude ver o Itambé bem perto, uma longa parede rochosa que se estendia de leste a oeste. Imaginei que fosse contorná-lo pela outra extremidade para subir por algum caminho menos íngreme e continuei. Porém comecei a encontrar trilhas em várias direções que desapareciam ao se aproximarem do paredão. Fui e voltei várias vezes, tentando vários caminhos e perdendo muito tempo. Já passava das 10h30 e o horário limite para eu atingir o cume estava próximo pois ainda tinha uma longa caminhada de descida até Santo Antônio do Itambé, tendo de dar sinal de vida na portaria até as 17h. Como última alternativa, decidi procurar a trilha gravada no gps, aquela que supostamente começava na parede após a porteira. E encontrei-a na extremidade oeste (eu tinha ficado batendo cabeça lá do outro lado, na ponta leste) subindo diretamente para o pico, que nessa hora estava bem visível com o céu limpo. Inconformado com o erro e o tempo perdido, desci até a porteira para registrar o caminho correto e saber exatamente em que ponto da encosta de pedra eu deveria ter subido. Um totem ou uma placa ali ajudariam demais.
       
      Ao subir de volta, agora com certeza de atingir o cume, encontrei um guarda-parque que desceu ao meu encontro quando viu que eu estava andando de um lado para o outro. Subimos juntos e a escalaminhada não foi fácil. A subida é forte, íngreme, com bastante trepa-pedra. Há ainda duas passagens bem estreitas no meio dos blocos de pedra em que é preciso tirar até a mochila de ataque. Mas finalmente o terreno nivela e começamos a caminhar por entre uma vegetação bastante diferente devido à altitude. E às 12h36 finalmente alcanço o cume do Itambé, a 2055m, onde duas casas antigas e em mau estado acomodam os funcionários que sobem frequentemente para observar focos de incêndio e monitorar os visitantes que acampam ali. O desnível desde o Poço Preto foi de 850m. A visão é espetacular: para o norte, era possível ver serras, picos e vales a perder de vista, já no quadrante sul a visão era parcial por causa da nebulosidade e não era possível avistar Santo Antônio do Itambé, meu destino final nesse dia. Mas conseguia ver a pequenina Capivari (apenas 490 habitantes!) quase 9km a sudoeste. As nuvens também eram um espetáculo por si só pois, como eu estava acima delas, eram como um mar branco com o céu estupidamente azul acima, tal qual a visão da janela de um avião.
       
      Há também ali no topo um pequeno cruzeiro de concreto, próximo às casas. Várias plaquinhas brancas apontam uma fonte de água, mas não fui até ela.
       
      A vontade era de ficar muito mais tempo, mas a descida seria bem mais longa que a subida. Assim, às 13h08 deixei o cume. O funcionário me falou da sinalização que há nesse lado do pico, que foi bastante útil pois mergulhei na densa neblina logo que comecei a descer. Ele ficou de plantão lá. Às 13h16 encontrei do lado esquerdo da trilha a "pedra do pato", que vinha procurando desde o topo. E às 13h30 a famosa ponte pênsil sobre uma enorme greta (chamada Rebentão), para minha surpresa novinha em folha.
       
      A descida por essa face leste tem 13,2km (até Santo Antônio do Itambé) e é bem mais suave. A subida pela face oeste tem distância parecida (12,9km desde Capivari) e é tranquila só até atingir o paredão do pico, quando vira uma escalaminhada, como disse. Para subir com mochila cargueira, esse lado de Santo Antônio do Itambé é bem melhor, apesar do desnível de 1349m desde a cidade.
       
      Muitas formações rochosas estranhas e curiosas e a vegetação bem própria desse microclima, muito diferente do cerrado lá embaixo, ainda são a paisagem ao redor durante a descida. Às 14h09, uma hora após deixar o cume, reapareceu a água. Mais 40 minutos de caminhada, outro ponto de água e um casebre com gado, mas parecia não haver ninguém no momento. Passei um colchete e mais abaixo a trilha se transformou numa estrada, às 15h03.
       
      Esse lado do parque tem como atrativo algumas bonitas cachoeiras com acesso sinalizado a partir dessa estrada interna. Às 15h18 topei com a primeira, ou melhor, com a placa que indica a trilha para a primeira delas, a Cachoeira do Rio Vermelho, distante dali 2,8km, mas essa não tive tempo de conhecer. Nesse local, a direção geral que vinha sendo leste desde o pico, passa a ser sempre sul, sem variações. E a estradinha, pelo mau estado, só é apropriada para carro alto. Para quem tem um carro assim é possível entrar com ele no parque e ir até o casebre mencionado, onde a trilha inicia. Isso adianta 8,5km de subida desde Santo Antônio do Itambé.
       
      Às 15h41 outra placa mostra o acesso à direita à Cachoeira do Neném. Como distava só 1km da estrada, fui correndo lá dar uma espiada. O lugar é muito bonito, a queda não é alta mas o poço é grande e bem escuro. Para evitar erosão na encosta, há uma escadaria de madeira até o poço. Do alto da escadaria há uma trilha que se enfia no mato e leva a um ponto do rio mais abaixo onde há um interessante sumidouro.
       
      Voltei à estrada e continuei a descer. Logo tive a primeira visão da pequena Santo Antônio do Itambé, ainda um pouco distante. Às 16h56 passei pela placa da Cachoeira da Água Santa, só 638m à esquerda, mas como meu tempo estava se esgotando, não pude conhecê-la. Foram só mais 260m e às 16h59 alcancei a portaria, onde o funcionário já começava a ficar ansioso pela minha chegada. Felizmente correu tudo bem e não foi preciso deslocar ninguém por minha causa.
       
      Descansei um pouco e às 17h09 descemos juntos o restante da estrada até a cidade (mais 2,7km). Ele me mostrou um atalho por uma trilha à esquerda da estrada que nos poupou uns 550m de caminhada. Às 17h25 parei para fotos da Ponte de Pedra e ele continuou. Fiquei menos de 10 minutos ali e segui. Logo começaram a aparecer as primeiras casas de um bairro e às 17h40 uma outra estrada sai para a direita, exatamente onde um conjunto de placas indica os atrativos da cidade. Descobri então que a Trilha dos Tropeiros (meu caminho de volta a Capivari) era por ali, assim como o Lajeado, o Lajedão e a Cachoeira da Fumaça. Cheguei ao centro da cidade às 17h55 e me hospedei na Pousada Pé da Serra, na rua da Igreja Matriz. Jantei no Restaurante Moinho Santo Antônio.
       
      Nesse dia, com os perdidos na subida do pico e o desvio para a Cachoeira do Neném, caminhei 28,1km.
       
      Altitude em Capivari: 1178m
      Ponto mais alto da travessia: 2055m
      Altitude em Santo Antônio do Itambé: 706m
      Desnível do cume a Santo Antônio do Itambé: 1349m
       
      3º DIA: DE SANTO ANTÔNIO DO ITAMBÉ DE VOLTA A CAPIVARI PELA TRILHA DOS TROPEIROS
       

      Parte alta da Cachoeira da Fumaça
       
      Quando eu descobri a Trilha dos Tropeiros, não fazia idéia de que ela estaria dentro dos limites do Parque Estadual do Pico do Itambé. Foi o Gonçalo quem me deu essa informação e acrescentou que eu precisaria de uma autorização para percorrê-la. E que ele mesmo não poderia dar essa autorização porque eu iria começar por Santo Antônio do Itambé. Por isso, tive logo cedo de ir à sede do parque na Fazenda São João, a 2km da cidade, para pegá-la. Para me atrasar um pouco mais, peguei o caminho mais longo para chegar lá. O correto é pegar a rua à direita ao lado da Igreja Matriz (e não subir a rua sempre em frente, como eu fiz). Na volta, fiz o caminho certo e dei uma olhadinha na Cachoeira do 32, apenas um rio largo que costuma lotar nos finais de semana por ser praticamente dentro da cidade.
       
      Com tudo isso e mais uma passagem pelo posto de saúde para tratar dois dedos infeccionados, acabei iniciando a caminhada às 11h30, muito tarde. Saí da cidade pelo mesmo caminho por onde cheguei no dia anterior e fui até o conjunto de placas da bifurcação que mencionei, onde fui para a esquerda. Andei apenas 1,1km pela estrada e já encontrei a placa do Lajeado à direita. Desci pela estradinha 450m para conhecer. Trata-se de um ribeirão que corre por lajes de pedra. Ao lado fica o Restaurante e Camping Rancho do Vale, mas o acesso ao local é livre. De volta à estrada, bastou andar mais 120m e topei às 12h15 com a placa do Lajedão, com acesso por uma porteira. O caminho é bem diferente, por uma trilha de 920m que desce em meio à mata alta. Ao chegar à cerca de um sítio basta subir e contorná-lo pela direita. O rio aqui também corre pelos lajedos porém é um recanto mais selvagem e bonito comparado ao Lajeado, que tem mais cara de balneário.
       
      De volta à porteira e à estrada, continuei para a esquerda cerca de 700m e surge a placa que aponta a parte baixa da Cachoeira da Fumaça, inicialmente uma estradinha à esquerda que desceu forte até desembocar no sítio do seu Adair, onde fui recebido por duas mulheres que moíam e torravam uma grande quantidade de mandioca para fazer farinha. Dali bastou cruzar o terreno, caminhar pela trilha até o rio e subi-lo à direita pela margem para alcançar às 13h20 a bela cachoeira escondida no fundo dos paredões. Lugar muito bonito. O rio é o mesmo do Lajedão, o Ribeirão Areia, segundo a carta topográfica. De volta à casa, encontrei o seu Adair. Ele me pediu para assinar seu livro de visitas e me acompanhou por um atalho para chegar à parte alta da cachoeira, economizando o retorno à estrada e uma grande volta. A parte alta também é bem bonita, com pequenas quedas e a possibilidade de chegar até a garganta da cachoeira. Ali também foi instalada uma escadaria de madeira para conter a erosão da encosta íngreme. Para continuar a travessia, eu precisava voltar à estrada. Subi a escada e continuei reto até um pé de manga, passei um quebra-corpo e caí numa estradinha que bastou tocar para cima para alcançar a estrada principal às 14h22, onde mais placas indicam esse acesso à parte alta da Cachoeira da Fumaça. A estrada já estava quase no fim, bastou andar 800m à esquerda para ela virar uma trilha com uma porteira. Mais alguns metros e passo pelas últimas casas desse lado da travessia. Ali o caminho mais marcado sobe à direita, bem próximo das casas, mas o certo é descer pelo pasto à esquerda e cruzar outra porteira para encontrar a continuação da trilha bem abaixo. Uma placa do parque indica que a Trilha dos Tropeiros tem 11.993m de extensão, grau de dificuldade alto e tempo aproximado de 7 horas.
       
      Às 15h05 me deparei com um rio raso e calmo porém largo e sem pedras para ajudar na travessia, o que me obrigou a tirar as botas. Poucos metros depois, uma bifurcação onde subi para a direita. Às 15h23 um ponto de água mais confiável que os rios pelos quais passei. Já estava a 1056m e logo a visão começou a se ampliar, podendo vislumbrar vales e montanhas próximos. Nesse ponto encontrei, ou melhor, fui encontrado por dois guarda-parques que já estavam à minha procura por causa do horário. É que restavam duas horas de luz apenas e muitos quilômetros ainda pela frente. Às 16h30 cruzamos a porteira que é o limite do parque e próximo dali eles me mostraram interessantes pinturas rupestres. Nessa porteira nos separamos, eles seguiram por uma trilha para o norte para pegar a moto, eu continuei pela Trilha dos Tropeiros para oeste, descendo a um riacho e subindo a encosta do outro lado. Aqui a visão do Pico do Itambé é magnífica! Foi motivo para muitas fotos. Ao final dessa subida, exatamente numa porteira às 17h12, atinjo o ponto mais alto da travessia: 1372m. Às 17h20 passei pela cabeceira de um imenso vale que se abriu à minha direita e foi ali que assisti e fotografei o por-do-sol. Com a luz natural se esvaindo apertei o passo. Foi uma pena passar correndo por um trecho com muitas formações rochosas com formatos curiosos, mas a luminosidade era mesmo muito baixa para fotos. Às 17h54 caí numa estrada e segui para a direita. Um dos guarda-parques me aguardava mais à frente nessa estrada, na escuridão. Às 18h12 começaram a aparecer as primeiras casas de Capivari. Mais 10 minutos e chego à casa do Gonçalo, que não estava pois havia levado um garoto acidentado ao pronto-socorro no Serro. A Noêmi preparou a janta para mim e fui dormir cedo, acabei não vendo o Gonçalo esta noite, mas já sabia que ele não tinha conseguido a autorização para eu entrar no Parque Estadual do Rio Preto porque a reforma lá ainda não terminou. Teria então de acionar o plano B.
       
      Nesse dia caminhei 22,7km contando os desvios para visitar as cachoeiras e sem contar a caminhada até a sede do parque.
       
      Altitude em Santo Antônio do Itambé: 706m
      Ponto mais alto da travessia: 1372m
      Altitude em Capivari: 1174m
       
      No dia seguinte deixei Capivari no ônibus das 5h45 em direção ao Serro para imediatamente seguir para Diamantina e dar início à travessia pela antiga estrada de ferro Diamantina-Corinto (fiz o trecho Bandeirinha-Rodeador em 3 dias; o relato está em travessia-diamantina-rodeador-pela-trilha-verde-da-maria-fumaca-serra-do-espinhaco-mg-t72765.html).
       
      Informações adicionais:
       
      O site oficial do Parque Estadual do Pico do Itambé é http://www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/206.
       
      O Parque Estadual do Pico do Itambé funciona de quarta a segunda-feira das 8h às 17h. Para subir o Pico do Itambé é preciso solicitar autorização com pelo menos 24h de antecedência, seja com pernoite ou não, seja por Santo Antônio do Itambé ou por Capivari. O telefone é 33-3428-1372 e o e-mail é [email protected] Para fazer a travessia Santo Antônio do Itambé-Capivari pela Trilha dos Tropeiros também é necessário pedir autorização com 24h de antecedência. A única área de acampamento do parque fica no pico, por sinal bem pequena e com água de acesso meio complicado.
       
      Alguns gastos:
      . almoço na Dona Lucília (São Gonçalo do Rio das Pedras) - R$10
      . hospedagem e café da manhã na Dona Lucília (São Gonçalo do Rio das Pedras) - R$30
      . janta na casa do Gonçalo (Capivari) - R$10
      . hospedagem e café da manhã na casa do Gonçalo (Capivari) - R$30
      . PF no restaurante Moinho Santo Antônio (Santo Antônio do Itambé) - R$9
      . Pousada Pé da Serra com café da manhã (Santo Antônio do Itambé) - R$30
       
      Horários do ônibus de São Gonçalo do Rio das Pedras (Transfácil - 38-3541-4091):
      . Serro-São Gonçalo do Rio das Pedras:
      seg a sex - 11h45, 16h30
      sáb - 13h
      dom e feriado - não há
      . São Gonçalo do Rio das Pedras-Serro:
      seg a sex - 6h, 13h
      sáb - 6h
      dom e feriado - não há
      (tempo de viagem: 1h)
       
      Horário do ônibus de Capivari (Transfácil - 38-3541-4091):
      . Serro-Capivari: seg a sex - 12h30
      . Capivari-Serro: seg a sex - 5h45
      sáb, dom e feriado não há
       
      Mais informações sobre o receptivo familiar/turismo solidário em Minas no site http://www.turismosolidario.com.br.
       
      Carta topográfica de Rio Vermelho (http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SE-23-Z-B-I.jpg).
       
      Rafael Santiago
      junho/2012


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