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E.Samuel

Travessia Serra Fina Invertida em 2 dias - Vim, Vi e Venci.

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Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 

O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 

Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 

Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.

Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.

Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.

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Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).

Chegada nos 3 Estados 10h21

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Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!

Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.

Chegada no Cupim do Boi 12h58.

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O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.

Chegada no Vale do Ruah 14h51

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A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs

Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.

 

No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

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Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

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Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.

Camping Maracanã às 09h44.

Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

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Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

A subida até o Capim Amarelo é pesada.

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Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.

Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

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Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.

Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

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Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

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Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.

É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.

A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.

Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).

Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.

“E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”

Até a próxima.

1º dia: 18,2km
Ganho de elevação: 1.972m
Tempo: 14h21m

2º dia: 11,6km
Ganho de elevação: 531m
Tempo: 8h 5m
Elevação maxima: 2798m

Dados do Strava.

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Cara que fotografia foda!

Se posso deixar uma sugestão, deixaria mais natural as cores... menos amarelo...

Mas tá lindo demais.

 

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    • Por Carlosfuca
      Marmelópolis é um município que está situado na Serra da Mantiqueira, sul das Minas Gerais. Fica bem próximo da região de Itajubá. Lá eu acampei no Camping e Pousada do Maeda, que, assim com toda a paisagem do local, é uma pessoa incrível, com vasta história no Montanhismo.
      Aqui vou relatar um pouco de como foi esses quatro dias de viagem, sempre me locomovendo de ônibus ou a pé, passando por lugares magníficos, vivenciando aventuras na mata atlântica, cachoeiras, picos e trilhas!
      Essa região por bem dizer era um sonho a ser realizado, na verdade a intenção foi sempre o Pico dos Marins (2420m), mas por uma questão de logística e de reconhecimento do local, preferi fazer o Pico do Marinzinho (2432m) e lá de cima poder avistar o Pico dos Marins bem ao lado. Sim, já o fitando pra uma futura caminhada...

      (Foto: Do Marinzinho avistando Pico dos Marins)
      "O que vocês diriam dessa coisa
      Que não dá mais pé?
      O que vocês fariam pra sair desta maré?
      O que era sonho vira terra
      Quem vai ser o primeiro a me responder?
      Sair desta cidade ter a vida onde ela é
      Subir novas montanhas diamantes procurar
      No fim da estrada e da poeira
      Um rio com seus frutos me alimentar"
      Dia 1: Ônibus, esperas, ônibus, "Seu Maeda, vê se me escuta"...
      Antes de mais nada, vale frisar que a citação da letra 'Saídas e Bandeiras' foi entendido por mim não como uma reverência aos bandeirantes, mas ao contrario, pois ao invés de entrada é saída. Não tenho a intenção de fazer o mesmo que a história "oficial" diz, que fica a cultuar e honrar esses bandidos assassinos.
      Era um domingo de abril e embarquei as 07h00 sentido Itajubá, num ônibus da empresa Santa Cruz, que nesse horário tinha apenas o executivo. O custo foi de R$60,00. Esse busão deu um rolê considerável, fez umas três paradas, só vi a primeira que foi em Bragança Paulista. Nas outras paradas eu estava capotado no sono.
      Deu meio dia, e cheguei na rodoviária de Itajubá, de lá era a vez de embarcar num ônibus pra Marmelópolis. No site dizia que de domingo só teria as 17h30 pela empresa São José, sendo que nos outros dias tinha o das 15h30. Mas foi isso mesmo, tive que esperar até as 17h30, mas sem erro, faz parte. Era sinal que eu teria mais tempo pra almoçar, ler um livro e por que não tomar umas brejas? Assim o tempo passou rápido. Sei que as 19h00 eu estava no centro de Marmelópolis, foi hora de estender o mapa e seguir rumo ao Maeda, no breu, uma escuridão na estrada. Lá fui eu.
      Da igreja matriz, segui à direita passando pela pousada das flores. Com a lanterna do celular acessa, segui o caminho que começou com uma subida. O trajeto do centro de Marmelópolis até a pousada do Maeda tem em torno de 7km, estava um friozinho, mas logo tive que abandonar a blusa na mochila e secar o suor que escorria no rosto. O caminho que fiz vou deixar evidenciado na foto (27), quem tiver de carro tem placas indicativas desde o centro colocadas pelo seu Maeda. Na real, tudo que está sinalizado de pontos turísticos no Município foi ele quem fez, mostrando quem realmente promove o turismo na cidade.
      Deu vinte minutos de caminhada e um susto! Em meio ao escuro fiz o gesto de olhar pra cima. Fiquei 'espantado' com a quantidade de estrelas que avistei no céu. Tinha muita estrela, não chegava a iluminar a estrada de terra, mas com certeza não daria pra contar de jeito nenhum. Estrela demais, uma baita noite linda.
      As 20h20, cheguei na pousada do Maeda e me deparei com as luzes apagadas. Tinha apenas uma luz ao fundo acessa e por isso me fez chamar e gritar por uns 40 minutos e nada. "Boa noite!!!", "É o Carlos que vai acampar", "Olha o portão, boa noite", "Seu Maeda vê se me escuta"... Gritava e nada.
      Nesse momento eu percebi a bateria do celular acabando, desliguei por um momento e o escuro tomou conta, não dava pra ver nada. Eu já logo pensei, "Pronto, tô começando bem". Mas quando se está numa viagem, imprevistos podem acontecer e é necessário improvisar as vezes. Passei na pousada do Dijalma, que fica ao lado, mas parece que não tinha ninguém. O improviso foi a de montar a barraca por ali mesmo e dormir. Não dava pra acampar na frente do portão do Maeda, pois tinha muita formiga, que inclusive subiram nas minhas pernas e só fui perceber depois das dores. Então, para aproveitar o restante da bateria do celular, tirei as coisas da mochila e montei a barraca mais a frente... Foi aí que uma luz acendeu. Sim, era o seu Hideki Maeda no portão, "Esta hora, Carlos?"
      Dei risada e expliquei o horário do busão, que até então no nosso contato por telefone pensávamos que sairia as 15h30 e então eu chegaria mais cedo. Como foi anoitecendo, ele pensou que era algum tipo de trote. Uma pessoa ir sozinha, na caminhada, e num domingo, realmente não é muito comum. O importante é que deu tudo certo nesse dia, ainda jantei e pude ser muito bem recepcionado pelos Maeda.
      Quem diria que um vizinho pudesse ligar pro Maeda avisando que tinha gente gritando. Ufa, salvou!
      Dia 2: Pico do Marinzinho, bate-volta e autoguiado
      Acordei bem cedo, um friozinho ainda pairava dentro da barraca, que estava bastante úmida na parte interna. O café da manhã estava marcado pras 07:00 horas e foi enquanto eu me alimentava que o seu Maeda deu as últimas informações, contou algumas de suas histórias no montanhismo, e disse que seria uma subida tranquila. Me entregou um mapa e uma capa de chuva, item que eu havia esquecido de levar. Mostrei meu roteiro e os mapas que eu tinha em mãos e também alguns relatos sobre o Marinzinho e sua pousada. Ele leu tudo se mostrando bastante curioso ao que se tem disponível sobre sua pousada na internet.
        
      (Foto: Barraca e jardim do Maeda)                                (Foto: Araucárias e os picos)
      As 07h45, eu já estava com o pé na estrada, pronto pra um bate-volta 'Pico do Marinzinho x Camping Maeda'. A intenção era subir direto e na volta passar pela Pedra Montada.
      Em 35 minutos, cheguei na cerca que delimitava a reserva particular (RPPN Terra da Pedra Montada), e a partir desse ponto não se passa carro nem moto. A trilha continuou ainda bem larga, mostrando que ali fora uma estrada, estrada essa criada a mando de um prefeito jipeiro pra chegar até a Pedra Montada. Hoje em dia está em desuso e tem trechos bem erodidos, mas parece que tem um projeto de asfaltar essa parte no sentido de facilitar o turismo local.
      Por ora, quem alimenta a estrutura turística daquela região é o seu Maeda. E uma dica que dou: quem não tem muita experiência consegue fazer essa trilha. É só estar com a segurança básica, ter vontade e um certo condicionamento pra chegar no topo. De resto tá tudo muito bem sinalizado, sendo uma subida autoguiada. Tem trecho com cerca de arame farpado pra ninguém se perder, e as placas características e com o 'selo Maeda', estão por todo lado onde se é necessário informar a direção.
      Peguei um tempo excelente, e isso fez com que a minha caminhada passasse voando. Não tem nada de andança monótona, foi tudo sempre com um visual esplendido à minha direita e na esquerda, depois de um tempo, eu conseguia avistar o meu destino do dia.
      Depois que passei pelo trecho da Pedra Montada a trilha foi se fechando na mata, tudo estava bem demarcado, mas vira e mexe eu tinha que me agachar pra passar. Após menos de 2 horas cheguei no mirante São Pedro, quem tem 2135 metros de altitude. Ali fiz uma parada pra comer algo, beber água e recompor as energias. Dali pro Marinzinho faltava 1 hora, sendo que o estilo da trilha mudaria um pouco, seria mais rocha e tendo que fazer escalaminhada.
      A partir de então começou a ficar mais puxado, sorte que minha mochila tava leve, o que pesava mais eram os 4 litros de água que eu tava carregando. Com um clima agradável a caminhada ficava sussa, apenas tive que prestar bastante atenção em cada passo, assim diminuí o risco de qualquer tipo de acidente.
      No geral, o silêncio da mata imperava, quando os pássaros voavam, dava pra escutar o barulho das asas de muitos deles que passavam bem perto. Era uma segunda-feira e não encontrei um ser humano sequer na trilha, e nem quando eu estava já no topo do Marinzinho e admirando o Pico dos Marins, não vi ninguém subindo.
      Faltando pouco pra chegar no topo, o tempo fechou e todo o visual que eu tinha, nesse momento só via nuvens. Isso não atrapalhou minha navegação, pois as marcações eram constantes e também tinha cordas amarradas pra ajudar na escalaminhada em trechos mais difíceis.
      E foi por volta das 11h35 que estacionei no topo do Marinzinho. Todo o esforço compensado, o tempo abria aos poucos e formava uma paisagem impressionante. O cenário mudava tão rapidamente que ficava até difícil captar tudo. Depois de uns vinte minutos, a situação se estabilizou e por sorte minha com uma visão aberta pra diversas cidades, o Pico do Itaguaré, o Pico dos Marins e outras montanhas mais ao fundo. Show!
      Coloquei a blusa, pois ventava muito. Comi meu lanche e descansei um pouco. Lógico que tirei várias fotos, mas para além disso fiquei contemplando bastante a natureza para que eu pudesse carregar memórias assim como nas fotos...
      Pra descer foi tranquilo, tive um escorregão que me deixou mais atento e não baixar a guarda na segurança. Exigiu mais dos joelhos, mas foi de boa.
      Passei na Pedra Montada e foi onde vi o ponto de Água, que me pareceu ser o único da trilha. Lembrando que esse trecho da água também estava sinalizado.
      Percebi que o ideal é subir pra ver o pôr e o nascer do sol, mas seria necessário acampar lá em cima. Então, que fique pra uma próxima rs.
      Já na pousada do Maeda, caiu a ficha do rolê que eu fiz, fiquei bastante contente, tinha dado tudo certo até então, e parti direto pro banho. Deitei um pouco na barraca e as 19h00 era hora da janta.
      Pensa numa janta farta, comida bem diversa, uma mistura de mineira com chinesa e japonesa. Foi cobrado o valor de R$30,00, já com refrigerante incluso, salada e frutas. O valor do camping com café R$40,00; sem o café é R$30,00 a diária.
      Para informações sobre o Camping segue Contatos:
      https://pt-br.facebook.com/marmelopolispousadamaeda/
      http://pousadaecampingmaedasuldeminas.blogspot.com.br/
      Os dias 3 e 4 da viagem deixarei pra próxima postagem. Aguardem...
      Até mais!
      Fotos:
        
      (Foto: Portal RPPN - Pedra Montada )        (foto: após passar pedra montada, o pico)
          
      (Foto: outro angulo do pico )                                  (Foto: Mirante São Pedro (2135m))
         
      (Foto: pronto pra subir)                              (Foto: na escalaminhada e olhei pra trás)
          
      (Foto: agora vai, o ataque)                                  (Foto: cheguei no topo, sem visual)
            
      (Foto: vento e o tempo se abrindo )                       (Foto: muito vento)
           
      (Foto: nuvens que se foram e tbem ficaram)                     (Foto: bem loko )
           
      (Foto: o zoom na cidade )      (Foto: o tempo abriu pra ver o Itaguaré)
           
      (Foto: depois da mudança de tempo)                     (Foto: as nuvens se dispersando)
           
      (Foto: tempo abriu pra ver o Marins)             (Foto: Marins, nuvens e sombra)
         
      (Foto: Selfie e Itaguaré desfocado no fundo)      (Foto: Marcações e a corda pra ajudar)
           
      (Foto:Descendo na volta e o Visual Itaguaré )   (Foto: Flora local)

      (Foto: Na volta passei na Pedra Montada)

      (Foto: Do Centro pra Pousada)
    • Por Guia Claudia Lucia
      Beleza pessoal? Passando só para deixar contatos. Somos um grupo de trilhas no RJ, sempre haverá companhia para trilhar. Quando passar pelo RJ da uma olhadinha na nossa agenda, trilhas de segunda a segunda por R$25.
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    • Por dji_pedro
      PATI SELVAGEM: uma travessia de tirar o chapéu e deixar marcas
      Como toda banda de Rock a vida nos bastidores nem sempre é um mar de rosas.  É que a convivência em grupo por vezes desponta em desentendimentos que destoam do objetivo principal. É nesse contexto que o Projeto Rota das Travessias iniciado em 2016 com cinco integrantes perde alguns de seus talentos que, por hora, seguem “carreira solo” (rsrsr). Mas como o “show tem que continuar” aqui teremos uma aventura com participação de três integrantes da antiga “banda”: Eu (Djair), João e Wilson. 
      Assim como na experiência anterior em 2017, escalamos o experiente Marquinhos Soledade (@expedicao_chapada) para ser nosso guia. Dessa vez, iremos realizar a Travessia do Vale do Pati, lá no coração da Chapada Diamantina, na Bahia. Entretanto fugindo um pouco do convencional optamos por deixar esse trekking mais radical fazendo um trajeto mais selvagem.  A ideia é começá-lo em Andaraí subindo o curso do Rio Paraguaçu e seu Cânion.  É uma opção que cobra maiores cuidados tanto pelo terreno como pelo isolamento. É percurso pouco testado. Muitos evitam. É um trecho do Pati esquecido, uma rota praticada por garimpeiro. A trilha exige subir muitas pedras e paredões, bem como experimentar cruzar dezenas de vezes o lado do rio de modo a encontrar melhor caminho. Sem falar da possibilidade de ocorrência de fenômenos naturais como as temíveis cabeças d’água dentro do cânion. Os primeiros dois dias se passa numa região onde possivelmente não cruzaremos com outros caminhantes. 
      Partimos de Recife numa sexta-feira (28 de junho) num voo da Azul Linhas Aéreas com destino a Salvador. Às 23h30 já estávamos na rodoviária para pegar o confortável ônibus da empresa Rápido Federal com destino à belíssima Lençóis.  Rodamos a madrugada inteira.  Às 6h da manhã desembarcamos e seguimos para a Pousada Bons Lençóis, ali mesmo na parte central da cidade.  À tarde tomamos umas cervejas para celebrar aquele reencontro e também meu aniversario: 29 de junho, dia do santo São Pedro, estou ficando mais velho, presenteie-me com essa travessia: vamos brindar!!! 
      À noite entre outras coisas e fizemos a feira coletiva que irá nos alimentar durante os cinco dias do trekking. Compramos, pesamos e separamos os pacotes dos alimentos em quatro partes. Agora cada um pode enfim fechar suas cargueiras para a pesagem final: 23 Kg (Djair), 20 kg (Wilson) e 17 kg (João). Guardamos a fração de alimento que cabia a Marquinhos para entregá-lo em Andaraí (distante 100 quilômetros da cidade de Lençóis) na manhã seguinte onde começaremos nossa travessia.
      30 de Junho – 1º DIA (domingo)
      O domingo chega. Fretamos um taxi para nos levar à Andaraí.  Encontramos nosso guia no pátio da igreja católica naquela cidade e de lá seguimos no veículo até a estrada onde tem início nossa jornada. Donana é como os moradores conhecem aquela área, uma referência a uma antiga moradora da localidade: Dona Ana. Vamos seguir a velha trilha usada por garimpeiros. 
       

       
      Uma vegetação arbustiva é o que encontramos nos primeiros metros. Seguindo um pouco e ela vai mudando. Agora temos uma área mais preservada. Árvores maiores vão ocupando os espaços. Uma ponte de madeira marca o inicio dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Daqui pra frente à aventura começa pra valer. A trilha segue paralela ao Rio Paraguaçu. O terreno é de subida, sentimos o peso nas costas.
      Enfileirados seguimos pela trilha dentro da mata. O lado esquerdo fica o leito pedregoso do rio Paraguaçu de onde se ouve o som forte de suas águas. A certeza de que estamos optando por um trecho selvagem nos obriga a muitos cuidados. Aliás, pela primeira vez iremos realizar uma expedição utilizando equipamentos de GPS: Eu com um relógio Garmin Fênix 3 HR, enquanto Wilson carregava o indispensável SPOT G3. Esse é o instrumento mais importante, pois é capaz de acionar socorro e enviar nossa localização precisa em caso de acidentes.
      Era apenas o início de nossa travessia. Mal tínhamos completados 2 km e tivemos um susto: Wilson acabou batendo a cabeça contra uma ponta de um galho ao passar por baixo dele e o resultado foi um corte na parte superior do couro cabeludo que causou um sangramento. O kit de primeiros socorros levado por Marquinhos foi logo usado e minutos depois pudemos continuar. Ufa!
      Descemos. Seguimos agora pela margem pedregosa do Rio Paraguaçu. Esse é o tipo de terreno que iríamos enfrentar nas próximas 48 horas. A visão das pedras que formam todo o conjunto é muito bonita. Nossa caminhada exige muito equilíbrio porque temos que pular pedras imensas e andar sobre elas e descer outras tantas. Executar um pulo entre pedras com 20 kg nas costas é algo que exige bastante. É preciso jeito e sorte! 

       

      No quarto quilômetro fizemos uma pequena pausa para um descanso. Nosso guia buscou se refrescar nas águas geladas do rio eu a fazer as primeiras filmagens pra não perder nada da aventura que estava apenas começando. 30 minutinhos nessa parada e já tomamos uma subida forte à direita pelo paredão do Cânion do Paraguaçu: uma trilha dura pela encosta recoberta de arbustos. Agora já estávamos a quase 400 metros de altura em relação ao ponto inicial do trekking.
      Já era quase 2h horas da tarde. Estávamos outra vez dentro do leito do Rio Paraguaçu. Havíamos cruzado apenas de 6,5 km e fizemos a parada para o almoço. Visual deslumbrante. Comentava com o João de como tudo aquilo era admirável e do privilegio de se estar ali. A imagem das paredes do Cânion recoberta de vegetação verde em contraste com a água avermelhada, com as pedras no leito, as nuvens e o céu azulado trazia mais beleza ao cenário. 
      Marquinhos assumiu a cozinha e sobre um enorme pedra fez uma mistura que seria nosso almoço: grão de bico e atum sólido. Foi bem breve nossa parada.  Seguimos a caminhada e agora já estávamos diante de uma bifurcação de cânions. Majestoso recorte de rochas que marca o encontro de dois rios: do lado esquerdo as águas do Rio Paraguaçu e do direito as do Rio Pati.  É um marco geológico de dois grandes cânions. Pela primeira vez avistamos a boca do Cânion Pati.
       

      Às três da tarde havíamos percorridos 7,7 quilômetros quando chegamos à prainha formada do lado das águas do rio Pati onde levantamos o acampamento. Aproveitamos a área de terra, sem vegetação, para fazer uma fogueira distante uns 3 metros das portas das barracas. Depois disso foi momento de aproveitando os raios do sol cair e naquelas águas de dupla identidade. O tempo passou rápido e a noite se aproximava.

      Marquinhos como de costume assumiu a cozinha preparando macarrão, linguiça defumada, tomates, cebola: o cheiro e o sabor estavam perfeitos! Depois da janta seguimos com nossas lanternas para o meio do rio. Aproveitamos uma das imensas pedras para sentar e experimentar a imagem contemplativa do céu estrelado e o som das águas naquele lugar inóspito. 

       
      Às nove da noite estávamos em nossas barracas. Marquinhos “homem bruto” resolveu lançar seu saco de dormir próximo à fogueira para passar a noite. Cabra de coragem (rsrsrs). A temperatura estava agradável. O termômetro marcava 21 graus. Foi fácil pegar no sono dessa vez.

      01 de Julho – 2º DIA (segunda-feira)
      Acordei por volta das seis e meia da manhã imaginando como seria nossa caminhada. Vamos preparar o café e começar mais um capítulo de nossa história. O dia era bonito, eu estava tranquilo e até mesmo meio lerdo (rsrsrs), por isso me atrasei um pouco retardando a partida. Somente às 9h30 iniciamos a trilha. Há uma estimativa de que o percurso possua 9 km e que os mesmos serão bem pesados.
      O Cânion do Paraguaçu ficou ali. Nosso movimento agora é à direita, dentro do Cânion do Rio Pati. Por ele iriamos saber a razão pelo qual muitos aventureiros evitam aquela rota. O nível de dificuldade do trekking aumentou bastante já nos primeiros metros. O pula-pedra passou a ser uma constante e tirar a bota para não encharcá-la logo se mostrou ilusão e perda de tempo.  Avançar sobre rochas escorregadias é uma maluquice, mas não ha outra maneira de seguir.  
       

      Os joelhos sofrem demais com o peso nas costas somados ao impacto dos saltos entre as pedras que tem que ser precisos. É força, equilíbrio e principalmente sorte: levamos 1h42 minutos para percorrer 2 km tamanha dificuldade que o terreno apresentava. Ora estávamos de um lado do leito, ora do outro. E quando nos aproximávamos do terceiro quilômetro executando umas dessas passagens entre pedras escorregadias o companheiro João tomou uma queda. Ele escorregou batendo com a canela em numa pedra dentro do rio.  Um hematoma imenso se formou no centro de sua canela. E isso nos deixou assustados uma vez que ele poderia ter fraturado a perna. Tirá-lo dali aquela altura seria impossível salvo por helicóptero.  Levamos alguns minutos cuidando do amigo e graças a Deus tudo ficou bem: uma atadura foi colocada em volta da lesão, e seguimos ainda mais cautelosos com a certeza de que não podemos errar! 
       

      O terreno continuou duro. Percorremos mais 2,5 km e de trilha. Dessa vez fizemos uma subida violenta a direita, uma trilha dentro da mata que margeia a parede do cânion Pati. Às 12h30 curta parada, dessa vez para recobrar o fôlego. O trajeto em ziguezague pelo rio, atravessando, pulando pedras é um exercício para o corpo e mente. A beleza do cânion em sua forma esbranquiçada emoldura o cenário. Outros 20 minutos de descanso. Passamos à margem esquerda desafiando pedras e vegetação da encosta. Agora temos um “tronco” fixado junto o paredão que serve como ponte evitando o caminho por uma parte escorregadia sob nossos pés. É preciso segurar na parede. 

      Saindo da parede do cânion entramos na mata outra vez.  Aqui é necessário muito empenho, forca, determinação. Tivemos que transpor um emaranhado de pedras e arvores: uma combinação que exige do corpo. O esforço ofusca a beleza daquele trecho. A única coisa que queremos é sair daquilo para um lugar amplo e sem obstáculo.  
       
      Às 13h30 paramos dentro do Cânion para almoçar: grão de bico, atum cebola e tomate foi nosso almoço. Até ali tínhamos percorridos 7 km em 5 horas de muito esforço. Não temos a certeza da distancia exata do ponto de acampamento. Os 9 km que mencionei é uma mera especulação! Retomamos a trilha e ela continuou da mesma forma: dura e técnica. Quando completamos os 10 km já estávamos bem cansados e frustrados: percebemos que nossa ideia de quilometragem tinha ido por agua a baixo.  1 km depois se fez outra parada, estava bem claro que nosso moral estava baixo: expectativa e realidade se conflitavam. 
      Somente após percorrer mais 3 km chegamos ao nosso destino: a Toca do Guariba. Já passava das 17h30 minutos. Foi preciso correr para montar as barracas sob a luz da tarde, afinal dentro do Cânion escurece mais rápido. Foram exatos 14 km percorridos naquele dia.  A Toca do Guariba é nossa morada! Aliás, esse nome é dado pelo fato de que há um corte no Cânion que forma uma cavidade onde em geral os aventureiros buscam abrigo. É uma área protegida. O nome Toca do Guariba deriva pelo fato de que é comum avistar o macaco Bugio naquela área, eles também são conhecidos pelos nomes de Macaco Barbado ou Macaco Guariba. Não avistamos nenhum, tampouco os seus sons. Aliás, nesses quase dois dias ainda não cruzamos com ninguém na trilha. De fato estamos em local isolado.

       
      A noite chegou muito depressa. Não deu pra estar no rio e tomar banho. Dessa vez a higiene foi com lenços umedecidos. Estávamos exaustos, quebrados! Jantamos às 19h: frango, macarrão, linguiça defumada e bolo de rolo! Depois disso alguns instantes de conversa e música e às 21h já estava recolhido. O dia foi pesado! 
      02 de Julho – 3º DIA (terça-feira)
      Não consegui uma boa noite de sono. Só com o amanhecer do dia foi possível apreciar a beleza do lugar. O Rio Guariba é afluente do Rio Pati. Estamos exatamente no encontro dos Cânions. Tomamos nosso café e levantamos acabamento. Às 8h30 Deixamos as cargueiras em um ponto e fomos fazer uma breve visita dentro ao Cânion do Guariba. É um cânion estreito e belo. Passamos não mais que 1 hora. E infelizmente não tivemos a sorte de ver nem ouvir nenhum Bugio na local. 
       
      Voltamos, pegamos as mochilas e fizemos uma subida pela mata. Uma acentuada inclinação nos lançava mata acima. As pernas sofridas pelos 14 km do dia anterior reclamavam a todo instante.  A ideia é chegar à casa de seu Eduardo onde vamos dormir. Agora nosso caminho é por uma linda mata. Ela reveste a encosta do cânion dando beleza única a nossa caminhada. Estamos no alto do cânion encoberto onde é possível ouvir o som das águas do Pati. 

      Seguimos firmes e confiantes por 1 hora onde fizemos breve parada para um rápido lanche. A nossa direita estava a majestosamente Serra do Império. Continuamos. Ainda estamos na mata. No quilômetro 3,5 nos desviamos erroneamente numa bifurcação à esquerda que nos levou a um curral, ops! Logo achamos a trilha certa e seguimos.
      Após 5 km de trilha, às 11h da manhã estávamos diante da primeira residência nesses três dias de trekking: a casa de seu Joia e dona Leu.  E pra celebrar aquele encontro nada mais épico do que uma cerveja gelada. Sim, é possível tomar cervejas geladas no Vale do Pati. Comemos pão caseiro feito por Dona Leu e tomamos cerveja. Pagamos 12 reais por uma long neck (eu pagaria ate 50 reais rsrsrs). Passamos alguns minutos naquela casa humilde e acolhedora. Lavamos os rostos, enchemos nossos depósitos de água e seguimos.  O terreno de seu Joia tem um visual incrível. Curiosidade daquele lugar são os avistamentos de felinos como as onças que causam receios a nativos e aventureiros que cruzam a região. Graças a Deus não tivemos nenhum susto. Mas há muita gente que já viu, ouviu seus sons ou seus rastros.


      Percorremos 8.20 e às 12h40 estávamos na residência de Seu Eduardo atualmente sob os cuidados do Domingos, seu neto.  A casa fica aos pés do Morro do Sobradinho, a beira da Boca do Cânion Cachoeirão. Ela fica exatos três quilômetros daquela de seu Joia. Compramos refrigerantes e cervejas geladas. Isso e resultado das geladeiras alimentadas a gás butano e da energia solar que abastece a casa. 

      O cansaço dos dois dias nos fez desistir do planejamento inicial que era visitar o Cachoeirão por Baixo.  Resolvemos conter o dia conversando, tomando refringentes e cervejas e uns petiscos vendidos naquela casa.  A decisão se deu pela perspectiva que tínhamos daquele trekking. Queríamos devolver o prazer da caminhada, buscar prazer efetivo. Na nossa visão acumular a visita ao Cachoeirão fazendo o bate-volta iria nos desgastar e o que precisávamos mesmo era de um tempo pra ficar à toa entre amigos.  Acertamos também em comprar a janta ali oferecida e manter o acampamento com as barracas nas dependências da propriedade. 

      Tivemos a oportunidade de conhecer um bom sujeito Catalão: Joan, ele estava de passagem em visita ao amigo Domingos. Ali contou sua vida e sua relação com o Pati. Joan mora no Capão junto com sua esposa, de nacionalidade brasileira.  Ele relatou suas experiências com a natureza e de suas habilidades como especialista em agricultura sustentável e de sua colaboração em algumas comunidades na Chapada Diamantina.
      No meio da tarde fomos tomar banho no rio Cachoeirão, ele passa nos limites da casa.  Uma pequena descida te leva às margens, grande poço e corredeiras te convidam a cair na água. Ao fundo temos uma visão incrível das paredes dos morros que formam o vale.
      A noite chegou e o jantar oferecido foi sensacional: carne de sol, estrogonofe de frango, arroz, feijão, macarrão, farofa de cenouras, abóbora, e suco. Perfeito! Comemos divinamente e continuamos até umas 21h conversando em grupo. A noite estava estrelada. Eu, Wilson e João fizemos uma pequena fogueira próxima à barraca e às 21h30 já estávamos recolhidos.

      03 de Julho – 4º DIA (quarta-feira)
      Às 6h despertamos. Dessa vez procurei me apressar pra não atrasar o grupo. O café da manha foi preparado ali bem próximo às barracas: cuscuz e ovos. 8h15 já estávamos de saída. Tomamos o caminho a esquerda no sentido da casa de Seu Tonho. Atravessamos o leito do rio Pati sobre as pedras para seguir à margem esquerda do rio. Do lado direito margeando todo o leito uma belíssima mata acompanha o curso do rio. Essa caminhada ainda cedo ganhava muita beleza. A quantidade de sons dos pássaros trazia um encantamento fenomenal. O lado esquerdo nos acompanha o Morro Sobradinho, tocado pelos raios do sol. Tudo é maravilhoso!
      Agora temos forte subida.  Logo estamos a 178 metros de altitude em relação à casa de Domingo. O visual belíssimo já nos revela ao longe o Morro do Castelo. 2 horas depois e 5.6 quilômetros fizemos a parada de descanso naquela área conhecida como “prefeitura” que na verdade é um antigo entreposto dos antigos comerciantes e produtores de café do Vale do Pati. A imagem que temos é perfeita, uma pintura que cabe em qualquer quadro.


      Nossa próxima parada será na casa de seu Aguinaldo. Deixamos a prefeitura, atravessamos o Rio Lapinha e seguimos a trilha tendo a nossa direita o imponente Morro do Castelo.  Seguimos a trilha dentro da mata. No caminho Marquinhos à dianteira nos indica com cuidado a presença de uma cobra Jararaca ali bem no meio da trilha... Imóvel e bem camuflada ela parecia buscar os raios do sol que atravessava os altos dos galhos e folhas daquele lugar. Olhar para o chão sempre, essa e a dica! 

      Um pouco adiante tivemos a oportunidade de cruzar na trilha com Seu Antônio, Seu Tonho. Havíamos passado em frente a sua casinha, logo que saímos da casa de Seu Eduardo, lembra? Seu Tonho surgiu vindo atrás da gente, dentro da mata, na trilha estreita. Montava um burro e puxava outro que levava uma cela de carga (cangalha), seguia vocalizando comandos ao animal. Uma imagem bonita. Retrato de uma historia vida. É um som bonito que ecoava por entre a mata.  De perto assistimos como são transportados todos os suprimentos dos nativos dali. O burro é o motor, o transporte. 

      Enfim, depois de três horas de relógio, 8.4 km de distância e 426 metros de ganho de elevação chegamos à casa verde onde mora o casal. Estamos agora no Pati de Cima a 932metros acima do nível do mar. Ali fomos recebidos por dona Patrícia que nos ofereceu seus deliciosos pães caseiros e latinhas de Coca-Cola geladíssimas. Podemos apreciar os sabores ofertados diante de um visual belíssimo: estamos aos pés do Morro do Castelo.  

      Alguns minutos de descanso e seguimos às 13h com nossas mochilas de ataque rumo ao alto. São 400 metros de subidas em meia a mata atlântica preservada, uma trilha íngreme que exige muito mesmo dos joelhos e muita atenção para evitar quedas.  Levamos 1h20 minutos para completar os mais de 3 km de trilhas subindo até chegar ate o Morro do Castelo no alto dos seus mais de 1.400 metros. Numa subida tão vertical, não adiantar negar: vai doer.
      O Morro do Castelo é colossalmente bonito.  O fato de existir uma gruta que atravessa todo maciço de quartzito no local faz o morro ganhar ares ainda mais mágicos. É espetacular o conjunto da obra. Adentrar na gruta mexe com a imaginação. Ela possui aproximadamente 800 metros de extensão e para cruza-la se faz necessário o uso de lanternas: a escuridão é total. Não esqueçam as lanternas e muito, muito cuidado ao caminhar, pois há Pedras soltas e pontiagudas por todo percurso.


      Ao cruzar a extensão da gruta temos do outro lado um visual incrível do Vale do Calixto, ele está no lado oposto ao Vale do Pati. É magico, é incrível! Estamos a mais de 1.400 metros do nível do mar e para onde se olha é um mar de beleza que agrada aos olhos e ouvidos. É o som dos ventos soprando forte que impressiona. 

      Diante de tanta beleza muitos e muitos clicks, mas já é hora de retornar para Casa de Seu Aguinaldo que está 400 metros abaixo. É hora de descer aproveitando a luz do sol. Temos uma trilha dentro da mata e é bom não vacilar. Levamos 1h pra refazer o caminho de volta. 
      Ao chegar corri, junto com o João, para armar nossas barracas na área de frente à residência. Wilson preferiu contratar um pernoite num dos quartos da casa.  Nesse momento a temperatura começava baixar um pouco. O sol estava refletindo sem força nas bordas das paredes do Vale. Já estava imaginando a temperatura da água que iriamos tomar banho. Apelei por um aperitivo.  Eu e João provamos umas doses de cachaça para ver se a coragem aparecia. Nem sei se isso ajuda. Fomos ao banho: água gelada da mísera!
      Contratamos o jantar e não nos arrependemos. Dona Patrícia caprichou: carne de sol, macarrão, arroz, salada crua e suco de maracujá. João que não come carne foi contemplado com uma omelete preparada com exclusividade. Todos felizes e de barriga cheia. Ao termino do jantar, enfim seu Aguinaldo apareceu e conversamos bastante. Ele falou de sua vida, da rotina naquele lugar e os desafios de se viver ali. O clima era úmido e a temperatura na casa dos 18 graus. Não tardamos buscar o aconchego de nossas barracas, Wilson se recolheu ao conforto do quarto. É nossa ultima noite dentro do Vale do Pati.
      04 de Julho – 5º DIA (quinta-feira)
      Último dia. Acordei às 6h30. O termômetro marcava 14 graus. O som das águas do Rio Lapinha correndo, dos pássaros cantando e voando pertinho da barraca e a imagem do Morro do Castelo diante de nós marcavam o inicio daquele nosso derradeiro dia no Vale do Pati. Eu já sentia saudades de cada momento. Por outro lado, nosso amigo e guia estava com dores estomacais e apresentava também quadro de diarreia. Ficamos preocupados com a condição física dele. Ninguém merece ficar doente na trilha. Retardamos um pouco a saída. Marquinhos sinalizava que já estava tudo ok, então tínhamos que partir.

      Às 9h010 saímos da casa de seu Aguinaldo. Subimos a trilha e seguimos pulando pedras no curso do Rio Lapinha e após caminhar 1.7 km a gente chegava à Cachoeira das Bananeiras.  Seguindo o curso daquele rio e 1h 15 depois de nossa partida (2,5 km) estávamos na Cachoeira do Funil que se apresenta belíssima. Cruzamos o leito para pegar a trilha que fica na parte de cima da encosta, próxima a queda d´água. Minutos depois chegamos a Cachoeira da Altina. Ali havia um pequeno grupo de turistas. É uma cachoeira um pouco menor que a do Funil. Deixamos a Cachoeira da Altinha (nome que faz referencia a uma antiga moradora que ali lavava as roupas da família) e tomamos o caminho novamente à esquerda, atravessando o rio e subimos uma trilha íngreme pela mata.

      Chegamos à igrejinha. Percorremos 4 km contados a partir da casa de Seu Aguinaldo.  Ali é a Casa de Seu João. Ela está próxima da Ladeira da Rampa que dá acesso ao Mirante do Pati e os Gerais do Rio Preto.  Ali é uma casa que também oferece serviços de recepção aos aventureiros com comida e hospedagem.  Lavamos os rostos e tomamos nossas ultimas latinhas de refrigerante dentro do Vale. O sol do meio dia castigava forte. São os testes finais de resistência depois de cinco dias de trekking. Doente, Marquinhos sentia bastante cada passo. Tive pena do nosso Leão da Montanha.

      Ao meio dia e meio estávamos no Mirante da Rampa. 6 km separam a casa de seu Aguinaldo do Mirante do Pati. E o visual a 1.337 metros é de tirar o fôlego. Ali enxergamos toda extensão do Vale do Pat: é o lugar perfeito para fazer aquelas fotos clássicas. Mas não podemos demorar. Temos horário marcado para nosso resgate lá no Beco, em Guine. O motorista Ari nos aguarda!
      As 13h10 seguimos nossa jornada pelo magnifica planície que forma as Gerais do Rio Preto. O terreno é um platô de campo rupestre, não há arvores naquele trecho, o lugar é belíssimo. A partir do Mirante, depois de 1,3 km cruzamos o riozinho que dá nome aquele local, o Rio Preto. Seguindo por mais 3.27 km estávamos enfim diante da descida de Aleixo. Eu diria que A Rampa e a Descida do Aleixo são tecnicamente iguais. A diferença e a ordem das coisas. Assim iniciamos nossa descida sob o calor das às 14h em direção ao ponto de encontro. Percorridos mais 2.1 km de trilhas chegamos ao final de um dos trekking mais bonitos desse pais.  Foi sensacional! Agora vamos voltar pra Lençóis!
       

       























































      Pati_Selvagem_-_Uma_Aventura__-_31_-08.docx


    • Por casal100
      Em julho de 2.019, realizamos bate/volta nos 3 Picos mais importantes da Serra Fina (Mina, Capim Amarelo, 3 estados)
      A NOVELA: PEDRA DA MINA
      Para muitos o bate/volta na Pedra da Mina é um dos trekkings mais difíceis de se fazer em um dia, devido a quantidade de subidas e descidas fortes,  tem dois lugares complicado, até pelos nomes já dá para preocupar: o "Deus me livre" e o "Misericórdia". Sem contar os relatos de pessoas que se perderam e tiveram que ser resgatados pelo corpo de bombeiros.Diante disso, esse trekking me consumiu muito tempo e estudo (coisa que geralmente não faço). Apesar de se preparar adequadamente,  ainda assim, se perdemos justamente no início da trilha. Faz parte da aventura.
      Farei um relato diferente,  é muito difícil pessoal que se perdeu em determinado lugar, explicar o que aconteceu depois. Vou procurar descrever o máximo possível para outras pessoas não errem o início da trilha para o Pico da Mina. Apesar de ser bate/volta no mesmo dia,  tivemos que levar muita roupa de frio (na semana no pn itatiaia pegamos -4°), muita água  (3 litros cada) e comida para 2 dias (se perdemos na trilha teríamos mantimentos até o resgate), nossas mochilas ficaram com +-10 kgs.
       
      CAPÍTULO 1:  PEDRA DA MINA - Conhecendo o caminho até a fazenda Serra Fina,  início da trilha.

      16° dia - 13.07.2019 - Sábado

      1° dia - Saída de Santana do Capivari-Mg de carro, ida até a cidade de Passa Quatro comprar lanternas (1 se cabeça a $9,90 e 1 de mão  $12), luva de moto $10, pilhas, comida para  subida da Pedra da Mina. Fomos até o Paiolinho/fazenda Serra Fina  conhecer o caminho e ver se tinha onde ficar, descobrimos a casa do Zé, dono dum restaurante antes do paiolinho..

      Para não se perder durante a madrugada de carro, na subida entre Passa Quatro e a fazenda Serra Fina(na nossa previsão iríamos dormir em PASSA QUATRO, acordaríamos as 02:30 da manhã e subiríamos até o início da trilha de carro).
      Tiramos o sábado para ir de carro até lá para gravar bem esse roteiro,  quando se faz bate/volta longo e difícil, como a PEDRA DA MINA,  tem que começar bem cedo, pois pode acontecer de se perder(FOI O QUE ACONTECEU).

      Saímos do centro de Passa Quatro-Mg e chegamos no trevo da rodovia asfaltada, atravessamos e pegamos estrada que começa neste local, não pega a Br(tem um restaurante do lado esquerdo da estrada asfaltada que vai para a fazenda Serra Fina, essa estrada começa  do lado direito desse restaurante). Dirigimos +- 1 km, asfalto com muitos buracos, chegamos numa bifurcação  (tem uma placa informando que são 12 kms até o Paiolinho) viramos à esquerda e pegamos estrada de terra em boas condições, mas subida forte, depois de uns 6 kms pegamos um pequeno trecho com pedras médias(devagar, passa tranquilo), após uns 100 metros chegamos numa bifurcação  (do lado esquerdo tem uma casa amarela com piscina) seguimos reto - 1125msmm
      OBS.: Já fizemos esse trecho à pé várias vezes, no caminho dos anjos(2 vezes), na Estrada Real  (4 vezes) e no CRER (1 vez), até essa bifurcação não teríamos problema na madrugada.

      Logo depois da bifurcação tem um pequeno trecho com muitas pedras. Continuamos sempre subindo, alguns trechos com algumas pedras(tem algumas entradas de fazenda) e quebra mola. Após um tempo chegamos numa bifurcação(tem uma casinha branca em cima dum morrinho à esquerda),  SEGUE À ESQUERDA  (tem uma plaquinha branca no início desse trecho) - 1185msnm.
      Começa trecho de descida e logo à frente subidas fortes,  chegamos num entrocamento(tem um grupo escolar do lado esquerdo) continuamos reto, logo a seguir chegamos numa bifurcação que tem uma árvore bem alta, seguimos reto (NÃO vire à esquerda) (depois de umas casas - bairro PAIOLINHO) - 13 Kms desde Passa Quatro-MG - 1305msnm .
      A subida ficou mais forte,  tem um quebra mola (CUIDADO) tem duas entradas à esquerda,  CONTINUE RETO, chegamos numa virada e logo a seguir uma PONTE COM VÃO NO CENTRO (CUIDADO), depois de poucos metros chegamos na fazenda Serra Fina (muitos carros estacionados).
      Dona Maria, de Segunda-feira a sexta fica o dia todo.
      No sábado ela fica até meio dia, sai e fica no Paiolinho +- 3km(casa branca com um pé de maracujá,  em frente a escola) até domingo no final da noite. Estacionamento  $20. Se por acaso chegar na fazenda e não tiver ninguém,  deixe o carro no estacionamento e na volta paga para dona Maria,  sem problema ok
      Esporadicamente pode armar barraca no estacionamento da fazenda Serra Fina (não cobra,  mas não tem banho nem refeição).
      Obs.: acredito que se tiver chovido nos dias anteriores, dificilmente carro sem tração nas 4 rodas conseguem subir até lá.

      No restaurante do Zé, +-4kms antes da fazenda Serra Fina:
      Tem camping: $20 por pessoa por dia

       (refeição +-$25 por pessoa, frango caipira $60 só o frango inteiro) porções à parte).
      Arroz  $9
      Feijão  $9
      Salada $8 (alface tomate cebola)
      Linguiça  $15
      Boi $10
      Truta $30 porção
      Porções servem 4 pessoas.

      Tem hospedagem(na casa do Zé e da mãe) a uns 500 metros antes do restaurante:
      Casa pequena: $80 casal
      Casa grande: $80 casal
      Por pessoa: $40 por dia
      Só o banho: $10 cada
      Cozinha completa sem microondas tem fogão à lenha.
      Zé: 35 99934-6593 sem whattsap
      O sinal da operadora vivo não é constante na casa do Zé.
      Do restaurante a fazenda Serra Fina são aproximadamente 4 kms
      Se for chegar à noite tem que pedir para deixar refeição pronta para quem ficar hospedado na casa(eles deixam a comida pronta e você esquenta quando chegar, tem fogão à gás na casa que alugam).
      Negociamos com o Zé e pernoitamos na casa dele, e já deixamos encomendada a comida para o outro dia, pois chegaríamos tarde na volta do pico da Mina. Preço: $80 o casal sem caféda manhã. Jantar $25 por pessoa.
    • Por RogerioAlexandre
      Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
      Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
      que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
      todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
      – conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
      Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
      Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
      incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
      começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
      descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
      desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
      fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
      então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
      vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
      A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
      compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
      aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
      que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
      caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
      cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
      Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
      dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
      no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
      independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
      seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
      as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
      testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
      incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
      real beleza que veríamos.
      Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
      acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
      complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
      do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
      tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
      aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
      forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
      Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
      obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
      que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
      encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
      jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
      partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
      se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
      23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
      Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
      possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,
      ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
      forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
      dela e partiríamos assim que possível.
      Primeiro dia
      A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
      equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
      em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
      cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
      levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
      meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
      travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
      pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
      temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
      assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
      encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
      lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
      os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
      sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
      planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
      Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
      pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
      acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
      pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
      pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
      2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
      não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
      do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
      grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
      muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
      descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
      notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
      o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
      afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
      possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
      primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
      Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
      para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.
      Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
      De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
      consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
      ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
      queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
      com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
      aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
      adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
      das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
      para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
      dia que nascia.
      Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
      Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
      diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
      para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
      que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
      pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
      base da cachoeira vermelha, às 8h.
      Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
      as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
      bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
      quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
      Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
      possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha
      Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
      da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
      a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
      de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
      Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
      intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
      antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
      Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
      subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
      pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
      frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
      essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
      base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
      dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
      Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
      12h.
      Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
      Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
      e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
      fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
      2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
      o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
      das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
      sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
      voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
      base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
      acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
      Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
      a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
      a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
      verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
      perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
      companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
      de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.
      Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
      que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
      montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
      que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
      superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
      mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
      emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
      lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
      iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
      um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
      até a parede quase vertical do acampamento base.
      Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
      atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
      rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
      Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
      existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
      essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
      caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
      vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
      horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
      cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
      porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
      que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
      de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
      bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
      escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
      Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
      significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
      legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
      uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
      de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
      nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
      com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
      naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
      vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
      nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
      A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
      do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
      de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
      dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
      tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
      e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
      recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
      roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
      e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
      dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.
      Segundo dia
      Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
      ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
      dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
      barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
      barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
      Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
      às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
      havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
      vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
      eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
      queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
      normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
      toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
      barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
      parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
      e a PM compensava o desconforto.
      Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
      peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
      tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
      que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
      em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
      encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
      mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
      apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
      Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
      limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
      de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
      água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
      retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
      Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
      com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
      ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
      nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
      travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
      fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
      considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
      explorando os arredores da trilha tradicional.
      Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
      mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
      sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
      ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
      mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
      caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
      fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
      gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos
      camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
      altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
      Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
      com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
      quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
      havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
      passagem, na travessia full anterior.
      Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
      Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
      anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
      10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
      direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
      à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
      e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
      possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
      um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
      caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
      o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
      aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
      dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
      encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
      e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
      cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
      retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição
      bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
      consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
      dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
      forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
      para cima.
      Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
      parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
      pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
      de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
      a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
      Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
      maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
      o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
      CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
      Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
      Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
      apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
      acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
      do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
      seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
      nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
      eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
      correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
      encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
      a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
      do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
      retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
      Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
      agua até o final da tarde do dia seguinte.
      Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
      Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
      hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
      termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
      hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas
      águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
      vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
      mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
      das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
      para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
      da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
      com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
      pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
      Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
      caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
      em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
      o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
      barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
      partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
      Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
      dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
      no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
      tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
      confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
      acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
      segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
      dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
      passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
      ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
      mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
      utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
      a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
      de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
      isolante “casca de ovo”.
      Terceiro dia
      Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
      amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
      3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
      pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
      consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
      para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
      de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
      se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
      previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
      a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
      íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
      para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
      caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
      ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
      minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
      2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
      apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
      lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
      visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
      uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
      Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
      estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
      o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
      para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
      pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
      mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
      tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
      cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
      instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
      destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
      vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
      “safar a onça”.
      Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
      Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
      com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
      avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
      instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
      atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
      como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
      estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
      deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
      colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
      buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
      ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
      Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
      busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
      água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
      estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
      buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
      estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a
      posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
      afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
      descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
      do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
      queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
      duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
      Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
      a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
      avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
      não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
      Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
      dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
      “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
      mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
      e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
      machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
      sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
      novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
      e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
      estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
      para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
      ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
      Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
      enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
      Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
      Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
      apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
      havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
      o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
      dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
      e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
      cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
      10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
      vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
      liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
      com o sol rachando tudo e a todos.
      Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
      recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
      sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
      minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
      escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
      atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
      minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
      de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
      pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
      do grupo em que estava.
      O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
      poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
      Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
      progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
      minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
      curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
      No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
      Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
      colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
      andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
      Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
      não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
      agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
      percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
      imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
      resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
      próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
      generosos goles.
      Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
      vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
      preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
      Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
      com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
      contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
      Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
      Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
      esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
      biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
      A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
      cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
      mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
      conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
      percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
      e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
      Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
      tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
      você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
      possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
      perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
      preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
      suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
      quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
      fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.
      Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
      picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
      cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
      na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
      necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
      caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
      evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
      algumas passagens.
      Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
      há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
      refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
      que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
      posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
      essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
      montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
      isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
      desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
      que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
      apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
      motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
      abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!
       


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