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O nosso norte é o sul: Atravessando Brasil e Argentina até Ushuaia ou O caminho para o fim do mundo


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  • Colaboradores
20 horas atrás, Paulo Pittarello disse:

Parabéns pelo relato Diego! É muito legal estar acompanhando como se desenrolou a sua viagem!
Cada situação inesperada, não? Mas com certeza são essas situações e pessoas que fazem valer a pena... estarei acompanhando até o final, obrigado por compartilhar! 

Fala @Paulo Pittarello, belezera? Sim, o massa de viajar desta forma é nunca saber o que vai acontecer no momento seguinte. O negócio é se deixar levar e aceitar/aproveitar o que a estrada está te proporcionando naquele momento. 

Cara, fico muito feliz que esteja acompanhando e curtindo o relato, acho que vou tentar dar uma acelerada para terminar o quanto antes a escrita. Grande abraço, Paulo. Fica com a paz. 

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15 horas atrás, Leila Borges disse:

Belo relato, me senti viajando com vocês! Obrigado por compartilhar, esperando ansiosa as próximas postagens.

Muito obrigado, @Leila Borges! Fico muito feliz que esteja gostando do relato e acompanhado desde o início. Vou tentar acelerar as postagens para tentar terminar essa história o mais rápido possível. Mais uma vez, obrigado. Um beijo e fica com a paz.

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Em 07/02/2019 em 15:30, Diego Minatel disse:

Eu fui tomar banho. Caraca! Como era bom tomar banho depois de tanto tempo e de tanta sujeira acumulada/alojada.

Conforme ia lendo pensava, meo, estes meninos não estão tomando banho! hahahahahahau Acho que esta seria minha maior dificuldade em uma viagem roots assim, que aflição! kkk

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40 minutos atrás, Juliana Champi disse:

Conforme ia lendo pensava, meo, estes meninos não estão tomando banho! hahahahahahau Acho que esta seria minha maior dificuldade em uma viagem roots assim, que aflição! kkk

Hahahahaha acho que talvez seja a pior parte mesmo. Também dá uma vergonha de ser o fedidão dentro do carro/caminhão, mas foi só nesse trecho que acumulamos dias sem banho 😳😳😳

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5 horas atrás, LF Brasilia disse:

Que aventura, Diego! Senti frio só de ler essa última parte. E a foto 10.1 dá bem uma ideia do vento... o cabelo do Matheus está parecendo um efeito de Photoshop! :D

Hahahaha pior que é verdade mesmo. A foto 10.21 dá a impressão que eu sou mó fortão, mas é só efeito das roupas largas somada ao vento forte 😂😂.

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Parte 11 - Algumas das belezas de Ushuaia

"Antônio Pigafetta, um navegante florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, ao passar pela nossa América meridional escreveu uma crônica rigorosa, que, no entanto, parece uma aventura da imaginação. Contou que havia visto porcos com o umbigo no lombo, e uns pássaros sem patas cujas fêmeas usavam as costas dos machos para chocar, e outros como alcatrazes sem língua cujos bicos pareciam uma colher. Contou que havia visto um engendro animal com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de cervo, relincho de cavalo. Que puseram um espelho na frente do primeiro nativo que encontraram na Patagônia, e que aquele gigante ensandecido perdeu o uso da razão pelo pavor de sua própria imagem.
Este livro breve e fascinante, no qual já se vislumbram os germes de nossos romances de hoje, está longe de ser o testemunho mais assombroso da nossa realidade daqueles tempos." A solidão da América Latina, Gabriel Garcia Marquez

Ushuaia tem pouco mais de cem anos, seu desenvolvimento está intimamente ligado com o extinto presídio da cidade. A princípio, o presídio só recebia presos militares, mas com o tempo presos perigosos e presos políticos também começaram desembarcar em Ushuaia. Afinal, não havia lugar melhor para um presídio que uma ilha inóspita. A implantação do presídio atraiu outros serviços para a  cidade, como produção de alimentos e eletricidade. Assim, Ushuaia foi crescendo.

Chegamos ao fim do mundo e agora? Fomos comemorar. Momentos antes tinha entrado numa agência de turismo, na conversa com a dona ganhei uns vales de cervejas grátis, que somente é dado pras pessoas que fazem o passeio de barco com eles, mas a mulher resolveu me presentear com as cevas. Fomos até a cervejaria, ali ficamos boa parte da noite, bebendo e usando internet. Não tínhamos lugar pra ficar até então. O que tínhamos era um contato que o Matheus havia conseguido com uns amigos, e que ele já havia conversado algumas vezes. Estava meio certo que ficaríamos na casa dele. Enfim, não tivemos resposta naquela noite. Resolvemos seguir para um hostel. Ajeitamos nossas coisas. A fome era grande, cozinhamos e comemos. Tomei banho, logo depois, desmaiei na cama.

Acordamos cedo e cambiamos o restante do dinheiro que carregávamos conosco. A cotação desse dia foi a melhor que conseguímos na viagem: 1 real/9 pesos argentinos. Fomos comprar nossas passagens com destino a El Calafate. Tínhamos um lugar para ficar em El Calafate, mas a pessoa iria viajar dentro de uns dias. Então, resolvemos não ir de carona neste trecho e, consequentemente, chegar numa data que teríamos estadia na nossa próxima parada. 

Depois, conforme as dicas do César, partimos caminhando para o Glaciar Martial. O tempo estava esquisito e estava caindo um chuva de leve. Cruzamos boa parte da cidade até o inicio da trilha que leva até a entrada do glaciar. A trilha alterna entre caminhos dentro da mata e da avenida que os carros utilizam como acesso. A trilha é muito bonita, ainda mais tendo o Martial ao fundo. Não lembro de ver ninguém fazendo a trilha na ida, todos que chegavam no glaciar, chegavam de carro. 

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Foto 11.1 - Bora começar a temporada de caça as trilhas

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Foto 11.2 - Sobe, sobe

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Foto 11.3 - A ponte do rio que cai

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Foto 11.4 - Matheus e esse cenário maluco

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Foto 11.5 - Eu seguindo rumo ao Glaciar Martial

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Foto 11.6 - A casa e as nuvens

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Foto 11.7 - Matheus e a caminhada

A caminhada da cidade até a entrada do glaciar deve ter durado uma hora e meia, mais ou menos. Chegamos na entrada e uma legião de taxistas ficam por ali. A entrada é gratuita. Seguimos andando pela trilha de acesso ao glaciar. Agora víamos muitas pessoas pelo trajeto, indo e voltando. A caminhada continuava. Como sentia falta disso, de somente caminhar e caminhar sem pensar em nada mais. Pensar, apenas, no próximo passo. 

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Foto 11.8 - A caminhada continua

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Foto 11.9 - Outra ponte do rio que cai

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Foto 11.10 - Martial, um glaciar ou um jogador de futebol?

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Foto 11.11 - Eu e a terra inóspita

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Foto 11.12 - Quase lá

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Foto 11.13 - Prazer, Glaciar Martial

Chegamos ao pé do Glaciar Martial, um pouquinho antes atravessamos um caminho com neve no solo, havia tanto tempo que não tinha contato com a neve. Achamos um lugar para sentar, comemos nosso lanche. Depois, seguimos pela trilha sobre o glaciar. Nesse momento a paisagem é composta de poucas cores, vê-se um cinza que é a mistura do solo com pedras e brancos de neve surgem para não deixar a visão monocromática. A subida não é das mais puxadas, na verdade é bem tranquila. O Matheus foi devagarinho, estava cheio de bolhas no pé. Do topo tem-se uma bela visão de Ushuaia com o mar ao fundo. A temperatura lá em cima era bem baixa e o vento forte, mas estava agradável. A montanha tem esse poder, pelo menos em mim, de fazer qualquer situação adversa algo memorável.

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Foto 11.14 - A bela paisagem

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Foto 11.15 - A bela visão [2]

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Foto 11.16 - Matheus vendo todo o caminho que percorremos para chegarmos ali

O caminho de volta foi bem tranquilo. Descer e descer. De volta a entrada, os taxistas ofereceram seus serviços, recusamos. Fizemos a trilha de volta até a cidade. Agora, vimos algumas pessoas fazendo a trilha no sentido inverso. Depois de tantos dias pelos desertos patagônicos, caminhar no meio daquelas árvores em meio ao ar puro e úmido, era revitalizador. A cidade reapareceu na paisagem, a caminhada continuava. Num momento, me deparei com um muro com a seguinte frase: "El amor al dinero es la raiz de todo mal". Uma vez ouvi o seguinte: se você quer conhecer um lugar não leia livros, leia os muros. Lendo aquele muro, mesmo estando milhas e milhas distantes eu soube que estava em casa.

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Foto 11.17 - O muro da verdade

Tivemos que mudar de hostel, pois tínhamos conseguido vaga no dia anterior por causa de desistências. Mudamos para umas duas quadras donde estávamos. Saímos caminhar e conhecer um pouco mais a cidade. A orla é toda bonita. Fiquei observando as gaivotas voando, é muito curioso fazer isso. Antes, achava que só o beijo-flor conseguia ficar parado no ar. As gaivotas no fim do mundo sofrem para vencer o vento, tem horas que elas parecem estar paradas no ar. Vencer o vento naquela canto de mundo não é tarefa fácil.

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Foto 11.18 - Ushuaia

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Foto 11.19 - A cidade mais austral do mundo

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Foto 11.20 - Os navios

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Foto 11.21 - Os containers

Ushuaia no verão escurece depois das onze da noite. É tão fugaz a noite por lá nessa época, que é preciso insistir bastante pra conseguir ver as luzes da cidade ou mesmo a iluminação de Natal. Pra nós que moramos entre os trópicos é tão diferente e esquisito essa diferença de tempo entre dia e noite. Porém, ter dezenove horas de luz natural para explorar aquela região é algo muito bom.  

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Foto 11.22 - As luzes começam a aparecer

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Foto 11.23 - Quase a escuridão

O Martin havia chegado na cidade, estava num jantar de negócios. Combinamos de encontrar ele no final da noite. Voltamos para o novo hostel e arrumamos nossas coisas. A fome, pra variar, era grande. Fomos até a cozinha preparar nossa janta. Conhecemos o Bruno no refeitório. Ele é gaúcho e tinha saído de moto dias antes de Porto Alegre. Viajava num ritmo alucinante, não parava pra aproveitar os lugares. Depois de mais de 5000 km rodados, Ushuaia foi o primeiro lugar que realmente parou pra conhecer um pouco da cidade. Ele partiria no dia seguinte. Depois saímos para caminhar pela cidade de novo. Caminhamos um pouco e demos de cara com o Martin. Não foi preciso combinar um lugar, os ventos patagônicos resolveram nos unir novamente. 

Fomos para uma lanchonete, conversamos bastante. Ele estava bem feliz que as vendas em Rio Grande e Ushuaia tinham sido muito boas. Ele já iria embora na manhã seguinte, iria começar o caminho de volta para casa e preparar-se para suas férias. Martin nos fez prometer se acontecesse algo conosco no restante da nossa viagem patagônica que entraríamos em contato com ele, pois ele dizia que tinha contatos em todas as cidades da Patagônia Argentina, devido suas relações comerciais. Prometemos. Ele ainda deixou as portas da sua casa aberta caso quiséssemos passar, novamente, em Puerto Madryn. Provavelmente, ele estaria viajando, mas o pai dele nos receberia. Não tínhamos essa intenção, mas vai saber o que o futuro nos reservaria.

Depois de umas horas, chegou o momento da despedida definitiva do Martin. Nós três estávamos meio sonolentos. Dei um abraço no Martin, desejei boa viagem e boas férias para ele. Agradeci por tudo o que ele havia feito por nós naqueles dias. Mais uma vez, ele disse que viria pro Brasil na Copa América. Assim, caminhamos no sentido contrário ao dele e prosseguimos para o hostel na noite fria de Ushuaia. 

Na manhã seguinte, arrumamos nossas mochilas, pois iríamos acampar no Parque Nacional Terra do Fogo. Ajeitamos apenas uma mochila cargueira e uma mochila de ataque com as coisas de cozinha e de camping, o restante deixamos no hostel. Partimos rumo ao parque caminhando. Cruzamos toda a cidade até a parte da Ruta 3 que conecta a cidade com a Bahia de Lapataia, que é o trecho final da Ruta 3. Nesse momento, começamos a erguer o dedão para os carros que passavam, pois eram mais de 10 km de distância. Até que enfim, conseguimos uma carona de caminhão na Argentina. Entramos no caminhão que lentamente avançava pela rodovia. O motorista compartilhou seu mate conosco. A viagem foi rápida, pois logo o motorista entrou numa empresa para carregar o caminhão e assim, voltamos a caminhar. Pouco tempo depois um carro parou para nós. Era um casal, um argentino e uma italiana, bem gente boa os dois. Entramos no parque, eles seguiriam de carro até a Bahia de Lapataia e ficamos na entrada da primeira trilha.

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Foto 11.24 - O caminho até o parque

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Foto 11.25 - Matheus querendo caronas

Enfim, agora estávamos a sós com a natureza e só dependia do nosso caminhar para percorrer todo o parque. Esse era nosso objetivo, fazer todas as trilhas do parque em dois dias. Começamos a caminhada. Seguimos pela trilha que leva até o Saltos del Rio Pipo. O início é lindo demais e o tempo estava limpo nesse momento. A trilha margeia os trilhos do trem do fim do mundo. Vimos o trem passando. O caminho é todo bonitão. O final da trilha é meio desanimador, é uma queda minúscula de água no Rio Pipo, mas vale muito a pena fazer a trilha pelo caminho que leva até ali.

Trilhas para mim é o meio mais democrático que existe. De nada importa quem você é, de onde veio e como chegou até ali, se quiser chegar no final do caminho vai ter que suar muito, vai ter que querer demais ver o fim, vai ter que superar a exaustão pra continuar. É você e você, não tem outro jeito. E acredite, os melhores lugares são os mais difíceis de se chegar. Então, um passo de cada vez, inspire, expire, sinta o lugar e continue. 

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Foto 11.26 - O que falar dessa beleza?

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Foto 11.27 - A montanha

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Foto 11.28 - Eu no caminho

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Foto 11.29 - O trilho

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Foto 11.30 - A mochila foguete

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Foto 11.31 - Tanto verde

Depois entramos no Caminho da Pampa Alta, que tem cinco quilômetros. Diferente do Saltos Del Rio onde caminha-se em vegetação aberta, na trilha da Pampa Alta o caminho é dentro de uma vegetação fechada. Na metade da trilha atingi-se o ponto mais alto, onde tem-se alguns bons mirantes. Em um trecho da trilha cruza-se a Ruta 3. A caminhada é tranquila mesmo carregando as mochilas. No fim da trilha anuncia-se o belíssimo Canal de Beagle. 

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Foto 11.32 - Matheus na caminhada

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Foto 11.33 - To chegando

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Foto 11.34 - A Ruta 3

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Foto 11.35 - Deboas na Ruta 3

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Foto 11.36 - Matheus e a Ruta 3

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Foto 11.37 - O fim do Caminho da Pampa Alta

Também é possível chegar de carro na enseada. Então, tinha muitas pessoas por ali. O bom que naquela parte tem alguma infraestrutura, aproveitamos para comer o nosso lanche. Alguns metros dali fica o Correio do Fim do Mundo, que fica dentro de um container as margens do Canal de Beagle. Muita gente vai no correio para carimbar seus passaportes e enviar postais do correio mais austral do mundo. O melhor de se estar por ali é a belíssima paisagem que tem-se de fundo. O Canal de Beagle é lindo demais.

O Canal de Beagle tem esse nome por causa da Viagem de Beagle. Essa viagem foi a responsável por mudar o rumo da humanidade para sempre. A bordo do navio Beagle estavam o comandante Robert FitzRoy e o naturalista Charles Darwin. Essa expedição tinha como objetivo principal o levantamento cartográfico da parte sul da América do Sul. A viagem durou quase cinco anos e foi através dela que Charles Darwin coletou evidências que lhe possibilitaram a elaboração da Teoria da Evolução.

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Foto 11.38 - O Canal de Beagle

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Foto 11.39 - O Correio do Fim do Mundo

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Foto 11.40 - Argentina

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Foto 11.41 - Matheus e o Canal de Beagle

Continuamos a caminhada. Seguimos pelo Caminho Costera, que margeia o Canal de Beagle. A trilha tem oito quilômetros. O caminho alterna entre trechos na mata e na orla. Essa caminhada também é tranquila, até tem algumas subidas, mas nada muito difícil. O melhor é a paisagem que se tem ao longo do percurso. Tudo é muito bonito e ter a companhia do Canal de Beagle é demais. O clima estava agradável, não estava nem quente e nem frio. Lembro de me desconectar nessa caminhada, somente pensava no quão era bonito aquilo tudo que eu presenciava. 

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Foto 11.42 - Matheus no Caminho Costera

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Foto 11.43 - Caminho Costera

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Foto 11.44 - Eu

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Foto 11.45 - Caminho Costera

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Foto 11.46 - Caminho Costera

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Foto 11.47 - Caminho Costera

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Foto 11.48 - Uma pausa na caminhada pra apreciar a paisagem

No final do Caminho Costera volta-se a Ruta 3. Caminhamos mais uns quatro quilômetros pela ruta até chegar em uma das áreas de camping do parque. Montamos a barraca, esperamos pelo guarda florestal, pois é necessário a verificação do guarda para poder acampar no parque, ele não apareceu. Ainda faltava algumas horas até escurecer, partimos para conhecer a Bahia de Lapataia e chegar no fim da Ruta 3.

Neste caminho tem bastante coisa para se ver. Passa-se pelo Paseo de la Isla, Laguna Verde, Laguna Negra, Castorera, Mirante de Lapataia até chegar na Bahia de Lapataia. Essa parte tem cinco quilômetros, mas como é realizado na Ruta 3 a maior parte dos visitantes vão de carro, van ou moto para esses lugares, só havia nós fazendo o trecho caminhando. No final tem a placa do fim da Ruta 3, a placa é disputada por motoqueiros que querem registrar o feito de percorrer todos os 3079 km da rodovia. A Bahia de Lapataia é o extremo sul da Ilha do Fogo. 

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Foto 11.49 - Quase no fim da Ruta 3

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Foto 11.50 - Laguna Negra

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Foto 11.51 - Laguna

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Foto 11.52 - Sempre

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Foto 11.53 - Quase o fim da Ruta 3

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Foto 11.54 - Enfim, o fim da Ruta 3

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Foto 11.55 - No sul do sul

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Foto 11.56 - Bahia de Lapataia

Agora quero falar de uma das coisas mais bizarras que já vi. Há 70 anos atrás foram introduzidos em Ushuaia vinte e cinco casais de castores. Os gênios miravam a criação dos castores para posteriormente vender suas valiosas peles. No entanto, o castor como espécie invasora modificou para sempre a flora dos arredores de Ushuaia. Sem predadores, os castores se procriaram até virarem praga. Porém, o estilo de vida destes castores coloca em risco a frágil flora do lugar. Os castores derrubam as árvores, modificam cursos de água, isso para melhorar os diques em que vivem. Assim, sem predadores, os castores estão por todas as partes destruindo grandes porções das florestas da Ilha do Fogo, causando um grande desastre ambiental para a região.

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Foto 11.57 - Errar é humano, mas quem perde é a natureza

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Foto 11.58 - Os castores

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Foto 11.59 - A explicação

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Foto 11.60 - O resultado da genialidade humana

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Foto 11.61 - O resultado dos castores na ilha

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Foto 11.62 - Fueda, né?

Voltamos para o nosso acampamento. Um pessoal chegou para acampar por ali também. Preparamos nossa janta, fizemos uma macarronada com seleta de legumes, atum e pimenta. Ficou boa demais, afinal, a fome era grande. Depois preparamos os lanches para a caminhada do dia seguinte, fizemos um bom patê de azeitona para passar nos pães. O guarda florestal chegou, tomou um mate conosco. Ao ver o guarda eu só conseguia pensar no desenho do Zé Colmeia, o guarda florestal se vestia igualzinho ao guarda do desenho. O guarda autorizou nosso acampamento. Depois disso, escureceu. Tentei ver as estrelas, mas o céu só tinha nuvens.

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Foto 11.63 - Minha barraca

Acordamos cedo e desfizemos acampamento. Voltamos pela Ruta 3 até a entrada das trilhas Hito XXIV e Cerro Guanaco. Para fazer o Cerro Guanaco é necessário se cadastrar na administração. Fomos até lá,  tivemos que esperar uma meia hora até o local abrir. Demos nossos nomes e deixamos a mochila cargueira no guarda volumes. Assim, começamos mais um dia de caminhada.

Caminhamos lentamente no início. Tinha umas dez pessoas que começaram a caminhada junto conosco. Depois de uma meia hora o lago Roca que se escondia ao lado mostra sua imensidão na frente do caminho. As montanhas ao fundo são um espetáculo a parte. No horizonte, no fim do lago tudo pertence ao Chile.

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Foto 11.64 - No aguardo pela autorização

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Foto 11.65 - O belo lago roca

Pouco tempo depois entramos na trilha que dá acesso ao Cerro Guanaco, a trilha tem um pouco mais de quatro quilômetros. No início entra-se numa mata fechada. Subida e mais subida. A umidade era grande e a pesada subida fez eu tirar minha roupagem de frio na fria manhã daquele dia. Mais subida. Esse trecho não é fácil. Depois de pouco mais de uma hora, chegamos no primeiro mirante, que por sinal é belíssimo com o Lago Roca ao Fundo. 

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Foto 11.66 - Que belezura

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Foto 11.67 - O mirante

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Foto 11.68 - Outra visão

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Foto 11.69 - Eu, Lago Roca e as montanhas

Continuamos na trilha. O quilômetro sequente é tranquilo, com alguns trechos planos e algumas subidas não tão ingrimes como as do primeiro quilômetro. Continua-se dentro de uma vegetação densa. No final da vegetação, no ponto de ataque ao topo do Cerro Guanaco, o trecho é um brejo, horrível aquilo. Apesar de muito cuidado, eu atolei um dos meus pés. Legal demais seguir com um pé molhado. Depois do brejo, é subir. Subir e subir. Muita subida. O último quilômetro é tenso demais, pois é muito ingrime e quanto mais sobe-se maior a velocidade do vento. Então, se manter de pé já é um desafio, subir é um desafio em dobro. Porém, a visão da subida é a coisa mais bonita que vi por Ushuaia. Cada passo, uma visão diferente daquela belezura. De verdade, é muito lindo aquele conjunto de paisagens. Olhando de norte, sul, leste e oeste é tudo belo. 

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Foto 11. 70 - Quase no brejo

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Foto 11.71 - Trilha Cerro Guanaco

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Foto 11.72 - Quantas cores em um mesmo cenário

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Foto 11.73 - Que beleza!

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Foto 11.74 - Muitas fotos pra por legendas =/

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Foto 11.75 - Matheus sofrendo na subida

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Foto 11.76 - Eu todo curvado subindo

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Foto 11.77 - Eu camuflado

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Foto 11.78 - Quase no topo, mas pausa pra apreciar isso ai

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Foto 11.79 - Lago Roca

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Foto 11.80 - A chuva chegando

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Foto 11.81 - Bahia de Lapataia

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Foto 11.82 - Tá foda legendar, acho que exagerei na quantidade de fotos

Avancei ao topo num ritmo alucinante, queria me testar. Logo depois um francês chegou também. Ficamos no topo de uma pedra apreciando aquela belezura de lugar. Com o tempo o topo foi se enchendo. Um tempo depois o Matheus chegou. Ele estava sem luva e sentia muito frio ali, tava todo tremendo. Comemos nossos lanches. Começou a chover. Ficamos ali na esperança que fosse uma chuva passageira. Quase todos os caminhantes rumaram de volta. Insistimos mais um pouco, mas não resistimos ficar naquele frio somado com vento forte e chuva. Resolvemos descer também.

O clima em Ushuaia é um espetáculo a parte. Pensa em algo instável, é o clima lá. Em um momento, está um sol de rachar mamona, dez segundos depois o céu está fechado num cenário totalmente melancólico. E assim, vai se alternando diversas vezes por dia. Me lembrei do topo do Monte Roraima, onde o clima é igualmente instável. 

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Foto 11.83 - O topo

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Foto 11.84 - A visão do topo

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Foto 11.85 - Que lindo

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Foto 11.86 - Ushuaia ali embaixo

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Foto 11.87 - Registro do Matheus chegando ao topo

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Foto 11.88 - Enfim, o topo do Cerro Guanaco

O caminho de volta foi tranquilo no início. Agora caminhávamos de frente ao Lago Roca, beleza de visão. A cada metro que descíamos, menos o frio incomodava. Quase escorreguei algumas vezes. No trecho do brejo, dessa vez atolei os dois pés. Que merda foi aquilo. Os dois pés molhados, chovendo e muito frio. Depois disso, caminhar foi um sofrimento. Já sentia as bolhas nascendo. Paramos mais uma vez no primeiro mirante. E a descida final foi o trecho mais difícil para mim por causa dos pés. Não tomei o devido cuidado com os pés e me fodi. Regra número um de qualquer trilheiro: deixe os pés sempre secos.

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Foto 11.89 - Matheus retornando

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Foto 11.90 - A felicidade de subir mais uma montanha

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Foto 11. 91 - Encarar os brejos novamente

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Foto 11.92 - Curto demais essa foto

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Foto 11.93 - Passamos pelo brejo

Voltamos ao início da trilha. Sentei e tirei as botinas. Aproveitamos para comer também. Ainda faltava a trilha do Hito XXIV, mais oito quilômetros ida e volta. O certo seria abortar esta trilha, mas vai saber se voltarei um dia. Descansamos quase uma hora e seguimos para nossa última trilha no parque. A trilha margeia a todo tempo o lago Roca. A dificuldade do caminho quase não existe, pois em todo momento o caminho é plano. O legal que tem umas prainhas no meio do caminho, bem bonitas. O fim da trilha é a divisa entre Argentina e Chile.

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Foto 11.94 - Lago Roca

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Foto 11.95 - Limite entre Argentina e Chile

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Foto 11.96 - Matheus em dois países ao mesmo tempo rsrs

A volta foi bem tranquila, os pés estavam melhores. O cansaço dos dois dias de caminhadas intensas já era visível. Afinal, caminhamos mais de trinta quilômetros por dia. Pegamos a cargueira de volta e seguimos pela Ruta 3. Menos de um minuto de caminhada, erguemos o dedão para um carro que parou. Hector, o motorista, é guarda florestal do parque. Fomos conversando até a entrada do parque. Lembro que ele tava preocupado porque iriam asfaltar a Ruta 3 dentro do parque, isso na visão dele era muito ruim, eu concordei. Depois, seguimos caminhando um pequeno trecho. Minutos depois um casal israelense parou o carro para nós. Os dois tinham acabado de deixar o serviço militar em Israel e agora estavam explorando a América do Sul. Ficamos no centro de Ushuaia.

Fomos até o letreiro de Ushuaia. Numa praça próxima, começamos a comer nossos últimos lanches. Um mundaréu de gaivotas se aproximou (risos). A todo momento o número de gaivotas aumentava. Quando percebemos que o conflito entre nós e as gaivotas seria inevitável por causa dos nossos pães, escondemos a comida e partimos com todo o cuidado do mundo. Seguimos até o centro de informações para usar internet e decidir onde dormiríamos naquele dia. 

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Foto 11.97 - Ushuaia

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Foto 11.98 - Ushuaia

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Foto 11.99 - Ushuaia

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Foto 11.100 - Ushuaia

Com o "sumiço" do nosso contato em Ushuaia, eu tinha tentado estadia na cidade através do couchsurfing. Quando acessamos a internet no centro de informações, vi que eu tinha um aceite de hospedagem na casa da Anahi. Seria só por aquela noite, pois no outro dia cedo já partiríamos para El Calafate.

Voltamos para o hostel, pegamos o restante das nossas coisas e partimos para a casa da Anahi. Chegamos na casa, sua amiga nos recebeu, pois ela só chegaria mais tarde. Tinha um cara bem curioso na casa delas, ele havia de acabar o serviço de cortar a grama do quintal e aproveitava para tomar um mate. Deixamos nossas coisas de lado e começamos a conversar com os dois. 

O cara fazia todo o tipo de serviço e sonhava em ter diversos negócios para se mudar e viver deboas em alguma praia de clima quente. Assim, o assunto girava em torno de dinheiro. Ele tinha uma teoria sobre o dinheiro que me chamou a atenção, ele disse mais ou menos assim: "Você tem que ver o dinheiro como se fosse uma pessoa. Melhor, ver como se fosse uma relação entre pessoas. Tipo, se você está desesperado para estar junto com uma pessoa, essa pessoa se afasta de você. A mesma coisa com o dinheiro, se você está desesperado para ter dinheiro, ele não vem. Porém, se você não está nem ai pra pessoa, ela também se afasta de ti. A mesma coisa com o dinheiro, se você não quer ele, ele também não vai te querer. Portanto, a relação tem que ser a de querer, mas sem querer.". Fiquei pensando muito sobre isso depois, mas não pela parte do dinheiro e sim na parte que ele dizia porque as pessoas se afastavam uma da outra.

Tomei banho, depois comemos os miojos que carregávamos desde o início da viagem. Anahi chegou e conversamos um pouco, ela é dançarina e muito simpática. Logo, ela saiu de novo, pois tinha um aniversário para ir. Assim, ficamos conversando mais um pouco com um pessoal que chegou na casa. Uma coisa que reparei que todos os ushuaianos (risos) não gostam de morar lá, e sempre perguntam o porquê de nós querermos viajar até a cidade. Nas conversas desta noite isso ficou muito claro. Por fim, dormimos.

Era quatro da manhã o horário que acordamos. Ajeitamos nossa mochila e seguímos para o lugar que o ônibus sairia, pois não tem rodoviária em Ushuaia. O frio era intenso e para melhorar começou a chover forte. Depois de uns vinte minutos de caminhada chegamos. Colocamos nossas mochilas no bagageiro do ônibus e subimos na parte de cima do busão em busca das nossas poltronas. 

A falta de lugar pra ficar somado com a restrição de dias do nosso contato em El Calafate, apressou nossos dias em Ushuaia. Nada que eu possa reclamar, pois aqueles quatros dias foram demais. Deixamos de conhecer muita coisa na cidade, mas curti muito o que tivemos a oportunidade de conhecer. O Parque Nacional da Tierra del Fuego é o ponto alto do tempo em Ushuaia. Estar ali, cercado de montanhas e no meio de uma natureza ímpar faz tudo valer a pena. Overdose de beleza a todo momento. Os diversos lagos junto com o Canal de Beagle e as montanhas nevadas estampa sorriso no rosto de qualquer um. 

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Parte 12 - El Calafate, Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino

"O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia." O paradoxo andante, Eduardo Galeano

Eu estava dormindo, mas o Matheus disse que no caminho entre Ushuaia/Rio Grande nevou bastante. Queria ter visto, mas o sono me venceu. Acordei para dar entrada em território chileno e voltei a dormir. Fui acordar em definitivo próximo ao Estreito de Magalhães, o céu tava todo aberto e não havia sinal de chuva, muito menos de neve. A travessia pelo estreito não teve a mesma magia que da primeira vez. Entretanto, o céu estava mais bonito nesse dia.

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Foto 12.1 - Novamente, o Estreito de Magalhães

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Foto 12.2 - O caminhão adentrando a Terra do Fogo

A viagem seguiu. Passamos pela aduana e voltamos para a Argentina. No fim de tarde, chegamos em Rio Gallegos. Descemos na rodoviária, saímos pra comer alguma coisa. Logo voltamos e entramos no ônibus com destino El Calafate. Agora cortávamos a Ruta 40. A viagem estava tranquila até sermos parados pela fiscalização policial. Os policiais entraram no ônibus, pediam os documentos e com isso: eu, Matheus, e mais três pessoas fomos "convidados" a descer do ônibus para revistarem nossas mochilas.

Levaram-nos para uma salinha com mais uns seis policiais. As outras pessoas foram levadas para salas diferentes. Primeiro revistaram nossas mochilas. Eu só pedia para os céus para não serem policiais corruptos. Puta trampo que é ajeitar a mochila e agora tava todas nossas coisas jogadas na mesa. A inspeção continuava. O policial chamou a atenção para a quantidade de condimentos que levávamos conosco, perguntou por que de tudo aquilo, eu disse "Cozinhamos mal, ai usamos pimenta pra disfarçar o sabor" (risos). Pela primeira vez, os policias esboçaram uma amistosidade, até disseram que uma de nossas panelas era muito ruim. Chegou a hora da revista pessoal. Descobriram o dinheiro que carregava comigo espalhado pelo corpo. Tudo o que eu tinha estava na mão do policial. Era a hora de saber se eu iria me foder ou não. Congelei. O policial juntou todo o dinheiro e me devolveu. Ufa! Depois foi a vez do Matheus, quando tiraram o dinheiro dele (para a revista) pediram para ele ficar olhando para depois não achar que pegaram algo, achei legal isso. Ainda sim, depois de toda a revista, ficamos mais um tempo esperando, enquanto eles decidiam sobre nós. Creio que tudo durou mais ou menos uma hora. Foi muito tempo. Quando o policial me devolveu o passaporte, um alívio tomou conta de mim.

A viagem seguiu tranquila até El Calafate. Chegamos era mais de uma hora da manhã. Estávamos sem internet, o Matheus pediu o celular emprestado para uma pessoa e conseguimos avisar a Cláudia que havíamos chegado. Ela veio nos buscar na rodoviária. Seguimos para a casa dela. Ela aprontou um mate. Conversamos muito pouco com ela nessa madrugada, ela tinha que trabalhar cedinho no mesmo dia. Depois de terminar o mate, eu capotei.

El Calafate é uma pequena cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, situada no extremo sul da parte continental da América do Sul. Seu nome é devido ao fruto típico de sua região, o Calafate, que é utilizado na confecção de doces. A cidade abriga dois dos principais pontos turísticos da Argentina: O Lago Argentino e o Glaciar Perito Moreno.

Acordamos para o café da manhã. Agora com mais calma conversamos com a Cláudia. O Matheus havia conseguido o contato dela através do seu amigo Federico, que é um argentino que passou um tempo em Jericoacoara no hostel que ele trabalhava. Então, a conversa seguia entorno do Federico. Eu não conhecia-o, pouco falei. Pouco depois, ela seguiu para o trabalho.

Cláudia é uma doçura de mulher, trabalha como pedagoga e gosta muita de música. Veio para El Calafate junto com o ex marido logo após o casamento, para fugir da falta de emprego que o norte do país enfrentava e tentar a vida no rico sul.

Depois de todos os dias de abstinência musical, onde apenas ouvia música se tivesse tocando no ambiente em que eu estava. Resolvi usar o rádio da casa e, com o volume no máximo, ouvi as músicas que tinha vontade de ouvir. Devo ter colocado umas cem vezes pra tocar a música S.O.S. do Raul Seixas e outras cem vezes Entretanto com a Martnália e o Moska. Fiquei bastante pensativo nesse momento. Pela memória refiz toda a viagem e senti o quanto havíamos tido sorte até então. Uma decisão nasceu dentro de mim nesse momento.

Saímos rumo a rodoviária. O entorno da casa da Cláudia é todo bonito com alguns morros em volta, destacando-se como o mais alto o Morro El Calafate. Porém, o que mais chama atenção é o Lago Argentino na parte baixa da cidade. Que lindeza de cor daquele lago. Seguimos caminhando lentamente. Chegamos na rodoviária e compramos nossas passagens para o ônibus de acesso ao Parque Nacional Los Glaciares. 

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Foto 12.3 - Arredores da casa da Cláudia

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Foto 12.4 - Matheus nos arredores da casa da Cláudia e no fundo o belíssimo Lago Argentino

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Foto 12.5 - El Calafate

Entramos no ônibus lotado de turistas de todos os cantos do mundo. Quase todo o caminho até o parque, margeia-se o Lago Argentino. Fiquei encantado por aquele lago e aquela cor. A viagem já valeria a pena, apenas por percorrer parte do lago. O dia estava muito bonito, mas quanto mais nos aproximávamos do parque, mais nuvens surgiam no céu. Na entrada é necessário pagar setecentos pesos argentinos para adentrar ao parque. 

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Foto 12.6 - Lago Argentino

O Parque Nacional Los Glaciares é um dos patrimônios naturais nomeados pela UNESCO, e é um imenso parque lotado de glaciares e montanhas por todos os lados. O parque é dividido entre norte e sul. Na parte norte do parque encontra-se El Chaltén e suas montanhas. Já na parte sul, que fica em El Calafate, é onde fica o famoso Glaciar Perito Moreno. No Parque Nacional Los Glaciares encontra-se os maiores glaciares do mundo fora das zonas polares. 

Poucos passos dentro do parque e já avistamos o Glaciar Perito Moreno. O que é aquilo? Lindo demais. Sempre achei que quando eu estivesse de frente com o Glaciar Perito Moreno eu me decepcionaria. Errei completamente, aquilo é um espetáculo para os olhos, era algo completamente diferente de tudo que eu havia visto na vida. Fiquei atônito nos primeiros minutos, ou melhor, fiquei atordoado. Nunca tinha visto o Matheus tão admirado com um lugar como com o Glaciar Perito Moreno. 

O Glaciar Perito Moreno foi batizado com esse nome em homenagem ao naturalista e explorador argentino conhecido como Perito Moreno. Ele realizou diversas viagens para Patagônia na segunda metade do século XIX, e em uma dessas viagens "descobriu" (ou seja, o primeiro a registrar a existência do glaciar) o glaciar que hoje leva seu nome.

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Foto 12.7 - A primeira visão do Glaciar Perito Moreno

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Foto 12.8 - Lindo, não?

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Foto 12.9 - Parque Nacional Los Glaciares

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Foto 12.10 - Eu me aproximando do glaciar

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Foto 12.11 - Glaciar Perito Moreno

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Foto 12.12 - Gigantesco

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Foto 12.13 - O morro e o glaciar

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Foto 12.14 - Matheus e o Perito Moreno

A beleza do lugar é divina, mas o melhor de se estar de frente com o Glaciar Perito Moreno está no que se ouve. Geralmente, não se ouve nada. Silêncio absoluto. Pois, todos respeitam aquela divindade em forma de gelo e, apenas, contemplam sua beleza. Dificilmente, você vai ouvir pessoas conversando. O silêncio predomina. O êxtase surge no momento em que o silêncio é quebrado, os gelos se rompem do glaciar fazendo um som parecido com um trovão. Esse som te põe em outra dimensão. É demais. Faz te arrepiar todo. Depois de presenciar isso pela primeira vez, você só quer ficar parado e mudo, na esperança que isso aconteça de novo e de novo, para sentir toda aquela emoção outra vez.

Apesar dos rompimentos de gelo constantes que ocorrem no Glaciar Perito Moreno, este é o único glaciar que ainda cresce na Patagônia. Enquanto que com o passar dos anos o glaciares diminuem e vão desaparecendo, o Perito Moreno continua a ser um glaciar estável, ou seja, com pouca alteração no seu tamanho, e até registrando um pequeno aumento em suas dimensões.

Vale a ressalva, para falar sobre a estrutura do parque que é muito boa. Existem quilômetros e quilômetros de plataformas em volta do glaciar para poder apreciar de diferentes ângulos aquela beleza de lugar. Além de o parque oferecer outros tipos de passeios como a viagem de barco até bem próximo a parede do glaciar e um mini trekking em cima do glaciar. Esses passeios extras são bem caros, mas confesso que, principalmente o trekking, fiquei com muita vontade de fazer.  

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Foto 12.15 - Glaciar Perito Moreno e o Lago Argentino

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Foto 12.16 - O mar de gelo

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Foto 12.17 - Onde o lago vira gelo

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Foto 12.18 - Eu e o glaciar

Depois de muito tempo de frente com o Perito Moreno, andamos pelas plataformas em direção contrária ao glaciar. O Lago Argentino, por aqui, não tem aquela mesma coloração que me encantou nas proximidades de El Calafate. Isso deve-se ao desprendimento das geleiras que agitam o fundo do lago e modifica sua coloração. Ainda assim, é belo, mas de um jeito menos estonteante. Creio que isso acontece para o personagem principal daquele canto de mundo ser, apenas, o Glaciar Perito Moreno.

Ficamos sentados o mais distante possível do glaciar. Sentamos numa pedra, ainda calados. Comemos. Os escandalosos trovões quebravam o silêncio de tempos em tempos. As únicas palavras que saiam de nossas bocas eram coisas do tipo "Caralho! Isso aqui é dahora demais". 

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Foto 12.19 - Lago Argentino

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Foto 12.20 - Lago Argentino

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Foto 12.21 - Lago Argentino

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Foto 12.22 - Perito Moreno visto de longe

Caminhamos de volta rumo a entrada para esperar o ônibus. O sol estava mais baixo e as cores do glaciar estavam mais bonitas. Agora, a iluminação era melhor e o que era belo se tornou belíssimo. Os passos eram lentos, o fascínio por aquele lugar não terminava. De certa forma, não queria que esse momento terminasse.

Na espera pelo ônibus fiquei grudado no parapeito do primeiro mirante. Devo ter ficado mais de meia hora por ali, olhando fixamente para o glaciar e acompanhando o sol descendo ao fundo. Não conseguia parar de olhar. O olhar fixo, nesses últimos minutos no parque, era a minha maneira de me despedir daquela divindade em forma de paisagem. Não tem como não se sentir um cisco na Terra diante daquilo. A natureza tem esse dom, o de fazer você se sentir tão pequeno, mas ao mesmo tempo te fazer sentir tão privilegiado de presenciar sua própria pequenez. Acho que o respeito a mãe natureza nasce disso, de se sentir pequeno diante de sua imensidão e de enxergar que tudo está conectado nesse mundo. O ônibus chegou, dei uma última olhada no mar de gelo na minha frente. Sem olhar pra trás e sem pensar em nada, subi no ônibus. 

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Foto 12.23 - Pouco lindo, né?

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Foto 12.24 - Glaciar Perito Moreno e Lago Argentino

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Foto 12.25 - A última visão do glaciar Perito Moreno

Voltamos para a El Calafate. Tínhamos prometido para a Cláudia que faríamos a comida pela noite, passamos no mercado para comprar os ingredientes do jantar. Caminhamos de volta para a casa. O vizinho da Cláudia, o José Luis e seu filho também jantariam conosco. Antes de chegarmos na casa da Cláudia, o José Luis se apresentou para nós, muito simpático ele. Começamos a preparar a nossa já "famosa" lentilha (receita do Matheus). Colocamos música alta para ajudar no preparo, enquanto que a Cláudia e o José foram atrás de cervejas.

Preparamos a mesa. O filho do José Luis não quis comer nossa comida, ele trouxe um miojo. Enfim, comemos. A comida tava bem boa, desta vez preparamos uma salada também. Experimentei a cerveja Imperial, da qual gostei bastante. A música de fundo era boa, as conversas iam aumentando conforme as garrafas de cervejas iam esvaziando. 

José Luis é professor de geografia do ensino médio. Ele nos explicou muitas coisas sobre as questões políticas e sociais da Argentina. Passar a noite ali, tendo uma aula gratuita regada a cerveja foi bem bom. Ele nos explicou sobre a divisão da Patagônia entre Chile e Argentina. Falou sobre a Guerra das Malvinas. Questionou o governo Macri e sobre seu governo ser péssimo para o sul do país. José falou sobre os parques nacionais e nos informou que o Parque Nacional Los Glaciares era o segundo mais visitado da Argentina, só perdendo para o Parque Nacional Iguazú.  

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Foto 12.26 - O jantar (Matheus, Eu, Ale, José Luis e Cláudia)

Das coisas que mais me chamou a atenção nos ensinamentos de José Luis, foi a questão do presidente Roca e o povoamento da Patagônia. Eu já havia lido algumas coisas sobre o assunto, mas saber de detalhes e da forma fria que isso foi feito, me marcou bastante. O presidente Roca e a Patagônia estão diretamente ligados, é muito fácil ver o nome do Roca em tudo o que é lugar, só de lagos conheci dois lagos chamados Roca, avenidas são incontáveis. O fato é que o ministro da guerra/presidente Roca no final do século XIX estimulou a matança dos indígenas patagônicos, para assim dominar as terras do sul da América do Sul. Sua desculpa para tal fato é que se os argentinos não fizessem, os chilenos fariam e dominariam tais terras. Quem ia para guerra contra os desavisados índios ganhava uma porção de terra, e assim, a Argentina foi povoando a Patagônia com os de sangue de seu próprio sangue, leia-se o sangue de estrangeiros europeus. Matava um índio e colocava um "argentino" no lugar para cuidar das terras. Para resumir, o que aconteceu foi um genocídio dos índios mapuches na Patagônia Argentina, com a sempre eficaz desculpa do desenvolvimento e de um inimigo imaginário.

Ainda falamos sobre futebol e a precoce eliminação do River Plate no mundial de clubes. A discussão Messi x Maradona surgiu e acabou de forma rápida. Pois, José Luis e a Cláudia diziam: "Maradona jogava sozinho, o Messi precisa de um time". Assim, a questão estava resolvida. Ficamos também um bom tempo comparando Brasil e Argentina na questão social, histórica, política e no futebol. Já era madrugada, quando o José Luis foi embora. Logo em seguida, fomos dormir.

Agora quero voltar aquela decisão tomada no início deste dia. Primeiro, eu pensei na possibilidade e fui falar com o Matheus. Juntos transformamos a possibilidade em decisão, mas antes de falar sobre a decisão tomada quero falar um pouco dos nossos planos de início de viagem.

Nossa viagem desde o início foi dividida em três etapas. A primeira era chegar em Ushuaia percorrendo a Ruta 3. A segunda etapa era conhecer El Calafate e El Chaltén. A terceira seria o caminho de volta. No caminho de volta, queríamos percorrer toda a Patagônia Andina pela Ruta 40, de El Calafate até Mendoza. O Matheus sonhava mais alto, queria chegar até Purmamarca, no norte da Argentina, que tem como acesso a própria Ruta 40. Quando saímos de Rio Claro, mal sabíamos se iríamos conseguir chegar em Ushuaia, e agora já estávamos em El Calafate. Dias antes, já estávamos fazendo planos e arrumando contatos de hospedagem para cidades que queríamos conhecer pela Patagônia Andina, tipo: Bariloche, San Martin de los Andes e El Bolsón. Voltar pela Ruta 40 era possível. 

No entanto, havia feito algumas contas na cabeça. O restante do nosso dinheiro dava para fazer o caminho de volta de ônibus até a fronteira com o Brasil e sobrava algum dinheiro que dava para conhecer El Chaltén. Outra opção seria apertar esse dinheiro, como havíamos feito até aqui, e seguir pela Ruta 40, o problema é que se precisássemos pegar ônibus pela Ruta 40 (que é muito mais caro que pela Ruta 3) quando caronas não rolassem, o dinheiro acabaria rapidamente e ficaríamos sem grana para comer (comida é caro na Patagônia). Enfim, escolhemos a opção conservadora.

Novamente, acompanhamos a Cláudia no café da manhã. Ela sairia de férias daqui a dois dias e viajaria para rever a família em Formosa no norte argentino, estava bem animada por isso. Nessa manhã, ela contou a sua história, contou sobre seu casamento, os motivos dela ter viajado para o sul, sobre o término do casamento, sobre seu novo namoro, sobre a vida difícil que se tem no norte do país. Foi muito legal a conversa e a confiança que ela já depositava em nós.

A Cláudia nos aconselhou em ir tomar mate nos arredores do Morro El Calafate naquela manhã. Esquentamos a água, colocamos na térmica e fomos. Estranho aquele cenário desértico no qual estávamos ser tão próximo do exuberante Glaciar Perito Moreno. Adentramos em diversas trilhas, nos perdemos bastante, mas conseguimos achar uma boa sombra para ficar de bobeira tomando mate. O arredor do Morro El Calafate é muito bonito, com um grande cânion e um rio embaixo para dar um charme ao lugar.

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Foto 12.27 - Trilha

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Foto 12.28 - O caminho para a sombra

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Foto 12.29 - O rio

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Foto 12.30 - O Lago Argentino anuncia-se ao fundo

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Foto 12.31 - Admirando o Lago Argentino

Fomos para a rodoviária e compramos nossas passagens de ida e volta para El Chaltén, além de comprar nossa passagem de El Calafate até Buenos Aires. Depois, seguimos em direção ao Lago Argentino. Caminhando pelo centro da cidade encontramos o Bruno, o motoqueiro que havíamos conhecido em Ushuaia. Conversamos um pouco, ele passaria mais uns dias em El Calafate e depois rumaria para El Chaltén, combinamos de nos encontrar em El Chaltén. Seguimos a caminhada rumo ao Lago Argentino.

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Foto 12.32 - El Calafate

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Foto 12.33 - El Calafate

Tem uma definição do Fernando Birri sobre utopia que é a seguinte: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”. A busca pelo Lago Argentino neste dia tinha um pouco desta utopia, pois víamos o lago e ele parecia estar muito próximo. Caminhávamos, caminhávamos, e parecia que o lago ficava mais distante. Caralho! Teve uma hora que parecia que o lago estava a alguns passos, mas nada, andava, andava e a cada passo parecia que se distanciava mais. Uma hora, não aguentei e sai correndo. 

Cheguei a beira do lago, olhei para trás e uns pássaros esboçavam atacar o Matheus. Sentei e fiquei em silêncio por um tempo só observando o meu redor. O melhor de tudo foi ver uma infinidade de pássaros sobrevoando aquele azul vibrante. Não tenho muito o que falar, a não ser dizer que aquele lugar é lindo demais.     

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Foto 12.34 - Esse lago que não chega

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Foto 12.35 - Lago Argentino

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Foto 12.36 - Lago Argentino

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Foto 12.37 - Matheus e o Lago Argentino

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Foto 12.38 - A paz

A família Kirchner tem uma casa em El Calafate. O falecido ex-presidente Nestor Kirchner é natural de Rio Gallegos e já governou a província de Santa Cruz também (El Calafate é uma cidade da província de Santa Cruz, cuja a capital é Rio Gallegos.). Neste dia, tinha um rebuliço na cidade, pois existia um boato que a ex-presidenta Christina Kirchner estava na cidade. 

Voltamos para a casa da Cláudia. Fizemos cachorro quente a la brasileira. Comemos bastante. Conversamos e ouvimos muita música. A noite foi leve e muita boa. No dia seguinte arrumamos nossas coisas e ficamos de bobeira o resto da manhã. Esperamos a Cláudia para almoçar, comemos o restante do cachorro quente. Ela nos levou até a rodoviária, com um abraço apertado me despedi da Cláudia. Corremos para o ônibus que já estava partindo.

El Calafate é um dos lugares mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer. As fotos não traduzem em nada o que é o lugar, pois o melhor é a experiência sensorial que a cidade proporciona. Falando na cidade, ela tem uma ótima estrutura para receber turistas, cheia de hotéis, hostels e restaurantes. O clima no verão é muito agradável e como quase todos os lugares na Patagônia, é um lugar seguro de caminhar e de se estar. Os dias na cidade foram muito bons para mim e conviver com a Cláudia fez tudo ficar mais leve. Só tenho a agradecer a Cláudia por abrir a porta de sua casa e nos receber com sua alegria. Muito obrigado Cláudia, um beijo e toda paz em seu caminho.

 

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    • Por RafaelOS
      Olá pessoal!! 
       
      Tenho um grande sonho pela Patagônia tanto chilena quanto Argentina e sonho em conhecer Ushuaia, porém não tenho noção de valores, não me importo com hotéis  chiques, gostaria de saber se com 3mil reais é possível conhecer esse lugar por pelo menos 1 semana? 
    • Por Fernando Leite
      Olá, pessoal. 

      Estou começando a pesquisar e planejar uma viagem tendo como destino principal Ushuaia. Estava pretendendo ir entre julho - outubro, dependendo de preço e condições de viagem nos lugares. Dei uma olhada em Bariloche também e estou vendo se seria possível (em uma viagem de até 30 dias) conseguir fazer Montevidéu -> Buenos Aires -> Ushuaia -> (aberto a sugestões de passeios e trilhas entre a parte argentina e chilena). 

      Gostaria de sugestões sobre a parte da volta, se alguém conhece algum outro destino legal e que dê para aproveitar um preço bom para a volta para o Brasil. Também estava avaliando se seria possível passar por Bariloche no rumo de volta de Ushuaia ou se não vale a pena. E a outra dúvida é se é realmente uma mal escolha de meses para ir para a Patagônia (pelo inverno). Alguém tem alguma contribuição? é minha primeira viagem internacional, então não tenho nenhuma experiência 🙃.

      Aliás, estarei saindo do Paraná.
    • Por rafael_santiago
      Porteira da Estância Túnel
      Início: aterro sanitário de Ushuaia (desagradável, mas dá para evitar)
      Final: Playa Larga
      Distância: 21,9km
      Maior altitude: 327m
      Menor altitude: 0m na foz do Rio Encajonado
      Dificuldade: fácil por ser por trilha bem marcada (ou estradinha fechada a carros) e desnível positivo de apenas 308m.
      A leste da cidade de Ushuaia, às margens do Canal de Beagle, está o balneário de mar dos fueguinos, a Playa Larga, uma praia de pedrinhas de cerca de 1km de extensão. Continuando pela costa se encontram algumas estâncias (fazendas), sendo a mais próxima a Estância Túnel. Depois dela chama a atenção um rio que corre por dentro de um profundo cânion antes de desaguar no Beagle, o Rio Encajonado (encaixotado). Para não ir e voltar pelo mesmo caminho até o Rio Encajonado desenhei um percurso que chega à Estância Túnel pela serra e retorna pela costa. Essa foi a diversão desse dia, que começou ensolarado e terminou com muita chuva e vento frio, típico de Ushuaia.
      Esse percurso de ida pela serra tem o inconveniente de passar ao lado do basural, o aterro sanitário de Ushuaia. Não é tão horrível, mas para quem preferir evitar basta fazer o mesmo trajeto pela costa na ida e na volta.
      17/02/2020 - Saí do hostel um pouco tarde, às 9h35. Os dias longos do verão no extremo sul do continente deixam a gente bem relaxado com relação ao horário das caminhadas. Os argentinos por exemplo muitas vezes iniciam as caminhadas no meio da tarde. Há luz do dia até depois das 21h30 nessa época (fevereiro). 
      Na Rua Gobernador Deloqui, no centro de Ushuaia, peguei o ônibus da linha B (poderia ser o da linha A também, porém na Avenida Maipu) e desci às 10h10 no ponto da Rua Pioneros Fueguinos quase esquina com a Perito Moreno, que ali é uma rodovia. Cruzei a Moreno e procurei o melhor lugar à direita para descer ao Rio Olívia. Cruzei-o por uma ponte estranha (altitude de 19m) e tomei a estrada de terra poeirenta para a esquerda, subindo. Para mim, pior que o basural é esse trecho de 530m em que os carros e caminhões de lixo passam e cobrem a gente de poeira. Mas passado o portão do basural não circulam mais carros. Cerca de 920m após a ponte chego às 10h25 a uma porteira azul de ferro com cadeado mas com um portão ao lado. Ali a estradinha faz uma curva para a direita (leste) e sobe mais forte. Para trás a visão de Ushuaia e do Canal de Beagle vai se ampliando. 

      Foz do Rio Encajonado
      Quase no topo da estrada há uma bifurcação em que se deve seguir à esquerda fazendo uma curva em S ou tomar uma trilha-atalho no meio das duas ramificações (não seguir na estrada à direita). A estrada toma o rumo leste e vai percorrer a distância a face sul do Cerro Le Cloche. Foi aí, após uma porteira, que eu procurei uma trilha (relato aqui) para subir esse cerro e não encontrei. Seria preciso subir pelo bosque sem trilha e depois pela encosta de pedras/lajes soltas sem caminho definido também, creio eu, o que chega a ser um pouco arriscado. Continuando pela estradinha, às 11h33 cheguei a um largo com uma casa de madeira que parecia em construção. Não havia ninguém. Cruzei o riacho pelas pedras e subi à esquerda. Cerca de 520m depois da casa surge uma trilha bem marcada entrando no bosque à direita. Esse é um outro caminho que desce à costa mas eu queria tomar a descida que dá diretamente na Estância Túnel, portanto tinha de continuar até o final da estradinha. Logo atingi o ponto mais alto da caminhada, 327m.
      Às 12h07 passei por um curral vazio à direita e com mais 7min a estrada vira uma trilha entrando no bosque. Na bifurcação 90m depois uma seta aponta para a direita mas vou para a esquerda. Mais 70m e continuo em frente num cruzamento de trilhas. Parei para almoçar junto a alguns troncos caídos. Apesar de não ter visto sinal de vida comecei a ouvir barulho de motosserra. Retomei a caminhada às 12h45 e a trilha toma o rumo sul, descendo. Apareceram algumas vacas e logo cruzei com um homem a cavalo e seu fiel cachorro. Às 12h57 apareceu uma bifurcação, fui para a direita, mas tanto faz pois se encontram mais abaixo. 
      Às 13h19 entroncou uma trilha à direita que é uma das ramificações daquela primeira trilha de descida. Com mais 210m cheguei à Estância Túnel, às 13h25. Ali há uma casa e currais com vacas e cavalos, mas não vi ninguém. 
      Meu próximo objetivo era o Rio Encajonado, a 2,8km dali caminhando pela costa no rumo leste. Fui então para a esquerda. A trilha corre um pouco alta, não pela margem do canal. Cruzei com três pessoas voltando e depois com mais três ou quatro. Interessante notar ali as árvores que cresceram completamente inclinadas pela ação do vento! Ao chegar ao Rio Encajonado às 14h20 encontrei um argentino que tinha chegado de bicicleta até ali. Ele disse que cruzou o rio junto ao canal e não viu continuação da trilha. Disse que a água estava gelada. Nesse local de chegada se vê o rio correndo lá embaixo no fundo do cânion. Há até uma "ponte" sobre ele mas exige muito equilíbrio e sangue frio pois é um tronco fino com duas cordinhas finas como corrimão. Nem pensar que eu passaria ali, aliás não conseguia chegar nem perto dessa "ponte" pela altura das paredes do cânion. 
      Com informações contraditórias restou a dúvida se a trilha continua ou não. Provavelmente sim mas eu não quis entrar naquela água gelada para explorar do outro lado. Seria só uma exploração para voltar em outra ocasião já que não havia tempo para seguir mais à frente e voltar no mesmo dia à cidade. A nota ruim ali naquele local bonito era um touro que despencou e jazia bem na embocadura do rio...

      Será que venta muito?
      Depois chegaram mais três garotas mas logo foram embora. Iniciei o retorno às 16h06, passei pelas casas da Estância Túnel às 17h e continuei pela costa. Cruzei a porteira de entrada da fazenda e uma placa ali aponta o Rio Encajonado à direita, subindo. Não devem querer que fique gente passando bem na porta da casa deles. Às 17h17 cheguei a uma bifurcação onde o melhor caminho é pela direita, o da esquerda é ruim, desce e sobe muito. Entrei num bosque e na saída dele vem da direita outra ramificação daquela primeira trilha de descida. Cruzei um riacho (com origem naquela casa de madeira lá em cima) por dois troncos e saí do bosque. Ali à esquerda num morrote está o Mirador San Sebastian. Algumas vacas na trilha, um extenso bosque e cheguei às 18h13 a uma porteira. Uma placa ali alerta para o futuro desaparecimento dessa trilha por causa da construção de uma estrada! Com mais 4min cheguei a um final de estrada de rípio com um estacionamento e cinco carros. Há ali uma torre de ferro chamada Baliza Escarpados pertencente à Marinha Argentina.
      Comecei a andar pela estrada e veio a chuva. Parei para vestir a roupa impermeável, comer alguma coisa e ver se a chuva parava - que nada... Continuei pela estrada com chuva mesmo e às 19h avistei a Playa Larga (Praia Comprida) bem abaixo a esquerda. Ao fundo Ushuaia, mas a paisagem estava toda cinzenta pela chuva. Apareceram alguns acessos secundários à praia mas o principal veio às 19h18. A areia está além de um gramado que tem churrasqueiras de alvenaria. Algumas pessoas pararam o carro ali no estacionamento e foram visitar a praia com aquele tempo horrível. Uma placa mais adiante dá as boas-vindas à "Reserva Provincial, Cultural y Natural Playa Larga". A estrada faz uma curva para a direita, se afasta da praia e depois cruza o Rio Olívia, o mesmo que cruzei de manhã antes do aterro sanitário. Cheguei à Avenida Perito Moreno às 19h45 e dobrei à direita para tomar o ônibus da linha B no mesmo local onde saltei de manhã, Rua Pioneros Fueguinos.
      Informações adicionais:
      . para chegar ao início da trilha deve-se tomar o ônibus das linhas A ou B no centro de Ushuaia e saltar no ponto da Rua Pioneros Fueguinos quase esquina com Perito Moreno
      . o valor da passagem em fev/20 era AR$24 (R$1,50) que deve ser pago obrigatoriamente com o cartão de transporte SUBE (o mesmo de Buenos Aires e Bariloche)
      Rafael Santiago
      fevereiro/2020
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
       

    • Por rafael_santiago
      Laguna Esmeralda
      Início: estacionamento da Laguna Submarino na RN3
      Final: estacionamento da Laguna Esmeralda na RN3
      Distância: 28,5km
      Duração: 3 dias
      Maior altitude: 823m na neve do Glaciar Ojos del Albino
      Menor altitude: 220m no Rio Lasifashaj
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Os desníveis não são grandes, a maior subida tem desnível de 433m.
      Nessa caminhada emendei duas trilhas: a da desconhecida Laguna Submarino com a da popularíssima Laguna Esmeralda. A princípio pensei que teria que caminhar pela RN3 entre a trilha de uma e de outra já que estão um pouco distantes e cada uma de um lado da rodovia, mas para minha felicidade descobri um caminho bem mais agradável por trilha e bosques. Por que o nome Submarino? Dê uma espiada na imagem de satélite do Google.
      1º DIA - 31/01/20 - do estacionamento na RN3 à Laguna Submarino 
      Distância: 6km
      Maior altitude: 642m na Laguna Submarino
      Menor altitude: 220m no Rio Lasifashaj
      Resumo: nesse primeiro dia de caminhada subi da rodovia RN3 à Laguna Submarino num desnível de 422m. Acampei um pouco abaixo dela.
      Saí do hostel um pouco tarde, às 9h35. Os dias longos do verão no extremo sul do continente deixam a gente bem relaxado com relação ao horário das caminhadas. Há luz do dia até depois das 21h30 nessa época (fim de janeiro/início de fevereiro). 
      Na Rua Gobernador Deloqui, no centro de Ushuaia, peguei o ônibus da linha B (poderia ser o da linha A também, porém na Avenida Maipu) e desci no ponto final junto ao portal da cidade (saída para Rio Grande). Em frente ao ponto final fica o posto policial e ao passar por ele somos sempre "convidados" a entrar e registrar nome, documento e destino. 
      Logo depois do portal as pessoas ficam pedindo carona. Já havia gente ali e me posicionei depois delas para respeitar a ordem de chegada. Logo parou um caminhão para mim, o motorista ia para Rio Grande. Saltei no estacionamento da trilha para a Laguna Submarino às 11h, bem em frente ao Centro Invernal Tierra Mayor. Havia dois carros apenas no estacionamento, provando que a laguna era pouco conhecida mesmo. Ali há um grande painel do "Sendero del Fin del Mundo" mostrando as trilhas da etapa 6 desse projeto e ainda uma continuação até o Rio Olívia. A etapa 6 vai da Cascada Rio Beban até Tierra Mayor, onde eu estava. Dessa maneira, descobri que conseguiria emendar as trilhas Submarino e Esmeralda por uma terceira trilha pelo Vale de Tierra Mayor. Restava saber se essa trilha estava transitável.
      Curioso que esse painel não mostrava a trilha da Laguna Submarino (etapa 7 do projeto), aliás não havia nenhuma placa informando que ali era o início da trilha para ela. Apenas uma placa indicando área de acampe a 1,2km. 
      Segundo o painel, a sinalização de trilha a seguir seriam duas faixas horizontais nas cores azul e branca, tal como a da Huella Andina do norte da Patagônia, mas nesse trecho até a Laguna Submarino ela não apareceu . Mais informações em lahuellaandina.com.ar, link "Guía original de Senderos de Patagonia".

      Cachoeira no caminho à Laguna Submarino
      Comecei a caminhar às 11h10. Altitude de 259m. Segui a estradinha de terra que cortava na direção leste o denso bosque de lengas e com 900m cheguei a uma grande clareira com cruzamento de trilhas. Ali percebi que essa estrada era de manutenção do gasoduto. A única sinalização era uma discreta seta amarela para a direita sem nada escrito. Mas o gps me apontava a direita mesmo (sudoeste). Na descida que se seguiu havia outros caminhos para a direita e esquerda que ignorei. Antes de chegar ao Rio Lasifashaj encontrei a tal área de acampe à direita com mesas de piquenique e churrasqueiras, mas com o terreno um pouco inclinado. Não havia nenhuma barraca nesse momento. 
      Cruzei o Rio Lasifashaj por tubos de ferro e um tronco improvisado (menor altitude do dia, 220m). A estradinha continuou no sentido sudoeste e bastante enlameada. Caminhei por ela 250m e a abandonei às 11h40 para entrar numa trilha à esquerda com placa. Finalmente informações sobre a trilha da Laguna Submarino! Segundo a placa ela está a 646m de altitude e a trilha tem 12km ida e volta. A altitude ali é de 234m. A placa só não diz que a trilha é um verdadeiro festival de lamaçais. O avanço é lento por conta deles. Ultrapassei um grupo que havia visto lá no estacionamento da RN3: um homem, duas mulheres e cinco crianças, uma delas bem pequena! Agora o sentido é sul. 
      Às 12h38 subi um trecho um pouco mais inclinado por uma corda e me aproximei do rio que desce da laguna. Logo começaram a aparecer as castoreiras, represas construídas por castores e que matam todo o bosque ao redor. Um cenário desolador de árvores mortas, umas roídas por eles e outras afogadas na represa. Numa grande clareira às 13h42 havia terreno plano para acampar e restos de fogueira bem ao lado de uma grande castoreira. Ao reentrar no bosque cheguei a uma bela cachoeira às 13h55. Parei para comer um lanche apesar do vento frio que vinha dela. Retomei a caminhada às 14h18 e imediatamente surge uma subida bastante inclinada com duas cordas fixas como apoio. Fiquei pensando nas quatro crianças que vinham atrás...
      Ao final da parte mais íngreme uma bonita visão do vale percorrido. Os lamaçais continuavam ali no alto. No meio de um deles havia uma bifurcação e fui para a esquerda, mas a trilha terminou numa cachoeira inacessível e muito bonita. Voltei à bifurcação para continuar pela trilha principal (não quis cortar caminho subindo uma encosta íngreme à direita da cachoeira). Mais subida e às 14h55 saí do bosque, passando a caminhar por uma trilha estreita numa encosta de pedras um pouco instável. A visão se abre para o vale à esquerda e fiquei de olho num gramadinho plano que poderia ser meu local de acampamento. 
      Subi um pouco mais mas logo desci na direção desse pequeno vale e atravessei dois riachos em sequência. Ali cruzei com um grupo de sete pessoas voltando da laguna. Continuei subindo agora num terreno mais pedregoso e numa curva suave para a esquerda atravessei o riacho que vem da Laguna Submarino, chegando a ela às 15h30. Altitude de 642m. Não havia mais ninguém, por algum tempo a laguna foi só minha. Apesar do vento frio dei uma volta completa ao redor dela. Pena que o dia estava cinzento e a cor verde da água não ressaltou nas fotos. Quando voltei ao ponto inicial aquela família com as crianças havia chegado. Fiquei surpreso... achei que iriam parar na cachoeira por causa das cordas em subidas quase verticais. Eram argentinos. Todos muito simpáticos, conversamos por algum tempo mas logo tomaram o caminho de volta porque estavam bem lentos. 
      Eu fiquei mais algum tempo e depois desci para procurar um lugar para acampar. Aquele gramado à margem do rio não estava muito seguro pois tinha uma encosta quase vertical ao lado e podia rolar alguma pedra lá de cima. Acabei encontrando um gramadinho mais ou menos plano dentro de uma vala, meio estranho o lugar mas bastante abrigado do vento. 
      Altitude de 580m no acampamento.
      Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 5,9ºC

      Laguna Submarino
      2º DIA - 01/02/20 - da Laguna Submarino à Laguna Esmeralda
      Distância: 11,6km
      Maior altitude: 642m na Laguna Submarino
      Menor altitude: 220m no Rio Lasifashaj
      Resumo: nesse dia desci de volta à RN3 (desnível negativo de 422m) e tomei a trilha do Vale de Tierra Mayor até o cruzamento com a trilha principal da Laguna Esmeralda, onde acampei (desnível positivo de 154m da RN3 à Laguna Esmeralda)
      10h30 da manhã: 10,7ºC
      Choveu durante a noite e de manhã. Ventou à noite mas eu estava protegido naquela vala. Não voltei à laguna para fotos pois o dia estava cinzento como na tarde anterior. Levantei acampamento às 15h10 (por causa da chuva da manhã) e desci pelo mesmo caminho. Cruzei com bastante gente subindo. Às 15h49 parei na cachoeira para mais algumas fotos. Mais abaixo, quando estava no bosque, começou a chover de novo e tive de parar para vestir a roupa impermeável. Logo após cruzar o Rio Lasifashaj parei às 17h51 na área de acampamento para um lanche nas mesas de piquenique, embora estivesse tudo molhado. Havia uma barraca montada. Às 18h30 cheguei ao estacionamento na RN3 e dessa vez havia oito carros. 
      Cruzei a rodovia e entrei no terreno do Centro Invernal Tierra Mayor passando bem ao lado da casa principal pois era esse o caminho. Cruzei uma ponte de tábuas e tomei a trilha que vai até o Rio Olívia, segundo o painel com mapa, mas eu iria só até o cruzamento com a trilha da Laguna Esmeralda. A trilha está bem sinalizada com estacas amarelas e tem pontes. Segue o curso do Rio Lasifashaj. Cerca de 800m após a casa não notei uma trilha saindo para a esquerda e continuei na principal, bem larga. Depois olhei para a esquerda e vi as estacas indo em outra direção. Esse caminho largo leva a outros trekkings, como Cerro Alvear e Laguna Domo Blanco. Voltei à discreta bifurcação e segui pela trilha correta, que continua na margem direita do Rio Lasifashaj e logo entra no bosque. Nas árvores do bosque encontrei a sinalização do projeto "Sendero del Fin del Mundo", duas faixas horizontais nas cores azul e branca, além de círculos vermelhos. Ao sair do bosque cruzei às 19h19 uma ponte de tábuas sobre o Rio Lasifashaj e fui para a direita seguindo a placa Cascada Beban. Entrei em outro bosque. Ali me afastei do Rio Lasifashaj pois ele toma o rumo norte e eu seguia para oeste. 

      Outra cachoeira no caminho à Laguna Submarino
      Às 20h03 cheguei a uma bifurcação e fui para a direita, mas desaconselho esse caminho pois há um lamaçal-brejo enorme e dessa vez não escapei de enfiar o pé inteiro na água preta. Melhor ir para a esquerda na bifurcação e tomar a trilha principal da Laguna Esmeralda 140m abaixo. Esse caminho do lamaçal-brejo é um atalho do qual a gente se arrepende. Às 20h14 cheguei à trilha principal da Laguna Esmeralda e fui para a direita. Ali a grande diferença: dezenas de pessoas na trilha! A Laguna Esmeralda é o trekking mais falado e mais procurado de Ushuaia. Todo mundo que chega na cidade parece predestinado a fazer essa caminhada. Todos os dias a trilha está cheia! 
      Segui pela trilha superbatida na direção norte e noroeste e ao sair do bosque às 20h38 o último obstáculo do dia, uma grande área de turfa (turbal) completamente molhada, um verdadeiro pântano. Algumas pessoas vinham da laguna por um caminho que estava mais à minha esquerda, mas ali parecia quase impossível não afundar na água suja. Notei que à minha direita o turbal tinha mais vegetação do que água e tentei ir por ali. No meio da turfa uma raposa cinza (zorro gris) cruzou comigo tranquilamente como se eu nem estivesse ali. Tirei várias fotos dela bem perto. 
      Esse caminho acredito que estava melhor que o outro pois vi gente afundando até o joelho lá no brejo. Ele termina numa trilha secundária que leva à laguna mas isso foi ótimo pois encontrei um lugar muito bom para acampar: plano, seco, abrigado do vento, longe de árvore que poderia cair e sem multidão passando na porta (porém 900m antes da laguna). Marquei esse local no gps e continuei até a laguna para conhecê-la e ver se havia algum lugar melhor para acampar. Cheguei a ela às 21h17. O camping "oficial" fica às suas margens, à direita de quem chega e na beira do bosque, mas isso eu só descobriria no dia seguinte. Não encontrei lugar melhor no trajeto que fiz e acampei naquele ponto marcado mesmo, coletando água no caminho.
      Altitude de 390m na Laguna Esmeralda e de 353m no local onde acampei
      Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 2,8ºC

      Laguna Esmeralda vista da subida ao Glaciar Ojos del Albino
      3º DIA - 02/02/20 - Glaciar Ojos del Albino
      Distância da Laguna Esmeralda ao Glaciar Ojos del Albino: 3,3km
      Distância do Glaciar Ojos del Albino à RN3: 7,6km
      Maior altitude: 823m na neve do Glaciar Ojos del Albino
      Menor altitude: 248m
      Resumo: nesse último dia subi da Laguna Esmeralda até a neve abaixo do Glaciar Ojos del Albino (desnível de 433m), voltei à laguna e terminei a caminhada na RN3 (desnível negativo de 142m da laguna à RN3), onde consegui uma carona para Ushuaia
      8h28 da manhã: 7,5ºC
      Desmontei a barraca e escondi a mochila para subir de novo à Laguna Esmeralda e continuar até o Glaciar Ojos del Albino. Às 10h50 estava de volta à laguna e já havia bastante gente visitando. Deveria contorná-la para encontrar a trilha do glaciar e optei por fazer isso pelo lado direito para não ter de cruzar dois rios, um que a alimenta e outro que brota dela. Foi seguindo para a direita que descobri o camping "oficial", que está no limite do bosque no qual eu deveria entrar para contorná-la. Apenas um casal dormiu ali naquela noite. O espaço é ruim, grande parte inclinado. 
      Contornei toda a face leste da laguna e continuei, agora tendo o rio que a abastece à minha esquerda. Passei por uma área mais aberta dentro do bosque que dá um bom acampamento também. Logo depois inicia a subida. Passei por uma grande rocha que serve como abrigo/bivaque e venci a linha das árvores às 12h02. Dali em diante só pedras e montanhas rochosas. Uma enorme cachoeira escorre da montanha à esquerda. Subi mais e o caminho em meio às pedras começou a ficar menos marcado, causando alguma dúvida. A subida começou a ficar íngreme demais. Cheguei a um ponto mais alto em que pude observar melhor os arredores e já estava pensando se tinha tomado o caminho certo... não visualizava um caminho definido naquele mar de pedras de todos os tamanhos e não havia sinalização nenhuma. Parei um pouco. 
      Vi gente subindo por um outro caminho mais abaixo e fiz um atalho como pude para chegar onde eles estavam pois deveria haver um caminho marcado. E havia. Quando subi deveria ter tomado um caminho muito discreto para a esquerda (depois de um bloco gigante de pedra à esquerda) e evitado aquele trecho muito íngreme. O caminho "marcado" às vezes se perdia um pouco também, mas consegui subir por ele até um platô acima e dali até a neve. 
      Parei no limite da neve às 13h40 para ver que caminho os outros iriam tomar. Alguns subiram pela neve bastante inclinada mesmo sem crampons. Foram com bastante dificuldade mas conseguiram vencer aquela neve. Mas não se podia ver o que havia mais acima, talvez outro campo de neve inclinado. Outros não quiseram se arriscar na neve e escalaminharam a encosta mais à esquerda, sem trilha, muito íngreme e difícil, e sem saber onde iria dar lá no alto. Eu resolvi não arriscar nem um nem outro, portanto não cheguei ao glaciar propriamente dito. Mas o visual dali já estava espetacular para todo o vale com o Cerro 5 Hermanos ao fundo. Várias pessoas pararam ali também. Altitude de 823m. Dias depois soube da queda de um rapaz inglês nesse local em 2018. Ele não resistiu aos ferimentos.

      Cordon Toribio visto das proximidades do Glaciar Ojos del Albino
      Iniciei a volta às 14h51 e dessa vez fiz o caminho "certo" pelo mar de pedras pois segui um casal com guia. Às 15h53 reentrei no bosque. Passei pela Laguna Esmeralda às 16h45 e parecia uma praia urbana em um domingo de sol de tanta gente. Resgatei a mochila, venci a turfa encharcada (sem raposinha dessa vez) às 17h46, voltei ao bosque e segui a procissão. 
      Saí do bosque e às 18h13 entroncou à esquerda a trilha que vem de Tierra Mayor. Esse seria o caminho que, apesar de alguns metros mais longo, evitaria aquele lamaçal-brejo enorme em que enfiei o pé. Apenas 170m adiante uma outra bifurcação com placa apontando a Cascada Beban à direita é a continuação da trilha que iniciei lá em Tierra Mayor. Marquei o local para depois explorar (relato aqui). Outra placa com foto identifica os picos dessa bela cadeia de montanhas, com destaque para o Cerro Bonete e o Cerro Alvear.
      Cruzei um bosque, um rio por uma ponte de troncos e ao reentrar no bosque às 18h23 surgiram algumas bifurcações. Se me mantivesse na trilha principal chegaria ao estacionamento na RN3 mas resolvi seguir quatro amigos com quem fiz amizade na trilha do glaciar. Eles conheciam bem as trilhas e tomaram vários atalhos. Ao chegarmos ao estacionamento às 18h38 perguntei se tinha lugar no carro e lá fomos para Ushuaia papeando sobre trilhas e montanhas.
      Informações adicionais:
      . para chegar ao início da trilha deve-se tomar o ônibus das linhas A ou B no centro de Ushuaia e saltar no ponto final no portal da cidade, em seguida pedir carona (hacer dedo, em espanhol)
      . o valor da passagem em fev/20 era ARS24 (R$1,50) que deve ser pago obrigatoriamente com o cartão de transporte SUBE (o mesmo de Buenos Aires e Bariloche)
      . uma opção mais confortável é o transporte privado (van) chamado Linea Regular que sai diariamente da esquina das ruas Maipu e Juana Fadul de hora em hora das 9h às 14h. 
      . mais informações sobre o projeto "Sendero del Fin del Mundo" em lahuellaandina.com.ar, link "Guía original de Senderos de Patagonia".
      Rafael Santiago
      fevereiro/2020
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
       

    • Por rafael_santiago
      Laguna Turquesa
      A caminhada da Laguna Turquesa costuma ser feita num bate-volta de um dia apenas. Apesar do desnível de 363m a subida pode ser feita em 1h, com a descida ainda mais rápida. Eu tinha bastante tempo e queria acampar na laguna para assistir ao pôr-do-sol se o tempo permitisse. Porém os dias estavam muito chuvosos. Acompanhei a previsão pelo Yr e ele indicava pouca chuva e algum sol para os dias seguintes. Porém na manhã em que sairia (27) a previsão para o dia seguinte (28) mudou e era de mais chuva que antes (2,2mm). Já estava com a mochila pronta e resolvi ir assim mesmo. Mal sabia eu o que me esperava...
      1º DIA - 27/01/20 - subida à Laguna Turquesa
      Início: RN3
      Final: Laguna Turquesa
      Distância: 1,7km
      Maior altitude: 658m na Laguna Turquesa
      Menor altitude: 295m na rodovia RN3
      Resumo: nesse dia subi da rodovia RN3 à Laguna Turquesa em cerca de 1h (desnível de 363m)
      Saí do hostel bem tarde, às 12h36. Os dias longos do verão no extremo sul do continente deixam a gente bem relaxado com relação ao horário das caminhadas. Há luz do dia até depois das 21h30 nessa época (janeiro). 
      Na Rua Gobernador Deloqui, no centro de Ushuaia, peguei o ônibus da linha B (poderia ser o da linha A também, porém na Avenida Maipu) e desci no ponto final junto ao portal da cidade (saída para Rio Grande). Em frente ao ponto final fica o posto policial e ao passar por ele somos sempre "convidados" a entrar e registrar nome, documento e destino. 
      Logo depois do portal as pessoas ficam pedindo carona. Quando cheguei um rapaz argentino me disse que estava ali fazia 1h... mas tive mais sorte que ele. Num momento em que ele saiu para fumar um caminhão parou para mim sem eu levantar o dedo! O motorista ia para Tolhuin. Saltei na entrada da trilha para a Laguna Turquesa às 14h14. Há uma plaquinha improvisada de madeira na rodovia RN3 apontando a trilha.
      Nos primeiros 70m é uma rua de terra que liga a RN3 à estradinha do gasoduto. Cruzando essa estradinha é que se entra na trilha no bosque. Parei para comer alguma coisa e entrei nela às 14h36. Altitude de 310m. 

      Valle Olum
      Subi até os 535m e saí do bosque (15h12) cruzando um lamaçal terrível. Passei a caminhar por um campo encharcado já com visão do circo glacial que abriga a laguna. O rio que brota dela corre num valezinho à esquerda.
      Ao subir um pouco mais olho para trás e avisto a famosa e popular Laguna Esmeralda entre montanhas do outro lado da RN3. Cheguei à Laguna Turquesa, que na verdade tem cor verde-esmeralda, às 15h32. Altitude de 658m. Decidi ir direto para a Laguna Turquesa Superior e subi a encosta do lado esquerdo. Ao chegar à crista a visão se abriu para o lado leste com o enorme Valle Olum e um lago bem abaixo. Continuei pela crista contornando a Laguna Turquesa pelo alto, porém parei num local mais estreito e exposto. À esquerda há uma parede e à direita uma queda enorme. Se eu pisasse num local não muito firme podia rolar muitos metros quase verticais. Dali em diante parecia bem exposto também. Não senti segurança e desci de volta à Laguna Turquesa. 
      Arranjar um lugar seco e abrigado do vento para acampar foi uma tarefa complicada. Perto da laguna eram só pedras e muito vento, abaixo dela era só terreno encharcado. Além disso, tinha muita gente subindo e descendo pela trilha e eu preferi ficar afastado para ter um pouco de privacidade. Acabei montando a barraca num lugar protegido por lengas baixas mas num solo bem úmido, abaixo da laguna e do outro lado do rio que nasce dela. Choveu forte a partir das 19h com vento forte também, mas a barraca aguentou bem. Não entrou água apesar de estar tudo encharcado em volta dela.
      Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 1,2ºC
      2º DIA - 28/01/20 - muita chuva e neve
      De manhã tirei a cara para fora da barraca e vi um grupo de seis pessoas subindo em direção à Laguna Turquesa Superior. Passaram pela parte exposta, para minha frustração... Não estava chovendo e resolvi voltar à laguna. Foi só cruzar o rio e começou a nevar bastante! Bonito de ver mas muito frio. Voltei à barraca e passou a chover fraco. Mesmo assim bastante gente na trilha, com frio, vento, chuva e neve. À tarde fiz uma segunda tentativa e consegui tirar mais fotos da laguna, mas na descida à barraca fui pego pela neve de novo. Com tudo isso não desmontei acampamento. Mais tarde vi que a neve já estava acumulando em volta da barraca. Meu termômetro marcava 1,4ºC às 19h35. Nesse dia nevou mais do que choveu. E a previsão do Yr era de apenas 2,2mm de chuva...
      Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 0,5ºC

      Depois da tempestade...
      3º DIA - 29/01/20 - retorno a Ushuaia
      As montanhas ao redor da laguna amanheceram brancas pela neve que caiu durante a noite. Mas felizmente saiu um pouco de sol para eu secar a barraca antes de guardar. O nylon do piso já estava saturando e umedecendo o isolante por baixo. Justo nesse dia que eu precisava de carona para voltar a Ushuaia quase ninguém subiu à laguna. Desci em 52min até a estradinha do gasoduto. Uns 50m à direita há água corrente (vem da Laguna Turquesa) e aproveitei para limpar as botas e a calça impermeável para pedir carona limpo. Fiz sinal na RN3 durante 20min, um Audi parou mais à frente e deu ré para me apanhar. Mas eram três caras bem estranhos e colocavam o som do carro no último volume. Torcia para chegar vivo na cidade. Ao chegar na periferia de Ushuaia entraram por ruas estreitas de terra, o que me deixou apreensivo. Me deixaram no shopping Paseo del Fuego e caminhei mais 2,5km até o hostel. Quanta aventura numa caminhada só!
      Informações adicionais:
      . para chegar ao início da trilha deve-se tomar o ônibus das linhas A ou B no centro de Ushuaia e saltar no ponto final no portal da cidade, em seguida pedir carona (hacer dedo, em espanhol)
      . o valor da passagem em fev/20 era ARS24 (R$1,50) que deve ser pago obrigatoriamente com o cartão de transporte SUBE (o mesmo de Buenos Aires e Bariloche)
      . uma opção mais confortável é o transporte privado (van) chamado Linea Regular que sai diariamente da esquina das ruas Maipu e Juana Fadul de hora em hora das 9h às 14h. 
      Rafael Santiago
      janeiro/2020
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
       


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