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rafael_santiago

Trekking do Campo Base do Annapurna e Poon Hill (Nepal) - dez/18

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Pico Moditse visto do Campo Base do Annapurna ao amanhecer

Início: Kande
Final: Nayapul
Duração: 12 dias
Maior altitude: 4121m no Campo Base do Annapurna
Menor altitude: 1004m entre Birethanti e Nayapul junto ao Rio Modi
Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis de 340m a 1680m diários, ultrapassando os 3000m, o que exige cuidado com a aclimatação
Permissões: permissão ACAP (Rs 3000 = US$ 26,04) e TIMS card (Rs 2000 = US$17,36), ambos obtidos no Tourist Service Center em Kathmandu

Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.

Este trekking foi uma combinação de dois roteiros a partir da cidade de Pokhara, a noroeste de Kathmandu: Campo Base do Annapurna e Poon Hill. Os dois roteiros são extremamente populares e lotam completamente na alta temporada de outubro e novembro, por isso deixei para fazê-los na virada de novembro para dezembro.

O trekking do Campo Base do Annapurna (ABC, na sigla em inglês), ou Santuário Annapurna, sai de uma altitude de 1710m em Kande e percorre florestas de rododendros e muitos vilarejos antigos com suas plantações em terraços para somente no 5º dia entrar numa paisagem de alta montanha onde se encontram os campos base das montanhas Machapuchare e Annapurna, numa altitude máxima de 4121m. Este trekking percorre altitudes bem mais modestas que o trekking do Campo Base do Everest e por isso é uma boa opção para o início de dezembro, quando as temperaturas já caíram bastante em relação a outubro e novembro. Outro fator que me levou a fazer esse trekking em dezembro, como disse, foi fugir da lotação da alta temporada. Algumas vilas do caminho têm uma oferta bem pequena de hospedagem e mesmo em dezembro tive que dividir o quarto com outras pessoas pois alguns lodges estavam lotados.

O trekking Poon Hill sai de uma altitude de 1022m em Nayapul e percorre também muitos vilarejos e infinitas escadarias de pedras para alcançar a vila de Ghorepani (2874m) e sua famosa atração, a colina Poon Hill, de onde se tem uma das vistas mais espetaculares de toda a região do Annapurna e do Himalaia. Há uma conexão por trilhas entre esses dois bonitos trekkings, Campo Base do Annapurna (ABC) e Poon Hill, e nessa conexão eu fiz o trekking Poon Hill ao contrário do descrito acima (de Ghorepani a Nayapul). Para quem dispõe de tempo para combinar os dois roteiros e não quer se arriscar caminhando muitos dias numa altitude acima dos 4000m no Everest essa é uma excelente opção. Toda a região abrangida por esses dois trekkings é uma área de proteção e está sob a administração do ACAP (Annapurna Conservation Area Project).

Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.

No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".

As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são:
. Australian Camp: NCell
. New Bridge: NCell
. Chomrong: NCell só na parte alta da vila
. Sinuwa: NCell
. Bamboo: NCell
. Dovan: Sky Cdma
. Himalaya: Sky Cdma
. Deurali: Sky Cdma
. Campo Base do Machapuchare: Sky Cdma
. Campo Base do Annapurna: Sky Cdma
. Ghandruk: NCell (internet muito lenta)
. Tikhedhunga: NCell

Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).

Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente.

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Cânion do Rio Modi

23/11/18 - ônibus de Kathmandu a Pokhara

No dia anterior (22/11) eu havia comprado a passagem de ônibus para Pokhara numa agência da IME Travels, na Avenida Kantipath, bem perto do bairro do Thamel onde eu estava hospedado, com a doce ilusão de que o ônibus sairia dali mesmo (saíam até julho de 2018). Mas depois a atendente me falou que ali agora era só um escritório, os ônibus saem mesmo de um lugar chamado Sorhakhutte. Felizmente não é longe do Thamel também, dá para ir a pé em cerca de 15 minutos (a partir do Hotel Discovery Inn onde eu estava). Ela me vendeu uma passagem da empresa Reed Travels & Tours. Esse é um ônibus "turístico", não é um ônibus local. O ônibus local não me foi recomendado pois trafega em alta velocidade pelas estradas e os motoristas são muito imprudentes. Ele é mais barato, mas a diferença de preço é pequena e não compensa o risco.

Nesse dia 23/11 cheguei ao Sorhakhutte e me deparei com uma fila enorme de ônibus estacionados na calçada da Rua Swayambhu Marg. São muitas empresas diferentes fazendo esse trajeto a Pokhara. Tive que perguntar para várias pessoas e o ônibus da empresa Reed era um dos últimos. Foi o primeiro ônibus grande em que viajei no Nepal (por ser um ônibus "turístico"). Todos partiram às 7h. Felizmente o percurso é todo em asfalto, sem aquele terror de ficar pulando e chacoalhando dentro de um ônibus minúsculo, como foi no Langtang e em Shivalaya.

A passagem que comprei de Rs700 (US$6,08) era num ônibus sem banheiro, mas há ônibus com banheiro também. São feitas duas paradas no caminho, com banheiros e fartura de comida para quem quiser almoçar. Esse que peguei oferecia uma garrafa de água mineral aos passageiros.

Chegamos a Pokhara às 15h, no terminal Tourist Bus Park. Como Pokhara é uma cidade grande (a segunda maior do Nepal), pesquisei antes pela internet alguma hospedagem para ir direto e não ficar procurando hotel com a cargueira nas costas. Optei pelo Harry Guest House. O quarto com banheiro privativo saía por apenas Rs700 (US$6,08). Seguindo o gps caminhei do terminal até o Harry em 27 minutos (1,9km). A localização é muito boa, numa avenida central do bairro Nareshwor com várias opções de restaurante e bastante comércio. O centro de Lakeside Norte, o bairro mais turístico, com restaurantes, cafés, livrarias e mercadinhos fica a 550m do hotel. O Harry dá toda a informação necessária sobre trilhas na região do Annapurna e passeios na cidade. Ele me sugeriu que iniciasse o trekking do Campo Base do Annapurna por Kande e não por Phedi pois teria um visual muito bonito das montanhas em Australian Camp.

Pokhara, mesmo sendo a segunda mais populosa do Nepal, é uma cidade bem mais simpática e tranquila que a caótica e poluída Kathmandu. O Lago Phewa dá um clima mais gostoso à cidade, que é frequentada por muitas "tribos" diferentes.

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Algumas das montanhas vistas a partir de Australian Camp: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II e Asapurna

1º DIA - 24/11/18 - de Kande a Australian Camp

Duração: 1h10 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2046m
Menor altitude: 1706m
Resumo: nesse dia encarei a primeira subida da caminhada, mas num desnível de apenas 340m pois parei na vila Australian Camp para ter pela manhã a bonita vista das montanhas Annapurna e Machapuchare. À tarde as nuvens já não deixavam ver nada.

Saí do Harry Guest House às 8h10 na direção leste pela Avenida Phewa Marg. Caminhei 21 minutos até um local chamado Zero Kilometer. Ali esperei o ônibus para Kande (eles pronunciam káre) na calçada da esquerda (lembrando que no Nepal a mão é inglesa) da Avenida Pokhara-Baglung. Como os ônibus têm as placas escritas somente em nepalês pedi ajuda a alguns homens que estavam ali conversando. Esperei 24 minutos e às 8h55 eles pararam o ônibus certo para mim, que já veio lotado, mas depois foi esvaziando e pude sentar.

O ônibus, após deixar a cidade, sobe bastante por estradas ruins de asfalto. Saltei em Kande às 10h33 e era o ponto final desse ônibus (há outros que continuam para outros vilarejos à frente). Logo fui abordado por algumas mulheres dizendo serem refugiadas tibetanas, contando histórias, para depois oferecerem (e insistirem para comprar) o artesanato que faziam.

Aproveitei para comer alguma coisa ali mesmo pois há alguns restaurantes e a comida dali para a frente na trilha só iria aumentar de preço.

De Kande já é possível avistar no alto de uma serra ao norte-nordeste um dos lodges e algumas barracas de Australian Camp. Coloquei o pé na trilha às 11h10. O início, no meio dos casebres da estrada, está sinalizado com uma placa do ACAP. Altitude de 1710m. Segui na direção norte e noroeste por trilha que aos poucos foi se transformando numa estradinha de terra. Na primeira bifurcação havia placa apontando para a esquerda, mas na segunda não havia placa apontando para a trilha à direita da estrada, que é um atalho. Na subida pela trilha quem eu encontro? O casal húngaro Zita e Daniel, que conheci em Bhandar e reencontrei várias vezes no trekking do Everest. Eles não haviam pago as permissões para o trekking do Annapurna pois não tinham intenção de fazê-lo completo, foram apenas até Pothana, onde está o primeiro check post do ACAP. Ao final dessa trilha-atalho entronca à esquerda a estrada que abandonei alguns minutos antes. Uns 150m acima a estrada vira trilha.

Esse trekking será repleto de escadarias de pedra e elas começaram a aparecer já nesse primeiro dia. Apareceu também pintada nas árvores uma sinalização de duas faixas horizontais em branco e vermelho, como nas trilhas GR da França, mas ela seria bastante esporádica nesse trekking. Às 12h31 fui à esquerda numa bifurcação com placa e cheguei a Australian Camp às 12h47. Apesar de muito cedo, resolvi parar para dormir ali pois diziam que o visual das montanhas era incrível e naquele horário as nuvens já não deixavam ver nada.

Percorri os quatro lodges do vilarejo e só o Machapuchare Lodge tinha vaga. Era um sábado e dezenas de adolescentes nepaleses lotavam os lodges. Algumas pessoas estavam acampadas também. Como estava tudo cheio não tive muita margem de negociação no preço do quarto, que saiu por Rs250 (US$2,17). O banheiro ficava numa varanda nos fundos, exposto ao frio à noite. Tinha ducha a gás, vaso sanitário com descarga acoplada e lavatório sem torneira.

Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte.

Altitude em Australian Camp: 2046m
Preço do dal bhat: Rs 500 (o dobro do preço de Pokhara já no primeiro vilarejo)
Preço do veg chowmein: Rs 350

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Pico Machapuchare (Fish Tail) visto de Australian Camp

2º DIA - 25/11/18 - de Australian Camp a New Bridge

Duração: 5h40 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2150m
Menor altitude: 1378m
Resumo: nesse dia subi por bosques até a vila de Pitam Deurali (desnível de 104m) e desci por trilhas e estradas de terra toda a encosta da margem esquerda do Rio Modi até cruzá-lo (desnível de 772m)

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,1ºC. Às 7h50 da manhã estava 11,8ºC.

De manhã vi que valeu a pena ter parado em Australian Camp. O visual dos grandes picos do Himalaia é realmente fantástico. De norte para nordeste: Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Tarke Kang (Glacier Dome), Asapurna II, Asapurna,
Gangapurna, Machapuchare (Fish Tail), Annapurna IV, Annapurna II (16º mais alto do mundo) e Lamjung Himal.

Saí do lodge às 9h27 na direção norte e às 9h40 fui à esquerda na bifurcação, subindo. Apenas 4 minutos depois entroncou à direita a trilha que vem de Dhampus e Phedi, rota que eu originalmente ia fazer. Ali apareceu a sinalização do ACAP em forma de um poste metálico com placas dando as boas-vindas ao vilarejo e apontando os seguintes com o tempo de percurso. Às 9h54 cheguei à vila de Pothana, com lodges também, e fui parado no check post do ACAP para mostrar as permissões obtidas em Kathmandu (permissão ACAP e TIMS card). Um cartaz ali informa todos os tempos de caminhada entre os vilarejos e isso foi bastante útil para eu planejar a caminhada de cada dia. Há painéis sobre a trilha da montanha Mardi Himal também. Na saída de Pothana uma linda vista das montanhas, muito parecida com a de Australian Camp mas agora um pouco obstruída pela vegetação.

Às 10h21 fui à direita numa bifurcação com placa apontando Pitam Deurali e desci, cruzando uma estrada de terra. Subi um pouco por uma mata e uma segunda placa causou alguma dúvida pois apontava Landruk tanto em frente quanto à esquerda. Fui em frente (parece que à esquerda se chega a Landruk por estrada). Tangenciei uma estrada duas vezes, passei pelo ponto mais alto do dia (2150m) e cheguei a Pitam Deurali às 11h05, parando para muitas fotos pois o vilarejo fica numa crista com linda vista para Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Asapurna II, Asapurna, Gangapurna e Machapuchare (de norte para nordeste). Avistei pela primeira vez também o pico Dhaulagiri, 7º mais alto do mundo, que só voltaria a ver em Poon Hill, nos últimos dias desse trekking. E tive a primeira visão do vale do Rio Modi, bastante profundo, com o rio correndo cerca de 900m abaixo desse vilarejo.

De Pitam Deurali sai a trilha para o campo base da montanha Mardi Himal, mas é preciso aclimatar ou já estar aclimatado pois ele está a 4500m de altitude. Num dos lodges vi pela primeira vez um dos painéis pintados a mão com um croqui da região e o tempo de percurso entre um vilarejo e outro. Esse tipo de painel de orientação aos trilheiros se tornaria muito comum dali em diante. A verdade é que não são muito precisos e os tempos variam de um para o outro.

Seguiu-se uma longa e íngreme descida por escadarias de pedra que terminou às 12h05 numa estrada de terra, onde fui para a direita seguindo a placa de Tolka e Landruk. Passei pela minúscula Bherikharka, desci até uma ponte suspensa com piso de tábuas e subi à vila de Tolka, onde parei num dos primeiros lodges às 12h28 para almoçar um veg egg fried noodles no Popular Tourist Guest House com uma bonita vista do vale do Rio Modi.

Retomei a caminhada às 13h10 pela estrada ainda (logo passou um jipe) e passei por mais casas e lodges do vilarejo. Às 13h24 fui à direita na bifurcação da estrada e 5 minutos depois subi numa trilha à direita com placa apontando Landruk. Passei pelo Ram Lodge e desemboquei na estrada de novo, indo para a direita e passando por mais um núcleo de casas da vila de Tolka. Cerca de 160m após essas casas desci uma escadaria à esquerda na direção do Lodge Sanctuary, abandonando por ora a estrada e tomando um atalho. Na descida em direção a um rio passei por uma sequência de lodges e fui à esquerda na bifurcação em T para evitar caminhar pela estrada. Cruzei a ponte suspensa com piso de tábuas às 14h06 e subi à esquerda até a estrada, onde fui para a esquerda. Passei por uma cachoeira à direita e depois por várias casas espalhadas pela estrada, com muitas plantações em terraços na encosta da margem esquerda (verdadeira) do Rio Modi.

Às 14h41 desprezei uma placa apontando Chomrong e ABC à esquerda e continuei na estrada, mas 8 minutos depois subi uma escadaria de pedra à direita com placa "way to Landruk ABC", que me levou a uma ponte de concreto e uma trilha acima da estrada. Cheguei a Landruk às 14h55. Há muitos lodges ali e todos os donos/donas oferecem hospedagem, mas eu passei direto pois queria caminhar até o fim do dia. Cruzei o final da estrada por onde vinha caminhando e vi ali alguns jipes estacionados que devem ser jipes compartilhados com destino a Pokhara. A vila se espalha pela encosta da montanha e desci bastante por escadarias de pedra entre lodges.

Às 15h10 fui à direita numa bifurcação com placa onde à esquerda se vai a Ghandruk (Ghandrung). Em 6 minutos desci a uma ponte suspensa de tábuas, mas ali tive uma emergência intestinal. Não sei se pela água estranha desse lugar, pelo óleo usado para cozinhar ou se comi algo estragado, mas a diarréia veio com tudo e tive que correr para o mato - felizmente havia mato... A água nesse trekking tem uma camada de óleo quando colocada na caneca para ferver, algo bem suspeito. Refeito da correria parei no riacho para comer alguma coisa. Continuei descendo às 15h39 e fui à direita numa bifurcação sem placa, passando por baixo de uma tubulação e entrando na mata ciliar do Rio Modi. Às 16h07 cruzei uma ponte suspensa mas antes desviei alguns metros à direita para fotografar uma bonita cachoeira no meio da mata.

Descendo mais me aproximei da margem esquerda do Rio Modi, cujo vale era tão profundo quando o avistei pela primeira vez em Pitam Deurali. Ele é um importante rio da região e o seguirei até próximo de suas nascentes nos glaciares do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). Ali a menor altitude do dia, 1378m. Atravessei sua mata ciliar, cada vez mais exuberante. Às 16h36 passei pela pequena vila de Himal Pani (com uma cachoeira) e cruzei a grande ponte suspensa sobre o Rio Modi, passando definitivamente para sua margem direita. Fui à direita ao final da ponte e à direita na bifurcação seguinte onde à esquerda se vai a Sewai, segundo a placa caída. Passei rapidamente por um deslizamento na encosta íngreme e cheguei à vila de New Bridge às 16h58.

Perguntei nos três lodges que há ali e o melhor preço que consegui foi Rs100 (US$0,87) pelo quarto, no New Bridge Guest House. O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene dos nepaleses já que eles não usam papel higiênico. A ducha a gás custava Rs100 (US$0,87). Para escovar os dentes havia torneiras na frente e nos fundos do lodge. Havia tomada no quarto, algo que eu só iria encontrar de novo em Ghandruk, no 8º dia da caminhada.

Altitude em New Bridge: 1465m
Preço do dal bhat: Rs 480
Preço do veg chowmein: Rs 350

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A mais longa ponte suspensa que cruzei numa trilha no Nepal (em Samrung, entre New Bridge e Jhinu)

3º DIA - 26/11/18 - de New Bridge a Sinuwa Alta

Duração: 4h45 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2328m
Menor altitude: 1465m
Resumo: nesse dia comecei a percorrer a encosta da margem direita do Rio Modi, como faria nos quatro dias seguintes. Subi até a vila de Chomrong (desnível de 763m), desci ao Rio Chomrong (desnível de 346m) e subi de novo a Sinuwa Alta (desnível de 446m)

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,3ºC. Às 7h50 da manhã estava 12,9ºC.

De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse e Hiunchuli ao norte.

Saí do lodge às 8h56 subindo na direção noroeste. Aos poucos fui passando temporariamente do vale do Rio Modi para o do Rio Kimrong, afluente da margem direita do Rio Modi. Às 9h23 avistei uma ponte suspensa enorme, a mais longa de todas que já tinha visto no Nepal. Era tão alta que torci para não ter que cruzá-la. Em 3 minutos cheguei à minúscula vila de Samrung, com poucas casas, nenhum lodge e muitas plantações em terraço.

Ao passar por baixo da longa ponte vi uma placa apontando Jhinu, meu próximo destino, na direção da cabeceira do vale do Rio Kimrong e fiquei aliviado. Mas quis confirmar o trajeto com um rapaz carregador que estava ali perto e ele disse que Jhinu estava logo após a ponte, a placa apontava um caminho antigo. Não teve jeito, tive que enfrentar o medo de altura e cruzar a tal ponte, que devia ter mais de 250m de comprimento, com o Rio Kimrong láááá embaixo. Do outro lado subi à vila de Jhinu, aonde cheguei às 10h12. Há seis lodges. Não me interessei em descer até as águas termais porque seria uma penosa subida de volta. Na saída da vila passei por uma placa de "safe drinking water", que é um programa do ACAP de disponibilizar água tratada para os trilheiros e diminuir assim a poluição ambiental com garrafas plásticas, porém o preço do litro não é um grande incentivo (entre Rs100 e Rs130 = US$0,87 e US$1,13).

De Jhinu a Chomrong as escadarias de pedra vieram com tudo e para quebrar os joelhos mesmo. De tantos relatos que eu li antes dessa viagem nenhum enfatizava isso: as escadarias de pedra são de matar! Um ou dois bastões são imprescindíveis para distribuir o peso e não arrebentar os joelhos.

Cheguei às primeiras casas de Chomrong às 11h26 e parei para descansar por meia hora. Dali se avistava a nordeste o Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Mardi Himal. Nesse local há uma bifurcação, onde fui para a direita nesse dia (para Sinuwa); na volta eu tomaria a direção de Ghandruk, que é a trilha da esquerda nesse momento. Retomando a caminhada, subi mais escadarias e a visão se abriu também para o pico Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) ao norte.

Atravessei mais um grupo de lodges, depois uma pequena mata e cheguei à parte mais alta de Chomrong. A partir daí é uma descida beeem longa passando por muitos lodges e com uma paisagem estonteante do vale e das montanhas mencionadas. Chomrong tem um total de 14 lodges! Parei às 12h33 para almoçar no Lucky Guest House e o veg egg fried noodles estava salgado demais. Voltei à caminhada às 13h13 e continuei descendo. Passei direto pelo check post do ACAP porque não estava com paciência de tirar as permissões de dentro da mochila.

Às 13h37 passei por uma vendinha que se autointitula trekkers wholesale store e existe desde 1981, mas com preços caros como qualquer outra da região. Por ali deu para notar a grande extensão dos campos cultivados em terraços desse vilarejo. Às 13h44 fui à direita numa bifurcação e 2 minutos depois à esquerda em outra bifurcação, ambas com placa "ABC". As últimas casas de Chomrong foram ficando para trás e às 14h02 a descida terminou na ponte suspensa sobre o Rio Chomrong, outro afluente da margem direita do Rio Modi. A má notícia é que agora começava uma outra escadaria sem fim, desta vez para cima.

Subi feito um pagador de promessa, passei pela minúscula Tilche com suas plantações em terraços e parei às 14h40 na frente de um lodge em Sinuwa Baixa (Bhanuwa) para descansar por 12 minutos. Continuei a subida e a escadaria só terminou em Sinuwa Alta às 15h38. A vila de Bamboo ainda estava 1h30 à frente e resolvi parar ali mesmo. Há apenas três lodges em Sinuwa Alta. Perguntei no Sinuwa Lodge e a dona me fez o quarto de graça desde que eu fizesse as refeições ali. O banheiro era no estilo oriental e fora da casa, exposto ao frio. Havia uma torneira na frente do banheiro para escovar os dentes e se lavar. A ducha a gás custava Rs200 (US$1,74) e a carga de baterias Rs100 (US$0,87). Para meu espanto havia ao lado do banheiro uma lavadora de roupa LG - como aquilo foi carregado até aquela lonjura?

Num dos outros lodges de Sinuwa Alta vi pela primeira vez um dos purificadores de água de osmose reversa doados por uma empresa do Texas, também na tentativa de diminuir o lixo plástico nas trilhas e povoados. O litro custava Rs100 (US$0,87).

Na hora do jantar conheci dois holandeses que estavam caminhando com uma espanhola e também um casal chinês. Todos eu iria reencontrar nos lodges dali em diante. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a quantidade de coreanos na trilha. Muitos lodges têm inclusive pratos coreanos no cardápio, ou seja, eles devem ser habitués mesmo nesse trekking.

Altitude em Sinuwa Alta: 2328m
Preço do dal bhat: Rs 540
Preço do veg chowmein: Rs 450

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Macaco langur na trilha

4º DIA - 27/11/18 - de Sinuwa Alta a Deurali

Duração: 5h40 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3195m
Menor altitude: 2281m
Resumo: nesse dia continuei a subir pela encosta da margem direita do Rio Modi, porém agora por agradáveis bosques. Na vila de Deurali, acima dos 3000m de altitude, começou a aparecer a neve.

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 12,4ºC. Às 6h45 da manhã estava 13,5ºC.

De manhã com o céu limpo, da frente do lodge podia avistar as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste.

Saí do lodge às 8h35 na direção nordeste ainda pela encosta da margem direita (verdadeira) do Rio Modi. As plantações em terraço de agora em diante dão lugar à mata nativa e a caminhada se torna bastante prazerosa, com algumas fontes de água pelo caminho (que deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia"). Despontam no meio do bosque os rododendros, porém sua bonita floração só acontece em março e abril. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Mas para desespero geral as longuíssimas escadarias de pedra voltam à cena, neste momento descendo (e já penso como será a volta...).

Pouco antes da vila de Bamboo há um pequeno templo de pedra com bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais. Um fato curioso: ali duas grandes placas advertem para que os caminhantes não carreguem carne nessa área de Sinuwa a ABC por ser um lugar sagrado, chamado por isso de Santuário Annapurna (mais curioso é que carne de bode e de carneiro pode...). Caso contrário calamidades naturais e acidentes pessoais podem ocorrer! Nessas placas a menor altitude do dia, 2281m. Passei por Bamboo às 10h, com cinco lodges.

A trilha percorre a sombra da mata novamente. Cruzei uma ponte de troncos e na segunda ponte de troncos, às 10h27, parei por meia hora para descansar e comer alguma coisa. O trecho seguinte tem mais fontes de água. Cheguei a Dovan às 11h35 e a primeira vista da vila com o cume nevado do Machapuchare ao fundo lembrava uma bela paisagem dos Alpes. Passei pelos três lodges de Dovan e após cruzar mais alguns riachos parei em Dovan Alto às 11h58 para almoçar um egg veg fried noodles. Continuei pela mata às 12h41. Vários riachos depois parei para fotografar um grupo de macacos langur que estava bem à vontade mesmo com a presença de um grande grupo de trilheiros que parou para observá-los. Exatamente no local onde eles estavam ficava outro pequeno templo de pedra repleto de lenços cerimoniais bem no meio da floresta. A placa na entrada da vila de Dovan alertava para não cuspir ou deixar lixo próximo a esse templo.

Cerca de 170m após o templo a trilha bifurca e tanto faz o lado que se tome pois se encontram mais à frente, porém o lado da esquerda é uma escadaria que se pode evitar. Aliás a última das intermináveis escadarias! Ao sair da mata se tem uma bonita vista do Rio Modi com a vila de Himalaya pendurada na encosta à sua esquerda. Cheguei a Himalaya às 13h54 e há apenas dois lodges ali. Descansei por 15 minutos e continuei, agora por uma mata menos densa que permite ver enormes cachoeiras despencando do paredão na outra margem do Rio Modi.

Numa bifurcação às 14h27 subi à esquerda pois a direita leva a uma casa logo abaixo. A mata vai ficando cada vez mais rala nesta altitude já passando dos 2900m e a vegetação passa a ser predominantemente de bambus. Às 15h15 cheguei à Gruta Hinku, na verdade apenas um abrigo rochoso, de onde se avista a vila de Deurali. No caminho adiante duas grandes cachoeiras despencam do paredão à esquerda. A primeira enche de lama um deslizamento de pedras, a segunda forma um rio que se cruza através de alguns bambus que servem como ponte, mas com muito cuidado pois logo à direita há uma queda-d'água.

Após uma bonita cachoeira em degraus à esquerda da trilha, cheguei a Deurali às 16h, porém continuei até a parte mais alta da vila, onde está o Deurali Guest House, o último dos quatro lodges. Busco sempre os últimos lodges do vilarejo pois costumam ser mais vazios, a maioria dos trilheiros chegam cansados e param no primeiro lodge onde encontram vaga. No Deurali Guest House negociei o quarto de graça, mas o dono me avisou que eu talvez tivesse que dividir com alguém que chegasse mais tarde. O banheiro ficava fora e era no estilo oriental. Para escovar os dentes havia uma mangueira na frente do lodge, onde todo mundo passa. A ducha quente custava Rs250 (US$2,17) e a carga de baterias Rs200 (US$1,74). Um rolo de papel higiênico custava "só" Rs300 (US$2,60).

Estavam hospedados ali também o casal holandês e a espanhola que conheci na noite anterior. Quando já caía a noite apareceu o chinês, mas estava sem a namorada. O dono do lodge mandou-o para o quarto onde eu estava. Ele se chamava Fei. Sua namorada voltou de Sinuwa para Bamboo pois as intermináveis escadarias fizeram estrago em seu joelho e ela não quis ir adiante. Foi a primeira vez que dividi o quarto com um total desconhecido durante as caminhadas no Nepal, mas isso iria se repetir nas noites seguintes. Imagino que durante a alta temporada (outubro) muita gente deve dormir no refeitório por falta de quarto. Nesse dia fiquei na expectativa de que o dono do lodge me procurasse no quarto a qualquer momento e não fervi o meu 1,5 litro de água para o dia seguinte (eles proíbem o uso de fogareiro no quarto porque tudo é de madeira, inclusive paredes e teto). Tive de usar o Micropur, que deixa gosto muito ruim na água.

Nesse trekking do Annapurna e Poon Hill não me hospedei em nenhum lodge que tivesse o aquecedor a lenha ou esterco de iaque no centro do refeitório como nos trekkings do Everest e Langtang. O uso de lenha é proibido acima de Chomrong e iaques não há (eu não vi, pelo menos). O que se usa é um aquecedor a querosene embaixo da mesa comprida do refeitório, mas que só é aceso no inverno (a um custo de Rs200 = US$1,74 este de Deurali), ou seja, muito frio na hora do nosso jantar.

Em Deurali havia bastante neve acumulada em alguns pontos, e até um pouco antes na trilha já havia manchas de neve também. Era possível ver também uma enorme área de neve na encosta deste lado do rio na direção do ABC e já fiquei pensando como seria atravessá-la no dia seguinte.

Altitude em Deurali: 3195m
Preço do dal bhat: Rs 620
Preço do veg chowmein: Rs 480

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Campo Base do Annapurna e as montanhas Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli

5º DIA - 28/11/18 - de Deurali ao Campo Base do Annapurna (ABC)

Duração: 4h (descontadas as paradas)
Maior altitude: 4121m
Menor altitude: 3179m
Resumo: nesse dia o vale do Rio Modi afunila bastante e com isso passo a caminhar mais próximo dele, subindo (um desnível de 942m) entre altos paredões com risco de avalanche. No Campo Base do Machapuchare a trilha dá uma guinada de norte para oeste e já se entra numa paisagem de alta montanha, acima dos 4000m de altitude.

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,2ºC. Às 6h55 da manhã estava 8,7ºC.

Fei saiu bem cedo pois pretendia ir ao ABC e voltar a Bamboo, onde estava sua namorada, no mesmo dia. Calculou mal as distâncias e não conseguiu fazer tudo isso num dia só. Encontrei-o no meio do caminho para o Campo Base do Machapuchare (MBC, na sigla em inglês) já voltando, não chegou até o ABC.

Saí do lodge às 8h40 na direção nordeste e desci até próximo da margem direita do Rio Modi. Aqui a trilha se aproxima do rio pois os altos paredões estão cada vez mais próximos e mais verticais, formando quase um cânion. Uma placa logo no início alerta para o risco de avalanches. O perigo é real, alguns trilheiros e guias já morreram vitimados pela neve que desceu da montanha Hiunchuli, invisível deste ponto profundo do vale. O risco é maior após nevascas e fortes chuvas. Ali a menor altitude do dia, 3179m. Havia várias manchas de neve ao lado da trilha e logo cheguei àquela grande área de neve que avistava do lodge (talvez restos de alguma avalanche). Apesar de haver um caminho bem marcado na neve algumas pessoas estavam passando com dificuldade, mas não achei tão complicado. O bastão ajuda a manter o equilíbrio pois pode-se escorregar na neve ou nas pedras molhadas embaixo dela.

A primeira grande faixa de neve tinha cerca de 55m de comprimento, logo em seguida vinha outra de 30m, depois uma curtinha de 10m e mais à frente mais uma de 30m. Nesse trecho se avista o cume do Machapuchare à direita, numa fresta dos paredões, e é o ponto onde o trekking mais se aproxima dele. Na cabeceira do vale se destaca o Pico Asapurna.

Às 9h53 cruzei mais uma faixa de neve, mas logo depois alcancei uma área ensolarada e tive de tirar todas as roupas quentes que vestia. Seguiu-se uma longa ladeira onde as poucas árvores que ainda havia desaparecem de vez pela altitude acima dos 3600m. No alto avistei o primeiro lodge do Campo Base do Machapuchare (MBC) com os picos Asapurna e Gangapurna à direita. Às 10h57 passei pela escadaria que dá acesso a esse lodge, Gangapurna Guest House, mas em vez de subi-la continuei pela trilha à esquerda. Esse lodge fica separado dos outros quatro desse vilarejo, que se encontram mais acima, numa altitude de 3697m. Passei por eles 12 minutos depois a caminho do ABC. A quantidade de neve acumulada aqui já é bem grande e na horta nem os repolhos resistiram ao frio. Nas montanhas ao fundo (nordeste) dos lodges do MBC ainda se avista o Gangapurna e agora já se vê à sua direita o Pico Annapurna III (42º mais alto do mundo). A sudeste começa a se destacar o Machapuchare. À frente já se veem Hiunchuli (sudoeste), Moditse (oeste) e Annapurna Fang (Bharha Chuli)(noroeste).

Todo o ambiente ao redor agora é de alta montanha, com vegetação rasteira e nenhuma árvore. A altitude de 3697m do MBC e a elevação de mais 424m até o ABC levam muita gente a optar por passar a noite no MBC e ir ao ABC na manhã seguinte bem cedo, evitando assim eventuais problemas com a altitude. Eu já vinha de outros trekkings de maior altitude por isso não me preocupei tanto com a aclimatação neste. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia".

O nome Campo Base do Machapuchare faz crer que há expedições de ascensão a essa montanha, porém ela foi escalada apenas uma vez em 1957 e os escaladores não chegaram a pisar no cume. Depois disso ela foi fechada pois é considerada sagrada para os hindus, associada com o deus Shiva.

A subida em direção ao ABC continuou pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul, um dos formadores do Rio Modi. Entre o Annapurna III e o Machapuchare foi aparecendo o Pico Gandharwa Chuli a leste-nordeste. O Annapurna I começou a ficar visível a noroeste à medida que eu subia mas com o cume um pouco encoberto pelas nuvens. Ele é o 10º mais alto do mundo e estatisticamente a montanha mais perigosa que existe, mas continua sendo escalado.

Às 12h39 alcancei finalmente as três placas que saúdam e parabenizam pela chegada ao Campo Base do Annapurna! Dali foi subir mais 5 minutos para chegar aos 4 lodges do ABC. Altitude de 4121m. Havia muita neve já endurecida acumulada aos redor dos lodges. Iacof, um dos holandeses, já estava hospedado no Snow Land Lodge e dividi o quarto com ele. O quarto saiu a Rs100 (US$0,87) para cada um. Os banheiros ficavam no fim da varanda aberta ao frio, estilo oriental os dois. Não havia uma torneira fora para escovar os dentes. Ducha a gás ou banho quente de balde por Rs350 (US$3,04). Embaixo da mesa comprida do refeitório também havia um aquecedor a querosene, mas usado só no inverno (taxa de Rs250=US$2,17).

Almocei um dal bhat e à tarde fui ao mirante a 130m do lodge de onde se avista bem abaixo o enorme Glaciar Annapurna Sul, todo coberto de pedras, e onde há diversos memoriais a escaladores mortos naquelas montanhas, sendo talvez o mais famoso o do russo Anatoli Boukreev, falecido em 1997.

Iacof não se importou que eu usasse o fogareiro dentro do quarto para ferver a minha água do dia seguinte. Pelo contrário, ele aceitou a minha oferta e encheu suas garrafinhas também. Afinal água quente naquele frio todo não era algo para se recusar.

Às 17h30 estava 1,9ºC fora do lodge.

Altitude no Campo Base do Annapurna: 4121m
Preço do dal bhat: Rs 670
Preço do veg chowmein: Rs 580

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Picos Gandharwa Chuli e Machapuchare com o pequeno Campo Base do Machapuchare abaixo

6º DIA - 29/11/18 - do Campo Base do Annapurna a Himalaya

Duração: 4h (descontadas as paradas)
Maior altitude: 4121m
Menor altitude: 2847m
Resumo: nesse dia iniciei a descida de volta a Chomrong para dali seguir para Ghandruk. De ABC a Himalaya o desnível foi de 1274m.

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 1,9ºC. Às 7h da manhã estava 3,7ºC. Às 7h15 fora do quarto estava 1,1ºC.

O meu problema de insônia acima dos 4000m de altitude voltou e passei horas acordado esta noite. Esse é o único sintoma que tenho do Mal de Altitude (AMS, em inglês).

Todos que estavam hospedados no Campo Base do Annapurna esperavam por esse momento. Todo mundo saiu no frio de quase 0ºC às 6h30 da manhã para fotografar e admirar os primeiros raios do sol iluminando os picos do maciço do Annapurna (Annapurna Himal). O dia amanheceu com céu limpo e o espetáculo foi incrível, a recompensa depois de 5 dias de caminhada subindo e descendo escadarias sem fim.

Mesmo com o céu quase todo limpo o cume do Annapurna I (10º mais alto do mundo) não deu as caras essa manhã, escondido atrás de nuvens que não dissipavam. O panorama a partir do ABC era: Hiunchuli a sudoeste, Moditse a oeste, Annapurna Fang (Bharha Chuli) e Annapurna I a noroeste, Kangshar Kang (Roc Noir), Singu Chuli (Fluted Peak), Tarke Kang (Glacier Dome) e Tharpu Chuli (Tent Peak) ao norte, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Gandharwa Chuli a nordeste e Machapuchare (Fish Tail) a sudeste.

O profundo Glaciar Annapurna Sul parecia uma grande cicatriz interligando essas imensas montanhas. Além dos memoriais visitados no dia anterior, nesse dia encontrei um outro em homenagem a três coreanos mortos numa expedição em 2011. Depois me disseram que esse era o motivo de haver tantos coreanos percorrendo essa trilha. Talvez... Por volta de 10h começou o festival de helicópteros pousando na vila para os passageiros endinheirados fotografarem aquelas montanhas sem ter que dar nem um passo. E adivinha de onde era a maioria?

Às 12h26 peguei minha mochila no lodge e iniciei a caminhada de volta a Chomrong e de lá rumo a Ghandruk, aonde chegaria dois dias depois. Desci pela moraina lateral do Glaciar Annapurna Sul parando muitas vezes para fotos, passei por MBC às 14h02, voltei ao cânion do Rio Modi, passei novamente por aquelas cinco línguas de neve e alcancei Deurali às 15h53. A neblina chegou. Passei pela Gruta Hinku às 16h25, reentrei na mata de bambus e cheguei à vila de Himalaya às 17h. Dovan Alto ainda estava a 1h dali e tive de parar pois não daria tempo de chegar com luz do dia.

O problema é que Himalaya tem apenas dois lodges e estavam quase lotados. Consegui um quarto sozinho por Rs200 (US$1,74) no Himalaya Guest House mas logo chegou um casal (ela francesa e ele italiano) e tive que dividir pela terceira noite seguida. Mas eles não se importaram de eu acender o fogareiro no quarto para ferver a água do dia seguinte. O banheiro ficava fora do lodge, no estilo oriental e com ducha a gás por Rs200 (US$1,74). Não havia torneira no quintal para escovar os dentes. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs300 (US$2,60), mas o italiano disse que não funcionou nem à noite nem de manhã. O outro lodge se chama Himalaya Hotel, nomes bem criativos. Ali se dorme ouvindo o barulho forte do Rio Modi logo abaixo.

Altitude em Himalaya: 2847m
Preço do dal bhat: Rs 620
Preço do veg chowmein: Rs 480

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Vila de Dovan com o Pico Machapuchare ao fundo

7º DIA - 30/11/18 - de Himalaya a Chomrong

Duração: 5h40 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2847m
Menor altitude: 1888m
Resumo: nesse dia continuei o retorno descendo pela margem direita do Rio Modi até o Rio Chomrong e subindo até a vila homônima

Às 7h45 da manhã estava 10,5ºC dentro do quarto.

Apesar de já ter baixado 1274m desde o ABC, não dormi bem de novo. Passei horas acordado esta noite também.

Saí do lodge às 9h16 na direção sudoeste ainda refazendo meus passos pela margem direita do Rio Modi. Reentrei na mata e reencontrei as escadarias. Passei por Dovan Alto às 10h23, por Dovan às 10h55 (com bonita vista do Machapuchare para trás) e parei às 11h56 nos primeiros lodges de Bamboo pois ali há sinal da NCell e eu precisava mandar mensagens para a família de que estava vivo. Por 44 minutos descansei e comi as bolachas que tinha na mochila (meu intestino ainda não estava bom). Continuei às 12h40. Após Bamboo vêm as piores escadarias. Na primeira, logo depois da vila, se sobe tanto que o Rio Modi acaba ficando bem distante, muito abaixo.

Saí definitivamente da mata ao chegar a Sinuwa Alta às 14h28. Descansei por 8 minutos para enfrentar a interminável escadaria até o Rio Chomrong. Passei por Sinuwa Baixa (Bhanuwa) às 15h05 e às 15h31 a longa escadaria terminou na ponte suspensa do Rio Chomrong. Ali a menor altitude do dia, 1888m. Agora vinha a enorme subida para a vila de Chomrong, minha parada nesse dia. A vantagem de dormir ali é a farta quantidade de lodges, são 14. Cruzei com uma tropa de mulas pela primeira vez nesse trekking (no trekking Shivalaya-Namche elas eram um terror na trilha), mas iaque não vi nenhum.

Subi bastante e ia passar direto pelo check post do ACAP às 16h14, mas um guia me chamou insistentemente para fazer o checkout. O guardinha não conferiu no livro se eu havia me registrado na ida. De tantos lodges quase vazios em Chomrong escolhi o Chhomrong Cottage, 3 minutos após o check post, e quem eu encontro hospedado lá? Fei, o chinês, agora com a namorada. Porém estava bem mal, com febre e diarréia líquida. Dei-lhe um Imosec e sais de reidratação oral que tinha na minha farmacinha, ele ficou muito agradecido.

Negociei com a simpática dona do lodge o quarto por Rs100 (US$0,87) e ela ofereceu de graça a ducha quente, da qual eu necessitava muito. O banheiro era no estilo oriental no térreo e com vaso sanitário no primeiro andar, onde eu fiquei. Porém ambos no corredor aberto ao frio. Junto a eles um lavatório para escovar os dentes, coisa rara. A carga de baterias custava Rs100 (US$0,87) e o wifi Rs200 (US$1,74).

Altitude em Chomrong: 2159m
Preço do dal bhat: Rs 520
Preço do veg chowmein: Rs 400

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Picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli ao amanhecer em Chomrong

8º DIA - 01/12/18 - de Chomrong a Ghandruk

Duração: 4h20 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2261m
Menor altitude: 1791m
Resumo: nesse dia abandonei o trekking ABC e iniciei uma conexão por trilhas para o trekking Poon Hill. Essa conexão durou três dias e nesse primeiro dia fiz um desvio para o sul para conhecer a vila de Ghandruk. De Chomrong desci ao Rio Kimrong (desnível de 470m), subi até a vila de Komrong Danda (desnível de 430m) e desci novamente até Ghandruk (desnível de 224m)

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 10,9ºC. Às 7h10 da manhã estava 11ºC.

Às 6h50 os primeiros raios de sol iluminavam os picos Annapurna Dakshin (Annapurna Sul) e Hiunchuli, num lindo espetáculo. Me despedi do Fei e sua namorada pois iam até a vila de Matkyu tomar o ônibus para Pokhara. Saí do lodge às 9h28 na direção sul, subindo o restante das escadarias até a parte mais alta de Chomrong, onde consegui sinal da NCell para poder trocar mensagens. Desci em seguida passando pelos outros lodges da vila e cheguei às 9h50 à bifurcação para Ghurjung, Kimrong Khola (Kimrung Khola), Tadapani e Ghandruk à direita, com Jhinu à esquerda (de onde vim no 3º dia). Parei para tirar a roupa mais quente e segui à direita nessa bifurcação (rumo noroeste) cruzando muitos campos cultivados em forma de terraço. Uma outra alternativa para ir a Ghandruk seria tomar a esquerda na bifurcação, descer àquela ponte enorme do 3º dia, cruzá-la e tomar a trilha que sobe em frente e à esquerda, mas desconfio que esse caminho tem estradas (e eu odeio andar em estrada!)

Num suave sobe-e-desce para oeste passei por duas fontes de água e às 10h54 subi uma escadaria (de novo não...) que terminou na frente de um lodge, iniciando logo a longa descida ao Rio Kimrong. Ali a maior altitude do dia, 2261m. Às 11h04 me deparei com uma bifurcação sem placa e fui para a direita, evitando a escadaria de pedras que descia à esquerda. Uns 50m depois outra trilha descendo à esquerda. Pensei em continuar à direita mas esperei um grupo que vinha na direção contrária chegar para perguntar. Me disseram que aquele caminho à direita ia para Ghurjung e depois Tadapani. Mas eu queria ir para Ghandruk primeiro, então deveria descer a escadaria da primeira bifurcação ou a trilha da segunda. Optei pela escadaria e voltei até ela, tomando-a para a direita. Mas logo os degraus acabaram e a trilha a seguir era de terra fina solta, uma poeira só! E claro que nessa hora surgiu do nada uma tropa de mulas para me atazanar. Não podia deixá-las passar pois iam me fazer comer muita poeira, então tive de acelerar a descida.

Numa bifurcação mais abaixo fui à esquerda mas tanto faz pois logo se fundem os dois caminhos de novo. Avistei lá embaixo no Rio Kimrong a ponte suspensa que teria de cruzar para subir a Komrong Danda e depois descer a Ghandruk. A descida continuou por escadarias e as mulas atrás. Às 11h43 apareceu uma outra escadaria à esquerda, mas era estreita e não estava sinalizada, então continuei descendo pela trilha principal mesmo. Mas depois de 200m vi que estava me distanciando da ponte e a trilha não dava sinais de que ia quebrar para a esquerda na sua direção. Resolvi voltar. Deixei as mulas passarem e subi um pouco de volta, tomei a estreita e íngreme escadaria (à direita agora) e desci rapidamente à vila de Kimrung Khola, com suas plantações em terraços. Parei ali às 12h04 para almoçar um veg egg fried noodles na Kimrung Guest House. O cozinheiro era muito atencioso e conversamos sobre a bonita horta que ele tinha nos fundos do lodge.

Saí às 12h50 e terminei de descer até a ponte suspensa com piso de tábuas sobre o Rio Kimrong. Ali a menor altitude do dia, 1791m. Ao final dela fui para a esquerda e logo começou uma longuíssima subida até a vila de Komrong Danda, inicialmente por uma escadaria mas depois felizmente por trilha mesmo. Às 13h13 cruzei uma porteira de varas (coisa muito rara hoje no Brasil) com uma placa "way to Ghandruk" torta, depois atravessei um riacho por troncos. Na bifurcação às 13h38 uma placa apontava Ghandruk para a direita. E dá-lhe subida! Alcancei Komrong Danda às 14h24 e avistei Ghandruk pela primeira vez. Há 4 lodges nessa vila e a altitude é de 2221m.

Logo iniciei a longa descida em direção a Ghandruk, em parte por escadarias de pedras até com corrimão. Às 15h06 entrei numa mata e 5 minutos depois cruzei uma ponte suspensa (com a antiga ponte de troncos ao lado). A trilha dá uma guinada para a esquerda (leste) e às 15h23 notei uma longuíssima escadaria subindo à direita ao lado de uma pequena stupa. A trilha dali em diante estava interrompida por uma obra então subi pelo desvio à direita. Logo apareceu uma escadaria à direita e subi por ela, chegando aos primeiros lodges de Ghandruk às 15h29. Parei no Bishow Guest House pois achei um lugar bem tranquilo e não me arrependi. Depois descobri que a grande maioria dos lodges se concentrava no centro da vila, que fica mais ao sul, mas talvez por ser um sábado havia muitos grupos de adolescentes fazendo festas por ali, e eu queria sossego. Alguém me disse que havia cerca de 40 lodges em Ghandruk.

O Bishow Guest House fica perto da parte mais antiga do vilarejo, onde as casas têm uma linda arquitetura muito característica, com varandas na frente, janelas trabalhadas e telhados de pedra. A visão desse conjunto de casas de cima lembra uma cidade medieval, muito bonito, uma das melhores surpresas dessa caminhada. Valeu muito a pena o grande desvio que fiz para conhecer Ghandruk. Pena que a neblina não me deixava ver as montanhas, mas dali se avistam (de norte para nordeste) Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Moditse, Hiunchuli, Gangapurna, Annapurna III (42º mais alto do mundo) e Machapuchare.

Esse lodge já era praticamente um hotel, dispondo de quartos com banheiro privativo. Eu negociei o preço do quarto de graça fazendo as refeições ali e o rapaz me ofereceu um quarto com banheiro compartilhado. Eu era o único hóspede. O banheiro tinha vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava), lavatório com espelho e ducha a gás grátis. Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87).

Dei um giro pelo centrinho do lugar e visitei o Museu Old Gurung (Rs75 = US$0,65), bem pequeno mas interessante, com utensílios, instrumentos musicais e roupas do grupo étnico que habita essas montanhas, os gurungs. Ghandruk é o segundo maior povoado gurung no Nepal.

Ao ferver a água que peguei da torneira do banheiro apareceu uma sujeira estranha, pedacinhos brancos esquisitos por cima da água. Não quis filtrar aquilo. Pedi a água da cozinha, fervi e estava um pouco melhor, mas continuava turva e tive de filtrar depois.

Altitude em Ghandruk: 1997m
Preço do dal bhat: Rs 450
Preço do veg chowmein: Rs 400

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A incrível vila de Ghandruk

9º DIA - 02/12/18 - de Ghandruk a Tadapani

Duração: 3h (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2684m
Menor altitude: 1967m
Resumo: nesse dia continuei a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill encarando uma subida longa e constante por florestas de rododendros até Tadapani, num desnível de 717m

Às 7h25 da manhã estava 11,9ºC.

De manhã a neblina continuava e nada de montanhas. Dei mais uma passeada pelo centro de Ghandruk antes de iniciar a caminhada do dia. Fui conhecer o Centro de Artesanato, onde uma simpática moça me mostrou seus bonitos trabalhos no tear - roupas e tecidos confeccionados na mais pura tradição gurung. No caminho passei por uma bifurcação com placa em que à direita se vai a Tadapani, meu destino nesse dia. Depois fui ao German Bakery tomar um café e beliscar alguma coisa, mas tudo o que eu pedi estava ruim: café aguado, rolinho de canela seco e torta de maçã com gosto esquisito. Depois pensei em ir ao Templo Meshram Barah, mas quando vi a enorme escadaria que teria de subir questionei se valia a pena (mais tarde descobri que há três templos com esse nome no vilarejo). Em vez disso fui ao Museu Gurung and Old Gurung Culture (Rs75 = US$0,65 de entrada também), menos interessante que o Museu Old Gurung que havia visitado no dia anterior.

Já estava voltando ao lodge quando vi alguns ônibus estacionados num descampado logo abaixo da vila e enfim descobri onde era o ponto final deles. Havia perguntado a duas pessoas onde era, mas eles são extremamente confusos para explicar e me disseram que eu teria que andar muito... Fui até lá perguntar os horários (só por curiosidade) e vi que no caminho eles passam por Birethanti e Nayapul, onde eu vou terminar esse trekking. Depois saí procurando o Centro de Visitantes do ACAP e acabei descobrindo onde era. O mais interessante ali é o filme que eles projetam três vezes ao dia (11h, 13h e 15h) de domingo a sexta-feira, mas eu não pude esperar porque tive receio de não dar tempo de chegar a Tadapani (teria dado). Em frente há um posto de saúde, informação importante para quem possa estar com algum problema de saúde, embora Pokhara esteja há poucas horas de ônibus dali e tem bons hospitais e clínicas. Na volta ao lodge ainda caminhei pelas ruelas da parte antiga da cidade, aquela que parece medieval, e realmente é um lugar muito especial.

Voltei ao lodge para pegar a mochila e o rapaz me disse que eu poderia tomar outro caminho a Tadapani, voltando por onde cheguei no dia anterior e subindo a longuíssima escadaria ao lado da pequena stupa, e foi o que fiz. Saí do lodge às 12h13 na direção noroeste. Passei pelo desvio da trilha interrompida e cheguei à escadaria. Ali a menor altitude do dia, 1967m. Respirei fundo porque seriam centenas de degraus morro acima. Cruzei uma bonita plantação de chá e às 12h50 cheguei ao topo, onde está um dos três templos Meshram Barah e uma torneira com água. O caminho continuava à esquerda e voltava a sinalização de duas faixas horizontais branca e vermelha. A escadaria termina ali e a subida continua por uma trilha. Às 13h09 cheguei a uma bifurcação em frente ao Jungle Paradise Guest House, um lodge isolado: à esquerda se volta à vila de Ghandruk, exatamente naquela bifurcação com placa que vi de manhã, à direita se vai a Tadapani, minha meta desse dia.

A trilha nivela. Cruzei uma ponte de madeira, passei pelo lodge Lonely Planet (também isolado) e a vegetação vai ficando mais densa. Às 14h14 cruzei uma ponte de concreto e subi uma escadaria de pedra com corrimão. Passei por uma cachoeira à esquerda da trilha e subi uma longa escadaria com outra cachoeira à direita. Às 14h56 passei pelo minúsculo vilarejo de Bhaisi Kharka, com dois lodges. A subida continua e entro numa extensa floresta de rododendros, a primeira mata só de rododendros desse trekking. Esse lugar deve ficar incrivelmente bonito na floração dessa árvore em março e abril. Avisto alguns macacos no alto.

Às 15h34 entronca uma trilha que sobe da direita vindo de Komrong Danda, segundo a plaquinha amassada com um croqui. Ela tem uma sinalização pintada nos troncos de duas faixas também, porém branca e azul. Subi mais um pouco e às 15h51 alcancei o vilarejo de Tadapani, com 10 lodges. Ia passando direto pelo primeiro lodge, Himalaya Tourist Guest House, mas a garota me chamou. Perguntei-lhe se faria o quarto de graça se eu fizesse as refeições ali e ela aceitou (mas depois sua mãe veio me pedir para não comentar isso com ninguém, como eles sempre fazem). Os banheiros ficavam no corredor aberto ao frio: um com vaso sanitário com descarga acoplada e outro no estilo oriental. Lavatório no corredor. Ducha quente por Rs200 (US$1,74), wifi por Rs200 (US$1,74) e carga de baterias por Rs100 (US$0,87) (mas deixaram de graça).

Dei uma passeio pela vila para ver os outros lodges. Há uma estação de água potável e muito artesanato à venda, mas quase ninguém para comprar...

Altitude em Tadapani: 2684m
Preço do dal bhat: Rs 600
Preço do veg chowmein: Rs 400

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Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo) e Tukuche

10º DIA - 03/12/18 - de Tadapani a Ghorepani

Duração: 4h20 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3201m
Menor altitude: 2504m
Resumo: nesse dia alcancei a vila de Ghorepani e concluí a conexão entre os trekkings ABC e Poon Hill. Saindo de Tadapani desci a um rio e encarei mais uma longa subida até Deurali (desnível de 697m) pela mata junto a outro rio. Após Deurali percorri uma crista com neblina (perdi o visual) e desci a Ghorepani (desnível de 397m)

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 5,5ºC. Às 8h da manhã estava 7ºC.

De manhã, com muitas nuvens, da frente do lodge se avistava com dificuldade o Annapurna III (42º mais alto do mundo),
Gandharwa Chuli e Machapuchare a nordeste.

Saí do lodge às 9h23 na direção oeste, seguindo a placa de Ghorepani e descendo por uma trilha calçada. Parei para colocar mais roupas porque dentro da floresta de rododendros estava muito frio. A descida se transformou numa escadaria e às 9h50 cruzei uma ponte de concreto. Logo depois dela a menor altitude do dia, 2504m, e em seguida a escadaria de pedras que inicia a exaustiva subida para Deurali. Às 10h16 alcancei o primeiro lodge da vila de Banthanti, que é dividida em três núcleos. Parei por 9 minutos para descansar da subida. Cerca de 280m adiante passei pelo segundo núcleo, cruzei uma ponte de concreto sobre um riacho e depois uma de madeira no terceiro núcleo de Banthanti. No total são 6 lodges nessa vila. A trilha sobe pela margem esquerda (verdadeira) desse riacho, mas após outra ponte de concreto às 11h06 volto à sua margem direita. Nesse trecho começou a aparecer muita gente no sentido contrário e resolvi parar por 13 minutos para um lanche.

Às 11h54 subi uma longa escadaria com corrimão, desci um pouco, cruzei uma ponte de madeira e subi por outra longa escadaria. Passei pelo primeiro lodge de Deurali às 12h20 (essa é a terceira vila com esse nome nesse trekking) e resolvi parar no próximo, 10 minutos depois, para almoçar um veg fried noodle no Deurali Yak Hotel. Enquanto esperava tive uma surpresa. Vi um casal chegando no lodge ao lado e, conversando com a dona, disseram que eram do Brasil! O terceiro casal brasileiro que encontrei no Nepal em dois meses! Moravam no Acre e estavam indo de Ghorepani para Ghandruk nesse dia.

A pequena Deurali tem também várias bancas de artesanato e da frente do Yak Hotel sai a trilha que sobe para Gurung Hill, mas naquele horário as nuvens já não permitiam apreciar o visual desse mirante. Voltei à trilha às 13h30. Em 20 minutos caminhando pela mata de rododendros atinjo uma crista. Mais 10 minutos e passei pelo ponto de maior altitude do dia, 3201m. Às 14h15 alcancei o mirante Thapla (Thabala), que dizem ter uma vista similar à de Poon Hill, mas sem as multidões e de graça, porém a neblina já havia chegado e não pude fazer essa comparação. Há ali um bar rústico e uma chautara (descanso dos carregadores) com bandeirinhas de oração budistas. Comecei a descer e logo cruzei outra mata de rododendros.

Às 14h44 cheguei a uma bifurcação com outra chautara. Havia uma sinalização branca e vermelha apontando para a escadaria que desce à direita, mas eu decidi seguir pela trilha calçada em frente que desceu muito. Ao chegar a Ghorepani às 15h18 é que entendi que havia a vila baixa (onde chegam os trilheiros que vêm de Nayapul e onde eu cheguei) e a vila alta com muito mais opções de hospedagem. Decidi ir à vila alta e percebi que naquela bifurcação da sinalização branca e vermelha devia ter ido para a direita pois é um caminho mais direto à vila alta. Dali onde eu cheguei virei à direita e subi pela escadaria principal. Apenas 100m acima, numa bifurcação em que segui à direita, fui parado num checkpoint da polícia turística para mostrar as permissões. Nessa bifurcação, à esquerda se vai ao mirante Poon Hill.

Continuei subindo à direita e cheguei a Ghorepani Alta (também chamada de Ghorepani Deurali... mais uma Deurali!) às 15h34, com muitos lodges mais. Apesar da baixa temporada havia muita gente ali, muitos nepaleses inclusive. Queria ficar num lodge bem tranquilo e fiz a escolha certa: Poon Hill Guest House. Negociei o quarto de graça e fui o único hóspede nessa noite. Atendimento muito simpático e comida deliciosa, fiz questão de elogiar o cozinheiro. O banheiro era dentro do lodge e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Lavatório no corredor e ducha quente por Rs100 (US$0,87). Tomada no quarto e wifi por Rs100 (US$0,87).

Altitude em Ghorepani Alta: 2874m
Preço do dal bhat: Rs 600
Preço do veg chowmein: Rs 450

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Vista do mirante Poon Hill ao amanhecer: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo) e Annapurna Dakshin (Annapurna Sul)

11º DIA - 04/12/18 - de Ghorepani a Tikhedhunga

Duração: 30 minutos (subida de Ghorepani a Poon Hill) e 4h (de Ghorepani a Tikhedhunga, descontadas as paradas)
Maior altitude: 3185m em Poon Hill
Menor altitude: 1503m
Resumo: nesse dia desci de Ghorepani a Banthanti (desnível de 607m) pelo vale de um rio por dentro de bosques, depois baixei até Tikhedhunga pela encosta da margem direita do Rio Bhurungdi (desnível de 764m)

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 3,0ºC. Às 5h da manhã estava 3,6ºC.

O melhor espetáculo no mirante Poon Hill seria o nascer do sol, então enfrentei o frio de quase 0ºC e saí às 6h06 do lodge com lanterna para não perder o show. Subi até o Hotel Hill Top e de lá tomei a trilha dentro da mata. Cheguei à portaria do mirante e paguei a taxa de Rs100 (US$0,87) no guichê. Continuei subindo por longuíssimas escadarias de pedras entre rododendros e alcancei o mirante às 6h35, a tempo de assistir ao nascer do sol junto com a multidão que já estava lá e o povo que ainda estava subindo. Os primeiros raios de sol vieram às 6h43.

Dos 3185m de altitude de Poon Hill a visão do Himalaia realmente é de tirar o fôlego, a melhor de todo esse trekking. A lista de montanhas é extensa e pode ser dividida em dois grandes blocos. De noroeste para norte: Gurja Peak, Dhaulagiri VI, Dhaulagiri IV, Dhaulagiri V, Dhaulagiri III, Dhaulagiri II, Dhaulagiri I (7º mais alto do mundo), Tukuche e Dhampus. De norte para nordeste: Nilgiri, Annapurna Fang (Bharha Chuli), Annapurna I (10º mais alto do mundo), Annapurna Dakshin (Annapurna Sul), Hiunchuli, Annapurna III (42º mais alto do mundo), Gandharwa Chuli, Machapuchare e Annapurna II (16º mais alto do mundo). Há uma torre para tirar fotos ainda melhores de uma posição mais alta, banheiros e uma casinha onde se vendem café e chá a preços ainda mais caros que em Ghorepani. Poon Hill tem esse nome porque foi criada e divulgada como ponto turístico pelo major Tek Bahadur Pun, um apaixonado pelo lugar e pela vista que se tem dali.

Iniciei a descida às 8h50, quando o mirante já estava praticamente vazio, e parei muitas vezes para tirar mais fotos. Ao passar pelo guichê (já fechado) notei à direita o caminho que desce para Ghorepani Baixa, mas eu tinha de passar pelo lodge primeiro. Cheguei ao Poon Hill Guest House às 10h21, tomei o café da manhã, arrumei a mochila e saí às 12h na direção sul. Desci até Ghorepani Baixa, passei pelo portal do vilarejo e tomei a trilha larga pela floresta descendo para a reta final desse trekking.

Queria saber quanto de estrada eu teria de andar dali até Nayapul e se haveria algum caminho alternativo por trilha, mas novamente as informações do pessoal local foram muito confusas e até erradas. Me disseram que em Ulleri eu cairia numa estrada e não haveria alternativa por trilha, mas não foi nada disso.

Passei pelos primeiros lodges de Nangethanti às 12h56, cruzei uma ponte de concreto e depois mais alguns lodges dessa vila. Reentrei na mata e às 13h22 cruzei para a direita outra ponte de concreto sobre um pequeno cânion e um rio de água transparente muito bonito. Esse rio forma logo abaixo uma bela cachoeira. Depois de mais duas pontes de concreto parei 16 minutos para comer alguma coisa que trazia na mochila. Logo a floresta daria lugar à vegetação mais baixa.

Passei às 14h23 pela vila de Banthanti Alta (o mesmo nome de uma vila do dia anterior) e 7 minutos depois por Banthanti Baixa, com lodges. Reaparecem os campos cultivados em forma de terraço. Continuei descendo e às 15h05 cheguei à vila de Ulleri, onde há jipes para Pokhara pela bagatela de Rs6000 (US$52) para 5 pessoas. O ônibus de Nayapul estava bem longe ainda porém custava só Rs200 (US$1,74). Nessa vila inicia uma famosa escadaria que dizem ter mais de 3300 degraus (segundo o guia Lonely Planet) e lá fui eu, dando graças por ser descida e por não ter que caminhar na estrada de terra, como haviam me informado em Ghorepani. Odeio andar em estrada!

Cruzei toda a vila de Ulleri descendo pela escadaria. Cruzei também com muita gente subindo e vários perguntavam se faltava muito para Ghorepani - muito! E eu lhes perguntava se teria que andar por estradas mais à frente pois já avistava muitas estradas de terra abaixo. Às 16h11 teve fim essa escadaria terrível e cruzei uma ponte suspensa com o Rio Bhurungdi (Baraudi) formando duas lindas cachoeiras, uma acima e outra abaixo da ponte. Ali a menor altitude do dia: 1503m. Ao final da ponte fui à direita e na bifurcação a seguir à esquerda seguindo as setas apontando Pokhara. Já estava chegando à vila de Tikhedhunga e seus primeiros lodges. Subi e cruzei outra ponte suspensa com outra bela cachoeira acima. Fui à direita e parei às 16h31 num dos primeiros lodges, Laxmi Guest House. A dona me fez o quarto de graça, só pagando as refeições. O banheiro ficava no fim do corredor aberto ao frio, com vaso sanitário com descarga acoplada (mas não funcionava). Para escovar os dentes havia uma pia na frente do lodge. O atendimento não foi dos melhores mas a localização era muito bonita, com muita vegetação ao redor. Só os primeiros lodges da vila têm essa vista para a mata e barulho do rio próximo.

Altitude em Tikhedhunga: 1519m
Preço do dal bhat: Rs 450
Preço do veg chowmein: Rs 350

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Cachoeira no Rio Bhurungdi em Tikhedhunga

12º DIA - 05/12/18 - de Tikhedhunga a Nayapul

Duração: 2h30 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 1519m
Menor altitude: 1004m
Resumo: nesse dia percorri o vale do Rio Bhurungdi (Baraudi) por sua margem esquerda por trilhas e estradas até o ponto do ônibus em Nayapul

A mínima durante a noite dentro do quarto foi 9,9ºC. Às 6h35 da manhã estava 10,8ºC.

Saí do lodge às 8h06 na direção sudoeste ainda pela margem esquerda do Rio Bhurungdi (Baraudi). Passei pelos outros lodges do vilarejo e continuei descendo. Às 8h20 cheguei aos primeiros lodges de Hille, atravessei todo o povoado e 10 minutos depois lá estava ela, a estrada de terra. Fui para a direita descendo e por enquanto não havia alternativa por trilha. Às 8h50 passei pela vila de Sudame. Ali, numa curva fechada para a direita peguei um curto atalho à esquerda e continuei descendo pela estrada. Às 9h15 passei por Ramghai (Lamdawali).

Às 9h38 entrei num atalho à direita com placa "way to Birethati" e a sinalização de faixas branca e vermelha de novo. Cruzei a vila de Matathanti com casas bem antigas, atravessei uma ponte suspensa e voltei à estrada de terra às 9h50, seguindo para a direita. Numa bifurcação 4 minutos depois continuei à direita pela estrada. Às 10h07 entrei em outro atalho à direita com placa e logo comecei a cruzar o casario da extensa vila de Birethanti, onde o Rio Bhurungdi (Baraudi) deságua no Rio Modi.

Às 10h16 cheguei a uma estrada e uma ponte de ferro sobre o Rio Modi. Ao lado há um check post do ACAP, mas passei direto. Me recomendaram caminhar até Nayapul pois lá os ônibus são mais frequentes, então cruzei a ponte de ferro e continuei pela estrada na margem esquerda do Rio Modi. Passei por um check post do TIMS card 80m após a ponte mas não parei e nem fui parado para fazer checkout. Nesse trecho registrei a menor altitude de todo o trekking: 1004m. Subi um pouco e nas primeiras casas de Nayapul entrei num caminho à direita da estrada, às 10h32. Não há nenhuma sinalização mas para chegar à parada dos ônibus para Pokhara tem que entrar mesmo nesse caminho. Na bifurcação 300m depois desci à direita, cruzei a ponte suspensa e na subida seguinte cheguei às 10h42 à estrada e ao centro de Nayapul, com bastante comércio. Altitude de 1022m.

Consegui alcançar um ônibus que seguia bem devagar, confirmei se ia para Pokhara e entrei. Ele foi até o fim da rua e tomou a estrada de terra para a esquerda, perto de onde fica a parada de todos os ônibus. A estrada é parte asfalto e parte terra batida, mas não pula muito. Essa estrada é a mesma que me levou a Kande, no início do trekking, e passamos por essa vila às 11h40. Desci do ônibus em Pokhara às 12h48, porém em frente a um terminal chamado Baglung Bus Park, muito distante de Nareshwor ou Lakeside. Perguntei para algumas pessoas se havia ônibus para esses bairros mas não souberam dizer, então resolvi ir a pé mesmo. Levei 1 hora até o Harry Guest House, mas poderia ter tomado um ônibus para Zero Kilometer, o que teria me poupado 2,2km de caminhada.

Informações adicionais:

Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.

. ônibus turístico Kathmandu-Pokhara: 7h (8h de viagem)
Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Sorhakhutte, 500m ao norte do Kathmandu Guest House, no Thamel
Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro

. ônibus turístico Pokhara-Kathmandu: de manhã entre 7h e 8h e mais 3 horários à noite (8h de viagem)
Em Pokhara os ônibus saem do terminal Tourist Bus Park, a 2,5km do centro de Lakeside Norte, mas pode-se comprar a passagem no hotel e tomar o ônibus em Lakeside
Preço: Rs700 (US$6,08) o ônibus sem banheiro

. ônibus Pokhara-Kande: a cada 20 minutos segundo me disseram (esperei 24 minutos) (1h40 de viagem)
Em Pokhara pode-se tomar o ônibus em Zero Kilometer ou no Baglung Bus Park
Preço: Rs100 (US$0,87)

. ônibus Ghandruk-Pokhara: de 8h30 a 14h, de hora em hora
Preço: Rs500 (US$4,34)

. ônibus Nayapul-Pokhara: a cada 15 minutos até 18h30 (2h de viagem)
Preço: Rs200 (US$1,74)

. Melhor mapa: Around Annapurna 70k, 1:70.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NA524, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs550 = US$4,77). Site: himalayan-maphouse.com.


Rafael Santiago
dezembro/2018
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

 

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    • Por Renato37
      Travessia realizada em 17/08/2019.
      Todas as fotos da travessia estão em: https://photos.app.goo.gl/iALbK8QSahnj7Lku6

      - Introdução -
       
      Fazia algum tempo que não batia perna na região de Paranapiacaba, ainda mais por conta da proibição e o aperto da fiscalização nas tradicionais trilhas do entorno da vila, como a da Fumaça e Cristal. Então, para evitar problemas, tenho optado por ir para outros lugares, como na Serra do Mursa, Itapety e Mogi, entre outros.

      Já tendo feito um batevolta na pouco conhecida Pedra Grande do Quatinga em 2013, es que me surge a ideia de retornar a mesma, mas não mais como um simples batevolta, mas sim, como travessia com 1 pernoite. Chamei várias pessoas, mas dado a logística e ter que acampar, apenas 5 toparam ir comigo na empreitada.

      Passava das 9:00 da manhã qdo saltei do metrô da linha 2 (verde) na estação de Tamanduateí, local previamente marcado com parte da turma. Lá encontrei o Marcio, Janaína e a Suzana que já me aguardavam no local. Sem perder tempo, logo embarcamos no trem da linha 10 da CPTM sentido Rio Grande da Serra, onde encontraríamos a 5º integrante da trupe, a Monike que é do ABC e que iria nos encontrar diretamente lá.

      Na Estação de Rio Grande da Serra esperando a ultima integrante da trupe, a Monike.

      Com toda a trupe reunida e após um breve café da manhã reforçado, embarcamos no latão rumo a Paranapiacaba que por sorte, estava com problemas na catraca e por isso, não houve cobrança da passagem, para a alegria de todos.


      1º Dia - Da Vila de Paranapiacaba ao Topo da Pedra Grande do Quatinga.
      Desembarcamos do ônibus em uma Paranapiacaba incrivelmente ensolarada e de céu estupidamente azul, coisa rara e que poucas vezes se vê por lá, com a ausência total do famoso "Fog" tradicional da vila inglesa. Para quem não sabe, o tradicional nevoeiro e os dias sem visual algum faz parte da vila inglesa, construída no Século XIX.


      O Relógio marcava pouco depois das 11:30 e precisaríamos apertar o passo afim de chegarmos até o topo da Pedra Grande a tempo de ver o por-do-sol. Após alguns clicks de praxe da vila inglesa e a tradicional foto clássica da trupe em frente a igreja, iniciamos a caminhada descendo a ladeira que liga a parte alta a baixa da vila.


      A turma na tradicional foto antes de começar a caminhada.
      Durante a caminhada na vila de Paranapiacaba, notei que muita coisa mudou desde a ultima vez que lá estive, anos atrás: O Bar da Zilda parecia um bar de balada, os quiosques do lado da passarela já não existiam mais e por fim o baixo movimento da vila para um Sábado ensolarado, reflexo da decadência que se tornou o local, que teve inicio após a proibição abusiva de acesso ao que foi um dos principais atrativos da vila: As trilhas que levam a várias cachoeiras da região.

      Pelo menos restauraram o velha replica do big ben de Londres da vila. Percebi tb que os moradores tiveram que ser criativos para atrair novos turistas para a região, que estavam espalhados pela vila, mas de nada lembrava a epoca boa de quando aquilo lá bombava.
      Acredito que, o que deve estar mantendo a vila de Paranapicaba em pé são os artesanatos, os vários festivais que são realizados ao longo do ano e que atraem centenas de milhares de turistas, como o tradicional festival de inverno.


      O novo "Big Ben" restaurado
      Com pouco tempo disponível, nem tiramos muitas fotos, pois tinhamos pela frente, vários quilômetros de caminhada até a Pedra Grande.
      As 12:15, deixamos Paranapiacaba e adentramos a pacata e tranquila estrada de terra do Taquarussu, palco inicial de várias outras trilhas feitas anteriormente. Essa estrada também liga o Bairro de Mogi a vila de Paranapiacaba.
      O trajeto começa logo de cara com uma subida que parecia assustar, mas como estavamos em um pequeno vale, esse trecho inicial de subida não foi um problema, pois aqui há enormes árvores que nos brindaram com uma refrescante sombra, o que foi um alívio para todos.

      Passamos por uma portaria e uma placa indicando que ali pertence ao parque natural nascentes de Paranapiacaba e que o acesso as trilhas requer a contratação de um guia, o que ignoramos é claro. Afinal, nosso destino estava bem distante dali, numa trilha em outro municipio. Algumas placas pelo caminho sugerem que essa mesma estradinha também faz parte do conhecido "caminho do sal".
      30 minutos de caminhada desde a vila de Paranapiacaba, passamos pela conhecida entrada da trilha que leva a cachoeira da Agua fria, onde havia um pessoal parado na beira da estrada e que  parece ter ido a cachoeira.
       Minha vontade de adentrar na trilha para rever a cachoeira foi reprimida pela obrigatoriedade de acompanhamento de um monitor, já que a trilha faz parte do pseudo parque natural de Paranapiacaba. Então, passamos batido por ela.
      Mais 15 minutos e passamos pelo marco divisor que divide os municipios de Sto André e Mogi das Cruzes, localizado no ponto mais alto da estradinha. A partir dai, inicia-se uma grande descida até o pitoresco vale do Taquarussu, pequeno vilarejo com meia duzia de casinhas simples.


      O Marco divisor fica do lado dessa placa, fincado da terra.
       
      Durante a descida, cruzamos com vários bikers e chegamos na pitoresca vila de Taquarussu as 13:20hs, mas nos limitamos a apenas algumas fotos, já que ainda tinhamos muito chão pela frente.
      Deixamos Taquarussu por volta das 13:30h e a partir dai, iniciamos um trecho pela mesma estrada de terra ainda mais deserta e em meio a um enorme vale. Aqui, as árvores são mais espaçadas e o sol passou a nos cozinhar, literalmente.
      2 horas de caminhada desde a vila de Paranapiacaba, resolvemos fazer um pit-stop para forrar o estomago e molhar a goela seca em um pequeno descampado ao lado da estrada.


      A Pitoresca Vila do Taquarussu, por ser uma propriedade particular, agora é toda cercada e fechada

      Descansados e saciados, voltamos a caminhada e as 14:20hs, chegamos a uma bifurcação, com uma placa indicando o camping simplão de tudo a direita, mas o caminho correto a seguir é a esquerda, em linha reta em direção ao pesqueiro trutas pedrinhas.
      Mais 10 minutos e chegamos em uma trifurcação, sendo que a esquerda vai para o Bairro de Quatinga sem passar pela Pedra Grande e a direita segue para o camping simplão de tudo. Mas o caminho correto é seguir em frente, em linha reta.


      Chegando nesse ponto, siga em frente ignorando os caminhos a esquerda e a direita

      Depois da trifurcação, passamos pelo 2º ponto de água, um enorme poção de água potavel que em um dia de calor de verão poderia ser a deixa para um convidativo tchibum. Aproveitamos para pegar água para o restante do dia e o seguinte. Como não lembrava de mais nenhum novo ponto confiável de agua a frente, sugeri a turma que coletasse toda a agua que fosse precisar a partir dali.


      O Poção e 2ºponto de água. O primeiro ponto é no acesso a cachoeira da Agua Fria, antes da vila de Taquarussu
      Recarregados com o precioso líquido, continuamos a caminhada e as 15:00hs, finalmente alcançamos o tal pesqueiro trutas pedrinhas. Mais uns 100 metros após o pesqueiro, chegamos a uma bifurcação, onde o caminho a seguir é para a direita. A partir desse ponto, passamos a caminhar por uma estrada mais estreita e precária, com a visão da face oeste da Pedra Grande agora visivel a maior parte do tempo. Passamos por alguns sitios e um lago a direita, enquanto a estradinha vai dando voltas pelo vale em direção a base da Pedra Grande e após passarmos por um grande vale, inicia-se uma sequencia de pequenas subidas.


      Pouco depois do pesqueiro, vire a direita.


      A Estrada correta vai levar diretamente a base da Pedra Grande, esse pico com a face careca logo acima na foto

      Face oeste da Pedra Grande visivel a maior parte do tempo
      Em uma curva a esquerda, já quase na base da Pedra Grande, uma trilha a direita serve de atalho e nela, havia uma placa indicando que ali é a continuação do conhecido "caminhos do sal." Adentramos a trilha e começamos uma das primeiras subidas em direção ao topo em uma trilha cheio de erosões e bem escorregadia, devido a constante passagem de motos. Muito cuidado nesse trecho.
      Durante a subida, passamos por mais um ponto de água, o último antes de chegar a base. Pegue toda a agua que for precisar desse ponto, que é o último. No topo e durante o restante da subida, não encontramos mais nenhum outro ponto de água.


      O acesso da trilha atalho: notem a placa no tronco indicando que ali é o caminhos do sal


      Trilha enlamenada, erodita e escorregadia por conta da passagem constante de motos
      Enfim, finalmente chegamos a entrada da trilha as 15:50hs. No meio das arvores ao lado da trilha, era possível ver o topo da Pedra Grande com seu topo bem visível dali. Agora iria começar a parte mais puxada desse primeiro dia, depois de quase 4 horas e 14 km de caminhada, que é subir até o topo, ainda mais com cargueira nas costas.
      A trilha é bem aberta e seu trecho inicial é composto por uma leve subida, sem grandes dificuldades. Caminhamos por cerca de 350 metros e chegamos a uma bifurcação, onde o caminho correto a seguir é para a esquerda, marcada por uma fita vermelha presa no tronco de uma árvore.


      Trecho inicial da trilha
      A partir desse ponto, a moleza acaba e a trilha inicia uma das várias subidas fortes em direção ao topo. Como acontece nos picos em geral, a medida que avançavamos, a subida ia ficando mais ingreme e o auxílio das mãos passou a ser constantemente necessários para impulso nos troncos, rochas e pedras.
      A subida é ardua, e com o peso da cargueira e o cansaço da longa caminhada até aqui, vou parando algumas vezes para retomar o fôlego.
      A Janaína e a Monike esboçavam sinais de estarem nas últimas e foram subindo em ritmo de tartaruga manca com muletas, mas não tinham escolha, pois subir era preciso!
      Felizmente, os trechos mais íngremes não duram muito tempo e logo adentramos a um trecho de ombro, com a subida mais forte dando uma trégua. 20 minutos desde a estradinha lá embaixo, eu e a Suzana emergimos da mata fechada e passamos a subir na parte descampada do topo, que era o trecho final da subida, mas que voltou a ficar bem íngreme e dessa vez com o sol forte na cachola.
      Finalmente, com pouco mais de 30 minutos de subida desde o inicio da trilha lá embaixo, chegamos ao topo dos 1.155 metros de altitude da Pedra Granda do Quatinga as 16:32hs, encerrando a caminhada desse 1ºdia de travessia. Não havia ninguém no topo e é claro que fomos donos absolutos do lugar, para a alegria da Suzana que passou a se fartar de fotos do topo.
      O cume tem um visual de 360 graus e lá do topo, consegue-se visualizar todas as cidades do entorno, como Mogi das Cruzes, Suzano e até Mauá bem distante.
      Sem perder tempo, fui logo procurando um lugar plano e protegido para montar a barraca. Qdo estava montando a barraca, Marcio, Janaina e a Monike chegaram ao topo, uns 15 minutos depois.







      Com a trupe reunida novamente, montamos rapidamente as barracas e ficamos só de boa só aguardando o Astro-rei repousar no horizonte que mais uma vez, foi um espetáculo a parte. A noite, a bola da vez foi as luzes das cidades do entorno todas iluminadas.
      Depois cada um foi preparar a sua janta e ficamos só jogando conversa fora e  vendo as estrelas com um plus a mais: O nascer da lua as 19:20hs toda avermelhada que foi um espetáculo único a parte.
      Mas com o vento frio e o sono vindo, nem fiquei muito tempo fora da barraca e fui dormir por volta das 21:30hs.

      2º Dia - Do Topo da Pedra Grande ao Bairro do Quatinga em Mogi

      Nascer do Sol
      O domingo amanheceu sem vestígio de nuvem alguma e apenas uma leve nevoa nos vales. Como de praxe, todos ficamos aguardando o surgimento do Astro-rei e após os clicks, fomos preparar o café da manhã. O meu foi com pão e um café bem quentinho para espantar o frio da manhã.
      Barraca desmontada e mochila nas costas, iniciamos a descida por volta das 8:30 com o belo visual da cadeia de morros e vales do alto da Serra do mar bem a nossa frente ainda encoberto por uma fina camada de névoa, o que foi mais um atrativo a parte.
      Descemos por uma trilha alternativa que faz algumas curvas para diminuir o desnível de quem sobe, evitando a pirambeira que sobe direto. Mas no restante da trilha, e as meninas sofreram um pouco, principalmente a Janaina que estava só com uma mochila comum carregando a barraca e isolante térmico nas mãos (que coragem).


      Vales tomados pela nevoa


      Com a descida muito íngreme, os escorregões dela foram inevitáveis, o que me deixou um pouco preocupado, dado o fato que poderia se machucar gravemente e ter que chamar o resgate. Mas felizmente o Marcio deu um auxilio nos trechos mais pirambeiros e a descida foi tranquila.
      Pouco depois das 9:00hs já estavamos todos de volta ao inicio da trilha e a partir dai, passamos a seguir pela continuação da estrada de terra da trilha atalho em que viemos no primeiro dia. 20 minutos após sair da trilha da Pedra Grande, a estrada começa uma longa, mas sinuosa descida até um grande vale, para depois virar a direira, subir um pouco e novamente descer.
      As 9:32, chegamos ao primeiro ponto de água desse trecho, que é um riozinho que corre paralelo a estrada e depois cruza ela um pouco a frente. A turma aproveitou para recarregar seus cantis pq segundo infos, seria o unico ponto de agua limpa e confiavel de todo o trecho. Como eu tinha 1 litro de suco e 500ml de agua de coco que eram mais que suficientes para mim para o trecho final, nem me preocupei.
      Após o trecho do rio, a estrada de terra passa a ficar mais movimentada, aparecem os primeiros sitios e casas e junto com eles, os carros, que nos fazem comer poeira.
      Mais 1 hora de caminhada tediosa pela estradinha, passamos por uma bifurcação com uma placa indicando que a esquerda, segue para o sítio Itaguassu e aproveitamos para fazer um rapido pit-stop nesse ponto para um lanche e molhar a goela seca.
      E enfim, após 2 horas desde o topo da Pedra Grande, alcançamos o bairro de Quatinga bem a tempo do próximo ônibus para Mogi .
      Após uma viagem de quase 1 hora, saltamos na estação central de Mogi das cruzes, onde pegamos o trem de volta para SP, chegando em casa por volta das 14:30h, cansado, mas feliz.

      Dicas:

      --> Durante toda a travessia, existem poucos pontos de água, mas bem distribuidos, não sendo necessário sair carregado de agua da vila ou de casa. O 1º ponto está na base da cachoeira da agua fria, após a trifurcação no poção e no inicio da trilha atalho.
      No segundo dia, o unico ponto de agua está bem na metade do caminho.

      --> Se for acampar, pegue toda a agua que precisar no ultimo ponto, pois na trilha e no topo não há água. Eu carreguei comigo 1 litro de agua e outro de suco que foram mais do que suficientes pra mim.

      --> No topo não há areas protegidas dos ventos, somente adentrando na trilha a esquerda que parte na direção sul. Lá há uns pequenos descampados para 1 ou 2 barracas em cada trecho e que são uma boa opção de area protegida. É só descer uns minutos pela trilha para achar os pequenos descampados planos e protegidos no meio da mata.

      --> As linhas de ônibus para o terminal Central de Mogi são:
      C192 Quatinga via Tomoki hiramoto e C193 Quatinga via Barroso.
      A Linha C192 tem poucos horários, mas a C193 tem vários horários, mesmo aos domingos.
      Ambos as linhas são municipais e a tarifa é de R$ 4,50 (Ref.Agosto/19)

      Maiores informações podem ser obtidas no site www2.transportes.pmmc.com.br ou pelo telefone 0800-195755.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
    • Por casal100
      Esse relato é dividido em duas partes:
      A primeira foram mais de 900 kms (da página 1 até a 6), trechos de picos, travessias e alguns trechos no entorno de cidades;
      A segunda parte,  mais de 300kms, só teve uma travessia e muitos picos,  começa  na página n° 7.
       
      Vários amigos e familiares nos indagavam sobre nossas travessias, segundo eles, tudo era muito repetitivo(as fotos eram parecidas, repetimos várias vezes os mesmos caminhos, até pela falta de outros. Até tem, mas caminho particular, não faremos  mais). De certa forma eles têm razão, visto que a visão do picos e montanhas não tem comparação com fotos de estradas e, tem um detalhe mais importante: as principais atrações das cidades(tirando algumas) não estão dentro delas, mas nos arredores  (cachoeiras, picos, morros. ..). Nesses 2 meses,  caminhamos mais de 900 quilômetros é quase 10.000 kms de carro. Conhecemos pessoas maravilhosas por onde passamos, experimentamos emoções que nunca tivemos,  comidas deliciosas,  não tivemos nenhum problema mais sério, tudo muito tranquilo.
       
      O BRASIL É SIMPLESMENTE SENSACIONAL! 
      E mais bonito visto de cima. Diante disso e, até para comemorar meus 60 anos de vida (ingressei na melhor idade), neste verão resolvemos fazer algo um pouco diferente : fomos conhecer e rever alguns parques nacionais /estaduais /municipais e privados, subir alguns picos/montanhas  e alguns circuitos desses locais, região de cachoeiras,  e Brumadinho(Inhotim), poderíamos estar no dia do rompimento da barragem,  para nossa sorte desistimos em cima da hora.
      LOCAIS VISITADOS:
      Extrema - Mg (subida as base dos pico do lopo e do lobo)
      Munhoz - Mg(subida ao pico da antenas, caminhos)
      São Bento do Sapucaí - Sp(pedra do baú e roteiro)
      Marmelopolis -Mg(subida ao morro do careca, mirantes, pedra montada, roteiros e subida ao pico Marinzinho)
      Aiuruoca - Mg(subida ao pico do papagaio, matutu, cachoeiras)
      Visconde de Mauá-Rj - (subida a Pedra Selada)
      PN Ibitipoca - Mg (Janela do céu, pico, circuito das águas e grutas)
      São Tomé das Letras - Mg (cachoeiras e roteiros)
      Carrancas - Mg(cachoeiras e circuito serra de carrancas)
      Ouro Preto - Mg (centro histórico e subida ao pico do Itacolomi)
      Mariana-Mg: Bento Rodrigues, local destruído por outro rompimento de barragem da Vale.
      Serra do Cipó - Mg(todos circuitos dentro do parque e travessão)
      Conceição do Mato Dentro - Mg: cachoeira do Tabuleiro  (base e mirante)
      Lapinha da Serra - Mg(subida aos picos da Lapinha e Breu, cachoeira Bicame e Lajeado,  parte travessia Lapinha x Tabuleiro)
      Brumadinho - Mg(Inhotim)
      PN de Itatiaia - parte alta - Mg(base do pico das agulhas Negras e prateleiras, cachoeira Aiuruoca, circuito 5 lagos, subida ao pico do couto)
      Piquete - Sp(subida ao pico dos Marins)
      Infelizmente, por excesso de chuvas, não fizemos os picos do Itaguaré e da Mina( motivação da viagem). Entrou uma frente fria na semana que antecedeu o carnaval, tivemos que abortar por questão de segurança, pois não utilizamos guias e fazemos somente Bate/volta - fica para a próxima.
      As surpresas da viagem:
      Inhotim, Lapinha da Serra e Serra do Cipó. Pois não conhecia nenhuma delas.
      Algumas fotos
      Subida ao pico dos Marins - SP

      Pico do Itacolomi - Ouro Preto - Mg

      Cachoeira Bigame - Lapinha da Serra-Mg

      Subida para pico do Breu e Lapinha - Lapinha da Serra-Mg

      Vista desde o pico da Lapinha

      Cachoeira do espelho - travessão - Serra do Cipó -Mg

      A incrível JANELA DO CÉU 

      flora exuberante



    • Por divanei
      LAGUNA 69

       
                Ir ao Peru pôde ser uma das experiências mais incríveis que um Brasileiro poderá ter na vida e se você desembarcar em Huaraz, capital da província de Ancash, cidade de 140 mil habitantes situada a quase 400 km da capital Lima e imersa no meio da Cordilheira Branca, uma extensão da Cordilheira dos Andes, não espere nada menos que o surpreendente, um mundo tão diferente do nosso que irá fazer com que você perca o chão , sua cabeça vai rodar e talvez sentirá até náuseas , tanto pela diferença cultural, tanto pela altitude acima dos 3.000 metros . Eu já havia passado pelo Peru muito rapidamente em 2007, numa viagem alucinante até as ruínas de Machu Picchu, mas foi uma passagem tão rápida e tão conturbada que mal tive tempo de me deixar entrar na cultura peruana, mas desta vez havia separado muito tempo para me perder no país e agora arrastando minha mulher atrás de mim, o que para ela seria ainda mais devastador, já que era sua primeira vez.

         ( LIMA - PERU  )
                A Cordilheira Branca é algo realmente surpreendente, uma espécie de Patagônia Peruana, com uma centena de picos acima de 6.000 metros, geleiras, lagunas coloridas, glaciares, templos Pré –Inca, ruínas históricas, animais exóticos e uma infinidade de diferenças culturais e comidas diversas, trilhas e travessias de montanhas geladas são em números incontáveis e o melhor de tudo isso é que os preços são tão baixos que um brasileiro em economia de guerra vai se sentir rico lá.
                Na praça central de Huaraz , a Praça de Armas, meu pensamento voa longe enquanto nos deslumbramos com a magnitude de duas lhamas e as suas donas trajadas de chollas, que por algumas moedas, emprestam seus bichinhos para uma foto típica, mas meus pensamentos se elevam às montanhas gigantes cobertas de gelo e me imagino no topo delas, mas logo sou trazido a realidade e me lembro que desta vez a única coisa que poderei fazer é me portar como mero turista e não como aventureiro atrás de encrencas geladas e ser turista em Huaraz já é algo magnífico e me sinto feliz de poder compartilhar esse  momento incrível com minha companheira de 30 anos.

                Mesmo como turista é possível passar meses na cidade sem repetir passeio e todos são grandiosos e espetaculares, alguns sem exigência física nenhuma, outros serão apenas para poucos ou pelo menos para quem não é totalmente sedentário, porque além de ter que pôr o pé na trilha ainda vai ter que superar o fator altitude, alguns passeios vão chegar a 5.100 metros e alguns acabam por ficar pelo caminho, mas outros passeio deixarão o turista já no local sem que ele precise dar um passo se não quiser. Geralmente quem vem à Huaraz acaba por separar uma semana ou pouco mais que isso e já vem com os passeios tradicionais muito bem definidos, não é regra, mas conhecer as atrações principais acaba por se tornar quase uma obrigação, isso claro para quem não vai com o intuito de fazer caminhada de alta montanha ou escalar, aí essa regra não vale nada e nem vou expor isso aqui porque seria necessário escrever uma bíblia para falar de tudo que se pode fazer na Cordilheira Branca e mais ao sul dela.

                Dos passeios mais tradicionais, talvez a LAGUNA 69 seja a principal atração, não só por ter uma paisagem grandiosa, mas porque também é preciso de uma superação tão grandiosa quanto a beleza da paisagem, porque de todos os passeios tradicionais, esse é o que requer um esforço físico para ser alcançado. Não que a trilha seja assim algo quase que para super-homens, mas com certeza é o fator altitude que vai determinar quem pode ou não subir ou quem aguenta ou não se expor nos 15 km de caminhada com o pulmão querendo explodir procurando um pouco de ar para respirar e esse seria o desafio que eu havia programado para tentar arrastar minha mulher atrás de mim, mesmo porque eu já sabia que meu organismo se adapta muito bem a altitude e com um condicionamento físico mais ou menos em dia para minha idade, tiraria de letra, mas minha mulher , quase que uma sedentária contumaz , teria que se preparar muito bem para aquela aventura e o principal a fazer, era não fazer absolutamente quase nada, dar tempo ao tempo e esperar que o organismo se adaptasse a altitude, então programei um roteiro de passeios com esse fim, deixando a LAGUNA 69 com mais de 4.600 metros de altitude para o final da viagem, seria a cartada derradeira, uma tentativa de fazê-la conquistar essa atração, talvez uma das mais belas da AMÉRICA DO SUL.

               Huaraz não é uma cidade grande, mas mesmo assim é bem movimentada, com um trânsito intenso e barulhento, onde quem buzina mais tem prioridade, mas essa característica é do país inteiro. No centro, perto da sua praça principal ou mais precisamente na avenida que passa em frente dela e uma abaixo é onde tudo se concentra, desde bancos, órgãos oficiais, lojas de equipamentos, casa de câmbio e as agências de turismo que fazem todo tipo de passeio, que eles chamam de tours. Infelizmente quando desembarcamos em uma das inúmeras rodoviárias, porque cada empresa de ônibus tem a sua, acabamos por entrar meio numa furada de aceitar uma oferta de hostel ou alojamento e com isso acabamos sendo levados a fechar todos os passeios com eles. Acontece que a oferta era tão barata, mas tão barata que ficamos deslumbrados com a possibilidade de gastar uma merreca comparada a nossa realidade no Brasil. Os caras nos ofereceram no pacote uma diária que acabou saindo 25 reais por dia, claro, numa hospedagem meia boca, mas com um quarto de casal com uma cozinha disponível, mas um pouco longe do centro. Depois descobrimos que poderíamos ter pago o mesmo valor para ficar mais bem localizados e no fim acabamos pagando mais caro pelos passeios, mas era tão barato que a gente pouco se importou, fica então a dica de não fechar nenhum pacote com hotel nenhum e negociar os preços direto nas agências e conseguir aquele desconto maneiro.
                Organizei um roteiro que pudesse então fazer com que a gente fosse se aclimatando para enfrentar as altitudes da Laguna 69 e no primeiro dia que chegamos, embarcamos para CHAVIN DE HUASCARAN, uma viagem de um dia inteiro, ida e volta cruzando por cima da Cordilheira até as ruínas Pré-Inca , com uma paisagem deslumbrante no caminho, subindo a mais de 4.600 metros de altitude, passando pela Laguna Querococha, uma introdução as maravilhas da Cordilheira. A viagem é meio cansativa, principalmente para quem chegou de Lima numa viagem noturna de quase 8 horas, mas vai ajudar muito o organismo a ir se adaptando e na volta ainda tivemos a sorte de pegar uma nevasca que cobriu toda a rodovia de neve, mesmo no início do outono.

               
                No dia seguinte tiramos para descansar e para perambular pela cidade, nos enfiarmos nos guetos e bocadas e tentar compreender aquela cultura deslumbrante com um povo tão diferente do que estamos acostumados. Tudo nos faz cair o queixo, as mulheres com suas roupas coloridas e que vendem de tudo que se possa imaginar. Vemos uma pobreza gritante, mas também um povo trabalhador ao extremo e que gosta de comer muito bem. Aliás, a culinária peruana faz jus aos prêmios internacionais que vem ganhando ao longo dos tempos, uma diversidade gastronômica impressionante e o melhor de tudo, com preços baixíssimos, tanto que se podia comer até não aguentar mais por míseros 6 ou 7 reais nas dezenas de pequenos restaurantes espalhados ao redor do Mercado Central. Um dos pratos mais típicos do Peru é o CUY, uma espécie de porquinho da índia e o Ceviche Peruano, esse último eu comia quase todos os dias, mas o porquinho ficaria somente para outra oportunidade, já que minha mulher se recusava a dividir a mesa comigo para degustar essa iguaria local.

                No terceiro dia marcamos para ir a outra grande atração local, o GLACIAR PASTORURI, uma geleira que fica ao sul de Huaraz. A agência nos pegou no hotel às 8:30 com uma van coletiva com gente de toda parte do mundo. Subimos de novo a Cordilheira em pouco mais de 3 horas de viagem, com uma pequena pausa no caminho para um chá de folha de coca para ajudar na aclimatação. Esse é mais um passeio que leva o dia inteiro e vai custar pouco mais de 30 reais por pessoa e mais uns 30 pelo ingresso no Parque Nacional de Huascarán , pode sair bem mais barato se comprar já 3 ingressos , saindo pouco mais de 60 reais, já que iríamos usar para outros dias, fizemos isso. A van deixou a gente a 2 km da geleira. O tempo estava meio embaçado e ameaçava nevar, mas o grande problema ali é a altitude que beira os 5.100 metros e vai desafiar o organismo sem piedade. A caminhada tem pouco aclive, mesmo assim muita gente opta por alugar umas mulas por míseros 7 reais para subir por uns 15 ou 20 minutos, mesmo sendo algo para turista, quem é sedentário de carteirinha vai botar a língua de fora e minha mulher não fugiu à regra, dava um passo e já apoiava as mãos no joelho tentando procurar ar sabe-se lá de onde. Vendo o estado dela tentando vencer esses míseros 2 km, comecei a desconfiar da sua capacidade de conseguir fazer a trilha até a Laguna 69, mas enfim, era preciso deixar o tempo passar para ver como seu corpo reagiria nos próximos dias, se conseguiria se adaptar a altitude. No caminho para o glaciar o tempo virou de vez e a chuva que ameaçava cair desabou em forma de neve, o que foi muito bonito de se ver, mas também acabou por congelar nossas mãos antes de nos valermos de uma luva e um gorro quentinho. Devagarzinho e sendo quase que empurrada por mim, o Rose chegou, com a língua colando no chão, mas chegou e realmente valeu muito o esforço e a oportunidade de poder se postar de frente daquela montanha de gelo, num cenário sem igual. A volta sempre é mais tranquila, tanto a caminhada, quanto a viagem para a cidade, mas foi mais um dia desgastante, agora era hora de descansar e deixar o organismo trabalhar e ir se adaptando porque a regra é clara: Suba alto e durma baixo.

                
                No outro dia a gente queria descansar, mas como já havíamos comprado o pacote, tivemos que encarar o tour para a LAGUNA PÁRON. É uma viagem longa e interminável por mais de 3 horas, onde a van desafia a cordilheira e ascende a mais de 4.200 metros, numa paisagem espetacular, em meio à montanhas geladas. A Laguna tem uma cor azul escuro que chega a hipnotizar a gente e no fundo dela um pico em forma de pirâmide ( NEVADO PIRÂMIDE-5.885) faz a gente não se arrepender de ter ido, aliás, dizem que esse cenário magnifico com a composição laguna mais pico, serviu de palco para a empresa cinematográfica Paramount Picture gravar sua vinheta de abertura antes dos filmes. A van nos deixa as margens da laguna, mas quem quiser pode subir por mais uns 500 metros até um mirante do lado direito. Eu encarei essa subida, mas a Rose ficou lá embaixo contemplando a laguna, mas a subida não é tão puxada quanto pintavam, mas caminhar na altitude nunca é mole, mesmo assim subi correndo e desci também, tentando testar um pouco dos meus limites para a Laguna 69. Chegando lá embaixo fomos dar uma volta de canoa na laguna, uma água absurdamente limpa, tanto que bebemos dela. Voltamos para Huaraz e por causa de algumas obras acabamos por chegar bem tarde da noite, cansados, mas já tendo que nos organizar para o outro dia, quando iríamos enfrentar a caminhada turística mais temida da Cordilheira Branca.


                
          ( Laguna Parón)
                Os dias amanhecem sempre frios na Cordilheira dos Andes, mas por sorte naquele dia não havia uma nuvem no céu e isso por si só já me alegrou. Antes das 6 da manhã a van que nos levaria para a Laguna 69 nos apanhou na hospedagem. Ainda estávamos atordoados e cansados por causa do dia anterior, mas confesso que estava um pouco apreensivo, havia chegado a hora de saber se realmente o meu planejamento quanto a deixar minha mulher em condições de fazer a trilha iria dar certo. No transporte coletivo, mais uma vez se juntavam gente de diferentes países do mundo, a maioria não falava espanhol e como pouco aranhávamos no inglês, praticamente ficamos isolados e trocávamos algumas palavras com uns peruanos e com um belga que havia morado um tempo em Portugal e falava bem a nossa língua. Ao olhar o grupo já vi que o negócio iria mais complicado do que eu pensava, porque era composto na sua maioria quase que total de pessoas jovens, sendo eu e a minha esposa de longe os mais velhos, beirando quase os 50 anos e também o belga que parecia nos acompanhar na idade e esse foi um fato que fez logo a Rose ficar desconfiada dessa caminhada, mas eu desconversei, dei umas risadas e mudei de assunto antes que ela desistisse mesmo antes de começar.
                A Van segue sempre para nordeste, deslizando entre a Cordilheira Branca e a Cordilheira Negra, sendo do nosso lado direito as paisagens encantadoras das grandes geleiras e seus picos acima de seis mil metros e quando chegamos à Carhuaz, saltamos em frente a sua igreja principal para um café da manhã e experimentar os sabores exóticos de uma sorveteria local e para comprarmos água e algum lanche de trilha. Seguimos , mas agora tendo como companhia o monstruoso HUASCÁRAN , simplesmente a maior montanha do Peru e uma das mais altas do nosso continente com 6.789 metros de altitude e foi justamente a encosta desse pico que veio a baixo no terremoto de 1970 que devastou a região de Huaraz, fazendo que a cidade de YUNGAI  quase fosse varrida do mapa, dizem que ao todo foram mais de 50 mil mortes, uma catástrofe quase sem precedente se levarmos em conta que isso se deu há quase 50 anos atrás quando a população era bem reduzida.
                Chegando em Yungai, viramos para nordeste e começamos a subir a Cordilheira Branca, uma viagem interminável, mas plasticamente encantadora, passando por pequenos amontoados de casas e construções rurais, gente que sobrevive a quase 4.000 metros em meio ao ar rarefeito e as agruras da altitude. Vamos subindo pra valer, mas ainda nos valendo de uma crista com um vale do nosso lado direito e quando chega a hora de deixar a crista e entrar de vez no vale que vai nos levar para o coração da Cordilheira, é hora de dar uma parada na ENTRADA DO PARQUE NACIONAL HUASCARÁN para nos identificarmos e comprarmos nosso ingressos (30 soles). Resolvidos os problemas burocráticos, nos lançamos para dentro dos paredões e fomos singrando de um lado para o outro sem tirar os olhos da janela e por vezes tendo que limpar a baba que escorria de nossas bocas do qual o queixo não conseguia se fechar, querendo cair diante da explosão de belezas sem igual.
                Seis ou sete quilômetros depois da entrada do Parque somos apresentados à LAGUNA LHANGANUCO a mais de 3.800 m de altitude, um azul hipnotizante, num cenário de sonhos. Nos detivemos ali por uma meia hora, o suficiente para prever que hoje nos faltariam adjetivos para narrar as belezas que estavam por vir. Mais à frente a LAGUNA ORCONCOCHA desmonta nossa capacidade de avaliar o que é mais belo e apenas ficamos a admirar àqueles cenários que vão surgindo no nosso caminho até que o nosso transporte motorizado para de vez, é chegado a hora de botar o pé na trilha, o coração já vai disparando e aquela ansiedade toma conta da gente, a aventura vai começar, voltar já não é mais possível e agora sou eu contra a altitude, minha missão : Levar minha mulher a uma das grandes paisagens da América do Sul, fazendo com que ela, mesmo um pessoa sedentária, consiga caminhar por 15 km no ar rarefeito montanha acima, numa altitude superior a 4.600 metros.
                
                O guia dá as explicações finais, mas todos nós sabemos que ali guia não serve para muita coisa, a não ser para encher o saco de quem não se mantiver no tempo estipulados por eles para retornar, inclusive para barrar os que não tiverem condições físicas de seguir, fazendo-os desistir. E o tempo estipulado é cruel para os que não tem experiência em longas caminhadas em altitude e muitos ficarão mesmo pelo caminho se não tiverem condições de fazer o percurso até a LAGUNA em no máximo 3 horas para ir e 2 horas para o retorno, então sempre acaba caindo sobre os ombros de todo mundo a responsabilidade de se manterem no tempo previsto.
                Rapidamente apanho as duas mochilinhas com alimentos, água, agasalho e outros equipamentos de segurança e somos os primeiros a nos lançarmos floresta a dentro, perdendo altitude até um riacho cor de leite. Mas não passa apenas de uma língua de mata que é cruzada em pouco mais de 5 minutos até atingirmos o vale plano, que iremos acompanhar por um bom tempo cercado por uma paisagem estonteante. A minha estratégia é fazer com que a Rose só se preocupe em caminhar e poupar energia, tanto que as 2 mochilas são carregadas por mim, deixando tranquila para que possa andar livre, respirando a maior quantidade de ar possível, mesmo numa altitude superior a 4.000 metros.

                O cenário inicial é algo que impressiona, vamos bordejando um rio que corre à nossa esquerda, aguas do degelo de picos gigantes que já podemos observar no horizonte. Vou pedindo para que a Rosa respire fundo e se concentre em colocar um pé à frente do outro, numa estratégia de ganhar terreno nessa parte plana e tomar bastante distância do pelotão principal que é composto pelo guia, porque enquanto tivermos à frente deles, é a garantia de podermos ter uma tranquilidade para irmos mais devagar quando a parte íngreme se apresentar e bicho pegar de vez.
                Me concentro em falar palavras de incentivo e em abastecer de água minha esposa e em dar-lhe algo para repor as energias, mas já vejo logo que ela começou a ferver o radiador e já me parece que começa a diminuir o ritmo e quando uma placa me indica que não andamos nem 2 km, trato logo de desviar sua atenção para que não veja que até agora não andou absolutamente nada. Um pouco mais à frente, umas construções parecendo umas casinhas de duendes nos chama a atenção, mas quando retornamos nossos olhares para o vale de onde viemos é que nos damos conta de onde estamos e do tamanho da paisagem que nos cerca: sobre nossas cabeças se eleva o monumental HUSCARÁN , na verdade com 2 cumes distintos com 6.786 metros a nos assombrar, mostrando que ali naquela cordilheira ele é quem manda , senhor soberano das altitudes, não só da Cordilheira Branca, mas o teto do próprio Peru e do seu lado esquerdo o Nevado Chopicalqui ( 6.354) fecha a parede e nos deixa boquiabertos , nos impedindo de prosseguir sem que desgrudemos os olhares destes monstros feito de rocha e de gelo, um cenário para guardar na memória por uma vida inteira.

         (Huascarán - o teto do Peru)
                Tudo era lindo, mas ainda na minha cabeça eu tinha a esperança de conseguir levar minha esposa até a laguna e a todo momento, mesmo sem tirar o olho das grandes paisagens, ia atrás dela dando uma de personal trainer, dando aquele incentivo, contando umas lorotas, inventando que faltava pouco e quando cruzamos uma pontinha sobre um afluente do rio principal, vi que começamos a nos aproximar de uma grande cachoeira de onde suas águas saltavam dos degelos das montanhas gigantes do nosso lado esquerdo,  que ao fazermos a curva que iria nos fazer começar a ganhar altitude, seria a hora de botar a prova toda minha capacidade de convencimento, se ela vencesse aquele trecho crucial, pensei que poderíamos ter êxito.

                Havíamos vencidos cerca de um terço do caminho, mas até então foi uma caminhada apenas no plano, o que poderia parecer praticamente nada, mas estamos falando de altitude, onde você puxa o ar e não encontra nada, onde o pulmão parece que vai explodir a qualquer momento. Eu me sentia muito bem, mas já sabia que meu organismo de adapta bem e rápido na altitude, mas entendia muito bem o que minha esposa estava passando. Agora o caminhar é lento, um passo e logo as mãos vão para as pernas, tentando se segurar para não cair. O terreno, a trilha, vai ziguezagueando montanha acima e cada metro vencido é uma conquista. Ela sofre, é um sofrimento que acaba sendo compartilhado por mim, que tento mentalmente empurra-la para cima: “ Vamos só mais um pouco, outro passo, respira, bebe água, não está longe o próximo patamar, vamos “.

                O sofrimento nos olhos dela é visível, começa a diminuir o ritmo consideravelmente e vamos sendo ultrapassados por todo mundo e é nessa hora que tenho medo de que o guia comece a pegar no nosso pé e ela desista de vez. Por sorte o próprio guia se deteve por um instante para auxiliar uma jovem que parece ainda estar pior que a Rose e foi a deixa para eu arrasta-la até que atingíssemos o grande patamar, estava vencido mais uma etapa, pelo menos por enquanto teríamos um refresco e poderíamos caminhar por mais algum tempo no plano. Aliás, a entrada desse novo vale é marcada por uma pequena e bonita lagoa que alguém me sopra ser a LAGUNA 68, mas parece ter outro nome também.

          (Laguna 68)
                Fizemos uma breve parada ali na laguna de não mais de 5 minutos, só o tempo básico para uma respirada mais profunda e para engolir alguma coisa energética. Nosso caminho segue agora em nível, numa paisagem incrível de onde a nossa frente desponta o não menos incrível PICO CHACRARAJU ( 6.108) e é com essa companhia que nossos passos vão deslizando pelo vale florido e 600 metros depois da pequena lagoa, nos deparamos com uma placa que indica uma trilha para outra laguna à direita, mas infelizmente não será dessa vez que nossos pés tocaram a Laguna Brogui, é preciso nos concentrarmos no objetivo principal porque estamos no tempo limite e ao trombarmos com uma placa onde dizia que a Laguna 69 estava a míseros 1000 metros, comemorei pensando que daqui para frente seria moleza e o sucesso estava garantido, ledo engano.
                Nesse 1 km final é onde o nosso organismo vai ser testado de verdade. Para quem já vinha buscando ar para os pulmões, esse pequeno trecho de subidas intensas poderá marcar definitivamente o final da caminhada, porque é aqui que muita gente passa mal e em alguns casos tem de ser ajudada a voltar para baixo, esse é o trecho que separa quem vai vencer e quem vai fracassar, pelo menos para os turistas ou até para montanhistas que não conseguem se adaptar as altitudes e já vinha capengando nas etapas anteriores. A Rose agora se arrasta de vez e só não anda de quatro pé para não passar vergonha e mesmo com o vento gelado acima dos 4.500 metros, sua em bicas. Enquanto ela vive seu calvário pessoal, caminhando feito uma tartaruga paraplégica, me contento em incentivar e também em apreciar a grandiosidade da paisagem que vai se descortinando enquanto vamos ganhando altura naquele ziguezague derradeiro.
                A cada passo, a cada metro ganho, nossa ansiedade vai aumentando. Sobre nossas cabeças agora localizo o que imagino ser a ponta do Nevado Pisco, montanha que já foi eleita a mais bonita do mundo, mas é um ângulo diferente e me concentro em botar meus olhos mesmo é na laguna, na esperança de vê-la ao longe. Nessa hora eu nem sei mais para onde foi parar o tal guia e pouco me importo em saber, já tenho a certeza que vamos chegar, muito porque o terreno se estabiliza e o sofrimento da subida já ficou para trás e é hora de encher os pulmões de ar ou o que conseguir, obviamente, e bater continência para uma das maiores atrações da América do Sul.
                
                O paredão gelado já está no nosso raio de visão, a geleira derretendo e deixando cair uma cachoeira e logo o azul, ainda uma pequena pontinha da laguna, desponta à nossa frente e a magia vai crescendo num dos cenários mais surpreendentes do mundo. O cérebro demora a processar o que olhos vão captando e nessa hora nem mesmo sei para onde foi parar minha mulher, só me lembro de ter sido arrastado pelo deslumbramento, quase hipnotizado pelo azul celeste.

                Gastamos menos do que as 3 horas limites para chegar. A Rose quase desmaia de cansada e senta-se à beira da Laguna 69 (4.604 m) e por lá fica comemorando em silêncio essa vitória pessoal, mas eu ainda estou pilhado e enquanto todo mundo, umas 50 pessoas, ficam aos pés da laguna só na contemplação, tomo o rumo do morro a nossa direita e sozinho vou ganhando altitude, galgando esse ombro rochoso até que atinjo o topo de onde se descortina uma visão inteira e completa de toda a Laguna, a mais de 4.650 metros de altitude.


                A grandiosidade da paisagem ao redor é coisa que me emociona e talvez esse tenha sido o lugar mais longe de casa que já estive na vida. Fico ali entregue a minha própria solidão e me esqueço completamente do tempo e da vida, apenas inerte, parado, estático, captando aquela cena do qual guardarei para o resto da vida, mas logo descubro que não é possível ser feliz para sempre e começo a descer e  no final da descida  surpreendo-me com uma vaca querendo chifrar, vejam só, um grupo de brasileiros, na  verdade a vaquinha queria apenas matar sua curiosidade, mas os brazucas não estavam a fim de pagar para ver , então correram bem para longe dela. Quando cheguei perto, todo mundo do nosso grupo já havia partido, inclusive minha esposa, então só me restou fazer um carinho na vaquinha e desembestar montanha à baixo na tentativa de acompanhar o grupo.

                Às bordas de completar 50 anos, ainda me surpreendo com a facilidade que tenho de adaptação às altitudes e como carrego apenas 2 mochilinhas leves, é correndo que desço esse km inclinado, tomando cuidado para não derrapar nas curvas e despencar morro à baixo e rapidamente alcanço minha esposa e o guia, que é um dos últimos e logo quando voltamos ao plano, vamos ultrapassando boa parte dos integrantes do nosso grupo e antes mesmo de voltar ao laguinho intermediário, nos encontramos novamente com o Belga que fala português e numa conversa informal, descobrimos que o cara tinha apenas 40 anos, muito menos do que os mais de 50 que pensávamos ter e ai nos demos conta de que eu e minha esposa éramos os anciões daquele grupo multe estrangeiro, verdade mesmo que não havia ninguém mais velhos do que nós naquela caminhada e naquela montanha.

                O próximo lance de descida é a rampa inclinada, de frente para a grande cachoeira, mas agora a descida é constante e sem maiores pausas, apenas para uma ou outra foto da paisagem ao nosso redor e não demora muito atingimos o vale final, o ultimo estirão, agora totalmente plano, ás margens do rio do degelo das montanhas e vamos aos poucos nos despedindo do próprio Huascarán e o teto do Peru vai ficando para trás e duas hora e meia depois de abandonarmos a Laguna, emergimos da matinha e finalizamos junto à estrada, onde nossa Van foi estacionada e ali nos atiramos ao chão para um demorado descanso até que todo o grupo se juntasse e partíssemos novamente para Huaraz, onde chegamos já tarde da noite.
                Ainda inebriados pela caminhada do dia anterior, acordamos tarde e fomos perambular por Huaraz, nos perdemos em tudo quanto é beco e já que havíamos decidido ficar por lá mais uns dois ou três dias, resolvemos nos mudar para um hotel no centro, o que não nos custou mais que 30 reais. O choque de cultura é tão grande que ás vezes nos faz até perdermos o rumo e já que era para perder o norte, decidi que aquele seria o dia de experimentar uma das maiores iguarias da cozinha Peruana. Entramos em um restaurante popular e enquanto minha esposa experimentava mais um Ceviche, pedi logo um PORQUINHO DA INDIA, havia chegado a hora de provar o tal do CUY, mas antes mesmo que a iguaria tocasse nossa mesa, fui expulso a pontapés pela minha esposa que aos gritos disse logo: “VAI COMER ESSA MERDA LONGE DE MIM” (rsrsrsrrsrsr).
                Lá estava ele, nosso mascote, bonitinho e peludo, mas agora ali jaz, duro e à pururuca. Num primeiro momento não foi agradável ver aquele cadáver parecendo um rato seco sobre a mesa, mas o ser aventureiro que habita o meu corpo me dizia que aquela era talvez a única chance de experimentar um prato típico inusitado. O estômago deu um embrulhada, principalmente quando os dentes saltaram aos olhos, mas o demônio na minha cabeça insistia: “ Come aí, num dá nada, vai lá, só um pedacinho miseraviiii” Fechei os olhos, peguei um pedacinho, enfiei na boca. Minhas papilas gustativas foram se abrindo e o sabor do coitado do porquinho foi adentrando no meu corpo, tomando conta do meu ser e o animal carnívoro veio à tona e me portei como o diabo das Tasmânia, não deixei sobrar nem os ossos, só os dentes permaneceram no prato, melhor o do porquinho do que os meus.

             
                Os dias passaram e foi preciso deixar aquele lugar de sonhos para trás e a nossa volta para Lima foi como a ida, tranquila e sem nenhum percalço porque a maioria das viagens são à noite. De volta à capital do Peru embarcamos imediatamente para o sul do país, era chegada a hora de respirar o ar em abundancia do litoral e como minha proposta era a de conhecer paisagens diferentes, fomos nos perder no grande Deserto de Ica, lá onde o vento faz a curva, lá para as bandas do oásis de HUACACHINA, onde as maiores dunas do continente reinam absolutas, mas isso é uma outra história, de um outro capítulo de um livro chamado : AS HISTÓRIAS QUE AINDA NÃO CONTEI SOBRE O PERU , mas que um dia vou contar, num momento oportuno.


         (Huacachima)
      (Paracas)         
                Essa não foi só uma história de uma caminhada por uma das maiores paisagens do continente, essa foi a narrativa de uma superação, onde o principal objetivo foi mostrar que uma pessoa sedentáriapode vencer aquilo que num primeiro momento pode parecer impossível. Me lembro que anos atrás, na subida do Vulcão Vilarica no Chile, minha esposa me fez prometer que nunca mais a faria enfrentar tais desafios. Daquela vez ela fracassou, desistiu antes do cume, mas desta vez consegui trabalhar bem a parte psicológica dela, provando que as vezes um desafio é vencido com a cabeça e não só com as pernas. Voltamos do Peru simplesmente maravilhados, um tanto chocado com a cultura totalmente diferente da nossa, mas assim mesmo, trazendo na bagagem a certeza de ter vivido o bastante para conhecer um dos países mais espetaculares do mundo, um aprendizado para uma vida inteira.

                                                                                           Divanei-Abril/2019
                
               
               
    • Por Afonso Moretti Santiago
      Olá pessoal, gostaria de compartilhar a experiência que tive durante a Travessia da Cordilheira Huayhuash no Peru. O ponto de partida pra nossa aventura foi a cidade de Lima, lá reunimos alguns integrantes do grupo e seguimos para a cidade base da Cordilheira, chamada Huaraz. Em Huaraz ficamos hospedados em um hostel próximo ao centro e lá tratamos dos detalhes para o trekking.
       
      A

      1º dia de aclimatação - Glaciar Pastoruri e Hatun Machay - ( 5.100 mts de altitude ). 
      Antes de partimos pro trekking, seria necessário fazer algumas atividades de aclimatação. No 1º dia seguimos pro Glaciar Pastoruri, já chegando aos 5.100 mts de altitude, é importante ir com passos curtos e sem esforçar muito. Depois de lá seguimos pra Hatun Machay, uma FLORESTA PETRIFICADA!!! Um lugar SURREAL, dava impressão daqueles lugares de filmes fantasmas....kkkk e o clima ajudou pra deixar com um jeitão bem TENEBROSO. 
       

      2º dia de aclimatação!!! Mais um dia EXTREMAMENTE surreal!!! - Laguna 69 - ( 4.600 mts de altitude )
      Não foi fácil chegar até a Laguna 69, trekking curto, porém a altitude e subida forte cansou bastante a galera, mas a recompensa foi essa..., no final começou chover bem leve e esfriou pra caramba.

       
      3° e último dia de aclimatação. Laguna Churup - ( 4.800 mts de altitude )
      É simplesmente incrível!!! Inacreditável!!!
      "COICE DE MULA"!!! Expressão usada por praticantes de trekking para expressar trekkings curtos mas com extrema dificuldade e inclinação. Mas o prêmio é um mais lindo que o outro.
       

       
      Após os exercícios de aclimatação seguimos para o Grande Circuito Huayhuash, já no primeiro dia enfrentamos chuva, granizo, neve, muito frio e 5 mil mts de altitude.
      Mas todo esforço foi válido e recompensador, ver os Condores voando sobre o topo das montanhas foi de brilhar os olhos.
       

       
      Um dos milhares de cartões postais existente dentro do Circuito Huayhuash, a Laguna Carhuacocha. Eu sonhei e rezei por muitas noites pra que nós tivéssemos um dia lindo assim.
      Foi de encher meus olhos de lágrimas. Parecia um sonho sem fim, a cada amanhecer era algo EXTRAORDINÁRIAMENTE surpreendente.
       

      Outro "cartão postal" dentro do Circuito Huayhuash são as 3 Lagunas ( Paso Siula ).
      Saindo cedinho pela manhã, contornamos a grande Laguna de Carhuacocha, no início a trilha estava bem fácil e agradável, mas talvez meu pior momento na Travessia estava prestes a vir. De muito longe já avistava o Paso Siula, e a medida que eu ia me aproximando a montanha ia cada vez mais crescendo diante de mim. Após avistar a primeira Laguna iniciou-se uma subida muito tensa, a altitude já começava me deixar bastante fadigado, dores cabeça surgiram, quando cheguei ao ponto onde puder avistar as 3 Lagunas, achei que era o final da subida. ENGANO MEU!!! Tinha muito mais subida pela frente, minhas pernas "queimavam" de dor e isso afetou também meu psicológico, entre uma oração e outra, passos curtos, exercícios respiratórios, fui subindo e consegui chegar ao topo!!! E TAVA BEEEEMMMM FRIO LÁ EM CIMA...., tiramos algumas fotos, fizemos um lanche e seguimos em direção á Huayhuash.
       

      A subida até o Mirador da Cordilheira também não foi muito fácil, mas o clima estava nos favorecendo bastante após os dois primeiros dias de chuva.
      O Rafa disse que Condores são indícios de bom presságio, foi dito e feito, depois que avistamos uns 4 ou 5 os dias ficaram mais perfeitos ainda.
       

      Como esquecer Viconga? Tinha sido um dia de longa caminhada, um sobe e desce montanha que deixou o pessoal um pouco cansado. Já quase no final, passamos pela grande Laguna Viconga ( que na verdade é uma represa ), ao passo que íamos descendo, cachoeiras e lindas corredeiras começaram á surgir. Quando chegamos no acampamento avistamos os tanques de água termal ( água quente ). Não demorou muito pra gente cair na água pra relaxar e o clima de descontração tomou conta da galera.

       
      Um dos dias que mais me marcaram durante a Travessia. Estávamos animados e contentes em chegar em Huayllapa, pois seria a única noite que teríamos banho quente, cama pra dormir e também poderíamos comprar cerveja e vinho. Huayllapa é um vilarejo bem humilde e com mil habitantes no máximo ou nem isso. Assim que chegamos nos instalamos no albergue e compramos cerveja pro almoço, teve pastel de queijo.
      Depois do almoço sai com dois amigos pra dar uma volta pelo vilarejo. Descendo uma das ruas vi quatro crianças sentadas, parei e perguntei se queriam tirar uma foto, eles disseram que sim e que queriam chocolate. Tirei uma foto e corri na bodega pra comprar os chocolates, mas o dono disse que não tinha, porém ele tinha "chupitos coloridos" ( doce que as crianças de lá adoram ). O pacote com 50 chupitos custava 6,50 Soles...coisa de R$ 10,00. Quando cheguei no local onde estava as quatro crianças dei 2 chupitos pra cada uma, nisso começou aparecer crianças por todos os lados e em segundos eu me vi cercado por dezenas delas, algumas "espertinhas", ganhavam chupitos e escondiam no gorro ou no boné e depois pediam mais alegando não terem ganhado...rsrsrs. Eu fiquei em estado de ecstasy com tantas crianças em minha volta. Sai andando pelo vilarejo e um monte de crianças iam me seguindo por onde eu ia, todas já sabendo que eu levava um pacote de doces e todas com os rostinhos queimados pelo Sol. Muitas sentiam-se envergonhadas com a nossa presença, o mesmo acontecia com os adultos, fato que achei estranho. Assim distribui todos os doces que tinha.
      Chegando no quarto do albergue eu pensava como tão pouco poderia ter feito tantas crianças felizes.
       

      Assim que iniciamos o último dia da Travessia os meus sentimentos se misturaram, eu me sentia realizado, agradecido, forte, em paz, com saudade de casa e do meu cachorro "maluko"....rsrsrs.
      Chegamos em Llamac, cumprimentei os amigos e comemoramos a conquista. Eu e alguns deles seguimos pra uma igreja, lá agradeci pela força, proteção, pelos grandes amigos que fiz e pela oportunidade de estar realizando algo que talvez tenha mudado minha vida.
       
      Espero poder de alguma forma ter contribuindo com minha experiência para que outras pessoas possam se "encorajar" e ingressar nessa mesma aventura. O relato não está muito detalhado, mas quem quiser mais informações é só me chamar. Valeu!!! 
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

    • Por Victor Prates
      A cidade de Quito, capital do Equador, está situada no planalto andino, em um vale rodeado por montanhas e vulcões. A 2.850 metros sobre o nível do mar, é a segunda capital mais alta do mundo (na verdade, é a primeira considerando que La Paz não é a capital da Bolívia, apenas a sede do governo).
      Quando fiquei sabendo que havia um vulcão na capital que apresentava um lindo panorama da cidade e de muitos vulcões do Equador, eu quis subi-lo imediatamente.
      Este vulcão é o Pichincha, o qual é dividido em dois cumes principais: o Guagua e o Rucu. O Guagua Pichincha é a cratera principal, porém coloquei o Rucu Pichincha como meu objetivo. Isto porque, o Rucu pode ser alcançado em apenas 1 dia e eu não tinha os dois que são necessários para fazer o Guagua. Segue abaixo mapa mostrando ambos os cumes e as trilhas para chegar neles, bem como o Teleférico e a cidade de Quito.
       
      Este relato apresentará os detalhes para você atingir o cume do Rucu Pichincha (trilha amarela do mapa acima), mas se você quiser se aventurar ao Guagua, há duas opções:
      ·         Realizar a Integral Pichinha, uma trilha bem extensa para alcançar ambos os cumes e aí o recomendado é acampar no refúgio que está na beira da cratera do Guagua. Total: 11 km e 1500 metros de ascensão por trilha (trilhas verde e amarela do mapa).
      ·         Subir de carro a estrada que sai do povoado de Lloa, bem próximo de Quito. Total: 16 km e 1900 metros de ascensão por estrada de terra (trilha azul do mapa acima).
      O meu tracklog do Rucu Pichincha foi postado na página do Wikiloc e pode ser encontrado neste link aqui. Se você quiser realizar a Integral Pichincha, recomendo que siga a descrição do Santiago González, a qual se encontra neste link.
       
      PROGRAMAÇÃO
      Como Chegar
      Antes de iniciar a trilha para o topo do Rucu, é preciso ir ao Teleférico de Quito, que fica no Bairro La Mariscal.
      Fui de taxi e paguei 4 dólares até o teleférico. Os táxis no Equador, no geral, são baratos e compensam muito se você estiver viajando em grupo. Além disso, a Uber também funciona muito bem nas ruas de Quito.
      O horário de funcionamento do teleférico é de segunda a quinta das 09:00 às 20:00 e de sexta a domingo das 8:00 às 20:00. O trajeto até o Mirador Los Volcanes dura 20 minutos. Este mirante, além de apresentar uma maravilhosa vista de Quito e seus arredores, também coincide com o ponto de início do trekking.
      Neste link você poderá ver informações detalhadas sobre o Telefériqo de Quito.
      Para retornar ao meu hostel após descer do pico, paguei 1 dólar de van até a Calle Mariscal Sucre, que é a avenida que atravessa a cidade de norte a sul. Daqui procurei táxis que me cobrassem os mesmos 4 dólares da ida, porém estavam me pedindo 10 dólares ☹. Me disseram que era por causa do trânsito, mas provavelmente foi por minha cara de gringão mesmo. Lembrando que a distância até minha hospedagem era de apenas 3 km.
      Pra minha sorte havia um ônibus que passava a 100 metros dali e que ia até a Avenida Cristóbal Cólon, a qual estava próxima da minha hospedagem. Tomei o bus de número 67 e paguei somente 25 centavos de dólar. Bem melhor que os 10 dólares do amigo taxista.
       
      Quando Ir
      A época de seca nos Andes equatorianos vai de junho a novembro. Fiz a trilha para o Rucu Pichincha em setembro e o tempo estava excelente.
      É recomendável fazer a trilha bem cedo, já que pela tarde é comum que as montanhas ao redor de Quito sejam encobertas por nuvens.
       
      O Que Levar
      ·         Calça de trekking
      ·         Camiseta
      ·         Bota ou tênis de trilha
      ·         Jaqueta corta vento
      ·         Leve segunda pele e blusa de fleece para o caso de fazer frio
      ·         Mochila pequena (< 30L)
      ·         Boné/chapéu
      ·         3 L de água
      ·         Snacks para trilha
      ·         Protetor solar
      ·         Câmera fotográfica
       
      RESUMO DE GASTOS (2017)
      ·         Água e comidas para a trilha = US$ 7,00
      ·         Táxi ao teleférico = US$ 4,00
      ·         Valor de subida e descida do teleférico = US$ 8,50
      ·         Van do teleférico até a Avenida Calle Mariscal Sucre = US$ 1,00
      ·         Ônibus até Cristóbal Cólon com Amazonas = US$ 0,25
       
      GASTOS TOTAIS = US$ 20,75
       
      O RELATO
      Numa quarta-feira de setembro, acordei às 7:00, tomei café e peguei um táxi do Bairro La Mariscal até o Telefériqo de Quito. Ele é o meio de acesso para o Mirador Los Volcanes, ponto inicial do trekking para o cume do Rucu Pichincha.
      Cheguei no Teleférico às 8:40 e, pra minha surpresa, ainda não estava funcionando. Como já disse, de segunda a quinta funciona das 09:00 às 20:00 e de sexta a domingo das 8:00 às 20:00 e só descobri isso ao chegar lá.
      Mas foi bom porque nessa espera conheci o Gal, um israelense extremamente simpático que queria fazer a mesma trilha. Pensei em perguntar da Mulher Maravilha, mas não tive coragem. Ele só me disse que é um nome comum no país (a atriz que interpreta a personagem no universo da DC é uma israelense chamada Gal Gadot. Nunca pensei que fosse falar da Mulher Maravilha num relato de viagens).
      Voltando pro que interessa... Ele me disse que não estava seguro em como seria seu desempenho em altitude, já que como o Brasil, Israel não possui altas montanhas. Então ele resolveu aproveitar o meu embalo e disposição para me acompanhar nesta empreitada.
      Compramos os bilhetes do teleférico por 8,50 dólares, que servem para subida e descida da montanha. Não perca o bilhete que você receberá, pois o mesmo também serve como comprovante de descida. Caso perca, terá que pagar mais 8,50 para descer.
      O trecho dura cerca de 20 minutos até o Mirador Los Volcanes, um mirante na cota 3.950 m que apresenta lindas vistas de Quito e dos principais vulcões do Equador. O céu estava completamente azul e a visibilidade era tremenda. De lá se podia ver lindamente os vulcões Cotopaxi, Cayambe, Antisana, Rumiñahui e Illinizas. Inclusive, é possível enxergar o topo do Chimborazo, a montanha mais alta do país, com 6.268 m de altura, e que está a 140 km de Quito!!
      Para que você possa contemplar este visual, recomendo que comece a trilha o mais cedo que puder. Explicarei o porquê mais adiante.
      Gal e eu tiramos algumas fotos do cenário e partimos para iniciar a trilha.
      Em poucos minutos de caminhada, pode-se contemplar o belo cume proeminente do Rucu Pichincha.
      Os primeiros 3,7 km são de aproximação à montanha e possuem um grau menor de dificuldade, já que a inclinação da subida não é tão acentuada.
      Porém, enquanto caminhávamos nos questionávamos por onde subiríamos até o topo, já que não era possível visualizar uma possível rota de subida. Isto porque a face que se vê do começo da trilha é de pura rocha.
      Assim que nos aproximamos da montanha, notamos que a trilha a contorna pela sua direita, por trás daquela face rochosa que vimos de longe.
      A partir deste ponto, a trilha está menos marcada, mas não há como se perder. Seguimos caminhando por detrás do pico por um terreno com uma inclinação um pouco mais elevada.
      Após cerca de 500 metros de distância, há um ponto que parece que a trilha acaba, mas é um lance em que é preciso subir uns 2 metros pela rocha mesmo. É um trecho um pouco delicado, mas não se preocupe, pois não é escalada.
      Mas a parte tensa do trekking só ia começar 500 metros mais pra frente. Neste ponto, a altitude já é um fator determinante (4.500 msnm) e é bem quando o terreno fica bem inclinado e bem arenoso, dificultando o rendimento da caminhada.
      Aqui, Gal e eu fizemos várias paradas para controlar os batimentos cardíacos e o ritmo respiratório.
      O visual era ainda mais espetacular, com a cidade de Quito lá embaixo e aquele cenário vulcânico bem característico por todos os lados.
      Deste ponto em diante, tem que tomar mais cuidado com a orientação, já que por vezes ela não é tão óbvia.
      E iniciamos a investida final para o cume. Caminhamos por meia hora por trilha bem inclinada até chegar numa placa. Daqui é preciso tornar para a esquerda para a investida final.
      Agora, percorre-se a última meia hora para o cume num terreno rochoso um pouco exposto e não muito marcado. É preciso tomar cuidado.
      Finalmente, após mais de 800 metros de desnível acumulado e 5,7 km percorridos em 3 horas, atingimos o cume do famigerado Rucu Pichincha.
      O cume do Rucu está na cota 4.784 msnm e é bem pequeno, o que proporciona um lindo visual 360º do panorama da região.
      A vista era deslumbrante. Pode-se ver todo o visual da cidade de Quito e do vale em que a cidade está situada. Também se vê todos aqueles famosos vulcões equatorianos acima citados, só que daquela perspectiva que só topos de morros podem proporcionar.
      Do cume, também se pode ver o imenso vulcão Guagua Pichincha, que fica a 4 km do Rucu. Como explicado na INTRO, o Guagua é a cratera principal e o Rucu é a cratera velha do mesmo vulcão, o Pichincha.
      Aqui no topo podem aparecer carcarás sociáveis. Acredito que os turistas devem alimentá-los. Eles são selvagens, porém é impressionante ver o quão perto eles podem chegar.
      Ficamos por uma hora contemplando o incrível cenário e iniciamos a descida.
      Se para subir foram 3 horas, a descida se deu em apenas 1h30min.
      Chegamos de volta ao teleférico próximo das 14h. Neste momento o dia já tinha mudado completamente. Se de manhã o céu estava completamente limpo, agora havia muitas nuvens no Rucu Pichincha e nem era possível ver a montanha. Ao longe também havia uma névoa que impossibilitava contemplar os vulcões dos arredores de Quito.
      E, claro, bem nesta hora tinham mais turistas, porque não são todos que preferem acordar de manhãzinha. Mas garanto que recompensa muito mais levantar cedo, mesmo se você não for subir o vulcão. Este é um padrão que se repete frequentemente em Quito: manhã de céu azul e tarde com muitas nuvens.
      Aqui, Gal se despediu de mim e desceu de teleférico primeiro, enquanto fui tirar mais algumas fotos.
      Peguei uma filinha de uns 20 minutos para tomar o teleférico da volta. Imagino que aos finais de semana deva ser bem caótico.
      E foi isso. Foi um dia delicioso, muito recompensador e bem barato.
      Espero que tenham desfrutado.
      Seguem abaixo algumas fotos deste dia.

      Rucu Pichincha visto da trilha

      Lindo vale a a cidade de Quito lá embaixo

      Vista do Vulcão Cotopaxi do Mirados Los Volcanes

      Próximo ao cume do Rucu

      Vulcão Guagua Pichincha visto do cume do Rucu

      Vista de Quito do topo do Rucu
      Postei este relato no meu blog. Você pode acompanhá-lo no link http://trekmundi.com/rucu-pichincha/
      Beijos e abraços!             
       
       
       
       


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