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Travessia da Serra Fina (Ao contrário - Julho/17)


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Álbum com todas as fotos da travessia estão em:

https://goo.gl/photos/nfzuWXFzDoqd68vh8


Travessia realizada entre dias 29/07 a 01/08/17.


- Introdução -


No geral, quem faz a travessia da Serra fina pela 1º vez, logo se encanta com a beleza do lugar e também sente na pele a fama da travessia estar entre as mais dificeis do Brasil. O que ela tem de dificil, tem de recompensas, o que faz que muitos retornem. Já tendo feito outras 2 vezes no sentido tradicional, agora era hora de experimentar a travessia no sentido contrário, que dizem ser mais dificil, mas que oferece outras experiências, pespectivas e visuais diferenciados. E mais perrengues, obviamente.

Chamei alguns amigos, mas devido a logística (ter que enforcar 2 dias úteis da semana) o unico que topou encarar a empreitada comigo foi o Leonardo. Marcamos de nos encontrar na Rodoviaria do Tietê e embarcamos no ônibus das 23:30hs em direção a Itanhandú/MG. A viagem foi tranquila e pouco antes das 4:30hs saltamos na rodoviaria da pacata cidadezinha de Itanhandú, cidade localizada no sul de MG e que mais parecia uma rodoviária fantasma.

Além da gente, outros 2 passageiros desembarcaram na pacata rodoviaria. O céu estava claro e a temperatura marcava 05ºC para o desespero do Leo que duvidou qdo eu disse em SP que as cidades do sul de MG são muito frias, principalmente a noite. O motorista do ônibus, ao ouvir o Leo dizendo que tava muito gelado ali, brincou: "Está quente hoje...pois o normal para o horário e já estar abaixo de zero....E eu ainda disse: Se acha que está gelado aqui, espere para ver o que te espera lá em cima.

Pelo roteiro, iriamos  esperar o 1º ônibus do dia para Itamonte, que sai as 6:00hs e de lá pegaríamos um taxi até o sítio do Pierre, onde começa/termina a trilha da travessia. Mas para a nossa sorte, 2 pessoas que desembarcaram haviam chamado um UBER e também iriam para Itamonte. Eles perguntaram se tb iriamos para lá e se topariamos rachar a corrida em 4, o que aceitamos na hora, é claro.

Após chegarmos em Itamonte, aproveitamos para esticar a corrida direto para o Pierre, o que otimizou bastante o nosso tempo e ainda saiu a bagagela de apenas R$ 30 para cada um, vindo direto de Itanhandu até o Pierre, parando apenas em Itamonte para o desembarque das outras 2 pessoas que iriam ficar por lá. Com isso, economizamos tempo e dinheiro.


1ºDia - Do Sítio do Pierre (1.800m) ao Pico dos 3 Estados (2.665m)

Ainda estava escuro qdo chegamos ao inicio da trilha, no sítio do Pierre....após ajeitamos as cargueiras e fazer os alongamentos de praxe, iniciamos a caminhada pontualmente as 6:00hs em direção ao Pico dos 3 Estados. A 1ºhora de caminhada é feita pela estradinha de terra do sitio que mostra logo de cara que a subida até os 3 Estados não será moleza.

Passamos pela porteira de entrada do sitio e vejo que não havia ninguém, apenas 2 cães solitários que latem a nossa passagem. O dia já está clareando e a serração tipica da montanha cobre os vales. O céu estava livre de qualquer vestígio de nuvens o que mostra que o dia seria igualmente aproveitavel para a nossa alegria.

Vamos ganhando altitude e a subida tediosa pela estradinha de terra não dá trégua, mas pelo menos serviu para aquecer os músculos e espantar um pouco o frio da manhã. Passamos por alguns pontos de água, mas sabendo que haveria mais pontos acima, falo para o Leo deixar para abastecer mais acima. Se quiser evitar um peso desnecessário nas costas, deixe para pegar água a mais ou menos 30 minutos após o inicio da trilha, que é o ultimo ponto.

As 6:47hs resolvemos fazer uma rápida parada para um café da manhã reforçado....afinal, subir de estomago vazio não dá né? Os primeiros raios do sol já coloriam o alto dos picos e o céu azulzinho apenas aguçavam nossa ansiedade. O Picú com seus 2.020 metros de altitude nesse ponto estava bem visivel a nossa frente.

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Ainda no sitio do Pierre, subindo pela estradinha de terra...

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Vista do Picú na subida da estradinha de terra, ainda no Sítio do Pierre

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A placa no inicio da trilha

Após o café, retomamos a caminhada e as 7:15h chegamos ao inicio oficial da trilha. Uma placa logo a frente nos alertara para levar todo o nosso lixo de volta. 25 minutos desde as últimas casas do Pierre, chegamos ao 1º e único ponto de água do 1ºdia da trilha (sem contar os pontos de água da estradinha do sitio do Pierre) onde aproveitamos para carregar o suficiente para os próximos 2 dias, pois só iremos encontrar o próximo ponto de água no final do 2ºdia, no Vale do Ruah.

Como a subida dos 3 Estados é mais longa do que a subida do Capim amarelo, abasteço com 4 litros e ainda tinha 2 garrafinhas de 500ml de gatorade cada na mochila, totalizando 5 litros que foram mais do que suficientes para mim. No sentido tradicional, costumo trazer apenas 3 litros de água e 1 de gatorade.

Com as cargueiras mais pesadas do que nunca, vimos que a subida seria mais dificil que a do Capim de fato. E que iriamos comprovar a fama da travessia ao contrário ser mais puxada que a tradicional. De qualquer forma, é sabido que na Serra fina não tem moleza alguma do começo ao fim. Só de saltar na rodovia e começar a caminhar com um subidão pirambeiro logo de cara mostra bem isso.

Abastecidos, retomamos a caminhada em meio a mata fechada e o frio da manhã ainda estava bem intenso, pois ainda estavamos na sombra e o Leo não via a hora de sair no sol. Até brinquei com ele que não deveria desejar o sol, pois qdo chegarmos ao trecho de crista, não haverá sombra e o sol já estará mais forte, o que acaba aumentando mais o desgaste físico. Em alguns pontos, aberturas em meio a mata fechada revelavam alguns picos e a crista por onde ainda iriamos passar. A trilha dá uma volta enorme em formato de "U" para evitar um grande vale a direita e atingir uma crista a frente que une os 2 morros. A frente vejo algumas subidas bem fortes e falo para o Leo que a trilha sobe exatamente por ali.

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Vista dos picos ainda no trecho de mata fechada

40 minutos desde o ponto de água lá atrás, chegamos aos primeiros trechos de campos de altitude as 10:30hs. Já estavamos acima dos 2.000 metros de altitude e nesse ponto entramos em um trecho de transição, onde a vegetação de mata atlântica vai pouco a pouco dando lugar aos de campos de altitude. As primeiras vistas do entorno aparecem e já consigo ver o Pico dos 3 Estados ainda bem distante e o alto dos Ivos a direita, com sua crista parecendo estar próximos, mas ainda distante algumas horas ainda....A Leste visualizo a Serra do Itatiaia com os Picos do Couto a esquerda e Prateleiras a direita em destaque.

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Ao fundo a esquerda, Pico dos 3 Estados ainda distante. A direita, alto dos Ivos

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Tapetão de nuvens cobrindo o vale do Paraíba

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Serra de Itatiaia ao fundo

O dia estava radiante e o sol brilhava forte, com um tapetão de nuvens cobrindo totalmente o vale do paraíba, um espetáculo em tanto que foi merecedor dos primeiros clicks, é claro. Passamos por um descampado protegido para 4 ou 5 barracas que Pode/deve ser usado para quem começa a trilha no final do dia e quer adiantar parte do trajeto do primeiro dia, mas sem água perto. Pouco depois, cruzamos com alguns montanhistas fazendo a travessia no sentido tradicional a qual cumprimento cordialmente. A subida da uma leve tregua e nesse ponto, passamos por alguns trechos curtos de sobe morro/desce morro sem maiores dificuldades.  

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Descampado plano e protegido que fica pouco a frente logo qdo você passa pelo primeiro trecho aberto fora da mata

O corpo já começa a reclamar e com a cargueira mais pesado do que nunca, as pernas já dão os primeiros sinais de desgaste, após quase 3 horas de subida desde a Rodovia. Pouco antes das 12:00hs chegamos a base do Pico do Ivos e só de olhar o paredão íngreme da crista cansou até a vista. As 12:10 entramos definitivamente aos campos de altitude e a partir daqui a trilha some e a navegação passa a ser feita quase que exclusivamente por totens e fitas presas. Começamos a subir e o trecho inicial se mostrou uma pirambeira daquelas com trechos de escalaminhada e trepa-pedra.

A subida é ardua, o sol castiga muito, o que me fez parar algumas vezes vezes para retomar o fôlego. As 12:48hs, com pouco mais de 30 minutos de subidão pirambeiro, o terreno dá uma amenizada e a caminhada entra no trecho da fina crista, com enormes vales à esquerda e a direita. A nossa frente, vejo o topo do Ivos relativamente próximo, mas ainda tinha um trecho com 2 cocorutos para vencer antes dele. Nesse ponto também consigo visualizar todo o trecho já percorrido, com o Pierre lá embaixo, as escarpas rochosas da Serra de Itatiaia e o Picú a leste. O visual daqui impressiona.

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Crista dos Ivos logo a frente

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Último trecho antes de começar a subida pirambeira

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Trecho da crista por onde passamos

As 13:15, após 5 horas e meia de caminhada desde a rodovia, a subida finalmente acaba e a partir daqui entro no trecho final antes do cume do Ivos. O Topo estava bem próximo e por fim as 13:20 finalmente chego aos 2.512 metros de altitude do Alto dos Ivos para um merecido descanço.
Do cume, é possível ver todo o trecho de subida, o Pico dos 3 Estados, Pedra da Mina e vários outros picos da Serra fina a Oeste, com a Serra do Itatiaia e o Picú a leste. Aproveitamos para fazer um pit-stop mais demorado para forrar o estomago e molhar a goela seca, após a subida que se mostrou bem mais puxada que a subida do Capim amarelo. Aqui acaba o trecho mais puxado de subida, mas não a caminhada do dia.

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Trecho final da crista

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No Topo dos Ivos, com a bela vista do Pico dos 3 Estados a esquerda e Pedra da Mina a direita

Pouco antes das 14:00hs, começamos a descer o Ivos em direção ao nosso destino final, agora novamente por trilha bem demarcada. O Pico dos 3 Estados parecia estar perto, mas ainda restava a descida e a subida de 2 vales e picos menores até a base. A descida é ingreme, mas tranquila e vamos descendo sem maiores dificuldades. 30 minutos desde o topo do Ivos, a descida termina e estamos cruzando o primeiro de 3 vales. Passamos por alguns descampados planos e protegidos na base do Ivos com espaço para umas 8 barracas que são perfeitos para acampamento, mas com o problema de não haver água perto.

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Vista do trecho ainda a percorrer, durante a descida dos Ivos

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Subida de um pico menor entre o Ivos e o 3 Estados

A trilha segue subindo em direção a um pico menor para depois bordejar a direita de outro morro para então seguir em direção a base dos 3 Estados. As 15:20hs finalmente chego aos descampados na base dos 3 Estados denominado "Bandeirantes". O frio da montanha começava a dar as caras e nem ficamos muito tempo parados na base para evitar que o corpo esfrie. A nossa frente só restava o tenebroso e imponente Pico dos 3 Estados e seu paredão ingreme pronto para ser escalaminhado. Estavamos a uma altitude média de 2.450 metros e teriamos que subir mais 200 metros afim de atingir os 2.665m dos 3 Estados.

Após um breve descanço, as 15:35hs iniciamos a subida de ataque final ao cume, que logo se revela uma pirambeira daquelas....Não é nada fácil esse trecho e vou subindo devagar, sem pressa. Os músculos das pernas já estavam esgotados de tanto sobe morro/desce morro, mas continuar era preciso. Com vários trechos de escalaminhada e trepa-pedra, vou parando em alguns momentos para retomar o fôlego.

As 16:05hs alcanço um dos ombros dos 3 estados, com a subida dando uma tregua. Aproveito e faço uma breve parada, pois ainda tinha mais um trecho de subida final para o desespero do Leo que estava nas últimas também. Continuamos em frente nos guiando por fitas amarelas e vermelhas e totens por um trecho plano.

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Vista do vale na base dos 3 Estados (ignorem a data da foto)

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Subindo a pirambeira dos 3 Estados

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Enfim, o trecho de subida final antes do pico

Depois do trecho plano do ombro, subimos mais um trecho para então finalmente alcançamos o topo dos 2.665 metros do Pico dos 3 Estados as 16:35hs, o que foi motivo de comemoração, é claro. Afinal, foi uma caminhada árdua de quase 8 horas com peso máximo das cargueiras e vegetação virado ao contrário para nós. No Topo havia apenas 2 grupos com poucas pessoas e bastante vagas nos descampados para montar barraca. Vantagem de fazer a travessia ao contrário e chegar tarde e não ter problema para encontrar vaga...Nesse horário, no Alto do Capim amarelo já estaria lotado e teríamos que seguir em frente em direção ao Avançado ou o Maracanã, afim de encontrar vaga. Alguns sacrificios valem a pena.

Após montarmos nossos respectivos aposentos e ver o Astro-rei repousar no horizonte, preparamos nossa janta e com o frio intenso, nem ficamos muito tempo fora da barraca e logo fomos dormir.

Continua no post abaixo....

 

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2ºDia - Do Pico dos 3 Estados (2.665m) a Pedra da Mina (2.798m)

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Nascer do sol no cume dos 3 Estados

O Sábado amanheceu com o céu totalmente livre de qualquer vestígio de nuvens, o que era um sinal de que seria mais um dia igualmente aproveitavel, com céu azul e tempo firme....Após ver o Astro-rei surgir por detrás da Serra do Itatiaia, fui preparar meu café da manhã, enquanto que o Leo se fartava de fotos no topo....afinal era a 1ºvez que ele estava fazendo a travessia e logo de cara a travessia ao contrário.

Barraca desmontada e mochila nas costas, começamos a caminhar pouco antes das 9:00hs em direção a Pedra da Mina. A Descida dos 3 Estados no sentido contrário se mostra uma pirambeira daquelas, por isso vou descendo com relativa cautela. É bom usar luvas para evitar os cortes nos dedos provocados pelo capim elefante, principalmente em subidas e descidas ingremes. Esse tipo de vegetação corta com certa facilidade e a vantagem da luva é poder usar o proprio capim como apoio durante a descida e também nas subidas, reduzindo o risco de acidentes e ainda poupando panturrilhas e joelhos.

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Topo do Pico dos 3 Estados, que agora conta com um livro de cume

A descida é rapida e agora a caminhada segue por um trecho de ombro pela crista, mas não demora muito e logo começa outra descida ingreme até a base. Passamos por uma enorme área de acampamento conhecida como "bambuzal" que fica em um vale entre os 3 Estados e o Cupim de boi para pelo menos umas 10 barracas. O trecho do vale é plano, porém curto e logo começamos a subir a crista do Cupim de boi. A subida é bem ingreme, mas não dura muito tempo e com pouco mais de 1 hora desde o topo dos 3 Estados, as 10:10hs chegamos no topo onde fizemos uma breve pausa para clicks e apreciação da paisagem

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Descendo o Pico dos 3 Estados em direção ao cupim de boi

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Trecho de crista

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A pirambeira ingreme dos 3 Estados que acabamos de descer

Retomamos a caminhada e seguimos agora descendo pela crista do cupim do boi em direção ao morro da Brecha. A caminhada é bem tranquila e vamos nos orientando pelos totens, pequenas fitas presas nos galhos dos bambuzinhos e rabicho de trilhas. A nebulosidade aumentou bastante durante a manhã e chegou até a encobrir o topo dos picos e onde nós estavamos, parecendo que iria fechar tudo e nos tirar a navegação pelo visual. Mas ficou apenas na ameaça e no final, o tempo abriu e só ficou parcialmente nublado, com as nuvens mais altas que o topo dos picos, felizmente.

O caminho entre o alto do cupim e a brecha é tranquilo, mas uma caracteristica desse trecho é os bambuzinhos. A maior parte do caminho é composto por eles e trilha menos aberta que são um incômodo frequente, pois os bambus enroscam constantemente na mochila. Para quem está fazendo a travessia no sentido contrário, esse "incomodo" é maior por conta da vegetação virada contra você.

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No topo do cupim de boi

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O imponente pico dos 3 Estados visto do alto do Cupim de boi e ficando para trás

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Descendo pela fina crista - Bem ao fundo, no centro - Pedra da Mina

1 hora e 10 minutos desde o topo do Cupim, terminamos a descida e estavamos na base da crista. Bem a frente, um enorme paredão pronto para ser escalaminhado. De longe parecia ser uma subidinha relativamente tranquila, mas de perto a conversa foi outra. O problema nesse ponto nem era a subida, mas sim os bambuzinhos virados contra nós que enche o saco e trechos de trilha mais fechada, o que nos deixou bem mais lentos.

Pouco antes das 12:30hs chegamos ao alto da crista e a caminhada agora segue no plano, para nosso alívio. Mais 30 minutos e finalmente chegamos ao topo do morro da Brecha onde fizemos mais uma breve pausa. Aqui existe alguns descampados planos e protegidos para umas 4 barracas pelo menos. Também tenho a visão total do vale do Ruah e do Rio verde bem a frente...Estavamos com mais de 1 litro de água cada um e por isso nem nos preocupamos em chegar logo lá.

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Vistas de tirar o fôlego

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Descampado no alto da Brecha

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O trecho pelo alto da crista por onde a trilha passa- A esquerda o Pico dos 3 Estados, no centro o Cupim de boi

As 13:10 começamos a descer em direção ao vale do Ruah. A trilha que vem do Ruah vira a direita logo que o rio começa a virar a esquerda. Tivemos um perdido no trecho do rio, pois seguimos por uma trilha bem demarcada que levou direto ao rio e que evitou um trecho bem ruim de descida pelo capim elefante mto alto, mas que virou muito a direita.

Até vale a pena descer por ela e seguir um curto trecho pelo leito do rio, mas tivemos que nos enfiar no meio dos tufos de capim elefante que estavam altos e muito fechado para reencontrar a trilha que vem do vale do ruah, o que nem é um problema para quem conhece o caminho. Porém pode ser um problemão se for a primeira vez que estiver fazendo a travessia da Serra fina (ainda mais se for ao contrário), não souber o caminho e nem tiver um gps. O Capim elefante nesse trecho é muito alto e cobre totalmente a trilha na maior parte dos trechos. É preciso ir abrindo caminho entre os tufos para conseguir enxergar a trilha. Por isso, independente de qual sentido esteja fazendo a travessia, muito cuidado nesse trecho, caso não conheça o caminho e estiver sem GPS. O trilha que vem do Ruah segue acompanhando o leito do rio, com a Pedra da Mina bem a frente.

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Descendo em direção ao vale do Ruah

40 minutos desde o topo da brecha (contando com o perdido que nos atrasou um pouco), paramos para coletar água em um trecho do rio. Peguei o suficiente apenas para passar a noite no topo da Pedra da Mina, pois sei que logo no começo do dia seguinte irei encontrar outro ponto de água. Como já tinha um pouco de agua comigo, enchi apenas uma garrafa PET de 1 litro e meio.
Depois de coletarmos água, atravessamos o bonito e inóspido vale do Ruah e logo chegamos a base da imponente Pedra da Mina. Passamos por mais uma area de acampamento para umas 10 barracas e resolvemos fazer uma breve parada para mastigar algo e molhar a goela, pois só de olhar o enorme paredão íngreme da Pedra da Mina, deu até tontura.....::mmm:

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Atravessando o vale do Ruah

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A imponente Pedra da Mina

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Subindo a pirambeira da Pedra da mina

As 15:30hs começamos a subir. A subida de ataque final ao cume é uma pirambeira daquelas e com alguns lances de escalaminhada e trepa-pedra, vou parando algumas vezes para retomar o fôlego. A subida é inteiramente por lajes de pedras e vou me orientando pelos totens e vestígios de trilha, evitando os trechos mais ingremes. O sentido é obvio, sempre pela crista em linha reta e leva-se mais ou menos 1 hora até o topo.

Enfim, após 7 horas de caminhada desde o topo dos 3 Estados, as 16:25h chego ao topo da Pedra da mina para o merecido descanço.. O topo estava lotado por ser um sábado a tarde de sol, o que já era previsível. Apesar do cansaço e o stress dos músculos das pernas por conta da subidão, já fui preparado para o caso de ter que continuar em frente e descer em direção as nascentes do Rio claro e acampar lá.

Mas por sorte, vi de longe 2 descampados vagos na cratera-base e um outro grupo subindo pela trilha do paiolinho. Então tratamos de correr afim de garantir nosso lugar, para a alegria do Leo por ser a 1ºvez dele....

Após montarmos as barracas, fomos contemplar o cume e o por-do-sol. A temperatura já havia diminuido bastante e por volta das 17:00hs o termômetro que deixei pendurado do lado de fora da barraca estava registrando 02ºC.....E as 19:00hs, enquanto estavamos preparando nossa janta, os termometros baixaram ainda mais e estavam marcando -01ºC. Uma fina camada de gelo começava a surgir em cima das barracas e a madrugada foi um verdadeiro freezer. Com o frio mais intenso que a noite anterior e o cansaço, nem fiquei muito tempo fora da barraca contemplando a noite estrelada e logo fui dormir.

Continua....

 

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3º Dia - Do topo da Pedra da Mina (2.798m) ao Alto do Capim amarelo (2.392m)

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No topo da Pedra da Mina, logo após o nascer do sol

Acordei pouco depois das 6:00hs para ver o nascer do sol e logo desci para preparar meu café. As 7:00hs já estava desmontando a barraca, mas só fui sair pouco depois das 9:00hs para dar tempo do Leo curtir o topo e tirar suas trocentas fotos de primeira vez. Mochila nas costas, começamos a descer em direção as nascentes da Pedra da mina. Durante a descida, somos brindados com uma visão de arrepiar de toda a cadeia de montanhas da parte oeste da Serra fina, o que rendeu vários clicks.

Vamos descendo com certa cautela nos trechos mais pirambeiros e em menos de 40 minutos chegamos ao acampamento na base, onde tivemos um pequeno perdido: Por estarmos fazendo no sentido contrário, a pespectiva de caminho é diferente, por isso eu me confundi no trecho dos descampados na base e levamos pelo menos uns 10 minutos para encontrar a continuação da trilha. Procura aqui, ali e acolá e nada.....E agora José? Falei para o Leo ligar o GPS do celular, mas quem disse que o bichin deu sinal?

O Leo começou a ficar apreensivo por não estar achando a continuação da trilha e eu resolvi tirar a cargueira para procurar melhor e com mais calma. Foi só me livrar do peso nas costas para achar a trilha instantes depois. Com a vegetação virada para quem vem no sentido tradicional, a continuação da trilha ficou meio escondida, pois haviam bifurcações bem abertas levando para outros descampados que acabaram ofuscando a trilha original. Coloquei alguns totens para indicar a direção correta para outros caminhantes que passarem por aqui no futuro fazendo a travessia ao contrário. A trilha certa segue pelo alto do pequeno morro, bem ao lado de algumas árvores. Só o farejo de trilha que salva nessas horas!

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Vista durante a descida com o Pico do Tartarugão em destaque

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Descidão pirambeiro

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Colocaram várias dessas placas novas em area de acampamento

Depois que reencontrarmos a trilha, descemos um pequeno trecho e as 10:40 chegamos ao ponto de água do Rio claro, onde abastecemos os cantis para os próximos 2 dias....Cruzamos o pequeno riachinho e começamos a subir um pequeno trecho de capim elefante com tufos bem altos. Chegamos ao trecho de chapadão, onde a trilha dá lugar a enormes costões rochosos. A partir desse trecho a navegação passa a ser feita somente através de vestígios de trilha, fitas e totens por algum tempo. Uma novidade é que colocaram várias placas em todos os descampados pelo caminho, identificando o ponto de acampamento e a capacidade do mesmo.

20 minutos desde o ponto de água, passo por uma bifurcação a esquerda que dá acesso a cachoeira vermelha. Deixamos as cargueiras na bifurcação e fomos lá ver a cachoeira mais de perto...sua água não é boa para consumo pois é rica em ferro, então não recomendo pegar água nesse ponto. Por isso, se estiver fazendo a travessia ao contrário, pegue toda a agua que precisar no Rio claro, o primeiro ponto logo que desce da Pedra da mina. Ali a água é corrente e de boa qualidade.

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Cachoeira vermelha

No vale das nascentes da Pedra da Mina há vários pontos de acampamento planos e protegidos por enormes tufos de capim elefante pelo caminho, que podem ser usados para o caso do topo da Pedra da mina estar lotado ou se quiser adiantar o percurso do dia seguinte. Elas são relativamente próximas umas das outras, mas somente nos descampados na base da Pedra da mina tem água perto.
O caminho pelo gigantesco vale em direção ao Melano vai alternando entre curtos sobe morro/desce morro, sem maiores dificuldades. A cada vale, passo por pequenos descampados. Mais 40 minutos desde o ponto de agua lá no Rio claro, iniciamos a subida em direção a crista do Melano.

O Relógio marcava pouco antes das 13:00hs e nesse ponto, terminamos a subida e voltamos a caminhar novamente por lajes de pedras e trechos de bambuzinhos, agora pelo alto da crista do Melano, com novos trechos de sobe morro/desce morro. Do alto, somos brindados com uma bela visão de todo o vale por onde passamos, com a imponente Pedra da Mina em destaque na paisagem. Também consigo ver até a cachoeira vermelha distante, no meio do vale....É um belo visual e vale a pena uma parada para contemplação dessa parte da travessia.

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Subindo em direção a crista do melano

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O gigantesco vale por onde passamos, com a imponente Pedra da Mina em destaque

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Cachoeira vermelha distante, vista do alto da crista - foto com zoom

A subida do Melano no sentido contrário é bem mais tranquila que no sentido tradicional. Há poucos trechos de escalaminhada que são curtas e logo se atinge o alto da crista. As 13:35h passamos por um descampado para umas 6 barracas do tipo Iglu na crista do Melano que se revela uma boa opção ao Capim amarelo, já que a crista do alto do Melano é mais alto e tem uma visual privilegiado do topo do capim de um lado e a Pedra da Mina do outro.

Nesse ponto, estamos mais ou menos na metade do caminho e a caminhada segue no plano. Mais 25 minutos desde o descampado lá atrás, chegamos ao topo do Melano e daqui já se tem a bela visão dos vales que separam o Melano do Alto do Capim amarelo, que parece estar bem próximo, mas ainda restava uma grande descida até lá.

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No alto do Melano se passa por trechos curtos de sobe morro/desce morro como esse

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Chegando ao topo do Melano

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A bela vista do Topo do Melano com o capim amarelo em destaque

Começamos a desescalaminhar a íngreme descida do Melano que é uma pirambeira daquelas. Vamos descendo com cautela e evitamos de olhar para frente. Ao lado da trilha existem alguns trechos são verdadeiros precipícios e que de tão altos, dão até medo. Quem está fazendo no sentido tradicional sobe de costas e geralmente nem vê o precipício. No começo da descida há algumas cordas para auxílio nos trechos mais complicados e que foram bem úteis. É preciso descer com bastante atenção, pois um escorregão ou pisada em falso representaria pelo menos um braço ou perna quebrados.

Após desescalaminhar o trecho inicial, a descida dá uma tregua e passamos a caminhar novamente pela fina crista com o Capim amarelo bem visivel a nossa frente o tempo todo. Pouco antes das 14:30h começamos a descer a segunda parte do paredão ingreme do Melano que se rebelou ser ainda mais pirambeira do que o trecho inicial e vamos perdendo altitude rapidamente. Passamos por 2 montanhistas fazendo a travessia no sentido tradicional vindo da toca do lobo pouco antes do final da descida e trocamos algumas ideias rapidamente. Eles estavam fazendo a travessia em 3 dias e iriam acampar no descampado no alto do Melano. Logo que a descida termina, passamos por uma bifurcação a esquerda que leva para uns descampados conhecido como "Dourado".

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Desescalaminhando o Melano

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Pirambeira dos infernos

No mesmo ponto (agora a direita) há outra bifurcação para um ponto de água extra onde havia uma plaquinha com um aviso: Área em recuperação. Ali na verdade é o acesso a um ponto de água que funciona quase o ano inteiro. É uma opção, mas em epoca de estiagem prolongada a nascente pode estar seca. Por isso não recomendo abastecer com menos água no Quartzito ou no Rio claro contando com esse ponto. As 15:10hs, chegamos ao enorme descampado conhecido como Maracanã que é o maior local de acampamento de toda a travessia (ali cabem pelo menos umas 12 barracas ou mais, por isso o nome Maracanã), onde fizemos uma rápida pausa para molhar a goela e mastigar umas barras de cereais antes de encarar o ultimo trecho e o subidão final de ataque ao cume do Capim amarelo.

30 minutos desde os enormes descampados do Maracanã lá atrás, chegamos finalmente a base do Capim amarelo. Passamos por mais alguns outros descampados no vale conhecido como "Avançado" e começamos a ganhar altitude. A subida de ataque final ao cume é de matar e com vários trechos de escalaminhada, vou parando para retomar o fôlego. Os músculos das pernas já estavam mais "para lá do que para cá", mas continuar era preciso. O Leonardo esboçava estar mais cansado do que eu e por isso acabou parando mais vezes durante a subida.

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Melano visto do Maracanã. E pensar que desescalaminhei aquele paredão

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Na base do Capim Amarelo

A Pirambeira parecia não ter fim e depois de uns 40 minutos de subida íngreme, o terreno começa a nivelar. Saímos da mata mais fechada de bambuzinhos e entramos no trecho de Capim elefante. O topo parecia estar tão próximo e as 16:30hs, com pouco mais de 40 minutos de subidão e quase 7 horas de caminhada desde o topo da Pedra da mina, finalmente chego ao cume do Capim amarelo para mais um merecido descanço.

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Enfim, no topo do Capim Amarelo

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Do topo do Capim é possivel ver todo o trecho percorrido no dia ou a percorrer se estiver fazendo a travessia no sentido tradicional

Não havia ninguém no cume e donos absolutos do lugar, pudemos escolher o melhor lugar para montarmos nossas barracas. Depois fomos deixar nossas contribuições do livro do cume e contemplar o último pôr-do-sol da travessia. A temperatura diminuiu bastante e por volta das 17:30 o termômetro marcava por volta dos 04ºC. Após a Janta, fiquei fazendo um pouco de hora para curtir o céu estrelado, o silêncio do cume sem ninguém e as cidades todas iluminadas lá do alto, que são um capitulo a parte. Qdo o sono começou a vir, voltei para a barraca, me enfiei dentro do saco de dormir e logo pego no sono.


Continua....

 

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4ºDia - Do topo do Capim amarelo (2.392m) a Rodoviaria de Passa Quatro (sem resgate)

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A Segunda-feira amanheceu com uma fina nevoa, o que me fez supor que não iria dar para ver o nascer do sol. Mas era só uma nuvem passando e logo abriu. Um tapetão de nuvens cobria o vale do paraíba e as cidades do sul de MG. Após ver o surgimento do astro-rei por detrás da crista do Melano, fui preparar meu último café da manhã. A novidade foi o topo todo coberto pelo branco da forte geada da madrugada, o que foi um atrativo a parte, pois não havia visto o Capim amarelo daquele jeito nas outras vezes que acampei lá....

Barraca desmontada e mochila nas costas, começamos a descida por volta das 9:00hs. Vamos descendo devagar a pirambeira ingreme e noto que em alguns pontos colocaram cordas em lugares onde antes não havia. Além das cordas, escadas também foram afixadas nos trechos mais pirambeiros. 20 minutos depois, passamos por um trecho conhecido como "cotovelo" e logo em seguida a descida começa para valer.

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Topo do Capim amanheceu coberto de branco da geada

Vou perdendo altitude rapidamente, e segurando forte na vegetação em volta para evitar despencar vale abaixo. Descer o capim sentido toca do lobo é uma experiência diferente, mas assim como a subida, é uma descida bem desgastante. As trocentas vistas do gigantesco vazio do vale do paraíba lá embaixo impressiona o tempo todo, mas não dá para se distrair.....

As 11:00hs, termino a descida mais pirambeira e saimos do trecho de capim elefante para um capim ralo. A partir desse ponto, a descida dá lugar a um trecho plano, seguido de uma leve subida, por uma fina crista com 2 vales ao lado. Mais 15 minutos e chego ao alto do morro do Quartzito, onde se tem uma bela vista do Capim amarelo bem a sua frente (no meu caso, atrás). Demos um tempo ali para o Leo tirar suas fotos do trecho da vista classica e eu aproveitei para molhar a goela seca com um gatorade geladão....

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Descida pirambeira

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Caminhando pela fina crista em direção ao alto do Quartzito

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Leo de costas registrando sua foto no trecho da vista classica do Capim amarelo e a fina crista

Nossa caminhada não iria terminar na Toca do Lobo e ainda iriamos caminhar os quase 14 km de estradinha de terra até a Rodovia. No alto do Quartzito passamos por alguns descampados planos e uma placa dizendo que ali é uma area de acampamento para até 4 barracas. Mas ela é totalmente exposto aos fortes ventos, por isso é arriscado acampar aqui. Vamos descendo o Quartzito com cuidado, já que nesse trecho a trilha se torna um verdadeiro pedregulho e com quase nenhum ponto de apoio, o risco de escorregar é bem alto. Por isso, muita atenção nesse trecho.

 Terminada a descida, chegamos ao ponto de água da base do Quartzito. Aqui há uma bifurcação a esquerda (direita para quem está subindo) que leva até o precioso líquido. É uma opção, caso chegue aqui sem água. Como ainda tinhamos água sobrando, optamos por continuar em frente até a Toca do Lobo. As 11:48hs e pouco mais de 2 horas e meia de caminhada desde o topo do Capim amarelo, passamos por um outro descampado plano, esse para umas 3 barracas, mas protegido dos ventos. Diferente da outra, essa sim, é uma boa opção de pernoite para o caso de você quiser adiantar o percurso do primeiro dia no sentido tradicional ou se caso vier direto da Pedra da Mina fazendo a travessia no sentido contrário e estiver chegando aqui de noite.

Após o descampado, passamos por mais um trecho de fina crista, trecho conhecido como "Alto do cruzeiro". A partir daí tem mais um trecho de descida e logo mergulhamos na mata fechada. A vegetação muda, com os campos de altitude dando lugar a mata atlântica e após mais um curto trecho na mata fechada, finalmente chegamos a Toca do Lobo as 12:05, com quase 3 horas cravadas de descida intensa, desde o topo do Capim amarelo.

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Chegando ao trecho conhecido como Cruzeiro

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Enfim, na Toca do Lobo

Demos um tempo ali para descançar e forrar o estômago. Descançados e saciados, partimos para o trechinho final de trilha em direção a fazenda Santa Amélia, onde chegamos por volta das 13:00hs. A travessia havia acabado, mas não a caminhada, pois ainda restava o trecho de quase 14 km até a Rodovia. Como estavamos apenas em 2, contratar um resgate está fora de cogitação. Por isso fizemos nosso planejamento de tempo de caminhada de cada dia incluindo no último dia, de 5 a 6 horas de caminhada.

Após os clicks para registrar nossa chegada, comemoramos o sucesso da empreitada. A partir desse ponto começamos a tediosa caminhada pela estradinha de terra em direção a Rodovia. O relógio marcava 13:20hs e pelo roteiro, precisaríamos chegar à rodoviaria de Passa Quatro até as 16:00hs a tempo de pegar o último ônibus das 16:50hs para São Paulo. Porém, chegamos bem antes do tempo estimado, pois qdo estavamos chegando na metade do caminho, passou um caminhão e o motorista parou para nos oferecer carona, o que aceitamos na hora, é claro. O motorista nos deixou bem próximo da rodoviaria. Mas quem disse que o perrengue acabou?

Ao chegar no guichê da Cometa em Passa Quatro, descobrimos que não havia mais vaga no ultimo ônibus direto para São Paulo. Então, pegamos um onibus para Cruzeiro, depois outro para Guaratinguetá e por fim outro direto para São Paulo, onde fomos chegar pouco antes das 22:00hs, cansados, mas felizes.

--------------------
 

DICAS E INFORMAÇÕES ÚTEIS:

-> Um dos maiores perrengues dessa travessia é a escassez de água, independente do sentido que estiver fazendo a travessia. Entre um ponto e outro, é sempre bom levar um pouco mais de água além do necessário. Mas sem exagerar, para não extrapolar muito no peso da cargueira, é claro. O Ideal é levar uns 3 a 4 litros de um ponto de água a outro, com excessão dos trechos entre o final do segundo dia e o inicio do terceiro, onde por conta da proximidade entre os pontos de água, dá para subir e descer do cume da pedra da mina bem mais leve. Portando, não é preciso sair lá de baixo carregado, como no inicio do primeiro e terceiro dia.

-> Se for fazer a travessia ao contrário, considere levar pelo menos 1 litro de agua extra além do que levaria na travessia no sentido tradicional. A subida dos 3 Estados é bem mais longa e leva-se pelo menos umas 7 a 9 horas em um ritmo relativamente forte e poucas paradas. Por ser mais longa e demorada, o desgaste e o consumo de energia e água acabam sendo maiores, obviamente. Eu subi com 4 litros de água + 1 de gatorade que foram mais do que suficientes para mim nos 2 primeiros dias. No sentido tradicional subi com 1 litro a menos. Atente-se a esses detalhes.

--> Isotônicos em pastilha, do tipo "Suum" são uma boa pedida. Assim, dá para levar mais de 5 litros de "gatorade" em apenas um tubinho. Cada pastilha rende 500 ml e cada tubinho vem 10 pastilhas em média. São ótimos para repor os sais mineirais, sem precisar carregar 5 litros a mais nas costas. Pode-se usar parte da água para dissolver as pastilhas em garrafinhas de 500 ml daqueles de gatorade mesmo, transformando 500ml de água em 500ml de "gatorade" em poucos minutos. Me deu muito pique, evitou cãibras e também de chegar exausto no final de cada dia.

--> Não recomendo fazer essa travessia sem o uso de luvas de jeito algum, ainda mais no sentido contrário. As luvas são um item quase que obrigatório, pois evitam os cortes nos dedos provocados pelo Capim elefante, principalmente nos trechos de subida e descida. Esse tipo de capim corta com muita facilidade e o uso de luvas além de proteger dos cortes, se torna um grande facilitador, pois com as luvas, você poderá usar o capim como apoio nas subidas e descidas, diminuindo a carga nas pernas e joelhos.

--> Faça o possível para levar o isolante e a barraca dentro da mochila. Ou então, embale-os bem, com uma toalha ou algo que os deixe bem protegidos, evitando deixa-los na horizontal do lado de fora da barraca. Caso contrário, os bambuzinhos irão acabar com eles.

--> A trilha durante toda a travessia está bem demarcada, com excessão de alguns trechos de capim elefante. Nos trechos de lajes de pedras no alto das cristas, a trilha dá lugar a enormes e extensos costões rochosos, onde a navegação passa a ser através de totens e pequenas fitas amarelas, brancas ou vermelhas amarradas nos galhos das árvores. A navegação para quem não tem experiência em orientação por totens e vestígios de trilha, fica bem complicada até mesmo com o uso de gps, imagina sem....Portanto, muita atenção nos trechos de lajes de pedra e aprenda a se guiar sem o uso de gps, que pode falhar na hora H e te deixar numa fria.

--> Sinal de celular pega sem problemas no alto dos picos e na crista, principalmente da VIVO.

--> Boné é indispensável para evitar o sol forte...

--> A travessia da Serra fina não é uma travessia qualquer e é preciso estar muito bem preparado fisicamente e psicologicamente para vencer os desafios por ela impostos durante os 4 dias. Subidas e descidas pirambeiras e longas com alto grau de declive e aclive acumulados podem gerar lesões em pessoas que não estejam com um bom preparo físico. E por ser 4 dias e com escassez de água, a mochila fica muito pesada mesmo. Não há como escapar disso.

-> A travessia feita no sentido contrário é mais puxada que no sentido tradicional. Mas tem a vantagem de conseguir vaga nas areas de acampamento com facilidade sem precisar correr para chegar antes. Alguns poucos grupos optam pela travessia ao contrário (principalmente em feriados prolongados) justamente para não ter que se preocupar em não encontrar vaga nos cumes, pois a esmagadora maioria faz no sentido tradicional.

--> A melhor época para se fazer a travessia é no periodo seco, ou seja, de Maio a Setembro. Mesmo assim, vá somente com a certeza de tempo firme nos 4 dias e adie em caso de previsão de mau tempo. Não adianta arriscar achando que a previsão vai errar, pois a probabilidade dela acertar é maior do que de errar. A montanha não vai fugir de lá e é melhor adiar e ir com a certeza maior de tempo firme nos 4 dias do que contar com a sorte e pegar tempo fechado, sem visibilidade alguma e correndo risco de pegar chuva e ventos fortes.

--> Muita atenção nos trechos de capim elefante, pois as folhagens dela cobrem quase que totalmente a trilha, deixando-a meio que "invisível". Por isso é preciso ir abrindo caminho entre os tufos afim de visualizar a trilha, escondida pelas folhagens do capim. Tendo um bom farejo de trilha, é possível encontrar o caminho mesmo sem gps ou tracklog, itens que devem ser utilizados para auxilio somente em caso de dúvidas qto ao caminho. As bifurcações em meio do capim podem confundir e se você não souber distinguir a trilha bem marcada daquelas bifurcações em meio aos tufos, se perderá com facilidade...

--> Leve saquinhos reserva, inclusive para poder trazer o seu lixo de volta.

-> Se for fazer a travessia no sentido contrário, uma boa opção é pernoitar em Itamonte e de lá pegar resgate, taxi ou UBER (dependendo do numero de pessoas do grupo) até o sitio do Pierre.

--> Na cidade de Passa Quatro, uma das melhores opções de hospedagem é o Hotel Serra Azul:

--> Logo abaixo seguem alguns contatos que fornecem transporte para a Toca do Lobo ou para pegar no final da travessia, sendo possível também combinar no sentido contrário. Ligue e se informe antes

(Contatos fornecidos pela Vivi Mar)

- Taxista Marquinhos: (35) 9113-1214 (Itamonte) - Um dos + baratos;
- Celso: (35) 3371-1291 - Recados no Hotel Serra Azul (Passa Quatro);
- Edson da Toyota: (35) 9963-4108 ou (35) 3371-1660 (Passa Quatro);
- Sr. Caetano: (35) 3771-1510 (Passa Quatro);
- Sr.Samuel: (35) 9113-1700 (Itamonte);
- Eliana da 4P4 Ecoturismo: (35) 3371-4263, 3371-3937, 3371-2268 (Passa Quatro);
- Taxistas Schmidt e Boni: (35) 3371-2013 e (35) 9962-4025 (Passa Quatro).
- Carlinhos: (35) 9109-1185
- Zezinho: (35) 9113-0745
- Maú: (35) 9216-4793 ou faz a travessia alpina.de asfalto a asfalto.
- Joaquim Siqueira 35 3371 2410, 35 9113 7643 ou [email protected]
- Hotel Serra Azul em Passa Quatro que cobra barato pernoite de mochileiros contato Steffi Sikorski (35) 3371.1291 [email protected] .

--> Por ser uma travessia clássica, existem dezenas de tracklogs dela disponíveis na internet. Aqui vai um link direto:

http://pt.wikiloc.com/wikiloc/find.do?q=travessia+serra+fina
 

-> 3 anos atrás (em Junho de 2014) fiz a travessia no sentido tradicional e escrevi um relato detalhado de como foi minha experiência pessoal, segue o link abaixo:

Abs 

 

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    • Por Renato37
      Bem, sei que há trocentos relatos sobre essa clássica travessia, então aqui vai mais um....
       
      Álbum, com todas as fotos da travessia estão em:
      https://photos.app.goo.gl/gh3c4PJaBMSHoF887
       
      Travessia realizada entre dias 12 a 15/06/2014.
       
      Eram 3:55h da manhã de uma fria madrugada de quinta-feira qdo saltei do ônibus na minúscula e pacata rodoviária de Passa Quatro (MG), que mais parecia um galpão qualquer. Após pegar meu chum...ops, cargueira do bagageiro do busão, Vivi, Marcão e alguns amigos do Sandro já se encontravam no local a minha espera e dos demais. Michel também já estava no local, mas só foi aparecer meia hora depois, pois se encontrava no mundo dos sonhos dentro de seu carro.
       
      Feitas as devidas apresentações, ficamos aguardando os demais do grupo chegarem. A madrugada na pacata cidadezinha localizada em um vale no meio das imponentes montanhas da Mantiqueira estava gelada, como é comum em cidades de altitudes elevadas (acima dos 1.000 metros). O céu estava com poucas nuvens, o que indicava que o dia seria bem aproveitável nesse primeiro dia. Os 2 resgates contratados já se encontravam no local e ficamos aguardando o resto do pessoal chegar.
       
      Tão logo isso ocorreu (embora alguns que disseram que viriam, deram para trás e sequer avisaram, mas felizmente a maioria apareceu), as 5:30h partimos rumo ao inicio da trilha, onde chegamos por volta das 6h20, na chamada "Fazenda Santa Amélia" (Toca do lobo) na cota dos 1.570 metros de altitude. A fazenda parecia estar abandonada e uma placa verde já bem gasta pela ação do tempo nos dava as boas-vindas com algumas orientações, dicas e o mapa com os picos, pontos de acampamento e de água.
       
      1º Dia - Toca do Lobo (1.570 m) ao Pico do Capim amarelo (2.491m)
       

      Mapa ilustrativo da travessia com os pontos de acampamento, água e os principais picos
       

      A placa bem gasta, já não dava para visualizar quase nada, infelizmente....
       
      Após ajeitarmos as cargueiras e alguns alongamentos básicos, iniciamos a caminhada por volta das 6:40. O trecho inicial da fazenda até a Toca do Lobo já começa logo de cara com uma subida, dando uma idéia do que nos aguardara nesse primeiro dia, rumo ao Pico do Capim amarelo. Após o primeiro lance de subida (que foi boa para aquecer os músculos e espantar o frio da manhã), a estradinha nivela, vira trilha e segue margeando a encosta esquerda de um morro, passando a descer levemente em direção a um pequeno vale. Passo por uma trifurcação, onde pego o caminho mais batido a esquerda.
       

      Galera ajeitando as cargueiras
       

      A simpática e discreta fazenda Santa Amélia
       

      Inicio da trilha
       
      Os primeiros raios de sol coloriam o topo das montanhas ao redor, indicando que o dia seria igualmente aproveitável e com visão total do percurso e do entorno. Nesse trecho inicial, algumas aberturas no meio da mata fechada revelavam os picos do entorno, por onde iria passar, dando uma ideia do que me esperava pela frente....
       

      Janelas em meio a mata fechada, revelavam alguns picos
       
      Não demora muito e as 7:10, chego no 1º ponto de água da travessia ao lado de uma pequena gruta conhecida como "Toca do Lobo", que realmente lembra uma toca. Lá, encontro parte da galera que havia saído minutos antes de mim na frente, fazendo seu primeiro pit stop no local e também faço o mesmo. A água de um rio que corre bem do lado direito é corrente e de boa qualidade, mas sabendo que havia outro ponto de água mais acima, optei por deixar para abastecer os cantis mais acima, entre os morros do Cruzeiro e Quartzito, a cerca de 1 hora de caminhada trilha acima, economizando no peso da cargueira.
       

      Toca do Lobo
       

      1ºponto de água ao lado da Toca
       
      Depois de atravessar o rio, sigo pela trilha a direita e passo por mais um trecho de mata fechada, que não dura muito tempo e logo dão lugar aos primeiros trechos de campos de altitude, formado inicialmente por gramídeas e capim ralo, com trilha bem aberta, possibilitando as primeiras visões dos picos ao redor por onde ainda irei passar. Pouco a pouco, o pessoal vai se afastando uns dos outros, devido ao ritmo variado de cada um e nisso, vou seguindo pela trilha, que vai subindo meio que em zig-zag, sem maiores dificuldades....As primeiras vistas nesse trecho inicial de subida já são de impressionar, inclusive com as primeiras visões do Pico do Capim amarelo bem lá no alto imponente, a esquerda.
       

      Primeiras vistas logo que sai da mata fechada
       

       

       

      Pico do Capim amarelo lá no alto, bem distante ainda
       

       
      Passados 30 minutos desde a Toca, chego no alto do morro do Cruzeiro na cota dos 1.783m, onde já é possível visualizar parte dos trechos por onde a trilha segue em direção ao próximo morro, o do Quartzito. Após alguns cliques e uma curta parada para descanço, retomo a pernada, descendo levemente o morro, para então iniciar a primeira subida forte em direção ao Quartzito.
       

      Subida do morro do cruzeiro,se não me engano...Subidinha ainda "tranquila"
       
      A trilha segue galgando a crista em zig zag, com a visão do entorno e o percurso da trilha bem demarcada a frente que são um atrativo a parte. Quanto mais você vai avançando, mas te dá vontade de parar e ficar apreciando aqueles belos contornos serranos e as finas cristas que dão nome a Serra fina.
       

      Belíssimas vistas do vale do Paraíba durante a subida
       
      Mas a subida ainda está só no começo e logo visualizo bem a frente, o paredão íngreme do próximo morro, o do Quartzito, pronto para ser escalaminhado, ao mesmo tempo que ouço um barulho de água de um riachinho do lado direito. Mais 15 minutos após passar pelo alto do Cruzeiro e 45 minutos desde a Toca, chego ao segundo e último ponto de água desse 1º dia as 8:40, onde uma discreta bifurcação a direita sugere que o acesso ao riachinho é por ali.
       
      É a partir desse ponto que deve-se encher todos os cantis para os próximos 2 dias, pois o próximo ponto de água será somente no rio claro, no final do 2ºdia, nas nascentes da base da Pedra da Mina.
       

      Chegando ao 2º e último ponto d´agua desse 1º dia de Travessia. É aqui que acaba a moleza da cargueira mais leve e deve-se encher os cantis para 2 dias.
       

      2º ponto d´agua
       
      Encho os cantis com 3 litros de água e ainda tinha mais 1 de gatorade que foram mais que suficientes para mim.
      Com os cantis cheios, inicio a subida em direção ao Quartzito. Com a mochila mais pesada do que nunca, a moleza acaba e é o bicho iria pegar para valer, pois é a partir do segundo ponto de água que se inicia a primeira subida pirambeira em direção ao morro do Quartzito. E vamos que vamos.
       
      Esse primeiro trecho é bem íngreme e com a cargueira mais pesada ainda, foi bem complicado, dando uma idéia do que ainda teria pela frente. As 9:15, chego ao topo do Morro do Quartzito (na cota dos 2.020 metros de altitude) para um merecido, mas breve descanso. Aproveito a pausa para apreciar as belas paisagens do entorno, com os picos do Marins, Marinzinho e Itaguare bem ao fundão, se destacando no horizonte.
       
      É nesse trecho que se passa pela parte mais bonita da subida e também onde se visualiza o trecho da foto "clássica" da trilha descendo e contornando o topo da crista até a base do enorme paredão do Capim Amarelo. Aqui a subida dá uma tregua e a caminhada segue no plano, com uma leve descida pelo alto de uma fina crista logo após passar pelo alto do morro do Quartzito. O Topo do Capim amarelo aparece bem imponente lá no alto e a frente, parecendo estar próxima, mas ainda resta uma longa subida pirambeira até lá. Aqui encontro alguns vestígios de acampamento, mas como o local é exposto aos ventos, é arriscado acampar aqui.
       

      Alto do morro do Cruzeiro visto do alto do Quartzito
       
      Do alto do Quartzito, se tem a visão de todo o trecho percorrido e também todo o traçado da trilha demarcada pelo alto das cristas. É um capitulo a parte e rendeu vários clicks. O grupo de 12 pessoas se dividiu em grupos menores, onde cada grupo foi seguindo em seus ritmos, com os mais rápidos mais acima, eu no intermediário e os mais lentos logo atrás de mim, o que gerou belas fotos da galera em diferentes ângulos. Em uma travessia como essa, é quase impossível todo mundo ficar juntos em um mesmo ritmo.
       

      Picos do Marins, Marinzinho e Itaguaré bem ao fundão....
       

      Chegando ao trecho da foto "classica"
       

      Caminhar pela fina crista é uma sensação única...
       
      Após descer levemente o morro do Quartzito, passando pela crista com 2 grandes vales a direita e a esquerda, chego definitivamente no "paredão" da base do Capim e é a partir de agora que as pernas serão postas a prova máxima de resistência e superação. As 10:15, começo a longa e exaustiva subida que vai ficando cada vez mais íngreme e com alguns lances de escalaminhada, onde o auxilio das mãos passam a ser necessários para impulso nas pedras e troncos.
       
      A subida é árdua, o sol castiga muito e nisso, acabo parando várias vezes para retomar o fôlego. As 11:00 chego ao alto de um morro, conhecido como "Cotovelo" onde a subida dá uma leve trégua e aproveito para fazer uma pausa. Olho para cima e vejo a nebulosidade aumentando sobre o topo do Capim amarelo.
       

      Vista do alto do morro do Cotovelo
       
      Subindo de cocoruto em cocoruto, vou seguindo em direção ao morro do camelo em trilha bem demarcada e com vários lances de escalaminhada. O Grupo está bem dividido e a minha frente vejo os mais rápidos mais acima e os mais lentos lá embaixo. A pirambeira não dá trégua e parecia não ter fim. Só de olhar para cima, cansava até a vista. Vou ganhando altitude rapidamente e quase 3 horas desde o Quartzito lá embaixo, chego a um ombro do Capim Amarelo, conhecido como "Camelo" na cota dos 2.380 metros de altitude.
       
      A principio, achei que era o topo do capim, mas não era. Enquanto isso, a neblina foi ficando ainda mais densa e nisso, a visão ficou prejudicada. Descanso por algum tempo aqui e pouco antes das 13h00, volto a caminhada.
       

      Alto do morro do "Camelo" um ombro do Capim amarelo, com o pico do Capim mais acima ainda, encoberto pelas nuvens
       
      Segui mais um pouco até chegar a uma parte mais plana onde a trilha passa por 2 descampados bem protegidas no meio de enormes tufos de capim elefante. Olhando para baixo (aproveitando algumas janelas em meio a neblina), consegui visualizar o Michel e os demais bem lá embaixo ainda, enquanto a Vivi, Marco e Fábio dispararam na frente e imaginei que a essa hora, já haviam chegado no topo. O relógio marcava 13:00hs e eu ainda não fazia ideia de qto tempo iria levar até o topo do capim.
       
      Após passar pelas áreas de acampamento, visualizo bem a frente outro paredão no meio da neblina, com a trilha indo na direção dele. A subida volta a ficar ainda mais íngreme e com alguns trechos enlameados e pirambeiros, acabo parando mais algumas vezes para recuperar o fôlego. Em alguns pontos, havia cordas estrategicamente instaladas para auxilio nos trechos mais complicados da subida e que foram muito bem-vindas. O ataque final ao cume é de matar com mais lances de escalaminhada e trepa-pedra. Com o peso da cargueira e uma noite praticamente sem dormir, não foi nada fácil vencer esse trecho.
       
      As pernas e braços já pediam arrego, mas continuar era preciso. E se já estava ruim com a falta de visibilidade, ficou pior qdo começou a chover fraco, o que me deixou apreensivo....O Topo parecia estar bem próximo e finalmente, as 13:20 chego nele, onde sou recepcionado por parte da galera da turma do Roger, Marco e da Vivi que já haviam chegado lá entre 30 minutos a 1 hora antes de mim e já tinham até montado seus respectivos "aposentos"....rsrs
      Mas ainda faltavam o Michel, Mariana e outros que estavam atrás de mim e só chegaram cerca de 40 minutos depois.
       

      Enfim, barraca montada e o merecido descanso no topo do Capim amarelo
       
      O Cume do Capim é bem plano e com várias clareiras para 1 ou 2 barracas, todas bem protegidas por conta dos enormes tufos de capim elefante que formam uma ótima proteção contra os fortes ventos. Como ainda havia muitas clareiras disponíveis, pude escolher o melhor ponto para montar a barraca. Na subida final a chuva havia parado, mas voltou no exato momento que estava montando a barraca. Não foi fácil montar a barraca por causa da chuva, pois tive que monta-la as pressas, mas felizmente era apenas uma chuvinha passageira e logo parou, não chegando nem a molhar direito o chão.
       

      Descampados entre os tufos de capim elefante
       
      Após montada a barraca, explorei as laterais do topo e depois fui preparar meu almoço, ficando o resto da tarde de boa com o pessoal. Fui deitar por volta das 19h30 e logo peguei no sono. De madrugada, acordei com o teto da barraca mais clara e ao botar a cabeça para fora, vi que a neblina havia dissipado, o céu estava com poucas nuvens e a lua brilhava forte. Com isso pude apreciar as cidades em volta todas iluminadas e com a lua cheia iluminando todo o topo. E ainda pude me presentear com a bela visão dos picos da Serra fina ao redor, com a Pedra da Mina em destaque a leste. A temperatura não caiu muito de madrugada e ficou em torno dos 04ºC.
       
      Continua no post abaixo....
    • Por PedrãodoBrasil
      Expedição Extreme e Serra Fina
       
       
       
       
       
       
      Serra Fina 4 dias    16 a 19 Maio 2019
      Saida de Vitória no dia 15 de Maio e nos Hospedamos no
      Harpia Hostel Pousada Hotel,
      Do Amigo Alessandro (35) 98894-0533  (Hostel e Transfer)
       R. Ângelo Dalessandro - Centro, Passa Quatro – MG
       
      Participantes
      Idealizador da Trip
      https://www.facebook.com/pedraodobrasil  
      27 99805 8885
      Participantes
       
      https://www.facebook.com/bruno.languer.9
      https://www.facebook.com/patrick.martinscastelo
      https://www.facebook.com/rosa.natura.rosa
       
       
       
      1°dia
      16/05/2019
      Início 9 hs
      Fim 16 hs

      -Toca do Lobo, Quartizito e campi amarelo
      -Local do Camping : Capim Amarelo (Acampamento 1)
      *Entre toca do lobo e capim amarelo tem o último ponto de agua do dia a direita no quartizito.
      -Capim Amarelo. 2491mt de altitude.
      Muita subida, escalaminhada, muitas cordas.
      Enfim se vc é nutela não vá .
       
      2°dia
      17/05/2019
      Inicio 08 hs,
      termino 17 hs
      -Capim amarelo
      -Maracanã
      -Cachoeira vermelha
      -Base da pedra da mina (Acampamento 2)
      *Ultimo Ponto de agua do dia na base da Pedra da Mina.
      Chegamos neste ponto estava um bento muito forte e chovendo muito e estava muito frio, resolvemos acampar neste local (Base da Pedra da Mina). Isto por volta das 17:00 hs.
      Os ventos, tempestades e raios se intensificaram.
      Ficamos na barraca por 20:00 hs, pois durante o dia ficou feia a coisa.
      Saímos por volta das 14:00 hs do outro dia, devido tempestades e raios.
       
       
       
      3°dia
      18/05/2019
      Inicio 14:00 h
      Término 18:00 h
      Saímos da base da Pedra da Mina ainda com chuva e ventos fortes, atingimos o topo da Pedra da Mina com seus 2797 Metros de altitude.
       
      Os ventos lá em cima eram muito fortes, além do frio.
      Descemos e atingimos o vale d Rhuá.
      Encontramos uns caras que passaram um perrengue durante a noite.
      Seguimos pelo vale sempre a direita do rio.
      Passar pelo vale do Rhuá e uma coisa única, um belo vale com capins amarelos bem alto e muita lama.
      No final do vale foque sempre o V no final do vale.
      Pegamos agua para o dia seguinte, é importante pegar no mínimo 6 litros de água, pois até o ponto de água seguinte.
      Saímos do vale e dormimos num camping acima. Agora sim fomos agraciados por um por do sol maravilhoso. (Acampamento 3)
       
       
       
      4º dia
      19/05/2019
      Inicio 08:00hs
      Término 18:30 hs.
      Saída do Camping acima do vale do Rhuá e seguimos em frente, hoje porem deu um nascer do sol lindo, indicando que o dia ia ser aberto, pois os dias anteriores não foram de um bom tempo.
      Passamos Pelo Mirante do Vale das Cruzes, Pelo cume do Cupim de Boi, Pico dos três estados 2656 mt altitude, Ombro dos 3 estados, Cume Bandeirante, Alto Dos Ivos, entroncamento com a garganta do Registro, Ponto de água antes do Sitio do Pierre, Sitio do Pierre e Asfalto, onde o resgate nos aguardava.
      Volta ao Hostel, dormimos e fomos embora na segunda feira, finalizando assim a trip, que foi umas das mais HARD que já fiz.
      A Serra Fina para Mim é considerada uma das mais difíceis e pesadas do Brasil.
       
      Use sempre Protetor Labial.
       

      Dicas
      Mesmo fazendo a travessia no final da temporada de montanha, bambus e Capim Elefante são uma constante. Luvas e blusa de manga longa é boa pedida.
      O desespero em saber que a travessia oferece pouca água, não deve ser considerado algo extremo, lembre-se que o corpo necessita de liquidos, não somente água. Eu particularmente, levei sucos prontos, e água de coco e só abasteci a garrafa de água mesmo no terceiro dia. Os dois primeiros só bebia nos pontos de água. Mas isso claro, vai de pessoa para pessoa.
      Quando fizer paradas próximo ao Capim Elefante, a presença dos ratinhos deve ser considerada e não deixe a mochila aberta de forma alguma. Nos cumes, nada de comida fora da barraca e se possivel, longe dos cantos para evitar o cheiro.
      Protetor solar e chapeú que cubra o rosto e pescoço é ótimo, pois o bambuzal deixa muito matinho caindo pelas costas. Bandanas também são muito uteis, principalmente nos cumes para não ficar com o nariz vermelho pelo frio.
       
       
       
       































    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
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