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Renato Santini

Guia de Equipamentos para Serra Fina

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    • Por Rafaelramoss
      Boa tarde.
      Tenho interesse em realizar a travessia da Serra Fina no feriado prolongado de 6 a 9 de julho. 
      Por enquanto sou eu e minha esposa. Talvez mais 2 colegas.
      Encontrei algumas agências que já possuem pacotes, mas o valor está um pouco acima do planejado (acima de 1k), portanto caso alguém esteja formando um grupo, queira formar um grupo ou que conheça um guia experiente, mande um oi o/
      *** Edit: conseguimos formar um grupo com guia especializado no local e possui 1 vaga. Valor bem mais em conta que por agência. Interessados me mandem msg.
      Abraços.
    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
    • Por RogerioAlexandre
      Travessia da Serra Fina Full em 3 dias. Subimos, de ataque, aos cumes das montanhas próximas. Relato com fotos e tempos gastos, para ajudar quem quiser a fazer a pernada!  Abraço!
      Travessia da Serra Fina Full - 3 dias.pdf
    • Por RogerioAlexandre
      Travessia da Serra Fina em 3 dias – Achados e Malucos

      A ideia nasceu de um infortúnio feliz, vicejou nos longos meses entre uma temporada de montanha e outra, floresceu sob as incertezas do clima do início de abril 2019 e frutificou nos passos de 18 montanhistas que se tornaram amigos, ao longo de 3 dias e duas noites na Serra Fina.


       
      Explico a aparente contradição no início acima: dois jovens montanhistas, durante uma tentativa de travessia solo da SF em 2018, sob más condições visuais e climáticas, perderam a curva à esquerda, onde se deixa o Cupim de Boi e se desce para o bosque ao pé do Três Estados e desceram para o colo entre esse o Cabeça de Touro. Com o erro de navegação, uma travessia de 4 dias progrediu para uma operação de busca e resgate. Ficaram nas montanhas 7 dias no total, 4 deles em condições não previstas. O perrengue deles virou história, felizmente de final feliz. Um susto para familiares e amigos que serviu de lição para uns e outros. Mas não acabou aí: o Adilson, tocado pelas dificuldades da dupla, curioso das histórias e imbuído de um senso de montanhismo às antigas, em vez de criticar os jovens pela ousadia ou imprudência, parabenizou-os pela capacidade de lidar com as adversidades, de manter o otimismo e ainda, propôs ajudá-los a completar a travessia.


       
      Quando ele trouxe a ideia ao grupo de travessias que montamos, Malucos da Amantikir, (ou simplesmente, MDA) aderimos de imediato, convictos da pertinência da ação. Ficou ao seu encargo o planejamento, com o apoio pontual dos demais. Ano de poucos feriados mais longos, 2019 trazia a primeira oportunidade em abril. Marcada a data, começamos os preparativos, verificando equipamentos e buscando melhorar o condicionamento físico. Eu particularmente, acabei por abusar nessa busca e no dia 26 de fevereiro dei um mau-jeito na coluna mais sério que me deixou de cama por 3 semanas e convalescente cuidadoso por outras 5 semanas. A cada questionar do Adilson “vcs estão treinando?!?” eu respondia com um sonoro silêncio. Na verdade, não tinha nenhuma certeza de que conseguiria subir mais que os 4 lances de escada de casa com uma cargueira.


       
       

      Estudos e plano C, visão geral            última aula de Fisio antes da travessia


       
      A uma semana da travessia, sentindo algumas dores ainda, comecei a fisioterapia recomendada. Sabia que não teria efeito relevante no mau condicionamento cardiorrespiratório resultante dos dois meses de doloroso sedentarismo, mas o objetivo era uma avaliação técnica das condições da minha coluna. Continuei mau condicionado, mas adquiri confiança para tentar a pernada.


       
      Durante a semana arrumei e revisei a arrumação da minha cargueira até obter o menor peso que já utilizei numa travessia de 3 dias, pouco mais de 8kg, com comida e guloseimas. Com agua, minha ideia era de que pesasse próximo dos 10 kg na primeira subida da travessia. Subiria o Capim Amarelo com 2 litros, e teria capacidade de levar até 5 litros. Se com os 10 kg na cargueira, minha coluna não suportasse a subida, com 13kg é que não o faria. Nesse caso, havia prometido a mim mesmo a jogar a toalha e desistir ainda na subida do CA.


       
      Chegado o dia, após o trabalho parti para São Paulo, para encontrar com o Douglas, seu filho Lucas, a Amanda e o Adilson. Atrasados devido ao trânsito na véspera de feriado e partimos em direção à Passa Quatro às 20h. Soubemos então que o Rodrigo não poderia ir, pois estava com a filha pequena muito mal, indo para o hospital. Como a coisa evoluíra de forma inesperada ao longo do dia, outros 3 colegas que seguiriam com ele, ficaram sem carona. Verificamos os ônibus para Passa Quatro, mas em véspera de feriado não havia mais vaga. Tristes com a notícia e preocupados com a filha de nosso amigo, seguimos em silêncio por alguns quilômetros até termos a informação de que o quadro da criança estava estável, apesar de ainda inspirar cuidados constantes. Apesar desse atraso inicial, pegamos menos trânsito que esperávamos e pouco depois da meia noite, chegamos a pousada do Guto, onde dormiríamos algumas horas, aguardando os colegas dos outros estados para pegarmos o transfer até o início da trilha. Entre jantar, fazer a revisão final da cargueira e tomar um banho, deitei para tentar dormir pouco antes das 2 da matina. Tentei, mas a sinfonia de roncos e a minha ansiedade não o permitiram, de forma que fui esperar fora do quarto, arrumando os arquivos do celular. Acabou que tomei café antes de todos, com direito a pão de queijo recém-saído do forno.


       
      1º Dia

      O dia nasceu, os colegas chegaram, tomaram café e todos colocamos as cargueiras na van e na Kombi que substituiu uma van defeituosa de última hora. Para os que foram na Kombi, as emoções começaram mais cedo, ante a pouca habilidade ao volante do condutor. Cochilei até que os solavancos me acordassem, indicando que já havíamos deixado a rodovia e seguíamos pela estrada rural ganhando preciosos metros de altitude até a Toca do Lobo.


       
      A Kombi seguia na frente e, rapidamente o cheiro característico de metal aquecido nos alertou que algo não ia bem. A embreagem claramente estava sendo desgastada pelo mau uso, e logo a fumaça branca que se via passou a indicar o pior. Numa das subidas, o condutor jogou a toalha e ficou a aguardar que a van que nos levava nos deixasse próximo da trilha e voltasse para buscar os demais integrantes do grupo.

      Fizemos uma foto com todos na Toca do Lobo, abastecemos de água para o primeiro trecho e partimos para a primeira subida do dia, em direção ao Cruzeiro. Com todos esses imprevistos, atrasamos o começo da trilha em quase duas horas. De forma que o sol já estava brilhando sobre nossas cabeças assim que saímos do trecho de mata e passamos a caminhar pela crista. Caminhávamos admirando a paisagem, as orquídeas que florescem em quantidade nesse trecho e avaliando, cada um, o que poderia ter deixado para trás e que pesava agora e pelos próximos três dias pesaria ainda mais.


       


      Na partida, Toca do Lobo. Ansiosos, descansados e ainda asseados.


       
      A subida do Cruzeiro foi rápida e, em pouco tempo, passamos a ter visual das cidades nos vales. Andávamos tranquilos, conversando e admirando. Ao pé do Quartizito, peguei mais dois litros de água, de forma a poder “socorrer” alguém na subida do Capim Amarelo, mais longa e que pegaríamos sob o intenso sol da manhã... com o horário que partíamos, era provável que alcançássemos o cume apenas próximo ao meio dia.


       
       

      Subida do CA, PM ao fundo, à direira                               Douglas e Lucas, CA ao fundo


       
      Na subida do Quartizito, a Márcia começou a ter cãibras na panturrilha, que logo progrediram para a região anterior da coxa, tornando o caminhar doloroso. assagens, mel, sachê de carbogel e castanhas de caju ajudaram a contornar o problema, provavelmente originado na alimentação inadequada pela manhã. Com notável determinação e perseverança, ela continuou a subir e, pouco antes do meio dia, alcançamos o cume do Capim Amarelo. Fizemos uma pausa para registro no livro, descanso e lanche, enquanto aguardávamos os últimos elementos do grupo, também castigados pelas cãibras, pelo sol e pelo expressivo ganho de altitude imposto pela subida do CA. 


       
          

      Flores nas montanhas, onde repousa o olhar, há beleza a se testemunhar


       
      Alimentados, hidratados e, tanto quanto possível, descansados, partimos em direção ao Melano, nossa última subida intensa do dia. Com cuidado e atenção, iniciamos a descida, sabedores de que, muito à esquerda e caminha-se na direção do Tijuco Preto, muito à direita, é um precipício que obriga o retorno. Como em tantos momentos na vida, a virtude não está nos extremos, mas no meio. Nesse caso, a virtude buscada é o caminho que segue pela encosta do CA até a mata em seu colo, por onde avançamos, segurando nos bambuzinhos da margem da trilha, no infindável descer que fazia o Melano se agigantar a cada metro de altitude perdida e que seria causa de muito suor para recuperarmos. 



      Melano, Asa, Pedra da Mina e Tartarugão vistos do Capim Amarelo


       
      Do colo do CA viramos pouco à direita e começamos a buscar o acesso ao ombro do Melano, subindo e descendo pequenas elevações e entrando e saindo de bosques de arbustos e bambus. Pouco depois das 13 horas, passamos pela área de camping do Maracanã. Andamos mais um pouco e paramos para nos abastecer de água, antes de enfrentar a subida mais forte do Melano e a caminhada pela sua crista até a base da Pedra da Mina. 


       
      Abastecidos, tocamos para cima, tomando a esquerda na bifurcação que surge pouco após o ponto de água e que deve levar a alguma área de camping, ganhando altitude de forma constante enquanto nos aproximávamos do trecho mais íngreme que marca o início da última subida intensa do dia. Ali, nos trechos de laje de pedras, não há segredo...  é apenas manter o subir lento e constante. Com algumas pausas, alcançamos o ombro e por ali seguimos, ganhando altitude a cada falso cume que surgia. Pouco depois das 15 horas alcançamos a crista do Melano. Estávamos preocupados com a Stela e Amanda que haviam seguido na nossa frente, mas separados do grupo de ataque aos cumes extras, formado pelo Adilson, Alexandre, Anderson, Jorge e Paulo. 


       
      O receio de que tivessem pego uma bifurcação errada   nos acompanhou naqueles passos. Ainda que a Stela tivesse o trajeto salvo no celular, um desencontro poderia ter graves consequências. Com o grupo fragmentado e ainda com isso feito em desacordo com o que havíamos orientado previamente, havia diversos desvios no planejado. No grupo que estava à frente, a Stela estava sem saco de dormir e sem comida. O Jorge sem barraca. No nosso grupo, após rápida verificação, concluímos que teríamos abrigo para todos, pois havia barracas com ocupação abaixo da capacidade.


       
      Forçamos o passo, buscando aproveitar os últimos minutos de sol para nos aproximarmos da base da PM, ponto de acampamento planejado para aquela noite. Com o pôr-do-sol se avizinhando, ficava cada vez menos provável que conseguíssemos descer a crista do Melano para a base da PM antes que escurecesse. Ainda que todos portassem as lanternas de cabeça, as chuvas dos últimos dias haviam deixado as descidas mais delicadas, como as escorregadelas ao longo do dia haviam evidenciado. Mesmo com as melhores condições para escolher onde pisar e onde se segurar, a Serra nos cobrava a passagem, não só em suor, como em tombos. Revisamos os planos e passamos a considerar avançar até a primeira área de acampamento, após o platô rochoso que havia logo à frente. Porém, como estávamos na área de sombra das encostas que descíamos, as condições de visibilidade se deterioram mais rápido que havíamos previsto e logo, nos dividimos entre acampar numa laje rochosa inclinada ou seguirmos até o platô à frente, em busca de uma área plana, ainda que irregular.


       
      Com o grupo cansado, acordamos que o Douglas e o Lucas seguiriam até o platô, para avaliar se era melhor opção do que a laje que em que estávamos, enquanto eu ficaria com os demais. Bastaram poucos passos para longe do grupo, que o grito aflito do Lucas nos gelasse o peito. Temeroso do que ocorrera, corri em direção à dupla, para constatar aliviado, que fora apenas a soma das emoções do dia ao cansaço da pernada e a lama em que se atolava, até os joelhos, naquele trecho. Procurei acalmá-lo, permitindo q o Douglas se recobrasse do susto, que com certeza lhe batera ainda mais forte que em nós e sem uma palavra sobre os planos de segundos antes, voltamos, confortando o pequeno trilheiro até o grupo. 


       
      Com a decisão de pernoitar ali tomada, tratamos de escolher os lugares onde armaríamos as barracas. Procurando deixar os lugares mais amplos para as barracas maiores, escolhi um trecho de laje que permitiria alinhar a barraca com a inclinação da pedra e que, exceto o provável escorregar dentro dela, parecia bastante confortável. De experiências anteriores, sabia que dormir alinhado à inclinação, com os pés para o lado mais baixo era muito mais adequado que fazê-lo de transverso. A água que escorria pela lateral esquerda não parecia grande problema. Enquanto montava a barraca, tentei o contato via rádio, em hora redonda, conforme combinado. Foi um alívio estabelecer contato com o outro grupo, saber que estavam todos juntos.


       
      O Isaias se prontificou a levar o saco de dormir da Stela e os demais materiais do grupo que estava à frente que haviam sido transportados por nós até ali. Ajudei-o a atravessar a parte enlameada da trilha e o coloquei na subida para o platô, antes de voltar e terminar de armar meu abrigo. Durante a noite, com o luar parecendo a alvorada acordei diversas vezes. Pela manhã soube q a barraca do Douglas e do Lucas havia cedido, tendo que ser remontada, com nova ancoragem durante a noite. Apesar do frio da madrugada, próximo de 0C, a noite transcorreu sem maiores dificuldades. 


       
         Nosso “lar” na primeira noite.               Preparando a partida, 2 ºdia


       
      2º dia


       
      Com o nascer do dia, desmontamos rapidamente o acampamento, enquanto preparávamos um café da manhã reforçado. Fizemos novo contato via rádio, com a troca das alvissareiras notícias de que a noite transcorrera de forma tranquila, em ambos os grupos, combinamos os próximos passos, com o grupo à frente fazendo um ataque ao Tartarugão. Nesse meio tempo, terminaríamos o café, arrumaríamos as cargueiras e partiríamos em direção a PM. Assim o fizemos, depois de verificar atentamente que não deixávamos marcas de nosso pernoite ali.


       


      Vivência de Montanha: tira-se o Sulista do Sul, nunca o Sul do Sulista.


       
      Durante nossa subida, nas pausas para recuperar o folego e admirar a paisagem, observávamos os demais integrantes do nosso grupo, ou seja, Adilson, Alexandre, Amanda, Anderson, Isaias, Jorge e Paulo caminharem pela crista do Tartarugão, extasiados com um dos melhores ângulos para se admirar a PM e o vale do Rio Claro. A Stela seguia conosco, cooptada durante nossa passagem pelo acampamento dos colegas, nas vizinhanças da Cachoeira Vermelha. O tubo de cume do Tartarugão foi pintado de amarelo, com spray de forma a aumentar sua visibilidade, e principalmente, sua resistência à degradação fotoquímica.


       
      Alcançamos o cume da PM, pouco antes do meio dia, fizemos um intervalo para lanche, recolhemos o livro de cume que estava quase completamente tomado de registros, anotamos nossa passagem no novo livro que trazíamos e partimos em direção ao Ruah, onde faríamos uma parada mais longa para lanche, coleta de água e banho. Descemos pela face norte da PM, admirando a beleza do vale, circundado pelo Ruah Norte e Leste. À frente, via-se o Cupim de Boi, à direita o Cabeça de Touro e o Três Estados à esquerda. Com as chuvas das últimas semanas, o Ruah tinha água em todas as trilhas. Água e lama. Sem melhor alternativa, seguimos no serpentear entre as moitas de capim até a cachoeira que existe na garganta formada pelos dois Ruah.


       
      Enquanto descíamos a PM, parte do grupo de ataque, nesse caso o trio composto pelo Kleiton, Vanderlei e Jorge, fez uma rápida incursão ao cume do Morro do Avião. Quando digo, rápido, entendam “corrida morro acima”... Jorge, nosso velocista-mor subiu a encosta em pouco menos de 9 minutos... a conclusão é óbvia e irrefutável: lidávamos com um ser com um par de pulmões extras. Revezando os jogos de pulmões, o camarada não apenas dispara morro acima, como conversa enquanto o faz... Os três registraram a passagem no livro de cume instalado em 2017 pelos amigos Douglas, João, Rodrigo e Adilson, foram até próximo das ferragens do avião que colidiu contra a montanha e desceram para nos encontrar na cachoeira. Foi bom saber que o livro se encontra em bom estado, dentro do tubo de cume que o Douglas idealizou. 


       
      Enquanto o grupo coletava água e fazia a pausa para lanche, avancei um pouco à frente e abaixo, para tomar banho no pequeno poço que se forma após a cascata. Já havia adiado meu batismo na SF por diversas vezes, em função do horário em que passara ali antes. Entrar naquela água, próxima do congelar próximo ao fim do dia me pareciam mais insensato que divertido. Há quem leve roupa de banho e há quem o faça nú. Optei por um meio termo prudente: removi botas e meias (bobagem), assim como a camiseta e entrei na água de calças. A água estava menos fria que o esperado, o que me levou a fazer uma segunda incursão, mais demorada, com menos roupa. 


       
       

      Saullus e Stela, Marins ao fundo   Vanderlei e Márcia, cume do Quartzito


       
      Aproveitamos para curtir um pouco o visual e a sensação de superação de ter chegado até ali, deixando a primeira metade da travessia para trás e convictos de que todos lograríamos completa-la. Pouco após as 14 horas, com as reservas de água ao máximo, deixamos a Cachoeira e começamos a buscar a série de pequenos morreres que se interpõe entre o Vale do Ruah e o colo do Cupim de Boi. As subidas nesse trecho são breves, preponderando as descidas. Esse é um dos trechos em que os bambuzinhos mais marcam a memória do caminhante, cobrando a passagem em lanhos e pedaços de qualquer coisa que não estiver bem protegido dentro da mochila. Já ouvi, que ante as terras do Paraná, ali temos uma avenida de trânsito desimpedido... inquietante. 


       
      À direita evidência das pressões geológicas na formação da rocha.


       

       
      Pouco após as 16h alcançamos a crista do Cupim de Boi e passamos a progredir mais rápido, considerando montar o acampamento ainda com luz natural. Nesse trecho, é importante manter-se sempre à esquerda na trilha, evitar qualquer brincadeira e zelar muito pela segurança. A trilha passa, em alguns lugares a menos de meio metro de um penhasco de pelo menos 300 m. Apesar do cansaço, não é trecho para se ficar descansando, ainda mais em grupo grande, de forma que mantivemos o ritmo, com pausas curtas para recuperar o fôlego, ingerir algo doce ou salgado, um ou dois goles de água, logo retornando ao caminhar.  Com o sol a bordejar o horizonte, alcançamos o ponto em que a trilha faz uma curva à esquerda e deixa l Cupim de Boi para descer pela sua encosta em direção aos bosques que existem no sopé do Três Estados.


       
       Nesse ponto, nossos amigos do RJ, na tentativa de 2018, não notaram os totens que indicam a mudança de direção e seguiram pelo Cupim de Boi até seu derradeiro cume, de onde se desce para o vale entre o Três Estados, o Cabeça de Touro e o próprio Cupim de Boi. Cumpre ressaltar que a navegação visual, com o tempo aberto como estava, em tudo difere das condições em que eles passaram por esses mesmos pontos no ano anterior. Com neblina, nada se vê de referência de longa distância. Não é difícil, se não se estiver muito focado, desaperceber-se de que o caminho, em laje de pedra e, portanto, guardando poucas marcas de passagens anteriores começou a descer, sem a curva à esquerda. Depois disso, uma “desescalada” na encosta nordeste os levou para o vale e a cada passada se afastavam da rota. Pode-se dizer que a travessia deles começou a “dar ruim” quando acamparam no Ruah e acabaram com os equipamentos de dormir molhados. A partir dali, não lhes pareceu “prudente” acampar e esperar o tempo melhorar, uma vez que com os equipamentos molhados, o risco de hipotermia lhes parecia muito presente. 

       


       
      Descemos pela encosta do Cupim de Boi, no contra fluxo dos que, acampados no bosque em seu colo, subiam para ver o pôr do sol. Agradeço a cada um que nos deu passagem, freando sua subida, de forma a maximizar nosso tempo de luz para montar acampamento. Avançamos até o segundo bosque, ocupado apenas pelo Jorge, que nos informara das melhores condições para acampamento ali, enquanto levava seus 4 pulmões para curtir o pôr do sol no Cupim.  


       
      O lugar é espetacular. Abrigado do vento e ainda assim com algumas aberturas que permitiam ver o céu. Escolhi um canto plano, afastado da mata e, portanto, sem raízes superficiais. Discutimos um pouco sobre a conveniência/oportunidade de subir o CT de ataque na madrugada para ver o sol nascer lá, e concluímos por alternar isso para fazer a subida ao Três Estados, de forma a minimizar a exposição do grupo ao sol no último dia de pernada. Para quem faz a TSF pela primeira vez, ver o sol nascer atrás das Agulhas Negras é mágico e imperdível. O ataque ao CT resultaria no inevitável privar da maioria desse espetáculo, além de colocar todos a subir os três cumes finais (Três Estados, Bandeirantes e Alto dos Ivos) sob o sol mais forte. Com a anuência compreensiva dos colegas do “grupo de ataque”, combinamos de acordar às 3:20 para partir às 4:00. Todos fizeram suas refeições, conversaram um pouco, trocando experiências, angústias e impressões e, pouco depois das 20h estávamos dormindo. 


       
      3º dia

      Acordei 3:20 e 3:40, estava de cargueira pronta para seguir. Fiquei fazendo hora, ajudando aqui e ali e mexendo para aquecer e motivar aos hesitantes para o último dia. Partimos com pequeno atraso, às 4:10 e em pouco tempo o frio deixava de ser um incômodo, ante o fôlego que fugia a cada vez que a subida tinha o grau aumentado. Mesmo assim, subimos tranquilos, sentindo os músculos responderem aos comandos, no terceiro dia em que os demandávamos de forma intensa. 


       
      O trecho final do acesso ao Três Estados é uma escalaminhada com rochas recobertas de escorregadia lama, com algum grau de exposição. Sabedores disso, fizemos uma parada de 10 minutos em sua base, suficiente para todos retomarem bem o fôlego e sentirem o frio se aproximar. Nada como a autopreservação para motivar as pessoas. Começamos a subida do trecho final com atenção e sem pressa, enquanto a aurora cedia lugar ao arrebol do dia que nascia. Nesse momento, a Márcia que seguia à minha frente deslanchou mais por habilidade e determinação que por força e passei a ajudar mais a Stela que lutava contra seus temores a cada passagem mais exposta. 


       
      Em pouco tempo, alcançamos o cume e atravessamos os acampamentos, para nos aboletarmos junto ao livro de cume (inexistente). Como bom montanhista, fiquei feliz em ceder os 230g de caderno que carregara nos últimos dois dias para a caixa de cume. Identificamos o livro, fizemos os devidos registros e passamos o livro para os amigos da pernada, assim como aos colegas de montanha. Foi uma grata surpresa ver o Cainã, o Duque, a Raposinha lá em cima. Aquela serra é a casa deles aos fins de semana, ao que parece, dado o número de vezes que já os encontrei por ali. Na última TSFF, em 3 dias, eles fizeram a gentileza de cuidar das nossas coisas enquanto atacávamos o cume do Ruah Leste (maior).


       
        

      Vista da PM: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro Nossa testemunha silenciosa.


       
      Enquanto esperávamos o sol surgir por detrás das Agulhas Negras, nossos corpos esfriavam e logo os aprazíveis 13C que fazia lá em cima levavam nossas pernas a tremerem. Por preguiça de abrir a mochila eu permanecia apenas com a blusa de caminhada no tronco, e sentia desconforto com o vento, procurando me abrigar como dava, mas sem perder o visual. Com o nascer do sol, a temperatura (sensação apenas?) caiu um pouco mais e, vencendo os pruridos, vesti as duas segundas peles, e o fleece. Senti-me muito melhor assim, o calor foi quase imediato e me dei ao luxo de ficar curtindo a brisa, agora apenas refrescante. 


       
       

      Nascer do sol, por detrás das Agulhas Negras visto dos Três Estados


       
      Combinamos de partir às 7h10, para não pegar mais sol que o necessário. De forma que pouco antes do horário combinado, vestimos as cargueiras e começamos a descida para o colo do Bandeirantes. 


       
      Conversando nas descidas, apreciando a paisagem nos trechos planos enquanto recuperávamos o fôlego e nos arrastando nas subidas, fomos progredindo sem muito notar e “em pouco tempo” estávamos no alto do Bandeirantes. Fizemos outra breve parada para comer algo rápido, tomar água, descansar e admirar as montanhas ao redor e, cuidando de não deixar os músculos esfriarem, partimos para buscar o Alto dos Ivos. 


       
       

      Pausa para respirar: Oscar, Saullus, Eu, Márcia        Stella, Saullus, Oscar, Jennifer, Márcia, Eu


       
      Na ascensão para esse cume, a derradeira subida “mais séria”, há um curto, mas intenso trecho de escalaminhada. Ali, o melhor é tomar um gole d’água, respirar fundo e tocar forte pela lateral direita até não ter mais o que subir, como notei q estavam estudando por onde subir e inclinados para fazê-lo pela esquerda (mais complicado), pedi licença e dei o exemplo, chegando lá em cima com meus dois pulmões a gritarem do castigo que lhes infligira, como se estivesse em forma. Depois de recuperar 1/6 do fôlego, peguei o celular e me posicionei para as fotos do progredir dos amigos na ascensão. Particularmente, gosto dessas fotos onde o “empilhar” das pessoas permite avaliar melhor o obstáculo.


       


      Stella no último “toca pra cima” mais sério da travessia


       
      No falso cume do Alto dos Ivos, fizemos um grande lanche coletivo, com ovos mexidos, linguiças e ervas estranhas. Também teve enroladinho de queijo e presunto. Essa galera carrega peso, mas faz gastronomia “Ogra” na montanha. Nada de emulsões de sabores, prato decorado, etc... apenas a boa, velha e nutritiva comida caseira em fartura. 


       
      Descansados (mais ou menos), mais leves e determinados, retomamos a caminhada, perdendo altitude sem muito notar, já que as subidas, embora curtas, são frequentes nesse trecho ainda. Mesmo assim, não tardou para a subirmos um morro pela metade e virarmos à direita, chegando, enfim, na parte do trajeto com vários trechos de capoeiras e fragmentos de bosque, indicando que a altitude já havia decrescido substancialmente.


       
      Pouco antes do meio dia, alcançamos o ponto d’água. Dado o excelente estado de hidratação com que chegamos, fizemos apenas uma breve parada e tocamos para enfrentar a estradinha, que liga o Sítio do Pierre com a rodovia. Eu seguia em passo apertado, buscando os morangos e amoras silvestres que abundam por ali nos meses de julho e agosto. Encontrei poucos, mesmo assim é algo que ocupa a mente e ajuda a não ansiar demais pela última curva da pernada. Chegamos ao final da travessia com 1h30 min de antecedência ao acordado com o resgate. Forçamos mais um pouco o caminhar até a vendinha onde fomos muito bem atendidos pelo “seu” Advir, um produtor rural muito humilde e simpático. Uma alegria ajudar a gerar renda diretamente ao produtor daquelas terras. 


       
      Dessa vez, trouxe doce de leite, geleias e queijo defumado. Tudo muito saboroso. Uma das vans que nos levaria, fora levar outro grupo até Passa Quatro, já que não sabia que nos anteciparíamos. Aproveitara e levara dois colegas que chegaram ainda mais cedo (4 pulmões explicam muita coisa) até a pousada para o ansiado banho antes do retorno até Curitiba.  Como não tínhamos pressa, nos oferecemos para esperar essa van voltar, já que ainda havia dois amigos na travessia, à caminho. Fizemos uma foto de “todos”, nos despedimos e fomos ficar de bobeira, à sombra, conversando com os grupos que chegavam. Com a chegada deles, pouco antes do horário previsto, às 15h estávamos na van, à caminho de Passa Quatro. 


       
       

      Chegada: suados, cansados e doloridos; mas orgulhosos e alegres.


       
      Na pousada, após um banho revigorante, entregamos o caderno da PM ao Guto, fizemos nova seção de despedidas e pegamos estrada para casa. Na viagem, vínhamos, eu, Douglas e Adilson rememorando o caminhado, fazendo planos e contando causos. Lucas e Amanda dormiam o merecido sono. Cheguei em casa às duas da matina de segunda, dormi um pouco, arrumei barraca, roupas e botas e pedalei para o serviço. Outros foram virados para o trabalho, em função da maior distância. Porém todos compartilhávamos da mesma sensação de gratidão às montanhas e à vida. Quando perguntam porque faço essas travessias, me é difícil traduzir em palavras, mas a resposta repousa no brilho no olhar de quem se supera, no sorriso de quem vê, pela primeira vez, as nuvens lá embaixo. O caminhar me desopila a mente e me recarrega a alma de energia, não só da mata, da montanha, mas d’Ele, seja Ele spinozano ou convencional.


       
      Aqui, antes de concluir o relato, farei um registro: tivemos a “honra” de acompanhar os passos do Lucas Torres Garcia, com 9 anos, o mais novo a atravessar a SF em 3 dias. E isso não é pouco... ainda que o físico seja cobrado no subir e descer incessante, que o frio congelante faça tremer ou mesmo a carestia de agua se faça presente no rachar dos lábios, o desafio da travessia, em si, é muito mais um lidar consigo mesmo, com suas dificuldades, suas dores, seus anseios e temores. E isso aprendemos e desenvolvemos com o passar dos anos, o que nos colocava em um patamar muito mais confortável. Parabéns, Lucas! Mandou muito bem.


       
      Concluindo: Pernada de responsa!! A superação de limites, físicos para uns, emocionais para outros ou aquele amálgama em que ambos se fundem me alegram no lembrar. Se foram muitas as risadas, foram poucas as lágrimas e quase infindáveis as paradas para caçar o fôlego que fugia a cada metro que galgávamos. O brilho no olhar de todos com o esplendor das paisagens e o orgulho de uns no perseverar de outros. Poder ajudar a desfazer, com segurança, a má fama da SF para certos pais. Foram tantas as alegrias, que só posso agradecer. Agradecer ao Adilson pela ideia e oportunidade. Agradecer à cada um/uma pela companhia e confiança. E, claro, à Deus por tudo ter transcorrido como transcorreu, na medida exata de angústias e doçuras.


       
      Travessia SF Malucos e Achados.pdf
    • Por Pedro Lacaz Amaral
      Pessoal, tudo bem? Não sei se vocês chegaram a ver, mas de 3 a 9 de dezembro aconteceu o 1º Congresso Online de Trekking Gear Tips, que contou com 28 palestrantes e 36 palestras gratuitas!

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