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rafael_santiago

Trekking Shivalaya-Namche Bazaar (Nepal) - out/18

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Ponte Larja e o lindo Rio Dudh Koshi

Início: Shivalaya
Final: Namche Bazar
Duração: 7 dias
Maior altitude: 3536m no Passo Lamjura La
Menor altitude: 1504m na ponte junto à confluência dos rios Dudh Koshi e Deku
Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de 600m a 1000m diários, ultrapassando os 3000m de altitude.
Permissões: entrada do Gaurishankar Conservation Area Project (Rs 3000 = US$ 26,04), entrada do Parque Nacional Sagarmatha  (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$17,36).

Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.

O trekking Shivalaya-Namche Bazar é a primeira parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base do Everest e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A segunda parte está descrita aqui e a terceira parte aqui. A escolha de Shivalaya como ponto inicial teve vários motivos: 1. é o percurso histórico de conquista do Everest pelo neozelandês Edmund Hillary (1919-2008) e o nepalês Tenzing Norgay (1914-1986) em 1953, 2. para evitar o caro e arriscado voo Kathmandu-Lukla (além disso um voo que é cancelado frequentemente por causa do tempo instável em Lukla) 3. conhecer o lado menos turístico e mais autêntico do trekking do Everest.

Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.

No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".

As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são:
. Shivalaya: NTC
. Bhandar: NTC, NCell
. Sete: NTC, NCell
. Junbesi: NTC
. Nunthala: NTC
. Bupsa: NTC
. Cheplung: NCell
. Namche Bazar: NCell

O cartão pré-pago de wifi Nepal Airlink funciona de Junbesi a Kharte, e em Phaplu. O cartão pré-pago Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não testei nenhum dos dois porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". 

Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).

Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. 

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Monastério Pema Namding, em Kharikhola

23/10/18 - ônibus de Kathmandu a Shivalaya

No dia anterior (22/10) eu havia ido ao horrível e sujo terminal de ônibus do Ratna Park para comprar a passagem para Shivalaya. Na verdade havia tentado comprar com mais antecedência ainda mas não quiseram me vender, somente no dia anterior mesmo. 

Nesse dia o ônibus partiu às 8h com vários lugares vagos mas nas paradas seguintes já começou a encher e durante a longa viagem lotou e esvaziou muitas vezes. Por volta de 10h50 houve uma parada para almoço e a partir daí a estrada passou a ser de terra com muitos buracos, pedras e poeira. Felizmente a estrada não era tão estreita e com abismos como na viagem entre Kathmandu e Syabrubesi (relato aqui), mas o ônibus pulava do mesmo jeito e era preciso tomar cuidado para não bater a cabeça no teto. Foi uma viagem horrível também, muito cansativa pelas condições da "estrada" e pelo tempo muito longo chacoalhando dentro do ônibus: 11h20 para percorrer apenas 215km!!! 

O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo.

Os únicos estrangeiros no ônibus além de mim foram um casal francês que subiu numa cidade do caminho e desceu em Jiri. Ele colocou tampões no ouvido para não escutar a trilha sonora nepalesa no último volume. Às 18h10 passamos por Jiri, já de noite (anoiteceu por volta de 17h40), e ainda rodamos mais 1h10 até Shivalaya no escuro, o que foi ainda mais emocionante pois o ônibus pulava o tempo todo e não era possível ver as ribanceiras onde a minha viagem poderia terminar. 

Às 19h20 saltei desse ônibus em Shivalaya, recoloquei minha coluna e minha bacia no lugar e saí procurando uma hospedagem. No Amadablam Lodge, um dos primeiros da vila, o dono estava na frente e me chamou. Pelo cansaço que eu estava aceitei os Rs200 (US$1,73) que ele pediu sem pensar em negociar o quarto de graça. 

Recomendo esse lodge pois toda a família era muito simpática. Conversei bastante com o dono (que fala bem inglês), que me disse que a vila foi arrasada nos terremotos de 2015 e eles tiveram de morar por 3 meses em barracas até a reconstrução do lugar. Quase todas as casas que eu estava vendo ali eram novas e todas reconstruídas em madeira.

O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene deles já que não usam papel higiênico. 

Altitude em Shivalaya: 1782m
Preço do dal bhat: Rs 300

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Vila de Shivalaya, início do trekking

1º DIA - 24/10/18 - de Shivalaya a Bhandar

Duração: 4h50 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2709m
Menor altitude: 1782m
Resumo: nesse dia subi por uma serra alongada na direção leste-oeste, inicialmente pela crista e em seguida pela vertente sul até a cabeceira do vale na vila de Deurali (2709m). Em seguida desci a encosta oposta, a leste, até o povoado de Bhandar, a caminho do vale do Rio Likhu.

Quando amanheceu é que pude ver melhor como era simpática a vila de Shivalaya. O lodge estava localizado num largo cercado de sobradinhos de madeira coloridos e com sacada.

Saí do lodge às 8h56 subindo a rua de volta até a entrada do vilarejo. Ali continuei em frente (esquerda) pois à direita está a estrada por onde cheguei de ônibus na noite anterior. Porém dei poucos passos e fui parado pelo guarda do checkpoint do Gaurishankar Conservation Area Project. Eu não havia ido ao Tourist Service Center em Kathmandu para obter a permissão desse parque, então paguei ali na hora, aparentemente pelo mesmo preço (Rs 3000, US$ 26,04). Só mostrei o passaporte, não necessita foto. 

Às 9h10 continuei pela mesma rua, que fez uma curva para a esquerda. Logo após a ponte segui para a direita, mas poucos passos depois abandonei essa rua e entrei num beco à esquerda. Logo estava caminhando por uma trilha e iniciando meu longo percurso em direção ao Everest. E também já surgiram as primeiras escadarias. Parei alguns minutos para tirar a blusa e passar protetor solar. À medida que subia ia se ampliando a visão da vila de Shivalaya encaixada no vale do Rio Khimti e cercada de morros bem verdes. Às 10h13 a trilha cruzou uma estrada e segui a placa de Deurali, subindo mais degraus. Comecei a notar fitas cor-de-laranja sinalizando a trilha. Isso me ajudou bastante em alguns pontos de dúvida mas depois soube que eram para uma competição, não eram mantidas permanentemente. Ou seja, a gente paga US$26 para caminhar por um parque que só existe no papel e que praticamente não tem sinalização...

Às 10h19 cruzei a estrada de novo com uma placa de Deurali apontando a trilha que subiu até uma antena. Logo cruzei a mesma estrada e continuei seguindo as fitas laranja e a placa de Deurali. Às 10h34 quis cruzar a estrada novamente e subir a trilha na encosta mas estava errado - dessa vez deveria tomar a estrada mesmo, subindo à direita por 215m para em seguida entrar numa outra trilha na encosta à esquerda. Mais acima segui as fitas e subi a trilha à direita na direção de uma casa no alto. Passei pelo Sushila Lodge e às 10h54 pela escola de Sangbadanda. Cruzei a mesma estrada mas 45m depois passei a caminhar por ela para a direita, com placa e fita sinalizando. Nesse momento estava deixando a crista dessa serra e passando a percorrer a vertente sul dela.

Caminhei pela estrada por 745m e antes que ela fizesse uma curva fechada para a esquerda abandonei-a em favor de uma trilha descendo à direita junto a uma casa, às 11h13. Dali iria caminhar por trilha até Deurali, na cabeceira do vale, passando por cinco pontos de água (parei em um deles para comer alguma coisa). Na única bifurcação, às 11h48, fui à esquerda seguindo a fita laranja. Subi até cruzar uma estrada às 13h05 e cair nessa mesma estrada 4 minutos depois, indo para a esquerda e chegando à vila de Deurali (2709m). Fui à direita na bifurcação e passei pelas extensos muros de pedras mani no centro do vilarejo. Há três lodges ali e um deles anuncia "edifício resistente a terremoto". O Lama Guest House vende queijo de iaque: 100g por Rs 150 (US$1,30), o melhor preço que encontrei (o mesmo de Ringmo, três dias depois). Havia já muitas nuvens nessa hora, mas com céu limpo seria possível ver o Passo Lamjura La, 16km a leste (onde passaria no 3º dia).

Cruzei a vila sem fazer nenhuma parada e imediatamente comecei a descer a encosta oposta, a leste, em direção ao povoado de Bhandar. A parte mais alta dessa encosta está toda rasgada por uma sinuosa e poeirenta estrada de terra, mas felizmente há uma trilha que desce mais diretamente. Nos primeiros 4 minutos de descida a partir da vila não notei uma trilha abaixo à esquerda e continuei em frente, mas vi que as fitas haviam sumido e na dúvida voltei. Só então vi que a outra trilha abaixo tinha fitas e a tomei. Pelos próximos 34 minutos cruzei a estrada sinuosa e caminhei por ela o mínimo possível, tomando todas as trilhas/atalhos que encontrei. Depois continuei descendo pela trilha, que passou por diversas casas aqui e ali.

Às 14h39 cruzei duas vezes uma estrada que fazia uma curva fechada à minha esquerda. Às 14h45 a trilha terminou num final de estrada com um monastério à esquerda que parei para fotografar. Na estrada fui para a esquerda e passei pelo primeiro lodge de Bhandar, o Shobha Lodge, às 14h54. Ainda desci mais por uma trilha para ver se havia outras opções de hospedagem mas não encontrei. No caminho de volta ao primeiro lodge conheci um casal da Hungria, Zita e Daniel, e eles estavam indo procurar outro lodge ainda mais abaixo ou talvez seguir para a próxima vila (distante ainda 3h, onde deveriam chegar no começo da noite). 

Eu voltei ao Shobha Lodge e negociei com a dona o valor do quarto: acertamos por Rs100 (US$0,87) se eu fizesse as refeições ali mesmo. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar. No quarto havia tomada para carregar as baterias (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?). Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte.

Nessa noite se hospedaram dois casais franceses muito simpáticos com seu guia, carregadores e até um professor de ioga. Eles não iam para o Everest, iam na verdade subir o Pikey Peak, uma montanha de 4065m de altitude de onde se avistam Everest, Lhotse, Thamserku, Kangtega e muitas outras montanhas.

Essa vila de Bhandar é o ponto final de um ônibus que sai diariamente do terminal do Ratna Park em Kathmandu às 5h30.

Altitude em Bhandar: 2204m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 260

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Um agricultor no meio da plantação de cardamomo

2º DIA - 25/10/18 - de Bhandar a Sete

Duração: 5h45 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2516m
Menor altitude: 1576m
Resumo: nesse dia continuo a descida até o vale do Rio Likhu e inicio a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte. Minha direção foi basicamente leste.

Depois da aula de ioga dos simpáticos franceses, saímos juntos do lodge às 8h45. Porém eles iam subir o Pikey Peak, então iríamos caminhar apenas algum tempo juntos. Mas valeu a pena pois eles eram muito curiosos e interessados em tudo o que viam, e perguntavam tudo ao guia. Eu aproveitei a oportunidade para aprender mais sobre plantas, construções budistas, etc. 

Saímos do lodge descendo na direção leste e cruzamos uma estrada de terra. Passamos por várias pequenas plantações, inclusive de chá, e por um muro de pedras mani. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas e rodar as rodas mani sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum".

Cruzamos outra estrada, passamos pelas casas da parte baixa de Bhandar e fomos à direita numa bifurcação com placa apontando Kinza (Kinja). Descemos até uma ponte e a cruzamos às 9h20. Passamos a caminhar por uma encosta íngreme com o grande vale do Rio Likhu à nossa direita cada vez mais profundo. Às 9h54 passamos por uma pequena cachoeira à esquerda e 13 minutos depois paramos para fotos numa cachoeira ainda maior e mais bonita. Apenas 100m depois abandonamos o caminho mais largo e entramos numa trilha à direita, ainda sinalizada com as fitas laranja que havia seguido no dia anterior. Descemos bastante e às 10h39, numa outra bifurcação com placa apontando Kinza à esquerda, os franceses desceram à direita para ir ao Pikey Peak e eu fui à esquerda, seguindo as fitas laranja ainda.

Passei por mais alguns pontos de água e às 11h43 a trilha terminou numa estrada de terra, onde fui para a esquerda (nordeste). Passei por um grupo de casas junto ao Rio Chari (menor altitude do dia: 1576m), atravessei esse rio e cruzei à direita a ponte suspensa sobre o Rio Likhu. Após essa ponte segui à esquerda acompanhando o rio e atravessei uma segunda ponte suspensa para a esquerda, mas desta vez sobre o Rio Kinja, um afluente do Likhu. Subi à direita e passei às 12h13 pelo portal de pedra da vila de Kinza (Kinja), com vários lodges. Parei no New Everest Guest House para almoçar. Às 13h retomei a caminhada, passei por mais alguns lodges e na bifurcação fui à esquerda. A trilha subiu bastante em zigue-zague com escadarias rústicas de pedra. Aqui inicio uma longa subida por uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte.

Às 13h44 subi à esquerda numa bifurcação sem fita (perguntei na casa para confirmar). Às 14h19 parei para descansar num gramado à esquerda da trilha e ao lado de uma casa, mas fui surpreendido por uma inusitada chuva, a única de todo esse trekking. E não foi fraca, tive que me abrigar junto à casa e esperar. Às 15h18 prossegui e a 70m dali fui à direita numa bifurcação sem fita laranja. Às 15h32 passei pela escola de Chimbu. Mais acima passei por algumas casas e uma mulher me ofereceu haxixe! Em Kathmandu isso é bem comum mas na trilha foi a única vez. Às 16h25 a trilha terminou numa estrada de terra e fui para a direita. Caminhei apenas 100m e parei no primeiro lodge da minúscula vila de Sete, chamado Sun Rise. A simpática garota (de nome Chhotin) concordou que eu pagasse apenas as refeições e me instalei ali.

Saí para conhecer um pouco mais do lugar e encontrei o casal húngaro que conheci em Bhandar (Zita e Daniel) no outro lodge, Solukhumbu Sherpa Guide. Só dois lodges estavam funcionando no vilarejo. Nessa noite fui o único hóspede da Chhotin e sua mãe e elas fizeram questão que eu jantasse na cozinha com elas. Conversamos bastante e fiquei surpreso como a garota aprendeu inglês sem ter aulas, apenas conversando com os hóspedes. 

O banheiro ficava dentro da casa, tinha vaso sanitário mas a descarga era com caneca. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar.

Altitude em Sete: 2516m
Preço do dal bhat: Rs 495
Preço do veg chowmein: Rs 380

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Casas acima da vila de Goyam

3º DIA - 26/10/18 - de Sete a Junbesi

Duração: 7h15 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3536m
Menor altitude: 2516m
Resumo: nesse dia continuei a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levou ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, o qual cruzei para descer à vila de Junbesi no vale do rio homônimo. Minha direção foi basicamente leste.

Saí do lodge às 8h40 continuando para leste. Passei pelo lodge Solukhumbu Sherpa Guide e em seguida subi à esquerda (à direita está o lodge Sherpa Guide). Subi bastante e às 10h cruzei uma estrada e continuei subindo pela trilha entre casas e plantações. Ali fui alcançado pelo Christopher, um austríaco que planejava fazer o mesmo roteiro que eu: Campo Base do Everest e Três Passos. Conversamos um pouco mas ele era bem mais rápido e logo sumiu na frente. Na bifurcação logo após as primeiras casas fui à direita seguindo a placa "way to Junbesi" e atravessei a vila de Dakchu. Havia atingido a crista dessa serra e agora a visão se ampliava para o norte também. Ao fim da vila a trilha sai numa estrada, na qual segui para a esquerda, mas apenas por 40m e entrei no caminho à esquerda que virou uma estrada também. Quando ela fez uma curva para a direita e outra para a esquerda, não notei mas havia uma trilha subindo a encosta à esquerda. Ia passando direto mas alguém me alertou. Subi a trilha e entrei na mata. Subindo, cruzei uma estrada. Com mais 50m a trilha desembocou na estrada, onde fui para a direita. Com 100m subi uma trilha na encosta à esquerda.

Às 10h51 passei pelas primeiras casas de Goyam, com dois lodges. Cruzei a estrada mais três vezes, depois caminhei por ela por 50m e entrei em outra trilha à direita que subiu a mais casas da vila de Goyam, às 11h29, onde há um lugar que vende queijo. Na estrada acima fui à direita. Mais uma vez subi a trilha à esquerda na encosta (com fita verde dessa vez). De novo saí na estrada e segui por ela à esquerda. Mais 55m e subi na trilha à esquerda na encosta. Cruzei a estrada mais três vezes e parei por meia hora para comer alguma coisa que tinha na mochila. Passei pelas ruínas de um lodge às 12h45 e 80m depois caí de novo na estrada, indo para a direita. Na curva da estrada entrei na trilha à esquerda. Na bifurcação fui à esquerda pois à direita havia uma árvore caída, mas acho que foi o pior caminho para alcançar a estrada acima, aonde fui para a esquerda. Nesse trajeto desde Dakchu entrei e saí da mata diversas vezes.

Às 13h11 finalmente a estrada terminou de vez, virou uma trilha e 500m depois cruzei um vilarejo com lodges. Subi passando por uma stupa e às 13h54 cheguei ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, com muitas bandeirinhas de oração budistas. Era possível ver a vila de Deurali a oeste, onde passei no 1º dia, a 16km dali. Ao lado há um restaurante. Este é o ponto mais alto desse trekking de Shivalaya a Namche Bazar e os muitos aviões com destino a/partindo de Lukla passam numa altitude pouco acima.

Às 14h15 iniciei a descida e em 6 minutos estava entrando numa floresta de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, num lindo espetáculo. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Na descida alternaram-se trechos com algumas casas e trechos de mata (com alguns pontos de água) ao percorrer o vale do Rio Taktor, afluente do Rio Junbesi. Passei por um monastério com stupa na vila de Taktor e a trilha virou uma estrada novamente às 16h16.

Numa curva fechada da estrada para a esquerda entrei numa trilha à direita e desci, seguindo à esquerda na bifurcação 50m depois. A trilha acompanhou a curva da encosta para a esquerda e às 16h38 avistei Junbesi abaixo num bonito vale coberto de árvores com o Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Nas bifurcações a seguir fui à direita e à esquerda. Desci por escadarias de pedra, passei por um primeiro lodge ainda na descida e parei no Sherpa Guide Lodge, o primeiro na entrada do vilarejo, às 17h10. Parei ali por sugestão da sra Maya, do Lodge Sun Rise da vila de Sete. Ela disse que esse lodge era da sua irmã, mas eles costumam falar isso e nem sempre é verdade. Conversei com as donas e aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, mas "eu não devia contar isso pra ninguém". O banheiro ficava dentro da casa e tinha todos os confortos ocidentais: vaso sanitário com descarga acoplada e até lavatório, coisa muito rara!

Em Junbesi é que soube da existência do cartão pré-pago Nepal Airlink, que dá acesso ao wifi dos lodges ali e em muitos outros vilarejos (mais informações no meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal").

Altitude em Junbesi: 2704m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 360

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Stupa em Junbesi

4º DIA - 27/10/18 - de Junbesi a Nunthala

Duração: 7h25 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3058m
Menor altitude: 2206m
Resumo: nesse dia percorri, subindo e descendo de maneira mais suave, a extremidade sul de uma serra que se alonga na direção norte-sul. Após cruzar o Rio Dudhkund veio uma subida mais íngreme até o Passo Taksindu La (3058m) e depois a descida interminável até a vila de Nunthala.

Junbesi foi talvez o vilarejo mais bonito e simpático desse trajeto de 7 dias até Namche Bazar. Sua localização no verdejante vale do Rio Junbesi é privilegiada. Há uma grande e bonita stupa na praça central que rende muito boas fotos. Para quem está com tempo sobrando há diversos monastérios para visitar nas redondezas. Se houver necessidade de saída pode-se fretar um jipe ($$$) na vila para ir a Phaplu ou Salleri, onde se pode tomar outro jipe, ônibus ou mesmo avião de volta a Kathmandu.

Da porta do lodge via o cume do Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Saí às 8h37 e enquanto fotografava a stupa no centro da vila apareceu o Christopher acompanhado do casal húngaro Zita e Daniel. Começamos a caminhar juntos mas na ponte metálica sobre o Rio Junbesi já nos distanciamos pois parei para tirar mais fotos. Ao cruzar a ponte, adornada com bandeirinhas de oração budistas, caminhei 60m à direita pela estrada e entrei na trilha subindo à esquerda, entrando na floresta de pinheiros. Com 50m cruzei uma estrada. Estava iniciando a subida pela vertente oeste de uma serra que se estende na direção norte-sul.

Continuei subindo, saí da mata, passei por algumas casas e reentrei na mata de pinheiros. Às 9h45 saí da mata e logo era possível ver o Passo Lamjura La a oeste, bem longe, além do bonito vale do Rio Junbesi bem abaixo. Às 10h46 alcancei a crista dessa serra. Ali uma surpresa: a primeira visão do Everest na extremidade esquerda de uma linda cadeia de montanhas que incluía também Thamserku, Kangtega, Kusumkangaru (Kusum Kanguru), Kyashar e Mera Peak. Porém todos muito distantes ainda (o Everest estava a cerca de 58km em linha reta). Reencontrei meus três amigos e gastamos um tempo tirando fotos. O local se chama Phurtyang (Phurteng) e o lodge ali não poderia ter outro nome: Everest View. A senhora vendia queijo de iaque. Às 11h09 retomei sozinho a caminhada porque os apressados já haviam ido embora. Até ali já havia passado por três pontos de água, mas dali até Ringmo passaria por mais de dez - água não faltou nesse dia! 

Caminhando agora pela vertente leste da serra, às 11h28 alcancei uma stupa que me proporcionou uma visão ainda melhor do Everest. Ao sul era possível ver também a pista do aeroporto de Phaplu, além do bonito vale do Rio Solu. Passei pela vila de Salung às 11h56 e continuei descendo. Às 12h54, junto a uma ponte, parei para comer alguma coisa que trazia na mochila. Tive a sorte de avistar e fotografar alguns macacos próximos da trilha. Na ponte seguinte começaram a aparecer as pedras mani coloridas e até embaixo da ponte suspensa que veio a seguir havia várias pedras desse tipo ao lado do Rio Dudhkund.

A partir do Rio Dudhkund (13h25) inicia a subida em direção ao Passo Taksindu La. A minha primeira parada nessa subida foi na vila de Ringmo, às 13h43, onde há uma fábrica de queijo de iaque com loja. O preço foi o melhor que encontrei (o mesmo de Deurali): Rs 150 (US$ 1,30) por 100g. Ali reencontrei Zita e Daniel. Há também um posto de saúde gratuito patrocinado por entidades da França e da Alemanha, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking.

A trilha, que até então era vazia e tranquila, passou a ter um número crescente de pessoas. Muita gente chega de ônibus, jipe ou mesmo avião a Phaplu ou Salleri e inicia a caminhada por ali. 

Retomei a caminhada às 13h58 e na subida ao Passo Taksindu La cruzei seis vezes uma estrada em zigue-zague, subindo por um caminho calçado de pedras à sombra da mata. O passo tem uma stupa, um lodge e um portal de pedras com rodas mani no interior. Altitude de 3058m. Passei por ele às 15h rapidamente porque ainda queria visitar o monastério que há na descida para Nunthala. Desci 190m e caí numa estrada, onde fui para a direita, mas andei nela apenas 40m e entrei na trilha à direita. Cheguei às primeiras casas da vila de Taksindu, onde a trilha deu uma guinada de 90º para a direita, e às 15h15 cheguei ao Monastério Takgon Seddrub Tharling. O lugar é bem grande e bonito, numa posição privilegiada com vista para as montanhas. Havia muitos monges, todos muito jovens, com suas roupas cor de vinho.

Retomei a caminhada às 15h31 saindo pelo mesmo portão por onde entrei (parece que há outras saídas). Na bifurcação fui à direita para descer por trilha (à esquerda caminharia pela estrada). Na bifurcação em T abaixo fui à direita e já pude ver Nunthala, porém muito abaixo ainda. Essa descida pareceu não ter fim, com pedras soltas e um pouco de lama, e havia bastante gente nela, inclusive três russos com quem conversei um pouco. Passei por três pontos de água e apareceu outra estrada, que primeiro tangenciei e depois cruzei, sempre procurando pelos caminhos por trilha e evitando andar na estrada. Às 16h40 cruzei uma ponte suspensa bem alta com vale bem estreito, quase um cânion, no fundo. Às 16h58 saí numa estrada, fui para a esquerda, fiz a curva para a direita e entrei noutra trilha à direita na próxima curva. Às 17h07 a trilha terminou numa estrada já na vila de Nunthala - fui para a direita e depois esquerda na bifurcação logo em seguida, descendo (havia placa de posto de saúde à direita). Para minha decepção havia carros trafegando ali.

Parei num dos primeiros lodges pois meus três amigos estavam lá, mas era bem pequeno e parecia já estar lotado. E devia haver opções bem melhores no centro da vila, mais abaixo. E havia muitas, todas vazias. Escolhi um dos últimos, o Danfe Lodge, e dei sorte pois a família era muito simpática e por ser o único hóspede jantei com eles. Eles aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, o quarto saiu de graça. O banheiro era no estilo oriental e ficava fora da casa, um problema para ir no meio da noite. Para escovar os dentes e se lavar não havia uma torneira fora da casa, como de costume, então era preciso usar a torneira do banheiro mesmo. Havia tomada (com interruptor) no quarto para carregar as baterias pela última vez nessa caminhada.

Altitude em Nunthala: 2206m
Preço do dal bhat: Rs 350
Preço do veg chowmein: Rs 350

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Campos cultivados em Kharikhola

5º DIA - 28/10/18 - de Nunthala a Bupsa

Duração: 5h (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2328m
Menor altitude: 1504m
Resumo: nesse dia a descida do Passo Taksindu La continua até o profundo vale do Rio Dudh Koshi, em seguida vem uma subida bastante desgastante até Kharikhola, uma descida bem suave até o Rio Khari e para encerrar uma subida dura até a vila de Bupsa.

Logo cedo apareceram alguns personagens que iriam ser companhia constante (e irritante) nos próximos dias durante o trekking: as tropas de mulas, que podiam chegar a grupos de 20 ou 30, para desespero dos trilheiros. Elas ocupam todo o espaço da trilha e é difícil ultrapassar o grupo todo, enquanto isso você é obrigado a respirar a poeira que elas levantam e o próprio mau cheiro delas. O tropeiro que as conduz dá gritos muito estranhos. Por mais cedo que se comece a caminhar não se consegue escapar de tê-las à frente. Ao cruzar uma tropa a recomendação é sempre ficar do lado da encosta e não da ribanceira já que uma topada com a carga de uma mula pode jogar o caminhante morro abaixo.

Com o céu limpo da manhã pude avistar da frente do lodge o Pico Kusumkangaru (Kusum Kanguru), muito bonito e imponente, a nordeste.

Saí do lodge às 8h46 inicialmente na direção nordeste e continuei minha descida. Às 9h03 fui à esquerda na bifurcação em frente a uma casa, descendo. Às 9h19 fui à esquerda em outra bifurcação pois havia uma fita verde mas tanto faz. Cruzei três pontes de concreto e depois uma estrada junto a um lodge. Saí na mesma estrada, mas andei apenas 20m por ela para a direita e entrei na trilha à esquerda. Novamente cruzei a estrada. Às 10h23 entrei na mata e desci por ela até a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, com a vila de Chhirdi cerca de 100m antes.

A essa altura eu já havia reencontrado os três russos com quem conversara no dia anterior, mas caminhamos pouco tempo juntos. Tivemos que esperar as mulas passarem pela ponte para atravessá-la, às 11h01. Dela se avista a confluência dos rios Dudh Koshi e Deku do lado esquerdo. Esse foi meu primeiro contato com o Rio Dudh Koshi, um dos principais rios da região, que acompanharei durante todo o trekking a Namche Bazar e depois a Gokyo, onde ele se origina. A altitude aqui é a mais baixa de todo esse percurso de Shivalaya a Namche Bazar, 1504m. E logo em seguida inicia a longa e cansativa subida até Kharikhola e seu monastério.

Nessa subida, às 11h19 alcancei a pequena vila de Juving, com vários lodges. Subi mais e logo após o Quiet View Lodge, num local chamado Chyokha, subi uma escadaria à direita seguindo a fita verde. Subi rápido tentando escapar das mulas que já se aproximavam. Mas ao cruzar com outra tropa, uma mula desembestada e desgarrada da fila esbarrou na minha mochila, sem eu ter por onde escapar, quase me jogando ao chão. Às 12h33 finalmente cheguei ao alto, ao pé da escadaria para o monastério Pema Namding. Ali estavam Zita e Daniel. Deixei a mochila no chautaara (local de descanso dos carregadores) e subi até a stupa e mais um pouco até o monastério. Dali se avista a vila de Kharikhola a leste. O casal húngaro preparou uma sopinha rápida com o fogareiro, eu preferi comer algo mais substancioso no Hill Top Guest House ali ao lado. 

Às 13h45, quando estava de saída, chegaram os três russos bastante cansados. Atravessei a vila de Kharikhola, bem extensa e com bastante comércio, com casas espalhadas desde o monastério até próximo da ponte suspensa sobre o Rio Khari. O Lodge Namaste oferece aulas de culinária e línguas (nepalês e sherpa). Fiquei interessado nas aulas de culinária... Cruzei a ponte suspensa do Rio Khari às 14h22 e veio a subida final até Bupsa, aonde cheguei às 15h18. Encontrei Zita e Daniel em frente ao Hotel Yellow Top e entrei para negociar o preço do quarto, que ficou de graça, só pagando as refeições.

O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Para escovar os dentes havia uma torneira no quintal da frente. Já deu para perceber que escovar os dentes e se lavar é um ato público e não privado no Nepal.

Saí para conhecer a vila e visitar a gompa (monastério) de 1892. Mais tarde, já anoitecendo, chegaram os três russos e se hospedaram ali também. Nessa noite Daniel tratou a minha água do dia seguinte com o Steripen dele - apenas 90 segundos para purificar 1 litro de água!

Altitude em Bupsa: 2328m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 330

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Vale do Rio Dudh Koshi com Lukla à direita e o Pico Khumbila ao fundo

6º DIA - 29/10/18 - de Bupsa a Cheplung

Duração: 7h20 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2876m
Menor altitude: 2301m
Resumo: nesse dia tomo finalmente a direção norte que me levará a Namche Bazar (no dia seguinte) pelo vale do Rio Dudh Koshi. Nesse dia caminho somente pela margem leste do vale (no dia seguinte cruzaria o rio quatro vezes), subindo até 2876m, descendo em seguida até 2301m na ponte de Surkhe e subindo novamente à vila de Cheplung (2687m).

Saí do lodge às 7h inicialmente na direção nordeste seguindo o caminho pisoteado pelas mulas. Às 7h28 cruzei uma ponte de madeira sobre o Rio Kanre e às 7h41 alcancei a vila de Kanre (Kare), com lodges. Subindo mais, após o Sonam Lodge há bandeirinhas e lenços marcando o Passo Khari La, porém a medição do ponto mais alto do dia pelo meu gps foi quase 1km à frente, após a vila de Thamdada. Passei por Thamdada às 8h37 e pelo ponto mais alto, de 2876m, às 8h46. Dali a visão é espetacular nas direções noroeste e norte, onde estão diversas montanhas nevadas, entre elas o Karyolung (esq) e o Cho Oyu (dir).

Às 9h30 cruzei uma ponte de madeira, em seguida uma ponte metálica sobre o Rio Paiya e logo cheguei à vila de Paiya (Puiya, Puyan, Poyan), com lodges e posto de saúde. Às 10h37 passei pela vila de Chhaubas, também com lodges, onde o Pico Karyolung domina a paisagem a noroeste. A visão do profundo vale do Rio Dudh Koshi à esquerda (sudoeste) vai ficando cada vez mais impressionante. Às 10h56, num mirante espetacular para a parte norte do Rio Dudh Koshi, tive a primeira visão de Lukla, com aviõezinhos pousando e decolando sem parar. Ao fundo, na direção de Namche Bazar, surge o imponente Pico Khumbila. A noroeste está o Karyolung e a nordeste se destaca o Kusumkangaru (Kusum Kanguru).

Desci bastante e às 12h22 cruzei uma ponte de ferro sobre o azulado Rio Surkhe, chegando à vila de Surkhe, onde parei para almoçar. Às 13h12 retomei a caminhada e às 13h28 cheguei a uma bifurcação com um muro de pedras mani e placa: à direita a escadaria que sobe para Lukla, à esquerda o caminho para Namche Bazar, para onde segui, cruzando a ponte. Às 13h46 cruzei uma ponte suspensa muito alta com cachoeiras formadas pelo Rio Handi à direita. Às 14h04 cruzei outra ponte de ferro com várias pedras mani bem grandes. Nesse momento estava exatamente abaixo da pista do aeroporto de Lukla. Às 14h24, na pequena vila de Musey (Mushe) conheci os muros de pedras mani com uma cobertura de cor vermelha em forma de telhadinho.

Às 14h41 alcancei a vila de Chaurikharka, com vários lodges, muitos muros de pedras mani e três grandes stupas. Ali comecei a notar construções mais bonitas e bem acabadas, sinal de que estava entrando numa zona mais "turística". Parei para descansar e às 15h03 voltei a caminhar. Ali havia sinal da NCell, depois de 3 dias tentando sem sucesso, e pude mandar notícias para casa. Às 15h28 alcancei enfim a vila de Cheplung e a trilha principal que vai de Lukla a Namche Bazar. E já me espantei com o intenso trânsito de trilheiros para cima e para baixo.

Termina aqui a primeira etapa dessa caminhada. Fiz em seis dias o que 99% dos trilheiros faz em 30 minutos de avião, mas valeu a pena cada paisagem, cada ladeira, cada família nepalesa que conheci e cada amigo novo que fiz, mesmo sendo passageiro. A partir daqui entraria no comboio de caminhantes, mulas e iaques em direção a Namche Bazar e depois o Everest. Porém, para manter os relatos de forma mais organizada, vou relatar ainda aqui a chegada até Namche Bazar e aos 3000m de altitude. 

Exatamente na confluência das duas trilhas (a trilha pela qual cheguei e a trilha que vai de Lukla a Namche) simpatizei com o Lodge Sherpa Home & Kitchen. Conversei com a simpática garota e o quarto sairia de graça, bem como a carga das baterias. O banheiro era no estilo oriental, mas dentro da casa. Para escovar os dentes usava uma mangueira no quintal do fundo.

Aproveitei ainda as duas horas de luz e fui conhecer o monastério da vila, bem no alto, incrustado no paredão de pedra. Saí do lodge na direção de Namche e logo após a ponte de concreto subi a escadaria de pedras à direita. Subi bastante e a trilha foi estreitando e sendo tomada pela vegetação, mas estava no caminho certo. Alcancei uma trilha mais larga acima e fui à direita na bifurcação já vendo o monastério logo acima. É impressionante a construção embutida numa enorme cavidade do grande paredão rochoso. Há ainda uma stupa, uma grande roda mani, todos os elementos de um monastério budista, além de uma bonita vista do vilarejo. Levei 14 minutos para subir a ele a partir do lodge e voltei por outro caminho, indo à direita na bifurcação logo abaixo, mas a trilha é mais confusa e mais longa. 

Mais tarde no lodge apareceram Zita e Daniel e resolveram se hospedar ali também. Só nós três de hóspedes nessa noite e pudemos conversar com a garota sobre muitos assuntos do cotidiano deles ali. Ela nos mostrou seus livros e cadernos escolares. Morava com a sua tia nesse lodge e nos contou histórias terríveis de rejeição e comércio de meninas pela família, além do problema sério do alcoolismo.

Altitude em Cheplung: 2687m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 300

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Vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo

7º DIA - 30/10/18 - de Cheplung a Namche Bazar

Duração: 6h20 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3430m
Menor altitude: 2551m
Resumo: nesse dia continuei percorrendo o vale do Rio Dudh Koshi sem grandes desníveis, mas após atravessar a famosa Ponte Larja (onde o vale desse rio vira um cânion) a subida final até Namche Bazar é longa e cansativa.

Saí do lodge às 7h12 no sentido nordeste e continuei no caminho principal após a ponte de concreto (à direita a trilha/escadaria sobe para o monastério). De cara já percebi duas coisas bem diferentes do trekking que vinha fazendo até aqui: o grande fluxo de pessoas (como já disse) e o caminho bem mais largo (para comportar o número de pessoas que passam).

Cruzei uma ponte suspensa sobre um deslizamento enorme, a ponte metálica sobre o Rio Thado Koshi (menor altitude do dia:  2551m) e cheguei às 7h51 à vila de Thadokoshi. Às 8h05 passei pela vila de Ghat (Yulning) com um bonito monastério de paredes vermelhas (como a maioria deles) e várias pedras mani. Às 8h22 passei pela vila de Chhuthawa. Às 8h37 ignorei uma ponte suspensa à esquerda e continuei em frente, entrando na vila de Phakding 3 minutos depois. Às 8h52 cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, que divide a vila de Phakding, contornei os lodges pela esquerda e fui à direita na bifurcação em T. Estava agora na margem oeste desse rio.

Às 9h14 passei por Zamphute, com lodges. Em seguida cruzei uma ponte de concreto sobre o Rio Ghatte (ou Rio Nagbuwa) e às 9h26 passei pela vila de Toktok. Uns 5 minutos depois passei por uma cachoeira à esquerda com três quedas sucessivas. Às 9h39 subi à esquerda na bifurcação e logo avistava a vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo, numa paisagem de cartão-postal. Às 9h55 cruzei uma ponte de concreto com uma cachoeira de duas quedas sucessivas à esquerda onde alguns iaques carregados queriam parar para beber água. Subi um pouco e na descida já estava entrando na vila de Benkar. Às 10h12 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi retornando à margem leste, onde volto a visualizar o Pico Khumbila ao norte. Às 10h30 passei pela vila de Chumoa. 

Cruzei a ponte de ferro do transparente Rio Monjo e subi cerca de 130m até um checkpoint na entrada da vila de Monjo. Parei ali às 10h40 para pagar a permissão local (substituto do TIMS card para o Everest) no valor de Rs 2000 (US$17,36). Cerca de 400m à frente, depois de cruzar toda a vila de Monjo (com diversos lodges), parei às 11h03 na entrada do Parque Nacional Sagarmatha para pagar a permissão. Entrei na fila demorada e paguei os Rs3000 (US$26,04). Essa permissão pode ser obtida no Tourist Service Center, em Kathmandu, e somente apresentada aqui, num procedimento bem mais rápido. Às 11h32 me livrei dos pagamentos e, ao cruzar um portal budista, pude enfim pôr os pés nesse lugar tão aguardado: o parque nacional que abriga as maiores montanhas do mundo!

No horizonte ainda se destaca o Pico Khumbila. Desci bastante e às 11h42 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, para a margem oeste de novo, e fui para a direita. Às 11h52 passei pela vila de Jorsale com os restaurantes todos lotados pois é o último vilarejo antes da longa subida a Namche Bazar. Mais à frente todos tivemos de esperar os iaques cruzarem a ponte suspensa Tawa sobre o Rio Dudh Koshi para poder atravessá-la. De volta à margem leste parei numa escadaria para comer alguma coisa que tinha na mochila e às 12h13 segui à esquerda pela trilha, acompanhando o rio, não subindo a escadaria.

Às 12h47 parei próximo à confluência dos rios Dudh Koshi e Bhote Koshi, junto com muitas outras pessoas, para tirar fotos da famosa Ponte Larja, uma ponte dupla que aparece no filme Everest (de 2015). A ponte de baixo está desativada, todos passam pela ponte de cima, repleta de bandeirinhas de oração budistas. Ambas se estendem sobre o Rio Dudh Koshi, de águas azuladas. A linda cor do rio completava o cenário quase irreal das duas pontes muito altas na entrada do cânion. Um dos momentos mais emocionantes dessa caminhada!

Dali da margem foi uma boa subida até a ponte de cima. Mas depois de cruzá-la, às 13h02, é que vem o aclive de verdade, saindo dos 2970m e subindo sem trégua até os 3430m do centro de Namche Bazar.  No caminho há banheiros e um checkpoint pelo qual passei direto. Felizmente toda a subida é feita na sombra da floresta. Quando cruzei a Ponte Larja voltei à margem oeste do Rio Dudh Koshi e oficialmente entrei na região conhecida como Khumbu. Na chegada a Namche, às 14h03, me deparei com uma grande escadaria subindo à direita e a trilha continuando à esquerda. Na dúvida fui para a esquerda (cada caminho aqui leva a uma parte diferente da vila). Fiz uma curva para a direita e lá estava diante dos meus olhos um lugar quase mítico para mim: Namche Bazar, com suas casas de 3 ou 4 andares dispostas em forma de ferradura ao longo da encosta da montanha. Visão inacreditável, principalmente depois de 7 dias de caminhada. Parei para contemplar aquela visão, descansar um pouco e me emocionar com aquele momento.

Passei pelo portal budista e comecei a subir pela ladeira de acesso ao centro, com várias rodas mani bem grandes à direita movidas a água. Uma vez no centro comecei a subir as ladeiras de pedra pensando para que lado procurar hospedagem quando ouvi alguém me chamar: era o Christopher, o austríaco. Ele me indicou o lodge onde estava, de nome Shangri La Guest House, e fui para lá. A dona aceitou que eu pagasse somente as refeições, o lugar era bom, mas depois não gostei de algumas coisas e não recomendo esse lodge. O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada, ainda lavatório com espelho, era muito luxo! Mas houve algumas decepções como: é um lodge que trabalha com grupos grandes e no refeitório só dão atenção para esses grupos; foi o único lugar no Nepal onde acrescentaram 13% de imposto à conta final. Para completar, somente no café da manhã do dia seguinte é que a dona me falou que eu não poderia dormir mais uma noite ali porque havia reservas de grupos. Tive de arrumar a mochila correndo e deixar guardada para procurar outro lugar para ficar quando voltasse da caminhada de aclimatação no final do dia. 

Altitude em Namche Bazar: 3430m
Preço do dal bhat: Rs 650
Preço do veg chowmein: Rs 500

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Cachoeira na entrada da vila de Benkar

Informações adicionais:

Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.

Horários de ônibus:

. Kathmandu-Jiri-Shivalaya: 6h e 8h 
São 10h10 de viagem (para 197km) até Jiri e 11h20 de viagem (para 215km) até Shivalaya
Em Kathmandu os ônibus saem do imundo terminal do Ratna Park
Preço: Rs760 (US$6,60) até Shivalaya

. Kathmandu-Bhandar: 5h30 (único horário)
Em Kathmandu os ônibus saem também do horroroso terminal do Ratna Park

Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com.

 

Rafael Santiago
novembro/2018
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

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    • Por Renato37
      Travessia realizada em 17/08/2019.
      Todas as fotos da travessia estão em: https://photos.app.goo.gl/iALbK8QSahnj7Lku6

      - Introdução -
       
      Fazia algum tempo que não batia perna na região de Paranapiacaba, ainda mais por conta da proibição e o aperto da fiscalização nas tradicionais trilhas do entorno da vila, como a da Fumaça e Cristal. Então, para evitar problemas, tenho optado por ir para outros lugares, como na Serra do Mursa, Itapety e Mogi, entre outros.

      Já tendo feito um batevolta na pouco conhecida Pedra Grande do Quatinga em 2013, es que me surge a ideia de retornar a mesma, mas não mais como um simples batevolta, mas sim, como travessia com 1 pernoite. Chamei várias pessoas, mas dado a logística e ter que acampar, apenas 5 toparam ir comigo na empreitada.

      Passava das 9:00 da manhã qdo saltei do metrô da linha 2 (verde) na estação de Tamanduateí, local previamente marcado com parte da turma. Lá encontrei o Marcio, Janaína e a Suzana que já me aguardavam no local. Sem perder tempo, logo embarcamos no trem da linha 10 da CPTM sentido Rio Grande da Serra, onde encontraríamos a 5º integrante da trupe, a Monike que é do ABC e que iria nos encontrar diretamente lá.

      Na Estação de Rio Grande da Serra esperando a ultima integrante da trupe, a Monike.

      Com toda a trupe reunida e após um breve café da manhã reforçado, embarcamos no latão rumo a Paranapiacaba que por sorte, estava com problemas na catraca e por isso, não houve cobrança da passagem, para a alegria de todos.


      1º Dia - Da Vila de Paranapiacaba ao Topo da Pedra Grande do Quatinga.
      Desembarcamos do ônibus em uma Paranapiacaba incrivelmente ensolarada e de céu estupidamente azul, coisa rara e que poucas vezes se vê por lá, com a ausência total do famoso "Fog" tradicional da vila inglesa. Para quem não sabe, o tradicional nevoeiro e os dias sem visual algum faz parte da vila inglesa, construída no Século XIX.


      O Relógio marcava pouco depois das 11:30 e precisaríamos apertar o passo afim de chegarmos até o topo da Pedra Grande a tempo de ver o por-do-sol. Após alguns clicks de praxe da vila inglesa e a tradicional foto clássica da trupe em frente a igreja, iniciamos a caminhada descendo a ladeira que liga a parte alta a baixa da vila.


      A turma na tradicional foto antes de começar a caminhada.
      Durante a caminhada na vila de Paranapiacaba, notei que muita coisa mudou desde a ultima vez que lá estive, anos atrás: O Bar da Zilda parecia um bar de balada, os quiosques do lado da passarela já não existiam mais e por fim o baixo movimento da vila para um Sábado ensolarado, reflexo da decadência que se tornou o local, que teve inicio após a proibição abusiva de acesso ao que foi um dos principais atrativos da vila: As trilhas que levam a várias cachoeiras da região.

      Pelo menos restauraram o velha replica do big ben de Londres da vila. Percebi tb que os moradores tiveram que ser criativos para atrair novos turistas para a região, que estavam espalhados pela vila, mas de nada lembrava a epoca boa de quando aquilo lá bombava.
      Acredito que, o que deve estar mantendo a vila de Paranapicaba em pé são os artesanatos, os vários festivais que são realizados ao longo do ano e que atraem centenas de milhares de turistas, como o tradicional festival de inverno.


      O novo "Big Ben" restaurado
      Com pouco tempo disponível, nem tiramos muitas fotos, pois tinhamos pela frente, vários quilômetros de caminhada até a Pedra Grande.
      As 12:15, deixamos Paranapiacaba e adentramos a pacata e tranquila estrada de terra do Taquarussu, palco inicial de várias outras trilhas feitas anteriormente. Essa estrada também liga o Bairro de Mogi a vila de Paranapiacaba.
      O trajeto começa logo de cara com uma subida que parecia assustar, mas como estavamos em um pequeno vale, esse trecho inicial de subida não foi um problema, pois aqui há enormes árvores que nos brindaram com uma refrescante sombra, o que foi um alívio para todos.

      Passamos por uma portaria e uma placa indicando que ali pertence ao parque natural nascentes de Paranapiacaba e que o acesso as trilhas requer a contratação de um guia, o que ignoramos é claro. Afinal, nosso destino estava bem distante dali, numa trilha em outro municipio. Algumas placas pelo caminho sugerem que essa mesma estradinha também faz parte do conhecido "caminho do sal".
      30 minutos de caminhada desde a vila de Paranapiacaba, passamos pela conhecida entrada da trilha que leva a cachoeira da Agua fria, onde havia um pessoal parado na beira da estrada e que  parece ter ido a cachoeira.
       Minha vontade de adentrar na trilha para rever a cachoeira foi reprimida pela obrigatoriedade de acompanhamento de um monitor, já que a trilha faz parte do pseudo parque natural de Paranapiacaba. Então, passamos batido por ela.
      Mais 15 minutos e passamos pelo marco divisor que divide os municipios de Sto André e Mogi das Cruzes, localizado no ponto mais alto da estradinha. A partir dai, inicia-se uma grande descida até o pitoresco vale do Taquarussu, pequeno vilarejo com meia duzia de casinhas simples.


      O Marco divisor fica do lado dessa placa, fincado da terra.
       
      Durante a descida, cruzamos com vários bikers e chegamos na pitoresca vila de Taquarussu as 13:20hs, mas nos limitamos a apenas algumas fotos, já que ainda tinhamos muito chão pela frente.
      Deixamos Taquarussu por volta das 13:30h e a partir dai, iniciamos um trecho pela mesma estrada de terra ainda mais deserta e em meio a um enorme vale. Aqui, as árvores são mais espaçadas e o sol passou a nos cozinhar, literalmente.
      2 horas de caminhada desde a vila de Paranapiacaba, resolvemos fazer um pit-stop para forrar o estomago e molhar a goela seca em um pequeno descampado ao lado da estrada.


      A Pitoresca Vila do Taquarussu, por ser uma propriedade particular, agora é toda cercada e fechada

      Descansados e saciados, voltamos a caminhada e as 14:20hs, chegamos a uma bifurcação, com uma placa indicando o camping simplão de tudo a direita, mas o caminho correto a seguir é a esquerda, em linha reta em direção ao pesqueiro trutas pedrinhas.
      Mais 10 minutos e chegamos em uma trifurcação, sendo que a esquerda vai para o Bairro de Quatinga sem passar pela Pedra Grande e a direita segue para o camping simplão de tudo. Mas o caminho correto é seguir em frente, em linha reta.


      Chegando nesse ponto, siga em frente ignorando os caminhos a esquerda e a direita

      Depois da trifurcação, passamos pelo 2º ponto de água, um enorme poção de água potavel que em um dia de calor de verão poderia ser a deixa para um convidativo tchibum. Aproveitamos para pegar água para o restante do dia e o seguinte. Como não lembrava de mais nenhum novo ponto confiável de agua a frente, sugeri a turma que coletasse toda a agua que fosse precisar a partir dali.


      O Poção e 2ºponto de água. O primeiro ponto é no acesso a cachoeira da Agua Fria, antes da vila de Taquarussu
      Recarregados com o precioso líquido, continuamos a caminhada e as 15:00hs, finalmente alcançamos o tal pesqueiro trutas pedrinhas. Mais uns 100 metros após o pesqueiro, chegamos a uma bifurcação, onde o caminho a seguir é para a direita. A partir desse ponto, passamos a caminhar por uma estrada mais estreita e precária, com a visão da face oeste da Pedra Grande agora visivel a maior parte do tempo. Passamos por alguns sitios e um lago a direita, enquanto a estradinha vai dando voltas pelo vale em direção a base da Pedra Grande e após passarmos por um grande vale, inicia-se uma sequencia de pequenas subidas.


      Pouco depois do pesqueiro, vire a direita.


      A Estrada correta vai levar diretamente a base da Pedra Grande, esse pico com a face careca logo acima na foto

      Face oeste da Pedra Grande visivel a maior parte do tempo
      Em uma curva a esquerda, já quase na base da Pedra Grande, uma trilha a direita serve de atalho e nela, havia uma placa indicando que ali é a continuação do conhecido "caminhos do sal." Adentramos a trilha e começamos uma das primeiras subidas em direção ao topo em uma trilha cheio de erosões e bem escorregadia, devido a constante passagem de motos. Muito cuidado nesse trecho.
      Durante a subida, passamos por mais um ponto de água, o último antes de chegar a base. Pegue toda a agua que for precisar desse ponto, que é o último. No topo e durante o restante da subida, não encontramos mais nenhum outro ponto de água.


      O acesso da trilha atalho: notem a placa no tronco indicando que ali é o caminhos do sal


      Trilha enlamenada, erodita e escorregadia por conta da passagem constante de motos
      Enfim, finalmente chegamos a entrada da trilha as 15:50hs. No meio das arvores ao lado da trilha, era possível ver o topo da Pedra Grande com seu topo bem visível dali. Agora iria começar a parte mais puxada desse primeiro dia, depois de quase 4 horas e 14 km de caminhada, que é subir até o topo, ainda mais com cargueira nas costas.
      A trilha é bem aberta e seu trecho inicial é composto por uma leve subida, sem grandes dificuldades. Caminhamos por cerca de 350 metros e chegamos a uma bifurcação, onde o caminho correto a seguir é para a esquerda, marcada por uma fita vermelha presa no tronco de uma árvore.


      Trecho inicial da trilha
      A partir desse ponto, a moleza acaba e a trilha inicia uma das várias subidas fortes em direção ao topo. Como acontece nos picos em geral, a medida que avançavamos, a subida ia ficando mais ingreme e o auxílio das mãos passou a ser constantemente necessários para impulso nos troncos, rochas e pedras.
      A subida é ardua, e com o peso da cargueira e o cansaço da longa caminhada até aqui, vou parando algumas vezes para retomar o fôlego.
      A Janaína e a Monike esboçavam sinais de estarem nas últimas e foram subindo em ritmo de tartaruga manca com muletas, mas não tinham escolha, pois subir era preciso!
      Felizmente, os trechos mais íngremes não duram muito tempo e logo adentramos a um trecho de ombro, com a subida mais forte dando uma trégua. 20 minutos desde a estradinha lá embaixo, eu e a Suzana emergimos da mata fechada e passamos a subir na parte descampada do topo, que era o trecho final da subida, mas que voltou a ficar bem íngreme e dessa vez com o sol forte na cachola.
      Finalmente, com pouco mais de 30 minutos de subida desde o inicio da trilha lá embaixo, chegamos ao topo dos 1.155 metros de altitude da Pedra Granda do Quatinga as 16:32hs, encerrando a caminhada desse 1ºdia de travessia. Não havia ninguém no topo e é claro que fomos donos absolutos do lugar, para a alegria da Suzana que passou a se fartar de fotos do topo.
      O cume tem um visual de 360 graus e lá do topo, consegue-se visualizar todas as cidades do entorno, como Mogi das Cruzes, Suzano e até Mauá bem distante.
      Sem perder tempo, fui logo procurando um lugar plano e protegido para montar a barraca. Qdo estava montando a barraca, Marcio, Janaina e a Monike chegaram ao topo, uns 15 minutos depois.







      Com a trupe reunida novamente, montamos rapidamente as barracas e ficamos só de boa só aguardando o Astro-rei repousar no horizonte que mais uma vez, foi um espetáculo a parte. A noite, a bola da vez foi as luzes das cidades do entorno todas iluminadas.
      Depois cada um foi preparar a sua janta e ficamos só jogando conversa fora e  vendo as estrelas com um plus a mais: O nascer da lua as 19:20hs toda avermelhada que foi um espetáculo único a parte.
      Mas com o vento frio e o sono vindo, nem fiquei muito tempo fora da barraca e fui dormir por volta das 21:30hs.

      2º Dia - Do Topo da Pedra Grande ao Bairro do Quatinga em Mogi

      Nascer do Sol
      O domingo amanheceu sem vestígio de nuvem alguma e apenas uma leve nevoa nos vales. Como de praxe, todos ficamos aguardando o surgimento do Astro-rei e após os clicks, fomos preparar o café da manhã. O meu foi com pão e um café bem quentinho para espantar o frio da manhã.
      Barraca desmontada e mochila nas costas, iniciamos a descida por volta das 8:30 com o belo visual da cadeia de morros e vales do alto da Serra do mar bem a nossa frente ainda encoberto por uma fina camada de névoa, o que foi mais um atrativo a parte.
      Descemos por uma trilha alternativa que faz algumas curvas para diminuir o desnível de quem sobe, evitando a pirambeira que sobe direto. Mas no restante da trilha, e as meninas sofreram um pouco, principalmente a Janaina que estava só com uma mochila comum carregando a barraca e isolante térmico nas mãos (que coragem).


      Vales tomados pela nevoa


      Com a descida muito íngreme, os escorregões dela foram inevitáveis, o que me deixou um pouco preocupado, dado o fato que poderia se machucar gravemente e ter que chamar o resgate. Mas felizmente o Marcio deu um auxilio nos trechos mais pirambeiros e a descida foi tranquila.
      Pouco depois das 9:00hs já estavamos todos de volta ao inicio da trilha e a partir dai, passamos a seguir pela continuação da estrada de terra da trilha atalho em que viemos no primeiro dia. 20 minutos após sair da trilha da Pedra Grande, a estrada começa uma longa, mas sinuosa descida até um grande vale, para depois virar a direira, subir um pouco e novamente descer.
      As 9:32, chegamos ao primeiro ponto de água desse trecho, que é um riozinho que corre paralelo a estrada e depois cruza ela um pouco a frente. A turma aproveitou para recarregar seus cantis pq segundo infos, seria o unico ponto de agua limpa e confiavel de todo o trecho. Como eu tinha 1 litro de suco e 500ml de agua de coco que eram mais que suficientes para mim para o trecho final, nem me preocupei.
      Após o trecho do rio, a estrada de terra passa a ficar mais movimentada, aparecem os primeiros sitios e casas e junto com eles, os carros, que nos fazem comer poeira.
      Mais 1 hora de caminhada tediosa pela estradinha, passamos por uma bifurcação com uma placa indicando que a esquerda, segue para o sítio Itaguassu e aproveitamos para fazer um rapido pit-stop nesse ponto para um lanche e molhar a goela seca.
      E enfim, após 2 horas desde o topo da Pedra Grande, alcançamos o bairro de Quatinga bem a tempo do próximo ônibus para Mogi .
      Após uma viagem de quase 1 hora, saltamos na estação central de Mogi das cruzes, onde pegamos o trem de volta para SP, chegando em casa por volta das 14:30h, cansado, mas feliz.

      Dicas:

      --> Durante toda a travessia, existem poucos pontos de água, mas bem distribuidos, não sendo necessário sair carregado de agua da vila ou de casa. O 1º ponto está na base da cachoeira da agua fria, após a trifurcação no poção e no inicio da trilha atalho.
      No segundo dia, o unico ponto de agua está bem na metade do caminho.

      --> Se for acampar, pegue toda a agua que precisar no ultimo ponto, pois na trilha e no topo não há água. Eu carreguei comigo 1 litro de agua e outro de suco que foram mais do que suficientes pra mim.

      --> No topo não há areas protegidas dos ventos, somente adentrando na trilha a esquerda que parte na direção sul. Lá há uns pequenos descampados para 1 ou 2 barracas em cada trecho e que são uma boa opção de area protegida. É só descer uns minutos pela trilha para achar os pequenos descampados planos e protegidos no meio da mata.

      --> As linhas de ônibus para o terminal Central de Mogi são:
      C192 Quatinga via Tomoki hiramoto e C193 Quatinga via Barroso.
      A Linha C192 tem poucos horários, mas a C193 tem vários horários, mesmo aos domingos.
      Ambos as linhas são municipais e a tarifa é de R$ 4,50 (Ref.Agosto/19)

      Maiores informações podem ser obtidas no site www2.transportes.pmmc.com.br ou pelo telefone 0800-195755.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
    • Por casal100
      Esse relato é dividido em duas partes:
      A primeira foram mais de 900 kms (da página 1 até a 6), trechos de picos, travessias e alguns trechos no entorno de cidades;
      A segunda parte,  mais de 300kms, só teve uma travessia e muitos picos,  começa  na página n° 7.
       
      Vários amigos e familiares nos indagavam sobre nossas travessias, segundo eles, tudo era muito repetitivo(as fotos eram parecidas, repetimos várias vezes os mesmos caminhos, até pela falta de outros. Até tem, mas caminho particular, não faremos  mais). De certa forma eles têm razão, visto que a visão do picos e montanhas não tem comparação com fotos de estradas e, tem um detalhe mais importante: as principais atrações das cidades(tirando algumas) não estão dentro delas, mas nos arredores  (cachoeiras, picos, morros. ..). Nesses 2 meses,  caminhamos mais de 900 quilômetros é quase 10.000 kms de carro. Conhecemos pessoas maravilhosas por onde passamos, experimentamos emoções que nunca tivemos,  comidas deliciosas,  não tivemos nenhum problema mais sério, tudo muito tranquilo.
       
      O BRASIL É SIMPLESMENTE SENSACIONAL! 
      E mais bonito visto de cima. Diante disso e, até para comemorar meus 60 anos de vida (ingressei na melhor idade), neste verão resolvemos fazer algo um pouco diferente : fomos conhecer e rever alguns parques nacionais /estaduais /municipais e privados, subir alguns picos/montanhas  e alguns circuitos desses locais, região de cachoeiras,  e Brumadinho(Inhotim), poderíamos estar no dia do rompimento da barragem,  para nossa sorte desistimos em cima da hora.
      LOCAIS VISITADOS:
      Extrema - Mg (subida as base dos pico do lopo e do lobo)
      Munhoz - Mg(subida ao pico da antenas, caminhos)
      São Bento do Sapucaí - Sp(pedra do baú e roteiro)
      Marmelopolis -Mg(subida ao morro do careca, mirantes, pedra montada, roteiros e subida ao pico Marinzinho)
      Aiuruoca - Mg(subida ao pico do papagaio, matutu, cachoeiras)
      Visconde de Mauá-Rj - (subida a Pedra Selada)
      PN Ibitipoca - Mg (Janela do céu, pico, circuito das águas e grutas)
      São Tomé das Letras - Mg (cachoeiras e roteiros)
      Carrancas - Mg(cachoeiras e circuito serra de carrancas)
      Ouro Preto - Mg (centro histórico e subida ao pico do Itacolomi)
      Mariana-Mg: Bento Rodrigues, local destruído por outro rompimento de barragem da Vale.
      Serra do Cipó - Mg(todos circuitos dentro do parque e travessão)
      Conceição do Mato Dentro - Mg: cachoeira do Tabuleiro  (base e mirante)
      Lapinha da Serra - Mg(subida aos picos da Lapinha e Breu, cachoeira Bicame e Lajeado,  parte travessia Lapinha x Tabuleiro)
      Brumadinho - Mg(Inhotim)
      PN de Itatiaia - parte alta - Mg(base do pico das agulhas Negras e prateleiras, cachoeira Aiuruoca, circuito 5 lagos, subida ao pico do couto)
      Piquete - Sp(subida ao pico dos Marins)
      Infelizmente, por excesso de chuvas, não fizemos os picos do Itaguaré e da Mina( motivação da viagem). Entrou uma frente fria na semana que antecedeu o carnaval, tivemos que abortar por questão de segurança, pois não utilizamos guias e fazemos somente Bate/volta - fica para a próxima.
      As surpresas da viagem:
      Inhotim, Lapinha da Serra e Serra do Cipó. Pois não conhecia nenhuma delas.
      Algumas fotos
      Subida ao pico dos Marins - SP

      Pico do Itacolomi - Ouro Preto - Mg

      Cachoeira Bigame - Lapinha da Serra-Mg

      Subida para pico do Breu e Lapinha - Lapinha da Serra-Mg

      Vista desde o pico da Lapinha

      Cachoeira do espelho - travessão - Serra do Cipó -Mg

      A incrível JANELA DO CÉU 

      flora exuberante



    • Por divanei
      LAGUNA 69

       
                Ir ao Peru pôde ser uma das experiências mais incríveis que um Brasileiro poderá ter na vida e se você desembarcar em Huaraz, capital da província de Ancash, cidade de 140 mil habitantes situada a quase 400 km da capital Lima e imersa no meio da Cordilheira Branca, uma extensão da Cordilheira dos Andes, não espere nada menos que o surpreendente, um mundo tão diferente do nosso que irá fazer com que você perca o chão , sua cabeça vai rodar e talvez sentirá até náuseas , tanto pela diferença cultural, tanto pela altitude acima dos 3.000 metros . Eu já havia passado pelo Peru muito rapidamente em 2007, numa viagem alucinante até as ruínas de Machu Picchu, mas foi uma passagem tão rápida e tão conturbada que mal tive tempo de me deixar entrar na cultura peruana, mas desta vez havia separado muito tempo para me perder no país e agora arrastando minha mulher atrás de mim, o que para ela seria ainda mais devastador, já que era sua primeira vez.

         ( LIMA - PERU  )
                A Cordilheira Branca é algo realmente surpreendente, uma espécie de Patagônia Peruana, com uma centena de picos acima de 6.000 metros, geleiras, lagunas coloridas, glaciares, templos Pré –Inca, ruínas históricas, animais exóticos e uma infinidade de diferenças culturais e comidas diversas, trilhas e travessias de montanhas geladas são em números incontáveis e o melhor de tudo isso é que os preços são tão baixos que um brasileiro em economia de guerra vai se sentir rico lá.
                Na praça central de Huaraz , a Praça de Armas, meu pensamento voa longe enquanto nos deslumbramos com a magnitude de duas lhamas e as suas donas trajadas de chollas, que por algumas moedas, emprestam seus bichinhos para uma foto típica, mas meus pensamentos se elevam às montanhas gigantes cobertas de gelo e me imagino no topo delas, mas logo sou trazido a realidade e me lembro que desta vez a única coisa que poderei fazer é me portar como mero turista e não como aventureiro atrás de encrencas geladas e ser turista em Huaraz já é algo magnífico e me sinto feliz de poder compartilhar esse  momento incrível com minha companheira de 30 anos.

                Mesmo como turista é possível passar meses na cidade sem repetir passeio e todos são grandiosos e espetaculares, alguns sem exigência física nenhuma, outros serão apenas para poucos ou pelo menos para quem não é totalmente sedentário, porque além de ter que pôr o pé na trilha ainda vai ter que superar o fator altitude, alguns passeios vão chegar a 5.100 metros e alguns acabam por ficar pelo caminho, mas outros passeio deixarão o turista já no local sem que ele precise dar um passo se não quiser. Geralmente quem vem à Huaraz acaba por separar uma semana ou pouco mais que isso e já vem com os passeios tradicionais muito bem definidos, não é regra, mas conhecer as atrações principais acaba por se tornar quase uma obrigação, isso claro para quem não vai com o intuito de fazer caminhada de alta montanha ou escalar, aí essa regra não vale nada e nem vou expor isso aqui porque seria necessário escrever uma bíblia para falar de tudo que se pode fazer na Cordilheira Branca e mais ao sul dela.

                Dos passeios mais tradicionais, talvez a LAGUNA 69 seja a principal atração, não só por ter uma paisagem grandiosa, mas porque também é preciso de uma superação tão grandiosa quanto a beleza da paisagem, porque de todos os passeios tradicionais, esse é o que requer um esforço físico para ser alcançado. Não que a trilha seja assim algo quase que para super-homens, mas com certeza é o fator altitude que vai determinar quem pode ou não subir ou quem aguenta ou não se expor nos 15 km de caminhada com o pulmão querendo explodir procurando um pouco de ar para respirar e esse seria o desafio que eu havia programado para tentar arrastar minha mulher atrás de mim, mesmo porque eu já sabia que meu organismo se adapta muito bem a altitude e com um condicionamento físico mais ou menos em dia para minha idade, tiraria de letra, mas minha mulher , quase que uma sedentária contumaz , teria que se preparar muito bem para aquela aventura e o principal a fazer, era não fazer absolutamente quase nada, dar tempo ao tempo e esperar que o organismo se adaptasse a altitude, então programei um roteiro de passeios com esse fim, deixando a LAGUNA 69 com mais de 4.600 metros de altitude para o final da viagem, seria a cartada derradeira, uma tentativa de fazê-la conquistar essa atração, talvez uma das mais belas da AMÉRICA DO SUL.

               Huaraz não é uma cidade grande, mas mesmo assim é bem movimentada, com um trânsito intenso e barulhento, onde quem buzina mais tem prioridade, mas essa característica é do país inteiro. No centro, perto da sua praça principal ou mais precisamente na avenida que passa em frente dela e uma abaixo é onde tudo se concentra, desde bancos, órgãos oficiais, lojas de equipamentos, casa de câmbio e as agências de turismo que fazem todo tipo de passeio, que eles chamam de tours. Infelizmente quando desembarcamos em uma das inúmeras rodoviárias, porque cada empresa de ônibus tem a sua, acabamos por entrar meio numa furada de aceitar uma oferta de hostel ou alojamento e com isso acabamos sendo levados a fechar todos os passeios com eles. Acontece que a oferta era tão barata, mas tão barata que ficamos deslumbrados com a possibilidade de gastar uma merreca comparada a nossa realidade no Brasil. Os caras nos ofereceram no pacote uma diária que acabou saindo 25 reais por dia, claro, numa hospedagem meia boca, mas com um quarto de casal com uma cozinha disponível, mas um pouco longe do centro. Depois descobrimos que poderíamos ter pago o mesmo valor para ficar mais bem localizados e no fim acabamos pagando mais caro pelos passeios, mas era tão barato que a gente pouco se importou, fica então a dica de não fechar nenhum pacote com hotel nenhum e negociar os preços direto nas agências e conseguir aquele desconto maneiro.
                Organizei um roteiro que pudesse então fazer com que a gente fosse se aclimatando para enfrentar as altitudes da Laguna 69 e no primeiro dia que chegamos, embarcamos para CHAVIN DE HUASCARAN, uma viagem de um dia inteiro, ida e volta cruzando por cima da Cordilheira até as ruínas Pré-Inca , com uma paisagem deslumbrante no caminho, subindo a mais de 4.600 metros de altitude, passando pela Laguna Querococha, uma introdução as maravilhas da Cordilheira. A viagem é meio cansativa, principalmente para quem chegou de Lima numa viagem noturna de quase 8 horas, mas vai ajudar muito o organismo a ir se adaptando e na volta ainda tivemos a sorte de pegar uma nevasca que cobriu toda a rodovia de neve, mesmo no início do outono.

               
                No dia seguinte tiramos para descansar e para perambular pela cidade, nos enfiarmos nos guetos e bocadas e tentar compreender aquela cultura deslumbrante com um povo tão diferente do que estamos acostumados. Tudo nos faz cair o queixo, as mulheres com suas roupas coloridas e que vendem de tudo que se possa imaginar. Vemos uma pobreza gritante, mas também um povo trabalhador ao extremo e que gosta de comer muito bem. Aliás, a culinária peruana faz jus aos prêmios internacionais que vem ganhando ao longo dos tempos, uma diversidade gastronômica impressionante e o melhor de tudo, com preços baixíssimos, tanto que se podia comer até não aguentar mais por míseros 6 ou 7 reais nas dezenas de pequenos restaurantes espalhados ao redor do Mercado Central. Um dos pratos mais típicos do Peru é o CUY, uma espécie de porquinho da índia e o Ceviche Peruano, esse último eu comia quase todos os dias, mas o porquinho ficaria somente para outra oportunidade, já que minha mulher se recusava a dividir a mesa comigo para degustar essa iguaria local.

                No terceiro dia marcamos para ir a outra grande atração local, o GLACIAR PASTORURI, uma geleira que fica ao sul de Huaraz. A agência nos pegou no hotel às 8:30 com uma van coletiva com gente de toda parte do mundo. Subimos de novo a Cordilheira em pouco mais de 3 horas de viagem, com uma pequena pausa no caminho para um chá de folha de coca para ajudar na aclimatação. Esse é mais um passeio que leva o dia inteiro e vai custar pouco mais de 30 reais por pessoa e mais uns 30 pelo ingresso no Parque Nacional de Huascarán , pode sair bem mais barato se comprar já 3 ingressos , saindo pouco mais de 60 reais, já que iríamos usar para outros dias, fizemos isso. A van deixou a gente a 2 km da geleira. O tempo estava meio embaçado e ameaçava nevar, mas o grande problema ali é a altitude que beira os 5.100 metros e vai desafiar o organismo sem piedade. A caminhada tem pouco aclive, mesmo assim muita gente opta por alugar umas mulas por míseros 7 reais para subir por uns 15 ou 20 minutos, mesmo sendo algo para turista, quem é sedentário de carteirinha vai botar a língua de fora e minha mulher não fugiu à regra, dava um passo e já apoiava as mãos no joelho tentando procurar ar sabe-se lá de onde. Vendo o estado dela tentando vencer esses míseros 2 km, comecei a desconfiar da sua capacidade de conseguir fazer a trilha até a Laguna 69, mas enfim, era preciso deixar o tempo passar para ver como seu corpo reagiria nos próximos dias, se conseguiria se adaptar a altitude. No caminho para o glaciar o tempo virou de vez e a chuva que ameaçava cair desabou em forma de neve, o que foi muito bonito de se ver, mas também acabou por congelar nossas mãos antes de nos valermos de uma luva e um gorro quentinho. Devagarzinho e sendo quase que empurrada por mim, o Rose chegou, com a língua colando no chão, mas chegou e realmente valeu muito o esforço e a oportunidade de poder se postar de frente daquela montanha de gelo, num cenário sem igual. A volta sempre é mais tranquila, tanto a caminhada, quanto a viagem para a cidade, mas foi mais um dia desgastante, agora era hora de descansar e deixar o organismo trabalhar e ir se adaptando porque a regra é clara: Suba alto e durma baixo.

                
                No outro dia a gente queria descansar, mas como já havíamos comprado o pacote, tivemos que encarar o tour para a LAGUNA PÁRON. É uma viagem longa e interminável por mais de 3 horas, onde a van desafia a cordilheira e ascende a mais de 4.200 metros, numa paisagem espetacular, em meio à montanhas geladas. A Laguna tem uma cor azul escuro que chega a hipnotizar a gente e no fundo dela um pico em forma de pirâmide ( NEVADO PIRÂMIDE-5.885) faz a gente não se arrepender de ter ido, aliás, dizem que esse cenário magnifico com a composição laguna mais pico, serviu de palco para a empresa cinematográfica Paramount Picture gravar sua vinheta de abertura antes dos filmes. A van nos deixa as margens da laguna, mas quem quiser pode subir por mais uns 500 metros até um mirante do lado direito. Eu encarei essa subida, mas a Rose ficou lá embaixo contemplando a laguna, mas a subida não é tão puxada quanto pintavam, mas caminhar na altitude nunca é mole, mesmo assim subi correndo e desci também, tentando testar um pouco dos meus limites para a Laguna 69. Chegando lá embaixo fomos dar uma volta de canoa na laguna, uma água absurdamente limpa, tanto que bebemos dela. Voltamos para Huaraz e por causa de algumas obras acabamos por chegar bem tarde da noite, cansados, mas já tendo que nos organizar para o outro dia, quando iríamos enfrentar a caminhada turística mais temida da Cordilheira Branca.


                
          ( Laguna Parón)
                Os dias amanhecem sempre frios na Cordilheira dos Andes, mas por sorte naquele dia não havia uma nuvem no céu e isso por si só já me alegrou. Antes das 6 da manhã a van que nos levaria para a Laguna 69 nos apanhou na hospedagem. Ainda estávamos atordoados e cansados por causa do dia anterior, mas confesso que estava um pouco apreensivo, havia chegado a hora de saber se realmente o meu planejamento quanto a deixar minha mulher em condições de fazer a trilha iria dar certo. No transporte coletivo, mais uma vez se juntavam gente de diferentes países do mundo, a maioria não falava espanhol e como pouco aranhávamos no inglês, praticamente ficamos isolados e trocávamos algumas palavras com uns peruanos e com um belga que havia morado um tempo em Portugal e falava bem a nossa língua. Ao olhar o grupo já vi que o negócio iria mais complicado do que eu pensava, porque era composto na sua maioria quase que total de pessoas jovens, sendo eu e a minha esposa de longe os mais velhos, beirando quase os 50 anos e também o belga que parecia nos acompanhar na idade e esse foi um fato que fez logo a Rose ficar desconfiada dessa caminhada, mas eu desconversei, dei umas risadas e mudei de assunto antes que ela desistisse mesmo antes de começar.
                A Van segue sempre para nordeste, deslizando entre a Cordilheira Branca e a Cordilheira Negra, sendo do nosso lado direito as paisagens encantadoras das grandes geleiras e seus picos acima de seis mil metros e quando chegamos à Carhuaz, saltamos em frente a sua igreja principal para um café da manhã e experimentar os sabores exóticos de uma sorveteria local e para comprarmos água e algum lanche de trilha. Seguimos , mas agora tendo como companhia o monstruoso HUASCÁRAN , simplesmente a maior montanha do Peru e uma das mais altas do nosso continente com 6.789 metros de altitude e foi justamente a encosta desse pico que veio a baixo no terremoto de 1970 que devastou a região de Huaraz, fazendo que a cidade de YUNGAI  quase fosse varrida do mapa, dizem que ao todo foram mais de 50 mil mortes, uma catástrofe quase sem precedente se levarmos em conta que isso se deu há quase 50 anos atrás quando a população era bem reduzida.
                Chegando em Yungai, viramos para nordeste e começamos a subir a Cordilheira Branca, uma viagem interminável, mas plasticamente encantadora, passando por pequenos amontoados de casas e construções rurais, gente que sobrevive a quase 4.000 metros em meio ao ar rarefeito e as agruras da altitude. Vamos subindo pra valer, mas ainda nos valendo de uma crista com um vale do nosso lado direito e quando chega a hora de deixar a crista e entrar de vez no vale que vai nos levar para o coração da Cordilheira, é hora de dar uma parada na ENTRADA DO PARQUE NACIONAL HUASCARÁN para nos identificarmos e comprarmos nosso ingressos (30 soles). Resolvidos os problemas burocráticos, nos lançamos para dentro dos paredões e fomos singrando de um lado para o outro sem tirar os olhos da janela e por vezes tendo que limpar a baba que escorria de nossas bocas do qual o queixo não conseguia se fechar, querendo cair diante da explosão de belezas sem igual.
                Seis ou sete quilômetros depois da entrada do Parque somos apresentados à LAGUNA LHANGANUCO a mais de 3.800 m de altitude, um azul hipnotizante, num cenário de sonhos. Nos detivemos ali por uma meia hora, o suficiente para prever que hoje nos faltariam adjetivos para narrar as belezas que estavam por vir. Mais à frente a LAGUNA ORCONCOCHA desmonta nossa capacidade de avaliar o que é mais belo e apenas ficamos a admirar àqueles cenários que vão surgindo no nosso caminho até que o nosso transporte motorizado para de vez, é chegado a hora de botar o pé na trilha, o coração já vai disparando e aquela ansiedade toma conta da gente, a aventura vai começar, voltar já não é mais possível e agora sou eu contra a altitude, minha missão : Levar minha mulher a uma das grandes paisagens da América do Sul, fazendo com que ela, mesmo um pessoa sedentária, consiga caminhar por 15 km no ar rarefeito montanha acima, numa altitude superior a 4.600 metros.
                
                O guia dá as explicações finais, mas todos nós sabemos que ali guia não serve para muita coisa, a não ser para encher o saco de quem não se mantiver no tempo estipulados por eles para retornar, inclusive para barrar os que não tiverem condições físicas de seguir, fazendo-os desistir. E o tempo estipulado é cruel para os que não tem experiência em longas caminhadas em altitude e muitos ficarão mesmo pelo caminho se não tiverem condições de fazer o percurso até a LAGUNA em no máximo 3 horas para ir e 2 horas para o retorno, então sempre acaba caindo sobre os ombros de todo mundo a responsabilidade de se manterem no tempo previsto.
                Rapidamente apanho as duas mochilinhas com alimentos, água, agasalho e outros equipamentos de segurança e somos os primeiros a nos lançarmos floresta a dentro, perdendo altitude até um riacho cor de leite. Mas não passa apenas de uma língua de mata que é cruzada em pouco mais de 5 minutos até atingirmos o vale plano, que iremos acompanhar por um bom tempo cercado por uma paisagem estonteante. A minha estratégia é fazer com que a Rose só se preocupe em caminhar e poupar energia, tanto que as 2 mochilas são carregadas por mim, deixando tranquila para que possa andar livre, respirando a maior quantidade de ar possível, mesmo numa altitude superior a 4.000 metros.

                O cenário inicial é algo que impressiona, vamos bordejando um rio que corre à nossa esquerda, aguas do degelo de picos gigantes que já podemos observar no horizonte. Vou pedindo para que a Rosa respire fundo e se concentre em colocar um pé à frente do outro, numa estratégia de ganhar terreno nessa parte plana e tomar bastante distância do pelotão principal que é composto pelo guia, porque enquanto tivermos à frente deles, é a garantia de podermos ter uma tranquilidade para irmos mais devagar quando a parte íngreme se apresentar e bicho pegar de vez.
                Me concentro em falar palavras de incentivo e em abastecer de água minha esposa e em dar-lhe algo para repor as energias, mas já vejo logo que ela começou a ferver o radiador e já me parece que começa a diminuir o ritmo e quando uma placa me indica que não andamos nem 2 km, trato logo de desviar sua atenção para que não veja que até agora não andou absolutamente nada. Um pouco mais à frente, umas construções parecendo umas casinhas de duendes nos chama a atenção, mas quando retornamos nossos olhares para o vale de onde viemos é que nos damos conta de onde estamos e do tamanho da paisagem que nos cerca: sobre nossas cabeças se eleva o monumental HUSCARÁN , na verdade com 2 cumes distintos com 6.786 metros a nos assombrar, mostrando que ali naquela cordilheira ele é quem manda , senhor soberano das altitudes, não só da Cordilheira Branca, mas o teto do próprio Peru e do seu lado esquerdo o Nevado Chopicalqui ( 6.354) fecha a parede e nos deixa boquiabertos , nos impedindo de prosseguir sem que desgrudemos os olhares destes monstros feito de rocha e de gelo, um cenário para guardar na memória por uma vida inteira.

         (Huascarán - o teto do Peru)
                Tudo era lindo, mas ainda na minha cabeça eu tinha a esperança de conseguir levar minha esposa até a laguna e a todo momento, mesmo sem tirar o olho das grandes paisagens, ia atrás dela dando uma de personal trainer, dando aquele incentivo, contando umas lorotas, inventando que faltava pouco e quando cruzamos uma pontinha sobre um afluente do rio principal, vi que começamos a nos aproximar de uma grande cachoeira de onde suas águas saltavam dos degelos das montanhas gigantes do nosso lado esquerdo,  que ao fazermos a curva que iria nos fazer começar a ganhar altitude, seria a hora de botar a prova toda minha capacidade de convencimento, se ela vencesse aquele trecho crucial, pensei que poderíamos ter êxito.

                Havíamos vencidos cerca de um terço do caminho, mas até então foi uma caminhada apenas no plano, o que poderia parecer praticamente nada, mas estamos falando de altitude, onde você puxa o ar e não encontra nada, onde o pulmão parece que vai explodir a qualquer momento. Eu me sentia muito bem, mas já sabia que meu organismo de adapta bem e rápido na altitude, mas entendia muito bem o que minha esposa estava passando. Agora o caminhar é lento, um passo e logo as mãos vão para as pernas, tentando se segurar para não cair. O terreno, a trilha, vai ziguezagueando montanha acima e cada metro vencido é uma conquista. Ela sofre, é um sofrimento que acaba sendo compartilhado por mim, que tento mentalmente empurra-la para cima: “ Vamos só mais um pouco, outro passo, respira, bebe água, não está longe o próximo patamar, vamos “.

                O sofrimento nos olhos dela é visível, começa a diminuir o ritmo consideravelmente e vamos sendo ultrapassados por todo mundo e é nessa hora que tenho medo de que o guia comece a pegar no nosso pé e ela desista de vez. Por sorte o próprio guia se deteve por um instante para auxiliar uma jovem que parece ainda estar pior que a Rose e foi a deixa para eu arrasta-la até que atingíssemos o grande patamar, estava vencido mais uma etapa, pelo menos por enquanto teríamos um refresco e poderíamos caminhar por mais algum tempo no plano. Aliás, a entrada desse novo vale é marcada por uma pequena e bonita lagoa que alguém me sopra ser a LAGUNA 68, mas parece ter outro nome também.

          (Laguna 68)
                Fizemos uma breve parada ali na laguna de não mais de 5 minutos, só o tempo básico para uma respirada mais profunda e para engolir alguma coisa energética. Nosso caminho segue agora em nível, numa paisagem incrível de onde a nossa frente desponta o não menos incrível PICO CHACRARAJU ( 6.108) e é com essa companhia que nossos passos vão deslizando pelo vale florido e 600 metros depois da pequena lagoa, nos deparamos com uma placa que indica uma trilha para outra laguna à direita, mas infelizmente não será dessa vez que nossos pés tocaram a Laguna Brogui, é preciso nos concentrarmos no objetivo principal porque estamos no tempo limite e ao trombarmos com uma placa onde dizia que a Laguna 69 estava a míseros 1000 metros, comemorei pensando que daqui para frente seria moleza e o sucesso estava garantido, ledo engano.
                Nesse 1 km final é onde o nosso organismo vai ser testado de verdade. Para quem já vinha buscando ar para os pulmões, esse pequeno trecho de subidas intensas poderá marcar definitivamente o final da caminhada, porque é aqui que muita gente passa mal e em alguns casos tem de ser ajudada a voltar para baixo, esse é o trecho que separa quem vai vencer e quem vai fracassar, pelo menos para os turistas ou até para montanhistas que não conseguem se adaptar as altitudes e já vinha capengando nas etapas anteriores. A Rose agora se arrasta de vez e só não anda de quatro pé para não passar vergonha e mesmo com o vento gelado acima dos 4.500 metros, sua em bicas. Enquanto ela vive seu calvário pessoal, caminhando feito uma tartaruga paraplégica, me contento em incentivar e também em apreciar a grandiosidade da paisagem que vai se descortinando enquanto vamos ganhando altura naquele ziguezague derradeiro.
                A cada passo, a cada metro ganho, nossa ansiedade vai aumentando. Sobre nossas cabeças agora localizo o que imagino ser a ponta do Nevado Pisco, montanha que já foi eleita a mais bonita do mundo, mas é um ângulo diferente e me concentro em botar meus olhos mesmo é na laguna, na esperança de vê-la ao longe. Nessa hora eu nem sei mais para onde foi parar o tal guia e pouco me importo em saber, já tenho a certeza que vamos chegar, muito porque o terreno se estabiliza e o sofrimento da subida já ficou para trás e é hora de encher os pulmões de ar ou o que conseguir, obviamente, e bater continência para uma das maiores atrações da América do Sul.
                
                O paredão gelado já está no nosso raio de visão, a geleira derretendo e deixando cair uma cachoeira e logo o azul, ainda uma pequena pontinha da laguna, desponta à nossa frente e a magia vai crescendo num dos cenários mais surpreendentes do mundo. O cérebro demora a processar o que olhos vão captando e nessa hora nem mesmo sei para onde foi parar minha mulher, só me lembro de ter sido arrastado pelo deslumbramento, quase hipnotizado pelo azul celeste.

                Gastamos menos do que as 3 horas limites para chegar. A Rose quase desmaia de cansada e senta-se à beira da Laguna 69 (4.604 m) e por lá fica comemorando em silêncio essa vitória pessoal, mas eu ainda estou pilhado e enquanto todo mundo, umas 50 pessoas, ficam aos pés da laguna só na contemplação, tomo o rumo do morro a nossa direita e sozinho vou ganhando altitude, galgando esse ombro rochoso até que atinjo o topo de onde se descortina uma visão inteira e completa de toda a Laguna, a mais de 4.650 metros de altitude.


                A grandiosidade da paisagem ao redor é coisa que me emociona e talvez esse tenha sido o lugar mais longe de casa que já estive na vida. Fico ali entregue a minha própria solidão e me esqueço completamente do tempo e da vida, apenas inerte, parado, estático, captando aquela cena do qual guardarei para o resto da vida, mas logo descubro que não é possível ser feliz para sempre e começo a descer e  no final da descida  surpreendo-me com uma vaca querendo chifrar, vejam só, um grupo de brasileiros, na  verdade a vaquinha queria apenas matar sua curiosidade, mas os brazucas não estavam a fim de pagar para ver , então correram bem para longe dela. Quando cheguei perto, todo mundo do nosso grupo já havia partido, inclusive minha esposa, então só me restou fazer um carinho na vaquinha e desembestar montanha à baixo na tentativa de acompanhar o grupo.

                Às bordas de completar 50 anos, ainda me surpreendo com a facilidade que tenho de adaptação às altitudes e como carrego apenas 2 mochilinhas leves, é correndo que desço esse km inclinado, tomando cuidado para não derrapar nas curvas e despencar morro à baixo e rapidamente alcanço minha esposa e o guia, que é um dos últimos e logo quando voltamos ao plano, vamos ultrapassando boa parte dos integrantes do nosso grupo e antes mesmo de voltar ao laguinho intermediário, nos encontramos novamente com o Belga que fala português e numa conversa informal, descobrimos que o cara tinha apenas 40 anos, muito menos do que os mais de 50 que pensávamos ter e ai nos demos conta de que eu e minha esposa éramos os anciões daquele grupo multe estrangeiro, verdade mesmo que não havia ninguém mais velhos do que nós naquela caminhada e naquela montanha.

                O próximo lance de descida é a rampa inclinada, de frente para a grande cachoeira, mas agora a descida é constante e sem maiores pausas, apenas para uma ou outra foto da paisagem ao nosso redor e não demora muito atingimos o vale final, o ultimo estirão, agora totalmente plano, ás margens do rio do degelo das montanhas e vamos aos poucos nos despedindo do próprio Huascarán e o teto do Peru vai ficando para trás e duas hora e meia depois de abandonarmos a Laguna, emergimos da matinha e finalizamos junto à estrada, onde nossa Van foi estacionada e ali nos atiramos ao chão para um demorado descanso até que todo o grupo se juntasse e partíssemos novamente para Huaraz, onde chegamos já tarde da noite.
                Ainda inebriados pela caminhada do dia anterior, acordamos tarde e fomos perambular por Huaraz, nos perdemos em tudo quanto é beco e já que havíamos decidido ficar por lá mais uns dois ou três dias, resolvemos nos mudar para um hotel no centro, o que não nos custou mais que 30 reais. O choque de cultura é tão grande que ás vezes nos faz até perdermos o rumo e já que era para perder o norte, decidi que aquele seria o dia de experimentar uma das maiores iguarias da cozinha Peruana. Entramos em um restaurante popular e enquanto minha esposa experimentava mais um Ceviche, pedi logo um PORQUINHO DA INDIA, havia chegado a hora de provar o tal do CUY, mas antes mesmo que a iguaria tocasse nossa mesa, fui expulso a pontapés pela minha esposa que aos gritos disse logo: “VAI COMER ESSA MERDA LONGE DE MIM” (rsrsrsrrsrsr).
                Lá estava ele, nosso mascote, bonitinho e peludo, mas agora ali jaz, duro e à pururuca. Num primeiro momento não foi agradável ver aquele cadáver parecendo um rato seco sobre a mesa, mas o ser aventureiro que habita o meu corpo me dizia que aquela era talvez a única chance de experimentar um prato típico inusitado. O estômago deu um embrulhada, principalmente quando os dentes saltaram aos olhos, mas o demônio na minha cabeça insistia: “ Come aí, num dá nada, vai lá, só um pedacinho miseraviiii” Fechei os olhos, peguei um pedacinho, enfiei na boca. Minhas papilas gustativas foram se abrindo e o sabor do coitado do porquinho foi adentrando no meu corpo, tomando conta do meu ser e o animal carnívoro veio à tona e me portei como o diabo das Tasmânia, não deixei sobrar nem os ossos, só os dentes permaneceram no prato, melhor o do porquinho do que os meus.

             
                Os dias passaram e foi preciso deixar aquele lugar de sonhos para trás e a nossa volta para Lima foi como a ida, tranquila e sem nenhum percalço porque a maioria das viagens são à noite. De volta à capital do Peru embarcamos imediatamente para o sul do país, era chegada a hora de respirar o ar em abundancia do litoral e como minha proposta era a de conhecer paisagens diferentes, fomos nos perder no grande Deserto de Ica, lá onde o vento faz a curva, lá para as bandas do oásis de HUACACHINA, onde as maiores dunas do continente reinam absolutas, mas isso é uma outra história, de um outro capítulo de um livro chamado : AS HISTÓRIAS QUE AINDA NÃO CONTEI SOBRE O PERU , mas que um dia vou contar, num momento oportuno.


         (Huacachima)
      (Paracas)         
                Essa não foi só uma história de uma caminhada por uma das maiores paisagens do continente, essa foi a narrativa de uma superação, onde o principal objetivo foi mostrar que uma pessoa sedentáriapode vencer aquilo que num primeiro momento pode parecer impossível. Me lembro que anos atrás, na subida do Vulcão Vilarica no Chile, minha esposa me fez prometer que nunca mais a faria enfrentar tais desafios. Daquela vez ela fracassou, desistiu antes do cume, mas desta vez consegui trabalhar bem a parte psicológica dela, provando que as vezes um desafio é vencido com a cabeça e não só com as pernas. Voltamos do Peru simplesmente maravilhados, um tanto chocado com a cultura totalmente diferente da nossa, mas assim mesmo, trazendo na bagagem a certeza de ter vivido o bastante para conhecer um dos países mais espetaculares do mundo, um aprendizado para uma vida inteira.

                                                                                           Divanei-Abril/2019
                
               
               
    • Por Afonso Moretti Santiago
      Olá pessoal, gostaria de compartilhar a experiência que tive durante a Travessia da Cordilheira Huayhuash no Peru. O ponto de partida pra nossa aventura foi a cidade de Lima, lá reunimos alguns integrantes do grupo e seguimos para a cidade base da Cordilheira, chamada Huaraz. Em Huaraz ficamos hospedados em um hostel próximo ao centro e lá tratamos dos detalhes para o trekking.
       
      A

      1º dia de aclimatação - Glaciar Pastoruri e Hatun Machay - ( 5.100 mts de altitude ). 
      Antes de partimos pro trekking, seria necessário fazer algumas atividades de aclimatação. No 1º dia seguimos pro Glaciar Pastoruri, já chegando aos 5.100 mts de altitude, é importante ir com passos curtos e sem esforçar muito. Depois de lá seguimos pra Hatun Machay, uma FLORESTA PETRIFICADA!!! Um lugar SURREAL, dava impressão daqueles lugares de filmes fantasmas....kkkk e o clima ajudou pra deixar com um jeitão bem TENEBROSO. 
       

      2º dia de aclimatação!!! Mais um dia EXTREMAMENTE surreal!!! - Laguna 69 - ( 4.600 mts de altitude )
      Não foi fácil chegar até a Laguna 69, trekking curto, porém a altitude e subida forte cansou bastante a galera, mas a recompensa foi essa..., no final começou chover bem leve e esfriou pra caramba.

       
      3° e último dia de aclimatação. Laguna Churup - ( 4.800 mts de altitude )
      É simplesmente incrível!!! Inacreditável!!!
      "COICE DE MULA"!!! Expressão usada por praticantes de trekking para expressar trekkings curtos mas com extrema dificuldade e inclinação. Mas o prêmio é um mais lindo que o outro.
       

       
      Após os exercícios de aclimatação seguimos para o Grande Circuito Huayhuash, já no primeiro dia enfrentamos chuva, granizo, neve, muito frio e 5 mil mts de altitude.
      Mas todo esforço foi válido e recompensador, ver os Condores voando sobre o topo das montanhas foi de brilhar os olhos.
       

       
      Um dos milhares de cartões postais existente dentro do Circuito Huayhuash, a Laguna Carhuacocha. Eu sonhei e rezei por muitas noites pra que nós tivéssemos um dia lindo assim.
      Foi de encher meus olhos de lágrimas. Parecia um sonho sem fim, a cada amanhecer era algo EXTRAORDINÁRIAMENTE surpreendente.
       

      Outro "cartão postal" dentro do Circuito Huayhuash são as 3 Lagunas ( Paso Siula ).
      Saindo cedinho pela manhã, contornamos a grande Laguna de Carhuacocha, no início a trilha estava bem fácil e agradável, mas talvez meu pior momento na Travessia estava prestes a vir. De muito longe já avistava o Paso Siula, e a medida que eu ia me aproximando a montanha ia cada vez mais crescendo diante de mim. Após avistar a primeira Laguna iniciou-se uma subida muito tensa, a altitude já começava me deixar bastante fadigado, dores cabeça surgiram, quando cheguei ao ponto onde puder avistar as 3 Lagunas, achei que era o final da subida. ENGANO MEU!!! Tinha muito mais subida pela frente, minhas pernas "queimavam" de dor e isso afetou também meu psicológico, entre uma oração e outra, passos curtos, exercícios respiratórios, fui subindo e consegui chegar ao topo!!! E TAVA BEEEEMMMM FRIO LÁ EM CIMA...., tiramos algumas fotos, fizemos um lanche e seguimos em direção á Huayhuash.
       

      A subida até o Mirador da Cordilheira também não foi muito fácil, mas o clima estava nos favorecendo bastante após os dois primeiros dias de chuva.
      O Rafa disse que Condores são indícios de bom presságio, foi dito e feito, depois que avistamos uns 4 ou 5 os dias ficaram mais perfeitos ainda.
       

      Como esquecer Viconga? Tinha sido um dia de longa caminhada, um sobe e desce montanha que deixou o pessoal um pouco cansado. Já quase no final, passamos pela grande Laguna Viconga ( que na verdade é uma represa ), ao passo que íamos descendo, cachoeiras e lindas corredeiras começaram á surgir. Quando chegamos no acampamento avistamos os tanques de água termal ( água quente ). Não demorou muito pra gente cair na água pra relaxar e o clima de descontração tomou conta da galera.

       
      Um dos dias que mais me marcaram durante a Travessia. Estávamos animados e contentes em chegar em Huayllapa, pois seria a única noite que teríamos banho quente, cama pra dormir e também poderíamos comprar cerveja e vinho. Huayllapa é um vilarejo bem humilde e com mil habitantes no máximo ou nem isso. Assim que chegamos nos instalamos no albergue e compramos cerveja pro almoço, teve pastel de queijo.
      Depois do almoço sai com dois amigos pra dar uma volta pelo vilarejo. Descendo uma das ruas vi quatro crianças sentadas, parei e perguntei se queriam tirar uma foto, eles disseram que sim e que queriam chocolate. Tirei uma foto e corri na bodega pra comprar os chocolates, mas o dono disse que não tinha, porém ele tinha "chupitos coloridos" ( doce que as crianças de lá adoram ). O pacote com 50 chupitos custava 6,50 Soles...coisa de R$ 10,00. Quando cheguei no local onde estava as quatro crianças dei 2 chupitos pra cada uma, nisso começou aparecer crianças por todos os lados e em segundos eu me vi cercado por dezenas delas, algumas "espertinhas", ganhavam chupitos e escondiam no gorro ou no boné e depois pediam mais alegando não terem ganhado...rsrsrs. Eu fiquei em estado de ecstasy com tantas crianças em minha volta. Sai andando pelo vilarejo e um monte de crianças iam me seguindo por onde eu ia, todas já sabendo que eu levava um pacote de doces e todas com os rostinhos queimados pelo Sol. Muitas sentiam-se envergonhadas com a nossa presença, o mesmo acontecia com os adultos, fato que achei estranho. Assim distribui todos os doces que tinha.
      Chegando no quarto do albergue eu pensava como tão pouco poderia ter feito tantas crianças felizes.
       

      Assim que iniciamos o último dia da Travessia os meus sentimentos se misturaram, eu me sentia realizado, agradecido, forte, em paz, com saudade de casa e do meu cachorro "maluko"....rsrsrs.
      Chegamos em Llamac, cumprimentei os amigos e comemoramos a conquista. Eu e alguns deles seguimos pra uma igreja, lá agradeci pela força, proteção, pelos grandes amigos que fiz e pela oportunidade de estar realizando algo que talvez tenha mudado minha vida.
       
      Espero poder de alguma forma ter contribuindo com minha experiência para que outras pessoas possam se "encorajar" e ingressar nessa mesma aventura. O relato não está muito detalhado, mas quem quiser mais informações é só me chamar. Valeu!!! 
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

    • Por Victor Prates
      A cidade de Quito, capital do Equador, está situada no planalto andino, em um vale rodeado por montanhas e vulcões. A 2.850 metros sobre o nível do mar, é a segunda capital mais alta do mundo (na verdade, é a primeira considerando que La Paz não é a capital da Bolívia, apenas a sede do governo).
      Quando fiquei sabendo que havia um vulcão na capital que apresentava um lindo panorama da cidade e de muitos vulcões do Equador, eu quis subi-lo imediatamente.
      Este vulcão é o Pichincha, o qual é dividido em dois cumes principais: o Guagua e o Rucu. O Guagua Pichincha é a cratera principal, porém coloquei o Rucu Pichincha como meu objetivo. Isto porque, o Rucu pode ser alcançado em apenas 1 dia e eu não tinha os dois que são necessários para fazer o Guagua. Segue abaixo mapa mostrando ambos os cumes e as trilhas para chegar neles, bem como o Teleférico e a cidade de Quito.
       
      Este relato apresentará os detalhes para você atingir o cume do Rucu Pichincha (trilha amarela do mapa acima), mas se você quiser se aventurar ao Guagua, há duas opções:
      ·         Realizar a Integral Pichinha, uma trilha bem extensa para alcançar ambos os cumes e aí o recomendado é acampar no refúgio que está na beira da cratera do Guagua. Total: 11 km e 1500 metros de ascensão por trilha (trilhas verde e amarela do mapa).
      ·         Subir de carro a estrada que sai do povoado de Lloa, bem próximo de Quito. Total: 16 km e 1900 metros de ascensão por estrada de terra (trilha azul do mapa acima).
      O meu tracklog do Rucu Pichincha foi postado na página do Wikiloc e pode ser encontrado neste link aqui. Se você quiser realizar a Integral Pichincha, recomendo que siga a descrição do Santiago González, a qual se encontra neste link.
       
      PROGRAMAÇÃO
      Como Chegar
      Antes de iniciar a trilha para o topo do Rucu, é preciso ir ao Teleférico de Quito, que fica no Bairro La Mariscal.
      Fui de taxi e paguei 4 dólares até o teleférico. Os táxis no Equador, no geral, são baratos e compensam muito se você estiver viajando em grupo. Além disso, a Uber também funciona muito bem nas ruas de Quito.
      O horário de funcionamento do teleférico é de segunda a quinta das 09:00 às 20:00 e de sexta a domingo das 8:00 às 20:00. O trajeto até o Mirador Los Volcanes dura 20 minutos. Este mirante, além de apresentar uma maravilhosa vista de Quito e seus arredores, também coincide com o ponto de início do trekking.
      Neste link você poderá ver informações detalhadas sobre o Telefériqo de Quito.
      Para retornar ao meu hostel após descer do pico, paguei 1 dólar de van até a Calle Mariscal Sucre, que é a avenida que atravessa a cidade de norte a sul. Daqui procurei táxis que me cobrassem os mesmos 4 dólares da ida, porém estavam me pedindo 10 dólares ☹. Me disseram que era por causa do trânsito, mas provavelmente foi por minha cara de gringão mesmo. Lembrando que a distância até minha hospedagem era de apenas 3 km.
      Pra minha sorte havia um ônibus que passava a 100 metros dali e que ia até a Avenida Cristóbal Cólon, a qual estava próxima da minha hospedagem. Tomei o bus de número 67 e paguei somente 25 centavos de dólar. Bem melhor que os 10 dólares do amigo taxista.
       
      Quando Ir
      A época de seca nos Andes equatorianos vai de junho a novembro. Fiz a trilha para o Rucu Pichincha em setembro e o tempo estava excelente.
      É recomendável fazer a trilha bem cedo, já que pela tarde é comum que as montanhas ao redor de Quito sejam encobertas por nuvens.
       
      O Que Levar
      ·         Calça de trekking
      ·         Camiseta
      ·         Bota ou tênis de trilha
      ·         Jaqueta corta vento
      ·         Leve segunda pele e blusa de fleece para o caso de fazer frio
      ·         Mochila pequena (< 30L)
      ·         Boné/chapéu
      ·         3 L de água
      ·         Snacks para trilha
      ·         Protetor solar
      ·         Câmera fotográfica
       
      RESUMO DE GASTOS (2017)
      ·         Água e comidas para a trilha = US$ 7,00
      ·         Táxi ao teleférico = US$ 4,00
      ·         Valor de subida e descida do teleférico = US$ 8,50
      ·         Van do teleférico até a Avenida Calle Mariscal Sucre = US$ 1,00
      ·         Ônibus até Cristóbal Cólon com Amazonas = US$ 0,25
       
      GASTOS TOTAIS = US$ 20,75
       
      O RELATO
      Numa quarta-feira de setembro, acordei às 7:00, tomei café e peguei um táxi do Bairro La Mariscal até o Telefériqo de Quito. Ele é o meio de acesso para o Mirador Los Volcanes, ponto inicial do trekking para o cume do Rucu Pichincha.
      Cheguei no Teleférico às 8:40 e, pra minha surpresa, ainda não estava funcionando. Como já disse, de segunda a quinta funciona das 09:00 às 20:00 e de sexta a domingo das 8:00 às 20:00 e só descobri isso ao chegar lá.
      Mas foi bom porque nessa espera conheci o Gal, um israelense extremamente simpático que queria fazer a mesma trilha. Pensei em perguntar da Mulher Maravilha, mas não tive coragem. Ele só me disse que é um nome comum no país (a atriz que interpreta a personagem no universo da DC é uma israelense chamada Gal Gadot. Nunca pensei que fosse falar da Mulher Maravilha num relato de viagens).
      Voltando pro que interessa... Ele me disse que não estava seguro em como seria seu desempenho em altitude, já que como o Brasil, Israel não possui altas montanhas. Então ele resolveu aproveitar o meu embalo e disposição para me acompanhar nesta empreitada.
      Compramos os bilhetes do teleférico por 8,50 dólares, que servem para subida e descida da montanha. Não perca o bilhete que você receberá, pois o mesmo também serve como comprovante de descida. Caso perca, terá que pagar mais 8,50 para descer.
      O trecho dura cerca de 20 minutos até o Mirador Los Volcanes, um mirante na cota 3.950 m que apresenta lindas vistas de Quito e dos principais vulcões do Equador. O céu estava completamente azul e a visibilidade era tremenda. De lá se podia ver lindamente os vulcões Cotopaxi, Cayambe, Antisana, Rumiñahui e Illinizas. Inclusive, é possível enxergar o topo do Chimborazo, a montanha mais alta do país, com 6.268 m de altura, e que está a 140 km de Quito!!
      Para que você possa contemplar este visual, recomendo que comece a trilha o mais cedo que puder. Explicarei o porquê mais adiante.
      Gal e eu tiramos algumas fotos do cenário e partimos para iniciar a trilha.
      Em poucos minutos de caminhada, pode-se contemplar o belo cume proeminente do Rucu Pichincha.
      Os primeiros 3,7 km são de aproximação à montanha e possuem um grau menor de dificuldade, já que a inclinação da subida não é tão acentuada.
      Porém, enquanto caminhávamos nos questionávamos por onde subiríamos até o topo, já que não era possível visualizar uma possível rota de subida. Isto porque a face que se vê do começo da trilha é de pura rocha.
      Assim que nos aproximamos da montanha, notamos que a trilha a contorna pela sua direita, por trás daquela face rochosa que vimos de longe.
      A partir deste ponto, a trilha está menos marcada, mas não há como se perder. Seguimos caminhando por detrás do pico por um terreno com uma inclinação um pouco mais elevada.
      Após cerca de 500 metros de distância, há um ponto que parece que a trilha acaba, mas é um lance em que é preciso subir uns 2 metros pela rocha mesmo. É um trecho um pouco delicado, mas não se preocupe, pois não é escalada.
      Mas a parte tensa do trekking só ia começar 500 metros mais pra frente. Neste ponto, a altitude já é um fator determinante (4.500 msnm) e é bem quando o terreno fica bem inclinado e bem arenoso, dificultando o rendimento da caminhada.
      Aqui, Gal e eu fizemos várias paradas para controlar os batimentos cardíacos e o ritmo respiratório.
      O visual era ainda mais espetacular, com a cidade de Quito lá embaixo e aquele cenário vulcânico bem característico por todos os lados.
      Deste ponto em diante, tem que tomar mais cuidado com a orientação, já que por vezes ela não é tão óbvia.
      E iniciamos a investida final para o cume. Caminhamos por meia hora por trilha bem inclinada até chegar numa placa. Daqui é preciso tornar para a esquerda para a investida final.
      Agora, percorre-se a última meia hora para o cume num terreno rochoso um pouco exposto e não muito marcado. É preciso tomar cuidado.
      Finalmente, após mais de 800 metros de desnível acumulado e 5,7 km percorridos em 3 horas, atingimos o cume do famigerado Rucu Pichincha.
      O cume do Rucu está na cota 4.784 msnm e é bem pequeno, o que proporciona um lindo visual 360º do panorama da região.
      A vista era deslumbrante. Pode-se ver todo o visual da cidade de Quito e do vale em que a cidade está situada. Também se vê todos aqueles famosos vulcões equatorianos acima citados, só que daquela perspectiva que só topos de morros podem proporcionar.
      Do cume, também se pode ver o imenso vulcão Guagua Pichincha, que fica a 4 km do Rucu. Como explicado na INTRO, o Guagua é a cratera principal e o Rucu é a cratera velha do mesmo vulcão, o Pichincha.
      Aqui no topo podem aparecer carcarás sociáveis. Acredito que os turistas devem alimentá-los. Eles são selvagens, porém é impressionante ver o quão perto eles podem chegar.
      Ficamos por uma hora contemplando o incrível cenário e iniciamos a descida.
      Se para subir foram 3 horas, a descida se deu em apenas 1h30min.
      Chegamos de volta ao teleférico próximo das 14h. Neste momento o dia já tinha mudado completamente. Se de manhã o céu estava completamente limpo, agora havia muitas nuvens no Rucu Pichincha e nem era possível ver a montanha. Ao longe também havia uma névoa que impossibilitava contemplar os vulcões dos arredores de Quito.
      E, claro, bem nesta hora tinham mais turistas, porque não são todos que preferem acordar de manhãzinha. Mas garanto que recompensa muito mais levantar cedo, mesmo se você não for subir o vulcão. Este é um padrão que se repete frequentemente em Quito: manhã de céu azul e tarde com muitas nuvens.
      Aqui, Gal se despediu de mim e desceu de teleférico primeiro, enquanto fui tirar mais algumas fotos.
      Peguei uma filinha de uns 20 minutos para tomar o teleférico da volta. Imagino que aos finais de semana deva ser bem caótico.
      E foi isso. Foi um dia delicioso, muito recompensador e bem barato.
      Espero que tenham desfrutado.
      Seguem abaixo algumas fotos deste dia.

      Rucu Pichincha visto da trilha

      Lindo vale a a cidade de Quito lá embaixo

      Vista do Vulcão Cotopaxi do Mirados Los Volcanes

      Próximo ao cume do Rucu

      Vulcão Guagua Pichincha visto do cume do Rucu

      Vista de Quito do topo do Rucu
      Postei este relato no meu blog. Você pode acompanhá-lo no link http://trekmundi.com/rucu-pichincha/
      Beijos e abraços!             
       
       
       
       


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