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Poesia mochileira

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Vaca Estrela e Boi Fubá

 

Patativa do Assaré

 

 

Seu doutor me dê licença pra minha história contar.

Hoje eu tô na terra estranha, é bem triste o meu penar

Mas já fui muito feliz vivendo no meu lugar.

Eu tinha cavalo bom e gostava de campear.

E todo dia aboiava na porteira do curral.

 

Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,

ô ô ô ô Boi Fubá.

 

Eu sou filho do Nordeste , não nego meu naturá

Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá

Lá eu tinha o meu gadinho, num é bom nem imaginar,

 

Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá

Quando era de tardezinha eu começava a aboiar

 

Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,

ô ô ô ô Boi Fubá.

 

Aquela seca medonha fez tudo se atrapalhar,

Não nasceu capim no campo para o gado sustentar

O sertão esturricou, fez os açude secar

Morreu minha Vaca Estrela, já acabou meu Boi Fubá

Perdi tudo quanto tinha, nunca mais pude aboiar

 

Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,

ô ô ô ô Boi Fubá.

 

Hoje nas terra do sul, longe do torrão natá

Quando eu vejo em minha frente uma boiada passar,

As água corre dos olho, começo logo a chorá

Lembro a minha Vaca Estrela e o meu lindo Boi Fubá

Com saudade do Nordeste, dá vontade de aboiar

 

Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,

ô ô ô ô Boi Fubá.

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Triste Partida

 

Patativa do Assaré

 

 

Meu Deus, meu Deus. . .

 

Setembro passou

Outubro e Novembro

Já tamo em Dezembro

Meu Deus, que é de nós,

Meu Deus, meu Deus

Assim fala o pobre

Do seco Nordeste

Com medo da peste

Da fome feroz

Ai, ai, ai, ai

 

A treze do mês

Ele fez experiência

Perdeu sua crença

Nas pedras de sal,

Meu Deus, meu Deus

Mas noutra esperança

Com gosto se agarra

Pensando na barra

Do alegre Natal

Ai, ai, ai, ai

 

Rompeu-se o Natal

Porém barra não veio

O sol bem vermeio

Nasceu muito além

Meu Deus, meu Deus

Na copa da mata

Buzina a cigarra

Ninguém vê a barra

Pois a barra não tem

Ai, ai, ai, ai

 

Sem chuva na terra

Descamba Janeiro,

Depois fevereiro

E o mesmo verão

Meu Deus, meu Deus

Entonce o nortista

Pensando consigo

Diz: "isso é castigo

não chove mais não"

Ai, ai, ai, ai

 

Apela pra Março

Que é o mês preferido

Do santo querido

Senhor São José

Meu Deus, meu Deus

Mas nada de chuva

Tá tudo sem jeito

Lhe foge do peito

O resto da fé

Ai, ai, ai, ai

 

Agora pensando

Ele segue outra tria

Chamando a famia

Começa a dizer

Meu Deus, meu Deus

Eu vendo meu burro

Meu jegue e o cavalo

Nós vamos a São Paulo

Viver ou morrer

Ai, ai, ai, ai

 

Nós vamos a São Paulo

Que a coisa tá feia

Por terras alheia

Nós vamos vagar

Meu Deus, meu Deus

Se o nosso destino

Não for tão mesquinho

Cá e pro mesmo cantinho

Nós torna a voltar

Ai, ai, ai, ai

 

E vende seu burro

Jumento e o cavalo

Inté mesmo o galo

Venderam também

Meu Deus, meu Deus

Pois logo aparece

Feliz fazendeiro

Por pouco dinheiro

Lhe compra o que tem

Ai, ai, ai, ai

 

Em um caminhão

Ele joga a famia

Chegou o triste dia

Já vai viajar

Meu Deus, meu Deus

A seca terrível

Que tudo devora

Lhe bota pra fora

Da terra natá

Ai, ai, ai, ai

 

O carro já corre

No topo da serra

Oiando pra terra

Seu berço, seu lar

Meu Deus, meu Deus

Aquele nortista

Partido de pena

De longe acena

Adeus meu lugar

Ai, ai, ai, ai

 

No dia seguinte

Já tudo enfadado

E o carro embalado

Veloz a correr

Meu Deus, meu Deus

Tão triste, coitado

Falando saudoso

Seu filho choroso

Exclama a dizer

Ai, ai, ai, ai

 

De pena e saudade

Papai sei que morro

Meu pobre cachorro

Quem dá de comer?

Meu Deus, meu Deus

Já outro pergunta

Mãezinha, e meu gato?

Com fome, sem trato

Mimi vai morrer

Ai, ai, ai, ai

 

E a linda pequena

Tremendo de medo

"Mamãe, meus brinquedo

Meu pé de fulô?"

Meu Deus, meu Deus

Meu pé de roseira

Coitado, ele seca

E minha boneca

Também lá ficou

Ai, ai, ai, ai

 

E assim vão deixando

Com choro e gemido

Do berço querido

Céu lindo azul

Meu Deus, meu Deus

O pai, pesaroso

Nos filho pensando

E o carro rodando

Na estrada do Sul

Ai, ai, ai, ai

 

Chegaram em São Paulo

Sem cobre quebrado

E o pobre acanhado

Procura um patrão

Meu Deus, meu Deus

Só vê cara estranha

De estranha gente

Tudo é diferente

Do caro torrão

Ai, ai, ai, ai

 

Trabaia dois ano,

Três ano e mais ano

E sempre nos prano

De um dia vortar

Meu Deus, meu Deus

Mas nunca ele pode

Só vive devendo

E assim vai sofrendo

É sofrer sem parar

Ai, ai, ai, ai

 

Se arguma notícia

Das banda do norte

Tem ele por sorte

O gosto de ouvir

Meu Deus, meu Deus

Lhe bate no peito

Saudade lhe molho

E as água nos óio

Começa a cair

Ai, ai, ai, ai

 

Do mundo afastado

Ali vive preso

Sofrendo desprezo

Devendo ao patrão

Meu Deus, meu Deus

O tempo rolando

Vai dia e vem dia

E aquela famia

Não vorta mais não

Ai, ai, ai, ai

 

Distante da terra

Tão seca mas boa

Exposto à garoa

À lama e o paú

Meu Deus, meu Deus

Faz pena o nortista

Tão forte, tão bravo

Viver como escravo

No Norte e no Sul

Ai, ai, ai, ai

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PAISAGEM DE INTERIOR

 

(Jessier Quirino)

 

Matuto no mêi da pista

menino chorando nu

rolo de fumo e beiju

colchão de palha listrado

um par de bêbo agarrado

preto véio rezador

jumento jipe e trator

lençol voando estendido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Três moleque fedorento

morcegando um caminhão

chapéu de couro e gibão

bodega com surtimento

poeira no pé de vento

tabulêro de cocada

banguela dando risada

das prosa do cantador

buchuda sentindo dor

com o filho quase parido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Bêbo lascando a canela

escorregando na fruta

num batente, uma matuta

areando uma panela

cachorro numa cadela

se livrando das pedrada

ciscador corda e enxada

na mão do agricultor

no jardim, um beija-flor

num pé de planta florido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Mastruz e erva-cidreira

debaixo dum jatobá

menino querendo olhar

as calça da lavadeira

um chiado de porteira

um fole de oito baixo

pitomba boa no cacho

um canário cantador

caminhão de eleitor

com os voto tudo vendido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Um motorista cangueiro

um jipe chêi de batata

um balai de alpercata

porca gorda no chiqueiro

um camelô trambiqueiro

avelós e lagartixa

bode véio de barbicha

bisaco de caçador

um vaqueiro aboiador

bodegueiro adormecido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Meninas na cirandinha

um pula corda e um toca

varredeira na fofoca

uma saca de farinha

cacarejo de galinha

novena no mês de maio

vira-lata e papagaio

carroça de amolador

fachada de toda cor

um bruguelim desnutrido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Uma jumenta viçando

jumento correndo atrás

um candeeiro de gás

véi na cadeira bufando

radio de pilha tocando

um choriço, um manguzá

um galho de trapiá

carregado de fulô

fogareiro abanador

um matador destemido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Um soldador de panela

debaixo da gameleira

sovaqueira, balinheira

uma maleta amarela

rapariga na janela

casa de taipa e latada

nuvilha dando mijada

na calçada do doutor

toalha no aquarador

um terreiro bem varrido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Um forró de pé de serra

fogueira milho e balão

um tum-tum-tum de pilão

um cabritinho que berra

uma manteiga da terra

zoada no mêi da feira

facada na gafieira

matuto respeitador

padre, prefeito e doutor

os home mais entendido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior.

 

Jessier Quirino é paraibano de Campina Grande, arquiteto por profissão, poeta por vocação, vive atualmente em Itabaiana. É o autor dos livros "Paisagem de Interior", "A Miudinha", "O Chapéu Mau", "O Lobinho Vermelho" e "Agruras da Lata D'Água", além de cordéis, causos, musicas e outros escritos. O crítico do Jornal do Commércio - Recife fez o seguinte comentário, quando do lançamento de seu último livro:

 

"A poesia matuta já é um estilo consagrado da literatura brasileira. Nomes como Patativa do Assaré, Catulo da Paixão Cearense e Zé da Luz são conhecidos em todo o país como os principais representantes do gênero. Um pouco menos famoso que os três, mas podendo ser considerado tão importante quanto, é Jessier Quirino, poeta paraibano que vem se destacando por seu estilo humorístico."

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Quando o dia acorda atravessado, escalo uma montanha.

 

É meu próprio caminho em direção ao sol.

 

Mochila nas costas, carrego o principal

 

não levo nem perguntas, nem respostas.

 

Ponho um ramo de sonhos que vou plantando pelo caminho,

 

a flauta encantada pra seduzir passarinho,

 

a estrela companheira que brilha o tempo inteiro e mantém a trilha iluminada;

 

um frasco de água benta, uma reza certeira; um arco-íris à prova de vento,

 

um peito aberto à prova de nada.

 

Devagarzinho, sem pressionar o tempo, chego ao meu destino.

 

Respiro fundo, abro os braços, canto um hino de sagração ao mundo

 

- e agradeço - por ter descoberto de repente por onde se começa um recomeço.

 

(Flora Figueiredo)

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Dizem que o talento nasce conosco.

 

É com grande satisfação que outro dia vasculhei o blog de um colega daqui do mochileiros.com e me deparei com jóias de tremendo valor.

 

Não se tratam de jóias caras, duras, cruas, são pedras polidas com brilho intenso e de forte conteúdo.

 

Não, ele não vive de poesias, apenas as escreve e compartilha com quem quiser.

 

Postarei uma aqui pra vcs verem:

 

 

 

O PESO

 

Acontece que por vezes

Eu me canso...

E a vida toda parece um fardo

Quando sinto cada quilo

Destes sessenta e cinco que me pesam.

 

E cada manhã eu tenho que vencer este número:

Por-me de pé, e sustentar sobre mim mesmo

Um peso de medida imprópria a cada um.

 

De olhos vendados segue-se a vida,

E os dias vão pesando,

E a luz da manhã, e a escuridão do depois,

A proximidade de um, a distância do outro

O eu, o tu, e todos estes nós

E pontos, e palavras, e silêncio...

 

O peso de todo o início

É ainda o peso do fim.

Viver nos pesa

E a Morte parece pesar mais...

 

Ainda assim, queria ver meu coração

Ser mais leve que uma pena.

Enquanto meu corpo,

Com todo peso que há nele,

Poderia rolar na garganta

De uma grave montanha,

Uma vez mais...

 

 

Bem, quem escreveu esta e outras tantas foi nosso amigo Rã, o Ram_Alen.

 

Vocabulah, clique aqui

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Poesia sobre a motivação que impulsiona os mochileiros não conheço não, mas estou familiarizado com este sentimento.

O que me ocorre nesse momento e que explicita bem isso é uma cena de um filme, a saber: "Alexandre o Grande"

 

Mais ou menos na metade dele ou um pouco depois, Alexandre esta numa montanha gelada conversando com alguém, inconformado pelo seu povo não compartilhar seu desejo de conquistar e desbravar o mundo todo. A cena tem um viés triste, solitário, mas não por ser isso em sua essencia, mas pela solidão do desejo não compartilhado. Isso resume bem meu impeto pelas viagens.

 

Olho o mundo a minha volta e não consigo me conformar com a prisão que somos submetidos, existem tantas pessoas pra se conhecer, tantos lugares pra se visitar.

 

Enfim é isso!

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Está faltando uma que representa o espirito mochileiro:

Amanheceu, Peguei a Viola

Almir Sater

 

 

 

Amanheceu, peguei a viola botei na sacola e fui viajar

Sou cantador e tudo nesse mundo, vale pra que eu cante

e possa praticar.

A minha arte sapateia as cordas

E esse povo gosta de me ouvir cantar.

Amanheceu, peguei a viola botei na sacola e fui

viajar

 

Ao meio-dia eu tava em Mato Grosso, do sul ou do

norte, não sei explicar.

Só sei dizer que foi de tardezinha,

Eu já tava cantando em Belém do Pará.

Amanheceu, peguei a viola botei na sacola e fui

viajar

Em Porto Alegre um tal de coronel, pediu que eu

musicasse um verso que ele fez.

Para uma china, que pela poesia,

Nem lá em Pequim se vê tanta altivez.

 

Amanheceu, peguei a viola botei na sacola e fui

viajar

Parei em minas pra trocar as cordas, e segui direto

para o Ceará.

E no caminho fui pensando, é lindo,

Essa grande aventura de poder cantar.

 

Amanheceu, peguei a viola botei na sacola e fui

viajar

Chegou a noite e me pegou cantando, num bailão, no

norte lá do Paraná.

Daí pra frente ninguém mais se espanta,

E o resto da noitada eu não posso contar.

 

Anoiteceu, e eu voltei pra casa,

Que o dia foi longo e o sol quer descansar.

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Certa tarde, ao visitar a família, havia tomado coragem e dito para seu pai que não queria ser padre. Queria viajar.

 

– Homens de todo o mundo já passaram por esta aldeia, filho – disse o pai. – Vêm em busca de coisas novas, mas continuam as mesmas pessoas. Vão até o morro conhecer o castelo e acham que o passado era melhor que o presente. Têm cabelos louros ou pele escura, mas são iguais aos homens de nossa aldeia.

 

– Mas não conheço os castelos das terras de onde eles vêm – retrucou o rapaz.

 

– Estes homens, quando conhecem nossos campos e nossas mulheres, dizem que gostariam de viver para sempre aqui – continuou o pai.

 

– Quero conhecer as mulheres e as terras de onde eles vieram – disse o rapaz.

 

– Os homens trazem a bolsa cheia de dinheiro – disse mais uma vez o pai. – Entre nós, só os pastores viajam.

 

– Então serei pastor.

O pai não disse mais nada. No dia seguinte deu-lhe uma bolsa com três antigas moedas de ouro espanholas. – Achei certo dia no campo. Iam ser da Igreja, como seu dote. Compre seu rebanho e corra o mundo até aprender que nosso castelo é o mais importante, e nossas mulheres são as mais belas.

 

E o abençoou.

 

Nos olhos do pai ele leu também a vontade de correr o mundo. Uma vontade que ainda vivia, apesar das dezenas de anos que ele a tentou sepultar com água, comida, e o mesmo lugar para dormir toda noite.

 

O Alquimista

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