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marseei

Viagem Rishikesh/Varanasi/Jaipur/Kathmandu(Nepal)

Posts Recomendados

Olá pessoal!

Vou viajar para a India do dia 29.01.2019 ate o dia 22.3.2019. 

Vou passar o mes de Fevereiro inteiro estudando yoga em Rishikesh. Apartir do dia 3.03.2019  vou viajar Varanasi por alguns dias, Nova Deli (passar uns dois dias), Agra para visitar o Taj Mahal (tour de 1 dia) e talvez Jaipur. Tambem irei passar 1 semana e meia em Kathmandu. Se alguem tiver interesse no roteiro, so mandar uma mensage.

 

Beijos

  • Gostei! 1

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Olá

Também sou estudante de yoga. Este é o roteiro que procuro fazer e  nestas datas tenho disponibilidade .Caso queira companhia poderemos conversar para nos conhecermos melhor e acertar mais alguns pormenores.

Beijinhos

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Eu ainda não tenho roteiro feito não... Chego em Delhi e meu interesse é fazer o triângulo dourado, Rishikesh e, se der, Nepal. Ainda to pesquisando muito e to beeeem perdida. Mas as passagens são do dia 28/01 ao dia 16/02. Vamos tentar se conectar por lá :)

 

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Eu vou chegar em Delhi no dia 30/01 e ja vou direito para Rishikesh, vou fazer um curso de yoga por um mês la. Depois vou para Bodh Gaya depois Varanasi, volto para Delhi para pegar o voo para Nepal, depois retorno para Delhi e vou a Agra conhecer o Taj Mahal e depois volto para casa. Fico na India ate 22/03.

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Em 16/10/2018 em 03:23, marseei disse:

Eu vou chegar em Delhi no dia 30/01 e ja vou direito para Rishikesh, vou fazer um curso de yoga por um mês la. Depois vou para Bodh Gaya depois Varanasi, volto para Delhi para pegar o voo para Nepal, depois retorno para Delhi e vou a Agra conhecer o Taj Mahal e depois volto para casa. Fico na India ate 22/03.

Olá estou indo em dezembro e ainda com muitas duvidas, como vai para Rishikesh? sabe qual melhor opções e onde compra as passagens?

 

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      Considerações Gerais:
      Depois de tanto tempo não pretendo nem consigo fazer um relato detalhado, pois nesta época eu ainda não registrava detalhadamente as informações, mas vou tentar descrever a viagem com as informações de que lembrar e que considerar mais relevantes para quem pretende fazer um roteiro semelhante ou ter uma base para pesquisar detalhes, principalmente o trajeto, tipos de acomodações, meios de transporte e informações adicionais que eu achar relevantes. Os preços que eu citar serão somente para referência e análise da relação entre eles, pois já devem ter mudado muito.
      Acho que o relato principalmente serve para ideias de roteiros a quem se interessar e também como um relato das experiências vividas.
      Sobre os locais a visitar, só vou citar os de que mais gostei ou que estiverem fora dos roteiros tradicionais. Os outros pode-se ver facilmente nos roteiros disponíveis na internet. Os meus itens preferidos geralmente relacionam-se à Natureza e à Espiritualidade.
      Informações Gerais:
      Em toda a viagem houve todo tipo de clima. Em Joanesburgo fez sol quase todo tempo, com temperaturas amenas, levemente frias de manhã e à noite e esquentando ao longo do dia. No Nepal houve bastante sol, mas também alguma chuva, principalmente em Pokhara. Houve neve no Lago Gosaikund. No Tibet fez sol quase sempre, porém as temperaturas foram um pouco frias ao amanhecer a anoitecer, às vezes esquentando ao longo do dia, mas não muito.
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      As paisagens ao longo da viagem agradaram-me muito, passando por áreas de florestas, rios, cachoeiras, montanhas e outros . Achei deslumbrantes especialmente as montanhas nevadas, em particular os Himalaias.
      Alguns trajetos de ônibus no Nepal e no Tibet passaram na beira de precipícios bem altos, o que foi um teste para os nervos 😟. Houve muitos problemas com pneus furados. Houve pontos em que os veículos atolaram e vários congestionamentos devido a deslizamentos de terra. Como havia uma guerrilha tentando tomar o poder no Nepal, houve muitas paradas para checagem pelo exército. As viagens foram muito lentas devido a tudo isso. Para entrar no Tibet foi necessário ir em uma excursão até Lhasa, por exigência do governo chinês. Em Joanesburgo recomendaram-me não usar transporte público, sob pena de sofrer violência.
      A viagem no geral foi tranquila. Não tive nenhum problema direto de segurança, mas houve uma decretação de paralisação geral pela guerrilha no Nepal que o exército respondeu decretando toque de recolher. Em Joanesburgo contaram-me a respeito de muitos episódios de violência.
      Quase ninguém aceitou cartão de crédito. Mas consegui fazer saques nas moedas locais usando o cartão de débito Visa Electron. Levei cerca de US$ 1,300.00 em espécie, mas gastei bem menos. Na África do Sul saquei R$ 511,75 e paguei R$ 24,81 de tarifas. Gastei mais R$ 28,05 com cartão de crédito. No Nepal saquei R$ 178,97 e paguei R$ 10,86 de tarifas. Troquei mais uns poucos dólares também. No Tibet saquei R$ 431,68 e paguei R$ 15,97 de tarifas. Acho que troquei alguns poucos dólares lá também. Paguei US$ 129.00 pela excursão para ir ao Tibet. Acho que ao todo gastei cerca de US$ 530.00 a US$ 630.00 na viagem sem contar a passagem aérea. A passagem aérea custou pouco menos de US$ 1,500.00 obtida através da agência Via Aérea (http://viaaerea.tur.br).
      No Nepal achei a comida com muitas especiarias, ardida como pimenta. Como não gosto, tive alguma dificuldade.
      A Viagem:
      Fui de SP (Guarulhos) a Joanesburgo na 2.a feira 08/09/2003 pela South Africa Airways (https://www.flysaa.com). A saída estava prevista para as 18:15. Cheguei em Joanesburgo pela manhã na 3.a feira 09/09. Tive alguma dificuldade de comunicação com alguns atendentes do aeroporto provavelmente devido ao sotaque e ao meu nível de inglês precário. Obtive informações no balcão correspondente do aeroporto e confirmei as informações que tinha lido de que a cidade poderia ser perigosa. No próprio aeroporto encontrei um rapaz e uma moça do hostel Africa Centre (http://www.cheaphotelsandhostels.com/hostel/h-3170/Africa-Center-Airport-Hostel) fazendo propaganda e, analisando as outras opções, resolvi aceitar a oferta deles. Disseram que o hostel ficava numa área muito segura perto do aeroporto. O rapaz comentou que seria perigoso visitar os pontos de interesse por conta própria. Contou relatos de pessoas que haviam sido mortas. Achei que poderia ser exagero para me levar à compra de pacotes.
      Chegando ao hostel, após acomodar-me, fui dar uma volta pelos arredores. Foi possível perceber que havia preocupação com segurança nas várias residências, com placas de resposta armada de empresas de segurança. Um pouco cansado, com um pouco de sono após uma noite no avião e sem ter almoçado, não fui muito longe e depois de andar um pouco, parei numa praça para descansar. Lá um homem pediu-me dinheiro, dizendo que estava com fome, pois não havia almoçado. Como ele me pareceu em bom estado, como não havia nenhum local que eu conhecesse para comprar alimentos por perto e como tenho certa reserva em dar dinheiro, pois nunca se sabe para onde vai, acabei desejando-lhe boa sorte, mas não lhe dei nada. Notei que várias vezes pessoas negras mudavam de calçada quando iriam cruzar comigo. Achei coincidência num primeiro momento. À noite no hostel conheci a dinamarquesa Liz, recém-formada ou acabando a formação na área de negócios, e a inglesa Emma e seu namorado, que pretendiam ir ao Parque Kruger. Consultei também os preços para visitar alguns pontos que desejava.
      Para as atrações de Joanesburgo veja https://guia.melhoresdestinos.com.br/pontos-turisticos-de-joanesburgo-141-1467-p.html, https://www.planetware.com/tourist-attractions-/johannesburg-saf-gp-jo.htm e https://www.lonelyplanet.com/south-africa/johannesburg/attractions/a/poi-sig/355617 . Os pontos de que mais gostei foram os itens históricos, os típicos da África, a mina de ouro e o Museu do Apartheid .
      No dia seguinte, 4.a feira 10/09, bem mais descansado, fui dar uma grande volta pelos arredores para tentar descobrir se seria possível ir por conta própria para o centro e os demais pontos de interesse. Perguntei a cerca de 20 pessoas brancas se seria seguro e unanimemente elas me disseram que não, sendo que boa parte delas disse-me que eu poderia morrer. Achei que poderia ser algum tipo de discriminação e ideia deformada por parte dos brancos. Tentei então procurar pessoas negras para ver a sua opinião. Falei também com cerca de 20 e, para minha surpresa, a opinião deles foi a mesma dos brancos, porém não me lembro de terem me falado que eu poderia morrer. Só disseram para eu não ir, pois não seria seguro. Só houve uma exceção, que foi o vendedor de bilhetes da estação de trem, que disse que eu poderia ir sem problemas. Mas eu resolvi não ir e, apesar dos valores bem mais altos, resolvi ir em excursões coletivas privadas nos dias seguintes. No meio da tarde, quando pedia informações às pessoas sobre caminhos, conversei com uma mulher branca de uns 50 ou 60 anos em sua oficina e ela me disse que não dava para ir a pé ao centro, porque havia muitas pistas só para carros e porque passaria por áreas perigosas. Acho que o marido dela ficou com ciúmes da atenção que ela me deu (pareceu com um enfoque maternal). Falei também com um vigilante negro, que num primeiro momento mostrou-se na defensiva, mas conforme que a conversa foi evoluindo informalmente, tornou-se bastante amistoso e, no fim, estendeu a mão num cumprimento típico. Paralelamente um outro vigia atravessou a rua e veio cumprimentar-me. Desejaram-me longa vida sorrindo. Fiquei bestificado 😲. Este episódio de um branco conversar com um negro sem ser por alguma questão de serviço pareceu-me ser algo raro por ali, um evento. Isso me fez achar aquele estado de coisas infeliz ☹️. Lembrei-me do Brasil, que apesar de toda a questão do preconceito, é um lugar em que sempre tinha convivido com muitos negros e mestiços de maneira amigável, em ambiente de trabalho, escola, esportes, cultura, família etc. Neste dia nadei na piscina do hostel, apesar da água um pouco fria do fim de inverno. Um dos atendentes até me perguntou sobre a temperatura da água. À noite ainda conversei com um dinamarquês amigo de Liz, que me recomendou cautela se fosse tentar ir a algum local por conta própria.
      Na 5.a feira 11/09 fui numa excursão pela manhã, junto com outros estrangeiros, conhecer o centro da cidade, incluindo museu, lojas típicas, praças, prisão em que ativistas anti-apartheid estiveram (incluindo Nelson Mandela) e outros itens. Lembro-me de um alemão, um australiano e talvez algumas alemãs. As pessoas estavam muito temerosas de sair para andar em áreas públicas, especialmente o alemão. Quando fomos ao Parque Joubert (https://en.wikipedia.org/wiki/Joubert_Park), perguntei se poderia dar uma volta, o guia autorizou e eu fui. Só havia negros. Pelos olhos achei que cerca de 20% pareceram muito surpresos e felizes com minha presença, como que a me convidar a ficar à vontade e desfrutar do ambiente. Cerca de 40% pareciam indiferentes e evitavam o contato visual. Outros 20% pareciam não gostar e alguns até pareciam esperar alguma oportunidade de algum delito (até aí nada diferente do que em alguns locais de SP). Porém, o que me assustou foi que havia cerca de 20% que pareciam fazer questão de me olhar fixamente com aparente ódio, sem nunca me terem visto antes. Seu olhar parecia exprimir raiva e, se tivessem oportunidade, acho que cometeriam violência contra mim. Nunca tinha passado por isso. Mesmo em locais onde há crime ou algum tipo de rivalidade no Brasil, nunca tinha sentido alguém olhar-me assim. Fiquei tristemente espantado ☹️. Não entramos na Galeria de Arte porque o tempo era curto e a galeria muito grande. Apenas vi as obras da sala de recepção. Fomos para lojas típicas e para áreas centrais. Andamos um pouco por lá e depois fomos para outra excursão à tarde, com destino ao Soweto. No caminho o alemão, que parecia não querer se aventurar a andar muito longe do guia e em locais públicos, contou a seguinte história, que foi narrada por jornais alemães, alguns dos quais sensacionalistas. Um casal de alemães saiu para assistir um espetáculo de música no centro da cidade à noite. Beberam e depois saíram andando pelas ruas, dispensando o táxi. O homem tinha um relógio no pulso, a mulher tinha anéis nos dedos e um colar. Ele deu uma pausa na história, olhou pela janela, tomou fôlego e continuou. Quando acharam o homem ele não tinha a mão. Quando acharam a mulher ela não tinha nenhum dos dedos e nem a cabeça. Ambos morreram e alguns jornais sensacionalistas publicaram fotos na primeira página. Aí eu entendi porque ele estava tão cauteloso.
      Juntaram-se a nós mais algumas pessoas para o passeio, incluindo um belga e talvez mais uma ou duas alemãs. Começamos o passeio pelo Soweto parando no início do bairro e entrando numa espécie de tenda ou bar de madeira onde se vendia comida típica, um tipo de churrasco, e cerveja. O australiano comprou uma e gostou. Depois fomos conhecer locais históricos, casa de Desmond Tutu, de Mandela, Steve Biko, locais de manifestações, uma ocupação (o que chamaríamos aqui de uma favela em área não autorizada) e uma favela. Na ocupação chamou-nos atenção uma placa do KFC que eles penduraram em uma das casas. Chamou a atenção do belga o fato deles conhecerem David Beckham. Na favela eu perguntei se seria perigoso entrarmos nas vielas e o guia disse que dependia de até onde eu quisesse ir. Achei melhor não ir para não expor o grupo e porque não sabia se havia algo relacionado a algum tipo de crime ali, como narcotráfico. Quando estávamos indo embora, um homem da favela com que eu havia conversado pediu-me comida. Eu não tinha nada na mão e fui ao grupo perguntar se alguém tinha algo. Mas o guia não gostou e falou para irmos embora. Disse: “Não podemos (temos capacidade para) alimentar todos”. Chegamos de volta ao hostel à noite.
      Na 6.a feira 12/09 fui com o transporte da excursão a Golden Reef (https://en.wikipedia.org/wiki/Gold_Reef_City), onde havia uma enorme e típica mina de ouro. Mas fui fazer o passeio só, pois os outros iriam para outros passeios. Havia uma espécie de parque de diversões no mesmo local e, achando que teria bastante tempo, decidi conhecer um pouco dele antes e depois da visita à mina. Foi um grande erro, pois perdi tempo precioso, que poderia ter usado na visita ao Museu do Apartheid. Achei as atrações do parque interessantes, mas parecidas com os parques de diversão que conhecia em São Paulo. Achei a visita à mina espetacular . Nunca tinha visitado uma mina de ouro subterrânea. Achei impressionantes as estruturas, o modo de trabalho, todo o local e o processo. Por não ver, liguei a lanterna na cara de um trabalhador da mina de apoio à excursão enquanto a guia dava explicações e ela logo me chamou a atenção, mostrando o trabalhador, que eu não havia visto porque estava numa área escura dentro de uma estrutura da mina. Após a visita à mina, enquanto passeava pelo parque, vi um prédio grande não muito distante e descobri tratar-se do Museu do Apartheid (https://www.apartheidmuseum.org). Apesar de já ser tarde, apenas 1 hora a 1 hora e meia antes do que havia combinado com o motorista da excursão para me pegar de volta, decidi ir visitá-lo. Gostei muito. Havia muitos ambientes, contando a história da segregação racial no país, desde as guerras entre holandeses Boer e ingleses, do convívio com os zulus, da passagem de Gandhi por lá, até os dias mais recentes (não consegui ver o fim, então não sei exatamente até onde ia). Havia um trecho em que brancos passavam por uma área e negros por outra, de modo que os brancos vissem como eram tratados os negros e como eram os ambientes em que viviam e os negros vissem como eram tratados os brancos e como eram os ambientes em que viviam. Na área dos atentados, torturas e assassinatos promovidos pelo governo, chamou-me a atenção o número de explicações claramente (parecia que até propositalmente, com intuito de intimidar) falsas a respeito de prisioneiros mortos, a maioria enquanto tomava banho (tomava banho, escorregou, bateu a cabeça e morreu, caiu no banheiro e morreu etc). Lembrou-me algumas das explicações da ditadura militar no Brasil referentes a atropelamentos por caminhões, além da dada no caso de Vladimir Herzog. Infelizmente o horário que havia combinado com o motorista da excursão estava chegando e parei na seção de atentados, nos anos 1980. Até tentei propor ao motorista que me pegasse no fim da tarde, mas ele estava levando o pessoal da excursão de volta e não tinha previsão de nova excursão à tarde. Aí disse que não seria possível, a menos que eu pagasse pela gasolina como táxi individual. Eu acabei não querendo e voltei com eles. De volta ao hostel conversei com um espanhol e outro viajante (acho que também era espanhol). Perguntaram-me como ia indo o Lula em seu primeiro ano de governo, conversamos sobre o mundo e sobre os perigos da viagem ao Nepal, que tinha uma guerrilha maoísta.
      No sábado 13/09, perto da hora do almoço, peguei uma transferência, junto com um dos dois espanhóis. Eu estava indo para o aeroporto e ele, se bem me lembro, para o shopping. Na sala de espera para o embarque, vi que havia um grupo de brasileiros indo para a Índia, que perceberam que eu era brasileiro. Eram Fábio, dono de uma empresa de aço e seu irmão ou cunhado. Fomos conversando uma parte do voo e eles, principalmente o Fábio, tinha interesse em esoterismo. Falou-me de sua experiência com vários locais de estudos de filosofia e esoterismo que eu também conhecia. Por coincidência ele era formado na mesma escola que eu, só que em engenharia metalúrgica. Ele me falou que eu era a primeira pessoa que ele conhecia que de fato fazia uma viagem ao Tibet, pois muitos falavam, sonhavam, mas não faziam. Falou-me ainda que era só assistir televisão e ver como era o mundo para se esquecer tudo de que se falava sobre esoterismo nos locais de estudo ou encontro. Achou um pouco forte o tempero da comida e eu lhe disse sorrindo que ele não tinha visto nada ainda 😀. Depois de ter voltado ao Brasil fui jantar na casa dele, conheci sua mulher e filhos e conversamos sobre minha viagem a passeio e a dele de negócios. Chegamos a Mumbai de madrugada, ele lá ficou e eu fui pegar conexão para Nova Déli pela Air India (http://www.airindia.in), morto de sono. Cheguei em Nova Déli no amanhecer. Tive que ficar numa área restrita, pois precisava de um atendente da Indian Airlines (https://en.wikipedia.org/wiki/Indian_Airlines) para me liberar para o novo embarque. Foi uma espera de algumas horas (cerca de 3) não muito agradável. Ainda tive que pagar uma taxa de US$ 5.00, se bem me lembro. Após a liberação fui para a sala de embarque para Katmandu. Conheci uma médica de Médicos Sem Fronteiras, que me deu 3 sugestões de ouro, apesar de algumas óbvias, sobre como enfrentar a altitude. Primeiramente, respirar fundo (inspirando e expirando longamente), depois dormir com a cabeça bem elevada do corpo, não em linha reta e por fim, beber muita água. Estes 3 procedimentos simples ajudaram-me muito e tive muito menos problemas do que em uma ida anterior a regiões altas. Embarquei no domingo no fim da manhã, morto de sono. Havia 3 lugares na fileira em que eu estava, comigo, um russo e um indiano. Eu ri e comentei com eles que era um retrato do mundo. Fomos conversando sobre Moscou, a questão dos atritos entre Islamismo e Ocidente, a Índia e a situação política no Nepal. O indiano disse-me que as montanhas eram seguras, mas para eu não ir ao Terai (https://pt.wikipedia.org/wiki/Terai). Ao longo da viagem perguntei a várias pessoas sobre a situação política e todos disseram-me que a situação estava sobre controle.
      Chegando em Katmandu, no domingo 14/09 no meio da tarde, tirei o visto de entrada no aeroporto. Precisava de uma foto, que a atendente da embaixada da Índia no Brasil (que representava o Nepal) havia me dito. Levei comigo e poupei o preço de tirar a foto no aeroporto. Paguei uma taxa pelo visto (algo como US$ 50.00). Peguei um táxi e fui para a área conhecida como Thamel (https://en.wikipedia.org/wiki/Thamel), onde ficavam os estrangeiros geralmente. Dadas as notícias que havia ouvido, achei a situação até bem tranquila. Um guia recomendou-me um hotel por US$ 6.00 a diária, em que acabei ficando nos primeiros dias, até descobrir que havia outros muito mais baratos. Após instalar-me, resolvi deitar um pouco para depois ir jantar, pois não consigo dormir em aviões e estava bem cansado. Fui acordar de madrugada e acabei decidindo dormir até o dia seguinte 😴.
      Para as atrações de Katmandu veja https://wikitravel.org/en/Kathmandu, https://www.lonelyplanet.com/nepal/kathmandu e https://thingstodoeverywhere.com/visit-kathmandu-attractions.html. Os pontos de que mais gostei foram as stupas, os templos, os prédios e monumentos históricos, as vistas a partir de locais altos e a população local .
      Conversei com um agente de turismo local e ele me deu informações sobre os locais a conhecer no Nepal, os preços, as formas de transporte e as condições gerais do país. Disse-me para não ir para a região de Lumbini, pois havia muitos pontos de checagem do exército nas estradas, o que tornaria a viagem cansativa, além de ser área com muitos guerrilheiros, que não costumavam atacar os turistas, mas pediam dinheiro para que pudessem prosseguir. E tudo poderia acontecer, nada era garantido.
      Na 2.a, 3.a e 4.a feira fui visitar as 3 principais stupas de Katmandu, que eram Swayambhunath (https://www.swayambhunathstupa.org/), Boudha (https://boudhanathstupa.org) e acho que a última era em Patan. Achei as estupas espetaculares , principalmente as 2 primeiras. Gostei mais de Swayambhunath, mas Boudha também pareceu-me muito boa. Além de todo o clima espiritual, a vista lá de cima também era muito boa e ampla. Passei também por templos, monumentos, parques e palácios nas áreas centrais e no caminho para as estupas. Achei que havia um certo clima de tensão devido à guerrilha e à possibilidade de atentados ou talvez eu estivesse precondicionado. A cidade em si parecia-me com trânsito um pouco caótico e com estrutura simples, mas sem extremos de pobreza, apesar de haver mendigos. Acho que uma visão ocidental materialista diria que era bem pobre. Aproveitei também estes dias para obter informações detalhadas sobre a ida ao Tibet, algo que não tinha conseguido no Brasil. Fui ao consulado chinês e obtive as informações necessárias. Se bem me lembro obtive um visto de 15 dias, que era o que o governo chinês oferecia para quem entrava por ali. Fui também a agências de turismo obter informações sobre excursões ao Tibet, posto que o governo chinês não permitia viagens de estrangeiros sem ser vinculadas a excursões.
      Na 4.a feira à tarde correu um boato de que a guerrilha decretaria uma paralisação geral. Quando cheguei ao hotel informaram-me que o rei havia decretado toque de recolher naquele dia e provavelmente nos outros também. Fui jantar e quase me perdi na volta ao hotel. O toque de recolher era as 23 horas e já eram 22 horas e as pessoas andavam rapidamente, num clima de desespero. A atendente de uma agência de turismo em que eu havia ido disse-me que se estivesse na rua após o horário as forças armadas tinham ordem de atirar. Enquanto procurava pelo caminho para o hotel, que era meio escondido, em meio às pessoas correndo, dei de cara com um carro de combate com soldados . Levei um susto, cruzei com eles, mas nada aconteceu. Tentei perguntar para os habitantes locais, mas naquele clima tudo era difícil, além da língua, que eu não sabia falar. Mas achei o caminho e voltei para o hotel aliviado. Esta situação lembrou-me a cena com o desespero da população na invasão da China no filme “O Império do Sol”.
      Na 5.a feira 18/09 perguntei aos atendentes do hotel se poderia visitar pontos de interesse e eles me disseram para não ir longe. Acabei não atendendo o que disseram. Primeiramente fui até a parte antiga da cidade, que achei espetacular . Não tinha ideia da existência daquele conjunto histórico razoavelmente preservado. Depois fui a Bhaktapur (https://en.wikipedia.org/wiki/Bhaktapur) andando. Fui conhecendo os vários pontos de interesse pelo caminho. Gostei também bastante de lá. Novamente achei grandioso o conjunto histórico e arquitetônico . Parecia mais calmo, pois era uma área turística, mas novamente pareceu-me tenso o clima. Um nepalês, que veio conversar comigo, perguntou-me como eu havia chegado lá e quando disse que tinha vindo só e andando, ele ficou admirado e disse que eu devia ser muito inteligente para conseguir chegar (talvez ele devesse ter dito muito louco).
      Na 6.a feira 19/09 fui à última grande stupa que haviam recomendado em Katmandu. Cada uma delas era em direção a um ponto cardeal em relação ao Thamel e esta, se bem me lembro, era para Norte ou Nordeste (talvez fosse Budhanilkantha - https://en.wikipedia.org/wiki/Budhanilkantha). Fui andando. Gostei. Achei-a menor e mais simples que as outras, mas ainda assim achei-a interessante. Passei por templos próximos e fui visitando os pontos de interesse no caminho.
      No sábado e domingo mudei para um hotel mais barato, cerca de US$ 2.00 a diária e fui tentar visitar os templos de Pashupatinath (http://pashupatinathtemple.org) e Guhyeshwari (https://en.wikipedia.org/wiki/Guhyeshwari_Temple). Mas não eram permitidos para não hindus. Na porta de Pashupatinath havia estátuas de deuses e uma placa enorme dizendo que só era permitido para hindus. Mas como eu estava apreciando as estátuas não vi a placa. Olhei para os guardas e eles não falaram nada. Acho que imaginaram que eu era hindu. Alguns minutos após entrar, quando observava uma estátua de Ganesha, um sacerdote brâmane veio até mim e rispidamente perguntou o que eu estava fazendo ali, pois não era permitido para não hindus. Eu fiquei surpreso e disse que não sabia. Ele me conduziu parte do caminho até a porta. Lá, vi a enorme placa e fiquei constrangido 😳. Um outro brâmane passou indo embora e eu lhe falei que era leitor do Bhagavad Gita e gostava do hinduísmo. Ele me disse que isso era bom, mas que eu não poderia entrar. Aparentemente esta norma mudou nos dias atuais. Nos outros templos fiquei mais atento antes de entrar. Em vários pude entrar, sem problemas.
      Apreciei o Dal Bhat, que era um prato típico do Nepal, com arroz, lentilha e legumes (poderia ser também com carne, mas eu sou vegetariano). Parecia nosso arroz com feijão, porém alguns vinham com muitas especiarias, o que os fazia ardidos. Descobri também uma doceria que tinha uma promoção de 50% de desconto no fim da noite, o que me pareceu tornar atraente os preços dos bolos e tortas .
      Perguntei a um judeu onde poderia encontrar um mapa gratuito da região e ele me disse sorrindo “em seus sonhos”, mas completou dizendo que os mapas não eram caros.
      Conheci um outro judeu que também procurava ir ao Tibet. Procuramos juntos por agências de turismo e conseguimos fechar com a mais barata por US$ 129.00 uma excursão de 4 dias, saindo de Katmandu e chegando a Lhasa, com transporte, hospedagem e café da manhã do primeiro dia incluídos. A excursão mais próxima sairia dia 28/09. Ele pareceu um pouco incomodado com o fato de eu pedir informações a qualquer pessoa. Provavelmente em Israel esta prática era perigosa. Ele era agricultor e conversamos sobre a situação de guerra existente em Israel.
      Conheci um outro turista (acho que era europeu) que comentou sobre sua viagem e disse que estava agendado para ir ao Tibet também e me disse que sua chegada estava prevista para 01/10. Comentei com ele que minha previsão era a mesma e imaginei que iríamos na mesma excursão.
      Dada a data da excursão, decidi ir conhecer Pokhara enquanto esperava. Peguei um ônibus na manhã da 2.a feira 22/09 e cheguei no fim da tarde. As viagens costumavam demorar muito porque as estradas eram precárias, havia deslizamentos de terra e havia checagens de segurança feita pelas forças armadas. Nesta primeira, se bem me lembro, não houve muitos incômodos. Fiquei numa espécie de casa de família que tinha alguns cômodos para hóspedes. Alguns turistas estrangeiros que estavam na cidade disseram-me que nem se notava o toque de recolher por ali e que a situação era muito mais calma do que em Katmandu.
      Para as atrações de Pokhara veja https://myownwaytotravel.com/tourist-destination-pokhara-tour-guide/, https://www.lonelyplanet.com/nepal/pokhara e https://wikitravel.org/en/Pokhara. Os pontos de que mais gostei foram as montanhas, os templos, o lago, a vegetação e as vistas a partir de locais altos .
      Fiquei lá até 6.a feira 26/09. Foi difícil ter uma vista limpa das montanhas, pois lá chovia muito e havia muita nebulosidade. Se bem me lembro as informações diziam que o tempo ficava chuvoso mais de 200 dias por ano. Mas em alguns dias houve algumas aberturas das nuvens e no último, principalmente, foi possível uma razoável vista dos picos e das montanhas.
      Num dos dias fui até um templo que ficava no topo de uma montanha e que havia visto lá de baixo. Fui intuitivamente por uma trilha na montanha no meio do mato . Fui perguntando para as pessoas que encontrava pelo caminho, muitas coletando algum tipo de produto agrícola ou fazendo extrativismo vegetal ou mineral. Perguntava por “Buda” e eles (em boa parte mulheres) apontavam-me o caminho. Cheguei a fazer uma marca no chão numa encruzilhada para não me perder na volta. Chegando lá um vendedor ambulante perguntou-me se eu havia vindo pela floresta e me disse que poderia ser perigoso, narrando o caso de um japonês que havia sido morto por estrangulamento ou enforcamento há um tempo atrás. Disse que sozinho era problemático, mas em dois ou mais não havia problemas. Gostei muito deste templo que era a World Peace Pagoda (https://en.wikipedia.org/wiki/Shanti_Stupa,_Pokhara). Gostei muito também da paisagem vista lá de cima e da vegetação ao longo da trilha. Depois de ficar um bom tempo lá, desci por um outro caminho, que passava no meio de uma comunidade local. Um habitante local acompanhou-me parte do caminho, até pegar um atalho para sua casa. Não havia a vegetação espetacular da mata, mas a vista era bela. Nem precisei usar a marca que havia feito no chão.
      Num outro dia fui até um templo que havia no meio do lago. Acho que era o Templo Tal Barahi (https://en.wikipedia.org/wiki/Tal_Barahi_Temple). Fui nadando, o que surpreendeu alguns habitantes locais, pois havia barcos pagos. Deixei minha carteira e passaporte no local em que estava hospedado e fui com calção de banho e camisa. Era próximo, talvez cerca de 100 a 200 metros. Achei bem interessante, simples, mas típico. Ocupava a ilha toda.
      Numa ocasião, perguntando a um rapaz por informações, ele alertou-me sobre ficar andando por lugares desertos, dizendo que havia uma “discussão”, referindo-se à disputa entre o governo e a guerrilha maoísta.
      Num dos dias à noite, fui visitar uma loja de tapetes. Era de muçulmanos e, pelo meu interesse em questões religiosas, para começar uma conversa amistosa, perguntei referente à questão da Guerra Santa não ter sido criada por Maomé. Acho que não foi uma boa ideia, pois eles se empolgaram com a conversa e começaram a falar sobre os muçulmanos, sobre a discriminação que estavam sofrendo após o 11 de Setembro (que estava fazendo 2 anos), chegando a me perguntar se eu achava que tinham 6 dedos por serem muçulmanos. Como eu disse que não era cristão, apesar de ter sido criado numa cultura cristã, creio que quiseram converter-me. Tanto que disseram que iriam chamar um estudioso que teria muito mais argumentos. Mas aí entraram algumas pessoas interessadas nos tapetes e desviaram sua atenção. Eu aproveitei a ocasião, agradeci pela conversa, despedi-me e fui embora.
      Numa noite conheci um japonês num restaurante enquanto jantávamos e conversamos sobre nossas viagens. Comentamos como eram baratos os produtos e serviços no Nepal. Interessante como havia reposição gratuita de alimentos (arroz, lentilhas, vegetais).
      Por várias vezes caminhei por trilhas e estradas com vegetação natural. A vista do lagos, dos cursos de água, das montanhas e da vegetação agradou-me muito. Se bem me recordo foi nesta região que atravessei uma ponte parecida com aquelas que se vê em filmes de aventura, geralmente na África, sobre um desfiladeiro ou uma garganta, feita de cordas e com piso vegetal. Imaginei como seria aquela ponte num dia com ventania.
      Na 6.a feira, quando disse ao dono da casa em que estava hospedado que iria embora no dia seguinte para o Tibet, ele disse que ali era a minha casa e que o Tibet seria caro. Eu sorri, mas prossegui com meus planos.
      No sábado 27/09 voltei para Katmandu para poder pegar a excursão no domingo. A viagem foi lenta e cheguei já de noite. Mesmo assim fui ao local da agência de turismo para confirmar o local e horário de embarque e combinamos que um dos atendentes fosse ao hotel e me acordasse caso eu não aparecesse, pois a saída era cerca de 5h da manhã. Fiquei num outro hotel, com preço semelhante ao anterior ou um pouco mais baixo, se bem me lembro.
      A viagem de ida ao Tibet de 28/09 a 01/10 teve a paisagem que achei mais espetacular em toda a viagem e talvez a mais espetacular que vi na vida , talvez por não estar acostumado a este tipo de vista.
      No domingo 28/09, eu acordei na hora, pois tinha ficado com o horário na cabeça, o guarda do hotel ajudou-me a acordar para não haver perigo de eu voltar a dormir e logo em seguida chegou o atendente da agência de turismo, para não haver nenhum perigo de perder a hora mesmo. Ele esperou por mim e fomos até o ponto onde estavam os veículos. Os agentes de turismo disseram que todos eram geralmente muito gentis, menos o exército chinês. Creio que esperamos ali por cerca de 1 hora ou mais até todos chegarem e podermos partir. Fomos em comboio, creio que também por questões de segurança. Paramos num hotel restaurante cerca de 1 hora depois da partida para tomar café da manhã. O café estava muito bom, pareciam produtos rurais da própria área. A paisagem durante a viagem pareceu-me bonita, com vistas rurais e montanhas. Katmandu tinha cerca de 1.300 metros de altitude e estávamos subindo.
      Após andar mais um pouco chegamos em Kodari, na fronteira com a China. Fomos fazer os procedimentos de entrada. Havia uma diferença horária de 02h15, com a China tendo o horário à frente. Aí entendi porque tínhamos saído tão cedo. Naquele ponto havia uma usina hidrelétrica do lado nepalês e a Ponte da Amizade, que separava os dois países, sobre uma enorme garganta de rio, o que tornava a vista grandiosa. Ficamos algum tempo esperando e depois fomos para uma fila no sol para passar pela ponte. Conheci uma guia turística húngara que sabia falar “Bom dia”, pois já havia estado no Brasil. Quando algumas mulheres mais idosas foram tirar fotos a partir da ponte, um soldado chinês saiu da cabine em que estava e veio dizer que era proibido.
      Ao passar para o outro lado, havia um micro-ônibus e vários outros veículos Land Rover antigos. Eu fui no micro-ônibus com o guia (acho que o nome era Tashi ou semelhante), um casal de amigos canadenses (acha que a moça chamava Hanna), um outro canadense chamado Greg, duas amigas francesas, uma americana chamada Shirley e uma holandesa. Pensei que os procedimentos de imigração haviam acabado, mas estava totalmente enganado. Ficamos esperando em pé ou sentados no chão numa fila para passar por alguns funcionários, que iriam verificar os papéis e provavelmente nos autorizar a entrada. Demorou bastante e o atendimento de alguns não era muito cortês. Numa situação, um deles esmurrou a mesa e gritou com uma turista (acho que europeia) perguntando porque não tinha um determinado papel. Ela respondeu que um funcionário anterior havia provavelmente pego por engano, localizaram o papel e tudo prosseguiu bem. Vi alguns soldados baterem nas costas com uma vara (e acho que era batida de fato, não era brincadeira cordial) em prováveis nepaleses que estavam atravessando a fronteira de volta carregando madeiras ou algo semelhante nas costas, provavelmente por terem descumprido alguma norma, como horário etc. Bateram neles na frente de todos, sem o mínimo constrangimento. Após o demorado procedimento e passar por todos os funcionários, fomos liberados. O guia encaminhou-nos para o hotel. Estávamos em Zhangmu, a cerca de 2.300 metros de altitude. Fomos separados em 2 ou mais quartos, sendo que um tinha vários homens e outro várias mulheres. No nosso quarto havia inúmeros insetos do lado de dentro tentando sair e estava um pouco quente. Mas quando entrei 2 alemães que já estavam lá alertaram-me que não poderíamos abrir a janela, apontando para a quantidade muito maior de insetos do lado de fora, tentando entrar 🦟. Jantei e dormi, morto de sono 😴.
      Na 2.a feira 29/09 tomamos café e partimos para Xigatse. Achei a subida deste dia espetacular , com sua vista das montanhas do Himalaia, várias cachoeiras de degelo, a paisagem dos vales profundos ao longe etc. No meio do caminho houve um deslizamento de terra e a estrada estava interrompida. Tivemos que parar e esperar por algumas horas. Aproveitei para dar uma volta na área. Quando conseguimos prosseguir estávamos bastante atrasados. Passamos por um ponto que permitia ver o Everest, mas o tempo estava encoberto e não pudemos vê-lo. Devido ao horário tivemos que ficar num pequeno povoado chamado Tingri, perto do campo base do Everest. O hotel talvez estivesse em construção, pois não tinha energia elétrica nem água potável. E não tinha quartos cobertos para todos. Os alemães se dispuseram a dormir nos quartos em construção, pois tinham sacos de dormir e disseram que gostavam de acampar. Disseram não falar bem inglês por serem da parte Oriental. Pelo menos jantar tinha. Pedi comida sem carne (sou vegetariano), mas não me entenderam e comi o que veio, que foi sopa com carne. Conheci um casal de brasileiros (acho que eram Marcelo e sua namorada, que acho que se chamava Vanessa). Ele me reconheceu como brasileiro pelo sotaque e pela camisa do Santos que viu quando tirei o agasalho. Falou que tinham feito uma extensão extraoficial para o campo base do Everest, de que tinham gostado, mas que tinha deixado Vanessa indisposta pela altitude (ele ou ela tinham posto o pé num curso de água gelado). Tinha havido algum atrito com um outro turista alemão que estava no mesmo Land Rover, pois aparentemente aquela extensão não era totalmente legal, mas o voto dos 2 e de mais um guatemalteco venceu a disputa para irem. Antes de dormir fui ao banheiro, que era uma casa de madeira fora da construção principal, com uma fossa. Não tinha luz e eu não tinha lanterna. Foi um pouco problemático, mas consegui fazer xixi. Eu segui as recomendações preciosas da médica do aeroporto e senti muito pouco impacto com a altitude, mas percebi que vários outros, incluindo Greg, sofreram bastante 😒. O rapaz canadense passou mal e Hanna parecia aflita procurando pelo guia. Fui tentar ajudá-la a encontrá-lo e conseguimos. No dia seguinte ele parecia bem melhor. Havíamos cruzado uma passagem de montanha de cerca de 5.250 metros e estávamos dormindo a cerca de 4.400 metros.
      Devido ao atraso, chegaram a considerar a hipótese de viajar à noite, mas foi logo descartada pelos riscos. Marcelo comentou comigo também que estava achando aquela paisagem a mais bonita que já tinha visto e que não desejava viajar à noite e perdê-la.
      Na 3.a feira 29/09, com várias pessoas tendo passado dificuldades durante a noite, mas já bem melhores, partimos rumo a Xigatse. Hanna parecia agradecida por tê-la ajudado a encontrar o guia na noite anterior. Ela passava boa parte dos deslocamentos lendo um livro. Posteriormente o rapaz canadense agradeceu muito ao guia por tê-lo ajudado. Passamos por alguns templos, visitamos seu interior, visitamos vilas, pontos típicos, houve até uma praça em que estavam tocando “Lambada”, que me lembrou do Brasil, depois de quase 1 mês distante. Cantei alegremente, embora não fosse meu gênero preferido. Eu continuava deslumbrado pela paisagem, embora agora houvesse mais trechos urbanos. No fim da tarde chegamos a Xigatse. Porém o hotel parecia não ter energia elétrica. Eu e Shirley ficamos conversando com o motorista enquanto esperávamos a definição do hotel, perguntando sobre como se dizia algumas expressões em tibetano. Acho que conseguiram trocar de hotel e tudo ficou bem. Dividi o quarto com um israelense que tinha conhecido no primeiro dia da excursão. Ele estava indo num Land Rover, com um casal de sulafricanos. Um casal de ingleses que tinha ficado muito irritado com as condições de habitação do dia anterior, ficou satisfeito com o novo hotel. Acho que os agentes de turismo não tinham muito controle da situação e não sabiam quem tinha pago por que tipo de hospedagem e serviços. Saí para dar uma volta e quase fui atropelado por uma bicicleta . A ciclovia era enorme e bem larga e havia nas 2 laterais da pista de carros. Eu achei que elas eram mão única e seguiam o sentido dos carros, mas estava enganado e elas eram mão dupla. Não vi que vinha vindo uma bicicleta e o condutor desviou bem em cima de mim 🚲. Depois acho que me xingou em chinês, mesmo comigo pedindo desculpas várias vezes. Fui jantar com o israelense e tivemos alguma dificuldade para pedir, pois as atendentes falavam pouco inglês e os cardápios não tinham descrições detalhadas em inglês. Mas conseguimos comer dumplings momos (bolos de massa recheados). Na volta, quando comentávamos sobre a melhor organização da China em relação ao Nepal e a não existência de pedintes, apareceram várias garotas dizendo repetidamente “I love you” e rimos da ironia do que tínhamos acabado de dizer. Ele me contou dos seus planos de viajar pela China, mas com um guia, pois seria mais confortável, visto a experiência de dificuldade de comunicação que tínhamos acabado de ter no restaurante. Falou-me também de achar as viagens pela Europa interessantes, porém caras.
      Na 4.a feira 01/10 partimos para Gyantse. O motorista, que havíamos visto entrar num hospital, pediu-me comida antes da partida. Eu não tinha nada no momento, mas perguntei aos outros e conseguimos vários biscoitos e outros itens para ele. Não sei se ele gostou, pois acho que não estava acostumado àquele tipo de comida ocidental. Achei estranho, pois imaginei que suas refeições fossem pagas pelos agentes de turismo da excursão. Seguimos e passamos por templos e locais típicos. Eu continuava apreciando muito a paisagem. Chegamos no fim do dia em Lhasa. Lá todos se reencontraram. Foi uma festa. Cada qual seguiu para um hotel. Eu procurei por um barato e paguei cerca de 25 yuans (acho que eram uns US$ 3.00). Reencontrei o judeu com que havia procurado por excursões em Katmandu. Ele acabou ficando em um hotel com o outro judeu que eu havia conhecido na viagem. Marcelo e Vanessa ficaram no mesmo hotel que eu, só que em quarto privativo, enquanto eu fiquei em quarto compartilhado. O casal de canadenses ficou assustado com a possibilidade dos hotéis estarem cheios e rapidamente encontraram um hotel para ficar. Shirley pediu par tirarmos uma foto do grupo. Despedi-me deles e fui para o hotel. Excetuando Marcelo e Vanessa, não voltei a ver os outros mais ao longo da viagem. Ao longo da estadia pessoas de várias nacionalidades compartilharam o quarto comigo, incluindo uma francesa, uma ou mais japonesas e outros europeus.
      Numa ocasião, logo nos primeiros quilômetros em território chinês, um funcionário do governo estava colocando uma espécie de leitor de código de barras na testa das pessoas que passavam, imagino que para medir a temperatura, pois pouco tempo antes havia ocorrido a crise de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Ele apontou para o meu boné, eu não entendi bem, ele deu um tapa no boné, mediu e me mandou seguir rispidamente. Eu fui pegar o boné que tinha caído.
      Num dos dias, durante uma parada saí para comprar pães e vi algo parecido com queijo sendo vendido. Perguntei para a vendedora, que parecia ser chinesa, se era queijo (cheese), mas acho que ela não entendeu, pensou que eu estava rindo e repetiu a palavra cheese. Falei várias vezes e ela repetiu. Resolvi comprar para misturar com o pão. Quando dei uma mordida para experimentar o suposto queijo descobri que era manteiga. Acabei dando para uma pessoa, pois se comece toda aquela manteiga provavelmente teria problemas intestinais.
      Passamos pelo Monte Kailash (https://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_Kailash - uma montanha que ficava sempre coberta de gelo – não sei agora com o aquecimento global como está). Paramos e Shirley pediu-me para ficar junto a um iaque para tirar fotos, mas apareceu um menino e pediu dinheiro para ela fotografar e então ela desistiu.
      Houve muitas paisagens de montanhas, cruzamos com um grande rio perto de sua nascente (já estava bem largo), acho que era o Rio Brahmaputra. Passamos também por muitas áreas com as bandeiras típicas do Tibet e os totens xamânicos feitos de pedras empilhadas. Houve alguns trechos em que havia camponeses e iaques, mas o número de pessoas fora dos núcleos urbanos era muito pequeno. Houve pontos de passagens bem altos, com belas vistas. Passamos também pelo grande lago Yamdrok, cuja vista foi espetacular .
      Conversando com Shirley durante a viagem descobri que ela estava se formando em engenharia de computação, mesma formação minha 10 anos antes, e conversamos sobre o assunto e plataformas usadas no trabalho. Ela disse que desejava entrar para a Marinha. Eu perguntei se não achava perigoso, se não teria melhores oportunidades na iniciativa privada (se bem me lembro ela era da Califórnia, perto do Vale do Silício). Mas ela estava decidida. As francesas conheciam bem a América do Sul, falaram sobre a semelhança de alguns locais com Cochabamba e se dispuseram a me ajudar a aprender francês. Caçoaram de mim porque eu sempre conseguia achar lugares onde se vendia pães frescos. A holandesa teve algum tipo de desarranjo intestinal e precisou pedir para o ônibus parar várias vezes para ir ao banheiro. Sempre pedia desculpas e algumas vezes criticava a sujeira dos banheiros.
      Conversando com o casal de sulafricanos sobre os problemas das caminhadas referentes à guerrilha, disseram-me que haviam pedido dinheiro a eles para que pudessem prosseguir em uma caminhada que tinham feito nas montanhas. O homem disse-me rindo que não sabia se eles poderiam matar quem não desse dinheiro, pois ele havia pago. A mulher disse que basicamente era uma extorsão.
      Depois que entendi que o guia não sabia exatamente quem tinha pago o que, como eu me lembrava de ter comprado o pacote mais barato, sem guia, passei a não acompanhá-lo mais nas explicações e fazer as visitas por conta própria. O israelense até comentou comigo numa das ocasiões que eu estava circundando um monumento no sentido errado, e que isso não era educado.
      Marcelo contou-me que perto da chegada à Lhasa, as pessoas do Land Rover em que estavam desentenderam-se. Disse que o alemão o havia ofendido. Disse que ele era radical e que o guatemalteco era folgado e isso tornava a situação difícil. Ele e Vanessa tinham levado um filtro para a viagem o que os fez economizar bastante dinheiro com água.
      Para as atrações do Tibet e Lhasa veja https://www.tibettravel.org/top-attractions/, https://www.greattibettour.com/tibet-attractions, https://www.tibetdiscovery.com/lhasa-travel/things-to-do-in-lhasa/ e https://www.lonelyplanet.com/china/lhasa/attractions/a/poi-sig/356124. Os itens de que mais gostei foram os mosteiros não turísticos, a arte religiosa, os locais originais da cidade e a Natureza .
      Na 5.a feira 02/10 comecei a explorar Lhasa. Tinha acabado a vinculação à excursão exigida pelo governo chinês e eu estava livre para conhecer a área. Pontos fora da área de Lhasa precisavam de autorizações especiais do governo e excursões específicas com guias credenciados pelo governo. Fiquei hospedado lá até aproximadamente dia 13/10. Inicialmente fui aos guias de turismo (um chinês e um tibetano) que trabalhavam no hotel perguntar por sugestões de pontos a conhecer. Deram-me várias, indicando quais eram livres e quais precisavam de motoristas, guias e excursões. Alertaram-me que se fosse pego pelo exército em áreas não permitidas teria grandes problemas. O guia chinês até me disse que se realmente quisesse ir numa área não permitida era só pagar uma determinada quantia, algo que o tibetano imediatamente desaconselhou e disse que não era possível. Como eu não suborno ninguém, nem considerei esta proposta.
      Fui ao Palácio de Potala (100 yuans, aproximadamente US$ 12.50 de entrada), ao Templo Jokhang, ao Museu Tibetano, a vários outros templos e áreas naturais da cidade. Depois e paralelamente também, fui a templos e locais próximos, como Tsurpu, o Mosteiro de Tar e vários outros mosteiros. Tentei ir a um lago com um casal de europeus, mas não deu certo. Achei vários dos mosteiros indicados muito orientados ao turismo e, por isso, tentei conhecer outros não tão famosos, porém mais autênticos no tocante à vida espiritual. Na maioria destes fui junto com peregrinos.
      No dia em que fui ao Mosteiro de Tar em Dolma Lhakang, pedi informações para vários chineses e não consegui. Um tibetano ouviu-me e disse que sabia onde era e poderia dar-me uma carona até lá. E realmente, deixou-me na porta. Não sei se ele estava indo até lá ou fez aquilo por cortesia. Passei o dia inteiro lá cantando mantras. Fui muito bem recebido pelos monges. Acostumado ao ambiente mercantil dos mosteiros turísticos, gostei muito da diferença. Ajudaram-me na pronúncia dos mantras. Recusei educadamente a refeição e os adornos que me ofereceram, agradeci por toda a hospitalidade. Quando já havia atravessado a rodovia para tentar pedir carona, um monge mais jovem perguntou-me se não daria dinheiro. Achei que destoou de todo o ambiente, mas resolvi ignorar. Depois de tentar algum tempo, um caminhoneiro parou e me ofereceu carona. Fui na cabine com ele e seu ajudante. No meio do caminho furou um pneu, mas ele não quis que eu ajudasse na troca. No fim, ofereci-lhe pagar pela carona, mais de uma vez, mas ele não quis de jeito nenhum, repetindo na última oferta, já com a voz um pouco mais alta “No money”.
      Perto do fim da minha estadia, conversando com uma alemã que havia conhecido dias antes, sabendo que ela poderia ir ao Mosteiro de Tar, pedi que ela fizesse uma doação, pois havia gostado muito da espontaneidade espiritual de lá. Ela pegou o dinheiro, mas devolveu-me um ou mais dias depois por ter decidido não ir.
      Em alguns deslocamentos para mosteiros ou atrações passamos por subidas e descidas íngremes na beira de precipícios em ônibus algumas vezes superlotados. Lembro-me de um em que o ônibus estava lotado e eu fiquei ao lado (quase em cima) do câmbio. Havia uma mulher com um nenê de colo perto. Achei a situação bem delicada 😟. Mas chegamos lá embaixo de volta sem problemas. Abstraindo-se a preocupação, a paisagem pareceu-me espetacular .
      As visitas quando eram com peregrinos precisavam acompanhar o ritmo deles. Eu geralmente gosto de ficar lendo e observando tudo, mas os peregrinos geralmente iam fazer oferendas num altar e depois seguiam para outros. Perdi a visita a um templo numa das primeiras vezes, mas depois adaptei-me ao ritmo. Muitas vezes os guias dos mosteiros não pareciam muito corteses, talvez por não estarem acostumados a estrangeiros na visita ou não gostarem da ideia de visita de pessoas que não fossem peregrinas associadas à religião. Num mosteiro de monjas lembro-me de ter conversado com uma delas, que me ofereceu uma laranja, dizendo que aquele dia era feriado (ou domingo)
      Achei as paisagens espetaculares nos vários deslocamentos de ônibus e mesmo quando andei a pé por Lhasa. As montanhas nevadas, os vales e as vistas encantaram-me .
      Achei um pouco frio, principalmente à noite, de manhã e nos lugares mais altos, onde às vezes chegávamos cedo. Mas geralmente à tarde, quando abria o sol, a temperatura ficava bem mais razoável (em torno de 20 C).
      Na visita ao Templo Jokhang, uma oriental (acho que era coreana) fez um gesto que me pareceu querer espaço livre para tirar a foto de um dos monges. Mas quando eu saí de cena, ela pediu para eu voltar, pois queria tirar a foto de um ocidental também. Talvez nunca tivesse visto um 😀.
      Numa das noites Marcelo foi conhecer o quarto compartilhado em que eu estava (acho que ele não estava acostumado a hostels) e achou interessante. Falou-me num dos dias que ele e Vanessa tinham ido ao Mosteiro de Samye sem ser numa excursão e que na volta ninguém lhes dava transporte. Passaram ônibus que não os aceitaram. Ele ficou apreensivo com a situação. Aí apareceu uma excursão de europeus (acho que eram alemães) e eles conseguiram integrar-se a ela para voltar. Ele me alertou para o caso de eu ir visitar Samye. Falou-me também que tinham pedido para tirar uma foto dele e, quando comentei sobre o ocorrido com a coreana comigo, ele comentou “Será que somos tão feios assim?!” 😀.
      Muitas vezes o preço das passagens de ônibus não era claro (uma chinesa ou oriental comentou isso comigo), ainda mais para mim que não entendia a língua. Creio que paguei a mais numa das vezes. Neste dia, enquanto esperava a partida do ônibus, reencontrei uma mocinha francesa que havia conhecido no hostel. Ela ficou surpresa por eu estar pegando o mesmo ônibus que ela. Mas quando chegamos ela foi com seu grupo fazer uma caminhada pelas montanhas e eu fui visitar os mosteiros e locais de peregrinação.
      Eu tive vários problemas de comunicação. Numa das primeiras noites, entrei num restaurante chinês, fui até uma samambaia e peguei em uma de suas folhas para explicar que não comia carne. Pelo menos desta vez entenderam e me trouxeram macarrão com legumes. Porém trouxeram palitos, que eu não sei usar. Não tinham garfo e faca e me trouxeram uma colher. Depois de muito tentar eu usei a colher como um bastão e enrolei o macarrão nela. Quando levantei a cabeça para levá-lo a boca, percebi que havia várias pessoas ao meu redor, rindo da minha falta de habilidade com o assunto 😀.
      Num fim de tarde em Lhasa, quando eu procurava por algo para jantar, houve um mal-entendido com uma ambulante vendedora de comida. Eu perguntei se ela tinha pizza e ela não sabia o que era pizza. Pensei que pizza fosse um nome universal. Tentei explicar fazendo gestos, mas ela não entendeu. Aí procurei ser mais enfático e fazer um círculo pequeno com as mãos no formato de uma pizza. Eu acho que ela entendeu que eu estava interessado em alguma experiência sexual. Pegou a espumadeira ou algo semelhante que estava usando para cozinhar e fez gestos ríspidos para mim, falando palavras em voz alta. Eu me retirei e fui comprar outra coisa 😀.
      Numa visita a um mosteiro, os monges estavam meditando e eu estava de tênis. Para participar da meditação precisei tirar o tênis, mas depois de andar por vários dias em locais com terra e neve, acho que estava com enorme chulé . Um dos monges fez um gesto com a mão no nariz, típico de mau cheiro. Eu me retirei meio constrangido e recoloquei o tênis 😳.
      Os viajantes e comerciantes chineses pareceram-me muito gentis, diferentes do exército. Alguns turistas sabiam falar inglês e tinham curiosidade sobre o Ocidente. Porém não conheciam atrações religiosas nem históricas do Tibet.
      Numa ocasião eu não pude conhecer uma determinada atração (acho que era um templo ou mosteiro) devido ao horário. Voltei no outro dia e falei com o atendente, que depois de me perguntar se eu estava falando a verdade, ainda que meio desconfiado, permitiu-me entrar sem pagar novamente.
      Eu paguei por uma pequena extensão de 3 ou 5 dias para poder ficar um pouco mais, pois o Tibet era meu principal destino nesta viagem. Mas acabei não aproveitando muito devido às dificuldades de conseguir transporte de volta. Acho que foi devido a isto que fui ao banco fazer um pagamento de taxa e o atendente chinês caçoou da minha foto risonha no passaporte.
      O ônibus da agência de turismo que nos havia trazido estava previsto para sair dia 3 e acho que havia outro no dia 10 (não me lembro exatamente, acho que os ônibus saíam às 6.as feiras). Porém eu queria ver mais atrações e não quis pegá-lo. Com isso precisei procurar um outro transporte, o que não foi nada fácil.
      Como não havia ônibus disponíveis, tentei pegar carona com caminhoneiros provavelmente no domingo 12/10. Fiquei mais de 1 hora tentando, mas nenhum aceitou. Eu não sabia que era proibido levar estrangeiros. Alguns guias haviam dito que era possível. Tentei então falar com pessoas com Land Rover, mas não obtive sucesso.
      Procurei por vários agentes de turismo para ver se havia algum transporte saindo naqueles dias. Num hotel uma recepcionista indicou-me para um que disse saber de transporte para voltar, ligou para ele e me colocou na linha. Ele disse que seria possível eu ir. Eu não entendia direito o que ele falava, as informações pareciam desconexas e eu me irritei e até elevei um pouco a voz. Ele disse que viria falar comigo e em poucos instantes chegou. Aparentava estar alcoolizado. Começou a me explicar sobre a viagem e a certa altura explicou que seria à noite. Achei muito estranho e perguntei porque. Aí ele disse que era porque era ilegal e teríamos que sair do veículo perto dos pontos de checagem do exército, ir pela montanha até o outro lado e depois voltar ao veículo. Aí eu entendi o que ele estava propondo. Disse-lhe então que não tinha nenhum interesse. Antes de ir embora fui pedir desculpas para recepcionista do hotel por ter elevado a voz na recepção do hotel.
      Descobri então que precisava de uma permissão de viagem para poder fazer aquele trajeto. Agora entendi porque os caminhoneiros não tinham parado nem os veículos Land Rover aceitavam-me como passageiro. No dia seguinte fui até o escritório do governo obter a permissão de viagem, através do pagamento de uma taxa. E quem era o sub-encarregado que chegou durante a emissão da permissão de viagem? O mesmo agente que no dia anterior havia proposto para mim a viagem ilegal. Aí eu entendi como ele sabia todos os procedimentos para escapar dos pontos de controle ao longo do trajeto. Ele ainda riu e me cumprimentou. Eu lembrei da corrupção existente no Brasil ☹️.
      De posse da permissão de viagem, acho que na 2.a feira 13/10 fui até a rodoviária ver se encontrava algum transporte e havia uma van 🚐 que me indicaram. Mas na frente da van só havia letreiro em chinês. Eu estava sem caneta nem papel. Fui até o painel central da rodoviária e decorei cada caractere escrito e fui confirmar no letreiro da van. Fui do painel da rodoviária até a plataforma de embarque da van tantas vezes quanto o número de caracteres da palavra, uma ida para cada caractere, de modo a não ocorrer nenhum erro. Ainda fui mais algumas para confirmar e garantir. Com grande dificuldade, consegui comunicar-me com o motorista chinês e entender destino, preço, horário e condições de viagem. Ele chegou a tirar minha mala da van por achar que eu estava pedindo algo incompatível com a viagem. Fomos apertados por boa parte da viagem, até algumas pessoas desembarcarem. Devido aos mal-entendidos de comunicação o motorista e sua mulher estavam irritados comigo no início, mas ao longo da viagem, depois que ofereci biscoitos a todos e convivemos um pouco, a irritação passou. Consegui ver o Everest 🏔️, pois desta vez o céu estava limpo. Eles não pararam, pois a viagem não era turística, mas deu para ter uma boa ideia da montanha, embora meio apertado e sem jeito na van. Em um posto de controle, um guarda parou o carro, fez um monte de perguntas a todos, olhou suas bagagens e quando chegou a minha vez e lhe perguntei mansamente em inglês em que poderia ajudá-lo, ele se assustou por eu ser estrangeiro e não me revistou. Os outros pareceram falar rindo que o melhor seria dar para mim suas bagagens, pois os guardas tinham receio de fazer qualquer procedimento. Já perto do anoitecer furou um pneu e o motorista trocou. Até me ofereci para ajudar, mas ele não quis. A parte final do percurso foi à noite, justamente a descida mais íngreme, o que me pareceu um pouco assustador em meio àqueles precipícios. Deixaram-me em hotel de uma conhecida ou parente, que custava 100 yuans. Ela fez o sinal de 1 e eu pensei que fosse 1 yuan, mas estava enganado. Mesmo com ela aceitando negociar, fui procurar outro e acho que paguei 25 yuans. Um guarda pediu-me a permissão de viagem no fim do trajeto. Foi a única vez que foi pedido. Dormi em Zhangmu.
      Acho que na 3.a feira 14/10, fora do prazo do visto inicial, mas dentro da extensão que havia conseguido, fiz a viagem de volta para o Nepal. Saí de manhã e fui a pé. Os taxistas passavam por mim caçoando por eu estar indo a pé. No meio do trajeto parei para descansar um pouco e admirar a paisagem e esqueci o boné. Depois de já ter andando bastante (cerca de meia hora) sentia a falta do boné e voltei para pegar. Cheguei em Kodari, no Nepal, perto do meio dia (agora o fuso horário estava a meu favor). Peguei um ônibus que acho que iria até um ponto intermediário para pegar outro ônibus para Katmandu. Estava havendo uma discussão entre os passageiros e os donos do ônibus sobre o preço da passagem. Fiquei feliz que riram e pareceram entender-se e perguntei a um dos passageiros a meu lado o que tinha ocorrido. Aí ele me explicou que haviam concordado no preço da passagem e que de mim (o estrangeiro) seria cobrado bem mais 😠. Não gostei muito da ideia, levantei-me e disse que pegaria outro ônibus para outro lugar. Num primeiro momento não concordaram em que eu pagasse o mesmo dos outros, mas quando levantei em direção à porta mudaram de ideia e paguei o preço regular da passagem. Viajamos a tarde toda. Furou o pneu uma ou mais vezes (acho que foram 3 vezes, uma vez cada pneu). Cheguei em Katmandu à noite.
      Na 4.a feira 15/10 acho que fui para Janakpur. Havia deslizamento de terra e ficamos parados por muito tempo. Num dos locais de parada, quando desci, o motorista do ônibus pediu-me para voltar para o ônibus e partimos. Pareceu estar com medo de um estrangeiro chamar a atenção de pessoas que faziam parte da disputa política. Lembrei-me da frase do indiano, quando conversávamos sobre a situação política, dizendo para eu não ir ao Terai, e do agente de turismo dizendo para eu não ir à região de Lumbini. Mas eu queria conhecer Lumbini, cidade natal de Sidarta (Buda) e resolvi arriscar. Acabei não conseguindo chegar ao destino, devido ao enorme atraso e precisei pernoitar numa cidade no meio do caminho. Conheci um oficial do exército israelense de férias, após terminar o serviço militar obrigatório. Acabamos dividindo o quarto para pagarmos menos. Eu ainda fui tentar sair para jantar, mas naquela área havia toque de recolher às 20h. Perguntei até a um soldado como faria para jantar se o toque de recolher era tão cedo e ele me disse, com um certo tom de deboche, mostrando-me um pacote de biscoitos, que eu poderia comer biscoitos. Voltei ao hotel e resolvi jantar lá mesmo. Depois fiquei conversando com o israelense. Ficamos olhando da sacada do quarto e ele comentou que estava ouvindo tiros ao longe, que eu não ouvi. Ele disse que talvez fosse só impressão, mas que ele conseguia distingui-los por estar acostumado. Disse que era estranha para ele aquela experiência, pois várias vezes já tinha tido que comandar toques de recolher e agora ele tinha que obedecer um. Eu nada disse, mas pensei “Está vendo como os palestinos sofrem!”. Ele me falou de uma caminhada que havia feito pelas montanhas, até o Lago Gosaikund. Ao perguntar sobre problemas com guerrilheiros, ele me disse que algumas pessoas disseram que eles cobrariam dinheiro em vários pontos, mas que não havia aparecido ninguém durante sua caminhada. Disse que a trilha era tão clara no chão que nem era necessário mapa. Eu achei muito interessante, e como ainda teria tempo, considerei a possibilidade de fazê-la. Ele me ofereceu o mapa, eu educadamente recusei, mas ele disse que não usaria mais e não haveria problema em me dar. Disse que havia sido muito bem tratado em vários locais por brasileiros e argentinos e esperava pela oportunidade de retribuir. No dia seguinte, quando acordei ele já tinha partido e tinha deixado o mapa para mim.
      Fui então para Janakpur. A cidade em si parecia tranquila, longe daquele clima tenso do trajeto e de Katmandu. Havia muitos templos e edificações religiosas. Gostei bastante de lá . Mostrava uma outra face do Nepal, hindu, simples, como um povoado interiorano. Numa tarde fiquei contemplando a paisagem sentado numa praça, após ter visitado vários locais.
      Para as atrações de Janakpur veja https://www.holidify.com/places/janakpur/sightseeing-and-things-to-do.html e https://www.lonelyplanet.com/nepal/the-terai-and-mahabharat-range/janakpur. Os itens de que mais gostei foram os templos, alguns integrados com atrativos naturais .
      Acho que foi no sábado 18/10 que fui para Lumbini. Viajei durante todo o dia e cheguei lá no fim da tarde. Desta vez o tempo gasto com deslizamentos foi um pouco menor e a viagem pode ser concluída no mesmo dia. Procurei um hotel para ficar e um dos recepcionistas de um deles foi muito afoito, querendo que eu ficasse a qualquer custo. Resolvi então ficar em outro. Saí para dar uma volta e quando voltei o recepcionista havia me mudado de quarto sem me consultar, pois tinha chegado uma família (acho que era de judeus) e ele cedeu meu quarto para eles. Apesar de não ter gostado de não ter sido consultado, eu aceitei sem problemas. Fiquei no mesmo quarto com o motorista da família. Ele era indiano e conversamos bastante sobre a Índia e a situação geopolítica na região.
      Para as atrações de Lumbini veja https://nepalecoadventure.com/lumbini-attractions-in-lubmini/, https://www.lonelyplanet.com/nepal/lumbini/attractions/a/poi-sig/357154 e https://www.welcomenepal.com/places-to-see/lumbini-nepal-birthplace-of-buddha.html. Os itens de que mais gostei foram os templos budistas reunidos, cada qual de uma origem ou linha .
      Havia uma espécie de parque onde cada linha do budismo tinha um templo. Achei maravilhosa a ideia. Foi bastante interessante notar como as imagens de Buda eram diferentes e parecidas com as características da população de onde era o templo. No templo chinês Buda parecia um chinês, no templo japonês Buda parecia um japonês, o mesmo no tailandês, no indiano, no tibetano e assim por diante. As pessoas projetavam-se fisicamente no seu líder (ou na sua divindade para alguns). Gostei também de conhecer o sítio histórico onde Sidarta nasceu e cresceu. Havia também um templo que achei maravilhoso, a World Peace Pagoda. O motorista da família pareceu ter ficado deslumbrado com este templo.
      No dia de vir embora, o recepcionista do hotel falou-me que eu tinha que pagar uma taxa adicional de serviço que ele não havia dito. Queixei-me por ele não ter falado no início, paguei e me arrependi de não ter ficado no outro hotel.
      Acho que na 3.a feira 21/10 peguei o ônibus de volta para Katmandu. Novamente a viagem foi longa e com várias checagens de segurança por parte do exército. Cheguei em Katmandu no fim do dia.
      Numa das viagens paramos num local na estrada para comer, eu pedi uma espécie de salgado bem pequeno, pois não me dava bem com toda aquelas especiarias e pimenta. O atendente vendo que eu era estrangeiro e querendo agradar-me colocou por conta própria um pouco de recheio apimentado. Eu sorri e agradeci 😀. Numa outra ocasião um jovem soldado (quase um menino) que entrou no ônibus para fazer uma inspeção perguntou-me algo em nepalês. Eu respondi em inglês que não falava a língua dele, ele não entendeu, os outros passageiros explicaram e ele se foi. Em outro trecho veio um camponês bem simples a meu lado. Acabou dormindo no meu ombro. Numa das paradas bebeu a água oferecida no restaurante na própria jarra. Parecia não estar acostumado a áreas urbanas.
      Fiquei no mesmo hotel em Katmandu. Quiseram até me cobrar mais, mas quando disse que então daria uma volta para procurar por outras opções, voltaram ao preço anterior. Numa das minhas passagens por lá um menino que lá trabalhava perguntou se eu não queria que lavassem minhas roupas, pois estavam sujas. Como ainda tinha uma semana e meia antes da volta, decidi fazer a caminhada pelas montanhas. Pedi ao gerente ou dono que guardasse o dinheiro em espécie que tinha comigo, pois muitos haviam relatado que nas montanhas poderiam haver guerrilheiros que iriam pedir dinheiro. E como eu tinha errado na conta, estava com bem mais dinheiro do que precisava. Ele guardou US$ 800.00 em seu cofre, sem cobrar taxa nenhuma e me deu um recibo. Um dos atendentes ofereceu-me um gorro, pois achou que eu não estava adequadamente preparado para ir às montanhas.
      Para informações sobre a caminhada para o Lago Gosaikund veja https://en.wikipedia.org/wiki/Gosaikunda e https://www.nepalsanctuarytreks.com/gosaikunda-best-time-to-visit-cost-and-weather.
      Na 4.a feira 22/10 peguei um ônibus para perto do Parque Chisapani para começar a caminhada. Eu estava começando pelo lado contrário ao da maioria, mas optei por fazê-lo porque o ponto de início era bem mais próximo de Katmandu. Paguei a entrada e comecei a caminhada. Parei no povoado de Chisapani (acho que o nome era o mesmo do parque) antes do anoitecer. O mapa que o israelense havia me dado estava sendo bem útil. Lá conheci vários outros caminhantes, mas acho que todos pretendiam ir para outros destinos, a maioria para Langtang. Conversei bastante com um irlandês, que trabalhava nos Emirados Árabes. Falamos sobre a caminhada e temas gerais. Ao falar da minha preocupação com possíveis problemas com a guerrilha ele me disse para ter cuidado, posto que eu estava indo só e sem guia. Falou que não queria ver-me nos noticiários 😀. Se bem me lembro foi aqui que conheci um grupo de alemães (acho que eram 2 mulheres e 2 homens, provavelmente 2 casais), que iriam fazer parte da caminhada comigo. Um dos alemães caçoou de mim ao longo da caminhada, dizendo que eu era um viajante profissional, pois minha mala era muito menor do que a deles e eu ia mais rápido. Falaram até em viajarmos juntos, mas eu lhes disse que nos encontraríamos ao longo do caminho. O dono do hotel em que eu tinha ficado falou que naquelas áreas era costume comer onde se dormia, mas eu acabei saindo para comer em outro restaurante. Acho que a altitude era por volta de 2.215 metros.
      Na 5.a feira 23/10 não sabia bem onde deveria planejar chegar. Logo na saída de Chisapani perguntei a alguns viajantes que chegavam e eles disseram que haviam dormido em Kutumsang, que era um povoado maoísta e que não tinham tido nenhum problema e ninguém lhes havia pedido dinheiro como pedágio. Encontrei alguns outros grupos com guias no princípio da caminhada. Um pouco a frente havia um homem, com cerca de 60 anos, e seu ajudante, bem mais jovem, ao lado de uma mesa, bem no meio do caminho. Ao me aproximar ele cordialmente falou para eu sentar. Se bem me lembro fiquei em pé e começamos a conversar. Ele tentava explicar quem era e eu, imaginando do que se tratava, tentava desconversar, até falando às vezes em português, que ele não entendia. Até que, percebendo que não sairíamos daquela situação e que era importante continuar a caminhada logo para não ter problemas com o anoitecer mais adiante, resolvi ir direto ao assunto. Perguntei então “Quanto?”. Aí ele abriu um largo sorriso e disse que semelhantemente ao que havia pago na entrada do parque para o governo, deveria pagar para eles a mesma tarifa. Eu disse para ele esperar e voltei para trás para reencontrar o grupo com os guias. Expliquei a eles o que havia ocorrido e eles se mostraram preocupados. Falei com um deles para conversar com o homem e explicar que eu era de um país pobre, não era americano nem europeu. O guia foi lá, eles conversaram, não sei se pagou algo a ele para seu grupo, mas o homem disse que eu podia passar sem nada pagar. Fiquei meio desconfiado, mas segui em frente.
      Comecei a subida de uma colina e lá no alto havia um homem de uns 30 anos, com traços orientais e com fisionomia séria e fechada. Achei que poderia estar associado aos que pediram dinheiro lá embaixo. Achei que não era uma boa ideia cruzar com ele olhando para o chão, pois era interessante saber se desejava algo. Quando se fecha o diálogo resta a violência. Ele me olhou sério, com a testa franzida, eu fiz um levíssimo aceno de cumprimento, quase imperceptível, e prossegui. Ele nada disse. Mais para frente reencontrei os alemães, que haviam saído antes. Perguntei-lhes se não haviam encontrado o homem na mesa e uma das mulheres me disse que havia visto um homem que havia lhe dito para sentar e ela o ignorou, pois não iria sentar com um desconhecido num lugar deserto 😀. Quando lhes disse que provavelmente era um representante da guerrilha, surpreendeu-se e ficou um pouco assustada. Um dos homens então me disse para viajarmos juntos, pois esta era uma razão ainda mais forte. Eu até que concordei, mas deixei-os fazendo sua refeição e prossegui só.
      Estava meio preocupado com o ocorrido e como à frente havia uma zona maoista, não sabia bem pelo que esperar. Não sabia o quanto o não pagamento poderia gerar de repercussões. Já depois do meio da tarde, perto de 16h30, avistei o povoado de Kutumsang e vi a bandeira maoísta tremulando 😱. Aquilo trouxe-me receio do que poderia vir. Havia também mensagens escritas em paredes dizendo “Abaixo ao exército real americano”, numa alusão ao possível apoio dos EUA ao rei do Nepal contra os maoístas. Cruzei boa parte do povoado e decidi tentar ficar ali mesmo. Procurei por uma hospedagem e um rapaz do povoado, provavelmente algum tipo de sentinela informal, ajudou-me. Levou-me a um tipo de hotel simples. Fiquei hospedado lá, sem ir procurar por outros para não gerar nenhum tipo de problema. Pedi para a dona cobertor e lençol e ela pareceu surpresa, esperando que eu tivesse comigo. Quando pedi ainda uma toalha ela falou irritada “Você não tem nada!?” 😀. Enquanto me organizava no quarto ouvi ao fundo o rapaz que me havia trazido àquele hotel conversando com alguém, talvez o responsável da guerrilha na área, sobre quem eram os hóspedes que haviam chegado, europeus, israelenses e quando o responsável perguntou quem era eu, ao me ver de costas de longe, sua voz ficou bem mais descontraída e ele disse “Ah, esse rapaz é do Brasil!”, num tom que me pareceu bem amistoso.
      A noite conheci pai e filho de Israel que estavam fazendo a caminhada. Logo de início perguntei ao filho de onde eles eram e ele pareceu desconfortável com isso, dizendo “Esta a primeira pergunta que você me faz?!”. Mas depois, conforme conversamos durante o jantar, o tom ficou amistoso e compartilhamos experiências da viagem. Falamos também sobre a situação de Israel e ele me desaconselhou viagens para lá naquele momento, falando também que o custo de vida estava muito caro. Falou que para ele era um feito ir com seu pai que já estava na casa de 50 anos para uma caminhada daquelas nas montanhas. Acho que a altitude era por volta de 2.470 metros.
      Na 6.a feira 24/10 de manhã fui em direção a Gopte. Inicialmente procurei um local para tomar café da manhã. Vi um homem cozinhando batatas. Propus para ele comprar várias batatas e ele aceitou. Foram meu café da manhã e almoço. Não consegui nada para tomar por perto e resolvi seguir assim mesmo e tentar encontrar ao longo do caminho. Neste trecho a caminhada ficou mais íngreme. Cruzei com um casal que voltava do Langtang eu acho e me disseram que não havia maoístas por lá. Acho que foi neste trecho que vi um menino sentado no alto de uma colina enquanto eu comia pães de forma de um saco. Como é costume no Brasil, ofereci para ele e ele aceitou. Depois de lhe dar prossegui. Haviam algumas possibilidades de trilha e eu estava pegando uma que achei ser a certa. Mas o menino disse-me com gestos para não pegá-la e pegar outra. Acho que ele evitou que eu cometesse um erro. Provavelmente fez aquilo por ter simpatizado com meu gesto de lhe oferecer pão. Cruzei também com uma europeia ou americana com um guia e ela me disse para tomar cuidado, pois haviam visto vários guerrilheiros no meio de mata nas montanhas. Disse-me que nada havia pago mais talvez devesse ter pago. Num determinado ponto havia uma bifurcação possível, por uma floresta de bambus, onde o mapa dizia poderem existir tigres, ou por uma área em que seria mais provável a presença de guerrilheiros. Achei improvável a presença de tigres, ainda mais durante o dia. Acho que o mapa provavelmente se referia a uma época muito anterior ou a animais menores. Fui pela floresta, um pouco preocupado e prestando bastante atenção, mas não tive nenhum problema. Cheguei em Gopte no fim da tarde. Estava com a barriga começando a doer. Pela minha completa ignorância em ciências biológicas não fiz a associação clara da dor com a ausência de hidratação . Como não estava quente não sentia muita sede, mas certamente o rim e outros órgãos estavam reclamando da falta de água. Ali era bem mais alto e a vista dos locais mais baixos e das montanhas pareceu-me espetacular. Conheci um casal de turistas, um judeu e outros peregrinos. A dor piorou bastante 😒. A moça ofereceu-me comprimidos para desarranjo intestinal, mas eu lhe disse que era o oposto disso. Comecei a desconfiar que o problema era falta de água. Pedi uma sopa para o jantar e isso resolveu tudo. Em alguns instantes a dor diminuiu bastante. Aí, percebendo o que tinha ocorrido, resolvi tomar muito líquido. Foi ótimo para o problema, porém fez-me ter que acordar durante a noite para fazer xixi. Ao ver que tinha melhorado, o judeu falou-me que indisposições estomacais ou intestinais aconteciam em viagens o tempo todo. Acho que foi aqui ou em Kutumsang que conversando com um dos guias falei que não sabia se iria a Langtang ou ao Gosaikund. Ele me disse que se pretendia ir a Langtang deveria ter pego outro ramal da trilha bem antes, pois agora o caminho ficaria bem maior. Decidi definitivamente então ir ao Gosaikund. O hotel ficava no alto de uma colina e fui até a ponta observar o céu noturno e a vista. Achei muito belos, apesar da escuridão. Durante a noite, devido à enorme quantidade de líquido ingerido, precisei sair para ir ao banheiro. Mas estava tudo escuro, as luzes apagadas e eu não tinha lanterna. Não consegui achar o banheiro e fui até a ponta da colina, que era arredondada, e fiz xixi lá mesmo. Acho que foi um pouco arriscado, porque eu não enxergava nada e fui tateando o chão, para ver até onde poderia ir 😀. Mas como a colina era arredondada e não com queda abrupta, achei que o risco não era tão grande, apesar da altura. Consegui sem problemas e voltei a dormir. Acho que a altitude era por volta de 3.440 metros.
      No sábado 25/10 fui para o Lago Gosaikund. Inicialmente tomei café da manhã, agora bem mais atento à questão da água. Depois, conversando com o judeu, ele disse que apesar de ser sábado, talvez fizessem um pequeno deslocamento para outro povoado próximo. Ele havia me dito que não estava muito bem (não me lembro se era por causa da altitude ou algum problema devido à caminhada). Após andar um pouco arrotei, mais alto do que imaginava, devido ao monte de líquido que tinha tomado. Poucos minutos depois cruzei com a mulher do judeu e seu filho pequeno, que acho que estavam vindo encontrar o pai. Percebi sua fisionomia tensa, talvez por eu ser um desconhecido numa área deserta, talvez tivesse ouvido o arroto e pensado que eu poderia ser árabe e contra judeus. Vendo isso, para tranquilizá-la, cumprimentei-a falando “Shalom”. A fisionomia dela mudou completamente, ela sorriu levemente e pareceu ficar tranquila. Caminhei mais um pouco satisfeito pelo terreno ser quase todo plano, com poucas subidas e descidas. Uma das alças da minha mala havia quebrado e eu estava tendo que carregá-la nas mãos, em vez de pendurá-la nos ombros, o que tornava a situação um pouco desconfortável. Um pouco mais à frente vi uma subida, que não imaginava ser tão grande. Era a subida para a Passagem Laurebina. Acho que demorei de 2 a 3 horas nesta subida. A passagem no topo ficava a cerca de 4.610 metros. Aí eu entendi porque a ampla maioria fazia o caminho contrário, começando por Dhunche. Cruzei com amigos belgas descendo, que quiseram me animar e disseram que eu estava quase chegando e que poderia conseguir alguma forma de consertar a mala quando chegasse no hotel. O clima ia mudando conforme eu subia e o vento ia ficando mais frio e mais forte. Começou uma leve neve 🌨️. Quando cheguei lá em cima estava totalmente sem forças 😫. Tanto foi assim que precisei sentar numa pedra para me recuperar. Fiquei uns 5 minutos sem conseguir ver nada. Depois percebi a paisagem magnífica (). Como a subida havia sido íngreme era possível apreciar uma ampla vista sem obstáculos das partes mais baixas. Do outro lado havia a vista das montanhas com mais de 5 ou 6 mil metros de altitude. Havia também a vista do lago principal e de pequenos lagos anexos. Fiquei ali cerca de meia hora deliciando-me com a paisagem . Se bem me lembro cheguei a meditar um pouco também. Depois segui para a sede do povoado, que não era longe. Apesar disso eu estava bem cansado e fui vagarosamente. Fiquei num hotel sem chuveiro quente (acho que só havia um com chuveiro quente naquela época). Não tomei banho nos dias em que lá fiquei. Procurei ficar num hotel não turístico, de habitantes locais ou tibetanos. Depois de me acomodar dei uma pequena volta nas proximidades. Achei linda a vista do lago e das montanhas. Pedi um cobertor adicional para a noite. No meu quarto havia 2 camas e entrava vento pelas frestas da parede. Acho que a altitude era por volta de 4.300 ou 4.400 metros.
      No domingo 26/10 fui explorar os arredores e apreciar a paisagem. Subi numa das montanhas laterais, a menor delas, que tinha vista para as montanhas de Langtang. Fiquei lá apreciando a paisagem e meditando. Inicialmente o tempo estava coberto, mas depois abriu em boa parte e foi possível admirar o esplendor das altas montanhas cobertas de neve. Achei a vista a partir dali maravilhosa . Fiquei lá mais de uma hora e depois desci e fui tentar subir na montanha do outro lado. Esta era bem maior e subi só até a metade, pois a partir dali pareceu-me que começava a ficar perigoso e exigir equipamentos, experiência e conhecimento, sendo que eu não tinha nenhum deles. A vista também agradou-me bastante. Fiquei lá algum tempo, mas menos do que na montanha anterior. Desci e já estávamos no meio da tarde. Fui então dar uma volta no lago. Até que me deu vontade de nadar, pois abriu um pouco de sol. Mas eu não tinha levado roupa de banho e a água estava com a temperatura muito baixa. Mais tarde o dono do hotel diria que eu poderia ter nadado nu, o que me fez rir. Já perto do fim da tarde voltei para o hotel. Haviam chegado 2 viajantes israelenses e 1 americana chamada Alisson com seu guia local. Um pouco mais tarde começou a nevar 🌨️. Os judeus mostraram-se entusiasmados, pois provavelmente não estavam acostumados à neve. Eu também achei a cena bela. A americana não deu muita importância, provavelmente via neve com frequência. A neve acentuou-se e cobriu parte da paisagem de branco. Eles começaram a jogar cartas e eu preferi ficar apreciando a paisagem e descansando. Conversamos sobre a viagem, jantamos e fomos dormir. Eu mudei de cama durante a noite, pois com o vento que entrava pelas frestas, mesmo com os cobertores e agasalhos, eu estava com frio .
      No meio da noite acho que o telhado não aguentou e caiu um pouco de neve e gelo na cama em que eu não estava e em que tinha dormido no dia anterior. No meio da noite eu precisei ir ao banheiro. Saí de pijama e com um agasalho para o peito. O banheiro era externo. Fui até ele, que era logo do lado do hotel, fiz xixi e apreciei a paisagem do lago, que tinha ficado ainda mais bela após a neve. Parte das pedras estavam cobertas de neve e o céu estava claro, fazendo uma cena que achei linda. O céu estralado também estava maravilhoso, talvez o mais espetacular que já tenha visto . Voltei rapidamente para o hotel, pois estava muito frio, talvez abaixo de zero. Porém o vento havia batido a porta e ela estava trancada. Acho que de algum modo, quando bateu girou o trinco. Eu estava preso do lado de fora. E o banheiro era num local de difícil acesso sem ser pelo hotel. Havia uma montanha atrás dele, o hotel na outra face, um precipício ao lado e o lago. Ou seja, a saída por qualquer opção não era simples. Resolvi tentar abrir a porta, mas não consegui. Admirei mais um pouco a linda paisagem e depois, já com bastante frio, resolvi bater na porta. Mas ninguém ouvia, provavelmente por causa do vento. Cheguei a pensar em tentar arrombar a porta ou escalar o telhado, mas aí pensei em chamar pela americana. Imaginava que estava dormindo no quarto em frente. Chamei-a pelo nome e ela estava acordada e me ouviu. Foi até a porta e perguntou “Fernando, o que você está fazendo aí?”. Eu respondi que tinha ido ao banheiro e perguntei se ela poderia abrir a porta. Ela pediu para eu esperar e foi chamar o seu guia. Enquanto isso eu aproveitei para apreciar mais um pouco a maravilhosa paisagem noturna e o lindo céu. Poucos instantes depois chegou o gia com uma lanterna e abriu a porta. Eu agradeci bastante e entrei. Ela ficou bestificada (e o guia também, mas um pouco menos) por eu estar de pijama, quase sem agasalho lá fora 😀. Fomos dormir.
      Na 2.a feira 27/10 quando eu acordei todos já estavam tomando café e já sabiam do ocorrido. Receberam-me rindo e o dono do hotel disse “Se você não tivesse sido escutado certamente teria arrombado a porta”. Eu disse que tinha ficado com medo de arrombar e depois ficar entrando vento e neve na casa. Eles riram um bocado e tomamos café. A dona riu pelo fato de eu ter oferecido o pagamento enquanto eles estavam com as mãos ocupadas fazendo o café pedido pelos outros. Durante a estadia o jovem dono disse-me que a situação era delicada. O exército vinha recrutar os moradores para fazer parte dele. Se a pessoa entrasse os maoístas a matavam. Se a pessoa se unisse aos maoístas o exército a matava. Então não havia saída. Pareceu-me uma triste realidade ☹️. Perguntou-me sobre procedimentos para conseguir viver no Brasil. Eu não sabia exatamente quais eram, mas lhe disse que achava que seria bem complicado para ele, pois era outra língua, outro alfabeto, outra cultura, outra religião da maioria da população e várias outras diferenças para a vida que ele estava acostumado a levar. Além do que estaria sem seus familiares e conhecidos e muito longe da sua terra natal. Achei a situação do país delicada, mas não me pareceu que naquele local ele estivesse em alto risco. Ele me falou também que achava que Buda era o Deus deles, mesmo após eu questionar se de fato era Deus ou um mestre.
      Após despedir-me de todos saí para descer. Antes apreciei a paisagem do local, principalmente do lago, que com a neve tinha ficado muito bela . Foi bem mais fácil descer do que subir 😀. As paisagens pareceram-me muito belas, embora devido à nevasca do dia anterior, os trechos mais altos estivessem nublados. O chão tinha ficado coberto de neve nos primeiros trechos. Não tive nenhum problema durante a descida e cheguei até Thulo Syabru, a cerca de 2.250 metros de altitude. Foi a parte mais íngreme. Achei que ainda dava para ir adiante e fui até Syapru Besi, a cerca de 1.460 metros de altitude. Já estava perto do fim da tarde e eu decidi ficar ali. Era um povoado bem maior do que os outros das montanhas. Havia muitas opções de hospedagem, eu fui a várias, mas acabei voltando a um dos primeiros (acho que foi o primeiro) em que havia passado. Era a casa de uma família. Todos pareciam muito simpáticos 👍. As crianças eram bem curiosas para conhecer um estrangeiro ocidental. Trataram-me muito bem. Ofereceram-me até um copo de leite ou semelhante no dia seguinte por cortesia, posto que eu não quis comprar o café da manhã, uma vez que em locais comerciais era mais barato. O clima estava muito menos frio.
      Na 3.a feira 28/09 fui andando até Dhunche e de lá peguei um ônibus para Katmandu. Na saída havia um posto de controle e tive que pagar pelo ingresso de visita, que ninguém tinha cobrado, que achei que não existia naquele sentido da caminhada e do qual imaginava ter escapado. Encontrei com vários franceses que estavam fazendo algum tipo de excursão ou trabalho voluntário. Uma das mulheres comentou comigo que seu marido cirurgião tinha ido fazer uma cirurgia num hospital local e tinha achado as condições deficientes. Ao longo do percurso de ônibus tivemos que parar várias vezes devido a checagens do exército. Os franceses pareciam bastante incomodados. Houve uma ocasião em que entrou um habitante local com uma galinha viva 🐔 e a colocou numa sacola na plataforma de bagagem acima das cabeças. Uma das francesas ficou bastante tocada com a situação, achando que a galinha estava morrendo e o nepalês pareceu não entender muito bem porque ela tinha ficado tocada. Chegamos em Katmandu já à noite. Alguns franceses que tinha conhecido antes conversaram comigo sobre a nevasca, a caminhada, despedimo-nos e voltei para o mesmo hotel. O dono devolveu-me a quantia que tinha guardado e eu devolvi o gorro ao atendente sem tê-lo usado.
      De 4.a feira 29/10 a 6.a feira 31/10 fui conhecer alguns projetos sociais em Katmandu e alguns pontos da cidade que não tinha visto. Fui conhecer projetos referentes a pessoas tentando livrar-se da dependência química, creches e educação de crianças e apoio a mulheres (https://www.etc-nepal.org). Neste último ofereceram-me uma refeição. Eu comi um pouco para não gerar aborrecimentos, apesar de ter carne (se bem me lembro era frango) e especiarias. Mas conhecendo ocidentais, eles me disseram para não comer se percebesse que meu organismo não assimilaria bem. Nestes dias aproveitei para jantar Dal Bhats, que estavam um pouco apimentados, e algumas comidas locais.
      Conheci uma inglesa que parecia muito ingênua. Tinha pago preços bem superiores por água mineral e estava prestes a contratar uma excursão também por preços mais altos. Porém percebi que ela não conseguia se virar sozinha com itens básicos. Então achei melhor deixá-la ser tutelada pelo pessoal do hotel, pois nas opções mais baratas a pessoa geralmente precisa fazer muitos procedimentos por conta própria, algo para que talvez ela não estivesse preparada. Aí provavelmente não valeria a pena a economia e faria com que a viagem dela não fosse agradável.
      No sábado 01/11 fui a Swayambhunath, que havia sido a stupa de que mais tinha gostado. Lembro-me de alemães indo visitá-la enquanto eu descansava no início da escadaria. Uma vendedora começou a acompanhar os alemães e um deles ficou para trás, deu dinheiro para ela e pediu cordialmente que os deixasse fazer a visita sem importunação. Meditei, apreciei a paisagem e me despedi de Katmandu.
      No domingo 02/11 saí no fim da manhã rumo ao aeroporto. Fui caminhando. Passei por um restaurante simples e comi momos, que estavam muito bons. Comprei também queijo de iaque, que achei maravilhoso 🧀. Cheguei ao aeroporto antes do horário e estava pronto para embarcar. Porém, parecia haver algum problema. Eu precisava sair na hora, pois tinha uma conexão em Nova Déli e outra em Mumbai. O avião deveria sair no fim da tarde e não tinha saído até o início da noite. Minha conexão provavelmente já estava perdida. Então fomos embarcados, porém somente jantamos e voltamos à sala de embarque. Foi bem confuso e houve bastante reclamação no aeroporto por parte dos passageiros. Por volta de 23h foi chamado novo embarque. Porém aí eu já havia perdido a conexão. Falei com o pessoal da Companhia Royal Nepal Airlines e me disseram que se não tinha um visto indiano era melhor não embarcar. Disseram que me dariam hospedagem e tentaríamos outro voo nos dias seguintes. Aceitei e fui para o Hotel Annapurna (https://annapurna-hotel.com) que indicaram. Era um dos mais luxuosos de Katmandu, onde ficavam políticos. Fiquei até com medo de atentados, dada a situação política. Chegamos lá no começo da madrugada e fui dormir.
      Na semana de 03/11 a 08/11 fiquei tentando pegar um voo de volta. Inicialmente fui ao escritório da companhia aérea para tentar remarcar minha passagem. Disseram que estavam com problemas para fazê-lo, pois minha passagem não era remarcável, provavelmente devido ao baixo preço que havia pago. Fomos ao aeroporto em dois ou três dias durante a semana e ocorreu exatamente o mesmo problema, o avião atrasou e eu não fui. Um gerente disse-me que estavam com problemas no flap de um dos aviões, o que estava acarretando aquela situação. Precisei voltar ao escritório da Cia todas as vezes que perdi o voo. A atendente já parecia bem constrangida e nem sabia mais como me pedir desculpas. Havia também outros passageiros com o mesmo problema, mas acho que depois de algumas vezes eu passei a ser o mais antigo. Ficou clara para mim a precariedade da companhia, apesar da boa vontade das pessoas. Eu fiquei no hotel assistindo televisão, pois não podia me ausentar, posto que poderiam a qualquer momento pedir para eu ir ao aeroporto ou ao escritório. Tinha direito a todas as refeições gratuitamente. Apesar do clima já estar um pouco frio, lembro-me de ter nadado em pelo menos um dos dias. Quando sabia que num determinado horário não tinha possibilidade de voo às vezes saía um pouco para dar uma volta. Cometi o erro de deixar o queijo de iaque fora da geladeira, o que não o estragou, mas fez com que começasse a exalar um forte cheiro.
      No sábado 08/11 o gerente veio buscar-me para tentarmos novamente um lugar no avião, mas já me avisou que provavelmente teríamos o mesmo problema. Desta vez porém, quando chegamos ao aeroporto, descobri que existia um voo direto para Mumbai, que já deveria ter saído, mas estava atrasado. Isso me deu esperança, pois se me recordo meu voo de Mumbai para Joanesburgo saía por volta de 2 horas da manhã. Conversei com o gerente da Royal Nepal Airlines e ele me disse que precisaria ser verificada a questão financeira, pois um bilhete para Mumbai era mais caro do que para Nova Déli. Ponderei para ele o tempo que já estava esperando, as tentativas infrutíferas que tínhamos tido e o custo da hospedagem que estavam pagando para mim. Novamente houve grande confusão entre os passageiros devido ao atraso. Vários passageiros que já estavam esperando há dias para embarcar fizeram um bloqueio e impediram que houvesse outros embarques antes que o voo para Mumbai fosse autorizado. Chegaram a lutar fisicamente com os funcionários do aeroporto 👊. Eu estava na sala de espera da Cia e não vi, mas um outro turista estrangeiro que havia conhecido contou-me o ocorrido. Quando tudo parecia encaminhado para eu finalmente conseguir voltar para o Brasil, apareceu um russo e sugeriu que fosse invertida a ordem dos voos, indo o avião primeiro para Nova Déli, que era mais perto, e depois regressando e indo para Mumbai. Isso me faria perder a conexão em Mumbai. Porém havia tantas pessoas já esperando há horas no aeroporto e talvez dias na cidade, que a proposta não foi bem recebida pelos passageiros e a ordem dos voos foi mantida. Enquanto esperava na sala da Cia repentinamente desapareceram os funcionários. A seguir chegaram pessoas da segurança e da imprensa. Talvez tivesse havido alguma reclamação mais fundamentada e tivessem vindo para responsabilizar ou até prender algum responsável. Mas não acharam ninguém. Quando eu encontrava alguém mais exaltado no corredor sempre dizia “Eu sou passageiro”. Num dado momento tirei a carteira do bolso para mostrar ao gerente meu cartão de membro da Star Alliance, através da Varig, argumentando com isso que tinha direito a embarque prioritário nas companhias parceiras. Mas acho que da primeira vez ele achou que eu estava tentando suborná-lo e acenou negativamente com a cabeça, antes de eu mostrar o cartão. Mais adiante, depois que percebi a interpretação que ele tinha feito, tirei novamente a carteira do bolso, mostrei-lhe o cartão e expliquei sobre a Star Alliance e embarque em parceiras. Mas ele disse que naquelas circunstâncias não era válido, além do que eles não faziam parte da Star Alliance. Já perto das 8 horas da noite, quando eu já estava ficando preocupado e achando que não chegaria a tempo a Mumbai, chegou o seu auxiliar e me disse afoitamente “Ok, ok, cadê seu passaporte, sua bagagem, vamos embarcar”, como se eu já soubesse que tinham me autorizado a ir. Eu nem acreditei 😀. Será que desta vez conseguiria? Consegui. Embarquei no voo para Mumbai, o voo decolou por volta de 9 horas e chegou antes da meia noite. Realmente a Cia parecia precária. No pouso, pareceu que o comandante socou o avião no chão, tanto que um passageiro francês comentou sarcasticamente, quando ele ia falar aos passageiros pelo alto-falante após o pouso, “Antes de mais nada desculpe pelo pouso”. Mas o comandante não falou isso 😀. Quando disse em Mumbai que tinha vindo pela Royal Nepal Airlines, uma funcionária do aeroporto fez gesto de reprovação com a cabeça como quem diz “Sai dessa amigo!”. Esperei pela conexão, dei meu número de membro da Star Alliance para o atendente, que o marcou erradamente, tentei descansar um pouco e embarquei sem problemas pela South Africa Airways (SAS) para Joanesburgo.
      No domingo 09/11 pela manhã desembarquei em Joanesburgo. Tudo parecia resolvido e bastava esperar pelo embarque para São Paulo. Quando fui passar pelo balcão para fazer a conexão, o atendente me disse que havia sido feito uma atualização na passagem não permitida e eu teria que pagar aproximadamente US$ 720.00. Isso significava pagar quase a metade do valor da passagem por uma remarcação para um trecho de menos de ¼ (25%) da distância 💲. Eu achei inaceitável. Argumentei com o atendente que a responsabilidade pela remarcação não era minha, pois o avião não tinha decolado por várias vezes. Mas ele me disse que a SAA não era responsável por outras cias aéreas. Eu repliquei que tinha sido a SAA que tinha emitido o bilhete e portanto alguma responsabilidade ela tinha. Como a conversa estava se prolongando e esquentando, ele mudou totalmente de postura e disse que não queria me onerar e eu estava liberado da taxa. Eu agradeci, fui para o embarque e voltei para São Paulo. Após desembarcar decidi passar no controle de itens a declarar devido ao queijo de iaque que havia comprado. O atendente pediu para eu esperar e foi chamar o fiscal, que ao ver o queijo disse que eu não poderia entrar com ele, embora tenha permitido que eu comece um pouco ali. Talvez o cheiro que ele estava exalando tenha ajudado na decisão. Eu fiquei decepcionado e perguntei se iria ser jogado fora mesmo, pensando no desperdício ☹️, O fiscal perguntou se eu estava insinuando algo e me falou rispidamente que era melhor eu ir embora. Eu fui, mas o queijo foi apreendido por razões sanitárias (não era permitido entrar no Brasil com comidas não industrializadas).
    • Por rafael_santiago
      Pico Moditse visto do Campo Base do Annapurna ao amanhecer
      Início: Kande
      Final: Nayapul
      Duração: 12 dias
      Maior altitude: 4121m no Campo Base do Annapurna
      Menor altitude: 1004m entre Birethanti e Nayapul junto ao Rio Modi
      Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis de 340m a 1680m diários, ultrapassando os 3000m, o que exige cuidado com a aclimatação
      Permissões: permissão ACAP (Rs 3000 = US$ 26,04) e TIMS card (Rs 2000 = US$17,36), ambos obtidos no Tourist Service Center em Kathmandu
      Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.
      Este trekking foi uma combinação de dois roteiros a partir da cidade de Pokhara, a noroeste de Kathmandu: Campo Base do Annapurna e Poon Hill. Os dois roteiros são extremamente populares e lotam completamente na alta temporada de outubro e novembro, por isso deixei para fazê-los na virada de novembro para dezembro.
      O trekking do Campo Base do Annapurna (ABC, na sigla em inglês), ou Santuário Annapurna, sai de uma altitude de 1710m em Kande e percorre florestas de rododendros e muitos vilarejos antigos com suas plantações em terraços para somente no 5º dia entrar numa paisagem de alta montanha onde se encontram os campos base das montanhas Machapuchare e Annapurna, numa altitude máxima de 4121m. Este trekking percorre altitudes bem mais modestas que o trekking do Campo Base do Everest e por isso é uma boa opção para o início de dezembro, quando as temperaturas já caíram bastante em relação a outubro e novembro. Outro fator que me levou a fazer esse trekking em dezembro, como disse, foi fugir da lotação da alta temporada. Algumas vilas do caminho têm uma oferta bem pequena de hospedagem e mesmo em dezembro tive que dividir o quarto com outras pessoas pois alguns lodges estavam lotados.
      O trekking Poon Hill sai de uma altitude de 1022m em Nayapul e percorre também muitos vilarejos e infinitas escadarias de pedras para alcançar a vila de Ghorepani (2874m) e sua famosa atração, a colina Poon Hill, de onde se tem uma das vistas mais espetaculares de toda a região do Annapurna e do Himalaia. Há uma conexão por trilhas entre esses dois bonitos trekkings, Campo Base do Annapurna (ABC) e Poon Hill, e nessa conexão eu fiz o trekking Poon Hill ao contrário do descrito acima (de Ghorepani a Nayapul). Para quem dispõe de tempo para combinar os dois roteiros e não quer se arriscar caminhando muitos dias numa altitude acima dos 4000m no Everest essa é uma excelente opção. Toda a região abrangida por esses dois trekkings é uma área de proteção e está sob a administração do ACAP (Annapurna Conservation Area Project).
      Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.
      No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".
      As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são:
      . Australian Camp: NCell
      . New Bridge: NCell
      . Chomrong: NCell só na parte alta da vila
      . Sinuwa: NCell
      . Bamboo: NCell
      . Dovan: Sky Cdma
      . Himalaya: Sky Cdma
      . Deurali: Sky Cdma
      . Campo Base do Machapuchare: Sky Cdma
      . Campo Base do Annapurna: Sky Cdma
      . Ghandruk: NCell (internet muito lenta)
      . Tikhedhunga: NCell
      Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).
      Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente.

      Cânion do Rio Modi
      23/11/18 - ônibus de Kathmandu a Pokhara
      No dia anterior (22/11) eu havia comprado a passagem de ônibus para Pokhara numa agência da IME Travels, na Avenida Kantipath, bem perto do bairro do Thamel onde eu estava hospedado, com a doce ilusão de que o ônibus sairia dali mesmo (saíam até julho de 2018). Mas depois a atendente me falou que ali agora era só um escritório, os ônibus saem mesmo de um lugar chamado Sorhakhutte. Felizmente não é longe do Thamel também, dá para ir a pé em cerca de 15 minutos (a partir do Hotel Discovery Inn onde eu estava). Ela me vendeu uma passagem da empresa Reed Travels & Tours. Esse é um ônibus "turístico", não é um ônibus local. O ônibus local não me foi recomendado pois trafega em alta velocidade pelas estradas e os motoristas são muito imprudentes. Ele é mais barato, mas a diferença de preço é pequena e não compensa o risco.
      Nesse dia 23/11 cheguei ao Sorhakhutte e me deparei com uma fila enorme de ônibus estacionados na calçada da Rua Swayambhu Marg. São muitas empresas diferentes fazendo esse trajeto a Pokhara. Tive que perguntar para várias pessoas e o ônibus da empresa Reed era um dos últimos. Foi o primeiro ônibus grande em que viajei no Nepal (por ser um ônibus "turístico"). Todos partiram às 7h. Felizmente o percurso é todo em asfalto, sem aquele terror de ficar pulando e chacoalhando dentro de um ônibus minúsculo, como foi no Langtang e em Shivalaya.
      A passagem que comprei de Rs700 (US$6,08) era num ônibus sem banheiro, mas há ônibus com banheiro também. São feitas duas paradas no caminho, com banheiros e fartura de comida para quem quiser almoçar. Esse que peguei oferecia uma garrafa de água mineral aos passageiros.
      Chegamos a Pokhara às 15h, no terminal Tourist Bus Park. Como Pokhara é uma cidade grande (a segunda maior do Nepal), pesquisei antes pela internet alguma hospedagem para ir direto e não ficar procurando hotel com a cargueira nas costas. Optei pelo Harry Guest House. O quarto com banheiro privativo saía por apenas Rs700 (US$6,08). Seguindo o gps caminhei do terminal até o Harry em 27 minutos (1,9km). A localização é muito boa, numa avenida central do bairro Nareshwor com várias opções de restaurante e bastante comércio. O centro de Lakeside Norte, o bairro mais turístico, com restaurantes, cafés, livrarias e mercadinhos fica a 550m do hotel. O Harry dá toda a informação necessária sobre trilhas na região do Annapurna e passeios na cidade. Ele me sugeriu que iniciasse o trekking do Campo Base do Annapurna por Kande e não por Phedi pois teria um visual muito bonito das montanhas em Australian Camp.
      Pokhara, mesmo sendo a segunda mais populosa do Nepal, é uma cidade bem mais simpática e tranquila que a caótica e poluída Kathmandu. O Lago Phewa dá um clima mais gostoso à cidade, que é frequentada por muitas "tribos" diferentes.

      Algumas das montanhas vistas a partir de Australian Camp: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II e Asapurna
      1º DIA - 24/11/18 - de Kande a Australian Camp
      Duração: 1h10 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2046m
      Menor altitude: 1706m
      Resumo: nesse dia encarei a primeira subida da caminhada, mas num desnível de apenas 340m pois parei na vila Australian Camp para ter pela manhã a bonita vista das montanhas Annapurna e Machapuchare. À tarde as nuvens já não deixavam ver nada.
      Saí do Harry Guest House às 8h10 na direção leste pela Avenida Phewa Marg. Caminhei 21 minutos até um local chamado Zero Kilometer. Ali esperei o ônibus para Kande (eles pronunciam káre) na calçada da esquerda (lembrando que no Nepal a mão é inglesa) da Avenida Pokhara-Baglung. Como os ônibus têm as placas escritas somente em nepalês pedi ajuda a alguns homens que estavam ali conversando. Esperei 24 minutos e às 8h55 eles pararam o ônibus certo para mim, que já veio lotado, mas depois foi esvaziando e pude sentar.
      O ônibus, após deixar a cidade, sobe bastante por estradas ruins de asfalto. Saltei em Kande às 10h33 e era o ponto final desse ônibus (há outros que continuam para outros vilarejos à frente). Logo fui abordado por algumas mulheres dizendo serem refugiadas tibetanas, contando histórias, para depois oferecerem (e insistirem para comprar) o artesanato que faziam.
      Aproveitei para comer alguma coisa ali mesmo pois há alguns restaurantes e a comida dali para a frente na trilha só iria aumentar de preço.
      De Kande já é possível avistar no alto de uma serra ao norte-nordeste um dos lodges e algumas barracas de Australian Camp. Coloquei o pé na trilha às 11h10. O início, no meio dos casebres da estrada, está sinalizado com uma placa do ACAP. Altitude de 1710m. Segui na direção norte e noroeste por trilha que aos poucos foi se transformando numa estradinha de terra. Na primeira bifurcação havia placa apontando para a esquerda, mas na segunda não havia placa apontando para a trilha à direita da estrada, que é um atalho. Na subida pela trilha quem eu encontro? O casal húngaro Zita e Daniel, que conheci em Bhandar e reencontrei várias vezes no trekking do Everest. Eles não haviam pago as permissões para o trekking do Annapurna pois não tinham intenção de fazê-lo completo, foram apenas até Pothana, onde está o primeiro check post do ACAP. Ao final dessa trilha-atalho entronca à esquerda a estrada que abandonei alguns minutos antes. Uns 150m acima a estrada vira trilha.
      Esse trekking será repleto de escadarias de pedra e elas começaram a aparecer já nesse primeiro dia. Apareceu também pintada nas árvores uma sinalização de duas faixas horizontais em branco e vermelho, como nas trilhas GR da França, mas ela seria bastante esporádica nesse trekking. Às 12h31 fui à esquerda numa bifurcação com placa e cheguei a Australian Camp às 12h47. Apesar de muito cedo, resolvi parar para dormir ali pois diziam que o visual das montanhas era incrível e naquele horário as nuvens já não deixavam ver nada.
      Percorri os quatro lodges do vilarejo e só o Machapuchare Lodge tinha vaga. Era um sábado e dezenas de adolescentes nepaleses lotavam os lodges. Algumas pessoas estavam acampadas também. Como estava tudo cheio não tive muita margem de negociação no preço do quarto, que saiu por Rs250 (US$2,17). O banheiro ficava numa varanda nos fundos, exposto ao frio à noite. Tinha ducha a gás, vaso sanitário com descarga acoplada e lavatório sem torneira.
      Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte.
      Altitude em Australian Camp: 2046m
      Preço do dal bhat: Rs 500 (o dobro do preço de Pokhara já no primeiro vilarejo)
      Preço do veg chowmein: Rs 350

      Pico Machapuchare (Fish Tail) visto de Australian Camp
      2º DIA - 25/11/18 - de Australian Camp a New Bridge
      Duração: 5h40 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2150m
      Menor altitude: 1378m
      Resumo: nesse dia subi por bosques até a vila de Pitam Deurali (desnível de 104m) e desci por trilhas e estradas de terra toda a encosta da margem esquerda do Rio Modi até cruzá-lo (desnível de 772m)
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,1ºC. Às 7h50 da manhã estava 11,8ºC.
      De manhã vi que valeu a pena ter parado em Australian Camp. O visual dos grandes picos do Himalaia é realmente fantástico. De norte para nordeste: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II, Asapurna,
      Gangapurna, Machapuchare (Fish Tail), Annapurna IV, Annapurna II (16º mais alto do mundo) e Lamjung Himal.
      Saí do lodge às 9h27 na direção norte e às 9h40 fui à esquerda na bifurcação, subindo. Apenas 4 minutos depois entroncou à direita a trilha que vem de Dhampus e Phedi, rota que eu originalmente ia fazer. Ali apareceu a sinalização do ACAP em forma de um poste metálico com placas dando as boas-vindas ao vilarejo e apontando os seguintes com o tempo de percurso. Às 9h54 cheguei à vila de Pothana, com lodges também, e fui parado no check post do ACAP para mostrar as permissões obtidas em Kathmandu (permissão ACAP e TIMS card). Um cartaz ali informa todos os tempos de caminhada entre os vilarejos e isso foi bastante útil para eu planejar a caminhada de cada dia. Há painéis sobre a trilha da montanha Mardi Himal também. Na saída de Pothana uma linda vista das montanhas, muito parecida com a de Australian Camp mas agora um pouco obstruída pela vegetação.
      Às 10h21 fui à direita numa bifurcação com placa apontando Pitam Deurali e desci, cruzando uma estrada de terra. Subi um pouco por uma mata e uma segunda placa causou alguma dúvida pois apontava Landruk tanto em frente quanto à esquerda. Fui em frente (parece que à esquerda se chega a Landruk por estrada). Tangenciei uma estrada duas vezes, passei pelo ponto mais alto do dia (2150m) e cheguei a Pitam Deurali às 11h05, parando para muitas fotos pois o vilarejo fica numa crista com linda vista para Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Asapurna II, Asapurna, Gangapurna e Machapuchare (de norte para nordeste). Avistei pela primeira vez também o pico Dhaulagiri, 7º mais alto do mundo, que só voltaria a ver em Poon Hill, nos últimos dias desse trekking. E tive a primeira visão do vale do Rio Modi, bastante profundo, com o rio correndo cerca de 900m abaixo desse vilarejo.
      De Pitam Deurali sai a trilha para o campo base da montanha Mardi Himal, mas é preciso aclimatar ou já estar aclimatado pois ele está a 4500m de altitude. Num dos lodges vi pela primeira vez um dos painéis pintados a mão com um croqui da região e o tempo de percurso entre um vilarejo e outro. Esse tipo de painel de orientação aos trilheiros se tornaria muito comum dali em diante. A verdade é que não são muito precisos e os tempos variam de um para o outro.
      Seguiu-se uma longa e íngreme descida por escadarias de pedra que terminou às 12h05 numa estrada de terra, onde fui para a direita seguindo a placa de Tolka e Landruk. Passei pela minúscula Bherikharka, desci até uma ponte suspensa com piso de tábuas e subi à vila de Tolka, onde parei num dos primeiros lodges às 12h28 para almoçar um veg egg fried noodles no Popular Tourist Guest House com uma bonita vista do vale do Rio Modi.
      Retomei a caminhada às 13h10 pela estrada ainda (logo passou um jipe) e passei por mais casas e lodges do vilarejo. Às 13h24 fui à direita na bifurcação da estrada e 5 minutos depois subi numa trilha à direita com placa apontando Landruk. Passei pelo Ram Lodge e desemboquei na estrada de novo, indo para a direita e passando por mais um núcleo de casas da vila de Tolka. Cerca de 160m após essas casas desci uma escadaria à esquerda na direção do Lodge Sanctuary, abandonando por ora a estrada e tomando um atalho. Na descida em direção a um rio passei por uma sequência de lodges e fui à esquerda na bifurcação em T para evitar caminhar pela estrada. Cruzei a ponte suspensa com piso de tábuas às 14h06 e subi à esquerda até a estrada, onde fui para a esquerda. Passei por uma cachoeira à direita e depois por várias casas espalhadas pela estrada, com muitas plantações em terraços na encosta da margem esquerda (verdadeira) do Rio Modi.
      Às 14h41 desprezei uma placa apontando Chomrong e ABC à esquerda e continuei na estrada, mas 8 minutos depois subi uma escadaria de pedra à direita com placa "way to Landruk ABC", que me levou a uma ponte de concreto e uma trilha acima da estrada. Cheguei a Landruk às 14h55. Há muitos lodges ali e todos os donos/donas oferecem hospedagem, mas eu passei direto pois queria caminhar até o fim do dia. Cruzei o final da estrada por onde vinha caminhando e vi ali alguns jipes estacionados que devem ser jipes compartilhados com destino a Pokhara. A vila se espalha pela encosta da montanha e desci bastante por escadarias de pedra entre lodges.
      Às 15h10 fui à direita numa bifurcação com placa onde à esquerda se vai a Ghandruk (Ghandrung). Em 6 minutos desci a uma ponte suspensa de tábuas, mas ali tive uma emergência intestinal. Não sei se pela água estranha desse lugar, pelo óleo usado para cozinhar ou se comi algo estragado, mas a diarréia veio com tudo e tive que correr para o mato - felizmente havia mato... A água nesse trekking tem uma camada de óleo quando colocada na caneca para ferver, algo bem suspeito. Refeito da correria parei no riacho para comer alguma coisa. Continuei descendo às 15h39 e fui à direita numa bifurcação sem placa, passando por baixo de uma tubulação e entrando na mata ciliar do Rio Modi. Às 16h07 cruzei uma ponte suspensa mas antes desviei alguns metros à direita para fotografar uma bonita cachoeira no meio da mata.
      Descendo mais me aproximei da margem esquerda do Rio Modi, cujo vale era muito profundo quando o avistei pela primeira vez em Pitam Deurali. Ele é um importante rio da região e o seguirei até próximo de suas nascentes nos glaciares do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). Ali a menor altitude do dia, 1378m. Atravessei sua mata ciliar, cada vez mais exuberante. Às 16h36 passei pela pequena vila de Himal Pani (com uma cachoeira) e cruzei a grande ponte suspensa sobre o Rio Modi, passando definitivamente para sua margem direita. Fui à direita ao final da ponte e à direita na bifurcação seguinte onde à esquerda se vai a Sewai, segundo a placa caída. Passei rapidamente por um deslizamento na encosta íngreme e cheguei à vila de New Bridge às 16h58.
      Perguntei nos três lodges que há ali e o melhor preço que consegui foi Rs100 (US$0,87) pelo quarto, no New Bridge Guest House. O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene dos nepaleses já que eles não usam papel higiênico. A ducha a gás custava Rs100 (US$0,87). Para escovar os dentes havia torneiras na frente e nos fundos do lodge. Havia tomada no quarto, algo que eu só iria encontrar de novo em Ghandruk, no 8º dia da caminhada.
      Altitude em New Bridge: 1465m
      Preço do dal bhat: Rs 480
      Preço do veg chowmein: Rs 350

      A mais longa ponte suspensa que cruzei numa trilha no Nepal (em Samrung, entre New Bridge e Jhinu)
      3º DIA - 26/11/18 - de New Bridge a Sinuwa Alta
      Duração: 4h45 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2328m
      Menor altitude: 1465m
      Resumo: nesse dia comecei a percorrer a encosta da margem direita do Rio Modi, como faria nos quatro dias seguintes. Subi até a vila de Chomrong (desnível de 763m), desci ao Rio Chomrong (desnível de 346m) e subi de novo a Sinuwa Alta (desnível de 446m)
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,3ºC. Às 7h50 da manhã estava 12,9ºC.
      De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse e Hiunchuli ao norte.
      Saí do lodge às 8h56 subindo na direção noroeste. Aos poucos fui passando (apenas temporariamente) do vale do Rio Modi para o do Rio Kimrong, afluente da margem direita do Rio Modi. Às 9h23 avistei uma ponte suspensa enorme, a mais longa de todas que já tinha visto no Nepal. Era tão alta que torci para não ter que cruzá-la. Em 3 minutos cheguei à minúscula vila de Samrung, com poucas casas, nenhum lodge e muitas plantações em terraço.
      Ao passar por baixo da longa ponte vi uma placa apontando Jhinu, meu próximo destino, na direção da cabeceira do vale do Rio Kimrong e fiquei aliviado. Mas quis confirmar o trajeto com um rapaz carregador que estava ali perto e ele apontou Jhinu do outro lado da ponte, aquela placa indicava um caminho antigo. Não teve jeito, tive que enfrentar o medo de altura e cruzar a tal ponte, que devia ter mais de 250m de comprimento, com o Rio Kimrong láááá embaixo. Do outro lado subi à vila de Jhinu, aonde cheguei às 10h12. Há seis lodges. Não me interessei em descer até as águas termais porque seria uma penosa subida de volta. Na saída da vila passei por uma placa de "safe drinking water", que é um programa do ACAP de disponibilizar água tratada para os trilheiros e diminuir assim a poluição ambiental com garrafas plásticas, porém o preço do litro não é um grande incentivo (entre Rs100 e Rs130 = US$0,87 e US$1,13).
      De Jhinu a Chomrong as escadarias de pedra vieram com tudo e para quebrar os joelhos mesmo. De tantos relatos que eu li antes dessa viagem nenhum enfatizava isso: as escadarias de pedra são de matar! Um ou dois bastões são imprescindíveis para distribuir o peso e não arrebentar os joelhos.
      Cheguei às primeiras casas de Chomrong às 11h26 e parei para descansar por meia hora. Dali se avistava a nordeste o Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Mardi Himal. Nesse local há uma bifurcação, onde fui para a direita nesse dia (para Sinuwa); na volta eu tomaria a direção de Ghandruk, que é a trilha da esquerda nesse momento. Retomando a caminhada, subi mais escadarias e a visão se abriu também para o pico Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) ao norte.
      Atravessei mais um grupo de lodges, depois uma pequena mata e cheguei à parte mais alta de Chomrong. A partir daí é uma descida beeem longa passando por muitos lodges e com uma paisagem estonteante do vale e das montanhas mencionadas. Chomrong tem um total de 14 lodges! Parei às 12h33 para almoçar no Lucky Guest House e o veg egg fried noodles estava salgado demais. Voltei à caminhada às 13h13 e continuei descendo. Passei direto pelo check post do ACAP porque não estava com paciência de tirar as permissões de dentro da mochila.
      Às 13h37 passei por uma vendinha que se autointitula trekkers wholesale store e existe desde 1981, mas com preços caros como qualquer outra da região. Por ali deu para notar a grande extensão dos campos cultivados em terraços desse vilarejo. Às 13h44 fui à direita numa bifurcação e 2 minutos depois à esquerda em outra bifurcação, ambas com placa "ABC". As últimas casas de Chomrong foram ficando para trás e às 14h02 a descida terminou na ponte suspensa sobre o Rio Chomrong, outro afluente da margem direita do Rio Modi. A má notícia é que agora começava uma outra escadaria sem fim, desta vez para cima.
      Subi feito um pagador de promessa, passei pela minúscula Tilche com suas plantações em terraços e parei às 14h40 na frente de um lodge em Sinuwa Baixa (Bhanuwa) para descansar por 12 minutos. Continuei a subida e a escadaria só terminou em Sinuwa Alta às 15h38. A vila de Bamboo ainda estava 1h30 à frente e resolvi parar ali mesmo. Há apenas três lodges em Sinuwa Alta. Perguntei no Sinuwa Lodge e a dona me fez o quarto de graça desde que eu fizesse as refeições ali. O banheiro era no estilo oriental e fora da casa, exposto ao frio. Havia uma torneira na frente do banheiro para escovar os dentes e se lavar. A ducha a gás custava Rs200 (US$1,74) e a carga de baterias Rs100 (US$0,87). Para meu espanto havia ao lado do banheiro uma lavadora de roupa LG - como aquilo foi carregado até aquela lonjura?
      Num dos outros lodges de Sinuwa Alta vi pela primeira vez um dos purificadores de água de osmose reversa doados por uma empresa do Texas, também na tentativa de diminuir o lixo plástico nas trilhas e povoados. O litro custava Rs100 (US$0,87).
      Na hora do jantar conheci dois holandeses que estavam caminhando com uma espanhola e também um casal chinês. Todos eu iria reencontrar nos lodges dali em diante. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a quantidade de coreanos na trilha. Muitos lodges têm inclusive pratos coreanos no cardápio, ou seja, eles devem ser habitués mesmo nesse trekking.
      Altitude em Sinuwa Alta: 2328m
      Preço do dal bhat: Rs 540
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Macaco langur na trilha
      4º DIA - 27/11/18 - de Sinuwa Alta a Deurali
      Duração: 5h40 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3195m
      Menor altitude: 2281m
      Resumo: nesse dia continuei a subir pela encosta da margem direita do Rio Modi, porém agora por agradáveis bosques. Na vila de Deurali, acima dos 3000m de altitude, começou a aparecer a neve.
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,4ºC. Às 6h45 da manhã estava 13,5ºC.
      De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste.
      Saí do lodge às 8h35 na direção nordeste ainda pela encosta da margem direita (verdadeira) do Rio Modi. As plantações em terraço de agora em diante dão lugar à mata nativa e a caminhada se torna bastante prazerosa, com algumas fontes de água pelo caminho (que deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia"). Despontam no meio do bosque os rododendros, porém sua bonita floração só acontece em março e abril. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Mas para desespero geral as longuíssimas escadarias de pedra voltam à cena, neste momento descendo (e já penso como será a volta...).
      Pouco antes da vila de Bamboo há um pequeno templo de pedra com bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais. Um fato curioso: ali duas grandes placas advertem para que os caminhantes não carreguem carne nessa área de Sinuwa a ABC por ser um lugar sagrado, chamado por isso de Santuário Annapurna (mais curioso é que carne de bode e de carneiro pode...). Caso contrário calamidades naturais e acidentes pessoais podem ocorrer! Nessas placas a menor altitude do dia, 2281m. Passei por Bamboo às 10h, com cinco lodges.
      A trilha percorre a sombra da mata novamente. Cruzei uma ponte de troncos e na segunda ponte de troncos, às 10h27, parei por meia hora para descansar e comer alguma coisa. O trecho seguinte tem mais fontes de água. Cheguei a Dovan às 11h35 e a primeira vista da vila com o cume nevado do Machapuchare ao fundo lembrava uma bela paisagem dos Alpes. Passei pelos três lodges de Dovan e após cruzar mais alguns riachos parei em Dovan Alto às 11h58 para almoçar um egg veg fried noodles. Continuei pela mata às 12h41. Vários riachos depois parei para fotografar um grupo de macacos langur que estava bem à vontade mesmo com a presença de um grande grupo de trilheiros que parou para observá-los. Exatamente no local onde eles estavam ficava outro pequeno templo de pedra repleto de lenços cerimoniais bem no meio da floresta. A placa na entrada da vila de Dovan alertava para não cuspir ou deixar lixo próximo a esse templo.
      Cerca de 170m após o templo a trilha bifurca e tanto faz o lado que se tome pois se encontram mais à frente, porém o lado da esquerda é uma escadaria que se pode evitar. Aliás a última das intermináveis escadarias! Ao sair da mata se tem uma bonita vista do Rio Modi com a vila de Himalaya pendurada na encosta à sua esquerda. Cheguei a Himalaya às 13h54 e há apenas dois lodges ali. Descansei por 15 minutos e continuei, agora por uma mata menos densa que permite ver enormes cachoeiras despencando do paredão na outra margem do Rio Modi.
      Numa bifurcação às 14h27 subi à esquerda pois a direita leva a uma casa logo abaixo. A mata vai ficando cada vez mais rala nesta altitude já passando dos 2900m e a vegetação passa a ser predominantemente de bambus. Às 15h15 cheguei à Gruta Hinku, na verdade apenas um abrigo rochoso, de onde se avista a vila de Deurali. No caminho adiante duas grandes cachoeiras despencam do paredão à esquerda. A primeira enche de lama um deslizamento de pedras, a segunda forma um rio que se cruza através de alguns bambus que servem como ponte, mas com muito cuidado pois logo à direita há uma queda-d'água.
      Após uma bonita cachoeira em degraus à esquerda da trilha, cheguei a Deurali às 16h, porém continuei até a parte mais alta da vila, onde está o Deurali Guest House, o último dos quatro lodges. Busco sempre os últimos lodges do vilarejo pois costumam ser mais vazios, a maioria dos trilheiros chegam cansados e param no primeiro lodge onde encontram vaga. No Deurali Guest House negociei o quarto de graça, mas o dono me avisou que eu talvez tivesse que dividir com alguém que chegasse mais tarde. O banheiro ficava fora e era no estilo oriental. Para escovar os dentes havia uma mangueira na frente do lodge, onde todo mundo passa. A ducha quente custava Rs250 (US$2,17) e a carga de baterias Rs200 (US$1,74). Um rolo de papel higiênico custava "só" Rs300 (US$2,60).
      Estavam hospedados ali também o casal holandês e a espanhola que conheci na noite anterior. Quando já caía a noite apareceu o chinês, mas estava sem a namorada. O dono do lodge mandou-o para o quarto onde eu estava. Ele se chamava Fei. Sua namorada voltou de Sinuwa para Bamboo pois as intermináveis escadarias fizeram estrago em seu joelho e ela não quis ir adiante. Foi a primeira vez que dividi o quarto com um total desconhecido durante as caminhadas no Nepal, mas isso iria se repetir nas noites seguintes. Imagino que durante a alta temporada (outubro) muita gente deve dormir no refeitório por falta de quarto. Nesse dia fiquei na expectativa de que o dono do lodge me procurasse no quarto a qualquer momento e não fervi o meu 1,5 litro de água para o dia seguinte (eles proíbem o uso de fogareiro no quarto porque tudo é de madeira, inclusive paredes e teto). Tive de usar o Micropur, que deixa gosto muito ruim na água.
      Nesse trekking do Annapurna e Poon Hill não me hospedei em nenhum lodge que tivesse o aquecedor a lenha ou esterco de iaque no centro do refeitório como nos trekkings do Everest e Langtang. O uso de lenha é proibido acima de Chomrong e iaques não há (eu não vi, pelo menos). O que se usa é um aquecedor a querosene embaixo da mesa comprida do refeitório, mas que só é aceso no inverno (a um custo de Rs200 = US$1,74 este de Deurali), ou seja, muito frio na hora do nosso jantar.
      Em Deurali havia bastante neve acumulada em alguns pontos, e até um pouco antes na trilha já havia manchas de neve também. Era possível ver também uma enorme área de neve na encosta deste lado do rio na direção do ABC e já fiquei pensando como seria atravessá-la no dia seguinte.
      Altitude em Deurali: 3195m
      Preço do dal bhat: Rs 620
      Preço do veg chowmein: Rs 480

      Campo Base do Annapurna e as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli
      5º DIA - 28/11/18 - de Deurali ao Campo Base do Annapurna (ABC)
      Duração: 4h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4121m
      Menor altitude: 3179m
      Resumo: nesse dia o vale do Rio Modi afunila bastante e com isso passo a caminhar mais próximo dele, subindo (um desnível de 942m) entre altos paredões com risco de avalanche. No Campo Base do Machapuchare a trilha dá uma guinada de norte para oeste e já se entra numa paisagem de alta montanha, acima dos 4000m de altitude.
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,2ºC. Às 6h55 da manhã estava 8,7ºC.
      Fei saiu bem cedo pois pretendia ir ao ABC e voltar a Bamboo, onde estava sua namorada, no mesmo dia. Calculou mal as distâncias e não conseguiu fazer tudo isso num dia só. Encontrei-o no meio do caminho para o Campo Base do Machapuchare (MBC, na sigla em inglês) já voltando, não chegou até o ABC.
      Saí do lodge às 8h40 na direção nordeste e desci até próximo da margem direita do Rio Modi. Aqui a trilha se aproxima do rio pois os altos paredões estão cada vez mais próximos e mais verticais, formando quase um cânion. Uma placa logo no início alerta para o risco de avalanches. O perigo é real, alguns trilheiros e guias já morreram vitimados pela neve que desceu da montanha Hiunchuli, invisível deste ponto profundo do vale. O risco é maior após nevascas e fortes chuvas. Ali a menor altitude do dia, 3179m. Havia várias manchas de neve ao lado da trilha e logo cheguei àquela grande área de neve que avistava do lodge (talvez restos de alguma avalanche). Apesar de haver um caminho bem marcado na neve algumas pessoas estavam passando com dificuldade, mas não achei tão complicado. O bastão ajuda a manter o equilíbrio pois pode-se escorregar na neve ou nas pedras molhadas embaixo dela.
      A primeira grande faixa de neve tinha cerca de 55m de comprimento, logo em seguida vinha outra de 30m, depois uma curtinha de 10m e mais à frente mais uma de 30m. Nesse trecho se avista o cume do Machapuchare à direita, numa fresta dos paredões, e é o ponto onde o trekking mais se aproxima dele. Na cabeceira do vale se destaca o Pico Asapurna.
      Às 9h53 cruzei mais uma faixa de neve, mas logo depois alcancei uma área ensolarada e tive de tirar todas as roupas quentes que vestia. Seguiu-se uma longa ladeira onde as poucas árvores que ainda havia desaparecem de vez pela altitude acima dos 3600m. No alto avistei o primeiro lodge do Campo Base do Machapuchare (MBC) com os picos Asapurna e Gangapurna à direita. Às 10h57 passei pela escadaria que dá acesso a esse lodge, Gangapurna Guest House, mas em vez de subi-la continuei pela trilha à esquerda. Esse lodge fica separado dos outros quatro desse vilarejo, que se encontram mais acima, numa altitude de 3697m. Passei por eles 12 minutos depois a caminho do ABC. A quantidade de neve acumulada aqui já é bem grande e na horta nem os repolhos resistiram ao frio. Nas montanhas ao fundo (nordeste) dos lodges do MBC ainda se avista o Gangapurna e agora já se vê à sua direita o Pico Annapurna III (42º mais alto do mundo). A sudeste começa a se destacar o Machapuchare. À frente já se veem Hiunchuli (sudoeste), Moditse (oeste) e Annapurna Fang (Bharha Chuli)(noroeste).
      Todo o ambiente ao redor agora é de alta montanha, com vegetação rasteira e nenhuma árvore. A altitude de 3697m do MBC e a elevação de mais 424m até o ABC levam muita gente a optar por passar a noite no MBC e ir ao ABC na manhã seguinte bem cedo, evitando assim eventuais problemas com a altitude. Eu já vinha de outros trekkings de maior altitude por isso não me preocupei tanto com a aclimatação neste. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia".
      O nome Campo Base do Machapuchare faz crer que há expedições de ascensão a essa montanha, porém ela foi escalada apenas uma vez em 1957 e os escaladores não chegaram a pisar no cume. Depois disso ela foi fechada pois é considerada sagrada para os hindus, associada com o deus Shiva.
      A subida em direção ao ABC continuou pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul, um dos formadores do Rio Modi. Entre o Annapurna III e o Machapuchare foi aparecendo o Pico Gandharwa Chuli a leste-nordeste. O Annapurna I começou a ficar visível a noroeste à medida que eu subia mas com o cume um pouco encoberto pelas nuvens. Ele é o 10º mais alto do mundo e estatisticamente a montanha mais perigosa que existe, mas continua sendo escalado.
      Às 12h39 alcancei finalmente as três placas que saúdam e parabenizam pela chegada ao Campo Base do Annapurna! Dali foi subir mais 5 minutos para chegar aos 4 lodges do ABC. Altitude de 4121m. Havia muita neve já endurecida acumulada aos redor dos lodges. Iacof, um dos holandeses, já estava hospedado no Snow Land Lodge e dividi o quarto com ele. O quarto saiu a Rs100 (US$0,87) para cada um. Os banheiros ficavam no fim da varanda aberta ao frio, estilo oriental os dois. Não havia uma torneira fora para escovar os dentes. Ducha a gás ou banho quente de balde por Rs350 (US$3,04). Embaixo da mesa comprida do refeitório também havia um aquecedor a querosene, mas usado só no inverno (taxa de Rs250=US$2,17).
      Almocei um dal bhat e à tarde fui ao mirante a 130m do lodge de onde se avista bem abaixo o enorme Glaciar Annapurna Sul, todo coberto de pedras, e onde há diversos memoriais a escaladores mortos naquelas montanhas, sendo talvez o mais famoso o do russo Anatoli Boukreev, falecido em 1997.
      Iacof não se importou que eu usasse o fogareiro dentro do quarto para ferver a minha água do dia seguinte. Pelo contrário, ele aceitou a minha oferta e encheu suas garrafinhas também. Afinal água quente naquele frio todo não era algo para se recusar.
      Às 17h30 estava 1,9ºC fora do lodge.
      Altitude no Campo Base do Annapurna: 4121m
      Preço do dal bhat: Rs 670
      Preço do veg chowmein: Rs 580

      Picos Gandharwa Chuli e Machapuchare com o pequeno Campo Base do Machapuchare abaixo
      6º DIA - 29/11/18 - do Campo Base do Annapurna a Himalaya
      Duração: 4h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4121m
      Menor altitude: 2847m
      Resumo: nesse dia iniciei a descida de volta a Chomrong para dali seguir para Ghandruk. De ABC a Himalaya o desnível foi de 1274m.
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 1,9ºC. Às 7h da manhã estava 3,7ºC. Às 7h15 fora do quarto estava 1,1ºC.
      O meu problema de insônia acima dos 4000m de altitude voltou e passei horas acordado esta noite. Esse é o único sintoma que tenho do Mal de Altitude (AMS, em inglês).
      Todos que estavam hospedados no Campo Base do Annapurna esperavam por esse momento: o amanhecer. Todo mundo saiu no frio de quase 0ºC às 6h30 da manhã para fotografar e admirar os primeiros raios do sol iluminando os picos do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). O dia amanheceu com céu limpo e o espetáculo foi incrível, a recompensa depois de 5 dias de caminhada subindo e descendo escadarias sem fim.
      Mesmo com o céu quase todo limpo o cume do Annapurna I (10º mais alto do mundo) não deu as caras essa manhã, escondido atrás de nuvens que não dissipavam. O panorama a partir do ABC era: Hiunchuli a sudoeste, Moditse a oeste, Annapurna Fang (Bharha Chuli) e Annapurna I a noroeste, Kangshar Kang (Roc Noir), Singu Chuli (Fluted Peak), Tarke Kang (Glacier Dome) e Tharpu Chuli (Tent Peak) ao norte, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli a nordeste e Machapuchare (Fish Tail) a sudeste.
      O profundo Glaciar Annapurna Sul parecia uma grande cicatriz interligando essas imensas montanhas. Além dos memoriais visitados no dia anterior, nesse dia encontrei um outro em homenagem a três coreanos mortos numa expedição em 2011. Depois me disseram que esse era o motivo de haver tantos coreanos percorrendo essa trilha. Talvez... Por volta de 10h começou o festival de helicópteros pousando na vila para os passageiros endinheirados fotografarem aquelas montanhas sem ter que dar nem um passo. E adivinha de onde era a maioria?
      Às 12h26 peguei minha mochila no lodge e iniciei a caminhada de volta a Chomrong e de lá rumo a Ghandruk, aonde chegaria dois dias depois. Desci pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul parando muitas vezes para fotos, passei por MBC às 14h02, voltei ao cânion do Rio Modi, passei novamente por aquelas cinco línguas de neve e alcancei Deurali às 15h53. A neblina chegou. Passei pela Gruta Hinku às 16h25, reentrei na mata de bambus e cheguei à vila de Himalaya às 17h. Dovan Alto ainda estava a 1h dali e tive de parar pois não daria tempo de chegar com luz do dia.
      O problema é que Himalaya tem apenas dois lodges e estavam quase lotados. Consegui um quarto sozinho por Rs200 (US$1,74) no Himalaya Guest House mas logo chegou um casal (ela francesa e ele italiano) e tive que dividir o minúsculo espaço pela terceira noite seguida. Mas eles não se importaram de eu acender o fogareiro no quarto para ferver a água do dia seguinte. O banheiro ficava fora do lodge, no estilo oriental e com ducha a gás por Rs200 (US$1,74). Não havia torneira no quintal para escovar os dentes. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs300 (US$2,60), mas o italiano disse que não funcionou nem à noite nem de manhã. Ali se dorme ouvindo o barulho forte do Rio Modi logo abaixo. O outro lodge se chama Himalaya Hotel, nomes bem criativos e diferentes (sqn).
      Altitude em Himalaya: 2847m
      Preço do dal bhat: Rs 620
      Preço do veg chowmein: Rs 480

      Vila de Dovan com o Pico Machapuchare ao fundo
      7º DIA - 30/11/18 - de Himalaya a Chomrong
      Duração: 5h40 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2847m
      Menor altitude: 1888m
      Resumo: nesse dia continuei o retorno descendo pela margem direita do Rio Modi até o Rio Chomrong e subindo até a vila homônima
      Às 7h45 da manhã estava 10,5ºC dentro do quarto.
      Apesar de já ter baixado 1274m desde o ABC, não dormi bem de novo. Passei horas acordado esta noite também.
      Saí do lodge às 9h16 na direção sudoeste ainda refazendo meus passos pela margem direita do Rio Modi. Reentrei na mata e reencontrei as escadarias. Passei por Dovan Alto às 10h23, por Dovan às 10h55 (com bonita vista do Machapuchare para trás) e parei às 11h56 nos primeiros lodges de Bamboo pois ali há sinal da NCell e eu precisava mandar mensagens para a família de que estava vivo. Por 44 minutos descansei e comi as bolachas que tinha na mochila (meu intestino ainda não estava bom, então não almocei). Continuei às 12h40. Após Bamboo vêm as piores escadarias. Na primeira, logo depois da vila, se sobe tanto que o Rio Modi acaba ficando bem distante, muito abaixo.
      Saí definitivamente da mata ao chegar a Sinuwa Alta às 14h28. Descansei por 8 minutos para enfrentar a interminável escadaria até o Rio Chomrong. Passei por Sinuwa Baixa (Bhanuwa) às 15h05 e às 15h31 a longa escadaria terminou na ponte suspensa do Rio Chomrong. Ali a menor altitude do dia, 1888m. Agora vinha a enorme subida para a vila de Chomrong, minha parada nesse dia. A vantagem de dormir ali é a farta quantidade de lodges, são 14. Cruzei com uma tropa de mulas pela primeira vez nesse trekking (no trekking Shivalaya-Namche elas eram um terror na trilha), mas iaque não vi nenhum.
      Subi bastante e ia passar direto pelo check post do ACAP às 16h14, mas um guia me chamou insistentemente para fazer o checkout. O guardinha não conferiu no livro se eu havia me registrado na ida. De tantos lodges quase vazios em Chomrong escolhi o Chhomrong Cottage, 3 minutos após o check post, e quem eu encontro hospedado lá? Fei, o chinês, agora com a namorada. Porém estava bem mal, com febre e diarréia líquida. Dei-lhe um Imosec e sais de reidratação oral que tinha na minha farmacinha, ele ficou muito agradecido.
      Negociei com a simpática dona do lodge o quarto por Rs100 (US$0,87) e ela ofereceu de graça a ducha quente, da qual eu necessitava muito. O banheiro era no estilo oriental no térreo e com vaso sanitário no primeiro andar, onde eu fiquei. Porém ambos no corredor aberto ao frio. Junto a eles um lavatório para escovar os dentes, coisa rara. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs200 (US$1,74).
      Altitude em Chomrong: 2159m
      Preço do dal bhat: Rs 520
      Preço do veg chowmein: Rs 400

      Picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli ao amanhecer em Chomrong
      8º DIA - 01/12/18 - de Chomrong a Ghandruk
      Duração: 4h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2261m
      Menor altitude: 1791m
      Resumo: nesse dia abandonei o trekking ABC e iniciei uma conexão por trilhas para o trekking Poon Hill. Essa conexão durou três dias e nesse primeiro dia fiz um desvio para o sul para conhecer a vila de Ghandruk. De Chomrong desci ao Rio Kimrong (desnível de 470m), subi até a vila de Komrong Danda (desnível de 430m) e desci novamente até Ghandruk (desnível de 224m)
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,9ºC. Às 7h10 da manhã estava 11ºC.
      Às 6h50 os primeiros raios de sol iluminavam os picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli, num lindo espetáculo. Me despedi do Fei e sua namorada pois iam até a vila de Matkyu tomar o ônibus para Pokhara. Saí do lodge às 9h28 na direção sul, subindo o restante das escadarias até a parte mais alta de Chomrong, onde consegui sinal da NCell para poder trocar mensagens. Desci em seguida passando pelos outros lodges da vila e cheguei às 9h50 à bifurcação para Ghurjung, Kimrong Khola (Kimrung Khola), Tadapani e Ghandruk à direita, com Jhinu à esquerda (de onde vim no 3º dia). Parei para tirar a roupa mais quente e segui à direita nessa bifurcação (rumo noroeste) cruzando muitos campos cultivados em forma de terraço. Uma outra alternativa para ir a Ghandruk seria tomar a esquerda na bifurcação, descer àquela ponte enorme do 3º dia, cruzá-la e tomar a trilha que sobe em frente e à esquerda, mas desconfio que esse caminho tem estradas (e eu odeio andar em estrada!)
      Num suave sobe-e-desce para oeste passei por duas fontes de água e às 10h54 subi uma escadaria (de novo não...) que terminou na frente de um lodge, iniciando logo a longa descida ao Rio Kimrong. Ali a maior altitude do dia, 2261m. Às 11h04 me deparei com uma bifurcação sem placa e fui para a direita, evitando a escadaria de pedras que descia à esquerda. Uns 50m depois outra trilha descendo à esquerda. Pensei em continuar à direita mas esperei um grupo que vinha na direção contrária chegar para perguntar. Me disseram que aquele caminho à direita ia para Ghurjung e depois Tadapani. Mas eu queria ir para Ghandruk primeiro, então deveria descer a escadaria da primeira bifurcação ou a trilha da segunda. Optei pela escadaria e voltei até ela, tomando-a para a direita. Mas logo os degraus acabaram e a trilha a seguir era de terra fina solta, uma poeira só! E claro que nessa hora surgiu do nada uma tropa de mulas para me atazanar. Não podia deixá-las passar pois iam me fazer comer muita poeira, então tive de acelerar a descida.
      Numa bifurcação mais abaixo fui à esquerda mas tanto faz pois logo se fundem os dois caminhos de novo. Avistei lá embaixo no Rio Kimrong a ponte suspensa que teria de cruzar para subir a Komrong Danda e depois descer a Ghandruk. A descida continuou por escadarias e as mulas atrás. Às 11h43 apareceu uma outra escadaria à esquerda, mas era estreita e não estava sinalizada, então continuei descendo pela trilha principal mesmo. Mas depois de 200m vi que estava me distanciando da ponte e a trilha não dava sinais de que ia quebrar para a esquerda na sua direção. Resolvi voltar. Deixei as mulas passarem e subi um pouco de volta, tomei a estreita e íngreme escadaria (à direita agora) e desci rapidamente à vila de Kimrung Khola, com suas plantações em terraços. Parei ali às 12h04 para almoçar um veg egg fried noodles na Kimrung Guest House. O cozinheiro era muito atencioso e conversamos sobre a bonita horta que ele tinha nos fundos do lodge.
      Saí às 12h50 e terminei de descer até a ponte suspensa com piso de tábuas sobre o Rio Kimrong. Ali a menor altitude do dia, 1791m. Ao final dela fui para a esquerda e logo começou uma longuíssima subida até a vila de Komrong Danda, inicialmente por uma escadaria mas depois felizmente por trilha mesmo. Às 13h13 cruzei uma porteira de varas (coisa muito rara hoje no Brasil) com uma placa "way to Ghandruk" torta, depois atravessei um riacho por troncos. Na bifurcação às 13h38 uma placa apontava Ghandruk para a direita. E dá-lhe subida! Alcancei Komrong Danda às 14h24 e avistei Ghandruk pela primeira vez. Há 4 lodges nessa vila e a altitude é de 2221m.
      Logo iniciei a longa descida em direção a Ghandruk, em parte por escadarias de pedras até com corrimão. Às 15h06 entrei numa mata e 5 minutos depois cruzei uma ponte suspensa (com a antiga ponte de troncos ao lado). A trilha dá uma guinada para a esquerda (leste) e às 15h23 notei uma longuíssima escadaria subindo à direita ao lado de uma pequena stupa. A trilha dali em diante estava interrompida por uma obra então subi pelo desvio à direita. Logo apareceu uma escadaria à direita e subi por ela, chegando aos primeiros lodges de Ghandruk às 15h29. Parei no Bishow Guest House pois achei um lugar bem tranquilo e não me arrependi. Depois descobri que a grande maioria dos lodges se concentrava no centro da vila, que fica mais ao sul, mas talvez por ser um sábado havia muitos grupos de adolescentes fazendo festas por ali, e eu queria sossego. Alguém me disse que havia cerca de 40 lodges em Ghandruk.
      O Bishow Guest House fica perto da parte mais antiga do vilarejo, onde as casas têm uma linda arquitetura muito característica, com varandas na frente, janelas trabalhadas e telhados de pedra. A visão desse conjunto de casas de cima lembra uma cidade medieval, muito bonito, uma das melhores surpresas dessa caminhada. Valeu muito a pena o grande desvio que fiz para conhecer Ghandruk. Pena que a neblina não me deixava ver as montanhas, mas dali se avistam (de norte para nordeste) Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Gangapurna, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Machapuchare.
      Esse lodge já era praticamente um hotel, dispondo de quartos com banheiro privativo. Eu negociei o preço do quarto de graça fazendo as refeições ali e o rapaz me ofereceu um quarto com banheiro compartilhado. Eu era o único hóspede. O banheiro tinha vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava), lavatório com espelho e ducha a gás grátis. Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87).
      Dei um giro pelo centrinho do lugar e visitei o Museu Old Gurung (Rs75 = US$0,65), bem pequeno mas interessante, com utensílios, instrumentos musicais e roupas do grupo étnico que habita essas montanhas, os gurungs. Ghandruk é o segundo maior povoado gurung no Nepal.
      Ao ferver a água que peguei da torneira do banheiro apareceu uma sujeira estranha, pedacinhos brancos esquisitos por cima da água. Não quis filtrar aquilo. Pedi a água da cozinha, fervi e estava um pouco melhor, mas continuava turva e tive de filtrar depois.
      Altitude em Ghandruk: 1997m
      Preço do dal bhat: Rs 450
      Preço do veg chowmein: Rs 400

      A incrível vila de Ghandruk
      9º DIA - 02/12/18 - de Ghandruk a Tadapani
      Duração: 3h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2684m
      Menor altitude: 1967m
      Resumo: nesse dia continuei a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill encarando uma subida longa e constante por florestas de rododendros até Tadapani, num desnível de 717m
      Às 7h25 da manhã estava 11,9ºC.
      De manhã a neblina continuava e nada de montanhas. Dei mais uma passeada pelo centro de Ghandruk antes de iniciar a caminhada do dia. Fui conhecer o Centro de Artesanato, onde uma simpática moça me mostrou seus bonitos trabalhos no tear - roupas e tecidos confeccionados na mais pura tradição gurung. No caminho passei por uma bifurcação com placa em que à direita se vai a Tadapani, meu destino nesse dia. Depois fui ao German Bakery tomar um café e beliscar alguma coisa, mas tudo o que eu pedi estava ruim: café aguado, rolinho de canela seco e torta de maçã com gosto esquisito. Depois pensei em ir ao Templo Meshram Barah, mas quando vi a enorme escadaria que teria de subir questionei se valia a pena (mais tarde descobri que há três templos com esse nome no vilarejo). Em vez disso fui ao Museu Gurung and Old Gurung Culture (Rs75 = US$0,65 de entrada também), menos interessante que o Museu Old Gurung que havia visitado no dia anterior.
      Já estava voltando ao lodge quando vi alguns ônibus estacionados num descampado logo abaixo da vila e enfim descobri onde era o ponto final deles. Havia perguntado a duas pessoas onde era, mas eles são extremamente confusos para explicar e me disseram que eu teria que andar muito... Fui até lá perguntar os horários (só por curiosidade) e vi que no caminho eles passam por Birethanti e Nayapul, onde eu vou terminar esse trekking. Depois saí procurando o Centro de Visitantes do ACAP e descobri onde era. O mais interessante ali é o filme que eles projetam três vezes ao dia (11h, 13h e 15h) de domingo a sexta-feira, mas eu não pude esperar porque tive receio de não dar tempo de chegar a Tadapani (teria dado). Em frente há um posto de saúde, informação importante para quem possa estar com algum problema de saúde, embora Pokhara esteja há poucas horas de ônibus dali e tenha bons hospitais e clínicas. Na volta ao lodge ainda caminhei pelas ruelas da parte antiga da cidade, aquela que parece medieval, e realmente é um lugar muito especial.
      Voltei ao lodge para pegar a mochila e o rapaz me disse que eu poderia tomar outro caminho a Tadapani, voltando por onde cheguei no dia anterior e subindo a longuíssima escadaria ao lado da pequena stupa, e foi o que fiz. Saí do lodge às 12h13 na direção noroeste. Passei pelo desvio da trilha interrompida e cheguei à escadaria. Ali a menor altitude do dia, 1967m. Respirei fundo porque seriam centenas de degraus morro acima. Cruzei uma bonita plantação de chá e às 12h50 cheguei ao topo, onde está um dos três templos Meshram Barah e uma torneira com água. O caminho continuava à esquerda e voltava a sinalização de duas faixas horizontais branca e vermelha. A escadaria termina ali e a subida continua por uma trilha. Às 13h09 cheguei a uma bifurcação em frente ao Jungle Paradise Guest House, um lodge isolado: à esquerda se volta à vila de Ghandruk, exatamente naquela bifurcação com placa que vi de manhã, à direita se vai a Tadapani, minha meta desse dia.
      A trilha nivela. Cruzei uma ponte de madeira, passei pelo lodge Lonely Planet (também isolado) e a vegetação vai ficando mais densa. Às 14h14 cruzei uma ponte de concreto e subi uma escadaria de pedra com corrimão. Passei por uma cachoeira à esquerda da trilha e subi uma longa escadaria com outra cachoeira à direita. Às 14h56 passei pelo minúsculo vilarejo de Bhaisi Kharka, com dois lodges. A subida continua e entro numa extensa floresta de rododendros, a primeira mata só de rododendros desse trekking. Esse lugar deve ficar incrivelmente bonito na floração dessa árvore em março e abril. Avisto alguns macacos no alto.
      Às 15h34 entronca uma trilha que sobe da direita vindo de Komrong Danda, segundo a plaquinha amassada com um croqui. Essa outra trilha tem uma sinalização pintada nos troncos de duas faixas também, porém branca e azul. Subi mais um pouco e às 15h51 alcancei o vilarejo de Tadapani, com 10 lodges. Ia passando direto pelo primeiro lodge, Himalaya Tourist Guest House, mas a garota me chamou. Perguntei-lhe se faria o quarto de graça se eu fizesse as refeições ali e ela aceitou (mas depois sua mãe veio me pedir para não comentar isso com ninguém, como eles sempre fazem). Os banheiros ficavam no corredor aberto ao frio: um com vaso sanitário com descarga acoplada e outro no estilo oriental. Lavatório no corredor. Ducha quente por Rs200 (US$1,74), wifi por Rs200 (US$1,74) e carga de baterias por Rs100 (US$0,87) (mas deixaram de graça).
      Dei uma passeio pela vila para ver os outros lodges. Há uma estação de água potável e muito artesanato à venda, mas quase ninguém para comprar...
      Altitude em Tadapani: 2684m
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 400

      Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo) e Tukuche
      10º DIA - 03/12/18 - de Tadapani a Ghorepani
      Duração: 4h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3201m
      Menor altitude: 2504m
      Resumo: nesse dia alcancei a vila de Ghorepani e concluí a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill. Saindo de Tadapani desci a um rio e encarei mais uma longa subida até Deurali (desnível de 697m) pela mata junto a outro rio. Após Deurali percorri uma crista com neblina (perdi o visual) e desci a Ghorepani (desnível de 397m)
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 5,5ºC. Às 8h da manhã estava 7ºC.
      De manhã, com muitas nuvens, da frente do lodge se avistava com dificuldade o Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste.
      Saí do lodge às 9h23 na direção oeste, seguindo a placa de Ghorepani e descendo por uma trilha calçada. Parei para colocar mais roupas porque dentro da floresta de rododendros estava muito frio. A descida se transformou numa escadaria e às 9h50 cruzei uma ponte de concreto. Logo depois dela a menor altitude do dia, 2504m, e em seguida a escadaria de pedras que inicia a exaustiva subida para Deurali. Às 10h16 alcancei o primeiro lodge da vila de Banthanti, que é dividida em três núcleos. Parei por 9 minutos para descansar da subida. Cerca de 280m adiante passei pelo segundo núcleo, cruzei uma ponte de concreto sobre um riacho e depois uma de madeira no terceiro núcleo de Banthanti. No total são 6 lodges nessa vila. A trilha sobe pela margem esquerda (verdadeira) desse riacho, mas após outra ponte de concreto às 11h06 volto à sua margem direita. Nesse trecho começou a aparecer muita gente no sentido contrário e resolvi parar por 13 minutos para um lanche.
      Às 11h54 subi uma longa escadaria com corrimão, desci um pouco, cruzei uma ponte de madeira e subi por outra longa escadaria. Passei pelo primeiro lodge de Deurali às 12h20 (essa é a terceira vila com esse nome nesse trekking) e resolvi parar no próximo, 10 minutos depois, para almoçar um veg fried noodle no Deurali Yak Hotel. Enquanto esperava tive uma surpresa. Vi um casal chegando no lodge ao lado e, conversando com a dona, disseram que eram do Brasil! O terceiro casal brasileiro que encontrei no Nepal em dois meses! Moravam no Acre e estavam indo de Ghorepani para Ghandruk nesse dia.
      A pequena Deurali tem também várias bancas de artesanato e da frente do Yak Hotel sai a trilha que sobe para Gurung Hill, mas naquele horário as nuvens já não permitiam apreciar o visual desse mirante. Voltei à trilha às 13h30. Em 20 minutos caminhando pela mata de rododendros atinjo uma crista. Mais 10 minutos e passei pelo ponto de maior altitude do dia, 3201m. Às 14h15 alcancei o mirante Thapla (Thabala), que dizem ter uma vista similar à de Poon Hill, mas sem as multidões e de graça, porém a neblina já havia chegado e não pude fazer essa comparação. Há ali um bar rústico e uma chautara (descanso dos carregadores) com bandeirinhas de oração budistas. Comecei a descer e logo cruzei outra mata de rododendros.
      Às 14h44 cheguei a uma bifurcação com outra chautara. Havia uma sinalização branca e vermelha apontando para a escadaria que desce à direita, mas eu decidi seguir pela trilha calçada em frente, que desceu muito. Ao chegar a Ghorepani às 15h18 é que entendi que havia a vila baixa (onde chegam os trilheiros que vêm de Nayapul e onde eu cheguei) e a vila alta com muito mais opções de hospedagem. Decidi ir à vila alta e percebi que naquela bifurcação da sinalização branca e vermelha devia ter ido para a direita pois é um caminho mais direto à vila alta. Dali onde eu cheguei virei à direita e subi pela escadaria principal. Apenas 100m acima, numa bifurcação em que segui à direita, fui parado num checkpoint da polícia turística para mostrar as permissões. Nessa bifurcação, à esquerda se vai ao mirante Poon Hill.
      Continuei subindo à direita e cheguei a Ghorepani Alta (também chamada de Ghorepani Deurali... mais uma Deurali!) às 15h34, com muitos lodges mais. Apesar da baixa temporada havia muita gente ali, inclusive muitos nepaleses a passeio. Queria ficar num lodge bem tranquilo e fiz a escolha certa: Poon Hill Guest House. Negociei o quarto de graça e fui o único hóspede nessa noite. Atendimento muito simpático e comida deliciosa, fiz questão de elogiar o cozinheiro. O banheiro era dentro do lodge e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Lavatório no corredor e ducha quente por Rs100 (US$0,87). Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87).
      Altitude em Ghorepani Alta: 2874m
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo) e Annapurna Dakshin (Annapurna Sul)
      11º DIA - 04/12/18 - de Ghorepani a Tikhedhunga
      Duração: 30 minutos (subida de Ghorepani a Poon Hill) e 4h (de Ghorepani a Tikhedhunga, descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3185m em Poon Hill
      Menor altitude: 1503m
      Resumo: nesse dia desci de Ghorepani a Banthanti (desnível de 607m) pelo vale de um rio por dentro de bosques, depois baixei até Tikhedhunga pela encosta da margem direita do Rio Bhurungdi (desnível de 764m)
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 3,0ºC. Às 5h da manhã estava 3,6ºC.
      O melhor espetáculo no mirante Poon Hill seria o nascer do sol, então enfrentei novamente o frio de quase 0ºC e saí às 6h06 do lodge com lanterna para não perder o show. Subi até o Hotel Hill Top e de lá tomei a trilha dentro da mata. Cheguei à portaria do mirante e paguei a taxa de Rs100 (US$0,87) no guichê. Continuei subindo por longuíssimas escadarias de pedras entre rododendros e alcancei o mirante às 6h35, a tempo de assistir ao nascer do sol junto com a multidão que já estava lá e o povo que ainda estava subindo. Os primeiros raios de sol vieram às 6h43.
      Dos 3185m de altitude de Poon Hill a visão do Himalaia realmente é de tirar o fôlego, a melhor de todo esse trekking. A lista de montanhas é extensa e pode ser dividida em dois grandes blocos. De noroeste para norte: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo), Tukuche e Dhampus. De norte para nordeste: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo), Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Annapurna II (16º mais alto do mundo). Há uma torre para tirar fotos ainda melhores de uma posição mais alta, banheiros e uma casinha onde se vendem café e chá a preços ainda mais caros que em Ghorepani. Poon Hill tem esse nome porque foi criada e divulgada como ponto turístico pelo major Tek Bahadur Pun, um apaixonado pelo lugar e pela vista que se tem dali.
      Iniciei a descida às 8h50, quando o mirante já estava praticamente vazio, e parei muitas vezes para tirar mais fotos. Ao passar pelo guichê (já fechado) notei à direita o caminho que desce para Ghorepani Baixa, mas eu tinha de passar pelo lodge primeiro. Cheguei ao Poon Hill Guest House às 10h21, tomei o café da manhã, arrumei a mochila e saí às 12h na direção sul. Desci até Ghorepani Baixa, passei pelo portal do vilarejo e tomei a trilha larga pela floresta descendo para a reta final desse trekking.
      Queria muito saber quanto de estrada eu teria de andar dali até Nayapul e se haveria algum caminho alternativo por trilha, mas novamente as informações do pessoal local foram muito confusas e até erradas. Me disseram que em Ulleri eu cairia numa estrada e não haveria alternativa por trilha, mas não foi nada disso.
      Passei pelos primeiros lodges de Nangethanti às 12h56, cruzei uma ponte de concreto e depois mais alguns lodges dessa vila. Reentrei na mata e às 13h22 cruzei para a direita outra ponte de concreto sobre um pequeno cânion e um rio de água transparente muito bonito. Esse rio forma logo abaixo uma bela cachoeira. Depois de mais duas pontes de concreto parei 16 minutos para comer alguma coisa que trazia na mochila. Logo a floresta daria lugar à vegetação mais baixa.
      Passei às 14h23 pela vila de Banthanti Alta (o mesmo nome de uma vila do dia anterior) e 7 minutos depois por Banthanti Baixa, com lodges. Reaparecem os campos cultivados em forma de terraço. Continuei descendo e às 15h05 cheguei à vila de Ulleri, onde há jipes para Pokhara pela bagatela de Rs6000 (US$52) para 5 pessoas. O ônibus de Nayapul estava bem longe ainda porém custava só Rs200 (US$1,74). Nessa vila inicia uma famosa escadaria que dizem ter mais de 3300 degraus (segundo o guia Lonely Planet) e lá fui eu, dando graças por ser descida e por não ter que caminhar na estrada de terra, como haviam me informado em Ghorepani. Odeio andar em estrada!
      Cruzei toda a vila de Ulleri descendo pela escadaria. Cruzei também com muita gente subindo e vários perguntavam se faltava muito para Ghorepani - muito! E eu lhes perguntava se teria que andar por estradas mais à frente pois já avistava muitas estradas de terra abaixo. Às 16h11 teve fim essa escadaria terrível e cruzei uma ponte suspensa com o Rio Bhurungdi (Baraudi) formando duas lindas cachoeiras, uma acima e outra abaixo da ponte. Ali a menor altitude do dia: 1503m. Ao final da ponte fui à direita e na bifurcação a seguir à esquerda seguindo as setas apontando Pokhara. Já estava chegando à vila de Tikhedhunga e seus primeiros lodges. Subi e cruzei outra ponte suspensa com outra bela cachoeira acima. Fui à direita e parei às 16h31 num dos primeiros lodges, Laxmi Guest House. A dona me fez o quarto de graça, só pagando as refeições. O banheiro ficava no fim do corredor aberto ao frio, com vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava). Para escovar os dentes havia uma pia na frente do lodge. O atendimento não foi dos melhores mas a localização era muito bonita, com muita vegetação ao redor. Só os primeiros lodges da vila têm essa vista para a mata e barulho do rio próximo.
      Altitude em Tikhedhunga: 1519m
      Preço do dal bhat: Rs 450
      Preço do veg chowmein: Rs 350

      Cachoeira no Rio Bhurungdi em Tikhedhunga
      12º DIA - 05/12/18 - de Tikhedhunga a Nayapul
      Duração: 2h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 1519m
      Menor altitude: 1004m
      Resumo: nesse dia percorri o vale do Rio Bhurungdi (Baraudi) por sua margem esquerda por trilhas e estradas até o ponto do ônibus em Nayapul
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 9,9ºC. Às 6h35 da manhã estava 10,8ºC.
      Saí do lodge às 8h06 na direção sudoeste ainda pela margem esquerda do Rio Bhurungdi (Baraudi). Passei pelos outros lodges do vilarejo e continuei descendo. Às 8h20 cheguei aos primeiros lodges de Hille, atravessei todo o povoado e 10 minutos depois lá estava ela, a estrada de terra. Fui para a direita descendo e por enquanto não havia alternativa por trilha. Às 8h50 passei pela vila de Sudame. Ali, numa curva fechada para a direita peguei um curto atalho à esquerda e continuei descendo pela estrada. Às 9h15 passei por Ramghai (Lamdawali).
      Às 9h38 entrei num atalho à direita com placa "way to Birethati" e a sinalização de faixas branca e vermelha de novo. Cruzei a vila de Matathanti com casas bem antigas, atravessei uma ponte suspensa e voltei à estrada de terra às 9h50, seguindo para a direita. Numa bifurcação 4 minutos depois continuei à direita pela estrada. Às 10h07 entrei em outro atalho à direita com placa e logo comecei a cruzar o casario da extensa vila de Birethanti, onde o Rio Bhurungdi (Baraudi) deságua no Rio Modi.
      Às 10h16 cheguei a uma estrada e uma ponte de ferro sobre o Rio Modi. Ao lado há um check post do ACAP, mas passei direto. Me recomendaram caminhar até Nayapul pois lá os ônibus são mais frequentes, então cruzei a ponte de ferro e continuei pela estrada na margem esquerda do Rio Modi. Passei por um check post do TIMS card 80m após a ponte mas não parei e nem fui parado para fazer checkout. Nesse trecho registrei a menor altitude de todo o trekking: 1004m. Subi um pouco e nas primeiras casas de Nayapul entrei num caminho à direita da estrada, às 10h32. Não há nenhuma sinalização mas para chegar à parada dos ônibus para Pokhara tem que entrar mesmo nesse caminho. Na bifurcação 300m depois desci à direita, cruzei a ponte suspensa e na subida seguinte cheguei às 10h42 à estrada e ao centro de Nayapul, com bastante comércio. Altitude de 1022m.
      Consegui alcançar um ônibus que seguia bem devagar, confirmei se ia para Pokhara e entrei. Ele foi até o fim da rua e tomou a estrada de terra para a esquerda, perto de onde fica a parada de todos os ônibus. A estrada é parte asfalto e parte terra batida, mas não pula muito. Essa estrada é a mesma que me levou a Kande, no início do trekking, e passamos por essa vila às 11h40. Desci do ônibus em Pokhara às 12h48, porém em frente a um terminal chamado Baglung Bus Park, muito distante de Nareshwor ou Lakeside. Perguntei para algumas pessoas se havia ônibus para esses bairros mas não souberam dizer, então resolvi ir a pé mesmo. Levei 1 hora até o Harry Guest House, mas poderia ter tomado um ônibus para Zero Kilometer, o que teria me poupado 2,2km de caminhada.
      Informações adicionais:
      Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.
      . ônibus turístico Kathmandu-Pokhara: 7h (8h de viagem)
      Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Sorhakhutte, 500m ao norte do Kathmandu Guest House, no Thamel
      Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro
      . ônibus turístico Pokhara-Kathmandu: de manhã entre 7h e 8h e mais 3 horários à noite (8h de viagem)
      Em Pokhara os ônibus saem do terminal Tourist Bus Park, a 2,5km do centro de Lakeside Norte, mas pode-se comprar a passagem no hotel e tomar o ônibus em Lakeside
      Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro
      . ônibus Pokhara-Kande: a cada 20 minutos segundo me disseram (esperei 24 minutos) (1h40 de viagem)
      Em Pokhara pode-se tomar o ônibus em Zero Kilometer ou no Baglung Bus Park
      Preço: Rs100 (US$0,87)
      . ônibus Ghandruk-Pokhara: de 8h30 a 14h, de hora em hora
      Preço: Rs500 (US$4,34)
      . ônibus Nayapul-Pokhara: a cada 15 minutos até 18h30 (2h de viagem)
      Preço: Rs200 (US$1,74)
      . Melhor mapa: Around Annapurna 70k, 1:70.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NA524, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs550 = US$4,77). Site: himalayan-maphouse.com.

      Rafael Santiago
      dezembro/2018
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
       
    • Por Felypez
      Olá!
      Sou da região metropolitana de sp, estou há 2 anos colocando energia nesse mochilão. Cursei uma faculdade e não me identifiquei com a área; sentia que meu lugar é na estrada vivendo a impermanência. Me formei como professor de yoga e depois como massoterapeuta (que é meu ganha pão), e assim pretendo ir me sustentando durante a viagem que já começou e não faço ideia de qdo vai terminar. 
      Fiz um "teste drive" de maio até agora novembro, e vi que é isso msm que quero nesse momento. Então retornei à minha base em sp, tô ajeitando uns detalhes para não deixar nada pendente e ir mais uma vez.. tenho várias idéias mas estou bem aberto e atento aos sinais do universo. Tenho passado por centros de meditação, Ashrams, centros de yoga e hostels. A idéia basicamente é ir e viver. Se te anima com a ideia e tem coragem pra meter o pé, bora lá! Deixe um contato seu de forma privada, ou me add no face: Shiatsu Felype Langovisk.
      *O único requisito é não ser fã do BOZO rs..
    • Por rafael_santiago
      Vale do Rio Langtang com as montanhas Penthang Karpo Ri, Langshisha Ri e Gangchenpo
      Início: Syabrubesi
      Final: Sundarijal
      Duração: 13 dias
      Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La (se não considerarmos o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional)
      Menor altitude: 1377m em Sundarijal
      Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de até 1100m diários. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais.
      Permissões: TIMS Card (Rs 2000 = US$ 17,36), entrada do Parque Nacional Langtang (Rs 3400 = US$ 29,51) e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (Rs 1035 = US$ 8,98)
      Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.
      Os trekkings Langtang, Gosainkund e Helambu podem ser feitos separadamente com duração de 7, 8 e 6 dias, respectivamente, variando esse tempo de acordo com o ritmo e as caminhadas de bate-volta que se queira agregar à trilha principal. Porém, para quem dispõe de mais tempo, o melhor mesmo é combinar os três num único roteiro já que estão naturalmente interligados. E foi o que eu fiz na minha primeira experiência em trilhas no Nepal. Com as trilhas de bate-volta que fiz o roteiro totalizou 13 dias.
      Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.
      No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".
      As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados durante os três trekkings são:
      . de Syabrubesi a Lama Hotel: NCell
      . de Lama Hotel a Kyanjin Gompa: Sky
      . Sing Gompa: NCell, NTC/Namaste
      . Gosainkund: nenhuma funciona
      . Ghopte: NCell, NTC/Namaste
      . Tharepati: NCell, NTC/Namaste
      Essas informações obtive com os moradores, eu mesmo não testei nenhuma operadora.
      Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).
      Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente.

      Rio Langtang e as montanhas Tsergo Ri e Gangchenpo ao fundo
      Trekking Langtang
      Início: Syabrubesi
      Final: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund
      Duração: 8 dias
      Maior altitude: 3856m em Kyanjin Gompa (se não considerarmos as trilhas opcionais a partir de Kyanjin Gompa)
      Menor altitude: 1417m na ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi
      Dificuldade: média (para quem está acostumado a caminhadas longas com mochila cargueira)
      Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang
      O trekking Langtang percorre em três dias o trajeto entre Syabrubesi (Syafrubesi) e Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba), saindo dos 1445m e chegando aos 3856m de altitude. Todo o percurso é feito pelo vale do Rio Langtang, que corre no sentido nordeste-sudoeste entre altas montanhas. No primeiro dia e meio a caminhada se dá por dentro de uma linda e exuberante floresta, depois segue a céu aberto com bonito visual por mais um dia e meio até Kyanjin Gompa. A vila de Langtang, no meio do caminho, foi quase toda destruída durante o terremoto de abril de 2015 por uma avalanche causada pelo desprendimento de uma geleira do pico Langtang Lirung, mas a parte mais alta da vila continua existindo e os familiares das vítimas seguem tocando a vida.
      06/10/18 - ônibus de Kathmandu a Syabrubesi (Syafrubesi)
      No dia anterior (05/10) eu havia tentado ir a um local chamado Macha Pokhari em Kathmandu para saber horários e preços de ônibus para Syabrubesi, mas não tinha conseguido encontrar o tal lugar. Essa parada de ônibus fica junto ao anel viário da cidade, um lugar mais caótico, sujo e empoeirado que o padrão do resto da cidade. Perguntei para algumas pessoas mas ninguém me entendia. Depois descobri que era mais longe do que eu pensava, já próximo do Terminal Gongabu.
      Nesse dia resolvi pegar um táxi às 6h da manhã e o motorista ia se virar para encontrar o lugar de saída do ônibus. Ele também perguntou para algumas pessoas e finalmente entrei no ônibus para Syabrubesi, que partiu em seguida, às 6h25. Não existe um terminal em Macha Pokhari, o ônibus que tomei estava parado na rua mesmo (coordenadas 27.73568ºN 85.30517ºL). Havia alguns poucos estrangeiros (dois espanhóis e um indiano) e o ônibus, apesar de pequeno, não saiu lotado. Porém durante a longa viagem até Syabrubesi ele lotou e esvaziou diversas vezes. Mas uma coisa eu preciso enfatizar: essa viagem é HORRÍVEL. Assim, em maiúsculas mesmo. São apenas 126km que o ônibus faz em 8 horas e 45 minutos (!!!) pois a "estrada" (eles chamam aquilo de estrada) é um caminho de buracos, pedras e muita poeira, com lama às vezes. O caminho é estreito e beira abismos em muitos trechos, o que garante a emoção já que a qualquer momento a sua viagem pelo Nepal pode terminar no fundo de um rio centenas de metros abaixo. São quase 9 horas pulando e chacoalhando dentro desse ônibus, às vezes batendo a cabeça no teto e o ombro no vidro. Mas a "linda" trilha sonora nepalesa está garantida e no último volume.
      O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo. A parada para almoço foi às 10h e mais tarde houve outra parada para comer.
      Em dois checkpoints em Dhunche (por volta de 14h15) eu e os outros estrangeiros tivemos que descer para mostrar as permissões. O indiano não as tinha e teve que pagar ali na hora. No primeiro checkpoint também quiseram revistar as mochilas, mas no meu caso não pediram para tirar tudo de dentro, apenas algumas coisas, examinaram e liberaram. Procedimento ridículo sem a menor eficácia, só para cumprir ordens mesmo. No segundo checkpoint só anotaram os nossos dados num livro.
      Às 15h14 saltei desse ônibus em Syabrubesi remontando meu esqueleto e jurando nunca mais entrar nele. A volta não poderia ser por ali em hipótese alguma.
      A vila de Syabrubesi tem diversas hospedagens, perguntei o preço em algumas e optei pelo Hotel Lhasa, onde paguei Rs300 (US$2,60) pelo quarto com banheiro compartilhado. Ainda não foi possível entrar no esquema "quarto de graça se jantar e tomar café no local". Não recomendo esse hotel pois a dona não foi nada simpática e quase me deixou sem janta. O banheiro já era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Esse pelo menos tinha descarga de caixa acoplada, não era preciso usar a caneca com água. Havia lavatório para escovar os dentes.
      A vila tem como atrativo uma fonte de águas termais junto ao Rio Bhote Koshi, fui conhecer mas só havia água em um dos tanques (de cimento) e estava ocupado por várias pessoas naquele momento. O lugar é um pouco sujo também.
      Altitude em Syabrubesi: 1445m
      Preço do dal bhat: Rs 300
      Preço do veg chowmein: Rs 250

      Rio Langtang encachoeirado
      1º DIA - 07/10/18 - de Syabrubesi a Lama Hotel (Changdam)
      Duração: 6h (descontada a parada)
      Maior altitude: 2473m
      Menor altitude: 1417m
      Resumo: nesse dia iniciei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda num trecho rico em vegetação e matas. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1056m de subida).
      Finalmente chegou o grande dia de colocar o pé numa trilha no Nepal. Fiquei até emocionado pois foi um momento muito esperado e planejado em todos os detalhes.
      Saí do lodge às 8h14 e continuei pela rua principal no sentido norte (mesmo sentido da chegada no dia anterior). Ao passar pelo checkpoint tive de mostrar as permissões. Passei direto pela trilha que desce para as águas termais e na bifurcação na saída da vila desci à direita. Não cruzei a primeira ponte, continuei em frente e entrei na trilha à direita seguindo a placa de Langtang. Atravessei a ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi, adornada com bandeirinhas de oração budista, e fui para a esquerda e logo em seguida direita. Ao cruzar a vila seguinte (Old Syabrubesi) entro no vale do Rio Langtang (Langtang Khola), o qual seguirei até Kyanjin Gompa (e depois ainda até o campo-base Langshisha Kharka).
      Não cruzei a ponte à direita logo após a vila de Old Syabrubesi, segui em frente. Uma placa ali indica um caminho mais curto para Thulo Syafru à direita, cruzando a ponte. Thulo Syafru é a vila pela qual eu passaria 7 dias depois já no trekking Gosainkund.
      Seguindo pelo vale verdejante do Rio Langtang passei às 9h42 pela vila de Tibetan Camp (Tiwari) com ao menos dois lodges. A trilha terminou numa ponte suspensa que cruzei para chegar a uma estrada de terra do outro lado do Rio Langtang. Fui para a esquerda (a direita estava interditada por obras) e na bifurcação seguinte, 700m após a ponte, continuei pela estrada à esquerda, desprezando a trilha à direita. Porém estava errado e cheguei ao fim da estrada, num local sem saída. Voltei e peguei a trilha, agora à esquerda. Aí começaram as subidas, inclusive com escadarias rústicas de pedra.
      Às 10h33 cheguei à minúscula Domen, cuja ponte metálica de acesso estava parcialmente destruída, causando alguma tensão na travessia. O lugar se resume a 4 ou 5 casas e tem um lodge. Logo após, a subida continua. Às 10h48 cheguei a um local estratégico, a bifurcação entre os trekkings Langtang e Gosainkund, marcado por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Nesse momento segui para a esquerda, descendo, mas na volta, no oitavo dia de caminhada, tomaria o outro lado da bifurcação, numa subida bem longa para Thulo Syafru.
      A trilha desce bastante e se aproxima do Rio Langtang. Se aproxima tanto que é preciso andar por um caminho estreito construído com pedras entre a encosta íngreme e o rio. Dali se avista logo acima a vila de Pairo (ou Landslide ou Hot Spring), pela qual passei às 11h07. Há opções de refeição e hospedagem. A trilha continua pela sombra deliciosa da floresta com muitas fontes de água (parei por 15 minutos numa delas para um lanche) e alcança a vila de Bamboo às 12h25, também com lodges e refeição. Ao cruzar a vila é melhor tomar a trilha da direita na bifurcação para se manter na trilha principal ao entrar na mata que segue. Cruzei uma ponte de troncos e pedras e às 13h18 uma grande ponte suspensa à esquerda sobre o Rio Langtang. O rio neste ponto é encachoeirado e tem blocos enormes de pedra. Uma casa ao lado da ponte suspensa vende artesanato e algumas guloseimas.
      Passei pela vila de Rimche às 14h12 e ali entronca um caminho alternativo que vem de Syabrubesi via Sherpagaon. Rimche tem três lodges com restaurantes. Porém Lama Hotel (Changdam) está a apenas 20 minutos e tem muito mais opções. Cheguei a Lama Hotel às 14h32 e parei para almoçar no Tibet Guest House. Pretendia continuar a caminhada, mas o tempo mudou, começou a chover fraco e a temperatura despencou. Conversei com a simpática garota do lodge e ela me convenceu a dormir ali, principalmente porque seria de graça desde que eu fizesse as refeições.
      O banheiro era no estilo oriental e ao lado dos quartos. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene deles já que não usam papel higiênico. A ducha era com energia solar (pediam para deixar uma gorjeta pelo uso da ducha). Assim como em todos os outros lodges desse trekking, o refeitório tinha um aquecedor que é aceso no finalzinho da tarde. Ali todos se reúnem para jantar, conversar e trocar informações. Nessa noite fiz amizade com um casal francês que já havia viajado bastante pela Índia e conhecia inclusive o Himalaia indiano, um lugar onde eu nunca havia pensado em trilhar mas que me despertou a curiosidade.
      Altitude em Lama Hotel: 2473m
      Preço do dal bhat: Rs 600 (o dobro do preço de Syabrubesi já no primeiro povoado)
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Vale do Rio Langtang
      2º DIA - 08/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Langtang
      Duração: 5h25 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3483m
      Menor altitude: 2473m
      Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda por dentro da floresta para em seguida sair a céu aberto com visão dos nevados na cabeceira do vale. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1010m de subida).
      Saí do lodge às 8h40 e continuei subindo pela trilha principal no sentido nordeste. A trilha se aproximou bastante do Rio Langtang novamente e às 10h04 passei pela vila de River Side (Gumnachowk) com um lodge de frente para o rio. Mais 10 minutos e passei pelo lodge de Woodland (Chunama). Às 10h43 uma ponte metálica à direita da trilha causou alguma dúvida mas o caminho era em frente mesmo, não pela ponte. Atravessei uma encosta com um grande deslizamento bem junto ao Rio Langtang, cruzei uma pequena ponte metálica e saí definitivamente da floresta às 11h24, tendo de agora em diante o belo visual dos picos nevados à frente. A nota triste foi ver a destruição em Ghoda Tabela causada pelos terremotos de 2015. Às 11h38 cheguei aos dois lodges que restaram no vilarejo e parei por 40 minutos para descansar, ver o movimento de trilheiros e carregadores e comer alguma coisa. Já se avista também a marca deixada na encosta da montanha pela enorme avalanche que destruiu a vila de Langtang.
      A altitude aqui já ultrapassa os 3000m e é preciso seguir a recomendação de não dormir mais que 500m acima da noite anterior e se possível fazer caminhadas de bate-volta a um local mais alto para ajudar na aclimatação.
      Às 13h04 alcancei a vila de Thangsyap (com lodges) e às 14h17 o povoado de Langtang Gumba, também com hospedagem e almoço. E às 14h38 cheguei ao local da enorme avalanche, uma paisagem aterradora por saber que há uma grande parte da vila de Langtang embaixo de todas aquelas pedras, com muitas pessoas soterradas. O que restou da vila de Langtang está logo depois. Cheguei a ela às 15h e enquanto fotografava a stupa na entrada do lugar o casal francês que conheci em Lama Hotel apareceu com uma moradora. Ela era dona de um lodge na parte mais alta e tinha ido esperá-los na trilha para oferecer hospedagem. É bastante comum os donos de lodges fazerem isso, oferecerem hospedagem, almoço, chá para os trilheiros que passam. Acabei indo para o mesmo lugar, Friendly Family Guest House. A dona, Sra Dawa, quase não falava nada de inglês mas era muito simpática e atenciosa. O quarto, com banheiro privativo (foi o único com banheiro privativo de todos os trekkings que fiz no Nepal), saiu de graça com as refeições feitas ali. A ducha quente também não teve custo adicional.
      Altitude em Langtang: 3483m
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Muro de pedras mani na trilha e ao fundo o pico Gangchenpo
      3º DIA - 09/10/18 - de Langtang a Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba)
      Duração: 2h40
      Maior altitude: 3856m
      Menor altitude: 3483m
      Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang já acima dos 3000m de altitude subindo até a vila de Kyanjin Gompa, que usarei como base para três caminhadas de um dia
      Logo cedo desci ao centro da vila para tirar mais fotos e vi que atrás da stupa um mural tem gravados os nomes dos 175 moradores e dos 41 trilheiros que morreram em Langtang pelo terremoto e avalanche de abril de 2015.
      Deixei a vila às 9h48 continuando pelo caminho principal no sentido leste. O caminho se divide em dois por 300m (!!!) com um impressionante muro de pedras mani no meio. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum". Encontrei muitos muros como esse em minhas caminhadas pelo Nepal mas esse de Langtang foi sem dúvida o maior e mais marcante.
      No conjunto de montanhas nevadas à frente (leste), no fundo do vale, já se avistam o Tsergo Ri à esquerda e o Gangchenpo à direita. Alcancei a vila de Mundu às 10h11 e depois Sindhum às 10h26, com seus lodges e restaurantes. E mais muros de pedras mani na sequência. Me aproximo do Rio Langtang novamente e às 11h48 chego a um grande bloco de pedra com uma stupa em cima. À direita há uma ponte mas uma placa aponta Kyanjin Gompa 30 minutos à esquerda. Porém o caminho mais curto é à direita pela ponte mesmo, isso eu só descobri na volta. Subi à esquerda, passei pela stupa maior para fotografar, pelas casas de uma usina hidrelétrica e em seguida uma grande ponte suspensa. Alcancei a vila de Kyanjin Gompa às 12h38 e me surpreendi com a arquitetura de prédios de 3 ou 4 andares.
      Já tinha uma indicação de onde me hospedar pois de manhã conheci um parente da Sra Dawa, um rapaz chamado Nawang, que me ofereceu hospedagem e me ensinou como chegar ao seu lodge em Kyanjin Gompa. A vila é até grande em comparação com as outras e as ruas são um emaranhado de becos, mas consegui encontrar o Lodge Ghangchempo mesmo sem placa (é um dos últimos, na saída para Tsergo Ri). Negociei com o Nawang a estadia de quatro noites sem pagamento do quarto, apenas das refeições.
      Depois do almoço, por volta de 14h, fui conhecer os lagos Tsona, que ficam do outro lado do Rio Langtang. Tomei uma trilha saindo para o sul da vila, bem na direção do rio, que corre bem abaixo. Cruzei-o por uma ponte metálica e fui encontrando os lagos um a um. São cinco pequenos lagos que refletem as montanhas nevadas, um lugar singelo e bonito. Na volta à vila fui comprar um pedaço de queijo de iaque diretamente na "loja da fábrica". Esse queijo não é muito barato (Rs 1700 o quilo = US$ 14,76) e lembra bastante um queijo parmesão de Minas Gerais pouco curado.
      Em Kyanjin Gompa, assim como nos outros vilarejos, cada morador tem um pedaço de terra onde cultiva alguns legumes para suprir a demanda do restaurante. Porém itens como ovos têm que vir de Syabrubesi nas costas de carregadores por dois dias (as galinhas não sobrevivem ao inverno).
      O lodge tinha um banheiro em cada andar e todos no estilo oriental, mas novos e limpíssimos. A ducha quente ficava no 1º andar e era gratuita. O quarto tinha tomada (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?) para recarregar as baterias.
      Altitude em Kyanjin Gompa: 3856m
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2ºC
      Preço do dal bhat: Rs 650
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Bandeirinhas de oração budistas em Langshisha Kharka e as montanhas Urkinmang e Gangchenpo
      4º DIA - 10/10/18 - de Kyanjin Gompa a Langshisha Kharka
      Duração: 4h50 (ida) e 3h40 (volta bem mais rápida sem tantas paradas para fotos)
      Maior altitude: 4138m
      Menor altitude: 3823m
      Resumo: nesse dia fiz uma subida suave e de pouco desnível (242m) pelo vale do Rio Langtang até o campo-base Langshisha Kharka
      Esse foi o primeiro dia de "passeio" a partir de Kyanjin Gompa, quer dizer, o primeiro dia em que troquei a cargueira por uma mochila de ataque. Como eu já estava a 3856m de altitude iniciei a série de caminhadas com uma de altitude mais moderada, que seria o campo-base chamado Langshisha Kharka, local de acampamento para escaladas à montanha Langshisha Ri. Esse lugar é mais isolado, não há vilarejos ou lodges em todo o percurso e se não houver expedições o campo-base deverá estar completamente deserto pois poucos trilheiros vão até lá. Deve-se levar lanche e água (ou tratar a água encontrada no caminho).
      Saí do lodge às 7h40 e tomei a direção sudeste. Em 6 minutos fui à direita na bifurcação com placa apontando Langshisa Kharka (à esquerda apontava Chergori, outra forma de escrever Tsergo Ri, que seria o meu destino dois dias depois). Às 8h22 tive de cruzar um deslizamento de pedras que vem das montanhas ao norte (esquerda) e também o ribeirão que desce junto. Para não tirar as botas gastei algum tempo procurando um local mais acima onde pudesse saltar pelas pedras. Logo após esse deslizamento há uma trilha que sobe a encosta à esquerda mas essa leva ao pico Tsergo Ri também. Em lugar de subir eu desci por uma trilha junto ao deslizamento até alcançar uma outra trilha bem marcada. Dali em diante bastou seguir essa trilha junto ao Rio Langtang com bela paisagem de campos e vales onde pastam muitos iaques. Limitando esse grande vale altas montanhas nevadas ao sul e ao norte. Para trás se destaca o grande Langtang Lirung, de 7230m de altitude, responsável pela destruição da vila de Langtang. À sua direita o Kimshung, de 6781m.
      Às 9h33 a visão dos picos nevados à frente (leste) se amplia e já visualizo o Langshisha Ri, uma montanha de dois cumes à esquerda do pico Gangchenpo. Às 10h55 encontro um grande deslizamento e fico em dúvida se devo caminhar junto ao rio ou acima do monte de pedras. Um grupo vindo no sentido contrário me dá a resposta: pelo alto. Às 11h42 cruzo uma ponte de troncos e a trilha sobe até um mirante incrível de onde se avista o campo-base Langshisha Kharka 1km à frente, bem ao lado do Rio Langtang. Ali a maior altitude do dia: 4138m. Na descida cruzei com os últimos integrantes de um grande grupo de escaladores que estava deixando o campo-base. Assim, encontrei-o completamente vazio às 12h30. Altitude de 4098m. Dali se avistam os picos Langshisha Ri a leste, Pemthang Karpo Ri a nordeste, Lingshing e Urkinmang a sudeste e Gangchenpo ao sul.
      Às 13h18 iniciei o retorno exatamente pelo mesmo caminho e às 17h já estava de volta a Kyanjin Gompa (anoitece por volta de 17h45 nessa época).
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 4,1ºC

      Pico Naya Kanga visto do Kyanjin Ri
      5º DIA - 11/10/18 - de Kyanjin Gompa a Kyanjin Ri
      Duração: 2h (subida) e 1h40 (descida)
      Maior altitude: 4610m
      Menor altitude: 3856m
      Resumo: nesse dia subi a montanha Kyanjin Ri num desnível de 754m
      Nesse segundo dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de subir a montanha Kyanjin Ri, de 4610m de altitude. Saí do lodge às 7h10 no sentido norte, onde alguns trilheiros já subiam a íngreme encosta bem junto ao vilarejo. Na primeira bifurcação logo no início da subida preferi tomar a direita e subir no sentido leste. Na segunda bifurcação, já nos 3985m de altitude, fui para a esquerda (a direita também é possível, é um outro caminho de subida). Na bifurcação seguinte, a 4096m, fui para a esquerda de novo (a direita encontra o outro caminho de subida).
      Aos poucos fui alcançando e ultrapassando diversos grupos mais lentos e às 8h20 atingi um primeiro cume com bandeirinhas de oração budista a 4300m de altitude. Mas a subida continua pela crista até os 4610m, aonde cheguei às 9h07. A visão é espetacular, de 360º, e se destacam as seguintes montanhas: ao norte Yubra e Kimshung, a nordeste Dagpache, a leste Yala Peak e Langshisha Ri, a sudeste Tsergo Ri e Gangchenpo, a sudoeste Naya Kanga, a noroeste Langtang Lirung. Dali foi possível avistar também diversas barracas no campo-base do Langtang Lirung.
      Às 11h30 deixei o cume e iniciei a descida por outro caminho, uma trilha bem marcada que se avista lá do alto e que percorre ainda por algum tempo a crista da montanha para leste para em seguida descer diretamente para o sul e sudoeste na direção de Kyanjin Gompa. Às 12h41 cruzei a trilha que percorri na subida exatamente naquela bifurcação dos 4096m de altitude e continuei para oeste. Nos 3967m aproveitei um desvio à direita para ir até uma pequena stupa a 120m da trilha principal. Fiquei 10 minutos ali e às 13h23 estava de volta ao vilarejo. Após o almoço caminhei pelo lugar e fui conhecer o monastério budista, que estava fechado (o gompa do nome da vila significa monastério).
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,2ºC

      No cume do Tsergo Ri, de 4989m de altitude
      6º DIA - 12/10/18 - de Kyanjin Gompa a Tsergo Ri
      Duração: 4h de subida normalmente (consegui fazer em 2h54) e 3h15 de descida por um caminho mais longo
      Maior altitude: 4989m
      Menor altitude: 3856m
      Resumo: nesse dia subi a montanha Tsergo Ri num desnível de 1133m
      Nesse terceiro dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de encarar a montanha Tsergo Ri, de 4989m de altitude. Pela dificuldade da subida, prevista para levar cerca de 4 horas, saí do lodge bem cedo, às 5h48, no sentido sudeste como se fosse para Langshisha Kharka. Levava lanche e água, como sempre faço. Em 6 minutos fui à esquerda na bifurcação seguindo a placa que aponta Chergori (Tsergo Ri). Cruzei aquele grande deslizamento e o ribeirão pelas pedras e tomei a trilha bem marcada que sobe a encosta. Já havia um outro grupo iniciando a subida mas eles ficaram bem para trás e chegaram ao cume mais de uma hora depois de mim. Às 6h52, na cota dos 4098m, fui à esquerda numa bifurcação com as placas Yala Kharka (Yala Peak) à direita e Chergori à esquerda. A subida continuou forte e cruzei com algumas pessoas já descendo! Iniciaram a subida ainda no escuro. Cruzei um trecho mais chato de pula-pedras e veio a subida final ao cume, aonde cheguei às 8h42. Só havia três pessoas nesse momento. Levei pouco menos de 3h para subir, o que pode ser considerado bem rápido.
      O cume tem vários mastros com bandeiras grandes e muitas bandeirinhas de oração budista. Dali a visão consegue ser ainda mais privilegiada do que no Kyanjin Ri. Destacam-se: Langtang Lirung a noroeste; Kimshung, Yubra e Dagpache ao norte; Yala Peak a nordeste; Pemthang Karpo Ri, Langshisha Ri, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa a leste; Gangchenpo a sudeste; Naya Kanga a sudoeste.
      Aos poucos os aventureiros foram chegando e às 12h22 iniciei a descida por um outro caminho, uma trilha bem visível no sentido sudeste por onde vi algumas pessoas descerem. O caminho é bem marcado também mas é muito mais longo. Começa com uma inclinação moderada mas depois se torna bem mais íngreme. Volta a ser menos inclinado quando percorre a encosta do Tsergo Ri, porém há várias trilhas paralelas em níveis diferentes da encosta - tentei escolher a mais larga e batida. Às 13h32 continuei a descida por uma crista bem inclinada e cheguei a uma bifurcação em T, onde a trilha é mais larga, e fui para a direita (a esquerda é o caminho para o Yala Peak). Às 14h03 passei por um conjunto de 6 ou 7 casas em ruínas dispostas em degraus na encosta da montanha que lembram um pouco uma paisagem dos Andes. Com mais 15 minutos passei por dois pontos de água, os únicos do dia. Às 14h38 fui à esquerda na bifurcação e em 15 minutos reencontrei o caminho que fiz na subida junto às placas Yala Kharka e Chergori. Às 15h39 estava de volta a Kyanjin Gompa.
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,5ºC

      Vila de Kyanjin Gompa e os picos Tsergo Ri e Gangchenpo
      7º DIA - 13/10/18 - de Kyanjin Gompa a Lama Hotel (Changdam)
      Duração: 7h (descontada a parada)
      Maior altitude: 3856m
      Menor altitude: 2473m
      Resumo: nesse dia deixei a vila de Kyanjin Gompa e iniciei o retorno, descendo pelo vale do Rio Langtang, em direção à bifurcação entre Pairo e Domen que me levará (no dia seguinte) para o trekking Gosainkund. Nesse dia consegui chegar a Lama Hotel.
      Depois de me despedir do Nawang, seus familiares e dos amigos que conheci nestes quatro ótimos dias que passei no lodge, saí às 9h tomando a mesma trilha da chegada. Logo após o morrote que marca a entrada da vila peguei na descida a trilha da esquerda para alcançar o grande bloco de pedra com uma stupa em cima através da ponte que evitei no terceiro dia. Com isso não passei pela usina hidrelétrica pela qual passei naquele dia e fiz um caminho mais curto. Não resistia à tentação de olhar a todo momento para trás para contemplar e fotografar os picos por onde caminhei nesses lindos últimos dias.
      Passei por Langtang às 11h14, atravessei a grande avalanche de pedras, Thangsyap às 12h46, parei em Ghoda Tabela para comer das 13h25 às 14h10, reentrei na floresta às 14h26, passei por Woodland às 15h17, por River Side às 15h27 e Lama Hotel às 16h42. Fui até Rimche para tentar dormir lá e adiantar mais alguns minutos de caminhada porém os três lodges estavam lotados. Tive de voltar a Lama Hotel pois há bem mais opções e ali consegui um quarto no Friendly Guest House (negociei com o dono e só paguei as refeições). O banheiro ficava dentro da casa (ao lado dos quartos) e era no estilo oriental, porém velho e encardido. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.
      Altitude em Lama Hotel: 2473m
      Preço do dal bhat: Rs 550
      Preço do veg chowmein: Rs 450
      8º DIA - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari)
      Duração: 8h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3290m
      Menor altitude: 1678m
      Resumo: nesse dia retornei mais um pouco pelo vale do Rio Langtang para alcançar a bifurcação entre Pairo e Domen onde iniciei o trekking Gosainkund. Mas foi um dia bastante pesado que eu deveria ter quebrado em dois pois há muita descida (798m de desnível) e muita subida (1612m).
      Deixei Lama Hotel às 7h24, cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Langtang às 8h20, passei por Bamboo às 8h46, por Pairo às 9h39 (parei por 15 minutos) e cheguei à bifurcação para Thulo Syafru às 10h09, marcada como já disse por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Altitude de 1730m. Nesse momento segui para a esquerda, subindo, e passando do trekking Langtang para o trekking Gosainkund.

      Lago Gosain Kund
      Trekking Gosainkund
      Início: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund
      Final: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu
      Duração: 4 dias
      Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La
      Menor altitude: 1730m (considerando o início deste trekking na bifurcação entre Pairo e Domen)
      Dificuldade: alta. Muita subida, com desníveis de até 1100m por dia. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais.
      Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang
      O trekking Gosainkund percorre altitudes bem mais elevadas que o trekking Langtang (sem considerar os picos opcionais de Kyanjin Gompa). Por isso os grandes atrativos dessa caminhada são a visão espetacular do Himalaia e os belos lagos de montanha da vila de Gosainkund. Os lagos são sagrados para hindus e budistas e atraem milhares de peregrinos durante o festival Janai Purnima em agosto.
      8º DIA (cont.) - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari)
      Foi uma longa e constante subida do Rio Langtang até Thulo Syafru, somente quebrada pela descida até a ponte suspensa sobre o Rio Chopche (Chopche Khola). Essa ponte é longa, muito alta e não está nas melhores condições, o que causou um friozinho na barriga. Cruzei-a às 11h15 e parei por 35 minutos para descansar e tirar a roupa mais quente. Logo após a ponte uma trilha à esquerda parece ser o caminho mais óbvio, mas está errado. As setas vermelhas mandam descer à esquerda para passar por baixo da ponte, esse é o caminho. E a subida volta com tudo. Alcancei os primeiros lodges de Thulo Syafru às 12h32, mas a vila é bastante extensa e cercada de plantações em forma de terraço. Todos me ofereciam almoço e até hospedagem, mas eu passei direto. Subi até o final da vila e cheguei a uma estradinha de terra, onde fui para a esquerda. Apenas 60m depois duas placas brancas mal colocadas apontam Gosaikund à esquerda e Dhunche à direita. Pela posição em que estava a placa de Gosaikund fiquei em dúvida se era para seguir pela estrada à esquerda ou subir a escadaria de concreto com uma stupa no alto. A resposta estava na parede da casa logo acima, onde estava pintado "way to Gosainkund" apontando para o alto da escadaria. Subi, passei pela stupa e vi que logo acima ficava a clínica do povoado, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking. Logo após a stupa inicia a trilha que segue pela mata sempre subindo. Em tempo: a placa que aponta Dhunche à direita indica um caminho que retorna à estrada principal pela qual cheguei de ônibus a Syabrubesi - essa pode ser uma rota de fuga.
      Passei por uma casa em construção às 13h23 e parei por 25 minutos para comer alguma coisa que levava na mochila. A trilha continua à esquerda e atrás da casa. Continuei subindo, passei por uma bica e às 14h02 uma bifurcação importante. Pintadas num muro branco de concreto duas setas indicam: à direita Sing Gompa e Dursagang, à esquerda Cholang Pati. Os dois caminhos levam às vilas de Cholang Pati e Gosainkund, então dois fatores devem ser levados em conta na escolha do trajeto: a rota à direita por Dursagang, Forpang Danda e Sing Gompa (Chandanbari) é 3,5km mais longa que a outra, mas tem muitas opções de lodges pelo caminho; a rota direta para Cholang Pati (esquerda) é bem mais curta, no entanto tem bem menos opções de hospedagem (segundo me disseram).
      Eu segui as sugestões que me deram e fui para a direita, sempre subindo. Saí da mata, passei às 14h43 pela minúscula Dursagang, aparentemente com apenas dois lodges, e alcancei um grupo de três espanhóis e uma francesa (que também falava espanhol). A trilha entrou na floresta e subiu muito.
      A francesa tinha pernas fortes e eu nunca conseguia alcançá-la. Às 15h20 passei por conjuntos de pedras mani muito antigas e cobertas de musgo no meio da mata e às 15h56 alcancei o único lodge de Forpang Danda, já fora da floresta e com visual magnífico das montanhas Langtang Lirung (nordeste) e Cordilheira Ganesh Himal (noroeste), porém um pouco prejudicado pelas nuvens que já se acumulavam naquele horário. Ali, numa parada de 20 minutos, pude conversar um pouco com os espanhóis e a francesa.
      A partir de Forpang Danda a inclinação passa a ser menor. Segui no sentido sudoeste e sul por dentro de uma linda e extensa mata de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, um lindo espetáculo deve ser. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Passei por três pontos de água. Alcancei finalmente o povoado de Sing Gompa (Chandanbari) às 17h, bastante cansado pelo grande desnível que enfrentei desde o Rio Langtang (1612m). Hospedei-me no Sherpa Hotel com quarto gratuito, só pagando as refeições. Havia um grupo de 9 nepaleses passando o final de semana ali e fazendo barulho por 50. Tentei um banho (gratuito) mas como era final de tarde e o aquecimento era solar a água estava de morna a fria, o que foi um sofrimento. O banheiro ficava fora da casa e tinha vaso sanitário e lavatório, mas este não funcionava. Para escovar os dentes e se lavar era necessário usar uma torneira no quintal, bem na saída do esgoto da cozinha...
      A partir de Sing Gompa há um caminho para Dhunche bem mais curto do que aquele de Thulo Syafru que pode servir como rota de fuga se necessário ou uma via de entrada para o trekking Gosainkund sem passar por Syabrubesi ou Thulo Syafru.
      Altitude em Sing Gompa: 3290m
      Preço do dal bhat: Rs 480
      Preço do veg chowmein: Rs 400

      Lago Bhairab Kund
      9º DIA - 15/10/18 - de Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari) a Gosainkund
      Duração: 4h25 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4428m
      Menor altitude: 3290m
      Resumo: nesse dia ultrapassei a linha das árvores e entrei novamente em um ambiente de alta montanha ao alcançar a vila de Gosainkund, num desnível positivo de 1138m
      A temperatura mínima da noite foi abaixo de zero (não medi) pois o campo ao lado do lodge amanheceu coberto de gelo. Depois do café da manhã tentei comprar queijo de iaque na fábrica mas não consegui encontrar ninguém para me atender. Visitei o monastério budista (o gompa do nome da vila significa monastério) e às 8h57 deixei o povoado caminhando na direção de Cholang Pati (leste e sudeste). Já estava novamente acima dos 3000m de altitude, mas a aclimatação feita em Kyanjin Gompa me ajudou a não ter nenhum sintoma da altitude mesmo enfrentando um desnível de mais de 1100m num só dia (não recomendável).
      A trilha sai da vila e sobe ampliando a visão dos picos nevados para trás e do enorme e profundo vale à direita. Atravesso dois trechos de florestas de rododendros e pinheiros e ao sair no aberto novamente a visão dos nevados é ainda mais ampla e espetacular. Passo pelos dois lodges da minúscula Cholang Pati às 10h30 (onde entronca a outra trilha que vem de Thulo Syafru) e continuo subindo. Aqui estou caminhando por uma crista de montanha acima dos 3600m e já vou deixando para trás a linha das árvores. Às 11h22 me deparo com gelo na trilha (mesmo sob o sol), o que não surpreende pois já estou de novo nos 3900m de altitude, chegando ao povoado de Laurebina ou Lauribina Yak (ainda não é o Passo Laurebina La, ao qual eu chegaria só no dia seguinte). Os três lodges ali devem ter de suas janelas a vista mais bonita de todo esse trekking! Aproveitei para descansar um pouco e curtir o esplêndido visual do Himalaia. Destacam-se na paisagem a montanha Langtang Lirung a nordeste e a Cordilheira Ganesh Himal a noroeste. Ainda subi um pouco mais até a estátua do Buda sentado em posição de lótus esculpido em pedra negra (basalto?) na altitude de 4228m, aonde cheguei às 12h40. Parece que havia um templo ali mas agora só há escombros ao redor da estátua. Parei para comer o lanche que trazia na mochila (comer lanche em alguns dias em vez de almoçar foi uma opção minha, quase sempre há um lodge no caminho para comer comida de verdade).
      O caminho para Gosainkund continua e ainda sobe mais, porém agora deixa a crista e percorre a vertente sul da montanha, tão íngreme que em alguns trechos instalaram alambrados para evitar quedas e acidentes. Às 13h37 avisto o primeiro dos lagos, abaixo à direita, de nome Saraswati Kund, ainda pequeno em relação aos próximos mas com uma bonita cachoeira se formando a partir do seu vertedouro. Às 14h03 passo ao largo do segundo lago, este bem maior, de nome Bhairab Kund, e com mais 7 minutos chego ao povoado e ao terceiro lago, o próprio Gosain Kund. Percorri os 4 ou 5 lodges dali e optei pelo último (Hotel Lake Side) na esperança de ser um lodge mais vazio e silencioso e não ter de dividir o minúsculo quarto com outra pessoa, mas mesmo assim o dono me avisou que eu teria que dividir caso o lodge enchesse. Felizmente isso não aconteceu pois apenas uma alemã (com guia) e um francês (sozinho) se hospedaram ali. Por causa dessa condição acertamos o quarto sem custo, pagando apenas as refeições. O banheiro era no estilo oriental (havia um dentro da casa para a noite e outro fora da casa com cheiro horrível) e para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.
      Aproveitei a tarde para circundar o lago Gosain Kund por uma trilha e depois subir aos mirantes adornados por bandeirinhas budistas atrás do povoado. A subida levou 28 minutos e a altitude do mirante mais alto é de 4635m, quase a altura do Passo Laurebina La que eu cruzaria no dia seguinte. Dali avistei diversos lagos menores encaixados em vários níveis acima dos lagos maiores. Na descida assisti a um belo pôr-do-sol (às 17h35).
      Altitude em Gosainkund: 4428m
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 3ºC
      Preço do dal bhat: Rs 650
      Preço do veg chowmein: Rs 430

      Passo Laurebina La, de 4651m de altitude
      10º DIA - 16/10/18 - de Gosainkund a Phedi
      Duração: 4h
      Maior altitude: 4651m
      Menor altitude: 3771m
      Resumo: nesse dia cruzei o Passo Laurebina La, de 4651m de altitude, ponto mais elevado dos três trekkings (sem considerar o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional), para em seguida iniciar a descida para a região de Helambu.
      Saí do lodge às 8h40 e li numa placa na saída do povoado que há 17 lagos com nome nas proximidades, alguns bem pequenos, e outros 4 sem nome. Bem perto estava o pequeno santuário do deus Shiva. Continuei no sentido leste margeando o lago Gosain Kund e logo iniciei a subida. Havia gelo entre as pedras na subida, o que exigiu bastante cuidado. Passei por um primeiro lago à esquerda sem nome no mapa, depois pelo lago Ganesh Kund também à esquerda e alcancei o Passo Laurebina La às 10h22, com o lago Surya Kund à direita da trilha. Dos seus 4651m de altitude se avistam as cordilheiras Ganesh Himal, Manaslu e Annapurna a noroeste (mas a visão é até melhor na altura do lago Ganesh Kund). Já em dezembro deve haver neve nesse passo. Iniciei a descida às 10h33 e encontrei mais um pouco de gelo na trilha. Tentei visualizar algum caminho que subisse a montanha Surya Peak mas não encontrei. O dono do lodge me disse que não há trilha marcada e que é preciso caminhar por encostas de pedras soltas, sendo mais seguro ir com alguém que conheça.
      Às 11h39 passei por uma casa de pedra isolada e na bifurcação 70m depois desci à direita. Aos poucos fui reencontrando a vegetação arbustiva de novo, para cima desse ponto havia no máximo vegetação rasteira.
      Mas a neblina, que costuma dar as caras somente à tarde, hoje chegou antes do meio-dia para estragar todo o visual. E eu não fui até lá para caminhar sem curtir a paisagem. Somado a isso a descida íngreme de pedras estava me desgastando bastante. Ao chegar ao primeiro lodge de Phedi às 12h40 (há apenas dois lodges, mais nada) parei para resolver o que ia fazer. A francesa que falava espanhol havia parado ali pelo mesmo motivo, a falta de visual. Dei um tempo e a neblina não dava sinais de que ia embora. Resolvi ficar pois deu pra perceber que a paisagem dali era muito bonita e eu ia passar sem ver nada. Como não tinha nenhuma pressa podia deixar para prosseguir no dia seguinte. Negociei o preço do quarto ali no Hotel Dawababy e o dono fez por Rs100 (US$0,87). O restante do dia foi para descansar, conversar com a francesa (que estava viajando havia 8 meses, vindo do Sudeste Asiático) e aguardar tempo melhor no dia seguinte. Mais tarde chegou um grupo de seis franceses barulhentos e dois ingleses.
      Na frente desse lodge uma placa de mármore homenageia os mortos num acidente aéreo da empresa Thai ocorrido em 1992 nas proximidades.
      O banheiro ficava fora da casa, ou seja, era preciso encarar o frio para ir ao banheiro durante a noite. Era no estilo oriental. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.
      Altitude em Phedi: 3771m
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Lodge em Tharepati e alguns nevados da região de Kyanjin Gompa ao fundo
      11º DIA - 17/10/18 - de Phedi a Tharepati
      Duração: 5h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3771m
      Menor altitude: 3310m
      Resumo: nesse dia deixei o ambiente de alta montanha e voltei a caminhar abaixo da linha das árvores, descendo (e depois subindo) até a vila de Tharepati, com um ótimo mirante para as montanhas já percorridas
      Felizmente valeu a pena a parada meio forçada em Phedi pois o dia amanheceu muito bonito. Só então pude ver a beleza e grandiosidade do lugar onde estava. Dali já é possível avistar os dois lodges de Tharepati e, mais próximo, o lodge isolado de Dhupi Chaur.
      Saí do lodge às 8h03 seguindo as placas de Ghopte e o caminho era pela encosta íngreme da montanha com pouco desnível. Pinheiros baixos foram aparecendo a partir dos 3700m para me lembrar que eu estava reentrando no limite das árvores. Cruzei 4 pontos de água. Passei pelo Himalay Sherpa Hotel, isolado num local chamado Dhupi Chaur (Dupcheswor), às 10h32 e cheguei a Ghopte com neblina às 11h24. Há dois lodges ali. Descansei um pouco e segui. Durante a passagem por uma floresta de rododendros parei para comer uns biscoitos que trazia na mochila. Ao final dessa mata, às 12h26, encontrei uma casa em ruínas. Logo cruzo outra floresta de rododendros e pinheiros.
      Às 13h22 avistei no alto à frente os dois lodges de Tharepati. Às 13h41 alcancei o povoado e me deparei com uma placa: à direita Kutumsang e Mangin Goth, à esquerda Melamchighyang e Helambu (porém não há um vilarejo com o nome Helambu, mas sim toda essa região onde eu estava entrando). Ambos os lados constam dos mapas como sendo do trekking Helambu, o qual descreve um grande arco com as extremidades voltadas para o sul. Se eu quisesse encerrar essa caminhada logo, tomaria a esquerda e desceria mais de 1000m (de desnível) em direção a Melamchighyang (Melanchigaon), onde poderia encontrar um ônibus para sair (ou talvez só em Timbu, 2000m abaixo). Mas o meu plano era fazer o trekking Helambu na sua maior extensão possível e por trilhas (não estradas), então o meu caminho seria para a direita.
      Porém uma coisa me atrapalhava de novo: a neblina. Tharepati fica no alto de uma crista e possui um dos mais bonitos visuais de montanha de todo o meu percurso. E eu não estava vendo nada, de novo... O jeito era dormir ali e torcer para a neblina dissipar na manhã seguinte. Escolhi o Sumcho Top Lodge para me hospedar pela posição mais alta e panorâmica, mas a negociação do quarto foi um pouco tensa. O dono parecia estar embriagado e se irritou com o meu pedido de pagar somente pela alimentação. Ele pediu Rs500 (US$4,34) pelo quarto e não queria ceder. Eu agradeci e saí para ir para o outro lodge. Aí ele mandou o menino me chamar dizendo que aceitava. Mas não falou mais comigo e a sua esposa, antes muito "simpática", também passou a me tratar muito mal. Me arrependi de ter ficado. Se era para me tratar desse jeito não deveria ter aceitado a minha proposta.
      Havia um grupo de 5 alemães e um casal francês ali, todos com seus guias e carregadores. Para nossa surpresa depois das 16h o tempo começou a abrir e pudemos tirar boas fotos das montanhas próximas e dos nevados da região de Kyanjin Gompa a nordeste: Gangchenpo, Urkinmang, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa. Dali era possível avistar também os dois lodges de Phedi, o lodge isolado de Dhupi Chaur e ainda o Passo Laurebina La.
      O banheiro aqui também era no estilo oriental e fora da casa, muito frio à noite.
      Altitude em Tharepati: 3646m
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2,2ºC
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Passo Laurebina La à direita da cadeia de montanhas vista de Tharepati
      Trekking Helambu
      Início: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu
      Final: Sundarijal
      Duração: 2 dias
      Maior altitude: 3646m em Tharepati
      Menor altitude: 1377m em Sundarijal
      Dificuldade: média a difícil pois há muita subida e descida por degraus de pedra na passagem pelo Parque Nacional Shivapuri Nagarjun
      Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun
      O trekking Helambu, ao contrário dos outros dois, não é uma caminhada de alta montanha. A altitude é bem menor e a paisagem é basicamente de florestas nas partes mais altas e plantações em terraços nas partes mais baixas. A caminhada percorre muitos vilarejos e tem a desvantagem de ter muitos trechos em estrada. A travessia do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun exige o pagamento da entrada (Rs 1035 = US$ 8,98) e a trilha que cruza o parque tem uma infinidade de escadarias de pedra tanto subindo quanto descendo. Por causa dessas escadarias meu joelho esquerdo começou a doer e para o trekking seguinte (Everest) tive que comprar e começar a usar um bastão de caminhada.
      12º DIA - 18/10/18 - de Tharepati a Golphu Bhanjyang
      Duração: 6h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3646m
      Menor altitude: 2135m
      Resumo: nesse primeiro dia do trekking Helambu desci um grande desnível (1511m) em direção sul para encontrar vilarejos ao longo de poeirentas estradas de terra
      Felizmente o dia amanheceu lindo novamente e pude apreciar e tirar muitas fotos de toda a incrível paisagem de Tharepati.
      Como eu era persona non grata naquele lodge tratei de tomar meu café e sair logo. Às 7h40 peguei a trilha bem em frente no sentido sul. Não é a mesma trilha por onde cheguei no dia anterior a partir da placa, é uma outra que entroncaria na principal uns 300m depois. Uma vez na trilha principal segui para a esquerda, no sentido sul que eu manteria o dia todo (com poucas variações). Mas fiquei ainda um bom tempo fotografando e só iniciei a caminhada realmente às 8h45. Às 9h53, num lugar chamado Dhobato, alcancei uma bifurcação com placas e segui à direita descendo na direção de Kutumsang. À esquerda iria para Timbu, onde provavelmente haveria ônibus, ou seja, é mais uma rota de fuga se houver necessidade. Às 10h31 passei por dois lodges em Magingoth/Mangin Goth (um parecia estar desativado) e subi até um terceiro lodge, 1km à frente, onde peguei água da torneira e tratei com Micropur. Na descida que se seguiu parei alguns minutos para comer alguma coisa que tinha na mochila. Às 11h50 tomei uma trilha à direita da principal e fui até um bonito mirante. Mas o que impressionou ali foi ver os escombros de uma grande casa de pedra que no gps consta como Red Panda Hotel.
      Atravessei outra floresta de rododendros e às 12h10 a visão se amplia, já podendo visualizar a vila de Kutumsang na encosta de uma montanha ao sul. A descida se torna mais inclinada, com troncos de contenção e trechos de pedras soltas. Mas antes de chegar a Kutumsang fui parado às 13h26 em um checkpoint (Kutumsang Army Camp) para mostrar as permissões. Quiseram revistar a mochila... foi um transtorno porque tive de tirar tudo de dentro para eles examinarem e apalparem. Depois tive que refazer a mochila inteira. Esse local é um final de estrada, mas caminhei apenas 50m por ela e retomei a trilha sinalizada por uma placa. Às 13h46 passei por uma stupa grande logo abaixo à direita mas não fui até ela. Na bifurcação seguinte tanto faz o lado, mas parece que o esquerdo é mais usado. Às 14h alcancei a vila de Kutumsang e seus primeiros lodges, reencontrando a estrada de terra que abandonara 23 minutos antes. Ali fotografei outra stupa ainda mais bonita que a anterior. Uma grande placa verde logo abaixo apontava os caminhos: Chanawate à esquerda, Dupchugyang à direita e Golphu Bhanjyang em frente, este último o meu destino nesse dia. Após a placa subi pela estrada de terra cruzando a vila e tendo o primeiro contato com carros e motos depois de 12 dias.
      Quando a estrada deixou a vila e começou a descer em direção a outro povoado achei que havia algo errado. Graças ao caminho gravado no gps encontrei a trilha para Golphu Bhanjyang saindo à esquerda da estrada, num local sem nenhuma placa ou indicação, exatamente na entrada do Hotel Mountain View. Entrei nela às 14h18 e parei num mirante à esquerda para comer alguma coisa. Às 15h18, junto a algumas ruínas, vou à esquerda numa bifurcação sem placa por ser a trilha mais larga. Com mais 7 minutos visualizo muito abaixo a vila de Golphu Bhanjyang. A trilha desembocou numa estrada de terra (continuação da anterior) às 15h51 onde há uma placa muito velha apontando os vilarejos próximos. Fui para a esquerda e Golphu Bhanjyang ainda estava bem abaixo. Numa curva da estrada tomei um atalho à esquerda e saí de novo nela já perto do povoado, onde efetivamente cheguei às 16h19. Ali mais carros e motos para minha decepção... não sabia que haveria tanta estrada nesse trajeto (algumas são bem recentes e não constam em nenhum mapa).
      Dei uma olhada num lodge ali e a senhora pediu Rs300 (US$2,60) pelo quarto. O outro lodge (Himalaya New Lodge) parecia fechado. Resolvi tentar alguns lodges mais à frente, já além do povoado, para adiantar a caminhada e quem sabe terminar a travessia no dia seguinte. Mas me arrependi muito pois os lodges indicados no gps não existiam, fui me afastando cada vez mais e por uma subida muito cansativa. Quando finalmente encontrei um lodge funcionando, o Thodong Top, ele estava lotado. Voltei 1,9km até a vila de Golphu Bhanjyang e encontrei o Himalaya New Lodge aberto. Fui atendido por um simpático casal e o preço do quarto era o mesmo, Rs300 (US$2,60). Havia tomada (com interruptor) no quarto e pude recarregar as baterias. Banheiro novamente no estilo oriental e fora da casa, mas aqui já não fazia tanto frio à noite. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal. Não havia ducha, o banho era de balde e custava Rs200 (US$1,74). Esse foi o primeiro lodge em que fui o único hóspede.
      Altitude em Golphu Bhanjyang: 2135m
      Preço do dal bhat: Rs 350
      Preço do veg chowmein: Rs 250

      Stupa perto de Golphu Bhanjyang
      13º DIA - 19/10/18 - de Golphu Bhanjyang a Sundarijal
      Duração: 9h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2464m
      Menor altitude: 1377m
      Resumo: nesse dia percorri muitas estradas na direção sul (sempre que possível fugindo delas pelas trilhas que encontrava), atravessei o Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (com grande subida e depois descida por escadarias) e encerrei o trekking em Sundarijal
      A intenção era me aproximar o máximo possível de Sundarijal para no dia seguinte finalizar a caminhada e tomar o ônibus de volta a Kathmandu. Mas acelerei bastante o passo e consegui alcançar Sundarijal nesse mesmo dia. Finalizei o trekking mas Kathmandu ficou para o dia seguinte, como contarei abaixo.
      Também foi um dia bem diferente dos anteriores pois caminhei bastante por estradas e passei por muitos vilarejos com suas plantações em terraços. Alternaram-se trechos de estrada e trilha, com as trilhas sendo basicamente atalhos para poupar as muitas curvas das estradas. Em vários pontos tive de perguntar pelo melhor caminho aos moradores e aqui a descrição vai ficar bastante "carregada" por causa das inúmeras bifurcações.
      Saí do lodge às 7h50 ainda na direção sul pela estrada, subi e fui à direita na bifurcação no alto, subindo mais. A parte alta de Golphu Bhanjyang tem casas bem humildes feitas inteiramente com folhas metálicas. O panorama foi se alargando e gastei um bom tempo tirando fotos das montanhas na direção do Passo Laurebina La (norte).
      Mais acima, à esquerda, aparece uma casa de muro alto que deveria ser um lodge mas estava fechado. Passei junto ao muro do lado esquerdo dela e fui fotografar uma linda stupa que fica atrás. Às 8h38 subi à direita na bifurcação com placa seguindo a indicação de Chisopani (segundo a placa esse povoado se chama Thodong). Passei novamente pelo Hotel Thodong Top e, desprezando uma trilha à esquerda, continuei pela estrada, que ia ficando cada vez mais precária.
      Às 9h37 surge uma trilha subindo à esquerda com uma placa quebrada no chão onde mal se consegue ler Chipling. Entrei nela mas é somente um atalho (maior altitude do dia: 2464m) que tem no percurso uma stupa, uma casa e uma escadaria que desce e reencontra a estrada, onde fui para a esquerda (sul). Alguns metros antes das primeiras casas de Chipling um deslizamento na estrada interrompe o tráfego para carros, apenas motos conseguem passar. Alcanço o centro do povoado às 10h19 e a partir dali as plantações em terraços passam a ser comuns ao longo do caminho, o que garante uma paisagem bastante verde.
      Cruzei as poucas casas do lugar evitando os caminhos à direita e indo sempre para a esquerda. Caminhei cerca de 110m mais pela estradinha e fui à direita numa bifurcação, subindo. Nessa hora contei com a ajuda dos simpáticos moradores para encontrar o caminho por trilha pois não havia placa e as trilhas não eram evidentes. Se eu me mantivesse na estrada obviamente iria caminhar muito mais. Apenas 90m após a última bifurcação entrei numa trilha entre casas à esquerda (meio estranho pois parecia que eu ia entrar numa das casas), desci, tomei a esquerda numa rua com mais casas e apenas 30m depois tomei a trilha escondida descendo à direita, por indicação do pessoal local. Dali foi só descer bastante por entre plantações em terraços e trechos de mata. Encontrei alguns trilheiros subindo - fazer esse trekking ao contrário deve ser bastante cansativo por conta de tanta subida quase sem sombra. Nas bifurcações tomei a direita e depois a esquerda, caí na estrada de novo, fui para a esquerda fazendo a curva e logo entrei noutro atalho à esquerda que desembocou na mesma estrada numa trifurcação, num vilarejo chamado Thankuni Bhanjyang, onde há o lodge Lama Guest House. Na trifurcação, às 11h21, fui para a direita caminhando pela estrada.
      Parei por 20 minutos para comer um lanche que levava na mochila e às 12h17 tomei um atalho por trilha à direita da estrada. Mas logo caí na estrada de novo e fui para a direita, cruzando a vila de Patibhanjyang. Ali vi várias pessoas com uma "massinha" vermelha na testa e não sabia o que era, depois descobri que estavam comemorando o festival Dasain (pronuncia-se dasái), o maior festival do Nepal, e que aquela massinha vermelha feita com grãos de arroz se chama tika. Após a vila, na bifurcação, tomei a estrada da esquerda, subindo. Com mais 130m entrei num caminho largo à esquerda que serve como atalho. Caminhei só 70m e subi na trilha bem íngreme à direita. Reencontrei a estrada numa curva fechada e fui para a esquerda, passando por algumas casas. Subi apenas 100m e entrei numa trilha à direita com uma escadaria de pedras. Subi pela sombra da mata e quando saí no aberto a paisagem era bem mais ampla e bonita.

      Plantação em terraços na vila de Chipling
      Subi até cruzar a estrada de novo e continuei pela trilha em frente subindo. Passei por uma casa às 13h06 e a trilha continuava à direita dela. Reencontro a estrada e a tomo para a esquerda, porém a abandono de novo em favor de uma trilha à esquerda ao alcançar uma matinha de pinheiros (poucos metros à frente pela estrada fica o Hotel Everest View Tower). Reencontro a estrada numa curva bem fechada e vou para a direita. Desprezo uma outra entrada para o hotel à direita (com placa) e subo a escadaria 20m à frente também à direita. A trilha dá uma guinada de 90º para a direita (oeste) e cruza a mesma estrada. Acabo saindo nela 90m à frente e vou para a esquerda. Essa estrada encontra outra mais larga numa curva fechada e subo à esquerda.
      Alcanço a vila de Chisopani às 13h50 e após passar pelos dois primeiros lodges vou à esquerda na bifurcação. Após o lodge Dorje Lakpa vou à esquerda onde um prédio de 3 andares inclinado lembra a destruição causada pelos terremotos de 2015. Mais dois lodges, mais casas em ruínas e às 14h08 chego à portaria do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun, onde sou recebido pelo guarda-parque e pago a taxa de entrada de Rs 1035 (US$8,98). Não acho esse valor exorbitante mas não me conformo em pagar uma taxa de entrada como essa e encontrar um parque sujo, com lixo por toda parte, sem sinalização, com quiosques abandonados, etc. Aliás o governo nepalês é craque em cobrar taxas altas dos visitantes e oferecer muito pouco em troca, e isso vale para todos os parques por onde caminhei.
      Ao sair da portaria às 14h23 abandonei a estrada (por um bom tempo, felizmente) e entrei no caminho descendo à direita que logo virou uma trilha. Fui à esquerda nas duas bifurcações e estava contente por voltar a caminhar por trilha e por pensar que agora seria só descida até Sundarijal. Porém havia me esquecido do passo em Borlang! Logo essa trilha começou a subir, subir... e por escadarias de pedra bastante cansativas. Por fim subi dos 2137m aos 2410m, tudo por escadarias, mas isso não significou uma bela paisagem para fotografar pois há muita vegetação obstruindo. O topo, aonde cheguei às 15h20, é marcado por bandeirinhas de oração budista. Cerca de 80m antes há uma bifurcação com uma placa indicando que ali é Borlang, com Sundarijal à esquerda, e à direita Shivapuri Peak (a 6,3km dali), Tinchule e Baghdwar (com um santuário).
      Ali eu já estava fazendo cálculos de distância e tempo para saber se conseguiria chegar com luz do dia ao ponto final do ônibus em Sundarijal. A descida por infindáveis escadarias foi tão cansativa quanto a subida e foi aí que comecei a sentir o joelho esquerdo. Na volta a Kathmandu tive que comprar um bastão de caminhada para poupar os joelhos nas caminhadas seguintes. Às 16h15 passei por uma "fortaleza" à direita, que devia ser do exército, com arames farpados, torre de vigilância, etc. e um portal com uma placa escrita somente em nepalês. Mais 7 minutos e chego às primeiras casas de Mulkharka, num final de estrada, e o ponto do ônibus estava ainda 3,6km à frente. Acelerei o passo.
      Às 16h30, onde há uma placa de Lumo Karmo, saio da estrada e desço pela escadaria à direita que serve como atalho. Ao reencontrar a estrada, cruzo-a e desço ainda por escadaria. Saindo na mesma estrada mais abaixo sigo por ela à esquerda e entro na primeira trilha à direita, 65m abaixo. Passo por uma escola, desço uma escadaria à direita e cruzo de novo a estrada junto ao Karma Guest House (onde perguntei sobre o melhor caminho). Continuando por trilha desci até uma barragem, aonde cheguei às 17h04. Cerca de 8 minutos depois passei por um posto do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun mas não fui parado para mostrar o tíquete de entrada.
      Passei por uma cachoeira bem alta do lado direito com quedas menores do lado esquerdo. Ainda descendo, passei a acompanhar uma tubulação à minha esquerda. Às 17h28 passei por uma guarita e pelo portal do parque nacional, mas não havia ninguém naquele horário. Alcancei enfim o largo de onde saem os ônibus às 17h39, perguntei sobre o ônibus para Kathmandu mas não me respondiam. Um vendedor de frutas é que me disse que o último sai às 17h. Como um táxi ficaria caro o jeito era dormir ali e ele me ajudou a encontrar um lugar. Parece que havia uma só opção, o Side View Hotel. Deve ter sido o pior lugar que fiquei no Nepal: quarto sujo, com restos do hóspede anterior, banheiro privativo porém sem água. Reclamei duas vezes sobre a água mas mesmo assim só tive por um curto período. Preço do muquifo: Rs900 chorado para Rs800 (US$6,94)! Se soubesse do horário do ônibus teria escolhido um lodge decente para ficar no caminho.
      E assim encerrei essa caminhada incrível de 13 dias. No dia seguinte tomei às 6h45 o ônibus para Kathmandu. Os trekkings Langtang e Gosainkund na minha opinião foram muito mais bonitos e recompensadores que o Helambu, mas há quem faça somente este último.
      Altitude em Sundarijal: 1377m
      Informações adicionais:
      Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.
      Horários de ônibus:
      . Kathmandu-Syabrubesi: 6h30, 7h30 e 8h (9h de viagem para apenas 126km)
      Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Macha Pokhari, uma rua próxima ao Terminal Gongabu, no anel viário da cidade
      Preço: Rs600 (US$5,21)
      Táxi do Thamel até Macha Pokhari: Rs350 (US$3,04)
      . Sundarijal-Kathmandu:
      roda entre 6h e 17h, não consegui saber a frequência (cerca de 1h de viagem)
      Em Kathmandu desci próximo ao terminal do Ratna Park
      Preço: Rs25 (US$0,22)
       
      Rafael Santiago
      outubro/2018
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br


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