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@Lauro Sobral Como vai? Espero que esteja tudo bem com você e sua família. 

Puxa vida, realmente fiquei emocionado com seu relato. Muito obrigado, de coração. Sao depoimentos como o seu que nos faz seguir em frente e continuar tentando construir uma empresa séria num país como o Brasil. 

Sempre que precisar, estaremos em Pé e à Ordem pra lhe servir. 

Um Fraterno Abraço, 

Fábio. 

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Em 27/12/2018 em 16:14, Lauro Sobral disse:

Bota de qualidade, o ...

Bom relato. Contundente e convincente pelo fato de um montanhista experiente dar sua opinião.

Mt agradecida.

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Queridos Amigos

Claro que o relato tem valor e é genuíno , exaltando nosso próprio "berço" nacional , com empresas que se dedicam a provar o contrário do que se pensa que NEM SEMPRE a grama do vizinho é mais verde .

Botas são parte de nós em nossas "empreitadas silvestres" !

Mas que , se os amigos me permitem a brincadeira , não fosse um fórum de montanhista, a emoção que o Lauro joga nas palavras, parece até que ele ou é garoto-propaganda da marca ( a qual honestamente me é nova de nome ) ou ganhou  "algum" rsrs
 

Vou pesquisar mais sobre a marca 😉

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Em 25/04/2019 em 11:34, trilheirosilvestre disse:

Queridos Amigos

Claro que o relato tem valor e é genuíno , exaltando nosso próprio "berço" nacional , com empresas que se dedicam a provar o contrário do que se pensa que NEM SEMPRE a grama do vizinho é mais verde .

Botas são parte de nós em nossas "empreitadas silvestres" !

Mas que , se os amigos me permitem a brincadeira , não fosse um fórum de montanhista, a emoção que o Lauro joga nas palavras, parece até que ele ou é garoto-propaganda da marca ( a qual honestamente me é nova de nome ) ou ganhou  "algum" rsrs
 

Vou pesquisar mais sobre a marca 😉

 

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Em 25/04/2019 em 11:34, trilheirosilvestre disse:

Queridos Amigos

Claro que o relato tem valor e é genuíno , exaltando nosso próprio "berço" nacional , com empresas que se dedicam a provar o contrário do que se pensa que NEM SEMPRE a grama do vizinho é mais verde .

Botas são parte de nós em nossas "empreitadas silvestres" !

Mas que , se os amigos me permitem a brincadeira , não fosse um fórum de montanhista, a emoção que o Lauro joga nas palavras, parece até que ele ou é garoto-propaganda da marca ( a qual honestamente me é nova de nome ) ou ganhou  "algum" rsrs
 

Vou pesquisar mais sobre a marca 😉

 

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Em 25/04/2019 em 11:34, trilheirosilvestre disse:

Queridos Amigos

Claro que o relato tem valor e é genuíno , exaltando nosso próprio "berço" nacional , com empresas que se dedicam a provar o contrário do que se pensa que NEM SEMPRE a grama do vizinho é mais verde .

Botas são parte de nós em nossas "empreitadas silvestres" !

Mas que , se os amigos me permitem a brincadeira , não fosse um fórum de montanhista, a emoção que o Lauro joga nas palavras, parece até que ele ou é garoto-propaganda da marca ( a qual honestamente me é nova de nome ) ou ganhou  "algum" rsrs
 

Vou pesquisar mais sobre a marca 😉

Como você assume que a "marca é nova" na sua relação com calçados para caminhadas, sugiro que adquira um exemplar das botas Vento e indico fortemente o modelo Titã,  cuja tecnologia e design são norteadoras da escolha de montanhistas e mochileiros experientes. Absolutamente, em hipótese nenhuma, meu texto está associado à alguma remuneração e/ou assunção de função propaganda da Vento, ou de quaisquer outras marcas. Aliás, se pesquisar, sou um "zé ninguém" nesse site, pois devo ter somente um ou dois posts desde sua criação, mas não abro mão da eloquência conquistada com uma robusta graduação em Jornalismo,  que propiciaram um mestrado e um doutorado em Comunicação. Na verdade, sou 'habitué' em usar minha inteligência emocional para  entender, usar e gerir as minhas próprias emoções de maneira positiva: para aliviar o stress, comunicar-me efetivamente, ter empatia com os outros, superar desafios e neutralizar conflitos. Finalizando, tenho muito orgulho de ter encontrado um calçado nacional,  com qualidade diferenciada, da Vento claro, e vou continuar cliente enquanto a marca respeitar meus pés. Abraços.

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Deparei com esse ótimo depoimento do @Lauro Sobral , acho muito importante pessoas que realmente utilizam equipamentos de forma ostensiva a darem esse tipo de informação.  Obrigado!

@trilheirosilvestre Não estou te criticando, mas de certa forma foi importante seu aparte. Acredito que realmente não foi o caso do Lauro, mas algumas empresas utilizam esse tipo de artimanha para vender seus produtos. Vejo muito jogador de futebol, artista,  pessoas famosas adotando isso. Não vi isso no depoimento do Lauro, sinceramente!  Se fosse um jaba, o @fabiomon  não reponderia depois de um mês, seria mais rápido. Se algum dia você ler algum dos meus relatos verá EU elogiando muito as mochilas DEUTER, os tênis Mizuno, as roupas Track&field e nem por isso recebo nada em troca. OPA,  recebo sim, um ótimo produto que me atende muito bem. Tem que falar bem sim dos produtos bons e, acima de tudo criticar o ruins. 

@fabiomon Hoje realmente vida de empresário tá muito mais complicada. Depois que li o depoimento do Lauro, fui dar uma pesquisada na internet sobre a bota que vocês fabricam. No site "reclame aqui " existem algumas reclamações sobre defeitos das botas Vento, normalissimo(até achei que são poucas reclamações, apesar que a grande maioria não reclama por esse meio, mas comparado com outras marcas tá dentro ou menos), qual empresa que fabrica produtos que não tem reclamação? Não é verdade. Mas o fato que mais me chamou atenção foi que um reclamante postou uma reclamação dia 14/03/19 às 08:52hrs  e vocês responderam às 09:26hrs do mesmo ou seja em menos de UMA hora ( e vi que vc já tinha enviado mensagem antes para ele), sinal de respeito ao consumidor.

As botas que vocês fabricam podem não serem as melhores do mundo,  mas a atenção que vi de vocês para com as reclamações é digno de meu maior RESPEITO E CONSIDERAÇÃO. Se for comprar bota futuramente, com certeza as de vocês serão alvo de minhas análises. 

 

Obs.: já comprei bota importada de primeira linha e ela descolou completamente. Pior, não tinha para quem reclamar! 

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    • Por Alan Rafael Kinder
      Bom dia,
      Eu sou o Alan, e este é meu primeiro post aqui no mochileiros.com.
      Estou recorrendo a vocês pois tenho uma dúvida a respeito das geleiras na região patagônica de El Calafate e El Chaltén.
      Estarei indo passar 03 dias em El Calafate e 05 em El Chaltén em Fevereiro de 2020 (verão, em um pequeno grupo de 03 pessoas), fiz diversas consultas pela internet sobre esse assunto e aparentemente tudo leva ao Perito Moreno, administrado pela Hielo Y Aventura. Em outros casos, algumas notícias antigas falam do Glaciar Viedma, todavia parece que não é mais possível caminhar sobre esta geleira.
      Nós realmente gostaríamos muito de ter essa experiência, porém o site da Hielo Y Aventura nem tem agenda livre ainda para fevereiro de 2020, e o valor atual por pessoa ultrapassa R$ 1.000,00 no Big Ice (que é a oferta que mais se aproxima de nosso interesse).
      Minha pergunta é, existem outras opções com outros valores nessa região (até mesmo em outras cidades próximas, não mais de 300 km de distância) ou até mesmo a possibilidade de caminhar sobre uma geleira de forma autoguiada e sem custos?
      Quando montei o roteiro dessa viagem, a alguns meses atrás, o valor do Big Ice era menor que R$ 800,00, e esse aumento realmente ficou chato, por isso estou procurando alternativas.
       
      Agradeço muitíssimo qualquer colaboração, e se vocês tiverem qualquer dica sobre esse assunto, eu ficaria muito feliz em recebê-la!
    • Por Schumacher
      Salve, galera! Esse é o resumo de um mochilão radical que fiz há alguns meses, espero que gostem. Caso queiram mais informações, podem acessar meu blog Rediscovering the World ou o livro que acabei de lançar (Trekking Extremo no Himalaia: Acampamento Base do Everest + Gokyo). 
       
      Dia 1
       
      Em 17 de março de 2019, ao chegar ao aeroporto de Guarulhos, tomei uma sequência de voos pela Air China, cujo destino final seria Mumbai, na Índia. Compradas quase 5 meses antes, as passagens de ida e volta custaram 734 dólares.
       
      Dia 2
       
      Após breve conexão em Madri, o avião grande seguiu até Pequim. Ambos voos foram bem-sucedidos.
       
      Como a espera até o voo final levaria o dia todo, decidi aproveitar que o visto não é necessário para permanecer até 144 horas na capital chinesa. Dessa forma, passei pela fila da imigração em uma hora, saquei yuans (1 real = 1,75 yuans) num dos caixas automáticos e deixei o aeroporto no metrô que me levou até o centro da cidade. O trajeto de meia hora custou 25 yuans.
       
      Deixei a linha do aeroporto para pegar outra, ao custo de 4 yuans. Logo me impressionei pelo desenvolvimento e pela limpeza de Pequim, tirando a névoa permanente que quase esconde o sol. Só a falta de educação dos chineses que seguiu conforme o esperado.
       
      O primeiro monumento visitado foi o do conjunto Templo do Céu (28 yuans). Numa área grande, fica um parque com as estruturas erguidas em 1420 para orar em busca de uma boa colheita. A construção principal é o maior templo redondo de madeira da China.
       

       
      Depois de uma boa caminhada, comprei 4 bolinhos (dumpling) de carne por 2,5 yuans cada, mesmo sem saber antecipadamente o que viria dentro. Segui então caminhando até chegar à sequência de postos de controle policial de onde ficam as principais atrações de Pequim. Primeiramente, o museu nacional. É em sua maioria gratuito, num prédio bastante amplo, mas com conteúdo quase todo em mandarim e poucas exposições realmente interessantes. Entre essas, os presentes recebidos pela China de todo o mundo.
       
      Em seguida, caminhei ao redor da Praça Tian'nanmen, a Praça Celestial. É famosa por um massacre que aqui ocorreu durante protesto da população. Também não se paga e há espaço de sobra, com um memorial a Mao Tse-tung e um monumento aos heróis chineses.
       
      Por fim, entrei na Cidade Proibida. Como estava faminto e o corpo já se entregando de cansaço, tive que almoçar ali mesmo, pagando 32 yuans num prato raso. Mais uma atração enorme: são dezenas de palácios, muralhas e portais. Para visitar em baixa temporada (agora), custou 40 yuans. Mesmo assim, é difícil conseguir uma foto boa, tamanha a quantidade de chineses que visitam o complexo.
       

       
      Na saída, tentaram me aplicar o golpe de bater um papo num bar e ser extorquido, mas como eu já sabia dessa, escapei. Esgotado, retornei ao aeroporto no final da tarde.
       
      À noite, voei num avião menos novo pra Mumbai, tirando um belo cochilo a bordo.
       
      Dia 3
       
      Desembarquei já na madrugada seguinte. Passei pela imigração com o eVisa feito antecipadamente na internet e troquei dólares por rúpias (1 dólar = 66 rúpias) logo após a imigração. Por fim, pedi pra chamarem um Uber pra mim, pois o táxi até o hotel próximo custava 500 rúpias, enquanto o Uber saiu por 210. 
       
      O problema foi achar o danado, escondido numa viela. Somente às 3 e meia eu entrei no Ahlan Dormitory. Pra ficar num quarto coletivo, gastei 250 rúpias por noite. Só que o lugar não era muito agradável, pois era barulhento, fedia, estava sujo e quase sem água. Algo me picou na cama e me deixou com marcas por semanas. Pelo menos o wi-fi, o ar e o guarda-volumes funcionavam.
       
      Pra piorar, fui acordado antes das 8h pelos hóspedes e funcionários, não conseguindo mais dormir - o que já tinha dado bastante trabalho antes, vide o jet lag.
       
      Levantei, tomei o “chai” (na Índia, o chá é misturado com leite) e parti pra luta. Caminhando um pouco já notei a diferença colossal na (falta de) limpeza, em relação a Pequim. Peguei o metrô recém inaugurado, com ar condicionado, a partir de 10 rúpias. Para começar a preparar meu estômago, tomei um suco natural por 40.
       
      Em seguida, entrei na estação de trem suburbano. Que caos! Gente correndo e se empurrando por tudo que é lado, pendurada nas portas dos vagões como nos filmes, e tal. Para vivenciar um pouco disso, e porque eu queria economizar, comprei um bilhete da 2ª classe de Andheri a Churchgate. Apenas 10 rúpias até ponto final, 22 km adiante! Ainda que estivesse bem quente, os indianos vestiam quase todos roupa social, nenhum (além de mim) de bermuda.
       

       
      Da estação, fui até o principal museu da cidade, de nome complicado: Chhatrapati Shivaji Maharaj Vastu Sangrahalaya. Construído pra homenagear o príncipe do País de Gales, hospeda hoje num edifício de arquitetura indo-sarracena uma porção de artefatos relacionados a Índia e além, contando sua história. Pena que o ingresso seja meio salgado: 500 rúpias + 100 pra usar câmera. 
       
      Nessa hora, começaram a pedir pra tirar foto comigo, como se eu fosse famoso.
       
      O almoço foi no renomado Delhi Darbar. Fiquei com um picante mas apreciável prato de “angara chicken” por 550 rúpias. Saí cheio.
       
      Acabei optando por fazer um city tour de 3h por 3500 rúpias, bem mais do que eu deveria pagar. Nele, passei por vários locais interessantes, como uma lavanderia a céu aberto, diversos prédios públicos e privados com arquitetura colonial britânica, o museu-casa do Gandhi (Mani Bhavan), a orla de Marine Drive, a colina de alto padrão Malabar e o templo da religião jainismo.
       

       
      Depois, fiquei no mercado de rua, onde não consegui caminhar em paz, indo então de volta pro hotel através de outra linha de trem da estação central. Retornei pendurado na porta aberta do trem.
       
      Comi um negócio, antes de conhecer dois jovens ucranianos no dormitório. Fiquei papeando e dei uma volta com eles, pra conferir o movimento das ruas poluídas. Aproveitei para provar a sobremesa quase sem gosto chamada “falooda” (40 rúpias) e levar umas bananas (6 por 1 real).
       
      Dia 4
       
      Com o feriado do Holi, o qual me gerou uma pintura facial, o transporte público ficou bem menos cheio, ainda que sua frequência também tenha diminuído.
       
      Peguei os mesmos 2 transportes da manhã anterior, mas quando cheguei à estação final, pedi um Uber até o monumento Gateway of India, de onde partem os barcos até Elephanta Island, por 200 rúpias ida e volta.
       
      A baía até a ilhota é entulhada de estruturas. O translado leva cerca de uma hora; no total da minha hospedagem até a ilha eu levei quase 4 horas de deslocamento!
       
      Ao chegar, peguei um trenzinho da alegria (10 rúpias). Almocei no restaurante Elephanta Port, escolhendo um prato de “biryani” por 275 rúpias. O “biryani” de frango viria a se tornar meu prato preferido no país. 
       
      Depois, subi o morro em meio a inúmeras barracas de souvenires.
       
      Para acessar as cavernas de Elephanta, patrimônio da UNESCO, paga-se atualmente 600 rúpias. São 5 delas, entalhadas diretamente na rocha durante 1300 anos do século 6 até a invasão e destruição parcial pelos portugueses. Há colunas, santuários e muitas estátuas em homenagem à deusa Shiva. Pena que com a quantidade de visitantes, praticamente todos indianos, fica difícil sacar boas fotos.
       

       
      O guia local Krishna me encheu tanto o saco que acabei aceitando uma explicação de meia hora por 500 rúpias. Quando ele me chamou pra ir num bar depois, meu sensor de golpe apitou. E eu estava correto, pois ele tentou fazer com que eu pagasse a cerveja dele e ainda tomar meu dinheiro com a desculpa de que iria pagar minha parte, mas não teve sucesso quando eu o peguei fugindo… 
       
      Essa cerveja Kingfisher, a mais popular da Índia, não é boa. Só poderia ser assim, já que leva açúcar e xarope de arroz e milho na fórmula.
       
      Depois desse fato lastimável, subi as escadarias até o topo do morro, com vista para o mar e cheio de macacos fofos (Macaca radiata) - até eles roubarem sua comida. Ali fiquei famoso de novo, visto a quantidade de gente que pediu foto comigo.
       

       
      Retornei à hospedagem, chegando após escurecer. Só comi algo salgado e repousei.
       
      Dia 5
       
      Acordei cedo pra pegar uma condução até o terminal 1 do aeroporto (110 rúpias), onde voei de SpiceJet até Bangalore. Que bom que mesmo as companhias de baixo custo da Índia permitem despachar até 15 kg gratuitamente, já que meu mochilão cheio dificilmente passaria por bagagem de mão.
       
      Em Bangalore, embarquei logo num segundo voo da GoAir até Port Blair, a capital maior cidade do arquipélago isolado de Andaman e Nicobar.
       
      Como se já não estivesse quente o suficiente em Mumbai, a temperatura de Port Blair na chegada estava em escaldantes 34 graus. Peguei um tuk-tuk (100 rúpias) até a estação de ônibus principal. Como perdi o ônibus das 15h e o próximo partiria quase 2 horas depois (somente mais tarde eu descobri que havia mais ônibus no outro terminal chamado Aberdeen), aproveitei pra fazer um lanche ali e comprar mantimentos no supermercado Mubarak.
       
      O ônibus saiu cheio. Levou cerca de uma hora e 24 rúpias para chegar ao vilarejo de Wandoor. Lá me hospedei no Anugama Resort, numa suíte privada bem razoável. Só que de resort o lugar não tem nada, nem sequer uma piscina, bar ou internet funcionando. Ao menos, os funcionários são gentis.
       
      Na hora do jantar, em que fiquei com um curry de peixe (190 rúpias) no restaurante da hospedagem, conheci uma família de belgas e holandês, com quem bati um bom papo.
       

       
      Dia 6
       
      Acordei várias vezes durante a noite e levantei pelas 6, sendo que já havia sol um bom tempo antes. Eu e um dos companheiros da noite anterior fomos a pé cedo ao escritório do Parque Nacional Marinho Mahatma Gandhi para tentar conseguir a permissão para adentrá-lo, mais especificamente na ilhota de Jolly Buoy. 
       
      Lá, descobrimos que os barcos já estavam cheios, e que precisaríamos tanto agendar o passeio quanto conseguir a permissão no escritório de turismo em Port Blair. Sendo assim, barganhamos um táxi para nos levar, esperar e trazer de volta por 2 mil rúpias.
       
      Emiti a permissão (mil rúpias) e o bilhete do barco para Jolly Buoy (885 rúpias) na mesma hora. Detalhe é que é necessária uma fotocópia do passaporte - mas há um xerox próximo que o faz por míseras 2 rúpias!
       
      Depois, fomos ao píer de Phoenix Bay, fechado aos domingos, para comprar nossas passagens à ilha Neil (510 rúpias).
       
      Regressamos a Wandoor e eu almocei no próprio hotel. Meu prato de “biryani” de frango (240 rúpias) demorou pra ficar pronto, mas foi uma baita refeição.
       
      Em seguida, caminhei até a praia. No caminho, topei com algumas aves, como o martim-pescador.
       
      A praia de Wandoor é peculiar por um motivo ruim; não é permitido entrar na água devido à presença esporádica do crocodilo de água salgada (Crocodylus porosus), o maior do mundo. Há inclusive uma tela de proteção. Alguns quiosques vendem souvenires, alimentos e bebidas. 
       

       
      Fiquei ali com o pessoal por umas horas, até que eles partiram enquanto eu esperava o pôr do sol. Logo depois, caminhei os poucos quilômetros de volta ao Anugama Resort.
       
      Banho, janta e cama.
       
      Dia 7
       
      Às 7 e meia embarquei rumo a Jolly Buoy, no Parque Nacional Marinho Mahatma Gandhi. A duração do translado foi de pouco mais de uma hora, em meio a ilhotas desabitadas com floresta nativa intocada.
       
      Chegando em Jolly Buoy, tive um grande desapontamento. Não é mais permitido praticar snorkeling! Dá pra acreditar nisso? Se tivessem dito antes eu já estaria a caminho da ilha Neil, e não num lugar minúsculo onde você só pode se banhar num cercado minúsculo. Fiquei lá conversando com a única outra gringa do barco, uma húngara.
       
      A única atividade extra é um passeio de 1h num barco sujo e desconfortável, com vidro no fundo para ver os corais e peixes, a um custo extra de mil rúpias…
       

       
      Ao regressar pelas 13h, almocei e parti para Port Blair num ônibus musical.
       
      Ao chegar, fui atrás de algum hotel, já que minha reserva para essa noite seria para a outra ilha. Usando a internet de uma acomodação já cheia, encontrei um tal de Lalaji Bayview, com um quarto individual por 800 rúpias. Então fui até lá caminhando, pelo meio de uma comunidade.
       
      A internet é paga (60 a hora), mas ao menos existente. Já a suíte é a mais básica possível, enquanto que o restaurante no topo da edificação é bacana. Jantei um enroladão de camarão (250 rúpias) e fui pra cama.
       
      Dia 8
       
      Seguindo a tradição de acordar cada vez mais cedo, peguei a balsa das 6:30h para a ilha Neil. Duas horas depois, aportei. 
       
      Deixei a mochila na acomodação Kingfisher Hotel e fui caminhando até a praia do norte, chamada Bharatpur. Com um bocado de gente, um tanto suja e cheio de barracas vendendo conchas, passeio aquáticos e etc, não é bem o que eu pensava. 
       
      Atravessei e tive que nadar certo tempo até localizar os recifes de coral. Aqui vi alguma qualidade, até mesmo havia corais que nunca havia observado antes. O ruim foi voltar desviando dos barcos e motos aquáticas.
       

       
      Para almoçar, tentei achar um restaurante que fosse um meio termo entre os dos hotéis chiques e os pés sujos. Acabei parando no Port Canteen, onde fiquei com um arroz frito com camarão (220 rúpias).
       
      Com o dinheiro acabando, precisei sacar no único ATM da ilha, que para variar estava indisponível no momento. Contando com que a máquina estaria operando novamente dentro de algumas horas, o próprio funcionário do banco me emprestou seu dinheiro para que eu pudesse pagar o depósito do aluguel da bicicleta!
       
      A respeito disso, escolhi uma magrela para me deslocar por essa pequena ilha. A velha bike era pequena demais pra mim, mas por apenas 100 rúpias a diária eu não podia querer muito. Uma scooter custava um pouco a mais (400 rúpias + combustível).
       
      Pedalando, cruzei o interior cultivável de Neil até a bonita praia Sitapur, famosa pelo nascer do sol. Ali eu mergulhei novamente, mas no ponto onde fui a visibilidade estava ruim, devido às ondas. Vi menos do que no snorkeling anterior.
       
      Consegui sacar grana ao retornar. Assim, segui para outra beleza natural, um arco de rocha que fica no oeste da ilha. Cheio de turistas indianos, para se chegar nele há de passar por cima de poças de maré.
       

       
      Vi o sol se pôr neste lugar e retornei. Peguei dois dos salgados fritos picantes “samosas” (20 pila) e um caldo de cana (30) na parte mais central, onde havia movimento naquela hora.
       
      De volta ao hotel, meio velho e sem internet, para dormir.
       
      Dia 9
       
      Mesmo que quisesse, não poderia demorar muito a acordar, pois o check-out é às 7:30h! E esse parece ser um horário normal dos hotéis das ilhas Andamã. Definitivamente, não entendem de turismo para estrangeiros.
       
      Ainda com a bicicleta, toquei para a praia Lakshmanpur, onde também mergulhei. Só que nessa praia só havia dois pescadores, que logo foram embora, e mais ninguém. Fiquei quase 2 horas e meia me deliciando com a vida nos corais. De especial, vi o maior peixe não cartilaginoso que já presenciei na vida. O peixe-papagaio (Bolbometopon muricatum) era tão grande que pude até tocá-lo.
       

       
      Na volta, fui comprar o bilhete da balsa a Havelock, vendido só no mesmo dia e de forma presencial, tudo para dificultar sua vida.
       
      Almocei o prato típico indiano thali (180 rúpias) e peguei a balsa.
       
      Em Havelock, pensei em andar apenas de ônibus, mas a frequência é tão baixa (1 a 1:30h cada) que decidi alugar uma scooter (500 rúpias a diária) pela segunda vez na vida.
       
      Meio cambaleando, fui até o Emerald Gecko, hospedagem na praia nº5 onde eu fiquei. Paguei 1600 rúpias numa cabana rústica de frente pra praia. Aqui finalmente tive contato com vários estrangeiros, todos europeus.
       

       
      Saí para dar uma corrida na praia, de maré baixa durante o pôr do sol. Só que essa praia não é boa pra nadar.
       
      Jantei no restaurante da própria acomodação, um pouco mais caro do que estava pagando. Então fiquei com uma pizza de frutos do mar (300 rúpias).
       
      Para variar, a internet não estava funcionando, então depois de um papo fui dormir, em mais um colchão finíssimo padrão Andamã.
       
      Dia 10
       
      Tive que esperar o café da manhã incluído pra depois pegar a estrada. Dirigi até o começo da trilha para a praia Elephant, assim nomeada devido aos bichões acorrentados na praia para satisfazer a vontade de turistas que querem passear neles. Só que não foi dessa vez que a conheci, pois ela estava fechada devido a um óbito no dia anterior!
       
      Assim sendo, continuei na estrada até a praia Radhanagar. Seguindo a dica de um indiano, parei em frente ao Hotel Taj, onde ficaria um belo ponto de mergulho. 
       
      Com o tempo fechado, não havia ninguém na praia quando cheguei pelas 8 e meia. Caí na água calma e clara, sobre um fundo exclusivamente arenoso. Nadei mais de 200 metros, sem ver nada. Eis que quando pensava em mudar a localização, comecei a vislumbrar uma maravilha atrás da outra. Cansei de ir atrás de arraias, de contar quantos cardumes e corais enormes diferentes apareciam, assim como polvos e muitas outras criaturas. No final, ainda tive o prazer de ver algumas tartarugas-marinhas e de sofrer comensalismo por uma rêmora! No total, fiquei nadando por 3 horas!
       

       
      Parei na entrada principal da praia, cheia de indianos, para almoçar num dos diversos restaurantes. Fiquei com um “thali” de camarão a conta gotas, por 300 rúpias.
       
      Depois, caminhei pela praia no sentido contrário ao anterior, encontrando nesse caminho separadamente os dois casais que eu havia conhecido nessa ilha. Ê mundo pequeno.
       
      Com a chuva, a pista estreita ficou um sabão só. Voltei devagar pra não deslizar na moto como um cara que estava à minha frente.
       
      Guiei até Kalapathar, a praia mais ao sul acessível por estrada. Legal ela, mas nada de excepcional.
       
      Regressei e parei no restaurante Golden Spoon, para comer um prato de peixe e usar a internet.
       
      Depois disso, voltei a minha hospedagem.
       
      Dia 11
       
      Um bando de infelizes começou a bater panela pelas 5 e pouco. Dormi mais uma hora, tomei o café e segui pro início da trilha da praia Elephant - que ainda estava fechada…
       
      Só me restou voltar ao ponto de mergulho do dia anterior. Só que dessa vez não vi nada de novo, além de estar me borrando de medo, agora que eu estava ciente que ali é território do maior crocodilo do mundo.
       

       
      Almocei em Vijay Nagar, no restaurante vegetariano Biswas. Pedi um “paneer butter masala” por 200 rúpias. “Paneer” é o tradicional queijo coalho indiano, enquanto que “masala” é uma mistura de temperos.
       
      Depois, devolvi a moto e fiquei matando tempo até a saída do barco para Port Blair. Acabei embarcando no navio errado, e só me dei conta quando ele tinha partido - ainda bem que o destino de ambos era o mesmo. Só que esse estava infestado de baratas.
       
      Ao desembarcar já era noite, então só me restou ir pro hotel Sunnyvale, pedir uma janta a tele-entrega, lavar minhas coisas e dormir. Exceto pela barata no banheiro, foi a melhor suíte até então.
       
      Dia 12
       
      Café da manhã, seguido pelo voo da IndiGo a Chennai. O voo atrasou, então pude conferir todas as atrações do aeroporto: banheiro, bebedouro, caixa eletrônico, lanchonetes e 3 checagens de segurança obrigatórias.
       
      Fazia um inferno de 36 graus quando aterrissei. Do alto e pelas ruas se vê que o forte aqui é a arquitetura. Além de muitos prédios em estilo colonial britânico, as moradias são coloridas com diferentes cores, e há uma infinidade de templos de hinduísmo. Mas também se vê muita sujeira e pobreza no meio.
       
      Peguei o metrô até a estação central (50 rúpias). Já na estação de trem, provei o suco de um fruto novo pra mim, o marrom arredondado sapoti. Depois, embarquei no trem (5 rúpias!) para o famoso templo hinduísta Kapaleeswarar, cultuado a Shiva. Não se paga nada pra entrar, mas além de uma torre cheia de ídolos do hinduísmo, não há mais muito o que ver.
       

       
      Na saída do templo, um motorista me abordou com o intuito do famoso golpe do tour barato de tuk-tuk, conhecido em Bangkok. Aceitei a carona de 100 rúpias que me levou primeiro à Basílica de São Tomé, uma das 3 únicas no mundo erguidas sobre a tumba de um dos apóstolos de Jesus.
       
      Depois ele me levou a duas lojas caríssimas onde ele ganharia combustível grátis por me levar. Obviamente eu não comprei nada.
       
      Por fim, me deixou na Marina Beach, a maior e mais movimentada de Chennai, onde eu caminhei um pouco e tomei um caldo de cana (20 rúpias) naquele final de tarde.
       

       
      A seguir, tomei outro trem e tuk-tuk para chegar ao albergue Elliot's 11 Beach. Um leito no dormitório coletivo me custou 610 rúpias incluindo café da manhã.
       
      Dei uma volta na rua cheia que leva à praia. Curiosamente, estava ocorrendo uma missa católica em tâmil (idioma do estado) a céu aberto.
       
      Parei para jantar num restaurante barato, Classy - de classe não tinha nada. Provei o tal de frango “tandoori”, assado, marinado, apimentado e avermelhado (160 rúpias).
       
      Caminhada noturna breve no calçadão da praia. Ali me desfiz dos meus chinelos que não tinham mais conserto e comprei um par por 150 rúpias. Depois fui pro albergue relaxar.
       
      Dia 13
       
      Acordei pro café e o recepcionista estava vestindo uma camiseta de Floripa! Dá pra acreditar que o indiano já morou em minha terra, e adorou?
       
      Uber até o terminal, e lá próximo peguei o ônibus #588 até Mamallapuram (43 rúpias), onde fica o conjunto monumental de Mahabalipuram, que é um Patrimônio da Humanidade. 
       
      Aqui eu finalmente vi turistas estrangeiros. Me esquivei dos guias e vendedores e entrei no complexo, sob um sol de rachar. São diversos monumentos com motivos hinduístas entalhados em granito, como baixos relevos, cavernas, mirantes e templos.
       

       
      Almocei no Moonrakers uma porção de lulas fritas (350 rúpias) e um camarão-tigre (300 rúpias) que foi desnecessário, como eu já estava satisfeito. Saí de lá explodindo - e acho que foi esse almoço que me deixou mal depois.
       
      Caminhei até os dois templos pagos, sob um único bilhete de 600 rúpias. O que fica na praia se chama Shore Temple, enquanto o outro é o Five Rathas. Ambos interessantes.
       

       
      Prossegui pelo Sea Shell Museum, uma coleção de 40 mil conchas! Há de diversas espécies, formas, tamanhos e cores de várias partes do mundo. Pelo ingresso que combina uma seção especial das pérolas e outra com aquários (alguns pequenos demais pros peixes que os habitam), paguei 150.
       
      Continuando, vi o restante das ruínas na colina cheia de rochas do conjunto central de Mahabalipuram. Cansado, retornei de ônibus no final da tarde.
       
      Tomei um milk shake premium no Shakos e me retirei ao albergue.
       
      Dia 14
       
      Já estava me acostumando com o tumulto na Índia, mas se tem uma coisa que me tira do sério é a falta de educação deles, tanto a respeito de jogarem lixo no chão e na água, dirigirem como loucos, atravessando em qualquer lugar e buzinando o tempo todo, e também furarem filas descaradamente.
       
      Voos de turbo-hélice da SpiceJet a Kochi e de lá a Malé, capital do arquipélago das Maldivas. Estavam me negando o embarque internacional porque eu não tinha como mostrar as reservas dos hotéis de cada dia que eu ficasse nas Maldivas. Só fui salvo porque um funcionário compartilhou sua conexão, já que meu chip estava sem sinal.
       
      Imigração tranquila, troquei a grana na parte de fora do aeroporto (15 rufias por dólar), bati um rango superfaturado e peguei o ônibus (10 rufias) que passa pela nova ponte que liga à ilha de Malé. Do ponto final, caminhei meio km até o terminal de balsas de Villingili, onde comprei meu bilhete pra Rasdhoo (53 rufias).
       
      De lá, caminhei mais meio km até a hospedagem Nap Corner. Paguei 28 dólares para dormir numa cápsula tecnológica futurista! Como estava me sentindo meio enjoado, não saí mais.
       
      Dia 15
       
      Às 9h encontrei meu amigo Vinícius no terminal de balsas. Junto com outros poucos gringos, pegamos a barulhenta até Rasdhoo. Como leva 3 horas e ela foi quase vazia (assim como as seguintes), tiramos um cochilo no caminho até o atol.
       
      Fomos recebidos por um representante do Ras Village, hotel onde ficamos. Logo saímos para almoçar no Coffee Ole. Pedimos miojo de frango (fried chicken noodles), o prato mais em conta (55 rufias).
       
      À tarde, mergulhamos na praia ao sul da ilhota, destinada aos turistas. Só ali é permitido usar roupa de praia, já que Maldivas é um país islâmico e Rasdhoo é habitada.
       
      Com a maré baixa, tivemos certa dificuldade em atravessar o recife interno muito raso, até chegar ao externo, onde a beleza se fez presente. Não tanto pelos corais, pois eles estavam um tanto descoloridos, mas os peixes que os cercavam eram abundantes. Além de grandes cardumes, vimos alguns tubarões-de-ponta-negra-do-recife, uma arraia-chita, uma lula, dois peixes-leão e mais uns extras.
       

       
      Deixamos a água quase 3 horas depois, quando o sol já se punha. Uma pena que, saindo do lado oposto, descobrimos um depósito de lixo que termina no mar, bem desagradável.
       
      Vimos o belo pôr do sol no Oceano Índico. Depois, caímos na água novamente pra um mergulho noturno, coisa que nunca havia feito antes. Com lanternas à prova d'água, mergulhamos na escuridão completa. Dá um certo medo, pois é nessa hora que os tubarões saem pra caçar - e nós vimos vários deles! Para completar, também avistamos uma tartaruga e uma sépia, que evadiu com um poderoso jato de tinta. Os lírios do mar também ficam mais bonitos à noite, pois se abrem totalmente para captar os nutrientes.
       

       
      Uma das vantagens de se mergulhar à noite é que, letárgicos pelo sono ou ofuscados pela lanterna, os peixes te deixam chegar bem mais próximo que durante o dia. Curti a experiência.
       
      Finalmente, jantamos no mesmo lugar, que tocava umas músicas de reggaeton animadas. Mas nada de álcool, já que fora das ilhas privadas dos resorts é proibido.
       
      Dia 16
       
      Após café da manhã razoável, meu amigo foi fazer um passeio de 30 dólares para um banco de areia próximo, enquanto eu fui nadar até o recife Giri, mais afastado do que do dia anterior. O caminho até lá são 300 metros de profundidade inalcançável. De novo, vi os tubarões-de-ponta-branca-do-recife. Também avistei um cardume de peixes-anjo.
       

       
      Almoçamos em outro restaurante, o Lemon Drop. O cardápio é parecido com o anterior, sendo alguns itens mais caros e outros mais baratos. Aqui não tem som, mas há um terraço pra compensar.
       
      À tarde, praticamos mais snorkeling ao redor do lado sudoeste de Rasdhoo. Uma arraia diferente, alguns tubarões, cardumes e um peixe-leão no raso foi o que vimos. De vez em quando se misturavam correntes extremamente quentes com as um pouco frias, gerando turbulência na visibilidade.
       
      Após, assistimos o pôr do sol, com peixes saltando e morcegos sobrevoando a área.
       
      Depois da janta, meu mal estar provavelmente adquirido na Índia revelou-se uma diarreia. Duas semanas de comidas típicas super condimentadas e pouco higiênicas não tiveram um bom resultado. Ainda bem que não durou mais de um dia, talvez devido às leveduras (Floratil) que tomei.
       
      Dia 17
       
      Na manhã seguinte, tomamos a balsa de uma hora de duração para a ilha de Ukulhas (22 rufias).
       

       
      Ukulhas é mais limpa e sua praia tem uma areia tão branca que ofusca a vista e o mar tão claro que a visibilidade atinge dezenas de metros! Logo ao cairmos na água, percebemos o quanto esse lugar é especial. O recife externo, junto com o da ilha seguinte, é o melhor que presenciei nessa viagem. Cardumes variados, corais em melhor estado, tubarões, arraia e 3 tartarugas dóceis, das espécies de pente e verde. Nem se preocuparam conosco enquanto comiam as algas dos recifes.
       

       
      Mas como já estava com o sol a pino, fomos nos abrigar. Almoçamos na hospedagem em que dormiríamos, a Olhumati View Inn (55 dólares), com a suíte mais bacana. Para comer, escolhi um espaguete com peixe em estilo das Maldivas (6 dólares) e um suco natural de maracujá (2 dólares).
       
      Tirei umas fotos da praia enquanto o Vinícius dormia. Às 3h, mergulhamos uma vez mais, pelo resto da extensão do recife externo da ilha. Os corais na direção noroeste estão em melhor estado. Cansamos de ver tartarugas por lá. Trinta-réis pescavam os infinitos peixinhos que abundam. De espécies novas, vimos uma ou outra.
       

       
      Pena que o lado menos frequentado por turistas tenha sua parcela de lixo.
       
      Depois do pôr do sol, partimos pro terceiro snorkeling do dia, ou melhor, já era noite. Só que dessa vez foi curto, pois minha lanterna entrou em colapso, então ficamos usando só a do meu amigo. O mais interessante que vimos foram diversos tipos de plâncton. Quando desligamos as luzes, descobrimos que eram aqueles tais bioluminescentes, que brilhavam ao nosso toque!
       
      Um tempo depois, fomos jantar no SeaLaVie, restaurante um pouco menos em conta, mas com um som legal. Pagamos 8 dólares cada num prato razoável.
       
      Dia 18
       
      Após o café de panquecas e suco, seguimos ao último mergulho nessa ilha. Na tentativa de vermos as gigantescas arraias-jamanta, voltamos ao ponto da manhã anterior. Não conseguimos, mas em compensação, vimos o dócil tubarão-enfermeiro-fulvo tirando um cochilo sob um recife.
       

       
      Escolhi um prato da comida típica “kotthu roshi” (6 dólares) de almoço, feito com pedaços de chapati.
       
      Em seguida, por 22 rufias, subimos na balsa até Rasdhoo e até Thoddoo, a ilha final. Essa é caracterizada por produzir a maior parte dos vegetais do país, principalmente mamão. Só a faixa central é ocupada pela área urbana.
       
      Fomos caminhando à praia do pôr do sol, para em meio a muitos turistas russos, observar o fenômeno. No caminho vimos as plantações e alguns dos animais nativos, como os morcegos gigantes, os lagartinhos coloridos e as aves terrestres.
       

       
      Há uma mesquita no centro que fica bonita iluminada à noite. Jantamos próximo a ela, no Maracuya. Mas não recomendo, pois os preços não são os melhores, não há música, a iluminação é fraca e eles ainda tentaram nos passar a perna na hora de pagar a conta.
       

       
      Antes de voltarmos ao hotel, demos uma volta para tirar fotos. Dormimos no Amazing View Guesthouse, um nível abaixo dos outros. Mas ao menos também conta com wi-fi e ar condicionado.
       
      Dia 19
       
      Tomamos o café da manhã e saímos a mergulhar na praia do nascer do sol. Em Thoddoo o recife externo é mais distante, então é preciso nadar um pouco mais para atingi-lo. Mas vale a pena, pois os corais aqui são os melhores que vimos nas Maldivas. Começando por um pequeno nudibrânquio, atravessamos cardumes enormes de peixes-papagaio, um polvo, um grupo de arraias-chita, além do que já havíamos visto antes.
       
      Não tivemos sorte em encontrar um lugar aberto pra almoçar. Depois de uma bela pernada, é que sacamos que era sexta-feira, o dia sagrado do islã, então os restaurantes só abririam depois das 13:30h.
       
      Ficamos pelo Coffee Moon, onde nos deixaram assistindo TV trancados no restaurante, enquanto os atendentes iam rezar. Na hora marcada, pedimos o rango, aqui mais barato. Cinquenta mangos por um pratão de miojo com frango e a partir de 20 pelo suco natural. Só que não tenha pressa, porque aqui o negócio é meio devagar.
       
      À tarde, largamos do mesmo ponto inicial, mas seguimos mergulhando no sentido inverso. Só que não foi proveitoso, pois já fomos um tanto tarde e um temporal estragou o mar.
       
      Para compensar, vimos o melhor pôr do sol. Surgindo entre as nuvens, o círculo desceu até ser absorvido pelo mar.
       
      Jantamos no restaurante e café Seli Poeli, bem próximo da hospedagem. Com luzinhas de natal, toca um som legal, mas os preços não são tão bons - apesar de não cobrarem os impostos que chegam a 16% (e você só sabe se são cobrados na hora que vai pagar a conta).
       
      Dia 20
       
      Ficamos boiando na linda praia pela manhã. Para o almoço, escolhemos outro restaurante, o Mint Garden. O ambiente é agradável e os preços também, mas (sempre tem um mas) os peixes que pedimos levaram mais de uma hora para ficarem prontos!
       
      À tarde, fizemos o último mergulho. Contando os que fiz nas Ilhas Andamã, totalizei 16 mergulhos! Dessa vez, fomos ao lado oeste de Thoddoo. Tivemos que nadar por quase meia hora para chegar ao fim do recife externo. Nesse caminho, vimos coisas novas, como camarões, outras espécies de arraias, além de espécies incomuns, como moreias marrons e poliquetas. Foi bem proveitoso, mas teve que se encerrar com o sol se pondo.
       

       
      À noite, voltamos ao Seli Poeli pra rangar. Depois, finalmente encontramos a loja de souvenir Ufaa aberta, já que os horários são meio bizarros nessas ilhas - essa fica disponível só das 20 às 21:30h!
       
      Dia 21
       
      Acordamos bem cedo pra pegar a balsa das 6 e meia para Rasdhoo. A hospedagem nos fez a gentileza de adiantar o café da manhã e nos conseguir uma carona até o porto.
       
      Tivemos que aguardar umas horas até a seguinte de volta a Malé. Ficamos no café e restaurante Palm Shadow.
       
      Ao chegar à capital, almoçamos na praça de alimentação que fica bem em frente ao terminal de balsas.
       
      Em seguida, pegamos um ônibus até o aeroporto (10 rufias) e outro até Hulhumalé (20 rufias). Para pegar um ônibus direto custaria 20 pelo cartão não retornável + 20 pelo transporte (e não poderia levar bagagem).
       
      Hulhumalé é uma ilha mais nova onde mora a população de Malé - há inúmeros blocos de condomínio padrão. Demos uma volta por lá, incluindo o parque central, mas não vimos nada de tão interessante para turistas.
       

       
      Antes de ir para o hotel, tomamos um suco no Juice Corner (a partir de 20 rufias) e uns salgados.
       
      Nos hospedamos no Loona Hotel, em frente à praia urbana. Pagamos 50 dólares por um quarto com café e ficamos vendo TV.
       
      Tomamos o pequeno-almoço na correria e dividimos um táxi (100 rufias) com um indiano até o aeroporto. Vinícius trocou suas rufias restantes na mesma cotação da compra (15 por dólar).
       
      Voamos com a IndiGo até Bangalore, onde tivemos que aguardar mais umas tantas horas para o voo consequente de AirAsia a Jaipur. 
       
      De volta à burrocracia indiana. Mesmo com o visto dentro do prazo de validade, vou precisar pedir um novo pra minha terceira entrada na Índia, ainda que seja pra ficar menos de 1 dia e não sair do aeroporto. Outra coisa, em Bangalore (e possivelmente nos demais aeroportos) não é possível sair depois que entrar nele, mesmo sendo no saguão do check-in. Meia hora, muita desinformação e uma permissão especial depois, conseguimos nos ver livres; caso contrário, passaríamos fome, já que havia onde almoçar lá dentro…
       
      Depois desse rolo, almoçamos na praça que fica bem na saída da área coberta do aeroporto. Escolhemos o Wok Shop Para a refeição principal e o Frozen Bottle para a sobremesa (249 rúpias por meio litro de milk shake).
       
      Depois de certa turbulência, descemos em Jaipur já com a noite surgindo. Seguimos diretamente ao albergue Jaipur Jantar Hostel de Uber por 190 rúpias, devido ao trânsito. No Uber daqui há opção até de moto ou tuk-tuk. No caminho, vi o quarto acidente de moto na Índia em 10 dias.
       
      O albergue é bacana, num prédio de arquitetura interessante. Largamos a mochila no guarda-volume do dormitório com triliches e fomos diretamente ao restaurante da hospedagem comer um prato variado de “thali”.
       

       
      Dia 22
       
      Por 250 contos comemos e bebemos à vontade no café da manhã; valeu a pena. Depois, seguimos de Uber (190 rúpias) ao Forte de Amber, nas colinas áridas ao norte da cidade. A entrada individual para estrangeiro adulto é de 500 rúpias, mas escolhemos o ingresso combinado de 1000 para incluir outras atrações.
       
      É um baita complexo palaciano, cercado de muralhas longínquas que mais parecem as da China. No interior, pátios, mirantes e cômodos. Altamente turístico.
       

       
      Ao retornar de tuk-tuk, seguimos ao Museu Albert Hall. É um prédio de 2 andares em estilo indo-sarraceno, com arte indiana nas mais variadas formas, como estátuas, pinturas, moedas e armas.
       
      Almoçamos num lugar meio caído, o restaurante Ganesh, já dentro dos portões da rosada cidade velha. Pedi um “paneer butter masala” (190 rúpias) e um “onion naan” (95 rúpias).
       
      Continuando, caminhamos no sol infernal até o palácio Hawa Mahal. Famoso por sua fachada, também é permitida a visita em seu edifício de 5 andares.
       

       
      Em sequência, Jantar Mantar. Patrimônio da UNESCO, é uma série de instrumentos astronômicos antigos e grandes, incluindo o maior relógio de sol do mundo.
       
      Às 18h, na avenida do portão Tripoli, começou o desfile do Festival Gangaur, que tivemos sorte em presenciar com vista panorâmica da laje de uma loja. O desfile religioso foi composto por pessoas fantasiadas tocando instrumentos e dançando, bem como animais, incluindo um elefante.
       

       
      No caminho de volta, tomei na rua o caldo de cana mais barato do universo (10 rúpias, ou seja, 55 centavos de real!).
       
      À noite, jantei e fiquei conhecendo gente no albergue.
       
      Dia 23
       
      Nos levantamos tranquilamente para pegar o trem das 11h. Compramos os bilhetes (75 rúpias cada) alguns minutos antes na confusa estação, e nos empurramos pra dentro do vagão do Ranthambore Express na hora em que ele chegou.
       
      Cerca de duas horas depois, descemos em Sawai Madhopur. Pegamos um tuk-tuk (150 rúpias) até a C. L. Saini Guesthouse, mas acabamos sendo despachados pra outra hospedagem, a Paridhi Niwas.
       
      Neste lugar, ficamos num quarto sem ar condicionado e com internet intermitente. Almoçamos lá mesmo, o melhor “thali” da viagem, por 250 rúpias.
       
      Depois, fomos conhecer o Forte de Ranthambore, que fica dentro do Parque Nacional Ranthambore, onde faríamos safáris no dia posterior. Pelo transporte até o forte, com a espera, tivemos que desembolsar mil rúpias.
       

       
      Só havia indianos lá, além de muitos macacos do tipo langur. Passamos mais tempo os fotografando do que as ruínas do forte em si, que em conjunto com os demais do estado de Rajastão, formam um Patrimônio da Humanidade.
       

       
      À noite fomos dormir cedo, pois teríamos que estar de pé às 5h da madruga!
       
      Dia 24
       
      Apesar da reserva paga pela na internet (~1800 rúpias) afirmar a necessidade de se obter o bilhete no escritório do parque na noite anterior, ele fica fechado, então às 5 e meia já estávamos lá, os únicos estrangeiros entre várias dezenas de guias e motoristas, pois os turistas pagam pros hotéis fazerem essa função.
       
      Com mais 4 belgas de meia idade, fomos de jipe até a zona 10 do parque, bem distante. O caminho até lá exige uma máscara contra poeira.
       

       
      O ambiente é semidecidual, com morros e matas baixas, bastante seco nessa época. Vimos diversos langures, veados-sambar, veados-manchados, antílopes-azuis e aves, como pavões (nativos da Índia), no trajeto irregular. 
       
      Estávamos chegando ao fim do safári de 3 horas e meia, quando atingimos o objetivo máximo, um tigre! Mais precisamente uma tigresa de 2 anos, estava deitada pegando um solzinho ardente. No máximo ela deu umas lambidas e fez umas caretas, mas mesmo assim foi muito legal ver.
       

       
      Almoçamos no próprio hotel mais um gostoso “thali”. A única coisa que não conseguimos comer/beber é a amarga coalhada.
       
      À tarde, mais um safári, das 3 às 6 e meia, desta vez na zona 4, mas em um veículo de 20 lugares. Essa zona possui paisagens mais belas que a outra. Quanto aos animais, vimos tanto quanto antes e até mais: chacais, outras aves, crocodilos. E no finzinho já com o sol se pondo, outra tigresa!
       

       
      Jantamos em nosso hotel. Depois, ficamos assistindo vídeo-clipes na MTV indiana até dormir.
       
      Dia 25
       
      Café da manhã meio esquisito. Depois, seguimos à estação de trem. Para variar, só conseguimos comprar pra segunda classe (a pior), por 100 rúpias para um trecho de 4 horas e meia até Agra Fort. Como os compartimentos dessa classe estavam entupidos, seguimos caminhando em direção aos vagões posteriores, que são melhores. Passamos por vários com camas e ar condicionado, todas lotadas, até que chegamos à classe superior dos assentos, também sem uma vaga sequer. Como resultado, só nos restou ficar no limbo, no espaço apertado e fedido do banheiro entre vagões, numa mistura de ar quente de fora e frio de dentro. 
       

       
      No fim, apareceu um fiscal querendo nos cobrar a diferença dos bilhetes, como se estivéssemos na classe 3AC, que custava 815 rúpias a mais cada! O cara não falava muito inglês, então foi bem difícil argumentar com ele. O melhor que conseguimos foi pagar metade desse valor cada, já que não estávamos em assentos adequados…
       
      Ao chegar em Agra, combinamos com um tuk-tuk para nos transportar até a hospedagem e de lá até o forte, depois ver o pôr do Taj Mahal e retornar, por 700 rúpias.
       
      O Forte de Agra, patrimônio UNESCO do século 16, ocupa uma área grande, só que há poucas construções no interior, pois os britânicos as destruíram. Mesmo assim, os detalhes e o tamanho da obra de arenito vermelho são impressionantes. Entrada de 600 rúpias. Alguns sikh pediram pra tirar foto, então aproveitei para aprender um pouco sobre essa religião.
       

       
      Para o pôr do sol, ficamos num jardim bem atrás do Taj Mahal, mas do outro lado do rio que corta a cidade. Há que se pagar 300 rúpias para essa vista, mas se você gosta de amoras e vier nessa época, dá pra recuperar a grana catando as infinitas frutas que estão nos pés do jardim.
       

       
      Jantamos no Bob Marley Café. É tão autêntico que, além da decoração e das músicas, a bebida deles vem aditivada com aquele ingrediente que vocês devem estar pensando. O Special Bob Marley Lassi ("lassi" é um tipo de iogurte indiano) custou 180 rúpias.
       
      Umas duas horas depois, começamos a sentir os efeitos da bebida. Foi uma comédia só.
       
      Dormimos no Yoga Guesthouse, só no ventilador e cercado de mosquitos, por 350 rúpias cada. O ambiente não é tão limpo, mas a pessoa que cuida não poderia ser mais solícita, visto que até levou os tênis do meu amigo para costurar sem cobrar.
       
      Dia 26
       
      Taj Mahal pela manhã. Quanto mais cedo melhor, mas não fomos tanto. Pra chegar lá, só caminhando ou de riquixá. A entrada pra estrangeiros é abusiva: 1300 rúpias.
       
      Dentro, plantas, águas, mesquita, muita gente e o imponente mausoléu de mármore com a tumba da mulher preferida que foi presenteada pelo rei mugal.
       
      Na saída, compramos um souvenir, tomamos o café da manhã e corremos pro ônibus refrigerado da Ashok Travels, que nos levaria a Délhi por 400 rúpias cada.
       
      Três horas depois, desembarcamos na estação de metrô Akshardham, onde fica o maior templo hindu do país. Almoçamos umas misturas boas num restaurante da estação, seguindo então para a do albergue [email protected], por 30 rúpias.
       
      Deixamos as coisas lá, e como já era tarde e as atrações estavam fechadas, fomos às compras. Primeiro descemos no shopping Moments Mall, entrando no hipermercado More Mega Store. Lá eu pude comprar barras de proteína pro trekking no Nepal e o meu amigo alimentos típicos indianos (como a "chana") pra levar pro Brasil.
       
      Em seguida, o shopping Pacific Mall, para acessar a Decathlon (onde comprei meu calçado pra trilha) e jantar na praça de alimentação.
       
      Ao retornar pra dormir no quarto coletivo refrigerado de 635 rúpias cada, tive a maior ré da viagem. Meu voo para o Nepal com a porcaria da Jet Airways havia sido cancelado há alguns dias (falência da companhia) e eu nem tinha sido notificado! Para piorar, todos os voos de outras cias para os dias seguintes estavam absurdamente caros e não havia vaga nos ônibus que levam mais de um dia pra chegar! Acabei tendo que pagar uma fortuna no voo da IndiGo, caso contrário meu trekking no Everest ficaria comprometido...
       
      Dia 27
       
      Havia levado minhas roupas na noite anterior pra lavanderia, ao custo de 30 rúpias por peça. Quase que fiquei sem elas, pois ficaram prontas no momento em que eu estava saindo, ainda que a lavagem tenha sido bem mal-feita.
       
      Para ir ao aeroporto eu fui de metrô, na linha expressa que custa 50. Na hora do check-in, conheci dois brasileiros (Lucas e Amanda) que fariam o mesmo trajeto que eu no Everest.
       
      Ao chegar em Catmandu, preenchi o formulário eletrônico, paguei o visto para um mês (40 dólares), passei a imigração e fiz o câmbio na cotação de 1 dólar pra 107 rúpias nepalesas.
       
      Estava chovendo ao deixar o terminal, mas isso não impediu que eu viesse caminhando até o hotel Sunaulo Inn, onde fiquei num quarto meia-boca por 1200 rúpias (doravante nepalesas).
       
      Jantei no próprio lugar, escolhendo um "biryani" de ovo por 280 rúpias. Apesar de ser mais barato que a Índia, cobraram sobre esse valor 23% de taxas!
       
      Depois das últimas pesquisas na internet, arrumei o mochilão pro dia seguinte e fui dormir cedo.
       
      Dia 28
       
      Fui empolgado ao aeroporto, só pra descobrir que meu voo não sairia tão cedo. Cheguei às 9h e esperei… esperei… esperei, até que às 17h finalmente os voos para Lukla foram cancelados pelo tempo adverso e por um acidente fatal no dia anterior! Um dia inteiro perdido coçando o saco no saguão…
       
      Ao menos no final do dia consegui conhecer o complexo do templo hinduísta de Pashupatinath (mil rúpias). A arquitetura é interessante, com várias estupas e teto dourado. Ao longo de um rio, aqui ocorrem rituais de cremação como em Varanasi, na Índia. Tive sorte de presenciar uma dessas cremações, que começam com a cobertura do defunto com flores e o som de uma banda ao vivo. Em seguida, cobre-se de madeira e material inflamável e acende-se uma fogueira, que transforma o corpo em cinzas, que vão parar no rio. Meio macabro.
       

       
      Jantei um "chowmein" de frango, que é um macarrão chinês (250 rúpias), e repousei no mesmo hotel sujinho da noite anterior.
       
      Dia 29
       
      Achei que não iria de novo, mas depois de 3 horas de tráfego aéreo (pra desafogar os atrasos dos dias anteriores), nos enviaram pro aviãozinho que recém havia pousado. E pensar que eu quase troquei por um caro helicóptero, como alguns dos turistas fizeram.
       
      Logo estávamos no ar, chacoalhando entre montanhas e terraços agrícolas. Pousamos uns 45 minutos depois, na pista minúscula e assustadora do aeroporto de Lukla. Dali já se vê um monte nevado.
       

       
      Comecei a caminhada às 13:40h pela cidade de Lukla a 2900 metros de altitude, onde se pode obter o que lhe faltou, como o dinheiro, que consegui sacar (ao contrário do aeroporto de Katmandu). 
       
      Paguei as 2 mil rúpias pra entrar no parque rural de Khumbu, primeira etapa da trilha para o acampamento base do Everest. No começo, há muitos vilarejos, muitos turistas e carregadores (sherpas). E descidas, ao contrário do que se imagina.
       
      Essa região segue o budismo tibetano, então há muitos monumentos, como estupas, rochas com mantras e rodas "mani", além de alguns monastérios.
       

       
      Parei após duas horas, na metade do caminho que faria no dia, para pegar água duma bica e descansar por uns 10 minutos.
       
      Depois, foi só subida e descida. Suei um bocado. 
       
      Algumas pontes pênseis cruzam um rio glacial turquesa lindo. Uma dessas, fica em Phakding, vilarejo badalado onde repousaram os demais trilheiros que largaram comigo.
       

       
      Eu prossegui até Monjo, onde cheguei no final da tarde, 4 horas depois do começo, e um tanto cansado.
       
      Fiquei com um quarto com banheiro, chuveiro quente e wi-fi por 500 rúpias, no Monjo Guesthouse. Estava vazio, então só encontrei um senhor francês pra conversar, enquanto esperava a janta vegetariana de "dal bhat", o prato mais típico nepalês, que consiste em arroz, lentilha, curry de vegetais aleatórios e um pedaço de algo salgado. É muito bem-servido, pois se pode repetir (500 rúpias).
       

       
      Após, continuei na sala comum com calefação, ouvindo músicas nepalesas e tomando "raksi", uma bebida alcoólica caseira de arroz e maçã, que o pessoal da pousada me ofereceu.
       
      Dia 30
       
      Dormi relativamente bem. Comi uma barra de proteína e parti.
       
      Logo fica a entrada do Parque Nacional Sagarmatha. Mais 3 mil rúpias de pagamento.
       
      Depois de uma breve descida em Jorsalle, cercada por florestas de coníferas e cachoeiras, começa uma subida violenta até Namche Bazaar. Não há nenhum vilarejo no caminho.
       
      Quase 3 horas mais tarde, cheguei cansado da ascensão de 600 metros. Ao menos o tempo até então estava bom, tanto que eu ainda usava roupa de corrida - exceto pelo calçado.
       
      Namche Bazaar é a última cidade da trilha. No seu semicírculo de construções cravadas na montanha, há uma infinidade de hospedagens, restaurantes e lojas, onde se encontra de tudo para compra, a um certo preço.
       
      Entrei em 3 pousadas até encontrar uma que não estivesse cheia ou que cobrasse até para respirar. Fiquei na Pumori Guesthouse, por 500 rúpias, com banheiro compartilhado, recarga de aparelhos gratuita, bem como a internet. Só o banho é cobrado, mas nesse dia tomei na pia mesmo.
       
      Almocei ali uma pizza broto de cogumelo (550 dinheiros) e saí pra reconhecer a área. Só foi eu botar o pé pra fora que começou a chover e não parou mais. Rolou um fenômeno climático incomum também, uma precipitação monstruosa de granizo com neve!
       
      Enquanto isso, passei um tempo no bar The Hungry Yak, onde são transmitidos documentários sobre a montanha. Assisti a impressionante primeira ascensão do Everest, no filme "The Wildest Dream". Enquanto isso, tomei uma Nepal Ice, cerveja forte nepalesa, mas que chega aqui num preço salgado: 600 rúpias pelo latão de meio litro.
       
      Em seguida, passei por quase todas ruas, pelo Monastério Gomba, e, já escuro, voltei pra hospedagem para jantar.
       
      Ao comer meu bife de iaque (750 com acompanhamentos), gostoso mas meio fibroso, conheci um russo que quase chegou ao final da trilha com duas crianças de 8 e 6 anos!
       
      Fui dormir sob temperatura negativa, o que se repetiria até o retorno a Namche.
       

       
      Dia 31
       
      Comi um omelete com pão tibetano (sem graça) e parti pra rua, para aproveitar o lindo dia ensolarado que fazia. Para ajudar na aclimatação, subi a íngreme rota que leva ao mirante do Monte Everest, mais de 400 metros acima de Namche. Lá em cima, coincidentemente, encontrei um grupo de trilheiros de Floripa, que estavam sendo guiados por nada menos que Waldemar Niclevicz, o maior montanhista brasileiro!
       
      Fiquei um tempo apreciando a vista do vale de Khumbu, por onde eu vim e para onde irei. Também estavam visíveis alguns dos picos mais elevados, como Ama Dablam e Lhotse. Infelizmente o Everest estava coberto por nuvens constantes. A temperatura não estava tão baixa, mas o vento estava de matar, então tive que descer.
       
      Visitei o Sherpa Cultural Museum & Mount Everest Documentation Center (250 rúpias). Há um modelo de residência Sherpa com seus utensílios típicos. Também há uma galeria com fotos, equipamentos e jornais a respeito das expedições ao Everest e sobre o povo das montanhas. Almocei lá mesmo um "dal bhat" (600 rúpias).
       
      A seguir, conheci o gratuito centro de visitantes do Parque Nacional Sagarmatha, onde fica essa trilha que estou seguindo. No centro há diversas informações a respeito do meio ambiente do parque.
       
      No final da tarde, fui em outro bar (Everest Burger & Steakhouse) para assistir outro filme, dessa vez "Everest". Também aproveitei pra provar outro prato típico, o "thukpa", que é uma sopa de macarrão com vegetais (450 rúpias).
       
      Jantei "momos" (bolinhos de massa fritos ou cozidos com recheio de vegetais ou carne em formato de meia-lua) em minha acomodação, agora cheia de chineses. Tomei um banho quente (400 rúpias), carreguei meus eletrônicos e fui dormir.
       
      Dia 32
       
      Noite boa de sono, sinal da aclimatação funcionando. Café da manhã pago básico. 
       
      Me livrei de 1 kg de roupa que não usaria adiante, deixando na hospedagem para pegar na volta.
       
      Às 9 e meia, comecei a leve subida e o contorno plano do vale de Khumbu, com vista pro Everest, Lhotse e picos vizinhos.
       
       

       
      Até aí tudo bem, mas quando o caminho desceu num bosque até a altura do rio no povoado de Phunki Thanga, começou uma subida chata de 550 metros em 2,4 km até Tengboche, onde pernoitei.
       
      Do final da subida, dá para ver uma morena, que são os detritos deixados por uma geleira que retrocedeu pelo aquecimento global.
       
      Já no topo, fica o pequeno povoado, centrado em um monastério interessante, que visitei.
       

       
      Lá reencontrei o grupo de Floripa, e troquei umas ideias com o Waldemar Niclevicz, um cara bem simpático e inspirador.
       

       
      Passei por 3 hospedagens até achar uma boa opção, pois a mais popular estava lotada, a que conta com uma padaria queria cobrar 1000 rúpias, mas a "teahouse" Tashi Delek cobrou 500 e até que era bacana.
       
      Para a internet, eu comprei um tal de Everest Link (2500 rúpias), que lhe dá direito a 10 GB em todas as hospedagens do caminho - e daqui pra frente o sinal do celular não pega.
       
      Dei um rolê pra passar o dia durante uma leve nevasca, e no final da tarde quando iria jantar em minha acomodação, encontrei um trio de brasileiros (Danniel, Samir e Felipe) descendo a montanha. Passei o resto do dia conversando com eles.
       

       
      Dia 33
       
      Tomei o café junto, e logo nos despedimos, seguindo para lados diferentes. Às 9 e meia, desci um pouco dos 3860 metros até os povoados seguintes, ao redor do rio glacial Imja Khola.
       
      Fazia um baita frio, e às vezes o vento castigava. Botei um pano na cara para resolver essa questão.
       
      Ao passar Pangboche, que possui o monastério mais antigo da região, comi uma barra de proteína e recarreguei de água em Shomare, o vilarejo onde a maioria dos grupos almoçava.
       
      Com a diminuição de oxigênio disponível, meu ritmo de caminhada também decaiu. Outra coisa que decaiu foram as árvores. Ao passar dos 4 mil metros de altitude, só restaram arbustos. Passei por alguns campos só com plantas herbáceas e arbustivas até a bifurcação Pheriche-Dingboche, bem em frente aos restos de rochas brancas de uma geleira não mais visível.
       
      Após um esforço final de subida, cheguei 3 horas e 45 minutos depois na entrada de Dingboche, a mais de 4300 metros de elevação. Esse povoado é maior do que eu esperava.
       

       
      Novamente, minha hospedagem pretendida estava lotada, então acabei ficando com a Tashi Delek. Só que ao contrário desse hotel no vilarejo anterior, aqui não havia nem vaso sanitário…
       
      Paguei 500 mangos num quartinho duplo. Ainda bem que era duplo, pois precisei dos dois colchões, cobertores e travesseiros.
       
      Escolhi um restaurante aleatório para almoçar, e acabei me dando bem, pois os preços do Himalayan Culture Home Lodge, também hotel, são comparáveis com os de Namche Bazaar, um quilômetro abaixo em altitude. Tomei um chá de limão com gengibre e comi "momos" vegetarianos por 580 no total.
       
      Posteriormente, caminhei por Dingboche, só pra ver os campos marrons de plantação serem adubados com fezes.
       
      Tomei um banho quente no Tashi Delek (500 rúpias) e fiquei relaxando, já que a rua estava fria, com um neblina que impedia a visão de qualquer montanha, além do cheiro da bosta usada na calefação dos interiores já estar forte.
       
      Ao sol se pôr, jantei em meu hotel o clássico "dal bhat".
       
      Por fim fiquei debaixo das cobertas lendo um pouco em meu Kindle.
       
      Dia 34
       
      Depois do café da manhã de pão, ovo e chá, usei meu dia de folga/aclimatação para subir o primeiro pico da viagem, o mais alto da minha vida. Sobre Dingboche, reina o árido Nangkartshang, com 5083 metros. 
       
      Saí às 9 e meia como usual. O tempo estava bom, com algumas nuvens, mas não se via o cume por causa de uma névoa. A parte inicial é uma estupa, seguida de um mirante, numa altitude ainda não tão elevada.
       
      Depois, a inclinação fica severa. Entre rochas, poucas plantas miúdas, musgos e líquens. O vento aumentou a força, mas não incomodou tanto porque batia nas costas protegidas.
       
      Mais além, a fadiga muscular começou a bater, mas não pior que a respiração, já que o oxigênio estava bastante escasso. Conforme o gelo surgia no caminho, eu ia quase cambaleando para chegar logo ao topo.
       
      Duas horas e 15 depois, finalmente conquistei o cume! Só que meio atordoado pela falta de ar, acabei atirando minha GoPro ladeira abaixo! Ela bateu numa pedra e foi parar num banco de gelo em outro nível. E agora, perder todo registro da viagem ou arriscar minha vida? Ponderei o risco, e desci em direção à câmera, conseguindo recuperá-la. Ufa!
       

       
      Fiquei um tempo em cima tirando fotos, mas a névoa não deu muita trégua, então desci, faminto e sedento.
       
      Parei no Café 4410, que permite a recarga gratuita de aparelhos eletrônicos. Pedi um hambúrguer vegetariano, fritas e milk shake por 1200 rúpias.
       
      Enquanto aguardava a recarga, reencontrei um grupo de colombianos que havia conhecido no cume. Passei o resto da tarde conversando com eles; foram tão gentis que até me pagaram um lanche. Quem diria que eu comeria torta de maçã num vilarejo remoto desses!
       
      À noite, jantei "thukpa" (450 rúpias) no hotel, e relaxei.
       
      Dia 35
       
      Café da manhã repetido. Parti para Lobuche.
       
      O início é um vale desolado e ventoso, cercado pela montanha que escalei e por outra nevada. Quando chegara o momento de cruzar o Rio Lobuche e começar uma inclinação foda, parei pra um lanche. Acontece que quando fui trocar o cartão de memória da GoPro, que estava cheio, ele se partiu no meio! Perdi a maioria dos vídeos e fotos que havia feito com ela, pois não havia feito backup. Parece que o que ocorreu na montanha no dia anterior foi uma premonição. Que lástima!
       
      Meio abatido, subi o caminho pedregoso com o fôlego no limite. Em cima, fica o memorial para os alpinistas mortos no Everest. Há dezenas de monumentos.
       
      Logo depois, já é possível ver um campo coberto de gelo. Mais além, fica o pequeno vilarejo de Lobuche.
       
      Aqui o preço mínimo é 700 rúpias. Consegui um quarto duplo e banheiro com privada, mas nada de pia (nessa altitude já não há encanamento), no Above the Clouds Lodge.
       
      Começou a nevar bastante, então parei na padaria mais alta do mundo para fazer outro lanche (doce+chá=550 rúpias).
       
      Em seguida, fui ao ar livre fotografar o cenário lindo que se formou com a neve acumulada. Até passarinhos estavam por lá.
       
      Com o tempo, a neve cessou e a névoa dissipou. Com isso, subi um morro para ter uma vista ainda melhor do vilarejo e do Glaciar de Khumbu, do outro lado.
       

       
      Com o fim do dia, o tempo piorou novamente, então voltei pra hospedagem, onde fiquei esperando um tempão pelo jantar, "dal bhat" (800 rúpias). O bom é que o refil tava incluído, então fiquei satisfeito.
       
      Banho de lenço umedecido e cama.
       

       
      Dia 36
       
      Levantei mais cedo e tomei o café da manhã (omelete e chá - 750).
       
      Em seguida, subi até Gorak Shep, o assentamento mais elevado do mundo (5100 metros). O caminho estava com bastante trânsito e não foi tão fácil quanto pensei, pois há subidas e descidas sobre rochas.
       
      Quase na chegada, se vê o Glaciar de Khumbu, o pico Kala Patthar e o acampamento base do Everest.
       
      Em Gorak Shep, tive ainda mais dificuldade em achar um lugar pra ficar. Precisei dividir um quarto no Snow Land Highest Inn (500 rúpias pra cada).
       
      Deixei minhas coisas e parti pro acampamento base. O caminho é rochoso e passa ao lado da geleira. Entre as atrações, vi um casal da ave terrestre chamada de galo da neve tibetano, além de uma avalanche na montanha do lado oposto da geleira. Parecia um trovão o estrondo.
       
      Peguei ainda um tráfego de iaques carregadores.
       

       
      Ao chegar, há um marco com bandeiras onde todo mundo comemora. Mais uma etapa concluída com sucesso.
       
      Desci até a parte interior, lotada de barracas, onde os alpinistas ficam até um mês se aclimatando. Pisei no gelo e retornei, já que o tempo começava a piorar.
       

       
      Bati um rango violento quando voltei. O "dal bhat" da hospedagem veio com repetição, então fiquei cheio até a hora de dormir, a ponto de me deixar meio mal.
       
      Enquanto tentava fazer a digestão, um pessoal da Venezuela e Espanha sentou ao meu lado. Comecei a falar com eles; acabamos jogando cartas até a hora de se retirar - sem banho novamente, já que aqui custa mil rúpias! Também tive que recarregar o celular por 400 rúpias pra uma hora...
       

       
      Dia 37
       
      Dormi mais ou menos, mesmo usando o saco de dormir pela primeira vez. Às 7 me levantei com leves sintomas de Mal de Altitude, mas isso não me deteve. Fui escalar o monte Kala Patthar.
       
      O começo é sobre terra, bem inclinado, cansa bastante. Depois que se contorna essa parte, percebe-se que o cume na verdade é mais distante e alto do que o que parecia ser visto de Gorak Shep.
       
      Continuei lentamente, agora sobre neve e rochas. Uma hora e meia depois, cheguei ao topo do ponto mais alto em minha jornada: 5650 metros!
       
      A vista do topo é sensacional. Ali fica o melhor mirante do imponente Monte Everest, bem como do Glaciar de Khumbu e diversas outras montanhas altas da região.
       

       
      Havia umas 10 pessoas essa hora no cume. Desci, almocei "momos" e, um pouco depois, segui o caminho de volta.
       
      A parte repetida até a bifurcação em Dughla foi meio monótona. De diferente, apenas um grupo que seguia na direção inversa em bicicletas!
       
      Quando atravessei o campo de gelo do acampamento base do Lobuche, não cruzei com mais ninguém. O trecho até Dzonghla é meio arriscado, pois segue à beira do precipício na maior parte do tempo.
       
      De vista compensa, pois passa em frente à baita montanha Cholatse e seu lago parcialmente congelado. Também vi uns tantos passarinhos.
       
      Quase na chegada, ultrapassei novamente o grupo de Cingapura cujo líder Saravanan foi até o EBC usando calçado minimalista.
       
      Na terceira tentativa, fiquei hospedado no Himalayan Lodge. Quinhentas rúpias pelo quarto duplo e banheiro com vaso, mas nada de pia. No mesmo lugar, ficaram os singapurenses e o espanhol Claudi, que eu havia conhecido em Gorak Shep. Jantei uma macarronada e passei o resto do tempo conversando com ambos.
       
      Todos foram dormir cedo para a travessia do dia seguinte.
       
      Dia 38
       
      Pelas 5 da madruga os demais já estavam tomando café da manhã, enquanto eu pedi meu omelete e chá pras 6 e meia.
       
      Na primeira longuíssima subida, já passei um dos grupos. Tanto no dia anterior quanto nesse, alguns conhecidos tiveram que desistir da trilha pelos sintomas do Mal de Altitude. Um deles precisou até mesmo ser levado de helicóptero de volta.
       

       
      Estava com receio que tivesse que fazer essa travessia perigosa sozinho, já que a maioria vai cedo, mas acabei encontrando gente suficiente.
       
      Já cansou bastante a primeira elevação, que culminou em uma escalada entre rochas e neve. A paisagem, bem como as seguintes, fez valer a pena o esforço.
       
      O passo seguinte foi mais técnico do que cansativo - atravessar uma parede de neve sem proteção alguma contra o abismo que se seguia. Dei graças que Claudi me emprestou cravos para o tênis (crampons) na noite anterior, pois sem eles eu teria chance de despencar nessa etapa ou na seguinte.
       
      Passado o trecho sujeito a avalanches a nada menos que 5420 metros de altitude, veio a descida nesse meio escorregadio. Venci, chegando no vale seguinte, uma tundra alpina.
       

       
      Nova subida, seguida de nova descida, mais fáceis dessa vez. Por fim, seguindo o riacho originado numa dessas geleiras, cheguei no pequeno Dragnag, composto apenas de uns 7 alojamentos e nada mais.
       
      Desesperado por um banho, usei o próprio riacho para satisfazer meu desejo. Como eu estava aquecido da longa trilha de 6 horas, a temperatura não foi um grande problema. Aproveitei para lavar minhas roupas suadas também.
       

       
      Fiquei hospedado no Khumbi-la Hotel (500 rúpias). Tão básico quanto os demais.
       
      Almocei tardiamente "momos" fritos de batata (650 rúpias), botei minha GoPro para carregar (350 rúpias), e passei o resto da tarde entre conversas com os colegas e à toa.
       

       
      Jantei sopa, li um pouco e capotei. Antes, pedi quanto custava 1 mísero rolo de papel higiênico, já que o meu havia acabado: 550 contos! Dessa forma, peguei os guardanapos da sala de jantar pra resolver o problema...
       
      Dia 39
       
      Comi e vazei em direção a Gokyo. O caminho é sobre a morena da maior geleira do Himalaia, a Ngozumpa, com 36 km!
       
      A caminhada dentro da geleira segue em ziguezague pra cima e pra baixo entre pedaços de rochas soltas, manchas de gelo e laguinhos congelados.
       
      Com uma subida final, chega-se a Gokyo. Meu corpo estava tão cansado que levei mais de duas horas para essa travessia, quando deveria levar menos.
       
      O povoado de Gokyo é único entre os da rota do trekking, pois fica na beira de um lago semicongelado lindo, cheio de aves e com montanhas nevadas próximas.
       
      Deixei minha mochila na Fitzroy Inn. São 500 rúpias, sendo que o banheiro possui vaso e pia, e o quarto é um pouco melhor.
       
      Comecei então a ascensão da última montanha da rota, a Gokyo Ri, com 5360 metros. Devido a meu estado precário, fui subindo a passos de tartaruga. Essa montanha é inclinada demais, pois possui 600 metros acima do lago, onde inicia.
       
      A paisagem do meio do caminho é sensacional, mas conforme eu subia o tempo ia fechando, pois já era o começo da tarde. De fato, fui o último a subir.
       

       
      Uma hora e 45 minutos depois, usando somente a força de vontade, cheguei ao cume. Lá em cima estavam uma argentina e meu colega Claudi. Descemos e fomos tomar um chá e conversar.
       
      Em seguida, jantei "dal bhat" em meu alojamento, com vista para o lago. Não estava me sentindo muito bem do estômago essa hora.
       
      Carreguei o celular (300 rúpias), comprei um rolo de papel higiênico (250 rúpias), um pão doce grande (600 rúpias), li um pouco e fui dormir cedo.
       
      Dia 40
       
      Acordei com dor de garganta - também, todo esse tempo respirando ar frio e seco pela boca, só poderia acabar assim.
       
      Gastei minha última rúpia no check-out, mas pelo menos ganhei uns chocolates de brinde.
       
      Esse foi o dia mais longo de caminhada, pois tive que percorrer 24 km até Namche Bazaar. Ainda bem que em sua maioria, o trecho foi de descida.
       
      O começo foi passado ao lado dos lagos cênicos de Gokyo. Depois, acompanhando o rio glacial. Passei por alguns vilarejos, descansando, me hidratando e consumindo meus alimentos energéticos a cada cerca de 2 horas, sempre à beira de algum riacho.
       

       
      Encontrei meu colega Claudi nesse caminho, mas ele ficou em Dole, metade do trajeto que eu percorreria. Além desse povoado, as florestas começaram a ressurgir. Junto delas, uma parte lotada de cachoeiras.
       
      Já estava cansado, quando em frente a Phortse, uma elevação grande surgiu. Subi a passos lentos. Dali em diante, acelerei o possível no terreno irregular, quase torcendo meu tornozelo algumas vezes.
       
      Quase solitário, cheguei à bifurcação em Sanasa, quando entrei na trilha que já havia percorrido no quarto dia. Exausto, com dor nas costas, cheguei em Namche Bazaar às 16 horas, exatamente 8 horas depois de iniciar.
       
      Saquei dinheiro e fui pra hospedagem onde havia deixado uma pilha de roupas, a Pumori Guesthouse. Morrendo de fome, devorei uma macarronada (550 rúpias) enquanto carregava meus dispositivos.
       
      Por fim, apaguei.
       
      Dia 41
       
      Acordei pior do que no dia anterior, dessa vez à dor de garganta, somou-se um resfriado. Não tive escolha; comi um omelete de queijo e tomate (400 rúpias) e vazei.
       
      O percurso inicial é de pura descida, mas isso não quer dizer que tenha sido rápido, já que há trânsito e o terreno é irregular.
       
      Em sequência, descidas e subidas intermináveis, enquanto atravessava de um lado do rio pro outro nas pontes pênseis. E o corpo reclamando.
       
      Mais além, passei pela vila de Phakding. Dali pra frente, foi o maior sofrimento: dor nas costas, nos ombros e nos pés. Eu ia cada vez mais devagar.
       
      O trecho final, majoritariamente de subida, foi um martírio, mas 6 horas e meia depois, cheguei ao portal de Lukla. Finalmente, 150 km de trilhas depois do começo, missão cumprida!
       

       
      Comemorei e fui pra alguma hospedagem, no caso a Alpine Lodge (500 rúpias). Tomei um banho (250 rúpias) e me joguei na cama, imprestável.
       
      Jantei outra macarronada e fui dormir.
       
      Dia 42
       
      Comi uma panqueca com mel de manhã (400 rúpias) e fui cedo pro aeroporto. Precisei chegar lá às 7 e meia, mas não embarquei antes das 11…
       
      Me livrei dum dos aeroportos mais perigosos do mundo, descendo em Catmandu. Por 900 rúpias, tomei um táxi até o lar Laughing Buddha Home & Villa (5 dólares cada noite). No caminho pude constatar que o trânsito de Catmandu é do nível das cidades grandes indianas. E bem empoeirada.
       
      Desci pra conhecer as atrações recomendadas pela anfitriã, a começar pelo almoço na Army Canteen, lugar onde o exército vem rangar. Como o menu é em nepali, precisei apontar para o que havia na bancada: escolhi feijão, batata e cebola. Na hora de pagar a conta, fiquei de queixo caído… 50 rúpias (R$1,75)! O almoço mais barato da minha vida!
       
      Para a sobremesa, fui na padaria Best Choice. Realmente a melhor escolha, pois comi deliciosos doces a partir de 25 rúpias! Até levei uns pro café da manhã.
       
      Em seguida, entrei no museu de história natural (100 rúpias). É basicamente o depósito da seção biológica de uma universidade, contando centenas de animais empalhados, insetos, plantas e outros seres viventes no Nepal, com breves descrições.
       
      Prosseguindo, o templo do macaco (Swayambhunath). É um templo budista tibetano com algumas estupas, relíquias e muitos macacos sagrados. Entrei pela escadaria de acesso gratuito que os turistas desconhecem. Lá em cima há vendas de souvenires, mirante pra cidade toda e, na mata ao redor, bastante vida.
       

       
      Ao descer, mesmo sem muita fome, parei pra jantar no Chuden Shelzey. Optei por um "chowmein" de frango (120 rúpias). Para minha surpresa, um grupo de monges budistas estava ali jogando videogame!
       

       
      Retornei à tranquila hospedagem, onde fiquei à noite.
       
      Dia 43
       
      Comecei o longo dia ingerindo meus doces da padaria. 
       
      À continuação, pedi para que me chamassem um moto-táxi via Pathao, aplicativo tipo Uber. Até Bauddhanath custou apenas 170 rúpias.
       
      Já para a entrada desse Patrimônio da Humanidade, 400. Há uma grande estupa central, reconstruída após o terremoto de 2015, cercada de monastérios, templos, relíquias e lojas meio superfaturadas.
       

       
      Ao deixar o complexo budista que é o principal da capital, tomei um ônibus de 25 rúpias até Ratna Park, onde ficam as estações dos coletivos. Não quis pagar para entrar no parque, pois não me pareceu interessante, então segui até Ason, um bairro antigo central onde se vende de tudo a preços em conta. Aqui tentaram me aplicar o golpe do jovem aprendiz de inglês que quer treinar o idioma e o leva a um templo para benzê-lo e depois a uma loja de pinturas que só está aberta no dia do festival fictício que ocorria justamente naquele dia - não tiraram uma rúpia de mim.
       

       
      Almocei num muquifo um prato de "chowmein" vegetariano por somente 80 rúpias. Pensei em entrar na tradicional praça Durbar em seguida, mas o estado dos edifícios pós-terremoto e a exigência de que estrangeiros pagassem mil rúpias enquanto os nativos não pagavam nada, me fez mudar o rumo.
       
      Com o preço tão barato da comida, acabei tomando um caldo de cana por 30 rúpias e depois um "lassi" de banana por 100.
       
      Rapidamente adentrei o jardim Garden of Dreams, que cobra 200 pratas, mas é pequeno.
       
      Dessa forma, me embrenhei nas ruas apertadas e lotadas de comerciantes e turistas de Thamel. Procurava alguns equipamentos eletrônicos e pra trilhas, mas não encontrei nada de qualidade, já que aqui é quase tudo pirateado.
       
      Tomei um sorvete de Ferrero, que não era de Ferrero, e comprei em Ason dois souvenires (roda mani - 1500 rúpias e placa Namastê - 400).
       
      Me encontrei com Danniel, um dos brasileiros gente boa que conheci no caminho do Everest. Batemos um papo bom e tomamos um balde da cerveja artesanal Sherpa Red no bar Phat Khat.
       
      Depois jantamos "kebab" (225 cada) e eu peguei um táxi pra voltar à hospedagem (600 rúpias).
       
      Antes de dormir, conversei um pouco com o pessoal que se encontrava no Laughing Buddha.
       
      Dia 44
       
      Acordei com os cães latindo e pessoas falando. Fui em direção aos museus, parando para ter um café da manhã no Vajra Café, já que o Chuden Shelzey não tinha nem ovo e nem vitamina naquela manhã. Acontece que esse café deixa bastante a desejar em comparação com a padaria de 2 dias atrás, além de estar cheio de moscas…
       
      Para meu desgosto, hoje era feriado do dia do trabalhador, então tanto o Military Museum quanto o National Museum estavam fechados!
       
      Não queria ir até a distante Bhaktapur, então caminhei até uma avenida onde pude pegar um ônibus à região central.
       
      Em Ason, fui às compras: relógio minimalista à prova d'água (3000 NPR=rúpias), carteira minimalista (375 NPR), boné minimalista c/ pescoceira (1000 NPR).
       
      Como os restaurantes turísticos de Thamel são meio caros, almocei numa birosca chamada Ravi Panipuri Chaat Shop. Fiquei com um tal de "papadi chaat" 70 NPR + "chicken egg roll" 100 NPR + Fanta amarela 40 NPR.
       
      Há uma infinidade de casas de câmbio em Thamel, mas como as raras que possuíam rial do Catar não tinham cotação boa, troquei o resto das minhas rúpias pelo famoso livro Into Thin Air na livraria Tibet Book Store (700 NPR).
       
      Enquanto procurava um transporte barato para retornar ao alojamento, tomei um suco de abacaxi grande (200 NPR). Depois, embarquei numa van (20 NPR).
       
      Me despedi e embarquei no voo da Nepal Airlines com destino a Doha. Havia lido que essa companhia era uma das piores do mundo, então fui sem expectativas, mas me surpreendi: avião grande e novo, entretenimento de bordo e alimentação decente - talvez eu tenha tido uma baita sorte, ou a companhia realmente melhorou.
       

       
      Dia 45
       
      Com um pouco de atraso, desembarquei. A imigração sem visto foi ridiculamente rápida.
       
      Saquei dinheiro (1 rial do Catar = 1,07 reais), chamei um Uber até a hospedagem da vez (24 rials). O albergue Q Hostel, localizado num condomínio de casas de alto padrão, refrigerado, me custou 180 rials por 3 noites. Todos meus colegas de quarto eram de países islâmicos.
       

       
      Ao acordar, chamei um Uber pra me levar ao museu nacional (13 rials). A entrada individual custa 50 rials, mas o passe para 3 museus é 100, então o comprei no cartão de crédito.
       
      O Qatar National Museum já impressiona no exterior, inspirado na rosa do deserto. Por dentro, ainda mais. Com tecnologia de ponta, conta sobre a biodiversidade do país, bem como sua história, do passado remoto, passando pela conquista árabe, a era de ouro da coleta de pérolas e a atual do petróleo, que superdesenvolveu o Catar. Fiquei mais de 3 horas aqui.
       

       
      Almocei "chicken biryani" no Al Jazeera Kabab, bem em frente ao museu, por 12 rials.
       

       
      Há um ônibus gratuito rosa que passa uma vez a cada hora e leva aos dois outros museus. Peguei ele e desci no de arte islâmica. 
       
      A construção é bem bacana também, mas por dentro não há tanto conteúdo. As obras de arte de várias localidades islâmicas são belas, mas nada excepcionais. Esperava um pouco mais.
       
      Uma hora depois, fui pro Mathaf, de arte moderna, que fica afastado dos demais. No caminho, pude notar as obras de infraestrutura e lazer pra Copa do Mundo de 2022.
       
      Havia apenas mais duas visitantes além de mim. Não consegui ficar nem uma hora vendo essas coisas estranhas que chamam de arte.
       
      Peguei o transporte de volta e fui passear pela Corniche, a avenida beira-mar. Ainda fazia calor pelas 5 e pouco, mas o sol já estava baixo no horizonte.
       

       
      Atravessei metade do semicírculo a lentos passos, admirando a arquitetura dos arranha-céus, que, assim como o resto da cidade, perdem pouco para Dubai.
       
      Tomei um "smoothie" meio caro de 25 rials no Costa Café, e segui por entre os prédios, que agora estavam com iluminação noturna variada.
       
      Entrei no shopping center City Center pra jantar (no Subway mesmo - 29 rials no Sabrina de 30 cm) e comprar mantimentos no completíssimo Carrefour, que só não tem cerveja com álcool. Gostei do preço do kiwi, 2,75 o kg.
       
      Voltei de ônibus #76 até o terminal de Al-Ghanim, onde pegaria outro busão até próximo da minha hospedagem. Um cartão para 2 viagens na cidade custa 10 rials e pode ser comprado com o próprio motorista.
       
      Pegaria, pois quando cheguei lá quase às 23h, já não havia mais linhas disponíveis para onde eu iria. Como não consegui sinal para chamar um Uber, convenci um táxi a aceitar a corrida por 15 rials.
       
      Dia 46
       
      Como fui dormir tarde, acordei assim também. Tomei meu café da manhã de brownie + suco natural + frutas e tomei um Uber à estação de ônibus (12 rials).
       
      Chegando lá, fiquei sabendo que para embarcar no ônibus para fora de Doha, precisaria de um cartão ilimitado para 24 horas, ao custo de 20 rials. Então aproveitei para dar um rolê bom. Primeiro desci em Al Wakra.
       

       
      Como era o dia sagrado do islã, os "souqs" (mercados antigos) estavam fechados. Com isso, dei uma conferida na praia de água turquesa.
       
      Almocei logo no Alfanar Restaurant Yemeni Food, onde pedi um tal de "mandi chicken" por 25 rials, mesmo sem saber o que era - mas gostei.
       
      Caminhei mais um pouco e retornei à avenida, onde há uma estátua de ostra, uma mesquita bonita e um forte fechado ao público.
       
      A intenção era continuar pro sul até Mesaieed, mas eu acabei indo parar no ponto errado e só percebi quando o ônibus de volta estava passando, então decidi retornar ao centro.
       
      Fui então ao Souq Waqif, onde ficam as lojas tradicionais. Tentei comprar um souvenir decente, mas os feitos no Catar são caros demais.
       
      Ali também ocorria a feira internacional de tâmaras. Entrei e saí, pois eu nem gosto dessa fruta típica de países desérticos.
       
      Essa área revitalizada é a mais antiga da cidade. Visitei os museus Msheireb, que contam um pouco dessa história. Gratuitos, são 4 casarios antigos que também falam da escravidão na região e o desenvolvimento com a descoberta do petróleo. Fiquei algumas horas em seus interiores.
       
      Quando saí, já era noite. Fui à orla, um tanto escura, para admirar os arranha-céus coloridos do outro lado da baía.
       

       
      Ao retornar, parei num dos restaurantes/lanchonetes baratos ao lado da estação de ônibus para jantar. Comi um "biryani" de frango por somente 10 pilas no Taxi Land Restaurant.
       
      Depois, voltei à acomodação de ônibus. Doha tem um problema sério de trânsito no centro, mesmo a altas horas.
       
      Dia 47
       
      Acordei uma vez às 4 e meia com o anúncio de Allah nos alto-falantes da mesquita mais próxima. Voltei a dormir.
       
      Fiz o check-out e deixei minha mochila na recepção enquanto passeava.
       
      Fui até a rodoviária, comprei outro cartão ilimitado e com o #104A através do deserto até Dukhan, o princípio da exploração petrolífera no país. O baita ônibus confortável é uma mudança e tanto pra caminhonete que levava os operários na caçamba.
       
      Em Zekreet, há umas formações geológicas tabulares interessantes. Pena eu não haver meio de explorá-las.
       
      Duas horas e meia depois, o ônibus parou na entrada de Dukhan, ao lado de uma refinaria. Almocei pizza na Domino's (29 rials pelo combo) enquanto aguardava o ônibus de retorno.
       
      Ao retornar, parei no Mall of Qatar, um shopping grandão e ligado à linha de metrô quase pronta. Aproveitei para a assistir o lançamento dos Vingadores. Acreditam que o ingresso mais barato pro cinema era de 45 reais o inteiro?
       

       
      Voltei com os ônibus. À noite, fui até o aeroporto, onde aguardei um bocado de horas até o voo das 4:40 com a IndiGo até Mumbai.
       
      Dia 48
       
      Desembarquei sonolento, passei a imigração e peguei um Uber (180 rúpias) até a cápsula bacana onde eu passaria o dia, no Hotel Astropods Airport, por mil rúpias.
       
      De volta ao aeroporto, lanchei e embarquei na Air China para Pequim.
       
      Dia 49
       
      Depois de umas 5 horas em voo, passei o resto do dia no aeroporto da capital chinesa, entre cochilos e eletrônicos. A comida é meio cara e há poucas opções de refeição, então fiquei à base de KFC e Costa Café.
       
      Dia 50 
       
      Na madrugada seguinte, fui com a mesma companhia para Frankfurt, onde desci para dar uma volta na cidade. Comprei um passe diário ilimitado pro transporte público (9,65 euros) e peguei o trem até a estação central.
       
      Como já conhecia a cidade, não mirei exatamente os pontos turísticos. Caminhei aleatoriamente, mas parei para fotografar a arquitetônica Römerplatz.
       
      Aproveitei o dia para ingerir algumas das delícias culinárias europeias, como queijos, cerveja, bagas e salsichão - a maioria comprado em supermercados.
       
      Fiz compras também: eletrônicos na Saturn, chocolates e outras comidas nos supermercados econômicos Penny e Aldi, e roupas na Primark.
       
      Final da tarde retornei e aguardei o bom voo da Lufthansa, que, junto com o trecho final da Gol até Floripa, concluiu a viagem, 3 dias depois! 
    • Por divanei
      PEDRA DA BORACÉIA
                É na escuridão de uma noite fria de inverno que avançamos lentamente rumo a lugar nenhum. Nossa referência não passa de um ponto distante que miramos para fora da floresta, que nos faz esgueirar entre moitas e moitas de bambuzinhos espinhudos, onde provavelmente jararacuçus nos espreitam assustadas com tal ousadia. Não são nossas pernas que nos carregam, mas nossa vontade de escapar inteiros de uma das maiores aventuras dos últimos tempos e a maioria de nós apenas se arrasta, deixando que a resiliência comande nossos passos e que a luz das nossas lanternas e o céu qualhado de estrelas nos leve à civilização.

         ( Rafael, Júlio , Vagner , Luciano , Potenza , Régis , Trovo e Divanei . )
                A PEDRA DA BORACÉIA talvez seja dentre as montanhas da Serra do Mar de São Paulo, uma das mais isoladas, não só por estar em uma área de acesso restrito, mas também por se situar em uma parte em que a serra acaba se distanciando do mar, sendo guardada por terras indígenas em meio a florestas quase que intransponíveis com paredões abruptos de centenas de metros. Na carta topográfica consta como PEDRA QUEIMADA e independente de qual seja o verdadeiro nome, alcançar seu cume é estar mais de 100 metros acima do Corcovado de Ubatuba, outro ícone do litoral paulista.

               Por mais de uma década sonhávamos em conquista-la, mas conseguir as tais autorizações junto à SABESP (Companhia de Águas Paulista) ficava cada vez mais impossível e seria mesmo uma mão na roda porque era a oportunidade de avançar até a pedra por barco, navegando pela Represa do Ribeirão do Campo até a tal Cachoeira da Escada e de lá partir varando mato por umas cinco horas até o cume. Até tentamos por intermédio do Luciano Carvalho, que por lá esteve, perguntando sobre essa tal autorização, mas recebeu um não na fuça e a alegação era que o grande reservatório estava agora infestado de jacarés do papo amarelo.
                Diante da situação apresentada, nos restava apenas tentar angariar informações de alguns raros aventureiros que conseguiram ascender a pedra por trilhas e picadas de mateiros, palmiteiros e caçadores, portanto, ao invés de ir por água, ir tudo por terra. Alguns desses antigos exploradores nem se deram ao trabalho de nos responder, outros responderam com desdenho, alguns até que foram prestativos, mas suas informações foram tão genéricas que era impossível absorver algo. Na verdade, o que queríamos mesmo era um traklog, já que sabíamos que alguns detinham o caminho marcado no GPS, mas esses caras nos enrolaram, como a nos dizer: “ Querem conquistar aquela montanha, se virem, deem seus pulos “.
                Cansamos de esperar pela boa vontade de alguém, mandamos todo mundo a merda e decidimos que se fosse para conquistar  a Boracéia, faríamos isso com nossos proprios esforços, iríamos traçar um novo caminho, uma rota inédita até o cume, nem que essa rota gastasse o dobro do tempo.
                Eu e o Vagner nos debruçamos sobre mapas de satélite e cartas topográficas, buscando informações que nos levasse a um ponto de partida. Encontramos a pouco mais de 5 km em linha reta a leste da Barragem da SABESP, um atrativo turístico conhecido por POÇO BONITO, localizado no Rio Claro, sendo que uma trilha de uns 6 km poderia facilmente nos levar até ele no meio da densa floresta. Acima do Poço Bonito, uma cachoeira marcaria a nossa despedida do Rio Claro.  Esmiuçando a carta topográfica vimos que um grande corredor plano, como se fosse um vale subindo levemente, poderia nos conduzir ao sul até uma grande linha de transmissão de energia e de lá faríamos a curva para oeste novamente, seguindo até perto da base da Boracéia, na teoria poderia dar certo, um plano estava traçado.

                Traçado o plano, o roteiro e a estratégia, faltava formar o grupo, alguém que comprasse o projeto, mesmo sabendo que poderia ser a maior furada dos infernos. No início praticamente todo mundo fez cara de paisagem, os convites foram sendo negado e alguns exploradores, parceiros nossos das antigas, apenas se mantiveram em silêncio, outros estavam as voltas com compromissos familiares, trabalho e até mudanças e acabamos ficando com 3 integrantes confirmados, além de mim e do Vagner, o Rafael era o outro que desde o começo garantiu seu rabo na expedição. O certo é que joguei uns 10 nomes no grupo de WhatsApp e quando jogamos as cartas sobre a mesa, a maioria da galera tomou ciência da ousadia da Expedição, sabiam eles que seria uma oportunidade única e um a um foram saindo do armário, aniversário de parente, mudança de casa, trabalho, mudança de sexo, tudo foi se perdendo pelo caminho e a Expedição à Pedra da Boracéia ganhou força e corpo.
                No mapa estava tudo pronto, faltava agora ir lá nos cafundós de Salesópolis investigar essa tal trilha até o poço Bonito. O Vagner, o Trovo e o Rafa se prontificaram e coube a eles esse trabalho importante de investigação, aliás, para uma expedição sair do papel é preciso que pessoas se comprometam, botem a mão na massa e o pé na trilha. E os caras fizeram um trabalho lindo, acharam uma trilha de conexão da área rural que nos levaria até o poço e a Cachoeira Bonita, a primeira parte estava pronta, agora era montar a logística e reunir os expedicionários em torno do projeto.
                Agora com todo mundo motivado, escolhemos um feriado de junho para a expedição e seria a primeira vez que a gente se jogaria na Serra do Mar em pleno inverno e só fizemos isso justamente porque o nosso motivo maior seria uma montanha e não a exploração de rios selvagens, mas o tempo nos mostraria que não era bem assim como pensávamos. No horário marcado, nos encontramos todos (menos o safado do Rafa que chegou com uma hora de atraso) na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes, onde uma van nos esperava para nos desovar lá na área rural de Salesópolis. O motorista sentou o cacete e quando chegou no município citado, passou batido até interceptar a Estrada da Petrobras e transitou por ela cerca de uns 8 km, entrou à direita e uns 5 km depois saltamos no escuro, sei lá onde, num tal de Bairro dos Pintos e por mais uma meia hora nos pusemos a caminhar até que o Vagner localizou a tal trilha que passa ao lado de um sítio e embrenha na mata, vai descendo em nível, passa pelo Rio Clarinho, onde o Trovo e o Potenza resolveram cair de uma pontinha de madeira, segue sempre no aberto e uma hora e meia depois de iniciarmos na estrada, desembocamos na bucólica prainha do Poço Bonito do Rio Claro.


         ( Prainha do Poço Bonito)
                A madrugada já ia alta, mas surpreendentemente não fazia frio e decidimos montar um grande bivac sobre a areia da prainha. Sacamos uma corda, enfincamos um grande galho na areia e amarramos a corda no galho e em uma árvore nas margens do rio, jogamos a lona por cima e outra por baixo e jogamo-nos para debaixo com nossos sacos de dormir. Foi uma noite de cão para alguns que quase congelaram de frio, mas eu dessa vez não economizei nos agasalhos e dormi feito pedra até pouco depois das 6 da manhã. O dia amanheceu ensolarado, o que ajudou a animar a galera, que a partir de agora sabia que o passeio havia terminado e pela frente havíamos de enfrentar 4 longos de dias de aventuras selvagens.

                O Poço Bonito é um lugar lindo, um espelho d’água ótimo para um banho demorado em suas piscinas naturais, mas não no inverno. Então abandonamos ele pela esquerda, interceptando uma trilha que em alguns minutos nos levou até a CACHOEIRA DO POÇO BONITO, uma queda d’água não muito alta, mas muito cênica, muito parecida com a Cachoeira do Diabo, mas em menores proporções, provando que esse Rio Claro é realmente impressionante, mas o melhor ainda estava para ser descoberto. Depois de alguns clics da cachu , já fomos nos encaminhado para abandoná-la pela direita, mas antes disso uma chuvinha fina despencou sobre nossas cabeças antes das nove da manhã , mas isso não foi o suficiente para nos tirar o bom humor, porque a previsão do tempo já havia nos dito que haveria uma possibilidade pequena de precipitação.

         (Cachoeira do poço Bonito)
                Um a um fomos nos enfiando na mata e rasgando a floresta no peito, agora tendo como referência o traklog desenhado por mim e pelo Vagner no mapa de satélite que iria de encontro a um possível vale, um corredor que pudesse nos conduzir direto para o sul até que alcançássemos a tal rede de Alta Tensão, nosso próximo objetivo. O Trovo seguiu à frente porque já havia avançado por aquele terreno na semana passada, mas logo resolveu mudar de rumo para se livrar de umas moitas de bambu. Fomos ziguezagueando meio que para sudeste, fazendo uma diagonal até que pudéssemos interceptar de vez o caminho traçado para o gps e não demora muito, coisa de 20 minutos, tropeçamos em um rancho de palmiteiros/caçadores, incrivelmente bem preservado e sendo usado constantemente, provando que fiscalização ali não existe ou é totalmente ineficiente, a ponto dessa gente deitar e rolar, devastando florestas e florestas de palmeira Jussara.

                Concertamos o rumo e logo nos apareceu um rabo de trilha e alguém cantou que poderia nos levar para o rumo desejado, mas sem que percebêssemos, acabou nos fazendo rodar em círculos, perdendo tempo precioso. Andar com gps, principalmente um instalado no celular, parece fácil, parece que é só ir seguindo a bolinha, a setinha, sempre corrigindo o rumo, mas só parece. Algumas vez acontece um pequeno deley, um atraso que acaba confundindo o navegador, muito porque não é possível e nem viável ficar o tempo todo com os olhos grudados no aparelho, então qualquer desvio acaba fazendo a gente tomar o rumo errado e tendo que gastar energia preciosa para voltar para o rumo certo.
                Entre acertos e erros, uma picada nos fez voltar para o sul e nos deixou bem perto da linha que havíamos marcado no mapa e quando encontramos um córrego, na verdade um rio até que caudaloso, pensamos ter encontrado o nosso caminho definitivo, mas uma burrada monstro nos fez descer o rio ao invés de subir e de uma hora para outra , perdemos a direção , o bom senso e a nossas faculdades mentais, estávamos perdidos em algum lugar que até então  estava difícil sabermos qual foi o erro cometido, principalmente quando avistamos um outro rio muito maior do que o que havíamos descido e de onde despencava uma cachoeira gigante que nunca imaginávamos existir.

                Tudo estava confuso, de onde brotou aquele rio enorme? Que cachoeira seria aquela já que não constava em lugar nenhum, em mapa nenhum? Houve um momento de estresse, cada um dava um palpite diferente, cada um queria seguir por um caminho diferente para nos recolocar na rota, mas antes que a gente nos pegássemos na porrada para saber quem tinha razão, deixamos aquela discussão estéril de lado e fomos nos deslumbrar com aquela cachoeira perdida. A diversão e o encantamento fizeram com que colocássemos nossa cabeça para funcionar e a partir daí o Luciano sacou seu gps com bussola embutida, azimutou a direção e disse: “ Caralho, cometemos um erro tosco, ao invés de subirmos o rio, acabamos descendo “. Bingo! Isso mesmo, nossa rota para o sul era surpreendentemente subindo o rio, que depois descobri chamar-se RIO DO ALEGRE, um grande afluente do Rio Claro. Claro mesmo era que viramos tanto para sudeste que acabamos voltando de novo para o rio principal, só que muito mais acima dele. O erro foi dantesco, mas acabou nos dando de presente uma paisagem incrível, até então não relatada na literatura “internética”, conhecida somente por algum mateiro local e revelada ao mundo agora por nós, que sem conhecermos o nome, resolvemos chama-la de CACHOEIRA PADRE DÓRIA, até que alguém nos sopre o nome verdadeiro.

       
           (Cachoiera Padre Dória)
                Abandonamos, portanto, a grande queda d’água e voltamos a subir esse tributário do Rio Claro e quanto chegamos a um girau de caça o rio deu uma curvada e se abriu numa sequência de cachoeirinhas e degraus. Até então não sabíamos se esse rio realmente iria continuar seguindo para sul,mas enquanto ele nos favorecesse, seria o nosso guia, mesmo que fizesse muitas curvas porque ter um caminho livre de mato, bambu e cipó seria ouro no meio daquela floresta fechada. Os degraus foram aumentando e as cachoeiras se multiplicando até que o rio se estabilizou de vez e começou a subir suavemente, com a água hora pela canela, hora pela cintura, mas como a temperatura havia caído e o sol havia deixado de dar as caras desde as onze da manhã, a água gelada começava e incomodar e quando podíamos, fugíamos pela margem para evitar a friaca. 

                Apesar de estarmos subindo o rio e a tendência era de que ele fosse ficando cada vez com menos água, porque iria perder afluentes ao longo do caminho, isso não se confirmou e ele acabou ganhando foi piscinas naturais conforme ia se aproximando do planalto e era inevitável que de vez enquanto molhássemos acima da cintura e isso começou a fazer estragos e não demorou para surgirem as primeiras vítimas: Rafael foi o primeiro a sucumbir e foi preciso que o Luciano intervisse já que o menino tem os dotes de massagista e logo deu um jeito , mas não demorou muito e lá estava o Vagner estirado no chão se contorcendo por causa das câimbras também . Engraçado que sempre a pessoa que mais sofre com as baixas temperaturas sou eu, mas dessa vez os novinhos começaram a cair um a um e para variar a outra perna do Vagner travou também e lá foi novamente o Luciano fazer um carinho no menino.

                O tempo foi passando, o rio curvando para todo lado, mas sempre se mantendo para o sul. A temperatura caindo vertiginosamente conforme a tarde foi se aproximando e a sensação de que nunca chegávamos a tal Linha de Transmissão foi aumentando. Eu mesmo com uma camisa de neopremo sofria e gastava energia preciosa para fugir dos poços mais fundo porque a margem do rio era feita de bambus entrelaçados que dificultava o avanço. As vezes fazíamos algumas paradas para mordiscar alguma coisa, mas a retomada da caminhada era lenta e sofrível por causa do esfriamento dos músculos. O moral do grupo estava baixo, ninguém conversava mais, era nítido o sofrimento estampado no rosto de cada um e finalmente quando o Rio do Alegre cruzou a tal LINHA DE ALTA-TENSÃO e o nosso gps marcou a hora de virar para OESTE, o que estava ruim se transformou em pesadelo.
                Ainda sem encontrar um lugar descente para acampar e passando das cinco da tarde a chuva que ameaçou desabar durante as últimas horas, caiu toda de uma vez e a gente que já vinha sofrendo com a temperatura da água, agora nos encontrávamos em semi- hipotermia. Subimos o barranco à direita e tentamos nos abrigar na floresta, agora com terreno um pouco mais plano. Cada qual corre para tentar achar duas árvores descentes para montar sua rede e seu toldo, mas por sermos em oito foi difícil conciliar espaço para todo mundo.

                Não é possível narrar o sentimento alheio por completo, mas eu estava verdadeiramente na lona. O frio era tanto que não conseguia parar de tremer e muito menos conseguia pensar em uma solução. Árvores que pudessem me atender, eu não encontrava e quanto mais eu ficava exposto as intemperes do tempo, mais eu ia definhando, murchando e aquele aguaceiro dos infernos que não cessava ia fazendo com que a temperatura do meu corpo caísse de uma forma preocupante. Precisa fazer algo por mim, sair da chuva. Estiquei a lona em duas árvores esparsas e me enfiei embaixo e por lá fiquei, parado, inerte, pensado se ainda tinha idade para passar tamanho perrengue, pensando se já não estava na hora de parar de me enfiar nessas furadas. Poderia estar em casa, comendo bem e dormindo lindamente numa cama quentinha e macia, mas não, estava ali todo molhado, enfiado a um dia de caminhada do lugar habitado mais próximo, dentro de uma floresta fechada com uma chuva de inverno castigando sem dó e nem piedade a meio caminho de lugar nenhum.
                Era preciso agir. Saí do estado de inércia em que me encontrava, larguei minha mochila ao chão e fui esticar as beiradas da lona plástica. Retirei minha rede seca da mochila e amarrei nas duas árvores que por sorte deram espaço suficiente entre uma e outra. Tirei a roupa molhada, vesti uma seca e me enfiei dentro do saco de dormir, muito bem agasalhado. Aos poucos fui me aquecendo, a tremedeira passando e quando me dei conta já estava no mundo de Nárnia, num sono profundo, em estado de hibernação. Uma hora depois, já recuperado, levantei-me e fui cuidar do jantar que fiz juntamente com o Régis e embaixo da lona dele, ficamos até mais tarde jogando conversa fora até que definitivamente apanhei minhas coisas e fui morrer na escuridão da noite num canto isolado do grupo, mas ainda assim a ponto de ouvir o Júlio fazer um discurso na alta madrugada, porque não basta ser maluco, tem que ser sonambulo e incorporar espíritos.
                O dia amanhece sem chuvas, mas ainda com muitas nuvens. Desarmar o acampamento é uma coisa lenta e vagarosa, ninguém parece querer sair da rede quentinha e só lá pelas nove da manhã é que nos animamos a partir. A primeira coisa a fazer é localizar uma grande torre de Alta Tensão que pelos nossos cálculos não estava muito longe, já que agora bem visível sobre nossas cabeças passavam os fios de eletricidade, bem altos, mas mesmo assim ainda visíveis por entre as grandes árvores. Bastou um vara-mato despretensioso e logo a tal torre nos saltou aos olhos, reinando sobre uma pequena colina verdejante e desprovida de árvores e foi para lá que seguimos, agora no aberto e enfim com um pouco de horizonte e sol para nos alegrar a alma. Chegar a TORRE foi um marco, uma virada no ânimo da equipe. Subimos alguns metros, mas nem era preciso, do chão mesmo agora era possível avistar toda a imponência da cadeia de montanhas de onde a Pedra da Boracéia reinava absoluta ainda com seu topo sendo varrido por nuvens de algodão.

                Outra coisa logo de cara nos chamou atenção: Toda a extensão do terreno onde as torres passavam e que no satélite parecia capim alto, na verdade tratava-se de um emaranhado de pequenos arbustos e uma vegetação de passagem complicada, onde uma quiçaça entrelaçada não parecia dar passagem tão facilmente como imaginávamos, mas a simples segurança de poder nos guiar quase pelo resto do dia pelos fios de energia, já nos deixava feliz e se fosse preciso iríamos  arrastar aquela vegetação espinhuda no peito até o tão desejado cume.

                Agora nos valendo da direção oeste, vamos galgando o terreno ondulado até a próxima torre, uns 300 ou 500 metros à frente. Trovo vai abrindo caminho e a gente segue atrás, cada um ajudando o companheiro da frente a se livrar dos cipós que vão enroscando nas mochilas. As vezes o terreno acaba nos levado um pouco para fora da linha das torres, mas é só uma estratégia a fim de trilhar por melhores caminhos e uns 40 minutos depois atingimos a segunda torre e a cada torre conquistada é motivo para uma parada mais demorada a fim de comer algo, beber uma água e jogar conversa fora admirando a paisagem ao redor.
                 Pelo resto do dia essa foi a toada, conquistar torres! Foram 2 km varando mato e vales entre uma e outra até que aportamos na quinta torre, a uns 300 metros da base rochosa da Boracéia. Eram umas três da tarde e poderíamos tentar alcançar mais uma torre e de lá virar novamente para o sul varando mato até o pé da Pedra, mas estamos ansiosos demais e entramos em consenso para traçarmos um caminho direto para a face pedregosa da montanha, nossos pés estavam ávidos por pisar naquelas rochas lendárias.
                Juntamos o grupo e traçamos o caminho mentalmente. Fizemos uma diagonal para sudoeste e despencamos no buraco, quase um abismo no mato, descendo um barranco, escorregando para o fundo do vale até interceptarmos um riacho, cruzá-lo para o outro lado e pegar a direção da Pedra, subindo. Mais no alto conseguimos achar uma picada e seguimos por ela sempre na ascendência até que  uma meia hora acima do córrego ela acabou no capim, mas aí já estávamos sentindo o cheiro da rocha exposta, varamos uma língua de vegetação alta e ganhamos a face exposta da Pedra da Boracéia, agora não tinha erro, o caminho era escalaminhado a parede rochosa até o cume, mas antes uma parada para juntar a equipe, tomar um gole de água e mordiscar alguma coisa.

                Diante de nós uma rampa gigantesca se apresentava. Os mais ousados subiram pelo meio, se agarrando ao pouco de aderência que a pedra nos proporcionava, caminhando no limite da força da gravidade, um vacilo e o rola montanha abaixo seria certo. Os mais tímidos se encaminharam para as laterais onde alguma vegetação conseguia dar uma maior segurança, mesmo que apenas psicológica. O grupo acabou se dividindo em várias frentes, cada qual no seu ritmo, cada um tentando buscar sua própria força, física e mental. A caminhada é lenta, o avanço é moroso, a ansiedade vai servindo de combustível para a conquista. De repente o Luciano e o Rafael ficaram muito para trás se arrastando nos seus sofrimentos individuais, mas como o caminho é óbvio, os grupos vão seguindo, sempre para o alto, galgando cada lombada do terreno. Enquanto o cume não é conquistado nos restam as paisagens ao Norte, onde a Represa do Ribeirão do Campo nos alegra a alma, um mundo de água perdido em meio a uma das florestas mais exuberantes do mundo.

                Com o cume da montanha ainda sendo visitado esporadicamente por nuvens, que dançavam ao sabor do vento, resolvemos nos deter em uma área abrigada, junto a alguns pequenos arbustos para esperar que todo o grupo se unisse e quando os retardatários chegaram, nos juntamos em uma só equipe e partimos para a conquista final. Não há um caminho definido que nos leve direto para lá, então vamos abrindo a vegetação no peito mesmo até que, sem percebermos, o mundo acaba sob os nossos pés e outro mundo, o mundo dos abismos, o mundo das largas vistas, um mundo feito de águas oceânicas e areias prateadas se descortina, enfim no topo da PEDRA DA BORAÇEIA (1270 m), o gigante perdido, a lenda da Serra do Mar Paulista, onde poucos tiveram o prazer de colocar os pés, estava definitivamente conquistada.

                Como era finalzinho de tarde e o tempo ainda estava meia boca, com muitas plumas, resolvemos deixar  o dia seguinte para maiores contemplações e nos voltamos para assistir ao pôr do sol que já ia se jogando para oeste e também para planejarmos a nossa estadia no cume. Em meio as caratuvas e pequenos arbustos que compõem o cume propriamente dito, não encontramos nada que nos servisse, talvez uma ou outra arvorezinha aguentasse uma rede, mas a exposição seria um preço muito alta a pagar, então decidimos que desceríamos uns 100 metros e tentaríamos um bivac coletivo junto a uma área mais abrigada do vento.
                Enquanto o grupo se unia para conseguir um lugar abrigado e descente para todos, eis que que surgem 2 desertores, traidores do movimento montanhista e travessias selvagens na serra do Mar Paulista. Daniel Trovo e Rafael Araújo, abandonaram o grupo e mancomunados um com o outro, resolveram que montariam suas redes individuais, se valendo de um ou outro arbusto perdido na vegetação rasteira. Enquanto o alto comando (que não existe) assistia perplexo a traição sorrateira e covarde, voltamos a nos concentrar no abrigo. Em meio a um canto quase que beirando o abismo voltado para a face leste, nos concentramos na limpeza de uma área, retirando pequenas raízes no intuito de deixar o chão com possibilidade de podermos ter uma noite de sono razoável. Feito o trabalho, jogamos as lonas por cima dos arbustos e as amarramos, formando assim uma grande tenda para abrigar 06 exploradores. Jogamos uma grande lona no chão para isolar do frio e cada um escolheu seu canto e ali montou sua cama se utilizando de sacos de dormir.
                Estávamos todos  embaixo do nosso abrigo, nossa casa de montanha, felizes a contar causos de aventuras passadas, enquanto nossos fogareiros ronronavam exalando o puro perfume da boa comida, foi quando ouvimos um estrondo que ecoou em todo o cume daquela montanha isolada do mundo: Corremos a tempo de ver os traidores estatelados no chão, depois que o arbusto que haviam se pendurado com as redes veio a baixo e como usavam em parceria, lá ficaram as duas bestas, caídas na relva molhada de uma noite fria, no cume da Pedra da Boracéia. Imediatamente NÃO corremos para socorrê-los, apenas nos cagamos todos de tanto dar risada. ( kkkkkkk). Depois desse episódio, os desertores pediram clemência e se humilharam para se abrigarem junto com a gente, inclusive um deles teve que se deitar aos nossos pés e lá ficou, quase como um cão de guarda, rsrsrsrsrsrs.
                Oito almas viventes se espremeram naquele fim de mundo e na madrugada fria o vento varreu o cume e ameaçou jogar nosso abrigo lá para os abismos do litoral. Eu me encolhi o quanto pude, virei quase um tatu bola dentro do meu saco de dormir e não sei em que hora comecei a ouvir um zum zum, mas pensei ser novamente o Júlio recebendo o espírito do Dr. Fritz, então não ousei a colocar a cabeça para fora e depois fiquei sabendo que a nossa lona havia se rompido e a galera teve que se virar para deixar nosso abrigo novamente de pé, mas não foi só eu não. Daniel Trovo também se fingiu de morto e não levantou para ajudar. Eu era um safado, mas esse Trovo já estava passando dos limites, (rsrsrsrsrsrs).

                O dia que amanhe é lindo. Nenhuma nuvem no céu, nenhum vento, temperatura fria, mas agradável. Todo o grupo se levantou para ver o sol nascer e depois que a bola de fogo se estabilizou, corremos para o cume a fim de nos encantarmos definitivamente com a paisagem. Verdade mesmo que o melhor lugar para esses deslumbramentos não é no cume, mas alguns metros mais abaixo, onde uma pedra exposta é capaz de acomodar todo o grupo. Estar no cume da Boracéia ou PEDRA QUEIMADAcomo alguns preferem chamar e como consta em alguns mapas, é ter a honra de entrar para a galeria de meia dúzia de aventureiros e melhor ainda, é pensar que chegamos ali pelos nossos próprios méritos, uma rota nova criada por nós, uma verdadeira expedição até o cume. O espetáculo ao longe, numa visão de 360 graus ao nosso redor. Praias, ilhas, montanhas, abismos, florestas, um oceano incrivelmente belo. Do cume verdadeiro se abre ainda mais um horizonte extenso, onde é possível ver desde a baixada Santista até muito mais ao norte, passando pela famosa Ilha Bela e seus contornos gigantes. Bem aos nossos pés a praia da Boracéia e a Reserva Indígena da Tribo Silveiras, uma planície litorânea lindíssima forrada de florestas, onde rios quase que intocados desfilam como cobras a serpentear até o mar. Falando em reserva indígena, num primeiro momento pensávamos em estabelecer uma rota para o litoral, descendo em direção as terras dos índios, mas como o tempo se encurtou e alguns ainda estavam receosos de não conseguirmos finalizar essa expedição em 4 dias, resolvemos que não desceríamos até o mar, voltaríamos para o norte, voltando novamente por Salesópolis.
       

                Haviam dois ou três que ainda tentaram persuadir o grupo a seguir o plano original, mas como fomos vencidos, batemos o pé para voltar por outro caminho, quem sabe o caminho tradicional, voltando pela Represa do Ribeirão do Campo, mas havia um porém; não tínhamos informação de como fazer isso, apenas sabíamos que deveríamos chegar até a tal CACHOEIRA DA ESCADA, que nada mais era do que o local onde o próprio ribeirão do Campo se jogava para formar o grande reservatório, ou seja, seria mais uma expedição de volta pra casa e que Deus tenha piedade das nossas almas .
                Antes das onde horas da manhã abandonamos o cume, deixando aquela pedra selvagem entregue à sua própria solidão e partimos novamente para o norte, descendo aquela encosta íngreme e escorregadia, cada um tentando se manter em pé ou, como fizeram alguns, escorregando com a bunda, sem cerimônia. E é mesmo um grande barato tentar ludibriar a força da gravidade tentando fazer o equilíbrio perfeito com as mochilas às costas enquanto vamos testando os limites da aderência da rocha. A descida por isso mesmo é lenta e vamos perdendo altitude aos poucos até que desembocamos no início da floresta onde localizamos por dentro da mata um canal rochoso que acaba nos conduzindo sem que tenhamos que abrir mato no peito. Mas como ali, a inclinação ao invés de diminuir só fez aumentar e por causa do excesso de umidade não teve jeito, tivemos todos que descer sentados, escorregando no enorme tobogã natural até que ele nos levasse bem abaixo, para dentro de um riacho.

                Uma olhada no GPS e constatamos que aquele acanhado riacho poderia ser um dos afluentes do Ribeirão do Campo e como ele se dirigia para as coordenadas que nos interessava, não tivemos dúvidas, nos agarramos a ele e fomos descendo por dentro d’água até que ele se estabilizou e foi ganhando novos pequenos afluente, formando poços translúcidos em algumas curvas. A caminhada foi avançando e só saímos do rio quando queríamos escapar de alguma parte um pouco mais funda. Uma hora, em uma curva, ele ganhou um afluente bem mais encorpado e acabou crescendo de vez e umas 3 horas depois de partirmos da Boracéia, interceptamos o grande RIBEIRÃO DO CAMPO, que nem era tão maior do que seu afluente principal. Ali no encontro dos dois rios a paisagem começa a mudar e começa a aparecer o leito pedregoso e por vezes encachoeirados. Ao fundo é possível ver a magnitude da PEDRA DA BORACÉIA dominando o horizonte.

                Alguns corajosos, movidos pela novidade da paisagem, resolveram se jogar nos poços, mas outros queriam mesmo era distância da água fria. Seguimos, mas agora com o grupo dividido entre os que se aventuravam pela água e os que comiam capim, tentando escapar do rio emparedado até que todos se juntaram em um grande poço, um espetáculo formado de água represada que de tão bonito, os meninos o compararam aos rios da Serra da Canastra e por isso vou chamar aqui de POÇO CANASTRApara marcar território. Ficamos ali, diante daquele lugar incrível, batendo papo e nos aquecendo ao sol e aproveitando para dar uma forrada no estômago, enquanto assistíamos alguns se jogarem na água e quando resolvemos partir, dividimos novamente o grupo, mas sempre nos mantendo visíveis e quando o rio voltou a ficar raso , voltamos todos a nos encontrar onde finalmente o Ribeirão do Campo se joga de vez de cima de um cachoeira e vai morrer suavemente no GRANDE LAGO que domina aquelas paragens, com quilômetros de tamanho, um gigante no meio da selva.


          ( Poço Canastra)
               A tarde já ia pela metade quando resolvemos abandonar de vez a Cachoeira da Escada. Havíamos gasto 4 horas do cume da Boracéia até ali, mas foi uma caminhada até que tranquila e sem sobressaltos e ficamos até contentes em termos descobertos esse novo caminho sem ter que varar nenhum mato mais substancial ou ficarmos rodando feito barata tonta, então achamos que dali para frente conseguiríamos localizar uma trilha ou uma picada mais consolidada que pudesse nos levar ainda hoje para civilização, achamos errado.

                Logo perto da cachoeira, um largo e aberto caminho nos fez acreditar que sair dali seria mole, mas não deu 2 minutos de caminhada e a tal trilha se perdeu no nada. Rodamos para cima e para abaixo, um pente fino ao redor e para todas as direções até chegarmos à conclusão mais do que óbvia: Já fazia muito tempo que ninguém botava os pés naquele lugar vindo por terra e se alguém chegou ali, foi navegando pelo grande lago. Na verdade, mesmo dentro de mim já cresceu um sentimento, não tinha como esconder o que estava por vir e uma frase na minha cabeça resumia a situação naquele momento:PUTA QUE O PARIU, A GENTE SE FUDEU BONITO!
                Começamos então a varar mato e como primeiro objetivo elegemos tentar chegar no início de um braço grande do lago, onde tentaríamos acampar em alguma prainha, mas acontece que acabou ocorrendo um fato nesse trajeto: A partir daquele momento acabamos por deixar a navegação a cargo do Luciano, porque além de nos mostrar que tinha competência, ainda era o cara com um celular mais moderno contendo bussola, o que facilitaria muito aquele vara-mato dos infernos. Combinamos então que tentaríamos naquele dia no mínimo chegar até aquele braço, mas nós falávamos de um braço e o Luciano falava de outro. O tempo foi passando e a gente enfiado na floresta, as vezes achávamos algo que nos parecia ser uma picada, mas como todos os caminhos que encontrávamos, não dava em nada e ainda tínhamos que ouvir o Trovo dizer: “Também, isso não era trilha, era só o caminho de anta”. Claro que ouvir isso do Trovo não nos era novidade, já que para ele tudo que existe no mundo em matéria de caminho foi feito por elas (hehehehehe), mas ali parece que ele tinha razão.
                A noite chegou, caímos no fundo de um riacho e logo notamos que estávamos novamente perto do lago e quando o Luciano dizia que estávamos perto do nosso objetivo, ficávamos felizes, mas quando pedimos para ver o gps e descobrimos que ainda estávamos longe de onde pensávamos que poderíamos estar, ficamos extremante desapontados. Mesmo assim, não sendo o braço do rio que pretendíamos acampar, resolvemos ao menos tentar acampar nesse fundo de vale, que era nada mais nada menos que o próprio braço menor do lago, mas quando lá chegamos não existia um só palmo de areia, na verdade era uma margem alagada invadindo uma quiçaça, sem conter nenhuma árvore descente para tentar montar uma rede. Estava tão escuro que pouco enxergávamos, então foi preciso ligar as lanternas de cabeça e decidimos pegar água do lago e partir varando mato, ganhando altura até uma área mais espaçada, mais plana que pudesse comportar um acampamento, mesmo que improvisado, meio nas coxas. Então tocamos para cima, nos agarrando onde desse, na tentativa de vencer os grandes barrancos, meio que uma caminhada suicida, correndo o risco de enfiarmos as mãos em alguma cobra ou outro animal peçonhento. Essa é aquela hora que não queríamos estar ali, a noite já estava fria, a fome já consumia nosso estômago, as energias já eram tiradas de onde já não tínhamos. Foi quando alguém mais sensato resolveu dar um basta naquele sofrimento inútil e gritou lá atrás que poderíamos acampar por ali mesmo, um lugar mequetrefe, com poucas árvores descentes, cheio de bromélias espinhudas e cipós entrelaçados. Alguns protestaram, outros resmungaram, mas logo cada qual foi tratar de encontrar 2 árvores que comportasse sua rede e no fim , acabamos por ajeitar todo mundo e aquilo que seria mais um acampamento no inferno, acabou se tornando nosso lar doce lar por mais uma noite.
                
                A noite foi fria, alguns reclamaram, mas eu como estava bem agasalho, dormi muito bem, mas é sempre um drama levantar da “cama” quentinha e voltar a vestir a roupa úmida ou molhada, mas como tecnicamente seria o último dia, resolvi ficar com a roupa seca mesmo. A equipe pareceria estar bem-humorada, mas o Luciano acabou me preocupando. Ele era um dos “novatos” com a gente, não que fosse sem experiência, longe disso, mas era a primeira vez que se metera nessas expedições incertas e por isso mesmo apresentou um comportamento estranho, tremendo, mesmo bem agasalhado e com uma temperatura agradável. Entendi o que acontecia: o nervosismo não tinha nada a ver com medo, mas vinha da sensação de não dar conta de escapar ainda naquele dia  e perder compromissos inadiáveis, é um sentimento estranho de não conseguir controlar o tempo e nem o destino do jeito que queremos, mas o cara frágil da manhã, se transformaria num monstro no final da tarde.
                Desmontamos tudo, tomamos café e partimos. Já que estávamos a meio caminho do topo do morrote, resolvemos ir até o cume e foi entre grandes árvores que acabamos por localizar um vestígio de trilha, um caminho mais aberto dentro de uma floresta de bambuzinhos, que acabou nos levando para nordeste por quase 1 km, mas surpreendentemente fez uma curva e começou a voltar para noroeste, justamente de volta para as margens do lago, onde localizamos um RANCHO. Aí fica aquela sensação de que seria melhor, abandonar essa trilha de vez e seguir varando mato reto até o destino que vislumbramos ou nos apegarmos àquele rasgo na floresta com caminho desimpedido? Optamos por continuar pela trilha na esperança de ganharmos tempo e escaparmos o mais rápido possível dali. Por mais uns 600 metros tivemos caminho fácil e quando desembocamos novamente no lago e começamos a margeá-lo, pensamos que estaríamos com a vida ganha e até paramos em uma grande clareira de acampamento e por lá ficamos descansando e comendo algo.
                Saindo dessa clareira, novamente localizamos a trilha, que suavemente foi contornando o grande braço do lago, passamos por cima de um grande tronco que nos serviu de ponte e sem nem percebermos, começamos a seguir para nordeste novamente, voltamos a virar para oeste e finalmente para norte, a direção que nos favorecia. Trilhas apareciam, trilhas sumiam, uma hora estávamos caminhando desimpedidamente, outra hora rasgando mato no peito até que na descida de mais um vale ouvimos barulho de gente. Nos apressamos para tentar angariar alguma informação, mas o “ morador provisório” do rancho clandestino picou a mula para o mato, caiu na capoeira, escafedeu-se no mundo, fugiu apressado pensando que fossemos algum tipo de fiscalização. Tentamos localizar alguma trilha clandestino por onde esse “ curupira” poderia ter chegado ao rancho, mas nada encontramos. O dia ia passando e a gente rodando entre picadas clandestina que sumiam do nada e varação de mato. Aquilo já estava dando nos nervos e houve uma hora que os espíritos da floresta se apossaram da gente e ninguém mais se entendia quanto a localização, opiniões diversas começaram a surgir, cada qual queria ir para um lado e foi preciso parar e repensar a estratégia e por fim elegemos o Luciano como navegador oficial da Expedição, caberia a ele nos levar de volta para casa, seria melhor mesmo que um só, com equipamento mais preciso assumisse a navegação. Entramos em acordo para onde seguiríamos, decidimos que nosso objetivo seria uma cachoeira perdida no Rio Claro, aquela seria nossa tábua de salvação e era para lá que o Luciano deveria nos conduzir a partir de agora. – DEIXA COM O PAI! (Carvalho, Luciano)

                Pai Luciano ficou encarregado de nos fazer chegar até o vale de um rio, um afluente do Rio Claro que nos levaria direto para o grande rio e realmente não demorou muito, o encontramos e começamos a descer, o que nos deixava bem tranquilos quanto a navegação, mas era um riozinho de planalto entupido de árvores caída, curvas que não acabavam mais, atoleiros e por vezes era melhor tentar varar mato pela margem do que andar por dentro desse riacho. A tarde já apontou sua cara e nós ainda estávamos ali sem avançar, perdidos dentro daquela floresta e correndo o risco de termos que acampar mais uma noite, sem comida. Mais uma vez não aguentamos, paramos para rever a estratégia e tentar bater no navegador, que sem ter culpa de nada, mandou a gente a merda e resolveu abandonar o rio, traçando uma vara-mato direto para a tal cachoeirinha do Rio Claro.

                Subimos e descemos morro, comemos mato de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é qualidade e nos alegramos quando ouvimos ao longe o barulho do rio e a felicidade foi geral ao interceptarmos o GRANDE RIO CLARO e suas cachoeirinhas bucólicas por onde passamos usando o leito raso das suas cabeceiras e ali nos prostramos para um descanso demorado e para comemorar mais essa vitória. Enquanto a galera papeava no alto do POÇO REDONDO, saí à procura de alguma trilha que pudesse nos tirar dali e nos levar para o norte. Encontrei uma trilha se dirigindo para oeste, mas não serviria para a gente, muito provavelmente iria voltar para a Barragem do lago, muitos quilômetros longe do nosso destino. Na entrada para o poço redondo encontrei uma picada discreta subindo para o norte e foi por ela que seguimos, mas o dia já estava nas últimas e não demoraria para a escuridão nos apanhar.
                Seguir para o norte era a certeza de encontrarmos alguma estrada, algum vestígio de civilização, ainda mais por termos observado plantações de eucalipto no mapa, então decidimos que seria para aquela direção que o Luciano deveria apontar a bussola do GPS. A distância não parecia ser muita, mas aí que está o engano, 3 km varando mato morro acima já é algo gigante, mas fazer essa mesma quilometragem a noite já é algo quase que inimaginável para quem já vem se arrastando a 4 dias.
                Vamos seguindo, em fila indiana, alguns se revezam na dianteira, mas logo o Júlio, que parece ter um pawer bank no rabo, assumi a ponta de vez e vai lutando bravamente com o mato, o bambu, o capim, o cipó e como a noite já é nossa companheira, é a luz de lanternas que seguimos e os vultos vão nos parecendo monstros a serem vencidos como se participássemos de uma aventura Quixotesca. Não há mais conversa, só sussurros e gemidos ecoando no silencio da noite. Somos agora um bando que se arrasta, quase sem perceber e sem sentir as pernas. Somos fantasmas que deslizam na escuridão de uma noite fria de inverno, com um céu qualhado de estrelas e já perdemos faz tempo a capacidade de reclamar, apenas somos oito almas que resiste e não se entrega, resilientes de que em algum momento todo aquele sofrimento vai chegar ao fim. Quando o mato acabou e já sentíamos o cheiro de eucaliptos, nos deparamos com um rancho abandonado e ali encontramos uma picada que foi crescendo e logo se transformou numa estradinha cheia de mato que mais à frente se consolidou, se abriu de vez e meia hora depois desembocamos definitivamente numa estrada de verdade e desabamos ali mesmo, cansados, exaustos, mas com a certeza que a nossa missão acabara de ser cumprida.
                A estrada segue para leste e mais à frente interceptamos uma casa e ali imploramos por algo para comer e quando apareceram 2 grandes pacotes de bolacha e uma penca de banana, alguns ficaram emocionados e para mostrar que tinha uma educação de lorde, o Júlio que não queria jogar as cascas de banana no mato, pergunta: - Aí, passa lixeiro por aqui? ( kkkkkkk) Eu e o Régis que estávamos num canto já fora da visão do morador, não nos aguentamos e caímos na risada, aquilo ali era um fim de mundo, uma espécie de fiofó de Salesópolis, estava na cara que não passava lixeiro ali e o simplório morador apenas pediu para que ele jogasse no mato mesmo, porque as galinhas se encarregariam de dar conta do lixo orgânico.
                Estávamos a salvo do mato, éramos agora seres pertencentes a civilização, mas ainda teríamos que arrumar um jeito de voltar para Salesópolis que distava uns 15 km dali e não tínhamos a menor ideia de como faríamos isso naquela hora da noite,mas eis que na escuridão surge um motoqueiro visivelmente mamado, com a cara cheia de pinga e quando fizemos sinal, ele parou imediatamente. Não falava nada com nada, dizia coisas sem nexo, palavras desencontradas, jogadas ao vento, mas disse para a gente não se preocupar que ele daria um jeito de nos tirar dali, iria fazer “um corre” com uns conhecidos e se perdeu na escuridão. Claro, não levamos fé no locutor do Silvio Santos e nem nos apegamos àquela possibilidade, mas quando nos aproximamos um tempo depois do centro do amontoado de casas do Bairro dos Pintos, lá veio o motoqueiro nos chamando para um abrigo e dizendo que em pouco tempo nossa carona chegaria para nos tirar dali e nos levar para cidade. Havíamos desacreditado do morador local e agora teríamos que engolir nosso “pré-conceito” e mais uma vez acabamos por nos deslumbrar com a generosidade humana. Não demora muito, um taxi encosta e leva metade do grupo até um ponto de ônibus e volta para buscar a outra metade e foi assim que cada qual foi se perdendo para uma direção, alguns na região metropolitana de São Paulo e outros como eu, em direção ao interior do Estado.
                
                Ir para o interior selvagem da Serra do Mar Paulista é se jogar de cabeça na mais autêntica aventura que se possa imaginar, é onde a palavra Expedição pode ser usada sem que se caia no ridículo, mas para isso é preciso aceitar os riscos, é preciso compreender que não há garantias de nada, vai estar sempre andando sobre o fio da navalha, vai ter que encarar desafios, saber que sua vida corre perigos constantemente, seja imaginário ou real. Mais uma vez conseguimos juntar um grupo, uma equipe em torno de um projeto que nem nós mesmos poderíamos saber se daria certo ou não e tão difícil quanto executar um projeto, é fazer ele sair do papel, dar vida e agregar pessoas disposta a colocá-lo em pratica. Foram oito homens dispostos a conquistar uma montanha selvagem estabelecendo uma nova rota, um novo caminho e hoje posso dizer que esse novo trajeto para o Cume da Pedra da Boracéia é sem dúvida o melhor de todos, pelo menos por terra. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nossas dos últimos tempos, agregamos novos amigos e fortalecemos velhas amizades, sofremos muito, é verdade, mas nos divertimos como nunca, vivemos a vida com uma intensidade poucas vezes vista e voltamos para casa satisfeitos com nós mesmos, sabendo que fizemos história mais uma vez, se não foi história para montanhismo nacional, foi a nossa história, para contar para os filhos, para os netos sobre o dia em que desafiamos uma montanha e vencemos, não a  montanha, mas a inércia da vida.


               
               
               
               
               
               
      Divanei Goes de Paula Publicado em 12/07/2019 16:33
      Realizada de 20/06/2013 até 25/06/2013
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    • Por SamuelSchw
      Saudações, povo da mochila.
      Compartilho aqui relato de uma curta passagem pelo Parque Nacional do Itatiaia no início de maio, junto com minha esposa. Já fazia uns três anos que planejava visitar o Parque, mas indisponibilidade de datas e outros compromissos postergaram a visita. Felizmente, por ter trabalhado nas Eleições/2018, consegui certo número de dias de folga e utilizei dois na sequência do feriado do dia do Trabalhador (1º de maio), que caiu numa quarta-feira. Minha esposa tinha alguns dias de folga para tirar também e dessa forma conseguimos estender um feriado para cinco dias, e seguimos o seguinte cronograma:
      3ª feira (translado): Brasília-Campinas; pernoite em Campinas 4ª feira (dia 01): Campinas>Itatiaia ; Pedra do Altar 5ª feira (dia 02): Agulhas Negras 6ª feira (dia 03): Prateleiras ; Pernoite em Maromba (RJ) Sábado (dia 04): Travessia da Serra Negra (1ª parte) Domingo (dia 05): Travessia da Serra Negra (2ª parte) ; retorno à Campinas; pernoite em Campinas 2ª feira (translado): Campinas-Brasília Optamos por ir por Campinas pois os preços das passagens estavam mais atraentes e a distância e tempo de viagem não aumentavam tanto (40min). Em Campinas alugamos um carro: Fiat Mobi na Foco. É a segunda vez que alugamos um Mobi, não apenas por ser mais barato, mas também por ser bastante econômico (em nossa viagem para Paraty percorremos 700km com um tanque, usando Etanol!). A Foco apresentou os melhores preços mas o ponto negativo é que as lojas ficam fora do Aeroporto, então para quem tem pressa ou horário apertado, recomendo avaliar. Entretanto, a Foco Campinas oferece transporte numa Van para os clientes e o tempo de deslocamento é entre 10 e 15 min. Ainda que eu goste de viajar de ônibus, as opções de horários e pontos de parada para a região do Itatiaia são poucas e péssimas, fazendo com que alugar o carro seja o melhor custo-benefício.
       
      Equipamento:
      Optamos por pernoite no Abrigo Rebouças e em quarto na Pousada Pico da Serra Negra (com janta e café da manhã). Pernoitar no Rebouças nos ajudou também a otimizar nosso tempo, evitando, por exemplo, ir e voltar do PARNA para fazer Agulhas e Prateleiras, além de andarmos mais leves durante a travessia. Com os pernoites no Abrigo e em quarto na Pousada, pudemos levar o mínimo de equipamento e peso possível, apenas o necessário. Essa escolha nos possibilitou utilizar, durante as atividades, uma Mochila 43L e uma Mochila 36L. Para o despacho dos equipamentos que foram usados no Abrigo Rebouças (sacos de dormir, vestuário, utensílios de cozinha, etc) acabamos utilizando minha mochila de 65L. Nessa hora senti falta de um Duffel, que tornaria tudo mais simples e prático rsrs
      Para cozinhar, levamos um fogareiro Nautika Apolo, um kit de panela da Quechua, talheres e outros acessórios. Quanto ao gás, como é proibido o despacho de material inflamável no avião e o Abrigo Rebouças não disponibiliza botijão, a saída foi comprar um botijão TekGás em Campinas e mandar entregar no hotel. Comprei pela internet na Corricos (www.corricos.com.br) e, por telefone, negociei uma entrega rápida. Fui muito bem atendido pela equipe da loja e providenciaram a entrega no hotel através de um motoboy.
      Como o Itatiaia é conhecido por suas noites frias, levamos nossos sacos de dormir -5ºC de conforto. Passamos calor. Para quem fica no abrigo, acredito que um de conforto 0ºC ou +5ºC é suficiente. Para quem vai de carro e pode levar, uma opção é levar lençol e cobertas.
      Para a travessia da Serra Negra, levamos apenas nossas roupas (camadas de aquecimento e para dormir, Crocs pendurados nas mochilas), água e alimento para 3 dias. Como estávamos sozinhos e não cruzaríamos com outros grupos, levamos também uma barraca de emergência e dois sacos de emergência, pois o peso é insignificante e são extremamente úteis em uma eventual necessidade. Estávamos com GPS de mão, e como backup, celular com App de navegação.
      O Abrigo Rebouças:
      O Abrigo Rebouças possui energia elétrica mas não possui  - ainda, vamos ver como ficarão as coisas após a concessão - nenhum serviço de alimentação, não oferece botijão de gás, apesar de haver um fogão industrial, e não possui chuveiros quentes nem geladeira. A diária sai R$ 35,00 por pessoa, sendo necessário realizar reserva entre 30 a 7 dias de antecedência da data de entrada. A estrutura é de abrigo de montanha, com quarto e banheiros compartilhados. As camas são em beliche, havendo um gavetão para cada pessoa, localizado abaixo da cama inferior. A estrutura, apesar de rústica, é bastante confortável. 
      Inicialmente havíamos planejado dormir três noites no Abrigo Rebouças e pegar um táxi de Maringá para o PARNA no final da travessia, para recuperar o carro. Entretanto, após conversar com o taxista Marquinhos (tel/whats 35 8428-1059), preferi pernoitar em Maromba no dia anterior à Travessia e deixar o carro na pousada. Assim ficamos menos dependentes de terceiros e horários para retornar a Campinas.
       
      1. Chegando…e já saindo
      Saímos de Brasília na noite de terça-feira, em voo com escala da Azul. Chegando em Campinas, fomos resolver o aluguel do carro. Chave nas mãos, fomos primeiramente comprar mais algumas coisas no Extra e depois para o Hotel Casablanca (http://www.hotelcasablanca-campinas.com.br/). O hotel é bastante agradável, com ótimo custo benefício, bom café da manhã e estacionamento grátis. 
      Apesar da correria conseguimos descansar bem e acordamos cedo no dia seguinte para tomar um bom café-da-manhã e, às 8h, sair rumo à parte alta do Parque. A estrada é movimentada, mas excelente. Os pedágios...são aos montes - não esqueça de levar dinheiro para isso!
      Pouco depois do meio-dia já estávamos no Graal Alemão, onde paramos para abastecer e almoçar. O preço da gasolina estava bom; o da alimentação, caríssimo. Como não sabíamos se haveria restaurante mais acima, acabamos comendo lá mesmo. Mas para você que está lendo, fica a dica: em Engenheiro Passos há banquinhas e restaurantes bastante convidativos, talvez o maior e mais movimentado seja o Restaurante do Juquinha. De Engenheiro Passos até o Posto Marcão é curva que não acaba mais. Felizmente a estrada estava ótima, com asfalto e pintura recentes. Mas isso até a Garganta do Registro, onde começa a estrada que leva da rodovia até o Posto Marcão. Estrada ruim, mas transitável para qualquer veículo. Para um Parque tão movimentado quanto o de Itatiaia, já deveria ter sido melhorada. Entre 1ª, 2ª e raros momentos de 3ª marcha, pouco antes das 14h estávamos no Posto Marcão. Fizemos o cadastro, pagamos o ingresso, pegamos a chave e fomos largar as coisas no Abrigo.
      O estacionamento estava movimentado, pois um grupo do Exército estava fazendo reconhecimento para uma futura atividade de treinamento. Havia carros, tendas, caixas e muitos soldados. No abrigo estava tudo calmo, apenas sinais de duas pessoas. Pudemos escolher com tranquilidade nossas camas e organizar alimentos e equipamentos. Como ainda estava cedo, resolvemos ir para a Pedra do Altar. Saindo por volta das 15:30, cruzamos com o casal que estava no abrigo, voltando de um caminhada.
      A trilha para a Pedra do Altar sai (também) do Rebouças e segue parte da trilha para o Agulhas Negras. Em alguns pontos, sinais da sinalização rústica da Transmantiqueira. A trilha é bastante tranquila, sem lances técnicos. Fomos com bastante calma e apreciando a paisagem e pouco antes das 17h estávamos no cume da Pedra do Altar. O céu ensaiava o pôr-do-sol e um forte vento soprava, mas tínhamos a montanha e toda a vista só para nós: de lá apreciamos Agulhas Negras, Asa de Hermes, Couto. Na descida fomos presenteados com o Agulhas Negras tingido de laranja. Pouco tempo depois de passarmos a ponte pênsil a noite caiu. Sacamos as lanternas e seguimos para o Rebouças, atrás de um grupo que voltava do Agulhas.
      A noite não estava tão fria e a água gelada do chuveiro não foi tão ruim. De qualquer forma, o banho nessas situações é tomado aos poucos: mãos, pé, cabeça, pernas, tronco, e por último as costas rsrs.
      No abrigo, novas pessoas. Além do casal havia agora um grupo de aproximadamente 10 pessoas que fariam a Travessia da Serra Negra no dia seguinte. Descobrimos que a cozinha do abrigo ficou pequena para tanta gente, e ainda por cima gente espaçosa: São apenas duas mesas grandes com bancos. Com muito custo conseguimos um espaço para fazer nossa janta e comer com calma. Fizemos o bom e velho macarrão com atum, acompanhado de chá. Acabamos indo dormir cedo. Infelizmente a noite foi barulhenta: roncos, despertadores tocando de madrugada sem que seus donos - ou os amigos dos donos - desligassem. Pense você: o despertador tocando quase 10 minutos, as pessoas do grupo acordando e discutindo de quem era o celular, e ninguém se movendo para desligar. Em um rompante de indignação com a inação e incapacidade das pessoas de conviver no coletivo, desci da beliche, abri a mochila alheia e desliguei o celular. “Desculpa gente, mas se ninguém desliga eu desligo”. Voltei a dormir, para 1 hora mais tarde acordar com o barulho dos soldados na área externa.
       
      2. Agulhas Negras
      Café-da-manhã tomado, cuscus paulista para o almoço devidamente preparado, nos arrumamos para o Agulhas Negras. Por volta das 8:30 o guia Carlos da Barba Negra Aventuras (Telefone: 24 998235501), chegou no abrigo e às 9h partimos para o Agulhas Negras. O tempo estava nublado, mas o horizonte estava limpo: tempo perfeito! Nossa progressão foi tranquila e rápida até a base do Agulhas. A partir da primeira rampa o ritmo foi mais devagar, o que era esperado. O Carlos nos conduziu em ritmo muito bom e com toda a segurança. Não me prendi muito a marcar o tempo, pois estávamos ali para curtir o local e a ascensão. Que paisagem. O Agulhas é realmente um lugar muito único e considero uma das montanhas mais bacanas que já subi aqui no Brasil, pelos seus muitos lances de 'escalaminhadas' e por exigir mais que a simples caminhada. Apesar de não ser uma montanha com muitos lances expostos, pode causar medo e vertigem em algumas pessoas e, para quem não está fisicamente preparado, pode ser exigente. No cume, tínhamos novamente a montanha só para nós. Essa foi a primeira vez da minha esposa em montanha, e mesmo com receios e incertezas encarou o desafiou. Comemos algo e aí Carlos e eu fomos para o cume verdadeiro. Assinado o livro, voltamos, tiramos algumas fotos e iniciamos a descida, também em ritmo bem tranquilo, sem pressa, sem ansiedade. Chegando no Rebouças nos despedimos do Carlos, que nos encontraria no dia seguinte para irmos ao Prateleiras, e entramos. O banho dessa noite foi um pouco mais sofrido, pois estava mais frio que na noite anterior. Mas tudo bem, água fria ajuda na recuperação muscular rsrsrs. Após o banho, fomos jantar. O cardápio do dia era purê de batata instantâneo com lombinho defumado. Nessa noite o abrigo estava mais agradável e espaçoso. O grupo grande havia partido, e agora estávamos nós, o outro casal, e mais um casal que havia chegado. Só gente bacana, e bom papo rolando. A noite foi bem mais tranquila e silenciosa, inclusive porque a atividade do exército já havia terminado.

      No cume verdadeiro do Agulhas Negras.
      3. Prateleiras
      Café-da-manhã tomado, cuscus paulista para o almoço devidamente preparado, nos arrumamos para o Prateleiras. Mochilas prontas, chave do abrigo devolvida na portaria. Acabamos saindo mais tarde, umas 9:30. Eu havia alimentado uma possibilidade de fazer Prateleiras e Couto nesse dia, mas como atrasamos a saída, o Couto ficou para uma próxima. A trilha até a base do Prateleiras é tranquila e muito bonita, como é toda a parte alta do Itatiaia. Os vales que se descortinam são dignos de receberem gravações de filmes como Senhor dos Anéis e o Hobbit. A trilha que sai do Rebouças, segundo consta, era uma antiga estrada que cruzava o parque. Tanto é que parte dela é asfaltada. 
      Rapidamente se chega à base do Prateleiras e é aí que começa a diversão. Apesar de mais baixo, sua ascensão é muito mais desafiadora e exigente: pedras para subir, pedras para descer, fendas, rastejo. Para quem não está acostumado, pode dar uma abalada. Apesar disso, indo com calma e com um bom guia, não há razões para se apavorar. Chegando na parte final, no primeiro trecho onde se recomenda o uso de cordas, Ana já estava cansada física e mentalmente, e decidida a ficar. Carlos então subiu e montou a corda para eu subir. Passamos rapidamente o pulo do gato e os demais trechos e enfim, cume. Que vista! Um carcará solitário numa das pontas nos observava, e observava a paisagem, certamente procurando uma presa.

      Vista incrível a partir do Prateleiras.

      Ana e eu na base do Prateleiras.
      Ficamos algum tempo ali e Carlos me mostrou as ancoragens do rapel que é possível fazer dali, ao invés de descer pela trilha. Voltamos e encontramos a Ana e descemos para uma fenda onde almoçamos. Iniciamos o retorno e pouco antes das 15h estávamos no Rebouças. Acertamos o pagamento e nos despedimos. Pegamos o carro e partimos para Maringá (RJ). Se for seguir esse roteiro, recomendo demais se planejar para chegar em Maromba antes do pôr-do-sol. São 2h30min até lá e a estrada é bastante sinuosa, com trechos estreitos e o asfalto nem sempre conservado. Chegamos em Maringá às 17:45 e já estava escuro. Seguimos direto para a Pousada Santa Clara, que fica próxima à cachoeira Santa Clara e ao Restaurante Truta Rosa. Havia reservado um quarto com a Maria Margarida (24 992690350), bastante simpática e solícita. A pousada é bem bacana, quartos limpos e confortáveis. Deixamos as coisas, tomamos banhos e fomos jantar. O centro de Maringá é bem bacana e agradável, bastante organizado. Por recomendação do pessoal da pousada fomos no restaurante Paladar da Montanha. Apesar do prato típico ser a truta, optamos por uma picanha na chapa. Prato muito bem servido e preço muito bom. Maringá estava tão agradável que Ana quase me convenceu a ficar lá rsrs mas como sou obstinado, fui fiel ao planejamento. A região da pousada é bem agradável e silenciosa. Dormimos muito bem.
       
      4. Travessia da Serra Negra - Pt. I
      Acordamos às 5h. Já havia deixado todas as coisas separadas e o que não ia ser útil, na travessia foi para o carro. Maria Margarida gentilmente adiantou o café para nós. No estacionamento, vi um táxi de Itamonte que só podia ser o Marquinhos. Ele saiu tarde da noite de Itamonte e pernoitou no carro. Convidamos ele para tomar um café. Apesar de relutar um pouco, acabou aceitando. Às 6:30 saímos da pousada com destino ao Posto Marcão. A estrada estava tranquila e o Marquinhos é uma ótima pessoa e ótimo motorista, bastante prudente, e muito bom de papo. Deu uma aula sobre as possibilidades de passeio e lugares para visitar na região. Às 8:40 estávamos no Posto Marcão. Papéis preenchidos, cantis abastecidos, iniciamos a caminhada às 9:40. Escolhemos iniciar via Circuito dos 5 lagos, pois o outro lado, do Rebouças, já conhecíamos. A trilha já começa com uma subida, que vai ficando gradual. Nada muito intimidador, mas já dá uma agitada. O visual na primeira parte é muito bonito. O campo, lagos e o Agulhas Negras ao fundo é realmente fascinante. Depois começam os trechos nos lajeados, que dão um pouco mais de trabalho. A sinalização aqui não é das melhores e a progressão não foi muito rápida. A referência de direção é a Pedra do Altar.

      No início da Travessia da Serra Negra, via 5 lagos.

      No início da Travessia da Serra Negra, via 5 lagos.
      Chegando na bifurcação da Pedra do Altar, toma-se o rumo da Cachoeira do Aiuruoca. Segue-se em single-track em terreno bom, com algumas pedras, mas aqui avançamos bem. Há um ponto de água muito limpa. Infelizmente a área ao redor está visivelmente erodida e é necessário alguma intervenção. Acredito que uma ponte/pinguela aliviaria a pressão. Andamos bem até chegarmos na próxima placa, apontando a direção da Serra Negra, Cachoeira do Aiuruoca e Rancho Caído. Tomamos mais à esquerda e prosseguimos. Passamos por um trecho mais fechado, uma espécie de taquaral, até sairmos e ter a primeira visão da Cachoeira do Aiuruoca lá embaixo, onde um grupo que seguiria para o Rancho Caído banhava. Paramos para comer um pão com patê de atum e frutas secas. De lá partimos, desfrutando do belo visual do alto da serra. Não sei precisar o tempo, mas depois a trilha entra na mata fechada e assim vai por muito tempo. A trilha está bem demarcada, não deixando muita margem para erros, a não ser na área chamada de “Invernada”. Aqui duas vacas pastavam tranquilas e nos observavam quando nos aproximamos e, para trás, fica um enorme lajeado por onde cai uma cachoeira. A sinalização na invernada não está presente (ou apagou com o tempo) e, se não estivéssemos com GPS, poderíamos ter nos perdido, como já aconteceu com outros grupos. A trilha aqui segue na beira do barranco onde está a cabana, descendo e cruzando o córrego. A partir daqui ela fica bem visível. Pouco tempo depois encontra-se o rio Aiuruoca, onde pode-se abastecer as garrafas e, para os corajosos, tomar um banho. A trilha volta para a mata e por ela vai. Na área da Cabanas do Aiuruoca, um pouco de luz. Na ocasião dois rapazes estavam trabalhando na estrutura, dando a impressão de que a área será reativada como local de pernoite. Lá avistamos mais uma marca da Transmantiqueira. Seguimos pela trilha, um carreiro bem largo que aparenta ser uma estradinha. E aí foi pela mata até finalmente chegarmos na Sônia, às 17:30. Foram pouco mais de 7h30min, em um ritmo bem tranquilo, principalmente nas descidas, pois o joelho da Ana estava começando a doer.

      Chalés na Pousada Pico da Serra Negra, propriedade da Sônia.
      Fomos muito bem recebidos na Pousada Pico da Serra Negra pela Sônia e seus irmãos. Um deles trabalha na Posto Marcão ( e foi quem nos recebeu no nosso primeiro dia quando chegamos no PARNA), o outro é guia e também faz o serviço de levar seu carro até Maringá (R$ 250,00+R$15,00 do estacionamento). Nosso quarto já estava preparado e era bem agradável. Gosto muito de camping selvagem, mas confesso que o um quarto bacana com cama boa e chuveiro quente é algo difícil de resistir. Fizemos nossos alongamentos, tomamos banho e a noite já havia chegado com um céu bastante estrelado. O pessoal preparou uma janta reforçada com truta frita. Uma delícia!
      Bem alimentados, parti para a sessão de convencimento da Ana, que estava pensando em desistir de continuar no dia seguinte. Depois de muita conversa, análise do tracklog e da dificuldade de outra alternativa a não ser prosseguir, ela aceitou rsrsrs Por isso só decidam o dia de amanhã depois de banho tomado e bem alimentados!
       
      5. Travessia da Serra Negra - Pt. II
      A noite foi revigorante. Acordamos bem descansados, tomamos um reforçado café, acertamos as contas com a Sônia, abastecemos os cantis e partimos às 8:40. Seguimos pela estrada e confundi na leitura do Tracklog, perdendo uma saída à direita antes da curva à direita. Acabamos chegando numa outra casa e uma senhora falou: “sobe tudo aí que vai achar a trilha”. Já estávamos pensando em voltar para achar o traçado oficial mas ela insistia, e depois um filho dela saiu e insistiu: “só subir tudo aí e já vai ver”. O problema é que era um baita morro bem inclinado. A insistência foi tanta que acabamos subindo e de fato, achando a trilha. A partir daí foi basicamente um single track, subindo quase 500m. Combinamos de ir em ritmo suave, sem esgotamento e aproveitando o visual, que é realmente incrível. Convém destacar que da Sônia é possível atacar a Pedra Preta - inclusive a trilha parte de uma ramificação desse segundo trecho da Serra Negra - mas é uma caminhada pesada e em geral, o pessoal dedica um dia apenas para isso. Pouco a pouco subimos e depois de 1h30min chegamos na altitude máxima daquele dia.

      Sobe, sobe, sobe!

      Daqui a pouco é desce, desce, desce!
      A partir daí foi basicamente descer, alternando entre campo aberto e floresta, em trilha cavaleira. A erosão dessa trilha é assustadora. Há pontos nos quais a trilha está 1.8m abaixo da altura original. O trecho final, já nos sítios, é muito bonito. Foram 5h30min de caminhada e pouco antes das 14h estávamos na Cachoeira Santa Clara, limpando o corpo e fazendo a recuperação muscular em suas águas geladas. De lá andamos uns 800m até a Pousada, onde só trocamos de roupa, pois o banho já tinha sido tomado na cachoeira. Nos despedimos do pessoal e às 15h partimos. Paramos em Penedo apenas para conhecer rapidamente a cidade, comer um Hambúrguer (Kako´s) e comprar uns chocolates. Às 17h partimos rumo à Campinas, nas 5h de direção mais cansativas da vida. Afinal, foram 33km de caminhada. Chegamos em Campinas, no Hotel Casa Blanca pelas 22h. Na manhã seguinte, bem cedo, estávamos no aeroporto, chegando em Brasília a tempo de cumprir nossa jornada diária de serviço. Bota suja, alma lavada!

      Trecho final, já em estrada.

      Bota suja, alma lavada!
      Impressões sobre os atrativos
      Agulhas Negras e Prateleiras, ao contrário da Pedra do Altar e Morro do Couto, são montanhas cuja ascensão de forma autônoma exige bom condicionamento, habilidades de orientação e conhecimento técnico. Para novatos, o acompanhamento de alguém que conheça a rota e os lances técnicos e esteja com os equipamentos requeridos é essencial para garantir a segurança e o aproveitamento do atrativo. Apesar de eu ter conhecimento e experiência avançada de trekking e intermediária em escalada, ainda assim optei por contratar um guia. Com isso também evitei ter de levar equipamentos como cordas, cadeirinha e mosquetões.
      A Travessia da Serra Negra é um trekking pesado. Ainda que não haja lances técnicos, são quase 19km no primeiro dia e pouco mais de 15km no segundo dia com muita variação altimétrica, principalmente no primeiro dia, o que exige bom preparo físico e mental. Não recomendo para iniciantes e pessoas sem experiência em trilhas. Caso escolha ela para uma primeira experiência de travessia com pernoite, esteja bem preparado. Na dúvida sobre sua capacidade de percorrê-la, recomendo ir com guia e comprar o pacote completo na Sônia, ou ter um carregador - isso não é nenhum demérito. Água não é um problema ao longo do percurso. A trilha está bem demarcada e visível e a navegação não é difícil. A sinalização, porém, está deficitária, principalmente nos trechos críticos (bifurcações), não sendo possível confiar apenas nela. Assim, recomendo levar um GPS ou celular com App de Navegação (Wikiloc, Avenza, LocusMaps) como referência. Utilizei esse trakclog.

      Sinalização da Transmantiqueira, apagada.

      Sinalização da Transmantiqueira, conservada.
       
      Contatos:
      Marquinhos (Taxista Itamonte): 35 8428-1059 (tel/whatsapp)
      Pousada Santa Clara: 24 99269-0350 (tel/whatsapp)
      Guia Carlos: 24 99823-5501 (tel/whatsapp)
      Pousada Pico da Serra Negra: 35 9965-6515 (whatsapp)
      Corricos: (19) 3258-5385
      Hotel Casablanca Campinas: (19) 3272-7575


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